{"id":120400,"date":"2017-04-25T18:50:49","date_gmt":"2017-04-25T20:50:49","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120400"},"modified":"2017-04-25T18:52:20","modified_gmt":"2017-04-25T20:52:20","slug":"esau-e-jaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/esau-e-jaco","title":{"rendered":"Esa\u00fa e Jac\u00f3"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>Dico, che quando l&#8217;anima mal nata&#8230;<\/p>\n<p>Dante<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ COUSAS FUTURAS!<\/h2>\n<p>Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo. Come\u00e7aram de subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente h\u00e1 no Rio de Janeiro que nunca l\u00e1 foi, muita haver\u00e1 morrido, muita mais nascer\u00e1 e morrer\u00e1 sem l\u00e1 p\u00f4r os p\u00e9s. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho ingl\u00eas, que ali\u00e1s andara terras e terras, confiava-me h\u00e1 muitos anos em Londres que de Londres s\u00f3 conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metr\u00f3pole e do mundo Natividade e Perp\u00e9tua conheciam outras partes, al\u00e9m de Botafogo, mas o morro do Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que l\u00e1 reinava em 1871, era-lhes t\u00e3o estranho e remoto como o clube. O \u00edngreme, o desigual, o mal cal\u00e7ado da ladeira mortificavam os p\u00e9s \u00e0s duas pobres donas. N\u00e3o obstante, continuavam a subir, como se fosse penit\u00eancia, devagarinho, cara no ch\u00e3o, v\u00e9u para baixo. A manh\u00e3 trazia certo movimento; mulheres, homens, crian\u00e7as que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que ali\u00e1s vestiam com grande simplicidade; mas h\u00e1 um donaire que se n\u00e3o perde, e n\u00e3o era vulgar naquelas alturas. A mesma lentid\u00e3o do andar, comparada \u00e0 rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: &#8220;Voc\u00ea quer ver que elas v\u00e3o \u00e0 cabocla?&#8221; E ambos pararam a distancia, tomados daquele invenc\u00edvel desejo de conhecer a vida alheia, que \u00e9 muita vez toda a necessidade humana.<\/p>\n<p>Com efeito, as duas senhoras buscavam disfar\u00e7adamente o n\u00famero da casa da cabocla, at\u00e9 que deram com ele. A casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada \u00e0 aventura. Quiseram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.<\/p>\n<p>\u2014Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e h\u00e3o de ouvir muito disparate&#8230;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 mentira dele, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.<\/p>\n<p>Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vid\u00eancia e da franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia ser miser\u00e1vel, e ent\u00e3o&#8230; Enquanto cogitavam passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham f\u00e9, mas tinham tamb\u00e9m vexame da opini\u00e3o, como um devoto que se benzesse \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>Velho caboclo, pai da adivinha, conduziu as senhoras \u00e0 sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mist\u00e9rio ou incutis se pavor, nenhum petrecho simb\u00f3lico, nenhum bicho empalhado: esqueleto ou desenho de aleij\u00f5es. Quando muito um registro da Concei\u00e7\u00e3o colado \u00e0 parede podia lembrar um mist\u00e9rio, apesar de encardido e ro\u00eddo, mas n\u00e3o metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.<\/p>\n<p>\u2014Minha filha j\u00e1 vem, disse o velho. As senhoras como se chamam? Natividade deu o nome de batismo somente, Maria, como um v\u00e9u mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cart\u00e3o, porque a consulta era s\u00f3 de uma, \u2014 com o n\u00famero 1.012. N\u00e3o h\u00e1 que pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 que dizer do costume, que \u00e9 velho e velh\u00edssimo. Rel\u00ea Esquilo, meu amigo, rel\u00ea as Sumenides, l\u00e1 ver\u00e1s a P\u00edtia, chamando os que iam \u00e0 consulta: &#8220;Se h\u00e1 aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem marcada pela sorte&#8221;&#8230; A sorte outrora, a numera\u00e7\u00e3o agora, tudo \u00e9 que a verdade se ajuste \u00e0 prioridade, e ningu\u00e9m perca a sua vez de audi\u00eancia. Natividade guardou o bilhete, e ambas foram \u00e0 janela.<\/p>\n<p>A falar verdade, temiam o seu tanto, Perp\u00e9tua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo poss\u00edvel. N\u00e3o ponho aqui os seus gestos: imaginai que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um n\u00f3 na garganta. Felizmente, a cabocla n\u00e3o se demorou muito; ao cabo de tr\u00eas ou quatro minutos, o pai a trouxe pela m\u00e3o, erguendo a cortina do fundo.<\/p>\n<p>\u2014Entra, B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>B\u00e1rbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, \u00e0 porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no p\u00e9. N\u00e3o se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabe\u00e7a por um peda\u00e7o de fita enxovalhada, faziam-lhe um solid\u00e9u natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. J\u00e1 vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mist\u00e9rio estava nos olhos. Estes eram opacos, n\u00e3o sempre nem tanto que n\u00e3o fossem tamb\u00e9m l\u00facidos e agudos, e neste \u00faltimo estado eram; igualmente compridos; t\u00e3o compridos e t\u00e3o agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o cora\u00e7\u00e3o e tornavam c\u00e1 fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. N\u00e3o te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascina\u00e7\u00e3o. B\u00e1rbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.<\/p>\n<p>\u2014Basta, confirmou B\u00e1rbara. Os meninos s\u00e3o seus filhos? \u2014S\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Cara de um \u00e9 cara de outro.<\/p>\n<p>\u2014S\u00e3o g\u00eameos; nasceram h\u00e1 pouco mais de um ano.<\/p>\n<p>\u2014As senhoras podem sentar-se.<\/p>\n<p>Natividade disse baixinho \u00e0 outra que &#8220;a cabocla era simp\u00e1tica&#8221;, n\u00e3o t\u00e3o baixo que esta n\u00e3o pudesse ouvir tamb\u00e9m; e da\u00ed pode ser que ela, receosa da predi\u00e7\u00e3o, quisesse aquilo mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se \u00e0 mesa redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. P\u00f4s os cabelos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a m\u00e3e, fez algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo, porque \u00e9 verdade, e o fundo concorda com o of\u00edcio. Fora, o pai ro\u00e7ava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sert\u00e3o do Norte: Menina da saia branca, Saltadeira de riacho&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de express\u00e3o, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. B\u00e1rbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabelos em cada m\u00e3o, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem afeta\u00e7\u00e3o que porventura aches nesta linha. Tais gestos n\u00e3o se poderiam contar naturalmente. Natividade n\u00e3o tirava os olhos dela, como se quisesse l\u00ea-la por dentro. E n\u00e3o foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.<\/p>\n<p>\u2014Brigado? \u2014Brigado, sim, senhora.<\/p>\n<p>\u2014Antes de nascer? \u2014Sim, senhora, pergunto se n\u00e3o teriam brigado no ventre de sua m\u00e3e; n\u00e3o se lembra? Natividade, que n\u00e3o tivera a gesta\u00e7\u00e3o sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos extraordin\u00e1rios, repetidos, e dores, e ins\u00f4nias&#8230; Mas ent\u00e3o que era? Brigariam por qu\u00ea? A cabocla n\u00e3o respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou \u00e0 volta da mesa, lenta, como son\u00e2mbula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividi-los novamente entre a m\u00e3e e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando grosso. Toda ela, cara e bra\u00e7os. ombros e pernas, toda era pouca para arrancar a palavra ao Destino. Enfim, parou, sentou-se exausta, at\u00e9 que se ergueu de salto e foi ter com as duas, t\u00e3o radiante, os olhos t\u00e3o vivos e c\u00e1lidos, que a m\u00e3e ficou pendente deles, e n\u00e3o se p\u00f4de ter que lhe n\u00e3o pegasse das m\u00e3os e lhe perguntasse ansiosa: \u2014Ent\u00e3o? Diga, posso ouvir tudo.<\/p>\n<p>B\u00e1rbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira palavra parece que lhe chegou \u00e0 boca, mas recolheu-se ao cora\u00e7\u00e3o, virgem dos l\u00e1bios dela e de alheios ouvidos. Natividade instou pela resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla.<\/p>\n<p>\u2014Mas, cousas feias? \u2014Oh! n\u00e3o! n\u00e3o! Cousas bonitas, cousas futuras! \u2014Mas isso n\u00e3o basta: diga-me o resto. Esta senhora \u00e9 minha irm\u00e3 e de segredo, mas se \u00e9 preciso sair, ela sai; eu fico, diga-me a mim s\u00f3&#8230; Ser\u00e3o felizes? \u2014Sim.<\/p>\n<p>\u2014Ser\u00e3o grandes? \u2014Ser\u00e3o grandes, Oh! grandes! Deus h\u00e1 de dar-lhes muitos benef\u00edcios. Eles h\u00e3o de subir, subir, subir&#8230; Brigaram no ventre de sua veio busca m\u00e3e, que tem? C\u00e1 fora tamb\u00e9m se briga. Seus filhos ser\u00e3o gloriosos. \u00c9! s\u00f3 o que lhe digo. Quanto \u00e0 qualidade da gl\u00f3ria, cousas futuras! L\u00e1 dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do sert\u00e3o: Trepa-me neste coqueiro, Bota-me os cocos abaixo.<\/p>\n<p>E a filha, n\u00e3o tendo mais que dizer, ou n\u00e3o sabendo que explicar, dava aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia l\u00e1 dentro: Menina da saia branca, Saltadeira de riacho, Trepa-me neste coqueiro, Bota-me os cocos abaixo, Quebra coco, sinh\u00e1, L\u00e1 no coc\u00e1, Se te d\u00e1 na cabe\u00e7a, H\u00e1 de rach\u00e1; Muito hei de me ri, Muito hei de gost\u00e1, Lel\u00ea, coco, nai\u00e1.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II \/ MELHOR DE DESCER QUE DE SUBIR<\/h2>\n<p>Todos os or\u00e1culos t\u00eam o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe n\u00e3o ouvir mas nada; bastou saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. Era cinco vezes o pre\u00e7o do costume, e valia tanto ou mais que as ricas d\u00e1divas de Creso \u00e0 P\u00edtia. Arrecadou os retratos e os cabelos, e as duas sa\u00edram, enquanto a cabocla ia para os fundos \u00e0 espera de outros. J\u00e1 havia alguns fregueses \u00e0 porta, com os n\u00fameros de ordem, e elas desceram rapidamente, escondendo a cara.<\/p>\n<p>Perp\u00e9tua compartia as alegrias da irm\u00e3, as pedras tamb\u00e9m, o muro do lado do mar, as camisas penduradas \u00e0s janelas, as cascas de banana no ch\u00e3o. Os mesmos sapatos de um irm\u00e3o das almas, que ia a dobrar a esquina da Rua da Miseric\u00f3rdia para a de S. Jos\u00e9, Fale ciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cansa\u00e7o. Natividade estava t\u00e3o fora de si que, ao ouvir-lhe pedir: &#8220;Para a missa das almas!&#8221; tirou da bolsa uma nota de dous mil-r\u00e9is, nova em folha, e deitou-a \u00e0 bacia. A irm\u00e3 chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o para o engano, mas n\u00e3o era engano, era para as almas do purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>E seguiram l\u00e9pidas para o coup\u00e9, que as esperava no espa\u00e7o que fica entre a igreja de S. Jos\u00e9 e a C\u00e2mara dos Deputados. N\u00e3o tinham querido que o carro as levasse at\u00e9 ao princ\u00edpio da ladeira, para que o cocheiro e o lacaio n\u00e3o desconfiassem da consulta. Toda a gente falava lava ent\u00e3o da cabocla do Castelo, era o assunto da cidade; atribu\u00edam-lhe um poder infinito, uma s\u00e9rie de milagres, sortes, achados casamentos. Se as descobrissem, estavam perdidas embora muita gente boa l\u00e1 fosse. Ao v\u00ea-las dando a esmola ao irm\u00e3o das almas, o lacaio trepou \u00e0 almofada e o cocheiro tocou os cavalos, a carruagem veio busc\u00e1-las, e guiou para Botafogo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III \/ A ESMOLA DA FELICIDADE<\/h2>\n<p>\u2014Deus lhe acrescente, minha senhora devota! exclamou o irm\u00e3o das almas ao ver a nota cair em cima de dous n\u00edqueis de tost\u00e3o e alguns vint\u00e9ns antigos. Deus lhe d\u00ea todas as felicidades do c\u00e9u e da terra, e as almas do purgat\u00f3rio pe\u00e7am a Maria Sant\u00edssima que recomende a senhora dona a seu bendito filho! Quando a sorte ri, toda a natureza ri tamb\u00e9m, e o cora\u00e7\u00e3o ri como tudo o mais. Tal foi a explica\u00e7\u00e3o que, por outras palavras menos especulativas, deu o irm\u00e3o das almas aos dous mil-r\u00e9is. A suspeita de ser a nota falsa n\u00e3o chegou a tomar p\u00e9 no c\u00e9rebro deste: foi alucina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Compreendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de pensar alto, disse piscando o olho, enquanto elas entravam no carro: \u2014Aquelas duas viram passarinho verde, com certeza.<\/p>\n<p>Sem rodeios, sup\u00f4s que as duas senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de tr\u00eas fatos, que sou obrigado a enfileirar aqui para n\u00e3o deixar este homem sob a suspeita de caluniador gratuito. O primeiro foi a alegria delas, o segundo o valor da esmola. o terceiro o carro que as esperava a um canto, como se elas quisessem esconder do cocheiro o ponto dos namorados. N\u00e3o concluas tu que ele tivesse sido cocheiro algum dia. e andasse a conduzir mo\u00e7as antes de servir \u00e0s almas. Tamb\u00e9m n\u00e3o creias que fosse outrora rico e ad\u00faltero, aberto de m\u00e3os, quando vinha de dizer adeus \u00e0s suas amigas. Ni cet exc\u00e8s d&#8217;honneur, ni cette indignit\u00e9. Era um pobre-diabo sem mais of\u00edcio que a devo\u00e7\u00e3o. Demais, n\u00e3o teria tido tempo; contava apenas vinte e sete anos.<\/p>\n<p>Cumprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar para a nota t\u00e3o fresca, t\u00e3o valiosa, nota que almas nunca viram sair das m\u00e3os dele. Foi subindo a Rua de S. Jos\u00e9. J\u00e1 n\u00e3o tinha \u00e2nimo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a id\u00e9ia de ser falsa voltou-lhe ao c\u00e9rebro, e agora mais freq\u00fcente, at\u00e9 que se lhe pegou por alguns instantes. Se fosse falsa&#8230; &#8220;Para a missa das almas!&#8221; gemeu \u00e0 porta de uma quitanda e deram-lhe um vint\u00e9m, \u2014 um vint\u00e9m sujo e triste ao p\u00e9 da nota t\u00e3o novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhe dous vint\u00e9ns, o dobro da outra moeda no valor e no azinhavre.<\/p>\n<p>E a nota sempre limpa, uns dous mil-r\u00e9is que pareciam vinte. N\u00e3o era falsa. No corredor pegou dela, mirou-a bem; era verdadeira De repente, ouviu abrir a cancela em cima, e uns passos r\u00e1pidos Ele, mais r\u00e1pido, amarrotou a nota e meteu-a na algibeira das cal\u00e7as: ficaram s\u00f3 os vint\u00e9ns azinhavrados e tristes, o \u00f3bolo da vi\u00fava. Saiu. foi \u00e0 primeira oficina, \u00e0 primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e lastimosamente: \u2014Para a missa das almas! Na igreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacrist\u00e3o ouviu uma voz d\u00e9bil como de almas remotas que lhe perguntavam se os dous mil-r\u00e9is&#8230; Os dous mil-r\u00e9is, dizia outra voz menos d\u00e9bil eram naturalmente dele, que, em primeiro lugar, tamb\u00e9m tinha alma, e, em segundo lugar, n\u00e3o recebera nunca t\u00e3o grande esmola. Quem quer dar tanto vai \u00e0 igreja ou compra uma vela, n\u00e3o p\u00f5e assim uma nota na bacia das esmolas pequenas.<\/p>\n<p>Se minto, n\u00e3o \u00e9 de inten\u00e7\u00e3o. Em verdade, as palavras n\u00e3o sa\u00edram assim articuladas e claras, nem as d\u00e9beis, nem as menos d\u00e9beis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da consci\u00eancia. Traduzi-as em l\u00edngua falada, a fim de ser entendido das pessoas que me l\u00eaem; n\u00e3o sei como se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atr\u00e1s de outro e todos confusos para o fim, at\u00e9 que o segundo ficou s\u00f3: &#8220;n\u00e3o tirou a nota a ningu\u00e9m&#8230; a dona \u00e9 que a p\u00f4s na bacia por sua m\u00e3o&#8230; tamb\u00e9m ele era alma&#8221;&#8230; A porta da sacristia que dava para a rua, ao deixar cair o reposteiro azul-escuro debruado de amarelo, n\u00e3o ouviu mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chap\u00e9u roto e sebento, meteu vagarosamente a m\u00e3o no bolso do colete, tamb\u00e9m roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou ao chap\u00e9u do mendigo, r\u00e1pido, \u00e0s escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vint\u00e9ns, ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito r\u00e9is. E o mendigo, como ele sa\u00edsse depressa, mandou-lhe atr\u00e1s estas palavras de agradecimento, parecidas com as suas: \u2014Deus lhe acrescente, meu senhor, e lhe d\u00ea&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV \/ A MISSA DO COUP\u00c9<\/h2>\n<p>Natividade ia pensando na cabocla do Castelo, na predi\u00e7\u00e3o da grandeza e na not\u00edcia da briga. Tornava a lembrar-se que, de fato, a gesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fora sossegada; mas s\u00f3 lhe ficava a sorte da gl\u00f3ria e da grandeza. A briga l\u00e1 ia, se a houve, o futuro, sim, esse \u00e9 que era o principal ou tudo. N\u00e3o deu pela Praia de Santa Luzia. No Largo da Lapa interrogou a irm\u00e3 sobre o que pensava da adivinha. Perp\u00e9tua respondeu que bem, que acreditava, e ambas concordaram que ela parecia falar dos pr\u00f3prios filhos, tal era o entusiasmo. Perp\u00e9tua ainda a repreendeu pelos cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is dados em paga; bastavam vinte.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o faz mal. Cousas futuras! \u2014Que cousas ser\u00e3o? \u2014N\u00e3o sei; futuras.<\/p>\n<p>Mergulharam outra vez no sil\u00eancio. Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manh\u00e3 em que ali passou, naquele mesmo coup\u00e9, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na igreja de S. Domingos&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Na igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de Jo\u00e3o de Melo, falecido em Maric\u00e1&#8221;. Tal foi o an\u00fancio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. N\u00e3o me ficou o dia. o m\u00eas foi agosto. O an\u00fancio est\u00e1 certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. N\u00e3o se disse sequer que o defunto era escriv\u00e3o, of\u00edcio que s\u00f3 perdeu com a morte. Enfim, parece que at\u00e9 lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, Jo\u00e3o de Melo e Barros.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabendo quem mandava dizer a missa, ningu\u00e9m l\u00e1 foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato; n\u00e3o era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto de um pequeno largo, adequada \u00e0 missa rec\u00f4ndita e an\u00f4nima.<\/p>\n<p>As oito horas parou um coup\u00e9 \u00e0 porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a m\u00e3o a uma senhora, a senhora saiu e tomou o bra\u00e7o ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a tais s\u00edtios atra\u00edra um carro de luxo, cavalos de ra\u00e7a, e duas pessoas t\u00e3o finas n\u00e3o seria como as outras almas ali sufragadas. A missa foi ouvida sem p\u00easames nem l\u00e1grimas. Quando acabou, o senhor foi \u00e0 sacristia dar as esp\u00f3rtulas. O sacrist\u00e3o, agasalhando na algibeira a nota de dez-mil-r\u00e9is que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tost\u00f5es. J\u00e1 ent\u00e3o havia na igreja meia d\u00fazia de crian\u00e7as maltrapilhas, e fora, alguma gente \u00e0s portas e no largo, esperando. O senhor, chegando \u00e0 porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os seus no ch\u00e3o. E os dous entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.<\/p>\n<p>A gente local n\u00e3o falou de outra cousa naquele e nos dias seguintes. Sacrist\u00e3o e vizinhos relembravam o coup\u00e9, com orgulho. Era a missa do coup\u00e9. As outras missas vieram vindo, todas a p\u00e9, algumas de sapato roto, n\u00e3o raras descal\u00e7as, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a missa do coup\u00e9 viveu na mem\u00f3ria por muitos meses. Afinal n\u00e3o se falou mais nela; esqueceu como um baile.<\/p>\n<p>Pois o coup\u00e9 era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome \u00e9 Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Tamb\u00e9m ele foi pobre, tamb\u00e9m ele nasceu em Maric\u00e1. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasi\u00e3o da febre das a\u00e7\u00f5es (1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fe-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia ent\u00e3o nos vinte anos e n\u00e3o tinha dinheiro, mas era bela e amava apaixonadamente. A Fortuna os aben\u00e7oou com a riqueza. Anos depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e rela\u00e7\u00f5es novas e distintas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866, restava-lhe uma irm\u00e3. Santos tinha alguns em Maric\u00e1, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez n\u00e3o creio, ele gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir c\u00e1 pedir-lhe mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe valeu isto com Jo\u00e3o de Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser. como ele, diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escriv\u00e3o no c\u00edvel em Maric\u00e1, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o de Melo retirou-se com a escrivania, e dizem que uma grande paix\u00e3o tamb\u00e9m. Natividade era a mais bela mulher daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagen\u00e1rios, fazia crer na tradi\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o de Melo ficou alucinado quando a viu, ela conheceu isso, e portou-se bem. N\u00e3o lhe fechou o rosto, \u00e9 verdade, e era mais bela assim que zangada; tamb\u00e9m n\u00e3o lhe fechou os olhos que eram negros e c\u00e1lidos. S\u00f3 lhe fechou o cora\u00e7\u00e3o, um cora\u00e7\u00e3o que devia amar como nenhum outro, foi a conclus\u00e3o de Jo\u00e3o de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve \u00edmpeto de pegar dela, descer, voar, perderem-se&#8230;<\/p>\n<p>Em vez disso, uma escrivania e Maric\u00e1; era um abismo. Caiu nele; tr\u00eas dias depois saiu do Rio de Janeiro para n\u00e3o voltar. A princ\u00edpio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperan\u00e7a de que ela as lesse tamb\u00e9m, e compreendesse que algumas palavras eram para si.<\/p>\n<p>Mas Santos n\u00e3o lhe deu resposta, e o tempo e a aus\u00eancia acabaram por fazer de Jo\u00e3o de Melo um excelente escriv\u00e3o. Morreu de uma pneumonia.<\/p>\n<p>Que o motivo da pratinha de Natividade deitada \u00e0 caixa das almas fosse pagar a adora\u00e7\u00e3o do defunto n\u00e3o digo que sim, nem que n\u00e3o; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta senhora era n\u00e3o menos grata que honesta. Quanto \u00e0s larguezas do marido, n\u00e3o esque\u00e7as que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO V \/ H\u00c1 CONTRADI\u00c7\u00d5ES EXPLIC\u00c1VEIS<\/h2>\n<p>N\u00e3o me pe\u00e7as a causa de tanto encolhimento no an\u00fancio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libr\u00e9. H\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es explic\u00e1veis. Um bom autor, que inventasse a sua hist\u00f3ria, ou prezasse a l\u00f3gica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a p\u00e9 ou em cale\u00e7a de pra\u00e7a ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as cousas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condi\u00e7\u00e3o de que tal costume n\u00e3o pegue. Explica\u00e7\u00f5es comem tempo e papel, demoram a a\u00e7\u00e3o e acabam por enfadar. O melhor \u00e9 ler com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o de que se trata aqui, \u00e9 de ver que naquele recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com eles, ao passo que eles gozariam o assombro local; tal foi a reflex\u00e3o de Santos, se pode dar semelhante nome a um movimento interior que leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa em si mesma bastava que fosse sabida no c\u00e9u e em Maric\u00e1. Propriamente vestiram-se para o c\u00e9u. O luxo do casal temperava a pobreza da ora\u00e7\u00e3o; era uma esp\u00e9cie de homenagem ao finado. Se a alma de Jo\u00e3o de Melo os visse de cima, alegrar-se-ia do apuro em que eles foram rezar por um pobre escriv\u00e3o. N\u00e3o sou eu que o digo; Santos \u00e9 que o pensou.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI \/ MATERNIDADE<\/h2>\n<p>A princ\u00edpio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da igreja, que lhe sujara o vestido.<\/p>\n<p>\u2014Venho cheia de pulgas, continuou ela; por que n\u00e3o fomos a S. Francisco de Paula ou \u00e0 Gl\u00f3ria, que est\u00e3o mais perto, e s\u00e3o limpas? Santos trocou as m\u00e3os \u00e0 conversa, e falou das ruas mal cal\u00e7adas, que faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas.<\/p>\n<p>Natividade n\u00e3o replicou, mergulhou no sil\u00eancio, como naquele outro cap\u00edtulo, vinte meses depois, quando tornava do Castelo com a irm\u00e3. Os olhos n\u00e3o tinham a nota de deslumbramento que trariam ent\u00e3o; iam parados e sombrios, como de manh\u00e3 e na v\u00e9spera. Santos, que j\u00e1 reparara nisso, perguntou-lhe o que \u00e9 que tinha; ela n\u00e3o sei se lhe respondeu de palavra; se alguma disse, foi t\u00e3o breve e surda que inteiramente se perdeu. Talvez n\u00e3o passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando o coup\u00e9 chegou ao meio do Catete, os dous levavam as m\u00e3os presas, e a express\u00e3o do rosto era de aben\u00e7oados. N\u00e3o davam sequer pela gente das ruas; n\u00e3o davam talvez por si mesmos.<\/p>\n<p>Leitor, n\u00e3o \u00e9 muito que percebas a causa daquela express\u00e3o; destes dedos abotoados. J\u00e1 l\u00e1 ficou dita atr\u00e1s, quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente n\u00e3o a adivinharias. n\u00e3o que tenhas o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem na varia do homem, e tu talvez ficasses com igual express\u00e3o, simplesmente por saber que ias dan\u00e7ar s\u00e1bado. Santos n\u00e3o dan\u00e7ava; preferia o voltarete, como distra\u00e7\u00e3o. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava gr\u00e1vida, acabava de o dizer ao marido.<\/p>\n<p>Aos trinta anos n\u00e3o era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu mais que ela o prazer da vida nova. Eis a\u00ed vinha a realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abra\u00e3o, como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta generosamente o seu dinheiro \u00e0s companhias e \u00e0s na\u00e7\u00f5es. Levam juro por ele; mas os hebra\u00edsmos s\u00e3o dados de gra\u00e7a. Aquele \u00e9 desses. Santos, que s\u00f3 conhecia a parte do empr\u00e9stimo, sentia inconscientemente a do hebra\u00edsmo, e deleitava-se com ele. A emo\u00e7\u00e3o atava-lhe a l\u00edngua; os olhos que estendia \u00e0 esposa e a cobriam eram de patriarca; o sorriso parecia chover luz sobre a pessoa amadas aben\u00e7oada e formosa entre as formosas.<\/p>\n<p>Natividade n\u00e3o foi logo, logo, assim; a pouco e pouco \u00e9 que veio sendo vencida e tinha j\u00e1 a express\u00e3o da esperan\u00e7a e da Maternidade. Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a nossa amiga. \u00c9 duro diz\u00ea-lo, mas \u00e9 verdade. L\u00e1 se iam bailes e festas, l\u00e1 ia a liberdade e a folga. Natividade andava j\u00e1 na alta roda do tempo; acabou de entrar por ela, com tal arte que parecia haver ali nascido. Carteava-se com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha s\u00f3 esta casa de Botafogo, mas tamb\u00e9m outra em Petr\u00f3polis; nem s\u00f3 carro, mas tamb\u00e9m camarote no Teatro L\u00edrico, n\u00e3o contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repert\u00f3rio, em suma, da vi da elegante. Era nomeada nas gazetas. pertencia \u00e0quela d\u00fazia de nomes planet\u00e1rios que figuram no meio da plebe de estrelas. O marido era capitalista e diretor de um banco.<\/p>\n<p>No meio disso, a que vinha agora uma crian\u00e7a deform\u00e1-la por meses, obrig\u00e1-la a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, e o primeiro \u00edmpeto foi esmagar o g\u00e9rmen. Criou raiva ao marido. A segunda sensa\u00e7\u00e3o foi melhor. A maternidade, chegando ao meio-dia, era como urna aurora nova e fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da ch\u00e1cara ou no rega\u00e7o da aia, com tr\u00eas anos de idade, e este quadro daria aos trinta e quatro anos que teria ent\u00e3o um aspecto de vinte e poucos&#8230;<\/p>\n<p>Foi o que a reconciliou com o marido. N\u00e3o exagero; tamb\u00e9m n\u00e3o quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A conclus\u00e3o \u00e9 que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade. o que o embri\u00e3o quer \u00e9 entrar na vida. C\u00e9sar ou Jo\u00e3o Fernandes, tudo \u00e9 viver, assegurar a dinastia e sair do mundo o mais tarde que puder.<\/p>\n<p>O casal ia calado. Ao desembocar na Praia de Botafogo, a enseada trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magn\u00edfica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nela, cresceu com ela. subiu por ela. A estatueta de Narciso, no meio do jardim, sorriu \u00e0 entrada deles, a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo, figurando no ar a alegria de ambos. A mesma cerim\u00f4nia d descida. Santos ainda parou alguns instantes para ver o coup\u00e9 dar a volta, sair e tornar \u00e0 cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no sagu\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VII \/ GESTA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Em cima, esperava por eles Perp\u00e9tua, aquela irm\u00e3 de Natividade, que a acompanhou ao Castelo, e l\u00e1 ficou no carro, onde as deixei para narrar os antecedentes dos meninos.<\/p>\n<p>\u2014Ent\u00e3o? Houve muita gente? \u2014N\u00e3o, ningu\u00e9m, pulgas.<\/p>\n<p>Perp\u00e9tua tamb\u00e9m n\u00e3o entendera a escolha da igreja. Quanto \u00e0 concorr\u00eancia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ela calou o resto. Era pessoa circunspecta, que n\u00e3o se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi lhe imposs\u00edvel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar \u00e0 mulher um abra\u00e7o longo e terno, abrochado por um beijo.<\/p>\n<p>\u2014Que \u00e9 isso? exclamou espantada.<\/p>\n<p>Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abra\u00e7o \u00e0 cunhada, e ia dar-lhe um beijo tamb\u00e9m, se ela n\u00e3o recuasse a tempo e com for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014Mas que \u00e9 isso? Voc\u00ea tirou a sorte grande de Espanha? \u2014N\u00e3o, cousa melhor, gente nova.<\/p>\n<p>Santos conservara alguns gestos e modos de dizer dos primeiros anos, tais que o leitor n\u00e3o chamar\u00e1 propriamente familiares, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso chamar-lhes nada. Perp\u00e9tua, afeita a eles, acabou sorrindo e dando-lhe parab\u00e9ns. J\u00e1 ent\u00e3o Natividade os deixara para se ir despir. Santos, meio arrependido da expans\u00e3o, fez-se s\u00e9rio e conversou da missa e da igreja. Concordou que esta era decr\u00e9pita e metida a um canto, mas alegou raz\u00f5es espirituais. Que a ora\u00e7\u00e3o era sempre ora\u00e7\u00e3o, onde quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, n\u00e3o precisava estritamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrif\u00edcio. Talvez essas raz\u00f5es n\u00e3o fossem propriamente dele, mas ouvidas a algu\u00e9m, decoradas sem esfor\u00e7o e repetidas com convic\u00e7\u00e3o. A cunhada opinou de cabe\u00e7a que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram piamente que era um asno; \u2014 n\u00e3o disseram este nome, mas a totalidade das aprecia\u00e7\u00f5es vinha a dar nele, acrescentado de honesto e honest\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014Era uma p\u00e9rola, concluiu Santos.<\/p>\n<p>Foi a \u00faltima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dali em diante, vingou a soberania da crian\u00e7a que alvorecia. N\u00e3o alteraram os h\u00e1bitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como dantes, at\u00e9 que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em casa. As amigas iam v\u00ea-la. Os amigos iam visit\u00e1-los ou jogar cartas com o marido.<\/p>\n<p>Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com t\u00e3o boas raz\u00f5es, que acabavam trocando de parecer. Ent\u00e3o ela ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias, enquanto ele enfiava uma beca no jovem advogado, dava-lhe um lugar no parlamento, outro no minist\u00e9rio. Tamb\u00e9m lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajud\u00e1-lo-ia come\u00e7ando por uma caderneta na Caixa Econ\u00f4mica, desde o dia em que nascesse at\u00e9 os vinte e um anos. Alguma vez, \u00e0s noites, se estavam s\u00f3s, Santos pegava de um l\u00e1pis e desenhava a figura do filho, com bigodes, \u2014 ou ent\u00e3o riscava uma menina vaporosa.<\/p>\n<p>\u2014Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; voc\u00ea sempre h\u00e1 de ser crian\u00e7a.<\/p>\n<p>E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho ou filha, e ambos escolhiam a cor dos olhos, os cabelos, a tez, a estatura. V\u00eas que tamb\u00e9m ela era crian\u00e7a. A maternidade tem dessas incoer\u00eancias, a felicidade tamb\u00e9m, e por fim a esperan\u00e7a, que \u00e9 a meninice do mundo.<\/p>\n<p>A perfei\u00e7\u00e3o seria nascer um casal. Assim os desejos do pai e da m\u00e3e ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta esp\u00edrita. Come\u00e7ava a ser iniciado nessa religi\u00e3o, e tinha a f\u00e9 novi\u00e7a e firme. Mas a mulher op\u00f4s-se; a consultar algu\u00e9m, antes a cabocla do Castelo, a adivinha c\u00e9lebre do tempo, que descobria as cousas perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava tamb\u00e9m, por desnecess\u00e1rio. A que vinha consultar sobre uma d\u00favida, que dali a meses estaria esclarecida? Santos achou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cabocla, que seria imitar as crendices da gente reles; mas a cunhada acudiu que n\u00e3o, e citou um caso recente de pessoa distinta, um juiz municipal, cuja nomea\u00e7\u00e3o foi anunciada pela cabocla.<\/p>\n<p>\u2014Talvez o ministro da Justi\u00e7a goste da cabocla, explicou Santos.<\/p>\n<p>As duas riram da gra\u00e7a, e assim se fechou uma vez o cap\u00edtulo da adivinha, para se abrir mais tarde. Por agora \u00e9 deixar que o feto se desenvolva, a crian\u00e7a se agite e se atire, como impaciente de nascer. Em verdade, a m\u00e3e padeceu muito durante a gesta\u00e7\u00e3o, e principalmente nas \u00faltimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida, a n\u00e3o ser um casal que aprendia a desamar de v\u00e9spera.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VIII \/ NEM CASAL, NEM GENERAL<\/h2>\n<p>Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veio \u00e0 luz um par de var\u00f5es t\u00e3o iguais, que antes pareciam a sombra um do outro, se n\u00e3o era simplesmente a impress\u00e3o do olho, que via dobrado.<\/p>\n<p>Tudo esperavam, menos os dous g\u00eameos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim como se entende que a m\u00e3e desse aos dous filhos aquele p\u00e3o inteiro e dividido do poeta; eu acrescento que o pai fazia a mesma cousa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a compar\u00e1-los, a medi-los, a pes\u00e1-los. Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A mudan\u00e7a ia-se fazendo por um s\u00f3 teor. O rosto comprido, cabelos castanhos, dedos finos e tais que, cruzados os da m\u00e3o direita de um com os da esquerda de outro, n\u00e3o se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter g\u00eanio diferente, mas por ora eram os mesmos estranh\u00f5es. Come\u00e7aram a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu batizar.<\/p>\n<p>Antes do parto tinham combinado em dar o nome do pai ou da m\u00e3e, segundo fosse o sexo da crian\u00e7a. Sendo um par de rapazes, e n\u00e3o havendo a forma masculina do nome materno, n\u00e3o quis o pai que figurasse s\u00f3 o dele, e meteram-se a catar outros. A m\u00e3e propunha franceses ou ingleses, conforme os romances que lia. Algumas novelas russas em moda sugeriram nomes eslavos. O pai aceitava uns e outros, mas consultava a terceiros, e n\u00e3o acertava com opini\u00e3o definitiva. Geralmente, os consultados trariam outro nome, que n\u00e3o era aceito em casa. Tamb\u00e9m veio a antiga onom\u00e1stica lusitana, mas sem melhor fortuna. Um dia. estando Perp\u00e9tua \u00e0 missa, rezou o Credo, advertiu nas palavras: &#8220;&#8230;os santos ap\u00f3stolos S. Pedro e S. Paulo&#8221;, e mal p\u00f4de acabar a ora\u00e7\u00e3o. Tinha descoberto os nomes; eram simples e g\u00eameos. Os pais concordaram com ela e a pend\u00eancia acabou.<\/p>\n<p>A alegria de Perp\u00e9tua foi quase tamanha como a do pai e da m\u00e3e, se n\u00e3o maior. Maior n\u00e3o foi, nem t\u00e3o profunda, mas foi grande, ainda que r\u00e1pida. O achado dos nomes valia quase que pela feitura das crian\u00e7as. Vi\u00fava, sem filhos, n\u00e3o se julgava incapaz de os ter, e era alguma cousa nome\u00e1-los. Contava mais cinco ou seis anos que a irm\u00e3. Casara com um tenente de artilharia que morreu capit\u00e3o na guerra do Paraguai. Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contr\u00e1rio de Natividade que, sem ser magra, n\u00e3o tinha as mesmas carnes, e era alta e reta. Ambas vendiam sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2014Pedro e Paulo, disse Perp\u00e9tua \u00e0 irm\u00e3 e ao cunhado, quando rezei estes dous nomes, senti uma cousa no cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Voc\u00ea ser\u00e1 madrinha de um, disse a irm\u00e3.<\/p>\n<p>Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de cor, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S. Paulo. A confus\u00e3o n\u00e3o cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal semelhan\u00e7a que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A m\u00e3e \u00e9 que n\u00e3o precisou de grandes sinais externos para saber quem eram aqueles dous peda\u00e7os de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre si, n\u00e3o deixavam de querer mal uma \u00e0 outra, pelo motivo da semelhan\u00e7a dos &#8220;seus filhos de cria\u00e7\u00e3o&#8221;. Cada uma afirmava que o seu era mais bonito. Natividade concordava com ambas.<\/p>\n<p>Pedro seria m\u00e9dico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das profiss\u00f5es. Mas logo depois trocaram de carreira. Tamb\u00e9m pensaram em dar um deles \u00e0 engenharia. A marinha sorria \u00e0 m\u00e3e, pela distin\u00e7\u00e3o particular da escola. Tinha s\u00f3 o inconveniente da primeira viagem remota; mas Natividade pensou em meter empenhos com o ministro. Santos falava em fazer um deles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. \u00cdntimos da casa entravam nos c\u00e1lculos. Houve quem os fizesse ministros, desembargadores, bispos, cardeais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o pe\u00e7o tanto, dizia o pai.<\/p>\n<p>Natividade n\u00e3o dizia nada ao p\u00e9 de estranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de S\u00e3o Jo\u00e3o, um lan\u00e7ar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao n\u00famero. N\u00e3o importa; l\u00e1 dentro de si cobi\u00e7ava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, rezava \u00e0s noites, pedia ao c\u00e9u que os fizesse grandes homens.<\/p>\n<p>Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquelas \u00e2nsias e conversas, perguntou a Natividade por que \u00e9 que n\u00e3o ia consultar a cabocla do Castelo. Afirmou que ela adivinhava tudo, o que era e o que viria a ser; conhecia o n\u00famero da sorte grande, n\u00e3o dizia qual era nem comprava bilhete para n\u00e3o roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece que era mandada de Deus.<\/p>\n<p>A outra ama confirmou as not\u00edcias e acrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado j\u00f3ias e escravos. A pol\u00edcia mesma, quando n\u00e3o acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castelo falar \u00e0 cabocla e descia sabendo; por isso \u00e9 que n\u00e3o a botava para fora, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente n\u00e3o embarcava sem subir primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de quebranto&#8230;<\/p>\n<p>Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembran\u00e7a das amas. Santos encolhia os ombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla; principalmente a sorte grande era incr\u00edvel que, conhecendo o n\u00famero, n\u00e3o comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais dif\u00edcil de explicar, mas podia ser inven\u00e7\u00e3o do povo. On ne prete qu&#8217;aux riches, acrescentou rindo. O marido, que estivera na v\u00e9spera com um desembargador, repetiu as palavras dele que &#8220;enquanto a pol\u00edcia n\u00e3o pusesse cobro ao esc\u00e2ndalo&#8230;&#8221; O desembargador n\u00e3o conclu\u00edra. Santos concluiu com um gesto vago.<\/p>\n<p>\u2014Mas voc\u00ea \u00e9 esp\u00edrita, ponderou a mulher.<\/p>\n<p>\u2014Perd\u00e3o, n\u00e3o confundamos, replicou ele com gravidade.<\/p>\n<p>Sim, podia consentir numa consulta esp\u00edrita; j\u00e1 pensara nela Algum esp\u00edrito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de farsa&#8230; Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam dela a s\u00e9rio. N\u00e3o queria confessar ainda que tinha f\u00e9, mas tinha. Recusando ir outrora, foi naturalmente a insufici\u00eancia do motivo que lhe deu a for\u00e7a negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino dos dous era mais imperioso e \u00fatil. Velhas id\u00e9ias que lhe incutiram em crian\u00e7a vinham agora emergindo do c\u00e9rebro e descendo ao cora\u00e7\u00e3o. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castelo, a t\u00edtulo de passeio&#8230; Para qu\u00ea? Para confirm\u00e1-la na esperan\u00e7a de que seriam grandes homens. N\u00e3o lhe passara pela cabe\u00e7a a predi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a leitora, al\u00e9m de n\u00e3o crer (nem todos cr\u00eaem) pode ser que n\u00e3o conte mais de vinte a vinte e dous anos de idade, e ter\u00e1 a paci\u00eancia de esperar. Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia n\u00e3o ver a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tamb\u00e9m se morre velha, e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto? Ao ser\u00e3o, a mat\u00e9ria da palestra foi a cabocla do Castelo, por iniciativa de Santos, que repetia as opini\u00f5es da v\u00e9spera e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam dela. Natividade n\u00e3o dormiu aquela noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irm\u00e3 \u00e0 cabocla. N\u00e3o se perdia nada, bastava levar os retratos dos meninos e um pouco dos cabelos. As amas n\u00e3o saberiam nada da aventura.<\/p>\n<p>No dia aprazado meteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas com pretexto de passeio, e l\u00e1 se foram para a Rua da Miseric\u00f3rdia. Sabes j\u00e1 que ali se apearam, entre a igreja de S. Jos\u00e9 e a C\u00e2mara dos Deputados, e subiram aquela at\u00e9 \u00e0 Rua do Carmo, onde esta pega com a ladeira do Castelo. Indo a subir, hesitaram, mas a m\u00e3e era m\u00e3e, e j\u00e1 agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram, deram os dous mil r\u00e9is \u00e0s almas, entraram no carro e voltaram para Botafogo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IX \/ VISTA DE PAL\u00c1CIO<\/h2>\n<p>No catete, o coup\u00e9 e uma vit\u00f3ria cruzaram-se e pararam a um tempo. Um homem saltou da vit\u00f3ria e caminhou para o coup\u00e9. Era o marido de Natividade, que ia agora para o escrit\u00f3rio, um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nela e nos neg\u00f3cios da pra\u00e7a, nos meninos e na Lei Rio Branco, ent\u00e3o discutida na C\u00e2mara dos Deputados; o banco era credor da lavoura. Tamb\u00e9m pensava na cabocla do Castelo e no que teria dito \u00e0 mulher&#8230;<\/p>\n<p>Ao passar pelo pal\u00e1cio Nova Friburgo, levantou os olhos para ele com o desejo do costume, uma cobi\u00e7a de possu\u00ed-lo, sem prever os altos destinos que o pal\u00e1cio viria a ter na Rep\u00fablica; mas quem ent\u00e3o previa nada? Quem prev\u00ea cousa nenhuma? Para Santos a quest\u00e3o era s\u00f3 possu\u00ed-lo, dar ali grandes festas \u00fanicas, celebradas nas gazetas, narradas na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admira\u00e7\u00e3o, de rancor ou de inveja. N\u00e3o pensava nas saudades que as matronas futuras contariam \u00e0s suas netas, menos ainda nos livros de cr\u00f4nicas, escritos e impressos neste outro s\u00e9culo. Santos n\u00e3o tinha a imagina\u00e7\u00e3o da posteridade. Via o presente e suas maravilhas.<\/p>\n<p>J\u00e1 lhe n\u00e3o bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bela, n\u00e3o era um pal\u00e1cio, e depois, n\u00e3o estava t\u00e3o exposta como aqui no Catete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes janelas, as grandes portas, as grandes \u00e1guias no alto, de asas abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do pal\u00e1cio, os jardins e os lagos&#8230; Oh! gozo infinito! Santos imaginava os bronzes, m\u00e1rmores, luzes, flores, dan\u00e7as, carruagens, m\u00fasicas, ceias&#8230; Tudo isso foi pensado depressa, porque a vit\u00f3ria, embora n\u00e3o corresse (os cavalos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, n\u00e3o atrasava as rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de chegar \u00e0 Praia da Gl\u00f3ria, a vit\u00f3ria avistou o coup\u00e9 da fam\u00edlia, e as duas carruagens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO X \/ O JURAMENTO<\/h2>\n<p>Tamb\u00e9m ficou dito que o marido saiu da vit\u00f3ria e caminhou para o coup\u00e9, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que ele vinha ter com elas, sorriam de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o lhe digas nada, aconselhou Perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a de Santos apareceu logo, com as su\u00ed\u00e7as curtas, o cabelo rente, o bigode rapado. Era homem simp\u00e1tico. Quieto, n\u00e3o ficava mal. A agita\u00e7\u00e3o com que chegou, parou e falou, tirou-lhe a gravidade com que ia no carro, as m\u00e3os postas sobre o cast\u00e3o de ouro da bengala, e a bengala entre os joelhos.<\/p>\n<p>\u2014Ent\u00e3o? ent\u00e3o? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014Logo digo.<\/p>\n<p>\u2014Mas que foi? \u2014Logo.<\/p>\n<p>\u2014Bem ou mal? Dize s\u00f3 se bem.<\/p>\n<p>\u2014Bem. Cousas futuras.<\/p>\n<p>\u2014Si pessoa s\u00e9ria? \u2014S\u00e9ria, sim: at\u00e9 logo. repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.<\/p>\n<p>Mas o marido n\u00e3o podia despegar-se do coup\u00e9; queria saber ali mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a gente que l\u00e1 estava \u00e0 espera, e se era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso foi escrito como aqui vai, devagar, para que a ruim letra do autor n\u00e3o fa\u00e7a mal \u00e0 sua prosa. N\u00e3o, senhor; as palavras de Santos sa\u00edram de atropelo, umas sobre outras, embrulhadas, sem princ\u00edpio ou sem fim. A bela esposa tinha j\u00e1 as orelhas t\u00e3o afeitas ao falar do marido, mormente em lances de emo\u00e7\u00e3o ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que n\u00e3o. A cabe\u00e7a e o dedo sublinhavam a negativa. Santos n\u00e3o teve rem\u00e9dio e despediu-se.<\/p>\n<p>Em caminho, advertiu que, n\u00e3o crendo na cabocla, era ocioso instar pela predi\u00e7\u00e3o. Era mais; era dar raz\u00e3o \u00e0 mulher. Prometeu n\u00e3o indagar nada quando voltasse. N\u00e3o prometeu esquecer, e da\u00ed a teima com que pensou muitas vezes no or\u00e1culo. De resto, elas lhe diriam tudo sem que ele perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o concluas daqui que os fregueses do banco padecessem alguma desaten\u00e7\u00e3o aos seus neg\u00f3cios. Tudo correu bem, como se ele n\u00e3o tivesse mulher nem filhos ou n\u00e3o houvesse Castelo nem cabocla N\u00e3o era s\u00f3 a m\u00e3o que fazia o seu of\u00edcio, assinando; a boca ia falando, mandando, chamando e rindo, se era preciso. N\u00e3o obstante! a \u00e2nsia existia e as figuras passavam e repassavam diante dele; no intervalo de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se n\u00e3o eram ambas a um tempo. Entrando no carro, \u00e0 tarde, agarrou-se inteiramente ao or\u00e1culo. Trazia as m\u00e3os sobre o cast\u00e3o, a bengala entre os joelhos, como de manh\u00e3, mas vinha pensando no destino dos filhos.<\/p>\n<p>Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos nos ber\u00e7os, as amas ao p\u00e9, um pouco admiradas da insist\u00eancia com que ela os procurava desde manh\u00e3. N\u00e3o era s\u00f3 fit\u00e1-los, ou perder os olhos no espa\u00e7o e no tempo; era beij\u00e1-los tamb\u00e9m e apert\u00e1-los ao cora\u00e7\u00e3o. Esqueceu-me dizer que, de manh\u00e3, Perp\u00e9tua mudou primeiro de roupa que a irm\u00e3 e foi ach\u00e1-la diante dos ber\u00e7os, vestida como viera do Castelo.<\/p>\n<p>\u2014Logo vi que voc\u00ea estava com os grandes homens, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014Estou, mas n\u00e3o sei em que \u00e9 que eles ser\u00e3o grandes.<\/p>\n<p>\u2014Seja em que for, vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ao almo\u00e7o e durante o dia. falaram muita vez da cabocla e da predi\u00e7\u00e3o. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimula\u00e7\u00e3o nos olhos. Quis calar e esperar, mas estava t\u00e3o ansiosa de lhe dizer tudo, e era t\u00e3o boa, que resolveu o contr\u00e1rio. Unicamente n\u00e3o teve o tempo de cumpri-lo; antes mesmo de come\u00e7ar, j\u00e1 ele acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pai.<\/p>\n<p>\u2014Mas ent\u00e3o grandes destinos! \u2014Cousas futuras, repetiu ela.<\/p>\n<p>\u2014Seguramente futuras. S\u00f3 a pergunta da briga \u00e9 que n\u00e3o entendo. Brigar por qu\u00ea? E brigar como? E teriam deveras brigado? Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gesta\u00e7\u00e3o, confessando que n\u00e3o falou mais deles para o n\u00e3o afligir; naturais mente \u00e9 o que a outra adivinhou que fosse briga.<\/p>\n<p>\u2014Mas briga por qu\u00ea? \u2014Isso n\u00e3o sei, nem creio que fosse nada mau.<\/p>\n<p>\u2014Vou consultar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014Consultar a quem? \u2014Uma pessoa.<\/p>\n<p>\u2014J\u00e1 sei, o seu amigo Pl\u00e1cido.<\/p>\n<p>\u2014Se fosse s\u00f3 amigo n\u00e3o consultava, mas ele \u00e9 o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida, dada pelo c\u00e9u&#8230; Consulto s\u00f3 por hip\u00f3tese, n\u00e3o digo os nossos nomes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o! N\u00e3o!? N\u00e3o! \u2014S\u00f3 por hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, Agostinho, n\u00e3o fale disto. N\u00e3o interrogue ningu\u00e9m a meu respeito, ouviu? Ande, prometa que n\u00e3o falar\u00e1 disto a ningu\u00e9m, esp\u00edritas nem amigos. O melhor \u00e9 calar. Basta saber que ter\u00e3o sorte feliz. Grandes homens, cousas futuras&#8230; Jure, Agostinho.<\/p>\n<p>\u2014Mas voc\u00ea n\u00e3o foi em pessoa \u00e0 cabocla? \u2014N\u00e3o me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, n\u00e3o me tornar\u00e1 a ver. Ande, jure! \u2014Voc\u00ea \u00e9 esquisita. V\u00e1 l\u00e1, prometo. Que tem que falasse, assim, por acaso? \u2014N\u00e3o quero. Jure! \u2014Pois isto \u00e9 cousa de juramento? \u2014Sem isso, n\u00e3o confio, disse ela sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014Juro.<\/p>\n<p>\u2014Jure por Deus Nosso Senhor! \u2014Juro por Deus Nosso Senhor!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XI \/ UM CASO \u00daNICO!<\/h2>\n<p>Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas enfim cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento n\u00e3o lhe saiu mais da briga uterina dos filhos. Quis esquec\u00ea-la. Jogou essa noite, como de costume; na seguinte, foi ao teatro; na outra a uma visita; e tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com ele. Era um mist\u00e9rio. Talvez fosse um caso \u00fanico&#8230; \u00fanico! Um caso \u00fanico! A singularidade do caso f\u00ea-lo agarrar-se mais \u00e0 id\u00e9ia, ou a id\u00e9ia a ele, n\u00e3o posso explicar melhor este fen\u00f4meno \u00edntimo, passado l\u00e1 onde n\u00e3o entra olho de homem, nem bastam reflex\u00f5es ou conjeturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi \u00e0 casa do doutor Pl\u00e1cido, Rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de tr\u00eas janelas, com muito terreno para o lado do mar. Creio que j\u00e1 n\u00e3o exista. datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para diferen\u00e7ar do Caminho Novo.<\/p>\n<p>Perdoa estas min\u00facias. A a\u00e7\u00e3o podia ir sem elas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo que ali havia uma esp\u00e9cie de clube, templo ou que quer que era esp\u00edrita. Pl\u00e1cido fazia de sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas. olho azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. P\u00f5e-lhe uma vara na m\u00e3o, e fica um m\u00e1gico, mas, em verdade, as barbas e a camisola n\u00e3o as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contr\u00e1rio de Santos, que teria trocado dez vezes a cara, se n\u00e3o fora a oposi\u00e7\u00e3o da mulher Pl\u00e1cido usava as barbas inteiras desde mo\u00e7o e a camisola h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>\u2014Venha, venha, disse ele, ande ajudar-me a converter o nosso amigo Aires; h\u00e1 meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas ele resiste.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta anos, estendendo a m\u00e3o ao rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XII \/ ESSE AIRES<\/h2>\n<p>Esses Aires que a\u00ed aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum v\u00edcio. N\u00e3o atribuas tal estado a qualquer prop\u00f3sito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem \u00e0 mod\u00e9stia da pessoa. N\u00e3o, senhor, \u00e9 verdade pura e natural efeito. Apesar dos quarenta anos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo, era um belo tipo de homem. Diplomata de carreira, chegara dias antes do Pac\u00edfico, com uma licen\u00e7a de seis meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o me demoro em descrev\u00ea-lo. Imagina s\u00f3 que trazia o calo do of\u00edcio, o sorriso aprovador, a fala brande a cautelosa, o ar da ocasi\u00e3o, a express\u00e3o adequada, tudo t\u00e3o bem distribu\u00eddo que era um gosto ouvi-lo e v\u00ea-lo. Talvez a pele da cara rapada estivesse prestes a mostrar os primeiros sinais do tempo. Ainda assim o bigode, que era mo\u00e7o na cor e no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura ao rosto, quando o meio s\u00e9culo chegasse. O mesmo faria o cabelo, vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabe\u00e7a havia um in\u00edcio de calva. Na botoeira uma flor eterna.<\/p>\n<p>Tempo houve, \u2014 foi por ocasi\u00e3o da anterior licen\u00e7a, sendo ele apenas secret\u00e1rio de lega\u00e7\u00e3o, \u2014 tempo houve em que tamb\u00e9m ele gostou de Natividade. N\u00e3o foi propriamente paix\u00e3o; n\u00e3o era homem disso. Gostou dela, como de outras j\u00f3ias e raridades, mas t\u00e3o depressa viu que n\u00e3o era aceito, trocou de conversa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era frouxid\u00e3o ou frieza. Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas A quest\u00e3o para ele \u00e9 que nem as queria \u00e0 for\u00e7a, nem curava de as persuadir. N\u00e3o era general para escala \u00e0 vista, nem para ass\u00e9dios demorados; contentava-se de simples passeios militares, \u2014 longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em suma, extremamente cordato.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis Dico, che quando l&#8217;anima mal nata&#8230; Dante CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ COUSAS FUTURAS! Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo. Come\u00e7aram de subir pelo lado da Rua do Carmo. 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