{"id":120673,"date":"2017-04-27T19:55:15","date_gmt":"2017-04-27T21:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120673"},"modified":"2017-04-27T19:55:15","modified_gmt":"2017-04-27T21:55:15","slug":"o-caminho-da-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-caminho-da-porta","title":{"rendered":"O Caminho da Porta"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p><b>Com\u00e9dia em um ato<\/b><\/p>\n<p>Representada pela primeira<\/p>\n<p>vez no Ateneu Dram\u00e1tico<\/p>\n<p>em setembro de 1862.<\/p>\n<p><b>PERSONAGENS<\/b><\/p>\n<p>Dr. Corn\u00e9lio &#8211; Sr. Cardoso<\/p>\n<p>Valentim &#8211; Sr. Pimentel<\/p>\n<p>Inoc\u00eancio &#8211; Sr. Martins<\/p>\n<p>Carlota &#8211; Sra. D. Maria Fernanda<\/p>\n<p>EM CASA DE CARLOTA<\/p>\n<p>Sala elegante. &#8211; Duas portas no fundo, portas laterais, consolos, piano, div\u00e3, poltronas, cadeiras, mesa, tapete, espelhos, quadros; figuras sobre os consolos; \u00e1lbum, alguns livros, l\u00e1pis, etc., sobre a mesa.<\/p>\n<p><b>CENA I<br \/>\n<\/b><b>Valentim, assentado \u00e0 E., o Doutor, entrando<\/b><\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah! \u00e9s tu?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Oh! Hoje \u00e9 o dia das surpresas. Acordo, leio os jornais e vejo anunciado para hoje o Trovador. Primeira surpresa. Lembro-me de passar por aqui para saber se D. Carlota queria ir ouvir a \u00f3pera de Verdi, e vinha pensando na triste figura que devia fazer em casa de uma mo\u00e7a do tom, \u00e0s 10 horas da manh\u00e3, quando te encontro firme como uma sentinela no posto. Duas surpresas.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; A triste figura sou eu?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Acertaste. L\u00facido como uma sibila. Fazes uma triste figura, n\u00e3o to devo ocultar.<\/p>\n<p>VALENTIM (ir\u00f4nico) &#8211; Ah!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Tens ar de n\u00e3o dar credito ao que digo! Pois olha, tens diante de ti a verdade em pessoa, com a diferen\u00e7a de n\u00e3o sair de um po\u00e7o, mas da cama e de vir em traje menos primitivo. Quanto ao espelho, se o n\u00e3o trago comigo, h\u00e1 nesta sala um que nos serve com a mesma sinceridade. Mira-te ali. Est\u00e1s ou n\u00e3o uma triste figura?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o me aborre\u00e7as.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Confessas ent\u00e3o?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9s divertido como os teus protestos de virtuoso! Aposto que me queres fazer crer no desinteresse das tuas visitas a D. Carlota?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sou hoje mais ass\u00edduo do que era h\u00e1 um m\u00eas, e a raz\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 um m\u00eas que come\u00e7aste a fazer-lhe a corte.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; J\u00e1 sei: n\u00e3o me queres. perder de vista.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Presumido! Eu sou l\u00e1 inspetor dessas coisas? Ou antes, sou: mas o sentimento que me leva a estar presente a essa batalha pausada e paciente est\u00e1 muito longe do que pensas; estudo o amor.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Somos ent\u00e3o os teus comp\u00eandios?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; E o que tens aprendido?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Descobri que o amor \u00e9 uma pescaria&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Queres saber de uma coisa? Est\u00e1s prosaico como os teus libelos.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Descobri que o amor \u00e9 uma<\/p>\n<p>pescaria&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Vai-te com os diabos!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Descobri que o amor \u00e9 uma pescaria. O pescador senta-se sobre um penedo, \u00e0 beira do mar. Tem ao lado uma cesta com iscas; vai pondo uma por uma no anzol e atira \u00e0s \u00e1guas a p\u00e9rfida linha. Assim gasta horas e dias at\u00e9 que o descuidado filho das \u00e1guas agarra no anzol, ou n\u00e3o agarra e&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9s um tolo.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o contesto; pelo interesse<\/p>\n<p>que tomo por ti. Realmente doe-me ver-te tantos dias exposto ao sol, sobre o penedo, com o cani\u00e7o na m\u00e3o, a gastar as tuas iscas e a tua sa\u00fade, quero dizer a tua honra.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; A minha honra?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; A tua honra, sim. Pois para homem de senso e um tanto s\u00e9rio o rid\u00edculo n\u00e3o \u00e9 uma desonra? Tu est\u00e1s rid\u00edculo. N\u00e3o h\u00e1 dia em que n\u00e3o venhas gastar tr\u00eas, quatro, cinco horas a cercar esta vi\u00fava de galanteios e aten\u00e7\u00f5es, acreditando talvez ter adiantado muito, mas estando ainda hoje como quando come\u00e7astes. Olha, h\u00e1 Pen\u00e9lopes da virtude e Pen\u00e9lopes do galanteio. Umas fazem e desmancham teias por terem muito ju\u00edzo; outras as fazem e desmancham por n\u00e3o terem nenhum.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o deixas de ter uma tal ou qual raz\u00e3o.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ora, gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Devo, por\u00e9m, prevenir-te de uma coisa: \u00e9 que ponho nesta conquista a minha honra. Jurei aos meus deuses casar-me com ela e hei de manter o meu juramento.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Virtuoso Romano!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Fa\u00e7o o papel de S\u00edssifo. Rolo a minha pedra pela montanha; quase a chegar com ela ao cimo, uma m\u00e3o invis\u00edvel f\u00e1-la despenhar de novo, e ali volto a repetir o mesmo trabalho. Se isto \u00e9 um fort\u00fanio, n\u00e3o deixa de ser uma virtude.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; A virtude da paci\u00eancia. Empregavas melhor essa virtude em fazer palitos do que em fazer a roda a esta namoradeira. Sabes o que aconteceu aos companheiros de Ulisses passando pela ilha de Circe? Ficaram transformados em porcos. Melhor sorte teve Ateon que, por espreitar Diana no banho, passou de homem a veado. Prova evidente de que \u00e9 melhor pilh\u00e1-las no banho do que andar-lhes \u00e0 roda nos tapetes da sala.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Passas de prosaico a c\u00ednico.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9 uma modifica\u00e7\u00e3o. Tu est\u00e1s sempre o mesmo: rid\u00edculo.<\/p>\n<p><b>CENA II<br \/>\nOs mesmos, Inoc\u00eancio trazido por um criado<\/b><\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Oh!<\/p>\n<p>DOUTOR (baixo a Valentim) &#8211; Chega o teu competidor.<\/p>\n<p>VALENTIM (baixo) &#8211; N\u00e3o me vexes.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Meus senhores! J\u00e1 por c\u00e1? Madrugaram hoje!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9 verdade. E V. S.?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Como est\u00e1 vendo. Levanto-me sempre com o sol.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Se V. S. \u00e9 outro.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (n\u00e3o compreendendo) -Outro que? Ah outro sol! Este doutor tem umas express\u00f5es t\u00e3o&#8230; fora do vulgar! Ora veja, a mim ainda ningu\u00e9m se lembrou de dizer isto. Sr. Doutor, V. S. h\u00e1 de tratar de um neg\u00f3cio que trago pendente no foro. Quem fala assim \u00e9 capaz de seduzir a pr\u00f3pria lei!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Obrigado!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Onde est\u00e1 a encantadora D. Carlota? Trago-lhe este ramalhete que eu pr\u00f3prio colhi e arranjei. Olhem como estas flores est\u00e3o bem combinadas: rosas, paix\u00e3o; a\u00e7ucenas, candura. Que tal?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Engenhoso!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (dando-lhe o bra\u00e7o) &#8211; Agora ou\u00e7a, Sr. Doutor. Decorei umas quatro palavras para dizer ao entregar-lhe estas flores. Veja se condizem com o assunto.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sou todo ouvidos.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; &#8220;Estas flores s\u00e3o um presente que a primavera faz \u00e0 sua irm\u00e3 por interm\u00e9dio do mais ardente admirador de ambas&#8221;. Que tal?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sublime! (Inoc\u00eancio ri-se \u00e0 socapa). N\u00e3o \u00e9 da mesma opini\u00e3o?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Pudera n\u00e3o ser sublime; se eu pr\u00f3prio copiei isto de um Secret\u00e1rio dos Amantes!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ah!<\/p>\n<p>VALENTIM (baixo ao Doutor) &#8211; Gabo-te a paci\u00eancia!<\/p>\n<p>DOUTOR (dando-lhe o bra\u00e7o) &#8211; Pois que tem! \u00c9 miraculosamente tolo. N\u00e3o \u00e9 da mesma esp\u00e9cie que tu&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Corn\u00e9lio!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Descansa; \u00e9 de outra muito pior.<\/p>\n<p><b>CENA III<br \/>\nOs mesmos, Carlota<\/b><\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Perd\u00e3o, meus senhores, de os haver feito esperar&#8230; (Distribui apertos de m\u00e3o).<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00f3s \u00e9 que lhe pedimos desculpa de havermos madrugado deste modo&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; A mim, traz-me um motivo justific\u00e1vel.<\/p>\n<p>CARLOTA (rindo) &#8211; Ver-me? (Vai sentar-se).<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o \u00e9 um motivo justific\u00e1vel, esse?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sem duvida; incomod\u00e1-a \u00e9 que o n\u00e3o \u00e9. Ah! minha senhora, eu aprecio mais do que nenhum outro o despeito que deve causar a uma mo\u00e7a uma interrup\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o da toilette. Creio que \u00e9 coisa t\u00e3o s\u00e9ria como uma quebra de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O Sr. Doutor graceja e exagera. Mas qual \u00e9 esse motivo que justifica a sua entrada em minha casa a esta hora?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Venho receber as suas ordens acerca da representa\u00e7\u00e3o desta noite.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Que representa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Canta-se o Trovador.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Bonita pe\u00e7a!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o pensa que deve ir?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sim, e agrade\u00e7o-lhe a sua am\u00e1vel lembran\u00e7a. J\u00e1 sei que vem oferecer-me o seu camarote. Olhe, h\u00e1 de desculpar-me este descuido, mas prometo que vou quanto antes tomar uma assinatura.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (a Valentim) &#8211; Ando desconfiado do Doutor!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Por que?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Veja como ela o trata! Mas eu vou desbanc\u00e1-lo com a minha frase do Secret\u00e1rio dos Amantes&#8230; (Indo a Carlota) Minha senhora, estas flores s\u00e3o um presente que a primavera faz a sua irm\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR (completando a frase) &#8211; Por interm\u00e9dio do mais ardente admirador de ambas.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Sr. Doutor!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (baixo) &#8211; Isto n\u00e3o se faz! (A Carlota) Aqui tem, minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Agradecida. Por que se retirou ontem t\u00e3o cedo? N\u00e3o lho quis perguntar&#8230; de boca; mas creio que o interroguei com o olhar.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (no c\u00famulo da satisfa\u00e7\u00e3o) &#8211; De boca?&#8230; Com o olhar?&#8230; Ah! queira perdoar, minha senhora&#8230; mas um motivo imperioso&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Imperioso&#8230; n\u00e3o \u00e9 delicado.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o exijo saber o motivo; supus que se houvesse passado alguma coisa que o desgostasse&#8230;<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Qual, minha senhora; o que se poderia passar? N\u00e3o estava eu diante de V. Excia. para consolar-me com seus olhares de algum desgosto que houvesse? E n\u00e3o houve nenhum.<\/p>\n<p>CARLOTA (ergue-se e bate-lhe com o leque no ombro) Lisonjeiro!<\/p>\n<p>DOUTOR (descendo entre ambos) &#8211; V. Excia. h\u00e1 de desculpar-me se interrompo uma esp\u00e9cie de id\u00edlio com uma coisa prosaica, ou antes com outro id\u00edlio, de outro g\u00eanero, um id\u00edlio do est\u00f4mago: o almo\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Almo\u00e7a conosco?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Oh! minha senhora, n\u00e3o seria capaz de interromp\u00ea-la; pe\u00e7o simplesmente licen\u00e7a para ir almo\u00e7ar com um desembargador da rela\u00e7\u00e3o a quem tenho de prestar umas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sinto que na minha perda ganhe um desembargador; n\u00e3o sabe como odeio a toda essa gente do foro; fa\u00e7o apenas uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sou eu.<\/p>\n<p>CARLOTA (sorrindo) &#8211; \u00c9 verdade. Donde concluiu?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Estou presente!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Maldoso!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Fica, n\u00e3o, Sr. Inoc\u00eancio?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Vou. (Baixo ao Doutor) Estalo de felicidade!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p><b>CENA IV<br \/>\nCarlota, Valentim<\/b><\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ficou?<\/p>\n<p>VALENTIM (indo buscar o chap\u00e9u) &#8211; Se a incomodo&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o. D\u00e1-me prazer at\u00e9. Ora, por que h\u00e1 de ser t\u00e3o suscet\u00edvel a respeito de tudo o que lhe digo?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9 muita bondade. Como n\u00e3o quer que seja suscet\u00edvel? S\u00f3 depois de estarmos a s\u00f3s \u00e9 que V. Excia. se lembra de mim. Para um velho gaiteiro acha V. Excia. palavras cheias de bondade e sorrisos cheios de do\u00e7ura.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Deu-lhe agora essa doen\u00e7a? (Vai sentar-se junto \u00e0 mesa).<\/p>\n<p>VALENTIM (senta-se junto \u00e0 mesa defronte de Carlota) &#8211; Oh! n\u00e3o zombe, minha senhora! Estou certo de que os m\u00e1rtires romanos prefeririam a morte r\u00e1pida \u00e0 luta com as feras do circo. O seu sarcasmo \u00e9 uma fera indom\u00e1vel; V. Excia. tem certeza disso e n\u00e3o deixa de lan\u00e7\u00e1-lo em cima de mim.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ent\u00e3o sou tem\u00edvel? Confesso que ainda agora o sei. (Uma pausa). Em que cisma?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Eu?&#8230; em nada!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Interessante col\u00f3quio!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Devo crer que n\u00e3o fa\u00e7o uma figura nobre e s\u00e9ria. Mas n\u00e3o me importa isso! A seu lado eu afronto todos os sarcasmos do mundo. Olhe, eu nem sei o que penso, nem sei o que digo. Rid\u00edculo que pare\u00e7a, sinto-me t\u00e3o elevado o esp\u00edrito que chego a supor em mim algum daqueles toques divinos com que a m\u00e3o dos deuses elevava os mortais e lhes inspirava for\u00e7as e virtudes fora do comum.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sou eu a deusa.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Deusa, como ningu\u00e9m sonhara nunca; com a gra\u00e7a de V\u00eanus e a majestade de Juno. Sei eu mesmo defini-la? Posso eu dizer em l\u00edngua humana o que \u00e9 esta reuni\u00e3o de atrativos \u00fanicos feitos pela m\u00e3o da natureza como uma prova suprema do seu poder? Dou-me por fraco, certo de que nem pincel nem lira poder\u00e3o fazer mais do que eu.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh! \u00e9 de mais! Deus me livre de o tomar por espelho. Os meus s\u00e3o melhores. Dizem coisas menos agrad\u00e1veis, por\u00e9m, mais verdadeiras&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Os espelhos s\u00e3o obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas. Que melhor espelho quer Vossa Excia. que uma alma ing\u00eanua e c\u00e2ndida?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Em que corpo encontrarei&#8230; esse espelho?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; No meu.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sup\u00f5e-se c\u00e2ndido e ing\u00eanuo!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o me suponho, sou.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 por isso que traz perfumes e palavras que embriagam? Se h\u00e1 candura \u00e9 em querer fazer-me crer&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Oh! n\u00e3o queira V. Excia. trocar os pap\u00e9is. Bem sabe que os seus perfumes e as suas palavras \u00e9 que embriagam. Se eu falo um tanto diversamente do comum \u00e9 porque falam em mim o entusiasmo e a admira\u00e7\u00e3o. Quanto a V. Excia. basta abrir os l\u00e1bios para deixar cair dele aromas e filtros cujo segredo s\u00f3 a natureza conhece.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Estimo antes v\u00ea-lo assim. (Come\u00e7a a desenhar distraidamente em um papel).<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Assim&#8230; como?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Menos&#8230; melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9 esse o caminho do seu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Queria que eu pr\u00f3pria lho indicasse? Seria trair-me, e tirava-lhe a gra\u00e7a e a gl\u00f3ria de o encontrar por seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Onde encontrarei um roteiro?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Isso n\u00e3o tinha gra\u00e7a! A gl\u00f3ria est\u00e1 em achar o desconhecido depois da luta e do trabalho&#8230; Amar e fazer-se amar por um roteiro&#8230; oh! que coisa de mau gosto!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Prefiro esta franqueza. Mas V. Excia. deixa-me no meio de uma encruzilhada com quatro ou cinco caminhos diante de mim, sem saber qual hei de tomar. Acha que isto \u00e9 de cora\u00e7\u00e3o compassivo?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ora! siga por um deles, \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Sim, para chegar ao fim e encontrar um muro; voltar, tomar depois por outro&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E encontrar outro muro? \u00c9 poss\u00edvel. Mas a esperan\u00e7a acompanha os homens e com a esperan\u00e7a, neste caso, a curiosidade. Enxugue o suor, descanse um pouco, e volte a procurar o terceiro, o quarto, o quinto caminho, at\u00e9 encontrar o verdadeiro. Suponho que todo o trabalho se compensar\u00e1 com o achado final.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Sim. Mas, se depois de tanto esfor\u00e7o, for encontrar-me no verdadeiro caminho com algum outro viandante de mais tino e fortuna?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Outro?&#8230; que outro? Mas&#8230; isto \u00e9 uma simples conversa&#8230; O Sr. faz-me dizer coisas que n\u00e3o devo&#8230; (Cai o l\u00e1pis ao ch\u00e3o. Valentim apressa-se em apanh\u00e1-lo e ajoelha nesse ato).<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Obrigada. (Vendo que ele continua ajoelhado). Mas levante-se!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o seja cruel!<\/p>\n<p>CARLOTA (levantando-se) &#8211; Fa\u00e7a o favor de levantar-se!<\/p>\n<p>VALENTIM (levantando-se) &#8211; \u00c9 preciso p\u00f4r um termo a isto!<\/p>\n<p>CARLOTA (fingindo-se distra\u00edda) &#8211; A isto o que?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; V. Excia. \u00e9 de um sangue frio de matar!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Queria que me fervesse o sangue? Tinha raz\u00e3o para isso. A que prop\u00f3sito fez esta cena de com\u00e9dia?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; V. Excia. chama a isto com\u00e9dia?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Alta com\u00e9dia, est\u00e1 entendido. Mas que \u00e9 isto? Est\u00e1 com l\u00e1grimas nos olhos?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Eu&#8230; ora&#8230; ora&#8230; que lembran\u00e7a!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Quer que lhe diga? Est\u00e1 ficando rid\u00edculo.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh! rid\u00edculo! rid\u00edculo!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Tem raz\u00e3o. N\u00e3o devo parecer outra coisa a seus olhos! O que sou eu para V. Excia.? Um ente vulgar, uma f\u00e1cil conquista que V. Excia. entret\u00eam, ora animando, ora repelindo, sem deixar nunca conceber esperan\u00e7as fundadas e duradouras. O meu cora\u00e7\u00e3o virgem deixou-se arrastar. Hoje, se quisesse arrancar de mim este amor, era preciso arrancar com ele a vida. Oh! n\u00e3o ria, que \u00e9 assim!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Por que motivo havia de me ouvir com interesse?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o \u00e9 por ter a alma seca; \u00e9 por n\u00e3o acreditar nisso.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o acredita?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>VALENTIM (esperan\u00e7oso) &#8211; E se acreditasse?<\/p>\n<p>CARLOTA (com indiferen\u00e7a) &#8211; Se acreditasse, acreditava!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Oh! \u00e9 cruel!<\/p>\n<p>CARLOTA (depois de um sil\u00eancio) &#8211; Que \u00e9 isso? Seja forte! Se n\u00e3o por si, ao menos pela posi\u00e7\u00e3o esquerda em que me coloca.<\/p>\n<p>VALENTIM (sombrio) &#8211; Serei forte? Fraco no parecer de alguns&#8230; forte no meu&#8230; Minha senhora!<\/p>\n<p>CARLOTA (assustada) &#8211; Onde vai?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; At\u00e9&#8230; minha casa! Adeus! (Sai arrebatadamente. Carlota para estacada; depois vai ao fundo, volta ao meio da cena, vai \u00e0 direita; entra o Doutor).<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sinto que n\u00e3o possa ouvi-lo com interesse.<\/p>\n<p><b>CENA V<br \/>\nCarlota, o Doutor<\/b><\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o me dir\u00e1, minha senhora, o que tem Valentim que passou por mim como um raio, agora, na escada?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Eu sei! Ia mandar em procura dele. Disse-me aqui umas palavras amb\u00edguas, estava exaltado, creio que&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Que se vai matar?&#8230; (Correndo para a porta). Faltava mais esta!&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! por que?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Porque mora longe. No caminho h\u00e1 de refletir e mudar de parecer. Os olhos das damas j\u00e1 perderam o cond\u00e3o de levar um pobre diabo \u00e0 sepultura: raros casos provam uma diminuta exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; De que olhos e de que cond\u00e3o me fala?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Do cond\u00e3o de seus olhos, minha senhora! Mas que influ\u00eancia \u00e9 essa que V. Excia. exerce sobre o esp\u00edrito de quantos se deixam apaixonar por seus encantos? A um inspira a id\u00e9ia de matar-se; a outro exalta-o de tal modo com algumas palavras e um toque de seu leque, que quase chega a ser causa de um ataque apopl\u00e9tico!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Est\u00e1-me falando grego!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Quer portugu\u00eas, minha senhora? Vou traduzir o meu pensamento. Valentim \u00e9 meu amigo. \u00c9 um rapaz, n\u00e3o direi virgem de cora\u00e7\u00e3o, mas com tend\u00eancias \u00e0s paix\u00f5es de sua idade. V. Excia. por sua gra\u00e7a e beleza inspirou-lhe, ao que parece, um desses amores profundos de que os romances d\u00e3o exemplo. Com vinte e cinco anos, inteligente, benquisto, podia fazer um melhor papel que o de namorado sem ventura. Gra\u00e7as a V. Excia., todas as suas qualidades est\u00e3o anuladas: o rapaz n\u00e3o pensa, n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o conhece, n\u00e3o compreende ningu\u00e9m mais que n\u00e3o seja Vossa Excia.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Para a\u00ed a fantasia?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o, senhora. Ao seu carro atrelou-se com o meu amigo, um velho, um velho, minha senhora, que, com o fim de lhe parecer melhor, pinta a coroa vener\u00e1vel de seus cabelos brancos. De s\u00e9rio que era, f\u00ea-lo V. Excia. uma figurinha de papel\u00e3o, sem vontade nem a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Destes sei eu; ignoro se mais algum dos que freq\u00fcentam esta casa andam atordoados como estes dois. Creio, minha senhora, que lhe falei no portugu\u00eas mais vulgar e pr\u00f3prio para me fazer entender.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto \u00e9 verdadeira toda essa hist\u00f3ria, mas consinta que lhe observe quanto andou errado em bater \u00e0 minha porta. Que lhe posso eu fazer? Sou culpada de alguma coisa? A ser verdade isso que contou, a culpa \u00e9 da natureza que os fez f\u00e1ceis de amar, e a mim, me fez&#8230; bonita?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pode dizer mesmo encantadora.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Obrigada!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Em troca do adjetivo deixe acrescentar outro n\u00e3o menos merecido: namoradeira.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Hein?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Na-mo-ra-dei-ra.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Est\u00e1 dizendo coisas que n\u00e3o t\u00eam senso comum.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; O senso comum \u00e9 comum a dois modos de entender. \u00c9 mesmo a mais de dois. \u00c9 uma desgra\u00e7a que nos achemos em diverg\u00eancia.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Mesmo que fosse verdade n\u00e3o era delicado dizer&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Esperava por essa. Mas V. Excia. esquece que eu, l\u00facido como estou hoje, j\u00e1 tive os meus momentos de alucina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 fiei como H\u00e9rcules a seus p\u00e9s. Lembra-se? Foi h\u00e1 tr\u00eas anos. Incorrig\u00edvel a respeito de amores, tinha raz\u00f5es para estar curado, quando vim cair em suas m\u00e3os. Alguns alopatas costumam mandar chamar os homeopatas nos \u00faltimos momentos de um enfermo, e h\u00e1 casos de salva\u00e7\u00e3o para o moribundo. V. Excia. serviu-me de homeopatia, desculpe a compara\u00e7\u00e3o; deu-me uma dose de veneno tremenda, mas eficaz; desde esse tempo fiquei curado.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Admiro a sua fac\u00fandia! Em que tempo padeceu dessa febre de que tive a ventura de o curar?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; J\u00e1 tive a honra de dizer que foi h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o me recordo. Mas considero-me feliz por ter conservado ao foro um dos advogados mais distintos da capital.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pode acrescentar: e \u00e0 humanidade um dos homens mais \u00fateis. N\u00e3o se ria, sou um homem \u00fatil.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o me rio. Conjeturo em que se empregar\u00e1 a sua utilidade.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Vou auxiliar a sua penetra\u00e7\u00e3o. Sou \u00fatil pelos servi\u00e7os que presto aos viajantes nov\u00e9is relativamente ao conhecimento das costas e dos perigos do curso mar\u00edtimo; indico os meios de chegar sem maior risco \u00e0 ilha desejada de C\u00edtera.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Essa exclama\u00e7\u00e3o \u00e9 vaga e n\u00e3o me indica se V. Excia. est\u00e1 satisfeita ou n\u00e3o com a minha explica\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o acredite que eu possa servir aos viajantes?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Acredito. Acostumei-me a olh\u00e1-lo como a verdade nua e crua.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9 o que dizia h\u00e1 bocado \u00e0quele doido Valentim.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A que prop\u00f3sito dizia?&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; A que prop\u00f3sito? Queria que fosse a prop\u00f3sito da guerra dos Estados-Unidos? da quest\u00e3o do algod\u00e3o? do poder temporal? da revolu\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia? Foi a respeito da \u00fanica coisa que nos pode interessar, a ele, como marinheiro novel, e a mim, como capit\u00e3o experimentado.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! foi&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Mostrei-lhe os pontos negros do meu roteiro.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Creio que ele n\u00e3o ficou convencido&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Tanto n\u00e3o, que se ia deitando ao mar.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ora, venha c\u00e1. Falemos um momento sem paix\u00e3o nem rancor. Admito que o seu amigo ande apaixonado por mim. Quero admitir tamb\u00e9m que eu seja uma namoradeira&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Perd\u00e3o: uma encantadora namoradeira&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Dentada de morcego; aceito.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o: atenuante e agravante; sou advogado!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Admito isso tudo. N\u00e3o me dir\u00e1 donde tira o direito de intrometer-se nos atos alheios e de impor as suas li\u00e7\u00f5es a uma pessoa que o admira e estima, mas que n\u00e3o \u00e9 nem sua irm\u00e3 nem sua pupila?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Donde? Da doutrina crist\u00e3: ensino os que erram.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A sua delicadeza n\u00e3o me h\u00e1 de incluir entre os que erram.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pelo contr\u00e1rio; dou-lhe um lugar de honra: \u00e9 a primeira.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sr. Doutor!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o se zangue, minha senhora. Todos erramos; mas V. Excia. erra muito. N\u00e3o me dir\u00e1 de que serve, o que aproveita usar uma mulher bonita de seus encantos para espreitar um cora\u00e7\u00e3o de vinte e cinco anos e atra\u00ed-lo com as suas cantilenas, sem outro fim mais do que contar adoradores e dar um p\u00fablico testemunho do que pode a sua beleza? Acha que \u00e9 bonito? Isto n\u00e3o revolta? (Movimento de Carlota).<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Por minha vez pergunto: donde lhe vem o direito de pregar-me serm\u00f5es de moral?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o h\u00e1 direito escrito para isto, \u00e9 verdade. Mas, eu que j\u00e1 tentei trincar o cacho de uvas pendente, n\u00e3o fa\u00e7o como a raposa da f\u00e1bula, fico ao p\u00e9 da parreira para dizer ao outro animal que vier: &#8220;N\u00e3o sejas tolo! n\u00e3o as alcan\u00e7ar\u00e1s com o teu focinho!&#8221; E \u00e0 parreira impass\u00edvel: &#8220;Seca as tuas uvas ou deixa-as cair; \u00e9 melhor do que t\u00ea-las a\u00ed a fazer cobi\u00e7a \u00e0s raposas avulsas!&#8221; \u00c9 o direito da desforra!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ia-me zangando. Fiz mal. Com o Sr. Doutor \u00e9 in\u00fatil discutir: fala-se pela raz\u00e3o, responde pela par\u00e1bola.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; A par\u00e1bola \u00e9 a raz\u00e3o do evangelho, e o evangelho \u00e9 o livro que mais tem convencido.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Por tais disposi\u00e7\u00f5es vejo que n\u00e3o deixa o posto de sentinela dos cora\u00e7\u00f5es alheios?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Avisador de incautos; \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Pois declaro que dou \u00e1s suas palavras o valor que merecem.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Nenhum?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Absolutamente nenhum. Continuarei a receber com a mesma afabilidade o seu amigo Valentim.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Sim, minha senhora!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E ao Doutor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; \u00c9 magnanimidade.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E ouvirei com paci\u00eancia evang\u00e9lica as suas pr\u00e9dicas n\u00e3o encomendadas.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; E eu pronto a proferi-las. Ah! minha senhora, se as mulheres soubessem quanto ganhariam se n\u00e3o fossem vaidosas! \u00c9 neg\u00f3cio de cinq\u00fcenta por cento.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Estou resignada: crucifique-me!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Em outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Para ganhar for\u00e7as, quer almo\u00e7ar segunda vez?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; H\u00e1 de consentir que recuse.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Por motivo de rancor<\/p>\n<p>DOUTOR (pondo a m\u00e3o no est\u00f4mago) -Por motivo de incapacidade. (Cumprimenta e dirige-se \u00e0 porta. Carlota sai pelo fundo. Entra Valentim).<\/p>\n<p><b>CENA VI<br \/>\nO Doutor, Valentim<\/b><\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Oh! A que horas \u00e9 o enterro?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Que enterro? De que enterro me falas tu?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Do teu. N\u00e3o ias procurar o descanso, meu Werther?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah! n\u00e3o me fales! Esta mulher&#8230; Onde est\u00e1 ela?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Almo\u00e7a.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Sabes que a amo. Ela \u00e9 invenc\u00edvel. \u00c0s minhas palavras amorosas respondeu com a frieza do sarcasmo. Exaltei-me e cheguei a proferir algumas palavras que poderiam indicar da minha parte: uma inten\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica. O ar da rua fez-me bem; acalmei-me&#8230;<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Tanto melhor!&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Mas eu sou teimoso.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pois ainda cr\u00eas?&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ouve: sinceramente aflito e apaixonado, apresentei-me a D. Carlota como era. N\u00e3o houve meio de torn\u00e1-la compassiva. Sei que n\u00e3o me ama; mas creio que n\u00e3o est\u00e1 longe disso; acha-se em um estado que basta uma fa\u00edsca para acender-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o a chama do amor. Se n\u00e3o se comoveu \u00e0 franca manifesta\u00e7\u00e3o do meu afeto, h\u00e1 de comover-se a outro modo de revela\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o se incline ao homem po\u00e9tico e apaixonado; h\u00e1 de inclinar-se ao her\u00f3ico ou at\u00e9 c\u00e9tico&#8230; ou a outra esp\u00e9cie. Vou tentar um por um.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Muito bem. Vejo que raciocinas; \u00e9 porque o amor e a raz\u00e3o dominam em ti com for\u00e7a igual. Gra\u00e7as a Deus, mais algum tempo e o predom\u00ednio da raz\u00e3o ser\u00e1 certo.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Achas que fa\u00e7o bem?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o acho, n\u00e3o, senhor!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Por que?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Amas muito esta mulher? \u00c9 pr\u00f3prio da tua idade e da for\u00e7a das coisas. N\u00e3o h\u00e1 caso que desminta esta verdade reconhecida e provada: que a p\u00f3lvora e o fogo, uma vez pr\u00f3ximos, fazem explos\u00e3o.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9 uma doce fatalidade esta!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ouve-me calado. A que queres chegar com este amor? Ao casamento; \u00e9 honesto e digno de ti. Basta que ela se inspire da mesma paix\u00e3o, e a m\u00e3o do himeneu vir\u00e1 converter em uma s\u00f3 as duas exist\u00eancias. Bem. Mas n\u00e3o te ocorre uma coisa: \u00e9 que esta mulher, sendo uma namoradeira, n\u00e3o pode tornar-se vestal muito cuidadosa da ara matrimonial.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Oh!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Protestas contra isto? \u00c9 natural. N\u00e3o serias o que \u00e9s se aceitasses \u00e0 primeira vista a minha opini\u00e3o. \u00c9 por isso que te pe\u00e7o reflex\u00e3o e calma. Meu caro, o marinheiro conhece as tempestades e os navios; eu conhe\u00e7o os amores e as mulheres; mas avalio no sentido inverso do homem do mar; as escunas veleiras s\u00e3o preferidas pelo homem do mar, eu voto contra as mulheres veleiras.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Chamas a isto uma raz\u00e3o?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Chamo a isto uma opini\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a tua! h\u00e1 de s\u00ea-lo com o tempo. N\u00e3o me faltar\u00e1 ocasi\u00e3o de chamar-te ao bom caminho. A tempo o ferro \u00e9 mezinha, disse S\u00e1 de Miranda. Empregarei o ferro.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; O ferro?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; O ferro. S\u00f3 as grandes coragens \u00e9 que se salvam. Devi a isso salvar-me das unhas deste gavi\u00e3o disfar\u00e7ado de quem queres fazer tua mulher.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; O que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Cuidei que sabias. Tamb\u00e9m eu j\u00e1 trepei pela escada de seda para cantar a cantiga de Romeu \u00e0 janela de Julieta.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Mas n\u00e3o passei da janela. Fiquei ao relento, do que me resultou uma constipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9 natural. Pois como havia ela de amar a um homem que quer levar tudo pela raz\u00e3o fria dos seus libelos e embargos de terceiro?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Foi isso que me salvou; os amores como os desta mulher precisam um tanto ou quanto de chicana. Passo pelo advogado mais chicaneiro do foro; imagina se a tua vi\u00fava podia haver-se comigo! Vem o meu dever com embargos de terceiros e eu ganhei a demanda. Se, em vez de comer tranq\u00fcilamente a fortuna de teu pai, tivesses cursado a academia de S. Paulo ou Olinda, estavas, como eu, armado de broquel e cota de malhas.<\/p>\n<p>VALENTIM -. \u00c9 o que te parece. Podem acaso as ordena\u00e7\u00f5es e o c\u00f3digo penal contra os impulsos do cora\u00e7\u00e3o? \u00c9 querer reduzir a obra de Deus \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da obra dos homens. Mas bem vejo que \u00e9s o advogado mais chicaneiro do foro.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; E, portanto, o melhor.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o, o pior, porque n\u00e3o me convenceste.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ainda n\u00e3o?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Nem me convencer\u00e1s nunca.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Pois \u00e9 pena!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Vou tentar os meios que tenho em vista; se nada alcan\u00e7ar talvez me resigne \u00e0 sorte.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; N\u00e3o tentes nada. Anda jantar comigo e vamos \u00e0 noite ao teatro.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Com ela? Vou.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Nem me lembrava que a tinha convidado.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Com que contas? Com a tua estrela? Boa fian\u00e7a!<\/p>\n<p>VALENTIM Conto comigo.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Ah! melhor ainda!<\/p>\n<p><b>CENA VII<br \/>\nDoutor, Valentim, Inoc\u00eancio<\/b><\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; O corredor est\u00e1 deserto.<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Os criados servem \u00e0 mesa. D. Carlota est\u00e1 almo\u00e7ando. Est\u00e1 melhor?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Um tanto.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Esteve doente, Sr. Inoc\u00eancio?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Sim, tive uma ligeira vertigem. Passou. Efeitos do amor&#8230; quero dizer&#8230; do calor.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Pois olhe, j\u00e1 sofri calor de estalar passarinho. N\u00e3o sei como isto foi. Enfim, s\u00e3o coisas que dependem das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Espero que hei de vencer.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Houve circunst\u00e2ncias?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Houve&#8230; (sorrindo) Mas n\u00e3o as digo&#8230; n\u00e3o!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; \u00c9 segredo?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Se \u00e9!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Sou discreto como uma sepultura; fale!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Oh! n\u00e3o! \u00c9 um segredo meu e de mais ningu\u00e9m&#8230; ou a bem dizer, meu e de outra pessoa&#8230; ou n\u00e3o, meu s\u00f3!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Respeitamos os segredos, seus ou de outros!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; V. S. \u00e9, um portento! Nunca me hei de esquecer que me comparou ao sol! A certos respeitos andou avisado: eu sou uma esp\u00e9cie de sol, com uma diferen\u00e7a, \u00e9 que n\u00e3o nas\u00e7o para todos, nas\u00e7o para todas!<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Oh! Oh!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Mas V. S. est\u00e1 mais na idade de morrer que de nascer.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Apre, l\u00e1! com trinta e oito anos, a idade viril! V. S. \u00e9 que \u00e9 uma crian\u00e7a!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Enganaram-me ent\u00e3o. Ouvi dizer que V. S. fora aos \u00faltimos a beijar a m\u00e3o de D. Jo\u00e3o VI, quando daqui se foi, e que nesse tempo era j\u00e1 taludo.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; H\u00e1 quem se divirta em caluniar a minha idade. Que gente invejosa! Onde vai, Doutor?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Vou sair.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Sem falar a D. Carlota?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; J\u00e1 me havia despedido quando chegaste. Hei de voltar. At\u00e9 logo. Adeus, Sr. Inoc\u00eancio!<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Felizes tardes, Sr. Doutor!<\/p>\n<p><b>CENA VIII<br \/>\nValentim, Inoc\u00eancio<\/b><\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; \u00c9 uma p\u00e9rola este doutor! Delicado e bem falante! Quando abre a boca parece um deputado na assembl\u00e9ia ou um c\u00f4mico na casa da \u00f3pera!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Com trinta e oito anos e ainda fala na casa da \u00f3pera?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Parece que V. S. ficou engasgado com os meus trinta e oito anos! Sup\u00f5e talvez que eu seja um Matusal\u00e9m? Est\u00e1 enganado. Como me v\u00ea, fa\u00e7o andar \u00e0 roda muita cabecinha de mo\u00e7a. \u00c0 prop\u00f3sito, n\u00e3o acha esta vi\u00fava uma bonita senhora?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Acho.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Pois \u00e9 da minha opini\u00e3o! Delicada, graciosa, elegante, faceira, como ela s\u00f3&#8230; Ah!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Gosta dela?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (com indiferen\u00e7a) &#8211; Eu? gosto. E V. S.?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; (com indiferen\u00e7a) &#8211; Eu? gosto.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (com indiferen\u00e7a) &#8211; Assim, assim?<\/p>\n<p>VALENTIM (com indiferen\u00e7a) &#8211; Assim, assim.<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (content\u00edssimo, apertando-lhe a m\u00e3o) &#8211; Ah! meu amigo!<\/p>\n<p><b>CENA IX<br \/>\nValentim, Inoc\u00eancio, Carlota<\/b><\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Aguard\u00e1vamos a sua chegada com a sem cerim\u00f4nia de pessoas \u00edntimas.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh! fizeram muito bem! (Senta-se).<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; N\u00e3o ocultarei que estava ansioso pela presen\u00e7a de V. Excia.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! obrigada&#8230; Aqui estou! (Um sil\u00eancio). Que novidades h\u00e1, Sr. Inoc\u00eancio?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Chegou o paquete.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! (Outro sil\u00eancio). Ah! chegou o paquete? (Levanta-se).<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; J\u00e1 tive a honra de&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Provavelmente traz not\u00edcias de Pernambuco?&#8230; do c\u00f3lera?&#8230;<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Costuma trazer&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Vou mandar ver cartas&#8230; tenho um parente no Recife&#8230; Tenham a bondade de esperar&#8230;<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Por quem \u00e9&#8230; n\u00e3o se incomode. Vou eu mesmo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ora! tinha que ver&#8230;<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Se mandar um escravo ficar\u00e1 na mesma&#8230; demais, eu tenho rela\u00e7\u00f5es com a administra\u00e7\u00e3o do correio&#8230; O que talvez ningu\u00e9m possa alcan\u00e7ar j\u00e1 e j\u00e1, eu me encarrego de obter.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A sua dedica\u00e7\u00e3o corta-me a vontade de impedi-lo. Se me faz o favor&#8230;<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO &#8211; Pois n\u00e3o, at\u00e9 j\u00e1! (Beija-lhe a m\u00e3o e sai).<\/p>\n<p><b>CENA X<br \/>\nCarlota, Valentim<\/b><\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! ah! ah!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; V. Excia. ri-se?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Acredita que foi para despedi-lo que o mandei ver cartas ao correio?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o ouso pensar&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ouse, porque foi isso mesmo.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Haver\u00e1 indiscri\u00e7\u00e3o em perguntar com que fim?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Com o fim de poder interrog\u00e1-lo acerca do sentido de suas palavras quando daqui saiu.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Palavras sem sentido&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Disse algumas coisas&#8230; tolas!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Est\u00e1 t\u00e3o calmo para poder avaliar desse modo as suas palavras?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Estou.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Demais, o fim tr\u00e1gico que queria dar a uma coisa que come\u00e7ou por id\u00edlio&#8230; devia assust\u00e1-lo.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Assustar-me? N\u00e3o conhe\u00e7o o termo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 intr\u00e9pido?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Um tanto. Quem se exp\u00f4s \u00e0 morte n\u00e3o deve tem\u00ea-la em caso nenhum.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh! Oh! poeta, e intr\u00e9pido de mais a mais.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Como lord Byron.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Era capaz de uma segunda prova do caso de Leandro?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Era. Mas eu j\u00e1 tenho feito coisas equivalentes.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Matou algum elefante, algum hipop\u00f3tamo?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Matei uma on\u00e7a.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Uma on\u00e7a?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Pele malhada das cores mais vivas e espl\u00eandidas; garras largas e possantes; olhar fulvo, peito largo e duas ordens de dentes afiados como espadas.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Jesus! Esteve diante desse animal!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Mais do que isso; lutei com ele e matei-o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Onde foi isso?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Conte essa hist\u00f3ria, novo Gaspar Corr\u00eaa.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Tinha eu vinte anos. And\u00e1vamos \u00e0 ca\u00e7a eu e mais alguns. Internamo-nos mais do que dev\u00edamos pelo mato. Eu levava comigo uma espingarda, uma pistola e uma faca de ca\u00e7a. Os meus companheiros afastaram-se de mim. Tratava de procur\u00e1-los quando senti passos. Voltei-me&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Era a on\u00e7a?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Era a on\u00e7a. Com o olhar fito sobre mim, parecia disposta a dar-me o bote. Encarei-a, tirei cautelosamente a pistola e atirei sobre ela. O tiro n\u00e3o lhe fez mal. Protegido pelo fumo da p\u00f3lvora, acastelei-me atr\u00e1s de um tronco de \u00e1rvore. A on\u00e7a foi-me no encal\u00e7o, e durante algum tempo andamos, eu e ela, a dan\u00e7ar \u00e0 roda do tronco. Repentinamente levantou as patas e tentou esmagar-me abra\u00e7ando a \u00e1rvore; mais r\u00e1pido que o raio, agarrei-lhe as m\u00e3os e apertei-a contra o tronco. Procurando escapar-me, a fera quis morder-me em uma das m\u00e3os; com a mesma rapidez tirei a faca de ca\u00e7a e cravei-lha no pesco\u00e7o; agarrei-lhe de novo a pata e continuei a apert\u00e1-la at\u00e9 que os meus companheiros, orientados pelo tiro, chegaram ao lugar do combate.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E mataram?&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o foi preciso. Quando larguei as m\u00e3os da fera, um cad\u00e1ver pesado e t\u00e9pido caiu no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ora, mas isto \u00e9 a hist\u00f3ria de um quadro da Academia!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; S\u00f3 h\u00e1 um exemplar de cada feito her\u00f3ico?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Pois, deveras, matou uma on\u00e7a?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Conservo-lhe a pele como uma rel\u00edquia preciosa.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 valente; mas pensando bem n\u00e3o sei de que vale ser valente.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Oh!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Palavra que n\u00e3o sei. Essa valentia fora do comum n\u00e3o \u00e9 dos nossos dias. \u00c0s proezas tiveram seu tempo; n\u00e3o me entusiasma essa luta do homem com a fera, que nos aproxima dos tempos b\u00e1rbaros da humanidade. Compreendo agora a raz\u00e3o por que usa dos perfumes mais ativos; \u00e9 para disfar\u00e7ar o cheiro dos filhos do mato, que naturalmente h\u00e1 de ter encontrado mais de uma vez. Faz bem.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Fera verdadeira \u00e9 a que V. Excia. me atira com esse riso sarc\u00e1stico. O que pensa ent\u00e3o que possa excitar o entusiasmo?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ora, muita coisa! N\u00e3o o entusiasmo dos her\u00f3is de Homero; um entusiasmo mais condigno nos nossos tempos. N\u00e3o precisa ultrapassar as portas da cidade para ganhar t\u00edtulos \u00e0 admira\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; V. Excia. acredita que seja uma verdade o aperfei\u00e7oamento moral dos homens na vida das cidades?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Acredito.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Pois acredita mal. A vida das cidades estraga os sentimentos. Aquele que eu pude ganhar e entreter na assist\u00eancia das florestas, perdi-os depois que entrei na vida tumultuaria das cidades. V. Excia. ainda n\u00e3o conhece as mais verdadeiras opini\u00f5es.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Dar-se-\u00e1 caso que venha pregar contra o amor?&#8230;<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; O amor! V. Excia. pronuncia essa palavra com uma venera\u00e7\u00e3o que parece estar falando de coisas sagradas! Ignora que o amor \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o humana?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Os homens, que inventaram tanta coisa, inventaram tamb\u00e9m este sentimento. Para dar justifica\u00e7\u00e3o moral \u00e0 uni\u00e3o dos sexos inventou-se o amor, como se inventou o casamento para dar-lhe justifica\u00e7\u00e3o legal. Esses pretextos, com o andar do tempo, tornaram-se motivos. Eis o que \u00e9 o amor!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 mesmo o senhor quem me fala assim?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Eu mesmo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o parece. Como pensa a respeito das mulheres?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; A\u00ed \u00e9 mais dif\u00edcil. Penso muita coisa e n\u00e3o penso nada. N\u00e3o sei como avaliar essa outra parte da humanidade extra\u00edda das costelas de Ad\u00e3o. Quem pode p\u00f4r leis ao mar! \u00c9 o mesmo com as mulheres. O melhor \u00e9 navegar descuidadamente, a pano largo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Isso \u00e9 leviandade.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Oh! minha senhora!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Chamo leviandade para n\u00e3o chamar despeito.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ent\u00e3o h\u00e1 muito tempo que sou leviano ou ando despeitado, porque esta \u00e9 a minha opini\u00e3o de longos anos. Pois ainda acredita na afei\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a descren\u00e7a masculina e&#8230; d\u00e1 licen\u00e7a? a leviandade feminina?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 um homem perdido, Sr. Valentim. Ainda h\u00e1 santas afei\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as nos homens, e ju\u00edzo nas mulheres. N\u00e3o queira tirar a prova real pelas exce\u00e7\u00f5es. Some a regra geral e h\u00e1 de ver. Ah! mas agora percebo!<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; O que?<\/p>\n<p>CARLOTA (rindo) &#8211; Ah! ah! ah! Ou\u00e7a muito baixinho, para que nem as paredes possam ouvir: este n\u00e3o \u00e9 ainda o caminho do meu cora\u00e7\u00e3o, nem a valentia, t\u00e3o pouco.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Ah! tanto melhor! Volto ao ponto de partida e desisto da gloria.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Desanima? (Entra o Doutor).<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Dou-me por satisfeito. Mas j\u00e1 se v\u00ea, como cavalheiro, sem rancor nem hostilidade. (Entra Inoc\u00eancio);<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 arriscar-se a novas tentativas.<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; N\u00e3o!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o seja vaidoso. Est\u00e1 certo?<\/p>\n<p>VALENTIM &#8211; Estou. E a raz\u00e3o \u00e9 esta: quando n\u00e3o se pode atinar com o caminho do cora\u00e7\u00e3o toma-se &#8211; o caminho da porta. (Cumprimenta e dirige-se para a porta).<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ah! &#8211; Pois que v\u00e1! Estava a\u00ed, Sr. Doutor? Tome cadeira.<\/p>\n<p>DOUTOR (baixo) &#8211; Com uma advert\u00eancia: h\u00e1 muito tempo que me fui pelo caminho da porta.<\/p>\n<p>CARLOTA (s\u00e9ria) &#8211; Prepararam ambos esta com\u00e9dia?<\/p>\n<p>DOUTOR &#8211; Com\u00e9dia, com efeito, cuja moralidade Valentim incumbiu-se de resumir: &#8211; Quando n\u00e3o se pode atinar com o caminho do cora\u00e7\u00e3o, deve-se tomar sem demora o caminho da porta. (Saem o doutor e Valentim).<\/p>\n<p>CARLOTA (vendo Inoc\u00eancio) &#8211; Pode sentar-se. (Indica-lhe uma cadeira. Risonha). Como passou?<\/p>\n<p>INOC\u00caNCIO (senta-se meio desconfiado, mas levanta-se logo) &#8211; Perd\u00e3o: eu tamb\u00e9m vou pelo caminho da porta! (Sai. Carlota atravessa arrebatadamente a cena. Cai o pano).<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: alecrim.inf.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Com\u00e9dia em um ato Representada pela primeira vez no Ateneu Dram\u00e1tico em setembro de 1862. PERSONAGENS Dr. Corn\u00e9lio &#8211; Sr. Cardoso Valentim &#8211; Sr. Pimentel Inoc\u00eancio &#8211; Sr. Martins Carlota &#8211; Sra. D. 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