{"id":124162,"date":"2017-06-19T18:27:29","date_gmt":"2017-06-19T20:27:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=124162"},"modified":"2017-06-19T18:27:29","modified_gmt":"2017-06-19T20:27:29","slug":"contos-para-velhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contos-para-velhos","title":{"rendered":"Contos Para Velhos"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"625\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Os \u00d3culos<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Como C\u00e3es<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">O Luar<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">A Enguia<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">O Para\u00edso<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">A Costura<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Medicina<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Os An\u00e9is<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Como a Pescada<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Imunidade<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">O Vaso<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">O Defunto<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Feito no Escuro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">O Diabo<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Os Anjos<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">O Pecado<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Olavo Bilac<\/h2>\n<p><strong>(Com o seu pseud&ocirc;nimo de Bob)<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\">Os &Oacute;culos<\/a><\/h4>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p> O velho e austero doutor Ximenes, um dos mais s&aacute;bios professores<br \/>\n    da Faculdade, tem uma espinhosa miss&atilde;o a cumprir junto da p&aacute;lida<br \/>\n    e formosa Clarice&#8230; Vai examin&aacute;-la: vai dizer qual a raz&atilde;o<br \/>\n    da sua fraqueza, qual a origem daquele depauperamento, daquela triste agonia<br \/>\n    de flor que murcha e se estiola. <\/p>\n<p>A bela Clarice!&#8230; &Eacute; casada h&aacute; seis meses com o gordo Jo&atilde;o<br \/>\n    Paineiras, o conhecido corretor de fundos, &#8212; o Jo&atilde;o dos &oacute;culos<br \/>\n    &#8212;, como o chamam na Pra&ccedil;a por causa daqueles grossos e pesados<br \/>\n    &oacute;culos de ouro que nunca deixam o seu forte nariz de ventas cabeludas.<br \/>\n    H&aacute; seis meses ela mingua, e emagrece, e tem na face a cor da cera das<br \/>\n    promessas de igreja &#8212; a bela Clarice. E &#8212; &oacute; espanto! &#8212;<br \/>\n    quanto mais fraca vai ficando ela, mais forte vai ficando ele, o Jo&atilde;o<br \/>\n    dos &oacute;culos, &#8212; um latag&atilde;o que vende sa&uacute;de aos quilos.<br \/>\n    Assusta-se a fam&iacute;lia da mo&ccedil;a. Ele, com seu imenso sorriso, vai<br \/>\n    dizendo que n&atilde;o sabe&#8230; que n&atilde;o compreende&#8230; porque, enfim,<br \/>\n    &#8212; que diabo! &#8212; se a culpa fosse sua, ele tamb&eacute;m estaria<br \/>\n    na espinha&#8230;<\/p>\n<p>E &eacute; o velho e austero Dr. Ximenes, um dos mais s&aacute;bios professores<br \/>\n    da Faculdade, um po&ccedil;o de ci&ecirc;ncia e discri&ccedil;&atilde;o, quem<br \/>\n    vai esclarecer o mist&eacute;rio. Na sala, a fam&iacute;lia ansiosa espia<br \/>\n    com rancor a gorda face do Jo&atilde;o impass&iacute;vel. E na alcova, demorado<br \/>\n    e minucioso exame continua.<\/p>\n<p>J&aacute; o velho doutor, com a cabe&ccedil;a encanecida sobre a pele nua<br \/>\n    do peito da enferma, auscultou longamente os seus pulm&otilde;es delicados:<br \/>\n    j&aacute;, levemente apertando entre os dedos aquele punho macio e branco,<br \/>\n    tateou o pulso, t&ecirc;nue como um fio de seda&#8230; Agora, com o olhar arguto,<br \/>\n    percorre a pele da bela Clarice &#8212; branca e cheirosa pele &#8212; o colo,<br \/>\n    a cinta, o resto&#8230; De repente &#8212; que &eacute; aquilo que o velho e austero<br \/>\n    doutor percebe na pele, abaixo&#8230; abaixo&#8230; abaixo do ventre?&#8230; Leves escoria&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    quase impercept&iacute;veis arranhaduras avultam aqui e ali vagamente&#8230; nas<br \/>\n    coxas&#8230;<\/p>\n<p>O velho e austero doutor Ximenes funga uma pitada, co&ccedil;a a calva, olha<br \/>\n    fixamente os olhos da sua doente, toda alvoro&ccedil;ada de pudor:<\/p>\n<p>&#8211; Isto que &eacute;, filha? Pulgas? Unhas de gato?<\/p>\n<p>E a bela Clarice, toda de confus&atilde;o, enrolando-se no penteador de musselina<br \/>\n    como n&#8217;uma nuvem, balbucia, corando:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o! N&atilde;o &eacute; nada&#8230; n&atilde;o sei&#8230; isto &eacute;&#8230;<br \/>\n    talvez seja dos &oacute;culos do Jo&atilde;o<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Como C&atilde;es<\/a><\/h4>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, senhora! &#8212; dizia o comendador<br \/>\n    &agrave; esposa &#8212; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8212; Mas se eu lhe digo que &eacute; certo, seu Lucas! &#8212; insistia<br \/>\n    a D. Teresa &#8212; pois &eacute; mesmo a nossa filha quem m&#8217;o disse!<\/p>\n<p>O comendador Lucas, at&ocirc;nito, co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! senhora! mas isso &eacute; grave! Ent&atilde;o o rapaz j&aacute;<br \/>\n    est&aacute; casado com a menina h&aacute; dois meses e ainda&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ainda nada, seu Lucas, absolutamente nada!<\/p>\n<p>&#8212; Valha-me Deus! Enfim, eu bem sei que o rapaz, antes de casar, nunca<br \/>\n    tinha andado pelo mundo&#8230; sempre agarrado &agrave;s saias da tia&#8230; sempre<br \/>\n    metido pelas igrejas.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &#8212; que diabo! &#8212; como &eacute; que, em dois meses,<br \/>\n    ainda o instinto n&atilde;o lhe deu aquilo que a experi&ecirc;ncia j&aacute;<br \/>\n    lhe devia ter dado?! Enfim, vou eu mesmo falar-lhe! Valha-me Deus!<\/p>\n<p>E, nessa mesma noite, o comendador, depois do jantar, chamou &agrave; fala<br \/>\n    o genro, um mo&ccedil;o louro e bonito, dono de uns olhos c&acirc;ndidos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, como &eacute; isso, rapaz? tu n&atilde;o gostas de<br \/>\n    tua mulher?<\/p>\n<p>&#8212; Como n&atilde;o gosto? Mas gosto muito!<\/p>\n<p>&#8212; T&aacute; t&aacute; t&aacute;&#8230; Vem c&aacute;! que &eacute; que<br \/>\n    tu lhe tens feito, nestes dous meses?<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; tenho feito tudo! converso com ela, beijo-a, trago-lhe frutas,<br \/>\n    levo-a ao teatro&#8230; tenho feito tudo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; isto, rapaz, n&atilde;o &eacute; somente isso!<br \/>\n    o casamento &eacute; mais que alguma cousa! tu tens de fazer o que todos fazem,<br \/>\n    caramba!<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; n&atilde;o entendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O&acute; homem! tu precisas&#8230; ser marido de tua mulher!<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; n&atilde;o compreendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Valha-me Deus! tu n&atilde;o v&ecirc;s como os c&atilde;es fazem<br \/>\n    na rua?<\/p>\n<p>&#8212; Como os c&atilde;es? &#8230; como os c&atilde;es?&#8230; sim&#8230; parece-me<br \/>\n    que sim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois, ent&atilde;o? Faze como os c&atilde;es, peda&ccedil;o de moleir&atilde;o,<br \/>\n    faze como os c&atilde;es! E n&atilde;o te digo mais nada! Faze como os c&atilde;es&#8230;!<\/p>\n<p>&#8212; E, ao deitar-se, o comendador disse &agrave; esposa, com um risinho<br \/>\n    brejeiro:<\/p>\n<p>&#8212; Parece que o rapaz compreendeu, senhora! e agora &eacute; que a menina<br \/>\n    vai ver o bom e o bonito&#8230;<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>* *<\/p>\n<p>Uma semana depois, a Rosinha, muito corada, est&aacute; diante do pai, que<br \/>\n    a interroga. O comendador tem os olhos esbugalhados de espanto:<\/p>\n<p>&#8212; Que, rapariga? pois ent&atilde;o, o mesmo?<\/p>\n<p>&#8212; O mesmo&#8230; ah! &eacute; verdade! houve uma coisa que at&eacute; me<br \/>\n    espantou&#8230; ia-me esquecendo&#8230; houve uma cousa&#8230; esquisita&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que foi? que foi? &#8212; exclamou o comendador &#8212; que foi?&#8230;<br \/>\n    eu logo vi que devia haver alguma cousa!<\/p>\n<p>&#8212; Foi uma cousa esquisita&#8230; Ele me pediu que ficasse&#8230; assim&#8230; assim&#8230;<br \/>\n    como um bicho&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E depois? e depois?<\/p>\n<p>&#8212; E depois&#8230; depois&#8230; lambeu-me toda&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &#8230;e?<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; e dormiu!<\/p>\n<h4><a name=\"3\">O Luar<\/a><\/h4>\n<p><strong>III <\/strong><\/p>\n<p>Insone, a mo&ccedil;a Lu&iacute;sa<br \/>\n    Salta do leito, em camisa&#8230;<br \/>\n    Ver&atilde;o! ver&atilde;o de rachar!<br \/>\n    Calor! calor que devora!<br \/>\n    Lu&iacute;sa vai dormir fora,<br \/>\n    Ao luar&#8230;<\/p>\n<p>Ardente noite estrelada&#8230;<br \/>\n    Entre as plantas, descansada,<br \/>\n    P&otilde;e-se Lu&iacute;sa a roncar.<br \/>\n    Dorme toda a Natureza&#8230;<br \/>\n    E que esplendor! que beleza<br \/>\n    No luar!<\/p>\n<p>Olha-a o luar com ci&uacute;mes&#8230;<br \/>\n    E sabem vivos perfumes<br \/>\n    Do jardim e do pomar:<br \/>\n    E ela, em camisa, formosa,<br \/>\n    Repousa, como uma rosa,<br \/>\n    Ao luar!<\/p>\n<p>Mas algu&eacute;m (um fantasma ou gente?)<br \/>\n    Chega-se prudentemente,<br \/>\n    Para o seu sono espreitar&#8230;<br \/>\n    &#8211; Algu&eacute;m que, ardendo em desejo,<br \/>\n    Lhe p&otilde;e nos l&aacute;bios um beijo,<br \/>\n    Ao luar&#8230;<\/p>\n<p>Ela dorme&#8230; coitadinha!<br \/>\n    Nem o perigo adivinha,<br \/>\n    Pobre! a dormir e a sonhar&#8230;<br \/>\n    Sente o beijo&#8230; mas parece<br \/>\n    Que &eacute; um beijo quente que desce<br \/>\n    Do luar&#8230;<\/p>\n<p>A lua (dizem-no os s&aacute;bios&#8230;)<br \/>\n    Tamb&eacute;m tem boca, tem l&aacute;bios,<br \/>\n    L&aacute;bios que sabem beijar.<br \/>\n    Lu&iacute;sa dorme, em camisa&#8230;<br \/>\n    Como &eacute; formosa a Lu&iacute;sa<br \/>\n    Ao luar!<\/p>\n<p>V&atilde;o depois correndo os meses,<br \/>\n    Entre risos e revezes&#8230;<br \/>\n    &#8211; Come&ccedil;a a mo&ccedil;a a engordar&#8230;<br \/>\n    Vai engordando, engordando&#8230;<br \/>\n    E chora, amaldi&ccedil;oando<br \/>\n    O luar&#8230;<\/p>\n<p>J&aacute; todo o povo murmura<br \/>\n    E, na sua desventura,<br \/>\n    Ela s&oacute; sabe chorar;<br \/>\n    Chora e diz que n&atilde;o sabia<br \/>\n    Que tanto mal lhe faria<br \/>\n    O luar&#8230;<\/p>\n<p>O pai, que &eacute; homem sisudo,<br \/>\n    Homem que percebe tudo,<br \/>\n    Pergunta-lhe a praguejar:<br \/>\n    &quot; Que &eacute; que tu tens, rapariga?!&quot;<br \/>\n    E ela: &quot; Eu tenho na barriga&#8230;<br \/>\n    O luar!&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"4\">A Enguia<\/a><\/h4>\n<p><strong>IV <\/strong><\/p>\n<p>Ao alvorecer, na pequenina aldeia, &agrave; beira-mar, padre Jo&atilde;o,<br \/>\n    ainda estremunhado de sono, vai seguindo a praia branca, a caminho da igrejinha,<br \/>\n    que parece ao longe, clara e alegre, levantando no nevoeiro a sua torre esbelta.<br \/>\n    L&aacute; vai o bom p&aacute;roco dizer a sua missa e pregar o seu serm&atilde;o<br \/>\n    de quaresma&#8230; Velho e gordo, muito velho e muito gordo, padre Jo&atilde;o<br \/>\n    &eacute; muito amado de toda a gente do lugar. E os pescadores que o v&ecirc;m,<br \/>\n    v&atilde;o deixando as redes e v&atilde;o tamb&eacute;m seguindo para a igreja.<br \/>\n    E o bom p&aacute;roco aben&ccedil;oa as suas ovelhas, e vai sorrindo, sorrindo,<br \/>\n    com aquele sorriso todo bondade e todo indulg&ecirc;ncia&#8230; &Agrave; porta<br \/>\n    da igreja, a Sra. Tom&aacute;sia, velha devota que o adora, vem ao encontro<br \/>\n    dele:<\/p>\n<p>&#8212; Padre Jo&atilde;o! Aqui est&aacute; um regalo que lhe quero oferecer<br \/>\n    para o seu almocinho de hoje&#8230;<\/p>\n<p>E tira do cabaz uma enguia, uma soberba enguia, grossa e apetitosa, viva,<br \/>\n    remexendo-se.<\/p>\n<p>&#8212; Deus te pague, filha! &#8212; diz o bom padre, &#8212; e os seus<br \/>\n    olhos fulguram, cheios de j&uacute;bilo e gula. E segura a enguia, e vai entrando<br \/>\n    com ela na m&atilde;o, seguido da velha devota. Que bela enguia! e padre Jo&atilde;o<br \/>\n    apalpa voluptuosamente o peixe&#8230;<\/p>\n<p>Mas j&aacute; a&iacute; vem o sacrist&atilde;o. A igreja est&aacute; cheia&#8230;<br \/>\n    A missa vai come&ccedil;ar&#8230; Que h&aacute; de fazer o padre Jo&atilde;o da<br \/>\n    sua formosa enguia? Deix&aacute;-la ali, exp&ocirc;-la ao apetite do padre<br \/>\n    Ant&ocirc;nio, que tamb&eacute;m &eacute; guloso? Padre Jo&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    hesita: levanta a batina e com um barbante amarra a enguia em roda da cintura.<\/p>\n<p>A missa acaba. Padre Jo&atilde;o, comovido e grave, sobe ao p&uacute;lpito<br \/>\n    r&uacute;stico da igreja. E a sua voz pausada come&ccedil;a a narrar a del&iacute;cia<br \/>\n    da abstin&ecirc;ncia e das priva&ccedil;&otilde;es: &eacute; preciso amar<br \/>\n    a Deus&#8230; &eacute; preciso evitar as torpezas do mundo&#8230; &eacute; preciso<br \/>\n    fugir das tenta&ccedil;&otilde;es da carne&#8230; E o audit&oacute;rio ouve com<br \/>\n    recolhimento a palavra suave do seu bom p&aacute;roco.<\/p>\n<p>Mas, de repente, que &eacute; aquilo? Os homens abrem os olhos espantados;<br \/>\n    remexem-se as mulheres, levantando curiosamente os olhares para o p&uacute;lpito&#8230;<br \/>\n    &Eacute; que, na barriga do padre Jo&atilde;o, debaixo da batina, alguma coisa<br \/>\n    grossa est&aacute; bolindo&#8230; E j&aacute; na multid&atilde;o de fi&eacute;is<br \/>\n    correm uns risinhos abafados&#8230;<\/p>\n<p>Padre Jo&atilde;o compreende. Pobre p&aacute;roco! pobre p&aacute;roco atrapalhado!<br \/>\n    cora at&eacute; a raiz dos cabelos, balbucia, fica tonto e confuso. Depois,<br \/>\n    cria coragem e, vencendo a vergonha, exclama:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; nada do que pensais, filhas! n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    carne! &eacute; peixe! &eacute; peixe! n&atilde;o &eacute; carne!&#8230;<\/p>\n<p>E sacode no ar, com a m&atilde;o tremula, a enguia da senhora Tom&aacute;sia&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\">O Para\u00edso<\/a><\/h4>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>A p&aacute;lida Ramona<br \/>\n    &Eacute; uma formosa dona, <br \/>\n    Mo&ccedil;a e cheia de encantos:<br \/>\n    Tem a gra&ccedil;a e a mal&iacute;cia do Dem&ocirc;nio&#8230;<br \/>\n    E, aos vinte anos, uniu-se em matrim&ocirc;nio<br \/>\n    Ao Chilperico Santos.<\/p>\n<p>Ornou-lhe a fronte de gentis galhadas&#8230;<br \/>\n    E, quando ele, entre as gentes assustadas,<br \/>\n    Passava assim, &#8212; que sustos e que espantos!<br \/>\n    Por fim, morreu&#8230; foi pena!<br \/>\n    &#8211; E a vi&uacute;va, serena,<br \/>\n    Casou de novo&#8230; com Silv&eacute;rio Santos.<\/p>\n<p>Fez o mesmo ao segundo que ao primeiro,<br \/>\n    E, louca, ao mundo inteiro<br \/>\n    Andava namorando pelos cantos&#8230;<br \/>\n    Ele morreu. E a p&aacute;lida senhora,<br \/>\n    Serena como outrora,<br \/>\n    Casou&#8230; com Hermes Santos.<\/p>\n<p>Fez ao terceiro o mesmo que ao segundo&#8230;<br \/>\n    Depois dele, casou com Segismundo<br \/>\n    Santos&#8230; Depois, sem lutos e sem prantos,<br \/>\n    Sem se lembrar dos pobres falecidos,<br \/>\n    Foi tendo por maridos<br \/>\n    Uns onze ou doze Santos!<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Ningu&eacute;m jamais teve maridos tantos!<br \/>\n    Mulher nenhuma teve menos siso!<br \/>\n    E, por ter enganado a tantos Santos,<br \/>\n    Quase, com seus encantos,<br \/>\n    Converteu num curral o Para&iacute;so&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\">A Costura<\/a><\/h4>\n<p><strong>VI<\/strong><\/p>\n<p>T&atilde;o bonita, t&atilde;o bem feita, dona de t&atilde;o lindos olhos<br \/>\n    e de formoso sorriso, a Maroca, &#8212; mas t&atilde;o tola!&#8230; Aos dezessete<br \/>\n    anos, tinha a ingenuidade das crian&ccedil;as de mama; e o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; entendia o amor dos gatos, das bonecas, de quantos brinquedos inocentes<br \/>\n    podem interessar a alma de uma crian&ccedil;a. A m&atilde;e, lavadeira e engomadeira<br \/>\n    de fama, dizia sempre ao seu compadre e vizinho Manoel Tesoura, &#8212; alfaiate<br \/>\n    de bairros:<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, compadre! esta &eacute; que n&atilde;o me d&aacute; trabalho<br \/>\n    nenhum: a pobre pequena nem sabe o que &eacute; namorar! Quando a deixo em<br \/>\n    casa com o irm&atilde;o pequeno, saio com a alma t&atilde;o tranq&uuml;ila<br \/>\n    como se a deixasse guardada por todo um batalh&atilde;o&#8230; Virtude e inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    at&eacute; ali, compadre!<\/p>\n<p>E o Manoel Tesoura, piscando o olho, respondia:<\/p>\n<p>&#8212; Assim &eacute; que elas se querem, comadre, assim &eacute; que elas<br \/>\n    se querem&#8230; Isto de raparigas, &#8212; quanto mais sabidas, mais dif&iacute;ceis<br \/>\n    de guardar&#8230;<\/p>\n<p>De fato, quando a velha ia ao rio lavar a sua roupa, a Maroca ficava sozinha,<br \/>\n    brincando com o irm&atilde;o, o Antonico, que s&oacute; tinha seis anos. E<br \/>\n    t&atilde;o inocente era ela como ele. E, &agrave;s vezes, o Manoel Tesoura<br \/>\n    vinha ali passar um bocado de tempo a conversar com a rapariga, e trazia a<br \/>\n    sua agulha, e as suas fazendas, e as suas linhas, e ficava a admirar aquela<br \/>\n    mocidade e aquela inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>E foi um dia, a velha lavadeira, ao voltar do rio com a roupa molhada, achou<br \/>\n    sozinho em casa o pequeno, que dormia. Chamou:<\/p>\n<p>&#8212; Maroca! Maroca!<\/p>\n<p>Nada&#8230; Saiu, foi &agrave; casa do alfaiate, bateu &agrave; porta:<\/p>\n<p>&#8212; Compadre! compadre!<\/p>\n<p>Nada&#8230; J&aacute; preocupada, voltou &agrave; casa, acordou o Antonico:<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; da mana, filho?<\/p>\n<p>E o pequeno, estremunhado:<\/p>\n<p>&#8212; Mana saiu, foi-se embora com seu Manoel&#8230; Seu Manoel coseu ela,<br \/>\n    coseu, coseu, e depois disse a ela que era mais melhor ir-se embora juntos,<br \/>\n    por que mam&atilde;e n&atilde;o havia de gostar de ver ela cosida&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Cosida? como foi que seu Manoel podia coser a mana, filho?<\/p>\n<p>&#8212; Coseu, mam&atilde;e, coseu bem cosida, sim senhora. Coseu bem cosida<br \/>\n    com uma agulha muito grossa&#8230; At&eacute; seu Manoel coseu ela com dois novelos<br \/>\n    de linha! At&eacute; seu Manoel me pediu que eu suspendesse os novelos dele,<br \/>\n    mam&atilde;e!&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Medicina<\/a><\/h4>\n<p><strong>VII<\/strong><\/p>\n<p>Rita Rosa, camponesa,<br \/>\n    Tendo no dedo um tumor,<br \/>\n    Foi consultar com tristeza<br \/>\n    Padre Jacinto Prior.<\/p>\n<p>O Padre, com gravidade<br \/>\n    De um verdadeiro doutor,<br \/>\n    Diz: &quot;A sua enfermidade<br \/>\n    Tem um rem&eacute;dio: o calor&#8230;<\/p>\n<p>Traga o dedo sempre quente&#8230;<br \/>\n    Sempre com muito calor&#8230;<br \/>\n    E h&aacute;-de ver que, finalmente,<br \/>\n    Rebentar&aacute; o tumor!&quot;<\/p>\n<p>Passa um dia. Volta a Rita,<br \/>\n    Bela e cheia de rubor&#8230;<br \/>\n    E, na alegria que a agita,<br \/>\n    Cai aos p&eacute;s do confessor:<\/p>\n<p>&quot;Meu padre! estou t&atilde;o contente!&#8230;<br \/>\n    Que grande coisa o calor!<br \/>\n    Pus o dedo em lugar quente&#8230;<br \/>\n    E rebentou o tumor&#8230;&quot;<\/p>\n<p>E o padre: &quot;&Eacute; feliz, menina!<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m tenho um tumor&#8230;<br \/>\n    T&atilde;o grande, que me alucina,<br \/>\n    Que me alucina de dor&#8230;<\/p>\n<p>&quot;&Oacute; padre! mostre o dedo,<br \/>\n    (Diz a Rita) por favor!<br \/>\n    Mostre! porque h&aacute;-de ter medo<br \/>\n    De lhe aplicar o calor?<\/p>\n<p>Deixe ver! eu sou t&atilde;o quente!&#8230;.<br \/>\n    Que dedo grande! que horror!<br \/>\n    Ai! padre&#8230; v&aacute;&#8230; lentamente&#8230;<br \/>\n    V&aacute; gozando&#8230; do calor&#8230;<\/p>\n<p>Parab&eacute;ns&#8230; padre Jacinto!<br \/>\n    Eu&#8230; logo&#8230; vi&#8230; que o calor&#8230;<br \/>\n    Parab&eacute;ns, padre&#8230; J&aacute; sinto<br \/>\n    Que rebentou o tumor&#8230;&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"8\">Os An&eacute;is<\/a><\/h4>\n<p>A bela sociedade, a sociedade alegre, composta de rapazes e de raparigas,<br \/>\n    estava reunida em roda da larga mesa da sala de jantar, convertida em mesa<br \/>\n    de jogo. A velha m&atilde;e das raparigas, a gorda Sra. Manuela Matias, bem<br \/>\n    sabia que aquelas noitadas de v&iacute;spora e ch&aacute; lhe custavam os<br \/>\n    olhos da cara&#8230; mas que havia de fazer a Sra. Manuela Matias? &#8212; morrera-lhe<br \/>\n    o marido, deixando-lhe aquelas seis filhas, e &#8212; com todos os diabos!<br \/>\n    &#8212; era preciso casar as raparigas, pois n&atilde;o era? E ali estava<br \/>\n    a boa vi&uacute;va &agrave; cabeceira da larga mesa da sala de jantar, embrulhada<br \/>\n    no seu xaile de ramagens, vigiando as filhas, que, ao lado dos namorados,<br \/>\n    iam cobrindo com os gr&atilde;os amarelos do milho os cart&otilde;es do v&iacute;spora&#8230;<\/p>\n<p>Cacilda, a mais velha, (vinte anos, dizia ela; vinte e cinco, diziam as m&aacute;s<br \/>\n    l&iacute;nguas) estava ao lado do louro Eduardo, um janota que, &agrave;s<br \/>\n    vezes, no flirt inocente com meninas solteiras, descansa das aventuras mais<br \/>\n    pr&aacute;ticas com as casadas&#8230; Juntos, juntinhos, inclinados sobre os cart&otilde;es<br \/>\n    &#8212; t&atilde;o juntinhos que, de quando em quando, as suas cabe&ccedil;as<br \/>\n    se tocavam e seus h&aacute;litos se confundiam&#8230; E os outros pares iam marcando<br \/>\n    os n&uacute;meros&#8230; E Cacilda e Eduardo &#8212; que caiporismo! &#8212; tinham<br \/>\n    os cart&otilde;es descobertos, tinham o monte de gr&atilde;os de milho intacto,<br \/>\n    sobre a toalha da mesa&#8230; E a boa senhora Manuela Martins, cochilando, embrulhada<br \/>\n    no seu bonito xaile de ramagens, presidia &agrave;quele divertimento inocente.<br \/>\n    Ent&atilde;o? era preciso casar as raparigas, pois n&atilde;o era?<\/p>\n<p>De repente, o louro Eduardo deixa escapar da garganta um grito de dor, de<br \/>\n    ang&uacute;stia, de horror&#8230; E, muito p&aacute;lido, o louro Eduardo aperta<br \/>\n    apressadamente com as m&atilde;os a&#8230; barriga, enquanto Cacilda baixa a face<br \/>\n    inundada de uma onda de rubor.<\/p>\n<p>&#8212; Que foi?<\/p>\n<p>&#8212; Que foi?<\/p>\n<p>&#8212; Que foi?<\/p>\n<p>&#8212; Nada&#8230; uma dor que me deu&#8230; j&aacute; passou&#8230; j&aacute; passou&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>E, &agrave; sa&iacute;da, depois do ch&aacute;, o louro Eduardo confia ao<br \/>\n    seu amigo Am&eacute;rico o segredo do seu grito. E Am&eacute;rico, entre duas<br \/>\n    risadas, indaga:<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; com as unhas?<\/p>\n<p>&#8212; Qual com as unhas, filho! com os an&eacute;is! Eu n&atilde;o sei<br \/>\n    para que &eacute; que aquela rapariga quer tantos an&eacute;is na m&atilde;o<br \/>\n    direita! Estou todo arranhado&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Como a Pescada<\/a><\/h4>\n<p><strong>IX<\/strong><\/p>\n<p>Casados h&aacute; tr&ecirc;s meses, &#8212; j&aacute; o arrufo, j&aacute;<br \/>\n    o ci&uacute;me, j&aacute; a resigna&#8230; E Cl&eacute;lia quer<br \/>\n    que o marido, o &Aacute;lvaro, lhe ponha j&aacute; para ali toda a verdade:<br \/>\n    se foi de fato noivo de<br \/>\n    Laura, e porque &eacute; que foi expulso da casa de Laura, e porque n&atilde;o<br \/>\n    casou com Laura,<br \/>\n    e porque &eacute; que a fam&iacute;lia de Laura lhe tem tanta raiva&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, filhinha, s&ecirc; sensata; n&atilde;o nos casamos? N&atilde;o<br \/>\n    somos felizes? N&atilde;o te<br \/>\n    amo como um louco? Que queres mais? Beijemo-nos que me importa a mim a<br \/>\n    lembran&ccedil;a de Laura, se &eacute; a ti que amo, se te perten&ccedil;o,<br \/>\n    se sou o teu maridinho<br \/>\n    carinhoso? &#8212; suspira &Aacute;lvaro, procurando com os l&aacute;bios<br \/>\n    ansiosos os l&aacute;bios da<br \/>\n    arrufada Cl&eacute;lia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, senhor! N&atilde;o, senhor! &#8212; diz a teimosa, repelindo-o<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, senhor!<br \/>\n    quero saber tudo! vamos a isso! foi ou n&atilde;o foi noivo de Laura?<br \/>\n    &#8212; Ai! &#8212; geme o marido &#8212; j&aacute; que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    rem&eacute;dio&#8230; fui, queridinha, fui&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem! e porque n&atilde;o casou com ela?<br \/>\n    &#8212; Porque&#8230; porque o pai preferiu cas&aacute;-la com o Borba, comendador<br \/>\n    Borba,<br \/>\n    sabes? aquele muito rico e muito sujo, sabes?<br \/>\n    &#8212; Sei&#8230; Mas isso n&atilde;o explica o motivo porque o pai de Laura<br \/>\n    tem tanto &oacute;dio<br \/>\n    ao senhor&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que&#8230; &eacute; que, compreendes&#8230; tinha havido tanta intimidade<br \/>\n    entre mim e a<br \/>\n    filha dele&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que intimidade? vamos, diga tudo! o senhor costumava ficar sozinho<br \/>\n    com<br \/>\n    ela?<br \/>\n    &#8212; &Agrave;s vezes, &agrave;s vezes&#8230;<br \/>\n    &#8212; E abra&ccedil;ava-a?<br \/>\n    &#8212; &Agrave;s vezes&#8230;<br \/>\n    &#8212; E beijava-a?<br \/>\n    &#8212; &Agrave;s vezes&#8230;<br \/>\n    &#8212; E chegava-se muito para ela?<br \/>\n    &#8212; Sim, sim&#8230; Mas n&atilde;o falemos nisso! que temos n&oacute;s com<br \/>\n    o passado, se nos<br \/>\n    amamos, se estamos casados, se&#8230;<br \/>\n    &#8212; Nada! nada! &#8212; insiste Cl&eacute;lia &#8212; quero saber tudo,<br \/>\n    tudo! vamos! e depois?<br \/>\n    &#8212; Depois? mais nada, filhinha, mais nada&#8230;<br \/>\n    Cl&eacute;lia, por&eacute;m, com um brilho singular da curiosidade maliciosa<br \/>\n    nos grandes<br \/>\n    olhos azuis, insiste ainda:<br \/>\n    &#8212; Confesse! Confesse! Ela&#8230; ela n&atilde;o lhe resistiu? N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim?<br \/>\n    &#8212; Diga-o! Confesse! &#8212; e abra&ccedil;a o marido, adulando-o&#8230;<br \/>\n    &#8212; Pois bem! &eacute; verdade! &#8212; responde ele &#8212; mas acabou,<br \/>\n    passou&#8230; Que<br \/>\n    importa o que houve entre mim e Laura, se nesse tempo ainda eu n&atilde;o<br \/>\n    te conhecia, a<br \/>\n    ti, t&atilde;o pura, a ti, t&atilde;o boa, a ti que, enquanto foste minha<br \/>\n    noiva, nem um s&oacute; beijo me<br \/>\n    deste?<\/p>\n<p> Cl&eacute;lia, muito s&eacute;ria, reflete&#8230; E, de repente:<\/p>\n<p> &#8212; Mas, escuta, Alvaro! Como foi que o pai soube?<br \/>\n    &#8212; Por ela mesma, por ela mesma! A tola contou-lhe tudo&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ah! Ah! Ah! &#8212; e Cl&eacute;lia ri como uma louca, mostrando todas<br \/>\n    as p&eacute;rolas da<br \/>\n    boca &#8212; ah! ah! ah! ent&atilde;o foi ela quem&#8230; que idiota! Que idiota!<br \/>\n    ah! ah! ah! Ora j&aacute; se<br \/>\n    viu que pamonha? a&iacute; est&aacute; uma cousa que eu n&atilde;o teria feito!<br \/>\n    &#8212; uma asneira em que<br \/>\n    n&atilde;o ca&iacute; nunca&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Como? Como? &#8212; exclama o marido, aterrado &#8212; uma asneira<br \/>\n    em que n&atilde;o<br \/>\n    ca&iacute;ste?!<br \/>\n    &#8212; Mas, certamente, queridinho, certamente! H&aacute; cousas que se fazem<br \/>\n    mas<br \/>\n    n&atilde;o se dizem&#8230;<\/p>\n<p> E, enquanto &Aacute;lvaro, acabrunhado, apalpa a testa &#8212; l&aacute;<br \/>\n    fora, na rua, ao luar,<br \/>\n    um viol&atilde;o tange o fado e a voz do fadista canta:<\/p>\n<p class=\"imagem\"> &quot;Homem que casa n&atilde;o sabe<br \/>\n    Qual o destino que o espera&#8230;<br \/>\n    H&aacute; gente como a pescada,<br \/>\n    Que antes de o ser j&aacute; o era&#8230;&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"10\">Imunidade<\/a><\/h4>\n<p><strong>X<\/strong><\/p>\n<p>Foi Praxedes Cristiano<br \/>\n    &Agrave; Capital Federal:<br \/>\n    Levou a mulher, o mano<br \/>\n    E a filha. E, ao cabo de um ano,<br \/>\n    Regressa ao torr&atilde;o natal.<\/p>\n<p>Regressa&#8230; V&atilde;o esper&aacute;-lo,<br \/>\n    Com festas e rapap&eacute;s,<br \/>\n    Os amigos, &agrave; cavalo;<br \/>\n    Queimam-se as bichas de estalo,<br \/>\n    Foguetes e busca-p&eacute;s.<\/p>\n<p>Praxedes, guapo e pachola,<br \/>\n    Vem transformado e feliz:<br \/>\n    Traz polainas e cartola,<br \/>\n    E guarda-chuva de mola,<br \/>\n    E botinas de verniz.<\/p>\n<p>E a mulher, gorda matrona,<br \/>\n    &Eacute; aquilo que se v&ecirc;:<br \/>\n    &#8212; Vem que parece uma dona,<br \/>\n    &#8212; Vestido cor de azeitona,<br \/>\n    Sa&iacute;do do Raunier&#8230;<\/p>\n<p>Depois do almo&ccedil;o, se ajunta<br \/>\n    Toda a gente principal:<br \/>\n    E, depois de toda junta.<br \/>\n    &#8212; O que h&aacute; de novo, pergunta,<br \/>\n    Na Capital Federal.<\/p>\n<p>Praxedes impa de orgulho,<br \/>\n    E principia a falar:<br \/>\n    &quot;Ah! que vida! que barulho!<br \/>\n    No Rio, este m&ecirc;s de julho<br \/>\n    &Eacute; mesmo um m&ecirc;s de gozar!&quot;<\/p>\n<p>Praxedes fala de tudo,<br \/>\n    Sem cousa alguma esquecer;<br \/>\n    Todo o audit&oacute;rio peludo<br \/>\n    Fica tonto, fica mudo,<br \/>\n    E de tudo quer saber.<\/p>\n<p>Nisto, o velho botic&aacute;rio,<br \/>\n    Sujeito de distin&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Que idolatra o Formul&aacute;rio<br \/>\n    E &eacute; a gl&oacute;ria do campan&aacute;rio.<br \/>\n    P&otilde;e em campo esta quest&atilde;o:<\/p>\n<p>&quot;J&aacute; que tanta cousa viste,<br \/>\n    Praxedes, dize-me c&aacute;:<br \/>\n    Dizem, n&atilde;o sei se por chiste<br \/>\n    Ou por maldade, que existe<br \/>\n    Muita s&iacute;filis por l&aacute;&#8230;&quot;<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; pura intriga, seu Ramos!<br \/>\n    (Diz o Praxedes) que quer?<br \/>\n    Um ano por l&aacute; passamos&#8230;<br \/>\n    E nada disso apanhamos,<br \/>\n    Nem eu, nem minha mulher!&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"11\">O Vaso<\/a><\/h4>\n<p><strong>XI<\/strong><\/p>\n<p> Oh! o lindo, o lindo vaso que Celina possu&iacute;a! e com que carinho,<br \/>\n    com que meiguice tratava ela as flores daquele vaso, o mais belo de toda a<br \/>\n    aldeia!<\/p>\n<p>Levava-o a toda a parte: e, no seu ci&uacute;me, na sua avareza, n&atilde;o<br \/>\n    queria confi&aacute;-lo a ningu&eacute;m, com medo de que m&atilde;os profanas<br \/>\n    estragassem as raras flores que nele vi&ccedil;avam. Ela mesma as regava,<br \/>\n    de manh&atilde; e &agrave; noite: ela mesma as catava cuidadosamente todos<br \/>\n    os dias, para que nenhum inseto as roesse ou lhes polu&iacute;sse o acetinado<br \/>\n    das p&eacute;talas. E em toda a aldeia s&oacute; se falava do vaso de Celina.<br \/>\n    Mas, a rapariga, cada vez mais ciosa do seu tesouro, escondia-o, furtava-o<br \/>\n    &agrave;s vistas de todo o mundo. Oh! o lindo, o lindo vaso que Celina possu&iacute;a!<\/p>\n<p>Certa vez, (era por ocasi&atilde;o das colheitas) Celina acompanhou as outras<br \/>\n    raparigas ao campo. A manh&atilde; era espl&ecirc;ndida. O sol inundava de<br \/>\n    alegria e de luz a paisagem. E as raparigas iam cantando, cantando; e as aves<br \/>\n    nas &aacute;rvores, gorjeando, e as &aacute;guas do riacho nos seixos da estrada,<br \/>\n    murmurando, faziam coro com elas. E Celina levava escondido seu vaso. N&atilde;o<br \/>\n    quisera deix&aacute;-lo em casa, exposto &agrave; cobi&ccedil;a de algum gatuno.<br \/>\n    E os rapazes diziam: &quot;Aquela que ali vai &eacute; Celina, que possui<br \/>\n    o mais belo vaso da aldeia&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Por toda a manh&atilde;, por toda a tarde, a faina da colheita durou. E,<br \/>\n    quando a noite desceu, cantando e rindo as raparigas desfilaram, de volta<br \/>\n    &agrave; aldeia. Celina, sempre retra&iacute;da, sempre afastada do conv&iacute;vio<br \/>\n    das outras, deixou-se ficar atrasada. E, sozinha, pela noite escura e fechada,<br \/>\n    veio trazendo o seu vaso precioso&#8230;<\/p>\n<p>Dizem na aldeia que aqueles caminhos s&atilde;o perigosos: h&aacute; por<br \/>\n    ali, rodando nas trevas, g&ecirc;nios maus que fazem mal &agrave;s raparigas&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o se sabe o que houve: sabe-se que Celina, chegando &agrave; casa,<br \/>\n    tinha os olhos cheios de l&aacute;grimas, e queixava-se, solu&ccedil;ando,<br \/>\n    de que haviam roubado as flores do seu vaso. E n&atilde;o houve consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe valesse, n&atilde;o houve carinho que lhe acalmasse o desespero. E<br \/>\n    os dias correram, e correram as semanas, e correram os meses, e Celina, desesperada,<br \/>\n    chorava e sofria: &quot;Oh! as flores! as flores do meu vaso que me roubaram!&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Mas, no fim do nono m&ecirc;s, Celina consolou-se. N&atilde;o tinha recuperado<br \/>\n    as flores perdidas&#8230; mas tinha nos bra&ccedil;os um pimpolho. E o Jo&atilde;o<br \/>\n    das Dornas, um rapag&atilde;o que era o terror dos pais e dos maridos, dizia<br \/>\n    &agrave; noite, na taverna, aos amigos, diante dos canecos de vinho:<\/p>\n<p>&#8212; Ningu&eacute;m roubou as flores da rapariga, &oacute; homens! eu<br \/>\n    &eacute; que lhes fiz uma rega abundante, por que n&atilde;o admito flores<br \/>\n    que estejam toda a vida sem dar frutos&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\">O Defunto<\/a><\/h4>\n<p><strong>XII<\/strong><\/p>\n<p>O grave professor, aprumando sobre o nariz os &oacute;culos de ouro, come&ccedil;a<br \/>\n    a sua li&ccedil;&atilde;o. Grave, grave, o professor Mac-Leley! calvo, vermelho,<br \/>\n    possuindo nas bochechas fl&aacute;cidas algumas falripas raras e grisalhas,<br \/>\n    o velho ingl&ecirc;s &eacute; a circunspec&ccedil;&atilde;o em pessoa. Sempre<br \/>\n    trajado severamente &#8212; cal&ccedil;as negras, colete negro, rodaque de<br \/>\n    alpaca negra, gravata negra de tr&ecirc;s voltas&#8230; Grave, grave, o professor<br \/>\n    Mac-Leley!<\/p>\n<p>Levanta-se, tosse duas vezes, passeia pela sala um olhar minucioso, e principia.<br \/>\n    Os meninos, em semic&iacute;rculo, agitam-se, mexem-se, disp&otilde;e-se a<br \/>\n    ouvir a palavra do mestre, que vai fazer a li&ccedil;&atilde;o de cousas.<br \/>\n    Justamente um dos alunos faltou: morrera-lhe um tio. E o circunspecto Mac-Leley<br \/>\n    aproveita a ocasi&atilde;o para ensinar &agrave; classe o que &eacute; um<br \/>\n    defunto, o que &eacute; a morte, o que &eacute; a vida, o que &eacute; um<br \/>\n    cad&aacute;ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quando cessa o funcionamento de um org&atilde;o, meninos, diz-se<br \/>\n    que este org&atilde;o est&aacute; morto. O corpo humano &eacute; um conjunto<br \/>\n    de &oacute;rg&atilde;os&#8230; O funcionamento de todos esses &oacute;rg&atilde;os<br \/>\n    &eacute; a vida. Se os &oacute;rg&atilde;os n&atilde;o funcionam mais, o homem<br \/>\n    morre, &eacute; um defunto, &eacute; um cad&aacute;ver&#8230;<\/p>\n<p>(Mas&#8230; que &eacute; aquilo? pelos bancos da classe passa, cont&iacute;nuo<br \/>\n    e mal disfar&ccedil;ado, um risinho alegre. Toda classe ri, tomada de uma<br \/>\n    alegria irresist&iacute;vel&#8230;)<\/p>\n<p>&#8212; Meninos! continua o grave Mac-Leley &#8212; quando o corpo morre,<br \/>\n    come&ccedil;a a decomposi&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>(O riso da classe continua tamb&eacute;m. Todos cochicham, todos se estorcem,<br \/>\n    todos se agitam nos bancos. O velho mestre enrubesce, atrapalha-se, sem saber<br \/>\n    o que provoca aquela alegria. Mas, sem parar, com a voz tr&ecirc;mula, prossegue.)<\/p>\n<p>&#8212; E quando h&aacute; a decomposi&ccedil;&atilde;o, h&aacute; a infe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p>(O grave Mac-Leley, pobre! pobre grave Mac-Leley! baixa os olhos, mira-se,<br \/>\n    examina-se, fica tr&ecirc;mulo&#8230; Malditos bot&otilde;es! malditos bot&otilde;es!<br \/>\n    tamb&eacute;m as cal&ccedil;as s&atilde;o t&atilde;o antigas! malditos bot&otilde;es!<br \/>\n    Malditos bot&otilde;es!&#8230; E o grave Mac-Leley est&aacute; sobre brasas, e<br \/>\n    &eacute; quase sem voz que conclui o seu per&iacute;odo.)<\/p>\n<p>&#8212; Meninos&#8230; Quando h&aacute; decomposi&ccedil;&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    infe&ccedil;&atilde;o&#8230; e&#8230; por isso&#8230; por isso&#8230; &eacute; que &eacute;<br \/>\n    costume deixar a janela aberta&#8230; quando h&aacute; defunto em casa&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"13\">Feito no Escuro<\/a><\/h4>\n<p><strong>XIII<\/strong><\/p>\n<p> Ele era branco, e ela branca,<br \/>\n    Ambos claros como a luz&#8230;<br \/>\n    Casaram. Baile de arranca,<br \/>\n    E pagodeira de truz&#8230;<\/p>\n<p>O mais formoso dos ninhos<br \/>\n    Era a casa, &agrave; beira-mar,<br \/>\n    Onde, como dois pombinhos,<br \/>\n    Foram os dois arrulhar.<\/p>\n<p>S&oacute; eles&#8230; e um cozinheiro,<br \/>\n    Que era o crioulo Manuel,<br \/>\n    Crioulo lesto e ligeiro,<br \/>\n    Obediente&#8230; e fiel.<\/p>\n<p>Ali, Amor assentava<br \/>\n    Os seus doces arraiais,<br \/>\n    E o mar, gemendo, invejava<br \/>\n    Aqueles beijos&#8230; e o mais.<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Nove meses decorridos,<br \/>\n    Uma not&iacute;cia correu:<br \/>\n    Escutaram-se os vagidos&#8230;<br \/>\n    E o morgadinho nasceu!<\/p>\n<p>Que horror! que espanto! o menino,<br \/>\n    Filho daquela afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Era belo e pequenino,<br \/>\n    Mas&#8230; preto como carv&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>O marido, ardendo em chama,<br \/>\n    F&iacute;gado cheio de fel,<br \/>\n    Quer, ali mesmo na cama,<br \/>\n    Estrangular a infiel.<\/p>\n<p>Ela, por&eacute;m, que o conhece,<br \/>\n    Pergunta: &#8212; &quot;Voc&ecirc; que tem?<br \/>\n    &quot;Voc&ecirc; maluco parece&#8230;<br \/>\n    &quot;Reflita um pouco, meu bem!<\/p>\n<p>&quot;Bem lhe eu dizia, homem duro!<br \/>\n    &quot;Por&eacute;m, voc&ecirc; a teimar&#8230;<br \/>\n    &quot;Olhe! o que &eacute; feito no escuro,<br \/>\n    &quot;Sempre h&aacute;-de de escuro ficar!<\/p>\n<p>&quot;Pois&#8230; o pobre pequenino&#8230;<br \/>\n    &quot;Feito de noite&#8230; bem se v&ecirc;&#8230;<br \/>\n    Cada qual tem seu destino&#8230;.<br \/>\n    &quot;O culpado foi voc&ecirc;&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Tudo acaba em alegria&#8230;<br \/>\n    Mas o Manuel, no fog&atilde;o,<br \/>\n    Malicioso sorria,<br \/>\n    E temperava o feij&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">O Diabo<\/a><\/h4>\n<p><strong>XIV<\/strong><\/p>\n<p>Tinham metido tantas caraminholas na cabe&ccedil;a da pobre Luizinha, que<br \/>\n    a coitada, quando, &agrave;s dez horas, apagava a luz, metida na cama, vendo-se<br \/>\n    no escuro, tinha tanto medo, que come&ccedil;ava a bater os dentes&#8230; Pobre<br \/>\n    Luizinha! que medo, que medo ela tinha do diabo!<\/p>\n<p>Um dia, n&atilde;o p&ocirc;de mais! E, no confession&aacute;rio, ajoelhada<br \/>\n    diante de padre Jo&atilde;o, abriu-lhe a alma, e contou-lhe os seus sustos,<br \/>\n    e disse-lhe o medo que tinha de ver uma bela noite o diabo em pessoa entrar<br \/>\n    no seu quarto, para a atormentar&#8230;<\/p>\n<p>Padre Jo&atilde;o, acariciando o belo queixo escanhoado, refletiu um momento.<br \/>\n    Depois, olhando, com piedade a pobre pequena ajoelhada, disse gravemente:<\/p>\n<p>&#8212; Minha filha! basta ver que est&aacute; assim preocupada com essa<br \/>\n    id&eacute;ia, para reconhecer que realmente o Diabo anda a persegu&iacute;-la&#8230;<br \/>\n    Para o tinhoso amaldi&ccedil;oado assim &eacute; que come&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai, senhor padre! que h&aacute;-de ser de mim?! tenho a certeza de<br \/>\n    que, se ele me aparecesse, eu nem for&ccedil;as teria para gritar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem. filha, bem&#8230; Vejamos! costuma deixar a porta do quarto aberta?<\/p>\n<p>&#8212; Deus me livre, santo padre!<\/p>\n<p>&#8212; Pois, tem feito mal, filha, tem feito mal&#8230; Para que serve fechar<br \/>\n    a porta se o Amaldi&ccedil;oado &eacute; capaz de entrar pela fechadura? Ou&ccedil;a<br \/>\n    o meu conselho&#8230; Precisamos saber se &eacute; realmente Ele que quer atorment&aacute;-la&#8230;<br \/>\n    Esta noite, deite-se, e reze, deixe a porta aberta&#8230; Tenha coragem &#8230; &Agrave;s<br \/>\n    vezes, &eacute; o Anjo da Guarda que inventa essas coisas, para experimentar<br \/>\n    a f&eacute; das pessoas. Deixe a porta aberta esta noite. E, amanh&atilde;,<br \/>\n    venha dizer-me o que se tiver passado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai! senhor padre! eu terei coragem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; preciso que a tenha&#8230; &eacute; preciso que a tenha&#8230; v&aacute;&#8230;<br \/>\n    e, sobretudo, n&atilde;o diga nada a ningu&eacute;m&#8230; n&atilde;o diga nada<br \/>\n    a ningu&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>E, deitando a ben&ccedil;&atilde;o &agrave; rapariga, mandou-a embora. E<br \/>\n    ficou sozinho, sozinho, e acariciando o belo queixo escanhoado&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>E, no dia seguinte, logo de manh&atilde; cedo, j&aacute; estava o padre Jo&atilde;o<br \/>\n    no confession&aacute;rio, quando viu chegar a bela Luizinha. Vinha p&aacute;lida<br \/>\n    e confusa, atrapalhada e medrosa. E, muito tr&ecirc;mula, gaguejando, come&ccedil;ou<br \/>\n    a contar o que se passara&#8230;.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! meu padre! apaguei a vela, cobri-me toda muito bem coberta, e<br \/>\n    fiquei com um medo&#8230; com um medo&#8230; De repente, senti que algu&eacute;m entrava<br \/>\n    no quarto&#8230; Meu Deus! n&atilde;o sei como n&atilde;o morri&#8230; Quem quer que<br \/>\n    fosse, veio andando devagarinho, devagarinho, devagarinho, e parou perto das<br \/>\n    cama&#8230; n&atilde;o sei&#8230; perdi os sentidos&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, filha, vamos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; depois quando acordei&#8230; n&atilde;o sei, senhor padre, n&atilde;o<br \/>\n    sei&#8230; era uma cousa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, filha&#8230; era o Diabo?<\/p>\n<p>&#8212; Ai, senhor padre&#8230; pelo calor , parecia mesmo que eram as chamas<br \/>\n    do inferno&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que, filha? vamos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai, senhor padre&#8230; mas era t&atilde;o bom que at&eacute; parecia<br \/>\n    mesmo a gra&ccedil;a divina&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"15\">Os Anjos<\/a><\/h4>\n<p><strong>XV<\/strong><\/p>\n<p>No atelier do pintor &Aacute;lvaro, a palestra vai animada. L&aacute; est&aacute;<br \/>\n    o poeta Carlos, muito aprumado, muito elegante, encostado a um buffet renaissance,<br \/>\n    sacudindo o p&eacute; em que a polaina branca irradia, mordendo o seu magn&iacute;fico<br \/>\n    Henry Clay de tr&ecirc;s mil r&eacute;is. Mais adiante, o escultor J&uacute;lio,<br \/>\n    amorosamente inclinado para a viscondessinha de Mirantes e namoradamente mirando<br \/>\n    o seu belo colo desnudado, faz-lhe uma prele&ccedil;&atilde;o sobre o amor<br \/>\n    e a beleza: e ela, agitando com indol&ecirc;ncia o leque japon&ecirc;s, sorri,<br \/>\n    e crava nele os olhos maliciosos, deixando-o admirar sem escr&uacute;pulo<br \/>\n    o seu colo, &#8212; como para o desafiar a dizer se a pr&oacute;pria V&ecirc;nus<br \/>\n    de Milo o possui t&atilde;o branco e t&atilde;o puro&#8230; No sof&aacute;, o<br \/>\n    romancista Henrique discute m&uacute;sica de Wagner com Alberto, &#8212; o<br \/>\n    maestro famoso, cujo &uacute;ltimo poema sinf&ocirc;nico acaba de fazer um<br \/>\n    ruidoso sucesso. S&atilde;o 5 horas da tarde. Serve-se o ch&aacute;, em lindas<br \/>\n    ta&ccedil;as de porcelana chinesa; e, nos c&aacute;lices de cristal, brilha<br \/>\n    o tom aceso do rhum da Jamaica.<\/p>\n<p>Agora, parece que J&uacute;lio, o escultor, arriscou um galanteio mais forte.<br \/>\n    Porque a viscondessinha, corada, morde os l&aacute;bios e, para disfar&ccedil;ar<br \/>\n    a sua como&ccedil;&atilde;o, contempla um quadro grande, que est&aacute; na<br \/>\n    parede do atelier, c&oacute;pia de Raphael.<\/p>\n<p>J&uacute;lio, falando baixo, inclina-se mais, ainda mais:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, viscondessa, ent&atilde;o?<\/p>\n<p>Ela, para desviar a conversa, pergunta uma banalidade:<\/p>\n<p>&#8212; Diga-me, senhor &Aacute;lvaro, o senhor, que &eacute; pintor, deve<br \/>\n    saber isso&#8230; Porque &eacute; que, em todos os quadros, os anjos s&atilde;o<br \/>\n    representados s&oacute; com cabe&ccedil;a e asas?<\/p>\n<p>De canto a canto da sala, suspende-se a conversa. &Aacute;lvaro, sorrindo,<br \/>\n    responde:<\/p>\n<p>&#8212; Nada mais f&aacute;cil, viscondessa&#8230; queremos assim indicar que<br \/>\n    os anjos s&oacute; t&ecirc;m esp&iacute;rito; damo-lhes unicamente a cabe&ccedil;a<br \/>\n    em que reside o pensamento, e a asa que &eacute; o s&iacute;mbolo da imaterialidade&#8230;<\/p>\n<p>Mas o poeta Carlos, puxando uma longa fuma&ccedil;a de seu cheiroso Henri<br \/>\n    Clay, adianta-se at&eacute; o meio da sala:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; s&oacute; isso, &Aacute;lvaro, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    s&oacute; isso&#8230; Vou dar &agrave; viscondessa a verdadeira explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do caso&#8230;<\/p>\n<p>Tomou um gole de rhum, e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Antigamente, nos primitivos tempos da B&iacute;blia, os anjos n&atilde;o<br \/>\n    tinham apenas cabe&ccedil;as e asas: tinham bra&ccedil;os, pernas e tudo.<br \/>\n    Depois do inc&ecirc;ndio de Gomorra, foi que Deus os privou de todo o resto<br \/>\n    do corpo, deixando-lhes apenas a cabe&ccedil;a que &eacute; a sede do pensamento<br \/>\n    e a asa que &eacute; o s&iacute;mbolo da imaterialidade&#8230;.<\/p>\n<p>&#8212; Depois do inc&ecirc;ndio de Gomorra? &#8212; perguntaram todos &#8212;<br \/>\n    porque?<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; v&atilde;o ver!<\/p>\n<p>E Carlos, dirigindo-se a uma estante, tirou uma B&iacute;blia, abriu-a e<br \/>\n    leu:<\/p>\n<p>&#8212; IX. Ent&atilde;o, como as abomina&ccedil;&otilde;es daquela cidade<br \/>\n    maldita indignassem ao Senhor, mandou ele que dois Anjos fossem converter<br \/>\n    os perversos e aconselhar-lhes que se deixassem de abusar das torpezas da<br \/>\n    carne. X. E foram os Anjos, e bateram &agrave;s portas da cidade. IX. E os<br \/>\n    habitantes foram t&atilde;o infames, que os deixaram entrar, e assim que os<br \/>\n    tiveram dentro, tamb&eacute;m os violentaram, abusando deles&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Houve um sil&ecirc;ncio constrangido no atelier&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute; est&aacute;. E o Senhor, incendiou a cidade, e, para evitar<br \/>\n    que os anjos continuassem a estar expostos a essas inf&acirc;mias determinou<br \/>\n    que, dali em diante, eles s&oacute; tivessem cabe&ccedil;as e asas&#8230;<\/p>\n<p>A viscondessinha, dando um muxoxo, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Shoking!<\/p>\n<h4><a name=\"16\">O Pecado<\/a><\/h4>\n<p><strong>XVI<\/strong><\/p>\n<p>A Anacleta ia caminho da igreja, muito atrapalhada, pensando no modo porque<br \/>\n    havia de dizer ao confessor os seus pecados&#8230; Teria a coragem de tudo? E<br \/>\n    a pobre Anacleta tremia s&oacute; com a id&eacute;ia de contar a menor daquelas<br \/>\n    cousas ao severo padre Roxo, um padre terr&iacute;vel, cujo olhar de coruja<br \/>\n    punha um frio na alma da gente. E a desventurada ia quase chorando de desespero,<br \/>\n    quando, j&aacute; perto da igreja, encontrou a comadre Rita.<\/p>\n<p>Abra&ccedil;os, beijos&#8230; E l&aacute; ficam as duas, no meio da pra&ccedil;a,<br \/>\n    ao sol, conversando.<\/p>\n<p>&#8212; Venho da igreja, comadre Anacleta, venho da igreja&#8230; L&aacute; me<br \/>\n    confessei com o padre Roxo, que &eacute; um santo homem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai! comadre! &#8212; gemeu a Anacleta &#8212; tamb&eacute;m para<br \/>\n    l&aacute; vou&#8230; e se soubesse com que medo! Nem sei se terei a ousadia de<br \/>\n    dizer os meus pecados&#8230; Aquele padre &eacute; t&atilde;o rigoroso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Hist&oacute;rias, comadre, hist&oacute;rias! &#8212; exclamou a Rita<br \/>\n    &#8212; v&aacute; com confian&ccedil;a e ver&aacute; que o padre Roxo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o mal como se diz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute; que meus pecados s&atilde;o grandes&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E os meus ent&atilde;o, filha? Olhe: disse-os todos e o Sr. padre<br \/>\n    Roxo me ouviu com toda a indulg&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Comadre Rita, todo o meu medo &eacute; da penit&ecirc;ncia que ele<br \/>\n    me h&aacute; de impor, comadre Rita&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual penit&ecirc;ncia, comadre?! &#8212; diz a outra, rindo &#8212;<br \/>\n    as penit&ecirc;ncias que ele imp&otilde;e s&atilde;o t&atilde;o brandas!&#8230;<br \/>\n    Quer saber? contei-lhe que ontem o Jos&eacute; Ferrador me deu um beijo na<br \/>\n    boca&#8230; um grande pecado, n&atilde;o &eacute; verdade? Pois sabe a penit&ecirc;ncia<br \/>\n    que o padre Roxo me deu?&#8230; mandou-me ficar com a boca de molho na pia de<br \/>\n    &aacute;gua benta durante cinco minutos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai! que estou perdida, senhora comadre, ai! que estou perdida! &#8212;<br \/>\n    desata a gritar a Anacleta, rompendo num pranto convulsivo &#8212; Ai! que<br \/>\n    estou perdida!<\/p>\n<p>A comadre Rita, espantada, tenta em v&atilde;o sossegar a outra:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, comadre! que tem? ent&atilde;o que &eacute; isso? sossegue!<br \/>\n    tenha modos! que &eacute; isso que tem?<\/p>\n<p>E a Anacleta, chorando sempre:<\/p>\n<p>&#8212; Ai, comadre! &eacute; que, se ele me d&aacute; a mesma penit&ecirc;ncia<br \/>\n    que deu &aacute; senhora, &#8212; n&atilde;o sei o que hei de fazer!<\/p>\n<p>&#8212; Porque, filha? porque?<\/p>\n<p>&#8212; Porque&#8230; porque&#8230; afinal de contas&#8230; eu n&atilde;o sei como &eacute;<br \/>\n    que&#8230; hei de tomar um banho de assento na pia!&#8230;<\/p>\n<p><strong>Fim<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Os \u00d3culos Como C\u00e3es O Luar A Enguia O Para\u00edso A Costura Medicina Os An\u00e9is Como a Pescada Imunidade O Vaso O Defunto Feito no Escuro O Diabo Os Anjos O Pecado Olavo Bilac (Com o seu pseud&ocirc;nimo de Bob) Os &Oacute;culos I O velho e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-124162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Contos Para Velhos, Obra Liter\u00e1ria, Olavo Bilac, Pseud\u00f4nimo, 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