{"id":120667,"date":"2017-04-27T19:48:58","date_gmt":"2017-04-27T21:48:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120667"},"modified":"2017-04-27T19:48:58","modified_gmt":"2017-04-27T21:48:58","slug":"licao-de-botanica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/licao-de-botanica","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00e3o de Bot\u00e2nica"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>D. Helena<br \/>\nD. Leonor<br \/>\nD. Cec\u00edlia<br \/>\nBar\u00e3o Segismundo de Kernoberg<\/p>\n<p><b>Lugar da cena: <\/b>Andara\u00ed<\/p>\n<h2>ATO \u00daNICO<\/h2>\n<p>Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma \u00e0 direita do espectador<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>D. Leonor, D. Helena, D. Cec\u00edlia<\/p>\n<p>D. Leonor entra, lendo uma carta, D. Helena e D. Cec\u00edlia entram no fundo.<br \/>\nD. HELENA &#8211; J\u00e1 de volta!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (a D. Helena, depois de um sil\u00cancio) &#8211; Ser\u00e1 alguma carta de namoro?<\/p>\n<p>D. HELENA (Baixo) &#8211; Crian\u00e7a!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o me explicar\u00e3o isto?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Recebi ao descer do carro este bilhete: &#8220;Minha senhora. Permita que o mais respeitoso vizinho lhe pe\u00e7a dez minutos de aten\u00e7\u00e3o. Vai nisto um grande interesse da ci\u00eancia&#8221;. Que tenho eu com a ci\u00eancia?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mas de quem \u00e9 a carta?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Do Bar\u00e3o Sigismundo de Kernoberg.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Ah! o tio de Henrique!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; De Henrique! Que familiaridade \u00e9 essa?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Titia, eu&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR Eu que?&#8230; Henrique!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Foi uma maneira de falar na aus\u00eancia. Com que ent\u00e3o o Sr. Bar\u00e3o Sigismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de aten\u00e7\u00e3o, em nome e por amor da ci\u00eancia. Da parte de um bot\u00e2nico \u00e9 por for\u00e7a alguma \u00e9gloga.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Seja o que for, n\u00e3o sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. J\u00e1 o viram alguma vez?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Eu nunca.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Bot\u00e2nico e sueco: duas raz\u00f5es para ser gravemente aborrecido. Nada, n\u00e3o estou em casa.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Mas, quem sabe, titia, se ele quer pedir-lhe&#8230; sim&#8230; um exame no nosso jardim?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; H\u00e1 por todo esse Andara\u00ed muito jardim para examinar.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o, senhora, h\u00e1 de receb\u00ea-lo.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Por que?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Porque \u00e9 nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, enfim, porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distinto.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o me lembrava do sobrinho. V\u00e1 l\u00e1; aturemos o bot\u00e2nico. (Sai pela porta do fundo, \u00e0 esquerda).<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>D. HELENA, D. CEC\u00cdLIA<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e30 me agradece?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; O que?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Sonsa! Pois n\u00e3o adivinhas o que vem c\u00e1 fazer o Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vem pedir a tua m\u00e3o para o sobrinho.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Helena!<\/p>\n<p>D. HELENA (imitando-a) &#8211; Helena!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Juro&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que o n\u00e3o amas.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que o amas?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mau! Alguma coisa h\u00e1 de ser. Il faut qu&#8217;une porte soit ouverte ou ferm\u00e9e. Porta neste caso \u00e9 cora\u00e7\u00e3o. O teu cora\u00e7\u00e3o h\u00e1 de estar fechado ou aberto&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Perdi a chave.<\/p>\n<p>D. HELENA (rindo) &#8211; E n\u00e3o o podes fechar outra vez. S\u00e3o assim todos os cora\u00e7\u00f5es ao p\u00e9 de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do lugar. N\u00e3o escolheste mal, n\u00e3o; \u00e9 um bonito rapaz.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Oh! uns olhos!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Azuis.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Como o c\u00e9u.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Louro&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Elegante&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Espirituoso&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; E bom&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Uma p\u00e9rola&#8230; (Suspira). Ah!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Suspiras?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que h\u00e1 de fazer uma vi\u00fava falando&#8230; de uma p\u00e9rola?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e30 tenho, n\u00e3o; meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o quer j\u00f3ias.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Mas as j\u00f3ias querem o teu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Tanto pior para elas: h\u00e3o de ficar em casa do joalheiro.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Veremos isso. (Sobe). Ah!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (olhando para a direita) &#8211; Um homem desconhecido que l\u00e1 vem; h\u00e1 de ser o Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vou avisar titia. (Sai pelo fundo, \u00e0 esquerda).<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>D. Cec\u00edlia, Bar\u00e3o<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Ser\u00e1 deveras ele? Estou tr\u00eamula&#8230; Henrique n\u00e3o me avisou de nada&#8230; Vir\u00e1 pedir-me?&#8230; Mas, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o pode ser &#8230;&#8230;. T\u00e3o mo\u00e7o?&#8230; (O Bar\u00e3o aparece).<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00e1 porta, depois de profunda cortesia) &#8211; Creio que a Excelent\u00edssima Senhora D. Leonor Gouv\u00eaa recebeu uma carta&#8230; Vim sem esperar a resposta.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; \u00c9 o Sr. Bar\u00e3o Sigismundo de Kernoberg? (O Bar\u00e3o faz um gesto afirmativo). Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (\u00c0 parte). Devo estar vermelha&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00e1 parte, olhando para Cec\u00edlia)<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser esta.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (\u00e1 parte) &#8211; E titia n\u00e3o vem&#8230; Que demora!&#8230; N\u00e3o sei que lhe diga&#8230; estou t\u00e3o vexada&#8230; (O Bar\u00e3o tira um livro da algibeira e folheia-o). Se eu pudesse deix\u00e1-lo&#8230; \u00c9 o que vou fazer. (Sobe).<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (fechando o livro e erguendo-se) &#8211; V. Excia. h\u00e1 de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; \u00e9 obra que vai fazer revolu\u00e7\u00e3o na ci\u00eancia; nada menos que uma monografia das gram\u00edneas, premiadas pela Academia de Stockholmo.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Sim? (\u00c0 parte) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; As gram\u00edneas t\u00eam ou n\u00e3o t\u00eam perianto? A principio adotou-se a negativa, posteriormente&#8230; V. Excia. talvez n\u00e3o conhe\u00e7a \u00e9 o que \u00e9 o perianto..<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Perianto comp\u00f5e-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; O inv\u00f3lucro da flor.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Acertou. \u00c9 o que vulgarmente se chama c\u00e1lix. Pois as gram\u00edneas eram tidas&#8230; (Aparece D. Leonor ao fundo). Ah!<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>Os mesmos, D. Leonor<br \/>\nD. LEONOR &#8211; Desejava falar-me?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Se me d\u00e1 essa honra. Vim sem esperar resposta \u00e0 minha carta. Dez minutos apenas.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Estou \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Com licen\u00e7a. (\u00c0 parte, olhando para o c\u00e9u). Ah! minha Nossa Senhora! (Retira-se pelo fundo).<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>D. Leonor, Bar\u00e3o<br \/>\n(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Bar\u00e3o, que a imita).<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Sou o Bar\u00e3o Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, bot\u00e2nico de voca\u00e7\u00e3o, profiss\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o, membro da Academia de Stockholmo e comissionado pelo governo da Su\u00e9cia para estudar a flora da Am\u00e9rica do Sul. V. Excia. dispensa a minha biografia? (D. Leonor faz um gesto afirmativo). Direi somente que o tio de meu tio foi bot\u00e2nico, meu tio bot\u00e2nico, eu bot\u00e2nico, e meu sobrinho h\u00e1 de ser bot\u00e2nico. Todos somos bot\u00e2nicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Oh! o meu jardim \u00e9 composto de plantas vulgares.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (gracioso) &#8211; \u00c9 porque as melhores flores da casa est\u00e3o dentro de casa. Mas V. Excia. engana-se; n\u00e3o venho pedir nada do seu jardim.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Ah!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Venho pedir-lhe uma coisa que lhe h\u00e1 de parecer singular.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Fale.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O padre desposa a igreja; eu desposei a ci\u00eancia. Saber \u00e9 o meu estado conjugal; os livros s\u00e3o a minha fam\u00edlia. Numa palavra, fiz voto de celibato.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o se case.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Justamente. Mas, V. Excia. compreende que, sendo para mim ponto de f\u00e9 que a ci\u00eancia n\u00e3o se d\u00e1 bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem&#8230; Vossa Excia. j\u00e1 percebeu.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Coisa nenhuma.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da bot\u00e2nica. Tem talento, h\u00e1 de vir a ser um luminar da ci\u00eancia. Se o casamos, est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00e1 parte) &#8211; N\u00e3o entendeu. (Alto). Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, h\u00e1 pouco. Impus-lhe que n\u00e3o voltasse a esta casa; ele resistiu-me. S\u00f3 me resta um meio: \u00e9 que V. Excia. lhe feche a porta.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Senhor Bar\u00e3o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Admira-se do pedido? Creio que n\u00e3o \u00e9 polido nem conveniente. Mas \u00e9 necess\u00e1rio, minha senhora, \u00e9 indispens\u00e1vel. A ci\u00eancia precisa de mais um obreiro: n\u00e3o o encadeiemos no matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o sei se devo sorrir do pedido&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Ter\u00e1 os meus agradecimentos e as b\u00ean\u00e7\u00e3os da posteridade.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso tanto; posso fech\u00e1-la de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Justo. O verdadeiro benef\u00edcio \u00e9 gratuito.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Antes, por\u00e9m, de nos despedirmos, desejava dizer uma coisa e perguntar outra. (O Bar\u00e3o curva-se). Direi primeiramente que ignoro se h\u00e1 tal paix\u00e3o da parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Su\u00e9cia estes pedidos s\u00e3o usuais.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Na geografia intelectual n\u00e3o h\u00e1 Su\u00e9cia nem Brasil; os pa\u00edses s\u00e3o outros: astronomia, geologia, matem\u00e1ticas; na bot\u00e2nica s\u00e3o obrigat\u00f3rios.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Todavia, \u00e0 for\u00e7a de andar com flores&#8230; deviam os bot\u00e2nicos traz\u00ea-las consigo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ficam no gabinete.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Trazem os espinhos somente.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; V. Excia. tem esp\u00edrito. Compreendo a afei\u00e7\u00e3o de Henrique a esta casa. (Levanta-se). Promete-me ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR (levantando-se) &#8211; Que faria no meu caso?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Recusava.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Com preju\u00edzo da ci\u00eancia?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o, porque nesse caso a ci\u00eancia mudaria de acampamento, isto \u00e9, o vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido ineficaz?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Quis primeiro tentar fortuna.<\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p>D. Leonor, Bar\u00e3o, D. Helena<\/p>\n<p>D. HELENA (entra e para) &#8211; Ah!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Entra, n\u00e3o \u00e9 assunto reservado. O Sr. Bar\u00e3o de Kernoberg&#8230; (Ao Bar\u00e3o) \u00c9 minha sobrinha Helena. (\u00c0 Helena) Aqui o Sr. Bar\u00e3o vem pedir que o n\u00e3o perturbemos no estudo da bot\u00e2nica. Diz que o seu sobrinho Henrique est\u00e1 destinado a um lugar honroso na ci\u00eancia, e&#8230; conclua, Sr. Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o conv\u00e9m que se case, a ci\u00eancia exige o celibato.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Ouviste?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o compreendo&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O Uma paix\u00e3o louca de meu sobrinho pode impedir que&#8230; Minhas senhoras, n\u00e3o desejo roubar-lhes mais tempo&#8230; Confio em V. Excia., minha senhora&#8230; Ser-lhe-ei eternamente grato. Minhas senhoras. (Faz uma grande cortesia e sai).<\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p>D. Helena, D. Leonor<br \/>\nD. LEONOR (rindo) &#8211; Que urso!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Realmente&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Perd\u00f4o-lhe em nome da ci\u00eancia. Fique com as suas ervas, e n\u00e3o nos aborre\u00e7a mais, nem ele nem o sobrinho.<\/p>\n<p>D. HELENA Nem o sobrinho?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Nem o sobrinho, nem o criado, nem o c\u00e3o, se o houver, nem coisa nenhuma que tenha rela\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cec\u00edlia h\u00e1 tal ou qual namoro?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Se promete segredo&#8230; h\u00e1.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Pois acabe-se o namoro.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. O Henrique \u00e9 um perfeito cavalheiro; ambos s\u00e3o dignos um do outro. Por que raz\u00e3o impediremos que dois cora\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o sei de cora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e3o de faltar casamentos a Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Certamente que n\u00e3o, mas os casamentos n\u00e3o se improvisam nem se projetam na cabe\u00e7a; s\u00e3o atos do cora\u00e7\u00e3o, que a igreja santifica. Tentemos uma coisa.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Reconciliemo-nos com o Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Nada, nada.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pobre Cec\u00edlia!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; \u00c9 ter paci\u00eancia, sujeite-se \u00e0s circunst\u00e2ncias&#8230; (A D. Cec\u00edlia, que entra) Ouviste?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; O que, titia?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Helena te explicar\u00e1 tudo. (A D. Heleno, baixo). Tira-lhe todas as esperan\u00e7as. (Indo-se). Que urso! que urso!<\/p>\n<h2>CENA VIII<\/h2>\n<p>D. Helena, D. Cec\u00edlia<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que aconteceu?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Aconteceu&#8230; (Olha com tristeza para ela).<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Acaba.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pobre Cec\u00edlia!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Titia recusou a minha m\u00e3o?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Qual! O Bar\u00e3o \u00e9 que se op\u00f5e ao casamento.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Op\u00f5e-se!<\/p>\n<p>D. HELENA Diz que a ci\u00eancia exige o celibato do sobrinho. (D. Cec\u00edlia encosta-se a uma cadeira). Mas, sossega; nem tudo est\u00e1 perdido; pode ser que o tempo&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Mas quem impede que ele estude?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mania de s\u00e1bio. Ou ent\u00e3o, evasiva do sobrinho.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA Oh! n\u00e3o! \u00e9 imposs\u00edvel; Henrique \u00e9 uma alma ang\u00e9lica! Respondo por ele. H\u00e1 de certamente opor-se a semelhante exig\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o conv\u00e9m precipitar as coisas. O Bar\u00e3o pode zangar-se e ir-se embora.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que devo ent\u00e3o fazer?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Esperar. H\u00e1 tempo para tudo.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Pois bem, quando Henrique vier&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pura verdade. Foi uma exig\u00eancia do Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Ah! conspiram todos contra mim. (P\u00f5e as m\u00e3os na cabe\u00e7a). Sou muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me! Anda, v\u00ea se descobres um meio&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA (indo sentar-se) &#8211; Que meio?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (acompanhando-a) &#8211; Um meio qualquer que n\u00e3o nos separe!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; H\u00e1 um.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Qual? Dize.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Casar.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Oh! n\u00e3o zombes de mim! Tu tamb\u00e9m amaste, Helena; deves respeitar estas angustias. N\u00e3o tornar a ver o meu Henrique \u00e9 uma id\u00e9ia intoler\u00e1vel. Anda, minha irm\u00e3zinha. (Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o rega\u00e7o de D. Helena). Salva-me! \u00c9s t\u00e3o inteligente, que h\u00e1s de achar por for\u00e7a alguma id\u00e9ia; anda, pensa !<\/p>\n<p>D. HELENA (beijando-lhe a testa) -Crian\u00e7a! sup\u00f5es que seja t\u00e3o f\u00e1cil assim?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Para ti h\u00e1 de ser f\u00e1cil.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Lisonjeira! (Pega maquinalmente no livro deixado pelo Bar\u00e3o sobre a cadeira). A boa vontade n\u00e3o pode tudo; \u00e9 preciso&#8230; (Tem aberto o livro). Que livro \u00e9 este?&#8230; Ah! talvez do Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Mas vamos&#8230; continua.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Isto h\u00e1 de ser sueco&#8230; trata talvez de bot\u00e2nica. Sabes sueco?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Helena!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Quem sabe se este livro pode salvar tudo? (Depois de um instante de reflex\u00e3o). Sim, \u00e9 poss\u00edvel. Tratar\u00e1 de bot\u00e2nica?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Trata.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Quem te disse?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Ouvi dizer ao Bar\u00e3o, trata das&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Das&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Das gram\u00edneas?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; S\u00f3 das gram\u00edneas?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o sei; foi premiado pela Academia de Stockholmo.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; De Stockholmo. Bem. (Levanta-se).<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (levantando-se) &#8211; Mas que \u00e9?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vou mandar-lhe o livro&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que mais?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Com um bilhete.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (olhando para a direita) N\u00e3o \u00e9 preciso; l\u00e1 vem ele.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que vais fazer?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Dar-lhe o livro.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; O livro, e&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; E as despedidas.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o compreendo.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Espera e ver\u00e1s.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o posso encara-lo; adeus.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Cec\u00edlia! (D. Cec\u00edlia sai).<\/p>\n<h2>CENA IX<\/h2>\n<p>D. HELENA, BAR\u00c3O<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00e1 porta) &#8211; Perd\u00e3o, minha senhora; eu trazia um livro h\u00e1 pouco&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA (com o livro na m\u00e3o) &#8211; Ser\u00e1 este?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (caminhando para ela) &#8211; Justamente.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Escrito em sueco, penso eu&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Em sueco.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Trata naturalmente de bot\u00e2nica.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Das gram\u00edneas.<\/p>\n<p>D. HELENA (com interesse) &#8211; Das gram\u00edneas!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; De que se espanta?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Um livro publicado&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ha quatro meses.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Premiado pela Academia de Stockholmo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (admirado) &#8211; \u00c9 verdade. Mas&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que pena que eu n\u00e3o saiba sueco!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Tinha noticia do livro?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Certamente. Ando ansiosa por l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Perd\u00e3o, minha senhora. Sabe bot\u00e2nica?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o ouso dizer que sim, estudo alguma coisa; leio quando posso. \u00c9 ci\u00eancia profunda e encantadora.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (com calor) &#8211; \u00c9 a primeira de todas.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o me atrevo a ap\u00f3ia-lo, porque nada sei das outras, e poucas luzes tenho de bot\u00e2nica, apenas as que pode dar um estudo solit\u00e1rio e deficiente. Se a vontade suprisse o talento&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Por que n\u00e3o? Le g\u00e9nie, c&#8217;est la patience, dizia Buffon.<\/p>\n<p>D. HELENA (sentando-se) &#8211; Nem sempre.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Realmente, estava longe de supor, que, t\u00e3o perto de mim, uma pessoa t\u00e3o distinta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Da sua esposa.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (sentando) &#8211; \u00c9 verdade. Um marido pode perder a mulher, e se a amar deveras, nada a compensar\u00e1 neste mundo, ao passo que a ci\u00eancia n\u00e3o morre&#8230; Morremos n\u00f3s, ela sobrevive com todas as gra\u00e7as do primeiro dia, ou ainda maiores, porque cada descoberta \u00e9 um encanto novo.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Oh! tem raz\u00e3o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas, diga-me V. Excia.: tem feito estudo especial das gram\u00edneas?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Por alto&#8230; por alto&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Contudo, sabe que a opini\u00e3o dos s\u00e1bios n\u00e3o admitia o perianto&#8230; (D. Helena faz sinal afirmativo). Posteriormente reconheceu-se a exist\u00eancia do perianto. (Novo gesto de D. Helena). Pois este livro refuta a segunda opini\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Refuta o perianto?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Completamente.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Acho temeridade.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Tamb\u00e9m eu supunha isso&#8230; Li-o, por\u00e9m, e a demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 clar\u00edssima. Tenho pena que n\u00e3o possa l\u00ea-lo. Se me d\u00e1 licen\u00e7a, farei uma tradu\u00e7\u00e3o portuguesa e daqui a duas semanas&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o sei se deva aceitar&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Aceite; \u00e9 o primeiro passo para me n\u00e3o recusar segundo pedido.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Qual?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Que me deixe acompanha-la em seus estudos, repartir o p\u00e3o do saber com V. Excia. \u00c9 a primeira vez que a fortuna me depara uma disc\u00edpula. Disc\u00edpula \u00e9, talvez, ousadia da minha parte&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Ousadia, n\u00e3o; eu sei muito pouco; posso dizer que n\u00e3o sei nada.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A mod\u00e9stia \u00e9 o aroma do talento, como o talento \u00e9 o esplendor da gra\u00e7a. V. Excia. possui tudo isso. Posso compar\u00e1-la \u00e0 violeta, &#8211; Viola odorata de Lineu, &#8211; que \u00e9 formosa e recatada&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA (interrompendo) &#8211; Pedirei licen\u00e7a \u00e0 minha tia. Quando ser\u00e1 a primeira li\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Quando quiser. Pode ser amanh\u00e3. Tem certamente not\u00edcia da anatomia vegetal.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Not\u00edcia incompleta.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Da fisiologia?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Um pouco menos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nesse caso, nem a taxonomia, nem a fitografia&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o fui at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas h\u00e1 de ir&#8230; Ver\u00e1 que mundos novos se lhe abrem diante do esp\u00edrito. Estudaremos, uma por uma, todas as fam\u00edlias, as orqu\u00eddeas, as jasm\u00edneas, as rubi\u00e1ceas, as ole\u00e1ceas, as narc\u00edseas, as umbel\u00edferas, as&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Tudo, desde que se trata de flores.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Compreendo: amor de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Bravo! um cumprimento!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (folheando o livro) &#8211; A ci\u00eancia os permite.<\/p>\n<p>D. HELENA (\u00e0 parte) &#8211; O mestre \u00e9 perigoso. (Alto). Tinham-me dito exatamente o contr\u00e1rio; disseram-me que o Sr. Bar\u00e3o era&#8230; n\u00e3o sei como diga&#8230; era&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Talvez um urso.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pouco mais ou menos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; E sou.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Por que n\u00e3o cr\u00ea?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Porque o vejo am\u00e1vel.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Suport\u00e1vel apenas.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Demais, imaginava-o uma figura muito diferente, um velho macilento, melenas ca\u00eddas, olhos encovados.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Estou velho, minha senhora.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Trinta e seis anos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Trinta e nove.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Plena mocidade.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo sen\u00e3o a minha prosa cient\u00edfica?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; S\u00f3 uma coisa lhe acho inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; A teoria de que o amor e a ci\u00eancia s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! isso&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; D\u00e1-se o esp\u00edrito \u00e0 ci\u00eancia e o cora\u00e7\u00e3o ao amor. S\u00e3o territ\u00f3rios diferentes, ainda que lim\u00edtrofes.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Um acaba por anexar o outro.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O casamento \u00e9 uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma n\u00e3o permite o uso do vinho aos seus sect\u00e1rios. Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da fam\u00edlia das papaver\u00e1ceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se n\u00f3s o beb\u00eassemos, matar-nos-ia. O casamento, para n\u00f3s, \u00e9 o vinho turco.<\/p>\n<p>D. HELENA (erguendo os ombros) -Compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 argumento. Demais, houve e h\u00e1 s\u00e1bios casados.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Que seriam mais s\u00e1bios se n\u00e3o fossem casados.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o fale assim. A esposa fortifica a alma do s\u00e1bio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investiga\u00e7\u00e3o da natureza, faze-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esfor\u00e7os, s\u00f3cia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Ser\u00e1 vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor premio do m\u00e9rito \u00e9 o sorriso da mulher amada. O aplauso p\u00fablico \u00e9 mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprova\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (depois de um instante de hesita\u00e7\u00e3o e luta) &#8211; Falemos da nossa li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Amanh\u00e3, se minha tia consentir. (Levanta-se). At\u00e9 amanh\u00e3, n\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Hoje mesmo, se o ordenar.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Acredita que n\u00e3o perderei o tempo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Estou certo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Serei acad\u00eamica de Stockholmo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Conto que terei essa honra.<\/p>\n<p>D. HELENA (cortejando) &#8211; At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (o mesmo) &#8211; Minha senhora! (D. Helena sai pelo fundo, esquerda, o Bar\u00e3o caminha para a direita, mas volta para buscar o livro que ficara sobre a cadeira ou sof\u00e1).<\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p>Bar\u00e3o, D. Leonor<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (pensativo) &#8211; At\u00e9 amanh\u00e3! Devo eu c\u00e1 voltar? Talvez n\u00e3o devesse, mas \u00e9 interesse da ci\u00eancia&#8230; a minha palavra empenhada&#8230; O pior de tudo \u00e9 que a disc\u00edpula \u00e9 graciosa e bonita. Nunca tive disc\u00edpula, ignoro at\u00e9 que ponto \u00e9 perigoso&#8230; Ignoro? Talvez n\u00e3o&#8230; (P\u00f5e a m\u00e3o no peito). Que \u00e9 isto?&#8230; (Resoluto). N\u00e3o, sicambro! N\u00e3o h\u00e1s de adorar o que queimaste! Eia, volvamos \u00e0s flores e deixemos esta casa para sempre. (Entra D. Leonor).<\/p>\n<p>D. LEONOR (vendo o Bar\u00e3o) &#8211; Ah!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Voltei h\u00e1 dois minutos; vim buscar este livro. (Cumprimentando). Minha senhora!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Senhor Bar\u00e3o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (vai at\u00e9 \u00e0 porta e volta) &#8211; Creio que V. Excia. n\u00e3o me fica querendo mal?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Certamente que n\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (cumprimentando) &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p>D. LEONOR (idem) &#8211; Senhor Bar\u00e3o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (vai at\u00e9 \u00e0 porta e volta) &#8211; A senhora D. Helena n\u00e3o lhe falou agora?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Sobre que?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Sobre umas li\u00e7\u00f5es de bot\u00e2nica&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o me falou em nada&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (cumprimentando) &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p>D. LEONOR (idem) &#8211; Senhor Bar\u00e3o! (Bar\u00e3o sai). Que esquisit\u00e3o! Valia a pena cultiv\u00e1-lo de perto.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (reaparecendo) &#8211; Perd\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Ah! Que manda?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (aproxima-se) &#8211; Completo a minha pergunta. A sobrinha de V. Excia. falou-me em receber algumas li\u00e7\u00f5es de bot\u00e2nica; V. Excia. consente? (Pausa). H\u00e1 de parecer-lhe esquisito este pedido, depois do que tive a honra de fazer-lhe h\u00e1 pouco&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Sr. Bar\u00e3o, no meio de tantas c\u00f3pias e imita\u00e7\u00f5es humanas&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Eu acabo: sou original.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o ouso diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Sou; noto, entretanto, que a observa\u00e7\u00e3o de V. Excia. n\u00e3o responde \u00e0 minha pergunta.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Bem sei; por isso mesmo \u00e9 que a fiz.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nesse caso&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Nesse caso, deixe-me refletir.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Cinco minutos?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Vinte e quatro horas.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nada menos?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Nada menos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (cumprimentando) &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p>D. LEONOR (idem) &#8211; Senhor Bar\u00e3o! (Sai o Bar\u00e3o)<\/p>\n<h2>CENA XI<\/h2>\n<p>D. Leonor, D. Cec\u00edlia<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Singular \u00e9 ele, mas n\u00e3o menos singular \u00e9 a id\u00e9ia de Helena. Para que querer\u00e1 ela aprender bot\u00e2nica?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (entrando) &#8211; Helena! (D. Leonor volta-se). Ah! \u00e9 titia.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Sou eu.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Onde est\u00e1 Helena?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o sei, talvez l\u00e1 em cima. (D. Cec\u00edlia dirige-se para o fundo). Onde vais?&#8230;<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Vou&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Acaba.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Vou concertar o penteado.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Vem c\u00e1; concerto eu. (D. Cec\u00edlia aproxima-se de D. Leonor). N\u00e3o \u00e9 preciso, est\u00e1 excelente. Diz-me: est\u00e1s muito triste?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (muito triste) &#8211; N\u00e3o, senhora; estou alegre.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Mas, Helena disse-me que tu&#8230;<\/p>\n<p>D.CEC\u00cdLIA &#8211; Foi gracejo.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o creio; tens alguma coisa que te aflige; h\u00e1s de contar-me tudo.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o tens confian\u00e7a em mim?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA- Oh! toda!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Pois eu exijo&#8230; (Vendo Helena, que aparece \u00e0 porta do fundo, esquerda). Ah! chegas a prop\u00f3sito.<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p>D. Leonor, D. Cec\u00edlia, D. Helena<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Para que?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Explica-me que historia \u00e9 essa que me contou o Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (com curiosidade) &#8211; O Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Parece que est\u00e1s disposta a estudar bot\u00e2nica.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Estou.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (sorrindo) &#8211; Com o Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Com o Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Sem o meu consentimento?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Com o seu consentimento.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Mas de que te serve saber bot\u00e2nica?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Serve para conhecer as flores dos meus bouquets, para n\u00e3o confundir jasm\u00edneas com rubi\u00e1ceas, nem brom\u00e9lias com umbel\u00edferas.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Com que?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Umbel\u00edferas.<\/p>\n<p>D.LEONOR &#8211; Umbe&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; &#8230; l\u00edferas. Umbel\u00edferas.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Virgem santa! E que ganhas tu com esses nomes b\u00e1rbaros?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Muita coisa.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (\u00e0 parte) &#8211; Boa Helena! Compreendo tudo.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; O perianto, por exemplo; a senhora talvez ignore a quest\u00e3o do perianto&#8230; a quest\u00e3o das gram\u00edneas&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; E dou gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (animada) &#8211; Oh! deve ser uma quest\u00e3o important\u00edssima!<\/p>\n<p>D. LEONOR (espantada) &#8211; Tamb\u00e9m tu!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; S\u00f3 o nome! Perianto. \u00c9 nome grego, titia, um delicioso nome grego. (\u00c0 parte). Estou morta por saber do que se trata.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Voc\u00eas fazem-me perder o ju\u00edzo! Aqui andam bruxas, de certo. Perianto de um lado, brom\u00e9lias de outro; uma l\u00edngua de gentios, avessa \u00e0 gente crist\u00e3. Que quer dizer tudo isso?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Quer dizer que a ci\u00eancia \u00e9 uma grande coisa e que n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio sen\u00e3o adorar a bot\u00e2nica.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Que mais?<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que mais? Quer dizer que a noite de hoje h\u00e1 de estar deliciosa, e poderemos ir ao teatro l\u00edrico. Vamos, sim? Amanh\u00e3 \u00e9 o baile do conselheiro e s\u00e1bado o casamento da J\u00falia Marcondes. Tr\u00eas dias de festas! Prometo divertir-me muito, muito, muito. Estou t\u00e3o contente! Ria-se, titia; ria-se e d\u00ea-me um beijo!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o dou, n\u00e3o, senhora. Minha opini\u00e3o \u00e9 contra a bot\u00e2nica, e isto mesmo vou escrever ao Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Reflita primeiro; basta amanh\u00e3!<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; H\u00e1 de ser hoje mesmo! Esta casa est\u00e1 ficando muito sueca; voltemos a ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cec\u00edlia; h\u00e1s de contar-me o que lia. (Saem).<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p>D. Helena, Bar\u00e3o<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Cec\u00edlia deitou tudo a perder&#8230; N\u00e3o se pode fazer nada com crian\u00e7as&#8230; Tanto pior para ela. (Pausa). Quem sabe se tanto melhor para mim? Pode ser. Aquele professor n\u00e3o \u00e9 assaz velho, como convinha. Al\u00e9m disso, h\u00e1 nele um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela crosta cient\u00edfica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou cegar&#8230; (Levanta os ombros). Que id\u00e9ia! N\u00e3o passa de um urso, como titia lhe chama, um urso com patas de rosas.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (aproximando-se) &#8211; Perd\u00e3o, minha senhora. Ao atravessar a ch\u00e1cara ia pensando no nosso acordo, e, sinto diz\u00ea-lo, mudei de resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mudou<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (aproximando-se) &#8211; Mudei.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pode saber-se o motivo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; S\u00e3o tr\u00eas. O primeiro \u00e9 o meu pouco saber&#8230; Ri-se?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; De incredulidade. O segundo motivo&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O segundo motivo \u00e9 o meu<\/p>\n<p>g\u00eanio \u00e1spero e desp\u00f3tico.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vejamos o terceiro.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O terceiro \u00e9 a sua idade. Vinte e um anos, n\u00e3o?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vinte e dois.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Solteira?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Vi\u00fava.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Perpetuamente vi\u00fava?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Talvez.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nesse caso, quarto motivo:<\/p>\n<p>sua viuvez perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Conclus\u00e3o: todo o nosso acordo est\u00e1 desfeito.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o digo que esteja; s\u00f3 por mim n\u00e3o o posso romper. V. Excia., por\u00e9m, avaliar\u00e1 as raz\u00f5es que lhe dou, e decidir\u00e1 se ele deve ser mantido.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Suponha que respondo<\/p>\n<p>afirmativamente. &#8211;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Paci\u00eancia! obedecerei.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; De m\u00e1 vontade?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o; mas com grande desconsola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pois, Sr. Bar\u00e3o, n\u00e3o desejo violent\u00e1-lo; est\u00e1 livre.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Livre, e n\u00e3o menos desconsolado.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Tanto melhor!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Nada mais simples: vejo que \u00e9 caprichoso e incoerente.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Incoerente, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Irei procurar outro mestre.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Outro mestre! N\u00e3o fa\u00e7a isso.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Por que?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O -Porque&#8230; (Pausa). Vossa Excia. \u00e9 inteligente bastante para dispensar mestres.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Quem lho disse?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Adivinha-se.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Bem; irei queimar os olhos nos livros.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! seria estragar as mais belas flores do mundo!<\/p>\n<p>D. HELENA (sorrindo) &#8211; Mas ent\u00e3o nem mestres nem livros?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Livros, mas aplica\u00e7\u00e3o moderada. A ci\u00eancia n\u00e3o se colhe de afogadilho; \u00e9 preciso penetra-la com seguran\u00e7a e cautela.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Obrigada. (Estendendo-lhe a m\u00e3o). E visto que me recusa as suas li\u00e7\u00f5es, adeus.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; J\u00e1!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Pensei que queria retirar-se.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Queria e custa-me. Em todo caso, n\u00e3o desejava sair sem que V. Excia. me dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Bem e mal.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pensa ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Penso que \u00e9 inteligente e bom, mas caprichoso e ego\u00edsta.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ego\u00edsta!<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Em toda a for\u00e7a da express\u00e3o. (Senta-se). Por ego\u00edsmo &#8211; cient\u00edfico, \u00e9 verdade, &#8211; op\u00f5e-se \u00e0s afei\u00e7\u00f5es de seu sobrinho; por ego\u00edsmo, recusa-me as suas li\u00e7\u00f5es. Creio que o Sr. Bar\u00e3o nasceu para mirar-se no vasto espelho da natureza, a s\u00f3s consigo, longe do mundo, e seus enfados. Aposto que &#8211; desculpe a indiscri\u00e7\u00e3o da pergunta &#8211; aposto que nunca amou?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nunca.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra aplica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do estudo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Engana-se.<\/p>\n<p>D HELENA &#8211; Sim?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Depositei algumas coroas de goivos no t\u00famulo de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; H\u00e1 em mim alguma coisa mais do que eu mesmo. H\u00e1 a poesia das afei\u00e7\u00f5es por baixo da prova cient\u00edfica. N\u00e3o a ostento, \u00e9 verdade; mas sabe V. Excia. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que havia mais caro: a fam\u00edlia. Desposei a ci\u00eancia, que me tem servido de alegrias, consola\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as. Deixemos, por\u00e9m, t\u00e3o tristes mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mem\u00f3rias de homem; at\u00e9 aqui eu s\u00f3 via o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas o s\u00e1bio reaparece e enterra o homem. Volto \u00e0 vida vegetativa&#8230; se me \u00e9 l\u00edcito arriscar um trocadilho em portugu\u00eas, que eu n\u00e3o sei bem se o \u00e9. Pode ser que n\u00e3o passe de apar\u00eancia. Todo eu sou apar\u00eancias, minha senhora, apar\u00eancias de homem, de linguagem e at\u00e9 de ci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Quer que o elogie?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o; desejo que me perdoe.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Perdoar-lhe o que?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A incoer\u00eancia de que me acusava h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Tanto perd\u00f4o que o imito. Mudo igualmente de resolu\u00e7\u00e3o, e dou de m\u00e3o ao estudo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o fa\u00e7a isso!<\/p>\n<p>D HELENA &#8211; N\u00e3o lerei uma s\u00f3 linha de bot\u00e2nica, que \u00e9 a mais aborrec\u00edvel ci\u00eancia do mundo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas o seu talento&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o tenho talento; tinha curiosidade.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 a chave do saber.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que monta isso? A porta fica t\u00e3o longe!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 certo, mas o caminho \u00e9 de flores.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Com espinhos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Eu lhe quebrarei os espinhos.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; De que modo?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Serei seu mestre.<\/p>\n<p>D. HELENA (levanta-se) &#8211; N\u00e3o! Respeito os seus escr\u00fapulos. Subsistem, penso<\/p>\n<p>eu, os motivos que alegou. Deixe-me ficar na minha ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 a \u00faltima palavra de Vossa Excia.?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; \u00daltima.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (com ar de despedida) &#8211; Nesse caso&#8230; aguardo as suas ordens.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que se n\u00e3o esque\u00e7a de n\u00f3s.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Cr\u00ea poss\u00edvel que me esquecesse?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O tempo importa pouco ao caso. N\u00e3o me esquecerei nunca mais destes vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei realmente vivido. A ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 tudo, minha senhora. H\u00e1 alguma coisa mais, al\u00e9m do esp\u00edrito, alguma coisa essencial ao homem, e&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Repare, Sr. Bar\u00e3o, que est\u00e1 falando \u00e0 sua ex-disc\u00edpula.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A minha ex-disc\u00edpula tem cora\u00e7\u00e3o, e sabe que o mundo intelectual \u00e9 estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral \u00e9 uma necessidade do ser pensante.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o passemos da bot\u00e2nica \u00e0 filosofia, nem tanto \u00e0 terra, nem tanto ao c\u00e9u. O que o Sr. Bar\u00e3o quer dizer, em boa e mediana prosa, \u00e9 que estes vinte minutos de palestra n\u00e3o o enfadaram de todo. Eu digo a mesma coisa. Pena \u00e9 que fossem s\u00f3 vinte minutos, e que o Sr. Bar\u00e3o volte \u00e0s suas amadas plantas; mas \u00e9 for\u00e7a ir ter com elas, n\u00e3o quero tolher-lhe os passos. Adeus! (Inclinando-se como a despedir-se).<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (cumprimentando) &#8211; Minha senhora! (Caminha at\u00e9 \u00e0 porta e p\u00e1ra). N\u00e3o transporei mais esta porta?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; J\u00e1 a fechou por suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A chave est\u00e1 nas suas.<\/p>\n<p>D. HELENA (olhando para as m\u00e3os) -Nas minhas?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (aproximando-se) &#8211; Decerto.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o a vejo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 a esperan\u00e7a. D\u00ea-me a esperan\u00e7a de que&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA (depois de uma pausa) &#8211; A esperan\u00e7a de que&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A esperan\u00e7a de que&#8230; a esperan\u00e7a de&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA (que tem tirado uma flor de um vaso) &#8211; Creio que lhe ser\u00e1 mais f\u00e1cil definir esta flor.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Talvez.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 preciso dizer mais: adivinhei-o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (alvoro\u00e7ado) &#8211; Adivinhou?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Adivinhei que quer a todo o transe ser meu mestre.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (friamente) &#8211; \u00c9 isso.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Aceito.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Parece-me que. ficou triste?&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Fiquei, pois que s\u00f3 adivinhou metade do meu pensamento. N\u00e3o adivinhou que eu&#8230; por que o n\u00e3o direi? di-lo-ei francamente&#8230; N\u00e3o adivinhou que&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Que&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (depois de alguns esfor\u00e7os para falar) &#8211; Nada&#8230; nada&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR (dentro) &#8211; N\u00e3o admito!<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p>D. Helena, Bar\u00e3o, D. Leonor, D. Cec\u00edlia<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (entrando pelo fundo com D. Leonor) &#8211; Mas titia&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o admito, j\u00e1 disse! N\u00e3o te faltam casamentos. (Vendo o Bar\u00e3o). Ainda aqui!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ainda e sempre, minha senhora.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Nova originalidade.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! n\u00e3o! A coisa mais vulgar do mundo. Refleti, minha senhora, e venho pedir para meu sobrinho a m\u00e3o de sua encantadora sobrinha. (Gesto de Cec\u00edlia).<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; A m\u00e3o de Cec\u00edlia!<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA &#8211; Que ou\u00e7o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O que eu lhe pedia h\u00e1 pouco era uma extravag\u00e2ncia, um ato de ego\u00edsmo e viol\u00eancia, al\u00e9m de descortesia que era, e que V. Excia. me perdoou, atendendo \u00e0 singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; N\u00e3o me oponho ao casamento, se for do agrado de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>D. CEC\u00cdLIA (baixo, a D. Helena) Obrigada! Foste tu&#8230;<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Vejo que o Sr. Bar\u00e3o refletiu.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o foi s\u00f3 reflex\u00e3o, foi tamb\u00e9m resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Resolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (gravemente) &#8211; Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Ensinar bot\u00e2nica \u00e0 Helena? J\u00e1 me deu vinte e quatro horas para responder.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pe\u00e7o-lhe mais do que isso; V. Excia. que \u00e9, por assim dizer, irm\u00e3 mais velha de sua sobrinha, pode intervir junto dela para&#8230; (Pausa).<\/p>\n<p>D. LEONOR &#8211; Para&#8230;<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Acabo eu. O que o Sr. Bar\u00e3o deseja \u00e9 a minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Justamente!<\/p>\n<p>D. LEONOR (espantada) &#8211; Mas&#8230; N\u00e3o compreendo nada.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso compreender; basta pedir.<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; N\u00e3o basta pedir; \u00e9 preciso alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o alcan\u00e7arei?<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; D\u00ea-me tr\u00eas meses de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Tr\u00eas meses \u00e9 a eternidade<\/p>\n<p>D. HELENA &#8211; Uma eternidade de noventa dias.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Depois dela, a felicidade ou o desespero?<\/p>\n<p>D. HELENA (estendendo-lhe a m\u00e3o) &#8211; Est\u00e1 nas suas m\u00e3os a escolha. (A D. Leonor). N\u00e3o se admire tanto, titia; tudo isto \u00e9 bot\u00e2nica aplicada<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: pt.wikisource.org<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis PERSONAGENS D. Helena D. Leonor D. Cec\u00edlia Bar\u00e3o Segismundo de Kernoberg Lugar da cena: Andara\u00ed ATO \u00daNICO Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma \u00e0 direita do espectador CENA I D. Leonor, D. Helena, D. Cec\u00edlia D. Leonor entra, lendo uma carta, D. Helena e D. 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