{"id":120406,"date":"2017-04-25T19:13:26","date_gmt":"2017-04-25T21:13:26","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120406"},"modified":"2017-04-25T19:13:26","modified_gmt":"2017-04-25T21:13:26","slug":"iaia-garcia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/iaia-garcia","title":{"rendered":"Iai\u00e1 Garcia"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>Cap\u00edtulo 1<\/h2>\n<p>Lu\u00eds Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando apareceu um criado e lhe entregou esta carta:<\/p>\n<p>5 de Outubro de 1866.<\/p>\n<p>Sr. Lu\u00eds Garcia \u2014 Pe\u00e7o-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez de seus obs\u00e9quios. \u2014 Val\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Diga que irei. A senhora est\u00e1 c\u00e1 no morro?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, est\u00e1 na Rua dos Inv\u00e1lidos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Garcia era funcion\u00e1rio p\u00fablico. Desde 1860 elegera no lugar menos povoado de Santa Teresa uma habita\u00e7\u00e3o modesta, onde se meteu a si e a sua viuvez. N\u00e3o era frade, mas queria como eles a solid\u00e3o e o sossego. A solid\u00e3o n\u00e3o era absoluta, nem o sossego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que c\u00e1 embaixo. Os frades que, na puer\u00edcia da cidade, se tinham alojado nas outras colinas, desciam muita vez, \u2014 ou quando o exigia o sacro minist\u00e9rio, ou quando o governo precisava da espada can\u00f4nica, \u2014 e as ocasi\u00f5es n\u00e3o eram raras; mas geralmente em derredor de suas casas n\u00e3o ia soar a voz da labuta\u00e7\u00e3o civil. Lu\u00eds Garcia podia dizer a mesma cousa; e, porque nenhuma voca\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica o incitava a abrir a outros a porta de seu ref\u00fagio, podia dizer-se que fundara um convento em que ele era quase toda a comunidade, desde prior at\u00e9 novi\u00e7o.<\/p>\n<p>No momento em que come\u00e7a esta narrativa, tinha Lu\u00eds Garcia quarenta e um anos. Era alto e magro, um come\u00e7o de calva, barba raspada, ar circunspeto. Suas maneiras eram frias, modestas e corteses; a fisionomia um pouco triste. Um observador atento podia adivinhar por tr\u00e1s daquela impassibilidade aparente ou contra\u00edda as ru\u00ednas de um cora\u00e7\u00e3o desenganado. Assim era; a experi\u00eancia, que foi precoce, produzira em Lu\u00eds Garcia um estado de apatia e cepticismo, com seus laivos de desd\u00e9m. O desd\u00e9m n\u00e3o se revelava por nenhuma express\u00e3o exterior; era a ruga sard\u00f4nica do cora\u00e7\u00e3o. Por fora, havia s\u00f3 a m\u00e1scara im\u00f3vel, o gesto lento e as atitudes tranq\u00fcilas. Alguns poderiam tem\u00ea-lo, outros detest\u00e1-lo, sem que merecesse execra\u00e7\u00e3o nem temor. Era inofensivo por temperamento e por c\u00e1lculo. Como um c\u00e9lebre eclesi\u00e1stico, tinha para si que uma on\u00e7a de paz vale mais que uma libra de vit\u00f3ria. Poucos lhe queriam deveras, e esses empregavam mal a afei\u00e7\u00e3o, que ele n\u00e3o retribu\u00eda com afei\u00e7\u00e3o igual, salvo duas exce\u00e7\u00f5es. Nem por isso era menos amigo de obsequiar. Lu\u00eds Garcia amava a esp\u00e9cie e aborrecia o indiv\u00edduo. Quem recorria a seu pr\u00e9stimo, era raro que n\u00e3o obtivesse favor. Obsequiava sem zelo, mas com efic\u00e1cia, e tinha a particularidade de esquecer o benef\u00edcio, antes que o beneficiado o esquecesse: efeito pasmoso em tal g\u00eanero de transa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A vida de Lu\u00eds Garcia era como a pessoa dele, \u2014 taciturna e retra\u00edda. N\u00e3o fazia nem recebia visitas. A casa era de poucos amigos; havia l\u00e1 dentro a melancolia da solid\u00e3o. Um s\u00f3 lugar podia chamar-se alegre: eram as poucas bra\u00e7as de quintal que Lu\u00eds Garcia percorria e regava todas as manh\u00e3s. Erguia-se com o Sol, tomava do regador, dava de beber \u00e0s flores e \u00e0 hortali\u00e7a; depois recolhia-se e ia trabalhar antes do almo\u00e7o, que era \u00e0s oito horas. Almo\u00e7ado, descia a passo lento at\u00e9 \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o, onde, se tinha algum tempo, folheava rapidamente as gazetas do dia. Trabalhava silenciosamente, com a fria serenidade do m\u00e9todo. Fechado o expediente, voltava logo para casa, detendo-se raras vezes em caminho. Ao chegar a casa, j\u00e1 o preto Raimundo lhe havia preparado a mesa, \u2014 uma mesa de quatro a cinco palmos, \u2014 sobre a qual punha o jantar, parco em n\u00famero, med\u00edocre na esp\u00e9cie, mas farto e saboroso para um est\u00f4mago sem aspira\u00e7\u00f5es nem saudades. Ia dali ver as plantas e reler algum tomo truncado, at\u00e9 que a noite ca\u00eda. Ent\u00e3o, sentava-se a trabalhar at\u00e9 \u00e0s nove horas, que era a hora do ch\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o somente o teor da vida tinha essa uniformidade, mas tamb\u00e9m a casa participava dela. Cada m\u00f3vel, cada objeto, \u2014 ainda os \u00ednfimos, \u2014 parecia haver-se petrificado. A cortina, que usualmente era corrida a certa hora, como que se enfadava se lhe n\u00e3o deixavam passar o ar e a luz, \u00e0 hora costumada; abriam-se as mesmas janelas e nunca outras. A regularidade era o estatuto comum. E se o homem amoldara as cousas a seu jeito, n\u00e3o admira que amoldasse tamb\u00e9m o homem. Raimundo parecia feito expressamente para servir Lu\u00eds Garcia. Era um preto de cinq\u00fcenta anos, estatura mediana, forte, apesar de seus largos dias, um tipo de africano, submisso e dedicado. Era escravo e feliz. Quando Lu\u00eds Garcia o herdou de seu pai, \u2014 n\u00e3o avultou mais o esp\u00f3lio, \u2014 deu-lhe logo carta de liberdade. Raimundo, nove anos mais velho que o senhor, carregara-o ao colo, e amava-o como se fora seu filho. Vendo-se livre, pareceu-lhe que era um modo de o expelir de casa, e sentiu um impulso atrevido e generoso. Fez um gesto para dilacerar a carta de alforria, mas arrependeu-se a tempo. Lu\u00eds Garcia viu s\u00f3 a generosidade, n\u00e3o o atrevimento; palpou o afeto do escravo, sentiu-lhe o cora\u00e7\u00e3o todo. Entre um e outro houve um pacto que para sempre os uniu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s livre, disse Lu\u00eds Garcia; viver\u00e1s comigo at\u00e9 quando quiseres.<\/p>\n<p>Raimundo foi dali em diante um como esp\u00edrito externo de seu senhor; pensava por este e refletia-lhe o pensamento interior, em todas as suas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o menos silenciosas que pontuais. Lu\u00eds Garcia n\u00e3o dava ordem nenhuma; tinha tudo \u00e0 hora e no lugar competente. Raimundo, posto fosse o \u00fanico servidor da casa, sobrava-lhe tempo, \u00e0 tarde, para conversar com o antigo senhor, no jardinete, enquanto a noite vinha caindo. Ali falavam de seu pequeno mundo, das raras ocorr\u00eancias dom\u00e9sticas, do tempo que devia fazer no dia seguinte, de uma ou outra circunst\u00e2ncia exterior. Quando a noite ca\u00eda de todo e a cidade abria os seus olhos de g\u00e1s, recolhiam-se eles a casa, a passo lento, \u00e0 ilharga um do outro.<\/p>\n<p>\u2014 Raimundo hoje vai tocar, n\u00e3o \u00e9? dizia \u00e0s vezes o preto.<\/p>\n<p>\u2014 Quando quiseres, meu velho.<\/p>\n<p>Raimundo acendia as velas, ia buscar a marimba, caminhava para o jardim, onde se sentava a tocar e a cantarolar baixinho umas vozes de \u00c1frica, mem\u00f3rias desmaiadas da tribo em que nascera. O canto do preto n\u00e3o era de saudade; nenhuma de suas cantilenas vinha afinada na clave pesarosa. Alegres eram, guerreiras, entusiastas, fragmentos \u00e9picos, res\u00edduo do passado, que ele n\u00e3o queria perder de todo, n\u00e3o porque lastimasse a sorte presente, mas por uma esp\u00e9cie de fidelidade ao que j\u00e1 foi. Por fim calava-se. O pensamento, em vez de volver ao ber\u00e7o africano, galgava a janela da sala em que Lu\u00eds Garcia trabalhava e pousava sobre ele como um feiti\u00e7o protetor. Quaisquer que fossem as diferen\u00e7as civis e naturais entre os dous, as rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas os tinham feito amigos.<\/p>\n<p>Entretanto, das duas afei\u00e7\u00f5es de Lu\u00eds Garcia, Raimundo era apenas a segunda; a primeira era uma filha.<\/p>\n<p>Se o jardim era a parte mais alegre da casa, o domingo era o dia mais festivo da semana. No s\u00e1bado, \u00e0 tarde acabado o jantar, descia Raimundo at\u00e9 a Rua dos Arcos, a buscar a sinh\u00e1-mo\u00e7a, que estava sendo educada em um col\u00e9gio. Lu\u00eds Garcia esperava por eles, sentado \u00e0 porta ou encostado \u00e0 janela, quando n\u00e3o era escondido em algum recanto da casa, para fazer rir a pequena. Se a menina o n\u00e3o via \u00e0 janela ou \u00e0 porta, percebia que se escondera e corria a casa, onde n\u00e3o era dif\u00edcil dar com ele, porque os recantos eram poucos. Ent\u00e3o ca\u00edam nos bra\u00e7os um do outro. Lu\u00eds Garcia pegava dela e sentava-a nos joelhos. Depois, beijava-a, tirava-lhe o chapelinho, que cobria os cabelos acastanhados e lhe tapava parte da testa rosada e fina; beijava-a outra vez, mas ent\u00e3o nos cabelos e nos olhos, \u2014 os olhos, que eram claros e filtravam uma luz insinuante e curiosa.<\/p>\n<p>Contava onze anos e chamava-se Lina. O nome dom\u00e9stico era Iai\u00e1. No col\u00e9gio, como as outras meninas lhe chamassem assim, e houvesse mais de uma com igual nome, acrescentavam-lhe o apelido de fam\u00edlia. Esta era Iai\u00e1 Garcia. Era alta, delgada, travessa; possu\u00eda os movimentos s\u00fabitos e incoerentes da andorinha. A boca desabrochava facilmente em riso, \u2014 um riso que ainda n\u00e3o toldavam as dissimula\u00e7\u00f5es da vida, nem ensurdeciam as ironias de outra idade. Longos e muitos eram os beijos trocados com o pai. Lu\u00eds Garcia punha-a no ch\u00e3o, tornava a subi-la aos joelhos, at\u00e9 que consentia finalmente em separar-se dela por alguns instantes. Iai\u00e1 ia ter com o preto.<\/p>\n<p>\u2014 Raimundo, o que \u00e9 que voc\u00ea me guardou?<\/p>\n<p>\u2014 Guardei uma cousa, respondia ele sorrindo. Iai\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de adivinhar o que \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma fruta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Um passarinho?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o adivinhou.<\/p>\n<p>\u2014 Um doce?<\/p>\n<p>\u2014 Que doce \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; d\u00e1 c\u00e1 o doce.<\/p>\n<p>Raimundo negaceava ainda um pouco; mas afinal entregava a lembran\u00e7a guardada. Era \u00e0s vezes um confeito, outras uma fruta, um inseto esquisito, um molho de flores. Iai\u00e1 festejava a lembran\u00e7a do escravo, dando saltos de alegria e de agradecimento. Raimundo olhava para ela, bebendo a felicidade que se lhe entornava dos olhos, como um jorro de \u00e1gua virgem e pura. Quando o presente era uma fruta ou um doce, a menina trincava-o logo, a olhar e a rir para o preto, a gesticular, e a interromper-se de quando em quando:<\/p>\n<p>\u2014 Muito bom! Raimundo \u00e9 amigo de Iai\u00e1&#8230; Viva Raimundo!<\/p>\n<p>E seguia dali a mudar de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pai j\u00e1 sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as m\u00e3os cruzadas sobre o joelho. Ia ter com ele, sentava-se, erguia-se, colhia uma flor, corria atr\u00e1s das borboletas. De noite, n\u00e3o havia trabalho para Lu\u00eds Garcia; a noite, como o dia seguinte, era toda consagrada \u00e0 crian\u00e7a. Iai\u00e1 referia ao pai as anedotas do col\u00e9gio, as puerilidades, que n\u00e3o valem mais nem menos que outras da idade madura, as intriguinhas de nada, as pirra\u00e7as de cousa nenhuma. Lu\u00eds Garcia escutava-a com igual aten\u00e7\u00e3o \u00e0 que prestaria a uma grande narrativa hist\u00f3rica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indiferen\u00e7a; inclinado sobre a mesa, com os bra\u00e7os estendidos, as m\u00e3os da filha nas suas, considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como costumam ser as da idade infantil: desigual e truncada, mas cheia de um colorido seu. Ele ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de pros\u00f3dia ou alguma reflex\u00e3o menos justa; fora disso, ouvia somente.<\/p>\n<p>Pouco depois da madrugada todos tr\u00eas estavam de p\u00e9. O sol de Santa Teresa era o mesmo da Rua dos Arcos; Iai\u00e1, por\u00e9m, achava-lhe alguma cousa mais ou melhor, quando o via entrar pela alcova dentro, atrav\u00e9s das persianas. Ia \u00e0 janela que dava para uma parte do jardim. Via o pai bebendo a x\u00edcara de caf\u00e9, que aos domingos precedia o almo\u00e7o. \u00c0s vezes ia ter com ele; outras vezes ele caminhava para a janela, e, com o peitoril de permeio, trocavam os \u00f3sculos da sauda\u00e7\u00e3o. Durante o dia, Iai\u00e1 derramava pela casa todas as sobras de vida que tinha em si. O rosto de Lu\u00eds Garcia acendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras acumuladas pelo tempo. Raimundo vivia da alegria dos dous. Era domingo para todos tr\u00eas, e tanto o senhor como o antigo escravo n\u00e3o ficavam menos colegiais que a menina.<\/p>\n<p>\u2014 Raimundo, dizia esta, voc\u00ea gosta de santo de comer?<\/p>\n<p>Raimundo empertigava o corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas dan\u00e7as africanas, respondia cantarolando:<\/p>\n<p>\u2014 Bonito santo! santo gostoso!<\/p>\n<p>\u2014 E santo de trabalhar?<\/p>\n<p>Raimundo, que j\u00e1 esperava o reverso, estacava subitamente, punha a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, e afastava-se murmurando com terror:<\/p>\n<p>\u2014 Eh&#8230; eh&#8230; n\u00e3o fala nesse santo, Iai\u00e1! n\u00e3o fala nesse santo!<\/p>\n<p>\u2014 E santo de comer?<\/p>\n<p>\u2014 Bonito santo! santo gostoso!<\/p>\n<p>E o preto repetia o primeiro jogo, depois o segundo, at\u00e9 que Iai\u00e1, aborrecida, passava a outra cousa.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia s\u00f3 recreio. Uma parte m\u00ednima do dia, \u2014 pouco mais de uma hora, \u2014 era consagrada ao exame do que Iai\u00e1 aprendera no col\u00e9gio, durante os dias anteriores. Lu\u00eds Garcia interrogava-a, fazia-a ler, contar e desenhar alguma cousa. A docilidade da menina encantava a alma do pai. Nenhum receio, nenhuma hesita\u00e7\u00e3o; respondia, lia ou desenhava, conforme lhe era mandado ou pedido.<\/p>\n<p>\u2014 Papai quer ouvir tocar piano? disse ela um dia; olhe, \u00e9 assim.<\/p>\n<p>E com os dedos na borda da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Lu\u00eds Garcia sorriu, mas um v\u00e9u lhe empanou os olhos. Iai\u00e1 n\u00e3o tinha piano! Era preciso dar-lhe um, ainda com sacrif\u00edcio. Se ela aprendia no col\u00e9gio, n\u00e3o era para tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no c\u00e9rebro e turbou o resto do dia. No dia seguinte, Lu\u00eds Garcia encheu-se de valor, pegou da caderneta da Caixa Econ\u00f4mica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano. Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ela igualmente; n\u00e3o lhe diminu\u00eda a heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando no seguinte s\u00e1bado, Iai\u00e1 viu o piano, que o pai lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa, mas curta. O pai abrira-o, ela acordou as notas adormecidas no vasto m\u00f3vel, com suas m\u00e3ozinhas ainda incertas e d\u00e9beis. A um dos lados do instrumento, com os olhos nela, Lu\u00eds Garcia pagava-se do sacrif\u00edcio, contemplando a satisfa\u00e7\u00e3o da filha. Curta foi ela. Entre duas notas, Iai\u00e1 parou, olhou para o pai, para o piano, para os outros m\u00f3veis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma vertigem. Lu\u00eds Garcia ficou assustado, pegou dela, chamou Raimundo; mas a crian\u00e7a afirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Lu\u00eds Garcia respirou; os olhos de Iai\u00e1 n\u00e3o ficaram mais alegres, nem ela foi t\u00e3o travessa como costumava ser.<\/p>\n<p>A causa da mudan\u00e7a, desconhecida para Lu\u00eds Garcia, era a penetra\u00e7\u00e3o que madrugava no esp\u00edrito da menina. Lembrara-se ela, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto que fizera, no domingo anterior; por elas explicou a exist\u00eancia do piano; comparou-o, t\u00e3o novo e lustroso, com os outros m\u00f3veis da casa, modestos, usados, encardida a palhinha das cadeiras, ro\u00eddo do tempo e dos p\u00e9s um velho tapete, contempor\u00e2neo do sof\u00e1. Dessa compara\u00e7\u00e3o extraiu a id\u00e9ia do sacrif\u00edcio que o pai devia ter feito para condescender com ela; id\u00e9ia que a p\u00f4s triste, ainda que n\u00e3o por muito tempo, como sucede \u00e0s tristezas pueris. A penetra\u00e7\u00e3o madrugava, mas a dor moral fazia tamb\u00e9m irrup\u00e7\u00e3o naquela alma at\u00e9 agora isenta da jurisdi\u00e7\u00e3o da fortuna.<\/p>\n<p>Passou! Bem depressa os sons do piano vieram casar-se ao gorjeio de Iai\u00e1 e ao riso do escravo e do senhor. Era mais uma festa aos domingos. Iai\u00e1 confiou um dia ao pai a id\u00e9ia que tinha de ser mestra de piano. Lu\u00eds Garcia sorria a esses planos da meninice, t\u00e3o fr\u00e1geis e fugidios como suas impress\u00f5es. Tamb\u00e9m ele os tivera aos dez anos. Que lhe ficara dessas primeiras ambi\u00e7\u00f5es? Um res\u00edduo inerte e nada mais. Mas assim como as aspira\u00e7\u00f5es daquele tempo o fizeram feliz, era justo n\u00e3o dissuadir a filha de uma ambi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s inocente e modesta. Oxal\u00e1 n\u00e3o viesse a ter outras de mais alto v\u00f4o! Demais, que lhe poderia ele desejar, sen\u00e3o aquilo que a tornasse independente e lhe desse os meios de viver sem favor? Iai\u00e1 tinha por si a beleza e a instru\u00e7\u00e3o; podia n\u00e3o ser bastante para lhe dar casamento e fam\u00edlia. Uma profiss\u00e3o honesta aparava os golpes poss\u00edveis da adversidade. N\u00e3o se podia dizer que Iai\u00e1 tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a gram\u00e1tica da arte, era suficiente conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Resta dizer que havia ainda uma terceira afei\u00e7\u00e3o de Iai\u00e1; era Maria das Dores, a ama que a havia criado, uma pobre catarinense, para quem s\u00f3 havia duas devo\u00e7\u00f5es capazes de levar uma alma ao c\u00e9u: Nossa Senhora e a filha de Lu\u00eds Garcia. Ia ela de quando em quando \u00e0 casa deste, nos dias em que era certo encontrar l\u00e1 a menina, e ia de S. Crist\u00f3v\u00e3o, onde morava. N\u00e3o descansou enquanto n\u00e3o alugou um casebre em Santa Teresa, para ficar mais perto da filha de cria\u00e7\u00e3o. Um irm\u00e3o, antigo forriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.<\/p>\n<p>Tal era a vida uniforme e pl\u00e1cida de Lu\u00eds Garcia. Nenhuma ambi\u00e7\u00e3o, cobi\u00e7a ou peleja vinha toldar-lhe a serenidade da alma. A \u00faltima dor s\u00e9ria que tivera foi a morte da esposa, ocorrida em 1859, meses antes de ir-se ele esconder em Santa Teresa. O tempo, esse qu\u00edmico invis\u00edvel, que dissolve, comp\u00f5e, extrai e transforma todas as subst\u00e2ncias morais, acabou por matar no cora\u00e7\u00e3o do vi\u00favo, n\u00e3o a lembran\u00e7a da mulher, mas a dor de a haver perdido. Importa dizer que as l\u00e1grimas derramadas nessa ocasi\u00e3o honraram a esposa morta, por serem conquista sua. Lu\u00eds Garcia n\u00e3o casara por amor nem interesse; casara porque era amado. Foi um movimento generoso. A mulher n\u00e3o era de sua mesma \u00edndole; seus esp\u00edritos vinham de pontos diferentes do horizonte. Mas a dedica\u00e7\u00e3o e o amor da esposa abriram nele a fonte da estima. Quando ela morreu, viu Lu\u00eds Garcia que perdera um cora\u00e7\u00e3o desinteressado e puro; consolou-o a esperan\u00e7a de que a filha havia herdado uma parcela dele. Parece que sim; Iai\u00e1 n\u00e3o amava, adorava o pai.<\/p>\n<p>Assim vivia esse homem c\u00e9ptico, austero e bom, alheio \u00e0s cousas estranhas, quando a carta de 5 de outubro de 1866 veio cham\u00e1-lo ao drama que este livro pretende narrar.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo 2<\/h2>\n<p>A hora aprazada era inc\u00f4moda para Lu\u00eds Garcia, cujos h\u00e1bitos de trabalho mal sofriam interrup\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante, foi \u00e0 Rua dos Inv\u00e1lidos.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria Gomes era vi\u00fava de um desembargador honor\u00e1rio, falecido cerca de dous anos antes, a quem o pai de Lu\u00eds Garcia devera alguns obs\u00e9quios e a quem este prestara outros. Opulenta e grande senhora, n\u00e3o havia entre eles rela\u00e7\u00f5es ass\u00edduas ou estreitas; mas a vi\u00fava e seu finado marido sempre o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho. Defunto o desembargador, Val\u00e9ria recorrera duas ou tr\u00eas vezes aos servi\u00e7os de Lu\u00eds Garcia; contudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha solenidade.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria recebeu-o afetuosamente, estendendo-lhe a m\u00e3o, ainda fresca, apesar dos anos, que subiam de quarenta e oito. Era alta e robusta. A cabe\u00e7a, forte e levantada, parecia protestar pela altivez da atitude contra a moleza e tristura dos olhos. Estes eram negros, a sobrancelha basta, o cabelo abundante, listrado de alguns fios de prata. Posto n\u00e3o andasse alegre nos \u00faltimos tempos, estava naquele dia singularmente preocupada. Logo que entraram na sala, deixou-se ela cair numa poltrona; caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Lu\u00eds Garcia sentou-se tranq\u00fcilamente na cadeira que ela lhe designou.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. Lu\u00eds Garcia, disse a vi\u00fava; esta guerra do Paraguai \u00e9 longa, e ningu\u00e9m sabe quando acabar\u00e1. Vieram not\u00edcias hoje?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me consta.<\/p>\n<p>\u2014 As de ontem n\u00e3o me animaram nada, continuou a vi\u00fava depois de um instante. N\u00e3o creio na paz que o Lopez veio propor. Tenho medo que isto acabe mal.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, mas n\u00e3o dependendo de n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? Eu creio que \u00e9 chegado o momento de fazerem todas as m\u00e3es um grande esfor\u00e7o e darem exemplos de valor, que n\u00e3o ser\u00e3o perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu Jorge para que v\u00e1 alistar-se como volunt\u00e1rio; podemos arranjar-lhe um posto de alferes ou tenente; voltar\u00e1 major ou coronel. Ele, entretanto, resiste at\u00e9 hoje; n\u00e3o \u00e9 falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos generosos. Contudo, resiste&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que raz\u00e3o d\u00e1 ele?<\/p>\n<p>\u2014 Diz que n\u00e3o quer separar-se de mim.<\/p>\n<p>\u2014 A raz\u00e3o \u00e9 boa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, porque tamb\u00e9m a mim custaria a separa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se trata do que eu ou ele podemos sentir: trata-se de cousa mais grave, \u2014 da p\u00e1tria, que est\u00e1 acima de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria proferiu estas palavras com certa anima\u00e7\u00e3o, que a Lu\u00eds Garcia pareceu mais simulada que sincera. N\u00e3o acreditou no motivo p\u00fablico. O interesse que a vi\u00fava mostrava agora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sorte da campanha era totalmente novo para ele. Exclu\u00eddo o motivo p\u00fablico, algum haveria que ela n\u00e3o quisera ou n\u00e3o podia revelar. Justificaria ele semelhante resolu\u00e7\u00e3o? N\u00e3o se atreveu a formular a suspeita e a d\u00favida; limitou-se a dissuadi-la, dizendo que um homem de mais ou de menos n\u00e3o pesaria nada na balan\u00e7a do destino, e desde que ao filho repugnava a separa\u00e7\u00e3o era mais prudente n\u00e3o insistir. Val\u00e9ria redarg\u00fcia a todas essas reflex\u00f5es com algumas id\u00e9ias gerais acerca da necessidade de dar fortes exemplos \u00e0s m\u00e3es. Quando foi preciso variar de resposta, declarou que entrava no projeto um pouco de interesse pessoal.<\/p>\n<p>\u2014 Jorge est\u00e1 formado, disse ela; mas n\u00e3o tem queda para a profiss\u00e3o de advogado nem para a de juiz. Goza por enquanto a vida; mas os dias passam, e a ociosidade faz-se natureza com o tempo. Eu quisera dar-lhe um nome ilustre. Se for para a guerra, poder\u00e1 voltar coronel, tomar gosto \u00e0s armas, segui-las e honrar assim o nome de seu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; mas vejamos outra considera\u00e7\u00e3o. Se ele morrer?<\/p>\n<p>Val\u00e9ria empalideceu e esteve alguns minutos calada, enquanto Lu\u00eds Garcia olhava para ela, a ver se lhe adivinhava o trabalho interior da reflex\u00e3o, esquecendo que a id\u00e9ia de um desastre poss\u00edvel devia ter-lhe acudido, desde muito, e se n\u00e3o recuara diante dela, \u00e9 porque a resolu\u00e7\u00e3o era inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Pensei na morte, disse Val\u00e9ria da\u00ed a pouco; e, na verdade, antes a obscuridade de meu filho que um desastre&#8230; mas repeli essa id\u00e9ia. A considera\u00e7\u00e3o superior de que lhe falei deve vencer qualquer outra.<\/p>\n<p>Em seguida, como para impedir que ele insistisse nas reflex\u00f5es apresentadas antes, disse-lhe claramente que, diante da recusa de Jorge, contava com o influxo de seus conselhos.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 nosso amigo, explicou ela; seu pai tamb\u00e9m foi nosso amigo. Sabe que um e outro sempre nos mereceram muita considera\u00e7\u00e3o. Em todo caso, n\u00e3o quisera recorrer a outra pessoa.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Garcia n\u00e3o respondeu logo; n\u00e3o tinha \u00e2nimo de aceitar a incumb\u00eancia e n\u00e3o queria abertamente recusar; procurava um meio de esquivar-se \u00e0 resposta. Val\u00e9ria insistiu por modo que era imposs\u00edvel calar mais tempo.<\/p>\n<p>\u2014 O que me pede \u00e9 muito grave, disse ele; se o Dr. Jorge der algum peso a meus conselhos e seguir para a guerra, assumo uma por\u00e7\u00e3o de responsabilidade, que n\u00e3o s\u00f3 me h\u00e1 de gravar a consci\u00eancia, como influir\u00e1 para alterar nossas rela\u00e7\u00f5es e diminuir talvez a amizade ben\u00e9vola que sempre achei nesta casa. O obs\u00e9quio que hoje exige de mim, quem sabe se mo n\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 em rosto um dia como ato de leviandade?<\/p>\n<p>\u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse dia, observou Lu\u00eds Garcia sorrindo levemente, h\u00e1 de ser t\u00e3o sincera como hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! o senhor est\u00e1 com id\u00e9ias negras! Eu n\u00e3o creio na morte; creio s\u00f3 na vida e na gl\u00f3ria. A guerra come\u00e7ou h\u00e1 pouco e h\u00e1 j\u00e1 tanto her\u00f3i. Meu filho ser\u00e1 um deles.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio em pressentimentos.<\/p>\n<p>\u2014 Recusa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me atrevo a aceitar.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria ficou abatida com a resposta. Ap\u00f3s alguns minutos de sil\u00eancio, ergueu-se e foi buscar o len\u00e7o que deixara sobre um m\u00f3vel, ao entrar na sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar para o ch\u00e3o, com um dos bra\u00e7os ca\u00eddos, em atitude meditativa. Lu\u00eds Garcia entrou a refletir no modo de a dissuadir eficazmente. Seu cepticismo n\u00e3o o fazia duro aos males alheios, e Val\u00e9ria parecia padecer naquele instante, qualquer que fosse a sinceridade de suas declara\u00e7\u00f5es. Ele quisera achar um meio de conciliar os desejos da vi\u00fava com a sua pr\u00f3pria neutralidade, \u2014 o que era puramente dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u2014 Seu filho n\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a, disse ele; est\u00e1 com vinte e quatro anos; pode decidir por si, e naturalmente n\u00e3o me dir\u00e1 outra cousa&#8230; Demais, \u00e9 duvidoso que se deixe levar por minhas sugest\u00f5es, depois de resistir aos desejos de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Ele respeita-o muito.<\/p>\n<p>Respeitar n\u00e3o era o verbo pertinente; atender fora mais cabido, porque exprimia a verdadeira natureza das rela\u00e7\u00f5es entre um e outro. Mas a vi\u00fava lan\u00e7ava m\u00e3o de todos os recursos para obter de Lu\u00eds Garcia que a ajudasse em persuadir o filho. Como ele lhe dissesse ainda uma vez que n\u00e3o podia aceitar a incumb\u00eancia, viu-a morder o l\u00e1bio e fazer um gesto de despeito. Lu\u00eds Garcia adotou ent\u00e3o um meio-termo:<\/p>\n<p>\u2014 Prometo-lhe uma cousa, disse ele; irei sond\u00e1-lo, discutir com ele os pr\u00f3s e os contras do seu projeto, e se o achar mais inclinado&#8230;<\/p>\n<p>Val\u00e9ria abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a isso; desde j\u00e1 lhe digo que ser\u00e1 tempo perdido. Jorge h\u00e1-de repetir-lhe as mesmas raz\u00f5es que me deu, e o senhor as aceitar\u00e1 naturalmente. Se alguma cousa lhe mere\u00e7o, se n\u00e3o morreu em seu cora\u00e7\u00e3o a amizade que o ligou a nossa fam\u00edlia, pe\u00e7o-lhe que me ajude francamente neste empenho, com a autoridade de sua pessoa. Entre nisto, como eu mesma, disposto a venc\u00ea-lo e convenc\u00ea-lo. Faz-me este obs\u00e9quio?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Garcia refletiu um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7o, disse ele frouxamente.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria mostrou-se reanimada com a resposta; disse-lhe que fosse l\u00e1 jantar naquele mesmo dia ou no outro. Ele recusou duas vezes; mas n\u00e3o p\u00f4de resistir \u00e0s inst\u00e2ncias da vi\u00fava, e prometeu ir no dia seguinte. A promessa era um meio, n\u00e3o s\u00f3 de p\u00f4r termo \u00e0 insist\u00eancia da vi\u00fava, mas tamb\u00e9m de encaminhar-se a saber qual era a mola secreta da a\u00e7\u00e3o daquela senhora. A honra nacional era certamente o colorido nobre e augusto de algum pensamento reservado e menos coletivo. Lu\u00eds Garcia abriu velas \u00e0 reflex\u00e3o e conjecturou muito. Afinal n\u00e3o duvidava do empenho patri\u00f3tico de Val\u00e9ria, mas perguntava a si mesmo se ela quereria colher da a\u00e7\u00e3o que ia praticar alguma vantagem especialmente sua.<\/p>\n<p>\u2014 O cora\u00e7\u00e3o humano \u00e9 a regi\u00e3o do inesperado, dizia consigo o c\u00e9ptico subindo as escadas da reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na reparti\u00e7\u00e3o soube da chegada de tristes not\u00edcias do Paraguai. Os aliados tinham atacado Curupaity e recuado com grandes perdas; o inimigo parecia mais forte do que nunca. Supunha-se at\u00e9 que as propostas de paz n\u00e3o tinham sido mais do que um engodo para fortalecer a defesa. Assim, a sorte das armas vinha refor\u00e7ar os argumentos de Val\u00e9ria. Lu\u00eds Garcia adivinhou tudo o que ela lhe diria no dia seguinte.<\/p>\n<p>No dia seguinte foi ele jantar \u00e0 Rua dos Inv\u00e1lidos. Achou a vi\u00fava menos consternada do que deveria estar, \u00e0 vista das not\u00edcias da v\u00e9spera, se porventura os sucessos da guerra a preocupassem tanto como dizia. Pareceu-lhe at\u00e9 mais serena. Ela ia e vinha com um ar satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada cousa que ouvia, um carinho, uma familiaridade, uma inten\u00e7\u00e3o de agradar e seduzir, que Lu\u00eds Garcia estudava com os olhos agudos da suspeita.<\/p>\n<p>Jorge, pelo contr\u00e1rio, mostrava-se retra\u00eddo e mudo. Lu\u00eds Garcia, \u00e0 mesa do jantar, examinava-lhe a furto a express\u00e3o dos olhos tristes e a ruga desenhada entre as sobrancelhas, gesto que indicava nele o despeito e a irrita\u00e7\u00e3o. Na verdade, era duro enviar para a guerra um dos mais belos ornamentos da paz. Naqueles olhos n\u00e3o morava habitualmente a tristeza, \u00e9 certo, mas eles eram, de costume, brandos e pac\u00edficos. A m\u00e3o fina pedia antes a bengala que a espada. Um bigode negro e basto, obra comum da natureza e do cabeleireiro, cobria-lhe o l\u00e1bio e dava ao rosto a express\u00e3o viril que este n\u00e3o tinha. A estatura esbelta e nobre era a \u00fanica fei\u00e7\u00e3o que absolutamente podia ser militar. Elegante, ocupava Jorge um dos primeiros lugares entre os dandies da Rua do Ouvidor; ali podia ter nascido, ali poderia talvez morrer.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria acertava quando dizia n\u00e3o achar no filho nenhum amor \u00e0 profiss\u00e3o de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha intelig\u00eancia pronta, r\u00e1pida compreens\u00e3o e mem\u00f3ria viv\u00edssima. N\u00e3o era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma intelig\u00eancia te\u00f3rica; para ele, o praxista representava o b\u00e1rbaro. Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver \u00e0 farta, empregava uma part\u00edcula do tempo em advogar o menos que podia \u2014 apenas o bastante para ter o nome no portal do escrit\u00f3rio e no almanaque de Laemmert. Nenhuma experi\u00eancia contrastava nele os \u00edmpetos da juventude e os arroubos da imagina\u00e7\u00e3o. A imagina\u00e7\u00e3o era o seu lado fraco, porque n\u00e3o a tinha criadora e l\u00edmpida, mas vaga, tumultuosa e est\u00e9ril, dessa que d\u00e1 ao escrito a indecis\u00e3o dos contornos, e \u00e0 vida a confus\u00e3o dos atos. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, v\u00edcio de terceira ordem que diminui a bondade nativa. Havia ali a massa de um homem futuro, \u00e0 espera que os anos, cuja a\u00e7\u00e3o \u00e9 lenta, oportuna e inevit\u00e1vel, lhe dessem fixidez ao car\u00e1ter e virilidade \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi alegre nem animado o jantar. Falaram a princ\u00edpio de cousas indiferentes; depois Val\u00e9ria fez recair a conversa\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas not\u00edcias do Paraguai. Lu\u00eds Garcia declarou que lhe n\u00e3o pareciam t\u00e3o m\u00e1s, como diziam as gazetas, sem contudo negar que se tratava de um s\u00e9rio rev\u00e9s.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 guerra para seis meses, concluiu ele.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3?<\/p>\n<p>Esta pergunta foi a primeira de Jorge, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o fizera mais do que ouvir e comer. Val\u00e9ria tomou a outra ponta do di\u00e1rio, e confirmou a opini\u00e3o de Lu\u00eds Garcia. Mas o filho continuou a n\u00e3o intervir. Acabado o jantar, Val\u00e9ria ergueu-se; Lu\u00eds Garcia fez o mesmo; mas a vi\u00fava, pousando-lhe a m\u00e3o no ombro, disse em tom familiar e intencional:<\/p>\n<p>\u2014 Sem cerim\u00f4nia; eu volto j\u00e1.<\/p>\n<p>Uma vez s\u00f3s os dous homens, Lu\u00eds Garcia achou de bom aviso ir de ponto em branco ao assunto que ali os reunira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem vontade de ir tamb\u00e9m ao Paraguai? perguntou ele logo que Val\u00e9ria desapareceu no corredor.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhuma. Contudo, acabarei por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e n\u00e3o deseja outra cousa, e o senhor mesmo sei que \u00e9 dessa opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma resposta negativa ro\u00e7ou os l\u00e1bios de Lu\u00eds Garcia; a tempo a reprimiu, confirmando com o sil\u00eancio a pia fraude de Val\u00e9ria. Tinha nas m\u00e3os o meio de inutilizar o efeito do equ\u00edvoco: era mostrar-se indiferente. Jorge distra\u00eda-se em equilibrar um palito na borda de um c\u00e1lice; o interlocutor, depois de olhar para ele, rompeu enfim a larga pausa:<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que motivo cede hoje, depois de recusar tanto tempo?<\/p>\n<p>Jorge ergueu os olhos, sem dizer palavra, mas desejoso de referir tudo. Venceu-o o desejo. A um sinal de Jorge, acompanhou-o Lu\u00eds Garcia at\u00e9 o terra\u00e7o. Entrados no terra\u00e7o, Jorge n\u00e3o p\u00f4de ter m\u00e3o \u00e0 l\u00edngua.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 amigo velho de nossa casa, disse ele; posso confiar-lhe tudo. Mam\u00e3e quer mandar-me para a guerra, porque n\u00e3o pode obstar os movimentos do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Algum namoro, concluiu friamente Lu\u00eds Garcia.<\/p>\n<p>\u2014 Uma paix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo do que diz?<\/p>\n<p>\u2014 Estou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o creio, tornou Lu\u00eds Garcia depois de um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o? Ela conta com a dist\u00e2ncia e o tempo, para matar um amor que sup\u00f5e n\u00e3o haver criado ra\u00edzes profundas.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Val\u00e9ria; parou um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro refletia na explica\u00e7\u00e3o, que lhe pareceu veross\u00edmil, se o amor do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta n\u00e3o se animou a faz\u00ea-la; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Uma viagem \u00e0 Europa, observou Lu\u00eds Garcia depois de curto sil\u00eancio, produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Recusei a viagem, foi ent\u00e3o que ela pensou na guerra.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se ela quisesse ir \u00e0 Europa, o senhor recusaria acompanh\u00e1-la?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; mas mam\u00e3e detesta o mar; n\u00e3o viajaria nunca. \u00c9 poss\u00edvel que, se eu resistisse at\u00e9 \u00e0 \u00faltima, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra, ela vencesse a repugn\u00e2ncia ao mar e ir\u00edamos os dous&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o resistiu?<\/p>\n<p>\u2014 Primeiramente, porque estava cansado de recusar. H\u00e1 m\u00eas e meio que dura esta luta entre n\u00f3s. Hoje, \u00e0 vista das not\u00edcias do Sul, falou-me com tal inst\u00e2ncia que cedi de uma vez. A segunda raz\u00e3o foi um sentimento mau \u2014 mas justific\u00e1vel. Escolho a guerra, a fim de que se alguma cousa me acontecer, ela sinta o remorso de me haver perdido.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.<\/p>\n<p>\u2014 Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O sentimento mau teve s\u00f3 um minuto de dura\u00e7\u00e3o. Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. N\u00e3o acuso mam\u00e3e; sei as l\u00e1grimas que lhe vai custar a separa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ainda \u00e9 tempo de recuar.<\/p>\n<p>\u2014 O que est\u00e1 feito, est\u00e1 feito, disse Jorge erguendo os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este neg\u00f3cio um desenlace \u00e9pico. Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguai? Vou sugerir-lhe um meio de arranjar as cousas. Ceda metade somente, v\u00e1 \u00e0 Europa sozinho, volte no fim de dous ou tr\u00eas anos&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Cap\u00edtulo 1 Lu\u00eds Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando apareceu um criado e lhe entregou esta carta: 5 de Outubro de 1866. Sr. Lu\u00eds Garcia \u2014 Pe\u00e7o-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez de seus obs\u00e9quios. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120406","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Iai\u00e1 Garcia, Machado de Assis Iai\u00e1 Garcia<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Iai\u00e1 Garcia, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Iai\u00e1 Garcia\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Iai\u00e1 Garcia, Machado de Assis Iai\u00e1 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