{"id":121171,"date":"2017-05-05T10:04:10","date_gmt":"2017-05-05T12:04:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121171"},"modified":"2017-05-05T10:04:10","modified_gmt":"2017-05-05T12:04:10","slug":"viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/viver","title":{"rendered":"Viver!"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Fim dos tempos. Ahasverus, sentado em uma rocha, fita longamente o horizonte, onde passam duas \u00e1guias cruzando-se. Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Chego \u00e0 cl\u00e1usula dos tempos; este \u00e9 o limiar da eternidade. A terra est\u00e1 deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o \u00faltimo; posso morrer. Morrer! Deliciosa id\u00e9ia! S\u00e9culos de s\u00e9culos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles. Velha natureza, adeus! C\u00e9u azul, imenso c\u00e9u for aberto para que des\u00e7am os esp\u00edritos da vida nova, terra inimiga, que me n\u00e3o comeste os ossos, adeus! O errante n\u00e3o errar\u00e1 mais. Deus me perdoar\u00e1, se quiser, mas a morte consola-me. Aquela montanha \u00e9 \u00e1spera como a minha dor; aquelas \u00e1guias, que ali passam, devem ser famintas como o meu desespero. Morrereis tamb\u00e9m, \u00e1guias divinas? Prometeu. \u2014 Certo que os homens acabaram; a terra est\u00e1 nua deles.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Ou\u00e7o ainda uma voz&#8230; Voz de homem? C\u00e9us implac\u00e1veis, n\u00e3o sou ent\u00e3o o \u00faltimo? Ei-lo que se aproxima&#8230; Quem \u00e9s tu? H\u00e1 em teus grandes olhos alguma cousa parecida com a luz misteriosa dos arcanjos de Israel; n\u00e3o \u00e9s homem&#8230;<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Ra\u00e7a divina? Prometeu. \u2014 Tu o disseste.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 N\u00e3o te conhe\u00e7o; mas que importa que te n\u00e3o conhe\u00e7a? N\u00e3o \u00e9s homem; posso ent\u00e3o morrer; pois sou o \u00faltimo, e fecho a porta da vida.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 A vida, como a antiga Tebas, tem cem portas. Fechas uma, outras se abrir\u00e3o. \u00c9s o \u00faltimo da tua esp\u00e9cie? Vir\u00e1 outra esp\u00e9cie melhor, n\u00e3o feita do mesmo barro, mas da mesma luz. Sim, homem derradeiro, toda a plebe dos esp\u00edritos perecer\u00e1 para sempre; a flor deles \u00e9 que voltar\u00e1 \u00e0 terra para reger as coisas. Os tempos ser\u00e3o retificados. O mal acabar\u00e1; os ventos n\u00e3o espalhar\u00e3o mais nem os germes da morte, nem o clamor dos oprimidos, mas t\u00e3o somente a cantiga do amor perene e a b\u00ean\u00e7\u00e3o da universal justi\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Que importa \u00e0 esp\u00e9cie que vai morrer comigo toda essa del\u00edcia p\u00f3stuma? Cr\u00ea-me, tu que \u00e9s imortal, para os ossos que apodrecem na terra as p\u00farpuras de Sid\u00f4nia n\u00e3o valem nada. O que tu me contas \u00e9 ainda melhor que o sonho de Campanella. Na cidade deste havia delitos e enfermidades; a tua exclui todas as les\u00f5es morais e f\u00edsicas. O Senhor te ou\u00e7a! Mas deixa-me ir morrer.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Vai, vai. Que pressa tens em acabar os teus dias? Ahasverus. \u2014 A pressa de um homem que tem vivido milheiros de anos. Sim, milheiros de anos. Homens que apenas respiraram por dezenas deles, inventaram um sentimento de enfado, tedium vitae, que eles nunca puderam conhecer, ao menos em toda a sua implac\u00e1vel e vasta realidade, porque \u00e9 preciso haver calcado, como eu, todas as gera\u00e7\u00f5es e todas as ru\u00ednas, para experimentar esse profundo fastio da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Milheiros de anos? Ahasverus. \u2014 Meu nome \u00e9 Ahasverus: vivia em Jerusal\u00e9m, ao tempo em que iam crucificar Jesus Cristo. Quando ele passou pela minha porta, afrouxou ao peso do madeiro que levava aos ombros, e eu empurrei-o, bradando-lhe que n\u00e3o parasse, que n\u00e3o descansasse, que fosse andando at\u00e9 \u00e0 colina, onde tinha de ser crucificado&#8230; Ent\u00e3o uma voz anunciou-me do c\u00e9u que eu andaria sempre, continuamente, at\u00e9 o fim dos tempos. Tal \u00e9 a minha culpa; n\u00e3o tive piedade para com aquele que ia morrer. N\u00e3o sei mesmo como isto foi. Os fariseus diziam que o filho de Maria vinha destruir a lei, e que era preciso mat\u00e1-lo; eu, pobre ignorante, quis real\u00e7ar o meu zelo e da\u00ed a a\u00e7\u00e3o daquele dia. Que de vezes vi isto mesmo, depois, atravessando os tempos e as cidades! Onde quer que o zelo penetrou numa alma subalterna, fez-se cruel ou rid\u00edculo. Foi a minha culpa irremiss\u00edvel.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Grave culpa, em verdade, mas a pena foi ben\u00e9vola. Os outros homens leram da vida um cap\u00edtulo, tu leste o livro inteiro. Que sabe um cap\u00edtulo de outro cap\u00edtulo? Nada; mas o que os leu a todos, liga-os e conclui. H\u00e1 p\u00e1ginas melanc\u00f3licas? H\u00e1 outras joviais e felizes. \u00c0 convuls\u00e3o tr\u00e1gica precede a do riso, a vida brota da morte, cegonhas e andorinhas trocam de clima, sem jamais abandon\u00e1-lo inteiramente; \u00e9 assim que tudo se concerta e restitui. Tu viste isso, n\u00e3o dez vezes, n\u00e3o mil vezes, mas todas as vezes; viste a magnific\u00eancia da terra curando a afli\u00e7\u00e3o da alma, e a alegria da alma suprindo \u00e0 desola\u00e7\u00e3o das cousas; dan\u00e7a alternada da natureza, que d\u00e1 a m\u00e3o esquerda a J\u00f3 e a direita a Sardanapalo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Que sabes tu da minha vida? Nada; ignoras a vida humana.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Ignoro a vida humana? Deixa-me rir! Eia, homem perp\u00e9tuo, explica-te. Conta-me tudo; sa\u00edste de Jerusal\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Sa\u00ed de Jerusal\u00e9m. Comecei a peregrina\u00e7\u00e3o dos tempos. Ia a toda parte, qualquer que fosse a ra\u00e7a, o culto ou a l\u00edngua; s\u00f3is e neves, povos b\u00e1rbaros e cultos, ilhas, continentes, onde quer que respirasse um homem a\u00ed respirei eu. Nunca mais trabalhei. Trabalho \u00e9 ref\u00fagio, e n\u00e3o tive esse ref\u00fagio. Cada manh\u00e3 achava comigo a moeda do dia&#8230; Vede; c\u00e1 est\u00e1 a \u00faltima. Ide, que j\u00e1 n\u00e3o sois precisa (atira a moeda ao longe). N\u00e3o trabalhava, andava apenas, sempre, sempre, sempre, um dia e outro dia, um ano e outro ano, e todos os anos, e todos os s\u00e9culos. A eterna justi\u00e7a soube o que fez: somou a eternidade com a ociosidade. As gera\u00e7\u00f5es legavam-me umas \u00e0s outras. As l\u00ednguas que morriam ficavam com o meu nome embutido na ossada. Com o volver dos tempos, esquecia-se tudo; os her\u00f3is dissipavam-se em mitos, na penumbra, ao longe; e a hist\u00f3ria ia caindo aos peda\u00e7os, n\u00e3o lhe ficando mais que duas ou tr\u00eas fei\u00e7\u00f5es vagas e remotas. E eu via-as de um modo e de outro modo. Falaste em cap\u00edtulo? Os que se foram, \u00e0 nascen\u00e7a dos imp\u00e9rios, levaram a impress\u00e3o da perpetuidade deles; os que expiraram quando eles deca\u00edam, enterraram-se com a esperan\u00e7a da recomposi\u00e7\u00e3o; mas sabes tu o que \u00e9 ver as mesmas cousas, sem parar, a mesma alternativa de prosperidade e desola\u00e7\u00e3o, desola\u00e7\u00e3o e prosperidade, eternas ex\u00e9quias e eternas aleluias, auroras sobre auroras, ocasos sobre ocasos? Prometeu. \u2014 Mas n\u00e3o padeceste, creio; \u00e9 alguma cousa n\u00e3o padecer nada.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Sim, mas vi padecer os outros homens, e para o fim o espet\u00e1culo da alegria dava-me a mesma sensa\u00e7\u00e3o que os discursos de um doido. Fatalidades do sangue e da carne, conflitos sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a ponto que a noite me fez perder o gosto ao dia, e acabo n\u00e3o distinguindo as flores das urzes. Tudo se me confunde na retina enfarada.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Pessoalmente n\u00e3o te doeu nada; e eu que padeci por tempos in\u00fameros o efeito da c\u00f3lera divina? Ahasverus. \u2014 Tu? Prometeu. \u2014 Prometeu \u00e9 o meu nome.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Tu Prometeu? Prometeu. \u2014 E qual foi o meu crime? Fiz de lodo e \u00e1gua os primeiros homens, e depois, compadecido, roubei para eles o fogo do c\u00e9u. Tal foi o meu crime. J\u00fapiter, que ent\u00e3o regia o Olimpo, condenou-me ao mais cruel supl\u00edcio. Anda, sobe comigo a este rochedo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Contas-me uma f\u00e1bula. Conhe\u00e7o esse sonho hel\u00eanico.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Velho incr\u00e9dulo! Anda ver as pr\u00f3prias correntes que me agrilhoaram; foi uma pena excessiva para nenhuma culpa; mas a divindade orgulhosa e terr\u00edvel&#8230; Chegamos, olha, aqui est\u00e3o elas&#8230;<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 O tempo que tudo r\u00f3i n\u00e3o as quis ent\u00e3o? Prometeu. \u2014 Eram de m\u00e3o divina; fabricou-as Vulcano. Dois emiss\u00e1rios do c\u00e9u vieram atar-me ao rochedo, e uma \u00e1guia, como aquela que l\u00e1 corta o horizonte, comia-me o f\u00edgado, sem consumi-lo nunca. Durou isto tempos que n\u00e3o contei. N\u00e3o, n\u00e3o podes imaginar este supl\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 N\u00e3o me iludes? Tu Prometeu? N\u00e3o foi ent\u00e3o um sonho da imagina\u00e7\u00e3o antiga? Prometeu. \u2014 Olha bem para mim, palpa estas m\u00e3os. V\u00ea se existo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Mois\u00e9s mentiu-me. Tu Prometeu, criador dos primeiros homens? Prometeu. \u2014 Foi o meu crime.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Sim, foi o teu crime, art\u00edfice do inferno; foi o teu crime inexpi\u00e1vel. Aqui devias ter ficado por todos os tempos, agrilhoado e devorado, tu, origem dos males que me afligiram. Careci de piedade, \u00e9 certo; mas tu, que me trouxeste \u00e0 exist\u00eancia, divindade perversa, foste a causa original de tudo.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 A morte pr\u00f3xima obscurece-te a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Sim, \u00e9s tu mesmo, tens a fronte ol\u00edmpica, forte e belo tit\u00e3o: \u00e9s tu mesmo&#8230; S\u00e3o estas as cadeias? N\u00e3o vejo o sinal das tuas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Chorei-as pela tua ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Ela chorou muito mais por tua culpa.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Ouve, \u00faltimo homem, \u00faltimo ingrato! Ahasverus. \u2014 Para que quero eu palavras tuas? Quero os teus gemidos, divindade perversa. Aqui est\u00e3o as cadeias. V\u00ea como as levanto nas m\u00e3os; ouve o tinir dos ferros&#8230; Quem te desagrilhoou outrora? Prometeu. \u2014 H\u00e9rcules.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 H\u00e9rcules&#8230; V\u00ea se ele te presta igual servi\u00e7o, agora que vais ser novamente agrilhoado.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Deliras.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 O c\u00e9u deu-te o primeiro castigo; agora a terra vai dar-te o segundo e derradeiro. Nem H\u00e9rcules poder\u00e1 mais romper estes ferros. Olha como os agito no ar, \u00e0 maneira de plumas; \u00e9 que eu represento a for\u00e7a dos desesperos milen\u00e1rios. Toda a humanidade est\u00e1 em mim. Antes de cair no abismo, escreverei nesta pedra o epit\u00e1fio de um mundo. Chamarei a \u00e1guia, e ela vir\u00e1; dir-lhe-ei que o derradeiro homem, ao partir da vida, deixa-lhe um regalo de deuses.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Pobre ignorante, que rejeitas um trono! N\u00e3o, n\u00e3o podes mesmo rejeit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 \u00c9s tu agora que deliras. Eia, prostra-te, deixa-me ligar-te os bra\u00e7os. Assim, bem, n\u00e3o resistir\u00e1s mais; arqueja para a\u00ed. Agora as pernas&#8230;<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Acaba, acaba. S\u00e3o as paix\u00f5es da terra que se voltam contra mim; mas eu, que n\u00e3o sou homem, n\u00e3o conhe\u00e7o a ingratid\u00e3o. N\u00e3o arrancar\u00e1s uma letra ao teu destino, ele se cumprir\u00e1 inteiro. Tu mesmo ser\u00e1s o novo H\u00e9rcules. Eu, que anunciei a gl\u00f3ria do outro, anuncio a tua; e n\u00e3o ser\u00e1s menos generoso que ele.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Deliras tu? Prometeu. \u2014 A verdade ignota aos homens \u00e9 o del\u00edrio de quem a anuncia. Anda, acaba.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 A gl\u00f3ria n\u00e3o paga nada, e extingue-se.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Esta n\u00e3o se extinguir\u00e1. Acaba, acaba; ensina ao bico adunco da \u00e1guia como me h\u00e1 de devorar a entranha; mas escuta&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o escutes nada; n\u00e3o podes entender-me.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Fala, fala.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 O mundo passageiro n\u00e3o pode entender o mundo eterno; mas tu ser\u00e1s o elo entre ambos.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Dize tudo.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 N\u00e3o digo nada; anda, aperta bem estes pulsos, para que eu n\u00e3o fuja, para que me aches aqui \u00e0 tua volta. Que te diga tudo? J\u00e1 te disse que uma ra\u00e7a nova povoar\u00e1 a terra, feita dos melhores esp\u00edritos da ra\u00e7a extinta; a multid\u00e3o dos outros perecer\u00e1. Nobre fam\u00edlia, l\u00facida e poderosa, ser\u00e1 perfeita comunh\u00e3o do divino com o humano. Outros ser\u00e3o os tempos, mas entre eles e estes um elo \u00e9 preciso, e esse elo \u00e9s tu.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Eu? Prometeu. \u2014 Tu mesmo, tu eleito, tu, rei. Sim, Ahasverus, tu ser\u00e1s rei. O errante pousar\u00e1. O desprezado dos homens governar\u00e1 os homens.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Tit\u00e3o artificioso, iludes-me&#8230; Rei, eu? Prometeu. \u2014 Tu rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de uma tradi\u00e7\u00e3o do mundo velho, e ningu\u00e9m pode falar de um a outro como tu. Assim n\u00e3o haver\u00e1 interrup\u00e7\u00e3o entre as duas humanidades. O perfeito proceder\u00e1 do imperfeito, e a tua boca dir-lhe-\u00e1 as suas origens. Contar\u00e1s aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Reviver\u00e1s assim como a \u00e1rvore a que cortaram as folhas secas, e conserva t\u00e3o-somente as vi\u00e7osas; mas aqui o vi\u00e7o \u00e9 eterno.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Vis\u00e3o luminosa! Eu mesmo? Prometeu. \u2014 Tu mesmo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Estes olhos&#8230; estas m\u00e3os&#8230; vida nova e melhor&#8230; Vis\u00e3o excelsa! Tit\u00e3o, \u00e9 justo. Justa foi a pena; mas igualmente justa \u00e9 a remiss\u00e3o gloriosa do meu pecado. Viverei eu? eu mesmo? Vida nova e melhor? N\u00e3o, tu mofas de mim.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Bem, deixa-me, voltar\u00e1s um dia, quando este imenso c\u00e9u for aberto para que des\u00e7am os esp\u00edritos da vida nova. Aqui me achar\u00e1s tranq\u00fcilo. Vai.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Saudarei outra vez o sol? Prometeu. \u2014 Esse mesmo que ora vai a cair. Sol amigo, olho dos tempos, nunca mais se fechar\u00e1 a tua p\u00e1lpebra. Fita-o, se podes.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Pod\u00ea-lo-\u00e1s depois quando as condi\u00e7\u00f5es da vida houverem mudado. Ent\u00e3o a tua retina fitar\u00e1 o sol sem perigo, porque no homem futuro ficar\u00e1 concentrado tudo o que h\u00e1 melhor na natureza, en\u00e9rgico ou sutil, cintilante ou puro.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Jura que me n\u00e3o mentes.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Ver\u00e1s se minto.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Fala, fala mais, conta-me tudo.<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 A descri\u00e7\u00e3o da vida n\u00e3o vale a sensa\u00e7\u00e3o da vida; t\u00ea-la-\u00e1s prodigiosa. O seio de Abra\u00e3o das tuas velhas Escrituras n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o esse mundo ulterior e perfeito. L\u00e1 ver\u00e1s David e os profetas. L\u00e1 contar\u00e1s \u00e0 gente estupefata n\u00e3o s\u00f3 as grandes a\u00e7\u00f5es do mundo extinto, como tamb\u00e9m os males que ela n\u00e3o h\u00e1 de conhecer, les\u00e3o ou velhice, dolo, ego\u00edsmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopin\u00e1vel toleima e o resto. A alma ter\u00e1, como a terra, uma t\u00fanica incorrupt\u00edvel.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Verei ainda este imenso c\u00e9u azul! Prometeu. \u2014 Olha como \u00e9 belo.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Belo e sereno como a eterna justi\u00e7a. C\u00e9u magn\u00edfico, melhor que as tendas de Cedar, ver-te-ei ainda e sempre; tu recolher\u00e1s os meus pensamentos, como outrora; tu me dar\u00e1s os dias claros e as noites amigas&#8230;<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Auroras sobre auroras.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 Eia, fala, fala mais. Conta-me tudo. Deixa-me desatar-te estas cadeias&#8230;<\/p>\n<p>Prometeu. \u2014 Desata-as, H\u00e9rcules novo, homem derradeiro de um mundo, que v\u00e1s ser o primeiro de outro. \u00c9 o teu destino; nem tu nem eu, ningu\u00e9m poder\u00e1 mud\u00e1-lo. \u00c9s mais ainda que o teu Mois\u00e9s. Do alto do Nebo, viu ele, prestes a morrer, toda a terra de Jeric\u00f3, que ia pertencer \u00e0 sua posteridade; e o Senhor lhe disse: &#8220;Tu a viste com teus olhos, e n\u00e3o passar\u00e1s a ela.&#8221; Tu passar\u00e1s a ela, Ahasverus; tu habitar\u00e1s Jeric\u00f3.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 P\u00f5e a m\u00e3o sobre a minha cabe\u00e7a, olha bem para mim; incute-me a tua realidade e a tua predi\u00e7\u00e3o; deixa-me sentir um pouco da vida nova e plena&#8230; Rei disseste? Prometeu. \u2014 Rei eleito de uma ra\u00e7a eleita.<\/p>\n<p>Ahasverus. \u2014 N\u00e3o \u00e9 demais para resgatar o profundo desprezo em que vivi. Onde uma vida cuspiu lama, outra vida por\u00e1 uma aur\u00e9ola. Anda, fala mais&#8230; fala mais&#8230; (Continua sonhando. As duas \u00e1guias aproximam-se.) Uma \u00e1guia. \u2014 Ai, ai, ai deste \u00faltimo homem, est\u00e1 morrendo e ainda sonha com a vida.<\/p>\n<p>A outra. \u2014 Nem ele a odiou tanto, sen\u00e3o porque a amava muito.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Fim dos tempos. Ahasverus, sentado em uma rocha, fita longamente o horizonte, onde passam duas \u00e1guias cruzando-se. Medita, depois sonha. Vai declinando o dia. Ahasverus. \u2014 Chego \u00e0 cl\u00e1usula dos tempos; este \u00e9 o limiar da eternidade. A terra est\u00e1 deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o \u00faltimo; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-121171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Viver! , Machado de Assis Viver!<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Viver! , Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Viver!\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Viver! , Machado de Assis Viver!\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Viver! 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