{"id":121850,"date":"2017-05-16T19:31:52","date_gmt":"2017-05-16T21:31:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121850"},"modified":"2017-05-16T19:31:52","modified_gmt":"2017-05-16T21:31:52","slug":"elegia-ao-primeiro-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/elegia-ao-primeiro-amigo","title":{"rendered":"Elegia ao Primeiro Amigo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Vin\u00edcius de Moraes<\/h2>\n<p>Seguramente n\u00e3o sou eu<br \/>\nOu antes: n\u00e3o \u00e9 o ser que eu sou, sem finalidade e sem hist\u00f3ria.<br \/>\n\u00c9 antes uma vontade indiz\u00edvel de te falar docemente<br \/>\nDe te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura<br \/>\nNeste momento de solid\u00e3o e desmesurado perigo em que me encontro.<br \/>\nTalvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos<br \/>\nE te confessava um terr\u00edvel pudor de amar, e que chorava \u00e0s escondidas<br \/>\nPorque via em muitos d\u00favidas sobre uma intelig\u00eancia que ele estimava genial.<br \/>\nSeguramente n\u00e3o \u00e9 a minha forma.<br \/>\nA forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez t\u00e3o tristemente temer minha pr\u00f3pria poesia.<br \/>\n\u00c9 apenas um pren\u00fancio do mist\u00e9rio<br \/>\nUm suspiro da morte \u00edntima, ainda n\u00e3o desencantada&#8230;<br \/>\nVim para ser lembrado<br \/>\nPara ser tocado de emo\u00e7\u00e3o, para chorar<br \/>\nVim para ouvir o mar contigo<br \/>\nComo no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e n\u00f3s<br \/>\nEncontr\u00e1vamos for\u00e7a para sorrir \u00e0 luz fant\u00e1stica da manh\u00e3.<br \/>\nNossos olhos enegreciam lentamente de dor<br \/>\nNossos corpos duros e insens\u00edveis<br \/>\nCaminhavam l\u00e9guas &#8211; e \u00e9ramos o mesmo afeto<br \/>\nPara aquele que, entre n\u00f3s, ferido de beleza<br \/>\nAquele de rosto de pedra<br \/>\nDe m\u00e3os assassinas e corpo herm\u00e9tico de m\u00e1rtir<br \/>\nNos criava e nos destru\u00eda \u00e0 sombra convulsa do mar.<br \/>\nPouco importa que tenha passado, e agora<br \/>\nEu te possa ver subindo e descendo os frios vales<br \/>\nOu nunca mais irei, eu<br \/>\nQue muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva&#8230;<br \/>\nTrazes ao teu bra\u00e7o a companheira dolorosa<br \/>\nA quem te deste como quem se d\u00e1 ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande p\u00e1ssaro sem ar.<br \/>\nT\u00e3o bem te conhe\u00e7o, meu irm\u00e3o; no entanto<br \/>\nQuem \u00e9s, amigo, tu que inventaste a ang\u00fastia<br \/>\nE abrigaste em ti todo o pat\u00e9tico?<br \/>\nN\u00e3o sei o que tenho de te falar assim: sei<br \/>\nQue te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem d\u00e1<br \/>\nImediata e silenciosa; sei que poderias morrer<br \/>\nE eu nada diria de grave; decerto<br \/>\nFoi a primavera tempor\u00e3 que desceu sobre o meu quarto de mendigo<br \/>\nCom seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros&#8230;<br \/>\nPensar-te agora na velha estrada me d\u00e1 tanta saudade de mim mesmo<br \/>\nMe renova tanta coisa, me traz \u00e0 lembran\u00e7a tanto instante vivido:<br \/>\nTudo isso que vais hoje revelar \u00e0 tua amiga, e que n\u00f3s descobrimos numa incompar\u00e1vel aventura<br \/>\nQue \u00e9 como se me voltasse aos olhos a inoc\u00eancia com que um dia dormi nos bra\u00e7os de uma mulher que queria me matar.<br \/>\nEvidentemente (e eu tenho pudor de diz\u00ea-lo)<br \/>\nQuero um bem enorme a voc\u00eas dois, acho voc\u00eas formid\u00e1veis<br \/>\nFosse tudo para dar em desastre no fim, o que n\u00e3o vejo poss\u00edvel<br \/>\n(V\u00e1 l\u00e1 por conta da necess\u00e1ria gentileza&#8230;)<br \/>\nNo entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para tr\u00e1s, para tr\u00e1s&#8230;<br \/>\nExisto tamb\u00e9m; de algum lugar<br \/>\nUma mulher me v\u00ea viver; de noite, \u00e0s vezes<br \/>\nEscuto vozes ermas<br \/>\nQue me chamam para o sil\u00eancio.<br \/>\nSofro<br \/>\nO horror dos espa\u00e7os<br \/>\nO p\u00e2nico do infinito<br \/>\nO t\u00e9dio das beatitudes.<br \/>\nSinto<br \/>\nRefazerem-se em mim m\u00e3os que decepei de meus bra\u00e7os<br \/>\nQue viveram sexos nauseabundos, seios em putrefa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAh, meu irm\u00e3o, muito sofro! de algum lugar, na sombra<br \/>\nUma mulher me v\u00ea viver&#8230; &#8211; perdi o meio da vida<br \/>\nE o equil\u00edbrio da luz; sou como um p\u00e2ntano ao luar.<\/p>\n<p>Falarei baixo<br \/>\nPara n\u00e3o perturbar tua amiga adormecida<br \/>\nSerei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.<br \/>\nTudo me merece um olhar. Trago<br \/>\nNos dedos um constante afago para afagar; na boca<br \/>\nUm constante beijo para beijar; meus olhos<br \/>\nAcarinham sem ver; minha barba \u00e9 delicada na pele das mulheres.<br \/>\nMato com delicadeza. Fa\u00e7o chorar delicadamente<br \/>\nE me deleito. Inventei o carinho dos p\u00e9s; minha palma<br \/>\n\u00c1spera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de ad\u00faltera.<br \/>\nNa verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento<br \/>\nSe me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma do\u00e7ura de \u00e1gua<br \/>\nSe as quero, sou delicad\u00edssimo; tudo em mim<br \/>\nDesprende esse fluido que as envolve de maneira irremiss\u00edvel<br \/>\nSou um meigo energ\u00fameno. At\u00e9 hoje s\u00f3 bati numa mulher<br \/>\nMas com singular delicadeza. N\u00e3o sou bom<br \/>\nNem mau: sou delicado. Preciso ser delicado<br \/>\nPorque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida<br \/>\nComo um lobo. Se n\u00e3o fosse delicado<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o seria mais. Ningu\u00e9m me injuria<br \/>\nPorque sou delicado; tamb\u00e9m n\u00e3o conhe\u00e7o o dom da inj\u00faria.<br \/>\nMeu com\u00e9rcio com os homens \u00e9 leal e delicado; prezo ao absurdo<br \/>\nA liberdade alheia; n\u00e3o existe<br \/>\nSer mais delicado que eu; sou um m\u00edstico da delicadeza<br \/>\nSou um m\u00e1rtir da delicadeza; sou<br \/>\nUm monstro de delicadeza.<\/p>\n<p>Seguramente n\u00e3o sou eu:<br \/>\n\u00c9 a tarde, talvez, assim parada<br \/>\nMe impedindo de pensar. Ah, meu amigo<br \/>\nQuisera poder dizer-te tudo; no entanto<br \/>\nPreciso desprender-me de toda lembran\u00e7a; de algum lugar<br \/>\nUma mulher me v\u00ea viver, que me chama; devo<br \/>\nSegui-Ia, porque tal \u00e9 o meu destino. Seguirei<br \/>\nTodas as mulheres em meu caminho, de tal forma<br \/>\nQue ela seja, em sua rota, uma dispers\u00e3o de pegadas<br \/>\nPara o alto, e n\u00e3o me reste de tudo, ao fim<br \/>\nSen\u00e3o o sentimento desta miss\u00e3o e o consolo de saber<br \/>\nQue fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe<br \/>\nMaior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa<br \/>\nDe socorro, de compreens\u00e3o e de fidelidade para a vida.<\/p>\n<p><b>Rio de Janeiro, 1943<\/b><\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.4shared.com<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius de Moraes Seguramente n\u00e3o sou eu Ou antes: n\u00e3o \u00e9 o ser que eu sou, sem finalidade e sem hist\u00f3ria. \u00c9 antes uma vontade indiz\u00edvel de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solid\u00e3o e desmesurado perigo em que me encontro. 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