{"id":120404,"date":"2017-04-25T18:54:10","date_gmt":"2017-04-25T20:54:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120404"},"modified":"2017-04-25T18:54:10","modified_gmt":"2017-04-25T20:54:10","slug":"helena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/helena","title":{"rendered":"Helena"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO<\/h2>\n<p>O CONSELHEIRO VALE morreu \u00e0s 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu de apoplexia fulminante, pouco depois de cochilar a sesta, \u2014 segundo costumava dizer, \u2014 e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete em casa de um desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo, chamado \u00e0 pressa, nem chegou a tempo de empregar os recursos da ci\u00eancia; o Padre Melchior n\u00e3o p\u00f4de dar-lhe as consola\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o: a morte fora instant\u00e2nea.<\/p>\n<p>No dia seguinte fez-se o enterro, que foi um dos mais concorridos que ainda viram os moradores do Andara\u00ed. Cerca de duzentas pessoas acompanharam o finado at\u00e9 \u00e0 morada \u00faltima, achando-se representadas entre elas as primeiras classes da sociedade. O conselheiro, posto n\u00e3o figurasse em nenhum grande cargo do Estado, ocupava elevado lugar na sociedade, pelas rela\u00e7\u00f5es adquiridas, cabedais, educa\u00e7\u00e3o e tradi\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia. Seu pai fora magistrado no tempo colonial, e figura de certa influ\u00eancia na corte do \u00faltimo vice-rei. Pelo lado materno descendia de uma das mais distintas fam\u00edlias paulistas. Ele pr\u00f3prio exercera dous empregos, havendo-se com habilidade e decoro, do que lhe adveio a carta de conselho e a estima dos homens p\u00fablicos. Sem embargo do ardor pol\u00edtico do tempo, n\u00e3o estava ligado a nenhum dos dous partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que ali se acharam na ocasi\u00e3o de o dar \u00e0 sepultura. Tinha, entretanto, tais ou quais id\u00e9ias pol\u00edticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais, justamente no ponto em que os dous dom\u00ednios podem confundir-se. Se nenhuma saudade partid\u00e1ria lhe deitou a \u00faltima p\u00e1 de terra, matrona houve, e n\u00e3o s\u00f3 uma, que viu ir a enterrar com ele a melhor p\u00e1gina da sua mocidade.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr. Est\u00e1cio, e uma irm\u00e3, D. \u00darsula. Contava esta cinq\u00fcenta e poucos anos; era solteira; vivera sempre com o irm\u00e3o, cuja casa dirigia desde o falecimento da cunhada. Est\u00e1cio tinha vinte e sete anos, e era formado em matem\u00e1ticas. O conselheiro tentara encarreir\u00e1-lo na pol\u00edtica, depois na diplomacia; mas nenhum desses projetos teve come\u00e7o de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Dr. Camargo, m\u00e9dico e velho amigo da casa, logo que regressou do enterro, foi ter com Est\u00e1cio, a quem encontrou no gabinete particular do finado, em companhia de D. \u00darsula. Tamb\u00e9m a dor tem suas vol\u00fapias: tia e sobrinho queriam nutri-la com a presen\u00e7a dos objetos pessoais do morto no lugar de suas predile\u00e7\u00f5es quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquela pequena sala. Alguns momentos correram de profundo sil\u00eancio entre os tr\u00eas. O primeiro que o rompeu, foi o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Seu pai deixou testamento?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu Est\u00e1cio.<\/p>\n<p>Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou tr\u00eas vezes, gesto que lhe era habitual quando fazia alguma reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso procur\u00e1-lo, continuou ele. Quer que o ajude?<\/p>\n<p>Est\u00e1cio apertou-lhe afetuosamente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A morte de meu pai, disse o mo\u00e7o, n\u00e3o alterou nada as nossas rela\u00e7\u00f5es. Subsiste a confian\u00e7a anterior, do mesmo modo que a amizade, j\u00e1 provada e antiga.<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria estava fechada; Est\u00e1cio deu a chave ao m\u00e9dico; este abriu o m\u00f3vel sem nenhuma como\u00e7\u00e3o exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, express\u00e3o em que, ali\u00e1s, nenhum dos outros reparou. Logo que come\u00e7ou a revolver os pap\u00e9is, a m\u00e3o do m\u00e9dico tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, a que sucedeu a serenidade habitual.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso? perguntou Est\u00e1cio.<\/p>\n<p>Camargo n\u00e3o respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar o conte\u00fado. O sil\u00eancio foi muito demorado para n\u00e3o fazer impress\u00e3o no mo\u00e7o, que ali\u00e1s nada disse, porque o atribu\u00edra \u00e0 como\u00e7\u00e3o natural do amigo em t\u00e3o dolorosas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u2014 Sabem o que estar\u00e1 aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna ou um grande excesso.<\/p>\n<p>Nem Est\u00e1cio, nem D. \u00darsula pediram ao m\u00e9dico a explica\u00e7\u00e3o de semelhantes palavras. A curiosidade, por\u00e9m, era natural, e o m\u00e9dico p\u00f4de l\u00ea-la nos olhos de ambos. N\u00e3o lhes disse nada; entregou o testamento a Est\u00e1cio, ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas pr\u00f3prias reflex\u00f5es, ora arranjando maquinalmente um livro da estante, ora metendo a ponta do bigode entre os dentes, com a vista queda, alheio de todo ao lugar e \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lacuna ou que excesso \u00e9 esse? perguntou ao m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Camargo parou diante do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso dizer nada, respondeu ele. Seria inconveniente, antes de saber as \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es de seu pai.<\/p>\n<p>D. \u00darsula foi menos discreta que o sobrinho; ap\u00f3s longa pausa, pediu ao m\u00e9dico a raz\u00e3o de suas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Seu irm\u00e3o, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excelentes. Era seu amigo; sei que o era meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confian\u00e7a que ambos deposit\u00e1vamos um no outro. N\u00e3o quisera, pois, que o \u00faltimo ato de sua vida fosse um erro.<\/p>\n<p>\u2014 Um erro! exclamou D. \u00darsula.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez um erro! suspirou Camargo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, doutor, insistiu D. \u00darsula, por que motivo nos n\u00e3o tranq\u00fciliza o esp\u00edrito? Estou certa de que n\u00e3o se trata de um ato que desdoure meu irm\u00e3o; alude naturalmente a algum erro no modo de entender&#8230; alguma cousa, que eu ignoro o que seja. Por que n\u00e3o fala claramente?<\/p>\n<p>O m\u00e9dico viu que D. \u00darsula tinha raz\u00e3o; e que, a n\u00e3o dizer mais nada, melhor fora ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impress\u00e3o de estranheza que deixara no \u00e2nimo dos dous; mas da hesita\u00e7\u00e3o com que falava, concluiu Est\u00e1cio que ele n\u00e3o podia ir al\u00e9m do que havia dito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisamos de explica\u00e7\u00e3o nenhuma, interveio o filho do conselheiro; amanh\u00e3 saberemos tudo.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o entrou o Padre Melchior. O m\u00e9dico saiu \u00e0s 10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo cedo. Est\u00e1cio, recolhendo-se ao seu quarto, murmurava consigo:<\/p>\n<p>&#8220;Que erro ser\u00e1 esse? E que necessidade tinha ele de vir lan\u00e7ar-me este enigma no cora\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>A resposta, se pudesse ouvi-la, era dada nessa mesma ocasi\u00e3o pelo pr\u00f3prio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava \u00e0 porta:<\/p>\n<p>&#8220;Fiz bem em preparar-lhes o esp\u00edrito, pensou ele; o golpe, se o houver, h\u00e1 de ser mais f\u00e1cil de sofrer.&#8221;<\/p>\n<p>O m\u00e9dico ia s\u00f3; al\u00e9m disso, era noite, como sabemos. Ningu\u00e9m p\u00f4de ver-lhe a express\u00e3o do rosto, que era fechada e meditativa. Exumou o passado e devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu, nada foi comunicado a ouvidos estranhos.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es do Dr. Camargo com a fam\u00edlia do conselheiro eram estreitas e antigas, como dissera Est\u00e1cio. O m\u00e9dico e o conselheiro tinham a mesma idade; cinq\u00fcenta e quatro anos. Conheceram-se logo depois de tomado o grau, e nunca mais afrouxara o la\u00e7o que os prendera desde esse tempo.<\/p>\n<p>Camargo era pouco simp\u00e1tico \u00e0 primeira vista. Tinha as fei\u00e7\u00f5es duras e frias, os olhos perscrutadores e sagazes, de uma sagacidade inc\u00f4moda para quem encarava com eles, o que o n\u00e3o fazia atraente. Falava pouco e seco. Seus sentimentos n\u00e3o vinham \u00e0 flor do rosto. Tinha todos os vis\u00edveis sinais de um grande ego\u00edsta; contudo, posto que a morte do conselheiro n\u00e3o lhe arrancasse uma l\u00e1grima ou uma palavra de tristeza, \u00e9 certo que a sentiu deveras. Al\u00e9m disso, amava sobre todas as cousas e pessoas uma criatura linda, \u2014 a linda Eug\u00eania, como lhe chamava, \u2014 sua filha \u00fanica e a flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado e rec\u00f4ndito. Era dif\u00edcil saber se Camargo professava algumas opini\u00f5es pol\u00edticas ou nutria sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifesta\u00e7\u00e3o pratica; e no meio das lutas de que fora cheio o dec\u00eanio anterior, conservara-se indiferente e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferi-los pelas a\u00e7\u00f5es, ningu\u00e9m os possu\u00eda mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom cat\u00f3lico. Mas s\u00f3 pontual; interiormente, era incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p>Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua mulher, \u2014 D. Tom\u00e1sia, \u2014 meio adormecida numa cadeira de balan\u00e7o e Eug\u00eania, ao piano, executando um trecho de Bellini. Eug\u00eania tocava com habilidade; e Camargo gostava de a ouvir. Naquela ocasi\u00e3o, por\u00e9m, disse ele, parecia pouco conveniente que a mo\u00e7a se entregasse a um g\u00eanero de recreio qualquer. Eug\u00eania obedeceu, algum tanto de m\u00e1 vontade. O pai, que se achava ao p\u00e9 do piano, pegou lhe nas m\u00e3os, logo que ela se levantou, e fitou-lhe uns olhos amorosos e profundos, como ela nunca lhe vira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fiquei triste pelo que me disse, papai, observou a mo\u00e7a. Tocava por distra\u00edr-me. D. \u00darsula como est\u00e1? Ficou t\u00e3o aflita! Mam\u00e3e queria demorar-se mais tempo; mas eu confesso que n\u00e3o podia ver a tristeza daquela casa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a tristeza \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 vida, acudiu D. Tom\u00e1sia, que abrira os olhos logo \u00e0 entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as pr\u00f3prias, e s\u00e3o um corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.<\/p>\n<p>Camargo temperou esta filosofia, que lhe pareceu demasiado austera, com algumas id\u00e9ias mais acomodadas e risonhas.<\/p>\n<p>\u2014 Deixemos a cada idade a sua atmosfera pr\u00f3pria, concluiu ele, e n\u00e3o antecipemos a da reflex\u00e3o, que \u00e9 tornar infelizes os que ainda n\u00e3o passaram do puro sentimento.<\/p>\n<p>Eug\u00eania n\u00e3o compreendeu o que os duos haviam dito. Voltou os olhos para o piano, com uma express\u00e3o de saudade. Com a m\u00e3o esquerda, assim mesmo de p\u00e9, extraiu vagamente tr\u00eas ou quatro notas das teclas suas amigas. Camargo tornou a F\u00e1tima com desusada ternura; a fronte sombria pareceu alumiar-se de uma irradia\u00e7\u00e3o interior. A mo\u00e7a sentiu-se enla\u00e7ada nos bra\u00e7os dele; deixou-se ir. Mas a expans\u00e3o era t\u00e3o nova, que ela ficou assustada e perguntou com voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>\u2014 Aconteceu l\u00e1 alguma cousa?<\/p>\n<p>\u2014 Absolutamente nada, respondeu Camargo, dando-lhe um beijo na testa.<\/p>\n<p>Era o primeiro beijo, ao menos o primeiro de que a mo\u00e7a tinha mem\u00f3ria. A car\u00edcia encheu-a de orgulho filial; mas a pr\u00f3pria novidade dela impressionou-a mais. Eug\u00eania n\u00e3o creu no que lhe dissera o pai. Viu-o ir sentares ao p\u00e9 de D. Tom\u00e1sia e conversarem em voz baixa. Aproximando-se, n\u00e3o interrompeu a conversa, que eles continuaram no mesmo tom, e versava sobre assuntos puramente dom\u00e9sticos. Percebeu-o; contudo, n\u00e3o ficou tranq\u00fcila. Na manh\u00e3 seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho de Andara\u00ed. A resposta, que lhe chegou \u00e0s m\u00e3os no momento em que provava um vestido novo, teve a cortesia de esperar que ela terminasse a opera\u00e7\u00e3o. Lida finalmente, dissipou todos os receios da v\u00e9spera.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>NO DIA SEGUINTE foi aberto o testamento com todas as formalidades legais. O conselheiro nomeava testamenteiros Est\u00e1cio, o Dr. Camargo e o Padre Melchior. As disposi\u00e7\u00f5es gerais nada tinham que fosse not\u00e1vel: eram legados pios ou beneficentes, lembran\u00e7as a amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela de seus parentes.<\/p>\n<p>Uma disposi\u00e7\u00e3o havia, por\u00e9m, verdadeiramente importante. O conselheiro declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida com D. Angela da Soledade. Esta menina estava sendo educada em um col\u00e9gio de Botafogo. Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a fam\u00edlia, a quem o conselheiro instantemente pedia que a tratasse com desvelo e carinho, como se de seu matrim\u00f4nio fosse.<br \/>\nA leitura desta disposi\u00e7\u00e3o causou natural espanto \u00e0 irm\u00e3 e ao filho do finado. D. \u00darsula nunca soubera de tal filha. Quanto a Est\u00e1cio, ignorava menos que a tia. Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pai; mas t\u00e3o vagamente que n\u00e3o podia esperar aquela disposi\u00e7\u00e3o testament\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ao espanto sucedeu em ambos outra e diferente impress\u00e3o. D.\u00darsula reprovou de todo o ato do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos naturais e licen\u00e7as jur\u00eddicas, o reconhecimento de Helena era um ato de usurpa\u00e7\u00e3o e um p\u00e9ssimo exemplo. A nova filha era, no seu entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinh\u00e3o da heran\u00e7a e deixa-la \u00e0 porta. Receb\u00ea-la, por\u00e9m, no seio da fam\u00edlia e de seus castos afetos, legitim\u00e1-la aos olhos da sociedade, como ela estava aos da lei, n\u00e3o o entendia D.\u00darsula, nem lhe parecia que algu\u00e9m pudesse entend\u00ea-lo. A aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem poss\u00edvel de Helena. Nada constava da m\u00e3e, al\u00e9m do nome; mas essa mulher quem era? em que atalho sombrio da vida a encontrar ao conselheiro? Helena seria filha de um encontro fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular embora, mas verdadeiro e \u00fanico? A estas interroga\u00e7\u00f5es n\u00e3o podia responder D. \u00darsula; bastava, por\u00e9m, que lhe surgissem no esp\u00edrito, para lan\u00e7ar nele o t\u00e9dio e a irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. \u00darsula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma p\u00e1gina de catecismo; mas o ato final bem podia ser a repara\u00e7\u00e3o de leviandades amargas. Essa atenuante n\u00e3o a viu D. \u00darsula. Para ela, o principal era a entrada de uma pessoa estranha na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o de Est\u00e1cio foi muito outra. Ele percebera a m\u00e1 vontade com que a tia recebera a not\u00edcia do reconhecimento de Helena, e n\u00e3o podia negar a si mesmo que semelhante fato criava para a fam\u00edlia uma nova situa\u00e7\u00e3o. Contudo, qualquer que ela fosse, uma vez que seu pai assim o ordenava, levado por sentimentos de eq\u00fcidade ou impulsos da natureza, ele a aceitava tal qual, sem pesar nem reserva. A quest\u00e3o pecuni\u00e1ria pesou menos que tudo no esp\u00edrito do mo\u00e7o; n\u00e3o pesou nada. A ocasi\u00e3o era dolorosa demais para dar entrada a considera\u00e7\u00f5es de ordem inferior, e a eleva\u00e7\u00e3o dos sentimentos de Est\u00e1cio n\u00e3o lhe permitia inspirar-se delas. Quanto \u00e0 camada social a que pertencia a m\u00e3e de Helena, n\u00e3o se preocupou muito com isso, certo de que eles saberiam levantar a filha at\u00e9 \u00e0 classe a que ela ia subir.<\/p>\n<p>No meio das reflex\u00f5es produzidas pela disposi\u00e7\u00e3o testament\u00e1ria do conselheiro, ocorreu a Est\u00e1cio a conversa que tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era aquele o ponto a que aludira ao m\u00e9dico. Interrogado acerca de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do conselheiro:<\/p>\n<p>\u2014 Aconteceu o que eu previa, um erro, disse ele. N\u00e3o houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha \u00e9 um excesso de ternura, muito bonito, mas pouco pr\u00e1tico. Um legado era suficiente; nada mais. A estrita justi\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A estrita justi\u00e7a \u00e9 a vontade de meu pai, redarg\u00fciu Est\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u2014 Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia s\u00ea-lo \u00e0 custa de direitos alheios.<\/p>\n<p>\u2014 Os meus? N\u00e3o os alego.<\/p>\n<p>\u2014 Se os alegasse seria pouco digno da mem\u00f3ria dele. O que est\u00e1 feito, est\u00e1 feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa fam\u00edlia e afetos de fam\u00edlia. Persuado-me de que ela saber\u00e1 corresponder-lhes com verdadeira dedica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conhece-a? inquiriu Est\u00e1cio, cravando no m\u00e9dico uns olhos impacientes de curiosidade.<\/p>\n<p>\u2014 Vi-a tr\u00eas ou quatro vezes, disse este no fim de alguns segundos; rnas era ent\u00e3o muito crian\u00e7a. Seu pai falava-me dela como de pessoa extremamente afetuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio desejara ainda saber alguma cousa acerca da m\u00e3e de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas indaga\u00e7\u00f5es, e tentou encarreirar a conversa para outro assunto. Camargo, entretanto,insistiu:<\/p>\n<p>\u2014 O conselheiro falou-me algumas vezes no projeto de reconhecer Helena; procurei dissuadi-lo, mas sabe como era teimoso, acrescendo neste caso o natural impulso de amor paterno. O nosso ponto de vista era diferente. N\u00e3o me tenho por homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade n\u00e3o pode usurpar o que pertence \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Camargo proferiu estas palavras no tom seco e sentencioso que t\u00e3o natural e sem esfor\u00e7o lhe sa\u00eda. A velha amizade dele e do finado era sabida de todos; a inten\u00e7\u00e3o com que falava podia ser hostil \u00e0 fam\u00edlia? Est\u00e1cio refletiu algum tempo no conceito que acabava de ouvir ao m\u00e9dico, curta reflex\u00e3o que por nenhum modo lhe abalou a opini\u00e3o j\u00e1 assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como o esp\u00edrito que os animava, pousaram benovolamente no interlocutor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero saber, disse ele, se h\u00e1 excesso na disposi\u00e7\u00e3o testament\u00e1ria de meu pai. Se o h\u00e1, \u00e9 leg\u00edtimo, justific\u00e1vel pelo menos; ele sabia ser pai; seu amor dividia-se inteiro. Receberei esta irm\u00e3, como se fora criada comigo. Minha m\u00e3e faria com certeza a mesma cousa.<\/p>\n<p>Camargo n\u00e3o insistiu. Sobre ser esfor\u00e7o baldado dissuadir o mo\u00e7o daqueles sentimentos, que aproveitava j\u00e1 agora discutir e condenar teoricamente a resolu\u00e7\u00e3o do conselheiro? Melhor era execut\u00e1-la lealmente, sem hesita\u00e7\u00e3o nem pesar. Isso mesmo declarou ele a Est\u00e1cio, que o abra\u00e7ou cordialmente. O m\u00e9dico recebeu o abra\u00e7o sem constrangimento, mas sem fervor.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio ficara satisfeito consigo mesmo. Seu car\u00e1ter vinha mais diretamente da m\u00e3e que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a \u00fanica paix\u00e3o forte qu erealmente teve, a das mulheres,n\u00e3o lhe acharemos nenhuma outra saliente fei\u00e7\u00e3o. A fidelidade aos amigos era antes resultado do costum eque da consci\u00eancia dos afetos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou ocasi\u00e3o de experimentar a pr\u00f3pria t\u00eampera.Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Est\u00e1cio era diferente; possu\u00edra em alto grau a paix\u00e3o, a ternura, a vontade, uma grande eleva\u00e7\u00e3o de sentimentos, com seus toques de orgulho, daquele orgulho que \u00e9 apenas irradia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Vinculada a um homem que, sem embargo do afeto que lhe tinha, despendia o cora\u00e7\u00e3o em amores advent\u00edcios e passageiros, teve a for\u00e7a de vontade necess\u00e1ria para dominar a paix\u00e3o e encerrar em si mesma todo o ressentimento. As mulheres que s\u00e3o apenas mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-se; as que t\u00eam alguma cousa mais do que a debilidade feminina, lutam ou recolhem-se \u00e0 dignidade do sil\u00eancio. Aquela padecia, \u00e9 certo, mas a eleva\u00e7\u00e3o de sua alma n\u00e3o lhe permitia outra cousa mais do que um procedimento altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial da sua organiza\u00e7\u00e3o, concentrou-a toda naquele \u00fanico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro de suas robustas qualidades.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio recebera efetivamente de sua m\u00e3e uma boa parte destas. N\u00e3o sendo grande talento, deveu \u00e0 vontade e \u00e0 paix\u00e3o do saber a figura not\u00e1vel que fez entre seus companheiros de estudos. Entregara-se \u00e0 ci\u00eancia com ardor e afinco. Aborrecia a pol\u00edtica; era indiferente ao ru\u00eddo exterior. Educado \u00e0 maneira antiga e com severidade e recato, passou da adolesc\u00eancia \u00e0 juventude sem conhecer as corrup\u00e7\u00f5es de esp\u00edrito nem as influ\u00eancias delet\u00e9rias da ociosidade; viveu a vida de fam\u00edlia, na idade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em cousas \u00ednfimas a virgindade das primeira sensa\u00e7\u00f5es. Da\u00ed veio que, aos dezoito anos, conservava ele tal o qual timidez infantil, que s\u00f3 tarde perdeu de todo. Mas, se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade n\u00e3o incompat\u00edvel com os verde anos e muito pr\u00f3pria de organiza\u00e7\u00f5es como a dele. Na pol\u00edtica seria talvez meio caminho andado para subir aos cargos p\u00fablicos; na sociedade, fazia que lhe tivessem respeito, o que o levantava a seus pr\u00f3prios olhos. Conv\u00e9m dizer que n\u00e3o era essa gravidade aquela cousa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas asseveram ser quase sempre um sintoma de esp\u00edrito chocho; era uma gravidade jovial e familiar, igualmente distante da frivolidade e do t\u00e9dio, uma compostura do corpo e do esp\u00edrito, temperada pelo vi\u00e7o dos sentimentos e pela gra\u00e7a das maneiras, como um tronco rijo e reto adornado de folhagens e flores. Juntava \u00e0s outras qualidades morais uma sensibilidade, n\u00e3o feminil e doentia, mas s\u00f3bria e forte; \u00e1spero consigo, sabia ser terno e mavioso com os outros.<\/p>\n<p>Tal era o filho do conselheiro; e se alguma cousa h\u00e1 ainda que acrescentar, \u00e9 que ele n\u00e3o cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a idade e a classe em que nascera. Elegante e polido, obedecia \u00e0 lei do decoro pessoal, ainda nas menores parte dela. Ningu\u00e9m entrava mais corretamente numa sala; ningu\u00e9m sa\u00eda mais oportunamente. Ignorava a ci\u00eancia das nugas, mas conhecia o segredo de tecer um cumprimento.<\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o criada pela cl\u00e1usula testament\u00e1ria do conselheiro, Est\u00e1cio aceitou a causa da irm\u00e3, a quem j\u00e1 via, sem a conhecer, com olhos diferentes dos de Camargo e D. \u00darsula. Esta comunicou ao sobrinho todas as impress\u00f5es que lhe deixara o ato do irm\u00e3o. Est\u00e1cio procurou dissipar-lhas; repetiu as reflex\u00f5es opostas ao m\u00e9dico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira vontade de um morto.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei que n\u00e3o h\u00e1 j\u00e1 agora outro rem\u00e9dio mais que aceitar essa menina e obedecer \u00e0s determina\u00e7\u00f5es solenes de meu irm\u00e3o, disse D. \u00darsula, quando Est\u00e1cio acabou de falar. Mas s\u00f3 isso; dividir com ela os meus afetos n\u00e3osei que possa nem deva fazer.<\/p>\n<p>\u2014 Contudo, ela \u00e9 do nosso mesmo sangue.<\/p>\n<p>D. \u00darsula ergueu os ombros como repelindo semelhante consang\u00fcinidade. Est\u00e1cio insistiu em traz\u00ea-la a mais ben\u00e9volos sentimentos. Invocou, al\u00e9m da vontade, a retid\u00e3o do esp\u00edrito de seu pai, que n\u00e3o havia dispor uma cousa contr\u00e1ria \u00e0 boa fama da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m disto, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que meu pai a legitimou, conv\u00e9m que n\u00e3o se ache aqui como enjeitada. Que aproveitar\u00edamos com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida interior. Vivamos na mesma comunh\u00e3ode afetos; e vejamos em Helena uma parte da alma de meu pai, que nos fica para n\u00e3o desfalcar de todo o patrim\u00f4nio comum.<\/p>\n<p>Nada respondeu a irm\u00e3 do conselheiro. Est\u00e1cio percebeu que n\u00e3o vencera os sentimentos da tia, nem era poss\u00edvel consegui-lo por meio de palavras. Confiou ao tempo essa tarefa. D. \u00darsula ficou triste e s\u00f3. Aparecendo Camargo da\u00ed a pouco, ela confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o m\u00e9dico interiormente aprovava.<\/p>\n<p>\u2014 Conheceu a m\u00e3e dela? perguntou a irm\u00e3 do conselheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Conheci.<\/p>\n<p>\u2014 Que esp\u00e9cie de mulher era?<\/p>\n<p>\u2014 Fascinante.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior,ou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; no tempo em que a vi, n\u00e3o tinha classe e podia pertencer a todas; demais, n\u00e3o a tratei de perto.<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, disse D. \u00darsula, depois de hesitar algum tempo; que me aconselha que fa\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Que a ame, se ela o merecer, e se puder.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! confesso-lhe que me h\u00e1 de custar muito! E merec\u00ea-lo-\u00e1? Alguma cousa me diz ao cora\u00e7\u00e3o que essa menina vem complicar a nossa vida; al\u00e9m disso, n\u00e3o posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Seu sobrinho aceita as cousas filosoficamente e at\u00e9 com satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o compreendo a satisfa\u00e7\u00e3o, mas concordo que nada mais h\u00e1 do que cumprir textualmente a vontade do conselheiro. N\u00e3o se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o cora\u00e7\u00e3o quer. O que lhe digo \u00e9 que a trate com benevol\u00eancia; e caso sinta em si algum afeto, n\u00e3o o sufoque; deixe-se ir com ele. J\u00e1 agora n\u00e3o se pode voltar atr\u00e1s. Infelizmente!<\/p>\n<p>Helena estava a concluir os estudos; semanas depois determinou a fam\u00edlia que ela viesse para a casa. D. \u00darsula recusou a princ\u00edpio ir busc\u00e1-la; convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumb\u00eancia depois de alguma hesita\u00e7\u00e3o. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para ser a mo\u00e7a trasladada a Andara\u00ed. Dona \u00darsula meteu-se na carruagem, logo depois do jantar. Est\u00e1cio foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na ch\u00e1cara, deu com os olhos nas janelas do quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia algu\u00e9m dentro. Pela primeira vez sentiu Est\u00e1cio a estranheza da situa\u00e7\u00e3o criada pela presen\u00e7a daquela meia-irm\u00e3 e perguntou a si pr\u00f3prio se n\u00e3o era a tia quem tinha raz\u00e3o. Repeliu pouco depois esse sentimento; a mem\u00f3ria do pai restituiu-lhe a benevol\u00eancia anterior. Ao mesmo tempo, a id\u00e9ia de ter uma irm\u00e3 sorria-lhe ao cora\u00e7\u00e3o como promessa de venturas novas e desconhecidas. Entre sua m\u00e3e e as demais mulheres, faltava-lhe essa criatura intermedi\u00e1ria, que ele j\u00e1 amava sem conhecer, e que seria a natural confidente de seus desalentos e esperan\u00e7as. Est\u00e1cio contemplou longo tempo as janelas; nem o vulto de Helena apareceu ali, nem ele viu passar a sombra da habitante nova.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p>NA SEGUINTE manh\u00e3, Est\u00e1cio levantou-se tarde e foi direito \u00e0 sala de jantar, onde encontrou D.\u00darsula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao p\u00e9 de uma janela, a ler um tomo do Saint-Clair das Ilhas, enternecida pela cent\u00e9sima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e moral\u00edssimo livro, ainda que enfadonho e ma\u00e7udo, como outros de seu tempo. Com ele matavam as matronas daquela quadra muitas horas compridas do inverno, com ele se encheu muito ser\u00e3o pac\u00edfico, com ele se desafogou o cora\u00e7\u00e3o de muita l\u00e1grima sobressalente.<\/p>\n<p>\u2014 Veio? perguntou Est\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u2014 Veio, respondeu a boa senhora, fechando o livro. O almo\u00e7o esfria, continuou ela, dirigindo-se \u00e0 mucama que ali estava de p\u00e9, junto da mesa; j\u00e1 foram chamar&#8230;nhanh\u00e3 Helena?<\/p>\n<p>\u2014 Nhanh\u00e3 Helena disse que j\u00e1 vem.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dez minutos, observou D. \u00darsula ao sobrinho.<\/p>\n<p>\u2014 Naturalmente n\u00e3o tarda, respondeu este. Que tal?<\/p>\n<p>D.\u00darsula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quase n\u00e3o vira o rosto de Helena; e esta, logo que ali chegou, recolheu-se ao aposento que lhe deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D.\u00darsula p\u00f4de afian\u00e7ar foi somente que a sobrinha era mo\u00e7a feita.<\/p>\n<p>Ouviu-se descer a escada um passo r\u00e1pido, e n\u00e3o tardou que Helena aparecesse \u00e0 porta da sala de jantar. Est\u00e1cio estava ent\u00e3o encostado \u00e0 janela que ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda, donde se viam os fundos da ch\u00e1cara. Olhou para a tia como esperando que ela os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Menina, disse D. \u00darsula com o tom mais doce que tinha na voz, este \u00e9 meu sobrinho Est\u00e1cio, seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse Helena, sorrindo e caminhando para ele.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio dera igualmente alguns passos.<\/p>\n<p>\u2014 Espero merecer sua afei\u00e7\u00e3o, disse ela depois de curta pausa. Pe\u00e7odesculpa da demora; estavam \u00e0 minha espera, creio eu.<\/p>\n<p>\u2014 \u00cdamos para a mesa agora mesmo, interrompeu D. \u00darsula, como protestando contra a id\u00e9ia de que ela os fizesse esperar.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio procurou corrigir a rudez da tia.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00ednhamos ouvido o seu passo na escada, disse ele. Sentemo-nos, que o almo\u00e7o esfria.<\/p>\n<p>D. \u00darsula j\u00e1 estava sentada \u00e0 cabeceira da mesa; Helena ficou \u00e0 direita, na cadeira que Est\u00e1cio lhe indicou; este tomou lugar do lado oposto. O almo\u00e7o correu silencioso e desconsolado: raros monoss\u00edlabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o disp\u00eandio da conversa entre os tr\u00eas parentes. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era c\u00f4moda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, n\u00e3o conseguia vencer de todo o natural acanhamentoda ocasi\u00e3o. Mas, se o n\u00e3o vencia de todo, podiam ver-se atrav\u00e9s dele certos sinais de educa\u00e7\u00e3o fina. Est\u00e1cio examinou aos poucos a figura da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Era uma mo\u00e7a de dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima da mediana, talhe elegante e atitudes modestas. A face, de um moreno-p\u00eassego, tinha a mesma impercept\u00edvel penugem da fruta de que tirava a cor; naquela ocasi\u00e3o tingiam-na uns longes cor-de-rosa, a princ\u00edpio mais rubros, natural efeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as tra\u00e7ara a arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em duas grossas tran\u00e7as lhe ca\u00edssem espalhadamente sobre os ombros, e se os pr\u00f3prios olhos al\u00e7assem as pupilas ao c\u00e9u, diss\u00e9reis um daqueles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. N\u00e3o exigiria a arte maior corre\u00e7\u00e3o e harmonia de fei\u00e7\u00f5es, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do aspecto. Uma s\u00f3 cousa pareceu menos apraz\u00edvel ao irm\u00e3o: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja express\u00e3o de curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o \u00fanico sen\u00e3o que lhe achou, e n\u00e3o era pequeno.<\/p>\n<p>Acabado o almo\u00e7o, trocadas algumas palavras, poucas e soltas, Helena retirou-se ao seu quarto, onde durante tr\u00eas dias passou quase todas as horas, a ler meia d\u00fazia de livros que trouxera consigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janelas. Alguma vez desceu a jantar com os olhos vermelhos e a fronte pesarosa, apenas com um sorriso p\u00e1lido e fugitivo nos l\u00e1bios. Uma crian\u00e7a, subitamente transferida ao col\u00e9gio, n\u00e3o desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus pais. Mas a asa do tempo leva tudo; e ao cabo de tr\u00eas dias, j\u00e1 a fisionomia de Helena trazia menos sombrio aspecto. O olhar perdeu a express\u00e3o que primeiro lhe achou o irm\u00e3o, para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra sa\u00eda-lhe mais f\u00e1cil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.<\/p>\n<p>No quarto dia, acabado o almo\u00e7o, Est\u00e1cio encetou uma conversa geral, que n\u00e3o passou de um simples duo, porque D. \u00darsula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do len\u00e7o que trazia ao pesco\u00e7o. Como falassem da casa, Est\u00e1cio disse \u00e0 irm\u00e3:<\/p>\n<p>\u2014 Esta casa \u00e9 t\u00e3o sua como nossa; fa\u00e7a de conta que nascemos debaixo do mesmo teto. Minha tia lhe dir\u00e1 o sentimento que nos anima a seu respeito.<\/p>\n<p>Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a ch\u00e1cara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. \u00darsula que lhas fosse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e secamente respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o, menina; tenho por h\u00e1bito descansar e ler.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a mo\u00e7a com gra\u00e7a; n\u00e3o \u00e9 bom cansar os seus olhos; e, al\u00e9m disso, \u00e9 justo que me acostume a servi-la. N\u00e3o acha? continuou ela voltando-se para Est\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 nossa tia, respondeu o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! ainda n\u00e3o \u00e9 minha tia! interrompeu Helena. H\u00e1 de s\u00ea-lo quando me conhecer de todo. Por enquanto somos estranhas uma \u00e0 outra; mas nenhuma de n\u00f3s \u00e9 m\u00e1.<\/p>\n<p>Estas palavras foram ditas em tom de graciosa submiss\u00e3o. A voz com que ela as proferiu, era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um misterioso encanto, a que a pr\u00f3pria D \u00darsula n\u00e3o p\u00f4de resistir.<\/p>\n<p>\u2014 Pois deixe que a conviv\u00eancia fa\u00e7a falar o cora\u00e7\u00e3o, respondeu a irm\u00e3 do conselheiro em tom brando. N\u00e3o aceito o oferecimento da leitura, porque n\u00e3o entendo bem o que os outros me l\u00eaem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a ch\u00e1cara, seu irm\u00e3o pode conduzi-la.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio declarou-se pronto para acompanhar a irm\u00e3. Helena, entretanto, recusou. Irm\u00e3o embora, era a primeira vez que o via, e, ao que parece, a primeira que podia achar-se a s\u00f3s com um homem que n\u00e3o seu pai. D. \u00darsula, talvez porque preferisse ficar s\u00f3 algum tempo, disse-lhe secamente que fosse. Helena acompanhou o irm\u00e3o. Percorreram parte da casa, ouvindo a mo\u00e7a as explica\u00e7\u00f5es que lhe dava Est\u00e1cio e inquirindo de tudo com zelo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram \u00e0 porta do gabinete do conselheiro, Est\u00e1cio parou.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos entrar num lugar triste para mim, disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 O gabinete de meu pai.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! deixe ver!<\/p>\n<p>Entraram os dous. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro falecera. Est\u00e1cio deu algumas indica\u00e7\u00f5es relativas ao teor da vida dom\u00e9stica de seu pai; mostrou-lhe a cadeira em que ele costumava ler, de tarde e de manh\u00e3; os retratos de fam\u00edlia, a secret\u00e1ria, as estantes; falou de quanto podia interess\u00e1-la. Sobre a mesa, perto da janela, estava ainda o \u00faltimo livro que o conselheiro lera: eram as M\u00e1ximas do Marqu\u00eas de Maric\u00e1. Helena pegou nele e beijou a p\u00e1gina aberta. Uma l\u00e1grima brotou-lhe dos olhos, quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sens\u00edvel; brotou, deslizou-se e foi cair no papel.<\/p>\n<p>\u2014 Coitado! murmurou ela.<\/p>\n<p>Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns minutos depois de jantar, e olhou para fora. O dia come\u00e7ava a aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores de quaresma, com suas p\u00e9talas roxas e tristemente belas. O espet\u00e1culo ia com a situa\u00e7\u00e3o de ambos. Est\u00e1cio deixou-se levar ao sabor de suas recorda\u00e7\u00f5es da meninice. De envolta com elas veio pousar-lhe ao lado a figura de sua m\u00e3e; tornou a v\u00ea-la, tal qual se lhe fora dos bra\u00e7os, uma crua noite de outubro, quando ele contava dezoito anos de idade. A boa senhora morrera quase mo\u00e7a, \u2014 ainda bela, pelo menos, \u2014 daquela beleza sem outono, cuja primavera tem duas esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Helena ergueu-se.<\/p>\n<p>\u2014 Gostava dele? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o gostaria dele?<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o. Era uma alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceu-me; deu-me fam\u00edlia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus pr\u00f3prios. O resto depende de mim, do ju\u00edzo que eu tiver,ou talvez da fortuna.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima palavra saiu-lhe do cora\u00e7\u00e3o como um suspiro. Depois de alguns segundos de sil\u00eancio, Helena enfiou o bra\u00e7o no do irm\u00e3o e desceram \u00e0 ch\u00e1cara. Fosse influ\u00eancia do lugar ou simples mobilidade de esp\u00edrito, Helena tornou-se logo outra do que se revelara no gabinete do pai. Jovial, graciosa e travessa, perdera aquela gravidade quieta e senhora de si com que aparecera na sala de jantar; fez-se l\u00e9pida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora, esvoa\u00e7avam por meio das \u00e1rvores e por cima da grama. A mudan\u00e7a causou certo espanto ao mo\u00e7o; mas ele a explicou de si para si, e em todo o caso n\u00e3o o impressionou mal. Helena pareceu-lhe naquela ocasi\u00e3o, mais do que antes, o complemento da fam\u00edlia. O que ali faltava era justamente o gorjeio, a gra\u00e7a, a travessura, um elemento que temperasse a austeridade da casa e lhe desse todas as fei\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao lar dom\u00e9stico. Helena era esse elemento complementar.<\/p>\n<p>A excurs\u00e3o durou cerca de meia hora. D. \u00darsula viu-os chegar, ao cabo desse tempo, familiares e amigos, como se houvessem sido criados juntos. As sobrancelhas grisalhas da boa senhora contra\u00edram-se, e o l\u00e1bio inferior recebeu uma dentada de despeito.<\/p>\n<p>\u2014 Titia&#8230; disse Est\u00e1cio jovialmente; minha irm\u00e3 conhece j\u00e1 a casa toda e suas depend\u00eancias. Resta somente que lhe mostremos o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. \u00darsula sorriu, um sorriso amarelo e acanhado, que apagou nos olhos da mo\u00e7a a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a m\u00e1 impress\u00e3o; Helena caminhou para a tia, e pegando-lhe nas m\u00e3os, perguntou com toda a do\u00e7ura da voz:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o querer\u00e1 mostrar-me o seu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vale a pena! respondeu D. \u00darsula com afetada bonomia; cora\u00e7\u00e3o de velha \u00e9 casa arruinada.<\/p>\n<p>\u2014 Pois as casas velhas consertam-se, replicou Helena sorrindo.<\/p>\n<p>D. \u00darsula sorriu tamb\u00e9m; desta vez, por\u00e9m, com express\u00e3o melhor. Ao mesmo tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a princ\u00edpio indiferente, manifestou logo depois a impress\u00e3o que lhe causava a beleza da mo\u00e7a. D. \u00darsula retirou os olhos; porventura receou que o influxo das gra\u00e7as de Helena lhe torcessem o cora\u00e7\u00e3o, e ela queria ficar independente e inconcili\u00e1vel.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO IV<\/p>\n<p>AS PRIMEIRAS semanas correram sem nenhum sucesso not\u00e1vel, mas ainda assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesita\u00e7\u00e3o, de observa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, um tatear de caracteres, em que de uma e de outra parte procuravam conhecer o terreno e tomar posi\u00e7\u00e3o.O pr\u00f3prio Est\u00e1cio, n\u00e3o obstante a primeira impress\u00e3o, recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos o procedimento de Helena.<\/p>\n<p>Helena tinha os predicados pr\u00f3prios a captar a confian\u00e7a e a afei\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Era d\u00f3cil, af\u00e1vel, inteligente. N\u00e3o eram estes, contudo, nem ainda a beleza, os seus dotes por excel\u00eancia eficazes. O que a tornava superior e lhe dava probabilidade de triunfo, era a arte de acomodar-se \u00e0s circunst\u00e2ncias do momento e a toda a casta de esp\u00edritos, arte preciosa, que faz h\u00e1beis os homens e estim\u00e1veis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de casa, com igual interesse e gosto, fr\u00edvola com os fr\u00edvoIos, grave com os que o eram, atenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nela a jovialidade da menina e a compostura da mulher feita, um acordo de virtudes dom\u00e9sticas e maneiras elegantes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das qualidades naturais, possu\u00eda Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam aceita a todos, e mudaram em parte o teor da vida da fam\u00edlia. N\u00e3o falo da magn\u00edfica voz de contralto, nem da corre\u00e7\u00e3o com que sabia usar dela, porque ainda ent\u00e3o,estando fresca a mem\u00f3ria do conselheiro, n\u00e3o tivera ocasi\u00e3o de fazer-se ouvir. Era pianista distinta, sabia desenho, falava correntemente a l\u00edngua francesa, um pouco a inglesa e a italiana. Entendia de costura e bordados, e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com gra\u00e7a e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e muita paci\u00eancia, arte e resigna\u00e7\u00e3o, \u2014 n\u00e3o humilde, mas digna, \u2014 conseguia polir os \u00e1speros, atrair os indiferentes e domar os hostis.<\/p>\n<p>Pouco havia ganho no esp\u00edrito de D. \u00darsula; mas a repulsa desta j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o viva como nos primeiros dias. Est\u00e1cio cedeu de todo, e era f\u00e1cil; seu cora\u00e7\u00e3o tendia para ela, mais que nenhum outro. N\u00e3o cedeu, por\u00e9m, sem alguma hesita\u00e7\u00e3o e d\u00favida. A flexibilidade do esp\u00edrito da irm\u00e3 afigurou-se-lhe a princ\u00edpio mais calculada que espont\u00e2nea. Mas foi impress\u00e3o que passou. Dos pr\u00f3prios escravos n\u00e3o obteve Helena desde logo a simpatia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos de D. \u00darsula. Servos de uma fam\u00edlia, viam com desafeto e ci\u00fame a parenta nova, ali trazida por um ato de generosidade. Mas tamb\u00e9m a estes venceu o tempo.Um s\u00f3 de tantos pareceu v\u00ea-la desde princ\u00edpio com olhos amigos; era um rapaz de 16 anos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta \u00faltima circunstancia o ligou desde logo \u00e0 filha do seu senhor. Despida de interesse, porque a esperan\u00e7a da liberdade, se a podia haver, era prec\u00e1ria e remota, a afei\u00e7\u00e3o de Vicente n\u00e3o era menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos pr\u00f3prios do afeto, \u2014 a familiaridade e o contato, \u2014 condenado a viver da contempla\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria, a n\u00e3o beijar sequer a m\u00e3o que o aben\u00e7oava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instintos, Vicente foi, n\u00e3o obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala.<\/p>\n<p>As pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesita\u00e7\u00e3o de D. \u00darsula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor, \u2014 tarefa em que se esmerou superando os obst\u00e1culos na fam\u00edlia; o resto viria de si mesmo.<\/p>\n<p>Uma pessoa, entre os familiares da casa, n\u00e3o os acompanhou no procedimento reservado e frio; foi o Padre-mestre Melchior. Melchior era capel\u00e3o em casa do conselheiro, que mandara construir alguns anos antes uma capelinha na ch\u00e1cara, onde muita gente da vizinhan\u00e7a ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta anos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabelos, e uns olhos n\u00e3o menos sagazes que mansos. De compostura quieta e grave, austero sem formalismo, soci\u00e1vel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro var\u00e3o apost\u00f3lico, homem de sua Igreja e de seu Deus, \u00edntegro na f\u00e9, constante na esperan\u00e7a, ardente na caridade. Conhecera a familia do conselheiro algum tempo depois do cons\u00f3rcio deste. Descobriu a causa da tristeza que minou os \u00faltimos anos da m\u00e3e de Est\u00e1cio; respeitou a tristeza, mas atacou diretamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razo\u00e1vel, salvo nas cousas do amor; ouviu o padre, prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do cora\u00e7\u00e3o apagou a escritura. Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as ocasi\u00f5es graves, e o voto de Melchior pesava em seu espirito. Morando na vizinhan\u00e7a daquela familia, tinha ali o padre todo o seu mundo. Se as obriga\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas n\u00e3o o chamavam a outro lugar, n\u00e3o se arredava de Andara\u00ed, s\u00edtio de repouso ap\u00f3s trabalhosa mocidade.<\/p>\n<p>Das outras pessoas que freq\u00fcentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andara\u00ed, mencionaremos ainda o Dr. Matos, sua mulher, o Coronel Macedo e dous filhos.<\/p>\n<p>O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensa\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia do direito, que n\u00e3o sabia, possu\u00eda no\u00e7\u00f5es muito aproveit\u00e1veis de meteorologia e bot\u00e2nica, da arte de comer, do voltarete, do gam\u00e3o e da politica. Era imposs\u00edvel a ningu\u00e9m queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir dele a causa e a natureza de um e outro, e logo a divis\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es, a diferen\u00e7a dos climas, influ\u00eancia destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e suas enchentes, as mar\u00e9s e a pororoca. Ele falava com igual abund\u00e2ncia das qualidades terap\u00eauticas de uma erva, do nome cient\u00edfico de uma flor, da estrutura de certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio \u00e0s paix\u00f5es da politica, se abria a boca em tal assunto era para criticar igualmente de liberais e conservadores, \u2014 os quais todos lhe pareciam abaixo do pa\u00eds. O jogo e a comida achavam-no menos c\u00e9ptico; e nada lhe avivava tanto a fisionomia como um bom gam\u00e3o depois de um bom jantar. Estas prendas faziam do Dr. Matos um conviva interessante nas noites que o n\u00e3o eram. Posto soubesse efetivamente alguma cousa dos assuntos que lhe eram mais prezados, n\u00e3o ganhou o pec\u00falio que possu\u00eda, professando a bot\u00e2nica ou a meteorologia, mas aplicando as regras do direito, que ignorou at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>A esposa do Dr. Matos fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro ardera aos p\u00e9s da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas s\u00f3 era verdade a primeira parte do boato. Nem os princ\u00edpios morais, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra cousa que n\u00e3o fosse repelir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez, iludiu os mal\u00e9volos; da\u00ed o sussurro, j\u00e1 agora esquecido e morto. A reputa\u00e7\u00e3o dos homens amorosos parece-se muito com o juro do dinheiro: alcan\u00e7ado certo capital, ele pr\u00f3prio se multiplica e avulta. O conselheiro desfrutou essa vantagem, de maneira que, se no outro mundo lhe levassem \u00e0 coluna dos pecados todos os que lhe atribu\u00edam na Terra, receberia dobrado castigo do que mereceu.<\/p>\n<p>O Coronel Machado tinha a particularidade de n\u00e3o ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um esp\u00edrito de retifica\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a dar-lhe o t\u00edtulo de coronel, que a princ\u00edpio recusou, mas que afinal foi compelido a aceitar, n\u00e3o podendo gastar a vida inteira a protestar contra ele. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sobre o pec\u00falio da experi\u00eancia, possu\u00eda imagina\u00e7\u00e3o viva, f\u00e9rtil e agrad\u00e1vel. Era bom companheiro, folgaz\u00e3o e comunicativo, pensando s\u00e9rio quando era preciso. Tinha dous filhos, um rapaz de vinte anos, que estudava em S. Paulo, e uma mo\u00e7a de vinte e tr\u00eas, mais prendada que formosa.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias de agosto a situa\u00e7\u00e3o de Helena podia dizer-se consolidada. D.\u00darsula n\u00e3o cedera de todo, mas a conviv\u00eancia ia produzindo seus frutos. Camargo era o \u00fanico irreconcili\u00e1vel; sentia-se, atrav\u00e9s de suas maneiras cerimoniosas, uma avers\u00e3o profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se fosse preciso. As demais pessoas, n\u00e3o s\u00f3 domadas, mas at\u00e9 enfeiti\u00e7adas, estavam \u00e0s boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assunto da vizinhan\u00e7a e o prazer dos familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminisc\u00eancias um fio biogr\u00e1fico da mo\u00e7a; mas do invent\u00e1rio retrospectivo ningu\u00e9m tirava elementos que pudessem construir a verdade ou uma s\u00f3 parcela que fosse. Aorigem da mo\u00e7a continuava misteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia atribuir o nascimento de Helena a um amor ilustre ou romanesco, \u2014 hip\u00f3teses admiss\u00edveis, e em todo o caso agrad\u00e1veis a ambas as partes.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO O CONSELHEIRO VALE morreu \u00e0s 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. 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