{"id":121163,"date":"2017-05-05T10:02:51","date_gmt":"2017-05-05T12:02:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121163"},"modified":"2017-05-05T10:02:51","modified_gmt":"2017-05-05T12:02:51","slug":"uns-abracos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/uns-abracos","title":{"rendered":"Uns Abra\u00e7os"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>IN\u00c1CIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabe\u00e7a de vento, est\u00fapido, maluco.<\/p>\n<p>\u2014 Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a pregui\u00e7a do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, n\u00e3o pense que n\u00e3o. Est\u00fapido! maluco! \u2014 Olhe que l\u00e1 fora \u00e9 isto mesmo que voc\u00ea v\u00ea aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, h\u00e1 anos. Confunde-me os pap\u00e9is todos, erra as casas, vai a um escriv\u00e3o em vez de ir a outro, troca os advogados: \u00e9 o diabo! \u00c9 o tal sono pesado e cont\u00ednuo. De manh\u00e3 \u00e9 o que se v\u00ea; primeiro que acorde \u00e9 preciso quebrar-lhe os ossos.. . Deixe; amanh\u00e3 hei de acord\u00e1-lo a pau de vassoura! D. Severina tocou-lhe no p\u00e9, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns improp\u00e9rios, e ficou em paz com Deus e os homens.<\/p>\n<p>N\u00e3o digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso In\u00e1cio n\u00e3o era propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabe\u00e7a inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e n\u00e3o acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo n\u00e3o destitu\u00eddo de gra\u00e7a, ainda que mal vestido. O pai \u00e9 barbeiro na Cidade Nova, e p\u00f4-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperan\u00e7a de v\u00ea-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.<\/p>\n<p>Durante alguns minutos n\u00e3o se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ru\u00eddo da mastiga\u00e7\u00e3o. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a ora\u00e7\u00e3o com um golpe de vinho e continuava logo calado.<\/p>\n<p>In\u00e1cio ia comendo devagarinho, n\u00e3o ousando levantar os olhos do prato, nem para coloc\u00e1-los onde eles estavam no momento em que o terr\u00edvel Borges o descomp\u00f4s. Verdade \u00e9 que seria agora muito arriscado. Nunca ele p\u00f4s os olhos nos bra\u00e7os de D. Severina que se n\u00e3o esquecesse de si e de tudo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a culpa era antes de D. Severina em traz\u00ea-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os bra\u00e7os \u00e0 mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e n\u00e3o perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas \u00e9 justo explicar que ela os n\u00e3o trazia assim por faceira, sen\u00e3o porque j\u00e1 gastara todos os vestidos de mangas compridas. De p\u00e9, era muito vistosa; andando, tinha meneios engra\u00e7ados; ele, entretanto, quase que s\u00f3 a via \u00e0 mesa, onde, al\u00e9m dos bra\u00e7os, mal poderia mirar-lhe o busto. N\u00e3o se pode dizer que era bonita; mas tamb\u00e9m n\u00e3o era feia. Nenhum adorno; o pr\u00f3prio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabe\u00e7a com o pente de tartaruga que a m\u00e3e lhe deixou. Ao pesco\u00e7o, um len\u00e7o escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e s\u00f3lidos.<\/p>\n<p>Acabaram de jantar. Borges, vindo o caf\u00e9, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que n\u00e3o interessavam nada ao nosso In\u00e1cio; mas enquanto falava, n\u00e3o o descompunha e ele podia devanear \u00e0 larga.<\/p>\n<p>In\u00e1cio demorou o caf\u00e9 o mais que p\u00f4de. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imagin\u00e1rios ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S. Jo\u00e3o, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. V\u00e1 que disfar\u00e7asse com S. Jo\u00e3o, cuja cabe\u00e7a mo\u00e7a alegra as imagina\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, mas com o austero S. Pedro era demais. A \u00fanica defesa do mo\u00e7o In\u00e1cio \u00e9 que ele n\u00e3o via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via s\u00f3 os bra\u00e7os de D. Severina, \u2014 ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, voc\u00ea n\u00e3o acaba mais? bradou de repente o solicitador.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia rem\u00e9dio; In\u00e1cio bebeu a \u00faltima gota, j\u00e1 fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das \u00e1guas pr\u00f3ximas e das montanhas ao longe restitu\u00eda-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe do\u00eda e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manh\u00e3 com o Borges, andar por audi\u00eancias e cart\u00f3rios, correndo, levando pap\u00e9is ao selo, ao distribuidor, aos escriv\u00e3es, aos oficiais de justi\u00e7a. Voltava \u00e0 tarde jantava e recolhia-se ao quarto, at\u00e9 a hora da ceia; ceava e ia dormir. Borges n\u00e3o lhe dava intimidade na fam\u00edlia, que se compunha apenas de D. Severina, nem In\u00e1cio a via mais de tr\u00eas vezes por dia, durante as refei\u00e7\u00f5es. Cinco semanas de solid\u00e3o, de trabalho sem gosto, longe da m\u00e3e e das irm\u00e3s; cinco semanas de sil\u00eancio, porque ele s\u00f3 falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.<\/p>\n<p>&#8220;Deixe estar, \u2014 pensou ele um dia \u2014 fujo daqui e n\u00e3o volto mais.&#8221; N\u00e3o foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos bra\u00e7os de D. Severina. Nunca vira outros t\u00e3o bonitos e t\u00e3o frescos. A educa\u00e7\u00e3o que tivera n\u00e3o lhe permitia encar\u00e1-los logo abertamente, parece at\u00e9 que a princ\u00edpio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles n\u00e3o tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de tr\u00eas semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Ag\u00fcentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solid\u00e3o e do sil\u00eancio, toda a grosseria do patr\u00e3o, pela \u00fanica paga de ver, tr\u00eas vezes por dia, o famoso par de bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e In\u00e1cio estirava-se na rede (n\u00e3o tinha ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o epis\u00f3dio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa Rejeitou a id\u00e9ia logo, uma crian\u00e7a! Mas h\u00e1 id\u00e9ias que s\u00e3o da fam\u00edlia das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Crian\u00e7a? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princ\u00edpio de rascunho de bu\u00e7o. Que admira que come\u00e7asse a amar? E n\u00e3o era ela bonita? Esta outra id\u00e9ia n\u00e3o foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou ent\u00e3o os modos dele, os esquecimentos, as distra\u00e7\u00f5es, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 que voc\u00ea tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canap\u00e9, ao cabo de alguns minutos de pausa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada.<\/p>\n<p>\u2014 Nada? Parece que c\u00e1 em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom rem\u00e9dio para tirar o sono aos dorminhocos . . .<\/p>\n<p>E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando amea\u00e7as, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que n\u00e3o, que era engano, n\u00e3o estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. N\u00e3o a visitavam desde o Natal; por que n\u00e3o iriam l\u00e1 uma daquelas noites? Borges redarg\u00fcia que andava cansado, trabalhava como um negro, n\u00e3o estava para visitas de parola, e descomp\u00f4s a comadre, descomp\u00f4s o compadre, descomp\u00f4s o afilhado, que n\u00e3o ia ao col\u00e9gio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, j\u00e1 sabia ler, escrever e contar, n\u00e3o muito bem, \u00e9 certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: \u2014 vadio, e o covado e meio nas costas. A tarimba \u00e9 que viria ensin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irrit\u00e1-lo mais. A noite ca\u00edra de todo; ela ouviu o tlic do lampi\u00e3o do g\u00e1s da rua, que acabavam de acender, e viu o clar\u00e3o dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realrnente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a s\u00f3 na sala, \u00e0s escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.<\/p>\n<p>Tudo parecia dizer \u00e0 dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impress\u00e3o do assombro, trouxe-lhe uma complica\u00e7\u00e3o moral que ela s\u00f3 conheceu pelos efeitos, n\u00e3o achando meio de discernir o que era. N\u00e3o podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, n\u00e3o havia mais que supos\u00e7\u00e3o, coincid\u00eancia e possivelmente ilus\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o, ilus\u00e3o n\u00e3o era. E logo recolhia os ind\u00edcios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distra\u00e7\u00f5es, para rejeitar a id\u00e9ia de estar enganada. Da\u00ed a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acus\u00e1-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o \u00fanico fim de observ\u00e1-lo melhor e averiguar bem a realidade das cousas.<\/p>\n<p>J\u00e1 nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de In\u00e1cio; n\u00e3o chegou a achar nada, porque o tempo do ch\u00e1 era curto e o rapazinho n\u00e3o tirou os olhos da x\u00edcara. No dia seguinte p\u00f4de observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que n\u00e3o havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era n\u00e3o dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro \u00e0 pobre crian\u00e7a. J\u00e1 se persuadia bem que ele era crian\u00e7a, e assentou de o tratar t\u00e3o secamente como at\u00e9 ali, ou ainda mais. E assim fez; In\u00e1cio come\u00e7ou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava \u00e1spero, quase tanto como o pr\u00f3prio Borges. De outras vezes, \u00e9 verdade que o tom da voz sa\u00eda brando e at\u00e9 meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabe\u00e7a dele; mas tudo isso era curto.<\/p>\n<p>\u2014 Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.<\/p>\n<p>Chegava a casa e n\u00e3o se ia embora. Os bra\u00e7os de D. Severina fechavam-lhe um par\u00eantesis no meio do longo e fastidioso per\u00edodo da vida que levava, e essa ora\u00e7\u00e3o intercalada trazia uma id\u00e9ia original e profunda, inventada pelo c\u00e9u unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, por\u00e9m, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porqu\u00ea.<\/p>\n<p>D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que n\u00e3o apanhasse ar, outro que n\u00e3o bebesse \u00e1gua fria depois do caf\u00e9 quente, conselhos, lembran\u00e7as, cuidados de amiga e m\u00e3e, que lhe lan\u00e7aram na alma ainda maior inquieta\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o. In\u00e1cio chegou ao extremo de confian\u00e7a de rir um dia \u00e0 mesa, cousa que jamais fizera; e o solicitador n\u00e3o o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engra\u00e7ado, e ningu\u00e9m pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi ent\u00e3o que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, n\u00e3o o era menos quando ria.<\/p>\n<p>A agita\u00e7\u00e3o de In\u00e1cio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. N\u00e3o estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e n\u00e3o via mulher, ao longe ou ao perto, que lha n\u00e3o trouxesse \u00e0 mem\u00f3ria. Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoro\u00e7o, \u00e0s vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando atrav\u00e9s das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.<\/p>\n<p>Um domingo, \u2014 nunca ele esqueceu esse domingo, \u2014 estava s\u00f3 no quarto, \u00e0 janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d&#8217;\u00e1gua, ou avoa\u00e7avam somente. O dia estava lind\u00edssimo. N\u00e3o era s\u00f3 um domingo crist\u00e3o; era um imenso domingo universal.<\/p>\n<p>In\u00e1cio passava-os todos ali no quarto ou \u00e0 janela, ou relendo um dos tr\u00eas folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tost\u00e3o, debaixo do passadi\u00e7o do Largo do Pa\u00e7o. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na v\u00e9spera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e come\u00e7ou a ler. Nunca p\u00f4de entender por que \u00e9 que todas as hero\u00ednas dessas velhas hist\u00f3rias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade \u00e9 que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e p\u00f4s os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas n\u00e3o se espantou. Embora com as p\u00e1lpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00c9 certo, por\u00e9m, que D. Severina, tanto n\u00e3o podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasg\u00e3o, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi \u00e0 janela v\u00ea-lo sair e s\u00f3 se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Ent\u00e3o entrou e foi sentar-se no canap\u00e9. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou at\u00e9 \u00e0 porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que In\u00e1cio comera pouco ao almo\u00e7o e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser at\u00e9 que estivesse muito mal.<\/p>\n<p>Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi at\u00e9 o quarto do mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o bra\u00e7o para fora e o folheto ca\u00eddo no ch\u00e3o. A cabe\u00e7a inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de beatitude.<\/p>\n<p>D. Severina sentiu bater-lhe o cora\u00e7\u00e3o com veem\u00eancia e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tenta\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dous, tr\u00eas, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava \u00e0 adolesc\u00eancia de In\u00e1cio uma express\u00e3o mais acentuada, quase feminina, quase pueril. &#8220;Uma crian\u00e7a!&#8221; disse ela a si mesma, naquela l\u00edngua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta id\u00e9ia abateu-lhe o alvoro\u00e7o do sangue e dissipou-lhe em parte a turva\u00e7\u00e3o dos sentidos.<\/p>\n<p>&#8220;Uma crian\u00e7a!&#8221; E mirou-o lentamente, fartou-se de v\u00ea-lo, com a cabe\u00e7a inclinada, o bra\u00e7o ca\u00eddo; mas, ao mesmo tempo que o achava crian\u00e7a, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas id\u00e9ias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ru\u00eddo ao p\u00e9, na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao ch\u00e3o. Voltando devagarinho a espi\u00e1-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a crian\u00e7a! O rumor que a abalara tanto, n\u00e3o o fez sequer mudar de posi\u00e7\u00e3o. E ela continuou a v\u00ea-lo dormir, \u2014 dormir e talvez sonhar.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imagina\u00e7\u00e3o do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas m\u00e3os, lev\u00e1-las ao peito, cruzando ali os bra\u00e7os, os famosos bra\u00e7os. In\u00e1cio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas c\u00e1lidas, principalmente novas, \u2014 ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele n\u00e3o conhecia, posto que o entendesse. Duas tr\u00eas e quatro vezes a figura esva\u00eda-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a gra\u00e7a robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das m\u00e3os e cruzava ao peito os bra\u00e7os, at\u00e9 que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os l\u00e1bios e deixou-lhe um beijo na boca.<\/p>\n<p>Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imagina\u00e7\u00e3o e fora dela. A diferen\u00e7a \u00e9 que a vis\u00e3o n\u00e3o recuou, e a pessoa real t\u00e3o depressa cumprira o gesto, como fugiu at\u00e9 \u00e0 porta, vexada e medrosa. Dali passou \u00e0 sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia at\u00e9 o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e s\u00f3 depois de muito tempo \u00e9 que o medo foi passando. Na verdade, a crian\u00e7a tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos cont\u00edguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina n\u00e3o acabava de crer que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na id\u00e9ia de que era uma crian\u00e7a namorada que ali estava sem consci\u00eancia nem imputa\u00e7\u00e3o; e, meia m\u00e3e, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calefrio.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que dormiu ainda muito, e s\u00f3 acordou para jantar. Sentou-se \u00e0 mesa l\u00e9pido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador t\u00e3o r\u00edspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a vis\u00e3o graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensa\u00e7\u00e3o do beijo. N\u00e3o reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os bra\u00e7os; reparou depois, na segunda-feira, e na ter\u00e7a-feira, tamb\u00e9m, e at\u00e9 s\u00e1bado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que n\u00e3o podia ficar com ele; e n\u00e3o o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse \u00e0 sa\u00edda: \u2014 Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor. A Sra. D. Severina. . .<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 l\u00e1 para o quarto, com muita dor de cabe\u00e7a. Venha amanh\u00e3 ou depois despedir-se dela.<\/p>\n<p>In\u00e1cio saiu sem entender nada. N\u00e3o entendia a despedida, nem a completa mudan\u00e7a de D. Severina, em rela\u00e7\u00e3o a ele, nem o xale, nem nada. Estava t\u00e3o bem! falava-lhe com tanta amizade! Como \u00e9 que, de repente. . . Tanto pensou que acabou supondo de sua parte algurn olhar indiscreto, alguma distra\u00e7\u00e3o que a ofendera, n\u00e3o era outra cousa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os bra\u00e7os t\u00e3o bonitos&#8230; N\u00e3o importa; levava consigo o sabor do sonho. E atrav\u00e9s dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensa\u00e7\u00e3o achou nunca igual \u00e0 daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama \u00e0s vezes, sem saber que se engana: E foi um sonho! um simples sonho!<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis IN\u00c1CIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabe\u00e7a de vento, est\u00fapido, maluco. \u2014 Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? 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