{"id":120526,"date":"2017-04-26T19:01:35","date_gmt":"2017-04-26T21:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120526"},"modified":"2017-04-26T19:08:22","modified_gmt":"2017-04-26T21:08:22","slug":"memorias-postumas-de-bras-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorias-postumas-de-bras-cuba","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Bras Cuba"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>AO LEITOR<\/p>\n<p>QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa \u00e9 que admira e consterna. O que n\u00e3o admira, nem provavelmente consternar\u00e1 \u00e9 se este outro livro n\u00e3o tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinq\u00fcenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Br\u00e1s Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, n\u00e3o sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil antever o que poder\u00e1 sair desse con\u00fabio. Acresce que a gente grave achar\u00e1 no livro umas apar\u00eancias de puro romance, ao passo que a gente fr\u00edvola n\u00e3o achar\u00e1 nele o seu romance usual, ei-lo a\u00ed fica privado da estima dos graves e do amor dos fr\u00edvolos, que s\u00e3o as duas colunas m\u00e1ximas da opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opini\u00e3o, e o primeiro rem\u00e9dio \u00e9 fugir a um pr\u00f3logo expl\u00edcito e longo. O melhor pr\u00f3logo \u00e9 o que cont\u00e9m menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordin\u00e1rio que empreguei na composi\u00e7\u00e3o destas Mem\u00f3rias, trabalhadas c\u00e1 no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e ali\u00e1s desnecess\u00e1rio ao entendimento da obra. A obra em si mesma \u00e9 tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te n\u00e3o agradar, pago-te com um piparote, e adeus.<\/p>\n<p>Br\u00e1s Cubas<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/\u00d3BITO DO AUTOR<\/h2>\n<p>ALGUM TEMPO hesitei se devia abrir estas mem\u00f3rias pelo princ\u00edpio ou pelo fim, isto \u00e9, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja come\u00e7ar pelo nascimento, duas considera\u00e7\u00f5es me levaram a adotar diferente m\u00e9todo: a primeira \u00e9 que eu n\u00e3o sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro ber\u00e7o; a segunda \u00e9 que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Mois\u00e9s, que tamb\u00e9m contou a sua morte, n\u00e3o a p\u00f4s no intr\u00f3ito, mas no cabo: diferen\u00e7a radical entre este livro e o Pentateuco.<\/p>\n<p>Dito isto, expirei \u00e0s duas horas da tarde de uma sexta-feira do m\u00eas de agosto de 1869, na minha bela ch\u00e1cara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e pr\u00f3speros, era solteiro, possu\u00eda cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemit\u00e9rio por onze amigos. Onze amigos! Verdade \u00e9 que n\u00e3o houve cartas nem an\u00fancios. Acresce que chovia &#8212; peneirava uma chuvinha mi\u00fada, triste e constante, t\u00e3o constante e t\u00e3o triste, que levou um daqueles fi\u00e9is da \u00faltima hora a intercalar esta engenhosa id\u00e9ia no discurso que proferi. \u00e0 beira de minha cova: &#8220;V\u00f3s, que o conhecestes, meus senhores v\u00f3s podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irrepar\u00e1vel de um dos mais belos caracteres que t\u00eam honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do c\u00e9u, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe fun\u00e9reo, tudo isso \u00e9 a dor crua e m\u00e1 que lhe r\u00f3i \u00e0 natureza as mais \u00edntimas entranhas; tudo isso \u00e9 um sublime louvor ao nosso ilustre finado.&#8221;<\/p>\n<p>Bom e fiel amigo! N\u00e3o, n\u00e3o me arrependo das vinte ap\u00f3lices que lhe deixei. E foi assim que cheguei \u00e0 cl\u00e1usula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as \u00e2nsias nem as d\u00favidas do mo\u00e7o pr\u00edncipe, mas pausado e tr\u00f4pego como quem se retira tarde do espet\u00e1culo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas tr\u00eas senhoras, ; minha irm\u00e3 Sabina, casada com o Cotrim, a filha, um l\u00edrio do vale,&#8211;e. . . Tenham paci\u00eancia! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa an\u00f4nima, ainda que n\u00e3o parenta, padeceu mais do que as parentas. \u00c9 verdade padeceu mais. N\u00e3o digo que se carpisse, n\u00e3o digo que se deixasse rolar pelo ch\u00e3o, convulsa. Nem o meu \u00f3bito era cousa altamente dram\u00e1tica&#8230; Um solteir\u00e3o que expira aos sessenta e quatro anos, n\u00e3o parece que re\u00fana em si todos os elementos de uma trag\u00e9dia. E dado que sim, o que menos convinha a essa an\u00f4nima era aparent\u00e1-lo. De p\u00e9, \u00e0 cabeceira da cama, com os olhos est\u00fapidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Morto! morto!&#8221; dizia consigo.<\/p>\n<p>E a imagina\u00e7\u00e3o dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o v\u00f4o desde o Ilisso \u00e0s ribas africanas, sem embargo das ru\u00ednas e dos tempos, &#8212; a imagina\u00e7\u00e3o dessa senhora tamb\u00e9m voou por sobre os destro\u00e7os presentes at\u00e9 \u00e0s ribas de uma \u00c1frica juvenil&#8230; Deix\u00e1-la ir; l\u00e1 iremos mais tarde; l\u00e1 iremos quando e me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranq\u00fcilamente metodicamente, ouvindo os solu\u00e7os das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhor\u00e3o da ch\u00e1cara, e o som estr\u00eddulo de uma navalha que um amolador est\u00e1 afiando l\u00e1 fora, \u00e0 porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns \u00edmpetos de vaga marinha, esva\u00eda-se-me a consci\u00eancia, eu descia \u00e0 imobilidade f\u00edsica e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra e lodo, e cousa nenhuma.<\/p>\n<p>Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma id\u00e9ia grandiosa e \u00fatil, a causa da minha morte, \u00e9 poss\u00edvel que o leitor me n\u00e3o creia, e todavia \u00e9 verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II \/ O EMPLASTO<\/h2>\n<p>COM EFEITO, um dia de manh\u00e3, estando a passear na ch\u00e1cara? pendurou-se-me uma id\u00e9ia no trap\u00e9zio que eu tinha no c\u00e9rebro. Uma vez pendurada, e das cabriolas de contempl\u00e1-la. S\u00fabito, deu um grande salto, estendeu os bra\u00e7os e as pernas, at\u00e9 tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia era nada menos que a inven\u00e7\u00e3o de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondr\u00edaco, destinado a aliviar a nossa melanc\u00f3lica humanidade. Na peti\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio que ent\u00e3o redigi, chamei a aten\u00e7\u00e3o do governo para esse resultado, verdadeiramente crist\u00e3o. Todavia, n\u00e3o neguei aos amigos as vantagens: pecuni\u00e1rias que deviam resultar da distribui\u00e7\u00e3o de um produto de tamanhos e t\u00e3o profundos efeitos. Agora, por\u00e9m, que estou c\u00e1 do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e enfim nas caixinhas do rem\u00e9dio, estas tr\u00eas palavras: Emplasto Br\u00e1s Cubas. Para que neg\u00e1-lo? Eu tinha a paix\u00e3o do ru\u00eddo, do cartaz do foguete de l\u00e1grimas. Talvez os modestos me arg\u00faam esse defeito fio, por\u00e9m, que esse talento me h\u00e3o de reconhecer os h\u00e1beis. Assim a minha id\u00e9ia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o p\u00fablico, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro, de outro lado, sede de nomeada. Digamos: &#8211;amor da gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um tio meu, c\u00f4nego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da gl\u00f3ria temporal era a perdi\u00e7\u00e3o das almas, que s\u00f3 devem cobi\u00e7ar a gl\u00f3ria eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos ter\u00e7os de infantaria, que o amor da gl\u00f3ria era a cousa mais verdadeiramente humana que h\u00e1 no homem, e, conseguintemente, a sua mais genu\u00edna fei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Decida o leitor entre o militar e o c\u00f4nego; eu volto ao emplasto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III \/ GENEALOGIA<\/h2>\n<p>MAS, J\u00c1 QUE FALEI nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esbo\u00e7o geneal\u00f3gico.<\/p>\n<p>O fundador da minha fam\u00edlia foi um certo Dami\u00e3o Cubas, que floresceu na primeira metade do s\u00e9culo XVIII. Era tanoeiro de oficio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na pen\u00faria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas n\u00e3o; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, at\u00e9 que morreu, deixando grosso cabedal a um filho licenciado Lu\u00eds Cubas. Neste rapaz \u00e9 que verdadeiramente come\u00e7a a s\u00e9rie de meus av\u00f3s&#8211;dos av\u00f3s que a minha fam\u00edlia sempre confessou,&#8211; porque o Dami\u00e3o Cubas era afinal de contas um tanoeiro e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Lu\u00eds Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei Conde da Cunha.<\/p>\n<p>Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Dami\u00e3o, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, her\u00f3i nas jornadas da \u00c1frica, em pr\u00eamio da fa\u00e7anha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imagina\u00e7\u00e3o; escapou \u00e0 tanoaria nas asas de um ca1embour. Era um bom car\u00e1ter, meu pai, var\u00e3o digno e leal como poucos. Tinha, \u00e9 verdade, uns fumos de pacholice; mas quem n\u00e3o \u00e9 um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que ele n\u00e3o recorreu \u00e0 inventiva sen\u00e3o depois de experimentar a falsifica\u00e7\u00e3o; primeiramente, entroncou-se na fam\u00edlia daquele meu famoso hom\u00f4nimo, o Capit\u00e3o-mor, Br\u00e1s Cubas, que fundou a vila de S. Vicenten onde morreu em 1592, e por esse motivo e que me deu o nome de Br\u00e1s. Op\u00f4s-se-lhe, por\u00e9m, a fam\u00edlia do capit\u00e3o-mor, e foi ent\u00e3o que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas.<\/p>\n<p>Vivem ainda alguns membros de minha fam\u00edlia, minha sobrinha Ven\u00e2ncia, por exemplo, o l\u00edrio do vale, que \u00e9 a flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que&#8230; Mas n\u00e3o antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV \/ A ID\u00c9IA FIXA<\/h2>\n<p>A MINHA ID\u00c9IA, depois de tantas cabriolas, constitu\u00edra-se id\u00e9ia fixa. Deus te livre, leitor, de uma id\u00e9ia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. V\u00ea o Cavour; foi a id\u00e9ia fixa da unidade italiana que o matou. Verdade \u00e9 que Bismarck n\u00e3o morreu; mas cumpre advertir que a natureza \u00e9 uma grande caprichosa e a hist\u00f3ria uma eterna loureira. Por exemplo, Suet\u00f4nio deu-nos um Cl\u00e1udio, que era um simpl\u00f3rio, ou &#8220;uma ab\u00f3bora&#8221; como lhe chamou S\u00eaneca, e um Tito, que mereceu ser as del\u00edcias de Roma. Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois c\u00e9sares, o delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o &#8220;ab\u00f3boras&#8217; de S\u00eaneca. E tu, madama Lucr\u00e9cia, flor dos B\u00f3rgias, se um poeta te pintou como a Messalina cat\u00f3lica, apareceu um Gregorovius incr\u00e9dulo que te apagou muito essa qualidade, e, se n\u00e3o vieste a l\u00edrio, tamb\u00e9m n\u00e3o ficaste p\u00e2ntano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Viva pois a hist\u00f3ria, a vol\u00favel hist\u00f3ria que d\u00e1 para tudo; e, tornando \u00e0 id\u00e9ia fixa, direi que \u00e9 ela a que faz os var\u00f5es fortes e os doudos; a id\u00e9ia m\u00f3bil, vaga ou furta-cor \u00e9 a que faz os Cl\u00e1udios,&#8211; f\u00f3rmula Suet\u00f4nio.<\/p>\n<p>Era fixa a minha id\u00e9ia, fixa como&#8230; N\u00e3o me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a Lua, talvez as pir\u00e2mides do Egito, talvez a finada dieta germ\u00e2nica. Veja o leitor a compara\u00e7\u00e3o que melhor lhe quadrar, veja-a e n\u00e3o esteja da\u00ed a torcer-me o nariz, s\u00f3 porque ainda n\u00e3o chegamos \u00e0 parte narrativa destas mem\u00f3rias. L\u00e1 iremos. Creio que prefere a anedota \u00e0 reflex\u00e3o, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois l\u00e1 iremos. Todavia, importa dizer que este livro \u00e9 escrito com pachorra, com a pachorra de um homem j\u00e1 desafrontado da brevidade do s\u00e9culo obra supinamente filos\u00f3fica, de uma filosofia desigual, agora austera logo brincalhona, cousa que n\u00e3o edifica nem destr\u00f3i, n\u00e3o inflama nem regala, e \u00e9 todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.<\/p>\n<p>Vamos l\u00e1; retifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a hist\u00f3ria com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de n\u00f3s pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confiss\u00e3o de Augsburgo; pela minha parte; se alguma vez me lembro de Cromwell, \u00e9 s\u00f3 pela id\u00e9ia de que Sua Alteza, com a mesma m\u00e3o que trancara o parlamento, teria imposto aos ingleses o emplasto Br\u00e1s Cubas. N\u00e3o se riam dessa vit\u00f3ria comum da farm\u00e1cia e do puritanismo. Quem n\u00e3o sabe que ao p\u00e9 de cada bandeira grande, p\u00fablica, ostensiva, h\u00e1 muitas vezes v\u00e1rias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam \u00e0 sombra daquela, e n\u00e3o poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, \u00e9 como a arraia-mi\u00fada, que se acolhia \u00e0 sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade \u00e9 que se fez gra\u00fada e castel\u00e3&#8230; N\u00e3o, a compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o presta.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO V \/ EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA<\/h2>\n<p>SEN\u00c3O QUANDO, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha inven\u00e7\u00e3o, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e n\u00e3o me tratei. Tinha o emplasto no c\u00e9rebro; trazia comigo a id\u00e9ia fixa dos doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do ch\u00e3o das turbas, e remontar ao c\u00e9u, como uma \u00e1guia imortal, e n\u00e3o \u00e9 diante de t\u00e3o excelso espet\u00e1culo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente sem m\u00e9todo, nem cuidado, nem persist\u00eancia; tal foi a origem do mal que me trouxe \u00e0 eternidade. Sabem j\u00e1 que morri numa sexta-feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha inven\u00e7\u00e3o que me matou. H\u00e1 demonstra\u00e7\u00f5es menos l\u00facidas e n\u00e3o menos triunfantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o era imposs\u00edvel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um s\u00e9culo, e a figurar nas folhas p\u00fablicas, entre macr\u00f3bios. Tinha sa\u00fade e robustez. Suponha-se que, em vez de estar lan\u00e7ando os alicerces de uma inven\u00e7\u00e3o farmac\u00eautica, tratava de coligir os elementos de uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente de ar, que vence em efic\u00e1cia o c\u00e1lculo humano, e l\u00e1 se ia tudo. Assim corre a sorte dos homens.<\/p>\n<p>Com esta reflex\u00e3o me despedi eu da mulher, n\u00e3o direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contempor\u00e2neas suas, a an\u00f4nima do primeiro cap\u00edtulo, a tal, cuja imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 semelhan\u00e7a das cegonhas do Ilisso. . . Tinha ent\u00e3o 54 anos, era uma ru\u00edna, uma imponente ru\u00edna. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes, e que um dia. j\u00e1 enfermo, vejo-a assomar \u00e0 porta da alcova . . .<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI \/ CHIM\u00c8NE, QUI L&#8217;E\u00dcT DIT? RODRIGUE, QUI L&#8217;E\u00dcT CRU?<\/h2>\n<p>VEJO-A ASSOMAR \u00e0 porta da alcova, p\u00e1lida, comovida, trajada de preto, e ali ficar durante um minuto, sem animo de entrar, ou detida pela presen\u00e7a de um homem que estava comigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia j\u00e1 dous anos que nos n\u00e3o v\u00edamos e eu via-a agora n\u00e3o qual era, mas qual fora, quais f\u00f4ramos ambos porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol at\u00e9 os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as mis\u00e9rias, e este punhado de p\u00f3, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, p\u00f4de mais do que o tempo, que \u00e9 o ministro da morte. Nenhuma \u00e1gua de Juventa igualaria ali a simples saudade.<\/p>\n<p>Creiam-me, o menos mau \u00e9 recordar; ningu\u00e9m se fie da felicidade presente; h\u00e1 nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, ent\u00e3o sim, ent\u00e3o talvez se pode gozar deveras. porque entre uma e outra dessas duas ilus\u00f5es, melhor \u00e9 a que se gosta sem doer.<\/p>\n<p>N\u00e3o durou muito a evoca\u00e7\u00e3o; a realidade dominou logo; o presente expeliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a mina teoria das edi\u00e7\u00f5es humanas. O que por agora importa saber \u00e9 que Virg\u00edlia &#8212; entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos, e veio at\u00e9 o meu leito. O estranho levantou-se e saiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do c\u00e2mbio, da coloniza\u00e7\u00e3o e da necessidade de desenvolver a via\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virg\u00edlia deixou-se estar de p\u00e9; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paix\u00f5es sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dous cora\u00e7\u00f5es murchos, devastados pela vida e saciados dela, n\u00e3o sei se em igual dose, mas enfim saciados. Virg\u00edlia tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela \u00faltima vez, numa festa de S. Jo\u00e3o, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, s\u00f3 agora come\u00e7avam os cabelos escuros a intercalar-se com alguns fios de prata.<\/p>\n<p>&#8212; Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. &#8212; Ora, defuntos! Respondeu Virg\u00edlia com um muxoxo. E depois de me apertar as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8212; Ando a ver se ponho os vadios para a rua.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha a car\u00edcia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava s\u00f3, em casa, com um simples enfermeiro; pod\u00edamos falar um ao outro, sem perigo. Virg\u00edlia deu-me longas not\u00edcias de fora, narrando-as com gra\u00e7a, com um certo travo de m\u00e1 l\u00edngua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer sat\u00e2nico em mofar dele, em persuadir-me que n\u00e3o deixava nada.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe que n\u00e3o volto mais. Morrer! Todos n\u00f3s havemos de morrer; basta estarmos vivos.<\/p>\n<p>E vendo o rel\u00f3gio:<\/p>\n<p>&#8212; Jesus! S\u00e3o tr\u00eas horas. Vou-me embora.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1; virei amanh\u00e3 ou depois.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei se faz bem, retorqui; o doente \u00e9 um solteir\u00e3o e a casa n\u00e3o tem senhoras&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sua mana?<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 de vir c\u00e1 passar uns dias, mas n\u00e3o pode ser antes de s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:<\/p>\n<p>&#8211;Estou velha! Ningu\u00e9m mais repara em mim. Mas, para cortar d\u00favidas, virei com o Nhonh\u00f4.<\/p>\n<p>Nhonh\u00f4 era um bacharel, \u00fanico filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora c\u00famplice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois, e confesso que, ao v\u00ea-los ali, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo \u00e0s palavras af\u00e1veis do rapaz. Virg\u00edlia adivinhou-me e disse ao filho:<\/p>\n<p>&#8212; Nhonh\u00f4, n\u00e3o repares nesse grande manhoso que a\u00ed est\u00e1; n\u00e3o quer falar para fazer crer que est\u00e1 \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Sorriu o filho, eu creio que tamb\u00e9m sorri, e tudo acabou em pura galhofa. Virg\u00edlia estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de esp\u00edrito, uma domina\u00e7\u00e3o sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como toc\u00e1ssemos, castalmente, nuns amores ileg\u00edtimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a falar com desd\u00e9m e um pouco de indigna\u00e7\u00e3o da mulher de que se tratava, ali\u00e1s sua amiga. O filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de n\u00f3s os gavi\u00f5es, se Buffon tivesse nascido gavi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Era o meu del\u00edrio que come\u00e7ava.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VII \/ O DEL\u00cdRIO<\/h2>\n<p>QUE ME CONSTE, ainda ningu\u00e9m relatou o seu pr\u00f3prio del\u00edrio; fa\u00e7o-o eu, e a ci\u00eancia mo agradecer\u00e1. Se o leitor n\u00e3o \u00e9 dado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o destes fen\u00f4menos mentais pode saltar o cap\u00edtulo; v\u00e1 direito \u00e0 narra\u00e7\u00e3o. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que \u00e9 interessante saber o que se passou na minha cabe\u00e7a durante uns vinte a trinta minutos.<\/p>\n<p>Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chin\u00eas, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com belisc\u00f5es e confeitos: caprichos de mandarim.<\/p>\n<p>Logo depois, senti-me transformado na Suma Teol\u00f3gica de S. Tom\u00e1s, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; id\u00e9ia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas m\u00e3os os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, algu\u00e9m as descruzava (Virg\u00edlia decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.<\/p>\n<p>Ultimamente, restitu\u00eddo \u00e0 forma humana, vi chegar um hipop\u00f3tamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, n\u00e3o sei se por medo ou confian\u00e7a; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrog\u00e1-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.<\/p>\n<p>&#8212; Engana-se, replicou o animal, n\u00f3s vamos \u00e0 origem dos s\u00e9culos. Insinuei que deveria ser muit\u00edssimo longe; mas o hipop\u00f3tamo n\u00e3o me entendeu ou n\u00e3o me ouviu, se \u00e9 que n\u00e3o fingiu uma dessas cousas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Bala\u00e3o, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dous quadr\u00fapedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir \u00e0 ventura. J\u00e1 agora n\u00e3o se me d\u00e1 de confessar que sentia umas tais ou quais c\u00f3cegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos s\u00e9culos, se era t\u00e3o misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consuma\u00e7\u00e3o dos mesmos s\u00e9culos: reflex\u00f5es de c\u00e9rebro enfermo. Como ia de olhos fechados, n\u00e3o via o caminho lembra-me s\u00f3 que a sensa\u00e7\u00e3o de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasi\u00e3o em que me pareceu entrar na regi\u00e3o dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa plan\u00edcia branca de neve, e v\u00e1rios animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta:<\/p>\n<p>&#8211;Onde estamos?<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 passamos o \u00c9den.<\/p>\n<p>&#8212; Bem; paremos na tenda de Abra\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Mas se n\u00f3s caminhamos para tr\u00e1s! Redarg\u00fciu motejando a minha cavalgadura.<\/p>\n<p>Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio inc\u00f4modo, a condu\u00e7\u00e3o violenta, e o resultado impalp\u00e1vel. E depois &#8212; cogita\u00e7\u00f5es do enfermo &#8212; que cheg\u00e1ssemos ao fim indicado, n\u00e3o era poss\u00edvel que os s\u00e9culos, irritados com lhes devassem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser t\u00e3o seculares como eles. Enquanto assim pensava, \u00edamos devorando caminho, e a plan\u00edcie voava debaixo dos nossos p\u00e9s, at\u00e9 que o animal estacou, e pude olhar mais tranq\u00fcilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, al\u00e9m da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o pr\u00f3prio c\u00e9u, at\u00e9 ali azul. Talvez, a espa\u00e7os, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O sil\u00eancio daquela regi\u00e3o era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das cousas ficara est\u00fapida diante do homem.<\/p>\n<p>Caiu do ar? Destacou-se da terra? n\u00e3o sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu ent\u00e3o, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastid\u00e3o das formas selv\u00e1ticas, e tudo escapava \u00e0 compreens\u00e3o do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez di\u00e1fano. Estupefato, n\u00e3o disse nada, n\u00e3o cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de del\u00edrio.<\/p>\n<p>&#8211;Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua m\u00e3e e tua inimiga.<\/p>\n<p>Ao ouvir esta \u00faltima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de n\u00f3s o efeito de um tuf\u00e3o; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o te assustes, disse ela, minha inimizade n\u00e3o mata; \u00e9 sobretudo pela vida que se afirma. Vives; n\u00e3o quero outro flagelo.<\/p>\n<p>&#8211;Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas m\u00e3os, como para certificar-me da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, verme, tu vives. N\u00e3o receies perder andrajo que \u00e9 teu orgulho; provar\u00e1s ainda, por algumas horas, o p\u00e3o da dor e o vinho da mis\u00e9ria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consci\u00eancia reouver um instante de sagacidade, tu dir\u00e1s que queres viver.<\/p>\n<p>Dizendo isto, a vis\u00e3o estendeu o bra\u00e7o, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. S\u00f3 ent\u00e3o pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contor\u00e7\u00e3o violenta, nenhuma express\u00e3o de \u00f3dio ou ferocidade; a fei\u00e7\u00e3o \u00fanica, geral, completa, era a da impassibilidade ego\u00edsta, a da eterna surdez, a da vontade im\u00f3vel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no cora\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, nesse rosto de express\u00e3o glacial, havia um ar de juventude, mescla de for\u00e7a e vi\u00e7o, diante do qual me sentia eu o mais d\u00e9bil e decr\u00e9pito dos seres.<\/p>\n<p>Entendeste-me ? disse ela, no fim de algum tempo de m\u00fatua contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, respondi; nem quero entender-te; tu \u00e9s absurda, tu \u00e9s uma f\u00e1bula. Estou sonhando, decerto, ou, se \u00e9 verdade, que enlouqueci, tu n\u00e3o passas de uma concep\u00e7\u00e3o de alienado, isto \u00e9, uma cousa v\u00e3, que a raz\u00e3o ausente n\u00e3o pode reger nem palpar. Natureza tu? a Natureza que eu conhe\u00e7o \u00e9 s\u00f3 m\u00e3e e n\u00e3o inimiga; n\u00e3o faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?<\/p>\n<p>&#8211;Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperan\u00e7a, consola\u00e7\u00e3o dos homens. Tremes?<\/p>\n<p>&#8212; Sim; o teu olhar fascina-me.<\/p>\n<p>&#8212; Creio; eu n\u00e3o sou somente a vida; sou tamb\u00e9m a morte, e tu est\u00e1s prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.<\/p>\n<p>Quando esta palavra ecoou, como um trov\u00e3o, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o \u00faltimo som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposi\u00e7\u00e3o s\u00fabita de mim mesmo. Ent\u00e3o, encarei-a com olhos s\u00faplices, e pedi mais alguns anos.<\/p>\n<p>&#8211;Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? N\u00e3o est\u00e1s farto do espet\u00e1culo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia. a melancolia da tarde, a quieta\u00e7\u00e3o da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benef\u00edcio das minhas m\u00e3os. Que mais queres tu, sublime idiota?<\/p>\n<p>&#8211;Viver somente, n\u00e3o te pe\u00e7o mais nada. Quem me p\u00f4s no cora\u00e7\u00e3o este amor da vida, sen\u00e3o tu? e, se eu amo a vida, por que te h\u00e1s de golpear a ti mesma, matando-me?<\/p>\n<p>&#8212; Porque j\u00e1 n\u00e3o preciso de ti. N\u00e3o importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem \u00e9 forte, jucundo sup\u00f5e trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Ego\u00edsmo, dizes tu? Sim, ego\u00edsmo, n\u00e3o tenho outra lei. Ego\u00edsmo, conserva\u00e7\u00e3o. A on\u00e7a mata o novilho porque o racioc\u00ednio da on\u00e7a \u00e9 que ela deve viver, e se o novilho \u00e9 tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.<\/p>\n<p>Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe atrav\u00e9s de um nevoeiro, uma cousa \u00fanica. Imagina tu leitor, uma redu\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos, e um desfilar de todos eles, as ra\u00e7as todas, todas as paix\u00f5es, o tumulto dos imp\u00e9rios, a guerra dos apetites e dos \u00f3dios, a destrui\u00e7\u00e3o rec\u00edproca dos seres e das cousas. Tal era o espet\u00e1culo, acerbo e curioso espet\u00e1culo. A hist\u00f3ria do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe n\u00e3o podiam dar nem a imagina\u00e7\u00e3o nem a ci\u00eancia, porque a ci\u00eancia \u00e9 mais lenta e a imagina\u00e7\u00e3o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa\u00e7\u00e3o viva de todos os tempos. Para descrev\u00ea-la seria preciso fixar o rel\u00e2mpago. Os s\u00e9culos desfilavam num turbilh\u00e3o, e, n\u00e3o obstante, porque os olhos do del\u00edrio s\u00e3o outros, eu via tudo o que passava diante de mim,&#8211;flagelos e del\u00edcias, desde essa cousa que se chama gl\u00f3ria at\u00e9 essa outra que se chama mis\u00e9ria, e via o amor multiplicando a mis\u00e9ria, e via a mis\u00e9ria agravando a debilidade. A\u00ed vinham a cobi\u00e7a que devora, a c\u00f3lera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, \u00famidas de suor, e a ambi\u00e7\u00e3o, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, at\u00e9 destru\u00ed-lo, como um farrapo. Eram as formas v\u00e1rias de um mal, que ora mordia a v\u00edscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da esp\u00e9cie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia a indiferen\u00e7a, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Ent\u00e3o o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atr\u00e1s de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalp\u00e1vel, outro de improv\u00e1vel, outro de invis\u00edvel, cosidos todos a ponto prec\u00e1rio, com a agulha da imagina\u00e7\u00e3o; e essa figura, &#8212; nada menos que a quimera da felicidade, &#8212; ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem e cingia ao peito, e ent\u00e3o ela ria, como um esc\u00e1rnio, e sumia-se, como uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contemplar tanta calamidade, n\u00e3o pude reter um grito de ang\u00fastia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e n\u00e3o sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, &#8212; de um riso descompassado e idiota.<\/p>\n<p>&#8211;Tens raz\u00e3o, disse eu, a cousa \u00e9 divertida e vale a pena, &#8212; talvez mon\u00f3tona mas vale a pena. Quando J\u00f3 amaldi\u00e7oava o dia em que fora concebido, \u00e9 porque lhe davam ganas de ver c\u00e1 de cima O espet\u00e1culo. Vamos l\u00e1, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa \u00e9 divertida? mas digere-me.<\/p>\n<p>A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os s\u00e9culos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gera\u00e7\u00f5es que se superpunham \u00e0s gera\u00e7\u00f5es, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de C\u00f4modo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma for\u00e7a misteriosa me retinha os p\u00e9s; ent\u00e3o disse comigo: &#8220;Bem, os s\u00e9culos v\u00e3o passando, chegar\u00e1 o meu, e passar\u00e1 tamb\u00e9m, at\u00e9 o \u00faltimo, que me dar\u00e1 a decifra\u00e7\u00e3o da eternidade.&#8221; E fixei os olhos, e continuei a ver as idades que vinham chegando e passando, j\u00e1 ent\u00e3o tranq\u00fcilo e resoluto, n\u00e3o sei at\u00e9 se alegre. Talvez alegre. Cada s\u00e9culo trazia a sua por\u00e7\u00e3o de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro e o seu cortejo de sistemas, de id\u00e9ias novas, de novas ilus\u00f5es; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remo\u00e7ar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calend\u00e1rio, fazia-se a hist\u00f3ria e a civiliza\u00e7\u00e3o, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, constru\u00eda o tug\u00fario e o pal\u00e1cio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ci\u00eancia, que perscruta, e a arte que enleva, fazia orador, mec\u00e2nico, fil\u00f3sofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia \u00e0 esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distra\u00eddo, viu enfim chegar o s\u00e9culo presente, e atr\u00e1s deles os futuros. Aquele vinha \u00e1gil, destro, vibrante! cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo t\u00e3o miser\u00e1vel como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de aten\u00e7\u00e3o; fitei a vistas ia enfim ver o \u00faltimo, &#8212; \u00faltimo!; mas ent\u00e3o j\u00e1 a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreens\u00e3o; ao p\u00e9 dela o rel\u00e2mpago seria um s\u00e9culo. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo,&#8211; menos o hipop\u00f3tamo que ali me trouxera, e que ali\u00e1s come\u00e7ou a diminuir, a diminuir a diminuir, at\u00e9 ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sult\u00e3o, que brincava \u00e0 porta da alcova, com uma bola de papel&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VIII \/ RAZ\u00c3O CONTRA SANDICE<\/h2>\n<p>J\u00c1 O LEITOR compreendeu que era a Raz\u00e3o que voltava \u00e0 casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:<\/p>\n<p>La maison est \u00e0 moi, c&#8217;est \u00e0 vous d&#8217;en sortir.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sestro antigo da Sandice criar amor \u00e0s casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha far\u00e3o despejar. \u00c9 sestro; n\u00e3o se tira da\u00ed; h\u00e1 muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertimos no imenso n\u00famero de casas que ocupa, umas de vez. Outras durante as suas esta\u00e7\u00f5es calmosas, concluiremos que esta am\u00e1vel peregrina \u00e9 o terror dos propriet\u00e1rios. No nosso caso, houve quase um dist\u00farbio \u00e0 porta do meu c\u00e9rebro, porque a advent\u00edcia n\u00e3o queria entregar a casa, e a dona n\u00e3o cedia da inten\u00e7\u00e3o de tomar o que era seu. Afinal, j\u00e1 a Sandice se contentava com um cantinho no s\u00f3t\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, senhora replicou a Raz\u00e3o, estou cansada de lhe ceder s\u00f3t\u00e3os, cansada e experimentada, o que voc\u00ea quer \u00e9 passar mansamente do s\u00f3t\u00e3o \u00e0 sala de jantar, da\u00ed \u00e0 de visitas e ao lesto.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>Que mist\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8212; De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; pe\u00e7o-lhe s\u00f3 uns dez minutos.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o p\u00f4s-se a rir.<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1s de ser sempre a mesma cousa&#8230; sempre a mesma cousa&#8230; sempre a mesma cousa&#8230;<\/p>\n<p>E dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas s\u00faplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a l\u00edngua de fora, em ar de surriada, e foi andando&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IX \/ TRANSI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>E VEJAM AGORA com que destreza; com que arte fa\u00e7o eu a maior transi\u00e7\u00e3o deste livro. Vejam: o meu del\u00edrio come\u00e7ou em presen\u00e7a de Virg\u00edlia; Virg\u00edlia foi o meu gr\u00e3o pecado da juventude; n\u00e3o h\u00e1 juventude sem meninice; meninice sup\u00f5e nascimento; e eis aqui como chegamos n\u00f3s, sem esfor\u00e7o, ao dia 20 de outubro de 18 05, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a aten\u00e7\u00e3o pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do m\u00e9todo, sem a rigidez do m\u00e9todo. Na verdade, era tempo. Que isto de m\u00e9todo, sendo, como \u00e9, uma cousa indispens\u00e1vel, todavia \u00e9 melhor t\u00ea-lo sem gravata nem suspens\u00f3rios, mas um pouco \u00e0 fresca e \u00e0 solta, como quem n\u00e3o se lhe d\u00e1 da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteir\u00e3o. \u00c9 como a eloqu\u00eancia, que h\u00e1 uma genu\u00edna e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e choca. Vamos ao dia 20 de outubro.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO X \/ NAQUELE DIA<\/h2>\n<p>NAQUELE DIA , a \u00e1rvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos bra\u00e7os a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma gera\u00e7\u00e3o inteira de fidalgos. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que meu pai lhe ouvisse tal declara\u00e7\u00e3o; creio, todavia, que o sentimento paterno \u00e9 que o induziu a gratific\u00e1-la com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o her\u00f3i da nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio Jo\u00e3o, o antigo oficial de infantaria? achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pai n\u00e3o pode ouvir sem n\u00e1useas; meu tio Ildefonso, ent\u00e3o simples padre, farejava-me c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211;C\u00f4nego \u00e9 o que ele h\u00e1 de ser, e n\u00e3o digo mais por n\u00e3o parecer orgulho; mas n\u00e3o me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado&#8230; \u00e9 verdade, um bispado; n\u00e3o \u00e9 cousa imposs\u00edvel. Que diz voc\u00ea mano Bento?<\/p>\n<p>Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e al\u00e7ava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me \u00e0 cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se era inteligente, bonito. . .<\/p>\n<p>Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar anos depois; ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia. Sei que a vizinhan\u00e7a veio ou mandou cumprimentar o rec\u00e9m-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. N\u00e3o houve cadeirinha que n\u00e3o trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito cal\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o conto os mimos, os beijos, as admira\u00e7\u00e3o as b\u00ean\u00e7\u00e3os, \u00e9 porque, se os contasse, n\u00e3o acabaria mais o cap\u00edtulo e preciso acab\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Item, n\u00e3o posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a n\u00e3o ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na igreja de S. Domingos, uma ter\u00e7a-feira de mar\u00e7o, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas fam\u00edlias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia com muita gra\u00e7a, ou revelava algum talento precoce, porque n\u00e3o havia pessoa estranha diante de quem me n\u00e3o obrigassem a recit\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211;Nhonh\u00f4, diga a estes senhores como \u00e9 que se chama seu padrinho.<\/p>\n<p>&#8212; Meu padrinho? \u00e9 o Excelent\u00edssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo C\u00e9sar de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos; minha madrinha \u00e9 a Excelent\u00edssima Senhora D. Maria Lu\u00edsa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 muito esperto o seu menino! exclamavam os ouvintes.<\/p>\n<p>&#8211;Muito esperto, concordava meu pai, e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e ele espalmava a m\u00e3o sobre a minha cabe\u00e7a, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.<\/p>\n<p>Item, comecei a andar, n\u00e3o sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar \u00e0s cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de pau.&#8211;S\u00f3 s\u00f3, nhonh\u00f4, s\u00f3 s\u00f3, dizia-me a mucama. E eu, atra\u00eddo pelo chocalho de lata, que minha m\u00e3e agitava diante de mim, l\u00e1 ia para a frente, cai aqui, cai acol\u00e1; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XI \/ O MENINO \u00c9 PAI DO HOMEM<\/h2>\n<p>CRESCI; e nisso \u00e9 que a fam\u00edlia n\u00e3o interveio; cresci naturalmente como crescem as magn\u00f3lias e os gatos. Talvez os gatos s\u00e3o menos matreiros, e com certeza, as magn\u00f3lias s\u00e3o menos inquietas de que eu era na minha inf\u00e2ncia. Um poeta dizia que o menino \u00e9 pai do homem. Se isto \u00e9 verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.<\/p>\n<p>Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de &#8220;menino diabo&#8221;; e verdadeiramente n\u00e3o era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabe\u00e7a de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, n\u00e3o contente com o malef\u00edcio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, n\u00e3o satisfeito da travessura, fui dizer \u00e0 minha m\u00e3e que a escrava \u00e9 que estragara o doce &#8220;por pirra\u00e7a&#8221;; e eu tinha apenas seis anos. Prud\u00eancio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as m\u00e3os no ch\u00e3o, recebia um cordel nos queixos, \u00e0 guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na m\u00e3o, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, &#8212; algumas vezes gemendo, &#8212; mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um &#8211;&#8220;ai, nhonh\u00f4!&#8221; &#8212; ao que eu retorquia: &#8211;&#8220;Cala a boca, besta!&#8221; &#8211;Esconder os chap\u00e9us das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar belisc\u00f5es nos bra\u00e7os das matronas, e outras muitas fa\u00e7anhas deste jaez, eram mostras de um g\u00eanio ind\u00f3cil, mas devo crer que eram tamb\u00e9m express\u00f5es de um esp\u00edrito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admira\u00e7\u00e3o; e se \u00e0s vezes me repreendia \u00e0 vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabe\u00e7a dos outros nem a esconder-lhes os chap\u00e9us; mas opini\u00e1tico, ego\u00edsta e algo contemptor dos homens, isso fui; se n\u00e3o passei o tempo a esconder-lhes os chap\u00e9us, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.<\/p>\n<p>Outrossim, afei\u00e7oei-me \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a humana, inclinei-me a atenu\u00e1-la, a explic\u00e1-la a classifiquei-a por partes, a entend\u00ea-la n\u00e3o segundo um padr\u00e3o r\u00edgido, mas ao sabor das circunst\u00e2ncias e lugares. Minha m\u00e3e doutrinava-me a seu modo fazia-me decorar alguns preceitos e ora\u00e7\u00f5es; mas eu sentia que, mais do que as ora\u00e7\u00f5es, me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o esp\u00edrito, que a faz viver, para se tornar uma v\u00e3 f\u00f3rmula. De manh\u00e3, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manh\u00e3 e a noite fazia uma grande maldade, e meu pais passado o alvoro\u00e7o, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!<\/p>\n<p>Sim, meu pai adorava-me. Alinha m\u00e3e era uma senhora fraca, de pouco c\u00e9rebro e muito cora\u00e7\u00e3o, assaz cr\u00e9dula, sinceramente piedosa, &#8211;caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente \u00e0s trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus. Da colabora\u00e7\u00e3o dessas duas criaturas nasceu a minha educa\u00e7\u00e3o, que, se tinha alguma cousa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio c\u00f4nego fazia \u00e0s vezes alguns reparos ao irm\u00e3o dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que ensino, e mais afei\u00e7\u00e3o do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava na minha educa\u00e7\u00e3o um sistema inteiramente superior ao sistema usado; e por este modo, sem confundir o irm\u00e3o, iludia-se a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>De envolta com a transmiss\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o, houve ainda o exemplo estranho, o meio dom\u00e9stico. Vimos os pais; vejamos os tios. Um deles, o Jo\u00e3o, era um homem de l\u00edngua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze anos entrou a admitir-me \u00e0s anedotas reais ou n\u00e3o, eivadas todas de obscenidade ou imund\u00edcie. N\u00e3o me respeitava a adolesc\u00eancia, como n\u00e3o respeitava a batina do irm\u00e3o; com a diferen\u00e7a que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. Eu n\u00e3o; deixava-me estar, sem entender nada, a princ\u00edpio, depois entendendo, e enfim achando-lhe gra\u00e7a. No fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de mim? Dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando l\u00e1 ia passar alguns dias, n\u00e3o poucas vezes me aconteceu ach\u00e1-lo, no fundo da ch\u00e1cara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa; a\u00ed \u00e9 que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ningu\u00e9m podia ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arrega\u00e7ar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as pe\u00e7as de roupa, a bat\u00ea-las a ensabo\u00e1-las, a torc\u00ea-las, iam ouvindo e redarg\u00fcindo \u00e0s pilh\u00e9rias do tio Jo\u00e3o, e a coment\u00e1-las de quando em quando com esta palavra:<\/p>\n<p>&#8211;Cruz, diabo!&#8230; Este sinh\u00f4 Jo\u00e3o \u00e9 o diabo!<\/p>\n<p>Bem diferente era o tio c\u00f4nego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, n\u00e3o real\u00e7avam um esp\u00edrito superior, apenas compensavam um esp\u00edrito med\u00edocre. N\u00e3o era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preemin\u00eancias, as sobrepelizes, as circunflex\u00f5es. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infra\u00e7\u00e3o dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distancia, n\u00e3o estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a hist\u00f3ria do s\u00edmbolo de Nic\u00e9ia; mas ningu\u00e9m, nas festas cantadas, sabia melhor o n\u00famero e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. C\u00f4nego foi a \u00fanica ambi\u00e7\u00e3o de sua vida; e dizia de cora\u00e7\u00e3o que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observ\u00e2ncia das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possu\u00eda algumas virtudes, em que era exemplar,- mas carecia absolutamente da for\u00e7a de as incutir, de as impor aos outros;<\/p>\n<p>N\u00e3o digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e ali\u00e1s era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa diferen\u00e7ava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companha, uns dous anos. Outros parentes e alguns- \u00edntimos n\u00e3o merecem a pena de ser citados; n\u00e3o tivemos uma vida comum, mas intermitente, com grandes claros de separa\u00e7\u00e3o. O que importa \u00e9 a express\u00e3o geral do meio dom\u00e9stico, e essa a\u00ed fica indicada,&#8211;vulgaridade de caracteres, amor das apar\u00eancias rutilantes, do arru\u00eddo, frouxid\u00e3o da vontade, dom\u00ednio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume \u00e9 que nasceu esta flor.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XII \/ UM EPIS\u00d3DIO DE 1814<\/h2>\n<p>AS EU N\u00c3O QUERO passar adiante, sem contar sumariamente um galante epis\u00f3dio de 1814; tinha nove anos.<\/p>\n<p>Napole\u00e3o, quando eu nasci, estava j\u00e1 em todo o esplendor da gl\u00f3ria e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a admira\u00e7\u00e3o dos homens. Meu pai, que a for\u00e7a de persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si pr\u00f3prio, nutria contra ele um \u00f3dio puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio Jo\u00e3o, n\u00e3o sei se por esp\u00edrito de classe e simpatia de of\u00edcio, perdoava no d\u00e9spota o que admirava no general, meu tio padre era inflex\u00edvel contra o corso, e outros parentes dividiam-se: da\u00ed as controv\u00e9rsias e as rusgas.<\/p>\n<div id=\"corpo\">\n<p>Chegando ao Rio de Janeiro a not\u00edcia da primeira queda de Napole\u00e3o, houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo p\u00fablico, julgaram mais decoroso o sil\u00eancio; alguns foram al\u00e9m e bateram palmas. A popula\u00e7\u00e3o, cordialmente alegre, n\u00e3o regateou demonstra\u00e7\u00f5es de afeto \u00e0 real fam\u00edlia; houve ilumina\u00e7\u00f5es salvas, Te Deum, cortejo e aclama\u00e7\u00f5es. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Ant\u00f4nio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse fen\u00f4meno. Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim \u00e9 sempre maior do que a espada de Napole\u00e3o. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita p\u00e1gina rumorosa de grandes id\u00e9ias e maiores palavras, mas n\u00e3o sei por que, no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca, l\u00e1 escoava alguma vez este conceito de experimentado:<\/p>\n<p>&#8211;Vai-te embora, tu s\u00f3 cuidas do espadim.<\/p>\n<p>N\u00e3o se contentou a minha fam\u00edlia em ter um quinh\u00e3o an\u00f4nimo no regozijo p\u00fablico; entendeu oportuno e indispens\u00e1vel celebrar a destitui\u00e7\u00e3o do imperador com um jantar, e tal jantar que o ru\u00eddo das aclama\u00e7\u00f5es chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos de seus ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu av\u00f4 Lu\u00eds Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da \u00cdndia; matou-se um capado; encomendaram-se \u00e0s madres da Ajuda as compotas e as marmeladas; lavaram-se, arearam-se poliram-se as salas, escadas, casti\u00e7ais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luso cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta, o juiz-de-fora, tr\u00eas ou quatro oficiais militares, alguns comerciantes e letrados, v\u00e1rios funcion\u00e1rios da administra\u00e7\u00e3o, uns com suas mulheres e filhas, outros sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a mem\u00f3ria de Bonaparte no papo de um peru. N\u00e3o era um jantar mas um Te Deum; foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes, o Dr. Vila\u00e7a, glosador insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse ontem lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho, casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora. depois tossir, al\u00e7ar a m\u00e3o direita, toda fechada, menos o dedo \u00edndice, que apontava para o tecto e, assim posto e composto, devolver o mote glosado. N\u00e3o fez uma glosa, mas tr\u00eas; depois jurou aos seus deuses n\u00e3o acabar mais. Pedia um mote, davam-lho, ele glosava-o prontamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras presentes n\u00e3o p\u00f4de calar a sua grande admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vila\u00e7a, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do s\u00e9culo, em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, h\u00e1 dias, a senhora Duquesa de Cadaval&#8230;<\/p>\n<p>E estas tr\u00eas palavras \u00faltimas, expressas com muita \u00eanfase, produziram em toda a assembl\u00e9ia um fr\u00eamito de admira\u00e7\u00e3o e pasmo. Pois esse homem t\u00e3o dado, t\u00e3o simples, al\u00e9m de pleitear com poetas, discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as damas sentiam-se superfinas; os var\u00f5es olhavam-no com respeito, alguns com inveja, n\u00e3o raros com incredulidade. Ele, entretanto, ia caminho, a acumular adjetivo sobre adjetivo, adv\u00e9rbio sobre adv\u00e9rbio, a desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador. Era \u00e0 sobremesa; ningu\u00e9m j\u00e1 pensava em comer. No intervalo das glosas, corria um burburinho alegre, um palavrear de est\u00f4magos satisfeitos; os olhos moles e \u00famidos, ou vivos e c\u00e1lidos, espregui\u00e7avam-se ou saltitavam de uma ponta \u00e0 outra da mesa, atulhada de doces e frutas, aqui o anan\u00e1s em fatias, ali o mel\u00e3o em talhadas, as compoteiras de cristal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarelo como uma gema, &#8212; ou ent\u00e3o o melado escuro e grosso, n\u00e3o longe do queijo e do car\u00e1. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de fam\u00edlia, vinha quebrar a gravidade pol\u00edtica do banquete. No meio do interesse grande e comum, agitavam-se tamb\u00e9m os pequenos e particulares. As mo\u00e7as falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo, e do minuete e do solo ingl\u00eas; nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso, s\u00f3 para mostrar como folgara nos seus bons tempos de crian\u00e7a. Um sujeito, ao p\u00e9 de mim, dava a outro not\u00edcia recente dos negros novos que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Luanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter j\u00e1 negociado cerca de quarenta cabe\u00e7as, e outra carta em que&#8230; Trazia-as justamente na algibeira mas n\u00e3o as podia ler naquela ocasi\u00e3o. O que afian\u00e7ava \u00e9 que pod\u00edamos contar, s\u00f3 nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos<\/p>\n<p>&#8212; Tr\u00e1s. . . tr\u00e1s. . . tr\u00e1s.. . fazia o Vila\u00e7a batendo com as m\u00e3os uma na outra. O rumor cessava de s\u00fabito, como um estacado de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe aconcheava a m\u00e3o atr\u00e1s da orelha para n\u00e3o perder palavra, a mor parte, antes mesmo da glosa, tinha j\u00e1 um meio riso de aplauso, trivial e c\u00e2ndido.<\/p>\n<p>Quanto a mim, l\u00e1 estava, solit\u00e1rio e deslembrado, a namorar certa ! compota da minha paix\u00e3o. No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando que fosse a \u00faltima, mas n\u00e3o era, e a sobremesa continuava intacta. Ningu\u00e9m se lembrava de dar a primeira voz. Meu pai, \u00e0 cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria dos convivas; mirava-se todo nos car\u00f5es alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais distantes esp\u00edritos, influxo de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse mas fazia-o em v\u00e3o. Ele n\u00e3o via nada; via-se a si mesmo. E as glosas sucediam-se, como b\u00e1tegas d&#8217;\u00e1gua, obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e n\u00e3o pude muito. Pedi em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os p\u00e9s. Meu pai, que seria capaz de para me servir capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava, n\u00e3o obstante os meus gritos e repel\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi outro o delito do glosador: retardara a compota e dera causa \u00e0 minha exclus\u00e3o. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingan\u00e7a, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira o tornasse rid\u00edculo. Que ele era um homem grave o Dr. Vila\u00e7a, medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. N\u00e3o me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser cousa pior. Entrei a espreit\u00e1-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na ch\u00e1cara, aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eus\u00e9bia, irm\u00e3 do sargento-mor Domingues, uma robusta donzelona, que se n\u00e3o era bonita, tamb\u00e9m n\u00e3o era feia.<\/p>\n<p>&#8212; Estou muito zangada com o senhor, dizia ela.<\/p>\n<p>&#8211;Por que?<\/p>\n<p>&#8211;Porque.. . n\u00e3o sei por que. .. porque \u00e9 a minha sina&#8230; creio \u00e0s vezes que \u00e9 melhor morrer. Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Vila\u00e7a levava nos olhos umas chispas de vinho e de vol\u00fapia.<\/p>\n<p>&#8211;Deixe-me! disse ela.<\/p>\n<p>&#8211;Ningu\u00e9m nos v\u00ea. Morrer, meu anjo? Que id\u00e9ias s\u00e3o essas! Voc\u00ea sabe que eu morrerei tamb\u00e9m&#8230; que digo?&#8230; morro todos os dias de paix\u00e3o, de saudades. . .<\/p>\n<p>D. Eus\u00e9bia levou o len\u00e7o aos olhos. O glosador vasculhava na mem\u00f3ria algum peda\u00e7o liter\u00e1rio e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das \u00f3peras do Judeu.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o chores, meu bem; n\u00e3o queiras que o dia amanhe\u00e7a com duas auroras.<\/p>\n<p>Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.<\/p>\n<p>&#8211;O Dr. Vila\u00e7a deu um beijo em D. Eus\u00e9bia! bradei eu correndo pela ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Foi um estouro esta minha palavra; a estupefa\u00e7\u00e3o imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos, \u00e0 socapa, as m\u00e3es arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfar\u00e7adamente, irritado deveras com a indiscri\u00e7\u00e3o; mas no dia. seguinte, ao almo\u00e7o, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIII \/ UM SALTO<\/h3>\n<p>UNAMOS AGORA os p\u00e9s e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanh\u00e1-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias onde quer que fosse prop\u00edcio a ociosos.<\/p>\n<p>Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as li\u00e7\u00f5es \u00e1rduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. S\u00f3 era pesada, a palmat\u00f3ria, e ainda assim. . . \u00d3 palmat\u00f3ria, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no c\u00e9rebro o alfabeto, a pros\u00f3dia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmat\u00f3ria, t\u00e3o praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignor\u00e2ncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, t\u00e3o superior \u00e0 espada de Napole\u00e3o! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Li\u00e7\u00e3o de cor e com postura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que e das \u00faltimas letras; com a diferen\u00e7a que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, len\u00e7o na m\u00e3o, calva \u00e0 mostras barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois \u00e0 li\u00e7\u00e3o. E fizeste isto durante vinte e tr\u00eas anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, at\u00e9 que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ningu\u00e9m te chorou, salvo um preto velho, ningu\u00e9m, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.<\/p>\n<p>Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta p\u00e1gina: Ludgero Barata,&#8211;um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de n\u00f3s, o Quincas Borba, esse ent\u00e3o era cruel com o pobre homem. Duas, tr\u00eas vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das cal\u00e7as, umas largas cal\u00e7as de enfiar &#8211;, ou na gaveta da mesa, ou ao p\u00e9 do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pio, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os \u00faltimos nomes: \u00e9ramos sevandijas, capad\u00f3cios, malcriados, moleques.&#8211;Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, por\u00e9m, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.<\/p>\n<p>Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha inf\u00e2ncia, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e n\u00e3o j\u00e1 da escola, sen\u00e3o de toda a cidade. A m\u00e3e, vi\u00fava, com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atr\u00e1s, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir ca\u00e7ar ninhos de p\u00e1ssaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Concei\u00e7\u00e3o, ou simplesmente arruar, \u00e0 toa, como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Esp\u00edrito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnific\u00eancia nas atitudes, nos meneios. Quem diria que&#8230; Suspendamos a pena; n\u00e3o adiantemos os sucessos. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independ\u00eancia pol\u00edtica, e do meu primeiro cativeiro pessoal.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIV \/ O PRIMEIRO BEIJO<\/h3>\n<p>TINHA DEZESSETE anos; pungia-me um bu\u00e7ozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha fei\u00e7\u00e3o verdadeiramente m\u00e1scula. Como ostentasse certa arrog\u00e2ncia, n\u00e3o se distinguia bem se era uma crian\u00e7a, com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo gar\u00e7\u00e3o, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na m\u00e3o e sangue nas veias, o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso s\u00e9culo. O pior \u00e9 que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deit\u00e1-lo \u00e0 margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaix\u00e3o, o transportou para os seus livros.<\/p>\n<p>Sim, eu era esse gar\u00e7\u00e3o bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobi\u00e7osos. De todas por\u00e9m a que me cativou logo foi uma&#8230; uma&#8230; n\u00e3o sei se diga; este livro \u00e9 casto, ao menos na inten\u00e7\u00e3o na inten\u00e7\u00e3o \u00e9 cast\u00edssimo. Mas v\u00e1 l\u00e1; ou se h\u00e1 de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a &#8220;linda Marcela&#8221;, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham raz\u00e3o os rapazes. Era filha de um hortel\u00e3o das Ast\u00farias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opini\u00e3o aceita \u00e9 que nascera de um letrado de Madri, v\u00edtima da invas\u00e3o francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.<\/p>\n<p>Cosas de Espan\u00e3. Quem quer que fosse, por\u00e9m, o pai, letrado ou hortel\u00e3o, a verdade \u00e9 que Marcela n\u00e3o possu\u00eda a inoc\u00eancia r\u00fastica, e mal chegava a entender a moral do c\u00f3digo. Era boa mo\u00e7a, l\u00e9pida, sem escr\u00fapulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe n\u00e3o permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e t\u00edsico, uma p\u00e9rola.<\/p>\n<p>Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das lumin\u00e1rias, logo que constou a declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, uma festa de primavera, um amanhecer da alma p\u00fablica. \u00c9ramos dous rapazes, o povo e eu; v\u00ednhamos da inf\u00e2ncia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.&#8211;Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, t\u00e3o pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe &#8220;linda Marcela&#8221;, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio Jo\u00e3o, e fiquei, confesso que fiquei tonto.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de mo\u00e7as, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tub\u00e9rculos, presidia ao banquete noturno que eu pouco ou nada comi, porque s\u00f3 tinha olhos para a dona da casa. Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia d\u00fazia de mulheres, todas de partido, e bonitas, cheias de gra\u00e7a, mas a espanhola&#8230; O entusiasmo, alguns goles de vinho, o g\u00eanio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa \u00fanica; \u00e0 sa\u00edda, \u00e0 porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.<\/p>\n<p>&#8212; Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcela de p\u00e9, no patamar.<\/p>\n<p>&#8211;O len\u00e7o.<\/p>\n<p>Ela ia abrir-me caminho para tornar \u00e0 sala; eu segurei-lhe nas m\u00e3os, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. N\u00e3o sei se ela disse alguma cousa, se gritou, se chamou algu\u00e9m; n\u00e3o sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tuf\u00e3o, e incerto como um \u00e9brio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XV \/ MARCELA<\/h3>\n<p>GASTEI TRINTA DIAS para ir do Rocio Grande ao cora\u00e7\u00e3o de Marcela, n\u00e3o j\u00e1 cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paci\u00eancia, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, ha dous meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de D\u00e2nae, tr\u00eas inventos do padre Zeus; que, por estarem fora da moda, a\u00ed ficam trocados no cavalo e no asno. N\u00e3o direi as tra\u00e7as que urdi, nem as peitas, nem as alternativas de confian\u00e7a e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Afirmo-lhes que o asno foi digno do corcel, &#8212; um asno de Sancho, deveras fil\u00f3sofo, que me levou \u00e0 casa dela, no fim do citado per\u00edodo; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.<\/p>\n<p>Primeira como\u00e7\u00e3o da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser. na cria\u00e7\u00e3o b\u00edblica, o efeito do primeiro sol. Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.<\/p>\n<p>Teve duas fases a nossa paix\u00e3o, ou liga\u00e7\u00e3o, ou qualquer outro nome, que eu de nomes n\u00e3o curo; teve a fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade n\u00e3o p\u00f4de resistir \u00e0 evid\u00eancia, o Xavier dep\u00f4s as ins\u00edgnias, e eu concentrei todos os poderes na minha m\u00e3o; foi a fase cesariana. Era meu o universo mas, ai triste! n\u00e3o o era de gra\u00e7a. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplic\u00e1-lo, invent\u00e1-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia sem repreens\u00e3o sem demora, sem frieza; dizia a todos que e era rapaz e que ele o fora tamb\u00e9m. Mas a tal extremo chegou o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Ent\u00e3o recorri a minha m\u00e3e, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava \u00e0s escondidas. Era pouco; lancei m\u00e3o de um recurso \u00faltimo: entrei a sacar sobre a heran\u00e7a de meu pai, a assinar obriga\u00e7\u00f5es, que devia resgatar um dia com usura.<\/p>\n<p>&#8211;Em verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma j\u00f3ia: em verdade, voc\u00ea quer brigar comigo. . . Pois isto \u00e9 cousa que se fa\u00e7a&#8230; um presente t\u00e3o caro&#8230;<\/p>\n<p>E, se era j\u00f3ia, dizia isto a contempl\u00e1-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensai\u00e1-la em si, e a rir, e a beijar-me com uma reincid\u00eancia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com v\u00ea-la assim. Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ningu\u00e9m nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era pr\u00f3pria. Eram s\u00f3lidos e bons os m\u00f3veis, de jacarand\u00e1 lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixela, &#8212; uma linda baixela da \u00cdndia, que lhe doara um desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes repel\u00f5es aos nervos. Disse-o muita vez \u00e0 pr\u00f3pria dona; n\u00e3o lhe dissimulava o t\u00e9dio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho. Ela ouvia-me e ria, com uma express\u00e3o c\u00e2ndida,&#8211;c\u00e2ndida e outra cousa, que eu nesse tempo n\u00e3o entendia bem; mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso misto, como devia ter a criatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock. N\u00e3o sei se me explico. E porque tinha not\u00edcia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os a\u00e7ular mais. Assim foi que um dia como eu lhe n\u00e3o pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor n\u00e3o precisava de t\u00e3o vulgar est\u00edmulo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o lhe perd\u00f4o, se voc\u00ea fizer de mim essa triste id\u00e9ia, concluiu amea\u00e7ando-me com o dedo.<\/p>\n<p>E logo, s\u00fabita como um passarinho, espalmou as m\u00e3os, cingiu-me com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito gracioso, um momo de crian\u00e7a. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo, com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos. Vendera muita vez as apar\u00eancias, mas a realidade, guardava-a para poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte que ela amara deveras, dous anos antes, s\u00f3 a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de valor, como me acontecia a mim ela s\u00f3 lhe aceitava sem relut\u00e2ncia os mimos de escasso pre\u00e7o, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.<\/p>\n<p>&#8211;Esta cruz&#8230;<\/p>\n<p>Dizia isto, metendo a m\u00e3o no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e pendurada ao colo.<\/p>\n<p>&#8211;Mas essa cruz, observei eu, n\u00e3o me disseste que era teu pai que&#8230;<\/p>\n<p>Marcela abanou a cabe\u00e7a com um ar de l\u00e1stima:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te n\u00e3o molestar? Vem c\u00e1, chiquito, n\u00e3o sejas assim desconfiado comigo.. . Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando- nos separarmos. . .<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o digas isso! bradei eu.<\/p>\n<p>&#8211;Tudo cessa! Um dia. . .<\/p>\n<p>N\u00e3o pode acabar; um solu\u00e7o estrangulou-lhe a voz; estendeu as m\u00e3os, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido: Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os olhos \u00famidos. No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.<\/p>\n<p>&#8211;Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.<\/p>\n<p>Marcela teve primeiro um sil\u00eancio indignado; depois fez um gesto magn\u00edfico: tentou atirar o colar \u00e0 rua. Eu retive-lhe o bra\u00e7o; pedi-lhe muito que n\u00e3o me fizesse tal desfeita, que ficasse com a j\u00f3ia. Sorriu e ficou.<\/p>\n<p>Entretanto, pagava-me \u00e0 farta os sacrif\u00edcios; espreitava os meus mais rec\u00f4nditos pensamentos; n\u00e3o havia desejo a que n\u00e3o acudisse com alma, sem esfor\u00e7o, por uma esp\u00e9cie de lei da consci\u00eancia e necessidade do cora\u00e7\u00e3o. Nunca o desejo era razo\u00e1vel, mas um capricho puro, uma criancice, v\u00ea-la trajar de certo modo, com tais e tais enfeites, este vestido e n\u00e3o aquele, ir a passeio ou outra cousa assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea \u00e9 das Ar\u00e1bias &#8212; dizia-me.<\/p>\n<p>E ia a p\u00f4r o vestido, a renda, os brincos, com uma obedi\u00eancia de encantar.<\/p>\n<h3>CAPITULO XVI \/ UMA REFLEX\u00c3O IMORAL<\/h3>\n<p>OCORRE ME uma reflex\u00e3o imoral, que \u00e9 ao mesmo tempo uma corre\u00e7\u00e3o de estilo. Cuido haver dito, no cap\u00edtulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. N\u00e3o morria, vivia. Viver n\u00e3o \u00e9 a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente muito vista na gram\u00e1tica. Bons joalheiros, que seria do amor se n\u00e3o fossem os vossos dixes e fiados? Um ter\u00e7o ou um quinto do universal com\u00e9rcio dos cora\u00e7\u00f5es. Esta \u00e9 a reflex\u00e3o imoral que eu pretendia fazer, a qual \u00e9 ainda mais obscura do que imoral, porque n\u00e3o se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer \u00e9 que a mais bela testa do mundo n\u00e3o fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me ..<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XVII \/ DO TRAP\u00c9ZIO E OUTRAS COUSAS<\/h3>\n<p>. . .MARCELA amou-me durante quinze meses e onze contos de r\u00e9is; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.<\/p>\n<p>&#8212; Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem s\u00e9rio e n\u00e3o para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:&#8211; Gatuno, sim senhor; n\u00e3o \u00e9 outra cousa um filho que me faz isto&#8230;<\/p>\n<p>Sacou da algibeira os meus t\u00edtulos de d\u00edvida, j\u00e1 resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara.&#8211;V\u00eas, peralta? \u00e9 assim que um mo\u00e7o deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus av\u00f3s ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas ju\u00edzo, ou ficas sem cousa nenhuma.<\/p>\n<p>Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada! opus \u00e0 ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a id\u00e9ia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que n\u00e3o podia ir para a Europa.<\/p>\n<p>&#8211;Porque n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o posso, disse ela com ar dolonte; n\u00e3o posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por Napole\u00e3o . . .<\/p>\n<p>&#8211;Qual deles: o hortel\u00e3o ou o advogado?<\/p>\n<p>Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de alu\u00e1. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a m\u00e3o no copo e na salva; entornou-se-lhe o l\u00edquido no rega\u00e7o, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a s\u00f3s, derramei todo o desespero de meu cora\u00e7\u00e3o; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um peda\u00e7o de m\u00e1rmore. Tive \u00edmpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus p\u00e9s. Ia talvez faz\u00ea-lo; mas a a\u00e7\u00e3o trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos p\u00e9s dela, contrito e s\u00faplice; beijei-lhos recordei aqueles meses da nossa felicidade solit\u00e1ria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no ch\u00e3o, com a cabe\u00e7a entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as m\u00e3os; ofegante, desvairado, pedi-lhe com l\u00e1grimas que me n\u00e3o desamparasse&#8230; Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados, ambos, at\u00e9 que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me aborre\u00e7a, disse.<\/p>\n<p>Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.&#8211;N\u00e3o! bradei eu; n\u00e3o h\u00e1s de entrar&#8230; n\u00e3o quero. . . Ia a lan\u00e7ar-lhe as m\u00e3os: era tarde; ela entrara e fechara-se.<\/p>\n<p>Sa\u00ed desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais exc\u00eantricos e desertos, onde fosse dif\u00edcil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma esp\u00e9cie de gula m\u00f3rbida; evocava os dias, as horas, os instantes de del\u00edrio, e ora me comprazia em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo? tentava rejeit\u00e1-los de mim, como um fardo in\u00fatil. Ent\u00e3o resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a id\u00e9ia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma cousa, uma lembran\u00e7a qualquer, como do alferes Duarte&#8230; Nisto, o dente do ci\u00fame enterrava-se-me no cora\u00e7\u00e3o; toda a natureza bradava que era preciso levar Marcela comigo.<\/p>\n<p>&#8211;Por for\u00e7a. . . por for\u00e7a. . . dizia eu ferindo o ar com uma punhada.<\/p>\n<p>Enfim, tive uma id\u00e9ia salvadora&#8230; Ah! trap\u00e9zio dos meus pecados, trap\u00e9zio das concep\u00e7\u00f5es abstrusas! A id\u00e9ia salvadora trabalhou neles como a do emplasto (cap\u00edtulo II). Era nada menos que fascin\u00e1-la, fascin\u00e1-la muito, deslumbr\u00e1-la, arrast\u00e1-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a s\u00faplica. N\u00e3o medi as conseq\u00fc\u00eancias; recorri a um derradeiro empr\u00e9stimo; fui \u00e0 Rua dos Ourives, comprei a melhor j\u00f3ia da cidade, tr\u00eas diamantes grandes encastoados num pente de marfim; corri \u00e0 casa de Marcela.<\/p>\n<p>Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho cal\u00e7ado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento.<\/p>\n<p>&#8211;Vem comigo, disse eu, arranjei recursos&#8230; temos muito dinheiro, ter\u00e1s tudo o que quiseres&#8230; Olha, toma.<\/p>\n<p>E mostrei-lhe o pente com os diamantes. . . Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se dominado. Ent\u00e3o, eu lancei-lhe as m\u00e3os aos cabelos, coligi-os, enlacei-os \u00e0 pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um carinho de m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Pronto, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;Doudo! foi a sua primeira resposta.<\/p>\n<p>A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrif\u00edcio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a mat\u00e9ria e o lavor, olhando a espa\u00e7os para mim, e abanando a cabe\u00e7a com um ar de repreens\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Ora voc\u00ea! dizia.<\/p>\n<p>&#8211;Vens comigo?<\/p>\n<p>Marcela refletiu um instante. N\u00e3o gostei da express\u00e3o com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a j\u00f3ia; mas toda a m\u00e1 impress\u00e3o se desvaneceu, quando ela me respondeu resolutamente:<\/p>\n<p>&#8211;Vou. Quando embarcas?<\/p>\n<p>&#8211;Daqui a dous ou tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>&#8211;Vou.<\/p>\n<p>Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi guardar a j\u00f3ia, enquanto eu descia a escada.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XVIII \/ VIS\u00c3O DO CORREDOR<\/h3>\n<p>No FIM da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as id\u00e9ias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensa\u00e7\u00f5es profundas e contr\u00e1rias. Achava-me feliz. Certo \u00e9 que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas n\u00e3o \u00e9 menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me&#8230;<\/p>\n<p>Um anjo! murmurei olhando para o tecto do corredor.<\/p>\n<p>E a\u00ed, como um esc\u00e1rnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfian\u00e7a, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites! Vi-te ali mesmo correr atr\u00e1s da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, at\u00e9 a alameda comprida, donde sa\u00edste \u00e0 rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Ent\u00e3o pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagd\u00e1. Com efeito, olhando para a porta, vi na cal\u00e7ada tr\u00eas dos correeiros, um de batina, outro de libr\u00e9, outro \u00e0 paisana, os quais todos tr\u00eas entraram no corredor, tomaram-me pelos bra\u00e7os, meteram-me numa sege, meu pai \u00e0 direita, meu tio c\u00f4nego \u00e0 esquerda, o da libr\u00e9 na bol\u00e9ia, e l\u00e1 me levaram \u00e0 casa do intendente de pol\u00edcia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resist\u00eancia era in\u00fatil.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois segui barra fora, abatido e mudo. N\u00e3o chorava sequer; tinha uma id\u00e9ia fixa. . . Malditas id\u00e9ias fixas! A dessa ocasi\u00e3o era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XIX \/ A BORDO<\/h3>\n<p>\u00c9RAMOS ONZE passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dous criados. Meu pai recomendou-me a todos, come\u00e7ando pelo capit\u00e3o do navio, que ali\u00e1s tinha muito que cuidar de si, porque, al\u00e9m do mais, levava a mulher t\u00edsica em \u00faltimo grau.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o capit\u00e3o suspeitou alguma cousa do meu f\u00fanebre projeto, ou se meu pai o p\u00f4s de sobreaviso; sei que n\u00e3o me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando n\u00e3o podia estar comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha rasa, a tossir muito, e a afian\u00e7ar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. N\u00e3o estava magra, estava transparente; era imposs\u00edvel que n\u00e3o morresse de uma hora para outra. O capit\u00e3o fingia n\u00e3o crer na morte pr\u00f3xima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu n\u00e3o sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher t\u00edsica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcela.<\/p>\n<p>Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo prop\u00edcio para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capit\u00e3o, que junto \u00e0 amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.<\/p>\n<p>&#8211;Algum temporal? disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, respondeu ele estremecendo; n\u00e3o; admiro o esplendor da noite. Veja; est\u00e1 celestial!<\/p>\n<p>O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a locu\u00e7\u00f5es rebuscadas. Fitei-o; ele pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na m\u00e3o e apontou para a lua, perguntando-me por que n\u00e3o fazia uma ode \u00e0 noite; respondi-lhe que n\u00e3o era poeta. O capit\u00e3o rosnou alguma cousa, deu dous passos, meteu a m\u00e3o no bolso, sacou um peda\u00e7o de papel, muito amarrotado; depois, \u00e0 luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida mar\u00edtima. Eram versos dele.<\/p>\n<p>&#8211;Que tal?<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a m\u00e3o com muita for\u00e7a e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous sonetos; ia recitar-me outro quando o vieram chamar da parte da mulher. L\u00e1 vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com amor.<\/p>\n<p>Fiquei s\u00f3; mas a musa do capit\u00e3o varrera-me do esp\u00edrito os pensamentos maus; preferi dormir, que \u00e9 um modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a toda a gente, menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura. N\u00e3o, nunca me h\u00e1 de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furac\u00e3o, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, p\u00e1lido, cabelo arrepiado e longo. \u00c0s vezes parava, erguia ao ar as m\u00e3os ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher n\u00e3o podia j\u00e1 cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do C\u00e9u. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma divers\u00e3o excelente \u00e0 tempestade do meu cora\u00e7\u00e3o. Eu, que meditava ir ter com a morte, n\u00e3o ousei fit\u00e1-la quando ela veio ter comigo.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o perguntou-me se tivera medo, se estivera em risco, se n\u00e3o achara sublime o espet\u00e1culo: tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capit\u00e3o perguntou-me se n\u00e3o gostava de id\u00edlios piscat\u00f3rios: eu respondi-lhe ingenuamente que n\u00e3o sabia o que era.<\/p>\n<p>&#8211;Vai ver, respondeu.<\/p>\n<p>E recitou-me um poemazinho, depois outro, &#8212; uma \u00e9gloga,&#8211; e enfim cinco sonetos, com os quais rematou nesse dia a confid\u00eancia liter\u00e1ria. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capit\u00e3o que s\u00f3 por motivos graves abra\u00e7ara a profiss\u00e3o mar\u00edtima, porque a av\u00f3 queria que ele fosse padre, e com efeito possu\u00eda algumas letras latinas; n\u00e3o chegou a ser padre, mas n\u00e3o deixou de ser poeta, que era a sua voca\u00e7\u00e3o natural. Para prov\u00e1-lo, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um fen\u00f4meno: os ademanes que ele usava eram tais, que uma vez me fizeram rir; mas o capit\u00e3o, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que n\u00e3o viu nem ouviu nada.<\/p>\n<p>Os dias passavam, e as \u00e1guas, e os versos, e com eles ia tamb\u00e9m passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do almo\u00e7o, disse-me o capit\u00e3o que a enferma talvez n\u00e3o chegasse ao fim da semana.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1! exclamei.<\/p>\n<p>&#8211;Passou muito mal a noite.<\/p>\n<p>Fui v\u00ea-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias antes de ir comigo a Coimbra, porque era seu prop\u00f3sito levar-me \u00e0 Universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas que vinham morrer no costado do navio, e tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a hist\u00f3ria dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedica\u00e7\u00e3o da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram busc\u00e1-lo da parte dela; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram cru\u00e9is; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao espet\u00e1culo, tinha-lhe repugn\u00e2ncia. Meia hora depois encontrei o capit\u00e3o, sentado num molho de cabos, com a cabe\u00e7a nas m\u00e3os, disse-lhe alguma cousa de conforto.<\/p>\n<p>&#8211;Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras n\u00e3o pudessem ser levadas a conta de fraqueza, ergueu-se longe, sacudiu a cabe\u00e7a e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo. &#8211;Vamos, continuou, entregu\u00eamo-la \u00e0 cova que nunca mais se abre.<\/p>\n<p>Efetivamente, poucas horas depois, era o cad\u00e1ver lan\u00e7ado ao mar, com as cerim\u00f4nias do costume. A tristeza murchara todos os rostos; o do vi\u00favo trazia a express\u00e3o de um cabe\u00e7o rijamente lascado pelo rio. Grande sil\u00eancio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,&#8211;uma leve ruga,&#8211;e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, a popa, com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de n\u00f3s. . . Fui dali ter com o capit\u00e3o, para distra\u00ed-lo.<\/p>\n<p>&#8211;Obrigado, disse-me ele compreendendo a inten\u00e7\u00e3o; creia que nunca me esquecerei dos seus bons servi\u00e7os. Deus \u00e9 que lhos h\u00e1 de pagar. Pobre Leoc\u00e1dia! tu te lembrar\u00e1s de n\u00f3s no C\u00e9u.<\/p>\n<p>Enxugou com a manga uma l\u00e1grima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paix\u00e3o dele. Falei-lhe dos versos, que me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do capit\u00e3o animaram-se um pouco. &#8211;Talvez aceite, disse ele: mas n\u00e3o sei&#8230; s\u00e3o bem frouxos versos. Jurei-lhe que n\u00e3o; pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque.<\/p>\n<p>&#8211;Pobre Leoc\u00e1dia! murmurou sem responder ao pedido. Um cad\u00e1ver&#8230; o mar. .. o c\u00e9u. .. o navio. . .<\/p>\n<p>No dia seguinte veio ler-me um epic\u00e9dio composto de fresco, em que estavam memoradas as circunst\u00e2ncias da morte e da sepultura da mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a meio tr\u00eamula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o haver\u00e1 estro, ponderou ele, no fim de um instante, mas ningu\u00e9m me negar\u00e1 sentimento, se n\u00e3o \u00e9 que o pr\u00f3prio sentimento prejudicou a perfei\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me parece; acho os versos perfeitos.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, eu creio que.. . Versos de marujo.<\/p>\n<p>&#8211;De marujo poeta.<\/p>\n<p>E1e levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composi\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 ent\u00e3o sem tremuras, acentuando as inten\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias dando relevo \u00e0s imagens e melodia aos versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que sim; ele apertou-me muito a m\u00e3o e predisse-me um grande futuro.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XX \/ BACHARELO-ME<\/h3>\n<p>UM GRANDE futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma id\u00e9ia expelia outra, a ambi\u00e7\u00e3o desmontava Marcela. Grande futuro? Talvez naturalista, literato, arque\u00f3logo, banqueiro, pol\u00edtico, ou at\u00e9 bispo, &#8212; bispo que fosse,&#8211;uma vez que fosse um cargo, uma preemin\u00eancia, uma grande reputa\u00e7\u00e3o, uma posi\u00e7\u00e3o superior. A ambi\u00e7\u00e3o, dado que fosse \u00e1guia, quebrou nessa ocasi\u00e3o o ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus, Marcela! dias de del\u00edrio, j\u00f3ias sem pre\u00e7o, vida sem reg\u00edmen, adeus! C\u00e1 me vou \u00e0s fadigas e \u00e0 gl\u00f3ria; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.<\/p>\n<p>E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas mat\u00e9rias \u00e1rduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, ap\u00f3s os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, &#8212; principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de foli\u00e3o; era um acad\u00eamico estr\u00f3ina, superficial, tumultu\u00e1rio e petulante, dado \u00e0s aventuras, fazendo romantismo pr\u00e1tico e liberalismo te\u00f3rico, vivendo na pura f\u00e9 dos olhos pretos e das constitui\u00e7\u00f5es escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ci\u00eancia que eu estava longe de trazer arraigada no c\u00e9rebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo j\u00e1 uns \u00edmpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros? de influir, de gozar, de viver, de prolongar a Universidade pela vida adiante . . .<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXI \/ O ALMOCREVE<\/h3>\n<p>VAI ENT\u00c3O, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dous corcovos, depois mais tr\u00eas, enfim mais um, que me sacudiu fora da sela, com tal desastre, que o p\u00e9 esquerdo me ficou preso no estribo, tento agarrar-me ao ventre do animal, mas j\u00e1 ent\u00e3o, espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar na r\u00e9dea e det\u00ea-lo, n\u00e3o sem esfor\u00e7o nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e pus-me de p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211;Olhe do que vosmec\u00ea escapou, disse o almocreve.<\/p>\n<p>E era verdade; se o jumento corre por ali fora, contundia-me deveras, e n\u00e3o sei se a morte n\u00e3o estaria no fim do desastre; cabe\u00e7a partida, uma congest\u00e3o, qualquer transtorno c\u00e1 dentro, l\u00e1 se me ia a ci\u00eancia em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu sentia-no no sangue que me agitava o cora\u00e7\u00e3o. Bom almocreve! enquanto eu tornava \u00e0 consci\u00eancia de mim mesmo, ele cuidava de consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi dar-lhe tr\u00eas moedas de ouro das cinco que trazia comigo; n\u00e3o porque tal fosse o pre\u00e7o da minha vida,&#8211; essa era inestim\u00e1vel; mas porque era uma recompensa digna da dedica\u00e7\u00e3o com que ele me salvou. Est\u00e1 dito, dou-lhe as tr\u00eas moedas.<\/p>\n<p>&#8211;Pronto, disse ele, apresentando-me a r\u00e9dea da cavalgadura.<\/p>\n<p>&#8212; Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda n\u00e3o estou em mim. . .<\/p>\n<p>&#8211;Ora qual!<\/p>\n<p>&#8211;Pois n\u00e3o \u00e9 certo que ia morrendo?<\/p>\n<p>&#8211;Se o jumento corre por a\u00ed fora, \u00e9 poss\u00edvel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmec\u00ea que n\u00e3o aconteceu nada.<\/p>\n<p>Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se n\u00e3o era excessiva a gratifica\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o bastavam duas moedas. Talvez uma. Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estreme\u00e7\u00f5es de alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir \u00e0 luz do sol; n\u00e3o a viu o almocreve, porque eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse ju\u00edzo, que o &#8220;senhor doutor&#8221; podia castig\u00e1-lo; um mon\u00f3logo paternal. Valha-me Deus! at\u00e9 ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a testa.<\/p>\n<p>&#8211;Ol\u00e9! exclamei.<\/p>\n<p>&#8212; Queira vosmec\u00ea perdoar, mas o diabo do bicho est\u00e1 a olhar para a gente com tanta gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Ri-me, hesitei, meti-lhe na m\u00e3o um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas bra\u00e7as de dist\u00e2ncia, olhei para tr\u00e1s, o almocreve fazia-me grandes cortesias, com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre; eram os vint\u00e9ns que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele n\u00e3o levou em mira nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos h\u00e1bitos do of\u00edcio; acresce que a circunst\u00e2ncias de estar, n\u00e3o mais adiante nem mais atr\u00e1s, mas justamente no ponto do desastre, parecia constitu\u00ed-lo simples instrumento da Provid\u00eancia; e de um ou de outro modo, o m\u00e9rito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflex\u00e3o, chamei-me pr\u00f3digo, lancei o cruzado \u00e0 conta das minhas dissipa\u00e7\u00f5es antigas; tive (por que n\u00e3o direi tudo?) tive remorsos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXII \/ VOLTA AO RIO<\/h3>\n<p>JUMENTO de uma figa, cortaste-me o fio \u00e0s reflex\u00f5es. J\u00e1 agora n\u00e3o digo o que pensei dali at\u00e9 Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na pen\u00ednsula e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que nesse tempo parecia remo\u00e7ar. N\u00e3o, n\u00e3o direi que assisti \u00e0s alvoradas do romantismo, que tamb\u00e9m eu fui fazer poesia efetiva no rega\u00e7o da It\u00e1lia; n\u00e3o direi cousa nenhuma. Teria de escrever um di\u00e1rio de viagem e n\u00e3o umas mem\u00f3rias, como estas s\u00e3o, nas quais s\u00f3 entra a subst\u00e2ncia da vida.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns anos de peregrina\u00e7\u00e3o, atendi as s\u00faplicas de meu pai; &#8211;&#8220;Vem, dizia ele na \u00faltima carta; se n\u00e3o vieres depressa, achar\u00e1s tua m\u00e3e morta!\u201d Esta \u00faltima palavra foi para mim um golpe. Eu amava minha m\u00e3e; tinha ainda diante dos olhos as circunst\u00e2ncias da \u00faltima b\u00ean\u00e7\u00e3o que ela me dera, a bordo do navio. &#8220;Meu triste filho, nunca mais te verei&#8221;, solu\u00e7ava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como um profecia realizada.<\/p>\n<p>Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron; l\u00e1 estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o pret\u00e9rito, crendo-me na Seren\u00edssima Rep\u00fablica. \u00c9 verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia. &#8212; Que doge, signor mio? Ca\u00ed em mim, mas n\u00e3o confessei a ilus\u00e3o; disse-lhe que a minha pergunta era um g\u00eanero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava muitos das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a g\u00f4ndola, os versos do lord, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na dire\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Vim. . . Mas n\u00e3o; n\u00e3o alonguemos este cap\u00edtulo. \u00c0s vezes, esque\u00e7o-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave preju\u00edzo meu, que sou autor. Cap\u00edtulos compridos quadram melhor a leitores pesad\u00f5es; e n\u00f3s n\u00e3o somos um p\u00fablico in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas&#8230; principalmente vinhetas&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o alonguemos o cap\u00edtulo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXIII \/ TRISTE, MAS CURTO<\/h3>\n<p>VIM. N\u00c3O NEGO que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensa\u00e7\u00e3o nova. N\u00e3o era efeito da minha p\u00e1tria pol\u00edtica; era-o do lugar da inf\u00e2ncia, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha, o preto do ganho, as cousas e cenas da meninice, buriladas na mem\u00f3ria. Nada menos que uma renascen\u00e7a. O esp\u00edrito, como um p\u00e1ssaro, n\u00e3o se lhe deu da corrente dos anos, arrepiou o v\u00f4o na dire\u00e7\u00e3o da fonte original, e foi beber da \u00e1gua fresca e pura, ainda n\u00e3o mesclada do enxurro da vida.<\/p>\n<p>Reparando bem, h\u00e1 a\u00ed um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a consterna\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Meu pai abra\u00e7ou-me com l\u00e1grimas. &#8212; Tua m\u00e3e n\u00e3o pode viver, disse-me. Com efeito, n\u00e3o era j\u00e1 o reumatismo que a matava, era um cancro no est\u00f4mago. A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro \u00e9 indiferente \u00e0s virtudes do sujeito; quando r\u00f3i, r\u00f3i; roer \u00e9 o seu of\u00edcio. Minha irm\u00e3 Sabina, j\u00e1 ent\u00e3o casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre mo\u00e7a! dormia tr\u00eas horas por noite, nada mais. O pr\u00f3prio tio Jo\u00e3o estava abatido e triste. D. Eus\u00e9bia e algumas outras senhoras l\u00e1 estavam tamb\u00e9m, n\u00e3o menos tristes e n\u00e3o menos dedicadas.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>&#8211;Meu filho!<\/p>\n<p>A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que n\u00e3o emagrecem nunca. Mal poderia conhec\u00ea-la; havia oito ou nove anos que nos n\u00e3o v\u00edamos. Ajoelhado, ao p\u00e9 da cama, com as m\u00e3os dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar falar, porque cada palavra seria um solu\u00e7o, e n\u00f3s tem\u00edamos avis\u00e1-la do fim. V\u00e3o temor! Ela sabia que estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manh\u00e3.<\/p>\n<p>Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa fria, repisada, que me encheu de dor e estupefa\u00e7\u00e3o. Era a primeira vez que eu via morrer algu\u00e9m. Conhecia a morte de outiva; quando muito, tinha-a visto j\u00e1 petrificada no rosto de algum cad\u00e1ver, que acompanhei ao cemit\u00e9rio, ou trazia-lhe a id\u00e9ia embrulhada nas amplifica\u00e7\u00f5es de ret\u00f3rica dos professores de cousas antigas, &#8212; a morte aleivosa de C\u00e9sar, a austera de S\u00f3crates, a orgulhosa de Cat\u00e3o. Mas esse duelo do ser e do n\u00e3o ser, a morte em a\u00e7\u00e3o, dolorida, contra\u00edda convulsa, sem aparelho pol\u00edtico ou filos\u00f3fico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar. N\u00e3o chorei; lembra-me que n\u00e3o chorei durante o espet\u00e1culo: tinha os olhos est\u00fapidos, a garganta presa, a consci\u00eancia boquiaberta. Qu\u00ea? uma criatura t\u00e3o d\u00f3cil, t\u00e3o meiga, t\u00e3o santa, que nunca jamais fizera verter uma l\u00e1grima de desgosto, m\u00e3e carinhosa, esposa imaculada, era for\u00e7a que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doen\u00e7a sem miseric\u00f3rdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano&#8230;<\/p>\n<p>Triste cap\u00edtulo; passemos a outro mais alegre.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXIV \/ CURTO, MAS ALEGRE<\/h3>\n<p>FIQUEI PROSTADO. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel comp\u00eandio de trivialidade e presun\u00e7\u00e3o. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o c\u00e9rebro; nunca at\u00e9 esse dia me debru\u00e7ara sobre o abismo do inexplic\u00e1vel; faltava-me o essencial, que \u00e9 o est\u00edmulo, a vertigem. . .<\/p>\n<p>Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opini\u00f5es de um cabeleireiro, que achei em M\u00f3dena, e que se distinguia por n\u00e3o as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que fosse a opera\u00e7\u00e3o do toucado, n\u00e3o enfadava nunca; ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor&#8230; N\u00e3o tinha outra filosofia. Nem eu. N\u00e3o digo que a Universidade me n\u00e3o tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe s\u00f3 as f\u00f3rmulas, o vocabul\u00e1rio, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei tr\u00eas versos de Virg\u00edlio, dous de Hor\u00e1cio, uma d\u00fazia de locu\u00e7\u00f5es morais e pol\u00edticas, para as despesas da conversa\u00e7\u00e3o. Tratei-os como tratei a hist\u00f3ria e a jurisprud\u00eancia. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamenta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e real\u00e7o a minha mediocridade; advirta que a franqueza \u00e9 a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opini\u00e3o, o contraste dos interesses, a luta das cobi\u00e7as obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfar\u00e7ar os rasg\u00f5es e os remendos, a n\u00e3o estender ao mundo as revela\u00e7\u00f5es que faz \u00e0 consci\u00eancia; e o melhor da obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 quando, a for\u00e7a de emba\u00e7ar os outros, emba\u00e7a-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o penosa e a hipocrisia, que \u00e9 um v\u00edcio hediondo. Mas, na morte, que diferen\u00e7a! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; n\u00e3o h\u00e1 plat\u00e9ia. O olhar da opini\u00e3o, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o territ\u00f3rio da morte; n\u00e3o digo que ele se n\u00e3o estenda para c\u00e1, e nos n\u00e3o examine e julgue; mas a n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o se nos d\u00e1 do exame nem do julgamento. Senhores vivos, n\u00e3o h\u00e1 nada t\u00e3o incomensur\u00e1vel como o desd\u00e9m dos finados.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXV\/ NA TIJUCA<\/h3>\n<p>Ui! L\u00c1 ME IA a pena a escorregar para o enf\u00e1tico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>No s\u00e9timo dia, acabada a missa f\u00fanebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque, o Prud\u00eancio do cap\u00edtulo XI,&#8211; e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade. Meu pai forcejou por me torcer a resolu\u00e7\u00e3o, mas eu \u00e9 que n\u00e3o podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo, duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar \u00e0 fina for\u00e7a. Era um bom rapaz este Cotrim; passara de estr\u00f3ina a circunspecto. Agora comerciava em g\u00eaneros de estiva, labutava de manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite, com ardor, com perseveran\u00e7a. De noite, sentado \u00e0 janela, a encaracolar as su\u00ed\u00e7as, n\u00e3o pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que ent\u00e3o tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.<\/p>\n<p>Renunciei tudo; tinha o esp\u00edrito at\u00f4nito. Creio que por ent\u00e3o \u00e9 que come\u00e7ou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solit\u00e1ria e m\u00f3rbida, de um cheiro inebriante e sutil.&#8211;&#8220;Que bom que \u00e9 estar triste e n\u00e3o dizer cousa nenhuma!&#8221; &#8212; Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a aten\u00e7\u00e3o, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas m\u00e3os e o esp\u00edrito mais cabisbaixo do que a figura, &#8212; ou jururu como dizemos de galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica, uma cousa a que poderia chamar vol\u00fapia do aborrecimento. Vol\u00fapia do aborrecimento: decora esta express\u00e3o, leitor; guarda-a, examina-a, e se n\u00e3o chegares a entend\u00ea-la, podes concluir que ignoras uma das sensa\u00e7\u00f5es mais sutis desse mundo e daquele tempo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ca\u00e7ava, outras dormia, outras lia, &#8212; lia muito,&#8211; outras enfim n\u00e3o fazia nada; deixava-me atoar de id\u00e9ia em id\u00e9ia, de imagina\u00e7\u00e3o em imagina\u00e7\u00e3o, como uma borboleta vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol ca\u00eda, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ningu\u00e9m me visitava; recomendei expressamente que me deixassem s\u00f3. Um dia, dous dias, tr\u00eas dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bul\u00edcio. Com efeito, ao cabo de sete dias estava farto da solid\u00e3o; a dor aplacara; o esp\u00edrito j\u00e1 se n\u00e3o contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do c\u00e9u. Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti no ba\u00fa o problema da vida e da morte, os hipocondr\u00edacos do poeta, as camisas, as medita\u00e7\u00f5es, as gravatas, e ia fech\u00e1-lo quando o moleque Prud\u00eancio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na v\u00e9spera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.<\/p>\n<p>&#8211;Quem?<\/p>\n<p>&#8211;Nhonh\u00f4 talvez n\u00e3o se lembre mais de D. Eus\u00e9bia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Lembra-me&#8230; \u00c9 ela?<\/p>\n<p>&#8211;Ela e a filha. Vieram ontem de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Ocorreu-me logo o epis\u00f3dio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado raz\u00e3o. Na verdade, fora imposs\u00edvel evitar as rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas do Vila\u00e7a com a irm\u00e3 do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque, j\u00e1 se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio Jo\u00e3o mandou-me dizer depois que o Vila\u00e7a, ao morrer, deixara um bom legado a D. Eus\u00e9bia, cousa que deu muito que falar em todo o bairro. O pr\u00f3prio tio Jo\u00e3o, guloso de esc\u00e2ndalos, n\u00e3o tratou de outro assunto na carta, ali\u00e1s de muitas folhas. Tinham-me dado raz\u00e3o os acontecimentos. Ainda por\u00e9m que ma n\u00e3o dessem, 1814 l\u00e1 ia longe, e, com ele, a travessura, e o Vila\u00e7a, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas rela\u00e7\u00f5es estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflex\u00e3o e acabei de fechar o ba\u00fa.<\/p>\n<p>&#8211;Nhonh\u00f4 n\u00e3o vai visitar sinh\u00e1 D. Eus\u00e9bia? perguntou-me o Prud\u00eancio. Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.<\/p>\n<p>Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasi\u00e3o da morte e do enterro; ignorava por\u00e9m que ela houvesse prestado a minha m\u00e3e esse derradeiro obs\u00e9quio. A pondera\u00e7\u00e3o do moleque era razo\u00e1vel; eu devia-lhe uma visita; determinei faz\u00ea-la imediatamente e descer.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXVI \/ O AUTOR HESITA<\/h3>\n<p>S\u00daBITO OU\u00c7O uma voz: &#8212; Ol\u00e1, meu rapaz, isto n\u00e3o \u00e9 vida! Era meu pai, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no ba\u00fa e recebi-o sem alvoro\u00e7o. Ele esteve alguns instantes de p\u00e9, a olhar para mim; depois estendeu-me a m\u00e3o com um gesto comovido:<\/p>\n<p>&#8211;Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a m\u00e3o. N\u00e3o tinha almo\u00e7ado; almo\u00e7amos juntos. Nenhum de n\u00f3s aludiu ao triste motivo da minha reclus\u00e3o. Uma s\u00f3 vez falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Reg\u00eancia: foi ent\u00e3o que aludiu \u00e0 carta de p\u00easames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta consigo, j\u00e1 bastante amarrotada, talvez por hav\u00ea-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-ma duas vezes.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 lhe fui agradecer este sinal de considera\u00e7\u00e3o, concluiu meu pai, e acho que deves ir tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Eu?<\/p>\n<p>&#8211;Tu; \u00e9 um homem not\u00e1vel, faz hoje \u00e0s vezes de Imperador. Demais trago comigo uma id\u00e9ia, um projeto, ou&#8230; sim, digo-te tudo; trago dous projetos, um lugar de deputado e um casamento.<\/p>\n<p>Meu pai disse isto com pausa, e n\u00e3o no mesmo tom, mas dando \u00e0s palavras um jeito e disposi\u00e7\u00e3o cujo fim era cav\u00e1-las mais profundamente no meu esp\u00edrito. A proposta, por\u00e9m, desdizia tanto das minhas sensa\u00e7\u00f5es \u00faltimas, que eu cheguei a n\u00e3o entend\u00ea-la bem. Meu pai n\u00e3o fraqueou e repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.<\/p>\n<p>&#8211;Aceitas?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o entendo de pol\u00edtica, disse eu depois de um instante; quanto \u00e0 noiva&#8230; deixe-me viver como um urso, que sou.<\/p>\n<p>&#8211;Mas os ursos casam-se, replicou ele.<\/p>\n<p>&#8211;Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior&#8230;<\/p>\n<p>Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar s\u00e9rio. Era-me necess\u00e1ria a carreira pol\u00edtica, dizia ele, por vinte e tantas raz\u00f5es, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto \u00e0 noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascina\u00e7\u00e3o, depois a persuas\u00e3o, depois a intima\u00e7\u00e3o; eu n\u00e3o dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de p\u00e3o, a sorrir ou a refletir; e, para tudo dizer, nem d\u00f3cil nem rebelde \u00e0 proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica eram bens dignos de apre\u00e7o; outra dizia que n\u00e3o; e a morte de minha m\u00e3e me aparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das afei\u00e7\u00f5es, da fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as s\u00edlabas com o dedo.<\/p>\n<p>Bebeu o \u00faltimo gole de caf\u00e9; repoltreou-se e entrou a falar de tudo, do senado, da c\u00e2mara, da Reg\u00eancia, da restaura\u00e7\u00e3o? do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Mata cavalos&#8230; Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num peda\u00e7o de papel, com uma ponta de l\u00e1pis; tra\u00e7ava uma palavra, uma frase, um verso, um nariz, um tri\u00e2ngulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:<\/p>\n<p>arma virumque cano<\/p>\n<p>A<\/p>\n<p>arma virumque cano<\/p>\n<p>Arma virumque cano<\/p>\n<p>arma virumque cano<\/p>\n<p>arma virumque cano<\/p>\n<p>virunque<\/p>\n<p>Maquinalmente tudo isto; e, n\u00e3o obstante, havia certa l\u00f3gica, certa dedu\u00e7\u00e3o, por exemplo, foi o virumque que me fez chegar ao nome do pr\u00f3prio poeta, por causa da primeira s\u00edlaba- ia a escrever virumque, e sai-me Virg\u00edlio, ent\u00e3o continuei:<\/p>\n<p>Vir g\u00edlio<\/p>\n<p>Virg\u00edlio Virg\u00edlio Virg\u00edlio<\/p>\n<p>Virg\u00edlio<\/p>\n<p>Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferen\u00e7a, ergueu-se veio a mim, lan\u00e7ou os olhos ao papel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Virg\u00edlio! exclamou. \u00c9s tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virg\u00edlia.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXVII \/ VIRG\u00cdLIA?<\/h3>\n<p>VIRG\u00cdLIA? Mas ent\u00e3o era a mesma senhora que alguns anos depois? .. A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus \u00faltimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais \u00edntimas sensa\u00e7\u00f5es. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa ra\u00e7a, e, com certeza, a mais voluntariosa. N\u00e3o digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto n\u00e3o \u00e9 romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos \u00e0s sardas e espinhas; mas tamb\u00e9m n\u00e3o digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, n\u00e3o. Era bonita, fresca, sa\u00eda das m\u00e3os da natureza, cheia daquele feiti\u00e7o, prec\u00e1rio e eterno, que o indiv\u00edduo passa a outro indiv\u00edduo, para os fins secretos da cria\u00e7\u00e3o. Era isto Virg\u00edlia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns \u00edmpetos misteriosos; muita pregui\u00e7a e alguma devo\u00e7\u00e3o, &#8212; devo\u00e7\u00e3o, ou talvez medo; creio que medo.<\/p>\n<p>A\u00ed tem o leitor, em poucas linhas, o retrato f\u00edsico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida e era aquilo com dezesseis anos. Tu que me l\u00eas, se ainda fores viva, quando estas p\u00e1ginas vierem \u00e0 luz, &#8212; tu que me l\u00eas, Virg\u00edlia amada, n\u00e3o reparas na diferen\u00e7a entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Cr\u00ea que era t\u00e3o sincero ent\u00e3o como agora; a morte n\u00e3o me tornou rabugento, nem injusto.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, dir\u00e1s tu, como \u00e9 que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?<\/p>\n<p>Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas \u00e9 isso mesmo que nos faz senhores da Terra, \u00e9 esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impress\u00f5es e a vaidade dos nossos afetos. Deixa l\u00e1 dizer Pascal que o homem \u00e9 um cani\u00e7o pensante. N\u00e3o \u00e9 uma errata pensante, isso sim. Cada esta\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o, que corrige a anterior, e que ser\u00e1 corrigida tamb\u00e9m, at\u00e9 a edi\u00e7\u00e3o definitiva, que o editor da de gra\u00e7a aos vermes.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXVIII \/ CONTANTO QUE . . .<\/h3>\n<p>&#8211;VIRG\u00cdLIA? interrompi eu.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, senhor; \u00e9 o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma mo\u00e7a assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos&#8230; filha do Dutra&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que Dutra?<\/p>\n<p>&#8211;O Conselheiro Dutra, n\u00e3o conheces; uma influ\u00eancia pol\u00edtica Vamos l\u00e1, aceitas?<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, contanto que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Contanto qu\u00ea?<\/p>\n<p>Contanto que n\u00e3o fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p>Todo o homem p\u00fablico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. Mas seja como queres; estou por tudo, fico certo de que a vista far\u00e1 f\u00e9! Demais, a noiva e o Parlamento s\u00e3o a mesma cousa&#8230; isto \u00e9, n\u00e3o&#8230; saber\u00e1s depois&#8230; V\u00e1; aceito a dila\u00e7\u00e3o, contanto que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Contanto qu\u00ea?&#8230; interrompi eu, imitando-lhe a voz.<\/p>\n<p>&#8211;Ah! brejeiro! Contanto que n\u00e3o te deixes ficar a\u00ed in\u00fatil, obscuro, e triste; n\u00e3o gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te n\u00e3o ver brilhar, como deves, e te conv\u00e9m, e a todos n\u00f3s; \u00e9 preciso continuar o nosso nome, continu\u00e1-lo e ilustr\u00e1-lo ainda mais. Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necess\u00e1rio come\u00e7ar vida nova, come\u00e7ava, sem hesitar um s\u00f3 minuto. Teme a obscuridade, Br\u00e1s; foge do que \u00e9 \u00ednfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos \u00e9 valer pela opini\u00e3o dos outros homens. N\u00e3o estragues as vantagens da tua posi\u00e7\u00e3o, os teus meios&#8230;<\/p>\n<p>E foi por diante o m\u00e1gico, a agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao bot\u00e3o para deixar a outra flor menos amarela, e nada m\u00f3rbida,&#8211;o amor da nomeada, o emplasto Br\u00e1s Cubas.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXIX \/ A VISITA<\/h3>\n<p>VENCERA meu pai, dispus-mo a aceitar o diploma e o casamento, Virg\u00edlia e a C\u00e2mara dos Deputados. As duas Virg\u00edlias, disse ele num assomo de ternura pol\u00edtica. Aceitei-os; meu pai deu-me dous fortes abra\u00e7os. Era o seu pr\u00f3prio sangue que ele, enfim, reconhecia.<\/p>\n<p>&#8211;Desces comigo?<\/p>\n<p>&#8211;Des\u00e7o amanh\u00e3. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eus\u00e9bia&#8230;<\/p>\n<p>Meu pai torceu o nariz, mas n\u00e3o disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eus\u00e9bia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me, com um alvoro\u00e7o, um prazer t\u00e3o sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de bra\u00e7os robustos. Fez-me sentar ao p\u00e9 de si, na varanda, entre muitas exclama\u00e7\u00f5es de contentamento:<\/p>\n<p>&#8212; Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, h\u00e1 anos&#8230; Um homenzarr\u00e3o! E bonito! Qual! Voc\u00ea n\u00e3o se lembra de mim. .<\/p>\n<p>Disse-lhe que sim, que n\u00e3o era poss\u00edvel esquecer uma amiga t\u00e3o familiar de nossa casa. D. Eus\u00e9bia come\u00e7ou a falar de minha m\u00e3e com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou logo posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a r\u00e9dea \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos os namoros&#8230; Sim, os namoros tamb\u00e9m; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do epis\u00f3dio de 1814, ela, o Vila\u00e7a, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a record\u00e1-lo, ou\u00e7o um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e&#8230; mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXX \/ A FLOR DA MOITA<\/h3>\n<p>A VOZ E AS SAIAS pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve \u00e0 porta, alguns instantes, ao ver gente estranha. Sil\u00eancio curto e constrangido. D. Eus\u00e9bia quebrou-o, enfim, com resolu\u00e7\u00e3o e franqueza:<\/p>\n<p>&#8211;Vem c\u00e1, Eug\u00eania, disse ela, cumprimenta o Dr. Br\u00e1s Cubas filho do Sr. Cubas, veio da Europa.<\/p>\n<p>E voltando-se para mim:<\/p>\n<p>&#8212; Minha filha Eug\u00eania.<\/p>\n<p>Eug\u00eania, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da m\u00e3e. A m\u00e3e arranjou-lhe uma das tran\u00e7as do cabelo cuja ponta se desmanchara. Ah! travessa! dizia. N\u00e3o imagina doutor, o que isto \u00e9&#8230; E beijou-a com t\u00e3o expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha m\u00e3e, e, &#8212; direi tudo,&#8211; tive umas c\u00f3cegas de ser pai.<\/p>\n<p>&#8212; Travessa? disse eu. Pois j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 em idade pr\u00f3pria, ao que parece.<\/p>\n<p>&#8212; Quantos lhe d\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211;Dezessete.<\/p>\n<p>&#8212; Menos um.<\/p>\n<p>&#8211;Dezesseis. Pois ent\u00e3o! \u00e9 uma mo\u00e7a<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de Eug\u00eania encobrir a satisfa\u00e7\u00e3o que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como dantes, erecta, fria e muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do que era, seria crian\u00e7a nos seus folgares de mo\u00e7a; mas assim quieta, impass\u00edvel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circunst\u00e2ncia lhe diminu\u00eda um pouco da gra\u00e7a virginal. Depressa nos familiarizamos; a m\u00e3e fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria com os olhos f\u00falgidos, como se l\u00e1 dentro do c\u00e9rebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante&#8230;<\/p>\n<p>Digo l\u00e1 dentro, porque c\u00e1 fora o que esvoa\u00e7ou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e come\u00e7ou a bater as asas em derredor de D. Eus\u00e9bia. D. Eus\u00e9bia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas: &#8211;T&#8217;sconjuro!&#8230; Sai, diabo!&#8230; Virgem Nossa Senhora!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tenha medo, disse eu; e, tirando o len\u00e7o, expeli a borboleta. D. Eus\u00e9bia sentou-se outra vez, ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que p\u00e1lida de medo, dissimulava a impress\u00e3o com muita for\u00e7a de vontade. Apertei-lhes a m\u00e3o e sa\u00ed, a rir comigo da supersti\u00e7\u00e3o das duas mulheres, um rir filos\u00f3fico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavalo a filha de D. Eus\u00e9bia, seguida de um pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do chicote. Confesso que me lisonjeei com a id\u00e9ia de que alguns passos adiante ela voltaria a cabe\u00e7a para tr\u00e1s; mas n\u00e3o voltou.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXI \/ A BORBOLETA PRETA<\/h3>\n<p>NO DIA SEGUINTE, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, t\u00e3o negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da v\u00e9spera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eus\u00e9bia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoa\u00e7ar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidra\u00e7a; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, come\u00e7ou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, sa\u00ed do quarto; mas tornando l\u00e1, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repel\u00e3o dos nervos, lancei m\u00e3o de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabe\u00e7a. Apiedei-me; tomei-a na palma da m\u00e3o e fui dep\u00f4-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb\u00e9m por que diabo n\u00e3o era ela azul? disse comigo. E esta reflex\u00e3o, &#8212; uma das mais profundas que se tem feito, desde a inven\u00e7\u00e3o das borboletas,&#8211; me consolou do malef\u00edcio, e me reconciliou comigo mesmo Deixei-me estar a contemplar o cad\u00e1ver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela sa\u00edra do mato, almo\u00e7ada e feliz. A manh\u00e3 era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta c\u00fapula de um c\u00e9u azul, que \u00e9 sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e d\u00e1 comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; n\u00e3o sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, bra\u00e7os, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Ent\u00e3o disse consigo: &#8220;Este \u00e9 provavelmente o inventor das borboletas.&#8221; A id\u00e9ia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que \u00e9 tamb\u00e9m sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beij\u00e1-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidra\u00e7a, viu dali o retrato de meu pai, e n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Pois um golpe de toalha rematou a aventura. N\u00e3o lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho cru. Vejam como \u00e9 bom ser superior \u00e0s borboletas! Porque, \u00e9 justo diz\u00ea-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, n\u00e3o teria mais segura a vida; n\u00e3o era imposs\u00edvel que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. N\u00e3o era. Esta \u00faltima id\u00e9ia restituiu-me a consola\u00e7\u00e3o; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cad\u00e1ver caiu no jardim. Era tempo; a\u00ed vinham j\u00e1 as pr\u00f3vidas formigas. . . N\u00e3o, volto \u00e0 primeira id\u00e9ia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXII \/ COXA DE NASCEN\u00c7A<\/h3>\n<p>FUI DALI ACABAR os preparativos da viagem. J\u00e1 agora n\u00e3o me demoro mais. Des\u00e7o imediatamente; des\u00e7o, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o cap\u00edtulo passado \u00e9 apenas uma sensaboria ou se chega a empulha\u00e7\u00e3o&#8230; Ai, n\u00e3o contava com D. Eus\u00e9bia. Estava pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir l\u00e1 jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que n\u00e3o pude deixar de aceitar, demais, era-lhe devida aquela compensa\u00e7\u00e3o; fui.<\/p>\n<p>Eug\u00eania desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, se \u00e9 que n\u00e3o andava muita vez assim. Sem as bichas de ouro, que trazia na v\u00e9spera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas numa cabe\u00e7a de ninfa. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um bot\u00e3o de madrep\u00e9rola, e outro bot\u00e3o nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.<\/p>\n<p>Era isso no corpo; n\u00e3o era outra cousa no esp\u00edrito. Id\u00e9ias claras, maneiras ch\u00e3s, certa gra\u00e7a natural, um ar de alguma outra cousa; sim, a boca, exatamente a boca da m\u00e3e, a qual me lembrava o epis\u00f3dio de 1814, e ent\u00e3o dava-me \u00edmpetos de glosar o mesmo mote \u00e0 filha. . .<\/p>\n<p>&#8212; Agora vou mostrar-lhe a ch\u00e1cara, disse a m\u00e3e, logo que esgotamos o \u00faltimo gole de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos \u00e0 varanda, dali \u00e0 ch\u00e1cara, e foi ent\u00e3o que notei uma circunst\u00e2ncia. Eug\u00eania coxeava um pouco, t\u00e3o pouco que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o p\u00e9. A m\u00e3e calou-se; a filha respondeu sem titubear:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, senhor, sou coxa de nascen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseir\u00e3o. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe n\u00e3o perguntar nada. Ent\u00e3o lembrou-me que da primeira vez que a vi &#8212; na v\u00e9spera &#8211;a mo\u00e7a chegara-se lentamente \u00e0 cadeira da m\u00e3e, e que naquele dia j\u00e1 a achei \u00e0 mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que raz\u00e3o o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.<\/p>\n<p>Tratei de apagar os vest\u00edgios de meu desazo;&#8211; n\u00e3o me foi dif\u00edcil porque a m\u00e3e era, segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a ch\u00e1cara, \u00e1rvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu de soslaio, perscrutava os olhos de Eug\u00eania&#8230;<\/p>\n<p>Palavra que o olhar de Eug\u00eania n\u00e3o era coxo, mas direito, perfeitamente s\u00e3o, vinha de uns olhos pretos e tranq\u00fcilos. Creio que duas ou tr\u00eas vezes baixaram estes, um pouco turvados; mas duas ou tr\u00eas vezes somente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXIII \/ BEM-AVENTURADOS OS QUE N\u00c3O DESCEM<\/h3>\n<p>O PIOR \u00c9 que era coxa. Uns olhos t\u00e3o l\u00facidos, uma boca t\u00e3o fresca, uma compostura t\u00e3o senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza \u00e9 \u00e0s vezes um imenso esc\u00e1rnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solu\u00e7\u00e3o do enigma. O melhor que h\u00e1, quando se n\u00e3o resolve um enigma, \u00e9 sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei m\u00e3o de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no c\u00e9rebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que \u00e9 uma fresta do esp\u00edrito, deixou novamente entrar o bichinho, e a\u00ed fiquei eu a noite toda a cavar o mist\u00e9rio, sem explic\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia a manh\u00e3 era l\u00edmpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar, n\u00e3o menos que no terceiro dia. e no quarto, at\u00e9 o fim da semana. Manh\u00e3s bonitas, frescas, convidativas- l\u00e1 embaixo a fam\u00edlia a chamar-me, e a noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao p\u00e9 da minha V\u00eanus Manca. Enlevado \u00e9 uma maneira de real\u00e7ar o estilo; n\u00e3o havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e moral. Queria-lhe, \u00e9 verdade; ao p\u00e9 dessa criatura t\u00e3o singela, filha esp\u00faria e cosa, feita de amor e desprezo, ao p\u00e9 dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor ao p\u00e9 de mim. E isto na Tijuca. Uma simples \u00e9gloga. D. Eus\u00e9bia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveni\u00eancia. A filha, nessa primeira explos\u00e3o da natureza, entregava-me a alma em flor.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor desce amanh\u00e3? disse-me ela no s\u00e1bado.<\/p>\n<p>&#8212; Pretendo.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o des\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o desci, e acrescentei um vers\u00edculo ao Evangelho: &#8211;Bem-aventurados os que n\u00e3o descem, porque deles \u00e9 o primeiro beijo das mo\u00e7as. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eug\u00eania, &#8212; o primeiro que nenhum outro var\u00e3o jamais lhe tomara, e n\u00e3o furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma d\u00edvida. Pobre Eug\u00eania! Se tu soubesses que id\u00e9ias me vagavam pela mente fora naquela ocasi\u00e3o! Tu, tr\u00eamula de como\u00e7\u00e3o, com os bra\u00e7os nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos de 1814, na moita, no Vila\u00e7a, e a suspeitar que n\u00e3o podias mentir ao teu sangue, \u00e0 tua origem . . .<\/p>\n<p>D. Eus\u00e9bia entrou inesperadamente, mas n\u00e3o t\u00e3o s\u00fabita, que nos apanhasse ao p\u00e9 um do outro. Eu fui at\u00e9 \u00e0 janela; Eug\u00eania sentou-se a concertar uma das tran\u00e7as. Que dissimula\u00e7\u00e3o graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, n\u00e3o estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eus\u00e9bia n\u00e3o suspeitou nada.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXIV \/ A UMA ALMA SENS\u00cdVEL<\/h3>\n<p>H\u00c1 A\u00cd, entre as cinco ou dez pessoas que me l\u00eaem, h\u00e1 a\u00ed uma aia sens\u00edvel, que est\u00e1 decerto um tanto agastada com o cap\u00edtulo anterior, come\u00e7a a tremer pela sorte de Eug\u00eania, e talvez&#8230; sim, talvez, l\u00e1 no fundo de si mesma, me chame c\u00ednico. Eu c\u00ednico, alma sens\u00edvel? Pela coxa de Diana! esta inj\u00faria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. N\u00e3o, alma sens\u00edvel, eu n\u00e3o sou c\u00ednico, eu fui homem; meu c\u00e9rebro foi um tablado em que se deram pe\u00e7as de todo g\u00eanero, o drama sacro, o austero, o piegas, a com\u00e9dia lou\u00e7\u00e3, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sens\u00edvel, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna at\u00e9 a arruda do teu quintal, desde o magn\u00edfico leito de Cle\u00f3patra at\u00e9 o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de v\u00e1ria casta e fei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia ali a atmosfera somente da \u00e1guia e do beija-flor; havia tamb\u00e9m a da lesma e do sapo. Retira, pois, a express\u00e3o, alma sens\u00edvel, castiga os nervos, limpa os \u00f3culos, &#8212; que isso \u00e0s vezes \u00e9 dos \u00f3culos, e acabemos de uma vez com esta flor da moita.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXV \/ O CAMINHO DE DAMASCO<\/h3>\n<p>ORA ACONTECEU, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Ar. IX, 7): &#8220;Levanta-te, e entra na cidade.&#8221; Essa voz sa\u00eda de mim mesmo, e tinha duas origens a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e despos\u00e1-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, n\u00e3o h\u00e1 duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manh\u00e3 viria para baixo. &#8212; Adeus, suspirou ela estendendo-me a m\u00e3o com simplicidade; faz bem &#8212; E como eu nada dissesse, continuou: &#8212; Faz bem em fugir ao rid\u00edculo de casar comigo. Ia dizer-lhe que n\u00e3o; ela retirou-se lentamente, engolindo as l\u00e1grimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do C\u00e9u que eu era obrigado a descer, mas que n\u00e3o deixava de lhe querer e muito; tudo hip\u00e9rboles frias, que ela escutou sem dizer nada.<\/p>\n<p>&#8212; Acredita-me? perguntei eu no fim.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, e digo-lhe que faz bem.<\/p>\n<p>Quis ret\u00ea-la, mas o olhar que me lan\u00e7ou n\u00e3o foi j\u00e1 de s\u00faplica, sen\u00e3o de imp\u00e9rio. Desci da Tijuca, na manh\u00e3 seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abra\u00e7ar a carreira pol\u00edtica&#8230; que a constitui\u00e7\u00e3o&#8230; que a minha noiva&#8230; que o meu cavalo&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXVI \/ A PROP\u00d3SITO DE BOTAS<\/h3>\n<p>MEU PAI, que me n\u00e3o esperava, abra\u00e7ou-me cheio de ternura e agradecimento. Agora \u00e9 deveras? disse ele. Posso enfim. . .?<\/p>\n<p>deixei-o nessa retic\u00eancia, e fui descal\u00e7ar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado, respirei \u00e0 larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os p\u00e9s, e todo eu atr\u00e1s deles, entr\u00e1vamos numa relativa bem-aventuran\u00e7a. Ent\u00e3o considerei que as botas apertadas s\u00e3o uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os p\u00e9s, d\u00e3o azo ao prazer de as descal\u00e7ar. Mortifica os p\u00e9s, desgra\u00e7ado, desmortifica-os depois, e a\u00ed tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta id\u00e9ia me trabalhava no famoso trap\u00e9zio, lan\u00e7ava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pret\u00e9rito, e sentia que o meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tardaria tamb\u00e9m a descal\u00e7ar as suas botas. E descal\u00e7ou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse r\u00e1pido, inef\u00e1vel e incoerc\u00edvel momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupa\u00e7\u00e3o, a um inc\u00f4modo&#8230; Daqui inferi eu que a vida \u00e9 o mais engenhoso dos fen\u00f4menos, porque s\u00f3 agu\u00e7a a fome, com o fim de deparar a ocasi\u00e3o de comer, e n\u00e3o inventou os calos, sen\u00e3o porque eles aperfei\u00e7oam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana n\u00e3o vale um par de botas curtas.<\/p>\n<p>&#8212; Tu, minha Eug\u00eania, \u00e9 que n\u00e3o as descal\u00e7aste nunca; foste a\u00ed pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solit\u00e1ria, calada, laboriosa, at\u00e9 que vieste tamb\u00e9m para esta outra margem&#8230; O que eu n\u00e3o sei \u00e9 se a tua exist\u00eancia era muito necess\u00e1ria ao s\u00e9culo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a trag\u00e9dia humana.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXVII \/ ENFIM!<\/h3>\n<p>ENFIM! eis aqui Virg\u00edlia. Antes de ir \u00e0 casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se havia algum ajuste pr\u00e9vio de casamento.<\/p>\n<p>&#8212; Nenhum ajuste. H\u00e1 tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma cousa, e creio que o far\u00e1. Quanto \u00e0 noiva, \u00e9 o nome que dou a uma criaturinha, que \u00e9 uma j\u00f3ia, uma flor, uma estrela, uma cousa rara. . . \u00e9 a filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais depressa serias deputado.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 isto?<\/p>\n<p>&#8211;S\u00f3 isto.<\/p>\n<p>Fomos dali \u00e0 casa do Dutra. Era uma p\u00e9rola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males p\u00fablicos, mas n\u00e3o desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era leg\u00edtima; convinha, por\u00e9m, esperar alguns meses. E logo me apresentou \u00e0 mulher, uma estim\u00e1vel senhora,&#8211;e \u00e0 filha, que n\u00e3o desmentiu em nada o paneg\u00edrico de meu pai. Juro-vos que em nada. Relede o cap\u00edtulo XXVII. Eu, que levava id\u00e9ias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que n\u00e3o sei se as tinha, n\u00e3o me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simples mente conjugal. No fim de um m\u00eas est\u00e1vamos \u00edntimos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXVIII \/ A QUARTA EDI\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>&#8212; VENHA C\u00c1 jantar amanh\u00e3, disse-me o Dutra uma noite.<\/p>\n<p>Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de S. Francisco de Paula, e fui dar v\u00e1rias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edi\u00e7\u00f5es humanas? Pois sabei que, naquele tempo, estava eu na quarta edi\u00e7\u00e3o, revista e emendada, mas ainda in\u00e7ada de descuidos e barbarismos; defeito que, ali\u00e1s, achava alguma compensa\u00e7\u00e3o no tipo, que era elegante, e na encaderna\u00e7\u00e3o, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o rel\u00f3gio e cai-me o vidro na cal\u00e7ada. Entro na primeira loja que tinha \u00e0 m\u00e3o; era um cub\u00edculo, pouco mais,&#8211; empoeirado e escuro.<\/p>\n<p>Ao fundo, por tr\u00e1s do balc\u00e3o, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento n\u00e3o se destacava logo, \u00e0 primeira vista; mas logo que se destacava era um espet\u00e1culo curioso. N\u00e3o podia ter sido feia; ao contr\u00e1rio, via-se que fora bonita, e n\u00e3o pouco bonita, mas a doen\u00e7a e uma velhice precoce destru\u00edam-lhe a flor das gra\u00e7as. As bexigas tinham sido terr\u00edveis; os sinais, grandes e muitos, faziam sali\u00eancias e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensa\u00e7\u00e3o de lisa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e ali\u00e1s tinham uma express\u00e3o singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ru\u00e7o e quase t\u00e3o poento como os portais da loja. Num dos dedos da m\u00e3o esquerda fulgia-lhe um diamante. Cr\u00ea-lo-eis, p\u00f3steros? essa mulher era Marcela.<\/p>\n<p>N\u00e3o a conheci logo; era dif\u00edcil; ela por\u00e9m conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a express\u00e3o usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento coma para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que n\u00e3o durou mais de um instante. Marcela acomodou-se e sorriu.<\/p>\n<p>&#8211;Quer comprar alguma cousa? disse ela estendendo-me a m\u00e3o. N\u00e3o respondi nada. Marcela compreendeu a causa do meu silencio (n\u00e3o era dif\u00edcil), e s\u00f3 hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a mem\u00f3ria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balc\u00e3o permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das l\u00e1grimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a mol\u00e9stia, adiantando-lhe a decad\u00eancia. Verdade \u00e9 que tinha a alma decr\u00e9pita. Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos bra\u00e7os. Deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas para que a desgra\u00e7a fosse completa, era agora pouco buscada a loja&#8211; talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lho contasse a minha vida. Gastei pouso tempo em dizer-lha; n\u00e3o era longa, nem interessante.<\/p>\n<p>&#8212; Casou? disse Marcela no fim de minha narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n\u00e3o, respondi secamente.<\/p>\n<p>Marcela lan\u00e7ou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu deixei-me ir ent\u00e3o ao passado, e, no meio das recorda\u00e7\u00f5es e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. N\u00e3o era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia uma ter\u00e7a parte dos meus sacrif\u00edcios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me que n\u00e3o; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, j\u00e1 outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobi\u00e7a. Os meus \u00e9 que n\u00e3o souberam ver-lha; eram olhos da primeira edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? perguntou ela, saindo daquela esp\u00e9cie de torpor.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este rel\u00f3gio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.<\/p>\n<p>Marcela suspirou com tristeza. A verdade \u00e9 que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o rel\u00f3gio, e, apesar da minha oposi\u00e7\u00e3o, mandou-o, a uma loja na vizinhan\u00e7a, comprar o vidro. N\u00e3o havia rem\u00e9dio; sentei-me outra vez. Disse ela ent\u00e3o que desejava ter a prote\u00e7\u00e3o dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afian\u00e7ou que me daria finas j\u00f3ias por pre\u00e7os baratos. N\u00e3o disse pre\u00e7os baratos, mas usou uma met\u00e1fora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que n\u00e3o padecera nenhum desastre (salvo a mod\u00e9stia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o \u00fanico fim de acudir \u00e0 paix\u00e3o do lucro, que era o verme roedor daquela exist\u00eancia; foi isso mesmo que me disseram depois.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XXXIX \/ O VIZINHO<\/h3>\n<p>ENQUANTO EU fazia comigo mesmo aquela reflex\u00e3o, entrou na loja um sujeito baixo, sem chap\u00e9u, trazendo pela m\u00e3o uma menina de quatro anos.<\/p>\n<p>&#8211;Como passou de boje de manh\u00e3? disse ele a Marcela.<\/p>\n<p>&#8211;Assim, assim. Vem c\u00e1, Maricota.<\/p>\n<p>O sujeito levantou a crian\u00e7a pelos bra\u00e7os e passou-a para dentro do balc\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Anda, disse ele; pergunta a D. Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir c\u00e1, mas a m\u00e3e n\u00e3o tinha podido vesti-la.., Ent\u00e3o, Maricota? Toma a b\u00ean\u00e7\u00e3o&#8230; Olha a vara de marmelo! Assim&#8230; N\u00e3o imagina o que ela \u00e9 l\u00e1 em casa; fala na senhora a todos os instantes, e aqui parece a pamonha. Ainda ontem&#8230; Digo, Maricota?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, diga, n\u00e3o, papai.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o foi alguma cousa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.<\/p>\n<p>&#8211;Eu lhe digo; a m\u00e3e ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde&#8230; imagine o qu\u00ea?&#8230; que queria oferec\u00ea-los a Santa Marcela.<\/p>\n<p>&#8211;Coitadinha! disse Marcela beijando-a.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um namoro, uma paix\u00e3o, como a senhora n\u00e3o imagina&#8230; A m\u00e3e diz que \u00e9 feiti\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agrad\u00e1veis, at\u00e9 que saiu levando a menina, n\u00e3o sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um relojoeiro da vizinhan\u00e7a, um bom homem; a mulher tamb\u00e9m; e a filha \u00e9 galante, n\u00e3o? Parecem gostar muito de mim&#8230; \u00e9 boa gente.<\/p>\n<p>Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura. . .<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XL \/ NA SEGE<\/h3>\n<p>NISTO ENTROU o moleque trazendo o rel\u00f3gio com o vidro novo. Era tempo; j\u00e1 me custava estar ali; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra ocasi\u00e3o, e sa\u00ed a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o cora\u00e7\u00e3o me batia um pouco; mas era uma esp\u00e9cie de dobre de finados. O esp\u00edrito ia travado de impress\u00f5es opostas. Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almo\u00e7o, repetiu-me, por antecipa\u00e7\u00e3o, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na C\u00e2mara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol tamb\u00e9m, que estava brilhante, como nos mais belos dias do mundo; do mesmo modo que Virg\u00edlia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almo\u00e7o. Vai sen\u00e3o quando, cai-me o vidro do rel\u00f3gio; entro na primeira loja que me fica \u00e0 m\u00e3o; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 o deixei; meti-me \u00e0s pressas na sege, que me esperava no Largo de S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora. O boleeiro ati\u00e7ou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. N\u00e3o h\u00e1, \u00e0s vezes, um certo vento morno, n\u00e3o forte nem \u00e1spero, mas abafadi\u00e7o, que nos n\u00e3o leva o chap\u00e9u da cabe\u00e7a, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia \u00e9 ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os esp\u00edritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela esp\u00e9cie de garganta entre o passado e o presente, almejava por sair \u00e0 plan\u00edcie do futuro. O pior \u00e9 que a sege n\u00e3o andava.<\/p>\n<p>&#8212; Jo\u00e3o, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou n\u00e3o anda?<\/p>\n<p>&#8211;U\u00ea! nhonh\u00f4! J\u00e1 estamos parados na porta de sinh\u00f4 Conselheiro.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h3>CAP\u00cdTULO XLI \/ A ALUCINA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>ERA VERDADE. Entrei apressado; achei Virg\u00edlia ansiosa, mau humor, fronte nublada. A m\u00e3e, que era surda, estava na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a mo\u00e7a com sequid\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Esper\u00e1vamos que viesse mais cedo.<\/p>\n<p>Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos l\u00e1bios, fico tolhido de assombro. Virg\u00edlia&#8230; seria Virg\u00edlia aquela mo\u00e7a? Fitei-a muito, e a sensa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olh\u00e1-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na v\u00e9spera t\u00e3o fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo, que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o l\u00e1bio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na m\u00e3o, e chamei-a brandamente a mim. N\u00e3o me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia afastou-se, e foi sentar-se no sof\u00e1. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus pr\u00f3prios p\u00e9s. Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virg\u00edlia, que l\u00e1 estava sentada e calada. C\u00e9us! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virg\u00edlia. Em v\u00e3o procurei no rosto dela algum vest\u00edgio da doen\u00e7a; nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.<\/p>\n<p>&#8211;Nunca me viu? perguntou Virg\u00edlia, vendo que a encarava com insist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e3o bonita, nunca.<\/p>\n<p>Sentei-me, enquanto Virg\u00edlia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Falei-lhe de cousas estranhas ao incidente; ela por\u00e9m n\u00e3o me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a est\u00e1tua do Sil\u00eancio. Uma s\u00f3 vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do l\u00e1bio, contraindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; todo esse conjunto de cousas dava-lhe ao rosto uma express\u00e3o m\u00e9dia, entre c\u00f4mica e tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Havia alguma afeta\u00e7\u00e3o naquele desd\u00e9m; era um arrebique do gesto. L\u00e1 dentro, ela padecia, e n\u00e3o pouco, ou fosse m\u00e1goa pura, ou s\u00f3 despeito; e porque a dor que se dissimula d\u00f3i mais, \u00e9 mui prov\u00e1vel que Virg\u00edlia padecesse em dobro do que realmente descia padecer. Creio que isto \u00e9 metaf\u00edsica.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLII \/ QUE ESCAPOU A ARIST\u00d3TELES<\/h3>\n<p>OUTRA COUSA que tamb\u00e9m me parece metaf\u00edsica \u00e9 isto: D\u00e1-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama&#8230; Marcela, &#8212; \u00e9 uma simples suposi\u00e7\u00e3o; a segunda, Br\u00e1s Cubas; a terceira, Virg\u00edlia. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou at\u00e9 tocar em Br\u00e1s Cubas, o qual, cedendo \u00e0 for\u00e7a impulsiva, entrou a rolar tamb\u00e9m at\u00e9 esbarrar em Virg\u00edlia, que n\u00e3o tinha nada com a primeira bola; e eis a\u00ed como, pela simples transmiss\u00e3o de uma for\u00e7a, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano. Co mo \u00e9 que este cap\u00edtulo escapou a Arist\u00f3teles?<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLIII \/ MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQU\u00caS<\/h3>\n<p>POSITIVAMENTE, era um diabrete Virg\u00edlia, um diabrete ang\u00e9lico, se querem, mas era-o, e ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o apareceu o Lobo Neves, um homem que n\u00e3o era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simp\u00e1tico, e todavia foi quem me arrebatou Virg\u00edlia e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um \u00edmpeto verdadeiramente cesariano. N\u00e3o precedeu nenhum despeito; n\u00e3o houve a menor viol\u00eancia de fam\u00edlia. Dutra veio dizer-me, um dia. que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; tal foi o come\u00e7o da minha derrota. Uma semana depois, Virg\u00edlia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.<\/p>\n<p>&#8212; Pela minha vontade, j\u00e1; pelas dos outros, daqui a um ano. Virg\u00edlia replicou:<\/p>\n<p>Promete que algum dia me far\u00e1 baronesa?<\/p>\n<p>Marquesa, porque eu serei marqu\u00eas.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o fiquei perdido. Virg\u00edlia comparou a \u00e1guia e o pav\u00e3o, e elegeu a \u00e1guia, deixando o pav\u00e3o com o seu espanto, o seu despeito, e tr\u00eas ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem n\u00e3o queria dizer cousa nenhuma. O l\u00e1bio do homem n\u00e3o \u00e9 como a pata do cavalo de Atila, que esterilizava o solo em que batia; \u00e9 justamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLIV \/ UM CUBAS!<\/h3>\n<p>MEU PAI ficou at\u00f4nito com o desenlace, e quer-me parecer que n\u00e3o morreu de outra cousa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tant\u00edssimos os sonhos, que n\u00e3o podia v\u00ea-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princ\u00edpio n\u00e3o quis cr\u00ea-lo. Um Cubas! um galho da \u00e1rvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convic\u00e7\u00e3o, que eu, j\u00e1 ent\u00e3o informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a vol\u00favel dama, para s\u00f3 contemplar aquele fen\u00f4meno, n\u00e3o raro, mas curioso: uma imagina\u00e7\u00e3o graduada em consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211;Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manh\u00e3, ao almo\u00e7o. N\u00e3o foi alegre o almo\u00e7o; eu pr\u00f3prio estava a cair de sono. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era imposs\u00edvel n\u00e3o se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, n\u00e3o lhe estava agora preso por nenhum outro v\u00ednculo, al\u00e9m de uma fantasia passageira, alguma obedi\u00eancia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vig\u00edlia; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, at\u00e9 romper a aurora, a mais tranq\u00fcila das auroras.<\/p>\n<p>Mas eu era mo\u00e7o, tinha o rem\u00e9dio em mim mesmo. Meu pai \u00e9 que n\u00e3o p\u00f4de suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que n\u00e3o morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as \u00faltimas dores, \u00e9 positivo. Morreu da\u00ed a quatro meses, acabrunhado, triste, com uma preocupa\u00e7\u00e3o intensa e cont\u00ednua, \u00e0 semelhan\u00e7a de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, &#8212; lembra-me bem, vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentra\u00e7\u00e3o de 1uz, que era, por assim dizer, o \u00faltimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como ali\u00e1s me cabia.<\/p>\n<p>&#8211;Um Cubas!<\/p>\n<p>Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manh\u00e3 de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ci\u00eancia dos m\u00e9dicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.<\/p>\n<p>&#8212; Um Cubas!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLV \/ NOTAS<\/h3>\n<p>SOLU\u00c7OS, l\u00e1grimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cad\u00e1ver, outro que tomou a medida do caix\u00e3o, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a m\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, alguns tristes, todos s\u00e9rios e calados, padre e sacrist\u00e3o do caix\u00e3o, a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, n\u00e3o obstante os gritos, solu\u00e7os e novas l\u00e1grimas da fam\u00edlia, e v\u00e3o at\u00e9 o coche f\u00fanebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um&#8230; Isto que parece um simples invent\u00e1rio, eram notas que eu havia tomado para um cap\u00edtulo triste e vulgar que n\u00e3o escrevo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLVI \/ A HERAN\u00c7A<\/h3>\n<p>VEJA NOS AGORA o leitor, oito dias depois da morte de meu pai,&#8211; minha irm\u00e3 sentada num sof\u00e1, pouco adiante, Cotrim, de p\u00e9, encostado a um consolo, com os bra\u00e7os cruzados e a morder o bigode,&#8211; eu a passear de um lado para outro, com os olhos no ch\u00e3o. Luto pesado. Profundo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8212; Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco. . .<\/p>\n<p>&#8212; Vale cinq\u00fcenta, ponderei; Sabina sabe que custou cinq\u00fcenta e oito&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Podia custar at\u00e9 sessenta, tornou Cotrim; mas n\u00e3o se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Voc\u00ea sabe que as casas, aqui h\u00e1 anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cinq\u00fcenta contos, quantos n\u00e3o vale a que voc\u00ea deseja para si, a do Campo?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o fale nisso! Uma casa velha.<\/p>\n<p>&#8211;Velha! exclamou Sabina, levantando as m\u00e3os ao tecto.<\/p>\n<p>&#8211;Parece-lhe nova, aposto?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sof\u00e1, podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, Cotrim n\u00e3o aceita os pretos, quer s\u00f3 o boleeiro de papa<\/p>\n<p>&#8211;O boleeiro n\u00e3o, acudi eu; fico com a sege e n\u00e3o hei de ir comprar outro.<\/p>\n<p>&#8212; Bem; fico com o Paulo e o Prud\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211;O Prud\u00eancio est\u00e1 livre.<\/p>\n<p>&#8212; Livre?<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 dous anos.<\/p>\n<p>&#8212; Livre? Como seu pai arranjava estas cousas c\u00e1 por casa, sem dar parte a ningu\u00e9m! Est\u00e1 direito. Quanto \u00e0 prata. . . creio que n\u00e3o libertou a prata?<\/p>\n<p>T\u00ednhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. Jos\u00e9 I, a por\u00e7\u00e3o mais grave da heran\u00e7a, j\u00e1 pelo lavor, j\u00e1 pela vetustez, j\u00e1 pela origem da propriedade; dizia meu pai que o Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisav\u00f4 Lu\u00eds Cubas.<\/p>\n<p>&#8212; Quanto \u00e0 prata, continuou Cotrim, eu n\u00e3o faria quest\u00e3o nenhuma, se n\u00e3o fosse o desejo que sua irm\u00e3 tem de ficar com ela; e acho-lhe raz\u00e3o. Sabina \u00e9 casada, e precisa de uma copa digna, apresent\u00e1vel. Voe \u00e9 solteiro, n\u00e3o recebe, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas posso casar.<\/p>\n<p>&#8211;Para qu\u00ea? interrompeu Sabina.<\/p>\n<p>Era t\u00e3o sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na m\u00e3o de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com t\u00e3o boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiesc\u00eancia, e agradeceu-mo.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9 l\u00e1? redarg\u00fci; n\u00e3o cedi cousa nenhuma, nem cedo.<\/p>\n<p>&#8211;Nem cede?<\/p>\n<p>Abanei a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211;Deixa, Cotrim, disse minha irm\u00e3 ao marido; v\u00ea se ele quer ficar tamb\u00e9m com a nossa roupa do corpo; \u00e9 s\u00f3 o que falta.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, \u00e9 muito mais sum\u00e1rio citar-nos a ju\u00edzo e provar com testemunhas que Sabina n\u00e3o \u00e9 sua irm\u00e3, que eu n\u00e3o sou seu cunhado e que Deus n\u00e3o \u00e9 Deus. Fa\u00e7a isto, e n\u00e3o perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro of\u00edcio!<\/p>\n<p>Estava t\u00e3o agastado, e eu n\u00e3o menos, que entendi oferecer um meio de concilia\u00e7\u00e3o; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o a\u00e7ucareiro; e depois desta pergunta, declarou que ter\u00edamos tempo de liquidar a pretens\u00e3o, quando menos em ju\u00edzo. Entretanto, Sabina fora at\u00e9 \u00e0 janela que dava para a ch\u00e1cara,&#8211; e depois de um instante, voltou, e prop\u00f4s ceder o Paulo e outro preto, com a condi\u00e7\u00e3o de ficar com a prata; eu ia dizer que n\u00e3o me convinha, mas Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.<\/p>\n<p>&#8211;Isso nunca! n\u00e3o fa\u00e7o esmolas! disse ele.<\/p>\n<p>Jantamos tristes. Meu tio c\u00f4nego apareceu \u00e0 sobremesa, e ainda presenciou uma pequena alterca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irm\u00e3o deixou um p\u00e3o bem grande para ser repartido por todos<\/p>\n<p>Mas Cotrim:<\/p>\n<p>&#8211;Creio, creio. A quest\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 de p\u00e3o, \u00e9 de manteiga. P\u00e3o seco \u00e9 que eu n\u00e3o engulo.<\/p>\n<p>Fizeram-se finalmente as partilhas, mas n\u00f3s est\u00e1vamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. \u00c9ramos t\u00e3o amigos! Jogos pueris, f\u00farias de crian\u00e7a, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse p\u00e3o da alegria e da mis\u00e9ria, irm\u00e3mente, como bons irm\u00e3os que \u00e9ramos. Mas est\u00e1vamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLVII \/ O RECLUSO<\/h3>\n<p>MARCELA, Sabina, Virg\u00edlia&#8230; a\u00ed estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas n\u00e3o fossem mais do que modos de ser da minha afei\u00e7\u00e3o interior. Pena de maus costumes, ata uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos s\u00f3rdido; e depois sim, depois vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o invent\u00e1rio de meu pai at\u00e9 1842. Vem, se te cheirar a algum aroma de toucador, n\u00e3o cuides que o mandei derramar para meu regalo; \u00e9 um vest\u00edgio da N. ou da Z. ou da U. &#8212; que todas essas letras mai\u00fasculas embalaram a\u00ed a sua elegante abje\u00e7\u00e3o. Mas, se al\u00e9m do aroma, quiseres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu n\u00e3o guardei retratos, nem cartas, nem mem\u00f3rias, a mesma como\u00e7\u00e3o esvaiu-se, e s\u00f3 me ficaram as letras iniciais.<\/p>\n<p>Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo passei-a comigo mesmo Vivia, deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buli\u00e7oso, ora ap\u00e1tico, entre a ambi\u00e7\u00e3o e o desanimo. Escrevia pol\u00edtica e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas p\u00fablicas, e cheguei a alcan\u00e7ar certa reputa\u00e7\u00e3o de polemista e de poeta Quando me lembrava do Lobo Neves, que era j\u00e1 deputado, e de Virg\u00edlia, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que n\u00e3o seria melhor deputado e melhor marqu\u00eas do que o Lobo Neves, eu, que valia mais, muito mais do que ele, e dizia isto a olhar para a ponta do nariz&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLVIII \/ UM PRIMO DE VIRG\u00cdLIA<\/h3>\n<p>&#8212; SABE QUEM CHEGOU ontem de S\u00e3o Paulo? perguntou-me uma noite Lu\u00eds Dutra.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Dutra era um primo de Virg\u00edlia, que tamb\u00e9m privava com as musas. Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da san\u00e7\u00e3o de alguns, que lhe confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, n\u00e3o interroga a ningu\u00e9m; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apre\u00e7o; ent\u00e3o criava novas for\u00e7as e arremetia juvenilmente ao trabalho.<\/p>\n<p>Pobre Lu\u00eds Dutra! Apenas publicava alguma cousa, corria \u00e0 minha casa, e entrava a girar em volta de mim, \u00e0 espreita de um ju\u00edzo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produ\u00e7\u00e3o, eu falava-lhe de mil cousas diferentes, &#8212; do \u00faltimo baile do Catete, da discuss\u00e3o das c\u00e2maras de berlindas e cavalos, &#8212; de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a princ\u00edpio com anima\u00e7\u00e3o, depois mais frouxo, torcia a r\u00e9dea da conversa para o assunto dele, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo e eu dizia-lhe que sim ou que n\u00e3o, mas torcia a r\u00e9dea para o outro lado, e l\u00e1 ia ele atr\u00e1s de mim, at\u00e9 que empacava de todo e sa\u00eda triste. Minha inten\u00e7\u00e3o era faz\u00ea-lo duvidar de si mesmo, desanim\u00e1-lo, elimin\u00e1-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz &#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XLIX \/ A PONTA DO NARIZ<\/h3>\n<p>NARIZ, consci\u00eancia sem remorsos, tu me valeste muito na vida&#8230; J\u00e1 meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explica\u00e7\u00e3o do Doutor Pangloss \u00e9 que o nariz foi criado para uso dos \u00f3culos, e tal explica\u00e7\u00e3o confesso que at\u00e9 certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia. em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia, atinei com a \u00fanica, verdadeira e definitiva explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim \u00fanico de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde e sentimento das cousas externas, embeleza-se no invis\u00edvel, aprende o impalp\u00e1vel, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublima\u00e7\u00e3o do ser pela ponta do nariz \u00e9 o fen\u00f4meno mais excelso do esp\u00edrito, e a faculdade de a obter n\u00e3o pertence ao faquir somente: \u00e9 universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu pr\u00f3prio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contempla\u00e7\u00e3o, cujo efeito \u00e9 a subordina\u00e7\u00e3o do universo a um nariz somente, constitui o equil\u00edbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o g\u00eanero humano n\u00e3o chegaria a durar dous s\u00e9culos: extinguia-se com as primeiras tribos.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o daqui uma obje\u00e7\u00e3o do leitor: &#8212; Como pode ser assim, diz ele se nunca jamais ningu\u00e9m n\u00e3o viu estarem os homens a contemplar o seu pr\u00f3prio nariz?<\/p>\n<p>Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no c\u00e9rebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chap\u00e9us; \u00e9 a loja de um rival, que a abriu h\u00e1 dous anos; tinha ent\u00e3o duas portas, hoje tem quatro; promete ter seis a oito. Nas vidra\u00e7as ostentam-se os chap\u00e9us do rival; pelas portas entram os fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que \u00e9 mais antiga e tem s\u00f3 duas portas, e aqueles chap\u00e9us com os seus, menos buscados, ainda que de igual pre\u00e7o. Mortifica-se naturalmente; mas vai andando concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu pr\u00f3prio atraso, quando ele chapeleiro \u00e9 muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro&#8230; Nesse instante \u00e9 que os olhos se fixam na ponta do nariz.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 que h\u00e1 duas for\u00e7as capitais: o amor, que multiplica a esp\u00e9cie, e o nariz, que a subordina ao indiv\u00edduo. Procria\u00e7\u00e3o, equil\u00edbrio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO L \/ VlRG\u00cdLIA CASADA<\/h3>\n<p>&#8212; QUEM CHEGOU de S. Paulo foi minha prima Virg\u00edlia, casada com o Lobo Neves, continuou Lu\u00eds Dutra.<\/p>\n<p>&#8211;Ah!<\/p>\n<p>E s\u00f3 hoje \u00e9 que eu soube uma cousa, seu magan\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Que foi?<\/p>\n<p>&#8211;Que voc\u00ea quis casar com ela.<\/p>\n<p>&#8212; Id\u00e9ias de meu pai. Quem lhe disse isso?<\/p>\n<p>&#8212; Ela mesma. Falei-lhe muito em voc\u00ea, e ela ent\u00e3o contou-me tudo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor, \u00e0 porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a dist\u00e2ncia uma mulher espl\u00eandida. Era ela; s\u00f3 a reconheci a poucos passos, t\u00e3o outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dando o \u00faltimo apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; fiquei at\u00f4nito.<\/p>\n<p>Oito dias depois encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou tr\u00eas palavras. Mas noutro baile, dado da\u00ed a um m\u00eas, em casa de uma senhora, que ornara os sal\u00f5es do primeiro reinado, e n\u00e3o desornava ent\u00e3o os do segundo, a aproxima\u00e7\u00e3o foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa \u00e9 uma deliciosa cousa. Valsamos; n\u00e3o nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flex\u00edvel e magn\u00edfico, tive uma singular sensa\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de homem roubado.<\/p>\n<p>Est\u00e1 muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terra\u00e7o?<\/p>\n<p>N\u00e3o; pode constipar-se. Vamos a outra sala.<\/p>\n<p>Na outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos pol\u00edticos, acrescentando que nada dizia dos liter\u00e1rios por n\u00e3o entender deles; mas os pol\u00edticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e separamo-nos contentes um do outro.<\/p>\n<p>Cerca de tr\u00eas semanas depois recebi um convite dele para uma reuni\u00e3o \u00edntima. Fui; Virg\u00edlia recebeu-me com esta graciosa palavra: &#8212; O senhor hoje h\u00e1 de valsar comigo. Em verdade, eu tinha fama e era valsista em\u00e9rito; n\u00e3o admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; c\u00e1 foi a valsa que nos perdeu. Creio que essa noite apertei-lhe a m\u00e3o com muita for\u00e7a, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abra\u00e7\u00e1-la fechada e todos com os olhos em n\u00f3s, e nos outros que tamb\u00e9m se abra\u00e7avam e giravam Um del\u00edrio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LI \/ \u00c9 MINHA!<\/h3>\n<p>&#8220;\u00c9 MINHA!&#8221; disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a id\u00e9ia entranhando no esp\u00edrito, n\u00e3o \u00e0 for\u00e7a de martelo, mas de verruma, que \u00e9 mais insinuativa.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 minha!&#8221; dizia eu ao chegar \u00e0 porta de casa.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse lembrasse de dar algum passo aos meus arroubos possess\u00f3rios, luziu-me no ch\u00e3o uma cousa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.<\/p>\n<p>&#8220;\u00cb minha!&#8221; repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.<\/p>\n<p>Nessa noite n\u00e3o pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repel\u00f5es da consci\u00eancia, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu n\u00e3o herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente n\u00e3o era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum oper\u00e1rio que n\u00e3o teria com que dar de comer \u00e0 mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o \u00fanico meio, era faz\u00ea-lo por interm\u00e9dio de um an\u00fancio ou da pol\u00edcia. Enviei uma carta ao chefe de pol\u00edcia, remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolv\u00ea-lo \u00e0s m\u00e3os do verdadeiro dono.<\/p>\n<p>Mandei a carta e almocei tranq\u00fcilo, posso at\u00e9 dizer que jubiloso. Minha consci\u00eancia valsara tanto na v\u00e9spera, que chegou a ficar sufocada, sem respira\u00e7\u00e3o; mas a restitui\u00e7\u00e3o da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou \u00e0 larga. Ventilai as consci\u00eancias! n\u00e3o vos digo mais nada. Todavia, despido de quaisquer outras circunst\u00e2ncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo escr\u00fapulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; \u00e9 o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela aberta.<\/p>\n<p>&#8211;Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 puro, \u00e9 bals\u00e2mico, \u00e9 uma transpira\u00e7\u00e3o dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?<\/p>\n<p>E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da v\u00e9spera, redonda, brilhante, multiplicando-se por si mesma, &#8212; ser dez &#8212; depois trinta &#8212; depois quinhentas, &#8212; exprimindo assim o benef\u00edcio que me daria na vida e na morte o simples ato da restitui\u00e7\u00e3o. E eu espraiava todo o meu ser na contempla\u00e7\u00e3o daquele ato, revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que \u00e9 ter valsado um poucochinho mais.<\/p>\n<p>Assim eu, Br\u00e1s Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equival\u00eancia das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada e abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consci\u00eancia. Talvez n\u00e3o entendas o que a\u00ed fica; talvez queiras uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma l\u00e1 o embrulho misterioso.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LII \/ O EMBRULHO MISTERIOSO<\/h3>\n<p>FOI O CASO que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. N\u00e3o digo bem; houve menos trope\u00e7\u00e3o que pontap\u00e9. Vendo um embrulho, p\u00e3o grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o p\u00e9, assim por experi\u00eancia, e bati! e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, &#8212; um pescador curava as redes ainda mais longe, ningu\u00e9m que pudesse ver a minha a\u00e7\u00e3o; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.<\/p>\n<p>Segui, mas n\u00e3o sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive id\u00e9ia de devolver o achado \u00e0 praia, mas apalpei-o e rejeitei a id\u00e9ia. pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.<\/p>\n<p>&#8211;Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.<\/p>\n<p>E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. \u00c9 certo que n\u00e3o havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma d\u00fazia de len\u00e7os velhos ou duas d\u00fazias de goiabas podres. Era tarde; a curiosidade estava agu\u00e7ada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi&#8230; achei. . . contei. . . recontei nada menos de cinco contos de r\u00e9is. Nada menos. Talvez uns dez mil-r\u00e9is mais. Cinco contos cm boas notas e moedas, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclu\u00ed que n\u00e3o. Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos, eu, que era abastado.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o pensar mais naquilo fui de noite \u00e0 casa do Lobo Neves, que instara muito comigo n\u00e3o deixasse de freq\u00fcentar as recep\u00e7\u00f5es da mulher. L\u00e1 encontrei o chefe de pol\u00edcia; fui-lhe apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso; Virg\u00edlia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota an\u00e1loga, que eu ouvi com impaci\u00eancia de mulher hist\u00e9rica.<\/p>\n<p>De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e at\u00e9 confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secret\u00e1ria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia n\u00e3o era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Provid\u00eancia. N\u00e3o podia ser outra cousa. N\u00e3o se perdem cinco contos, como se perde um len\u00e7o de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a mi\u00fado, n\u00e3o se lhes tiram os olhos de cima, nem as m\u00e3os, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, numa praia, \u00e9 necess\u00e1rio que&#8230; Crime \u00e9 que n\u00e3o podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o car\u00e1ter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e at\u00e9 direi que a minha felicidade era merecida, porque eu n\u00e3o me sentia mau, nem indigno dos benef\u00edcios da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Estes cinco contos, dizia eu comigo, tr\u00eas semanas depois, hei de empreg\u00e1-los em alguma a\u00e7\u00e3o boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim&#8230; hei de ver&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. L\u00e1 me receberam com muitas e delicadas alus\u00f5es ao caso da meia dobra, cuja not\u00edcia andava j\u00e1 espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa n\u00e3o valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me ent\u00e3o a mod\u00e9stia, e porque eu me encolerizasse, &#8212; replicaram-me que era simplesmente grande.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LIII \/ &#8230;<\/h3>\n<p>VIRG\u00cdLLA \u00e9 que j\u00e1 se n\u00e3o lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; &#8212; era o que dizia, e era verdade.<\/p>\n<p>H\u00e1 umas plantas que nascem e crescem depressa; outras s\u00e3o tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal \u00edmpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. N\u00e3o lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, tr\u00eamula,&#8211; coitadinha,&#8211; tr\u00eamula de medo, porque era ao port\u00e3o da ch\u00e1cara. Uniu-nos esse beijo \u00fanico, &#8212; breve como a ocasi\u00e3o, ardente como o amor, pr\u00f3logo de uma vida de del\u00edcias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afli\u00e7\u00f5es que desabrochavam em alegria, &#8212; uma hipocrisia paciente e sistem\u00e1tica, \u00fanico freio de uma paix\u00e3o sem freio, &#8212; vida de agita\u00e7\u00f5es, de c\u00f3leras, de desesperos e de ci\u00fames, que uma hora pagava \u00e0 farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar \u00e0 tona as agita\u00e7\u00f5es e o resto, e o resto do resto, que \u00e9 o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele pr\u00f3logo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LIV \/ A P\u00caNDULA<\/h3>\n<p>A\u00cd DALI a saborear o beijo. N\u00e3o pude dormir; estirei-me na cama, \u00e9 certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da p\u00eandula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava ent\u00e3o um velho diabo, sentado entre dous sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para d\u00e1-las \u00e0 morte, e a cont\u00e1-las assim:<\/p>\n<p>Outra de menos. .<\/p>\n<p>&#8211;Outra de menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Outra de menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Outra de menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Outra de menos&#8230;<\/p>\n<p>O mais singular \u00e9 que, se o rel\u00f3gio parava, eu dava-lhe corda, para que ele n\u00e3o deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Inven\u00e7\u00f5es h\u00e1, que se transformam ou acabam; as mesmas institui\u00e7\u00f5es morrem; o rel\u00f3gio \u00e9 definitivo e perpetuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, h\u00e1 de ter um rel\u00f3gio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.<\/p>\n<p>Naquela noite n\u00e3o padeci essa triste sensa\u00e7\u00e3o de enfado, mas outra e deleitosa. As fantasias tumultuavam-me c\u00e1 dentro, vinham umas sobre outras, \u00e0 semelhan\u00e7a de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das prociss\u00f5es. N\u00e3o ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados. De certo tempo em diante n\u00e3o ouvi cousa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na dire\u00e7\u00e3o da casa de Virg\u00edlia. A\u00ed achou no peitoril de uma janela o pensamento de Virg\u00edlia, saudaram-se se e ficaram de palestra. N\u00f3s a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dous vadios ali postos, a repetirem o velho di\u00e1logo de Ad\u00e3o e Eva.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LV \/ O VELHO DI\u00c1LOGO DE AD\u00c3O E EVA<\/h3>\n<p>BRAS CUBAS .?<\/p>\n<p>VIRGILLA<\/p>\n<p>BR\u00c1S CUBAS<\/p>\n<p>V\u00cdRGILIA.!<\/p>\n<p>BRAS CUBAS<\/p>\n<p>VIRG\u00cdLIA?<\/p>\n<p>BR\u00c1S CUBAS<\/p>\n<p>VIRG\u00cdLIA<\/p>\n<p>BR\u00c1S CUBAS !!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdLIA?<\/p>\n<p>BR\u00c1S CUBAS!<\/p>\n<p>VIRG\u00cdLIA!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LVI \/ O MOMENTO OPORTUNO<\/h3>\n<p>MAS, COM A BRECA! quem me explicar\u00e1 a raz\u00e3o desta diferen\u00e7a? Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque n\u00e3o houvera paix\u00e3o nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a v\u00ea-la, damos tr\u00eas ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com del\u00edrio. A beleza de Virg\u00edlia chegara, \u00e9 certo, a um alto grau de apuro, mas n\u00f3s \u00e9ramos substancialmente os mesmos, e eu, \u00e0 minha parte, n\u00e3o me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicar\u00e1 a raz\u00e3o dessa diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o n\u00e3o podia ser outra sen\u00e3o o momento oportuno. N\u00e3o era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de n\u00f3s estava verde para o amor, ambos o est\u00e1vamos para o nosso amor: distin\u00e7\u00e3o fundamental. N\u00e3o h\u00e1 amor poss\u00edvel sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explica\u00e7\u00e3o achei-a eu mesmo, dous anos depois do beijo, um dia em que Virg\u00edlia se me queixava de um pintalegrete que l\u00e1 ia e tenazmente a galanteava.<\/p>\n<p>&#8211;Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva. Estremeci, fitei-a, vi que a indigna\u00e7\u00e3o era sincera; ent\u00e3o ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolu\u00e7\u00e3o. Tinha vindo de importuno a oportuno.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LVII \/ DESTINO<\/h3>\n<p>SIM, SENHOR, am\u00e1vamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora \u00e9 que nos am\u00e1vamos deveras. Ach\u00e1vamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgat\u00f3rio:<\/p>\n<p>Di pari, come buoi, che vanno a giogo;<\/p>\n<p>e digo mal, comparando-nos a bois, porque n\u00f3s \u00e9ramos outra esp\u00e9cie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber at\u00e9 onde, nem por que estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solu\u00e7\u00e3o entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andar\u00e1s agora, grande procurador dos neg\u00f3cios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que. . . J\u00e1 me n\u00e3o lembra onde estava&#8230; Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que j\u00e1 agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim n\u00e3o fora, como explicar\u00edamos a valsa e o resto? Virg\u00edlia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, \u00e9 porque me n\u00e3o tinha amor, Virg\u00edlia cingiu-me com os seus magn\u00edficos bra\u00e7os, murmurando:<\/p>\n<p>&#8211;Amo-te, \u00e9 a vontade do C\u00e9u.<\/p>\n<p>E esta palavra n\u00e3o vinha \u00e0 toa; Virg\u00edlia era um pouco religiosa. N\u00e3o ouvia missa aos domingos, \u00e9 verdade, e creio at\u00e9 que s\u00f3 ia \u00e0s igrejas em dia de festa, e quando havia lugar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono. Tinha medo \u00e0s trovoadas; nessas ocasi\u00f5es, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as ora\u00e7\u00f5es do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarand\u00e1, obra de talha, de tr\u00eas palmos de altura, com tr\u00eas imagens dentro; mas n\u00e3o falava dele \u00e0s amigas; Ao contr\u00e1rio, tachava de beatas as que eram s\u00f3 religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer, e que a sua religi\u00e3o era uma esp\u00e9cie de camisa de flanela, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LVIII \/ CONFID\u00caNCIA<\/h3>\n<p>LOBO NEVES, a princ\u00edpio, metia-me grandes sustos. Pura ilus\u00e3o! Como adorasse a mulher, n\u00e3o se vexava de mo dizer muitas vezes; achava que Virg\u00edlia era a perfei\u00e7\u00e3o mesma, um conjunto de qualidades s\u00f3lidas e finas amor\u00e1vel, elegante, austera, um modelo. E a confian\u00e7a n\u00e3o parava a\u00ed. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na exist\u00eancia; faltava-lhe a gl\u00f3ria p\u00fablica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que ele ouviu com aquela un\u00e7\u00e3o religiosa de um desejo que n\u00e3o quer acabar de morrer; ent\u00e3o compreendi que a ambi\u00e7\u00e3o dele andava cansada de bater as asas; sem poder abrir o v\u00f4o. Dias depois disse-me todos os seus t\u00e9dios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida pol\u00edtica era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perf\u00eddias, interesses, vaidades. Evidentemente havia a\u00ed uma crise de melancolia; tratei de combate-la<\/p>\n<p>&#8211;Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. N\u00e3o pode imaginar o que tenho passado. Entrei na pol\u00edtica por gosto, por fam\u00edlia, por ambi\u00e7\u00e3o, e um pouco por vaidade. J\u00e1 v\u00ea que reuni em mim s\u00f3 todos os motivos que levam o homem \u00e0 vida p\u00fablica; faltou-me s\u00f3 o interesse de outra natureza Vira o teatro pelo lado da plat\u00e9ia; e, palavra, que era bonito! Soberbo cen\u00e1rio, vida, movimento e gra\u00e7a na representa\u00e7\u00e3o. Escriturei-me; deram-me um papel que&#8230; Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofina\u00e7\u00f5es. Creia que tenho passado horas e dias&#8230; N\u00e3o h\u00e1 const\u00e2ncia de sentimentos, n\u00e3o h\u00e1 gratid\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada&#8230; nada&#8230;. nada&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo n\u00e3o ouvir cousa nenhuma, a n\u00e3o ser o eco de seus pr\u00f3prios pensamentos. Ap\u00f3s alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a m\u00e3o:&#8211; O senhor h\u00e1 de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha um neg\u00f3cio, que me mordia o esp\u00edrito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu-me que n\u00e3o referisse a ningu\u00e9m o que se passara entre n\u00f3s; ponderei-lhe que a rigor n\u00e3o se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe pol\u00edtico da par\u00f3quia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princ\u00edpio um tanto posti\u00e7a mas logo depois natural. No fim de meia hora, ningu\u00e9m diria que ele n\u00e3o era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava! e ria, e riam todos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LIX \/ UM ENCONTRO<\/h3>\n<p>DEVE SER um vinho en\u00e9rgico a pol\u00edtica, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, at\u00e9 que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de col\u00e9gio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando&#8230; andando&#8230; andando&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Por que n\u00e3o serei eu ministro?&#8221;<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia, r\u00fatila e grande,&#8211;trajada ao bizarro, como diria o Padre Bernardes,&#8211;esta id\u00e9ia come\u00e7ou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe gra\u00e7a. N\u00e3o pensei mais na tristeza de Lobo Neves; sentia a atra\u00e7\u00e3o do abismo. Recordei aquele companheiro de col\u00e9gio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que n\u00e3o seria eu como ele. Entrava ent\u00e3o no Passeio P\u00fablico, e tudo me parecia dizer a mesma cousa. &#8212; Por que n\u00e3o ser\u00e1s ministro, Cubas? &#8212; Cubas, por que n\u00e3o ser\u00e1s ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensa\u00e7\u00e3o me refrescava todo o organismo. Entrei, fui sentar-me num banco, a remoer aquela id\u00e9ia. E Virg\u00edlia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que n\u00e3o me pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse donde fosse.<\/p>\n<p>Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e p\u00e1lido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babil\u00f4nia; o chap\u00e9u era contempor\u00e2neo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, &#8211;ou, literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o p\u00ealo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos bot\u00f5es restavam tr\u00eas. As cal\u00e7as, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras,- enquanto as bainhas eram ro\u00eddas pelo tac\u00e3o de um botim sem miseric\u00f3rdia nem graxa. Ao pesco\u00e7o flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia tamb\u00e9m colete, um colete de seda escura, roto a espa\u00e7os, e desabotoado.<\/p>\n<p>&#8212; Aposto que me n\u00e3o conhece, Sr. Dr. Cubas? disse ele.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me lembra&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sou o Borba, o Quincas Borba.<\/p>\n<p>Recuei espantado. . Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desola\u00e7\u00e3o! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de col\u00e9gio, t\u00e3o inteligente e agastado. Quincas Borba! N\u00e3o; imposs\u00edvel; n\u00e3o pode ser. N\u00e3o podia acabar de crer que essa figura esqu\u00e1lida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ru\u00edna fosse o Quincas Borba. Mas era. Os olhos tinham um resto da express\u00e3o de outro tempo, e o sorriso n\u00e3o perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a compara\u00e7\u00e3o acabrunhava.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de mis\u00e9rias, de atribula\u00e7\u00f5es e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolh\u00e3o! Acabo mendigo. . .<\/p>\n<p>E al\u00e7ando a m\u00e3o direita e os ombros, com um ar de indiferen\u00e7a, parecia resignado aos golpes da fortuna, e n\u00e3o sei at\u00e9 se contente. Talvez contente. Com certeza, impass\u00edvel. N\u00e3o havia nele \u00e1 resigna\u00e7\u00e3o crist\u00e3, nem a conformidade filos\u00f3fica. Parece que a mis\u00e9ria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensa\u00e7\u00e3o de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a p\u00farpura: com certa gra\u00e7a indolente.<\/p>\n<p>&#8211;Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.<\/p>\n<p>Um sorriso magn\u00edfico lhe abriu os l\u00e1bios. &#8211;N\u00e3o \u00e9 o primeiro que me promete alguma cousa, replicou, e n\u00e3o sei se ser\u00e1 o \u00faltimo que n\u00e3o me far\u00e1 nada. E para qu\u00ea? Eu nada pe\u00e7o, a n\u00e3o ser dinheiro; dinheiro sim, porque \u00e9 necess\u00e1rio comer, e as casas de pasto n\u00e3o fiam. Nem as quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vint\u00e9ns de angu, nem isso fiam as malditas quitandeiras&#8230; Um inferno, meu&#8230; ia dizer meu amigo&#8230; Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje n\u00e3o almocei.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; sa\u00ed muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de S. Francisco, \u00e0 esquerda de quem sobe; n\u00e3o precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois sa\u00ed cedo, e ainda n\u00e3o comi&#8230;Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-r\u00e9is, &#8212; a menos limpa,&#8211; e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobi\u00e7a. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.<\/p>\n<p>&#8212; In hoc signo vinces! bradou.<\/p>\n<p>E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e t\u00e3o ruidosa expans\u00e3o, que me produziu um sentimento misto de nojo e l\u00e1stima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou s\u00e9rio, grotescamente s\u00e9rio e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que n\u00e3o via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211;Pois est\u00e1 em suas m\u00e3os ver outras muitas, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.<\/p>\n<p>&#8211;Trabalhando, conclu\u00ed eu.<\/p>\n<p>Fez um gesto de desd\u00e9m; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que n\u00e3o queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abje\u00e7\u00e3o t\u00e3o c\u00f4mica e t\u00e3o triste, e preparei-me para sair.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o v\u00e1 sem eu lhe ensinar a minha filosofia da mis\u00e9ria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LX \/ O ABRA\u00c7O<\/h3>\n<p>CUIDEI que o pobre-diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando ele me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na m\u00e3o uns estreme\u00e7\u00f5es de cobi\u00e7a, uns pruridos de posse.<\/p>\n<p>&#8212; Magn\u00edfico! disse ele.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7ou a andar \u00e0 roda de mim e a examinar-me muito.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor trata-se, disse ele. J\u00f3ias, roupa fina, elegante e.. Compare esses sapatos aos meus; que diferen\u00e7a! Pudera n\u00e3o! Digo-lhe que se trata. E mo\u00e7as? Como v\u00e3o elas? Est\u00e1 casado?<\/p>\n<p>N\u00e3o . . .<\/p>\n<p>&#8212; Nem eu.<\/p>\n<p>&#8212; Moro na rua&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, d\u00ea-me outra nota de cinco mil-r\u00e9is; mas permita-me que n\u00e3o a v\u00e1 buscar \u00e0 sua casa. \u00c9 uma esp\u00e9cie de orgulho&#8230; Agora, adeus; vejo que est\u00e1 impaciente.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus!<\/p>\n<p>&#8212; E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?<\/p>\n<p>E dizendo isto abra\u00e7ou-me com tal \u00edmpeto, que n\u00e3o pude evit\u00e1-lo. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abra\u00e7o, enfadado e triste. J\u00e1 n\u00e3o dominava em mim a parte simp\u00e1tica da sensa\u00e7\u00e3o, mas a outra. Quisera ver-lhe a mis\u00e9ria digna. Contudo, n\u00e3o pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperan\u00e7as de um tempo da realidade de outro tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Ora adeus! Vamos jantar&#8221;, disse comigo.<\/p>\n<p>Meto a m\u00e3o no colete e n\u00e3o acho o rel\u00f3gio. \u00daltima desilus\u00e3o! O Borba furtara-mo no abra\u00e7o.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXI \/ UM PROJETO<\/h3>\n<p>JANTEI TRISTE. N\u00e3o era a falta do rel\u00f3gio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminisc\u00eancias de crian\u00e7a, e outra vez a compara\u00e7\u00e3o, e a conclus\u00e3o. . . Desde a sopa, come\u00e7ou a abrir em mim a flor amarela e m\u00f3rbida do cap\u00edtulo XXV, e ent\u00e3o jantei depressa, para correr \u00e0 casa de Virg\u00ednia. Virg\u00ednia era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar \u00e0s opress\u00f5es do passado, p\u00f4r que o encontro do Quicas Borba, tornara-me aos olhos o passado, n\u00e3o qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de casa, mas era cedo; iria ach\u00e1-los \u00e0 mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive ent\u00e3o um desejo de tornar ao Passeio P\u00fablico, a ver se o achava; a id\u00e9ia de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas j\u00e1 n\u00e3o o achei. Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente &#8220;esse sujeito&#8221; ia por ali \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>&#8211;A que horas?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o tem hora certa.<\/p>\n<p>N\u00e3o era imposs\u00edvel encontr\u00e1-lo noutra ocasi\u00e3o; prometi a mim mesmo l\u00e1 voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o cora\u00e7\u00e3o; eu come\u00e7ava a sentir um bem-estar, uma eleva\u00e7\u00e3o, uma admira\u00e7\u00e3o de mim pr\u00f3prio&#8230; Nisto ca\u00eda a noite; fui ter com Virg\u00edlia.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXII \/ O TRAVESSElRO<\/h3>\n<p>FUI TER com Virg\u00edlia; depressa esqueci o Quincas Borba. Virg\u00edlia era o travesseiro do meu esp\u00edrito, um travesseiro mole, t\u00e9pido, arom\u00e1tico, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensa\u00e7\u00f5es m\u00e1s, simplesmente enfadonhas, ou at\u00e9 dolorosas. E, bem pesadas as cousas, n\u00e3o era outra a raz\u00e3o da exist\u00eancia de Virg\u00edlia; n\u00e3o podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contempla\u00e7\u00e3o m\u00fatua, com as m\u00e3os presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E l\u00e1 se foi a lembran\u00e7a do Quincas Borba. . . Escr\u00f3fula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXIII \/ FUJAMOS!<\/h3>\n<p>AI! NEM SEMPRE dormir. Tr\u00eas semanas depois, indo \u00e0 casa de Virg\u00edlia, eram quatro horas da tarde, &#8212; achei-a triste e abatida. N\u00e3o me quis dizer o que era; mas, como eu instasse muito:<\/p>\n<p>&#8211;Creio que o Dami\u00e3o desconfia alguma cousa. Noto agora umas esquisitices nele&#8230; N\u00e3o sei. Trata-me bem, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; mas o olhar parece que n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja ilus\u00e3o, mas eu penso que ele desconfia&#8230;<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilizei-a como pude; disse que podiam ser cuidados pol\u00edticos. Virg\u00edlia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Est\u00e1vamos na sala de visitas, que dava justamente para a ch\u00e1cara, onde troc\u00e1ramos o beijo inicial. Uma janela aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhara o bin\u00f3culo da imagina\u00e7\u00e3o; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa? um mundo nosso, em que n\u00e3o havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expans\u00e3o da vontade. Esta id\u00e9ia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava penetrar naquela habita\u00e7\u00e3o dos anjos.<\/p>\n<p>&#8212; Virg\u00edlia, disse eu, proponho-te uma cousa.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8212; Amas-me?<\/p>\n<p>&#8211;Oh! suspirou ela, cingindo-me os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia amava-me com f\u00faria; aquela resposta era a verdade patente. Com os bra\u00e7os ao meu pesco\u00e7o, calada, respirando muito deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e belos olhos, que davam uma sensa\u00e7\u00e3o singular de luz \u00famida; eu deixei-me estar a v\u00ea-los, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaci\u00e1vel como a morte. A beleza de Virg\u00edlia tinha agora um tom grandioso, que n\u00e3o possu\u00edra antes de casar. Era dessas figuras talhadas um pent\u00e9lico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranq\u00fcilamente bela, como as est\u00e1tuas, mas n\u00e3o ap\u00e1tica nem fria. Ao contr\u00e1rio, tinha o aspecto das naturezas c\u00e1lidas, e podia-se dizer que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquela ocasi\u00e3o em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as m\u00e3os, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei se tinha coragem.<\/p>\n<p>&#8212; De qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; De fugir. Iremos para onde nos for mais c\u00f4modo, casa grande ou pequena, \u00e0 tua vontade, na ro\u00e7a ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ningu\u00e9m nos aborre\u00e7a, e n\u00e3o haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro&#8230; Sim? Fujamos. Tarde ou cedo, ele pode descobrir alguma cousa, e estar\u00e1s perdida&#8230;ouves? perdida&#8230; morta&#8230; e ele tamb\u00e9m, porque eu o matarei, juro-te.<\/p>\n<p>Interrompi-me; Virg\u00edlia empalidecera muito, deixou cair os bra\u00e7os e sentou-se no canap\u00e9. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, n\u00e3o sei se vacilante na escolha, se aterrada com a id\u00e9ia da descoberta e da morte. Fui-me a ela, insisti na proposta, todas as vantagens de uma vida a s\u00f3s, sem zelos, nem terrores, nem afli\u00e7\u00f5es. Virg\u00edlia ouvia-me calada; depois disse:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o escapar\u00edamos talvez; ele iria ter comigo e matava do mesmo modo.<\/p>\n<p>Mostrei-lhe que n\u00e3o. O mundo era assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; ele n\u00e3o chegaria at\u00e9 l\u00e1; s\u00f3 as grandes paix\u00f5es s\u00e3o capazes de grandes a\u00e7\u00f5es, e ele n\u00e3o a amava tanto que pudesse ir busc\u00e1-la, se ela estivesse longe. Virg\u00edlia fez um gesto de espanto e quase indigna\u00e7\u00e3o; murmurou que o marido gostava muito dela.<\/p>\n<p>&#8211;Pode ser, respondi eu; pode ser que sim&#8230;<\/p>\n<p>Fui at\u00e9 a janela, e comecei a rufar com os dedos no peitoril. Virg\u00edlia chamou-me; deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse ali \u00e0 m\u00e3o&#8230; Justamente, nesse instante apareceu na ch\u00e1cara o Lobo Neves. N\u00e3o tremas assim, leitora p\u00e1lida; descansa, que n\u00e3o hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que apareceu na ch\u00e1cara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virg\u00edlia retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou da\u00ed a tr\u00eas minutos.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 c\u00e1 h\u00e1 muito tempo? disse-me ele.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrara s\u00e9rio, pesado, derramando os olhos de um modo distra\u00eddo, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expans\u00e3o de jovialidade, quando viu chegar o filho, o Nhonh\u00f4, o futuro bacharel do cap\u00edtulo VI, tomou-o nos bra\u00e7os, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha \u00f3dio ao menino, afastei-me de ambos. Virg\u00edlia tornou \u00e0 sala.<\/p>\n<p>&#8211;Ah! Respirou Lobo Neves, sentando-se pregui\u00e7osamente no sof\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211;Cansado? perguntei eu.<\/p>\n<p>&#8211;Muito; aturei duas ma\u00e7adas de primeira ordem, uma na c\u00e2mara e outra na rua. E ainda temos terceira, acrescentou, olhando para a mulher.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9? perguntou Virg\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211;Um. . . Adivinha!<\/p>\n<p>Virg\u00edlia sentara-se ao lado dele, pegou-lhe numa das m\u00e3os, comp\u00f4s-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.<\/p>\n<p>&#8211;Nada menos que um camarote.<\/p>\n<p>&#8211;Para a Candiani?<\/p>\n<p>&#8211;Para a Candiani.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da \u00f3pera que se cantava, e de n\u00e3o sei que outras cousas.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves.<\/p>\n<p>&#8211;Veio para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que voc\u00ea possui o melhor vinho do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211;Nem por isso bebe muito.<\/p>\n<p>Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a raz\u00e3o. J\u00e1 estava excitado, fiquei um pouco mais. Era a primeira grande c\u00f3lera que eu sentia contra Virg\u00edlia. N\u00e3o olhei uma s\u00f3 vez para ela durante o jantar; falei de pol\u00edtica, da imprensa, do minist\u00e9rio, creio que falaria de teologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e at\u00e9 com certa benevol\u00eancia superior; e tudo aquilo me irritava tamb\u00e9m, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos levantamos da mesa.<\/p>\n<p>&#8211;At\u00e9 logo, n\u00e3o? perguntou Lobo Neves.<\/p>\n<p>&#8211;Pode ser.<\/p>\n<p>E sa\u00ed.<\/p>\n<h3>CAP\u00cd TULO LXIV \/ A TRANSA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>VAGUEI PELAS RUAS e recolhi-me \u00e0s nove horas. N\u00e3o podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. \u00c0s onze horas estava arrependido de n\u00e3o ter ido ao teatro, consultei o rel\u00f3gio, quis vestir-me, e sair. Julguei por\u00e9m, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virg\u00edlia come\u00e7ava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta id\u00e9ia fez-me sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquec\u00ea-la e a mat\u00e1-la. Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magn\u00edficos bra\u00e7os nus,&#8211; os bra\u00e7os que eram meus, s\u00f3 meus,&#8211; fascinando os olhos de todos com o vestido soberbo que havia de ter, o colo de leite, os cabelos postos em band\u00f3s \u00e0 maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos dela&#8230; Via-a assim, e do\u00eda-me que a vissem outros. Depois, come\u00e7ava a despi-la, a por de lado as j\u00f3ias e sedas, a despente\u00e1-la com as minhas m\u00e3os s\u00f4fregas e lascivas, a torn\u00e1-la,&#8211; n\u00e3o sei se mais bela, se mais natural, a torn\u00e1-la minha, somente minha, \u00fanica mente minha.<\/p>\n<p>No dia seguinte, n\u00e3o me pude ter; fui cedo \u00e0 casa de Virg\u00edlia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.<\/p>\n<p>&#8211;Que houve? perguntei.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse \u00f3dio. Se eu ao menos soubesse o que \u00e9 que fiz! Mas n\u00e3o sei. N\u00e3o me dir\u00e1 o que foi?<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>&#8211;Que foi o qu\u00ea? Creio que n\u00e3o houve nada.<\/p>\n<p>&#8212; Nada? Tratou-me como n\u00e3o se trata um cachorro&#8230;<\/p>\n<p>A esta palavra, peguei-lhe nas m\u00e3os, beijei-as, e duas l\u00e1grimas rebentaram-lhe dos olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Acabou, acabou, disse eu.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive \u00e2nimo de arg\u00fcir, e, ali\u00e1s, arg\u00fci-la de qu\u00ea? N\u00e3o era culpa dela se o marido a amava. Disse-lhe que n\u00e3o me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente ci\u00fames do outro, que nem sempre o podia suportar de cara alegre; acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimula\u00e7\u00e3o, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e \u00e0s dissens\u00f5es era aceitar a minha id\u00e9ia da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>&#8211;Pensei nisso, acudiu Virg\u00edlia; uma casinha s\u00f3 nossa, solit\u00e1ria, metida num jardim, em alguma rua escondida, n\u00e3o \u00e9? Acho a id\u00e9ia boa; mas para que fugir?<\/p>\n<p>Disse isto com o tom ing\u00eanuo e pregui\u00e7oso de quem n\u00e3o cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma express\u00e3o de candidez. Ent\u00e3o, afastando-me, respondi:<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea \u00e9 que nunca me teve amor.<\/p>\n<p>&#8211;Eu?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, \u00e9 uma ego\u00edsta! prefere ver-me padecer todos os dias&#8230;\u00e9 uma ego\u00edsta sem nome!<\/p>\n<p>Virg\u00edlia desatou a chorar, e para n\u00e3o atrair gente, metia o len\u00e7o na boca, recalcava os solu\u00e7os; explos\u00e3o que me desconcertou. Se algu\u00e9m a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ela, travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade- mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o posso, disse ela da\u00ed a alguns instantes; n\u00e3o deixo meu filho, se o levar, estou certa de que ele me ir\u00e1 buscar ao fim do mundo. N\u00e3o posso; mate-me voc\u00ea, se o quiser, ou deixe-me morrer&#8230; Ah! meu Deus! meu Deus!<\/p>\n<p>&#8212; Sossegue; olhe que podem ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Que ou\u00e7am! N\u00e3o me importa.<\/p>\n<p>Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doudo, mas que a minha ins\u00e2nia provinha dela e com ela acabaria. Virg\u00edlia enxugou os olhos e estendeu-me a m\u00e3o. Sorrimos ambos; minutos depois, torn\u00e1vamos ao assunto da casinha solit\u00e1ria, em alguma rua escusa&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXV \/ OLHEIROS E ESCUTAS<\/h3>\n<p>INTERROMPEU-NOS o rumor de um carro na ch\u00e1cara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virg\u00edlia consultou-me com os olhos.<\/p>\n<p>&#8211;Se a senhora est\u00e1 assim com dor de cabe\u00e7a, disse eu, parece que o melhor \u00e9 n\u00e3o receber.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 se apeou? perguntou Virg\u00edlia ao escravo.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 se apeou; diz que precisa muito de falar com sinh\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211;Que entre!<\/p>\n<p>A baronesa entrou da\u00ed a pouco. N\u00e3o sei se contava comigo na sala; mas era imposs\u00edvel mostrar maior alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211;Bons olhos o vejam! exclamou. Onde se mete o senhor que n\u00e3o aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me n\u00e3o o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? \u00c9 natural. Os senhores s\u00e3o todos os mesmos. O bar\u00e3o dizia ontem, no camarote, que uma s\u00f3 italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que \u00e9 pior. Mas por que \u00e9 que o senhor n\u00e3o foi ontem ao teatro?<\/p>\n<p>&#8211;Uma enxaqueca.<\/p>\n<p>&#8211;Qual! Algum namoro; n\u00e3o acha, Virg\u00edlia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos&#8230; ou perto disso. .. N\u00e3o tem quarenta anos?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o lhe posso dizer com certeza, respondi eu &#8212; mas se me d\u00e1 licen\u00e7a, vou consultar a certid\u00e3o de batismo.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1, v\u00e1&#8230; E estendendo-me a m\u00e3o: At\u00e9 quando? S\u00e1bado ficamos em casa; o bar\u00e3o est\u00e1 com umas saudades suas&#8230;<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 rua, arrependi-me de ter sa\u00eddo. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de n\u00f3s. Cinq\u00fcenta e cinco anos que pareciam quarenta, macia, risonha, vest\u00edgios de beleza, porte elegante e maneiras finas. N\u00e3o falava muito nem sempre; possu\u00eda a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se ent\u00e3o na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. 0s outros, n\u00e3o sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava s\u00f3, ora fixa, ora m\u00f3bil, levando a ast\u00facia ao ponto de olhar \u00e0s vezes para dentro de si, porque deixava cair as p\u00e1lpebras; mas, como as pestanas eram r\u00f3tulas, o olhar continuava o seu of\u00edcio, remexendo a alma e a vida dos outros.<\/p>\n<p>A segunda pessoa era um parente de Virg\u00edlia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma n\u00e3o menos teimosa e de uma les\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o: era um hospital concentrado. Os olhos por\u00e9m luziam de muita vida e sa\u00fade. Virg\u00edlia, nas primeiras semanas, lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.<\/p>\n<p>Havia ainda o primo de Virg\u00ednia, o Luis Dutra, que eu agora desarmava \u00e0 for\u00e7a de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome \u00e0 pessoa, se mostravam contentes da apresenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que Lu\u00eds Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperan\u00e7a de que ele nos n\u00e3o denunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou tr\u00eas senhoras, v\u00e1rios gamenhos, e os f\u00e2mulos, que naturalmente se desforravam assim da condi\u00e7\u00e3o servil, e tudo isso constitu\u00eda uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quais t\u00ednhamos de resvalar com a t\u00e1tica e maciez das cobras.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXVI \/ AS PERNAS<\/h3>\n<p>ORA, ENQUANTO EU pensava naquela gente, iam-me pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei \u00e0 porta do Hotel Pharous. De costume jantava a\u00ed; mas, n\u00e3o tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da a\u00e7\u00e3o me cabe, e sim \u00e0s pernas que a fizeram. Aben\u00e7oadas pernas! E h\u00e1 quem vos trate com desd\u00e9m ou indiferen\u00e7a. Eu mesmo, at\u00e9 ent\u00e3o, tinha-vos em m\u00e1 conta, zangava-me quando vos fatig\u00e1veis, quando n\u00e3o pod\u00edeis ir al\u00e9m de certo ponto, e me deix\u00e1veis com o desejo a avoa\u00e7ar, \u00e0 semelhan\u00e7a de galinha atada pelos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Aquele caso, por\u00e9m, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, v\u00f3s deixastes \u00e0 minha cabe\u00e7a o trabalho de pensar em Virg\u00edlia, e dissestes uma \u00e0 outra: Ele precisa comer, s\u00e3o horas de jantar, vamos lev\u00e1-lo ao Pharous; dividamos a consci\u00eancia dele, uma parte fique l\u00e1 com a dama, tomemos n\u00f3s a outra, para que ele v\u00e1 direito, n\u00e3o: abalroe as gentes e as carro\u00e7as, tire o chap\u00e9u aos conhecidos, e finalmente chegue s\u00e3o e salvo ao hotel. E cumpristes \u00e0 risca o vosso prop\u00f3sito, am\u00e1veis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta p\u00e1gina.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXVII \/ A CASINHA<\/h3>\n<p>JANTEI E FUI a casa. L\u00e1 achei uma caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:<\/p>\n<p>Meu B&#8230;<\/p>\n<p>Desconfiam de n\u00f3s; tudo est\u00e1 perdido; esque\u00e7a-me para sempre. N\u00e3o nos veremos mais. Adeus; esque\u00e7a-se da infeliz<\/p>\n<p>Foi um golpe esta carta; n\u00e3o obstante, apenas fechou a noite, corri \u00e0 casa de Virg\u00edlia. Era tempo; estava arrependida. Ao v\u00e3o de uma janela, contou-me o que se passara com a baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior, a prop\u00f3sito da minha aus\u00eancia do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas rela\u00e7\u00f5es na casa;- em suma, \u00e9ramos objeto da suspeita p\u00fablica. Concluiu dizendo que n\u00e3o sabia que o fazer.<\/p>\n<p>&#8212; O melhor \u00e9 fugirmos, insinuei.<\/p>\n<p>&#8212; Nunca, respondeu ela abanando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Vi que era imposs\u00edvel separar duas cousas que no esp\u00edrito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Virg\u00edlia era capaz de iguais e grandes sacrif\u00edcios para conservar ambas as vantagens, e a fuga s\u00f3 lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa semelhante a despeito; mas as como\u00e7\u00f5es daqueles dous dias eram j\u00e1 muitas, e o despeito morreu depressa. V\u00e1 l\u00e1; arranjemos a casinha.<\/p>\n<p>Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado, todas com venezianas cor de tijolo, &#8212; trepadeira nos cantos, jardim na frente; mist\u00e9rio e solid\u00e3o. Um brinco!<\/p>\n<p>Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virg\u00edlia, em cuja casa fora costureira e agregada. Virg\u00edlia exercia sobre ela verdadeira fascina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se lhe diria tudo; ela aceitaria facilmente o resto.<\/p>\n<p>Para mim era aquilo uma situa\u00e7\u00e3o nova do nosso amor, uma apar\u00eancia de posse exclusiva, de domicilio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consci\u00eancia e resguardar o decoro. J\u00e1 estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do anap\u00e9, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares freq\u00fcentes o ch\u00e1 de todas as noites, enfim a presen\u00e7a do filho deles, meu c\u00famplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria \u00e0 porta; dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem institui\u00e7\u00f5es, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, &#8212; um s\u00f3 mundo, um s\u00f3 casal, uma s\u00f3 vida, uma s\u00f3 vontade, uma s\u00f3 afei\u00e7\u00e3o, &#8212; a unidade moral de todas as cousas pela exclus\u00e3o das que me eram contr\u00e1rias.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXVIII \/ O VERGALHO<\/h3>\n<p>TAIS ERAM as reflex\u00f5es que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na pra\u00e7a. O outro n\u00e3o se atrevia a fugir; gemia somente estas \u00fanicas palavras: &#8212; &#8220;N\u00e3o, perd\u00e3o meu senhor; meu senhor, perd\u00e3o!&#8221; Mas o primeiro n\u00e3o fazia cada s\u00faplica, respondia com uma vergalhada nova.<\/p>\n<p>&#8212; Toma, diabo! dizia ele; toma mais perd\u00e3o, b\u00eabado!<\/p>\n<p>&#8212; Meu senhor! gemia o outro.<\/p>\n<p>Cala a boca, besta! replicava o vergalho.<\/p>\n<p>Parei, olhei&#8230; Justos c\u00e9us! Quem havia de ser o do verganho? Nada menos que o meu moleque Prud\u00eancio, o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pedir e a b\u00ean\u00e7\u00e3o; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 sim, nhonh\u00f4.<\/p>\n<p>&#8212; Fez-te alguma cousa?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um vadio e um b\u00eabado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia l\u00e1 embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 bom, perdoa-lhe, disse eu.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n\u00e3o, nhonh\u00f4. Nhonh\u00f4 manda, n\u00e3o pede. Entra para casa,<\/p>\n<p>Sa\u00ed do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflex\u00f5es, que sinto haver inteiramente perdido; ali\u00e1s, seria mat\u00e9ria para um bom cap\u00edtulo, e talvez alegre. Eu gosto dos cap\u00edtulos alegres; \u00e9 o meu fraco. Exteriormente, era torvo o epis\u00f3dio do Valongo; mas s\u00f3 exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do racioc\u00ednio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e at\u00e9 profundo. Era um modo que o Prud\u00eancio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, \u00bb transmitindo-as a outro. Eu, em crian\u00e7a, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaix\u00e3o; ele gemia e sofria. Agora, porem, que era livre, dispunha de si mesmo, dos bra\u00e7os, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condi\u00e7\u00e3o, agora \u00e9 que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXIX \/ UM GR\u00c3O DE SANDICE<\/h3>\n<p>ESTE CASO faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerl\u00e3o. Era a sua grande e \u00fanica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.<\/p>\n<p>&#8211;Eu sou o ilustre Tamerl\u00e3o, dizia ele. Outrora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto t\u00e1rtaro, tanto t\u00e1rtaro, tanto t\u00e1rtaro, e at\u00e9 rei dos T\u00e1rtaros. O t\u00e1rtaro tem a virtude de fazer t\u00e1rtaros.<\/p>\n<p>Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas \u00e9 prov\u00e1vel que o leitor n\u00e3o se ria, e com raz\u00e3o; eu n\u00e3o lhe acho gra\u00e7a nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a prop\u00f3sito de um vergalho recebido e transferido, for\u00e7a \u00e9 confessar que \u00e9 muito melhor voltar \u00e0 casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prud\u00eancios.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXX \/ D. PL\u00c1CIDA<\/h3>\n<p>VOLTEMOS \u00e0 casinha. N\u00e3o serias capaz de l\u00e1 entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o propriet\u00e1rio deitou-a abaixo para substitui-la por outra, tr\u00eas vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desv\u00e3o de telhado \u00e9 o infinito para as andorinhas.<\/p>\n<p>V\u00ea agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atrav\u00e9s dos espa\u00e7os, como uma lancha de n\u00e1ufragos, que vai dar \u00e0 costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espa\u00e7o de ch\u00e3o que sofreu um casal de pecados. Amanh\u00e3 pode l\u00e1 dormir um eclesi\u00e1stico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos aben\u00e7oar\u00e3o esse canto de terra, que lhes deu algumas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia fez daquilo um brinco; designou as alfaias mais id\u00f4neas, e disp\u00f4-las com a intui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da mulher elegante; eu levei para l\u00e1 alguns livros, e tudo ficou sob a guarda de D. Pl\u00e1cida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.<\/p>\n<p>Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejara a inten\u00e7\u00e3o e do\u00eda-lhe o of\u00edcio; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a princ\u00edpio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, \u00e9 certo que n\u00e3o levantou os olhos para mim durante os primeiros dous meses; falava-me com eles baixos, seria, carrancuda, \u00e0s vezes triste. Eu queria angari\u00e1-la, e n\u00e3o me dava por ofendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevol\u00eancia, depois a confian\u00e7a. Quando obtive a confian\u00e7a, imaginei uma hist\u00f3ria pat\u00e9tica dos meus amores com Virg\u00edlia, um caso anterior ao casamento, a resist\u00eancia do pai, a dureza do marido, e n\u00e3o sei que outros toques de novela. D. Pl\u00e1cida n\u00e3o rejeitou uma s\u00f3 p\u00e1gina da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consci\u00eancia. Ao cabo de seis meses, quem nos visse juntos diria que D. Pl\u00e1cida era minha sogra.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui ingrato; fiz-lhe um pec\u00falio de cinco contos,&#8211;os cinco contos achados em Botafogo, como um p\u00e3o para a velhice. D. Pl\u00e1cida agradeceu-me com l\u00e1grimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXI \/ O SEN\u00c3O DO LIVRO<\/h3>\n<p>COME\u00c7O a arrepender-me deste livro. N\u00e3o que ele me canse; eu n\u00e3o tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros cap\u00edtulos para esse mundo sempre \u00e9 tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro \u00e9 enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contra\u00e7\u00e3o cadav\u00e9rica; v\u00edcio grave, e ali\u00e1s \u00ednfimo, porque o maior defeito deste livro \u00e9s tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narra\u00e7\u00e3o direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo s\u00e3o como os \u00e9brios, guinam \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, amea\u00e7am .o c\u00e9u, escorregam e caem&#8230;<\/p>\n<p>E caem! &#8212; Folhas mis\u00e9rrimas do meu cipreste, heis de cair, coxo quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma l\u00e1grima de saudade. Esta \u00e9 a grande vantagem da morte, que, se n\u00e3o deixa boca para rir, tamb\u00e9m n\u00e3o deixa olhos para chorar&#8230; Heis de cair.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXII \/ O BIBLI\u00d4MANO<\/h3>\n<p>TALVEZ SUPRIMA o cap\u00edtulo anterior; entre outros motivos, h\u00e1 a\u00ed, nas \u00faltimas linhas, uma frase muito parecida com desprop\u00f3sito, e eu n\u00e3o quero dar pasto \u00e0 cr\u00edtica do futuro.<\/p>\n<p>Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que n\u00e3o ama nenhuma outra cousa al\u00e9m dos livros, inclina-se sobre a p\u00e1gina anterior, a ver se lhe descobre o desprop\u00f3sito; l\u00ea, rel\u00ea! Tresl\u00ea, desengon\u00e7a as palavras, saca uma s\u00edlaba, depois outra, mais outra e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; n\u00e3o acha o desprop\u00f3sito.<\/p>\n<p>\u00c9 um bibli\u00f4mano. N\u00e3o conhece o autor; este nome de Br\u00e1s Cubas n\u00e3o vem nos seus dicion\u00e1rios biogr\u00e1ficos. Achou o volume por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos r\u00e9is. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar \u00fanico&#8230; \u00fanico! V\u00f3s, que n\u00e3o s\u00f3 amais os livros, sen\u00e3o que padeceis a mania deles, v\u00f3s sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais portanto, as del\u00edcias de meu bibli\u00f4mano. Ele rejeitaria a coroa das \u00cdndias, o papado, todos os museus da It\u00e1lia e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse \u00fanico exemplar; e n\u00e3o porque seja o das minhas Mem\u00f3rias; faria a mesma cousa com o Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse \u00fanico.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 o desprop\u00f3sito. L\u00e1 continua o homem inclinado sobre a p\u00e1gina, com uma lente no olho direito, todo entregue i nobre e \u00e1spera fun\u00e7\u00e3o de decifrar o desprop\u00f3sito. J\u00e1 prometeu a si mesmo escrever uma breve mem\u00f3ria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, n\u00e3o descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se \u00e0 janela e mostra-o ao sol. Um exemplar \u00fanico! Nesse momento passa-lhe p\u00f4r baixo da janela um C\u00e9sar ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele d\u00e1 de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles&#8230; Um exemplar \u00fanico!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXIII \/ O LUNCHEON<\/h3>\n<p>O DESPROP\u00d3SITO fez-me perder outro cap\u00edtulo. Que melhor n\u00e3o era dizer as cousas lisamente, sem todos estes solavancos! J\u00e1 comparei o meu estilo ao andar dos \u00e9brios. Se a id\u00e9ia vos parece indecorosa direi que ele \u00e9 o que eram as minhas refei\u00e7\u00f5es com Virg\u00edlia, na casinha da Gamboa, onde \u00e0s vezes faz\u00edamos a nossa patuscada, o nosso luncheon. Vinho, fruta, compotas. Com\u00edamos, \u00e9 verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do cora\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. \u00c0s vezes vinha o arrufo temperar o n\u00edmio adocicado da situa\u00e7\u00e3o. Ela deixava-me, refugiava-se num canto do canap\u00e9, ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Pl\u00e1cida. Cinco ou dez minutos depois, reat\u00e1vamos a palestra, como eu reato a narra\u00e7\u00e3o, para desat\u00e1-la outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao m\u00e9todo, era nosso costume convid\u00e1-lo, na pessoa de D. Pl\u00e1cida, a sentar-se conosco \u00e0 mesa; mas D. Pl\u00e1cida n\u00e3o aceitava nunca.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea parece que n\u00e3o gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virg\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8212; Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama al\u00e7ando as m\u00e3os para o tecto. N\u00e3o gosto de Iai\u00e1! Mas ent\u00e3o de quem \u00e9 que eu gostaria neste mundo?<\/p>\n<p>E, pegando-lhe nas m\u00e3os, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, at\u00e9 molharem-se-lhe os olhos, de t\u00e3o fixo que era. Virg\u00edlia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXIV \/ HIST\u00d3RIA DE D. PL\u00c1CIDA<\/h3>\n<p>N\u00c3O TE ARREPENDAS de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confid\u00eancia de D. Pl\u00e1cida, e conseguintemente este cap\u00edtulo. Dias depois, como eu a achasse s\u00f3 em casa, travamos palestra, e ela contou-me em breves termos a sua hist\u00f3ria. Era filha natural de um sacrist\u00e3o da S\u00e9 e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. J\u00e1 ent\u00e3o ralava coco e fazia n\u00e3o sei que outros trabalhos de doceira, compat\u00edveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu t\u00edsico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha. Vi\u00fava e mo\u00e7a, ficaram a seu cargo a filha, com dous anos, e a m\u00e3e, cansada de trabalhar. Tinha de sustentar a tr\u00eas pessoas. Fazia doces, que era o seu of\u00edcio, mas cosia tamb\u00e9m, de dia e de noite, com afinco, para tr\u00eas ou quatro lojas, e ensinava algumas crian\u00e7as do bairro, a dez tost\u00f5es por m\u00eas. Com isto iam-se passando os, n\u00e3o a beleza, porque n\u00e3o a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros, propostas, sedu\u00e7\u00f5es, a que resistia.<\/p>\n<p>&#8211;Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ela, creia que me teria casado; mas ningu\u00e9m queria casar comigo.<\/p>\n<p>Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; n\u00e3o sendo, por\u00e9m, mais delicado que os outros, D. Pl\u00e1cida despediu-o do mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito. Continuou a coser para fora e a escumar os tachos. A m\u00e3e tinha a rabugem do temperamento, dos anos e da necessidade- mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de empr\u00e9stimo e de ocasi\u00e3o que lha pediam. E bradava:<\/p>\n<p>&#8211;Queres ser melhor do que eu? N\u00e3o sei donde te vem essas fid\u00facias de pessoa rica. Minha camarada, a vida n\u00e3o se arranja \u00e0 toa; n\u00e3o se come vento. Ora esta! Mo\u00e7os t\u00e3o bons como o Policarpo da venda, coitado&#8230; Esperas algum fidalgo, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>D. Pl\u00e1cida jurou-me que n\u00e3o esperava fidalgo nenhum. Era g\u00eanio. Queria ser casada. Sabia muito bem que a m\u00e3e o n\u00e3o fora, e conhecia algumas que tinham s\u00f3 o seu mo\u00e7o delas; mas era g\u00eanio e queria ser casada. N\u00e3o queria tamb\u00e9m que a filha fosse outra cousa. Trabalhava muito, queimando os dedos ao fog\u00e3o, e os olhos ao candeeiro, para comer e n\u00e3o cair. Emagreceu, adoeceu, perdeu a m\u00e3e, enterrou-a por subscri\u00e7\u00e3o, e continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e n\u00e3o fazia nada, a n\u00e3o ser namorar os capad\u00f3cios que lhe rondavam a r\u00f3tula. D. Pl\u00e1cida vivia com imensos cuidados, levando-a consigo, quando tinha de entregar costuras. A gente das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ela a levava para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam gra\u00e7olas, faziam cumprimentos; a m\u00e3e chegou a receber propostas de dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>Interrompeu-se um instante, e continuou logo:<\/p>\n<p>&#8212; Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber&#8230; Deixou-me s\u00f3, mas t\u00e3o triste, t\u00e3o triste, que pensei morrer. N\u00e3o tinha ningu\u00e9m mais no mundo e estava quase velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a fam\u00edlia de Iai\u00e1; boa gente, que me deu que fazer, e at\u00e9 chegou a me dar casa. Estive l\u00e1 muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada, costurando. Sa\u00ed quando Iai\u00e1 casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos, olhe estas m\u00e3os&#8230; E mostrou-me as m\u00e3os grossas e gretadas, as pontas dos dedos pica das da agulha. &#8211; N\u00e3o se cria isto \u00e0 toa, meu senhor; Deus sabe como \u00e9 que isto se cria. . . Felizmente, Iai\u00e1 me protegeu, e o senhor doutor tamb\u00e9m&#8230; Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola . . .<\/p>\n<p>Ao soltar a \u00faltima frase, D. Pl\u00e1cida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu atentar na inconveni\u00eancia daquela confiss\u00e3o ao amante de uma mulher casada, e come\u00e7ou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, &#8220;cheia de fid\u00facias&#8221;, como lhe dizia a m\u00e3e; enfim, cansada do meu sil\u00eancio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXV \/ COMIGO<\/h3>\n<p>PODENDO ACONTECER que algum dos meus leitores tenha pulado o cap\u00edtulo anterior, observo que \u00e9 preciso le-lo para entender o que eu disse comigo, logo depois que D. Pl\u00e1cida saiu da sala. O que eu disse foi isto:<\/p>\n<p>&#8220;Assim, pois, o sacrist\u00e3o da S\u00e9, um dia. ajudando \u00e0 missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de D. Pl\u00e1cida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma gra\u00e7a, pisou-lhe o p\u00e9, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjun\u00e7\u00e3o de lux\u00farias vadias brotou D. Pl\u00e1cida. t de crer que D. Pl\u00e1cida n\u00e3o falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: &#8211;Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacrist\u00e3o e a sacrist\u00e3 naturalmente lhe responderiam. &#8211;Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou n\u00e3o comer andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanh\u00e3 resignada, mas sempre com as m\u00e3os no tacho e os olhos na costura, at\u00e9 acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia&#8221;.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXVI \/ O ESTRUME<\/h3>\n<p>S\u00daBITO DEU-ME a consci\u00eancia um repel\u00e3o, acusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Pl\u00e1cida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e priva\u00e7\u00f5es. Medianeira n\u00e3o era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado de obs\u00e9quios e \u00e0 custa de obs\u00e9quios e dinheiro. Foi o que me disse a consci\u00eancia; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascina\u00e7\u00e3o exercida por Virg\u00edlia sobre a ex-costureira, da gratid\u00e3o desta, enfim da necessidade. Notou a resist\u00eancia de D. Pl\u00e1cida, as l\u00e1grimas dos primeiros dias, as caras feias, es sil\u00eancios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, at\u00e9 vence-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso.<\/p>\n<p>Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de D. Pl\u00e1cida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensa\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o fossem os meus amores, provavelmente D. Pl\u00e1cida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o v\u00edcio e muitas vezes o estrume da virtude. O que n\u00e3o impede que a virtude seja uma flor cheirosa e s\u00e3. A consci\u00eancia concordou, e eu fui abrir a porta a Virg\u00edlia.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXVII \/ ENTREVISTA<\/h3>\n<p>VIRG\u00cdLIA entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era v\u00ea-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e tr\u00eamula! Ia de sege, velado o rosto, envolvida numa esp\u00e9cie de mant\u00e9u, que lhe disfar\u00e7ava as ondula\u00e7\u00f5es do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canap\u00e9, ofegante, escarlate, com os olhos no ch\u00e3o; e, palavra! em nenhuma outra ocasi\u00e3o a achei t\u00e3o bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no per\u00edodo cronom\u00e9trico. A intensidade do amor era a mesma; a diferen\u00e7a \u00e9 que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranq\u00fcilo e constante, como nos casamentos.<\/p>\n<p>&#8211;Estou muito zangada com voc\u00ea, disse ela sentando-se.<\/p>\n<p>&#8211;Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Por que n\u00e3o foi l\u00e1 ontem, como me tinha dito. O Dami\u00e3o perguntou muitas vezes se voc\u00ea n\u00e3o iria, ao menos, tomar ch\u00e1. Por que \u00e9 que n\u00e3o foi?<\/p>\n<p>Com efeito, eu havia faltado \u00e0 palavra que dera, e a culpa era toda de Virg\u00edlia. Quest\u00e3o de ci\u00fames. Essa mulher esplendida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antev\u00e9spera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo peralta, depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava t\u00e3o alegre! t\u00e3o derramada! t\u00e3o cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e amea\u00e7adora, n\u00e3o teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente s\u00e9ria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices. Veio depois a mim, tomou-me o bra\u00e7o, e levou-me a outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansa\u00e7o, e disse muitas outras cousas, com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasi\u00f5es, e eu ouvi-a quase sem responder nada.<\/p>\n<p>Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha aus\u00eancia. . . N\u00e3o, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefa\u00e7\u00e3o vis\u00edvel, tang\u00edvel, que se n\u00e3o podia negar; tal foi a primeira r\u00e9plica de Virg\u00edlia; abanou a cabe\u00e7a com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, voc\u00ea!<\/p>\n<p>E foi tirar o chap\u00e9u, l\u00e9pida, jovial como a menina que torna do col\u00e9gio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinha na testa, com um s\u00f3 dedo, a repetir: Isto, isto; e eu n\u00e3o tive. rem\u00e9dio sen\u00e3o rir tamb\u00e9m, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXVIII \/ A PRESID\u00caNCIA<\/h3>\n<p>CERTO DIA, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar uma presid\u00eancia de prov\u00edncia. Olhei para Virg\u00ednia, que empalideceu; ele, que a viu empalidecer, perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211;A modo que n\u00e3o gostaste, Virg\u00edlia?<\/p>\n<p>Virg\u00edlia abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me agrada muito, foi a sua resposta.<\/p>\n<p>N\u00e3o se disse mais nada; mas de noite Lobo Neves insistia no projeto um pouco mais resolutamente do que de tarde; dous dias depois declarou \u00e0 mulher que a presid\u00eancia era cousa definitiva. Virg\u00edlia na p\u00f4de dissimular a repugn\u00e2ncia que isto lhe causava. O marido respondia a tudo com as necessidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso recusar o que me pedem; \u00e9 at\u00e9 conveni\u00eancia nossa. do nosso futuro, dos teus bras\u00f5es, meu amor, porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa est\u00e1s. Dir\u00e1s que sou ambicioso? Sou-o deveras, mas \u00e9 preciso que me n\u00e3o ponhas um peso nas asas da ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa; da Gamboa, \u00e0 minha espera; tinha dito tudo a D. Pl\u00e1cida, que buscava consol\u00e1-la como podia. N\u00e3o fiquei menos abatido.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea h\u00e1 de ir conosco, disse-me Virg\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 douda? Seria uma insensatez.<\/p>\n<p>&#8211;Mas ent\u00e3o&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, \u00e9 preciso desfazer o projeto.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 aceitou?<\/p>\n<p>&#8211;Parece que sim.<\/p>\n<p>Levantei-me, atirei o chap\u00e9u a uma cadeira, e entrei a passear de; um lado para outro, sem saber o que faria. Cogitei largamente, e n\u00e3o achei nada. Enfim, cheguei-me a Virg\u00edlia, que estava sentada, e travei-lhe da m\u00e3o; D. Pl\u00e1cida foi \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211;Nesta pequenina m\u00e3o est\u00e1 toda a minha exist\u00eancia, disse eu; voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por ela; fa\u00e7a o que lhe parecer.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia teve um gesto aflitivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns instantes de sil\u00eancio; ouv\u00edamos somente o latir de um c\u00e3o, e n\u00e3o sei se o rumor da \u00e1gua, que morria na praia Vendo que n\u00e3o falava, olhe; para ela. Virgilia tinha os olhos no ch\u00e3o, parados, sem luz, as m\u00e3os deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude da suprema desesperan\u00e7a. Noutra ocasi\u00e3o, por diferente motivo, \u00e9 certo que eu me lan\u00e7aria aos p\u00e9s dela, e a ampararia com a minha raz\u00e3o e a minha ternura; agora, por\u00e9m, era preciso compeli-la ao esfor\u00e7o de si mesma, ao sacrif\u00edcio, \u00e0 responsabilidade da nossa vida comum, e conseguintemente desampar\u00e1-la deix\u00e1-la, e sair; foi o que fiz.<\/p>\n<p>&#8212; Repito, a minha felicidade est\u00e1 nas tuas m\u00e3os, disse eu.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia quis agarrar-me, mas eu j\u00e1 estava fora da porta. Cheguei a ouvir um prorromper de l\u00e1grimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e sa\u00ed.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXIX \/ COMPROMISSO<\/h3>\n<p>N\u00c3O ACABARIA se houvesse de contar pelo mi\u00fado o que padeci nas primeiras horas. Vacilava entre um querer e um n\u00e3o querer, entre a piedade que me empuxava \u00e0 casa de Virg\u00edlia e outro sentimento, &#8212; ego\u00edsmo, supunhamos,&#8211; que me dizia: &#8220;Fica; deixa-a a s\u00f3s com o problema, deixa-a que ela o resolver\u00e1 no sentido do amor&#8221;. Creio que essas duas for\u00e7as tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. \u00c0s vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem arriscar de mim pr\u00f3prio; e, quando ia a capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o conselho ego\u00edsta, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim interveio um compromisso entre o ego\u00edsmo e a piedade; eu iria v\u00ea-la em casa, e s\u00f3 em casa, em presen\u00e7a do marido, para lhe n\u00e3o dizer nada, \u00e0 v\u00e9spera do efeito da minha intima\u00e7\u00e3o. Deste modo poderia conciliar as duas for\u00e7as. Agora, que isto escrevo, quer-me parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de ego\u00edsmo, e que a resolu\u00e7\u00e3o de ir consolar Virg\u00edlia n\u00e3o passava de uma sugest\u00e3o de meu pr\u00f3prio padecimento.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXX \/ DE SECRET\u00c1RIO<\/h3>\n<p>NA NOITE SEGUINTE fui efetivamente \u00e0 casa do Lobo Neves estavam ambos, Virg\u00edlia muito triste, ele muito jovial. Juro que ela sentiu certo al\u00edvio, quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura. Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presid\u00eancia, as dificuldades locais, as esperan\u00e7as, as resolu\u00e7\u00f5es; estava t\u00e3o contente! t\u00e3o esperan\u00e7ado! Virg\u00edlia, ao p\u00e9 da mesa fingia ler um livro, mas por cima da p\u00e1gina olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.<\/p>\n<p>&#8211;O pior, disse-me de repente o Lobo Neves, \u00e9 que ainda n\u00e3o achei secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, e tenho uma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211;Ah!<\/p>\n<p>&#8211;Uma id\u00e9ia&#8230; Quer voc\u00ea dar um passeio ao Norte? N\u00e3o sei o que lhe disse.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea \u00e9 rico, continuou ele, n\u00e3o precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secret\u00e1rio comigo.<\/p>\n<p>Meu esp\u00edrito deu um salto para tr\u00e1s, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto. . . Nem sombra disso, o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, n\u00e3o violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e n\u00e3o tive \u00e2nimo de olhar para Virg\u00edlia; senti por cima da p\u00e1gina o olhar dela, que me pedia tamb\u00e9m a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secret\u00e1rio era resolver as cousas de um modo administrativo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXI \/ A RECONCILIA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>CONTUDO, ao sair de l\u00e1, tive umas sombras de d\u00favida; cogitei se n\u00e3o ia expor insanamente a reputa\u00e7\u00e3o de Virg\u00edlia, se n\u00e3o haveria outro meio razo\u00e1vel de combinar o Estado e a Gamboa. N\u00e3o achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o esp\u00edrito feito e resoluto a aceitar a nomea\u00e7\u00e3o. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um v\u00e9u. Corro; era minha irm\u00e3 Sabina.<\/p>\n<p>&#8212; Isto n\u00e3o pode continuar assim, disse ela; \u00e9 preciso<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa! irei eu mesmo v\u00ea-la.<\/p>\n<p>&#8212; Sim?<\/p>\n<p>&#8212; Palavra.<\/p>\n<p>&#8212; Tanto melhor! respirou Sabina. \u00c9 tempo de acabar com isto. Achei-a mais gorda, e talvez mais mo\u00e7a. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, af\u00e1vel, nenhum acanhamento, nenhum ressentimento. Olh\u00e1vamos um para o outro, com as m\u00e3os seguras, falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era minha inf\u00e2ncia que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa fam\u00edlia, as nossas festas. Suportei a recorda\u00e7\u00e3o com algum esfor\u00e7o; mas um barbeiro da vizinhan\u00e7a lembrou-se de zangarrear na cl\u00e1ssica rabeca, e essa voz porque at\u00e9 ent\u00e3o a recorda\u00e7\u00e3o era muda &#8212; essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que&#8230;<\/p>\n<p>Os olhos dela estavam secos. Sabina n\u00e3o herdara a flor amarela e m\u00f3rbida. Que importa? Era minha irm\u00e3, meu sangue, um peda\u00e7o de minha m\u00e3e, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade&#8230; S\u00fabito ou\u00e7o bater \u00e0 porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.<\/p>\n<p>&#8211;Entra, Sara, disse Sabina.<\/p>\n<p>Era minha sobrinha. Apanhei-a do ch\u00e3o, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a m\u00e3ozinha, quebrando o corpo para descer. . . Nisto, aparece-me \u00e0 porta um chap\u00e9u, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava t\u00e3o comovido, que deixei a filha e lancei-me aos bra\u00e7os do pai. Talvez essa efus\u00e3o o desconcertou um pouco; \u00e9 certo que me pareceu acanhado. Simples pr\u00f3logo. Da\u00ed a pouco fal\u00e1vamos como bons amigos velhos. Nenhuma alus\u00e3o ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro. N\u00e3o deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrup\u00e7\u00e3o, porque eu andava com id\u00e9ias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas id\u00e9ias n\u00e3o tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois n\u00e3o era na corte, em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe, es n\u00e3o obstante uma briga rid\u00edcula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admira\u00e7\u00f5es. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na prov\u00edncia, sem necessidade, sem motivo s\u00e9rio? A menos que n\u00e3o fosse pol\u00edtica&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Justamente pol\u00edtica, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;Nem assim, replicou ele da\u00ed a um instante. E depois de outro sil\u00eancio: Seja como for, venha jantar hoje conosco.<\/p>\n<p>&#8211;Certamente que vou; mas, amanh\u00e3 ou depois, h\u00e3o de vir jantar comigo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei, n\u00e3o sei, objetou Sabina; casa de homem solteiro. . . Voc\u00ea precisa casar, mano. Tamb\u00e9m eu quero uma sobrinha, ouviu?<\/p>\n<p>Cotrim reprimiu-a com um gesto, que n\u00e3o entendi bem. N\u00e3o importa; a reconcilia\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia vale bem um gesto enigm\u00e1tico.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXII \/ QUEST\u00c3O DE BOT\u00c2NICA<\/h3>\n<p>DIGAM O QUE QUISEREM dizer os hipocondr\u00edacos: a vida \u00e9 uma cousa doce. Foi o que eu pensei comigo, ao ver Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo muitas palavras afetuosas para cima, onde eu ficava &#8212; no patamar, a dizer-lhes outras tantas para baixo. Continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-ma mulher, tinha a confian\u00e7a do marido, ia por secret\u00e1rio de ambos, reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas?<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia. tratando de aparelhar os \u00e2nimos, comecei a espalhar que talvez fosse para o Norte como secret\u00e1rio de prov\u00edncia, a fim de realizar certos des\u00edgnios pol\u00edticos, que me eram pessoais. Disse-o na Rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no teatro. Alguns, ligando a minha nomea\u00e7\u00e3o \u00e0 do Lobo Neves, que j\u00e1 andava em boatos, sorriam maliciosamente, outros batiam-me no ombro. No teatro disse-me uma senhora que era levar muito longe o amor da escultura. Referia-se \u00e0s belas formas de Virg\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas a alus\u00e3o mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, tr\u00eas dias depois. F\u00ea-la um certo Garcez, velho cirurgi\u00e3o, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta, aos oitenta, aos no venta anos, sem adquirir jamais aquela compostura austera, que \u00e9 a gentileza do anci\u00e3o. A velhice rid\u00edcula \u00e9, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 sei, desta vez vai ler C\u00edcero, disse-me ele, ao saber d viagem.<\/p>\n<p>&#8212; C\u00edcero! exclamou Sabina.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent\u00e3o? Seu mano \u00e9 um grande latinista. Traduz Virg\u00edlio de relance. Olhe que \u00e9 Virg\u00edlio, e n\u00e3o Virg\u00edlia&#8230; n\u00e3o confunda ..<\/p>\n<p>E ria, de um riso grosso, rasteiro e fr\u00edvolo. Sabina olhou para mim receosa de alguma r\u00e9plica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e voltou o rosto para disfar\u00e7\u00e1-lo. As outras pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulg\u00eancia e simpatia; era transparente que n\u00e3o acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais p\u00fablico do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, &#8212; palreiro como as pegas de Sintra. Virg\u00edlia era um belo erro, e \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil confessar um belo erro! Costumava ficar carrancudo, a princ\u00edpio, quando ouvia alguma alus\u00e3o ao nossos amores; mas, palavra de honra! sentia c\u00e1 dentro uma impress\u00e3o s\u00e3o suave e lisonjeira. Uma vez, por\u00e9m, aconteceu-me sorrir, e continuei a faz\u00ea-lo das outras vezes. N\u00e3o sei se h\u00e1 a\u00ed algu\u00e9m que explique o fen\u00f4meno. Eu explico-o assim: a princ\u00edpio, o contentamento, sendo interior, era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado, andando o tempo, desabotoou-se em flor, e apareceu aos olhos do pr\u00f3ximo. Simples quest\u00e3o de bot\u00e2nica.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXIII \/ 13<\/h3>\n<p>COTRIM tirou-me daquele gozo, levando-me \u00e0 janela. Voc\u00ea quer que lhe diga uma cousa? perguntou ele;&#8211; n\u00e3o fa\u00e7a essa viagem; \u00e9 insensata, \u00e9 perigosa.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea bem sabe por que, tornou ele: \u00e9, sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na corte, um caso desses perde-se na multid\u00e3o da gente e dos interesses, mas na prov\u00edncia muda de figura; e tratando-se de personagens pol\u00edticos, \u00e9 realmente insensatez. As gazetas de oposi\u00e7\u00e3o, logo que farejarem o neg\u00f3cio, passam a imprimi-lo com todas as letras, e a\u00ed vir\u00e3o as chufas, os remoques, as alcunhas..,<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o entendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Entende, entende. Em verdade, seria bem pouco amigo nosso se me negasse o que toda a gente sabe. Eu sei disso h\u00e1 longos meses. Repito, n\u00e3o fa\u00e7a semelhante viagem; suporte a aus\u00eancia, que \u00e9 melhor, e evite algum grande esc\u00e2ndalo e maior desgosto. ..<\/p>\n<p>Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampi\u00e3o da esquina, &#8212; um antigo lampi\u00e3o de azeite, &#8212; triste obscuro e recurvado, como um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Que me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me \u00e0 fortuna, ou lutar com ela e subjug\u00e1-la. Por outros termos: embarcar ou n\u00e3o embarcar. Esta era a quest\u00e3o. O lampi\u00e3o n\u00e3o me dizia nada. As palavras do Cotrim ressoavam-me aos ouvidos da mem\u00f3ria, de um modo mui diverso do das palavras do Garcez. Talvez Cotrim tivesse raz\u00e3o; mas podia eu separar-me de Virg\u00edlia?<\/p>\n<p>Sabina veio ter comigo, e perguntou-me em que estava pensando. Respondi que em cousa nenhuma, que tinha sono e ia para casa. Sabina esteve um instante calada.&#8211; O que voc\u00ea precisa, sei eu; \u00e9 uma noiva. Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para voc\u00ea. Sa\u00ed de l\u00e1 opresso, desorientado. Tudo pronto para embarcar, &#8212; esp\u00edrito e cora\u00e7\u00e3o,&#8211; e eis a\u00ed me surge esse porteiro das conveni\u00eancias, que me pede o cart\u00e3o de ingresso. Dei ao diabo as conveni\u00eancias, e com elas a constitui\u00e7\u00e3o, o corpo legislativo, o minist\u00e9rio, tudo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, abro uma folha pol\u00edtica e leio a not\u00edcia de que, por decretos de 13, t\u00ednhamos sido nomeados presidente e secret\u00e1rio da prov\u00edncia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi imediatamente a Virg\u00edlia, e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Pl\u00e1cida! Estava cada vez mais aflita; perguntou-me se esquecer\u00edamos a nossa velha, se a aus\u00eancia era grande e se a prov\u00edncia ficava longe. Consolei-a; mas eu pr\u00f3prio precisava de consola\u00e7\u00f5es; a obje\u00e7\u00e3o de Cotrim afligia-me. Virg\u00edlia chegou da\u00ed a pouco, l\u00e9pida como uma andorinha; mas, ao ver-me triste ficou muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8212; Que aconteceu?<\/p>\n<p>&#8211;Vacilo, disse eu; n\u00e3o sei se devo aceitar&#8230;<\/p>\n<p>Virg\u00ednia deixou-se cair, no canap\u00e9, a rir. Por qu\u00ea? disse ela.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 conveniente d\u00e1 muito na vista&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00f3s n\u00e3o j\u00e1 vamos.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>Contou-me que o marido ia recusar a nomea\u00e7\u00e3o, e por motivo que s\u00f3 lhe disse, a ela, pedindo-lhe o maior segredo; n\u00e3o podia confess\u00e1-lo a ningu\u00e9m mais. t pueril, observou ele, \u00e9 rid\u00edculo; mas em suma, \u00e9 um motivo poderoso para mim. Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse n\u00famero significava para ele uma recorda\u00e7\u00e3o f\u00fanebre. O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a m\u00e3e tinha o n.\u00b0 13. Et coetera. Era um algarismo fat\u00eddico. N\u00e3o podia alegar semelhante cousa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha raz\u00f5es particulares para n\u00e3o aceitar. Eu fiquei como h\u00e1 de estar o leitor,&#8211; um pouco assombrado com esse sacrif\u00edcio a um n\u00famero; mas, sendo ele ambicioso, o sacrif\u00edcio devia ser sincero&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXIV \/ O CONFLITO<\/h3>\n<p>N\u00daMERO FAT\u00cdDICO, lembras-te que te aben\u00e7oei muitas vezes? Assim tamb\u00e9m as virgens ruivas de Tebas deviam aben\u00e7oar a \u00e9gua, de ruiva crina, que as substituiu no sacrif\u00edcio de Pel\u00f3pidas,&#8211; uma donosa \u00e9gua, que l\u00e1 morreu, coberta de flores, sem que ningu\u00e9m lhe desse<\/p>\n<p>nunca uma palavra de saudade. Pois dou-ta eu, \u00e9gua piedosa, n\u00e3o s\u00f3 pela morte havida, como porque entre as donzelas escapas, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que figurasse uma av\u00f3 dos Cubas&#8230; N\u00famero fat\u00eddico, tu foste a nossa salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me confessou o marido a causa da recusa; disse-me tamb\u00e9m que eram neg\u00f3cios particulares, e o rosto ; s\u00e9rio, convencido, com que eu o escutei, fez honra \u00e0 dissimula\u00e7\u00e3o humana. Ele \u00e9 que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava- falava pouco, absorvia-se, metia-se em casa, a ler. Outras vezes recebia, e ent\u00e3o conversava e ria muito, com estr\u00e9pito e afeta\u00e7\u00e3o. Oprimiam-no duas cousas, a ambi\u00e7\u00e3o, que um escr\u00fapulo desazara, e logo depois a d\u00favida, e talvez o arrependimento, &#8212; mas um arrependimento, que viria outra vez, se repetisse a hip\u00f3tese porque o fundo supersticioso existia. Duvidava da supersti\u00e7\u00e3o, sem chegar a rejeit\u00e1-la. Essa persist\u00eancia de um sentimento, que repugna ao mesmo indiv\u00edduo, era um fen\u00f4meno digno de alguma aten\u00e7\u00e3o. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Pl\u00e1cida, quando conversava n\u00e3o poder ver um sapato voltado para o ar.<\/p>\n<p>&#8211;Que tem isso? perguntava-lhe eu.<\/p>\n<p>&#8211;Faz mal, era a sua resposta.<\/p>\n<p>Isto somente, esta \u00fanica resposta, que valia para ela o livro dos sete selos. Faz mal. Disseram-lhe isso em crian\u00e7a, sem outra explica\u00e7\u00e3o, e ela contentava-se com a certeza do mal. J\u00e1 n\u00e3o acontecia mesma cousa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo a\u00ed sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.<\/p>\n<p>Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem n\u00e3o perde uma presid\u00eancia de prov\u00edncia? Tolera-se uma supersti\u00e7\u00e3o gratuita ou barata; \u00e9 insuport\u00e1vel a que leva uma parte da vida. Este era o caso do Lobo Neves com o acr\u00e9scimo da d\u00favida e do terror de haver sido rid\u00edculo. E mais este outro acr\u00e9scimo, que o ministro n\u00e3o acreditou nos motivos particulares; atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos pol\u00edticos, ilus\u00e3o complicada de algumas apar\u00eancias; tratou-o mal, comunicou a desconfian\u00e7a aos colegas; sobrevieram incidentes; enfim, com o tempo, o presidente resignat\u00e1rio foi para a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXV \/ O CIMO DA MONTANHA<\/h3>\n<p>QUEM ESCAPA a um perigo ama a vida com outra intensidade; Entrei a amar Virg\u00edlia com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a ela. Assim, a presid6encia n\u00e3o fez mais do que avivar a afei\u00e7\u00e3o primitiva; foi a droga com que tomamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tamb\u00e9m. Nos primeiros dias, depois daquele incidente, folg\u00e1vamos de imaginar a dor da separa\u00e7\u00e3o, se houvesse separa\u00e7\u00e3o, a tristeza de um e de outro, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o mar, como uma toalha el\u00e1stica, se fosse dilatando entre n\u00f3s; e, semelhantes \u00e0s crian\u00e7as, que se achegam ao rega\u00e7o das m\u00e3es, para fugir a uma simples careta, fug\u00edamos do suposto perigo, apertando-nos com abra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8212; Minha boa Virg\u00edlia!<\/p>\n<p>&#8212; Meu amor!<\/p>\n<p>&#8212; Tu \u00e9s minha, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Tua, tua&#8230;<\/p>\n<p>E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto m\u00e1ximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo divisamos os vale de leste e de oeste, e por cima de n\u00f3s o c\u00e9u tranq\u00fcilo e azul. Repousado esse tempo, come\u00e7amos a descer a encosta, com as m\u00e3os presas ou soltas, mas a descer, a descer&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXVI \/ O MIST\u00c9RIO<\/h3>\n<p>SERRA ABAIXO, como eu a visse um pouco diferente, n\u00e3o sei se abatida ou outra cousa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me que&#8230; Um fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensa\u00e7\u00e3o forte, r\u00e1pida, singular, que eu n\u00e3o chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das m\u00e3os, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de z\u00e9firo e uma gravidade de Abra\u00e3o. Ela estremeceu, colheu-me a cabe\u00e7a entre as palmas, fitou-me os olhos, depois afagou-me com um gesto maternal. . . Eis a\u00ed um mist\u00e9rio; deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mist\u00e9rio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXVII \/ GEOLOGIA<\/h3>\n<p>SUCEDEU por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou a\u00ed de relance, com os seus setenta anos, abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma les\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o por quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virg\u00ednia nutria grandes esperan\u00e7as em que esse velho parente, avaro como um sepulcro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se o marido tinha iguais pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao com\u00e9rcio dos homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e areia, levou-lhas a vida, que \u00e9 um enxurro perp\u00e9tuo. Se o leitor ainda se lembra do cap\u00edtulo XXIII, observar\u00e1 que \u00e9 agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas tamb\u00e9m h\u00e1 de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo &#8212; perp\u00e9tuo. E Deus sabe a for\u00e7a de um adjetivo, principalmente em pa\u00edses novos e c\u00e1lidos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 novo neste livro \u00e9 a geologia moral do Lobo Neves, provavelmente a do cavalheiro, que me est\u00e1 lendo. Sim, essas camadas de car\u00e1ter, que a vida altera, conserva ou dissolve, conforme a resist\u00eancia delas, essas camadas mereceriam um cap\u00edtulo, que eu n\u00e3o escrevo, por n\u00e3o alongar a narra\u00e7\u00e3o. Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jac\u00f3 Medeiros ou Jac\u00f3 Valadares, n\u00e3o me recorda bem o nome. Talvez fosse Jac\u00f3 Rodrigues; em suma, Jac\u00f3. Era a probidade em pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escr\u00fapulo, e n\u00e3o quis; deixou ir pelas m\u00e3os fora nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade t\u00e3o exemplar, que chegava a ser mi\u00fada e cansativa. Um dia. como nos ach\u00e1ssemos, a s\u00f3s, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um sujeito enfadonho. Jac\u00f3 mandou dizer que n\u00e3o estava em casa.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o pega, bradou uma voz do corredor; c\u00e1 estou de dentro.<\/p>\n<p>E, com efeito, era o Dr. B., que apareceu logo \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 foi receb\u00ea-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e n\u00e3o ; ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos. rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jac\u00f3 tirou o rel\u00f3gio; o Dr. B. perguntou-lhe ent\u00e3o se ia sair.<\/p>\n<p>&#8212; Com minha mulher, disse Jac\u00f3.<\/p>\n<p>Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jac\u00f3 que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se, a segunda, alegrando-se com a presen\u00e7a do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando que com a mulher. Jac\u00f3 refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha observa\u00e7\u00e3o, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompat\u00edvel com um estado social adiantado, e que a paz das cidades s\u00f3 se podia obter \u00e0 custa de emba\u00e7a delas rec\u00edprocas. .. Ah! lembra-me agora: chamava-se Jac\u00f3 Tavares.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXVIII \/ O ENFERMO<\/h3>\n<p>N\u00c3O \u00c9 PRECISO dizer que refutei t\u00e3o perniciosa doutrina, com os mais elementares argumentos; mas ele estava t\u00e3o vexado do meu reparo, que resistiu at\u00e9 o fim, mostrando certo calor fict\u00edcio, talvez para atordoar a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O caso de Virg\u00edlia tinha alguma gravidade mais. Ela era menos escrupulosa que o marido: manifestava claramente as esperan\u00e7as que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias, aten\u00e7\u00f5es e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo. Propriamente, adulava-o- mas eu observei que a adula\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o \u00e9 a mesma cousa que a dos homens. Esta or\u00e7a pela servilidade; a outra confunde-se com a afei\u00e7\u00e3o. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza f\u00edsica d\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto leg\u00edtimo. N\u00e3o importa a idade do adulado; a mulher h\u00e1 de ter sempre para ele uns ares de m\u00e3e ou de irm\u00e3,&#8211; ou ainda de enfermeira, outro of\u00edcio feminil, em que o mais h\u00e1bil dos homens carecer\u00e1 sempre de um quid, um fluido, alguma cousa.<\/p>\n<p>Era o que eu pensava comigo, quando Virg\u00edlia se desfazia toda em afagos ao velho parente. Ela ia recebe-lo \u00e0 porta, falando e rindo, tirava-lhe o chap\u00e9u e a bengala, dava-lhe o bra\u00e7o e levava-o a uma cadeira, ou \u00e0 cadeira, porque havia l\u00e1 em casa a &#8220;cadeira do Viegas&#8221;, obra especial, conchegada a feita para gente enferma ou anci\u00e3. Ia fechar a janela pr\u00f3xima, se havia alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe n\u00e3o desse um golpe de ar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o? Hoje est\u00e1 mais fortezinho. . .<\/p>\n<p>&#8211;Qual! Passei mal a noite; o diabo da asma n\u00e3o me deixa.<\/p>\n<p>E bufava o homem? repousando a pouco e pouco do cansa\u00e7o da entrada e da subida, n\u00e3o do caminho, porque ia sempre de sege Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virg\u00edlia, numa banquinha, com as m\u00e3os nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonh\u00f4 chegava \u00e0 sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, s\u00e9rio. Viegas gostava muito dele.<\/p>\n<p>&#8211;Vem c\u00e1, nhonh\u00f4s dizia-lhe; e a custo introduzia a m\u00e3o na ampla algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, metia uma na boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasm\u00e1ticas. O pequeno dizia que eram muito boas.<\/p>\n<p>Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virg\u00edlia cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a m\u00e3o frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a passear na ch\u00e1cara, dando-lhe ela o bra\u00e7o, que ele nem sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma l\u00e9gua. Iam, sentavam-se tornavam a ir, a falar de cousas v\u00e1rias, ora de um neg\u00f3cio de fam\u00edlia ora de uma bisbilhotice de sala, ora enfim de uma casa que ele meditava construir, para resid\u00eancia pr\u00f3pria, casa de feitio moderno, porque a dele era das antigas, contempor\u00e2nea de el-rei D. Jo\u00e3o VI, \u00e0 maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. Crist\u00f3v\u00e3o, com as suas grossas colunas na frente. Parecia-lhe que o casar\u00e3o em que morava podia ser substitu\u00eddo, e j\u00e1 tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! ent\u00e3o sim, ent\u00e3o \u00e9 que Virg\u00edlia chegaria a ver o que era um velho de gosto.<\/p>\n<p>Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalado de uma arfagem inc\u00f4moda para ele e para os outros. De quando em quando, vinha um acesso de tosse; curvo, gemendo, levava o len\u00e7o \u00e0 boca, e investigava-o; passado o acesso, tornava ao plano da casa, que devia ter tais e tais quartos, um terra\u00e7o, cachoeira, um primor.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO LXXXXIX \/ IN EXTREMIS<\/h3>\n<p>&#8211;AMANH\u00c3 VOU passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado! n\u00e3o tem ningu\u00e9m. . .<\/p>\n<p>Viegas ca\u00edra na cama, definitivamente; a filha, casada adoecera Justamente agora, e n\u00e3o podia fazer-lhe companhia. Virg\u00edlia ia l\u00e1 de quando em quando. Eu aproveitei a circunst\u00e2ncia para passar todo aquele dia ao p\u00e9 dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei. Viegas tossia com tal for\u00e7a que me fazia arder o peito; no intervalo dos acessos debatia o pre\u00e7o de uma casa, com um sujeito magro. O sujeito oferecia trinta contos. Viegas exigia quarenta. O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro mas Viegas n\u00e3o cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais dous, depois mais tr\u00eas, enfim teve um forte acesso, que lhe tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o multo, arranjou-lhe os travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis contos.<\/p>\n<p>&#8211;Nunca! gemeu o enfermo.<\/p>\n<p>Mandou buscar um ma\u00e7o de pap\u00e9is \u00e0 escrivaninha, n\u00e3o tendo for\u00e7as para tirar a fita de borracha que prendia os pap\u00e9is, pediu-me que os desla\u00e7asse: fi-lo. Eram as contas das despesas com a constru\u00e7\u00e3o da casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas das ferragens; custo do terreno. Ele abria-as, uma por uma, com a m\u00e3o tremula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.<\/p>\n<p>&#8211;Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a pe\u00e7a. Dobradi\u00e7as francesas. . . Veja, \u00e9 de gra\u00e7a, concluiu ele depois de lida a \u00faltima conta.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quarenta contos; n\u00e3o lhe dou por menos. S\u00f3 os juros&#8230; fa\u00e7a a conta dos juros&#8230;<\/p>\n<p>Vinham tossidas estas palavras, \u00e0s golfadas, \u00e0s s\u00edlabas, como se fossem migalhas de um pulm\u00e3o desfeito. Nas \u00f3rbitas fundas rolavam os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da madrugada. Sob o len\u00e7ol desenhava-se a estrutura \u00f3ssea do corpo, pontudo em dous lugares, nos joelhos e nos p\u00e9s; a pele amarelada, bamba rugosa, revestia apenas a caveira de um rosto sem express\u00e3o: uma carapu\u00e7a de algod\u00e3o branco cobria-lhe o cr\u00e2nio rapado pelo tempo<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o? disse o sujeito magro.<\/p>\n<p>Fiz-lhe sinal para que n\u00e3o insistisse, e ele calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o tecto, calado, a arfar muito; Virg\u00edlia empalideceu, levantou-se, foi at\u00e9 \u00e0 janela. Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro contou uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.<\/p>\n<p>&#8211;Trinta e oito contos, disse ele.<\/p>\n<p>&#8211;Ahn?&#8230; gemeu o enfermo.<\/p>\n<p>O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na m\u00e3o, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, se queria tomar um c\u00e1lice de vinho.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o&#8230; n\u00e3o&#8230; quar&#8230; quaren&#8230; quar&#8230; quar&#8230;<\/p>\n<p>Teve um acesso de tosse, e foi o \u00faltimo; da\u00ed a pouco expirava ele com grande consterna\u00e7\u00e3o do sujeito magro, que me confessou depois a disposi\u00e7\u00e3o em que estava de oferecer os quarenta contos; mas era tarde.<\/p>\n<h3>CAPITULO XC \/ O VELHO COL\u00d3QUI0 DE AD\u00c3O E CAIM<\/h3>\n<p>NADA. Nenhuma lembran\u00e7a testament\u00e1ria, uma pastilha que fosse I com que do todo em todo n\u00e3o parecesse ingrato ou esquecido. Nada, Virg\u00edlia travou raivosa esse malogro, e disse-mo com certa cautela n\u00e3o pela cousa em si, sen\u00e3o porque entendia com o filho, de quem sabia que eu n\u00e3o gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que n\u00e3o devia pensar mais em semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 me escapou a decifra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, esse doce mist\u00e9rio de algumas semanas antes, quando Virg\u00edlia me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva daquele tempo: Olhos do mundo, zelos do marido, morte do Viegas, nada me interessava por ent\u00e3o, nem conflitos pol\u00edticos, nem revolu\u00e7\u00f5es, nem terremotos, nem nada. Eu s\u00f3 pensava naquele embri\u00e3o an\u00f4nimo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: \u00e9 teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefin\u00edvel, e n\u00e3o sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.<\/p>\n<p>O melhor \u00e9 que convers\u00e1vamos os dous, o embri\u00e3o e eu, falamos de cousas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as m\u00e3ozinhas gordas, ou ent\u00e3o tra\u00e7ava a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel e fazia um discurso na C\u00e2mara dos Deputados. E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com os olhos rasos de l\u00e1grimas. De bacharel passava outra vez \u00e0 escola, pequenino, lousa e livros debaixo do bra\u00e7o, ou ent\u00e3o ca\u00eda no ber\u00e7o para tornar a erguer-se homem. Em v\u00e3o buscava fixar no esp\u00edrito uma idade, uma atitude: esse embri\u00e3o tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o intermin\u00e1vel nos limites de um quarto de hora, &#8212; baby e deputado, colegial e pintalegrete. \u00c0s vezes, ao p\u00e9 de Virg\u00edlia, esquecia-me dela e de tudo; Virg\u00edlia sacudia-me, reprochava-me o sil\u00eancio; dizia que eu j\u00e1 lhe n\u00e3o queria nada. A verdade \u00e9 que estava em di\u00e1logo com o embri\u00e3o; era o velho col\u00f3quio de Ad\u00e3o e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mist\u00e9rio e o mist\u00e9rio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCI \/ UMA CARTA EXTRAORDIN\u00c1RIA<\/h3>\n<p>POR ESSE TEMPO recebi uma carta extraordin\u00e1ria, acompanhada de um objeto n\u00e3o menos extraordin\u00e1rio. Eis o que a carta dizia:<\/p>\n<p>Meu caro Br\u00e1s Cubas,<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos, no Passeio P\u00fablico, tomei-lhe de empr\u00e9stimo um rel\u00f3gio. Tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de restituir-lho com esta carta. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 o mesmos por\u00e9m outro, n\u00e3o digo superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous monseigneur?&#8211; como dizia F\u00edgaro, &#8212; c&#8217;est la mis\u00e8re. Muitas cousas se deram depois do nosso encontro; irei cort\u00e1-las pelo mi\u00fado, se me n\u00e3o fechar a porta. Saiba que j\u00e1 n\u00e3o trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de S. Francisco; finalmente, almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Dito isto, pe\u00e7o licen\u00e7a para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que n\u00e3o s\u00f3 explica e descreve a origem e a consuma\u00e7\u00e3o das cousas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e S\u00eaneca, cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crian\u00e7as ao p\u00e9 da minha receita moral. E singularmente espantoso esse meu sistema; retifica o esp\u00edrito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa gl\u00f3ria o nosso pa\u00eds. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princ\u00edpio das cousas. Minha primeira id\u00e9ia revelava uma grande enfatua\u00e7\u00e3o; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denomina\u00e7\u00e3o vaidosa, al\u00e9m de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Ver\u00e1, meu caro Br\u00e1s Cubas, ver\u00e1 que \u00e9 deveras um monumento; e se alguma cousa h\u00e1 que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, \u00e9 o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha m\u00e3o essas duas esquivas; ap\u00f3s tantos s\u00e9culos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas m\u00e3os do homem. At\u00e9 breve, meu caro Br\u00e1s Cubas. Saudades do<\/p>\n<p>Velho amigo<\/p>\n<p>JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.<\/p>\n<p>Li esta carta sem entend\u00ea-la. Vinha com ela uma boceta contendo um bonito rel\u00f3gio com as minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembran\u00e7a do velho Quincas. Voltei \u00e0 carta, reli-a com pausa, com aten\u00e7\u00e3o. A restitui\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio exclu\u00eda toda a id\u00e9ia de burla; a lucidez, a serenidade, a convic\u00e7\u00e3o, um pouco jactanciosa, \u00e9 certo, &#8212; pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastan\u00e7a devolvera-lhe a primitiva dignidade. N\u00e3o digo tanto; h\u00e1 cousas que se n\u00e3o podem reaver integralmente; mas enfim a regenera\u00e7\u00e3o n\u00e3o era imposs\u00edvel. Guardei a carta e o rel\u00f3gio, e esperei a filosofia.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCII \/ UM HOMEM EXTRAORDIN\u00c1RIO<\/h3>\n<p>J\u00c1 AGORA ACABO com as cousas extraordin\u00e1rias. Vinha de guardar a carta e o rel\u00f3gio, quando me procurou um homem magro e me\u00e3o, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador era casado com uma irm\u00e3 do Cotrim, chegara poucos dias antes do Norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolu\u00e7\u00e3o de 1831. Foi ele mesmo que me disse isto, no espa\u00e7o de cinco minutos. Sa\u00edra de Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a revolu\u00e7\u00e3o estava outra vez \u00e0s portas. Neste ponto, conquanto trouxesse as id\u00e9ias pol\u00edticas um pouco baralhadas, consegui organizar e formular o governo de suas prefer\u00eancias: era um despotismo temperado, n\u00e3o por cantigas, como dizem alhures,&#8211;mas por penachos da guarda nacional. S\u00f3 n\u00e3o pude alcan\u00e7ar se ele queria o despotismo de um, de tr\u00eas. de trinta ou de trezentos. Opinava por v\u00e1rias cousas, entre outras, o desenvolvimento do tr\u00e1fico dos africanos e a expuls\u00e3o dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao Teatro de S. Pedro, onde viu um drama soberto, a Maria Joana, e uma com\u00e9dia muito interessante, Kettly, ou a Volta \u00e0 Su\u00ed\u00e7a. Tamb\u00e9m gostara muito da Deperini, na Safo, ou na Ana Bolena, n\u00e3o se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami&#8230; E dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz.&#8211;No Norte essas cousas chegavam como um eco. A filha morria por ouvir todas as \u00f3peras. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. J\u00e1 havia corrido a cidade toda, com umas saudades. . . Palavra! em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas n\u00e3o embarcaria mais. Enjoara muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um ingl\u00eas. . . Que os levasse o diabo os ingleses! Isto n\u00e3o ficava direito sem irem todos eles barra afora. Que \u00e9 que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expuls\u00e3o de tais godemes&#8230; Gra\u00e7as a Deus, tinha patriotismo, &#8212; e batia no peito,&#8211; o que n\u00e3o admirava porque era de fam\u00edlia, descendia de um antigo capit\u00e3o mor muito patriota. Sim, n\u00e3o era nenhum p\u00e9-rapado. Viesse a ocasi\u00e3o, e ele havia de mostrar de que pau era a canoa. . . Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu n\u00e3o faltaria ao jantar, e l\u00e1 me esperava para maior palestra. Levei-o at\u00e9 \u00e0 porta da sala; ele parou dizendo que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu pai, um homem \u00e0s direitas, com quem dan\u00e7ara num c\u00e9lebre baile da Praia Grande&#8230; Coisas! coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCIII \/ O JANTAR<\/h3>\n<p>QUE SUPL\u00cdCIO que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao p\u00e9 da filha do Damasceno, uma D. Eul\u00e1lia, ou mais familiarmente Nh\u00e3-lol\u00f3, mo\u00e7a graciosa, um tanto acanhada a princ\u00edpio, mas s\u00f3 a princ\u00edpio. Faltava-lhe eleg\u00e2ncia, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e s\u00f3 tinham o defeito de se n\u00e3o arrancarem de mim, exceto quando desciam ao prato; mas Nh\u00e3-lol\u00f3 comia t\u00e3o pouco, que quase n\u00e3o olhava para o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, &#8220;muito mimosa&#8221;. N\u00e3o obstante, esquivei-me. Sabina veio at\u00e9 \u00e0 porta, e perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.<\/p>\n<p>&#8212; Assim, assim.<\/p>\n<p>&#8211;Muito simp\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9? acudiu ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que cora\u00e7\u00e3o! \u00e9 uma p\u00e9rola. Bem boa noiva para voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o gosto de p\u00e9rolas.<\/p>\n<p>&#8211;Casmurro! Para quando \u00e9 que voc\u00ea se guarda? para quando estiver a cair de maduro, j\u00e1 sei. Pois, meu rico, quer voc\u00ea queira quer n\u00e3o, h\u00e1 de casar com Nh\u00e3-lol\u00f3.<\/p>\n<p>E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconcilia\u00e7\u00e3o? Fiquei um pouco desconsolado com a id\u00e9ia, mas uma voz misteriosa chamava-me \u00e0 casa do Lobo Neves; disse adeus a Sabina e \u00e0s suas amea\u00e7as.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCIV \/ A CAUSA SECRETA<\/h3>\n<p>&#8211;COMO EST\u00c1 a minha querida mam\u00e3e? A esta palavra, Virg\u00edlia amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no nosso filho amuou-se. N\u00e3o gostava de semelhante alus\u00e3o, aborreciam-lhe as minhas antecipadas car\u00edcias paternais. Eu, para quem ela era j\u00e1 uma pessoa sagrada, uma \u00e2mbula divina, deixava-a estar quieta. Supus a princ\u00edpio que o embri\u00e3o, esse perfil do inc\u00f3gnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restitu\u00edra a consci\u00eancia do mal. Enganava-me. Nunca Virg\u00edlia me parecera mais expansiva, mais sem reservas, menos preocupada dos outros e do marido. N\u00e3o eram remorsos. Imaginei tamb\u00e9m que a concep\u00e7\u00e3o seria um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa efic\u00e1cia, que talvez come\u00e7ava de oprimi-la. N\u00e3o era absurda esta hip\u00f3tese a minha doce Virg\u00edlia mentia \u00e0s vezes, com tanta gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe j\u00e1 imaginariamente os calafrios do pat\u00edbulo. Quanto ao vexame, complicava-se ainda da for\u00e7ada priva\u00e7\u00e3o de certos h\u00e1bitos da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lho a entender, repreendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pai. Virg\u00edlia fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incr\u00e9dulo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCV \/ FLORES DE ANTANHO<\/h3>\n<p>ONDE EST\u00c3O ELAS, as flores de antanho? Uma tarde, ap\u00f3s algumas semanas de gesta\u00e7\u00e3o, esborou-se todo o edif\u00edcio das minhas quimeras paternais. Foi-se o embri\u00e3o, naquele ponto em que se n\u00e3o distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a not\u00edcia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala e acompanhou o m\u00e9dico \u00e0 alcova da frustrada m\u00e3e. Eu encostei-me \u00e0 janela, a olhar para a ch\u00e1cara onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam elas as flores de antanho?<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCVI \/ A CARTA AN\u00d4NIMA<\/h3>\n<p>SENTI TOCAR-ME no ombro; era Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsol\u00e1veis. Indaguei de Virg\u00edlia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a m\u00e3o tr\u00eamula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mm; mas n\u00e3o me lembra bem. O que me lembra claramente \u00e9 que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim, Virg\u00edlia contou-me tudo, da\u00ed a dias na Gamboa.<\/p>\n<p>O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era an\u00f4nima e denunciava-nos. N\u00e3o dizia tudo; n\u00e3o falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precav\u00ea-lo contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era p\u00fablica. Virg\u00edlia leu a carta e disse com indigna\u00e7\u00e3o que era uma cal\u00fania infame.<\/p>\n<p>&#8212; Cal\u00fania? perguntou Lobo Neves.<\/p>\n<p>&#8211;Infame.<\/p>\n<p>O marido respirou; mas, tornando \u00e0 carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava contra a indigna\u00e7\u00e3o da mulher. Esse homem, ali\u00e1s intr\u00e9pido, era agora a mais fr\u00e1gil das criaturas. Talvez a imagina\u00e7\u00e3o lhe mostrou! ao longe, o famoso olho da opini\u00e3o, a fit\u00e1-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invis\u00edvel lhe repetiu ao ouvido chufas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virg\u00edlia compreendeu que estava salva mostrou-se irritada com a insist\u00eancia, jurou que da minha parte s\u00f3 ouvira palavras de gracejo e cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem-ventura. E citou alguns, &#8212; um que a galanteara francamente, durante tr\u00eas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circunst\u00e2ncias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para n\u00e3o dar margem \u00e0 cal\u00fania, tratar-me-ia de maneira que eu n\u00e3o voltaria l\u00e1.<\/p>\n<p>Ouvi tudo isto um pouco turbado, n\u00e3o pelo acr\u00e9scimo de dissimula\u00e7\u00e3o que era preciso empregar de ora em diante, at\u00e9 afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranq\u00fcilidade moral de Virg\u00edlia, pela falta de como\u00e7\u00e3o, de susto, de saudades, e at\u00e9 de remorsos. Virg\u00edlia notou a minha preocupa\u00e7\u00e3o, levantou-me a cabe\u00e7a, porque eu olhava ent\u00e3o para o soalho, e disse-me com certa amargura:<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea n\u00e3o merece os sacrif\u00edcios que lhe fa\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria \u00e0 nossa situa\u00e7\u00e3o o sabor c\u00e1ustico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que ela chegasse lenta e artificiosamente at\u00e9 esse pouco de desespero e terror. N\u00e3o lhe disse nada. Ela batia, nervosamente com a ponta do p\u00e9 no ch\u00e3o; aproximei-me e beijei-a na testa. Virg\u00edlia recuou, como se fosse um beijo de defunto.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCVII \/ ENTRE A BOCA E A TESTA<\/h3>\n<p>SINTO QUE o LEITOR estremeceu, &#8212; ou devia estremecer. Naturalmente a \u00faltima palavra sugeriu-lhe tr\u00eas ou quatro reflex\u00f5es. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam h\u00e1 muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cad\u00e1ver. H\u00e1 a\u00ed, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, h\u00e1 a\u00ed largo espa\u00e7o para muita cousa a contra\u00e7\u00e3o de um ressentimento,&#8211; a ruga da desconfian\u00e7a,&#8212; ou enfim o nariz p\u00e1lido e sonolento da saciedade&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO XCVIII \/ SUPRIMIDO<\/h3>\n<p>SEPARAMO-NOS alegremente. Jantei reconciliado com a situa\u00e7\u00e3o. A carta an\u00f4nima restitu\u00eda \u00e0 nossa aventura o sal do mist\u00e9rio e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virg\u00edlia n\u00e3o perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao Teatro de S. Pedro; representava-se uma grande pe\u00e7a, em que a Estela arrancava l\u00e1grimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles Damasceno e a fam\u00edlia. Trajava a filha com outra eleg\u00e2ncia e certo apuro, cousa dif\u00edcil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necess\u00e1rio para endividar-se; e da\u00ed, talvez fosse por isso mesmo.<\/p>\n<p>No intervalo fui visit\u00e1-los. Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nh\u00e3-lol\u00f3, n\u00e3o tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade et\u00e9rea casada ao polido das formas terrenas: express\u00e3o vaga, e condigna de um cap\u00edtulo em que tudo h\u00e1 de ser vago. Realmente, n\u00e3o sei como lhes diga que n\u00e3o me senti mal, ao p\u00e9 da mo\u00e7a, trajando garridamente um vestido fino, um vestido que me dava c\u00f3cegas de Tartufo. Ao contempl\u00e1-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao desenvolvimento da nossa esp\u00e9cie. A nudez habitua, dada a multiplica\u00e7\u00e3o das obras e dos cuidados do indiv\u00edduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestu\u00e1rio, negaceando a natureza, agu\u00e7a e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civiliza\u00e7\u00e3o. Aben\u00e7oado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatl\u00e2nticos!<\/p>\n<p>Estou com vontade de suprimir este cap\u00edtulo. O declive \u00e9 perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas mem\u00f3rias e n\u00e3o as tuas, leitor pacato. Ao p\u00e9 da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensa\u00e7\u00e3o dupla e indefin\u00edvel. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l&#8217;ange et la b\u00eate, com a diferen\u00e7a que o jansenista n\u00e3o admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas a\u00ed estavam bem juntinhas, &#8212; l&#8217;ange, que dizia algumas cousas do c\u00e9u,&#8211;e la b\u00eate, que&#8230; N\u00e3o; decididamente suprimo este cap\u00edtulo.<\/p>\n<h3>CAPITULO XCIX \/ NA PLAT\u00c9IA<\/h3>\n<p>NA PLAT\u00c9IA achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos, falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos corredores, em que n\u00e3o havia ningu\u00e9m. Ele veio a mim, com muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos \u00f3culos do teatro, e falamos muito, principalmente ele, que parecia o mais tranq\u00fcilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversa\u00e7\u00e3o para assuntos gerais, expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferen\u00e7a eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as palmas do p\u00fablico. Reclinado na cadeira, apanhava de mem\u00f3ria os retalhos da conversa\u00e7\u00e3o do Lobo Neves, refazia as maneiras dele e conclu\u00eda que era muito melhor a nova situa\u00e7\u00e3o. Bastava-nos a Gamboa. A freq\u00fc\u00eancia da outra casa agu\u00e7aria as invejas. Rigorosamente pod\u00edamos dispensar-nos de falar todos os dias; at\u00e9 era melhor metia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e n\u00e3o era nada, nem simples eleitor de par\u00f3quia. Urgia fazer alguma cousa, ainda por amor de Virg\u00edlia, que havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome. . . Creio que nessa ocasi\u00e3o houve grandes aplausos, mas n\u00e3o juro; eu pensava em outra cousa.<\/p>\n<p>Multid\u00e3o cujo amor cobicei at\u00e9 \u00e0 morte, era assim que eu me vingava \u00e0s vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade, da tua indiferen\u00e7a, ou da tua agita\u00e7\u00e3o? Fr\u00e1geis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar cousa \u00e9 ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, \u00e9 insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paix\u00f5es, decretar-se alheado, inacess\u00edveI, ausente. O mais que podem dizer quando ele torna a si,&#8211;isto \u00e9, quando torna aos outros, \u00e9 que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desv\u00e3o luminoso e recatado do c\u00e9rebro, que outra cousa \u00e9 sen\u00e3o a afirma\u00e7\u00e3o desdenhosa da nossa liberdade espiritua1? Vive Deus! Eis um bom fecho de cap\u00edtulo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO C \/ O CASO PROV\u00c1VEL<\/h3>\n<p>SE ESSE MUNDO n\u00e3o fosse uma regi\u00e3o de esp\u00edritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu s\u00f3 afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em rela\u00e7\u00e3o a outras restrinjo-me \u00e0 admiss\u00e3o da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente cap\u00edtulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fen\u00f4menos sociais. Segundo parece, e n\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel, existe entre os fatos da vida p\u00fablica e os da vida particular uma certa a\u00e7\u00e3o reciproca, regular, e talvez peri\u00f3dica, &#8212; ou para usar de uma imagem, h\u00e1 alguma cousa semelhante \u00e0s mar\u00e9s da Praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma \u00e1gua torna ao mar, com vari\u00e1vel for\u00e7a, e vai engrossar a onda que h\u00e1 de vir, e que ter\u00e1 de tornar como a primeira. Esta \u00e9 a imagem; vejamos a aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixei dito noutra p\u00e1gina que o Lobo Neves, nomeado presidente de prov\u00edncia, recusou a nomea\u00e7\u00e3o por motivo da data do decreto que era 13; ato grave, cuja conseq\u00fc\u00eancia foi separar do minist\u00e9rio o marido de Virg\u00edlia. Assim, o fato particular da ojeriza de um n\u00famero produziu o fen\u00f4meno da dissid\u00eancia pol\u00edtica. Resta ver como, tempos depois, um ato pol\u00edtico determinou na vida particular uma cessa\u00e7\u00e3o de movimento. N\u00e3o convindo ao m\u00e9todo deste livro descrever imediatamente esse outro fen\u00f4meno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro reconciliou-se confuso minist\u00e9rio; fato que o leitor n\u00e3o deve perder de vista, se quiser penetrar a subtileza do meu pensamento.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CI \/ A REVOLU\u00c7AO D\u00c1LMATA<\/h3>\n<p>FOI VIRG\u00cdLLA quem me deu not\u00edcia da viravolta pol\u00edtica do marido, certa manh\u00e3 de outubro, entre onze e meio-dia; falou-me de reuni\u00f5es, de conversas, de um discurso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; De maneira, que desta vez fica voc\u00ea baronesa, interrompi eu. Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabe\u00e7a a um e outro lado; mas esse gesto de indiferen\u00e7a era desmentido por alguma cousa menos defin\u00edvel, menos clara, uma express\u00e3o de gosto e de esperan\u00e7a. N\u00e3o sei porque, imaginei que a carta imperial da nomea\u00e7\u00e3o podia atra\u00ed-la \u00e0 virtude, n\u00e3o digo pela virtude em si mesma, mas por gratid\u00e3o ao marido. Que ela amava cordialmente a nobreza. Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de lega\u00e7\u00e3o,&#8211;da lega\u00e7\u00e3o da Dalm\u00e1cia, suponhamos, &#8211;, o conde B. V., que a namorou durante tr\u00eas meses. Esse homem, vero fidalgo de ra\u00e7a, transtornara um pouco a cabe\u00e7a de Virg\u00edlia, que, al\u00e9m do mais, possu\u00eda a voca\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. N\u00e3o chego a alcan\u00e7ar o que seria de mim, se n\u00e3o rebentasse na Dalm\u00e1cia uma revolu\u00e7\u00e3o, que derrocou o governo e purificou as embaixadas. Foi sangrenta a revolu\u00e7\u00e3o, dolorosa, formid\u00e1vel; os jornais, a cada navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabe\u00e7as; toda a gente fremia de indigna\u00e7\u00e3o e piedade. . . Eu n\u00e3o, eu aben\u00e7oava interiormente essa trag\u00e9dia, que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalm\u00e1cia era t\u00e3o longe!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CII \/ DE REPOUSO<\/h3>\n<p>MAS ESTE MESMO homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou da\u00ed a tempos&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o hei de cont\u00e1-lo nesta p\u00e1gina; fique esse cap\u00edtulo para repouso do meu vexame: Uma a\u00e7\u00e3o grosseira, baixa, sem explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. . . Repito, n\u00e3o contarei o caso nesta p\u00e1gina.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CIII \/ DISTRA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>N\u00c3O, SENHOR DOUTOR, isto n\u00e3o se faz. Perdoe-me, isto n\u00e3o se faz.<\/p>\n<p>Tinha raz\u00e3o D. Pl\u00e1cida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virg\u00edlia tinha ido embora. D. Pl\u00e1cida contou-me que ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras mais cousas que a nossa caseira dizia com l\u00e1grimas na voz, pedindo-me que n\u00e3o desamparasse Iai\u00e1, que era ser muito injusto com uma mo\u00e7a que me sacrificara tudo. Expliquei-lhe ent\u00e3o que um equ\u00edvoco&#8230; E n\u00e3o era, cuido que foi simples distra\u00e7\u00e3o. Um dito, uma conversa, uma anedota, qualquer cousa; simples distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coitada de D. Pl\u00e1cida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a cabe\u00e7a, suspirando com estr\u00e9pito, espiando pela r\u00f3tula. Coitada de D. Pl\u00e1cida! Com que arte conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que imagina\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil em tornar as horas mais apraz\u00edveis e breves! Flores, doces, &#8212; os bons doces de outros dias, &#8212; e muito riso, muito afago, riso e afago que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e saudades que n\u00e3o presenciara; nada, nem a cal\u00fania, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paix\u00e3o nova.&#8211;Voc\u00ea sabe que n\u00e3o posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta, quando Virg\u00edlia me falou em semelhante cousa. sem nenhum protesto ou admoesta\u00e7\u00e3o, dissipou o aleive de d. Pl\u00e1cida, que ficou triste.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 bem, disse-lhe eu depois de um quarto de hora; Virg\u00edlia h\u00e1 de reconhecer que n\u00e3o tive culpa nenhuma. . . Quer voc\u00ea levar-lhe uma carta agora mesmo?<\/p>\n<p>&#8212; Ela h\u00e1 de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu n\u00e3o desejo a morte de ningu\u00e9m; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Iai\u00e1, ent\u00e3o sim, \u00e9 que h\u00e1 de ver o anjo que ela \u00e9!<\/p>\n<p>Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao ch\u00e3o. Recomendo este gesto \u00e0s pessoas que n\u00e3o tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda \u00e0s que recearem encarar a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lus\u00edadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; \u00e9 mais simples, exige menos esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virg\u00edlia ficou um pouco admirada, quando lhe pedi desculpas das l\u00e1grimas que derramara naquela triste ocasi\u00e3o. Nem me lembra se interiormente as atribu\u00ed a D. Pl\u00e1cida. Com efeito, podia acontecer que D. Pl\u00e1cida chorasse, ao v\u00ea-la desapontada, e, por um fen\u00f4meno da vis\u00e3o, as l\u00e1grimas que tinha nos pr\u00f3prios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virg\u00edlia. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas n\u00e3o perdoado, e menos ainda esquecido. Virg\u00edlia dizia-me uma por\u00e7\u00e3o de cousas duras, amea\u00e7ava-me com a separa\u00e7\u00e3o, enfim louvava o marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afei\u00e7\u00e3o; \u00e9 o que ela dizia, enquanto eu, sentado, com os bra\u00e7os fincados nos joelhos, olhava para o ch\u00e3o, onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o p\u00e9. Pobre mosca! pobre formiga!<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea n\u00e3o diz nada, nada? perguntou Virg\u00edlia, parando diante de mim.<\/p>\n<p>Que hei de dizer? J\u00e1 expliquei tudo; voc\u00ea teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe que me parece? Parece-me que voc\u00ea est\u00e1 enfastiada, que se aborrece, que quer acabar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Justamente!<\/p>\n<p>Foi dali p\u00f4r o chap\u00e9u, com a m\u00e3o tr\u00eamula, raivosa. . . &#8212; Adeus, D. Pl\u00e1cida; bradou ela para dentro. Depois foi at\u00e9 \u00e0 porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. &#8212; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, disse-lhe. Virg\u00edlia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canap\u00e9. Sentei-me ao p\u00e9 dela, disse-lhe muitas cousas meigas, outras humildes, outras graciosas. N\u00e3o afirmo se os nossos l\u00e1bios chegaram \u00e0 distancia de um fio de cambraia ou ainda menos; \u00e9 mat\u00e9ria controversa. Lembra-me, sim, que na agita\u00e7\u00e3o caiu um brinco de Virg\u00edlia, que eu inclinei-me a apanh\u00e1-lo, e que a mosca de h\u00e1 pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no p\u00e9. Ent\u00e3o eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso s\u00e9culo, pus na palma da m\u00e3o aquele casal de mortificados; calculei toda a dist\u00e2ncia que ia da minha m\u00e3o ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num epis\u00f3dio t\u00e3o mofino. Se concluis da\u00ed que eu era um b\u00e1rbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virg\u00edlia, a fim de separar os dous insetos; mas a mosca farejou a minha inten\u00e7\u00e3o, abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CIV \/ ERA ELE<\/h3>\n<p>RESTITU\u00cd o grampo a Virg\u00edlia, que o repregou nos cabelos, e preparou-se para sair. Era tarde; tinham dado tr\u00eas horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Pl\u00e1cida, que espreitava a ocasi\u00e3o id\u00f4nea para a sa\u00edda, fecha subitamente a janela e exclama:<\/p>\n<p>&#8211;Virgem Nossa Senhora! a\u00ed vem o marido de Iai\u00e1!<\/p>\n<p>O momento de terror foi curto, mas completo. Virg\u00edlia fez-se da cor das rendas do vestido, correu at\u00e9 a porta da alcova; D. Pl\u00e1cida, que fechara a r\u00f3tula, queria fechar tamb\u00e9m a porta de dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virg\u00edlia tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Pl\u00e1cida que voltasse \u00e0 janela; a confidente obedeceu.<\/p>\n<p>Era ele. D. Pl\u00e1cida abriu-lhe a porta com muitas exclama\u00e7\u00f5es de pasmo: O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre, fa\u00e7a favor. Adivinhe quem est\u00e1 c\u00e1. . . N\u00e3o tem que adivinhar, n\u00e3o veio por outra cousa&#8230;. Apare\u00e7a, Iai\u00e1.<\/p>\n<p>Virg\u00edlia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, p\u00e1lido, frio, quieto, sem explos\u00e3o, sem arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>Que \u00e9 isto? Exclamou Virg\u00edlia. Voc\u00ea por aqui?<\/p>\n<p>Ia passando, vi D. Pl\u00e1cida \u00e0 janela, e vim cumpriment\u00e1-la.<\/p>\n<p>Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas n\u00e3o valem alguma cousa&#8230; Olhai, gentes! Iai\u00e1 parece estar com ci\u00fames. E acariciando-a muito: &#8212; Este anjinho \u00e9 que nunca se esqueceu da velha Pl\u00e1cida. Coitadinha! \u00c9 mesmo a cara da m\u00e3e&#8230; Sente-se, senhor doutor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me demoro.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai para casa? Disse Virg\u00edlia. Vamos juntos.<\/p>\n<p>Vou.<\/p>\n<p>D\u00ea c\u00e1 o meu chap\u00e9u, D. Pl\u00e1cida.<\/p>\n<p>Est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>D. Pl\u00e1cida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela. Virg\u00edlia punha o chap\u00e9u, atava as fitas, arranjava os cabelos, falando ao marido, que n\u00e3o respondia nada. A nossa boa velha tagarelava demais, era um modo de disfar\u00e7ar as tremuras do corpo. Virg\u00edlia, dominado o primeiro instante, tornara \u00e0 posse de si mesma.<\/p>\n<p>Pronta! Disse ela. Adeus, D. Pl\u00e1cida; n\u00e3o se esque\u00e7a de aparecer, ouviu? A outra prometeu que sim, e abriu-lhe a porta.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CV \/ EQUIVAL\u00caNCIA DAS JANELAS<\/h3>\n<p>D. PL\u00c1CIDA fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei dous passos para sair \u00e0 rua, com o fim de arrancar Virg\u00edlia ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse, porque D. Pl\u00e1cida deteve-me por um bra\u00e7o. Tempo houve em que cheguei a supor que n\u00e3o dissera aquilo sen\u00e3o para que ela me detivesse; mas a simples reflex\u00e3o basta para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genu\u00edno e cordial n\u00e3o podia ser sen\u00e3o esse. E isto por aquela famosa lei da equival\u00eancia das janelas, que eu tive a satisfa\u00e7\u00e3o de descobrir e formular, no cap\u00edtulo LI. Era preciso arejar a consci\u00eancia. A alcova foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CVI \/ JOGO PERIGOSO<\/h3>\n<p>RESPIREI e sentei-me. D. Pl\u00e1cida atroava a sala com exclama\u00e7\u00f5es e l\u00e1stimas. Eu ouvia, sem lhe dizer cousa nenhuma; refletia comigo se n\u00e3o era melhor Ter fechado Virg\u00edlia na alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita, chegaria o fogo \u00e0 p\u00f3lvora, e uma cena de sangue&#8230; Foi muito melhor assim. Mas depois? Que ia acontecer em casa de Virg\u00edlia? Mat\u00e1-la-ia o marido? Espanc\u00e1-la-ia? Encerr\u00e1-la-ia? Expuls\u00e1-la-ia? Estas interroga\u00e7\u00f5es percorriam lentamente o meu c\u00e9rebro, como os pontinhos e v\u00edrgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e vinham, com o seu aspecto seco e tr\u00e1gico, e eu n\u00e3o podia agarrar um deles e dizer: \u00e9s tu, tu e n\u00e3o outro.<\/p>\n<p>De repente vejo um vulto negro; era D. Pl\u00e1cida, que fora dentro, enfiara a mantinha, e vinha oferecer-se-me para ir \u00e0 casa de Lobo Neves. Ponderei que era arriscado, porque ele desconfiaria da visita t\u00e3o pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as cousas. Se ele estiver em casa n\u00e3o entro.<\/p>\n<p>&#8212; Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseq\u00fc\u00eancias poss\u00edveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se n\u00e3o era tempo de levantar e espairecer. Sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que n\u00e3o? Meu cora\u00e7\u00e3o tinha ainda que explorar; n\u00e3o me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras s\u00e3o a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto \u00e9, a exce\u00e7\u00e3o; eu estava enfarado delas; n\u00e3o sei at\u00e9 se me pungia alfum remorso. Mal pensei naquilo, deixei-me ir atr\u00e1s da imagina\u00e7\u00e3o; vi-me logo casado, ao p\u00e9 de uma mulher ador\u00e1vel, diante de um baby, que dormia no rega\u00e7o da ama, todos n\u00f3s no fundo de uma ch\u00e1cara sombria e verde, a espiarmos atrav\u00e9s da ch\u00e1cara uma nesga do c\u00e9u azul, extremamente azul&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CVII \/ BILHETE<\/h3>\n<p>N\u00c3O HOUVE NADA, mas ele suspeita alguma cousa; est\u00e1 muito s\u00e9rio e n\u00e3o fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonh\u00f4, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. N\u00e3o me tratou mal nem bem. N\u00e3o sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CVIII \/ QUE SE N\u00c3O ENTENDE<\/h3>\n<p>EIS A\u00cd O DRAMA, eis a\u00ed a ponta da orelha tr\u00e1gica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das m\u00e3os, era um documento de an\u00e1lise, que eu n\u00e3o farei neste cap\u00edtulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspic\u00e1cia e o \u00e2nimo dessas poucas linhas tra\u00e7adas \u00e0 pressa; e por tr\u00e1s delas a tempestade de outro c\u00e9rebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange o medita, porque tem de resolver-se na lama ou no sangue, ou nas l\u00e1grimas?<\/p>\n<p>Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete tr\u00eas ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que \u00e9 verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almo\u00e7o, podeis cr\u00ea-lo, \u00e9 a realidade pura. Mas se vos disser a como\u00e7\u00e3o que tive, duvidai um pouco da asser\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a aceiteis sem provas. Nem ent\u00e3o, nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e n\u00e3o era medo; era d\u00f3 e n\u00e3o era d\u00f3; era vaidade e n\u00e3o era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto \u00e9, sem del\u00edrio; e tudo isso dava uma combina\u00e7\u00e3o assaz complexa e vaga, uma cousa que N\u00e3o podereis entender, como eu n\u00e3o entendi. Suponhamos que n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CIX \/ O FIL\u00d3SOFO<\/h3>\n<p>SABIDO QUE RELI a carta, antes e depois do almo\u00e7o, sabido fica que almocei, e s\u00f3 resta dizer que essa refei\u00e7\u00e3o foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de p\u00e3o, uma x\u00edcara de ch\u00e1. N\u00e3o me esqueceu esta circunst\u00e2ncia m\u00ednima; no meio de tanta cousa importante obliterada escapou esse almo\u00e7o. A raz\u00e3o principal poderia se justamente o meu desastre; mas n\u00e3o foi; a principal raz\u00e3o foi a reflex\u00e3o que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquele dia. Disse-me ele que a frugalidade n\u00e3o era necess\u00e1ria para entender o Humanitismo, e menos ainda pratic\u00e1-lo; que esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espet\u00e1culo e os amores; e que, ao contr\u00e1rio, a frugalidade podia indicar certa tend\u00eancia para o ascetismo, o que era a express\u00e3o acabada de tolice humana.<\/p>\n<p>&#8211;Veja S. Jo\u00e3o, continuou ele; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranq\u00fcilamente na cidade, e fazer emagrecer o farisa\u00edsmo na sinagoga.<\/p>\n<p>Deus me livre de contar a hist\u00f3ria do Quincas Borba, que ali\u00e1s ouvi toda naquela triste ocasi\u00e3o, uma hist\u00f3ria longa, complicada mas interessante. E se n\u00e3o conto a hist\u00f3ria, dispenso-me outrossim de descrever-lhe a figura, ali\u00e1s mui diversa da que me apareceu no Passeio P\u00fablico. Calo-me; digo somente que se a principal caracter\u00edstica do homem n\u00e3o s\u00e3o as fei\u00e7\u00f5es, mas os vestu\u00e1rios, ele n\u00e3o era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um general sem farda, um negociante sem deficit. Notei-lhe a perfei\u00e7\u00e3o da sobrecasaca, a alvura da camisa, o asseio das botas. A mesma voz, roufenha outrora, parecia restitu\u00edda \u00e0 primitiva sonoridade. Quanto \u00e0 gesticula\u00e7\u00e3o, sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo, n\u00e3o tinha j\u00e1 a desordem, sujeitava-se a um certo m\u00e9todo. Mas eu n\u00e3o quero descrev\u00ea-lo Se falasse, por exemplo, no bot\u00e3o de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria uma descri\u00e7\u00e3o, que omito por brevidade. Contentem-se de saber que as botas eram de verniz. Saibam mais que ele herdara alguns pares de contos de r\u00e9is de um velho tio de Barbacena.<\/p>\n<p>Meu esp\u00edrito, (permitam-me aqui uma compara\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a!) meu esp\u00edrito era naquela ocasi\u00e3o uma esp\u00e9cie de peteca. A narra\u00e7\u00e3o do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, ele subia- quando ia a cair, o bilhete de Virg\u00edlia dava-lhe outra palmada, e ele era de novo arremessado aos ares, descia, e o epis\u00f3dio do Passeio P\u00fablico recebia-o com outra palmada, igualmente rija e eficaz. Cuido que n\u00e3o nasci para situa\u00e7\u00f5es complexas. Esse puxar e empuxar de cousas opostas desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba e Lobo Neves e o bilhete de Virg\u00edlia na mesma filosofia, e mand\u00e1-los de presente a Arist\u00f3teles. Contudo, era instrutiva a narra\u00e7\u00e3o do nosso fil\u00f3sofo; admirava-lhe sobretudo o talento de observa\u00e7\u00e3o com que descrevia a gesta\u00e7\u00e3o e o crescimento do v\u00edcio, as lutas interiores, as capitula\u00e7\u00f5es vagarosas, o uso da lama.<\/p>\n<p>&#8211;Olhe, observou ele; a primeira noite que passei, na escada de S. Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Por qu\u00ea? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau do quarto pr\u00f3prio ao corpo da guarda do corpo da guarda \u00e0 rua&#8230;<\/p>\n<p>Quis expor-me finalmente a filosofia; pedi-lhe que n\u00e3o.&#8211; Estou muito preocupado hoje e n\u00e3o poderia atend\u00ea-lo; venha depois; estou sempre em casa. Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas n\u00e3o acrescentou nada. S\u00f3 me disse estas \u00faltimas palavras \u00e0 porta:<\/p>\n<p>&#8211;Venha para o Humanitismo; ele \u00e9 o grande rega\u00e7o dos esp\u00edritos, o mar eterno em que mergulhei para arrancar de l\u00e1 a verdade. Os gregos faziam-na sair de um po\u00e7o. Que concep\u00e7\u00e3o mesquinha! Um po\u00e7o! Mas \u00e9 por isso mesmo que nunca atinaram com ela. Gregos, subgregos, antigregos, toda a longa s\u00e9rie dos homens tem-se debru\u00e7ado sobre o po\u00e7o, para ver sair a verdade, que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Gastaram cordas e ca\u00e7ambas; alguns mais afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha para o Humanitismo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CX \/ 31<\/h3>\n<p>UMA SEMANA depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de prov\u00edncia. Agarrei-me \u00e0 esperan\u00e7a da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, por\u00e9m, a data de 31, e esta simples transposi\u00e7\u00e3o de algarismos eliminou deles a subst\u00e2ncia diab\u00f3lica. Que profundas que s\u00e3o as molas da vida!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXI \/ O MURO<\/h3>\n<p>N\u00c3O SENDO meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta p\u00e1gina o caso do muro. Eles estavam prestes a embarcar. Entrando em casa de D. Pl\u00e1cida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virg\u00edlia; dizia que me esperava \u00e0 noite, na ch\u00e1cara, sem falta. E conclu\u00eda: &#8220;O muro \u00e9 baixo do lado do beco&#8221;.<\/p>\n<p>Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal pensada e at\u00e9 rid\u00edcula. N\u00e3o era s\u00f3 convidar o esc\u00e2ndalo, era convid\u00e1-lo de parceria com a risota. Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia a galg\u00e1-lo, via-me agarrado por um pedestre de pol\u00edcia, que me levava ao corpo da guarda. O muro \u00e9 baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virg\u00edlia n\u00e3o soube o que fez; era poss\u00edvel que j\u00e1 estivesse arrependida. Olhei para o papel, um peda\u00e7o de papel amarrotado, mas inflex\u00edvel. Tive comich\u00f5es de o rasgar, em trinta mil peda\u00e7os, e atir\u00e1-los ao vento, como o \u00faltimo despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-pr\u00f3prio, o vexame da fuga, a id\u00e9ia do medo&#8230; N\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o ir.<\/p>\n<p>&#8211;Diga-lhe que vou.<\/p>\n<p>&#8211;Aonde? perguntou D. Pl\u00e1cida.<\/p>\n<p>&#8211;Onde ela disse que me espera.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me disse nada.<\/p>\n<p>&#8211;Neste papel.<\/p>\n<p>D. Pl\u00e1cida arregalou os olhos:&#8211;Mas esse papel, achei-o hoje de manh\u00e3, nesta sua gaveta, e pensei que&#8230;<\/p>\n<p>Tive uma sensa\u00e7\u00e3o esquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, em verdade, um antigo bilhete de Virg\u00edlia, recebido no come\u00e7o dos nossos amores, uma certa entrevista na ch\u00e1cara, que me levou efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e&#8230; Tive uma sensa\u00e7\u00e3o esquisita.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXII \/ A OPINI\u00c3O<\/h3>\n<p>MAS ESTAVA ESCRITO que esse dia devia ser o dos lances d\u00fabios. Poucas horas depois, encontrei Lobo Neves, na Rua do Ouvidor, falamos da presid\u00eancia e da pol\u00edtica. Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos passou \u00e0 ilharga, e deixou-me, depois de muitos cumprimentos. Lembra-me que estava retra\u00eddo, mas de um retraimento que forcejava por dissimular. Pareceu-me ent\u00e3o (e pe\u00e7o perd\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica, se este meu ju\u00edzo for temer\u00e1rio!) pareceu-me que ele tinha medo&#8211;n\u00e3o medo de mim, nem de si, nem do c\u00f3digo, nem da consci\u00eancia; tinha medo da opini\u00e3o. Supus que esse tribunal an\u00f4nimo e invis\u00edvel, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto \u00e0 vontade do Lobo Neves. Talvez j\u00e1 n\u00e3o amasse a mulher e, assim, pode ser que o cora\u00e7\u00e3o fosse estranho \u00e0 indulg\u00eancia dos seus \u00faltimos atos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da cr\u00edtica!) cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher, como o leitor se ter\u00e1 separado de muitas rela\u00e7\u00f5es pessoais; mas a opini\u00e3o, essa opini\u00e3o que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inqu\u00e9rito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunst\u00e2ncias, anteced\u00eancias, indu\u00e7\u00f5es, provas, que as relataria na palestra das ch\u00e1caras desocupadas, essa terr\u00edvel opini\u00e3o, t\u00e3o curiosa das alcovas, obstou \u00e0 dispers\u00e3o da fam\u00edlia. Ao mesmo tempo tornou imposs\u00edvel o desfor\u00e7o, que seria a divulga\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separa\u00e7\u00e3o conjugal; teve ent\u00e3o de simular a mesma ignor\u00e2ncia de outrora, e, por dedu\u00e7\u00e3o, iguais sentimentos.<\/p>\n<p>Que lhe custasse creio; naqueles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e \u00e9 outro ponto em que eu espero a indulg\u00eancia dos homens pensadores!), o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a mem\u00f3ria das cousas; era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos, que a dist\u00e2ncia dos fatos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de d\u00favida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; enfim, que a opini\u00e3o se ocupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambi\u00e7\u00f5es do pai, seria o herdeiro de todos os seus afetos. Isso, e a atividade externa, e o prest\u00edgio p\u00fablico, e a velhice depois, a doen\u00e7a, o decl\u00ednio, a morte, um responso, uma not\u00edcia biogr\u00e1fica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma p\u00e1gina de sangue.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXIII \/ A SOLDA<\/h3>\n<p>A CONCLUS\u00c3O, se h\u00e1 alguma no cap\u00edtulo anterior, \u00e9 que a opini\u00e3o \u00e9 uma boa solda das institui\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que o deixe como est\u00e1. De um ou de outro modo \u00e9 uma boa solda a opini\u00e3o, e tanto na ordem dom\u00e9stica, como na pol\u00edtica. Alguns metaf\u00edsicos biliosos t\u00eam chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente chocha ou med\u00edocre; mas \u00e9 evidente que, ainda quando um conceito t\u00e3o extremado n\u00e3o trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos salutares da opini\u00e3o, para concluir que ela \u00e9 a obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior n\u00famero.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXIV \/ FIM DE UM DI\u00c1LOGO<\/h3>\n<p>&#8211;SIM, \u00c9 AMANH\u00c3. Voc\u00ea vai a bordo?<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 douda? \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, adeus!<\/p>\n<p>&#8211;Adeus!<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o se esque\u00e7a de D. Pl\u00e1cida. V\u00e1 v\u00ea-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem despedir-se de n\u00f3s; chorou muito, disse que eu n\u00e3o a veria mais. . . E uma boa criatura, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Certamente.<\/p>\n<p>&#8211;Se tivermos de escrever, ela receber\u00e1 as cartas. Agora at\u00e9 daqui a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Talvez dous anos?<\/p>\n<p>&#8211;Qual! ele diz que \u00e9 s\u00f3 at\u00e9 fazer as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211;Sim? ent\u00e3o at\u00e9 breve. Olhe que est\u00e3o olhando para n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211;Quem?<\/p>\n<p>&#8211;Ali no sof\u00e1. Separemo-nos.<\/p>\n<p>&#8211;Custa-me muito.<\/p>\n<p>&#8211;Mas \u00e9 preciso; adeus, Virg\u00edlia!<\/p>\n<p>&#8211;At\u00e9 breve. Adeus!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXV \/ O ALMO\u00c7O<\/h3>\n<p>N\u00c3O A VI PARTIR; mas \u00e0 hora marcada senti alguma cousa que n\u00e3o era dor nem prazer, uma cousa mista, al\u00edvio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. N\u00e3o se irrite o leitor com esta confiss\u00e3o. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas l\u00e1grimas, e n\u00e3o almo\u00e7ar. Seria romanesco; mas n\u00e3o seria biogr\u00e1fico. A realidade pura \u00e9 que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao cora\u00e7\u00e3o com as lembran\u00e7as da minha aventura, e ao est\u00f4mago com os acepipes de M. Prudhon&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;Velhos do meu tempo, acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos V\u00e9ry e V\u00e9four, de Paris, e mais nos pal\u00e1cios do Conde Mol\u00e9 e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polca. . . A polca, M. Prudhon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Cassino, eis algumas das melhores recorda\u00e7\u00f5es daquele tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.<\/p>\n<p>Eram, e naquela manh\u00e3 parece que o diabo do homem adivinhara a nossa cat\u00e1strofe. Jamais o engenho e a arte lhe foram t\u00e3o prop\u00edcios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. N\u00e3o guardei a conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Eles l\u00e1 iam, mar em fora no espa\u00e7o e no tempo, e eu ficava-me ali numa ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos anos, t\u00e3o vadios e t\u00e3o vazios; ficava-me para os n\u00e3o ver nunca mais, porque ela poderia tornar e tornou mas o efl\u00favio da manh\u00e3 quem \u00e9 que o pediu ao crep\u00fasculo da tarde?<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXVI \/ FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS<\/h3>\n<p>FIQUEI T\u00c3O TRISTE com o fim do \u00faltimo cap\u00edtulo que estava capaz de n\u00e3o escrever este, descansar um pouco, purgar o esp\u00edrito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas n\u00e3o, n\u00e3o quero perder tempo.<\/p>\n<p>A partida de Virg\u00edlia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se n\u00e3o mente o Suet\u00f4nio, mas a fisg\u00e1-las de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as m\u00e3os. Era tudo: saudades, ambi\u00e7\u00f5es, um pouco de t\u00e9dio, e muito devaneio solto. Meu tio c\u00f4nego morreu nesse intervalo; item, dous primos. N\u00e3o me dei por abalado levei-os ao cemit\u00e9rio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: selei as cartas, meti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em m\u00e3o pr\u00f3pria. Foi tamb\u00e9m por esse tempo que nasceu minha sobrinha Ven\u00e2ncia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava \u00e0s moscas.<\/p>\n<p>Outras vezes agitava-me. Ia \u00e0s gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (at\u00e9 as de Marcela), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o pret\u00e9rito&#8230; Leitor ignaro, se n\u00e3o guardas as cartas da juventude, n\u00e3o conhecer\u00e1s um dia a filosofia das folhas velhas, n\u00e3o gostar\u00e1s o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chap\u00e9u de tr\u00eas bicos, botas de sete l\u00e9guas e longas barbas ass\u00edrias, a bailar ao som de uma gaita anacre\u00f4ntica. Guarda as tuas cartas da juventude!<\/p>\n<p>Ou, se te n\u00e3o apraz o chap\u00e9u de tr\u00eas bicos, empregarei a locu\u00e7\u00e3o de um velho marujo, familiar da casa de Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, achar\u00e1s ocasi\u00e3o de &#8220;cantar uma saudade.&#8221; Parece que os nossos marujos d\u00e3o este nome \u00e0s cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como express\u00e3o po\u00e9tica, \u00e9 o que se pode exigir mais triste.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXVII \/ O HUMANITISMO<\/h3>\n<p>DUAS FOR\u00c7AS, por\u00e9m, al\u00e9m de uma terceira, compeliam-me a tornar \u00e0 vida agitada do costume: Sabina e Quincas Borba. Minha irm\u00e3 encaminhou a candidatura conjugal de Nh\u00e3-lol\u00f3 de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a mo\u00e7a quase nos bra\u00e7os. Quanto ao Quincas Borba, exp\u00f4s-me enfim o Humanitismo, sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas.<\/p>\n<p>&#8211;Hamanitas, dizia ele, o princ\u00edpio das cousas, n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tr\u00eas fases Humanitas: a est\u00e1tica, anterior a toda a cria\u00e7\u00e3o; a expansiva, come\u00e7o das cousas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contar\u00e1 mais uma, a contrativa, absol\u00e7\u00e3o do homem e das cousas. A expans\u00e3o, iniciando o universo, sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e da\u00ed a dispers\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais do que a multiplica\u00e7\u00e3o personificada da subst\u00e2ncia original.<\/p>\n<p>Como me n\u00e3o aparecesse assaz clara esta exposi\u00e7\u00e3o, Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do sistema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo, a saber, na distribui\u00e7\u00e3o dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas; mas aquilo que na religi\u00e3o indiana tinha apenas uma estreita significa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e pol\u00edtica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto \u00e9, ser um forte, n\u00e3o era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz. Da\u00ed a necessidade de cultivar e temperar o m\u00fasculo. H\u00e9rcules n\u00e3o foi sen\u00e3o um s\u00edmbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado \u00e0 verdade, se n\u00e3o houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos. Nada disso acontecer\u00e1 com o Humanitismo. Nesta igreja nova n\u00e3o h\u00e1 aventuras f\u00e1ceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, \u00e9 um sacerd\u00f3cio, a reprodu\u00e7\u00e3o um ritual. Como a vida \u00e9 o maior benef\u00edcio do universo, e n\u00e3o h\u00e1 mendigo que n\u00e3o prefira a mis\u00e9ria \u00e0 morte (o que \u00e9 um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmiss\u00e3o da vida, longe de ser uma ocasi\u00e3o de galanteio, \u00e9 a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente h\u00e1 s\u00f3 uma desgra\u00e7a: \u00e9 n\u00e3o nascer.<\/p>\n<p>&#8211;Imagina, por exemplo, que eu n\u00e3o tinha nascido, continuou o Quincas Borba; \u00e9 positivo que n\u00e3o teria agora o prazer de conversar contigo, comer esta batata, ir ao teatro, e para tudo dizer numa s\u00f3 palavra: viver. Nota que eu n\u00e3o fa\u00e7o do homem um simples ve\u00edculo de Humanitas; n\u00e3o, ele \u00e9 ao mesmo tempo ve\u00edculo, cocheiro e passageiro; ele \u00e9 o pr\u00f3prio Humanitas reduzido; da\u00ed a necessidade de adorar-se a si pr\u00f3prio. Queres uma prova da superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. N\u00e3o h\u00e1 moralista grego ou turco, crist\u00e3o ou mu\u00e7ulmano, que n\u00e3o troveje contra o sentimento da inveja. O acordo \u00e9 universal, desde os campos da Idum\u00e9ia at\u00e9 o alto da Tijuca. Ora bem; abre m\u00e3o dos velhos preconceitos, esquece as ret\u00f3ricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento t\u00e3o subtil e t\u00e3o nobre. Sendo cada homem uma redu\u00e7\u00e3o de Humanitas, \u00e9 claro que nenhum homem \u00e9 fundamentalmente oposto a outro homem, quaisquer que sejam as apar\u00eancias contr\u00e1rias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condenado pode excitar o v\u00e3o clamor dos poetas; mas substancialmente \u00e9 Humanitas que corrige em Humanitas uma infra\u00e7\u00e3o da lei de Humanitas. O mesmo direi do indiv\u00edduo que estripa a outro; \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de Humanitas. Nada obsta (e h\u00e1 exemplos) que ele seja igualmente estripado. Se entendeste bem, facilmente compreender\u00e1s que a inveja n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma admira\u00e7\u00e3o que luta, e sendo a luta a grande fun\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano, todos os sentimentos belicosos s\u00e3o os mais adequados \u00e0 sua felicidade. Da\u00ed vem que a inveja \u00e9 uma virtude.<\/p>\n<p>Para que neg\u00e1-lo? eu estava estupefacto. A clareza da exposi\u00e7\u00e3o, a l\u00f3gica dos princ\u00edpios, o rigor das conseq\u00fc\u00eancias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova. Quincas Borba mal podia encobrir a satisfa\u00e7\u00e3o do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filos\u00f3fica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas obje\u00e7\u00f5es, mas t\u00e3o frouxas, que ele n\u00e3o gastou muito tempo em destru\u00ed-las.<\/p>\n<p>&#8211;Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa n\u00e3o esquecer nunca o princ\u00edpio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o conveniente, como se diss\u00e9ssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome \u00e9 uma prova a que Humanitas submete a pr\u00f3pria v\u00edscera. Mas eu n\u00e3o quero outro documento da sublimidade do meu sistema, sen\u00e3o este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio constru\u00eddo de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho n\u00e1utico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, \u00e9 o resultado de uma multid\u00e3o de esfor\u00e7os e lutas, executados com o \u00fanico fim de dar mate ao meu apetite.<\/p>\n<p>Entre o queijo e o caf\u00e9, demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destrui\u00e7\u00e3o da dor. A dor, segundo o Humanitismo, \u00e9 uma pura ilus\u00e3o. Quando a crian\u00e7a \u00e9 amea\u00e7ada por um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que constitui a base da ilus\u00e3o humana, herdada e transmitida. N\u00e3o basta certamente a ado\u00e7\u00e3o do sistema para acabar logo com a dor, mas \u00e9 indispens\u00e1vel, o resto \u00e9 a natural evolu\u00e7\u00e3o das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele \u00e9 o pr\u00f3prio Humanitas, n\u00e3o tem mais do que remontar o pensamento \u00e0 subst\u00e2ncia original para obstar qualquer sensa\u00e7\u00e3o dolorosa. A evolu\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 t\u00e3o profunda, que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos.<\/p>\n<p>Quincas Borba leu-me da\u00ed a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem p\u00e1ginas cada um, com letra mi\u00fada e cita\u00e7\u00f5es latinas. O \u00faltimo volume compunha-se de um tratado pol\u00edtico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebida com um formid\u00e1vel rigor de l\u00f3gica Reorganizada a sociedade pelo m\u00e9todo dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurrei\u00e7\u00e3o, o simples murro, a facada an\u00f4nima, a mis\u00e9ria, a fome, as doen\u00e7as; mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equ\u00edvocos do entendimento, porque n\u00e3o passariam de movimentos externos da subst\u00e2ncia interior, destinados a n\u00e3o influir sobre o homem, sen\u00e3o como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua exist\u00eancia n\u00e3o impediria a felicidade humana. Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro \u00e0 concep\u00e7\u00e3o acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destru\u00eddo o sistema, e por dous motivos: 1.\u00b0 porque sendo Humanitas a subst\u00e2ncia criadora e absoluta, cada indiv\u00edduo deveria achar a maior del\u00edcia do mundo em sacrificar-se ao princ\u00edpio de que descende; 2.\u00b0 porque, ainda assim, n\u00e3o diminuiria o poder espiritual do homem sobre a Terra, inventada unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas, as t\u00e2maras e o ruibarbo. Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, n\u00e3o era t\u00e3o tolo como o pintou Voltaire.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXVIII \/ A TERCEIRA FOR\u00c7A<\/h3>\n<p>A TERCEIRA FOR\u00c7A que me chamava ao bul\u00edcio era o gosto de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver s\u00f3. A multid\u00e3o atra\u00eda-me, o aplauso namorava-me. Se a id\u00e9ia do emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? n\u00e3o teria morrido logo e estaria c\u00e9lebre. Mas o emplasto n\u00e3o veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma cousa, com alguma cousa e por alguma cousa.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXIX \/ PAR\u00caNTESIS<\/h3>\n<p>QUERO DEIXAR AQUI, entre par\u00eantesis, meia d\u00fazia de m\u00e1ximas das muitas que escrevi por esse tempo. S\u00e3o bocejos de enfado; podem servir de ep\u00edgrafe a discursos sem assunto:<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Suporta-se com paci\u00eancia a c\u00f3lica do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Matamos o tempo; o tempo nos enterra.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um cocheiro fil\u00f3sofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Cr\u00ea em ti; mas nem sempre duvides dos outros.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N\u00e3o se compreende que um botocudo fure o bei\u00e7o para enfeit\u00e1-lo com um peda\u00e7o de pau. Esta reflex\u00e3o \u00e9 de um joalheiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N\u00e3o te irrites se te pagarem mal um benef\u00edcio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXX \/ COMPELLE INTRARE<\/h3>\n<p>&#8211;N\u00c3O, SENHOR, agora quer voc\u00ea queira, quer n\u00e3o, h\u00e1 de casar, disse-me Sabina. Que belo futuro! Um solteir\u00e3o sem filhos.<\/p>\n<p>Sem filhos! A id\u00e9ia de ter filhos deu-me um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido misterioso. Sim, cumpria ser pai. A vida celibata podia ter certas vantagens pr\u00f3prias, mas seriam t\u00eanues, e compradas a troco da solid\u00e3o. Sem filhos! N\u00e3o; imposs\u00edvel. Dispus-me a aceitar tudo, ainda a alian\u00e7a do Damasceno. Sem filhos! N\u00e3o; imposs\u00edvel. Dispus-me a aceitar tudo, ainda a alian\u00e7a do Damasceno. Sem filhos! Como j\u00e1 ent\u00e3o depositasse grande confian\u00e7a em Quincas Borba, fui Ter com ele e expus-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O fil\u00f3sofo ouviu-me com alvoro\u00e7o; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento, ponderou que eram mais alguns convivas que batiam \u00e0 porta, etc. Compelle intrare, como dizia Jesus. E n\u00e3o me deixou sem provar que o ap\u00f3logo evang\u00e9lico n\u00e3o era mais do que um pren\u00fancio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXI \/ MORRO ABAIXO<\/h3>\n<p>No FIM de tr\u00eas meses, ia tudo \u00e0 maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da mo\u00e7a, os desejos do pai, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrim\u00f4nio. A lembran\u00e7a de Virg\u00edlia aparecia de quando em quando, \u00e0 porta, e com ela um diabo negro que me metia \u00e0 cara um espelho, no qual eu via ao longe Virg\u00edlia desfeita em l\u00e1grimas mas outro diabo vinha, cor-de-rosa, com outro espelho, em que se refletia a figura de Nh\u00e3-lol\u00f3, terna, luminosa, ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo dos anos. N\u00e3o os sentia; acrescentarei at\u00e9 que os deitara fora, certo domingo, em que fui \u00e0 missa na capela do Livramento Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes \u00e0 missa. O morro estava ainda nu de habita\u00e7\u00f5es, salvo o velho palacete do alto, onde era a capela. Pois um domingo, ao descer com Nh\u00e3-lol\u00f3 pelo bra\u00e7o, n\u00e3o sei que fen\u00f4meno se deu que fui deixando aqui dous anos, ali quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte anos apenas, t\u00e3o l\u00e9pidos como tinham sido.<\/p>\n<p>Agora, se querem saber em que circunst\u00e2ncia se deu o fen\u00f4meno, basta-lhes ler este cap\u00edtulo at\u00e9 o fim. V\u00ednhamos da missa, ela, o pai e eu. No meio do morro achamos um grupo de homens. Damasceno que vinha ao p\u00e9 de n\u00f3s, percebeu o que era e adiantou-se alvoro\u00e7ado; n\u00f3s fomos atr\u00e1s dele. E vimos isto: homens de todas as idades tamanhos e cores, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros metidos em sobrecasacas esfrangalhadas; atitudes diversas uns de c\u00f3caras, outros com as m\u00e3os apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aqueles encostados ao muro, e todos com os olhos fixos no centro, e as almas debru\u00e7adas das pupilas.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9? perguntou-me Nh\u00e3-lol\u00f3.<\/p>\n<p>Fiz-lhe sinal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espa\u00e7o, sem que positivamente ningu\u00e9m me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de galos. Vi os donos contendores, dous galos de espor\u00e3o agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue, o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cansa\u00e7o. Mas lutavam ainda, assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste golpe daquele, vibrantes e raivosos. Damasceno n\u00e3o sabia mais nada; o espet\u00e1culo eliminou para ele todo o universo. Em v\u00e3o lhe disse que era tempo de descer; ele n\u00e3o respondia, n\u00e3o ouvia, concentrara-se no duelo. A briga de galos era uma de suas paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi nessa ocasi\u00e3o que Nh\u00e3-lol\u00f3 me puxou brandamente pelo bra\u00e7o dizendo que nos f\u00f4ssemos embora. Aceitei o conselho e vim com ela por ali abaixo. J\u00e1 disse que o morro era ent\u00e3o desabitado; disse-lhes tamb\u00e9m que v\u00ednhamos da missa, e n\u00e3o lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. T\u00e3o forte que eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma p\u00e1gina \u00e0 filosofia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas. . . Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo.<\/p>\n<p>Ao sop\u00e9 detivemo-nos alguns minutos, \u00e0 espera de Damasceno; ele veio da\u00ed a pouco rodeado dos apostadores, a comentar com eles a briga. Um destes, tesoureiro das apostas, distribu\u00eda um velho ma\u00e7o de notas de dez tost\u00f5es, que os vencedores recebiam duplamente alegres. Quanto aos galos vinham sobra\u00e7ados pelo respectivo dono. Um deles trazia a crista t\u00e3o comida e ensang\u00fcentada, que vi logo nele o vencido; mas era engano,&#8211; o vencido era o outro, que n\u00e3o trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contr\u00e1rio, vinham alegres, sem embargo das fortes como\u00e7\u00f5es da luta; biografavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nh\u00e3-lol\u00f3 vexad\u00edssima.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXII \/ UMA INTEN\u00c7\u00c3O MUI FINA<\/h3>\n<p>O QUE VEXAVA a Nh\u00e3-lol\u00f3 era o pai. A facilidade com que ele se metera com os apostadores punha em relevo antigos costumes e afinidades sociais, e Nh\u00e3-lol\u00f3 chegara a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era not\u00e1vel a diferen\u00e7a que ela fazia de si mesma; estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida atra\u00eda-a, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nh\u00e3-lol\u00f3 observava, imitava, adivinhava, ao mesmo tempo dava-se ao esfor\u00e7o de mascarar a inferioridade da fam\u00edlia. Naquele dia, por\u00e9m, a manifesta\u00e7\u00e3o do pai foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu busquei ent\u00e3o diverti-la do assunto, dizendo-lhe muitas chan\u00e7as e motes de bom-tom; v\u00e3os esfor\u00e7os, que n\u00e3o a alegravam mais. Era t\u00e3o profundo o abatimento, t\u00e3o expressivo o des\u00e2nimo, que cheguei a atribuir a Nh\u00e3-lol\u00f3 a inten\u00e7\u00e3o positiva de separar, no meu esp\u00edrito, a sua causa da causa do pai. Este sentimento pareceu-me de grande eleva\u00e7\u00e3o; era uma afinidade mais entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, disse eu comigo, vou arrancar esta flor a este p\u00e2ntano&#8221;.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXIII \/ O VERDADEIRO COTRIM<\/h3>\n<p>N\u00c3O OBSTANTE OS meus quarenta e tantos anos, como eu amasse a harmonia da fam\u00edlia, entendi n\u00e3o tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Ele ouviu-me e respondeu-me seriamente que n\u00e3o tinha opini\u00e3o em neg\u00f3cio de parentes seus. Podiam supor-lhe algum interesse, se acaso louvasse as raras prendas de Nh\u00e3-lol\u00f3; por isso calava-se. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paix\u00e3o, mas se ela o consultasse, o seu conselho seria negativo. N\u00e3o era levado por nenhum \u00f3dio; apreciava as minhas boas qualidades,&#8211; n\u00e3o se fartava de as elogiar, como era de justi\u00e7a; e pelo que respeita a Nh\u00e3-lol\u00f3, n\u00e3o chegaria jamais a negar que era noiva excelente; mas da\u00ed a aconselhar o casamento ia um abismo.<\/p>\n<p>&#8212; Lavo inteiramente as m\u00e3os, concluiu ele.<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea achava outro dia que eu devia casar quanto antes.<\/p>\n<p>&#8212; Isso \u00e9 outro neg\u00f3cio. Acho que \u00e9 indispens\u00e1vel casar, principalmente tendo ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Saiba que na pol\u00edtica o celibato \u00e9 uma remora. Agora, quanto \u00e0 noiva, n\u00e3o posso ter voto, n\u00e3o quero n\u00e3o devo, n\u00e3o \u00e9 de minha honra. Parece-me que Sabina foi al\u00e9m, fazendo-lhe certas confid\u00eancias, segundo me disse; mas em todo caso ela n\u00e3o \u00e9 tia carnal de Nh\u00e3-lol\u00f3, como eu. Olhe&#8230; mas n\u00e3o&#8230;n\u00e3o digo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Diga.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; n\u00e3o digo nada.<\/p>\n<p>Talvez pare\u00e7a excessivo o escr\u00fapulo do Cotrim, a quem n\u00e3o souber que ele possu\u00eda um car\u00e1ter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao invent\u00e1rio de meu pai. Reconhe\u00e7o que era um modelo. Arg\u00fc\u00edam-no de avareza, e cuide que tinham raz\u00e3o; mas a avareza \u00e9 apenas a exagera\u00e7\u00e3o de uma virtude e as virtudes devem ser como os or\u00e7amentos: melhor \u00e9 o saldo que o deficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acus\u00e1-lo de b\u00e1rbaro. O \u00fanico fato alegado neste particular era o de mandar com freq\u00fc\u00eancia escravos ao calabou\u00e7o donde eles desciam a escorrer sangue; mas, al\u00e9m de que ele s\u00f3 mandava os perversos e os fuj\u00f5es, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse g\u00eanero de neg\u00f3cio requeria, e n\u00e3o se pode honestamente atribuir \u00e0 \u00edndole original de um homem o que \u00e9 puro efeito de rela\u00e7\u00f5es sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefut\u00e1vel, acho eu, e n\u00e3o \u00fanica. Era tesoureiro de uma confraria, e irm\u00e3o de v\u00e1rias irmandades, e at\u00e9 irm\u00e3o remido de uma destas, o que n\u00e3o se coaduna muito com a reputa\u00e7\u00e3o da avareza; verdade \u00e9 que o benef\u00edcio n\u00e3o ca\u00edra no ch\u00e3o: a irmandade (de que ele fora juiz mandara-lhe tirar o retrato a \u00f3leo. N\u00e3o era perfeito, decerto; tinha por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a not\u00edcia de um ou outro benef\u00edcio que praticava,&#8211;sestro repreens\u00edvel ou n\u00e3o louv\u00e1vel concordo; mas ele desculpava-se dizendo que as boas a\u00e7\u00f5es eram contagiosas, quando p\u00fablicas; raz\u00e3o a que se n\u00e3o pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto fa\u00e7o o seu maior elogio) que ele n\u00e3o praticava, de quando em quando, esses benef\u00edcios sen\u00e3o com o fim de espertar a filantropia dos outros; e se tal era o intuito, for\u00e7a \u00e9 confessar que a publicidade tornava-se uma condi\u00e7\u00e3o sine qua non. Em suma, poderia dever algumas aten\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o devia um real a ningu\u00e9m.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXIV \/ V\u00c1 DE INTERM\u00c9DIO<\/h3>\n<p>QUE H\u00c1 entre a vida e a morte? Uma curta ponte. N\u00e3o obstante, se eu n\u00e3o compusesse este cap\u00edtulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz danoso ao efeito do livro. Saltar de um retrato a um epit\u00e1fio, pode ser real e comum; o leitor, entretanto, n\u00e3o se refugia no livro, sen\u00e3o para escapar \u00e0 vida. N\u00e3o digo que este pensamento seja meu; digo que h\u00e1 nele uma dose de verdade, e que, ao menos, a forma \u00e9 pinturesca. E repito: n\u00e3o \u00e9 meu.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXV \/ EPIT\u00c1FIO<\/h3>\n<p>AQUI JAZ<\/p>\n<p>D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO<\/p>\n<p>MORTA<\/p>\n<p>AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE<\/p>\n<p>ORAI POR ELA!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXVI \/ DESCONSOLA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>O EPIT\u00c1FIO diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a mol\u00e9stia de Nh\u00e3-lol\u00f3, a morte, o desespero da fam\u00edlia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por ocasi\u00e3o da primeira entrada da febre amarela. N\u00e3o digo mais nada, a n\u00e3o ser que a acompanhei at\u00e9 o \u00faltimo jazigo, e me despedi triste, mas sem l\u00e1grimas. Conclu\u00ed que talvez n\u00e3o a amasse deveras.<\/p>\n<p>Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvert\u00eancia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, levou tamb\u00e9m uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; n\u00e3o cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela morte. Creio at\u00e9 que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. Quincas Borba, por\u00e9m, explicou-me que epidemias eram \u00fateis \u00e0 esp\u00e9cie, embora desastrosas para uma certa por\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espet\u00e1culo, havia uma vantagem de muito peso: a sobreviv\u00eancia do maior n\u00famero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, n\u00e3o sentia eu algum secreto encanto em ter escapado \u00e0s garras da peste; mas esta pergunta era t\u00e3o insensata, que ficou sem resposta.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o contei a morte, n\u00e3o conto igualmente a missa do s\u00e9timo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ru\u00edna. Quinze dias depois estive com ele; continuava inconsol\u00e1vel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens. N\u00e3o me disse mais nada. Tr\u00eas semanas depois tornou ao assunto, e ent\u00e3o confessou-me que, no meio do desastre irrepar\u00e1vel, quisera ter a consola\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a dos amigos. Doze pessoas apenas, e tr\u00eas quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam \u00e0 cova o cad\u00e1ver de sua querida filha. E ele fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram t\u00e3o gerais que bem se podia desculpar essa desaten\u00e7\u00e3o aparente. Damasceno abanava a cabe\u00e7a de um modo incr\u00e9dulo e triste.<\/p>\n<p>&#8211;Qual! gemia ele, desampararam-me.<\/p>\n<p>Cotrim, que estava presente:<\/p>\n<p>&#8211;Vieram os que deveras se interessam por voc\u00ea e por n\u00f3s. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da in\u00e9rcia do governo, das panac\u00e9ias dos botic\u00e1rios, do pre\u00e7o das casas, ou uns dos outros..<\/p>\n<p>Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabe\u00e7a, e suspirou:<\/p>\n<p>&#8211;Mas viessem!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXVII \/ FORMALIDADE<\/h3>\n<p>GRANDE COUSA \u00e9 haver recebido do C\u00e9u uma part\u00edcula da sabedoria o dom de achar as rela\u00e7\u00f5es das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distin\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, eu a agrade\u00e7o ainda agora do fundo do meu sepulcro.<\/p>\n<p>De fato, o homem vulgar que ouvisse a \u00faltima palavra do Damasceno n\u00e3o se lembraria dela, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla, &#8212; modernas,&#8211; em trajos de rua, cara tapada, n\u00e3o com um espesso pano que as cobrisse deveras, mas com um v\u00e9u tenu\u00edssimo, que simulava descobrir somente os olhos e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei gra\u00e7a a essa esperteza da faceirice mu\u00e7ulmana, que assim esconde o rosto,&#8211; e cumpre o uso,&#8211; mas n\u00e3o o esconde,&#8211; e divulga a beleza. Aparentemente, nada h\u00e1 entre as damas turcas e o Damasceno; mas se tu \u00e9s um esp\u00edrito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), compreender\u00e1s que, tanto num como noutro caso, surge a\u00ed a orelha de uma r\u00edgida e meiga companheira do homem social&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e1vel Formalidade, tu \u00e9s, sim, o bord\u00e3o da vida, o b\u00e1lsamo dos cora\u00e7\u00f5es, a medianeira entre os homens, o v\u00ednculo da terra e do c\u00e9u; tu enxugas as l\u00e1grimas de um pai, tu captas a indulg\u00eancia de um Profeta. Se a dor adormece, e a consci\u00eancia se acomoda, a quem sen\u00e3o a ti, devem esse imenso benef\u00edcio? A estima que passa de chap\u00e9u na cabe\u00e7a n\u00e3o diz nada \u00e0 alma; mas a indiferen\u00e7a que corteja deixa-lhe uma deleitosa impress\u00e3o. A raz\u00e3o \u00e9 que, ao contr\u00e1rio de uma velha f\u00f3rmula absurda, n\u00e3o \u00e9 a letra que mata; a letra d\u00e1 vida o esp\u00edrito \u00e9 que \u00e9 objeto de controv\u00e9rsia , de d\u00favida , de interpreta\u00e7\u00e3o e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, am\u00e1vel Formalidade para sossego do Damasceno e gl\u00f3ria de Muamede.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXVIII \/ NA C\u00c2MARA<\/h3>\n<p>E NOTAI BEM que eu vi a gravura turca, dous anos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na C\u00e2mara dos Deputados, em meio de grande burburinho, enquanto um deputado discutia um parecer da comiss\u00e3o do or\u00e7amento, sendo eu tamb\u00e9m deputado. Para quem h\u00e1 lido este livro \u00e9 escusado encarecer a minha satisfa\u00e7\u00e3o, e para os outros \u00e9 igualmente in\u00fatil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um colega, que contava uma anedota, e outro, que tirava a l\u00e1pis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil de orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos \u00e0 mesma praia, como duas botelhas de n\u00e1ufragos, ele contendo o seu ressentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprego esta forma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que efetivamente n\u00e3o continha nada, a n\u00e3o ser a ambi\u00e7\u00e3o de ser ministro.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXIX \/ SEM REMORSOS<\/h3>\n<p>\u00c3O TINHA remorsos. Se possu\u00edsse os aparelhos pr\u00f3prios, inclu\u00eda neste livro uma p\u00e1gina de qu\u00edmica, porque havia de decompor o remorso at\u00e9 os mais simples elementos, com o fim de saber de um modo positivo e concludente por que raz\u00e3o Aquiles passeia \u00e0 roda de Tr\u00f3ia o cad\u00e1ver do advers\u00e1rio, e lady Macbeth passeia \u00e0 volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu n\u00e3o tenho aparelhos qu\u00edmicos, como n\u00e3o tinha remorsos, tinha vontade de ser ministro de Estado. Contudo, se hei de acabar este cap\u00edtulo, direi que n\u00e3o quisera ser Aquiles nem lady Macbeth; e que, a ser alguma cousa, antes Aquiles, antes passear ovante o cad\u00e1ver do que a mancha; ouvem-se no fim as s\u00faplicas de Pr\u00edamo, e ganha-se uma bonita reputa\u00e7\u00e3o militar e liter\u00e1ria. Eu n\u00e3o ouvia as s\u00faplicas de Pr\u00edamo, mas o discurso do Lobo Neves, e n\u00e3o tinha remorsos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXX \/ PARA INTERCALAR NO CAP. CXXIX<\/h3>\n<p>A PRIMEIRA VEZ que pude falar a Virg\u00edlia, depois da presid\u00eancia, foi num baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgor\u00e3o azul, e ostentava \u00e0s luzes o mesmo par de ombros de outro tempo. N\u00e3o era a frescura da primeira idade; ao contr\u00e1rio; mas ainda estava formosa de uma formosura outoni\u00e7a, real\u00e7ada pela noite. Lembra-me que falamos muito, sem aludir a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou ent\u00e3o um olhar, e mais nada. Pouco depois retirou-se; eu fui v\u00ea-la descer as escadas, e n\u00e3o sei por que fen\u00f4meno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os fil\u00f3logos essa frase b\u00e1rbara) murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva:<\/p>\n<p>&#8220;Magn\u00edfica!&#8221;<\/p>\n<p>Conv\u00e9m intercalar este cap\u00edtulo entre a primeira ora\u00e7\u00e3o e a segunda do cap\u00edtulo CXXIX.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXI \/ DE UMA CAL\u00d4NIA<\/h3>\n<p>COMO EU ACABAVA de dizer aquilo, pelo processo ventr\u00edloquo-cerebral,&#8211; o que era simples opini\u00e3o e n\u00e3o remorso, &#8212; senti que algu\u00e9m me punha a m\u00e3o no ombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, oficial de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Ele sorriu maliciosamente, e disse-me:<\/p>\n<p>&#8211;Seu magan\u00e3o! Recorda\u00e7\u00f5es do passado, hein?<\/p>\n<p>&#8211;Viva o passado!<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea naturalmente foi reintegrado no emprego.<\/p>\n<p>&#8211;Salta, pelintra! disse eu, amea\u00e7ando-o com o dedo.<\/p>\n<p>Confesso que este di\u00e1logo era uma indiscri\u00e7\u00e3o,&#8211; principalmente a \u00faltima r\u00e9plica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres \u00e9 que t\u00eam fama de indiscretas, e n\u00e3o quero acabar o livro sem retificar essa no\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo de um modo frio, monossil\u00e1bico, etc., ao passo que as parceiras n\u00e3o davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos que era tudo uma cal\u00fania. A raz\u00e3o desta diferen\u00e7a \u00e9 que a mulher (salva a hip\u00f3tese do cap\u00edtulo CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor paix\u00e3o de Stendhal, ou o puramente f\u00edsico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polin\u00e9sias, lap\u00f4nias, cafres, e pode ser que outras ra\u00e7as civilizadas; mas o homem,&#8211;falo do homem de uma sociedade culta e elegante,&#8211;o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Al\u00e9m disso (e refiro-me sempre aos casos defesos) a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infra\u00e7\u00e3o e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos r\u00edspido e menos secreto,&#8211; essa boa fatuidade, que \u00e9 a transpira\u00e7\u00e3o luminosa do m\u00e9rito.<\/p>\n<p>Mas seja ou n\u00e3o verdadeira a minha explica\u00e7\u00e3o, basta-me deixar escrito nesta p\u00e1gina, para uso dos s\u00e9culos, que a indiscri\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas s\u00e3o um verdadeiro sepulcro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por n\u00e3o saberem resistir aos gestos, aos olhares; e \u00e9 por isso que uma grande dama e fino esp\u00edrito, a rainha de Navarra, empregou algures esta met\u00e1fora para dizer que toda a aventura amorosa vinha descobrir-se por for\u00e7a, mais tarde ou mais cedo &#8220;N\u00e3o h\u00e1 cachorrinho t\u00e3o adestrado, que alfim lhe n\u00e3o ou\u00e7amos o latir&#8221;.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXII \/ QUE N\u00c3O \u00c9 S\u00c9RIO<\/h3>\n<p>CITANDO o dito da rainha de Navarra, ocorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa v\u00ea outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: &#8220;Gentes, quem matou seus cachorrinhos?&#8221; como se dissesse: &#8211;&#8220;quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.&#8221; Mas este cap\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 s\u00e9rio.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXIII \/ O PRINC\u00cdPI0 DE HELVETIUS<\/h3>\n<p>EST\u00c1VAMOS no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confiss\u00e3o dos amores de Virg\u00edlia, e aqui emendo eu o princ\u00edpio de Helvetius, &#8212; ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fora provocar algum \u00f3dio sopitado, dar origem a um esc\u00e2ndalo, quando menos adquirir a reputa\u00e7\u00e3o de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o princ\u00edpio de Helvetius de um modo superficial, isso \u00e9 o que devia ter feito Mas eu j\u00e1 dei o motivo da indiscri\u00e7\u00e3o masculina; antes daquele interesse de seguran\u00e7a, havia outro, o do desvanecimento, que \u00e9 mais \u00edntimo, mais imediato: o primeiro era reflexivo, supunha um silogismo anterior; o segundo era espont\u00e2neo, instintivo, vinha das entranhas do sujeito; finalmente, o primeiro tinha o efeito remoto, o segundo pr\u00f3ximo. Conclus\u00e3o: o princ\u00edpio de Helvetius \u00e9 verdadeiro no meu caso; &#8212; a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o era o interesse aparente, mas o rec\u00f4ndito.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXIV \/ CINQUENTA ANOS<\/h3>\n<p>N\u00c3O LHES DISSE ainda,&#8211; mas digo-o agora,&#8211; que quando Virg\u00edlia descia a escada, e o oficial de marinha me tocava no ombro, tinha eu cinq\u00fcenta anos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,&#8211; ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agita\u00e7\u00f5es, de sustos,&#8211; capeada de dissimula\u00e7\u00e3o e duplicidade,&#8211; mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Se, por\u00e9m, empregarmos outra mais sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas p\u00e1ginas deste livro.<\/p>\n<p>Cinq\u00fcenta anos! N\u00e3o era preciso confess\u00e1-lo. J\u00e1 se vai sentindo que o meu estilo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o lesto como nos primeiros dias. Naquela ocasi\u00e3o, cessado o di\u00e1logo com o oficial de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei \u00e0 sala, lembrou-me dan\u00e7ar uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos cristais, dos olhos bonitos, e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E n\u00e3o me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, \u00e0s quatro da manh\u00e3, o que \u00e9 que fui achar no fundo do carro? Os meus cinq\u00fcenta anos. L\u00e1 estavam eles os teimosos, n\u00e3o tolhidos de frio, nem reum\u00e1ticos,&#8211; mas cochilando a sua fadiga, um pouco cobi\u00e7osos de cama e de repouso. Ent\u00e3o, &#8212; e vejam at\u00e9 que ponto pode ir a imagina\u00e7\u00e3o de um homem, com sono,&#8211; ent\u00e3o pareceu-me ouvir de um morcego escarapitado no tejadilho: Sr. Br\u00e1s Cubas, a rejuvenesc\u00eancia estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas,&#8211; enfim, nos outros.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXV \/ OBLIVION<\/h3>\n<p>E AGORA SINTO que, se alguma dama tem seguido estas p\u00e1ginas, fecha o livro e n\u00e3o l\u00ea as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinq\u00fcenta anos! N\u00e3o \u00e9 ainda a invalidez, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um ingl\u00eas dizia, entenderei que &#8220;cousa \u00e9 n\u00e3o achar j\u00e1 quem se lembre de meus pais, e de que modo me h\u00e1 de encarar o pr\u00f3prio ESQUECIMENTO.&#8221;<\/p>\n<p>Vai em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo \u00e9 que se d\u00eaem todas as honras a um personagem t\u00e3o desprezado e t\u00e3o digno, conviva da \u00faltima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas gra\u00e7as em flor sob o Minist\u00e9rio Paran\u00e1, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente j\u00e1 que outras lhe tomaram o carro. Ent\u00e3o, se \u00e9 digna de si mesma, n\u00e3o teima em espertar a lembran\u00e7a morta ou expirante; n\u00e3o busca no olhar de hoje a mesma sauda\u00e7\u00e3o do olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e p\u00e9 veloz. Tempora mutantur. Compreende que este turbilh\u00e3o \u00e9 assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exce\u00e7\u00e3o nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, n\u00e3o inveja, mas lastima as que lhe tomaram o carro, porque tamb\u00e9m elas h\u00e3o de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espet\u00e1culo, cujo fim \u00e9 divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXVI \/ INUTlLIDADE<\/h3>\n<p>MAS, OU MUITO me engano, ou acabo de escrever um cap\u00edtulo in\u00fatil<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXVII \/ A BARRETINA<\/h3>\n<p>E DA\u00cd, N\u00c3O; ele resume as reflex\u00f5es que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, acrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse fil\u00f3sofo, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.<\/p>\n<p>&#8211;Meu caro Br\u00e1s Cubas, n\u00e3o te deixes vencer desses vapores. Que diacho! \u00e9 preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cinq\u00fcenta anos \u00e9 a idade da ci\u00eancia e do governo. Animo, Br\u00e1s Cubas; n\u00e3o me sejas palerma. Que tens tu com essa sucess\u00e3o de ru\u00edna a ru\u00edna ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia \u00e9 a do choramigas que se deita \u00e0 margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das \u00e1guas. O of\u00edcio delas \u00e9 n\u00e3o parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveit\u00e1-la.<\/p>\n<p>V\u00ea-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande fil\u00f3sofo. As palavras do Quincas Borba tiveram o cond\u00e3o de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos l\u00e1; fa\u00e7amo-nos governo, \u00e9 tempo. Eu n\u00e3o havia intervindo at\u00e9 ent\u00e3o nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapap\u00e9s, ch\u00e1s, comiss\u00f5es e votos; e a pasta n\u00e3o vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.<\/p>\n<p>Comecei devagar. Tr\u00eas dias depois, discutindo-se o or\u00e7amento da justi\u00e7a, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se n\u00e3o julgava \u00fatil diminuir a barretina da guarda nacional. N\u00e3o tinha vasto alcance o objeto da pergunta, mas ainda assim demonstrei que n\u00e3o era indigno das cogita\u00e7\u00f5es de um homem de Estado; e citei Filop\u00eamen, que ordenou a substitui\u00e7\u00e3o dos broqu\u00e9is de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lan\u00e7as, que eram demasiado leves; fato que a hist\u00f3ria n\u00e3o achou que desmentisse a gravidade de suas p\u00e1ginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo, n\u00e3o s\u00f3 por serem deselegantes, mas tamb\u00e9m por serem anti-higi\u00eanicas. Nas paradas, ao sol, o excesso de calor produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hip\u00f3crates era trazer a cabe\u00e7a fresca, parecia cruel obrigar um cidad\u00e3o, por simples considera\u00e7\u00e3o de uniforme, a arriscar a sa\u00fade e a vida, e conseq\u00fcentemente o futuro da fam\u00edlia. A c\u00e2mara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independ\u00eancia, e que o cidad\u00e3o, chamado a um servi\u00e7o gratuito, freq\u00fcente e penoso, tinha direito a que se lhe diminu\u00edsse o \u00f4nus, decretando um uniforme leve e maneiro. Acrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabe\u00e7a dos cidad\u00e3os, e a p\u00e1tria precisava de cidad\u00e3os cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e conclu\u00ed com esta id\u00e9ia: O chor\u00e3o, que inclina os seus galhos para a terra, \u00e9 \u00e1rvore de cemit\u00e9rio; a palmeira, erecta e firme, \u00e9 \u00e1rvore do deserto, das pra\u00e7as e dos jardins.<\/p>\n<p>V\u00e1ria foi a impress\u00e3o deste discurso. Quanto \u00e0 forma, ao rapto eloq\u00fcente, \u00e0 parte liter\u00e1ria e filos\u00f3fica, a opini\u00e3o foi s\u00f3 uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ningu\u00e9m ainda conseguira tirar tantas id\u00e9ias. Mas a parte pol\u00edtica foi considerada por muitos deplor\u00e1vel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; enfim, vieram dizer-me que outros me davam j\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o, entrando nesse n\u00famero os oposicionistas da c\u00e2mara, que chegaram a insinuar a conveni\u00eancia de uma mo\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a. Repeli energicamente tal interpreta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o era s\u00f3 err\u00f4nea, mas caluniosa, \u00e0 vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina n\u00e3o era tamanha que n\u00e3o pudesse esperar alguns anos; e que; em todo caso, eu transigiria na extens\u00e3o do corte, contentando-me com tr\u00eas quartos de polegada ou menos; enfim dado mesmo que a minha id\u00e9ia n\u00e3o fosse adotada, bastava-me t\u00ea-la iniciado no parlamento.<\/p>\n<p>Quincas Borba, por\u00e9m, n\u00e3o fez restri\u00e7\u00e3o alguma. N\u00e3o sou homem pol\u00edtico, disse-me ele ao jantar; n\u00e3o sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excelente discurso. E ent\u00e3o notou as partes mais salientes, as belas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que t\u00e3o bem fica a um grande fil\u00f3sofo; depois, tomou o assunto \u00e0 sua conta, e impugnou a barretina com tal for\u00e7a, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me efetivamente do seu perigo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXVIII \/ A UM CR\u00cdTICO<\/h3>\n<p>Meu caro cr\u00edtico,<\/p>\n<p>Algumas p\u00e1ginas atr\u00e1s, dizendo eu que tinha cinq\u00fcenta anos, acrescentei: &#8220;J\u00e1 se vai sentindo que o meu estilo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o lesto como nos primeiros dias&#8221;. Talvez aches esta frase incompreens\u00edvel, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua aten\u00e7\u00e3o para a subtileza daquele pensamento. o que eu quero dizer n\u00e3o \u00e9 que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte n\u00e3o envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narra\u00e7\u00e3o da minha vida experimento a sensa\u00e7\u00e3o correspondente. Valha-me Deus! \u00e9 preciso explicar tudo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXXXIX \/ DE COMO N\u00c3O FUI MINISTRO<\/h3>\n<p>D&#8217;ESTADO<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXL \/ QUE EXPLICA O ANTERIOR<\/h3>\n<p>H\u00c1 COUSAS que melhor se dizem calando; tal \u00e9 a mat\u00e9ria do cap\u00edtulo anterior. Podem entend\u00ea-lo os ambiciosos malogrados Se a paix\u00e3o do poder \u00e9 a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da C\u00e2mara dos Deputados. Iam-se-me as esperan\u00e7as todas; terminava a carreira pol\u00edtica. E notem que o Quincas Borba, por indu\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas que fez, achou que a minha ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a paix\u00e3o verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opini\u00e3o dele, este sentimento, n\u00e3o sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque or\u00e7a pelo amor que as mulheres t\u00eam \u00e0s rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava ele, por isso mesmo que os queima a paix\u00e3o do poder, l\u00e1 chegam \u00e0 fina for\u00e7a ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. N\u00e3o era assim o meu sentimento; este, n\u00e3o tendo em si a mesma for\u00e7a, n\u00e3o tem a mesma certeza do resultado; e da\u00ed a maior afli\u00e7\u00e3o, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo.<\/p>\n<p>&#8211;Vai para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o, estou farto de filosofias que me n\u00e3o levam a cousa nenhuma.<\/p>\n<p>A dureza da interrup\u00e7\u00e3o, tratando-se de tamanho fil\u00f3sofo, equivalia a um desacato; mas ele pr\u00f3prio desculpou a irrita\u00e7\u00e3o com que lhe falei. Trouxeram-nos caf\u00e9; era uma hora da tarde, est\u00e1vamos na minha sala de estudo, uma bela sala, que dava para o fundo da ch\u00e1cara, bons livros, objetos d&#8217;arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire de bronze, que nessa ocasi\u00e3o parecia acentuar o risinho de sarcasmo, com que me olhava, o ladr\u00e3o, cadeiras excelentes; fora, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, n\u00e3o sei se por chala\u00e7a ou poesia, chamou um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o c\u00e9u estava azul. De cada janela,&#8211; eram tr\u00eas &#8212; pendia uma gaiola com p\u00e1ssaros, que chilreavam as suas \u00f3peras r\u00fasticas. Tudo tinha a apar\u00eancia de uma conspira\u00e7\u00e3o das cousas contra o homem: e, conquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha ch\u00e1cara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus p\u00e1ssaros, ao p\u00e9 dos meus livros, alumiado pelo meu sol, n\u00e3o chegava a curar-me das saudades daquela outra cadeira, que n\u00e3o era minha.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLI \/ OS C\u00c3ES<\/h3>\n<p>&#8211;MAS, ENFIM, que pretendes fazer agora? perguntou-me Quincas Borba, indo p\u00f4r a x\u00edcara vazia no parapeito de uma das janelas.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei, vou meter-me na Tijuca, fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e n\u00e3o sou nada.<\/p>\n<p>&#8211;Nada! interrompeu-me Quincas Borba com um gesto de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para distrair-me, convidou-me a sair, sa\u00edmos para os lados do Engenho Velho. Fomos a p\u00e9, filosofando as cousas. Nunca me h\u00e1 de esquecer o benef\u00edcio desse passeio. A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu n\u00e3o podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma express\u00e3o menos elevada, mostrando assim que a l\u00edngua filos\u00f3fica podia uma ou outra vez, retemperar-se no cal\u00e3o do povo. Funda um jornal, disse-me ele, e &#8220;desmancha toda esta igrejinha&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211;Magn\u00edfica id\u00e9ia! Vou fundar um jornal, vou escach\u00e1-los, vou . . .<\/p>\n<p>&#8211;Lutar. Podes escach\u00e1-los ou n\u00e3o, o essencial \u00e9 que lutes. Vida \u00e9 luta. Vida sem luta \u00e9 um mar morto no centro do organismo universal.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco demos com uma briga de c\u00e3es, fato que aos olhos de um homem vulgar n\u00e3o teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os c\u00e3es. Eram dous. Notou que ao p\u00e9 deles estava um osso, motivo da guerra, e n\u00e3o deixou de chamar a minha aten\u00e7\u00e3o para a circunst\u00e2ncia de que o osso n\u00e3o tinha carne. Um simples osso nu. Os c\u00e3es mordiam-se, rosnavam, com o furor nos olhos. . . Quincas Borba meteu a bengala debaixo do bra\u00e7o, e parecia em \u00eaxtase.<\/p>\n<p>&#8211;Que belo que isto \u00e9! dizia ele de quando em quando. Quis arranc\u00e1-lo dali, mas n\u00e3o pude; ele estava arraigado ao ch\u00e3o, e s\u00f3 continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos c\u00e3es, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficara sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande fil\u00f3sofo. Fez-me observar a beleza do espet\u00e1culo, relembrou o objeto da luta, concluiu que os c\u00e3es tinham fome mas a priva\u00e7\u00e3o do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espet\u00e1culo mais \u00e9 grandioso: as criaturas humanas \u00e9 que disputam aos c\u00e3es os ossos e outros manjares menos apetec\u00edveis luta que se complica muito, porque entra em a\u00e7\u00e3o a intelig\u00eancia do homem, com todo o ac\u00famulo de sagacidade que lhe deram os s\u00e9culos, etc.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLII \/ O PEDIDO SECRETO<\/h3>\n<p>QUANTA COUSA num minuete! como dizia o outro. Quanta cousa numa briga de c\u00e3es! Mas eu n\u00e3o era um disc\u00edpulo servil ou medroso que deixasse de fazer uma ou outra obje\u00e7\u00e3o adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma d\u00favida; n\u00e3o estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos c\u00e3es. Ele respondeu-me com excepcional brandura:<\/p>\n<p>&#8211;Disput\u00e1-la aos outros homens \u00e9 mais l\u00f3gico, porque a condi\u00e7\u00e3o dos contendores \u00e9 a mesma, e leva o osso o que for mais forte. Mas por que n\u00e3o ser\u00e1 um espet\u00e1culo grandioso disput\u00e1-lo aos c\u00e3es? Voluntariamente, comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa pior, como Ezequiel; logo, o ruim \u00e9 com\u00edvel; resta saber se \u00e9 mais digno do homem disput\u00e1-lo, por virtude de uma necessidade natural, ou preferi-lo, para obedecer a uma exalta\u00e7\u00e3o religiosa, isto \u00e9, modific\u00e1vel, ao passo que a fome \u00e9 eterna, como a vida e como a morte.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos \u00e0 porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora. Entramos, e o Quincas Borba, com a discri\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de um fil\u00f3sofo, foi ler a lombada dos livros de uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de Virg\u00edlia:<\/p>\n<p>Meu bom amigo,<\/p>\n<p>D. Pl\u00e1cida est\u00e1 muito mal. Pe\u00e7o-lhe o favor de fazer alguma cousa por ela; mora no Beco das Escadinhas; veja se alcan\u00e7a met\u00ea-la na Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Sua amiga sincera,<\/p>\n<p>N\u00e3o era a letra fina e correta de Virg\u00edlia, mas grossa e desigual; o V da assinatura n\u00e3o passava de um rabisco sem inten\u00e7\u00e3o alfab\u00e9tica de maneira que, se a carta aparecesse, era mui dif\u00edcil atribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Pl\u00e1cida! Mas eu tinha-lhe deixado os cinco contos da Praia de Botafogo, e n\u00e3o podia compreender que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Vais compreender, disse Quincas Borba, tirando um livro da estante.<\/p>\n<p>&#8211;O qu\u00ea? perguntei espantado.<\/p>\n<p>&#8211;Vais compreender que eu s\u00f3 te disse a verdade. Pascal \u00e9 um dos meus av\u00f4s espirituais; e, conquanto a minha filosofia valha mais que a dele, n\u00e3o posso negar que era um grande homem. Ora, que diz ele nesta p\u00e1gina?&#8211;E, chap\u00e9u na cabe\u00e7a, bengala sobra\u00e7ada apontava o lugar com o dedo.&#8211;Que diz ele? Diz que o homem tem &#8220;uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente&#8221;. V\u00eas? Logo o homem que disputa o osso a um c\u00e3o tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e \u00e9 isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. &#8220;Sabe que morre&#8221; \u00e9 uma express\u00e3o profunda; creio todavia que \u00e9 mais profunda a minha express\u00e3o: sabe que tem fome. Porquanto o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consci\u00eancia da extin\u00e7\u00e3o dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se n\u00e3o vai nisso alguma imod\u00e9stia) que a f\u00f3rmula de Pascal \u00e9 inferior \u00e0 minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLIII \/ N\u00c3O VOU<\/h3>\n<p>ENQUANTO ELE restitu\u00eda o livro \u00e0 estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu falava pouco, mastigava sem acabar de engolir, fitava o canto da sala, a ponta da mesa, um prato, uma cadeira, uma mosca invis\u00edvel, disse-me ele: &#8211;Tens alguma cousa; aposto que foi aquela carta?&#8211;Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incomodado com o pedido de Virg\u00edlia. Tinha dado a D. Pl\u00e1cida cinco contos de r\u00e9is; duvido muito que ningu\u00e9m fosse mais generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E que fizera deles? Naturalmente botou-os fora, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a Miseric\u00f3rdia, e eu que a leve! Morre-se em qualquer parte. Acresce que eu n\u00e3o sabia ou n\u00e3o me lembrava do tal Beco das Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de l\u00e1 ir, chamar a aten\u00e7\u00e3o dos vizinhos, bater \u00e0 porta, etc. Que ma\u00e7ada! N\u00e3o vou.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLIV \/ UTILIDADE RELATIVA<\/h3>\n<p>MAS A NOITE, que \u00e9 boa conselheira, ponderou que a cortesia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama.<\/p>\n<p>&#8211;Letras vencidas, urge pag\u00e1-las, disse eu ao levantar-me.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o fui \u00e0 casa de D. Pl\u00e1cida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Miseric\u00f3rdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida \u00e0s escondidas, tal qual entrara. Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no cap\u00edtulo LXXV, se era para isto que o sacrist\u00e3o da S\u00e9 e a doceira trouxeram Dona Pl\u00e1cida \u00e0 luz, num momento de simpatia espec\u00edfica. Mas adverti logo que, se n\u00e3o fosse D. Pl\u00e1cida, talvez os meus amores com Virg\u00edlia tivessem sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervesc\u00eancia; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Pl\u00e1cida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho h\u00e1 absoluto nesse mundo?<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLV \/ SIMPLES REPETI\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>QUANTO AOS CINCO contos, n\u00e3o vale a pena dizer que um carteiro da vizinhan\u00e7a fingiu-se enamorado de D. Pl\u00e1cida, logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou com ela; no fim de alguns meses inventou um neg\u00f3cio, vendeu as ap\u00f3lices e fugiu com o dinheiro. N\u00e3o vale a pena. \u00c9 o caso dos c\u00e3es do Quincas Borba. Simples repeti\u00e7\u00e3o de um cap\u00edtulo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLVI \/ O PROGRAMA<\/h3>\n<p>URGIA FUNDAR O jornal. Redigi o programa, que era uma aplica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Humanitismo; somente, como o Quincas Borba n\u00e3o houvesse ainda publicado o livro (que aperfei\u00e7oava de ano em ano), assentamos de lhe n\u00e3o fazer nenhuma refer\u00eancia. Quincas Borba exigiu apenas uma declara\u00e7\u00e3o, aut\u00f3grafa e reservada, de que alguns princ\u00edpios novos aplicados \u00e0 pol\u00edtica eram tirados do livro dele, ainda in\u00e9dito.<\/p>\n<p>Era a fina flor dos programas; prometia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os s\u00e3os princ\u00edpios de liberdade e conserva\u00e7\u00e3o; fazia um apelo ao com\u00e9rcio e \u00e0 lavoura; citava Guizot e Ledru Rollin, e acabava com esta amea\u00e7a, que o Quincas Borba achou mesquinha e local: &#8220;A nova doutrina que professamos h\u00e1 de inevitavelmente derribar o atual minist\u00e9rio&#8221;. Confesso que, nas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas da ocasi\u00e3o, o programa pareceu-me uma obra-prima. A amea\u00e7a do fim, que o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do mais puro Humanitismo, e ele mesmo o confessou depois. Porquanto, o Humanitismo n\u00e3o exclu\u00eda nada; as guerras de Napole\u00e3o e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a diferen\u00e7a que os soldados de Napole\u00e3o sabiam que morriam, cousa que aparentemente n\u00e3o acontece \u00e0s cabras. Ora, eu n\u00e3o fazia mais do que aplicar \u00e0s circunst\u00e2ncias a nossa f\u00f3rmula filos\u00f3fica: Humanitas queria substituir Humanitas para consola\u00e7\u00e3o de Humanitas.<\/p>\n<p>&#8211;Tu \u00e9s o meu disc\u00edpulo amado, o meu califa, bradou Quincas Borba, com uma nota de ternura, que at\u00e9 ent\u00e3o lhe n\u00e3o ouvira. Posso dizer como o grande Muamede: nem que venham agora contra mim o Sol e a Lua, n\u00e3o recuarei das minhas id\u00e9ias. Cr\u00ea, meu caro Br\u00e1s Cubas, que esta \u00e9 a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos s\u00e9culos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLVII \/ O DESATINO<\/h3>\n<p>MANDEI LOGO para a imprensa uma not\u00edcia discreta, dizendo que provavelmente come\u00e7aria a publica\u00e7\u00e3o de um jornal oposicionista, da\u00ed a algumas semanas, redigido pelo Dr. Br\u00e1s Cubas. Quincas Borba, a quem li a not\u00edcia, pegou da pena, e acrescentou ao meu nome com uma fraternidade verdadeiramente human\u00edstica, esta frase: &#8220;um dos mais gloriosos membros da passada c\u00e2mara&#8221;.<\/p>\n<p>No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, afetando sossego e at\u00e9 alegria. Vira a not\u00edcia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante id\u00e9ia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou que eu ia colocar-me numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, e de certa maneira trancar as portas do parlamento. O minist\u00e9rio, n\u00e3o s\u00f3 lhe parecia excelente, o que ali\u00e1s podia n\u00e3o ser a minha opini\u00e3o, mas com certeza viveria muito, e que podia eu ganhar com indisp\u00f4-lo contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram afei\u00e7oados; n\u00e3o era imposs\u00edvel uma vaga, e&#8230; Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar, e n\u00e3o podia recuar uma linha. Cheguei a propor-lhe a leitura do programa, mas ele recusou energicamente, dizendo que n\u00e3o queria ter a m\u00ednima parte no meu desatino.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um verdadeiro desatino, repetiu ele; pense ainda alguns dias, e ver\u00e1 que \u00e9 um desatino.<\/p>\n<p>A mesma cousa disse Sabina, \u00e0 noite, no teatro. Deixou a filha no camorote, com o Cotrim, e trouxe-me ao corredor.<\/p>\n<p>&#8212; Mano Br\u00e1s, que \u00e9 que voc\u00ea vai fazer? perguntou-me aflita. Que id\u00e9ia \u00e9 essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia . . .<\/p>\n<p>Expliquei-lhe que n\u00e3o me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha id\u00e9ia era derribar o minist\u00e9rio, por n\u00e3o me parecer adequado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o &#8212; e a certa f\u00f3rmula filos\u00f3fica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cort\u00eas, embora en\u00e9rgica. A viol\u00eancia n\u00e3o era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a cabe\u00e7a, e tornou ao assunto com um ar de s\u00faplica e amea\u00e7a, alternadamente; eu disse-lhe que n\u00e3o, que n\u00e3o, e que n\u00e3o. Desenganada, lan\u00e7ou-me em rosto preferi os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido. &#8212; Pois siga o que lhe parecer, concluiu; n\u00f3s cumprimos a nossa obriga\u00e7\u00e3o.&#8211;Deu-me as costas e voltou ao camarote.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLVIII \/ O PROBLEMA INSOL\u00daVEL<\/h3>\n<p>PUBLIQUEI o jornal. Vinte e quatro horas depois, aparecia em outros uma declara\u00e7\u00e3o do Cotrim, dizendo, em subst\u00e2ncia, que &#8220;posto n\u00e3o militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a p\u00e1tria, achava conveniente deixar bem claro que n\u00e3o tinha influ\u00eancia nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Dr. Br\u00e1s Cubas, cujas id\u00e9ias e procedimento pol\u00edtico inteiramente reprovava. O atual minist\u00e9rio (como ali\u00e1s qualquer outro composto de iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declara\u00e7\u00e3o inoportuna, ins\u00f3lita e enigm\u00e1tica. Se ele nada tinha com os partidos, que lhe importava um incidente t\u00e3o vulgar como a publica\u00e7\u00e3o de uma folha? Nem todos os cidad\u00e3os que acham bom ou mau um minist\u00e9rio fazem declara\u00e7\u00f5es tais pela imprensa, nem s\u00e3o obrigados a faz\u00ea-las. Realmente, era um mist\u00e9rio a intrus\u00e3o do Cotrim neste neg\u00f3cio, n\u00e3o menos que a sua agress\u00e3o pessoal. Nossas rela\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o tinham sido Ihanas e ben\u00e9volas; n\u00e3o me lembrava nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconcilia\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, as recorda\u00e7\u00f5es eram de verdadeiros obs\u00e9quios; assim, por exemplo, sendo eu deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha, fornecimentos que ele continuava a fazer com a maior pontualidade, e dos quais me dizia algumas semanas antes, que no fim de mais tr\u00eas anos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois a lembran\u00e7a de tamanho obs\u00e9quio n\u00e3o teve for\u00e7a para obstar que ele viesse a p\u00fablico enxovalhar o cunhado? Devia ser mui poderoso e motivo da declara\u00e7\u00e3o, que o fazia cometer ao mesmo tempo um destempero e uma ingratid\u00e3o; confesso que era um problema insol\u00favel&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CXLIX \/ TEORIA DO BENEF\u00cdCIO<\/h3>\n<p>&#8230;T\u00c3O INSOL\u00daVEL que o Quincas Borba n\u00e3o p\u00f4de dar com ele, apesar de estud\u00e1-lo longamente e com boa vontade.&#8211; Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco minutos de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 censura de ingratid\u00e3o, Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, n\u00e3o como improv\u00e1vel, mas como absurda, por n\u00e3o obedecer \u00e0s conclus\u00f5es de uma boa filosofia human\u00edstica.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me podes negar um fato, disse ele; \u00e9 que o prazer do beneficiador \u00e9 sempre maior que o do beneficiado. Que \u00e9 o benef\u00edcio? \u00e9 um ato que faz cessar certa priva\u00e7\u00e3o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto \u00e9, uma vez cessada a priva\u00e7\u00e3o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup\u00f5e que tens apertado em demasia o c\u00f3s das cal\u00e7as; para fazer cessar o inc\u00f4modo, desabotoas o c\u00f3s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna \u00e0 indiferen\u00e7a, e n\u00e3o te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. N\u00e3o havendo nada que perdure, \u00e9 natural que a mem\u00f3ria se esvae\u00e7a, porque ela n\u00e3o \u00e9 uma planta a\u00e9rea, precisa de ch\u00e3o. A esperan\u00e7a de outros favores, \u00e9 certo, conserva sempre no beneficiado a lembran\u00e7a do primeiro; mas este fato, ali\u00e1s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem\u00f3ria da priva\u00e7\u00e3o, ou, usando de outra f\u00f3rmula, pela priva\u00e7\u00e3o continuada na mem\u00f3ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau\u00e7\u00e3o do rem\u00e9dio oportuno. N\u00e3o digo que, ainda sem esta circunst\u00e2ncia, n\u00e3o aconte\u00e7a, algumas vezes, persistir a mem\u00f3ria do obs\u00e9quio, acompanhada de certa afei\u00e7\u00e3o mais ou menos intensa; mas s\u00e3o verdadeiras aberra\u00e7\u00f5es, sem nenhum valor aos olhos de um fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, repliquei eu, se nenhuma raz\u00e3o h\u00e1 para que perdure a mem\u00f3ria do obs\u00e9quio no obsequiado, menos h\u00e1 de haver em rela\u00e7\u00e3o ao obsequiador. Quisera que me explicasses este ponto.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o se explica o que \u00e9 de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persist\u00eancia do benef\u00edcio na mem\u00f3ria de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benef\u00edcio e seus efeitos. Primeiramente h\u00e1 o sentimento de uma boa a\u00e7\u00e3o, e dedutivamente a consci\u00eancia de que somos capazes de boas a\u00e7\u00f5es; em segundo lugar, recebe-se uma convic\u00e7\u00e3o de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta \u00e9 uma das cousas mais legitimamente agrad\u00e1veis, segundo as melhores opini\u00f5es, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas cousas boas, chamou a aten\u00e7\u00e3o para a complac\u00eancia com que dous burros se co\u00e7am um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observa\u00e7\u00e3o de Erasmo; mas direi o que ele n\u00e3o disse, a saber que se um dos burros co\u00e7ar melhor o outro esse h\u00e1 de ter nos olhos algum ind\u00edcio especial de satisfa\u00e7\u00e3o. Por que \u00e9 que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, sen\u00e3o porque se acha bonita, e porque isso lhe d\u00e1 certa superioridade sobre uma multid\u00e3o de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consci\u00eancia \u00e9 a mesma cousa; remira-se a mi\u00fado, quando se acha bela. Nem o remorso \u00e9 outra cousa mais do que o trejeito de uma consci\u00eancia que se v\u00ea hedionda. N\u00e3o esque\u00e7as que, sendo tudo uma simples irradia\u00e7\u00e3o de Humanitas, o benef\u00edcio e seus efeitos s\u00e3o fen\u00f4menos perfeitamente admir\u00e1veis.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CL \/ ROTA\u00c7\u00c3O E TRANSLA\u00c7\u00c3O<\/h3>\n<p>H\u00c1 EM CADA EMPRESA, afei\u00e7\u00e3o ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro n\u00famero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e da\u00ed a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de D. Pl\u00e1cida. No dia em que o jornal amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos ef\u00eameras como o corpo alimenta os seus parasitas creio n\u00e3o dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas, para n\u00e3o arriscar essa figura menos n\u00edtida e adequada, prefiro uma imagem astron\u00f4mica: o homem executa \u00e0 roda do grande mist\u00e9rio um movimento duplo de rota\u00e7\u00e3o e transla\u00e7\u00e3o; tem os seus dias, desiguais como os de J\u00fapiter, e deles comp\u00f5e o seu ano mais ou menos longo.<\/p>\n<p>No momento em que eu terminava o meu movimento de rota\u00e7\u00e3o conclu\u00eda Lobo Neves o seu movimento de transla\u00e7\u00e3o. Morria com o p\u00e9 na escada ministerial. Correu ao menos durante algumas semanas, que ele ia ser ministro, e pois que o boato me encheu de muita irrita\u00e7\u00e3o e inveja, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que a not\u00edcia da morte me deixasse alguma tranq\u00fcilidade, al\u00edvio, e um ou dous minutos de prazer. Prazer \u00e9 muito, mas \u00e9 verdade; juro aos s\u00e9culos que \u00e9 a pura verdade.<\/p>\n<p>Fui ao enterro. Na sala mortu\u00e1ria achei Virg\u00edlia, ao p\u00e9 do f\u00e9retro a solu\u00e7ar. Quando levantou a cabe\u00e7a, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abra\u00e7ou-se ao caix\u00e3o, aflita; vieram tir\u00e1-la e lev\u00e1-la para dentro. Digo-vos que as l\u00e1grimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemit\u00e9rio; e, para dizer tudo, n\u00e3o tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na consci\u00eancia. No cemit\u00e9rio, principalmente quando deixei cair a p\u00e1 de cal sobre o caix\u00e3o, no fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro, \u00e9 certo, mas desagrad\u00e1vel; e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo; o cemit\u00e9rio, as roupas pretas&#8230;<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLI \/ FILOSOFIA DOS EPIT\u00c1FIOS<\/h3>\n<p>SA\u00cd, AFASTANDO-ME dos grupos, e fingindo ler os epit\u00e1fios. E, ali\u00e1s, gosto dos epit\u00e1fios; eles s\u00e3o, entre a gente civilizada, uma express\u00e3o daquele pio e secreto ego\u00edsmo que induz o homem a arrancar \u00e0 morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Da\u00ed vem, talvez, a tristeza inconsol\u00e1vel dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podrid\u00e3o an\u00f4nima os alcan\u00e7a a eles mesmos.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLII \/ A MOEDA DE VESPASIANO<\/h3>\n<p>TINHAM IDO TODOS; s\u00f3 o meu carro esperava pelo dono. Acendi um charuto; afastei-me do cemit\u00e9rio. N\u00e3o podia sacudir dos olhos a cerim\u00f4nia do enterro nem dos ouvidos os solu\u00e7os de Virg\u00edlia. Os solu\u00e7os, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um problema. Virg\u00edlia tra\u00edra o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade. Eis uma combina\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que n\u00e3o pude fazer em todo o trajeto; em casa, por\u00e9m, apeando-me do carro, suspeitei que a combina\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel, e at\u00e9 f\u00e1cil. Meiga Natura! A taxa da dor \u00e9 como a moeda de Vespasiano; n\u00e3o cheira \u00e0 origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A moral repreender\u00e1, porventura, a minha c\u00famplice; \u00e9 o que te n\u00e3o importa, implac\u00e1vel amiga, uma vez que lhe recebeste pontualmente as l\u00e1grimas. Meiga, tr\u00eas vezes Meiga Natura!<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLIII \/ O ALIENISTA<\/h3>\n<p>COME\u00c7O A FICAR pat\u00e9tico e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com a id\u00e9ia de ser nababo. Eu gostava, \u00e0s vezes, de imaginar esses contrastes de regi\u00e3o, estado e credo. Alguns dias antes tinha pensado na hip\u00f3tese de uma revolu\u00e7\u00e3o social, religiosa e pol\u00edtica, que transferisse o arcebispo de Cantu\u00e1ria a simples coletor de Petr\u00f3polis, e fiz longos c\u00e1lculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o coletor, ou que por\u00e7\u00e3o de arcebispo pode jazer num coletor, ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo, etc. Quest\u00f5es insol\u00faveis, aparentemente, mas na realidade perfeitamente sol\u00faveis, desde que se atenda que pode haver num arcebispo dous arcebispos,&#8211; o da bula e o outro. Est\u00e1 dito, vou ser nababo.<\/p>\n<p>Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que olhou para mim com certa cautela e pena, levando a sua bondade a comunicar-me que eu estava doudo. Ri-me a princ\u00edpio; mas a nobre convic\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo incutiu-me certo medo. A \u00fanica obje\u00e7\u00e3o contra a palavra do Quincas Borba \u00e9 que n\u00e3o me sentia doudo, mas n\u00e3o tendo geralmente os doudos outro conceito de si mesmos, tal obje\u00e7\u00e3o ficava sem valor. E vede se h\u00e1 algum fundamento na cren\u00e7a popular de que os fil\u00f3sofos s\u00e3o homens alheios \u00e0s cousas m\u00ednimas. No dia seguinte, mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. Ele, por\u00e9m houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se t\u00e3o alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me n\u00e3o achava doudo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, disse ele sorrindo; raros homens ter\u00e3o tanto ju\u00edzo como o senhor.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o o Quincas Borba enganou-se?<\/p>\n<p>&#8211;Redondamente. E depois:&#8211;Ao contr\u00e1rio, se \u00e9 amigo dele&#8230; pe\u00e7o-lhe que o distraia&#8230; que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Justos c\u00e9us! Parece-lhe?&#8230; Um homem de tamanho esp\u00edrito, um fil\u00f3sofo!<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o importa, a loucura entra em todas as casas.<\/p>\n<p>Imaginem a minha afli\u00e7\u00e3o. O alienista, vendo o efeito de suas palavras, reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da advert\u00eancia. Observou que podia n\u00e3o ser nada, e acrescentou at\u00e9 que um gr\u00e3ozinho de sandice, longe de fazer mal, dava certo pico \u00e0 vida. Como eu rejeitasse com horror esta opini\u00e3o, o alienista sorriu e disse-me uma cousa t\u00e3o extraordin\u00e1ria, t\u00e3o extraordin\u00e1ria, que n\u00e3o merece menos de um cap\u00edtulo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLIV \/ OS NAVIOS DO PIREU<\/h3>\n<p>&#8211;H\u00c1 DE LEMBRAR-SE, disse-me o alienista, daquele famoso man\u00edaco ateniense, que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. N\u00e3o passava de um pobret\u00e3o, que talvez n\u00e3o tivesse, para dormir, a cuba de Di\u00f3genes; mas a posse imagin\u00e1ria dos navios valia por todas as dracmas da H\u00e9lade. Ora bem, h\u00e1 em todos n\u00f3s um man\u00edaco de Atenas; e quem jurar que n\u00e3o possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou tr\u00eas patachos, pelo menos, pode crer que jura falso.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m o senhor? perguntei-lhe.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu?<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m o senhor; e o seu criado, n\u00e3o menos se \u00e9 seu criado esse homem que ali est\u00e1 sacudindo os tapetes \u00e0 janela.<\/p>\n<p>De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto n\u00f3s fal\u00e1vamos no jardim, ao lado. O alienista notou ent\u00e3o que ele escancarara as janelas todas deste longo tempo, que al\u00e7ara as cortinas, que devassara o mais poss\u00edvel a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fora, e concluiu: &#8211;Este seu criado tem a mania do ateniense: cr\u00ea que os navios s\u00e3o dele; uma hora de ilus\u00e3o que lhe d\u00e1 a maior felicidade da Terra.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLV \/ REFLEX\u00c3O CORDIAL<\/h3>\n<p>&#8211;SE O ALIENISTA tem raz\u00e3o, disse eu comigo, n\u00e3o haver\u00e1 muito que lastimar o Quincas Borba; \u00e9 uma quest\u00e3o de mais ou de menos. Contudo, \u00e9 justo cuidar dele, e evitar que lhe entrem no c\u00e9rebro man\u00edacos de outras paragens.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLVI \/ ORGULHO DA SERVILIDADE<\/h3>\n<p>QUINCAS BORBA divergiu do alienista em rela\u00e7\u00e3o ao meu criado.&#8211; Pode-se, por imagem, disse ele, atribuir ao teu criado a mania do ateniense, mas imagens n\u00e3o s\u00e3o id\u00e9ias nem observa\u00e7\u00f5es tomadas \u00e0 natureza. O que o teu criado tem \u00e9 um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: \u00e9 o orgulho da servilidade. A inten\u00e7\u00e3o dele \u00e9 mostrar que n\u00e3o \u00e9 criado de qualquer.&#8211;Depois chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para os cocheiros de casa grande, mais empertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece \u00e0s varia\u00e7\u00f5es sociais da freguesia, etc. E concluiu que era tudo a express\u00e3o daquele sentimento delicado e nobre, &#8212; prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, \u00e9 sublime.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLVII \/ FASE BRILHANTE<\/h3>\n<p>&#8211;SUBLIME \u00e9s tu, bradei eu, lan\u00e7ando-lhe os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Com efeito, era imposs\u00edvel crer que um homem t\u00e3o profundo chegasse \u00e0 dem\u00eancia; foi o que lhe disse ap\u00f3s o meu abra\u00e7o, denunciando-lhe a suspeita do alienista. N\u00e3o posso descrever a impress\u00e3o que lhe fez a den\u00fancia; lembra-me que ele estremeceu e ficou muito p\u00e1lido.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a causa do dissentimento. Reconcilia\u00e7\u00e3o oportuna, porque a solid\u00e3o pesava-me, e a vida era para mim a pior das fadigas, que \u00e9 a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por ele a filiar-me numa Ordem Terceira; o que eu n\u00e3o fiz sem consultar o Quincas Borba:<\/p>\n<p>&#8211;Vai, se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de anexar \u00e0 minha filosofia uma parte dogm\u00e1tica e lit\u00fargica. O Humanitismo h\u00e1 de ser tamb\u00e9m uma religi\u00e3o, a do futuro, a \u00fanica verdadeira. O cristianismo \u00e9 bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religi\u00f5es n\u00e3o valem mais do que essa: or\u00e7am todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O para\u00edso crist\u00e3o \u00e9 um digno \u00eamulo do para\u00edso mu\u00e7ulmano; e quanto ao nirvana de Buda n\u00e3o passa de uma concep\u00e7\u00e3o de paral\u00edticos. Ver\u00e1s o que \u00e9 a religi\u00e3o human\u00edstica. A absor\u00e7\u00e3o final, a fase contrativa, \u00e9 a reconstitui\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, n\u00e3o o seu aniquilamento, etc. Vai aonde te chamam; n\u00e3o esque\u00e7as, por\u00e9m, que \u00e9s o meu califa.<\/p>\n<p>E vede agora a minha mod\u00e9stia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci ali alguns cargos, foi essa a fase mais brilhante da minha vida. N\u00e3o obstante, calo-me, n\u00e3o digo nada, n\u00e3o conto os meus servi\u00e7os, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, nada, n\u00e3o digo absolutamente nada.<\/p>\n<p>Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, se eu mostrasse como todo e qualquer pr\u00eamio estranho vale pouco ao lado do pr\u00eamio subjetivo e imediato; mas seria romper o sil\u00eancio que jurei guardar neste ponto. Demais, os fen\u00f4menos da consci\u00eancia s\u00e3o de dif\u00edcil an\u00e1lise; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a ele se prendessem, e acabava fazendo um cap\u00edtulo de psicologia. Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgra\u00e7a, que \u00e9 t\u00e3o aborrecida como a do gozo, e talvez pior. Mas a alegria que se d\u00e1 \u00e0 alma dos doentes e dos pobres, \u00e9 recompensa de algum valor: e n\u00e3o me digam que \u00e9 negativa, por s\u00f3 receb\u00ea-la o obsequiado. N\u00e3o eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, t\u00e3o grande que me dava excelente id\u00e9ia de mim mesmo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTUI.O CLVIII \/ DOUS ENCONTROS<\/h3>\n<p>No FIM de alguns anos, tr\u00eas ou quatro, estava enfarado do of\u00edcio, e deixei-o, n\u00e3o sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. N\u00e3o acabarei, por\u00e9m, o cap\u00edtulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?.. . a linda Marcela; e vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um corti\u00e7o, para distribuir esmolas, achei&#8230; Agora \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o capazes de adivinhar. . . achei a flor da moita, Eug\u00eania, a filha de D. Eus\u00e9bia e do Vila\u00e7a, t\u00e3o coxa como a deixara, e ainda mais triste.<\/p>\n<p>Esta, ao reconhecer-me, ficou p\u00e1lida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabe\u00e7a, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que n\u00e3o receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a m\u00e3o, como faria \u00e0 esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cub\u00edculo. Nunca mais a vi; n\u00e3o soube nada da vida dela, nem se a m\u00e3e era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha mis\u00e9ria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com esta impress\u00e3o profunda que cheguei ao hospital, onde Marcela entrara na v\u00e9spera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decr\u00e9pita . . .<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLIX \/ SEMIDEM\u00caNCIA<\/h3>\n<p>COMPREENDI que estava velho, e precisava de uma for\u00e7a; mas o Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois, e entrou-me em casa, certa manh\u00e3, quase no estado em que eu o vira no Passeio P\u00fablico. A diferen\u00e7a \u00e9 que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfei\u00e7oar o Humanitismo queimara o manuscrito todo e ia recome\u00e7\u00e1-lo. A parte dogm\u00e1tica ficava completa, embora n\u00e3o escrita; era a verdadeira religi\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>&#8211;Juras por Humanitas? perguntou-me.<\/p>\n<p>&#8211;Sabes que sim.<\/p>\n<p>A voz mal podia sair-me do peito, e ali\u00e1s n\u00e3o tinha descoberto toda a cruel verdade. Quincas Borba n\u00e3o s\u00f3 estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consci\u00eancia, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situa\u00e7\u00e3o. Sabia-o, e n\u00e3o se irritava contra o mal; ao contr\u00e1rio, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos cap\u00edtulos do livro, e ant\u00edfonas, e litanias espirituais; chegou at\u00e9 a reproduzir uma dan\u00e7a sacra que inventara para as cerim\u00f4nias do Humanitismo. A gra\u00e7a l\u00fagubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fant\u00e1stica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da raz\u00e3o, triste como uma l\u00e1grima&#8230;<\/p>\n<p>Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilus\u00e3o, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, n\u00e3o era t\u00e3o tolo como o sup\u00f4s Voltaire.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO CLX \/ DAS NEGATIVAS<\/h3>\n<p>ENTRE A MORTE do Quincas Borba e a minha, mediram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a inven\u00e7\u00e3o do emplasto Br\u00e1s Cubas, que morreu comigo, por causa da mol\u00e9stia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ci\u00eancia e da riqueza, porque eras a genu\u00edna e direta inspira\u00e7\u00e3o do C\u00e9u. O caso determinou o contr\u00e1rio; e a\u00ed vos ficais eternamente hipocondr\u00edacos.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo cap\u00edtulo \u00e9 todo de negativas. N\u00e3o alcancei a celebridade do emplast6o, n\u00e3o fui ministro, n\u00e3o fui califa, n\u00e3o conheci o casamento. Verdade \u00e9 que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de n\u00e3o comprar o p\u00e3o com o suor do meu rosto. Mais; n\u00e3o padeci a morte de D. Pl\u00e1cida, nem a semidem\u00eancia do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginar\u00e1 que n\u00e3o houve m\u00edngua nem sobra, e conseguintemente que sa\u00ed quite com a vida. E imaginar\u00e1 mal; porque ao chegar a este outro lado do mist\u00e9rio, achei-me com um pequeno saldo, que \u00e9 a derradeira negativa deste cap\u00edtulo de negativas: &#8212; N\u00e3o tive filhos, n\u00e3o transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis AO LEITOR QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa \u00e9 que admira e consterna. O que n\u00e3o admira, nem provavelmente consternar\u00e1 \u00e9 se este outro livro n\u00e3o tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinq\u00fcenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. 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