{"id":120762,"date":"2017-04-28T18:43:04","date_gmt":"2017-04-28T20:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120762"},"modified":"2017-04-28T18:43:04","modified_gmt":"2017-04-28T20:43:04","slug":"entre-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/entre-santos","title":{"rendered":"Entre Santos"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>QUANDO EU ERA capel\u00e3o de S. Francisco de Paula (contava um padre velho) aconteceu-me uma aventura extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Morava ao p\u00e9 da igreja, e recolhi-me tarde, uma noite. Nunca me recolhi tarde que n\u00e3o fosse ver primeiro se as portas do templo estavam bem fechadas. Achei-as bem fechadas, mas lobriguei luz por baixo delas. Corri assustado \u00e0 procura da ronda; n\u00e3o a achei, tornei atr\u00e1s e fiquei no adro, sem saber que fizesse. A luz, sem ser muito intensa, era-o demais para ladr\u00f5es; al\u00e9m disso notei que era fixa e igual, n\u00e3o andava de um lado para outro, como seria a das velas ou lanternas de pessoas que estivessem roubando. O mist\u00e9rio arrastou-me; fui a casa buscar as chaves da sacristia (o sacrist\u00e3o tinha ido passar a noite em Niter\u00f3i), benzi-me primeiro, abri a porta e entrei.<\/p>\n<p>O corredor estava escuro. Levava comigo uma lanterna e caminhava devagarinho, calando o mais que podia o rumor dos sapatos. A primeira e a segunda porta que comunicam com a igreja estavam fechadas; mas via-se a mesma luz e, porventura, mais intensa que do lado da rua. Fui andando, at\u00e9 que dei com a terceira porta aberta. Pus a um canto a lanterna, com o meu len\u00e7o por cima, para que me n\u00e3o vissem de dentro, e aproximei-me a espiar o que era.<\/p>\n<p>Detive-me logo. Com efeito, s\u00f3 ent\u00e3o adverti que viera inteiramente desarmado e que ia correr grande risco aparecendo na igreja sem mais defesa que as duas m\u00e3os. Correram ainda alguns minutos. Na igreja a luz era a mesma, igual e geral, e de uma cor de leite que n\u00e3o tinha a luz das velas. Ouvi tamb\u00e9m vozes, que ainda mais me atrapalharam, n\u00e3o cochichadas nem confusas, mas regulares, claras e tranq\u00fcilas, \u00e0 maneira de conversa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pude entender logo o que diziam. No meio disto, assaltou-me uma id\u00e9ia que me fez recuar. Como naquele tempo os cad\u00e1veres eram sepultados nas igrejas, imaginei que a conversa\u00e7\u00e3o podia ser de defuntos. Recuei espavorido, e s\u00f3 passado algum tempo, \u00e9 que pude reagir e chegar outra vez \u00e0 porta, dizendo a mim mesmo que semelhante id\u00e9ia era um disparate. A realidade ia dar-me cousa mais assombrosa que um di\u00e1logo de mortos. Encomendei-me a Deus, benzi-me outra vez e fui andando, sorrateiramente, encostadinho \u00e0 parede, at\u00e9 entrar. Vi ent\u00e3o uma cousa extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Dois dos tr\u00eas santos do outro lado, S. Jos\u00e9 e S. Miguel (\u00e0 direita de quem entra na igreja pela porta da frente), tinham descido dos nichos e estavam sentados nos seus altares. As dimens\u00f5es n\u00e3o eram as das pr\u00f3prias imagens, mas de homens. Falavam para o lado de c\u00e1, onde est\u00e3o os altares de S. Jo\u00e3o Batista e S. Francisco de Sales. N\u00e3o posso descrever o que senti. Durante algum tempo, que n\u00e3o chego a calcular, fiquei sem ir para diante nem para tr\u00e1s, arrepiado e tr\u00eamulo. Com certeza, andei beirando o abismo da loucura, e n\u00e3o ca\u00ed nele por miseric\u00f3rdia divina. Que perdi a consci\u00eancia de mim mesmo e de toda outra realidade que n\u00e3o fosse aquela, t\u00e3o nova e t\u00e3o \u00fanica, posso afirm\u00e1-lo; s\u00f3 assim se explica a temeridade corn que, dali a algum tempo, entrei mais pela igreja, a fim de olhar tamb\u00e9m para o lado oposto. Vi a\u00ed a mesma cousa: S. Francisco de Sales e S. Jo\u00e3o, descidos dos nichos, sentados nos altares e falando com os outros santos.<\/p>\n<p>Tinha sido tal a minha estupefa\u00e7\u00e3o que eles continuaram a falar, creio eu, sem que eu sequer ouvisse o rumor das vozes. Pouco a pouco, adquiri a percep\u00e7\u00e3o delas e pude compreender que n\u00e3o tinham interrompido a conversa\u00e7\u00e3o; distingui-as, ouvi claramente as palavras, mas n\u00e3o pude colher desde logo o sentido. Um dos santos, falando para o lado do altar-mor, fez-me voltar a cabe\u00e7a, e vi ent\u00e3o que S. Francisco de Paula, o orago da igreja, fizera a mesma cousa que os outros e falava para eles, como eles falavam entre si. As vozes n\u00e3o subiam do tom m\u00e9dio e, contudo, ouviam-se bem, como se as ondas sonoras tivessem recebido um poder maior de transmiss\u00e3o. Mas, se tudo isso era espantoso, n\u00e3o menos o era a luz, que n\u00e3o vinha de parte nenhuma, porque o lustres e casti\u00e7ais estavam todos apagados; era como um luar, que ali penetrasse, sem que os olhos pudessem ver a lua; compara\u00e7\u00e3o tanto mais exata quanto que, se fosse realmente luar, teria deixado alguns lugares escuros, como ali acontecia, e foi num desses recantos que me refugiei.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o procedia automaticamente. A vida que vivi durante esse tempo todo, n\u00e3o se pareceu com a outra vida anterior e posterior. Basta considerar que, diante de t\u00e3o estranho espet\u00e1culo, fiquei absolutamente sem medo; perdi a reflex\u00e3o, apenas sabia ouvir e contemplar.<\/p>\n<p>Compreendi, no fim de alguns instantes, que eles inventariavam e comentavam as ora\u00e7\u00f5es e implora\u00e7\u00f5es daquele dia. Cada um notava alguma cousa. Todos eles, terr\u00edveis psic\u00f3logos, tinham penetrado a alma e a vida dos fi\u00e9is, e desfibravam os sentimentos de cada um, como os anatomistas escalpelam um cad\u00e1ver. S. Jo\u00e3o Batista e S. Francisco de Paula, duros ascetas, mostravam-se \u00e0s vezes enfadados e absolutos. N\u00e3o era assim S. Francisco de Sales; esse ouvia ou contava as cousas com a mesma indulg\u00eancia que presidira ao seu famoso livro da Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota.<\/p>\n<p>Era assim, segundo o temperamento de cada um, que eles iam narrando e comentando. Tinham j\u00e1 contado casos de f\u00e9 sincera e casti\u00e7a, outros de indiferen\u00e7a, dissimula\u00e7\u00e3o e versatilidade; os dois ascetas estavam a mais e mais anojados, mas S. Francisco de Sales recordava-lhes o texto da Escritura: muitos s\u00e3o os chamados e poucos os escolhidos, significando assim que nem todos os que ali iam \u00e0 igreja levavam o cora\u00e7\u00e3o puro. S. Jo\u00e3o abanava a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Francisco de Sales, digo-te que vou criando um sentimento singular em santo: come\u00e7o a descrer dos homens.<\/p>\n<p>\u2014 Exageras tudo, Jo\u00e3o Batista, atalhou o santo bispo, n\u00e3o exageremos nada. Olha \u2014 ainda hoje aconteceu aqui uma cousa que me fez sorrir, e pode ser, entretanto, que te indignasse. Os homens n\u00e3o s\u00e3o piores do que eram em outros s\u00e9culos; descontemos o que h\u00e1 neles ruim, e ficar\u00e1 muita cousa boa. Cr\u00ea isto e h\u00e1s de sorrir ouvindo o meu caso.<\/p>\n<p>\u2014 Eu? \u2014 Tu, Jo\u00e3o Batista, e tu tamb\u00e9m, Francisco de Paula, e todos v\u00f3s haveis de sorrir comigo: e, pela minha parte, posso faz\u00ea-lo, pois j\u00e1 entercedi e alcancei do Senhor aquilo mesmo que me veio pedir esta pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 Que pessoa? \u2014 Uma pessoa mais interessante que o teu escriv\u00e3o, Jos\u00e9, e que o teu lojista, Miguel&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, atalhou S. Jos\u00e9, mas n\u00e3o h\u00e1 de ser mais interessante que a ad\u00faltera que aqui veio hoje prostrar-se a meus p\u00e9s. Vinha pedir-me que lhe limpasse o cora\u00e7\u00e3o da lepra da lux\u00faria. Brigara ontem mesmo com o namorado, que a injuriou torpemente, e passou a noite em l\u00e1grimas. De manh\u00e3, determinou abandon\u00e1-lo e veio buscar aqui a for\u00e7a precisa para sair das garras do dem\u00f4nio. Come\u00e7ou rezando bem, cordialmente; mas pouco a pouco vi que o pensamento a ia deixando para remontar aos primeiros deleites. As palavras paralelamente, iam ficando sem vida. J\u00e1 a ora\u00e7\u00e3o era morna, depois fria, depois inconsciente; os l\u00e1bios, afeitos \u00e0 reza, iam rezando; mas a alma, que eu espiava c\u00e1 de cima, essa j\u00e1 n\u00e3o estava aqui, estava com o outro. Afinal persignou-se, levantou-se e saiu sem pedir nada.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor \u00e9 o meu caso.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor que isto? perguntou S. Jos\u00e9 curioso.<\/p>\n<p>\u2014 Muito melhor, respondeu S. Francisco de Sales, e n\u00e3o \u00e9 triste como o dessa pobre alma ferida do mal da terra, que a gra\u00e7a do Senhor ainda pode salvar. E por que n\u00e3o salvar\u00e1 tamb\u00e9m a esta outra? L\u00e1 vai o que \u00e9.<\/p>\n<p>Calaram-se todos, inclinaram-se os bustos, atentos, esperando. Aqui fiquei com medo; lembrou-me que eles, que v\u00eaem tudo o que se passa no interior da gente, como se f\u00f4ssemos de vidro, pensamentos rec\u00f4nditos, inten\u00e7\u00f5es torcidas, \u00f3dios secretos, bem podiam ter-me lido j\u00e1 algum pecado ou g\u00e9rmen de pecado. Mas n\u00e3o tive tempo de refletir muito; S. Francisco de Sales come\u00e7ou a falar.<\/p>\n<p>\u2014 Tem cinq\u00fcenta anos o meu homem, disse ele, a mu]her est\u00e1 de cama, doente de uma erisipela na perna esquerda. H\u00e1 cinco dias vive aflito porque o mal agrava-se e a ci\u00eancia n\u00e3o responde pela cura. Vede, por\u00e9m, at\u00e9 onde pode ir um preconceito p\u00fablico. Ningu\u00e9m acredita na dor do Sales (ele tem o meu nome), ningu\u00e9m acredita que ele ame outra cousa que n\u00e3o seja dinheiro, e logo que houve not\u00edcia da sua afli\u00e7\u00e3o desabou em todo o bairro um aguaceiro de motes e dichotes; nem faltou quem acreditasse que ele gemia antecipadamente pelos gastos da sepultura.<\/p>\n<p>\u2014 Bem podia ser que sim, ponderou S. Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o era. Que ele \u00e9 usur\u00e1rio e avaro n\u00e3o o nego; usur\u00e1rio, como a vida, e avaro, como a morte. Ningu\u00e9m extraiu nunca t\u00e3o implacavelmente da algibeira dos outros o ouro, a prata, o papel e o cobre; ningu\u00e9m os amuou com mais zelo e prontid\u00e3o. Moeda que lhe cai na m\u00e3o dificilmente torna a sair; e tudo o que lhe sobra das casas mora dentro de um arm\u00e1rio de ferro, fechado a sete chaves. Abre-o \u00e0s vezes, por horas mortas, contempla o dinheiro alguns minutos, e fecha-o outra vez depressa; mas nessas noites n\u00e3o dorme, ou dorme mal. N\u00e3o tem filhos. A vida que leva \u00e9 s\u00f3rdida; come para n\u00e3o morrer, pouco e ruim. A fam\u00edlia comp\u00f5e-se da mulher e de uma preta escrava, comprada com outra, h\u00e1 muitos anos, e \u00e0s escondidas, Por serem de contrabando. Dizem at\u00e9 que nem as pagou, porque o vendedor faleceu logo sem deixar nada escrito. A outra preta morreu h\u00e1 pouco tempo; e aqui vereis se este homem tem ou n\u00e3o o g\u00eanio da economia, Sales libertou o cad\u00e1ver&#8230;<\/p>\n<p>E o santo bispo calou-se para saborear o espanto dos outros.<\/p>\n<p>\u2014 O cad\u00e1ver? \u2014 Sim, o cad\u00e1ver. Fez enterrar a escrava como pessoa livre e miser\u00e1vel, para n\u00e3o acudir \u00e0s despesas da sepultura. Pouco embora, era alguma cousa. E para ele n\u00e3o h\u00e1 pouco; com pingos d&#8217;\u00e1gua \u00e9 que se alagam as ruas. Nenhum desejo de representa\u00e7\u00e3o, nenhum gosto nobili\u00e1rio; tudo isso custa dinheiro, e ele diz que o dinheiro n\u00e3o lhe cai do c\u00e9u. Pouca sociedade, nenhuma recrea\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. Ouve e conta anedotas da vida alheia, que \u00e9 regalo gratuito.<\/p>\n<p>\u2014 Compreende-se a incredulidade p\u00fablica, ponderou S. Miguel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o, porque o mundo n\u00e3o vai al\u00e9m da superf\u00edcie das cousas. O mundo n\u00e3o v\u00ea que, al\u00e9m de caseira eminente educada por ele, e sua confidente de mais de vinte anos, a mulher deste Sales \u00e9 amada deveras pelo marido. N\u00e3o te espantes, Miguel; naquele muro asp\u00e9rrimo brotou uma flor descorada e sem cheiro mas flor. A bot\u00e2nica sentimental tem dessas anomalias. Sales ama a esposa; est\u00e1 abatido e desvairado com a id\u00e9ia de a perder. Hoje de manh\u00e3, muito cedo, n\u00e3o tendo dormido mais de duas horas entrou a cogitar no desastre pr\u00f3ximo. Desesperando da terra, voltou-se para Deus; pensou em n\u00f3s, e especialmente em mim que sou o santo do seu nome. S\u00f3 um milagre podia salv\u00e1-la; determinou vir aqui. Mora perto, e veio correndo. Quando entrou trazia o olhar brilhante e esperan\u00e7ado; podia ser a luz da f\u00e9, mas era outra cousa muito particular, que vou dizer. Aqui pe\u00e7o-vos que redobreis de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vi os bustos inclinarem-se ainda mais; eu pr\u00f3prio n\u00e3o pude esquivar-me ao movimento e dei um passo para diante. A narra\u00e7\u00e3o do santo foi t\u00e3o longa e mi\u00fada, a an\u00e1lise t\u00e3o complicada, que n\u00e3o as ponho aqui integralmente, mas em subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Quando pensou em vir pedir-me que intercedesse pela vida da esposa, Sales teve uma id\u00e9ia espec\u00edfica de usur\u00e1rio, a de prometer-me uma perna de cera. N\u00e3o foi o crente, que simboliza desta maneira a lembran\u00e7a do benef\u00edcio; foi o usur\u00e1rio que pensou em for\u00e7ar a gra\u00e7a divina pela expecta\u00e7\u00e3o do lucro. E n\u00e3o foi s\u00f3 a usura que falou, mas tamb\u00e9m a avareza; porque em verdade, dispondo-se \u00e0 promessa, mostrava ele querer deveras a vida da mulher \u2014 intui\u00e7\u00e3o de avaro; \u2014 despender \u00e9 documentar: s\u00f3 se quer de cora\u00e7\u00e3o aquilo que se paga a dinheiro, disse-lho a consci\u00eancia pela mesma boca escura. Sabeis que pensamentos tais n\u00e3o se formulam como outros, nascem das entranhas do car\u00e1ter e ficam na penumbra da consci\u00eancia. Mas eu li tudo nele logo que aqui entrou alvoro\u00e7ado, com o olhar f\u00falgido de esperan\u00e7a; li tudo e esperei que acabasse de benzer-se e rezar.<\/p>\n<p>\u2014 Ao menos, tem alguma religi\u00e3o, ponderou S. Jos\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma tem, rnas vaga e econ\u00f4mica. N\u00e3o entrou nunca ern irmandades e ordens terceiras, porque nelas se rouba o que pertence ao Senhor; \u00e9 o que ele diz para conciliar a devo\u00e7\u00e3o com a algibeira. Mas n\u00e3o se pode ter tudo; \u00e9 certo que ele teme a Deus e cr\u00ea na doutrina.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, ajoelhou-se e rezou.<\/p>\n<p>\u2014 Rezou. Enquanto rezava, via eu a pobre alma, que padecia deveras, conquanto a esperan\u00e7a come\u00e7asse a trocar-se em certeza intuitiva. Deus tinha de salvar a doente, por for\u00e7a, gra\u00e7as \u00e0 minha interven\u00e7\u00e3o, e eu ia interceder; \u00e9 o que ele pensava, enquanto os l\u00e1bios repetiam as palavras da ora\u00e7\u00e3o. Acabando a ora\u00e7\u00e3o, ficou Sales algum tempo olhando, com as m\u00e3os postas; afinal falou a boca do homem, falou para confessar a dor, para jurar que nenhuma outra m\u00e3o, al\u00e9m da do Senhor, podia atalhar o golpe. A mulher ia morrer&#8230; ia morrer&#8230; ia morrer&#8230; E repetia a palavra, sem sair dela. A mulher ia morrer. N\u00e3o passava adiante. Prestes a formular o pedido e a promessa n\u00e3o achava palavras id\u00f4neas, nem aproximativas, nem sequer d\u00fabias, n\u00e3o achava nada, t\u00e3o longo era o descostume de dar alguma cousa. Afinal saiu o pedido; a mulher ia morrer, ele rogava-me que a salvasse, que pedisse por ela ao Senhor. A promessa, por\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o acabava de sair. No momento em que a boca ia articular a primeira palavra, a garra da avareza mordia-lhe as entranhas e n\u00e3o deixava sair nada. Que a salvasse&#8230; que intercedesse por ela&#8230;<\/p>\n<p>No ar, diante dos olhos, recortava-se-lhe a perna de cera, e logo a moeda que ela havia de custar. A perna desapareceu, mas ficou a moeda, redonda, luzidia, amarela, ouro puro, completamente ouro, melhor que o dos casti\u00e7ais do meu altar, apenas dourados. Para onde quer que virasse os olhos, via a moeda, girando, girando, girando. E os olhos a apalpavam, de longe, e transmitiam-lhe a sensa\u00e7\u00e3o fria do metal e at\u00e9 a do relevo do cunho. Era ela mesma, velha amiga de longos anos, companheira do dia e da noite, era ela que ali estava no ar, girando, \u00e0s tontas; era ela que descia do tecto, ou subia do ch\u00e3o, ou rolava no altar, indo da Ep\u00edstola ao Evangelho, ou tilintava nos pingentes do lustre.<\/p>\n<p>Agora a s\u00faplica dos olhos e a melancolia deles eram mais intensas e puramente volunt\u00e1rias. Vi-os alongarem-se para mim, cheios de contri\u00e7\u00e3o, de humilha\u00e7\u00e3o, de desamparo; e a boca ia dizendo algumas cousas soltas, \u2014 Deus, \u2014 os anjos do Senhor, \u2014 as bentas chagas, \u2014 palavras lacrimosas e tr\u00eamulas, como para pintar por elas a sinceridade da f\u00e9 e a imensidade da dor. S\u00f3 a promessa da perna \u00e9 que n\u00e3o sa\u00eda. \u00c0s vezes, a alma, como pessoa que recolhe as for\u00e7as, a fim de saltar um valo, fitava longamente a morte da mulher e rebolcava-se no desespero que ela lhe havia de trazer; mas, \u00e0 beira do valo, quando ia a dar o salto, recuava. A moeda emergia dele e a prornessa ficava no cora\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>O tempo ia passando. A alucina\u00e7\u00e3o crescia, porque a moeda, acelerando e multiplicando os saltos, multiplicava-se a si mesma e parecia uma infinidade delas; e o conflito era cada vez mais tr\u00e1gico. De repente, o receio de que a mulher podia estar expirando, gelou o sangue ao pobre homem e ele quis precipitar-se. Podia estar expirando. Pedia-me que intercedesse por ela, que a salvasse&#8230;<\/p>\n<p>Aqui o dem\u00f4nio da avareza sugeria-lhe uma transa\u00e7\u00e3o nova, uma troca de esp\u00e9cie dizendo-lhe que o valor da ora\u00e7\u00e3o era superfino e muito mais excelso que o das obras terrenas. E o Sales, curvo, contrito, com as m\u00e3os postas, o olhar submisso, desamparado, resignado, pedia-me que lhe salvasse a mulher. Que lhe salvasse a mulher, e prometia-me trezentos, \u2014 n\u00e3o menos, \u2014 trezentos padre-nossos e trezentas ave-marias. E repetia enf\u00e1tico: trezentos, trezentas, trezentos&#8230; Foi subindo, chegou a quinhentos, a mil padre-nossos e mil ave-marias. N\u00e3o via esta soma escrita por letras do alfabeto, mas em algarismos, como se ficasse assim mais viva, mais exata, e a obriga\u00e7\u00e3o maior, e maior tamb\u00e9m a sedu\u00e7\u00e3o. Mil padre-nossos, mil ave-marias. E voltaram as palavras lacrimosas e tr\u00eamulas, as bentas chagas, os anjos do Senhor&#8230; 1.000 \u2014 1.000 \u2014 1.000. Os quatro algarismos foram crescendo tanto, que encheram a igreja de alto a baixo, e com eles, crescia o esfor\u00e7o do homem, e a confian\u00e7a tamb\u00e9m; a palavra sa\u00eda-lhe mais r\u00e1pida, impetuosa, j\u00e1 falada, mil, mil, mil, mil &#8230; Vamos l\u00e1, podeis rir \u00e0 vontade, concluiu S. Francisco de Sales.<\/p>\n<p>E os outros santos riram efetivamente, n\u00e3o daquele grande riso descomposto dos deuses de Homero, quando viram o coxo Vulcano servir \u00e0 mesa, mas de um riso modesto, tranq\u00fcilo, beato e cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>Depois, n\u00e3o pude ouvir mais nada. Ca\u00ed redondamente no ch\u00e3o. Quando dei por mim era dia claro. .. Corri a abrir todas as portas e janelas da igreja e da sacristia, para deixar entrar o sol, inimigo dos maus sonhos.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis QUANDO EU ERA capel\u00e3o de S. Francisco de Paula (contava um padre velho) aconteceu-me uma aventura extraordin\u00e1ria. Morava ao p\u00e9 da igreja, e recolhi-me tarde, uma noite. Nunca me recolhi tarde que n\u00e3o fosse ver primeiro se as portas do templo estavam bem fechadas. 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