{"id":124604,"date":"2017-06-28T19:12:53","date_gmt":"2017-06-28T21:12:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=124604"},"modified":"2017-06-28T19:15:31","modified_gmt":"2017-06-28T21:15:31","slug":"panoplias-olavo-bilac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/panoplias-olavo-bilac","title":{"rendered":"Pan\u00f3plias &#8211; Olavo Bilac"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"484\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">A Morte de Tapir<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">A Gon\u00e7alves Dias<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Guerreira<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Para a Rainha Dona Am\u00e9lia de Portugal<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">A um Grande Homem<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">A Sesta de Nero<\/a><br \/>\n\t\t  <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">O Inc\u00eandio de Roma<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">O Sonho de Marco Ant\u00f4nio<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Lendo a Il\u00edada<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Messalina<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">A Ronda Noturna<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Defenda Carthago!<\/a><br \/>\n\t\t  <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Olavo Bilac<\/h2>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">A Morte de Tapir<\/a><\/h4>\n<p> <strong>I<\/strong><\/p>\n<p>Uma coluna de ouro e p&uacute;rpuras ondeantes<br \/>\n    Subia o firmamento. Acesos v&eacute;us, radiantes<br \/>\n    Rubras nuvens, do sol &agrave; viva luz, do poente<br \/>\n    Vinham, soltas, correr o espa&ccedil;o resplendente.<br \/>\n    Foi a essa hora, &#8211; &agrave;s m&atilde;os o arco possante, &agrave; cinta<br \/>\n    Do leve enduape a tanga em v&aacute;rias cores tinta,<br \/>\n    A aiucara ao pesco&ccedil;o, o canitar &agrave; testa, &#8211; <br \/>\n    &#8211; Que Tapir penetrou o seio da floresta.<br \/>\n    Era de v&ecirc;-lo assim, com o vulto enorme ao peso<br \/>\n    Dos anos acurvado, o olhar faiscando aceso,<br \/>\n    Firme o passo apesar da extrema idade, e forte.<br \/>\n    Ningu&eacute;m, como ele, em face, altivo e herc&uacute;leo, a morte<br \/>\n    Tantas vezes fitou&#8230; Ningu&eacute;m, como ele, o bra&ccedil;o<br \/>\n    Erguendo, a lan&ccedil;a aguda atirava no espa&ccedil;o.<br \/>\n    Quanta vez, do uapi ao rouco troar, ligeiro<br \/>\n    Como a cor&ccedil;a, ao rugir do estr&eacute;pito guerreiro<br \/>\n    O tacape brutal rodando no ar, terr&iacute;vel,<br \/>\n    Inc&oacute;lume, vibrando os golpes, &#8211; insens&iacute;vel<br \/>\n    &Agrave;s preces, ao clamor dos gritos, surdo ao pranto<br \/>\n    Das vitimas, &#8211; passou, como um tuf&atilde;o, o espanto,<br \/>\n    O exterm&iacute;nio, o terror atras de si deixando!<br \/>\n    Quanta vez do inimigo o embate recha&ccedil;ando<br \/>\n    Por si s&oacute;, foi seu peito uma muralha erguida,<br \/>\n    Em que vinha bater e quebrar-se vencida<br \/>\n    De uma tribo contr&aacute;ria a onda medonha e bruta!<br \/>\n    Onde um pulso que, tal como seu pulso, &agrave; luta<br \/>\n    Costumado, um por um, ao ch&atilde;o arremessasse<br \/>\n    Dez combatentes? Onde um arco, que atirasse<br \/>\n    Mais c&eacute;lere, a zunir, a fina flecha ervada?<br \/>\n    Quanta vez, a vagar na floresta cerrada,<br \/>\n    Peito a peito lutou com as fulvas on&ccedil;as bravas,<br \/>\n    E as on&ccedil;as a seus p&eacute;s tombaram, como escravas,<br \/>\n    Nadando em sangue quente, e, em roda, o eco infinite<br \/>\n    Despertando, ao morrer, com o derradeiro grito!..<br \/>\n    Quanta vez! E hoje velho, hoje abatido!<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>E o dia<br \/>\n    Entre os sang&uuml;&iacute;neos tons do ocaso deca&iacute;a&#8230;<br \/>\n    E era tudo em sil&ecirc;ncio, adormecido e quedo&#8230;<br \/>\n    De s&uacute;bito um tremor correu todo o arvoredo:<br \/>\n    E o que h&aacute; pouco era calma, agora &eacute; movimento,<br \/>\n    Treme, agita-se, acorda, e se lastima&#8230; O vento<br \/>\n    Fala: &#8216;Tapir! Tapir! &eacute; finda a tua ra&ccedil;a!&quot;<br \/>\n    E em tudo a mesma voz misteriosa passa;<br \/>\n    As &aacute;rvores e o ch&atilde;o despertam, repetindo:<br \/>\n    &#8216;Tapir! Tapir! Tapir! O teu poder &eacute; findo!&quot;<\/p>\n<p>E, a essa hora, ao fulgor do derradeiro raio<br \/>\n    Do sol, que o disco de ouro, em l&uacute;cido desmaio,<br \/>\n    Quase no extremo c&eacute;u de todo mergulhava,<br \/>\n    Aquela estranha voz pela floresta ecoava<br \/>\n    Num confuso rumor entrecortado, insano&#8230;<br \/>\n    Como que em cada tronco havia um peito humano<br \/>\n    Que se queixava&#8230; E o velho, &uacute;mido o olhar, seguia.<br \/>\n    E, a cada passo assim dado na mata, via<br \/>\n    Surgir de cada canto uma lembran&ccedil;a&#8230; Fora<br \/>\n    Desta imensa ramada &agrave; sombra protetora<br \/>\n    Que um dia repousara&#8230; Al&eacute;m, a arvore anosa,<br \/>\n    Em cujos galhos, no ar erguidos, a formosa,<br \/>\n    A doce Juraci a rede suspendera,<br \/>\n    &#8211; A rede que, com as m&atilde;os fin&iacute;ssimas, tecera<br \/>\n    Para ele, seu senhor e seu guerreiro amado!<br \/>\n    Ali&#8230; &#8211; Contai-o v&oacute;s, contai-o, embalsamado<br \/>\n    Retiro, ninhos no ar suspensos, aves, flores!&#8230;<br \/>\n    Contai-o, o poema ideal dos primeiros amores,<br \/>\n    Os corpos um ao outro estreitamente unidos,<br \/>\n    Os abra&ccedil;os sem conta, os beijos, os gemidos,<br \/>\n    E o rumor do noivado, estremecendo a mata,<br \/>\n    Sob o pl&aacute;cido olhar das estrelas de prata&#8230;<\/p>\n<p> Juraci! Juraci! virgem morena e pura!<br \/>\n    Tu tamb&eacute;m! tu tamb&eacute;m desceste &agrave; sepultura!&#8230;<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>E Tapir caminhava&#8230; Ante ele agora um rio<br \/>\n    Corria; e a &aacute;gua tamb&eacute;m, ao crebro<br \/>\n    Da corrente, a rolar, gemia ansiosa e clara:<br \/>\n    &#8211; &quot;Tapir! Tapir! Tapir! Que &eacute; da veloz igara,<br \/>\n    Que &eacute; dos remos dos teus? N&atilde;o mais as redes finas<br \/>\n    V&ecirc;m na pesca sondar-me as &aacute;guas cristalinas.<br \/>\n    Ai! n&atilde;o mais beijarei os corpos luxuriantes,<br \/>\n    Os curvos seios nus, as formas palpitantes<br \/>\n    Das morenas gentis de tua tribo extinta!<br \/>\n    N&atilde;o mais! Depois dos teus de br&ocirc;nzea pele tinta<br \/>\n    Com os sucos do urucu, de pele branca vieram<br \/>\n    Outros, que a ti e aos teus nas selvas sucederam.<br \/>\n    Ai! Tapir! ai! Tapir! A tua ra&ccedil;a &eacute; morta! -&quot;<br \/>\n    E o &iacute;ndio, tr&ecirc;mulo, ouvindo aquilo tudo, absorta<br \/>\n    A alma em cismas, seguiu curvada a fronte ao peito.<br \/>\n    Agora da floresta o ch&atilde;o n&atilde;o mais direito<br \/>\n    E plano se estendia: era um declive; e quando<br \/>\n    Pelo tortuoso anfracto, a custo, caminhando<br \/>\n    Ao crep&uacute;sculo, p&ocirc;de o velho, passo a passo,<br \/>\n    A montanha alcan&ccedil;ar, viu que a noite no espa&ccedil;o<br \/>\n    Vinha a negra legi&atilde;o das sombras espargindo&#8230;<br \/>\n    Crescia a treva. A medo, entre as nuvens luzindo,<br \/>\n    No alto, a primeira estrela o c&aacute;lix de ouro abria&#8230;<br \/>\n    Outra ap&oacute;s cintilou na esfera imensa e fria&#8230;<br \/>\n    Outras vieram&#8230; e, em breve, o c&eacute;u, de lado a lado,<br \/>\n    Foi como um cofre real de p&eacute;rolas coalhado.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>Ent&atilde;o, Tapir, de p&eacute;, no arco apoiado, a fronte<br \/>\n    Ergueu, e o olhar passeou no infinito horizonte:<br \/>\n    Acima o abismo, abaixo o abismo, o abismo adiante.<br \/>\n    E, clara, no negror da noite, viu, distante,<br \/>\n    Alvejando no vale a taba do estrangeiro&#8230;<br \/>\n    Tudo extinto!&#8230; era ele o &uacute;ltimo guerreiro!<br \/>\n    E do vale, do c&eacute;u, do rio, da montanha,<br \/>\n    De tudo que o cercava, ao mesmo tempo, estranha,<br \/>\n    Rouca, extrema, rompeu a mesma voz: &#8211; &quot;&Eacute; finda<br \/>\n    Toda a ra&ccedil;a dos teus: s&oacute; tu &eacute;s vivo ainda!<br \/>\n    Tapir! Tapir! Tapir! morre tamb&eacute;m com ela!<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o fala Tup&atilde; no ulular da procela&#8230;<br \/>\n    As batalhas de outrora, os arcos e os tacapes,<br \/>\n    As florestas sem fim de flechas e acanguapes,<br \/>\n    Tudo passou! N&atilde;o mais a fera in&uacute;bia &agrave; boca<br \/>\n    Dos guerreiros, Tapir, soa medonha e rouca.<\/p>\n<p>&Eacute; mudo o marac&aacute;. A tribo exterminada <br \/>\n    Dorme agora feliz na Montanha Sagrada&#8230;<br \/>\n    Nem uma rede o vento entre os galhos agita!<br \/>\n    N&atilde;o mais o vivo som de alegre dan&ccedil;a, e a grita<br \/>\n    Dos paj&eacute;s, ao luar, por baixo das folhagens,<br \/>\n    Rompe os ares&#8230; N&atilde;o mais! As porac&eacute;s selvagens,<br \/>\n    As guerras e os festins, tudo passou! &Eacute; finda<br \/>\n    Toda a ra&ccedil;a dos teus&#8230; S&oacute; tu &eacute;s vivo ainda! -&quot;<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>E num longo solu&ccedil;o a voz misteriosa<br \/>\n    Expirou&#8230; Caminhava a noite silenciosa,<br \/>\n    E era tranq&uuml;ilo o c&eacute;u; era tranq&uuml;ila em roda,<br \/>\n    Imersa em pl&uacute;mbeo sono, a natureza toda.<\/p>\n<p>E, no tope do monte, era de ver erguido<br \/>\n    O vulto de Tapir&#8230; Inesperado, um ru&iacute;do<br \/>\n    Seco, surdo soou, e o corpo do guerreiro<br \/>\n    De s&uacute;bito rolou pelo despenhadeiro&#8230;<br \/>\n    E o sil&ecirc;ncio outra vez caiu.<br \/>\n    Nesse momento, <br \/>\n    Apontava o luar no curvo firmamento.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\"><strong>A Gon&ccedil;alves Dias<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>Celebraste o dom&iacute;nio soberano<br \/>\n    Das grandes tribos, o tropel fremente<br \/>\n    Da guerra bruta, o entrechocar insano<br \/>\n    Dos tacapes vibrados rijamente,<\/p>\n<p>O marac&aacute; e as flechas, o estridente<br \/>\n    Troar da in&uacute;bia, e o canitar indiano&#8230;<br \/>\n    E, eternizando o povo americano,<br \/>\n    Vives eterno em teu poema ingente.<\/p>\n<p>Estes revoltos, largos rios, estas<br \/>\n    Zonas fecundas, estas seculares<br \/>\n    Verdejantes e ampl&iacute;ssimas florestas<\/p>\n<p>Guardam teu nome: e a lira que pulsaste<br \/>\n    Inda se escuta, a derramar nos ares<br \/>\n    O estridor das batalhas que contaste.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">Guerreira<\/a><\/h4>\n<p>&Eacute; a encarna&ccedil;&atilde;o do mal. Pulsa-lhe o peito<br \/>\n    Ermo de amor, deserto de piedade&#8230;<br \/>\n    Tem o olhar de uma deusa e o altivo aspeito<br \/>\n    Das cruentas guerreiras de outra idade.<\/p>\n<p>O l&aacute;bio ao r&iacute;ctus do sarcasmo afeito <br \/>\n    Crispa-se-lhe num riso de maldade, <br \/>\n    Quando, talvez, as pompas, com despeito, <br \/>\n    Recorda da perdida majestade.<\/p>\n<p>E assim, com o seio ansioso, o porte erguido, <br \/>\n    Corada a face, a ruiva cabeleira <br \/>\n    Sobre as amplas esp&aacute;duas derramada,<\/p>\n<p>Faltam-lhe apenas a sangrenta espada <br \/>\n    Inda rubra da guerra derradeira, <br \/>\n    E o capacete de metal polido&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">Para a Rainha Dona Am&eacute;lia de Portugal<\/a><\/h4>\n<p>Um rude resplendor, de rude brilho, touca<br \/>\n    E nimba o teu escudo, em que as quinas e a esfera<br \/>\n    Guardam, &oacute; Portugal! a tua gl&oacute;ria austera,<br \/>\n    Feita de louco hero&iacute;smo e de aventura louca.<\/p>\n<p>Ver esse escudo &eacute; ver a Terra toda, pouca<br \/>\n    Para a tua ambi&ccedil;&atilde;o; &eacute; ver Afonso, &agrave; espera<br \/>\n    Dos mouros, em Ourique; e, em redor da galera<br \/>\n    Do Gama, ouvir do mar a voz bramante e rouca&#8230;<\/p>\n<p>Mas no vosso bras&atilde;o, Borgonha! Avis! Bragan&ccedil;a! <br \/>\n    De ouro e ferro, encerrando o orgulho da conquista, Faltava a suavidade e<br \/>\n    o encanto de uma flor;<\/p>\n<p>E eis sobre ele pairando o alvo l&iacute;rio de Fran&ccedil;a, <br \/>\n    Que lhe deu, flor humana, alma gentil de artista, <br \/>\n    Um sorriso de gra&ccedil;a e um perfume de amor&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">A um Grande Homem<\/a><\/h4>\n<p>Heureuse au fond du bois<br \/>\n    Ia source pauvre et pure!<br \/>\n    Lamartine.<\/p>\n<p>Olha: era um t&ecirc;nue fio<br \/>\n    De &aacute;gua escassa. Cresceu Tornou-se em rio <br \/>\n    Depois. Roucas, as vagas<br \/>\n    Engrossa agora, e &eacute; t&uacute;rbido e bravio, <br \/>\n    Roendo penedos, alagando plagas.<\/p>\n<p>Humilde arroio brando!&#8230; <br \/>\n    Nele, no entanto, as flores, inclinando<br \/>\n    O d&eacute;bil caule, inquietas <br \/>\n    Miravam-se. E, em seu claro espelho, o bando <br \/>\n    Se revia das leves borboletas.<\/p>\n<p>Tudo, por&eacute;m: &#8211; cheirosas <br \/>\n    Plantas, curvas ramadas rumorosas,<br \/>\n    &Uacute;midas relvas, ninhos <br \/>\n    Suspensos no ar entre jasmins e rosas, <br \/>\n    Tardes cheias da voz dos passarinhos, &#8211;<br \/>\n    Tudo, tudo perdido <br \/>\n    Atr&aacute;s deixou. Cresceu. Desenvolvido,<br \/>\n    Foi alargando o seio, <br \/>\n    E do alpestre rochedo, onde nascido<br \/>\n    Tinha, crespo, a rolar, descendo veio&#8230;<\/p>\n<p>Cresceu. Atropeladas, <br \/>\n    Soltas, grossas as ondas apressadas<br \/>\n    Estendeu largamente, <br \/>\n    Trope&ccedil;ando nas pedras espalhadas, <br \/>\n    No galope impetuoso da corrente&#8230;<\/p>\n<p>Cresceu. E &eacute; poderoso:<br \/>\n    Mas enturba-lhe a face o lodo ascoso&#8230; <br \/>\n    &Eacute; grande, &eacute; largo, &eacute; forte:<br \/>\n    Mas, de parc&eacute;is cortado, caudaloso, <br \/>\n    Leva nas dobras de seu manto a morte.<\/p>\n<p>Implac&aacute;vel, violento, <br \/>\n    Rijo o vergasta o latego do vento.<br \/>\n    Das estrelas, caindo <br \/>\n    Sobre ele em v&atilde;o do claro firmamento <br \/>\n    Batem os raios l&iacute;mpidos, luzindo&#8230;<\/p>\n<p>Nada reflete, nada!<br \/>\n    Com o surdo estrondo espanta a ave assustada; <br \/>\n    &Eacute; turvo, &eacute; triste agora.<br \/>\n    Onde a vida de outrora sossegada? <br \/>\n    Onde a humildade e a limpidez de outrora?<\/p>\n<p> Homem que o mundo aclama! <br \/>\n    Semideus poderoso, cuja fama<br \/>\n    O mundo com vaidade <br \/>\n    De eco em eco no s&eacute;culo derrama <br \/>\n    Aos quatro ventos da celebridade!<\/p>\n<p>Tu, que humilde nasceste, <br \/>\n    Fraco e obscuro mortal, tamb&eacute;m cresceste<br \/>\n    De vit&oacute;ria em vit&oacute;ria, <br \/>\n    E, hoje, inflado de orgulhos, ascendeste<br \/>\n    Ao s&oacute;lio excelso do esplendor da gl&oacute;ria!<\/p>\n<p>Mas, ah! nesses teus dias <br \/>\n    De fausto, entre essas pompas luzidias,<br \/>\n    &#8211; Rio soberbo e nobre! <br \/>\n    H&aacute;s de chorar o tempo em que vivias <br \/>\n    Como um arroio sossegado e pobre&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">A Sesta de Nero<\/a><\/h4>\n<p>Fulge de luz banhado, espl&ecirc;ndido e suntuoso,<br \/>\n    O pal&aacute;cio imperial de p&oacute;rfiro luzente<br \/>\n    E m&aacute;rmor da Lac&ocirc;nia. O teto caprichoso<br \/>\n    Mostra, em prata incrustado, o n&aacute;car do Oriente.<\/p>\n<p>Nero no toro eb&uacute;rneo estende-se indolente&#8230;<br \/>\n    Gemas em profus&atilde;o do estr&aacute;gulo custoso<br \/>\n    De ouro bordado v&ecirc;em-se. O olhar deslumbra, ardente,<br \/>\n    Da p&uacute;rpura da Tr&aacute;cia o brilho esplendoroso.<\/p>\n<p>Formosa ancila canta. A aurilavrada lira <br \/>\n    Em suas m&atilde;os solu&ccedil;a. Os ares perfumando, <br \/>\n    Arde a mirra da Ar&aacute;bia em recendente pira.<\/p>\n<p>Formas quebram, dan&ccedil;ando, escravas em cor&eacute;ia.<br \/>\n    E Neto dorme e sonha, a fronte reclinando<br \/>\n    Nos alvos seios nus da l&uacute;brica Pop&eacute;ia.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">O Inc&ecirc;ndio de Roma<\/a><\/h4>\n<p>Raiva o inc&ecirc;ndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,<br \/>\n    As muralhas de pedra, o espa&ccedil;o adormecido<br \/>\n    De eco em eco acordando ao medonho estampido,<br \/>\n    Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.<\/p>\n<p>E os templos, os museus, o Capit&oacute;lio erguido<br \/>\n    Em m&aacute;rmor fr&iacute;gio, o Foro, as erectas arcadas<br \/>\n    Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas<br \/>\n    Do inc&ecirc;ndio cingem, tudo esbroa-se partido.<\/p>\n<p>Longe, reverberando o clar&atilde;o purpurino, <br \/>\n    Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte&#8230;<br \/>\n    &#8211; Impass&iacute;vel, por&eacute;m, no alto do Palatino,<\/p>\n<p>Neto, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma<br \/>\n    Entre os libertos, e &eacute;brio, engrinaldada a fronte,<br \/>\n    Lira em punho, celebra a destrui&ccedil;&atilde;o de Roma.<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">O Sonho de Marco Ant&ocirc;nio<\/a><\/h4>\n<p>Noite. Por todo o largo firmamento<br \/>\n    Abrem-se os olhos de ouro das estrelas&#8230;<br \/>\n    S&oacute; perturba a mudez do acampamento<br \/>\n    O passo regular das sentinelas.<\/p>\n<p>Brutal, febril, entre can&ccedil;&otilde;es e brados,<br \/>\n    Entrara pela noite adiante a orgia;<br \/>\n    Em borbot&otilde;es, dos c&acirc;ntaros lavrados<br \/>\n    Jorrara o vinho. O ex&eacute;rcito dormia.<\/p>\n<p>Insone, entanto, vela algu&eacute;m na tenda<br \/>\n    Do general. Esse, entre os mais sozinho,<br \/>\n    Vence a fadiga da batalha horrenda,<br \/>\n    Vence os vapores c&aacute;lidos do vinho.<\/p>\n<p>Torvo e cerrado o cenho, o largo peito<br \/>\n    Da coura&ccedil;a despido e arfando ansioso,<br \/>\n    L&iacute;vida a face, taciturno o aspeito,<br \/>\n    Marco Ant&ocirc;nio medita silencioso.<\/p>\n<p>Da l&acirc;mpada de prata a luz escassa<br \/>\n    Resvala pelo ch&atilde;o. A quando e quando,<br \/>\n    Treme, enfunada &agrave; vira&ccedil;&atilde;o que passa,<br \/>\n    A cortina de p&uacute;rpura oscilando.<\/p>\n<p>O general medita. Como, soltas<br \/>\n    Do &aacute;lveo de um rio transvazado, as &aacute;guas<br \/>\n    Crescem, cavando o solo, &#8211; assim, revoltas,<br \/>\n    Fundas a alma lhe v&atilde;o sulcando as m&aacute;goas.<\/p>\n<p>Que vale a Gr&eacute;cia, e a Maced&ocirc;nia, e o enorme<br \/>\n    Territ&oacute;rio do Oriente, e este infinito<br \/>\n    E invenc&iacute;vel ex&eacute;rcito que dorme?<br \/>\n    Que doces bra&ccedil;os que lhe estende o Egito!&#8230;<\/p>\n<p>Que ven&ccedil;a Ot&aacute;vio! e seu rancor profundo<br \/>\n    Leve da Hisp&acirc;nia &agrave; S&iacute;ria a morte e a guerra!<br \/>\n    Ela &eacute; o c&eacute;u&#8230; Que valor tem todo o mundo,<br \/>\n    Se os mundos todos seu olhar encerra?!<\/p>\n<p>Ele &eacute; valente e ela o subjuga e o doma&#8230;<br \/>\n    S&oacute; Cle&oacute;patra &eacute; grande, amada e bela!<br \/>\n    Que importa o imp&eacute;rio e a salva&ccedil;&atilde;o de Roma?<br \/>\n    Roma n&atilde;o vale um s&oacute; dos beijos dela!&#8230;<\/p>\n<p> Assim medita. E alucinado, louco<br \/>\n    De pesar, com a fadiga em v&atilde;o lutando,<br \/>\n    Marco Ant&oacute;nio adormece a pouco e pouco,<br \/>\n    Nas largas m&atilde;os a fronte reclinando.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>A harpa suspira. O melodioso canto,<br \/>\n    De uma vol&uacute;pia l&acirc;nguida e secreta,<br \/>\n    Ora interpreta o dissabor e o pranto,<br \/>\n    Ora as paix&otilde;es violentas interpreta.<\/p>\n<p>Amplo dossel de seda levantina,<br \/>\n    Por colunas de jaspe sustentado,<br \/>\n    Cobre os cetins e a caxemira fina<br \/>\n    Do r&eacute;gio leito de &eacute;bano lavrado.<\/p>\n<p>Move o leque de plumas uma escrava.<br \/>\n    Vela a guarda l&aacute; fora. Recolhida,<br \/>\n    Os p&eacute;treos olhos uma esfinge crava<br \/>\n    Nas formas da rainha adormecida.<\/p>\n<p>Mas Cle&oacute;patra acorda&#8230; E tudo, ao v&ecirc;-la<br \/>\n    Acordar, treme em roda, e pasma, e a admira:<br \/>\n    Desmaia a luz, no c&eacute;u descora a estrela,<br \/>\n    A pr&oacute;pria esfinge move-se e suspira&#8230;<\/p>\n<p>Acorda. E o torso arqueando, ostenta o lindo<br \/>\n    Colo opulento e sensual que oscila.<br \/>\n    Murmura um nome e, as p&aacute;lpebras abrindo,<br \/>\n    Mostra o fulgor radiante da pupila.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Ergue-se Marco Ant&ocirc;nio de repente&#8230;<br \/>\n    Ouve-se um grito estr&iacute;dulo, que soa<br \/>\n    O sil&ecirc;ncio cortando, e longamente<br \/>\n    Pelo deserto acampamento ecoa.<\/p>\n<p>O olhar em fogo, os carregados tra&ccedil;os<br \/>\n    Do rosto em contra&ccedil;&atilde;o, alto e direito<br \/>\n    O vulto enorme, &#8211; no ar levanta os bra&ccedil;os,<br \/>\n    E nos bra&ccedil;os aperta o pr&oacute;prio peito.<\/p>\n<p>Olha em torno e desvaira. Ergue a cortina,<br \/>\n    A vista alonga pela noite afora.<br \/>\n    Nada v&ecirc;. Longe, &agrave; porta purpurina<br \/>\n    Do Oriente em chamas, vem raiando a aurora.<\/p>\n<p>E a noite foge. Em todo o firmamento<br \/>\n    V&atilde;o se fechando os olhos das estrelas:<br \/>\n    S&oacute; perturba a mudez do acampamento<br \/>\n    O passo regular das sentinelas.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">Lendo a Il&iacute;ada<\/a><\/h4>\n<p>Ei-lo, o poema de assombros, c&eacute;u cortado<br \/>\n    De rel&acirc;mpagos, onde a alma potente<br \/>\n    De Homero vive, e vive eternizado<br \/>\n    O espantoso poder da argiva gente.<\/p>\n<p>Arde Tr&oacute;ia&#8230; De rastos passa atado<br \/>\n    O her&oacute;i ao carro do rival, e, ardente,<br \/>\n    Bate o sol sobre um mar ilimitado<br \/>\n    De capacetes e de sangue quente.<\/p>\n<p>Mais que as armas, por&eacute;m, mais que a batalha<br \/>\n    Mais que os inc&ecirc;ndios, brilha o amor que ateia<br \/>\n    O &oacute;dio e entre os povos a disc&oacute;rdia espalha:<\/p>\n<p>&#8211; Esse amor que ora ativa, ora asserena <br \/>\n    A guerra, e o her&oacute;ico P&aacute;ris encadeia <br \/>\n    Aos curvos seios da formosa Helena.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">Messalina<\/a><\/h4>\n<p>Recordo, ao ver-te, as &eacute;pocas sombrias <br \/>\n    Do passado. Minh&#8217;alma se transporta <br \/>\n    &Agrave; Roma antiga, e da cidade morta <br \/>\n    Dos C&eacute;sares reanima as cinzas frias;<\/p>\n<p>Tricl&iacute;nios e vivendas luzidias<br \/>\n    Percorre; p&aacute;ra de Suburra &agrave; porta,<br \/>\n    E o confuso clamor escuta, absorta,<br \/>\n    Das desvairadas e febris orgias.<\/p>\n<p>A&iacute;, num trono erecto sobre a ru&iacute;na <br \/>\n    De um povo inteiro, tendo &agrave; fronte impura <br \/>\n    O diadema imperial de Messalina,<\/p>\n<p>Vejo-te bela, est&aacute;tua da loucura! <br \/>\n    Erguendo no ar a m&atilde;o nervosa e fina, <br \/>\n    Tinta de sangue, que um punhal segura.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">A Ronda Noturna<\/a><\/h4>\n<p>Noite cerrada, tormentosa, escura, <br \/>\n    L&aacute; fora. Dorme em trevas o convento.<br \/>\n    Queda imoto o arvoredo. N&atilde;o fulgura <br \/>\n    Uma estrela no torvo firmamento.<\/p>\n<p>Dentro &eacute; tudo mudez. Fl&eacute;bil murmura,<br \/>\n    De espa&ccedil;o a espa&ccedil;o, entanto, a voz do vento:<br \/>\n    E h&aacute; um rasgar de sud&aacute;rios pela altura,<br \/>\n    Passo de espectros pelo pavimento&#8230;<\/p>\n<p>Mas, de s&uacute;bito, os gonzos das pesadas<br \/>\n    Portas rangem&#8230; Ecoa surdamente<br \/>\n    Leve rumor de vozes abafadas.<\/p>\n<p>E, ao clar&atilde;o de uma l&acirc;mpada tremente, <br \/>\n    Do claustro sob as t&aacute;citas arcadas <br \/>\n    Passa a ronda noturna, lentamente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">Defenda Carthago!<\/a><\/h4>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes<br \/>\n    Do c&eacute;u da &Aacute;frica. Ao largo, em plena luz, dos montes<br \/>\n    Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia,<br \/>\n    Vasto oceano de prata, a requeimada areia.<br \/>\n    O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes<br \/>\n    Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes,<br \/>\n    Desfilam as legi&otilde;es do ex&eacute;rcito romano<br \/>\n    Diante do general Cipi&atilde;o Emiliano.<br \/>\n    Tal soldado sopesa a dava de madeira;<br \/>\n    Tal, que a custo sofreia a c&oacute;lera guerreira,<br \/>\n    Maneja a bipenata e rude machadinha.<br \/>\n    Este, &agrave; ilharga pendente, a r&uacute;tila bainha<br \/>\n    Leva do gl&aacute;dio. Aquele a poderosa ma&ccedil;a<br \/>\n    Carrega, e &agrave;s largas m&atilde;os a ensaia. A custo passa,<br \/>\n    Curvado sob o peso e de fadiga aflando,<br \/>\n    De guerreiros um grupo, os ar&iacute;etes levando.<br \/>\n    Brilham em confus&atilde;o cristados capacetes.<br \/>\n    Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes,<br \/>\n    Solta a cl&acirc;mide ao ombro, ao bra&ccedil;o afivelado <br \/>\n    O c&ocirc;ncavo broquel de cobre cinzelado, <br \/>\n    Brandem o p&iacute;lum no ar. Ressona, a espa&ccedil;os, rouca,<\/p>\n<p>A b&eacute;lica bucina. A tuba cava &agrave; boca<br \/>\n    Dos eneatores troa. Hordas de sagit&aacute;rios<br \/>\n    V&ecirc;em-se, de arco e carc&aacute;s armados. O ouro e os v&aacute;rios<br \/>\n    Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias<br \/>\n    De um correto lavor, nas armas luzidias<br \/>\n    Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila,<br \/>\n    Em torno de Cartago o ex&eacute;rcito desfila.<\/p>\n<p>Mas, passada a surpresa, &agrave;s pressas, a cidade<br \/>\n    Aos escravos cedera armas e liberdade,<br \/>\n    E era toda rumor e agita&ccedil;&atilde;o. Fundindo<br \/>\n    Todo o metal que havia, ou, c&eacute;leres, brunindo<br \/>\n    Espadas e punhais, capacetes e lan&ccedil;as,<br \/>\n    Viam-se a trabalhar os homens e as crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>Her&oacute;icas, abafando os solu&ccedil;os e as queixas, <br \/>\n    As mulheres, tecendo os fios das madeixas, <br \/>\n    Cortavam-nas.<br \/>\n    Cobrindo esp&aacute;duas deslumbrantes,<br \/>\n    Cercando a carna&ccedil;&atilde;o de seios palpitantes<br \/>\n    Como v&eacute;us de veludo, e provocando beijos,<br \/>\n    Excitaram paix&otilde;es e l&uacute;bricos desejos<br \/>\n    Essas tran&ccedil;as da cor das noites tormentosas&#8230;<br \/>\n    Quantos l&aacute;bios, ardendo em sedes luxuriosas,<br \/>\n    As tocaram outrora entre febris abra&ccedil;os!..<br \/>\n    Tran&ccedil;as que tanta vez &#8211; fr&aacute;geis e doces la&ccedil;os! &#8211;<br \/>\n    Foram cadeias de ouro invenc&iacute;veis, prendendo<br \/>\n    Almas e cora&ccedil;&otilde;es, &#8211; agora, distendendo<br \/>\n    Os arcos, despedindo as setas agu&ccedil;adas,<br \/>\n    Iam levar a morte&#8230; &#8211; elas, que, perfumadas,<br \/>\n    Outrora tanta vez deram a vida e o alento<br \/>\n    Aos presos cora&ccedil;&otilde;es!&#8230;<\/p>\n<p>Triste, entretanto, lento, <br \/>\n    Ao pesado labor do dia sucedera<br \/>\n    O sil&ecirc;ncio noturno. A treva se estendera:<br \/>\n    Adormecera tudo. E, no outro dia, quando<br \/>\n    Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando,<br \/>\n    Encheu o firmamento e iluminou a terra,<br \/>\n    A luta come&ccedil;ou.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p><strong>As m&aacute;quinas de guerra<\/strong><\/p>\n<p> Movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha,<br \/>\n    Racha de lado a lado. Ao clamor da batalha<br \/>\n    Estremece o arredor. Brandindo o p&iacute;lum, prontas,<br \/>\n    Confundem-se as legi&otilde;es. Perdido o freio, &agrave;s tontas,<br \/>\n    Desbocam-se os corc&eacute;is. Enrijam-se, esticadas<br \/>\n    Nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas,<br \/>\n    Partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando,<br \/>\n    Cruzam-se. &Eacute;neos broqu&eacute;is amolgam-se, ressoando,<br \/>\n    Aos embates brutais dos piques arrojados.<br \/>\n    Loucos, afuzilando os olhos, os soldados,<br \/>\n    Presa a respira&ccedil;&atilde;o, torvo e medonho o aspeito,<br \/>\n    Pela f&eacute;rrea squammata abroquelado o peito,<br \/>\n    Se escruam no furor, sacudindo os macetes.<br \/>\n    N&atilde;o param, entretanto, os golpes dos ar&iacute;etes,<br \/>\n    N&atilde;o cansam no trabalho os musculosos bra&ccedil;os<br \/>\n    Dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilha&ccedil;os<br \/>\n    Saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada<br \/>\n    No ar, a m&aacute;quina bruta&#8230; E, s&uacute;bito, quebrada,<br \/>\n    Entre o insano clamor do ex&eacute;rcito e o fremente<br \/>\n    Ru&iacute;do surdo da queda, &#8211; estrepitosamente<br \/>\n    Rui, desaba a muralha, e a p&eacute;trea mole roda,<br \/>\n    Rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda.<\/p>\n<p>Rugem aclama&ccedil;&otilde;es. Como em cach&otilde;es, furioso,<br \/>\n    Parte os diques o mar, roja-se impetuoso,<br \/>\n    As vagas encrespando acapeladas, brutas,<br \/>\n    E inunda povoa&ccedil;&otilde;es, enche vales e grutas,<br \/>\n    E vai semeando o horror e propagando o estrago, <br \/>\n    Tal o ex&eacute;rcito entrou as portas de Cartago&#8230;<\/p>\n<p>O ar os gritos de dor e susto, espa&ccedil;o a espa&ccedil;o,<br \/>\n    Cortavam. E, a bramir, atropelado, um passo<br \/>\n    O invasor turbilh&atilde;o n&atilde;o deu vitorioso,<br \/>\n    Sem que deixasse atr&aacute;s um rastro pavoroso<br \/>\n    De feridos. No ocaso, o sol morria exangue:<br \/>\n    Como que refletia o firmamento o sangue<br \/>\n    Que tingia de rubro a l&acirc;mina brilhante<br \/>\n    Das espadas. Ent&atilde;o, houve um supremo instante,<br \/>\n    Em que, cravando o olhar no intr&eacute;pido africano<br \/>\n    Asdr&uacute;bal, ordenou Cipi&atilde;o Emiliano:<br \/>\n    &quot;- Deixa-me executar as ordens do Senado!<br \/>\n    Cartago morrer&aacute;: perturba o ilimitado <br \/>\n    Poder da invicta Roma&#8230; Entrega-te! -&quot;<br \/>\n    Orgulhoso,<br \/>\n    A fronte levantando, ousado e rancoroso, <br \/>\n    Disse o cartagin&ecirc;s:<br \/>\n    &quot;- Enquanto eu tiver vida,<br \/>\n    Juro que n&atilde;o ser&aacute; Cartago demolida!<br \/>\n    Quando o inc&ecirc;ndio a envolver, o sangue deste povo<br \/>\n    H&aacute; de apag&aacute;-lo. N&atilde;o! Retira-te! -&quot; <br \/>\n    De novo<br \/>\n    Falou Cipi&atilde;o:<br \/>\n    Atende, Asdr&uacute;bal! Por mais forte<br \/>\n    Que seja o teu poder, h&aacute; de prostr&aacute;-lo a morte!<br \/>\n    Olha! A postos, sem conta, as legi&otilde;es de Roma,<br \/>\n    Que J&uacute;piter protege e que o pavor n&atilde;o doma,<br \/>\n    V&atilde;o come&ccedil;ar em breve a mortandade infrene!<br \/>\n    Entrega-te! -&quot;<br \/>\n    &quot;- Romano, escuta-me! (solene,<br \/>\n    O outro volveu, e a raiva em sua voz rugia)<br \/>\n    Asdr&uacute;bal &eacute; o irm&atilde;o de An&iacute;bal&#8230; Houve um dia<br \/>\n    Em que, ante An&iacute;bal, Roma estremeceu vencida<br \/>\n    E tonta recuou de s&uacute;bito ferida.<br \/>\n    Ficaram no lugar da pugna, ensang&uuml;entados,<br \/>\n    Mais de setenta mil romanos, trucidados<br \/>\n    Pelo esfor&ccedil;o e valor dos p&uacute;nicos guerreiros;<br \/>\n    Seis alqueires de an&eacute;is dos mortos cavaleiros<br \/>\n    Cartago arrecadou&#8230; Ver&aacute;s que, como outrora,<br \/>\n    Do eterno Baal-Moloch a prote&ccedil;&atilde;o agora<br \/>\n    Teremos. A vit&oacute;ria h&aacute; de ser nossa&#8230; Escuta:<br \/>\n    Manda que recomece a carniceira luta! -&quot;<br \/>\n    E horr&iacute;vel, e feroz, durante a noite e o dia,<br \/>\n    Recome&ccedil;ou a luta. Em cada casa havia<br \/>\n    Um punhado de her&oacute;is. Seis vezes, pela face<br \/>\n    Do c&eacute;u, seguiu seu curso o sol, sem que parasse<br \/>\n    O medonho estridor da sanha da batalha&#8230;<br \/>\n    Quando a noite descia, a treva era a mortalha<br \/>\n    Que envolvia, piedosa, os corpos dos feridos.<br \/>\n    Rolos de sangue e p&oacute;, blasf&ecirc;mias e gemidos,<br \/>\n    Preces e impreca&ccedil;&otilde;es&#8230; As pr&oacute;prias m&atilde;es, entanto,<br \/>\n    Her&oacute;icas na afli&ccedil;&atilde;o, enxuto o olhar de pranto,<br \/>\n    Viam cair sem vida os filhos. Combatentes<br \/>\n    Houve, que, n&atilde;o querendo aos golpes inclementes<br \/>\n    Do inimigo entregar os corpos das crian&ccedil;as,<br \/>\n    Matavam-nas, erguendo as suas pr&oacute;prias lan&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>Por fim, quando de todo a vida desertando<br \/>\n    Foi a extinta cidade, e, l&uacute;gubre, espalmando<br \/>\n    As asas negras no ar, pairou sinistra e horrenda<br \/>\n    A morte, teve um fim a peleja tremenda,<br \/>\n    E o inc&ecirc;ndio come&ccedil;ou.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fraco e medroso, o fogo<\/strong><\/p>\n<p> &Agrave; branda vira&ccedil;&atilde;o tremeu um pouco, e logo,<br \/>\n    Inda p&aacute;lida e t&ecirc;nue, ergueu-se. Mais violento,<br \/>\n    Mais r&aacute;pido soprou por sobre a chama o vento:<br \/>\n    E o que era labareda, agora &iacute;gnea serpente<br \/>\n    Gigantesca, estirando o corpo, de repente<br \/>\n    Desenrosca os an&eacute;is flam&iacute;vomos, abra&ccedil;a<br \/>\n    Toda a cidade, estala as pedras, cresce, passa,<br \/>\n    R&oacute;i os muros, estronda, e, solapando o solo,<br \/>\n    Os alicerces broca, e estringe tudo. Um rolo<br \/>\n    De pl&uacute;mbeo e denso fumo enegrecido em torno<br \/>\n    Se estende, como um v&eacute;u, do comburente forno.<br \/>\n    Na horrorosa evers&atilde;o, dos templos arrancado,<br \/>\n    Vibra o m&aacute;rmore, salta; abre-se, estilha&ccedil;ado,<br \/>\n    Tudo o que o inc&ecirc;ndio aperta&#8230; E a fumarada cresce<br \/>\n    Sobe vertiginosa, espalha-se, escurece<br \/>\n    O firmamento&#8230; E, sobre os restos da batalha,<br \/>\n    Arde, voraz e rubra, a colossal fornalha.<\/p>\n<p>Mudo e triste Cipi&aacute;o, longe dos mais, no entanto, <br \/>\n    Deixa livre correr pelas faces o pranto&#8230;<\/p>\n<p>&Eacute; que, &#8211; vendo rolar, num r&aacute;pido momento<br \/>\n    Para o abismo do olvido e do aniquilamento<br \/>\n    Homens e tradi&ccedil;&otilde;es, reveses e vit&oacute;rias,<br \/>\n    Batalhas e trof&eacute;us, seis s&eacute;culos de gl&oacute;rias<br \/>\n    Num punhado de cinza -, o general previa<br \/>\n    Que Roma, a invicta, a forte, a armipotente, havia<br \/>\n    De ter o mesmo fim da orgulhosa Cartago.<br \/>\n    E, perto, o precipitar estrepitoso e vago<br \/>\n    D0 inc&ecirc;ndio, que lavrava e inda rugia ativo,<br \/>\n    Era como o rumor de um pranto convulsivo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: A Morte de Tapir A Gon\u00e7alves Dias Guerreira Para a Rainha Dona Am\u00e9lia de Portugal A um Grande Homem A Sesta de Nero O Inc\u00eandio de Roma O Sonho de Marco Ant\u00f4nio Lendo a Il\u00edada Messalina A Ronda Noturna Defenda Carthago! 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