{"id":121979,"date":"2017-05-18T10:36:04","date_gmt":"2017-05-18T12:36:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121979"},"modified":"2017-05-18T10:36:04","modified_gmt":"2017-05-18T12:36:04","slug":"elegia-quase-uma-ode","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/elegia-quase-uma-ode","title":{"rendered":"Elegia Quase uma Ode"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Vin\u00edcius de Moraes<\/h2>\n<p>Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.<\/p>\n<p>O verso que mergulha o fundo de minha alma<br \/>\n\u00c9 simples e fatal, mas n\u00e3o traz car\u00edcia&#8230;<br \/>\nLembra-me de ti, poesia crian\u00e7a, de ti<br \/>\nQue te suspendias para o poema como que para um seio no espa\u00e7o.<br \/>\nLevavas em cada palavra a \u00e2nsia<br \/>\nDe todo o sofrimento vivido.<\/p>\n<p>Queria dizer coisas simples, bem simples<br \/>\nQue n\u00e3o ferissem teus ouvidos, minha m\u00e3e.<br \/>\nQueria falar em Deus, falar docemente em Deus<br \/>\nPara acalentar tua esperan\u00e7a, minha av\u00f3.<br \/>\nQueria tornar-me mendigo, ser miser\u00e1vel<br \/>\nPara participar de tua beleza, meu irm\u00e3o.<br \/>\nQueria, meus amigos&#8230; queria, meus inimigos&#8230;<br \/>\nQueria&#8230;<br \/>\nqueria t\u00e3o exaltadamente, minha amiga!<\/p>\n<p>Mas tu, Poesia<br \/>\nTu desgra\u00e7adamente Poesia<br \/>\nTu que me afogaste em desespero e me salvaste<br \/>\nE me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste<br \/>\n\u00c0 borda de abismos irreais em que me lan\u00e7aste e que depois eram abismos verdadeiros<br \/>\nOnde vivia a inf\u00e2ncia corrompida de vermes, a loucura prenhe do Esp\u00edrito Santo, e id\u00e9ias em l\u00e1grimas, e castigos e reden\u00e7\u00f5es mumificados em<br \/>\n[s\u00eamen cru<br \/>\nTu!<br \/>\nIluminaste, jovem dan\u00e7arina, a l\u00e2mpada mais triste da mem\u00f3ria\u2026<br \/>\nPobre de mim, tornei-me em homem.<br \/>\nDe repente, como a \u00e1rvore pequena<br \/>\nQue \u00e0 esta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas bebe a seiva do h\u00famus farto<br \/>\nEstira o caule e dorme para despertar adulta<br \/>\nAssim, poeta, voltaste para sempre.<br \/>\nNo entanto, era mais belo o tempo em que sonhavas&#8230;<\/p>\n<p>Que sonho \u00e9 minha vida?<br \/>\nA ti direi que \u00e9s tu, Maria Aparecida!<br \/>\nA v\u00f3s, no pudor de falar ante a vossa grandeza<br \/>\nDirei que \u00e9 esquecer todos os sonhos, meus amigos.<br \/>\nAo mundo, que ama a lenda dos destinos<br \/>\nDirei que \u00e9 o meu caminho de poeta.<br \/>\nA mim mesmo, hei de cham\u00e1-lo inoc\u00eancia, amor, alegria, sofrimento, morte, serenidade<br \/>\nHei de cham\u00e1-lo assim que sou fraco e mut\u00e1vel<br \/>\nE porque \u00e9 preciso que eu n\u00e3o minta nunca para poder dormir.<br \/>\nAh<br \/>\nDevesse eu jamais atender aos apelos do \u00edntimo&#8230;<\/p>\n<p>Teus bra\u00e7os longos, coruscantes; teus cabelos de oleosa cor; tuas m\u00e3os musical\u00edssimas; teus p\u00e9s que levam a dan\u00e7a prisioneira; teu corpo grave de gra\u00e7a instant\u00e2nea; o modo com que olhas o \u00e2mago da vida; a tua paz, ang\u00fastia paciente; o teu desejo irrevelado; o grande, o infinito in\u00fatil po\u00e9tico! tudo isso seria um sonho a sonhar no teu seio que \u00e9 t\u00e3o pequeno&#8230;<\/p>\n<p>\u00d3, quem me dera n\u00e3o sonhar mais nunca<br \/>\nNada ter de tristezas nem saudades<br \/>\nSer apenas Moraes sem ser Vinicius!<br \/>\nAh, pudesse eu jamais, me levantando<br \/>\nEspiar a janela sem paisagem<br \/>\nO c\u00e9u sem tempo e o tempo sem mem\u00f3ria!<br \/>\nQue hei de fazer de mim que sofro tudo<br \/>\nAnjo e dem\u00f4nio, ang\u00fastias e alegrias<br \/>\nQue peco contra mim e contra Deus!<br \/>\n\u00c0s vezes me parece que me olhando<br \/>\nEle dir\u00e1, do seu celeste abrigo:<br \/>\nFui cruel por demais com esse menino&#8230;<br \/>\nNo entanto, que outro olhar de piedade<br \/>\nCurar\u00e1 neste mundo as minhas chagas?<br \/>\nSou fraco e forte, ven\u00e7o a vida: breve<br \/>\nPerco tudo; breve, n\u00e3o posso mais&#8230;<br \/>\nOh, natureza humana, que desgra\u00e7a!<br \/>\nSe soubesses que for\u00e7a, que loucura<br \/>\nS\u00e3o todos os teus gestos de pureza<br \/>\nContra uma carne t\u00e3o alucinada!<br \/>\nSe soubesses o impulso que te impele<br \/>\nNestas quatro paredes de minha alma<br \/>\nNem sei o que seria deste pobre<br \/>\nQue te arrasta sem dar um s\u00f3 gemido!<br \/>\n\u00c9 muito triste se sofrer t\u00e3o mo\u00e7o<br \/>\nSabendo que n\u00e3o h\u00e1 nenhum rem\u00e9dio<br \/>\nE se tendo que ver a cada instante<br \/>\nQue \u00e9 assim mesmo, que mais tarde passa<br \/>\nQue sorrir \u00e9 quest\u00e3o de paci\u00eancia<br \/>\nE que a aventura \u00e9 que governa a vida<br \/>\n\u00d3 ideal mis\u00e9rrimo, te quero:<br \/>\nSentir-me apenas homem e n\u00e3o poeta!<\/p>\n<p>E escuto&#8230; Poeta! triste Poeta!<br \/>\nN\u00e3o, foi certamente o vento da manh\u00e3 nas arauc\u00e1rias<br \/>\nFoi o vento&#8230; sossega, meu cora\u00e7\u00e3o; \u00e0s vezes o vento parece falar&#8230;<br \/>\nE escuto&#8230; Poeta! pobre Poeta!<br \/>\nAcalma-te, tranq\u00fcilidade minha&#8230; \u00e9 um passarinho, s\u00f3 pode ser um passarinho<br \/>\nEu nem me importo&#8230; e se n\u00e3o for um passarinho, h\u00e1 tantos lamentos nesta terra&#8230;<br \/>\nE escuto&#8230; Poeta! s\u00f3rdido Poeta!<br \/>\nOh ang\u00fastia! desta vez&#8230; n\u00e3o foi a voz da montanha? N\u00e3o foi o eco distante<br \/>\nDa minha pr\u00f3pria voz inocente?<br \/>\nChoro.<br \/>\nChoro atrozmente, como os homens choram.<br \/>\nAs l\u00e1grimas correm milh\u00f5es de l\u00e9guas no meu rosto que o pranto faz gigantesco.<br \/>\n\u00d3 l\u00e1grimas, sois como borboletas dolorosas<br \/>\nVolitais dos meus olhos para os caminhos esquecidos\u2026<br \/>\nMeu pai, minha m\u00e3e, socorrei-me!<br \/>\nPoetas, socorrei-me!<br \/>\nPenso que daqui a um minuto estarei sofrendo<br \/>\nEstarei puro, renovado, crian\u00e7a, fazendo desenhos perdidos no ar\u2026<br \/>\nVenham me aconselhar, fil\u00f3sofos, pensadores<br \/>\nVenham me dizer o que \u00e9 a vida, o que \u00e9 o conhecimento, o que quer dizer a mem\u00f3ria<br \/>\nEscritores russos, alem\u00e3es, franceses, ingleses, noruegueses<br \/>\nVenham me dar id\u00e9ias como antigamente, sentimentos como antigamente<br \/>\nVenham me fazer sentir s\u00e1bio como antigamente!<br \/>\nHoje me sinto despojado de tudo que n\u00e3o seja m\u00fasica<br \/>\nPoderia assoviar a id\u00e9ia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana<br \/>\nPoderia apanhar todo o pensamento da vida e enforc\u00e1-lo na ponta de uma clave de F\u00e1!<\/p>\n<p>Minha Nossa Senhora, dai-me paci\u00eancia<br \/>\nMeu Santo Ant\u00f4nio, dai-me muita paci\u00eancia<br \/>\nMeu S\u00e3o Francisco de Assis, dai-me muit\u00edssima paci\u00eancia!<br \/>\nSe volto os olhos tenho vertigens<br \/>\nSinto desejos estranhos de mulher gr\u00e1vida<br \/>\nQuero o peda\u00e7o de c\u00e9u que vi h\u00e1 tr\u00eas anos, atr\u00e1s de uma colina que s\u00f3 eu sei<br \/>\nQuero o perfume que senti n\u00e3o me lembro quando e que era entre s\u00e2ndalo e carne de seio.<br \/>\nTanto passado me alucina<br \/>\nTanta saudade me aniquila<br \/>\nNas tardes, nas manh\u00e3s, nas noites da serra.<br \/>\nMeu Deus, que peito grande que eu tenho<br \/>\nQue bra\u00e7os fortes que eu tenho, que ventre esguio que eu tenho!<br \/>\nPara que um peito t\u00e3o grande<br \/>\nPara que uns bra\u00e7os t\u00e3o fortes<br \/>\nPara que um ventre t\u00e3o esguio<br \/>\nSe todo meu ser sofre da solid\u00e3o que tenho<br \/>\nNa necessidade que tenho de mil car\u00edcias constantes da amiga?<br \/>\nPor que eu caminhando<br \/>\nEu pensando, eu me multiplicando, eu vivendo<br \/>\nPor que eu nos sentimentos alheios<br \/>\nE eu nos meus pr\u00f3prios sentimentos<br \/>\nPor que eu animal livre pastando nos campos<br \/>\nE pr\u00edncipe tocando o meu ala\u00fade entre as damas do senhor rei meu pai<br \/>\nPor que eu tru\u00e3o nas minhas trag\u00e9dias<br \/>\nE Amadis de Gaula nas trag\u00e9dias alheias?<\/p>\n<p>Basta!<br \/>\nBasta, ou dai-me paci\u00eancia!<br \/>\nTenho tido muita delicadeza in\u00fatil<br \/>\nTenho me sacrificado muito demais, um mundo de mulheres em excesso tem me vendido<br \/>\nQuero um pouso<br \/>\nMe sinto repelente, impe\u00e7o os inocentes de me tocarem<br \/>\nVivo entre as \u00e1guas torvas da minha imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nAnjos, tangei sinos<br \/>\nO anacoreta quer a sua amada<br \/>\nQuer a sua amada vestida de noiva<br \/>\nQuer lev\u00e1-la para a neblina do seu amor&#8230;<\/p>\n<p>Mendelssohn, toca a tua marchinha inocente<br \/>\nSorriam pajens, oper\u00e1rias curiosas<br \/>\nO poeta vai passar soberbo<br \/>\nAo seu abra\u00e7o uma crian\u00e7a fant\u00e1stica derrama os \u00f3leos santos das \u00faltimas l\u00e1grimas<br \/>\nAh, n\u00e3o me afogueis em flores, poemas meus, voltai aos livros<br \/>\nN\u00e3o quero gl\u00f3rias, pompas, adeus!<br \/>\nSolness, voa para a montanha, meu amigo<br \/>\nCome\u00e7a a construir uma torre bem alta, bem alta&#8230;<\/p>\n<p><b>Itatiaia &#8211; RJ, 1937<\/b><\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.4shared.com<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius de Moraes Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem. 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