{"id":120758,"date":"2017-04-28T18:38:12","date_gmt":"2017-04-28T20:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120758"},"modified":"2017-04-28T18:38:12","modified_gmt":"2017-04-28T20:38:12","slug":"adao-e-eva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/adao-e-eva","title":{"rendered":"Ad\u00e3o e Eva"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas \u00edntimas \u00e0 mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. N\u00e3o foi preciso mais; da\u00ed a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do para\u00edso devia caber a Eva ou a Ad\u00e3o. As senhoras diziam que a Ad\u00e3o, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que n\u00e3o dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor: \u2014 Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e n\u00e3o mentia, porque era insigne na viola e na harpa, n\u00e3o menos que na teologia.<\/p>\n<p>Consultado, o juiz-de-fora respondeu que n\u00e3o havia mat\u00e9ria para opini\u00e3o; porque as cousas no para\u00edso terrestre passaram-se de modo diferente do que est\u00e1 contado no primeiro livro do Pentateuco, que \u00e9 ap\u00f3crifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era tamb\u00e9m jovial e inventivo, e at\u00e9 amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, fa\u00e7a calar o Sr. Veloso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o fa\u00e7o calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca h\u00e1 de sair tudo com boa significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a Escritura&#8230; ia dizendo o mestre-de-campo Jo\u00e3o Barbosa.<\/p>\n<p>\u2014 Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o o aut\u00eantico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se n\u00e3o mandam o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 l\u00e1, diga.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, n\u00e3o foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cruz! exclamaram as senhoras.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga esse nome, pediu D. Leonor.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, parece que&#8230; ia intervindo frei Bento.<\/p>\n<p>\u2014 Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as m\u00e3os livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao pr\u00f3prio mal n\u00e3o ficasse a desesperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o ou do benef\u00edcio. E a a\u00e7\u00e3o divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as \u00e1guas, nasceram as tempestades e os furac\u00f5es; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas s\u00f3 os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, por\u00e9m, criou as \u00e1rvores frut\u00edferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da \u00e1gua e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui pe\u00e7o que redobrem de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.<\/p>\n<p>Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso n\u00e3o podia dar, e s\u00f3 com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a miseric\u00f3rdia divina; fez brotar um jardim de del\u00edcias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro ca\u00edram aos p\u00e9s do Senhor, derramando l\u00e1grimas de gratid\u00e3o. &#8220;Vivereis aqui&#8221;, disse-lhe o Senhor, &#8220;e comereis de todos os frutos, menos o desta \u00e1rvore, que \u00e9 a da ci\u00eancia do Bem e do Mal.&#8221; Ad\u00e3o e Eva ouviram submissos; e ficando s\u00f3s, olharam um para o outro, admirados; n\u00e3o pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um la\u00e7o a Ad\u00e3o, e Ad\u00e3o tinha \u00edmpetos de espanc\u00e1-la. Agora, por\u00e9m, embebiam-se na contempla\u00e7\u00e3o um do outro, ou na vista da natureza, que era espl\u00eandida. Nunca at\u00e9 ent\u00e3o viram ares t\u00e3o puros, nem \u00e1guas t\u00e3o frescas, nem flores t\u00e3o lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as m\u00e3os percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o sabiam rir. N\u00e3o tinham a sensa\u00e7\u00e3o do tempo. N\u00e3o sentiam o peso da ociosidade; viviam da contempla\u00e7\u00e3o. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.<\/p>\n<p>Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. N\u00e3o podia ir ao para\u00edso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no ch\u00e3o entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoro\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, serpe, fel rasteiro, pe\u00e7onha das pe\u00e7onhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai? A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, \u2014 \u00e0s estrelas, se lhe desse as asas da \u00e1guia \u2014 ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na \u00e1gua \u2014 ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava \u00e0 toa, sem parar, contente e pr\u00f3diga da l\u00edngua; mas o diabo interrompeu-a: \u2014 Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem \u00e0 terra, mas t\u00e3o-somente ao jardim de del\u00edcias, onde est\u00e3o vivendo Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n<p>\u2014 Ad\u00e3o e Eva? \u2014 Sim, Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n<p>\u2014 Duas belas criaturas que vimos andar h\u00e1 tempos, altas e direitas como palmeiras? \u2014 Justamente.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! detesto-os. Ad\u00e3o e Eva? N\u00e3o, n\u00e3o, manda-me a outro lugar. Detesto-os! S\u00f3 a vista deles faz-me padecer muito. N\u00e3o h\u00e1s de querer que lhes fa\u00e7a mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 justamente para isso.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras? Ent\u00e3o vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que fa\u00e7a. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contr\u00e1rio. H\u00e1 no jardim uma \u00e1rvore, que \u00e9 a da ci\u00eancia do Bem e do Mal; eles n\u00e3o devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na \u00e1rvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que \u00e9 a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que n\u00e3o, tu insistir\u00e1s, dizendo que \u00e9 bastante com\u00ea-la para conhecer o pr\u00f3prio segredo da vida. Vai, vai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vou; mas n\u00e3o falarei a Ad\u00e3o, falarei a Eva. Vou, vou. Que \u00e9 o pr\u00f3prio segredo da vida, n\u00e3o? \u2014 Sim, o pr\u00f3prio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te sa\u00edres bem, juro que ter\u00e1s a melhor parte na cria\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a parte humana, porque ter\u00e1s muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Ad\u00e3o em que deitar o v\u00edrus do mal&#8230; Vai, vai, n\u00e3o te esque\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Esquecer? J\u00e1 levava tudo de cor. Foi, penetrou no para\u00edso, rastejou at\u00e9 a \u00e1rvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu da\u00ed a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a seguran\u00e7a de uma rainha que sabe que ningu\u00e9m lhe arrancar\u00e1 a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a pe\u00e7onha \u00e0 l\u00edngua, mas advertiu que estava ali \u00e0s ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Quem me chama? \u2014 Sou eu, estou comendo desta fruta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desgra\u00e7ada, \u00e9 a \u00e1rvore do Bem e do Mal! \u2014 Justamente. Conhe\u00e7o agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e ter\u00e1s um grande poder na terra.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, p\u00e9rfida! \u2014 N\u00e9scia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e ser\u00e1s legi\u00e3o, fundar\u00e1s cidades, e chamar-te-\u00e1s Cle\u00f3patra, Dido, Sem\u00edramis; dar\u00e1s her\u00f3is do teu ventre, e ser\u00e1s Corn\u00e9lia; ouvir\u00e1s a voz do c\u00e9u, e ser\u00e1s D\u00e9bora; cantar\u00e1s e ser\u00e1s Safo. E um dia, se Deus quiser descer \u00e0 terra, escolher\u00e1 as tuas entranhas, e chamar-te-\u00e1s Maria de Nazar\u00e9. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obedi\u00eancia. Nem ser\u00e1 s\u00f3 isso. Toda a natureza te far\u00e1 bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do c\u00e9u azul, vivas ou p\u00e1lidas, cores da noite, h\u00e3o de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, vir\u00e1 brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecer\u00e3o para ti as melhores vestiduras, compor\u00e3o os mais finos aromas, e as aves te dar\u00e3o as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo&#8230;<\/p>\n<p>Eva escutava impass\u00edvel; Ad\u00e3o chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do para\u00edso, nem a ci\u00eancia, nem o poder, nenhuma outra ilus\u00e3o da terra. Dizendo isto, deram as m\u00e3os um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.<\/p>\n<p>Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel: \u2014 Vai, arcanjo meu, desce ao para\u00edso terrestre, onde vivem Ad\u00e3o e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventuran\u00e7a, que mereceram pela repulsa \u00e0s instiga\u00e7\u00f5es do Tinhoso.<\/p>\n<p>E logo o arcanjo, pondo na cabe\u00e7a o elmo de diamante, que rutila como um milhar de s\u00f3is, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Ad\u00e3o e Eva, e disse-lhes: \u2014 Salve, Ad\u00e3o e Eva. Vinde comigo para o para\u00edso, que merecestes pela repulsa \u00e0s instiga\u00e7\u00f5es do Tinhoso.<\/p>\n<p>Um e outro, at\u00f4nitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obedi\u00eancia; ent\u00e3o Gabriel deu as m\u00e3os a ambos, e os tr\u00eas subiram at\u00e9 \u00e0 est\u00e2ncia eterna, onde mir\u00edades de anjos os esperavam, cantando: \u2014 Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue \u00e0s obras do Tinhoso, aos animais ferozes e mal\u00e9ficos, \u00e0s plantas daninhas e pe\u00e7onhentas, ao ar impuro, \u00e0 vida dos p\u00e2ntanos. Reinar\u00e1 nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a v\u00f3s por\u00e1 entre tanta abomina\u00e7\u00e3o a nota da esperan\u00e7a e da piedade.<\/p>\n<p>E foi assim que Ad\u00e3o e Eva entraram no c\u00e9u, ao som de todas as c\u00edtaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da cria\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explica\u00e7\u00e3o, ouviam uma narra\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou: \u2014 Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. N\u00e3o foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, n\u00e3o \u00e9, frei Bento? \u2014 L\u00e1 o saber\u00e1 o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.<\/p>\n<p>E o juiz-de-fora, levando \u00e0 boca uma colher de doce: \u2014 Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas tamb\u00e9m, D. Leonor, se tivesse acontecido, n\u00e3o estar\u00edamos aqui saboreando este doce, que est\u00e1, na verdade, uma cousa primorosa. \u00c9 ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas \u00edntimas \u00e0 mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. 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