{"id":120764,"date":"2017-04-28T18:44:50","date_gmt":"2017-04-28T20:44:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120764"},"modified":"2017-04-28T18:44:50","modified_gmt":"2017-04-28T20:44:50","slug":"mariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/mariana","title":{"rendered":"Mariana"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Cap\u00edtulo Primeiro<\/h2>\n<p>&#8220;QUE SER\u00c1 FEITO de Mariana?&#8221; perguntou Evaristo a si mesmo, no largo da Carioca, ao despedir-se de um velho amigo, que lhe fez lembrar aquela velha amiga.<\/p>\n<p>Era em 1890. Evaristo voltara da Europa, dias antes, ap\u00f3s dezoito anos de aus\u00eancia. Tinha sa\u00eddo do Rio de Janeiro em 1872, e contava demorar-se at\u00e9 1874 ou 1875, depois de ver algumas cidades c\u00e9lebres ou curiosas, mas o viajante p\u00f5e e Paris disp\u00f5e. Uma vez entrando naquele mundo em 1873, Evaristo deixou-se ir ficando, al\u00e9m do prazo determinado; adiou a viagem um ano, outro ano, e afinal n\u00e3o pensou mais na volta. Desinteressara-se das nossas cousas; ultimamente nem lia os jornais daqui; era um estudante pobre da Bahia, que os ia buscar emprestados, e lhe referia depois uma ou outra not\u00edcia de vulto. Sen\u00e3o quando, em novembro de 1889, entra-lhe em casa um reporter parisiense, que lhe fala de revolu\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, pede informa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais, biogr\u00e1ficas. Evaristo refletiu.<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro senhor, disse ao reporter, acho melhor ir eu mesmo busc\u00e1-las.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo partido, nem opini\u00f5es, nem parentes pr\u00f3ximos, nem interesses (todos os seus haveres estavam na Europa), mal se explica a resolu\u00e7\u00e3o s\u00fabita de Evaristo pela simples curiosidade, e contudo n\u00e3o houve outro motivo. Quis ver o novo aspecto das cousas. Indagou da data de uma primeira representa\u00e7\u00e3o no Od\u00e9on, com\u00e9dia de um amigo, calculou que, saindo no primeiro paquete e voltando tr\u00eas paquetes depois, chegaria a tempo de comprar bilhete e entrar no teatro; fez as malas, correu a Bord\u00e9us, e embarcou.<\/p>\n<p>&#8220;Que ser\u00e1 feito de Mariana? repetia agora, descendo a rua da Assembl\u00e9ia. Talvez morta&#8230; Se ainda viver, deve estar outra; h\u00e1 de andar pelos seus quarenta e cinco&#8230; Upa! quarenta e oito; era mais mo\u00e7a que eu uns cinco anos. Quarenta e oito&#8230; Bela mulher; grande mulher! Belos e grandes amores!&#8221; Teve desejo de v\u00ea-la. Indagou discretamente, soube que vivia e morava na mesma casa em que a deixou, rua do Engenho Velho; mas n\u00e3o aparecia desde alguns meses, por causa do marido, que estava mal, parece que \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u2014 Ela tamb\u00e9m deve estar escangalhada, disse Evaristo ao conhecido que lhe dava aquelas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Homem, n\u00e3o. A \u00faltima vez que a vi, achei-a frescalhona. N\u00e3o se lhe d\u00e1 mais de quarenta anos. Voc\u00ea quer saber uma coisa? H\u00e1 por a\u00ed roseiras magn\u00edficas, mas os nossos cedros de 1860 a 1865 parece que n\u00e3o nascem mais.<\/p>\n<p>\u2014 Nascem; voc\u00ea n\u00e3o os v\u00ea, porque j\u00e1 n\u00e3o sobe ao L\u00edbano, retorquiu Evaristo.<\/p>\n<p>Crescera-lhe o desejo de ver Mariana. Que olhos teriam um para o outro? Que vis\u00f5es antigas viriam transformar a realidade presente? A viagem de Evaristo, cumpre sab\u00ea-lo, n\u00e3o foi de recreio, sen\u00e3o de cura. Agora que a lei do tempo fizera sua obra, que efeito produziria neles, quando se encontrassem, o espectro de 1872, aquele triste ano da separa\u00e7\u00e3o que quase o p\u00f4s doido, e quase a deixou morta?<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>DIAS DEPOIS apeava-se ele de um t\u00edlburi \u00e0 porta de Mariana, e dava um cart\u00e3o ao criado, que lhe abriu a sala.<\/p>\n<p>Enquanto esperava circulou os olhos e ficou impressionado. Os m\u00f3veis eram os mesmos de dezoito anos antes. A mem\u00f3ria, incapaz de os recompor na aus\u00eancia, reconheceu-os a todos, assim como a disposi\u00e7\u00e3o deles, que n\u00e3o mudara. Tinham o aspecto vetusto. As pr\u00f3prias flores artificiais de uma grande jarra, que estava sobre um aparador, haviam desbotado com o tempo. Tudo ossos dispersos, que a imagina\u00e7\u00e3o podia enfaixar para restaurar uma figura a que s\u00f3 faltasse a alma.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o faltava a alma. Pendente da parede, por cima do canap\u00e9, estava o retrato de Mariana. Tinha sido pintado quando ela contava vinte e cinco anos; a moldura, dourada uma s\u00f3 vez, descascando em alguns lugares, contrastava com a figura ridente e fresca. O tempo n\u00e3o descolara a formosura. Mariana estava ali, trajada \u00e0 moda de 1865, com os seus lindos olhos redondos e namorados. Era o \u00fanico alento vivo da sala; mas s\u00f3 ele bastava a dar \u00e0 decrepitude ambiente a fugidia mocidade. Grande foi a como\u00e7\u00e3o de Evaristo. Havia uma cadeira defronte do retrato, ele sentou-se nela, e ficou a mirar a mo\u00e7a de outro tempo. Os olhos pintados fitavam tamb\u00e9m os naturais, porventura admirados do encontro e da mudan\u00e7a, porque os naturais n\u00e3o tinham o calor e a gra\u00e7a da pintura. Mas pouco durou a diferen\u00e7a; a vida anterior do homem restituiu-lhe a verdura exterior, e os olhos embeberam-se uns nos outros, e todos nos seus velhos pecados.<\/p>\n<p>Depois, vagarosamente, Mariana desceu da tela e da moldura, e veio sentar-se defronte de Evaristo, inclinou-se, estendeu os bra\u00e7os sobre os joelhos e abriu as m\u00e3os. Evaristo entregou-lhes as suas, e as quatro apertaram-se cordialmente. Nenhum perguntou nada que se referisse ao passado, porque ainda n\u00e3o havia passado; ambos estavam no presente, as horas tinham parado, t\u00e3o instant\u00e2neas e t\u00e3o fixas, que pareciam haver sido ensaiadas na v\u00e9spera para esta representa\u00e7\u00e3o \u00fanica e intermin\u00e1vel. Todos os rel\u00f3gios da cidade e do mundo quebraram discretamente as cordas, e todos os relojoeiros trocaram de of\u00edcio. Adeus, velho lago de Lamartine! Evaristo e Mariana tinham ancorado no oceano dos tempos. E a\u00ed vieram as palavras mais doces que jamais disseram l\u00e1bios de homem nem de mulher, e as mais ardentes tamb\u00e9m, e as mudas, e as tresloucadas, e as expirantes, e as de ci\u00fame, e as de perd\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s bom? \u2014 Bom; e tu? \u2014 Morria por ti. H\u00e1 uma hora que te espero, ansiosa, quase chorando; mas bem v\u00eas que estou risonha e alegre, tudo porque o melhor dos homens entrou nesta sala. Por que te demoraste tanto? \u2014 Tive duas interrup\u00e7\u00f5es em caminho; e a segunda muito maior que a primeira.<\/p>\n<p>\u2014 Se tu me amasses deveras, gastarias dous minutos com as duas, e estarias aqui h\u00e1 tr\u00eas quartos de hora. Que riso \u00e9 esse? \u2014 A segunda interrup\u00e7\u00e3o foi teu marido.<\/p>\n<p>Mariana estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Foi aqui perto, continuou Evaristo; falamos de ti, ele primeiro, a prop\u00f3sito n\u00e3o sei de qu\u00ea, e falou com bondade, quase que com ternura. Cheguei a crer que era um la\u00e7o, um modo de captar a minha confian\u00e7a. Afinal despedimo-nos; mas eu ainda fiquei espiando, a ver se ele voltava; n\u00e3o vi ningu\u00e9m. A\u00ed est\u00e1 a causa da minha demora; a\u00ed tens tamb\u00e9m a causa dos meus tormentos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o venhas outra vez com essa eterna desconfian\u00e7a, atalhou Mariana sorrindo, como na tela, h\u00e1 pouco. Que quer voc\u00ea que eu fa\u00e7a? Xavier \u00e9 meu marido; n\u00e3o hei de mand\u00e1-lo embora, nem castig\u00e1-lo, nem mat\u00e1-lo, s\u00f3 porque eu e voc\u00ea nos amamos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que o mates; mas tu o amas, Mariana.<\/p>\n<p>\u2014 Amo-te e a ningu\u00e9m mais, respondeu ela, evitando assim a resposta negativa, que lhe pareceu demasiado crua.<\/p>\n<p>Foi o que pensou Evaristo; mas n\u00e3o aceitou a delicadeza da forma indireta. S\u00f3 a negativa rude e simples poderia content\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Tu o amas, insistiu ele.<\/p>\n<p>Mariana refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Para que h\u00e1s de revolver a minha alma e o meu passado? disse ela. Para n\u00f3s, o mundo come\u00e7ou h\u00e1 quatro meses, e n\u00e3o acabar\u00e1 mais \u2014 ou acabar\u00e1 quando voc\u00ea se aborrecer de mim, porque eu n\u00e3o mudarei nunca&#8230;<\/p>\n<p>Evaristo ajoelhou-se, puxou-lhe os bra\u00e7os, beijou-lhe as m\u00e3os, e fechou nelas o rosto; finalmente deixou cair a cabe\u00e7a nos joelhos de Mariana. Ficaram assim alguns instantes, at\u00e9 que ela sentiu os dedos \u00famidos, ergueu-lhe a cabe\u00e7a e viu-lhe os olhos rasos de \u00e1gua. Que era? \u2014 Nada, disse ele; adeus.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que foi?! \u2014 Tu o amas, tornou Evaristo, e esta id\u00e9ia apavora-me, ao mesmo tempo que me aflige, porque eu sou capaz de mat\u00e1-lo, se tiver certeza de que ainda o amas.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um homem singular, retorquiu Mariana, depois de enxugar os olhos de Evaristo com os cabelos, que despenteara \u00e0s pressas, para servi-lo com o melhor len\u00e7o do mundo. Que o amo? N\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o o amo, a\u00ed tens a resposta. Mas j\u00e1 agora h\u00e1s de consentir que te diga tudo, porque a minha \u00edndole n\u00e3o admite meias confid\u00eancias.<\/p>\n<p>Desta vez foi Evaristo que estremeceu; mas a curiosidade mordia-lhe a ele o cora\u00e7\u00e3o, em tal maneira, que n\u00e3o houve mais temer, sen\u00e3o aguardar e escutar. Apoiado nos joelhos dela, ouviu a narra\u00e7\u00e3o, que foi curta. Mariana referiu o casamento, a resist\u00eancia do pai, a dor da m\u00e3e, e a perseveran\u00e7a dela e de Xavier. Esperaram dez meses, firmes, ela j\u00e1 menos paciente que ele, porque a paix\u00e3o que a tomou tinha toda a for\u00e7a necess\u00e1ria para as decis\u00f5es violentas. Que de l\u00e1grimas verteu por ele! Que de maldi\u00e7\u00f5es lhe sa\u00edram do cora\u00e7\u00e3o contra os pais, e foram sufocadas por ela, que temia a Deus, e n\u00e3o quisera que essas palavras, como armas de parric\u00eddio, a condenassem, pior que ao inferno, \u00e0 eterna separa\u00e7\u00e3o do homem a quem amava. Venceu a const\u00e2ncia, o tempo desarmou os velhos, e o casamento se fez, l\u00e1 se iam sete anos. A paix\u00e3o dos noivos prolongou-se na vida conjugal. Quando o tempo trouxe o sossego, trouxe tamb\u00e9m a estima. Os cora\u00e7\u00f5es eram harm\u00f4nicos, as recorda\u00e7\u00f5es da luta pungentes e doces. A felicidade serena veio sentar-se \u00e0 porta deles, como uma sentinela. Mas bem depressa se foi a sentinela; n\u00e3o deixou a desgra\u00e7a, nem ainda o t\u00e9dio, mas a apatia, uma figura p\u00e1lida, sem movimento, que mal sorria e n\u00e3o lembrava nada. Foi por esse tempo que Evaristo apareceu aos seus olhos e a arrebatou. N\u00e3o a arrebatou ao amor de ningu\u00e9m; mas por isso mesmo nada tinha que ver com o passado, que era um mist\u00e9rio, e podia trazer remorsos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Remorsos? interrompeu ele.<\/p>\n<p>\u2014 Podias supor que eu os tinha; mas n\u00e3o os tenho, nem os terei jamais.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado! disse Evaristo ap\u00f3s alguns momentos; agrade\u00e7o-te a confiss\u00e3o. N\u00e3o falarei mais de tal assunto. N\u00e3o o amas, \u00e9 o essencial. Que linda \u00e9s tu quando juras assim, e me falas do nosso futuro! Sim, acabou; agora aqui estou, ama-me! \u2014 S\u00f3 a ti, querido.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 a mim? Ainda uma vez, jura! \u2014 Por estes olhos, respondeu ela, beijando-lhe os olhos; por estes l\u00e1bios, continuou, impondo-lhe um beijo nos l\u00e1bios. Pela minha vida e pela tua! Evaristo repetiu as mesmas f\u00f3rmulas, com iguais cerim\u00f4nias. Depois, sentou-se defronte de Mariana como estava a princ\u00edpio. Ela ergueu-se ent\u00e3o, por sua vez, e foi ajoelhar-se-lhe aos p\u00e9s, com os bra\u00e7os nos joelhos dele. Os cabelos ca\u00eddos enquadravam t\u00e3o bem o rosto, que ele sentiu n\u00e3o ser um g\u00eanio para copi\u00e1-la e leg\u00e1-la ao mundo. Disse-lhe isso, mas a mo\u00e7a n\u00e3o respondeu palavra; tinha os olhos fitos nele, suplicantes. Evaristo inclinou-se, cravando nela os seus, e assim ficaram, rosto a rosto, uma, duas, tr\u00eas horas, at\u00e9 que algu\u00e9m veio acord\u00e1-los: \u2014 Faz favor de entrar.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>EVARISTO teve um sobressalto. Deu com um homem, o mesmo criado que recebera o seu cart\u00e3o de visita. Levantou-se depressa; Mariana recolheu-se \u00e0 tela, que pendia da parede, onde ele a viu outra vez, trajada \u00e0 moda de 1865, penteada e tranq\u00fcila. Como nos sonhos, os pensamentos, gestos e atos mediram-se por outro tempo, que n\u00e3o o tempo; fez-se tudo em cinco ou seis minutos, que tantos foram os que o criado despendeu em levar o cart\u00e3o e trazer o convite. Entretanto, \u00e9 certo que Evaristo sentia ainda a impress\u00e3o das car\u00edcias da mo\u00e7a, vivera realmente entre 1869 e 1872, porque as tr\u00eas horas da vis\u00e3o foram ainda uma concess\u00e3o ao tempo. Toda a hist\u00f3ria ressurgira com os ci\u00fames que ele tinha de Xavier, os seus perd\u00f5es e as ternuras rec\u00edprocas. S\u00f3 faltou a crise final, quando a m\u00e3e de Mariana, sabendo de tudo, corajosamente se interp\u00f4s e os separou. Mariana resolveu morrer, chegou a ingerir veneno, e foi preciso o desespero da m\u00e3e para restitu\u00ed-la \u00e0 vida. Xavier, que ent\u00e3o estava na prov\u00edncia do Rio, nada soube daquela trag\u00e9dia, sen\u00e3o que a mulher escapara da morte, por causa de uma troca de medicamentos. Evaristo quis ainda v\u00ea-la antes de embarcar, mas foi imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, disse ele agora ao criado que o esperava.<\/p>\n<p>Xavier estava no gabinete pr\u00f3ximo, estirado em um canap\u00e9, com a mulher ao lado e algumas visitas. Evaristo penetrou ali cheio de como\u00e7\u00e3o. A luz era pouca, o sil\u00eancio grande; Mariana tinha presa uma das m\u00e3os do enfermo, a observ\u00e1-lo, a temer a morte ou uma crise. Mal p\u00f4de levantar os olhos para Evaristo e estender-lhe a m\u00e3o; voltou a fitar o marido, em cujo rosto havia a marca do longo padecimento, e cujo respirar parecia o prel\u00fadio da grande \u00f3pera infinita. Evaristo, que apenas vira o rosto de Mariana, retirou-se a um canto, sem ousar mirar-lhe a figura, nem acompanhar-lhe os movimentos. Chegou o m\u00e9dico, examinou o enfermo, recomendou as prescri\u00e7\u00f5es dadas, e retirou-se para voltar de noite. Mariana foi com ele at\u00e9 \u00e0 porta, interrogando baixo e procurando-lhe no rosto a verdade que a boca n\u00e3o queria dizer. Foi ent\u00e3o que Evaristo a viu bem; a dor parecia alquebr\u00e1-la mais que os anos. Conheceu-lhe o jeito particular do corpo. N\u00e3o descia da tela, como a outra, mas do tempo. Antes que ela tornasse ao leito do marido, Evaristo entendeu retirar-se tamb\u00e9m, e foi at\u00e9 a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe licen\u00e7a&#8230; Sinto n\u00e3o poder falar agora a seu marido.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o pode ser; o m\u00e9dico recomenda repouso e sil\u00eancio. Ser\u00e1 noutra ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vim h\u00e1 mais tempo v\u00ea-lo porque s\u00f3 h\u00e1 pouco \u00e9 que soube&#8230; E n\u00e3o cheguei h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada.<\/p>\n<p>Evaristo estendeu-lhe a m\u00e3o e saiu a passo abafado, enquanto ela voltava a sentar-se ao p\u00e9 do doente. Nem os olhos nem a m\u00e3o de Mariana revelaram em rela\u00e7\u00e3o a ele uma impress\u00e3o qualquer, e a despedida fez-se como entre pessoas indiferentes. Certo, o amor acabara, a data era remota, o cora\u00e7\u00e3o envelhecera com o tempo, e o marido estava a expirar; mas, refletia ele, como explicar que, ao cabo de dezoito anos de separa\u00e7\u00e3o, Mariana visse diante de si um homem que tanta parte tivera em sua vida, sem o menor abalo, espanto, constrangimento que fosse? Eis a\u00ed um mist\u00e9rio. Chamava-lhe mist\u00e9rio. Ainda agora \u00e0 despedida, sentira ele um aperto, uma coisa, que lhe fez a palavra tr\u00f4pega, que lhe tirou as id\u00e9ias e at\u00e9 as simples f\u00f3rmulas banais de pesar e de esperan\u00e7a. Ela, entretanto, n\u00e3o recebeu dele a menor como\u00e7\u00e3o. E lembrando-se do retrato da sala, Evaristo concluiu que a arte era superior \u00e0 natureza; a tela guardara o corpo e a alma&#8230; Tudo isso borrifado de um despeitozinho acre.<\/p>\n<p>Xavier durou ainda uma semana. Indo fazer-lhe segunda visita, Evaristo assistiu \u00e0 morte do enfermo, e n\u00e3o p\u00f4de furtar-se \u00e0 como\u00e7\u00e3o natural do momento, do lugar e das circunst\u00e2ncias. Mariana, desgrenhada ao p\u00e9 do leito, tinha os olhos mortos de vig\u00edlia e de l\u00e1grimas. Quando Xavier, depois de longa agonia, expirou, mal se ouviu o choro de alguns parentes e amigos; um grito agud\u00edssimo de Mariana chamou a aten\u00e7\u00e3o de todos; depois o desmaio e a queda da vi\u00fava. Durou alguns minutos a perda dos sentidos; tornada a si, Mariana correu ao cad\u00e1ver, abra\u00e7ou-se a ele, solu\u00e7ando desesperadamente, dizendo-lhe os nomes mais queridos e ternos. Tinham esquecido de fechar os olhos ao cad\u00e1ver; da\u00ed um lance pavoroso e melanc\u00f3lico, porque ela, depois de os beijar muito, foi tomada de alucina\u00e7\u00e3o e bradou que ele ainda vivia, que estava salvo; e, por mais que quisessem arranc\u00e1-la dali, n\u00e3o cedia, empurrava a todos, clamava que queriam tirar-lhe o marido. Nova crise a prostrou; foi levada \u00e0s carreiras para outro quarto.<\/p>\n<p>Quando o enterro saiu no dia seguinte, Mariana n\u00e3o estava presente, por mais que insistisse em despedir-se; j\u00e1 n\u00e3o tinha for\u00e7as para acudir \u00e0 vontade. Evaristo acompanhou o enterro. Seguindo o carro f\u00fanebre, mal chegava a crer onde estava e o que fazia. No cemit\u00e9rio, falou a um dos parentes de Xavier, confiando-lhe a pena que tivera de Mariana.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea-se que se amavam muito, concluiu.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! muito, disse o parente. Casaram-se por paix\u00e3o; n\u00e3o assisti ao casamento, porque s\u00f3 cheguei ao Rio de Janeiro muitos anos depois, em 1874; achei-os, por\u00e9m, t\u00e3o unidos como se fossem noivos, e assisti at\u00e9 agora \u00e0 vida de ambos. Viviam um para o outro; n\u00e3o sei se ela ficar\u00e1 muito tempo neste mundo.<\/p>\n<p>&#8220;1874&#8221;, pensou Evaristo; &#8220;dous anos depois&#8221;.<\/p>\n<p>Mariana n\u00e3o assistiu \u00e0 missa do s\u00e9timo dia; um parente, \u2014 o mesmo do cemit\u00e9rio, \u2014 representava-a naquela triste ocasi\u00e3o. Evaristo soube por ele que o estado da vi\u00fava n\u00e3o lhe permitia arriscar-se \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe. Deixou passar alguns dias, e foi fazer a sua visita de p\u00easames; mas, tendo dado o cart\u00e3o, ouviu que ela n\u00e3o recebia ningu\u00e9m. Foi ent\u00e3o a S\u00e3o Paulo, voltou cinco ou seis semanas depois, preparou-se para embarcar; antes de partir, pensou ainda em visitar Mariana, \u2014 n\u00e3o tanto por simples cortesia, como para levar consigo a imagem, \u2014 deteriorada embora, \u2014 daquela paix\u00e3o de quatro anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o a encontrou em casa. Voltava zangado, mal consigo, achava-se impertinente e de mau gosto. A pouca dist\u00e2ncia viu sair da igreja do Esp\u00edrito Santo uma senhora de luto, que lhe pareceu Mariana. Era Mariana; vinha a p\u00e9; ao passar pela carruagem olhou para ele, fez que o n\u00e3o conhecia, e foi andando, de modo que o cumprimento de Evaristo ficou sem resposta. Este ainda quis mandar parar o carro e despedir-se dela, ali mesmo, na rua, um minuto, tr\u00eas palavras; como, por\u00e9m, hesitasse na resolu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 parou quando j\u00e1 havia passado a igreja, e Mariana ia um grande peda\u00e7o adiante. Apeou-se, n\u00e3o obstante, e desandou o caminho; mas, fosse respeito ou despeito, trocou de resolu\u00e7\u00e3o, meteu-se no carro e partiu.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas vezes sincera, concluiu, passados alguns minutos de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de um m\u00eas estava em Paris. N\u00e3o esquecera a com\u00e9dia do amigo, a cuja primeira representa\u00e7\u00e3o no Od\u00e9on ficara de assistir. Correu a saber dela; tinha ca\u00eddo redondamente.<\/p>\n<p>\u2014 Cousas de teatro, disse Evaristo ao autor, para consol\u00e1-lo. H\u00e1 pe\u00e7as que caem. H\u00e1 outras que ficam no repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo Primeiro &#8220;QUE SER\u00c1 FEITO de Mariana?&#8221; perguntou Evaristo a si mesmo, no largo da Carioca, ao despedir-se de um velho amigo, que lhe fez lembrar aquela velha amiga. Era em 1890. Evaristo voltara da Europa, dias antes, ap\u00f3s dezoito anos de aus\u00eancia. 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