{"id":120756,"date":"2017-04-28T18:36:45","date_gmt":"2017-04-28T20:36:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120756"},"modified":"2017-04-28T18:36:45","modified_gmt":"2017-04-28T20:36:45","slug":"a-desejada-das-gentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-desejada-das-gentes","title":{"rendered":"A Desejada das Gentes"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>\u2014 AH! CONSELHEIRO, a\u00ed come\u00e7a a falar em verso.<\/p>\n<p>\u2014 Todos os homens devem ter uma lira no cora\u00e7\u00e3o, \u2014 ou n\u00e3o sejam homens. Que a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, n\u00e3o o digo eu, mas de longe em longe, e por algumas reminisc\u00eancias particulares&#8230; Sabe por que \u00e9 que lhe pare\u00e7o poeta, apesar das Ordena\u00e7\u00f5es do Reino e dos cabelos grisalhos? \u00e9 porque vamos por esta Gl\u00f3ria adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros. . . L\u00e1 est\u00e1 o outeiro c\u00e9lebre. . . Adiante h\u00e1 uma casa..<\/p>\n<p>\u2014 Vamos andando.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos&#8230; Divina Quint\u00edlia! Todas essas caras que a\u00ed passam s\u00e3o outras, mas falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; \u00e9 a lira que ressoa, e a imagina\u00e7\u00e3o faz o resto. Divina Quint\u00edlia! \u2014 Chamava-se Quint\u00edlia? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina, uma linda mo\u00e7a com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta? \u2014 Isso. Que fim levou? \u2014 Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me h\u00e1 de esquecer esse dia. Vou contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que tamb\u00e9m para o senhor. Olhe, a casa era aquela&#8230; Morava com um tio, chefe de esquadra reformado, tinha outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quint\u00edlia&#8230; Que idade pensa que teria, quando a conheci? \u2014 Se foi em 1855&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em 1855.<\/p>\n<p>\u2014 Devia ter vinte anos.<\/p>\n<p>\u2014 Tinha trinta.<\/p>\n<p>\u2014 Trinta? \u2014 Trinta anos. N\u00e3o os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa idade. Ela pr\u00f3pria a confessava e at\u00e9 com afeta\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, uma de suas amigas afirmava que Quint\u00edlia n\u00e3o passa-va dos vinte e sete; mas como ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u2014 Mau, nada de ironias; olhe que a ironia n\u00e3o faz boa cama com a saudade.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 a saudade sen\u00e3o uma ironia do tempo e da fortuna? Veja l\u00e1; come\u00e7o a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, n\u00e3o os parecia. Lembra-se bem que era magra e alta; tinha os olhos como eu ent\u00e3o dizia, que pareciam cortados da capa da \u00faltima noite, mas apesar de noturnos, sem mist\u00e9rios nem abismos. A voz era brand\u00edssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe \u00e0 boca um ar de riso. Ria tamb\u00e9m, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se os olhos n\u00e3o tinham mist\u00e9rios&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tanto n\u00e3o os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. J\u00e1 a conhec\u00edamos, eu e o meu companheiro de escrit\u00f3rio, o Jo\u00e3o N\u00f3brega, ambos principiantes na advocacia, e \u00edntimos como ningu\u00e9m mais; mas nunca nos lembrou namor\u00e1-la. Ela andava ent\u00e3o no galarim; era bela, rica, elegante, e da primeira roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provis\u00f3rio entre dois atos dos Puritanos, estando eu num corredor, ouvi um grupo de mo\u00e7os que falavam dela, como de uma fortaleza inexpugn\u00e1vel. Dous confessaram haver tentado alguma cousa, mas sem fruto; e todos pasmavam do celibato da mo\u00e7a que lhes parecia sem explica\u00e7\u00e3o. E chalaceavam: um dizia que era promessa at\u00e9 ver se engordava primeiro; outro que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do c\u00e9u; trivialidades que me aborreceram muito, e da parte dos que confessavam t\u00ea-la cortejado ou amado, achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo \u00e9 que ela era extraordinariamente bela; a\u00ed foram entusiastas eksinceros.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! ainda me lembro!&#8230; era muito bonita.<\/p>\n<p>\u2014 No dia seguinte, ao chegar ao escrit\u00f3rio, entre duas causas que n\u00e3o vinham, contei ao N\u00f3brega a conversa\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera. N\u00f3brega riu-se do caso, refletiu, e depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando, calado. \u2014 Aposto que a namoras? perguntei-lhe. \u2014 N\u00e3o, disse ele; nem tu? Pois lembrou-me uma cousa: vamos tentar o assalto \u00e0 fortaleza? Que perdemos com isso? Nada, ou ela nos p\u00f5e na rua, e j\u00e1 podemos esper\u00e1-lo, ou aceita um de n\u00f3s, e tanto melhor para o outro que ver\u00e1 o seu amigo feliz. \u2014 Est\u00e1s falando s\u00e9rio? \u2014 Muito s\u00e9rio. \u2014 N\u00f3brega acrescentou que n\u00e3o era s\u00f3 a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha a presun\u00e7\u00e3o de ser esp\u00edrito pr\u00e1tico, mas era principalmente um sonhador que vivia lendo e construindo aparelhos sociais e pol\u00edticos. Segundo ele, os tais rapazes do teatro evitavam falar dos bens da mo\u00e7a, que eram um dos feiti\u00e7os dela, e uma das causas prov\u00e1veis da desconsola\u00e7\u00e3o de uns e dos sarcasmos de todos. E dizia-me: \u2014 Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem tamb\u00e9m bani-lo; n\u00e3o vamos crer que ele d\u00e1 tudo, mas reconhe\u00e7amos que d\u00e1 alguma cousa e at\u00e9 muita cousa, \u2014 este rel\u00f3gio, por exemplo. Combatamos pela nossa Quint\u00edlia, minha ou tua, mas provavelmente minha, porque sou mais bonito que tu.<\/p>\n<p>\u2014 Conselheiro, a confiss\u00e3o \u00e9 grave, foi assim brincando&#8230;? \u2014 Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos metemos em neg\u00f3cio de tanta pondera\u00e7\u00e3o, que podia acabar em nada, mas deu muito de si. Era um come\u00e7o estouvado, quase um passatempo de crian\u00e7as, sem a nota da sinceridade; mas o homem p\u00f5e e a esp\u00e9cie disp\u00f5e. Conhec\u00edamo-la, posto n\u00e3o tiv\u00e9ssemos encontros freq\u00fcentes; uma vez que nos dispusemos a uma a\u00e7\u00e3o comum, entrou um elemento novo na nossa vida, e dentro de um m\u00eas est\u00e1vamos brigados.<\/p>\n<p>\u2014 Brigados? \u2014 Ou quase. N\u00e3o t\u00ednhamos contado com ela, que nos enfeiti\u00e7ou a ambos, violentamente. Em algumas semanas j\u00e1 pouco fal\u00e1vamos de Quint\u00edlia, e com indiferen\u00e7a; trat\u00e1vamos de enganar um ao outro e dissimular o que sent\u00edamos. Foi assim que as nossas rela\u00e7\u00f5es se dissolveram, no fim de seis meses, sem \u00f3dio, nem luta, nem demonstra\u00e7\u00e3o externa, porque ainda nos fal\u00e1vamos, onde o acaso nos reunia; mas j\u00e1 ent\u00e3o t\u00ednhamos banca separada.<\/p>\n<p>\u2014 Come\u00e7o a ver uma pontinha do drama. . .<\/p>\n<p>\u2014 Trag\u00e9dia, diga trag\u00e9dia; porque da\u00ed a pouco tempo, ou por desengano verbal que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, N\u00f3brega deixou-me s\u00f3 em campo. Arranjou uma nomea\u00e7\u00e3o de juiz municipal l\u00e1 para os sert\u00f5es da Bahia, onde definhou e morreu antes de acabar o quatri\u00eanio. E juro-lhe que n\u00e3o foi o inculcado esp\u00edrito pr\u00e1tico de N\u00f3brega que o separou de mim; ele, que tanto falara das vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um simples Werther.<\/p>\n<p>\u2014 Menos a pistola.<\/p>\n<p>\u2014Tamb\u00e9m o veneno mata; e o amor de Quint\u00edlia podia dizer-se alguma cousa parecido com isso, foi o que o matou, e o que ainda hoje me d\u00f3i. . . Mas, vejo pelo seu dito que o estou aborrecendo.. .<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus. Juro-lhe que n\u00e3o; foi uma gra\u00e7ola que me escapou. Vamos adiante, conselheiro; ficou s\u00f3 em campo.<\/p>\n<p>\u2014 Quint\u00edlia n\u00e3o deixava ningu\u00e9m estar s\u00f3 em campo, \u2014 n\u00e3o digo por ela, mas pelos outros. Muitos vinham ali tomar um c\u00e1lix de esperan\u00e7as, e iam cear a outra parte. Ela n\u00e3o favorecia a um mais que a outro, mas era lhana, graciosa e tinha essa esp\u00e9cie de olhos derramados que n\u00e3o foram feitos para homens ciumentos. Tive ci\u00fames amargos e, \u00e0s vezes, terr\u00edveis. Todo argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal acostumei-me a ver que eram passageiros de um dia. Outros me metiam mais medo, eram os que vinham dentro da luva das amigas. Creio que houve duas ou tr\u00eas negocia\u00e7\u00f5es dessas, mas sem resultado. Quint\u00edlia declarou que nada faria sem consultar o tio, e o tio aconselhou a recusa, \u2014 cousa que ela sabia de antem\u00e3o. O bom velho n\u00e3o gostava nunca da visita de homens, com receio de que a sobrinha escolhesse algum e casasse. Estava t\u00e3o acostumado a traz\u00ea-la ao p\u00e9 de si, como uma muleta da velha alma aleijada, que temia perd\u00ea-la inteiramente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seria essa a causa da isen\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da mo\u00e7a? \u2014 Vai ver que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O que noto \u00e9 que o senhor era mais teimoso que os outros. . .<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; Iludido, a princ\u00edpio, porque no meio de tantas candidaturas malogradas, Quint\u00edlia preferia-me a todos os outros homens, e conversava comigo mais largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a correr que nos cas\u00e1vamos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas conversavam de qu\u00ea? \u2014 De tudo o que ela n\u00e3o conversava com os outros; e era de fazer pasmar que uma pessoa t\u00e3o amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo t\u00e3o severa e grave, t\u00e3o diferente do que costumava ou parecia ser.<\/p>\n<p>\u2014 A raz\u00e3o \u00e9 clara: achava a sua conversa\u00e7\u00e3o menos insossa que a dos outros homens.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado; era mais profunda a causa da diferen\u00e7a, e a diferen\u00e7a ia-se acentuando com os tempos. Quando a vida c\u00e1 embaixo a aborrecia muito, ia para o Cosme Velho, e ali as nossas conversa\u00e7\u00f5es eram mais freq\u00fcentes e compridas. N\u00e3o lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que foram as horas que ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que jorrava dela. Muitas vezes quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras tinham medo e ficavam no cora\u00e7\u00e3o. Escrevi cartas sobre cartas; todas me pareciam frias, difusas, ou inchadas de estilo. Demais, ela n\u00e3o dava ensejo a nada, tinha um ar de velha amiga. No princ\u00edpio de 1857 adoeceu meu pai em Itabora\u00ed; corri a v\u00ea-lo, achei-o moribundo. Este fato reteve-me fora da Corte uns quatro meses. Voltei pelos fins de maio. Quint\u00edlia recebeu-me triste da minha tristeza, e vi claramente que o meu luto passara aos olhos dela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas que era isso sen\u00e3o amor? \u2014 Assim o cri, e dispus a minha vida para despos\u00e1-la. Nisto, adoeceu o tio gravemente. Quint\u00edlia n\u00e3o ficava s\u00f3, se ele morresse, porque, al\u00e9m dos muitos parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua do Catete, uma prima, D. Ana, vi\u00fava; mas, \u00e9 certo que a afei\u00e7\u00e3o principal ia-se embora e nessa transi\u00e7\u00e3o da vida presente \u00e0 vida ulterior podia eu alcan\u00e7ar o que desejava. A mol\u00e9stia do tio foi breve; ajudada da velhice, levou-o em duas sema-nas. Digo-lhe aqui que a morte dele lembrou-me a de meu pai, e a dor que ent\u00e3o senti foi quase a mesma. Quint\u00edlia viu-me padecer, compreendeu o duplo motivo, e, segundo me disse depois, estimou a coincid\u00eancia do golpe, uma vez que t\u00ednhamos de o receber sem falta e t\u00e3o breve. A palavra pareceu-me um convite matrimonial; dois meses depois cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana ficara morando com ela e estavam no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terra\u00e7o, que ficava perto da montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D. Ana, que nos presumia namorados, deixou-nos o campo livre.<\/p>\n<p>\u2014 Enfim! \u2014 No terra\u00e7o, lugar solit\u00e1rio, e posso dizer agreste, proferi a primeira palavra. O meu plano era justamente precipitar tudo, com medo de que, cinco minutos de conversa me tirassem as for\u00e7as. Ainda assim, n\u00e3o sabe o que me custou; custaria menos uma batalha, e juro-lhe que n\u00e3o nasci para guerras. Mas aquela mulher magrinha e delicada impunha-se-me, como nenhuma outra, antes e depois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o? \u2014 Quint\u00edlia adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e deixou-me falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e negativa. Casar para qu\u00ea? Era melhor que fic\u00e1ssemos amigos como dantes. Respondi-lhe que a amizade era, em mim, desde muito, a simples sentinela do amor; n\u00e3o podendo mais cont\u00ea-lo, deixou que ele sa\u00edsse. Quint\u00edlia sorriu da met\u00e1fora, o que me doeu, e sem raz\u00e3o; ela, vendo o efeito, fez-se outra vez s\u00e9ria e tratou de persuadir-me de que era melhor n\u00e3o casar. \u2014 Estou velha, disse ela; vou em trinta e tr\u00eas anos. \u2014 Mas se eu a amo assim mesmo, repliquei, e disse-lhe uma por\u00e7\u00e3o de cousas, que n\u00e3o poderia repetir agora. Quint\u00edlia refletiu um instante; depois insistiu nas rela\u00e7\u00f5es de amizade; disse que, posto que mais mo\u00e7o que ela, tinha a gravidade de um homem mais velho e inspirava-lhe confian\u00e7a como nenhum outro. Desesperan\u00e7ado, dei algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe tudo. Ao saber da minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a separa\u00e7\u00e3o em que ficamos, sentiu-se, n\u00e3o sei se diga, magoada ou irritada. Censurou-nos a ambos, n\u00e3o valia a pena que cheg\u00e1ssemos a tal ponto. \u2014 A senhora diz isso porque n\u00e3o sente a mesma cousa. \u2014 Mas ent\u00e3o \u00e9 um del\u00edrio? \u2014 Creio que sim; o que lhe afian\u00e7o \u00e9 que ainda agora, se fosse necess\u00e1rio, separar-me-ia dele uma e cem vezes; e creio poder afirmar-lhe que ele faria a mesma cousa. Aqui olhou ela espantada para mim, como se olha para uma pessoa cujas faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabe\u00e7a, e repetiu que fora um erro; n\u00e3o valia a pena. \u2014 Fiquemos amigos, disse-me, estendendo a m\u00e3o. \u2014 \u00c9 imposs\u00edvel; pede-me cousa superior \u00e0s minhas for\u00e7as, nunca poderei ver na senhora uma simples amiga; n\u00e3o desejo impor-lhe nada; dir-lhe-ei at\u00e9 que nem mais insisto, porque n\u00e3o aceitaria outra resposta agora. Trocamos ainda algumas palavras, e retirei-me&#8230; Veja a minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Treme-lhe ainda&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o lhe contei tudo. N\u00e3o lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem a dor e o despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter provocado aquele desengano desde as primeiras semanas, mas a culpa foi da esperan\u00e7a, que \u00e9 uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras plantas melhores. No fim de cinco dias sa\u00ed para Itabora\u00ed, onde me chamaram alguns interesses do invent\u00e1rio de meu pai. Quando voltei, tr\u00eas semanas depois, achei em casa uma carta de Quint\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u2014 Abri-a alvoro\u00e7adamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos \u00faltimos sucessos, e dizia cousas meigas e graves. Quint\u00edlia afirmava ter esperado por mim todos os dias, n\u00e3o cuidando que eu levasse o ego\u00edsmo at\u00e9 n\u00e3o voltar l\u00e1 mais, por isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos meus sentimentos pessoais e sem eco uma p\u00e1gina de hist\u00f3ria acabada; que ficasse s\u00f3 o amigo, e l\u00e1 fosse ver a sua amiga. E conclu\u00eda com estas singulares palavras: &#8220;Quer uma garantia? Juro-lhe que n\u00e3o casarei nunca.&#8221; Compreendi que um v\u00ednculo de simpatia moral nos ligava um ao outro; com a diferen\u00e7a que o que era em mim paix\u00e3o espec\u00edfica, era nela uma simples elei\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter. \u00c9ramos dois s\u00f3cios, que entravam no com\u00e9rcio da vida com diferente capital: eu, tudo o que possu\u00eda; ela, quase um \u00f3bolo. Respondi \u00e0 carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obedi\u00eancia e o meu amor, que cedia, mas de m\u00e1 vontade, porque, depois do que se passara entre n\u00f3s, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra rid\u00edculo, j\u00e1 escrita, para poder ir v\u00ea-la sem este vexame; bastava o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Aposto que seguiu atr\u00e1s da carta? \u00c9 o que eu faria, porque essa mo\u00e7a, ou eu me engano ou estava morta por casar com o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe a sua fisiologia usual; este caso \u00e9 particular\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol m\u00edstico; depois, o senhor, que o recebera, podia desobrig\u00e1-la dele, uma vez que aproveitasse com a absolvi\u00e7\u00e3o. Mas, enfim, correr \u00e0 casa dele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o corri; fui dous dias depois. No intervalo, respondeu ela \u00e0 minha carta com um bilhete carinhoso, que rematava com esta id\u00e9ia: &#8220;n\u00e3o fale de humilha\u00e7\u00e3o, onde n\u00e3o houve p\u00fablico.&#8221; Fui, voltei uma e mais vezes e restabeleceram-se as nossas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se falou em nada; ao princ\u00edpio, custou-me muito parecer o que era dantes; depois, o dem\u00f4nio da esperan\u00e7a veio pousar outra vez no meu cora\u00e7\u00e3o; e, sem nada exprimir, cuidei que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo. E foi essa esperan\u00e7a que me retificou aos meus pr\u00f3prios olhos, na situa\u00e7\u00e3o em que me achava. Os boatos de nosso casamento correram mundo. Chegaram aos nossos ouvidos; eu negava formalmente e s\u00e9rio; ela dava de ombros e ria. Foi essa fase da nossa vida a mais serena para mim, salvo um incidente curto, um diplomata austr\u00edaco ou n\u00e3o sei que, rapag\u00e3o, elegante, ruivo, olhos grandes e atrativos, e fidalgo ainda por cima. Quint\u00edlia mostrou-se-lhe t\u00e3o graciosa, que ele cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante. Creio que algum gesto meu, inconsciente, ou ent\u00e3o um pouco da percep\u00e7\u00e3o fina que o c\u00e9u lhe dera, levou depressa o desengano \u00e0 lega\u00e7\u00e3o austr\u00edaca. Pouco depois ela adoeceu; e foi ent\u00e3o que a nossa intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, resolveu n\u00e3o sair, e isso mesmo lhe disseram os m\u00e9dicos. L\u00e1 passava eu muitas horas diariamente. Ou elas tocavam, ou jog\u00e1vamos os tr\u00eas, ou ent\u00e3o lia-se alguma cousa; a maior parte das vezes convers\u00e1vamos somente. Foi ent\u00e3o que a estudei muito; escutando as suas leituras vi que os livros puramente amorosos achava-os incompreens\u00edveis, e, se as paix\u00f5es a\u00ed eram violentas, largava-os com t\u00e9dio. N\u00e3o falava assim por ignorante; tinha not\u00edcia vaga das paix\u00f5es, e assistira a algumas alheias.<\/p>\n<p>\u2014 De que mol\u00e9stia padecia? \u2014 Da espinha. Os m\u00e9dicos diziam que a mol\u00e9stia n\u00e3o era talvez recente, e ia tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde mar\u00e7o desse ano a mol\u00e9stia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para os fins do m\u00eas chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais en\u00e9rgica diante da iminente cat\u00e1strofe; estava ent\u00e3o de uma magreza transparente, quase fluida; ria, ou antes, sorria apenas, e vendo que eu escondia as minhas l\u00e1grimas, apertava-me as m\u00e3os agradecida. Um dia, estando s\u00f3 com o m\u00e9dico, perguntou-lhe a verdade; ele ia mentir, ela disse-lhe que era in\u00fatil, que estava perdida. \u2014 Perdida, n\u00e3o, murmurou o m\u00e9dico. \u2014 Jura que n\u00e3o estou perdida? \u2014 Ele hesitou, ela agradeceu-lho. Uma vez certa que morria, ordenou o que prometera a si mesma.<\/p>\n<p>\u2014 Casou com o senhor, aposto? \u2014 N\u00e3o me relembre essa triste cerim\u00f4nia; ou antes, deixe-me relembr\u00e1-la, porque me traz algum alento do passado. N\u00e3o aceitou recusas nem pedidos meus; casou comigo \u00e0 beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei os \u00faltimos dois dias, at\u00e9 20 de abril ao p\u00e9 da minha noiva moribunda, e abracei-a pela primeira vez feita cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso \u00e9 bem esquisito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que dir\u00e1 a sua fisiologia. A minha, que \u00e9 de profano, cr\u00ea que aquela mo\u00e7a tinha ao casamento uma avers\u00e3o puramente f\u00edsica. Casou meio defunta, \u00e0s portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente divino.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis \u2014 AH! CONSELHEIRO, a\u00ed come\u00e7a a falar em verso. \u2014 Todos os homens devem ter uma lira no cora\u00e7\u00e3o, \u2014 ou n\u00e3o sejam homens. 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