{"id":121359,"date":"2017-05-08T18:32:35","date_gmt":"2017-05-08T20:32:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121359"},"modified":"2017-05-08T18:32:35","modified_gmt":"2017-05-08T20:32:35","slug":"ariana-a-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ariana-a-mulher","title":{"rendered":"Ariana, a Mulher"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Vin\u00edcius de Moraes<\/h2>\n<p>Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia de montanha em tomo O tempo convergiu para a morte e houve uma cessa\u00e7\u00e3o estranha seguida de um debru\u00e7ar do instante para o outro instante Ante o meu olhar absorto o rel\u00f3gio avan\u00e7ou e foi como se eu tivesse me identificado a ele e estivesse batendo soturnamente a meia noite E na ordem de horror que o sil\u00eancio fazia pulsar como um cora\u00e7\u00e3o dentro do ar despojado senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente atrav\u00e9s das paredes e se plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna E que eu estava no meio dela e \u00e0 minha volta havia \u00e1rvores dormindo e flores desacordadas pela treva.<\/p>\n<p>Como que a solid\u00e3o traz a presen\u00e7a invis\u00edvel de um cad\u00e1ver? e para mim era como se a Natureza estivesse morta Eu aspirava a sua respira\u00e7\u00e3o \u00e1cida e sua degluti\u00e7\u00e3o monstruosa mas para mim era corno se ela estivesse morta Paralisada e fria, imensamente erguida em sua sombra im\u00f3vel para o c\u00e9u alto e sem lua E nenhum grito, nenhum sussurro de \u00e1gua nos rios correndo, nenhum eco nas quebradas ermas Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado das plantas carn\u00edvoras Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamenta\u00e7\u00e3o de folhas, nada.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o eu atirava os bra\u00e7os para as orqu\u00eddeas insens\u00edveis junto aos l\u00edrios inermes como velhos falos Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas . parasitas eram como a mis\u00e9ria da vaidade senil dos homens Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e gelado o sangue capaz de acord\u00e1-los E j\u00e1 o suor corria do meu corpo e as l\u00e1grimas dos meus olhos ao contato dos cactos esbarrados na alucina\u00e7\u00e3o da fuga E a loucura dos p\u00e9s parecia galgar lentamente os membros em busca do pensamento Quando ca\u00ed no ventre quente de uma campina de vegeta\u00e7\u00e3o \u00famida e sobre a qual afundei minha carne.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que eu compreendi que s\u00f3 em mim havia morte e que tudo estava profundamente vivo S\u00f3 ent\u00e3o vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores se erguendo E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das borboletas noivas se finando E t\u00e3o grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se quisesse fecund\u00e1-la Mas ela me lan\u00e7ou fora como se n\u00e3o houvesse for\u00e7a em mim e como se ela n\u00e3o me desejasse E eu me vi s\u00f3, nu e s\u00f3, e era como se a trai\u00e7\u00e3o me envelhecido eras Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei &#8211; Ariana! E sem pensar caminhei tr\u00f4pego como a vis\u00e3o do Tempo e murmurava &#8211; Ariana! E tudo em mim buscava Ariana e n\u00e3o havia em nenhuma parte Mas se Ariana era a floresta, por que n\u00e3o havia de ser Ariana a terra? Se Ariana era a morte, por que n\u00e3o havia de ser Ariana a vida? Por qu\u00ea? &#8211; se tudo era Ariana e s\u00f3 Ariana havia e nada fora de Ariana? Baixei \u00e0 terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente &#8211; Sou eu, Ariana&#8230;<\/p>\n<p>Mas eis que um grande p\u00e1ssaro azul desce e canta aos meus ouvidos &#8211; Eu sou Ariana! E em todo o c\u00e9u ficou vibrando como um hino o muito. amado nome de Ariana.<\/p>\n<p>Desesperado me ergui e bradei: Quem \u00e9s que te devo procurar em toda a parte e est\u00e1s em cada uma? Esp\u00edrito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que n\u00e3o serias uma? Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me d\u00e1s uma luz e restas longe? Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da campina E dizia: Sei que tudo \u00e9 infinito! e o pio das aves me trazia o grito dos sert\u00f5es desaparecidos E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede nas fontes.<\/p>\n<p>No entanto, era como se eu fosse a alim\u00e1ria de um anjo que me chicoteava &#8211; Ariana! E eu caminhava cheio do castigo e em busca do mart\u00edrio de Ariana A branca Amada salva das \u00e1guas e a quem fora prometido o trono do mundo.<\/p>\n<p>E eis que galgando um monte surgiram luzes e ap\u00f3s janelas iluminadas e ap\u00f3s cabanas iluminadas E ap\u00f3s ruas iluminadas e ap\u00f3s lugarejos iluminados como fogos no mato noturno E grandes redes de pescar secavam \u00e0s portas e se ouvia o bater das forjas.<\/p>\n<p>E perguntei: Pescadores, onde est\u00e1 Ariana? &#8211; e eles me mostravam o peixe Ferreiros, onde est\u00e1 Ariana? &#8211; e eles me mostravam o fogo Mulheres, onde est\u00e1 Ariana? &#8211; e elas me mostravam o sexo.<\/p>\n<p>Mas logo se ouviam gritos e dan\u00e7as, e gaitas tocavam e guizos batiam Eu caminhava, e aos poucos o ru\u00eddo ia se alongando \u00e0 medida que eu penetrava na savana No entanto, era como se o canto que me chegava entoasse &#8211; Ariana! pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de ouro &#8211; por que n\u00e3o seria Ariana a mulher perdida? Por que n\u00e3o seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a ef\u00edgie de C\u00e9sar? Por que n\u00e3o seria Ariana a mercadoria do Templo ou a p\u00farpura bordada do altar do Templo? E mergulhei nos subterr\u00e2neos e nas torres da Cidade de ouro mas n\u00e3o encontrei Ariana \u00c0s vezes indagava &#8211; e um poderoso fariseu me disse irado: &#8211; C\u00e3o de Deus, tu \u00e9s Ariana! E talvez porque eu fosse realmente o C\u00e3o de Deus n\u00e3o compreendi a palavra do homem rico Mas Ariana n\u00e3o era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a p\u00farpura E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estar\u00e1 Ariana E compreendi que s\u00f3 onde cabia Deus cabia Ariana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! E disse muitas palavras inexistentes E imitei a voz dos p\u00e1ssaros e espezinhei sobre a urtiga mas n\u00e3o espezinhei sobre a cicuta santa Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de minhas entranhas As m\u00e3os em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava &#8211; Ariana! Ariana, a mulher &#8211; a m\u00e3e, a filha, a esposa, a noiva, a bem amada! E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana&#8230; Ana &#8230; E os trov\u00f5es desdobravam no c\u00e9u a palavra Ariana.<\/p>\n<p>E como a uma ordem estranha, as serpentes sa\u00edam das tocas e comiam os ratos Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando nos lagos E os corvos e abutres ca\u00edam feridos por legi\u00f5es de \u00e1guias precipitadas E misteriosamente o joio se separava d\u00f3 trigo nos campos desertos E os milharais descendo os bra\u00e7os trituravam as formigas no Solo E envenenadas pela terra descomposta as figueiras se tornavam profundamente secas.<\/p>\n<p>Dentro em pouco todos corriam a mim, homens var\u00f5es e mulheres desposadas Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram cegas e paral\u00edticas E os homens me apontavam as planta\u00e7\u00f5es estorricadas e as vacas magras.<\/p>\n<p>E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crian\u00e7as morriam E os cegos se tomavam paral\u00edticos e os paral\u00edticos cegos E as planta\u00e7\u00f5es se tomavam p\u00f3 que o vento carregava e que para afastar o calor sufocava as vacas magras.<\/p>\n<p>Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a macera\u00e7\u00e3o dos corpos -N\u00e3o temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e me assaltou a indiferen\u00e7a mais do que a lepra A mim se fez p\u00f3 a carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do que a vaca magra Mas \u00e9 preciso! para que surja a Exaltada, a branca e seren\u00edssima Ariana A que \u00e9 a lepra e a sa\u00fade, o p\u00f3 e o trigo, a poesia e a vaca magra Ariana a mulher &#8211; a m\u00e3e, a filha, a esposa, a noiva a bem-amada! E \u00e0 medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas faces paradas As crian\u00e7as se erguiam, os cegos olhavam, os paral\u00edticos andavam medrosamente E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o c\u00e9u claro E um s\u00f3 clamor sa\u00eda de todos os peitos e vibrava em todos os l\u00e1bios &#8211; Ariana! E uma s\u00f3 m\u00fasica se estendia sobre as terras e sobre os rios &#8211; Ariana! E um s\u00f3 entendimento iluminava o pensamento dos poetas &#8211; Ariana! Assim, coberto de b\u00ean\u00e7\u00e3os, cheguei a uma floresta e me sentei \u00e0s suas bordas &#8211; os regatos cantavam l\u00edmpidos Tive o desejo s\u00fabito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das folhas secas E me aprofundei na espessura funda cheia de ru\u00eddos e onde o mist\u00e9rio passava sonhando E foi corno se eu tivesse procurado e sido atendido vi orqu\u00eddeas que eram camas doces para a fadiga Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a sede E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.<\/p>\n<p>Descansei &#8211; por um momento senti vertiginosamente o h\u00famus fecundo da terra A pureza e a ternura da vida nos l\u00edrios altivos como falos A liberdade das lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se empenhando E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo &#8211; Eu te amo, Ariana! E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a vis\u00e3o de Ariana E, meu cora\u00e7\u00e3o p\u00f4s-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabal\u00edstico de Ariana Depois um gigantesco rel\u00f3gio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma e se situou na minha frente, parado sobre a meia-noite Vi que estava s\u00f3 e que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos Mas passando sobre o rosto a m\u00e3o gelada senti que chorava as pur\u00edssimas l\u00e1grimas de Ariana E que o meu esp\u00edrito e o meu cora\u00e7\u00e3o eram para sempre da branca e seren\u00edssima Ariana No sil\u00eancio profundo daquela casa cheia da montanha em torno<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius de Moraes Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia de montanha em tomo O tempo convergiu para a morte e houve uma cessa\u00e7\u00e3o estranha seguida de um debru\u00e7ar do instante para o outro instante Ante o meu olhar 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