{"id":121153,"date":"2017-05-05T09:43:09","date_gmt":"2017-05-05T11:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=121153"},"modified":"2017-05-05T09:43:09","modified_gmt":"2017-05-05T11:43:09","slug":"um-homem-celebre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-homem-celebre","title":{"rendered":"Um Homem C\u00e9lebre"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>\u2014 AH! o SENHOR \u00e9 que \u00e9 o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: \u2014 Desculpe meu modo, mas. .. \u00e9 mesmo o senhor? Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o len\u00e7o, e ia a chegar \u00e0 janela, quando a mo\u00e7a o fez parar. N\u00e3o era baile; apenas um sarau \u00edntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a vi\u00fava Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875&#8230; Boa e patusca vi\u00fava! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a \u00faltima vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca vi\u00fava! Com que alma e dilig\u00eancia arranjou ali umas dan\u00e7as, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a vi\u00fava correu novamente ao Pestana para um obs\u00e9quio mui particular.<\/p>\n<p>\u2014 Diga, minha senhora.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que nos toque agora aquela sua polca N\u00e3o Bula Comigo, Nhonh\u00f4.<\/p>\n<p>Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram \u00e0s damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada vinte dias antes, e j\u00e1 n\u00e3o havia recanto da cidade em que n\u00e3o fosse conhecida. Ia chegando \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o do assobio e da cantarola noturna.<\/p>\n<p>Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira \u00e0 mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rap\u00e9, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Da\u00ed a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas mo\u00e7as lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, at\u00e9 que, alegando dor de cabe\u00e7a, pediu licen\u00e7a para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ningu\u00e9m logrou ret\u00ea-lo. Ofereceram-lhe rem\u00e9dios caseiros, algum repouso, n\u00e3o aceitou nada, teimou em sair e saiu.<\/p>\n<p>Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; s\u00f3 afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas a\u00ed mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, \u00e0 direita, a poucos metros de dist\u00e2ncia, sa\u00edam as notas da composi\u00e7\u00e3o do dia, sopradas em clarineta. Dan\u00e7ava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas disp\u00f4s-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. J\u00e1 perto de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, come\u00e7ou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na m\u00fasica, e a\u00ed foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da pe\u00e7a, desesperado, corria a meter-se em casa.<\/p>\n<p>Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero nada, bradou o Pestana: fa\u00e7a-me caf\u00e9 e v\u00e1 dormir.<\/p>\n<p>Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o g\u00e1s da sala, Pestana sorriu e, dentro d&#8217;alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um s\u00f3 era a \u00f3leo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e m\u00fasica, e que, segundo os ociosos, era o pr\u00f3prio pai do Pestana. Certo \u00e9 que lhe deixou em heran\u00e7a aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doudo por m\u00fasica, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no mo\u00e7o, ou tamb\u00e9m lhe transmitiu no sangue, se \u00e9 que tinham raz\u00e3o as bocas vadias, cousa de que se n\u00e3o ocupa a minha hist\u00f3ria, como ides ver.<\/p>\n<p>Os demais retratos eram de compositores cl\u00e1ssicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns tr\u00eas, alguns, gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite l\u00e1 estava aberto: era uma sonata de Beethoven.<\/p>\n<p>Veio o caf\u00e9; Pestana engoliu a primeira x\u00edcara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e come\u00e7ou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfei\u00e7\u00e3o. Repetiu a pe\u00e7a, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o \u00e0 meia-noite e \u00e0 segunda x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar \u00e0 janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de p\u00e9, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum pensamento mas o pensamento n\u00e3o aparecia e ele voltava a encostar-se \u00e0 janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no c\u00e9u \u00e0 espera de algu\u00e9m que as fosse descolar; tempo viria em que o c\u00e9u tinha de ficar vazio, mas ent\u00e3o a terra seria uma constela\u00e7\u00e3o de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflex\u00e3o trazia uma lembran\u00e7a qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a id\u00e9ia conjugal tirou \u00e0 mo\u00e7a alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A mo\u00e7a dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta n\u00e3o cuidava nem da polca nem da mo\u00e7a, mas das velhas obras cl\u00e1ssicas, interrogando o c\u00e9u e a noite, rogando aos anjos, em \u00faltimo caso ao diabo. Por que n\u00e3o faria ele uma s\u00f3 que fosse daquelas p\u00e1ginas imortais? \u00c0s vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de id\u00e9ia: ele corria ao piano para avent\u00e1-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em v\u00e3o: a id\u00e9ia esva\u00eda-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, \u00e0 ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha, a imagina\u00e7\u00e3o deixava-se estar dormindo. Se acaso uma id\u00e9ia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma pe\u00e7a alheia, que a mem\u00f3ria repetia, e que ele supunha inventar. Ent\u00e3o, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar caf\u00e9 ou puxar carro\u00e7a: mas da\u00ed a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imit\u00e1-lo ao piano.<\/p>\n<p>Duas, tr\u00eas, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado, morto; tinha que dar li\u00e7\u00f5es no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou \u00e0s sete horas. Vestiu-se e almo\u00e7ou.<\/p>\n<p>\u2014 Meu senhor quer a bengala ou o chap\u00e9u-de-sol? perguntou o preto, segundo as ordens que tinha. porque as distra\u00e7\u00f5es do senhor eram freq\u00fcentes.<\/p>\n<p>\u2014 A bengala.<\/p>\n<p>\u2014 Mas parece que hoje chove.<\/p>\n<p>\u2014 Chove, repetiu Pestana maquinalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que sim, senhor, o c\u00e9u est\u00e1 meio escuro.<\/p>\n<p>Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente: \u2014 Espera a\u00ed.<\/p>\n<p>Correu \u00e0 sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as m\u00e3os no teclado. Come\u00e7ou a tocar alguma cousa pr\u00f3pria, uma inspira\u00e7\u00e3o real e pronta, uma polca, uma polca buli\u00e7osa, como dizem os an\u00fancios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as disc\u00edpulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera at\u00e9 os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha s\u00f3, teclando ou escrevendo, sem os v\u00e3os esfor\u00e7os da v\u00e9spera, sem exaspera\u00e7\u00e3o, sem nada pedir ao c\u00e9u, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum t\u00e9dio. Vida, gra\u00e7a, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.<\/p>\n<p>Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para jantar: mas j\u00e1 a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composi\u00e7\u00e3o recente e in\u00e9dita circulava o sangue da paternidade e da voca\u00e7\u00e3o. Dois dias depois, foi lev\u00e1-la ao editor das outras polcas suas, que andariam j\u00e1 por umas trinta. O editor achou-a linda.<\/p>\n<p>\u2014 Vai fazer grande efeito.<\/p>\n<p>Veio a quest\u00e3o do t\u00edtulo. Pestana, quando comp\u00f4s a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um t\u00edtulo po\u00e9tico, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabe\u00e7a, e disse-lhe que os t\u00edtulos deviam ser, j\u00e1 de si, destinados \u00e0 popularidade, ou por alus\u00e3o a algum sucesso do dia, \u2014 ou pela gra\u00e7a das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou Candongas N\u00e3o Fazem Festa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que quer dizer Candongas N\u00e3o Fazem Festa? perguntou o autor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer dizer nada, mas populariza-se logo.<\/p>\n<p>Pestana, ainda donzel in\u00e9dito, recusou qualquer das denomina\u00e7\u00f5es e guardou a polca, mas n\u00e3o tardou que compusesse outra, e a comich\u00e3o da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os t\u00edtulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.<\/p>\n<p>Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao t\u00edtulo, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe apresentasse, t\u00edtulo de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio.<\/p>\n<p>\u2014 E para a vez seguinte, acrescentou, j\u00e1 trago outro de cor.<\/p>\n<p>Pestana, ainda donzel in\u00e9dito, recusou qualquer das denomina\u00e7\u00f5es compositor bastava \u00e0 procura; mas a obra em si mesma era adequada ao g\u00eanero, original, convidava a dan\u00e7\u00e1-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava c\u00e9lebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composi\u00e7\u00e3o, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando n\u00e3o a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele l\u00e1 foi a um deles. N\u00e3o desgostou tamb\u00e9m de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.<\/p>\n<p>Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, f\u00e1cil e graciosa. E a\u00ed voltaram as n\u00e1useas de si mesmo, o \u00f3dio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esfor\u00e7o de compor alguma cousa ao sabor cl\u00e1ssico, uma p\u00e1gina que fosse, uma s\u00f3, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann. V\u00e3o estudo, in\u00fatil esfor\u00e7o. Mergulhava naquele Jord\u00e3o sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse m\u00e3o da m\u00fasica f\u00e1cil&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 As polcas que v\u00e3o para o inferno fazer dan\u00e7ar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se.<\/p>\n<p>Mas as polcas n\u00e3o quiseram ir t\u00e3o fundo. Vinham \u00e0 casa de Pestana, \u00e0 pr\u00f3pria sala dos retratos, irrompiam t\u00e3o prontas, que ele n\u00e3o tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gost\u00e1-las alguns dias, aborrec\u00ea-las, e tornar \u00e0s velhas fontes, donde lhe n\u00e3o manava nada. Nessa alternativa viveu at\u00e9 casar, e depois de casar.<\/p>\n<p>\u2014 Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escriv\u00e3o que lhe deu aquela not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Vai casar com uma vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Velha? \u2014 Vinte e sete anos.<\/p>\n<p>\u2014 Bonita? \u2014 N\u00e3o, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu cantar na \u00faltima festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi tamb\u00e9m que ela possui outra prenda, que n\u00e3o \u00e9 rara, mas vale menos: est\u00e1 t\u00edsica.<\/p>\n<p>Os escriv\u00e3es n\u00e3o deviam ter esp\u00edrito, \u2014 mau esp\u00edrito, quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de b\u00e1lsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou da\u00ed a dias com uma vi\u00fava de vinte e sete anos, boa cantora e t\u00edsica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu g\u00eanio. O celibato era, sem d\u00favida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, \u00e9 que ia engendrar uma fam\u00edlia de obras s\u00e9rias, profundas, inspiradas e trabalhadas.<\/p>\n<p>Essa esperan\u00e7a abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou \u00e0 primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, d\u00e1-me o que n\u00e3o achei na solid\u00e3o das noites, nem no tumulto dos dias.<\/p>\n<p>Desde logo, para comemorar o cons\u00f3rcio, teve id\u00e9ia de compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princ\u00edpio de inspira\u00e7\u00e3o; n\u00e3o querendo dizer nada \u00e0 mulher, antes de pronto, trabalhava \u00e0s escondidas; cousa dif\u00edcil porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com tr\u00eas artistas, amigos do Pestana. Um domingo, por\u00e9m, n\u00e3o se p\u00f4de ter o marido, e chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; n\u00e3o lhe disse o que era nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Acaba, disse Maria, n\u00e3o \u00e9 Chopin? Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esfor\u00e7o de mem\u00f3ria, executou a pe\u00e7a de Chopin. A id\u00e9ia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da mem\u00f3ria, velha cidade de trai\u00e7\u00f5es. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de S. Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca! Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambi\u00e7\u00e3o e a voca\u00e7\u00e3o. . . Passou o velho matadouro; ao chegar \u00e0 porteira da estrada de ferro, teve id\u00e9ia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda f\u00ea-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.<\/p>\n<p>Poucos dias depois, \u2014 uma clara e fresca manh\u00e3 de maio de 1876, \u2014 eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um fr\u00eamito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para n\u00e3o acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que p\u00f4de, extraiu uma polca. F\u00ea-la publicar com um pseud\u00f4nimo; nos dois meses seguintes comp\u00f4s e publicou mais duas. Maria n\u00e3o soube nada; ia tossindo e morrendo, at\u00e9 que expirou, uma noite, nos bra\u00e7os do marido, apavorado e desesperado.<\/p>\n<p>Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acr\u00e9scimo, porque na vizinhan\u00e7a havia um baile, em que se tocaram v\u00e1rias de suas melhores polcas. J\u00e1 o baile era duro de sofrer; as suas composi\u00e7\u00f5es davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cad\u00eancia dos passos, adivinhava os movimentos, porventura l\u00fabricos, a que obrigava alguma daquelas composi\u00e7\u00f5es; tudo isso ao p\u00e9 do cad\u00e1ver p\u00e1lido, um molho de ossos, estendido na cama&#8230; Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou r\u00e1pidas, \u00famidas de l\u00e1grimas e de suor, de \u00e1guas-da-col\u00f4nia e de Labarraque , saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Enterrada a mulher, o vi\u00favo teve uma \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o: deixar a m\u00fasica, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro anivers\u00e1rio da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a obra; empregou tudo, arrojo, paci\u00eancia, medita\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, c\u00e9lere a princ\u00edpio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta. n\u00e3o lhe sentia a alma sacra, nem id\u00e9ia, nem inspira\u00e7\u00e3o, nem m\u00e9todo; ora elevava-se-lhe o cora\u00e7\u00e3o e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Requiem n\u00e3o estava conclu\u00eddo. Redobrou de esfor\u00e7os, esqueceu li\u00e7\u00f5es e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria conclu\u00ed-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco&#8230; A aurora do anivers\u00e1rio veio ach\u00e1-lo trabalhando.<\/p>\n<p>Contentou-se da missa rezada e simples, para ele s\u00f3. N\u00e3o se pode dizer se todas as l\u00e1grimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo \u00e9 que nunca mais tornou ao Requiem.<\/p>\n<p>&#8220;Para qu\u00ea?&#8221; dizia ele a si mesmo.<\/p>\n<p>Correu ainda um ano. No princ\u00edpio de 1878, apareceu-lhe o editor.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 v\u00e3o dois anos, disse este, que nos n\u00e3o d\u00e1 um ar da sua gra\u00e7a. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito? \u2014 Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei o golpe que o feriu; mas l\u00e1 v\u00e3o dois anos. Venho propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o pre\u00e7o antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.<\/p>\n<p>Pestana assentiu com um gesto. Poucas li\u00e7\u00f5es tinha, vendera a casa para saldar d\u00edvidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a primeira polca h\u00e1 de ser j\u00e1, explicou o editor. \u00c9 urgente. Viu a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, v\u00e3o fazer a reforma eleitoral. A polca h\u00e1 de chamar-se: Bravos \u00e0 Elei\u00e7\u00e3o Direta! N\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica; \u00e9 um bom t\u00edtulo de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pestana comp\u00f4s a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de sil\u00eancio, n\u00e3o perdera a originalidade nem a inspira\u00e7\u00e3o. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repert\u00f3rios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para n\u00e3o cair em novas tentativas. J\u00e1 agora pedia uma entrada de gra\u00e7a, sempre que havia alguma boa \u00f3pera ou concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando aquela por\u00e7\u00e3o de cousas que nunca lhe haviam de brotar do c\u00e9rebro. Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de m\u00fasica, despertava nele o maestro in\u00e9dito; ent\u00e3o, sentava-se ao piano, e, sem id\u00e9ia, tirava algumas notas, at\u00e9 que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.<\/p>\n<p>Assim foram passando os anos, at\u00e9 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia n\u00e3o contentava a este C\u00e9sar, que continuava a preferir-lhe, n\u00e3o o segundo, mas o cent\u00e9simo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composi\u00e7\u00f5es a diferen\u00e7a \u00e9 que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.<\/p>\n<p>Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, at\u00e9 virar perniciosa. J\u00e1 estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que n\u00e3o sabia da doen\u00e7a, e ia dar-lhe not\u00edcia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasi\u00e3o. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente \u00e9 que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas h\u00e1 de ser quando estiver bom de todo, concluiu.<\/p>\n<p>\u2014 Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi p\u00e9 ante p\u00e9 preparar o rem\u00e9dio; o editor levantou-se e despediu-se.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, disse o Pestana, como \u00e9 prov\u00e1vel que eu morra por estes dias, fa\u00e7o-lhe logo duas polcas; a outra servir\u00e1 para quando subirem os liberais.<\/p>\n<p>Foi a \u00fanica pilh\u00e9ria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, \u00e0s quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis \u2014 AH! o SENHOR \u00e9 que \u00e9 o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: \u2014 Desculpe meu modo, mas. .. \u00e9 mesmo o senhor? Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. 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