{"id":120760,"date":"2017-04-28T18:39:56","date_gmt":"2017-04-28T20:39:56","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120760"},"modified":"2017-04-28T18:39:56","modified_gmt":"2017-04-28T20:39:56","slug":"d-paula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/d-paula","title":{"rendered":"D. Paula"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>N\u00c3O ERA POSS\u00cdVEL chegar mais a ponto. D. Paula entrou na sala exatamente quando a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar. Compreende-se o assombro da tia. Entender-se-\u00e1 tamb\u00e9m o da sobrinha, em se sabendo que D. Paula vive no alto da Tijuca, donde raras vezes desce; a \u00faltima foi pelo Natal passado, e estamos em maio de 1882. Desceu ontem, \u00e0 tarde, e foi para casa da irm\u00e3, Rua do Lavradio. Hoje, t\u00e3o depressa almo\u00e7ou, vestiu-se e correu a visitar a sobrinha. A primeira escrava que a viu, quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que n\u00e3o, e foi p\u00e9 ante p\u00e9, muito devagar, para impedir o rumor das saias, abriu a porta da sala de visitas, e entrou.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto? exclamou.<\/p>\n<p>Venancinh a atirou-se-lhe aos bra\u00e7os, as l\u00e1grimas vieram-lhe de novo. A tia beijou-a muito, abra\u00e7ou-a, disse-lhe palavras de conforto e pediu, e quis que lhe contasse o que era, se alguma doen\u00e7a, ou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Antes fosse uma doen\u00e7a! antes fosse a morte! interrompeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digas tolices; mas que foi? anda, que foi? Venancinha enxugou os olhos e come\u00e7ou a falar. N\u00e3o p\u00f4de ir al\u00e9m de cinco ou seis palavras; as l\u00e1grimas tornaram, t\u00e3o abundantes e impetuosas, que D. Paula achou de bom aviso deix\u00e1-las correr primeiro. Entretanto, foi tirando a capa de rendas pretas que a envolvia, e descal\u00e7ando as luvas . Era uma bonita velha, elegante, dona de um par de olhos grandes, que deviam ter sido infinitos. Enquanto a sobrinha chorava, ela foi cerrar cautelosamente a porta da sala, e voltou ao canap\u00e9. No fim de alguns minutos, Venancinha cessou de chorar, e confiou \u00e0 tia o que era.<\/p>\n<p>Era nada menos que uma briga com o marido, t\u00e3o violenta, que chegaram a falar de separa\u00e7\u00e3o. A causa eram ci\u00fames. Desde muito que o marido embirrava com um sujeito; mas na v\u00e9spera \u00e0 noite, em casa do C&#8230;, vendo-a dan\u00e7ar com ele duas vezes e conversar alguns minutos, concluiu que eram namorados. Voltou amuado para casa de manh\u00e3, acabado o almo\u00e7o, a c\u00f3lera estourou, e ele disse-lhe cousas duras e amargas, que ela repeliu com outras.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 teu marido? perguntou a tia.<\/p>\n<p>\u2014 Saiu; parece que foi para o escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>D. Paula perguntou-lhe se o escrit\u00f3rio era ainda o mesmo, e disse-lhe que descansasse, que n\u00e3o era nada, dali a duas horas tudo estaria acabado. Cal\u00e7ava as luvas rapidamente.<\/p>\n<p>\u2014 Titia vai l\u00e1? \u2014 Vou&#8230; Pois ent\u00e3o? Vou. Teu marido \u00e9 bom, s\u00e3o arrufos. 104? Vou l\u00e1; espera por mim, que as escravas n\u00e3o te vejam.<\/p>\n<p>Tudo isso era dito com volubilidade, confian\u00e7a e do\u00e7ura. Cal\u00e7adas as luvas, p\u00f4s o mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando tamb\u00e9m, jurando que, apesar de tudo, adorava o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde 1874. D. Paula saiu, levando muitos beijos da mo\u00e7a. Na verdade, n\u00e3o podia chegar mais a ponto. De caminho, parece que ela encarou o incidente, n\u00e3o digo desconfiada, mas curiosa, um pouco inquieta da realidade positiva; em todo caso ia resoluta a reconstruir a paz dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Chegou, n\u00e3o achou o sobrinho no escrit\u00f3rio, mas ele veio logo, e, passado o primeiro espanto, n\u00e3o foi preciso que D. Paula lhe dissesse o objeto da visita; Conrado adivinhou tudo. Confessou que fora excessivo em algumas cousas, e, por outro lado, n\u00e3o atribu\u00eda \u00e0 mulher nenhuma \u00edndole perversa ou viciosa. S\u00f3 isso; no mais, era uma cabe\u00e7a de vento, muito amiga de cortesias, de olhos ternos, de palavrinhas doces, e a leviandade tamb\u00e9m \u00e9 uma das portas do v\u00edcio. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa de quem se tratava, n\u00e3o tinha d\u00favida de que eram namorados. Venancinha contara s\u00f3 o fato da v\u00e9spera; n\u00e3o referiu outros, quatro ou cinco, o pen\u00faltimo no teatro, onde chegou a haver tal ou qual escandalo. N\u00e3o estava disposto a cobrir com a sua responsabilidade os desazos da mulher. Que namorasse, mas por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>D. Paula ouviu tudo, calada; depois falou tamb\u00e9m. Concordava que a sobrinha fosse leviana; era pr\u00f3prio da idade. Mo\u00e7a bonita n\u00e3o sai \u00e0 rua sem atrair os olhos, e \u00e9 natural que a admira\u00e7\u00e3o dos outros a lisonjeie. Tamb\u00e9m \u00e9 natural que o que ela fizer de lisonjeada pare\u00e7a aos outros e ao marido um princ\u00edpio de namoro: a fatuidade de uns e o ci\u00fame do outro explicam tudo. Pela parte dela, acabava de ver a mo\u00e7a chorar l\u00e1grimas sinceras, deixou-a consternada, falando de morrer, abatida com o que ele lhe dissera. E se ele pr\u00f3prio s\u00f3 lhe atribu\u00eda leviandade, por que n\u00e3o proceder com cautela e do\u00e7ura, por meio de conselho e de observa\u00e7\u00e3o, poupando-lhe as ocasi\u00f5es, apontando-lhe o mal que fazem \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o de uma senhora as apar\u00eancias de acordo, de simpatia, de boa vontade para os homens? N\u00e3o gastou menos de vinte minutos a boa senhora em dizer essas cousas mansas, com t\u00e3o boa sombra, que o sobrinho sentiu apaziguar-se-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Resistia, \u00e9 verdade; duas ou tr\u00eas vezes, para n\u00e3o resvalar na indulg\u00eancia, declarou \u00e0 tia que entre eles tudo estava acabado. E, para animar-se, evocava mentalmente as raz\u00f5es que tinha contra a mulher. A tia, por\u00e9m, abaixava a cabe\u00e7a para deixar passar a onda, e surgia outra vez com os seus grandes olhos sagazes e teimosos. Conrado ia cedendo aos poucos e mal. Foi ent\u00e3o que D. Paula prop\u00f4s um meio-termo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea perdoa-lhe, fazem as pazes, e ela vai estar comigo, na Tijuca, um ou dous meses; uma esp\u00e9cie de desterro. Eu, durante este tempo, encarrego-me de lhe p\u00f4r ordem no esp\u00edrito. Valeu? Conrado aceitou. D. Paula, t\u00e3o depressa obteve a palavra, despediu-se para levar a boa nova \u00e0 outra, Conrado acompanhou-a at\u00e9 \u00e0 escada. Apertaram as m\u00e3os; D. Paula n\u00e3o soltou a dele sem lhe repetir os conselhos de brandura e prud\u00eancia; depois, fez esta reflex\u00e3o natural: \u2014 E v\u00e3o ver que o homem de quem se trata nem merece um minuto dos nossos cuidados&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um tal Vasco Maria Portela&#8230;<\/p>\n<p>D. Paula empalideceu. Que Vasco Maria Portela? Um velho, antigo diplomata, que. .. N\u00e3o, esse estava na Europa desde alguns anos, aposentado, e acabava de receber um t\u00edtulo de bar\u00e3o. Era um filho dele, chegado de pouco, um pelintra&#8230; D. Paula apertou-lhe a m\u00e3o, e desceu rapidamente. No corredor, sem ter necessidade de ajustar a capa, f\u00ea-lo durante alguns minutos, com a m\u00e3o tr\u00eamula e um pouco de alvoro\u00e7o na fisionomia. Chegou mesmo a olhar para o ch\u00e3o, refletindo. Saiu, foi ter com a sobrinha, levando a reconcilia\u00e7\u00e3o e a cl\u00e1usula. Venancinha aceitou tudo.<\/p>\n<p>Dous dias depois foram para a Tijuca. Venancinha ia menos alegre do que prometera; provavelmente era o ex\u00edlio, ou pode ser tamb\u00e9m que algumas saudades. Em todo caso, o nome de Vasco subiu a Tijuca, se n\u00e3o em ambas as cabe\u00e7as, ao menos na da tia, onde era uma esp\u00e9cie de eco, um som remoto e brando, alguma cousa que parecia vir do tempo da Stoltz e do minist\u00e9rio Paran\u00e1. Cantora e minist\u00e9rio, cousas fr\u00e1geis, n\u00e3o o eram menos que a ventura de ser mo\u00e7a, e onde iam essas tr\u00eas eternidades? Jaziam nas ru\u00ednas de trinta anos. Era tudo o que D. Paula tinha em si e diante de si.<\/p>\n<p>J\u00e1 se entende que o outro Vasco, o antigo, tamb\u00e9m foi mo\u00e7o e amou. Amaram-se, fartaram-se um do outro, \u00e0 sombra do casamento, durante alguns anos, e, como o vento que passa n\u00e3o guarda a palestra dos homens, n\u00e3o h\u00e1 meio de escrever aqui o que ent\u00e3o se disse da aventura. A aventura acabou; foi uma sucess\u00e3o de horas doces e amargas, de del\u00edcias, de l\u00e1grimas, de c\u00f3leras, de arroubos, drogas v\u00e1rias com que encheram a esta senhora a ta\u00e7a das paix\u00f5es. D. Paula esgotou-a inteira e emborcou-a depois para n\u00e3o mais beber. A saciedade trouxe-lhe a abstin\u00eancia, e com o tempo foi esta \u00faltima fase que fez a opini\u00e3o. Morreu-lhe o marido e foram vindo os anos. D. Paula era agora uma pessoa austera e pia, cheia de prest\u00edgio e considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sobrinha \u00e9 que lhe levou o pensamento ao passado. Foi a presen\u00e7a de uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga, de mistura com o nome e o sangue do mesmo homem, que lhe acordou algumas velhas lembran\u00e7as. N\u00e3o esque\u00e7am que elas estavam na Tijuca, que iam viver juntas algumas semanas, e que uma obedecia \u00e0 outra; era tentar e desafiar a mem\u00f3ria \u2014 Mas n\u00f3s deveras n\u00e3o voltamos \u00e0 cidade t\u00e3o cedo? perguntou Venancinha rindo, no outro dia de manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014J\u00e1 est\u00e1s aborrecida? \u2014N\u00e3o, n\u00e3o, isso nunca, mas pergunto&#8230;<\/p>\n<p>D. Paula, rindo tamb\u00e9m, fez com o dedo um gesto negativo; depois, perguntou-lhe se tinha saudades c\u00e1 de baixo. Venancinha respondeu que nenhumas; e para dar mais for\u00e7a \u00e0 resposta, acompanhou-a de um descair dos cantos da boca, a modo de indiferen\u00e7a e desd\u00e9m. Era p\u00f4r demais na carta, D. Paula tinha o bom costume de n\u00e3o ler \u00e0s carreiras, como quem vai salvar o pai da forca, mas devagar, enfiando os olhos entre as s\u00edlabas e entre as letras, para ver tudo, e achou que o gesto da sobrinha era excessivo.<\/p>\n<p>&#8220;Eles amam-se!&#8221; pensou ela.<\/p>\n<p>A descoberta avivou o esp\u00edrito do passado. D. Paula forcejou por sacudir fora essas mem\u00f3rias importunas; elas, por\u00e9m, voltavam, ou de manso ou de assalto, como raparigas que eram, cantando, rindo, fazendo o diabo. D. Paula tornou aos seus bailes de outro tempo, \u00e0s suas eternas valsas que faziam pasmar a toda a gente, \u00e0s mazurcas, que ela metia \u00e0 cara das sobrinha como sendo a mais graciosa cousa do mundo, e aos teatros, e \u00e0s cartas, e vagamente, aos beijos; mas tudo isso \u2014 e esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o \u2014 tudo isso era como as frias cr\u00f4nicas, esqueleto da hist\u00f3ria, sem a alma da hist\u00f3ria. Passava-se tudo na cabe\u00e7a. D. Paula tentava emparelhar o cora\u00e7\u00e3o com o c\u00e9rebro, a ver se sentia alguma cousa al\u00e9m da pura repeti\u00e7\u00e3o mental, mas, por rnais que evocasse as como\u00e7\u00f5es extintas, n\u00e3o lhe voltava nenhuma. Cousas truncadas! Se ela conseguisse espiar para dentro do cora\u00e7\u00e3o da sobrinha , pode ser que achasse ali a sua imagem, e ent\u00e3o&#8230; Desde que esta id\u00e9ia penetrou no esp\u00edrito de D. Paula, complicou-lhe um pouco a obra de repara\u00e7\u00e3o e cura. Era sincera, tratava da alma da ourta, queria v\u00ea-la restitu\u00edda ao marido. Na const\u00e2ncia do pecado \u00e9 que se pode desejar que outros pequem tamb\u00e9m, para descer de companhia ao purgat\u00f3rio; mas aqui o pecado j\u00e1 n\u00e3o existia. D. Paula mostrava \u00e0 sobrinha a superioridade do marido, as suas virtudes e assim tamb\u00e9m as paix\u00f5es, que podiam dar um mau desfecho ao casamento, pior que tr\u00e1gico, o rep\u00fadio.<\/p>\n<p>Conrado, na primeira visita que lhes fez, nove dias depois, confirmou a advert\u00eancia da tia; entrou frio e saiu frio. Venancinha ficou aterrada. Esperava que os nove dias de separa\u00e7\u00e3o tivessem abrandado o marido, e, em verdade, assim era; mas ele mascarou-se \u00e0 entrada e conteve-se para n\u00e3o capitular. E isto foi mais salutar que tudo o mais. O terror de perder o marido foi o principal elemento de restaura\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio desterro n\u00e3o p\u00f4de tanto.<\/p>\n<p>Vai sen\u00e3o quando, dois dias depois daquela visita, estando ambas ao port\u00e3o da ch\u00e1cara, prestes a sair para o passeio do costume, viram vir um cavaleiro. Venancinha fixou a vista, deu um pequeno grito, e correu a esconder-se atr\u00e1s do muro. D. Paula compreendeu e ficou. Quis ver o cavaleiro de mais perto; viu-o dali a dois ou tr\u00eas minutos, um galhardo rapaz, elegante, com as suas finas botas lustrosas, muito bem-posto no selim; tinha a mesma cara do outro Vasco, era o filho; o mesmo jeito da cabe\u00e7a, um pouco \u00e0 direita, os mesmos ombros largos, os mesmos olhos redondos e profundos.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite, Venancinha contou-lhe tudo, depois da primeira palavra que ela lhe arrancou. Tinham-se visto nas corridas, uma vez, logo que ele chegou da Europa. Quinze dias depois, foi-lhe apresentado em um baile, e pareceu-lhe t\u00e3o bem, com um ar t\u00e3o parisiense, que ela falou dele, na manh\u00e3 seguinte, ao marido. Conrado franziu o sobrolho, e foi este gesto que lhe deu uma id\u00e9ia que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha. Come\u00e7ou a v\u00ea-lo com prazer; da\u00ed a ponco com certa ansiedade. Ele falava-lhe respeitosamente, dizia-lhe cousas amiga, que ela era a mais bonita mo\u00e7a do Rio, e a mais elegante, que j\u00e1 em Paris ouvira elogi\u00e1-la muito, por algumas senhoras da fam\u00edlia Alvarenga. Tinha gra\u00e7a em criticar os outros, e sabia dizer tamb\u00e9m umas palavras sentidas, como ningu\u00e9m. N\u00e3o falava de amor, mas perseguia-a com os olhos, e ela, por mais que afastasse os seus, n\u00e3o podia afast\u00e1-los de todo. Come\u00e7ou a pensar nele, amiudadamente, com interesse, e quando se encontravam, batia-lhe muito o cora\u00e7\u00e3o, pode ser que ele lhe visse ent\u00e3o, no rosto, a impress\u00e3o que fazia.<\/p>\n<p>D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narra\u00e7\u00e3o, que a\u00ed fica apenas resumida e coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, parecia beber as palavras da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E pedia-lhe mais, que lhe contasse tudo, tudo. Venancinha criou confian\u00e7a. O ar da tia era t\u00e3o jovem, a exorta\u00e7\u00e3o t\u00e3o meiga e cheia de um perd\u00e3o antecipado, que ela achou ali uma confidente e amiga, n\u00e3o obstante algumas frases severas que lhe ouviu, mescladas \u00e0s outras, por um motivo de inconsciente hipocrisia. N\u00e3o digo c\u00e1lculo; D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos compar\u00e1-la a um general inv\u00e1lido, que forceja por achar um pouco do antigo ardor na audi\u00eancia de outras campanhas.<\/p>\n<p>\u2014J\u00e1 v\u00eas que teu marido tinha raz\u00e3o, dizia ela; foste imprudente, muito imprudente&#8230;<\/p>\n<p>Venancinha achou que sim, mas jurou que estava tudo acabado.<\/p>\n<p>\u2014 Receio que n\u00e3o. Chegaste a am\u00e1-lo deveras? \u2014Titia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Tu ainda gostas dele! \u2014Juro que n\u00e3o. N\u00e3o gosto; mas confesso&#8230; sim&#8230; confesso que gostei. . . Perdoe-me tudo; n\u00e3o diga nada a Conrado; estou arrependida&#8230; Repito que a princ\u00edpio um pouco fascinada&#8230; Mas que quer a senhora? \u2014 Ele declarou-te alguma cousa? \u2014Declarou; foi no teatro, uma noite, no Teatro L\u00edrico, \u00e0 sa\u00edda. Tinha costume de ir buscar-me ao camarote e conduzir-me at\u00e9 o carro, e foi \u00e0 sa\u00edda&#8230; duas palavras&#8230;<\/p>\n<p>D. Paula n\u00e3o perguntou, por pudor, as pr\u00f3prias palavras do namorado, mas imaginou as circunst\u00e2ncias, o corredor, os pares que sa\u00edam, as luzes, a multid\u00e3o, o rumor das vozes, e teve o poder de representar, com o quadro, um pouco das sensa\u00e7\u00f5es dela; e pediu-lhas com interesse, astutamente.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o sei o que senti, acudiu a mo\u00e7a cuja como\u00e7\u00e3o crescente ia desatando a l\u00edngua; n\u00e3o me lembro dos primeiros cinco minutos. Creio que fiquei s\u00e9ria; em todo o caso, n\u00e3o lhe disse nada. Pareceu-me que toda gente olhava para n\u00f3s, que teriam ouvido, e quando algu\u00e9m me cumprimentava sorrindo, dava-me id\u00e9ia de estar ca\u00e7oando. Desci as escadas n\u00e3o sei como, entrei no carro sem saber o que fazia; ao apertar-lhe a m\u00e3o, afrouxei bem os dedos. Juro-lhe que n\u00e3o queria ter ouvido nada. Conrado disse-me que tinha sono, e encostou-se ao fundo do carro; foi melhor assim, porque eu n\u00e3o sei que diria, se tiv\u00e9ssemos de ir conversando. Encostei-me tamb\u00e9m, mas por pouco tempo; n\u00e3o podia estar na mesma posi\u00e7\u00e3o. Olhava para fora atrav\u00e9s dos vidros, e via s\u00f3 o clar\u00e3o dos lampi\u00f5es, de quando em quando, e afinal nem isso mesmo; via os corredores do teatro, as escadas, as pessoas todas, e ele ao p\u00e9 de mim, cochichando as palavras, duas palavras s\u00f3, e n\u00e3o posso dizer o que pensei em todo essse tempo; tinha as id\u00e9ias baralhadas, confusas, uma revolu\u00e7\u00e3o em mim . . .<\/p>\n<p>\u2014 Mas, em casa? \u2014Em casa, despindo-me, \u00e9 que pude refletir um pouco, mas muito pouco. Dormi tarde, e mal. De manh\u00e3, tinha a cabe\u00e7a aturdida. N\u00e3o posso dizer que estava alegre nem triste, lembro-me que pensava muito nele, e para arred\u00e1-lo prometi a mim mesma revelar tudo ao Conrado; mas o pensamento voltava outra vez. De quando em quando, parecia-me escutar a voz dele, e estremecia. Cheguei a lembrar-me que, \u00e0 despedida, lhe dera os dedos frouxos, e sentia, n\u00e3o sei como diga, uma esp\u00e9cie de arrependimento, um medo de o ter ofendido&#8230; e depois vinha o desejo de o ver outra vez&#8230; Perdoe-me, titia; a senhora \u00e9 que quer que lhe conte tudo.<\/p>\n<p>A resposta de D. Paula foi apertar-lhe muito a m\u00e3o e fazer um gesto de cabe\u00e7a. Afinal achava alguma cousa de outro tempo, ao contacto daquelas sensa\u00e7\u00f5es ingenuamente narradas. Tinha os olhos ora meio cerrados, na sonol\u00eancia da recorda\u00e7\u00e3o, \u2014 ora agu\u00e7ados de curiosidade e calor, e ouvia tudo, dia por dia, encontro por encontro, a pr\u00f3pria cena do teatro, que a sobrinha a princ\u00edpio lhe ocultara. E vinha tudo o mais, horas de \u00e2nsia, de saudade, de medo, de esperan\u00e7a, desalentos, dissimula\u00e7\u00f5es, \u00edmpetos, toda a agita\u00e7\u00e3o de uma criatura em tais circunst\u00e2ncias, nada dispensava a curiosidade insaci\u00e1vel da tia. N\u00e3o era um livro, n\u00e3o era sequer um cap\u00edtulo de adult\u00e9rio, mas um pr\u00f3logo, \u2014 interessante e violento.<\/p>\n<p>Venancinha acabou. A tia n\u00e3o lhe disse nada, deixou-se estar metida em si mesma; depois acordou, pegou-lhe na m\u00e3o e puxou-a. N\u00e3o lhe falou logo; fitou primeiro, e de perto, toda essa mocidade, inquieta e palpitante, a boca fresca, os olhos ainda infinitos, e s\u00f3 voltou a si quando a sobrinha lhe pediu outra vez perd\u00e3o. D. Paula disse-lhe tudo o que a ternura e a austeridade da m\u00e3e lhe poderia dizer, falou-lhe de castidade, de amor ao marido, de respeito p\u00fablico; foi t\u00e3o eloq\u00fcente que Venancinha n\u00e3o p\u00f4de conter-se, e chorou.<\/p>\n<p>Veio o ch\u00e1, mas n\u00e3o h\u00e1 ch\u00e1 poss\u00edvel depois de certas confid\u00eancias. Venancinha recolheu-se logo, e, como a luz era agora maior, saiu da sala com os olhos baixos, para que o criado lhe n\u00e3o visse a como\u00e7\u00e3o. D. Paula ficou diante da mesa e do criado. Gastou vinte minutos, ou pouco menos, em beber uma x\u00edcara de ch\u00e1 e roer um biscouto, e apenas ficou s\u00f3, foi encostar-se \u00e0 janela, que dava para a ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Ventava um pouco, as folhas moviam-se sussurrando, e, conquanto n\u00e3o fossem as mesmas do outro tempo, ainda assim perguntavam-lhe: &#8220;Paula, voc\u00ea lembra-se do outro tempo?&#8221; Que esta \u00e9 a particularidade das folhas, as gera\u00e7\u00f5es que passam contam \u00e0s que chegam as cousas que viram, e \u00e9 assim que todas sabem tudo e perguntam por tudo. Voc\u00ea lembra-se do outro tempo? Lembrar, lembrava, mas aquela sensa\u00e7\u00e3o de h\u00e1 pouco, reflexo apenas, tinha agora cessado. Em v\u00e3o repetia as palavras da sobrinha, farejando o ar agreste da noite: era s\u00f3 na cabe\u00e7a que achava algum vest\u00edgio, reminisc\u00eancias, cousas truncadas. O cora\u00e7\u00e3o empacara de novo, o sangue ia outra vez com a andadura do costume. Faltava-lhe o contacto moral da outra. E continuava, apesar de tudo, diante da noite, que era igual \u00e0s outras noites de ent\u00e3o, e nada tinha que se parecesse com as do tempo da Stoltz e do Marqu\u00eas de Paran\u00e1; mas continuava, e l\u00e1 dentro as pretas espalhavam o sono contando anedotas, e diziam, uma ou outra vez, impacientes: \u2014Sinh\u00e1 velha hoje deita tarde como diabo!<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis N\u00c3O ERA POSS\u00cdVEL chegar mais a ponto. D. Paula entrou na sala exatamente quando a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar. Compreende-se o assombro da tia. Entender-se-\u00e1 tamb\u00e9m o da sobrinha, em se sabendo que D. Paula vive no alto da Tijuca, donde raras vezes desce; a \u00faltima foi pelo Natal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120760","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>D. Paula, Machado de Assis D. Paula<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"D. Paula, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, D. 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