{"id":120533,"date":"2017-04-26T20:02:08","date_gmt":"2017-04-26T22:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120533"},"modified":"2017-04-26T20:02:08","modified_gmt":"2017-04-26T22:02:08","slug":"ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ressurreicao","title":{"rendered":"Ressurrei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ NO DIA DE ANO-BOM<\/h2>\n<p>NAQUELE DIA, &#8211; j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o dez anos! &#8211; o Dr. F\u00e9lix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol. O dia estava espl\u00eandido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do c\u00e9u. Chilreavam na ch\u00e1cara vizinha \u00e0 casa do doutor algumas aves afeitas \u00e0 vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma ch\u00e1cara nas Laranjeiras. Parecia que toda a natureza colaborava na inaugura\u00e7\u00e3o do ano. Aqueles para quem a idade j\u00e1 desfez o vi\u00e7o dos primeiros tempos, n\u00e3o se ter\u00e3o esquecido do fervor com que esse dia \u00e9 saudado na meninice e na adolesc\u00eancia. Tudo nos parece melhor e mais belo, &#8211; fruto da nossa ilus\u00e3o, e alegres com vermos o ano que desponta, n\u00e3o reparamos que ele \u00e9 tamb\u00e9m um passo para a morte.<\/p>\n<p>Teria esta \u00faltima id\u00e9ia entrado no esp\u00edrito de F\u00e9lix, ao contemplar a magnific\u00eancia do c\u00e9u e os esplendores da luz? Certo \u00e9 que uma nuvem ligeira pareceu toldar-lhe a fronte. F\u00e9lix embebeu os olhos no horizonte e ficou largo tempo im\u00f3vel e absorto, como se interrogasse o futuro ou revolvesse o passado. Depois, fez um gesto de t\u00e9dio, e parecendo envergonhado de se ter entregue \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o interior de alguma quimera, desceu rapidamente \u00e0 prosa, acendeu um charuto, e esperou tranq\u00fcilamente a hora do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix entrava ent\u00e3o nos seus trinta e seis anos, idade em que muitos j\u00e1 s\u00e3o pais de fam\u00edlia, e alguns homens de Estado. Aquele era apenas um rapaz vadio e desambicioso. A sua vida tinha sido uma singular mistura de elegia e melodrama; passara os primeiros anos da mocidade a suspirar por cousas fugitivas, e na ocasi\u00e3o em que parecia esquecido de Deus e dos homens, caiu-lhe nas m\u00e3os uma inesperada heran\u00e7a, que o levantou da pobreza. S\u00f3 a Provid\u00eancia possui o segredo de n\u00e3o aborrecer com esses lances t\u00e3o estafados no teatro.<\/p>\n<p>F\u00e9lix conhecera o trabalho no tempo em que precisava dele para viver; mas desde que alcan\u00e7ou os meios de n\u00e3o pensar no dia seguinte, entregou-se corpo e alma \u00e0 serenidade do repouso. Mas entenda-se &#8211; que n\u00e3o era esse repouso aquela exist\u00eancia ap\u00e1tica e vegetativa dos \u00e2nimos indolentes; era, se assim me posso exprimir, um repouso ativo, composto de toda a esp\u00e9cie de ocupa\u00e7\u00f5es elegantes e intelectuais que um homem na posi\u00e7\u00e3o dele podia ter.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi que fosse bonito, na significa\u00e7\u00e3o mais ampla da palavra; mas tinha as fei\u00e7\u00f5es corretas, a presen\u00e7a simp\u00e1tica, e reunia a gra\u00e7a natural a apurada eleg\u00e2ncia com que vestia. A cor do rosto era um tanto p\u00e1lida, a pele lisa e fina. A fisionomia era pl\u00e1cida e indiferente, mal alumiada por um olhar de ordin\u00e1rio frio, e n\u00e3o poucas vezes morto.<\/p>\n<p>Do seu car\u00e1ter e esp\u00edrito melhor se conhecer\u00e1 lendo estas p\u00e1ginas e acompanhando o her\u00f3i por entre as perip\u00e9cias da singel\u00edssima a\u00e7\u00e3o que empreendo narrar. N\u00e3o se trata aqui de um car\u00e1ter inteiri\u00e7o nem de um esp\u00edrito l\u00f3gico e igual a si mesmo; trata-se de um homem complexos incoerente e caprichoso, em quem se reuniam opostos elementos, qualidades exclusivas, e defeitos inconcili\u00e1veis.<\/p>\n<p>Duas faces tinha o seu esp\u00edrito, e conquanto formassem um s\u00f3 rosto, eram todavia diversas entre si, uma natural e espont\u00e2nea outra calculada e sistem\u00e1tica. Ambas por\u00e9m se mesclavam de modo que era dif\u00edcil discrimin\u00e1-las e defini-las. Naquele homem feito de sinceridade e afeta\u00e7\u00e3o tudo se confundia e baralhava. Um jornalista do tempo, seu amigo, costumava compar\u00e1-la ao escudo de Aquiles \u2014 mescla de estanho e ouro, &#8220;muito menos s\u00f3lido&#8221;, acrescentava ele. Aquele dia, aurora do ano, escolhera-o o nosso her\u00f3i para ocaso de seus velhos amores. N\u00e3o eram velhos; tinham apenas seis meses de idade. E contudo iam acabar sem saudade nem pena, n\u00e3o s\u00f3 porque j\u00e1 lhe pesavam, como tamb\u00e9m porque F\u00e9lix lera pouco antes um livro de Henri Murger, em que achara um personagem com o sestro destas cat\u00e1strofes prematuras. A dama dos seus pensamentos como diria um poeta, recebia assim um golpe moral e liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Havia meia hora j\u00e1 que o doutor sa\u00edra da janela, quando lhe apareceu uma visita. Era um homem de quarenta anos, vestido com certo apuro, gesto ao mesmo tempo familiar e grave, estouvado e discreto.<\/p>\n<p>\u2014 Entre, Sr. Viana, disse F\u00e9lix quando o viu aparecer \u00e0 porta da sala. Vem almo\u00e7ar comigo, j\u00e1 sei?<\/p>\n<p>\u2014 Esse \u00e9 um dos tr\u00eas motivos da minha visita, respondeu Viana mas afirmo-lhe que \u00e9 o \u00faltimo.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 o primeiro?<\/p>\n<p>\u2014 O primeiro, disse o rec\u00e9m-chegado, \u00e9 dar-lhe o cumprimento de bons anos. Folgo que lhe corra este t\u00e3o feliz como o passado. O segundo motivo \u00e9 entregar-lhe uma carta do coronel.<\/p>\n<p>Viana tirou uma cartinha da algibeira e entregou-a ao doutor, que a leu rapidamente.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que \u00e9 um convite para o sarau de hoje? perguntou Viana quando o viu dobrar a carta.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9; transtorna-me um pouco, porque eu tencionava ir para a Tijuca.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o caia nessa, acudiu Viana; eu era capaz de deixar todas as viagens do mundo s\u00f3 para n\u00e3o perder uma reuni\u00e3o do coronel; \u00e9 um excelente homem, e d\u00e1 boas festas. Vai?<\/p>\n<p>F\u00e9lix hesitou algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe que eu venho incumbido de lhe destruir todas as obje\u00e7\u00f5es que fizer, disse Viana.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7o nenhuma. O convite transtorna-me o programa, mas, apesar disso, aceito.<\/p>\n<p>\u2014Ainda bem!<\/p>\n<p>Um moleque veio dar parte de que o almo\u00e7o estava na mesa. Viana descal\u00e7ou as luvas e acompanhou o anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que novidades h\u00e1? perguntou F\u00e9lix sentando-se \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Nada que me conste, respondeu Viana imitando o dono da casa; o Rio de Janeiro vai a pior.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 E verdade; j\u00e1 n\u00e3o aparece um esc\u00e2ndalo. Vivemos em completa abstin\u00eancia, e chegou o reinado da virtude. Olhe, eu sinto a nostalgia da imoralidade.<\/p>\n<p>Viana era um homem essencialmente pacato com a mania de parecer libertino, mania que lhe resultava da freq\u00fc\u00eancia de alguns rapazes. Era casto por princ\u00edpio e temperamento. Tinha a libertinagem do esp\u00edrito, n\u00e3o a das a\u00e7\u00f5es. Fazia o seu epigrama contra as reputa\u00e7\u00f5es duvidosas, mas n\u00e3o era capaz de perder nenhuma. E todavia teria um secreto prazer se o acusassem de algum delito amoroso, e n\u00e3o defenderia com extremo calor a sua inoc\u00eancia, contradi\u00e7\u00e3o que parece algum tanto absurda, mas que era natural.<\/p>\n<p>Como F\u00e9lix n\u00e3o lhe animasse a conversa no terreno em que ele a p\u00f4s, Viana entrou a elogiar-lhe os vinhos.<\/p>\n<p>\u2014 Onde acha o senhor vinhos t\u00e3o bons? perguntou depois de esvaziar um c\u00e1lix.<\/p>\n<p>\u2014 Na minha algibeira.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o; o dinheiro compra tudo, inclusive os bons vinhos.<\/p>\n<p>A resposta de F\u00e9lix foi um sorriso amb\u00edguo, que podia ser benevolente ou mal\u00e9volo, mas que pareceu n\u00e3o produzir impress\u00e3o no h\u00f3spede. Viana era um parasita consumados cujo est\u00f4mago tinha mais capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se suponha, por\u00e9m, que a pobreza o obrigasse ao of\u00edcio; possu\u00eda alguma cousa que herdara da m\u00e3e, e conservara religiosamente intacto, tendo at\u00e9 ent\u00e3o vivido do rendimento de um emprego de que pedira demiss\u00e3o por motivo de dissid\u00eancia com o seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o car\u00e1ter n\u00e3o s\u00e3o raros. Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como outros nascem an\u00f5es. Era parasita por direito divino.<\/p>\n<p>N\u00e3o me parece prov\u00e1vel que houvesse lido S\u00e1 de Miranda; todavia, punha em pr\u00e1tica aquela m\u00e1xima de um personagem do poeta: &#8220;boa. cara, bom barrete e boas palavras custam pouco e valem muito&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Chamando-lhe parasita n\u00e3o aludo s\u00f3 \u00e0 circunstancia de exercer a voca\u00e7\u00e3o gastron\u00f4mica nas casas alheias. Viana era tamb\u00e9m o parasita da considera\u00e7\u00e3o e da amizade, o intruso polido e alegre, que, \u00e0 for\u00e7a de arte e obstina\u00e7\u00e3o, conseguia tornar-se aceit\u00e1vel e querido, onde a princ\u00edpio era recebido com t\u00e9dio e frieza, um desses homens metedi\u00e7os e dobradi\u00e7os que v\u00e3o a toda a parte e conhecem todas as pessoas, &#8220;boa cara, bom barrete, boas palavras&#8221;.<\/p>\n<p>Parecendo-lhe que F\u00e9lix estaria preocupado, Viana entendeu n\u00e3o dizer palavra antes de achar ocasi\u00e3o oportuna. Veio o caf\u00e9, e o primeiro que rompeu o sil\u00eancio foi o doutor. Viana aproveitou habilmente o ensejo para reatar o fio dos louvores, t\u00e3o asperamente quebrado pelo dono da casa. N\u00e3o lhe elogiou desta vez os vinhos, mas as qualidades pessoais; afirmou-lhe que ningu\u00e9m era mais querido na casa do Coronel Morais, e que ele pr\u00f3prio n\u00e3o se recordava de pessoa a quem mais estimasse neste mundo.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 t\u00e3o feliz a este respeito, terminou o h\u00f3spede, que at\u00e9 as pessoas que o n\u00e3o v\u00eaem h\u00e1 muito conservam em toda a integridade o afeto que o senhor lhes inspirou. Adivinha de quem lhe falo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, sab\u00ea-lo-\u00e1 de noite; l\u00e1 ver\u00e1 em casa do coronel uma pessoa que o admira, e que o n\u00e3o v\u00ea h\u00e1 muito. Sejamos francos; \u00e9 minha irm\u00e3 L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2014 Admira-me isso, porque eu apenas a vi duas vezes<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, insistiu Viana. Lembra-me que eu mesmo os apresentei um ao outro. Se n\u00e3o me engano foi em dia da Gl\u00f3ria, h\u00e1 dous anos ..<\/p>\n<p>\u2014 Eu descia o outeiro, continuou F\u00e9lix, quando os encontrei. Estivemos parados cinco minutos. A noite encontramo-nos em um baile; cumprimentamo-nos apenas e nada mais.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 isso?<\/p>\n<p>\u2014 Nada mais.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, concluiu Viana, cuido que o senhor possui o segredo de fascinar as mo\u00e7as, s\u00f3 com cinco minutos de conversa e um cumprimento de sala. Minha irm\u00e3 fala muito no senhor, pelo menos depois que veio de Minas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ela esteve em Minas?<\/p>\n<p>\u2014 Foi para l\u00e1 h\u00e1 perto de dous anos, depois que lhe morreu o marido. Veio h\u00e1 oito dias; sabe o que me prop\u00f5e?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma viagem \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>\u2014 E v\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Os desejos de L\u00edvia s\u00e3o ordens para mim. Contudo era talvez melhor que eu fosse s\u00f3, porque uma senhora \u00e9 sempre obst\u00e1culo aos desmandos de um pecador como eu. N\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ent\u00e3o uma viagem de recreio? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Ou de romance; L\u00edvia tem esse defeito capital: \u00e9 romanesca. Traz a cabe\u00e7a cheia de caraminholas, fruto naturalmente da solid\u00e3o em que viveu nestes dous anos, e dos livros que h\u00e1 de ter lido. Faz pena porque \u00e9 boa alma.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que tem todas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a um poeta, observou o doutor, lembra-me que era bonita.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! a esse respeito a viuvez foi para ela uma renova\u00e7\u00e3o. Era bonita quando o senhor a viu; hoje est\u00e1 fascinante. H\u00e1 ocasi\u00f5es em que eu sinto ser irm\u00e3o dela; tenho \u00edmpetos de a adorar de joelhos. Com franqueza, assusta-me.<\/p>\n<p>Leve sorriso encrespou os l\u00e1bios de F\u00e9lix, enquanto Viana prosseguia o paneg\u00edrico da irm\u00e3, com um entusiasmo que podia ser sincero e interessado ao mesmo tempo. Ao fim de um quarto de hora levantou-se este para sair.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 \u00e0 noite? disse apertando a m\u00e3o do dono da casa.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>F\u00e9lix ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Que mulher ser\u00e1 essa, perguntou a si mesmo, t\u00e3o bela que mete medo, t\u00e3o fantasiosa que causa l\u00e1stima?<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II \/ LIQUIDA\u00c7\u00c3O DO ANO VELHO<\/h2>\n<p>MEIA HORA depois apeava-se F\u00e9lix de um t\u00edlburi \u00e0 porta de uma casa no Rocio. Subiu lentamente as escadas; a porta do fundo estava aberta; F\u00e9lix deu uma volta pelo interior da casa, e foi at\u00e9 \u00e0 sala, Sem que o sentisse uma mo\u00e7a, que estava assentada perto da janela, com o rosto voltado para a rua.<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia! disse ele.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a estremeceu e voltou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9s tu. T\u00e3o tarde!<\/p>\n<p>F\u00e9lix aproximou-se, deu-lhe um beijo, e tirou-lhe o livro da m\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Tarde? disse ele folheando o livro; n\u00e3o p\u00f4de ser mais cedo tive visitas em casa.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a contentou-se com a resposta; levantou-se e pondo-lhe os bra\u00e7os a roda do pesco\u00e7o, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Jantas hoje com algu\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014 Janto l\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 em casa? repetiu ela; e por que n\u00e3o c\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Tens visitas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Jantas s\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Janto.<\/p>\n<p>\u2014 Preferes isso \u00e0 minha companhia? murmurou enfim a mo\u00e7a com voz triste.<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia, respondeu F\u00e9lix dando \u00e0 voz toda a do\u00e7ura compat\u00edvel com a rigidez da sua resolu\u00e7\u00e3o, h\u00e1 circunstancias que me obrigam a n\u00e3o jantar c\u00e1 nem hoje nem nunca.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia empalideceu. F\u00e9lix procurou tranq\u00fciliz\u00e1-la dizendo que ia explicar-se melhor. Insens\u00edvel \u00e0s suas palavras, foi ela sentar-se no sof\u00e1 e a\u00ed permaneceu alguns instantes silenciosa. F\u00e9lix deu alguns passos na sala, aspirou as flores que tinham sido postas numa jarra. naquele mesmo dia. talvez para receb\u00ea-lo melhor; acendeu um charuto, e foi sentar-se em frente de Cec\u00edlia. A mo\u00e7a fitou nele os olhos \u00famidos de l\u00e1grimas. Depois, como se os l\u00e1bios tivessem medo de romper uma cratera \u00e0 chama interior, murmurou estas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 E por que nunca mais?<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia, disse o doutor deitando fora o charuto apenas enceta do, eu tenho a infelicidade de n\u00e3o compreender a felicidade. Sou um cora\u00e7\u00e3o defeituoso, um esp\u00edrito vesgo, uma alma ins\u00edpida, capaz de fidelidade, incapaz de const\u00e2ncia. O amor para mim \u00e9 o id\u00edlio de um semestre, um curto epis\u00f3dio sem chamas nem l\u00e1grimas. H\u00e1 seis meses que nos amamos; por que perder\u00e1s tu o dia em que come\u00e7a o ano novo, se podes tamb\u00e9m come\u00e7ar uma vida nova?<\/p>\n<p>Cec\u00edlia n\u00e3o respondeu; fitava nele os olhos, que, se eram ternos e buli\u00e7osos nas horas de alegria, eram naquele momento sombrios e profundos. F\u00e9lix pegou-lhe na m\u00e3o. Estava fria<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fiques abatida; o que fa\u00e7o agora n\u00e3o \u00e9 novidade, ouviste-me dizer muita vez que a nossa afei\u00e7\u00e3o era um cap\u00edtulo curto. Rias ent\u00e3o de mim; fazias mal, porque era alimentar uma esperan\u00e7a v\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Era, interrompeu Cec\u00edlia com voz tr\u00eamula, reconhe\u00e7o agora que era. Esperava, com efeito, que eu pudesse, com a minha const\u00e2ncia, resgatar os erros que me pesavam na consci\u00eancia. Agarrei-me a ti como a uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o; a t\u00e1bua n\u00e3o compreendeu que salvaria uma vida e deixa-se levar pela onda que a arrebata das minhas m\u00e3os. Enganei-me. N\u00e3o te fa\u00e7o recrimina\u00e7\u00f5es; espero que me far\u00e1s justi\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o-te toda a justi\u00e7a, redarg\u00fciu ele; acuso-me eu mesmo de estar abaixo do papel de redentor.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o ao tom ir\u00f4nico destas palavras, nem sequer as ouviu. Levantou-se, deu alguns passos, encostou-se ao piano e pondo a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os solu\u00e7ou \u00e0 vontade. Mas essa explos\u00e3o foi quase silenciosa e durou pouco.<\/p>\n<p>Meia hora depois despedia-se F\u00e9lix de Cec\u00edlia declarando-lhe que sa\u00eda dali como um gentleman, que ela receberia os meios necess\u00e1rios para viver at\u00e9 que o esquecesse de todo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia recusou esse ato de generosidade. Espantou-o imensamente tamanho desinteresse; concluiu que ela teria algum amor em perspectiva.<\/p>\n<p>Saiu.<\/p>\n<p>Na Rua do Ouvidor encontrou o Doutor Meneses, jovem advogado com quem entretinha rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Vem jantar comigo, disse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o jantas com Cec\u00edlia?<\/p>\n<p>\u2014 Acabei o cap\u00edtulo; Cec\u00edlia est\u00e1 livre.<\/p>\n<p>\u2014 Houve choro?<\/p>\n<p>\u2014 O choro pertence ao cerimonial da separa\u00e7\u00e3o. Era indispens\u00e1vel. Cec\u00edlia verteu algumas l\u00e1grimas, que eu procurei enxugar, prometendo-lhe os meios de viver algum tempo. Recusou; mas eu n\u00e3o lhe aceito a recusa.<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste mal em separar-te dela; Cec\u00edlia amava-te.<\/p>\n<p>\u2014 Meneses, disse F\u00e9lix, eu nunca fa\u00e7o mal quando quebro uma cadeia: liberto-me.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez tenhas raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas vem jantar comigo, continuou F\u00e9lix, dando-lhe o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, vou jantar com minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o apenas duas horas; passearei contigo at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas. Ou vais para casa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Deram o bra\u00e7o e desceram a rua.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o \u00e9 indiscri\u00e7\u00e3o, F\u00e9lix, disse Meneses ao cabo de alguns minutos, houve algum arrufo s\u00e9rio entre voc\u00eas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Desconfiavas dela?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem te arrufaste, nem tinhas desconfian\u00e7a. Sei que ela gostava de ti, e tu mesmo me afirmaste que n\u00e3o era nenhuma desperdi\u00e7ada. Havia portanto um milheiro de raz\u00f5es para que voc\u00eas prosseguissem neste romance. Dar-se-\u00e1 que tenhas em vista algum casamento?<\/p>\n<p>F\u00e9lix riu-se e levantou os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o compreendo, concluiu Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te digo respondeu F\u00e9lix; os meus amores s\u00e3o todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas esta\u00e7\u00f5es. Para o meu cora\u00e7\u00e3o um ano \u00e9 a eternidade. N\u00e3o h\u00e1 ternura que v\u00e1 al\u00e9m de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o cora\u00e7\u00e3o como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento, mau h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Menezes ouviu as palavras de F\u00e9lix com os olhos postos no ch\u00e3o; sorriu ligeiramente quando ele acabou.<\/p>\n<p>\u2014 Queres ouvir uma cousa? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Dize.<\/p>\n<p>\u2014 O teu cinismo parece-me hipocrisia<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 hipocrisia nem cinismo; \u00e9 temperamento.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o respondeu.<br \/>\n\u2014 Quase me arrependo de ser teu amigo, disse ele depois de<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s meu amigo? perguntou F\u00e9lix com ar de mofa<\/p>\n<p>Meneses parou e encarou o companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Duvidas? disse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o duvido; mas ignorava isso at\u00e9 agora; sabes que as nossas rela\u00e7\u00f5es datam de pouco tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Que importa o tempo? H\u00e1 amigos de oito dias e indiferentes<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1.<br \/>\nA conversa tomou outra dire\u00e7\u00e3o. Meneses ainda tentou falar da mo\u00e7a, mas F\u00e9lix n\u00e3o lhe prestou aten\u00e7\u00e3o. as 3 horas separaram-se, F\u00e9lix para as Laranjeiras, Meneses para o Rocio.<\/p>\n<p>Meneses era uma boa alma, compassiva e generosa. Tinha em flor o as ilus\u00f5es da juventude; era entusiasta e sincero; estava totalmente limpo da menor eiva de c\u00e1lculo. Podia ser que com os anos perdesse algumas das suas qualidades nativas, que nem todos resistem a estes dous terr\u00edveis dissolventes: os lances da fortuna e o atrito dos caracteres. Mas naquele tempo ainda n\u00e3o era assim<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia tinha-o comovido. Resolveu ir ter com ela.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia ficara resignada, mas triste. Quando Meneses entrou na sala estava ela ao piano, tinha apoiada a cabe\u00e7a em uma das m\u00e3os e corria os dedos pelo teclado. Contou-lhe tudo o que se passara confessou que n\u00e3o esperava a s\u00fabita mudan\u00e7a de F\u00e9lix; que a sua dor fora imensa, e que daria tudo para fazer reviver o recente passa o; mas que n\u00e3o nutria nenhuma esperan\u00e7a de reconcilia\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 E se eu tentar fazer alguma cousa?<\/p>\n<p>\u2014 Tentar\u00e1 em v\u00e3o, respondeu ela. Al\u00e9m de que, eu n\u00e3o tenho nenhum direito de prolongar uma felicidade incompat\u00edvel com a vontade dele. Errei, confiando demais; errarei se tiver ainda uma<\/p>\n<p>esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe, Cec\u00edlia? disse o mo\u00e7o, pondo-lhe a m\u00e3o no ombro e poss\u00edvel que F\u00e9lix tenha cedido a um capricho. Vir\u00e1 a arrepender-se depois, mas o seu orgulho n\u00e3o lhe deixar\u00e1 dar o primeiro passo<\/p>\n<p>esse caso uma pessoa influente pode convenc\u00ea-lo de que a primeira gloria e a repara\u00e7\u00e3o dos erros.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia levantou os ombros; foi a sua \u00fanica resposta.<\/p>\n<p>Meneses perguntou se haveria alguma raz\u00e3o de ci\u00fames.<\/p>\n<p>\u2014 Posso jurar-lhe que durante todo este tempo pertenci-lhe exclusivamente.<\/p>\n<p>O juramento de Cec\u00edlia n\u00e3o devia valer muito aos olhos de um homem que conhecesse bem todos os recursos de uma mulher naquelas condi\u00e7\u00f5es. Mas o nosso Meneses era ing\u00eanua em cousas tais. Saiu de l\u00e1 cheio de piedade. Nessa mesma tarde mandou uma carta as Laranjeiras, justamente na ocasi\u00e3o em que F\u00e9lix acabava de ler outra carta de Cec\u00edlia. A carta da mo\u00e7a era tranq\u00fcila e at\u00e9 certo ponto nobre. N\u00e3o lhe fazia nenhuma recrimina\u00e7\u00e3o, nem implorava nenhum favor. Defendia-se apenas, retirando de si a responsabilidade da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A carta de Meneses era cavalheiresca: descobria o estado da alma de Cec\u00edlia e n\u00e3o hesitava em chamar ingrato ao pr\u00f3fugo dard\u00e2nio. F\u00e9lix sorriu lendo ambas as missivas; depois atirou-as a uma cesta e nunca mais as viu.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III \/ AO SOM DA VALSA<\/h2>\n<p>A CASA do coronel podia conter o triplo das pessoas convidadas para o sarau daquela noite; mas o coronel preferia convidar apenas as pessoas mais \u00edntimas e familiares. Era homem pouco cerimonioso, gostava sobretudo da intimidade.<\/p>\n<p>Quando F\u00e9lix entrou dan\u00e7ava-se uma quadrilha. O coronel foi ter com ele e levou-o para onde estava a mulher que j\u00e1 o esperava com ansiedade, pela raz\u00e3o, dizia ela, de que era um dos poucos rapazes que ainda conversavam com velhas, estando entre mo\u00e7as. F\u00e9lix sentou-se ao p\u00e9 de D. Matilde. Estava ent\u00e3o de bom humor e conversou alegremente at\u00e9 que a m\u00fasica parou.<\/p>\n<p>A mulher do coronel era o tipo da m\u00e3e de fam\u00edlia. Tinha quarenta anos, e ainda conservava na fronte, embora secas, as rosas da mocidade. Era uma mistura de austeridade e meiguice, de extrema bondade e extrema rigidez. Gostava muito de conversar e rir, e tinha a particularidade de amar a discuss\u00e3o, exceto em dous pontos que para ela estavam acima das controv\u00e9rsias humanas: a religi\u00e3o e o marido. A sua melhor esperan\u00e7a, afirmava, seria morrer nos bra\u00e7os de ambos. Dizia-lhe F\u00e9lix \u00e0s vezes que n\u00e3o era acertado julgar pelas apar\u00eancias, e que o coronel, excelente marido em reputa\u00e7\u00e3o, fora na realidade pecador impenitente. Ria-se a boa senhora destes in\u00fateis esfor\u00e7os para abalar a boa fama do esposo. Reinava uma santa paz naquele casal, que soubera substituir os fogos da paix\u00e3o pela reciprocidade da confian\u00e7a e da estima.<\/p>\n<p>A conversa com a dona da casa roubou algum tempo \u00e0s mo\u00e7as, segundo a express\u00e3o do coronel. Era necess\u00e1rio que F\u00e9lix se dividisse com as senhoras que ainda tinham amor aos exerc\u00edcios coreogr\u00e1ficos. Recusou, pretextando a presen\u00e7a de D. Matilde.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! por mim n\u00e3o! respondeu a boa senhora; o direito das velhas tem um limite no direito das mo\u00e7as. V\u00e1, doutor, e mais tarde volte c\u00e1, se o n\u00e3o agarrarem por a\u00ed&#8230; Valsava-se. F\u00e9lix levantou-se e foi buscar um par. N\u00e3o tendo prefer\u00eancia por nenhuma senhora, lembrou-lhe ir pedir a filha do coronel. Atravessava a sala para ir busc\u00e1-la defronte, quando foi abalroado por um par valsante. Conquanto fosse navegante pr\u00e1tico daqueles mares n\u00e3o pode evitar o turbilh\u00e3o. Susteve o equil\u00edbrio com rara felicidade e foi procurar melhor caminho, costeando a parede. Nesse momento os valsantes pararam perto dele. Pareceu-lhe reconhecer L\u00edvia, irm\u00e3 de Viana. Com as faces avermelhadas e o seio ofegante, a mo\u00e7a pousava molemente o bra\u00e7o no bra\u00e7o do cavalheiro. Murmurou algumas palavras, que F\u00e9lix n\u00e3o p\u00f4de ouvir, e depois de lan\u00e7ar um olhar em roda de si, continuou a valsar.<\/p>\n<p>Durou isto minutos.<\/p>\n<p>F\u00e9lix, apenas se achou livre, foi buscar a filha do coronel, interessante crian\u00e7a de dezessete anos, figura delgada, rosto ang\u00e9lico. formas graciosas, toda languidez e efl\u00favios. Era uma dessas mulheres que fazem o mesmo efeito que um vaso de porcelana fina; toca-se-lhes com medo de as quebrar. Raquel era o seu nome; tinha grandes pretens\u00f5es a mulher, que lhe n\u00e3o ficavam mal naquela idade de transi\u00e7\u00e3o; mas o que F\u00e9lix achava melhor era justamente o seu aspecto de crian\u00e7a, mal disfar\u00e7ado pela forma\u00e7\u00e3o do seio. Como car\u00e1ter, fazia-lhe a m\u00e3e grandes elogios, e eram fundados, posto fossem de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Raquel aceitou o convite. F\u00e9lix passou-lhe o bra\u00e7o \u00e0 roda da cintura, e ela estremeceu da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; depois entregou-se-lhe toda com aquele abandono que a valsa prescreve ou permite, e voaram pela sala no turbilh\u00e3o geral. A agita\u00e7\u00e3o coloriu um pouco as faces da mo\u00e7a, comumente descoradas. Quando pararam estava ofegante.<\/p>\n<p>\u2014 Sentemo-nos, disse F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; passeemos um pouco. Por que n\u00e3o aparece c\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Receio n\u00e3o os encontrar, est\u00e3o sempre fora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; h\u00e1 dous meses estamos na cidade. Mam\u00e3e diz que j\u00e1 n\u00e3o esta para estas viagens cont\u00ednuas, e eu acho que tem raz\u00e3o. Tamb\u00e9m me cansam a mim; o mais influ\u00eddo \u00e9 papai.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gosta da ro\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o tenho prefer\u00eancias; gosto tanto da ro\u00e7a como da cidade; contudo&#8230; dou-me melhor c\u00e1. \u2014 Est\u00e1 olhando para aquela mo\u00e7a? n\u00e3o a acha bonita?<\/p>\n<p>\u2014 Quem? Eu n\u00e3o olhava para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Pois fazia mal; porque valia a pena olhar: L\u00edvia \u00e9 a rainha da noite.<\/p>\n<p>Conquanto Raquel, na opini\u00e3o de F\u00e9lix, fosse uma menina, n\u00e3o deixou este de estranhar que t\u00e3o facilmente cedesse a realeza da noite a outra :mulher; mas, por outro lado refletia que esta abdica\u00e7\u00e3o bem podia ser uma afeta\u00e7\u00e3o de mod\u00e9stia. Contudo, o l\u00edmpido olhar da mo\u00e7a revelava a mais absoluta ingenuidade. Fez-lhe um cumprimento \u00e0 beleza dela, e entrou a admirar de longe a beleza de L\u00edvia.<\/p>\n<p>L\u00edvia tinha efetivamente um ar de rainha, uma natural majestade, que n\u00e3o era rigidez convencional e afetada, mas uma grandeza involunt\u00e1ria e sua. A impress\u00e3o de F\u00e9lix foi boa e m\u00e1; achou-lhe uma<\/p>\n<p>beleza deslumbrante, mas pareceu-lhe ver atrav\u00e9s daquele rosto senhoril uma alma altiva e desdenhosa.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 a rainha da noite, disse ele voltando-se para Raquel; mas n\u00e3o serei eu quem lhe fa\u00e7a a corte.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Parece-me orgulhosa; h\u00e1 de tratar a todos como vassalos seus. N\u00e3o v\u00ea com que desd\u00e9m ouve as palavras do cavalheiro que lhe d\u00e1 o bra\u00e7o?<\/p>\n<p>O cavalheiro era o mesmo rapaz que valsara com a vi\u00fava, um Dr. Batista, descendente em linha reta do Leonardo de Cam\u00f5es, &#8220;manhoso e namorado&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o, disse Raquel; L\u00edvia n\u00e3o gosta dele.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois foi servida a ceia. F\u00e9lix dirigiu-se para uma sala interior, onde o coronel tinha os livros, e que servia temporariamente de ref\u00fagio aos fumantes. F\u00e9lix acendeu um charuto e come\u00e7ou a correr os olhos pelos livros.<\/p>\n<p>Ali foram ter alguns rapazes que falaram entusiasticamente da irm\u00e3 de Viana. Era o objeto de todas as aten\u00e7\u00f5es da noite. E foi no meio das apologias daqueles cortes\u00e3os da beleza, que ela apareceu pelo bra\u00e7o do coronel, atravessando a sala, para ir ter ao toucador.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor! disse Viana, aproximando-se de F\u00e9lix.<\/p>\n<p>E voltando-se para a irm\u00e3:<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. F\u00e9lix quer falar-te.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a mo\u00e7a, voltando-se para o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>F\u00e9lix aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se se lembra de mim? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. F\u00e9lix? Perfeitamente: foi-me apresentado h\u00e1 muito tempo, mas eu tenho boa mem\u00f3ria. Demais, s\u00f3 se esquecem as pessoas vulgares.<\/p>\n<p>F\u00e9lix agradeceu-lhe o cumprimento. Ela estendeu-lhe a ponta dos dedos elegantemente apertados na pelica da luva. Trocaram algumas palavras mais. Da\u00ed a pouco, tendo-se ouvido o prel\u00fadio de uma quadrilha, toda a gente se retirou. Ficaram na sala F\u00e9lix e Moreirinha.<\/p>\n<p>Moreirinha tinha cerca de trinta anos, um bigode espesso, uma apar\u00eancia agrad\u00e1vel e um esp\u00edrito fr\u00edvolo. Confessou que estava impressionado pela vi\u00fava, mas que eram muitos os seus rivais.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o s\u00e3o tem\u00edveis esses rivais? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; um apenas.<\/p>\n<p>\u2014 Qual?<\/p>\n<p>\u2014 O Batista.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que est\u00e1 nas gra\u00e7as?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; mas \u00e9 o mais valente de todos, e o que disp\u00f5e de mais tempo, posto seja casado.<\/p>\n<p>\u2014 Casado?<\/p>\n<p>\u2014 Com um anjo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix procurou reanimar o pretendente, pondo em relevo todas as suas qualidades merecedoras de admira\u00e7\u00e3o. Inventou-lhe algumas que n\u00e3o tinha, reconheceu-lhe outras que possu\u00eda realmente, inda que de um merecimento relativo ou duvidoso. N\u00e3o se podia negar a influencia do Moreirinha entre senhoras. Era ele galanteador por \u00edndole e por sistema; tinha, al\u00e9m disso (cousa importante), a plena convic\u00e7\u00e3o de que a sua conversa era preferida pelas damas. Ningu\u00e9m melhor do que ele sabia lisonjear o amor-pr\u00f3prio feminino; ningu\u00e9m prestava com mais alma esses leves servi\u00e7os de sociedade, que constituem muita vez toda a reputa\u00e7\u00e3o de um homem. Dirigia os piqueniques, comprava o romance ou a m\u00fasica da moda, encomendava os camarotes para as representa\u00e7\u00f5es de celebridades, levava os pianistas aos saraus, tudo isso com um modo t\u00e3o servi\u00e7al que era de se ficar morrendo por ele.<\/p>\n<p>F\u00e9lix voltou \u00e0 sala quando se dan\u00e7avam os \u00faltimos passos da quadrilha. L\u00edvia estava espl\u00eandida de gra\u00e7a e eleg\u00e2ncia. Nenhuma afeta\u00e7\u00e3o nem acanhamento; seus movimentos eram a um tempo desembara\u00e7ados e modestos. O m\u00e9dico procurou ver se o doutor pretendente estaria nas gra\u00e7as da mo\u00e7a, mas ele dan\u00e7ava do mesmo lado em que ela estava; os olhares n\u00e3o podiam encontrar-se. Um sobrinho do coronel indicou-lhe a mulher do Batista: era uma mo\u00e7a de vinte anos, loura, assaz bonita e digna de inspirar amores. Por que motivo, o marido, casado h\u00e1 pouco, queria ir queimar a um templo estranho os perfumes que a esposa merecia?<\/p>\n<p>Algum tempo depois de finda a quadrilha, disp\u00f4s-se F\u00e9lix a deixar a casa do coronel, que lhe interceptou a passagem em nome, disse ele, da mulher e das mo\u00e7as. F\u00e9lix respondeu-lhe que estava incomodado.<\/p>\n<p>\u2014 Pretextos de peraltice, disse o velho, rindo alegremente; n\u00e3o o deixo sair nem que me caia morto na sala. Faz favor, minha senhora?<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras eram dirigidas \u00e0 irm\u00e3 de Viana, que ia atravessando a saleta onde se achavam os dous.<\/p>\n<p>\u2014 Que me quer, coronel? disse ela parando.<\/p>\n<p>\u2014 Um favor apenas. Retenha-me este senhor, que se quer ir embora. N\u00e3o tenho for\u00e7as para tanto. Veja se mo consegue. Comece dando-lhe uma quadrilha.<\/p>\n<p>\u2014 Dou-lhe a pr\u00f3xima, que \u00e9 a minha \u00faltima.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m se vai embora?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 E uma debandada geral. Vou mandar trancar as portas.<\/p>\n<p>O coronel afastou-se depois desta amea\u00e7a. F\u00e9lix deu o bra\u00e7o a L\u00edvia e foram sentar-se num sof\u00e1 que ficava pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u2014 Meu irm\u00e3o \u00e9 muito seu amigo, disse L\u00edvia acomodando as ondas de seda do vestido. Fala-me muito no senhor.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito meu amigo, repetiu F\u00e9lix, fazendo interiormente uma careta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o admira, observou ela; o senhor merece ser estimado.<\/p>\n<p>\u2014 Como sabe disso?<\/p>\n<p>\u2014 Todos o afirmam.<\/p>\n<p>\u2014 Nem todos ser\u00e3o sinceros, observou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o se iludia a respeito da estima de Viana. Sem negar que o irm\u00e3o da vi\u00fava lhe tivesse alguma amizade, dava-lhe todavia limitado valor L\u00edvia asseverava, entretanto, que o irm\u00e3o falava dele com grande entusiasmo, e at\u00e9 certo ponto o entusiasmo era sincero. F\u00e9lix tinha sobre Viana certa ascend\u00eancia moral; al\u00e9m disso, era um homem franco e hospedeiro, rude mas servi\u00e7al.<\/p>\n<p>Dentro de pouco tempo a conversa entre o m\u00e9dico e a vi\u00fava foi perdendo a frieza cerimoniosa do come\u00e7o. Passaram a falar do baile, e L\u00edvia manifestou com expansiva alegria as suas excelentes impress\u00f5es, sobretudo porque, dizia ela, vinha da ro\u00e7a, onde tivera uma vida reclusa e mon\u00e1stica. Falaram naturalmente da viagem que ela pretendia fazer. Confessou ela que era um desejo antigo e v\u00e1rias vezes diferido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pense, acrescentou L\u00edvia, que me seduzem unicamente os esplendores de Paris, ou a eleg\u00e2ncia da vida europ\u00e9ia. Eu tenho outros desejos e ambi\u00e7\u00f5es. Quero conhecer a It\u00e1lia e a Alemanha, lembrar-me da nossa Guanabara junto \u00e0s ribas do Ano ou do Reno. Nunca teve iguais desejos?<\/p>\n<p>\u2014 Estimaria poder faz\u00ea-lo, se me suprimissem os inc\u00f4modos da viagem, mas com os meus h\u00e1bitos sedent\u00e1rios dificilmente me resolveria a isso. Eu participo da natureza da planta; fico onde nasci. V. Ex.a ser\u00e1 como as andorinhas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E sou, disse ela reclinando-se molemente no sof\u00e1; andorinha curiosa de ver o que h\u00e1 al\u00e9m do horizonte. Vale a pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vale, respondeu F\u00e9lix, sorrindo; esgota-se depressa a sensa\u00e7\u00e3o daquele momento r\u00e1pido; a imagina\u00e7\u00e3o ainda pode conservar uma. leve lembran\u00e7a, at\u00e9 que tudo se desvanece no crep\u00fasculo do tempo. Olhe, os meus dous p\u00f3los est\u00e3o nas Laranjeiras e na Tijuca; nunca passei destes dous extremos do meu universo. Confesso que \u00e9 mon\u00f3tono, mas eu acho felicidade nesta mesma monotonia.<\/p>\n<p>L\u00edvia entrou a combater isto que lhe parecia um insigne paradoxo, mas sem que nenhuma de suas palavras mostrasse a mais leve sombra de pedantismo. Tinha uma maneira natural e simples de dizer as cousas menos vulgares deste mundo. Sabia exprimir as suas id\u00e9ias em frase elegante, mas despretensiosa.<\/p>\n<p>O prel\u00fadio de uma valsa chamou a aten\u00e7\u00e3o dos dous para o baile. F\u00e9lix convidou-a para valsar; ela desculpou-se, dizendo que se achava cansada.<\/p>\n<p>\u2014 Vi-a valsar quando entrei, disse F\u00e9lix, e afirmo que poucas pessoas valsar\u00e3o t\u00e3o bem. Creia na sinceridade do elogio, porque eu n\u00e3o os fa\u00e7o nunca.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a aceitou este cumprimento com ing\u00eanua satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Gosto muito da valsa, disse ela. N\u00e3o admira: \u00e9 a primeira dan\u00e7a do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo menos \u00e9 a \u00fanica dan\u00e7a em que h\u00e1 poesia, acrescentou F\u00e9lix. A quadrilha tem certa rigidez geom\u00e9trica; a valsa tem todo o abandono da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente! exclamou L\u00edvia, como se F\u00e9lix lhe tivesse reunido em poucas palavras todas as suas id\u00e9ias a respeito daquele assunto.<\/p>\n<p>\u2014 Demais, continuou o doutor, animado pelo entusiasmo da vi\u00fava, a quadrilha francesa \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a como o vestu\u00e1rio moderno \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, e ambos s\u00e3o filhos deste s\u00e9culo que \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! murmurou ela sorrindo.<\/p>\n<p>E o protesto n\u00e3o foi s\u00f3 com os l\u00e1bios, foi tamb\u00e9m com os olhos &#8211; uns olhos aveludados e brilhantes, feitos para os desmaios de amor. F\u00e9lix come\u00e7ou a sentir-se bem ao lado daquela mo\u00e7a, e esquecendo de boa vontade a festa em que s\u00f3 aparentemente figurava, ali se demorou longo tempo com ela, alheio aos coment\u00e1rios estranhos todo entregue ao capricho do seu pr\u00f3prio pensamento.<\/p>\n<p>Todavia, escapou-lhe, no meio da conversa, n\u00e3o sei que frase de melanc\u00f3lico cepticismo que fez estremecer a mo\u00e7a. L\u00edvia olhou para ele e depois para o ch\u00e3o, parecendo t\u00e3o absorta que nem deu pelo sil\u00eancio que se seguiu ao seu gesto e \u00e0s palavras de F\u00e9lix. Este aproveitou a circunstancia para examin\u00e1-la melhor.<\/p>\n<p>L\u00edvia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe real\u00e7ava a beleza era um sentimento de modesta consci\u00eancia que ela tinha de suas gra\u00e7as, uma cousa semelhante \u00e0 tranq\u00fcilidade da for\u00e7a. Nenhum gesto seu revelava o amor-pr\u00f3prio geralmente insepar\u00e1vel das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma raz\u00e3o de harmonia e de ordem nas cousas terrestres. Afear as suas gra\u00e7as, parecia-lhe um crime, tirar orgulho delas, frivolidade.<\/p>\n<p>F\u00e9lix examinou-lhe detidamente a cabe\u00e7a e o rosto, modelo de gra\u00e7a antiga. A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos percebem antes do contacto das m\u00e3os. Na testa lisa e larga, parecia que nunca se formara a ruga da reflex\u00e3o; n\u00e3o obstante, quem examinasse naquele momento o rosto da mo\u00e7a veria que ela n\u00e3o era estranha \u00e0s lutas interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de languidez; naquela ocasi\u00e3o n\u00e3o eram vivos nem languidos; estavam parados.<\/p>\n<p>Sentia-se que ela olhava com o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>F\u00e9lix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio t\u00fargido, comprimido pelo cetim; o bra\u00e7o esquerdo, atirado molemente no rega\u00e7o, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de est\u00e1tua sobre o musgo de uma ru\u00edna. F\u00e9lix recomp\u00f4s na imagina\u00e7\u00e3o a est\u00e1tua toda, e estremeceu. L\u00edvia acordou da esp\u00e9cie de letargo em que estava. Como tamb\u00e9m estremecesse, caiu-lhe o leque da m\u00e3o. F\u00e9lix apressou-se a apanhar-lho.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, murmurou ela distra\u00edda.<\/p>\n<p>Depois, parecendo envergonhada daquele longo sil\u00eancio, pretextou um inc\u00f4modo nervoso; levantaram-se e dirigiram-se ao sal\u00e3o. Ali, no meio da conversa e do bul\u00edcio, readquiriu ela o imp\u00e9rio de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A vi\u00fava era um pouco sarc\u00e1stica, mas daquele sarcasmo ben\u00e9volo e an\u00f3dino, que sabe misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez F\u00e9lix a conhecia, porquanto apenas a tinha visto duas vezes, e n\u00e3o basta ver uma mulher para a conhecer, \u00e9 preciso ouvi-la tamb\u00e9m; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a n\u00e3o conhecer jamais.<\/p>\n<p>L\u00edvia demorou-se em casa do coronel mais tempo do que prometera, milagre devido ao doutor, dizia Viana. O certo \u00e9 que o resto da noite quase n\u00e3o existiram para ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o passou isto sem que o notassem alguns l\u00e1bios despeitados. Um cavalheiro disse a uma senhora:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe parece que D. L\u00edvia tem um gosto deplor\u00e1vel?<\/p>\n<p>A senhora arrega\u00e7ou levemente a ponta esquerda do l\u00e1bio superior, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 O F\u00e9lix n\u00e3o o tem melhor.<\/p>\n<p>A vi\u00fava saiu no meio de um geral murm\u00fario de curiosidade. F\u00e9lix n\u00e3o se demorou muito tempo mais; meteu-se no carro e foi para as Laranjeiras.<\/p>\n<p>Uma hora depois o baile, a vi\u00fava, a dan\u00e7a, tudo se lhe desvaneceu do esp\u00edrito, gra\u00e7as a um sono tranq\u00fcilo e profundo, como essas nuvens douradas do ocaso que a noite absorve ou dissipa.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV \/ PREL\u00daDIO<\/h2>\n<p>NO DIA SEGUINTE partiu F\u00e9lix para a Tijuca, onde tinha uma casa de recreio e ref\u00fagio; regressou duas semanas depois. Durante esse tempo nada soube do que ocorrera na cidade: n\u00e3o leu jornais nem abriu cartas de amigos.<\/p>\n<p>Alguma cousa, entretanto, havia ocorrido: a primeira not\u00edcia com que o saudaram os amigos, apenas ele chegou \u00e0 cidade, foi que Cec\u00edlia conquistara o cora\u00e7\u00e3o de Moreirinha.<\/p>\n<p>O sucessor de F\u00e9lix, pouco depois que este chegou, n\u00e3o deixou de lhe ir participar a sua boa fortuna, n\u00e3o sei se por fatuidade, se por despicar a dama.<\/p>\n<p>\u2014 Dou-lhe os meus parab\u00e9ns, respondeu F\u00e9lix; conquistou uma rapariga sossegada, carinhosa, capaz de o compreender&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor! acudiu o rapaz. O que me faltava era isso mesmo; uma mulher que me compreendesse. Cec\u00edlia n\u00e3o \u00e9 positivamente uma alma perdida; n\u00e3o est\u00e1 na linha dessas outras mulheres com quem tenho despendido o meu dinheiro sem colher nada mais que alguns tardios remorsos. \u00c9 uma mo\u00e7a de bons sentimentos, conserva certa dignidade no v\u00edcio, tem uma alma nobre, elevada&#8230;<\/p>\n<p>Este paneg\u00edrico durou alguns minutos mais. Dentro de t\u00e3o pouco tempo descobrira-lhe Moreirinha qualidades desconhecidas para o antecessor. Seria mais n\u00e9scio ou mais perspicaz? Cec\u00edlia n\u00e3o era hip\u00f3crita quando dizia gostar de um homem; qualquer que fosse a natureza dos seus afetos, ela os sentia sinceramente; mas era raro que sobrevivessem vinte e quatro horas \u00e0 causa que lhos inspirara. N\u00e3o se lhe desmentira a const\u00e2ncia durante os seis meses de intimidade com F\u00e9lix- mas se ela era amante para querer a um s\u00f3 homem, era independente para o esquecer depressa. Tinha uma fidelidade filha do costume; a sua m\u00e1xima era n\u00e3o esquecer o amante presente, n\u00e3o recordar o amante passado, nem se preocupar com o amante futuro. Moreirinha era o amante presente; podia contar com a fidelidade da rapariga, ao menos com as suas boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando Meneses soube deste desenlace ficou at\u00f4nito. Julgou a princ\u00edpio que era apenas uma afoba\u00e7\u00e3o de Moreirinha; mas logo verificou que n\u00e3o. Foi ter com o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo, disse: pe\u00e7o-te que me desculpes a carta rid\u00edcula que te escrevi.<\/p>\n<p>\u2014 Que carta?<\/p>\n<p>\u2014 A respeito de Cec\u00edlia. Nunca pensei que fossem fingidas aquelas l\u00e1grimas que me entraram pelo cora\u00e7\u00e3o. Aprendi a n\u00e3o crer t\u00e3o superficialmente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o aprendeste cousa nenhuma, retorquiu F\u00e9lix encolhendo os ombros; n\u00e3o \u00e9 em terra que se fazem os marinheiros, mas no oceano, encarando a tempestade.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio dos Amores de Cec\u00edlia foi assunto de conversa no c\u00edrculo dos rapazes que aqueles freq\u00fcentavam. Nem tardou que passasse al\u00e9m. No fim de algum tempo, pouca gente ignorava que a moreninha que passeava todas as tardes em carro descoberto pela Praia de Botafogo era o altar em que o Moreirinha fazia os seus sacrif\u00edcios di\u00e1rios e pecuni\u00e1rios. F\u00e9lix admirou-se ao princ\u00edpio desta mania de passear t\u00e3o contr\u00e1ria aos h\u00e1bitos pregui\u00e7osos de Cec\u00edlia; mas atinou logo com a chave do enigma. Moreirinha n\u00e3o compreendia o que era ser feliz sem publicidade. Para ele, a ilha de Citera n\u00e3o podia ser jamais a ilha de Robinson.<\/p>\n<p>Entretanto, passara um m\u00eas desde o sarau do conselheiro. F\u00e9lix n\u00e3o se havia aproveitado do convite que a vi\u00fava lhe fizera nem cedido \u00e0s inst\u00e2ncias de Viana. Encontrou-os, por\u00e9m, uma noite no Gin\u00e1sio. Estava ele nas cadeiras quando os viu num camarote da 2\u00aa ordem. No fim do 2\u00b0 ato F\u00e9lix subiu ao camarote.<\/p>\n<p>Teve excelente recep\u00e7\u00e3o, posto que a vi\u00fava, sem deixar de ser cort\u00eas e graciosa, parecia um pouco reservada e preocupada. N\u00e3o falava com a mesma volubilidade da noite do baile. Esquecia-se \u00e0s vezes de si e dos outros. Duas vezes lhe aconteceu dar uma resposta sem pergunta e deixar uma pergunta sem resposta.<\/p>\n<p>A conversa, portanto, n\u00e3o foi muito animada. Felizmente Viana encarregou-se de preencher as intervalos com a sinfonia das suas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando se levantou o pano para o terceiro ato, F\u00e9lix quis sair, mas tanto a vi\u00fava como o irm\u00e3o pediram lhe que ficasse. Aceitou o convite e ficou. Do que houve em cena durante esse ato pode-se afirmar que F\u00e9lix nada soube absolutamente. O ato era curto, e F\u00e9lix empregou todo o tempo em observar a mo\u00e7a, que, molemente reclinada na cadeira, acompanhava distra\u00edda o di\u00e1logo dos atores.<\/p>\n<p>&#8220;Em que estar\u00e1 pensando esta mo\u00e7a? dizia F\u00e9lix consigo. Evidentemente, n\u00e3o lhe importam os suspiros do gal\u00e3, nem as fac\u00e9cias do gracioso. Olha, mas n\u00e3o v\u00ea a cena. Estar\u00e1 \u00e0 espera de algum namorado remisso? Mas quem \u00e9 ent\u00e3o esse lorpa que deixa entristecer uns olhos t\u00e3o bonitos?&#8221;<\/p>\n<p>A ing\u00eanua da pe\u00e7a, que desde o ato anterior se sabia estar apaixonada pelo gal\u00e3, como \u00e9 de jeito no teatro e no mundo, entrou precipitadamente em cena e lan\u00e7ou-se nos bra\u00e7os do amado. Algumas palmas do p\u00fablico premiaram essa resolu\u00e7\u00e3o inesperada e en\u00e9rgica. Ent\u00e3o come\u00e7ou entre a dama e o gal\u00e3 um di\u00e1logo de sentimento e paix\u00e3o, um duelo de suspiros, um protestar de fidelidade e const\u00e2ncia, que a plat\u00e9ia ouviu com demonstra\u00e7\u00f5es de entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8220;Ama, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, continuou F\u00e9lix a dizer entre si; basta ver como lhe brilham os olhos a cada frase do di\u00e1logo. Agradam-lhe os protestos do namorado e as l\u00e1grimas da dama. Creio que sorri; \u00e9 de aprova\u00e7\u00e3o. Oh! como est\u00e1 divina!&#8221;<\/p>\n<p>Enfim, caiu o pano; e a vi\u00fava, que j\u00e1 no fim do ato parecera ter voltado \u00e0 sua anterior preocupa\u00e7\u00e3o, levantou-se, dizendo que se ia embora.<\/p>\n<p>Viana pediu-lhe para ficar at\u00e9 o fim da pe\u00e7a; ela insistiu, e era for\u00e7oso ceder. F\u00e9lix acompanhou-os at\u00e9 o carro.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 quando? perguntou L\u00edvia, aceitando a m\u00e3o que F\u00e9lix lhe oferecia.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 breve.<\/p>\n<p>Seria acaso ou ilus\u00e3o? F\u00e9lix sentiu uma forte press\u00e3o dos dedos da mo\u00e7a, enquanto esta subia rapidamente para o carro, e ia responder com um aperto ainda mais forte- mas era tarde; a mo\u00e7a j\u00e1 estava sentada, e Viana punha o p\u00e9 no estribo para subir.<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o era decerto &#8211; ilus\u00e3o ou casualidade. Mas o m\u00e9dico n\u00e3o o percebeu logo, e foi um primeiro erro na maneira de julgar a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Poucos dias depois do encontro no teatro, dirigiu-se F\u00e9lix a Catumbi onde eles moravam. N\u00e3o os achou. Quando L\u00edvia voltou para casa soube da visita de F\u00e9lix pelo cart\u00e3o que a mucama lhe deu. T\u00e3o apressadamente descal\u00e7ou as luvas que as rasgou; e como o irm\u00e3o fizesse um reparo a este respeito, a mo\u00e7a respondeu com azedume. Viana estava acostumado \u00e0s asperezas da irm\u00e3, levantou os ombros e saiu.<\/p>\n<p>F\u00e9lix encontrou-a dous dias depois na Rua do Ouvidor, fazendo compras para a viagem.<\/p>\n<p>\u2014 Se adivinhasse a sua visita, n\u00e3o teria sa\u00eddo de casa, disse a vi\u00fava.<\/p>\n<p>F\u00e9lix inclinou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Por outro lado, estimo ter estado fora; morando eu t\u00e3o longe, n\u00e3o teria o prazer de receb\u00ea-lo segunda vez, e nesse caso antes nada.<\/p>\n<p>\u2014 O t\u00edlburi encurta as distancias, observou F\u00e9lix; procurarei desempenhar-me da obriga\u00e7\u00e3o em que estou.<\/p>\n<p>\u2014 Da obriga\u00e7\u00e3o j\u00e1 se desempenhou; agora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o; o seu cumprimento constitui uma obriga\u00e7\u00e3o nova.<\/p>\n<p>Despediram -se .<\/p>\n<p>Meneses, que estava na cal\u00e7ada oposta, durante as poucas palavras trocadas entre F\u00e9lix e a vi\u00fava, atravessou a rua e veio ter com o amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 aquela mo\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a irm\u00e3 do Viana.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! \u00e9 lind\u00edssima.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 realmente bonita, o que lhe merece a admira\u00e7\u00e3o geral. V\u00ea como todos lhe est\u00e3o com os olhos em cima&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o h\u00e1 indiscri\u00e7\u00e3o, disse Meneses depois de a ver entrar em uma loja, queimas os teus perfumes naquele altar?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o. Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez algum casamento incubado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Casar?&#8230; disse F\u00e9lix rindo. A pergunta \u00e9 t\u00e3o original que merece um sorvete. Vem ao Carceler.<\/p>\n<p>No Carceler contou-lhe Meneses que andava incomodado e triste. Vivia ele maritalmente com uma p\u00e9rola que pouco antes encontrara no lodo. Na v\u00e9spera descobrira em casa vest\u00edgios de outro amador de pedras finas. Estava certo da infidelidade da amante pedia-lhe conselho.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te dou conselho nenhum, respondeu o m\u00e9dico; resolve tu mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, se eu pudesse resolver alguma cousa no estado em que estou, n\u00e3o viria falar a um amigo..<\/p>\n<p>\u2014 Lisonjeia-me a escolha; mas n\u00e3o passa disso. Imita-me, se podes; mas n\u00e3o me pe\u00e7as reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, no meu caso, que farias tu?<\/p>\n<p>\u2014 Cousa nenhuma; pegava no chap\u00e9u e sa\u00eda.<\/p>\n<p>\u2014 E se o n\u00e3o pudesses fazer sem dor?<\/p>\n<p>\u2014 Hip\u00f3tese absurda.<\/p>\n<p>\u2014 Para ti.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente.<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Dou-te enfim um conselho, disse F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Meneses levantou os olhos com ansiedade.<\/p>\n<p>\u2014 Qualquer que seja a resolu\u00e7\u00e3o que tomares, continuou F\u00e9lix, n\u00e3o recues um passo.<\/p>\n<p>\u2014 Onde acharei esta resolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Aqui, disse F\u00e9lix pondo-lhe o dedo na testa.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! suspirou Meneses; a cabe\u00e7a nada tem com isso; todo o mal est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Recorre \u00e0 cirurgia: corta o mal pela raiz.<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Suprime o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO V \/ FICO<\/h3>\n<p>DOUS DIAS depois, estando F\u00e9lix a vestir-se para ir a Catumbi, entrou-lhe Meneses por casa. Vinha p\u00e1lido e abatido, olhos vermelhos, passo tr\u00eamulo. N\u00e3o se sentou, deixou-se cair numa cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo acabado, respondeu ele: romperam-se os v\u00ednculos fatais. Custou-me muito, mas era necess\u00e1rio; foi agora h\u00e1 pouco; corri para c\u00e1; precisava de algu\u00e9m com quem desabafasse. Isto \u00e9 rid\u00edculo, bem sei; mas que queres? Eu sofro&#8230; tenho um cora\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, e deixo-me levar por ele&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix pareceu condoer-se da situa\u00e7\u00e3o do rapaz, e disse-lhe algumas palavras de anima\u00e7\u00e3o, que ele ouviu com reconhecimento.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 desconfiava, disse Meneses, de que era tra\u00eddo; s\u00f3 tive a certeza ontem. O que mais me d\u00f3i em tudo isso, continuou ele depois de alguns instantes de silencio, \u00e9 que, para servir ao homem que me traiu, desfazia-me eu em obs\u00e9quios, e at\u00e9, confesso te aqui, era seu credor.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso que eu n\u00e3o empresto dinheiro a ningu\u00e9m, respondeu F\u00e9lix, penteando as su\u00ed\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem pode adivinhar o mal, quando nos apresentam uma fisionomia risonha? Eu confiava em ambos.<\/p>\n<p>F\u00e9lix encolheu os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Toma um charuto, disse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero fumar.<\/p>\n<p>\u2014 Fuma; eu j\u00e1 observei que o fumo impede as l\u00e1grimas, e ao mesmo tempo leva ao c\u00e9rebro uma esp\u00e9cie de nevoeiro salutar.<\/p>\n<p>\u2014 Vais sair? perguntou Meneses, vendo que o outro punha o chap\u00e9u na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Vou \u00e0 casa do Viana. Queres vir?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>\u2014 Devias vir comigo; apresentava-te \u00e0 irm\u00e3 dele, e pass\u00e1vamos algumas horas em companhia am\u00e1vel. Esquecerias depressa as tuas penas.<\/p>\n<p>Meneses recusou; F\u00e9lix levou-o no carro at\u00e9 \u00e0 Rua do Lavradio, onde ele morava.<\/p>\n<p>Em caminho conversaram dos seus extintos amores. Meneses jurava que era a \u00faltima aventura a que expunha o seu cora\u00e7\u00e3o; achava-se curado de uma vez.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o afirmes nada, Meneses; podes errar. Sabes o que te falta? T\u00eampera. Amanh\u00e3, entre duas l\u00e1grimas, aparece-te um raio de sol, e eis-te de novo namorado, confiado e arriscado.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! protestou Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Quem dera que n\u00e3o! Mas eu estou a ler no teu rosto que a \u00fanica maneira de te consolar deste naufr\u00e1gio \u00e9 dar-te outro navio. S\u00f3 muito tarde te convencer\u00e1s de que viver n\u00e3o \u00e9 obedecer \u00e0s paix\u00f5es, mas aborrec\u00ea-las ou sufoc\u00e1-las. Os maricas, como tu, choram; os homens, esses ou n\u00e3o sentem ou abafam o que sentem. Isto n\u00e3o tem r\u00e9plica, meu&#8230; amigo, diria eu, se me n\u00e3o lembrasse do teu afortunado rival, que \u00e9 positivamente um mariola. Vem \u00e0 casa do Viana; h\u00e1s de gostar da L\u00edvia; parece-se contigo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, respondeu Meneses, que s\u00f3 ouvira as \u00faltimas palabras de F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Mas h\u00e1s de ir depois?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, depois.<\/p>\n<p>\u2014 E se te apaixonas por ela?<\/p>\n<p>Meneses sorriu tristemente; o carro parou; despediram-se um do Outro, e F\u00e9lix seguiu para Catumbi.<\/p>\n<p>L\u00edvia estava s\u00f3 em casa. Fora convidada a um jantar, mas respondeu pretextando um inc\u00f4modo que n\u00e3o tinha. O irm\u00e3o encarregou-se de ir represent\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Tinha o pressentimento, disse ela depois de referir estas cousas ao doutor, tinha o pressentimento de que o senhor vinha c\u00e1 hoje, e n\u00e3o desejava que lhe acontecesse a mesma cousa que da primeira vez.<\/p>\n<p>\u2014 E acredita em pressentimentos? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o os explico, mas acredito neles.<\/p>\n<p>L\u00edvia parecia mais bela que das outras vezes. N\u00e3o s\u00f3 a luz natural dizia melhor com a sua tez, como tamb\u00e9m a simplicidade do vestu\u00e1rio era para ela um realce. F\u00e9lix n\u00e3o dissimulou a impress\u00e3o que lhe causava aquele novo aspecto da mo\u00e7a. L\u00edvia, que, como toda a mulher bela, e posto n\u00e3o fosse vaidosa, sabia mirar-se na fisionomia dos outros, n\u00e3o deixou de perceber a impress\u00e3o do doutor<\/p>\n<p>A cena da portinhola do carro n\u00e3o havia sa\u00eddo do esp\u00edrito de F\u00e9lix que se convencera de duas cousas primeiro, que a vi\u00fava gostava dele; depois, que era f\u00e1cil triunfar da vi\u00fava. As apar\u00eancias davam fundamento \u00e0 opini\u00e3o de que a mo\u00e7a o amava. F\u00e9lix aproveitou a situa\u00e7\u00e3o e disp\u00f4s-se a tirar dela todo o proveito poss\u00edvel. Pouco se demorou, entretanto, naquele dia. Quando anunciou que se, ia embora, pediu-lhe a vi\u00fava que n\u00e3o esquecesse a casa.<\/p>\n<p>\u2014 Aproveitarei o tempo, observou F\u00e9lix, enquanto n\u00e3o embarcam para a Europa. Seu irm\u00e3o diz-me que a viagem \u00e9 breve.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o houver transtorno. Em todo o caso, venha, e n\u00e3o fa\u00e7a visitas de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Eu fui m\u00e9dico; fiquei com esse costume, respondeu F\u00e9lix sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 m\u00e9dico?<\/p>\n<p>\u2014 Do corpo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas da alma?<br \/>\n\u2014 Talvez. Deixei agora mesmo um doente da alma que eu desejaria apresentar-lhe, porque estes ares d\u00e3o sa\u00fade, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 De que sofre o seu doente?<\/p>\n<p>F\u00e9lix sorriu-se.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00edtima de uma inconst\u00e2ncia, mol\u00e9stia vulgar. Est\u00e1 no per\u00edodo agudo. \u00c9 um pobre rapaz inocente e singelo, que vai buscar as regras da vi da nos comp\u00eandios da imagina\u00e7\u00e3o. Maus livros, n\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o respondeu; estava embebida a ouvi-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Meneses n\u00e3o conhece outros, continuou F\u00e9lix. Parece filho daquele astr\u00f3logo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um po\u00e7o. Eu sou da opini\u00e3o da velha, que apostrofou o astr\u00f3logo: &#8220;Se tu n\u00e3o v\u00eas o que est\u00e1 a teus p\u00e9s, por que indagas do que est\u00e1 acima da tua cabe\u00e7a?&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 O astr\u00f3logo podia responder, observou a vi\u00fava, que os olhos foram feitos para contemplar os astros.<\/p>\n<p>\u2014 Teria raz\u00e3o, minha senhora, se ele pudesse suprimir os po\u00e7os. Mas que \u00e9 a vida sen\u00e3o uma combina\u00e7\u00e3o de astros e po\u00e7os, enlevos e precip\u00edcios? O melhor meio de escapar aos precip\u00edcios \u00e9 fugir aos enlevos.<\/p>\n<p>L\u00edvia ficou pensativa alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 O pensamento \u00e9 melanc\u00f3lico, disse ela; contudo pode ser verdadeiro. Mas por que raz\u00e3o condenaremos a vida contemplativa dos que n\u00e3o conhecem a vida positiva? Os livros da imagina\u00e7\u00e3o.., esses livros n\u00e3o s\u00e3o detest\u00e1veis, como o senhor disse; n\u00e3o os h\u00e1 detest\u00e1veis em \u00f3timos. Deus os d\u00e1 conforme a ci\u00eancia de cada um.<\/p>\n<p>F\u00e9lix despediu-se de L\u00edvia, n\u00e3o enlevado, n\u00e3o palpitante, mas disposto a uma aventura. Amiudou as suas visitas a Catumbi, a grande aprazimento de Viana, que suspeitou alguma afei\u00e7\u00e3o entre os dous, e imaginara uma alian\u00e7a de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de F\u00e9lix era at\u00e9 vantajosa naquela casa. Entre a vi\u00fava e o irm\u00e3o havia um abismo. Eram dessemelhantes nos sentimentos, nos. h\u00e1bitos de viver, na maneira de pensar. L\u00edvia tinha alternativas de afabilidade e rispidez, ao passo que o. irm\u00e3o era de uma inalter\u00e1vel paz de esp\u00edrito. Viana tinha cousas m\u00e1s e boas, sendo que as coisas boas eram justamente as que se opunham ao g\u00eanio especulativo da vi\u00fava. Era homem essencialmente pr\u00e1tico; o seu reino era todo deste mundo. Apesar das suas pretens\u00f5es a rapaz estouvado e extravagante, tinha h\u00e1bitos de ordens e economia. L\u00edvia era a este respeito negligente e &#8220;meia douda&#8221;, como lhe chamava o irm\u00e3o; alheava-se muitas vezes das cousas que a cercavam para subir a um mundo superior e quim\u00e9rico. O m\u00e9dico era entre ambos uma esp\u00e9cie de mediador pl\u00e1stico. N\u00e3o pertencia \u00e0 esfera de nenhum deles, mas sabia a maneira de os conciliar.<\/p>\n<p>F\u00e9lix encontrou algumas vezes em Catumbi o Dr. Batista, que ele vira dan\u00e7ar com a vi\u00fava em casa do coronel. L\u00edvia n\u00e3o parecia prestar-lhe aten\u00e7\u00e3o, nem o pretendente magoar-se por isso. Era um modelo de dissimula\u00e7\u00e3o e c\u00e1lculo. Conhecia todos os artif\u00edcios da campanha amorosa, a indiferen\u00e7a, o desd\u00e9m, o entusiasmo, e ate a resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma noite em que sa\u00edram de l\u00e1 juntos, F\u00e9lix procurou sondar-lhe o esp\u00edrito a respeito da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1, respondeu Batista com indiferen\u00e7a; nem eu pretendo cortej\u00e1-la. Mas, se o pretendesse, triunfaria; a paci\u00eancia \u00e9 a gazua do amor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe parece que essa sua m\u00e1xima \u00e9 imoral?<\/p>\n<p>\u2014 Efetivamente \u00e9 assim; mas e por isso mesmo que estes amores s\u00e3o deliciosos.<\/p>\n<p>Quinze dias depois apareceu Viana em casa de F\u00e9lix. Deu-lhe parte de que a irm\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o ia para a Europa.<\/p>\n<p>\u2014 Por que motivo? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 justamente o que eu desejara saber, disse Viana com um gesto de mal contido despeito; mas estou certo de que o n\u00e3o saberei jamais. Aquela minha irm\u00e3 n\u00e3o me parece ter a cabe\u00e7a no seu lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma raz\u00e3o haveria. Estar\u00e1 doente?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 de perfeita sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe se&#8230;. algum namoro?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 pensei nisso, disse Viana; pode ser algum namoro<\/p>\n<p>\u2014 Naquela idade as paix\u00f5es s\u00e3o soberanas. Seria in\u00fatil querer dissuadi-las e ainda que n\u00e3o fosse in\u00fatil, seria desarrazoado, porque ima vi\u00fava mo\u00e7a&#8230; Ela amava muito o marido, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Antes de casar, muito; tr\u00eas meses depois, muit\u00edssimo; ao cabo de alguns meses, nem muito nem pouco. Toda essa hist\u00f3ria \u00e9 mist\u00e9rio para mim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe vejo mist\u00e9rio nenhum; o casamento \u00e9 justamente isso acalma os afetos para os tornar mais duradouros. Se a paix\u00e3o de sua irm\u00e3 se tornou mais calma&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se trata disso. L\u00edvia n\u00e3o amava menos; aborrecia o marido. . Mas por que nos demoraremos nestas cousas que n\u00e3o podemos explicar? A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que lhe acho \u00e9 o seu car\u00e1ter esquisito. O senhor n\u00e3o imagina bem que eterna- varia\u00e7\u00e3o de g\u00eanio \u00e9 aquela mo\u00e7a. H\u00e1 dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela \u00e9 irrita\u00e7\u00e3o e melancolia. Ningu\u00e9m a entende, e eu menos que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esteja o senhor a exagerar uma cousa natural\u00edssima. Todos temos essa mesma altera\u00e7\u00e3o de humor. H\u00e1 manh\u00e3s tristes e aziagas. Quer que lhe d\u00ea um conselho? N\u00e3o a contrarie nunca, \u00e9 o melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o senhor h\u00e1 de concordar que quando a gente j\u00e1 preparava os bei\u00e7os para ir saborear a vida parisiense..<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 tempo para tudo, disse F\u00e9lix, e o senhor ainda est\u00e1 mo\u00e7o. Iremos juntos daqui a um ano.<\/p>\n<p>\u2014 Palavra?<\/p>\n<p>\u2014 Palavra.<\/p>\n<h3>CAPITULO VI \/ DECLARA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>\u2014 ENT\u00c3O, j\u00e1 n\u00e3o vai para a Europa? perguntou F\u00e9lix \u00e0 vi\u00fava nessa mesma tarde.<\/p>\n<p>\u2014 Quem lho disse?<\/p>\n<p>\u2014 Seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Desfiz a viagem, bem contra a vontade dele, que me chamou caprichosa e n\u00e3o sei que mais. Talvez tenha raz\u00e3o. Eu mesma n\u00e3o me entendo \u00e0s vezes. Esta viagem, que era um desejo ardente. acha-me agora fria. Que lhe parece isto?<\/p>\n<p>\u2014 Alguma raz\u00e3o h\u00e1 de haver, ponderou o m\u00e9dico e eu sentiria se o motivo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Se o motivo? repetiu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Calaram-se e ficaram algum tempo a olhar um para o outro A explica\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 os l\u00e1bios n\u00e3o pediam nem davam, come\u00e7aram a pedi-la e a l\u00ea-la os olhos de ambos.<\/p>\n<p>L\u00edvia baixou os seus.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos para o terra\u00e7o, disse ela por fim; a tarde est\u00e1 bonita<\/p>\n<p>A tarde estava realmente linda. F\u00e9lix, entretanto, cuidava menos da tarde que da mo\u00e7a. N\u00e3o queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente. Encostada ao parapeito do terra\u00e7o que dava para a ch\u00e1cara, a vi\u00fava simulava contemplar os esplendores do ocaso; na realidade, afiava o ouvido para escutar a confiss\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p>F\u00e9lix olhava para ela e n\u00e3o ousava romper o silencio. Quase a soltar dos l\u00e1bios a palavra decisiva, a si mesmo perguntava se ela n\u00e3o pesar no seu destino mais do que imaginava ent\u00e3o, e se daquele capricho de momento n\u00e3o resultaria o mal de toda a sua vida.<\/p>\n<p>Mas a hesita\u00e7\u00e3o foi curta; F\u00e9lix ia enfim lan\u00e7ar a sorte, quando um escravo apareceu no terra\u00e7o, a anunciar a visita do Dr. Batista.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero falar a ningu\u00e9m, Jo\u00e3o, disse a mo\u00e7a; estou incomodada.<\/p>\n<p>\u2014 Que resposta \u00e9 essa? perguntou F\u00e9lix, baixinho, quando o escravo voltou as costas.<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o! disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O escravo voltou.<\/p>\n<p>\u2014 Eu hoje s\u00f3 posso receber as pessoas mais \u00edntimas de casa, os amigos de meu irm\u00e3o. \u00c0s outras dize que estou incomodada.<\/p>\n<p>O escravo saiu.<\/p>\n<p>\u2014 Adota esta explica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Antes essa, respondeu F\u00e9lix; \u00e9 melhor para a senhora; sinto-a contudo por mim; n\u00e3o quisera ser envolvido entre os \u00edntimos da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Quer que eu corrija a ordem que dei?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pe\u00e7o tanto; n\u00e3o tenho direito a isso; e todavia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E todavia?&#8230;<\/p>\n<p>Houve um curto sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me compreende? disse F\u00e9lix com voz quase sumida.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo, murmurou ela, depois de uma pausa; mas receio enganar-me.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se engana, insistiu F\u00e9lix com calor; amo-a, e seria imposs\u00edvel neg\u00e1-lo, porque a minha voz e o meu rosto h\u00e3o de t\u00ea-lo dito melhor do que as minhas palavras. N\u00e3o percebe isso h\u00e1 muito tempo? N\u00e3o adivinhou j\u00e1 que a esperan\u00e7a do seu amor \u00e9 para mim toda a felicidade de amanh\u00e3? Diga! diga uma palavra s\u00f3, cruel ou ben\u00e9vola, mas uma e definitiva.<\/p>\n<p>L\u00edvia escutara-o enlevada, e a sua resposta foi mais eloq\u00fcente que a declara\u00e7\u00e3o do doutor; estendeu-lhe a m\u00e3o tr\u00eamula e fria, e embebeu nos olhos dele um longo olhar de agradecimento e felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Ama-me tamb\u00e9m? perguntou F\u00e9lix depois de alguns minutos de muda contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! muito! suspirou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>E ambos ali ficaram silenciosos, ofegantes e namorados, nesse \u00eaxtase dulc\u00edssimo que \u00e9 porventura o melhor estado da alma humana. Ambos, porque o cora\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, naquele instante ao menos, palpitava com igual fervor.<\/p>\n<p>\u2014 Muito! repetiu L\u00edvia, como se essa palavra fosse apenas um eco do seu pensamento ou uma resposta \u00e0 muda interroga\u00e7\u00e3o dos olhos do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>F\u00e9lix passou-lhe o bra\u00e7o \u00e0 roda da cintura e puxou-a docemente para si, depois segurou-lhe a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, e inclinou os l\u00e1bios para lhe imprimir um beijo na fronte. Deteve-o um rumor estranhos uma voz infantil e desconhecida.<\/p>\n<p>Instantes depois apareceu no terra\u00e7o um menino de cinco anos, crian\u00e7a gentil e esperta, rosada e gorda, como os anjos e os cupidos que a arte nos representa em seus pain\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e! mam\u00e3e! gritava o pequeno, correndo a abra\u00e7ar-se com a m\u00e3e e fugindo \u00e0 mucama que vinha atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>L\u00edvia recebeu a crian\u00e7a nos bra\u00e7os; beijou-a e p\u00f4-la ao colo.<\/p>\n<p>\u2014 Apresento-lhe meu filho, disse ela ao m\u00e9dico; estava em casa da madrinha; veio ontem para c\u00e1.<\/p>\n<p>E voltando-se para o menino:<\/p>\n<p>\u2014 Lu\u00eds, conheces o Dr. F\u00e9lix?<\/p>\n<p>O menino olhou para o m\u00e9dico com a express\u00e3o pasmada e interrogativa das crian\u00e7as que v\u00eaem uma pessoa, pela primeira vez, \u00e9 voltou-se para a m\u00e3e, sem parecer impressionar-se muito. L\u00edvia encheu-lhe as faces de beijos. A crian\u00e7a rindo de prazer, repeliu com as m\u00e3ozinhas aquela chuva de car\u00edcias maternas.<\/p>\n<p>\u2014 Ora bem, disse a vi\u00fava, quem te deu ordem de andar a correr<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m, respondeu o menino, eu pedi a Clara para me deixar vir; ela n\u00e3o quis, mas eu vim. N\u00e3o fiz bem, mam\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste mal. Vai brincar, vai, mas n\u00e3o corras.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 esse mo\u00e7o? perguntou Lu\u00eds, olhando outra vez para<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 te disse: \u00e9 o Dr. F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>Lu\u00eds encarou o m\u00e9dico; depois olhou para a m\u00e3e, e fez um gesto para descer. L\u00edvia p\u00f4-lo no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Posso ir \u00e0 ch\u00e1cara?<\/p>\n<p>\u2014 Podes, leva-o, Clara.<\/p>\n<p>Lu\u00eds deitou a correr seguido pela mucama. A m\u00e3e acompanhou-o com os olhos at\u00e9 v\u00ea-lo desaparecer do terra\u00e7o.<\/p>\n<p>Durante esta cena, F\u00e9lix parecera completamente estranho a tudo que o rodeava. N\u00e3o ouvia as repreens\u00f5es da mo\u00e7a, nem a tagarelice da crian\u00e7a: ouvia-se a si mesmo. Contemplava aquele quadro com deleitosa inveja; e sentia pungir-lhe um remorso.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 m\u00e3e, repetia o mo\u00e7o consigo, \u00e9 m\u00e3e!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, dizia a mo\u00e7a, debru\u00e7ada sobre o parapeito que dava para a ch\u00e1cara; veja como ele vai correndo&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix debru\u00e7ou-se tamb\u00e9m; o menino corria efetivamente adiante de Clara que o acompanhava de longe. De quando em quando, parava o menino aguardando a mucama; mas t\u00e3o depressa esta w lhe aproximava, a crian\u00e7a negaceava o corpo, e deitava a correr outra vez. A m\u00e3e parecia esquecida de tudo mais, F\u00e9lix contemplava-a com religioso respeito. Estiveram assim calados alguns segundos. De repente L\u00edvia voltou-se para o m\u00e9dico:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea? disse ela; a pouco se reduz a minha felicidade: o senhor e aquela crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Dizendo isto, deixou pender a fronte; F\u00e9lix beijou-a ardentemente mas n\u00e3o p\u00f4de dizer nada. A como\u00e7\u00e3o embargou-lhe a voz; a reflex\u00e3o imp\u00f4s-lhe sil\u00eancio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VII \/ O GAVI\u00c3O E A POMBA<\/h3>\n<p>INICIANDO afoutamente esta aventura, era natural que F\u00e9lix sa\u00edsse de Catumbi com a vaidade satisfeita de um triunfador. N\u00e3o era ele amado, e amado sem esfor\u00e7o seu, sem resist\u00eancia nem combate? E a mulher que lhe acabava de dar francamente o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha todas as qualidades que podem seduzir um homem e lisonjear-lhe o amor-pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>Qualquer outro teria motivo de se julgar superior ao resto dos mortais; mas era a natureza mesma da vit\u00f3ria que vinha travar a felicidade de F\u00e9lix . A que prop\u00f3sito interviria o cora\u00e7\u00e3o neste epis\u00f3dio, que devia ser curto para ser belo, que n\u00e3o devia ter passado nem futuro, arroubos nem l\u00e1grimas?<\/p>\n<p>&#8220;Fui longe demais, ia ele dizendo consigo; n\u00e3o devia alimentar uma paix\u00e3o que h\u00e1 de ser uma esperan\u00e7a, e uma esperan\u00e7a que n\u00e3o pode ser outra cousa mais que um infort\u00fanio. Que lhe posso eu dar que corresponda ao seu amor? O meu esp\u00edrito, se quiser, a minha dedica\u00e7\u00e3o, a minha ternura, s\u00f3 isso&#8230; porque o amor. .. Eu amar? P\u00f4r a exist\u00eancia toda nas m\u00e3os de uma criatura estranha&#8230; e mais do que a exist\u00eancia, o destino, sei eu o que isso \u00e9?&#8221;<\/p>\n<p>Neste ponto, parece que alguma id\u00e9ia vaga e remota lhe surgiu no esp\u00edrito e o levou a uma longa excurs\u00e3o no campo da mem\u00f3ria. Quando voltou \u00e0 realidade presente tinha o carro entrado no Largo do Machado. Apeou-se e seguiu a p\u00e9 para casa.<\/p>\n<p>A vi\u00fava tornou a ocupar-lhe o esp\u00edrito. Recapitulou ent\u00e3o tudo o que se passara em Catumbi, as palavras trocadas, os olhares ternos, a confiss\u00e3o m\u00fatua evocou a imagem da mo\u00e7a e viu-a junto dele, pendente de seus l\u00e1bios, palpitante de sentimento e ternura. Ent\u00e3o a fantasia come\u00e7ou a debuxar-lhe uma exist\u00eancia futura, n\u00e3o romanesca nem legal, mas real e prosaica; como ele supunha que n\u00e3o podia deixar de ser com um homem in\u00e1bil para as afei\u00e7\u00f5es do C\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8220;E que outra cousa quer ela? dizia o m\u00e9dico a si mesmo. Era, sem d\u00favida, melhor que houvesse menos sentimento naquela declara\u00e7\u00e3o, que tiv\u00e9ssemos navegado mais junto a terra, em vez de nos lan\u00e7armos ao mar largo da imagina\u00e7\u00e3o. Mas, enfim, \u00e9 uma quest\u00e3o de forma: creio que ela sente da mesma maneira que eu. Devia t\u00ea-lo percebido. Fala com muita paix\u00e3o, \u00e9 verdade; mas naturalmente sabe a sua arte \u00e9 colorista. De outro modo pareceria que se entregava por curiosidades talvez por costume. Uma paix\u00e3o louca pode justificar o erro; prepara se para errar. N\u00e3o me anda ela a seduzir h\u00e1 tanto? \u00c9 positivo; mete-se-me pelos olhos. E eu a imaginar que&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Quando F\u00e9lix chegou a casa, estava plenamente convencido de que a afei\u00e7\u00e3o da vi\u00fava era uma mistura de vaidade, capricho e pendor sensual. Isto lhe parecia melhor que uma paix\u00e3o desinteressada \u00e8 sincera, em que, ali\u00e1s, n\u00e3o acreditava. N\u00e3o admira pois que ainda desta vez a lembran\u00e7a de L\u00edvia lhe n\u00e3o perturbasse o sono, e que o primeiro clar\u00e3o d\u00e1 aurora, atravessando os vidros da janela da alcova, alumiasse o rosto do m\u00e9dico, t\u00e3o grave e pl\u00e1cido como na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>F\u00e9lix voltou a Catumbi naquele mesmo dia. A vi\u00fava estava radiante de felicidade, tr\u00eamula de alegria. Estendeu-lhe a m\u00e3o, que ele apertou, n\u00e3o palpitante como ela, mas cheio de delicadeza e gra\u00e7a. A presen\u00e7a de Viana, al\u00e9m disso, impedia qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o exterior. O parasita, que parecia empenhado em preparar uma alian\u00e7a de fam\u00edlia com o m\u00e9dico, disp\u00f4s-se a n\u00e3o ser cruel para os dous namorados; fechou os olhos, cerrou os ouvidos, e, se em todo o caso foi importuno, n\u00e3o o deveu \u00e0 vontade, mas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, porque em tais circunst\u00e2ncias nem todo o engenho de Voltaire pode fazer um homem interessante.<\/p>\n<p>Amiudaram-se ainda mais as visitas de F\u00e9lix, que ali encontrou algumas vezes a fam\u00edlia do Coronel Morais, e outras, poucas, da intimidade de L\u00edvia. D. Matilde sentia entusiasmo pelo m\u00e9dico quanto a Raquel olhava para ele com uma esp\u00e9cie de adora\u00e7\u00e3o. Dos homens alguns o detestavam cordialmente, outros tinham-lhe medo, n\u00e3o raros inveja, e alguns poucos simpatia.<\/p>\n<p>F\u00e9lix, entretanto, parecia indiferente aos sentimentos que inspirava e deste modo obedecia a um sistema n\u00e3o menos que \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do seu espirito. O mesmo praticava em rela\u00e7\u00e3o ao amor. Evitava, quanto podia, animar as esperan\u00e7as da mo\u00e7a, e posto soubesse a fundo a ret\u00f3rica da paix\u00e3o, n\u00e3o a empregava sem uma parcim\u00f4nia, que lhe parecia economia razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>L\u00edvia, por\u00e9m, n\u00e3o dissimulava nem hesitava; deixava transparecer no rosto o que sentia no cora\u00e7\u00e3o. Jogava com as cartas na mesa sem previs\u00e3o nem c\u00e1lculo. Expansiva e discreta, en\u00e9rgica e delicada, entusiasta e refletida, L\u00edvia possu\u00eda esses contrastes aparentes, que n\u00e3o eram mais que as harmonias do seu car\u00e1ter. Os pr\u00f3prios defeitos e a nasciam de suas qualidades. Era cr\u00e9dula \u00e0 for\u00e7a de ser confiante r\u00edspida com tudo o que lhe parecia baixo ou f\u00fatil. Tinha a imagina\u00e7\u00e3o quim\u00e9rica, \u00e0s vezes &#8211; o cora\u00e7\u00e3o supersticioso, a intelig\u00eancia austera, mas compensava estes defeitos, se o eram, por qualidades capitais e raras.<\/p>\n<p>Um dia em que ambos conversavam do \u00fanico assunto que lhes podia interessar &#8211; pelo menos do \u00fanico que lhe interessava a ela F\u00e9lix pediu-lhe explica\u00e7\u00e3o de uma cousa que lhe parecia obscura.<\/p>\n<p>\u2014 Obscura? repetiu L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra-se da noite em que a encontrei no Gin\u00e1sio? disse o medico. Estava preocupada e alheia a tudo. Conversou mal e distra\u00edda, interessavam-lhe as cenas amorosas, tudo mais parecia aborrec\u00ea-la. No fim do terceiro ato levantou-se e foi-se embora. Diz-me entretanto, que desde o sarau do coronel j\u00e1 come\u00e7ava a sentir este amor que \u00e9 a sua vida. Pois bem n\u00e3o estava eu l\u00e1, a seu lado, no teatro?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh!<\/p>\n<p>\u2014 Estava outro homem, mui diverso deste que eu vejo, agora ao pe e mim, porque ainda n\u00e3o me amava. Mas n\u00e3o era s\u00f3 isso, era mais. Pensa que os seus atos, sentimentos e pessoas n\u00e3o s\u00e3o objeto dos coment\u00e1rios estranhos?<\/p>\n<p>\u2014 Importam-me t\u00e3o pouco os coment\u00e1rios!<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, falaram-me muito mal do seu cora\u00e7\u00e3o naquele dia.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe disseram desse viajante inc\u00f3gnito?<\/p>\n<p>\u2014 Viajante? perguntou L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi, emendou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Disseram-me muitas cousas m\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Deu-lhes cr\u00e9dito?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, mas fiquei triste. Eu estava acostumada a admir\u00e1-lo de longe. Conhecia-o pouco, mas meu<\/p>\n<p>irm\u00e3o falava-me muita vez a seu respeito nas cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele.<br \/>\n\u2014 Seu irm\u00e3o tem certo entusiasmo por mim, disse F\u00e9lix; e natural que exagere os meus m\u00e9ritos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 filha do coronel, \u00e9 uma crian\u00e7a, que se acostumou a ver-me com olhos de irm\u00e3 mais mo\u00e7a.<br \/>\n\u2014 Quer ent\u00e3o que eu acredite antes nas cousas m\u00e1s?<\/p>\n<p>\u2014 Nem m\u00e1s nem boas, L\u00edvia; conhe\u00e7a-me primeiro; far\u00e1 depois ju\u00edzo seguro.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! conhe\u00e7o-te! exclamou ela.<\/p>\n<p>A entrada de Viana interrompeu o col\u00f3quio. F\u00e9lix dirigiu-se \u00e0 mesa e abriu um \u00e1lbum, enquanto Viana referia \u00e0 irm\u00e3 as perip\u00e9cias de um jantar a que assistira.<br \/>\nO \u00e1lbum da vi\u00fava, que o m\u00e9dico abria pela primeira vez, estava j\u00e1 alastrado de prosa e verso. Nem tudo era bom, como acontece nesses livros, que s\u00e3o \u00e0s vezes verdadeiros asilos de inv\u00e1lidos do Parnaso, onde as musas reum\u00e1ticas e manetas v\u00e3o soltar os seus gemidos. Uma p\u00e1gina havia que lhe pareceu misteriosa: era uma declara\u00e7\u00e3o de amor sem assinatura. Leu-a, e n\u00e3o p\u00f4de deixar de sorrir: s\u00f3 havia uma cousa pior que a forma, era o pensamento.<\/p>\n<p>\u2014 De que se ri? perguntou a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Viana aproximou-se de F\u00e9lix e lan\u00e7ou os olhos para a p\u00e1gina aberta<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse ele estouvadamente, isto \u00e9 de meu defunto cunhado.<\/p>\n<p>L\u00edvia estremeceu e corou.<\/p>\n<p>&#8220;Vi\u00fava de um n\u00e9scio! pensou F\u00e9lix. Estava pedindo um homem inteligente.&#8221;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VIII \/ QUEDA<\/h3>\n<p>O DESENLACE desta situa\u00e7\u00e3o desigual entre um homem frio e uma mulher apaixonada parece que devera ser a queda da mulher; foi a queda do homem. Para triunfar da vi\u00fava, F\u00e9lix contava apenas com a sua resolu\u00e7\u00e3o mas a vi\u00fava, al\u00e9m do seu amor, tinha dous auxiliares ativos e latentes: o tempo e o h\u00e1bito. Cada dia que passava ca\u00eda como uma gota d&#8217;\u00e1gua no cora\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, e ia cavando fundo com a fria tenacidade do destino.<\/p>\n<p>Ironia da sorte chamar\u00e1 o leitor a este desfecho de uma situa\u00e7\u00e3o que, algumas semanas antes, t\u00e3o outra se lhe afigurava. Chame-lhe antes l\u00f3gica da natureza, porque o cora\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix, que aparentava ser de m\u00e1rmore, era simplesmente da nossa comum argila. N\u00e3o era seguramente um cora\u00e7\u00e3o virginal e puro; tinha uma certa dose do ego\u00edsmo que a natureza maternalmente repartiu por todos os homens, e n\u00e3o se pode dizer que n\u00e3o fosse algum tanto c\u00e9ptico; mas estes sen\u00f5es exagerava-os ele de maneira que veio a perder, na imagina\u00e7\u00e3o dos outros, a sua fisionomia original.<\/p>\n<p>As armas com que lutava eram certamente de boa tempera, mas se valiam muito para esgrimir, valiam pouco para pelejar. Com uma mulher que apenas tivesse a soma de afeto necess\u00e1ria para dissimular o erro, o nosso her\u00f3i ficaria na altura da reputa\u00e7\u00e3o; mas o amor da vi\u00fava era um verdadeiro combate. Quando F\u00e9lix chegou a encarar-lhe o cora\u00e7\u00e3o, sentiu a fascina\u00e7\u00e3o do abismo, e caiu nele.<\/p>\n<p>Esta queda, como disse, foi lenta; o m\u00e9dico come\u00e7ou a sentir que a presen\u00e7a da mo\u00e7a era para ele uma necessidade. Pesavam-lhe as aus\u00eancias mais longas, e, o que era mais, vinham suavizar-lhas umas saudades, que ele definia por outro modo, mas que, em suma, eram saudades. Quando a ia ver, e \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava dela, sentia bater-lhe alguma cousa dentro do peito; o m\u00e9dico dizia que era o sangue ainda juvenil e irrequieto. Seria uma raz\u00e3o fisiol\u00f3gica; mas havia tamb\u00e9m uma raz\u00e3o moral; era a lava da paix\u00e3o que se ia formando e subindo at\u00e9 romper a garganta do vulc\u00e3o. Longa foi a gesta\u00e7\u00e3o do amor; mas quando o m\u00e9dico descobriu o estado de sua alma, n\u00e3o era centelha que se pudesse abafar, mas inc\u00eandio que lavrava e consumia tudo.<\/p>\n<p>Decidam l\u00e1 os doutores da Escritura qual destes dous amores \u00e9 melhor, se o que vem de golpe, se o que invade a passo lento o cora\u00e7\u00e3o. Eu por mim n\u00e3o sei decidir, ambos s\u00e3o amores, ambos t\u00eam suas energias. O de F\u00e9lix parecia ter criado no silencio uma for\u00e7a invenc\u00edvel<\/p>\n<p>Um potro arisco e selvagem, quando a m\u00e3o do homem lhe p\u00f5e o freio pela primeira vez, n\u00e3o se irrita mais do que o nosso her\u00f3i no dia que sentiu violada a liberdade do seu cora\u00e7\u00e3o. C\u00f3lera singular e insensata, mas amarga e sincera. Planeou desde logo uma; separa\u00e7\u00e3o violenta, que lhe desse tempo e armas para vencer-se a si pr\u00f3prio. A execu\u00e7\u00e3o seguiu de perto a id\u00e9ia; e o m\u00e9dico cessou repentinamente as suas visitas a Catumbi.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia, por\u00e9m, foi ainda um auxiliar da vi\u00fava. O despeito do m\u00e9dico n\u00e3o se aplacou, transformou-se n\u00e3o acusava j\u00e1 a fraqueza do cora\u00e7\u00e3o, mas a rebeldia dele. O que a princ\u00edpio lhe parecera necess\u00e1rio para restituir-lhe a paz do esp\u00edrito, come\u00e7ou a ter a seus olhos o car\u00e1ter de ingratid\u00e3o. Ingratid\u00e3o, era j\u00e1 confessar muito, mas o m\u00e9dico foi al\u00e9m, achou-se rid\u00edculo. Aqui j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel a resist\u00eancia Algum homem pode gloriar-se de ser ingrato; dir\u00e1, com um moralista c\u00e9ptico, que \u00e9 uma maneira de ser independente. Mas ningu\u00e9m \u00e9 rid\u00edculo convencido; convencer-se \u00e9 emendar-se.<\/p>\n<p>A essas raz\u00f5es que o m\u00e9dico dava a si pr\u00f3prio, e que eram filhas da consci\u00eancia, acresciam outras que ele n\u00e3o articulava, mas sentia as saudades, as recorda\u00e7\u00f5es, os desejos, a voz misteriosa e constante que lhe sussurrava aos ouvidos o nome de L\u00edvia.<\/p>\n<p>Demais, a bela vi\u00fava escreveu-lhe. F\u00e9lix, como um verdadeiro namorado, jurara n\u00e3o abrir as cartas que ela lhe mandasse, e correu \u00e0 porta para receber a primeira. N\u00e3o era carta de recrimina\u00e7\u00f5es, mas de surpresa e de l\u00e1grimas. Quando veio segunda carta, j\u00e1 o m\u00e9dico sabia a outra de cor. A segunda era a \u00faltima, dizia L\u00edvia; eram j\u00e1 recrimina\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o contra ele, nem contra o destino, eram recrimina\u00e7\u00f5es contra si mesma. A melanc\u00f3lica resigna\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a comoveu o m\u00e9dico; no fim de uma semana estava aos p\u00e9s dela fazendo ato de sincera contri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00edvia perdoou-lhe as l\u00e1grimas choradas durante aqueles oito dias de angustiosa incerteza . Perdoou-lhe as como sabem perdoar as almas verdadeiramente boas, &#8211; sem ressentimento. Mas a causa da aus\u00eancia n\u00e3o a explicou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me perdoou j\u00e1? disse o m\u00e9dico, quando ela lhe fez uma pergunta direta a este respeito. Isso basta; n\u00e3o queira saber a raz\u00e3o desta singular loucura, que me levou t\u00e3o longe do \u00fanico lugar em que me \u00e9 poss\u00edvel a felicidade. Para minha expia\u00e7\u00e3o basta o que sofri tamb\u00e9m nestes oito dias e a vergonha de ter&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se; receava dizer tudo. A mo\u00e7a ouviu aquelas palavras com manifesta satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e7 murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Ci\u00fames?<\/p>\n<p>F\u00e9lix estremeceu. Uma sombra ligeira pareceu toldar-lhe os olhos. L\u00edvia inclinou para ele o rosto como querendo ler-lhe na fisionomia a verdade que ele forcejava por esconder.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse F\u00e9lix, n\u00e3o foram ci\u00fames. Ci\u00fames de que e de quem?<\/p>\n<p>\u2014 De ningu\u00e9m, bem sei; mas est\u00e1-me a parecer, F\u00e9lix, que o seu amor \u00e9 um pouco vision\u00e1rio e melindroso. Oh! n\u00e3o me lastimo por t\u00e3o pouco; agrade\u00e7o-lhe at\u00e9. Que perderia eu com isso? Alguns dias de paz, talvez; mas a certeza de ser amada \u00e9 uma grande compensa\u00e7\u00e3o. O purgat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 uma porta que abre para o c\u00e9u? Cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa- o essencial \u00e9 que saiba amar. Pode ser que eu me engane, continuou ela pondo-lhe as m\u00e3os na fronte, mas eu creio que h\u00e1 nesta cabe\u00e7a muita imagina\u00e7\u00e3o, e imagina\u00e7\u00e3o doente. Ou ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ou ent\u00e3o? repetiu o m\u00e9dico, vendo que ela fazia uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Ou ent\u00e3o, a doen\u00e7a est\u00e1 aqui, concluiu L\u00edvia apontando-lhe para o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa; eu suportarei tudo, contanto que me ame.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! L\u00edvia, exclamou F\u00e9lix, depois de lhe beijar ternamente a fronte, essa resolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o penhor do nosso futuro. Consulte o seu cora\u00e7\u00e3o; veja se h\u00e1 nele bastante miseric\u00f3rdia para mim, e prometo-lhe que seremos felizes.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo lhe perdoarei, contanto que me ame, disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Compreenderia ela ent\u00e3o que dolorosa e pesada obriga\u00e7\u00e3o contra\u00edra? Talvez n\u00e3o. Confiava em si mesma, no prest\u00edgio do seu amor, no cora\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix, para vencer tudo, e realizar o que era agora o sonho da sua vida.<\/p>\n<p>O caminho melhor para isto era seguramente o da igreja. Que obst\u00e1culo podia haver? Um e outro dependiam exclusivamente de si; o casamento era o desfecho l\u00f3gico e sacramental daquele romance. Mas nem a vi\u00fava o insinuava, nem o m\u00e9dico o propunha e nesta situa\u00e7\u00e3o mal definida alguns dias correram de tranq\u00fcila felicidade.<\/p>\n<p>Aos olhos estranhos buscavam ambos esconder o seu segredo; mas a reserva de L\u00edvia era apenas a que bastava para acatar as conveni\u00eancias ao passo que a de F\u00e9lix era t\u00e3o completa e calculada que \u00e0 pr\u00f3pria mo\u00e7a iludia. Esta facilidade de dissimula\u00e7\u00e3o desconsolou-a. Achava a perfeita demais. Era um sintoma de tranq\u00fcilidade que desdizia com o amor impetuoso de F\u00e9lix. Demais, que raz\u00e3o haveria para esconder t\u00e3o misteriosamente dos olhos dos outros uma cousa que deveria e n\u00e3o tardaria a ser p\u00fablica?<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a de F\u00e9lix, entretanto, n\u00e3o era t\u00e3o completa como parecia, era uma indiferen\u00e7a vigilante. Quando os olhos da vi\u00fava procuravam os do m\u00e9dico, este desviava cautelosamente os seus mas olhava, digamo-lo assim, por baixo da p\u00e1lpebra.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que come\u00e7ou para ela uma vida de luta.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO IX \/ LUTA<\/h3>\n<p>O AMOR de F\u00e9lix era um gosto amargo, travado de d\u00favidas e suspeitas. Melindroso lhe chamara ela, e com raz\u00e3o; a mais leve folha de rosa o magoava. Um sorriso, um olhar, um gesto, qualquer cousa bastava para lhe turbar o esp\u00edrito. O pr\u00f3prio pensamento da mo\u00e7a n\u00e3o escapava \u00e0s suas suspeitas: se alguma vez lhe descobria no olhar a atonia da reflex\u00e3o, entrava a conjeturar as causas dela, recordava um gesto da v\u00e9spera, um olhar mal explicado, uma frase obscura e amb\u00edgua, e tudo isto se amalgamava no animo do pobre namorado e de tudo isto brotava, aut\u00eantica e luminosa, a perf\u00eddia da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>L\u00edvia preferia decerto uma confian\u00e7a honesta e leal, mas a desconfian\u00e7a estava longe de lhe amargurar o cora\u00e7\u00e3o, aceitava-a com alegria.<\/p>\n<p>\u2014 Antes isto, dizia-lhe depois de uma reconcilia\u00e7\u00e3o; vejo que me ama. A confian\u00e7a tamb\u00e9m se parece com a indiferen\u00e7a, e a indiferen\u00e7a \u00e9 o pior de todos os males.<\/p>\n<p>Esta filosofia teve seus instantes de desmaio. N\u00e3o bastava a for\u00e7a do amor para resistir \u00e0 suspeita de todos os dias, que se apagava \u00e0s vezes logo, mas que renascia depois, para de novo se apagar e renascer. L\u00edvia come\u00e7ou a fugir dos lugares que at\u00e9 ent\u00e3o freq\u00fcentava habitualmente. Raras vezes aparecia no teatro ou numa reuni\u00e3o. F\u00e9lix compreendeu a causa desta reserva e disse-lha. A mo\u00e7a negou mas, como ele insistisse em afirmar e pedir que ela n\u00e3o alterasse os seus h\u00e1bitos, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bom de dizer, F\u00e9lix; assim vamos melhor; l\u00e1 fora como aqui, l\u00e1 pior do que aqui, a menor cousa basta para lhe transviar o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 Juro-lhe que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Jurava, mas quebrava o juramento. O esp\u00edrito n\u00e3o ratificava as promessas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De que lhe servia a ela a m\u00e1xima prud\u00eancia nas suas rela\u00e7\u00f5es com as demais pessoas, se tudo era pouco para obter a confian\u00e7a de F\u00e9lix? Uma hora de inalter\u00e1vel felicidade era comprada \u00e0 custa de muitas horas de t\u00e9dio, \u00e0s vezes de l\u00e1grimas. Ele as sentia decerto, e pagar-lhas-ia com sacrif\u00edcios, se precisos fossem; mas eram curtos esses l\u00facidos instantes.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o se acostumou a ler logo na fisionomia do m\u00e9dico. Ele possu\u00eda em alto grau a faculdade de esconder o bem e o mal que sentisse. Era uma faculdade preciosa, que o orgulho educara, e se fortificou com o tempo. O tempo, entretanto, a pouco e pouco lhe foi adelga\u00e7ando essa coura\u00e7a, \u00e0 medida que se prolongava e multiplicava a luta. Ent\u00e3o os olhos da vi\u00fava aprenderam a soletrar-lhe no rosto os terrores e as tempestades do cora\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, no meio de uma conversa indiferente, alegre, pueril, os olhos de L\u00edvia se obscureciam e a palavra lhe morria nos l\u00e1bios. A raz\u00e3o da mudan\u00e7a estava numa ruga quase impercept\u00edvel que ela descobria no rosto do m\u00e9dico, ou num gesto mal contido, ou num olhar mal disfar\u00e7ado.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o p\u00f4de esconder-se aos olhos de todos, menos aos de Lu\u00eds Batista. Observador e perspicaz, e ao mesmo tempo sem paix\u00f5es nem escr\u00fapulos, percebeu este que quanto mais o amor de F\u00e9lix se tornasse suspeitoso e tir\u00e2nico, tanto mais perderia terreno no cora\u00e7\u00e3o da vi\u00fava, e assim roto o encanto, chegaria a hora das repara\u00e7\u00f5es generosas com que ele se propunha a consolar a mo\u00e7a dos seus tardios arrependimentos .<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar esse resultado, era mister multiplicar as suspeitas do m\u00e9dico, cavar-lhe fundamente no cora\u00e7\u00e3o a ferida do ci\u00fame, torn\u00e1-lo em suma instrumento de sua pr\u00f3pria ru\u00edna. N\u00e3o adotou o m\u00e9todo de Iago, que lhe parecia arriscado e pueril; em vez de insinuar-lhe a suspeita pelo ouvido, meteu-lha pelos olhos.<\/p>\n<p>A dificuldade era certamente maior e mais delicada, mas o pretendente tinha em larga escala as qualidades precisas para ela. Era-lhe necess\u00e1rio afetar com a mo\u00e7a uma intimidade misteriosa, mas discreta, sem aparato, antes cercada de infinitas cautelas, t\u00e3o h\u00e1bil que ela n\u00e3o percebesse, mas t\u00e3o claramente dissimulada que fosse direito ao cora\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Mas a mulher dele? A mulher dele, amigo leitor, era uma mo\u00e7a relativamente feliz. Estava mais que resignada, estava acostumada \u00e0 indiferen\u00e7a do marido. Dera-lhe a Providencia essa grande virtude de se afazer aos males da vida. Clara havia buscado a felicidade conjugal com a \u00e2nsia de um cora\u00e7\u00e3o que tinha fome e sede de amor. N\u00e3o logrou o que sonhara. Pedira um rei e deram-lhe um cepo. Aceitou o cepo e n\u00e3o pediu mais.<\/p>\n<p>Todavia o cepo n\u00e3o o fora tanto antes do casamento. Paix\u00e3o n\u00e3o a teve nunca pela noiva; teve, sim, um sentimento todo pessoal, mistura de sensualidade e fatuidade, esp\u00e9cie de entusiasmo passageiro, que os primeiros raios da lua-de-mel abrandaram at\u00e9 apag\u00e1-lo de todo. A natureza readquiriu os seus aspectos normais; a pobre Clarinha, que havia ideado um para\u00edso no casamento, viu desfazer-se em fumo a sua quimera, e aceitou passivamente a realidade que lhe deram, &#8211; sem esperan\u00e7as, \u00e9 certo, mas tamb\u00e9m sem remorsos.<\/p>\n<p>Faltava-lhe, &#8211; e ainda bem que lhe faltava, &#8211; aquela curiosidade funesta com que o anf\u00edbio cl\u00e1ssico, desenganado do cepo, entrou a pedir um rei novo, e veio a ter uma serpente que o engoliu. A virtude salvou-a da queda e da vergonha. Lastimava-se, talvez, no ref\u00fagio do seu cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o fez impreca\u00e7\u00f5es ao destino. E como nem tinha for\u00e7a de aborrecer, a paz dom\u00e9stica nunca fora alterada; ambos podiam dizer-se criaturas felizes.<\/p>\n<p>Ora, pois, enquanto Clarinha nenhum lugar ocupava no esp\u00edrito do maridos este executou o plano que havia organizado. O resultado foi lento, mas certo. O cora\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix bebeu aos poucos o veneno que lhe propinava tranq\u00fcilamente o astuto rival; mil circunst\u00e2ncias fortuitas vieram favorecer a obra de Lu\u00eds Batista. O esp\u00edrito de F\u00e9lix era apropriado terreno para ela; a suspeita rara vez lhe morria em embri\u00e3o; uma vez lan\u00e7ada a semente, germinava com for\u00e7a, crescia, apoderava-se dele, e ent\u00e3o batia a- hora da crise, a hora que o seu rival pacientemente esperou, e conseguiu.<\/p>\n<p>Desta vez assentou F\u00e9lix numa resolu\u00e7\u00e3o her\u00f3ica: romper o encanto que o prendia \u00e0 bela vi\u00fava. Tinham j\u00e1 passado alguns meses, todos eles assim entremeados de felicidade e amargura. Cem vezes se convencera das suas injusti\u00e7as; mas a cada suspeita nova ressurgiam as anteriores as que ela perdoara, e a \u00faltima confirmava ent\u00e3o as primeiras, e o pobre rapaz achava-se sinceramente ludibriado e rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Escreveu uma carta longa e violenta, em que acusava a mo\u00e7a de perf\u00eddia e dissimula\u00e7\u00e3o. Havia amargura na carta, mas havia tamb\u00e9m \u00f3dio e desprezo, tudo quanto podia ferir para sempre um cora\u00e7\u00e3o que at\u00e9 ali soubera amar e sofrer, mas que enfim podia cansar e desprezar.<\/p>\n<p>Enviada a carta, deixou-se ele entregue \u00e0 sua dor, disposto a n\u00e3o voltar a Catumbi Ningu\u00e9m viu ent\u00e3o uma l\u00e1grima que o desespero lhe arrancou; e que ele se apressou de enxugar com vergonha de si mesmo. Recapitulou ent\u00e3o todos os sucessos dos \u00faltimos ali\u00e1s, nunca lhe parecera mais evidente a, trai\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, nem mais cruel a situa\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito. Um raio de esperan\u00e7a veio entretanto projetar-se na sua noite de d\u00favidas. Imaginou que tudo podia ser erro e ilus\u00e3o, e, esperou, que a resposta de L\u00edvia tudo viesse esclarecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o esclareceu a resposta da mo\u00e7a, porque o portador da carta voltou sem ela. Ao ci\u00fame que o devorava, veio misturar-se o despeito; complicou-se a dor com o orgulho ofendido. L\u00edvia apareceu-lhe com todos os caracteres de uma loureira vulgar, e loureira n\u00e3o traduz bem o pensamento do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Nesse estado passou F\u00e9lix o resto do dia. Longas lhe correram as horas, friamente-longas como elas s\u00e3o, quando o cora\u00e7\u00e3o padece ou espera. Enfim, caiu a tarde, apagou-se de todo o sol, as sombras da noite come\u00e7aram a lutar com os derradeiros lampejos do crep\u00fasculo, at\u00e9 que de todo dominaram o c\u00e9u.<\/p>\n<p>A melancolia da hora insinuou-se no cora\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, e a pouco e pouco lhe aquietou o desespero do dia. F\u00e9lix meditou longo tempo na situa\u00e7\u00e3o que as circunstancias lhe haviam criado. Viu o imenso espa\u00e7o que aquele amor lhe tomara na vida, e a terr\u00edvel influ\u00eancia que poderia exercer nela, caso n\u00e3o achasse for\u00e7as para resistir \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. Qual seria o meio de escapar a esse desenlace pior que tudo? F\u00e9lix pensou numa viagem, como o meio mais f\u00e1cil e pronto. Dispunha mentalmente as cousas para esse fim, quando ouviu parar um carro.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco entrou um escravo dizendo que uma pessoa insistia em falar-lhe: era uma senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Uma senhora! repetiu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Era L\u00edvia. Quando F\u00e9lix chegou \u00e0 sala, estava ela \u00e0 porta, com o rosto coberto por um v\u00e9u que arrega\u00e7ou imediatamente. F\u00e9lix n\u00e3o p\u00f4de reter um grito de surpresa.<\/p>\n<p>L\u00edvia trazia pela m\u00e3o um menino: era o filho. Caminhou para o m\u00e9dico depois de alguns instantes de absoluto sil\u00eancio, e estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esperava a minha visita? disse ela com tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Devia esperar, porque eu n\u00e3o havia respondido \u00e0 sua carta, e alguma cousa cumpria que lhe dissesse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o receou que os olhos da sociedade&#8230; disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 A sociedade est\u00e1 tomando ch\u00e1, atalhou a vi\u00fava procurando sorrir. Era preciso que eu viesse e vim.<\/p>\n<p>F\u00e9lix fez um movimento.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, era preciso, insistiu L\u00edvia. Uma carta seria j\u00e1 in\u00fatil; entre n\u00f3s as cartas perderam a virtude, F\u00e9lix. Eu j\u00e1 n\u00e3o sei, j\u00e1 n\u00e3o tenho palavras com que lhe restitua a confian\u00e7a ao cora\u00e7\u00e3o. Esta ousadia talvez. . .<\/p>\n<p>A luz batia de chapa no rosto da mo\u00e7a; F\u00e9lix viu tremerem-lhe duas l\u00e1grimas nos olhos, hesitarem um instante, e rolarem depois na face, levemente corada de agita\u00e7\u00e3o e de pejo.<\/p>\n<p>\u2014 Fui talvez cruel no que lhe escrevi, disse ele, e quero crer que fosse tamb\u00e9m injusto, mas amo-a, \u00e9 todo o meu crime&#8230;<\/p>\n<p>L\u00edvia suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o amo eu tamb\u00e9m? disse ela. Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas n\u00e3o o acuso; se o acusasse n\u00e3o viria aqui. Venho porque sei que padece, e a despeito de tudo devia vir.<\/p>\n<p>F\u00e9lix conduziu-a para o sof\u00e1, e sentou-se numa cadeira. Lu\u00eds ficou de p\u00e9, entre ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem entender.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o receou que este menino pudesse dizer alguma cousa? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pensei nisso. Fui visitar Raquel, que est\u00e1 muito mal; fui s\u00f3 com ele. Tinha a id\u00e9ia de vir As Laranjeiras: isso dominava tudo. Se conseguir dissipar-lhe as novas d\u00favidas que o afligem, pouco me importam as conseq\u00fc\u00eancias. Que quer? Eu sou assim. Vejo no mundo o meu amor e a sua felicidade; tudo o mais me \u00e9 estranho ou nulo.<\/p>\n<p>L\u00edvia dizia estas palavras com um tom singelo e verdadeiramente d&#8217;alma, que comoveu o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! para isso basta uma cousa, disse F\u00e9lix com impetuosidade. Jura-me que nenhuma raz\u00e3o havia para suspeitar?<\/p>\n<p>L\u00edvia abriu muito os olhos como espantada do que ouvira; depois abanando tristemente a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor h\u00e1 de quebrar todo o meu orgulho, disse com amargura. Eu arrisco tudo para lhe restituir a felicidade e a paz; o senhor recompensa-me este sacrif\u00edcio com a humilha\u00e7\u00e3o. Jurar-lhe! De que serve um juramento mais entre n\u00f3s? Se o que acabo de fazer n\u00e3o \u00e9 bastante, F\u00e9lix, concluamos aqui o nosso romance; e oxal\u00e1 que alguma p\u00e1gina dele possa algum dia lembrar-lhe com saudade.<\/p>\n<p>Dizendo estas palavras, a mo\u00e7a voltou o rosto para esconder a sua como\u00e7\u00e3o. F\u00e9lix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve \u00edmpeto de cair aos p\u00e9s da bela vi\u00fava. Murmurou algumas palavras,- que ela n\u00e3o percebeu ou n\u00e3o ouviu, at\u00e9 que o menino chamou a aten\u00e7\u00e3o de ambos, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, mam\u00e3e?<\/p>\n<p>L\u00edvia levantou-se e desceu o v\u00e9u sobre o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me tudo, disse F\u00e9lix; ainda uma vez lhe pe\u00e7o perd\u00e3o. N\u00e3o me julgue como os outros fariam, se conhecessem esta triste hist\u00f3ria de alguns meses. N\u00e3o sou mau; falta-me confian\u00e7a; algum dia lhe direi por qu\u00ea. Por agora, perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; n\u00e3o devia pedir-lhe nada mais, porque me deu generosamente a maior consola\u00e7\u00e3o que o meu esp\u00edrito ousaria esperar.<\/p>\n<p>\u2014 Esse homem? disse a vi\u00fava, depois de um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Por que me pergunta?<\/p>\n<p>\u2014 Quero afast\u00e1-lo de minha casa, se ele l\u00e1 vai, ou evitar as ocasi\u00f5es de me encontrar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um homem que a n\u00e3o respeita, sequer, um libertino, cuja mulher \u00e9 um anjo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. Batista?<\/p>\n<p>\u2014 Esse.<\/p>\n<p>L\u00edvia estendeu-lhe a m\u00e3o. F\u00e9lix quis ainda falar-lhe, mas a vi\u00fava observou que era tarde e dirigiu-se para a porta. F\u00e9lix acompanhou-a at\u00e9 o jardim. Ao despedir-se dela pela \u00faltima vez, o m\u00e9dico apertou-lhe F\u00e9lix fervorosamente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa-me?<\/p>\n<p>\u2014 Sim! disse ela.<\/p>\n<p>E pela primeira vez nessa noite era a sua voz terna e amorosa como de costume.<\/p>\n<p>F\u00e9lix viu-a entrar no carro que partiu imediatamente. Voltou para a sala. Estava irritado contra si mesmo. Reconhecia a sua precipita\u00e7\u00e3o; achava-se grosseiramente injusto. Se lhe houvera lembrado a visita da mo\u00e7a, t\u00ea-la-ia pedido como o meio \u00fanico de lhe desvanecer de todo as suspeitas. Agora que ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado \u00e0quele extremo recurso.<\/p>\n<p>A noite pareceu-lhe ainda mais longa que o dia. Velava e remordia-lhe a consci\u00eancia. Ouviu bater uma por uma as horas todas. ansioso por que viesse o dia seguinte para ir a Catumbi resgatar a for\u00e7a de ternura e respeito a injusti\u00e7a com que tratara a vi\u00fava. Cerrou os olhos quando a arraiada despontou no c\u00e9u; pouco dormiu entretanto. Ao levantar-se tinha o esp\u00edrito mais sossegado, e p\u00f4de apreciar melhor a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O casamento me restituir\u00e1 a confian\u00e7a, pensava ele; quando estivermos juntos os dous, afastados da conviv\u00eancia e do contato de estranhos, a paz morar\u00e1 no meu cora\u00e7\u00e3o; s\u00f3 ent\u00e3o seremos felizes sem amargura nem remorso.&#8221;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO X \/ A ENFERMA<\/h3>\n<p>A DOEN\u00c7A de Raquel era grave; durante alguns dias chegaram a recear um desenlace funesto. Os velhos pais quase enlouqueceram, quando o m\u00e9dico os preparou para a terr\u00edvel cat\u00e1strofe. A menina percebeu o seu estado, mas nem o medo da morte, nem a saudade da terra lhe fez doer o cora\u00e7\u00e3o. Morria como flor que era. A m\u00e1goa era toda para os que a viam assim condenada sem rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico assistente dera \u00e0 mol\u00e9stia um nome tirado n\u00e3o sei se do grego, se do latim. Na opini\u00e3o da m\u00e3e, havia alguma cousa mais do que o nome e a mol\u00e9stia; havia uma inexplic\u00e1vel melancolia, anterior \u00e0 doen\u00e7a, uma esp\u00e9cie de t\u00e9dio precoce da vida, se n\u00e3o era antes alguma esperan\u00e7a malograda, &#8211; ou mais claramente, alguma afei\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Para obter dela a confiss\u00e3o que imaginava, tinha D. Matilde o necess\u00e1rio tato e do\u00e7ura; era mulher e m\u00e3e. Mas, ou porque nada houvesse realmente, ou porque quisesse levar consigo o segredo da sua melancolia, Raquel nenhuma confiss\u00e3o lhe fez.<\/p>\n<p>Dous dias depois da visita de L\u00edvia, F\u00e9lix foi a casa do coronel O coronel estava na sala, mergulhado numa poltrona, com os olhos parados e as fei\u00e7\u00f5es abatidas pela vig\u00edlia e pela dor. Quis levantar-se quando F\u00e9lix apareceu \u00e0 porta, mas este correu para ele e impediu o movimento.<\/p>\n<p>\u2014 Soube anteontem do estado de sua filha, disse F\u00e9lix sentando-se ao lado do velho pai. Disseram-me que estava mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mal, repetiu o coronel, definitivamente mal. A pouca esperan\u00e7a que t\u00ednhamos veio tirar-no-la o m\u00e9dico. O senhor n\u00e3o sabe o que \u00e9 perder assim metade da alma.<\/p>\n<p>F\u00e9lix disse algumas palavras banais de consola\u00e7\u00e3o, e chegou at\u00e9 a falar de esperan\u00e7a; mais ainda que a esperan\u00e7a fala sempre ao cora\u00e7\u00e3o dos desgra\u00e7ados, o bom velho em outra coisa n\u00e3o acreditava mais que na morte.<\/p>\n<p>Algum tempo estiveram calados; enfim o coronel rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Raquel \u00e9 muito sua amiga, disse ele. Duas vezes perguntou pelo senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Desde quando est\u00e1 doente?<\/p>\n<p>\u2014 De cama est\u00e1 h\u00e1 quinze dias; mas j\u00e1 sofria antes disso. A princ\u00edpio n\u00e3o me deu muito cuidado; a mol\u00e9stia, por\u00e9m, agravou-se rapidamente, e tem ido a pior.<\/p>\n<p>Foram interrompidos pelo m\u00e9dico assistente. Tinha este sido companheiro de F\u00e9lix na escola. Ao v\u00ea-lo ali suspeitou que o tivessem mandado chamar; F\u00e9lix apressou-se a explicar o motivo da sua visita.<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso, doutor, disse o outro, aproveito as suas luzes, e fa\u00e7amos, se lhe parece, uma confer\u00eancia.<\/p>\n<p>O coronel foi ver se Raquel estava acordada; voltou pouco depois e acompanhou os dois m\u00e9dicos \u00e0 alcova da doente.<\/p>\n<p>F\u00e9lix foi o primeiro que assomou \u00e0 porta; parou alguns instantes, impressionado com o espet\u00e1culo que se lhe oferecia.<\/p>\n<p>Sentada \u00e0 cabeceira da cama estava D. Matilde, descorada e abatida, com os olhos t\u00famidos, e porventura cansados de chorar. Aos p\u00e9s da cama via-se uma mo\u00e7a amiga da inf\u00e2ncia de Raquel, e sua dedicada enfermeira, nesta ocasi\u00e3o. Ambas, triste e silenciosamente, contemplavam a doente.<\/p>\n<p>Raquel estava branca como a fronha do travesseiro em que descansava a formosa cabe\u00e7a. Tinha os l\u00e1bios entreabertos e a respira\u00e7\u00e3o curta e dif\u00edcil. O pequeno rumor que fizeram os m\u00e9dicos ao entrar um pouco a sobressaltou. Raquel abriu os olhos, que ardiam de febre.<\/p>\n<p>Quando F\u00e9lix se aproximou do leito e tomou o pulso da mo\u00e7a, esta olhou para ele e fez um gesto de espanto. Olhou depois em volta de si, como se duvidasse do lugar em que se achava. D. Matilde inclinou-se para a filha e disse:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o Dr. F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Raquel olhou outra vez para F\u00e9lix, com aquele sorriso apagado e triste dos doentes e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada!<\/p>\n<p>\u2014 Como se sente? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor, disse ela com uma voz t\u00e3o fraca que parecia um suspiro<\/p>\n<p>\u2014 Deveras melhor?<\/p>\n<p>Raquel fez um gesto de indiferen\u00e7a e n\u00e3o respondeu.<br \/>\n\u2014 Vamos l\u00e1, n\u00e3o desanime, disse F\u00e9lix, e sobretudo n\u00e3o fa\u00e7a entristecer seus pais, que lhe querem tanto.<\/p>\n<p>F\u00e9lix examinou a doente, fazendo-lhe algumas perguntas, a que ela debilmente respondia. Quando ele cessou de a interrogar, a mo\u00e7a murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Morro, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse F\u00e9lix, n\u00e3o h\u00e1 de morrer, n\u00e3o deve morrer. Tem ainda vida larga, mas \u00e9 preciso \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Raquel fez um gesto de quem n\u00e3o acreditava nas boas palavras do m\u00e9dico e voltou as olhos para a m\u00e3e. D. Matilde tinha os seus cravados em F\u00e9lix, como se lhe quisesse ler no rosto a senten\u00e7a da filha. A doente pareceu adivinhar o pensamento, e disse com esfor\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o d\u00e1 as suas consola\u00e7\u00f5es a mam\u00e3e?<\/p>\n<p>A confer\u00eancia n\u00e3o durou muito tempo. F\u00e9lix come\u00e7ou opinando por uma modifica\u00e7\u00e3o no tratamento at\u00e9 ali seguido, e declarou que n\u00e3o julgava todas as esperan\u00e7as perdidas. O colega concordou facilmente na altera\u00e7\u00e3o pedida por F\u00e9lix, tanto mais, disse ele, quanto as esperan\u00e7as eram nenhumas.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, Raquel estava irremediavelmente perdida. N\u00e3o era opini\u00e3o a\u00e9rea e infundada; ele podia demonstr\u00e1-la com argumentos cabais e irrefut\u00e1veis. Demonstrou-o efetivamente, durante vinte minutos, com a justa aprecia\u00e7\u00e3o dos fatos, os dados seguros da ci\u00eancia, e uma dial\u00e9tica t\u00e3o cerrada que era imposs\u00edvel fazer-lhe a menor obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quinze dias depois, entrava Raquel em convalescen\u00e7a.<\/p>\n<p>No sentir dos pais, era F\u00e9lix o salvador da filha. Fora ele quem lhes restitu\u00edra a esperan\u00e7a, e a realizara com os seus bons conselhos e diligente desvelo.<\/p>\n<p>O colega de F\u00e9lix, para quem o restabelecimento da mo\u00e7a era a destrui\u00e7\u00e3o de todas as no\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas recebidas, ficou profundamente surpreendido com esse resultado. Em todo caso, era imposs\u00edvel neg\u00e1-lo; limitou-se a aplaudi-lo, e quando a mo\u00e7a entrou em convalescen\u00e7a aconselhou os pais que a mandassem para algum arrabalde da cidade, a fim de respirar ares melhores.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia vir mais a prop\u00f3sito o conselho. L\u00edvia mudara-se para as Laranjeiras. A id\u00e9ia da mudan\u00e7a era de Viana, que um dia a prop\u00f4s \u00e0 irm\u00e3, e fora aprovado por ela. A casa ficava pouco acima da de F\u00e9lix, do lado oposto.<\/p>\n<p>Era um pr\u00e9dio elegante, levantado no meio de uma ch\u00e1cara, n\u00e3o extensa nem esmeradamente tratada. Viana, entretanto, organizara um programa de reforma, que prometia executar pontualmente. Seu contentamento parecia n\u00e3o ter limites; al\u00e9m de preferir aquele bairro ao outro em que morava, havia a circunstancia de ir ficar ao p\u00e9 da casa de F\u00e9lix, &#8211; o que era j\u00e1 meia felicidade, dizia ele.<\/p>\n<p>L\u00edvia aprovara a mudan\u00e7a sob a influ\u00eancia de igual id\u00e9ia. Aqueles \u00faltimos dias tinham sido de plena e deliciosa paz. Seus projetos de futuro eram imensos, delineava uma vida independente de todas as escravid\u00f5es sociais, vida exclusiva deles, cheia de todos os prest\u00edgios da poesia e do amor. \u00c0s vezes receava que esses sonhos fossem apenas sonhos. Ainda assim n\u00e3o os dera por nenhum pre\u00e7o deste mundo.<\/p>\n<p>Estavam ent\u00e3o nos primeiros dias de outubro; o casamento fora marcado para meado de janeiro. Marcado, entenda-se bem, apenas entre os dous, porque F\u00e9lix conseguira da vi\u00fava a promessa de que a not\u00edcia seria dada nas v\u00e9speras do acontecimento.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a raz\u00e3o deste segredo? perguntou L\u00edvia depois de lhe prometer o que pedia.<\/p>\n<p>\u2014 Um capricho.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o verdadeira era a vacila\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito; mas a que ele deu contentou perfeitamente a mo\u00e7a.<br \/>\n\u2014 Se eu tivesse o teu cora\u00e7\u00e3o, disse ela, desconfiava desta exig\u00eancia; mas, v\u00ea l\u00e1, eu creio em ti.<\/p>\n<p>Estavam s\u00f3s na ch\u00e1cara; Viana, fiel ao seu programa de n\u00e3o perturbar os dous namorados, foi meditar a alguma dist\u00e2ncia nas reformas que pretendia fazer. Caminhavam os dous calados e distra\u00eddos, ou melhor, concentrados em si mesmos. De repente a vi\u00fava levantou a cabe\u00e7a e disse como continua\u00e7\u00e3o das suas anteriores palavras:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 contudo ocasi\u00f5es em que esta confian\u00e7a parece abalar-se, n\u00e3o porque eu duvide de ti, mas porque duvido do destino. J\u00e1 te disse que sou supersticiosa, &#8211; direito das mulheres e das crian\u00e7as. Estreme\u00e7o algumas vezes, quando encaro o futuro, e, sem saber por que, pergunto a mim mesma qual ser\u00e1 o fim de tudo isto. Desmaios apenas, e raros, de um cora\u00e7\u00e3o que ambiciona, talvez, mais do que poderia obter.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te parece que eu esteja emendado? disse F\u00e9lix sorrindo. H\u00e1 quantos dias n\u00e3o h\u00e1 sequer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te! interrompeu L\u00edvia tocando-lhe os l\u00e1bios com os dedos. Tenho medo de te ouvir falar assim.<\/p>\n<p>E depois de um instante de sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 o teu cora\u00e7\u00e3o que me faz tremer; o teu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 bom. N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o teu esp\u00edrito, apesar de caprichoso, vision\u00e1rio, inconstante. Receio do futuro, \u00e0 vista do passado.<\/p>\n<p>\u2014 Do passado? perguntou F\u00e9lix estacando o passo.<\/p>\n<p>L\u00edvia suspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Que houve de mau no teu passado? continuou o m\u00e9dico fitando nela um olhar perscrutador.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo.<\/p>\n<p>Havia perto um velho sof\u00e1 de vime. L\u00edvia encaminhou-se lentamente para ele e sentou-se. F\u00e9lix contemplou-a algum tempo do lugar em que ficara. J\u00e1 n\u00e3o sorria; a d\u00favida ensombrava-lhe os olhos. Enfim, deu alguns passos e parou em frente dela.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XI \/ O PASSADO<\/h3>\n<p>\u2014 SEREI INDISCRETO perguntando que passado foi esse? disse F\u00e9lix depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! descansa! N\u00e3o me pesa nada na consci\u00eancia; mas no cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Amaste algu\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014 Amei a meu marido.<\/p>\n<p>A esta resposta de L\u00edvia seguiu-se novo e longo sil\u00eancio. A mem\u00f3ria do passado a que ela t\u00e3o misteriosamente aludira parecia doer-lhe na alma. Arfava-lhe o seio, e as m\u00e3os, em que o m\u00e9dico amorosamente tocou, estavam geladas e tr\u00eamulas.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o acreditas que eu possa compreender-te melhor que os outros? perguntou finalmente o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix fez um gesto de despeito. A mo\u00e7a arredou o vestido e abriu espa\u00e7o no sof\u00e1, onde o m\u00e9dico se sentou a um sinal dela.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez me n\u00e3o compreendas melhor que os outros, continuou L\u00edvia, e com isto n\u00e3o quero dizer que sejas t\u00e3o vulgar como os mais deles. N\u00e3o o \u00e9s; mas h\u00e1 cousas que um homem dificilmente compreender\u00e1, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 Nem quando ama? perguntou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o respondeu; F\u00e9lix continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas que passado foi esse? Posso n\u00e3o compreender-te, como dizes, mas saberei dizer-te algumas palavras de consola\u00e7\u00e3o, e dissipar com elas a tristeza que te ficar desta confidencia, que n\u00e3o \u00e9 um remorso, decerto.<\/p>\n<p>\u2014 Amei a meu marido, come\u00e7ou L\u00edvia, e toda a minha confid\u00eancia se resume nessas poucas palavras. Tive uma paix\u00e3o da primeira idade, quando a amor vem surpreender a ignor\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 esse o amor mais forte? H\u00e1 quem diga que o primeiro amor nasce apenas da necessidade de amar. Pode ser. Hoje que te amo sinto que pode ser assim. Em todo o caso, aquele afeto dominou-me toda; cobrei uma vida que me parecia imortal.<\/p>\n<p>\u2014 E ele?<\/p>\n<p>\u2014 Amava-me, creio, mas n\u00e3o entend\u00edamos o amor do mesmo modo; tal foi o meu doloroso e tardio desencanto. Para mim era um \u00eaxtase divino, uma esp\u00e9cie de sonho em a\u00e7\u00e3o, uma transfus\u00e3o absoluta de alma para alma; para ele o amor era um sentimento moderado, regrado, um pretexto conjugal, sem ardores, sem asas, sem ilus\u00f5es. . Errar\u00edamos ambos, quem sabe?<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que eram incompat\u00edveis, interrompeu F\u00e9lix; mas, por que exigir de todos essa maneira de ver e sentir, que \u00e9 mais da imagina\u00e7\u00e3o que da realidade?<\/p>\n<p>L\u00edvia levantou os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Estou explicando a situa\u00e7\u00e3o da minha alma, continuou ela. Foi aflitiva e triste; n\u00e3o lha ocultei. Riu-se de mim. Era um homem ap\u00e1tico e frio; honesto, \u00e9 verdade, e bom cora\u00e7\u00e3o, mas fal\u00e1vamos l\u00edngua diversa e n\u00e3o nos pod\u00edamos entender. Confiei todavia na influ\u00eancia do amor. Empreendi a tarefa de o trazer \u00e0 atmosfera dos meus sentimentos, errada tentativa, que s\u00f3 me produziu atribula\u00e7\u00e3o e cansa\u00e7o. Fatigava-o com isso a que ele chamava pieguices po\u00e9ticas; da fadiga passou \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o, da exaspera\u00e7\u00e3o ao t\u00e9dio. No dia em que o t\u00e9dio apareceu conheci que o mal estava consumado. Quis emend\u00e1-lo e n\u00e3o pude. Tinha feito da nossa vida conjugal um deserto; e se a minha alma clamava contra o destino, minha consci\u00eancia me acusava de um erro, o erro de haver perturbado a paz dom\u00e9stica, a troco de um sonho que n\u00e3o veio. N\u00e3o me fa\u00e7o melhor do que sou, bem v\u00eas; mas uma parte da culpa n\u00e3o ser\u00e1 da natureza que me fez t\u00e3o pueril? Tal \u00e9 o meu receio agora, continuou L\u00edvia depois de alguns segundos de sil\u00eancio; \u00e0s vezes cuido que n\u00e3o vim ao mundo para ser feliz nem para dar a felicidade a ningu\u00e9m. Nasci defeituosa, parece. Ser\u00e1s tu capaz de desfazer a apreens\u00e3o ou corrigir o defeito?<\/p>\n<p>A vi\u00fava concluiu estendendo-lhe a m\u00e3o que o m\u00e9dico apertou entre as suas. Um sorriso de simpatia ou de comisera\u00e7\u00e3o, ou de ambas as cousas juntas, entreabriu os l\u00e1bios de F\u00e9lix. Nenhum deles falou; ambos pareciam conversar consigo mesmo. Enfim, a vi\u00fava repetiu a pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez possa dissipar-se a apreens\u00e3o, respondeu F\u00e9lix; mas, creio que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Tens um cora\u00e7\u00e3o ainda muito crian\u00e7a, e que o h\u00e1 de ser at\u00e9 a morte, penso eu.<\/p>\n<p>F\u00e9lix calou-se, e contemplou \u00e0 vontade a fisionomia da vi\u00fava, que tinha os olhos postos no ch\u00e3o, absorta e pensativa. A pouco e pouco o rosto do m\u00e9dico se foi igualmente fechando, e ambos, durante largo espa\u00e7o, se deixaram ir na corrente de seus pensamentos sombrios. F\u00e9lix foi o primeiro que despertou do letargo.<\/p>\n<p>\u2014 Naufragaste \u00e0 vista de terra, disse ele, e do naufr\u00e1gio trouxeste apenas \u00famidos os vestidos. Sabes o que \u00e9 naufragar em mar alto e solit\u00e1rio, e perder tudo, at\u00e9 a vida? Foi assim comigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? disse L\u00edvia com um tom em que a alegria se misturava \u00e0 curiosidade.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o p\u00f4de reter um sorriso.<\/p>\n<p>&#8220;O infort\u00fanio \u00e9 ego\u00edsta&#8221;, pensou ele.<\/p>\n<p>E continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, perdi muito mais. Abra\u00e7ar um cad\u00e1ver, que \u00e9 isso para quem j\u00e1 abra\u00e7ou uma serpente? Tu perdeste apenas alguns anos de amor mal compreendido; n\u00e3o perdeste um bem precioso, que o tempo me levou: a confian\u00e7a. Podes hoje ser feliz do mesmo modo que o querias ser ent\u00e3o; basta que te ame algu\u00e9m. Eu n\u00e3o, minha querida L\u00edvia, falta-me a primeira condi\u00e7\u00e3o da paz interior: eu n\u00e3o creio na sinceridade dos outros.<\/p>\n<p>Aqui parou como se esperasse alguma observa\u00e7\u00e3o da vi\u00fava; ela, por\u00e9m, olhava para ele tranq\u00fcila e at\u00e9 risonha. F\u00e9lix continuou as suas confid\u00eancias do passado. Eram hist\u00f3rias de afei\u00e7\u00f5es malogradas e tra\u00eddas, contadas com sincera expans\u00e3o, como se estivesse falando a si mesmo. As vezes a como\u00e7\u00e3o fazia tremer-lhe a voz, e nessas ocasi\u00f5es, sobretudo, lia-se nos olhos da mo\u00e7a o enlevo com que ela ouvia falar-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m esperdi\u00e7ou mais generosamente os afetos do que eu, continuou o m\u00e9dico, ningu\u00e9m, mais do que eu soube ser amigo e amante. Era cr\u00e9dulo como tu; a hipocrisia, a perf\u00eddia, o ego\u00edsmo nunca me pareceram mais que lastim\u00e1veis aberra\u00e7\u00f5es. Meu esp\u00edrito criara um mundo seu, uma sociedade plat\u00f4nica,- em que a fraternidade era a l\u00edngua universal, e o amor a lei comum. Deixei-me ir assim, rio abaixo dos anos, gastando a seiva toda da juventude, sem c\u00e1lculo nem arrependimento, at\u00e9 que me bateu a hora das decep\u00e7\u00f5es funestas.<\/p>\n<p>Calou-se. Sentira um rumor pr\u00f3ximo; era Viana que passeava na ch\u00e1cara entregue \u00e0s suas combina\u00e7\u00f5es de horticultura. Ouviria ele a voz de F\u00e9lix? Parece que sim, porque a pouco e pouco se foi afastando do lugar. Os dous ficaram outra vez s\u00f3s. O m\u00e9dico prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me ca\u00edram as ilus\u00f5es como folhas secas que um d\u00e9bil sopro desprega e leva, foram-me arrancadas no pleno vigor da vegeta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me deixaram essas doces recorda\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o para as almas enfermas como que uma aura de vitalidade. Meu esp\u00edrito ficou \u00e1rido e seco. Invadiu-me ent\u00e3o uma cruel misantropia, a princ\u00edpio irritada e violenta, depois melanc\u00f3lica e resignada. Calejou-se-me a alma a pouco e pouco, e o meu cora\u00e7\u00e3o literalmente morreu.<\/p>\n<p>F\u00e9lix continuou a narra\u00e7\u00e3o por este mesmo tom eleg\u00edaco e triste. Foi longa e fiel. Se a vi\u00fava n\u00e3o o escutasse s\u00f3 com o cora\u00e7\u00e3o, poderia perceber alguma cousa mais do que ressentimento e amargura. F\u00e9lix n\u00e3o era virtualmente mau; tinha, por\u00e9m, um cepticismo desdenhoso ou hip\u00f3crita, segundo a ocasi\u00e3o. N\u00e3o perceberia s\u00f3 isso; veria tamb\u00e9m que a natureza fora um tanto c\u00famplice na transforma\u00e7\u00e3o moral do m\u00e9dico. A desconfian\u00e7a dos sentimentos e das pessoas n\u00e3o provinha s\u00f3 das decep\u00e7\u00f5es que encontrara tinha tamb\u00e9m ra\u00edzes na mobilidade do esp\u00edrito e na debilidade do cora\u00e7\u00e3o. A energia dele era ato de vontade, n\u00e3o qualidade nativa: ele era mais que tudo fraco e vol\u00favel.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o percebia nada disto; escutava-o com a f\u00e9 pia de um cora\u00e7\u00e3o amante. Sabendo que a raz\u00e3o do atual abatimento eram os infort\u00fanios passados, ela confiava de si mesma o renovar aquela alma que envelhecera antes do tempo. Tais foram as suas consola\u00e7\u00f5es quando o m\u00e9dico terminou a longa confid\u00eancia. Ele agradeceu-lhas comovido, n\u00e3o sem lhe perguntar se ela teria for\u00e7a bastante para concluir essa miss\u00e3o piedosa.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho, afirmou L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 certo que me ressuscitaste, continuou o m\u00e9dico; e se o futuro me guarda ainda alguns dias de felicidade sem mescla, a ti s\u00f3 os deverei, minha boa L\u00edvia; tu s\u00f3 haver\u00e1s feito o milagre. Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas? repetiu a mo\u00e7a com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 A obra n\u00e3o est\u00e1 completa, continuou F\u00e9lix; metade apenas. Fizeste brotar dentre as ru\u00ednas uma flor solit\u00e1ria, mas bela; \u00fanica neste \u00e1rido terreno do meu cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta; \u00e9 preciso agora um raio que a anime e lhe conserve o perp\u00e9tuo vi\u00e7o; essa \u00e9 a confian\u00e7a, n\u00e3o de uma hora, mas a de todos os dias, a que n\u00e3o falece nunca e nos restitui a serenidade dos primeiros tempos. Sem ela, o meu amor ser\u00e1 um largo e in\u00fatil mart\u00edrio.<\/p>\n<p>Dizendo isto, conchegou-a ao seio; tocavam-se quase os rostos, que a ternura, n\u00e3o a voluptuosidade, enlanguescia. N\u00e3o foi longo esse instante de m\u00fatua contempla\u00e7\u00e3o, mas valeu por muitas horas de pr\u00e1tica. Se a vida pudesse ser eternamente aquilo, \u00e9 prov\u00e1vel que o cora\u00e7\u00e3o, de F\u00e9lix adquirisse a paz que almejava. Enfim, a mo\u00e7a deixou cair o corpo, como se lho debilitasse o peso de como\u00e7\u00f5es t\u00e3o vivas, e a palavra afluiu aos l\u00e1bios de ambos.<\/p>\n<p>Falaram ent\u00e3o em prosa; conversaram de seus projetos de futuro, dos arranjos do casamento, de uma viagem que fariam logo depois. Iam levantar-se quando ao longe lhes apareceu o irm\u00e3o de L\u00edvia. Caminhava apressadamente e alegre, ao encontro dos dous namorados. F\u00e9lix comp\u00f4s o rosto com a express\u00e3o que o caso pedia; Viana aproximou-se, e disse \u00e0 irm\u00e3 que o Coronel Morais estava na sala com a filha.<\/p>\n<p>L\u00edvia pediu licen\u00e7a ao m\u00e9dico e dirigiu-se para a casa. F\u00e9lix deu o bra\u00e7o a Viana.<\/p>\n<p>\u2014 Fal\u00e1vamos das suas reformas, disse ele, e faz\u00edamos prosaicamente o or\u00e7amento da despesa que vai ter.<\/p>\n<p>Viana sorriu-se \u00e0 socapa, mas n\u00e3o deixou cair o assunto no ch\u00e3o. Falou com volubilidade dos seus planos, que eram vastos e originais, concluindo por uma singela confiss\u00e3o, acompanhada de um olhar indagador.<\/p>\n<p>\u2014 Receio, disse ele, que a L\u00edvia se case mais tarde ou mais cedo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix limitou-se a sorrir com indiferen\u00e7a; entravam ambos na sala.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XII \/ UM PONTO NEGRO<\/h3>\n<p>L\u00cdVIA E RAQUEL estavam assentadas no sof\u00e1; o coronel, encostado a uma cadeira, consultava o rel\u00f3gio. N\u00e3o consultava; tinha o rel\u00f3gio na m\u00e3o, diante dos olhos, mas os olhos reviam-se na filha, enquanto esta respondia \u00e0s perguntas da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 a doente, disse L\u00edvia apenas viu assomar \u00e0 porta da sala o m\u00e9dico e o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Raquel voltou a cabe\u00e7a, e n\u00e3o p\u00f4de reter uma exclama\u00e7\u00e3o de surpresa e de alegria. F\u00e9lix adiantou o passo e foi apertar-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? n\u00e3o est\u00e1 salva? disse ele olhando alienadamente para as duas mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Foi o senhor que a salvou, disse o coronel chegando-se ao grupo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fui; auxiliei a natureza, nada mais.<\/p>\n<p>\u2014 Havemos de p\u00f4-la totalmente boa e viva como era antes, disse L\u00edvia dando um beijo na convalescente.<\/p>\n<p>Raquel ouviu este di\u00e1logo com um sorriso triste que parecia ainda mais triste naqueles l\u00e1bios sem cor. Estava extremamente p\u00e1lida e magra; os olhos, agora que o fogo da febre se apagara neles, pareciam amortecidos e fundos. Ainda assim, n\u00e3o perdera ela a sua natural gentileza. Mais: a pr\u00f3pria morbidez do aspecto como que lhe dava realce maior.<\/p>\n<p>Talvez essa circunstancia influ\u00edsse na impress\u00e3o que o m\u00e9dico agora recebia; pela primeira vez lhe pareceu Raquel uma mulher.<\/p>\n<p>O coronel respirava felicidade por todos os poros. A alegria que perdera durante a mol\u00e9stia da filha, voltava agora mais que nunca ruidosa e comunicativa. Era um velho palreio e jovial, amigo da palestra e de anedotas, antes gracioso que chocarreiro, tendo aquela am\u00e1vel gravidade com que a gente se familiariza sem perder o respeito. De quando em quando olhava para a filha com olhos paternalmente namorados, ent\u00e3o parecia esquecer-se do resto do mundo, porque o mundo inteiro, ao menos parte dele, que a outra parte lhe ficara em casa, estava ali resumida naquela franzina e alquebrada criatura.<\/p>\n<p>\u2014 E promete-me que ma restituir\u00e1, disse ele \u00e0 vi\u00fava, n\u00e3o corada, que ela nunca o foi, mas com aspecto de sa\u00fade, viva como era, e Alegre, e at\u00e9 se quiser travessa?<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o? Os ares s\u00e3o bons; os carinhos ser\u00e3o fraternais, e melhor que os ares e os carinhos, h\u00e1 de cur\u00e1-la a natureza, e creio tamb\u00e9m que a boa vontade dela. N\u00e3o \u00e9 assim? disse L\u00edvia batendo na face de Raquel.<\/p>\n<p>A resposta de Raquel foi dar-lhe um beijo, e sorrir, n\u00e3o j\u00e1 tristemente como da primeira vez. A tarde ca\u00edra de todo. O coronel fez algumas recomenda\u00e7\u00f5es derradeiras \u00e0 filha, agradeceu \u00e0 vi\u00fava e ao m\u00e9dico, meteu-se no carro e voltou para Cacumbi. L\u00edvia foi mostrar \u00e0 amiga o seu aposento; F\u00e9lix despediu-se de ambas e dirigiu-se para a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Volta? perguntou L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o, minha senhora, respondeu F\u00e9lix, cuja inten\u00e7\u00e3o positiva era ir l\u00e1 tomar ch\u00e1.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Raquel veio de algum modo alterar as rela\u00e7\u00f5es dos dous namorados. J\u00e1 n\u00e3o podiam ser freq\u00fcentes as entrevistas solit\u00e1rias em que ambos se esqueciam do mundo e de si. Mais que nunca, procurou F\u00e9lix recatar o seu amor das vistas alheias, por modo que apesar da conviv\u00eancia que tinha com os dous, Raquel nada suspeitou entre eles. Alguma cousa adivinharia se reparasse que a vi\u00fava, quando estava com ela, quase que s\u00f3 falava do m\u00e9dico; mas, como ela tamb\u00e9m n\u00e3o falava de outra pessoa, parecia-lhe que era antes a vi\u00fava quem a imitava.<\/p>\n<p>Por esse tempo come\u00e7ou Meneses a freq\u00fcentar a casa de Viana, com quem travara rela\u00e7\u00f5es alguns meses antes. F\u00e9lix fez a respeito dele um elogio sincero e merecido. O parasita acompanhou a boa<\/p>\n<p>opini\u00e3o do m\u00e9dico com um entusiasmo que cheirava a bons jantares. O advogado correspondeu \u00e0 expecta\u00e7\u00e3o da vi\u00fava e n\u00e3o tardou que se tornasse familiar na casa.<\/p>\n<p>Estava curado da sua malfadada paix\u00e3o. Curado e vexado, dizia ele, quando F\u00e9lix o interrogou a esse respeito.<\/p>\n<p>\u2014 Estes amores s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es da escola de meninos, concluiu Meneses sorrindo. J\u00e1 sa\u00edste da primeira escola; por que n\u00e3o sobes de estudos?<\/p>\n<p>A esta met\u00e1fora, um tanto rebuscada, respondeu F\u00e9lix com um sorriso que podia confessar e negar ao mesmo tempo. Meneses, que n\u00e3o tinha nenhuma inten\u00e7\u00e3o oculta nas suas palavras, n\u00e3o se deu a averiguar qual das duas express\u00f5es convinha ao sorriso do amigo. As rela\u00e7\u00f5es de ambos pareceram estreitar-se mais. Com um pouco mais de expans\u00e3o e confian\u00e7a, teria o m\u00e9dico referido ao amigo os seus amores e a sua felicidade pr\u00f3xima. N\u00e3o o fez, nem Meneses lho adivinhou. Teve suspeitas uma noite em que surpreendeu os olhos da vi\u00fava amorosamente cravados no m\u00e9dico, mas a indiferen\u00e7a com que este se levantou para ir gracejar com Raquel de todo o dissuadiu.<\/p>\n<p>Os dias foram assim passando, longos para os dous amantes, breves para Meneses e Raquel que achavam naquela casa a mais deliciosa companhia deste mundo.<\/p>\n<p>Aqui podia acabar o romance muito natural e sacramentalmente casando-se estes dous pares de cora\u00e7\u00f5es e indo desfrutar a sua lua-de-mel em algum canto ignorado dos homens. Mas para isso, leitor impaciente, era necess\u00e1rio que a filha do coronel e o Dr. Meneses se amassem, e eles n\u00e3o se amavam, nem se dispunham a isso. Uma das raz\u00f5es que desviavam da gentil menina os olhos de Meneses era que este os trazia namorados da vi\u00fava. De admira\u00e7\u00e3o ou de amor? Foi de admira\u00e7\u00e3o primeiro, e depois foi de amor; cousa de que nem ele, nem o autor do livro temos culpa. Que quer? Ela era formosa e mo\u00e7a, ele rapaz e amor\u00e1vel, e de mais a mais inexperiente ou cego, que n\u00e3o adivinhava a situa\u00e7\u00e3o anterior da vi\u00fava e do m\u00e9dico, ainda por entre os v\u00e9us com que lha ocultavam.<\/p>\n<p>Ao inverso de F\u00e9lix, cujo esp\u00edrito s\u00f3 engendrava receios e d\u00favidas, Meneses era antes de tudo propenso \u00e0s fantasias cor-de-rosa. Irmanavam-se no ponto de serem joguetes de sua imagina\u00e7\u00e3o. Meneses facilmente entreviu um mundo de esperan\u00e7as. A afabilidade com que a vi\u00fava o tratava pareceu-lhe auspiciosa; o mais inocente de todos os sorrisos servia-lhe de base a um castelo de vento; uma express\u00e3o qualquer simples cortesia de sala, afigurava-se-lhe cheia de mil promessas de futuro. Nem futuro nem esperan\u00e7as havia; havia a candura dele, que era bot\u00e3o de flor, ainda entrecerrado \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Tal era o contraste desses dous caracteres, que a estrela da vi\u00fava, n\u00e3o sei se boa ou m\u00e1 estrela, reuniu a seus p\u00e9s. Um, se viesse a adorar um rosto hip\u00f3crita, desceria na escala das degrada\u00e7\u00f5es, com os olhos fitos na quimera da sua felicidade; outro, ardendo pela mais ang\u00e9lica das criaturas humanas, quebraria com as pr\u00f3prias m\u00e3os a escada que o levaria ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>F\u00e9lix percebeu, enfim, o que se passava no cora\u00e7\u00e3o do amigo. Sua primeira impress\u00e3o foi de c\u00f3lera, n\u00e3o porque duvidasse logo da mo\u00e7a mas por isso mesmo que outro homem se atrevia a am\u00e1-la. E n\u00e3o havia perigo em tal situa\u00e7\u00e3o? A simples pergunta era suficiente para dar largas ao esp\u00edrito de F\u00e9lix. Veio imediatamente a id\u00e9ia de que \u00e0 mo\u00e7a ano fosse desagrad\u00e1vel o amor de Meneses. A vaidade, primeiro, depois o h\u00e1bito, enfim a curiosidade do cora\u00e7\u00e3o, os levariam um para o outro. Talvez os houvessem levado j\u00e1.<\/p>\n<p>Aconteceu uma vez que, falando dela, a fisionomia de Meneses, de risonha que estava, se tornasse subitamente s\u00e9ria. F\u00e9lix era mais h\u00e1bil que ele, n\u00e3o lhe foi dif\u00edcil sondar-lhe o cora\u00e7\u00e3o. O amigo contou-lhe tudo, com o fervor que lhe era pr\u00f3prio, e a singeleza de um homem ainda pouco conversado nas cousas do mundo. O m\u00e9dico escutou-o com sofreguid\u00e3o, mas aparentemente quieto.<\/p>\n<p>\u2014 E esperan\u00e7as? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Poucas ou muitas; n\u00e3o sei bem o que seja. H\u00e1 ocasi\u00f5es em que tudo se me afigura f\u00e1cil e decisivo; outras vezes desanimo e descreio de mim mesmo. Ela \u00e9 af\u00e1vel comigo, mas tamb\u00e9m o \u00e9 contigo e com os mais. Adivinharia j\u00e1 alguma cousa? Quero crer que sim, e visto que se n\u00e3o agasta, \u00e9 bom sinal, penso eu. O pior de tudo \u00e9 que eu me n\u00e3o atrevo a dizer-lhe o que sinto.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 palavra bastava ao m\u00e9dico para arredar do seu caminho aquele rival nascente; F\u00e9lix repeliu essa id\u00e9ia, metade por c\u00e1lculo, metade por orgulho, &#8211; mal-entendido orgulho, mas natural dele. O c\u00e1lculo era cousa pior; era uma cilada, &#8211; experi\u00eancia, dizia ele; &#8211; era p\u00f4r em frente uma da outra, duas almas que lhe pareciam, por assim dizer, consang\u00fc\u00edneas, tent\u00e1-las a ambas, aquilatar assim a const\u00e2ncia e a sinceridade de L\u00edvia.<\/p>\n<p>Assim pois, era ele o art\u00edfice do seu pr\u00f3prio infort\u00fanio, com as suas m\u00e3os reunia os elementos do inc\u00eandio em que viria a arder se n\u00e3o na realidade, ao menos na fantasia, porque o mal que n\u00e3o existisse depois, ele mesmo o tiraria do nada, para lhe dar vida e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meneses explicou ainda mais o estado de sua alma; n\u00e3o era amor violento que sentia, era afei\u00e7\u00e3o serena e branda: tranq\u00fcila, mas irresist\u00edvel fascina\u00e7\u00e3o. O m\u00e9dico, por um sentimento de pudor que lhe ficara, n\u00e3o animou abertamente as esperan\u00e7as do amigo entretanto, a sua palavra era t\u00e3o alegre, o riso de t\u00e3o boa fei\u00e7\u00e3o, que o esp\u00edrito de Meneses para logo sentiu reflorirem-lhe as esperan\u00e7as, se \u00e9 que elas haviam secado alguma vez.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIII \/ CRISE<\/h3>\n<p>L\u00cdVIA N\u00c3O PERCEBEU logo o amor de Meneses; mas, era imposs\u00edvel que tarde ou cedo o n\u00e3o suspeitasse. N\u00e3o se fingiu admirada, quando ele lho confiou depois de algum tempo de assiduidade nas Laranjeiras. Nem se admirou nem se irritou; al\u00e9m de n\u00e3o ser motivo para c\u00f3lera, havia entre ambos, como F\u00e9lix dissera um dia. certa conformidade de sentir e pensar, que de algum modo os vinculava.<\/p>\n<p>A resposta que lhe deu foi certamente fria e decisiva, n\u00e3o desdenhosa nem severa. Quando viu por\u00e9m a tristeza que lhe causou, esqueceu de todo as formalidades convencionais e necess\u00e1rias; procurou suavizar as penas do mo\u00e7o. Tirou-lhe toda a esperan\u00e7a presente ou futura; n\u00e3o poderia am\u00e1-lo nunca. A amizade, por\u00e9m, que lhe tinha, talvez o consolasse do desengano. Isso apenas; n\u00e3o devia simular um amor que n\u00e3o sentia nem acenar-lhe com uma felicidade que lhe n\u00e3o podia dar.<\/p>\n<p>\u2014 Que me n\u00e3o pode dar! repetiu Meneses apegando-se ainda a uma esperan\u00e7a fugitiva; e se eu esperar que algum dia soe a hora da felicidade que me nega? Nada depende de n\u00f3s; os pr\u00f3prios movimentos do cora\u00e7\u00e3o parecem nascer de mil circunstancias fortuitas, se n\u00e3o \u00e9 que os rege uma lei misteriosa, e essa&#8230; Quem sabe? um dia, talvez, &#8211; ouso cr\u00ea-lo, &#8211; um dia sentir\u00e1 que a simpatia que lhe inspiro se transforma, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Basta! interrompeu L\u00edvia em tom imperioso.<\/p>\n<p>Meneses calou-se; ela continuou:<\/p>\n<p>\u2014 O amor n\u00e3o \u00e9 isso que o senhor diz; n\u00e3o nasce de uma circunst\u00e2ncia fortuita, nem de uma longa intimidade, \u00e9 uma harmonia entre duas naturezas, que se reconhecem e completam. Por mais semelhante que seja o nosso esp\u00edrito, sinto que Deus n\u00e3o nos fez para que o amor nos unisse.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o estava para estas averigua\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas; \u00e9 at\u00e9 duvidoso que prestasse aten\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas palavras da vi\u00fava. O quim\u00e9rico edif\u00edcio que t\u00e3o laboriosamente constru\u00edra via-o ele desfazer-se em fumo, e esta s\u00f3 impress\u00e3o o dominava agora.<\/p>\n<p>Decorreu algum tempo de completo e acanhado sil\u00eancio. Estavam encostados \u00e0 janela que dava para o jardim. Meneses n\u00e3o ousava levantar os olhos para ela; n\u00e3o era s\u00f3 natural vexame da posi\u00e7\u00e3o em que se achava, era tamb\u00e9m medo de contemplar ainda uma vez o bem que perdia. L\u00edvia compreendia esse estado da alma do mo\u00e7o. Lastimava, quem sabe? n\u00e3o ser ele o escolhido do seu cora\u00e7\u00e3o. Era o mais que lhe podia dar, e era muito. Enfim:<\/p>\n<p>\u2014 Fiquemos amigos, disse ela. A amizade lhe far\u00e1 esquecer o amor; \u00e9 mais serena que ele, e talvez menos exposta a perecer. Conhe\u00e7o que sou ego\u00edsta; pe\u00e7o-lhe uma cousa que s\u00f3 a mim aproveitar\u00e1. Amigos, n\u00e3o lhe ser\u00e1 dif\u00edcil ach\u00e1-los; eu n\u00e3o os acharia t\u00e3o facilmente nem tais como o senhor.<\/p>\n<p>Meneses tocou levemente na m\u00e3o que ela He estendeu ao terminar estas palavras. O pedido que ela lhe fazia era mais afetuoso que judicioso; a um cora\u00e7\u00e3o desenganado n\u00e3o h\u00e1 imediatamente compensa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis nem eficazes consola\u00e7\u00f5es. A bondade da vi\u00fava o comoveu todavia; ia agradecer-lhe quando Raquel entrou na sala.<\/p>\n<p>Raquel estacou. Ambos estavam acanhados. A vi\u00fava foi a primeira que rompeu o sil\u00eancio chamando a filha do coronel. Que queria dizer o sorriso ben\u00e9volo, mas sonso, que lhe pairava nos l\u00e1bios? N\u00e3o o viu Meneses que olhava para fora, mas viu-o a vi\u00fava e estremeceu.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o voltou l\u00e1 durante uma semana; prolongaria a aus\u00eancia, se o amor, fecundo de ilus\u00f5es, lhe n\u00e3o houvesse enchido o peito de esperan\u00e7as novas. L\u00edvia tratou-o com a costumada afabilidade, talvez com afabilidade maior. Como a confian\u00e7a de F\u00e9lix n\u00e3o se havia alterado, L\u00edvia usava assim uma dissimula\u00e7\u00e3o honesta, por simples motivo de piedade e gratid\u00e3o. Estava no seu car\u00e1ter esse modo de interpretar as cousas, e de as tratar assim sem grande respeito \u00e0s conveni\u00eancias sociais. Profanas, diria eu antes, se quisesse exprimir os verdadeiros sentimentos da vi\u00fava, que achava naquela obra de simpatia uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>\u00c0s mission\u00e1rias daquela esp\u00e9cie, se as h\u00e1, desejo-lhes maior perspic\u00e1cia ou mais feliz estrela. Nem a estrela nem a perspic\u00e1cia da nossa hero\u00edna estavam acima do seu cora\u00e7\u00e3o. O sentimento que a impelia era bom; o procedimento \u00e9 que era errado. Ela n\u00e3o atentava nisso. Interrogava o rosto do m\u00e9dico, mais confiante e alegre que nunca e s\u00f3 isto lhe bastava a seus olhos. Fossem eles menos namorados, e veriam que a tranq\u00fcilidade de F\u00e9lix era t\u00e3o exagerada e fora dele que n\u00e3o podia ser sincera.<\/p>\n<p>A esses erros e ilus\u00f5es, que podiam conter os elementos de um drama n\u00e3o remoto, veio juntar-se ainda a ilus\u00e3o de Raquel. Esta aplaudia sinceramente os sentimentos que atribu\u00eda \u00e0 vi\u00fava em rela\u00e7\u00e3o a Meneses: o sorriso com que os surpreendera n\u00e3o queria dizer outra cousa. F\u00ea-lo sentir um dia \u00e0 vi\u00fava; a energia com que ela lhe respondeu mais a persuadiu ainda. L\u00edvia quis ent\u00e3o referir-lhe tudo, o verdadeiro objeto do seu amor e o seu pr\u00f3ximo casamento; mas, posto que a idade n\u00e3o as separasse muito, L\u00edvia considerava-a ainda crian\u00e7a e reprimiu o seu primeiro impulso.<\/p>\n<p>Raquel ficou com as suas suspeitas.<\/p>\n<p>Perdoemos agora \u00e0 inexperi\u00eancia da boa mo\u00e7a, &#8211; crian\u00e7a, como dizia a vi\u00fava &#8211; a leviandade com que insinuou ao m\u00e9dico as suspeitas que alimentava. F\u00ea-lo por meio de alus\u00e3o delicada e fina numa ocasi\u00e3o em que o pedia a conversa. O golpe foi profundo, a prova pareceu decisiva desta vez.<\/p>\n<p>Raquel notou a impress\u00e3o do m\u00e9dico. O sorriso inocente e brinc\u00e3o que lhe entreabria os l\u00e1bios repentinamente se lhe apagou. F\u00e9lix olhava para ela sem ver a mudan\u00e7a que se lhe havia operado. Viu-a enfim, mas n\u00e3o a entendeu. Tentou fazer-se galhofeiro como sempre ora com ela; conseguiu faz\u00ea-la sorrir.<\/p>\n<p>Os dias que se seguiram a este foram de triste prova\u00e7\u00e3o para a vi\u00fava. Sabemos j\u00e1 que o ci\u00fame de F\u00e9lix era \u00e0s vezes r\u00edspido. Nunca o fora mais que desta vez. Longas cartas trocaram ambos, amargas as dela, as dele friamente cru\u00e9is e chocarreiras. F\u00e9lix n\u00e3o lhe disse logo a causa desta nova crise: adivinhou-a L\u00edvia, e tudo lhe contou lealmente, sem lhe negar a boa inten\u00e7\u00e3o com que tratava o cora\u00e7\u00e3o de Meneses. Era mostrar-se muito p\u00fablico mulher. F\u00e9lix viu em tudo aquilo um tecido de absurdos.<\/p>\n<p>O que lhe disse ent\u00e3o foi o transunto das cartas que lhe escrevera. Grosseiro, ir\u00f4nico, incoerente, tudo isso foi nas palavras com que fulminou a pobre senhora.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o protestava. Quis interromp\u00ea-lo uma vez, quando ele acarou nada achou que lhe merecesse resposta. Estavam na sala. Olhou assustada para todas as portas, deixou-se cair frouxamente numa cadeira e tapou o rosto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>F\u00e9lix deu um passo para ela; o movimento era bom, mas o arrependimento veio logo.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! disse ele.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a descobriu o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 F\u00e9lix! exclamou ela.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico parou alguns instantes. L\u00edvia levantou-se e foi a ele arrebatadamente. Chegou a pegar-lhe numa das amos, abatida e lacrimosa ia come\u00e7ar uma \u00faltima s\u00faplica. Ele por\u00e9m puxou a m\u00e3o violentamente, olhou para ela, e depois de longo sil\u00eancio, repetiu:<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIV \/ OU CAPITULO DO ACASO<\/h3>\n<p>F\u00c9LIX CHEGOU a casa cheio de c\u00f3lera e desespero. Entrou impetuoso na sala; como se precisasse de vingar em alguma cousa a suposta inj\u00faria, lan\u00e7ou m\u00e3o do primeiro vaso que se lhe deparou e deitou-o ao ch\u00e3o. O vaso fez-se em estilhas.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso? disse uma voz estranha.<\/p>\n<p>F\u00e9lix estacou espantado; olhou para o v\u00e3o de uma janela, donde viera a voz, e deu com a figura de Moreirinha, comodamente sentado, com um livro de gravuras aberto sobre os joelhos.<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu, disse o visitante levantando-se e indo apertar a m\u00e3o ao dono da casa. Admira-se de me ver aqui? Tomei a liberdade de o esperar, a despeito das observa\u00e7\u00f5es que me fez o seu criado.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o p\u00f4de encobrir o desprazer que lhe causava a visita. Moreirinha leu-lhe isso claramente nos olhos, e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o lhe seja agrad\u00e1vel a minha presen\u00e7a, sobretudo porque me parece ter alguma coisa que parece ter alguma cousa que o molesta nesta ocasi\u00e3o; mas n\u00e3o podia ser de outro modo&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix levantou os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 E maior ser\u00e1 ainda o seu desgosto, continuou Moreirinha. quando souber que n\u00e3o lhe pe\u00e7o asilo s\u00f3 por uma hora, mas at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Dizendo isto, estendeu-lhe a m\u00e3o. F\u00e9lix estendeu-lhe a sua, e friamente lhe disse que podia ficar o tempo que quisesse.<\/p>\n<p>Quando o cora\u00e7\u00e3o padece n\u00e3o h\u00e1 maior importuno que um conversador indiferente e fr\u00edvolo. Esta circunstancia veio ainda azedar mais o esp\u00edrito de F\u00e9lix. A solid\u00e3o lhe daria talvez um b\u00e1lsamo salutar, se o havia para ele. O acaso deparou-lhe entretanto, uma testemunha diante de quem lhe era for\u00e7oso aparentar a serenidade que n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>O h\u00f3spede compreendeu a situa\u00e7\u00e3o, e francamente lhe disse que o n\u00e3o queria perturbar, viera como asilado, n\u00e3o como visita; n\u00e3o tinha direito \u00e0s aten\u00e7\u00f5es do dono da casa. F\u00e9lix respondeu o melhor que pode a esta cortesia, que ali\u00e1s o obrigava ainda mais. N\u00e3o havendo meio de escapar, procurou ao menos ser igualmente cort\u00eas. Demais, Moreirinha n\u00e3o era t\u00e3o importuno como pareceria, porque falava sempre, e n\u00e3o tinha o sestro dessa outra casta de importunos que interrompem a cada passo os discursos com perguntas. . . de boca e de gesto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se demorou o h\u00f3spede em dizer a causa que o trouxera ali era Cec\u00edlia. Apesar da situa\u00e7\u00e3o em que se achava, F\u00e9lix n\u00e3o p\u00f4de deixar de lhe prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade: \u00e9 o meu mau anjo. Lembra-se dos elogios que lhe fiz dela? Eram sinceros, e eram tamb\u00e9m justos naquele tempo. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia encontrado docilidade igual. N\u00e3o sou piegas, sabe mas gosto de um epis\u00f3dio assim. N\u00e3o sei que lhe fizeram \u00e0 boa rapariga, que de todo mudou e veio a ser um verdadeiro diabo. Aquelas cadeias t\u00e3o leves que nos prendiam um ao outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se de ferro pesado. Quero fugir-lhe e n\u00e3o posso; tenho tentado tudo para escapar-lhe, mas em v\u00e3o. Escondo-me em casa, na casa dos amigos, nos hot\u00e9is; onde quer que esteja l\u00e1 ir\u00e1 buscar-me, e ent\u00e3o Deus sabe o que sofro. Hoje lembrou-me vir passar aqui o resto do dia e a noute com o senhor; estou certo de que n\u00e3o dar\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix ouvira atentamente a exposi\u00e7\u00e3o do Moreirinha, n\u00e3o sem achar alguma rela\u00e7\u00e3o entre o estado dele e o seu. Moreirinha referiu ent\u00e3o muitos epis\u00f3dios do que ele chamava sua escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o conhece nenhum meio de lhe escapar por uma vez?<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum; ainda quando eu pudesse sair da corte, estou certo de que ela iria buscar-me a bordo do navio ou \u00e0 portinhola do carro que me levasse.<\/p>\n<p>T\u00e3o not\u00e1vel mudan\u00e7a no car\u00e1ter de Cec\u00edlia n\u00e3o deixou de chamar a aten\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix. Compreendeu facilmente que era obra do pr\u00f3prio amante. A rola fizera-se gavi\u00e3o, pela \u00fanica raz\u00e3o de que Moreirinha lhe dera ensejo de conhecer a pr\u00f3pria for\u00e7a.<br \/>\nDe abatimento em abatimento chegara Moreirinha \u00e0 miser\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o atual. N\u00e3o era ele homem de salutares rea\u00e7\u00f5es nem de resigna\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas: era, sim, homem de fugir e adiar, &#8211; car\u00e1ter feito de in\u00e9rcia e medo, maravilhosamente disposto para os desesperos in\u00fateis e as capitula\u00e7\u00f5es vergonhosas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, por que n\u00e3o sai da corte algum tempo? disse F\u00e9lix ap\u00f3s alguns minutos. Sempre h\u00e1 de haver meio de fugir&#8230;<\/p>\n<p>Moreirinha refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Por duas raz\u00f5es, disse ele: a primeira \u00e9 que, apesar de tudo, n\u00e3o deixo de gostar dela, e se pudesse escapar-lhe durante trinta dias, ia no trig\u00e9simo primeiro procur\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o, interrompeu F\u00e9lix a quem parecia incomodar essa ing\u00eanua confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A segunda raz\u00e3o, respondeu Moreirinha com hesita\u00e7\u00e3o, \u00e9 que&#8230; n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>F\u00e9lix desceu os olhos no vestu\u00e1rio do rapaz, e viu nele o coment\u00e1rio das palavras que acabava de ouvir. Eleg\u00e2ncia ainda havia, mas j\u00e1 pobre e rafada; os botins tinham sinais de longo servi\u00e7o; o palet\u00f3 ali\u00e1s bem lan\u00e7ado, era de fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas cor havana, mas ao olhar curioso de F\u00e9lix n\u00e3o escapou a circunst\u00e2ncia de que as pontas dos dedos j\u00e1 estavam assinaladas por uma leve pasta de cor preta, vest\u00edgio de aturado uso.<\/p>\n<p>N\u00e3o era preciso grande perspic\u00e1cia para compreender que aquilo tudo era obra de Cec\u00edlia. Nem ficaria longe da verossimilhan\u00e7a quem afian\u00e7asse que Moreirinha estava eternamente condenado ao capricho daquela mulher. N\u00e3o tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas as vaidades e necessidades; ela incumbia-se de abrir outras verbas no or\u00e7amento da receita, mediante um bem combinado sistema de impostos.<\/p>\n<p>F\u00e9lix compreendeu tudo isso de relance, e procurou trazer o esp\u00edrito de Moreirinha a id\u00e9ias mais alegres, menos ainda por ele que por si.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi cousa dif\u00edcil. Ao esp\u00edrito de Moreirinha repugnavam as preocupa\u00e7\u00f5es graves. Aproveitou o ensejo que o m\u00e9dico lhe ofereceu e entrou a falar das cousas correntes do dia. Dos mil epis\u00f3dios da vida de certa classe, n\u00e3o havia gazeta melhor informada que o amante de Cec\u00edlia. Os novos amores de uma, os arrufos de outra, o dito chistoso desta, a aventura daquela, tudo ele sabia em primeira m\u00e3o. N\u00e3o lhe perguntassem por estr\u00e9ias liter\u00e1rias nem crises pol\u00edticas; mas a mob\u00edlia com que Fulano presenteara a certa dama, a cela equ\u00edvoca em que Sicrano chegara a beber champagne por uma botina, esse era dom\u00ednio seu, desde que os amores de Cec\u00edlia de todo o separaram da sociedade.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o recreava nem interessava, mas enchia o tempo, e desde que estava obrigado a sofrer o h\u00f3spede, era melhor sofr\u00ea-lo assim.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel, entretanto, n\u00e3o volver o esp\u00edrito \u00e0 sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o. De quando em quando o m\u00e9dico esquecia o narrador, e o seu pensamento ia esvoa\u00e7ar em derredor da vi\u00fava. Foi numa dessas ocasi\u00f5es que lhe chegou uma carta dela. F\u00e9lix abriu-a sofregamente e leu-a duas vezes. Era longa; recapitulava a hist\u00f3ria daqueles \u00faltimos meses, e conclu\u00eda fazendo um apelo \u00e0 raz\u00e3o do m\u00e9dico. Adivinhava-se que a mo\u00e7a escrevera com l\u00e1grimas, mas j\u00e1 n\u00e3o havia o tom s\u00faplice com que em an\u00e1logas ocasi\u00f5es lhe pedia a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O tempo alguma obra havia j\u00e1 feito no esp\u00edrito de F\u00e9lix; a carta veio consum\u00e1-la. F\u00e9lix n\u00e3o estava ainda certo da inoc\u00eancia da vi\u00fava, mas j\u00e1 estava cert\u00edssimo da brutalidade da sua explos\u00e3o, e este reconhecimento era uma dor nova, quase t\u00e3o profunda como a outra.<\/p>\n<p>Seu primeiro impulso foi ir ter com L\u00edvia; desistiu dele e preferiu escrever-lhe uma carta. Tr\u00eas vezes a come\u00e7ou sem lograr chegar ao fim. Vacilava entre ser afetuoso ou severo; num caso lembrava-lhe a perf\u00eddia poss\u00edvel, noutro, a prov\u00e1vel inoc\u00eancia; temia ser injusto ou rid\u00edculo. Como todos os caracteres indecisos, n\u00e3o achou mais recurso que uma in\u00fatil desespera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Anoitecera; Moreirinha estava mais alegre que nunca, e pagava a hospitalidade do m\u00e9dico com as suas galhofas costumadas. N\u00e3o contava com Cec\u00edlia, mas adivinhou que era ela quando ouviu parar um carro \u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u2014 Estou perdido! disse ele desatando um longo suspiro.<\/p>\n<p>Era ela.<\/p>\n<p>Cansada de esperar que lhe levassem resposta do recado que dera, Cec\u00edlia desceu do carro e entrou em casa. Ao chegar \u00e0 porta relanceou os olhos pela sala, onde n\u00e3o viu desde logo o amante; Moreirinha metera-se no v\u00e3o de uma janela. F\u00e9lix olhou severamente para Cec\u00edlia, como quem lhe estranhava a liberdade que tomara. Mas onde iam j\u00e1 as flores de antanho? A d\u00f3cil rapariga de outro tempo tornara-se mulher desgarrada e solta. Caminhou afoutamente para o m\u00e9dico e estendendo-lhe a m\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Como est\u00e1s, mon vieux? disse com um risinho de mofa.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o descobriu o amante, que parecia entretido em contar as estrelas. Foi a ele, e soltava j\u00e1 as primeiras palavras de uma veemente ap\u00f3strofe, quando F\u00e9lix julgou prudente intervir a tempo de evitar um esc\u00e2ndalo; reconciliou-os como p\u00f4de, e secamente os despediu.<\/p>\n<p>L\u00edvia estava \u00e0 janela desconsolada e triste, enquanto Raquel, n\u00e3o menos triste que ela, executava no piano uma melodia adequada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de ambas. N\u00e3o viera resposta do m\u00e9dico, a vi\u00fava sentia desvanecer-se-lhe a esperan\u00e7a de tantos meses, e com ela o futuro que t\u00e3o perto se lhe afigurava. Estas eram as suas melanc\u00f3licas reflex\u00f5es, quando viu parar \u00e0 porta de F\u00e9lix um carro, descer uma mulher, entrar, sair depois com um homem e partirem ambos.<\/p>\n<p>O golpe foi terr\u00edvel e mais profundo que nunca A vi\u00fava n\u00e3o temia decerto uma rival triunfante; mas via e sentia o desprezo do homem por quem tantas l\u00e1grimas chorara naquele dia. Se o m\u00e9dico lhe aparecesse ent\u00e3o, ela reconheceria o seu engano, e a alegria de se sentir estimada, lhe daria for\u00e7as contra a dor de se ver ofendida. F\u00e9lix n\u00e3o veio. L\u00edvia mal p\u00f4de resistir \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o. Uma l\u00e1grima, &#8211; a \u00faltima que lhe restava, &#8211; foi a \u00fanica express\u00e3o do seu imenso desespero.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XV \/ ENFANT TERRIBLE<\/h3>\n<p>NO DIA SEGUINTE, logo cedo, Viana foi \u00e0 casa do m\u00e9dico. N\u00e3o ia almo\u00e7ar com ele; ia convid\u00e1-lo para jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o anos hoje, disse o parasita, e quisera ter \u00e0 mesa alguns amigos, poucos. O senhor \u00e9 dos primeiros, n\u00e3o pode faltar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faltarei, respondeu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Viana emitiu em seguida algumas id\u00e9ias a respeito da maneira por que encarava um jantar de anos. N\u00e3o devia compreender sen\u00e3o amigos \u00edntimos, por ser festa do cora\u00e7\u00e3o, alegria dom\u00e9stica, em que tudo o que n\u00e3o falasse a l\u00edngua da amizade seria estrangeiro ou talvez inimigo. N\u00e3o bastava gosto para a escolha de tais amigos era preciso jeito e sagacidade para discernir os que se prendiam pelo afeto dos que aderiam pelo costume. Esqueceu-lhe o principal; esqueceu-lhe dizer que, no seu ponto de vista, um jantar de anos era tamb\u00e9m um jantar a juros.<\/p>\n<p>F\u00e9lix aceitou o convite com sofreguid\u00e3o; esperava um pretexto para voltar \u00e0 casa de L\u00edvia. Pungia-o ainda o ci\u00fame, mas a irrita\u00e7\u00e3o passara, e em lugar dela nascera o desejo de ver restabelecida a harmonia antiga, n\u00e3o por ato de vontade pr\u00f3pria, mas por uma completa justifica\u00e7\u00e3o da amada.<\/p>\n<p>Com tais sentimentos saiu de casa. L\u00edvia estava \u00e0 janela quando o viu chegar; foi receb\u00ea-lo no patamar da escada que dava para o jardim. Ao apertar-lhe a m\u00e3o, entre triste e risonha.<\/p>\n<p>\u2014 Era eu que devia perdoar-lhe, disse; mas seria ofender o seu orgulho.<\/p>\n<p>\u2014 O meu orgulho? Perdoar-me? repetiu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse ela fazendo um gesto afirmativo.<\/p>\n<p>Leu-lhe F\u00e9lix no rosto t\u00e3o sincera tranq\u00fcilidade que esteve quase a aceitar a reconcilia\u00e7\u00e3o. Hesitou algum tempo; deitou os olhos \u00e0 sala, e viu atravess\u00e1-la na dire\u00e7\u00e3o da escada a figura de Raquel. Ent\u00e3o lembrou-lhe a semiconfid\u00eancia que esta lhe fizera, e amargamente respondeu \u00e0 vi\u00fava:<br \/>\n\u2014 Sejamos s\u00e9rios.<\/p>\n<p>L\u00edvia empalideceu. Quis responder alguma cousa, e n\u00e3o p\u00f4de; Raquel estava com eles.<\/p>\n<p>Pouco depois chegaram o coronel e D. Matilde; Meneses n\u00e3o tardou muito. Algumas pessoas mais completavam o pessoal da festa. A presen\u00e7a de estranhos constrangia a vi\u00fava e o m\u00e9dico; era for\u00e7oso ser alegre como os outros, e isso custava a ambos, mais ainda a ela que a ele.<\/p>\n<p>O jantar passou sem novidade de vulto. As pilh\u00e9rias do coronel, e os brindes repetidos de Viana entretiveram a sociedade. F\u00e9lix tentou seguir a corrente da alegria e logrou obt\u00ea-lo. N\u00e3o reparava, &#8211; ainda mal! &#8211; que a fronte da vi\u00fava parecia entristecer-se mais; seus olhos procuravam antes os de Meneses que os dela. Meneses tinha os seus embebidos nela.<\/p>\n<p>No fim do jantar Viana prop\u00f4s que fossem conversar na ch\u00e1cara. Meneses pediu que a filha do coronel tocasse primeiro uma melodia que lhe ouvira alguns dias antes. Raquel consentiu. A melodia era extremamente melanc\u00f3lica, e Raquel tocava-a com alma. O tom da m\u00fasica influiu nos \u00e2nimos; n\u00e3o havia s\u00f3 o simples sil\u00eancio da aten\u00e7\u00e3o, mas o recolhimento da tristeza.<\/p>\n<p>Em alguns dos convivas esta impress\u00e3o era mais natural e foi mais pronta. O m\u00e9dico, entretanto, forcejava, n\u00e3o s\u00f3 por sacudir a estranha influ\u00eancia, como por afetar completa isen\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Lu\u00eds estava em p\u00e9 diante dele, com os cotovelos fincados nos seus joelhos. F\u00e9lix brincava-lhe com os cabelos, e ambos sorriam um para o outro, como se fossem os \u00fanicos estranhos \u00e0 como\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Ora, no meio do absoluto sil\u00eancio da sala, apenas interrompido pelas notas soltas e magoadas que os dedos de Raquel tiravam do piano, o filhinho de L\u00edvia fez esta singela pergunta ao medico:<\/p>\n<p>\u2014 Por que \u00e9 que o senhor n\u00e3o se casa com mam\u00e3e?<\/p>\n<p>L\u00edvia estremeceu. Raquel cessou de tocar e volveu rapidamente a cabe\u00e7a para o grupo donde partira a voz. Dos outros convivas uns sorriam da inocente indiscri\u00e7\u00e3o do menino, outros observavam a vi\u00fava, ningu\u00e9m reparava em Raquel.<\/p>\n<p>A filha do coronel deixou imediatamente o piano. Viana lembrou ent\u00e3o o passeio da ch\u00e1cara. Todos aceitaram o alvitre e sa\u00edram da sala. A esp\u00e9cie de acanhamento que a pergunta do menino deixara em todos, para logo desapareceu de alguns.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o sa\u00edra logo. A alguma distancia repararam na falta dela e Raquel prop\u00f4s-se a ir busc\u00e1-la. Achou-a a abra\u00e7ar e beijar o filho. Conquanto ela fosse m\u00e3e extremosa, n\u00e3o havia raz\u00e3o imediata para aquela explos\u00e3o de ternura. Raquel estacou sem compreender nada.<\/p>\n<p>A vi\u00fava olhou para ela conchegando o filho ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que queres? perguntou.<\/p>\n<p>Raquel n\u00e3o respondeu. A pouco e pouco se lhe ia alumiando o esp\u00edrito. Olhou longo tempo para ela, como se \u00e0 for\u00e7a quisesse arrancar-lhe a explica\u00e7\u00e3o, que o seu cora\u00e7\u00e3o pressentia. Enfim, pareceu adivinhar tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Ama-o ent\u00e3o? perguntou ela com os l\u00e1bios tr\u00eamulos.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que o amei, respondeu L\u00edvia baixando tristemente a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Se o esp\u00edrito de Raquel n\u00e3o fosse ainda o rega\u00e7o da castidade, aquela confiss\u00e3o mentirosa da` vi\u00fava, porque ela ainda amava, podia fazer-lhe nascer alguma desairosa suspeita. Mas Raquel n\u00e3o viu naquelas palavras mais do que um amor medroso e n\u00e3o compreendido. Sua eloq\u00fcente resposta foi apert\u00e1-la nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>L\u00edvia apertou-a com for\u00e7a. Era a primeira vez que o acaso lhe deparava uma confidente. Alterava-se-lhe o seio, t\u00famido de suspiros duas l\u00e1grimas lhe romperam dos olhos e foram morrer na esp\u00e1dua de Raquel. O menino interrompeu essa doce efus\u00e3o. L\u00edvia respirou largamente, e beijando com ternura a mo\u00e7a, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos.<\/p>\n<p>Mas Raquel n\u00e3o se movia. Tinha os olhos postos nela, os l\u00e1bios apertados, os bra\u00e7os pendentes. L\u00edvia sacudiu-lhe brandamente os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Que tens? disse.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, suspirou Raquel.<\/p>\n<p>L\u00edvia estremeceu. S\u00fabito rel\u00e2mpago lhe atravessou as sombras do esp\u00edrito. Interrogou-a de novo, mas foi em v\u00e3o. Ent\u00e3o sentiu em si todas as energias do seu temperamento, e com um grito, que a c\u00f3lera abafava, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! tu o amas tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>Raquel n\u00e3o lhe respondeu. Se a vi\u00fava lhe houvera falado com brandura \u00e9 prov\u00e1vel que lhe fizesse plena confiss\u00e3o de seus sentimentos. Mas, \u00e0s palavras col\u00e9ricas de L\u00edvia, a pobre mo\u00e7a come\u00e7ou a tremer.<\/p>\n<p>\u2014 Tu o amas tamb\u00e9m! respondeu L\u00edvia com voz surda e concentrada.<\/p>\n<p>Raquel curvou o corpo, p\u00f4s as m\u00e3os em atitude de s\u00faplica, e murmurou com voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o!<\/p>\n<p>Pairou nos l\u00e1bios da vi\u00fava um sorriso sarc\u00e1stico. Raquel repetiu ainda muitas vezes a palavra perd\u00e3o; mas a \u00fanica resposta da sua rival foi pegar-lhe do bra\u00e7o e indicar-lhe a porta.<\/p>\n<p>\u2014 Vai ter com ele! exclamou.<\/p>\n<p>Depois saiu arrebatada da sala. Raquel, magoada pela viol\u00eancia do gesto da vi\u00fava, acompanhou-a com o olhar at\u00e9 \u00e0 porta. Os olhos da cor\u00e7a ofendida n\u00e3o chamejavam \u00f3dio contra a leoa irritada.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XVI \/ RAQUEL<\/h3>\n<p>QUANDO RAQUEL ficou s\u00f3 atirou-se ao sof\u00e1, tr\u00eamula, fria, com os olhos secos, sem compreender bem aquele drama \u00edntimo, mas sentindo-lhe j\u00e1 algum terr\u00edvel desenlace. O que ela via claro \u00e9 que a outra amava o mesmo homem, e com tal for\u00e7a que cedera a um impulso de c\u00f3lera, t\u00e3o contr\u00e1rio aos seus h\u00e1bitos de brandura.<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es de Raquel n\u00e3o passaram da\u00ed. Nem todas as almas podem encarar as grandes crises. Quer-se um esp\u00edrito robusto para estas situa\u00e7\u00f5es complexas. Raquel ficou simplesmente at\u00f4nita e abatida.<\/p>\n<p>Na ch\u00e1cara foi notada a aus\u00eancia das duas. Viana deixou os h\u00f3spedes e foi \u00e0 sala.<\/p>\n<p>\u2014 Que faz aqui? perguntou ele \u00e0 filha do coronel.<\/p>\n<p>Raquel ficara perturbada com a presen\u00e7a de Viana, e ainda mais com a pergunta. Enfim, balbuciou uma resposta infantil.<\/p>\n<p>\u2014 Estava pensando numa cousa, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1 L\u00edvia? perguntou Viana sem atender \u00e0 resposta da mo\u00e7a nem ao sorriso for\u00e7ado que lhe entreabria os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que est\u00e1 incomodada; foi para dentro. Cousa de cuidado?<\/p>\n<p>\u2014 Parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Viana deu duas voltas na sala e saiu para a ch\u00e1cara, pedindo \u00e0 mo\u00e7a que l\u00e1 se fosse reunir aos outros.<\/p>\n<p>F\u00e9lix, entretanto, viera at\u00e9 o jardim, que ficava em frente da casa. Mal havia dado alguns passos quando viu encostada \u00e0 porta da sala a filha do coronel, com os olhos postos no c\u00e9u, acaso pedindo a Deus que lhe estendesse a m\u00e3o para subir at\u00e9 l\u00e1. Era sol posto, hora de melancolia; tudo ali em volta assumia a cor pardacenta e luminosa dos \u00faltimos instantes da tarde.<\/p>\n<p>F\u00e9lix caminhou cautelosamente para a casa, subiu por um dos lan\u00e7os da escada, e surpreendeu a mo\u00e7a, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 linda assim mas n\u00f3s precisamos v\u00ea-la c\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Raquel retraiu o corpo sem ousar dizer uma s\u00f3 palavra. F\u00e9lix estendeu-lhe a m\u00e3o convidando-a a descer. A mo\u00e7a entrou para dentro; o m\u00e9dico deu ainda um passo, mas ela, fazendo um gesto suplicante, disse com voz aflita:<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus, saia!<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o resistiu; desceu ao jardim e caminhou para a ch\u00e1cara a reunir-se \u00e0s outras pessoas. Em v\u00e3o buscava conjeturar a causa daquela s\u00faplica. Era imposs\u00edvel conciliar o procedimento de Raquel com a familiaridade e a confian\u00e7a que entre ambos havia. A raz\u00e3o da diferen\u00e7a devia ser grave. Mas qual seria ela?<\/p>\n<p>Os convidados retiraram-se cedo. Meneses e F\u00e9lix foram os \u00faltimos que sa\u00edram, ao lado um do outro, ambos entregues a reflex\u00f5es diversas, porque F\u00e9lix pensava nas palavras de Raquel, Meneses na pergunta do menino.<\/p>\n<p>A filha do coronel desceu ao jardim. Era noite fechada. Sentou-se num banquinho, e ali ficou em triste medita\u00e7\u00e3o. A pobre mo\u00e7a tremia de susto, de incerteza, de apreens\u00e3o. N\u00e3o ousava encontrar os olhos de L\u00edvia; tinha-lhe medo, medo pueril, escusado, sem raz\u00e3o, mas enfim medo, e nada havia que tranq\u00fcilizasse a sua alma franzina e pusil\u00e2nime.<\/p>\n<p>Como benef\u00edcio celeste, entraram-lhe a correr as l\u00e1grimas, at\u00e9 ent\u00e3o retidas pela presen\u00e7a de estranhos. Ningu\u00e9m lhas viu, que a noite era fechada e o s\u00edtio ermo; mas a aura estiva, que come\u00e7ava a bafejar a folhagem ressequida do sol, acaso lhe ouviu os solu\u00e7os acaso lhos levou ao seio de Deus. Veio ent\u00e3o, de influxo divino uma doce consola\u00e7\u00e3o \u00e0s suas m\u00e1goas solit\u00e1rias.<\/p>\n<p>N\u00e3o ousando voltar para dentro, determinou esperar ali o irm\u00e3o da vi\u00fava, que fora acompanhar um amigo da vizinhan\u00e7a. Pedir-lhe-ia ent\u00e3o para a levar no dia seguinte \u00e0 casa de seus pais. N\u00e3o hesitava entre a ternura deles e o \u00f3dio de L\u00edvia.<\/p>\n<p>Assim refletia ela, quando sentiu passos no jardim. Voltou-se era a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou Raquel levantando-se, tr\u00eamula e assustada; pelo amor de Deus! eu n\u00e3o lhe fiz mal nenhum!<\/p>\n<p>L\u00edvia acercou-se de Raquel; travou-lhe brandamente das m\u00e3os apesar do esfor\u00e7o com que ela buscava esquivar-se, e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Que mal me farias tu, crian\u00e7a? A culpada sou eu sou eu que te pe\u00e7o perd\u00e3o, porque fui cruel e injusta, e cedi ao ego\u00edsmo do meu cora\u00e7\u00e3o . . . Perdoa-me !<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00f4o-lhe tudo ! respondeu Raquel.<\/p>\n<p>Ca\u00edram nos bra\u00e7os uma da outra. Jamais duas rivais se estreitaram mais sinceramente amigas do que essas duas. Largos minutos correram sem que nenhuma delas falasse; refletiam talvez, talvez n\u00e3o pudessem vencer o acanhamento da sua posi\u00e7\u00e3o. L\u00edvia foi a primeira que rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 que vieste a am\u00e1-lo? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu ingenuamente Raquel nasceu-me o amor ,em que eu reparasse nele. Nem sei se nasceria; creio que foi apenas transforma\u00e7\u00e3o, porque eu de pequena me acostumei a admir\u00e1-lo. Foi talvez a admira\u00e7\u00e3o que se fez amor quando eu cresci.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca lho deste a entender?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nunca.<\/p>\n<p>\u2014 E ele?<\/p>\n<p>\u2014 Percebi que me queria. Brincava comigo, como quando eu era crian\u00e7a: nada mais.<\/p>\n<p>\u2014 E resignavas-te \u00e0 sorte?<br \/>\n\u2014 Que poderia fazer sen\u00e3o isso? Alguma esperan\u00e7a tive nestes \u00faltimos tempos; em que a fundava,<\/p>\n<p>n\u00e3o sei; talvez na circunst\u00e2ncia de nos vermos mais a mi\u00fado. Enganava-me; penso que n\u00e3o nasci para ser feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe? disse a vi\u00fava. Nem sempre o nosso cora\u00e7\u00e3o acerta; pode ser que mais tarde te<\/p>\n<p>apare\u00e7a outro a quem ames do mesmo modo . . .<\/p>\n<p>\u2014 Do mesmo modo? interrompeu Raquel com surpresa.<\/p>\n<p>L\u00edvia pegou-lhe nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te parece que assim seja? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o. Chame-me crian\u00e7a, se lhe parece; a senhora h\u00e1 de saber mais do que eu, naturalmente; mas o meu cora\u00e7\u00e3o me diz que eu n\u00e3o poderia amar a ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p>\u2014 A ningu\u00e9m mais! murmurou a vi\u00fava amargamente. Concentraste ent\u00e3o toda a seiva do teu<\/p>\n<p>cora\u00e7\u00e3o, neste amor silencioso e quim\u00e9rico? N\u00e3o digas isso; amar\u00e1s mais tarde a outro que te amar\u00e1 tamb\u00e9m, e ser\u00e1s feliz, creio eu. Murchar\u00e1 esta primeira flor do teu cora\u00e7\u00e3o, mas, h\u00e1 seiva nele para dar vida a outra flor, t\u00e3o bela talvez, e com certeza mais afortunada. O contr\u00e1rio, Raquel, seria injusti\u00e7a de Deus. O amor \u00e9 a lei da vida, a raz\u00e3o \u00fanica da exist\u00eancia. Encher de uma s\u00f3 vez a alma, sem que ningu\u00e9m lhe beba o licor divino, e regressar ao C\u00e9u sem ter conhecido a felicidade na Terra? nem o querer\u00e1 Deus, nem o temer\u00e1s tu. Falas pela boca da tua amargura de hoje; espera a a\u00e7\u00e3o do tempo, que \u00e9 bom amigo.<br \/>\nRaquel meditava. Era a primeira vez que ela ouvia falar daquele modo em cousas do cora\u00e7\u00e3o. A linguagem da vi\u00fava servia-lhe a um tempo de consola\u00e7\u00e3o e de luz.<\/p>\n<p>L\u00edvia falou ainda muito tempo, sem preconceito nem reserva; n\u00e3o falou como rival, sen\u00e3o como amiga e m\u00e3e. N\u00e3o reparava sequer que lhe dava armas contra si. Falaria talvez de outro modo se se considerasse feliz; mas, como a situa\u00e7\u00e3o de ambas era igual, ela entornou na alma de Raquel todo o sentimento de que a sua alma estava cheia, e foi eloq\u00fcente, porque foi sincera.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse Raquel, quando ela acabou; compreendo tudo isso que me est\u00e1 dizendo. A senhora sabe amar. . E ainda o ama, n\u00e3o?<\/p>\n<p>L\u00edvia calou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe custa dizer? insistiu a donzela.<\/p>\n<p>\u2014 Custa-me l\u00e1grimas. Eu n\u00e3o te poderia explicar nunca este sentimento que me nasceu como erva<\/p>\n<p>ruim para me envenenar a exist\u00eancia, e que eu tanto tempo supus que seria a coroa de minha vida &#8230; N\u00e3o te quero enfadar, que s\u00e3o tristezas para isso.<br \/>\n\u2014 Mas ent\u00e3o ele? aventurou Raquel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me perguntes mais; afirmo-te s\u00f3 que o amei, que talvez tornasse a am\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E que ainda o ama, concluiu a rival.<\/p>\n<p>L\u00edvia esteve calada alguns, instantes, procurando ler-lhe no rosto, apesar das sombras da noite, as impress\u00f5es que lhe iriam na alma.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! j\u00e1 o n\u00e3o amo! disse a vi\u00fava com esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Seguiu-se um longo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 E se o amasse, disse enfim L\u00edvia, que farias tu?<\/p>\n<p>\u2014 Nada! respondeu resolutamente Raquel.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras, nada?<\/p>\n<p>\u2014 Pediria a Deus que a fizesse feliz, e estou certa que Deus me ouviria.<\/p>\n<p>\u2014 Era capaz disso? perguntou a vi\u00fava segurando-lhe nos pulsos e fitando lhe os olhos em cheio.<\/p>\n<p>\u2014 Era, respondeu ingenuamente a donzela.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o disse palavra. Se das como\u00e7\u00f5es da sua alma algum vest\u00edgio lhe subiu ao rosto, disfar\u00e7ou-lho a noite as vistas de Raquel. Ambas ficaram pensativas algum tempo. Uma forte rajada f\u00ea-las estremecer. Era sinal de chuva pr\u00f3xima; nuvens negras come\u00e7avam a povoar o c\u00e9u. As duas recolheram-se a casa.<\/p>\n<p>\u2014 Vales mais do que eu, dizia a vi\u00fava entrando com Raquel na sala. Eu sou apenas ego\u00edsta; ego\u00edsta e nada mais. Guarda essas flores evang\u00e9licas do sacrif\u00edcio, do perd\u00e3o e do amor. S\u00e3o raras; e por isso e que \u00e9s um anjo.<\/p>\n<p>Foi diferente a noite que ambas passaram.<\/p>\n<p>Raquel estava mais tranq\u00fcila depois da conversa no jardim mas que destino teria a flor de sua alma, l\u00edrio transformado em goivo, vivido de l\u00e1grimas, medrado no sil\u00eancio? N\u00e3o lhe apeteciam lutas. Faltavam-lhe as armas de combate: &#8211; a ast\u00facia ou a energia; faltava-lhe principalmente o desejo de despertar um cora\u00e7\u00e3o que sabia n\u00e3o ser seu.<\/p>\n<p>Mas esse cora\u00e7\u00e3o possu\u00eda-o acaso L\u00edvia? Parecia-lhe que n\u00e3o; o mist\u00e9rio, por\u00e9m, a retic\u00eancia, a indecis\u00e3o das palavras da rival, tudo se lhe afigurava cobrir um drama que ela n\u00e3o compreendia nem conjeturava.<\/p>\n<p>No \u00e2nimo de L\u00edvia outras foram as preocupa\u00e7\u00f5es. Para ela, a situa\u00e7\u00e3o era mais clara. Sentia desvanecer-se o amor de F\u00e9lix, e via surgir uma rival perigosa. Tinha medo da ignor\u00e2ncia de Raquel; receava que a inoc\u00eancia dessa alma ainda em flor pudesse dominar o esp\u00edrito rebelde de F\u00e9lix; e tal seria a cat\u00e1strofe das suas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>E quando todas essas sombras lhe povoavam o esp\u00edrito, e o cora\u00e7\u00e3o lhe pulsava com mais for\u00e7a, perguntava-lhe a consci\u00eancia se lhe era l\u00edcito opor algum obst\u00e1culo \u00e0 felicidade da donzela, dado que esta vencesse o cora\u00e7\u00e3o do seu noivo.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o dormiu a noite toda. No dia seguinte, apenas a claridade da manh\u00e3 lhe entrou no quarto, a vi\u00fava levantou-se, vestiu \u00e0 pressa um roup\u00e3o, e foi ao quarto de Raquel.<\/p>\n<p>A filha do coronel dormia profundamente. Repousava de suas longas reflex\u00f5es. L\u00edvia abriu o cortinado muito ao de leve, contemplou-lhe o rosto sereno e risonho, os olhos cerrados, e os l\u00e1bios semi-abertos como se em sonhos murmurasse palavras de amor. Os cabelos esparsos lhe serviam de resplendor \u00e0 sua cabe\u00e7a ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o! pensava L\u00edvia, o amor n\u00e3o dorme assim tranq\u00fcilo em dias de infort\u00fanio e desespero. Crian\u00e7a inconsciente que te sup\u00f5es alar \u00e0s regi\u00f5es do sol, que sabes tu dos precip\u00edcios da viagem, que conheces tu das voragens do cora\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! estava aqui! exclamou Raquel acordando; ainda bem!<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Sonhei que morria, e que era recebida no C\u00e9u. Fora bom morrer assim; mas eu sempre tinha pena de deixar a Terra. Acordou hoje muito cedo.<\/p>\n<p>\u2014 Queria dar um passeio, disse L\u00edvia indo abrir a janela, mas a manha j\u00e1 est\u00e1 quente.<\/p>\n<p>Raquel olhou para ela; viu-lhe os olhos pisados e o rosto desfeito. Compreendeu que n\u00e3o havia dormido, e que chorara.<\/p>\n<p>&#8220;Ama-o ent\u00e3o muito?&#8221; perguntou ela a si mesma.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XVII \/ SACRIF\u00cdCIO<\/h3>\n<p>A SITUA\u00c7\u00c3O das duas mo\u00e7as demandava um termo. Raquel foi a primeira que resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma excelente raz\u00e3o para regressar a casa.<\/p>\n<p>L\u00edvia compreendeu a inten\u00e7\u00e3o da amiga quando esta lhe comunicou a sua resolu\u00e7\u00e3o. Era t\u00e3o simples e tocante o sacrif\u00edcio, que a vi\u00fava n\u00e3o resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era de admira\u00e7\u00e3o; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com tristeza.<\/p>\n<p>Ficou assentado que Raquel iria no domingo pr\u00f3ximo, e nesse sentido foi avisado o coronel.<\/p>\n<p>Estavam ainda no dia seguinte ao do epis\u00f3dio do menino. Nenhuma das suas circunstancias esquecera ao m\u00e9dico. A esquivan\u00e7a de Raquel continuava a preocupar-lhe o esp\u00edrito, n\u00e3o menos que a infundada suspeita que nutria a respeito da vi\u00fava. Era meado do m\u00eas de dezembro. A data do casamento estava pr\u00f3xima. Tudo exigia um desenlace a tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou que o m\u00e9dico descobrisse os sentimentos que a filha do coronel nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar uma p\u00e1gina de um \u00e1lbum de retratos. Aproximou-se cauteloso, lan\u00e7ou os olhos \u00e0 p\u00e1gina e viu nela o seu pr\u00f3prio retrato.<\/p>\n<p>A descoberta f\u00ea-lo sorrir. Seria aquilo a raz\u00e3o da mudan\u00e7a que notara nela? Nesse caso sabia j\u00e1 da afei\u00e7\u00e3o que o ligava \u00e0 vi\u00fava, talvez do projetado casamento. Era poss\u00edvel tamb\u00e9m que a volta dela \u00e0 casa de seus pais n\u00e3o tivesse outro motivo.<\/p>\n<p>Por mais isento que seja o esp\u00edrito de um homem, \u00e9 raro que o n\u00e3o lisonjeie uma afei\u00e7\u00e3o assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na soledade da alma. F\u00e9lix sentiu primeiro essa impress\u00e3o de ego\u00edsmo. Veio depois outro sentimento melhor, o de uma respeitosa admira\u00e7\u00e3o. Seu pensamento entrou a conjeturar a data daquele singular amor; \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se internava nos dias do passado, ia combinando uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e eloq\u00fcentes. N\u00e3o era recente a afei\u00e7\u00e3o dela; era talvez anterior \u00e0 sua enfermidade.<\/p>\n<p>Chegara o s\u00e1bado, v\u00e9spera da partida de Raquel. Era de noite. F\u00e9lix estava em casa da vi\u00fava, e ambos, e Raquel, e at\u00e9 Viana todos pareciam preocupados e tristes. O m\u00e9dico olhava para a filha do Coronel, sem reparar que os olhos de L\u00edvia seguiam os seus e como que buscavam ler por eles os sentimentos do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Raquel esquivava-se \u00e0s aten\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico. Em certa ocasi\u00e3o, por\u00e9m, &#8211; achando-se F\u00e9lix mais afastado, &#8211; aproximou-se dele com um livro.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 leu este romance? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe ver disse F\u00e9lix, convidando-a com um gesto a sentar-se.<\/p>\n<p>Raquel n\u00e3o se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insist\u00eancia para o m\u00e9dico.<br \/>\nF\u00e9lix pegou no livro e consultou a primeira p\u00e1gina; ia voltar distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou assustada a cabe\u00e7a para lado de L\u00edvia, que de p\u00e9, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar para o grupo. Raquel fez ao m\u00e9dico um sinal de sil\u00eancio e afastou-se dele. F\u00e9lix guardou o papel no bolso.<\/p>\n<p>&#8220;Quase uma crian\u00e7a!&#8221; ia ele pensando quando se retirava para casa depois do ch\u00e1.<\/p>\n<p>Quando ali chegou n\u00e3o se deu ao trabalho de tirar o chap\u00e9u. Abriu a carta logo na sala.<\/p>\n<p>Dizia a carta:<\/p>\n<p>&#8220;Pela mem\u00f3ria de sua m\u00e3e, n\u00e3o seja cruel! L\u00edvia ama-o muito. N\u00e3o a fa\u00e7a morrer, que seria um pecado!&#8221;<\/p>\n<p>F\u00e9lix esfregou os olhos e releu o bilhete.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia neg\u00e1-lo; a letra era de Raquel e o conte\u00fado era uma s\u00faplica a favor da rival. N\u00e3o sorria o m\u00e9dico, estava at\u00f4nito. A verdade, t\u00e3o inveross\u00edmil desta vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela eloq\u00fcente, espont\u00e2nea. Espont\u00e2nea seria? F\u00e9lix fez essa pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu, n\u00e3o atribu\u00eda \u00e0 vi\u00fava tamanha influ\u00eancia, nem \u00e0 donzela tamanha submiss\u00e3o, que uma inspirasse e a outra escrevesse aquela carta. A cousa pareceu-lhe o que realmente era: um sacrif\u00edcio de Raquel.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o era homem de grandes expans\u00f5es; mas, se Raquel estivesse diante dele naquela ocasi\u00e3o, era capaz de cair-lhe aos p\u00e9s. Abafar uma afei\u00e7\u00e3o silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra mulher, era abnega\u00e7\u00e3o rara, que o surpreendia.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a vi\u00fava, objeto da carta que acabava de ler. Raquel n\u00e3o afirmaria t\u00e3o claramente os sentimentos da amiga, se n\u00e3o tivesse plena certeza deles. Como conciliaria, entretanto, a afirma\u00e7\u00e3o de hoje como a suspeita de ontem? A mesma Raquel lhe insinuara diversa inclina\u00e7\u00e3o da vi\u00fava. Naturalmente reconhecera o contr\u00e1rio. A id\u00e9ia da reabilita\u00e7\u00e3o de L\u00edvia para logo dominou o esp\u00edrito de F\u00e9lix. Seu amor existia no mesmo estado de for\u00e7a e vi\u00e7o; f\u00e1cil de desmaiar, n\u00e3o era menos f\u00e1cil de se restabelecer. No dia seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.<\/p>\n<p>Foi \u00e0 casa da vi\u00fava; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha do coronel. Achou-a t\u00e3o alegre e travessa como era dantes. Era assim aparentemente- os olhos estranhos n\u00e3o viam a m\u00e1goa interior e encoberta que lhe ro\u00eda o cora\u00e7\u00e3o. Seu infort\u00fanio tinha pudor.<\/p>\n<p>Ao m\u00e9dico era imposs\u00edvel encobrir esse estado. A tocante generosidade da moca fez-lhe bem ao cora\u00e7\u00e3o. Teve ele a delicadeza de n\u00e3o tratar a vi\u00fava por modo que magoasse a donzela; mas, t\u00e3o outro se mostrava do que fora at\u00e9 ent\u00e3o, que a vi\u00fava n\u00e3o p\u00f4de resistir-lhe, e aquele dia foi muito menos triste que os outros.<\/p>\n<p>As travessuras de Lu\u00eds faziam coro com as de Raquel. A porta da sala estava aberta. Lu\u00eds desceu os degraus que comunicavam da sala com o jardim, na ocasi\u00e3o em que L\u00edvia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a vi\u00fava deu por falta do filho, correu \u00e0 porta. O menino corria na dire\u00e7\u00e3o da porta da rua. A m\u00e3e desceu atras dele.<\/p>\n<p>Raquel ia descer tamb\u00e9m; F\u00e9lix pegou-lhe na m\u00e3o. A mo\u00e7a estremeceu toda; afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou:<\/p>\n<p>\u2014 Leu a minha carta?<\/p>\n<p>\u2014 Li, respondeu F\u00e9lix cravando nela um olhar que era a um tempo de simpatia e de pena. Li, e n\u00e3o sei se deva crer o que l\u00e1 me diz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a verdade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o sup\u00f5e!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que ela o ama, afirmo-lho.<\/p>\n<p>\u2014 E que eu a amo tamb\u00e9m? perguntou com hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Isso&#8230; creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos.<\/p>\n<p>F\u00e9lix calou-se. Decorreram dous ou tr\u00eas minutos de sil\u00eancio. Raquel continha com dificuldade os movimentos do cora\u00e7\u00e3o. Preferia estar a cem l\u00e9guas dali, mas lembrava-se da outra e isso lhe dava \u00e2nimo.<br \/>\nO m\u00e9dico foi o primeiro que falou:<\/p>\n<p>\u2014Como sabe que ela me ama?<\/p>\n<p>\u2014 Sei, respondeu Raquel sorrindo com afeta\u00e7\u00e3o, e \u00e9 quanto basta. Demais, nenhuma mo\u00e7a escreveria semelhante carta a um homem se n\u00e3o tivesse certeza do que afirmava. S\u00f3 lhe pe\u00e7o uma cousa: destrua essa carta. Nada vale, mas eu n\u00e3o quisera que a conservasse.<\/p>\n<p>L\u00edvia aproximava-se; sentiram passos na escada de pedra. Raquel correu \u00e0 porta, enquanto F\u00e9lix tirava a carteira do bolso, e procurava o bilhete de Raquel. Foi nessa ocasi\u00e3o que o coronel e a esposa chegaram. As duas mo\u00e7as desceram a recebe-los. F\u00e9lix desceu tamb\u00e9m e caminhou a alguns passos de dist\u00e2ncia, com o cora\u00e7\u00e3o dividido entre o amor de L\u00edvia e a admira\u00e7\u00e3o de Raquel.<\/p>\n<p>Os pais da mo\u00e7a jantaram nas Laranjeiras. L\u00edvia acompanhou depois toda a fam\u00edlia \u00e0 cidade. Na ocasi\u00e3o de se despedir do m\u00e9dico, a filha do coronel sentiu que as for\u00e7as lhe iam faltando. Reagiu, por\u00e9m sobre si mesma, e sem olhar para ele, estendeu-lhe a m\u00e3o, que o m\u00e9dico respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do peito; partira-se o \u00faltimo v\u00ednculo da esperan\u00e7a.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XVIII \/ RENOVA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>L\u00cdVIA N\u00c3O IGNOROU muito tempo a exist\u00eancia da carta de Raquel. F\u00e9lix mostrou-lha no dia seguinte, desejoso de saber como havia nascido no esp\u00edrito da mo\u00e7a a convic\u00e7\u00e3o t\u00e3o generosamente afirmada.<\/p>\n<p>\u2014 Contei-lhe tudo, disse a vi\u00fava, quando supunha que tudo estivesse morto no teu cora\u00e7\u00e3o. Ela condoeu-se de mim, e vejo agora que n\u00e3o era sentimento est\u00e9ril o que me revelara. Pobre Raquel!<\/p>\n<p>\u2014 Esta carta foi excelente consola\u00e7\u00e3o, L\u00edvia, porque eu sentia uma d\u00favida cruel a teu respeito&#8230; Mas a que prop\u00f3sito lhe falaste?<\/p>\n<p>L\u00edvia hesitou alguns instantes. Ou melhor, reprimiu o seu primeiro impulso; que foi referir ao m\u00e9dico o amor e a confiss\u00e3o de Raquel. Estaria no seu car\u00e1ter se o fizesse- mas um vislumbre de reflex\u00e3o atalhou essa confidencia prestes a subir-lhe aos l\u00e1bios. Recearia que a not\u00edcia de um amor t\u00e3o generoso o desviasse dela? Pode ser. A explica\u00e7\u00e3o que lhe deu foi breve.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe disse, respondeu a mo\u00e7a; confiei-lhe a causa das minhas m\u00e1goas, num dia em que mostrava condoer-se de mim. Se errei a culpa \u00e9 sua.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o insistiu. Pela sua parte, deixou tamb\u00e9m de referir a raz\u00e3o da recente frieza nas suas rela\u00e7\u00f5es com ela. A vi\u00fava, que o sabia, achou mais acertado n\u00e3o lhe falar nisso.<\/p>\n<p>Tantas vezes apagada no c\u00e9u, reaparecia enfim a estrela da felicidade, e para sempre? Era caso de d\u00favida, \u00e0 vista do passado mas a credulidade da vi\u00fava estava acima da sua experi\u00eancia. A ternura de F\u00e9lix nunca fora mais espont\u00e2nea e viva do que ent\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o como que se lhe renovara. O sacrif\u00edcio de Raquel n\u00e3o era estranho a essa rea\u00e7\u00e3o, que fazia! reviver todas as esperan\u00e7as da amada.<\/p>\n<p>A alegria tornou a florir no rosto e no peito da vi\u00fava. Ela possu\u00eda a mem\u00f3ria da felicidade, n\u00e3o a das tristezas. O que eram reminisc\u00eancias de infort\u00fanio apagaram-se com o tempo; a serenidade dos primeiros dias foi s\u00f3 o que lhe ficou.<\/p>\n<p>Houve em certa ocasi\u00e3o uma leve nuvem passageira; foi a presen\u00e7a de Meneses, que ainda freq\u00fcentava a casa da vi\u00fava. A maneira por que F\u00e9lix recebera o amigo fez compreender \u00e0 mo\u00e7a que no cora\u00e7\u00e3o dele havia ainda um travo de amargura. N\u00e3o lhe foi dif\u00edcil extingui-lo de todo. Referiu-lhe ingenuamente tudo o que se passara entre ela e Meneses, a branda austeridade com que respondera \u00e0s suas declara\u00e7\u00f5es amorosas, enfim o procedimento honesto do rapaz.<\/p>\n<p>F\u00e9lix abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Censuras-me? inquiriu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, afirmou o m\u00e9dico. Lastimo-te.<\/p>\n<p>\u2014 A inten\u00e7\u00e3o era boa.<\/p>\n<p>\u2014Seria; mas a vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1brica de sentimentos, n\u00e3o se vive como se romanceia. \u00edmpetos de generosidade s\u00e3o muito bons, quando se n\u00e3o corre perigo nenhum. Quem te afian\u00e7ava a honestidade desse mo\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! adivinha-se!&#8230; Queres uma prova? Ele n\u00e3o voltar\u00e1 c\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Creio que percebeu tudo.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico ficou algum tempo pensativo. Duas vezes tentou falar e conteve-se. Enfim disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso perceber aquilo de que h\u00e1 de ter certeza amanh\u00e3. Casamo-nos na segunda semana de janeiro. A not\u00edcia ser\u00e1 p\u00fablica desde j\u00e1.<\/p>\n<p>F\u00e9lix esperava um movimento expansivo da vi\u00fava, ao ouvir esta declara\u00e7\u00e3o. L\u00edvia n\u00e3o se alterou; apenas empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014Tens raz\u00e3o, disse F\u00e9lix depois de olhar para ela algum tempo; em n\u00e3o tenho direito a mais. Tantas vezes te iludi, que \u00e9 leg\u00edtimo o teu receio.<\/p>\n<p>No dia seguinte fez o m\u00e9dico oficialmente o seu pedido na presen\u00e7a de Viana, que abra\u00e7ou com entusiasmo o futuro cunhado.<\/p>\n<p>\u2014 Isto devia acabar assim mesmo, disse ele; h\u00e1 muito que eu previa e desejava o casamento. Nasceram um para o outro; est\u00e3o na for\u00e7a da idade; n\u00e3o podia haver melhor uni\u00e3o. Pela minha parte desistirei at\u00e9, se for preciso, da viagem que o senhor me prometeu. Lembra-se? N\u00e3o faz mal. O que eu quero \u00e9 v\u00ea-los felizes. Eu logo vi que tramavam alguma cousa, mas gabo-lhes a habilidade. D\u00ea-me outro abra\u00e7o, doutor.<\/p>\n<p>F\u00e9lix prestou-se \u00e0s expans\u00f5es do parasita. L\u00edvia contemplava o noivo com adora\u00e7\u00e3o. Para ambos eles o mundo inteiro havia desaparecido. Inteiro n\u00e3o; Viana fez casualmente alus\u00e3o a Raquel, e essa intempestiva recorda\u00e7\u00e3o entristeceu a mo\u00e7a. Ela via que a sua felicidade era causa da desventura da amiga, e agora que a tinha quase realizada, sentia morder-lhe um piedoso remorso.<\/p>\n<p>Adiantaram-se os preparativos do casamento. L\u00edvia pediu ao m\u00e9dico a supress\u00e3o de todo aparato, para n\u00e3o ferir o cora\u00e7\u00e3o de Raquel, pensava ela. A publicidade seria apenas a necess\u00e1ria. N\u00e3o contava com o irm\u00e3o, que se encarregou de dar ao cons\u00f3rcio propor\u00e7\u00f5es de acontecimento.<\/p>\n<p>A noticia foi referida por ele na Rua do Ouvidor, esquina da Rua Direita. Da\u00ed a dez minutos chegara \u00e0 Rua da Quitanda. T\u00e3o depressa correu que um quarto de hora depois era assunto de conversa na esquina da Rua dos Ourives. Uma hora bastou para percorrer toda a extens\u00e3o da nossa principal via p\u00fablica. Dali espalhou-se em toda a cidade.<\/p>\n<p>Foi geral o espanto. Ningu\u00e9m acreditava que F\u00e9lix se determinasse ao casamento. Falava-se, \u00e9 verdade, no namoro; mas, al\u00e9m de ser boato sem import\u00e2ncia nem generalidade, alguns n\u00e3o atribu\u00edam ao m\u00e9dico mais do que a inten\u00e7\u00e3o de um passatempo, ao passo que outros davam \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre ele e a vi\u00fava um car\u00e1ter absolutamente \u00edntimo, sem nenhuma aspira\u00e7\u00e3o de legalidade.<\/p>\n<p>A convic\u00e7\u00e3o entrou enfim no esp\u00edrito p\u00fablico. Moreirinha atribu\u00eda o caso a um desconcerto cerebral do m\u00e9dico. O Dr. Lu\u00eds Batista n\u00e3o deu opini\u00e3o; parecia-lhe indiferente o casamento da vi\u00fava.<\/p>\n<p>Raquel recebeu a not\u00edcia sem admira\u00e7\u00e3o, mas com m\u00e1goa. Esperan\u00e7as n\u00e3o as tinha j\u00e1; o mal que nos n\u00e3o espanta n\u00e3o nos d\u00f3i contudo menos por isso. Quem lhe deu a not\u00edcia foi Meneses, que a recebeu com filos\u00f3fica resigna\u00e7\u00e3o. O amor deste tinha-se convertido numa esp\u00e9cie de adora\u00e7\u00e3o religiosa. Achava na mulher amada todas as qualidades que podiam seduzir um homem como ele. Havia, al\u00e9m disso, aquele v\u00ednculo simp\u00e1tico de duas criaturas que viviam mais da imagina\u00e7\u00e3o que da vida pr\u00e1tica. A recusa de L\u00edvia n\u00e3o rompera, transformara as cadeias que o prendiam a ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o acontecia o mesmo a Raquel, e esta circunstancia n\u00e3o escapou ao rapaz, que habilmente a interrogou, e adivinhou tudo. Meneses sacudiu lentamente a cabe\u00e7a, mas n\u00e3o lhe disse palavra. Apenas pensou consigo que, se o acaso ou a provid\u00eancia houvesse disposto as cousas de outro modo, ambos eles podiam ser felizes.<\/p>\n<p>Meneses repeliu a id\u00e9ia de fazer confid\u00eancias \u00e0 filha do coronel; tanto, por\u00e9m, lhe falou da vi\u00fava, que a outra alguma coisa desconfiou Sabedores, enfim, do que padeciam interiormente, a comum desventura os vinculou de algum modo. Como as rela\u00e7\u00f5es eram antes corteses que familiares nenhum deles falou com a efus\u00e3o que lhes pedia o sentimento; adivinharam-se, o que era muito, e apiedavam-se um do outro, o que era quase tudo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIX \/ A PORTA DO C\u00c9U<\/h3>\n<p>Dous DIAS Antes do casamento, L\u00edvia foi jantar \u00e0 casa do coronel, a convite deste que reunira algumas pessoas de amizade. F\u00e9lix n\u00e3o compareceu, apesar de instantemente chamado cedera a um sentimento de delicadeza, n\u00e3o querendo mortificar com a sua presen\u00e7a a filho do coronel, nem perturbar de algum modo o esp\u00edrito da vi\u00fava.<\/p>\n<p>A primeira id\u00e9ia de L\u00edvia foi n\u00e3o aceder ao convite, a fim de n\u00e3o afrontar a dor de Raquel. Instaram tanto os pais da mo\u00e7a que lhe foi imposs\u00edvel recusar.<\/p>\n<p>As duas mo\u00e7as encararam-se comovidas; a diferen\u00e7a era que Raquel p\u00f4de ocultar melhor o seu abalo do que a vi\u00fava. Essa vit\u00f3ria da donzela sobre si mesma fez redobrar a admira\u00e7\u00e3o da rival. Entendeu-lhe a delicada inten\u00e7\u00e3o, e agradeceu-lha na primeira ocasi\u00e3o que se lhe deparou.<\/p>\n<p>\u2014 Sei tudo, acrescentou L\u00edvia; sei da tua carta, que foi a chave com que de novo se me abriram as portas da fortuna. Eu n\u00e3o sei se poderia ser t\u00e3o her\u00f3ica como tu. Separa-nos o destino; deixa-me beijar-te as m\u00e3os.<\/p>\n<p>O gesto acompanhou estas palavras: Raquel recusou ceder ao desejo da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Seja feliz! murmurou ela.<\/p>\n<p>Tais foram as \u00faltimas palavras que houve entre ambas. Quando a vi\u00fava saiu trocaram um beijo, a que n\u00e3o se podiam recusar, e que da parte de Raquel foi muito menos espont\u00e2neo que da outra. L\u00edvia o sentiu e sinceramente lho perdoou.<\/p>\n<p>Ao entrar no carro, com o irm\u00e3o, a vi\u00fava ia desconsolada e triste. Seu cora\u00e7\u00e3o sabia amar, e a id\u00e9ia de que a sua felicidade custaria l\u00e1grimas a algu\u00e9m fundamente lhe do\u00eda.<\/p>\n<p>&#8220;Por que raz\u00e3o, pensava ela, me h\u00e1 de lan\u00e7ar a Provid\u00eancia esta gota amarga na ta\u00e7a das minhas del\u00edcias? Se eu ao menos o ignorasse&#8230; a minha felicidade n\u00e3o seria travada de remorsos&#8230; Felicidade? continuou ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de id\u00e9ias; ser\u00e1 deveras felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se-\u00e1, enfim?&#8230; H\u00e1 quase um ano que eu pus toda a minha exist\u00eancia nesta vaga probabilidade; est\u00e1 pr\u00f3ximo o termo, n\u00e3o sei que sorte avessa me repele para longe. N\u00e3o a mere\u00e7o talvez, ou ent\u00e3o ambiciono demais&#8230; Chamam-me bela, devia talvez contentar-me com ser admirada&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Neste ponto foi a mo\u00e7a interrompida por uma observa\u00e7\u00e3o banal do irm\u00e3o, que tinha um term\u00f4metro infal\u00edvel nos p\u00e9s e anunciou que havia trovoada iminente. A irm\u00e3 olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida. Viana faria provavelmente a reflex\u00e3o inversa se adivinhasse as preocupa\u00e7\u00f5es da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Quando chegaram \u00e0s Laranjeiras acharam F\u00e9lix na sala, conversando infantilmente com o filho de L\u00edvia, que lhe pedia a explica\u00e7\u00e3o do mecanismo do rel\u00f3gio. F\u00e9lix aplicava todos os recursos da imagina\u00e7\u00e3o para satisfazer a curiosidade do menino. Como ouvisse parar um carro, e logo depois rumor de passos no jardim, o m\u00e9dico disse ao menino que a mam\u00e3e estava a\u00ed, e aproveitou a ocasi\u00e3o para lhe anunciar que ia casar com ela.<\/p>\n<p>Ao ouvir esta not\u00edcia, o menino subiu aos joelhos do m\u00e9dico, e perguntou alegremente se era verdade o que dizia.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, \u00e9 verdade, repetiu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor casa com mam\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 Caso, j\u00e1 disse.<\/p>\n<p>Neste momento assomou \u00e0 porta a figura de L\u00edvia. O menino desceu dos joelhos de F\u00e9lix e correu a abra\u00e7ar a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 verdade que mam\u00e3e casa com o Doutor F\u00e9lix? disse ele depois de receber um beijo da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, meu filho, respondeu esta entrando e estendendo a m\u00e3o ao m\u00e9dico.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de F\u00e9lix e a alegria de Lu\u00eds mudaram o curso \u00e0s reflex\u00f5es da mo\u00e7a. Cinco minutos bastaram para fazer esquecer a tristeza pr\u00f3pria e o infort\u00fanio da rival abatida. Raquel verteria naquela ocasi\u00e3o, no sil\u00eancio da sua alcova, uma l\u00e1grima de saudade? Nenhum deles pensou nisso, nem a vi\u00fava a quem ela t\u00e3o generosamente servira, nem F\u00e9lix que era o objeto daquelas dores solit\u00e1rias. F\u00e9lix estava mais jovial que nunca. Perdera de todo as maneiras friamente polidas; tornara-se expansivo, g\u00e1rrulo, terno, quase infantil. O cora\u00e7\u00e3o parecia-lhe cheio do presente e do futuro. N\u00e3o era s\u00f3 ; a situa\u00e7\u00e3o que explicava esta mudan\u00e7a; era tamb\u00e9m a volubilidade do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>A vi\u00fava lia-lhe na alma, que, enfim, ressurgira, um poema de inef\u00e1veis venturas. Houve um momento em que lhe lembraram as mesmas alegrias da v\u00e9spera do seu primeiro casamento, e estremeceu; mas a impress\u00e3o durou pouco; o segundo marido n\u00e3o era, como o primeiro, uma criatura sem alma, era, sim, uma alma sem a\u00e7\u00e3o. Mas o amor n\u00e3o come\u00e7ava j\u00e1 a reanim\u00e1-la?<\/p>\n<p>Mais quarenta e oito horas, e eles uniriam para sempre os seus destinos. Esse ato decisivo e grave da vida do homem, j\u00e1 o m\u00e9dico o encarava com a tranq\u00fcilidade de \u00e2nimo resoluto, sem trope\u00e7ar na responsabilidades nem arrecear-se das conseq\u00fc\u00eancias. Antolhava-se-lhe o lar dom\u00e9stico como a cidade da paz e da conc\u00f3rdia. N\u00e3o via \u00e0s portas dela o l\u00edvido espectro da d\u00favida; flores e folhas verdes, n\u00e3o mort\u00edferas, sen\u00e3o vivificantes, pareciam alcatifar-lhe o caminho e convid\u00e1-lo a descansar enfim da vida que t\u00e3o mal vivera.<\/p>\n<p>L\u00edvia saboreava esse renascimento do amante. Estavam s\u00f3s e iam dar o pen\u00faltimo beijo de despedida. O \u00faltimo seria o da noite seguinte. As m\u00e3os dela pousavam nos ombros de F\u00e9lix, e os olhos de ambos procuravam fundir as duas almas no mesmo raio de luz.<\/p>\n<p>O c\u00e9u n\u00e3o dava raz\u00e3o aos receios de Viana; tinham-se dissipado as nuvens que anunciavam pr\u00f3xima borrasca. N\u00e3o havia luar, mas a noite estava clara; e as viv\u00edssimas estrelas que luziam no c\u00e9u, algum poeta imaginoso as compararia a l\u00ednguas de fogo daquele pentecostes de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Jura-me ainda uma vez que me amas! dizia ele. \u00c9 doce \u00e0 minha alma ouvir-te essa confiss\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Pelo c\u00e9u, por meu filho, por ti, juro que te amarei sempre! Amava-te ainda quando eras indiferente ao meu afeto, quando o negavas, quando me pagavas com o desd\u00e9m. Por que te n\u00e3o amaria agora que \u00e9s todo meu&#8230; todo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014Duvidas?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei duvidar; recear, sim. J\u00e1 te disse por que raz\u00e3o. Mas hoje n\u00e3o receio, n\u00e3o; sinto que sou verdadeiramente amada. Quaisquer que fossem as minhas queixas, eu tudo te perdoaria agora, que me abres a porta do c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! tu \u00e9s um anjo!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus!<\/p>\n<p>\u2014 Adeus! Amas-me muito, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Muito!<\/p>\n<p>E um beijo casto, longo, quase divino, selou esta confiss\u00e3o tantas vezes repetida entre eles. Depois apertaram as m\u00e3os, e F\u00e9lix saiu.<br \/>\nA rua estava deserta, o sil\u00eancio era profundo. F\u00e9lix entrou em casa exaltado e alegre. N\u00e3o tinha sono; recorreu aos livros, mas n\u00e3o lhe aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no papel, o esp\u00edrito estava ausente, no tempo e no espa\u00e7o: buscava a amada e planeava futuros.<\/p>\n<p>Com a fadiga veio o sono. F\u00e9lix adormeceu nos bra\u00e7os dos anjos.<\/p>\n<p>Batiam oito horas quando ele acordou e abriu as janelas. O dia estava triste. Ca\u00eda uma chuva fina e constante que havia come\u00e7ado pouco antes dos primeiros albores da manh\u00e3. Que lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro da alma uma fonte de inef\u00e1veis alegrias?<\/p>\n<p>Assentou-se \u00e0 escrivaninha, e durante duas horas fez o invent\u00e1rio da sua vida de solteiro, rasgando com indiferen\u00e7a uma imensidade de cartas que lhe lembravam afei\u00e7\u00f5es extintas ou simples rela\u00e7\u00f5es passageiras. Varria o templo em que devia entrar a escolhida de seu cora\u00e7\u00e3o. Quando relia algumas dessas ep\u00edstolas, &#8211; folhas ca\u00eddas da esta\u00e7\u00e3o que se fora, &#8211; desenhava-se-lhe nos l\u00e1bios um sorriso ir\u00f4nico, mas tranq\u00fcilo, tal era a transforma\u00e7\u00e3o de sua alma j\u00e1 indiferente \u00e0s lutas do passado.<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas levantou-se para almo\u00e7ar. Acabava de sentar-se \u00e0 mesa quando lhe vieram dizer que uma pessoa o procurava.<\/p>\n<p>Era o Dr. Lu\u00eds Batista.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XX \/ UMA VOZ MISTERIOSA<\/h3>\n<p>F\u00c9LIX ESTACOU \u00e0 porta da sala. Lu\u00eds Batista deu dous passos para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca me ofereceu a sua casa, disse, e a minha indiscri\u00e7\u00e3o vem reparar o seu esquecimento.<\/p>\n<p>Era um gracejo ou um remoque? F\u00e9lix limitou-se a apertar a m\u00e3o que o outro lhe estendia e convidou-o a sentar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Disseram-me que estava almo\u00e7ando, observou Batista; n\u00e3o quero de nenhum modo interromp\u00ea-lo. V\u00e1, e eu ficarei aqui folheando algum livro.<\/p>\n<p>\u2014 Ia come\u00e7ar a almo\u00e7ar, respondeu o m\u00e9dico; se quiser almo\u00e7aremos juntos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; se me consente, visto que ainda est\u00e1 solteiro, irei familiarmente assistir ao seu almo\u00e7o, e ent\u00e3o lhe exporei o motivo que aqui me traz.<\/p>\n<p>F\u00e9lix convidou-o a entrar e ambos se sentaram \u00e0 mesa. As primeiras frases trocadas foram acanhadas e frias, mas as maneiras livres do h\u00f3spede conseguiram abalar a reserva do dono da casa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disse Batista, ouvi dizer que ia casar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Assisto portanto ao seu pen\u00faltimo almo\u00e7o de rapaz solteiro. H\u00e1 muita gente que ainda n\u00e3o acredita. Creio que o senhor tinha fama de celibat\u00e1rio convencido, e pela regra, um celibat\u00e1rio convencido \u00e9 um noivo \u00e0 m\u00e3o. Tamb\u00e9m eu era assim, e contudo&#8230; O casamento \u00e9 bom; tem seus inconvenientes, como tudo neste mundo; mas \u00e9 bom, com a condi\u00e7\u00e3o \u00fanica de o aceitarmos como ele deve ser&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Um pouco livre? disse F\u00e9lix sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se pouco ou muito, \u00e9 quest\u00e3o de temperamento. O essencial \u00e9 que seja livre. Eu assim o entendo e pratico; sou um pecador miser\u00e1vel, confesso, mas tenho ao menos o m\u00e9rito de n\u00e3o ser hip\u00f3crita, e agora mesmo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Agora mesmo? repetiu F\u00e9lix depois de alguns instantes de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se deva contar-lhe isto; o senhor \u00e9 ainda ne\u00f3fito, vai naturalmente aborrecer-me e amaldi\u00e7oar-me&#8230; Mas, em suma, \u00e9 indispens\u00e1vel que eu lhe diga tudo, porque isso prende com o motivo que me traz \u00e0 sua casa.<\/p>\n<p>Batista aceitou uma x\u00edcara de caf\u00e9 que o m\u00e9dico lhe ofereceu. Depois, com um modo acintemente leviano, referiu ao dono da casa uma aventura amorosa daqueles \u00faltimos dias. Tratava-se de uma mulher caprichosa e requestada. Seu triunfo era portanto duas vezes glorioso. Como beleza, desafiava ao pr\u00f3prio m\u00e9dico a resistir-lhe depois de meia hora de contempla\u00e7\u00e3o. Achar-se-iam, talvez, outras mulheres mais formosas; nenhuma, por\u00e9m, tinha como essa o misterioso encanto que sabe agrilhoar a vontade mais rebelde.<\/p>\n<p>\u2014 Quando ela me fita os seus grandes olhos, continuou pinturescamente Lu\u00eds Batista, \u00e9 o mesmo que se me entornasse chumbo derretido nas veias.<\/p>\n<p>Todo o estilo da sua descri\u00e7\u00e3o era assim, &#8211; galhofeiro e sensual. Falou durante vinte minutos com o entusiasmo pr\u00f3prio da sua situa\u00e7\u00e3o. F\u00e9lix ouvia pacientemente a narra\u00e7\u00e3o do h\u00f3spede, sem atinar com a rela\u00e7\u00e3o que teria aquilo com o pedido que lhe ia fazer. Interiormente estava aborrecido. N\u00e3o fora o m\u00e9dico em sua longa vida de rapaz solteiro nem casto nem cauto; mas a atmosfera do noivado come\u00e7ava a arejar-lhe o esp\u00edrito, e semelhante confid\u00eancia, naquela ocasi\u00e3o, lhe parecia de todo ponto extravagante.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desconhe\u00e7o, disse Lu\u00eds Batista quando concluiu a sua expans\u00e3o amorosa, n\u00e3o desconhe\u00e7o que uma aventura destas, em v\u00e9spera de noivado, produz igual efeito ao de uma \u00e1ria de Offenbach no meio de uma melodia de Weber. Mas, meu caro amigo, \u00e9 lei da natureza humana que cada um trate do que lhe d\u00e1 mais gosto. A vida \u00e9 uma \u00f3pera bufa com intervalos de m\u00fasica s\u00e9ria. O senhor est\u00e1 num intervalo; delicie-se com o seu Weber at\u00e9 que se levante o pano para recome\u00e7ar o seu Offenbach. Estou certo de que vir\u00e1 cancanear comigo, e afirmo-lhe que achar\u00e1 bom parceiro.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Lu\u00eds Batista engoliu o resto, j\u00e1 frio, do caf\u00e9 que tinha na x\u00edcara, acendeu de novo o charuto, e recostou-se na cadeira. F\u00e9lix teve tempo de reassumir a atitude tranq\u00fcila que as \u00faltimas palavras de Batista lhe haviam alterado.<\/p>\n<p>\u2014Enfim, disse ele, que liga\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre essa aventura e o pedido que me vai fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Toda, respondeu Batista; se ela n\u00e3o existisse, eu n\u00e3o viria pedir-lhe nenhum favor O senhor sabe o que \u00e9 um capricho de mulher amante; n\u00e3o ignora tamb\u00e9m que o menor desejo dela \u00e9 uma ordem para o cavalheiro seu escolhido.<\/p>\n<p>F\u00e9lix fez um gesto afirmativo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, continuou Batista. Estamos nesse caso. Ela \u00e9 extremamente caprichosa, e mais ainda que caprichosa, \u00e9 amante de cousas d&#8217;arte. H\u00e1 dias fui ach\u00e1-la aborrecida. Interroguei-a; nada me quis dizer. Pela conversa adiante falou-me duas ou tr\u00eas vezes numa gravura que vira na Rua do Ouvidor, e que o dono vendera quando ela l\u00e1 voltou, disposta a compr\u00e1-la. O assunto era o mais ortodoxo poss\u00edvel: a lsraelita Betsab\u00e9 no banho e o rei Davi a espreit\u00e1-la do seu eirado. N\u00e3o lhe parece galante? A gravura creio que era fin\u00edssima; mas tinha, al\u00e9m disso, um merecimento para a pessoa de quem lhe fato: \u00e9 que a figura de Betsab\u00e9 era a c\u00f3pia exata das suas fei\u00e7\u00f5es. Vaidade de mo\u00e7a bonita. Mostrava-se t\u00e3o desconsolada quando falava naquilo, que facilmente percebi n\u00e3o ser outro o motivo do aborrecimento em que a fui encontrar.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Fiz o que faria qualquer outro. Era necess\u00e1rio que a todo o transe ela possu\u00edsse um exemplar da gravura. Fui procur\u00e1-lo, e n\u00e3o achei. Gastei dous longos dias nessas pesquisas, e quando voltei \u00e0 casa dela n\u00e3o tive rem\u00e9dio sen\u00e3o tirar-lhe a \u00faltima esperan\u00e7a. Ela apertou-me afetuosamente as m\u00e3os, e agradeceu-me o trabalho, dizendo-me que era mais uma prova de amor que lhe dava; concluiu, por\u00e9m, tudo isso com um suspiro. Eu n\u00e3o me atrevo a dizer ao senhor o que quer dizer um suspiro neste caso; aquele suspiro era uma insist\u00eancia do desejo.<\/p>\n<p>\u2014 Parece que sim, disse F\u00e9lix que j\u00e1 adivinhara o final da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dir-me-\u00e1 o senhor? continuou Batista, que eu devia aproveitar o paquete que partiu ontem e mandar vir da Europa a gravura. N\u00e3o duvidaria faz\u00ea-lo, e ela esperaria de boa vontade; mas quem pode afirmar que o meu amor dure at\u00e9 \u00e0 volta do paquete? Tive ent\u00e3o uma id\u00e9ia salvadora.<\/p>\n<p>\u2014Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Voltei \u00e0 loja onde ela vira a gravura e inquiri do dono da casa quem lhe havia comprado. Depois de algum trabalho de mem\u00f3ria disse-me que fora o senhor. A princ\u00edpio hesitei se devia importun\u00e1-lo. O pedido n\u00e3o seria indiscreto em qualquer outra ocasi\u00e3o; mas, quando o senhor est\u00e1 para tomar um estado moral, rogar-lhe que me ajude a enxugar as l\u00e1grimas de uma bela pecadora, \u00e9 mais que indiscri\u00e7\u00e3o, \u00e9 atrevimento. Hesitei, a voz da raz\u00e3o era mais fraca que a do pecado, e venceu o pecado.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Batista calou-se, esperando a resposta do m\u00e9dico. Houve um largo sil\u00eancio. Levantaram-se da mesa e foram para a sala, sem que F\u00e9lix desse a resposta. Lu\u00eds Batista foi o primeiro que tornou ao assunto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me pode fazer o que lhe pe\u00e7o? disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho estado a perguntar a mim mesmo se me \u00e9 l\u00edcito faz\u00ea-lo, respondeu F\u00e9lix sorrindo, e se ao entrar nas fileiras do matrim\u00f4nio devo ajudar a deser\u00e7\u00e3o de um camarada.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Batista estava naquele dia singularmente falador. A simples observa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico deu azo a um largo discurso a respeito do reg\u00edmen matrimonial. Era meio-dia; F\u00e9lix estava j\u00e1 fatigado da visita e da palestra. Aproveitou um interst\u00edcio para dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Em suma, tem grande desejo de possuir a gravura?<\/p>\n<p>\u2014 Queria que ma cedesse.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o-lhe presente dela.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o desejava de nenhum modo prejudic\u00e1-lo, disse Batista; h\u00e1 de consentir ent\u00e3o que eu lhe fa\u00e7a um presente de noivado.<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o respondeu; foi buscar a disputada gravura e trouxe-lha. Lu\u00eds Batista n\u00e3o p\u00f4de reter um grito de surpresa. A figura de Betsab\u00e9, dizia ele, parecia realmente uma c\u00f3pia da sua dama. A dama era talvez mais formosa do que a c\u00f3pia.<\/p>\n<p>Foi nesse momento que trouxeram ao m\u00e9dico uma carta, entregue pelo correio. F\u00e9lix abriu-a distraidamente, mas tanto que lhe leu o conte\u00fado ficou muito p\u00e1lido e encostou-se a uma cadeira. Com a m\u00e3o tr\u00eamula aproximou o papel dos olhos, enquanto os dentes mordiam os l\u00e1bios at\u00e9 deitar sangue. Lu\u00eds Batista aproximou-se rapidamente de F\u00e9lix e perguntou-lhe o que tinha.<\/p>\n<p>\u2014 Nada, disse o m\u00e9dico, uma vertigem apenas&#8230; H\u00e1 de dar-me licen\u00e7a, preciso estar s\u00f3.<\/p>\n<p>O h\u00f3spede curvou-se, sorriu e saiu.<\/p>\n<p>F\u00e9lix encerrou-se no seu quarto. Do que l\u00e1 se passou ningu\u00e9m de casa soube: algum rumor se ouvia de quando em quando, mas abafado, e uma ou outra exclama\u00e7\u00e3o vaga e solta. Eram quatro horas quando o m\u00e9dico saiu \u00e0 sala.<\/p>\n<p>O tempo tinha melhorado. O sol reaparecera entre duas nuvens, dando de chapa nas \u00e1rvores molhadas de chuva e nos telhados que escorriam um resto de \u00e1gua. Dissera-se que a natureza queria fazer outro contraste ao inverso do da manh\u00e3, porque, se a tarde sorria alegre, o homem dava sinais de tempestade interior. Tinha os olhos vermelhos, a boca contra\u00edda, os cabelos em desordem. Saiu com passo vacilante. De quando em quando, colhia o alento com a express\u00e3o de quem lhe custa respirar. Um escravo, a que ele deu algumas ordem, reparou no estado do senhor, e perguntou-lhe se estava doente. F\u00e9lix respondeu secamente que n\u00e3o. O escravo abanou a cabe\u00e7a e saiu.<\/p>\n<p>F\u00e9lix escreveu em seguida uma carta que sobrescritou para a vi\u00fava. Vestiu-se depois. N\u00e3o tardou que lhe parasse um carro \u00e0 porta. Meteu-se nele e mandou tocar para a cidade.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXI \/ \u00daLTIMO GOLPE<\/h3>\n<p>ERA J\u00c1 sobre tarde quando a carta chegou \u00e0s m\u00e3os da vi\u00fava. Viana descera \u00e0 ch\u00e1cara, enquanto a irm\u00e3 dividia a aten\u00e7\u00e3o entre os gracejos do filho e o seu pr\u00f3prio pensamento. O menino enchia toda a sala com a sua pessoa; as travessuras dele n\u00e3o eram enfadonhas. L\u00edvia n\u00e3o o contemplava s\u00f3 com os olhos de m\u00e3e; via nele como que o elo de outro entre uma quimera desfeita e uma quimera realizada. Tais eram as suas reflex\u00f5es quando a mucama lhe veio trazer a carta de F\u00e9lix. Entregou-lha e saiu.<\/p>\n<p>L\u00edvia estremeceu; a letra do sobrescrito revelava o estado febril da m\u00e3o que o escrevera. Abriu rapidamente a carta e leu-a.<\/p>\n<p>Quando Lu\u00eds, numa das suas voltas, se chegou \u00e0 m\u00e3e, achou-a com os olhos cravados no ch\u00e3o, tr\u00eamula e p\u00e1lida. Chamou por ela inutilmente. Agarrou-lhe as m\u00e3os e a mo\u00e7a pareceu acordar de um letargo.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem, mam\u00e3e? perguntou o menino afagando-a com voz lacrimosa.<\/p>\n<p>L\u00edvia n\u00e3o respondera a princ\u00edpio. A voz da crian\u00e7a chamou-a enfim \u00e0 realidade. Olhou vagamente \u00e0 roda da sala, e como se a pouco e pouco lhe voltasse a consci\u00eancia, dirigiu lentamente os olhos \u00e0 carta fatal. Tinha-a ainda entre as m\u00e3os. Releu-a com ansiedade levantou-se arrebatadamente, deu alguns passos e de novo se deixou cair na cadeira. O menino correu \u00e0 porta assustado. O tio entrava nesse momento.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? disse Viana vendo o ar assustado do menino, e as fei\u00e7\u00f5es decompostas da irm\u00e3.<\/p>\n<p>L\u00edvia entregou-lhe a carta.<\/p>\n<p>A carta dizia assim:<\/p>\n<p>L\u00edvia<\/p>\n<p>O que vou fazer \u00e9 indigno, bem o sei; mas \u00e9 ainda mais cruel do que indigno. O nosso casamento \u00e9 fatalmente imposs\u00edvel. N\u00e3o tens nenhuma culpa direta nem indireta na minha resolu\u00e7\u00e3o. Esta carta, que me condena, ser\u00e1 a tua cabal defesa. Adeus.<\/p>\n<p>Quando Viana acabou de ler este estranho e misterioso documento, ficou t\u00e3o p\u00e1lido como a irm\u00e3. N\u00e3o compreendia nada do que se passava; indignava-o, todavia, o procedimento de F\u00e9lix. Sufocou a c\u00f3lera a ver se evitava a explos\u00e3o da vi\u00fava. Olharam-se ambos silenciosamente alguns instantes; o menino tinha-se aproximado e segurava uma das m\u00e3os da m\u00e3e, olhando para o tio como se esperasse dele alguma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Recusa, disse enfim Viana, e nenhuma explica\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 do seu procedimento. O ato \u00e9 t\u00e3o indigno que n\u00e3o te deve mortificar; quando um homem d\u00e1 este triste documento da sua lealdade, penso que a mulher que o ama pode dar gra\u00e7as a Deus de o n\u00e3o ter acompanhado at\u00e9 o altar. Espero que penses como eu&#8230;<\/p>\n<p>Viana n\u00e3o p\u00f4de acabar. As l\u00e1grimas, tanto tempo sustidas, romperam enfim dos olhos da vi\u00fava, impetuosas e amargas. A dor, de t\u00e3o concentrada que fora a princ\u00edpio, fez-se violenta e explosiva; mas o organismo estava t\u00e3o abalado por tantas como\u00e7\u00f5es, que a infeliz mo\u00e7a perdeu os sentidos.<\/p>\n<p>Quando ela voltou a si era noite; achou-se no seu pr\u00f3prio leito, tendo ao p\u00e9 de si o irm\u00e3o e um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico falou-lhe e ela respondeu sem saber o que dizia nem o que ouvia. A febre era intensa, mas o m\u00e9dico esperava que no dia seguinte cedesse \u00e0 energia do rem\u00e9dio que lhe ia aplicar.<\/p>\n<p>Viana ficou s\u00f3 com a irm\u00e3, e procurou distra\u00ed-la do sucesso da tarde, tarefa in\u00fatil porque a vi\u00fava n\u00e3o pensava nele; o olhar vago indicava que ainda se n\u00e3o havia feito luz no seu esp\u00edrito. As vezes contra\u00eda os sobrolhos e fitava o olhar no espa\u00e7o como se estivesse a recordar-se. Numa dessas vezes volveu os olhos pelo quarto parecendo procurar algu\u00e9m. A aus\u00eancia de F\u00e9lix de todo lhe alumiou o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Deu um grito abafado e desatou a chorar.<\/p>\n<p>Acorreu o irm\u00e3o, com palavras de brandura e conselho, dizendo-lhe que nem tudo estava perdido, e que era poss\u00edvel remediar o mal. L\u00edvia n\u00e3o prestava f\u00e9 a essas v\u00e3s consola\u00e7\u00f5es; estava entregue ao seu desespero. Abafada com solu\u00e7os, lavada em l\u00e1grimas, soltava gritos de ang\u00fastia, e convulsivamente se revolvia no leito.<\/p>\n<p>Viana teve medo desse grave estado e mandou chamar o m\u00e9dico. Quando este chegou, j\u00e1 a doente havia sossegado; mas, com as l\u00e1grimas, tinha-se ido a raz\u00e3o. O del\u00edrio durou toda a noite e parte da manh\u00e3 seguinte. De tarde a febre declinou um pouco e a doente adormeceu.<\/p>\n<p>S\u00f3 no dia seguinte, quando o abatimento veio substituir a exalta\u00e7\u00e3o, p\u00f4de a mo\u00e7a refletir no recente infort\u00fanio. Debalde perguntava a si mesma a causa daquele s\u00fabito rompimento do noivo, nada lho explicava. Algum mist\u00e9rio haveria, alguma raz\u00e3o aparentemente leg\u00edtimas porque \u00e0 vi\u00fava nada lhe dizia o cora\u00e7\u00e3o que fosse contr\u00e1rio \u00e0 lealdade de F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Contou-lhe o irm\u00e3o que havia ido \u00e0 casa do m\u00e9dico, e n\u00e3o o encontrara, nem l\u00e1 lhe quiseram dizer para onde fora. Agora, depois de maduro exame, pensava em ir pedir-lhe uma explica\u00e7\u00e3o do procedimento.<\/p>\n<p>L\u00edvia desaprovou-lhe a resolu\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>\u2014 Mas, disse Viana, n\u00e3o podemos ficar assim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Podemos, interrompeu a vi\u00fava; enquanto estou doente a explica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 natural para os outros. Quando me levantar da cama direi que eu mesma desfiz o casamento. Achaste-me sempre singular; \u00e9 prov\u00e1vel que os outros me vejam com iguais olhos; e tudo se explicar\u00e1 da melhor maneira.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a explica\u00e7\u00e3o dele&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A explica\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o \u00e9 precisa.<\/p>\n<p>Raquel, apenas soube da doen\u00e7a de L\u00edvia, foi passar alguns dias com ela. Naquelas circunst\u00e2ncias o encontro de ambas foi profundamente triste. A vi\u00fava n\u00e3o lhe confiou logo a causa verdadeira da sua enfermidade, mas durou pouco a reserva, porque a aus\u00eancia de F\u00e9lix fez impress\u00e3o na mo\u00e7a, e L\u00edvia julgou melhor dizer-lhe tudo. Era a segunda vez que ambas achavam no seio uma da outra, n\u00e3o a consola\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o a h\u00e1 para as desilus\u00f5es recentes, mas o adormecimento moment\u00e2neo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00edvia entrou a convalescer do abalo que lhe dera a fatal carta. Raquel tornara-se enfermeira dedicada e continuou a ser o que sempre fora, amiga afetuosa. A vi\u00fava n\u00e3o acreditava na realidade do seu restabelecimento. Em sua opini\u00e3o, era uma apar\u00eancia que a realidade desfaria em pouco tempo.<\/p>\n<p>Dez dias depois do rompimento de F\u00e9lix, apareceu Meneses nas Laranjeiras. Tinha ouvido algumas perguntas relativas ao casamento do m\u00e9dico, que sabia n\u00e3o se ter efetuado, sem que at\u00e9 ent\u00e3o transpirasse a causa verdadeira. Soube, por\u00e9m, da mol\u00e9stia de L\u00edvia, e a isso atribuiu a demora do casamento.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a abafou um suspiro quando o viu entrar. N\u00e3o era arrependimento; era talvez l\u00e1stima de si pr\u00f3pria, que n\u00e3o pudera aceitar esse cora\u00e7\u00e3o mais confiante e menos escabroso que o do outro.<\/p>\n<p>Mas se era j\u00e1 imposs\u00edvel uma alian\u00e7a que a natureza n\u00e3o aconselhara, ainda que o pedira a raz\u00e3o, vinha de molde o amigo a quem confiaria os seus infort\u00fanios. Esse foi o primeiro impulso; o segundo foi, n\u00e3o de orgulho, mas de pudor. O cora\u00e7\u00e3o teve pejo de ir confessar o seu erro diante daquele mesmo a quem repelira um dia.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil que semelhante situa\u00e7\u00e3o se escondesse aos olhos de Meneses. A aus\u00eancia do noivo era inexplic\u00e1vel; Meneses suspeitou a verdade e Raquel lha confirmou. O fim com que a donzela delatou o segredo confiado foi ainda um sacrif\u00edcio; pediu a interven\u00e7\u00e3o de Meneses para a reconcilia\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico com a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o-lhe uma cousa dif\u00edcil, concluiu ela aludindo pela primeira vez ao amor de Meneses, mas \u00e9 uma boa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma boa a\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, replicou Meneses olhando para ela fixamente.<\/p>\n<p>Raquel abaixou severamente os olhos. Um espectador atento concluiria, talvez que a ferida dele n\u00e3o estava longe de cicatrizar, mas que, pelo contr\u00e1rio, a dela continuava a deitar sangue.<\/p>\n<p>Meneses disp\u00f4s-se a tentar alguma cousa. Reconhecia que o procedimento de F\u00e9lix era misterioso; mas n\u00e3o desesperou de lhe descobrir a causa e confiava em que poderia remov\u00ea-la. Conseguiu saber<\/p>\n<p>que o m\u00e9dico se refugiara na Tijuca. Quando estava pronto a ir ter com ele, hesitou, refletiu e recuou da primeira resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi preciso que uma nova crise o empuxasse para l\u00e1. A vi\u00fava reca\u00edra enferma, n\u00e3o tendo podido resistir \u00e0s longas vig\u00edlias e mal dormidas noites. A mol\u00e9stia desta vez trouxe um car\u00e1ter menos violento que da primeira vez, mas pertinaz; a febre n\u00e3o era intensa, era constante. O m\u00e9dico assistente n\u00e3o achou que houvesse perigo; recomendou o mais desvelado tratamento, e repouso absoluto de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o hesitou; partiu para a Tijuca.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXII \/ A CARTA<\/h3>\n<p>QUANDO MENESES chegou \u00e0 Tijuca eram quatro horas da tarde. A casa de F\u00e9lix ficava afastada do caminho. O port\u00e3o esta aberto; Meneses atravessou rapidamente o espa\u00e7o que ia da estrada \u00e0 casa e bateu. Veio um moleque abrir-lhe a porta. Meneses entrou precipitadamente e perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Onde esta o senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Senhor n\u00e3o fala a ningu\u00e9m, respondeu o moleque com a m\u00e3o na chave como se o convidasse a sair.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de falar comigo, insistiu resolutamente Meneses.<\/p>\n<p>O tom decidido do rapaz abalou o escravo, cujo esp\u00edrito, costumado \u00e0 obedi\u00eancia, n\u00e3o sabia quase distingui-la do dever. Seguiram ambos por um corredor, chegaram diante de outra porta, e a\u00ed o moleque, antes de a abrir, recomendou a Meneses que esperasse fora. Perdida recomenda\u00e7\u00e3o, porque, apenas o moleque abriu a porta, Meneses entrou afoutamente atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>Era um gabinete pequeno com quatro janelas que o enchiam de luz. Perto de uma janela havia uma rede estendida. Sobre a rede via-se um homem negligentemente deitado com um livro nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Era F\u00e9lix.<\/p>\n<p>F\u00e9lix levantou a cabe\u00e7a, deu com os olhos em Meneses, e empalideceu. Meneses n\u00e3o dera um passo mais. Ficaram assim alguns segundos a olhar um para o outro. Enfim, o m\u00e9dico disse ao escravo que se retirasse, e os dous ficaram s\u00f3s.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio prolongou-se ainda mais. Da parte de F\u00e9lix era confus\u00e3o; da parte de Meneses desapontamento. Viera ele em todo o caminho a descrever na imagina\u00e7\u00e3o o estado de F\u00e9lix, acabrunhado por alguma grande dor, e em vez disso achava-o a ler pacificamente um livro. Quis lan\u00e7ar m\u00e3o do livro, para conhecer bem at\u00e9 que ponto a sua desilus\u00e3o era completa; mas o m\u00e9dico rapidamente o afastou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o atendeste \u00e0 ordem geral que eu havia dado, disse enfim, o dono da casa, e creio que s\u00f3 alguma raz\u00e3o poderosa te obrigaria a isso.<\/p>\n<p>\u2014 Assim era, retorquiu Meneses, mas a raz\u00e3o acabou e eu volto para a cidade.<\/p>\n<p>Dizendo isto, p\u00f4s o chap\u00e9u na cabe\u00e7a e dirigiu-se para a porta. Parou um instante, caminhou de novo at\u00e9 a rede e proferiu secamente Tenhoestas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Tens consci\u00eancia do que fizeste?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho, respondeu F\u00e9lix; fiz o que me cumpria fazer. Mas, antes de mais nada, vens aqui por inspira\u00e7\u00e3o tua ou por mandado de. . .<\/p>\n<p>\u2014 Venho porque era um dever da minha parte livrar-te da vergonha, e a ela da morte.<\/p>\n<p>\u2014 Da morte! exclamou F\u00e9lix levantando-se de um pulo.<\/p>\n<p>O terror que se lhe pintara no rosto fez boa impress\u00e3o no amigo. Suspeitou este que nem tudo estivesse perdido. Sentaram-se ambos, e Meneses referiu ao m\u00e9dico os acontecimentos que deixo narrados no cap\u00edtulo anterior. F\u00e9lix escutou a narra\u00e7\u00e3o do amigo com um interesse que n\u00e3o podia vir sen\u00e3o do amor. Meneses concluiu pintando-lhe com as cores que o caso pedia a baixeza do seu procedimento, o desaire que reca\u00eda sobre a vi\u00fava, e o remorso que o havia de acompanhar a ele, ainda quando daquele triste epis\u00f3dio n\u00e3o sa\u00edsse nenhuma fatal conseq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>F\u00e9lix mostrou-se profundamente comovido com a narra\u00e7\u00e3o de Meneses e as reflex\u00f5es que lhe fizera.<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o, disse ele quando o amigo acabou de falar; procedi covardemente. Ela ainda me ama&#8230; E perdoa-me, n\u00e3o \u00e9? Sim, h\u00e1 de perdoar-me&#8230; Pobre L\u00edvia! Se tu soubesses como ela tem sofrido por minha causa!&#8230;<\/p>\n<p>Meneses, satisfeito, disse-lhe que era indispens\u00e1vel voltar \u00e0 cidade. Enquanto falava, por\u00e9m o rosto de F\u00e9lix mudou de express\u00e3o. A \u00fanica resposta do m\u00e9dico foi:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! o que est\u00e1 feito, est\u00e1 feito; agora \u00e9 imposs\u00edvel recuar.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! gritou Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel, repetiu placidamente F\u00e9lix.<\/p>\n<p>Meneses levantou-se impaciente e come\u00e7ou a passear. A serenidade do m\u00e9dico mais lhe do\u00eda do que indignava, porque alguma raz\u00e3o poderosa devia ele ter para cortar t\u00e3o peremptoriamente toda a tentativa de reconcilia\u00e7\u00e3o. Quisera sab\u00ea-la e tremia de o interrogar.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, entretanto, deixara-se estar sentado, quase t\u00e3o tranq\u00fcilo como na ocasi\u00e3o em que Meneses lhe entrara no gabinete.<\/p>\n<p>N\u00e3o era fingida essa tranq\u00fcilidade, que durava j\u00e1 de alguns dias, depois de outros, os primeiros, que foram de aflitiva tempestade.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o se esconde de si mesmo, e o maior infort\u00farnio dos cora\u00e7\u00f5es pusil\u00e2nimes \u00e9 sentirem que o s\u00e3o. Quando F\u00e9lix chegou \u00e0 Tijuca tinha passado a excita\u00e7\u00e3o do primeiro`momento; o esp\u00edrito, fraco de si, e abatido pela imensidade do abalo, n\u00e3o achou na solid\u00e3o o al\u00edvio que lhe pedira. Vieram ent\u00e3o muitos dias de luta e de febre, em que ele, para fortalecer o animo, lia e relia a misteriosa carta que trouxera consigo. O rem\u00e9dio era antes veneno para a sua alma ulcerada; lembrava-se a felicidade que perdera.<\/p>\n<p>Era isto o que padecia o cora\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia padecia tamb\u00e9m, porque a sociedade, que ele n\u00e3o vira no primeiro instante, agora lhe aparecia como um juiz inflex\u00edvel, a pedir-lhe contas de uma inj\u00faria sem explica\u00e7\u00e3o. As vezes arrependia-se do ato; outras vezes, n\u00e3o se arrependia, mas acusava-se de precipitado e louco. Nunca mais tristemente se revelara a inconsist\u00eancia do esp\u00edrito<\/p>\n<p>Com o tempo a consci\u00eancia foi calando as vozes, e com o tempo, e a distancia, e a sua \u00edndole vari\u00e1vel, se lhe foi aquietando o cora\u00e7\u00e3o. Aquele homem, que alguns dias antes chorava de desespero, nenhum vest\u00edgio guardara de suas l\u00e1grimas. N\u00e3o se lhe apagara o amor da vi\u00fava, mas no lugar da paix\u00e3o veemente, como que ficara apenas uma recorda\u00e7\u00e3o remota e suave. Esta mudan\u00e7a era em parte obra do seu esfor\u00e7o, que buscava no esquecimento um ref\u00fagio; mas em grande parte era um efeito natural dele. Tal foi a situa\u00e7\u00e3o em que o achou Meneses. A presen\u00e7a deste trouxe \u00e0 mem\u00f3ria do m\u00e9dico a \u00faltima crise do cora\u00e7\u00e3o. A impress\u00e3o foi grande, n\u00e3o longa; a face do lago, que uma rajada encrespara, voltou \u00e0 serenidade primitiva.<\/p>\n<p>Meneses passeava de um lado para outro, a observar de quando em quando o m\u00e9dico. Ao seu esp\u00edrito repugnava a id\u00e9ia de que F\u00e9lix recorresse a um meio extraordin\u00e1rio para sair de uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, n\u00e3o sancionada pelo cora\u00e7\u00e3o. Uma causa havia, decerto, que se lhe afigurava grave, e que ele a todo custo queria conhecer. Seus esfor\u00e7os convergiam para esse ponto.<\/p>\n<p>Instado pelo amigo, F\u00e9lix aludiu \u00e0 carta que recebera, mas recusou mostr\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 nela um segredo, disse ele, que me impede de a comunicar a ningu\u00e9m. L\u00edvia tem jus ao meu respeito e possui ainda o meu amor.<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras foram ditas com certa como\u00e7\u00e3o. Meneses n\u00e3o perdeu a esperan\u00e7a de o vencer. A sinceridade era a sua eloq\u00fc\u00eancia; podia-se dizer que ele falava com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os. O esp\u00edrito de F\u00e9lix ia cedendo ao encanto; ele mesmo recordava as horas felizes do passado e as saudosas esperan\u00e7as do futuro. O cora\u00e7\u00e3o palpitou-lhe com mais for\u00e7a e a imagina\u00e7\u00e3o fez o resto. A carta, por\u00e9m, a fatal carta lhe ocupou logo o pensamento, e a fronte descaiu diante do insuper\u00e1vel obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>Cansado de lutar, Meneses resolveu partir para a cidade.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o sei o que pensar\u00e3o os outros, disse ele; eu levo a suspeita de que n\u00e3o a amaste nunca, e que esse rompimento estrepitoso foi um meio de salvar a tua liberdade.<\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, F\u00e9lix n\u00e3o pode conter um gesto de c\u00f3lera. A atitude quieta de Meneses o fez cair em si.<\/p>\n<p>\u2014Tens raz\u00e3o, disse ele depois de algum tempo. Quero que pelo menos algu\u00e9m me reconhe\u00e7a inocente e digno. D\u00e1s-me a tua palavra de honra que nada revelar\u00e1s do que vais ler?<\/p>\n<p>\u2014 Dou.<\/p>\n<p>F\u00e9lix foi buscar a carteira, tirou dela a carta, e entregou-a a Meneses.<\/p>\n<p>Meneses leu o que se segue:<\/p>\n<p>M\u00edsero mo\u00e7o! \u00c9s amado como era o outro; ser\u00e1s humilhado como ele. No fim de alguns meses terais um Cireneu para te ajudar a carregar a cruz, como teve o outro, por cuja raz\u00e3o se foi desta para a melhor. Se ainda \u00e9 tempo, recua!<\/p>\n<p>A carta n\u00e3o tinha assinatura.<\/p>\n<p>Meneses ficou at\u00f4nito; mas foi obra de alguns instantes, poucos. Sua \u00edndole generosa repelia a id\u00e9ia de acreditar na revela\u00e7\u00e3o que acabava de ler.<\/p>\n<p>\u00e9 imposs\u00edvel! disse ele.<\/p>\n<p>F\u00e9lix ergueu a cabe\u00e7a, que apertava entre as m\u00e3os, e replicou:<\/p>\n<p>\u2014 Essa \u00e9 a tua convic\u00e7\u00e3o; eu quisera que fosse a minha. Mas que testemunho tens tu contra o que a\u00ed v\u00eas escrito?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu Meneses com calor, mas e o que me diz o cora\u00e7\u00e3o. Repugna-me crer que essa pobre senhora&#8230; N\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel! Demais, uma carta an\u00f4nima!<\/p>\n<p>\u2014 P\u00f5e o nome que quiseres a\u00ed embaixo n\u00e3o lhe aumentas nem lhe tiras o valor, se a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Quem te diz que \u00e9 verdadeira?<\/p>\n<p>\u2014 Quem me diz que o n\u00e3o \u00e9? A d\u00favida era j\u00e1 bastante para justificar o que fiz. N\u00e3o foi s\u00f3 o receio do futuro que me impeliu, foi principalmente a lembran\u00e7a do passado. A trai\u00e7\u00e3o dela, se a houve, n\u00e3o devre doer nada ao marido que se foi; mas ao marido que vem, a id\u00e9ia da perf\u00eddia anterior destr\u00f3i pela base toda a confian\u00e7a, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da felicidade. N\u00e3o sei o que farias tu no meu caso; eu segui o impulso do cora\u00e7\u00e3o e da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Meneses ouvira atentamente o amigo. Quando ele acabou:<\/p>\n<p>\u2014 Creio-te sincero, disse; e compreendo que sofreste.<\/p>\n<p>\u2014 Muito!<\/p>\n<p>\u2014 Mas recusar\u00e1s uma reflex\u00e3o? Quem escrevia esta carta? N\u00e3o foi um amigo, decerto. Um amigo, se lhe pesasse o teu ato, viria falar-te cara a cara. Um indiferente tamb\u00e9m n\u00e3o foi. Resta, pois, um inimigo, teu ou dela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Dela?<\/p>\n<p>\u2014 Ou um interessado: escolhe.<\/p>\n<p>F\u00e9lix refletiu um instante.<br \/>\n\u2014 Inimigo, n\u00e3o sei se os tinha; interessado. . em qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ela \u00e9 rica; algum pretendente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o havia nenhum.<\/p>\n<p>Meneses n\u00e3o fraqueou na defesa da sua hip\u00f3tese. Quanto mais atentava na revela\u00e7\u00e3o da carta, mais o cora\u00e7\u00e3o lhe bradava contra ela. Para ele a inoc\u00eancia de L\u00edvia era clara como o sol. F\u00e9lix sentia-lhe a convic\u00e7\u00e3o, e lastimava-se de a n\u00e3o ter, t\u00e3o viva e t\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>A noite ca\u00edra de todo. Meneses declarou que s\u00f3 voltaria \u00e0 cidade no dia seguinte.<\/p>\n<p>F\u00e9lix compreendeu que o amigo n\u00e3o perdera a esperan\u00e7a de o converter, e longe de se irritar agradeceu-lhe a inten\u00e7\u00e3o. Era a primeira vez que ele se expandia com algu\u00e9m a respeito do seu amor; f\u00ea-lo com abund\u00e2ncia e sinceridade. N\u00e3o lhe lembrara sequer que Meneses tamb\u00e9m amara a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Muitas vezes falaram da carta. Meneses perguntou ao m\u00e9dico em que circunstancias a recebera. F\u00e9lix referiu a visita de Lu\u00eds Batista, o objeto dela, a conversa travada entre ambos, at\u00e9 que a carta lhe chegou \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>A singularidade da visita de Lu\u00eds Batista n\u00e3o escapou a Meneses. :<\/p>\n<p>\u2014 Visitava-te esse homem? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 Eras amigo dele?<\/p>\n<p>\u2014 Havia mais razoes para sermos inimigos que outra cousa.<\/p>\n<p>Meneses hesitou; n\u00e3o se atrevia a desposar uma suspeita. Mas o esp\u00edrito do m\u00e9dico era terreno fecundo para ela. Apenas as perguntas de Meneses lhe deitaram o g\u00e9rmen, para logo foi lan\u00e7ando ra\u00edzes e cresceu.<\/p>\n<p>\u2014 Cr\u00eas ent\u00e3o que ele?&#8230; aventurou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; mas, n\u00e3o te parece curiosa toda essa hist\u00f3ria de gravuras? F\u00e9lix refletiu algum tempo. Como quando os olhos se v\u00e3o acostumando \u00e0 meia-luz de um s\u00edtio, e come\u00e7am a distinguir a pouco e pouco os objetos, o esp\u00edrito do m\u00e9dico entrou a recordar e a examinar todos os incidentes daquela fatal manh\u00e3. O que ele a princ\u00edpio n\u00e3o vira, apareceu-lhe ent\u00e3o claro e evidente. O tom ameno e jovial de Lu\u00eds Batista, a sua estranha verbosidade, o epis\u00f3dio dos amores t\u00e3o levemente contados a um homem que n\u00e3o era seu natural confidente, tudo isto com a circunstancia da humilha\u00e7\u00e3o que recebera quando a vi\u00fava lhe fechou a sua sala, enfim a m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o dele, eram ind\u00edcios de sobejo para n\u00e3o achar natural a visita que lhe fizera. Mas, como deduzir daqui a autoria da carta?<\/p>\n<p>Meneses resolveu a d\u00favida naturalmente.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o desses cr\u00e9dito \u00e0 carta, disse ele, o \u00faltimo de quem te lembrarias seria Lu\u00eds Batista, porque ningu\u00e9m faz mal a um homem no mesmo instante em que lhe vai pedir um favor.<\/p>\n<p>F\u00e9lix aceitou esta explica\u00e7\u00e3o; mas o que acabou de o convencer foi uma circunstancia at\u00e9 ent\u00e3o deslembrada e agora decisiva. O m\u00e9dico levantou-se rapidamente da cadeira; deu alguns passos na sala e parou em frente de Meneses.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, disse; foi ele com certeza! Quando eu li a carta fiquei fulminado. Ele aproximou-se de mim; eu pedi-lhe que me deixasse s\u00f3. Obedeceu, mas um sorriso, que ent\u00e3o me pareceu feroz indiferen\u00e7a mas que hoje vejo que era de triunfo, lhe ro\u00e7ou os l\u00e1bios. Foi ele; oh! sinto que foi ele.<\/p>\n<p>Entendamo-nos, leitor; eu, que te estou contando esta hist\u00f3ria, posso afirmar-te que a carta era efetivamente de Lu\u00eds Batista. A convic\u00e7\u00e3o por\u00e9m, do m\u00e9dico,- sincera, decerto, &#8211; era menos s\u00f3lida e pausada do que convinha. A alma dele deixava-se ir ao sabor de uma desconfian\u00e7a nova, que as circunst\u00e2ncias favoreciam e justificavam.<\/p>\n<p>Quando Meneses viu que o maior trabalho estava feito, n\u00e3o teve mais que falar outra vez de L\u00edvia. A placidez do m\u00e9dico desaparecera; todo ele era agora amor e \u00f3dio, arrependimento e vingan\u00e7a. A noite foi mal dormida, e quando a aurora os convidou a sair do leito, F\u00e9lix era totalmente outro. Ardia por ir fazer ao p\u00e9s da vi\u00fava plena confiss\u00e3o da sua indignidade. Era o nome que lhe dava; dar-lhe-ia outro, se os acontecimentos o fizessem duvidar outra vez.<\/p>\n<p>Apressaram a viagem; Meneses estava alegre com o resultado da miss\u00e3o; lamentou com o m\u00e9dico a fatalidade do caso, mas estava certo de que tudo ia acabar como devia. Mil id\u00e9ias cor-de-rosa enchiam o c\u00e9rebro de F\u00e9lix, e ambos desceram rapidamente na dire\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXIII \/ ADEUS<\/h3>\n<p>APENAS CHEGARAM \u00e0 cidade, F\u00e9lix despediu-se de Meneses e seguiu para as Laranjeiras. Ia palpitante e receoso; pela primeira vez nesse dia lhe lembrou a doen\u00e7a da vi\u00fava. Temeu que fosse tarde. N\u00e3o era as janelas estavam abertas. Entrou no jardim; subiu as escadas, cabisbaixo; quando levantou os olhos viu Raquel diante de si.<\/p>\n<p>Raquel, cujo cora\u00e7\u00e3o era menos filos\u00f3fico, posto soubesse resignar-se como o de Meneses, n\u00e3o viu o m\u00e9dico sem algum abalo interior. F\u00ea-lo entrar e foi ter com a enferma.<\/p>\n<p>Quando L\u00edvia soube que F\u00e9lix ali estava, sorriu, tristemente e fechou os olhos. Abriu-os para contemplar a boa amiga que esperava ao p\u00e9 do leito. N\u00e3o estavam molhados. Cobria-os um v\u00e9u de serena melancolia.<\/p>\n<p>\u2014 Agradece-lhe por mim, Raquel, e dize-lhe que me ver\u00e1 quando eu puder sair daqui.<\/p>\n<p>F\u00e9lix recebeu o recado e sentiu a frieza dele, apesar da do\u00e7ura da voz que lho transmitia. Era muito contudo; n\u00e3o estaria longe a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A convalescen\u00e7a de L\u00edvia foi mais r\u00e1pida do que se devera esperar. O intervalo foi aproveitado por F\u00e9lix em se reconciliar com Viana, que achou dentro de si bastante miseric\u00f3rdia para perdoar o culpado. A submiss\u00e3o do m\u00e9dico o lisonjeou, e o seu arrependimento lhe pareceu o que realmente era, &#8211; sincero. Era natural perguntar-lhe a raz\u00e3o do rompimento. Viana achou melhor calar-se; o que \u00eale queria antes de tudo era a repara\u00e7\u00e3o do erro.<\/p>\n<p>L\u00edvia consentiu finalmente em receber o m\u00e9dico. Estava na sala, envolvida num roup\u00e3o branco, com um resto de palidez que a enfermidade lhe deixara no rosto. Nas circunst\u00e2ncias em que ambos se tornavam a ver n\u00e3o podia ela estar melhor. O ar da mo\u00e7a n\u00e3o era risonho, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era severo. F\u00e9lix caminhou lentamente para ela, t\u00edmido e fascinado ao mesmo tempo. De novo sentia, o imp\u00e9rio que a vi\u00fava sempre exercera em seu esp\u00edrito<\/p>\n<p>Quando F\u00e9lix confessou \u00e0 vi\u00fava todo o seu arrependimento e lhe implorou o perd\u00e3o da culpa que cometera, escutou-o L\u00edvia com grande serenidade, e afetuosa lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe nego o perd\u00e3o que me pede; seria duvidar do seu arrependimento, e eu creio que \u00e9 sincero. Podia talvez exigir que me dissesse a causa que o levou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A causa \u00e9 triste de confessar, interrompeu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o lha pe\u00e7o. Mas quer ouvir o resto?<\/p>\n<p>Felix curvou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Creio no seu arrependimento, e n\u00e3o duvido do seu amor, apesar de tudo o que se h\u00e1 passado. Isto lhe deve bastar. O destino ou a natureza n\u00e3o nos fez um para o outro. O casamento entre n\u00f3s seria uma cerim\u00f4nia apenas. Seria mais; seria o nosso infort\u00fanio, e<\/p>\n<p>mais vale sonhar com a felicidade que poder\u00edamos ter do que chorar aquela que houv\u00e9ssemos perdido.<\/p>\n<p>F\u00e9lix ouviu as palavras da mo\u00e7a cabisbaixo e abatido. N\u00e3o ousava responder-lhes nem interrog\u00e1-la; mas do seu mesmo sil\u00eancio colhia a mo\u00e7a a sinceridade da dor e do arrependimento.<\/p>\n<p>\u2014 Se isto lhe d\u00f3i, continuou ela, v\u00ea bem que a culpa n\u00e3o \u00e9 minha. Eu aceito uma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o criada por mim, nem tamb\u00e9m pelo senhor, mas, &#8211; como eu lhe dizia, &#8211; pela natureza ou pelo destino. No ponto a que chegamos \u00e9 esta a resolu\u00e7\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9, interrompeu F\u00e9lix com impetuosidade, n\u00e3o \u00e9 a melhor porque ambos perderemos com ela, e nada nos impede a resolu\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Creio que n\u00e3o duvide de meu amor; mas digo-lhe que o n\u00e3o compreende, nem avalia. Eu n\u00e3o teria animo de lhe propor, nas circunstancias em que nos achamos, um rompimento que&#8230;<\/p>\n<p>O sorriso com que a mo\u00e7a o ouvia cortou-lhe a palavra neste ponto. Caiu em si, lembrou-lhe, que ele facilmente esquecia tudo &#8211; lembrou-lhe que lhe n\u00e3o cabia falar de rompimento, e murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho direito de falar assim, e vejo que mere\u00e7o um castigo . . .<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 castigo, atalhou a vi\u00fava, \u00e9 necessidade. Se alguma consola\u00e7\u00e3o pode levar desta \u00faltima entrevista, leve a certeza de que o amo como dantes, e de que o meu padecimento ser\u00e1 ainda maior do que o seu. O casamento \u00e9 j\u00e1 agora imposs\u00edvel. Eu n\u00e3o sei o que motivou a sua carta, mas imagino que foi alguma d\u00favida nova a meu respeito. Se nos cas\u00e1ssemos? cessariam elas?<\/p>\n<p>\u2014 Sim! porque eu hoje creio e vejo o que padeceu por mim. Para duvidar do seu amor seria preciso que houvesse perdido a raz\u00e3o. Demais, continuou F\u00e9lix enquanto L\u00edvia abanava tristemente a cabe\u00e7a, &#8211; viveremos s\u00f3 para n\u00f3s, fecharemos a nossa casa aos olhos estranhos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Ainda assim o ir\u00e1 perseguir esse mau g\u00eanio, F\u00e9lix; seu esp\u00edrito engendrar\u00e1 nuvens para que o c\u00e9u n\u00e3o seja limpo de todo. As d\u00favidas o acompanhar\u00e3o onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no seu cora\u00e7\u00e3o. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe; sejamos um para o outro como um tra\u00e7o luminoso do passado, que atravesse indel\u00e9vel o tempo, e nos doure e aque\u00e7a os nevoeiros da velhice.<\/p>\n<p>L\u00edvia proferiu estas \u00faltimas palavras com a voz tremula, e uma l\u00e1grima lho rolou pela face p\u00e1lida.<\/p>\n<p>\u2014 Por que nos separaremos agora que estamos \u00e0 porta do c\u00e9u? perguntou F\u00e9lix. N\u00e3o me cabe o direito de exigir uma felicidade que repeli tantas vezes; mas, se pudesse entrar na minha alma veria que os meus erros, por maiores que sejam, e s\u00e3o grandes, anima-os sempre um sentimento de amor, e que enfim eu cedo sempre ao grito de minha consci\u00eancia. A mais bela a\u00e7\u00e3o seria perdoar-me esquecendo e o \u00fanico modo de esquecer seria voltarmos ao tempo de nossas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoei tudo, e tudo esqueci, apagou-se o passado e nenhum ressentimento me ficou. O que se n\u00e3o apaga \u00e9 o futuro.<\/p>\n<p>F\u00e9lix torcia as m\u00e3os. Era patente o seu desespero. A vi\u00fava mal podia encar\u00e1-lo. Seguiu-se um longo sil\u00eancio, interrompido pela chegada de Lu\u00eds. O menino p\u00f4s termo \u00e0 entrevista. F\u00e9lix olhou ainda algum tempo para a mo\u00e7a; mas leu-lhe n a fisionomia que a resolu\u00e7\u00e3o era inabal\u00e1vel. Levantou-se para sair.<\/p>\n<p>\u2014 Conservaremos a estima rec\u00edproca, disse L\u00edvia estendendo-lhe a m\u00e3o, e espero que me conserve tamb\u00e9m alguma cousa mais&#8230; como eu.<\/p>\n<p>Eram as \u00faltimas palavras da mo\u00e7a, vieram entrecortadas de solu\u00e7os. F\u00e9lix quis pegar-lhe nas m\u00e3os e aproveitar esse passageiro desmaio para conseguir a retrata\u00e7\u00e3o das palavras. Mas a mo\u00e7a abra\u00e7ou-se ao filho em cujo seio escondeu o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a chorar mam\u00e3e, disse Lu\u00eds enla\u00e7ando com os bracinhos o pesco\u00e7o da vi\u00fava.<\/p>\n<p>F\u00e9lix retirou-se lentamente, com os olhos anuviados,, turvo o esp\u00edrito, o passo vacilante, e transp\u00f4s a custo a soleira daquela porta que se lhe ia fechar para sempre.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXIV \/ HOJE<\/h3>\n<p>DEZ ANOS volveram sobre os acontecimentos deste livro, longos e enfastiados para uns, ligeiros e felizes para outros, que \u00e9 a lei uniforme desta mofina sociedade humana.<\/p>\n<p>Ligeiros e felizes foram eles para Raquel e Meneses, que eu tenho a honra de apresentar ao leitor, casados, e amantes ainda hoje. A piedade os uniu, a uni\u00e3o os fez amados e venturosos.<\/p>\n<p>A pouco e pouco, o primeiro amor de Raquel se foi apagando, e o cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a n\u00e3o achou melhor convalescen\u00e7a que desposar o enfermeiro. Se lho dissessem no tempo em que ela adoecera por amor do m\u00e9dico, levantaria desdenhosamente os ombros, e com raz\u00e3o. Donde se colhe qu\u00e3o acertado \u00e9 aquele prov\u00e9rbio oriental que diz &#8211; que a noite vem pejada do dia seguinte. Qual fosse a aurora que a sua noite trazia no seio n\u00e3o o adivinhara Raquel, mas a sua atual opini\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o a podia haver mais bela em toda a escala do tempo.<\/p>\n<p>O coronel e D. Matilde, com poucos meses de intervalo, foram continuar na eternidade a doce uni\u00e3o que os distinguira neste mundo.<\/p>\n<p>L\u00edvia entra serenamente pelo outono da vida. N\u00e3o esqueceu at\u00e9 hoje o escolhido de seu cora\u00e7\u00e3o, e \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que volvem os anos, espiritualiza e santifica a mem\u00f3ria do passado. Os erros de F\u00e9lix est\u00e3o esquecidos; o tra\u00e7o luminoso, de que ela lhe falara na \u00faltima entrevista, foi s\u00f3 o que lhe ficou.<\/p>\n<p>No tempo em que os mosteiros andavam nos romances, &#8211; como ref\u00fagio dos her\u00f3is, pelo menos, &#8211; a vi\u00fava acabaria os seus dias no claustro. A solid\u00e3o da cela seria o remate natural da vida, e como a olhos profanos n\u00e3o seria dado devassar o sagrado recinto, l\u00e1 a deixa r\u00edamos sozinha e quieta, aprendendo a amar a Deus e a esquecer os homens.<\/p>\n<p>Mas o romance \u00e9 secular, e os her\u00f3is que precisam de solid\u00e3o s\u00e3o obrigados a busc\u00e1-la no meio do tumulto. L\u00edvia soube isolar-se na sociedade. Ningu\u00e9m mais a viu no teatro, na rua, ou em reuni\u00f5es. Suas visitas s\u00e3o poucas e \u00edntimas. Dos que a conheceram outrora, muitos a esqueceram mais tarde; alguns a desconheceriam agora.<\/p>\n<p>Talvez o tempo lhe respeitasse a beleza, a n\u00e3o ser a cat\u00e1strofe que lhe enlutou a vida. J\u00e1 na meiga e serena fisionomia v\u00e3o apontando sinais de decad\u00eancia pr\u00f3xima. Os poucos que lhe freq\u00fcentam a casa n\u00e3o reparam nisso, porque a alma n\u00e3o perdeu o encanto, e \u00e9 ainda boje a mesma feiticeira am\u00e1vel de outro tempo. Ela, sim, ela v\u00ea que a flor inclina o colo, e que n\u00e3o tarda o vento da noite a dispers\u00e1-la no ch\u00e3o. Mas do mesmo modo que a beleza lhe n\u00e3o acordara vaidades, assim a decad\u00eancia lhe n\u00e3o inspira terror.<\/p>\n<p>Para consolo e companhia de sua velhice tem ela o filho, em cuja educa\u00e7\u00e3o concentra todos os esfor\u00e7os. Lu\u00eds possui as gra\u00e7as da m\u00e3e, apenas modificadas por uns toques varonis. Tem s\u00f3 quinze anos; mas como herdou a \u00edndole austera da vi\u00fava, e pouco, muito pouco, da viveza de imagina\u00e7\u00e3o, parece menos um adolescente que um homem.<\/p>\n<p>F\u00e9lix \u00e9 que n\u00e3o iria parar no claustro. A dolorosa impress\u00e3o dos acontecimentos a que o leitor assistiu, se profundamente o abateu, rapidamente se lhe apagou. O amor extinguiu-se como l\u00e2mpada a que faltou \u00f3leo. Era a conviv\u00eancia da mo\u00e7a que lhe nutria a chama. Quando ela desapareceu, a chama exausta expirou.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 isto. A sagacidade de L\u00edvia adivinhara as prova\u00e7\u00f5es que lhe daria o casamento. Quando de todo se lhe calou o cora\u00e7\u00e3o, F\u00e9lix confessou ingenuamente a si pr\u00f3prio que o desenlace de seus amores, por mais que o mortificasse outrora, foi ainda assim a solu\u00e7\u00e3o mais razo\u00e1vel. O amor do m\u00e9dico teve d\u00favidas p\u00f3stumas. A veracidade da carta que impedira o casamento, com o andar dos anos, n\u00e3o s\u00f3 lhe pareceu poss\u00edvel, mas at\u00e9 prov\u00e1vel. Meneses disse-lhe um dia ter a prova cabal de que Lu\u00eds Batista fora o autor da carta; F\u00e9lix n\u00e3o recusou o testemunho nem lhe pediu a prova. O que ele interiormente pensava era que, suprimida a vilania de Lu\u00eds Batista, n\u00e3o estava exclu\u00edda a verossimilhan\u00e7a do fato, e bastava ela para lhe dar raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida solit\u00e1ria e austera da vi\u00fava n\u00e3o p\u00f4de evitar o esp\u00edrito suspeitoso de F\u00e9lix. Creu nela a princ\u00edpio. Algum tempo depois duvidou de que fosse puramente um ref\u00fagio; acreditou que seria antes uma dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dispondo de todos os meios que o podiam fazer venturoso, segundo a sociedade. F\u00e9lix \u00e9 essencialmente infeliz. A natureza o p\u00f4s nessa classe de homens pusil\u00e2nimes e vision\u00e1rios, a quem cabe a reflex\u00e3o do poeta: &#8220;perdem o bem pelo receio de o buscar&#8221;. N\u00e3o se contentando com a felicidade exterior que o rodeia, quer haver essa outra das afei\u00e7\u00f5es \u00edntimas, dur\u00e1veis e consoladoras. N\u00e3o a h\u00e1 de alcan\u00e7ar nunca, porque o seu cora\u00e7\u00e3o, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confian\u00e7a e a mem\u00f3ria das ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>FIM DE &#8220;RESSURREI\u00c7\u00c3O&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ NO DIA DE ANO-BOM NAQUELE DIA, &#8211; j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o dez anos! &#8211; o Dr. F\u00e9lix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol. 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