{"id":120669,"date":"2017-04-27T19:50:39","date_gmt":"2017-04-27T21:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120669"},"modified":"2017-04-27T19:50:39","modified_gmt":"2017-04-27T21:50:39","slug":"nao-consultes-medico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/nao-consultes-medico","title":{"rendered":"N\u00e3o consultes M\u00e9dico"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>PESSOAS<\/p>\n<p>D. LEOC\u00c1DIA D. ADELAIDE<br \/>\nD. CARLOTA CAVALCANTE<\/p>\n<p><b>MAGALH\u00c3ES <\/b><br \/>\nUm gabinete em casa de Magalh\u00e3es, na Tijuca.<\/p>\n<p><b>CENA PRIMEIRA<br \/>\nMAGALH\u00c3ES, D. ADELAIDE<\/b><\/p>\n<p>(MAGALH\u00c3ES l\u00ea um livro. D. ADELAIDE folheia um livro de gravuras)<br \/>\nMAG. Esta gente n\u00e3o ter\u00e1 vindo?<br \/>\nD. ADE. Parece que n\u00e3o. J\u00e1 sa\u00edram h\u00e1 um bom peda\u00e7o; feliz-mente o dia est\u00e1 fresco. Titia estava t\u00e3o contente ao almo\u00e7o! E ontem? Voc\u00ea viu que risadas que ela dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o Cavalcante s\u00e9rio. Meu Deus, que homem triste! que cara de defunto!<br \/>\nMAG. Coitado do Cavalcante! Mas que querer\u00e1 ela comigo? Falou-me em um obs\u00e9quio.<br \/>\nD. ADE. Sei o que \u00e9.<br \/>\nMAG. Que \u00e9?<br \/>\nD. ADE. Por ora \u00e9 segredo. Titia quer que levemos Carlota conosco.<br \/>\nMAG Para a Gr\u00e9cia?<br \/>\nD. ADE. Sim, para a Gr\u00e9cia?<br \/>\nMAG. Talvez ela pense que a Gr\u00e9cia \u00e9 em Paris. Eu aceitei a lega\u00e7\u00e3o de Atenas porque n\u00e3o me dava bem em Guatemala, e n\u00e3o h\u00e1 outra vaga na Am\u00e9rica. Nem \u00e9 s\u00f3 por isso; voc\u00ea tem vontade de ir acabar a lua-de-mel na Europa&#8230; Mas ent\u00e3o Cartola vai ficar conosco?<br \/>\nD. ADE. \u00c9 s\u00f3 algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capit\u00e3o de engenharia, que casou com uma vi\u00fava espanhola. Sofreu muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que h\u00e1 de cur\u00e1-la.<br \/>\nMAG. (rindo). \u00c9 a mania dela.<br \/>\nD. ADE. (rindo). S\u00f3 cura mol\u00e9stias morais.<br \/>\nMAG. A verdade \u00e9 que nos curou; mas, por muito que lhe pague-mos em gratid\u00e3o, fala-nos sempre da nossa antiga mol\u00e9stia. &#8220;Como v\u00e3o os meus doentezinhos? N\u00e3o \u00e9 verdade que est\u00e3o curados?&#8221;<br \/>\nD. ADE. Pois falemo-lhes n\u00f3s da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a filha.<br \/>\nMAG. Do mesmo modo?<br \/>\nD. ADE. Por ora n\u00e3o. Quer mand\u00e1-la \u00e0 Gr\u00e9cia para que ela esque\u00e7a o capit\u00e3o de engenharia.<br \/>\nMAG. Mas, em qualquer parte se esquece um capit\u00e3o de engenharia.<br \/>\nD. ADE. Titia pensa que a vista das ru\u00ednas e dos costumes diferentes cura mais depressa. Carlota est\u00e1 com dezoito para dezenove anos, titia n\u00e3o a quer casar antes dos vinte. Desconfio que j\u00e1 traz um noivo em mente, um mo\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 feio, mas tem o olhar espantado.<br \/>\nMAG. \u00c9 um desarranjo para n\u00f3s; mas, enfim, pode ser que lhe achemos l\u00e1 na Gr\u00e9cia algum descendente de Alcib\u00edades que a preserve do olhar espantado.<br \/>\nD. ADE. Ou\u00e7o passos. H\u00e1 de ser titia.. .<br \/>\nMAG. Justamente! Continuemos a estudar a Gr\u00e9cia. (Sentam-se outra vez, MAGALH\u00c3ES lendo, D. ADELAIDE folheando o livro de vistas) .<\/p>\n<p><b>CENA II<br \/>\nOS MESMOS e D. LEOC\u00c1DIA<\/b><\/p>\n<p>D. LEO. (p\u00e1ra \u00e0 porta, desce p\u00e9 ante p\u00e9, e mete a cabe\u00e7a entre os dous). Como v\u00e3o os meus doentezinhos? N\u00e3o \u00e9 verdade que est\u00e3o curados?<br \/>\nMAG. (\u00e0 parte). \u00c9 isto todos os dias.<br \/>\nD. LEO. Agora estudam a Gr\u00e9cia; fazem muito bem. O pa\u00eds do casamento \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o precisaram estudar.<br \/>\nD. ADE. A senhora foi a nossa geografia, foi quem nos deu as primeiras li\u00e7\u00f5es.<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o diga li\u00e7\u00f5es, diga rem\u00e9dios. Eu sou doutora, eu sou m\u00e9dica. Este (indicando MAGALH\u00c3ES), quando voltou de Guatemala, tinha um ar esquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que n\u00e3o; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solit\u00e1rio. . .<br \/>\nMAG. J\u00e1 me disse isto cem vezes.<br \/>\nD. LEO. (voltando-se para ele e continuando). Esta (designando ADELAIDE) andava hipocondr\u00edaca. O m\u00e9dico da casa receitava p\u00edlulas, c\u00e1psulas, uma por\u00e7\u00e3o de tolices que ela n\u00e3o tomava, porque eu n\u00e3o deixava; o m\u00e9dico devia ser eu.<br \/>\nD. ADE. Foi uma felicidade. Que \u00e9 que se ganha em engolir p\u00edlulas?<br \/>\nD. LEO. Apanham-se mol\u00e9stias.<br \/>\nD. ADE. Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalh\u00e3es. . .<br \/>\nD. LEO. Perd\u00e3o, o nariz.<br \/>\nD. ADE. V\u00e1 l\u00e1. A senhora disse-me que ele tinha o nariz bonito, mas muito solit\u00e1rio. N\u00e3o entendi; dous dias depois, perguntou-me se queria casar, eu n\u00e3o sei que disse, e acabei casando.<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o \u00e9 verdade que est\u00e3o curados?<br \/>\nMAG. Perfeitamente.<br \/>\nD. LEO. A prop\u00f3sito, como ir\u00e1 o Dr. Cavalcante? Que esquisit\u00e3o! Disse-me ontem que a cousa mais alegre do mundo era um cemit\u00e9rio.<br \/>\nPerguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro era uma grande cidade. &#8220;\u00c9 a segunda vez que a vejo, disse ele, eu sou do Norte. \u00c9 uma grande cidade, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio \u00e9 um grande homem, a Rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um belo chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gon\u00e7alves Dias, os Timbiras, o Maranh\u00e3o&#8230; &#8221; Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Ele \u00e9 doudo?<br \/>\nMAG. N\u00e3o.<br \/>\nD. LEO. A princ\u00edpio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o peru. Perguntei-lhe que tal achava o peru. Ficou p\u00e1lido, deixou cair o garfo, fechou os olhos e n\u00e3o me respondeu. Eu ia chamar a aten\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, quando ele abriu os olhos e disse com voz surda: &#8220;D. Leoc\u00e1dia, eu n\u00e3o conhe\u00e7o o Peru&#8230;&#8221; Eu, espantada, perguntei: &#8220;Pois n\u00e3o est\u00e1 comendo?&#8230;&#8221; &#8220;N\u00e3o falo desta pobre ave falo-lhe da rep\u00fablica&#8221;.<br \/>\nMAG. Pois conhece a rep\u00fablica.<br \/>\nD. LEO. Ent\u00e3o mentiu<br \/>\nMAG. N\u00e3o, porque nunca l\u00e1 foi.<br \/>\nD. LEO. (a D. ADELAIDE). Mau! seu marido parece que tamb\u00e9m est\u00e1 virando o ju\u00edzo. (A MAGALH\u00c3ES) Conhece ent\u00e3o o Peru, como voc\u00eas est\u00e3o conhecendo a Gr\u00e9cia&#8230; pelos livros.<br \/>\nMAG. Tamb\u00e9m n\u00e3o.<br \/>\nD. LEO. Pelos homens?<br \/>\nMAG. N\u00e3o, senhora.<br \/>\nD. LEO. Ent\u00e3o pelas mulheres?<br \/>\nMAG. Nem pelas mulheres.<br \/>\nD. LEO. Por uma mulher?<br \/>\nMAG. Por uma mocinha, filha do ministro do Peru em Guatemala. J\u00e1 contei a hist\u00f3ria a Adelaide. (D. ADELAIDE senta-se folheando o livro de gravuras).<br \/>\nD. LEO. (senta-se). Ou\u00e7amos a hist\u00f3ria. \u00c9 curta?<br \/>\nMAG. Quatro palavras. Cavalcante estava em comiss\u00e3o do nosso governo, e freq\u00fcentava o corpo diplom\u00e1tico, onde era muito bem visto. Realmente, n\u00e3o se podia achar criatura mais dada, mais expansiva, mais estim\u00e1vel. Um dia come\u00e7ou a gostar da peruana. A peruana era bela e alta, com uns olhos admir\u00e1veis. Cavalcante dentro de pouco, estava doudo por ela, n\u00e3o pensava em mais nada, n\u00e3o falava de outra pessoa. Quando a via ficava ext\u00e1tico. Se ela gostava dele, n\u00e3o sei; \u00e9 certo que o animava, e j\u00e1 se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Peru, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pai.<br \/>\nD. LEO. EIe ficou desconsolado, naturalmente.<br \/>\nMAG. Ah! n\u00e3o me fale! Quis matar-se; pude impedir esse ato de desespero, e o desespero desfez-se em l\u00e1grimas. Caiu doente, uma febre que quase o levou. Pediu dispensa da comiss\u00e3o, e, como eu tinha obtido seis meses de licen\u00e7a, voltamos juntos. N\u00e3o imagina o abatimento em que ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as id\u00e9ias baralhadas. Ainda agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.<br \/>\nD. LEO. Quer que lhe diga? J\u00e1 ontem suspeitei que era neg\u00f3cio de amores; achei-lhe um riso amargo&#8230; Ter\u00e1 bom cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nMAG. Cora\u00e7\u00e3o de ouro.<br \/>\nD. LEO. Espirito elevado?<br \/>\nMAG. Sim, senhora.<br \/>\nD. LEO. Esp\u00edrito elevado, cora\u00e7\u00e3o de ouro, saudades&#8230; Est\u00e1 entendido.<br \/>\nMAG. Entendido o qu\u00ea?<br \/>\nD. LEO. Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que \u00e9 que voc\u00eas se espantam?<br \/>\nD. ADE. De nada.<br \/>\nMAG. De nada, mas&#8230;<br \/>\nD. LEO. Mas qu\u00ea?<br \/>\nMAG. Parece-me&#8230;<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o parece nada; voc\u00eas s\u00e3o uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria do outro, como \u00e9 que p\u00f5em em d\u00favida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou cur\u00e1-lo. Ele vir\u00e1 hoje?<br \/>\nD. ADE. N\u00e3o vem todos os dias; \u00e0s vezes passa-se uma semana.<br \/>\nMAG. Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, dir-lhe-ei que a senhora \u00e9 o maior m\u00e9dico do s\u00e9culo, cura o moral&#8230; Mas, minha tia, devo avis\u00e1-la de uma cousa; n\u00e3o lhe fale em casamento.<br \/>\nD. LEO. Oh! n\u00e3o!<br \/>\nMAG. Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que s\u00f3 se h\u00e1 de casar com a morte&#8230; A senhora exponha-lhe&#8230;<br \/>\nD. LEO. Ora, meu sobrinho, v\u00e1 ensinar o padre-nosso ao vig\u00e1rio. Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doen\u00e7a. J\u00e1 volto.<br \/>\nMAG. N\u00e3o lhe diga que eu \u00e9 que lhe contei o caso da peruana. . .<br \/>\nD. LEO. Pois se eu mesma adivinhei que ele sofria do cora\u00e7\u00e3o. (Sai; entra CARLOTA).<\/p>\n<p><b>CENA III<br \/>\nMAGALH\u00c3ES, D. ADELAIDE, D. CARLOTA<\/b><\/p>\n<p>D. ADE. Bravo! est\u00e1 mais corada agora!<br \/>\nD. CAR. Foi do passeio.<br \/>\nD. ADE. De que \u00e9 que voc\u00ea gosta mais, da Tijuca ou da cidade?<br \/>\nD. CAR. Eu por mim, ficava metida aqui na Tijuca.<br \/>\nMAG. N\u00e3o creio. Sem bailes? sem teatro l\u00edrico?<br \/>\nD. CAR. Os bailes cansam, e n\u00e3o temos agora teatro l\u00edrico.<br \/>\nMAG. Mas, em suma, aqui ou na cidade, o que \u00e9 preciso \u00e9 que voc\u00ea ria, esse ar tristonho faz-lhe a cara feia.<br \/>\nD. CAR. Mas eu rio. Ainda agora n\u00e3o pude deixar de rir vendo o Dr. Cavalcante.<br \/>\nMAG. Por qu\u00ea?<br \/>\nD. CAR. Ele passava ao longe, a cavalo, t\u00e3o distra\u00eddo que levava a cabe\u00e7a ca\u00edda entre as orelhas do animal, ri da posi\u00e7\u00e3o, mas lembrei-me que podia cair e ferir-se, e estremeci toda.<br \/>\nMAG. Mas n\u00e3o caiu?<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o.<br \/>\nD. ADE. Titia viu tamb\u00e9m?<br \/>\nD. CAR. Mam\u00e3e ia-me falando da Gr\u00e9cia, do c\u00e9u da Gr\u00e9cia, dos monumentos da Gr\u00e9cia, do rei da Gr\u00e9cia; toda ela \u00e9 Gr\u00e9cia, fala como se tivesse estado na Gr\u00e9cia<br \/>\nD. ADE. Voc\u00ea quer ir conosco para l\u00e1?<br \/>\nD. CAR. Mam\u00e3e n\u00e3o h\u00e1 de querer.<br \/>\nD. ADE. Talvez queira. (Mostrando-lhes as gravaras do livro) Olhe que bonitas vistas! Isto s\u00e3o ru\u00ednas. Aqui est\u00e1 uma cena de costumes. Olhe esta rapariga com um pote&#8230;<br \/>\nMAG. (\u00e0 janela). Cavalcante a\u00ed vem.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o quero v\u00ea-lo.<br \/>\nD. ADE. Por qu\u00ea?<br \/>\nD. CAR. Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.<br \/>\nD. ADE. Eu tamb\u00e9m vou. (Saem as duas; CAVALCANTE aparece \u00e0 porta, MAGALH\u00c3ES deixa a janela).<\/p>\n<p><b>CENA IV<br \/>\nCAVALCANTE e MAGALH\u00c3ES<\/b><\/p>\n<p>MAG. Entra. Como passaste a noite?<br \/>\nCAV. Bem. Dei um belo passeio; fui at\u00e9 ao Vaticano e vi o papa. (MAGALH\u00c3ES olha espantado) N\u00e3o te assustes, n\u00e3o estou doudo. Eis o que foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu esp\u00edrito para outro. Eu pensava em fazer-me frade; ent\u00e3o todas as minhas id\u00e9ias vestiram-se de burel, e entrei a ver sobrepelizes e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me \u00e0 porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade apareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei e vi que o meu corpo seguira atr\u00e1s do sonho, e que eu ia quase caindo.<br \/>\nMAG. Foi ent\u00e3o que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.<br \/>\nCAV. Tamb\u00e9m eu a vi, e, de vexado, piquei o cavalo.<br \/>\nMAG. Mas, ent\u00e3o ainda n\u00e3o perdeste essa id\u00e9ia de ser frade?<br \/>\nCAV. N\u00e3o.<br \/>\nMAG. Que paix\u00e3o romanesca!<br \/>\nCAV. N\u00e3o, Magalh\u00e3es; reconhe\u00e7o agora o que vale o mundo com as suas perf\u00eddias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas; esse abrigo \u00e9 o claustro. N\u00e3o sairei nunca da minha cela, e buscarei esquecer diante do altar&#8230;<br \/>\nMAG. Olha que vais cair do cavalo!<br \/>\nCAV. N\u00e3o te rias, meu amigo!<br \/>\nMAG. N\u00e3o; quero s\u00f3 acordar-te. Realmente, est\u00e1s ficando maluco. N\u00e3o penses mais em semelhante mo\u00e7a. H\u00e1 no mundo milhares e milhares de mo\u00e7as iguais \u00e0 bela Dolores.<br \/>\nCAV. Milhares e milhares? Mais uma raz\u00e3o para que eu me esconda em um convento. Mas \u00e9 engano; h\u00e1 s\u00f3 uma, e basta.<br \/>\nMAG. Bem; n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio sen\u00e3o entregar-te \u00e0 minha tia.<br \/>\nCAV. \u00c0 tua tia?<br \/>\nMAG. Minha tia cr\u00ea que tu deves padecer de alguma doen\u00e7a moral, \u2014 e adivinhou,\u2014 e fala de curar-te. N\u00e3o sei se sabes que ela vive na persuas\u00e3o de que cura todas as enfermidades morais.<br \/>\nCAV. Oh! eu sou incur\u00e1vel!<br \/>\nMAG. Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus rem\u00e9dios. Se te n\u00e3o curar, dar-te-\u00e1 alguma distra\u00e7\u00e3o, e \u00e9 o que eu quero. (Abre a charuteira, que est\u00e1 vazia) Olha, espera aqui, l\u00ea algum livro; eu vou buscar charutos. (Sai; CAVALCANTE pega num livro e senta-se).<\/p>\n<p><b>CENA V<br \/>\nCAVALCANTE, D. CARLOTA, aparecendo ao fundo<\/b><\/p>\n<p>D. CAR. Primo&#8230; (Vendo Cavalcante) Ah! perd\u00e3o!<br \/>\nCAV. (erguendo-se). Perd\u00e3o de qu\u00ea?<br \/>\nD. CAR. Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de prima Adelaide; est\u00e1 aqui&#8230;<br \/>\nCAV. A senhora viu-me passar a cavalo, h\u00e1 uma hora, numa posi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda e inexplic\u00e1vel.<br \/>\nD. CAR. Perd\u00e3o, mas&#8230;<br \/>\nCAV. Quero dizer-lhe que eu levava na cabe\u00e7a uma id\u00e9ia s\u00e9ria, um neg\u00f3cio grave.<br \/>\nD. CAR. Creio.<br \/>\nCAV. Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distra\u00e7\u00e3o que me deu aquela postura inexplic\u00e1vel. Na minha fam\u00edlia quase todos s\u00e3o distra\u00eddos. Um dos meus tios morreu na guerra do Paraguai, por causa de uma distra\u00e7\u00e3o; era capit\u00e3o de engenharia . . .<br \/>\nD. CAR. (perturbada). Oh! n\u00e3o me fale!<br \/>\nCAV. Por qu\u00ea? N\u00e3o pode t\u00ea-lo conhecido.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro \u00e0 minha prima.<br \/>\nCAV. Pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o, mas&#8230;<br \/>\nD. CAR. Passe bem. (Vai at\u00e9 \u00e0 porta).<br \/>\nCAV. Mas, eu desejava saber. ..<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o, n\u00e3o, perdoe-me. (Sai).<\/p>\n<p><b>CENA VI<\/b><\/p>\n<p>CAV. (s\u00f3). N\u00e3o compreendo; n\u00e3o sei se a ofendi. Falei no tio Jo\u00e3o Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer&#8230;<\/p>\n<p><b>CENA VII<br \/>\nCAVALCANTE, D. LEOC\u00c1DIA<\/b><\/p>\n<p>D. LEO. (ao fundo, \u00e0 parte). Est\u00e1 pensando. (Desce) Bom dia, Dr. Cavalcante!<br \/>\nCAV. Como passou, minha senhora?<br \/>\nD. LEO. Bem, obrigada. Ent\u00e3o meu sobrinho deixou-o aqui s\u00f3?<br \/>\nCAV. Foi buscar charutos, j\u00e1 volta.<br \/>\nD. LEO. Os senhores s\u00e3o muito amigos.<br \/>\nCAV. Somos como dous irm\u00e3os.<br \/>\nD. LEO. Magalh\u00e3es \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe s\u00f3 um defeito, doutor&#8230; Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.<br \/>\nCAV. Disse-lhe ontem algumas tolices, n\u00e3o?<br \/>\nD. LEO. Tolices, \u00e9 muito; umas palavras sem sentido.<br \/>\nCAV. Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.<br \/>\nD. LEO. (pegando-lhe nas m\u00e3os). Olhe bem para mim. (Pausa) Suspire. (CAVALCANTE suspira) O senhor est\u00e1 doente; n\u00e3o negue que est\u00e1 doente, \u2014 moralmente, entenda-se; n\u00e3o negue! (Solta-lhe as m\u00e3os) .<br \/>\nCAV. Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grand\u00edssimo desgosto<br \/>\nD. LEO. Jogo de pra\u00e7a?<br \/>\nCAV. N\u00e3o, senhora.<br \/>\nD. LEO Ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas malogradas?<br \/>\nCAV. N\u00e3o conhe\u00e7o pol\u00edtica.<br \/>\nD. LEO. Algum livro mal recebido pela imprensa?<br \/>\nCAV. S\u00f3 escrevo cartas particulares.<br \/>\nD. LEO N\u00e3o atino. Diga francamente; eu sou m\u00e9dico de enfermidades morais, e posso cur\u00e1-lo. Ao m\u00e9dico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. N\u00e3o se trata de amores?<br \/>\nCAV. (suspirando). Trata-se justamente de amores.<br \/>\nD. LEO. Paix\u00e3o grande?<br \/>\nCAV. Oh! imensa!<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o quero saber o nome da pessoa, n\u00e3o \u00e9 preciso. Naturalmente, bonita?<br \/>\nCAV. Como um anjo!<br \/>\nD. LEO. O cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era de anjo?<br \/>\nCAV. Pode ser, mas de anjo mau.<br \/>\nD. LEO. Uma ingrata&#8230;<br \/>\nCAV. Uma perversa!<br \/>\nD. LEO. Diab\u00f3lica&#8230;<br \/>\nCAV. Sem entranhas!<br \/>\nD. LEO. V\u00ea que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas n\u00e3o acha casamento.<br \/>\nCAV. J\u00e1 achou!<br \/>\nD. LEO. J\u00e1?<br \/>\nCAV. Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.<br \/>\nD. LEO. Os primos quase que n\u00e3o nascem para outra cousa. Diga-me, n\u00e3o procurou esquecer o mal nas folias pr\u00f3prias de rapazes?<br \/>\nCAV. Oh! n\u00e3o! Meu \u00fanico prazer \u00e9 pensar nela.<br \/>\nD. LEO. Desgra\u00e7ado! Assim nunca h\u00e1 de sarar.<br \/>\nCAV. Vou tratar de esquec\u00ea-la.<br \/>\nD. LEO. De que modo?<br \/>\nCAV. De um modo velho, alguns dizem que j\u00e1 obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. H\u00e1 de haver em algum recanto do mundo um claustro em que n\u00e3o penetre sol nem lua.<\/p>\n<p>D. LEO. Que ilus\u00e3o! L\u00e1 mesmo achar\u00e1 a sua namorada. H\u00e1 de v\u00ea-la nas paredes da cela, no tecto, no ch\u00e3o, nas folhas do<br \/>\nbrevi\u00e1rio. O sil\u00eancio far-se-\u00e1 boca da mo\u00e7a, a solid\u00e3o ser\u00e1 o seu corpo.<br \/>\nCAV. Ent\u00e3o estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?<br \/>\nD. LEO. Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o rem\u00e9dio naturalmente indicado \u00e9 ir pregar&#8230; na China, por<br \/>\nexemplo. V\u00e1 pregar aos infi\u00e9is na China. Paredes de convento s\u00e3o mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, v\u00e1 pregar na<br \/>\nChina. No fim de dez anos est\u00e1 curado. Volte, meta-se no convento e n\u00e3o achar\u00e1 l\u00e1 o diabo.<br \/>\nCAV. Est\u00e1 certa que na China&#8230;<br \/>\nD. LEO. Cert\u00edssima.<br \/>\nCAV. O seu rem\u00e9dio \u00e9 muito amargo! Por que \u00e9 que me n\u00e3o manda antes para o Egito? Tamb\u00e9m \u00e9 pa\u00eds de infi\u00e9is.<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o serve; \u00e9 a terra daquela rainha&#8230; Como se chama?<br \/>\nCAV. Cle\u00f3patra? Morreu h\u00e1 tantos s\u00e9culos!<br \/>\nD. LEO. Meu marido disse que era uma desmiolada.<br \/>\nCAV. Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, n\u00e3o se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por<br \/>\nisso estou certo de que ele adorava a V. Ex.a.<br \/>\nD. LEO. Ah! ah! J\u00e1 o doente come\u00e7a a adular o m\u00e9dico. N\u00e3o, senhor, h\u00e1 de ir \u00e0 China. L\u00e1 h\u00e1 mais livros velhos que olhos<br \/>\nbonitos. Ou n\u00e3o tem confian\u00e7a em mim?<br \/>\nCAV. Oh! tenho, tenho. Mas ao doente \u00e9 permitido fazer uma careta antes de engolir a p\u00edlula. Obede\u00e7o; vou para a China.<br \/>\nDez anos, n\u00e3o?<br \/>\nD. LEO. (levanta-se). Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze est\u00e1 curado.<br \/>\nCAV. Vou.<br \/>\nD. LEO. Muito bem. A sua doen\u00e7a \u00e9 tal que s\u00f3 com rem\u00e9dios fortes. V\u00e1; dez anos passam depressa.<br \/>\nCAV. Obrigado, minha senhora.<br \/>\nD. LEO. At\u00e9 logo.<br \/>\nCAV. N\u00e3o, minha senhora, vou j\u00e1.<br \/>\nD. LEO. J\u00e1 para a China!<br \/>\nCAV. Vou arranjar as malas, e amanh\u00e3 embarco para a Eur\u00f2pa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China. At\u00e9<br \/>\ndaqui a dez anos. (Estende-lhe a m\u00e3o).<br \/>\nD. LEO. Fique ainda uns dias&#8230;<br \/>\nCAV. N\u00e3o posso.<br \/>\nD. LEO. Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.<br \/>\nCAV. N\u00e3o, n\u00e3o devo esperar. Quero ir \u00e0s p\u00edlulas, quanto antes; \u00e9 preciso obedecer religiosamente ao m\u00e9dico.<br \/>\nD. LEO. Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem f\u00e9 no m\u00e9dico. O pior \u00e9 que daqui a pouco, talvez, n\u00e3o se<br \/>\nlembre dele.<br \/>\nCAV. Oh! n\u00e3o! Hei de lembrar-me sempre, sempre!<br \/>\nD. LEO. No fim de dous anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e talvez eu o fa\u00e7a voltar. Mas, n\u00e3o minta, olhe l\u00e1;<br \/>\nse j\u00e1 tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.<br \/>\nCAV. Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.<br \/>\nD. LEO. Ent\u00e3o n\u00e3o volta mais a esta casa?<br \/>\nCAV. Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois des\u00e7o, vou tomar passagem no paquete de amanh\u00e3.<br \/>\nD. LEO. Jante, ao menos, conosco.<br \/>\nCAV. Janto na cidade.<br \/>\nD. LEO. Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. H\u00e1<br \/>\npessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contr\u00e1rio, n\u00e3o merecem outra cousa mais que uma sa\u00fade de ferro. O<br \/>\nsenhor nasceu para adoecer; que obedi\u00eancia ao m\u00e9dico! que facilidade em engolir todas as nossas p\u00edlulas! Adeus!<br \/>\nCAV. Adeus, D. Leoc\u00e1dia. (Sai pelo fundo).<\/p>\n<p><b>CENA VIII<br \/>\nD. LEOC\u00c1DIA, D. ADELAIDE<\/b><\/p>\n<p>D. LEO. Com dous anos de China est\u00e1 curado. (Vendo entrar ADELAIDE) O Dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o<br \/>\nmeu exame m\u00e9dico?<br \/>\nD. ADE. N\u00e3o. Que lhe pareceu?<br \/>\nD. LEO. Cura-se.<br \/>\nD. ADE. De que modo?<br \/>\nD. LEO. N\u00e3o posso dizer;. \u00e9 segredo profissional.<br \/>\nD. ADE. Em quantas semanas fica bom?<br \/>\nD LEO. Em dez anos!<br \/>\nD ADE. Miseric\u00f3rdia! Dez anos!<br \/>\nD. LEO. Talvez dous; \u00e9 mo\u00e7o, \u00e9 robusto, a natureza ajudar\u00e1 a medicina, conquanto esteja muito atacado. A\u00ed vem teu marido.<\/p>\n<p><b>CENA IX<br \/>\nOS MESMOS, MAGALH\u00c3ES<\/b><\/p>\n<p>MAG. (a D. LEOC\u00c1DIA). Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo saber o que \u00e9 que lhe receitou.<br \/>\nD. LEO. Receitei-lhe um rem\u00e9dio en\u00e9rgico, mas que h\u00e1 de salv\u00e1-lo. N\u00e3o s\u00e3o consola\u00e7\u00f5es de cacarac\u00e1. Coitado! Sofre muito,<br \/>\nest\u00e1 gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, \u00e0 f\u00e9 do meu grau, que hei de cur\u00e1-lo. Tudo \u00e9 que me<br \/>\nobede\u00e7a, e este obedece. Oh! aquele cr\u00ea em mim. E voc\u00eas, meus filhos? Como v\u00e3o os meu doentezinhos? N\u00e3o \u00e9 verdade que<br \/>\nest\u00e3o curados? (Sai pelo fundo).<\/p>\n<p><b>CENA X<br \/>\nMAGALH\u00c3ES, D. ADELAIDE<\/b><\/p>\n<p>MAG. Tinha vontade de saber o que \u00e9 que ela lhe receitou.<br \/>\nD. ADE. N\u00e3o falemos disso.<br \/>\nMAG. Sabes o que foi?<br \/>\nD. ADE. N\u00e3o; mas titia disse-me que a cura se far\u00e1 em dez anos.<br \/>\n(Espanto de Magalh\u00e3es) Sim, dez anos, talvez dous, mas a cura certa \u00e9 em dez anos.<br \/>\nMAG. (atordoado). Dez anos!<br \/>\nD. ADE. Ou dous.<br \/>\nMAG. Ou dous?<br \/>\nD. ADE. Ou dez.<br \/>\nMAG. Dez anos! Mas \u00e9 impossivel! Quis brincar contigo. Ningu\u00e9m leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.<br \/>\nD. ADE. Talvez ela pense que a melhor cura \u00e9 a morte.<br \/>\nMAG. Talvez. Dez anos!<br \/>\nD. ADE. Ou dous; n\u00e3o esque\u00e7as.<br \/>\nMAG. Sim, ou dous; dous anos \u00e9 muito, mas, h\u00e1 casos&#8230; Vo ter com ele.<br \/>\nD. ADE. Se titia quis enganar a gente, n\u00e3o \u00e9 bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito,<br \/>\nela diga a verdade. N\u00e3o leves essa cara assustada; \u00e9 preciso falar-lhe naturalmente, com indiferen\u00e7a.<br \/>\nMAG. Pois vamos.<br \/>\nD. ADE. Pensando bem, \u00e9 melhor que eu v\u00e1 s\u00f3; entre mulheres&#8230;<br \/>\nMAG. N\u00e3o; ela continuar\u00e1 a zombar de ti; vamos juntos; estou sobre brasas.<br \/>\nD. ADE. Vamos.<br \/>\nMAG. Dez anos!<br \/>\nD. ADE. Ou dous. (Saem pelo fundo).<\/p>\n<p><b>CENA XI<\/b><\/p>\n<p>D. CAR. (entrando pela direita). Ningu\u00e9m! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mist\u00e9rios. H\u00e1 um quarto de hora<br \/>\nquis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que n\u00e3o, que se tratavam aqui neg\u00f3cios graves. Pouco depois levantou-se e saiu;<br \/>\nmas antes disso contou-me que mam\u00e3e \u00e9 que quer que eu v\u00e1 para a Gr\u00e9cia. A verdade \u00e9 que todos me falam de Atenas, de<br \/>\nru\u00ednas, dc dan\u00e7as gregas, da Acr\u00f3pole&#8230; Creio que \u00e9 Acr\u00f3pole que se diz. (Pega no livro que MAGALH\u00c3ES estivera<br \/>\nlendo, senta-se, abre e l\u00ea) &#8220;Entre os prov\u00e9rbios gregos, h\u00e1 um muito fino: N\u00e3o consultes m\u00e9dico; consulta algu\u00e9m que tenha<br \/>\nestado doente&#8221;. Consultar algu\u00e9m quc tenha estado doente! N\u00e3o sei que possa ser. (Continua a ler em voz baixa).<\/p>\n<p><b>CENA XII<br \/>\nD. CARLOTA, CAVALCANTE<\/b><\/p>\n<p>CAV. (ao fundo). D. Leoc\u00e1dia! (Entra e fala de longe a CARLOTA que est\u00e1 de costas) Quando eu ia a sair,<br \/>\nlembrei-me&#8230;<br \/>\nD. CAR. Quem \u00e9? (Levanta-se) Ah! Doutor!<br \/>\nCAV. Desculpe-me, vinha falar \u00e0 senhora sua m\u00e3e para lhe pedir um favor.<br \/>\nD. CAR. Vou cham\u00e1-la.<br \/>\nCAV. N\u00e3o se incomode, falar-lhe-ei logo. Saber\u00e1 por acaso se a senhora sua m\u00e3e conhece algum cardeal em Roma?<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o sei, n\u00e3o, senhor.<br \/>\nCAV. Queria pedir-lhe uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o; voltarei mais tarde. (corteja sai e p\u00e1ra) Ah! aproveito a ocasi\u00e3o para lhe<br \/>\nperguntar ainda uma vez em que \u00e9 que a ofendi?<br \/>\nD. CAR. O senhor nunca me ofendeu.<br \/>\nCAV. Certamente que n\u00e3o; mas ainda h\u00e1 pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguai, tio Jo\u00e3o Pedro, capit\u00e3o<br \/>\nde engenharia&#8230;<br \/>\nD. CAR. (atalhando). Por que \u00e9 que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?<br \/>\nCAV. Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. J\u00e1 h\u00e1 de saber que eu tenho distra\u00e7\u00f5es repentinas,<br \/>\ne quando n\u00e3o calo no ridiculo, como hoje de manh\u00e3, caio na indiscri\u00e7\u00e3o. S\u00e3o segredos mais graves que os seus. \u00c9 feliz, \u00e9<br \/>\nbonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu&#8230; Mas eu n\u00e3o quero aborrec\u00ea-la. O meu caso h\u00e1 de andar em romances.<br \/>\n(Indicando o livro que ela tem na m\u00e3o) Talvez nesse.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o \u00e9 romance (D\u00e1-lhe o livro)<br \/>\nCAV. N\u00e3o? (L\u00ea o t\u00edtulo) Como? Est\u00e1 estudando a Gr\u00e9cia?<br \/>\nD. CAR. Estou.<br \/>\nCAV. Vai para l\u00e1?<br \/>\nD. CAR. Vou, com prima Adelaide.<br \/>\nCAV. Viagem de recreio, ou vai tratar-se?<br \/>\nD. CAR. Deixe-me ir chamar mam\u00e3e.<br \/>\nCAV. Perdoe-me ainda uma vez fui indiscreto, retiro-me. ( D\u00e1 alguns passos para sair).<br \/>\nD. CAR. Doutor! (CAVALCANTE p\u00e1ra) N\u00e3o se zangue comigo; sou um pouco tonta, o senhor \u00e9 bom&#8230;<br \/>\nCAV. (descendo). N\u00e3o diga que sou bom; os infelizes s\u00e3o apenas infelizes. A bondade \u00e9 toda sua. H\u00e1 poucos dias que nos<br \/>\nconhecemos e j\u00e1 nos zangamos, por minha causa. N\u00e3o proteste, a causa \u00e9 a minha mol\u00e9stia.<br \/>\nD. CAR. O senhor est\u00e1 doente?<br \/>\nCAV. Mortalmente.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o diga isso!<br \/>\nCAV. Ou gravemente, se prefere.<br \/>\nD. CAR. Ainda \u00e9 muito. E que mol\u00e9stia \u00e9?<br \/>\nCAV. Quanto ao nome n\u00e3o h\u00e1 acordo: loucura, esp\u00edrito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que \u00e9 amor. Olhe, est\u00e1<br \/>\noutra vez aborrecida comigo!<br \/>\nD. CAR. Oh! n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o. (Procurando rir) \u00c9 o contr\u00e1rio; estou at\u00e9 muito alegre. Diz-me ent\u00e3o que est\u00e1 doente, louco&#8230;<br \/>\nCAV. Louco de amor, \u00e9 o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a mol\u00e9stia,<br \/>\nqualquer que seja a causa, \u00e9 cruel e terr\u00edvel. N\u00e3o pode compreender este imbroglio; pe\u00e7a a Deus que a conserve nessa boa e<br \/>\nfeliz ignor\u00e2ncia. Por que \u00e9 que me est\u00e1 olhando assim? Quer talvez saber&#8230;<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o, n\u00e3o quero saber nada.<br \/>\nCAV. N\u00e3o \u00e9 crime ser curiosa.<br \/>\nD. CAR. Seja ou n\u00e3o loucura, n\u00e3o quero ouvir hist\u00f3rias como a sua.<br \/>\nCAV. J\u00e1 sabe qual \u00e9?<br \/>\nD.CAR. N\u00e3o.<br \/>\nCAV. N\u00e3o tenho direito de interrog\u00e1-la; mas h\u00e1 j\u00e1 dez minutos que estamos neste gabinete, falando de cousas bem esquisitas<br \/>\npara duas pessoas que apenas se conhecem.<br \/>\nD. CAR. (estendendo-lhe a m\u00e3o). At\u00e9 logo.<br \/>\nCAV. A sua m\u00e3o est\u00e1 fria. N\u00e3o se v\u00e1 ainda embora; h\u00e3o de ach\u00e1-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (CARLOTA<br \/>\nsenta-se) Eu retiro-me.<br \/>\nD. CAR. Passe bem.<br \/>\nCAV. At\u00e9 logo.<br \/>\nD.CAR. Volta logo?<br \/>\nCAV. N\u00e3o, n\u00e3o volto mais; queria engan\u00e1-la.<br \/>\nD. CAR. Enganar-me por qu\u00ea?<br \/>\nCAV. Porque j\u00e1 fui enganado uma vez. Ou\u00e7a-me; s\u00e3o duas palavras. Eu gostava muito de uma mo\u00e7a que tinha a sua beleza, e<br \/>\nela casou com outro. Eis a minha mol\u00e9stia.<br \/>\nD. CAR. (erguendo-se). Como assim?<br \/>\nCAV. \u00c9 verdade, casou com outro.<br \/>\nD. CAR. (indignada). Que a\u00e7\u00e3o vil!<br \/>\nCAV. N\u00e3o acha?<br \/>\nD. CAR. E ela gostava do senhor?<br \/>\nCAV. Aparentemente; mas, depois vi que eu n\u00e3o era mais que um passatempo.<br \/>\nD. CAR. (animando-se aos pousos). Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua \u00fanica ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\no seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contempl\u00e1-lo por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam<br \/>\ncair do c\u00e9u e suspirava&#8230;<br \/>\nCAV. Sim, suspirava, mas&#8230;<br \/>\nD. CAR. (maito animada). Um dia abandonou-o, sem uma s\u00f3 palavra de saudade nem de consola\u00e7\u00e3o, fugiu e foi casar com<br \/>\numa vi\u00fava espanhola!<br \/>\nCAV. (espantado). Uma vi\u00fava espanhola!<br \/>\nD. CAR. Ah! tem muita raz\u00e3o em estar doente!<br \/>\nCAV. Mas que vi\u00fava espanhola \u00e9 essa de que me fala?<br \/>\nD. CAR. (caindo em si). Eu falei-lhe de uma vi\u00fava espanhola?<br \/>\nCAV. Falou.<br \/>\nD. CAR. Foi engano&#8230; Adeus, Sr. doutor.<br \/>\nCAV. Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paix\u00e3o que os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam. Oh! como eu execro<br \/>\nos m\u00e9dicos! principalmente os que me mandam para a China.<br \/>\nD. CAR. O senhor vai para a China?<br \/>\nCAV. Vou; mas n\u00e3o diga nada! Foi sua m\u00e3e que me deu esta receita.<br \/>\nD. CAR. A China \u00e9 muito longe!<br \/>\nCAV. Creio at\u00e9 que est\u00e1 fora do mundo.<br \/>\nD. CAR. T\u00e3o longe por qu\u00ea?<br \/>\nCAV. Boa palavra essa. Sim, por que ir \u00e0 China, se a gente pode sarar na Gr\u00e9cia? Dizem que a Gr\u00e9cia \u00e9 muito eficaz para<br \/>\nestas feridas; h\u00e1 quem afirme que n\u00e3o h\u00e1 melhor para as que s\u00e3o feitas pelos capit\u00e3es de engenharia. Quanto tempo vai l\u00e1<br \/>\npassar?<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o sei. Um ano, talvez.<br \/>\nCAV. Cr\u00ea que eu possa sarar num ano?<br \/>\nD. CAR. \u00c9 poss\u00edvel.<br \/>\nCAV. Talvez sejam precisos dous, \u2014 dous ou tr\u00eas.<br \/>\nD. CAR. Ou tr\u00eas.<br \/>\nCAV. Quatro, cinco&#8230;<br \/>\nD. CAR. Cinco, seis. . .<br \/>\nCAV. Depende menos do pa\u00eds que da doen\u00e7a.<br \/>\nD. CAR. Ou do doente.<br \/>\nCAV. Ou do doente. J\u00e1 a passagem do mar pode ser que me fa\u00e7a bem. A minha mol\u00e9stia casou com um primo. A sua<br \/>\n(perdoe esta outra indiscri\u00e7\u00e3o; \u00e9 a \u00faltima) a sua casou com a vi\u00fava espanhola. As espanholas, mormente vi\u00favas, s\u00e3o<br \/>\ndetest\u00e1veis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa j\u00e1 est\u00e1 curada, que \u00e9 que vai fazer \u00e0 Gr\u00e9cia?<br \/>\nD. CAR. Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda est\u00e1 doente, vai para a China.<br \/>\nCAV. Tem raz\u00e3o. Entretanto, come\u00e7o a ter medo de morrer&#8230; Pensou alguma vez na morte?<br \/>\nD. CAR. Pensa-se nela, mas l\u00e1 vem um dia em que a gente aceita a vida, seja como for.<br \/>\nCAV. Vejo que sabe muita cousa.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar por paus e por pedras; mas, como \u00e9 a \u00faltima vez que<br \/>\nnos vemos, n\u00e3o importa. Agora, passe bem.<br \/>\nCAV. Adeus, D. Carlota!<br \/>\nD. CAR. Adeus, doutor!<br \/>\nCAV. Adeus. (D\u00e1 um passo para a porta do fundo) Talvez eu v\u00e1 a Atenas; n\u00e3o fuja se me vir vestido de frade&#8230;<br \/>\nD. CAR. (indo a ele). De frade? O senhor vai ser frade?<br \/>\nCAV. Frade. Sua m\u00e3e aprova-me, contanto que eu v\u00e1 \u00e0 China. Parece-lhe que devo obedecer a esta voca\u00e7\u00e3o, ainda depois<br \/>\nde perdida?<br \/>\nD. CAR. \u00c9 dif\u00edcil obedecer a uma voca\u00e7\u00e3o perdida.<br \/>\nCAV. Talvez nem a tivesse, e ningu\u00e9m se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua<br \/>\nvoz sai de um cora\u00e7\u00e3o que padeceu tamb\u00e9m, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se quiser, mas eu vou<br \/>\npedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto) N\u00e3o lhe pe\u00e7o que me ame, mas que se<br \/>\ndeixe amar; \u00e9 um modo de ser grato. Se fosse uma santa, n\u00e3o podia impedir que lhe acendesse uma vela.<br \/>\nD. CAR. N\u00e3o falemos mais nisto, e separemo-nos<br \/>\nCAV. A sua voz treme; olhe para mim&#8230;<br \/>\nD. CAR. Adeus; a\u00ed vem mam\u00e3e.<\/p>\n<p><b>CENA XIII<br \/>\nOS MESMOS, D. LEOC\u00c1DIA<\/b><\/p>\n<p>D. LEO. Que \u00e9 isto, doutor? Ent\u00e3o o senhor quer s\u00f3 um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausencia.<br \/>\nCAV. D. Carlota lhe dir\u00e1 o que eu desejo.<br \/>\nD. CAR. O doutor veio saber se mam\u00e3e conhece algum cardeal em Roma.<br \/>\nCAV. A princ\u00edpio era um cardeal; agora basta um vig\u00e1rio.<br \/>\nD. LEO. Um vig\u00e1rio? Para qu\u00ea?<br \/>\nCAV. N\u00e3o posso dizer.<br \/>\nD. LEO. (a CARLOTA). Deixa-nos s\u00f3s, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confid\u00eancia.<br \/>\nCAV. N\u00e3o, n\u00e3o, ao contr\u00e1rio&#8230; D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer \u00e9 que um vig\u00e1rio basta para casar.<br \/>\nD. LEO. Casar a quem?<br \/>\nCAV. N\u00e3o \u00e9 j\u00e1, falta-me ainda a noiva.<br \/>\nD. LEO. Mas quem \u00e9 que me est\u00e1 falando?<br \/>\nCAV. Sou eu, D. Leoc\u00e1dia.<br \/>\nD LEO O senhor! o senhor! o senhor!<br \/>\nCAV. Eu mesmo. Pedi licen\u00e7a a algu\u00e9m&#8230;<br \/>\nD. LEO. Para casar?<\/p>\n<p><b>CENA XIV<br \/>\nOS MESMOS, MAGALH\u00c3ES, D. ADELAIDE<\/b><\/p>\n<p>MAG. Consentiu, titia?<br \/>\nD. LEO. Em reduzir a China a um ano? Mas ele agora quer a vida inteira.<br \/>\nMAG. Est\u00e1s doudo?<br \/>\nD. LEO. Sim, a vida inteira, mas \u00e9 para casar. (D. CARLOTA fa1a baixo a D. Adelaide) Voc\u00ea entende, Magalh\u00e3es?<br \/>\nCAV. Eu, que devia entender, n\u00e3o entendo.<br \/>\nD. ADE. (que ouviu D. CARLOTA). Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia<br \/>\ncurada do seu pr\u00f3prio mal, exp\u00f4s sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.<br \/>\nD. LEO. (a CARLOTA). Deveras? (D. CARLOTA baixa os olhos) Bem; como \u00e9 para sa\u00fade dos dous, concedo; s\u00e3o mais<br \/>\nduas curas!<br \/>\nMAG. Perd\u00e3o; estas fizeram-se pela receita de um prov\u00e9rbio grego que est\u00e1 aqui neste livro. (Abre o livro) &#8220;N\u00e3o consultes<br \/>\nm\u00e9dico; consulta algu\u00e9m que tenha estado doente&#8221;.<br \/>\n<b>FIM<br \/>\nDE &#8220;N\u00c3O CONSULTES M\u00c9DICO&#8221;<\/b><\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.cce.ufsc.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis PESSOAS D. LEOC\u00c1DIA D. ADELAIDE D. CARLOTA CAVALCANTE MAGALH\u00c3ES Um gabinete em casa de Magalh\u00e3es, na Tijuca. CENA PRIMEIRA MAGALH\u00c3ES, D. ADELAIDE (MAGALH\u00c3ES l\u00ea um livro. D. ADELAIDE folheia um livro de gravuras) MAG. Esta gente n\u00e3o ter\u00e1 vindo? D. ADE. Parece que n\u00e3o. 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