{"id":124511,"date":"2017-06-26T19:08:45","date_gmt":"2017-06-26T21:08:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=124511"},"modified":"2017-06-26T19:08:45","modified_gmt":"2017-06-26T21:08:45","slug":"o-cacador-de-esmeraldas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cacador-de-esmeraldas","title":{"rendered":"O Ca\u00e7ador de Esmeraldas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"484\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t  <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Olavo Bilac<\/h2>\n<h4>Epis&oacute;dio da Epop&eacute;ia Sertanista do S&eacute;culo XVII<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Foi em mar&ccedil;o, ao findar das chuvas, quase &agrave; entrada<br \/>\n    Do outono, quando a terra, em sede requeimada,<br \/>\n    Bebera longamente as &aacute;guas da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &#8211; Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,<br \/>\n    &Agrave; frente dos pe&otilde;es filhos da rude mata,<br \/>\n    Fern&atilde;o Dias Pais Leme entrou pelo sert&atilde;o.<\/p>\n<p>Ah! quem te vira assim, no alvorecer da vida,<br \/>\n    Bruta P&aacute;tria, no ber&ccedil;o, entre as selvas dormida,<br \/>\n    No virginal pudor das primitivas eras,<br \/>\n    Quando, aos beijos do sol, mal compreendendo o anseio <br \/>\n    Do mundo por nascer que trazias no seio, <br \/>\n    Reboavas ao tropel dos &iacute;ndios e das feras!<\/p>\n<p>J&aacute; l&aacute; fora, da ourela azul das enseadas,<br \/>\n    Das angras verdes, onde as &aacute;guas repousadas<br \/>\n    V&ecirc;m, borbulhando, &agrave; flor dos cachopos cantar;<br \/>\n    Das abras e da foz dos tumultuosos rios, <br \/>\n    Tomadas de pavor, dando contra os baixios,<br \/>\n    As pirogas dos teus fugiam pelo mar&#8230;<\/p>\n<p>De longe, ao duro vento opondo as largas velas,<br \/>\n    Bailando ao furac&atilde;o, vinham as caravelas,<br \/>\n    Entre os uivos do mar e o sil&ecirc;ncio dos astros;<br \/>\n    E tu, do litoral, de rojo nas areias,<br \/>\n    Vias o Oceano arfar, vias as ondas cheias<br \/>\n    De uma palpita&ccedil;&atilde;o de proas e de mastros.<\/p>\n<p>Pelo deserto imenso e l&iacute;quido, os penhascos<br \/>\n    Feriam-nas em v&atilde;o, ro&iacute;am-lhes os cascos&#8230;<br \/>\n    A quantas, quanta vez, rodando aos ventos maus,<br \/>\n    O primeiro peg&atilde;o, como a baix&eacute;is, quebrava!<br \/>\n    E l&aacute; iam, no alvor da espumarada brava, <br \/>\n    Despojos da ambi&ccedil;&atilde;o, cad&aacute;veres de naus.<\/p>\n<p>Outras vinham, na lebre her&oacute;ica da conquista!<br \/>\n    E quando, de entre os v&eacute;us das neblinas, &agrave; vista<br \/>\n    Dos nautas fulgurava o teu verde sorriso,<br \/>\n    Os seus olhos, &oacute; P&aacute;tria, enchiam-se de pranto:<br \/>\n    Era como se, erguendo a ponta do teu manto,<br \/>\n    Vissem, &agrave; beira d&#8217;&aacute;gua, abrir-se o Para&iacute;so!<\/p>\n<p>Mais numerosa, mais audaz, de dia em dia,<br \/>\n    Engrossava a invas&atilde;o. Como a enchente bravia,<br \/>\n    Que sobre as terras, palmo a palmo, abre o len&ccedil;ol<br \/>\n    Da &aacute;gua devastadora, &#8211; os brancos avan&ccedil;avam:<br \/>\n    E os teus filhos de bronze ante eles recuavam,<br \/>\n    Como a sombra recua ante a invas&atilde;o do sol.<\/p>\n<p>J&aacute; nas faldas da serra apinhavam-se aldeias;<br \/>\n    Levantava-se a cruz sobre as alvas areias,<br \/>\n    Onde, ao brando mover dos leques das ju&ccedil;aras,<br \/>\n    Vivera e progredira a tua gente forte.<br \/>\n    Soprara a destrui&ccedil;&atilde;o, como um vento de morte,<br \/>\n    Desterrando os paj&eacute;s, abatendo as cai&ccedil;aras.<\/p>\n<p>Mas al&eacute;m, por detr&aacute;s das broncas serranias,<br \/>\n    Na cerrada regi&atilde;o das florestas sombrias,<br \/>\n    Cujos troncos, rompendo as lianas e os cip&oacute;s,<br \/>\n    Alastravam no c&eacute;u l&eacute;guas de rama escura;<br \/>\n    Nos matagais, em cuja horr&iacute;vel espessura<br \/>\n    S&oacute; corria a anta leve e uivava a on&ccedil;a feroz:<\/p>\n<p>Al&eacute;m da &aacute;spera brenha, onde as tribos errantes<br \/>\n    &Agrave; sombra maternal das &aacute;rvores gigantes<br \/>\n    Acampavam; al&eacute;m das sossegadas &aacute;guas<br \/>\n    Das lagoas, dormindo entre aningais floridos;<br \/>\n    Dos rios, acachoando em quedas e bramidos,<br \/>\n    Mordendo os alcantis, roncando pelas fr&aacute;guas;<\/p>\n<p>&#8211; A&iacute;, n&atilde;o ia ecoar o estrupido da luta.<br \/>\n    E, no seio nutriz da natureza bruta,<br \/>\n    Resguardava o pudor teu verde cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Ah! quem te vira assim, entre as selvas sonhando,<br \/>\n    Quando a bandeira entrou pelo teu seio, quando<br \/>\n    Fern&atilde;o Dias Pais Leme invadiu o sert&atilde;o!<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>Para o norte inclinando a lombada brumosa,<br \/>\n    Entre os nateiros jaz a serra misteriosa;<br \/>\n    A azul Vupabu&ccedil;u beija-lhe as verdes faldas,<br \/>\n    E &aacute;guas crespas, galgando abismos e barrancos<br \/>\n    Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos<br \/>\n    Em cujos socav&otilde;es dormem as esmeraldas.<\/p>\n<p> Verde sonho!&#8230; &eacute; a jornada ao pa&iacute;s da Loucura!<br \/>\n    Quantas bandeiras j&aacute;, pela mesma aventura<br \/>\n    Levadas, em tropel, na &acirc;nsia de enriquecer!<br \/>\n    Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada<br \/>\n    Brenha rude, o luar beija &agrave; noite uma ossada,<br \/>\n    Que v&ecirc;m, a uivar de fome, as on&ccedil;as remexer.<\/p>\n<p>Que importa o desamparo em meio do deserto,<br \/>\n    E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto<br \/>\n    De terror em terror, lutando bra&ccedil;o a bra&ccedil;o<br \/>\n    Com a inclem&ecirc;ncia do c&eacute;u e a dureza da sorte?<br \/>\n    Serra bruta! dar-lhe-&aacute;s, antes de dar-lhe a morte, <br \/>\n    As pedras de Cortez, que escondes no rega&ccedil;o!<\/p>\n<p>E sete anos, de fio em fio destramando<br \/>\n    O mist&eacute;rio, de passo em passo penetrando<br \/>\n    O verde arcano, foi o bandeirante audaz. <br \/>\n    &#8211; Marcha horrenda! derrota implac&aacute;vel e calma,<br \/>\n    Sem uma hora de amor, estrangulando na alma <br \/>\n    Toda a recorda&ccedil;&atilde;o do que ficava atr&aacute;s!<\/p>\n<p>A cada volta, a Morte, afiando o olhar faminto,<br \/>\n    Incans&aacute;vel no ardil, rondando o labirinto <br \/>\n    Em que &agrave;s tontas errava a bandeira nas matas, <br \/>\n    Cercando-a com o crescer dos rios iracundos, <br \/>\n    Espiando-a no pendor dos boqueir&otilde;es profundos, <br \/>\n    Onde vinham ruir com fragor as cascatas.<\/p>\n<p>Aqui, tapando o espa&ccedil;o, entrela&ccedil;ando as grenhas<br \/>\n    Em negros pared&otilde;es, levantavam-se as brenhas,<br \/>\n    Cuja muralha, em v&atilde;o, sem a poder dobrar,<br \/>\n    Vinham acometer os temporais, aos roncos;<br \/>\n    E os machados, de sol a sol mordendo os troncos,<br \/>\n    Contra esse adarve bruto em v&atilde;o rodavam no ar.<\/p>\n<p>Dentro, no frio horror das balseiras escuras,<br \/>\n    Viscosas e oscilando, &uacute;midas colgaduras<br \/>\n    Pendiam de cip&oacute;s na escurid&atilde;o noturna;<br \/>\n    E um mundo de reptis silvava no negrume;<br \/>\n    Cada folha pisada exalava um queixume,<br \/>\n    E uma pupila m&aacute; chispava em cada furna.<\/p>\n<p>Depois, nos chapad&otilde;es, o rude acampamento:<br \/>\n    As barracas, voando em frangalhos ao vento,<br \/>\n    Ao granizo, &agrave; invernada, &agrave; chuva, ao temporal.<br \/>\n    E quantos deles, nus, sequiosos, no abandono,<br \/>\n    Iam ficando atr&aacute;s, no derradeiro sono,<br \/>\n    Sem chegar ao sop&eacute; da colina fatal!<\/p>\n<p>Que importava? Ao clarear da manh&atilde;, a companha<br \/>\n    Buscava no horizonte o perfil da montanha&#8230;<br \/>\n    Quando apareceria enfim, vergando a espalda,<br \/>\n    Desenhada no c&eacute;u entre as neblinas claras,<br \/>\n    A grande serra, mie das esmeraldas raras,<br \/>\n    Verde e faiscante como uma grande esmeralda?<\/p>\n<p>Avante! e os agua&ccedil;ais seguiam-se &agrave;s florestas&#8230;<br \/>\n    Vinham os lamar&otilde;es, as leziras funestas,<br \/>\n    De &aacute;gua paralisada e decomposta ao sol,<br \/>\n    Em cuja face, como um bando de fantasmas,<br \/>\n    Erravam dia e noite as febres e os miasmas,<br \/>\n    Numa ronda letal sobre o podre len&ccedil;ol.<\/p>\n<p>Agora, o &aacute;spero morro, os caminhos fragosos.<br \/>\n    Leve, de quando em quando, entre os troncos nodosos<br \/>\n    Passa um pl&uacute;meo cocar, como uma ave que voa&#8230;<br \/>\n    Uma frecha, subtil, silva e zarguncha&#8230; &Eacute; a guerra!<br \/>\n    S&atilde;o os &iacute;ndios! Retumba o eco da bruta serra<br \/>\n    Ao tropel&#8230; E o estridor da batalha reboa.<\/p>\n<p>Depois, os ribeir&otilde;es, nas levadas, transpondo<br \/>\n    As ribas, rebramando, e de estrondo em estrondo<br \/>\n    Inchando em macar&eacute;us o seio destruidor,<br \/>\n    E desenraizando os troncos seculares,<br \/>\n    No esto da aluv&atilde;o estremecendo os ares,<br \/>\n    E indo torvos rolar nos vales com fragor&#8230;<\/p>\n<p>Sete anos! combatendo &iacute;ndios, febres, paludes,<br \/>\n    Feras, reptis, &#8211; contendo os sertanejos rudes,<br \/>\n    Dominando o furor da amotinada escolta&#8230;<br \/>\n    Sete anos!. .. E ei-lo de volta, enfim, com o seu tesouro!<br \/>\n    Com que amor, contra o peito, a sacola de couro <br \/>\n    Aperta, a transbordar de pedras verdes! &#8211; volta&#8230;<\/p>\n<p>Mas num desvio da mata, uma tarde, ao sol posto,<br \/>\n    P&aacute;ra. Um frio livor se lhe espalha no rosto&#8230;<br \/>\n    E a febre! O Vencedor n&atilde;o passar&aacute; dali!<br \/>\n    Na terra que venceu h&aacute; de cair vencido:<br \/>\n    E a febre: &eacute; a morte! E o Her&oacute;i, tr&ocirc;pego e envelhecido,<br \/>\n    Roto, e sem for&ccedil;as, cai junto do Guaicu&iacute;&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p> Fern&atilde;o Dias Pais Leme agoniza. Um lamento<br \/>\n    Chora longo, a rolar na longa voz do vento.<br \/>\n    Mugem soturnamente as &aacute;guas. O c&eacute;u arde.<br \/>\n    Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,<br \/>\n    Na mesma solid&atilde;o e na mesma hora triste,<br \/>\n    &Agrave; agonia do her&oacute;i e &agrave; agonia da tarde.<\/p>\n<p>Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.<br \/>\n    Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras<br \/>\n    Uivam nas lapas. Desce a noite, como um v&eacute;u&#8230;<br \/>\n    P&aacute;lido, no palor da luz, o sertanejo<br \/>\n    Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.<br \/>\n    &#8211; Fern&atilde;o Dias Pais Leme agoniza, e olha o c&eacute;u.<\/p>\n<p>Oh! esse &uacute;ltimo olhar ao firmamento! A vida<br \/>\n    Em surtos de paix&atilde;o e febre repartida,<br \/>\n    Toda, num s&oacute; olhar, devorando as estrelas!<br \/>\n    Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,<br \/>\n    &#8211; Que as implora, que bebe a sua luz tranq&uuml;ila,<br \/>\n    Que morre&#8230; e nunca mais, nunca mais h&aacute; de v&ecirc;-las!<\/p>\n<p>Ei-las todas, enchendo o c&eacute;u, de canto a canto.<br \/>\n    Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,<br \/>\n    Tanta constela&ccedil;&atilde;o pela plan&iacute;cie azul!<br \/>\n    Nunca V&ecirc;nus assim fulgiu! Nunca t&atilde;o perto,<br \/>\n    Nunca com tanto amor sobre o sert&atilde;o deserto<br \/>\n    Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!<\/p>\n<p>Noites de outrora!&#8230; Enquanto a bandeira dormia <br \/>\n    Exausta, e &aacute;spero o vento em derredor zunia,<br \/>\n    E a voz do noitib&oacute; soava como um agouro,<br \/>\n    &#8211; Quantas vezes Fern&atilde;o, do cabe&ccedil;o de um monte,<br \/>\n    Via lenta subir do fundo do horizonte<br \/>\n    A clara prociss&atilde;o dessas bandeiras de ouro!<\/p>\n<p>Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens<br \/>\n    Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!<br \/>\n    Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus<br \/>\n    Ressoantes de amor! outonos benfeitores!<br \/>\n    Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!<br \/>\n    Fern&atilde;o Dias Pais Leme espera a morte&#8230; Adeus!<\/p>\n<p>O Sertanista ousado agoniza, sozinho.<br \/>\n    Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;<br \/>\n    E com a roupa de couro em farrapos, deitado,<br \/>\n    Com a garganta afogada em uivos, ululante,<br \/>\n    Entre os troncos da brenha hirsuta, &#8211; o Bandeirante<br \/>\n    Jaz por terra, &agrave; fei&ccedil;&atilde;o de um tronco derribado&#8230;<\/p>\n<p>E o del&iacute;rio come&ccedil;a. A mio, que a febre agita,<br \/>\n    Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,<br \/>\n    Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chio:<br \/>\n    Sangra as unhas, revolve as ra&iacute;zes, acerta,<br \/>\n    Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,<br \/>\n    Como para o enterrar dentro do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ah! m&iacute;sero demente! o teu tesouro &eacute; falso!<br \/>\n    Tu caminhaste em v&atilde;o, por sete anos, no encal&ccedil;o<br \/>\n    De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!<br \/>\n    Enganou-te a ambi&ccedil;&atilde;o! mais pobre que um mendigo,<br \/>\n    Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,<br \/>\n    Sem ter quem te conceda a extrema-un&ccedil;&atilde;o de um beijo!<\/p>\n<p>E foi para morrer de cansa&ccedil;o e de fome,<br \/>\n    Sem ter quem, murmurando em l&aacute;grimas teu nome,<br \/>\n    Te d&ecirc; uma ora&ccedil;&atilde;o e um punhado de cal,<br \/>\n    &#8211; Que tantos cora&ccedil;&otilde;es calcaste sob os passos,<br \/>\n    E na alma da mulher que te estendia os bra&ccedil;os<br \/>\n    Sem piedade lan&ccedil;aste um veneno mortal!<\/p>\n<p>E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;<br \/>\n    Fern&atilde;o Dias se esvai, numa s&iacute;ncope lenta&#8230;<br \/>\n    Mas, agora, um dano ilumina-lhe a face:<br \/>\n    E essa face cavada e magra, que a tortura<br \/>\n    Da fome e as priva&ccedil;&otilde;es maceraram, &#8211; fulgura,<br \/>\n    Como se a asa ideal de um arcanjo a ro&ccedil;asse.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Ado&ccedil;a-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso:<br \/>\n    Leve, na boca aflante, esvoa&ccedil;a-lhe um sorriso&#8230;<br \/>\n    &#8211; E adelga&ccedil;a-se o v&eacute;u das sombras. O luar <br \/>\n    Abre no horror da noite uma verde clareira. <br \/>\n    Como para abra&ccedil;ar a natureza inteira, <br \/>\n    Fern&atilde;o Dias Pais Leme estira os bra&ccedil;os no ar.<\/p>\n<p>Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;<br \/>\n    Verdes, na verde mata, embalan&ccedil;am-se as ramas;<br \/>\n    E flores verdes no ar brandamente se movem;<br \/>\n    Chispam verdes fuzis riscando o c&eacute;u sombrio;<br \/>\n    Em esmeraldas flui a &aacute;gua verde do rio,<br \/>\n    E do c&eacute;u, todo verde, as esmeraldas chovem&#8230;<\/p>\n<p> E &eacute; uma ressurrei&ccedil;&atilde;o! O corpo se levanta:<br \/>\n    Nos olhos, j&aacute; sem luz, a vida exsurge e canta!<br \/>\n    E esse destro&ccedil;o humano, esse pouco de p&oacute;<br \/>\n    Contra a destrui&ccedil;&atilde;o se aferra &agrave; vida, e luta,<br \/>\n    E treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta<br \/>\n    A voz, que na solid&atilde;o s&oacute; ele escuta, &#8211; s&oacute;:<\/p>\n<p>&quot;Morre! morrem-te &agrave;s m&atilde;os as pedras desejadas,<br \/>\n    Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas&#8230;<br \/>\n    Que importa? dorme em paz, que o teu labor &eacute; findo!<br \/>\n    Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,<br \/>\n    Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,<br \/>\n    As tuas povoa&ccedil;&otilde;es se estender&atilde;o fulgindo!<\/p>\n<p>Quando do acampamento o bando peregrino<br \/>\n    Saia, antemanh&atilde;, ao sabor do destino,<br \/>\n    Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor,<br \/>\n    &#8211; No c&ocirc;moro de terra, em que teu p&eacute; poisara,<br \/>\n    Os colmados de palha aprumavam-se, e clara<br \/>\n    A luz de uma clareira espancava o arredor.<\/p>\n<p>Nesse louco vagar, nessa marcha perdida,<br \/>\n    Tu foste, como o sol, uma fonte de vida:<br \/>\n    Cada passada tua era um caminho aberto!<br \/>\n    Cada pouso mudado, uma nova conquista!<br \/>\n    E enquanto ias, sonhando o teu sonho ego&iacute;sta,<br \/>\n    Teu p&eacute;, como o de um deus, fecundava o deserto!<\/p>\n<p>Morre! tu viver&aacute;s nas estradas que abriste!<br \/>\n    Teu nome rolar&aacute; no largo choro triste<br \/>\n    Da &aacute;gua do Guaicu&iacute;&#8230; Morre, Conquistador!<br \/>\n    Viver&aacute;s quando, feito em seiva o sangue, aos ares<br \/>\n    Subires, e, nutrindo uma &aacute;rvore, cantares<br \/>\n    Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!<\/p>\n<p>Morre! germinar&atilde;o as sagradas sementes<br \/>\n    Das gotas de suor, das l&aacute;grimas ardentes!<br \/>\n    H&atilde;o de frutificar as fomes e as vig&iacute;lias!<br \/>\n    E um dia, povoada a terra em que te deitas,<br \/>\n    Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,<br \/>\n    Quando, aos beijos do amor, crescerem as fam&iacute;lias,<\/p>\n<p>Tu cantar&aacute;s na voz dos sinos, nas charruas,<br \/>\n    No esto da multid&atilde;o, no tumultuar das ruas,<br \/>\n    No clamor do trabalho e nos hinos da paz!<br \/>\n    E, subjugando o olvido, atrav&eacute;s das idades,<br \/>\n    Violador de sert&otilde;es, plantador de cidades,<br \/>\n    Dentro do cora&ccedil;&atilde;o da P&aacute;tria viver&aacute;s!&quot;<\/p>\n<p> Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.<br \/>\n    Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,<br \/>\n    Como um choro de prata algente o luar escorre.<br \/>\n    E sereno, feliz, no maternal rega&ccedil;o<br \/>\n    Da terra, sob a paz estrelada do espa&ccedil;o,<br \/>\n    Fern&atilde;o Dias Pais Leme os olhos cerra. E morre.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Olavo Bilac Epis&oacute;dio da Epop&eacute;ia Sertanista do S&eacute;culo XVII I Foi em mar&ccedil;o, ao findar das chuvas, quase &agrave; entrada Do outono, quando a terra, em sede requeimada, Bebera longamente as &aacute;guas da esta&ccedil;&atilde;o, &#8211; Que, em bandeira, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-124511","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O 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