{"id":120408,"date":"2017-04-25T19:38:12","date_gmt":"2017-04-25T21:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120408"},"modified":"2017-04-28T17:39:25","modified_gmt":"2017-04-28T19:39:25","slug":"memorial-de-aires","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorial-de-aires","title":{"rendered":"Memorial de Aires"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Memorial de Aires &#8211; Machado de Assis<\/h2>\n<p><strong>ADVERT\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p>Quem me leu Esa\u00fa e Jac\u00f3 talvez reconhe\u00e7a estas palavras do pref\u00e1cio:<\/p>\n<p>&#8220;Nos lazeres do of\u00edcio escrevia o Memorial, que, apesar das p\u00e1ginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez d\u00ea) para matar o tempo da barca de Petr\u00f3polis.&#8221;<\/p>\n<p>Referia-me ao Conselheiro Aires. Tratando-se agora de imprimir o Memorial, achou-se que a parte relativa a uns dous anos (1888-1889), se for decotada de algumas circunst\u00e2ncias, anedotas, descri\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es, \u2014 pode dar uma narra\u00e7\u00e3o seguida, que talvez interesse, apesar da forma de di\u00e1rio que tem. N\u00e3o houve pachorra de a redigir \u00e0 maneira daquela outra, \u2014 nem pachorra, nem habilidade. Vai como estava, mas desbastada e estreita, conservando s\u00f3 o que liga o mesmo assunto. O resto aparecer\u00e1 um dia, se aparecer algum dia.<\/p>\n<p>M.de Assis<\/p>\n<p>1888<\/p>\n<p>9 de janeiro<\/p>\n<p>Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber caf\u00e9, o preg\u00e3o de um vendedor de vassouras e espanadores: &#8220;Vai vassouras! vai espanadores!&#8221; Costumo ouvi-lo outras manh\u00e3s, mas desta vez trouxe-me \u00e0 mem\u00f3ria o dia do desembarque, quando cheguei aposentado \u00e0 minha terra, ao meu Catete, \u00e0 minha l\u00edngua. Era o mesmo que ouvi h\u00e1 um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.<\/p>\n<p>Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licen\u00e7a. O mais do tempo vivi fora, em v\u00e1rias partes, e n\u00e3o foi pouco. Cuidei que n\u00e3o acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de c\u00e1. Pois acabei. Certamente ainda me lembram cousas e pessoas de longe, divers\u00f5es, paisagens, costumes, mas n\u00e3o morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.<\/p>\n<p>Cinco horas da tarde<\/p>\n<p>Recebi agora um bilhete de mana Rita, que aqui vai colado:<\/p>\n<p>9 de janeiro<\/p>\n<p>&#8220;Mano,<\/p>\n<p>S\u00f3 agora me lembrou que faz hoje um ano que voc\u00ea voltou da Europa aposentado. J\u00e1 \u00e9 tarde para ir ao cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, em visita ao jazigo da fam\u00edlia, dar gra\u00e7as pelo seu regresso; irei amanh\u00e3 de manh\u00e3, e pe\u00e7o a voc\u00ea que me espere para ir comigo. Saudades da<\/p>\n<p>Velha mana,<\/p>\n<p>Rita.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo necessidade disso, mas respondi que sim.<\/p>\n<p>10 de janeiro<\/p>\n<p>Fomos ao cemit\u00e9rio. Rita, apesar da alegria do motivo, n\u00e3o p\u00f4de reter algumas velhas l\u00e1grimas de saudade pelo marido que l\u00e1 est\u00e1 no jazigo, com meu pai e minha m\u00e3e. Ela ainda agora o ama, como no dia em que o perdeu, l\u00e1 se v\u00e3o tantos anos. No caix\u00e3o do defunto mandou guardar um molho dos seus cabelos, ent\u00e3o pretos, enquanto os mais deles ficaram a embranquecer c\u00e1 fora.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 feio o nosso jazigo; podia ser um pouco mais simples, \u2014 a inscri\u00e7\u00e3o e uma cruz, \u2014 mas o que est\u00e1 \u00e9 bem feito. Achei-o novo demais, isso sim. Rita f\u00e1-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelhe\u00e7a. Ora, eu creio que um velho t\u00famulo d\u00e1 melhor impress\u00e3o do of\u00edcio, se tem as negruras do tempo, que tudo consome. O contr\u00e1rio parece sempre da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Rita orou diante dele alguns minutos, enquanto eu circulava os olhos pelas sepulturas pr\u00f3ximas. Em quase todas havia a mesma antiga s\u00faplica da nossa: &#8220;Orai por ele! Orai por ela!&#8221; Rita me disse depois, em caminho, que \u00e9 seu costume atender ao pedido das outras, rezando uma prece por todos os que ali est\u00e3o. Talvez seja a \u00fanica. A mana \u00e9 boa criatura, n\u00e3o menos que alegre.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o que me dava o total do cemit\u00e9rio \u00e9 a que me deram sempre outros; tudo ali estava parado. Os gestos das figuras, anjos e outras, eram diversos, mas im\u00f3veis. S\u00f3 alguns p\u00e1ssaros davam sinal de vida, buscando-se entre si e pousando nas ramagens, pipilando ou gorjeando. Os arbustos viviam calados, na verdura e nas flores.<\/p>\n<p>J\u00e1 perto do port\u00e3o, \u00e0 sa\u00edda, falei a mana Rita de uma senhora que eu vira ao p\u00e9 de outra sepultura, ao lado esquerdo do cruzeiro, enquanto ela rezava. Era mo\u00e7a, vestia de preto, e parecia rezar tamb\u00e9m, com as m\u00e3os cruzadas e pendentes. A cara n\u00e3o me era estranha, sem atinar quem fosse. E bonita, e gentil\u00edssima, como ouvi dizer de outras em Roma.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1?<\/p>\n<p>Disse-lhe onde estava. Quis ver quem era. Rita, al\u00e9m de boa pessoa, \u00e9 curiosa, sem todavia chegar ao superlativo romano. Respondi-lhe que esper\u00e1ssemos ali mesmo, ao port\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! pode n\u00e3o vir t\u00e3o cedo, vamos espi\u00e1-la de longe. \u00c9 assim bonita?<\/p>\n<p>\u2014 Pareceu-me.<\/p>\n<p>Entramos e enfiamos por um caminho entre campas, naturalmente. A alguma dist\u00e2ncia, Rita deteve-se.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea conhece, sim. J\u00e1 a viu l\u00e1 em casa, h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a vi\u00fava Noronha. Vamos embora, antes que nos veja.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora me lembrava, ainda que vagamente, de uma senhora que l\u00e1 apareceu em Andara\u00ed, a quem Rita me apresentou e com quem falei alguns minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Vi\u00fava de um m\u00e9dico, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Isso; filha de um fazendeiro da Para\u00edba do Sul, o bar\u00e3o de Santa-Pia.<\/p>\n<p>Nesse momento, a vi\u00fava descruzava as m\u00e3os, e fazia gesto de ir embora. Primeiramente espraiou os olhos, como a ver se estava s\u00f3. Talvez quisesse beijar a sepultura, o pr\u00f3prio nome do marido, mas havia gente perto, sem contar dous coveiros que levavam um regador e uma enxada, e iam falando de um enterro daquela manh\u00e3. Falavam alto, e um escarnecia do outro, em voz grossa: &#8220;Eras capaz de levar um daqueles ao morro? S\u00f3 se fossem quatro como tu&#8221;. Tratavam de caix\u00e3o pesado, naturalmente, mas eu voltei depressa a aten\u00e7\u00e3o para a vi\u00fava, que se afastava e caminhava lentamente, sem mais olhar para tr\u00e1s. Encoberto por um mausol\u00e9u, n\u00e3o a pude ver mais nem melhor que a princ\u00edpio. Ela foi descendo at\u00e9 o port\u00e3o, onde passava um bonde em que entrou e partiu. N\u00f3s descemos depois e viemos no outro.<\/p>\n<p>Rita contou-me ent\u00e3o alguma cousa da vida da mo\u00e7a e da felicidade grande que tivera com o marido, ali sepultado h\u00e1 mais de dous anos. Pouco tempo viveram juntos. Eu, n\u00e3o sei por que inspira\u00e7\u00e3o maligna, arrisquei esta reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o venha a casar outra vez.<\/p>\n<p>\u2014 Aquela n\u00e3o casa.<\/p>\n<p>\u2014 Quem lhe diz que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o casa; basta saber as circunst\u00e2ncias do casamento, a vida que tiveram e a dor que ela sentiu quando enviuvou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quer dizer nada, pode casar; para casar basta estar vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o casei.<\/p>\n<p>\u2014Voc\u00ea \u00e9 outra cousa, voc\u00ea \u00e9 \u00fanica.<\/p>\n<p>Rita sorriu, deitando-me uns olhos de censura, e abanando a cabe\u00e7a, como se me chamasse &#8220;peralta&#8221;. Logo ficou s\u00e9ria, porque a lembran\u00e7a do marido fazia-a realmente triste. Meti o caso \u00e0 bulha; ela, depois de aceitar uma ordem de id\u00e9ias mais alegre, convidou-me a ver se a vi\u00fava Noronha casava comigo; apostava que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Com os meus sessenta e dous anos?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o os parece; tem a verdura dos trinta.<\/p>\n<p>Pouco depois chegamos a casa e Rita almo\u00e7ou comigo. Antes do almo\u00e7o, tornamos a falar da vi\u00fava e do casamento, e ela repetiu a aposta. Eu, lembrando-me de Goethe, disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Mana, voc\u00ea est\u00e1 a querer fazer comigo a aposta de Deus e de Mefist\u00f3feles; n\u00e3o conhece?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Fui \u00e0 minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a p\u00e1gina do pr\u00f3logo no c\u00e9u, e li-lha, resumindo como pude. Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a prop\u00f3sito do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infal\u00edvel que faria dele o astuto. Rita n\u00e3o tem cultura, mas tem finura, e naquela ocasi\u00e3o tinha principalmente fome. Replicou rindo:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos almo\u00e7ar. N\u00e3o quero saber desses pr\u00f3logos nem de outros; repito o que disse, e veja voc\u00ea se refaz o que l\u00e1 vai desfeito. Vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Fomos almo\u00e7ar; \u00e0s duas horas Rita voltou para Andara\u00ed, eu vim escrever isto e vou dar um giro pela cidade.<\/p>\n<p>12 de janeiro<\/p>\n<p>Na conversa de anteontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha mulher, que l\u00e1 est\u00e1 enterrada em Viena. Pela segunda vez falou-me em transport\u00e1-la para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que estimaria muito estar perto dela, mas que, em minha opini\u00e3o, os mortos ficam bem onde caem; redarg\u00fciu-me que est\u00e3o muito melhor com os seus.<\/p>\n<p>\u2014 Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela vir\u00e1 ao meu encontro, disse eu.<\/p>\n<p>Sorriu, e citou o exemplo da vi\u00fava Noronha que fez transportar o marido de Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ela conta acabar. N\u00e3o disse mais sobre este assunto, mas provavelmente tornar\u00e1 a ele, at\u00e9 alcan\u00e7ar o que lhe parece. J\u00e1 meu cunhado dizia que era seu costume dela, quando queria alguma cousa.<\/p>\n<p>Outra cousa que n\u00e3o escrevi foi a alus\u00e3o que ela fez \u00e0 gente Aguiar, um casal que conheci a \u00faltima vez que vim, com licen\u00e7a, ao Rio de Janeiro, e agora encontrei. S\u00e3o amigos dela e da vi\u00fava, e celebram daqui a dez ou quinze dias as suas bodas de prata. J\u00e1 os visitei duas vezes e o marido a mim. Rita falou-me deles com simpatia e aconselhou-me a ir cumpriment\u00e1-los por ocasi\u00e3o das festas anivers\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 encontrar\u00e1 Fid\u00e9lia.<\/p>\n<p>\u2014 Que Fid\u00e9lia?<\/p>\n<p>\u2014 A vi\u00fava Noronha.<\/p>\n<p>\u2014 Chama-se Fid\u00e9lia?<\/p>\n<p>\u2014 Chama-se.<\/p>\n<p>\u2014 O nome n\u00e3o basta para n\u00e3o casar.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto melhor para voc\u00ea, que vencer\u00e1 a pessoa e o nome, e acabar\u00e1 casando com a vi\u00fava. Mas eu repito que n\u00e3o casa.<\/p>\n<p>14 de janeiro<\/p>\n<p>A \u00fanica particularidade da biografia de Fid\u00e9lia \u00e9 que o pai e o sogro eram inimigos pol\u00edticos, chefes de partido na Para\u00edba do Sul. Inimizade de famil\u00edas n\u00e3o tem impedido que mo\u00e7os se amem, mas \u00e9 preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as fam\u00edlias de Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; tamb\u00e9m dizem que nunca existiram, salvo na tradi\u00e7\u00e3o ou somente na cabe\u00e7a de Shakespeare.<\/p>\n<p>Nos nossos munic\u00edpios, ao norte, ao sul e ao centro, creio que n\u00e3o h\u00e1 caso algum. Aqui a oposi\u00e7\u00e3o dos rebentos continua a das ra\u00edzes, e cada \u00e1rvore brota de si mesma, sem lan\u00e7ar galhos a outra, e esterilizando-lhe o terreno, se pode. Eu, se fosse capaz de \u00f3dio, era assim que odiava; mas eu n\u00e3o odeio nada nem ningu\u00e9m, \u2014 perdono a tutti , como na \u00f3pera.<\/p>\n<p>Agora, como foi que eles se amaram \u2014 os namorados da Para\u00edba do Sul \u2014 \u00e9 o que Rita me n\u00e3o referiu, e seria curioso saber. Romeu e Julieta aqui no Rio, entre a lavoura e a advocacia \u2014 porque o pai do nosso Romeu era advogado na cidade da Para\u00edba \u2014, \u00e9 um desses encontros que importaria conhecer para explicar. Rita n\u00e3o entrou nesses pormenores; eu, se me lembrar, hei de pedir-lhos. Talvez ela os recuse imaginando que come\u00e7o deveras a morrer pela dama.<\/p>\n<p>16 de janeiro<\/p>\n<p>T\u00e3o depressa vinha saindo do Banco do Sul encontrei Aguiar, gerente dele, que para l\u00e1 ia. Cumprimentou-me muito afetuosamente, pediu-me not\u00edcias de Rita, e falamos durante alguns minutos sobre cousas gerais.<\/p>\n<p>Isso foi ontem. Hoje pela manh\u00e3 recebi um bilhete de Aguiar, convidando-me, em nome da mulher e dele, a ir l\u00e1 jantar no dia 24. S\u00e3o as bodas de prata. &#8220;Jantar simples e de poucos amigos&#8221;, escreveu ele. Soube depois que \u00e9 festa recolhida. Rita vai tamb\u00e9m. Resolvi aceitar, e vou.<\/p>\n<p>20 de janeiro<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias metido em casa, por um resfriamento com pontinha de febre. Hoje estou bom, e segundo o m\u00e9dico, posso j\u00e1 sair amanh\u00e3; mas poderei ir \u00e0s bodas de prata dos velhos Aguiares? Profissional cauteloso, o Dr. Silva me aconselhou que n\u00e3o v\u00e1; mana Rita, que tratou de mim dous dias, \u00e9 da mesma opini\u00e3o. Eu n\u00e3o a tenho contr\u00e1ria, mas se me achar l\u00e9pido e robusto, como \u00e9 poss\u00edvel, custar-me-\u00e1 n\u00e3o ir. Veremos; tr\u00eas dias passam depressa.<\/p>\n<p>Seis horas da tarde<\/p>\n<p>Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente alguma cousa de Shelley e tamb\u00e9m de Thackeray. Um consolou-me de outro, este desenganou-me daquele; \u00e9 assim que o engenho completa o engenho, e o esp\u00edrito aprende as l\u00ednguas do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Nove horas da noite<\/p>\n<p>Rita jantou comigo; disse-lhe que estou s\u00e3o como um pero, e com for\u00e7as para ir \u00e0s bodas de prata. Ela, depois de me aconselhar prud\u00eancia, concordou que, se n\u00e3o tiver mais nada, e for comedido ao jantar, posso ir; tanto mais que os meus olhos ter\u00e3o l\u00e1 dieta absoluta.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que Fid\u00e9lia n\u00e3o vai, explicou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vai?<\/p>\n<p>\u2014 Estive hoje com o desembargador Campos, que me disse haver deixado a sobrinha com a nevralgia do costume. Padece de nevralgias. Quando elas lhe aparecem \u00e9 por dias, e n\u00e3o v\u00e3o sem muito rem\u00e9dio e muita paci\u00eancia. Talvez v\u00e1 visit\u00e1-la amanh\u00e3 ou depois.<\/p>\n<p>Rita acrescentou que para o casal Aguiar \u00e9 meio desastre; contavam com ela, como um dos encantos da festa. Querem-se muito, eles a ela, e ela a eles, e todos se merecem, \u00e9 o parecer de Rita e pode vir a ser o meu.<\/p>\n<p>\u2014 Creio. J\u00e1 agora, se me n\u00e3o sentir impedido, irei sempre. Tamb\u00e9m a mim parece boa gente a gente Aguiar. Nunca tiveram filhos?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca. S\u00e3o muito afetuosos, D. Carmo ainda mais que o marido. Voc\u00ea n\u00e3o imagina como s\u00e3o amigos um do outro. Eu n\u00e3o os freq\u00fcento muito, porque vivo metida comigo, mas o pouco que os visito basta para saber o que valem, ela principalmente. O desembargador Campos, que os conhece desde muitos anos, pode dizer-lhe o que eles s\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Haver\u00e1 muita gente ao jantar?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, creio que pouca. A maior parte dos amigos ir\u00e1 de noite. Eles s\u00e3o modestos, o jantar \u00e9 s\u00f3 dos mais \u00edntimos, e por isso o convite que fizeram a voc\u00ea mostra grande simpatia pessoal.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 senti isso, quando me apresentaram a eles, h\u00e1 sete anos, mas ent\u00e3o supus que era mais por causa do ministro que do homem.<\/p>\n<p>Agora, quando me receberam, foi com muito gosto. Pois l\u00e1 vou no dia 24, haja ou n\u00e3o haja Fid\u00e9lia.<\/p>\n<p>25 de janeiro<\/p>\n<p>L\u00e1 fui ontem \u00e0s bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as minhas impress\u00f5es da noite.<\/p>\n<p>N\u00e3o podiam ser melhores. A primeira delas foi a uni\u00e3o do casal. Sei que n\u00e3o \u00e9 seguro julgar por uma festa de algumas horas a situa\u00e7\u00e3o moral de duas pessoas. Naturalmente a ocasi\u00e3o aviva a mem\u00f3ria dos tempos passados, e a afei\u00e7\u00e3o dos outros como que ajuda a duplicar a pr\u00f3pria. Mas n\u00e3o \u00e9 isso. H\u00e1 neles alguma cousa superior \u00e0 oportunidade e diversa da alegria alheia. Senti que os anos tinham ali refor\u00e7ado e aparado a natureza, e que as duas pessoas eram, ao cabo, uma s\u00f3 e \u00fanica. N\u00e3o senti, n\u00e3o podia sentir isto logo que entrei, mas foi o total da noite.<\/p>\n<p>Aguiar veio receber-me \u00e0 porta da sala \u2014 eu diria que com uma inten\u00e7\u00e3o de abra\u00e7o, se pudesse hav\u00ea-la entre n\u00f3s e em tal lugar; mas a m\u00e3o fez esse of\u00edcio, apertando a minha efusivamente. \u00c9 homem de sessenta anos feitos (ela tem cinq\u00fcenta), o corpo antes cheio que magro, \u00e1gil, ameno e risonho. Levou-me \u00e0 mulher, a um lado da sala, onde ela conversava com duas amigas. N\u00e3o era nova para mim a gra\u00e7a da boa velha, mas desta vez o motivo da visita e o teor do meu cumprimento davam-lhe \u00e0 express\u00e3o do rosto algo que tolera bem a qualifica\u00e7\u00e3o de radiante. Estendeu-me a m\u00e3o, ouviu-me e inclinou a cabe\u00e7a, olhando de relance para o marido.<\/p>\n<p>Senti-me objeto dos cuidados de ambos. Rita chegou pouco depois de mim; vieram vindo outros homens e senhoras, todos de mim conhecidos, e vi que eram familiares da casa. Em meio da conversa\u00e7\u00e3o, ouvi esta palavra inesperada a uma senhora, que dizia \u00e0 outra:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00e1 Fid\u00e9lia ter ficado pior.<\/p>\n<p>\u2014 Ela vem? perguntou a outra.<\/p>\n<p>\u2014 Mandou dizer que vinha; est\u00e1 melhor; mas talvez lhe fa\u00e7a mal.<\/p>\n<p>O mais que as duas disseram, relativamente \u00e0 vi\u00fava, foi bem. O que me dizia um dos convidados apenas foi ouvido por mim, sem lhe prestar aten\u00e7\u00e3o maior que o assunto nem perder as apar\u00eancias dela. Pela hora pr\u00f3xima do jantar supus que Fid\u00e9lia n\u00e3o viesse. Supus errado. Fid\u00e9lia e o tio foram os \u00faltimos chegados, mas chegaram. O alvoro\u00e7o com que D. Carmo a recebeu mostrava bem a alegria de a ver ali, apenas convalescida, e apesar do risco de voltar \u00e0 noite. O prazer de ambas foi grande.<\/p>\n<p>Fid\u00e9lia n\u00e3o deixou inteiramente o luto; trazia \u00e0s orelhas dous corais, e o medalh\u00e3o com o retrato do marido, ao peito, era de ouro. O mais do vestido e adorno escuro. As j\u00f3ias e um raminho de mios\u00f3tis \u00e0 cinta vinham talvez em homenagem \u00e0 amiga. J\u00e1 de manh\u00e3 lhe enviara um bilhete de cumprimentos acompanhando o pequeno vaso de porcelana, que estava em cima de um m\u00f3vel com outros presentinhos anivers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la agora, n\u00e3o a achei menos saborosa que no cemit\u00e9rio, e h\u00e1 tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa tamb\u00e9m. Parece feita ao torno, sem que este voc\u00e1bulo d\u00ea nenhuma id\u00e9ia de rigidez; ao contr\u00e1rio, \u00e9 flex\u00edvel. Quero aludir somente \u00e0 corre\u00e7\u00e3o das linhas \u2014 falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se. Tem a pele macia e clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe n\u00e3o ficam mal \u00e0 viuvez. Foi o que vi logo \u00e0 chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o resto veio vindo pela noite adiante, at\u00e9 que ela se foi embora. N\u00e3o era preciso mais para completar uma figura interessante no gesto e na conversa\u00e7\u00e3o. Eu, depois de alguns instantes de exame, eis o que pensei da pessoa. N\u00e3o pensei logo em prosa, mas em verso, e um verso justamente de Shelley, que relera dias antes em casa, como l\u00e1 ficou dito atr\u00e1s, e tirado de uma das suas est\u00e2ncias de 1821:<\/p>\n<p>I can give not what men call love.<\/p>\n<p>Assim disse comigo em ingl\u00eas, mas logo depois repeti em prosa nossa a confiss\u00e3o do poeta, com um fecho da minha composi\u00e7\u00e3o: &#8220;Eu n\u00e3o posso dar o que os homens chamam amor&#8230; e \u00e9 pena!&#8221;<\/p>\n<p>Esta confiss\u00e3o n\u00e3o me fez menos alegre. Assim, quando D. Carmo veio tomar-me o bra\u00e7o, segui como se fosse para um jantar de n\u00fapcias. Aguiar deu o bra\u00e7o a Fid\u00e9lia, e sentou-se entre ela e a mulher. Escrevo estas indica\u00e7\u00f5es sem outra necessidade mais que a de dizer que os dous c\u00f4njuges, ao p\u00e9 um do outro, ficaram ladeados pela amiga Fid\u00e9lia e por mim. Desta maneira pudemos ouvir palpitar o cora\u00e7\u00e3o aos dous \u2014 hip\u00e9rbole permitida para dizer que em ambos n\u00f3s, em mim ao menos, repercutia a felicidade daqueles vinte e cinco anos de paz e consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dona da casa, af\u00e1vel, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente feliz naquela data; n\u00e3o menos o marido. Talvez ele fosse ainda mais feliz que ela, mas n\u00e3o saberia mostr\u00e1-lo tanto. D. Carmo possui o dom de falar e viver por todas as fei\u00e7\u00f5es, e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto d\u00e3o \u00e0 velhice um relevo particular, e fazem casar nela todas as idades. N\u00e3o sei se me explico bem, nem \u00e9 preciso dizer melhor para o fogo a que lan\u00e7arei um dia estas folhas de solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>De quando em quando, ela e o marido trocavam as suas impress\u00f5es com os olhos, e pode ser que tamb\u00e9m com a fala. Uma s\u00f3 vez a impress\u00e3o visual foi melanc\u00f3lica. Mais tarde ouvi a explica\u00e7\u00e3o a mana Rita. Um dos convivas \u2014 sempre h\u00e1 indiscretos \u2014, no brinde que lhes fez aludiu \u00e0 falta de filhos, dizendo &#8220;que Deus lhos negara para que eles se amassem melhor entre si&#8221;. N\u00e3o falou em verso, mas a id\u00e9ia suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse cultivado em rapaz; or\u00e7ava agora pelos cinq\u00fcenta anos, e tinha um filho. Ouvindo aquela refer\u00eancia, os dous fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era a \u00fanica ferida do casal. Creio que Fid\u00e9lia percebeu tamb\u00e9m a express\u00e3o de tristeza dos dous, porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do c\u00e1lix e brindar a D. Carmo cheia de gra\u00e7a e ternura:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0 sua felicidade.<\/p>\n<p>A esposa Aguiar, comovida, apenas p\u00f4de responder logo com o gesto; s\u00f3 instantes depois de levar o c\u00e1lix \u00e0 boca, acrescentou, em voz meia surda, como se lhe custasse sair do cora\u00e7\u00e3o apertado esta palavra de agradecimento:<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada.<\/p>\n<p>Tudo foi assim segredado, quase calado. O marido aceitou a sua parte do brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto de melancolia.<\/p>\n<p>De noite vieram mais visitas; tocou-se, tr\u00eas ou quatro pessoas jogaram cartas. Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquela por\u00e7\u00e3o de homens alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas pelo aspecto particular da velhice de D. Carmo, e pela gra\u00e7a apetitosa da mocidade de Fid\u00e9lia; mas a gra\u00e7a desta trazia ainda a nota da viuvez recente, ali\u00e1s de dous anos. Shelley continuava a murmurar ao meu ouvido para que eu repetisse a mim mesmo: I can give not what men call love.<\/p>\n<p>Quando transmiti esta impress\u00e3o a Rita, disse ela que eram desculpas de mau pagador, isto \u00e9, que eu, temendo n\u00e3o vencer a resist\u00eancia da mo\u00e7a, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui para novamente fazer a apologia da paix\u00e3o conjugal de Fid\u00e9lia.<\/p>\n<p>\u2014 Todas as pessoas daqui e de fora que os viram \u2014 continuou \u2014 podem dizer a voc\u00ea o que foi aquele casal. Basta saber que se uniram, como j\u00e1 lhe disse, contra a vontade dos dous pais, e amaldi\u00e7oados por ambos. D. Carmo tem sido confidente da amiga, e n\u00e3o repete o que lhe ouve por discreta, resume s\u00f3 o que pode, com palavras de afirma\u00e7\u00e3o e de admira\u00e7\u00e3o. Tenho-as ouvido muita vez. A mim mesma Fid\u00e9lia conta alguma cousa. Converse com o tio&#8230; Olhe, ele que lhe diga tamb\u00e9m da gente Aguiar&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto interrompi:<\/p>\n<p>\u2014 Pelo que ou\u00e7o, enquanto eu andava l\u00e1 fora, a representar o Brasil, o Brasil fazia-se o seio de Abra\u00e3o. Voc\u00ea, o casal Aguiar, o casal Noronha, todos os casais, em suma, faziam-se modelos de felicidade perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>\u2014 Pois pe\u00e7a ao desembargador que lhe diga tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Outra impress\u00e3o que levo desta casa e desta noite \u00e9 que as duas damas, a casada e a vi\u00fava, parecem amar-se como m\u00e3e e filha, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim.<\/p>\n<p>\u2014 A vi\u00fava tamb\u00e9m n\u00e3o tem filhos?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o. \u00c9 um ponto de contacto.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um ponto de desvio; \u00e9 a viuvez de Fid\u00e9lia.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o; a viuvez de Fid\u00e9lia est\u00e1 com a velhice de D. Carmo; mas se voc\u00ea acha que \u00e9 desvio tem nas suas m\u00e3os consert\u00e1-lo, \u00e9 arrancar a vi\u00fava \u00e0 viuvez, se puder; mas n\u00e3o pode, repito.<\/p>\n<p>A mana n\u00e3o costuma dizer pilh\u00e9rias, mas quando lhe sai alguma tem pico. Foi o que eu lhe disse ent\u00e3o, ao met\u00ea-la no carro que a levou a Andara\u00ed, enquanto eu vim a p\u00e9 para o Catete. Esqueceu-me dizer que a casa Aguiar \u00e9 na Praia do Flamengo, ao fundo de um pequeno jardim, casa velha mas s\u00f3lida.<\/p>\n<p>S\u00e1bado<\/p>\n<p>Ontem encontrei um velho conhecido do corpo diplom\u00e1tico e prometi ir jantar com ele amanh\u00e3 em Petr\u00f3polis. Subo hoje e volto segunda-feira. O pior \u00e9 que acordei de mau humor, e antes quisera ficar que subir. E da\u00ed pode ser que a mudan\u00e7a de ar e de espet\u00e1culo altere a disposi\u00e7\u00e3o do meu esp\u00edrito. A vida, mormente nos velhos, \u00e9 um of\u00edcio cansativo.<\/p>\n<p>Segunda -feira<\/p>\n<p>Desci hoje de Petr\u00f3polis. S\u00e1bado, ao sair a barca da Prainha, dei com o desembargador Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque da\u00ed a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei a Mau\u00e1 j\u00e1 meio curado. Na esta\u00e7\u00e3o de Petr\u00f3polis estava restabelecido inteiramente.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembra se j\u00e1 escrevi neste Memorial que o Campos foi meu colega de ano em S. Paulo. Com o tempo e a aus\u00eancia perdemos a intimidade, e quando nos vimos outra vez, o ano passado, apesar das recorda\u00e7\u00f5es escol\u00e1sticas que surgiram entre n\u00f3s, \u00e9ramos estranhos. Vimo-nos algumas vezes, e passamos uma noite no Flamengo; mas a diferen\u00e7a da vida tinha ajudado o tempo e a aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora na barca fomos reatando melhor os la\u00e7os antigos. A viagem por mar e por terra eram de sobra para avivar alguma cousa da vida escolar. Bastante foi; acabamos lavados da velhice.<\/p>\n<p>Ao subir a serra as nossas impress\u00f5es divergiram um tanto. Campos achava grande prazer na viagem que \u00edamos fazendo em trem de ferro. Eu confessava-lhe que tivera maior gosto quando ali ia em cale\u00e7as tiradas a burros, umas atr\u00e1s das outras, n\u00e3o pelo ve\u00edculo em si, mas porque ia vendo, ao longe, c\u00e1 embaixo, aparecer a pouco e pouco o mar e a cidade com tantos aspectos pinturescos. O trem leva a gente de corrida, de afogadilho, desesperado, at\u00e9 a pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o de Petr\u00f3polis. E mais lembrava as paradas, aqui para beber caf\u00e9, ali para beber \u00e1gua na fonte c\u00e9lebre, e finalmente a vista do alto da serra, onde os elegantes de Petr\u00f3polis aguardavam a gente e a acompanhavam nos seus carros e cavalos at\u00e9 \u00e0 cidade; alguns dos passageiros de baixo passavam ali mesmo para os carros onde as fam\u00edlias esperavam por eles.<\/p>\n<p>Campos continuou a dizer todo o bem que achava no trem de ferro, como prazer e como vantagem. S\u00f3 o tempo que a gente poupa! Eu, se retorquisse dizendo-lhe bem do tempo que se perde, iniciaria uma esp\u00e9cie de debate que faria a viagem ainda mais sufocada e curta. Preferi trocar de assunto e agarrei-me aos derradeiros minutos, falei do progresso, ele tamb\u00e9m, e chegamos satisfeitos \u00e0 cidade da serra.<\/p>\n<p>Os dous fomos para o mesmo hotel (Bragan\u00e7a). Depois de jantar sa\u00edmos em passeio de digest\u00e3o, ao longo do rio. Ent\u00e3o, a prop\u00f3sito dos tempos passados, falei do casal Aguiar e do conhecimento que Rita me disse que ele tinha da vida e da mocidade dos dous c\u00f4njuges. Confessei achar nestes um bom exemplo de aconchego e uni\u00e3o. Talvez a minha inten\u00e7\u00e3o secreta fosse passar dali ao casamento da pr\u00f3pria sobrinha dele, suas condi\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias, cousa dif\u00edcil pela curiosidade que podia exprimir, e ali\u00e1s n\u00e3o est\u00e1 nos meus h\u00e1bitos, mas ele n\u00e3o me deu azo nem tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente Aguiar. Ouvi com paci\u00eancia, porque o assunto entrou a interessar-me depois das primeiras palavras, e tamb\u00e9m porque o desembargador fala mui agradavelmente. Mas agora \u00e9 tarde para transcrever o que ele disse; fica para depois, um dia, quando houver passado a impress\u00e3o, e s\u00f3 me ficar de mem\u00f3ria o que vale a pena guardar.<\/p>\n<p>4 de fevereiro<\/p>\n<p>Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petr\u00f3polis acerca do casal Aguiar. N\u00e3o ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e at\u00e9 excluo os adjetivos que tinham mais interesse na boca dele do que lhes poderia dar a minha pena; v\u00e3o s\u00f3 os precisos \u00e0 compreens\u00e3o de cousas e pessoas.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o que me leva a escrever isto \u00e9 a que entende com a situa\u00e7\u00e3o moral dois e prende um tanto com a vi\u00fava Fid\u00e9lia. Quanto \u00e0 vida deles ei-la aqui em termos secos, curtos e apenas biogr\u00e1ficos. Aguiar casou guarda-livros. D. Carmo vivia ent\u00e3o com a m\u00e3e, que era de Nova Friburgo, e o pai, um relojoeiro su\u00ed\u00e7o daquela cidade. Casamento a grado de todos. Aguiar continuou guarda-livros, e passou de uma casa a outra e mais outra, fez-se s\u00f3cio da \u00faltima, at\u00e9 ser gerente de banco, e chegaram \u00e0 velhice sem filhos. \u00c9 s\u00f3 isto, nada mais que isto. Viveram at\u00e9 hoje sem bulha nem matinada.<\/p>\n<p>Queriam-se, sempre se quiseram muito, apesar dos ci\u00fames que tinham um do outro, ou por isso mesmo. Desde namorada, ela exerceu sobre ele a influ\u00eancia de todas as namoradas deste mundo, e acaso do outro, se as h\u00e1 t\u00e3o longe. Aguiar contara uma vez ao desembargador os tempos amargos em que, ajustado o casamento, perdeu o emprego por fal\u00eancia do patr\u00e3o. Teve de procurar outro; a demora n\u00e3o foi grande, mas o novo lugar n\u00e3o lhe permitiu casar logo, era-lhe preciso assentar a m\u00e3o, ganhar confian\u00e7a, dar tempo ao tempo. Ora, a alma dele era de pedras soltas; a fortaleza da noiva foi o cimento e a cal que as uniram naqueles dias de crise. Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que ele me disse ser do pr\u00f3prio Aguiar. Cal e cimento valeram-lhe logo em todos os casos de pedras desconjuntadas. Ele via as cousas pelos seus pr\u00f3prios olhos, mas se estes eram ruins ou doentes, quem lhe dava rem\u00e9dio ao mal f\u00edsico ou moral era ela.<\/p>\n<p>A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados. Aguiar dava-se a trabalhos diversos para acudir com suprimentos \u00e0 escassez dos vencimentos. D. Carmo guiava o servi\u00e7o dom\u00e9stico, ajudando o pessoal deste e dando aos arranjos da casa o conforto que n\u00e3o poderia vir por dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas t\u00e3o ordenadas as cousas, t\u00e3o completadas pelo trabalho das m\u00e3os da dona que captavam os olhos ao marido e \u00e0s visitas. Todas elas traziam uma alma, e esta era nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo o gracioso ao preciso. Tapetes de mesa e de p\u00e9s, cortinas de janelas e outros mais trabalhos que vieram com os anos, tudo trazia a marca da sua f\u00e1brica, a nota \u00edntima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse preciso, a pobreza elegante.<\/p>\n<p>Criaram rela\u00e7\u00f5es variadas, modestas como eles e de boa camaradagem. Neste cap\u00edtulo a parte de D. Carmo \u00e9 maior que a de Aguiar. J\u00e1 em menina era o que foi depois. Havendo estudado em um col\u00e9gio do Engenho Velho, a mo\u00e7a acabou sendo considerada a primeira aluna do estabelecimento, n\u00e3o s\u00f3 sem desgosto, t\u00e1cito ou expresso, de nenhuma companheira, mas com prazer manifesto e grande de todas, recentes ou antigas. A cada uma pareceu que se tratava de si mesma. Era ent\u00e3o algum prod\u00edgio de talento? N\u00e3o, n\u00e3o era; tinha a intelig\u00eancia fina, superior ao comum das outras, mas n\u00e3o tal que as reduzisse a nada. Tudo provinha da \u00edndole afetuosa daquela criatura.<\/p>\n<p>Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar. Uma cousa me disse Campos que eu havia observado de relance naquela noite das bodas de prata, \u00e9 que D. Carmo agrada igualmente a velhas e a mo\u00e7as. H\u00e1 velhas que n\u00e3o sabem fazer-se entender de mo\u00e7as, assim como h\u00e1 mo\u00e7as fechadas \u00e0s velhas. A senhora de Aguiar penetra e se deixa penetrar de todas; assim foi jovem, assim \u00e9 madura.<\/p>\n<p>Campos n\u00e3o os acompanhou sempre, nem desde os primeiros tempos; mas quando entrou a freq\u00fcent\u00e1-los, viu nela o desenvolvimento da noiva e da rec\u00e9m-casada, e compreendeu a adora\u00e7\u00e3o do marido. Este era feliz, e para sossegar das inquieta\u00e7\u00f5es e t\u00e9dios de fora, n\u00e3o achava melhor respiro que a conversa\u00e7\u00e3o da esposa, nem mais doce li\u00e7\u00e3o que a de seus olhos. Era dela a arte fina que podia restitu\u00ed-lo ao equil\u00edbrio e \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Um dia, em casa deles, abrindo uma cole\u00e7\u00e3o de versos italianos, Campos achou entre as folhas um papelinho velho com algumas estrofes escritas. Soube que eram do livro, copiadas por ela nos dias de noiva, segundo ambos lhe disseram, vexados; restituiu o papel \u00e0 p\u00e1gina, e o volume \u00e0 estante. Um e outro gostavam de versos, e talvez ela tivesse feito alguns, que deitou fora com os \u00faltimos solecismos de fam\u00edlia. Ao que parece, traziam ambos em si um g\u00e9rmen de poesia instintiva, a que faltara express\u00e3o adequada para sair c\u00e1 fora.<\/p>\n<p>A \u00faltima reflex\u00e3o \u00e9 minha, n\u00e3o do desembargador Campos, e leva o \u00fanico fim de completar o retrato deste casal. N\u00e3o \u00e9 que a poesia seja necess\u00e1ria aos costumes, mas pode dar-lhes gra\u00e7a. O que eu fiz ent\u00e3o foi perguntar ao desembargador se tais criaturas tiveram algum ressentimento da vida. Respondeu-me que um, um s\u00f3 e grande; n\u00e3o tiveram filhos.<\/p>\n<p>\u2014 Mana Rita disse-me isso mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tiveram filhos, repetiu Campos.<\/p>\n<p>Ambos queriam um filho, um s\u00f3 que fosse, ela ainda mais que ele. D. Carmo possu\u00eda todas as esp\u00e9cies de ternura, a conjugal, a filial, a maternal. Campos ainda lhe conheceu a m\u00e3e, cujo retrato, encaixilhado com o do pai, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e suspiradas. N\u00e3o teve irm\u00e3os, mas a afei\u00e7\u00e3o fraternal estaria inclu\u00edda na amical, em que se dividia tamb\u00e9m. Quanto aos filhos, se os n\u00e3o teve, \u00e9 certo que punha muito de m\u00e3e nos seus carinhos de amiga e de esposa. N\u00e3o menos certo \u00e9 que para essa esp\u00e9cie de orfandade \u00e0s avessas, tem agora um paliativo.<\/p>\n<p>\u2014 D. Fid\u00e9lia?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Fid\u00e9lia; e teve ainda outro que acabou.<\/p>\n<p>Aqui referiu-me uma hist\u00f3ria que apenas levar\u00e1 meia d\u00fazia de linhas, e n\u00e3o \u00e9 pouco para a tarde que vai baixando; digamo-la depressa.<\/p>\n<p>Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e tantos anos. Sucessos que o desembargador contou por alto e n\u00e3o valia a pena instar por eles, trouxeram a m\u00e3e e o filho para a casa Aguiar durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas m\u00e3es. A m\u00e3e real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de poucos dias. D. Carmo alcan\u00e7ou que a amiga lhe deixasse o filho e a ama. Tais foram os primeiros liames da afei\u00e7\u00e3o que cresceu com o tempo e o costume. O pai era comerciante de caf\u00e9 \u2014 comiss\u00e1rio \u2014, e andava ent\u00e3o a neg\u00f3cios por Minas; a m\u00e3e era filha de Taubat\u00e9, S. Paulo, amiga de viajar a cavalo. Quando veio o tempo de batizar o pequeno, Lu\u00edsa Guimar\u00e3es convidou a amiga para madrinha dele. Era justamente o que a outra queria; aceitou com alvoro\u00e7o, o marido com prazer, e o batizado se fez como uma festa da fam\u00edlia Aguiar.<\/p>\n<p>A meninice de Trist\u00e3o, \u2014 era o nome do afilhado, \u2014 foi dividida entre as duas m\u00e3es, entre as duas casas. Os anos vieram, o menino crescia, as esperan\u00e7as maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho aben\u00e7oado que o acaso lhes deparara, disse um dia o marido; e a mulher, cat\u00f3lica tamb\u00e9m na linguagem, emendou que a Provid\u00eancia, e toda se entregou ao afilhado. A opini\u00e3o que o desembargador achou em algumas pessoas, e creio justa, \u00e9 que D. Carmo parecia mais verdadeira m\u00e3e que a m\u00e3e de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um pouco mais a m\u00e3e posti\u00e7a. A raz\u00e3o podiam ser os carinhos maiores, mais continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que tamb\u00e9m s\u00e3o motivos para o infante, como para o adulto. Veio o tempo da escola, e ficando mais perto da casa Aguiar, o menino ia jantar ali, e seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimar\u00e3es. Algumas vezes a pr\u00f3pria madrinha o levava.<\/p>\n<p>Nas duas ou tr\u00eas mol\u00e9stias que o pequeno teve, a afli\u00e7\u00e3o de D. Carmo foi enorme. Uso o pr\u00f3prio adjetivo que ouvi ao Campos, conquanto me pare\u00e7a enf\u00e1tico, e eu n\u00e3o amo a \u00eanfase. Confesso aqui uma cousa. D. Carmo \u00e9 das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que s\u00e3o &#8220;doidas por morangos&#8221;, nem que &#8220;morrem por ouvir Mozart&#8221;. Nela a intensidade parece estar mais no sentimento que na express\u00e3o. Mas, enfim, o desembargador assistiu \u00e0 \u00faltima das mol\u00e9stias do menino, que foi em casa da madrinha, e p\u00f4de ver a afli\u00e7\u00e3o de D. Carmo, os seus afagos e sustos, alguns minutos de desespero e de l\u00e1grimas, e finalmente a alegria do restabelecimento. A m\u00e3e era m\u00e3e e sentiu decerto, e muito, mas diz ele que n\u00e3o tanto; \u00e9 que haver\u00e1 ternuras atadas, ou ainda moderadas, que se n\u00e3o mostram inteiramente a todos.<\/p>\n<p>Doen\u00e7as, alegrias, esperan\u00e7as, todo o repert\u00f3rio daquela primeira quadra da vida de Trist\u00e3o foi visto, ouvido e sentido pelos dous padrinhos, e mais pela madrinha, como se fora do seu pr\u00f3prio sangue. Era um filho que ali estava, que fez dez anos, fez onze, fez doze, crescendo em altura e gra\u00e7a. Aos treze anos, sabendo que o pai o destinava ao com\u00e9rcio, foi ter com a madrinha e confiou-lhe que n\u00e3o tinha gosto para tal carreira.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea, meu filho?<\/p>\n<p>D. Carmo usava este modo de falar, que a idade e o parentesco espiritual lhe permitiam, sem usurpa\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Trist\u00e3o confessou-lhe que a sua voca\u00e7\u00e3o era outra. Queria ser bacharel em Direito. A madrinha defendeu a inten\u00e7\u00e3o do pai, mas com ela Trist\u00e3o era ainda mais voluntarioso que com ele e a m\u00e3e, e teimou em estudar Direito e ser doutor. Se n\u00e3o havia propriamente voca\u00e7\u00e3o, era este t\u00edtulo que o atra\u00eda.<\/p>\n<p>\u2014 Quero ser doutor! quero ser doutor!<\/p>\n<p>A madrinha acabou achando que era bom, e foi defender a causa do afilhado. O pai deste relutou muito. &#8220;Que havia no com\u00e9rcio que n\u00e3o fosse honrado, al\u00e9m de lucrativo? Demais, ele n\u00e3o ia come\u00e7ar sem nada, como sucedia a outros e sucedeu ao pr\u00f3prio pai, mas j\u00e1 amparado por este&#8221;. Deu-lhe outras mais raz\u00f5es, que D. Carmo ouviu sem negar, alegando sempre que o importante era ter gosto, e se o rapaz n\u00e3o tinha gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao cabo de alguns dias o pai de Trist\u00e3o cedeu, e D. Carmo quis ser a primeira que desse ao rapaz a boa nova. Ela pr\u00f3pria sentia-se feliz.<\/p>\n<p>Cinco ou seis meses depois, o pai de Trist\u00e3o resolveu ir com a mulher cumprir uma viagem marcada para o ano seguinte \u2014 visitar a fam\u00edlia dele; a m\u00e3e de Guimar\u00e3es estava doente. Trist\u00e3o, que se preparava para os estudos, t\u00e3o depressa viu apressar a viagem dos pais, quis ir com eles. Era o gosto da novidade, a curiosidade da Europa, algo diverso das ruas do Rio de Janeiro, t\u00e3o vistas e t\u00e3o cansadas. Pai e m\u00e3e recusaram lev\u00e1-lo; ele insistiu. D. Carmo, a quem ele recorreu outra vez, recusou-se agora, porque seria afast\u00e1-lo de si, ainda que temporariamente; juntou-se aos pais do mocinho para conserv\u00e1-lo aqui. Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta; mas n\u00e3o houve luta que valesse. Trist\u00e3o queria \u00e0 fina for\u00e7a embarcar para Lisboa.<\/p>\n<p>\u2014 Papai volta daqui a seis meses; eu volto com ele. Que s\u00e3o seis meses?<\/p>\n<p>\u2014 Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Voc\u00ea vai perder um ano&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois que se perca um ano. Que \u00e9 um ano que n\u00e3o valha a pena sacrific\u00e1-lo ao gosto de ir ver a Europa?<\/p>\n<p>Aqui D. Carmo teve uma inspira\u00e7\u00e3o; prometeu-lhe que, t\u00e3o depressa ele se formasse, ela iria com ele viajar, n\u00e3o seis meses, mas um ano ou mais; ele teria tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares, costumes&#8230; Estudasse primeiro. Trist\u00e3o n\u00e3o quis. A viagem se fez, a despeito das l\u00e1grimas que custou.<\/p>\n<p>N\u00e3o ponho aqui tais l\u00e1grimas, nem as promessas feitas, as lembran\u00e7as dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu; e, se de l\u00e1 vieram cartas, saudades e not\u00edcias, quem n\u00e3o veio foi ele. Os pais foram ficando muito mais tempo que o marcado, e Trist\u00e3o come\u00e7ou o curso da Escola M\u00e9dica de Lisboa. Nem com\u00e9rcio nem jurisprud\u00eancia.<\/p>\n<p>Aguiar escondeu quanto p\u00f4de a not\u00edcia \u00e0 mulher, a ver se tentava alguma cousa que trocasse as m\u00e3os \u00e0 sorte, e restitu\u00edsse o rapaz ao Brasil; n\u00e3o alcan\u00e7ou nada, e ele pr\u00f3prio n\u00e3o podia j\u00e1 disfar\u00e7ar a tristeza. Deu a dura novidade \u00e0 mulher, sem lhe acrescentar rem\u00e9dio nem consola\u00e7\u00e3o; ela chorou longamente. Trist\u00e3o escreveu comunicando a mudan\u00e7a de carreira e prometendo vir para o Brasil, apenas formado; mas da\u00ed a algum tempo eram as cartas que escasseavam e acabaram inteiramente, elas e os retratos, e as lembran\u00e7as; provavelmente n\u00e3o ficaram l\u00e1 saudades. Guimar\u00e3es aqui veio, sozinho, com o \u00fanico fim de liquidar o neg\u00f3cio, e embarcou outra vez para nunca mais.<\/p>\n<p>5 de fevereiro<\/p>\n<p>Relendo o que escrevi ontem, descubro que podia ser ainda mais resumido, e principalmente n\u00e3o lhe p\u00f4r tantas l\u00e1grimas. N\u00e3o gosto delas, nem sei se as verti algum dia, salvo por mana, em menino; mas l\u00e1 v\u00e3o. Pois v\u00e3o tamb\u00e9m essas que a\u00ed deixei, e mais a figura de Trist\u00e3o, a que cuidei dar meia d\u00fazia de linhas e levou a maior parte delas. Nada h\u00e1 pior que a gente vadia \u2014 ou aposentada, que \u00e9 a mesma cousa; o tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, n\u00e3o h\u00e1 papel que baste.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o disse tudo. Verifico que me faltou um ponto da narra\u00e7\u00e3o do Campos. N\u00e3o falei das a\u00e7\u00f5es do Banco do Sul, nem das ap\u00f3lices, nem das casas que o Aguiar possui, al\u00e9m dos honor\u00e1rios de gerente; ter\u00e1 uns duzentos e poucos contos. Tal foi a afirma\u00e7\u00e3o do Campos, \u00e0 beira do rio, em Petr\u00f3polis. Campos \u00e9 homem interessante, posto que sem variedade de esp\u00edrito; n\u00e3o importa, uma vez que sabe despender o que tem. Verdade \u00e9 que tal regra levaria a gente a aceitar toda a casta de ins\u00edpidos. Ele n\u00e3o \u00e9 destes.<\/p>\n<p>6 de fevereiro<\/p>\n<p>Outra cousa que tamb\u00e9m n\u00e3o escrevi no dia 4, mas essa n\u00e3o entrou na narra\u00e7\u00e3o do Campos. Foi ao despedir-me dele, que l\u00e1 ficou em Petr\u00f3polis tr\u00eas ou quatro dias. Como eu lhe deixasse recomenda\u00e7\u00f5es para a sobrinha, ouvi-lhe que me respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 em casa da gente Aguiar; passou l\u00e1 a tarde e a noite de ontem, e conta ficar at\u00e9 que eu des\u00e7a.<\/p>\n<p>6 de fevereiro, \u00e0 noite<\/p>\n<p>Diferen\u00e7a de voca\u00e7\u00f5es: o casal Aguiar morre por filhos, eu nunca pensei neles, nem lhes sinto a falta, apesar de s\u00f3. Alguns h\u00e1 que os quiseram, que os tiveram e n\u00e3o souberam guard\u00e1-los.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Memorial de Aires &#8211; Machado de Assis ADVERT\u00caNCIA Quem me leu Esa\u00fa e Jac\u00f3 talvez reconhe\u00e7a estas palavras do pref\u00e1cio: &#8220;Nos lazeres do of\u00edcio escrevia o Memorial, que, apesar das p\u00e1ginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez d\u00ea) para matar o tempo da barca de Petr\u00f3polis.&#8221; Referia-me ao Conselheiro Aires. 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