{"id":120675,"date":"2017-04-27T19:57:06","date_gmt":"2017-04-27T21:57:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120675"},"modified":"2017-04-27T19:57:06","modified_gmt":"2017-04-27T21:57:06","slug":"o-protocolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-protocolo","title":{"rendered":"O Protocolo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Com\u00e9dia em um ato<\/b><\/p>\n<p>Representada pela primeira vez no<\/p>\n<p>Ateneu Dram\u00e1tico em novembro de 1862<\/p>\n<p><b>PERSONAGENS<\/b><\/p>\n<p>Pinheiro &#8211; Sr. Cardoso<\/p>\n<p>Ven\u00e2ncio Alves &#8211; Sr. Pimentel<\/p>\n<p>Elisa &#8211; Sra. D. Maria Fernanda<\/p>\n<p>Lulu &#8211; Sra. D. Jesu\u00edna Montani<\/p>\n<p>Atualidade<\/p>\n<p>EM CASA DE PINHEIRO<\/p>\n<p>Sala de visitas<\/p>\n<p><b>CENA I<br \/>\nElisa, Ven\u00e2ncio Alves<\/b><\/p>\n<p>ELISA &#8211; Est\u00e1 meditando?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO (como que acordando) &#8211; Ah! perd\u00e3o!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Estou afeita \u00e0 alegria constante de Lulu, e n\u00e3o posso ver ningu\u00e9m triste.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Exceto a senhora mesma.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Eu!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; A senhora!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Triste, por que, meu Deus?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Eu sei! Se a rosa dos campos me fizesse a mesma pergunta, eu responderia que era falta de orvalho e de sol. Quer que lhe diga que \u00e9 falta de&#8230; de amor?<\/p>\n<p>ELISA (rindo-se) &#8211; N\u00e3o diga isso!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Com certeza, \u00e9.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Donde conclui?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; A senhora tem um sol oficial e um orvalho legal que n\u00e3o sabem anim\u00e1-la. H\u00e1 nuvens&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 suspeita sem fundamento.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 realidade.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Que franqueza a sua!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ah! \u00e9 que o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 virginal, e portanto sincero.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Virginal a todos os respeitos?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Menos a um.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o serei indiscreta: \u00e9 feliz.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Esse \u00e9 o engano. Basta essa exce\u00e7\u00e3o para trazer-me um temporal. Tive at\u00e9 certo tempo o sossego e a paz do homem que est\u00e1 fechado no gabinete sem se lhe dar da chuva que a\u00e7oita as vidra\u00e7as.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Por que n\u00e3o se deixou ficar no gabinete?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Podia acaso faz\u00ea-lo? Passou fora a melodia do amor; o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 curioso e bateu-me que sa\u00edsse; levantei-me, deixei o livro que estava lendo; era Paulo e Virg\u00ednia! Abri a porta e nesse momento a fada passava. (Reparando nela). Era de olhos negros e cabelos castanhos.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Que fez?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Deixei o gabinete, o livro, tudo, para seguir a fada do amor!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o reparou se ela ia s\u00f3?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO (suspirando) &#8211; N\u00e3o ia s\u00f3!<\/p>\n<p>ELISA (em tom de censura) &#8211; Fez mal.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Talvez. Curioso animal que \u00e9 o homem! Em crian\u00e7a deixa a casa paterna para acompanhar os batalh\u00f5es que v\u00e3o \u00e0 parada; na mocidade deixa os conchegos e a paz para seguir a fada do amor; na idade madura deixa-se levar pelo deus Momo da pol\u00edtica ou por qualquer outra f\u00e1bula do tempo. S\u00f3 na velhice deixa passar tudo sem mover-se, mas&#8230; \u00e9 porque j\u00e1 n\u00e3o tem pernas!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mas que tencionava fazer se ela n\u00e3o ia s\u00f3?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Nem sei.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Foi loucura. Apanhou chuva!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ainda estou apanhando.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ent\u00e3o \u00e9 um extravagante.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Sim. Mas um extravagante por amor&#8230; \u00d3 poesia!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mau gosto!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; A Sra. \u00e9 a menos competente para dizer isso.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 sua opini\u00e3o?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 opini\u00e3o deste espelho.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ora!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; E dos meus olhos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Tamb\u00e9m dos seus olhos?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Olhe para eles.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Estou olhando.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; O que v\u00ea dentro?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Vejo&#8230; (Com enfado) N\u00e3o vejo nada!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ah! est\u00e1 convencida!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Presumido!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Eu! Essa agora n\u00e3o \u00e9 m\u00e1!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Para que seguia quem passava quieta pela rua? Supunha abrand\u00e1-la com as suas m\u00e1goas?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Acompanhei-a, n\u00e3o para abrand\u00e1-la, mas para servi-la; viver do rasto de seus p\u00e9s, das migalhas dos seus olhares; apontar-lhe os regos a saltar, apanhar-lhe o leque quando ca\u00edsse&#8230; (Cai o leque a Elisa. Ven\u00e2ncio Alves apressa-se a apanha-o e entrega-lho). Finalmente&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Finalmente&#8230; fazer profiss\u00e3o de presumido!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Acredita deveras que o seja?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Parece.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Pare\u00e7o, mas n\u00e3o sou. Presumido seria se eu exigisse a aten\u00e7\u00e3o exclusiva da fada da noite. N\u00e3o quero! Basta-me ter cora\u00e7\u00e3o para am\u00e1-la, \u00e9 a minha maior ventura!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; A que pode lev\u00e1-lo esse amor? Mais vale sufocar no cora\u00e7\u00e3o a chama nascente do que conden\u00e1-la a arder em v\u00e3o.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o; \u00e9 uma fatalidade! Arder e renascer, como a f\u00eanix, supl\u00edcio eterno, mas amor eterno tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Eia! Ou\u00e7a uma&#8230; amiga. N\u00e3o d\u00ea a esse sentimento tanta import\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 a fatalidade da f\u00eanix, \u00e9 a fatalidade&#8230; do rel\u00f3gio. Olhe para aquele. L\u00e1 anda correndo e regulando; mas se amanh\u00e3 n\u00e3o lhe derem corda, ele parar\u00e1. N\u00e3o d\u00ea corda \u00e0 paix\u00e3o, que ela parar\u00e1 por si.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Isso n\u00e3o!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Fa\u00e7a isso&#8230; por mim!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Pela senhora! Sim&#8230; n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Tenha \u00e2nimo!<\/p>\n<p><b>CENA II<br \/>\nVen\u00e2ncio Alves, Elisa, Pinheiro<\/b><\/p>\n<p>PINHEIRO (a Ven\u00e2ncio) &#8211; Como est\u00e1?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Bom. Convers\u00e1vamos sobre coisas da moda. Viu os \u00faltimos figurinos? S\u00e3o de apurado gosto.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o vi.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Est\u00e1 com um ar triste&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Triste, n\u00e3o; aborrecido&#8230; \u00c9 a minha mol\u00e9stia do domingo.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ah!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ando a abrir e fechar a boca; \u00e9 um c\u00edrculo vicioso.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Com licen\u00e7a.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Oh! minha senhora!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Eu fa\u00e7o anos hoje; venha jantar conosco.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Venho. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p><b>CENA III<br \/>\nPinheiro, Ven\u00e2ncio Alves<\/b><\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Anda ent\u00e3o em um c\u00edrculo vicioso?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; \u00c9 verdade. Tentei dormir, n\u00e3o pude; tentei ler, n\u00e3o pude. Que t\u00e9dio, meu amigo!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Admira!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Por que?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Porque n\u00e3o sendo vi\u00favo nem solteiro&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Sou casado&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Que adianta?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 boa! adianta ser casado. Compreende nada melhor que o casamento?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; O que pensa da China, Sr. Ven\u00e2ncio?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Eu? Penso&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; J\u00e1 sei, vai repetir-me o que tem lido nos livros e visto nas gravuras; n\u00e3o sabe mais nada.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Mas as narra\u00e7\u00f5es ver\u00eddicas&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; S\u00e3o minguadas ou exageradas. V\u00e1 \u00e0 China, e ver\u00e1 como as coisas mudam tanto ou quanto de figura.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Para adquirir essa certeza n\u00e3o vou l\u00e1.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; \u00c9 o que lhe aconselho; n\u00e3o se case!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Que n\u00e3o me case?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ou n\u00e3o v\u00e1 \u00e0 China, como queira. De fora, conjecturas, sonhos, castelos no ar, esperan\u00e7as, como\u00e7\u00f5es&#8230; Vem o padre, d\u00e1 a m\u00e3o aos noivos, leva-os, chegam \u00e0s muralhas&#8230; Upa! est\u00e3o na China! Com a altura da queda fica-se atordoado, e os sonhos de fora continuam dentro: \u00e9 a lua de mel; mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o esp\u00edrito se restabelece, vai vendo o pa\u00eds como ele \u00e9; ent\u00e3o poucos lhe chamam Celeste Imp\u00e9rio, alguns infernal imp\u00e9rio, muitos purgatorial imp\u00e9rio!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ora, que banalidade! E que sofisma!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Quantos anos tem, Sr. Ven\u00e2ncio?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Vinte e quatro.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Est\u00e1 com a mania que eu tinha na sua idade.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Qual mania?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; A de querer acomodar todas as coisas \u00e0 l\u00f3gica, e a l\u00f3gica a todas coisas. Viva, experimente e convencer-se-\u00e1 de que nem sempre se pode alcan\u00e7ar isso.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Quer-me parecer que h\u00e1 nuvens no c\u00e9u conjugal?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; H\u00e1. Nuvens pesadas.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; J\u00e1 eu as tinha visto com o meu telesc\u00f3pio.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ah! se eu n\u00e3o estivesse preso&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 exagera\u00e7\u00e3o de sua parte. Capitule, Sr. Pinheiro, capitule. Com mulheres bonitas \u00e9 um consolo capitular. H\u00e1 de ser o meu preceito de marido.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Capitular \u00e9 vergonha.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Com uma mo\u00e7a encantadora?&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o \u00e9 uma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Alto l\u00e1! Beleza obriga.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Pode ser verdade, mas eu pe\u00e7o respeitosamente licen\u00e7a para declarar-lhe que estou com o novo princ\u00edpio de n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o nos Estados. Nada de interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; A minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 toda conciliat\u00f3ria.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o duvido, nem duvidava. N\u00e3o veja no que disse inj\u00faria pessoal. Folgo de receb\u00ea-lo e de cont\u00e1-lo entre os afei\u00e7oados de minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Muito obrigado. D\u00e1-me licen\u00e7a?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Vai rancoroso?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ora, qual! At\u00e9 \u00e0 hora do jantar.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; H\u00e1 de desculpar-me, n\u00e3o janto em casa. Mas considere-se com a<\/p>\n<p>mesma liberdade. (Sai Ven\u00e2ncio. Entra Lulu).<\/p>\n<p><b>CENA IV<br \/>\nPinheiro, Lulu<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Viva, primo!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Como est\u00e1s, Lulu?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Meu Deus, que cara feia!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Pois \u00e9 a que trago sempre.<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o, senhor; a sua cara de costume \u00e9 uma cara am\u00e1vel; essa \u00e9 de afugentar a gente. Deu agora para andar arrufado com sua mulher!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Mau!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Escusa de zangar-se tamb\u00e9m comigo. O primo \u00e9 um bom marido; a prima \u00e9 uma excelente esposa; ambos formam um excelente casal. \u00c9 bonito andarem amuados, sem se olharem nem se falarem? At\u00e9 parece namoro!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ah! tu namoras assim?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Eu n\u00e3o namoro.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Com essa idade?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois ent\u00e3o! Mas escute: estes arrufos v\u00e3o continuar?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Eu sei l\u00e1.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Sabe, sim. Veja se isto \u00e9 bonito na lua de mel; ainda n\u00e3o h\u00e1 cinco meses que se casaram.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o h\u00e1, n\u00e3o. Mas a data n\u00e3o vem ao caso. A lua de mel ofuscou-se; \u00e9 alguma nuvem que passa; deixa-la passar. Queres que eu fa\u00e7a como aquele doido que, ao enublar-se o luar, pedia a J\u00fapiter que espevitasse o candeeiro? J\u00fapiter \u00e9 independente, e me apagaria de todo o luar, como fez com o doido. Aguardemos antes que algum vento sopre do norte, ou do sul, e venha dissipar a passageira sombra.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois sim! Ela \u00e9 norte, o primo \u00e9 o sul; fa\u00e7a com que o vento sopre do sul.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o, senhora, h\u00e1 de soprar do norte.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Capricho sem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Queres saber de uma coisa, Lulu? Estou pensando que \u00e9s uma brisazinha do norte encarregada de fazer clarear o c\u00e9u.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Oh! nem por gra\u00e7a!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Confessa, Lulu!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Posso ser uma brisa do sul, isso sim!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o ter\u00e1s essa gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Ent\u00e3o o primo \u00e9 caprichoso assim?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Caprichos? Ousas tu, posteridade de Eva, falar de caprichos a mim, posteridade de Ad\u00e3o!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Tua prima \u00e9 uma caprichosa. De seus caprichos nasceram estas diferen\u00e7as entre n\u00f3s. Mas para caprichosa, caprichoso: contrafiz-me, estudei no c\u00f3digo feminino meios de p\u00f4r os p\u00e9s \u00e0 parede, e tornei-me de antes quebrar que torcer. Se dia n\u00e3o der um passo, tamb\u00e9m eu n\u00e3o dou.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois eu estendo a m\u00e3o direita a um e a esquerda a outro, e os aproximarei.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Queres ser o anjo da reconcilia\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Tal qual.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Contanto que eu n\u00e3o passe pelas forcas caudinas.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Hei de fazer as coisas airosamente.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Insistes nisso? Eu podia dizer que era ainda um capricho de mulher. Mas n\u00e3o digo, n\u00e3o, chamo antes afei\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>CENA V<br \/>\nPinheiro, Lulu, Elisa<\/b><\/p>\n<p>LULU (baixo) &#8211; Olhe, a\u00ed est\u00e1 ela!<\/p>\n<p>PINHEIRO (baixo) &#8211; Deixa-a.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Andava \u00e0 tua procura, Lulu.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Para que, prima?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Para me dares uma pouca de l\u00e3.<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o tenho aqui; vou buscar.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Lulu!<\/p>\n<p>LULU &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>PINHEIRO (baixo) &#8211; Dize \u00e0 tua prima que eu janto fora.<\/p>\n<p>LULU (indo \u00e0 Elisa, baixo) &#8211; O primo janta fora.<\/p>\n<p>ELISA (baixo) &#8211; Se \u00e9 por ter o que fazer, podemos esperar.<\/p>\n<p>LULU (a Pinheiro, baixo) &#8211; Se \u00e9 por ter o que fazer, podemos esperar.<\/p>\n<p>PINHEIRO (baixo) &#8211; \u00c9 um convite.<\/p>\n<p>LULU (alto) &#8211; \u00c9 um convite.<\/p>\n<p>ELISA (alto) &#8211; Ah! se \u00e9 um convite pode ir; jantaremos s\u00f3s.<\/p>\n<p>PINHEIRO (levantando-se) &#8211; Consentir\u00e1, minha senhora, que lhe fa\u00e7a uma observa\u00e7\u00e3o: mesmo sem a sua licen\u00e7a, eu podia ir!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ah! \u00e9 claro! Direito de marido&#8230; Quem lho contesta?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Havia de ser engra\u00e7ada a contesta\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mesmo muito engra\u00e7ada!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Tanto quanto foi rid\u00edcula a licen\u00e7a.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Primo!<\/p>\n<p>PINHEIRO (a Lulu) &#8211; Cuida das tuas novelas! Vai encher a cabe\u00e7a de romantismo, \u00e9 moda; colhe as id\u00e9ias absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido a cena do que houveres aprendido com as leituras: \u00e9 tamb\u00e9m moda. (Sai arrebatadamente).<\/p>\n<p><b>CENA VI<br \/>\nLulu, Elisa<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Como est\u00e1 o primo!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mau humor, h\u00e1 de passar!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Sabe como passava depressa? Pondo fim a estes amuos.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Sim, mas cedendo ele.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Ora, isso \u00e9 teima!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 dignidade!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Passam dias sem se falarem, e, quando se falam, \u00e9 assim.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ah! isto \u00e9 o que menos cuidado me d\u00e1. Ao principio fiquei amofinada, e devo diz\u00ea-lo, chorei. S\u00e3o coisas estas que s\u00f3 se confessam entre mulheres. Mas hoje vou fazer o que as outras fazem: curar pouco das torturas domesticas. Cora\u00e7\u00e3o \u00e0 larga, minha filha, ganha-se o c\u00e9u, e n\u00e3o se perde a terra.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Isso \u00e9 zanga!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o \u00e9 zanga, \u00e9 filosofia. H\u00e1 de chegar o teu dia, deixa estar. Saber\u00e1s ent\u00e3o quanto vale a ci\u00eancia do casamento.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois explica, mestra.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o; saber\u00e1s por ti mesma. Quero, entretanto, instruir-te de uma coisa. N\u00e3o lhe ouviste falar no direito? \u00c9 engra\u00e7ada a hist\u00f3ria do direito! Todos os poetas concordam em dar \u00e0s mulheres o nome de anjos. Os outros homens n\u00e3o se atrevem a negar, mas dizem consigo: &#8220;Tamb\u00e9m n\u00f3s somos anjos!&#8221; Nisto h\u00e1 sempre um espelho ao lado, que lhes faz ver que, para anjos faltam-lhes&#8230; asas! Asas! asas! a todo o custo. E arranjam-nas; leg\u00edtimas ou n\u00e3o, pouco importa. Essas asas os levam a jantar fora, a dormir fora, muitas vezes a amar fora. A essas asas chamam enfaticamente: o nosso direito!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Mas, prima, as nossas asas?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; As nossas? Bem se v\u00ea que \u00e9s inexperiente. Estuda, estuda, e h\u00e1s de ach\u00e1-las.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Prefiro n\u00e3o usar delas.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; H\u00e1s de dizer o contr\u00e1rio quando for ocasi\u00e3o. Meu marido l\u00e1 bateu as suas; o direito de jantar fora! Caprichou em n\u00e3o levar-me \u00e0 casa de minha madrinha; \u00e9 ainda o direito. Daqui nasceram os nossos arrufos, arrufos s\u00e9rios. Uma santa zangar-se-ia como eu. Para caprichoso, caprichosa!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois sim! mas estas coisas v\u00e3o dando na vista; j\u00e1 as pessoas que freq\u00fcentam nossa casa t\u00eam reparado; o Ven\u00e2ncio Alves n\u00e3o me deixa sossegar com as suas perguntas.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ah! sim?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Que rapaz aborrecido, prima!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o acho!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Pois eu acho: aborrecido com as suas afeta\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Como aprecias mal! Ele fala com gra\u00e7a e chama-o afetado?&#8230;<\/p>\n<p>LULU &#8211; Que olhos os seus, prima!<\/p>\n<p>ELISA (indo ao espelho) &#8211; S\u00e3o bonitos?<\/p>\n<p>LULU &#8211; S\u00e3o maus.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Em que, minha fil\u00f3sofa?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Em verem o anverso de Ven\u00e2ncio Alves e o reverso do primo.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9s uma tola.<\/p>\n<p>LULU &#8211; S\u00f3?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; E uma descomedida.<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c9 porque os amo a ambos. E depois&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Depois, o que?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Vejo no Ven\u00e2ncio Alves um arzinho de pretendente.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c0 tua m\u00e3o direita?<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c0 tua m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c9 coisa que se adivinha&#8230; (Ouve-se um carro). A\u00ed est\u00e1 o homem.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Vai receb\u00ea-lo. (Lulu vai at\u00e9 \u00e0 porta. Elisa chega-se a um espelho e comp\u00f5e o toucado).<\/p>\n<p><b>CENA VII<br \/>\nElisa, Lulu, Ven\u00e2ncio<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; O Sr. Ven\u00e2ncio Alves chega a prop\u00f3sito; fal\u00e1vamos na sua pessoa.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Em que ocupava eu a aten\u00e7\u00e3o de t\u00e3o gentis senhoras?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Faz\u00edamos o invent\u00e1rio das suas qualidades.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Exageravam-me o cabedal, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>LULU &#8211; A prima dizia: &#8220;Que mo\u00e7o am\u00e1vel \u00e9 o Sr. Ven\u00e2ncio Alves!&#8221;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ah! e a senhora?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Eu dizia: &#8220;Que mo\u00e7o amabil\u00edssimo \u00e9 o Sr. Ven\u00e2ncio Alves!&#8221;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Dava-me o superlativo. N\u00e3o me cai no ch\u00e3o esta aten\u00e7\u00e3o gramatical.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Eu sou assim: estimo ou aborre\u00e7o no superlativo. N\u00e3o \u00e9, prima?<\/p>\n<p>ELISA (contrariada) &#8211; Eu sei l\u00e1!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Como deve ser triste cair-lhe no desagrado!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Vou avisando, \u00e9 o superlativo.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Dou-me por feliz. Creio que lhe cai em gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>LULU &#8211; Caiu! Caiu! Caiu!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Lulu, vai buscar a l\u00e3.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Vou prima, vou. (Sai correndo).<\/p>\n<p><b>CENA VIII<br \/>\nVen\u00e2ncio, Elisa<\/b><\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Voa qual uma andorinha esta mo\u00e7a!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 pr\u00f3prio da idade.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Vou sangrar-me&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Hein!<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Sangrar-me em sa\u00fade contra uma suspeita sua.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Suspeita?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Suspeita de haver-me adiantado o meu rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>ELISA (rindo) &#8211; Posso cr\u00ea-lo.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Estar\u00e1 em erro. Olhe, s\u00e3o duas horas; confronte com o seu: duas horas.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Pensa que acreditei seriamente?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Vim mais cedo e de passagem. Quis antecipar-me aos outros no cumprimento de um dever. Os antigos, em prova de respeito, depunham aos p\u00e9s dos deuses grinaldas e fest\u00f5es; o nosso tempo, infinitamente prosaico, s\u00f3 nos permite oferendas prosaicas; neste \u00e1lbum ponho eu o testemunho do meu j\u00fabilo pelo dia de hoje.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Obrigada. Creio no sentimento que o inspira e admiro o gosto da escolha.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o \u00e9 a mim que deve tecer o elogio.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Foi gosto de quem o vendeu?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o, minha senhora, eu pr\u00f3prio o escolhi; mas a escolha foi das mais involunt\u00e1rias; tinha a sua imagem na cabe\u00e7a e n\u00e3o podia deixar de acertar.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 uma fineza de quebra. (Folheia o \u00e1lbum).<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 por isso que me vibra um golpe?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Um golpe?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 t\u00e3o casta que n\u00e3o h\u00e1 de calcular comigo; mas as suas palavras s\u00e3o proferidas com uma indiferen\u00e7a que eu direi instintiva.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o creia&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Que n\u00e3o creia na indiferen\u00e7a?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o&#8230; N\u00e3o creia no c\u00e1lculo&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; J\u00e1 disse que n\u00e3o. Em que que devo crer seriamente?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Em nada, n\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o reza a hist\u00f3ria de que os antigos, ao depositarem as suas oferendas, apostrofassem os deuses.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; \u00c9 verdade: este uso \u00e9 do nosso tempo.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Do nosso prosaico tempo.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; A senhora ri? Riamos todos! Tamb\u00e9m eu rio e da melhor vontade.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Pode rir sem temor. Acha que sou deusa? Mas os deuses j\u00e1 se foram. Est\u00e1tua, isto sim.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ser\u00e1 est\u00e1tua. N\u00e3o me inculpe, nesse caso, a admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o inculpo, aconselho.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO (repoltreando-se) &#8211; Foi excelente esta id\u00e9ia do div\u00e3. \u00c9 um consolo para quem est\u00e1 cansado, e quando \u00e0 comodidade junta o bom gosto, como este, ent\u00e3o \u00e9 ouro sobre azul. N\u00e3o acha engenhoso, D. Elisa?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Acho.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Devia ser inscrito entre os benem\u00e9ritos da humanidade o autor disto. Com trastes assim, e dentro de uma casinha de campo, prometo ser o mais sincero anacoreta que jamais fugiu \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do mundo. Onde comprou este?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Em casa do Costrejean.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Comprou uma preciosidade.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Com outra que est\u00e1 agora por cima, e que eu n\u00e3o comprei, fazem duas, duas preciosidades.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Disse muito bem! \u00c9 tal o conchego que at\u00e9 se podem esquecer as horas&#8230; \u00c9 verdade, que horas s\u00e3o? Duas e meia. A senhora d\u00e1-me licen\u00e7a?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; J\u00e1 se vaI?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; At\u00e9 \u00e0 hora do jantar.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Olhe, n\u00e3o me queira mal.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Eu, mal! E por que?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o me obrigue a explica\u00e7\u00f5es in\u00fateis.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o obrigo, n\u00e3o. compreendo de sobejo a sua inten\u00e7\u00e3o. Mas, francamente, se a flor est\u00e1 alta para ser colhida, \u00e9 crime aspirar-lhe de longe o aroma e ador\u00e1-la?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Crime n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; S\u00e3o duas e meia. At\u00e9 \u00e0 hora do jantar.<\/p>\n<p><b>CENA IX<br \/>\nVen\u00e2ncio, Elisa, Lulu<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Sai com a minha chegada?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Ia sair.<\/p>\n<p>LULU &#8211; At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; At\u00e9 \u00e0 hora do jantar.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Ah! janta conosco?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Sabes que fa\u00e7o anos, e esse dia \u00e9 o dos amigos.<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c9 justo, \u00e9 justo<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; At\u00e9 logo.<\/p>\n<p><b>CENA X<br \/>\nLulu, Elisa<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Oh! teve presente!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o achas de gosto?<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o tanto.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 preven\u00e7\u00e3o. Suspeitas que \u00e9 do Ven\u00e2ncio Alves?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Atinei logo.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Que tens contra esse mo\u00e7o?<\/p>\n<p>LULU &#8211; J\u00e1 to disse.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; \u00c9 mau deixar-se ir pelas antipatias.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Antipatias n\u00e3o tenho.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Algu\u00e9m sobe.<\/p>\n<p>LULU &#8211; H\u00e1 de ser o primo.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ele! (Sai).<\/p>\n<p><b>CENA XI<br \/>\nPinheiro, Lulu<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Viva! est\u00e1 mais calmo?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Calmo sempre, menos nas ocasi\u00f5es em que \u00e9s&#8230; indiscreta.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Indiscreta!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Indiscreta, sim, senhora! Para que veio aquela exclama\u00e7\u00e3o quando eu falava com Elisa?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Foi porque o primo falou de um modo&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; De um modo, que \u00e9 o meu modo, que \u00e9 modo de todos os maridos contrariados.<\/p>\n<p>LULU &#8211; De um modo que n\u00e3o \u00e9 o seu, primo. Para que fazer-se mau quando \u00e9<\/p>\n<p>bom? Pensa que n\u00e3o se percebe quanto lhe custa contrafazer-se?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Vais dizer que sou um anjo!<\/p>\n<p>LULU &#8211; O primo \u00e9 um excelente homem, isso sim. Olhe, sou importuna, e hei de s\u00ea-lo at\u00e9 v\u00ea-los desamuados.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ora, prima, para irm\u00e3 de caridade, \u00e9s muito crian\u00e7a. Dispenso os teus conselhos e os teus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c9 um ingrato.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Serei.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Homem sem cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Quanto a isso, \u00e9 quest\u00e3o de fato; p\u00f5e aqui a tua m\u00e3o, n\u00e3o sentes bater? \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Eu sinto um charuto.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Um charuto? Pois \u00e9 isso mesmo. Cora\u00e7\u00e3o e charuto s\u00e3o s\u00edmbolos um do outro; ambos se queimam e se desfazem em cinzas. Olha, este charuto, sei eu que o tenho para fumar; mas o cora\u00e7\u00e3o, esse creio que j\u00e1 est\u00e1 todo no cinzeiro.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Sempre a brincar!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Achas que devo chorar?<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Mas o que?<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o digo, \u00e9 uma coisa muito feia.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Coisas feias na tua boca, Lulu!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Muito feia.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de ser, dize.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Demais, posso parecer indiscreta.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ora, qual; alguma coisa de meu interesse?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Se \u00e9!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Pois, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9s indiscreta!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Ent\u00e3o, quantas caras tem a indiscri\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Duas.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Boa moral!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Moral \u00e0 parte. Fala: o que \u00e9?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Que curioso! \u00c9 uma simples observa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o lhe parece que \u00e9 mau desamparar a ovelha, havendo tantos lobos, primo?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Onde aprendeste isso?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Nos livros que me d\u00e3o para ler.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Est\u00e1s adiantada! E j\u00e1 que sabes tanto, falarei. como se falasse a um livro. Primeiramente, eu n\u00e3o desamparo; depois, n\u00e3o vejo lobos.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Desampara, Sim!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o estou em casa?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Desampara o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Mas, os lobos?&#8230;<\/p>\n<p>LULU &#8211; Os lobos vestem-se de cordeiros e apertam a m\u00e3o ao pastor, conversam com ele, sem que deixem de olhar furtivamente para a ovelha mal guardada.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o h\u00e1 nenhum.<\/p>\n<p>LULU &#8211; S\u00e3o ass\u00edduos; visitas sobre visitas; muita zumbaia, muita aten\u00e7\u00e3o, mas l\u00e1 por dentro a ruminarem coisas m\u00e1s.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ora, Lulu, deixa-te de tolices.<\/p>\n<p>LULU &#8211; N\u00e3o digo mais nada. Onde foi Ven\u00e2ncio Alves?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o sei. Ali est\u00e1 um que n\u00e3o h\u00e1 de ser acusado de lobo.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Os lobos vestem-se de cordeiros.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; O que \u00e9 que dizes?<\/p>\n<p>LULU &#8211; Eu n\u00e3o digo nada. Vou tocar piano. Quer ouvir um noturno ou prefere uma polca?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Lulu, ordeno-lhe que fale!<\/p>\n<p>LULU &#8211; Para que? para ser indiscreta?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ven\u00e2ncio Alves?&#8230;<\/p>\n<p>LULU &#8211; \u00c9 um tolo, nada mais. (Sai. Pinheiro fica pensativo. Vai \u00e0 mesa e v\u00ea o \u00e1lbum)<\/p>\n<p><b>CENA XII<br \/>\nPinheiro, Elisa<\/b><\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; H\u00e1 de desculpar-me, mas creio n\u00e3o ser indiscreto, desejando saber com que sentimento recebeu este \u00e1lbum.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Com o sentimento com que se recebem \u00e1lbuns.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; A resposta em nada me esclarece.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; H\u00e1 ent\u00e3o sentimentos para receber \u00e1lbuns, e h\u00e1 um com que eu deveria receber este?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Devia saber que h\u00e1.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Pois&#8230; recebi com esse.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; A minha pergunta poder\u00e1 parecer indiscreta, mas&#8230;<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Oh! indiscreta, n\u00e3o!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Deixe, minha senhora, esse tom sarc\u00e1stico, e veja bem que eu falo s\u00e9rio.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Vejo isso. Quanto \u00e0 pergunta, est\u00e1 exercendo um direito.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o lhe parece que seja um direito este de investigar as inten\u00e7\u00f5es dos p\u00e1ssaros que penetram em minha seara, para saber se s\u00e3o daninhos?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Sem d\u00favida. Ao lado desse direito, est\u00e1 o nosso dever, dever das searas, de prestar-se a todas as suspeitas.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; \u00c9 in\u00fatil a argumenta\u00e7\u00e3o por esse lado: os p\u00e1ssaros cantam e as cantigas deleitam.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Est\u00e1 falando s\u00e9rio?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Ent\u00e3o consinta que fa\u00e7a contraste: eu rio-me.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o me tome por um mau sonhador de perf\u00eddias; perguntei, porque estou seguro de que n\u00e3o s\u00e3o muito santas as inten\u00e7\u00f5es que trazem \u00e0 minha casa Ven\u00e2ncio Alves.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Pois eu nem suspeito&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; V\u00ea o c\u00e9u nublado e as \u00e1guas turvas: pensa que \u00e9 azada ocasi\u00e3o para pescar.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Est\u00e1 feito, \u00e9 de pescador atilado!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Pode ser um m\u00e9rito a seus olhos, minha senhora; aos meus \u00e9 um v\u00edcio de que o pretendo curar, arrancando-lhe as orelhas.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Jesus! est\u00e1 com inten\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Zombe ou n\u00e3o, h\u00e1 de ser assim.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mutilado ele, que pretende fazer da mesquinha Desd\u00eamona?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Conduzi-la de novo ao lar paterno.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Mas, afinal de contas, meu marido, obriga-me a falar tamb\u00e9m seriamente.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Que tem a dizer?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Fui tirada h\u00e1 meses da casa de meu pai para ser sua mulher; agora, por um pretexto fr\u00edvolo, leva-me de novo ao lar paterno. Parece-lhe que eu seja uma casaca que se pode tirar por estar fora de moda?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o estou para rir, mas digo-lhe que antes fosse uma casaca.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Muito obrigada!<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Qual foi a casaca que j\u00e1 me deu cuidados? Por ventura quando saio com a minha casaca n\u00e3o vou descansado a respeito dela? N\u00e3o sei eu perfeitamente que ela n\u00e3o olha complacente para as costas alheias e fica descansada nas minhas?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Pois tome-me por uma casaca. V\u00ea em mim alguns salpicos?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o vejo. Mas vejo a rua cheia de lama e um carro que vai passando; e nestes casos, como n\u00e3o gosto de andar mal asseado, entro em um corredor, com a minha casaca, \u00e0 espera de que a rua fique desimpedida.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Bem. Vejo que quer a nossa separa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria&#8230; at\u00e9 que passe o<\/p>\n<p>carro. Durante esse tempo como pretende andar? Em mangas de camisa?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Durante esse tempo n\u00e3o andarei, ficarei em casa.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Oh! suspeita por suspeita! Eu n\u00e3o creio nessa reclus\u00e3o volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o cr\u00ea? E por que?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o creio, por mil raz\u00f5es.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; D\u00ea-me uma, e fique com as novecentas e noventa e nove.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Posso dar-lhe mais de uma e at\u00e9 todas. A primeira \u00e9 a simples dificuldade de conter-se entre as quatro paredes desta casa.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ver\u00e1 se posso.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; A segunda \u00e9 que n\u00e3o deixar\u00e1 de aproveitar o isolamento para ir ao alfaiate provar outras casacas.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Oh!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Para ir ao alfaiate \u00e9 preciso sair; quero crer que n\u00e3o far\u00e1 vir o alfaiate \u00e0 casa.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Conjecturas suas. Reflita, que n\u00e3o est\u00e1 dizendo coisas assizadas. Conhece o amor que lhe tive e lhe tenho, e sabe de que sou capaz. Mas, voltemos ao ponto de partida. Este livro pode nada significar e significar muito. (Folheia). Que responde?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Nada.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Oh! que \u00e9 isto? \u00c9 a letra dele.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o tinha visto.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; \u00c9 talvez uma confid\u00eancia. Posso ler?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>PINHEIRO (lendo) &#8211; &#8220;Se me privas dos teus aromas, \u00f3 rosa que foste abrir sobre um rochedo, n\u00e3o podes fazer com que eu te n\u00e3o ame, contemple e aben\u00e7oe!&#8221; Como acha isto?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o tinha lido?<\/p>\n<p>ELISA (sentando-se) &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Sabe quem \u00e9 esta rosa?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Cuida que serei eu?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Parece. O rochedo sou eu. Onde vai ele desencavar estas figuras.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Foi talvez escrito sem inten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ai! foi&#8230; Ora, diga, \u00e9 bonito isto? Escreveria ele se n\u00e3o houvesse esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Basta. Tenho ouvido. N\u00e3o quero continuar a ser alvo de suspeitas. Esta frase \u00e9 intencional; ele viu as \u00e1guas turvas&#8230; De quem a culpa? Dele ou sua? Se as n\u00e3o houvesse agitado, elas estariam pl\u00e1cidas e transparentes como dantes.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; A culpa \u00e9 minha?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Dir\u00e1 que n\u00e3o \u00e9. Paci\u00eancia. Juro-lhe que n\u00e3o sou c\u00famplice nas inten\u00e7\u00f5es deste presente.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Jura?<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Juro.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Acredito. Dente por dente, Elisa, como na pena de Tali\u00e3o. Aqui tens a minha m\u00e3o em prova de que esque\u00e7o tudo.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Tamb\u00e9m eu tenho a esquecer e esque\u00e7o.<\/p>\n<p><b>CENA XIII<br \/>\nElisa, Pinheiro, Lulu<\/b><\/p>\n<p>LULU &#8211; Bravo! voltou o bom tempo?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Voltou.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Gra\u00e7as a Deus! De que lado soprou o vento?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; De ambos os lados.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Ora bem!<\/p>\n<p>ELISA &#8211; P\u00e1ra um carro.<\/p>\n<p>LULU (vai \u00e0 janela) &#8211; Vou ver.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; H\u00e1 de ser ele.<\/p>\n<p>LULU (vai \u00e0 porta) &#8211; Entre, entre.<\/p>\n<p><b>CENA XIV<br \/>\nLulu, Ven\u00e2ncio, Pinheiro, Elisa<\/b><\/p>\n<p>PINHEIRO (baixo \u00e0 Elisa) &#8211; Poupo-lhe as orelhas, mas hei de tirar desforra&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o faltei&#8230; Oh! n\u00e3o foi jantar fora?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; N\u00e3o. A Elisa pediu-me que ficasse&#8230;<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO (com uma careta) &#8211; Muito estimo.<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Estima? Pois n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Verdade o que?<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Que tentasse perpetuar as hostilidades entre a pot\u00eancia marido e a pot\u00eancia mulher?<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o percebo&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Ouvi falar de uma confer\u00eancia e de umas notas&#8230; uma interven\u00e7\u00e3o da sua parte na dissid\u00eancia de dois estados unidos pela natureza e pela lei; gabaram-me os seus meios diplom\u00e1ticos, e as suas confer\u00eancias repetidas, e at\u00e9 veio parar \u00e0s minhas m\u00e3os este protocolo, tornado agora in\u00fatil, e que eu tenho a honra de depositar em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 um protocolo&#8230; \u00e9 um \u00e1lbum&#8230; n\u00e3o tive inten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PINHEIRO &#8211; Tivesse ou n\u00e3o, arquive o volume depois de escrever nele &#8211; que a pot\u00eancia Ven\u00e2ncio Alves n\u00e3o entra na santa-alian\u00e7a.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; N\u00e3o entra?&#8230; mas creia&#8230; A senhora&#8230; me far\u00e1 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>ELISA &#8211; Eu? Eu entrego-lhe as credenciais.<\/p>\n<p>LULU &#8211; Aceite, olhe que deve aceitar.<\/p>\n<p>VEN\u00c2NCIO &#8211; Minhas senhoras, Sr. Pinheiro. (Sai).<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p>LULU &#8211; O jantar est\u00e1 na mesa. Vamos celebrar o tratado de paz.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Com\u00e9dia em um ato Representada pela primeira vez no Ateneu Dram\u00e1tico em novembro de 1862 PERSONAGENS Pinheiro &#8211; Sr. Cardoso Ven\u00e2ncio Alves &#8211; Sr. Pimentel Elisa &#8211; Sra. D. Maria Fernanda Lulu &#8211; Sra. D. Jesu\u00edna Montani Atualidade EM CASA DE PINHEIRO Sala de visitas CENA I Elisa, Ven\u00e2ncio Alves ELISA &#8211; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Protocolo, Machado de Assis O Protocolo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Protocolo, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, O Protocolo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" 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