{"id":120754,"date":"2017-04-28T18:35:04","date_gmt":"2017-04-28T20:35:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120754"},"modified":"2017-04-28T18:35:04","modified_gmt":"2017-04-28T20:35:04","slug":"a-causa-secreta-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-causa-secreta-2","title":{"rendered":"A Causa Secreta"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>GARCIA, EM P\u00c9, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balan\u00e7o, olhava para o tecto; Maria Lu\u00edsa, perto da janela, conclu\u00eda um trabalho de agulha. Havia j\u00e1 cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, \u2014 de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de sa\u00fade, que adiante se explicar\u00e1. Como os tr\u00eas personagens aqui presentes est\u00e3o agora mortos e enterrados, tempo \u00e9 de contar a hist\u00f3ria sem rebu\u00e7o.<\/p>\n<p>Tinham falado tamb\u00e9m de outra cousa, al\u00e9m daquelas tr\u00eas, cousa t\u00e3o feia e grave, que n\u00e3o lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de sa\u00fade. Toda a conversa\u00e7\u00e3o a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Lu\u00edsa parecem ainda tr\u00eamulos, ao passo que h\u00e1 no rosto de Garcia uma express\u00e3o de severidade, que lhe n\u00e3o \u00e9 habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para faz\u00ea-lo entender \u00e9 preciso remontar \u00e0 origem da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, \u00e0 porta da Santa Casa; entrava, quando o outro sa\u00eda. Fez-lhe impress\u00e3o a figura; mas, ainda assim, t\u00ea-la-ia esquecido, se n\u00e3o fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distra\u00e7\u00f5es era ir ao teatro de S. Janu\u00e1rio, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por m\u00eas, e nunca achava acima de quarenta pessoas. S\u00f3 os mais intr\u00e9pidos ousavam estender os passos at\u00e9 aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao p\u00e9 dele.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a era um dramalh\u00e3o, cosido a facadas, ouri\u00e7ado de impreca\u00e7\u00f5es e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a aten\u00e7\u00e3o dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na pe\u00e7a reminisc\u00eancias pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato n\u00e3o esperou por ela e saiu; Garcia saiu atr\u00e1s dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. Jos\u00e9, at\u00e9 o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando \u00e0s vezes, para dar uma bengalada em algum c\u00e3o que dormia; o c\u00e3o ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num t\u00edlburi, e seguiu para os lados da pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.<\/p>\n<p>Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do s\u00f3t\u00e3o, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensang\u00fcentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 a\u00ed vem um, acudiu algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Garcia olhou: era o pr\u00f3prio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposi\u00e7\u00e3o, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha fam\u00edlia ou pessoa pr\u00f3xima. Disse-lhe o preto que n\u00e3o, e ele assumiu a dire\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, pediu \u00e0s pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o m\u00e9dico. Em seguida contou o que se passara.<\/p>\n<p>\u2014 Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece que eles feriram tamb\u00e9m a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos; mas eu s\u00f3 vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, ro\u00e7ando por ele, meteu-lhe o punhal. N\u00e3o caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor traz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Conhecia-o antes? perguntou Garcia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, nunca o vi. Quem \u00e9? \u2014 \u00c9 um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouv\u00eaa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei quem \u00e9.<\/p>\n<p>M\u00e9dico e subdelegado vieram da\u00ed a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as informa\u00e7\u00f5es. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o m\u00e9dico, acompanhou-o at\u00e9 o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declara\u00e7\u00e3o de estar pronto a auxiliar as pesquisas da pol\u00edcia. Os dous sa\u00edram, ele e o estudante ficaram no quarto.<\/p>\n<p>Garcia estava at\u00f4nito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranq\u00fcilamente, estirar as pernas, meter as m\u00e3os nas algibeiras das cal\u00e7as, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a express\u00e3o dura, seca e fria. Cara magra e p\u00e1lida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma t\u00eampora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensa\u00e7\u00e3o que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; n\u00e3o podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedica\u00e7\u00e3o, e se era desinteressado como parecia, n\u00e3o havia mais que aceitar o cora\u00e7\u00e3o humano como um po\u00e7o de mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de conclu\u00edda, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indica\u00e7\u00f5es do nome, rua e n\u00famero.<\/p>\n<p>\u2014 Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.<\/p>\n<p>Correu a Catumbi da\u00ed a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouv\u00eaa, defronte dele, sentado e calado, alisava o chap\u00e9u com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licen\u00e7a para sair, e saiu.<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.<\/p>\n<p>O pobre-diabo saiu de l\u00e1 mortificado, humilhado, mastigando a custo o desd\u00e9m, forcejando por esquec\u00ea-lo, explic\u00e1-lo ou perdo\u00e1-lo, para que no cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 ficasse a mem\u00f3ria do benef\u00edcio; mas o esfor\u00e7o era v\u00e3o. O ressentimento, h\u00f3spede novo e exclusivo, entrou e p\u00f4s fora o benef\u00edcio, de tal modo que o desgra\u00e7ado n\u00e3o teve mais que trepar \u00e0 cabe\u00e7a e refugiar-se ali como uma simples id\u00e9ia. Foi assim que o pr\u00f3prio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso assombrou o Garcia. Este mo\u00e7o possu\u00eda, em g\u00e9rmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da an\u00e1lise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, at\u00e9 apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e n\u00e3o achou nenhum.<\/p>\n<p>Tempos depois, estando j\u00e1 formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma g\u00f4ndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freq\u00fc\u00eancia trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visit\u00e1-lo ali perto, em Catumbi.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe que estou casado? \u2014 N\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>\u2014 Casei-me h\u00e1 quatro meses, podia dizer quatro dias. V\u00e1 jantar conosco domingo.<\/p>\n<p>\u2014 Domingo? \u2014 N\u00e3o esteja forjando desculpas; n\u00e3o admito desculpas. V\u00e1 domingo.<\/p>\n<p>Garcia foi l\u00e1 domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele n\u00e3o mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram mais atraentes que dantes. Os obs\u00e9quios, por\u00e9m, se n\u00e3o resgatavam a natureza, davam alguma compensa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o era pouco. Maria Lu\u00edsa \u00e9 que possu\u00eda ambos os feiti\u00e7os, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia n\u00e3o passar de dezenove. Garcia, \u00e0 segunda vez que l\u00e1 foi, percebeu que entre eles havia alguma disson\u00e2ncia de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resigna\u00e7\u00e3o e no temor. Um dia, estando os tr\u00eas juntos, perguntou Garcia a Maria Lu\u00edsa se tivera not\u00edcia das circunst\u00e2ncias em que ele conhecera o marido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Vai ouvir uma a\u00e7\u00e3o bonita.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vale a pena, interrompeu Fortunato.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Contou o caso da rua de D. Manoel. A mo\u00e7a ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a m\u00e3o e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Fortunato sacudia os ombros, mas n\u00e3o ouvia com indiferen\u00e7a. No fim contou ele pr\u00f3prio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos sil\u00eancios, em suma, um est\u00fardio. E ria muito ao cont\u00e1-la. N\u00e3o era o riso da dobrez. A dobrez \u00e9 evasiva e obl\u00edqua; o riso dele era jovial e franco.<\/p>\n<p>&#8221; Singular homem!&#8221; pensou Garcia.<\/p>\n<p>Maria Lu\u00edsa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o m\u00e9dico restituiu-lhe a satisfa\u00e7\u00e3o anterior, voltando a referir a dedica\u00e7\u00e3o deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; t\u00e3o bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de sa\u00fade, irei convid\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Valeu? perguntou Fortunato.<\/p>\n<p>\u2014 Valeu o qu\u00ea? \u2014 Vamos fundar uma casa de sa\u00fade? \u2014 N\u00e3o valeu nada; estou brincando.<\/p>\n<p>\u2014 Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que come\u00e7a a cl\u00ednica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.<\/p>\n<p>Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a id\u00e9ia tinha-se metido na cabe\u00e7a ao outro, e n\u00e3o foi poss\u00edvel recuar mais. Na verdade, era uma boa estr\u00e9ia para ele, e podia vir a ser um bom neg\u00f3cio para ambos. Aceitou finalmente, da\u00ed a dias, e foi uma desilus\u00e3o para Maria Lu\u00edsa. Criatura nervosa e fr\u00e1gil, padecia s\u00f3 com a id\u00e9ia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas n\u00e3o ousou opor-se-lhe, e curvou a cabe\u00e7a. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade \u00e9 que Fortunato n\u00e3o curou de mais nada, nem ent\u00e3o, nem depois. Aberta a casa, foi ele o pr\u00f3prio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.<\/p>\n<p>Garcia p\u00f4de ent\u00e3o observar que a dedica\u00e7\u00e3o ao ferido da rua D. Manoel n\u00e3o era um caso fortuito, mas assentava na pr\u00f3pria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos f\u00e2mulos. N\u00e3o recuava diante de nada, n\u00e3o conhecia mol\u00e9stia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as opera\u00e7\u00f5es, e nenhum outro curava os c\u00e1usticos.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho muita f\u00e9 nos c\u00e1usticos, dizia ele.<\/p>\n<p>A comunh\u00e3o dos interesses apertou os la\u00e7os da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Lu\u00edsa, cuja solid\u00e3o moral era evidente. E a solid\u00e3o como que lhe duplicava o encanto. Garcia come\u00e7ou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas m\u00fasicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no cora\u00e7\u00e3o. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato n\u00e3o houvesse outro la\u00e7o que o da amizade; mas n\u00e3o p\u00f4de. P\u00f4de apenas tranc\u00e1-lo; Maria Lu\u00edsa compreendeu ambas as coisas, a afei\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio, mas n\u00e3o se deu por achada.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do m\u00e9dico a situa\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e c\u00e3es. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laborat\u00f3rio para casa, e a mulher, complei\u00e7\u00e3o nervosa, teve de os sofrer. Um dia, por\u00e9m, n\u00e3o podendo mais, foi ter com o m\u00e9dico e pediu-lhe que, como cousa sua, alcan\u00e7asse do marido a cessa\u00e7\u00e3o de tais experi\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a senhora mesma&#8230;<\/p>\n<p>Maria Lu\u00edsa acudiu, sorrindo: \u2014 Ele naturalmente achar\u00e1 que sou crian\u00e7a. O que eu queria \u00e9 que o senhor, como m\u00e9dico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz&#8230;<\/p>\n<p>Garcia alcan\u00e7ou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ningu\u00e9m o soube, mas pode ser que sim. Maria Lu\u00edsa agradeceu ao m\u00e9dico, tanto por ela como pelos animais, que n\u00e3o podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe ver o pulso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contr\u00e1rio, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observ\u00e1-la e avisar o marido em tempo.<\/p>\n<p>Dois dias depois, \u2014 exatamente o dia em que os vemos agora, \u2014 Garcia foi l\u00e1 jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando \u00e0 porta, no momento em que Maria Lu\u00edsa sa\u00eda aflita.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 O rato! O rato! exclamou a mo\u00e7a sufocada e afastando-se.<\/p>\n<p>Garcia lembrou-se que na v\u00e9spera ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado \u00e0 mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com esp\u00edrito de vinho. O l\u00edquido flamejava. Entre o polegar e o \u00edndice da m\u00e3o esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz at\u00e9 a chama, r\u00e1pido, para n\u00e3o mat\u00e1-lo, e disp\u00f4s-se a fazer o mesmo \u00e0 terceira, pois j\u00e1 lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.<\/p>\n<p>\u2014 Mate-o logo! disse-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vai.<\/p>\n<p>E com um sorriso \u00fanico, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a del\u00edcia \u00edntima das sensa\u00e7\u00f5es supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento at\u00e9 a chama. O miser\u00e1vel estorcia-se, guinchando, ensang\u00fcentado, chamuscado, e n\u00e3o acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a m\u00e3o para impedir que o supl\u00edcio continuasse, mas n\u00e3o chegou a faz\u00ea-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a \u00faltima pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cad\u00e1ver. Ao desc\u00ea-lo pela quarta vez, at\u00e9 a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.<\/p>\n<p>Garcia, defronte, conseguia dominar a repugn\u00e2ncia do espet\u00e1culo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem \u00f3dio; t\u00e3o-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audi\u00e7\u00e3o de uma bela sonata ou a vista de uma est\u00e1tua divina, alguma coisa parecida com a pura sensa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, n\u00e3o estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um res\u00edduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela \u00faltima vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cad\u00e1ver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.<\/p>\n<p>Ao levantar-se deu com o m\u00e9dico e teve um sobressalto. Ent\u00e3o, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a c\u00f3lera evidentemente era fingida.<\/p>\n<p>&#8220;Castiga sem raiva&#8221;, pensou o m\u00e9dico, &#8220;pela necessidade de achar uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer, que s\u00f3 a dor alheia lhe pode dar: \u00e9 o segredo deste homem&#8221;.<\/p>\n<p>Fortunato encareceu a import\u00e2ncia do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, \u00e9 certo, mas o tempo agora era-lhe precios\u00edssimo. Garcia ouvia s\u00f3, sem dizer nada, nem lhe dar cr\u00e9dito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explica\u00e7\u00e3o para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redu\u00e7\u00e3o de Cal\u00edgula.<\/p>\n<p>Quando Maria Lu\u00edsa voltou ao gabinete, da\u00ed a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas m\u00e3os e falou-lhe mansamente: \u2014 Fracalhona! E voltando-se para o m\u00e9dico: \u2014 H\u00e1 de crer que quase desmaiou? Maria Lu\u00edsa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se \u00e0 janela com as suas l\u00e3s e agulhas, e os dedos ainda tr\u00eamulos, tal qual a vimos no come\u00e7o desta hist\u00f3ria. H\u00e3o de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os tr\u00eas, o marido sentado e olhando para o teto, o m\u00e9dico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar n\u00e3o foi alegre. Maria Lu\u00edsa cismava e tossia; o m\u00e9dico indagava de si mesmo se ela n\u00e3o estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas poss\u00edvel; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.<\/p>\n<p>Ela tossia, tossia, e n\u00e3o se passou muito tempo que a mol\u00e9stia n\u00e3o tirasse a m\u00e1scara. Era a t\u00edsica, velha dama insaci\u00e1vel, que chupa a vida toda, at\u00e9 deixar um baga\u00e7o de ossos. Fortunato recebeu a not\u00edcia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perd\u00ea-la. N\u00e3o poupou esfor\u00e7os, m\u00e9dicos, rem\u00e9dios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo v\u00e3o. A doen\u00e7a era mortal.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, em presen\u00e7a dos tormentos supremos da mo\u00e7a, a \u00edndole do marido subjugou qualquer outra afei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a deixou mais; fitou o olho ba\u00e7o e frio naquela decomposi\u00e7\u00e3o lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as afli\u00e7\u00f5es da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Ego\u00edsmo asp\u00e9rrimo, faminto de sensa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o lhe perdoou um s\u00f3 minuto de agonia, nem lhos pagou com uma s\u00f3 l\u00e1grima, p\u00fablica ou \u00edntima. S\u00f3 quando ela expirou, \u00e9 que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez s\u00f3.<\/p>\n<p>De noite, indo repousar uma parenta de Maria Lu\u00edsa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cad\u00e1ver, ambos pensativos; mas o pr\u00f3prio marido estava fatigado, o m\u00e9dico disse-lhe que repousasse um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.<\/p>\n<p>Fortunato saiu, foi deitar-se no sof\u00e1 da saleta cont\u00edgua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, at\u00e9 que se levantou e voltou \u00e0 sala. Caminhava nas pontas dos p\u00e9s para n\u00e3o acordar a parenta, que dormia perto. Chegando \u00e0 porta, estacou assombrado.<\/p>\n<p>Garcia tinha-se chegado ao cad\u00e1ver, levantara o len\u00e7o e contemplara por alguns instantes as fei\u00e7\u00f5es defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou \u00e0 porta. Estacou assombrado; n\u00e3o podia ser o beijo da amizade, podia ser o ep\u00edlogo de um livro ad\u00faltero. N\u00e3o tinha ci\u00fames, note-se; a natureza comp\u00f4-lo de maneira que lhe n\u00e3o deu ci\u00fames nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que n\u00e3o \u00e9 menos cativa ao ressentimento.<\/p>\n<p>Olhou assombrado, mordendo os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cad\u00e1ver; mas ent\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de mais. O beijo rebentou em solu\u00e7os, e os olhos n\u00e3o puderam conter as l\u00e1grimas, que vieram em borbot\u00f5es, l\u00e1grimas de amor calado, e irremedi\u00e1vel desespero. Fortunato, \u00e0 porta, onde ficara, saboreou tranq\u00fcilo essa explos\u00e3o de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis GARCIA, EM P\u00c9, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balan\u00e7o, olhava para o tecto; Maria Lu\u00edsa, perto da janela, conclu\u00eda um trabalho de agulha. Havia j\u00e1 cinco minutos que nenhum deles dizia nada. 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