{"id":120531,"date":"2017-04-26T19:46:51","date_gmt":"2017-04-26T21:46:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120531"},"modified":"2017-04-26T19:46:51","modified_gmt":"2017-04-26T21:46:51","slug":"os-trabalhadores-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-trabalhadores-do-mar","title":{"rendered":"Os Trabalhadores do Mar"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>De Victor Hugo e tradu\u00e7\u00e3o de Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A religi\u00e3o, a sociedade, a natureza: tais s\u00e3o as tr\u00eas lutas do homem. Estas tr\u00eas lutas s\u00e3o ao mesmo tempo as suas tr\u00eas necessidades; precisa crer, da\u00ed o templo; precisa criar, da\u00ed a cidade; precisa viver, da\u00ed a charrua e o navio. Mas h\u00e1 tr\u00eas guerras nestas tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es. Sai de todas a misteriosa dificuldade da vida. O homem tem de lutar com o obst\u00e1culo sob a forma supersti\u00e7\u00e3o, sob a forma reconceito e sob a forma elemento. Tr\u00edplice ananke pesa sobre n\u00f3s, o ananke dos dogmas, o ananke[1] das leis, o ananke das coisas. Na Notre-Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miser\u00e1veis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro. A estas tr\u00eas fatalidades que envolvem o homem, junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p><b>Notas: <\/b>1 <b>ananke<\/b> = fatalidade em grego<\/p>\n<h2>Dedicat\u00f3ria<\/h2>\n<p>Dedico Este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha Normandia onde vive o nobre e pequeno povo do mar, \u00e0 ilha de Guernesey, severa e branda, meu atual asilo, meu prov\u00e1vel t\u00famulo.<\/p>\n<p>Victor Hugo<\/p>\n<p>Hauteville-House, mar\u00e7o de 1866.<\/p>\n<h2>Primeira Parte: O Senhor Clubin<\/h2>\n<h2>Livro Primeiro:Elementos de uma m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<h5>Cap\u00edtulo I \u2014 Palavra escrita em uma p\u00e1gina branca<\/h5>\n<p>O Christmas (Natal) de 1822&#8230; foi not\u00e1vel em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que h\u00e1 neve \u00e9 memor\u00e1vel; a neve \u00e9 um acontecimento.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um len\u00e7ol branco: nevara desde a meia-noite at\u00e9 o romper do dia.<\/p>\n<p>Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como n\u00e3o era ainda ocasi\u00e3o de os anglicanos irem \u00e0 Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos \u00e0 Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tr\u00eas viandantes, um menino, um homem e uma mulher.<\/p>\n<p>Estes tr\u00eas viandantes, caminhando separados uns dos outros, n\u00e3o tinham visivelmente rela\u00e7\u00e3o alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atr\u00e1s da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.<\/p>\n<p>Era ele mo\u00e7o ainda e parecia ser oper\u00e1rio ou marinheiro. Vestia as roupas ordin\u00e1rias, isto \u00e9, uma grossa camisa de pano escuro e uma cal\u00e7a de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, n\u00e3o iria \u00e0 igreja. Os grosso sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de pris\u00e3o que ao p\u00e9 de um homem.<\/p>\n<p>A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir \u00e0 igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-derosa, e, se n\u00e3o fossem as meias vermelhas, tom\u00e1-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembara\u00e7o e viveza; e pelo andar, que mostrava n\u00e3o lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era mo\u00e7a. Tinha aquela gra\u00e7a fugitiva que indica a mais delicada transi\u00e7\u00e3o, a adolesc\u00eancia, a mistura dos dois crep\u00fasculos, o princ\u00edpio de uma mulher e o fim de uma menina.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o reparava nela.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o \u00e2ngulo de uma horta r\u00fastica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a mo\u00e7a, e esse movimento chamou a aten\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou v\u00ea-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e p\u00f4s-se a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu D\u00e9ruchette, linda mocinha do lugar. Mas n\u00e3o sentia necessidade alguma de apressar o passo.<\/p>\n<p>Alguns instantes depois estava junto \u00e0 moita de azinheiras no \u00e2ngulo da horta. J\u00e1 n\u00e3o pensava na passageira, e \u00e9 prov\u00e1vel que, se nessa ocasi\u00e3o pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho.<\/p>\n<p>Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos a\u00ed estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.<\/p>\n<p>Era este o nome dele.<\/p>\n<p>Chamava-se Gilliatt.<\/p>\n<p>Ficou por muito tempo im\u00f3vel, contemplando o nome, os pezinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo II \u2014 O tutu da rua<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt residia na par\u00f3quia de Saint-Sampson, onde n\u00e3o era estimado, e havia raz\u00f5es para isso.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, morava em uma casa mal-assombrada.<\/p>\n<p>Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e at\u00e9 na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, v\u00ea-se uma casa cuja entrada est\u00e1 obstru\u00edda. O azevinho cresce \u00e0 porta, as janelas do r\u00e9s do ch\u00e3o est\u00e3o fechadas por feios emplastros de t\u00e1buas pregadas; as dos andares superiores est\u00e3o fechadas e abertas ao mesmo tempo: h\u00e1 ferrolhos, mas n\u00e3o h\u00e1 vidros. No p\u00e1tio, se o h\u00e1, alastra-se a erva e caem os muros; se h\u00e1 jardim, nascem a urtiga, o espinheiro, a cicuta; raros insetos esvoa\u00e7am. Racham-se as chamin\u00e9s, o teto se abate; o que se v\u00ea dos quartos est\u00e1 arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cai o papel das paredes. Podem-se estudar a\u00ed os antigos gostos do papel pintado, os grifos do Imp\u00e9rio, as sanefas em forma de crescente do Diret\u00f3rio, os bala\u00fastres e cipos de Luis XVI. A espessura das teias de aranha, cheias de moscas, indica a profunda tranq\u00fcilidade em que vivem aqueles insetos. Algumas vezes v\u00ea-se um p\u00facaro quebrado sobre uma t\u00e1bua.<\/p>\n<p>\u00c9 uma casa mal-assombrada. O diabo aparece l\u00e1 durante a noite.<\/p>\n<p>A casa, como o homem, pode tornar-se cad\u00e1ver; basta que uma supersti\u00e7\u00e3o a mate. Ent\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Essas casas mortas n\u00e3o s\u00e3o raras nas ilhas da Mancha.<\/p>\n<p>As popula\u00e7\u00f5es campesinas e mar\u00edtimas n\u00e3o vivem tranq\u00fcilas a respeito do diabo. As da Mancha, arquip\u00e9lago ingl\u00eas e litoral franc\u00eas, tem a respeito dele no\u00e7\u00f5es muito precisas. O diabo possui delegados por todo o mundo. \u00c9 certo que Belph\u00e9gor \u00e9 embaixador do inferno na Fran\u00e7a, Hutgin na It\u00e1lia, Belial na Turquia, Thamuz na Espanha, Martinet na Su\u00ed\u00e7a e Mammon na Inglaterra. Satan\u00e1s \u00e9 um imperador, como um outro qualquer. Satan\u00e1s C\u00e9sar. A casa dele \u00e9 muito bem servida: Dagon \u00e9 o saquet\u00e1rio; Succor Benoth, chefe dos eunucos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, diretor de teatro; Verdelet, gr\u00e3o-mestre de cerim\u00f4nias e Nybbas, bobo.<\/p>\n<p>Wierus, homem de ci\u00eancia, bom estrig\u00f3logo e demon\u00f3grafo distinto, chama Nybbas &#8211; o grande parodista.<\/p>\n<p>Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que S\u00e3o Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos afirmavam t\u00ea-lo visto n\u00e3o poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os mar\u00edtimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, at\u00e9 que um dia dissipou-se a f\u00e1bula e esclareceu-se a verdade. Descobriu-se e sabe-se hoje que quem habita aquele rochedo n\u00e3o \u00e9 um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos s\u00e9culos teve a mal\u00edcia de fazer-se passar por S\u00e3o Maclou. Demais, a pr\u00f3pria Igreja cai em tais enganos. Os diabos Raguhel, Oribel. e Tobiel foram santos, at\u00e9 que em 745 o Papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fora. Para fazer tais expuls\u00f5es, que s\u00e3o muito \u00fateis, \u00e9 necess\u00e1rio ser muito conhecedor de diabos.<\/p>\n<p>Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao s\u00e9culo passado, que a popula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica do arquip\u00e9lago normando estivera outrora, bem a seu pesar, mais em comunica\u00e7\u00e3o com o diabo do que a popula\u00e7\u00e3o huguenote. Ignoramos a raz\u00e3o, mas a verdade \u00e9 que a minoria cat\u00f3lica andou outrora muito incomodada por ele.<\/p>\n<p>Afei\u00e7oara-se aos cat\u00f3licos e procurava freq\u00fcent\u00e1-los, o que leva a crer que o diabo \u00e9 antes cat\u00f3lico que protestante.<\/p>\n<p>Uma de suas mais insuport\u00e1veis liberdades era visitar \u00e0 noite os leitos conjugais cat\u00f3licos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equ\u00edvocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. N\u00e3o \u00e9 inveross\u00edmil. \u00c9 caso perfeitamente conhecido e descrito nos formul\u00e1rios de exorcismo sob o t\u00edtulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.<\/p>\n<p>O diabo fez viol\u00eancias destas especialmente em Saint-H\u00e9lier, em fins do s\u00e9culo passado: \u00e9 prov\u00e1vel que para puni\u00e7\u00e3o dos crimes da revolu\u00e7\u00e3o. As conseq\u00fc\u00eancias dos excessos revolucion\u00e1rios s\u00e3o incalcul\u00e1veis. Fosse como fosse, essa apari\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do dem\u00f4nio durante a noite, quando reina a escurid\u00e3o e todos dormem, inquietava muitas mulheres ortodoxas.<\/p>\n<p>Dar nascimento a um Voltaire n\u00e3o \u00e9 coisa agrad\u00e1vel. Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o q\u00fciproqu\u00f3.<\/p>\n<p>O confessor respondeu: &#8211; Para saber se est\u00e1 com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabe\u00e7a e, se encontrar pontas, pode estar certa. &#8211; De que? &#8211; perguntou a mulher.<\/p>\n<p>A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal-assombrada e j\u00e1 n\u00e3o era; portanto, tornava-se mais suspeita; \u00e9 sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de n\u00e3o voltar, salvo o caso de ser chamado, como m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Chamava-se a casa O Tutu. da Rua. Era situada na ponta de uma l\u00edngua de terra, ou antes, de rochedo que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sozinha nessa ponta, quase fora da ilha, tendo apenas a terra suficiente para um pequeno jardim, \u00e0s vezes inundado por ocasi\u00e3o das mar\u00e9s altas.<\/p>\n<p>Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis h\u00e1 uma grande colina, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o Castelo do Vale ou do Arcanjo, de sorte que de Saint-Sampson n\u00e3o se via O Tutu da Rua.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a prociss\u00e3o em certas par\u00f3quias, apesar de vivermos no s\u00e9culo XIX. Praticam a\u00e7\u00f5es verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem ervas \u00e0 meia-noite. Olham de trav\u00e9s para o gado. Consultam-nos; eles mandam buscar em garrafas A \u00e1gua dos doentes, e dizem em voz baixa: a \u00e1gua parece bem triste. Afirmou um feiticeiro, em mar\u00e7o de 1857, que na \u00e1gua de um doente havia sete diabos. S\u00e3o temidos e tem\u00edveis. H\u00e1 pouco tempo um deles enfeiti\u00e7ou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma por\u00e7\u00e3o de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma t\u00e1bua, tr\u00eas garrafas com um B em cada uma. Estes fatos monstruosos s\u00e3o conhecidos.<\/p>\n<p>Alguns feiticeiros s\u00e3o complacentes e, por 2 ou 3 guin\u00e9us, incumbem-se de sofrer as nossas mol\u00e9stias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz o doente: E esta! j\u00e1 estou bom! Outros curam todas as mol\u00e9stias amarrando um len\u00e7o ao redor do corpo do doente. \u00c9 um rem\u00e9dio t\u00e3o simples que admira n\u00e3o se ter ainda ningu\u00e9m lembrado dele.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo passado o tribunal real de &#8211; Guernesey colocava-os sobre uma por\u00e7\u00e3o de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condena-os a oito semanas de pris\u00e3o, quatro a p\u00e3o e \u00e1gua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenoe.<\/p>\n<p>A \u00faltima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo &#8211; teatro do espet\u00e1culo a pra\u00e7a de Bordage, que, de 1565 a 1700, viu queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a Bordage prestou servi\u00e7os \u00e0 sociedade e \u00e0 religi\u00e3o. Queimaram-se a\u00ed os her\u00e9ticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma m\u00e3e e duas filhas: a m\u00e3e chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava gr\u00e1vida e teve o sucesso sobre o braseiro.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica diz: Arrebentou-lhe o ventre. Saiu desse ventre um menino vivo; o rec\u00e9m-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, H\u00e9lier Grosselin, bom cat\u00f3lico, mandou atirar a crian\u00e7a ao fogo.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo III \u2014 Para tua mulher, quando te casares<\/b><\/p>\n<p>Contava-se na terra que uma mulher, tendo consigo um menino, viera em fins da revolu\u00e7\u00e3o habitar Guernesey. Era inglesa, ou talvez francesa, o nome dela, qualquer que fosse, a pron\u00fancia guernesiana e a ortografia dos camponeses transformaram em Gilliatt. Vivia sozinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho, outros, neto, e outros, coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Possu\u00eda um dinheirinho, de que vivia pobremente. Comprara um peda\u00e7o de terra na Sergent\u00e9e e outro em Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa Tutu 24 da Rua estava nesse tempo mal-assombrada.<\/p>\n<p>Havia mais de trinta anos que ningu\u00e9m. morava nela.<\/p>\n<p>Ca\u00eda aos peda\u00e7os. O jardim, sempre inundado pelo mar, j\u00e1 nada produzia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos ru\u00eddos noturnos e das luzes, a casa era particularmente aterradora por isto: se \u00e0 noite se deixava sobre a lareira um novelo de l\u00e3, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manh\u00e3 encontrava-se a sopa comida, o prato vazio e um par de luvas feito. P\u00f4s-se \u00e0 venda aquele pardieiro com o diabo que estava dentro, por algumas libras esterlinas. Aquela mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo diabo. Ou pela barateza.<\/p>\n<p>Fez mais do que compr\u00e1-lo, foi morar l\u00e1 com o filho, e desde ent\u00e3o a casa sossegou. Esta casa achou o que queria, dizia a gente da terra. Cessaram as apari\u00e7\u00f5es. J\u00e1 se n\u00e3o ouviam gritos ao romper do dia. J\u00e1 n\u00e3o havia outra luz al\u00e9m do sebo acendido \u00e0 noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale a tocha do diabo.<\/p>\n<p>Esta explica\u00e7\u00e3o satisfez o p\u00fablico.<\/p>\n<p>A mulher utilizava o quarto de jeira de terra que possu\u00eda. Tinha uma boa vaca, de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. Vendia, como qualquer outra pessoa, ervas, cebolas e favas. N\u00e3o costumava ir ao mercado vender a sua colheita; mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot mostra que ele vendeu para ela, uma vez, 12 alqueires de batatas chamadas de tr\u00eas meses, das mais tempor\u00e3s. Fizeram-se na casa apenas os reparos necess\u00e1rios para se poder habitar nela. S\u00f3 chovia nos quartos quando fazia muito mau tempo. Compunha-se de dois pavimentos, um r\u00e9s-de-ch\u00e3o e um celeiro. No t\u00e9rreo havia tr\u00eas salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celeiro Por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a ler ao filho. Nunca ia \u00e0 igreja, e isto, depois de muito considerado, serviu para que a declarassem francesa. N\u00e3o ir aparte alguma \u00e9 coisa grave.<\/p>\n<p>Em suma, era gente que nada inculcava.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que fosse francesa. Os vulc\u00f5es arrojam pedras, as revolu\u00e7\u00f5es homens. Espalham-se fam\u00edlias a grandes dist\u00e2ncias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos dispersos \u00e0s migalhas; cai gente das nuvens, uns na Alemanha, outros na Inglaterra, outros na Am\u00e9rica. Pasmam os naturais dos pa\u00edses. Donde vem estes desconhecidos? Foi aquele Ves\u00favio, que fumega al\u00e9m, que os expeliu de si. D\u00e3o-se nomes a esses aerolitos, a esses indiv\u00edduos expulsos e perdidos, a esses eliminados da sorte: chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando eles v\u00e3o embora. Algumas vezes s\u00e3o entes absolutamente inofensivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos que os proscreveram, n\u00e3o tendo rancores nem c\u00f3lera, proj\u00e9teis contra a vontade, espantad\u00edssimos de o serem.<\/p>\n<p>Enra\u00edzam-se como podem. N\u00e3o fazem mal a ningu\u00e9m e n\u00e3o compreendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre moita de ervas atirada aos ares pela explos\u00e3o de uma mina. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mais do que nenhuma explos\u00e3o, fez desses jatos long\u00ednquos.<\/p>\n<p>A mulher, que em Guernesey era conhecida por Gilliatt, foi talvez aquela moita de erva.<\/p>\n<p>Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos s\u00f3s; todos fugiam deles, mas eles bastavam-se a si pr\u00f3prios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das f\u00f3rmulas que lhes aplicou a benevol\u00eancia da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e ent\u00e3o, devendo ca\u00edrem sempre as velhas crostas da vida, a m\u00e3e veio a falecer. Constava a heran\u00e7a das terras de Sergent\u00e9e e da Roque- Crespel, da casa mal-assombrada, e mais, diz o invent\u00e1rio oficial, de 100 guin\u00e9us de ouro, dentro de um p\u00e9 de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utens\u00edlios necess\u00e1rios. Havia em cima de uma t\u00e1bua uns poucos de livros e, a um canto, uma canastra, que nada tinha de misteriosa, e que devia ser aberta na ocasi\u00e3o do invent\u00e1rio. A canastra era de couro ruivo, cheia de arabescos de pregos de cobre e estrelas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de excelente linho de Dunquerque, camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel escrito pela finada: Para tua mulher, quando te casares.<\/p>\n<p>A morte da m\u00e3e acabrunhou o filho. Era r\u00fastico, tornou-se feroz.<\/p>\n<p>Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 duas criaturas, a vida \u00e9 poss\u00edvel. Havendo uma s\u00f3, parece que nem se pode arrast\u00e1-la. Renuncia-se a ela.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever \u00e9 uma s\u00e9rie de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na \u00faltima. Mas \u00e9 um consentimento que sangra.<\/p>\n<p>Gilliatt era mo\u00e7o, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do cora\u00e7\u00e3o tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se \u00e0 natureza em redor dele, tornou-se uma esp\u00e9cie de encanto, atraiu-o para perto das coisas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais aquela alma e a solid\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo IV \u2014 Impopularidade<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1 o dissemos. Gilliatt n\u00e3o era estimado na par\u00f3quia. Antipatia natural. Sobravam motivos. O primeiro, acabamos de explic\u00e1-lo, era a casa em que morava. Depois a origem dele. Quem era aquela mulher? E este menino? A gente n\u00e3o gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de oper\u00e1rio, tendo ali\u00e1s com que viver, embora n\u00e3o fosse rico. Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e donde colhia batatas, apesar dos ventos de equin\u00f3cio. Depois, os alfarr\u00e1bios que ele lia.<\/p>\n<p>Outras raz\u00f5es, ainda.<\/p>\n<p>Por que motivo vivia solit\u00e1rio? A casa mal-assombrada era uma esp\u00e9cie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo, era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilizassem pela solid\u00e3o em que o deixavam.<\/p>\n<p>Nunca ia \u00e0 Igreja. Saia muitas vezes \u00e0 noite. Falava aos feiticeiros.<\/p>\n<p>Uma vez viram-no sentado sobre a relva com ar espantado.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentava o d\u00f3lmen de Ancresse e \u00e0s pedras fat\u00eddicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quase certeza de terem-no visto cumprimentar polidamente a Rocha que Canta. Comprava todos os p\u00e1ssaros que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para n\u00e3o passar por l\u00e1. Pescava muitas vezes e sempre apanhava peixe.<\/p>\n<p>Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bagpipe (gaita-de-foles), que comprara a uns soldados escoceses, ao passarem por Guernesey, e tocava nele sobre os rochedos, \u00e0 beira do mar, ao cair da noite. Gesticulava como um semeador. Que vir\u00e1 a ser uma terra com um homem destes?<\/p>\n<p>Quanto aos livros que haviam pertencido \u00e0 mulher finada, esses eram assustadores. Quando o Reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encomendar a mulher, leu no lombo desses livros os t\u00edtulos seguintes: Dicion\u00e1rio de Rosier, C\u00e2ndido, por Voltaire; Aviso ao Povo acerca da Sua Sat\u00edde, por Tissot. Dissera um fidalgo franc\u00eas emigrado, retirado em Saint-Sampson, que aquele Tissot devia ser o que carregou a cabe\u00e7a da Princesa de Lamballe.<\/p>\n<p>O reverendo notou, num dos livros, este t\u00edtulo verdadeiramente extravagante e amea\u00e7ador: De Ruibarbaro.<\/p>\n<p>Cumpre observar que, sendo a obra escrita em latim, como indica o t\u00edtulo, era duvidoso que Gilliatt, que n\u00e3o sabia latim, lesse aquela obra.<\/p>\n<p>Mas s\u00e3o exatamente os livros que a gente n\u00e3o l\u00ea os que mais condenam. A Inquisi\u00e7\u00e3o da Espanha julgou esse caso, e po-lo fora de d\u00favida.<\/p>\n<p>Demais, o livro era o tratado do Doutor Tilingius Sobre o Ruibarbo, publicado na Alemanha em 1679.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia certeza de que Gilliatt n\u00e3o fizesse bruxarias, filtros e sortil\u00e9gios. Tinha frascos em casa.<\/p>\n<p>Por que motivo ia ele passear, \u00e0s vezes at\u00e9 a meia-noite, nos penhascos da costa? Era evidentemente para conversar com a gente maligna que anda \u00e0 noite nas praias no meio das exala\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ajudou ele uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carro\u00e7a.<\/p>\n<p>Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.<\/p>\n<p>Tendo-se feito um recenseamento na ilha, perguntou-se-lhe a profiss\u00e3o, e ele respondeu: Pescador, quando h\u00e1 peixe. Vejam l\u00e1 se a gente da ilha podia gostar de tais respostas.<\/p>\n<p>Pobreza e riqueza s\u00e3o relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e, comparado aos que n\u00e3o possuem coisa nenhuma, n\u00e3o era pobre.<\/p>\n<p>Um dia, para experiment\u00e1-lo, e talvez para inculcar-se, porque h\u00e1 mulheres que estariam prontas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a Gilliatt: Quando se casa?<\/p>\n<p>A resposta dele foi: Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta.<\/p>\n<p>A Rocha que Canta era uma grande pedra colocada a pique numa horta r\u00fastica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfian\u00e7a. N\u00e3o se sabe o que ela faz ali. Ouve-se cantar um galo invis\u00edvel, coisa extremamente desagrad\u00e1vel. Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.<\/p>\n<p>De noite, quando troveja, se aparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, s\u00e3o os tais fantasmas. H\u00e1 uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas numa encruzilhada, essa mulher, vendo um carroceiro que n\u00e3o sabia por onde seguir, gritou-lhe: Pergunte-lhes o caminho; \u00e9 gente. ben\u00e9fica, e bem educada, com quem se pode conversar- Aquela mulher \u00e9 com certeza feiticeira.<\/p>\n<p>O judicioso e s\u00e1bio Rei Jacques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa esp\u00e9cie, provava o caldo e, pelo gosto, dizia: \u00c9 feiticeira, ou: N\u00e3o \u00e9 feiticeira.<\/p>\n<p>\u00c9 para lamentar que os reis hoje n\u00e3o tenham daqueles talentos, que faziam compreender a utilidade da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt, n\u00e3o sem motivos s\u00e9rios, tinha faina de feiticeiro.<\/p>\n<p>Num temporal, \u00e0 meia-noite, estando Gilliatt sozinho, dentro de uma lancha, do lado da Someilleuse, ouviram-no perguntar: &#8211; H\u00e1 lugar para passar?<\/p>\n<p>Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos: &#8211; Pois n\u00e3o! \u00e2nimo.<\/p>\n<p>A quem falaria ele sen\u00e3o a algu\u00e9m que lhe respondia? Parece-nos que isto \u00e9 uma prova.<\/p>\n<p>Outra noite de temporal, t\u00e3o negro que nada se via pertinho da Catiau-Roque, que \u00e9 uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras v\u00e3o dan\u00e7ar \u00e0 sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terr\u00edvel di\u00e1logo: &#8211; Como est\u00e1 V\u00e9sin Brovard? (Era um pedreiro que tinha ca\u00eddo de um telhado.<\/p>\n<p>&#8211; Vai sarando.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras! pois caiu de um lugar t\u00e3o alto como aquela estaca.<\/p>\n<p>Admira n\u00e3o ficar despeda\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor do que hoje.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto! n\u00e3o haver\u00e1 muito peixe no mercado.<\/p>\n<p>&#8211; O vento \u00e9 rijo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se podem deitar as redes.<\/p>\n<p>&#8211; Como vai a Catarina?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 embruxada.<\/p>\n<p>A Catarina era evidentemente alguma feiticeira.<\/p>\n<p>Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ningu\u00e9m duvidava disso.<\/p>\n<p>Viam-no, algumas vezes, espalhar pelo ch\u00e3o a \u00e1gua de um p\u00facaro.<\/p>\n<p>Ora, a \u00e1gua espalhada pelo ch\u00e3o tra\u00e7a a forma dos diabos.<\/p>\n<p>Existem na estrada de Saint-Sampson tr\u00eas pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e, se n\u00e3o foi cruz, era forca. Aquelas pedras s\u00e3o malignas.<\/p>\n<p>Muita gente esperta, e digna de cr\u00e9dito, afirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, n\u00e3o h\u00e1 sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquele sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para falar a Gilliatt. A conversa era amig\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos estes fatos estavam averiguados; e a prova disso \u00e9 que as tr\u00eas pedras l\u00e1 est\u00e3o. Quem duvidar pode ir v\u00ea-las, e mesmo a alguma dist\u00e2ncia h\u00e1 uma casa em cuja esquina l\u00ea-se isto: Mercador de gato morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; \u00e9 pronto na paga e na aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 de m\u00e1 f\u00e9 se pode contestar a exist\u00eancia daquelas pedras e daquela casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.<\/p>\n<p>S\u00f3 os ignorantes n\u00e3o sabem que o maior perigo dos mares da Mancha \u00e9 o que se chama Rei dos Auxcriniers. N\u00e3o h\u00e1 personagem mar\u00edtimo mais tem\u00edvel. Quem o v\u00ea naufraga logo entre uma e outra Saint-Michel. \u00c9 pequeno e surdo, por ser an\u00e3o e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar est\u00e3o. Conhece a fundo o cemit\u00e9rio Oceano. Cabe\u00e7a larga embaixo e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no cr\u00e2nio, pernas curtas, bra\u00e7os compridos, barbatanas em vez de p\u00e9s, garras em vez de m\u00e3os, cara larga e verde, tal \u00e9 aquele rei.<\/p>\n<p>As garras s\u00e3o achatadas, as barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe com cara de homem e forma de espectro. Para vence-lo \u00e9 preciso exorcism\u00e1-lo ou pesc\u00e1-lo. Fora disso, \u00e9 sinistro. V\u00ea-lo \u00e9 perigoso. Descobrem-se acima das ondas e do marulho, atrav\u00e9s da espessura do nevoeiro, umas fei\u00e7\u00f5es de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca imensa e sem dentes, bei\u00e7os esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes.<\/p>\n<p>O rei torna-se vermelho quando o rel\u00e2mpago \u00e9 l\u00edvido, descorado quando o rel\u00e2mpago \u00e9 vermelho. Tem barba gotejante e r\u00edgida, cortada em quadro, que lhe cai sobre uma membrana em forma de mant\u00e9u de peregrino; o mant\u00e9u \u00e9 adornado de catorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas s\u00e3o extraordin\u00e1rias para os que conhecem conchas. O rei s\u00f3 \u00e9 vis\u00edvel no mar violento.<\/p>\n<p>E o dan\u00e7arino l\u00fagubre da tempestade. V\u00ea-se a forma dele esbo\u00e7ada no nevoeiro e na chuva. O umbigo \u00e9 hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris \u00e0 semelhan\u00e7a de colete. O rei levanta-se de p\u00e9, sobre as vagas que irrompem \u00e0 press\u00e3o dos ventos e v\u00e3o rolar-se como os cavacos que saem do rabote do marceneiro.<\/p>\n<p>Conserva-se todo fora da espuma, e, quando avista ao longe os navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face iluminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Mau encontro esse.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Gilliatt era uma das preocupa\u00e7\u00f5es de Saint-Sampson, as \u00faltimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha declaravam que j\u00e1 n\u00e3o havia no mant\u00e9u mais de treze conchas.<\/p>\n<p>Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a algu\u00e9m? A quem seria? Ningu\u00e9m podia diz\u00ea-lo, todos se limitavam \u00e0s conjeturas. O que \u00e9 certo \u00e9 que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posi\u00e7\u00e3o, propriet\u00e1rio taxado em catorze bairros, estava pronto a jurar que vira uma vez, nas m\u00e3os de Gilliatt, uma concha muito esquisita.<\/p>\n<p>N\u00e3o raras vezes se ouviam os camp\u00f4nios conversarem entre si: &#8211; Vizinho, n\u00e3o \u00e9 verdade que este boi \u00e9 magn\u00edfico?<\/p>\n<p>&#8211; Inchado, vizinho.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Tem mais sebo do que carne.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras!<\/p>\n<p>&#8211; Estais certo de que Gilliatt n\u00e3o lhe p\u00f3s os olhos em cima?<\/p>\n<p>Gilliatt parava nos campos, ao p\u00e9 dos lavradores, e nos jardins, ao p\u00e9 dos jardineiros, e dizia-lhes palavras misteriosas:<\/p>\n<p>&#8211; Quando florescer a escabiosa, semeia o centeio.<\/p>\n<p>&#8211; O freixo enfolha, acaba-se a neve.<\/p>\n<p>&#8211; Solst\u00edcio de ver\u00e3o, cardo em flor.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o chover em junho, o trigo h\u00e1 de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.<\/p>\n<p>&#8211; A cerejeira est\u00e1 dando frutos, desconfia da lua cheia.<\/p>\n<p>&#8211; Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, h\u00e1 de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze rio segundo.<\/p>\n<p>&#8211; Vigia o teu vizinho com quem. andas em processo. Cautela com as espertezas. Porco que bebe leite quente estoura. Vaca que leva alho nos dentes n\u00e3o come.<\/p>\n<p>&#8211; O peixe est\u00e1 gerando, guarda-te das febres.<\/p>\n<p>&#8211; As r\u00e3s aparecem, semeia os mel\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; A meniona enflora, semeia a cevada.<\/p>\n<p>&#8211; A t\u00edlia enflora, ceifa os campos.<\/p>\n<p>&#8211; O choupo enflora, fecha as estufas.<\/p>\n<p>E, coisa terr\u00edvel, quem seguisse os seus conselhos ach\u00e1-lo-ia muito bons.<\/p>\n<p>Uma noite de junho, em que ele tocava o bagpipe, sobre os cabedelos da praia, do lado da Damie de Fontenelle n\u00e3o se pode pescar uma s\u00f3 cavala.<\/p>\n<p>Outra noite, vazando a mar\u00e9, aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal-assombrada, uma carreta cheia de sarga\u00e7o.<\/p>\n<p>Gilliatt receou naturalmente ser chamado \u00e0 justi\u00e7a, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma menina da vizinhan\u00e7a tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre -Port, trouxe de l\u00e1 um ung\u00fcento e o esfregou \u00e0 cabe\u00e7a da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi ele quem lhos deitou.<\/p>\n<p>Sabe toda a gente que h\u00e1 feiti\u00e7o para fazer criar piolhos na cabe\u00e7a dos outros.<\/p>\n<p>Dizia-se que Gilliatt olhava para os po\u00e7os, o que \u00e9 perigoso quando \u00e9 mau-olhado; e o caso \u00e9 que um dia, nos Arculons, a \u00e1gua de um po\u00e7o tornou-se doentia. A dona do po\u00e7o disse a Gilliatt: Veja esta \u00e1gua. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou: A \u00e1gua est\u00e1 grossa disse ele; \u00e9 exato. A boa mulher, que desconfiava, disse-lhe: Pois cure-a. Gilliatt perguntou-lhe se ela tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do po\u00e7o. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a \u00e1gua do po\u00e7o ficou boa.<\/p>\n<p>Ora, pensava a gente da terra, nenhum po\u00e7o fica insalubre, nem \u00e9 curado depois, sem motivo; a doen\u00e7a do po\u00e7o n\u00e3o \u00e9 natural; \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o acreditar que Gilliatt tenha engui\u00e7ado a \u00e1gua.<\/p>\n<p>De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em S\u00e3o Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.<\/p>\n<p>Nas aldeias, colhem-se os ind\u00edcios, comparam-se: o total faz a reputa\u00e7\u00e3o de um homem.<\/p>\n<p>Aconteceu um dia que Gilliatt foi surpreendido a deitar sangue pelo nariz. Coisa grave. Um patr\u00e3o de lancha, grande viajante, que fez quase a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, j\u00e1 toda a gente sabe como se haver com ele.<\/p>\n<p>Todavia, algumas pessoas de ju\u00edzo observaram que aquilo que caracteriza os feiticeiros em uma terra pode n\u00e3o caracteriz\u00e1-los em outra.<\/p>\n<p>Nos arredores de Saint-Michel, viu-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao p\u00e9 da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O fato foi atestado por um homem not\u00e1vel que pertenceu depois a uma comiss\u00e3o encarregada de fazer um novo livro de medidas.<\/p>\n<p>No Hamel, h\u00e1 mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manh\u00e3, umas andorinhas chamando por Gilliatt.<\/p>\n<p>A isto deve acrescentar-se que Gilliatt n\u00e3o era bom.<\/p>\n<p>Um dia um pobre homem batia num asno, que tinha empacado.<\/p>\n<p>Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal caiu. Gilliatt correu para levant\u00e1-lo, estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.<\/p>\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, vendo um rapaz descer de uma \u00e1rvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho do rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restitu\u00ed-lo ao seu lugar na \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Uns viandantes censuraram-no por isto: Gilliatt n\u00e3o fez mais do que apontar para o pai e a m\u00e3e dos passarinhos, que guinchavam por cima da \u00e1rvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos p\u00e1ssaros. \u00c9 um sinal este que faz conhecer geralmente os bruxos.<\/p>\n<p>Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio das costas. Trazem consigo grande por\u00e7\u00e3o de ovos azuis, amarelos e verdes, para armar com eles a frente das lareiras.<\/p>\n<p>Como os penedos est\u00e3o a pique, aconteceu-lhes \u00e0s vezes escorregarem, ca\u00edrem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de p\u00e1ssaros do mar.<\/p>\n<p>Gilliatt j\u00e1 n\u00e3o sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava a\u00ed molhos de feno, com chap\u00e9us velhos em cima e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os p\u00e1ssaros e, por conseq\u00fc\u00eancia, as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisava tanto para s\u00ea-lo<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo V \u2014 Outros pontos amb\u00edguos de Gilliatt<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o estava fixa a opini\u00e3o acerca de Gilliatt.<\/p>\n<p>Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.<\/p>\n<p>Quando uma mulher tem, do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o s\u00e9timo \u00e9 marcou. Mas, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que nenhuma filha venha interromper a s\u00e9rie dos rapazes.<\/p>\n<p>O marcou tem uma flor-de-lis impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrofulosos como aos reis da Fran\u00e7a. Na Fran\u00e7a h\u00e1 marcous em toda parte, especialmente na prov\u00edncia de Orl\u00e9ans. Cada aldeia do Gatinais tem o seu marcou.<\/p>\n<p>Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas chagas ou lhes fa\u00e7a tocar a flor-de-lis. O rem\u00e9dio \u00e9 eficaz, principalmente quando aplicado na noite de sexta-feira maior. H\u00e1 uma dezena de anos, o Marcou d&#8217;Ormes, no Gatinais, apelidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavalo e carruagem. Para por cobro aos seus milagres foi preciso intervir a pol\u00edcia. Tinha ele a flor-de-lis embaixo do peito esquerdo. Outros marcous tem-na em lugar diverso.<\/p>\n<p>H\u00e1 marcous em Jersey, em Aurigny e em Guernesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a Fran\u00e7a sobre o ducado da Normandia. A n\u00e3o ser assim, por que haveria ali a flor-de-lis?<\/p>\n<p>Como h\u00e1 tamb\u00e9m nas ilhas da Mancha muitos escrofulosos, os marcous s\u00e3o necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em um dia, estando Gilliatt a banhar-se no mar diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flor-de-lis. Interrogado a esse respeito, por \u00fanica resposta p\u00f4s-se a rir. Gilliatt ria \u00e0s vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Come\u00e7ou ent\u00e3o a banhar-se em lugares solit\u00e1rios e perigosos. Provavelmente \u00e0 noite, e em noites de luar; o que, h\u00e3o de convir, \u00e9 coisa um tanto suspeita.<\/p>\n<p>Os que se obstinavam em cre-lo filho do diabo (cambiou) enganavam-se, evidentemente. Deviam saber que s\u00f3 os h\u00e1 na Alemanha.<\/p>\n<p>Mas o Vale e Saint-Sampson eram h\u00e1 cinq\u00fcenta anos pa\u00edses ignorantes.<\/p>\n<p>Acreditar em Guernesey que algu\u00e9m \u00e9 filho do diabo, por for\u00e7a que h\u00e1 nisso exagera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho, era muito consultado.<\/p>\n<p>Os camp\u00f4nios, aterrorizados, iam conversar com ele acerca dos seus achaques. Aquele terror equivalia a meia confian\u00e7a, e no campo, quanto mais suspeito \u00e9 o m\u00e9dico, mais eficaz \u00e9 o rem\u00e9dio que ele d\u00e1. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lhos pedia, e n\u00e3o recebia dinheiro. Curava os panar\u00edcios com aplica\u00e7\u00f5es de ervas; o l\u00edquido de um dos seus frascos cortava a febre; o qu\u00edmico de Saint-Sampson, que chamar\u00edamos farmac\u00eautico na Fran\u00e7a, pensava que era uma decoc\u00e7\u00e3o de quina. Os menos ben\u00e9volos convinham em que Gilliatt era excelente diabo para os doentes, quando se tratava de seus rem\u00e9dios ordin\u00e1rios; mas, como marcou, n\u00e3o queria ouvir nada: se algum escrofuloso pedia-lhe para tocar a flor-de-lis, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, coisa rid\u00edcula em um feiticeiro. N\u00e3o sejas feiticeiro, mas, se o \u00e9s, faze o teu oficio.<\/p>\n<p>Havia uma ou duas exce\u00e7\u00f5es nesta antipatia universal. O Sr. Landoys do Clos-Land\u00e9s, era escriv\u00e3o da par\u00f3quia de Saint-Pierre-Port, encarregado das escrituras e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e \u00f3bitos. Jactava-se o escriv\u00e3o de descender do tesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.<\/p>\n<p>Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys afastou-se da praia, e quase se afogou; Gilliatt atirou-se \u00e0 \u00e1gua, afogou-se quase, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys n\u00e3o falou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia ele: Como hei de aborrecer um homem que n\u00e3o me faz mal, e at\u00e9 me prestou um servi\u00e7o? O escriv\u00e3o chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. N\u00e3o era homem de preconceitos. N\u00e3o acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.<\/p>\n<p>Tinha uma canoa, pescava nas horas de descanso para divertir-se, e nunca viu coisa alguma extraordin\u00e1ria, a n\u00e3o ser em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na \u00e1gua, e ainda assim n\u00e3o estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, a fim de afugentar os esp\u00edritos; Landoys zombava do saco, e n\u00e3o sabia o que havia dentro; mas sempre andava com ele, e sentia-se assim mais seguro.<\/p>\n<p>Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circunst\u00e2ncias atenuantes, algumas apar\u00eancias de qualidades, a sobriedade, a abstin\u00eancia do gim e do tabaco, e chegavam \u00e0s vezes a fazer dele este belo elogio: N\u00e3o bebe, n\u00e3o fuma, nem masca.<\/p>\n<p>Mas a sobriedade \u00e9 uma qualidade quando o indiv\u00edduo possui outras.<\/p>\n<p>Gilliatt inspirava a avers\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Em uma sexta-feira maior, \u00e0 meia-noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrofulosos da ilha, por inspira\u00e7\u00e3o, ou combina\u00e7\u00e3o, foram em massa \u00e0 casa mal-assombrada, e, com as m\u00e3os postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou.<\/p>\n<p>Reconheceu-se nisto a sua perversidade.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VI \u2014 A pan\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Tal era Gilliatt.<\/p>\n<p>As raparigas achavam-no feio. Gilliatt n\u00e3o era feio . Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do b\u00e1rbaro antigo. Quieto, parecia um D\u00e1cio da coluna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admir\u00e1vel forma ac\u00fastica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante.<\/p>\n<p>Ca\u00edam-lhe os dois cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar sa\u00eda-lhe firme de dentro da p\u00e1lpebra franca, posto que ele tivesse aquele piscar de olhos que os pescadores adquirem com a reverbera\u00e7\u00e3o das vagas. O riso era pueril e delicioso. N\u00e3o havia marfim mais alvo que os seus dentes.<\/p>\n<p>Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quase negro. N\u00e3o se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria m\u00e1s cara do vento e do mar.<\/p>\n<p>Puseram-lhe a alcunha de Fin\u00f3rio.<\/p>\n<p>Diz uma f\u00e1bula da \u00edndia: Um dia Brama perguntou \u00e0 For\u00e7a: Quem \u00e9 mais forte que tu? A For\u00e7a respondeu: \u00c9 a Ast\u00facia`. Diz um prov\u00e9rbio chin\u00eas: Quanto n\u00e3o poderia o le\u00e3o, se fosse macaco?<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o era nem le\u00e3o nem macaco; mas as coisas que ele fazia apoiavam o prov\u00e9rbio chin\u00eas e a f\u00e1bula indiana. De estatura comum e for\u00e7a ordin\u00e1ria, Gilliatt, t\u00e3o inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prod\u00edgios de atleta.<\/p>\n<p>Era um pouco ginasta; servia-se tanto da m\u00e3o direita como da esquerda.<\/p>\n<p>N\u00e3o ca\u00e7ava, pescava. Poupava os p\u00e1ssaros, n\u00e3o os peixes. Ai dos que s\u00e3o mudos.<\/p>\n<p>Era nadador excelente.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dois aspectos. \u00c0s vezes mostrava o ar espantado, de que falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Cald\u00e9ia teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava ver o mago.<\/p>\n<p>Em suma, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. \u00c9 prov\u00e1vel que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador.<\/p>\n<p>O pensador imp\u00f5e, o sonhador obedece. A solid\u00e3o domina os \u00e2nimos s\u00edmplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o esp\u00edrito de Gilliatt compunha-se, em partes quase iguais, de dois elementos, obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a ignor\u00e2ncia &#8211; enfermidade; fora dele, o mist\u00e9rio -imensidade.<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no arquip\u00e9lago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarca\u00e7\u00e3o que aparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canais mais dif\u00edceis, tomou-se, sem tirar lucro disso, e s\u00f3 por fantasia e satisfa\u00e7\u00e3o, um admir\u00e1vel homem do mar.<\/p>\n<p>Nasceu piloto. O verdadeiro piloto \u00e9 o marinheiro que navega mais no fundo que na superf\u00edcie. A vaga \u00e9 um problema exterior, continuamente complicado pela configura\u00e7\u00e3o submarina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e atrav\u00e9s dos arrecifes do arquip\u00e9lago normando, que ele tinha debaixo da ab\u00f3bada do cr\u00e2nio um mapa do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava tudo.<\/p>\n<p>Conhecia as balizas melhor do que os corvos-marinhos que l\u00e1 se v\u00e3o empoleirar. As diferen\u00e7as impercept\u00edveis. que distinguem as quatro balizas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de nevoeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o hesitava sobre a estaca de cabe\u00e7a oval, de Anfr\u00e9, nem sobre o chu\u00e7o tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de LonguePierre, e n\u00e3o havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no ch\u00e3o, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barb\u00e9es, com a baliza cauda de andorinha, de Moulinet.<br \/>\nMostrou singularmente a sua rara ci\u00eancia de mar\u00edtimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o era esta: ir s\u00f3 em uma embarca\u00e7\u00e3o de quatro velas; leva-la de Saint-Sampson \u00e0 ilha de Herin, distante 1 l\u00e9gua, e traze-la de novo de Herin a Saint-Sampson. Manobrar sozinho um barco de quatro velas, n\u00e3o h\u00e1 pescador que o n\u00e3o fa\u00e7a, e a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 grande; mas eis o que agravava o caso: primeiramente, a embarca\u00e7\u00e3o era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, \u00e0 moda de Roterd\u00e3, que os marinheiros do s\u00e9culo passado apelidavam pan\u00e7as holandesas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha constru\u00e7\u00e3o da Holanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se v\u00e3o abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda dificuldade era a volta de Herin, volta complicada por um pesado lastro de pedras.<\/p>\n<p>O pr\u00eamio da justa era a chalupa. De antem\u00e3o estava dada ao vencedor. A pan\u00e7a servira de barco-piloto; o piloto que navegara nela durante vinte anos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu n\u00e3o houve ningu\u00e9m que quisesse governar o barco e decidiram fazer dele um pr\u00eamio de regata. A pan\u00e7a, embora n\u00e3o tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista.<\/p>\n<p>Era mastreada na frente, o que aumentava a for\u00e7a de tra\u00e7\u00e3o do velame. Outra vantagem, o mastro n\u00e3o impedia a carga. Era uma concha s\u00f3lida; pesada, mas vasta, e suportando bem o mar. Houve empenho em disput\u00e1-la; a luta era rude, mas o pr\u00eamio era magn\u00edfico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum deles pode ir a Herm. O \u00faltimo que lutou era conhecido por ter passado a remos, com tempo mau, o terr\u00edvel redemoinho que h\u00e1 entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe ele a pan\u00e7a e disse: &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel. &#8211; Foi ent\u00e3o que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e reze ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprud\u00eancia, e sem larg\u00e1-la, o que lhe dava o dom\u00ednio da vela grande, deixando a escota rolar \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do vento sem descair, segurou com a m\u00e3o esquerda a cana do leme. Dentro de tr\u00eas quartos de hora estava em Herm. tr\u00eas horas depois, posto que soprasse ent\u00e3o um forte vento do sul, atravessando a barra, a pan\u00e7a, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, al\u00e9m do carregamento, um pequeno canh\u00e3o de bronze de Herm, com que \u00e0 gente da ilha salvava todos os anos, a 5 de novembro, em regozijo pela morte de Guy Fawkes.<\/p>\n<p>Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu h\u00e1 260 anos; foi uma grande satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canh\u00e3o na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.<\/p>\n<p>Vendo isto, Mess Lethierry exclamou: &#8211; Ora, aqui est\u00e1 um marinheiro atrevido!<\/p>\n<p>E estendeu a m\u00e3o a Gilliatt.<\/p>\n<p>Tornaremos a falar de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a foi entregue a Gilliatt.<\/p>\n<p>Esta aventura n\u00e3o lhe destruiu a alcunha de Fin\u00f3rio.<\/p>\n<p>Algumas pessoas declararam que a coisa n\u00e3o era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira silvestre.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m pode provar isso.<\/p>\n<p>Desde esse dia Gilliatt n\u00e3o teve outra embarca\u00e7\u00e3o. Naquela pesada chalupa \u00e9 que ele ia \u00e0 pesca. Amarrava-a no excelente ancoradourozinho que tinha s\u00f3 para seu uso, debaixo do muro da casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede \u00e0s costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras secas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Da\u00ed fazia-se ao mar.<\/p>\n<p>Pescava muito peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado \u00e0 chalupa. Ningu\u00e9m o viu nunca, mas toda a gente acreditava.<\/p>\n<p>N\u00e3o vendia, dava o peixe que lhe sobrava.<\/p>\n<p>Os pobres aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruxado. N\u00e3o se deve trapacear com o mar.<\/p>\n<p>Era pescador, mas n\u00e3o era s\u00f3 isso. Tinha aprendido, por instinto ou para distrair-se, tr\u00eas ou quatro of\u00edcios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e at\u00e9 um pouco mec\u00e2nico. Ningu\u00e9m consertava uma roda como ele. Fabricava, de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, n\u00e3o tendo a chalupa mais que uma \u00e2ncora, reze-lhe outra, ele s\u00f3. Excelente \u00e2ncora era essa; a argola tinha a for\u00e7a requerida, e Gilliatt, sem que ningu\u00e9m lho ensinasse, achou a dimens\u00e3o exata que devia ter o cepo da \u00e2ncora para que ela n\u00e3o voltasse.<\/p>\n<p>Substituiu com toda a paci\u00eancia os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim imposs\u00edvel a ferrugem.<\/p>\n<p>Deste modo aumentou muito as boas qualidades da pan\u00e7a. Aproveitava-se dela para ir de quando em quando passar um ou dois meses em alguma ilhota solit\u00e1ria como Chousey ou Casquets. Dizia-se ent\u00e3o: Olhem, Gilliatt est\u00e1 fora. Ningu\u00e9m se incomodava por isso.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VII \u2014 Casa embruxada, morador vision\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt era o homem do sonho. Vinham da\u00ed as suas aud\u00e1cias e as suas hesita\u00e7\u00f5es. Tinha id\u00e9ias propriamente suas.<\/p>\n<p>Havia talvez nele a liga\u00e7\u00e3o do alucinado e do iluminado. A alucina\u00e7\u00e3o entra na cabe\u00e7a de um camp\u00f4nio como Martin, do mesmo modo que na cabe\u00e7a de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao esp\u00edrito do homem. Rasga-te bruscamente a sombra, deixa ver o invis\u00edvel; depois fechasse. Tais vis\u00f5es s\u00e3o \u00e0s vezes transfiguradoras; de um condutor de camelos faz Maom\u00e9, de uma cabreira faz Joana d&#8217;Arc. A solid\u00e3o desprende uma certa quantidade de desvario sublime. \u00c9 o fumo da sar\u00e7a ardente. Resulta da\u00ed um misterioso estremecer de id\u00e9ias: o doutor dilata-se at\u00e9 o vidente, o poeta at\u00e9 o profeta; resulta Horeb, C\u00e9dron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Cast\u00e1lia, as revela\u00e7\u00f5es do m\u00eas Busion; resulta Pel\u00e9ia em Dodona, Femonoe em Delfos, Trofonio em Lebad\u00e9ia, Ezequiel no Kebar, Jeronimo na Tebaida. Na maior parte dos casos o estado vision\u00e1rio abate o homem, e o embrutece.<\/p>\n<p>O embrutecimento sagrado existe. O faquir carrega a sua vis\u00e3o, como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo de seu gabinete, o obi negro dialogando com o deus branco chamado Bossum, \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno diversamente produzido, segundo a for\u00e7a e a dimens\u00e3o de cada c\u00e9rebro. Lutero e Pascal s\u00e3o e ficam sendo grandes; o obi negro \u00e9 imbecil.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o era tanto, nem t\u00e3o pouco. Era um pensativo. Nada mais.<\/p>\n<p>Contemplava a natureza de um modo singular.<\/p>\n<p>Tinha visto algumas vezes, na \u00e1gua do mar, completamente l\u00edmpida, animais inesperados, de grandes dimens\u00f5es, de formas diversas, os quais, fora da \u00e1gua, assemelhavam-se a cristal mole, e, tornados \u00e0 \u00e1gua, confundiam-se com ela, pela identidade de transpar \u00eancia e de cor; disto conclu\u00eda ele que, se a \u00e1gua era habitada por transpar\u00eancias vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transpar\u00eancias igualmente vivas. Os p\u00e1ssaros n\u00e3o s\u00e3o os habitantes, s\u00e3o os anf\u00edbios do ar. Gilliatt n\u00e3o acreditava no ar deserto.<\/p>\n<p>Dizia ele: se o mar est\u00e1 cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera ser\u00e1 vazia? Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas criaturas n\u00e3o existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar ser\u00e3o talvez di\u00e1fanos, beneficio da provid\u00eancia criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz atrav\u00e9s da sua forma, e n\u00e3o fazendo sombra, ficam ignorados de n\u00f3s, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma por\u00e7\u00e3o de criaturas surpreendentes.<\/p>\n<p>E, acrescentava ele, na sua cisma, muitas coisas se explicariam.<\/p>\n<p>A cisma, que \u00e9 o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua pr\u00f3pria fronteira.<\/p>\n<p>O ar habitado por transpar\u00eancias vivas seria o come\u00e7o do Desconhecido; al\u00e9m abre-se a vasta porta do poss\u00edvel. Outros seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas a continua\u00e7\u00e3o oculta da natureza infinita. Gilliatt, no \u00f3cio laborioso que compunha a sua exist\u00eancia, era um observador estranho e fant\u00e1stico. Chegava a observar o sono. O sono est\u00e1 em contato com o poss\u00edvel, que tamb\u00e9m chamamos o inveross\u00edmil. O mundo noturno \u00e9 um mundo. A noite \u00e9 um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna- atmosf\u00e9rica de 15 l\u00e9guas de altura, chega \u00e0 noite, cai de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; ent\u00e3o, naquela cabe\u00e7a adormecida, menos do que se cr\u00ea, abrem- se outros olhos, aparece o Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira comunica\u00e7\u00e3o, ou porque as dist\u00e2ncias do abismo tenham crescimento vision\u00e1rio; parece que as criaturas invis\u00edveis do espa\u00e7o vem contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma cria\u00e7\u00e3o fantasma sobe ou desce para n\u00f3s, no meio de um crep\u00fasculo; ante a nossa contempla\u00e7\u00e3o espectral, uma vida que n\u00e3o \u00e9 a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de n\u00f3s mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entreve as animalidades estranhas, as vegeta\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, as cores l\u00edvidas, terr\u00edveis ou risonhas, as larvas, as m\u00e1scaras, os rostos, as hidras, as confus\u00f5es, os luares sem lua, as obscuras decomposi\u00e7\u00f5es do prod\u00edgio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutua\u00e7\u00e3o de formas nas trevas, todo esse mist\u00e9rio que chamamos sonho, e que n\u00e3o \u00e9 mais do que a aproxima\u00e7\u00e3o de uma realidade invis\u00edvel. O sonho \u00e9 o aqu\u00e1rio da noite.<\/p>\n<p>Assim sonhava Gilliatt.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VIII \u2014 A cadeira Gild-Holm-Ur<\/b><\/p>\n<p>Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt n\u00e3o a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde ele guardava a chalupa. A casa mal assombrada j\u00e1 n\u00e3o existe. A pen\u00ednsula onde essa casa estava edificada caiu \u00e0 picareta dos demolidores, e foi conduzida, \u00e0s carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e comerciantes de granito. A pen\u00ednsula reze-se cais, igreja e pal\u00e1cios na capital. Toda aquela crista de rochedos Partiu h\u00e1 muito para Londres.<\/p>\n<p>Aqueles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, s\u00e3o verdadeiras cadeias de pequenas montanhas; recebe-se a mesma impress\u00e3o que teria um gigante contemplando as cordilheiras.<\/p>\n<p>O idioma local chama-os bancos. H\u00e1-os de diversas figuras.<\/p>\n<p>Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada rochedo \u00e9 uma v\u00e9rtebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodilo bebendo \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na extremidade da pen\u00ednsula da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Come de Ia Bete. Essa rocha, esp\u00e9cie de pir\u00e2mide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pin\u00e1culo de Jersey. Nas mar\u00e9s cheias, o mar separava-a da pen\u00ednsula e a Come de Ia Bete ficava isolada.<\/p>\n<p>Nas vazantes ia-se at\u00e9 l\u00e1 por um istmo de rochas pratic\u00e1veis. A curiosidade do rochedo era, do lado mar, uma esp\u00e9cie de cadeira natural cavada pelas \u00e1guas e polida pela chuva. Era p\u00e9rfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada at\u00e9 ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horizontes retinha l\u00e1 o observador curioso.<\/p>\n<p>A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma esp\u00e9cie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar \u00e0quele nicho era coisa f\u00e1cil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma esp\u00e9cie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo tem destas aten\u00e7\u00f5es, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por bra\u00e7os duas anfratuosidades que pareciam feitas de prop\u00f3sito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escal\u00e1-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela at\u00e9 mergulhar-se al\u00e9m dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e do mar; h\u00e1 em Caiena um vespert\u00ednio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento \u00e9 esse morcego invis\u00edvel; quando n\u00e3o devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, at\u00e9 que vinha o letargo do \u00eaxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza e de luz, fech\u00e1-los \u00e9 voluptuosidade.<\/p>\n<p>Acordava-se de s\u00fabito. Era tarde. A mar\u00e9 crescera a pouco e pouco. A \u00e1gua cingia o rochedo.<\/p>\n<p>Estava-se perdido.<\/p>\n<p>Tremendo bloqueio \u00e9 o mar que sobe!<\/p>\n<p>A mar\u00e9 cresce insensivelmente ao princ\u00edpio, depois com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0s rochas, encoleriza-se, escuma. Nem Sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores morreram afogados naquele lugar.<\/p>\n<p>Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar \u00e9 sorver um veneno. \u00c9 o que acontece, \u00e0s vezes, olhando para uma mulher.<\/p>\n<p>Os antiqu\u00edssimos habitantes de Guernesey chamavam outrora \u00e0quele nicho talhado na rocha pela vaga a Cadeira Gild-MIm- Ur ou Kidormur.<\/p>\n<p>Palavra c\u00e9ltica, dizem, n\u00e3o entendida pelos que sabem c\u00e9ltico, e entendida pelos que sabem franc\u00eas. Quem-dorme-morre. (Qui-dort-meurt) Tal \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o r\u00fastica. Pode-se escolher entre esta tradu\u00e7\u00e3o Quem-dorme-morre e a tradu\u00e7\u00e3o dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da l\u00edngua c\u00e9ltica, Gild-Holm- Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>H\u00e1 em Aurigny outra cadeira deste g\u00eanero que se chama Cadeira do Frade, tamb\u00e9m arranjada pelo mar, e com uma sali\u00eancia de pedra ajustada t\u00e3o a prop\u00f3sito que se pode dizer que o mar teve a complac\u00eancia de por um tamborete debaixo dos nossos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Nas mar\u00e9s cheias, n\u00e3o se podia ver a Cadeira Gild-Holm-Ur. A \u00e1gua cobria-a inteiramente.<\/p>\n<p>A Cadeira Gild-Holm-Ur era vizinha da casa mal-assombrada. Gilliatt ia l\u00e1 sentar-se muitas vezes. Meditava? N\u00e3o. J\u00e1 o dissemos, Gilliatt sonhava. N\u00e3o se deixava surpreender pela mar\u00e9<\/p>\n<h2>Livro Segundo:Mess Lethierry<\/h2>\n<p><b>Cap\u00edtulo I \u2014 Vida agitada e consci\u00eancia tranq\u00fcila<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry, o homem not\u00e1vel de Saint-Sampson, era um marinheiro terr\u00edvel. Tinha navegado muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto, arrais. Agora era armador. Ningu\u00e9m conhecia o mar como ele. Era intr\u00e9pido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear \u00e0 praia, com os olhos no horizonte. Que \u00e9 aquilo l\u00e1 ao longe? E algu\u00e9m que est\u00e1 em perigo. \u00c9 um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, \u00e9 o iate de um lorde, um ingl\u00eas, um franc\u00eas, um pobre, um rico, \u00e9 o diabo, fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou tr\u00eas homens valentes, dispensava-os quando n\u00e3o tinha, equipava ele s\u00f3, desatava a amarra, travava d\u00f3 remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furac\u00e3o, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de p\u00e9 sobre a embarca\u00e7\u00e3o, gotejante de chuva, confundido com os rel\u00e2mpagos, face de le\u00e3o e juba de espuma. Passava assim \u00e0s vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas \u00e0 saraiva e ao vento, costeando os navios que so\u00e7obravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava \u00e0 noite para casa, e tecia um par de meias.<\/p>\n<p>Passou esta vida cinq\u00fcenta anos, desde os dez at\u00e9 os sessenta, enquanto foi mo\u00e7o. Aos sessenta anos, viu que j\u00e1 n\u00e3o Podia levantar com um bra\u00e7o a bigorna da forja de Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de reumatismo.<\/p>\n<p>Teve de deixar o mar. Passou da idade her\u00f3ica \u00e0 idade patriarcal.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era mais que um bonach\u00e3o.<\/p>\n<p>Mess Lethierry alcan\u00e7ou a um tempo o reumatismo e a abastan\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes dois produtos do trabalho acompanhavam-se voluntariamente.<\/p>\n<p>Quem chega a ser rico, fica inutilizado. \u00c9 a coroa da vida.<\/p>\n<p>Diz-se ent\u00e3o: vamos gozar agora.<\/p>\n<p>Nas ilhas como Gueresey, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de homens que passaram a vida a andar \u00e0 roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar \u00e0 roda do mundo. S\u00e3o duas esp\u00e9cies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos \u00faltimos. Conhecia, por\u00e9m, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.<\/p>\n<p>Falamos nas viagens \u00e0 roda do mundo; Mess Lethierry viajou a Fran\u00e7a toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comt\u00e9. Aquele honrado homem teve uma vida de aventureiro. Na Fran\u00e7a aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A \u00e1gua lhe pertencia. Os peixes est\u00e3o em minha casa, dizia ele. Em suma, toda a sua exist\u00eancia, com exce\u00e7\u00e3o de dois ou tr\u00eas anos, foi consagrada ao oceano; atirada \u00e0 \u00e1gua, dizia ele. Navegara nos grandes mares, no Atl\u00e2ntico e no Pac\u00edfico; mas preferia a Mancha. Aquele \u00e9 que \u00e9 rude, exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas ou tr\u00eas vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e n\u00e3o se mexeu dali. As suas viagens, ent\u00e3o, eram Granville e Saint-Malo.<\/p>\n<p>Mess Lethierry era guemesiano, isto \u00e9, normando, ingl\u00eas, franc\u00eas.<\/p>\n<p>Tinha essa p\u00e1tria qu\u00e1drupla, imersa e como que afogada na sua grande p\u00e1tria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.<\/p>\n<p>Isso, por\u00e9m, n\u00e3o tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarr\u00e1bio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos fil\u00f3sofos e poetas, e taramelar em vascon\u00e7o um pouquinho de cada l\u00edngua<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo II \u2014 Uma prefer\u00eancia de Mess Lethierry<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.<\/p>\n<p>Este, por\u00e9m, era um selvagem elegante.<\/p>\n<p>Era exigente a respeito de m\u00e3os de mulheres.<\/p>\n<p>Ainda mo\u00e7o, quase menino, estando entre marinheiro e grumete, ouviu dizer ao bailio de Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes m\u00e3os vermelhas que ela tem! Um dito de almirante imp\u00f5e, em qualquer assunto que seja. Acima de um or\u00e1culo est\u00e1 uma senha.<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de m\u00e3os alvas. A dele era uma larga esp\u00e1tula, escura na cor; na agilidade era uma clava, nas car\u00edcias uma torques; quebrava um seixo com um soco.<\/p>\n<p>N\u00e3o era casado. N\u00e3o quis ou n\u00e3o encontrou mulher. Naturalmente, o marinheiro queria m\u00e3os de duquesa. N\u00e3o se encontram m\u00e3os dessas nas pescadoras de Port-Bail.<\/p>\n<p>Conta-se entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um dia uma grisette que realizava o seu ideal Linda mo\u00e7a e lindas m\u00e3os. Detra\u00eda e arranhava. Afront\u00e1-la era perigoso. As suas unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necess\u00e1rio. T\u00e3o belas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu n\u00e3o levar aquele namorico \u00e0 presen\u00e7a do senhor matre.<\/p>\n<p>De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. J\u00e1 cuidava dos esponsais, quando um residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parab\u00e9ns. Leva uma boa esterqueira. Lethierry pediu explica\u00e7\u00f5es deste elogio. Em Aurigny h\u00e1 uma moda. Apanha-se esterco de vaca e deita-se \u00e0s paredes. Depois de seco, cai o esterco e serve para aquecer a gente. Ningu\u00e9m casa com uma rapariga, sen\u00e3o quando \u00e9 boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Demais, em assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa filosofia r\u00fastica, uma ci\u00eancia de marinheiro: apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina chamava-se, ent\u00e3o, vasquinha. Significa mais e menos que unia mulher.<\/p>\n<p>Os rudes marinheiros do arquip\u00e9lago normando s\u00e3o inteligentes.<\/p>\n<p>Quase todos sabem ler. V\u00eaem-se, aos domingos, rapazitos de oito anos, assentados em um grande novelo de cabos, com um livro na m\u00e3o. Os marinheiros normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o atrevido piloto Queripel, quem atirou a Montgomery, refugiado em Jersey depois da funesta lan\u00e7ada contra Henrique II, esta ap\u00f3strofe: Cabe\u00e7a doida feriu a cabe\u00e7a vazia. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o trocadilho filos\u00f3fico atribu\u00eddo ao Bispo Camus: Apr\u00e9s Ia mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo III \u2014 A velha l\u00edngua do mar<\/b><\/p>\n<p>Os marinheiros das Channel-Islands s\u00e3o puros gauleses. Estas ilhas, que se v\u00e3o fazendo inglesas, conservaram-se muito tempo aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p>O campon\u00eas de Serk fala a l\u00edngua de Lu\u00eds XIV.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 quarenta anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma mar\u00edtimo cl\u00e1ssico. Fazia crer que est\u00e1vamos em plena marinha do s\u00e9culo XVII. Um arque\u00f3logo especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquele porta-voz que aterrava o Almirante Hidde.<\/p>\n<p>O vocabul\u00e1rio mar\u00edtimo dos nossos pais, quase inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Gueresey, em 1820. O navio que suporta o vento era bom boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se afei\u00e7oa ao vento, por si mesmo, apesar das velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que se agu\u00e7a); entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); p\u00f4r-se \u00e0 capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima era faire chapelle (tocar em vento); ag\u00fcentar bem s\u00f4bre a amarra era faire teste; estar em confus\u00e3o a bordo era \u00eatre en pantenne; ter o vento nas velas era porter-plain (levar em cheio).<\/p>\n<p>Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar); dizia-se leauvoyer, diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager; diz-se virer vent devant (virar por davante), dizia-se vidonner vent devant; diz-se aller de \u00e1vant (seguir avante), dizia-se tailler de l&#8217;avant, diz-se tirer d \u00e1ccord (alar \u00e0 uma), dizia-se haller d \u00e1ccord, diz-se d\u00e9raper (arrancar o ferro), dizia-se d\u00e9planter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se abraquer, diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines (amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo), dizia-se stribord, diz-se les hommes de quart \u00e0 b\u00e2bord (homens de quarto a bombordo), dizia-se les basbourdis.<\/p>\n<p>Tourville escrevia a Hocquincourt: Nous avons single (singramos).<\/p>\n<p>Em vez de Ia-rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa), drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olof\u00e9e; em vez de elonger (alongar), alonger, em vez deforte brise (vento fresco), survent, em vez de sout (paiol),fosse; em vez de jouail (cepo de \u00e2ncora), jas; tal era, no come\u00e7o deste s\u00e9culo, a l\u00edngua de bordo nas ilhas da Mancha.<\/p>\n<p>Ouvindo falar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Em quanto no resto do mundo as velas faseyaint (panejavam), barbeyaient nas ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. S\u00f3 ali se empregavam os dois modos g\u00f3ticos de amarra\u00e7\u00e3o, a valturre e a portuguesa. S\u00f3 ali se davam ordens destas: Tour-et-choque! &#8211; Bosse et Bitte! &#8211; J\u00e1 um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia l\u00e8 canal de pouliot. O que era bout-d\u00e1longe (postura) em Saint-Malo, era em Saint-H\u00e9lier oreille d&#8217;\u00e2ne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tosado de conv\u00e9s la tonture.<\/p>\n<p>Foi com este idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje \u00e9 l\u00edngua morta. A g\u00edria do mar \u00e9 outra. Duperr\u00e9 n\u00e3o poderia entender Suffren.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos se transformou a l\u00edngua dos sinais; e h\u00e1 grande dist\u00e2ncia entre as fl\u00e2mulas encarnada, branca, azul e amarela de Labourquedonnaye e os dezoito pavilh\u00f5es de hoje, arvorados dois a dois, tr\u00eas a tr\u00eas e quatro a quatro, d\u00e3o para as necessidades da combina\u00e7\u00e3o distante, 70 000 combina\u00e7\u00f5es, suprem tudo, e, por assim dizer, prev\u00eaem o imprevisto.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo IV \u2014 Vulnerabilidade por amor<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry tinha o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os; m\u00e3os largas e cora\u00e7\u00e3o grande. O defeito dele era a admir\u00e1vel qualidade da confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Tinha uma maneira especial de contrair uma obriga\u00e7\u00e3o; era solene: Dou a minha palavra de honra a Deus. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas vezes \u00e0 igreja, e isso mesmo, por cortesia. No mar, era supersticioso.<\/p>\n<p>Nunca houve, por\u00e9m, tempestade que o fizesse recuar; \u00e9 que ele era pouco acess\u00edvel \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a tolerava, nem num homem, nem no oceano. Queria ser obedecido; tanto pior para o mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry n\u00e3o cedia nunca.<\/p>\n<p>Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse, nada lhe detinha a m\u00e3o. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. N\u00e3o se curvava, nem diante de uma obje\u00e7\u00e3o, nem diante de uma tempestade. N\u00e3o, para ele, era palavra que n\u00e3o existia, nem na boca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. N\u00e3o consentia que se lhe recusasse nada. Da\u00ed vinha a sua pertin\u00e1cia na vida e a sua intrepidez no oceano.<\/p>\n<p>Era ele pr\u00f3prio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que por\u00e7\u00e3o de sal, pimenta e ervas era preciso, e gostava tanto de faz\u00ea-la como de come-la.<\/p>\n<p>Criatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabelos soltos, a Jean Bart, e, com o chap \u00e9u redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e tem\u00edvel no mar, esp\u00e1dua de carregador, sem impreca\u00e7\u00f5es, quase sem c\u00f3lera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trov\u00e3o, camp\u00f4nio que leu a Enciclop\u00e9dia, guernesiano que viu a revolu\u00e7\u00e3o, ignorante instru\u00eddo, ermo de carolice, dado \u00e0s vis\u00f5es, mais f\u00e9 na Dama Branca que na Santa Virgem, l\u00f3gica de ventoinha, vontade de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, um tanto de touro e um tanto de crian\u00e7a, nariz quase rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta anos, ar de tempestade na fronte, carna\u00e7\u00e3o de rocha em pleno mar; p\u00f5e agora um olhar bom neste rosto agreste, e ter\u00e1s Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Mess Lethierry tinha dois amores: Durande e D\u00e9ruchette.<\/p>\n<h2>Livro Terceiro:Durande e D\u00e9ruchette<\/h2>\n<p><b>Cap\u00edtulo I\u2014 Garrulice e Efl\u00favios<\/b><\/p>\n<p>O corpo humano \u00e9 talvez uma simples apar\u00eancia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade \u00e9 a alma. A bem dizer, o rosto \u00e9 uma m\u00e1scara. O verdadeiro homem \u00e9 o que est\u00e1 debaixo do homem.<\/p>\n<p>Mais de uma surpresa haveria se pudesse v\u00ea-lo agachado e escondido debaixo da ilus\u00e3o que se chama carne. O erro comum \u00e9 ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por exemplo, se pud\u00e9ssemos v\u00ea-la como realmente \u00e9, em vez de mo\u00e7a, mostrar-se-ia p\u00e1ssaro.<\/p>\n<p>P\u00e1ssaro com forma de mo\u00e7a, que h\u00e1 a\u00ed de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Sup\u00f5e que \u00e9 D\u00e9ruchette. Deliciosa criatura! D\u00e1 vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle alv\u00e9loa. N\u00e3o se lhe v\u00eaem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta \u00e0s vezes. Na tagarelice est\u00e1 abaixo do homem; no canto, est\u00e1 acima dele. Tem mist\u00e9rios aquele canto; uma virgem \u00e9 o inv\u00f3lucro de um anjo.<\/p>\n<p>Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, por\u00e9m, depois trazendo uma alma de crian\u00e7a \u00e0 m\u00e3e. Esperando a vida, aquela que h\u00e1 de ser m\u00e3e algum dia, conserva-se muito tempo crian\u00e7a, a menina persiste na mo\u00e7a; \u00e9 uma calhandra. Pensa-se, ao v\u00ea-la: que boa que ela \u00e9 em n\u00e3o bater as asas para ir-se embora!<\/p>\n<p>A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto \u00e9, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda esp\u00e9cie de rumores delicados, murmura um n\u00e3o sei que de inef\u00e1vel aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia.<\/p>\n<p>Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. H\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o celeste nessa menina. \u00c9 um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por v\u00ea-la t\u00e3o esquiva, t\u00e3o ligeira, t\u00e3o fugitiva; agradeces-lhe a bondade de n\u00e3o ser invis\u00edvel, ela, que poderia, creio eu, ser impalp\u00e1vel. Neste mundo o lindo \u00e9 o necess\u00e1rio. H\u00e1 mui poucas fun\u00e7\u00f5es t\u00e3o importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se n\u00e3o houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmuda\u00e7\u00e3o de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a gra\u00e7a, \u00e9 favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. H\u00e1 criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; \u00e0s vezes nem ela mesmo o sabe, e \u00e9 quando o prest\u00edgio \u00e9 mais poderoso; a sua presen\u00e7a ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se papa, \u00e9s feliz; contempl\u00e1-la \u00e9 viver; \u00e9 a aurora com figura humana; n\u00e3o faz nada, nada que n\u00e3o seja estar presente, e \u00e9 quanto basta para edenizar o lar dom\u00e9stico; de todos os poros sai-lhe um para\u00edso; \u00e9 um \u00eaxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao p\u00e9 deles. Ter um sorriso que -ningu\u00e9m sabe a raz\u00e3o \u2014 diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? \u00e9 divino. D\u00e9ruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o pr\u00f3prio sorriso. H\u00e1 alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, \u00e9 a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, \u00e9 o nosso sorriso. D\u00e9ruchette, risonha, era D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>\u00c9 particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas, sobretudo, tem uma beleza florida e c\u00e2ndida.<\/p>\n<p>\u00c9 a combina\u00e7\u00e3o da alvura saxonia com a frescura normanda.<\/p>\n<p>Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos olhos. A educa\u00e7\u00e3o inglesa amortece-os. Ser\u00e3o irresist\u00edveis aqueles olhos l\u00edmpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense ainda n\u00e3o se fez inglesa, felizmente. D\u00e9ruchette n\u00e3o era parisiense, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecia talvez o sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fora residir em Sait-Sampson dizia: Esta rapariga seduz a matar.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette tinha as mais lindas m\u00e3ozinhas deste mundo, e p\u00e9s iguais \u00e0s m\u00e3os, quatro pezinhos de mosca, dizia Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Tinha em si a bondade e a do\u00e7ura; o tio Lethierry era toda a sua fam\u00edlia e riqueza; o trabalho dela era deixar-se viver; tinha por talento algumas can\u00e7\u00f5es, por ci\u00eancia a beleza, por esp\u00edrito a inoc\u00eancia, por cora\u00e7\u00e3o a ignor\u00e2ncia; tinha a graciosa indol\u00eancia crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da inf\u00e2ncia com um pendor \u00e0 melancolia, vestu\u00e1rios um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chap\u00e9us de flores todo o ano, fronte ing\u00eanua, pesco\u00e7o flex\u00edvel e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no ver\u00e3o, boca grande e s\u00e3, e nessa boca o ador\u00e1vel e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Algumas vezes, \u00e0 noite, ap\u00f3s o por do sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, \u00e0 hora em que o crep\u00fasculo d\u00e1 uma esp\u00e9cie de terror \u00e0s vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulc\u00e3o, uma esp\u00e9cie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atilando-se sobre a cidade com um horr\u00edvel movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo II\u2014 A eterna hist\u00f3ria da utopia<\/b><\/p>\n<p>Era uma prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor nas \u00e1guas da Mancha em 1822 &#8230; Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os olhos de ningu\u00e9m. Quando muito, algum observador especialista distingue, pela cor da fuma\u00e7a, se o carv\u00e3o que consome o navio \u00e9 de Gales ou de Newcastle. Passam; \u00e9 quanto basta. Se partem: Boa viagem!; se chegam: Welcome!<\/p>\n<p>N\u00e3o era t\u00e3o grande a calma a respeito de tais inven\u00e7\u00f5es no primeiro quarto do nosso s\u00e9culo, e estas m\u00e1quinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste arquip\u00e9lago puritano onde a rainha da Inglaterra foi censurada por violar a B\u00edblia narcotizando-se para dar \u00e0 luz, o navio a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado com este nome: Devil Boat \u2014 Navio-Diabo.<\/p>\n<p>A esses bons pescadores de ent\u00e3o, outrora cat\u00f3licos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquilo o inferno flutuante.<\/p>\n<p>Um pregador da terra tratou da quest\u00e3o: Temos n\u00f3s o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a \u00e1gua que Deus separou? Aquele animal de ferro e fogo n\u00e3o era a imagem de Leviat\u00e3?<\/p>\n<p>N\u00e3o era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo caos? N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que acontece qualificar a ascens\u00e3o do progresso de retrograda\u00e7\u00e3o ao caos.<\/p>\n<p>Id\u00e9ia louca, erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da Academia das Ci\u00eancias consultada por Napole\u00e3o no come\u00e7o deste s\u00e9culo, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson tem desculpa, em mat\u00e9ria cient\u00edfica, ao n\u00edvel dos ge\u00f4metras de Paris; e, em mat\u00e9ria religiosa, uma pequena ilha como Guernesey n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de ser mais ilustrada que um grande continente como a Am\u00e9rica. Em 1807, quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da m\u00e1quina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, al\u00e9m da equipagem, por dois franc\u00eases, somente, Andr\u00e9 Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de Nova York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta coincid\u00eancia deu origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as capelas os pregadores amaldi\u00e7oaram a m\u00e1quina, declarando que o n\u00famero dezessete era o total das dez antenas e das sete cabe\u00e7as da besta do Apocalipse. Na Am\u00e9rica invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do G\u00eanesis. Nisto consistia toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os s\u00e1bios haviam rejeitado o vapor como imposs\u00edvel; os padres, a seu turno, rejeitavam-no como \u00edmpio. Fulton era uma variante de L\u00facifer. Os habitantes simpl\u00f3rios das costas e dos campos aderiam \u00e0 reprova\u00e7\u00e3o pelo incomodo que lhes causava a novidade. Na presen\u00e7a do vapor, o ponto de vista religioso era este: a \u00e1gua e o fogo s\u00e3o um div\u00f3rcio. Este div\u00f3rcio \u00e9 ordenado por Deus. N\u00e3o se deve desunir o que Deus uniu, nem unir o que ele desuniu. O ponto de vista do campon\u00eas era: isto mete-me medo.<\/p>\n<p>Para cometer, naquela \u00e9poca remota, a empresa de uma navega\u00e7\u00e3o a vapor entre Guernesey e Saint-Malo, nada menos era preciso que um homem como Mess Lethierry. S\u00f3 ele podia concebe-la na qualidade de livre pensador, e realiz\u00e1-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu franc\u00eas concebeu a id\u00e9ia; o seu eu ingl\u00eas executou-a.<\/p>\n<p>Em que ocasi\u00e3o? Digamo-lo.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo III\u2014 Rantaine<\/b><\/p>\n<p>Quarenta anos antes da \u00e9poca em que se passam os fatos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux- Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ai, com a mulher e o filho, uma esp\u00e9cie de burgu\u00eas bandido, antigo escrevente de tabeli\u00e3o no Ch\u00e2telet, e ao depois ladr\u00e3o descarado. J\u00e1 havia figurado no tribunal criminal. O apelido da fam\u00edlia era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma c\u00f4moda de mogno, viam-se duas x\u00edcaras de porcelana pintada: em uma delas lia-se em letras douradas o seguinte d\u00edstico: Lembran\u00e7a de Amizade na outra: Sinal de Estima A crian\u00e7a vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pai e a m\u00e3e pertenciam \u00e0 burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A m\u00e3e, p\u00e1lida, quase esfarrapada, dava maquinalmente educa\u00e7\u00e3o a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao p\u00e9 do livro o menino pensativo.<\/p>\n<p>O pai e a m\u00e3e, presos em algum flagrante delito, desapareceram na noite penal. A crian\u00e7a desapareceu tamb\u00e9m. Lethierry, em suas excurs\u00f5es, encontrou um aventureiro como ele, livrou-o, n\u00e3o se sabe de que aperto, prestou-lhe servi\u00e7os, afei\u00e7oou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o inteligente para a navega\u00e7\u00e3o costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.<\/p>\n<p>Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabe\u00e7a robusta, esp\u00e1duas largas e possantes e quadris de H\u00e9rcules Farnese. Lethierry e ele tinham o mesmo ar e a mesma apar\u00eancia; Rantaine era mais alto.<\/p>\n<p>Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: l\u00e1 est\u00e3o os dois irm\u00e3os. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circunspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harm\u00f4nica, espevitava uma vela com uma bala a vinte passos. dava um soco magn\u00edfico, recitava versos da Hem\u00edada, e adivinhava sonhos. Sabia de cor os \u00camulos de S\u00e3o Denis, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sult\u00e3o de Calicut a quem os portugueses chamam Camorim. Se pudesse folhear a carteira de lembran\u00e7as que andava sempre no bolso dele, ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do g\u00eanero desta: Em Li\u00e3o, numa das frestas da parede do calabou\u00e7o de S\u00e3o Jos\u00e9, h\u00e1 uma lima escondida. Falava com uma lentid\u00e3o discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais suscet\u00edvel em coisas de honra. Batia-se e matava.<\/p>\n<p>A for\u00e7a servindo de inv\u00f3lucro \u00e0 ast\u00facia, tal era Rantaine.<\/p>\n<p>A beleza de um soco aplicado por ele numa feira, sobre uma cabe\u00e7a de moro, conquistara-lhe outrora a simpatia de Lethierry.<\/p>\n<p>Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos tem um traje, o destino de Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo: tinha trabalhado muito. Era um circunavegador. Teve inumer\u00e1veis of\u00edcios. Foi cozinheiro em Madagascar, criador de p\u00e1ssaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Gal\u00e1pagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro-livre no Haiti. Neste \u00faltimo emprego pronunciara no Grande Goave uma ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre de que os jornais locais conservaram este fragmento: Adeus, pois, bela alma! na ab\u00f3bada azulada dos c\u00e9us onde agora desferes o v\u00f4o, encontrar \u00e1s sem d\u00favida o bom Padre Leandro Crameau do Pequeno Goave.<\/p>\n<p>Dize-lhe que, gra\u00e7as a dez anos de esfor\u00e7os gloriosos, terminasse a Igreja de Anse-\u00e0-Veau. Adeus! g\u00eanio transcendente, modelo! A m\u00e1scara de pedreiro-livre n\u00e3o lhe impedia, como se v\u00ea, trazer o nariz cat\u00f3lico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de ra\u00e7a pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado a Soluque.<\/p>\n<p>Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdete. Naquela \u00e9poca a fuma\u00e7a de seu realismo sa\u00eda-lhe pela cabe\u00e7a fora, na forma de um imenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, aparecendo, desaparecendo e tornando a aparecer. Era um velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em vez de guilhotinado, dizia neboiss\u00e9. Fora escravo em Tr\u00edpoli, na casa de um thaleb, e a\u00ed aprendera o turco \u00e0 for\u00e7a de bengaladas; tinha por obriga\u00e7\u00e3o ir \u00e0 noite \u00e0 porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fi\u00e9is o Alcor\u00e3o, escrito em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo. Provavelmente era renegado.<\/p>\n<p>Era capaz de tudo e mais alguma coisa.<\/p>\n<p>Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: Em pol\u00edtica, s\u00f3 estimo as pessoas inacess\u00edveis \u00e0s influ\u00eancias.<\/p>\n<p>Dizia: Sou pelos costumes. Dizia: \u00c9 preciso repor a pir\u00e2mide na base. Era mais alegre e cordial que outra coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encruzilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que se podia decifrar o segredo da fisionomia dele.<\/p>\n<p>Assemelhavam-se as tais rugas a uma garra de abutre. O cr\u00e2nio era chato em cima e largo nas t\u00eamporas. A orelha disforme e embrenhada de cabelos parecia dizer: N\u00e3o fales ao animal que est\u00e1 aqui neste antro.<\/p>\n<p>Rantaine desapareceu um dia de Guernesey.<\/p>\n<p>O s\u00f3cio de Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da sociedade.<\/p>\n<p>Havia dinheiro dele na caixa, \u00e9 certo; mas havia tamb\u00e9m 50 000 francos de Lethierry.<\/p>\n<p>Lethierry ganhara uns 100 000 francos em quarenta anos de ind\u00fastria e de probidade, no seu oficio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.<\/p>\n<p>Lethierry, meio arruinado, n\u00e3o cedeu, e tratou imediatamente de levantar-se. Aos homens de boa t\u00eampera arruina-se a fortuna, n\u00e3o a coragem. Come\u00e7ava-se ent\u00e3o a falar do vapor. Lethierry teve a id\u00e9ia de tentar a m\u00e1quina de Fulton, t\u00e3o contestada, e ligar por meio de um vapor o arquip\u00e9lago normando \u00e0 Fran\u00e7a. Jogou tudo nessa id\u00e9ia. Aplicou-lhe os restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um navio deitando fumo, e produzindo o efeito de um inc\u00eandio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as \u00e1guas da Mancha.<\/p>\n<p>Aquele navio, alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desd\u00e9m e \u00f3dio de todos, foi anunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo IV\u2014 Continua\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da utopia<\/b><\/p>\n<p>Compreende-se que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os propriet\u00e1rios de navios ide carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram imediatamente. Denunciaram aquele atentado feito \u00e0s Santas Escrituras e ao monop\u00f3lio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma libertinagem. O barco a vela foi declarado ortodoxo. Viu-se distintamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra;, que tamb\u00e9m para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da sa\u00edda e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes pescas, t\u00e3o freq\u00fcentes em Guernesey; que a manteiga das admir\u00e1veis vacas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajeto no Devil Boat que nas chalupas \u00e0 vela, e n\u00e3o perdia na qualidade, de maneira que aflu\u00edam as encomendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, gra\u00e7as ao que se chamava Galeota de Lethierry, havia seguran\u00e7a de viagem, regularidade de comunica\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fego f\u00e1cil e pronto, aumento de circula\u00e7\u00e3o, multiplica\u00e7\u00e3o de mercados, extens\u00e3o de com\u00e9rcio; em suma, que era preciso aproveitar o Devil-Boat que violava a B\u00edblia e enriquecia a ilha. Alguns esp\u00edritos fortes arriscaram- se a aprovar o vapor com certa precau\u00e7\u00e3o. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque ele n\u00e3o gostava de Lethierry: primeiro, porque Lethierry era Mess, e Landoys era apenas senhor; depois porque, embora escrevente em Saint-Pierre-Port, Landoys era paroquiano de Saint-Sampson; ora, na par\u00f3quia, s\u00f3 havia dois homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio distanciam-se duas criaturas.<\/p>\n<p>Contudo, o Sr. Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o vapor.<\/p>\n<p>Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente, o fato foi subindo; os fatos s\u00e3o como as mar\u00e9s; e, com o tempo, com o sucesso continuado e crescente, com a evid\u00eancia do servi\u00e7o prestado, o aumento da comodidade p\u00fablica, l\u00e1 veio um dia em que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de alguns homens de ju\u00edzo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.<\/p>\n<p>Hoje seria menos admirada. Aquele vapor de h\u00e1 quarenta anos faria sorrir os nossos atuais construtores. Era uma maravilha disforme, um prod\u00edgio raqu\u00edtico.<\/p>\n<p>Entre os nossos grandes paquetes transatl\u00e2nticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dion\u00edsio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, n\u00e3o h\u00e1 menor dist\u00e2ncia que entre a nau Montebello, de 200 p\u00e9s de comprimento, 50 de largura, com lima verga de 115 p\u00e9s, arqueando 2 000 toneladas, levando 1 100 homens, 120 pe\u00e7as, 10 000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3 300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem 5 600 metros de lona, e o dromon dinamarqu\u00eas do II s\u00e9culo, que se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.<\/p>\n<p>Cem anos justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era decerto um progresso sobre aqueles dois esbo\u00e7os, mas era esbo\u00e7o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Nem por isso deixava de ser uma obra-prima. Todo embri\u00e3o de ci\u00eancia tem este duplo aspecto: monstro, como feto; maravilha, como germe.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo V\u2014 O navio-diabo<\/b><\/p>\n<p>A Galeota de Lethierry n\u00e3o era mastreada no ponto v\u00e9lico, e n\u00e3o era isso defeito, porque \u00e9 uma das leis da constru\u00e7\u00e3o naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente acess\u00f3rio; um navio de rodas \u00e9 quase insens\u00edvel ao velame que se lhe p\u00f5e. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry n\u00e3o teve a ousadia de faz\u00ea-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da pan\u00e7a: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior do que comportava o comprimento. A m\u00e1quina, que era massuda, atravancava o navio, e, para torn\u00e1-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu \u00e0 Galeota, mais ou menos, o defeito das naus de 74, que s\u00f3 arrasando-as podem navegar e combater.<\/p>\n<p>Sendo curta, devia girar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na raz\u00e3o do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a resist\u00eancia da \u00e1gua \u00e9 proporcional \u00e0 maior se\u00e7\u00e3o imergida e \u00e0 velocidade do navio. A proa era vertical, o que n\u00e3o seria defeito hoje, mas naquele tempo era uso inclin\u00e1-la uns 45 graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas n\u00e3o eram suficientemente longas para a obliq\u00fcidade e paralelismo com o lume da \u00e1gua, que deve ser recha\u00e7ada lateralmente. No mau tempo, calava muita \u00e1gua, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter v\u00edcio de constru\u00e7\u00e3o no centro de gravidade. N\u00e3o estando o carregamento no lugar pr\u00f3prio, por causa do peso da m\u00e1quina, acontecia que o centro de gravidade passava \u00e0s vezes para tr\u00e1s do mastro grande, e ent\u00e3o era preciso contar s\u00f3 com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao aproximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o efeito de uma vela de popa. A manobra era dif\u00edcil. O leme era o leme antigo, n\u00e3o de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horizontal que passava por cima da cava da culatra.<\/p>\n<p>Tinha duas faluas suspensas. O navio era de quatro \u00e2ncoras, a \u00e2ncora grande, a segunda \u00e2ncora, que \u00e9 a que trabalha, workinganchor, e duas \u00e2ncoras de amarra. Essas quatro \u00e2ncoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as ocasi\u00f5es, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas \u00e2ncoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio n\u00e3o podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda \u00e2ncora. As b\u00f3ias eram normais, e constru\u00eddas de maneira a suportar um cabo da \u00e2ncora, ficando sempre \u00e0 flor da \u00e1gua. A chalupa tinha as dimens\u00f5es \u00fateis. A novidade do navio \u00e9 que era, em parte, aparelhado com correntes; o que n\u00e3o lhe diminu\u00eda a mobilidade nem a tens\u00e3o das manobras.<\/p>\n<p>A mastrea\u00e7\u00e3o, posto que secund\u00e1ria, n\u00e3o era incorreta; era f\u00e1cil o manejo dos ov\u00e9ns. As pe\u00e7as de madeira eram s\u00f3lidas, mas grosseiras, pois que o vapor n\u00e3o exige madeiras t\u00e3o delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma velocidade de 2 l\u00e9guas por hora. Quando panejava, afei\u00e7oava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry suportava bem o mar, mas n\u00e3o tinha boa quilha para dividir o l\u00edquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasi\u00e3o de perigo, cachopo ou tromba, n\u00e3o poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma coisa informe. Fazia na \u00e1gua o ru\u00eddo que fazem as solas novas.<\/p>\n<p>Era navio de com\u00e9rcio e n\u00e3o de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arruma\u00e7\u00e3o das cargas. Admitia poucos passageiros.<\/p>\n<p>O transporte do gado tornava dif\u00edcil e especial a arruma\u00e7\u00e3o das cargas. Punham-se os bois no por\u00e3o, o que complicava muito. Hoje os bois ficam no conv\u00e9s. As caixas das rodas do Devil Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco at\u00e9 o lume da \u00e1gua de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso assaz feio deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Vazio, calava 7 p\u00e9s; carregado, 14.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 m\u00e1quina, era poderosa. Tinha a for\u00e7a de um cavalo por 3 toneladas, o que \u00e9 quase a for\u00e7a de um rebocador. As rodas estavam bem colocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A m\u00e1quina tinha a press\u00e3o m\u00e1xima de 2 atmosferas. Gastava muito carv\u00e3o. O ponto de apoio era inst\u00e1vel, mas remediava-se, como ainda hoje se faz, por meio de um duplo aparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da \u00e1rvore de rota\u00e7\u00e3o, e dispostas de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a m\u00e1quina repousava em uma s\u00f3 placa fundida; de modo que, mesmo em caso de grande avaria, nenhum lan\u00e7o do mar lhe tirava o equil\u00edbrio, e o casco disforme n\u00e3o podia deslocar a m\u00e1quina. Para torn\u00e1-la ainda mais s\u00f3lida, puseram a redou\u00e7a principal perto do cilindro, o que transportava do meio \u00e0 extremidade o centro de oscila\u00e7\u00e3o do p\u00eandulo. Inventaram-se depois os cilindros oscilantes que suprimem a redou\u00e7a antiga; mas naquele tempo parecia que o sistema usado era a \u00faltima palavra da mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminu\u00eda a perda de for\u00e7a, e o cano alto, o que aumentava a extra\u00e7\u00e3o da fornalha; mas o tamanho das rodas dava aso \u00e0s vagas, e a altura do cano dava aso ao vento. Raios de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem constru\u00eddas (o que admira) podendo ser desmontadas. Havia sempre tr\u00eas rod\u00edzios mergulhados; a velocidade do centro da roda n\u00e3o passava de um sexto da velocidade do navio; era esse o defeito. Al\u00e9m disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribu\u00eddo no cilindro com demasiado atrito. Naquele tempo a m\u00e1quina parecia e era admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Foi ela feita na Fran\u00e7a, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o maquinista que a construiu morreu; de modo que aquela m\u00e1quina era \u00fanica e imposs\u00edvel de ser substitu\u00edda. Existia o desenhista, mas faltava o construtor.<\/p>\n<p>Custou a m\u00e1quina 40 000 francos.<\/p>\n<p>Lethierry construiu a Galeota na grande estiva coberta que rica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre-Port e Saint-Sampson.<\/p>\n<p>Empregou nessa constru\u00e7\u00e3o tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na constru\u00e7\u00e3o do costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de sarangousti, betume da \u00edndia, melhor que alcatr\u00e3o. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou ele um botal\u00f3s ao gurup\u00e9s, o que lhe permitia acrescentar \u00e0 cevadeira uma cevadeira falsa.<\/p>\n<p>No dia do lan\u00e7amento ao mar, disse Lethierry: Estou na \u00e1gua! E realmente a Galeota foi bem sucedida.<\/p>\n<p>Por acaso ou de prop\u00f3sito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de julho. Nesse dia Lethierry, de p\u00e9 sobre o conv\u00e9s, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamo-te n\u00f3s!<\/p>\n<p>A Galeota de Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta \u00e0 tarde, v\u00e9spera do mercado, que era no s\u00e1bado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do arquip\u00e9lago, e, sendo a sua capacidade na raz\u00e3o das dimens\u00f5es, uma s\u00f3 das suas viagens valia por quatro viagens de um c\u00fater ordin\u00e1rio. Tirava por isso grandes lucros. A reputa\u00e7\u00e3o de um navio depende da sua arruma\u00e7\u00e3o de cargas, e Lethierry era admir\u00e1vel neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substitu\u00ed-lo. No fim de dois anos, o vapor dava l\u00edquidas umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey 26. Estas fantasmagorias s\u00e3o menos fantasmag\u00f3ricas do que parecem; os bancos \u00e9 que lucram com elas.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VI\u2014 Lethierry entra na gl\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p>Prosperava a Galeota, Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey n\u00e3o se pode ser gentleman da noite para o dia. H\u00e1 uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau \u00e9 o nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto degrau,, Senhor (S\u00edeur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro; \u00faltimo degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.<\/p>\n<p>Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo c\u00e9u acima. Entra nela toda a hierarquia inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) h\u00e1 esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vital\u00edcio), depois o baronete (sir heredit\u00e1rio), depois o lorde (7aird na Esc\u00f3cia), depois o bar\u00e3o, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marques, depois o duque, depois o par da Inglaterra, depois o pr\u00edncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo \u00e0 burguesia, da burguesia ao baronato. do baronato ao variato, do pariato \u00e0 realeza.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry j\u00e1 era algu\u00e9m. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a d\u00edvida todos os anos.<\/p>\n<p>Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no \u00e2ngulo estava este nome: Bravees. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era not\u00e1vel por duas fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.<\/p>\n<p>As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Era popular a casa de Lethierry, porque ele pr\u00f3prio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educa\u00e7\u00e3o e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom \u00eaxito da Galeota, e tamb\u00e9m por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privil\u00e9gio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil Boat era um bom neg\u00f3cio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal.<\/p>\n<p>Daqui \u00e9 que eu fui lan\u00e7ado ao mar, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.<\/p>\n<p>A qualidade de propriet\u00e1rio e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gendeman, e quem sabe mesmo se n\u00e3o passaria da\u00ed? Quem sabe se algum dia n\u00e3o se havia de ler no almanaque de Guernesey, no cap\u00edtulo Gentry and Nobility, esta inscri\u00e7\u00e3o inaudita e soberba: Lethierry esq. Mess Lethierry, por\u00e9m, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas. Sentia-se \u00fatil, era a satisfa\u00e7\u00e3o dele; ser popular comoviao menos que ser necess\u00e1rio. J\u00e1 o dissemos, tinha dois amores, e, por conseq\u00fc\u00eancia, duas ambi\u00e7\u00f5es: Durande e D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.<\/p>\n<p>A sorte grande era Durande navegando.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VII\u2014 O mesmo padrinho e a mesma padroeira<\/b><\/p>\n<p>Depois de criar o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome de Durande. N\u00e3o lhe daremos daqui em diante sen\u00e3o este nome. Seja-nos l\u00edcito igualmente, qualquer que seja o uso tipogr\u00e1fico, escrever Durande sem ser em grifo, conformando-nos nisto ao pensamento de Mess Lethierry, para quem Durande era quase uma pessoa.<\/p>\n<p>Durande e D\u00e9ruchette \u00e9 o mesmo nome. D\u00e9ruchette \u00e9 o diminutivo.<\/p>\n<p>\u00c9 muito usado esse diminutivo no oeste da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>No campo, os santos tem muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e aumentativos. Parece que h\u00e1 muitas pessoas e \u00e9 s\u00f3 uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com diferentes nomes n\u00e3o \u00e9 rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto \u00e9 Elisabeth. \u00c9 prov\u00e1vel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fazemos cabedal disso.<\/p>\n<p>Santa Durande \u00e9 uma santa de Angournois e da Charente. Ser\u00e1 correto? Isso \u00e9 l\u00e1 com os bolandistas. Correto ou n\u00e3o, esta santa tem muitas igrejas. Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa, prov\u00e0velmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recorda\u00e7\u00e3o bastante para dar aquele nome \u00e0s duas coisas que ele amava; Durande \u00e0 Galeota, D\u00e9ruchette \u00e0 menina.<\/p>\n<p>Lethierry era pai de uma e tio da outra.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette era filha de um irm\u00e3o que ele teve. Morreram-lhe os pais. Lethierry adotou a crian\u00e7a e substituiu o pai e a m\u00e3e.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette n\u00e3o era somente sobrinha, era tamb\u00e9m afilhada de Lethierry. Foi ele quem a levou \u00e0 pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette, j\u00e1 o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava inscrita no registro da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>Enquanto a sobrinha foi crian\u00e7a e o tio pobre, ningu\u00e9m se importou com o nome D\u00e9ruchette; mas, quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentIeman, D\u00e9ruchette come\u00e7ou a desagradar a todos. Perguntavam a Mess Lethierry: Por que lhe d\u00e1 esse nome?<\/p>\n<p>\u00c9 um nome assim \u2014 respondia ele.<\/p>\n<p>Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry n\u00e3o quis. Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que j\u00e1 n\u00e3o trabalhava, disse um dia a Mess Lethierry: \u2014 Daqui em diante chamarei Nancy \u00e0 sua filha.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o lhe chamar\u00e1 Lons-le-Saulnier? \u2014 disse ele.<\/p>\n<p>A bela senhora n\u00e3o desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe: \u2014 Decididamente, n\u00e3o queremos que ela se chame D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Achei um lindo nome: Marianne.<\/p>\n<p>\u2014 Lindo nome, realmente \u2014 disse Mess Lethierry\u2014, mas composto de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um \u00e2ne (asno).<\/p>\n<p>Lethierry manteve o nome de D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Enganar-se-ia aquele que conclu\u00edsse pelas \u00faltimas palavras de Lethierry que ele n\u00e3o queria casar a sobrinha. Queria cas\u00e1-la, decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da sua t\u00eampera, muito trabalhador, de maneira que D\u00e9ruchette n\u00e3o fizesse nada.<\/p>\n<p>Gostava das m\u00e3os tostadas do homem e das m\u00e3os alvas da mulher.<\/p>\n<p>Para que D\u00e9ruchette n\u00e3o estragasse as lindas m\u00e3os que tinha, dava-lhe ocupa\u00e7\u00f5es elegantes, mestre de m\u00fasica, piano, biblioteca, e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. N\u00e3o lhe pedia nada mais que o encanto e a fascina\u00e7\u00e3o. Educou-a mais para ser flor do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros h\u00e1 de compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que Mess Lethierry compreendia perfeitamente. A m\u00e1quina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar D\u00e9rtichette.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo VIII\u2014 A melodia Bonny Dundee<\/b><\/p>\n<p>D\u00e9ruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, mob\u00edlia de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde est\u00e1 o castelo do Vale. Do outro lado desta colina \u00e9 que estava o Tutu da Rua.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette tinha no quarto a m\u00fasica e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a can\u00e7\u00e3o de sua prefer\u00eancia, a melanc\u00f3lica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela \u00e1ria, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia ins\u00f3lito contraste. Dizia-se: Miss D\u00e9ruchette est\u00e1 ao piano; e os que passavam ao sop\u00e9 da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquele canto t\u00e3o fresco e aquela can\u00e7\u00e3o t\u00e3o triste.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era formosa, por\u00e9m, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uIna can\u00e7\u00e3o de soldados e marujos, t\u00e3o bela que passava por tal no regimento.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e9ruchette tem um cabo de cabelos \u2014 dizia Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Era lind\u00edssima desde a ir\u00edrancia. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que n\u00e3o adquiriu defeito algum at\u00e9 tornar-se mo\u00e7a; o nariz nem ficou comprido nem curto; e, chegando \u00e0 juventude, D\u00e9ruchette conservou-se encantadora.<\/p>\n<p>Dava o nome de pai ao tio.<\/p>\n<p>Mess Lethierry concedia-lhe algumas fun\u00e7\u00f5es de jardineira e mesmo de dona de casa. A mo\u00e7a regava os canteiros de malva\u00edsco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava ox\u00e1lida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, t\u00e3o hospitaleira \u00e0s flores. Tinha, como toda a gente, alo\u00e9s plantado no ch\u00e3o, e, o que \u00e9 mais dif\u00edcil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto, chic\u00f3ria para setembro, pastinaca para o outono, e rap\u00fancio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, contanto que n\u00e3o trabalhasse muito com a p\u00e1 e o ancinho, e sobretudo que n\u00e3o fosse ela pr\u00f3pria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas. uma chamada Gra\u00e7a, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Gra\u00e7a e Doce faziam o servi\u00e7o da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as m\u00e3os vermelhas.<\/p>\n<p>O quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era cont\u00edguo \u00e0 sala grande do r\u00e9s-do-ch\u00e3o, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A mob\u00edlia do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, constru\u00eddo com vigas, era caiado, bem como as paredes; \u00e0 direita da porta estava pregado o arquip\u00e9lago da Mancha, bela carta mar\u00edtima, onde se lia a seguinte inscri\u00e7\u00e3o: W. Faden, 5, Charing Cross, Geographer to His Majesty; e \u00e0 esquerda estava pendurado um desses grandes len\u00e7os de algod\u00e3o que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da Fran\u00e7a, da R\u00dcssia, da Espanha e dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, e no centro a Union Jack da Inglaterra.<\/p>\n<p>Doce e Gra\u00e7a eram duas criaturas ordin\u00e1rias, devendo tomar-se esta palavra \u00e0 boa parte. Doce n\u00e3o era m\u00e1 e Gra\u00e7a n\u00e3o era feia.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhes ficavam mal t\u00e3o perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a coisa. As duas criadas faziam o servi\u00e7o com uma esp\u00e9cie de lentid\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 domesticidade normanda no arquip\u00e9lago. Gra\u00e7a, faceira e bonita, contemplava constantemente o horizonte com uma inquieta\u00e7\u00e3o de gato. Era porque, tendo tamb\u00e9m o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas n\u00f3s n\u00e3o temos nada com isto. A diferen\u00e7a entre Gra\u00e7a e Doce \u00e9 que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de servir e Gra\u00e7a subiria \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de criada grave. Os talentos poss\u00edveis de Gra\u00e7a eram nulos para uma mo\u00e7a c\u00e2ndida como D\u00e9ruchette. Demais, os amores de Doce e Gra\u00e7a eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava sobre D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>A sala baixa do r\u00e9s-do-ch\u00e3o, com chamin\u00e9, e rodeada de bancos e mesas, servira no s\u00e9culo passado para as reuni\u00f5es de um convent\u00edculo de refugiados franc\u00eases protestantes. A parede de pedra nua n\u00e3o tinha ornamento algum a n\u00e3o ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele genio, perseguidos por ele na ocasi\u00e3o da revoca\u00e7\u00e3o do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele quadro na parede como um testemunho.<\/p>\n<p>Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: A 29 de outubro de 1685, demoli\u00e7\u00e3o dos templos de Morcef` e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux. A 2 de abril de 1686, pris\u00e3o de Cochard pai e filho por motivo de religi\u00e3o, a requerimento do Sr.Bispo de Meaux. Foram soltos Por terem abjurado. A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma mem\u00f3ria expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Netiville, donzelas da religi\u00e3o reformada, para a casa das Novas Cat\u00f3licas de Paris. A 7 de julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus cat\u00f3licos, de Fliblaines.<\/p>\n<p>No fundo da sala, ao p\u00e9 da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena divis\u00e3o de t\u00e1buas, que tinha sido tribuna huguenote, e era ent\u00e3o, gra\u00e7as a uma grade arranjada, o office do vapor, isto \u00e9, escrit\u00f3rio da Durande ocupado por Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as p\u00e1ginas cotadas. Deve e H\u00e1 de Haver, substitu\u00eda a B\u00edblia.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo IX\u2014 O homem que advinhou quem era Rantaine<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry governou a Durande enquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capit\u00e3o; mas l\u00e1 chegou um dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substitu\u00ed-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha, em toda a costa, fama de severa probidade. Era o alter ego e o vig\u00e1rio de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabeli\u00e3o que de marinheiro, era um mar\u00edtimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador h\u00e1bil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instru\u00eddo e atrevido capit\u00e3o. Era prudente e algumas vezes levava a prud\u00eancia ao ponto de ousar, o que \u00e9 uma grande qualidade na vida mar\u00edtima. Tinha o receio do prov\u00e1vel temperado pelo instinto do poss\u00edvel. Era um desses marinheiros que afrontam o perigo em uma propor\u00e7\u00e3o conhecida deles, sabendo triunfar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a um homem, ele a tinha. Era, af\u00e9m. disso, nadador de fama; pertencia a essa ra\u00e7a de homens exercitados na gin\u00e1stica da vaga, que se conservam na \u00e1gua o tempo que se quer, e que, partindo de Havredes-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de Ermitage e a do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado o tem\u00edvel trajeto desde Manois at\u00e9 a ponta de Plaintmont.<\/p>\n<p>Uma das coisas que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess Lethierry foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e disse-lhe: Rantaine h\u00e1 de roub\u00e1-lo. Verificou-se a profecia.<\/p>\n<p>Mais de uma vez, em neg\u00f3cios pouco importantes, \u00e9 verdade, Mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia: Consci\u00eancia quer confian\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo X\u2014 Narrativas de viagens de longo curso<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry, que se n\u00e3o acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro \u00e0 japona de piloto. D\u00e9ruchette torcia o n\u00faiz por isso. Nada \u00e9 t\u00e3o belo como uma caretazinha da formosura em c\u00f3lera.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette ralhava e ria: Bom paizinho, dizia ela, est\u00e1 cheirando a alcatrio. \u2014 E dava uma palmadinha na larga esp\u00e1dua do marinheiro.<\/p>\n<p>Aquele velho her\u00f3i do mar trouxe das suas viagens narrativas maravilhosas.<\/p>\n<p>Viu em Madag\u00e1scar plumas de p\u00e1ssaro das quais bastavam tr\u00eas para cobrir uma casa. Viu na \u00edndia hastes de azedinhas de 9 p\u00e9s de altura. Viu na Nova Holanda bandos de perus e de patos dirigidos e guardados por um c\u00e3o de pastor, que naquela terra \u00e9 um p\u00e1ssaro e chama-se galinha-silvestre. Viu cemit\u00e9rios de elefantes. Viu na \u00c1frica uma esp\u00e9cie de homens-tigres de 7 p\u00e9s de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo at\u00e9 o macaco barbado. No Chile viu uma bugia comover os ca\u00e7adores apresentando-lhes o filho.<\/p>\n<p>Viu na Calif\u00f3rnia um tronco de \u00e1rvore oco, no interior do qual um homem a cavalo podia andar 150 passos. Viu em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matrah e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer c\u00e3es, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harhQuoi, por ter assassinado o \u00e2p de uma aldeia. Em ThudanInot, viu um le\u00e3o arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistiu \u00e0 chegada da grande cobra mandada de Cant\u00e3o a Saigon, para celebrar, no Pagode de ChoCen, a festa de Quan-riam, deusa dos navegantes. Contemplou na terra o grande Quan-Su.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos cabelos pequenas bolas de gaze contendo cada uma delas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrelas. Destruiu no Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho, que ocupa com as patas um di\u00e2metro de um ter\u00e7o de vara, e ataca o homem. por meio dos pr\u00f3prios pelos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne, produzindo p\u00fastulas. No rio Arinos, afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte da Diamantina, verificou a exist\u00eancia do terr\u00edvel povomorcego, os murcilagos, homens que nascem com os cabelos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dorr\u00faem de dia, acordam de noite e pescam e ca\u00e7am nas trevas, vendo melhor de que quando h\u00e1 lua.<\/p>\n<p>Perto de Beirute no acampamento de uma expedi\u00e7\u00e3o de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; ent\u00e3o um feiticeiro vestido de duas ou tr\u00eas faixas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os pr\u00f3prios suspens\u00f3rios, agitou t\u00e3o furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que apareceu logo uma hiena trazendo o pluviometro. A hiena \u00e9 que o tinha roubado.<\/p>\n<p>Estas hist\u00f3rias verdadeiras assemelhavam-se tanto a hist\u00f3rias da carochinha que divertiam D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>A boneca de Durande era o elo entre o vapor e a mo\u00e7a. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na proa, est\u00e1tua de madeira mais ou menos esculpida. Da\u00ed vem que, para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locu\u00e7\u00e3o: estar entre popa e boneca (poupe etpoup\u00e9e).<\/p>\n<p>A boneca de Durande tinha as predile\u00e7\u00f5es de Mess Lethierry. Ele encomendara ao carpinteiro que a fizesse parecida com D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esfor\u00e7ando-se por ser mo\u00e7a bonita.<\/p>\n<p>Mas a coisa, embora disforme, iludia Mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa f\u00e9 diante daquela figura. Reconhecia nela a imagem de D\u00e9ruchette. \u00c9 mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o \u00eddolo com Deus Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na ter\u00e7a-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, v\u00ea-la chegar. Encostava-se \u00e0 janela, contemplava a sua obra, era feliz. H\u00e1 alguma coisa assim no Genesis: Et vidit quod esset bonum.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, a presen\u00e7a de Mess Lethierry na janela era um sinal. Quem o via chegar \u00e0 janela da casa de Bravees, acender o cachimbo, dizia logo: Ali! o vapor est\u00e1 a chegar. Uma fuma\u00e7a anunciava a outra.<\/p>\n<p>A Durande, \u2014 entrando no porto, atava amarra debaixo das janelas de Mess Lethierry, numa grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry gozava um admir\u00e1vel sono na sua maca, sentindo de um lado D\u00e9ruchette adormecida, do outro Durande amarrada.<\/p>\n<p>O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cais.<\/p>\n<p>O cais, a casa, o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A explora\u00e7\u00e3o do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquele lugar est\u00e1 hoje ocupado por est\u00e2ncias de quebradores de pedra.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo XI\u2014 Lance de olhos aos maridos eventuais<\/b><\/p>\n<p>D\u00e9ruchette ia crescendo e n\u00e3o se casava.<\/p>\n<p>Mess Lethierry v\u00ea-la uma mo\u00e7a de m\u00e3ozinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educa\u00e7\u00f5es daquelas voltam-se sempre contra os pais.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para D\u00e9ruchette que fosse tamb\u00e9m marido de Durande.<\/p>\n<p>Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse o piloto da outra. Que \u00e9 um marido? \u00c9 o capit\u00e3o de uma viagem. Por que motivo n\u00e3o dar uni s\u00f3 capit\u00e3o ao navio e \u00e0 filha? O casal obedece \u00e0s mar\u00e9s. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas s\u00e3o sujeitas \u00e0 lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess Lethierry, n\u00e3o podia ser para Durande sen\u00e3o um capit\u00e3o provis\u00f3rio; era preciso um piloto mo\u00e7o, um capit\u00e3o definitivo, um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. O piloto de Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo n\u00e3o fundir os dois genros em um s\u00f3? Lethierry afagava esta id\u00e9ia. Via aparecer-lhe em sonhos um noivo.<\/p>\n<p>Um gajeiro possante e tostado, um atleta do mar, eis o seu ideal. N\u00e3o era esse o ideal de D\u00e9ruchette, o sonho da mo\u00e7a era mais cor-de-rosa.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo em n\u00e3o ter pressa. Quando viram D\u00e9ruchette torna-se herdeira prov \u00e1vel, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas solicitudes nem sempre s\u00e3o de boa qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: Mo\u00e7a de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava. Ela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Coisa singular, Lethierry n\u00e3o fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um ingl\u00eas inveross\u00edmil. Dificilmente se acreditar\u00e1 que ele chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar, mas n\u00f3s n\u00e3o acreditamos, que ele recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da fam\u00edlia Edou, que evidentemente descende de Edouard, o Confessor.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo XII\u2014 Exce\u00e7\u00e3o no car\u00e1ter de Lethierry<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, n\u00e3o uma pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire \u2014 costumava ler e lia Voltaire \u2014, estas palavras: os padres s\u00e3o gatos, Mess Lethierry pos o livro de parte, e ouviram-no murmurar baixinho: \u2014sinto-me c\u00e3o.<\/p>\n<p>Cumpre n\u00e3o esquecer que os padres luteranos, calvinistas e cat\u00f3licos atacaram-no vivamente e perseguiram-no docemente, por causa da constru\u00e7\u00e3o do Devil Boat local. Ser revolucion\u00e1rio em navega\u00e7\u00e3o, tentar introduzir um progresso no arquip\u00e9lago normando, impor \u00e0 pobre ilha de Guernesey os esbo\u00e7os de uma inven\u00e7\u00e3o nova era, conforme dissemos, uma temeridade conden\u00e1vel Lethierry n\u00e3o escapou a uma certa condena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se esque\u00e7am que falamos do clero antigo, diferente do cl\u00e9ro atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tend\u00eancia liberal para o progresso.<\/p>\n<p>Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obst\u00e1culos que pode haver nas pr\u00e9dicas e nos serm\u00f5es. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00d3dio dos outros era a circunst\u00e2ncia atenuante do \u00f3dio dele. Mas a sua avers\u00e3o pelos padres era idiossincr\u00e1tica. Para odi\u00e1-los n\u00e3o precisava ser odiado. Como ele pr\u00f3prio dizia, era o c\u00e3o daqueles gatos. Era contra eles pela id\u00e9ia, e, o que \u00e9 mais irredut\u00edvel, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos patires, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, e nem sempre a prop\u00f3sito. \u00c9 erro n\u00e3o distinguir. N\u00e3o s\u00e3o bons os \u00f3dios absolutos. Nem mesmo o vig\u00e1rio saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. N\u00e3o \u00e9 certo que para ele houvesse um bom padre. \u00c0 for\u00e7a de filosofar, ia perdendo a circunspec\u00e7\u00e3o. Existe a intoler\u00e2ncia dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tio boa alma que n\u00e3o podia ser odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a n\u00e3o querer-lhes bem. A diferen\u00e7a entre o \u00f3dio dos outros e o dele \u00e9 que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.<\/p>\n<p>Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Existem nela a religi\u00e3o cat\u00f3lica e a religi\u00e3o protestante. Devemos acrescentar que a\u00ed n\u00e3o entram as duas religi\u00f5es na mesma igreja.<\/p>\n<p>Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para S\u00e3o Pedro, metade para Calvino; entre as duas h\u00e1 um tabique para prevenir os murros e pesco\u00e7\u00f5es; partes iguais; os cat\u00f3licos tem tr\u00eas altares; os huguenotes tem tr\u00eas altares; como as horas do oficio s\u00e3o sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasi\u00e3o para os dois servi\u00e7os. Convoca a um tempo os fi\u00e9is para Deus e para o diabo.<\/p>\n<p>Simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A fleuma alem\u00e3 acomoda-se com estas iniquidades. Mas, em Guernesey, cada religi\u00e3o tem casa pr\u00f3pria. H\u00e1 uma ortodoxa e par\u00f3quia her\u00e9tica. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a escolha de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Aquele marinheiro, aquele oper\u00e1rio, aquele fil\u00f3sofo, aquele povo do trabalho, simples na apar\u00eancia, n\u00e3o o era em subst\u00e2ncia. Tinha l\u00e1 as suas contradi\u00e7\u00f5es e pertin\u00e1cias. Era inabal\u00e1vel a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.<\/p>\n<p>Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha express\u00f5es pr\u00f3prias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consci\u00eancia. Os poucos estudos que tinha, pouqu\u00edssimos, feitos aqui e ali, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha tamb\u00e9m erros de pron\u00fancia, nem sempre ing\u00eanuos. Quando se fez a paz entre a Fran\u00e7a de Lu\u00eds XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre dIunion traidor por tra\u00e7o) entre os dois campos. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papaut\u00e9) do seguinte modo : pape ot\u00e9 (papa arrancado). N\u00e3o acreditamos que ele fizesse isto de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Este anti-papismo n\u00e3o o conciliava com os anglicanos. Os presb\u00edteros protestantes n\u00e3o o estimavam mais que os curas cat\u00f3licos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem reservas a irreligi\u00e3o de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um serm\u00e3o acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, serm\u00e3o magn\u00edfico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os supl\u00edcios, os tormentos, as condena\u00e7\u00f5es, os castigos inexor\u00e1veis, os fogar\u00e9us sem fim, as maldi\u00e7\u00f5es inextingu\u00edveis, as c\u00f3leras do Onipotente, os furores celestes, as vingan\u00e7as divinas, coisas incontest\u00e1veis; Lethierry ouviou o serm\u00e3o e, ao sair com um dos fi\u00e9is, disse-lhe baixinho: ora, quer ver? Eu c\u00e1 tenho uma id\u00e9ia ratona. Suponho que Deus \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Adquiriu este germe de ate\u00edsmo quando residiu na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Posto que fosse guernesiano, e de ra\u00e7a pura, chamavam-no na ilha o franc\u00eas, por causa de seu esp\u00edrito impr\u00f3prio. Nem ele o ocultava; estava impregnado de id\u00e9ias subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil Boat, provava bem isto.<\/p>\n<p>Lethierry costumava dizer: Eu mamei o leite 89. Mau leite.<\/p>\n<p>E que desprop\u00f3sitos fazia! \u00c9 dif\u00edcil viver intato nos lugares pequenos.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, guardar as apar\u00eancias, na Inglaterra, ser respeit \u00e1vel \u00e9 quanto basta para passar a vida tranq\u00fcilo. Ser respeit\u00e1vel \u00e9 coisa que implica uma imensidade de observ\u00e2ncias, desde o domingo bem santificado at\u00e9 a gravata bem atada.<\/p>\n<p>N\u00e3o te fa\u00e7as apontar com dedo, eis uma lei terr\u00edvel. Ser apontado \u00e9 o diminutivo de an\u00e1tema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, s\u00e3o ex\u00edmias nesta malignidade isoladora, que \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o vista ao inv\u00e9s do \u00f3culo. Os mais intr\u00e9pidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afrontasse o furac\u00e3o, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que l\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mas debaixo dessa press\u00e3o dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava \u00e1gua no vinho, locu\u00e7\u00e3o prenhe de concess\u00f5es latentes e \u00e0s vezes inconfess\u00e1veis. Afastava-se dos homens do clero, mas n\u00e3o lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasi\u00f5es oficiais e nas \u00e9pocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presb\u00edtero luterano como o capel\u00e3o papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar \u00e0 par\u00f3quia anglicana a menina D\u00e9ruchette, que, ali\u00e1s, s\u00f3 ia l\u00e1 nas quatro grandes festas do ano.<\/p>\n<p>Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de inclin\u00e1-lo para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. N\u00e3o havia meio de emend\u00e1-la.<\/p>\n<p>De fato, e sem remiss\u00e3o, era esse o temperamento de Lethierry.<\/p>\n<p>Aborrecia todos os cleros. Tinha a irrever\u00eancia revolucion\u00e1ria. Distinguia pouco entre duas formas de culto. Nem mesmo fazia justi\u00e7a a este grande progresso: n\u00e3o acreditar na presen\u00e7a real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de n\u00e3o ver a diferen\u00e7a entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. Wesley n\u00e3o vale mais que Loyola, dizia ele. Quando via passar um pastor protestante de bra\u00e7o com a mulher, desviava os olhos. Padre casado!, dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na Fran\u00e7a naquela \u00e9poca. Contava que na viagem \u00e0 Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A sua revolta contra essas uni\u00f5es ia at\u00e9 a C\u00f3lera. Vestido n\u00e3o casa com vestido!, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. N\u00e3o teria d\u00favida em dizer: Nem homem nem mulher: padre. Aplicava com mau g\u00f4sto tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma fraseologia; e n\u00e3o se dava ao trabalho de variar, a prop\u00f3sito de padres, quaisquer que fossem, cat\u00f3licos e luteranos, as mesmas soldadescas usadas naquele tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Casa-te com quem quiseres \u2014 dizia ele a D\u00e9ruchette -, contanto que n\u00e3o seja com algum padreco.<\/p>\n<p><b>Cap\u00edtulo XIII\u2014 O desleixo faz parte da gra\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Dita uma coisa, Mess Lethierry n\u00e3o a esquecia mais; de uma coisa, Miss D\u00e9ruchette esquecia-a logo. Esta era a diferen\u00e7a entre o tio e a sobrinha.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. H\u00e1 mais um perigo latente numa educa\u00e7\u00e3o tomada muito a s\u00e9rio. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, \u00e9 talvez uma imprud\u00eancia.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As suas id\u00e9ias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Satisfazia os sentimentos religiosos indo \u00e0 par\u00f3quia quatro vezes por ano. J\u00e1 a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana n\u00e3o sabia coisa alguma. Tinha disposi\u00e7\u00f5es para amar um dia loucamente. Enquanto n\u00e3o chegava esse dia, era menina folgaz\u00e3.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esfor\u00e7o, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglesa. Na Inglaterra as crian\u00e7as andam s\u00f3s, as meninas s\u00e3o senhoras de si, a adolesc\u00eancia vai \u00e0 r\u00e9dia solta. Tais s\u00e3o os costumes. Mais tarde, as mo\u00e7as livres fazem-se mulheres escravas. Tomem \u00e0 boa parte estas duas express\u00f5es: livres no crescimento, escravas no dever.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette acordava todos os dias com a inconsci\u00eancia das suas a\u00e7\u00f5es da v\u00e9spera. Bem embara\u00e7ado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana anterior. Isto, por\u00e9m, n\u00e3o impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma indisposi\u00e7\u00e3o misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 nuvens dessas nos c\u00e9us como aquele; mas passavam depressa.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava serena.<\/p>\n<p>Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava.<\/p>\n<p>Ca\u00e7oava com os rapazes. N\u00e3o escaparia o pr\u00f3prio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo t\u00e3o inocente que abusava de si pr\u00f3pria. Dava um sorriso como um gatinho d\u00e1 um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de ontem n\u00e3o existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que \u00e9 a excessiva felicidade. Naquela mo\u00e7a a lembran\u00e7a dissipava-se como neve que se funde.<\/p>\n<h2>Livro Quarto:\u201cO Bagpipe\u201d<\/h2>\n<p>Primeiros Rubores de Aurora ou de Inc\u00eandio<br \/>\nGilliatt n\u00e3o trocara nunca uma palavra com D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Conhecia-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrela da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que D\u00e9ruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre-Port ao Vale, e reze-lhe a surpresa de tra\u00e7ar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na v\u00e9spera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te de seres travessa; est\u00e1s mo\u00e7a feita.<\/p>\n<p>O nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade desconhecida.<\/p>\n<p>Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia dizelo.<\/p>\n<p>Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. S\u00f3 na \u00faltima extremidade falava \u00e0s mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava s\u00f3 em um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. At\u00e9 das velhas fugia. S\u00f3 tinha visto uma parisiense. Parisiense de arriba\u00e7\u00e3o, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infort\u00fanios: Estou muito ma\u00e7ada, ca\u00edram-me uns chuviscos no chap\u00e9u, esta cor \u00e9 muito sujeita a ficar manchada.<\/p>\n<p>Tendo encontrado, tempo depois, entre as rolhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da cal\u00e7ada de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembran\u00e7a dessa apari\u00e7\u00e3o. Nas noites de estio, escondia-se atr\u00e1s das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar.<\/p>\n<p>Um dia, atrav\u00e9s de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha ca\u00eddo. Provavelmente Gilliatt era virgem.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de Natal em que D\u00e9ruchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para casa n\u00e3o sabendo j\u00e1 por que motivo tinha sa\u00eddo. N\u00e3o dormiu de noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que n\u00e3o tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser sua m\u00e3e e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre-Port, e que a par\u00f3quia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria o 27.<\/p>\n<p>1 dia de lua, e que por conseq\u00fc\u00eancia a mar\u00e9 enchente seria \u00e0s 3 horas e 21 minutos, a m\u00e9dia \u00e0s 7 horas e 15 minutos, a vazante \u00e0s 9 horas e 36 minutos. Recordou at\u00e9 nas menores particularidades, o vestu\u00e1rio de highIander que lhe vendera o bagpipe, bon\u00e9 enfeitado com um cardo \u00e0 claymore, a casaca de abas curtas ,e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre at\u00e9 que ele adormeceu.<\/p>\n<p>Gilliatt acordou quando o sol j\u00e1 ia alto e o seu primeiro pensamento foi D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escoces. Sonhou tamb\u00e9m com o velho cura Jaquemin Herodes.<\/p>\n<p>Quando acordou pensou outra vez em D\u00e9ruchette e teve contra ela uma violenta c\u00f3lera; lamentou n\u00e3o ser crian\u00e7a para ir atirar pedras nas vidra\u00e7as da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois lembrou-se de que, se fosse crian\u00e7a, teria ainda sua m\u00e3e, e entrou a chorar.<\/p>\n<p>Projetou ir passar uns esses meses em Chausey ou em Minquiers, mas n\u00e3o partiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o tornou a por os p\u00e9s na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale.<\/p>\n<p>Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para ele.<\/p>\n<p>[editar] Gilliatt vai Entrando Passo a Passo no Desconhecido<br \/>\nGilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. N\u00e3o o fazia de prop\u00f3sito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia ent\u00e3o passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales .<\/p>\n<p>Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale \u00e9 uma couve que tem o sabor de aspargo.<\/p>\n<p>O muro do jardim da casa de D\u00e9ruchette era baixinho; podia-se pular f\u00e1cilmente. Esta id\u00e9ia pareceu terr\u00edvel a Gilliatt. Mas quem passava n\u00e3o podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt. n\u00e3o escutava, mas ouvia.<\/p>\n<p>De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Gra\u00e7a e Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse m\u00fasica.<\/p>\n<p>De outra vez, distinguiu uma voz que n\u00e3o era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de D\u00e9ruchette. Deitou a correr.<\/p>\n<p>As palavras que ouviu \u00e0 mo\u00e7a ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?<\/p>\n<p>Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. J\u00e1 se atrevia a ficar parado.<\/p>\n<p>Aconteceu uma vez que D\u00e9ruchette, que n\u00e3o podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano e cantava.<\/p>\n<p>Cantava a can\u00e7\u00e3o Bonny Dundee. Gilliatt empalideceu, mas levou a firmeza at\u00e9 ouvir a can\u00e7\u00e3o toda.<\/p>\n<p>Chegou a primavera. Gilliatt teve uma vis\u00e3o: abriu-se o c\u00e9u. Gilliatt viu D\u00e9ruchette regando uns p\u00e9s de alface.<\/p>\n<p>Dai a pouco j\u00e1 ele fazia mais do que parar. Observava os h\u00e1bitos da mo\u00e7a, notava as horas em que ela aparecia, e esperava.<\/p>\n<p>Tinha cuidado de n\u00e3o ser visto por ela.<\/p>\n<p>A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, im\u00f3vel e mudo horas inteiras sem ser visto por ningu\u00e9m, retendo a respira\u00e7\u00e3o, Gilliatt acostumou-se a ver D\u00e9ruchette andar pelo jardim. \u00c9 f\u00e1cil acostumar-se ao veneno.<\/p>\n<p>Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia D\u00e9ruchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanch\u00e3o feito de cani\u00e7o, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.<\/p>\n<p>Quanto j\u00e1 n\u00e3o tinha andado! Chegou at\u00e9 a espiar e prestar ouvido.<\/p>\n<p>Ali! o cora\u00e7\u00e3o humano \u00e9 um velho espi\u00e3o!<\/p>\n<p>Havia outro banco vis\u00edvel e pr\u00f3ximo, no fim de uma alameda.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette assentava-se ali algumas vezes.<\/p>\n<p>Pelas flores que ele via D\u00e9ruchette colher e cheirar, adivinhou as prefer\u00eancias da mo\u00e7a a respeito de perfumes.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a preferia antes de tudo a camp\u00e2nula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos l\u00edrios, olhava para eles, mas n\u00e3o os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento.<\/p>\n<p>Cada cheiro significava para ele uma perfei\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a id\u00e9ia de falar a D\u00e9ruchetie fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes \u00e0 rua que costeava o muro do jardim de D\u00e9ruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua devo\u00e7\u00e3o por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presen\u00e7a daquele homem \u00e0 possibilidade de uma mulher que estivesse atr\u00e1s do muro?<\/p>\n<p>Descobriria esse vago fio invis\u00edvel? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, j\u00e1 no inverno e na noite, que coisa \u00e9 o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas: Aquece, aquece!<\/p>\n<p>Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impress\u00e3o, e murmurou com um ponto de interroga\u00e7\u00e3o interior: Aquece? Que quer dizer a velha? Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas n\u00e3o chegou a compreende-la.<\/p>\n<p>Estando um dia \u00e0 janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de Houmet-Paradis. Brincavam ingenuamente na \u00e1gua, a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou ent\u00e3o que uma mulher nua causava-lhe horror.<\/p>\n<p>[editar] A Can\u00e7\u00e3o Bonny Dundee acha um Eco na Colina<br \/>\nAtr\u00e1s do muro do jardim, em um \u00e2ngulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de urtigas, com um p\u00e9 de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o ver\u00e3o. Ficava ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O ver\u00e3o foi luminoso e suave.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha sobre a cabe\u00e7a as nuvens que perpassavam no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumorejar de p\u00e1ssaros. Punha a cabe\u00e7a nas m\u00e3os e perguntava a si pr\u00f3prio: Mas por que escreveu ela o meu nome na neve?<\/p>\n<p>O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras long\u00ednquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. N\u00e3o se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das \u00e1rvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua m\u00e3e que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: \u00c9 isso. Compreendo. D\u00e9ruchette ama-me. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: Mas tamb\u00e9m ela pensa em mim; faz bem. Pensava em que D\u00e9ruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o vapor era uma inven\u00e7\u00e3o execr\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia lembrar nunca em que dia do m\u00eas estava. Contemplava vagamente os grandes zang\u00f5es negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fech\u00e1-la. A noite estava escura. De repente, D\u00e9ruchette aplicou o ouvido. Havia uma m\u00fasica no meio daquela noite profunda.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que provavelmente estava na vertente da colina, ou ao p\u00e9 das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma can\u00e7\u00e3o num instrumento. D\u00e9ruchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bagpipe. N\u00e3o compreendeu nada.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, \u00e0 mesma hora, especialmente nas noites escuras.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette n\u00e3o gostava muito daquilo.<\/p>\n<p>Passaram-se quatro anos.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.<\/p>\n<p>J\u00e1 algu\u00e9m escreveu algures: Uma id\u00e9ia fixa \u00e9 uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirp\u00e1-la no primeiro ano \u00e9 preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos. Gilliatt estava no quarto ano.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha trocado uma s\u00f3 palavra com D\u00e9ruchette. Pensava nela; era tudo.<\/p>\n<p>Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver D\u00e9ruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a cal\u00e7ada do porto. Gilliatt arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele passou. N\u00e3o era coisa imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persist\u00eancia desta m\u00fasica perto da janela de D\u00e9ruchette. M\u00fasica terna, circunst \u00e2ncia agravante. N\u00e3o lhe agradavam namorados noturnos.<\/p>\n<p>Queria casar D\u00e9ruchette com dia claro, quando ela e ele quisessem e simplesmente, sem romance e sem m\u00fasica. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de c\u00f3lera e disse: Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me \u00e0 porta? Ama D\u00e9ruchette, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Perde o tempo. Quem quiser D\u00e9ruchette deve vir falar-me, e sem m\u00fasica.<\/p>\n<p>Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento importante.<\/p>\n<p>Anunciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de instalar o seu sucessor.<\/p>\n<p>Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.<\/p>\n<p>A respeito dele havia circunst\u00e2ncias que a benevol\u00eancia e a malevol\u00eancia comentavam em sentido inverso. Diziam que era mo\u00e7o e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperan\u00e7a. Na l\u00edngua especial criada para a heran\u00e7a e a riqueza, a morte chama-se esperan\u00e7a. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito \u00e0 qualidade de honorable. Quanto \u00e0 sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a express \u00e3o do Bispo Tilleston, era muito libertino, isto \u00e9, muito severo.<\/p>\n<p>Repudiava o farisa\u00edsmo; ligava-se antes ao presbit\u00e9rio que ao episcopado.<\/p>\n<p>Sonhava com a Igreja primitiva, onde Ad\u00e3o tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hier\u00f3polis, raptava uma mo\u00e7a para ser mulher d\u00e9le, dizendo aos pais: Ela quer e eu quero, j\u00e1 n\u00e3o sois nem pai nem m\u00e3e, eu sou o anjo de Hier\u00f3polis, e esta \u00e9 minha esposa. O pai \u00e9 Deus. A dar cr\u00e9dito aos boatos, o Sr.<\/p>\n<p>Ebenezer Caudray subordinava o texto : Honrai pai e m\u00e3e ao texto, segundo ele, superior: A mulher \u00e9 a carne do homem. A mulher deixar\u00e1 pai e m\u00e3e para acompanhar o marido. Mas, afinal de contas, esta tend\u00eancia para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o v\u00ednculo conjugal \u00e9 pr\u00f3pria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra e singularmente na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>[editar] Justa Vit\u00f3ria \u00e9 Sempre Malquista<br \/>\nEis o balan\u00e7o de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto.<\/p>\n<p>Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as d\u00edvidas, reparou os preju\u00edzos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento l\u00edquido do navio era ent\u00e3o de 1000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna dele. Era tamb\u00e9m a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arruma\u00e7\u00e3o a . bordo, e facilitar a entrada e sa\u00edda do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprud\u00eancia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. \u00c9 verdade que a chalupa era excelente.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.<\/p>\n<p>A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, \u00e9 que n\u00e3o inspirava confian\u00e7a; acreditava-se que era puro acaso. A situa\u00e7\u00e3o de Mess Lethierry era aceita como exce\u00e7\u00e3o. Dizia-se que ele fizera uma loucura feliz. Quis algu\u00e9m fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve mau \u00eaxito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: \u00c9 que a m\u00e1quina foi mal constru\u00edda.<\/p>\n<p>Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si, o \u00f3dio de todos; o menor erro compromete-as.<\/p>\n<p>Consultado acerca de um neg\u00f3cio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos or\u00e1culos comerciais do arquip\u00e9lago normando: \u00c9 uma convers\u00e3o o que me propondes. Convers\u00e3o de dinheiro em fumo. Os capit\u00e3es teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira.<\/p>\n<p>. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor n\u00e3o era um princ\u00edpio. Tal era a pertin\u00e1cia da navega\u00e7\u00e3o diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: Fez coisa boa, mas n\u00e3o h\u00e1 de meter-se em outra. Longe de animar, o exemplo dele causava medo. Ningu\u00e9m ousaria arriscar segunda Durande.<\/p>\n<p>[editar] Fortuna dos N\u00e1ufragos Encontrando a Chalupa<br \/>\nCedo anuncia-se o equin\u00f3cio na Mancha. \u00c9 um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro come\u00e7am ali os ventos do oeste sacudindo as \u00e1guas em todos os sentidos. A navega\u00e7\u00e3o torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como uma emboscada; invis\u00edvel clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; \u00e9 terr\u00edvel o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.<\/p>\n<p>O vento \u00e9 um perigo; o nevoeiro outro.<\/p>\n<p>Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. H\u00e1 nevoeiros que trazem suspensos prismas microsc\u00f3picos de gelo, aos quais Mariotti atribui as aur\u00e9olas, os par\u00e9lios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos s\u00e3o comp\u00f3sitos; vapores diversos de peso espec\u00edfico desigual combinam-se com o vapor da \u00e1gua e surperp\u00f5em-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o f\u00f3sforo.<\/p>\n<p>Isto, em certa propor\u00e7\u00e3o, deduzindo a tens\u00e3o el\u00e9trica e magn\u00e9tica, explica muitos fen\u00f4menos, o santelmo de Colombo e de Magalh \u00e3es, as estrelas volantes de que fala Seneca, as duas chamas, Castor e P\u00f3lux, de que fala Plutarco, a legi\u00e3o romana que a C\u00e9sar pareceu ver arderem os dardos, a lan\u00e7a do castelo do Duino no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o ferro da sua lan\u00e7a, e talvez mesmo as fulgura\u00e7\u00f5es que os antigos chamavam rel\u00e2mpagos terrestres de Satumo.<\/p>\n<p>No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, \u00e9 o Cloud-ring, anel de nuvens.<\/p>\n<p>O Cloud-ring resfria o tr\u00f3pico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o p\u00f3lo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro \u00e9 fatal. S\u00e3o essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os navegadores dos \u00faltimos s\u00e9culos, quando passavam ali, atiravam os cavalos ao mar, em ocasi\u00e3o de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economizar a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Dizia Colombo: Nube abajo \u00e9s muerte. (Nuvem baixa, morte certa.<\/p>\n<p>) Os etruscos, que s\u00e3o para a meteorologia o que os caldeus s\u00e3o para a astronomia, tinham dois pontificados &#8211; o pontificado do trov\u00e3o e o pontificado da nuvem: uns observavam o rel\u00e2mpago, outros o nevoeiro. O col\u00e9gio dos \u00e1tigures de Tarq\u00fc\u00ednia era consultado pelos t\u00edrios, fen\u00edcios e pel\u00e1gicos, e de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de gera\u00e7\u00e3o das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de gera\u00e7\u00e3o dos nevoeiros, e, a bem dizer, \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno. Existem no mesmo oceano tr\u00eas regi\u00f5es de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros d\u00e3o-lhe um s\u00f3 nome &#8211; le pot au noir.<\/p>\n<p>Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equin\u00f3cio s\u00e3o mui perigosos. Fazem anoitecer de s\u00fabito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 muito cerrado, \u00e9 impedir que se reconhe\u00e7a a mudan\u00e7a de fundo pela mudan\u00e7a da cor da \u00e1gua; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parc\u00e9is. O navegador aproxima-se de um escolho sem ser advertido.<\/p>\n<p>Muitas vezes os nevoeiros n\u00e3o deixam ao navio em marcha outro recurso que n\u00e3o seja por-se \u00e0 capa ou ancorar. H\u00e1 tantos naufr\u00e1gios causados pelo nevoeiro como pelo vento.<\/p>\n<p>Entretanto, ap\u00f3s uma violent\u00edssima borrasca que sucedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashemere chegou perfeitamente da Inglaterra.<\/p>\n<p>Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do dia, no momento em que o Castelo Comet salvava o sol com um tiro.<\/p>\n<p>Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashemere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa, espalhou-se o boato de que encontrara \u00e0 noite no mar outra chalUpa com uma equipagem. naufragada.<\/p>\n<h2>Boa Fortuna de Aparecer a Tempo<\/h2>\n<p>Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da costa.<\/p>\n<p>Na volta, estando a mar\u00e9 a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de Ia Bete para entrar na angra em que ficava a pan\u00e7a, pareceu-lhe ver na proje\u00e7\u00e3o da Cadeira Gild Holm-Ur uma sombra que n\u00e3o era a do rochedo. Deixou a pan\u00e7a chegar at\u00e9 ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm- Ur. O mar j\u00e1 estava alto, a rocha estava cercada pela \u00e1gua, n\u00e3o era poss\u00edvel ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou im\u00f3vel. Gilliatt aproximou-se. O homem estava adormecido.<\/p>\n<p>Tinha ele vestu\u00e1rio preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.<\/p>\n<p>N\u00e3o conheceu quem era.<\/p>\n<p>A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt Costeou a muralha. A mar\u00e9 levantava a barca quanto bastava Para que Gilliatt, pondo-se de p\u00e9 sobre a pan\u00e7a, pudesse tocar os p\u00e9s do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os bra\u00e7os. Se ca\u00edsse naquele momento, \u00e9 duvidoso que tornasse a aparecer. A vaga batia entre a pan\u00e7a e o rochedo, era inevit\u00e1vel ser esmagado.<\/p>\n<p>Gilliatt puxou o p\u00e9 do homem adormecido.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, que faz a\u00ed?<\/p>\n<p>O homem acordou.<\/p>\n<p>\u2014 Estou olhando &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>Depois, acordando de todo, continuou: \u2014 Cheguei h\u00e1 pouco \u00e0 terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.<\/p>\n<p>\u2014 Dez minutos mais, afogar-se-ia &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Salte para a barca.<\/p>\n<p>Gilliatt susteve a barca com o p\u00e9, p\u00f3s uma das m\u00e3os no rochedo e estendeu a outra ao homem, que pulou lentamente na barca. Era um bonito rapaz.<\/p>\n<p>Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pan\u00e7a chegou \u00e0 angra da casa mal-assombrada.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o tinha chap\u00e9u redondo e gravata branca. Trazia abotoada at\u00e9 o pesco\u00e7o a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.<\/p>\n<p>Entretanto a pan\u00e7a tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e viu a m\u00e3o do mo\u00e7o que lhe apresentou um soberano de ouro.<\/p>\n<p>Gilliatt repeliu docemente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio. O mo\u00e7o falou: \u2014 Salvou-me a vida &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez &#8211; respondeu Gilliatt.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a estava amarrada. Sa\u00edram da barca.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o continuou: \u2014 Devo-lhe a vida, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Que importa isso?<\/p>\n<p>Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo sil\u00eancio. \u00c9 desta par\u00f3quia o senhor? &#8211; perguntou o mancebo. N\u00e3o &#8211; respondeu Gilliatt. De que par\u00f3quia \u00e9 ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Gilliatt levantou a m\u00e3o direita, mostrou o c\u00e9u e disse: \u2014 Daquela.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o cumprimentou e foi caminhando.<\/p>\n<p>Depois de alguns passos, voltou, meteu a m\u00e3o no bolso, tirou um livro e voltou-se para Gilliatt.<\/p>\n<p>\u2014 Consinta que lhe ofere\u00e7a isto.<\/p>\n<p>Gilliatt tomou o livro.<\/p>\n<p>Era uma B\u00edblia.<\/p>\n<p>Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o mo\u00e7o, que voltava o \u00e2ngulo do caminho que, ia ter a Saint-Sampson.<\/p>\n<p>A pouco e pouco abateu a cabe\u00e7a, esqueceu o mancebo, n\u00e3o soube mais se existia a Cadeira Gild-Holm-Ur, e tudo desapareceu, na imers\u00e3o sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo, D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou: \u2014 Ol\u00e1, Gilliatt!<\/p>\n<p>Reconheceu a voz e ergueu os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1, Sr. Landoys?<\/p>\n<p>Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faeton, com um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt \u00e0 fala, mas parecia atarefado e apressado: \u2014 H\u00e1 novidade, Gilliatt.<\/p>\n<p>\u2014 Onde?<\/p>\n<p>\u2014 Na casa de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>\u2014 O que h\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Estou longe para lhe contar o caso.<\/p>\n<p>Gilliatt estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Casa-se Miss D\u00e9ruchette?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Mas \u2014 Que quer dizer?<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 l\u00e1 \u00e0 casa dele, que h\u00e1 de saber.<\/p>\n<p>E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo<\/p>\n<h2>Livro Quinto:O Rev\u00f3lver<\/h2>\n<p><b>A PALESTRA NA POUSADA JO\u00c3O O Sr. Clubin era o homem que espera a ocasi\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p>Era baixo e amarelo, com a for\u00e7a de um touro. O mar n\u00e3o podia com ele. Tinha uma carne que parecia cera. Era da cor de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua mem\u00f3ria tinha um que de imperturb\u00e1vel e especial. Ver um homem uma vez era conserv\u00e1-lo como se fosse uma nota em um registro o olhar laconico apunhalava. A p\u00e1lpebra tirava a prova de um rosto, e conservavao; n\u00e3o importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin n\u00e3o deixava de reconhece-lo. Era imposs\u00edvel fugir \u00e0quela mem\u00f3ria tenaz. O Sr. Clubin era breve, s\u00f3brio e frio; n\u00e3o fazia gesto algum.<\/p>\n<p>Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-no simpl\u00f3rio; trazia no rosto uma certa ruga que indicava uma espantosa estupidez. N\u00e3o havia melhor marinheiro do que ele. N\u00e3o havia reputa\u00e7\u00e3o de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse \u00e9 que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de S\u00e3o Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua f\u00e1brica a Clubin. O Sr. Clubin era vi\u00favo. A mulher foi t\u00e3o honesta como ele. Morreu com a fama de uma virtude invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Se o bailio lhe fizesse uma declara\u00e7\u00e3o ela iria cont\u00e1-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ela iria cont\u00e1-lo ao padre vig\u00e1rio. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do ep\u00edteto ingl\u00eas respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr.<\/p>\n<p>Clubin era o arminho. Morreria se lhe pusessem uma n\u00f3doa. Nunca achou um alfinete que n\u00e3o fosse logo \u00e0 cata do propriet\u00e1rio. Era capaz de por em almoeda uma caixa de f\u00f3sforos, se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: Almocei aqui h\u00e1 tr\u00eas anos e voce enganou-se na conta. E, dizendo isto, restituiu ao taberneiro 75 c\u00eantimos. Era uma grande probidade, mordendo atentamente os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>Parecia estar sempre \u00e0 espera. De quem? Provalvelmente dos velhacos.<\/p>\n<p>Todas as ter\u00e7as-feiras levava a Durande de Guernesey a Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo na ter\u00e7a-feira \u00e0 noite, demorava-se dois dias para fazer o carregamento e voltava a Guernesey na sexta-feira de manh\u00e3. Havia ent\u00e3o em Saint-Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a Pousada Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do cais atual fez demolir a pousada. Naquela \u00e9poca vinha o mar at\u00e9 a porta de Saint-Vincent e a porta de Dinan; Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas mar\u00e9s baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em seco, evitando as b\u00f3ias, as \u00e2ncoras e os ma\u00e7ames, e arriscandose \u00e0s vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa.<\/p>\n<p>No intervalo de duas mar\u00e9s, os cocheiros fustigavam os cavalos naquela mesma areia, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outrora os 24 c\u00e3es, porteiros de Saint-Malo, que devoraram um oficial de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os c\u00e3es. J\u00e1 n\u00e3o se ouvem agora os latidos noturnos entre o pequeno e o grande Tallard.<\/p>\n<p>O Sr.Clubin ia \u00e0 Pousada Jo\u00e3o. Era ali o escrit\u00f3rio franc\u00eas da Durande.<\/p>\n<p>Os guardas da alf\u00e2ndega e os guardas da costa iam comer e beber na Pousada Jo\u00e3o. Faziam rancho \u00e0 parte. Os guardas da alf\u00e2ndega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o servi\u00e7o, com os guardas da alf\u00e2ndega de Saint-Malo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m l\u00e1 iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a dos guardas \u00e0 dos mestres. Era bem recebido em ambas.<\/p>\n<p>As mesas eram bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas estrangeiras para os mar\u00edtimos expatriados. Um marinheiro de Bilbau acharia ali um copo. Bebia-se stout como em Greenwich, e como em Antu\u00e9rpia.<\/p>\n<p>Capit\u00e3es de longo curso e armadores tomavam \u00e0s vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se a\u00ed not\u00edcias: &#8211; Como vai o a\u00e7\u00facar? &#8211; Pequenos lotes. Vende-se bem o a\u00e7\u00facar bruto; 3 000 sacas de Bombaim e quinhentas barricas de Sagua.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ver, o partido da direita ainda derruba o minist\u00e9rio Villele.<\/p>\n<p>&#8211; E o anil? &#8211; Venderam-se apenas uns sete surr\u00f5es da Guatemala.<\/p>\n<p>&#8211; A Nanine Julie ancorou. Lindo navio da Bretanha.<\/p>\n<p>&#8211; As duas cidades do rio da Prata est\u00e3o outra vez desavindas.<\/p>\n<p>&#8211; Quando Montevid\u00e9u engorda, Buenos Aires emagrece.<\/p>\n<p>&#8211; Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado em Ci\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O cacau vai andando; os sacos Caracas s\u00e3o cotados a 234, e os sacos Trindade a 73.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que na revista do Campo de Marte ouviu-se gritar: abaixo os ministros.<\/p>\n<p>&#8211; Os couros salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60 francos e o das vacas a &#8211; J\u00e1 passaram o Balkan? O que faz Diebitsch? &#8211; O azeite Plagniol est\u00e1 calmo. O queijo de Gruy\u00e8re est\u00e1 a 32 francos o quintal.<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent\u00e3o, Le\u00e3o XII morreu? &#8211; Etc.., etc&#8230;,etc.<\/p>\n<p>Todas estas coisas eram ditas e comentadas no meio de grande barulho. \u00c0 mesa dos guardas da alf\u00e2ndega e dos guardas da costa falava-se menos.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no di\u00e1logo.<\/p>\n<p>A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capit\u00e3o de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. N\u00e3o era homem, era um baremetro. Os h\u00e1bitos do mar deram-lhe uma espantosa infalibilidade de progn\u00f3stico. Ele decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; auscultava o vento; tomava o pulso \u00e0 mar\u00e9. Dizia \u00e0 nuvem: mostra-me a tua l\u00edngua. A l\u00edngua era o rel\u00e2mpago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada.<\/p>\n<p>O oceano era o seu doente; fez uma viagem \u00e0 roda do mundo como quem faz uma cl\u00ednica, examinando todos os climas na sua boa e m\u00e1 sa\u00fade; sabia a fundo a patologia das esta\u00e7\u00f5es. Enunciava fatos como este: o bar\u00f4metro desceu uma vez em 1796 a tr\u00eas linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha inglesa para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 diferia do Royal William de 1670 e do Victory de 1755. Comparava os castelos de popa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de g\u00e1vea afunilados do Great Harry de 1514, prov\u00e0velmente no ponto de vista da bala francesa que se aninhava perfeitamente naquelas superficies. Para ele as na\u00e7\u00f5es s\u00f3 existiam por suas institui\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas; fazia sin\u00f4nimos extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Esc\u00f3cia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informa\u00e7\u00f5es; era alfabeto. e almanaque. Sabia de cor a portagem dos far\u00f3is, principalmente ingl\u00eases; penny por tonelada ao passar diante deste, farthing ao passar diante daquele. Dizia: o Farol de Smalt Rock, que consumia apenas 200 gal\u00f5es de azeite, consome agora 500. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 o tinha por defunto, estava \u00e0 roda de sua maca, quando ele interrompeu os solu\u00e7os da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um conserto do navio.<\/p>\n<p>Era raro que o assunto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capit\u00e3es e na mesa dos guardag. Apresentou-se, por \u00e9m, o seguinte caso nos primeiros dias do m\u00eas de fevereit ro, em que se passam os fatos que estamos contando. A galera Tamaulipas, Capit\u00e3o Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a aten\u00e7\u00e3o das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se do carregamento, e na mesa dos guardas falou-se dos ares suspeitos do navio.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Zuela, de Copiapo, era chileno, um pouco colombiano; tinha feito com independ\u00eancia as guerras da independ\u00eancia, acompanhando ora Bol\u00edvar, ora Morillo, com enorme os lucros, enriquecido obsequiando a toda a gente. N\u00e3o havia homem mais bourb\u00f4nico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais ateu e mais cat\u00f3lico. Ele pertencia a este grande partido que se pode chamar o Partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apari\u00e7\u00f5es comerciais na Fran\u00e7a; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscritos pol\u00edticos, fossem quem fossem, contanto que pagassem. O meio de embarc\u00e1-los era simples. O fugitivo esperava num ponto deserto da costa, e, no momento de aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia busc\u00e1-lo. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas comprometidas na quest\u00e3o da Bidassoa. A pol\u00edcia, j\u00e1 avisada, estava com o olho nele.<\/p>\n<p>Era um tempo de fugas aquele. A restaura\u00e7\u00e3o era uma rea\u00e7\u00e3o; ora, as revolu\u00e7\u00f5es trazem emigra\u00e7\u00f5es, e as restaura\u00e7\u00f5es arrastam proscri\u00e7\u00f5es. Durante os sete ou oito primeiros anos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finan\u00e7as, na ind\u00fastria, no com\u00e9rcio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as fal\u00eancias. Havia um salve-se quem puder na pol\u00edtica. Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira.<\/p>\n<p>Os tribunais de exce\u00e7\u00e3o trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se \u00e0 ponte de Saumur, \u00e0 esplanada de Reole, ao muro do observat\u00f3rio de Paris, \u00e0 torre de Taurias d&#8217;Avignon, tudo isso que se conserva de p\u00e9 na hist\u00f3ria, vest\u00edgios da rea\u00e7\u00e3o, aonde se distingue ainda a sua m\u00e3o sanguinolenta.<\/p>\n<p>Em Londres, o processo Thistlewood, ramificado na Fran\u00e7a, em Paris o processo Trogoff, ramificado na B\u00e9lgica, na Su\u00ed\u00e7a e na It\u00e1lia, multiplicaram os motivos da inquieta\u00e7\u00e3o e desaparecimento, e aumentaram essa profunda derrota subterr\u00e2nea, que deixava vazios os mais altos lugares da ordem social de ent\u00e3o. Por-se em seguran\u00e7a era a preocupa\u00e7\u00e3o universal. O esp\u00edrito dos tribunais prebostais sobrevivera \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. As condena\u00e7\u00f5es eram feitas por complac\u00eancia. Fugiam para o Texas, para o Peru, para o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Os homens da Loire, salteadores ent\u00e3o, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asilo. Dizia uma can\u00e7\u00e3o de Beranger:<\/p>\n<p>Sauvages, nous sommes fran\u00e7ais;Prenez p\u00edti\u00e9 de notre gloire.<\/p>\n<p>Expatriar-se era o recurso; por\u00e9m nada menos simples que fugir; Este monoss\u00edlabo encerra abismos. Tudo \u00e9 obst\u00e1culo para quem se esquiva. Fugir \u00e9 disfar\u00e7ar-se. Pessoas importantes, e at\u00e9 ilustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sa\u00edam-se mal. Eram inveross\u00edmeis. Os seus h\u00e1bitos de franqueza tornavam-lhes dif\u00edcil resvalar pelas malhas da evas\u00e3o. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correto aos olhos da pol\u00edcia do que um general. Imaginem a inoc\u00eancia constrangida a disfar\u00e7ar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gl\u00f3ria mascarando o rosto. Algum indiv\u00edduo que passasse com ar suspeito, era uma reputa\u00e7\u00e3o \u00e0 cata de um passaporte falso. O ar embara\u00e7ado de um fugitivo n\u00e3o provava que ele deixasse de ser um her\u00f3i. Tra\u00e7os fugazes e caracter \u00edsticos dos tempos, que a hist\u00f3ria regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um s\u00e9culo deve rememorar. Atr\u00e1s dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos.<\/p>\n<p>Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confus\u00e3o, fazia parte dos proscritos, e muitas vezes, gra\u00e7as a unia arte apurada, parecia naquele crep\u00fasculo mais honesto que o honesto.<\/p>\n<p>Que h\u00e1 a\u00ed mais acanhado que a probidade diante da justi\u00e7a? Nada entende, nada finge. Um fals\u00e1rio escapa-se mais facilmente que um convencional.<\/p>\n<p>Coisa estranha! Especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos tratantes, quase se pode dizer que a evas\u00e3o fazia subir o indiv\u00edduo. A quantidade de civiliza\u00e7\u00e3o que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos pa\u00edses primitivos ou b\u00e1rbaros, recomendava-o e fazia dele um iniciador. Era f\u00e1cil que um aventureiro, escapando ao c\u00f3digo, chegasse depois ao sacerd\u00f3cio. Havia fantasmagoria na desapari\u00e7\u00e3o, e mais de uma evas\u00e3o tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste g\u00eanero levava ao desconhecido e ao quim\u00e9rico. Tal bancarroteiro sa\u00eda da Europa e aparecia mais tarde gr\u00e3o-vizir em Mogol ou rei na Tasm\u00e2nia.<\/p>\n<p>Ajudar as evas\u00f5es era uma ind\u00fastria, e visto a freq\u00fc\u00eancia do fato, uma ind\u00fastria lucrativa. Esta especula\u00e7\u00e3o completava certos g\u00eaneros de com\u00e9rcio. Quem queria fugir para a Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas; quem queria fugir para a Am\u00e9rica dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, tais como Zuela.<\/p>\n<h2>CLUBIN DESCOBRE ALGU\u00c9M<\/h2>\n<p>Zucla ia comer, algumas vezes, \u00e0 Pousada Jo\u00e3o. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.<\/p>\n<p>E o Sr. Clubin n\u00e3o era soberbo; n\u00e3o se desprezava de conhecer de vista um tratante. \u00c0s vezes chegava mesmo a conhece-los de fato, dando-lhes a m\u00e3o em plena rua. Falava ingl\u00eas com o smogler e engrolava o espanhol corri o contrabandista.<\/p>\n<p>A este respeito tinha ele as seguintes m\u00e1ximas: &#8211; Pode-se adquirir o bem pelo conhecimento do mal.<\/p>\n<p>O monteiro conversa proveitosamente com o ladr\u00e3o de ca\u00e7a. &#8211; O piloto deve sondar o pirata; o pirata \u00e9 um escolho. &#8211; Trata de provar um velhaco como o m\u00e9dico prova o veneno.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha r\u00e9plica. Todos davam raz\u00e3o ao Capit\u00e3o Clubin. Era aprovado por n\u00e3o ter escr\u00fapulos tolos. Quem ousaria dizer mal dele? Tudo quanto fazia era para bem do servi\u00e7o. Nele tudo era simples.<\/p>\n<p>Nada podia compromete-lo. O cristal querendo manchar-se n\u00e3o pode. Esta confian\u00e7a era a justa recompensa de uma longa honestidade e \u00e9 essa a excel\u00eancia das reputa\u00e7\u00f5es firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam mal\u00edcia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquele encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sa\u00eda sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradi\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>Ingenuo h\u00e1bil \u00e9 coisa que existe. \u00c9 uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa \u00edntima com um lar\u00e1pio ou um bandido, s\u00e3o recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e tem ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima p\u00fablica.<\/p>\n<p>O Tamaufipas tinha completado o carregamento. Estava pr\u00f3ximo a partir e ia aparelhar.<\/p>\n<p>Em uma ter\u00e7a-feira \u00e0 tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin, de p\u00e9 no passadi\u00e7o e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dois rochedos, em um lugar muito solit\u00e1rio, dois homens conversando.<\/p>\n<p>Deitou-lhes o \u00f3culo e reconheceu. um dos homens. Era o Capit\u00e3o Zuela. Parece que reconheceu tamb\u00e9m o outro.<\/p>\n<p>O outro era alto, um pouco grisalho. Trazia o chap\u00e9u largo e o vestu\u00e1rio grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 Pousada Jo\u00e3o, o Sr-Clubin soube que o Tamaufipas ia aparelhar dentro de dez dias.<\/p>\n<p>Soube-se depois que ele tomara outras informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, entrou em casa do armeiro da Rua de S\u00e3o Vicente, e disse-lhe: &#8211; Sabe o que \u00e9 um rev\u00f3lver? &#8211; Sei &#8211; respondeu ele &#8211; , \u00e9 americano. \u00c9 uma pistola que renova sempre a conversa\u00e7\u00e3o. Na verdade, ela tem pergunta e resposta.<\/p>\n<p>E replica. \u00c9 justo, Sr.<\/p>\n<p>Clubin. O cano \u00e9 girante. E cinco ou seis balas.<\/p>\n<p>O armeiro levantou o cantinho do bei\u00e7o e Rez ouvir aquele estalo de l\u00edngua, que, acompanhado de um movimento de cabe\u00e7a, exprime a admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A arma \u00e9 boa, Sr. Clubin. Creia que h\u00e1 de vir a ser universal.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria um rev\u00f3lver de seis tiros.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho desses.<\/p>\n<p>&#8211; Pois que, o senhor n\u00e3o \u00e9 armeiro? &#8211; Mas ainda n\u00e3o tenho desse. Bem v\u00ea que \u00e9 coisa nova. Na Fran\u00e7a s\u00f3 se fazem pistolas.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! &#8211; \u00c9 coisa que ainda n\u00e3o est\u00e1 no com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! &#8211; Tenho pistolas excelentes.<\/p>\n<p>&#8211; Quero um rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>Convenho que \u00e9 melhor. Mas espere, Sr.<\/p>\n<p>Clubin &#8211; O que \u00e9? &#8211; Creio que h\u00e1 um em Saint-Malo.<\/p>\n<p>&#8211; Rev\u00f3lver? &#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Para vender? &#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Onde? &#8211; Creio que sei. Hei de informar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Quando me d\u00e1 a resposta? &#8211; O rev\u00f3lver \u00e9 bom.<\/p>\n<p>&#8211; Quando devo voltar? &#8211; Se eu lhe arranjo um rev\u00f3lver, \u00e9 porque \u00e9 bom.<\/p>\n<p>&#8211; Quando me d\u00e1 a resposta? &#8211; Na sua primeira viagem.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga que \u00e9 para mim.<\/p>\n<h2>CLUBIN LEVA UNS OBJETOS E N\u00c3O OS TRAZ<\/h2>\n<p>O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o e alguns passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo para Guernesey na sexta-feira de manh\u00e3. Nesse mesmo dia, quando o navio j\u00e1 estava ao largo, o que permite ao capit\u00e3o ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa no compartimento el\u00e1stico, biscoitos, latas de conserva, algumas de cacau, um cronometro e um \u00f3culo no compartimento s\u00f3lido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para i\u00e7\u00e1-lo se fosse preciso. Depois desceu ao por\u00e3o, entrou no dep\u00f3sito dos cabos e viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar ladr\u00f5es em terra. Essas cordas facilitam a escalada.<\/p>\n<p>Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou a\u00ed 36 horas.<\/p>\n<p>Levou o saco e a corda, mas n\u00e3o voltou com eles.<\/p>\n<p>Uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro \u00e9 o antigo Guernesey que j\u00e1 n\u00e3o existe e seria imposs\u00edvel ach\u00e1-lo hoje, a n\u00e3o ser no campo. \u00c9 a\u00ed que ele existe vivo, mas nas cidades morreu. A observa\u00e7\u00e3o que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-H\u00e9lier vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Gra\u00e7as ao progresso, gra\u00e7as ao admir\u00e1vel esp\u00edrito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se tudo em quarenta anos no arquip\u00e9lago da Mancha. Onde havia sombra h\u00e1 luz. Dito isto, continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, j\u00e1 s\u00e3o hist\u00f3ricos, o contrabando ativava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as min\u00facias o que se passava h\u00e1 quase meio s\u00e9culo chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase todos asturianos. O que \u00e9 fora de d\u00favida \u00e9 que n\u00e3o se passava semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na ba\u00eda dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um servi\u00e7o regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importa\u00e7\u00e3o. Para as necessidades desse com\u00e9rcio falava-se na Mancha uma esp\u00e9cie de l\u00edngua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino para o italiano.<\/p>\n<p>Em muitos pontos do litoral ingl\u00eas e franc\u00eas o contrabando estava em boa harmonia com o neg\u00f3cio l\u00edcito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, \u00e0s escondidas, e verdade; e dilatava-se subterr\u00e2neamente na circula\u00e7\u00e3o comercial e por todas as vias de ind\u00fastria. Negociante em p\u00fablico, contrabandista \u00e0s escondidas, eis a hist\u00f3ria de muitas fortunas. Seguindo, dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. N\u00e3o garantimos o dito de ambos. Talvez se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava, sem contesta\u00e7\u00e3o, muito aparentado no com\u00e9rcio. Carteava-se com a germa da sociedade.<\/p>\n<p>A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreens\u00edvel para o lado da sociedade.<\/p>\n<p>Daqui resultaram muitas conveniencias necess\u00e0riamente mascaradas.<\/p>\n<p>Tais mist\u00e9rios exigiam sombra impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar segredo; a sua lei era uma f\u00e9 inviol\u00e1vel e r\u00edgida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discri\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 contrabando.<\/p>\n<p>Havia o segredo da fraude como h\u00e1 o segredo da confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse segredo era imperturbavelmene guardado. O contrabandista jurava n\u00e3o dizer nada e mantinha a sua palavra. Ningu\u00e9m inspirava mais confian\u00e7a do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e pos-lhe a quest\u00e3o para obrig\u00e1-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista n\u00e3o confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dois c\u00famplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, \u00e0 qual o segundo resistia para cumprir o juramento.<\/p>\n<p>Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquela \u00e9poca, eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios. Parentesco espanhol e cat\u00f3lico que consiste em ter o mesmo patr\u00e3o no para\u00edso, coisa n\u00e3o menos digna de considera\u00e7\u00e3o que ter o mesmo pai na terra.<\/p>\n<p>Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itiner\u00e1rio do contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa mais f\u00e1cil e mais dif\u00edcil. Bastava n\u00e3o ter preconceitos noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de interroga\u00e7\u00e3o que ali se levanta.<\/p>\n<h2>PLAINMONT<\/h2>\n<p>Plainmont, perto de Torteval, \u00e9 um dos tr\u00eas \u00e2ngulos de Guernesey.<\/p>\n<p>H\u00e1, na extremidade do cabo, uma coroa de relva que domina o mar. O cume \u00e9 deserto. Tanto mais deserto quanto h\u00e1 ali uma casa. Aquela casa aumenta o horror da solid\u00e3o. Dizem que \u00e9 malassombrada.<\/p>\n<p>Assombrada ou n\u00e3o, o aspecto \u00e9 medonho. \u00c9 feita de granito, tem um s\u00f3 andar e est\u00e1 no meio da relva. N\u00e3o tem aspecto de ru\u00edna. \u00c9 perfeitamente habit\u00e1vel. As paredes s\u00e3o grossas e o teto s\u00f3lido. N\u00e3o falta uma s\u00f3 pedra \u00e0s paredes, nem uma s\u00f3 telha ao telhado. Tem uma chamin\u00e9 de tijolo. A casa est\u00e1 de costas para o mar. A fachada do lado do mar \u00e9 apenas uma parede.<\/p>\n<p>Examinando bem essa parede v\u00ea-se uma janela murada. H\u00e1 tr\u00eas trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma s\u00f3 porta e janelas. A porta \u00e9 murada e as duas janelas de baixo tamb\u00e9m. No primeiro andar, e \u00e9 isso que espanta logo ao princ\u00edpio, h\u00e1 duas janelas abertas; mas as janelas tapadas s\u00e3o menos assustadoras que as janelas abertas. Por estarem abertas, aparecem negras em pleno dia. N\u00e3o tem vidros nem caixilhos.<\/p>\n<p>Abrem para as trevas do interior. Dir-se-ia umas \u00f3rbitas vazias de olhos arrancados. Nada h\u00e1 naquela casa. V\u00ea-se pelas janelas abertas o descalabro de dentro. Nem ret\u00e1bulos, nem entalhos de madeira, pedra nua. Parece um sepulcro com janelas para deixar que os espectros olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do lado do mar. Algumas urtigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horizonte, nenhuma habita\u00e7\u00e3o humana. Aquela casa \u00e9 uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem p\u00e1ra e p\u00f5e o ouvido \u00e0 parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.<\/p>\n<p>Por cima da porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, est\u00e3o gravadas estas letras: ELM &#8211; PBILG, e esta-data: 1780.<\/p>\n<p>De noite o luar l\u00fagubre penetra na casa.<\/p>\n<p>Todo o mar est\u00e1 em roda da casa. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 magn\u00edfica, e, por conseq\u00fc\u00eancia, sinistra. A beleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquela casa n\u00e3o \u00e9 habitada por nenhuma fam\u00edlia humana? O lugar \u00e9 bonito, a casa \u00e9 boa. Donde procede esse abandono? As perguntas da raz\u00e3o ajuntam-se as perguntas da supersti\u00e7\u00e3o. O campo \u00e9 cultiv\u00e1vel, por que motivo est\u00e1 inculto? N\u00e3o h\u00e1 dono. A porta, murada. Que tem, pois, esse lugar? Por que foge o homem? Que se faz aqui? Se n\u00e3o h\u00e1 nada por que \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m? Quando todos dormem h\u00e1 algu\u00e9m acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animais escondidos, os entes ignorados, aparecem ao pensamento e misturam-se \u00e0quela casa. A que passageiros serve ela de hospedaria? A gente imagina trevas de granizo e de chuva metendo-se pela janela dentro. H\u00e1 na parte interior uns vagos sinais de chuva. Os quartos fechados e abertos s\u00e3o visitados. Conter-se-ia algum crime ali? Parece que aquela casa, \u00e0 noite, entregue \u00e0s trevas, deve chamar por socorro.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 muda? Saem vozes de dentro? Que faz ela na solid\u00e3o? O mist\u00e9rio das horas negras existe ali facilmente. A casa assusta ao meio-dia; que ser\u00e1 ela \u00e0 meia-noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se &#8211; porque a supersti\u00e7\u00e3o tem a sua l\u00f3gica e o poss\u00edvel a sua inclina\u00e7\u00e3o &#8211; o que ser\u00e1 aquela casa entre o crep\u00fasculo da noite e o crep\u00fasculo da manh\u00e3. A imensa dispers\u00e3o da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto um v\u00ednculo em que ela p\u00e1ra, e que a obriga a fazer-se vis\u00edvel e a descer? O espa\u00e7o vai redemoinhar ali? O impalp\u00e1vel vai ali condensar-se? Enigmas. Sai daquelas pedras o horror sagrado. A treva que est\u00e1 nesses quartos defesos \u00e9 mais do que treva; \u00e9 o desconhecido.<\/p>\n<p>Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os p\u00e1ssaros, o cabreiro que est\u00e1 atr\u00e1s do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras dar\u00e3o passagem aos r\u00e9pteis mais animados, as estrelas come\u00e7ar\u00e3o a olhar, soprar\u00e1 o vento, far-se-\u00e1 plena escurid\u00e3o, as duas janelas estar\u00e3o ali escancaradas.<\/p>\n<p>Abrem-se para o sonho; e \u00e9 por apari\u00e7\u00f5es, larvas, fantasmas mal distintos, sombras cobrindo luzes, misteriosos tumultos de almas e espectros, que a cren\u00e7a popular est\u00fapida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquela casa com a noite.<\/p>\n<p>A casa \u00e9 mal-assombrada, esta palavra explica tudo.<\/p>\n<p>Os esp\u00edritos cr\u00e9dulos d\u00e3o a sua explica\u00e7\u00e3o; mas os esp\u00edritos positivos d\u00e3o outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem eles.<\/p>\n<p>\u00c9 um antigo posto de observa\u00e7\u00e3o, do tempo das guerras da revolu\u00e7\u00e3o e do imp\u00e9rio e dos contrabandos. Foi constru\u00edda para isso.<\/p>\n<p>Acabada a guerra, foi abandonado o Posto. N\u00e3o se demoliu a casa porque pode tornar-se \u00fatil. Taparam-se a porta e as janelas do r\u00e9s-do-ch\u00e3o contra os Catercor\u00e1rios humanos, e para que ningu\u00e9m pudesse entrar; taparam-se as janelas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis tudo.<\/p>\n<p>Os ignorantes e os cr\u00e9dulos insistem. Em primeiro lugar a casa n\u00e3o foi constru\u00edda no tempo das guerras da revolu\u00e7\u00e3o. Traz a data de 1780, anterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Depois, n\u00e3o foi constru\u00edda para ser posto; tem as letras ELM &#8211; PBILG, que s\u00e3o o duplo monograma de duas fam\u00edlias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi constru\u00edda para algum jovem casal. Portanto foi habitada. Por que n\u00e3o o \u00e9 agora? Se tapou a porta e as janelas para que ningu\u00e9m entrasse, por que motivo deixaram-se abertas duas janelas? Deviam tapar tudo ou nada. Por que n\u00e3o h\u00e1 vidros, nem caixilhos, nem postigos? Por que fech\u00e1-las de um lado, sem fech\u00e1-las de outro? A chuva n\u00e3o entra pelo sul, mas entra pelo norte.<\/p>\n<p>Os cr\u00e9dulos n\u00e3o tem raz\u00e3o, \u00e9 certo; mas os positivos tambem n\u00e3o a tem. O problema persiste. O que \u00e9 certo \u00e9 que dizem ter sido a casa mais \u00fatil que nociva aos contrabandistas. Quando o medo cresce, os fatos perdem a verdadeira propor\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que muitos fen\u00f4menos noturnos, entre aqueles de que a pouco e pouco se comp\u00f4s o assombramento da casa, poderia explicar-se por presen\u00e7as fugitivas e obscuras, curtas esta\u00e7\u00f5es de homens logo embarcados, j\u00e1 pelas precau\u00e7\u00f5es, j\u00e1 pela ousadia de certos comerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca j\u00e1 remota, muitas aud\u00e1cias eram poss\u00edveis. A pol\u00edcia, sobretudo, nos lugares pequenos, n\u00e3o era o que \u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Ajunte-se a isto que se a casa era comoda aos contrabandistas, as suas entrevistas ali deviam ser francas, exatamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que f\u00f3sse denunciada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pede \u00e0 pol\u00edcia socorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se,, mas n\u00e3o fazem processo. Veem ou acreditam ver, fogem e calam. Existe uma coviv\u00eancia t\u00e1cita involunt\u00e1ria, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter surpreendido um segredo, receiam agravar a posi\u00e7\u00e3o misteriosa para eles, e enfadar as apari\u00e7\u00f5es. Isto f\u00e1-los discretos. E ainda, fora deste c\u00e1lculo, o instinto dos cr\u00e9dulos \u00e9 o sil\u00eancio; o medo \u00e9 mudo; os aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz: sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Devem recordar-se que isto remonta \u00e0 \u00e9poca em que os camponeses guernesianos acreditavam que o mist\u00e9rio do pres\u00e9pio era repetido todos os anos pelos bois e pelos asnos; \u00e9poca em que ningu\u00e9m, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animais ajoelhados.<\/p>\n<p>Se se deve acreditar nas legendas locais e narrativas dos camponeses, a supersti\u00e7\u00e3o chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vest\u00edgios, ratos sem p\u00e9s, morcegos sem asas, arcabou\u00e7os de animais mortos, sapos esmagados entre as p\u00e1ginas de uma B\u00edblia, febras de tremo\u00e7os amarelos, estranhos ex-votos pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma coisa, e por meio desses presentes contavam obter perd\u00e3o e conjurar o mau humor das estriges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feiti\u00e7aria, e alguns desses cr\u00e9dulos altamente colocados.<\/p>\n<p>C\u00e9sar consultava Sagana, e Napole\u00e3o Mademoiselle Lenormand. H\u00e1 consci\u00eancias t\u00e3o inquietas que chegam a procurar indulg\u00eancias do diabo. Fa\u00e7a-o Deus, mas n\u00e3o o desfa\u00e7a Satan \u00e1s, era uma das ora\u00e7\u00f5es de Carlos V.<\/p>\n<p>H\u00e1 espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter raz\u00e3o contra eles. Ser irrepreens\u00edvel para com o dem\u00f4nio \u00e9 uma das suas preocupa\u00e7\u00f5es. Da\u00ed vem as pr\u00e1ticas religiosas voltadas para a imensa mal\u00edcia obscura. E uma carolice como qualquer outra. Os crimes contra o dem\u00f4nio existem em certas imagina\u00e7\u00f5es doentias; violar a lei do inimigo \u00e9 uma coisa que faz sofrer os estranhos casu\u00edstas da ignor\u00e2ncia; h\u00e1 escr\u00fapulos para com as regi\u00f5es das trevas. Crer na efic\u00e1cia da devo\u00e7\u00e3o aos mist\u00e9rios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se peca contra o inferno recorrendo a penit\u00eancias quim\u00e9ricas por infra\u00e7\u00f5es quim\u00e9ricas, confessar a verdade ao esp\u00edrito da mentira; fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existiu. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas p\u00e1ginas. Vai at\u00e9 esse ponto o sonho humano.<\/p>\n<p>Quando o homem come\u00e7a a assustar-se, n\u00e3o p\u00e1ra mais. Sonha culpas imagin\u00e1rias, sonha purifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, e faz limpar a sua consci\u00eancia com a vassoura das feiticeiras.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, se aquela casa teve aventuras, \u00e9 coisa que l\u00e1 ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas exce\u00e7\u00f5es, ningu\u00e9m subiu a ver o que era; a casa ficou s\u00f3; ningu\u00e9m gosta de arriscar-se aos encontros infernais.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao terror que a cerca e afasta dali todo aquele que pudesse observar e testemunhar, f\u00e1cil foi em todos os tempos entrar de noite naquela casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas vizinhas. Levava-se um rancho de v\u00edveres, o que dava lugar a esperar ali com toda seguran\u00e7a a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradi\u00e7\u00e3o que h\u00e1 quarenta anos um fugitivo, dizem uns que da pol\u00edtica outros que do com\u00e9rcio, l\u00e1 esteve algum tempo escondido, e dali embarcou num barco de pesca para a Inglaterra.<\/p>\n<p>Da Inglaterra \u00e9 f\u00e1cil passar \u00e0 Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>A mesma tradi\u00e7\u00e3o afirma que as provis\u00f5es depositadas naquele albergue l\u00e1 se conservam sem que ningu\u00e9m as toque, visto como L\u00facifer e os contrabandistas tem interesse em que a pessoa que l\u00e1 as p\u00f5e v\u00e1 busc\u00e1-las.<\/p>\n<p>Do lugar em que existe aquela casa, v\u00ea-se ao sudoeste, a 1 milha da costa, o escolho de Hanois.<\/p>\n<p>\u00c9 c\u00e9lebre aquele escolho. Fez todas as m\u00e1s a\u00e7\u00f5es que um rochedo pode fazer. Era um dos mais tem\u00edveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios \u00e0 noite. Entulhou os cemit\u00e9rios de Torteval e de Rocquaine.<\/p>\n<p>Em 1862 pos-se ali um farol.<\/p>\n<p>Hoje o escolho de Hanois alumia a navega\u00e7\u00e3o que ele pr\u00f3prio extraviava outrora; a emboscada traz agora um archot\u00e9 na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Procura-se hoje como profetor e guia o rochedo do qual fugia-se outrora como de um malfeitor. O escolho tranq\u00fciliza aqueles vastos espa\u00e7os noturnos onde outrora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mative. No pequeno Hanois \u00e9 que existe hoje o Red Light. Faz parte de um grupo de picos, uns submarinos, outros acima da \u00e1gua. Domina-os.<\/p>\n<p>Como se fora uma fortaleza, tem baterias avan\u00e7adas; do lado do mar alto, um cord\u00e3o de treze rochas; ao norte, dois cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons e um banco de areia, Heron\u00e9e; ao sul tr\u00eas rochedos, Cat-Rock, Pers\u00e9e e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e al\u00e9m disso em frente de Plainmont, \u00e0 flor da \u00e1gua o Tasde-Pois-d&#8217;Aval.<\/p>\n<p>Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont \u00e9 coisa inc\u00f4moda, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. O leitor lembra-se de que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas esta\u00e7\u00f5es em que pode descansar, a Roque redonda, e, mais longe, obliquando um pouco \u00e0 esquerda, a Roque vermelha.<\/p>\n<h2>OS FURTA-NINHOS<\/h2>\n<p>Pouco mais ou menos naquele dia de s\u00e1bado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um fato singular, pouco assoalhado em principio e que s\u00f3 transpirou muito depois. Como dissemos, h\u00e1 muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspiram \u00e0s suas pr\u00f3prias testemunhas.<\/p>\n<p>Na noite de s\u00e1bado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo exato), tr\u00eas meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam \u00e0 vila. Vinham do mar. Eram o que, na l\u00edngua local, chamam deniquoiseaux: leia-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar h\u00e1 furta-ninhos em abund\u00e2ncia. J\u00e1 falamos deles. O leitor lembra-se de que Gilliatt preocupava-se com isto, por causa dos p\u00e1ssaros e por causa das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Os furta-ninhos s\u00e3o esp\u00e9cies de gaiatos do oceano, pouco t\u00edmidos.<\/p>\n<p>A noite era escura. Espessas superposi\u00e7\u00f5es de nuvens escondiam o zenite. tr\u00eas horas da manh\u00e3 soavam no sino de Torteval, que \u00e9 redondo e pontudo, semelhante a um chap\u00e9u de m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Por que voltavam t\u00e3o tarde aqueles pequenos? Nada mais simples.<\/p>\n<p>Tinham ido \u00e0 ca\u00e7a dos ninhos de cotovias no Tasde-Pois-d&#8217;Aval.<\/p>\n<p>Como a esta\u00e7\u00e3o tinha sido amena, come\u00e7aram cedo os amores dos p\u00e1ssaros. Os pequenos espreitando os machos e as f\u00eameas \u00e0 roda dos ninhos, e distra\u00eddos pela tenacidade da empresa tinham esquecido as horas. Foram cercados pela mar\u00e9. N\u00e3o puderam voltar a tempo para a canoa e tiveram que esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas de Tasde-Pois. Tal foi o motivo da volta noturna. Estas voltas s\u00e3o esperadas sempre pela febril inquieta\u00e7\u00e3o das m\u00e3es que, uma vez tranq\u00fcilas, manifestam a alegria por meio da c\u00f3lera, e lacrimosas dissipam o terror a cacha\u00e7\u00f5es. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados.<\/p>\n<p>Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de n\u00e3o chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.<\/p>\n<p>S\u00f3 um dos meninos nada receava; era um \u00f3rf\u00e3o. Era franc\u00eas e ia bem contente de n\u00e3o ter naquele dia nem pai nem m\u00e3e. N\u00e3o tendo ningu\u00e9m que se interessasse por ele, escapava \u00e0 bordoada. Os outros dois eram guernesianos e da par\u00f3quia de Torteval.<\/p>\n<p>Escaladas as rochas, os tr\u00eas furta-ninhos chegaram \u00e0 planura onde estava a casa mal-assombrada.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crian\u00e7as, \u00e0quela hora e naquele lugar.<\/p>\n<p>Quiseram fugir e quiseram parar a fim de contemplar a casa.<\/p>\n<p>Pararam.<\/p>\n<p>Contemplaram a casa.<\/p>\n<p>Era negra e formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>Era, naquele deserto, um mont\u00e3o escuro, uma excresc\u00eancia sim\u00e9trica e hedionda, uma alta massa quadrada de \u00e2ngulos retil\u00edneos, uma coisa semelhante a um enorme altar de trevas.<\/p>\n<p>O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi aproximar-se. Nunca tinham visto aquela casa \u00e0quela hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre eles um franc\u00eas, donde resultou que os pequenos aproximaram-se da casa.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que os franceses n\u00e3o acreditam em coisa alguma.<\/p>\n<p>Demais, quando s\u00e3o muitos, todos se tranq\u00fcilizam; o medo dividido por tr\u00eas d\u00e1 anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E depois, eram curiosos; eram crian\u00e7as, somada a idade dos tr\u00eas n\u00e3o dava trinta anos; era a idade de perscrutar, de escavar, esquadrinhar as coisas ocultas; deve-se acaso parar no meio? Mete-se a cabe\u00e7a neste buraco, porque n\u00e3o mete-la no outro? A ca\u00e7a arrasta; andar em uma descoberta \u00e9 o mesmo que meter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos p\u00e1ssaros d\u00e1 vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, por que n\u00e3o? De ca\u00e7a em ca\u00e7a, chega-se ao dem\u00f4nio. Depois dos pardais os diabretes. H\u00e1 vontade de saber o que \u00e9 esse medo inspirado pelos pais. Andar na pista dos contos da carocha \u00e9 o que h\u00e1 mais resvaladi\u00e7o. Saber tanto como as contadeiras de hist\u00f3rias \u00e9 coisa que tenta.<\/p>\n<p>Todo este am\u00e1lgama de id\u00e9ias no estado de confus\u00e3o e instinto, na cabe\u00e7a dos rapazes, deu em resultado a temeridade deles.<\/p>\n<p>Caminharam para a casa.<\/p>\n<p>Demais, o pequeno que lhes servia depois nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crian\u00e7as que j\u00e1 s\u00e3o homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando \u00e0s \u00e1rvores e \u00e0s paredes sem escr\u00fapulos a respeito das frutas que encontrava, tendo trabalhado em consertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamb\u00farrio, \u00f3rf\u00e3o alegre, nascido na Fran\u00e7a, sem saber em que ponto, duas raz\u00f5es para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito mau, muito bom, loiro rastejando a ruivo, tendo j\u00e1 falado aos parisienses. Agora ganhava 1 xelim por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha- se em f\u00e9rias e ia tirar os ninhos dos p\u00e1ssaros. Tal era o franc \u00eas.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o do lugar tinha um n\u00e3o sei que de f\u00fanebre. Sentia-se a inviolabilidade amea\u00e7adora. Era medonho. Aquela planura silenciosa e nua escondia no precip\u00edcio a sua curva em declive. Embaixo calava-se o mar. N\u00e3o havia vento. As ervas n\u00e3o se mexiam.<\/p>\n<p>Os furta-ninhos avan\u00e7avam devagar, com o franc\u00eas \u00e0 frente, contemplando a casa.<\/p>\n<p>Um deles, contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava na mem\u00f3ria, acrescentava: A casa n\u00e3o dizia nada.<\/p>\n<p>Aproximavam-se retendo a respira\u00e7\u00e3o, como quem se aproxima de um animal feroz.<\/p>\n<p>Tinham subido o c\u00f4moro que fica atr\u00e1s da casa, e que vai ter a um pequeno istmo de rochedos pouco pratic\u00e1vel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que \u00e9 toda murada; n\u00e3o tinham ousado voltar \u00e0 esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em que h\u00e1 apenas duas janelas, o que \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Entretanto atreveram-se, porque o aprendiz de calafate disse-lhes baixinho, Viremos de bombordo; daquele lado \u00e9 que \u00e9 bonito; \u00e9 preciso ver as duas janelas negras.<\/p>\n<p>Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.<\/p>\n<p>As duas janelas estavam iluminadas.<\/p>\n<p>Os meninos fugiram.<\/p>\n<p>Quando estavam longe, voltou-se o franc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Olhem &#8211; disse ele &#8211; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 luz.<\/p>\n<p>Com efeito, n\u00e3o havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na lividez difusa do c\u00e9u.<\/p>\n<p>O medo n\u00e3o se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos aproximaram-se.<\/p>\n<p>De repente apareceram as luzes outra vez.<\/p>\n<p>Os dois rapazes de Torteval tornaram a por sebo \u00e0s canelas. O pequeno Satan\u00e1s franc\u00eas, n\u00e3o avan\u00e7ou, mas n\u00e3o recuou. Ficou im\u00f3vel em frente da casa olhando para ela.<\/p>\n<p>Extinguiu-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horr\u00edvel. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva \u00famida pelo orvalho.<\/p>\n<p>Em certo momento o clar\u00e3o desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mexiam e sombras de cabe\u00e7as enormes.<\/p>\n<p>Demais a casa n\u00e3o tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janela n\u00e3o pode ser iluminada sem que a outra o seja.<\/p>\n<p>Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dois voltaram tr\u00eamulos, curiosos. O aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: H\u00e1 almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma delas. Os dois pequenos agruparam-se atr\u00e1s do franc\u00eas, e levantando-se sobre a ponta dos p\u00e9s, por cima do ombro, abrigados por ele, fazendo dele um escudo, opondo-o \u00e0 casa, tranq\u00fcilizados por te-lo entre si e a vis\u00e3o, olharam tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A casa a seu turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela vasta obscuridade muda, duas \u00f3rbitas vermelhas. Eram as janelas. A luz eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermit\u00eancias sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. &#8211; Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulcro tem efeitos de lanterna surda.<\/p>\n<p>De repente uma escurid\u00e3o opaca com forma humana levantou-se em uma das janelas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que algu\u00e9m chegava.<\/p>\n<p>Entrar pela janela era o h\u00e1bito dos visitantes.<\/p>\n<p>O clar\u00e3o apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e n\u00e3o reapareceu mais. A casa tornou-se escura. Ent\u00e3o ouviram-se rumores.<\/p>\n<p>Esses rumores pareciam vozes. \u00c9 sempre assim. Quando se v\u00ea, n\u00e3o se ouve; quando n\u00e3o se v\u00ea, ouve-se.<\/p>\n<p>O mar tem \u00e0 noite, uma taciturnidade particular. O sil\u00eancio da sombra \u00e9 a\u00ed mais profundo que em qualquer outra parte. Quando n\u00e3o h\u00e1 nem vento nem marulho, naquela agitada extens\u00e3o de \u00e1guas, onde de ordin\u00e1rio n\u00e3o se ouvem as \u00e1guias voar, ouvir-se-ia voar uma ni\u00e1sca. Aquela paz sepulcral dava um relevo l\u00fagubre aos rumores que sa\u00edam da casa.<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos &#8211; disse o franc\u00eas.<\/p>\n<p>E deu um passo para a casa.<\/p>\n<p>Os outros dois tinham tal medo que decidiram-se a acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o ousavam fugir s\u00f3s. Acabavam de passar um grande mont\u00e3o de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquela solid\u00e3o, quando de uma moita voou uma coruja. As corujas tem uns v\u00e3os tortos, de assustadora obliq\u00fcidade. Aquela passou de trav\u00e9s pelos rapazes, fixando neles os olhos claros no meio da treva.<\/p>\n<p>Houve um certo estremecimento no grupo atr\u00e1s do franc\u00eas.<\/p>\n<p>O franc\u00eas clamou contra a coruja.<\/p>\n<p>&#8211; Tarde vens, coruja. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo. Quero ver.<\/p>\n<p>E avan\u00e7ou.<\/p>\n<p>O ranger dos seus sapatos gross\u00e9s e ferrados n\u00e3o lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a acentua\u00e7\u00e3o calma e a continuidade de um di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Momentos depois acrescentou o franc\u00eas: &#8211; Demais, s\u00f3 os tolos podem crer em almas do outro mundo.<\/p>\n<p>A insol\u00eancia no perigo re\u00fane os retardados e impele-os para a frente.<\/p>\n<p>Os dois rapazes de Torteval puseram-se a caminho atr\u00e1s do aprendiz de calafate.<\/p>\n<p>A casa mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer desmesuradamente.<\/p>\n<p>Nesta ilus\u00e3o de \u00f3ptica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente porque eles aproximavam-se dela.<\/p>\n<p>Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distintas.<\/p>\n<p>Os rapazes paravam, ouviam. O ouvido tem os seus aumentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era murm\u00fario, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, imposs\u00edveis de compreender, soavam estranhamente. Os rapazes, paravam, ouviam e depois continuavam a andar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a conversa das almas do outro mundo, mas eu n\u00e3o creio em almas do outro mundo &#8211; disse o aprendiz de calafate.<\/p>\n<p>Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atr\u00e1s da lenha; mas j\u00e1 estavam longe, e o amigo franc\u00eas continuava a andar para a casa. Temiam ir com ele, e n\u00e3o ousavam deix\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Acompanhavam-no, a passo e passo e perplexos.<\/p>\n<p>O aprendiz de calafate voltou-se para eles e disse-lhes: &#8211; Bem sabem que n\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00e3o existe nenhuma.<\/p>\n<p>A casa tornava-se cada vez mais alta.<\/p>\n<p>Aproximavam-se.<\/p>\n<p>Aproximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada.<\/p>\n<p>Era um clar\u00e3o vago, um desses efeitos de lanterna surda, indicados h\u00e1 pouco, e que abundam na ilumina\u00e7\u00e3o das feiti\u00e7arias.<\/p>\n<p>Quando se acharam ao p\u00e9 da casa, pararam de todo.<\/p>\n<p>Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observa\u00e7\u00e3o: &#8211; N\u00e3o s\u00e3o almas do outro mundo, s\u00e3o fantasmas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 aquilo que pende ali \u00e0 janela? &#8211; perguntou o outro.<\/p>\n<p>&#8211; Parece uma corda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma serpente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 corda de enforcado &#8211; disse o franc\u00eas com autoridade. &#8211; Serve-lhes. Mas eu n\u00e3o creio.<\/p>\n<p>E mais em tr\u00eas pulos que em tr\u00eas passos o franc\u00eas estava ao p\u00e9 da parede da casa. Havia febre naquele atrevimento.<\/p>\n<p>Os outros, tr\u00eamulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao p\u00e9 dele, encostando- se um \u00e0 direita, outro \u00e0 esquerda. Os rapazes aplicaram o ouvido \u00e0 parede. Continuava-se a falar dentro da casa.<\/p>\n<p>Eis o que diziam os fantasmas: -Assim pois, est\u00e1 entendido? -Entendido.<\/p>\n<p>&#8211; -Dito? -Dito.<\/p>\n<p>-Aqui esperar\u00e1 um homem e partir\u00e1 depois para a Am\u00e9rica com Blasquito? -Pagando? -Pagando.<\/p>\n<p>Blasquito tomar\u00e1 o homem na barca.<\/p>\n<p>-Sem indagar de que terra ele \u00e9? -N\u00e3o temos nada com isso.<\/p>\n<p>-Sem lhe perguntar o nome? -N\u00e3o se pede o nome, pede-se a bolsa.<\/p>\n<p>-Bem. O homem esperar\u00e1 nesta casa.<\/p>\n<p>-Tendo o que comer.<\/p>\n<p>-Ter\u00e1.<\/p>\n<p>-Onde? -Neste saco que trago.<\/p>\n<p>-Muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Posso deixar o saco aqui? &#8211; Os contrabandistas n\u00e3o s\u00e3o ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; E os senhores quando v\u00e3o? &#8211; Amanh\u00e3 de manh\u00e3. Se o seu homem est\u00e1 pronto poder\u00e1 vir conosco.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 l\u00e1 com ele.<\/p>\n<p>&#8211; Quantos dias esperar\u00e1 aqui? &#8211; Dois, tr\u00eas, quatro dias. Mais ou menos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 certo que Blasquito vir\u00e1? &#8211; Certo.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, a Plainmont? &#8211; A Plainmont.<\/p>\n<p>-E agora vou-me embora.<\/p>\n<p>-Pois sim.<\/p>\n<p>-Diga-me c\u00e1, homem. Se o passageiro quiser que Blasquito v\u00e1 a outro lugar que n\u00e3o Portland ou Tor Bay? &#8211; Em que semana? &#8211; Na pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&#8211; Em que dia? &#8211; Sexta, s\u00e1bado ou domingo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode faltar? &#8211; \u00c9 meu tocaio.<\/p>\n<p>&#8211; Vir\u00e1 com qualquer tempo? -Qualquer. N\u00e3o tem medo. Eu sou Blasco, ele \u00e9 Blasquito.<\/p>\n<p>&#8211; Assim n\u00e3o deixar\u00e1 de ir a Guernesey? &#8211; Eu venho num m\u00eas, ele vir\u00e1 noutro.<\/p>\n<p>&#8211; Entendo.<\/p>\n<p>&#8211; A contar de s\u00e1bado pr\u00f3ximo, de hoje a oito dias n\u00e3o se passar\u00e3o cinco dias sem que venha Blasquito.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se o mar estiver muito mau? &#8211; Mau tempo? &#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vir\u00e1 t\u00e3o depressa, mas vir\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Donde vir\u00e1? &#8211; De Bilbao.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde ir\u00e1? &#8211; Para Portland.<\/p>\n<p>&#8211; Bem.<\/p>\n<p>&#8211; Ou para Tor Bay.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor.<\/p>\n<p>&#8211; O seu homem pode ficar tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>&#8211; Blasquito n\u00e3o ser\u00e1 traidor? &#8211; Os covardes s\u00e3o traidores. Somos valentes. O mar \u00e9 a igreja do inverno. A trai\u00e7\u00e3o \u00e9 a igreja do inferno.<\/p>\n<p>-Ningu\u00e9m nos ouve? -\u00c9 imposs\u00edvel ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.<\/p>\n<p>-Sei.<\/p>\n<p>Quem se atreveria a escutar? -E verdade.<\/p>\n<p>-Mesmo que escutassem n\u00e3o poderiam entender. Falamos uma l\u00edngua que ningu\u00e9m conhece. Desde que voce a sabe, \u00e9 dos nossos.<\/p>\n<p>-Eu vim para arranjarmos os neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>-Bem.<\/p>\n<p>-Traga on\u00e7as.<\/p>\n<p>-Blasquito far\u00e1 o que o homem quiser? -Blasquito far\u00e1 o que as on\u00e7as quiserem.<\/p>\n<p>-\u00c9 preciso muito tempo para ir a Tor Bay? -Depende do vento.<\/p>\n<p>-Oito horas? -Mais ou menos.<\/p>\n<p>-Blasquito obedecer\u00e1 ao passageiro? -Se o mar obedecer a Blasquito.<\/p>\n<p>-H\u00e1 de ser bem pago.<\/p>\n<p>-Ouro \u00e9 ouro. Vento \u00e9 vento.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justo.<\/p>\n<p>-O homem faz o que pode com o ouro. Deus com o vento faz o que quer.<\/p>\n<p>&#8211; O homem que quer ir com Blasquito aqui vir\u00e1 sexta-feira.<\/p>\n<p>&#8211; Bem.<\/p>\n<p>&#8211; A que horas chega Blasquito? &#8211; \u00c0 noite. Chega-se \u00e0 noite, sai-se \u00e0 noite. Temos uma mulher que se chama \u00e1gua salgada, e uma irm\u00e3 que se. chama noite. A mulher pode enganar, a irm\u00e3 nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dito tudo. Adeus, homens.<\/p>\n<p>&#8211; Boas tardes. Um gole de aguardente? &#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 melhor que xarope.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho a sua palavra.<\/p>\n<p>&#8211; O meu nome \u00e9 Pundonor.<\/p>\n<p>&#8211; Deus seja convosco.<\/p>\n<p>&#8211; Se \u00e9 fidalgo, eu sou cavalheiro.<\/p>\n<p>Era claro que s\u00f3 diabos podiam falar assim. Os rapazes n\u00e3o ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, at\u00e9 o franc\u00eas, que convencido ent\u00e3o, corria mais depressa que os outros.<\/p>\n<p>Na seguinte ter\u00e7a-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.<\/p>\n<p>O Tamaufipas continuava ancorado.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da Pousada Jo\u00e3o: &#8211; Ent\u00e3o, quando sai o Tarnaulipas? &#8211; Depois de amanh\u00e3, quinta-feira &#8211; respondeu o estalajadeiro.<\/p>\n<p>Nessa noite, Clubin ceou \u00e0 mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, saiu logo depois de cear. Resultou desta sa\u00edda que n\u00e3o pode estar presente no escrit\u00f3rio da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem t\u00e3o exato.<\/p>\n<p>Parece que ele conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.<\/p>\n<p>Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro soa \u00e0s 10 horas. Era, pois, meia-noite.<\/p>\n<h2>A JACRESSARDE<\/h2>\n<p>H\u00e1 quarenta anos Saint-Malo possu\u00eda uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela j\u00e1 n\u00e3o existe: foi compreendida nos melhoramentos da cidade.<\/p>\n<p>Era uma dupla fileira de casas de pau inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar suficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se ali com as pernas abertas dos dois lados da \u00e1gua lamacenta, abalroando com a cabe\u00e7a e o cotovelo as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade m\u00e9dia normanda tem perfis quase humanos. De albergue a feiticeiro a dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circunflexos e o embrenhado de ferros velhos simulam l\u00e1bios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira \u00e9 o Olho, zarolho. A face \u00e9 a parede rugosa e herp\u00e9tica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma a\u00e7\u00e3o in\u00edqua. Todos estes nomes da antiga civiliza\u00e7\u00e3o, quebra-cabe\u00e7as e quebra-ventas, prendemse \u00e0quela arquitetura.<\/p>\n<p>Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.<\/p>\n<p>A Jacressarde era a habita\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o tem habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, h\u00e1, abaixo da popula\u00e7\u00e3o, um res\u00edduo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, qu\u00edmicos de esp\u00e9cie lar\u00e1pio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as exist\u00eancias em bancarrota, as consci\u00eancias que j\u00e1 fizeram balan\u00e7o, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas (porque os ladr\u00f5es trabalham por baixo e por cima), os oper\u00e1rios e as oper\u00e1rias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escr\u00fapulos rasgados e os cotovelos rotos, os tratantes chegados \u00e0 indig\u00eancia, os mal\u00e9volos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miser\u00e1veis, na dupla e lament\u00e1vel acep\u00e7\u00e3o da palavra, tal \u00e9 o pessoal.<\/p>\n<p>Ali \u00e9 bestial a intelig\u00eancia humana. E o mont\u00e3o de imund\u00edcies das almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.<\/p>\n<p>O que se encontra nessas espeluncas n\u00e3o s\u00e3o os grandes criminosos, os bandidos, os grandes produtos da ignor\u00e2ncia e da indig\u00eancia.<\/p>\n<p>Se o assassino \u00e9 representado ali, \u00e9 por algum bebado brutal; ali o roubo n\u00e3o vai al\u00e9m da ratonice. \u00c9 antes o escarro que o v\u00f4mito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador n\u00e3o. Todavia n\u00e3o h\u00e1 que fiar. Aquele \u00faltimo degrau dos bo\u00eamios pode ter extremidades malvadas.<\/p>\n<p>Um dia, lan\u00e7ando a rede no Epi-Sci\u00e9, que era em Paris o que a Jacressarde \u00e9 em Saint-Malo, a pol\u00edcia apanhou Lacenaire.<\/p>\n<p>Tudo entra naqueles albergues. A queda \u00e9 um nivelamento. \u00c0s vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e a probidade tem aventuras. N\u00e3o se deve, \u00e0 primeira vista, estimar os Louvres nem condenar as gal\u00e9s. O respeito p\u00fablico e a reprova\u00e7\u00e3o universal devem ser descascados. Quantas; surpresas n\u00e3o se d\u00e3o! Um anjo no lupanar, uma p\u00e9rola no monturo &#8211; n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel este sombrio e deslumbrante achado.<\/p>\n<p>A Jacressarde era mais p\u00e1tio que casa, e mais po\u00e7o que p\u00e1tio. N\u00e3o tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um p\u00e1tio.<\/p>\n<p>No meio desse p\u00e1tio havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao n\u00edvel do ch\u00e3o. Era um po\u00e7o. O p\u00e1tio era pequeno, e o po\u00e7o era grande. Em roda do bocal do po\u00e7o o ch\u00e3o era mal cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>O p\u00e1tio, quadrado, tinha constru\u00e7\u00f5es por tr\u00eas lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, havia aposentos.<\/p>\n<p>Quem, \u00e0 noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respira\u00e7\u00f5es juntas, e se houvesse bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria: O p\u00e1tio. O po\u00e7o. Em roda do p\u00e1tio, em frente \u00e0 porta, uma palho\u00e7a figurando uma esp\u00e9cie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com teto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espa\u00e7ados; no centro, o po\u00e7o; \u00e0 roda do po\u00e7o, em uma liteira de palha, e fazendo como que um ros\u00e1rio circular, viam-se solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos aparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos pus, p\u00e9s de homem, p\u00e9s de mulher, p\u00e9s de crian\u00e7a. Todos esses p\u00e9s dormiam.<\/p>\n<p>Depois desses p\u00e9s, penetrando o olhar na penumbra da palho\u00e7a, distinguiam-se corpos, formas, cabe\u00e7as adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os p\u00e9s tocavam no po\u00e7o. Nas noites de tempestade, chovia sobre os p\u00e9s; nas noites de inverno, ca\u00eda neve sobre os corpos.<\/p>\n<p>Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite e sa\u00edam de manh\u00e3. A ordem social anda misturada com aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e n\u00e3o pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os v\u00edcios, todas as abje\u00e7\u00f5es, todas as suposi\u00e7\u00f5es, todas as mis\u00e9rias, o mesmo sono de prostra\u00e7\u00e3o no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa vizinhan\u00e7a. F\u00fanebre entrevista em que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansa\u00e7os, os desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia sem um peda\u00e7o de p\u00e3o e sem um bom pensamento, as noites lividas e sonolentas, remorsos, cobi\u00e7as, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podrid\u00e3o humana fermentava naquela tina. Eram atiradas \u00e0quele albergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na v\u00e9spera, por uma sa\u00edda de pris\u00e3o, pelo acaso, pela noite. O destino vazava ali, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem ousava. Era pr\u00f3prio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono, visto que n\u00e3o podiam perder-se na sombra. Tiravam \u00e0 morte aquilo que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites come\u00e7ava. Donde sa\u00edam? Da sociedade, porque eram a mis\u00e9ria; da vaga, porque eram a espuma.<\/p>\n<p>Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no ch\u00e3o; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O po\u00e7o sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 p\u00e9s de profundidade.<\/p>\n<p>Ca\u00eda ali a chuva, escorriam as imund\u00edcies, filtravam todos os escoamentos do p\u00e1tio. A ca\u00e7amba para tirar \u00e1gua ficava a um lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se.<\/p>\n<p>Do sono do monturo passava-se ao sono do po\u00e7o. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze anos.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram mal vistos.<\/p>\n<p>Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? N\u00e3o; farejavam-se.<\/p>\n<p>A dona da casa era uma mulher mo\u00e7a, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada \u00e0s vezes com \u00e1gua do po\u00e7o e tendo uma perna de pau.<\/p>\n<p>Desde madrugada esvaziava-se o p\u00e1tio; iam-se embora os fregueses.<\/p>\n<p>Havia no p\u00e1tio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O p\u00e1tio era atravessado por um barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de forca, que n\u00e3o estava ali em terra estranha. Via-se \u00e0s vezes estendido no barrote, no dia seguinte \u00e0s noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente \u00e0 mulher da perna de pau.<\/p>\n<p>Acima da palho\u00e7a e circulando o p\u00e1tio havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se at\u00e9 l\u00e1 por uma escada de madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde subia com estr\u00e9pito a mulher coxa.<\/p>\n<p>Os locat\u00e1rios de arriba\u00e7\u00e3o, por semana ou por noite, moravam no p\u00e1tio; os locat\u00e1rios residentes moravam na casa.<\/p>\n<p>Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem um fog\u00e3o; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indiferentemente por um buraco quadrado e comprido que fora porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique.<\/p>\n<p>A cali\u00e7a ca\u00edda cobria o assoalho. N\u00e3o se sabia como aquela casa estava em p\u00e9. O vento n\u00e3o a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como \u00e1gua em esponja. A abund\u00e2ncia das aranhas tranq\u00fcilizava os moradores contra o desmoronamento imediato.<\/p>\n<p>Mob\u00edlia nenhuma. Dois ou tr\u00eas enxerg\u00f5es nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro ins\u00edpido e hediondo.<\/p>\n<p>As janelas davam sobre o p\u00e1tio. De cima o p\u00e1tio assemelhava-se a um carro de lama. As coisas, sem contar os homens que ali apodreciam e enferrujavam-se, eram indescrit\u00edveis. Os destro\u00e7os fraternizavam: catam paredes, ca\u00edam criaturas. Os trapos semeavam entulhos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o flutuante alojada no p\u00e1tio, a Jacressarde tinha tr\u00eas inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro.<\/p>\n<p>O carvoeiro e o trapeiro ocupavam dois enxerg\u00f5es no primeiro andar; o fabricante de ouro, qu\u00edmico, morava nas \u00e1guas-furtadas, que tamb\u00e9m se chamavam s\u00f3t\u00e3o. N\u00e3o se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas, num quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chamin\u00e9 de pedra, golf\u00e3o onde ia rugir o vento. A trapeira n\u00e3o tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um peda\u00e7o de ferro em folha, proveniente de um rasg\u00e3o de navio.<\/p>\n<p>A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um saco de carv\u00e3o de quando em quando; o trapeiro pagava com um cest\u00e1rio de gr\u00e3os para as galinhas, cada semana; o fabricante de ouro n\u00e3o pagava nada. Entretanto, ia queimando a casa. J\u00e1 tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em duas colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo trapeiro todas as semanas, uma coluna de tr\u00eas e uma coluna de cinco, conforme o cest\u00e1rio de gr\u00e3o custasse 3 liardes ou 5 c\u00eantimos. A caldeira do qu\u00edmico era uma velha bomba quebrada promovida por ele ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmuta\u00e7\u00e3o absorvia-o. Algumas vezes falava nisso aos maltrapilhos do p\u00e1tio, que deitavam a rir. Dizia ele: Aquela gente est\u00e1 cheia de preconceitos. Estava resolvido a n\u00e3o morrer sem atirar a pedra filosofal \u00e0s vidra\u00e7as da ci\u00eancia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. J\u00e1 o patamar da escada tinha desaparecido.<\/p>\n<p>Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia a hoteleira: Neste andar s\u00f3 me fica o casco. O qu\u00edmico abrandava-lhe a c\u00f3lera fazendo-lhe versos.<\/p>\n<p>Tal era a Jacressarde.<\/p>\n<p>O criado da casa era um menino, talvez an\u00e3o, contando doze anos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Os freq\u00fcentadores entravam pela porta do p\u00e1tio; o p\u00fablico entrava pela porta da loja. O que era a loja? A alta parede que dava para a rua tinha \u00e0 direita da entrada do p\u00e1tio uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janela, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o \u00fanico da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o \u00fanico que tinha vidros. Por tr\u00e1s da janela que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este d\u00edstico feito com carv\u00e3o: Aqui encontram-se as curiosidades. A palavra j\u00e1 corria mundo. Sobre tr\u00eas t\u00e1buas que fingiam prateleiras colocadas por tr\u00e1s de vidra\u00e7as, viam-se alguns potes de porcelana falsa, sem asa, um chap\u00e9u de sol chines feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, imposs\u00edvel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, lou\u00e7a informe, chap\u00e9us de homem e mulher estragados, tr\u00eas ou quatro conchas, alguns embrulhos de bot\u00f5es de osso e de cobre j\u00e1 velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um volume truncado da \u00e1lgebra de Boisbertrand.<\/p>\n<p>Tal era a loja. Aquele sortimento era a curiosidade. A loja comunicava por uma porta do fundo com o p\u00e1tio onde estava o po\u00e7o.<\/p>\n<p>Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna de pau era a mo\u00e7a do balc\u00e3o.<\/p>\n<h2>COMPRADORES NOTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO<\/h2>\n<p>Clubin n\u00e3o foi \u00e0 Pousada Jo\u00e3o, nem na noite de ter\u00e7a-feira, nem na noite de quarta-feira. Nesta noite, ao escurecer, dois homens entraram Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um deles bateu na vidra\u00e7a. Abriu-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses.<\/p>\n<p>Havia urna vela sobre uma mesa.<\/p>\n<p>Os dois homens eram efetivamente burgueses. O homem que tinha batido na vidra\u00e7a disse: &#8211; Boa noite, mulher. Venho por aquilo.<\/p>\n<p>A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que dava para o p\u00e1tio. Minutos depois abriu-se de novo a porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo bon\u00e9 e blusa, debaixo da qual havia uni objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.<\/p>\n<p>O homem avan\u00e7ou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 o armeiro? &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>O homem que tinha batido respondeu: &#8211; Sim. O senhor \u00e9 o Parisiense? &#8211; Chamado Reaurouge. Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe ver.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1.<\/p>\n<p>O homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na Europa naquela \u00e9poca, um rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>O rev\u00f3lver era novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no.<\/p>\n<p>O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burgues, que parecia n\u00e3o ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.<\/p>\n<p>O armeiro perguntou: &#8211; Quanto custa? O homem da blusa respondeu: &#8211; Venho da Am\u00e9rica. H\u00e1 pessoas que trazem macacos, papagaios, animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu. trouxe isto.<\/p>\n<p>\u00c9 uma inven\u00e7\u00e3o \u00fatil.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto custa? &#8211; perguntou de novo o armeiro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma pistola que faz molinete.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto custa? &#8211; Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf&#8230; \u00e9 uma saraivada! Isto faz obra.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto custa? &#8211; Tem seis canos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quanto custa? &#8211; Seis canos s\u00e3o 6 lu\u00edses.<\/p>\n<p>&#8211; Quer 5 lu\u00edses? &#8211; Imposs\u00edvel. Um lu\u00eds por cada bala. \u00c9 o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Quer fazer neg\u00f3cio, seja razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse o pre\u00e7o. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 examinei.<\/p>\n<p>&#8211; O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam por este molinete no dicion\u00e1rio das ventoinhas. \u00c9 uma j\u00f3ia.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vi.<\/p>\n<p>&#8211; Os canos s\u00e3o de f\u00e1brica espanhola.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 reparei.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcof\u00e1 de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E velhas l\u00e2minas de foices.<\/p>\n<p>&#8211; Ia dize-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa por\u00e7\u00e3o de fogo, e sai disto tudo um magn\u00edfico instrumento de ferro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Mas tudo se arranja.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 do oficio? &#8211; Tenho todos os oficios.<\/p>\n<p>&#8211; Os canos s\u00e3o brancos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antim\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; Diz\u00edamos n\u00f3s que isto custa 5 lu\u00edses.<\/p>\n<p>&#8211; Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6 lu\u00edses.<\/p>\n<p>O armeiro abaixou a voz.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a, Parisiense. Aproveite a ocasi\u00e3o. Desfa\u00e7a-se disto. isto para voc\u00eas n\u00e3o vale nada. Chama a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Na verdade &#8211; disse Parisiense -, \u00e9 um tanto vistoso. \u00c9 melhor para um burgues.<\/p>\n<p>&#8211; Quer 5 lu\u00edses? &#8211; N\u00e3o, 6. Um por cada buraco.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, 6 napole\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Quero 6 lu\u00edses.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 bonapartista. Prefere um lu\u00eds a um napole\u00e3o? Parisiense sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Napole\u00e3o \u00e9 melhor &#8211; disse ele -, mas lu\u00eds vale mais.<\/p>\n<p>-Seis napole\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Seis lu\u00edses. \u00c9 para mim uma diferen\u00e7a de 80 francos.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o fazemos nada.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim. Guardo o rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; Guarde.<\/p>\n<p>&#8211; Abater o pre\u00e7o! pois n\u00e3o! n\u00e3o se dir\u00e1 que eu me desfiz sem mais nem menos de uma inven\u00e7\u00e3o destas! Ent\u00e3o, boa noite. \u00c9 um progresso sobre a pistola, que os indios chesapeakes chamam Nortayu- Hoh.<\/p>\n<p>&#8211; Cinco lu\u00edses a vista, \u00e9 ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena Muitas pessoas ignoram isto.<\/p>\n<p>&#8211; Quer 5 lu\u00edses e mais 1 escudo? &#8211; Eu j\u00e1 disse que custa 6.<\/p>\n<p>O homem que estava de costas para a luz e que ainda n\u00e3o tinha falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse- lhe ao ouvido: &#8211; A arma \u00e9 boa? &#8211; Excelente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu dou os 6 lu\u00edses.<\/p>\n<p>Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa os 6 luises de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da cal\u00e7a o rev\u00f3lver, sa\u00edram da viela Coutanchez.<\/p>\n<h2>CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA<\/h2>\n<p>No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca dist\u00e2ncia de Saint-Malo, perto da ponta do Decoll\u00e9, num lugar em que as rochas das praias s\u00e3o altas, e o mar profundo, passou-se uma coisa tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Nada mais freq\u00fcente na arquitetura do mar que uma l\u00edngua de rochedos em forma de lan\u00e7a, que se prende \u00e0 terra por um istmo estreito, prolonga-se na \u00e1gua e acaba-se a\u00ed bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida \u00e9 \u00e0s vezes assaz dif\u00edcil No alto de um rochedo desse g\u00eanero, achava-se em p\u00e9; pelas 4 horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e prov\u00e0velmente armado, o que era f\u00e1cil de reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. O s\u00edtio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos \u00e0 semelhan\u00e7a de seixos imensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um espa\u00e7o livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 p\u00e9s de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o \u00e2ngulo da esquerda ia-se arruinando e oferecia uma dessas escadas naturais pr\u00f3prias aos granitos marinhos, cujos degraus pouco c\u00f4modos exigem \u00e0s vezes pernas de gigante ou pulos de clowns. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas \u00e1guas. Era um quebra-costas.<\/p>\n<p>Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da l\u00edngua de rochas.<\/p>\n<p>Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovelo direito na m\u00e3o esquerda, piscava um olho e aplicava ao outro um \u00f3culo. Parecia absorto em uma aten\u00e7\u00e3o s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava im\u00f3vel com o olhar imperturbavelmente fito no horizonte. A mar\u00e9 estava cheia.<\/p>\n<p>A vaga batia por baixo dele no sop\u00e9 do rochedo.<\/p>\n<p>O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.<\/p>\n<p>Esse navio, que apenas uma hora antes sa\u00edra de Saint-Malo, tinha parado por tr\u00e1s dos Banquetiers. Era uma galera. N\u00e3o tinha deitado \u00e2ncora, talvez porque o fundo n\u00e3o lho permitisse, e porque o navio teria prendido a \u00e2ncora debaixo do gurup\u00e9s. Limitou-se a por-se \u00e0 capa.<\/p>\n<p>O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente.<\/p>\n<p>O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela r\u00e9 alada a barlavento, e as de proa largas por m\u00e3o; tinha braceado o pano de r\u00e9 o mais que lhe foi poss\u00edvel, de forma que neutralizava a for\u00e7a dos de proa. Deste modo, caindo a sotavento, n\u00e3o perdia mais de milha e meia por hora.<\/p>\n<p>O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao p\u00e9 das costas come\u00e7ava a escurecer.<\/p>\n<p>O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, n\u00e3o tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco pratic\u00e1vel que punha em comunica\u00e7\u00e3o a plataforma com o mar. N\u00e3o reparou que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada, por tr\u00e1s da anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido ali, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma cabe\u00e7a por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espi\u00e3o. Essa cabe\u00e7a coberta por um largo chap\u00e9u americano, era a cabe\u00e7a do quaker, que, uns dez dias antes falara nas pedras do Petit Bey ao Capit\u00e3o ZueIa.<\/p>\n<p>De repente pareceu redobrar a aten\u00e7\u00e3o do guarda-costa.<\/p>\n<p>Limpou r\u00e1pidamente com a manga o vidro do \u00f3culo e firmou-o com energia sobre o navio.<\/p>\n<p>Destacara-se um ponto negro.<\/p>\n<p>O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barca\u00e7a.<\/p>\n<p>A barca\u00e7a parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decoll\u00e9.<\/p>\n<p>A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o perdia nenhum dos movimentos da barca\u00e7a. Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.<\/p>\n<p>Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por tr\u00e1s do guarda-costa, no alto da escada. O espi\u00e3o n\u00e3o viu o quaker.<\/p>\n<p>Parou este alguns instantes, com os bra\u00e7os ca\u00eddos e os punhos crispados, e, com o olhar do ca\u00e7ador que aponta, olhou para as costas do espi\u00e3o.<\/p>\n<p>Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um p\u00e9, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o \u00fanico movimento que fazia era andar, o resto do corpo era est\u00e1tua; o p\u00e9 firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou; estava quase tocando o guarda-costa, sempre im\u00f3vel, com o \u00f3culo fixo. O homem ajuntou as duas m\u00e3os fechadas na altura das suas clav\u00edculas, depois, bruscamente, abateram-se os antebra\u00e7os, e os dois punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos ombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabe\u00e7a no mar. Viram-se-lhe os p\u00e9s durante o tempo de um rel\u00e2mpago. Foi uma pedra na \u00e1gua.<\/p>\n<p>A \u00e1gua cerrou-se depois, descrevendo dois ou tr\u00eas grandes c\u00edrculos.<\/p>\n<p>Ficou apenas o \u00f3culo escapo \u00e0s m\u00e3os do guarda-costa e ca\u00eddo no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>O quaker inclinou-se \u00e0 borda das rochas, viu acalmar-se a \u00e1gua, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:<\/p>\n<p>Monsieur de la police est mortEn perdant la vie.<\/p>\n<p>Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. S\u00f3mente no lugar onde o guarda-costa tinha ca\u00eddo, formou-se na superf\u00edcie da \u00e1gua uma esp\u00e9cie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era prov\u00e1vel que o guarda-costa tivesse quebrado o cr\u00e2nio em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha na espuma.<\/p>\n<p>O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:<\/p>\n<p>Un quart d&#8217;heure avant sa mort,Il \u00e9tait encore&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>Ouviu atr\u00e1s de si uma voz doce que lhe dizia: &#8211; Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem. Ele voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois rochedos, um homem baixo que tinha um rev\u00f3lver na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Respondeu: &#8211; Como v\u00ea. Bom dia, Sr. Clubin.<\/p>\n<p>O homem baixo estremeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Reconheceu-me? &#8211; N\u00e3o me reconheceu o senhor? &#8211; disse Rantaine.<\/p>\n<p>Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barca\u00e7a observada pelo guarda-costa que se aproximava.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin disse a meia voz como se falasse consigo: &#8211; A coisa foi r\u00e1pida.<\/p>\n<p>&#8211; Em que precisa de mim? &#8211; perguntou Rantaine.<\/p>\n<p>&#8211; Pouca coisa. H\u00e1 quase dez anos que nos n\u00e3o vemos.<\/p>\n<p>O senhor h\u00e1 de ter feito bons neg\u00f3cios. Como est\u00e1 de sa\u00fade? &#8211; Bem &#8211; disse Rantaine. &#8211; E o senhor? &#8211; Perfeitamente &#8211; respondeu Clubin.<\/p>\n<p>Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.<\/p>\n<p>Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin. que armava o rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; Rantaine, estamos a quinze passos. \u00c9 uma boa dist\u00e2ncia. Fique onde est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Ali! Mas o que quer o senhor de mim? &#8211; Venho conversar.<\/p>\n<p>Rantaine n\u00e3o se mexeu. O Sr. Clubin continuou: &#8211; O senhor matou agora mesmo um guarda-costa.<\/p>\n<p>Rantaine levantou a aba do chap\u00e9u e respondeu: &#8211; J\u00e1 me fez a honra de dize-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Em termos menos precisos. Disse h\u00e1 pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa. O guarda-costa tinha o n\u00famero 619. Era um pai de fam\u00edlia. Deixa mulher e cinco filhos.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser assim &#8211; disse Rantaine.<\/p>\n<p>Houve um impercept\u00edvel tempo de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o homens escolhidos esses guarda-costas &#8211; disse Clubin. Quase todos antigos mar\u00edtimos.<\/p>\n<p>&#8211; Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.<\/p>\n<p>Clubin continuou: &#8211; Adivinhe quanto me custou este rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um lindo instrumento &#8211; respondeu Rantaine.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto vale? &#8211; Vale muito.<\/p>\n<p>&#8211; Custou-me 144 francos.<\/p>\n<p>&#8211; Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.<\/p>\n<p>Clubin continuou.<\/p>\n<p>&#8211; O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Clubin, h\u00e1 de ventar esta noite.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou o \u00fanico que sei do segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Continua a morar na Pousada Jo\u00e3o? &#8211; Sim. Vive-se bem ali.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 comi muito boa couve fermentada.<\/p>\n<p>Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada esp\u00e1dua! N\u00e3o seria eu quem lhe levariaum piparote. Era t\u00e3o raqu\u00edtico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.<\/p>\n<p>&#8211; Felizmente criou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, e continuo a morar na Pousada Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: s\u00f3 Clubin pode reconhecer-me.<\/p>\n<p>E adiantou um passo.<\/p>\n<p>&#8211; Fique onde estava, Rantaine.<\/p>\n<p>Rantaine recuou e disse \u00e0 parte: &#8211; A gente torna-se crian\u00e7a diante destes instrumentos.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin continuou.<\/p>\n<p>-Situa\u00e7\u00e3o. Temos aqui \u00e0 direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, n\u00famero 618, que est\u00e1 vivo, e \u00e0 esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p>Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco minutos.<\/p>\n<p>O rochedo ficar\u00e1 cercado. O desfiladeiro ficar\u00e1 guardado.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel fugir. H\u00e1 um cad\u00e1ver ao p\u00e9 da rocha.<\/p>\n<p>Rantaine deitou um olhar obl\u00edquo ao rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; Como diz, Rantaine. \u00c9 um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com p\u00f3lvora seca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a for\u00e7a armada. Tenho seis tiros.<\/p>\n<p>O choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barca- \u00e7a n\u00e3o estava longe.<\/p>\n<p>O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. Sr. Clubin falava com um ar cada vez mais tranq\u00fcilo e doce.<\/p>\n<p>&#8211; Rantaine, os homens da barca\u00e7a que vai chegar, sabendo o que fez h\u00e1 pouco, ajudar-me-iam a prende-lo. O senhor paga 10 000 francos de passagem ao Capit\u00e3o Zuela. Entre parentesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes s\u00f3 o levariam para Inglaterra, e demais o senhor n\u00e3o pode arriscar-se a ir a Guernesey, onde h\u00e1 quem tenha a honra de conhece-lo. Volto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Se eu disparar, prendem-no.<\/p>\n<p>Nesse caso pagar\u00e1 a Zuela 10 000 francos de fuga. J\u00e1 lhe deu 5 000 francos; ZueIa guardar\u00e1 esses 5 000 francos e vai-se embora.<\/p>\n<p>\u00c9 isto, Rantaine, acho-o bem rebu\u00e7ado. Esse chap\u00e9u, esse casaco e essas polainas disfar\u00e7am-no. Esqueceram-lhe os \u00f3culos.<\/p>\n<p>Fez bem em deixar crescer as su\u00ed\u00e7as.<\/p>\n<p>Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou: &#8211; Rantaine, o senhor tem uma cal\u00e7a americana com duas algibeiras.<\/p>\n<p>Numa delas tem o seu rel\u00f3gio. Guarde-o.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, Sr. Clubin.<\/p>\n<p>&#8211; Na outra h\u00e1 uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. \u00c9 uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e atirea para c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isto \u00e9 um roubo! &#8211; Pode chamar a guarda.<\/p>\n<p>E Clubin fixou os olhos em Rantaine.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, Mess Clubin. .<\/p>\n<p>. &#8211; disse Rantaine dando um passo e estendendo a m\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>Mess era uma lisonja.<\/p>\n<p>&#8211; Fique onde est\u00e1, Rantaine.<\/p>\n<p>&#8211; Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofere\u00e7o-lhe metade.<\/p>\n<p>Clubin executou um cruzar de bra\u00e7os, mostrando a boca do rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E acrescentou, depois de uma pausa: &#8211; Quero tudo.<\/p>\n<p>Rantaine disse entre dentes: &#8211; \u00c9 tem\u00edvel este.<\/p>\n<p>Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o a\u00e7o. Disse ele: &#8211; Creio que se engana. O seu nome \u00e9 que \u00e9 Roubo, o meu \u00e9 Restitui\u00e7\u00e3o. Ou\u00e7a, Rantaine. H\u00e1 dez anos saiu o senhor de Guernesey \u00e0 noite, tomando da caixa de uma sociedade 50 000 francos que lhe pertenciam e esquecendo de l\u00e1 deixar 50 000 francos que pertenciam a outro. Esses 50 000 francos roubados ao seu s\u00f3cio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje, com os juros acumulados de dez anos, 80 666 francos e 66 c\u00eantimos. O senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet chama-se ele, Rua de S\u00e3o Vicente. Deu-lhe 76 000 francos em bilhetes de banco franc\u00eases e em troca deu-lhe ele tr\u00eas bank-notes da Inglaterra de 1000 libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor pOs essas banknotes na boceta de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita. As 3 000 libras esterlinas fazem 75 000 francos. Em nome de Mess Lethierry contento-me com isso. Parto amanh\u00e3 para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a galera que ali est\u00e1 \u00e0 capa \u00e9 o Tarnaulipas. O senhor embarcou ali esta noite as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem.<\/p>\n<p>Quer sair da Fran\u00e7a. Tem suas raz\u00f5es para isso. Vai a Arequipa. A barca\u00e7a vem busc\u00e1-lo. Est\u00e1 \u00e0 espera dela. Ela a\u00ed vem. J\u00e1 a estamos ouvindo. Depende de mim deix\u00e1-lo partir ou obrig\u00e1-lo a ficar. Basta de palavras. Atire c\u00e1 a boceta de ferro.<\/p>\n<p>Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos p\u00e9s de Clubin.<\/p>\n<p>Clubin inclinou-se sem abaixar a cabe\u00e7a, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os canos do rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>Depois disse: &#8211; Meu amigo, volte as costas.<\/p>\n<p>Rantaine voltou as costas.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin pos o rev\u00f3lver debaixo do bra\u00e7o e apertou a mola da caixinha. A caixinha abriu-se.<\/p>\n<p>Havia dentro quatro bank-notes, tr\u00eas de 1000 libras, e uma de 10 libras.<\/p>\n<p>Clubin dobrou as tr\u00eas notas de 1000 libras, po-las outra vez na caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.<\/p>\n<p>Depois apanhou no ch\u00e3o uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de 10 libras e disse: &#8211; Volte para c\u00e1.<\/p>\n<p>Rantaine voltou-se.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin continuou: &#8211; Disse-lhe que me contentava com as 3 000 libras. Aqui v\u00e3o as 10.<\/p>\n<p>libras.<\/p>\n<p>E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.<\/p>\n<p>Rantaine, com um pontap\u00e9, deitou o bilhete e a pedra ao mar.<\/p>\n<p>&#8211; Como queira &#8211; disse Clubin. &#8211; Vamos l\u00e1, o senhor h\u00e1 de estar rico. Estou tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>O rumor dos remos que se tinha aproximado durante o di\u00e1logo cessou. Indicava isto que a barca\u00e7a estava ao p\u00e9 das rochas.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.<\/p>\n<p>Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.<\/p>\n<p>Clubin foi com precau\u00e7\u00e3o at\u00e9 a borda do rochedo e adiantando a cabe\u00e7a, viu descer Rantaine.<\/p>\n<p>A barca\u00e7a tinha parado ao p\u00e9 do \u00faltimo degrau do rochedo, no mesmo lugar em que tinha ca\u00eddo o guarda-costa.<\/p>\n<p>Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou: &#8211; Bom n\u00famero 619! Pensava que estava s\u00f3. Rantaine pensava que eram apenas dois. S\u00f3 eu sabia que \u00e9ramos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Clubin viu no ch\u00e3o o \u00f3culo do guarda-costa; apanhou-o.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o ru\u00eddo dos remos. Rantaine acabou de pular na barca\u00e7a e esta tomava o largo.<\/p>\n<p>Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se j\u00e1 afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou: &#8211; Ah! o pr\u00f3prio diabo \u00e9 um canalha! Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o \u00f3culo na barca\u00e7a, ouviu distintamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, no meio do rumor do mar: &#8211; O Sr. Clubin \u00e9 um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta barca\u00e7a um marinheiro de Guernesey que \u00e9 da equipagem do Tamaufipas, que se chama Ahier Tortevin, e que h\u00e1 de voltar a Saint-Malo, na pr\u00f3xima viagem de Zuela, e que ser\u00e1 testemunha de que eu lhe entreguei para Mess Lethierry a soma de 3 000 libras esterlinas.<\/p>\n<p>Era a voz de Rantaine.<\/p>\n<p>Clubin era o homem das coisas bem feitas. Im\u00f3vel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o \u00f3culo no olho, n\u00e3o perdeu de vista a barca\u00e7a. Viu diminuirem-se os remos, desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barca\u00e7a do navio; e pode reconhecer a alta corpul\u00eancia de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.<\/p>\n<p>Quando a barca\u00e7a foi i\u00e7ada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o \u00f3culo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no c\u00e9u amarelo do crep\u00fasculo.<\/p>\n<h2>INFORMA\u00c7\u00c3O \u00daTIL \u00c0S PESSOAS QUE ESPERAM OU RECEIAM CARTAS DE AL\u00c9M-MAR<\/h2>\n<p>Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.<\/p>\n<p>Uma das causas da sua demora \u00e9 que antes de recolher-se foi ele at\u00e9 a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas, onde n\u00e3o era conhecido, uma garrafa de aguardente que pos em uma larga algibeira da japona como se quisesse esconde-la; depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de manh\u00e3, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.<\/p>\n<p>Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada Jo\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o havia na sala baixa sen\u00e3o o velho capit\u00e3o de longo curso, Gertrais Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.<\/p>\n<p>&#8211; Good-bye, Capit\u00e3o Clubin.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, Capit\u00e3o Gertrais.<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent\u00e3o, l\u00e1 se foi o Tamaufipas.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; disse Clubin -, n\u00e3o reparei.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse: &#8211; Raspou-se o Zuela.<\/p>\n<p>&#8211; Quando? &#8211; Esta noite.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vai? &#8211; Vai ao diabo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas onde? &#8211; A Arequipa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia &#8211; disse Clubin.<\/p>\n<p>Acrescentou: &#8211; Vou dormir.<\/p>\n<p>Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 foi a Arequipa, Capit\u00e3o Gertrais? &#8211; Sim. H\u00e1 anos.<\/p>\n<p>&#8211; Onde se costuma a arribar? &#8211; Em diversos portos. Mas o Tamaulipas n\u00e3o arribar\u00e1 em parte alguma.<\/p>\n<p>O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e continuou: &#8211; Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff.<\/p>\n<p>N\u00e3o opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em belo estado. Chevai-de-Troie levava terebintina e abriu \u00e1gua, e fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da \u00e1gua todo o carregamento.<\/p>\n<p>Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da \u00e2ncora, o botal\u00f3s, ov\u00e9ns; n\u00e3o sofreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Caiu o ferro dogurup\u00e9s, que ali\u00e1s n\u00e3o s\u00f3 ficou machucado, mas completamentenu. Veja o que resulta de n\u00e3o ouvir conselhos.<\/p>\n<p>Clubin tinha posto a vela na mesa, e pos-se a pregar de novo uma por\u00e7\u00e3o de alf inetes que tinha na japona.<\/p>\n<p>Disse:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o dizia, capit\u00e3o, que o Tamaulipas n\u00e3o arriba em porto algum? &#8211; N\u00e3o. Vai direito ao Chile.<\/p>\n<p>&#8211; Neste caso n\u00e3o pode mandar not\u00edcia alguma em caminho &#8211; Perd\u00e3o, Capit\u00e3o Clubin. Primeiramente pode entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justo.<\/p>\n<p>&#8211; Depois, tem a caixa de cartas do mar.<\/p>\n<p>&#8211; A que chama o senhor caixa de cartas do mar? &#8211; N\u00e3o sabe, Capit\u00e3o Clubin? &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quando se passa pelo estreito de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1 ent\u00e3o? &#8211; Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de trezentos diabos.<\/p>\n<p>&#8211; Depois? &#8211; Quando se dobra o cabo Monmouth.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Depois? &#8211; Depois, dobra-se o cabo Valentin.<\/p>\n<p>&#8211; E depois? &#8211; Depois dobra-se o cabo Isidoro.<\/p>\n<p>&#8211; E depois? &#8211; Dobra-se a ponta Ana.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Mas o que \u00e9 que chama caixa das cartas do mar? &#8211; Chegamos \u00e0 caixa. Montanhas \u00e0 direita, montanhas \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>De todos os lados aves marinhas. Terr\u00edvel s\u00edtio! Ah! com um milh\u00e3o de diabos! que clitisma e que matinada! A borrasca ali n\u00e3o precisa de aux\u00edlio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em rolha n\u00e3o nos fica sen\u00e3o o fio. Que dan\u00e7a! furac\u00f5es capazes de fazer saltar uma galera como fosse uma pulga. J\u00e1 vi num brigue ingl\u00eas, o True Blue, um grumete ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser arrancado do navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as pe\u00e7as de madeira do conv\u00e9s ficaram despeda\u00e7adas. A gente sai dali com as velas comidas, at\u00e9 fragatas de cinq\u00fcenta fazem \u00e1gua como se rossem cestos. E a endiabrada costa! \u00c9 o que h\u00e1 de mais danado. Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a gente de Porto Fome. A\u00ed \u00e9 pior que pior. S\u00e3o as l\u00e2minas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente veem-se estas duas palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer dizer, Capit\u00e3o Gertrais? &#8211; Quero dizer, Capit\u00e3o Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Ana v\u00ea-se em uma pedra de 100 p\u00e9s de altura um grande pau. \u00c9 um poste com uma barrica no alto. Essa barrica \u00e9 a caixa das cartas. Os ingl\u00eases escreveram em cima: Post-Office.<\/p>\n<p>Por que se meteram eles nisto? Aquilo \u00e9 o correio do oceano; n\u00e3o pertence a esse honrado gentieman, o rei da Inglaterra. A caixa das cartas \u00e9 comum. Pertence a todas as bandeiras. Post-Office, h\u00e1 nada mais chines! Parece uma x\u00edcara de ch\u00e1 que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como se faz o servi\u00e7o. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atl\u00e2ntico envia cartas para a Europa, e o navio que vem do Pac\u00edfico manda cartas para a Am\u00e9rica. O oficial que comanda o escaler p\u00f5e na barrica o ma\u00e7o de cartas e tira o ma\u00e7o que l\u00e1 encontra. Toma-se conta dessas \u00e0 espera que o pr\u00f3ximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contr\u00e1rio, o continente donde o senhor vem \u00e9 aquele para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica est\u00e1 presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficar\u00e1 a\u00ed. A barrica tem uma tampa mas sem fechadura nem cadeado. Bem v\u00ea que se pode escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 esquisito &#8211; murmurou Clubin, pensativo.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.<\/p>\n<p>&#8211; Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas garatujas na barrica de Magalh\u00e3es, e dentro de quatro meses tenho as cartas do patife. Diga-me l\u00e1, Capit\u00e3o Clubin, sai amanh\u00e3? Clubin, absorto em uma esp\u00e9cie de sonambulismo, n\u00e3o ouviu. O Capit\u00e3o Gertrais repetiu a pergunta.<\/p>\n<p>Clubin despertou.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida, Capit\u00e3o Gertrais. \u00c9 o dia marcado. Devo sair amanh\u00e3 de manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe, eu n\u00e3o sa\u00eda. Capit\u00e3o Clubin, os c\u00e3es tem o pelo molhado.<\/p>\n<p>As aves marinhas andam h\u00e1 duas noites \u00e0 roda do farol. Mau sinal. Estamos no segundo quarto da lua; \u00e9 o m\u00e1ximo da umidade.<\/p>\n<p>Vi h\u00e1 pouco pimpinelas que fechavam as rolhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem do ch\u00e3o, as moscas mordem, as abelhas n\u00e3o se afastam dos corti\u00e7os, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao por do sol havia muitas nuvens no horizonte. Amanh\u00e3 h\u00e1 de haver grande nevoeiro. N\u00e3o lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furac\u00e3o.<\/p>\n<p>Grande sonso o nevoeiro<\/p>\n<h2>Livro Sexto:O Timoneiro \u00c9brio e o Capit\u00e3o S\u00f3brio<\/h2>\n<p><b>OS ROCHEDOS DOUVRES<\/b><\/p>\n<p>Cerca de 5 l\u00e9guas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Pla\u00ednmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, h\u00e1 um grupo de cabe\u00e7os chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.<\/p>\n<p>Esta denomina\u00e7\u00e3o Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e rochedos. H\u00e1 especialmente perto das costas do norte uma rocha Douvre na qual se constr\u00f3i agora mesmo um farol, escolho perigoso, mas que n\u00e3o deve ser confundido com este.<\/p>\n<p>O ponto da Fran\u00e7a mais pr\u00f3ximo do rochedo Douvres \u00e9 o cabo Brehant. O rochedo Douvres \u00e9 um pouco mais longe da costa da Fran\u00e7a que a primeira ilha do arquip\u00e9lago normando. A dist\u00e2ncia desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbi\u00e8re: como sobre um eixo, a ponta de Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. \u00c9 uma dist\u00e2ncia de quase 4 l\u00e9guas.<\/p>\n<p>Nesses mares da civiliza\u00e7\u00e3o os rochedos mais selvagens s\u00e3o raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alf\u00e2ndega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, ca\u00e7adores de coelhos em C\u00e9sambre, ilha de C\u00e9sar, apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecr\u00e9-Hou. Nos rochedos Douvres, ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>As aves marinhas est\u00e3o ali em sua casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu t\u00e3o perigosa, os baixios de Pr\u00e9el que tornam t\u00e3o angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a umas 20 bra\u00e7as a baliza vermelha, as proximidades p\u00e9rfidas de \u00c9tables e de Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbi\u00e8re, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por este prov\u00e9rbio: Quando passares o Ras, se n\u00e3o morreres, tremer\u00e1s; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mativais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, s\u00e3o mal afamados.<\/p>\n<p>Vale mais afrontar todos os cachopos do que o Douvres uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p>Em todo o perigoso mar da Mancha que \u00e9 o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres s\u00f3 tem um rochedo igual no terror que inspira, \u00e9 o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.<\/p>\n<p>E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem est\u00e1 ali em perigo pode ser socorrido. V\u00ea-se ao norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres n\u00e3o se v\u00ea nada.<\/p>\n<p>O vento, a \u00e1gua, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.<\/p>\n<p>S\u00f3 se passa ali perdido. Os granitos s\u00e3o de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inospitalidade do abismo.<\/p>\n<p>\u00c9 mar alto. A \u00e1gua \u00e9 profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que precisam afastar-se dos homens. \u00c9 uma esp\u00e9cie de vasta madr\u00e9pora submarina.<\/p>\n<p>\u00c9 um labirinto afog\u00e0do. H\u00e1 ali, em profundezas que dif\u00edcilmente alcan\u00e7am os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pululam as esp\u00e9cies monstruosas.<\/p>\n<p>Devoram-se umas \u00e0s outras. Os caranguejos comem os peixes, e s\u00e3o devorados tamb\u00e9m. Formas medonhas, feitas para n\u00e3o serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade.<\/p>\n<p>Vagos lineamentos de goelas, antenas, tent\u00e1culos, barbatanas, bOcas ab\u00e9rtas, escamas, garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decomp\u00f5em-se e desfazem-se na transpar\u00eancia sinistra.<\/p>\n<p>Tremendos nadadores andam ali na labuta\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma colmeia de hidras.<\/p>\n<p>Ali o horr\u00edvel \u00e9 ideal.<\/p>\n<p>Imagina, se podes, um formigueiro de holot\u00farias.<\/p>\n<p>Ver o interior do mar \u00e9 ver a imagina\u00e7\u00e3o do Ignoto. \u00c9 veIa do lado terr\u00edvel. O golf\u00e3o \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 noite. Tamb\u00e9m a\u00ed h\u00e1 sono, sono aparente ao menos, da consci\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o. Cometem-se ali em plena seguran\u00e7a os crimes da irresponsabilidade. Os esbo\u00e7os da vida, fantasmas quase, completos dem\u00f4nios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias ocupa\u00e7\u00f5es da sombra.<\/p>\n<p>H\u00e1 quarenta anos, duas rochas de forma extraordin\u00e1ria assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume.<\/p>\n<p>Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres que s\u00f3 poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma montanha. Essas duas t\u00f3rres naturais da obscura cidade dos monstros n\u00e3o deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia um peda\u00e7o de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas charnavam-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 p\u00e9s de altura, a outra 40. O vaiv\u00e9m das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furac\u00e3o do equin\u00f3cio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que ficou, a pequena, est\u00e1 mutilada e gasta.<\/p>\n<p>Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No s\u00e9culo passado alguns pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cad\u00e1ver. Ao p\u00e9 do cad \u00e1ver havia uma por\u00e7\u00e3o de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, at\u00e9 que morreu. Veio dai chamar-se Homem ao rochedo.<\/p>\n<p>S\u00e3o singulares as solid\u00f5es da \u00e1gua. \u00c9 o tumulto e o sil\u00eancio. O que a\u00ed se faz j\u00e1 nada tem com o g\u00eanero humano. \u00c9 a utilidade desconhecida.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.<\/p>\n<p><b>CONHAQUE INESPERADO<\/b><\/p>\n<p>Na sexta-feira de manh\u00e3, um dia depois da partida do Tarnaulipas, a Durande partiu para Guernesey.<\/p>\n<p>Deixou Saint-Malo \u00e0s 9 horas.<\/p>\n<p>Claro estava o tempo, n\u00e3o havia nevoeiro; parece que o velho Capit\u00e3o Gertrais-Gaboureau tinha delirado.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco carregamento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, tr\u00eas caixas para o hospital de Guernesey, uma de sab\u00e3o amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordav\u00e3o fino. Levava tamb\u00e9m, da precedente viagem, uma caixa de a\u00e7\u00facar crushed e tr\u00eas caixas de ch\u00e1, que a alf\u00e2ndega francesa n\u00e3o quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no por\u00e3o e bem mal arranjados.<\/p>\n<p>Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois inaloenses vendedores de animais, um turista, como j\u00e1 se dizia nesse tempo, um parisiense meio burgu\u00eas, provavelmente turista do com\u00e9rcio, e um americano distribuidor de B\u00edblias.<\/p>\n<p>A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de tripula\u00e7\u00e3o; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da m\u00e1quina e um grumete. Um dos pen\u00faltimos era tamb\u00e9m mec\u00e2nico.<\/p>\n<p>Era um valente e inteligente negro holand\u00eas, evadido das f\u00e1bricas de a\u00e7\u00facar do Suriname; chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a m\u00e1quina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele n\u00e3o pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar diab\u00f3lico \u00e0 Durande.<\/p>\n<p>O timoneiro, jerseiano de nascimento, origin\u00e1rio da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade isto. As ilhas da Mancha s\u00e3o, como a Inglaterra, pa\u00edses hier\u00e1rquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas id\u00e9ias, que s\u00e3o os seus dentes. Essas id\u00e9ias s\u00e3o as mesmas em toda a parte, na \u00edndia, como na Alemanha. A nobreza conquista- se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. N\u00e3o fazer coisa alguma \u00e9 viver fidalgamente; quem n\u00e3o trabalha e reverenciado. Oficio faz decair. Na Fran\u00e7a de outrora s\u00f3 se excetuavam os oper\u00e1rios de vidro. Sendo gl\u00f3ria para os fidalgos esvaziar garrafas, faze-las n\u00e3o era desonra alguma.<\/p>\n<p>Nas ilhas da Mancha, assim como na Gr\u00e3-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman n\u00e3o pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, j\u00e1 n\u00e3o o \u00e9 mais. Tal marujo descende de cavalheiros e \u00e9 apenas marujo. H\u00e1 trinta anos, em Aurigny, um Georges autentico, que ao que parece tinha direitos \u00e0 senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sarga\u00e7o com os p\u00e9s nus. H\u00e1 em Serk um Carteret que \u00e9 carreiro.<\/p>\n<p>Existe em Jersey um mercador de panos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que \u00e9 Montmorency. No s\u00e9culo XV Johan de Heroudeville, besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio de 1371, em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cai em pobreza \u00e9 logo eliminado da fidalguia.<\/p>\n<p>Basta uma mudan\u00e7a de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se arranja.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.<\/p>\n<p>H\u00e1 em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros chamado Ingroville, que \u00e9 provavelmente Ingroville. No reinado de Lu\u00eds, o Gordo, os Ingroville possu\u00edam tr\u00eas par\u00f3quias em Valognes.<\/p>\n<p>Fez um padre Trigan a Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica da Normandia. este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se ca\u00edsse no populacho, chamar-se-ia Digouille.<\/p>\n<p>Tangrouille, Tancarville prov\u00e1vel e Montmorency poss\u00edvel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num timoneiro: embriagava- se.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin teimava em conserv\u00e1-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.<\/p>\n<p>O timoneiro Tangrouille n\u00e3o sa\u00eda nunca do navio e dormia a bordo.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da partida, quando o Sr. Clubin foi, j\u00e1 a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o b\u00eabado n\u00e3o \u00e9 senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no por \u00e3o onde se guardava a \u00e1gua. Po-la a\u00ed para torn\u00e1-la inveross\u00edmil.<\/p>\n<p>Estava certo de que s\u00f3 ele conhecia aquele esconderijo. O Capit\u00e3o era severo, porque era s\u00f3brio. O pouco rum e gim, que o timoneiro podia subtrair \u00e0 vigil\u00e2ncia do capit\u00e3o, punha de reserva naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa.<\/p>\n<p>Era rigorosa a vigil\u00e2ncia, pobre devia ser a orgia, e de ordin\u00e1rio os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a dois ou tr\u00eas goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou l\u00e1 uma garrafa de aguardente inesperada.<\/p>\n<p>Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que c\u00e9us lhe caiu aquela garrafa? N\u00e3o pode lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a imediatamente. Em parte fe-lo por prud\u00eancia; tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia governou o barco quase como nos outros dias.<\/p>\n<p>Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guin\u00e9us, e que s\u00f3 tirava \u00e0 noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele mesmo no couro bruto com tinta litogr\u00e1fica, que \u00e9 indel\u00e9vel.<\/p>\n<p>Ao levantar, antes de partir, p\u00f3s no cinto a caixinha de ferro contendo 75 000 francos em notas de banco, depois atou o cinto como costumava, \u00e0 roda do corpo.<\/p>\n<p><b>PALESTRA INTERROMPIDA<\/b><\/p>\n<p>Fui alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigat\u00f3ria, tal \u00e9 o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram pe\u00e7a por pe\u00e7a, e quase fio por fio, na cobertura e entre ponte, todos os aparelhos mar\u00edtimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, \u00e0 for\u00e7a de precis\u00e3o e justeza, s\u00e3o uma esp\u00e9cie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canh\u00e3o de rebate atado na coberta, com uma corrente de c\u00e3o de sentinela, observou o turista, e coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipa\u00e7\u00f5es, acrescentou o parisiense.<\/p>\n<p>Afastando-se de terra, trocaram-se as observa\u00e7\u00f5es do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 l\u00e9gua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunquerque, Completou- se o que havia a dizer de Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se um tingue e o outro Mardyck.<\/p>\n<p>Saint-Malo foi diminuindo at\u00e9 que desvaneceu-se de todo.<\/p>\n<p>O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem tor\u00e7\u00e3o a perder de vista.<\/p>\n<p>Guernesey est\u00e1 no centro de uma linha reta tirada de Saint-Malo na Fran\u00e7a, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no mar nem sempre \u00e9 a linha l\u00f3gica. Entretanto, os vapores tem, at\u00e9 certo ponto, o poder de seguir a linha reta que n\u00e3o podem seguir os navios de vela.<\/p>\n<p>O mar e o vento formam um composto de for\u00e7as. O navio \u00e9 um composto de m\u00e1quinas. As for\u00e7as s\u00e3o m\u00e1quinas infinitas, as m\u00e1quinas s\u00e3o for\u00e7as limitadas. Entre os dois organismos, um inesgot\u00e1vel, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navega \u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tamb\u00e9m o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde v\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a cega. Cabe ao homem espreitar as for\u00e7as e descobrir-lhes o itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>Enquanto se n\u00e3o descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navega\u00e7\u00e3o a vapor \u00e9 uma esp\u00e9cie de vit\u00f3ria perp\u00e9tua que o g\u00eanio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navega\u00e7\u00e3o a vapor \u00e9 admir\u00e1vel porque disciplina o navio.<\/p>\n<p>Diminui a obedi\u00eancia ao vento e aumenta a obedi\u00eancia ao homem.<\/p>\n<p>Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia, Andava maravilhosamente.<\/p>\n<p>Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de M\u00ednquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo estava o c\u00e9u. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.<\/p>\n<p>A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.<\/p>\n<p>N\u00e3o se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume.<\/p>\n<p>A tripula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se preocupava com isso, era absoluta a confian\u00e7a no capit\u00e3o; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o capit\u00e3o retificou a dire\u00e7\u00e3o e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo.<\/p>\n<p>Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.<\/p>\n<p>Tangrouille, no estado em que estava, j\u00e1 n\u00e3o tinha nem p\u00e9s nem bra\u00e7os firmes. Resultava da\u00ed que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.<\/p>\n<p>O vento ia amainando.<\/p>\n<p>O passageiro guernesiano, que tinha um \u00f3culo na m\u00e3o, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algod\u00e3o, empoeirado em roda.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.<\/p>\n<p>Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tr\u00eamulo da conversa. A plena liberdade de esp\u00edrito dos passageiros corresponde \u00e0 perfeita tranq\u00fcilidade da \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que n\u00e3o fosse calmo.<\/p>\n<p>&#8211; Perdeu-se no mar e descansa no navio.<\/p>\n<p>&#8211; As moscas n\u00e3o se cansam muito.<\/p>\n<p>&#8211; Pudera! S\u00e3o t\u00e3o leves. Carrega-as o pr\u00f3prio vento.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 se pesou 1 on\u00e7a de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.<\/p>\n<p>O guernesiano do \u00f3culo tinha-se chegado aos maioenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos esta: &#8211; O boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pelo amarelo. \u00c9 demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.<\/p>\n<p>Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.<\/p>\n<p>Vi dois magn\u00edficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as n\u00e1degas largas, bom comprimento da nuca \u00e0 garupa, boa altura no garrote, manejo f\u00e1cil, pele boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco refor\u00e7ado, pesco\u00e7o robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra ca\u00edda.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 ra\u00e7a da costa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas com certa semelhan\u00e7a com o touro Angus ou o touro Suffolk.<\/p>\n<p>Acredite se quer, no meio-dia h\u00e1 concurso de bestas.<\/p>\n<p>&#8211; De bestas? &#8211; De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias \u00e9 que s\u00e3o bonitas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o s\u00e3o como as jumentas. As feias \u00e9 que s\u00e3o boas.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.<\/p>\n<p>&#8211; A melhor jumenta deste mundo \u00e9 uma barrica sobre quatro estacas.<\/p>\n<p>&#8211; A beleza dos animais n\u00e3o \u00e9 como a beleza dos homens.<\/p>\n<p>&#8211; E sobretudo das mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Justo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu c\u00e1, quero que a mulher seja bonita.<\/p>\n<p>&#8211; Prefiro-a bem trajada.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, limpa, asseada, esticadinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ares de mocidade. Urna rapariga deve parecer que sai do joalheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o o mercado. Os Bonneau de ia Rochelle, e os Baliu, os mercadores de trigo de Marans, n\u00e3o sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.<\/p>\n<p>O turista e o parisiense conversavam com o americano das B\u00edblias; a conversa\u00e7\u00e3o a\u00ed era como nos outros grupos.<\/p>\n<p>Dizia o turista: &#8211; Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: Fran\u00e7a, 716 000 toneladas; Alemanha 1 milh\u00e3o; Estados Unidos, 5 milh\u00f5es; Inglaterra, 5 milh\u00f5es e meio. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribu\u00eddas por 145 000 navios na \u00e1gua do globo.<\/p>\n<p>O americano interrompeu: &#8211; Os Estados Unidos \u00e9 que tem 5 milh\u00f5es e meio.<\/p>\n<p>&#8211; Convenho &#8211; disse o turista. &#8211; O senhor \u00e9 americano? &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio; o americano mission\u00e1rio perguntou a si mesmo se era ocasi\u00e3o de oferecer uma B\u00edblia.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 verdade &#8211; continuou o turista &#8211; que os senhores \u00e0 na Am\u00e9rica gostam tanto das alcunhas a ponto de as por em todos os homens c\u00e9lebres? Ser\u00e1 verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, a velha barra de ouro? &#8211; Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor o velho Zach? &#8211; E o General Harrison, o velho Tip? E o General Jackson, o velho Hickory? &#8211; Sim, porque Jackson \u00e9 duro como pau hickory e Harrison bateu os peles-vermelhas em Tippecanoe.<\/p>\n<p>\u00c9 um costume bizantino esse.<\/p>\n<p>\u00c9 costume nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho; Seward, que mandou fazer bilhetes mi\u00fados do banco, o bilhete mi\u00fado; e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem 4 p\u00e9s de altura e uma grande eloq\u00fc\u00eancia, o gigantinho. Percorra do Texas ao Maine, n\u00e3o encontrar\u00e1 ningu\u00e9m que diga esse nome: Cass; todos dizem: o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho acutilado. Clay \u00e9 filho de um moleiro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu prefiro Clay ou Cass &#8211; observou o parisiense -, \u00e9 mais curto.<\/p>\n<p>Pois estaria fora do uso. N\u00f3s chamamos Corwin, que \u00e9 secret\u00e1rio do Tesouro, o rapaz da carreta. Daniel Webster \u00e9 o negro Dan.<\/p>\n<p>Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira ida, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se \u00e0 mesa, chama-mo-lo D\u00e1-c\u00e1-um-prato-de-sopa-depressa.<\/p>\n<p>Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada \u00e0 flor da \u00e1gua por falta de vento. N\u00e3o havia um sopro de brisa sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo.<\/p>\n<p>Alumiava, mas j\u00e1 n\u00e3o aquecia.<\/p>\n<p>&#8211; Creio &#8211; disse o turista &#8211; que o tempo vai mudar.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez haja chuva &#8211; disse o parisiense.<\/p>\n<p>&#8211; Ou nevoeiro &#8211; disse o americano.<\/p>\n<p>&#8211; Na It\u00e1lia &#8211; continuou o turista &#8211; o lugar em que cai menos chuva \u00e9 Molfetta, e onde cai mais 6 em Tolmezzo.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, segundo o uso do arquip\u00e9lago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida consigo e comeram no conv\u00e9s. Clubin n\u00e3o jantou.<\/p>\n<p>Ao jantar, a palestra continuou.<\/p>\n<p>O guernesiano, tendo o faro das B\u00edblias, aproximou-se do americano.<\/p>\n<p>O americano disse-lhe: &#8211; Conhece este mar? &#8211; Sem d\u00favida, sou filho dele.<\/p>\n<p>&#8211; E tamb\u00e9m eu .<\/p>\n<p>O guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou: &#8211; Agora estarmos ao largo mas n\u00e3o me agradava nada ter nevoeiro enquanto est\u00e1vamos ao p\u00e9 dos Minquiers.<\/p>\n<p>O americano disse ao maloense: &#8211; Os insulares s\u00e3o mais homens do mar que a gente da costa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato, n\u00f3s, os filhos da costa, temos apenas metade do mar.<\/p>\n<p>&#8211; Que coisa \u00e9 essa dos Minquiers? &#8211; continuou o americano.<\/p>\n<p>O inaloense respondeu: &#8211; S\u00e3o umas pedras ruins.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tamb\u00e9m os Grelets &#8211; disse o guernesiano.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! &#8211; disse o maloense.<\/p>\n<p>&#8211; E os Chouas &#8211; acrescentou o guernesiano.<\/p>\n<p>O inaloense deu uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; Dessa forma &#8211; disse ele -, temos tamb\u00e9m os Sauvages.<\/p>\n<p>&#8211; E os Maine &#8211; observou o guernesiano.<\/p>\n<p>&#8211; E o Canard, &#8211; disse o maloense.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tem resposta para tudo &#8211; disse o guernesiano com rapidez.<\/p>\n<p>&#8211; Maloense, malicioso.<\/p>\n<p>Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.<\/p>\n<p>O turista interp\u00f4s uma pergunta: &#8211; Dar-se-\u00e1 o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores falam? &#8211; Qual! Deixamo-la a sudoeste. J\u00e1 ficou atr\u00e1s de n\u00f3s.<\/p>\n<p>E o guernesiano continuou: &#8211; Entre grandes e pequenos os Grelets tem 57 pontas de rocha.<\/p>\n<p>&#8211; E os Minquiers 48 &#8211; disse o maloense.<\/p>\n<p>Aqui o di\u00e1logo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me, senhor de Saint-Malo, que h\u00e1 tr\u00eas rochedos que o senhor deixou de contar.<\/p>\n<p>&#8211; Contei tudo.<\/p>\n<p>&#8211; A Der\u00e9e da Maitre-Ile? &#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; E Maisons tamb\u00e9m? &#8211; Que s\u00e3o sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vejo que conhece os cachopos.<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o os conhece n\u00e3o \u00e9 de Saint-Malo.<\/p>\n<p>&#8211; Causa gosto ouvir o racioc\u00ednio dos franceses.<\/p>\n<p>O maloense cumprimentou, e disse: &#8211; Sativages s\u00e3o tr\u00eas rochedos.<\/p>\n<p>&#8211; E Maines s\u00e3o dois.<\/p>\n<p>&#8211; Canard \u00e9 um.<\/p>\n<p>&#8211; Basta dizer Canard; j\u00e1 se sabe que \u00e9 um.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, porque a Suarde s\u00e3o quatro rochedos.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 a Suarde? &#8211; perguntou o guernesiano.<\/p>\n<p>&#8211; Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 bom passar entre Chouas e Canard.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 os p\u00e1ssaros podem passar a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; E os peixes.<\/p>\n<p>&#8211; Nem sempre. Quando h\u00e1 mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 areia em Minquiers.<\/p>\n<p>&#8211; A roda de Maisons.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00eaem-se oito rochedos de Jersey.<\/p>\n<p>&#8211; Da praia de Azette, \u00e9 justo. N\u00e3o s\u00e3o oito, s\u00e3o sete.<\/p>\n<p>&#8211; Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida, h\u00e1 espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; E Dirouilles? &#8211; Dirouilles n\u00e3o tem nada com Minquiers.<\/p>\n<p>&#8211; Quero dizer que \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 do lado de Granville.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea-se que, como n\u00f3s, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; disse o maloense -, com a diferen\u00e7a de que n\u00f3s dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o bons marinheiros os senhores.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou mercador de gado.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 que foi tamb\u00e9m de Saint-Malo? &#8211; Surcouf.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, outro.<\/p>\n<p>&#8211; Duguay-Trouin.<\/p>\n<p>Aqui o viajante parisiense interrompeu.<\/p>\n<p>&#8211; Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos ingleses. Era t\u00e3o am\u00e1vel qu\u00e3o valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem lhe quebrou os ferros.<\/p>\n<p>Neste momento uma voz tremenda gritou: &#8211; Est\u00e1s b\u00eabado!<\/p>\n<p><b>MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPIT\u00c3O CLUBIN<\/b><\/p>\n<p>Voltaram-se todos.<\/p>\n<p>Era o Capit\u00e3o Clubin que interpelava o timoneiro.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin n\u00e3o tratava ningu\u00e9m por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante ap\u00f3strofe era preciso que estivesse col\u00e9rico ou quisesse mostrar-se assim.<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o de c\u00f3lera, vindo a prop\u00f3sito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o, de p\u00e9 no lugar de comando, entre as caixas das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu entre dentes: Beberr\u00e3o! O honesto Tangrouille abaixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Desenvolvia-se o nevoeiro. J\u00e1 ocupava metade do horizonte. Avan\u00e7ava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de \u00f3leo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto penedo movedi\u00e7o e vago. Cortavase no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a \u00e1gua imensa entrava por baixo do nevoeiro e desaparecia.<\/p>\n<p>Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia l\u00e9gua de dist\u00e2ncia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imers\u00e3o na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia l\u00e9gua de intervalo enchia-se e diminu\u00eda a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tamb\u00e9m. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.<\/p>\n<p>Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.<\/p>\n<p>Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avan\u00e7ava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.<\/p>\n<p>Perdia-se o tempo naquelas manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.<\/p>\n<p>O guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses: &#8211; \u00c9 atrevido este nevoeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Desasseio do mar &#8211; observou um dos maloenses.<\/p>\n<p>O outro acrescentou: &#8211; Isto atrasa a viagem.<\/p>\n<p>O guernesiano aproximou-se de Clubin.<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.<\/p>\n<p>Clubin respondeu: &#8211; Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.<\/p>\n<p>&#8211; Quem? &#8211; Veteranos do mar.<\/p>\n<p>&#8211; Fez bem em partir &#8211; continuou o guernesiano. &#8211; Quem sabe se n\u00e3o haver\u00e1 tempestade amanh\u00e3. Nesta esta\u00e7\u00e3o espera-se o pior.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.<\/p>\n<p>Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. T\u00eanue tabique cinzento cortou o navio ao meio.<\/p>\n<p>Depois, todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. S\u00fabito todos come\u00e7aram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra, tinha a fria amea\u00e7a da tranq\u00fcilidade. Tudo estava p\u00e1lido e enfiado. O negro cano e a fuma\u00e7a negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.<\/p>\n<p>A deriva\u00e7\u00e3o a leste j\u00e1 n\u00e3o tinha raz\u00e3o de ser. O capit\u00e3o aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.<\/p>\n<p>O passageiro guernesiano, andando \u00e0 roda da m\u00e1quina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro: &#8211; Quando havia sol, \u00edamos devagar; agora que h\u00e1 nevoeiro vamos depressa.<\/p>\n<p>O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o Clubin, n\u00e3o h\u00e1 cuidado; mas n\u00e3o acha que vamos depressa demais? &#8211; Que quer, senhor? \u00c9 preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele b\u00eabado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, Capit\u00e3o Clubin.<\/p>\n<p>E Clubin acrescentou: &#8211; Quero chegar quanto antes. J\u00e1 basta o nevoeiro; com a noite ficar\u00edamos asseados.<\/p>\n<p>O guernesiano foi ter com os maioenses e disse-lhes: &#8211; Temos um excelente capit\u00e3o.<\/p>\n<p>De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu mais p\u00e1lido e como que enfermo. O pouco c\u00e9u que se via assemelhava-se \u00e0s faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decora\u00e7\u00e3o de teatro.<\/p>\n<p>A Durande passou junto de um c\u00fater que tinha ancorado por prud\u00eancia. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patr\u00e3o do c\u00fater notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que n\u00e3o estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.<\/p>\n<p>Pelas 2 horas a bruma era t\u00e3o espessa, que o capit\u00e3o foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma esp\u00e9cie de escurid\u00e3o branca. Navegava-se na palidez difusa. J\u00e1 se n\u00e3o via nem o c\u00e9u nem o mar.<\/p>\n<p>N\u00e3o ventava.<\/p>\n<p>A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao p\u00e9 da caixa das rodas j\u00e1 n\u00e3o tinha oscila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os passageiros tornaram-se silenciosos.<\/p>\n<p>Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a can\u00e7\u00e3o de B\u00e9ranger Un Jour l\u00e8 Bon Dieu s&#8217;\u00c9veillant.<\/p>\n<p>Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra: &#8211; O senhor vem de Paris? &#8211; Sim, senhor. Il mit la tete \u00e0 la fen\u00eatre.<\/p>\n<p>&#8211; Que se faz por l\u00e1? &#8211; Leur plan\u00e8te a p\u00e9ri peut-\u00eatre. L\u00e1 em Paris tudo anda mal.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 tanto l\u00e1 em terra como aqui no mar.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, este nevoeiro \u00e9 o diabo.<\/p>\n<p>&#8211; E pode causar desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>O parisiense exclamou: Mas por que desgra\u00e7as? A prop\u00f3sito de que? De que servem desgra\u00e7as? \u00c9 o caso do inc\u00eandio do Odeon 1 Ficou uma por\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias reduzidas \u00e0 mis\u00e9ria! \u00c9 justo isto? Olhe c\u00e1, eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a sua religi\u00e3o, mas digo-lhe que n\u00e3o estou contente.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu &#8211; disse o maloense.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o que se passa neste mundo &#8211; falou o parisiense &#8211; parece um desconcerto. Creio que Deus n\u00e3o entra nisto.<\/p>\n<p>O maloense co\u00e7ou o alto da cabe\u00e7a, como quem procura compreender.<\/p>\n<p>O parisiense continuou: &#8211; Deus est\u00e1 ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrig\u00e1-lo a residir aqui. Anda l\u00e1 na sua casa de campo e n\u00e3o se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. \u00c9 evidente, meu bom senhor, que Deus j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 no governo, est\u00e1 em f\u00e9rias, e \u00e9 o vig\u00e1rio, algum anjo seminarista, algum be\u00f3cio com asas de pardal, quem dirige os neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o Clubin, que se aproximara, p\u00f4s a m\u00e3o no ombro do parisiense.<\/p>\n<p>&#8211; sil\u00eancio &#8211; disse ele. &#8211; Cuidado nas palavras. Estamos no mar.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais falou.<\/p>\n<p>No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes: &#8211; \u00c9 um capit\u00e3o religioso.<\/p>\n<p>N\u00e3o chovia e todos estavam molhados. S\u00f3 se reparava no caminho que o navio descrevia por uma esp\u00e9cie de mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano, adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele sil\u00eancio, o rumor da Durande tinha um n\u00e3o sei que de inquieto e lamentoso.<\/p>\n<p>J\u00e1 se n\u00e3o encontravam navios. S\u00f3 ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, n\u00e3o era vis\u00edvel, e a sua longa fuma\u00e7a, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no c\u00e9u branco.<\/p>\n<p>De repente Clubin exclamou: &#8211; Com seiscentos! Est\u00e1s dirigindo mal. Olha que me avarias o barco.<\/p>\n<p>Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, b\u00eabado! E tomou a cana do leme.<\/p>\n<p>O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.<\/p>\n<p>Disse o guernesiano: &#8211; Estamos salvos.<\/p>\n<p>A marcha continuou r\u00e1pida.<\/p>\n<p>&#8211; Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro come\u00e7ou a levantar-se e viu-se o mar.<\/p>\n<p>&#8211; Mau! &#8211; disse o guernesiano.<\/p>\n<p>S\u00f3 o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando \u00e9 o sol, \u00e9 bom sinal; quando \u00e9 o vento, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bom sinal. Era tarde j\u00e1 para ser o sol. \u00c0s 3 horas, em fevereiro, o sol est\u00e1 fraco. N\u00e3o era coisa desej\u00e1vel a volta do vento naquela situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Muitas vezes anuncia o furac\u00e3o.<\/p>\n<p>Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.<\/p>\n<p>Clubin, com o olhar na bit\u00e1cula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos: &#8211; N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder. Aquele b\u00eabado demorou a viagem.<\/p>\n<p>O seu rosto, por\u00e9m, n\u00e3o tinha express\u00e3o alguma.<\/p>\n<p>O mar estava menos adormecido. J\u00e1 se enxergavam algumas vagas.<\/p>\n<p>Luzes geladas flutuavam na \u00e1gua. Essas placas de clar\u00e3o nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. \u00c0s vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquele c\u00edrculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horizonte, e fechava-se depois.<\/p>\n<p>O guernesiano, armado de um \u00f3culo, estava como uma vedeta, na frente do navio.<\/p>\n<p>Clareou, depois escureceu outra vez.<\/p>\n<p>O guernesiano voltou-se assustado: &#8211; Capit\u00e3o Clubin! &#8211; Que \u00e9? &#8211; Vamos direto aos cachopos de Hanois.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 engano &#8211; disse Clubin friamente.<\/p>\n<p>O guernesiano insistiu: &#8211; Estou certo.<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Vi uma pedra no horizonte.<\/p>\n<p>&#8211; Onde? &#8211; Ali! &#8211; \u00c9 ao largo. Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>E Clubin continuou a por o navio no ponto indicado pelo passageiro.<\/p>\n<p>O guernesiano travou do \u00f3culo.<\/p>\n<p>Minutos depois correu para o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o! &#8211; Que \u00e9? &#8211; Vire- de bordo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que? &#8211; Vi uma rocha muito alta e muito perto. \u00c9 o grande Hanois.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser algum nevoeiro mais escuro &#8211; \u00c9 o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do c\u00e9u!<\/p>\n<p>Clubin deu uma volta \u00e0 cana do leme<\/p>\n<p><b>CLUBIN LEVA A ADMIRA\u00c7\u00c3O AO C\u00daMULO<\/b><\/p>\n<p>Ouviu-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, \u00e9 um dos sons mais l\u00fagubres que se pode imaginar. A Durande parou.<\/p>\n<p>Com o choque muitos passageiros ca\u00edram e rolaram no tombadilho.<\/p>\n<p>O guernesiano levantou as m\u00e3os para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Nos Hanois! Eu bem dizia! Longo grito soou no navio.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos perdidos! A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m est\u00e1 perdido! E sil\u00eancio! O corpo negro de Imbrancam, nu at\u00e9 a cintura, saiu do espa\u00e7o da m\u00e1quina.<\/p>\n<p>O negro disse com calma: &#8211; Capit\u00e3o, a \u00e1gua est\u00e1 entrando. A m\u00e1quina vai apagar-se.<\/p>\n<p>Terr\u00edvel foi o momento.<\/p>\n<p>O choque assemelhava-se a um suic\u00eddio. Se fosse de prop\u00f3sito, n\u00e3o seria mais terr\u00edvel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego.<\/p>\n<p>Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou a quilha, Partiu-se o gurup\u00e9s, o casco aberto bebia \u00e1gua aos borbot\u00f5es. Era uma chaga por onde entrava o naufr\u00e1gio. A rea\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o violenta que quebrou na popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e \u00e0 roda do navio n\u00e3o se via nada, al\u00e9m do nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a noite.<\/p>\n<p>A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.<\/p>\n<p>Sentia-se no mar a hora da mar\u00e9.<\/p>\n<p>Tangrouille estava desperto da embriaguez; ningu\u00e9m fica b\u00eabado em um naufr\u00e1gio; desceu abaixo, subiu e disse: &#8211; Capit\u00e3o, a \u00e1gua enche o por\u00e3o. Dentro de dez minutos est\u00e1 nos embornais.<\/p>\n<p>Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os bra\u00e7os, inclinando-se na amurada, olhando para a m\u00e1quina, fazendo todos os movimentos in\u00fateis do terror. O turista desmaiou.<\/p>\n<p>Clubin fez um sinal com a m\u00e3o, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam: &#8211; Quanto tempo pode a m\u00e1quina trabalhar ainda? &#8211; Cinco ou seis minutos.<\/p>\n<p>Depois interrogou o passageiro: &#8211; Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos n\u00f3s? &#8211; Na Mative. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.<\/p>\n<p>&#8211; Sendo a Mative &#8211; continuou Clubin &#8211; temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de terra.<\/p>\n<p>A equipagem e os passageiros escutavam, tr\u00eamulos de ansiedade e de aten\u00e7\u00e3o, com os olhos fixos no capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Alijar o navio era in\u00fatil e, demais, imposs\u00edvel. Para por a carga ao mar, era preciso abrir \u00e0s portinholas e aumentar as probabilidades de entrar \u00e1gua. Atirar a \u00e2ncora era in\u00fatil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. N\u00e3o estava avariada a m\u00e1quina, e continuando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do navio enquanto o fogo n\u00e3o estava apagado, isto \u00e9, por alguns minutos, podia-se, \u00e0 for\u00e7a de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, at\u00e9 certo ponto, tapava o rombo e tolhia a passagem da \u00e1gua. Servia de obst\u00e1culo. Desobstru\u00edda a abertura, seria imposs\u00edvel impedir a entrada da \u00e1gua. Quem retira o punhal de uma ferida no cora\u00e7\u00e3o, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao fundo. Clubin ordenou: Os bois, atacados pela \u00e1gua, come\u00e7avam a mugir. &#8211; A chalupa ao mar. Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripula\u00e7\u00e3o olhava petrificado. &#8211; Todos \u00e0 obra &#8211; gritou Clubin. Desta vez obedeceram todos.<\/p>\n<p>Clubin, impass\u00edvel, continuou a dar ordens, naquela velha l\u00edngua do mar, que os marinheiros de hoje n\u00e3o compreenderiam.<\/p>\n<p>A chalupa estava no mar.<\/p>\n<p>No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enx\u00e1rcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa.<\/p>\n<p>Imbrancam. apanhou o turista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subiu ao navio.<\/p>\n<p>Os marinheiros atiravam-se ap\u00f3s os passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem: &#8211; Ningu\u00e9m antes do mo\u00e7o &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>Afastou com os bra\u00e7os negros os marinheiros, o grumete, e estendeu- o ao passageiro guernesiano, de p\u00e9 na chalupa, recebeu o rapaz.<\/p>\n<p>O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse: Passem.<\/p>\n<p>Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho dos pap\u00e9is de bordo e dos instrumentos. Tirou a b\u00fassola da bit\u00e1cula.<\/p>\n<p>Entregou os pap\u00e9is e os instrumentos a Imbrancam. e a b\u00fassola a Tangrouille, e disse-lhes: &#8211; Des\u00e7am \u00e0 chalupa.<\/p>\n<p>Eles desceram. A tripula\u00e7\u00e3o tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.<\/p>\n<p>&#8211; Agora &#8211; disse Clubin &#8211; v\u00e3o embora.<\/p>\n<p>&#8211; E o senhor, capit\u00e3o? &#8211; Fico.<\/p>\n<p>As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na Chalupa, e relativamente em seguran\u00e7a, tiveram uma como\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo: &#8211; Venha conosco, capit\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Fico.<\/p>\n<p>O guernesiano, que conhecia o mar, replicou: &#8211; Ou\u00e7a, capit\u00e3o. O senhor naufragou nos Hanois. A nado h\u00e1 apenas 1 milha at\u00e9 Plainmont. Mas na chalupa s\u00f3 se pode abordar na Rocquaine, e s\u00e3o 2 milhas. H\u00e1 cachopos e nevoeiro. Esta chalupa n\u00e3o chega \u00e0 Rocquaine antes de 2 horas. N\u00e3o tarda a anoitecer.<\/p>\n<p>Enchendo a mar\u00e9, refresca o vento. Est\u00e1 pr\u00f3xima a borrasca. \u00c9 nosso desejo vir busc\u00e1-lo depois, mas se romper o temporal, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel. Se fica est\u00e1 perdido. Venha.<\/p>\n<p>O parisiense interveio: &#8211; A chalupa est\u00e1 cheia, e cheia demais, \u00e9 verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas n\u00f3s somos treze, \u00e9 mau n\u00famero para a barca, e \u00e9 melhor sobrecarreg\u00e1-la de um homem que de algarismo.<\/p>\n<p>Tangrouille acrescentou: &#8211; A culpa \u00e9 minha, n\u00e3o \u00e9 sua. N\u00e3o \u00e9 justo que o senhor fique.<\/p>\n<p>&#8211; Fico &#8211; disse Clubin. &#8211; O navio ser\u00e1 despeda\u00e7ado pela tempestade hoje de noite. N\u00e3o o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capit\u00e3o. Dir-se-\u00e1 de mim que eu cumpri o meu dever. Perd\u00f4o-te, Tangrouille.<\/p>\n<p>E cruzando os bra\u00e7os, gritou: &#8211; Aten\u00e7\u00e3o \u00e0s ordens. Larguem a banda da amarra. Partam ! Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as m\u00e3os que n\u00e3o remavam voltaram-se para o capit\u00e3o. Todas as bocas gritaram: Hurrah para o Capit\u00e3o Clubin! &#8211; Eis um homem admir\u00e1vel &#8211; disse o americano.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o mais honrado homem do mar &#8211; respondeu o guernesiano.<\/p>\n<p>Tangrouille chorava.<\/p>\n<p>&#8211; Eu devia ter ficado com ele.<\/p>\n<p>A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.<\/p>\n<p>N\u00e3o se viu mais nada.<\/p>\n<p>O rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.<\/p>\n<p>Clubin estava s\u00f3<\/p>\n<p><b>ALUMIA -SE O INTERIOR DE UM ABISMO<\/b><\/p>\n<p>Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela \u00e1gua, longe do contato humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo j\u00fabilo.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ara o que queria.<\/p>\n<p>Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.<\/p>\n<p>Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75 000 francos. Nunca se realizou mais acertado naufr\u00e1gio. Nada falhou; \u00e9 verdade que tudo estava previsto.<\/p>\n<p>Desde a juventude, Clubin teve uma id\u00e9ia; fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir da\u00ed, esperando que a sorte corresse; n\u00e3o apalpar, segurar; fazer um lance, mas s\u00f3 um, agarrar tudo, e deixar atr\u00e1s os papalvos.<\/p>\n<p>Assentava que devia alcan\u00e7ar de uma vez aquilo que os lar\u00e1pios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto estes v\u00e3o ter \u00e0 forca, ele iria \u00e0 fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine \u00e0 restitui \u00e7\u00e3o; quanto \u00e0s suas revela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, anul\u00e1-las desaparecendo; passar por morto, que \u00e9 a melhor desapari\u00e7\u00e3o do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufr\u00e1gio era necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua exist\u00eancia uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufr\u00e1gio acreditaria ver um dem\u00f4nio feliz.<\/p>\n<p>Viveu toda a sua vida naquele minuto.<\/p>\n<p>Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e terr\u00edveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.<\/p>\n<p>O foro \u00edntimo, como a natureza externa, tem a sua tens\u00e3o el\u00e1stica.<\/p>\n<p>Uma id\u00e9ia \u00e9 um meteoro; no momento do triunfo, entreabremse as medita\u00e7\u00f5es acumuladas que o preparam, e jorra uma fa\u00edsca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura \u00e9 esta que tem a sua irradia\u00e7\u00e3o; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas combina\u00e7\u00f5es triunfantes, certos desejos realizados, certas felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens l\u00fagubres e luminosas dilata\u00e7\u00f5es. \u00c9 a tempestade jubilosa, \u00e9 a aurora amea\u00e7adora. Tudo isso sai da consci\u00eancia, que se faz sombria e enevoada.<\/p>\n<p>Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.<\/p>\n<p>Rel\u00e2mpago que n\u00e3o se parecia com coisa alguma do que se pode ver no c\u00e9u e na terra.<\/p>\n<p>O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explos\u00e3o.<\/p>\n<p>Clubin fitou a imensa obscuridade, e n\u00e3o pode reter uma gargalhada baixa e sinistra.<\/p>\n<p>Estava livre! Estava rico! Achara a inc\u00f3gnita. Resolvera o problema.<\/p>\n<p>Clubin tinha tempo de cuidar de si. A mar\u00e9 enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia p\u00f4-la a nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; n\u00e3o havia perigo de so\u00e7obrar. Al\u00e9m disso, era preciso deixar \u00e0 chalupa o tempo de afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.<\/p>\n<p>De p\u00e9 sobre a Durande naufragada, cruzou os bra\u00e7os, saboreando aquele abandono nas trevas.<\/p>\n<p>A hipocrisia pesou \u00e0quele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um \u00f3dio de mal casado. Teve sempre uma premedita\u00e7\u00e3o malvada; desde que se fizera homem, trazia aquela armadura r\u00edgida, a apar\u00eancia. Era monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um cora\u00e7\u00e3o de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caix\u00e3o de m\u00famia, a inoc\u00eancia; tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco.<\/p>\n<p>Pesava-lhe demais a estima p\u00fablica. Passar por homem honrado \u00e9 duro! Manter constante equil\u00edbrio, pensar mal e falar bem, que labuta\u00e7\u00e3o 1 Clubin era o fantasma da retid\u00e3o, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresent\u00e1veis, escumar por baixo do n\u00edvel, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela m\u00e3o que lhe tapava a boca.<\/p>\n<p>E querendo morde-la foi obrigado a beij\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ter mentido \u00e9 ter sofrido. O hip\u00f3crita \u00e9 um paciente na dupla acep\u00e7\u00e3o da palavra; calcula um triunfo e sofre um supl\u00edcio. A premedita\u00e7\u00e3o indefinida de uma a\u00e7\u00e3o ruim, acompanhada por doses de austeridade, a inf\u00e2mia interior temperada de excelente reputa\u00e7\u00e3o, enganar continuadamente, n\u00e3o ser jamais quem \u00e9, fazer ilus\u00e3o, \u00e9 uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no c\u00e9rebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfei\u00e7\u00e3o com a perversidade, fazer c\u00f3cegas com o punhal, por a\u00e7\u00facar no veneno, velar na franqueza do gesto e na m\u00fasica da voz, n\u00e3o ter o pr\u00f3prio olhar, nada mais dif\u00edcil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia come\u00e7a obscuramente no hip\u00f3crita. Causa n\u00e1useas beber perp\u00e9tuamente a impostura. A meiguice com que a ast\u00facia disfar\u00e7a a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e h\u00e1 momentos de enj\u00f4o em que o hip\u00f3crita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva \u00e9 coisa horr\u00edvel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hip\u00f3crita se estima. H\u00e1 um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o drag\u00e3o e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor n\u00e3o \u00e9 mais que um d\u00e9spota tolhido que n\u00e3o pode fazer a sua vontade sen\u00e3o resignando-se ao segundo papel. \u00c9 a mesquinhez capaz da enormidade. O hip\u00f3crita \u00e9 um tit\u00e3-an\u00e3o.<\/p>\n<p>Clubin imaginava de boa f\u00e9 que tinha sido oprimido. Por que raz\u00e3o n\u00e3o nascera rico? O que ele queria era que os pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que n\u00e3o as tinha? N\u00e3o era culpa dele. Por que motivo, n\u00e3o lhe dando todos os gozos da vida, for\u00e7aram-no a trabalhar, isto \u00e9, a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que n\u00e3o era dele? Dissimular \u00e9 uma viol\u00eancia imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.<\/p>\n<p>De quem? De todos e de tudo.<\/p>\n<p>Lethierry n\u00e3o lhe fez sen\u00e3o bem: queixava-se demais; vingava-se de Lethierry. Vingava-se de todos aqueles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.<\/p>\n<p>Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens.<\/p>\n<p>O que se tinha por morte, era vida; ele ia come\u00e7ar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou, com o p\u00e9, Rantaine ao espa\u00e7o, Lethierry \u00e0 ru\u00edna, a justi\u00e7a humana \u00e0s trevas, a opini\u00e3o ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.<\/p>\n<p>Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.<\/p>\n<p>Passou como religioso. Que importa? H\u00e1 cavernas no hip\u00f3crita ou, antes, o hip\u00f3crita \u00e9 uma caverna.<\/p>\n<p>Quando Clubin ficou s\u00f3, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de del\u00edcias; arejou a alma.<\/p>\n<p>Respirou largamente o seu crime.<\/p>\n<p>O fundo do mal tornou-se vis\u00edvel naquele rosto. Clubin abriu-se.<\/p>\n<p>Nesse momento o olhar de Rantaine ao p\u00e9 daqueles olhos pareceria um olhar de rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>Arrancar a m\u00e1scara, que livramento! A consci\u00eancia de Clubin alegrou- se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ign\u00f3bil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gesto violento \u00e0 impud\u00eancia. Chega-se a uma certa lasc\u00edvia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais t\u00e3o pouco sondadas uma n\u00e3o sei que ostenta \u00e7\u00e3o atroz e agrad\u00e1vel, que \u00e9 a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputa\u00e7\u00e3o d\u00e1 apetite de vergonha. Desdenham se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a franqueza da degrada\u00e7\u00e3o. Olha-se cobi\u00e7osamente a torpeza que se mostra t\u00e3o a seu gesto na ignom\u00ednia. Os olhos obrigados a baixar-se tem muitas vezes destes olhares obl\u00edquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadi\u00e8re e a religiosa de Louviers.<\/p>\n<p>Clubin vivera debaixo do v\u00e9u. O descaramento foi sempre a sua ambi\u00e7\u00e3o. Invejava a mulher p\u00fablica e a fronte de bronze do opr\u00f3- brio aceito; sentia-se mais mulher p\u00fablica do que ela e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o T\u00e2ntalo do cinismo. Enfim, naquela solid\u00e3o, podia ser franco; era-o. Que vol\u00fapia n\u00e3o \u00e9 sentir-se sinceramente abomin\u00e1vel! Todos os extases poss\u00edveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimula\u00e7\u00e3o; a hipocrisia \u00e9 um adiantamento; Satan\u00e1s embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfa\u00e7amento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas ficara o c\u00e9u. Disse consigo: Sou um p\u00edcaro! E ficou satisfeito.<\/p>\n<p>Jamais houve coisa igual em uma consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Erup\u00e7\u00e3o de um hip\u00f3crita, n\u00e3o h\u00e1 rompimento de cratera igual a esse.<\/p>\n<p>Achava-se feliz por n\u00e3o haver ali ningu\u00e9m, e n\u00e3o desgostaria que algu\u00e9m o visse. Teria prazer em ser medonho \u00e0 vista de uma testemunha.<\/p>\n<p>Teria prazer em dizer ao g\u00eanero humano: \u00e9s idiota! A aus\u00eancia de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminu\u00eda-o.<\/p>\n<p>S\u00f3 ele era o espectador da sua gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 certo encanto em estar de golilha. Toda a gente v\u00ea que \u00e9s infame.<\/p>\n<p>Obrigar a multid\u00e3o a examinar-te \u00e9 reconhecer a tua for\u00e7a. Um gal\u00e9 sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pesco\u00e7o, \u00e9 o d\u00e9spota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si.<\/p>\n<p>Aquele cadafalso \u00e9 ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de ficar no centro de converg\u00eancia para a aten\u00e7\u00e3o geral? Obrigar o olhar p\u00fablico \u00e9 uma das formas de supremacia.<\/p>\n<p>Os que tem o mal por ideal acham no opr\u00f3brio uma aur\u00e9ola.<\/p>\n<p>Domina-se da\u00ed. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com soberania. Um poste, \u00e0 vista de todo o universo, tem alguma analogia com um trono.<\/p>\n<p>Estar exposto \u00e9 ser contemplado.<\/p>\n<p>Um mau reinado tem evidentemente j\u00fabilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luis XIV tomando trai\u00e7oeiramente o Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napole\u00e3o, Nicolau assassinando a Pol\u00f4nia em face da civiliza\u00e7\u00e3o, deviam sentir um pouco daquela vol\u00fapia sonhada por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.<\/p>\n<p>Ser desmascarado \u00e9 uma derrota, mas desmascarar-se \u00e9 uma vit \u00f3ria. \u00c9 a ebriedade, \u00e9 a imprud\u00eancia insolente e satisfeita, \u00e9 uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.<\/p>\n<p>Estas id\u00e9ias em um hip\u00f3crita parecem contradi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda a inf\u00e2mia \u00e9 conseq\u00fcente. O mel \u00e9 fel. Escobar confina no Marques de Sade. Prova: L\u00e9otade. O hip\u00f3crita, sendo perverso completo, tem em si os dois p\u00f3los da perversidade. De um lado \u00e9 padre, do outro cortes\u00e3o. O seu sexo de dem\u00f4nio \u00e9 duplo. O hip\u00f3crita \u00e9 o horr\u00edvel hermafrodita do mal. Fecunda-se a si pr\u00f3prio; gera-se, transforma-se. Queres v\u00ea-lo formoso? Olha-o. Queres v\u00ea-lo horr\u00edvel? Vira-o.<\/p>\n<p>Clubin tinha em si toda esta sombra de id\u00e9ias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.<\/p>\n<p>Uma por\u00e7\u00e3o de fa\u00edscas do inferno, atravessando a noite, era a sucess\u00e3o dos pensamentos naquela alma.<\/p>\n<p>Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que despiu.<\/p>\n<p>Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele pr\u00f3prio acreditou um bocadinho nela.<\/p>\n<p>Deu segunda gargalhada.<\/p>\n<p>Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.<\/p>\n<p>Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa ca\u00e7oada \u00e0 tolice universal! E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desd\u00e9m sem limites. Desd\u00e9m da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua m\u00e1 a\u00e7\u00e3o, e foi ele quem teve a boa fortuna.<\/p>\n<p>Quanto ao futuro, Clubin n\u00e3o tinha plano. Possu\u00eda os bilhetes do banco na boceta de ferro atada \u00e0 cintura; bastava-lhe esta certeza.<\/p>\n<p>Mudaria de nome. H\u00e1 pa\u00edses onde 60 000 francos valem 600 000. N\u00e3o seria m\u00e1 solu\u00e7\u00e3o ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladr\u00e3o Rantaine. Especular, entrar em um grande neg\u00f3cio, engrossar o capital, tornar-se seriamente milion\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o era mau.<\/p>\n<p>Por exemplo, em Costa Rica, como era o come\u00e7o do grande com \u00e9rcio do caf\u00e9, podia ganhar ton\u00e9is de ouro. Veria isso.<\/p>\n<p>Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais dif\u00edcil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. N\u00e3o havia obst\u00e1culo poss\u00edvel. Nada a temer. N\u00e3o podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria \u00e0 casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de n\u00f3s escondida de antem \u00e3o no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e v\u00edveres, dentro de oito dias l\u00e1 estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito provavelmente; por alguns guin\u00e9us, far-se- ia transportar, n\u00e3o a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbao. Da\u00ed iria a Vera Cruz ou a Nova Orleans.<\/p>\n<p>J\u00e1 era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, s\u00f3 1 milha o separava da terra, pois que estava no Hanois.<\/p>\n<p>Neste ponto dos seus c\u00e1lculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro.<\/p>\n<p>O formid\u00e1vel rochedo Douvres surgiu aos seus olhos<\/p>\n<p><b>INTERV\u00c9M O INESPERADO<\/b><\/p>\n<p>Clubin olhou espantado.<\/p>\n<p>Era o medonho escolho isolado.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel a ilus\u00e3o a respeito daquela configura\u00e7\u00e3o disforme.<\/p>\n<p>As duas Douvres g\u00eameas campeavam horr\u00edveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera- se um quebra-costas do oceano.<\/p>\n<p>Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como c\u00famplice, escondera-as.<\/p>\n<p>Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a aten\u00e7\u00e3o, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a Gonz\u00e1lez, que descobriu o cabo Branco, e a Fernandez, que descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execu\u00e7\u00e3o do projeto, mas tinha os seus perigos.<\/p>\n<p>Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.<\/p>\n<p>A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de bra\u00e7as.<\/p>\n<p>A 200 bra\u00e7as mais longe via-se um maci\u00e7o cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galg\u00e1-la.<\/p>\n<p>Os cantos retil\u00edneos dessas rudes muralhas de \u00e2ngulo reto faziam pressentir no cume uma planura.<\/p>\n<p>Era o Homem.<\/p>\n<p>A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacess\u00edveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. N\u00e3o se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranq\u00fcilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, esp\u00e9cie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.<\/p>\n<p>Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superf\u00edcie muda da \u00e1gua adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.<\/p>\n<p>Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.<\/p>\n<p>Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia duvidar.<\/p>\n<p>S\u00fabita e terr\u00edvel mudan\u00e7a. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 l\u00e9guas do mar! O imposs\u00edvel. A rocha Douvres, para o n\u00e1ufrago solit\u00e1rio, \u00e9 a presen\u00e7a vis\u00edvel e palp\u00e1vel dos \u00faltimos momentos.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel chegar \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. N\u00e3o havia outro ref\u00fagio al\u00e9m do rochedo Homem. Era prov\u00e1vel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, so\u00e7obrasse. Nenhum aviso do naufr\u00e1gio chegaria \u00e0 terra. N\u00e3o se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia outra perspectiva sen\u00e3o a morte por frio e fome. Os seus 75 000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo quanto ele constru\u00edra deu em resultado aquela cilada; foi ele pr\u00f3prio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso.<\/p>\n<p>Nenhuma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. O triunfo fazia-se precip\u00edcio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro pr\u00f3spero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edif\u00edcio. O para\u00edso sonhado por aquele dem\u00f4nio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.<\/p>\n<p>Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.<\/p>\n<p>Os bois, cada vez mais invadidos pela \u00e1gua, continuavam a berrar no por\u00e3o.<\/p>\n<p>Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.<\/p>\n<p>A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, .<\/p>\n<p>e come\u00e7ava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.<\/p>\n<p>Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria \u00e1gua abaixo.<\/p>\n<p>Havia menos obscuridade do que no momento do naufr\u00e1gio. Apesar da hora ser j\u00e1 avan\u00e7ada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escurid\u00e3o. O oeste limpou-se de nuvens. O crep\u00fasculo \u00e9 um vasto c\u00e9u branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.<\/p>\n<p>A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou \u00e0 proa que estava quase fora da \u00e1gua. Fitou no horizonte os olhos.<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio da hipocrisia ater-se \u00e0 esperan\u00e7a. O hip\u00f3crita \u00e9 homem que espera. A hipocrisia \u00e9 uma esperan\u00e7a horr\u00edvel: &#8211; O fundo dessa mentira \u00e9 feito desta virtude, tornada vicio.<\/p>\n<p>Coisa estranha de dizer, h\u00e1 confian\u00e7a na hipocrisia. O hip\u00f3crita confia-se a certa indiferen\u00e7a do desconhecido, que consente no mal.<\/p>\n<p>Clubin olhava para a extens\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era desesperada: aquela alma sinistra n\u00e3o desesperou.<\/p>\n<p>Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, \u00e0 capa ou ancorados, iam continuar viagem e algum passaria no horizonte.<\/p>\n<p>E, com efeito, apareceu uma vela.<\/p>\n<p>Vinha de leste e ia para oeste.<\/p>\n<p>Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurup\u00e9s era quase horizontal.<\/p>\n<p>Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.<\/p>\n<p>Clubin disse consigo: Estou salvo.<\/p>\n<p>Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.<\/p>\n<p>O c\u00fater era quase estrangeiro. Quem sabe se n\u00e3o era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se n\u00e3o era Blasquito? Nesse caso, n\u00e3o somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclus\u00e3o, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho \u00e0 aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.<\/p>\n<p>Toda a certeza do bom \u00eaxito entrou freneticamente naquele esp\u00edrito sombrio.<\/p>\n<p>Estranha coisa \u00e9 ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem sucedidos.<\/p>\n<p>Cumpria fazer apenas uma coisa.<\/p>\n<p>A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configura\u00e7\u00e3o \u00e0 deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e n\u00e3o bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a aten\u00e7\u00e3o da embarca\u00e7\u00e3o que ia passar.<\/p>\n<p>Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de p\u00e9 na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem d\u00favida alguma. Mandariam um escaler para recolher o n\u00e1ufrago.<\/p>\n<p>O rochedo Homem ficava a 200 bra\u00e7as. Era simples atingi-lo a nado, f\u00e1cil trepar por ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia tempo a perder.<\/p>\n<p>Estando a proa da Durande-sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao p\u00e9 da popa muito fundo. As conchas microsc\u00f3picas de foramin\u00edferos e de policistin\u00e1ceos que \u00e0 sonda trouxe consigo estavam intatas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a \u00e1gua, qualquer que fosse a agita\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie, era sempre tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no c\u00fater.<\/p>\n<p>Conservou apenas o cinto de couro.<\/p>\n<p>Depois de despir-se, levou a m\u00e3o ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a dire\u00e7\u00e3o que devia seguir no meio dos parc\u00e9is e das vagas para alcan\u00e7ar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p>Como caiu de alto, mergulhou muito.<\/p>\n<p>Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Nesse momento sentiu-se agarrado pelo p\u00e9<\/p>\n<h2>Livro S\u00e9timo:Imprud\u00eancia de Interrogar um Livro<\/h2>\n<p><b>A P\u00c9ROLA NO FUNDO DO PRECIP\u00cdCIO<\/b><\/p>\n<p>Minutos depois do curto col\u00f3quio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.<\/p>\n<p>Gilliatt ia inquieto at\u00e9 \u00e0 ansiedade. Que teria acontecido? Saint-Sampson tinha um rumor de colmeia assustada. Toda a gente estava \u00e0s portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se \u00e0 roda dessas. Ouviam-se estas palavras: Que desgra\u00e7a! Alguns sorriam. Gilliatt n\u00e3o interrogou ningu\u00e9m. N\u00e3o era pr\u00f3prio dele fazer perguntas. Demais ia demasiado comovido para falar a indiferentes. Desconfiava das narra\u00e7\u00f5es, preferia saber logo tudo; foi \u00e0 casa de Lethierry.<\/p>\n<p>A sua ansiedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquela casa.<\/p>\n<p>Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; ele entrou.<\/p>\n<p>Entrando, achou encostado \u00e0 porta o Sr. Landoys, que lhe disse a meia voz: &#8211; Ent\u00e3o, j\u00e1 sabe do sucesso? &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o quis dizer-lho h\u00e1 pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi ent\u00e3o? &#8211; Perdeu-se a Durande.<\/p>\n<p>Havia muita gente na sala.<\/p>\n<p>Os grupos falavam baixo, como no quarto de um doente.<\/p>\n<p>Os assistentes, que eram os vizinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao p\u00e9 da porta, com uma esp\u00e9cie de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao lado de D\u00e9ruchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de p\u00e9.<\/p>\n<p>Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bon\u00e9 de marujo ca\u00eda-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de cabelos grisalhos prendia-se-lhe na face. N\u00e3o dizia nada. Os bra\u00e7os n\u00e3o tinham movimento, a boca parecia n\u00e3o ter alento. Parecia uma coisa encostada \u00e0 parede.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry j\u00e1 n\u00e3o tinha raz\u00e3o de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer.<\/p>\n<p>Que faria ele agora? Levantar-se de manh\u00e3, deitar-se de noite. J\u00e1 n\u00e3o podia esperar a Durande, nem v\u00ea-la partir nem voltar. O que \u00e9 um resto de exist\u00eancia sem objeto? Beber, comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos com uma obra-prima, e as dedica\u00e7\u00f5es com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns anos vazios? N\u00e3o tinha mais nada que fazer. Naquela idade n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel recome\u00e7ar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho! D\u00e9ruchette, assentada ao p\u00e9 dele e chorando, tinha entre as suas duas m\u00e3os a m\u00e3o de Mess Lethierry. As dela estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferen\u00e7a daqueles dois abatimentos.<\/p>\n<p>As m\u00e3os postas ainda tem, esperan\u00e7a; a apertada nenhuma.<\/p>\n<p>Mess Lethierry abandonava-lhe o bra\u00e7o sem resist\u00eancia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquela por\u00e7\u00e3o de vida que pode haver depois do raio.<\/p>\n<p>H\u00e1 certas descidas ao fundo do abismo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda s\u00e3o confusas e indistintas; acotovelam-no e n\u00e3o lhe chegam. De parte a parte ficam inacess\u00edveis. A ventura e o desespero n\u00e3o s\u00e3o os mesmos centros respir\u00e1veis; o desesperado assiste \u00e0 vida dos outros, mas de muito longe; ignora quase a sua presen\u00e7a; perde o sentimento da pr\u00f3pria exist\u00eancia; que importa ser de carne e osso, o desesperado j\u00e1 se n\u00e3o sente real; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ele pr\u00f3prio, \u00e9 apenas um sonho.<\/p>\n<p>Mess Lethierry tinha o olhar dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cochichavam os grupos.<\/p>\n<p>Cada qual dizia o que sabia.<\/p>\n<p>Eis as not\u00edcias: A Durande perdera-se na v\u00e9spera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do por do sol. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o, que n\u00e3o quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa.<\/p>\n<p>Uma borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro, quase fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo, al\u00e9m de Guernesey. De noite tiveram os n\u00e1ufragos a boa fortuna de encontrar o Cashemere, que os recolheu e levou a Saint-Pierre-Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que j\u00e1 estava preso.<\/p>\n<p>Clubin mostrou-se magn\u00e2nimo.<\/p>\n<p>Os pilotos que abundavam nos grupos pronunciavam estas palavras escolho Douvres de um modo particular. M\u00e1 hospedaria aquela!, dizia um deles.<\/p>\n<p>Viam-se na mesa uma b\u00fassola e um ma\u00e7o de registros e notas; eram sem d\u00favida a b\u00fassola da Durande e os pap\u00e9is de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magn\u00edfica abnega\u00e7\u00e3o desse homem, salvando at\u00e9 os pap\u00e9is no momento em que ia morrer; minuciazinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Todos eram un\u00e2nimes em admirar Clubin, e igualmente un\u00e2nimes em julg\u00e1-lo salvo. O c\u00fater Shealtiel chegara poucas horas depois do Cashemere, e esse c\u00fater trazia as \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es. Esteve 24 horas nas mesmas \u00e1guas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patr\u00e3o do Shealtiel estava tamb\u00e9m na sala de Leth\u00ederry.<\/p>\n<p>No momento em que Gilliatt entrou, acabava ele de fazer a sua narra\u00e7\u00e3o a Mess Lethierry. Era um verdadeiro relat\u00f3rio. De manh\u00e3, tendo cessado a borrasca e acalmado o vento, o patr\u00e3o do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor pr\u00f3prio das campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o patr\u00e3o. Descobriu a Durande nos rochedos Douvres. A calma era suficiente para que ele pudesse acercar-sedos rochedos. Chamou o navio \u00e0 fala. S\u00f3 lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no por\u00e3o. O patr\u00e3o do Shealtiel estava certo de que n\u00e3o havia ningu\u00e9m a bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de bordo. N\u00e3o era homem de desanimar facilmente. N\u00e3o estava de bordo, logo estava salvo.<\/p>\n<p>Muitos sloops e lugres de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fora de d\u00favida que deviam ter costeado as Douvres.<\/p>\n<p>Evidentemente algum deles recolheu o Capit\u00e3o Clubin. Devem lembrar- se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia faz\u00ea-la so\u00e7obrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever, se aparecesse um navio salvador, Clubin n\u00e3o teria dificuldade de aproveitar-se dele. Deve-se ser her\u00f3i, n\u00e3o se deve ser pasc\u00e1cio. Um suic\u00eddio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portara-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, n\u00e3o Clubin. Tudo isto era conseq\u00fcente; o patr\u00e3o do Shealtiel tinha raz\u00e3o e toda a gente esperava ver Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebe-lo em triunfo.<\/p>\n<p>Da narra\u00e7\u00e3o do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 Durande, estava decidido que a cat\u00e1strofe era irremedi\u00e1vel. O patr\u00e3o do Shealtiel assistira \u00e0 \u00faltima fase do naufr\u00e1gio. O grand\u00edssimo rochedo em que naufragara a Durande resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar consigo o navio; mas de manh\u00e3, no momento em que o Shealtiel, verificando que n\u00e3o havia ningu\u00e9m para salvar, afastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que s\u00e3o como os \u00faltimos arrancos da c\u00f3lera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a retid\u00e3o de uma flecha disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres.<\/p>\n<p>Ouviu-se um estalo diab\u00f3lico, dizia o patr\u00e3o. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou a\u00ed deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.<\/p>\n<p>A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel, j\u00e1 estava quase toda despeda\u00e7ada. Teria so\u00e7obrado, com certeza, de noite, se o cachopo n\u00e3o estivesse. O patr\u00e3o do Shealtiel com o seu \u00f3culo, estudou o casco. Descreveu o desastre com precis\u00e3o mar\u00edtima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes quase todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente poss\u00edvel desde o meio do mastro at\u00e9 acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destru\u00eddos, a \u00e1rvore do leme rota, os cabos despregados, os paveses arrasados, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devasta \u00e7\u00e3o fren\u00e9tica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de proa, j\u00e1 n\u00e3o existia, n\u00e3o havia not\u00edcia dele, completamente limpo, levaram-no os diabos, com todas as roldanas, pol\u00e9s e correntes. A Durande estava deslocada; a \u00e1gua come\u00e7ava agora a despeda\u00e7\u00e1-la. Dentro de alguns dias nada mais restaria dela.<\/p>\n<p>E contudo a m\u00e1quina, coisa not\u00e1vel, e que provava a sua perfei\u00e7\u00e3o, sofreu pouco com a tempestade. O patr\u00e3o do Shealtiel afirmava que a manivela n\u00e3o teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da m\u00e1quina resistiu. Os baluartes de ferro do lugar do comando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas pareciam n\u00e3o ter um s\u00f3 raio de menos. A m\u00e1quina estava intata. Era a convic\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o do Shealtiel. O maquinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convic\u00e7\u00e3o. Aquele negro, mais inteligente que muitos brancos, era o admirador da m\u00e1quina. Levantava os bra\u00e7os abrindo os dez dedos das suas m\u00e3os negras, e dizia a Lethierry mudo: Meu amo, a m\u00e1quina est\u00e1 viva.<\/p>\n<p>O salvamento de Clubin parecia coisa segura, o casco da Durande estava sacrificado; a conversa\u00e7\u00e3o dos grupos recaiu sobre a m\u00e1- quina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma Pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da m\u00e1quina. S\u00f3lida comadre aquela , dizia um marinheiro franc\u00eas. \u00c9, fica!, exclamava um pescador guernesiano. Deve ter sido muito astuciosa, acrescentava o patr\u00e3o, para escapar apenas com alguns arranh\u00f5es.<\/p>\n<p>A pouco e pouco tornou-se a m\u00e1quina a preocupa\u00e7\u00e3o \u00fanica. Animou as opini\u00f5es pr\u00f3 e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho c\u00fater de vela, e esperava apanhar a freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres fazer justi\u00e7a \u00e0 nova inven\u00e7\u00e3o. O cochicho tomou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era contudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a press\u00e3o do sil\u00eancio sepulcral de Lethierry.<\/p>\n<p>Do col\u00f3quio havido em todos os pontos resultava isto: A m\u00e1quina era o essencial. Refazer o navio era poss\u00edvel, n\u00e3o a m\u00e1quina. Era \u00fanica. Para fabricar outra faltavam o dinheiro e o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido. Custou 40 000 francos. Ningu\u00e9m arriscaria agora aquele capital naquela eventualidade; tanto mais quanto acabava de provar-se que os e vapores naufragam como navios de vela; o acidente atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E era doloroso pensar que naquele momento a m\u00e1quina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despeda\u00e7ada como o navio. Enquanto existia a m\u00e1quina, podia dizer-se que n\u00e3o havia naufr\u00e1gio. S\u00f3 a perda da m\u00e1quina era irremedi\u00e1vel. Salvar a m\u00e1quina era reparar o desastre.<\/p>\n<p>Salvar a m\u00e1quina \u00e9 f\u00e1cil diz\u00ea-lo. Mas quem ousaria? Era acaso poss\u00edvel? Dizer e executar s\u00e3o coisas diferentes, e a prova \u00e9 que \u00e9 f\u00e1cil formular uma aspira\u00e7\u00e3o e dif\u00edcil. Execut\u00e1-la. Ora, se houve jamais um sonho impratic\u00e1vel e insensato era este: salvar a m\u00e1- quina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquelas rochas um navio e uma equipagem. seria absurdo; n\u00e3o se devia pensar nisso. Era a esta\u00e7\u00e3o dos temporais: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nas pontas submarinas e o navio despeda\u00e7ava-se. Era mandar um naufr\u00e1gio em socorro do primeiro. Na esp\u00e9cie de buraco da planura superior onde se abrigara o n\u00e1ufrago legend\u00e1rio morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois, que, para salvar essa m\u00e1quina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, s\u00f3 naquele mar, s\u00f3 naquele deserto, s\u00f3 a 5 l\u00e9guas da costa, naquele medo, s\u00f3 durante semanas inteira. Diante do previsto e do imprevisto, sem ang\u00fastias da priva\u00e7\u00e3o, sem socorro nos incidentes d desgra\u00e7a, sem outro vest\u00edgio humano que o do antigo n\u00e1ufrago morto ali, sem outro companheiro al\u00e9m daquele finado.<\/p>\n<p>E como salvaria ele a m\u00e1quina? Era preciso que fosse, n\u00e3o somente marujo, sen\u00e3o tamb\u00e9m ferreiro. E quantas dificuldades! O homem que o tentasse seria mais que um her\u00f3i. Seria um louco.<\/p>\n<p>Porquanto, em certos cometimentos desprop\u00f3sito nados, onde parece necess\u00e1rio o sobre-humano, a bravura tem acima de si a dem\u00eancia. E, com efeito, sacrificar-se porem iria um pouco de ferro n\u00e3o era extravagante? N\u00e3o, aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar \u00e0 m\u00e1quina do mesmo modo que 4o navio. O salvador que era preciso n\u00e3o aparecia. Onde encontrar esse homem? Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquela multid\u00e3o.<\/p>\n<p>O patr\u00e3o do Shealtiel, que era um antigo piloto, resumiu o pensamento de todos exclamando em alta voz: &#8211; N\u00e3o! Est\u00e1 acabado. N\u00e3o existe um homem capaz de ir buscar a m\u00e1quina! &#8211; Se eu n\u00e3o vou &#8211; disse Imbrancam &#8211; \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel ir.<\/p>\n<p>O patr\u00e3o do Shealtiel sacudiu a m\u00e3o esquerda com aquele arrebatamento que exprime a convic\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel, e repetiu: &#8211; Se existisse. .<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette voltou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Casava-me com ele.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Um homem p\u00e1lido saiu do meio dos grupos e disse: &#8211; A senhora casava-se com ele, Miss D\u00e9ruchette? Era Gilliatt.<\/p>\n<p>Entretanto, todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endire\u00edtou-se.<\/p>\n<p>Tinha nos olhos uma luz estranha.<\/p>\n<p>Tirou o bon\u00e9 e lan\u00e7ou ao ch\u00e3o, depois olhou solenemente para frente sem ver pessoa alguma e disse: &#8211; D\u00e9ruchette casava-se com esse homem. Dou a minha Palavra de honra a Deus<\/p>\n<p><b>GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE<\/b><\/p>\n<p>A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar.<\/p>\n<p>Todavia, qualquer que fosse a boa apar\u00eancia da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de Hougue La Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port-Grat, nem da ba\u00eda Vason, nem de Perelle: Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da baia dos Santos, nem de Petit B\u00f4, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isso por uma raz\u00e3o simples: o galo tinha cantado ao meio-dia.<\/p>\n<p>Quando o galo canta a uma hora extraordin\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 peixe.<\/p>\n<p>Nesse dia, pois, ao cair da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet Paradis, al\u00e9m de Brayes e Grunes, tendo \u00e0 esquerda a baliza de Plattes Foug\u00e9res, que representa um funil virado, e \u00e0 direita a baliza de Saint- Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira baliza. Que baliza era essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza respondeu logo a estas interroga\u00e7\u00f5es; mexeu-se; era um mastro. N\u00e3o diminuiu o espanto do pescador. Baliza era para admirar; mastro ainda mais. N\u00e3o havia pesca poss\u00edvel. Quando todos voltavam, porque sa\u00eda aquele? Quem era? Por que? Dez minutos depois, o mastro, caminhando lentamente, chegou a pouca dist\u00e2ncia do pescador de Omptolle. Este n\u00e3o pode reconhecer o barco. Ouviu remar. O ru\u00eddo era de dois remos. Provavelmente era um homem s\u00f3. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento al\u00e9m da ponta Fontenelle. A\u00ed era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquilo? O mastro passou; o pescador foi para terra.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de ocasi\u00e3o disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.<\/p>\n<p>O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um condutor de sarga\u00e7o, a meia milha distante, chicoteando os animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe, em lugar pouco freq\u00fcentado, porque \u00e9 preciso conhece-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco i\u00e7ando uma vela. Deu pouca aten\u00e7\u00e3o, pois que era homem de carro e n\u00e3o de barco.<\/p>\n<p>Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagoa de Pel\u00e9e achou-se repentinamente quase em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era negra, mas o mar estava claro, efeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. S\u00f3 havia no mar aquele barco.<\/p>\n<p>Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, n\u00e3o compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Comeille e a Moulrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar ali.<\/p>\n<p>Sendo 8 horas no Catel, o taveneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela al\u00e9m da Boue do Jardim e das Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.<\/p>\n<p>N\u00e3o longe do Cobo Bay, na ponta solit\u00e1ria do Houmet da ba\u00eda Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distra\u00eddos do \u00faltimo beijo por um vasto barco que passou por perto deles e dirigia-se para as Menellettes.<\/p>\n<p>O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, \u00e0s 9 horas da noite, um buraco feito por lar\u00e1pios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, n\u00e3o pode deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point \u00e0quela hora.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agita\u00e7\u00e3o que sempre fica no mar, aquele itiner\u00e1rio era pouco seguro, a menos que se n\u00e3o saiba de cor todos os passos. As 9 horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombelle e Soufleresse alguma coisa que devia ser um barco e que se expunha muito ao tempo. H\u00e1 ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse \u00e9 assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.<\/p>\n<p>Ao levantar da lua, estando a mar\u00e9 cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solit\u00e1rio da ilha de Li-Hou assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das esp\u00e9cies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.<\/p>\n<p>A Dama Branca habita o Tau de Pez d&#8217;Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d&#8217;Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Baric-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacr\u00e9 ao este de Li-Houmet. Ao clar\u00e3o da lua todas essas damas saem e encontram-se \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quais parecia que a vela andava, podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atr\u00e1s de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si pr\u00f3prio que barco ousaria arriscar-se \u00e0quelas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angulli\u00e8res e Ler\u00e9e-Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais prov\u00e1vel que fosse a Dama Negra.<\/p>\n<p>Estando a lua j\u00e1 acima da torre de Saint-Pierre-du-Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadi\u00e7a e distinguiu na foz da ba\u00eda, mais perto que a Sambule, um barco a vela que parecia descer de norte a sul.<\/p>\n<p>Existe na costa sul de Guernesey, atr\u00e1s do Plaininont, no fundo de uma ba\u00eda, toda precip\u00edcios e muralhas, cortado a pique na onda, um porto singular que um franc\u00eas, residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, batizou com o nome de porto do quarto andar, nome geralmente adotado hoje.<\/p>\n<p>Esse porto que ent\u00e3o se chamava a Moie, \u00e9 uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40 p\u00e9s de altura acima da \u00e1gua, e comunicando com as vagas por duas grandes pranchas em plano inclinado. Os barcos i\u00e7ados \u00e0 for\u00e7a de bra\u00e7os por correntes e roldanas, saem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que s\u00e3o dois trilhos. Para os homens h\u00e1 uma escada. Esse porto era ent\u00e3o muito freq\u00fcentado pelos contrabandistas. Sendo pouco pratic\u00e1vel, era-lhes c\u00f4modo.<\/p>\n<p>Pelas 11 horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; eles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente al\u00e9m das linhas negras do cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receando que fosse algum guarda-costa colocar-se de emboscada atr\u00e1s do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atr\u00e1s de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se ao largo nas brumas l\u00edvidas do horizonte.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde diabo vai aquela barca? &#8211; disseram os contrabandistas.<\/p>\n<p>Na mesma noite, pouco depois de por o sol, ouviu-se algu\u00e9m bater na porta da casa mal-assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que indicava ser sacrist\u00e3o. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de frutos do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na m\u00e3o, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre eles: &#8211; Que quer voc\u00ea? &#8211; O hhhhhhooomem daqui.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1? &#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Vir\u00e1 amanh\u00e3? &#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Foi-se embora daqui? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u00c9 que o novo cura da par\u00f3quia, o Reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanh\u00e3 de manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei<\/p>\n<p><b>N\u00c3O TENTEIS A B\u00cdBLIA<\/b><\/p>\n<p>Nas 24 horas que se seguiram, Mess Lethierry n\u00e3o dormiu nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de D\u00e9ruchette, informou-se de Clubin, do qual ainda n\u00e3o havia not\u00edcias, assinou um papel declarando que n\u00e3o pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.<\/p>\n<p>Ficou, todo o dia seguinte, meio encostado \u00e0 mesa do escrit\u00f3rio da Durande, nem assentado nem de p\u00e9, respondendo com brandura a quem lhe falava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solit\u00e1ria a casa de Lethierry. H\u00e1 muitos desejos de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com D\u00e9ruchette. O rel\u00e2mpago que passara nos olhos de Lethierry estava extinto; voltara-lhe o olhar l\u00fagubre do come\u00e7o da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette, assustada, foi caladinha, conselho de Gra\u00e7a e Doce, colocar ao lado dele, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste not\u00edcia chegou.<\/p>\n<p>Lethierry sorriu amargamente e disse: &#8211; Ent\u00e3o pensam que n\u00e3o tenho ju\u00edzo? Depois de um quarto de hora de sil\u00eancio, acrescentou: &#8211; Estas manias s\u00e3o boas quando a gente \u00e9 feliz.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette tirou o par de meias, e aproveitou a ocasi\u00e3o para tirar tamb\u00e9m a b\u00fassola e os pap\u00e9is de bordo, que Mess Lethierry contemplava demasiadamente.<\/p>\n<p>De tarde, um pouco antes da hora do ch\u00e1, a porta abriu-se e entraram dois homens, vestidos de preto, um velho, e outro mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o j\u00e1 foi visto no curso desta narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade diferente; o velho tinha aquilo que se pode chamar gravidade de profiss\u00e3o; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do h\u00e1bito, a segunda nasce do pensamento.<\/p>\n<p>Eram, como indicava o traje, dois padres, pertencendo ambos \u00e0 religi\u00e3o estabelecida.<\/p>\n<p>O que se notava desde logo no mancebo era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do esp\u00edrito, n\u00e3o nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admite a paix\u00e3o, exala-a, purificando- a, mas aquele mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre, devia ter ao menos 25 anos; parecia ter dezoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto \u00e9, tinha uma alma que parecia feita para a paix\u00e3o e um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flex\u00edvel, apesar do vestu\u00e1rio severo, com faces de donzela e m\u00e3os delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nele era encanto, eleg\u00e2ncia e quase vol\u00fapia. A beleza de seu olhar corrigia esse excesso de gra\u00e7a. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de crian\u00e7a, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pajem e a dignidade de um bispo.<\/p>\n<p>Debaixo dos espessos cabelos loiros, t\u00e3o dourados que pareciam garridos, tinha ele um cr\u00e2nio elevado, c\u00e2ndido e bem feito. Uma leve ruga de inflex\u00e3o dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a id\u00e9ia da ave do pensamento pairando, com as asas abertas, no meio daquela fronte.<\/p>\n<p>Sentia-se, ao v\u00ea-lo, uma dessas criaturas ben\u00e9volas, inocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a ilus\u00e3o torna s\u00e1bias e a experi\u00eancia entusiastas.<\/p>\n<p>A mocidade transparente deixava ver a maturidade interior. Comparado ao padre de cabelos grisalhos que o acompanhava, \u00e0 primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.<\/p>\n<p>Era este o Dr. Herodes. O Dr. Herodes pertencia \u00e0 alta Igreja, que \u00e9 pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa \u00e9poca era agitado pelas tend\u00eancias que depois se afirmaram e condensaram no puseismo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que \u00e9 quase uma varia\u00e7\u00e3o romana. Era alto, correto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fora. O seu esp\u00edrito era cingir-se \u00e0 letra. De mais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que ocupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada \u00e0 moda de sotaina. Em Roma \u00e9 que ele estaria bem. Nascera para ser prelado da C\u00e2mara. Parecia ter sido criado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atr\u00e1s da cadeira gestat\u00f3ria, com toda a corte pontif\u00edcia, in abito paonazzo. O acidente de ter nascido ingl\u00eas e uma educa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo fizeram com que lhe falhasse esse destino.<\/p>\n<p>Todos os seus esplendores resumiram-se nisto: ser cura de Saint-Pierre-Port, decano da ilha de Guernesey e sub-rogado do bispo de Winchester. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que era gl\u00f3ria tudo isso.<\/p>\n<p>Essa gl\u00f3ria n\u00e3o impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.<\/p>\n<p>Como te\u00f3logo, dispunha da estima dos conhecedores e fazia quase autoridade em Arches, que \u00e9 a Sorbonne da Inglaterra.<\/p>\n<p>Tinha um ar douto, um piscar de olhos apto e exagerado, narinas cabeludas, dentes vis\u00edveis, o l\u00e1bio inferior fino e o l\u00e1bio superior espesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos bar\u00f5es, a confian\u00e7a do bispo, e continuamente trazia uma B\u00edblia na algibeira.<\/p>\n<p>Mess Lethierry estava t\u00e3o completamente absorto, que tudo quanto pode produzir nele a entrada dos dois padres, foi um impercept\u00edvel enrugar de sobrancelhas.<\/p>\n<p>O Sr. Jaquemin Herodes aproximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras, sobriamente altivas, a sua recente promo\u00e7\u00e3o e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos not\u00e1veis, e a Mess Lethierry especialmente, o seu sucessor na par\u00f3quia, o novo cura de Saint-Sampson, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray que da\u00ed em diante seria o pastor de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette levantou-se.<\/p>\n<p>O padre mo\u00e7o, que era o Reverendo Ebenezer, inclinou-se.<\/p>\n<p>Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: Mau marinheiro.<\/p>\n<p>Gra\u00e7a apresentou cadeiras. Os dois reverendos assentaram-se perto da mesa.<\/p>\n<p>O Dr. Herodes come\u00e7ou um speech. Tinha sabido de um acontecimento.<\/p>\n<p>Naufragara a Durande. Vinha, como pastor, trazer consola- \u00e7\u00e3o e conselho. O naufr\u00e1gio era uma desgra\u00e7a, mas era tamb\u00e9m uma felicidade. Sondemo-nos; n\u00e3o nos inchava a prosperidade? As \u00e1guas da felicidade s\u00e3o perigosas. N\u00e3o se deve tomar as desgra\u00e7as \u00e0 m\u00e1 parte. Os caminhos do Senhor s\u00e3o desconhecidos.<\/p>\n<p>Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser opulento \u00e9 estar em perigo. Aparecem amigos falsos. A pobreza afasta-os. Fica-se isolado.<\/p>\n<p>Solus eris. A Durande dizem que dava 1000 libras esterlinas por ano. Era demais para um fil\u00f3sofo. Fujamos \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento a ru\u00edna e o abandono. O isolamento d\u00e1 frutos. Ganha-se nele as gra\u00e7as do Senhor. Foi na solid\u00e3o que Aia achou as \u00e1guas quentes conduzindo os asnos de Sebe\u00e3o, seu pai. N\u00e3o nos revoltemos contra os impenetr\u00e1veis decretos da Provid\u00eancia. O santo homem J\u00f3, depois da sua mis\u00e9ria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda da Durande n\u00e3o teria compensa\u00e7\u00f5es, mesmo temporais? Tamb\u00e9m ele, Herodes, empregara capitais em uma magn\u00edfica opera\u00e7\u00e3o que se realizava em Shefilield; se Mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quisesse entrar nesse neg\u00f3cio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ganharia 300 por cento.<\/p>\n<p>A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr.<\/p>\n<p>Herodes: &#8211; N\u00e3o quero nada com o czar.<\/p>\n<p>O Reverendo Herodes respondeu: &#8211; Mess Lethierry, os pr\u00edncipes s\u00e3o aceitos por Deus. Deus escreveu: Dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar. O czar \u00e9 C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Lethierry, meio absorto na cisma, murmurou: &#8211; Quem \u00e9 C\u00e9sar? N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>O Reverendo Herodes continuou a exorta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o insistiu por Shefilield. N\u00e3o aceitar C\u00e9sar era ser republicano. O reverendo compreendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, compreendia que Mess Lethierry se voltasse para uma rep\u00fablica. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados Unidos; melhor do que na Inglaterra. Se quisesse decuplicar o que lhe restava, bastava-lhe tomar a\u00e7\u00f5es na grande companhia de explora\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es do Texas, que empregava mais de 20 000 negros.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero nada com a escravid\u00e3o, disse Lethierry.<\/p>\n<p>&#8211; A escravid\u00e3o &#8211; replicou o Reverendo Herodes &#8211; \u00e9 de institui\u00e7\u00e3o sagrada. Est\u00e1 escrito: Se o senhor bater o escravo, nada lhe ser\u00e1 feito, porque bate o seu dinheiro.<\/p>\n<p>Gra\u00e7a e Doce, na soleira da porta, ouviam com uma esp\u00e9cie de \u00eaxtase as palavras do reverendo doutor.<\/p>\n<p>O reverendo continuou. Era, em suma, como dissemos, um bom homem; e quaisquer que pudessem ser os seus sentimentos de casta ou de pessoa com Mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o aux\u00edlio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.<\/p>\n<p>Se Mess Lethierry estava arruinado ao ponto de n\u00e3o poder cooperar, com fruto, numa especula\u00e7\u00e3o qualquer, russa ou americana, por que n\u00e3o entrava no governo e nas fun\u00e7\u00f5es assalariadas? S\u00e3o nobres empregos esses, e o reverendo estava pronto a introduzir Mess Lethierry. Vagara em Jersey o lugar de deputado-visconde.<\/p>\n<p>Mess Leth\u00ederry era amado e estimado, e o Reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para Mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado-visconde \u00e9 um funcion\u00e1rio consider\u00e1vel, assiste, corno representante de Sua Majestade, aos atos jur\u00eddicos, aos debates da plebe e \u00e0s execu\u00e7\u00f5es de senten\u00e7as.<\/p>\n<p>Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o gosto de enforcamentos &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>O Dr. Herodes, que at\u00e9 ent\u00e3o pronunciara todas as palavras com a mesma inflex\u00e3o, teve um acento de severidade e uma inflex\u00e3o nova: &#8211; Mess Lethierry, a pena de morte \u00e9 ordenada por Deus, Deus entregou a espada ao homem. Est\u00e1 escrito: olho por olho, dente por dente.<\/p>\n<p>O Reverendo Ebenezer aproximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do Reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que n\u00e3o fosse ouvido sen\u00e3o por ele: &#8211; O que este homem diz \u00e9-lhe ditado.<\/p>\n<p>&#8211; Por quem? &#8211; perguntou no mesmo tom o Reverendo Herodes.<\/p>\n<p>&#8211; Pela consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O Reverendo Herodes meteu a m\u00e3o no bolso, tirou um grosso volume em 18.<\/p>\n<p>11, encadernado com fechos, po-lo na mesa e disse em voz alta: &#8211; A consci\u00eancia \u00e9 isto.<\/p>\n<p>O livro era a B\u00edblia.<\/p>\n<p>Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser \u00fatil a Mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha ele direito e dever de aconselhar; todavia Mess Lethierry tinha a liberdade de aceitar ou recusar o conselho.<\/p>\n<p>Mess Lethierry, caindo outra vez na absor\u00e7\u00e3o e no abatimento, j\u00e1 n\u00e3o ouvia. D\u00e9ruchette, assentada ao p\u00e9 dele, e pensativa tamb\u00e9m, n\u00e3o levantava os olhos, e dava \u00e0quela pr\u00e1tica pouco animada a por\u00e7\u00e3o de acanhamento que resulta de uma presen\u00e7a silenciosa.<\/p>\n<p>Uma testemunha que n\u00e3o diz palavra \u00e9 uma esp\u00e9cie de peso indefin\u00edvel. Mas o Dr. Herodes n\u00e3o parecia senti-lo.<\/p>\n<p>Como Lethierry n\u00e3o respondia, o Dr. Herodes deu largas \u00e0 palavra.<\/p>\n<p>O conselho vem do homem, a inspira\u00e7\u00e3o vem de Deus. H\u00e1 inspira- \u00e7\u00e3o no conselho do padre. E bom aceitar os conselhos e perigoso rejeit\u00e1-los. Schoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exorta\u00e7\u00f5es de Nataniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fora de casa o ap\u00f3stolo Andr\u00e9. Barjesus, apesar de m\u00e1gico, ficou cego por ter zombado das palavras de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Elxai e suas irm\u00e3s Marta e Martena est\u00e3o no inferno a esta hora por terem desprezado as advert\u00eancias de Valencianus, que lhes provava, claro como o dia, que o Jesus Cristo deles, de 38 l\u00e9guas de comprimento, era um dem\u00f4nio. Oolibama, que tamb\u00e9m se chama Jud\u00edte, obedecia aos conselhos. Rubem e Feniel ouviam os conselhos do c\u00e9u; bastam os nomes deles para indic\u00e1-los; Rubem significa filho da vis\u00e3o, e Feniel significa face de Deus.<\/p>\n<p>Mess Lethierry deu um soco na mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a culpa \u00e9 minha! &#8211; Que que dizer? &#8211; perguntou Jaquemin Herodes.<\/p>\n<p>&#8211; Digo que a culpa \u00e9 minha.<\/p>\n<p>&#8211; Culpa de que? &#8211; Por ter mandado vir a Durande \u00e0 sexta-feira.<\/p>\n<p>O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray: &#8211; Este homem \u00e9 supersticioso.<\/p>\n<p>Continuou depois, e em tom de mestre: &#8211; Mess Lethierry, \u00e9 pueril acreditar na sexta-feira. N\u00e3o se deve acreditar em f\u00e1bula. A sexta-feira \u00e9 um dia como qualquer outro.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi numa sexta-feira que Henrique VII deu a sua comiss\u00e3o a John Cabot; os peregrinos do Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de fevereiro de 1732; Crist\u00f3v\u00e3o Colombo descobriu a Am\u00e9rica na sexta-feira, 12 de outubro de 1492.<\/p>\n<p>Dizendo isto levantou-se.<\/p>\n<p>Ebenezer, que tinha ido com ele, levantou-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Gra\u00e7a e Doce, adivinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.<\/p>\n<p>Mess Lethierry n\u00e3o via nem ouvia nada.<\/p>\n<p>O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenezer Caudray: &#8211; Nem nos cumprimenta. N\u00e3o \u00e9 tristeza, \u00e9 embrutecimento. Devemos crer que ele est\u00e1 doido.<\/p>\n<p>Entretanto, pegou na B\u00edblia e colocou-a entre as m\u00e3os abertas, como quem segura um p\u00e1ssaro com receio que fuja. Esta atitude criou entre os personagens presentes uma certa espera. Gra\u00e7a e Doce esticaram a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A voz de Herodes fez quanto pode para ser majestosa.<\/p>\n<p>&#8211; Mess Lethierry, n\u00e3o nos separemos sem ler uma p\u00e1gina do livro santo. As situa\u00e7\u00f5es da vida s\u00e3o esclarecidas pelos livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem as advert\u00eancias b\u00edblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, d\u00e1 um conselho; a B\u00edblia, aberta ao acaso, faz uma revela\u00e7\u00e3o. \u00c9 sobretudo boa para os aflitos. O que a Santa Escritura respira indubitavelmente \u00e9 um lenitivo \u00e0s dores. Diante dos aflitos deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem n\u00e3o escolhe, escolhe-o Deus.<\/p>\n<p>Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invis\u00edvel aponta o passo inesperado que n\u00f3s lemos. Qualquer que seja a p\u00e1gina, rebenta-lhe luz. N\u00e3o busquemos outro. \u00c9 a palavra do c\u00e9u. O nosso destino \u00e9 revelado misteriosamente no texto evocado com confian\u00e7a e respeito. Ou\u00e7amos e obede\u00e7amos. Mess Lethierry, o senhor tem uma afli\u00e7\u00e3o, este \u00e9 o livro da consola\u00e7\u00e3o; est\u00e1 enfermo. Este \u00e9 o livro da sa\u00fade.<\/p>\n<p>O Reverendo Jaquemin Herodes abriu a mola do fecho, meteu o dedo ao acaso entre duas p\u00e1ginas, p\u00f3s a m\u00e3o no livro aberto, e concentrou-se; depois, abaixando os olhos com autoridade, leu em alta voz.<\/p>\n<p>Eis o que leu : Isaac passeava no caminho que vai ter ao po\u00e7o chamado Po\u00e7o daquele que vive e v\u00ea.<\/p>\n<p>Rebeca, vendo Isaac, disse: Quem \u00e9 este homem que vem andando para mim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Isaac fe-la entrar na sua tenda, e tornou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette olharam um para o outro.<\/p>\n<h2>Segunda Parte: O Engenheiro Gilliat<\/h2>\n<p><b>Livro Primeiro:O Escolho<\/b><\/p>\n<h2>A INC\u00d4MODA CHEGADA, DIF\u00cdCIL SA\u00cdDA<\/h2>\n<p>J\u00e1 os leitores ter\u00e3o adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pan\u00e7a. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho direto. Tomar o mais curto foi o cuidado dele. Os n\u00e1ufragos n\u00e3o esperam. O mar \u00e9 coisa urgente, uma hora de demora podia ser irrepar\u00e1vel. Queria chegar depressa para socorrer a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Saindo de Guernesey, uma das preocupa\u00e7\u00f5es de Gilliatt era n\u00e3o despertar a aten\u00e7\u00e3o. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa de leste como se achasse in\u00fatil passar \u00e0 vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre-Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa oposta, que \u00e9 relativamente inabitada. Nos bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hidr\u00e1ulica: tomar a \u00e1gua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pode nadar na obscuridade com a maior for\u00e7a e o menor rumor poss\u00edveis. Parecia que ia cometer uma a\u00e7\u00e3o feia.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, atirando-se de olhos fechados a um Cometimento que parecia imposs\u00edvel, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra ele, receava a concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Como o dia come\u00e7ava a despontar, os olhos ignotos que est\u00e3o talvez abertos no espa\u00e7o puderam ver no meio do mar, num ponto em que h\u00e1 mais solid\u00e3o e amea\u00e7a, duas coisas entre as quais ia diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra.<\/p>\n<p>Uma, quase impercept\u00edvel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pan\u00e7a levando Gilliatt, A outra, im\u00f3vel, colossal, negra, tinha, sobranceira \u00e0s vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares amparavam acima da \u00e1gua, no v\u00e1cuo, uma esp\u00e9cie de travess\u00e3o horizontal, que era como que uma ponte entre as duas cumeadas. O travess\u00e3o, t\u00e3o informe de longe que seria imposs\u00edvel adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um d\u00f3lmen tit\u00e2nico plantado ali, em pleno oceano, por uma fantasia magistral, e constru\u00eddo por m\u00e3os que tem o h\u00e1bito de apropriar ao abismo as suas constru\u00e7\u00f5es. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do c\u00e9u.<\/p>\n<p>A luz da manh\u00e3 ia crescendo a leste; a alvura do horizonte aumentava a negrid\u00e3o do mar. Do lado oposto, declinava a lua.<\/p>\n<p>Os dois pilares eram as Douvres. A esp\u00e9cie de massa apertada entre eles como uma arquitrave era a Durande.<\/p>\n<p>Apertando assim a sua v\u00edtima, e deixando-a ver, o escolho era horr\u00edvel. A atitude daqueles rochedos era uma esp\u00e9cie de repto.<\/p>\n<p>Parecia esperar.<\/p>\n<p>Nada mais altivo e arrogante como tudo aquilo; o navio vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda gotejantes da tempestade da v\u00e9spera, pareciam dois combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; adivinhava-se que havia \u00e0 flor da \u00e1gua alguns bancos onde os penachos de escuma ca\u00edam com gra\u00e7a; de longe vinha um murm\u00fario semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um n\u00edvel, menos as duas Douvres, levantadas e tesas como duas colunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquilo uma esp\u00e9cie de onipot\u00eancia tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>De ordin\u00e1rio, o mar oculta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensur\u00e1vel sombra guarde tudo para ele.<\/p>\n<p>\u00c9 raro que o mist\u00e9rio renuncie ao segredo. H\u00e1 um que de monstro na cat\u00e1strofe, mas em quantidade ignota. O mar \u00e9 patente e secreto; esconde-se, n\u00e3o quer divulgar as suas a\u00e7\u00f5es. Produz um naufr\u00e1gio e abafa-o; engolir \u00e9 o seu pudor. A vaga \u00e9 hip\u00f3crita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.<\/p>\n<p>Nada semelhante nas Douvres. Os dois rochedos, levantando acima das ondas o cad\u00e1ver da Durande, tinham um ar de triunfo.<\/p>\n<p>Dissera-se dois bra\u00e7os saindo do golf\u00e3o, e mostrando \u00e0s tempestades o cad\u00e1ver daquele navio. Era uma coisa igual ao assassino que se vangloria do crime.<\/p>\n<p>A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza misteriosa que se comp\u00f5e de um resto de sonho e de um come\u00e7o de pensamento. Nesse momento turvado, como que flutua ainda um pouco de espectro. A esp\u00e9cie de imenso H mai\u00fasculo formado pelas duas Douvres com a Durande no centro aparecia no horizonte no meio de uma certa majestade crepuscular.<\/p>\n<p>Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de l\u00e3, meias de l\u00e3, sapatos tacheados, japona de l\u00e3, cal\u00e7a de pano grosso mal tecido, com bolsos, e na cabe\u00e7a um daqueles barretes de l\u00e3 vermelha usados ent\u00e3o na marinha, e que se chamavam, no s\u00e9culo passado, gal\u00e9riennes.<\/p>\n<p>Reconheceu o escolho e avan\u00e7ou.<\/p>\n<p>A Durande estava ao contr\u00e1rio de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais estranho cometimento que o de salvar a m\u00e1quina daquele navio.<\/p>\n<p>Era dia claro quando Gilliatt chegou \u00e0s \u00e1guas do escolho.<\/p>\n<p>Como dissemos, havia pouco mar. A \u00e1gua tinha apenas a quantidade de agita\u00e7\u00e3o que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. H\u00e1 sempre marulho nos espa\u00e7os de \u00e1gua como aquele, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o abordou ao Douvres sem precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deitou a sonda muitas vezes.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de Matalotagem.<\/p>\n<p>Afeito \u00e0s aus\u00eancias, tinha sempre pronta em casa a matolotagem.<\/p>\n<p>Era um saco de biscoito, um saco de farinha de centeio, uma cesta de stocigr\u00edsh e de carne fumada, um grande pichel de \u00e1gua doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de l\u00e3, grevas alcatroadas e uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, \u00e0s carreiras, na pan\u00e7a e mais um bocado de p\u00e3o fresco. Com a pressa n\u00e3o levou outra ferramenta mais que o martelo da forja, o machado e a picareta, uma serra e uma corda de n\u00f3s armada de fateixa. Com uma escada desta ordem e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se pratic\u00e1veis nos mais rudes declives.<\/p>\n<p>Pode-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.<\/p>\n<p>As redes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Po-los dentro por costume, e maquinalmente, porquanto, tendo de tentar at\u00e9 o \u00faltimo esfor\u00e7o, talvez se demorasse algum tempo no arquip\u00e9lago de cachopos, e o aparelho da pescaria \u00e9 in\u00fatil em tais s\u00edtios.<\/p>\n<p>No momento em que Gilliatt abordou o escolho o mar baixava, circunst\u00e2ncia favor\u00e1vel. As vagas decrescentes descobriram, ao p\u00e9 da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, \u00e0 semelhan\u00e7a de chap\u00e9us carregando um pavimento. Essas superf\u00edcies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando- se, com espa\u00e7os desiguais, ao longo do mon\u00f3lito vertical, prolongava- se at\u00e9 debaixo da Durande, que abarcava o espa\u00e7o entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um tomilho.<\/p>\n<p>Eram c\u00f4modas aquelas plataformas para desembarcar e observar.<\/p>\n<p>Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da pan\u00e7a. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora da \u00e1gua pouco tempo. Quando a mar\u00e9 enchesse, ficariam outra vez cobertas.<\/p>\n<p>Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impeliu e fez parar a pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma espessura de sarga\u00e7o, \u00famida e escorregadia, cobria essas rochas, e a obliq\u00fcidade de algumas. delas mais escorregadias as tornava.<\/p>\n<p>Gilliatt descal\u00e7ou-se, saltou sobre o limo e amarrou a pan\u00e7a em uma ponta do rochedo.<\/p>\n<p>Depois aproximou-se o mais devagar que pode sobre a estreita pedra de granito, chegou debaixo da Durande, levantou os olhos e contemplou-a.<\/p>\n<p>A Durande estava presa, suspensa, e como que ajustada entre os dois penedos, 20 p\u00e9s acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa viol\u00eancia do mar.<\/p>\n<p>T\u00e3o impetuoso empurr\u00e3o n\u00e3o faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no golfo de Stora, uma tempestade, j\u00e1 expirante, fez saltar um brigue, de um s\u00f3 pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Mame e incrustou-o, com o gurup\u00e9s \u00e0 frente, entre dois penedos.<\/p>\n<p>Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.<\/p>\n<p>O navio arrancado \u00e0s vagas foi de algum modo desenraizado da \u00e1gua pelo furac\u00e3o. O turbilh\u00e3o do vento tinha-o torcido, o turbilh\u00e3o do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas m\u00e3os da tempestade, quebrou-se como se fora uma ripa. O peda\u00e7o da popa, com a m\u00e1quina e as rodas, arrebatado das \u00e1guas e impelido por toda a f\u00faria do Ciclone para a garganta das Douvres, l\u00e1 ficou. O vento foi acertado; para meter aquele casco entre os dois rochedos, o furac\u00e3o transformou-se em ma\u00e7a. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.<\/p>\n<p>O por\u00e3o, que estava arrombado, esvaziara no mar os bois, mortos.<\/p>\n<p>Um grande peda\u00e7o da amurada da proa ainda estava preso ao casco, mas pendurado nas caixas das rodas por algumas lascas, f\u00e1ceis de quebrar com um machado.<\/p>\n<p>Viam-se aqui e ali nas long\u00ednquas do escolho, barrotes, t\u00e1buas, peda\u00e7os de vela, peda\u00e7os de correntes, todos os destro\u00e7os, tranq\u00fcilos nos rochedos.<\/p>\n<p>Gilliatt contemplava com aten\u00e7\u00e3o a Durande. A quilha era o teto que lhe ficava sobre a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O horizonte, onde a \u00e1gua iluminada apenas se mexia, estava sereno.<\/p>\n<p>O sol sa\u00eda esplendidamente daquela vasta massa azul.<\/p>\n<p>De tempos a tempos uma gota de \u00e1gua destacava-se do navio e caia no mar<\/p>\n<h2>AS PERFEI\u00c7OES DO DESASTRE<\/h2>\n<p>As Douvres eram diferentes de forma como de altura.<\/p>\n<p>Na pequena Douvre, recurvada e aguda, viam-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha cor de tijolo relativamente tenra, que fechava com as suas l\u00e2minas o interior do granito.<\/p>\n<p>Nessas l\u00e2minas avermelhadas havia, de espa\u00e7o a espa\u00e7o, fendas pr\u00f3prias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi t\u00e3o bem trabalhada pelos arremessos do mar, que tornou-se uma esp\u00e9cie de nicho, onde podia guardar-se uma est\u00e1tua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superf\u00edcie e macio como pedra de toque, o que n\u00e3o lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um s\u00f3 jato e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ela era imposs\u00edvel; n\u00e3o podia servir nem \u00e0 fuga de um criminoso, nem ao ninho de um p\u00e1ssaro. No cume havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, por\u00e9m, inacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas n\u00e3o ficar l\u00e1, podia-se ficar na grande Douvre, mas n\u00e3o se podia subir.<\/p>\n<p>Gilliatt, depois de lan\u00e7ar os olhos por tudo aquilo, voltou \u00e0 pan\u00e7a, descarregou-a \u00e0 flor da \u00e1gua, fez de todo o carregamento, ali\u00e1s pequeno, uma esp\u00e9cie de pacote, atou-o num pano alcatroado, depois i\u00e7ou-o por meio de um cabo at\u00e9 um ponto da rocha onde o mar n\u00e3o podia chegar; feito isto, abra\u00e7ou-se \u00e0 pequena Douvre e, com p\u00e9s e m\u00e3os, de fenda em fenda, trepou por ela at\u00e9 a Durande, que estava no ar.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 altura das caixas das rodas, saltou dentro.<\/p>\n<p>Durande apresentava todos os vest\u00edgios de um arrombamento medonho.<\/p>\n<p>, Era a viola\u00e7\u00e3o tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um atentado que um naufr\u00e1gio. Nuvens, trov\u00e3o, chuva, vagas, tuf\u00f5es, rochedos, horr\u00edvel multid\u00e3o de c\u00famplices \u00e9 esta.<\/p>\n<p>No meio daqueles destro\u00e7os, pensava-se em alguma coisa semelhante ao trip\u00fadio furioso dos esp\u00edritos do mar. Tudo eram vest\u00edgios de raiva. As tor\u00e7\u00f5es estranhas de certos ferros indicavam a a\u00e7\u00e3o impetuosa dos ventos. O conv\u00e9s assemelhava-se \u00e0 c\u00e9lula de um louco; tudo estava despeda\u00e7ado.<\/p>\n<p>Nenhum animal estrangula uma pedra como o ar. A \u00e1gua regurgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga \u00e9 um queixo. \u00c9 um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual \u00e0 pata do le\u00e3o.<\/p>\n<p>O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma esp\u00e9cie de terr\u00edvel descascamento. Muitas coisas pareciam feitas de prop\u00f3sito. Que maldade!, podia dizer-se.<\/p>\n<p>As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este g\u00eanero de destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio do ciclone. Retalhar e adelga\u00e7ar tal \u00e9 o capricho desse devastador enorme. O ciclone usa das averigua\u00e7\u00f5es do carrasco. Os seus desastres parecem supl\u00edcios. Dissera-se que algum rancor o anima; \u00e9 requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufr\u00e1gio, vinga-se, diverte-se; \u00e9 mesquinhamente cruel.<\/p>\n<p>Raros s\u00e3o os ciclones em nossos climas, e tanto mais terr\u00edveis quanto que s\u00e3o inesperados. Um rochedo encontrado pode fazer andar \u00e0 roda a tempestade. \u00c9 prov\u00e1vel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que explicava o salto do navio a tamanha altura naquelas rochas. Quando o ciclone sopra, um navio pesa tanto como a pedra de uma funda.<\/p>\n<p>A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destro\u00e7os semelhante a entranhas. O cordame flutuava e estremecia; as correntes balan\u00e7avam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nus e pendiam no ar. O que n\u00e3o estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eri\u00e7ada de pregos; em tudo havia a forma de ru\u00edna; uma barra de p\u00e9-de-cabra n\u00e3o era menos que um simples peda\u00e7o de ferro; uma sonda era apenas um peda\u00e7o de chumbo; uma dri\u00e7a era apenas uma ponta de c\u00e2nhamo; uma talha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lament\u00e1vel da destrui- \u00e7\u00e3o; havia que n\u00e3o estivesse despregado, desenganchado, rachado, ro\u00eddo, recurvado, aniquilado; nenhuma ades\u00e3o naquele feio mont\u00e3o de destro\u00e7os; em tudo o deslocamento e a futura, esse aspecto de inconsistente e l\u00edquido que caracteriza todas as confus \u00f5es, desde as refregas dos homens, que se chamam batalhas, at\u00e9 as refregas dos elementos, que se chamam caos.<\/p>\n<p>Tudo ca\u00eda, e uma torrente de t\u00e1buas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquela poderosa carena t\u00e3o triunfante outrora, toda aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cair, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.<\/p>\n<p>Debaixo cuspia a espuma sobre: aquela coisa miser\u00e1vel<\/p>\n<h2>S\u00c3, MAS N\u00c3O SALVA<\/h2>\n<p>Gilliatt n\u00e3o esperava achar somente metade do navio. Nas indica\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s t\u00e3o precisas, do capit\u00e3o do Shealtiel, nada fazia pressentir aquela divis\u00e3o pelo meio. Foi talvez na ocasi\u00e3o em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura da espuma, que houve aquele estalo diab\u00f3lico ouvido pelo capit\u00e3o do Shealtiel. O capit\u00e3o afastava-se sem d\u00favida no momento do \u00faltimo sopro do vento, e n\u00e3o viu que era uma tromba que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fraturado donde se rompera metade do navio.<\/p>\n<p>Exceto isto, o capit\u00e3o do Shealtiel disse tudo exato. O casco estava perdido, a m\u00e1quina estava intata.<\/p>\n<p>S\u00e3o freq\u00fcentes estes acasos nos naufr\u00e1gios como nos inc\u00eandios.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode compreender a l\u00f3gica do desastre.<\/p>\n<p>Os mastros quebrados tinham ca\u00eddo; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intato e completo. O revestimento de t\u00e1buas das rodas estava destru\u00eddo como as l\u00e2minas de uma persiana; mas atrav\u00e9s das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da m\u00e1quina, tinha resistido o grande cabrestante da popa.<\/p>\n<p>Tinha ainda a corrente, e gra\u00e7as ao seu robusto encaixe em um quadro de tabules, ainda podia prestar servi\u00e7os, uma vez que se n\u00e3o rompesse a prancha. O peda\u00e7o do casco metido entre as Douvres estava firme, j\u00e1 o dissemos, e parecia s\u00f3lido.<\/p>\n<p>A conserva\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina tinha um que de irris\u00f3rio e acrescentava a ironia \u00e0 cat\u00e1strofe. A sombria mal\u00edcia do desconhecido mostra- se, \u00e0s vezes, nessas esp\u00e9cies de zombarias amargas. A. m\u00e1- quina estava salva, o que n\u00e3o impedia que estivesse perdida. O oceano guardava-a para demoli-la aos poucos. Divertimento de gato.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina ia agonizar e desfazer-se pe\u00e7a por pe\u00e7a. Ia diminuir dia a dia e, por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco \u00e0s selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele pesado mont\u00e3o de mecanismos e encaixes, maci\u00e7o e delicado a um tempo, condenado \u00e0 imobilidade por seu peso, entregue na solid\u00e3o \u00e0s for\u00e7as demolidoras, posto pelo cachopo \u00e0 discri\u00e7\u00e3o do vento e do mar, pudesse, sob a press\u00e3o daquele lugar implac\u00e1vel, escapar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o lenta era at\u00e9 loucura imagin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A Durande estava prisioneira das Douvres.<\/p>\n<p>Como tir\u00e1-la dali? Como libert\u00e1-la? A evas\u00e3o de um homem \u00e9 dif\u00edcil; mas que problema n\u00e3o \u00e9 este: a evas\u00e3o de uma m\u00e1quina!<\/p>\n<h2>PR\u00c9VIO EXAME LOCAL<\/h2>\n<p>Gilliatt estava cercado de urg\u00eancias. O mais urgente era achar ancoradouro para a pan\u00e7a, e depois abrigo para si.<\/p>\n<p>A Durande estava mais carregada a bombordo, que a estibordo, e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a da esquerda.<\/p>\n<p>Gilliatt subiu \u00e0 caixa das rodas da direita. Da\u00ed dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em \u00e2ngulos por tr\u00e1s das Douvres fizesse muitos cotovelos, Gilliatt pode estudar o plano geom\u00e9trico do escolho.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou por a\u00ed.<\/p>\n<p>As Douvres, como indicamos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. N\u00e3o \u00e9 raro achar nas forma\u00e7\u00f5es submarinas primitivas esses corredores singulares feitos como que a machado.<\/p>\n<p>Aquele, que era tortuoso, nunca estava a seco, mesmo nas mar\u00e9s baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do redemoinho era boa ou m\u00e1, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora exasperava-a.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo caso era o mais freq\u00fcente; o obst\u00e1culo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos; a espuma \u00e9 a exagera\u00e7\u00e3o da vaga.<\/p>\n<p>O vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compress\u00e3o e adquire a mesma malignidade.<\/p>\n<p>O sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. \u00c9 ao mesmo tempo ma\u00e7a e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furac\u00e3o fazendose vento coado.<\/p>\n<p>As duas cadeias de rochedos, deixando entre si essa esp\u00e9cie de rua do mar, terminavam em degraus mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa dist\u00e2ncia. Havia a\u00ed outra foz menos elevada que as das Douvres, por\u00e9m mais estreita ainda e que era a entrada, a leste, daquela garganta. Adivinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da \u00e1gua at\u00e9 o rochedo Homem, colocado como uma cidadela quadrada na outra extremidade do escolho.<\/p>\n<p>Nas mar\u00e9s baixas, e era nessa ocasi\u00e3o que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a seco, todos vis\u00edveis, e coordenando-se sem interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.<\/p>\n<p>Todo o escolho, visto a v\u00f4o de p\u00e1ssaro, apresentava um ros\u00e1rio recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.<\/p>\n<p>O escolho Douvres, visto em seu conjunto, era apenas a imers\u00e3o de duas gigantescas l\u00e2minas de granito tocando-se quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que est\u00e3o no fundo do oceano. H\u00e1, fora do abismo, essas esfolia\u00e7\u00f5es imensas. A lufada e a onda tinham recortado essa crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande era o centro dessas duas l\u00e2minas colossais.<\/p>\n<p>Essa viela, em ziguezague como o rel\u00e2mpago, tinha quase em todos os pontos a mesma largura. O oceano fe-la assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da \u00e1gua uma geometria.<\/p>\n<p>De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralelamente a urna dist\u00e2ncia que a Durande media quase com exatid\u00e3o entre as duas Douvres; o esvazamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar \u00e0s caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.<\/p>\n<p>A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na explora \u00e7\u00e3o do deserto de \u00e1gua chamado Oceano chega-se \u00e0s coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme. Aquilo que Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta fazia horror.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas vezes nas gargantas gran\u00edticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufr\u00e1gio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os \u00f3xidos da rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhid\u00f5es imitando placas de sangue coalhado. Era uma esp\u00e9cie de transuda\u00e7\u00e3o sangrenta de um matadouro.<\/p>\n<p>Havia um ar de a\u00e7ougue naqueles parc\u00e9is. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposi\u00e7\u00e3o dos am\u00e1lgamas met\u00e1licos misturados \u00e0 rocha, ali pelo bolor, ostentava vermelhid\u00f5es hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma id\u00e9ia de morte e de exterm\u00ednio. Acreditava-se ver uma parede ainda n\u00e3o enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os vest\u00edgios de um despedento de homens; a rocha \u00edngreme tinha um cunho de agonias acumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia imposs\u00edvel apoiar o dedo sem tir\u00e1-lo sangrento. Por toda a parte aparecia uma ferrugem de mortic\u00ednio. Ao p\u00e9 do duplo declive paralelo, esparso \u00e0 flor da \u00e1gua ou debaixo da vaga, ou a seco nas escava\u00e7\u00f5es, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhan\u00e7as de v\u00edsceras; acreditava- se ver pulm\u00f5es frescos ou f\u00edgados p\u00fatridos. Dissera-se que ali se tinham esvaziado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por destilaves f\u00fanebres, riscavam o granito de alto a baixo.<\/p>\n<p>Esses aspectos s\u00e3o freq\u00fcentes nas cavernas do mar<\/p>\n<h2>UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLABORA\u00c7\u00d5ES SECRETAS DOS ELEMENTOS<\/h2>\n<p>A forma de um escolho n\u00e3o \u00e9 coisa indiferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condenados \u00e0 habita\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de um escolho no oceano.<\/p>\n<p>H\u00e1 o escolho pir\u00e2mide, um cimo fora da \u00e1gua; h\u00e1 o escolho c\u00edrculo, coisa semelhante a uma roda de pedras grandes; h\u00e1 o escolho corredor. O escolho corredor \u00e9 o pior de todos. N\u00e3o somente por causa da ang\u00fastia das ondas entre as rochas e do tumulto das \u00e1guas apertadas, mas tamb\u00e9m por causa das propriedades meteorol\u00f3gicas que parecem desprender-se do paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes retas s\u00e3o um verdadeiro aparelho de Volta.<\/p>\n<p>Orienta-se o escolho corredor, e isso \u00e9 importante. Resulta da\u00ed uma primeira a\u00e7\u00e3o sobre o ar e a \u00e1gua. O escolho corredor atua na \u00e1gua e no vento mec\u00e2nicamente, pela forma, galv\u00e2nicamente, pela atra\u00e7\u00e3o diversa dos seus planos verticais, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.<\/p>\n<p>Esta esp\u00e9cie de escolhos atrai todas as for\u00e7as furiosas esparsas no furac\u00e3o, e tem sobre a borrasca uma singular for\u00e7a de concentra \u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Donde resulta que nas paragens desses cachopos h\u00e1 uma certa acentua\u00e7\u00e3o da tempestade.<\/p>\n<p>Cumpre saber que o vento \u00e9 comp\u00f3sito. Acredita-se que o vento \u00e9 simples; engano. Essa for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 somente din\u00e2mica, \u00e9 qu\u00edmica; n\u00e3o \u00e9 somente qu\u00edmica, \u00e9 magn\u00e9tica. Tem alguma coisa que \u00e9 inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>O vento \u00e9 t\u00e3o el\u00e9trico como a\u00e9reo. Certos ventos coincidem com auroras boreais. O vento do banco das Arguilles rola vagas de 100 p\u00e9s de altura, espanto de Dumont dUrville. A corveta, disse ele, n\u00e3o sabia a quem havia de atender.<\/p>\n<p>Debaixo das lufadas austrais, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se t\u00e3o horr\u00edvel que os selvagens fogem para n\u00e3o v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>As lufadas boreais s\u00e3o outras; misturam-se de pontas de gelo e esses furac\u00f5es irrespir\u00e1veis impelem para a neve os tren\u00f3s dos esquim\u00f3s. Outros ventos queimam. \u00c9 o simuni da \u00c1frica, \u00e9 o tur\u00e3o da China e o samiel da \u00edndia. Simuni, Tuf\u00e3o, Samiel; parece que s\u00e3o dem\u00f4nios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulc\u00e3o de Toluca. Este vento quente, turbilh\u00e3o cor de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas, fez dizer aos vedas: Eis a\u00ed o Deus negro que vem roubar as vacas encarnadas. Sente-se em tudo isto a press\u00e3o do mist\u00e9rio el\u00e9trico.<\/p>\n<p>O vento \u00e9 cheio desse mist\u00e9rio. Do mesmo modo o mar. Tamb\u00e9m ele \u00e9 complicado; debaixo das suas vagas de \u00e1guas, que se v\u00eaem, h\u00e1 outras vagas de for\u00e7as, que se n\u00e3o v\u00eaem. Comp\u00f5em-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano \u00e9 a mais invis\u00edvel e a mais profunda.<\/p>\n<p>Tentai conhecer esse caos, t\u00e3o enorme que vai ter ao nada. \u00c9 o recipiente universal, reservat\u00f3rio para as fecunda\u00e7\u00f5es, cadinho para as transforma\u00e7\u00f5es. Amassa, depois dispersa; acumula, depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. E s\u00f3lido no banco, l\u00edquido na \u00e1gua, fluido no efl\u00favio. Como mat\u00e9ria \u00e9 massa, e como for\u00e7a \u00e9 abstra\u00e7\u00e3o. Iguala e consorcia os fen\u00f4menos. Simplifica-se no infinito pela combina- \u00e7\u00e3o. \u00c9 a for\u00e7a da mescla e da turva\u00e7\u00e3o que chega \u00e0 transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>A diversidade sol\u00favel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que \u00e9 id\u00eantico. Uma das suas gatas \u00e9 todo ele.<\/p>\n<p>Como \u00e9 cheio de tempestades, torna-se equil\u00edbrio. Plat\u00e3o via dan\u00e7ar esferas; coisa estranha, mas real na colossal evolu\u00e7\u00e3o terrestre \u00e0 roda do Sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, \u00e9 o p\u00eandulo do globo.<\/p>\n<p>No fen\u00f4meno do mar, todos os fen\u00f4menos est\u00e3o presentes. O mar \u00e9 aspirado pelo turbilh\u00e3o como um sif\u00e3o; uma tempestade \u00e9 um corpo de bomba; o raio vem da \u00e1gua como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do po\u00e7o das correntes. O oceano ferve. O diaba p\u00f3s o mar na sua caldeira dizia Ruyter.<\/p>\n<p>Em certas tempestades que caracterizam os movimentos das esta \u00e7\u00f5es e as \/entradas em equil\u00edbrio das for\u00e7as genes\u00edacas, os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas de f\u00f3sforo correm pelo cordoame, t\u00e3o misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a m\u00e3o e procuram apanhar esses p\u00e1ssaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um h\u00e1lito de fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 p\u00e9s de altura. A oscila\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica liga-se ao estremecimento terrestre.<\/p>\n<p>Essas energias incomensur\u00e1veis tornam poss\u00edveis todos os cataclismos.<\/p>\n<p>No fim de 1864, a 100 l\u00e9guas das costas de Malabar, so\u00e7obrou uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que tinham sa\u00eddo de manh\u00e3 voltaram \u00e0 noite e n\u00e3o acharam nada; apenas puderam ver as suas aldeias debaixo da \u00e1gua; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufr\u00e1gio das casas.<\/p>\n<p>Na Europa, onde parece que natureza sente-se constrangida em respeito \u00e0 civili2:a\u00e7\u00e3o, tais acontecimentos s\u00e3o raros at\u00e9 \u00e0 impossibilidade presum\u00edvel.<\/p>\n<p>Todavia Jersey e Guernesey fizeram parte da G\u00e1lia; e, no momento em que escrevemos, um vento equin\u00f3cio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e da Esc\u00f3cia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.<\/p>\n<p>Em parte alguma essas for\u00e7as p\u00e2nicas aparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no surpreendente estreito boreal. chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord \u00e9 o mais tem\u00edvel dos escolhosbocais do oceano. A\u00ed a demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 completa. \u00c9 o mar da Noruega, a vizinhan\u00e7a do tremendo golfo Stavanger, o 59.<\/p>\n<p>O grau de latitude. A \u00e1gua \u00e9 pesada e negra com uma febre de tempestade intermitente.<\/p>\n<p>Nessa \u00e1gua, no meio da solid\u00e3o, h\u00e1 uma grande rua sombria. N\u00e3o \u00e9 rua para pessoa alguma. Ningu\u00e9m passa ali; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 l\u00e9guas de comprido, entre duas muralhas de 3 000 p\u00e9s de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovelos e \u00e2ngulos como todas as ruas do mar, que nunca s\u00e3o retas, pois que s\u00e3o feitas pela tor\u00e7\u00e3o da vaga.<\/p>\n<p>No Lyse-Fiord, a vaga \u00e9 quase sempre tranq\u00fcila; o c\u00e9u \u00e9 sereno; lugar terr\u00edvel. Onde est\u00e1 o vento? N\u00e3o est\u00e1 em cima. Onde est\u00e1 o trov\u00e3o? N\u00e3o est\u00e1 no c\u00e9u. O vento est\u00e1 debaixo do mar; o trov\u00e3o est\u00e1 debaixo da rocha.<\/p>\n<p>De tempos a tempos h\u00e1 um estremecimento debaixo da \u00e1gua. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a 1000 ou 1500 p\u00e9s acima das vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa subitamente, rompe da\u00ed um rel\u00e2mpago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e contraem nas m\u00e3os das crian\u00e7as; tem contra\u00e7\u00f5es e amplia\u00e7\u00f5es esse rel\u00e2mpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a aparecer, recome\u00e7a, multiplica as suas cabe\u00e7as e as suas l\u00ednguas, eri\u00e7a-se, fere onde pode, recome\u00e7a ainda, at\u00e9 que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de p\u00e1ssaros. Nada \u00e9 t\u00e3o misterioso como essa artilharia saindo do invis\u00edvel. Um rochedo ataca outro. Fulminain entre si os cachopos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma guerra que nada tem com os homens. \u00f3dio de dois penedos no golf\u00e3o.<\/p>\n<p>No Lyse-Fiord o vento torna-se efl\u00favio, a rocha desempenha as fun\u00e7\u00f5es de nuvem, e o trov\u00e3o tem arrojos de vulc\u00e3o. \u00c9 uma pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas filas de rochas<\/p>\n<h2>CAVALARI\u00c7A PARA O CAVALO<\/h2>\n<p>Gilliatt era sabedor de cachopos e n\u00e3o tomava as Douvres ao s\u00e9rio. Antes de tudo, j\u00e1 o dissemos, tratou ele de por a pan\u00e7a em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por tr\u00e1s das Douvres fazia grupo com os outros rochedos, e adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se \u00e0 garganta principal como ramos a um tronco.<\/p>\n<p>A parte inferior dos escolhos estava tapetada de sarga\u00e7o e a parte superior de l\u00edquen. O n\u00edvel uniforme do sarga\u00e7o em todas as rochas marcava a linha da flutua\u00e7\u00e3o da mar\u00e9 cheia.<\/p>\n<p>As pontas que a \u00e1gua n\u00e3o atingia tinham o prateado e o dourado que d\u00e1 aos granitos marinhos o l\u00edquen branco e o l\u00edquen amarelo.<\/p>\n<p>Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corro\u00eddas.<\/p>\n<p>Em outros pontos, nos \u00e2ngulos reentrantes, onde se acumulara uma areia fina, ondeada na superf\u00edcie antes pelo vento que pela vaga, havia tufas de cardo azul.<\/p>\n<p>Nos rebentes pouco batidos pela espuma, reconheciam-se as pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja coura\u00e7a comp\u00f5ese de mais de 10 000 pe\u00e7as artisticamente ajustadas e soldadas, o urso-marinho, cuja boca se chama, ningu\u00e9m sabe por que, lanterna de Arist\u00f3teles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alv\u00e9olas \u00e9 que os pescadores de frutos do mar d\u00e3o com ele. Cortam-no em quatro partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o p\u00e3o naquela carne mole. Da\u00ed o nome de ovo do mar.<\/p>\n<p>As cumeadas dos bancos descobertas pela mar\u00e9 que vazava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma esp\u00e9cie de angra murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um ancoradouro poss\u00edvel. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma de uma ferradura e abria-se de um s\u00f3 lado, ao vento leste, que \u00e9 o menos mau daquelas paragens. O vento ali estava preso e quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.<\/p>\n<p>Se Gilliatt quisesse aproveitar a mar\u00e9 vazante, devia apressar-se.<\/p>\n<p>O tempo continuava a ser magn\u00edfico. Estava de bom humor aquele insolente mar.<\/p>\n<p>Gilliatt tomou a descer, cal\u00e7ou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barca e navegou para fora. Costeava com o remo e parte externa do cachopo.<\/p>\n<p>Chegando perto do Homem, examinou a entrada da angra.<\/p>\n<p>Um certo ondeado na mobilidade da \u00e1gua, ruga impercept\u00edvel a qualquer que n\u00e3o fosse marinheiro, desenhava aquele passo.<\/p>\n<p>Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quase indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um s\u00f3 movimento de remo, entrou na angra.<\/p>\n<p>Sondou.<\/p>\n<p>Era excelente o ancoradouro.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a estaria protegida ali quase contra todas as eventualidades da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mais tem\u00edveis arrecifes tem desses recantos tranq\u00fcilos. Os portos que se acham nos escolhos assemelham-se \u00e0 hospitalidade do bedu\u00edrio; s\u00e3o honestos e seguros.<\/p>\n<p>Gilliatt arranjou a pan\u00e7a o mais perto do Homem que lhe foi poss\u00edvel, em ponto que n\u00e3o pudesse perder-se, e p\u00f3s ao mar as duas \u00e2ncoras.<\/p>\n<p>Feito isto, cruzou os bra\u00e7os e refletiu.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a estava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava- se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt? Ofereciam-se dois pontos; o primeiro era a pr\u00f3pria pan\u00e7a, com o seu camarote mais ou menos habit\u00e1vel; o segundo era o cimo do rochedo Homem, f\u00e1cil de escalar.<\/p>\n<p>De qualquer dos dois \u00e2ngulos podia-se ir a p\u00e9 nas vazantes, saltando-se de rocha em rocha, at\u00e9 Douvres, onde estava a Durande.<\/p>\n<p>Mas a vazante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por umas 200 bra\u00e7as. Nadar no mar de um escolho a outro \u00e9 dif\u00edcil; com qualquer &#8211; agita\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Era preciso desistir da pan\u00e7a e do Homem.<\/p>\n<p>Nenhuma esta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel nos rochedos vizinhos.<\/p>\n<p>Os cimos inferiores desaparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da mar\u00e9.<\/p>\n<p>Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. In\u00f3spita lavagem.<\/p>\n<p>Restava o casco da Durande.<\/p>\n<p>Podia-se viver ali? Gilliatt teve essa esperan\u00e7a<\/p>\n<h2>QUARTO PARA O VIAJANTE<\/h2>\n<p>Meia hora depois, Gilliatt, de volta \u00e0 Durande, subia e descia no interior do tombadilho ao por\u00e3o, aprofundando o exame sum\u00e1rio de sua pequena visita.<\/p>\n<p>Com aux\u00edlio do cabrestante, tinha ele i\u00e7ado \u00e0 Durande o pacote que fez do carregamento da pan\u00e7a. O cabrestante comportara-se bem. N\u00e3o faltava onde meter o carregamento. Gilliatt tinha, no meio daqueles destro\u00e7os, muito onde escolher.<\/p>\n<p>Achou entre as ru\u00ednas um escopro ca\u00eddo sem d\u00favida da selha de carpinteiro e com o qual aumentou ele a ferramenta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como tudo serve onde n\u00e3o h\u00e1 abund\u00e2ncia, tinha consigo a faca.<\/p>\n<p>Gilliatt trabalhou o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando.<\/p>\n<p>A tardinha se conheceu isto: Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. S\u00f3 era est\u00e1vel e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a m\u00e1quina e ficava poderosamente presa ao granito.<\/p>\n<p>Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobreposse; e, longe de dar peso ao navio, cumpria torn\u00e1-lo mais leve.<\/p>\n<p>Carregar sobre o casco era o contr\u00e1rio do que cumpria fazer.<\/p>\n<p>Aquela ru\u00edna queria melhores tratos. Era uma esp\u00e9cie de doente que expira. Havia bastante vento para maltrat\u00e1-la.<\/p>\n<p>J\u00e1 era mau ter de trabalhar nela. A por\u00e7\u00e3o de trabalho que o casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, se sobreviesse algum acidente noturno durante o sono de Gilliatt, estar no navio era so\u00e7obrar com ele. Nenhum aux\u00edlio poss\u00edvel; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio, era preciso estar fora dele.<\/p>\n<p>Fora dele e junto dele, tal era o problema.<\/p>\n<p>Complicava-se a dificuldade.<\/p>\n<p>Onde achar um abrigo em tais condi\u00e7\u00f5es? Gilliatt pensou.<\/p>\n<p>S\u00f3 restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Via-se, debaixo, no plat\u00f4 superior da grande Douvre, uma esp\u00e9cie de excresc\u00eancia.<\/p>\n<p>As rochas em p\u00e9, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, s\u00e3o penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, tem entranhas como se foram \u00e1rvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaiv\u00e9m do furac\u00e3o, que \u00e9 o lenhador do mar.<\/p>\n<p>Existem outras causas de cataclismo mais profundas ainda. Da\u00ed vem que h\u00e1 tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses colossos tem a cabe\u00e7a cortada.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a cabe\u00e7a, sem que se possa explicar, n\u00e3o cai e fica mutilada, no cume do rochedo. N\u00e3o \u00e9 rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de Annweiler, apresentam nas mais surpreendentes condi\u00e7\u00f5es esse estranho enigma geol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Provavelmente tinha acontecido \u00e0 grande Douvre alguma coisa semelhante.<\/p>\n<p>Se a intumesc\u00eancia que havia no plat\u00f4 n\u00e3o era natural, era necessariamente algum fragmento que ficara da decapita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez houvesse alguma escava\u00e7\u00e3o nesse peda\u00e7o de rocha.<\/p>\n<p>Buraco para meter-se um homem; era o que Gilliatt queria.<\/p>\n<p>Mas como chegar at\u00e9 l\u00e1? Como trepar por aquela coluna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superf\u00edcie ensaboada? Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de n\u00f3s, prendeu-a \u00e0 cintura e p\u00f4s-se a escalar a pequena Douvre. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que ia subindo, tornava-se mais dif\u00edcil a ascens\u00e3o. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a dificuldade. N\u00e3o sem custo chegou \u00e0 ponta. Chegando \u00e0 ponta, posse de p\u00e9 sobre ela. Havia apenas lugar para os p\u00e9s. Fazer disso um lugar para descansar e dormir era dif\u00edcil. Um estilista contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa melhor.<\/p>\n<p>A pequena Douvre curvava-se para a grande, e de longe parecia cumprimenta-la, e o intervalo das duas Douvres, que era de uns 20 p\u00e9s embaixo, era apenas de 8 ou 10 p\u00e9s em cima.<\/p>\n<p>Da ponta, onde trepara, Gilliatt viu mais distintamente a intumesc\u00eancia que cobria a plataforma da grande Douvre.<\/p>\n<p>Essa plataforma elevava-se urnas 3 toesas acima da cabe\u00e7a dele.<\/p>\n<p>Separava-o dela um precip\u00edcio.<\/p>\n<p>O declive da pequena Douvre desaparecia debaixo dele.<\/p>\n<p>Gilliatt desprendeu da cintura a corda de n\u00f3s, tomou rapidamente com o olhar as dimens\u00f5es e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.<\/p>\n<p>O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de n\u00f3s que tinha o gancho na extremidade caiu aos p\u00e9s de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.<\/p>\n<p>Gilliatt recome\u00e7ou, lan\u00e7ando a corda mais longe e visando a protuber\u00e2ncia gran\u00edtica onde via buracos.<\/p>\n<p>O lan\u00e7o foi t\u00e3o destro e t\u00e3o firme que o gancho segurou.<\/p>\n<p>Gilliatt puxou.<\/p>\n<p>Desprendeu-se a corda, e veio bater na coluna abaixo de Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt lan\u00e7ou a corda pela terceira vez.<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o caiu.<\/p>\n<p>Gilliatt puxou a corda. A corda resistiu. O gancho estava seguro.<\/p>\n<p>Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt n\u00e3o podia ver.<\/p>\n<p>Tratava-se de confiar a vida \u00e0quela desconhecida pris\u00e3o do gancho.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o hesitou.<\/p>\n<p>Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio era coisa imposs\u00edvel. O resvalamento era prov\u00e1vel e a queda quase certa. Sobe-se, n\u00e3o se desce.<\/p>\n<p>Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previs \u00e3o. Nunca perdia for\u00e7a. Vinham da\u00ed os prod\u00edgios de vigor que ele executava com m\u00fasculos ordin\u00e1rios; tinha as for\u00e7as comuns, mas uma grande coragem. Ao lado da for\u00e7a, que \u00e9 f\u00edsica, tinha a energia, que \u00e9 moral.<\/p>\n<p>Devia praticar ali um ato tremendo.<\/p>\n<p>Galgar, suspenso \u00e0quele fio, o intervalo das duas Douvres; tal era a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o freq\u00fcentes nos atos de dedica\u00e7\u00e3o ou de dever esses pontos de interroga\u00e7\u00e3o que parecem postos pela morte.<\/p>\n<p>Far\u00e1s isto?, diz a sombra.<\/p>\n<p>Gilliatt executou uma segunda tra\u00e7\u00e3o de ensaio sobre: o gancho; o gancho resistiu.<\/p>\n<p>Gilliatt embrulhou a m\u00e3o esquerda no len\u00e7o, apertou a corda com a m\u00e3o direita coberta pela m\u00e3o esquerda, depois tendo um p\u00e9 adiante, e empurrando com o outro p\u00e9 a rocha a fim de que o vigor do impulso impedisse a rota\u00e7\u00e3o da corda, precipitou-se do alto da pequena Douvre sobre a coluna da grande.<\/p>\n<p>Duro foi o choque.<\/p>\n<p>Apesar da precau\u00e7\u00e3o tomada por Gilliatt a corda volteou, e foi o ombro dele que bateu no rochedo.<\/p>\n<p>Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o len\u00e7o. As m\u00e3os ficaram arranhadas; admirou que n\u00e3o ficassem esmagadas.<\/p>\n<p>Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.<\/p>\n<p>Mas ainda assim, bastante senhor de si para n\u00e3o largar a corda.<\/p>\n<p>Decorreu algum tempo em oscila\u00e7\u00e3o e sobressaltos antes que pudesse agarrar a corda com os p\u00e9s, mas conseguiu afinal.<\/p>\n<p>Voltando a si e conservando a corda entre as m\u00e3os, Gilliatt olhou para baixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se assustava a respeito do comprimento da corda que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda, com efeito, arrastava na Durande.<\/p>\n<p>Gilliatt, certo de poder descer, come\u00e7ou a trepar.<\/p>\n<p>Em poucos momentos chegou ao cume.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser os p\u00e1ssaros, tinha posto ali o p\u00e9. A plataforma estava coberta de esterco de p\u00e1ssaros. Era um trap\u00e9zio irregular, lasca daquele colossal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.<\/p>\n<p>Gilliatt conjeturara com exatid\u00e3o. Via-se no \u00e2ngulo meridional do trap\u00e9zio uma superposi\u00e7\u00e3o de rochedos, destro\u00e7os prov\u00e1veis do descalabro do cimo. Esses rochedos, esp\u00e9cie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confus\u00e3o; tinham os interst\u00edcios de um mont\u00e3o de grabatos. N\u00e3o havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admitir Gilliatt.<\/p>\n<p>O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria ali como se fosse em casa.<\/p>\n<p>A alcova na entrada tinha 2 p\u00e9s de altura. Estreitava-se para o fundo. H\u00e1 t\u00famulos de pedra que tem essa forma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das \u00e1guas, mas aberta ao vento do norte.<\/p>\n<p>Gilliatt achou que isso era bom.<\/p>\n<p>Os dois problemas estavam resolvidos, a pan\u00e7a tinha um porto, ele tinha casa.<\/p>\n<p>A excel\u00eancia da casa era ficar perto da Durande.<\/p>\n<p>O gancho da corda tinha ca\u00eddo entre dois peda\u00e7os de rocha e ficou solidamente preso. Imobilizou-o pondo em cima uma grossa pedra.<\/p>\n<p>Depois entrou imediatamente em livre pr\u00e1tica com a Durande.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava em casa.<\/p>\n<p>A grande Douvre era a casa, e Durande era a oficina.<\/p>\n<p>Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.<\/p>\n<p>Atirou-se vivamente pela corda abaixo at\u00e9 o tombadilho.<\/p>\n<p>O dia foi bom, a coisa come\u00e7ava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.<\/p>\n<p>Desatou o cesto de provis\u00f5es, abriu a faca, cortou um peda\u00e7o de carne fumada, trincou o p\u00e3o de rala, bebeu um gole do pichel de \u00e1gua doce e ceou admiravelmente.<\/p>\n<p>Trabalhar bem e comer bem s\u00e3o duas alegrias. O est\u00f4mago cheio assemelha-se a uma consci\u00eancia satisfeita.<\/p>\n<p>Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para come\u00e7ar a aliviar o navio, que era urgente.<\/p>\n<p>Tinha passado uma parte do dia a separar os destro\u00e7os. P\u00f3s de lado, no compartimento s\u00f3lido, onde estava a m\u00e1quina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era in\u00fatil deitou ao mar.<\/p>\n<p>O carregamento da pan\u00e7a, i\u00e7ado pelo cabrestante at\u00e9 o tombadilho, era, embora sum\u00e1rio, um estorvo. Gilliatt viu a esp\u00e9cie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que ele podia tocar com a m\u00e3o. V\u00eaem-se muitas vezes nos rochedos esses arm\u00e1rios naturais, n\u00e3o fechados, \u00e9 verdade. Pensou que era poss\u00edvel confiar o dep\u00f3sito \u00e0quele nicho. P\u00f3s no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestu\u00e1rio, os dois sacos, o centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado \u00e0 borda, por n\u00e3o haver mais lugar, o cesto das provis\u00f5es.<\/p>\n<p>Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pele de carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.<\/p>\n<p>Para impedir que o vento desse na corda de n\u00f3s, prendeu a ponta em uma porca da Durande.<\/p>\n<p>A porca era muito curva e prendia a corda t\u00e3o bem como se fosse uma m\u00e3o fechada.<\/p>\n<p>Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era f\u00e1cil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a pouco e pouco gasta pelo \u00e2ngulo do rochedo.<\/p>\n<p>Gilliatt investigou o mont\u00e3o de destro\u00e7os que reservara, apanhou alguns peda\u00e7os de lona e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.<\/p>\n<p>Qualquer marujo adivinhava logo que ele ia forrar com a lona e os fios o peda\u00e7o da corda na altura do \u00e2ngulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.<\/p>\n<p>Feita a provis\u00e3o dos trapos, p\u00f3s as grevas; nas pernas, vestiu a japona, prendeu ao pesco\u00e7o a pele de carneiro, e assim vestido, com essa pan\u00f3plia completa, agarrou a corda, robustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subiu por aquela sombria torre do mar.<\/p>\n<p>Gilliatt, apesar de ter as m\u00e3os arranhadas, chegou rapidamente \u00e0 plataforma.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos clar\u00f5es do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar.<\/p>\n<p>O alto da Douvre conservava alguma claridade.<\/p>\n<p>Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma ligadura de muitos peda\u00e7os de vela, fortemente atada em cada peda\u00e7o. Era pouco mais ou menos o forro que costumam por nos joelhos as atrizes para as agonias e s\u00faplicas do 5. ato.<\/p>\n<p>Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.<\/p>\n<p>Desde alguns instantes, enquanto esteve forrando a corda, ouvia ele confusamente no ar um estremecimento singular.<\/p>\n<p>Assemelhava-se, no sil\u00eancio da noite, ao rumor que fizesse o bater das asas de um morcego.<\/p>\n<p>Gilliatt levantou os olhos.<\/p>\n<p>Um grande c\u00edrculo negro volteava-lhe por cima da cabe\u00e7a no c\u00e9u profundo e alvo do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Costuma-se ver, nos velhos quadros, c\u00edrculos iguais sobre a cabe- \u00e7a dos santos. A diferen\u00e7a \u00e9 que s\u00e3o de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais estranho. Dissera-se a aur\u00e9ola noturna da grande Douvre.<\/p>\n<p>O c\u00edrculo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.<\/p>\n<p>Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de p\u00e1ssaros do mar, espantados.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a grande Douvre fosse a hospedaria deles, e que eles fossem buscar ai o repouso. Gilliatt tinha-lhes tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.<\/p>\n<p>Nunca tinham visto esse homem ali.<\/p>\n<p>Durou algum tempo aquele voar assustado.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.<\/p>\n<p>Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.<\/p>\n<p>O turbilh\u00e3o volante acabou por tomar uma resolu\u00e7\u00e3o, o c\u00edrculo desfez-se em espiral, e a nuvem de p\u00e1ssaros foi cair do outro lado do escolho, no rochedo Homem.<\/p>\n<p>A\u00ed pareceram consultar e deliberar. Gilliatt, estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabe\u00e7a uma pedra como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos p\u00e1ssaros, que guinchavam cada um por sua vez.<\/p>\n<p>Depois calaram-se, e tudo dormiu, os p\u00e1ssaros em uma rocha e Gilliatt em outra<\/p>\n<h2>&#8220;IMPORTUNAE QUE VOLUCRES&#8221;<\/h2>\n<p>Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Tinha naturalmente os p\u00e9s colocados no fundo do buraco, e a cabe\u00e7a \u00e0 borda. N\u00e3o teve o cuidado de tirar daquele leito uma por\u00e7\u00e3o de seixos agudos que n\u00e3o lhe davam melhor sono.<\/p>\n<p>De quando em quando entreabria os olhos.<\/p>\n<p>Ouvia em certos instantes detona\u00e7\u00f5es profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ru\u00eddo de canh\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo ali em roda apresentava o extraordin\u00e1rio da vis\u00e3o; Gilliatt tinha a quimera \u00e0 roda de si. O meio espanto da noite contribu\u00eda para que ele se visse mergulhado no imposs\u00edvel. Gilliatt dizia consigo: Estou sonhando.<\/p>\n<p>Depois tornava a dormir e, sonhando ent\u00e3o, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar D\u00e9ruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.<\/p>\n<p>Com efeito, era um sonho aquilo.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no c\u00e9u. Gilliatt teve confusamente consci\u00eancia disso atrav\u00e9s do sono. Era prov\u00e1vel que fosse o vento.<\/p>\n<p>De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio, abriu as p\u00e1lpebras mais do que at\u00e9 ent\u00e3o. Havia largas nuvens no z\u00eanite; a lua fugia e uma grande estrela ia atr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha o espirito cheio da difus\u00e3o dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.<\/p>\n<p>De madrugada estava gelado e dormia profundamente.<\/p>\n<p>A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente.<\/p>\n<p>Gilliatt bocejou, espregui\u00e7ou-se e levantou-se do buraco.<\/p>\n<p>Dormira t\u00e3o bem que n\u00e3o compreendeu nada.<\/p>\n<p>A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e ele exclamou: Almocemos! O tempo estava calmo, o c\u00e9u estava frio e sereno, n\u00e3o havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que come\u00e7ava. Gilliatt sentiu-se alegre.<\/p>\n<p>Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.<\/p>\n<p>Depois fez a cama, isto \u00e9, p\u00f3s fora os seixos agudos.<\/p>\n<p>Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o cesto de provis\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o achou o cesto; como estava muito \u00e0 beira, o vento da noite atirou-o ao mar.<\/p>\n<p>Isto anunciava uma inten\u00e7\u00e3o de luta.<\/p>\n<p>Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade para ir buscar o cesto.<\/p>\n<p>Era um come\u00e7o de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso. \u00c9 dif\u00edcil, quando se vive em familiaridade com o mar, n\u00e3o ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.<\/p>\n<p>S\u00f3 restava a Gilliatt, al\u00e9m do biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o n\u00e1ufrago morto de fome no rochedo Homem.<\/p>\n<p>A pesca era imposs\u00edvel. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha s\u00f3 servem para rasgar as redes.<\/p>\n<p>Gilliatt almo\u00e7ou alguns mariscos que arrancou da pedra com dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.<\/p>\n<p>Era o bando de goelanos e gaivotas que ca\u00eda sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma coisa.<\/p>\n<p>Essa coisa era o cesto de Gilliatt.<\/p>\n<p>O cesto, lan\u00e7ado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os p\u00e1ssaros correram logo. Levaram no bico toda a esp\u00e9cie de peda\u00e7os de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.<\/p>\n<p>Era a vez de entrarem tamb\u00e9m em luta os p\u00e1ssaros. Faziam repres\u00e1lias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a comida<\/p>\n<h2>O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SER VIR DELE<\/h2>\n<p>Passou-se uma semana.<\/p>\n<p>Embora fosse a esta\u00e7\u00e3o das chuvas, n\u00e3o chovia, o que alegrava Gilliatt.<\/p>\n<p>Mas o que ele empreendia estava acima da for\u00e7a humana, em apar\u00eancia ao menos, O sucesso era de tal modo inveross\u00edmil que a tentativa parecia louca.<\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es encaradas de perto mostram os seus empecilhos e perigos. Basta come\u00e7ar para ver como \u00e9 dif\u00edcil concluir. Todo come \u00e7o resiste. O primeiro passo que se d\u00e1 \u00e9 um revelador inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>A dificuldade que se toca fere como um espinho.<\/p>\n<p>Gilliatt teve logo de contar com o obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>Para salvar a m\u00e1quina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela esta\u00e7\u00e3o, parecia que seria necess\u00e1rio uma grande por\u00e7\u00e3o de homens. Gilliatt era s\u00f3; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt n\u00e3o tinha nada disso; precisava ter provis\u00f5es e v\u00edveres.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o tinha p\u00e3o.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, n\u00e3o saberia o que pretendia ele. Parecia n\u00e3o pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destro\u00e7os do naufr\u00e1gio. Aproveitava as mar\u00e9s baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufr\u00e1gio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar a\u00ed depusera. peda\u00e7os de velame, peda\u00e7os de corda, peda\u00e7os de ferro, t\u00e1buas rasgadas, vergas destru\u00eddas, aqui um barrete, ali uma corrente, al\u00e9m uma roldana.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidade do escolho.<\/p>\n<p>Nenhum deles era habit\u00e1vel, com grande decep\u00e7\u00e3o de Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.<\/p>\n<p>Duas dessas anfractuosidade eram assaz espa\u00e7osas, posto que o ch\u00e3o de rocha natural fosse quase geralmente obl\u00edquo e desigual, podia-se andar ali de p\u00e9. A chuva e o vento entravam ali a gosto, mas as altas mar\u00e9s n\u00e3o lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e f\u00e1ceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um dep\u00f3sito e a outra uma forja.<\/p>\n<p>Com todos os cabos que pode recolher fez pacotes dos restos do naufr\u00e1gio, ligando os destro\u00e7os em molhos e as lonas em embrulhos.<\/p>\n<p>Apertou tudo cuidadosamente. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que a mar\u00e9 enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os atrav\u00e9s dos recifes at\u00e9 o dep\u00f3sito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos peda\u00e7os de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos peda\u00e7os de corrente esparsos nos escolhos.<\/p>\n<p>Gilliatt era tenaz e admir\u00e1vel nesse trabalho. Fazia quanto queria.<\/p>\n<p>Nada resiste a um encarni\u00e7amento de formiga.<\/p>\n<p>No fim da semana, Gilliatt tinha nesse dep\u00f3sito de granito todo o arsenal de objetos destru\u00eddos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas n\u00e3o estavam misturadas com as dri\u00e7as; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que n\u00e3o estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava \u00e0 parte; de cada vez que era poss\u00edvel, as t\u00e1buas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas \u00e0s outras; n\u00e3o havia confus\u00e3o de viradores, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado \u00e0 tabuiga da Durande que apoiava os ov\u00e9ns do cesto de g\u00e1vea e as gabundonas. Cada destro\u00e7o tinha o seu lugar. Todo o naufr\u00e1gio estava ali classificado e com o r\u00f3tulo competente. Era uma coisa semelhante ao caos armazenado.<\/p>\n<p>Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, ali\u00e1s rota, o que a chuva podia estragar.<\/p>\n<p>Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da \u00e2ncora, com as tr\u00eas rodas de pol\u00e9.<\/p>\n<p>Achou o gurup\u00e9s, e teve muito trabalho em desvencilh\u00e1-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco. Gilliatt, por\u00e9m, tirou-as porque o ma\u00e7ame podia ser-lhe \u00fatil.<\/p>\n<p>Recolheu igualmente a pequena \u00e2ncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a encalhara.<\/p>\n<p>Achou no que fora camarote de Tangrouilie um peda\u00e7o de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.<\/p>\n<p>Uma selha de couro para inc\u00eandio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.<\/p>\n<p>O resto de carv\u00e3o que havia na Durande foi levado para o armaz\u00e9m.<\/p>\n<p>Em oito dias o salvamento dos destro\u00e7os estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco s\u00f3 restava a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>O peda\u00e7o da amurada que ainda aderia ao resto n\u00e3o fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por uma sali\u00eancia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e n\u00e3o podia ficar no armaz\u00e9m. Parecia uma jangada aquele peda\u00e7o de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.<\/p>\n<p>Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em v\u00e3o a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha levado para sempre, Gilliatt para ach\u00e1-la daria os seus dois bra\u00e7os, se n\u00e3o precisasse tanto deles.<\/p>\n<p>Na entrada do armaz\u00e9m, e fora, viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para queimar.<\/p>\n<p>Gilliatt trabalhava desde a madrugada. Fora do tempo do sono, n\u00e3o descansava nunca.<\/p>\n<p>Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a trabalhar<\/p>\n<h2>A FORJA<\/h2>\n<p>Feito o dep\u00f3sito, Gilliatt fez a forja.<\/p>\n<p>A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um refl\u00e1gio, esp\u00e9cie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a principio a id\u00e9ia de dormir a\u00ed, mas o vento, renovando-se constantemente, era t\u00e3o cont\u00ednuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar \u00e0 morada. O vento deu-lhe id\u00e9ia de fazer a forja. Se a caverna n\u00e3o podia ser quarto, podia ser oficina. Utilizar o obst\u00e1- culo \u00e9 um grande passo para o triunfo. O vento era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.<\/p>\n<p>O que se diz de certos homens: pr\u00f3prios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. N\u00e3o d\u00e3o o que oferecem.<\/p>\n<p>Tal cava de rochedo \u00e9 uma banheira, mas deixa escapar a \u00e1gua; outra \u00e9 um leito de musgo, por\u00e9m molhado; outra \u00e9 uma cadeira, mas de pedra.<\/p>\n<p>A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esbo\u00e7ada pela natureza; mas domar esse esbo\u00e7o, at\u00e9 torn\u00e1-lo apropriado, e transformar a caverna em laborat\u00f3rio, nada mais \u00e1spero e dif\u00edcil. Com tr\u00eas ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 p\u00e9s de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar. Aquilo era outra coisa.<\/p>\n<p>As propor\u00e7\u00f5es de opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se calculam.<\/p>\n<p>O excesso de for\u00e7a era incomodo; era dif\u00edcil regularizar aquele sopro.<\/p>\n<p>A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a \u00e1gua atravessavam de um lado para o outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a onda, era um pequeno esgoto perp\u00e9tuo, mais semelhante a uma destila\u00e7\u00e3o que a uma torrente.<\/p>\n<p>A espuma, continuamente lan\u00e7ada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 p\u00e9s no ar, acabara por encher de \u00e1gua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a escava\u00e7\u00e3o. A abund\u00e2ncia de \u00e1gua nesse reservat\u00f3rio fazia, um pouco atr\u00e1s, no declive, uma pequena queda-d\u00e1gua, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquele reservat\u00f3rio inesgot\u00e1vel e sempre transbordando.<\/p>\n<p>A \u00e1gua era salobra, n\u00e3o pot\u00e1vel, mas l\u00edmpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.<\/p>\n<p>Gilliatt pensou em servir-se dessa \u00e1gua para disciplinar o vento.<\/p>\n<p>Por meio de um funil de dois ou tr\u00eas tubos de t\u00e1buas, arranjados \u00e0 pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservat\u00f3rio inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mec\u00e2nico, conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que n\u00e3o tinha, um aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, por\u00e9m menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos Pirineus uma trompa.<\/p>\n<p>Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa.<\/p>\n<p>Com essa estopa e essa cola e alguns pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um peda\u00e7o de espoleta que achou na Durande e que servira \u00e0 pedra de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt p\u00f3s a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.<\/p>\n<p>Depois disto, Gilliatt ajuntou carv\u00e3o e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no pr\u00f3prio rochedo, fez cair a fa\u00edsca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Experimentou o fole. Era admir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da \u00e1gua e do fogo.<\/p>\n<p>Senhor do ar, deu ao vento uma esp\u00e9cie de pulm\u00e3o, criou no granito um aparelho respirat\u00f3rio, e fez um fole; senhor da \u00e1gua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama daquele rochedo inundado.<\/p>\n<p>Estando a escava\u00e7\u00e3o quase toda aberta, o fumo sa\u00eda livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.<\/p>\n<p>Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a forma e as dimens\u00f5es que se quisesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna con\u00f3ide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A superf\u00edcie polida pela \u00e1gua tinha a rigidez do a\u00e7o.<\/p>\n<p>Gilliatt lastimava n\u00e3o ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente colocada no por\u00e3o da proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.<\/p>\n<p>As duas escava\u00e7\u00f5es, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O dep\u00f3sito e a forja comunicavam-se.<\/p>\n<p>Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um peda\u00e7o de biscoito molhado em \u00e1gua, um ursozinho da \u00e1gua, ou algumas castanhas do mar, ca\u00e7a \u00fanica daquele rochedo, e, tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.<\/p>\n<p>A esp\u00e9cie de abstra\u00e7\u00e3o em que Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupa\u00e7\u00f5es. A realidade era em alta dose. O trabalho corporal com os seus pormenores inumer\u00e1veis n\u00e3o diminu\u00eda a estupefa\u00e7\u00e3o que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cansa\u00e7o material \u00e9 um fio que puxa para terra; mas a pr\u00f3pria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de regi\u00e3o ideal e crepuscular.<\/p>\n<p>Parecia-lhe \u00e0s vezes estar dando marteladas nas nuvens.<\/p>\n<p>Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer ma\u00e7ame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar m\u00e1quinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precau- \u00e7\u00f5es contra as agress\u00f5es inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt n\u00e3o sabia as palavras que exprimem as id\u00e9ias, mas percebia as id\u00e9ias. Sentia-se cada vez menos oper\u00e1rio e cada vez mais pelejador.<\/p>\n<p>Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha amplia\u00e7\u00e3o para o seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tinha \u00e0 roda de si, a perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver manobrar a difus\u00e3o das for\u00e7as no insond\u00e1vel e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espa\u00e7o sempre em movimento, a \u00e1gua infatig\u00e1vel, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esfor\u00e7o obscuro, toda essa convuls\u00e3o \u00e9 um problema. Que faz este perp\u00e9tuo tremor? Que constr\u00f3em estes ventos? Que levantam estes abalos? Em que se ocupam os choques, os solu\u00e7os, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas quest\u00f5es \u00e9 eternoromo a mar\u00e9.<\/p>\n<p>Gilliatt sabia o que fazia; mas a agita\u00e7\u00e3o da extens\u00e3o era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por press\u00e3o e penetra\u00e7\u00e3o, sem outro resultado mais que uma fascina\u00e7\u00e3o inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho in\u00fatil do mar. Na verdade, como n\u00e3o impressionar-se e sondar, ali \u00e0 vista, o mist\u00e9rio da tremenda vaga laboriosa? Como n\u00e3o meditar; na propor \u00e7\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o que se tem, a oscila\u00e7\u00e3o da onda, a impetuosidade da espuma, a usura impercept\u00edvel do rochedo, o esfalf\u00e2mento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento n\u00e3o \u00e9 o recome\u00e7ar perp\u00e9tuo, o oceano po\u00e7o, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa nenhuma! Para coisa nenhuma, n\u00e3o; s\u00f3 o Ignoto o sabe!<\/p>\n<h2>DESCOBERTA<\/h2>\n<p>Um escolho pr\u00f3ximo da costa \u00e9 algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar a\u00ed? N\u00e3o \u00e9 uma ilha. N\u00e3o se pode contar com vitualhas, nem \u00e1rvores com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de \u00e1gua pot\u00e1vel. \u00c9 uma nudeza numa solid\u00e3o. \u00c9 uma rocha, com declives fora da \u00e1gua e pontas debaixo da \u00e1gua. Nada se encontra a\u00ed &#8211; a n\u00e3o ser o naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de escolhos, que a velha l\u00edngua marinha chama os Isolados, s\u00e3o, como dissemos, lugares estranhos. S\u00f3 h\u00e1 o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma apari\u00e7\u00e3o terrestre o perturba.<\/p>\n<p>O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que \u00e9 e o que faz. No escolho est\u00e1 seguro; l\u00e1 n\u00e3o vai o homem.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 perturbado o mon\u00f3logo da onda. A \u00e1gua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, agu\u00e7a-lhe as pontas, eri\u00e7a-o, conserta- o. Empreende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, p\u00f5e os intestinos em comunica\u00e7\u00e3o, enche o escolho de c\u00e9lulas, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.<\/p>\n<p>Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, santu\u00e1rios, pal\u00e1cios; tem uma vegeta\u00e7\u00e3o hedionda e esplendida; comp \u00f5e-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enra\u00edzamente na sombra da \u00e1gua essa horr\u00edvel magnific\u00eancia. No escolho isolado, ningu\u00e9m o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve a\u00ed a gosto o seu lado misterioso e inacess\u00edvel ao homem.<\/p>\n<p>Dep\u00f5e a\u00ed as secre\u00e7\u00f5es vivas e horr\u00edveis. Acha-se ali todo o ignorado do mar.<\/p>\n<p>Os promont\u00f3rios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, s\u00e3o verdadeiras constru\u00e7\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica \u00e9 pouca coisa comparada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica. Os escolhos, casas de vaga, pir\u00e2mides da espuma, pertencem \u00e0 arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma esp\u00e9cie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional. Essas constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o multiformes. Tem o embara\u00e7ado do p\u00f3lipo, a sublimidade da catedral, a extravag\u00e2ncia do pagode, a amplid\u00e3o da montanha, a delicadeza da j\u00f3ia, o horror do sepulcro. Tem alv\u00e9olos como uma colmeia, pat\u00edbulos como um p\u00e1tio de bichos, t\u00faneis como um combro de toupeiras, c\u00e1rceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas colunas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despeda\u00e7adas. Os seus compartimentos s\u00e3o inextric\u00e1veis; isto \u00e9 s\u00f3 para os p\u00e1ssaros; aquilo \u00e9 s\u00f3 para os peixes. N\u00e3o se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se, afirma e nega a est\u00e1tica, quebra-se, det\u00e9m-se, come\u00e7a em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo.<\/p>\n<p>Enc\u00e9lado \u00e9 o pedreiro. Uma din\u00e2mica extraordin\u00e1ria ostenta ali os seus problemas resolvidos. Terr\u00edveis ab\u00f3badas pendentes amea\u00e7am cair, mas n\u00e3o caem. Ningu\u00e9m sabe como se seguram estes edif\u00edcios vertiginosos. Declives, lacunas, suspens\u00f5es insensatas; desconhecesse a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, constru\u00eddos confusamente, comp\u00f5em um monumento monstro; nenhuma l\u00f3gica, um vasto equil\u00edbrio. \u00c9 mais do que a solidez, \u00e9 a eternidade. \u00c9 a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho \u00e9 a tempestade petrificada. Nada mais impass\u00edvel para o esp\u00edrito do que essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de p\u00e9. Tudo ali se ajuda e se contraria. \u00c9 um combate de linhas donde resulta um edif\u00edcio. Reconhece-se a colabora\u00e7\u00e3o dessas duas querelas, o oceano e o furac\u00e3o.<\/p>\n<p>Arquitetura que tem terr\u00edveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.<\/p>\n<p>Esse foi constru\u00eddo e aperfei\u00e7oado pelo mar com um amor formid\u00e1vel. Lambia-o a \u00e1gua rabugenta. Era hediondo, p\u00e9rfido, obscuro; cheio de cavas.<\/p>\n<p>Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando- se em profundezas insond\u00e1veis. Muitos orif\u00edcios desse rasg \u00e3o inextric\u00e1vel ficavam a seco nas vazantes.<\/p>\n<p>Podia-se entrar, ent\u00e3o, com risco.<\/p>\n<p>Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terr\u00edvel. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimens\u00f5es exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e a\u00e7ougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem n\u00e3o viu as escava\u00e7\u00f5es desse g\u00eanero, na parede do eterno granito, esses horr\u00edveis frescos da natureza, n\u00e3o pode fazer uma id\u00e9ia do que \u00e9.<\/p>\n<p>Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar- se nelas. A mar\u00e9 enchente invadia-as at\u00e9 o teto.<\/p>\n<p>Abundavam os mariscos e os frutos do mar.<\/p>\n<p>Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as propor\u00e7\u00f5es e de todas as cores, a maior parte pareciam ensang\u00fcentados, alguns, cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.<\/p>\n<p>Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, art\u00e9rias de uma circula\u00e7\u00e3o misteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golf\u00e3o. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a n\u00e3o deixar passar um homem. Um brand\u00e3o aceso deixava ver obscuridades gotejantes.<\/p>\n<p>Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da mar\u00e9 prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de sol. N\u00e3o havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o perigo.<\/p>\n<p>Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas explora\u00e7\u00f5es: procurar os destro\u00e7os \u00fateis e achar lagostas para comer.<\/p>\n<p>J\u00e1 lhe faltavam conchas nas Douvres.<\/p>\n<p>A fenda era estreita e a passagem quase imposs\u00edvel. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esfor\u00e7o, espremeu-se como pode e entrou at\u00e9 onde lhe foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta.<\/p>\n<p>O rochedo abrupto exteriormente, e inacess\u00edvel, era vazio no interior.<\/p>\n<p>Tinha galerias, po\u00e7os e quartos como o t\u00famulo de um rei do Egito. Aquele d\u00e9dalo era dos mais complicados, trabalho da \u00e1gua, infatig\u00e1vel solapa do mar. As divis\u00f5es daquele subterr\u00e2neo submarino comunicavam provavelmente com a \u00e1gua imensa do exterior por mais de uma sa\u00edda, umas abertas ao n\u00edvel da \u00e1gua, outras profundos funis invis\u00edveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin. atirou-se ao mar.<\/p>\n<p>Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade n\u00e3o havia medo de ach\u00e1-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o p\u00e9, encontrava o ch\u00e3o, avan\u00e7ava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordin\u00e1ria<\/p>\n<h2>O INTERIOR DE UM EDIF\u00cdCIO DEBAIXO DO MAR<\/h2>\n<p>A luz vinha a prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Um passo mais, Gilliatt estaria em uma \u00e1gua talvez sem fundo. As \u00e1guas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralisia t\u00e3o s\u00fabita, que l\u00e1 ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.<\/p>\n<p>Demais, n\u00e3o havia meio de subir e agarrar \u00e0s rochas entre as quais ficaria preso. Gilliatt parou.<\/p>\n<p>A grota, donde ele sa\u00edra, ia ter a mesma sali\u00eancia estreita e viscosa, esp\u00e9cie de vulc\u00e3o na muralha a pique. Gilliatt encostou-se \u00e0 muralha e olhou.<\/p>\n<p>Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um cr\u00e2nio dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo imitavam na ab\u00f3bada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo, atrav\u00e9s da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Era um resplendor tenebroso.<\/p>\n<p>Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distinguia tudo naquele crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Conhecia, por l\u00e1 ter ido mais de uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maill\u00e9 em Guernesey, as Boutiques ein Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era compar \u00e1vel ao quarto subterr\u00e2neo e submarino onde penetrara.<\/p>\n<p>Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma esp\u00e9cie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por aquele p\u00f3rtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um buraco na \u00e1gua.<\/p>\n<p>Essa claridade esvazava-se debaixo da \u00e1gua como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retil\u00edneos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, imitavam interposi\u00e7\u00f5es de l\u00e2minas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. J\u00e1 n\u00e3o era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clar\u00e3o da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabe\u00e7a enorme; a esplendida ab\u00f3- bada era o cr\u00e2nio, e a arcada era a boca; n\u00e3o havia buracos dos olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.<\/p>\n<p>Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquele p\u00f3rtico obstru\u00eddo de uma espessura vidrenta da \u00e1gua do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebar\u00e3. A \u00e1gua, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fus\u00e3o. Um reflexo de \u00e1gua-marinha de incr\u00edvel delicadeza tingia brandamente toda a caverna.<\/p>\n<p>A ab\u00f3bada, com os seus l\u00f3bulos quase cerebrais e as suas ramifica \u00e7\u00f5es semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de cris\u00f3praso.<\/p>\n<p>O chamalote da onda, reverberado no teto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dan\u00e7a misteriosa. Saia dali uma impress\u00e3o espectral; o esp\u00edrito podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia t\u00e3o alegremente aquele magn\u00edfico filete de fogo vivo. Nos relevos da ab\u00f3bada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegeta\u00e7\u00f5es banhando provavelmente as ra\u00edzes atrav\u00e9s do granito em alguma toalha de \u00e1gua superior, e desbagando, nas pontas, uma gota de \u00e1gua, uma p\u00e9rola. Essas p\u00e9rolas ca\u00edam no golf\u00e3o com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era inexprim\u00edvel. N\u00e3o se podia imaginar nada mais lindo nem mais l\u00fagubre. Era ali o pal\u00e1cio da Morte, alegre<\/p>\n<h2>O QUE SE V\u00ca E O QUE SE ENTREV\u00ca<\/h2>\n<p>Sombra que deslumbra, tal era aquele s\u00edtio surpreendente.<\/p>\n<p>A palpita\u00e7\u00e3o do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscila\u00e7\u00e3o externa inchava e deprimia a toalha de \u00e1gua interior com a regularidade de uma respira\u00e7\u00e3o. Cuidava-se ver uma alma misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A \u00e1gua era magicamente l\u00edmpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, esta\u00e7\u00f5es imersas, superf\u00edcies de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>Dos dois lados do p\u00f3rtico submarino esbo\u00e7os de c\u00edmbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acess\u00edveis talvez na \u00e9poca das mar\u00e9s extremamente baixas.<\/p>\n<p>Essas anfractuosidade tinham tetos em plano inclinado, em \u00e2ngulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas escava\u00e7\u00f5es do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliq\u00fcidade.<\/p>\n<p>Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo da \u00e1gua como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se florestas de sarga\u00e7o.<\/p>\n<p>Fora da \u00e1gua, e dentro da \u00e1gua, toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a ab\u00f3bada at\u00e9 ao desaparecimento no invis\u00edvel, era tapetada dessas prodigiosas floresc\u00eancias do oceano, t\u00e3o raramente vis\u00edveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanh \u00f3is chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava os granitos. De todos os declives rompiam os delgados loros lavrados do sarga\u00e7o com que os pescadores fazem bar\u00f4metros. O h\u00e1lito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.<\/p>\n<p>Debaixo dessas vegeta\u00e7\u00f5es escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras j\u00f3ias do escr\u00ednio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as p\u00farpuras, os b\u00fazios, os estrutiol\u00e1rios, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microsc\u00f3picas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. N\u00e3o podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, a\u00ed se refugiavam as conchas. As conchas s\u00e3o grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A f\u00falgida reuni\u00e3o das conchas fazia debaixo da \u00e1gua, em certos lugares, inef\u00e1veis irradia\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutua\u00e7\u00e3o da mar\u00e9, uma planta magn\u00edfica e singular prendia-se como um debrum \u00e0 tape\u00e7aria do sarga\u00e7o, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embara\u00e7adas e obscuras, ornadas em toda a extens\u00e3o de numerosas florinhas cor de l\u00e1pis-laz\u00fali. Na \u00e1gua parecia que essas fores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da \u00e1gua eram flores, dentro da \u00e1gua eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carb\u00fanculos.<\/p>\n<p>A cada enchimento da vaga t\u00famida como um pulm\u00e3o, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melanc \u00f3lica semelhan\u00e7a com o destino. Era a aspira\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a vida; era a expira\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a morte.<\/p>\n<p>Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora c\u00edmbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais.<\/p>\n<p>Um n\u00e3o sei que, ali\u00e1s de esp\u00edrito, misturava-se \u00e0 estupidez maci\u00e7a da pedra. Que artista n\u00e3o \u00e9 o abismo! Tal peda\u00e7o de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo relevo; ante essa escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometeu esbo- \u00e7ando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o g\u00eanio poderia acabar o que o gigante come\u00e7ara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou tra\u00e7ada como uma florentina. Tinha almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra r\u00fanica tinha sinais de unha obscuros e improv\u00e1veis. Plantas com ramos torcidos em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura do acaso.<\/p>\n<p>O magn\u00edfico bolor do mar aveludava os \u00e2ngulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grande floras, t\u00e3o destras que n\u00e3o ca\u00edam, e pareciam inteligentes t\u00e3o bem adornavam elas.<\/p>\n<p>Pariet\u00e1rias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a prop\u00f3sito e com gesto. Havia a\u00ed a casquilhice poss\u00edvel. numa caverna.<\/p>\n<p>A surpreendente luz ed\u00eanica que vinha de baixo da \u00e1gua, a um tempo penumbra marinha e radia\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca, esfumava todos os lineamentos em uma esp\u00e9cie de difus\u00e3o vision\u00e1ria. Cada vaga era um prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o cromatismo das lentes de \u00f3ptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam debaixo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Acred\u00edtar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal peda\u00e7os de arco-\u00edris afogados. Em outros lugares havia na \u00e1gua um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais imposs\u00edvel e enigm\u00e1tico do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegeta\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica e a estratifica\u00e7\u00e3o informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele cons\u00f3rcio de coisas medonhas. Penduravam-se as ramifica\u00e7\u00f5es parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha selvagem e da flor ruiva.<\/p>\n<p>Pilares maci\u00e7os tinham, por capit\u00e9is e por ligaduras, fr\u00e1geis e tr\u00eamulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo c\u00f3cegas nas patas de um hipop\u00f3tamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abra\u00e7ava o rochedo com uma gra\u00e7a monstruosa.<\/p>\n<p>Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, n\u00e3o menos supremas que as obras do g\u00eanio, contem o absoluto e imp\u00f5em-se. O inesperado delas faz-se obedecer imperiosamente pelo esp\u00edrito; sente-se uma premedita\u00e7\u00e3o que fica fora do homem, e elas n\u00e3o s\u00e3o mais surpreendentes do que quando fazem subitamente sair o delicado do terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal express\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. N\u00e3o havia certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de imposs\u00edvel. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era dif\u00edcil crer.<\/p>\n<p>Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da \u00e1gua? Era \u00e1gua aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles c\u00edmbrios e p\u00f3rticos n\u00e3o eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio n\u00e3o ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que dist\u00e2ncia havia dali \u00e0 vida, \u00e0 terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado \u00e0quelas trevas? Como\u00e7\u00e3o inaudita, quase sagrada, \u00e0 qual misturava-se a doce inquieta\u00e7\u00e3o das ervas no fundo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivolta cicl\u00f3pica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, esp\u00e9cie de antro no antro, esp\u00e9cie de tabern\u00e1culo no santu\u00e1rio, atr\u00e1s de uma toalha de luz verde, interposta como um v\u00e9u de templo, descobria-se fora da \u00e1gua uma pedra de \u00e2ngulos cortados em quadro com urna parecen\u00e7a de altar. A \u00e1gua circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era imposs\u00edvel deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era dif\u00edcil conceber aquela c\u00e9lula augusta sem uma vis\u00e3o dentro dela; a apari\u00e7\u00e3o, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um porejar de casta luz sobre esp\u00e1duas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto ol\u00edmpico, uns misteriosos seios arredondados, uns bra\u00e7os pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inef\u00e1veis, modelados em luz p\u00e1lida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Venus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que for\u00e7osamente assaltava a imagina\u00e7\u00e3o. Era inveross\u00edmil que n\u00e3o estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um \u00eaxtase inexprim\u00edvel, imaginava-se uma alvura, viva e de p\u00e9. O esp\u00edrito criava, no meio da adora\u00e7\u00e3o muda daquela caverna, uma Afrodite; uma T\u00e9tis, alguma Diana que pudesse amar, est\u00e1tua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, esp\u00e9cie de perfume-luz sa\u00eddo daquele corpo-estrela. A fascina\u00e7\u00e3o daquele fantasma j\u00e1 n\u00e3o estava ali; j\u00e1 se n\u00e3o via a figura, feita para ser vista somente pelo invis\u00edvel, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que \u00e9 uma vol\u00fapia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.<\/p>\n<p>A beleza do antro parecia feita para aquela presen\u00e7a. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos n\u00e1cares, dessa rainha das brisas, dessa gra\u00e7a nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterr\u00e2neo estava religiosamente murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que \u00e9 um respeito, o sil\u00eancio que \u00e9 uma majestade.<\/p>\n<p>Gilliatt, que era uma esp\u00e9cie de vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, alguns palmos abaixo dele, na transpar\u00eancia encantadora daquela \u00e1gua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprim\u00edvel. Uma esp\u00e9cie de longo andrajo movia- se na oscila\u00e7\u00e3o das vagas. Esse andrajo n\u00e3o flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de tru\u00e3o com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira imposs\u00edvel de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horr\u00edvel, era nojento. Tinha um que de quim\u00e9rico; era um ente, a menos que n\u00e3o fosse uma apar\u00eancia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da \u00e1gua tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapareceu, sinistra.<\/p>\n<h2>Livro Segundo:O Trabalho<\/h2>\n<p><b>OS RECURSOS DAQUELE QUE N\u00c3O TEM RECURSOS<\/b><\/p>\n<p>A cava n\u00e3o soltava facilmente quem l\u00e1 ia. A entrada era pouco c\u00f4moda, a sa\u00edda foi ainda pior. Gilliatt entretanto safou-se, mas n\u00e3o voltou l\u00e1. Nada encontrou do que procurava, e n\u00e3o tinha tempo para ser curioso.<\/p>\n<p>P\u00f3s imediatamente a forja em atividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.<\/p>\n<p>Tinha por combust\u00edvel os destro\u00e7os, a \u00e1gua por motor, o vento por fole, uma pedra por bigorna, por arte o instinto, por for\u00e7a a vontade.<\/p>\n<p>Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.<\/p>\n<p>O tempo mostrava-se complacente. Continuava belo, e o menos equinocial poss\u00edvel. Chegara o m\u00eas de mar\u00e7o, mas tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Os dias tornavam-se compridos. O azul do c\u00e9u, a vasta do\u00e7ura dos movimentos da extens\u00e3o, a serenidade do meio-dia, pareciam excluir qualquer inten\u00e7\u00e3o m\u00e1. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um afago pr\u00e9vio tempera as trai\u00e7\u00f5es. A \u00e1gua marinha n\u00e3o \u00e9 avara desses afagos. Com aquela mulher \u00e9 preciso desconfiar do sorriso.<\/p>\n<p>Havia pouco vento; a hidr\u00e1ulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas m\u00e3os do ferreiro, uma tenaz e uma pin\u00e7a: a tenaz agarra, a pin\u00e7a maneja; uma trabalha como a m\u00e3o, a outra como o dedo. A ferramenta \u00e9 um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e constru\u00eda as suas armaduras. Com um peda\u00e7o de ferro em folha fez uma antepara na forja.<\/p>\n<p>Um dos seus primeiros cuidados foi a separa\u00e7\u00e3o e a repara\u00e7\u00e3o das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das pol\u00e9s. Cortou a esfolia\u00e7\u00e3o de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria grande c\u00f3pia de pe\u00e7as de madeira armazenadas, e aparelhadas, segundo as formas, as dimens\u00f5es e as ess\u00eancias, o carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as pe\u00e7as curvas, como as porcas, separadas das pe\u00e7as direitas, como as que ligam as escotilhas.<\/p>\n<p>Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.<\/p>\n<p>Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e pol\u00e9s, mas n\u00e3o basta isso, \u00e9 preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu extrair excelente fio com que comp\u00f4s uma sarja, e cerziu o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pode fazer o massame sem ter alcatr\u00e3o.<\/p>\n<p>Consertou as cordas, consertou as correntes.<\/p>\n<p>Pode, gra\u00e7as \u00e0 ponta lateral da bigorna, fazer an\u00e9is grosseiros, mas s\u00f3lidos; com esses an\u00e9is, prendeu uns aos outros os peda\u00e7os de correntes quebrados, e fez correntes compridas.<\/p>\n<p>Forjar s\u00f3 e sem aux\u00edlio \u00e9 mais do que incomodo. Contudo, Gilliatt conseguiu faze-lo. \u00c9 certo que s\u00f3 teve de trabalhar na forja pe\u00e7as de pequeno volume; podia mene\u00e1-las com uma m\u00e3o e martelar com a outra.<\/p>\n<p>Cortou em peda\u00e7os as barras de ferro redondas do lugar do comando; forjou nas duas extremidades de cada peda\u00e7o, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabe\u00e7a chata, e desse modo fez grandes pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados em trabalhos mar\u00edtimos, s\u00e3o \u00fateis para fixar os paus nas pedras.<\/p>\n<p>Por que motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.<\/p>\n<p>Servia-se tamb\u00e9m do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.<\/p>\n<p>Com ajuda da pin\u00e7a e da tenaz e servindo-se da faca como de um virador empreendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguiu.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que isso era exeq\u00fc\u00edvel; essa era a particularidade da constru\u00e7\u00e3o das rodas. As caixas que as tinham coberto serviram-lhes de capas; com as t\u00e1buas das caixas, Gilliatt arranjou dois caixotes onde meteu pe\u00e7a por pe\u00e7a, as duas rodas, cuidadosamente numeradas.<\/p>\n<p>O peda\u00e7o de giz serviu-lhe para essa numera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Arranjou os dois caixotes na parte mais s\u00f3lida do conv\u00e9s da Durande.<\/p>\n<p>Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da dificuldade suprema. Surgiu a quest\u00e3o da m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Desmontar as rodas foi poss\u00edvel; desmontar a m\u00e1quina, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquele mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto irrepar\u00e1vel. Depois, mesmo para tentar desmont\u00e1-la pe\u00e7a por pe\u00e7a, se tivesse esta imprud\u00eancia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que ele podia fazer numa caverna por oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a m\u00e1quina arriscava-se a despeda\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>Aqui podia-se crer que estava diante do impratic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Afigurou-se-lhe que estava ao p\u00e9 deste muro: o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Que fazer?<\/p>\n<p><b>DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCOSTRAR-SE COM \u00c9SQUILO<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt tinha uma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Desde aquele carpinteiro de Salbris que, no VI s\u00e9culo, na inf\u00e2ncia da ci\u00eancia, muito antes que Amontons tivesse achado a primeira fric\u00e7\u00e3o, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho dele, com uma ferramenta informe resolveu em massa, arriando o grande rel\u00f3gio da igreja de Charit\u00e9-surLoire, cinco ou seis problemas de est\u00e1tica e de din\u00e2mica, todos juntos, como as rodas de carros embara\u00e7ados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de lat\u00e3o e sem desfazer um encaixe, arriar de uma s\u00f3 vez, por uma simplifica\u00e7\u00e3o prodigiosa, do segundo &#8211; andar da torre ao primeiro, aquela maci\u00e7a gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cilindros, tambores, ganchos, mostrador, p\u00eandulo horizontal, \u00e2ncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quais um pesava 500 libras, t\u00edmpano, carrilh\u00e3o; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome j\u00e1 se n\u00e3o sabe, jamais houve nada igual \u00e0 empresa que Gilliatt cometia.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de Gilliatt era talvez pior, isto \u00e9, mais bela ainda que a outra.<\/p>\n<p>O peso, a delicadeza, o conjunto das dificuldades, n\u00e3o eram menores na m\u00e1quina da Durande que no rel\u00f3gio de Charit\u00e9-surLoire.<\/p>\n<p>O carpinteiro g\u00f3tico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era s\u00f3.<\/p>\n<p>Havia uma popula\u00e7\u00e3o vinda de Menug-sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e anim\u00e1-lo com os seus rumores ben\u00e9volos; Gilliatt s\u00f3 tinha \u00e0 roda de si o rumor do vento e a multid\u00e3o das ondas.<\/p>\n<p>Nada se compara \u00e0 timidez da ignor\u00e2ncia, a n\u00e3o ser a sua temeridade.<\/p>\n<p>Quando a ignor\u00e2ncia come\u00e7a a ousar \u00e9 que tem uma b\u00fassola consigo. Essa b\u00fassola \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o da verdade, mais clara \u00e0s vezes num esp\u00edrito simples que num esp\u00edrito complicado.<\/p>\n<p>Tais casos, digamo-lo de passagem, s\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o, e tudo isto n\u00e3o tira nada \u00e0 ci\u00eancia, que fica sendo a regra. O ignorante pode achar, s\u00f3 o s\u00e1bio inventa.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranq\u00fcila. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre pr\u00e1tica com a barca. Foi ali e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou \u00e0 Durande e mediu o grande di\u00e2metro da m\u00e1quina. O grande di\u00e2metro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 p\u00e9s que o espa\u00e7o da pan\u00e7a. Portanto, a m\u00e1quina podia entrar na barca.<\/p>\n<p>Mas como mete-la a\u00ed?<\/p>\n<p><b>A OBRA-PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA-PRIMA DE LETHIERRY<\/b><\/p>\n<p>Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquelas paragens, em semelhante esta\u00e7\u00e3o, teria pago a sua ousadia com a vis\u00e3o de uma coisa singular entre as Douvres.<\/p>\n<p>Veria isto o pescador: quatro robustas pranchas com espa\u00e7os iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e como que for\u00e7adas entre os rochedos o que \u00e9 a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre, as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violenta mente espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador trepado na pr\u00f3pria prancha.<\/p>\n<p>Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervalo das Douvres; da\u00ed. a seguran\u00e7a e o plano inclinado em que estavam for Ignorar convida a tentar. A ignor\u00e2ncia \u00e9 um devaneio e o mando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em \u00e2ngulo devaneio curioso \u00e9 uma for\u00e7a. Saber, desconcerta \u00e0s vezes, e agudo e a pequena em \u00e2ngulo obtuso. Era suave o declive, desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse, recuaria irias desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro ante o cabo das Tormentas. Se Crist\u00f3v\u00e3o Colombo fosse pranchas prendiam-se quatro pol\u00e9s guarnecidas todas de bom cosm\u00f3grafo, n\u00e3o teria descoberto a Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho a\u00e9reo de guindastes e t\u00e1buas, o maci\u00e7o casco da Durande parecia suspenso a esses fios.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da m\u00e1quina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no conv\u00e9s, depois sa\u00edam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da m\u00e1quina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo, atravessando o conv\u00e9s, voltavam a prender-se nos quatro guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo \u00fanico podendo ser dirigido por um s\u00f3 bra\u00e7o. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo \u00fanico completavam o aparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combina\u00e7\u00e3o obrigava as quatro pol\u00e9s a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de for\u00e7as pendentes, leme de din\u00e2mica na m\u00e3o do piloto da opera- \u00e7\u00e3o, mantinha a manobra em equil\u00edbrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Weson de hoje, e do antigo polipastono de Vitr\u00favio. Gilliatt descobriu isso, sem conhecer Vitr\u00favio, que j\u00e1 n\u00e3o existe, nem Weson, que n\u00e3o existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o massame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes n\u00e3o poderiam passar com facilidade nas pol\u00e9s.<\/p>\n<p>Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um s\u00f3 homem, era surpreendente.<\/p>\n<p>Demais, abreviemos a explica\u00e7\u00e3o. Compreender-se-\u00e1 que omitimos muitos pormenores que tornariam a coisa clara para as pessoas do oficio, e obscura para as outras.<\/p>\n<p>O cimo do cano da m\u00e1quina passava por entre as duas pranchas do meio.<\/p>\n<p>Gilliatt, sem dar por isso, plagi\u00e1rio inconsciente do desconhecido, refez, a tr\u00eas s\u00e9culos de dist\u00e2ncia, o mecanismo do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto, assustador para quem ousasse manobr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros n\u00e3o impedem que um mecanismo funcione. O obelisco da pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da est\u00e1tica. O coche do Czar Pedro era constru\u00eddo de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto, andava. Quantas deformidades na m\u00e1quina de Marly.<\/p>\n<p>Tudo ali era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Lu\u00eds XIV.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, Gilliatt tinha confian\u00e7a. Contava at\u00e9 com o sucesso ao ponto de fixar na borda da pan\u00e7a, no dia em que l\u00e1 foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dois lados da barca, nos mesmos espa\u00e7os que as quatro argolas da Durande \u00e0s quais se prendiam as quatro correntes do cano.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo.<\/p>\n<p>Tendo contra si todas as probabilidades, queria por todas as precau\u00e7\u00f5es do seu lado.<\/p>\n<p>Fazia coisas que pareciam in\u00fateis, sinal de uma premedita\u00e7\u00e3o atenta.<\/p>\n<p>A sua maneira de proceder desafiava um observador, e mesmo um conhecedor.<\/p>\n<p>Uma pessoa que o visse, por exemplo, com esfor\u00e7os inauditos e em risco de quebrar o pesco\u00e7o, pregar com um martelo oito ou dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia dificilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente por que raz\u00e3o fazia todo aquele trabalho.<\/p>\n<p>Se visse Gilliatt medir o peda\u00e7o da amurada da proa que ficara pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta pe\u00e7a, cortar com um machado as madeiras descoladas que a retinham, arrast\u00e1-las fora da garganta, com aux\u00edlio da mar\u00e9 que descia, e enfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de t\u00e1buas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt quisesse, para facilidade da manobra, desimpedir o intervalo das Douvres, bastava deixar cair aquele peda\u00e7o de t\u00e1buas na mar\u00e9 que o levaria \u00e0 flor da \u00e1gua. Gilliatt provavelmente tinha l\u00e1 as suas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Gilliatt, para fixar os pregos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e metia ao princ\u00edpio tocos de paus, nos quais introduzia depois os pregos. Embo\u00e7ou a mesma prepara\u00e7\u00e3o nas duas rochas que se levantavam noutra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau todos os buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt n\u00e3o meteu pregos nessas fendas. Compreende- se que, por prud\u00eancia na sua pen\u00faria, ele n\u00e3o podia gastar materiais sen\u00e3o \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era mais uma complica\u00e7\u00e3o no meio de tantas dificuldades.<\/p>\n<p>Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo. Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.<\/p>\n<h2>SUBRE<\/h2>\n<p>O homem que fazia estas coisas tornara-se medonho.<\/p>\n<p>Gilliatt, naquele trabalho m\u00faltiplo, gastava todas as suas for\u00e7as; dificilmente as refazia.<\/p>\n<p>Priva\u00e7\u00f5es de uma parte, cansa\u00e7o de outra. Gilliatt tinha emagrecido.<\/p>\n<p>Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os p\u00e9s nus, porque o vento levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Peda\u00e7os da bigorna rudimentar, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas m\u00e3os e nos bra\u00e7os pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela \u00e1gua salgada.<\/p>\n<p>Tinha fome, tinha sede, tinha frio.<\/p>\n<p>O pichel de \u00e1gua doce estava vazio. A farinha de centeio fora j\u00e1 comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscoito.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo \u00e1gua para molh\u00e1-lo, Gilliatt quebrava-o com os dentes.<\/p>\n<p>Dia a dia iam-lhe escasseando as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Aquele tem\u00edvel rochedo esgotava-lhe a vida.<\/p>\n<p>Beber era uma quest\u00e3o; comer era uma quest\u00e3o; dormir era uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um p\u00e1ssaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava ent\u00e3o e achava numa cava um pouco de \u00e1gua doce. Bebia depois do p\u00e1ssaro, \u00e0s vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas j\u00e1 estavam acostumadas a ele, e n\u00e3o fugiam quando ele se aproximava. Gilliatt, mesmo na maior fome, n\u00e3o lhes fazia mal. Sabemos que ele tinha a supersti\u00e7\u00e3o dos p\u00e1ssaros. Os p\u00e1ssaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eri\u00e7ados e horr\u00edveis, e a barba longa, j\u00e1 lhe n\u00e3o cobravam medo; a mudan\u00e7a do aspecto tranq\u00fcilizava-os; j\u00e1 n\u00e3o viam naquilo um homem, acreditavam-no bicho.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aqueles pobres ajudavam-se uns aos outros. Enquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os p\u00e1ssaros indicavam-lhe em que lugar havia \u00e1gua.<\/p>\n<p>Comia as conchas cruas; as conchas, em certa propor\u00e7\u00e3o, s\u00e3o refrigerantes. Quanto aos caranguejos, cozia-os; n\u00e3o tendo vasilha pr\u00f3pria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.<\/p>\n<p>Declarou-se, entretanto, um pouco de equin\u00f3cio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa at\u00e9 a pele, e a pele at\u00e9 os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.<\/p>\n<p>Avara de aux\u00edlio, pr\u00f3diga de mis\u00e9ria, tal era aquela chuva, indigna do c\u00e9u. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma m\u00e1 a\u00e7\u00e3o l\u00e1 de cima.<\/p>\n<p>De noite, no seu buraco do rochedo, s\u00f3 dormia por cansa\u00e7o. Os grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de p\u00fastulas.<\/p>\n<p>Tinha febre, que o sustentava; a febre \u00e9 um amparo, que mata.<\/p>\n<p>Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de cocle\u00e1ria selvagem, magras produ\u00e7\u00f5es das fendas secas do rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. N\u00e3o tinha tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A m\u00e1quina da Durande estava de sa\u00fade. Era o que bastava.<\/p>\n<p>A cada momento, Para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava p\u00e9. Entrava na \u00e1gua e sa\u00eda, como se passa de um quarto a outro.<\/p>\n<p>As roupas j\u00e1 lhe n\u00e3o secavam. Estavam embebidas da \u00e1gua da chuva que n\u00e3o parava, e da \u00e1gua do mar que n\u00e3o seca nunca.<\/p>\n<p>Gilliatt vivia molhado.<\/p>\n<p>Viver molhado \u00e9 um h\u00e1bito que se adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, m\u00e3es, raparigas, quase nuas, crian\u00e7as, que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos \u00e2ngulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.<\/p>\n<p>Estar molhado e ter sede; Gilliatt suportava essa tortura estranha.<\/p>\n<p>De quando em quando mordia a manga da japona.<\/p>\n<p>O fogo que ele acendia n\u00e3o o aquecia; o fogo no meio de um grande espa\u00e7o arejado \u00e9 um meio socorro; seca-se de um lado, umedece-se de outro.<\/p>\n<p>Gilliatt suava e tiritava.<\/p>\n<p>Tudo lhe resistia em roda dele numa esp\u00e9cie de sil\u00eancio terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Ele sentia o inimigo.<\/p>\n<p>As coisas tem um sombrio Non possumus.<\/p>\n<p>A in\u00e9rcia delas \u00e9 uma l\u00fagubre advert\u00eancia.<\/p>\n<p>Imensa m\u00e1 vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava a \u00e1gua, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o est\u00f4mago. Ele suportava a opress\u00e3o em um conjunto fatigante.<\/p>\n<p>O obst\u00e1culo, tranq\u00fcilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a consci\u00eancia de um desprezo sombrio e de um \u00f3dio que fazia esfor\u00e7o por diminu\u00ed-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com hostilidade impenetr\u00e1vel. N\u00e3o podendo po-lo fora dali, punham-no debaixo dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invis\u00edvel. Cada dia, a misteriosa verruma entrava um peda\u00e7o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a um duelo equ\u00edvoco com um traidor.<\/p>\n<p>Cercava-o a coaliz\u00e3o das for\u00e7as obscuras. Ele sentia uma resolu\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m para expuls\u00e1-lo dali. \u00c9 assim que a geleira expele a massa err\u00e1tica.<\/p>\n<p>Quase sem parecer que o tocava, essa coaliz\u00e3o latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem- por isso deixava ele de trabalhar, e sem cessar, mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a obra se fazia, ia-se desfazendo o oper\u00e1rio. Dissera-se que aquela feroz natureza, receando a alma, resolvera-se a extenuar o homem.<\/p>\n<p>Gilliatt afrontava, e esperava. O abismo come\u00e7ava por cans\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Que faria depois o abismo? A dupla Douvres, drag\u00e3o de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admiss\u00e3o assemelhava- se \u00e0 hospitalidade de um sorvedouro aberto.<\/p>\n<p>O deserto, a extens\u00e3o, o espa\u00e7o onde h\u00e1 para o homem tantos recursos, a inclem\u00eancia muda dos fen\u00f4menos seguindo o seu curso, a grande lei geral implac\u00e1vel e passiva, o fluxo e o refluxo, o escolho, pl\u00eaiada negra onde cada ponto \u00e9 uma estrela de turbilh\u00f5es, centro de uma irradia\u00e7\u00e3o de correntes, a conspira\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a das coisas contra a tenacidade de um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o separavam dos vivos, como um c\u00e1rcere que fosse subindo \u00e0 roda de um homem. Tudo contra ele, nada a favor dele; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.<\/p>\n<p>Gilliatt- tinha esgotado as provis\u00f5es, as ferramentas j\u00e1 estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supura\u00e7\u00f5es, buracos nas roupas e na carne, m\u00e3os dilaceradas, p\u00e9s sangrentos, membros magros, rosto l\u00edvido, uma flama nos olhos.<\/p>\n<p>Flama soberba essa, era a vontade vis\u00edvel. O Olho do homem \u00e9 feito de modo que se lhe v\u00ea por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens h\u00e1 dentro de n\u00f3s. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consci\u00eancias piscam o Olho, as grandes lan\u00e7am raios. Se n\u00e3o h\u00e1 nada que brilhe debaixo da p\u00e1lpebra, \u00e9 que nada h\u00e1 que pense no c\u00e9rebro, \u00e9 que nada h\u00e1 que ame no cora\u00e7\u00e3o. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolu\u00e7\u00e3o enche os olhos de fogo; admir\u00e1vel fogo que se comp\u00f5e da combust\u00e3o de pensamentos t\u00edmidos.<\/p>\n<p>Os teimosos s\u00e3o os sublimes. Quem \u00e9 apenas bravo tem s\u00f3 um assomo, quem \u00e9 apenas valente tem s\u00f3 um temperamento, quem \u00e9 apenas corajoso tem s\u00f3 uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes cora\u00e7\u00f5es est\u00e1 nesta palavra: perseverando. A perseveran\u00e7a est\u00e1 para a coragem como a roda para a alavanca; \u00e9 a renova\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no c\u00e9u o alvo da vontade, a quest\u00e3o \u00e9 ir a esse alvo; no primeiro caso, \u00e9 Colombo, no segundo caso, \u00e9 Jesus. Insensata \u00e9 a cruz; vem da\u00ed a sua gl\u00f3ria. N\u00e3o deixar discutir a consci\u00eancia, nem desarmar a vontade, \u00e9 assim que se obt\u00e9m o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair n\u00e3o exclui o pairar. Da queda sai a ascens\u00e3o. Os med\u00edocres deixam- se perder pelo obst\u00e1culo especioso; n\u00e3o assim os fortes.<\/p>\n<p>Parecer \u00e9 o talvez dos fortes, conquistar \u00e9 a certeza deles. Podes dar a Estev\u00e3o todas as boas raz\u00f5es para que ele n\u00e3o se fa\u00e7a apedrejar. O desd\u00e9m das obje\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis cria a sublime vit\u00f3ria vencida que se chama o mart\u00edrio.<\/p>\n<p>Todos os esfor\u00e7os de Gilliatt pareciam agarrados ao imposs\u00edvel, o \u00eaxito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso \u00e9 que o fazia magn\u00e2nimo, isso \u00e9 que o fazia pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadelas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a mis\u00e9ria do trabalho solit\u00e1rio. Fatalidade na causa, necessidade no efeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa mis\u00e9ria; qui-la. Temendo um concorrente, porque um concorrente poderia ser um rival, n\u00e3o procurou auxiliar. A esmagadora empresa, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento poss\u00edvel do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou ele para si s\u00f3. Teve este ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Gilliatt estava debaixo de uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina pneum\u00e1tica. A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e pouco. E ele mal o sentia.<\/p>\n<p>A perda das for\u00e7as n\u00e3o esgota a vontade. Crer \u00e9 apenas a segunda pot\u00eancia; a primeira \u00e9 querer; as montanhas proverbiais que a f\u00e9 transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor reavia em tenacidade. A diminui\u00e7\u00e3o do homem f\u00edsico debaixo da a\u00e7\u00e3o repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o sentia a fadiga, ou, para melhor dizer, n\u00e3o consentia nela. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo \u00e9 uma for\u00e7a imensa.<\/p>\n<p>Gilliatt via os progressos do trabalho, e n\u00e3o via nada mais. Era miser\u00e1vel sem sabe-lo. O seu alvo, que ele tocava quase, alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra id\u00e9ia que n\u00e3o fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe \u00e0 cabe\u00e7a. Vontade embriagada.<\/p>\n<p>O homem pode embriagar-se corri a pr\u00f3pria alma. Essa embriaguez chama-se hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>Gilliatt era uma esp\u00e9cie de J\u00f3 do Oceano.<\/p>\n<p>Mas um J\u00f3 que lutava, um J\u00f3 que combatia e afrontava os flagelos, um J\u00f3 que conquistava, e se tais palavras n\u00e3o s\u00e3o demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de caranguejos e de lagostas, um J\u00f3 Prometeu<\/p>\n<p><b>&#8220;SUB UMBRA&#8221;<\/b><\/p>\n<p>\u00c0s vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.<\/p>\n<p>Sentia-se comovido. Olhar aberto sobre trevas. Situa\u00e7\u00e3o l\u00fagubre; ansiedade. Existe a press\u00e3o da sombra.<\/p>\n<p>Inexprim\u00edvel teto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador poss\u00edvel; luz mesclada \u00e0 obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a p\u00f3; \u00e9 semente? \u00e9 cinza? milh\u00f5es de fachos, claridade nula; vasta igni\u00e7\u00e3o que n\u00e3o diz o seu segredo, uma difus\u00e3o de fogo em poeira que parece um bando de fa\u00edscas paradas, a desordem do turbilh\u00e3o e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precip\u00edcio, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escurid\u00e3o, eis a noite. Pesa no homem esta superposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse am\u00e1lgama de todos os mist\u00e9rios a um tempo, do mist\u00e9rio c\u00f3smico e do mist\u00e9rio fatal, abate a cabe\u00e7a humana.<\/p>\n<p>A press\u00e3o da sombra atua em sentido inverso nas diferentes esp\u00e9cies de almas. O homem, diante da noite, reconhecesse incompleto.<\/p>\n<p>V\u00ea a obscuridade e sente a enfermidade. O c\u00e9u negro \u00e9 o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha- se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presen\u00e7a informe do esconhecido.<\/p>\n<p>Pergunta o que \u00e9; treme, curva-se, ignora; \u00e0s vezes quer ir l\u00e1.<\/p>\n<p>Aonde? L\u00e1.<\/p>\n<p>L\u00e1? O que \u00e9? Que h\u00e1 l\u00e1? Essa curiosidade \u00e9 evidentemente a das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes \u00e0 roda do homem est\u00e3o cortadas.<\/p>\n<p>Mas o desejo atrai, porque \u00e9 golf\u00e3o. Onde n\u00e3o vai o p\u00e9, vai o olhar, onde o olhar p\u00e1ra, pode continuar o esp\u00edrito. N\u00e3o h\u00e1 homem que n\u00e3o tente, por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns \u00e9 um recha\u00e7amento, para outros \u00e9 uma dilata\u00e7\u00e3o. O espet\u00e1culo 8 sombrio. Mescla-se a ele o indefin\u00edvel.<\/p>\n<p>Vai a noite serena? \u00c9 um fundo de sombra. Vai tempestuosa? \u00c9 um fundo de fuma\u00e7a. O ilimitado recusa-se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado \u00e0 experi\u00eancia, aberto \u00e0 conjetura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carb\u00fanculos, cintila\u00e7\u00f5es, astros. Presen\u00e7as verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clar\u00f5es. S\u00e3o estacas da cria\u00e7\u00e3o no absoluto; s\u00e3o marcos de dist\u00e2ncia l\u00e1 onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 dist\u00e2ncia; \u00e9 uma esp\u00e9cie de numera\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microsc\u00f3pico que fulge, depois outro, mais outro; mais outro; \u00e9 o impercept\u00edvel, \u00e9 o enorme. Essa luz \u00e9 um foco, esse foco \u00e9 uma estrela, essa estrela \u00e9 um sol, esse sol \u00e9 um universo, esse universo \u00e9 nada. Todo o n\u00famero \u00e9 zero diante do infinito.<\/p>\n<p>Esses universos, que nada s\u00e3o, existem. Verificando-os, sente-se a diferen\u00e7a que vai entre ser nada, e n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>O inacess\u00edvel ligado ao inexplic\u00e1vel, eis o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Dessa contempla\u00e7\u00e3o solta-se um fen\u00f4meno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.<\/p>\n<p>O medo sagrado \u00e9 pr\u00f3prio do homem; a besta ignora esse medo. A intelig\u00eancia acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.<\/p>\n<p>A sombra \u00e9 una: vem da\u00ed o seu horror. \u00c9, ao mesmo tempo, complexa: vem da\u00ed o terror. A sua unidade pesa no nosso esp\u00edrito e saca-lhe a vontade de resistir.<\/p>\n<p>A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos s\u00fabitos. O homem rende-se e defende- se. Fica em presen\u00e7a de Tudo, da\u00ed vem a submiss\u00e3o, e de Muitos, da\u00ed vem a desconfian\u00e7a. A unidade da sombra cont\u00e9m um m\u00faltiplo. M\u00faltiplo misterioso, vis\u00edvel na mat\u00e9ria, sens\u00edvel no pensamento.<\/p>\n<p>Faz sil\u00eancio, raz\u00e3o de mais para espreitar.<\/p>\n<p>A noite &#8211; j\u00e1 o disse algures quem escreve estas linhas \u00e9 o estado pr\u00f3prio, normal da cria\u00e7\u00e3o especial de que fazemos parte. O dia, breve na dura\u00e7\u00e3o como no espa\u00e7o, \u00e9 apenas uma proximidade de estrela.<\/p>\n<p>O prod\u00edgio noturno universal n\u00e3o se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal m\u00e1quina s\u00e3o as contus\u00f5es da vida. Os atritos da m\u00e1- quina, \u00e9 o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasf\u00eamia impl\u00edcita do fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabe\u00e7as ao vasto conjunto c\u00f3smico. O mal est\u00e1 presente em tudo para protestar. \u00c9 furac\u00e3o e atormenta a marcha de um navio, \u00e9 caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiq\u00fcidade. O mal desconcerta a vida, que \u00e9 uma l\u00f3gica. Faz devorar a mosca pelo p\u00e1ssaro, e o planeta pelo cometa.<\/p>\n<p>O mal \u00e9 um borr\u00e3o na natureza.<\/p>\n<p>A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. N\u00e3o h\u00e1 lugar definitivo para pousar o esp\u00edrito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das solu\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, todos os ramos da d\u00favida a um tempo, a ramifica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos esfoliando-se sem limite sob uma impuls\u00e3o indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insond\u00e1vel que faz com que a mineraliza\u00e7\u00e3o vegete, com que a vegeta\u00e7\u00e3o viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a gravita\u00e7\u00e3o ame; a imensa frente de ataque de todas as quest\u00f5es desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esbo\u00e7ando o ignorado; a simultaneidade c\u00f3smica em plena apari\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para o olhar, mas para a intelig\u00eancia, no espa\u00e7o indistinto; o invis\u00edvel tornado vis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a sombra. O homem est\u00e1 embaixo. N\u00e3o conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu esp\u00edrito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsess\u00e3o impelia os passares caldeus \u00e0 astronomia. Saem dos poros da cria\u00e7\u00e3o revela\u00e7\u00f5es involunt\u00e1rias; faz-se por si mesma uma transmuda\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e invade o ignorante. Debaixo dessa impregna\u00e7\u00e3o misteriosa torna-se o solit\u00e1rio, muitas vezes sem ter consci\u00eancia, um fil\u00f3sofo natural.<\/p>\n<p>A obscuridade \u00e9 indivis\u00edvel. \u00c9 habitada. Habitada sem desloca\u00e7\u00e3o pelo absurdo; habitada tamb\u00e9m com desloca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Move-se ali dentro alguma coisa, o que \u00e9 para assustar. Uma forma\u00e7\u00e3o sagrada desenvolve ali as suas fases. Premedita\u00e7\u00f5es, pot\u00eancias, destinos intencionais laboram, a\u00ed em comum uma obra desmedida. Vida terr\u00edvel e horr\u00edvel \u00e9 o que existe ali dentro. H\u00e1 vastas evolu\u00e7\u00f5es de astros, a fam\u00edlia estelar, a fam\u00edlia planet\u00e1ria, o p\u00f3len zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos efl\u00favios, das polariza\u00e7\u00f5es e das altera\u00e7\u00f5es; h\u00e1 o amplexo e o antagonismo, um magn\u00edfico fluxo e refluxo da ant\u00edtese universal, o imponder\u00e1vel em liberdade no meio dos centros; h\u00e1 a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o \u00e1tomo errante, o germe esparso, curvas de fecunda \u00e7\u00e3o, encontros de ajuntamento e de combate, profus\u00f5es inauditas, dist\u00e2ncias que parecem sonhos, circula\u00e7\u00f5es vertiginosas, mergulhos de mundos no incalcul\u00e1vel, prod\u00edgios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem; \u00e9 inexpugn\u00e1vel, fora de alcance.<\/p>\n<p>Fica-se convencido at\u00e9 \u00e0 opress\u00e3o. Tem-se em si uma evid\u00eancia negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por toda a parte o incompreens\u00edvel: em parte alguma o intelig\u00edvel.<\/p>\n<p>E a tudo isto acrescentai a terr\u00edvel quest\u00e3o: esta Iman\u00eancia \u00e9 um Ser? Est\u00e1-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se. Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores tem consci\u00eancia desse movimento enorme; a silena abre-se \u00e0s 11 horas da noite e o hernerocale \u00e0s 5 horas da manh\u00e3. Imprevis\u00edvel regularidade.<\/p>\n<p>Em outras profundidades a gota de \u00e1gua faz-se mundo, o infus\u00f3rio pulula, a fecundidade gigante sai do anim\u00e1lculo, o impercept\u00edvel ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta-se; uma diatom\u00e9ia produz em uma hora 1 milhar e 300 milh\u00f5es de diatom\u00e9ias.<\/p>\n<p>Que proposi\u00e7\u00e3o de todos os enigmas ao mesmo tempo! Est\u00e1 a\u00ed o irredut\u00edvel.<\/p>\n<p>Constrange-se-nos \u00e0 f\u00e9. Crer por for\u00e7a, eis o resultado. Mas para estar tranq\u00fcilo n\u00e3o basta ter f\u00e9. A f\u00e9 tem uma estranha necessidade de forma. Da\u00ed vem as religi\u00f5es. Nada \u00e9 t\u00e3o opressivo como urna cren\u00e7a sem delineamento.<\/p>\n<p>Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resist\u00eancia interior, olhar a sombra n\u00e3o \u00e9 olhar, \u00e9 contemplar.<\/p>\n<p>Que fazer desses fen\u00f4menos? Como mover-se debaixo de sua converg\u00eancia? \u00c9 imposs\u00edvel decompor esta press\u00e3o. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas revela \u00e7\u00f5es abstrusas, simult\u00e2neas, obscurecendo-se em sua pr\u00f3pria multid\u00e3o, esp\u00e9cie de balbuciar do verbo! A sombra \u00e9 um sil\u00eancio; mas esse sil\u00eancio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus \u00e9 a no\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel. Essa no\u00e7\u00e3o est\u00e1 no homem.<\/p>\n<p>Os silogismos, as querelas, as nega\u00e7\u00f5es, os sistemas, as religi\u00f5es passam por cima sem diminu\u00ed-la. A sombra inteira afirma aquela no\u00e7\u00e3o. Mas turva-se tudo o mais. A inexprim\u00edvel harmonia das for\u00e7as manifesta-se pelo equil\u00edbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba.<\/p>\n<p>O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem fratura. O homem participa deste movimento de transla\u00e7\u00e3o e \u00e0 quantidade de oscila\u00e7\u00e3o que suporta chama ele destino. Onde come\u00e7a o destino? Onde acaba a natureza? Que diferen\u00e7a h\u00e1 entre um acontecimento e uma esta\u00e7\u00e3o, entre um pesar e urna chuva, entre uma virtude e uma estrela? &#8211; Uma hora n\u00e3o \u00e9 uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolu\u00e7\u00e3o impass\u00edvel. O c\u00e9u estrelado \u00e9 uma vis\u00e3o de rodas, de p\u00eandulas e de contrapesos. \u00c9 a contempla\u00e7\u00e3o suprema forrada da suprema medita\u00e7\u00e3o. \u00c9 toda a realidade e mais a abstra\u00e7\u00e3o. Nada al\u00e9m da\u00ed. O homem sente-se preso. Fica \u00e0 discri\u00e7\u00e3o da sombra. N\u00e3o h\u00e1 evas\u00e3o poss\u00edvel. V\u00ea-se ele naquele composto de rodas, \u00e9 parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que est\u00e1 fora dele. Isto \u00e9 o an\u00fancio sublime da morte. Que ang\u00fastia e, ao mesmo tempo, que fascina\u00e7\u00e3o! Aderir ao infinito e por essa ader\u00eancia atribuir-se uma imortalidade necess\u00e1ria, quem sabe? Uma eternidade poss\u00edvel sentir na prodigiosa vaga desse sil\u00eancio universal a obstina\u00e7\u00e3o insubmers\u00edvel do eu! Contemplar os astros e dizer: Sou uma alma como v\u00f3s! Contemplar a obscuridade e dizer: Sou um abismo como tudo.<\/p>\n<p>Essas enormidades s\u00e3o a noite. Tudo isso aumentado, pela solid\u00e3o, pesava em Gilliatt. Compreendia-o ele? N\u00e3o. Sentia-o? Sim.<\/p>\n<p>Gilliatt era um grande esp\u00edrito turvado e um grande cora\u00e7\u00e3o selvagem<\/p>\n<p><b>GILLIATT COLOCA A PAN\u00c7A EM POSI\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>O salvamento da m\u00e1quina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evas\u00e3o e s\u00e3o conhecidas as pacientais da evas\u00e3o. Tamb\u00e9m se conhecem as suas ind\u00fastrias. A ind\u00fastria chega ao milagre; a paci\u00eancia atinge a agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte S\u00e3o Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na Plataforma de passeio da pris\u00e3o, n\u00e3o se sabe com que faca, fundiu-o n\u00e3o se sabe com que fogo, vazou-o numa forma feita de migalhas de p\u00e3o; com esse chumbo e essa forma fez urna chave e com essa chave abriu unia fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisros\u00e9. Era o Trenk de um destro\u00e7o e o Latude de uma m\u00e1quina.<\/p>\n<p>O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.<\/p>\n<p>Demais, por ingrata e m\u00e1 que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a.<\/p>\n<p>Refez com ela a sua provis\u00e3o de \u00e1gua doce; mas a sede era inextingu\u00edvel e Gilliatt esvaziava o pincel quase t\u00e3o rapidamente como o enchia.<\/p>\n<p>Um dia, o \u00faltimo de abril, creio, ou o 1 de maio, tudo estava pronto. O assoalho da m\u00e1quina estava como que metido entre os oito cabos das pol\u00e9s, quatro de um lado, quatro de outro. As dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e \u00e0 carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a m\u00e1quina foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a m\u00e1quina sustentando- a. Todo esse grupo assustador s\u00f3 estava preso por urna corrente, a qual dependia s\u00f3 de um golpe de lima. T\u00e3o perto do remate, a pressa era prud\u00eancia.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 estava baixa, o momento era bom. Gilliatt tinha conseguido desmontar a \u00e1rvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obst\u00e1culo e impedir aquele levantar de \u00e2ncora. Tinha conseguido amarrar verticalmente a pesada pe\u00e7a na pr\u00f3pria m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, n\u00e3o estava cansado porque n\u00e3o queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se imposs\u00edvel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O fole come\u00e7ava a trabalhar mal. Corno a pequena queda hidr\u00e1ulica era de \u00e1gua marinha, formaram-se dep\u00f3sitos salinos nas junturas do aparelho e impediam-lhe o jogo. Gilliatt foi \u00e0 angra do Homem, passou revista \u00e0 pan\u00e7a, assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e estibordo, levantou a \u00e2ncora e remando voltou com a pan\u00e7a \u00e0s duas Douvres.<\/p>\n<p>O intervalo das Douvres podia admitir a pan\u00e7a. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pan\u00e7a at\u00e9 debaixo da Durande.<\/p>\n<p>A manobra era contudo excessiva, exigia uma precis\u00e3o de joalheiro e esta inser\u00e7\u00e3o do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necess\u00e1rio entrar pela popa com o leme na proa. Era necess\u00e1rio que o mastro e os aparelhos da pan\u00e7a ficassem aqu\u00e9m do casco do vapor, do lado da entrada.<\/p>\n<p>Este agravo na manobra tornou a opera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil ao pr\u00f3prio Gilliatt.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era, como na angra do Homem, uma quest\u00e3o de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar, remar e sondar.<\/p>\n<p>Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguiu.<\/p>\n<p>Em quinze ou vinte minutos a pan\u00e7a ficou colocada debaixo da Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio de duas \u00e2ncoras, segurou a pan\u00e7a. A maior ficou colocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois, por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pan\u00e7a as duas caixas, contendo as rodas desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas caixas fizeram lastro.<\/p>\n<p>Desembara\u00e7ado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.<\/p>\n<p>Para a obra de Gilliatt os defeitos da pan\u00e7a tornavam-se qualidades; n\u00e3o tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no por\u00e3o. Era mastreada na proa, muito na proa talvez, o carregamento achava mais facilidade e,O mastro ficava fora da m\u00e1quina, de modo que nada impedia a sa\u00edda; era uma esp\u00e9cie de concha, e nada mais est\u00e1vel e s\u00f3lido no mar como uma concha.<\/p>\n<p>De repente Gilliatt viu que a mar\u00e9 enchia. Trarou de ver donde soprava o vento<\/p>\n<p><b>SURGE UM PERIGO<\/b><\/p>\n<p>Havia pouca brisa, mas vinha do oeste. \u00c9 um mau costume do vento no equin\u00f3cio.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a \u00e1gua \u00e9 boa e mole, se entra por oeste \u00e9 furiosa. A raz\u00e3o disto \u00e9 que o vento de leste, vindo de terra, tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atl\u00e2ntico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando a brisa \u00e9 fraca assusta quando vem do oeste. Rola largas ondas da extens\u00e3o ilimitada e cospe grossas vagas no estreito.<\/p>\n<p>A \u00e1gua que se engolfa \u00e9 sempre terr\u00edvel. A \u00e1gua \u00e9 como a multid\u00e3o; uma multid\u00e3o \u00e9 um l\u00edquido; quando a quantidade que pode entrar \u00e9 menor que a quantidade que deseja entrar, a multid\u00e3o machuca-se e a \u00e1gua convulsiona-se. Enquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, h\u00e1 nas Douvres este assalto duas vezes por dia. A mar\u00e9 levanta-se, a rocha resiste, a abertura \u00e9 pequena, a onda entrando \u00e0 for\u00e7a, salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viela. De modo que as Douvres, ao menor vento do oeste, oferecem este espet\u00e1culo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circunscrito n\u00e3o \u00e9 uma tormenta; \u00e9 apenas uma revolta de vagas, mas terr\u00edvel. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, \u00e9 preciso lembr\u00e1-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura tem\u00edvel do oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas Douvres.<\/p>\n<p>Nessa abertura de oeste \u00e9 que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pan\u00e7a ancorada.<\/p>\n<p>Parecia inevit\u00e1vel uma cat\u00e1strofe, esta cat\u00e1strofe iminente tinha embora pouco, o vento de que precisava.<\/p>\n<p>Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta, no estreito das Douvres. As primeiras vagas j\u00e1 come\u00e7avam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atl\u00e2ntico que teria atr\u00e1s de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma c\u00f3lera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma for\u00e7a de impuls\u00e3o que, partindo da Am\u00e9rica par a chegar \u00e0 Europa, tinha 2 000 l\u00e9guas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiato do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela mar\u00e9, inchada pelo obst\u00e1culo, repelida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria viol\u00eancia ao escolho, penetraria, com todas as tor\u00e7\u00f5es do obst\u00e1culo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pan\u00e7a e a Durande, e as estrangularia.<\/p>\n<p>Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.<\/p>\n<p>Cumpria impedir que a mar\u00e9 entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a compress\u00e3o da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrup\u00e7\u00e3o pela introdu\u00e7\u00e3o, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquela f\u00faria a ser tranq\u00fcila. Era preciso substituir ao obst\u00e1culo que irrita, o obst\u00e1culo que aplaca.<\/p>\n<p>Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a for\u00e7a, executando uma manobra de cabrito-montes na montanha ou de macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor sali\u00eancia de pedra, pulando na \u00e1gua, nadando nos redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martelo na m\u00e3o, desatou o cabo que prendia \u00e0 pequena Douvre o peda\u00e7o da amurada de proa da Durande, fez com as pontas da maroma uma esp\u00e9cie de gonzos prendendo aquele peda\u00e7o de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez voltar naqueles gonzos aquela armadura de t\u00e1buas semelhante ao al\u00e7ap\u00e3o de um dique, expo-lo em flanco, como se faz com um leme, \u00e0 onda que impelia, e aplicou essa extremidade \u00e0 grande Douvre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de pregos, postos de antem\u00e3o, a mesma fixa\u00e7\u00e3o que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte numa coura\u00e7a e, em menos de uma hora, levantou-se o obst\u00e1culo contra a mar\u00e9, e a viela do escolho ficou fechada como por uma porta.<\/p>\n<p>Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de p\u00e9 uma parede, foi, com aux\u00edlio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quase que a coisa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.<\/p>\n<p>Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que ele dirigia \u00e0 vaga do mar, cada vez que esquivava um naufr\u00e1gio: Apanhei- te, ingl\u00eas! Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pan\u00e7a. Dividiu o cabo nas duas \u00e2ncoras para que ela pudesse subir com a mar\u00e9. Opera\u00e7\u00e3o an\u00e1loga a que os antigos mar\u00edtimos chamavam: mouiller avec des embossures.<\/p>\n<p>Em tudo isso Gilliatt n\u00e3o foi surpreendido, o caso estava previsto; um homem do oficio reconhece-lo-ia vendo as duas roldanas de guindar metidas por tr\u00e1s da pan\u00e7a, nas quais passavam dois pequenos cabos cujas pontas estavam presas \u00e0s argolas das duas \u00e2ncoras.<\/p>\n<p>Entretanto, crescia a mar\u00e9; j\u00e1 subira a metade; \u00e9 nesse momento que os choques das ondas, mesmo pl\u00e1cidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava e passava por cima. Fora era o marulho. Dentro a infiltra\u00e7\u00e3o. Gilliatt imaginou alguma coisa semelhante \u00e0s forcas caudinas do mar. A mar\u00e9 estava vencida<\/p>\n<p><b>MAIS PERIP\u00c9CIA QUE DESENLACE<\/b><\/p>\n<p>Chegara o tremendo instante.<\/p>\n<p>Tratava-se agora de por a m\u00e1quina na pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do bra\u00e7o esquerdo na m\u00e3o direita, e a fronte na m\u00e3o esquerda. Depois subiu \u00e0 Durande, cuja metade, que era a m\u00e1quina, devia sair e cujo casco devia ficar.<\/p>\n<p>Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda, bastou-lhe a faca.<\/p>\n<p>As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.<\/p>\n<p>Do navio subiu ele ao aparelho que constru\u00edra, bateu com o p\u00e9 em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as pol\u00e9s, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame n\u00e3o estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das pe\u00e7as sobre o tombadilho, tomou posi\u00e7\u00e3o, ao p\u00e9 do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.<\/p>\n<p>Grave, sentindo somente a como\u00e7\u00e3o \u00fatil, lan\u00e7ou um \u00faltimo olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e p\u00f4s-se a cortar a corrente que sustentava tudo.<\/p>\n<p>Ouvia-se o ranger da lima no meio do murm\u00fario do mar.<\/p>\n<p>A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da m\u00e3o de Gilliatt.<\/p>\n<p>De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, j\u00e1 limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.<\/p>\n<p>A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da m\u00e1quina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.<\/p>\n<p>Se Gilliatt n\u00e3o tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua m\u00e3o terr\u00edvel estava l\u00e1; foi apenas uma descida.<\/p>\n<p>Quando o irm\u00e3o de Jean Bart, Pierre Bart, aquele b\u00eabado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida na ba\u00eda de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos cachopos da ba\u00eda furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha aud\u00e1cia coroada pela mesma vit\u00f3ria surpreendente. A corda motora, segura por Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por fim diminuir as for\u00e7as convertidas em uma s\u00f3 e reduzidas a um movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma rela\u00e7\u00e3o com uma bolina; somente em vez de orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.<\/p>\n<p>Gilliatt, de p\u00e9 e com a m\u00e3o no cabrestante, tinha por assim dizer a m\u00e3o no pulso do aparelho. Aqui a inven\u00e7\u00e3o de Gilliatt manifestou-se toda. Produziu-se uma not\u00e1vel coincid\u00eancia de for\u00e7as. Enquanto a m\u00e1quina da Durande separada em massa, descia para a pan\u00e7a, a pan\u00e7a subia para a m\u00e1quina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se.<\/p>\n<p>Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.<\/p>\n<p>A mar\u00e9, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarca\u00e7\u00e3o e aproximava-a da Durande. A mar\u00e9 estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do maquinismo.<\/p>\n<p>A vaga subindo, levantava a pan\u00e7a sem choque, brandamente, quase com precau\u00e7\u00e3o e como se ela fosse de porcelana.<\/p>\n<p>Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da \u00e1gua e do aparelho, e, im\u00f3vel, no cabrestante, esp\u00e9cie de est\u00e1tua tem\u00ed- vel, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentid\u00e3o da descida pela lentid\u00e3o da subida.<\/p>\n<p>Nenhum abalo na \u00e1gua, nenhum balan\u00e7o nas pranchas. Era uma estranha colabora\u00e7\u00e3o de todas as for\u00e7as naturais dominadas. De um lado a gravita\u00e7\u00e3o levava a m\u00e1quina; do outro a mar\u00e9 trazia o barco. A atra\u00e7\u00e3o dos astros, que \u00e9 o fluxo, e a atra\u00e7\u00e3o do globo, que \u00e9 a gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordina\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha hesita\u00e7\u00e3o nem parada, e, debaixo da press\u00e3o de uma alma, aquelas duas pot\u00eancias passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pan\u00e7a e a Durande diminu\u00eda insensivelmente. Fazia-se a aproxima\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio e com uma esp\u00e9cie de terror pelo homem que estava ali. O elemento recebia uma ordem e executava-a.<\/p>\n<p>Quase no momento em que a mar\u00e9 cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem como\u00e7\u00e3o; as roldanas pararam. A m\u00e1quina, como se fosse colocada a m\u00e3o, assentou-se no fundo da pan\u00e7a. Estava direita, de p\u00e9, im\u00f3vel, s\u00f3lida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro \u00e2ngulos e a prumo no por\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava pronto.<\/p>\n<p>Gilliatt olhou at\u00f4nito.<\/p>\n<p>A pobre criatura n\u00e3o tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que n\u00e3o se perturbara at\u00e9 ent\u00e3o, come\u00e7ou a tremer.<\/p>\n<p>Contemplou a pan\u00e7a debaixo do navio e a m\u00e1quina dentro da pan\u00e7a. Parecia n\u00e3o acreditar. Dissera-se que ele n\u00e3o contava com aquilo. Sa\u00edra-lhe um prod\u00edgio das m\u00e3os, e ele contemplava-o com espanto.<\/p>\n<p>Mas esse espanto durou pouco.<\/p>\n<p>Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pan\u00e7a apenas uns 10 p\u00e9s, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antem\u00e3o e prendeu-se por ambos os lados da pan\u00e7a as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na armirada da Durande.<\/p>\n<p>Amarrada ao cano, Gilliatt desembara\u00e7ou a parte superior da m\u00e1quina. Um peda\u00e7o do tombadilho da Durande ainda ali estava preso.<\/p>\n<p>Gilliatt despregou-o e limpou a pan\u00e7a daquela por\u00e7\u00e3o de t\u00e1buas e vergas que atirou sobre os rochedos. \u00fatil al\u00edvio.<\/p>\n<p>Demais, como \u00e9 de prever, a pan\u00e7a sustentou com firmeza a carga da m\u00e1quina. Mergulhou muito pouca coisa. A m\u00e1quina da Durande, embora maci\u00e7a, era menos pesada que o mont\u00e3o de pedras e o canh\u00e3o trazido outrora de Herin pela pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Tudo estava acabado. S\u00f3 restava ir-se embora.<\/p>\n<p><b>INTERROMPE-SE O \u00caXITO<\/b><\/p>\n<p>Nem tudo estava acabado.<\/p>\n<p>Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo peda\u00e7o da armirada da Durande, e levar imediatamente a pan\u00e7a para fora do .<\/p>\n<p>escolho, nada mais claro do que isto.<\/p>\n<p>No mar todos os minutos s\u00e3o urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. O mar era de rosas, mas o refluxo come\u00e7ava; excelente momento para partir.<\/p>\n<p>Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.<\/p>\n<p>Mas apresentou-se um obst\u00e1culo inesperado. Houve uma lacuna na previd\u00eancia de Gilliatt.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina estava livre, o cano estava preso.<\/p>\n<p>A mar\u00e9, aproximando a pan\u00e7a da Durande, tinha diminu\u00eddo os perigos da descida; mas essa diminui\u00e7\u00e3o do intervalo deixou a parte superior do cano metida na esp\u00e9cie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o prestado pelo mar complicava-se com esta dissimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda ten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfaze-lo a vazante.<\/p>\n<p>O cano, tendo mais de 3 toesas, de altura, tinha uns 8 p\u00e9s metidos na Durande; o n\u00edvel da \u00e1gua a\u00ed baixaria 12 p\u00e9s; o cano, descendo com a pan\u00e7a, teria 4 p\u00e9s de espa\u00e7o acima de si, e poderia sair.<\/p>\n<p>Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.<\/p>\n<p>Da\u00ed a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sair \u00e0quela hora, que canal tomaria atrav\u00e9s daqueles cachopos, j\u00e1 t\u00e3o inextric\u00e1veis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras? Era for\u00e7a esperar at\u00e9 o dia seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.<\/p>\n<p>Era mesmo necess\u00e1rio n\u00e3o adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso at\u00e9 a mar\u00e9 pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Gilliatt devia repousar.<\/p>\n<p>Cruzar os bra\u00e7os era a \u00fanica coisa que ele n\u00e3o tinha feito desde que estava no escolho Douvres.<\/p>\n<p>Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele descanso.<\/p>\n<p>Disse consigo: Que pensaria de mim D\u00e9ruchette se me visse aqui sem fazer nada? Contudo, n\u00e3o lhe era in\u00fatil refazer as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Estando a pan\u00e7a \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.<\/p>\n<p>Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou tr\u00eas castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os \u00faltimos goles da \u00e1gua doce do pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja l\u00e3 deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um c\u00e3o de guarda ao p\u00e9 da m\u00e1quina, abaixou o chap\u00e9u sobre os olhos e adormeceu.<\/p>\n<p>Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras acabadas.<\/p>\n<p><b>AS ADVERT\u00caNCIAS DO MAR<\/b><\/p>\n<p>No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.<\/p>\n<p>Abriu os olhos.<\/p>\n<p>As Douvres, acima da cabe\u00e7a dele, estavam iluminadas como pela reverbera\u00e7\u00e3o de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.<\/p>\n<p>Donde vinha o fogo? Da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O mar estava extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Parecia que a \u00e1gua incendiava-se. Onde os olhos alcan\u00e7avam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. N\u00e3o era uma flama vermelha; n\u00e3o se parecia com a grande flama viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepita\u00e7\u00e3o, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ru\u00eddo. Rastilhos azulados imitavam na \u00e1gua as dobras de uma mortalha. Um grande clar\u00e3o l\u00edvido estremecia na \u00e1gua. N\u00e3o era inc\u00eandio; era o espectro dele.<\/p>\n<p>Era uma coisa semelhante ao abrasamento l\u00edvido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.<\/p>\n<p>Imaginai trevas acesas.<\/p>\n<p>A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um combust\u00edvel daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.<\/p>\n<p>Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescrit\u00edveis fosforesc\u00eancia, que advertem o navegante. Em parte alguma s\u00e3o mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.<\/p>\n<p>Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetra\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica torna-as como que transparentes. Os rochedos s\u00e3o apenas lineamentos. Os cabos das \u00e2ncoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da \u00e1gua. Metade do remo \u00e9 de \u00e9bano, a outra metade debaixo da \u00e1gua \u00e9 de prata. Os pingos da \u00e1gua que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa.<\/p>\n<p>Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a m\u00e3o no mar e sai cal\u00e7ada de chama: \u00e9 uma chama morta, n\u00e3o se sente. O bra\u00e7o parece um ti\u00e7\u00e3o aceso. V\u00eaemse as formas que est\u00e3o no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas.<\/p>\n<p>A espuma cintila. Os peixes s\u00e3o l\u00ednguas de fogo e uns peda- \u00e7os de rel\u00e2mpago serpenteiam naquela p\u00e1lida profundidade.<\/p>\n<p>Gilliatt acordou porque o clar\u00e3o atravessou-lhe as p\u00e1lpebras fechadas.<\/p>\n<p>Acordou a tempo.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 tinha descido; come\u00e7ava a encher de novo.<\/p>\n<p>O cano da m\u00e1quina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.<\/p>\n<p>Subia lentamente.<\/p>\n<p>Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.<\/p>\n<p>Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasi\u00e3o, tinha essa meia hora diante de si.<\/p>\n<p>Levantou-se sobressaltado.<\/p>\n<p>Por mais urgente que fosse a situa\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o pode deixar de ficar alguns instantes de p\u00e9, contemplando a fosforesc\u00eancia e meditando.<\/p>\n<p>Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era j\u00e1 de muito tempo companheiro de Gilliatt.<\/p>\n<p>Aquele ente misterioso que se chama oceano n\u00e3o podia ter nenhuma id\u00e9ia que Gilliatt n\u00e3o a adivinhasse. Gilliatt, \u00e0 for\u00e7a de observa\u00e7\u00e3o, de cisma e de solid\u00e3o, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se chama, em ingl\u00eas, um wheater wise.<\/p>\n<p>Gilliatt correu \u00e0s amarras e guindou-as; depois, j\u00e1 n\u00e3o estando retido pelas \u00e2ncoras, travou do croque da pan\u00e7a e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas bra\u00e7as distante da Durande perto do tapamento de t\u00e1buas. Havia rang, como dizem os mar\u00edtimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pan\u00e7a estava fora do casco. J\u00e1 n\u00e3o havia receio de que o cano pudesse ficar preso.<\/p>\n<p>Entretanto, Gilliatt n\u00e3o se mostrava disposto a partir.<\/p>\n<p>Contemplou ainda a fosforesc\u00eancia e levantou as \u00e2ncoras; mas n\u00e3o era para navegar, era para ancorar de novo a pan\u00e7a, e muito solidamente; \u00e9 verdade que o barco ficou junto da porta.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 tinha usado das duas \u00e2ncoras da pan\u00e7a, e n\u00e3o tinha ainda empregado a pequena \u00e2ncora da Durande, achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as urg\u00eancias, num canto da pan\u00e7a entre marramos e pol\u00e9s, e juntamente o cabo guarnecido de bo\u00e7as. Gilliatt deitou ao mar essa terceira \u00e2ncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da \u00e2ncora, ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pan\u00e7a com tr\u00eas \u00e2ncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupa\u00e7\u00e3o e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa opera- \u00e7\u00e3o, alguma coisa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando h\u00e1 a requeira uma corrente que possa fazer garrar o navio.<\/p>\n<p>A fosforesc\u00eancia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos amea\u00e7ava-o talvez, mas ao mesmo tempo, servia-o. Se n\u00e3o fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e v\u00edtima da morte. Ela n\u00e3o s\u00f3 o despertou, sen\u00e3o que o alumiava tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clar\u00e3o, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe \u00fatil porque tornou-lhe o perigo vis\u00edvel e a manobra poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pan\u00e7a, carregando a m\u00e1quina, estava livre.<\/p>\n<p>Somente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pan\u00e7a, foi ele buscar a mais forte corrente que tinha no dep\u00f3sito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes j\u00e1 protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.<\/p>\n<p>A fosforesc\u00eancia ainda iluminava, mas ia diminuindo. \u00c9 verdade que o dia come\u00e7ava a romper.<\/p>\n<p>De repente, Gilliatt prestou ouvidos.<\/p>\n<p><b>PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA<\/b><\/p>\n<p>Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um que de fraco e indistinto.<\/p>\n<p>As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.<\/p>\n<p>Gilliatt atentou pela segunda vez. O rumor long\u00ednquo recome\u00e7ou.<\/p>\n<p>Gilliatt sacudiu a cabe\u00e7a como quem sabia o que era.<\/p>\n<p>Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre at\u00e9 ali, e com grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura vizinha do rochedo Homem.<\/p>\n<p>Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pode meter a\u00ed mais pregos ainda que no esvazamento das Douvres.<\/p>\n<p>Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a fosforesc\u00eancia apagou-se; o crep\u00fasculo, cada vez mais luminoso, substitu\u00eda-a.<\/p>\n<p>Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrair um momento, come\u00e7ou a construir na abertura do Homem, com t\u00e1buas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de clarab\u00f3ia, que a ci\u00eancia j\u00e1 adotou, e qualifica de quebra-mar.<\/p>\n<p>Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-deau na Fran\u00e7a, o efeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, compreendem a for\u00e7a desses trabalhos s\u00edmplices.<\/p>\n<p>O quebra-mar \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o daquilo que na Fran\u00e7a se chama \u00e9pico e daquilo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar s\u00e3o os cavalos de frisa das fortifica\u00e7\u00f5es contra as tempestades. N\u00e3o se pode lutar contra o mar sen\u00e3o aproveitando a divisibilidade dessa for\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.<\/p>\n<p>Gilliatt apressava o trabalho. Tamb\u00e9m ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.<\/p>\n<p>Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao dep\u00f3sito e do dep\u00f3sito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se ent\u00e3o a necessidade daquele dep\u00f3sito de destro\u00e7os. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.<\/p>\n<p>Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.<\/p>\n<p>O trabalho executava-se t\u00e3o depressa que mais parecia um crescimento que uma constru\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o viu trabalhar um portageiro militar n\u00e3o pode fazer id\u00e9ia daquela rapidez.<\/p>\n<p>A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 p\u00e9s de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espa\u00e7o que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais s\u00f3lida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas horizontais; as pe\u00e7as verticais eram in\u00fateis.<\/p>\n<p>Postos os primeiros travess\u00f5es do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.<\/p>\n<p>O rugido tornava-se expressivo.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou a constru\u00e7\u00e3o. Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados \u00e0s pontas das vigas com dri\u00e7as passadas nas tr\u00eas rodas das pol\u00e9s. Ligou tudo com correntes.<\/p>\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o era nada menos que uma esp\u00e9cie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.<\/p>\n<p>Parecia entran\u00e7ado como parecia constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Gilliatt multiplicou os la\u00e7os e p\u00f3s mais pregos on preciso.<\/p>\n<p>Tendo muito ferro redondo na Durande, pode faze grande provis\u00e3o desses pregos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando. Tinha sede, mas n\u00e3o podia beber, por j\u00e1 n\u00e3o ter \u00e1gua Esgotara o pichel na noite anterior.<\/p>\n<p>Acrescentou ainda quatro ou cinco t\u00e1buas, depois em cima de tudo. Escutou.<\/p>\n<p>Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.<\/p>\n<p>O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando est\u00e3o contentes com ele &#8211; um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul profundo do c\u00e9u correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela esmeralda podiam admirar-se ambas. N\u00e3o tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de abril. Era imposs\u00edvel ver mais belo dia.<\/p>\n<p>No extremo horizonte uma fila negra de aves que atravessavam o c\u00e9u. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.<\/p>\n<p>Levantou-o o mais alto que p\u00f4de, t\u00e3o alto como lhe permitiu a curvatura dos rochedos.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que estar. Meio-dia \u00e9 a hora cr\u00edtica do dia. Gilliatt, de p\u00e9 na robusta clarab\u00f3ia que acabava de construir, entrou a contemplar a extens\u00e3o.<\/p>\n<p>O mar estava mais que tranq\u00fcilo, estava estagnado. N\u00e3o se via uma vela. O c\u00e9u estava l\u00edmpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma manchazinha de apar\u00eancia ruim. Essa mancha estava im\u00f3vel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.<\/p>\n<p>Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.<\/p>\n<p>Aproximava-se uma tempestade.<\/p>\n<p>O abismo resolvera dar batalha<\/p>\n<h2>Livro Terceiro:A Luta<\/h2>\n<p><b>O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTR\u00c1RIO ANUNCIA O CONTR\u00c1RIO<\/b><\/p>\n<p>Nada t\u00e3o amea\u00e7ador como o equin\u00f3cio que retarda.<\/p>\n<p>H\u00e1 no mar um fen\u00f4meno medonho que se pode chamar a chegada dos ventos do largo.<\/p>\n<p>Em todas as esta\u00e7\u00f5es, especialmente na \u00e9poca das siz\u00edgias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma s\u00fabita e estranha tranq\u00fcilidade. Aplaca-se aquele prodigioso movimento cont\u00ednuo; cai em madorna e languidez; parece que vai descansar; crer-se-ia que est\u00e1 fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as fl\u00e2mulas de pesca, at\u00e9 \u00e0s ins\u00edgnias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilh\u00f5es almirantes, reais, imperiais, dormem todos.<\/p>\n<p>De repente esses panos come\u00e7am a mexer-se discretamente.<\/p>\n<p>\u00c9 a hora, se h\u00e1 nuvens, de espreitar a forma\u00e7\u00e3o dos cirros; se o sol se p\u00f5e, \u00e9 a hora de examinar a cor da tarde; se \u00e9 de noite e h\u00e1 luar, \u00e9 a hora de estudar as aur\u00e9olas planet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nessa hora, o capit\u00e3o ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade, cujo inventor n\u00e3o se conhece, observa o vidro com o microsc\u00f3pio e toma as suas precau\u00e7\u00f5es contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de a\u00e7\u00facar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em cristaliza\u00e7\u00f5es semelhantes aos tufos de ervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos dem\u00f4nios, numa dessas estreitas pedras enigm\u00e1ticas que na Bretanha se chamam menires, e na Irlanda cruachs, o pobre pescador irlandes ou bret\u00e3o retira a sua barca do mar.<\/p>\n<p>Persiste entretanto a serenidade do c\u00e9u e do oceano. A manh\u00e3 rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de que se pudesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicerefaisum audeat? A sombria vis\u00e3o do poss\u00edvel latente \u00e9 interceptada ao homem pela opacidade fatal das coisas. O mais tem\u00edvel e o mais p\u00e9rfido aspecto \u00e9 a m\u00e1scara do abismo.<\/p>\n<p>Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.<\/p>\n<p>Assim se passam horas e, \u00e0s vezes, dias. Os pilotos assestam os seus \u00f3culos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende \u00e0 c\u00f3lera secreta da expecta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De s\u00fabito ouve-se um grande murm\u00fario confuso. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo misterioso no ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se v\u00ea coisa alguma.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o fica impass\u00edvel.<\/p>\n<p>Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Acentua-se o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>H\u00e1 algu\u00e9m por tr\u00e1s do horizonte.<\/p>\n<p>Pessoa terr\u00edvel essa, \u00e9 o vento.<\/p>\n<p>O vento, isto \u00e9, a popula\u00e7\u00e3o de tit\u00e3s que chamamos Tuf\u00f5es.<\/p>\n<p>Imensa plebe da sombra.<\/p>\n<p>A \u00edndia chamava-os Morouts, a Jud\u00e9ia Querubins, a Gr\u00e9cia Aquil\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00e3o os invis\u00edveis p\u00e1ssaros ferozes do infinito. Esses B\u00f3reas precipitam-se.<\/p>\n<p><b>OS VENTOS DO LARGO<\/b><\/p>\n<p>Donde vem eles? Do incomensur\u00e1vel. Os seus grandes v\u00f4os exigem o di\u00e2metro do golf\u00e3o. As suas asas desmedidas precisam das solid\u00f5es indefinidas. O Atl\u00e2ntico, o Pac\u00edfico, essas vastas aberturas azuis, eis o que lhes conv\u00e9m. Fazem-nas sombrias. Voam em bandos. O Comandante Page viu de uma vez, no mar alto, sete trombas a um tempo. A\u00ed s\u00e3o medonhas. Premeditam os desastres.<\/p>\n<p>tem por trabalho deles, inturmescimento ef\u00eamero e eterno dos vagalh\u00f5es. Ignora-se que eles podem, desconhece-se o que eles querem. S\u00e3o a esfinges do abismo; e Vasco da Gama \u00e9 o seu \u00c9dipo. Faces de nuvens aparecem nessa obscuridade da extens\u00e3o sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos l\u00edvidos nessa dispers\u00e3o que \u00e9 o horizonte do mar sente-se em presen\u00e7a da for\u00e7a irredut\u00edvel. Dissera-se que a intelig\u00eancia honraria os assusta, e eri\u00e7am-se contra ela. A intelig\u00eancia \u00e9 invenc\u00edvel, mas o elemento \u00e9 indom\u00e1vel. Que fazer contra a ubiq\u00fcidade que se n\u00e3o sujeita! O vento faz-se massa e torna &#8211; se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com eles s\u00f3 pode lan\u00e7ar m\u00e3o de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. S\u00e3o os impalp\u00e1veis tenazes.<\/p>\n<p>Como vence-los? A proa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e piloto, costumava falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, vendo-os vir de encontro \u00e0 Pinta, subiu ao tombadilho e dirigiu-lhes os primeiros vers\u00edculos do Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o. Surcouf insultava-os. A\u00ed vem a pandilha, dizia ele. Napier descarregavalhes tiros em cima. Eles tem a ditadura do caos.<\/p>\n<p>Tem o caos. Que fazem dele? Fazem uma coisa implac\u00e1vel. A cova dos ventos \u00e9 mais monstruosa que a cova dos le\u00f5es. Quantos cad\u00e1veres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas eles n\u00e3o ouvem a ningu\u00e9m. Cometem coisas que parecem crimes. N\u00e3o se sabe sobre quem atiram eles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade \u00edmpia no naufr\u00e1gio! Que afronta \u00e0 Provid\u00eancia! \u00c0s vezes parecem que cospem em Deus. S\u00e3o os tiranos dos lugares desconhecidos. Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de Veneza.<\/p>\n<p>Os espa\u00e7os tr\u00eamulos suportam os seus ataques. \u00c9 inexprim\u00edvel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se \u00e0 sombra um elemento eq\u00fcestre. O ar faz um rumor de floresta. N\u00e3o se v\u00ea nada, mas ouve-se um ru\u00eddo de cavalos. \u00c9 meio-dia, de s\u00fabito anoitece; passa um tornado; \u00e9 meia-noite, de repente esclarece, acende-se o efl\u00favio polar. Alternam em sentido inverso os turbilh\u00f5es, esp\u00e9cie de dan\u00e7a hedionda, trip\u00fadio dos flagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os peda\u00e7os v\u00e3o precipitar-se no mar. Outras nuvens, purpureadas, iluminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem, esvaziada de raio, \u00e9 carv\u00e3o apagado. Sacos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As nuvens do mar debaixo do aguaceiro iluminam surpreendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhan\u00e7as. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam embriagadas as n\u00edtiades; a perder de vista, o mar maci\u00e7o e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo \u00e9 l\u00edvido; desesperados gritos sobem desse palor.<\/p>\n<p>No fundo da obscuridade inacess\u00edvel tremem grandes germes de sombra. De quando em quando h\u00e1 paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horizonte, superposi\u00e7\u00e3o confusa de vagas, oscila\u00e7\u00e3o sem fim, murmura continuamente; ali arrebentam estranhamente uns arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras espirrando; sopram h\u00e1litos frios, seguem-se h\u00e1litos quentes. A trepida\u00e7\u00e3o do mar anuncia um medo que tudo espera. Inquieta\u00e7\u00e3o. Ang\u00fastia. Terror profundo das \u00e1guas. Subitamente, o furac\u00e3o, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a \u00e1gua sobe para a boca invis\u00edvel, forma-se uma ventosa, incha o tumor; \u00e9 a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima, estalagmite embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a coluna da B\u00edblia, \u00e9 tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trov\u00e3o. Parece que tem medo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma escala, na vasta turva\u00e7\u00e3o das solid\u00f5es; tem\u00edvel crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do vento, as sete notas do abismo. O c\u00e9u \u00e9 uma largura, o mar \u00e9 um arredondado; passa um vento, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada disso, tudo \u00e9 f\u00faria e confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o aqueles severos s\u00edtios.<\/p>\n<p>Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: fren\u00e9ticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irasc\u00edvel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o c\u00e9u. Sopram nas nuvens corno num metal; embocarra o espa\u00e7o, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma esp\u00e9cie de tangeres prometemos.<\/p>\n<p>Quem os ouve, ouve P\u00e1. O que mais assusta \u00e9 v\u00ea-los assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solid\u00f5es a batida dos navios. Sem tr\u00e9guas, noite e dia, em todas as esta\u00e7\u00f5es, no tr\u00f3pico, corno no p\u00f3lo, tocando a trombeta delirante, v\u00e3o eles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande ca\u00e7a negra dos naufr\u00e1gios. S\u00e3o os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que s\u00e3o os seus c\u00e3es, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens.<\/p>\n<p>Amassam, como se tivessem milh\u00f5es de m\u00e3os, a flexibilidade da \u00e1gua imensa. A \u00e1gua do esfor\u00e7o. Apertada por um lado, escapa por outro. \u00c9 assim que a \u00e1gua se faz onda. A vaga \u00e9 a sua liberdade.<\/p>\n<p><b>EXPLICA\u00c7\u00c3O DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT<\/b><\/p>\n<p>A grande aproxima\u00e7\u00e3o dos ventos para a terra faz-se nos equin\u00f3cios. Nessas \u00e9pocas o grande balan\u00e7o do tr\u00f3pico e do p\u00f3lo e a colossal mar\u00e9 atmosf\u00e9rica derramam o seu fluxo em um hemisf\u00e9rio, e o refluxo em outro. H\u00e1 constela\u00e7\u00f5es que significam esses fen\u00f4menos. Libra e Aqu\u00e1rio. \u00c9 a hora das tempestades O mar espera silencioso.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o c\u00e9u tem feio aspecto. Fica ba\u00e7o, e como que coberto por um grande pano obscuro; os marinheiros contemplam ansiosos o ar oprimido de sombra.<\/p>\n<p>Mas o que eles temem \u00e9 o ar alegre. C\u00e9u risonho no equin\u00f3cio \u00e9 a tempestade com p\u00e9s de l\u00e3. Com c\u00e9us desses, a Torre das Carpideiras de Amsterd\u00e3o enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.<\/p>\n<p>Quando se demora a tempestade invernal ou outonal \u00e9 que est\u00e1 ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para destruir. Desconfia da acumula\u00e7\u00e3o de juros. Ango dizia: O mar \u00e9 bom pagador.<\/p>\n<p>Quando a demora \u00e9 demasiado longa, o mar trai a sua impaci\u00eancia pela calma. Somente a tens\u00e3o magn\u00e9tica se manifesta naquilo que se pode chamar a inflama\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. Rompem clar\u00f5es da vaga.<\/p>\n<p>Ar el\u00e9trico, \u00e1gua fosf\u00f3rica. Os marinheiros sentem-se estafados. \u00c9 uma hora especialmente perigosa para os encoura\u00e7ados; o casco de ferro pode produzir falsas indica\u00e7\u00f5es da b\u00fassola e perd\u00ea-los.<\/p>\n<p>Assim pereceu o paquete transatl\u00e2ntico Yowa.<\/p>\n<p>Para os que est\u00e3o familiarizados com o mar, o seu aspecto nesses momentos \u00e9 estranho; dissera-se que o mar deseja e receia o ciclone. Certos himeneus, ali\u00e1s impostos pela natureza, s\u00e3o acolhidos assim. A leoa desejosa foge diante do le\u00e3o. Tamb\u00e9m a \u00e1gua tem o seu calor, e da\u00ed lhe vem o estremecimento.<\/p>\n<p>Vai realizar-se o imenso cons\u00f3rcio.<\/p>\n<p>Este cons\u00f3rcio, como as n\u00fapcias dos antigos imperadores, celebra-se com extermina\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma festa temperada de desastres.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o, a\u00ed vem o fato equinocial.<\/p>\n<p>Conspira a tempestade. A velha mitologia entrevia essas personalidades indistintas misturadas \u00e0 grande natureza difusa. Eolo harmoniza-se com B\u00f3reas. O acordo do elemento com o elemento \u00e9 necess\u00e1rio. Distribuem entre si a tarefa. H\u00e1 impuls\u00f5es para a vaga, para a nuvem, para o efl\u00favio; a noite \u00e9 um auxiliar; deve ser empregada. H\u00e1 b\u00fassolas para desviar, far\u00f3is para apagar, estrelas para esconder. \u00c9 preciso que o mar coopere. Todas as tempestades s\u00e3o precedidas de um murm\u00fario. Por tr\u00e1s do horizonte h\u00e1 o cochicho pr\u00e9vio dos furac\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do sil\u00eancio assustado do mar.<\/p>\n<p>Gilliatt ouviu esse cochichar tremendo. A fosforesc\u00eancia foi a primeira advert\u00eancia; o rumor foi a segunda.<\/p>\n<p>Se existe o dem\u00f4nio Legi\u00e3o, esse dem\u00f4nio \u00e9 o Vento, com certeza.<\/p>\n<p>O vento \u00e9 m\u00faltiplo, mas o mar \u00e9 um.<\/p>\n<p>Da\u00ed esta conseq\u00fc\u00eancia: toda tempestade \u00e9 mista. A unida de ar o exige.<\/p>\n<p>Abismo implica tempestade. O oceano inteiro borrasca. A totalidade das suas for\u00e7as entra em linha e torna parte nela. Uma vaga \u00e9 o golf\u00e3o de baixo; um tuf\u00e3o \u00e9 o golf\u00e3o de cima. Lutar com urna tempestade \u00e9 lutar com o mar inteiro e o c\u00e9u inteiro.<\/p>\n<p>Mess\u00eder, o homem da marinha, o astr\u00f4nomo pensativo da cho\u00e7a de Cluny, dizia: O vento de toda a parte est\u00e1 em todas as partes.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados.<\/p>\n<p>Para ele n\u00e3o havia ventos mediterr\u00e2neos. Dizia que os conhecia na passagem. Que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constan\u00e7a, o antigo Favonio de Lucr\u00e9cio, atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adri\u00e1tico; em outro era o Noto girat\u00f3rio que se pretende estar encerrado nas C\u00edcladas. Especificava os efl\u00favios. N\u00e3o pensava que o vento que gira entre Malta e T\u00fanis e o vento que gira entre a C\u00f3rsega e as Baleares estivessem na impossibilidade de se libertarem. N\u00e3o admitia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: Todas as chuvas vem do tr\u00f3pico, e todos os raios do p\u00f3lo. O vento, com efeito, satura-se de eletricidade na intercess\u00e3o dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da \u00e1gua no equador; traz-nos da linha o l\u00edquido e dos p\u00f3los o fluido.<\/p>\n<p>Ubiq\u00fcidade \u00e9 o vento.<\/p>\n<p>N\u00e3o quer isto dizer que n\u00e3o existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes cont\u00ednuas, e dia vir\u00e1 em que a navega\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aer\u00f3scafos, utilizar\u00e1 as linhas principais. A canaliza\u00e7\u00e3o do ar pelo vento \u00e9 incontest\u00e1vel: h\u00e1 rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; somente ao inv\u00e9s das ramifica\u00e7\u00f5es da \u00e1gua, s\u00e3o os riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos rios, em vez de serem afluentes: em vez de concentra\u00e7\u00e3o, dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa disposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosfera. Uma mol\u00e9cula deslocada desloca outra mol\u00e9cula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do am\u00e1lgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosfera com todas as suas montanhas, fazendo n\u00f3s e tor\u00e7\u00f5es nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contracorrentes. Irradia\u00e7\u00e3o ilimitada.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno do vento \u00e9 a oscila\u00e7\u00e3o de dois oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de \u00e1gua, apoia-se nessa fuga e vacila nessa vacila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O indivis\u00edvel n\u00e3o usa compartimentos. N\u00e3o h\u00e1 tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurr\u00e3o do cabo da Boa Esperan\u00e7a. A navega\u00e7\u00e3o universal faz frente a um monstro \u00fanico. Todo o mar \u00e9 uma s\u00f3 hidra. As vagas cobrem o mar de uma esp\u00e9cie de escama. Oceano \u00e9 Ceto.<\/p>\n<p>Nessa unidade abate-se o inumer\u00e1vel.<\/p>\n<p><b>TURBA, TURMA<\/b><\/p>\n<p>Para a b\u00fassola h\u00e1 32 ventos, isto \u00e9, 32 dire\u00e7\u00f5es; mas essas dire\u00e7\u00f5es podem subdividir-se indefinidamente. O vento, classificado por dire\u00e7\u00f5es, \u00e9 o incalcul\u00e1vel; classificado por. esp\u00e9cie, \u00e9 o infinito.<\/p>\n<p>Homero recuaria ante esse recenseamento.<\/p>\n<p>A corrente polar ro\u00e7a na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equil\u00edbrio come\u00e7a pelo choque, sai a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispers\u00e3o dos tuf\u00f5es sacode nos quatro cantos do horizonte o prodigioso esgadelhado do ar.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e3o todos os rumos; o vento da Gulf Stream, que despeja tanta n\u00e9voa na Terra Nova; o vento do Peru, regi\u00e3o de c\u00e9u mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Esc\u00f3cia, onde voa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilh\u00f5es de Ferro dos mares da China; o vento de Mo\u00e7ambique que maltrata os juncos; o vento el\u00e9trico do Jap\u00e3o denunciado pelo gongo; o vento da \u00c1frica que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia da\u00ed; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e tra\u00e7a uma par\u00e1bola cujo cimo fica a oeste; o vento plut\u00f4nico que sai das crateras e que \u00e9 o tem\u00edvel sopro das chamas; o estranho vento pr\u00f3prio do vulc\u00e3o Awu que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a mon\u00e7\u00e3o de Java, contra a qual est\u00e3o constru\u00eddas aquelas casamatas chamadas casas do furac\u00e3o; a brisa ramificada que os ingleses chamam busk, bebida; os gr\u00e3os arqueados do estreito de Malaca observados por Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no Chile, e Rebojo em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pele de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os p\u00e9s; o vento qu\u00edmico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos cafres; o sopra-nevespolar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golfo de Bengala, que vai at\u00e9 Nijnii-Novogorod devastar o tri\u00e2ngulo das barracas de pau onde se faz a feira da \u00c1sia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos arquip\u00e9lagos da Austr\u00e1lia onde os ca\u00e7adores de mel arrancam as colmeias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto gigante; o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os ventos de inunda\u00e7\u00e3o; os diluviados; os t\u00f3rridos; os que lan\u00e7am nas ruas de G\u00eanova a poeira das plan\u00edcies do Brasil; os que obedecem \u00e0 rota\u00e7\u00e3o diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: Malo viento torna contra el sol, os que v\u00e3o aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aqueles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de outubro a 28 de novembro de 1520, puseram em quest\u00e3o Magalh\u00e3es abordando O Pac\u00edfico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Filipe 11.<\/p>\n<p>Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento, e que tem por tarefa acabar com os n\u00e1ufragos; os que, com um sopro \u00fanico, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que constr\u00f3em os circum-c\u00famulos; os ventos que constr\u00f3em os Circum-estratos; pesados ventos cegos, t\u00famidos de chuva; os ventos do granizo; os ventos da febre; os ventos cuja aproxima\u00e7\u00e3o faz ferver os salsos e os solfat\u00e1rios da Cal\u00e1bria; os ventos que fazem brilhar o pelo das panteras da \u00c1frica andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fora da sua nuvem, como uma l\u00edngua trigonoc\u00e9fala, o tem\u00edvel rel\u00e2mpago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal \u00e9 o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt constru\u00eda o quebra-mar, ouvia-lhes o galope long\u00ednquo.<\/p>\n<p>J\u00e1 o dissemos, o Vento comp\u00f5e-se de todos os ventos.<\/p>\n<p>Acercava-se toda aquela horda.<\/p>\n<p>De um lado, essa legi\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro, Gilliatt.<\/p>\n<p><b>GILLIATT PODE ESCOLHER<\/b><\/p>\n<p>As misteriosas for\u00e7as escolheram bem o momento.<\/p>\n<p>O acaso, se \u00e9 que existe, \u00e9 h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Enquanto a pan\u00e7a esteve guardada na angra do Homem, enquanto a m\u00e1quina esteve metida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugn\u00e1vel. A pan\u00e7a estava em seguran\u00e7a, a m\u00e1quina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a m\u00e1quina, condenavam-na a uma destrui\u00e7\u00e3o lenta, mas protegiam-na contra uma surpresa.<\/p>\n<p>Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A m\u00e1quina destru\u00edda n\u00e3o destru\u00eda a Gilliatt. Tinha a pan\u00e7a para salvar-se.<\/p>\n<p>Mas esperar que a pan\u00e7a estivesse fora do ancoradouro, onde era inacess\u00edvel, deix\u00e1-la por entre as Douvres, esperar que ela l\u00e1 estivesse presa tamb\u00e9m pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da m\u00e1quina, n\u00e3o impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triunfo, esse era o la\u00e7o. Via-se agora, como uma esp\u00e9cie de lineamento sinistro, a sombria ast\u00facia do abismo.<\/p>\n<p>Agora, a m\u00e1quina, a pan\u00e7a, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pan\u00e7a esmigalhada no escolho, a m\u00e1quina metida a pique, Gilliatt, afogado, era neg\u00f3cio de um esfor\u00e7o \u00fanico num s\u00f3 ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispers\u00e3o; tudo podia ser destru\u00eddo de um lance.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 situa\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica do que a de Gilliatt.<\/p>\n<p>A esfinge poss\u00edvel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilema.<\/p>\n<p>Fica ou parte.<\/p>\n<p>Partir era insensato, ficar era medonho<\/p>\n<p>O COMBATE Gilliatt trepou \u00e0 grande Douvre.<\/p>\n<p>Da\u00ed via todo o mar.<\/p>\n<p>Era surpreendente o oeste. Sa\u00eda dele uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extens\u00e3o, subia lentamente do horizonte para o z\u00eanite. Essa muralha retil\u00ednea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasg\u00e3o na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda.<\/p>\n<p>Era a nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na extremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cimalha deixasse um instante de ser paralela \u00e0 linha do horizonte, quase indistinta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma s\u00f3 pe\u00e7a e silenciosamente. Nenhuma ondula\u00e7\u00e3o, nenhuma dobra, nenhuma sali\u00eancia. Era l\u00fagubre aquela imobilidade em movimento. O sol, l\u00edvido por tr\u00e1s de uma certa transpar\u00eancia m\u00f3rbida, alumiava aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia j\u00e1 quase metade do espa\u00e7o. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era um como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Era, em pleno dia, a ascens\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>Havia no ar um calor de fog\u00e3o. Uma lix\u00edvia de estufa sa\u00eda daquele amontoado misterioso. O c\u00e9u, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ard\u00f3sia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ard\u00f3sia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros tinham-se escondido. Sentia-se a trai\u00e7\u00e3o do infinito.<\/p>\n<p>O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.<\/p>\n<p>A montanha movedi\u00e7a de vapores que se dirigia para a Douvres era uma dessas nuvens que se podem chama nuvens de combate.<\/p>\n<p>Nuvens vesgas.<\/p>\n<p>Tem\u00edvel era a aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: Tenho sede, vais dar-me \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ficou alguns momentos im\u00f3vel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.<\/p>\n<p>Tinha o barrete no bolso, tirou-o e po-lo na cabe\u00e7a. Tirou do buraco onde por tanto tempo dormira o fato de reserva, e vestiu tudo, grevas e capot\u00e3o, como um cavalheiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os p\u00e9s descal\u00e7os tinham-se endurecido nos rochedos.<\/p>\n<p>Preparado o vestu\u00e1rio de guerra, contemplou ele o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de n\u00f3s, desceu da plataforma das Douvres, tomou p\u00e9 nas rochas de baixo, e correu ao dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pode ouvir-lhe os sons do martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos pregos, cordas e vigas, constru\u00eda na abertura de leste uma segunda porta de 10 a 12 p\u00e9s por tr\u00e1s da primeira.<\/p>\n<p>Profundo era o sil\u00eancio. Os talos de erva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.<\/p>\n<p>Subitamente, o sol desapareceu. Gilliatt levantou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A nuvem ascendente acabava de atingir o sol. Foi como que uma extin\u00e7\u00e3o da luz substitu\u00edda por uma reverbera\u00e7\u00e3o mesclada e p\u00e1lida.<\/p>\n<p>A muralha de nuvens mudara de aspecto. J\u00e1 n\u00e3o tinha unidade.<\/p>\n<p>Encrespara-se horizontalmente tocando o z\u00eanite, pendendo em todo o resto do c\u00e9u. Tinha agora divis\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o da tempestade desenhava-se como uma se\u00e7\u00e3o dividida. Distinguiam-se as camadas da chuva e os jazigos do granizo. N\u00e3o havia rel\u00e2mpago mas um horr\u00edvel clar\u00e3o espesso; porque a id\u00e9ia do horror pode ligar-se \u00e0 id\u00e9ia da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade.<\/p>\n<p>Aquele sil\u00eancio palpitava obscuramente. Gilliatt, tamb\u00e9m silencioso, via agruparem-se por cima dele todos aqueles mont\u00f5es de bruma e compor-se a deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma faixa de nevoeiro cor de cinza, e no z\u00eanite uma faixa cor de chumbo; l\u00edvidos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros de baixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava ba\u00e7o, leitoso, t\u00e9rreo, l\u00edvido, indescrit\u00edvel. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda n\u00e3o se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compress\u00e3o das nuvens, via-se na obscuridade um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem p\u00e1lida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras, como se n\u00e3o soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, aumentava o eclipse, e continuava a sua interposi\u00e7\u00e3o l\u00fagubre. A leste, por tr\u00e1s de Gilliatt, havia apenas um portal de c\u00e9u claro que ia ser fechado. Sem a menor impress\u00e3o de vento, passou uma estranha difus\u00e3o de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum p\u00e1ssaro gigantesco acabasse de ser depenado por tr\u00e1s daquele muro de tenebras. Formou-se um teto de negrume compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma coisa que se avan\u00e7ava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade tornava-se mais espessa. De s\u00fabito, roncou imenso trov\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt sentiu o abalo. H\u00e1 sonho no trov\u00e3o. Essa realidade brutal na regi\u00e3o vision\u00e1ria tem alguma coisa de terr\u00edfico. Acredita-se ouvir a queda de um m\u00f3vel no aposento dos gigantes.<\/p>\n<p>Nenhum flamejar el\u00e9trico acompanhara o som. Foi um trov\u00e3o negro.<\/p>\n<p>Voltou o sil\u00eancio. Houve uma esp\u00e9cie de intervalo como quando se toma posi\u00e7\u00e3o. Depois um ap\u00f3s outro, e lentamente, romperam-se informes rel\u00e2mpagos. Eram todos mudos. Nem um rugido.<\/p>\n<p>Cada rel\u00e2mpago iluminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nela ab\u00f3badas e arcarias. Viam-se tra\u00e7os. Esbo\u00e7avam-se monstruosas cabe\u00e7as; distendiam-se pesco\u00e7os; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de torres. Uma coluna de bruma, reta, redonda, negra, com uma fuma\u00e7a branca em cima, simulava o cimo de um vapor colossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem.<\/p>\n<p>Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, im\u00f3vel, um caro\u00e7o de nevoeiro denso, inerte, impenetr\u00e1vel \u00e0s fa\u00edscas el\u00e9tricas, esp\u00e9cie de feto hediondo no ventre da tempestade.<\/p>\n<p>Gilliatt sentiu subitamente que um vento lhe agitou os cabelos.<\/p>\n<p>Tr\u00eas ou quatro largas aranhas de chuva despeda\u00e7aram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo trov\u00e3o. Come\u00e7ou o vento.<\/p>\n<p>A espera da sombra chegara ao c\u00famulo; o primeiro trov\u00e3o agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto a baixo, abriu-se uma fenda, toda a b\u00e1tega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o v\u00f4mito da tempestade come\u00e7ou. Tremendo foi o instante.<\/p>\n<p>Aguaceiro, furac\u00e3o, rel\u00e2mpagos, raios, vagas at\u00e9 \u00e0s nuvens, espuma, detona\u00e7\u00f5es, tor\u00e7\u00f5es fren\u00e9ticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.<\/p>\n<p>O vento fulminava. A chuva n\u00e3o ca\u00eda, desabava.<\/p>\n<p>Para um pobre homem, metido, como Gilliatt, com um barco carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar, n\u00e3o h\u00e1 crise mais amea\u00e7adora. O perigo da mar\u00e9 de que Gilliatt triunfara, nada era ao p\u00e9 do perigo da tempestade.<\/p>\n<p>Eis a situa\u00e7\u00e3o: Gilliatt, em volta de quem tudo era precip\u00edcio, descobriu no \u00faltimo momento, e diante do risco supremo, uma estrat\u00e9gia engenhosa. Fez ponto de apoio no pr\u00f3prio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu advers\u00e1rio, era agora o seu padrinho naquele imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro formid\u00e1vel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, agregado ao escolho, face a face com o furac\u00e3o. Por barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a \u00fanica coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que \u00e9 um d\u00e9spota, pode ser tamb\u00e9m vencido pelas barricadas. A pan\u00e7a podia ser considerada segura por tr\u00eas lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a produzir naufr\u00e1gios que a impedi-los. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento j\u00e1 provado que vencera o rude fluxo do alto-mar, verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as pr\u00f3prias colunas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que recear por esse lado. O perigo estava a leste.<\/p>\n<p>A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar \u00e9 um aparelho de pulveriza\u00e7\u00e3o. Precisa ao menos duas lumeeiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Constru\u00eda a segunda mesmo com a tempestade.<\/p>\n<p>Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem desca\u00eddas.<\/p>\n<p>Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha pouco efeito nas Douvres. Assaltava o escolho de trav\u00e9s, e n\u00e3o impelia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua esbarrava-se numa muralha. A tempestade atacava mal.<\/p>\n<p>Mas os ataques do vento s\u00e3o curvos, e devia esperar-se alguma viravolta s\u00fabita. Se essa viravolta se fizesse a leste, antes que a segunda clarab\u00f3ia do quebra-mar estivesse constru\u00edda, o perigo seria grande. A invas\u00e3o da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.<\/p>\n<p>Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade \u00e9 golpe sobre golpe. Essa \u00e9 a sua for\u00e7a, esse \u00e9 o seu defeito. \u00c0 for\u00e7a de ser uma raiva, d\u00e1 lugar \u00e0 intelig\u00eancia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destrui\u00e7\u00e3o! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dila\u00e7\u00e3o, nenhuma interrup\u00e7\u00e3o, nenhuma tr\u00e9gua, nenhum descanso para tomar alento. H\u00e1 um n\u00e3o sei que de covardia nessa prodigalidade do inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Toda a imensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres.<\/p>\n<p>Ouviam-se vozes sem n\u00famero. Quem gritava assim? Estava ali o antigo terror p\u00e2nico. De quando em quando, parecia que era algu\u00e9m que falava, como se fizesse um comando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquele grande e majestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do oceano.<\/p>\n<p>As espirais indefinidas e fugazes do vento assobiavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles torneamentos eram atiradas contra os parc\u00e9is como chapas gigantescas por atletas invis\u00edveis.<\/p>\n<p>A enorme escuma eri\u00e7ava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar id\u00e9ia dos fracassos misturados \u00e0quelas desloca\u00e7\u00f5es do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam im\u00f3veis, em outros o vento fazia 20 toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; 10 l\u00e9guas de \u00e1gua de sab\u00e3o enchiam o horizonte.<\/p>\n<p>Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre mont\u00f5es de nuvens vermelhas, semelhantes \u00e0s brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.<\/p>\n<p>Configura\u00e7\u00f5es flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma \u00e1gua incomensur\u00e1vel, ouviam-se fogos de pelot\u00e3o no firmamento. Havia no meio do teto de sombra uma esp\u00e9cie de vasta alcofa virada, donde ca\u00edam em confus\u00e3o a tromba, a chuva, as nuvens, as cores rubras, os rel\u00e2mpagos, a noite, a luz, os raios, t\u00e3o formid\u00e1veis s\u00e3o essas inclina\u00e7\u00f5es do golf\u00e3o! Gilliatt parecia n\u00e3o atender a nada. Tinha a cabe\u00e7a inclinada no trabalho. A segunda clarab\u00f3ia come\u00e7ava a levantar-se. A cada trov\u00e3o respondia ele com uma martelada. Ouvia-se essa cad\u00eancia naquele caos. Estava com a cabe\u00e7a descoberta. Urna lufada levou-lhe o chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Tinha uma sede ardente. Provavelmente estava com febre.<\/p>\n<p>Lagoinhas de chuva tinham-se formado \u00e0 roda dele nas covas dos rochedos. De quando em quando tirava \u00e1gua com a palma da m\u00e3o e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.<\/p>\n<p>Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se n\u00e3o terminasse a tempo o quebra-mar. Por que motivo perder um minuto para ver aproximar-se a face da morte? A desordem em torno dele era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. \u00c0s vezes o raio parecia descer uma escada. As percuss\u00f5es el\u00e9tricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma m\u00e3o fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. At\u00e9 as algibeiras tinham pedras.<\/p>\n<p>O temporal estava j\u00e1 no oeste, e batia o tapamento das duas Douvre. Mas Gilliatt tinha confian\u00e7a nesse tapamento, e com raz\u00e3o. Esse tapamento, feito do grande peda\u00e7o da proa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade \u00e9 uma resist\u00eancia; os c\u00e1lculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si pr\u00f3pria el\u00e1stica, uma reuni\u00e3o de paus, com a dimens\u00e3o desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obst\u00e1culo que um break water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condi\u00e7\u00f5es; era, al\u00e9m disso, t\u00e3o engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martelo que mete o prego, apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demoli-lo, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguiu atirar \u00e0 pan\u00e7a, por cima do obst\u00e1culo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, gra\u00e7as ao tapamento, a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esfor\u00e7o. Sentia tranq\u00fcilamente atr\u00e1s de si essa raiva in\u00fatil.<\/p>\n<p>Os flocos de espuma, saindo de todos os lados, assemelhavam-se a l\u00e3. A \u00e1gua, vasta e irritada, afogava os rochedos, trepava por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sa\u00eda das massas gran\u00edticas por fendas estreitas, esp\u00e9cies de bocas inesgot\u00e1veis que faziam naquele dil\u00favio pequenas fontes pl\u00e1cidas.<\/p>\n<p>Filetes de \u00e1gua ca\u00edam graciosamente daqueles buracos no mar.<\/p>\n<p>A clarab\u00f3ia de refor\u00e7o do tapamento de leste estava quase conclu\u00edda. Mais umas voltas de cordas e correntes e aproximava-se o momento de tamb\u00e9m lutar esse tapamento.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, fez-se um grande clar\u00e3o, a chuva cessou, as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma esp\u00e9cie de janela grande crepuscular abriu-se no z\u00eanite, e apagaram-se os rel\u00e2mpagos, pareceu que estava acabado. Era o come\u00e7o. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais \u00e1gua, o vento do norte tem mais raios.<\/p>\n<p>Vindo do nordeste, a agress\u00e3o ia dirigir-se ao ponto fraco.<\/p>\n<p>Desta vez Gilliatt parou o trabalho e olhou. Colocou-se de p\u00e9 sobre uma sali\u00eancia de rochedo inclinado por tr\u00e1s da segunda clarab\u00f3ia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda n\u00e3o consolidada, e debaixo dessa demoli\u00e7\u00e3o esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pan\u00e7a e a m\u00e1quina e toda a sua obra abismar-se n\u00f3 golf\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal era a eventualidade. Gilliatt aceitou-a, e, terr\u00edvel, ele a queria.<\/p>\n<p>Nesse naufr\u00e1gio de todas as suas esperan\u00e7as, morrer primeiro convinha-lhe a ele; morrer primeiro, porque a m\u00e1quina fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a m\u00e3o esquerda os cabelos colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo, inclinou-se para tr\u00e1s amea\u00e7ante, e esperou.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou muito.<\/p>\n<p>Um ribombo deu o sinal, fechou-se a abertura p\u00e1lida do z\u00eanite, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se escuro, e n\u00e3o houve outro facho mais que o rel\u00e2mpago. Come\u00e7ava o sombrio ataque.<\/p>\n<p>Possante vagalh\u00e3o, vis\u00edvel entre os rel\u00e2mpagos, levantou-se a leste al\u00e9m do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro.<\/p>\n<p>Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.<\/p>\n<p>Esse vagalh\u00e3o chegou ao rochedo Homem, partiu-se em dois e continuou. Os dois peda\u00e7os juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de \u00e1gua, e, de paralela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a forma de uma viga.<\/p>\n<p>Atirou-se ao quebra-mar aquele ar\u00edete. Rugiu o choque. Tudo desapareceu em espuma.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode imaginar o que s\u00e3o essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 p\u00e9s de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pin\u00e1culo, em Jersey. Em Santa Maria de Madag\u00e1scar, saltam por cima da ponta de Tintingue.<\/p>\n<p>Durante alguns instantes o rolo de mar tapou tudo. S\u00f3 ficou vis\u00edvel um mont\u00e3o furioso, uma escuma imersa, a alvura de um sud\u00e1rio flutuando no vento do sepulcro, uma mistura de ru\u00eddo e de tempestade debaixo da qual trabalhava o exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de p\u00e9.<\/p>\n<p>O tapamento resistira. Nem uma corrente arrebentou, nem um prego saiu. O tapamento mostrou \u00e0 prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flex\u00edvel como um cani\u00e7o e s\u00f3lido como uma parede.<\/p>\n<p>O vagalh\u00e3o dissolveu-se em chuva.<\/p>\n<p>A espuma escorrendo ao longo dos ziguezagues do estreito foi morrer debaixo da pan\u00e7a.<\/p>\n<p>O homem que fizera aquele a\u00e7amo ao oceano n\u00e3o repousou.<\/p>\n<p>A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarni\u00e7amento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tr\u00e9gua. Gilliatt aproveitou-a para completar a clarab\u00f3ia de tr\u00e1s.<\/p>\n<p>O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas viol \u00eancias no flanco do escolho com uma solenidade l\u00fagubre. A urna de \u00e1gua e a urna de fogo que existe nas nuvens esvaziava-se sem esgotar nunca. As ondula\u00e7\u00f5es altas e baixas do vento pareciam movimentos de um drag\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a noite chegou, j\u00e1 havia noite; n\u00e3o se pode reparar nela.<\/p>\n<p>, Mas n\u00e3o era obscuridade completa. As tempestades iluminadas e cegas pelo rel\u00e2mpago tem intermit\u00eancia de vis\u00edvel e invis\u00edvel. Tudo est\u00e1 claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se \u00e0 sa\u00edda das vis\u00f5es e \u00e0 entrada das trevas.<\/p>\n<p>Uma zona de f\u00f3sforo, cor da aurora boreal, flutuava como um farrapo de flama espectral. por tr\u00e1s das espessuras de nuvens.<\/p>\n<p>Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram luminosas.<\/p>\n<p>E esses clar\u00f5es ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Ele voltou-se para o rel\u00e2mpago e disse: Segura-me a vela! Com o aux\u00edlio dessa claridade pode ele levantar a clarab\u00f3ia de tr\u00e1s, ainda mais acima. O quebra-amar estava quase completo.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de refor\u00e7o, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabe \u00e7a. O vento voltara bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recome\u00e7ava. Gilliatt olhou para o mar. O quebramar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalh\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos; finalmente um \u00faltimo e tremendo.<\/p>\n<p>Este, que era um como que total de for\u00e7as, tinha a figura de uma coisa viva. N\u00e3o era dif\u00edcil imaginar, naquela intumesc\u00eancia e naquela transpar\u00eancia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma quase animada dilacerou- se num esguicho. Naquele mont\u00e3o de rochedos e t\u00e1buas, foi uma esp\u00e9cie de esmagamento de hidra. A onda morrendo devastava.<\/p>\n<p>Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se \u00e0 saliva de um levita.<\/p>\n<p>A espuma que ca\u00eda deixava ver uma devasta\u00e7\u00e3o. O vagalh\u00e3o fez obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da clarab\u00f3ia da frente, foi lan\u00e7ada por cima do tapamento de tr\u00e1s, sobre a rocha inclinada, escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez n\u00e3o estava ele a\u00ed. Ficaria morto.<\/p>\n<p>Houve na queda da viga uma singularidade que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobressalto perigoso. Foi ainda \u00fatil por outro modo, como se vai ver.<\/p>\n<p>Entre a sali\u00eancia da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou \u00e0 alv\u00e9ola de um canto. Uma das extremidades da prancha, atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.<\/p>\n<p>Gilliatt teve uma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Pesar na outra extremidade.<\/p>\n<p>A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sa\u00eda da\u00ed como um bra\u00e7o estendido. Essa esp\u00e9cie de bra\u00e7o alargava-se, paralelamente \u00e0 faixa interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de 18 ou 20 polegadas. Boa dist\u00e2ncia para fazer o esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Gilliatt estreitou com os p\u00e9s, os joelhos e os bra\u00e7os o rochedo e meteu ombros \u00e0 enorme viga. A viga era comprida, o que aumentava a for\u00e7a do peso. A rocha j\u00e1 estava abalada. Contudo, Gilliatt teve de tentar a coisa quatro vezes. Ca\u00eda-lhe dos cabelos mais suor do que chuva. O quarto esfor\u00e7o foi fren\u00e9tico. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um ru\u00eddo terr\u00edvel, r\u00e9plica aos trov\u00f5es.<\/p>\n<p>Caiu direita, se esta express\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, isto \u00e9, sem quebrar-se.<\/p>\n<p>Imaginai um menir precipitado todo inteiro.<\/p>\n<p>A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt, cedendo ao mesmo tempo, escapou de cair tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca \u00e1gua. O monolito, numa agita\u00e7\u00e3o de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da garganta e fez uma parede transversal, esp\u00e9cie de linha de uni\u00e3o dos dois rochedos.<\/p>\n<p>Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda que ainda hoje pode ser visto. A \u00e1gua, por detr\u00e1s dessa barra de pedra, \u00e9 quase sempre tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Era um baluarte aquele ainda mais invenc\u00edvel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres.<\/p>\n<p>Esse tapamento interveio a prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Os vagalh\u00f5es tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obst\u00e1culo. A primeira clarab\u00f3ia come\u00e7ava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita \u00e9 uma grande avaria. \u00c9 inevit\u00e1vel o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.<\/p>\n<p>Uma descarga el\u00e9trica, que iluminou o escolho, descobriu a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes come\u00e7ando a flutuar ao vento, um rasg\u00e3o no centro do aparelho. A segunda clarab\u00f3ia estava intata.<\/p>\n<p>O penedo, t\u00e3o poderosamente lan\u00e7ado por Gilliatt no intervalo das rochas, por tr\u00e1s do quebra-mar, era a mais s\u00f3lida barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas n\u00e3o podiam rompe-lo, mas podiam galg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel faze-lo crescer. S\u00f3 massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas \u00e0quele tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrast\u00e1-las, como levant\u00e1-las, como coloc\u00e1-las, como fix\u00e1-las? Pregam-se t\u00e1buas, n\u00e3o se pregam rochedos.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o era Enc\u00e9lado.<\/p>\n<p>A pouca eleva\u00e7\u00e3o daquele pequeno istmo de granito preocupava Gilliatt.<\/p>\n<p>Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos j\u00e1 n\u00e3o deixavam o quebra-mar; j\u00e1 se n\u00e3o encarni\u00e7avam, parecia que se aplicavam. Ouvia-se naquela constru\u00e7\u00e3o abalada uma esp\u00e9cie de escoiceamento regular.<\/p>\n<p>De repente, um peda\u00e7o de pe\u00e7a de viga, destacado da desloca\u00e7\u00e3o, pulou por cima da segunda clarab\u00f3ia, voou por cima da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde a \u00e1gua a levou pelas sinuosidades da viela. \u00c9 prov\u00e1vel que fosse esbarrar na pan\u00e7a. Felizmente, no interior do escolho, a \u00e1gua, fechada por todos os lados, mal se ressentia da agita\u00e7\u00e3o exterior. Havia pouco marulho, e o choque n\u00e3o devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulner\u00e1vel, a imin\u00eancia estava diante dele.<\/p>\n<p>Profunda foi, por alguns instantes, a escurid\u00e3o, interrompeu-se o rel\u00e2mpago, coniv\u00eancia sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma coisa; houve um golpe surdo.<\/p>\n<p>Depois um fracasso.<\/p>\n<p>Gilliatt adiantou a cabe\u00e7a. A clarab\u00f3ia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.<\/p>\n<p>Gilliatt sentiu o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.<\/p>\n<p>A segunda tapagem resistiu ao choque. A armadura de tr\u00e1s estava fortemente ligada. Mas a clarab\u00f3ia despeda\u00e7ada era pesada, estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-na de partir-se em peda\u00e7os e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa faziam agora daquilo uma excelente ferramenta de destrui\u00e7\u00e3o. De broquel tornara-se ma\u00e7a. Al\u00e9m disso, as fraturas eri\u00e7avam-na, sa\u00edam-lhe pontas em toda ela, cobriam-na de dentes e esporas.<\/p>\n<p>Nenhuma arma contundente mais tem\u00edvel e pr\u00f3pria para ser manejada pela tempestade do que aquela.<\/p>\n<p>Era o proj\u00e9til, e o mar a catapulta.<\/p>\n<p>Sucediam-se os golpes com uma esp\u00e9cie de regularidade tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Gilliatt, pensativo por tr\u00e1s daquela porta tapada por ele, ouvia esse bater da morte querendo entrar.<\/p>\n<p>Ele refletiu amargamente que, se n\u00e3o fosse o cano da Durande t\u00e3o fatalmente retido no casco, estaria \u00e0quela hora, e desde manh\u00e3, em Guernesey, e no porto, com a pan\u00e7a abrigada e a m\u00e1quina salva.<\/p>\n<p>Realizou-se o tremendo perigo. Fez-se a refra\u00e7\u00e3o. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despeda\u00e7adas juntas, foi numa tromba-d\u00e1gua rolar no tapamento de pedra, como um caos numa montanha, e parou. Foi um travamento informe de paus embrenhados, penetr\u00e1vel \u00e0s vagas, mas pulverizando-as ainda. Aquele baluarte vencido agonizava her\u00f3icamente. O mar quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um pouco eficaz. A rocha que servia de tapagem, obst\u00e1culo sem recurso poss\u00edvel, retinha-o pelo p\u00e9. A garganta, naquele ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebramar naquele lugar angustioso; a viol\u00eancia da impuls\u00e3o, misturando a massa, e metendo as fraturas umas nas outras, fez daquela demoli\u00e7\u00e3o uma coisa s\u00f3lida. Estava destru\u00eddo e inabal\u00e1vel. S\u00f3 algumas pe\u00e7as de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga.<\/p>\n<p>Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela t\u00e1bua na fronte.<\/p>\n<p>Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporais voltam sempre, com uma periodicidade imperturb\u00e1vel, saltavam por cima das ru\u00ednas do quebra-mar. Ca\u00edam na garganta, e, a despeito dos cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar a \u00e1gua. A onda do estreito come\u00e7ava a agitar-se de um modo feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.<\/p>\n<p>Como impedir agora que essa agita\u00e7\u00e3o se propagasse at\u00e9 a pan\u00e7a? N\u00e3o precisava muito tempo para que toda a \u00e1gua interior ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pan\u00e7a seria estripada, e a m\u00e1quina iria a pique.<\/p>\n<p>Gilliatt cismava tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se desconcertou. Para aquela alma n\u00e3o havia derrota poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O furac\u00e3o engolfava-se agora freneticamente entre as duas muralhas do estreito.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, ressoou e prolongou-se a alguma dist\u00e2ncia por tr\u00e1s de Gilliatt um estalo mais assustador que tudo quanto Gilliatt at\u00e9 ent\u00e3o ouvira.<\/p>\n<p>Era do lado da pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Passava-se ali alguma coisa funesta.<\/p>\n<p>Gilliatt correu.<\/p>\n<p>Do lado do leste, onde se achava, n\u00e3o podia ele ver a pan\u00e7a por causa dos ziguezagues da viela. Na \u00faltima volta parou e esperou o rel\u00e2mpago.<\/p>\n<p>Rompeu o rel\u00e2mpago e mostrou-lhe a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 vaga da abertura de leste, correspondeu um tuf\u00e3o na abertura de oeste. Esbo\u00e7ava-se um desastre.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a n\u00e3o tinha avaria vis\u00edvel; ancorada corno estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cair.<\/p>\n<p>Aquela ru\u00edna, em semelhante tempestade, apresentava uma v\u00edtima.<\/p>\n<p>Estava toda fora da \u00e1gua, no ar, oferecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticara para extrair a m\u00e1quina enfraquecera o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha a coluna vertebral despeda\u00e7ada.<\/p>\n<p>Soprara em cima o furac\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi esse estalo que, no meio da tempestade, chegara aos ouvidos de Gilliatt.<\/p>\n<p>Dessa abertura fez o vento uma fratura. O corte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em frente de Gilliatt, vizinha da pan\u00e7a, ficara s\u00f3lida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fratura \u00e9 um gonzo. Aquela massa oscilava sobre as suas fendas, e o vento balan\u00e7ava-a, com um tremendo rumor.<\/p>\n<p>Felizmente a pan\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o estava embaixo.<\/p>\n<p>Mas o balan\u00e7o abalava a outra metade do casco, ainda presa e im\u00f3vel entre as duas Douvres. Do abalo \u00e0 queda, a dist\u00e2ncia era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quase na pan\u00e7a, e tudo, pan\u00e7a e m\u00e1quina, ficaria engolido.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha isso diante dos olhos.<\/p>\n<p>Era a cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Como desvi\u00e1-la? Gilliatt era daqueles que tiram recurso do pr\u00f3prio perigo.<\/p>\n<p>Refletiu um momento.<\/p>\n<p>Depois, foi ao dep\u00f3sito e tirou o machado.<\/p>\n<p>O martelo trabalhara muito; era chegada a vez do machado.<\/p>\n<p>Gilliatt subiu \u00e0 Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precip\u00edcio do intervalo das Douvres, p\u00f4s-se a cortar as t\u00e1buas quebradas e tudo quanto ainda prendia o peda\u00e7o de casco pendente.<\/p>\n<p>Consumar a separa\u00e7\u00e3o dos dois peda\u00e7os do casco, libertar a metade s\u00f3lida, deitar ao mar aquilo que o vento destru\u00edra, dar o quinh\u00e3o \u00e0 tempestade, tal era a opera\u00e7\u00e3o. Era mais perigosa que dif\u00edcil. A metade pendente do casco, empuxada pelo vento e pelo peso, aderia apenas por alguns pontos. O conjunto do casco assemelhava-se a um d\u00edptico, partido em dois peda\u00e7os, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis pe\u00e7as, apenas, vergadas e arrebatadas, mas n\u00e3o completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fraturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circunst\u00e2ncia, que tornava f\u00e1cil o trabalho, tornava-o arriscado tamb\u00e9m. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo de Gilliatt.<\/p>\n<p>A tempestade atingiu o paroxismo. At\u00e9 ent\u00e3o fora terr\u00edvel, agora fez-se horr\u00edvel. A convuls\u00e3o do mar reproduziu-se no c\u00e9u. A nuvem at\u00e9 ent\u00e3o fora soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava \u00e0s vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Embaixo havia dem\u00eancia, em cima c\u00f3lera.<\/p>\n<p>O c\u00e9u era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Da\u00ed vem a autoridade do vento. O furac\u00e3o e g\u00eanio. Entretanto, a embriaguez de seu pr\u00f3prio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a cegueira produzindo a noite. H\u00e1 nos temporais um momento insensato; \u00e9 para o c\u00e9u uma esp\u00e9cie de sangue que sobe \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O abismo j\u00e1 n\u00e3o sabe o que faz. Fulmina \u00e0s apalpadelas.<\/p>\n<p>Nada mais horrendo. E a hora hedionda. Chegara ao c\u00famulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano misterioso; mas nesse instante perde-o. \u00c9 a m\u00e1 hora da tempestade. Nesse instante, o vento, dizia Thomas Fluir, \u00e9 um doido furioso. \u00c9 nesse instante que as tempestades fazem essa despesa cont\u00ednua de eletricidade que Piddington chama a cascata de rel\u00e2mpagos. \u00c9 nesse instante que aparece nas nuvens mais negras, n\u00e3o se sabe por que e como que para espiar o terror universal, aquele c\u00edrculo azul que os velhos marinheiros espanh\u00f3is chamavam o olho da tempestade, el ojo de la tempestad Esse olho l\u00fagubre fitava Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt, de seu lado, contemplava a nuvem. Levantou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que n\u00e3o tivesse orgulho. Desesperava? N\u00e3o. Ante o supremo acesso de raiva do oceano, Gilliatt era t\u00e3o prudente quanto audaz. Em cima do casco, s\u00f3 pisava o ponto s\u00f3lido. Arriscava-se e preservava-se. Tamb\u00e9m ele, chegara ao paroxismo. Decuplicou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez.<\/p>\n<p>Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempestade. Conflito pat\u00e9tico. De um lado o inesgot\u00e1vel, do outro o infatig\u00e1vel. Estavam a ver qual dos dois venceria. As nuvens terr\u00edveis modelavam na imensidade m\u00e1scaras de g\u00f3rgonas, produzia-se toda a intimida\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteoro avermelhavam-se e eclipsavam-se, e a obscuridade, ap\u00f3s tantos desmaios, era mostruosa; havia um s\u00f3 derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebuli\u00e7\u00e3o; a sombra em massa transbordava; c\u00famulos carregados de granizo, esfarelados, cor de cinza, pareciam andar num frenesi girat\u00f3rio, havia no ar um rumor de gr\u00e3os secos, sacudidos numa peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terr\u00edficos, os rel\u00e2mpagos aproximavam-se em torno de Gilliatt. O abismo parecia espantado.<\/p>\n<p>Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos p\u00e9s, batendo, cortando, rachando, machado em punho, l\u00edvido diante dos rel\u00e2mpagos, esguedelhado, descal\u00e7o, roto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquela sentina de trov\u00f5es.<\/p>\n<p>Contra o del\u00edrio das for\u00e7as, s\u00f3 a destreza pode lutar. A destreza era o triunfo de Gilliatt. Ele queria uma queda de todo o destro\u00e7o deslocado. Por isso enfraqueceu as fraturas sem rompe-las completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto.<\/p>\n<p>Subitamente, parou com o machado no ar, a opera\u00e7\u00e3o estava acabada. Todo o peda\u00e7o destacou-se. Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em p\u00e9 noutra metade, inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora da \u00e1gua, tanto quanto era suficiente para dominar a onda mais de 12 p\u00e9s; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquela rua do mar.<\/p>\n<p>O furac\u00e3o, cego, trabalhava a \u00faltima.<\/p>\n<p>Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquela tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a \u00e1gua podia passar por baixo do obst\u00e1culo, o que afetava a for\u00e7a das ondas. Aquilo que passa por baixo n\u00e3o salta por cima. \u00c9 esse em parte o segredo de quebra-mar flutuante.<\/p>\n<p>Doravante, houvesse o que houvesse, j\u00e1 n\u00e3o havia que recear nem quanto \u00e0 pan\u00e7a, nem quanto \u00e0 m\u00e1quina. A \u00e1gua j\u00e1 n\u00e3o podia agitar-se \u00e0 roda delas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia atingi-las.<\/p>\n<p>Gilliatt tirara da cat\u00e1strofe a salva\u00e7\u00e3o. Ajudara-o a tempestade.<\/p>\n<p>Feito isto, apanhou um punhado de \u00e1gua da chuva, bebeu e disse \u00e0 nuvem: C\u00e2ntaro! \u00c9 uma alegria ir\u00f4nica para a intelig\u00eancia combatente atestar a vasta estupidez das for\u00e7as furiosas concluindo por prestar servi\u00e7os, e Gilliatt sentiu essa imemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos her\u00f3is de Homero.<\/p>\n<p>Gilliatt desceu \u00e0 pan\u00e7a e aproveitou os rel\u00e2mpagos para examin\u00e1-la. Era tempo que a pobre barquinha fosse socorrida; tinha sido muito sacudida e come\u00e7ava a arquear. Gilliatt, com aquele olhar sum\u00e1rio, n\u00e3o viu nenhuma avaria. Contudo, era certo que ela devia ter recebido violentos choques. Acalmada a \u00e1gua, endireitou o casco; as \u00e2ncoras portaram-se bem; quanto \u00e0 m\u00e1quina, as quatro correntes mantiveram-na admiravelmente.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt acabava a revista, uma coisa branca passou por ele e mergulhou na sombra. Era uma gaivota.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 melhor apari\u00e7\u00e3o nas tempestades. Quando os p\u00e1ssaros chegam, \u00e9 que a tempestade vai-se embora.<\/p>\n<p>Outro sinal excelente: o trov\u00e3o redobrava.<\/p>\n<p>As supremas viol\u00eancias da tempestade desorganizavam-na. Todos os marinheiros o sabem, a \u00faltima prova \u00e9 rude mas curta. O excesso do raio anuncia-lhe o fim.<\/p>\n<p>A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ru\u00eddo nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cai no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a imensa m\u00e1quina das nuvens.<\/p>\n<p>Uma fenda de c\u00e9u claro disjungiu as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.<\/p>\n<p>A tempestade durara quase vinte horas.<\/p>\n<p>O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escurid\u00e3o depressa encheu o horizonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta \u00e0 outra da linha do horizonte um movimento de retirada, ouviu-se um longo rumor decrescente, ca\u00edram algumas gotas \u00faltimas de chuva, e toda aquela sombra cheia de trov\u00f5es foi-se como uma turba de carros terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Bruscamente, fez-se azul o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Gilliatt reparou que estava cansado. O sono abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cair na barca sem escolher lugar e dormiu. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distinto das pranchas e barrotes entre os quais adormecera<\/p>\n<h3>Terceira Parte:D\u00e9ruchete<\/h3>\n<h2>Livro Primeiro:Noite e Lua<\/h2>\n<p><b>O SINO DO PORTO<\/b><\/p>\n<p>O Saint-Sampson de hoje \u00e9 quase uma cidade; o Saint-Sampson de h\u00e1 quarenta anos era quase uma aldeia.<\/p>\n<p>Chegando a primavera, e acabadas as vig\u00edlias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga par\u00f3quia de tocar a recolher, tendo conservado o h\u00e1bito de apagar cedo as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldeias normandas s\u00e3o voluntariamente galinheiros.<\/p>\n<p>Digamos al\u00e9m disso que Saint-Sampson, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de algumas ricas fam\u00edlias, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o de pedreiros e carpinteiros. O porto \u00e9 um lugar de consertar navios. Durante o dia extraem-se pedras ou trabalham-se pranchas: aqui a picareta, al\u00e9m o martelo.<\/p>\n<p>Perp\u00e9tuo meneio de pau e granito. A tarde tudo cai de cansa\u00e7o e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros sonos.<\/p>\n<p>Uma noite dos princ\u00edpios de maio, depois de ter por alguns instantes contemplado o crescente da lua nas \u00e1rvores e ouvido o passo de D\u00e9ruchette passeando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de Brav\u00e9es, Mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e deitou-se. Doce e Gra\u00e7a estavam na cama. Exceto D\u00e9ruchette, tudo dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m andava nas ruas. Raras luzes, semelhantes ao piscar de olhos, que v\u00e3o fechar-se, brilhavam aqui e ali nas janelas dos s\u00f3t\u00e3os, an\u00fancio do deitar dos criados. J\u00e1 9 horas tinham batido na velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a Igreja de Sa\u00edntBrelade de Jersey, a singularidade de ter por data quatro uns: o que significa mil cento e onze.<\/p>\n<p>A popularidade de Mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom \u00eaxito da Durande. Acabado este, fez-se o v\u00e1cuo. Parece que o engui\u00e7o pega, e que as pessoas infelizes tem a peste consigo, t\u00e3o r\u00e1pida \u00e9 a quarentena em que as metem. Os lindos filhos-fam\u00edlias evitavam D\u00e9ruchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube a\u00ed o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson. O cura da par\u00f3- quia, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray, estava rico. O tio dele, o magn\u00edfico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A not\u00edcia foi trazida pelo sloop de posta Cashemere, chegado da Inglaterra nessa manh\u00e3, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. O Cashemere devia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio-dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura, chamado \u00e0 Inglaterra sem demora para a abertura oficial do testamento, sem contar as outras urg\u00eancias de uma grande heran\u00e7a para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou confusamente. O Cashemere, o Reverendo Ebenezer, o tio morto, a riqueza, a partida, as promo\u00e7\u00f5es poss\u00edveis no futuro foram o fundo do burburinho. S\u00f3 uma casa, que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lethierry.<\/p>\n<p>Mess Lethierry atirou-se \u00e0 maca vestido.<\/p>\n<p>Depois da cat\u00e1strofe da Durande, atirar-se \u00e0 maca era o recurso dele. Deitar-se no grabato \u00e9 o recurso do prisioneiro, e Mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma tr\u00e9gua, um descanso, uma suspens\u00e3o de id\u00e9ias. Dormia? N\u00e3o. Velava? N\u00e3o. Propriamente falando, havia dois meses e meio &#8211; j\u00e1 dois meses e meio -, Mess Lethierry estava em sonambulismo. N\u00e3o era ainda senhor de si. Andava nesse estado misto e difuso que costumam ter os que sofreram grandes abatimentos. As suas reflex\u00f5es n\u00e3o eram pensamentos, o seu sono n\u00e3o era repouso. De dia n\u00e3o era um homem acordado, de noite n\u00e3o era um homem adormecido.<\/p>\n<p>Estava em p\u00e9, estava deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava ele dormir; as quimeras flutuavam nele e por sobre ele, a nuvem noturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o c\u00e9rebro; o Imperador Napole\u00e3o ditava-lhe as suas mem\u00f3rias, havia muitas D\u00e9ruchettes, estranhos p\u00e1ssaros pousavam nas \u00e1rvores, as ruas de Lons-le-Saulnier tornavam-se serpentes. O pesadelo era o descanso do desespero.<\/p>\n<p>Passava as noites a sonhar e os dias a cismar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes ficava uma tarde inteira, im\u00f3vel \u00e0 janela do quarto que dava para o porto, com a cabe\u00e7a baixa, os cotovelos sobre o peitoril de pedra, as orelhas nas m\u00e3os, as costas voltadas para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da casa a alguns p\u00e9s da janela, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem que invadia a argola.<\/p>\n<p>Mess Lethierry estava reduzido \u00e0 fun\u00e7\u00e3o maquinal de viver.<\/p>\n<p>Os homens mais valentes, privados da sua id\u00e9ia realiz\u00e1vel, atingem a isto. \u00c9 esse o efeito das exist\u00eancias esvaziadas. A vida \u00e9 a viagem, a id\u00e9ia \u00e9 o itiner\u00e1rio. Sem itiner\u00e1rio, p\u00e1ra-se. Perdido o alvo, morre a for\u00e7a. A sorte \u00e9 um obscuro poder discricion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pode bater com as suas vergastas o nosso ser moral. O desespero \u00e9 quase a destitui\u00e7\u00e3o da alma. S\u00f3 os grandes esp\u00edritos resistem. E ainda assim &#8230;<\/p>\n<p>Mess Lethierry meditava continuamente, se a absor\u00e7\u00e3o pode chamar-se medita\u00e7\u00e3o, no fundo de uma esp\u00e9cie de precip\u00edcio turvo.<\/p>\n<p>Escapavam-lhe palavras desoladoras como estas: S\u00f3 me resta pedir ao c\u00e9u o meu bilhete de sa\u00edda.<\/p>\n<p>Notemos uma contradi\u00e7\u00e3o nesta natureza, complexa como o mar, de que Mess Lethierry era, por assim dizer, o produto; Mess Lethierry n\u00e3o rezava.<\/p>\n<p>Ser impotente \u00e9 uma for\u00e7a. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza, \u00e9 na sua impot\u00eancia que o homem acha o ponto de apoio, a ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O homem socorre-se do pr\u00f3prio medo; pede aux\u00edlio ao pavor; a ansiedade aconselha o ajoelhar.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o, enorme for\u00e7a pr\u00f3pria da alma, \u00e9 da mesma esp\u00e9cie que o mist\u00e9rio. A ora\u00e7\u00e3o dirige-se \u00e0 magnanimidade das trevas; a ora\u00e7\u00e3o contempla o mist\u00e9rio com os olhos da sombra, e, diante da fixidez poderosa desse olhar s\u00faplice, sente-se um desarmamento poss\u00edvel no ignoto.<\/p>\n<p>Essa possibilidade entrevista \u00e9 j\u00e1 uma consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas Lethierry n\u00e3o orava.<\/p>\n<p>No tempo em que era feliz, Deus existia para ele, pode dizer-se em carne e osso; Lethierry falava-lhe, dava-lhe a sua palavra, dava-lhe quase, de quando em quando, um aperto de m\u00e3o. Mas no infort\u00fanio de Lethierry, fen\u00f4meno ali\u00e1s freq\u00fcente, Deus eclipsava-se.<\/p>\n<p>Isto acontece a quem imagina um Deus bonach\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia para Lethierry, no estado a que chegara, mais que uma vis\u00e3o pura, o sorriso de D\u00e9ruchette. Fora desse sorriso, tudo era negro.<\/p>\n<p>Desde algum tempo, sem d\u00favida por causa da perda da Durande, cujo choque ela sentia, tornou-se raro o delicioso riso de D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Parecia preocupada. Extinguia-se-lhe a gentileza de p\u00e1ssaro e de crian\u00e7a. J\u00e1 ningu\u00e9m a via, ao tiro de pe\u00e7a da manh\u00e3, fazer uma cortesia e dizer ao sol: Bon &#8230; jour!&#8230; queira entrar. Tinha \u00e0s vezes um ar s\u00e9rio, coisa triste naquela doce criatura. Entretanto fazia esfor\u00e7o para rir a Mess Lethierry, e para distra\u00ed-lo, mas a sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a asa de uma borboleta que um alfinete atravessou. Acrescentemos que, seja porque a tristeza do tio a fizesse triste, e h\u00e1 dores de reflexo, seja por outras raz\u00f5es, ela parecia agora inclinar-se muito para a religi\u00e3o. No tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ela ia apenas quatro vezes \u00e0 igreja. Agora era muito ass\u00eddua. N\u00e3o faltava a oficio algum, nem aos domingos, nem .<\/p>\n<p>\u00e0s quintas-feiras. As almas piedosas da par\u00f3quia viam com satisfa\u00e7\u00e3o esta emenda. Porquanto \u00e9 uma grande ventura para uma mo\u00e7a, que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se para Deus.<\/p>\n<p>Ao menos isso faz com que os pais fiquem tranq\u00fcilos a respeito de namoricos.<\/p>\n<p>De noite, sempre que o tempo permitia, passeava no jardim, uma ou duas horas. Andava quase t\u00e3o pensativa como Mess Lethierry, e sempre s\u00f3 D\u00e9ruchette deitava-se por \u00faltimo. Mas isto n\u00e3o impedia que Gra\u00e7a e Doce n\u00e3o a perdessem de vista, por este instinto de espionar que anda ligado \u00e0 domesticidade; espionar desenfada de servir.<\/p>\n<p>Quanto a Mess Lethierry, no estado obscurecido em que se achava o seu esp\u00edrito, n\u00e3o percebia essas pequenas altera\u00e7\u00f5es nos h\u00e1bitos de D\u00e9ruchette. Demais, ele n\u00e3o nascera aio. Nem mesmo notava a pontualidade de D\u00e9ruchette aos of\u00edcios da par\u00f3quia. Tenaz no seu preconceito contra as coisas e os homens do clero, teria visto sem prazer essas freq\u00fc\u00eancia \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a sua situa\u00e7\u00e3o moral n\u00e3o estivesse em caminho de modificar-se. O pesar \u00e9 nuvem e muda de forma.<\/p>\n<p>As almas robustas, como dissemos, s\u00e3o \u00e0s vezes, em certas desgra\u00e7as, destitu\u00eddas quase, mas n\u00e3o de todo. Os caracteres viris, tais como Lethierry, reagem num tempo dado. O desespero tem graus ascendentes. Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento \u00e0 afli\u00e7\u00e3o, da afli\u00e7\u00e3o \u00e0 melancolia. A melancolia \u00e9 um crep\u00fasculo. A\u00ed o sofrimento funde-se em sombria alegria.<\/p>\n<p>A melancolia \u00e9 a ventura de ser triste.<\/p>\n<p>Essas atenua\u00e7\u00f5es eleg\u00edacas n\u00e3o eram feitas para Lethierry; nem a natureza do seu temperamento, nem o g\u00eanero da sua desgra\u00e7a, comportavam essas varia\u00e7\u00f5es. Somente, no momento em que o encontramos, a cisma do seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar menos triste, Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas j\u00e1 n\u00e3o estava amortecido; voltava-lhe uma certa percep\u00e7\u00e3o dos fatos e dos acontecimentos; e come\u00e7ava a sentir alguma coisa desse fen\u00f4meno que se poderia chamar a entrada na realidade.<\/p>\n<p>Assim que, de dia, na sala baixa, n\u00e3o escutava as palavras, mas ouvia-as. Gra\u00e7a veio uma manh\u00e3, triunfante, dizer a D\u00e9ruchette que Mess Lethierry rasgara o inv\u00f3lucro do seu jornal.<\/p>\n<p>Esta meia aceita\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 em si um bom sintoma, \u00c9 a convalescen\u00e7a. As grandes desgra\u00e7as aturdem. Sai-se do aturdimento por aquele modo. Mas essa melhora parece ao princ\u00edpio um agravo. O estado do sonho anterior embotava a dor; antes via-se turvo, sentia-se pouco; agora a vista \u00e9 clara, n\u00e3o se escapa a coisa alguma, sangra-se por tudo. Aviva-se a chaga. A dor acentua- se com todos os pormenores que se v\u00eaem. Rev\u00ea-se tudo na mem\u00f3ria. Achar tudo, \u00e9 lamentar tudo. H\u00e1 nesta volta \u00e0 realidade todas as provas amargas. Fica-se melhor e pior. \u00c9 o que Lethierry sentia. Sofria mais distintamente.<\/p>\n<p>O que trouxera Mess Lethierry ao sentimento da realidade foi um abalo.<\/p>\n<p>Digamos qual foi ele.<\/p>\n<p>Uma tarde, a 15 ou 20 de abril, ouviu-se na porta da sala baixa as duas pancadas que anunciavam o correio. Doce abriu a porta. Era uma carta.<\/p>\n<p>Vinha do mar a carta. Era dirigida a Mess Lethierry. Trazia o selo de Lisboa.<\/p>\n<p>Doce levou a carta a Mess Lethierry que estava fechado no quarto.<\/p>\n<p>Ele pegou na carta, po-la maquinalmente na mesa, e nem olhou.<\/p>\n<p>A carta ficou ali uma boa semana sem ser aberta.<\/p>\n<p>Aconteceu, por\u00e9m, que uma manh\u00e3 Doce disse a Mess Lethierry: &#8211; Devo tirar a poeira de que est\u00e1 cheia a carta? Lethierry pareceu acordar.<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>E abriu a carta. Leu isto: No mar, 10 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Mess Lethierry, de Saint-Sampson.<\/p>\n<p>Receber\u00e1 o senhor com prazer not\u00edcias minhas.<\/p>\n<p>Estou no Tamaufipas, em viagem para n\u00e3o voltar. H\u00e1 na equipagem um marujo Ahier-Tostevin, de Guernesey, que h\u00e1 de voltar a\u00ed, e que lhe h\u00e1 de contar alguma coisa. Aproveito o encontro do navio Hernan Cortez, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.<\/p>\n<p>Espante-se. Sou um homem honesto.<\/p>\n<p>T\u00e3o honesto como o Sr. Clubin.<\/p>\n<p>Devo crer que j\u00e1 sabe o que aconteceu; contudo, n\u00e3o ser\u00e1 mal que lhe lembre o caso.<\/p>\n<p>Ei-lo: Restitu\u00ed-lhe os seus capitais.<\/p>\n<p>Tomei-lhes emprestados, um pouco incorretamente, 50 000 francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o senhor, ao seu homem de confian\u00e7a, o Sr. Clubin, tr\u00eas notas do banco de 1000 libras cada uma, o que faz 75 000 francos. Creto que h\u00e1 de achar esse reembolso suficiente.<\/p>\n<p>O Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; \u00e9 por isso que o advirto.<\/p>\n<p>O seu homem de confian\u00e7a,RANTAINE.<\/p>\n<p>&#8220;Post scriptum: &#8211; O Sr. Clubin tinha um rev\u00f3lver, e foi por isso que n\u00e3o tive recibo&#8221;.<\/p>\n<p>Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e sentireis o mesmo que sentiu Mess Lethierry lendo esta carta.<\/p>\n<p>Debaixo daquela sobrecarta, naquela folha de papel dobrada em quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca aten\u00e7\u00e3o, havia uma como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assinatura. Quanto ao fato, nada compreendeu ao princ\u00edpio.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o foi tal que lhe p\u00f3s, por assim dizer, o esp\u00edrito em p\u00e9.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno dos 75 000 francos que Rantaine confiara a Clubin, era um enigma, e era por isso o lado \u00fatil do abalo, visto que obrigava Lethierry a refletir. Fazer uma conjetura, \u00e9, para o pensamento, uma ocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3. Acorda o racioc\u00ednio, convoca-se a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Desde algum tempo, a opini\u00e3o p\u00fablica de Guernesey ocupava-se em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos anos foi unanimemente admitido na circula\u00e7\u00e3o da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pr\u00f3 e contra. Apareceram singulares esclarecimentos. Clubin come\u00e7ava a aparecer em toda a luz, isto \u00e9, tornava-se negro.<\/p>\n<p>Houve em Saint-Malo uma devassa judici\u00e1ria para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspic\u00e1cia legal enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da suposi\u00e7\u00e3o de que o guardacostas fora atra\u00eddo por Zuela e embarcado no Tamaufipas para o Chile. Esta hip\u00f3tese engenhosa trouxe consigo muitas aberra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A miopia da justi\u00e7a n\u00e3o chegou a ver Rantaine. Mas no decurso da pesquisa os magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o neg\u00f3cio que j\u00e1 era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincid\u00eancia, alguma rela\u00e7\u00e3o talvez, entre a partida do Tamaufipas e a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava n\u00e3o ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro falou; Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente.<\/p>\n<p>Para quem? O armeiro da Rua Saint-Vincent tamb\u00e9m falou; Clubin comprara um rev\u00f3lver. Contra quem? O dono da hospedaria Jo\u00e3o tamb\u00e9m falou: Clubin costumava ter aus\u00eancias inexplic\u00e1veis. O Capit\u00e3o Gertrais Gaboureau tamb\u00e9m falou, Clubin quis partir, apesar de avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripula\u00e7\u00e3o da Durande tamb\u00e9m falou. O carregamento era falho e mal arranjado, neglig\u00eancia f\u00e1cil de compreender, se o capit\u00e3o quer perder o navio. Tamb\u00e9m falou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois. Tamb\u00e9m falou a gente de Torteval; Clubin foi ali alguns dias antes do naufr\u00e1gio e dirigiu-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e n\u00e3o voltou com ela. Igualmente falaram os furta-ninhos; a hist\u00f3ria deles parecia prender-se ao desaparecimento de Clubin, contanto que, em vez de almas do outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente a pr\u00f3pria casa mal-assombrada de Plainmont falou; algumas pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exatamente a mala de Clubin.<\/p>\n<p>Os magistrados de Torteval apreenderam a mala e abriram-na.<\/p>\n<p>Continha provis\u00f5es de boca, um \u00f3culo, um cronometro, roupas de homem e roupa branca marcada com as iniciais de Clubin. Tudo isso, nas conversas de Saint-Malo e Guernesey, ia-se acumulando, e j\u00e1 ro\u00e7ava pela fraude. Comparavam-se sintomas confusos; averiguavam-se o desd\u00e9m singular pelos conselhos, a afronta do nevoeiro, a neglig\u00eancia na arruma\u00e7\u00e3o das cargas, a garrafa de aguardente, o timoneiro \u00e9brio, a substitui\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O hero\u00edsmo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Admitida a inten\u00e7\u00e3o de fraude, compreendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a resid \u00eancia na casa mal-assombrada at\u00e9 chegar a ocasi\u00e3o de fugir. A mala acabava a demonstra\u00e7\u00e3o. Qual o elo que prendia esta aventura \u00e0 do guarda-costas, ainda n\u00e3o se tinha descoberto. Adivinhava- se uma correla\u00e7\u00e3o; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama tr\u00e1gico. Clubin talvez n\u00e3o representasse nele, mas descobriam-no nos bastidores.<\/p>\n<p>Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um rev\u00f3lver sem emprego.<\/p>\n<p>O rev\u00f3lver entrou talvez no caso do guarda.<\/p>\n<p>O faro do povo \u00e9 fino e acertado. O instinto p\u00fablico \u00e9 h\u00e1bil nestas restaura\u00e7\u00f5es da verdade feitas de peda\u00e7os soltos. Somente, nesses fatos, de que resultava uma fraude veross\u00edmil, havia s\u00e9rias incertezas.<\/p>\n<p>Tudo concordava; mas n\u00e3o havia base.<\/p>\n<p>N\u00e3o se perde um navio pelo gosto de perde-lo. N\u00e3o se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do ref\u00fagio e da fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de Clubin? Via-se o ato, n\u00e3o se via o motivo.<\/p>\n<p>Da\u00ed vinha a d\u00favida a muitos esp\u00edritos. Onde n\u00e3o h\u00e1 motivo, parece que n\u00e3o h\u00e1 ato.<\/p>\n<p>A lacuna era grave.<\/p>\n<p>Ora, a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.<\/p>\n<p>A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar 75 000 francos.<\/p>\n<p>Rantaine era o Deus ex machina. Descia das nuvens com uma vela na m\u00e3o.<\/p>\n<p>A carta era o esclarecimento final.<\/p>\n<p>Explicava tudo essa carta e, de mais a mais, anunciava uma testemunha: Ahier-Tostevin.<\/p>\n<p>Coisa decisiva, sabia-se agora o emprego do rev\u00f3lver. Rantaine estava incontestavelmente informado de tudo. A sua carta fazia tocar tudo com o dedo.<\/p>\n<p>Nenhuma atenuante poss\u00edvel na malvadeza de Clubin. Premeditara o naufr\u00e1gio, e a prova era a mala levada para a casa Plainmont. E supondo-o inocente, admitindo o naufr\u00e1gio fortuito, n\u00e3o devia ele, no \u00faltimo momento, decidido ao sacrif\u00edcio, entregar os 75 000 francos aos homens que se salvaram na chalupa? Era evidente.<\/p>\n<p>Mas que era feito de Clubin? Foi provavelmente v\u00edtima do seu erro.<\/p>\n<p>Pereceu sem d\u00favida no escolho Douvres.<\/p>\n<p>O andaime de conjeturas, todas conformes, na realidade, ocupou durante muitos dias o esp\u00edrito de Mess Lethierry. A carta de Rantaine teve a utilidade de obrig\u00e1-lo a pensar. Teve um primeiro abalo de surpresa, depois fez esfor\u00e7o de refletir. Fez outro esfor\u00e7o mais dif\u00edcil ainda para informar-se. Aceitou e procurou mesmo as conversas.<\/p>\n<p>No fim de oito dias tornou-se pr\u00e1tico at\u00e9 certo ponto; o esp\u00edrito fortaleceu-se e quase ficou curado. Saiu do estado turvo.<\/p>\n<p>A carta de Rantaine, admitindo que Mess Lethierry tivesse algum dia a esperan\u00e7a do reembolso, fez desaparecer a \u00faltima probabilidade.<\/p>\n<p>\u00c0 cat\u00e1strofe da Durande ajuntava-se o naufr\u00e1gio dos 75 000 francos.<\/p>\n<p>A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ru\u00edna. Da\u00ed veio um sofrimento novo e argut\u00edssimo, que j\u00e1 indicamos. Come\u00e7ou, coisa que h\u00e1 dois meses n\u00e3o fazia, a preocupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. T\u00e9dio eri\u00e7ado de mil pontas, quase pior que o desespero. Odiosa coisa \u00e9 suportar a desgra\u00e7a por mi\u00fado, disputar passo a passo ao fato realizado o terreno que ele vem tomar. Aceita-se a massa do infort\u00fanio, a poeira n\u00e3o. O conjunto acabrunha, o pormenor tortura. H\u00e1 pouco a cat\u00e1strofe fulminava, agora mortifica.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o agravante do infort\u00fanio. \u00c9 uma segunda anula- \u00e7\u00e3o que vem ajuntar-se \u00e0 primeira, e feia. Desce-se um degrau do nada. Depois do sud\u00e1rio, o andrajo.<\/p>\n<p>Nada mais triste do que pensar em decair.<\/p>\n<p>Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte; \u00e9 a cat\u00e1strofe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo est\u00e1 acabado. Fica-se arruinado. Est\u00e1 dito, morreu. Qual! Vive-se. \u00c9 o que no dia seguinte come\u00e7a-se a sentir. Por que? Por alfinetadas.<\/p>\n<p>Passa um homem sem tirar o chap\u00e9u, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do \u00faltimo trocadilho de Arnal, mas \u00e9 o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe mais engra\u00e7ado, exatamente porque est\u00e1s pobre. V\u00eas a tua decad\u00eancia at\u00e9 nos olhares indiferentes; as pessoas que jantavam em tua casa acham demasiado os tr\u00eas pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as ingratid\u00f5es, n\u00e3o tendo que esperar mais nada, tiram a m\u00e1scara; todos os imbecis predisseram o que te acontece; os maus dilaceram-te, os piores lamentamente. E mais cem pormenores mesquinhos. A n\u00e1usea sucede \u00e0s l\u00e1grimas. Bebias vinho, beber \u00e1s sidra. Duas criadas! Uma seria demais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar aquela. H\u00e1 flores demais no jardim; planta antes batatas. Davas flores aos amigos, vende-as agora no mercado.<\/p>\n<p>Quanto aos pobres, j\u00e1 n\u00e3o deves pensar neles; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9s pobre? As toaletes, quest\u00e3o pungente. Diminuir uma fita a mulher, que supl\u00edcio! Recusar o enfeite, a quem te d\u00e1 a beleza! Ter ares de avarento! Talvez que ela te diga: Pois que! Tiraste as flores do meu Jardim, e agora as tiras do meu chap\u00e9u! Ai triste! Conden\u00e1-la aos vestidos velhos! A mesa de fam\u00edlia \u00e9 silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados parecem preocupados. Eis o que \u00e9 a decad\u00eancia.<\/p>\n<p>Cumpre-te morrer todos os dias. Cair n\u00e3o \u00e9 nada, \u00e9 a fornalha.<\/p>\n<p>Decair \u00e9 o fogo lento.<\/p>\n<p>A queda \u00e9 Waterloo; a decad\u00eancia \u00e9 Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas, quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas.<\/p>\n<p>V\u00ea-se o homem de Campoformio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas duas fases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas \u00e0s propor\u00e7\u00f5es burguesas, todos as atravessam.<\/p>\n<p>Na noite de que falamos e que era uma das primeiras noites de maio, Lethierry, deixando D\u00e9ruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.<\/p>\n<p>Rolavam-lhe no esp\u00edrito todas essas min\u00facias mesquinhas e desagrad\u00e1veis, complica\u00e7\u00f5es de fortunas perdidas, todas essas preocupa\u00e7\u00f5es de terceira ordem, que come\u00e7am por ser ins\u00edpidas e acabam l\u00fagubres. Triste acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9rias. Mess Lethierry sentia a sua queda irremedi\u00e1vel. Que devia fazer agora? Que seria dele? Que sacrif\u00edcios devia impor a D\u00e9ruchette? Quem devia despedir, Doce ou Gra\u00e7a? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? N\u00e3o ser coisa alguma onde se foi tudo \u00e9 uma decad\u00eancia insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>E pensar que estava acabado! Recordar as viagens da Fran\u00e7a ao arquip\u00e9lago, a partida \u00e0s ter\u00e7as-feiras, a chegada \u00e0s sextas, a clitisma no cais, aqueles grandes carregamentos, aquela ind\u00fastria, aquela prosperidade, aquela navega\u00e7\u00e3o direta e altiva, aquela m\u00e1quina sujeita \u00e0 vontade do homem, aquela caldeira onipotente, aquele fumo, aquela realidade! O vapor \u00e9 a b\u00fassola completa; a b\u00fassola indica o caminho, o vapor segue por ele. Uma prop\u00f5e, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande, aquela magn\u00edfica e soberana Durande, aquela senhora do mar, aquela rainha que o fazia rei? Ter sido o homem id\u00e9ia, o homem triunfo, o homem revolu\u00e7\u00e3o! E renunciar! Abdicar! N\u00e3o existir! Fazer rir aos outros! Ser um saco onde j\u00e1 houve alguma coisa! Ser o passado quem foi o futuro! Merecer a compaix\u00e3o altiva dos idiotas! Ver triunfar a rotina, a obstina\u00e7\u00e3o, o ramerr\u00e3o, o ego\u00edsmo, a ignor\u00e2ncia! Ver come\u00e7ar outra vez as viagens dos c\u00fateres g\u00f3ticos sacudidos pela vaga! Ver a antiqualha rejuvenescer! Perder a vida! Perder a luz e sofrer o eclipse! Ah! Como era belo ver sobre as vagas aquele cano orgulhoso, aquele prodigioso cilindro, aquele pilar de um capitel de fumo, aquela coluna maior que a de Vendome, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquela o progresso! O oceano est\u00e1 por baixo; era a certeza em pleno mar. Viu-se aquilo, naquela pequena ilha, naquele pequeno porto, naquele pequeno Saint-Sampson? Sim, viu-se! Pois que! Viu-se e n\u00e3o se ver\u00e1 mais! Toda esta obsess\u00e3o da saudade mortific\u00e1vel Lethierry. H\u00e1 solu\u00e7os no pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente a sua perda. Depois de tais excessos agudos costuma vir um entorpecimento.<\/p>\n<p>Debaixo desse peso de tristeza Lethierry adormeceu.<\/p>\n<p>Ficou cerca de duas horas com as p\u00e1lpebras fechadas, dormindo pouco, sonhando muito, febril. Esses cobrem um obscuro e fatigante trabalho do c\u00e9rebro. Pela meia-noite, um pouco antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudiu o adormecimento. Acordou, abriu os olhos, a janela estava em frente \u00e0 maca, &#8211; viu uma coisa extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Havia uma forma diante da janela. Forma inaudita. O cano de um vapor.<\/p>\n<p>Era um tubo de m\u00e1quina. Lethierry precipitou-se para fora da maca, correu \u00e0 janela, levantou a vidra\u00e7a, inclinou-se e reconheceu.<\/p>\n<p>O cano da Durande estava diante dele.<\/p>\n<p>Estava no lugar do costume.<\/p>\n<p>As quatro correntes prendiam o cano \u00e0 borda de um barco dentro do qual distinguia-se uma massa de forma complicada.<\/p>\n<p>Lethierry recuou, voltou as costas \u00e0 janela e caiu assentado na maca.<\/p>\n<p>Voltou-se outra vez e viu a mesma vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Um momento depois, apenas o espa\u00e7o de um rel\u00e2mpago, estava ele no cais com uma lanterna na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 velha argola onde se prendia a Durande estava amarrada uma barca trazendo um pouco \u00e0 r\u00e9 um vulto maci\u00e7o donde saia o cano que ficava em frente \u00e0 janela. A proa da barca prolongava-se al\u00e9m do canto da parede da casa e encostada ao cais.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ningu\u00e9m na barca.<\/p>\n<p>A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em Guernesey; era a pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Lethierry pulou dentro. Correu \u00e0 massa que ficava al\u00e9m do mastro.<\/p>\n<p>Era a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Era ela, inteira, completa, intata, sentada sobre o fundo de metal; a caldeira estava com todas as pe\u00e7as; a \u00e1rvore das rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba estava no seu lugar; nada faltava.<\/p>\n<p>Lethierry examinou a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.<\/p>\n<p>Passou em revista todo o mecanismo.<\/p>\n<p>Viu as duas caixas que estavam ao p\u00e9. Olhou para a \u00e1rvore das rodas.<\/p>\n<p>Foi ao camarote; estava vazio.<\/p>\n<p>Voltou \u00e0 m\u00e1quina e apalpou-a. Meteu a cabe\u00e7a na caldeira. Ajoelhou-se para ver dentro.<\/p>\n<p>Colocou na caldeira a lanterna que iluminava todo o mecanismo e produzia o efeito de uma m\u00e1quina acesa.<\/p>\n<p>Depois deu uma gargalhada, e, levantando-se, com o olhar fixo na m\u00e1quina e os bra\u00e7os estendidos para o cano, gritou: Socorro! O sino do porto ficava perto. Lethierry correu a ele, segurou a corda, e come\u00e7ou a sacudir o sino impetuosamente.<\/p>\n<p><b>AINDA O SINO DO PORTO<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt, com efeito, depois de uma travessia sem incidente, mas um pouco demorada por causa do peso do carregamento, chegou a Saint-Sampson de noite, mais perto das 10 horas que das 9.<\/p>\n<p>Gilliatt calculara a hora. A mar\u00e9 come\u00e7ava a encher. Havia luz e \u00e1gua; podia-se entrar no porto.<\/p>\n<p>O porto estava adormecido. Havia alguns navios ancorados, cascos sem vergas, cestos de g\u00e1vea recolhidos e sem far\u00f3is. Descobria-se no fundo alguns navios em conserto postos no estaleiro.<\/p>\n<p>Grandes cascos desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas curvas de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de costas e com as pernas para o ar.<\/p>\n<p>Gilliatt, apenas entrou no porto, examinou o cais. N\u00e3o havia luz em parte alguma, nem na casa de Lethierry nem nas outras. N\u00e3o havia ningu\u00e9m na rua, exceto talvez um homem que acabava de entrar ou sair do presbit\u00e9rio. E ainda assim poderia ser que n\u00e3o fosse uma pessoa, porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A dist\u00e2ncia ajudava a obscuridade. O presbit\u00e9rio de ent\u00e3o era situado do outro lado do porto, no lugar onde outrora havia uma estiva coberta.<\/p>\n<p>Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou a pan\u00e7a na argola da Durande, debaixo da janela de Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Depois saltou para terra.<\/p>\n<p>Gilliatt, deixando atr\u00e1s de si a pan\u00e7a, rodeou a casa, atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo olhou para o entroncamento do caminho que ia ter \u00e0 casa dele, e no fim de alguns minutos parou no recanto da parede onde havia um p\u00e9 de malva silvestre com flores cor-de-rosa em junho, azevinho, hera e urtigas. Era da\u00ed que, escondido no espinheiro, assentado na pedra, tantas vezes, nos dias de ver\u00e3o e durante longas horas e meses inteiros, tinha ele contemplado, por cima do muro, t\u00e3o baixinho que tentava um pulo, o jardim de Brav\u00e9es e, atrav\u00e9s das \u00e1rvores, duas janelas de um quarto da casa. Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o \u00e2ngulo obscuro, e, como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt agachou-se. Depois. de assentado n\u00e3o fez movimento algum. Olhou. Tomou a ver o jardim, as alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janelas do quarto. A lua mostrava-lhe aquele sonho. Era-lhe horr\u00edvel ter de respirar. Gilliatt forcejava por conter a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parecia-lhe ver um para\u00edso fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo aquilo. Era quase imposs\u00edvel que aquelas coisas estivessem diante dele; e se estavam, eram sem d\u00favida prestes a esvair-se como acontece com as coisas divinas. Bastava um sopro para desaparecer tudo. Gilliatt tremia por isso.<\/p>\n<p>Perto dele, e em frente, no jardim, \u00e0 beira de uma alameda, havia um banco de pau pintado de verde. Os leitores lembram-se desse banco.<\/p>\n<p>Gilliatt contemplava as duas janelas. Pensava em algu\u00e9m que estivesse dormindo naquele quarto. Quisera n\u00e3o estar onde estava.<\/p>\n<p>Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respira\u00e7\u00e3o levantando um seio. Ela, aquela miragem, aquela alvura dentro de uma nuvem, aquela obsess\u00e3o de seu esp\u00edrito, estava ali! Gilliatt pensava no inacess\u00edvel que dormia, e t\u00e3o perto, e ao alcance do seu \u00eaxtase; pensava na mulher imposs\u00edvel adormecida e visitada tamb\u00e9m pelas quimeras; na criatura desejada, remota, esvaeceste, fechando os olhos com a fronte na m\u00e3o; no mist\u00e9rio do sono da criatura ideal; nos sonhos que pode ter um sonho. N\u00e3o ousava pensar al\u00e9m e pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que pode haver no anjo. A hora noturna faz com que os olhos t\u00edmidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir t\u00e3o longe, receava profanar com a reflex \u00e3o; a seu pesar, constrangido, tr\u00eamulo, Gilliatt olhava para o invis\u00edvel. Sentia a como\u00e7\u00e3o e quase o sofrimento de imaginar uma saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenla\u00e7ado, um len\u00e7o de pesco\u00e7o. Imaginava um colete, um atacador arrastando no ch\u00e3o, meias, ligas. Tinha a alma nas estrelas.<\/p>\n<p>As estrilas s\u00e3o feitas tanto para o cora\u00e7\u00e3o humano de um pobre, como para o cora\u00e7\u00e3o de um milion\u00e1rio. Em certo grau de paix\u00e3o todos os homens s\u00e3o sujeitos \u00e0s fascina\u00e7\u00f5es profundas. Se a natureza \u00e9 \u00e1spera e primitiva, raz\u00e3o de mais. A condi\u00e7\u00e3o selvagem aumenta o sonho.<\/p>\n<p>A fascina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma plenitude que transborda como todas. Ver as janelas era quase demais para Gilliatt.<\/p>\n<p>De repente, viu ele a pr\u00f3pria mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Dentre os ramos de uma moita, j\u00e1 espessa pela primavera, saiu com inef\u00e1vel lentid\u00e3o, fant\u00e1stica e celeste, uma figura, um vestido, um rosto divino, quase um clar\u00e3o no meio do luar.<\/p>\n<p>Gilliatt sentiu-se desfalecer. Era D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette aproximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de pau. A lua batia nas \u00e1rvores, algumas nuvens erravam por entre as estrelas p\u00e1lidas, o mar falava \u00e0s coisas da sombra, a meia voz, a cidade dormia, do horizonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette inclinava a fronte com aquele olhar pensativo que contempla atentamente o v\u00e1cuo; estava sentada de perfil, com a cabe\u00e7a quase descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca delicada a origem dos cabelos, enrolava maquinalmente: nos dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas m\u00e3os de est\u00e1tua, o vestido era de uma dessas cores que de noite se fazem brancas, as \u00e1rvores moviam-se como se fossem suscet\u00edveis ao encanto que ressumbrava dela, via-se a pontinha de um de seus p\u00e9s, havia nos seus c\u00edlios fechados aquela vaga contra\u00e7\u00e3o que anuncia uma l\u00e1grima represa ou um pensamento repelido, os seus bra\u00e7os tinham a indecis\u00e3o fascinante de n\u00e3o achar onde encostar-se, misturava-se-lhe \u00e0 postura alguma coisa flutuante, era antes um clar\u00e3o que uma luz, antes uma gra\u00e7a que uma deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admir\u00e1vel rosto meditava virginalmente. Estava t\u00e3o perto, que era terr\u00edvel. Gilliatt ouvia-a respirar.<\/p>\n<p>Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inef\u00e1vel sil\u00eancio noturno. D\u00e9ruchette, gentil e sagrada, aparecia naquele crep\u00fasculo como o resultado daqueles raios e daqueles perfumes; o encanto imenso e esparso ia ter misteriosamente a ela, nela condensava-se, era a sua irradia \u00e7\u00e3o. Parecia a alma flor de toda aquela sombra.<\/p>\n<p>Toda aquela sombra, flutuante em D\u00e9ruchette, pesava sobre Gilliatt.<\/p>\n<p>Estava desvairado. O que ele sentia n\u00e3o cabe dize-lo em palavras; a como\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre nova e as palavras j\u00e1 serviram muito; da\u00ed vem a impossibilidade de exprimir a como\u00e7\u00e3o. Existe o abatimento do encanto. Ver D\u00e9ruchette, v\u00ea-la ela pr\u00f3pria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ela enrolava nos dedos, pode-se acaso imaginar semelhante coisa? Estar perto dela, era acaso poss\u00edvel? Ouvi-la respirar; respirava pois! Ent\u00e3o os astros respiram. Gilliatt estremecia. Era o mais miser\u00e1vel e o mais inebriado dos homens. N\u00e3o sabia que fazer. O del\u00edrio de v\u00ea-la esmagava-o. Pois que! Era ela quem ali estava, era ele quem estava ali! As suas id\u00e9ias, deslumbradas e fixas, paravam naquela criatura como se fora um rubi. Contemplava aquela nuca e aqueles cabelos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo aquilo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanh\u00e3, ele teria o direito de tirar-lhe aquela coifa e desla\u00e7ar aquela fita. Sonhar at\u00e9 esse ponto era um excesso de aud\u00e1cia que ele n\u00e3o poderia conceber um momento. Tocar com o pensamento e quase tocar com a m\u00e3o. O amor era para Gilliatt como mel para urso, o sonho ex\u00edmio e delicado. Pensava confusamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Ele sentia-se expirar.<\/p>\n<p>Levantar-se, galgar o muro, aproximar-se, dizer sou eu, falar a D\u00e9ruchette, foi id\u00e9ia que n\u00e3o teve. Se a tivesse, fugiria. Se alguma coisa semelhante a um pensamento chegou a despontar no seu esp\u00edrito, era que D\u00e9ruchette estava ali, que ele n\u00e3o tinha necessidade de mais coisa alguma, e que a eternidade come\u00e7ava.<\/p>\n<p>Um rumor arrancou a ambos, ela do devaneio, ele do \u00eaxtase.<\/p>\n<p>Andava algu\u00e9m no jardim. N\u00e3o se via por causa das \u00e1rvores. Era um passo de homem.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette levantou os olhos.<\/p>\n<p>Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era, parou.<\/p>\n<p>Devia estar perto. O caminho onde estava o banco perdia-se entre duas moitas. Era a\u00ed que estava essa pessoa, nesse intervalo, a poucos passos do banco.<\/p>\n<p>O acaso tinha disposto a espessura dos ramos de tal modo, que D\u00e9ruchette via a pessoa, sem que Gilliatt a visse.<\/p>\n<p>O luar projetava no ch\u00e3o, fora das moitas, e at\u00e9 ao banco, uma sombra.<\/p>\n<p>Gilliatt viu essa sombra.<\/p>\n<p>Olhou para D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Ela estava p\u00e1lida. A boca, entreaberta, esbo\u00e7ava um grito de surpresa. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se; havia na sua atitude uma mistura de fuga e de fascina\u00e7\u00e3o. O seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos l\u00e1bios quase a irradia\u00e7\u00e3o do sorriso, e um reflexo de l\u00e1grimas nos olhos. Estava como que transfigurada por aquela presen\u00e7a. N\u00e3o parecia que a criatura ali chegada fosse da terra. Havia no olhar de D\u00e9ruchette a reverbera\u00e7\u00e3o de um anjo.<\/p>\n<p>A pessoa, que era apenas uma sombra para Gilliatt, falou enfim.<\/p>\n<p>Saiu das moitas uma voz, mais doce que uma voz de mulher, e voz de homem, contudo. Gilliatt ouviu estas palavras: &#8211; Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que outrora a senhora n\u00e3o ia l\u00e1 tantas vezes. Fizeram este reparo, pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o. Nunca lhe falei, era o meu dever; falo-lhe hoje, \u00e9 meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me \u00e0 senhora. Parte amanh\u00e3; foi por isso que eu vim.<\/p>\n<p>A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu fazia mal em conhecer tantos os seus h\u00e1bitos se n\u00e3o tivesse o pensamento que tenho. A senhora \u00e9 &#8211; pobre. Eu sou rico desde esta manh\u00e3.<\/p>\n<p>Quer-me por seu marido? D\u00e9ruchette ajuntou as duas m\u00e3os como uma suplicante, e olhou para aquele que falava, muda, olhar fixo, tr\u00eamula da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>A voz continuou: &#8211; Amo-a, Deus n\u00e3o fez o cora\u00e7\u00e3o do homem para que se cale. Se ele promete a eternidade, \u00e9 porque quer o cons\u00f3rcio. H\u00e1 para mim na terra uma mulher, \u00e9 a senhora. Penso na senhora como numa ora\u00e7\u00e3o. A minha f\u00e9 est\u00e1 em Deus, na senhora a minha esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>As asas que tenho \u00e9 a senhora quem as traz. A senhora \u00e9 a minha vida, e j\u00e1 o meu c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; disse D\u00e9ruchette -, n\u00e3o h\u00e1 na casa ningu\u00e9m para responder-lhe.<\/p>\n<p>A voz soou de novo: &#8211; Tive este lindo sonho. Deus n\u00e3o pro\u00edbe os sonhos. A senhora faz-me o efeito de uma gl\u00f3ria. Amo-a apaixonadamente. A santa inoc\u00eancia \u00e9 a senhora. Sei que esta \u00e9 a hora em que todos est\u00e3o dormindo, mas eu n\u00e3o tinha outra ocasi\u00e3o \u00e0 minha escolha. Lembra- se daquele passo da B\u00edblia que nos leram? G\u00eanesis, cap\u00edtulo 25. Muitas vezes pensei nele. Reli-o muitas vezes. O Reverendo Herodes dizia-me: \u00c9-lhe preciso uma mulher rica. Eu respondi: N\u00e3o, preciso de uma mulher pobre. Falo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a senhora n\u00e3o quiser que a minha sombra toque em seus p\u00e9s. \u00c9 a senhora a soberana; vir\u00e1 a mim se quiser. Assim o espero.<\/p>\n<p>A senhora \u00e9 a forma viva da ben\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; balbuciou D\u00e9ruchette -, eu n\u00e3o sabia que reparavam em mim aos domingos e quintas-feiras.<\/p>\n<p>A voz continuou: &#8211; Nada se pode contra as coisas ang\u00e9licas. Toda a lei \u00e9 amor. O casamento \u00e9 Cana\u00e3. A senhora \u00e9 a beleza prometida. Ave, cheia de gra\u00e7a! D\u00e9ruchette respondeu: &#8211; Eu pensava que n\u00e3o fazia mal indo como as outras pessoas \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>A voz continuou: &#8211; Deus p\u00f3s as suas inten\u00e7\u00f5es nas flores, na aurora, na primavera, e ele quer que se ame. A senhora \u00e9 bela nesta sacra obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume h\u00e1 alguma coisa de seu h\u00e1lito. Os encontros das almas n\u00e3o dependem delas. N\u00e3o \u00e9 culpa nossa. A senhora ia \u00e0 igreja, nada de mais; eu estava l\u00e1, nada de mais. Nada fiz sen\u00e3o sentir que a amava.<\/p>\n<p>Algumas vezes os meus olhos levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como n\u00e3o? Foi contemplando-a que eu fiquei assim. N\u00e3o podia impedi-lo. H\u00e1 vontades misteriosas acima de n\u00f3s. O primeiro templo \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o. Ter a sua alma em minha casa, tal \u00e9 o para\u00edso terrestre a que eu aspiro. Aceita? Enquanto fui pobre nada disse.<\/p>\n<p>Eu sei a sua idade. Tem vinte anos, eu tenho 26. Parto amanh\u00e3, se me recusa n\u00e3o voltarei. Quer ser minha noiva? Os meus olhos j\u00e1 lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar. Amo-a, responda-me. Falarei a seu tio quando ele puder receber-me, mas em primeiro lugar \u00e0 senhora. \u00c9 a Rebeca que se pede Rebeca. S\u00f3 se me n\u00e3o ama.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette inclinou a fronte e murmurou: &#8211; Oh! Eu o adoro! Isto foi dito em voz t\u00e3o baixa que s\u00f3 Gilliatt ouviu. Ela abaixou a fronte, como se o rosto na sombra pusesse na sombra o pensamento.<\/p>\n<p>Houve uma pausa. As folhas das \u00e1rvores n\u00e3o se mexiam. Era esse momento severo e apraz\u00edvel em que o sono das coisas ajunta-se ao sono das criaturas e em que a noite parece escutar as palpita\u00e7\u00f5es da natureza. Neste recolhimento elevava-se, como uma harmonia que completa um sil\u00eancio, o ru\u00eddo imenso do mar.<\/p>\n<p>A voz continuou: &#8211; Senhora.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette estremeceu.<\/p>\n<p>A voz continuou: Estou esperando. O que espera? A sua resposta.<\/p>\n<p>Deus a ouviu &#8211; disse D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a voz tornou-se quase sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras sa\u00edram da moita como de uma sar\u00e7a ardente.<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s minha noiva. Levanta-te e vem. Que o teto azul, onde est\u00e3o os astros, assista a esta aceita\u00e7\u00e3o da minha alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento! D\u00e9ruchette levantou-se e ficou um instante im\u00f3vel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem d\u00favida, outro olhar. Depois, a passos lentos, com a cabe\u00e7a erguida, os bra\u00e7os pendentes e os dedos das m\u00e3os abertos, como quando se caminha para um amparo desconhecido, ela dirigiu-se para a moita e desapareceu.<\/p>\n<p>Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus p\u00e9s o abra\u00e7o daquelas duas sombras.<\/p>\n<p>O tempo corre de n\u00f3s como de uma ampulheta, e n\u00f3s n\u00e3o temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos.<\/p>\n<p>De um lado aquele par, que ignorava a testemunha e n\u00e3o a via, do outro aquela testemunha que n\u00e3o via os dois, mas que sabia que eles ali estavam, quantos minutos ficaram assim nessa misteriosa suspens\u00e3o? Seria imposs\u00edvel dize-lo. De s\u00fabito ecoou um ru\u00eddo long\u00ednquo e uma voz gritou: Socorro! E o sino do porto come\u00e7ou a soar. \u00c9 prov\u00e1vel que a felicidade \u00e9bria e celeste n\u00e3o ouvisse o tumulto.<\/p>\n<p>O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no \u00e2ngulo do muro j\u00e1 o n\u00e3o encontraria<\/p>\n<h2>Livro Segundo:Reconhecimento em Pleno Despotismo<\/h2>\n<p><b>ALEGRIA CERCADA DE ANG\u00daSTIA<\/b><\/p>\n<p>Mess Lethierry agitava o sino com sofreguid\u00e3o. De s\u00fabito parou.<\/p>\n<p>Viu um homem voltar a esquina do cais. Era Gilliatt.<\/p>\n<p>Mess Lethierry correu a ele, ou, para melhor dizer, atirou-se a ele, tomou-lhe a m\u00e3o entre as suas, e olhou-o fixamente em sil\u00eancio; um desses sil\u00eancios de explos\u00e3o, n\u00e3o sabendo por onde irromper.<\/p>\n<p>Depois, com viol\u00eancia, sacudindo, e puxando, e apertando-o nos bra\u00e7os, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Brav\u00e9es, empurrou a porta com o tac\u00e3o, que ficou entreaberta, assentou-se ou caiu, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa iluminada pela lua, cujo reflexo embranquecia vagamente o rosto de Gilliatt, e, com uma voz onde havia gargalhadas e solu\u00e7os misturados, gritou: &#8211; Ah! Meu filho! Homem do bagpipe! Gilliatt! Eu sabia que eras tu! A pan\u00e7a! Que diabo! Conta-me isso! Pois foste! H\u00e1 cem anos queimavam-te. \u00c9 feiti\u00e7aria. N\u00e3o falta nada. J\u00e1 examinei, reconheci, apalpei. Adivinho que as rodas est\u00e3o nas duas caixas. Ent\u00e3o chegaste.<\/p>\n<p>Fui procurar-te na pan\u00e7a. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde est\u00e1 ele? Quero devor\u00e1-lo. \u00c9 preciso convir que se passam coisas extraordin\u00e1rias. Aquele animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! Tu \u00e9s um anjo. Sim, sim, sim, \u00e9 a minha m\u00e1quina. Ningu\u00e9m acredita. H\u00e3o de v\u00ea-la e dizer: n\u00e3o falta nem uma serpentina. O tubo de \u00e1gua n\u00e3o se deslocou. \u00c9 incr\u00edvel que n\u00e3o houvesse avaria. Falta s\u00f3 por um pouco de azeite.<\/p>\n<p>Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A \u00e1rvore das rodas est\u00e1 desmontada como se fosse feita por um ourives. D\u00e1-me a tua palavra de honra que eu n\u00e3o estou doido.<\/p>\n<p>Levantou-se, respirou e prosseguiu: &#8211; Jura-me. Que revolu\u00e7\u00e3o! Dou belisc\u00f5es em mim mesmo, vejo que n\u00e3o sonho. Tu \u00e9s meu filho, \u00e9s meu rapaz, \u00e9s Deus. Ah! Meu filho.<\/p>\n<p>Ir buscar a minha pobre m\u00e1quina! No mar alto! Naquela emboscada do escolho! Tenho visto muita coisa espantosa em minha vida.<\/p>\n<p>Nunca vi coisa assim. Vi os parisienses que s\u00e3o uns satanases.<\/p>\n<p>Boas! N\u00e3o faziam isto. \u00c9 pior que a Bastilha. Vi os ga\u00fachos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um galho de \u00e1rvore, do comprimento de 1 c\u00f4vado e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem, com isto, gr\u00e3os de trigo do tamanho de avel\u00e3s. N\u00e3o valem dois carac\u00f3is ao p\u00e9 de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! Tratante! Salta-me ao pesco\u00e7o. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar j\u00e1 e j\u00e1 de fazer o navio. \u00c9 admir\u00e1vel n\u00e3o ter quebrado a vara da redou\u00e7a. Meus senhores, ele foi \u00e0s Douvres. \u00c0s Douvres! Um penedo que n\u00e3o tem rival. J\u00e1 sabes, est\u00e1 provado que a coisa foi feita de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer- me. Embriagou Tangrouille. \u00c9 longo, depois te contarei a pirataria dele. Eu era um bruto, tinha confian\u00e7a em Clubin. Mas o malvado n\u00e3o pode naturalmente sair de l\u00e1. H\u00e1 um Deus, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-emos 20 p\u00e9s mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzig e Bremen.<\/p>\n<p>Agora que tenho a m\u00e1quina h\u00e3o de emprestar-me dinheiro. A confian\u00e7a voltar\u00e1.<\/p>\n<p>Mess Lethierry deteve-se, levantou os olhos com aquele olhar que v\u00ea o c\u00e9u atrav\u00e9s do teto, disse entre dentes: H\u00e1 um meio.<\/p>\n<p>Depois p\u00f3s o dedo m\u00e9dio da m\u00e3o direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica passagem de um projeto no c\u00e9rebro, e continuou: &#8211; \u00c9 o mesmo, para come\u00e7ar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah ! Se eu tivesse as minhas tr\u00eas notas de banco que o tratante de Rantaine me restituiu e que o tratante de Clubin me roubou! Gilliatt, em sil\u00eancio, procurou na algibeira alguma coisa, que colocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abriu e p\u00f3s na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha tr\u00eas peda\u00e7os de papel que desenrolou e estendeu a Mess Lethierry.<\/p>\n<p>Mess Lethierry examinou os tr\u00eas peda\u00e7os de papel. Havia bastante claridade para que o n\u00famero 1000 e a palavra thousand fossem perfeitamente vis\u00edveis. Mess Lethierry pegou nos tr\u00eas bilhetes, po-los na mesa um ao lado do outro, olhou para eles, olhou para Gilliatt ficou um momento calado, depois foi como que uma erup\u00e7\u00e3o depois de uma explos\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m isto! Tu \u00e9s prodigioso. As minhas notas do banco! Todas tr\u00eas! Mil cada uma! Os meus 75 000 francos! Ent\u00e3o foste ao inferno? \u00c9 o cinto de Clubin. Por Deus: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a m\u00e1quina e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos di\u00e1rios p\u00fablicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adivinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu l\u00e1 em algum canto. Compraremos pinho em Dantzig e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e eles duravam mais; \u00e9 que a madeira era mais seca porque n\u00e3o se constru\u00eda tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo \u00e9 bom para estar sempre na \u00e1gua: andando ora molhado, ora seco, apodrece: o olmo alimenta-se de \u00e1gua. Que bela Durande vamos fazer! N\u00e3o me h\u00e3o de impor. J\u00e1 n\u00e3o preciso cr\u00e9dito. Tenho dinheiro. J\u00e1 se viu coisa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega ele p\u00f5e-me de p\u00e9. E eu que n\u00e3o pensava nele! J\u00e1 nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! Bem, sabes, tu casas com D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Gilliatt encostou-se \u00e0 parede como se vacilasse e baixinho, mas distintamente, disse: &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>Mess Lethierry teve um sobressalto.<\/p>\n<p>&#8211; Como, n\u00e3o? Gilliatt respondeu: &#8211; N\u00e3o a amo.<\/p>\n<p>Mess Lethierry foi \u00e0 janela, abriu-a e fechou-a, pegou nas tr\u00eas notas do banco, dobrou-as, p\u00f3s a caixa em cima, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a parede e disse: &#8211; H\u00e1 alguma coisa! Meteu as m\u00e3os nos bolsos, e continuou: &#8211; N\u00e3o amas D\u00e9ruchette! Era ent\u00e3o por minha causa que tocavas bagpipe? Gilliatt, sempre encostado \u00e0 parede, empalidecia como um homem que est\u00e1 prestes a n\u00e3o respirar. A propor\u00e7\u00e3o que se tornava p\u00e1lido, Lethierry tornava-se vermelho.<\/p>\n<p>&#8211; Vejam este parvo! N\u00e3o ama D\u00e9ruchette! Porque ela n\u00e3o h\u00e1 de casar sen\u00e3o contigo. Que hist\u00f3rias s\u00e3o essas? Cuidas que te acredito? Est\u00e1s doente? Pois bem, manda chamar um m\u00e9dico, mas n\u00e3o digas extravag\u00e2ncias, \u00e9 imposs\u00edvel que tivesses tempo de brigar com ela e ficares arrufado. \u00c9 verdade que os namorados s\u00e3o uns tolos! Vamos, tens alguma raz\u00e3o? Se tens, fala; ningu\u00e9m \u00e9 tolo sem ter raz\u00e3o. Demais, eu tenho algod\u00e3o nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que disseste.<\/p>\n<p>Gilliatt replicou: &#8211; Disse que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Disseste que n\u00e3o. E teima o bruto! Tens alguma coisa, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Disseste que n\u00e3o! \u00c9 uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos d\u00e3o-se banhos medicinais a uma criatura.<\/p>\n<p>Ali! Tu n\u00e3o amas D\u00e9ruchette! Ent\u00e3o foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do pap\u00e1 que foste \u00e0s Douvres, que tiveste frio, que tiveste calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a m\u00e1quina como se traz a uma mulher bonita o can\u00e1rio que fugiu? E a tempestade de h\u00e1 tr\u00eas dias! Se tu imaginas que eu n\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia do que passaste! Estiveste em boas! Foi ent\u00e3o com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu s\u00f3, mais que todos os santos do para\u00edso? Ali! Idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanfona! Sempre a mesma toada, animal! Ah! Tu n\u00e3o amas D\u00e9ruchette! N\u00e3o sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto. D\u00e9ruchette disse: Casava-me. E h\u00e1 de casar contigo. Ah! N\u00e3o a amas! Feitas as reflex\u00f5es, eu n\u00e3o compreendo nada. Ou tu est\u00e1s doido ou eu! E n\u00e3o diz palavra! N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito fazer o que fizeste e dizer no fim: N\u00e3o amo D\u00e9ruchette. N\u00e3o se faz um obs\u00e9quio \u00e0 gente para obrig\u00e1-la a ficar com raiva. Pois bem, se n\u00e3o te casas com ela, D\u00e9ruchette n\u00e3o se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Ser\u00e1s piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, j\u00e1 te n\u00e3o largo. \u00c9s meu. Nem te quero ouvir. Onde h\u00e1 um marinheiro como tu? \u00c9s o meu homem. Mas fala, com os diabos! O sino tinha acordado a gente da casa e da vizinhan\u00e7a. Doce e Gra\u00e7a tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Gra\u00e7a trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burgueses, marinheiros e alde\u00f5es, sa\u00eddos \u00e0 pressa, estava fora no cais, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, come\u00e7avam a entrar silenciosamente pela porta entreaberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabe\u00e7a do Sr. Landoys, que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se n\u00e3o estivesse.<\/p>\n<p>As grandes alegrias querem sempre um p\u00fablico. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que oferece uma multid\u00e3o; partem da\u00ed.<\/p>\n<p>Mess Lethierry descobriu repentinamente que tinha gente \u00e0 roda de si. Aceitou logo o audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Voc\u00eas est\u00e3o a\u00ed? Que felicidade. J\u00e1 sabem a not\u00edcia. Este homem l\u00e1 foi e de l\u00e1 trouxe aquilo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda h\u00e1 pouco quando acordei vi o cano. Estava debaixo da minha janela.<\/p>\n<p>N\u00e3o falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napole\u00e3o; eu prefiro isto \u00e0 batalha de Austerlitz. Sabem voc\u00eas da coisa. A Durande chegou enquanto dormiam. Enquanto se metiam nos len\u00e7\u00f3is e apagavam as velas, h\u00e1 pessoas que s\u00e3o her\u00f3is. Uns s\u00e3o covardes, vadios, aquecem os seus reumatismos; felizmente isso n\u00e3o impede que haja esp\u00edritos fogosos. Esses v\u00e3o onde \u00e9 preciso ir, fazem o que \u00e9 preciso fazer. O homem da casa mal-assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abismo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isso? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a mar\u00e9, a mar\u00e9 e o vento. \u00c9 verdade que tu \u00e9s feiticeiro.<\/p>\n<p>Os que dizem isto j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o pasc\u00e1cios. Voltou a Durande! Em v\u00e3o se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, anuncio-lhes que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 naufr\u00e1gios. J\u00e1 examinei a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Est\u00e1 como nova, est\u00e1 completa! Movem-se os cilindros t\u00e3o facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a \u00e1gua que sai \u00e9 levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa a \u00e1gua que entra para utilizar o calor; pois bem, os dois tubos est\u00e3o salvos. A m\u00e1quina toda! As rodas tamb\u00e9m! Ah! H\u00e1s de casar com ela! &#8211; Com quem? Com a m\u00e1quina? &#8211; perguntou o Sr. Landoys.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, a pequena. Sim, a m\u00e1quina. Ambas. H\u00e1 de ser duas vezes meu genro. Good-bye, Capit\u00e3o Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer neg\u00f3cio, vai haver circula\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio, e transporte de bois e carneiros! N\u00e3o troco Saint-Sampson por Londres. E aqui est\u00e1 o autor. Digo-lhes que \u00e9 uma aventura. H\u00e1 de ler-se isto s\u00e1bado na gazeta de Mauger. O engenhoso Gilliatt \u00e9 um fin\u00f3rio. Que dinheiro \u00e9 este em ouro? Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nela, abriu-a, esvaziou-a na palma da m\u00e3o, p\u00f3s o punhado de guin\u00e9us sobre a mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Para os pobres. Sr. Landoys, de estes pounds da minha parte ao condest\u00e1vel de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei- lha outro dia; pois bem; aqui est\u00e3o as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja.<\/p>\n<p>Lembra-se do tempo que houve h\u00e1 tr\u00eas dias? Que ataque de vento e de chuva! O c\u00e9u disparava tiros de canh\u00e3o. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu rel\u00f3gio da parede. Gra\u00e7as a Gilliatt, j\u00e1 sou algu\u00e9m. A galeota do pai Lethierry vai continuar o servi\u00e7o, senhores e senhoras. Uma casca de noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma m\u00e1quina destas! Data de longe; foi uma id\u00e9ia que tive em Paris, no caf\u00e9 que faz a esquina da Rua Cristina e da Rua Delfina, lendo um jornal que falava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de meter a m\u00e1quina de Marly na algibeira e passear com ela? Este homem \u00e9 de ferro batido, \u00e9 a\u00e7o de t\u00eampera, \u00e9 diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordin\u00e1rio, mais espantoso que o Pr\u00edncipe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. N\u00f3s n\u00e3o valemos nada. Os lobos do mar somos n\u00f3s; o le\u00e3o do mar \u00e9 ele. Hurrah, Gilliatt! N\u00e3o sei o que ele fez, mas certamente fez o diabo, e como \u00e9 que n\u00e3o lhe hei de dar D\u00e9ruchette! Desde alguns instantes D\u00e9ruchette entrara na sala. N\u00e3o dissera palavra, n\u00e3o fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentara-se, quase despercebida, em uma cadeira por tr\u00e1s de Mess Lethierry de p\u00e9, loquaz, tempestuoso,. alegre, abundante de gestos, e falando em voz alta. Um pouco atr\u00e1s dela veio outra apari\u00e7\u00e3o muda.<\/p>\n<p>Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chap\u00e9u na m\u00e3o, parara na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado- As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura jovem e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com uma pureza de medalha; apoiava o cotovelo numa almofada da porta, e tinha a fronte na m\u00e3o esquerda, atitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da m\u00e3o. Havia uma ruga de angustia no canto de seus l\u00e1bios contra\u00eddos. Examinava e ouvia com aten\u00e7\u00e3o profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo Ebenezer Caudray, cura da par\u00f3quia, tinham-se afastado para deix\u00e1-lo passar, mas ele ficou na soleira. Havia hesita\u00e7\u00e3o na sua postura e decis\u00e3o no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de D\u00e9ruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de prop\u00f3sito, estava na sombra, e mal se podia v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Mess Lethierry n\u00e3o viu ao princ\u00edpio o Sr. Ebenezer, mas viu D\u00e9ruchette. Foi a ela e beijou-a com toda a sofreguid\u00e3o que pode ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o bra\u00e7o para o canto escuro onde estava Gilliatt.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e9ruchette &#8211; disse ele -, est\u00e1s outra vez rica e o teu marido \u00e9 aquele.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette levantou a cabe\u00e7a desvairada e olhou para a sombra.<\/p>\n<p>Mess Lethierry continuou: &#8211; H\u00e1 de se fazer o casamento quanto antes, amanh\u00e3, se for poss \u00edvel, h\u00e1 de haver dispensas, mas as formalidades s\u00e3o simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! N\u00e3o \u00e9 como na Fran\u00e7a, onde se precisam banhos, publica\u00e7\u00f5es, dila\u00e7\u00f5es, um chuveiro de formalidades e tu ser\u00e1s mulher de um homem valente e n\u00e3o h\u00e1 de que dizer, \u00e9 um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a pe\u00e7a de artilharia. Agora volta das Douvres com a tua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; \u00e9 um homem que h\u00e1 de dar o que falar; tu disseste: Caso-me com ele; pois h\u00e1s de casar; e h\u00e3o de ter filhos, e eu serei avo, e ter\u00e1s fortuna de ser a lady de um rapag\u00e3o s\u00e9rio, que trabalha, que \u00e9 \u00fatil, que \u00e9 surpreendente, que vale por cem, que salva as inven\u00e7\u00f5es dos outros, que \u00e9 uma provid\u00eancia, e ao menos n\u00e3o casar\u00e1s, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto \u00e9, o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes a\u00ed metido no canto, Gilliatt? Ningu\u00e9m te v\u00ea. Doce! Gra\u00e7a! Todos! Luzes! Iluminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal-assombrada, o grande marinheiro, e eu n\u00e3o terei outro genro, e n\u00e3o ter\u00e1s outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deus. Ali! Ali! E Vossa Reverend\u00edssima, senhor cura, h\u00e1 de casar-me estes pequenos.<\/p>\n<p>O olhar de Mess Lethierry acabava de cair no Reverendo Ebenezer.<\/p>\n<p>Doce e Gra\u00e7a tinham obedecido. Duas velas postas na mesa iluminavam Gilliatt da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1 bonito! &#8211; gritou Lethierry.<\/p>\n<p>Gilliatt estava hediondo.<\/p>\n<p>Estava tal qual sa\u00edra, naquela manh\u00e3, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovelos rotos, a barba longa, os cabelos eri\u00e7ados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as m\u00e3os sangrentas; tinha os p\u00e9s descal\u00e7os. Algumas das p\u00fastulas da pieuvre estavam vis\u00edveis nos bra\u00e7os cabeludos.<\/p>\n<p>Lethierry contemplava-o.<\/p>\n<p>\u00c9 o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! Est\u00e1 em frangalhos! Que ombros! Que p\u00e9s! Como \u00e9s belo! Gra\u00e7a correu a D\u00e9ruchette, amparou-lhe a cabe\u00e7a. D\u00e9ruchette tinha desmaiado.<\/p>\n<p><b>A MALA DE COURO<\/b><\/p>\n<p>Desde madrugada Saint-Sampson estava de p\u00e9 e Saint-Pierre-Port come\u00e7ava a chegar. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Durande fazia na ilha um rumor compar\u00e1vel ao que fez no meio-dia da Fran\u00e7a a Salette.<\/p>\n<p>Havia multid\u00e3o no cais para contemplar o cano que sa\u00eda da pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Tinham vontade de ver e tocar na m\u00e1quina, mas Lethierry, depois de repetir, e \u00e0 luz do dia, a inspe\u00e7\u00e3o triunfante da mec\u00e2nica, tinha posto na pan\u00e7a dois marinheiros encarregados de impedir que ningu\u00e9m se aproximasse. O cano, por\u00e9m, bastava \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. A multid\u00e3o pasmava. S\u00f3 se falava de Gilliatt. Comentava-se e aceitava-se a alcunha de engenhoso, a admira\u00e7\u00e3o acabava sempre por esta frase: Nem sempre \u00e9 agrad\u00e1vel ter na ilha gente capaz de fazer coisas destas.<\/p>\n<p>De fora via-se Mess Lethierry assentado \u00e0 mesa diante da janela e escrevendo, com um Olho no papel, e outro na m\u00e1quina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: &#8220;Doce!&#8221; e para pedir not\u00edcias de D\u00e9ruchette. Doce respondeu: &#8220;A menina levantou-se e saiu.&#8221; Mess Lethierry disse: &#8220;Faz bem tomar ar. Esteve incomodada de noite por causa do calor.<\/p>\n<p>Havia muita gente na sala. E depois a surpresa, a alegria e as janelas fechadas. Vai ter um marido soberbo!&#8221; E tornou a escrever. J\u00e1 tinha escrito e fechado duas cartas dirigidas aos mais not\u00e1veis construtores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.<\/p>\n<p>O rumor de uma roda no cais fez-lhe levantar a cabe\u00e7a. Inclinou-se \u00e0 janela e viu desembocar do atalho que ia ter \u00e0 casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de m\u00e3o. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre-Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarela com pregos de cobre e estanho.<\/p>\n<p>Mess Lethierry falou ao rapaz: &#8211; Onde vais? O rapaz parou, e respondeu: &#8211; Ao Cashemere.<\/p>\n<p>&#8211; Para que? &#8211; Levar esta mala.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, levar\u00e1s tamb\u00e9m estas tr\u00eas cartas.<\/p>\n<p>Mess Lethierry abriu a gaveta da mesa, e pegou num peda\u00e7o de barbante, enla\u00e7ou as tr\u00eas cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Dir\u00e1s ao capit\u00e3o do Cashemere que sou eu quem escrevo, e que ele tenha cuidado com elas. \u00c9 para a Alemanha. Bremen via Londres.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falarei ao capit\u00e3o, Mess Lethierry.<\/p>\n<p>&#8211; Por que? &#8211; O Cashemere n\u00e3o est\u00e1 no cais.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; Est\u00e1 na barra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justo, por causa do mar.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 posso falar ao patr\u00e3o do escaler.<\/p>\n<p>&#8211; Recomenda-lhe as minhas cartas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, Mess Lethierry.<\/p>\n<p>&#8211; A que horas parte o Cashemere? &#8211; Ao meio-dia.<\/p>\n<p>&#8211; Ao meio-dia hoje, \u00e9 a enchente da mar\u00e9. Tem contra si a mar\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tem vento de fei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Rapaz &#8211; disse Mess Lethierry pondo o dedo \u00edndex no cano da m\u00e1quina &#8211; v\u00eas isto? Isto zomba do vento e da mar\u00e9.<\/p>\n<p>O rapaz p\u00f3s as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a cidade.<\/p>\n<p>Mess Lethierry chamou: &#8211; Doce! Gra\u00e7a! Gra\u00e7a entreabriu a porta.<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1, Mess? &#8211; Entra e espera.<\/p>\n<p>Mess Lethierry pegou numa folha de papel e come\u00e7ou a escrever; se Gra\u00e7a, de p\u00e9 atr\u00e1s dele, fosse curiosa e esticasse o pesco\u00e7o, poderia ler, por cima do ombro, isto: Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de falar durante o dia aos carpinteiros para a avalia\u00e7\u00e3o. Vai ter \u00e0 casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se fa\u00e7a o mais cedo poss\u00edvel, e j\u00e1, ser\u00e1 melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Datou e assinou &#8220;Lethierry&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Leva isto a Gilliatt<\/p>\n<h2>Livro Terceiro:A Partida do Cashmere<\/h2>\n<p><b>A ANGRAZINHA PR\u00d3XIMA DA IGREJA<\/b><\/p>\n<p>Saint-Sampson n\u00e3o pode estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre-Port fique deserto. Uma coisa curiosa num ponto dado \u00e9 uma bomba aspirante. As not\u00edcias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janela de Mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande ocupa\u00e7\u00e3o de Guernesey. Qualquer outro acontecimento desaparecia diante desse. Eclipse da morte do decano de Saint-Asaph; j\u00e1 ningu\u00e9m curava do Reverendo Ebenezer Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua partida no Cashmere. A m\u00e1quina da Durande, trazida das Douvres, estava na ordem do dia. Ningu\u00e9m acreditava. O naufr\u00e1gio parecera extraordin\u00e1rio, mas o salvamento parecia imposs\u00edvel. Todos queriam ver com os seus pr\u00f3prios olhos. Todas as ocupa\u00e7\u00f5es ficaram suspensas. Longas fileiras de burgueses em fam\u00edlia, desde o vesin at\u00e9 o mess, homens, mulheres, gentlemen, m\u00e3es com filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a coisa, em Brav\u00e9es, e davam-se as costas a Saint-Pierre-Port.<\/p>\n<p>Muitas lojas de Saint-Pierre-Port estavam fechadas; no Cominercial Arcade, estagna\u00e7\u00e3o absoluta de venda e de neg\u00f3cio; toda a aten\u00e7\u00e3o estava voltada para a Durande, nenhum mercador estreou, exceto um ourives que se maravilhava de ter vendido um anel de ouro para casamento &#8211; a uma esp\u00e9cie de homem que parecia muito apressado e que lhe perguntou onde morava o sr. decano.<\/p>\n<p>As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde se comentava ruidosamente o milagroso salvamento da m\u00e1quina. Ningu\u00e9m passeava na Hyvreuse, que se chama hoje, n\u00e3o se sabe por que, Cambridge-Park; ningu\u00e9m em High Street, que se chamava ent\u00e3o a Rua Grande, nem em Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ningu\u00e9m em Hauteville; a pr\u00f3pria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que ali fosse de visita, e passasse em revista a mil\u00edcia de Ancresse, n\u00e3o despovoaria melhor a cidade. Todo aquele abalo a prop\u00f3sito de uma coisa \u00e0 toa, como Gilliatt, fazia erguer os ombros aos homens graves e \u00e0s pessoas corretas.<\/p>\n<p>A igreja de Saint-Pierre-Port, tr\u00edplice carreta sobreposta com transepto e flecha, fica situada \u00e0 beira da praia no fundo do porto quase sobre o desembarque. D\u00e1 a sauda\u00e7\u00e3o aos que chegam e o adeus aos que saem. Aquela igreja \u00e9 a mai\u00fascula de uma longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano \u00c9 ao mesmo tempo a par\u00f3quia de Saint-Pierre-Port e chefe de toda a ilha. Tem por p\u00e1roco o sub-rogado do bispo, clergyman com plenos poderes.<\/p>\n<p>O ancoradouro de Saint-Pierre-Port, hoje largo e magn\u00edfico porto, era naquela \u00e9poca, e ainda h\u00e1 dez anos, menos consider\u00e1vel que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes cicl\u00f3picas, curvas, partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quase na extremidade, onde havia um farolzinho branco.<\/p>\n<p>Debaixo daquele farol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a fechava na Idade M\u00e9dia, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre-Port. Aquela tenaz tomava ao mar um pouco de \u00e1gua que obrigava a ficar tranq\u00fcila. Mas, com vento de leste, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado n\u00e3o penetrar l\u00e1. Foi o que fez nesse dia o Cashemere, que ficou fora.<\/p>\n<p>Os navios, quando soprava o leste, faziam isso que, no fim das contas, economizava as despesas do porto. Nesses casos, os bateleiros da cidade, tribo valente de marinheiros que o novo porto destitu\u00edra, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cais, ou nas esta\u00e7\u00f5es da praia, e os transportavam.<\/p>\n<p>eles e \u00e0s bagagens, muitas vezes com mar\u00e9s agitadas e sempre sem acidentes, aos navios que deviam sair. O vento de leste \u00e9 um vento de flanco muito bom para ir \u00e0 Inglaterra; o mar \u00e9 agitado sem que o navio estreme\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando estava fora, podia-se escolher uma das costas vizinhas do ancoradouro do navio. Achavam-se em todas as angras bateleiros \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>A Angrazinha era dessas. Aquele cais ficava pr\u00f3ximo \u00e0 cidade, mas t\u00e3o solit\u00e1rio, que parecia longe. Devia a solid\u00e3o \u00e0s duas grandes penedias do forte de S\u00e3o Jorge que dominavam aquele s\u00edtio discreto.<\/p>\n<p>Chegava-se \u00e0 Angrazinha por caminhos diversos. O mais direto ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar \u00e0 cidade e \u00e0 igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser coberto pela mar\u00e9 duas vezes por dia.<\/p>\n<p>Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas anfractuosidade dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os lados. Havia espessuras de espinhos, fazendo uma esp\u00e9cie de noite suave naquela desordem de rochas e vagas; nada mais apraz\u00edvel do que aquela angra em tempo calmo, nada mais tumultuoso nas grossas \u00e1guas. Havia pontas de galhos perpetuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia de flores, ninhos, perfumes, aves, borboletas e abelhas. Gra\u00e7as aos trabalhos recentes, essa selvajaria j\u00e1 n\u00e3o existe; foi substitu\u00edda por belas linhas retas; h\u00e1 obras de pedreiro, cais, jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruiu as extravag\u00e2ncias da montanha e a incorre\u00e7\u00e3o dos rochedos.<\/p>\n<p><b>O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO<\/b><\/p>\n<p>Era pouco menos de 10 horas da manh\u00e3: o quarto de hora antes, como se diz em Guernesey.<\/p>\n<p>O povo, segundo todas as apar\u00eancias, ia engrossando em Saint-Sampson. A popula\u00e7\u00e3o, febricitante de curiosidade, ia toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que fica ao sul, estava mais deserta que nunca.<\/p>\n<p>Contudo, viam-se a\u00ed um bote e um remador. No bote havia um saco de viagem. O bateleiro parecia esperar.<\/p>\n<p>Via-se ao largo o Cashemere ancorado, que, devendo partir l\u00e1 para o meio-dia, n\u00e3o fazia nenhum movimento de aparelho.<\/p>\n<p>O viandante que, de qualquer dos caminhos-escadas tivesse prestado o ouvido, ouviria um murm\u00fario de palavras na Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria a alguma dist\u00e2ncia do bote, num recanto de pedras e galhos onde n\u00e3o podia penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas; um homem e uma mulher, Ebenezer e D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Esses asilos obscuros das praias, que tentam as banhistas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o solit\u00e1rios como se pensa. \u00c0s vezes espreita-se e ouve-se de fora. Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados atrav\u00e9s das espessuras das vegeta\u00e7\u00f5es, e gra\u00e7as \u00e0 multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e \u00e1rvores que escondem o refugiado podem esconder tamb\u00e9m uma testemunha.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette e Ebenezer estavam de p\u00e9 diante um do outro, com o olhar no olhar; tinham as m\u00e3os presas. Ebenezer estava calado.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima engrossada e presa entre os seus c\u00edlios hesitava em cair, e n\u00e3o ca\u00eda.<\/p>\n<p>A desola\u00e7\u00e3o e a paix\u00e3o estavam impressas na fronte religiosa de Ebenezer. Havia tamb\u00e9m uma resigna\u00e7\u00e3o pungente, hostil \u00e0 f\u00e9 , embora derivasse dela. Naquele rosto, simplesmente ang\u00e9lico at\u00e9 ent\u00e3o, havia um come\u00e7o de express\u00e3o fatal. Aquele que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, medita\u00e7\u00e3o nociva ao padre. Nessa medita\u00e7\u00e3o decomp\u00f5e-se a f\u00e9.<\/p>\n<p>Nada perturba tanto o esp\u00edrito como curvar-se ao peso do ignoto.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 o paciente dos acontecimentos. A vida \u00e9 um perp\u00e9tuo sucesso, imposto ao homem. O homem n\u00e3o sabe de que lado vir\u00e1 a brusca descida do acaso. As cat\u00e1strofes e as felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Tem a sua f\u00e9, a sua \u00f3rbita, a sua gravita\u00e7\u00e3o fora do homem. A virtude n\u00e3o traz a felicidade, o crime n\u00e3o traz a desgra\u00e7a; a consci\u00eancia tem uma l\u00f3gica, a sorte tem outra; nenhuma coincid\u00eancia. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A consci\u00eancia \u00e9 a linha reta, a vida \u00e9 o turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p>O turbilh\u00e3o atira \u00e0 cabe\u00e7a do homem caos negros e c\u00e9us azuis. A sorte n\u00e3o tem a arte das transi\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes a vida anda t\u00e3o depressa que o homem mal distingue o intervalo de uma perip\u00e9cia a outra e o la\u00e7o de ontem e hoje. Ebenezer era um crente mesclado de racioc\u00ednio e um padre mesclado de paix\u00e3o. As religi\u00f5es celibat \u00e1rias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como amar uma mulher. Todas as esp\u00e9cies de nuvens ensombravam Ebenezer.<\/p>\n<p>Contemplava demasiado D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Aquelas duas criaturas idolatravam-se.<\/p>\n<p>Havia na p\u00e1lpebra de Ebenezer a muda adora\u00e7\u00e3o do desespero.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette dizia: &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de partir. N\u00e3o tenho for\u00e7a para v\u00ea-lo ir-se embora. Eu acreditava poder despedir-me, e n\u00e3o posso. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a poder. Por que foi ontem ao jardim? N\u00e3o devia ir, se queria ir-se embora. Nunca lhe falei. Amava-o, mas n\u00e3o o sabia. Somente, quando o Sr. Herodes leu a hist\u00f3ria de Rebeca, e que os seus olhos encontraram os meus, senti as faces em fogo, e disse comigo: Oh! Como Rebeca devia ter corado! Ontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. \u00c9 o que h\u00e1 de terr\u00edvel neste amor. Foi uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me acautelei. Ia \u00e0 igreja, via-o, acreditei que todos eram como eu. N\u00e3o lhe fa\u00e7o censura alguma, nada fez para que eu o ame, n\u00e3o se deu a nenhum trabalho, olhava-me, n\u00e3o \u00e9 culpa sua se olha para as outras pessoas, e o resultado \u00e9 que eu o adoro. Eu nem reparava. Quando as suas m\u00e3os pegavam num livro, era uma luz; quando os outros pegavam nele, era apenas um livro. \u00c0s vezes levantava os olhos para mim. Falava dos arcanjos, e era o arcanjo. O que dizia, pensava-o eu logo. Antes de v\u00ea-lo n\u00e3o sei se acreditava em Deus. Depois que o vi tornei-me uma mulher qua faz as suas ora\u00e7\u00f5es. Eu dizia a Doce: Veste-me depressa, n\u00e3o quero faltar ao of\u00edcio. E corria \u00e0 igreja. Estar apaixonada por um homem \u00e9 isto. Eu n\u00e3o o sabia. Dizia comigo: Como estou devota! Depois de v\u00ea-lo \u00e9 que soube que eu n\u00e3o ia \u00e0 igreja por causa de Deus. Ia v\u00ea-lo, \u00e9 verdade. \u00c9 formoso, fala bem, quando levanta os bra\u00e7os para o c\u00e9u parece que tem o meu cora\u00e7\u00e3o entre as suas duas m\u00e3os brancas. Eu estava louca. Ignoravao.<\/p>\n<p>Quer que lhe diga a sua culpa? Foi entrar ontem no jardim e falar-me. Se nada me dissesse, eu nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas agora morrerei. Agora que eu sei que o amo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que se v\u00e1 embora. Em que pensa? Parece que n\u00e3o me ouve. Ebenezer respondeu: &#8211; A senhora ouviu o que se disse ontem.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, sim! &#8211; Que posso fazer? Calaram-se um momento. Ebenezer continuou: &#8211; S\u00f3 uma coisa devo fazer agora. Partir.<\/p>\n<p>&#8211; E eu morrer. Oh! Eu quisera que n\u00e3o houvesse mar e s\u00f3 houvesse o c\u00e9u! Parece-me que isto arranjaria tudo, e a nossa partida seria a mesma. N\u00e3o devia falar-me. Por que me falou? Que ser\u00e1 agora de mim? Digo-lhe que hei de morrer. H\u00e1 de ter ganho muito quando eu estiver no cemit\u00e9rio. OH! Tenho o cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado. Desventurada que sou! E meu tio n\u00e3o \u00e9 mau, contudo.<\/p>\n<p>Era a primeira vez na sua vida que D\u00e9ruchette dizia, falando de Mess Lethierry, meu tio. At\u00e9 ent\u00e3o sempre dizia meu pai.<\/p>\n<p>Ebenezer recuou um pouco e fez um sinal ao batele\u00edro. Ouviu-se o ru\u00eddo de um croque nas pedras e o passo de um homem no bote.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! &#8211; gritou D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Ebenezer aproximou-se dela.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso, D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, nunca! Por uma m\u00e1quina! Ser\u00e1 poss\u00edvel? Viu ontem aquele homem horr\u00edvel? N\u00e3o deve abandonar-me. Tem intelig\u00eancia, h\u00e1 de achar um meio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que me dissesse para vir aqui hoje, com a id\u00e9ia de partir. N\u00e3o lhe fiz nada. N\u00e3o tem motivos de queixa de mim. \u00c9 naquele navio que quer ir? N\u00e3o quero. N\u00e3o me deixe.<\/p>\n<p>N\u00e3o se abre o c\u00e9u para torn\u00e1-lo a fechar. Digo-lhe que h\u00e1 de ficar.<\/p>\n<p>Demais, ainda n\u00e3o bateu a hora. Oh! Eu te amo! E unindo-se a ele, cruzou-lhe os dez dedos por tr\u00e1s do pesco\u00e7o, como para fazer com os seus bra\u00e7os enla\u00e7ados em Ebenezer e com as suas m\u00e3os juntas uma ora\u00e7\u00e3o a Deus.<\/p>\n<p>Ele desla\u00e7ou aquela cadeia delicada, que resistiu enquanto pode.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette caiu assentada numa ponta de rocha coberta de hera, levantando com um gesto maquinal a manga do vestido at\u00e9 o cotovelo, mostrando o seu delicioso bra\u00e7o nu, com uma luz afogada e p\u00e1lida nos olhos fixos. O bote aproximava-se.<\/p>\n<p>Ebenezer segurou-lhe a cabe\u00e7a nas m\u00e3os; aquela virgem tinha o ar de uma vi\u00fava e aquele mancebo tinha o ar de um avo. Tocou-lhe os cabelos com uma esp\u00e9cie de precau\u00e7\u00e3o religiosa; fitou os olhos nela durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos quais parece que deveria abrir uma estrela e, com uma voz que tremia na suprema ang\u00fastia e onde se sentia a dilacera\u00e7\u00e3o da alma, disse-lhe esta palavra, a palavra das profundezas: Adeus! D\u00e9ruchette rompeu em solu\u00e7os.<\/p>\n<p>Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia: &#8211; Por que motivo n\u00e3o se casam? Ebenezer voltou a cabe\u00e7a. D\u00e9ruchette levantou os olhos.<\/p>\n<p>Gilliatt estava diante deles.<\/p>\n<p>Acabava de entrar por um atalho lateral.<\/p>\n<p>Gilliatt j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo homem da v\u00e9spera. Tinha penteado os cabelos, fez a barba, cal\u00e7ou os sapatos, vestiu camisa branca de marinheiro com grandes colarinhos ca\u00eddos, vestiu a roupa de marinheiro mais nova. Via-se um anel de ouro no dedo m\u00ednimo. Parecia profundamente calmo. Estava l\u00edvido.<\/p>\n<p>Bronze que sofre, tal era aquele rosto.<\/p>\n<p>Os dois olharam para ele estupefatos. Embora n\u00e3o se pudesse reconhece-lo, D\u00e9ruchette reconheceu-o. Quanto \u00e0s palavras que ele acabava de pronunciar, estavam t\u00e3o longe do que eles pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou: &#8211; Que necessidade \u00e9 essa de se dizerem adeus? Casem-se. Embarquem depois.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette estremeceu da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou: &#8211; Miss D\u00e9ruchette tem 21 anos. \u00c9 senhora de sua vontade. Seu tio \u00e9 apenas seu tio. Amam-se &#8230;<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette interrompeu docemente: &#8211; Como \u00e9 que o senhor est\u00e1 aqui? &#8211; Casem-se &#8211; continuou Gilliatt.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette come\u00e7ava a perceber o que lhe dizia aquele homem.<\/p>\n<p>Murmurou: &#8211; O meu pobre tio &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Recusaria se o casamento estivesse por fazer &#8211; disse Gilliatt -, e consentir\u00e1 quando o casamento estiver conclu\u00eddo. Demais, v\u00e3o embarcar ambos. Quando voltarem, ele os perdoar\u00e1.<\/p>\n<p>Gilliatt acrescentou com um tom amargo: &#8211; E depois, ele j\u00e1 n\u00e3o pensa sen\u00e3o em construir o vapor. Isso o distrair\u00e1 durante a sua aus\u00eancia. Tem Durande para consol\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o quisera balbuciou D\u00e9ruchette num espanto misturado de alegria n\u00e3o quisera deixar pesares indo-me embora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o durar\u00e3o muito tempo os pesares &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette tiveram uma esp\u00e9cie de deslumbramento.<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilizaram-se. Na sua decrescente perturba\u00e7\u00e3o, iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obriga\u00e7\u00e3o deles dois n\u00e3o era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre. Fracas s\u00e3o as obje\u00e7\u00f5es, quando se trata de voltar ao \u00c9den. Havia na atitude de D\u00e9ruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebenezer, alguma coisa que fazia causa comum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presen\u00e7a daquele homem e das suas palavras que, no esp\u00edrito de D\u00e9ruchette em particular, produziam muitas esp\u00e9cies de assombro, eram quest\u00f5es \u00e0 parte. Aquele homem dizia-lhes: Casem-se. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade, era ele quem a tomava sobre si. D\u00e9ruchette sentia confusamente que, por diversas raz\u00f5es, ele tinha o direito de fazelo.<\/p>\n<p>O que ele dizia de Mess Lethierry era verdade. Ebenezer, pensativo, murmurou: &#8211; Um tio n\u00e3o \u00e9 um pai.<\/p>\n<p>Ebenezer sentia a corrup\u00e7\u00e3o de uma perip\u00e9cia s\u00fabita e feliz. Os escr\u00fapulos prov\u00e1veis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquele pobre cora\u00e7\u00e3o apaixonado.<\/p>\n<p>A voz de Gilliatt tornou-se- breve e dura; sentia-se nela umas pulsa\u00e7\u00f5es de febre: &#8211; Imediatamente. O Cashemere parte daqui a duas horas. Tem tempo, mas n\u00e3o de sobra; venham ambos.<\/p>\n<p>Ebenezer examinava-o atentamente.<\/p>\n<p>De s\u00fabito exclamou: &#8211; Conhe\u00e7o-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.<\/p>\n<p>Gilliatt respondeu: &#8211; N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 adiante, na ponta dos Bancos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o esse lugar.<\/p>\n<p>&#8211; No mesmo dia em que cheguei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o percamos tempo &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o me engano, o senhor \u00e9 o homem de ontem \u00e0 noite.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama? Gilliatt al\u00e7ou a voz: &#8211; \u00d3 do bote, espere-nos. J\u00e1 voltamos. Miss, a senhora perguntoume por que motivo estava eu aqui, \u00e9 simples, eu acompanhei-os.<\/p>\n<p>A senhora tem 21 anos. Nesta terra quem chega \u00e0 maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Est\u00e1 pratic\u00e1vel, a mar\u00e9 h\u00e1 de encher l\u00e1 para o meio-dia.<\/p>\n<p>Mas vamos j\u00e1. Venham comigo.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette e Ebenezer pareciam consultar-se com o olhar.<\/p>\n<p>Estavam de p\u00e9, juntinhos, sem mexer-se; pareciam \u00e9brios. H\u00e1 dessas tenta\u00e7\u00f5es estranhas \u00e0 beira desse abismo que se chama felicidade. Compreendiam, sem compreender.<\/p>\n<p>&#8211; Ele se chama Gilliatt &#8211; disse D\u00e9ruchette baixinho a Ebenezer.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou com uma esp\u00e9cie de autoridade: &#8211; Que esperam? J\u00e1 lhes disse que me acompanhassem.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde? &#8211; perguntou Ebenezer.<\/p>\n<p>&#8211; Ali.<\/p>\n<p>E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja. Os dois acompanharam- no.<\/p>\n<p>Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dois vacilavam.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximavam da torre, via-se despontar naqueles puros e belos rostos de Ebenezer e D\u00e9ruchette alguma coisa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja iluminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt havia trevas.<\/p>\n<p>Dissera-se um espectro levando duas almas ao para\u00edso.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette n\u00e3o compreendiam muito o que se estava passando. A interven\u00e7\u00e3o daquele homem era o ramo a que se agarra o afogado. Eles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe aparece.<\/p>\n<p>Quem se sente morrer n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil em aceitar os incidentes.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette, mais ignorante, era mais confiante. Ebenezer pensava.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette era maior. As formalidades do casamento ingl\u00eas s\u00e3o simpl\u00edssima, sobretudo nos pa\u00edses aut\u00f3ctones onde os p\u00e1rocos tem quase um poder discricion\u00e1rio; mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma quest\u00e3o nisto.<\/p>\n<p>Contudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.<\/p>\n<p>Mas quem era aquele homem? E se era ele quem, na v\u00e9spera, foi declarado genro de Mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo? Ele, que era o obst\u00e1culo, tornava-se a provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Ebenezer prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento t\u00e1cito e r\u00e1pido do homem que se sente salvo.<\/p>\n<p>O caminho era desigual, \u00e0s vezes molhado e dif\u00edcil. Ebenezer, absorto, n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o aos charcos de \u00e1gua e \u00e0s pedras. De quando em quando, Gilliatt voltava-se e dizia a Ebenezer: Cuidado com essas pedras, d\u00ea-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p><b>A PREVID\u00caNCIA DA ABNEGA\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>Soavam 10 horas e meia quando eles entravam na igreja. Por causa da hora, e tamb\u00e9m por causa da solid\u00e3o da cidade naquele dia, a igreja estava vazia.<\/p>\n<p>No fundo, por\u00e9m, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitui o altar, havia tr\u00eas pessoas: eram o decano, o seu evangelista, e mais o lan\u00e7ador dos registros. O decano, que era o reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lan\u00e7ador estavam de p\u00e9.<\/p>\n<p>O Livro, aberto, estava sobre a mesa.<\/p>\n<p>Ao lado havia outro livro, era o registro da par\u00f3quia, igualmente aberto, e no qual um olhar atento poderia notar uma pagina escrita de fresco. Uma pena e um tinteiro ficavam ao lado do registro.<\/p>\n<p>Vendo entrar o Reverendo Ebenezer Caudray, o Reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Esperava-o &#8211; disse ele. &#8211; Tudo est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>O decano, com efeito, estava com o h\u00e1bito de oficiante.<\/p>\n<p>Ebenezer olhou para Gilliatt.<\/p>\n<p>O Reverendo Herodes continuou: &#8211; Estou \u00e0s suas ordens, meu colega.<\/p>\n<p>E fez-lhe uma cortesia.<\/p>\n<p>A cortesia n\u00e3o foi nem para a esquerda nem para a direita. Era evidente, pela dire\u00e7\u00e3o do raio visual do decano, que, para ele, s\u00f3 Ebenezer existia. Ebenezer era clergyman e gentleman. O decano n\u00e3o compreendia no seu cumprimento nem D\u00e9ruchette, que estava ao seu lado, nem Gilliatt, que estava atr\u00e1s. Havia no seu olhar um par\u00eantese em que s\u00f3 Ebenezer era admitido. A manuten\u00e7\u00e3o destas distin\u00e7\u00f5es faz parte da boa ordem e consolida as sociedades.<\/p>\n<p>O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva: &#8211; Meu colega, fa\u00e7o-lhe o meu duplo cumprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro.<\/p>\n<p>Demais, agora, gra\u00e7as a este vapor que vai ser restabelecido, Miss Lethierry tamb\u00e9m \u00e9 rica, o que eu aprovo. Miss Lethierry nasceu nesta par\u00f3quia, verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry \u00e9 maior e disp\u00f5e de si. Depois, seu tio, que \u00e9 toda a sua fam\u00edlia, consente. Querem casar-se j\u00e1 por causa da viagem, compreendo, mas sendo este casamento o do cura da par\u00f3quia, eu quisera mais alguma solenidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencial pode fazer-se no sum\u00e1rio. O ato j\u00e1 est\u00e1 escrito no livro do registro que est\u00e1 aqui, e falta s\u00f3 por os nomes. Nos termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado logo depois da inscri\u00e7\u00e3o. A declara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a licen\u00e7a j\u00e1 foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena irregularidade, porque o pedido de licen\u00e7a devia ser previamente registrado sete dias antes; mas eu reconhe\u00e7o a necessidade e a urg\u00eancia da partida. Seja. Vou cas\u00e1-los. O meu evangelista ser\u00e1 a testemunha do esposo; quanto \u00e0 esposa. .<\/p>\n<p>O decano voltou-se para Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt fez um sinal de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Basta &#8211; disse o decano.<\/p>\n<p>Ebenezer ficara im\u00f3vel. D\u00e9ruchette era o \u00eaxtase petrificado.<\/p>\n<p>O decano continuou: &#8211; H\u00e1, por\u00e9m, um obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette fez um movimento.<\/p>\n<p>O decano continuou: &#8211; O enviado de Mess Lethierry, que aqui est\u00e1 presente, e pediu a licen\u00e7a e assinou a declara\u00e7\u00e3o no registro &#8211; e com o polegar da m\u00e3o esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular nenhum nome &#8211; o enviado de Mess Lethierry disse-me esta manh\u00e3 que Mess Lethierry, por muito ocupado, n\u00e3o podia vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinenti. Esse desejo, verbalmente expresso, n\u00e3o \u00e9 suficiente. N\u00e3o posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir al\u00e9m disto sem informar-me de Mess Lethierry, a menos que me mostrem a assinatura dele. Qualquer que seja a minha boa vontade, n\u00e3o posso contentar-me com uma palavra que me repetem. Preciso de um escrito.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sirva isto de empecilho &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>E apresentou ao decano um papel.<\/p>\n<p>O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas linhas, sem d\u00favida, in\u00fateis, e leu alto: &#8220;Vai ter \u00e0 casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se fa\u00e7a o mais cedo poss\u00edvel, e j\u00e1, ser\u00e1 melhor.&#8221; P\u00f4s o papel em cima da mesa e continuou: &#8211; Assinado: &#8220;Lethierry&#8221;. A coisa seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas, como se trata de um colega, n\u00e3o exijo mais.<\/p>\n<p>Ebenezer olhou de novo para Gilliatt. H\u00e1 almas que se entendem.<\/p>\n<p>Ebenezer sentia naquilo uma fraude; e n\u00e3o teve for\u00e7a, n\u00e3o teve mesmo id\u00e9ia de denunci\u00e1-lo. Ou fosse obedi\u00eancia a um hero\u00edsmo latente que ele antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consci\u00eancia pela ventura s\u00fabita, Ebenezer n\u00e3o teve palavras.<\/p>\n<p>O decano tomou a pena e encheu, com o aux\u00edlio do lan\u00e7ador dos assentos, os claros da p\u00e1gina escrita no livro, depois levantou-se, e com o gesto convidou Ebenezer e D\u00e9ruchette a aproximar-se da mesa.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette estavam ao p\u00e9 um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se est\u00e1 casando saber\u00e1 o que eles sentiam.<\/p>\n<p>Gilliatt estava a alguma dist\u00e2ncia na obscuridade dos pilares.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette, ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no t\u00famulo e no sud\u00e1rio, vestira-se de branco. Esta id\u00e9ia de morte veio a prop\u00f3sito para as n\u00fapcias. O vestido branco fez dela uma noiva. Tamb\u00e9m os t\u00famulos s\u00e3o esponsais.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette irradiava. Nunca foi o que era naquele instante.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e n\u00e3o bastante formosa. A sua beleza pecava, se \u00e9 pecar, por excesso de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette em repouso, isto \u00e9, fora da paix\u00e3o e da dor, j\u00e1 o dissemos , era sobretudo gentil. A transfigura\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a encantadora \u00e9 a virgem ideal. D\u00e9ruchette, engrandecida pelo amor e pelo sofrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra.<\/p>\n<p>Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura, com mais perfume. Era uma esp\u00e9cie de bonina que se torna l\u00edrio.<\/p>\n<p>Tinha no rosto sinais de l\u00e1grimas estanques. Havia ainda talvez uma l\u00e1grima no canto do sorriso. As l\u00e1grimas estanques, vagamente vis\u00edveis, s\u00e3o um sombrio e doce ornato da felicidade.<\/p>\n<p>O decano, de p\u00e9 perto da mesa, p\u00f3s um dedo na B\u00edblia aberta e perguntou em voz alta: &#8211; H\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o? Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00e9m &#8211; disse o decano.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette deram um passo para o Reverendo Jaquemin Herodes.<\/p>\n<p>O decano disse: &#8211; Joe Ebenezer Caudray, queres esta mulher por tua esposa? Ebenezer respondeu: &#8211; Quero.<\/p>\n<p>O decano continuou: -Durande D\u00e9ruchette Lethierry, queres este homem por teu marido? D\u00e9ruchette, na agonia da alma demasiado feliz, como a da l\u00e2mpada demasiado cheia de \u00f3leo, murmurou em vez de pronunciar: &#8211; Quero.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, segundo o belo rito do casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solene pergunta: &#8211; Quem d\u00e1 esta mulher a este homem? &#8211; Eu &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>Houve um momento de sil\u00eancio. Ebenezer e D\u00e9ruchette sentiram uma vaga opress\u00e3o atrav\u00e9s da sua felicidade.<\/p>\n<p>O decano p\u00f3s a m\u00e3o direita de D\u00e9ruchette na m\u00e3o direita de Ebenezer, e Ebenezer disse a D\u00e9ruchette: &#8211; D\u00e9ruchette, tomo-te por minha mulher, quer sejas melhor ou pior, mais rica ou mais pobre, doente ou com sa\u00fade, para amar-te at\u00e9 \u00e0 morte, e dou-te a minha f\u00e9.<\/p>\n<p>O decano p\u00f4s a m\u00e3o direita de Ebenezer na m\u00e3o direita de D\u00e9ruchette, e D\u00e9ruchette disse a Ebenezer: &#8211; Ebenezer, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou pior, mais rico ou mais pobre, doente ou com sa\u00fade, para amar-te e obedecer-te at\u00e9 \u00e0 morte, e dou-te a minha f\u00e9.<\/p>\n<p>O decano continuou: Onde est\u00e1 o anel? Isto era o imprevisto. Ebenezer n\u00e3o tinha anel.<\/p>\n<p>Gilliatt tirou o anel de ouro que tinha no dedo m\u00ednimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o anel de casamento comprado de manh\u00e3 ao ourives de Comercial Arcade.<\/p>\n<p>O decano p\u00f3s o anel no livro, depois entregou-o a Ebenezer.<\/p>\n<p>Ebenezer pegou na m\u00e3ozinha esquerda, tr\u00eamula, de D\u00e9ruchette,meteu o anel no quarto dedo e disse: &#8211; Desposo-te com este anel.<\/p>\n<p>&#8211; Em nome do Padre, do Filho e do Esp\u00edrito Santo disse o decano.<\/p>\n<p>&#8211; Assim seja &#8211; disse o evangelista.<\/p>\n<p>O decano al\u00e7ou a voz: &#8211; Estais casados.<\/p>\n<p>&#8211; Assim seja &#8211; disse o evangelista.<\/p>\n<p>O decano continuou: &#8211; Oremos.<\/p>\n<p>Ebenezer e D\u00e9ruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.<\/p>\n<p>Gilliatt, que estava de p\u00e9, inclinou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Eles ajoelhavam-se diante de Deus, Gilliatt curvava-se ao destino<\/p>\n<p><b>PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES<\/b><\/p>\n<p>Saindo da igreja viram o Cashemere que come\u00e7ava a aparelhar.<\/p>\n<p>&#8211; Chegam a tempo &#8211; disse Gilliatt.<\/p>\n<p>Seguiram pelo caminho da Angrazinha.<\/p>\n<p>Os dois iam adiante, Gilliatt agora caminhava atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Eram dois son\u00e2mbulos. Mudara apenas o atordoamento. N\u00e3o sabiam nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se maquinalmente, n\u00e3o se lembravam da exist\u00eancia de coisa alguma, sentiam-se um outro, n\u00e3o podiam ligar duas id\u00e9ias. N\u00e3o pode pensar quem est\u00e1 em \u00eaxtase como n\u00e3o pode nadar quem est\u00e1 numa torrente.<\/p>\n<p>Pareciam ir penetrando num para\u00edso. N\u00e3o se falavam, conversavam com a alma. D\u00e9ruchette apertava contra si o bra\u00e7o de Ebenezer.<\/p>\n<p>O passo de Gilliatt atr\u00e1s deles fazia-lhes ver que ele estava presente.<\/p>\n<p>Iam profundamente comovidos mas sem dizer palavra; o excesso da como\u00e7\u00e3o transforma-se em estupefa\u00e7\u00e3o. A deles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses dois cora\u00e7\u00f5es agradecia-lhe ardente e vagamente.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette dizia consigo que havia alguma coisa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o fato. Sentiam-se \u00e0 discri\u00e7\u00e3o daquele homem decisivo e s\u00fabito, que, por autoridade, fazia a felicidade deles dois.<\/p>\n<p>Fazer-lhe perguntas, conversar com ele, era imposs\u00edvel. Eram de sobejo as impress\u00f5es que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolfados; era perdo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os fatos s\u00e3o \u00e0s vezes uma saraiva. Crivam a criatura. Ensurdecem.<\/p>\n<p>A precipita\u00e7\u00e3o dos incidentes, caindo em exist\u00eancias habitualmente calmas, tornam logo inintelig\u00edveis os acontecimentos aos que os sofrem ou deles se aproveitam. N\u00e3o se pode conhecer a sua pr\u00f3pria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem compreender. D\u00e9ruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as como\u00e7\u00f5es; primeiramente a fascina\u00e7\u00e3o, Ebenezer no jardim; depois o pesadelo, aquele monstro declarado seu marido; depois a desola\u00e7\u00e3o, o anjo abrindo as asas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifr\u00e1vel; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento sa\u00eda da agonia; o Gilliatt, cat\u00e1strofe de ontem, salva\u00e7\u00e3o de hoje. D\u00e9ruchette n\u00e3o compreendia nada. Era evidente que, desde manh\u00e3, Gilliatt n\u00e3o teve outra ocupa\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de cas\u00e1-los; fez tudo; respondeu por Mess Lethierry, falou ao decano, pediu licen\u00e7a, assinou a declara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria; eis a\u00ed como se realizou o casamento. Mas D\u00e9ruchette n\u00e3o compreendia nada; demais, mesmo quando ela compreendesse o como, n\u00e3o compreenderia o porque.<\/p>\n<p>Fechar os olhos, agradecer, mentalmente, esquecer aterra, e a vida, deixar-se levar para o c\u00e9u por \u00e0quele bom dem\u00f4nio, eis o que lhe cumpria fazer. Esclarecer seria longo, agradecer n\u00e3o seria bastante.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette calava-se naquele doce embrutecimento da ventura.<\/p>\n<p>Restava-lhe ainda algum pensamento, suficiente para gui\u00e1-la. Debaixo da \u00e1gua h\u00e1 peda\u00e7os de esponja que ficam brancos. Eles tinham a soma de lucidez necess\u00e1ria para distinguir o mar da terra e o Cashemere de qualquer outro navio.<\/p>\n<p>Dentro de poucos minutos estavam eles na Angrazinha.<\/p>\n<p>Ebenezer foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que D\u00e9ruchette ia acompanh\u00e1-lo, sentiu a sua manga docemente puxada.<\/p>\n<p>Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.<\/p>\n<p>&#8211; Senhora &#8211; disse ele -, n\u00e3o esperava partir. Eu cuido que naturalmente h\u00e1 de precisar de vestidos e roupa. Achar\u00e1 a bordo do Cashemere um caixotinho com objetos de mulher.<\/p>\n<p>Foi minha m\u00e3e quem mo deu. Era destinado \u00e0 mulher com quem eu casasse. Consinta que lho ofere\u00e7a.<\/p>\n<p>D\u00e9ruchette acordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou: &#8211; Agora, n\u00e3o \u00e9 para demor\u00e1-la, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma coisa. No dia em que houve aquela desgra\u00e7a, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lembra disso, \u00e9 natural. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry sofria muito. A verdade \u00e9 que era um belo navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoro\u00e7ada e compungida, s\u00e3o coisas que naturalmente se esquecem. S\u00f3 havia aquele navio perdido na costa. N\u00e3o se pode pensar sempre em um acidente. Somente o que eu queria dizer \u00e9 que, como se dizia que ningu\u00e9m era capaz de l\u00e1 ir, eu fui. Diziam eles que era imposs\u00edvel; n\u00e3o era imposs\u00edvel aquilo. Agrade\u00e7o-lhe o prestar-me aten\u00e7\u00e3o por alguns instantes. Compreende a senhora que se eu l\u00e1 fui ao escolho, n\u00e3o foi para ofende-la. Demais, a coisa data de longe. Eu sei que est\u00e1 com pressa. Se houvesse tempo, falar\u00edamos, recordar\u00edamos, mas isso de nada serve. A coisa data de um dia em que caiu neve. E depois eu passei uma vez, e cuido te-la visto sorrir. \u00c9 assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou ontem, eu n\u00e3o tive tempo de ir a casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, mete-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, n\u00e3o se entra assim na casa dos outros, pe\u00e7o-lhe que me perdoe. \u00c9 isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um belo tempo. Acha justo que eu lhe fale, n\u00e3o? \u00c9 o \u00faltimo minuto.<\/p>\n<p>&#8211; Penso na caixinha &#8211; respondeu D\u00e9ruchette &#8211; Por que n\u00e3o h\u00e1 de guard\u00e1-la para a sua mulher, quando se casar? &#8211; Senhora &#8211; disse Gilliatt -, provavelmente eu n\u00e3o me casarei nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 pena, porque \u00e9 uma boa alma. Obrigada.<\/p>\n<p>E D\u00e9ruchette sorriu. Gilliatt retribuiu-lhe com outro sorriso.<\/p>\n<p>Depois ajudou D\u00e9ruchette a entrar no escaler.<\/p>\n<p>Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde iam Ebenezer e D\u00e9ruchette atracava ao Cashemere<\/p>\n<p><b>A GRANDE TUMBA<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt seguiu pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre-Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa dele.<\/p>\n<p>Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Conhecia os atalhos, fez para si itiner\u00e1rios isolados e em ziguezagues: tinha o h\u00e1bito feroz do ente que n\u00e3o se julga estimado; andava de longe. Ainda crian\u00e7a, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois tornou-se-lhe instinto, de andar sempre afastado.<\/p>\n<p>Passou a Esplanada, depois a Salerie. De tempos a tempos, voltava- se e olhava para o Cashemere na barra, que lhe ficava por tr\u00e1s; e o Cashemere abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa que o Cashemere. Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com a cabe\u00e7a baixa. A mar\u00e9 come\u00e7ava a subir.<\/p>\n<p>Em certo momento parou e, voltando as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, al\u00e9m dos rochedos que escondiam a estrada do Vale, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado Basses Maisons. Foi ali, debaixo daquelas \u00e1rvores, que outrora o dedo de D\u00e9ruchette escreveu o nome Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava desfeita.<\/p>\n<p>Prosseguiu o caminho.<\/p>\n<p>O dia estava mais belo que nenhum outro naquele ano. A manh\u00e3 tinha um que de nupcial. Era um desses dias vernais em que maio ostenta-se todo inteiro; a cria\u00e7\u00e3o parecia n\u00e3o ter outro fim que dar uma festa e fazer a pr\u00f3pria felicidade. Sob todos aqueles rumores, da floresta como da aldeia, da vaga como da atmosfera, sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as ervas, os musgos, as rolhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca tinha servido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda can\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores era cantada por aves nascidas na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Era prov\u00e1vel que a casquinha do Ovo quebrada pelo biquinho dessas aves ainda estivesse no ninho. Ensaios de asas rumorejavam nas folhas tr\u00eamulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro v\u00f4o. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintassilgos, barbirruivos, pardais. Os lilases, os l\u00edrios, as dafries, as glic\u00ednias compunham nas moitas uma deliciosa variedade de cores. Uma linda lentilha aqu\u00e1tica que h\u00e1 em Guernesey cobria as lagoas de uma toalha de esmeralda. Banhavam-se as alv\u00e9loas nas lagoas, onde costumam fazer t\u00e3o graciosos ninhos.<\/p>\n<p>Via-se o c\u00e9u atrav\u00e9s de todas as falhas da vegeta\u00e7\u00e3o. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como ninfas. Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invis\u00edveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de gir\u00f3fleas. Os abrunheiros silvestres e os codessos estavam em flor; viam-se aqueles montinhos brancos luzindo e aqueles montinhos amarelos fulgurando atrav\u00e9s do cruzamento dos ramos.<\/p>\n<p>A primavera atirava toda a sua prata e ouro no imenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco.<\/p>\n<p>Ouvia-se no ar um grito de sauda\u00e7\u00e3o. Estio hospitaleiro abria a porta aos p\u00e1ssaros long\u00ednquos. Era a hora da chegada das andorinhas.<\/p>\n<p>Os tirsos dos juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os tirsos dos p\u00fariteiros. O belo e o lindo faziam boa vizinhan- \u00e7a: o soberbo contemplava-se pelo gracioso; o grande n\u00e3o tolhia o pequeno; n\u00e3o se perdia nenhuma nota do concerto; as magnific\u00eancia microsc\u00f3picas estavam em plano pr\u00f3prio naquela vasta beleza universal; distinguia-se tudo como numa \u00e1gua l\u00edmpida.<\/p>\n<p>Por toda a parte uma divina plenitude e um inturmescimento misterioso faziam adivinhar o esfor\u00e7o p\u00e2nico e sagrado da seiva em a\u00e7\u00e3o. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor.<\/p>\n<p>Havia um hino na flor e uma irradia\u00e7\u00e3o no ru\u00eddo. Escutava-se a grande harmonia difusa. O que come\u00e7ava a despontar procurava o que come\u00e7ava a surdir. Uma turva\u00e7\u00e3o, que surgia de baixo, e vertia tamb\u00e9m de cima, agitava vagamente os cora\u00e7\u00f5es, corrupt\u00edveis \u00e0 influ\u00eancia espessa e subterr\u00e2nea dos germes. A flor prometia obscuramente o fruto, todas as virgens cismavam, a reprodu\u00e7\u00e3o dos seres, premeditada pela imensa alma da sombra, esbo\u00e7ava-se na irradia\u00e7\u00e3o das coisas. Era o universal noivado. A vida, que \u00e9 a esposa, abra\u00e7ava o infinito, que \u00e9 o esposo. O dia estava claro, formoso e ardente; atrav\u00e9s das sebes, nas cercas, viam-se rir as crian\u00e7as. Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os pessegueiros, as cerejeiras, as pereiras cobriam os verg\u00e9is com os seus grossos tufos p\u00e1lidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas, as mil-rolhas, as margaridas, os amar\u00edlis, os jacintos, as violetas e as ver\u00f4nicas. As borragens azuis, os \u00edris amarelos pululavam, com as belas estrelinhas cor-de-rosa que florescem sempre aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras.<\/p>\n<p>Anim\u00e1lculos dourados corriam por entre as pedras. O sai\u00e3o florescente purpureava os tetos das cabanas. As oper\u00e1rias das colmeias andavam por fora. A abelha trabalhava. A extens\u00e3o estava cheia do murm\u00fario dos mares e do zumbido das moscas. A natureza, perme\u00e1vel na primavera, estava \u00famida de voluptuosidade.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a mar\u00e9 n\u00e3o enchera e ele pode atravessar a praia a p\u00e9 seco, despercebido por tr\u00e1s dos cascos de navios no estaleiro. Um. cord\u00e3o de pedras chatas, postas de espa\u00e7o a espa\u00e7o, auxiliava a passagem.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto da sa\u00edda, junto \u00e0 casa de Lethierry. A\u00ed andava o nome dele de boca em boca. Falava-se tanto dele que o n\u00e3o chegavam a ver.<\/p>\n<p>Gilliatt passou escondido de algum modo pelo pr\u00f3prio rumor que causava.<\/p>\n<p>Viu de longe a pan\u00e7a no lugar onde a amarrara, com o cano da m\u00e1quina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um para outro lado, e ouviu a voz tonante e alegre de Mess Lethierry dando ordens.<\/p>\n<p>Meteu-se pelas ruelas dentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ningu\u00e9m por tr\u00e1s de Brav\u00e9es, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do jardim. Parou no \u00e2ngulo onde estava a malva silvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de D\u00e9ruchette. Olhava para o ch\u00e3o da alameda onde viu abra\u00e7arem-se as duas sombras, que tinham desaparecido.<\/p>\n<p>Foi a caminho. Galgou a colina do castelo do Vale, desceu-a, e dirigiu-se para a casa mal-assombrada, onde morava.<\/p>\n<p>O Houmet Paradis estava solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A casa estava tal qual ele a deixara de manh\u00e3 depois de vestir-se para ir a Saint-Pierre-Port.<\/p>\n<p>Havia uma janela aberta. Via-se por ela o bagpipe pendurado em um prego da parede.<\/p>\n<p>Via-se na mesa a pequena B\u00edblia, dada em agradecimento a Gilliatt por um desconhecido, que era Ebenezer.<\/p>\n<p>A chave estava na porta. Gilliatt aproximou-se, p\u00f3s a m\u00e3o na chave, fechou a porta com duas voltas, p\u00f3s a chave no bolso, e afastou-se.<\/p>\n<p>Afastou-se, n\u00e3o para o lado de terra, mas para o lado do mar.<\/p>\n<p>Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto, pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os sea kales que plantara por serem do gesto de D\u00e9ruchette.<\/p>\n<p>Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.<\/p>\n<p>Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e estreita linha de cachopos que ligava a casa dele \u00e0quele grande obelisco de granito de p\u00e9, no meio do mar, que se chamava Corne de La Bete. Era ali que ficava a Cadeira Gild-HolmUr.<\/p>\n<p>Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos cabe\u00e7os. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a andar na borda de um telhado.<\/p>\n<p>Uma pescadora de rede que andava com os p\u00e9s descal\u00e7os, nos charcos que ficavam pr\u00f3ximos, e voltava para a praia, gritou-lhe: Cuidado. A mar\u00e9 est\u00e1 enchendo.<\/p>\n<p>Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da ponta, que formava um pin\u00e1culo no mar, parou. Acabava a terra. Era a extremidade do pequeno promont\u00f3rio.<\/p>\n<p>Olhou.<\/p>\n<p>Ao largo pescavam alguns barcos, com \u00e2ncoras fora. Via-se de quando em quando naqueles barcos um gotejar de prata: eram as redes que sa\u00edam da \u00e1gua. O Cashemere ainda n\u00e3o estava na altura de Saint-Sampson; desenrolara a mesena. Estava entre Herm e Jethou.<\/p>\n<p>Gilliatt torneou o rochedo. Chegou \u00e0 beira da Cadeira Gild-Holm-Ur, ao p\u00e9 dessa esp\u00e9cie de escada tosca que, menos de tr\u00eas meses antes, Ebenezer descera ajudado por ele.<\/p>\n<p>Gilliatt subiu.<\/p>\n<p>A maior parte dos degraus j\u00e1 estava debaixo da \u00e1gua. Apenas dois ou tr\u00eas estavam a seco. Gilliatt escalou-os.<\/p>\n<p>Os degraus iam ter \u00e0 Cadeira Gild-Holm-Ur. Chegou \u00e0 cadeira, contemplou-a por um momento, apoiou a m\u00e3o nos olhos e fe-la passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se apaga o passado, depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por tr\u00e1s de si, e o oceano aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>O Cashemere, nesse momento, passava pela grande torre arredondada e imersa, defendida por um sargento e um canh\u00e3o, e que marca na ba\u00eda a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre-Port.<\/p>\n<p>Nas fendas do rochedo tremiam algumas flores, por sobre a cabe\u00e7a de Gilliatt. A \u00e1gua estava toda azul. O vento era de leste, havia pouca ressaca \u00e0 roda de Serk, da qual em Guernesey s\u00f3 se v\u00ea a costa ocidental. Via-se ao longe a Fran\u00e7a corno uma bruma e a longa faixa amarela de areias de Carteret. De quando em quando passava uma borboleta branca. As borboletas gostam de passear sobre o mar.<\/p>\n<p>Fraca era a brisa. Todo aquele azul, embaixo, e em cima estava im\u00f3vel. Nenhuma tremura agitava aquelas serpentes de um azul mais claro ou mais carregado, que marcavam na superf\u00edcie do mar as tor\u00e7\u00f5es latentes dos baixios.<\/p>\n<p>O Cashemere, pouco impelido pelo vento, i\u00e7ou os cutelos para apanhar alguma brisa. Cobriu-se todo de panos. Mas o vento era de trav\u00e9s, o efeito dos cutelos obrigava-o a costear de perto Guernesey.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha passado a baliza de Saint-Sampson. Atingia a colina do castelo do Vale. Estava quase pr\u00f3ximo ao promont\u00f3rio da casa de Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt via-o aproximar-se.<\/p>\n<p>O ar e o mar estavam como que adormecidos. A mar\u00e9 enchia, n\u00e3o por meio de ondas, mas por inturnescimento. O n\u00edvel da \u00e1gua ia se levantando sem palpita\u00e7\u00e3o. O vento do largo mar, extinto, assemelhava-se a um h\u00e1lito de infante.<\/p>\n<p>Ouviam-se na dire\u00e7\u00e3o da porta de Saint-Sampson pequenos golpes surdos, que eram marteladas. Provavelmente eram os carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a m\u00e1quina da pan\u00e7a. Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que ele estava encostado.<\/p>\n<p>O Cashemere aproximava-se com uma lentid\u00e3o de fantasma.<\/p>\n<p>Gilliatt esperava.<\/p>\n<p>De s\u00fabito uma agita\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e uma sensa\u00e7\u00e3o de frio obrigaram-no a olhar para baixo. A \u00e1gua tocava-lhe os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.<\/p>\n<p>Cashemere estava perto.<\/p>\n<p>O rochedo onde as chuvas tinham cavado a Cadeira Gild-Holm-Ur, era t\u00e3o vertical, e havia tanta \u00e1gua naquele s\u00edtio, que os navios, podiam, em tempo de calma, passar ali a dist\u00e2ncia de algumas bra\u00e7as.<\/p>\n<p>O Cashemere chegou. Surgiu, al\u00e7ou-se. Parecia crescer sobre a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Foi como que um crescimento de sombra. Todo o aparelho destacou-se como massa negra, no c\u00e9u azul, e no magn\u00edfico balan\u00e7o do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se quase cor-de-rosa e tiveram uma transpar\u00eancia inef\u00e1vel.<\/p>\n<p>As ondas tinham um murm\u00fario indistinto. Nenhum rumor perturbava o resvalar majestoso daquela massa. De terra via-se o que se passava a bordo como se l\u00e1 se estivesse.<\/p>\n<p>Cashemere ro\u00e7ou quase pela rocha.<\/p>\n<p>O timoneiro estava no leme, um grumete trepava aos ov\u00e9ns, alguns passageiros, encostados \u00e0 amurada, contemplavam a serenidade do tempo, o capit\u00e3o fumava. Mas n\u00e3o era nada disso o que Gilliatt contemplava.<\/p>\n<p>Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para ali que ele olhava. Ali estavam Ebenezer e D\u00e9ruchette. Estavam assentados debaixo daquela luz, ele juntinho dela. Contra\u00edam-se graciosamente ao lado um do outro, como dois p\u00e1ssaros que se aquecem a um raio do meio dia, num desses bancos cobertos de um assento alcatroado que os navios bem preparados oferecem aos viajantes, e nos quais costuma ler-se, quando o navio \u00e9 ingl\u00eas: For ladies only . A cabe\u00e7a de D\u00e9ruchette ca\u00eda sobre o ombro de Ebenezer, o bra\u00e7o de Ebenezer estava por tr\u00e1s da cintura de D\u00e9ruchette, tinham as m\u00e3os agarradas uma \u00e0 outra e os dedos entrela\u00e7ados nos dedos. As diferen\u00e7as de um anjo a outro mostravam-se claramente naqueles dois delicados rostos feitos de inoc\u00eancia. Um era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquele casto abra\u00e7o, que encerrava o himeneu e o pudor. Aquele banco era j\u00e1 uma alcova e quase um ninho. Ao mesmo tempo, era uma gl\u00f3ria; a doce gl\u00f3ria do amor fugindo numa nuvem.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio era celeste.<\/p>\n<p>O olhar de Ebenezer agradecia e contemplava; moviam-se os l\u00e1bios de D\u00e9ruchette; e nesse sil\u00eancio delicioso, como o vento vinha do lado oposto, no instante r\u00e1pido em que o sloop resvalou a algumas toesas da Cadeira Cwild-Holm-Ur, Gilliatt ouvia a voz tema e delicada de D\u00e9ruchette que dizia: &#8211; Olha! Parece que h\u00e1 um homem no rochedo.<\/p>\n<p>Cashemere deixou a ponta do promont\u00f3rio atr\u00e1s de si, e mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em menos de um quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma esp\u00e9cie de obelisco branco diminuindo no horizonte. Gilliatt tinha \u00e1gua at\u00e9 os joelhos.<\/p>\n<p>Via o sloop afastar-se.<\/p>\n<p>A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pode ver o Cashemere i\u00e7ar os cutelos baixos para aproveitar o aumento do vento. O Cashmere j\u00e1 estava fora das \u00e1guas de Gueresey. Gilliatt n\u00e3o tirava os olhos do navio.<\/p>\n<p>A \u00e1gua chegava-lhe \u00e0 cintura.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 levantava-se. O tempo corria.<\/p>\n<p>As cotovias e os corvos marinhos esvoa\u00e7avam inquietos em roda dele. Dissera-se que procuravam adverti-lo. Talvez houvesse naqueles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o reconhecia.<\/p>\n<p>Decorreu uma hora.<\/p>\n<p>O vento do largo n\u00e3o soprava no porto, mas a diminui\u00e7\u00e3o do Cashemere era r\u00e1pida. O sloop, segundo as apar\u00eancias, ia a toda a for\u00e7a. J\u00e1 estava quase na altura de Casquets.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia espuma \u00e0 roda do rochedo Gild-Holm-Ur, nenhuma vaga batia no granito. A \u00e1gua inchava vagarosamente. J\u00e1 estava quase na altura dos ombros de Gilliatt.<\/p>\n<p>Decorreu outra hora.<\/p>\n<p>O Cashemere estava j\u00e1 al\u00e9m das \u00e1guas de Aurigny. O rochedo Ortach escondeu-o por um momento. Ocultou-se atr\u00e1s desse rochedo, e saiu depois, como de um eclipse. O sloop fugia para o norte. J\u00e1 entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo, por causa do sol, a cintila\u00e7\u00e3o de uma luz.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros soltavam pios a Gilliatt.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se via mais que a cabe\u00e7a dele.<\/p>\n<p>O mar subia com uma brandura sinistra.<\/p>\n<p>Gilliatt, im\u00f3vel, olhava para o Cashemere que se desvanecia. A mar\u00e9 estava quase cheia. Ca\u00eda a tarde. Por tr\u00e1s de Gilliatt, no porto, alguns barcos de pesca voltavam para terra.<\/p>\n<p>Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.<\/p>\n<p>Aqueles olhos fixos n\u00e3o se pareciam com coisa alguma que se possa ver na terra. Havia o inexprim\u00edvel naquela p\u00e1lpebra tr\u00e1gica e calma. O olhar continha toda a soma de tranq\u00fcilidade que deixa o sonho abortado; era a aceita\u00e7\u00e3o l\u00fagubre de outro complemento.<\/p>\n<p>Uma fuga de estrela deve ser acompanhada por olhares semelhantes.<\/p>\n<p>De quando em quando a obscuridade celeste aparecia naquela p\u00e1lpebra cujo raio visual estava fixo num ponto do espa\u00e7o. Ao mesmo tempo em que a \u00e1gua infinita subia \u00e0 roda do rochedo Gild-Holm-Ur, ia subindo a imensa tranq\u00fcilidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.<\/p>\n<p>O Cashemere, tornando-se impercept\u00edvel, era j\u00e1 uma mancha misturada \u00e0 bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde ele estava.<\/p>\n<p>A pouco e pouco, aquela mancha, que j\u00e1 n\u00e3o era uma forma foi empalidecendo.<\/p>\n<p>Depois diminuiu.<\/p>\n<p>Depois dissipou-se.<\/p>\n<p>No momento em que o navio dissipava-se no horizonte, a cabe\u00e7a desaparecia debaixo da \u00e1gua. Tudo acabou; s\u00f3 restava o mar<\/p>\n<h2>Livro Quarto:O Forro do Obst\u00e1culo<\/h2>\n<p><b>QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA<\/b><\/p>\n<p>Quando Gilliatt acordou, teve fome.<\/p>\n<p>Acalmava-se o mar. Havia, por\u00e9m, alguma agita\u00e7\u00e3o ao largo, que impedia a partida imediata. Demais, o dia j\u00e1 estava adiantado.<\/p>\n<p>Com o carregamento da pan\u00e7a, para chegar a Guernesey antes da meia-noite, era preciso sair de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Embora a fome urgisse, Gilliatt come\u00e7ou por despir-se, \u00fanico meio de aquecer-se.<\/p>\n<p>As roupas estavam molhadas da chuva, mas a \u00e1gua da chuva lavara a \u00e1gua do mar, o que fez com que agora pudessem secar as roupas.<\/p>\n<p>Gilliatt apenas ficou com as cal\u00e7as, que arrega\u00e7ou at\u00e9 os joelhos.<\/p>\n<p>Estendeu, com pesos em cima, nas sali\u00eancias do- rochedo, todo o resto da roupa.<\/p>\n<p>Depois pensou em comer.<\/p>\n<p>Gilliatt recorreu \u00e0 faca que teve o cuidado de afiar e t\u00ea-la em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crus.<\/p>\n<p>Mas, depois de tantos trabalhos, fraca era a pitan\u00e7a. J\u00e1 n\u00e3o tinha biscoito. Quanto \u00e0 \u00e1gua, n\u00e3o lhe faltava. Estava mais que saciado, estava inundado.<\/p>\n<p>Aproveitou a vazante para perlustrar os rochedos \u00e0 cata de lagostas. J\u00e1 havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Somente n\u00e3o refletia ele que j\u00e1 n\u00e3o podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao dep\u00f3sito, veria tudo derrubado pela chuva. O pau e o carv\u00e3o estavam encharcados e da provis\u00e3o de estopa que lhe servia de isca, n\u00e3o tinha um fio que n\u00e3o estivesse molhado. N\u00e3o havia meio de sacar fogo.<\/p>\n<p>De resto, o fole estava desorganizado; a tempestade saqueou-lhe o laborat\u00f3rio. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, n\u00e3o de forja. Mas Gilliatt, naquele momento, n\u00e3o pensava na oficina.<\/p>\n<p>Empuxado pelo est\u00f4mago, sem mais reflex\u00e3o, entrou a procurar comida. Estava, n\u00e3o na garganta do escolho, mas fora, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrara nas pedras.<\/p>\n<p>Para a ca\u00e7a que Gilliatt fazia, o exterior da viela valia mais que o interior. Os caranguejos, nas \u00e1guas baixas, tem costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aqueles entes disformes. \u00c9 uma coisa estranha a sa\u00edda deles em plena luz. Quase indigna-se a gente com eles. Quando os vemos, com seu aspecto obl\u00edquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degraus de uma escada, acreditamos por for\u00e7a que o oceano tamb\u00e9m tem os seus piolhos.<\/p>\n<p>Desses piolhos vivia Gilliatt h\u00e1 dois meses.<\/p>\n<p>Contudo nesse dia os caranguejos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrara aqueles solit\u00e1rios para os seus esconderijos, e ainda n\u00e3o se animavam a sair. Gilliatt tinha na m\u00e3o a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sarga\u00e7o. Comia andando.<\/p>\n<p>N\u00e3o devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt j\u00e1 se resignara aos ouri\u00e7os e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus p\u00e9s. Um grande caranguejo, assustado com a presen\u00e7a dele, tinha pulado na \u00e1gua. O caranguejo n\u00e3o mergulhou tanto que Gilliatt n\u00e3o o visse.<\/p>\n<p>Gilliatt come\u00e7ou a correr atr\u00e1s do caranguejo no esvazamento da rocha. O caranguejo fugia.<\/p>\n<p>De repente, n\u00e3o viu mais nada.<\/p>\n<p>O caranguejo metera-se por algum buraco debaixo do rochedo.<\/p>\n<p>Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pesco\u00e7o para ver se via alguma coisa.<\/p>\n<p>Havia, com efeito, uma anfratuosidade. O caranguejo devia ter-se refugiado a\u00ed.<\/p>\n<p>Era mais que uma fenda, era um p\u00f3rtico.<\/p>\n<p>O mar entrava por baixo desse p\u00f3rtico, mas n\u00e3o era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a seco. Assemelhavam-se a cabe\u00e7as de crian\u00e7as com cabelos verdes.<\/p>\n<p>Gilliatt p\u00f4s a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na \u00e1gua. Teve \u00e1gua quase at\u00e9 os ombros. Meteu-se pelo p\u00f3rtico. Achou-se num corredor gasto, com um esbo\u00e7o de ab\u00f3bada ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. J\u00e1 n\u00e3o via o caranguejo. Tomara p\u00e9. Caminhava e diminu\u00eda-se a luz. Come\u00e7ou a n\u00e3o ver coisa alguma.<\/p>\n<p>Depois de quinze passos, cessou a ab\u00f3bada. Estava fora do corredor. Havia mais espa\u00e7o, e por conseq\u00fc\u00eancia mais luz; as pupilas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpr\u00easa.<\/p>\n<p>Acabava de entrar naquela cava estranha visitada por ele um m\u00eas antes.<\/p>\n<p>Somente, desta vez entrou pelo mar.<\/p>\n<p>Aquela arcaria que ele vira afogada era a mesma por onde agora passou. Em certas mar\u00e9s baixas era pratic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefato. Tornava a achar aquele extraordin\u00e1rio pal\u00e1cio da sombra, aquela ab\u00f3bada, aqueles pilares, aqueles rubros, aquela vegeta\u00e7\u00e3o de pedras, e no fundo aquela cripta, quase santu\u00e1ria, e aquela pedra, quase altar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lhe despertava muito os pormenores, mas tinha no esp\u00edrito a id\u00e9ia do todo, e reconheceu.<\/p>\n<p>Via diante dele, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Tornara a ver, perto da arcaria ogival, as grotas baixas e obscuras, esp\u00e9cie de cavas na cava, que j\u00e1 observara de longe. A que ficava mais perto dele estava a seco e era f\u00e1cil de se lhe chegar.<\/p>\n<p>Mais perto ainda que essa descobriu ele, ao alcance da m\u00e3o, uma fenda horizontal no granito. Provavelmente estava ali o caranguejo. Meteu a m\u00e3o o mais que pode, e procurou \u00e0s apalpadelas naquele buraco de revas.<\/p>\n<p>De repente, sentiu que lhe agarravam no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>O que ele experimentou, nesse momento, foi o horror indescrit\u00edvel.<\/p>\n<p>Uma coisa que era delgada, \u00e1spera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra \u00e0 roda de seu bra\u00e7o nu, e subia-lhe para o peito. Era a press\u00e3o de uma correia, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma esp\u00e9cie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovelo e tocava-lhe o ombro. A ponta metia-se-lhe no sovaco.<\/p>\n<p>Gilliatt atirou-se para tr\u00e1s, e mal pode faz\u00ea-lo. Estava como que pregado. Com a m\u00e3o esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa m\u00e3o, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esfor\u00e7o desesperado para sacar o bra\u00e7o. S\u00f3 conseguiu inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flex\u00edvel como o couro, s\u00f3lida como o a\u00e7o, fria como a noite.<\/p>\n<p>Outra correia, estreita e pontuda, saiu do buraco da rocha. Era uma esp\u00e9cie de l\u00edngua saindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nu de Gilliatt, e, de repente, esticando-se, desmedida e fina, aplicou-se-lhe na pele e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento inaudito, sem compara\u00e7\u00e3o neste mundo, levantava os m\u00fasculos de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pele em muitos pontos, de um modo horr\u00edvel. Parecia-lhe que in\u00fameros l\u00e1bios, pregados \u00e0 carne, procuravam beber-lhe o sangue.<\/p>\n<p>Terceira correia saiu fora do rochedo, apalpou Gilliatt e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.<\/p>\n<p>A ang\u00fastia, no paroxismo, \u00e9 muda. Gilliatt n\u00e3o soltou um grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as formas repelentes aplicadas ao corpo dele.<\/p>\n<p>Quarta ligadura, esta r\u00e1pida como uma flecha, saltou-lhe a roda do ventre e enrolou-se-lhe.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel cortar e nem arrancar aquelas correias viscosas que aderiam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muit\u00edssimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de terr\u00edvel e estranha dor. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma por\u00e7\u00e3o de bocas pequeninas.<\/p>\n<p>Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrep\u00f4s-se \u00e0s outras e foi enroscar-se no diafragma de Gilliatt. A compress\u00e3o ajuntava-se \u00e0 ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.<\/p>\n<p>Aquelas ligaduras, pontudas na extremidade iam alargando como l\u00e2minas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Ele sentia deslocarem-se essas press\u00f5es obscuras que lhe pareciam bocas.<\/p>\n<p>Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata saiu de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a ele, como raios a um eixo; distinguiam-se do lado oposto daquele disco imundo o come\u00e7o de outros tr\u00eas tent\u00e1culos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade havia dois olhos.<\/p>\n<p>Olhavam eles para Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt reconheceu que era uma &#8220;pievre&#8221;<\/p>\n<p><b>O MONSTRO<\/b><\/p>\n<p>Para acreditar na pieuvre \u00e9 preciso te-la visto.<\/p>\n<p>Comparadas \u00e0 pieuvre, as velhas hidras fazem sorrir.<\/p>\n<p>Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que flutua em nossos sonhos encontra na realidade \u00edm\u00e3s aos quais esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras fic\u00e7\u00f5es do sonho surgem criaturas. O ignoto disp\u00f5e do prod\u00edgio e serve-se dele para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hes\u00edodo s\u00f3 puderam fazer a quimera; Deus fez a pieuvre.<\/p>\n<p>Quando Deus quer, excede no execr\u00e1vel. A raz\u00e3o desta vontade \u00e9 o medo do pensador religioso.<\/p>\n<p>Admitidos todos os ideais, se o terror \u00e9 um fim, a pieuvre \u00e9 uma obra-prima.<\/p>\n<p>A baleia \u00e9 enorme, a pieuvre \u00e9 pequena; o hipop\u00f3tamo tem uma coura\u00e7a, a pieuvre \u00e9 nua; a jararaca tem um silvo, a pieuvre \u00e9 muda; o rinoceronte tem um chifre, a pieuvre n\u00e3o tem chifre; o escorpi\u00e3o tem um dardo, a pieuvre n\u00e3o tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre n\u00e3o tem cauda; o tubar\u00e3o tem barbatanas cortantes, a pieuvre n\u00e3o tem barbatanas; o vespert\u00edlio-vampiro tem asas com unhas, a pieuvre n\u00e3o tem asas; o porco-espinho tem espinhos, a pieuvre n\u00e3o tem espinho; o espadarte tem um gl\u00e1dio, a pieuvre n\u00e3o tem gl\u00e1dio; o torpedo tem um raio, a pieuvre n\u00e3o tem raio; o sapo tem um v\u00edrus, a pieuvre n\u00e3o tem v\u00edrus; a v\u00edbora tem veneno, a pieuvre n\u00e3o tem veneno; o le\u00e3o tem garras, a pieuvre n\u00e3o tem garras.o gipaeto tem um bico, a pieuvre n\u00e3o tem bico; o crocodilo tem uma goela, a pieuvre n\u00e3o tem dentes.<\/p>\n<p>A pieuvre n\u00e3o tem massa muscular, nem grito amea\u00e7ador, nem coura\u00e7a, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga el\u00e9trica, nem v\u00edrus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre \u00e9, de todos os animais, o mais formidavelmente armado.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a pieuvre? \u00c9 a ventosa.<\/p>\n<p>Nos escolhos em pleno mar, onde a \u00e1gua mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos n\u00e3o visitadas, nas cavas desconhecidas onde abundam as vegeta\u00e7\u00f5es, os crust\u00e1ceos e as conchas, debaixo dos profundos p\u00f3rticos do oceano, o nadador que se arrisca, arrastado pela beleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro, n\u00e3o sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sai-se apavorado.<\/p>\n<p>Eis o que \u00e9 esse encontro sempre poss\u00edvel nas rochas do mar alto.<\/p>\n<p>Uma forma cinzenta oscila na \u00e1gua, da grossura de 1 bra\u00e7a e de meia vara de comprido; \u00e9 um trapo; essa forma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios saem bruscamente da roda de uma face que tem dois olhos; esses raios vivem; flamejam ondeando; \u00e9 uma esp\u00e9cie de roda desenrolada, tem 4 ou 5 p\u00e9s de di\u00e2metro. Desenrolamento medonho. Atira-se ao infeliz.<\/p>\n<p>A hidra arpoa o homem.<\/p>\n<p>Este animal aplica-se \u00e0 sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos bra\u00e7os. Por baixo \u00e9 amarelada, por cima \u00e9 t\u00e9rrea; nada pode imitar esse inexplic\u00e1vel matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando na \u00e1gua. \u00c9 aracn\u00eddeo pela forma, \u00e9 camele\u00e3o pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Coisa horr\u00edvel, \u00e9 fl\u00e1cida.<\/p>\n<p>Os seus n\u00f3s garroteiam; o seu contato paralisa.<\/p>\n<p>Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. \u00c9 a mol\u00e9stia feita monstruosidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode arranc\u00e1-la; agarra-se estreitamente \u00e0 sua presa.<\/p>\n<p>Como? Pelo v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>As oito antenas, largas na origem, v\u00e3o estreitando-se e terminam como agulhas; debaixo de cada uma delas alongam-se paralelamente duas filas de p\u00fastulas decrescentes, as grossas perto da cabe\u00e7a, as pequenas na ponta, e cada fila tem 25. H\u00e1 cinq\u00fcenta p\u00fastulas em cada antena, e todo o animal tem quatrocentas. Essas p\u00fastulas s\u00e3o ventosas.<\/p>\n<p>As ventosas s\u00e3o cartilagens cil\u00edndricas e l\u00edvidas. Na grande esp\u00e9cie v\u00e3o diminuindo de di\u00e2metro &#8211; desde uma moeda de 5 francos at\u00e9 a grossura de urna lentilha. Esses peda\u00e7os de tubos saem e entram no animal. Podem meter-se no corpo de um homem mais de 1 polegada.<\/p>\n<p>Este aparelho de suc\u00e7\u00e3o tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece \u00e0 menor inten\u00e7\u00e3o do animal. As sensibilidades mais delicadas n\u00e3o igualam \u00e0 contratibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este drag\u00e3o \u00e9 uma sensitiva.<\/p>\n<p>Este monstro \u00e9 aquele que os marinheiros chamam polvo, que a ci\u00eancia chama cefal\u00f3pode e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros ingleses chamam-no devil-fish, o peixe-diabo. Chamam-no tamb\u00e9m blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.<\/p>\n<p>\u00c9 muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e freq\u00fcente em Serk.<\/p>\n<p>Uma estampa da edi\u00e7\u00e3o de Buffon por Sonnini representa um cefal\u00f3pode estreitando uma fragata. Dion\u00edsio Montfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes pode meter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas atesta que nas nossas regi\u00f5es o polvo ataca o homem. Quem for a Serk ver\u00e1 perto de Brecq-Hou, o buraco do rochedo onde uma pieuvre h\u00e1 anos agarrou, reteve e afogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck enganam-se quando duvidam que o polvo, n\u00e3o tendo barbatanas, possa nadar. Aquele que escreve estas linhas viu com seus pr\u00f3prios olhos, em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir, a nado, um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha 4 p\u00e9s ingleses de largura e pode-se contar quatrocentos chupadores.<\/p>\n<p>O bicho agonizante atirava-os para longe de si convulsamente.<\/p>\n<p>Segundo Dion\u00edsio Montffort, um desses observadores, cuja alta intui\u00e7\u00e3o faz descer ou subir at\u00e9 o magismo, o polvo tem quase as paix\u00f5es do homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo \u00e9 odiar.<\/p>\n<p>O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de elimina\u00e7\u00e3o que o torna hostil.<\/p>\n<p>A pieuvre nadando conserva-se, por assim dizer, na bainha. Nada com as antenas fechadas. Imaginem uma manga cosida com um punho dentro. Esse punho, que \u00e9 a cabe\u00e7a, impele o l\u00edquido e avan\u00e7a com um vago movimento ondulat\u00f3rio; os dois olhos, embora grandes, s\u00e3o pouco distintos por serem da cor da \u00e1gua.<\/p>\n<p>A pieuvre, quando espreita a ca\u00e7a, esquiva-se; diminui-se, condensa-se; reduz-se \u00e0 mais simples express\u00e3o. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, exceto a coisa viva.<\/p>\n<p>A pieuvre \u00e9 o hip\u00f3crita. N\u00e3o se repara nela; repentinamente, abre-se.<\/p>\n<p>Que h\u00e1 a\u00ed de mais medonho que isso: uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amassado de \u00f3dio.<\/p>\n<p>\u00c9 no mais belo azul da \u00e1gua l\u00edmpida que surge essa hedionda estrela voraz do mar. O que \u00e9 terr\u00edvel \u00e9 que n\u00e3o se sente de longe.<\/p>\n<p>Quando a gente a v\u00ea, j\u00e1 est\u00e1 agarrada.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e0 noite, e particularmente na esta\u00e7\u00e3o do desejo, a pieuvre \u00e9 fosf\u00f3rica; aquele pavor tem os seus amores. Aguarda o himeneu.<\/p>\n<p>Faz-se bela, ilumina-se, e, do alto de algum rochedo, pode-se v\u00ea- la nas profundas trevas aberta numa irradia\u00e7\u00e3o, sol espectro.<\/p>\n<p>A pieuvre anda; tamb\u00e9m nada. \u00c9 um tanto peixe e um tanto r\u00e9ptil.<\/p>\n<p>Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem osso, nem sangue e nem carne. \u00c9 fl\u00e1cida. N\u00e3o tem nada dentro. \u00c9 uma pele. Pode-se virar-lhe os tent\u00e1culos de dentro para fora, como dedos de uma luva.<\/p>\n<p>Tem um s\u00f3 orif\u00edcio no centro dos oito raios.<\/p>\n<p>\u00c9 fria toda ela.<\/p>\n<p>Repelente bicho, \u00e9 um do mediterr\u00e2neo. \u00c9 um contato hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as m\u00e3os mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se puxa sem tirar, esp\u00e9cie de criatura resvaladi\u00e7a e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a s\u00fabita apari\u00e7\u00e3o da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 aperto igual ao do cefal\u00f3pode.<\/p>\n<p>\u00c9 uma m\u00e1quina pneum\u00e1tica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma escarifica\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Uma mordedura \u00e9 tem\u00edvel; \u00e9 menos ainda que uma suc\u00e7\u00e3o. A garra n\u00e3o iguala a ventosa. A garra \u00e9 o animal que entra na carne; a ventosa \u00e9 o homem que entra no bicho. Incham-se os m\u00fasculos, torcem-se as fibras, rebenta a pele, debaixo de um peso imundo, jorra o sangue, e mistura-se horrivelmente \u00e0 linfa do molusco. O bicho sobrep\u00f5e-se ao homem por mil bocas infames; a hidra incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se \u00e0 hidra. Ficam sendo um s\u00f3. Pesa aquele sonho. O tigre pode antes apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Puxa o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvaziado naquele terr\u00edvel saco, que \u00e9 um monstro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do terr\u00edvel, que \u00e9 ser comido vivo, h\u00e1 o inexprim\u00edvel, que \u00e9 ser bebido vivo.<\/p>\n<p>Essas estranhas anima\u00e7\u00f5es s\u00e3o ao princ\u00edpio rejeitadas pela ci\u00eancia, segundo o h\u00e1bito de sua excessiva prud\u00eancia; depois estuda-as, descreve-as, classifica-as, inscreve-as, p\u00f5e-lhes r\u00f3tulos, procura exemplares; exp\u00f5e-nas em museus; elas entram na nomenclatura; ela os qualifica moluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco al\u00e9m os calamares, um pouco aqu\u00e9m os depi\u00e1rios; para estas hidras da \u00e1gua salgada acham um an\u00e1lago na \u00e1gua doce, o argironete; divide-as em grande, m\u00e9dia e pequena esp\u00e9cie; admite mais facilmente a pequena esp\u00e9cie que a grande, o que \u00e9, em todas as regi\u00f5es, a tend\u00eancia da ci\u00eancia, a qual \u00e9 mais microsc\u00f3pica que telesc\u00f3pica; olha a sua constru\u00e7\u00e3o e chama-os cefal\u00f3podes; conta as suas antenas e chama-os oct\u00f3podes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a ci\u00eancia os larga, a filosofia os retoma.<\/p>\n<p>A filosofia estuda por sua vez esses entes. Ela vai menos longe e mais longe que a ci\u00eancia. N\u00e3o os disseca, medita-os.<\/p>\n<p>Onde o escalpelo trabalhou, imerge a hip\u00f3tese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas criaturas o inquietam quase sobre o criador. S\u00e3o as surpresas; hediondas. S\u00e3o os perturbadores, do contemplativo. Ele as verifica desvairado. S\u00e3o as formas intencionais do mal. Que fazer diante dessas blasfemais da cria\u00e7\u00e3o contra si pr\u00f3pria? A quem deve ele queixar-se? O poss\u00edvel \u00e9 uma matriz formid\u00e1vel. O mist\u00e9rio concentra-se em monstros. Lanhos de sombra saem deste penedo &#8211; a imin\u00eancia -, rasgam-se, destacam-se, rolam, flutuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polariza\u00e7\u00f5es desconhecidas, tomam vida, comp\u00f5em uma forma com obscuridade e uma alma com o miasma, e v\u00e3o-se, larvas atrav\u00e9s da vitalidade. \u00c9 alguma coisa semelhante \u00e0s trevas feitas animais. Por que? Para que? Volta a quest\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Esses animais s\u00e3o fantasmas e monstros, a um tempo. S\u00e3o provados e improv\u00e1veis. Ser \u00e9 o fato, n\u00e3o ser \u00e9 o direito. S\u00e3o os anf\u00edbios da morte. A sua inverossimilhan\u00e7a complica a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tocam a fronteira humana e povoam o limite quim\u00e9rico. Negais o vampiro, aparece a pieuvre. \u00c9 uma certeza que desconcerta a nossa seguran\u00e7a. O otimismo, que \u00e9 a verdade, perde-se quase diante deles. S\u00e3o a extremidade vis\u00edvel dos c\u00edrculos negros. Marcam a transi\u00e7\u00e3o da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse come\u00e7o de entes terr\u00edveis que o sonhador entreve confusamente na noite.<\/p>\n<p>Esses prolongamentos de monstros, no invis\u00edvel ao princ\u00edpio, no poss\u00edvel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo \u00eaxtase severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos fil\u00f3sofos. Da\u00ed a conjetura de um inferno. O dem\u00f4nio \u00e9 o tigre do invis\u00edvel. A besta feroz das almas foi denunciada ao g\u00eanero humano por dois vision\u00e1rios, um que se chama Jo\u00e3o, outro que se chama Dante.<\/p>\n<p>Se, com efeito, os c\u00edrculos da sombra continuam indefinidamente, se, depois de um anel h\u00e1 outro, se isto vai em progress\u00e3o ilimitada, se existe a cadeia, de que estamos resolvidos a duvidar, \u00e9 certo que a pieuvre numa extremidade prova Satan\u00e1s na outra.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o mau num limite prova a maldade no outro.<\/p>\n<p>Todo animal feroz, como toda intelig\u00eancia perversa, \u00e9 esfinge.<\/p>\n<p>Esfinge terr\u00edvel, propondo o enigma terr\u00edvel. O enigma do mal.<\/p>\n<p>Essa perfei\u00e7\u00e3o do mal \u00e9 que faz inclinar \u00e0s vezes os grandes esp\u00edritos para a cren\u00e7a do Deus duplo, para o tremendo bifronte dos maniqueus.<\/p>\n<p>Uma rede chinesa, roubada na \u00faltima guerra, no pal\u00e1cio do imp\u00e9rio da China, representa o tubar\u00e3o comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a \u00e1guia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.<\/p>\n<p>Toda a natureza devora ou \u00e9 devorada. As presas mastigam-se umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Entretanto os s\u00e1bios que tamb\u00e9m s\u00e3o fil\u00f3sofos, e por conseq\u00fc\u00eancia ben\u00e9volos para a cria\u00e7\u00e3o, acham ou acreditam achar a explica \u00e7\u00e3o disto. O fim destas coisas aparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquele misterioso esp\u00edrito exato, que foi oposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explica\u00e7\u00e3o dizem ser esta: a morte exige a inuma\u00e7\u00e3o. Esses vorazes s\u00e3o coveiros.<\/p>\n<p>Todas as criaturas entram urnas nas outras. Podrid\u00e3o \u00e9 alimenta\u00e7\u00e3o. Assustadora limpeza do globo. O homem, carn\u00edvoro, tamb\u00e9m \u00e9 coveiro. A nossa vida \u00e9 feita de morte. Tal \u00e9 a lei terr\u00edfica. Somos sepulcros.<\/p>\n<p>No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: por que? \u00c9 por isto.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 isto a explica\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 esta a resposta? Mas ent\u00e3o por que n\u00e3o ser\u00e1 outra a ordem? Reaparece a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivamos, seja.<\/p>\n<p>Mas fa\u00e7amos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.<\/p>\n<p>Sigamos a consci\u00eancia que nos leva para l\u00e1.<\/p>\n<p>Porquanto, n\u00e3o o esque\u00e7amos nunca, o prefer\u00edvel s\u00f3 \u00e9 achado pelo melhor<\/p>\n<p><b>OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABISMO<\/b><\/p>\n<p>Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.<\/p>\n<p>Aquele monstro era o habitante daquela grota. Era o medonho g\u00eanio do lugar. Esp\u00e9cie de sombrio dem\u00f4nio da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Todas essas magnific\u00eancia tinham por centro o horror.<\/p>\n<p>Um m\u00eas antes, no dia que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a forma escura, entrevista por este nas dobras da \u00e1gua secreta, era aquela pieuvre.<\/p>\n<p>Estava ela em sua casa.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt, entrando pela segunda vez na caverna, em busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que o caranguejo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco \u00e0 espreita.<\/p>\n<p>Pode-se imaginar esta espera? Nenhum p\u00e1ssaro ousaria chocar, nenhum Ovo ousaria abrir, nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum cora\u00e7\u00e3o ousaria amar, nenhum esp\u00edrito ousaria voar, se pensasse nas sinistras emboscadas do abismo.<\/p>\n<p>Gilliatt metera o bra\u00e7o no buraco; a pieuvre agarrou-o.<\/p>\n<p>Gilliatt estava preso.<\/p>\n<p>Era a mosca daquela aranha.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha \u00e1gua at\u00e9 a cintura, os p\u00e9s agarrados nos seixos arredondados e resvaladi\u00e7os, com o bra\u00e7o direito atado pelas correias da pieuvre, e o tronco do corpo desaparecendo quase debaixo das dobras e cruzamentos daquela atadura horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Dos oitos bra\u00e7os da pieuvre, tr\u00eas aderiam \u00e0 rocha, cinco aderiam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeavam Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si chupadores. Complica\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia e de enj\u00f4o. Estava apertado dentro de uma grande m\u00e3o, cujos dedos el\u00e1sticos e do comprimento de 1 metro, s\u00e3o inteiramente cheios de p\u00fastulas vivas que lhe fu\u00e7avam na carne.<\/p>\n<p>J\u00e1 o dissemos, n\u00e3o se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ela aperta-se mais. O seu esfor\u00e7o cresce na raz\u00e3o do esfor\u00e7o do homem. Quanto maior \u00e9 a sacudidela, maior \u00e9 a constri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt s\u00f3 tinha um recurso, a faca.<\/p>\n<p>Tinha a m\u00e3o esquerda livre; \u00e9 sabido que ele usava dela poderosamente.<\/p>\n<p>Podia dizer-se que tinha duas m\u00e3os direitas.<\/p>\n<p>Nessa m\u00e3o tinha ele a faca aberta.<\/p>\n<p>N\u00e3o se cortam as antenas da pieuvre; \u00e9 um couro imposs\u00edvel de cortar, resvala debaixo da l\u00e2mina; demais, a superposi\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que um corte nessas correias iria at\u00e9 \u00e0 carne.<\/p>\n<p>O polvo \u00e9 formid\u00e1vel, h\u00e1, contudo, uma maneira de vence-o. Os pescadores de Serk o sabem; quem os viu executar no mar certos movimentos bruscos, tamb\u00e9m o sabe. Os ouri\u00e7os do mar tamb\u00e9m conhecem esse modo. O polvo, na verdade, s\u00f3 \u00e9 vulner\u00e1vel na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o o ignorava.<\/p>\n<p>Nunca tinha visto uma pieuvre daquele tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande esp\u00e9cie. Qualquer outro terse-ia perturbado.<\/p>\n<p>H\u00e1 um momento para vencer a pieuvre, como o touro; \u00e9 o instante em que o touro curva o pesco\u00e7o, \u00e9 o instante em que a pieuvre estica a cabe\u00e7a; instante r\u00e1pido. Quem o deixa escapar est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a suc\u00e7\u00e3o das 250 ventosas.<\/p>\n<p>A pieuvre \u00e9 traidora. Procura apavorar a presa. Agarra e espera o mais que pode.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha a faca na m\u00e3o. As suc\u00e7\u00f5es aumentavam.<\/p>\n<p>Ele olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para ele.<\/p>\n<p>De repente, o bicho desprendeu do rochedo e, atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o bra\u00e7o esquerdo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabe\u00e7a. Mais um segundo e a sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt, sangrado no corpo e preso pelos bra\u00e7os, estaria morto.<\/p>\n<p>Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.<\/p>\n<p>Evitou a antena, e, no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua m\u00e3o armada abateu-se sobre o bicho.<\/p>\n<p>Houve duas convuls\u00f5es em sentido inverso: a da pieuvre e a de Gilliatt.<\/p>\n<p>Foi luta de dois rel\u00e2mpagos.<\/p>\n<p>Gilliatt mergulhou a ponta da faca na vistosidade chata e, com um movimento girat\u00f3rio semelhante \u00e0 tor\u00e7\u00e3o de uma chicotada, fazendo um c\u00edrculo \u00e0 roda dos dois olhos, arrancou a cabe\u00e7a como quem arranca um dente.<\/p>\n<p>Estava acabado.<\/p>\n<p>O bicho caiu.<\/p>\n<p>Parecia uma roupa que se desprende. Destru\u00edda a bomba aspirante, desfez-se o v\u00e1cuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo foi ao fundo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Gilliatt, ofegante da luta, pode ver a seus p\u00e9s, em cima das pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes, a cabe\u00e7a de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque n\u00e3o se poderia dizer corpo.<\/p>\n<p>Gilliatt, contudo, receando algum ataque convulsivo da agonia, colocou-se fora de alcance dos tent\u00e1culos.<\/p>\n<p>Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca<\/p>\n<p><b>NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE<\/b><\/p>\n<p>Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quase sem f\u00f4lego; tinha o bra\u00e7o direito e o corpo roxos; esbo\u00e7avam-se neles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O rem\u00e9dio para essas les\u00f5es \u00e9 a \u00e1gua salgada; Gilliatt mergulhou na \u00e1gua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da m\u00e3o e os tumores desapareciam.<\/p>\n<p>Recuando e mergulhando na \u00e1gua, achou-se ele pr\u00f3ximo da esp\u00e9cie de cava que ficava ao p\u00e9 do buraco onde a pieuvre o agarrou.<\/p>\n<p>A cava prolongava-se obliquamente, e a seco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que ali se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das mar\u00e9s ordin\u00e1rias. Essa anfratuosidade era um largo c\u00edmbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ali e iluminava-a fracamente.<\/p>\n<p>Aconteceu que, esfregando a pele intumescida, Gilliatt levantou maquinalmente os olhos. Olhou para dentro da cava. Estremeceu.<\/p>\n<p>Pareceu-lhe ver no fundo desse buraco, na sombra, uma esp\u00e9cie de cara rindo.<\/p>\n<p>Gilliatt ignorava a palavra alucina\u00e7\u00e3o, mas conhecia a coisa. Os misteriosos encontros com o inveross\u00edmil, que chamamos alucina\u00e7\u00f5es, existem na natureza. Ilus\u00f5es ou realidades, as vis\u00f5es aparecem.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 presente v\u00ea-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser \u00e0s vezes alucinado como um profeta. N\u00e3o se \u00e9 impunemente sonhador dos lugares solit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Acreditou em uma dessas miragens das quais, homem noturno como era, mais de uma vez teve. medo.<\/p>\n<p>Era um nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas, iam estreitando-se at\u00e9 a extremidade da cripta onde os seixos e a ab\u00f3bada se juntavam e fechavam.<\/p>\n<p>Gilliatt entrou e, inclinando a cabe\u00e7a, dirigiu-se para o que estava no fundo.<\/p>\n<p>Era, com efeito, alguma coisa que ria.<\/p>\n<p>Era uma caveira.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia s\u00f3 a caveira, havia tamb\u00e9m o esqueleto.<\/p>\n<p>Um esqueleto humano estava deitado na cava.<\/p>\n<p>O olhar de um homem audaz, em tais ocasi\u00f5es, quer saber das coisas a fundo.<\/p>\n<p>Gilliatt olhou em roda de si.<\/p>\n<p>Estava cercado de uma por\u00e7\u00e3o de caranguejos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se mexiam eles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os caranguejos estavam mortos. Estavam vazios.<\/p>\n<p>Os grupos, semeados, faziam no ch\u00e3o de seixos que enchiam a cava constela\u00e7\u00f5es disformes.<\/p>\n<p>Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhara por cima sem reparar.<\/p>\n<p>Na extremidade da cripta onde chegara Gilliatt, havia maior espessura.<\/p>\n<p>Era um mont\u00e3o im\u00f3vel de antenas, de patas e de mand\u00edbulas.<\/p>\n<p>Pin\u00e7as abertas conservavam-se direitas, e j\u00e1 se n\u00e3o fechavam.<\/p>\n<p>As caixas de ossos n\u00e3o se mexiam debaixo de sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior l\u00edvido. Este amontoado parecia uma multid\u00e3o de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.<\/p>\n<p>Debaixo desse mont\u00e3o estava o esqueleto.<\/p>\n<p>Via-se, debaixo dessa por\u00e7\u00e3o de tent\u00e1culos e escamas, o cr\u00e2nio com as estrias, as v\u00e9rtebras, os f\u00eamures, as t\u00edbias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costelas estavam cheias de caranguejos.<\/p>\n<p>Tinha palpitado ali algum cora\u00e7\u00e3o. Os buracos dos olhos estavam atapetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasais. N\u00e3o havia nesse recanto da caverna nem sarga\u00e7os, nem ervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento.<\/p>\n<p>Os dentes riam.<\/p>\n<p>O lado assustador do riso \u00e9 a imita\u00e7\u00e3o que faz dele uma caveira.<\/p>\n<p>Aquele maravilhoso pal\u00e1cio do abismo bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar revelava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava a\u00ed; e era uma tumba, a\u00ed jazia um homem.<\/p>\n<p>A imobilidade espectral do esqueleto e dos moluscos oscilava vagamente, por causa da reverbera\u00e7\u00e3o das \u00e1guas subterr\u00e2neas que tremia naquela petrifica\u00e7\u00e3o. Os caranguejos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refei\u00e7\u00e3o. Aquelas cascas pareciam comer aquele esqueleto. Nada mais estranho do que aquela bicharia morta, sobre aquele homem finado. Sombrias continua\u00e7\u00f5es da morte.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha, diante de si, o arm\u00e1rio da pieuvre.<\/p>\n<p>Vis\u00e3o l\u00fagubre, donde surgia o horror profundo das coisas. Os caranguejos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os caranguejos.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nenhum resto de roupa ao p\u00e9 do cad\u00e1ver. O homem devia ter sido agarrado nu.<\/p>\n<p>Gilliatt, atento e examinando, come\u00e7ou a tirar os caranguejos de cima do homem. Quem era esse homem? O cad\u00e1ver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma prepara\u00e7\u00e3o de anatomia; toda a carne estava eliminada; j\u00e1 n\u00e3o restava nenhum m\u00fasculo. Se Gilliatt fosse do oficio, reconheceria isso. Os peri\u00f3steos estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e ali, seria marfim puro. As divis\u00f5es cartilaginosas estavam delicadamente afiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.<\/p>\n<p>O cad\u00e1ver estava como que enterrado debaixo dos caranguejos mortos. Gilliatt desenterrava-o.<\/p>\n<p>De repente, inclinou-se vivamente.<\/p>\n<p>Acabava de ver, \u00e0 roda da coluna vertebral, uma esp\u00e9cie de atilho.<\/p>\n<p>Era um cinto de couro, que evidentemente fora atado ao ventre do homem antes de morrer.<\/p>\n<p>O couro estava cheio de mofo. A fivela estava enferrujada.<\/p>\n<p>Gilliatt puxou o cinto; as v\u00e9rtebras resistiram, e Gilliatt teve de quebr\u00e1-las, para tirar o cinto. O cinto estava intato. Come\u00e7ava a formar-se nele uma crosta de conchas.<\/p>\n<p>Gilliatt apalpou o cinto, e sentiu um objeto duro de forma quadrada no interior. N\u00e3o era poss\u00edvel abrir a fivela, Gilliatt cortou o couro com a faca.<\/p>\n<p>O cinto continha uma caixinha de ferro e algumas moedas de ouro.<\/p>\n<p>Gilliatt contou 20 guin\u00e9us.<\/p>\n<p>A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola, completamente oxidada, j\u00e1 n\u00e3o funcionava.<\/p>\n<p>A faca veio em aux\u00edlio de Gilliatt. Com a ponta da l\u00e2mina, fez ele pular a tampa da boceta.<\/p>\n<p>A boceta abriu-se.<\/p>\n<p>S\u00f3 havia papel dentro dela.<\/p>\n<p>Um macinho de folhas rinas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam \u00famidas, mas n\u00e3o alteradas. A boceta, hermeticamente fechada, preservou-as. Gilliatt abriu-as.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas notas do banco de 1000 libras esterlinas cada uma, formando uma soma de 75 000 francos.<\/p>\n<p>Gilliatt dobrou-as, Po-las na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os 20 guin\u00e9us, e fechou a caixinha o melhor que pode.<\/p>\n<p>Depois examinou o cinto.<\/p>\n<p>O couro, outrora envernizado pela parte de fora, n\u00e3o o era no interior. A\u00ed estavam tra\u00e7adas algumas letras com tinta gordurosa.<\/p>\n<p>Gilliatt decifrou as letras e leu: Sr. Clubin.<\/p>\n<p><b>H\u00c1 LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALO QUE SEPARA 6 POLEGADAS DE 2 P\u00c9S<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt meteu outra vez a caixinha no cinto, e p\u00f3s o cinto na algibeira da cal\u00e7a.<\/p>\n<p>Deixou o esqueleto aos caranguejos com a pieuvre morta ao p\u00e9.<\/p>\n<p>Enquanto Gilliatt esteve com a pieuvre e o esqueleto, a mar\u00e9 enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt s\u00f3 pode sair mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe f\u00e1cil; conhecia a sa\u00edda, e era mestre nessas gin\u00e1sticas do mar.<\/p>\n<p>Adivinhava-se o drama que se passara ali dez semanas antes. Um monstro agarrara o outro. A pieuvre agarrara Clubin.<\/p>\n<p>Foi isso, na sombra inexor\u00e1vel, o que se poderia chamar o encontro das hipocrisias. Houve, no fundo do abismo, um embate dessas duas exist\u00eancias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justi\u00e7as.<\/p>\n<p>O caranguejo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de caranguejos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um c\u00e3o, um homem se pode, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo da \u00e1gua o corpo morto. Os caranguejos s\u00e3o escaravelhos necr\u00f3foros do mar. Atrai-os a carne p\u00fatrida; eles aproximam-se, comem o cad\u00e1ver; a pieuvre os come depois. As coisas mortas desaparecem no caranguejo, o caranguejo desaparece na pieuvre. J\u00e1 indicamos esta lei.<\/p>\n<p>Clubin foi o eng\u00f4do da pieuvre.<\/p>\n<p>A pieuvre reteve-o e afogou-o; os caranguejos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquela cava, no fundo da anfratuosidade onde Gilliatt o achou.<\/p>\n<p>Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra coisa que n\u00e3o fosse caranguejos. Parecer-lhe-ia comer carne humana.<\/p>\n<p>Demais, ele tratava de cear o melhor poss\u00edvel antes de partir. J\u00e1 nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades s\u00e3o sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias \u00e0s vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manh\u00e3. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da mar\u00e9, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a pan\u00e7a para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exatamente o vento que lhe era preciso.<\/p>\n<p>Entrava o primeiro quarto de lua de maio; os dias eram longos.<\/p>\n<p>Quando Gilliatt, terminada a pesquisa dos rochedos e mais ou menos satisfeito do est\u00f4mago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a pan\u00e7a, j\u00e1 o sol ca\u00edra no poente, e o crep\u00fasculo redobrava com aquele meio luar que se pode chamar o luar do crescente; a mar\u00e9, que tinha enchido completamente, come\u00e7ava a vazar. O cano da m\u00e1quina, de p\u00e9 acima da pan\u00e7a, estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.<\/p>\n<p>Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitara, dentro da pan\u00e7a, muita \u00e1gua de chuva e do mar, e que, se quisesse partir no dia seguinte, era preciso esvaziar a barca.<\/p>\n<p>Tinha verificado, ao deixar a pan\u00e7a para ir procurar caranguejos, que havia cerca de 6 polegadas de \u00e1gua no por\u00e3o. A p\u00e1 de esgoto bastaria para deitar essa \u00e1gua fora.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 pan\u00e7a, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na pan\u00e7a perto de 2 p\u00e9s de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Incidente terr\u00edvel, a pan\u00e7a fazia \u00e1gua.<\/p>\n<p>Enchera-se pouco a pouco durante a aus\u00eancia de Gilliatt. Carregada como estava, 20 polegadas de \u00e1gua eram sobreposse. Mais um pouco e a pan\u00e7a iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, s\u00f3 acharia fora da \u00e1gua o casco e o mastro.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia perder um minuto em delibera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era preciso procurar o buraco, tap\u00e1-lo, depois esvaziar a barca, ou ao menos alivi\u00e1-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufr\u00e1gio; Gilliatt estava reduzido \u00e0 p\u00e1 de esgoto.<\/p>\n<p>Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.<\/p>\n<p>Gilliatt p\u00f3s m\u00e3os \u00e0 obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tr\u00eamulo. J\u00e1 n\u00e3o sentia fome, nem frio.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a continuava a encher. Felizmente n\u00e3o havia vento. O menor abalo da onda meteria a pan\u00e7a a pique.<\/p>\n<p>A lua desaparecera.<\/p>\n<p>Gilliatt, \u00e0s apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na \u00e1gua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.<\/p>\n<p>Durante a tempestade, no momento cr\u00edtico em que a pan\u00e7a se arqueava, a robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fratura no casco, a estibordo.<\/p>\n<p>Este buraco estava infelizmente, podia-se quase dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedia Gilliatt, na revista obscura e r\u00e1pida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.<\/p>\n<p>A fratura assustava porque era larga, e tranq\u00fcilizava porque, embora imersa neste momento pela enchente interna da \u00e1gua, ficava acima do lume da \u00e1gua.<\/p>\n<p>No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e j\u00e1 n\u00e3o havia n\u00edvel de flutua\u00e7\u00e3o, a onda penetrara pela refra\u00e7\u00e3o na pan\u00e7a; a pan\u00e7a, com mais essa carga, mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do l\u00edquido filtrado, fazendo levantar a linha de flutua\u00e7\u00e3o, manteve o buraco debaixo da \u00e1gua. Da\u00ed vinha a imin\u00eancia do perigo. A cheia aumentara de 6 polegadas a 20. Mas, conseguindo tapar o buraco, podia-se esvaziar a pan\u00e7a; esvaziada a pan\u00e7a, voltaria \u00e0 flutua\u00e7\u00e3o normal, a fratura sairia da \u00e1gua, e a seco, a repara\u00e7\u00e3o seria f\u00e1cil, ou ao menos poss\u00edvel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpintaria em bom estado.<\/p>\n<p>Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas m\u00e1s probabilidades! Gilliatt ouviu a \u00e1gua correr inexoravelmente. Um empux\u00e3o e tudo iria a pique. Que desgra\u00e7a! Talvez j\u00e1 n\u00e3o fosse tempo.<\/p>\n<p>Gilliatt acusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As 6 polegadas de \u00e1gua no por\u00e3o deviam te-lo advertido. Foi estupidez atribuir as 6 polegadas de \u00e1gua \u00e0 chuva e \u00e0 espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quase tamb\u00e9m a tempestade e a noite. Tudo era culpa dele.<\/p>\n<p>Essas coisas duras, que ele dizia a si pr\u00f3prio, iam de envolta com o vaiv\u00e9m do trabalho e n\u00e3o o impediam de observar.<\/p>\n<p>Achar o buraco era o primeiro passo; tap\u00e1-lo era o segundo. N\u00e3o se podia mais agora. N\u00e3o se faz carpintaria debaixo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Havia uma circunst\u00e2ncia favor\u00e1vel, era que o buraco do casco foi aberto no espa\u00e7o compreendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da m\u00e1quina. A estopa podia prender-se a essas correntes.<\/p>\n<p>Entretanto, a \u00e1gua subia. J\u00e1 passava de 2 p\u00e9s.<\/p>\n<p>Gilliatt tinha \u00e1gua acima dos joelhos<\/p>\n<p><b>&#8220;DE PROFUNDIS AD ALTUM&#8221;<\/b><\/p>\n<p>Gilliatt tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, na reserva do aparelho da pan\u00e7a um grande pano alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.<\/p>\n<p>Pegou nesse pano, amarrou dois cantos pelos cabos \u00e0s duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o pano por cima da borda. O pano caiu como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A \u00e1gua, querendo entrar na pan\u00e7a, aplicou-o ao casco sobre o buraco. Quanto mais a \u00e1gua batia, mais aderia o pano. Foi colocado pela vaga sobre a fratura. A chaga da barca estava pensada.<\/p>\n<p>A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do por\u00e3o e as vagas de fora. J\u00e1 n\u00e3o entrava nem gota de \u00e1gua sequer.<\/p>\n<p>O buraco estava tapado, mas n\u00e3o estopado.<\/p>\n<p>Era uma espera.<\/p>\n<p>Gilliatt come\u00e7ou a esvaziar a pan\u00e7a. Era tempo de alivi\u00e1-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que n\u00e3o iria ao fim e n\u00e3o chegaria a estancar o por\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilha\u00e7\u00e3o de sentir-se extenuado.<\/p>\n<p>Media o progresso dos trabalhos pela baixa do n\u00edvel da \u00e1gua nos seus joelhos. A descida era lenta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso a entrada da \u00e1gua estava apenas interrompida. O mal estava paliado, mas n\u00e3o reparado. O pano, empurrado na fratura pela vaga, come\u00e7ava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma m\u00e3o fechada debaixo do pano, procurando romper o buraco. A lona, s\u00f3lida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tens\u00e3o iam aumentando; n\u00e3o era certo que o pano n\u00e3o cedesse, e, de um momento para outro, o tumor poderia romper. Recome\u00e7aria ent\u00e3o a irrup\u00e7\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, n\u00e3o h\u00e1 outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a esp\u00e9cie, o que se acha \u00e0m\u00e3o, tudo quanto a l\u00edngua especial chama forro e mete-se o mais que pode na fenda do tumor da lona.<\/p>\n<p>Desse forro Gilliatt n\u00e3o tinha nenhum. Todos os panos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.<\/p>\n<p>Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pan\u00e7a j\u00e1 estava bastante aliviada, e ele podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escurid\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o havia lua; apenas o sombrio c\u00e9u estrelado. Gilliatt n\u00e3o tinha fios secos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para acende-la, nem lanterna para abrig\u00e1-la. Tudo estava confuso e indistinto na barca e no escolho. Ouvia a \u00e1gua rumorejar \u00e0 roda do casco ferido, nem sequer podia ver o buraco; foi com as m\u00e3os que Gilliatt pode averiguar a tens\u00e3o crescente do pano. Era imposs\u00edvel fazer naquela obscuridade uma pesquisa \u00fatil de peda\u00e7os de lona e massame espar\u00e7os nos cachopos. Como colher esses andrajos sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrelas e nem uma vela.<\/p>\n<p>A massa l\u00edquida diminu\u00edra na barca, a press\u00e3o externa aumentara.<\/p>\n<p>Crescia o inchamento do pano. Intumescia-se cada vez mais. Era um abscesso prestes a abrir. A situa\u00e7\u00e3o, um momento melhorada, tornava-se amea\u00e7adora.<\/p>\n<p>Era imperiosamente necess\u00e1rio um batoque.<\/p>\n<p>Gilliatt apenas tinha as suas roupas.<\/p>\n<p>Tinha-as posto a secar nas sali\u00eancias do rochedo da pequena Douvre.<\/p>\n<p>Foi busc\u00e1-las, e depositou-as na borda da pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Pegou no capote alcatroado e, ajoelhando-se na \u00e1gua, meteu-o no buraco, empurrando o tumor do pano para fora, e portanto esvaziando-o. Depois meteu a pele de carneiro, depois a camisa de l\u00e3, depois a japona. Tudo.<\/p>\n<p>Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a cal\u00e7a engrossou e apertou o batoque. Estava pronto e n\u00e3o parecia insuficiente.<\/p>\n<p>O batoque sa\u00eda pelo buraco, tendo o pano por inv\u00f3lucro.<\/p>\n<p>A \u00e1gua querendo entrar, apertava o obst\u00e1culo, alargava-o utilmente na fratura, e consolidava-o. Era uma esp\u00e9cie de compressa exterior.<\/p>\n<p>N\u00f3 interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava \u00e0 roda do buraco e do batoque em rolete circular do pano tanto mais aderente quanto que as desigualdades da fratura o retinham.<\/p>\n<p>A via da \u00e1gua estava tapada.<\/p>\n<p>Mas nada mais prec\u00e1rio do que aquilo. Os relevos agudos da fratura que fixavam o pano pediam fur\u00e1-lo e, por esses buracos, entraria a \u00e1gua. Gilliatt, na obscuridade, n\u00e3o descobria isso. Era pouco prov\u00e1vel que o batoque durasse at\u00e9 de manh\u00e3. A ansiedade de Gilliatt mudou de forma, mas ele sentia-a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Continuou a esvaziar o por\u00e3o, mas os seus bra\u00e7os, no extremo esfor\u00e7o apenas podiam levantar a p\u00e1 da \u00e1gua. Estava nu e tremia.<\/p>\n<p>Gilliatt sentia a aproxima\u00e7\u00e3o sinistra da extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passasse nas \u00e1guas de Douvres podia ajud\u00e1-lo. Era chegado o momento em que se tornava necess\u00e1rio um colaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dois, esvaziava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquela sobrecarga l\u00edquida, voltaria ao n\u00edvel de flutua\u00e7\u00e3o, o buraco sairia da \u00e1gua, o reparo seria exeq\u00fc\u00edvel, podia-se imediatamente substituir o batoque por uma pe\u00e7a de madeira, e o aparelho provis\u00f3rio por um conserto definitivo.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, era preciso esperar at\u00e9 de manh\u00e3, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdi\u00e7\u00e3o. Gilliatt tinha a febre da urg\u00eancia. Se por acaso algum farol de navio estava \u00e0 vista, Gilliatt poderia fazer sinais do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, n\u00e3o havia vento, n\u00e3o havia mar, um homem agitando-se no fundo estrelado do c\u00e9u tinha a possibilidade de ser visto. Um capit\u00e3o de navio, e mesmo um patr\u00e3o de lancha, n\u00e3o anda de noite nas \u00e1guas das Douvres sem por o \u00f3culo no escolho; \u00e9 a precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gilliatt esperava que o vissem.<\/p>\n<p>Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subiu \u00e0 grande Douvre.<\/p>\n<p>Nenhuma vela no horizonte. Nenhum farol.<\/p>\n<p>A \u00e1gua estava deserta a perder de vista.<\/p>\n<p>Nenhuma assist\u00eancia poss\u00edvel e nenhuma resist\u00eancia poss\u00edvel. Gilliatt, coisa que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o sentira, sentiu-se desarmado.<\/p>\n<p>A fatalidade obscura assenhoreara-se dele. Ele, com a barca, com a m\u00e1quina da Durande, com o trabalho, com o bom \u00eaxito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golf\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a mar\u00e9 e a noite? O batoque era o \u00fanico ponto de apoio. Gilliatt exaurira-se em compo-lo e complet\u00e1-lo; fortific\u00e1-lo \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o podia; o batoque devia ficar assim e fatalmente tinha acabado todo o esfor\u00e7o. O mar tinha \u00e0 sua discri\u00e7\u00e3o aquele aparelho prematuro aplicado ao buraco. Como resistiria aquele obst\u00e1culo inerte? Chegara-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o esp\u00edrito. O intumescimento de uma onda bastava para abrir a fratura. Maior ou menor press\u00e3o, a quest\u00e3o era essa.<\/p>\n<p>O desfecho ia nascer por uma luta maquinal entre duas quantidades mec\u00e2nicas. Gilliatt n\u00e3o podia, agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquele Gilliatt que tinha sido uma provid\u00eancia foi substitu\u00eddo no supremo instante por uma resist\u00eancia inconsciente.<\/p>\n<p>Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessara era igual a esta.<\/p>\n<p>Chegando ao escolho Douvres, viu-se cercado, como que agarrado pela solid\u00e3o. A solid\u00e3o fazia mais que cerc\u00e1-lo, envolvia-o. A um tempo mais de mil amea\u00e7as o desaflavam. O vento estava ali, prestes a soprar; ali estava o mar, prestes a rugir. Era imposs\u00edvel amorda\u00e7ar a goela ao vento, era imposs\u00edvel desarmar a boca do mar. E contudo tinha ele combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhara-se com a tempestade.<\/p>\n<p>Tinha afrontado outras ansiedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem aux\u00edlio, resolver problemas sem ci\u00eancia, comer e beber sem provis\u00f5es, dormir sem leito e sem teto.<\/p>\n<p>Naquele rochedo, ec\u00faleo tr\u00e1gico, puseram-lhe a quest\u00e3o as diversas fatalidades in\u00edquas da natureza, m\u00e3e quando quer, algoz quando lhe apraz.<\/p>\n<p>Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sede, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o sono. Encontrou no caminho os obst\u00e1culos coalizados. Depois da nudez, o elemento; depois da mar\u00e9, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.<\/p>\n<p>L\u00fagubre ironia final. Naquele escolho donde Gilliatt contava sair triunfante, Clubin morto olhara rindo para ele.<\/p>\n<p>Tinha raz\u00e3o o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se t\u00e3o morto como Clubin.<\/p>\n<p>O inverno, a fome, a fadiga, o desaparelhar do casco, o transporte da m\u00e1quina, o equin\u00f3cio, o vento, o trov\u00e3o, a pieuvre, tudo isso nada era ao p\u00e9 do arrombamento da pan\u00e7a. Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sede, a chuva; contra as dificuldades, a ind\u00fastria e a energia; contra a mar\u00e9 e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.<\/p>\n<p>O furac\u00e3o deixava-lhe aquele adeus sinistro. \u00daltima repeti\u00e7\u00e3o, p\u00e9rfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lan\u00e7ava-lhe aquela flecha. A derrota olhava para tr\u00e1s e feria. Era o coup de Jarnac do abismo.<\/p>\n<p>Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto? Se o batoque cedesse, nada podia impedir que a pan\u00e7a fosse a pique. Era a ligadura da art\u00e9ria que se rompe. E apenas fosse ao fundo da \u00e1gua, com a m\u00e1quina dentro, n\u00e3o havia meio de arranc\u00e1-la.<\/p>\n<p>O magn\u00e2nimo esfor\u00e7o de dois meses tit\u00e2nicos acabava por um aniquilamento. Recome\u00e7ar era imposs\u00edvel. Gilliatt j\u00e1 n\u00e3o tinha nem forja, nem materiais. Talvez tivesse ele de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente. e irremediavelmente toda a sua obra no golf\u00e3o.<\/p>\n<p>Coisa assustadora \u00e9 sentir debaixo de si a for\u00e7a sombria.<\/p>\n<p>O golf\u00e3o atra\u00eda-o.<\/p>\n<p>Engolida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o n\u00e1ufrago do rochedo Homem.<\/p>\n<p>Durante dois longos meses, as consci\u00eancias e as provid\u00eancias que existem no invis\u00edvel tinham assistido a isto: de um lado a extens\u00e3o, as vagas, os ventos, os rel\u00e2mpagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um \u00e1tomo.<\/p>\n<p>E houve batalha.<\/p>\n<p>E abortava talvez aquele prod\u00edgio.<\/p>\n<p>Assim chegou \u00e0 impot\u00eancia o inaudito hero\u00edsmo, acabava-se pelo desespero aquele formid\u00e1vel combate, aquela luta de Nada contra Tudo, aquela Il\u00edada de um.<\/p>\n<p>Gilliatt, desvairado, contemplava o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Nem mesmo tinha roupa, estava nu diante da imensidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no acabrunhamento de toda aquela enormidade desconhecida, n\u00e3o sabendo j\u00e1 o que queriam dele, confrontando-se com a sombra, em presen\u00e7a daquela obscuridade irredut\u00edvel, no rumor das \u00e1guas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta for\u00e7a esparsa, debaixo daquele misterioso firmamento das asas, dos astros e das tumbas, debaixo da inten\u00e7\u00e3o poss\u00edvel das coisas desmesuradas, tendo \u00e0 roda de si e em baixo de si o oceano, e acima as constela\u00e7\u00f5es, debaixo do insond\u00e1vel, Gilliatt abateu-se, desistiu, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrelas, vencido, e pondo as m\u00e3os diante da profundeza terr\u00edvel, bradou ao infinito: Piedade! Abatido pela imensidade, Gilliatt implorou.<\/p>\n<p>Estava s\u00f3 naquela noite, em cima daquele rochedo, no meio daquele mar, ca\u00eddo de cansa\u00e7o, nu como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abismo, em vez das feras as trevas, em vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestais as estrelas, em vez de C\u00e9sar, Deus.<\/p>\n<p>Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansa\u00e7o, na impot\u00eancia, na ora\u00e7\u00e3o, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos<\/p>\n<p><b>H\u00c1 UM OUVIDO NO IGNOTO<\/b><\/p>\n<p>Correram algumas horas.<\/p>\n<p>O sol levantava-se deslumbrante.<\/p>\n<p>O seu primeiro raio iluminou na plataforma da grande Douvre uma forma im\u00f3vel. Era Gilliatt.<\/p>\n<p>Continuava estendido em cima do rochedo.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o estremecia aquela nudez gelada e endurecida. Estavam l\u00edvidas as p\u00e1lpebras fechadas. Era dif\u00edcil dizer que n\u00e3o era um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>O sol parecia contempl\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se aquele homem nu n\u00e3o estava morto, devia estar t\u00e3o perto disso que bastaria o menor vento frio para acab\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a soprar o vento, t\u00e9pido e vivificante; era o h\u00e1lito vernal de maio.<\/p>\n<p>Entretanto, o sol subia no profundo c\u00e9u azul; o seu raio menos horizontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingiu Gilliatt.<\/p>\n<p>Gilliatt n\u00e3o se mexia. Se respirava, era uma respira\u00e7\u00e3o quase extinta que mal poderia embaciar um espelho.<\/p>\n<p>O sol continuava a sua ascens\u00e3o cada vez menos obl\u00edqua sobre Gilliatt. O vento, que era t\u00e9pido ao princ\u00edpio, tornou-se c\u00e1lido.<\/p>\n<p>Aquele corpo r\u00edgido e nu- continuava sem movimento; entretanto a pele parecia menos l\u00edvida.<\/p>\n<p>O sol, acercando-se do z\u00eanite, ca\u00eda a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do c\u00e9u uma prodigalidade de luz; juntava-se a ela a vasta reverbera\u00e7\u00e3o do mar tranq\u00fcilo, o rochedo come\u00e7ava a ficar t\u00e9pido e aquecia o homem.<\/p>\n<p>O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.<\/p>\n<p>Vivia.<\/p>\n<p>O sol continuava as suas car\u00edcias, quase ardentes. O vento, que j\u00e1 era o vento do meio-dia, e o vento de ver\u00e3o, aproximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando molemente.<\/p>\n<p>Gilliatt fez um movimento.<\/p>\n<p>Era inexprim\u00edvel a tranq\u00fcilidade do mar, tinha um murm\u00fario de ama ao p\u00e9 do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.<\/p>\n<p>As aves marinhas que conheciam Gilliatt voavam inquietas por sobre ele. J\u00e1 n\u00e3o era o medo selvagem do princ\u00edpio. Era um que de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam cham\u00e1-lo; uma gaivota que o amava, sem d\u00favida, teve a familiaridade de descer para junto dele. Come\u00e7ou a falar-lhe. Ele n\u00e3o parecia ouvi-la.<\/p>\n<p>Ela saltou-lhe sobre o ombro e come\u00e7ou a brincar docemente com o bico nos seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Gilliatt abriu os olhos.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros, alegres e ariscos, voaram.<\/p>\n<p>Gilliatt levantou-se e espregui\u00e7ou-se como o le\u00e3o acordando, correu a bordo da plataforma e olhou para o intervalo das Douvres.<\/p>\n<p>A pan\u00e7a estava intata. O batoque resistira; provavelmente o mar maltratara-o pouco.<\/p>\n<p>Tudo estava salvo.<\/p>\n<p>Gilliatt j\u00e1 n\u00e3o estava cansado. Refizeram-se-lhe as for\u00e7as. O desmaio foi um sono.<\/p>\n<p>Esvaziou a pan\u00e7a, p\u00e1s a avaria fora da flutua\u00e7\u00e3o, vestiu-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.<\/p>\n<p>O buraco, examinado de dia, demandava mais trabalho do que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em repar\u00e1-lo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a sa\u00edda do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo consigo o cinto de Clubin e os 75 000 francos, em p\u00e9 na pan\u00e7a consertada, ao lado da m\u00e1quina salva, com um vento de fei\u00e7\u00e3o e mar admir\u00e1vel, Gilliatt: saiu do escolho Douvres.<\/p>\n<p>Aproou sobre Guernesey.<\/p>\n<p>No momento em que se afastava do escolho, algu\u00e9m que l\u00e1 estivesse ter-lo-ia ouvido entoar a meia voz a can\u00e7\u00e3o &#8220;Bonny Dundee&#8221;.<\/p>\n<h2>FIM<\/h2>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Victor Hugo e tradu\u00e7\u00e3o de Machado de Assis Machado de Assis Apresenta\u00e7\u00e3o A religi\u00e3o, a sociedade, a natureza: tais s\u00e3o as tr\u00eas lutas do homem. 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