{"id":120361,"date":"2017-04-25T11:24:23","date_gmt":"2017-04-25T13:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120361"},"modified":"2017-04-25T11:24:23","modified_gmt":"2017-04-25T13:24:23","slug":"tristao-e-isolda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda","title":{"rendered":"Trist\u00e3o e Isolda"},"content":{"rendered":"<h2>Joseph B\u00e9dier<\/h2>\n<p>NOTA INTRODUT\u00d3RIA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trist\u00e3o \u00e9 o protagonista de uma tr\u00e1gica aventura de amor e de morte que, nas representa\u00e7\u00f5es dos trovadores franceses do s\u00e9culo XII, se situa dentro de um vasto marco de empresas de aud\u00e1cia e de cortesia, de m\u00edticas fa\u00e7anhas e de gestas de cavalaria, de aventuras prodigiosas, de encantos, sortil\u00e9gio de paix\u00f5es generosas e ferozes. Mas a mat\u00e9ria her\u00f3ica ou maravilhosa s\u00f3 constitui o marco; \u00e9 acess\u00f3ria e epis\u00f3dica, e nem sempre \u00e9 a mesma nos diversos poemas ou romances franceses cujo protagonista \u00e9 Trist\u00e3o.. Isso demonstra que a personalidade de Trist\u00e3o como figura po\u00e9tica n\u00e3o pode definir-se partindo dos diversos mitos que permitiram o aparecimento dos romances que a ele se referem: Trist\u00e3o entra, e torna-se imortal no mundo da poesia unicamente como her\u00f3i de um amor fatal, independente de todo o v\u00ednculo e de toda a obriga\u00e7\u00e3o; um amor que n\u00e3o obedece a leis, que vence tudo e tudo transcende, inclusive o direito mais sagrado, a moralidade, a religi\u00e3o e a pr\u00f3pria honra que, na sociedade cavaleiresca na qual o romance de Trist\u00e3o nasceu, \u00e9 a realidade mais nobre e mais elevada, e a lei suprema, sagrada e inviol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Que fantasia de poeta criou, pois, esta imagem t\u00e3o grande, que parece renegar ou repudiar os ideais universalmente aceites e sentidos no s\u00e9culo encarnando e introduzindo uma no\u00e7\u00e3o da vida e da condi\u00e7\u00e3o humana! s\u00f3 por acidente coincide com a no\u00e7\u00e3o cort\u00eas do mundo e da vida? A pergunta leva-nos a um terreno inseguro, a graves problemas, pois muitos s\u00e3o os romances e os lais que, no s\u00e9culo XII, surgiram em Fran\u00e7a \u00e0 volta da figura de Trist\u00e3o, sendo tamb\u00e9m obscura a cronologia destes, al\u00e9m de ser imposs\u00edvel determinar exactamente as suas m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o passa de mera hip\u00f3tese a doutrina segundo a qual teria existido uma fonte mais antiga de onde derivariam todos os textos que conhecemos.<\/p>\n<p>O problema complica-se ainda mais pelo facto de os dois textos franceses mais importantes relativos a Trist\u00e3o se acharem em estado fragment\u00e1rio. De outros, j\u00e1 hoje perdidos, chegam-nos testemunhos cujo valor e significado oferecem d\u00favidas, sem contar que \u00e9 dif\u00edcil estabelecer at\u00e9 que ponto as vers\u00f5es alem\u00e3s ou norueguesas s\u00e3o reflexo, na parte ou no todo, de textos franceses anteriores. Segundo a cr\u00edtica de inspira\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, todos os textos teriam por origem a lenda de Trist\u00e3o que remontaria \u00e0 antiguidade celta, supostamente conservada e transmitida por cantores ou bardos gauleses ou bret\u00f5es.<\/p>\n<p>Sobre Trist\u00e3o e Isolda, R\u00e9gine Pernoud diz, em Luz sobre a Idade M\u00e9dia: \u00abQue literatura oferece um exemplo mais completo, mais pat\u00e9tico, de amantes tr\u00e1gicos, do que Trist\u00e3o e Isolda? Houve alguma vez cria\u00e7\u00e3o mais forte e mais perfeita do que estes dois amantes, perdidamente dedicados um ao outro, vivendo apenas pelo seu m\u00fatuo amor? Nunca mais rica gama de temas inspirou um poeta, nunca o amor humano soube encontrar acentos mais verdadeiros e mais intensos.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c9 neste poema medieval que o compositor alem\u00e3o Richard Wagner vai encontrar inspira\u00e7\u00e3o para escrever a \u00f3pera com o mesmo nome, que ser\u00e1 representada em Munique em 1865.<\/p>\n<p>Wagner comp\u00f4-la numa \u00e9poca em que estava tamb\u00e9m apaixonado.<\/p>\n<p>\u00c9 menos uma \u00f3pera propriamente dita que um longo poema de amor, de intensidade muitas vezes sobre-humana. A paix\u00e3o n\u00e3o \u00e9 expressa apenas atrav\u00e9s das vozes dos personagens mas sobretudo pelas vozes da orquestra. E assim todo o drama &#8211; a paix\u00e3o mais forte do que tudo e o amor que faz Isolda morrer com a morte de Trist\u00e3o &#8211; est\u00e1 resumida em duas p\u00e1ginas que em concerto se costumam tocar juntas: o prel\u00fadio e a conclus\u00e3o. O prel\u00fadio exprime o nascimento e o dom\u00ednio crescente da paix\u00e3o em dois cora\u00e7\u00f5es unidos pela for\u00e7a do destino. A p\u00e1gina final canta o \u00eaxtase de Isolda indo reunir-se, por um milagre de amor, a Trist\u00e3o, o qual, ap\u00f3s uma longa separa\u00e7\u00e3o, ela volta a ver, embora apenas para receber o seu derradeiro suspiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trist\u00e3o e Isolda<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Maria do Anjo Braacamp Figueiredo. Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1994 style=&#8221;LINE-HEIGHT: 150%; FONT-FAMILY: &#8216;Arial&#8217;; mso-bidi-font-size: 12.0pt&#8221;&gt;<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>NASCIMENTO DE TRIST\u00c3O<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00c1 MUITO, muito tempo, depois da queda do Imp\u00e9rio Romano, mas antes da coroa\u00e7\u00e3o de Carlos Magno como imperador do Ocidente, reinava na Cornualha o rei Marcos. Tanto residia em Lantien, um solar situado na par\u00f3quia de Saint-Samson, como na fortaleza de Tintagel, cujo porto se abria para a costa ocidental da Cornualha.<\/p>\n<p>Marcos procedia de uma ilustre linhagem; talvez descendesse at\u00e9 de um antepassado m\u00edtico identificado com um deus de forma animal, do qual herdara as orelhas de cavalo, que dissimulava cuidadosamente sob o gorro. O pr\u00f3prio nome, Marcos, significava cavalo em l\u00edngua celta.<\/p>\n<p>O rei chegara idade madura sem ter arranjado mulher, mas uma das suas irm\u00e3s tinha um filho, o duque Audret, ao qual concedeu durante muito tempo toda a sua confian\u00e7a. A irm\u00e3 mais nova, Brancaflor, ainda n\u00e3o casara.<\/p>\n<p>Marcos era nobre, freq\u00fcentemente generoso, leal, corajoso, mas irasc\u00edvel, impression\u00e1vel e de humor vari\u00e1vel, capaz de uma viol\u00eancia extrema e at\u00e9 de crueldade nos seus s\u00fabitos arrebatamentos. Desempenhava com honra o seu lugar nos combates, quando tinha de comandar o seu ex\u00e9rcito, mas distinguia-se sobretudo na ca\u00e7a, a sua ocupa\u00e7\u00e3o preferida. Entre os nobres cornualhenses seus vassalos, que lhe deviam conselho e ajuda, havia v\u00e1rios que pretendiam quase sempre lhe impor as suas vontades e que, para obrigarem-no a satisfazer os seus desejos, n\u00e3o hesitavam em amea\u00e7\u00e1-lo com a rebeli\u00e3o: se Marcos n\u00e3o se submetesse \u00e0s suas exig\u00eancias, retirar-se-iam para os seus castelos constru\u00eddos em rochedos elevados, cercados de altas pali\u00e7adas e de fossos profundos, e pegariam em armas contra ele. Marcos n\u00e3o era homem para enfrent\u00e1-los abertamente, e por mais de uma vez se inclinara perante as amea\u00e7as desses turbulentos senhores feudais, sobre os quais a sua autoridade era prec\u00e1ria. Preferia por vezes ceder, para depois retomar a superioridade sobre eles por meio da ast\u00facia e ganhando tempo.<\/p>\n<p>Marcos teve de defender-se v\u00e1rias vezes contra os ataques de outros reis cujas terras confinavam com as suas e que faziam incurs\u00f5es na Cornualha. Mas era tal a sua fama de nobreza e valor que v\u00e1rios pr\u00edncipes e bar\u00f5es lhe vinham oferecer os seus servi\u00e7os e combater por ele. Tal foi o caso de Rivalino, filho do rei de Le\u00f4nis. Tinha um porte t\u00e3o altivo e distinguia-se por tais feitos que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Brancaflor, a irm\u00e3 mais nova de Marcos. Esta era bela e graciosa, de nobre figura, louvada e desejada entre todas, cort\u00eas e bem-educada; por certo que n\u00e3o havia em toda a Gr\u00e3-Bretanha uma rosa com tanta gra\u00e7a e tal frescura. Um dia em que vira Rivalino justar com outros vassalos, caiu em tal afli\u00e7\u00e3o e em tais cuidados, nela t\u00e3o pouco comuns, que nem ela pr\u00f3pria compreendia bem os movimentos do seu cora\u00e7\u00e3o. Nesse dia, reconheceu que Rivalino ultrapassava todos os outros jovens em habilidade e valentia; ao ouvir os homens e as mulheres gabarem a sua aud\u00e1cia e coragem, ao contemplar durante longo tempo a sua destreza a cavalgar e a justar, todo o seu pensamento foi para ele com o seu desejo. Em breve ambos trazem um mesmo cuidado e um mesmo segredo: ela ama-o com todo o cora\u00e7\u00e3o e ele com leal querer. Os jovens eram excelentes a arranjar encontros sem atrair censuras: nem o rei nem ningu\u00e9m na corte desconfiava de nada. Todavia, como Rivalino ultrapassava todos os homens em boas qualidades, se este tivesse declarado a Marcos o seu desejo de desposar a irm\u00e3, o rei teria de bom grado consentido na uni\u00e3o. Mais ainda: sem que Rivalino lhe tivesse dito alguma coisa, o rei parecia por vezes favorecer os seus encontros com Brancaflor.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, Rivalino ficou ferido num combate ao servi\u00e7o de Marcos e os seus homens transportaram-no para Tintagel, a fim de a\u00ed ser tratado. Brancaflor, pelo que ouvia dizer, julgava que os dias do seu amado estavam contados, mas n\u00e3o ousava mostrar em p\u00fablico a sua dor, com medo de revelar sua paix\u00e3o. Desejava, pelo menos, visitar o ferido antes que este morresse. Usou de tanta prud\u00eancia e ast\u00facia que ningu\u00e9m a viu entrar no quarto. Avan\u00e7ou para o ferido, sentou-se no leito onde este jazia e logo, de amor e pesar ao mesmo tempo, desfaleceu. Quando se reanimou, tomou-o nos bra\u00e7os e beijou-o; os seus l\u00e1bios devolveram-lhe a alegria e a for\u00e7a. Rivalino apertou-a longamente contra si e foi ent\u00e3o que concebeu a crian\u00e7a cuja hist\u00f3ria \u00e9 o assunto deste romance.<\/p>\n<p>Tratado pelos mais h\u00e1beis m\u00e9dicos, Rivalino em breve se curou. Mas mal tinha recuperado a sa\u00fade, chegam mensageiros do seu pa\u00eds: o seu pai morrera e tinha de regressar imediatamente a Le\u00f4nis para, por sua vez, a\u00ed reinar. Quando Rivalino, pronto a embarcar, veio despedir-se de Brancaflor, esta lhe disse: \u201cDoce amigo, quanto mal me adveio por amor de v\u00f3s! Se Deus n\u00e3o vem em meu aux\u00edlio e n\u00e3o me socorre, nunca mais terei alegria, pois aos sofrimentos antigos se v\u00e3o juntar novas mis\u00e9rias. Ap\u00f3s a vossa partida, poderia tentar retomar confian\u00e7a e coragem, mas ficai sabendo que trago em mim um filho vosso; ficando aqui, terei de suportar sozinha o castigo da minha falta.\u201d Rivalino f\u00e1-la sentar a seu lado, seca-lhe as l\u00e1grimas e diz: \u201cQuerida, ignorava o que acabais de me contar; agora que o sei, quero que venhais comigo para o meu pa\u00eds e a\u00ed vos prestarei as honras que conv\u00eam \u00e0 nobreza do nosso amor.\u201d<\/p>\n<p>Era j\u00e1 noite cerrada quando Rivalino, ap\u00f3s se ter despedido do rei Marcos, alcan\u00e7ou a nau onde Brancaflor, aproveitando a obscuridade, se lhe juntou. Os seus companheiros j\u00e1 a\u00ed estavam reunidos, prontos para zarpar: levantam o mastro, i\u00e7am as velas, o vento lhes \u00e9 prop\u00edcio. Chegam sem novidade ao porto de Kano\u00ebl.<\/p>\n<p>De regresso ao seu pa\u00eds, onde sucedia ao seu defunto pai, Rivalino encontrou a terra em grande perigo, pois o duque Morgan aproveitara-se da morte do velho rei e da aus\u00eancia do filho para uma vez mais invadir Le\u00f4nis. Rivalino mandou chamar o marechal da sua corte, Rouault le Foitenant, que sabia fiel e dedicado. Confiou-lhe o que acontecera a ele pr\u00f3prio e \u00e0 sua amada Brancaflor. \u201cSire &#8211; disse o marechal -, vejo que n\u00e3o cessastes de crescer em m\u00e9rito e em valor. N\u00e3o pod\u00edeis ter encontrado mulher de mais alta linhagem que a irm\u00e3 do rei Marcos. Escutai, pois, o meu conselho: pelo bem que ela vos fez, recompensai-a. Quando tivermos levado a nossa guerra a bom termo, uma vez libertos dos embara\u00e7os que nos causa o duque Morgan, celebrai umas bodas grandes e ricas e tomai-a publicamente por leg\u00edtima mulher perante os vossos parentes e bar\u00f5es. Mas desposai-a desde j\u00e1 perante a Igreja e \u00e0 vista dos cl\u00e9rigos e dos leigos, como o exige a lei de Roma. Deste modo aumentareis a vossa honra.\u201d Assim fez Rivalino, e quando Brancaflor se tornou sua mulher, confiou-a \u00e0 salvaguarda de Foitenant, enquanto ele pr\u00f3prio juntava-se ao seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Rouault conduziu a jovem esposa para uma fortaleza e l\u00e1 a recebeu em sua casa com grandes honras, como convinha \u00e0 sua classe. Rivalino ainda n\u00e3o regressara da guerra quando a sua mulher deu \u00e0 luz um filho, morrendo ao dar-lhe a vida. Antes de morrer, Brancaflor entregara a Rouault le Foitenant um anel precioso que lhe dera o rei Marcos e que vinha dos seus antepassados comuns: este anel deveria ser entregue \u00e0 crian\u00e7a, quando esta crescesse, como recorda\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e e da sua estirpe materna.<\/p>\n<p>Quando Rivalino, algumas semanas mais tarde, voltou vitorioso da guerra, experimentou uma cruel dor e deixou-se afundar num profundo desespero. Depois de ter prestado as honras f\u00fanebres \u00e0 querida morta, enviou mensageiros ao rei Marcos para anunciar-lhe o seu casamento com Brancaflor e, ao mesmo tempo, como esta perecera ao ter o filho. Em seguida mandou batizar a crian\u00e7a sem nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de alegria e deu-lhe o nome celta de \u201cDrustan\u201d: os contadores e a tradi\u00e7\u00e3o popular transformaram-no em \u201cTrist\u00e3o\u201d, para melhor significar a tristeza dos pais no momento do seu nascimento, tristeza essa que n\u00e3o era mais do que um press\u00e1gio dos transes que o destino reservava ao rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>A INF\u00c2NCIA DE TRIST\u00c3O<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DURANTE os seus primeiros anos, Trist\u00e3o foi alimentado por amas na casa de seu pai. Com sete anos feitos, Rivalino achou que chegara a hora de retir\u00e1-lo \u00e0s mulheres e confiou-o a um s\u00e1bio escudeiro chamado Gorvenal, que se encarregou de sua educa\u00e7\u00e3o. Trist\u00e3o aprendeu a correr, a saltar, a nadar, a montar, a atirar ao arco, a combater com a espada, a manejar o escudo e a lan\u00e7a. Em breve se distinguiu na arte da montaria e da falcoaria, perito em reconhecer as qualidades e defeitos de um cavalo, as virtudes de um ferro bem temperado e a arte de talhar a madeira. A isto se juntavam o canto e a m\u00fasica, pois tocava maravilhosamente harpa e rota e compunha lais \u00e0 maneira dos jograis bret\u00f5es. Coisa ainda mais rara, imitava, a ponto de enganar, o canto do rouxinol e dos outros p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Acabava de atingir os quinze anos quando seu pai, o rei Rivalino, foi morto numa cilada pelo seu inimigo mortal, o duque Morgan. O \u00f3rf\u00e3o foi recolhido e protegido dos ataques do inimigo de seu pai pelo senescal Rouault le Foitenant, que o recebeu em sua pr\u00f3pria casa com Gorvenal e tomou conta dele como dos seus pr\u00f3prios filhos. Em breve Gorvenal achou este ref\u00fagio insuficiente para a seguran\u00e7a do adolescente: decidiu ir-se de Le\u00f4nis com ele e dirigir-se pelo mar para a Cornualha, a fim de colocar Trist\u00e3o sob a salvaguarda de seu tio, o rei Marcos. O rapaz desejava ardentemente entrar ao servi\u00e7o de seu tio, do qual ouvira seu pai e os mais valorosos homens do seu s\u00e9quito falar t\u00e3o freq\u00fcentemente. No entanto, pediu ao seu mestre Gorvenal que n\u00e3o revelasse a Marcos que era filho de Brancaflor. Queria ganhar a estima e a benevol\u00eancia do rei por si mesmo e pelo seu valor pessoal. Por nada deste mundo teria aceitado dever o favor do rei ao nascimento e ao parentesco. O s\u00e1bio Gorvenal consentiu nisso de bom grado.<\/p>\n<p>Ao aproximarem-se de Tintagel, encontraram um grupo de ca\u00e7adores que havia subjugado um veado. Quando o animal flectiu os jarretes, um dos monteiros matou-o com o punhal e cortou-lhe a garganta para trinch\u00e1-lo. Trist\u00e3o, admirado com este espet\u00e1culo, exclamou: \u201cQue fazeis? Ser\u00e1 pr\u00f3prio retalhar um animal t\u00e3o nobre como um porco degolado? E esse o costume deste pa\u00eds?\u201d \u201cEstrangeiro &#8211; respondeu o monteiro -, que censuras no que fa\u00e7o? Corto primeiro a cabe\u00e7a deste veado, depois trincho o corpo em quatro peda\u00e7os, que levaremos suspensos dos ar\u00e7\u00f5es das nossas selas para os apresentarmos ao rei Marcos, nosso senhor. Assim, desde os tempos mais antigos, fizeram sempre os homens da Cornualha. Se, no entanto, conheces costumes mais louv\u00e1veis, ensina-no-los.\u201d Trist\u00e3o pegou na faca que o monteiro lhe estendia, ajoelhou-se, esquartejou o animal e depois retirou-lhe o focinho, a l\u00edngua, os \u00f3rg\u00e3os masculinos e a veia do cora\u00e7\u00e3o. Os ca\u00e7adores e os seus lacaios, inclinados sobre ele, observavam-no, surpreendidas e encantados. Sabes belos costumes disse o monteiro. &#8211; Em que terras os aprendeste? Pe\u00e7o-te, diz-nos o teu pa\u00eds e o teu nome.\u201d \u201cChamam-me Trist\u00e3o e aprendi estes costumes no reino de Le\u00f4nis.\u201d Depois, ap\u00f3s uma pausa, acrescentou com manha: \u201cO meu pai \u00e9 mercador. Fui raptado por piratas da Noruega, com o meu mestre que vedes a\u00ed, mas a tempestade desfez nos rochedos a nau que nos transportava e foi assim que arribamos sem o querermos a este pa\u00eds. Se me aceitardes no vosso grupo, seguir-vos-ei de bom grado at\u00e9 \u00e0 corte do rei Marcos, vosso senhor.\u201d O monteiro continuou: \u201cAdmira-me que na terra de Le\u00f4nis os filhos de mercadores saibam o que aqui ignoram os filhos dos mais nobres vassalos. Vem conosco, j\u00e1 que o desejas, e s\u00ea bem-vindo.\u201d Trist\u00e3o ensinou-lhes ent\u00e3o como deviam andar dois a dois para cavalgarem em boa ordem, segundo a nobreza dos peda\u00e7os de carne que cada um levava, dispostos em forquilhas de madeira.<\/p>\n<p>Em breve avistaram o castelo de Tintagel, que se elevava orgulhosamente acima do mar, forte e belo, premunido pelas suas altas muralhas contra qualquer assalto. A torre de menagem, outrora constru\u00edda pelos gigantes, era feita de blocos de pedra grandes e bem talhados em gr\u00e9s e em granito. O cortejo transp\u00f4s a porta guardada por doze homens de armas.<\/p>\n<p>Depois de o monteiro-mestre lhe ter contado a aventura, Marcos admirou o belo andamento do cortejo e o veado bem esquartejado. Mas, acima de tudo, admirava o jovem estrangeiro e n\u00e3o cessava de fit\u00e1-lo. \u00c0 noite, ap\u00f3s terem levantado as mesas, um jogral gal\u00eas, mestre na sua arte, avan\u00e7ou pela sala por entre os bar\u00f5es reunidos e cantou lais acompanhando-os \u00e0 harpa. Quando acabou, Trist\u00e3o pegou por sua vez na harpa e, para agradecer ao seu hospedeiro, cantou t\u00e3o bem que os bar\u00f5es maravilharam-se ao ouvi-lo. Terminado o lai, o rei manteve-se durante muito tempo silencioso. \u201cFilho &#8211; disse por fim -, bendito sejas, pois Deus ama os bons cantores: as suas vozes penetram no cora\u00e7\u00e3o dos homens e fazem-nos esquecer o luto e o sofrimento. Vieste para minha alegria e esta casa, fica muito tempo ao p\u00e9 de mim.\u201d \u201cSire &#8211; disse Trist\u00e3o, inclinando-se diante dele &#8211; servir-vos-ei da melhor vontade como vosso tocador de harpa, vosso monteiro e vosso servo da gleba.\u201d Assim foi feito, e durante tr\u00eas anos Trist\u00e3o seguiu Marcos em todas as ca\u00e7adas. De noite, dormia freq\u00fcentemente no quarto real, entre os \u00edntimos e os fi\u00e9is. Para lhe ensinar os costumes pr\u00f3prios da Cornualha, Marcos confiou-o ao seu senescal, o s\u00e1bio Dinas de Lidan, o qual se afei\u00e7oou ao rapaz. Quando Trist\u00e3o atingiu o seu vig\u00e9simo ano, Marcos doou-lhe armas magn\u00edficas e confiou-lhe um dos mais altos postos do seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>A LAN\u00c7A ENVENENADA DO MORHOLT<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>UM GRANDE perigo amea\u00e7ava a terra do rei Marcos. O Morholt da Irlanda chegara a Tintagel numa nau com todos os seus companheiros. Era um guerreiro tem\u00edvel, de uma estatura gigantesca. O rei da Irlanda, que casara com a sua irm\u00e3, uma feiticeira experiente, enviava-o para exigir de Marcos um tributo. Este tributo fora imposto \u00e0 Cornualha cerca de um s\u00e9culo antes, no decurso de uma guerra infeliz. Em virtude deste tratado, os irlandeses podiam cobrar \u00e0 Cornualha no primeiro ano trezentas libras de cobre, no segundo trezentas libras de prata fina, no terceiro trezentas libras de ouro, mas no quarto ano levavam trezentos rapazes e trezentas mo\u00e7as com a idade de quinze anos, tirados \u00e0 sorte entre as fam\u00edlias da Cornualha. Ora, h\u00e1 quinze anos o rei Marcos recusava-se a pagar esse tributo; assim, os enviados do Morholt vinham intim\u00e1-lo a entregar-lhes os trezentos rapazes e as trezentas donzelas para servirem o bel- prazer dos senhores irlandeses. Se um campe\u00e3o do rei Marcos se oferecesse para combater o gigante a s\u00f3s e o dominasse, a Cornualha seria libertada do tributo.<\/p>\n<p>Grande foi a dor do povo da Cornualha. De todo o lado elevavam-se gritos de dor. As m\u00e3es lamentavam-se em voz alta: \u201cFilhos, preferia que tiv\u00e9sseis morrido ao nascer ou durante a inf\u00e2ncia a ver os da Irlanda levarem-vos como servos! Mar p\u00e9rfido e cruel, vento desleal, por que n\u00e3o afogasteis com borrascas e tempestades todos esses irlandeses nas vagas?\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o soube das exig\u00eancias do Morholt; viu que os senhores baixavam a cabe\u00e7a, transidos de medo, e que n\u00e3o diziam palavra. Concebeu ent\u00e3o o intento de pedir ao rei Marcos para ser o seu campe\u00e3o contra o cruel gigante. Solicitou os conselhos de Gorvenal: \u201cFilho &#8211; disse-lhe o mestre -, falas com senso e coragem, mas o Morholt \u00e9 tal combatente que n\u00e3o tem igual no mundo inteiro e tu \u00e9s ainda jovem.\u201d Todavia Gorvenal acabou por ceder ao pedido de Trist\u00e3o, e ambos concordaram que, antes de tudo, importava obter o consentimento do rei. Marcos resistiu primeiro, depois deixou-se ceder, mas, antes de tomar a decis\u00e3o e de a declarar perante todos, convocou o conselho dos bar\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse momento, o pr\u00f3prio Morholt irrompeu pela sala onde reunia o conselho: pensava que as crian\u00e7as j\u00e1 estavam escolhidas e que os cornualhenses, assustados com as amea\u00e7as dos seus mensageiros, lhas iam entregar sem discuss\u00e3o. Trist\u00e3o levantou-se; numa voz calma e com um ar tranq\u00fcilo, pediu ao rei Marcos que lhe concedesse como dom insigne o favor de travar a batalha com o irland\u00eas: \u201cIre, e v\u00f3s, senhores cornualhenses, o Morholt pretende ter o direito de levar os vossos filhos, mas eu quero provar em combate singular que n\u00e3o tem nenhum tributo a levar de v\u00f3s.\u201d Marcos, ligado pela promessa, aprovou publicamente o prop\u00f3sito de Trist\u00e3o.<\/p>\n<p>Furioso, o Morholt ergue-se: tem a fronte alta e ultrapassa todos em estatura. Diz numa voz sonora: \u201cLoucos, ouvi o que diss\u00e9steis e que n\u00e3o tendes a inten\u00e7\u00e3o de pagar o tributo. Aceito, pois, que um de v\u00f3s me combata a s\u00f3s e que, se eu n\u00e3o fizer triunfar com as armas o nosso direito ao tributo, v\u00f3s dele sejais plenamente dispensados. E j\u00e1 que um de entre v\u00f3s \u00e9 t\u00e3o ousado que me ouse defrontar e aceitar o meu desafio, que esse receba a luva que lhe estendo!\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o n\u00e3o estava longe. Tinha um porte orgulhoso e um belo corpo. Avan\u00e7ou para o Morholt, pegou na luva e disse: \u201cMorholt, esse sou eu!\u201d Os irlandeses, primeiro estupefatos, recompuseram- se imediatamente e proclamaram que s\u00f3 aceitariam esse advers\u00e1rio desconhecido se fosse de t\u00e3o boa linhagem quanto o seu senhor. Ent\u00e3o Trist\u00e3o exclamou: \u201cSe o vosso senhor \u00e9 filho de rei, tamb\u00e9m eu o sou; o rei Rivalino de Le\u00f4nis era meu pai, o rei Marcos \u00e9 meu tio, pois nasci de sua irm\u00e3 Brancaflor e chamo-me Trist\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Perante esta revela\u00e7\u00e3o imprevista, o rei Marcos mergulhou ao mesmo tempo na alegria de encontrar um sobrinho e na ang\u00fastia de arriscar logo a sua perda. Queria afastar a d\u00favida que o constrangia, desejando igualmente que o rapaz tivesse falado verdade! Mas Gorvenal avan\u00e7a por sua vez: \u201cSire, Trist\u00e3o disse a verdade, e como prova eis um anel precioso que outrora oferecesteis a vossa irm\u00e3 Brancaflor e que Trist\u00e3o recebeu de Rouault le Foitenant, senescal do defunto rei Rivalino. Vossa irm\u00e3 havia-lho confiado ao morrer, com a miss\u00e3o de entreg\u00e1-lo um dia a seu filho quando este tivesse deixado a inf\u00e2ncia.\u201d O rei pegou na j\u00f3ia e reconheceu o anel, heran\u00e7a dos seus antepassados: era de ouro e engastado de pedras preciosas. Ent\u00e3o Marcos fez sinal a Gorvenal para este se aproximar e perguntou-lhe em voz baixa: \u201cPor certo, vejo agora que me dizeis a verdade; mas por que me haveis enganado primeiro afirmando-me que Trist\u00e3o era filho de um mercador de Le\u00f4nis?\u201d \u201c\u00c9 verdade, sire, que h\u00e1 nisso uma not\u00edcia falsa, mas nem por sombras uma mentira, pois nem Trist\u00e3o nem eu jamais tivemos a inten\u00e7\u00e3o de vos iludir nesse ponto. N\u00e3o era mais que uma artimanha inventada por vosso sobrinho, pois ele entendia ganhar somente as vossas boas gra\u00e7as e amizade pelos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, o seu valor e o seu fiel servi\u00e7o: eis a raz\u00e3o por que quis, primeiro, deixar-vos ignorar o estreito parentesco que o liga a v\u00f3s.\u201d Marcos, com um gesto da m\u00e3o, deu a entender que estava satisfeito com essa resposta e que compreendia a conduta do sobrinho. No entanto esperava poder ainda desvi\u00e1-lo de um empreendimento que achava n\u00e3o s\u00f3 perigoso, mas tamb\u00e9m temer\u00e1rio e manchado de desmesura. Todas estas obje\u00e7\u00f5es n\u00e3o tiveram nenhum efeito sobre a determina\u00e7\u00e3o de Trist\u00e3o: demonstrou a seu tio a necessidade de vingar a honra da Cornualha e de libertar o reino de um tributo vergonhoso e intoler\u00e1vel. Finalmente, Marcos resignou-se a confirmar o dom que concedera a Trist\u00e3o, antes mesmo de ter reconhecido nele o sobrinho, de defrontar o Morholt em combate singular. Como sinal percept\u00edvel dessa honra e em s\u00edmbolo de investidura, o rei entregou a Trist\u00e3o, perante toda a assist\u00eancia, uma espada de grande pre\u00e7o, forjada n\u00e3o h\u00e1 muito por um c\u00e9lebre ferreiro e que havia pertencido ao pr\u00f3prio pai de Marcos.<\/p>\n<p>Segundo um antigo costume celta, ficou combinado entre o Morholt e Trist\u00e3o que o combate se efetuaria num certo dia, a uma certa hora e num certo lugar; na ilha Saint-Samson, situada em frente a Tintagel e a pouca dist\u00e2ncia da costa. Esta ilha era coberta de \u00e1rvores com espessa folhagem e nenhum ser vivo a\u00ed habitava, de modo que n\u00e3o haveria ningu\u00e9m para assistir ao combate ou para tentar for\u00e7ar o destino socorrendo um ou outro dos advers\u00e1rios. Assim s\u00f3 mesmo Deus decidiria a sorte das armas e manifestaria de que lado estava o direito. Todos os conselheiros do rei ratificaram este acordo.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia fixado, Trist\u00e3o apresenta-se no pal\u00e1cio do rei: Marcos afivela-lhe o elmo, cinge-lhe a espada, recomenda-o a Deus; todo o povo reza pelo bravo. Um pouco antes da hora fixada. Trist\u00e3o sobe sozinho para uma pequena barca e, \u00e0 for\u00e7a de remos, empurra-a para a ilha. Por seu lado, o Morholt deixou o navio e toma lugar noutra barca para ir ter com Trist\u00e3o \u00e0 ilha, enquanto os outros irlandeses ficam a bordo para aguardar de longe o desenlace do combate. Trist\u00e3o salta para a margem e, com o p\u00e9, empurra a barca para o mar. O gigante, no mesmo instante, amarra a sua a um tronco. \u201cPor que \u00e9 que n\u00e3o amarraste a tua barca como eu fiz \u00e0 minha?\u201d &#8211; pergunta o gigante. \u201cPara qu\u00ea? &#8211; responde Trist\u00e3o. &#8211; Para levar o vencido morto ou ferido de morte, uma \u00fanica barca chega ao vencedor.\u201d A multid\u00e3o dos cornualhenses, concentrada na margem, tem os olhos fixos no local da batalha e procura adivinhar-lhe as perip\u00e9cias.<\/p>\n<p>O Morholt, admirando o valor e a valentia do advers\u00e1rio, prop\u00f5e- lhe um acordo: \u201cRenuncia \u00e0 batalha; dar-te-ei em troca a minha amizade e partilharei contigo os meus tesouros.\u201d Trist\u00e3o recusa com desd\u00e9m. Ambos come\u00e7am o combate a p\u00e9, ferozmente erguidos um contra o outro e brandindo as lan\u00e7as. \u201cFica sabendo &#8211; disse o Morholt a Trist\u00e3o para assust\u00e1-lo &#8211; que cada ferimento da minha lan\u00e7a \u00e9 mortal; a ponta est\u00e1 envenenada por artes de magia e n\u00e3o encontrar\u00e1s nenhum m\u00e9dico que te cure.\u201d Em resposta, Trist\u00e3o assenta um rude golpe no lorig\u00e3o do gigante, mas o seu ferro n\u00e3o consegue trespassar as malhas. O Morholt riposta com um terr\u00edvel golpe da sua arma: atravessando a coura\u00e7a do bravo, a ponta envenenada enterra-se na anca e penetra at\u00e9 o osso, mas a haste quebra-se e voa em peda\u00e7os sob a for\u00e7a do choque. Trist\u00e3o puxa logo da espada, o Morholt desembainha a sua e as duas l\u00e2minas entrecruzam-se soltando fa\u00edscas que a multid\u00e3o por vezes avista da margem. Subitamente, a espada de Trist\u00e3o embate com tal viol\u00eancia no capacete do gigante que a l\u00e2mina corta o metal e se lhe enterra no cr\u00e2nio. Trist\u00e3o tenta arrancar-lha, mas quando a sacode com toda \u00e0 energia, o a\u00e7o range e quebra-se; a l\u00e2mina ficou fendida e um fragmento de a\u00e7o continua enterrado no cr\u00e2nio do gigante. Ferido de morte, o Morholt foge com um grito terr\u00edvel e vem abater-se na margem \u00e0 vista dos seus homens, que ficaram no navio. Trist\u00e3o persegue-o com a sua chacota: \u201cConquistaste ent\u00e3o o tributo da Cornualha! Leva-o; nunca mais vir\u00e1s reclam\u00e1-lo!\u201d Entretanto o Morholt \u00e9 recolhido pelos companheiros, que o i\u00e7am, ainda com vida, para a nau e se fazem \u00e0 vela com ele para a Irlanda.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o, por seu lado, subiu para a barca do Morholt, soltou-a da margem e aproou para a costa. Quando o povo da Cornualha a viu perfilar-se no mar, reconheceu o esquife do gigante irland\u00eas, mas quando a barca emergiu do cimo de uma vaga, mostrou um guerreiro que se erguia na proa, os bra\u00e7os em cruz: era Trist\u00e3o. Imediatamente vinte barcas lan\u00e7aram-se ao seu encontro e os rapazes jogaram-se ao mar para escolt\u00e1-lo. O bravo, de um salto, lan\u00e7ou-se no areal, e as m\u00e3es deitavam-se de joelhos para beijar- lhe os p\u00e9s. Marcos recebeu-o com manifesta\u00e7\u00f5es de alegria e levou- o imediatamente para o seu pal\u00e1cio, mas mal Trist\u00e3o entrou, o seu vigor juvenil foi por sua vez vencido pela for\u00e7a do veneno e ele caiu sem sentidos.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>A BARCA SEM VELA NEM REMOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>OS SERVOS do rei apressaram-se a levantar Trist\u00e3o e transportaram- no para uma cama, num dos quartos do pal\u00e1cio. Os mais h\u00e1beis m\u00e9dicos foram chamados \u00e0 sua cabeceira, mas foi em v\u00e3o que examinaram a profunda chaga que trazia do lado: era negra e f\u00e9tida e n\u00e3o se tornava dif\u00edcil adivinhar que fora feita por uma arma envenenada. Nenhum f\u00edsico conseguiu descobrir a natureza do veneno nem levar rem\u00e9dio ao mal que causava. Em breve as dores se tornaram t\u00e3o vivas que o bravo n\u00e3o podia pregar olho, nem de noite nem de dia, e tamb\u00e9m perdeu o apetite e a sede e tornou-se magro e fraco. Das suas chagas exalava um cheiro t\u00e3o odioso que ningu\u00e9m conseguia permanecer muito tempo perto dele; s\u00f3 o fiel Gorvenal e Dinas de Lidan se conservavam junto do seu leito. O pr\u00f3prio rei Marcos espa\u00e7ava as visitas ou contentava-se em pedir not\u00edcias do ferido.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o, vendo que o odor das suas chagas importunava os \u00edntimos do pal\u00e1cio, n\u00e3o quis ser pesado a ningu\u00e9m: fez com que o transportassem para uma cabana, que Gorvenal, a seu pedido, mandara construir num lugar isolado, \u00e0 beira-mar. A\u00ed, deitado sozinho diante das vagas pelas quais deixava errar o olhar, Trist\u00e3o aguardava a morte. Todavia a intrepidez do seu cora\u00e7\u00e3o inspirou-lhe o pensamento e o desejo de tentar a aventura no mar: recordou-se dos contos antigos, populares entre os celtas, que mostravam her\u00f3is infelizes confiando-se \u00e0 sorte das correntes e das tempestades e aportando em ilhas long\u00ednquas e maravilhosas onde fadas e seres m\u00e1gicos curavam, com encantos poderosos, doen\u00e7as e feridas. Conjurou ent\u00e3o o rei Marcos para conceder-lhe este dom: partir al\u00e9m-mar para costas desconhecidas &#8211; n\u00e3o sabia onde &#8211; a fim de experimentar se Deus lhe concederia, no termo de uma longa viagem, a cura que ainda esperava.<\/p>\n<p>O Rei Marcos, primeiro assustado com a aud\u00e1cia deste projeto, p\u00f4s dificuldades em consentir no desejo de Trist\u00e3o. Depois, vendo que as suas recusas contrariavam o sobrinho e pareciam agravar-lhe o mal, cedeu \u00e0 sua inst\u00e2ncia, de acordo com Gorvenal. Trist\u00e3o foi colocado, como era seu desejo, numa simples barca, sem vela, nem remos, nem leme, sozinho, sem nenhum companheiro. S\u00f3 tinha ao alcance da m\u00e3o alguns alimentos e a sua boa harpa, que n\u00e3o cessara de tocar desde que fora ferido, pois o canto e o som dos instrumentos haviam-se tornado a sua \u00fanica consola\u00e7\u00e3o. Quando acabaram os preparativos, Gorvenal e o senescal Dinas de Lidan, reprimindo as l\u00e1grimas, empurraram para o alto mar o fr\u00e1gil esquife onde acabavam de depor o amigo. A barca desapareceu pouco a pouco no horizonte.<\/p>\n<p>Durante sete dias e sete noites, as vagas arrastaram-no sem tr\u00e9guas, ao sabor dos ventos e das correntes. Por vezes, Trist\u00e3o tocava a harpa para acalmar a ang\u00fastia e aliviar a dor. Uma manh\u00e3, de madrugada, apercebeu-se de que o marulho o havia empurrado para uma terra que jamais vira. Alguns pescadores que lan\u00e7avam as redes, intrigados com o canto melodioso que vinha daquela barca \u00e0 deriva, quiseram esclarecer o mist\u00e9rio: aproximaram-se e descobriram um ferido deitado no fundo da embarca\u00e7\u00e3o e que parecia extremamente fatigado. Perguntou-lhes que pa\u00eds era aquele onde o mar o atirara. \u201c\u00c9 a Irlanda\u201d &#8211; responderam, e, desejosos de socorr\u00ea-lo, rebocaram a barca at\u00e9 ao porto vizinho de Weisefort, resid\u00eancia do rei Gormond. Grande foi a emo\u00e7\u00e3o de Trist\u00e3o ao ver que Deus o dirigira para a p\u00e1tria do Morholt, cuja irm\u00e3, poderosa feiticeira, residia no pal\u00e1cio de seu marido, o rei Gormond. Mas j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel recuar e, uma vez que quisera tentar a aventura, teria de ir at\u00e9 ao fim. Com risco de ser reconhecido pelos antigos companheiros do Morholt como o vencedor e assassino do gigante, Trist\u00e3o deixou-se conduzir pelos pescadores at\u00e9 ao pal\u00e1cio do rei. Gormond queria ver e ouvir o tocador de harpa estrangeiro, vindo de al\u00e9m-mar cujos cantos haviam maravilhado os pescadores no porto. Estendido numa padiola, Trist\u00e3o respondeu \u00e0s perguntas do rei: \u201cIre, sou um jogral bret\u00e3o. Meu nome \u00e9 T\u00e3otris. Vinha a bordo de um navio noruegu\u00eas. Uns piratas atacaram a equipagem para se apoderarem da carga. No decurso da abordagem, recebi um grave ferimento e devo a minha salva\u00e7\u00e3o a uma barquinha sem vela, nem remos, nem leme, para a qual me consegui i\u00e7ar com a minha querida harpa.\u201d O rei Gormond declarou imediatamente que queria mandar tratar o ferido e que a rainha sua mulher encontraria sem d\u00favida alguma os rem\u00e9dios para cur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nenhum dos assistentes reconheceu no pretenso T\u00e3otris o valoroso combatente da ilha de Saint-Samson e o assassino do Morholt, de tal modo o veneno lhe havia deformado as fei\u00e7\u00f5es e enfraquecido o corpo. A rainha Isolda, a pedido de seu marido, tratou de curar o ferido. A feiticeira, a pr\u00f3pria que havia preparado o veneno para nele mergulhar a ponta da lan\u00e7a do irm\u00e3o, descobriu sem dificuldade o tratamento eficaz para destruir o efeito da pe\u00e7onha que havia destilado. Mandou colocar na chaga um emplastro, que ele conservou durante todo o dia e que rapidamente suprimiu o mau cheiro; depois abriu a ferida e tirou toda a carne morta, retirou com cuidado o veneno que ainda a\u00ed existia e a carne viva ficou com melhor aspecto. \u00c0 noite, p\u00f4s sobre a chaga ervas salutares, que, em pouco tempo, fizeram desaparecer a incha\u00e7\u00e3o e a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o dito jogral entrou em convalescen\u00e7a, a rainha, como era uso na \u00e9poca, confiou os cuidados do h\u00f3spede \u00e0 filha, Isolda, ent\u00e3o com doze anos, e cuja cabeleira loura tinha o brilho do ouro. A bela crian\u00e7a cumpriu de boa vontade todos os deveres da hospitalidade em rela\u00e7\u00e3o ao h\u00e1bil menestrel que o rei Gormond recolhera sob o seu teto. Fazia companhia ao h\u00f3spede de seu pai durante todo o dia, pensava-lhe a ferida e aplicava-lhe os rem\u00e9dios prescritos pela rainha. T\u00e3otris, em troca, tocava para distra\u00ed-la lais bret\u00f5es de aventura e de amor, fazendo-se acompanhar pela harpa. Melhor ainda, ensinava-lhe a arte de tocar os instrumentos e de cantar com esmero. A real crian\u00e7a parecia encantada e mostrava-se uma aluna d\u00f3cil e jovial para o cantor errante.<\/p>\n<p>Todavia, como o estrangeiro reencontrara pouco a pouco o vigor do seu corpo e a beleza das fei\u00e7\u00f5es, veio o dia em que correu o risco de ser reconhecido pelos companheiros do Morholt e de sofrer da sua parte terr\u00edveis repres\u00e1lias. N\u00e3o podia duvid\u00e1-lo quando ouvia a loura Isolda contar-lhe sem desconfian\u00e7a o regresso \u00e0 Irlanda do cad\u00e1ver do tio, cosido pelos seus homens numa pele de veado. Do cr\u00e2nio do gigante havia extra\u00eddo um fragmento deixado pela espada do vencedor, e a rainha guardava-o preciosamente num escr\u00ednio como rel\u00edquia de seu irm\u00e3o. Trist\u00e3o compreendeu ent\u00e3o que devia desaparecer o mais depressa poss\u00edvel. Um navio mercante aprontava-se para deixar o porto: subiu a bordo com acordo dos marinheiros e fez-se a vela com eles para longe da Irlanda. Algumas semanas mais tarde aportava na Cornualha. Jovens e velhos vieram receb\u00ea-lo e regozijaram-se como se ele regressasse de entre os mortos.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>A DONZELA DOS CABELOS DE OURO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TRIST\u00c3O glorioso vencedor do Morholt, curado, contra toda a esperan\u00e7a, do seu horr\u00edvel ferimento, ocupava doravante o primeiro lugar na corte de Marcos. O rei resolvera, no seu \u00edntimo, tom\u00e1-lo por herdeiro e legar-lhe o trono. Havia tomado o partido de envelhecer sem descendente e renunciara ao casamento.<\/p>\n<p>V\u00e1rios bar\u00f5es que viviam na comitiva de Marcos n\u00e3o tardaram a adivinhar-lhe o intento, que julgavam, sem motivo, inspirado por Trist\u00e3o. Os mais encarni\u00e7ados eram quatro bar\u00f5es que a inveja havia lan\u00e7ado contra o bravo e cujo \u00f3dio n\u00e3o recuava ante nenhuma trai\u00e7\u00e3o. Por isso, os chamavam \u201cos bar\u00f5es traidores\u201d. O pior destes invejosos era Audret, tamb\u00e9m sobrinho de Marcos, e que durante muito tempo alimentara a esperan\u00e7a de recolher a sucess\u00e3o do tio; a sua esperan\u00e7a desenganada tinha-se transformado em furor contra aquele que considerava seu feliz rival. Os outros tr\u00eas traidores chamavam-se Guenelon, Gondo\u00efne e Denoalen. Freq\u00fcentemente conversavam em segredo sobre o que tomavam por manobras interesseiras de Trist\u00e3o e diziam entre si: \u201cEste homem nefasto \u00e9 um feiticeiro e uma alma de Satan\u00e1s. A sua cura \u00e9 inexplic\u00e1vel por meios naturais, pois o seu ferimento era daqueles a que um homem n\u00e3o escapa. A sua vit\u00f3ria assombrosa sobre o Morholt, a sua misteriosa navega\u00e7\u00e3o numa barca sem vela nem remos, eis o que j\u00e1 pressup\u00f5e uma interven\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica. N\u00f3s o vimos atingido por um ferimento incur\u00e1vel, quase agonizante, e ei-lo agora fresco e \u00e1gil, o corpo intacto e o cora\u00e7\u00e3o arrogante! \u00c9 necess\u00e1rio que tenha um trato com os esp\u00edritos infernais e possua o segredo das artes mal\u00e9ficas. Certamente que as usar\u00e1 um dia contra aqueles que, como n\u00f3s, o abandonaram no momento do seu infort\u00fanio: mais tarde ou mais cedo, vingar-se-\u00e1, se n\u00e3o tomarmos n\u00f3s a dianteira.\u201d Assim, os quatro traidores semeavam a d\u00favida \u00e0 volta deles; e aqueles que, como eles, se haviam desinteressado de Trist\u00e3o quando este estava em perigo de morte temiam pela sua vida. \u201cSe Trist\u00e3o \u00e9 um dia nosso senhor leg\u00edtimo acrescentavam os traidores -, ter\u00e1 todos os direitos sobre n\u00f3s. \u00c9, pois, necess\u00e1rio que o rei se case.\u201d<\/p>\n<p>Um dia dirigiram-se todos juntos \u00e0 corte e expuseram a Marcos que o interesse do reino e dos homens da Cornualha exigia que ele se casasse sem mais tardar em vista a ter um herdeiro. Se, ainda jovem como era, n\u00e3o desposasse uma mulher que lhe pudesse dar um sucessor, exporia a Cornualha a desordens e a guerras. Algu\u00e9m poderia, sem direito, pretender reinar na sua terra. \u201cTamb\u00e9m &#8211; acrescentavam &#8211; n\u00e3o vos continuaremos a servir de modo algum se n\u00e3o seguis o nosso conselho.\u201d O rei respondeu-lhes: \u201cSenhores, agrade\u00e7o-vos a amig\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o, pois quereis aumentar a minha honra e louvor. Para dizer a verdade, nenhumas desordens deveis temer quando da minha morte. Deus deu-nos um bom herdeiro, que Ele o profeta e conserve. Trist\u00e3o. Enquanto ele viver, ficai sabendo que nenhuma mulher casada trar\u00e1 coroa nesta corte.\u201d Marcos acrescentou que esse assunto s\u00f3 a ele dizia respeito e que o rei era livre, como qualquer dos seus vassalos, de contrair casamento ou, se isso lhe convinha mais, de se abster dele. Ent\u00e3o os traidores encontraram no pr\u00f3prio Trist\u00e3o um aliado inesperado: para melhor provar que nunca incitara o tio, por interesse pessoal, a renunciar ao casamento, juntou as suas inst\u00e2ncias \u00e0s dos inimigos. Tentou persuadir o rei de que este devia procriar um herdeiro leg\u00edtimo e evitar todas as disputas \u00e0 volta da sucess\u00e3o. Marcos, n\u00e3o ousando fazer frente a todos os vassalos, ligados contra ele, quis dar-se tempo para refletir: \u201cSenhores &#8211; disse-lhes -, dai-me tempo para preparar a minha resposta. Vinde ver-me de novo dentro de quarenta dias, e far-vos-ei conhecer a minha decis\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Quando chegou o dia fixado, o rei estava tomado de preocupa\u00e7\u00f5es. Sozinho no sal\u00e3o do castelo, prestes a receber os bar\u00f5es, procurava ainda um meio de iludir a sua exig\u00eancia. Nesse instante, por uma janela aberta sobre o mar, entraram duas andorinhas soltando gritinhos e disputando um longo cabelo louro de mulher que uma delas trazia no bico; depois, bruscamente, assustadas com um gesto do rei, as duas intrusas afastaram-se rapidamente, n\u00e3o sem terem deixado cair na sala o magn\u00edfico cabelo, mais fino e mais brilhante que um fio de ouro. Marcos inclinou-se e apanhou-o com precau\u00e7\u00e3o; examinou-o longamente, admirou-o e uma brusca ilumina\u00e7\u00e3o atravessou-lhe o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Quando Trist\u00e3o entrou, seguido pelos outros bar\u00f5es, fitou-os um instante com um sorriso malicioso e disse: \u201cAlegrai-vos, senhores; quero seguir o vosso conselho e resolvi, ap\u00f3s bem pensar, arranjar mulher. Ficai sabendo que n\u00e3o quero outra que n\u00e3o seja aquela a quem pertence este cabelo de ouro. Uma andorinha vinda do mar trouxe-mo no bico e \u00e9 um feliz press\u00e1gio que n\u00e3o quero de modo algum negligenciar.\u201d Ao dizer estas palavras, estendia-lhes o cabelo entre os dedos e fazia cintilar no belo fio de ouro um raio de sol.<\/p>\n<p>Os bar\u00f5es sentiram-se gozados e como que injuriados pelo rei: sob a apar\u00eancia de realizar o seu desejo, designava-lhes por zombaria uma mulher imposs\u00edvel de encontrar. \u201cEste estratagema diziam entre si &#8211; \u00e9 uma nova artimanha de Trist\u00e3o para melhor assegurar a heran\u00e7a do tio.\u201d Quanto a Trist\u00e3o, esse n\u00e3o cessava de contemplar o cabelo de ouro, e a sua vista acordava-lhe na alma uma agrad\u00e1vel recorda\u00e7\u00e3o. Entre todas as mo\u00e7as louras que vira, vindas dos pa\u00edses do Norte, nenhuma &#8211; tinha a certeza &#8211; tinha uns cabelos t\u00e3o semelhantes a um fio de ouro, a n\u00e3o ser uma \u00fanica: Isolda, a filha do rei da Irlanda, a que o tratara h\u00e1 pouco tempo, no pal\u00e1cio de seu pai, o rei Gormond, e \u00e0 qual ensinara a tocar os instrumentos. Enquanto os outros bar\u00f5es continuavam a bradar e a trocar em voz baixa palavras hostis a Trist\u00e3o, este se voltou para o rei Marcos e disse: \u201cPor Deus, sire, para vos dizer a verdade conhe\u00e7o uma \u00fanica donzela cujos cabelos de ouro assemelham-se a esse: \u00e9 Isolda, a loura, a filha \u00fanica do rei da Irlanda. Bem sabeis como a conheci no seu pa\u00eds, assim como a seu pai e a sua m\u00e3e. Entre todas as filhas de rei que me foi dado encontrar, ela \u00e9, sem contesta\u00e7\u00e3o, a mais bela e a mais bem instru\u00edda. \u00c9 excelente no canto e no toque dos instrumentos, e aprendeu com a m\u00e3e as virtudes secretas das ervas, das flores e das ra\u00edzes, de modo que n\u00e3o h\u00e1 melhor m\u00e9dico que esta jovem. Digo-o por eu pr\u00f3prio ter feito a experi\u00eancia.\u201d Marcos respondeu-lhe: \u201cN\u00e3o ignoras, querido sobrinho, que h\u00e1 s\u00e9culos a inimizade e o \u00f3dio reinam entre a Irlanda e a Cornualha e que eles suscitaram entre os dois povos guerras sangrentas. Se este cabelo de ouro pertence realmente \u00e0 jovem Isolda, como esperar que o rei Gormond consinta em dar-me a filha em casamento? Se envio mensageiros a pedir a m\u00e3o de Isolda, receio que seu pai os mate vergonhosamente, sem mesmo se dar ao cuidado de me responder: Tal afronta valer-me-ia zombarias e vergonha.\u201d<\/p>\n<p>O senescal Dinas de Lidan interveio ent\u00e3o: \u201cIre, acontece com bastante freq\u00fc\u00eancia reis travarem entre si longas guerras com grande dano e grande perda de homens; depois, rejeitando c\u00f3lera e \u00f3dio, transformam a inimizade em paz e em amor, casando com pr\u00edncipes, outrora seus inimigos, as suas filhas ou irm\u00e3s. Isolda \u00e9 a \u00fanica filha do rei Gormond. Se pud\u00e9ssemos realizar ditosamente esse casamento e essa alian\u00e7a, as coisas poderiam tomar uma fei\u00e7\u00e3o t\u00e3o favor\u00e1vel que talvez v\u00f3s vi\u00e9sseis a reinar na Irlanda um dia.\u201d<\/p>\n<p>O rei respondeu: \u201cSe esse projeto pudesse ser executado com honra para mim, n\u00e3o desejaria outra mulher que Isolda, pois Trist\u00e3o louvou-me grandemente nela a cortesia, o senso e todas as qualidades convenientes a uma mulher. Pensai, pois, no meio de obt\u00ea-la para mim.\u201d Dinas continuou: \u201cIre, ningu\u00e9m no mundo vo-la pode obter, exceto Trist\u00e3o, vosso sobrinho: no decurso da sua viagem \u00e0 aventura, foi pelo rei Gormond recolhido e, se ficou curado do seu terr\u00edvel ferimento, deve-o certamente \u00e0 rainha e \u00e0 sua filha. Se em tal se empenhar, conquistar\u00e1 seguramente a jovem pela ast\u00facia ou pelo valor.\u201d<\/p>\n<p>Os traidores ouvem que o senescal Dinas de Lidan prop\u00f5e enviar Trist\u00e3o \u00e0 Irlanda para pedir em casamento, em nome do rei Marcos, a filha do rei Gormond. Os invejosos ficam perplexos e n\u00e3o sabem que atitude tomar. Gozam secretamente com o fato de que, se Trist\u00e3o empreender esta nova viagem, mais que aventurosa, junto dos piores inimigos da Cornualha, n\u00e3o voltar\u00e1 nunca mais. No entanto, persegue-os uma inquieta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o ir\u00e1 este diabo de homem, este feiticeiro, uma vez mais ser bem-sucedido contra qualquer esperan\u00e7a humana e voltar triunfante, ornado com um novo prest\u00edgio?<\/p>\n<p>Por seu lado, Trist\u00e3o compreende que, se recusar empreender a busca da jovem, fornece aos traidores um novo pretexto para acuarem-no de cobi\u00e7ar para si pr\u00f3prio a heran\u00e7a do rei. Ent\u00e3o responde com grande senso e de boa vontade: \u201cIre, n\u00e3o devo recusar esse empreendimento, uma vez que sou o mais bem preparado para ele. Na verdade, conhe\u00e7o a Irlanda e os seus habitantes, conhe\u00e7o o rei, os seus principais bar\u00f5es, a rainha e a jovem Isolda, mas matei o irm\u00e3o da rainha: se l\u00e1 vou pedir que a filha vos seja dada e se o rei sabe quem sou, n\u00e3o me deixar\u00e1 regressar vivo. Todavia, porque desejo que possais ter um herdeiro leg\u00edtimo, quero empreender essa busca e, para aumentar a vossa fama, realiz\u00e1-la, se Deus o permitir, na medida das minhas possibilidades. E se, por infelicidade, n\u00e3o puder conquistar Isolda, jamais voltarei \u00e0 vossa corte.\u201d Em seguida acrescentou: \u201cIre, confiai-me esse cabelo, quero mand\u00e1-lo entrela\u00e7ar no estofo da minha t\u00fanica de orla dourada e tenho a certeza de que o seu brilho se sobrepor\u00e1 ao do metal mais puro. Mandai-me equipar, se tal \u00e9 a vossa vontade, uma bela nau, a fim de poder embarcar com cem rapazes da vossa terra.\u201d O rei consentiu-lho de bom grado.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o levou Gorvenal consigo para esta travessia. Como companheiros, escolheu na corte do rei cem jovens vassalos de nobre condi\u00e7\u00e3o, entre os mais ousados e os mais bravos; arranjou as melhores armas e bons cavalos. A nau ficou bem abastecida de v\u00edveres, bebidas, dinheiro; carregaram-na com cereais, peles, farinha-flor, mel e vinho. Acabado o carregamento, vogam para levar a mensagem aos inimigos. Mas Trist\u00e3o ainda hesita se pedir\u00e1 a mo\u00e7a ou a atrair\u00e1 a bordo por meio de qualquer ast\u00facia para rapt\u00e1-la. Se a pede, arrisca-se a uma recusa brutal; e como rapt\u00e1-la pela for\u00e7a a um pai t\u00e3o poderoso? Discute-o com os companheiros, mas nenhum deles o sabe aconselhar; todos gemem por terem sido designados para um empreendimento t\u00e3o perigoso.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o atravessa o mar da Irlanda em grande d\u00favida e cuidado. Decide que os seus companheiros e ele far-se-\u00e3o passar por mercadores, e que, para agir, esperar\u00e3o por encontrar um estratagema. Noite e dia, navegaram. Trist\u00e3o soube que Gormond, o rei da Irlanda, encontrava-se em Weisefort. Lan\u00e7aram \u00e2ncora diante do porto: era, para a gente da Cornualha, a terra perigosa por excel\u00eancia. Trist\u00e3o enviou dois dos seus companheiros, vestidos com cotas de burel e capas de camel\u00e3o grosseiro, ao pal\u00e1cio do rei Gormond com a miss\u00e3o de obterem um salvo-conduto para venderem as mercadorias. Os dois mensageiros saudaram o rei cortesmente e disseram-lhe: \u201cIre, somos mercadores e transportamos as nossas mercadorias de terra em terra para ganhar dinheiro. Carregamos o navio na Bretanha e quer\u00edamos atingir a Flandres, mas ventos contr\u00e1rios empurraram-nos para aqui. Disseram-nos no porto que as mercadorias se vendiam bem neste pa\u00eds. Se obtivermos de v\u00f3s a autoriza\u00e7\u00e3o para vendermos o nosso vinho, o nosso queijo e os nossos tecidos, ancoraremos a nossa nau e faremos com\u00e9rcio com os vossos s\u00faditos. Se o n\u00e3o consentirdes, sire, levantaremos ferro para outro pa\u00eds.\u201d O rei respondeu: \u201cDou-vos permiss\u00e3o e liberdade para traficardes nesta terra em paz e \u00e0 vontade. Ningu\u00e9m vos incomodar\u00e1 nem vos far\u00e1 mal. Encontrareis aqui o melhor acolhimento e sereis livres de partir quando vos aprouver.\u201d Os mensageiros agradeceram ao rei, deram-lhe presentes e regressaram \u00e0 nau. A\u00ed, com os companheiros, passaram o dia a divertir-se, a jogar xadrez e gam\u00e3o e a tagarelar.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>VIT\u00d3RIA SOBRE O DRAG\u00c3O DA IRLANDA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NO DIA seguinte, ao acordarem, Trist\u00e3o e os companheiros ouviram gritos horr\u00edveis de homens e de mulheres elevarem-se nas ruas de Weisefort: todo o povo corria para o mar como que a fugir de um misterioso perigo. Esse terror era causado por um drag\u00e3o que infestava o pa\u00eds; todos os dias descia \u00e0 cidade e a\u00ed fazia grandes devasta\u00e7\u00f5es. A todos os que conseguia alcan\u00e7ar, matava com as chamas que vomitava. Em todo o reino, n\u00e3o havia ningu\u00e9m suficientemente forte nem suficientemente bravo para lhe ousar fazer frente; mal o ouviam aproximar-se, todos, nobres, burgueses e vil\u00e3os, fugiam \u00e0 porfia para evitar a morte.<\/p>\n<p>O rei Gormond mandara proclamar por toda a sua terra que, se houvesse um homem bastante corajoso para matar o drag\u00e3o, lhe daria a filha em casamento e metade do reino, desde que fosse de nascimento nobre. Havia confirmado este compromisso com cartas seladas e ordenara que fossem lidas em todos os lugares pelos arautos. Muitos, aliciados com esta promessa, haviam tentado o empreendimento, mas o drag\u00e3o matara-os e j\u00e1 n\u00e3o restava ningu\u00e9m que ousasse esper\u00e1-lo na estrada que seguia; os mais aguerridos logo deitavam a fugir e escondiam-se.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o, ao ver fugir os irlandeses, interrogou-os e ficou sabendo tudo acerca do drag\u00e3o e da promessa feita a quem o matasse. Indagou do covil onde o monstro pernoitava, nos rochedos, e da hora em que descia \u00e0 cidade. Depois, esperou at\u00e9 \u00e0 noite do primeiro dia sem nada dizer a ningu\u00e9m do seu des\u00edgnio, e ele pr\u00f3prio preparou o corcel e as armas para o combate. No dia seguinte, aos primeiros alvores da manh\u00e3, o drag\u00e3o, segundo o seu costume, arremeteu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Trist\u00e3o, mal ouviu o grito estridente do animal, cavalgou ao seu encontro e nenhum dos seus companheiros disso se apercebeu. No caminho encontrou um bando de homens armados que fugiam a toda velocidade dos cavalos, agarrou um deles pelos cabelos ruivos e obrigou-o a parar. Ele contou-lhe que o monstro os seguia e disse-lhe: \u201cVoltai para donde viestes, sen\u00e3o o drag\u00e3o n\u00e3o tardar\u00e1 a matar-vos.\u201d Trist\u00e3o n\u00e3o ligou a este conselho de covarde e foi ao encontro do monstro.<\/p>\n<p>O drag\u00e3o tinha dois cornos na testa, as orelhas largas e peludas, os olhos cintilantes \u00e0 flor da cabe\u00e7a como carv\u00f5es ardentes, o alto focinho erguido como o de uma serpente fant\u00e1stica, a l\u00edngua de fora, cuspindo por todas as partes fogo e veneno, o corpo escamoso, garras de le\u00e3o e a cauda de uma serpente. O monstro viu Trist\u00e3o: ruge e incha o corpo. O bravo junta as for\u00e7as e, cobrindo-se com o escudo, pica o corcel com tal vigor que o ginete, todo eri\u00e7ado de medo, salta contra o animal. A lan\u00e7a de Trist\u00e3o embate nas escamas e voa em peda\u00e7os. Imediatamente, o bravo desembainha a espada, brande-a e vibra um golpe terr\u00edvel na cabe\u00e7a do drag\u00e3o, mas sem mesmo lhe arranhar a pele. O monstro sentiu a pancada: lan\u00e7a as garras contra o escudo, enterra-as nele e faz voar as presilhas. A peito descoberto, Trist\u00e3o ainda o procura com a espada e atinge-o nos flancos com um golpe t\u00e3o violento que o ar vibra. Em v\u00e3o: n\u00e3o o consegue ferir. Ent\u00e3o, o drag\u00e3o vomita pelas narinas um duplo jato de chamas: O lorig\u00e3o de Trist\u00e3o fica da cor do carv\u00e3o, o cavalo cai e morre. Mas logo Trist\u00e3o se levanta e enterra a ponta da espada na garganta do monstro, e a penetra inteiramente lhe trespassando o cora\u00e7\u00e3o. O drag\u00e3o solta uma \u00faltima vez o seu terr\u00edvel grito e morre. Quando Trist\u00e3o o viu morto, cortou-lhe a l\u00edngua at\u00e9 a raiz, pois queria conserv\u00e1-la como um trof\u00e9u da vit\u00f3ria, e dissimulou-a no cal\u00e7\u00e3o, entre a carne e o tecido. Em seguida, completamente aturdido pelo fumo acre que o sufocava, dirigiu-se para o charco cujas \u00e1guas calmas brilhavam no vale, perto de um bosque, para a\u00ed beber. Quando chegou \u00e0 beira da \u00e1gua, a l\u00edngua aqueceu contra o seu corpo O veneno que dela se escapava infectou-lhe o sangue e paralisou-lhe os membros. O corpo tornou-se d\u00e9bil, l\u00edvido e tumefacto. Nas altas ervas que bordejavam o p\u00e2ntano, o her\u00f3i caiu inanimado. A\u00ed ficou estirado, impotente para ajudar-se a si pr\u00f3prio, a n\u00e3o ser que algum viandante o viesse socorrer.<\/p>\n<p>Ora, o rei Gormond tinha um senescal chamado Aguinguerran, o Ruivo, presun\u00e7oso e de m\u00e1 \u00edndole, dissimulado, manhoso, mentiroso e velhaco. Afirmava amar a jovem Isolda e todos os dias, na esperan\u00e7a de obt\u00ea-la para mulher, armava-se contra o drag\u00e3o. Mal via o monstro, fugia a sete p\u00e9s, e t\u00e3o covardemente que, se lhe oferecessem nesse momento todo o ouro da Ar\u00e1bia, nem tentaria voltar-se. Aguinguerran era o fugitivo que Trist\u00e3o, no caminho da aventura, tinha parado, agarrando-o pelos cabelos. Os outros fugitivos eram os homens do senescal. Ao fim de algum tempo, Aguinguerran ousou arrepiar caminho para ver o que se havia passado. Encontrou o cad\u00e1ver do drag\u00e3o e n\u00e3o viu o cavaleiro que o parara e interrogara, mas unicamente o seu escudo abandonado no ch\u00e3o e o corcel morto; pensou que, antes de morrer, o monstro matara e devorara o cavaleiro. Ent\u00e3o, cortou com a espada a cabe\u00e7a do monstro, a fim de apresent\u00e1-la ao rei Gormond e de reclamar para si pr\u00f3prio a bela recompensa prometida. Regressou \u00e0 cidade e nela entrou a galope, segurando na ponta do bra\u00e7o a cabe\u00e7a sangrenta do drag\u00e3o e gritando: \u201cMatei-o! Matei-o!\u201d<\/p>\n<p>Quando entrou no sal\u00e3o do pal\u00e1cio, disse ao rei: \u201cSire, libertei o reino, vinguei os teus homens e o teu dano, paga-me agora, d\u00e1- me Isolda, a tua filha; \u00e9 a recompensa que me pertence, se n\u00e3o te queres desonrar renegando a tua palavra!\u201d O rei, vendo a cabe\u00e7a do monstro, n\u00e3o se recusou a fazer justi\u00e7a ao pedido do senescal, mas, surpreendido com o fato de um tal covarde ter realizado uma t\u00e3o grande proeza, imp\u00f4s-lhe um prazo: \u201cQuero reunir o conselho dos meus bar\u00f5es antes de te dar a resposta e de manter, se houver raz\u00f5es, o que prometi.\u201d Quando se espalhou a nova de que a princesa lhe seria dada e foram aos aposentos das mulheres cont\u00e1-la a Isolda, esta se encheu de ang\u00fastia e de dor, pois sentia somente avers\u00e3o e desprezo pelo senescal: mesmo que lhe oferecessem como presente de noivado o imp\u00e9rio do mundo, n\u00e3o o poderia amar. Disse a sua m\u00e3e: \u201cNunca consentirei no que quer meu pai: n\u00e3o casarei com esse homem! N\u00e3o, Deus n\u00e3o me deseja tanto mal que me obrigue a aceit\u00e1-lo! Prefiro matar-me com um punhal a suportar a vergonha de ser entregue \u00e0 merc\u00ea de um velhaco e de um covarde! Donde lhe teriam vindo a coragem, a for\u00e7a e o valor perante o monstro, uma vez que sempre se mostrou medroso e poltr\u00e3o perante os homens? \u00c9 uma mentira inventada por ele para eu lhe ser entregue. M\u00e3e, vinde comigo: vamos ver o cad\u00e1ver do monstro; temos de encontrar, morto ou vivo, aquele que o matou.\u201d \u201cPois sim, querida filha. E que Deus nos ajude.\u201d<\/p>\n<p>Sa\u00edram do castelo por uma porta secreta que dava para o pomar, unicamente acompanhadas pelo lacaio P\u00e9rinis e por Brangia, a criada. Do pomar, um estreito atalho conduziu-as ao campo, onde finalmente encontraram o drag\u00e3o morto e o cavalo, estendido na areia, queimado e denegrido. \u201cDeus sabe &#8211; disse Isolda &#8211; que o senescal jamais montou este cavalo! N\u00e3o est\u00e1 ferrado nem aparelhado segundo o costume da Irlanda. . . O estrangeiro a quem este cavalo pertence \u00e9, sem d\u00favida alguma, quem matou o drag\u00e3o; mas quem sabe o que lhe aconteceu?\u201d Isolda, com a m\u00e3e, procurou tanto que descobriu o her\u00f3i desfalecido \u00e0 beira do p\u00e2ntano, entre as altas ervas. Ainda respirava. \u201cEncontramos!\u201d &#8211; exclamou Isolda. Depois de as duas mulheres terem prestado ao desconhecido os primeiros socorros, este voltou a si, abriu os olhos e disse: \u201cSanto Deus! Nunca senti tal torpor! Quem sois? Onde estou?\u201d \u201cN\u00e3o temas nada &#8211; respondeu a rainha. &#8211; Este mal, se Deus quiser, n\u00e3o se agravar\u00e1.\u201d P\u00e9rinis e Brangia transportaram o ferido t\u00e3o secretamente para os aposentos das mulheres que ningu\u00e9m no pal\u00e1cio disso se apercebeu. A\u00ed, Isolda e a m\u00e3e tiraram-lhe a arma dura e encontraram no cal\u00e7\u00e3o a l\u00edngua do monstro. A rainha preparou rem\u00e9dios para neutralizar a a\u00e7\u00e3o do veneno: colocou no corpo do desconhecido um emplastro e deu-lhe para beber uma infus\u00e3o de ervas m\u00e1gicas que lhe proporcionou um grande al\u00edvio. N\u00e3o havia outro m\u00e9dico al\u00e9m da rainha, assistida pela jovem Isolda, que o tratava e servia.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>A BRECHA DA ESPADA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NO QUARTO da rainha, Trist\u00e3o \u00e9 bem tratado e cuidado. Recupera pouco a pouco a for\u00e7a e a sa\u00fade. A rainha pergunta-lhe: \u201cAmigo, quem \u00e9s? Donde vieste? Como mataste o drag\u00e3o?\u201d \u201cRainha, sou um vassalo da Flandres e percorro as terras estrangeiras \u00e0 procura de aventuras e fa\u00e7anhas. Quando cheguei a Weisefort, ouvi falar dos danos que o drag\u00e3o causava a todo o vosso povo e armei-me, firmemente decidido a defront\u00e1-lo e venc\u00ea-lo. S\u00f3 queria experimentar a minha for\u00e7a e a minha resist\u00eancia contra esse monstro. Ora, aconteceu, pela vontade de Deus, que o matei. Como trof\u00e9u da vit\u00f3ria, cortei-lhe a l\u00edngua e a escondi no meu cal\u00e7\u00e3o, a fim de poder apresent\u00e1-la ao rei Gormond. Quando desmaiei nas ervas do p\u00e2ntano, julguei ter chegado a minha hora; estava t\u00e3o profundamente desfalecido que n\u00e3o vi quem se aproximou de mim.\u201d<\/p>\n<p>A rainha disse-lhe: \u201cAmigo, sou a rainha da Irlanda. Fui ter contigo com a minha filha Isolda. Mandamos trazer-te para aqui em segredo e afastamos o veneno do teu corpo: eis-te curado!\u201d \u201cSenhora, que Deus me permita mostrar-vos o meu reconhecimento pela vossa ajuda; quero doravante servir-vos o melhor que possa.\u201d \u201cDir-te-emos, ent\u00e3o, amigo, que recompensa esperamos de ti: bravo como \u00e9s, podes ser-nos de grande socorro. O nosso senescal, Aguinguerran, o Ruivo, pretende ser o matador do monstro e quer que a minha filha Isolda lhe seja entregue em recompensa com metade deste reino, como o rei meu marido prometeu. Mas Isolda, minha filha, recusa-se a pertencer ao senescal, pois ele \u00e9 um louco inchado de desmesura, velhaco e perverso, sem f\u00e9, astuto e invejoso, odiado de todos, covarde e cheio de outros v\u00edcios vergonhosos. Isolda preferiria matar-se a entregar-se a ele. A cortesia da minha filha e a vilania desse homem s\u00e3o coisas que n\u00e3o se podem harmonizar. \u00c9 por isso que temos de provar perante o rei que o senescal n\u00e3o matou o drag\u00e3o. Tu, que mataste o monstro, se queres assumir contra esse homem a defesa da jovem e de todo o reino, adquirir\u00e1s grande fama nesta terra. Al\u00e9m disso, se o desejares, o rei dar-te-\u00e1 sem hesitar a filha e a terra que prometeu ao vencedor.\u201d \u201cDeus sabe que &#8211; respondeu Trist\u00e3o -, para vos servir, quero desmascarar o senescal e provar que n\u00e3o matou o drag\u00e3o, pois apresentarei perante a corte a l\u00edngua do monstro que cortei logo ap\u00f3s o ter morto. Se ele quiser sustentar a sua afirma\u00e7\u00e3o por meio de uma batalha, defenderei Isolda contra ele, que n\u00e3o a obter\u00e1, pois reclama-a sem raz\u00e3o, com mentiras, fanfarronice e presun\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A rainha afastou-se ent\u00e3o, mas a jovem Isolda n\u00e3o cessou de servir Trist\u00e3o o melhor que p\u00f4de e de o prover com todas as iguanas que aumentam o vigor do corpo. A sua for\u00e7a voltava sensivelmente e o rosto reencontrava de dia para dia a sua m\u00e1scula beleza. Um dia em que Trist\u00e3o estava sentado numa bacia de m\u00e1rmore antigo, onde tomava um banho de \u00e1gua salutar, a jovem Isolda assistia-o, a fim de curar por completo o corpo do valente. Observou longamente o seu rosto e o seu peito e pensou consigo mesma: \u201cSe este homem \u00e9 t\u00e3o valente como belo, saber\u00e1 sustentar um rude combate contra o senescal.\u201d Quando se inclinou por cima da banheira, Trist\u00e3o viu de perto os seus longos cabelos louros; admirou como tinham a mesma cor de ouro do cabelo levado a Marcos por uma andorinha. O seu olhar foi da cabeleira de Isolda ao cabelo que mandara tecer na t\u00fanica, pendurada perto. Na sua alegria, viu-se a sorrir \u00e0 id\u00e9ia de que havia sido bem- sucedido nesta busca, julgada por outros ilus\u00f3ria, a da donzela dos cabelos de ouro.<\/p>\n<p>A jovem apercebeu-se deste sorriso, admirou-se e, por timidez juvenil, sup\u00f4s que Trist\u00e3o divertia-se com a sua falta de jeito. \u201cPor que ter\u00e1 sorrido este nobre estrangeiro? Terei cometido por falta de educa\u00e7\u00e3o alguma coisa inconveniente? Negligenciei algum dos servi\u00e7os que uma jovem de alta posi\u00e7\u00e3o social deve prestar ao seu h\u00f3spede? Talvez devesse ter o cuidado de lavar a l\u00e2mina da espada, ainda enegrecida pelo sangue impuro do drag\u00e3o?\u201d Tira a dura l\u00e2mina da bainha para a lavar e enxugar, mas apercebe-se de que esta apresenta unia longa brecha; os contornos da fenda trazem-lhe imediatamente \u00e0 mem\u00f3ria os do fragmento de a\u00e7o que a m\u00e3e outrora extra\u00edra do cr\u00e2nio do Morholt. Hesita um instante, observa uma vez mais a rotura da espada, quer libertar-se da d\u00favida. Vai direita ao escr\u00ednio onde est\u00e1 guardado o fragmento de a\u00e7o, retira-o e ajusta-o a tremer \u00e0 brecha do metal: o ajustamento \u00e9 t\u00e3o perfeito que mal se nota o vest\u00edgio da rotura. Precipita-se ent\u00e3o sobre Trist\u00e3o, tr\u00eamula de c\u00f3lera, e, fazendo girar a grande espada sobre a cabe\u00e7a do ferido, grita: \u201cMiser\u00e1vel, \u00e9s Trist\u00e3o de Le\u00f4nis, o assassino do Morholt, o meu querido tio, e foi com esta espada que lhe fendeste o cr\u00e2nio! Soubeste esconder-te durante longo tempo, mas de hoje em diante ningu\u00e9m mais acreditar\u00e1 nas tuas mentiras! Morre, pois, por tua vez com esta mesma espada, a fim de ser vingado o assass\u00ednio do meu tio!\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o quis fazer um gesto para parar o seu bra\u00e7o. Em v\u00e3o: o corpo ainda estava entorpecido e s\u00f3 o esp\u00edrito continuava \u00e1gil. Falou, pois, habilmente: \u201cEspera! Deixa-me dizer-te unicamente algumas palavras! Se est\u00e1s resolvida a matar-me sem defesa neste banho, seja, morrerei. Mas para te poupar no futuro longos arrependimentos, ouve-me um momento, filha de rei! Fica sabendo que n\u00e3o s\u00f3 tens o direito, mas tamb\u00e9m o dever de me matar: sim, tens direito sobre a minha vida, uma vez que ma conservaste e devolveste duas vezes. A primeira vez, quando fingi ser uni jogral chamado T\u00e3otris, com a tua m\u00e3e, curaste a minha ferida. N\u00e3o lamentes ter sarado esse ferimento: n\u00e3o o recebera eu de teu tio, o Morholt, em leal combate? N\u00e3o matei o Morholt \u00e0 trai\u00e7\u00e3o: lan\u00e7ara-me o seu desafio, como a todos os homens da Cornualha. N\u00e3o era meu dever defender o meu povo e o meu corpo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cPela segunda vez, acabas de me salvar levantando-me, inanimado, das canas do p\u00e2ntano, depois do meu combate com o drag\u00e3o. J\u00e1 que, por duas vezes, me salvaste da morte, podes reaver essa vida que me conservaste. Mata-me, pois, se julgas com isso ganhar louvor e gl\u00f3ria. N\u00e3o esque\u00e7as no entanto que aceitei ser o teu campe\u00e3o; comprometi-me a travar batalha para defender a tua honra contra Aguinguerra, o Ruivo. Quando estiveres deitada entre os bra\u00e7os do valente senescal, ser-te-\u00e1 agrad\u00e1vel pensar no teu h\u00f3spede ferido que arriscou a vida para conquistar-te e que tu mataste no banho, sem que tenha podido fazer um gesto para defender-se!\u201d<\/p>\n<p>Ao ouvir estas palavras, a jovem ficou um instante interdita, depois o bra\u00e7o deixou cair lentamente a espada que havia brandido. \u201cOu\u00e7o palavras enganadoras &#8211; disse. &#8211; N\u00e3o te surpreendi fitando-me a sorrir? Por certo que podias tro\u00e7ar de mim ao veres a sobrinha bem-amada do Morholt ocupada a cuidar do teu banho como uma criada!\u201d \u201cN\u00e3o, de modo nenhum era essa a causa do meu sorriso: o que o fazia nascer nos meus l\u00e1bios era a vista dos teus cabelos louros, como mulher alguma jamais teve. Comparava-os com o cabelo de ouro que uma andorinha levou de al\u00e9m mar a meu tio, o rei Marcos da Cornualha. E ele achou t\u00e3o belo esse cabelo de ouro que jurou perante os bar\u00f5es que nenhuma mulher, a n\u00e3o ser aquela a quem pertence este cabelo, seria sua esposa. Parti pelo mar aventuroso em busca dessa mulher e eis que te encontrei; por isso sorri. V\u00ea esse cabelo cosido entre os fios de ouro da minha t\u00fanica; a cor dos fios de ouro foi-se, o ouro do cabelo n\u00e3o descorou.\u201d Isolda tomou nas m\u00e3os a t\u00fanica de Trist\u00e3o, viu o cabelo de ouro e procurou inutilmente dissimular a emo\u00e7\u00e3o. Depois, a perturba\u00e7\u00e3o deu lugar \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o: \u201cEnt\u00e3o conquistaste- me matando o drag\u00e3o, mas, em vez de casares comigo, como \u00e9 teu direito, queres entregar-me ao teu senhor, o rei Marcos! Receberei a sorte de uma cativa que um chefe de guerra obt\u00e9m quando da partilha do saque? Ah, sem d\u00favida, como o Morholt queria outrora trazer na sua nau a flor dos rapazes e das donzelas da Cornualha para servirem a bel-prazer senhores irlandeses, assim, por tua vez, em repres\u00e1lia, gabaste-te de levar na tua nau como uma escrava aquela que o Morholt mais amava entre as donzelas!\u201d<\/p>\n<p>Isolda, deixando Trist\u00e3o no banho, saiu e encaminhou-se para outro quarto, onde estavam sua m\u00e3e e a criada Brangia, que fora, desde a sua mais tenra inf\u00e2ncia, a companheira dos seus jogos e a confidente dos seus pensamentos. Vendo a profunda inquieta\u00e7\u00e3o de Isolda, as duas mulheres perguntaram-lhe a causa. Ela contou-lhes como havia reconhecido no matador do drag\u00e3o Trist\u00e3o de Le\u00f4nis, o assassino do Morholt, gra\u00e7as \u00e0 brecha da espada: \u201cT\u00ea-lo-ia morto no banho com essa mesma espada se ele n\u00e3o tivesse parado o meu bra\u00e7o com palavras cheias de ast\u00facia e de manha.\u201d Com esta not\u00edcia, a pr\u00f3pria rainha ficou numa agita\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel, censurou Isolda por ter tido piedade do assassino do tio e garantiu que ela pr\u00f3pria iria fazer pronta e r\u00e1pida justi\u00e7a. Mas Brangia, a s\u00e1bia, a avisada, juntou-se a Isolda para acalmar a c\u00f3lera da rainha: \u201cSenhora &#8211; dizia -, uma \u00fanica coisa importa neste momento: que vossa filha n\u00e3o seja de modo algum entregue ao covarde senescal para vergonha e infelicidade de toda a sua vida. Trist\u00e3o de Le\u00f4nis, visto que \u00e9 ele o vencedor do drag\u00e3o, deu-vos a sua palavra de que libertaria Isolda das pretens\u00f5es do senescal. N\u00e3o ser\u00e1 essa a \u00fanica coisa que conta para v\u00f3s, presentemente? Vamos primeiro ao mais urgente, e, quando Aguinguerran, o Ruivo tiver sido humilhado e rejeitado, procuraremos um meio qualquer para impedir que Isolda seja dada contra a sua vontade ao rei Marcos da Cornualha.\u201d A rainha da Irlanda reconheceu, como a filha, a sabedoria do conselho de Brangia. As tr\u00eas estavam juntas no quarto da rainha, onde Trist\u00e3o, sa\u00eddo do banho, repousava num leito. Isolda, sem dizer uma palavra, aproximou-se dele e, diante da rainha e de Brangia, em sinal de acordo, beijou-o na boca.<\/p>\n<p>Pouco depois, a rainha e a filha foram ter com o rei e anunciaram-lhe que haviam finalmente descoberto o verdadeiro matador do monstro. Isolda dirigiu-se ao pai nestes termos: \u201cIre, recolhemos no quarto da rainha um homem pronto a provar que libertou a vossa terra do flagelo e que a vossa filha n\u00e3o deve ser abandonada a um covarde e, al\u00e9m do mais, a um mentiroso. Contudo, sire, concedei-nos um dom.\u201d \u201cDe boa vontade &#8211; disse o rei -, uma vez que a minha mulher e a minha filha se unem para mo pedir!\u201d \u201cPrometei-me que perdoareis ao matador do monstro os seus erros antigos, por maiores que sejam, e que lhe concedereis a vossa paz.\u201d O rei n\u00e3o se apressou a responder, pois tinha por costume refletir longamente antes de se decidir, mas acabou por dizer: \u201cJ\u00e1 que assim o quereis, outorgo-vos esse dom.\u201d Isolda ajoelhou-se a seus p\u00e9s e pediu: \u201cPai, dai-me o beijo da paz e do perd\u00e3o, em sinal de que o dareis igualmente a esse homem!\u201d E o rei fez o que a filha pedia. Ficou combinado que a corte do rei se reuniria no dia seguinte de manh\u00e3 para escutar as afirma\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias do senescal e do matador do monstro. Entretanto, desde que Trist\u00e3o havia furtivamente abandonado o navio para combater o drag\u00e3o, Gorvenal e os cem companheiros, privados de qualquer not\u00edcia do seu senhor, desolavam-se por terem-no perdido e procuravam em v\u00e3o saber onde estava. Trist\u00e3o enviou-lhes secretamente P\u00e9rinis, o lacaio de Isolda: devia avisar Gorvenal e os outros cornualhenses para se dirigirem \u00e0 assembl\u00e9ia dos bar\u00f5es da Irlanda, todos juntos, no dia seguinte, paramentados e armados como convinha aos mensageiros de um rei rico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>ISOLDA CONQUISTADA PARA O REI MARCOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NO DIA seguinte, quando da assembl\u00e9ia, grande foi a surpresa dos irlandeses com o aspecto daqueles senhores, desconhecidos de todos, magn\u00edficos e silenciosos. Um a um entraram, sentaram-se na mesma fila, vestidos de cendal e p\u00farpura. Os irlandeses diziam entre si: \u201cQuem s\u00e3o estes homens que nunca vimos? Donde v\u00eam estes estrangeiros?\u201d Mas os cem homens de armas calavam-se e n\u00e3o se mexiam dos lugares. Isolda e a m\u00e3e entraram por sua vez, levando pela m\u00e3o o seu protegido. Ao verem-no, todos os senhores cornualhenses levantaram-se para saudar e prestar honras ao seu chefe. Logo de in\u00edcio, Isolda fez seu pai renovar o juramento de perdoar ao desconhecido, se este triunfasse sobre o senescal, todos os seus delitos antigos, quaisquer que fossem. Depois, sem outro pre\u00e2mbulo, revelou que o seu campe\u00e3o era Trist\u00e3o de Le\u00e2nis, o assassino do Morholt. A despeito dos clamores hostis que provocou a nova, o rei considerou-se como que ligado pela sua promessa e concedeu a Trist\u00e3o, por amor de sua filha, a remiss\u00e3o do assass\u00ednio do Morholt; a pr\u00f3pria rainha associou-se a este perd\u00e3o. Isolda exclamou: \u201cRei, beija este homem na boca, como me prometeste.\u201d O rei beijou-o na boca e os rumores acalmaram-se.<\/p>\n<p>O senescal foi ent\u00e3o introduzido; apresentou ao rei a cabe\u00e7a do drag\u00e3o e ofereceu-se para provar em batalha o fundamento da sua pretens\u00e3o \u00e0 recompensa prometida. Ent\u00e3o Trist\u00e3o ergueu-se contra ele e disse em voz alta: \u201cOlha, traidor, esta l\u00edngua: quando matei o drag\u00e3o, cortei-a \u00e0 cabe\u00e7a que exibes!\u201d Em seguida, voltou- se para os bar\u00f5es reunidos: \u201cSenhores, se n\u00e3o me acreditais, pegai nessa cabe\u00e7a e espreitai-lhe a garganta; a l\u00edngua j\u00e1 a\u00ed se n\u00e3o encontra. Depois disto, se este homem n\u00e3o quiser confessar que mente, que pegue nas armas e se prepare para combater contra mim! Fornecer-lhe-ei a prova da sua mentira.\u201d O rei mandou que lhe trouxessem a cabe\u00e7a do monstro, e todos viram que a l\u00edngua lhe havia sido arrancada. Ao ver isto, o senescal perturbou-se; perdeu o sangue frio e cobriu-se de embara\u00e7o enquanto o apupavam em toda a sala. De cabe\u00e7a baixa, confessou a sua perf\u00eddia; nesse mesmo instante, o rei retirou-lhe o cargo e expulsou-o para sempre da corte.<\/p>\n<p>Quando se fez de novo sil\u00eancio, Trist\u00e3o tomou a palavra diante de todos: \u201cSenhores irlandeses, \u00e9 verdade que matei o Morholt em combate leal: ele ter-me-ia podido matar, mas a sorte das armas foi-me favor\u00e1vel. N\u00e3o tenho, pois, raz\u00e3o para me desculpar perante v\u00f3s. Mas atravessei o mar para vos oferecer uma bela compensa\u00e7\u00e3o: pus o meu corpo em perigo de morte e libertei-vos do monstro que devastava as vossas terras e cidades. Eis que conquistei Isolda, a bela, e que a vou receber como recompensa das m\u00e3os do rei seu pai. Tendo-a conquistado, lev\u00e1-la-ei na minha nau. Mas ficai sabendo, senhores irlandeses, que n\u00e3o serei eu quem a desposar\u00e1 e que a filha do rei Gormond nunca ser\u00e1 a mulher daquele que venceu e matou o seu tio, o Morholt. De modo algum porque fa\u00e7a pouco caso de uma t\u00e3o grande honra, a de me tornar o genro do rei Gormond! Se n\u00e3o aceito Isolda, a loura, como mulher, o que poderia fazer como vencedor do drag\u00e3o, \u00e9 porque reconheci nela a bela dos cabelos de ouro, de quem uma andorinha levou um cabelo at\u00e9 ao castelo do rei Marcos, em Tintagel, e que o meu senhor decidiu desposar. Tomei o caminho do mar unicamente para procurar a bela dos cabelos de ouro e jurei, se a encontrasse, lev\u00e1-la ao rei Marcos, que n\u00e3o quer outra mulher. Tenho, pois, de cumprir o meu juramento, senhores irlandeses, e n\u00e3o faltarei de modo nenhum. A fim de pelas terras da Irlanda e da Cornualha se espalhar j\u00e1 n\u00e3o o \u00f3dio, mas a amizade, Isolda reinar\u00e1 sobre as mais ricas terras de Inglaterra com o rei seu marido; n\u00e3o existe no mundo melhor pa\u00eds nem homem mais cort\u00eas. Vedes aqui cem vassalos de alta linhagem prontos a jurar sobre as rel\u00edquias dos santos que a mensagem do rei Marcos \u00e9 de paz e amizade, que o seu desejo \u00e9 honrar Isolda como sua mulher e que todos os homens da Cornualha servi-la-\u00e3o como a sua senhora e rainha.\u201d<\/p>\n<p>Trouxeram com grande alegria as rel\u00edquias dos santos em relic\u00e1rios de ourivesaria. Os cem homens da Cornualha juraram, a m\u00e3o erguida sobre os santos corpos, que o rei Marcos desposaria Isolda, a loura, em legitimo casamento e que eles ficavam todos por fiadores em seu nome. O rei Gormond pegou na filha pela m\u00e3o e perguntou a Trist\u00e3o se este a conduziria lealmente at\u00e9 ao rei Marcos. Perante os seus cem guerreiros e perante os bar\u00f5es da Irlanda, Trist\u00e3o jurou-o.<\/p>\n<p>Ora, tal \u00e9 o humor inconstante das mulheres: a jovem Isolda, cujos olhos irradiavam a mais viva alegria quando o senescal deixava a sala sob as inj\u00farias dos assistentes, mostrava agora um rosto entristecido e de tra\u00e7os endurecidos pela c\u00f3lera. O seu cora\u00e7\u00e3o fremia de vergonha e de ang\u00fastia, pois que Trist\u00e3o mal a havia libertado do senescal covarde logo menosprezava casar-se com ela para lev\u00e1-la na sua nau, a fim de entreg\u00e1-la a um velho rei do qual nada sabia. Por certo que o belo conto do cabelo de ouro n\u00e3o passava de uma mentira inventada a contento para justificar o seu desprezo. Mas o rei Gormond, sem se deixar afastar do seu des\u00edgnio pelo furor da filha, pousou solenemente a m\u00e3o direita da mo\u00e7a na m\u00e3o direita de Trist\u00e3o, e este a segurou em sinal de que se assenhoreava dela em nome do rei Marcos: \u201cVelarei sem cessar por ela, at\u00e9 ao dia em que a tiver entregue, como fiel deposit\u00e1rio, ao seu real marido.\u201d Desde ent\u00e3o, Isolda passou a ser considerada por todos como a mulher do rei Marcos e come\u00e7ou a usar o v\u00e9u, que era o sinal das mulheres casadas.<\/p>\n<p>Durante a semana seguinte, a rainha da Irlanda, ajudada pela fiel Brangia, preparou o enxoval da filha em vista \u00e0 grande viagem nupcial que a deveria separar dela para sempre. Decidiu que a jovem Isolda seria acompanhada por Brangia e por P\u00e9rinis, o lacaio afei\u00e7oado \u00e0 sua pessoa. Isolda n\u00e3o participava nos preparativos da viagem e da longa travessia: triste e silenciosa, recusava qualquer conversa com Trist\u00e3o, por quem se julgava ofendida e desprezada. Vendo o humor sombrio da filha, a rainha temia que ela fosse infeliz no castelo de Tintagel com um marido que s\u00f3 aceitara constrangida e for\u00e7ada pela vontade do pai. Veio- lhe ent\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia recorrer \u00e0 magia para assegurar a uni\u00e3o dos dois futuros esposos. Preparou uma po\u00e7\u00e3o poderosa com ervas e flores que ela pr\u00f3pria colheu na floresta e nas montanhas, a certas horas prop\u00edcias do dia e da noite; misturando-as com vinho, obteve unia tintura ervosa, que era um filtro de amor capaz de fazer nascer a paix\u00e3o no homem e na mulher que o bebessem. Mas empregou tais ritos e tais f\u00f3rmulas secretas que conferiu a esse vinho ervoso um poder inaudito: aquele e aquela que partilhassem essa po\u00e7\u00e3o deveriam amar-se com todas as suas for\u00e7as durante um per\u00edodo de tr\u00eas anos, a tal ponto que n\u00e3o poderiam suportar estar afastados um do outro mais de um dia sem sofrer gravemente e mais de uma semana sem se arriscarem a morrer. Depois, entregou a Brangia o frasco, cuidadosamente selado com cera, que continha o filtro do amor: \u201cQuero que acompanhes a minha filha Isolda \u00e0 Cornualha, tu, a quem eduquei com ela e que a serviste fielmente durante toda a sua inf\u00e2ncia: ficar\u00e1s junto dela no castelo do rei Marcos, em Tintagel, e continuar\u00e1s a servi-la enquanto viver. E como prova da minha estima por ti, Brangia, vou confiar-te um segredo e unia miss\u00e3o: toma este frasco de vinho ervoso e conserva-o escondido num cofre sem conhecimento de Isolda&#8230; \u00c9 uma po\u00e7\u00e3o de amor que eu pr\u00f3pria compus para a felicidade de minha filha e do seu futuro marido: pega nele e n\u00e3o fales disso a ningu\u00e9m. Na noite de n\u00fapcias, quando os dois esposos tiverem entrado no leito nupcial, iras ao quarto e apresentar\u00e1s a cada um uma ta\u00e7a deste vinho ervoso para que o bebam ao mesmo tempo e de uni s\u00f3 trago. E vela bem para que ningu\u00e9m beba deste filtro, pois grandes males da\u00ed poderiam advir!\u201d Brangia respondeu: \u201cSenhora, ser\u00e1 feito como ordenais.\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o pedira ao rei Gormond uma nau irlandesa para escoltar a sua at\u00e9 Tintagel: foi nessa nau que Isolda tomou lugar com as suas servas, e uma vasta tenda foi erguida para elas na ponte do navio. Entre os homens, s\u00f3 Trist\u00e3o a\u00ed tinha acesso. Quando a nau ficou pronta, todos se dirigiram para o porto, o rei e a rainha acompanharam a filha at\u00e9 l\u00e1 e, quando o vento se levantou os dois navios singraram juntos para o alto mar. Na margem, muitos homens e mulheres, nascidos no mesmo pa\u00eds de Isolda, choravam ao v\u00ea-la afastar-se, pois amavam-na pela sua gra\u00e7a e beleza.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>CUMPRE-SE O SORTILEGIO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00c1 AS NAUS, fendendo as vagas espumosas, singravam o alto mar. Isolda, sentada longe no pavilh\u00e3o das mulheres, via a costa da Irlanda apagar-se na bruma. Suspiros enchiam o seu peito e as l\u00e1grimas deslizavam-lhe pelo rosto. Lamentava-se por deixar o pa\u00eds natal, os parentes e amigos, para vogar com homens desconhecidos, sem saber qual o destino. Trist\u00e3o consolava-a, t\u00e3o docemente quanto podia, cada vez que a encontrava a moer a sua dor. Fazia-o com o respeito que o vassalo deve \u00e0 sua senhora, pois, por mais impressionado que estivesse com a sua beleza, n\u00e3o tinha outro querer, o fiel, que de lhe ser um reconforto na dor. Isolda respondia-lhe com despeito: \u201cDeixai-me! Afastai-vos! Que importuno sois!\u201d \u201cPor que vos sou importuno?\u201d \u201cPorque vos odeio.\u201d \u201cBela, por qual delito?\u201d \u201cPorque, sem v\u00f3s, estaria ainda livre de cuidados e dores. Fostes v\u00f3s que, com ast\u00facia e engano, me pusestes nesta afli\u00e7\u00e3o. Que funesto destino vos enviou, para minha infelicidade, da Cornualha \u00e0 Irlanda? Para onde me levais? N\u00e3o sei.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSossegai, bela Isolda, pois vivereis em grande alegria, rainha poderosa numa terra rica! Em breve vos darei por senhor um rei em quem encontrareis cada dia alegria e saber viver, bem, virtude, honra.\u201d \u201cN\u00e3o sei, em verdade, por que me fazeis todos esses elogios ao rei Marcos, vosso tio. Pouco me importa que sejam ver\u00eddicos ou inventados a contento. Uma \u00fanica coisa conta a meus olhos: o desprezo que mostrais por mim.\u201d \u201cQual desprezo?\u201d &#8211; interrogou Trist\u00e3o. \u201cPor que me perguntais o que sabeis perfeitamente? O meu pai estava pronto a dar-me a v\u00f3s em recompensa, desprezaste-me e, tornando como pretexto a f\u00e1bula do cabelo de ouro, pedistes a minha m\u00e3o n\u00e3o para v\u00f3s, mas para o vosso tio.\u201d Trist\u00e3o n\u00e3o soube o que responder, pois parecia-lhe sup\u00e9rfluo e irritante repetir novamente com min\u00facia a hist\u00f3ria das andorinhas, do cabelo de ouro e do juramento solene feito a Marcos.<\/p>\n<p>Entretanto as duas naus corriam pelo mar; at\u00e9 ent\u00e3o o vento fora favor\u00e1vel e a travessia boa. Todavia Isolda e as mulheres do seu s\u00e9quito n\u00e3o estavam habituadas \u00e0s fadigas dos ventos e das vagas e em breve sentiram um mal-estar nunca experimentado. Na v\u00e9spera de S\u00e3o Jo\u00e3o, os ventos ca\u00edram; num c\u00e9u sem nuvens, o sol, com todo o seu brilho, fazia cintilar as vagas. Um pesado calor oprimia os homens: Trist\u00e3o mandou aportar numa ilha e, cansados do mar, os homens e as mulheres desceram a terra para se recrearem nas sombras. Isolda preferiu ficar no pavilh\u00e3o, unicamente em companhia de Brangia: mais ningu\u00e9m ficou no navio irland\u00eas. Foi ent\u00e3o que a ardilosa criada, vendo a rainha fechar- se selvaticamente na sua tristeza e despeito, esfor\u00e7ou-se em acalm\u00e1-la com palavras astuciosas: \u201cPor que consumir as horas e os dias num sombrio desgosto? Por que temer e maldizer antecipadamente a vossa uni\u00e3o com o rei Marcos? Nada podeis fazer, uma vez que vosso pai soberanamente o decidiu: conv\u00e9m-vos agora tirar o melhor partido dessa necessidade e conformai-vos.\u201d Isolda pareceu irritada com estas palavras e replicou, n\u00e3o sem vivacidade: \u201cDe que serve pregares-me tolamente resigna\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o tens nenhum meio para acalmar a minha inquieta\u00e7\u00e3o? Cessa de me afligires com v\u00e3s palavras!\u201d \u201cSeja &#8211; continuou Brangia &#8211; renuncio a aconselhar-vos, mas deixai-me desvendar-vos um segredo que dever\u00e1 trazer a calma \u00e0 vossa alma. A rainha vossa m\u00e3e fez-me prometer que n\u00e3o o revelaria a ningu\u00e9m, nem mesmo a v\u00f3s, mas o estado de desola\u00e7\u00e3o em que vos vejo for\u00e7a-me a dele vos dar parte. N\u00e3o acho outro meio de suavizar o vosso sofrimento. A rainha, antes da nossa partida, confiou aos meus cuidados uma bebida ervosa que preparou com toda a sua ci\u00eancia da magia: \u00e9 um filtro de amor que servirei ao rei Marcos e a v\u00f3s ap\u00f3s terdes entrado no leito nupcial. Beb\u00ea-lo-eis os dois ao mesmo tempo e, mal o tiverdes feito, amar-vos-eis com todas as for\u00e7as e com toda a alma, num amor imperioso e sem falha. Durante tr\u00eas anos, nem sequer vos podereis separar mais de um dia sem sofrer, nem mais de uma semana sem risco de morrerdes. Tal \u00e9 a for\u00e7a inaudita desse sortil\u00e9gio que o desgosto de amor ser\u00e1 por ele banido do vosso cora\u00e7\u00e3o e vivereis doravante, no reino da Cornualha, feliz e cumulada de todos os bens. Renunciai pois a torturar-vos, j\u00e1 que a vossa felicidade est\u00e1 assegurada antecipadamente pela for\u00e7a do vinho ervoso.\u201d Esta brusca revela\u00e7\u00e3o mergulhou Isolda em tal estupor que ficou muito tempo sem falar, absorta nos seus pensamentos, mas redarg\u00fciu finalmente, com a mesma vivacidade de tom: \u201cIludes-te muito se pensas que vou beber esse vinho ervoso cuja exist\u00eancia acabas de me dar a conhecer e partilh\u00e1-lo com o rei Marcos na noite de n\u00fapcias. Podes apresentar-no-lo, como a minha m\u00e3e te ordenou; pela minha parte, n\u00e3o lhe prometi nada nem ela me pediu alguma coisa. N\u00e3o sou, portanto, obrigada a beber esse licor m\u00e1gico e n\u00e3o o beberei. Se o partilhasse com o rei Marcos, far-me-ia c\u00famplice das manobras tortuosas de Trist\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o farei o seu jogo, n\u00e3o me curvarei \u00e0s suas vontades! O Rei Marcos beber\u00e1 esse vinho ervoso sem desconfian\u00e7a alguma quando lho ofereceres, mas eu previno-te: embora aproxime a ta\u00e7a da boca, n\u00e3o beberei nem uma gota. O sortil\u00e9gio n\u00e3o ter\u00e1 efeito algum sobre mim.\u201d Brangia replicou: \u201cDizei-me, Isolda: se Trist\u00e3o vos tivesse pedido para si a vosso pai e se vos tivesse obtido, ter\u00edeis aceitado beber o filtro do amor que vossa m\u00e3e me teria sem d\u00favida igualmente confiado para a noite de n\u00fapcias? \u00c9 uma coisa que desejo saber: n\u00e3o mo escondais!\u201d Isolda vacilou um longo momento, depois disse: \u201cN\u00e3o te posso responder nem sim nem n\u00e3o. Cansas-me com as tuas perguntas. Deixa-me em paz!\u201d A criada afastou-se ent\u00e3o, mas ficou a saber que a aparente avers\u00e3o de Isolda por Trist\u00e3o procedia, sem que ela disso tivesse consci\u00eancia, de um desejo amoroso inconfessado e desenganado.<\/p>\n<p>Pouco depois, vendo que Isolda ficara no navio e se recusava a tomar parte nos divertimentos na ilha, Trist\u00e3o dirigiu-se ao pavilh\u00e3o para saud\u00e1-la e visit\u00e1-la. Quando, sentados lado a lado, trocavam algumas palavras, ambos sentiram sede e disseram-no um ao outro. Isolda chamou Brangia e ordenou-lhe que trouxesse vinho. Esta apressou-se a alcan\u00e7ar o \u00e2ngulo do pavilh\u00e3o onde os marinheiros irlandeses haviam colocado as arcas de Isolda e do seu s\u00e9quito. De uma delas retirou o precioso frasco, reconhec\u00edvel entre todos, onde a rainha da Irlanda deitara o vinho ervoso. Nesse instante, o rosto da jovem iluminou-se num sorriso furtivo: tinha entre as m\u00e3os o meio mais seguro de fazer nascer o amor em Trist\u00e3o e de lig\u00e1-lo para sempre a Isolda. Brangia colocou o frasco com uma ta\u00e7a de prata cinzelada numa mesa \u00e0 qual Isolda se encostara e disse-lhe com um ar risonho: \u201cRainha Isolda, tomai esta bebida que foi preparada na Irlanda para o rei Marcos.\u201d Isolda n\u00e3o respondeu nem interferiu com a criada. Quanto a Trist\u00e3o, esse julgou tratar-se de um vinho de elei\u00e7\u00e3o oferecido ao rei Marcos. Como homem cort\u00eas e bem-educado, deitou a po\u00e7\u00e3o na ta\u00e7a e estendeu-a a Isolda, que bebeu at\u00e9 se fartar. Quando ela pousou a ta\u00e7a ainda meio cheia, Trist\u00e3o pegou nela e esvaziou-a at\u00e9 a \u00faltima gota.<\/p>\n<p>Mal os dois jovens beberam desse vinho, o amor, tormento do mundo, penetrou nos seus cora\u00e7\u00f5es. Antes de se terem apercebido disso, curvou-os a ambos ao seu jugo. O rancor de Isolda dissipou- se e nunca mais foram inimigos. J\u00e1 se sentiam ligados uni ao outro pela for\u00e7a do desejo e, no entanto, ainda o escondiam um do outro. Por mais violenta que fosse a atra\u00e7\u00e3o que os empurrava para o mesmo querer, ambos tremiam igualmente no temor da primeira confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Trist\u00e3o sentiu o amor apossar-se do seu cora\u00e7\u00e3o, recordou- se imediatamente do juramento feito ao rei Marcos, seu tio e seu suserano, e quis recuar: \u201cN\u00e3o &#8211; dizia consigo mesmo sem cessar -, deixa isso, Trist\u00e3o, volta a ti, n\u00e3o acolhas em ti um des\u00edgnio t\u00e3o desleal.\u201d Tamb\u00e9m ponderava: \u201cAudret, Denoalen, Guenelon e Gondo\u00efne, traidores que me acus\u00e1veis de cobi\u00e7ar a terra do rei Marcos, ah!, ainda sou mais vil e n\u00e3o \u00e9 a sua terra que cobi\u00e7o. Bom tio, que me recolhestes \u00f3rf\u00e3o antes mesmo de reconhecer o sangue de vossa irm\u00e3, v\u00f3s que me chor\u00e1veis enquanto Gorvenal me levava para o barco sem remos nem vela, por que n\u00e3o expulsastes, logo no primeiro dia, a crian\u00e7a errante vinda para vos trair?\u201d Mas o cora\u00e7\u00e3o trazia-o sem descanso ao mesmo pensamento de amor. Por vezes, juntava a coragem como faz um prisioneiro procurando evadir-se, e repetia consigo mesmo: \u201cMuda o teu desejo, ama e pensa noutra!\u201d Mas o la\u00e7o cada vez se apertava mais. Quanto a Isolda, todo o seu pensamento n\u00e3o era mais que o amor de Trist\u00e3o. At\u00e9 ao anoitecer, durante longas horas, procuraram-se \u00e0s apalpadelas como cegos, infelizes quando se mantinham silenciosos e enlanguesciam separados, mais infelizes ainda quando, reunidos, recuavam ante a embriaguez do primeiro beijo.<\/p>\n<p>Isolda falou em primeiro lugar e de maneira bem feminina &#8211; foi por meio de longos desvios que se aproximou pouco a pouco do seu amado: \u201cAh!, quando se apresentou a ocasi\u00e3o t\u00e3o prop\u00edcia de vos ferir no banho, quando deixei cair a espada j\u00e1 brandida, meu Deus!, que fiz eu? Se tivesse sabido ent\u00e3o o que sei hoje, palavra de honra que vos teria morto!\u201d \u201cPor que, bela Isolda\u201d Que vos atormenta?\u201d \u201cTudo o que sei me atormenta; tudo o que vejo me faz mal; o c\u00e9u e o mar atormentam-me e o meu corpo e a minha vida.\u201d Inclinou-se e apoiou o bra\u00e7o nele &#8211; foi esta a sua primeira ousadia. Os seus olhos claros como espelhos embaciaram- se com l\u00e1grimas furtivas, o seu peito encheu-se, os seus doces l\u00e1bios fremiram, inclinou a cabe\u00e7a. Ele disse-lhe em voz baixa: \u201cIsolda, s\u00f3 v\u00f3s e o amor me perturbaram e me fizeram perder o senso. Deixei a estrada e eis-me de tal modo perdido que jamais a voltarei a encontrar. Tudo o que os meus olhos v\u00eaem parece-me sem pre\u00e7o. Em todo o mundo, nada \u00e9 querido ao meu cora\u00e7\u00e3o excetuando v\u00f3s.\u201d Isolda respondeu: \u201cSenhor, tal sois v\u00f3s para mim.\u201d Nos seus belos corpos vibravam a juventude e a vida. Quando fogos de alegria se acendiam na ilha e os marinheiros dan\u00e7avam cantando \u00e0 volta das chamas avermelhadas, os dois enfeiti\u00e7ados, renunciando a lutar contra o desejo, abandonaram-se ao amor.<\/p>\n<p>Brangia, ap\u00f3s ter servido o vinho a Isolda, tinha-se juntado \u00e0s outras aias da rainha na ilha, mas o seu pensamento estava longe. Quando voltou para a nau irlandesa, viu num banco, \u00e0 claridade das estrelas, o frasco de vinho que Isolda a\u00ed deixara. Pegando ent\u00e3o no frasco, vazio at\u00e9 mais de metade, correu a escond\u00ea-lo de novo na arca de onde o tirara. Foi ent\u00e3o que distinguiu, na penumbra, Isolda estendida num leito nos bra\u00e7os de Trist\u00e3o. Fingiu ent\u00e3o a mais profunda surpresa e soltou um grande grito, como se n\u00e3o tivesse previsto nem desejado o que estava a acontecer. Para melhor iludir Trist\u00e3o, lamentou-se em voz t\u00e3o alta e dolente que o mais insens\u00edvel teria ficado impressionado: \u201cInfelizes, parai e voltai atr\u00e1s, se ainda o podeis! Mas n\u00e3o, vejo-o bem, por meu fatal equ\u00edvoco, a for\u00e7a do amor arrasta-vos! \u00c9 o vinho ervoso que vos possui, a po\u00e7\u00e3o que a rainha da Irlanda me confiara quando da nossa partida. S\u00f3 o rei Marcos e Isolda deveriam beb\u00ea-lo na noite de n\u00fapcias. O Diabo serviu-se de mim e foi a v\u00f3s que deitei esse filtro m\u00e1gico quando me pedistes com que matar a sede. Por minha culpa, bebestes, um e outro, do c\u00e1lice de prata, a embriaguez e os tormentos do amor.\u201d Mas os amantes, completamente absorvidos pelas car\u00edcias m\u00fatuas, n\u00e3o lhe respondiam.<\/p>\n<p>Entrementes, Gorvenal, que tomara parte nos regozijos dos marinheiros, voltara para o navio irland\u00eas, onde sabia que Trist\u00e3o fazia companhia a Isolda. Estava diante do pavilh\u00e3o das mulheres no momento em que Brangia confessava aos amantes o seu pretenso equ\u00edvoco. Assim, o fiel escudeiro de Trist\u00e3o foi o \u00fanico, juntamente com Brangia, a conhecer desde essa noite o segredo da bebida ervosa e o amor que esta fizera nascer entre Trist\u00e3o e a filha do rei da Irlanda. Ningu\u00e9m entre os marinheiros dos dois navios soube disso e nenhuma das mulheres irlandesas que acompanhavam Isolda teve a menor suspeita.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>A NOITE DE N\u00daPCIAS DO REI MARCOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No DIA seguinte ao S\u00e3o Jo\u00e3o, os dois navios fizeram-se \u00e0 vela e vogaram novamente para a Cornualha. Os amantes n\u00e3o tinham nenhuma dificuldade em se encontrarem de dia ou de noite, mas \u00e0 sua alegria misturava-se a inquieta\u00e7\u00e3o, pois temiam que o seu segredo fosse surpreendido. Se o rei Marcos viesse a descobrir a sua falta, n\u00e3o deixaria de infligir-lhes um castigo inexor\u00e1vel. \u201cQuando o rei se aperceber de que j\u00e1 n\u00e3o sou virgem &#8211; dizia Isolda -, sofrerei a pena que as leis dos nossos povos reservam \u00e0 mulher ad\u00faltera e que \u00e9 a mesma de um traidor: serei queimada viva e as minhas cinzas dispersas aos quatro ventos.\u201d Trist\u00e3o respondia-lhe: \u201cE quando o rei Marcos se aperceber disso, considerar-me-\u00e1 seguramente o \u00fanico culpado poss\u00edvel, uma vez que, ao receber-vos das m\u00e3os de vosso pai, tomei o compromisso de velar durante toda a viagem pela seguran\u00e7a da vossa pessoa e a integridade do vosso corpo! Posso, pois, bela amiga, temer tanto quanto v\u00f3s a c\u00f3lera de meu tio e, se tiverdes de perecer de funesta morte, pereceremos juntos.\u201d<\/p>\n<p>No momento em que o seu cora\u00e7\u00e3o era agitado por todos estes temores e por mil pensamentos contradit\u00f3rios, Isolda lembrou-se de um ardil para esconder a sua falta. Teve a id\u00e9ia de pedir a Brangia, que ainda era virgem, para tomar em segredo e em sil\u00eancio o seu lugar no leito do rei na noite de n\u00fapcias. Os amantes suplicaram-no a Brangia com tanta insist\u00eancia que esta acabou por vencer a repugn\u00e2ncia: resignou-se a executar o seu desejo. Isolda prometeu-lhe em troca belas recompensas e que viveria para sempre ao p\u00e9 dela em grande honra. Brangia acrescentou: \u201c\u00c9 justo que vos obede\u00e7a e me submeta \u00e0 vossa vontade, pois sou eu a causa da vossa falta e respons\u00e1vel pela morte que vos amea\u00e7a se a vossa liga\u00e7\u00e3o for descoberta. Disponde, pois, de mim como quiserdes.\u201d<\/p>\n<p>De repente, soaram os gritos dos marinheiros: \u201cTerra! Terra!\u201d No horizonte, era vis\u00edvel a costa da Cornualha, e todos estavam felizes por chegar ao termo da viagem, salvo Isolda, que cada vez receava mais encontrar-se frente ao rei Marcos, e Trist\u00e3o, pois, se fosse senhor do seu destino, vogaria sem fim pelas vagas com aquela que era doravante o seu encanto e alegria.<\/p>\n<p>Quando os dois navios entraram no porto de Tintagel, Trist\u00e3o enviou logo um mensageiro ao castelo do rei Marcos para anunciar- lhe que o sobrinho obtivera para ele a m\u00e3o de Isolda, a loura, a bela dos cabelos de ouro, e que lha trazia. O rei alegrou-se muito com esta nova e veio, \u00e0 frente de um brilhante cortejo, acolher a esposa ao porto. Trist\u00e3o pegou-lhe na m\u00e3o e levou-a diante do rei, que, a recebeu por sua vez, dizendo: \u201cBela, aceito- vos neste momento por minha mulher e companheira, como Trist\u00e3o, meu sobrinho e mensageiro, vos recebeu em meu nome das m\u00e3os de vosso pai.\u201d Quando foi introduzida no sal\u00e3o do pal\u00e1cio, no meio de todos os vassalos, Marcos tomou a palavra: louvou as andorinhas que, num maravilhoso press\u00e1gio, lhe haviam trazido o cabelo de ouro, louvou Trist\u00e3o e os cem vassalos que, pelo mar aventuroso, tinham partido em busca da alegria dos seus olhos e do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, em presen\u00e7a do clero e de todos os bar\u00f5es, celebrou os esponsais com a jovem Isolda. Quando chegou a noite, a noiva deixou a sala do festim em companhia de Brangia, a sua criada, e dirigiram-se, seguidas por Trist\u00e3o, ao quarto do rei. A\u00ed, Brangia, para cumprir a promessa, entrou, despida, no leito, no lugar de Isolda, e aguardou pacientemente a vinda do rei, enquanto Isolda se retirava. Ent\u00e3o, Trist\u00e3o voltou para a sala do festim, onde encontrou Marcos muito alegre e algo perturbado pelos vapores do vinho. Tendo-o conduzido at\u00e9 \u00e0 entrada do quarto real, disse ao rei que era costume ria Irlanda apagar todas as luzes no momento em que o marido se juntava \u00e0 mulher no leito nupcial. \u201cEsse costume \u00e9 bom e belo &#8211; respondeu Marcos -, fa\u00e7a-se assim!\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o apressou-se a apagar todos os candelabros e acompanhou o rei at\u00e9 ao leito onde Brangia j\u00e1 repousava. Era da mesma idade e do mesmo tamanho de Isolda. O rei estendeu-se ao lado de Brangia, tomou-a nos bra\u00e7os, apertou-a, nua, contra o peito e amou-a.<\/p>\n<p>Entretanto, Isolda esperava na sombra, \u00e0 escuta, ansiosa e temerosa de que o ardil fosse descoberto. Ao fim de uma hora, ou pouco mais, o rei, aturdido pela bebida, adormeceu profundamente. Ent\u00e3o, Brangia deslizou sorrateiramente para fora da cama e Isolda tomou o seu lugar com precau\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o incomodar o sono do rei. Quando ele acordou, pelo meio da noite, perguntou se n\u00e3o serviam aos novos esposos uma ta\u00e7a de vinho para reconfort\u00e1-los, como era costume nesse tempo. Brangia, que previra este pedido, apressou-se a trazer uma ta\u00e7a onde havia deitado o que restava do vinho ervoso no frasco que a rainha da Irlanda lhe confiara. Marcos, sentado no leito, recebeu a ta\u00e7a das m\u00e3os de Brangia, bebeu metade e depois passou-a a Isolda para que esta, por sua vez, o bebesse; mas ela, sem ser vista pelo marido, deitou fora a bebida que restava na ta\u00e7a. Desta vez, nem uma gota aflorou os seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Quando Brangia se retirou, apagando as luzes de novo, imediatamente o filtro operou no rei. Um novo ardor aqueceu-lhe o cora\u00e7\u00e3o, um arrepio percorreu-lhe os membros. Estendeu os bra\u00e7os para a Isolda e enla\u00e7ou-a. O rei n\u00e3o se apercebeu de que, perto do alvorecer, abra\u00e7ava outra companheira que n\u00e3o era a que tivera nos bra\u00e7os nas primeiras horas da noite. Isolda, por seu lado, mostrou-se d\u00f3cil ao prazer do rei Como tinha jeito para fingir, respondeu \u00e0s suas car\u00edcias; ele pr\u00f3prio prodigalizou-lhe tanta ternura que a rainha sentiu-se satisfeita. Distra\u00edram-se com v\u00e1rios ditos agrad\u00e1veis e divertidos; a noite acabou em alegria.<\/p>\n<p>Em seguida, Isolda mostrou-se animada e feliz; o rei amava-a; ricos e pobres louvavam-na e honravam-na. Tantas vezes quanto podia, via em segredo Trist\u00e3o, mas como estava constantemente colocada sob a sua guarda, ningu\u00e9m, nos primeiros tempos do seu casamento, concebeu a mais ligeira d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>BRANGIA ENTREGUE AOS SERVOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ISOLDA \u00e9 rainha e parece viver em alegria tem a ternura do rei Marcos, os bar\u00f5es honram-na e o povo acarinha-a. Passa o dia no quarto das mulheres, ricamente pintado e juncado de tiores; tem j\u00f3ias preciosas, tecidos de p\u00farpura e tapetes vindos da Tess\u00e1lia. E, acima de tudo, Isolda tem os seus ardentes e belos amores e Trist\u00e3o ao p\u00e9 de si quando quer, de dia e de noite, pois, como exigia o costume dos senhores daquele tempo, ele dorme no quarto do rei, entre os \u00edntimos e os fi\u00e9is. V\u00e1rios meses decorreram sem que ningu\u00e9m desconfiasse dos amores da rainha: s\u00f3 Brangia e Gorvenal conheciam o segredo. Trist\u00e3o sabia que podia contar com a discri\u00e7\u00e3o sem falha do seu fiel escudeiro. Isolda estava menos segura do silencio de Brangia: acontecia-lhe temer que no decorrer de uma zanga a criada deixasse escapar palavras imprudentes e despertasse suspeitas ao rei Marcos ou ao seu s\u00e9quito. Brangia sabia o seu segredo, Brangia tinha-a \u00e0 sua merc\u00ea. Assim, o medo enlouquece a rainha, e eis que uma id\u00e9ia monstruosa germina no seu esp\u00edrito, a\u00ed se instala e n\u00e3o mais a deixa: \u201cQue Brangia desapare\u00e7a e nada mais terei a temer!\u201d<\/p>\n<p>Um dia em que o rei Marcos e Trist\u00e3o ca\u00e7avam longe, Isolda mandou chamar dois servos florestais do rei. Prometeu, se a servissem docilmente, libert\u00e1-los e dar-lhes tal peso de ouro que poderiam viver da\u00ed em diante sem preocupa\u00e7\u00f5es. Tentados, declararam-se prontos a fazer o que a rainha ordenasse. \u201cEis o que espero de v\u00f3s disse-lhes ela &#8211; Tenho aqui uma criada que cometeu uma falta e merece castigo. Levai-a para a floresta e trespassai-a com os vossos punhais, depois disso, cortai-lhe a l\u00edngua e trazei- ma em sinal certo da sua morte. Podeis estar seguros da minha generosidade; recebereis, al\u00e9m da liberdade, pelo menos sessenta soldos de ouro.\u201d Tal \u00e9 o medo de Isolda de perder o seu amor que se torna cruel e sem piedade. Em seguida, finge estar doente e ordena a Brangia que v\u00e1 procurar, para aliviar-lhe o mal, ervas salutares \u00e0 floresta; d\u00e1-lhe os dois servos para a guiarem e protegerem de qualquer perigo.<\/p>\n<p>Brangia foi, portanto, com os servos, e caminharam tanto que chegaram \u00e0s profundezas do bosque. Um deles avan\u00e7ava \u00e0 sua frente, o outro a seguia. Subitamente, aquele que ia \u00e0 frente brandiu o punhal para atingi-la. Brangia, n\u00e3o podendo avan\u00e7ar nem recuar, come\u00e7ou a tremer. Gritou t\u00e3o alto quanto p\u00f4de, juntou as m\u00e3os e conjurou o servo a dizer-lhe por que crime, por qual delito ia ser morta. O servo respondeu: \u201cEm verdade ignoro-o, e a ti compete dizer-mo. Mal mo digas, mato-te. Que fizeste, pois, \u00e0 rainha Isolda para que ela te tenha destinado tal morte?\u201d Brangia respondeu: \u201cEm nome de Deus, deixai-me confiar-vos uma coisa antes da minha morte, pois quero mandar uma mensagem \u00e0 rainha Isolda. Depois de me massacrarem, suplico-vos, declarai-lhe que nunca cometi nenhuma m\u00e1 a\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a ela, exceto uma \u00fanica: quando partimos da Irlanda, a rainha sua m\u00e3e deu-nos a cada uma, para a nossa noite de n\u00fapcias, uma camisa, branca como a neve. Isolda usou a sua desde o dia da partida. Eu, que n\u00e3o passava de uma pobre rapariga, comprada ainda crian\u00e7a a piratas noruegueses, conservei a minha o melhor que pude. Isolda, por causa do grande calor, s\u00f3 trazia sobre a camisa uma t\u00fanica, de sorte que a rasgou inadvertidamente. No momento de desembarcar em Tintagel para casar com o rei Marcos, suplicou-me que lhe emprestasse a minha camisa para entrar no leito do rei, pois a sua j\u00e1 n\u00e3o estava t\u00e3o branca nem t\u00e3o intacta como convinha. Confesso que me custou aceder ao seu pedido, pois, por mais pobre que seja, gostaria de conserv\u00e1-la para mim pr\u00f3pria. \u00c9 por isso que, antes de ceder, me fiz suplicar: essa breve hesita\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa que Isolda me pode censurar. Em minha alma e consci\u00eancia sei que n\u00e3o cometi mais nenhuma falta contra ela. Saudai-a, pois, em nome de Deus e no meu, e dizei-lhe que lhe agrade\u00e7o todo o bem e toda a honra que me fez desde a minha inf\u00e2ncia at\u00e9 este dia. Que Deus, na sua bondade, a guarde, proteja o seu corpo e a sua vida e que a minha morte lhe seja perdoada. Recomendo a minha alma a Deus. Quanto ao meu corpo, est\u00e1 \u00e0 tua discri\u00e7\u00e3o: podes matar-me agora!\u201d<\/p>\n<p>Os dois homens olharam um para o outro, comovidos com as l\u00e1grimas que corriam dos olhos da criada. Ambos estavam com remorsos e maldiziam o terem prometido cometer esse assass\u00ednio. N\u00e3o podendo descobrir nada nela que parecesse merecer a morte, deliberaram e concordaram em que era necess\u00e1rio deixar-lhe a vida. Ataram, pois, a fiel Brangia a uma \u00e1rvore, bastante acima do solo, para impedir que os lobos a alcan\u00e7assem e devorassem; na sua compaix\u00e3o e retid\u00e3o, esperavam poder voltar mais tarde para libertarem-na. Ent\u00e3o, encontraram nas moitas uma lebre que ca\u00edra numa armadilha; mataram-na e cortaram-lhe a l\u00edngua para a levarem \u00e0 rainha.<\/p>\n<p>Quando Isolda os viu de volta, perguntou-lhes imediatamente com ansiedade: \u201cFalou antes de morrer?\u201d \u201cSim, rainha, falou. Disse que est\u00e1veis irritada contra ela pela \u00fanica ofensa que vos fez. Rasgasteis no mar uma camisa branca como neve que trouxestes da Irlanda, e ela hesitou em emprestar-vos a sua para a vossa noite de n\u00fapcias. Foi este, dizia ela, o seu \u00fanico crime.\u201d \u201cN\u00e3o falou mais?\u201d \u201cN\u00e3o, rainha, agradeceu-vos todos os bens recebidos de v\u00f3s desde a inf\u00e2ncia, pediu a Deus que protegesse o vosso corpo e a vossa vida. Manda-vos sauda\u00e7\u00f5es e amor. Rainha, eis a sua l\u00edngua, que vos trazemos.\u201d Isolda entrou ent\u00e3o em violenta c\u00f3lera: \u201cAssassinos, quem vos disse para a matardes? Devolvei-me Brangia, a minha querida serva! N\u00e3o sab\u00edeis que era a minha \u00fanica amiga?\u201d \u201cRainha &#8211; respondeu um dos servos &#8211; diz-se justamente que a mulher muda em pouco tempo. Matamo-la porque v\u00f3s no-lo ordenastes.\u201d \u201cMiser\u00e1veis! N\u00e3o vistes que falava sob o efeito da c\u00f3lera? N\u00e3o dev\u00edeis refletir longamente e adiar para mais tarde? Ai de mim!, era a minha querida companheira, a doce, a fiel, a bela. Quero vingar em v\u00f3s a sua morte. Mandarei esquartejar-vos pelos cavalos e queimar os vossos membros numa pira se n\u00e3o ma devolveis s\u00e3 e salva e tal como vo-la confiei!\u201d Um dos servos respondeu: \u201cPalavra de honra, rainha, mudais facilmente de pensamento! Nem h\u00e1 duas horas, orden\u00e1veis-nos que a mat\u00e1ssemos, e agora quereis perder-nos por amor dela! Para dizer a verdade, senhora, a vossa serva ainda est\u00e1 viva, pois n\u00e3o tivemos coragem de assassinar essa inocente com medo de incorrer nos castigos de Deus! Com a vossa permiss\u00e3o, devolv\u00ea-la-emos em breve, s\u00e3 e salva.\u201d A rainha permitiu que um dos servos fosse buscar Brangia \u00e0 floresta e mandou guardar o outro, a fim de se vingar nele se o companheiro n\u00e3o lhe trouxesse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando Brangia reapareceu no pal\u00e1cio com o florestal que acabava de desamarr\u00e1-la da \u00e1rvore, ajoelhou-se aos p\u00e9s da rainha, pedindo- lhe que perdoasse os seus erros; mas esta tamb\u00e9m ca\u00edra de joelhos diante dela e ambas ficaram longamente abra\u00e7adas. Nunca mais, desde esse instante, a rainha Isolda concebeu a menor d\u00favida sobre a fidelidade da sua querida Brangia.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>A INVEJA DE KARIADO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TRIST\u00c3O amava Isolda com um amor imut\u00e1vel; ela, igualmente. Levavam a vida do mesmo modo, cort\u00eas e agrad\u00e1vel, e o seu amor era de tal for\u00e7a que pareciam s\u00f3 ter um cora\u00e7\u00e3o e uma alma. V\u00e1rios na corte o notaram e o caso foi falado; mas ningu\u00e9m sabia as coisas com toda a certeza, e o que se contava eram unicamente boatos.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o tinha por companheiro e par um vassalo de nobre fam\u00edlia chamado Kariado, que era da sua idade e com o qual partilhava v\u00e1rias vezes o quarto no interior do castelo de Tintagel. Era um fiel do rei Marcos, sempre atento a agradar-lhe, mas invejava os favores com que ele cumulava o sobrinho. Ora, uma noite em que repousavam juntos na mesma cama, mal Kariado adormeceu, Trist\u00e3o esgueirou-se de perto dele e saiu. Ca\u00edra neve e a Lua brilhava com tanta claridade que dir-se-ia ser dia. Trist\u00e3o chegou \u00e0 veda\u00e7\u00e3o do pomar que se encontrava sob o quarto das mulheres: afastou uma prancha da pali\u00e7ada por onde costumava penetrar. Brangia pegou-lhe na m\u00e3o e conduziu-o \u00e0 rainha Isolda. De um cesto para recolher as cinzas fez um resguardo para disfar\u00e7ar a claridade da vela e dissimular os ardores dos amantes. Depois, foi-se deitar, esquecendo-se de fechar a porta do quarto.<\/p>\n<p>Entretanto Kariado teve um sonho: viu um enorme javali arremessar- se da floresta, de boca aberta; agu\u00e7ava as defesas e agitava-se t\u00e3o violentamente que parecia querer devastar tudo. O animal avan\u00e7ou para o castelo. Nenhum dos bar\u00f5es de Marcos ousou enfrent\u00e1-lo. O javali correu a grunhir pelo pal\u00e1cio at\u00e9 ao quarto do rei. Atravessou as portas, precipitou-se no aposento, rasgou e sujou com a espuma do focinho o leito de Marcos e os seus ornamentos. V\u00e1rios homens acorreram ent\u00e3o em socorro, mas o pr\u00f3prio rei n\u00e3o ousava fazer nada.<\/p>\n<p>Kariado acordou, angustiado com o que vira, e acreditou em princ\u00edpio ser verdade. Mas logo reconhecendo que n\u00e3o passava de um sonho, ficou curioso de saber o que poderia significar. Chamou Trist\u00e3o, seu companheiro, para dele lhe dar parte. Tateia a cama e n\u00e3o o encontra. Levanta-se, vai \u00e0 porta e apercebe-se de que est\u00e1 aberta. Sup\u00f5e que Trist\u00e3o saiu nessa noite para divertir-se algures; mas por que se ter\u00e1 afastado t\u00e3o misteriosamente, sem que pudessem notar a sua partida, sem que tivesse confiado a algu\u00e9m aonde queria ir?<\/p>\n<p>Kariado avista as suas pegadas na neve e segue facilmente essa pista, pois havia luar. Tendo chegado ao pomar, v\u00ea a abertura na pali\u00e7ada por onde Trist\u00e3o se introduzira. Chega \u00e0 porta do quarto das mulheres e encontra-a aberta. Vem-lhe ao esp\u00edrito que Trist\u00e3o a\u00ed entrou por amor de alguma criada; mas no pr\u00f3prio momento em que tem este pensamento, um outro se apodera dele: Trist\u00e3o entrou a\u00ed por amor da rainha. Por fim, Kariado entra no quarto silenciosamente e n\u00e3o encontra claridade alguma: a vela acesa s\u00f3 d\u00e1 um fraco clar\u00e3o, pois est\u00e1 coberta com o cesto. Kariado avan\u00e7a mais, tateando as paredes com as m\u00e3os, e tanto faz que chega perto do leito da rainha, entrev\u00ea os dois amantes estendidos lado a lado e, de s\u00fabito, descobre todo o mist\u00e9rio. Deixa o quarto e afasta-se, depois volta a deitar-se, preocupado. Em breve Trist\u00e3o regressa por sua vez e sobe cuidadosamente para a cama. Conservou- se silencioso e o outro calou-se, nenhum disse uma palavra, o que raras vezes lhes acontecera; n\u00e3o estavam acostumados a tal desconfian\u00e7a. Trist\u00e3o apercebeu-se logo desse afastamento e compreendeu que, intimamente, Kariado desconfiava de qualquer coisa. Da\u00ed em diante vigiou melhor as suas a\u00e7\u00f5es e os seus ditos, mas tarde demais &#8211; o seu segredo fora descoberto.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Kariado chamou o rei de parte e disse-lhe: \u201cSire, contam-se na corte, a respeito de Trist\u00e3o e de Isolda, muitas coisas que n\u00e3o honrariam de modo algum o vosso pa\u00eds e os vossos homens. Advirto-vos para terdes cuidado e refletirdes: est\u00e3o em jogo o vosso sossego e a vossa honra.\u201d Marcos, o mais fiel dos homens e o melhor, Marcos, o simples, espantou-se: recusava-se a obscurecer, fosse com a mais ligeira d\u00favida, a estrela da sua alegria, Isolda. Todavia, trouxe estas coisas no cora\u00e7\u00e3o com sofrimento e dor e p\u00f4s-se da\u00ed em diante \u00e0 espreita para ver se conseguia descobrir algum ind\u00edcio. Espiava sem cessar os atos e as palavras da rainha, mas sem nada surpreender, pois Trist\u00e3o havia posto Isolda de sobreaviso e advertira-a das suas suspeitas e da inveja de Kariado.<\/p>\n<p>Finalmente, o rei resolveu experimentar a rainha. Uma noite em que repousava ao p\u00e9 dela, disse-lhe com fingida tristeza: \u201cSenhora, quero fazer uma peregrina\u00e7\u00e3o, viajar fora da minha terra e, para minha salva\u00e7\u00e3o, visitar os santos lugares. Mas n\u00e3o sei a quem entregar a guarda do meu reino. Que me aconselhais? Dizei-me sob qual salvaguarda quereis ficar e seguirei vosso conselho.\u201d Isolda respondeu: \u201cComo podeis duvidar do melhor partido? Quem me deve proteger sen\u00e3o o meu senhor Trist\u00e3o? Parece- me que o mais conveniente \u00e9 eu ficar entregue \u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o. Pode defender a vossa terra e tomar conta da vossa corte. \u00c9 filho de vossa irm\u00e3; saber\u00e1 esfor\u00e7ar-se por manter em toda a parte a vossa honra, e, pelo seu fiel servi\u00e7o, com satisfa\u00e7\u00e3o de todos, guardar\u00e1 bem o vosso reino.\u201d O rei ficou perturbado com estas palavras: de manh\u00e3, foi ter com Kariado e contou-lhe a conversa com a rainha. Kariado respondeu-lhe: \u201cPodeis reconhec\u00ea-lo agora pelas palavras da rainha: ama Trist\u00e3o com tal amor que j\u00e1 n\u00e3o consegue dissimular. \u00c9 estranho que queirais suportar durante tanto tempo tal vergonha e que n\u00e3o expulseis Trist\u00e3o para longe de v\u00f3s.\u201d Mas o rei continuava hesitante e incerto, e n\u00e3o se decidia ainda a aceitar como verdade o que Kariado lhe dizia do sobrinho.<\/p>\n<p>Entretanto, Isolda levantou-se, chamou Brangia e disse-lhe: Bela amiga, soube de uma boa e muito doce nova: o rei quer fazer uma viagem fora do pa\u00eds. No intervalo, devo ficar sob a guarda de Trist\u00e3o e juntos teremos prazer e alegria: ofenda-se quem queira!\u201d \u201cSenhora &#8211; perguntou Brangia &#8211; donde vos veio essa nova e quem vo-la disse?\u201d Isolda contou-lhe a conversa da noite com o rei. Imediatamente, Brangia reconheceu a loucura da rainha e disse-lhe: \u201cN\u00e3o sabeis fingir! O rei experimentou-vos e descobriu-vos, pois ignorais a arte de dissimular os vossos secretos pensamentos. Foi Kariado quem tudo maquinou com o rei para que vos tra\u00edsseis: n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de adivinhar, observando bem, como ele est\u00e1 secretamente apaixonado por v\u00f3s e tem ci\u00fames de Trist\u00e3o.\u201d Brangia deu conselhos \u00e0 rainha e ensinou-lhe o que devia dizer ao rei para se livrar desse mau passo.<\/p>\n<p>Por seu lado, a conselho de Kariado, o rei tentou experimentar Isolda pela segunda vez. Na noite seguinte, apertou-a ternamente contra o cora\u00e7\u00e3o e deu-lhe beijos. \u201cBela amiga &#8211; disse &#8211; nada me \u00e9 t\u00e3o profundamente caro como v\u00f3s; e o pensamento de que nos vamos separar, Deus que est\u00e1 no c\u00e9u bem o sabe, rouba-me o senso.\u201d Mas ela viu logo que ele queria experiment\u00e1-la como j\u00e1 o fizera. Dissimulou por sua vez e come\u00e7ou a suspirar profundamente: \u201cInfeliz, nasci para o sofrimento e a dor!\u201d \u201cBela amiga &#8211; perguntou o rei &#8211; que tendes e por que essas l\u00e1grimas?\u201d Isolda respondeu: \u201cH\u00e1 muitas raz\u00f5es para os meus cuidados, para os meus sofrimentos intoler\u00e1veis, se v\u00f3s n\u00e3o os quereis suavizar. Pensei que o que me dissestes a noite passada era uma brincadeira e que afirm\u00e1veis, por simples gracejo, querer viajar fora do pa\u00eds. Compreendo agora que fal\u00e1veis a s\u00e9rio. Infeliz a mulher que ama t\u00e3o ardentemente um homem! Nenhuma mulher mais se deveria fiar num homem se me quereis deixar e abandonar aqui. Onde me deixareis? E qual dos vossos fi\u00e9is me proteger\u00e1? Por amor de v\u00f3s, deixei todos os meus sustent\u00e1culos: pai e m\u00e3e, parentes e amigos. Nunca mais terei consola\u00e7\u00e3o, nem de dia nem de noite, se ficar privada do vosso amor. Em nome de Deus, ficai ou deixai-me, cativa, ir convosco!\u201d O rei Marcos respondeu: \u201cN\u00e3o vos quero deixar sozinha, senhora, uma vez que Trist\u00e3o, meu sobrinho, vos deve proteger e servir com toda a amizade e decoro. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no meu reino a quem ame tanto como a ele, pela grande cortesia com que vos serve.\u201d \u201cAi de mim &#8211; exclamou Isolda -, se \u00e9 ele que me deve proteger e guardar! Sei o que pensar do seu zelo em me servir e dos seus bons sentimentos n\u00e3o passam de hipocrisia e de falinhas mansas. Finge ser meu amigo porque matou o meu tio e lisonjeia-me para que n\u00e3o me vingue dele. Pode, no entanto, ter isto por certo: todos os seus belos semblantes n\u00e3o me podem consolar da grande dor, da vergonha e do mal que causou a mim e \u00e0 minha fam\u00edlia. Se n\u00e3o fosse vosso sobrinho, h\u00e1 j\u00e1 muito tempo que o teria feito sentir a minha c\u00f3lera. Queria nunca mais o ver, nunca mais lhe falar. Mas \u00e9 um ad\u00e1gio bem conhecido: um tra\u00e7o repreens\u00edvel e comum \u00e0s mulheres \u00e9 que n\u00e3o gostam dos parentes dos maridos e n\u00e3o os podem suportar, nem de dia nem de noite, ao p\u00e9 delas. Quis, pois, afastar de mim essa censura, e aceitei os seus belos semblantes e o seu servi\u00e7o. Mas n\u00e3o quero mais, doravante, ser abandonada ao seu poder. Suplico-vos, sire, que me deixeis antes partir convosco.\u201d Soube t\u00e3o bem enganar o rei com as suas palavras que este deixou cair a c\u00f3lera. Foi ter com Kariado e assegurou-lhe que n\u00e3o havia nenhum amor entre a rainha e Trist\u00e3o. Mas Kariado teve o cuidado de ensinar ao rei, com grande ast\u00facia, o que devia dizer a Isolda para experiment\u00e1-la uma terceira vez.<\/p>\n<p>Portanto, chegada a noite, Marcos disse \u00e0 rainha: \u201cA minha partida \u00e9 coisa bem assente. Ficareis sob a guarda dos meus melhores homens e dos meus amigos, que vos servir\u00e3o com grande honra segundo os vossos desejos e como conv\u00e9m \u00e0 vossa linhagem. Mas, uma vez que n\u00e3o vos agrada que o meu sobrinho Trist\u00e3o vos ofere\u00e7a o seu servi\u00e7o, quero, por amor de v\u00f3s, bani-lo deste pa\u00eds.\u201d \u201cSire &#8211; replicou Isolda -, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio agir t\u00e3o duramente. Depois dir\u00e3o que vos levei a esse extremo e que odiava o vosso sobrinho pelo assass\u00ednio do Morholt. Com isso atrairia a reprova\u00e7\u00e3o. Ora, n\u00e3o quero que por amor de mim odieis os vossos parentes. N\u00e3o passo de uma mulher: se rebentar uma guerra, os inimigos arrebatar-me-\u00e3o depressa a vossa terra, pois n\u00e3o tenho for\u00e7a para defend\u00ea-la. E as pessoas n\u00e3o deixar\u00e3o de dizer que, se mandei expulsar Trist\u00e3o, o mais forte sustent\u00e1culo do vosso pa\u00eds, \u00e9 porque o odiava com tal rancor que ele n\u00e3o podia permanecer junto a mim. Escolhei, pois, um destes partidos: deixai-me acompanhar-vos ou ent\u00e3o entregai-lhe a guarda e a defesa da vossa terra.\u201d Estas palavras de Isolda reanimaram as d\u00favidas e as suspeitas que torturavam o rei Marcos. Todavia, guiada por Brangia, a s\u00e1bia, que tratava de reparar os erros da sua senhora, esta ainda escapou ao perigo. Iludindo o seu senhor com palavras falazes, lisonjeando-o com v\u00e3s promessas, soube persuadi-lo de que Trist\u00e3o nada representava para ela e que s\u00f3 \u00e0 maledic\u00eancia se deviam atribuir as acusa\u00e7\u00f5es que o inquietavam. O rei Marcos estava demasiado enamorado da sua bela mulher para duvidar da sua boa f\u00e9. Kariado resignou-se e renunciou por algum tempo \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es contra Trist\u00e3o. No entanto a inveja havia-se apoderado do seu cora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o esperava mais que uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para afastar Trist\u00e3o da rainha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>A HARPA E A ROTA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>UM DIA em que Trist\u00e3o partira a ca\u00e7ar com Gorvenal e os companheiros na floresta, uma grande e bela nau aportouem Tintagel. Comandava-a um bar\u00e3o da Irlanda, e a nau pertencia-lhe com tudo o que transportava. Era orgulhoso e \u00e1vido de honras. Cavalgou at\u00e9 \u00e0 corte de Marcos num corcel bem ajaezado e ornado, sem escudo nem lan\u00e7a, mas trazia \u00e0s costas uma harpa toda incrustada de ouro. Saudou primeiro o rei e a rainha Isolda. Esta reconheceu-o imediatamente, pois cortejara-a durante longo tempo, sem \u00eaxito, e foi para tornar a v\u00ea-la que viera da Irlanda at\u00e9 a Cornualha. Ela inclinou-se logo para o rei e segredou-lhe quem era aquele nobre irland\u00eas, mas n\u00e3o achou oportuno revelar-lhe que durante muito tempo ele a amara e cortejara. No entanto, pediu ao rei que recebesse o estrangeiro com honra. Marcos fez como ela queria: convidou o h\u00f3spede para jantar, e admitiu-o, em sinal de amizade, a comer na sua pr\u00f3pria escudela. Durante toda a refei\u00e7\u00e3o, o irland\u00eas conservou a harpa pendurada ao pesco\u00e7o e declarou que n\u00e3o a pousaria por nada deste mundo, nem mesmo para prestar amizade ou honra a quem quer que fosse. \u00c0 volta dele, os senhores tro\u00e7avam entre si do homem da harpa, mas este n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua zombaria.<\/p>\n<p>Quando o rei acabou de comer e as mesas foram levantadas, os bar\u00f5es da corte come\u00e7aram a recrear-se. Ent\u00e3o o rei perguntou, na presen\u00e7a de todos, ao vassalo da Irlanda se este sabia tocar harpa e se, por amor dele, n\u00e3o queria tocar uma melodia no seu instrumento. O irland\u00eas respondeu: \u201cNunca acedo a recrear um rei num pa\u00eds estrangeiro se n\u00e3o sei antecipadamente qual ser\u00e1 a minha paga.\u201d \u201cEnt\u00e3o &#8211; disse o rei -, distrai-nos com algum canto da Irlanda e dar-te-ei em recompensa o que quiseres.\u201d \u201cSeja\u201d &#8211; retorquiu o irland\u00eas. Pegou na harpa e tocou uma melodia do seu pa\u00eds que agradou muito a todos. O rei pediu-lhe que tocasse outra, t\u00e3o bela ou ainda mais bela, e ele tocou outra duas vezes mais bela que a primeira; era uma alegria escut\u00e1-lo. Quando acabou, disse perante toda a corte: \u201cRei, executa agora o pacto a que acedeste.\u201d \u201cF\u00e1-lo-ei com todo o gosto &#8211; disse o rei. &#8211; Diz-me ent\u00e3o o que pedes como paga.\u201d \u201cNada mais quero como paga al\u00e9m da bela Isolda &#8211; respondeu o tocador de harpa. &#8211; N\u00e3o tens tesouro nem j\u00f3ia mais ao meu desejo.\u201d \u201cPor minha f\u00e9 &#8211; exclamou Marcos &#8211; n\u00e3o a ter\u00e1s nunca. Pede antes uma coisa que me seja poss\u00edvel conceder-te.\u201d O estrangeiro replicou: \u201cEis que faltas \u00e0 tua palavra e rompes a promessa dada em presen\u00e7a de toda a corte. Segundo a lei e o direito, n\u00e3o deves mais governar um reino, pois um pr\u00edncipe que mente publicamente e n\u00e3o cumpre o juramento n\u00e3o deve conservar o senhorio e o poder sobre os bar\u00f5es. Se me recusas o que reclamo de ti, entrego a causa ao julgamento dos homens s\u00e1bios aqui presentes; e se encontrares algu\u00e9m que negue o meu direito e o ouse contestar, defenderei neste dia a minha causa contra ele sob o olhar de toda a corte. Se renegas a promessa, n\u00e3o tens mais nenhum direito sobre este reino: prov\u00e1-lo-ei contra ti pelas armas, contanto que a tua corte queira pronunciar um justo julgamento.\u201d<\/p>\n<p>O rei Marcos ouviu este discurso. Olhou em volta para os seus bar\u00f5es: nem um \u00fanico se ousa erguer contra o irland\u00eas, chamar a si a causa do seu senhor e libertar a rainha, pois todos viram que o estrangeiro era um homem cheio de for\u00e7a e de desmesura, experiente no manejo das armas. Quando o rei compreendeu que nenhum se queria arriscar a combater o tocador de harpa, entregou- lhe a rainha: nenhum dos seus conselheiros ousou levantar a voz para censurar este abandono.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o irland\u00eas sentou Isolda na sela com ele e levou-a, radiante, para a beira-mar. A rainha ia cheia de dor, chorava o seu destino, lamentava-se e maldizia a hora em que Trist\u00e3o partira para a ca\u00e7a. Por certo que se estivesse l\u00e1 quando o rei a entregara, t\u00ea-la-ia resgatado \u00e0 custa de um duro combate: teria preferido perder a vida a n\u00e3o a reconquistar! O irland\u00eas levou a bela lacrimosa para uni pavilh\u00e3o erguido \u00e0 beira-mar. Dep\u00f4-la num leito e ordenou que preparassem imediatamente a nau para darem \u00e0 vela o mais depressa poss\u00edvel. Mas o navio estava encalhado em seco na areia, a mar\u00e9 mal come\u00e7ara a subir e ainda estava muito longe da nau.<\/p>\n<p>Nesse momento, Trist\u00e3o voltou da floresta. Soube da nova de que a rainha fora entregue a um tocador de harpa. Chamou Gorvenal, seu escudeiro, pegou na rota e cavalgou a grande velocidade para o pavilh\u00e3o do irland\u00eas. Numa duna que dominava a borda do mar, desceu do cavalo, entregou-o a Gorvenal e, levando a rota suspensa ao ombro, dirigiu-se para a tenda. Encontrou Isolda estendida num leito enquanto o irland\u00eas esfor\u00e7ava-se em v\u00e3o para consol\u00e1-la tocando lais na harpa. Ela recusava-se a ouvi-lo e lamentava-se cada vez mais. \u201cSenhor &#8211; disse Trist\u00e3o -, vim a correr para aqui. Disseram-me que \u00e9reis da Irlanda; tamb\u00e9m sou desse pa\u00eds. Suplico-vos, levai-me convosco para a Irlanda!\u201d \u201cVagabundo &#8211; respondeu o irland\u00eas -, toca rota para nos recreares, e se conseguires consolar a minha amada, dar-te-ei um bom \u201ccasaco.\u201d \u201cDeus vos recompense, senhor! Se eu me der ao trabalho de entret\u00ea-la, f\u00e1-lo-ei t\u00e3o bem que, dentro de seis meses, n\u00e3o mostrar\u00e1 a menor sombra de desgosto.\u201d Trist\u00e3o afinou a rota, que era um instrumento parecido com a sanfona e servia sobretudo para as dan\u00e7as e divertimentos do povo. Tocou uma doce melodia, que acompanhou com belos cantos.<\/p>\n<p>Quando acabou a melodia, a mar\u00e9 subira e a nau estava desencalhada. Um marinheiro disse ent\u00e3o ao bar\u00e3o irland\u00eas: \u201cSenhor, partamos depressa. Tardais demasiado a fazer-vos ao mar; se Trist\u00e3o, o bravo, regressasse da ca\u00e7a, bem poderia atrasar-nos a partida. Tem mais fama que qualquer outro vassalo deste reino, e ningu\u00e9m aqui se lhe ousa opor.\u201d O irland\u00eas respondeu: \u201cMaldito seja o covarde que teme o assalto de Trist\u00e3o!\u201d Depois, voltando- se para o tocador de harpa, pediu: \u201cIrm\u00e3o, toca mais qualquer coisa para consolar Isolda, a minha amada, e domar a sua dor.\u201d Trist\u00e3o afinou de novo a rota e escolheu um lai deleit\u00e1vel de ouvir: Isolda escutava-o, mergulhada no encantamento. Preludiou longamente, depois terminou com uns acordes um pouco tristes.<\/p>\n<p>Enquanto cantava o lai, o fluxo havia subido t\u00e3o alto que j\u00e1 n\u00e3o se conseguia passar pela prancha que ia da beira-mar \u00e0 nau. \u201cQue fazer? &#8211; interrogou o irland\u00eas. &#8211; Como levar Isolda para o meu navio? Deixemos a mar\u00e9 descer o suficiente para que a bela possa atravessar a ponte a p\u00e9 enxuto.\u201d Trist\u00e3o respondeu-lhe: \u201cTenho al\u00e9m, no vale, um bom cavalo para levar a rainha at\u00e9 ao teu navio.\u201d \u201cTr\u00e1-lo ent\u00e3o!\u201d Trist\u00e3o foi buscar o corcel, montou-o, agarrou na espada e cavalgou at\u00e9 junto do vassalo da Irlanda. \u201cSenhor &#8211; disse -, confia-me Isolda, a rainha. Prometo lev\u00e1-la suavemente.\u201d O irland\u00eas pegou em Isolda e ergueu-a na ponta dos bra\u00e7os at\u00e9 \u00e0 sela de Trist\u00e3o, pedindo-lhe que se comportasse discretamente com a sua dama.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o recebe Isolda no corcel e exclama: \u201cEscuta, imprudente e louco! Conquistaste Isolda com a harpa, eu reconquisto-a com a rota. Se a perdes, \u00e9 justo: ganhaste-a ao rei com trapa\u00e7a, eu reconquisto-ta com ast\u00facia. Regressa, ridicularizado e maldito, \u00e0 Irlanda, vil mentiroso!\u201d Esporeia o cavalo, cavalga a toda a velocidade pela costa, e da\u00ed para a floresta. O irland\u00eas perdeu Isolda, Trist\u00e3o leva a amante. Ao cair da tarde estavam na floresta, e juntos passaram uma bela noite.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, ao romper do dia, Gorvenal veio avisar o seu senhor de que o irland\u00eas se fizera ao mar, lastimoso e totalmente confundido. S\u00f3 ent\u00e3o Trist\u00e3o cavalgou com a rainha at\u00e9 ao pal\u00e1cio de Marcos e lha entregou: \u201cPela minha f\u00e9, sire, uma mulher n\u00e3o \u00e9 de modo algum obrigada a amar um homem que a entrega por uma \u00e1ria de harpa. Guardai-a melhor para outra vez, pois foi necess\u00e1ria grande ast\u00facia para reconquist\u00e1-la.\u201d<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>A AVELEIRA E A MADRESSILVA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A SEGUIR a Kariado, os bar\u00f5es inimigos de Trist\u00e3o surpreenderam a verdade dos seus amores com a rainha. Audret, Guenelon, Gond\u00efne e Denoalen denunciam ao rei Marcos aquilo a que chamam \u201ca trai\u00e7\u00e3o do sobrinho\u201d. O rei aflige-se: ouve contrafeito esta revela\u00e7\u00e3o que perturba a sua felicidade e mancha a reputa\u00e7\u00e3o daquela que ama. Todavia, deixa-se de novo invadir pelas d\u00favidas e pelas suspeitas; e novamente se apanha a espiar as palavras e os atos da rainha e, desta vez, sob pretexto de p\u00f4r fim a rumores ofensivos, ordena a Trist\u00e3o que deixe a corte e parta para uma terra distante. E, sobretudo, que n\u00e3o tenha a ousadia de voltar ao seu pal\u00e1cio antes de lhe ser dada ordem para tal.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o \u00e9 for\u00e7ado a obedecer, pelo menos em apar\u00eancia, \u00e0 ordem do rei: nunca mais aparece na corte, mas \u00e9-lhe imposs\u00edvel ficar muito afastado da sua dama. Em vez de se exilar num pa\u00eds estrangeiro, contenta-se em ficar escondido num sub\u00farbio de Tintagel, em casa de um habitante que lhe d\u00e1 asilo, em segredo, a ele e a Gorvenal. Todos os dias, ou quase, Brangia, que conhece o ref\u00fagio de Trist\u00e3o, arranja-lhe encontros furtivos com a amada.<\/p>\n<p>Mas em breve Trist\u00e3o se sente cercado pelos inimigos: por isso abandona o ref\u00fagio e esconde-se sozinho na floresta, a fim de n\u00e3o ser visto por ningu\u00e9m. S\u00f3 sai \u00e0 tardinha, quando \u00e9 poss\u00edvel encontrar um alojamento. \u00c0 noite, \u00e9 albergado por camponeses ou pessoas pobres. Junto deles, informa-se do que faz o rei. Por eles fica sabendo que Marcos deve empreender dentro em pouco uma viagem com toda a sua gente, para reunir a corte, no dia de Pentecostes, num local que fixou. Haver\u00e1 muitos folguedos e divertimentos, e a rainha estar\u00e1 na festa. Ao ouvir isto, Trist\u00e3o sente uma grande alegria: Isolda n\u00e3o poder\u00e1 dirigir-se \u00e0 assembl\u00e9ia sem que ele a veja passar.<\/p>\n<p>No dia em que o rei se p\u00f5e a caminho, Trist\u00e3o esconde-se numa moita ao longo da estrada por onde deve passar o cortejo. Corta um ramo de aveleira ao meio, depois fende-o e esquadria-o. Quando acaba de apar\u00e1-lo, grava-lhe com o punhal as letras do seu nome, pois \u00e9 um sinal convencionado entre a rainha e ele. Sabia que Isolda se aperceberia dele, pois era muito atenta a essas coisas e j\u00e1 lhe acontecera dar-se desse modo conta da presen\u00e7a de Trist\u00e3o. Reconhecer\u00e1 logo, mal o veja, o pau preparado e ornado pelo amante.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Trist\u00e3o enviou-lhe uma carta com o seguinte teor: \u201cBela amiga, sabei que por amor de v\u00f3s continuo escondido na floresta. A\u00ed tenho permanecido \u00e0 espera de encontrar o meio de voltar a ver-vos, pois \u00e9-me imposs\u00edvel viver sem v\u00f3s: n\u00f3s dois somos como a madressilva quando se enrola \u00e0 volta do ramo da aveleira: uma vez a ela ligada e presa, ambas podem durar juntas eternamente, mas, se as querem separar, a madressilva morre em pouco tempo e o mesmo sucede \u00e0 aveleira. Bela amiga, tal \u00e9 o nosso caso: nem v\u00f3s sem mim, nem eu sem v\u00f3s!\u201d<\/p>\n<p>No dia fixado, Trist\u00e3o viu primeiro passar os monteiros com os c\u00e3es, em seguida os bar\u00f5es que escoltavam o rei. Em breve, no meio das aias, entre duas filas de homens de armas, aparece a cavalo a rainha, observando tudo atentamente. Assim, viu, cravado no talude, o ramo aparado e gravado, e compreendeu imediatamente a mensagem que lhe trazia, pois conseguiu decifrar todas as letras. Mandou parar os cavaleiros que seguiam com ela: quer descer do cavalo e repousar. Obedecem \u00e0 sua ordem. Afasta-se da escolta e leva consigo a criada Brangia atrav\u00e9s do bosque. Isolda encontra a\u00ed aquele que a amava mais que nenhum ser no mundo: fala- lhe \u00e0 vontade e ela responde-lhe a contento; promete que o ajudar\u00e1 a reconciliar-se com o rei: Marcos, assegura-lhe, est\u00e1 muito triste por t\u00ea-lo banido ap\u00f3s as acusa\u00e7\u00f5es levantadas contra ele. Quando chega o momento da separa\u00e7\u00e3o, os amantes come\u00e7am a chorar. Ela diz-lhe: \u201cQuerido amor, disseste a verdade: sou a madressilva e tu a aveleira, ningu\u00e9m nos poder\u00e1 separar um do outro sem causar a morte de ambos.\u201d<\/p>\n<p>Em recorda\u00e7\u00e3o da alegria que experimentara ao rever a amante, Trist\u00e3o, que escrevera todas as palavras da rainha tal como esta as pronunciara, fez um novo lai de harpa; chamam-lhe Goatleaf em ingl\u00eas, os franceses denominam-no Ch\u00e9vrefeuille. O refr\u00e3o \u00e9:<\/p>\n<p>Bela amada, assim \u00e9 conosco: Nem v\u00f3s sem mim, nem eu sem v\u00f3s.<\/p>\n<p>Brangia, a avisada, aproveitou esta entrevista com Trist\u00e3o para combinar com ele um novo estratagema que lhe devia permitir encontrar-se secretamente com a rainha durante a noite. No pomar, fechado por estacas e fortes pali\u00e7adas que cercavam a resid\u00eancia real, brotava uma fonte \u00e0 sombra de um grande pinheiro. As suas \u00e1guas frescas e puras, depois de encherem um tanque cavado numa escadaria de m\u00e1rmore, corriam para o castelo por um canal aberto, e atravessavam o quarto das mulheres segundo um antigo costume dos celtas. Trist\u00e3o viria de noite ao pomar, \u00e0 fonte; deitaria a\u00ed aparas com sinais gravados com a ponta do punhal; quando Brangia as visse deslizar na \u00e1gua do canal, preveniria imediatamente a rainha, que iria ter com ele.<\/p>\n<p>Como a vara de aveleira, aparada e gravada com letras por Trist\u00e3o, indicara a sua presen\u00e7a na floresta, assim, durante v\u00e1rias semanas, as aparas gravadas com os sinais combinados permitiram aos dois amantes reunirem-se todas as noites ao p\u00e9 da escadaria de m\u00e1rmore, \u00e0 beira da fonte, debaixo dos ramos do grande pinheiro. E tal era o encanto do pomar real sob o c\u00e9u estrelado que Isolda dizia por vezes a Trist\u00e3o: \u201cN\u00e3o ser\u00e1 este o pomar maravilhoso de que falam os lais bret\u00f5es? Uma muralha de ar intranspon\u00edvel fecha-o por todos os lados; no meio das \u00e1rvores em flor, o her\u00f3i vive sem envelhecer nos bra\u00e7os da amante e nenhuma for\u00e7a hostil pode quebrar a muralha de ar.\u201d Mas quando se apagava a \u00faltima estrela, o encantamento desaparecia e Trist\u00e3o apressava- se a transpor a alta pali\u00e7ada para regressar ao seu ref\u00fagio.<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>MARCOS EMPOLEIRADO NO PINHEIRO GRANDE<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AUDRET e os bar\u00f5es traidores viam bem que Isolda recuperara a alegria e adivinhavam sem esfor\u00e7o que achara maneira de rever Trist\u00e3o. Mas era em v\u00e3o que espiavam as idas e vindas da rainha para descobrir o segredo. Brangia montava t\u00e3o bem a guarda que se fatigavam sem lucro algum. O duque Audret prop\u00f4s aos c\u00famplices empregarem outra t\u00e1tica: \u201cConheceis, senhores, Frocin, o an\u00e3o corcunda: conhece a arte da magia, l\u00ea o futuro nos sete planetas e no curso das estrelas. Ele, que sabe descobrir as mais secretas coisas, poder\u00e1 sem d\u00favida revelar-nos as ast\u00facias de Isolda, a loura.\u201dO aleij\u00e3o, que era mau e invejava a felicidade dos amantes, n\u00e3o se fez rogado. Observando o curso de Orion e de L\u00facifer, descobriu o lugar e a hora dos encontros noturnos dos dois, na fonte do pomar. O duque Audret levou o an\u00e3o a Marcos e arranjou-lhe uma entrevista com o rei: \u201cSire \u2014 disse o feiticeiro \u2014, fazei constar que partireis esta noite para a floresta para ca\u00e7ar durante sete dias. Antes de soar a meia-noite, regressai bruscamente a Tintagel e eu conduzir-vos-ei, no pomar, a um lugar donde podereis ver o encontro de Trist\u00e3o e da rainha e ouvir-lhes as palavras. Que eu seja enforcado se ficardes decepcionado com a espera!\u201d O rei seguiu o conselho do an\u00e3o, mas contra vontade. Chegada a noite, deixou os monteiros nos bosques, montou o an\u00e3o na garupa e regressou a Tintagel. Sem hesitar, Froncin conduziu-o ao pinheiro grande: \u201cRei, deveis agora subir para um ramo desta \u00e1rvore e dissimularde-vos para melhor espiardes a vossa mulher e o vosso sobrinho. Se me acreditais, levai convosco o arco e as flechas: poder\u00e3o servir-vos quando estiverdes esclarecido sobre a sua conduta. Mantende-vos quieto: n\u00e3o tereis de esperar muito.\u201dO an\u00e3o dissera a verdade: o rei n\u00e3o esperou nada. Do alto da \u00e1rvore, Marcos viu Trist\u00e3o transpor a pali\u00e7ada e saltar para o pomar; avan\u00e7ou direto \u00e0 fonte e deitou ai as aparas gravadas com letras, que n\u00e3o tardaram a correr, ligeiras, pelo canal atrav\u00e9s do jardim e para o quarto das mulheres. Mas Trist\u00e3o, inclinando- se sobre o tanque de m\u00e1rmore para atirar outras, viu subitamente, \u00e0 claridade da Lua, o rosto do tio que se refletia, enquadrado pela folhagem, no espelho de \u00e1gua tranq\u00fcila. Observando mais de perto, distinguiu tamb\u00e9m, entre os ramos, o arco, j\u00e1 armado com uma flecha, que o rei segurava na m\u00e3o. Ah!, se pudesse reter as aparas na sua fuga! Mas n\u00e3o! No quarto das mulheres, Isolda espreita a sua vinda e em breve as ver\u00e1 deslizar no fio de \u00e1gua. Eis que transp\u00f5e a porta do quarto e se dirige para o pomar, \u00e1gil e no entanto prudente, olhando para todos os lados, a fim de ver se n\u00e3o a espionam. Ora, Trist\u00e3o, nessa noite, n\u00e3o vem ao seu encontro como das outras vezes e nem sequer a fita; est\u00e1 im\u00f3vel, os olhos fixos na \u00e1gua do tanque como que para lhe fazer compreender que h\u00e1 ali qualquer coisa ins\u00f3lita. Esta estranha atitude n\u00e3o deixa de surpreender Isolda, que tamb\u00e9m volta o olhar para a superf\u00edcie da \u00e1gua e n\u00e3o tem dificuldade em a\u00ed descobrir por sua vez o reflexo do rosto inquieto e atormentado do marido. Lembra-se ent\u00e3o de um ardil bem feminino, pois livra-se de levantar os olhos para os ramos da \u00e1rvore e, a fim de tirar Trist\u00e3o de apuros, disp\u00f5e-se a falar em primeiro lugar: \u201cSenhor Trist\u00e3o, que loucura vos deu para me chamardes a esta hora? Em nome Daquele que fez o C\u00e9u e a Terra, n\u00e3o me chameis mais, nem de dia nem de noite, pois, dessa vez, n\u00e3o virei. Todavia v\u00f3s bem o sabeis: o rei julga que eu vos amo loucamente. Os bar\u00f5es traidores fazem-no crer que v\u00f3s, que sois a defesa da sua honra, o ridicularizais sem vergonha. Em verdade, preferiria ser queimada viva e que a minha cinza fosse dispersa ao vento a amar outro homem que n\u00e3o seja o meu senhor. N\u00e3o, Trist\u00e3o, n\u00e3o me chameis mais sob nenhum pretexto: n\u00e3o ousaria nem poderia vir; se o rei soubesse da nossa entrevista desta noite, condenar-me-ia \u00e0 morte esquartejada por quatro cavalos. Por certo que me sois caro, porque sois seu sobrinho. Aprendi com a minha m\u00e3e que devia amar os parentes de meu marido: observo esse preceito. E penso que uma mulher n\u00e3o amaria verdadeiramente o seu senhor se n\u00e3o amasse igualmente os seus parentes e os seus pr\u00f3ximos aliados. Mas vou-me embora que estou a demorar demasiado!\u201d \u201cSenhora, por amor de Deus, escutai-me! Em boa f\u00e9, por v\u00e1rias vezes tentei encontrar-vos. Desde que fui banido da corte, n\u00e3o sei onde vos falar. Sofro grandemente com as suspeitas que meu tio faz pesar sobre mim: por que dar\u00e1 f\u00e9 a tais cal\u00fanias? Por que acreditar\u00e1 nas mentiras daquelas pessoas que vimos mudas e tr\u00eamulas perante o desafio do Morbolt? Fazei-me favor, pe\u00e7o-vos, de me justificar v\u00f3s mesma junto de vosso marido!\u201d \u201cPor Deus, senhor, que me pedis? Convenc\u00ea-lo da vossa lealdade? Obter-vos o seu perd\u00e3o? Isso seria provocar, em v\u00e3o, a c\u00f3lera do rei! No entanto, ficai sabendo, belo senhor, que, se ele vos perdoasse e esquecesse a c\u00f3lera, ficaria cheia de alegria. Mas vou indo, pois tenho medo que algu\u00e9m vos tenha visto chegar.\u201dTrist\u00e3o ret\u00e9m ainda a rainha e suplica-lhe que interceda por ele junto de Marcos: \u201cJ\u00e1 que o rei me odeia tanto, partirei. Mas obtei-me pelo menos com que comprar as minhas armas e o cavalo, que tive de empenhar a fim de poder subsistir.\u201d \u201cPor Deus, Trist\u00e3o, admiro-me que ouseis fazer-me semelhante pedido. Quereis ent\u00e3o perder-me?\u201d E afasta-se, orgulhosa e digna. Trist\u00e3o, fingindo uma viva emo\u00e7\u00e3o e como que cambaleando, apoia-se \u00e0 escadaria de m\u00e1rmore e diz alto: \u201cAh!, Deus, nunca pensei um dia sofrer tal perda e exilar-me em t\u00e3o grande pobreza. Ai de mim! Vou partir sem armas nem cavalo, pois empenhei o arn\u00eas e n\u00e3o o posso resgatar. Deus, afastaste-te de mim! Quando estiver em terra estrangeira, se ouvir dizer que um rei procura homens a soldo para uma guerra, n\u00e3o ousarei pronunciar uma palavra: um homem nu n\u00e3o tem nenhuma raz\u00e3o para falar. Ah, meu tio, \u00e9 preciso que me conhe\u00e7as muito mal para desconfiares assim de trai\u00e7\u00e3o! Atribuis-me uma atitude que \u00e9 o oposto dos meus sentimentos.\u201dO rei, nos ramos da \u00e1rvore, regozija- se ingenuamente com a fidelidade de Isolda e a lealdade de Trist\u00e3o; irrita-se contra os delatores: \u201cDesta vez \u2014 pensa \u2014, vejo bem que o an\u00e3o me logrou: foi para minha maior confus\u00e3o que me mandou subir \u00e0 \u00e1rvore. Mentiu-me acerca do meu sobrinho; por isso o mandarei enforcar e tamb\u00e9m por ter-me feito conceber avers\u00e3o a minha mulher. Agi como um louco, mas aquele que me levou a isso n\u00e3o esperar\u00e1 muito pelo castigo. Se conseguir apanhar esse an\u00e3o odioso, f\u00e1-lo-ei acabar os seus dias no fogo.\u201d Repete para si mesmo que tem f\u00e9 na mulher: de futuro recusar-se-\u00e1 a acreditar nos que a tentarem difamar. Nunca retirar\u00e1 a confian\u00e7a a Trist\u00e3o e a Isolda: deix\u00e1-los-\u00e1 de novo ir e vir juntos no quarto real \u00e0 vontade.De retorno ao castelo, a rainha narra a aventura a Brangia e como, por meio de uma bela ast\u00facia, escapou \u00e0 armadilha que lhe fora armada: \u201cBela amiga, quem me dera que nos tivesses ouvido, a Trist\u00e3o e a mim, queixarmo-nos e lamentarmo-nos \u00e0 porfia! Por um triz que o rei n\u00e3o se deu conta da verdade. Sai-me verdadeiramente bem deste mau passo!\u201d Quando Brangia a ouviu, n\u00e3o lhe poupou a admira\u00e7\u00e3o: \u201cDeus, que nunca enganou, concedeu-vos uma grande gra\u00e7a ao permitir-vos chegar ao termo da entrevista sem terdes dito uma \u00fanica palavra que vos pudesse comprometer. Deus realizou um grande milagre convosco: agiu como o verdadeiro Pai, pois preocupa-se em n\u00e3o fazer mal \u00e0queles que s\u00e3o bons e leais.\u201dNo dia seguinte, de manh\u00e3, Marcos quis fazer desaparecer as \u00faltimas inquieta\u00e7\u00f5es acerca da rainha. Penetrou no quarto de Isolda, que sentiu grande emo\u00e7\u00e3o: \u201cSire, em nome de Deus, donde vindes? Tendes algum assunto premente, para virdes assim sozinho?\u201d \u201cSenhora, \u00e9 a v\u00f3s que venho falar e perguntar uma coisa; n\u00e3o me escondais, pois, a verdade, porque \u00e9 a ela que eu quero conhecer.\u201d \u201cSire, nunca em dias da vida vos menti: mesmo que tivesse de morrer aqui, diria a verdade toda e inteira, n\u00e3o mentiria numa \u00fanica palavra.\u201d \u201cEnt\u00e3o, desde h\u00e1 quanto tempo n\u00e3o vedes Trist\u00e3o?\u201d \u201cSire, n\u00e3o me ides acreditar, mas eis o que se passou: vi-o esta noite mesmo e falei-lhe sob o pinheiro que abriga a escadaria de m\u00e1rmore. Sim, senhor, vi o vosso sobrinho no lugar que disse. Mandara-me dizer para ai me encontrar com ele: a minha honra obrigava-me a satisfazer o desejo daquele por quem me tornei rainha da Cornualha, esse Trist\u00e3o que amo unicamente porque \u00e9 vosso sobrinho. De prefer\u00eancia a voltar para o ex\u00edlio, desejava que o reconciliasse convosco; recusei-me a faz\u00ea-lo com medo desses traidores que vos fazem crer no mal. Disse-lhe que partisse e nunca mais me procurasse, pois n\u00e3o podia fazer nada por ele, nem devolver-lhe a vossa amizade, nem dar-lhe com que resgatar o arn\u00eas que empenhara.\u201d O rei sabe perfeitamente que ela falou verdade; cem vezes a beija e abra\u00e7a. Declara que lhes devolve a confian\u00e7a para sempre, a ela e a Trist\u00e3o. Confessa-lhe que assistiu \u00e0 entrevista noturna, empoleirado nos ramos do pinheiro grande. \u201cSire, est\u00e1veis realmente no pinheiro?\u201d \u201cSim, senhora, por S\u00e3o Martinho, n\u00e3o houve uma \u00fanica palavra que me escapasse, fosse em voz alta ou baixa. Quando ouvi Trist\u00e3o dizer que empenhara o cavalo e o arn\u00eas e que n\u00e3o tinha sequer com que os resgatar, apoderou-se de mim tal piedade que quase ca\u00ed da \u00e1rvore. Ouvi quando vos recusastes a pagar-lhe o penhor e vi que n\u00e3o vos aproximastes um do outro. Sorri de contentamento no cimo da \u00e1rvore.\u201d \u201cSire, o que contais \u00e9-me de grande reconforto. Agora sabeis com certeza que a ocasi\u00e3o era prop\u00edcia para nos beijarmos e abra\u00e7armos, se nos am\u00e1ssemos com amor culpado. Mas em nenhum momento o vistes aproximar-se de mim, ter uma atitude inconveniente ou abra\u00e7ar- me.\u201d \u201cPor Deus, n\u00e3o \u2014 respondeu o rei. \u2014Sabeis, franca e honrada dama, por que me embosquei naquela \u00e1rvore? Foi Frocin, o an\u00e3o corcunda, quem mo aconselhou: o vil mentiroso pretendia ter lido nas estrelas que v\u00f3s t\u00ednheis, nessa noite, um encontro amoroso com Trist\u00e3o, na fonte do pomar. Jurou-me que vos apanharia aos dois em flagrante, contanto que consentisse em espiar-vos do alto do pinheiro grande.\u201dMarcos volta-se ent\u00e3o para Brangia: \u201cMo\u00e7a, vai buscar o meu sobrinho a casa do hospedeiro que lhe d\u00e1 asilo. Se ele pretextar seja o que for e n\u00e3o quiser escutar-te, diz-lhe que eu lhe ordeno que me venha ver.\u201d Brangia, a astuta, n\u00e3o resiste \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se divertir tamb\u00e9m com a credulidade do rei Marcos e, para afastar qualquer suspeita de cumplicidade com os amantes, responde: \u201cSire, Trist\u00e3o odeia-me! Sem raz\u00e3o alguma, Deus o sabe, diz que \u00e9 por minha culpa que se p\u00f4s de mal convosco. Irei no entanto, pois, por amor de v\u00f3s, poupar-me-\u00e1 e n\u00e3o me far\u00e1 mal algum. Sire, em nome de Deus, reconciliai-me com ele quando chegar.\u201d Olha a p\u00e9rfida: contava propositadamente hist\u00f3rias e queixava-se sem motivo para melhor enganar o rei Rindo, corre para a porta e sai.Uma hora depois, Trist\u00e3o apresentou-se diante de Marcos, que lhe devolveu toda a confian\u00e7a: autorizou-o a dormir de novo, como os outros fi\u00e9is, no quarto do rei.Entretanto, numa clareira da floresta, o an\u00e3o Frocin interrogava o curso das estrelas para conhecer o resultado do estratagema que aconselhara. Leu no c\u00e9u que a rainha e Trist\u00e3o haviam escapado pela ast\u00facia \u00e0 armadilha que lhes fora armada e que haviam, mais uma vez, acalmado as suspeitas do rei. Leu tamb\u00e9m que Marcos voltara o furor contra ele e que prometera mat\u00e1-lo para vingar-se do papel humilhante que o infame feiticeiro o fizera representar. O an\u00e3o, no mesmo instante, ficou negro de medo e de vergonha; tomado de p\u00e2nico, fugiu sem parar para a terra de Gales.<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>A FARINHA-FLOR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O AMOR \u00e9 insaci\u00e1vel e nenhuma raz\u00e3o o governa. Um gesto, um olhar, um suspiro, bastam para revel\u00e1-lo. O descuido dos amantes fazia o jogo dos inimigos. Desde que Marcos renunciara a suspeitar deles, Trist\u00e3o e Isolda, negligenciando os avisos de Brangia, n\u00e3o hesitavam em encontrar-se em pleno dia. Os traidores, que os observavam e s\u00f3 aguardavam a ocasi\u00e3o de denunci\u00e1-los, estavam bem resolvidos a tirar desforra.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o ia e vinha livremente no castelo e visitava a rainha nos aposentos das mulheres. Um dia em que estava com Isolda, os traidores surpreenderam-nos. \u201cDesta vez \u2014 pensaram \u2014 temo-los na m\u00e3o: ser\u00e1 milagre se escaparem!\u201d Foram contar tudo a Marcos e envergonharam-no da cegueira: \u201cSire, uma grande infelicidade vos amea\u00e7a. A rainha ama Trist\u00e3o e \u00e9 correspondida. Toda a gente na corte, salvo v\u00f3s, est\u00e1 convencida da sua trai\u00e7\u00e3o. Eis-vos agora prevenido, a v\u00f3s compete defender a vossa honra afastando vosso sobrinho!\u201d O rei escuta-os, suspira, baixa a cabe\u00e7a, cala-se. \u201cN\u00e3o, rei, n\u00e3o o ag\u00fcentaremos mais, pois sabemos que esta not\u00edcia, h\u00e1 pouco estranha, j\u00e1 n\u00e3o te surpreende. Consentes, pois, no seu crime. Que far\u00e1s? Delibera e aconselha-te. Quanto a n\u00f3s, se n\u00e3o banires o teu sobrinho para sempre, retiramo-nos para os feudos e levaremos tamb\u00e9m os vizinhos para fora da tua corte. Eis a escolha que te oferecemos; decide-te.\u201d \u201cSenhores, uma vez acreditei nas feias palavras que diz\u00edeis de Trist\u00e3o e arrependi- me. Mas v\u00f3s sois os meus fi\u00e9is, n\u00e3o quero perder o servi\u00e7o dos meus homens. Aconselhai-me pois, pe\u00e7o-vos, \u00e9 o vosso cargo.\u201d Os bar\u00f5es replicaram: \u201cSe quereis seguir o nosso conselho, mandai chamar o an\u00e3o Frocin, que injustamente banistes. Tendes-lhe rancor por causa da vossa desventura no pomar. Todavia, n\u00e3o leu nas estrelas que a rainha e Trist\u00e3o se encontrariam nessa noite debaixo do pinheiro? Sabe muitas coisas; segui o seu conselho.\u201d<\/p>\n<p>O maldito acorreu e ensinou ao rei novo ardil \u00e0 sua moda: \u201cSire, ordena ao teu sobrinho que amanh\u00e3, ao alvorecer, cavalgue at\u00e9 Carduel, para levar ao rei Artur uma carta em pergaminho, selada com o teu sinete. Trist\u00e3o dorme no teu quarto e da cama dele \u00e0 tua n\u00e3o vai mais que o comprimento de uma lan\u00e7a. Na hora do primeiro sono sair\u00e1s do quarto com os teus fi\u00e9is sob o pretexto de ir ca\u00e7ar. Juro-te que Trist\u00e3o, porque ama loucamente a rainha, tentar\u00e1 falar-lhe antes de partir e ir\u00e1 ter com ela ao leito. Saber\u00e1s ent\u00e3o a confian\u00e7a que ele merece. Mas livra-te de dizeres alguma coisa ao teu sobrinho antes de se deitarem!\u201d O rei deu o seu acordo. O an\u00e3o correu at\u00e9 uma padaria e comprou um saquinho de farinha-flor que escondeu no casaco. Em seguida regressou ao pal\u00e1cio sem ser visto.<\/p>\n<p>J\u00e1 noite escura, quando chegou a hora de o rei se deitar, Trist\u00e3o, como de costume, encontrava-se presente. Marcos disse- lhe: \u201cQuerido sobrinho, um grave problema me preocupa e s\u00f3 tu me podes ajudar. \u00c9 preciso que amanh\u00e3 cavalgues at\u00e9 Carduel, onde reside o rei Artur. Saud\u00e1-lo-\u00e1s da minha parte e entregar-lhe-\u00e1s esta carta selada com o meu grande sinete de cera. Dorme bem, pois o caminho \u00e9 longo e duro e ser-te-\u00e1 necess\u00e1rio partir ao romper do Sol.\u201d Trist\u00e3o recebeu esta ordem com desagrado, pois custava-lhe sempre afastar-se da rainha, mas consolou-se dizendo para consigo mesmo que a aus\u00eancia seria curta. Um desejo furioso de falar \u00e0 rainha antes da partida apoderou-se dele: prometeu a si pr\u00f3prio que, pouco antes do amanhecer, se Marcos estivesse a dormir, se aproximaria do leito real e falaria com Isolda para despedir-se. Este agrad\u00e1vel pensamento mantinha-o acordado, gozando antecipadamente o prazer que o esperava, quando um ligeiro barulho lhe atraiu a aten\u00e7\u00e3o. Inclinou-se e viu a porta abrir-se. O an\u00e3o introduziu-se furtivamente no quarto e entregou- se a uma estranha manobra: extraindo a farinha-flor do saco que segurava debaixo do bra\u00e7o, espalhava-a no solo, entre a cama de Trist\u00e3o e a da rainha. Se um dos amantes fosse ter com o outro, a farinha conservaria a marca dos passos. Trist\u00e3o pensou ent\u00e3o: \u201cEste an\u00e3o n\u00e3o costuma fazer-me bem; se espalha a farinha, s\u00f3 pode ser para me prejudicar. Mas ficar\u00e1 desiludido: n\u00e3o sou louco para deixar no ch\u00e3o o rasto dos meus p\u00e9s!\u201d<\/p>\n<p>Uma profunda obscuridade reinava agora no quarto. O an\u00e3o, realizada a tarefa, desaparecera apagando as velas. A meia-noite, o rei vestiu-se e saiu com os bar\u00f5es com toda a apar\u00eancia de ir ca\u00e7ar \u00e0 espera na floresta. Trist\u00e3o e Isolda ficaram sozinhos com P\u00e9rinis, o lacaio irland\u00eas que dormia ao p\u00e9 do leito real. Trist\u00e3o julgou o momento favor\u00e1vel para se aproximar de Isolda, mas achou um h\u00e1bil subterf\u00fagio para desmanchar o ardil de Frocin: lentamente, ergueu-se na cama, juntou os calcanhares e, com um brusco impulso, saltou a p\u00e9s juntos para a cama do rei. O seu ardor juvenil faz-lhe esquecer que um javali lhe abrira a coxa com as presas, no recurso de uma ca\u00e7ada, dois dias antes. O esfor\u00e7o que faz para saltar reabre a ferida mal fechada e o sangue jorra nos len\u00e7\u00f3is da rainha. Todo entregue ao prazer, Trist\u00e3o n\u00e3o sente a dor.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, nesse mesmo instante, observando a face da Lua, o an\u00e3o sabe, pela sua arte de sortil\u00e9gio, que os amantes se unem na carne. Exulta de alegria e, correndo para Marcos, diz-lhe: \u201cVai agora e, se n\u00e3o os surpreenderes juntos, manda-me enforcar!\u201d O rei entra imediatamente no quarto seguido pelo an\u00e3o e pelos quatro traidores. Mas Trist\u00e3o ouviu-os; com novo impulso, arremessa-se, salta e cai na cama. Gotas de sangue salpicam aqui e ali o ch\u00e3o coberto de farinha-flor; os len\u00e7\u00f3is de Trist\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e3o vermelhos. A toda a pressa, o rei manda acender as velas e olha em redor. Fica desapontado, pois n\u00e3o v\u00ea pegadas na farinha-flor e os dois amantes parecem dormir sossegadamente, cada um em sua cama. Ent\u00e3o o an\u00e3o mostra ao rei as manchas de sangue nos dois leitos e as gotas vermelhas na farinha-flor. O rei diz a Trist\u00e3o: \u201cEis ind\u00edcios irrefut\u00e1veis: o teu crime est\u00e1 provado, n\u00e3o servir\u00e1 de nada defenderes-te. Em verdade, Trist\u00e3o, nunca em toda a minha vida senti tal furor, pois nunca fui ultrajado nem metido a rid\u00edculo como tu acabas de fazer! Que com\u00e9dia n\u00e3o me representastes, a rainha e tu, sob os ramos do pinheiro grande! Mas o castigo de ambos ser\u00e1 proporcional ao vosso crime.\u201d<\/p>\n<p>Desta vez os amantes foram apanhados em flagrante. Os bar\u00f5es, superando a covardia, atiram-se sobre Trist\u00e3o sem nenhum cuidado com a ferida e atam-no fortemente com cordas. Se o bravo tivesse a espada, estes covardes n\u00e3o teriam ousado levantar a m\u00e3o para ele, mas tinham-no desarmado, \u00e0 sua merc\u00ea! \u201cQuerido tio\u2014falou Trist\u00e3o\u2014, as apar\u00eancias condenam-nos e nenhuma denega\u00e7\u00e3o serviria. Todavia, n\u00e3o h\u00e1 homem em tua casa que, se ousasse sustentar a mentira de que amo loucamente a rainha, n\u00e3o me encontrasse logo pronto a defront\u00e1-lo em campo fechado. Ponho confian\u00e7a em Deus e estou certo de que, se me permitisses defender-me em combate singular, nenhum guerreiro se encontraria que pegasse em armas contra mim. Mas pelo Deus que sofreu a Paix\u00e3o, imploro a tua clem\u00eancia, n\u00e3o para mim, mas unicamente para Isolda, pois n\u00e3o falhou. Sire, n\u00e3o te vingues nela!\u201d Ao dizer, estas palavras, voltou-se para a rainha e inclinou-se profundamente. \u201cN\u00e3o h\u00e1 piedade!\u201d\u2014gritaram os traidores. \u201cSire \u2014 continuou Trist\u00e3o \u2014, podes ordenar a minha morte: sem a ter merecido, n\u00e3o a temo no entanto . Mas em nome do Pai da miseric\u00f3rdia, pe\u00e7o-te, poupa Isolda!\u201d Marcos, branco de c\u00f3lera, voltou a cabe\u00e7a e n\u00e3o se dignou responder. Os bar\u00f5es apoderaram- se da rainha e amarraram t\u00e3o rudemente os seus delicados membros que a carne ficou toda pisada. Em seguida, fecharam os amantes num reduto cujas sa\u00eddas mandaram guardar durante o resto da noite. A partir desse instante, Marcos estava bem resolvido a castigar os culpados sem outra forma de processo: jurou que, no dia seguinte de manh\u00e3, os mandaria consumir a ambos no fogo e que as cinzas, seriam espalhadas ao vento, como era uso para os traidores.<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>O SALTO DA CAPELA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O BOATO de que o rei surpreendera juntos Trist\u00e3o e a rainha gra\u00e7as aos sortil\u00e9gios do an\u00e3o Frocin corre e espalha-se por toda a cidade: Marcos, na sua c\u00f3lera, resolveu conden\u00e1-los \u00e0 morte sem julgamento. Choram grandes e pequenos. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, entre o povo, que se n\u00e3o apiede da sorte dos amantes nem deseje o Inferno para o an\u00e3o, causa de todo o mal. \u201cAh! \u2014 diziam \u2014 temos boas raz\u00f5es para chorar e nos afligir! Como pode o rei enviar para o suplicio o bravo que sozinho ousou combater o Morbolt e nos libertou da servid\u00e3o? N\u00e3o admitiremos que o seu corpo seja destru\u00eddo. Ah, rainha nobre e honrada, haver\u00e1 alguma terra onde se tenha visto nascer uma filha de rei com o teu valor? Ah, an\u00e3o maldito, oxal\u00e1 a tua feiti\u00e7aria n\u00e3o conduza \u00e0 sua perda! Levantemo-nos contra tal iniq\u00fcidade: vamos ter com o rei, ele tem de nos ouvir!\u201d E eis o povo que, em grande tumulto, se junta diante do pal\u00e1cio para implorar o perd\u00e3o dos dois cativos As lam\u00farias e os gritos redobram, mas tal \u00e9 o furor do rei que nenhum bar\u00e3o ousa arriscar uma \u00fanica palavra para aplac\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A noite chegava ao fim. J\u00e1 \u00e0 aurora iluminava a cidade e os campos. Marcos, que n\u00e3o pudera dormir, de tal modo o seu cora\u00e7\u00e3o estava atormentado, levantou-se cedo e cavalgou com os fi\u00e9is at\u00e9 uma vasta plan\u00edcie, a alguma distancia das muralhas da cidade. Ordenou que cavassem uma vala profunda e a\u00ed deitassem um monte de sarmento de vinha e moitas de espinheiros-alvares e ac\u00e1cias-da-europa arrancadas com as ra\u00edzes. A primeira hora, convocou ao som da trombeta os vassalos da Cornualha, que chegaram por caminhos e atalhos, em grande pressa. Quando j\u00e1 se encontravam reunidos na plan\u00edcie, o rei dirigiu-lhes a palavra: \u201cSenhores, a minha mulher e o meu sobrinho s\u00e3o acusados de trai\u00e7\u00e3o para comigo. Seguindo a lei do pa\u00eds, pagar\u00e3o esse crime com a vida e, por minha vontade, os seus corpos ser\u00e3o reduzidos a cinzas na pira.\u201d<\/p>\n<p>Ao som destas palavras, um longo clamor elevou-se da multid\u00e3o: \u201cSire, piedade para Trist\u00e3o! Piedade para Isolda! N\u00e3o foram julgados: concedei-lhes uma prorroga\u00e7\u00e3o para ouvir a sua defesa! Seria um grande pecado conden\u00e1-los \u00e0 morte sem julgamento.\u201d Mas nada conseguia acalmar a c\u00f3lera de Marcos. \u201cEm nome d&#8217;Aquele que criou o C\u00e9u, a Terra e o Inferno \u2014 exclamou \u2014, ainda que com isso perdesse o meu reino, nada me poder\u00e1 desviar do meu des\u00edgnio! Declaro-vos: se mais algu\u00e9m ousar requerer um julgamento para eles, esse ser\u00e1 o primeiro a arder neste braseiro.\u201d Ordena que acendam o fogo e que v\u00e3o primeiro buscar Trist\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o: ele deve ser queimado em primeiro lugar. Os espinheiros come\u00e7am a flamejar e a crepitar, todos se calam, o rei aguarda ansioso. Os lacaios correm at\u00e9 ao quarto onde os amantes est\u00e3o estreitamente guardados. Arrastam Trist\u00e3o com as m\u00e3os atadas. Quando a rainha v\u00ea partir o amado, chora e sente grande dor. \u201c\u00c9 uma grande vergonha\u2014diz\u2014ver Trist\u00e3o todo amarrado e tratado como um devasso! Doce amigo, daria de bom grado a minha vida para salvar a tua: saberias vingar-me em seguida.\u201d<\/p>\n<p>Escutai, senhores, como Deus, que nos julgar\u00e1 a todos, teve piedade dos amantes: os lamentos que deixaram Marcos insens\u00edvel, ouviu-os Ele e tomou em conta as preces da multid\u00e3o por aqueles que iam suplicar. No caminho que ia do castelo \u00e0 plan\u00edcie onde a pira estava armada elevava-se, por cima do oceano, uma colina escarpada onde se situava uma capela, batida pelo vento norte. Se um esquilo saltasse do alto do rochedo, n\u00e3o conseguiria salvar- se, morreria imediatamente. A abside da capela, constru\u00edda no r\u00e9s da fal\u00e9sia, era furada por um \u00fanico v\u00e3o guarnecido com um vitral em tons purp\u00fareos, que um santo, outrora, executara com as suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Quando Trist\u00e3o e os guardas passaram diante da capela, viram, pela porta entreaberta, que a nave estava cheia de gente que rezava ao santo pela salva\u00e7\u00e3o dos condenados. Ent\u00e3o Trist\u00e3o pediu aos que o levavam: \u201cSenhores, deixai-me entrar nesta capela: j\u00e1 n\u00e3o me resta muito tempo para viver e gostaria de pedir a Deus que me concedesse a remiss\u00e3o dos meus pecados. Que receais? Esta porta \u00e9 a \u00fanica por onde se pode entrar e sair: tenho mesmo de passar por aqui e v\u00f3s estais armados com s\u00f3lidas espadas. Desprendei-me por um instante, pois n\u00e3o conv\u00e9m que um homem, amarrado como estou, entre para rezar num lugar santo.\u201d Os guardas estavam indecisos e interrogavam-se um ao outro sobre o que deviam fazer: \u201cEle tem raz\u00e3o \u2014 disse um deles. \u2014 Que arriscamos? Podemos solt\u00e1-lo um instante e deix\u00e1-lo ir: como poderia escapar-nos, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda al\u00e9m desta?\u201d Os guardas desamarram-no e deixam-no entrar. Trist\u00e3o transp\u00f5e a soleira sem se apressar; depois, com um passo r\u00e1pido, atravessa a nave por entre os fi\u00e9is prosternados, avan\u00e7a para o coro at\u00e9 atr\u00e1s do altar e salta para a janela do belo vitral. Abre-a e, com um brusco impulso, atira-se no v\u00e1cuo. Mais valia correr o risco de partir os ossos contra a fal\u00e9sia do que ser ignominiosamente queimado sob os olhares de todos! Senhores, havia ao r\u00e9s da fal\u00e9sia, mesmo embaixo da janela, uma larga mesa de pedra: Trist\u00e3o aterrou sem se magoar nesse patamar, pois, por vontade de Deus que o protegia, o vento engolfara-se nas roupas e amortecera-lhe a queda. Ainda hoje, as pessoas da Cornualha mostram este patamar e chamam-lhe \u201cO salto de Trist\u00e3o\u201d. Da mesa de pedra, Trist\u00e3o pulou para a areia e correu a toda a velocidade pela charneca, na dire\u00e7\u00e3o da floresta. V\u00e1rios dos que estavam a rezar na capela vieram \u00e0 janela e gritaram que era milagre, vendo Trist\u00e3o s\u00e3o e salvo fugindo \u00e0 beira-mar.<\/p>\n<p>Enquanto Trist\u00e3o se volta um instante e v\u00ea subir ao longe o fumo da fogueira, as testemunhas da sua evas\u00e3o espalham-se pela cidade, de tal modo que em breve a not\u00edcia \u00e9 conhecida de todos. O fiel Gorvenal acorre imediatamente \u00e0 r\u00e9dea solta e, levando tamb\u00e9m o cavalo de Trist\u00e3o, junta-se-lhe na charneca: \u201cAmigo, trago-te a espada, o lorig\u00e3o, o elmo e o cavalo: Deus concedeu-te a liberdade, ser-te-\u00e1 necess\u00e1rio combater duramente para conserv\u00e1-la.\u201d Trist\u00e3o, sem dizer palavra, endossou o lorig\u00e3o, enfiou o elmo, cingiu a espada e saltou para a sela do cavalo que Gorvenal lhe trazia. Apenas armado, Trist\u00e3o quis logo arremessar-se contra a pira, cuja crepita\u00e7\u00e3o chegava at\u00e9 ele. \u201cDeus concedeu-me a liberdade \u2014 disse \u2014, mas de que me serve, se estou separado de Isolda? Antes me tivesse esmagado contra a pedra ao saltar da capela! Isolda, Isolda, minha doce amante, estou livre, mas tu vais ser queimada!\u201d<\/p>\n<p>Gorvenal agarra-lhe no bra\u00e7o e segura-o: \u201cFilho, n\u00e3o nos apressemos, aguardemos o momento prop\u00edcio. O furor do rei \u00e9 extremo e os burgueses est\u00e3o aterrorizados. Os que mais te amam, se ele Lhes mandar baterem-te, n\u00e3o ousar\u00e3o desobedecer, pois, como se costuma dizer, cada um se ama mais que ao pr\u00f3ximo. Assim, deixar-te-\u00e1s apanhar e matar em v\u00e3o, sem proveito para Isolda.\u201d Trist\u00e3o abanou a cabe\u00e7a e pareceu resignar-se. \u201cQue me aconselhas?\u201d \u201cV\u00eas ali embaixo aquele espesso bosque, cercado por fossos? Escondamo-nos l\u00e1 e ouviremos sem ser vistos o que dizem as pessoas que passam pela estrada. Por eles saberemos o que acontecer\u00e1 a Isolda e poderemos, no momento mais favor\u00e1vel, quando a emo\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o atingir o auge, surgir bruscamente a galope e rapt\u00e1-la, se Deus nos ajudar, \u00e0 viva for\u00e7a.\u201d \u201cEmbosquemo- nos ent\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Ora, quando Trist\u00e3o saltara da capela ao p\u00e9 da fal\u00e9sia, um pobre homem que passava por ali vira-o levantar-se e fugir. Correu ao castelo do rei e chegou ao c\u00e1rcere da rainha. E antes que os guardas o pudessem afastar gritou-lhe: \u201cRainha, n\u00e3o chores mais! O teu amado fugiu.\u201d \u201cDeus seja louvado \u2014 disse Isolda.<\/p>\n<p>Agora, que os traidores me amarrem ou desamarrem, que me poupem ou me matem, n\u00e3o me importa j\u00e1! Uma vez que Trist\u00e3o est\u00e1 livre, sei que os traidores e o an\u00e3o, seu maldito servidor, ter\u00e3o em breve a recompensa devida! Agora, n\u00e3o chorarei mais.\u201d<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>ISOLDA ABANDONADA AOS LEPROSOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>QUANDO o rei Marcos soube que o sobrinho fugira saltando pelo vitral da capela, o seu furar ainda aumentou mais: ficou branco de c\u00f3lera. Ordenou que sua mulher fosse trazida sem demora para ser queimada publicamente na pira. Quando ela apareceu, cercada de guardas, p\u00e1lida e desfigurada, os punhos ensang\u00fcentados pelos n\u00f3s que os estreitam, gritos indignados elevaram-se da multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Dinas, o bom senhor de Lidan, que era amigo de Trist\u00e3o, lan\u00e7ou-se aos p\u00e9s do rei: \u201cSire, suplico-te, ouve-me! Servi-te durante muito tempo com toda a lealdade, sem disso tirar algum proveito: durante todo o tempo em que desempenhei junto de ti as fun\u00e7\u00f5es de senescal, n\u00e3o h\u00e1 um homem pobre, um \u00f3rf\u00e3o ou uma mulher velha a quem tenha exigido injustamente um \u00fanico den\u00e1rio. Em recompensa, concede-me o perd\u00e3o da rainha. Queres queim\u00e1-la sem julgamento: seria cometer uma perversidade e agir contra o direito e os costumes, pois ela n\u00e3o reconhece o crime de que a acusas. Pensa que, se queimares o seu corpo, nenhum dos teus bar\u00f5es estar\u00e1 mais em seguran\u00e7a em todo o reino. Trist\u00e3o escapou-se, conhece bem as plan\u00edcies, os bosques, os vaus, as passagens; como a sua ousadia \u00e9 sem igual, matar\u00e1, se os conseguir surpreender, todos os teus homens que considerar respons\u00e1veis pelo suplicio da rainha. Por certo que te poupar\u00e1 a ti porque \u00e9s seu tio, mas mais ningu\u00e9m al\u00e9m de ti poder\u00e1 responder pela vida. O teu reino ser\u00e1 posto a ferro e fogo, pois n\u00e3o deixar\u00e1 por vingar a filha de rei que trouxe para ti da sua distante ilha.\u201d<\/p>\n<p>Guenelon, Gondo\u00efne e Denoalen escutavam as palavras de Dinas e tremiam de medo ao nome de Trist\u00e3o. O senescal prosseguiu: \u201cSire, servi-te toda a vida sem nada pedir em troca. Solicito hoje uma recompensa: confia-me a rainha Isolda e coloca-a sob a minha salvaguarda at\u00e9 ao dia que fixar\u00e1s para o julgamento. Prometo conduzi-la no dia marcado perante a tua corte.\u201d<\/p>\n<p>O rei pegou na m\u00e3o de Dinas e levantou-o. Mas, longe de satisfazer o seu pedido, jurou em voz alta: \u201cPelo ap\u00f3stolo S\u00e3o Tom\u00e1s, pronta e inflex\u00edvel justi\u00e7a ser\u00e1 feita e por nada deste mundo admitirei perd\u00e3o ou demora!\u201d Dinas inclinou-se diante de Marcos. \u201cRei \u2014 disse \u2014, se \u00e9 assim, regresso ao meu castelo de Lidan, pois nem por todo o ouro do mundo assistiria ao suplicio da rainha!\u201d Saltou para o corcel e afastou-se, triste e sombrio, a cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n<p>Isolda mant\u00e9m-se em p\u00e9 diante das chamas. As l\u00e1grimas deslizam- lhe pela face. Traz um vestido de seda cinzenta; os cabelos, em longas tran\u00e7as, caem-lhe at\u00e9 aos p\u00e9s. Meu Deus!, como os seus bra\u00e7os est\u00e3o estreitamente ligados! Quem a poderia ver t\u00e3o bela sem se apiedar? O povo, em redor, amaldi\u00e7oa o rei, amaldi\u00e7oa os traidores. Encontrava-se no meio da multid\u00e3o um bando de cerca de cem leprosos que tinham vindo de Lancien, onde havia o lepros\u00e1rio. Cada um mais hediondo que o outro, agitavam as matracas de madeira e coxeavam nas muletas, empurrando-se e acotovelando-se para melhor gozarem o espet\u00e1culo. A carne era esbranqui\u00e7ada e corro\u00edda; sob as p\u00e1lpebras inchadas, os olhos sanguinolentos estavam dilatados pela espera. O mais disforme de todos era o chefe do bando, e chamava-se Iv\u00e3. Com uma voz rouca, gritou ao rei: \u201cSire, porque a tua mulher te enganou e ridicularizou, queres destruir-lhe o corpo nesse braseiro. Concordo que \u00e9 justi\u00e7a boa e direita, mas ser\u00e1 demasiado breve! Este grande fogo cedo a queimar\u00e1 e o vento n\u00e3o tardar\u00e1 a espalhar as cinzas. Quando a chama da pira dentro em breve cair e se apagar, o seu sofrimento ter\u00e1 acabado. Queres que te ensine um castigo pior, cem vezes mais longo e cruel, de modo que ela continue a viver, mas uma vida t\u00e3o miser\u00e1vel e atroz que ser\u00e1 pior que a morte? Assim a rainha lamentar\u00e1 todo o resto da vida n\u00e3o ter perecido nesta fogueira; e tu ser\u00e1s ainda mais respeitado.\u201d \u201cPor Deus, aceitarei deixar-lhe a vida, com a condi\u00e7\u00e3o de lhe ser doravante mais dura que a morte! Aquele que me indicar um supl\u00edcio t\u00e3o cruel como dizes e do qual ningu\u00e9m ainda ouviu falar, ficarei grato e recompens\u00e1-lo-ei largamente. Fala, pois, se o conheces.\u201d \u201cRei \u2014 respondeu Iv\u00e3 \u2014, ficar\u00e1s satisfeito quando me ouvires. V\u00ea estes companheiros que me cercam, com os membros disformes e a face corro\u00edda pela lepra. Entrega-lhes Isolda, ser-nos-\u00e1 comum e ter\u00e1 de se submeter a todas as nossas vontades. Viver\u00e1 dia e noite nas nossas cabanas, comer\u00e1 conosco das tigelas, dormir\u00e1 nos nossos catres e sofrer\u00e1 o contato das nossas carnes corrompidas. H\u00e1 em n\u00f3s um t\u00e3o grande ardor, pois o mal ati\u00e7a-nos o desejo, que n\u00e3o existe mulher no mundo que consiga suportar as nossas rela\u00e7\u00f5es carnais. Ao p\u00e9 de ti, vivia \u00e0 larga, rica e honrada, adornada com j\u00f3ias e vestidos guarnecidos com peles de esquilo. Quando vir as nossas cabanas de teto baixo, quando tiver de nos servir, partilhar a nossa cama, a orgulhosa Isolda lamentar\u00e1 ent\u00e3o a sua falta e at\u00e9 as chamas da fogueira.\u201d<\/p>\n<p>O rei refletiu um instante no que dissera o leproso, depois levantou-se do trono e agarrou Isolda pelo bra\u00e7o para lha dar. \u201cPiedade! Piedade, senhor! \u2014 implorou a infeliz. \u2014 De prefer\u00eancia a entregar-me a essa gente, atirai-me antes sem demora para a pira!\u201d<\/p>\n<p>Mas Marcos, impass\u00edvel, entregou-a a Iv\u00e3, que, cheio de uma diab\u00f3lica alegria, apoderou-se dela sem perda de tempo e arrastou- a para longe do braseiro, seguido por todos os companheiros.<\/p>\n<p>O grupo esfarrapado cercava a infortunada soltando gritos penetrantes: quem primeiro se aproximaria dela e lhe tocaria com a m\u00e3o? J\u00e1 debatiam ruidosamente qual deles a possuiria primeiro e em que ordem cada um a fruiria. O sinistro cortejo entrou pela estrada de Lancien e aproximou-se do pequeno bosque onde Trist\u00e3o estava emboscado com Gorvenal. Quando o escudeiro viu avan\u00e7ar aquela turba estridente e avistou a rainha entre eles, encheu-se de horror: \u201cFilho\u2014diz a Trist\u00e3o\u2014, olha para ali, na estrada; v\u00ea Isolda no meio de um bando de leprosos: arrastam-na \u00e0 for\u00e7a. Ser\u00e1 poss\u00edvel que o rei Marcos a tenha abandonado a eles?\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o esporeou o cavalo e saltou para a estrada; lan\u00e7ou-se, de espada em riste, sobre Iv\u00e3: \u201cDevasso \u2014 disse-lhe \u2014, basta! Larga essa mulher ou fa\u00e7o-te voar a cabe\u00e7a com um golpe da minha espada.\u201d Mas Iv\u00e3 desaperta o casaco: \u201cVamos, companheiros!, aos bast\u00f5es!, \u00e0s muletas! \u00c9 altura de dardes tudo por tudo!\u201d<\/p>\n<p>Era digno de ver os leprosos atirarem as capas de burel esburacadas e remendadas, firmarem-se nos p\u00e9s mal seguros, resfolegarem, gritarem, brandirem as muletas. Trist\u00e3o n\u00e3o teve necessidade de bater-se com tal corja. Gorvenal cortara, num maci\u00e7o, um forte ramo de carvalho: assentou com ele tal golpe no cr\u00e2nio de Iv\u00e3 que o sangue negro jorrou em abund\u00e2ncia. O miser\u00e1vel caiu ao solo e os companheiros dispersaram-se aos berros.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o apressou-se a desamarrar Isolda. Depois, sem perder um instante, i\u00e7ou-a para a garupa do cavalo e, seguido por Gorvenal, refugiou-se nas profundezas da floresta de Morois. Isolda, nos bra\u00e7os de Trist\u00e3o, depressa esqueceu os perigos daquele dia; de boa vontade se teriam demorado, mas o prudente Gorvenal n\u00e3o quis fazer nenhuma paragem antes do cair da noite. Para melhor escaparem \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es, refugiaram-se no cimo de uma colina arborizada e repousaram. Isolda pousou a cabe\u00e7a no peito do amado e adormeceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XIX<\/p>\n<p>OS AMANTES NA FLORESTA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>EI-LOS na floresta de Morois; Isolda esqueceu todos os seus pesares. Para subsistir nesta solid\u00e3o, longe de qualquer habita\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o t\u00eam outro recurso al\u00e9m da ca\u00e7a. Havia em Trist\u00e3o um maravilhoso arqueiro, mas n\u00e3o podia exercer a sua per\u00edcia, pois faltavam-lhe o arco e as flechas. Gorvenal procurou tanto nos matagais que encontrou a cabana de um florestal e roubou-lhe um arco de alburno e duas flechas bem emplumadas e afiadas. Ent\u00e3o Trist\u00e3o p\u00f5e-se a trabalhar e a espreitar toda a esp\u00e9cie de ca\u00e7a. Vai-se pelos bosques, v\u00ea um cabrito-mont\u00eas, ajusta a flecha e atira: o animal \u00e9 ferido na ilharga, d\u00e1 um salto e abate-se. Trist\u00e3o carrega-o aos ombros e volta para junto de Isolda. Enquanto um fogo de madeira seca flameja, come\u00e7a a construir uma cabana. Com a espada, corta e talha os ramos e junca o solo com v\u00e1rias camadas de folhas. Isolda ajuda-o neste trabalho; em seguida, neste fresco tapete de verdura, Trist\u00e3o senta-se singelamente com a rainha. Gorvenal, diante da choupana de ramadas, leva achas ao braseiro e assa uma pe\u00e7a de ca\u00e7a \u00e0 volta de um ramo de aveleira. Assim sustentam a vida, mas o sal, o p\u00e3o e o leite fazem-lhes muita falta. A rainha sente-se subitamente cansada de todas as prova\u00e7\u00f5es que atravessou; o sono apodera-se dela e adormece, a cabe\u00e7a apoiada no bra\u00e7o de Trist\u00e3o. Viveram assim muito tempo, com duro frio, sol ardente, chuva e vento, na profunda floresta.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o deixara em Tintagel um belo c\u00e3o de corrida, ligeiro e vivo, que atendia pelo nome de Husdent. O rei mandara-o fechar numa sala do torre\u00e3o, mas ele n\u00e3o queria comer nem p\u00e3o, nem papa, nada do que lhe davam; latia e raspava com a pata, os olhos lacrimejantes, de tal modo que as pessoas se apiedaram: \u201cPobre Husdent! Nunca mais encontraremos um c\u00e3o de ca\u00e7a como este, t\u00e3o vivo e que manifeste tal dor pelo dono! Salom\u00e3o disse com justa raz\u00e3o que o seu amigo era o galgo: temos a prova em ti, pois n\u00e3o queres tocar em comida desde que o teu dono desapareceu!\u201d \u201cCreio que ele enlanguesce por causa do dono\u201d \u2014 disse Marcos. Vendo que o rei estava comovido, um dos fi\u00e9is disse-lhe: \u201cSire, mandai-o soltar, sen\u00e3o enraivece e era uma pena num animal t\u00e3o belo e fiel. Quando estiver em liberdade, veremos se \u00e9 pelo dono que geme.\u201d<\/p>\n<p>Marcos aceitou este conselho e mandou um escudeiro desprender o c\u00e3o. Todos os assistentes se foram instalar em bancos ou assentos elevados, pois queriam evitar as mordeduras do c\u00e3o, no caso de estar raivoso. Mas Husdent n\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o de lhes fazer mal: apenas se sentiu solto, desatou a correr em todos os sentidos e n\u00e3o perdeu mais tempo. Transp\u00f4s a porta da sala e dirigiu-se para a habita\u00e7\u00e3o onde costumava encontrar Trist\u00e3o. O rei e os outros seguem-no. N\u00e3o encontrando o dono, o c\u00e3o gane, late muitas vezes e manifesta uma grande dor; d\u00e1 v\u00e1rias voltas farejando o ch\u00e3o e encontra o rasto de Trist\u00e3o. De todos os passos que o bravo fizera quando foi preso e devia ser queimado n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico que o c\u00e3o n\u00e3o fa\u00e7a. O faro condu-lo \u00e0 masmorra onde Trist\u00e3o foi encarcerado e depois \u00e0 capela donde saltou para a fal\u00e9sia. Ai, Husdent salta para o altar ladrando e atira-se pelo vitral como o dono fizera. Magoou-se na perna ao cair no patamar, mas n\u00e3o p\u00e1ra; segue a pista pelo areal e s\u00f3 se det\u00e9m na orla florida do bosque onde Trist\u00e3o se emboscara; em seguida, entranha-se no matagal sob as grandes \u00e1rvores. Os bar\u00f5es dizem ao rei: \u201cDeixemo-lo agora, pois poderia conduzir-nos a locais secretos donde seria dif\u00edcil regressar.\u201d<\/p>\n<p>Husdent corre sob a ramagem e esta ecoa t\u00e3o fortemente os seus latidos que o barulho chega aos ouvidos de Trist\u00e3o. O bravo levanta-se e grita a Gorvenal: \u201cEscuta, \u00e9 Husdent que vem ai! Certamente que o rei vem com ele!\u201d Trist\u00e3o pega no arco e estica- o. Mas o c\u00e3o desemboca sozinho das moitas; imaginem as caricias que fez a Trist\u00e3o: abana a cabe\u00e7a, agita a cauda, lambe-lhe as m\u00e3os e rola a seus p\u00e9s \u2014 para todos uma grande satisfa\u00e7\u00e3o. Do dono, voa at\u00e9 Isolda, depois para Gorvenal e mesmo para os dois cavalos. Mas sempre, em Morois, \u00e0 alegria se mistura a inquieta\u00e7\u00e3o: \u201cAh, Deus\u2014diz Trist\u00e3o\u2014, por que infelicidade me soube Husdent encontrar? Que fazer neste bosque de um c\u00e3o t\u00e3o barulhento? Os seus latidos trair-nos-\u00e3o e a gente do rei prendernos-\u00e1. Mais vale mat\u00e1-lo antes que os seus latidos nos descubram. Far\u00e1 a nossa infelicidade&#8230; Mas no entanto n\u00e3o o posso matar pela sua demasiada fidelidade!\u201d Isolda segura Husdent e mant\u00e9m-no ao p\u00e9s de si: \u201cPiedade para ele!\u2014pede.\u2014Se o c\u00e3o ladra ao perseguir a ca\u00e7a, \u00e9 tanto por adestramento como por natureza. Ouvi outrora dizer que um florestal gal\u00eas possu\u00eda um galgo: ensinara-o t\u00e3o bem que seguia o veado magoado a saltar, mas sem nunca ladrar nem fazer barulho. Amigo Trist\u00e3o, seria uma grande alegria se consegu\u00edssemos, \u00e0 custa de algum esfor\u00e7o, que Husdent abandonasse o latido.\u201d Trist\u00e3o ficou im\u00f3vel e refletiu; apiedou- se do animal e disse: \u201cBela, falaste verdade: gastarei a minha aplica\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia a faz\u00ea-lo agarrar a ca\u00e7a sem latir.\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o vai ca\u00e7ar ao arco na floresta. Era h\u00e1bil; atira uma flecha a um gamo: o sangue corre, o c\u00e3o late, o gamo ferido foge aos saltos, Husdent ladra muito alto. Trist\u00e3o bate-lhe com for\u00e7a. O c\u00e3o p\u00e1ra ao p\u00e9 do dono, cessa de latir, abandona a persegui\u00e7\u00e3o; levanta a cabe\u00e7a para fitar Trist\u00e3o, n\u00e3o sabe que fazer, n\u00e3o ousa latir, perde a pista. Trist\u00e3o mete o c\u00e3o entre as pernas, com pequenas pauladas no solo indica-lhe a pista; Husdent quer latir novamente; Trist\u00e3o est\u00e1 disposto a instrui-lo. Antes de o primeiro m\u00eas ter acabado, o c\u00e3o estava perfeitamente adestrado a ca\u00e7ar em sil\u00eancio: na erva, como na neve ou no gelo, nunca abandona a ca\u00e7a, por mais r\u00e1pida e ardente que seja. Agora o c\u00e3o Lhes \u00e9 de grande auxilio, presta-lhes servi\u00e7os sem pre\u00e7o. Se apanha no bosque um cabrito-mont\u00eas ou um gamo, dissimula-o cuidadosamente, cobrindo-o com rama, e se o agarra no meio da charneca, amontoa erva sobre o corpo do animal, vai buscar o dono e o conduz at\u00e9 \u00e0 presa.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o viveu com Isolda dois anos na floresta; a\u00ed sofreram muitas afli\u00e7\u00f5es e medos. Durante os primeiros meses, n\u00e3o ousavam ficar nunca no mesmo lugar: onde acordavam nunca mais adormeciam. Sabiam muito bem que o rei os procurava e perseguia. O p\u00e3o e o sal faziam-lhes muita falta: viviam unicamente de bagas selvagens e da carne dos animais que Trist\u00e3o matava. N\u00e3o \u00e9 para admirar que o rosto mude de cor, que as roupas se gastem e rasguem nas silvas e espinheiros. Sofrem igualmente os dois, pois cada um sente as dores do outro. A bela Isolda tem muito medo que Trist\u00e3o se arrependa; por seu lado, Trist\u00e3o teme que a amante esteja ressentida contra ele e lamente a loucura cometida.<\/p>\n<p>Foi assim que os fugitivos dissimularam-se e desapareceram no sil\u00eancio do bosque cerrado. Haviam-lhes perdido o rasto e os traidores nada mais podiam contra eles. Desde que Trist\u00e3o vadiava livremente, sentiam a vida amea\u00e7ada. Mais uma vez o maldito an\u00e3o ofereceu-se para ajud\u00e1-los, mas foi para sua infelicidade. Os bar\u00f5es inquietavam-se porque notavam que ele tinha com o rei concili\u00e1bulos dos quais eram exclu\u00eddos. As suas perguntas inquietas, respondia com palavras d\u00fabias, como se guardasse um segredo. Todavia, num dia em que o surpreenderam embriagado, atormentaram-no tanto que conseguiram faz\u00ea-lo falar: \u201cPossuo \u2014 disse \u2014 um segredo que n\u00e3o posso trair sem perjurar em rela\u00e7\u00e3o ao rei. Mas como sois meus amigos, n\u00e3o vos devo esconder nada. Sabereis tudo se me acompanhardes ao Vau Aventuroso; ai se encontra um fosso que abriga uma moita de pilriteiros. O segredo que prometi ao rei n\u00e3o confiar a nenhum ouvido humano, confiei-o, para melhor o enterrar, ao fosso profundo, mas ele chegou \u00e0 moita de pilriteiros que domina o buraco: quando sopra o vento, o pilriteiro, ao ressoar, murmura o segredo que recolheu.\u201d<\/p>\n<p>Os bar\u00f5es foram at\u00e9 l\u00e1 com Frocin, que desapareceu no buraco at\u00e9 aos ombros. Os outros olhavam, pasmados, e n\u00e3o ouviam nada. De repente, levantou-se uma brisa que sacudiu a moita de pilriteiros; o ru\u00eddo das folhas levou at\u00e9 aos bar\u00f5es, com um ligeiro murm\u00fario, esta confid\u00eancia: \u201cO rei Marcos tem orelhas de cavalo.\u201d Algum tempo depois, ao sa\u00edrem de um festim, os bar\u00f5es, animados com o vinho, disseram em tom de brincadeira: \u201cRei, sabemos o que nos escondes.\u201d \u201cQue vos escondo, ent\u00e3o?\u201d Um dos bar\u00f5es aproximou-se dele e sussurrou \u201cO rei Marcos tem orelhas de cavalo!\u201d \u201cPor Deus\u2014respondeu Marcos rebentando a rir \u2014, \u00e9 verdade que tenho orelhas de cavalo! Guardei o segredo at\u00e9 estes \u00faltimos tempos, mas foi descoberto contra minha vontade pelos artif\u00edcios de um bruxo maldito, esse execr\u00e1vel an\u00e3o que n\u00e3o sabe estar calado. Quero acabar com ele. \u201cMal avistou o an\u00e3o, Marcos desembainhou a espada e cortou-lhe a cabe\u00e7a rente \u00e0 corcunda: muitas pessoas se regozijaram com isso por causa do mal que causara a Trist\u00e3o e a Isolda \u2014 os amantes tinham um inimigo a menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XX<\/p>\n<p>O IMPOSS\u00cdVEL ARREPENDIMENTO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FOI-SE o ver\u00e3o, chegou o inverno. Os amantes viviam escondidos na cavidade de um rochedo e, por vezes, no solo endurecido pelo gelo, o frio polvilhava de geada o leito de folhas secas. Pelo poder do seu amor, nem um nem outro sentiam a mis\u00e9ria. Mas quando voltou o tempo claro, ergueram sob as grandes \u00e1rvores a cabana de ramos reverdecidos. Trist\u00e3o conhecia, desde a inf\u00e2ncia, a arte de imitar o canto dos p\u00e1ssaros dos bosques; imitava perfeitamente o verdelh\u00e3o, o chapim, o rouxinol e toda a ra\u00e7a alada. Por vezes, nos ramos da cabana, vindos ao seu apelo, numerosos p\u00e1ssaros, de pesco\u00e7o dilatado, cantavam os seus lais \u00e0 luz do dia. Os amantes j\u00e1 n\u00e3o fugiam pela floresta, errando sem cessar, pois nenhum bar\u00e3o se arriscava a persegui-los Um dia. todavia, um dos quatro traidores, que Deus o amaldi\u00e7oe, arrastado pelo ardor da ca\u00e7a, ousou aventurar-se nas paragens de Morois: era Guenelon, rico homem e de grande fama, amante de fazer correr a matilha.<\/p>\n<p>Nesse dia. Gorvenal estava \u00e0 beira de um rio, perto da nascente. Tirara a sela ao cavalo para deix\u00e1-lo pastar a erva nova. Subitamente, de um pequeno bosque vizinho, surgiram c\u00e3es que ca\u00e7avam a grande velocidade: era a matilha de Guenelon que passava. Gorvenal p\u00f4s \u00e0 pressa a sela no cavalo, emboscou-se perto da senda e viu acorrer a galope aquele que mais odiava o seu senhor, sozinho e sem escudeiro. O malvado bar\u00e3o esporeava tanto O cavalo e tantas vezes lhe batia com o punho no pesco\u00e7o que o animal embicou num rochedo e caiu. Gorvenal, encostado a uma \u00e1rvore, espiava aquele que chegara t\u00e3o depressa e nunca mais voltaria \u2014 o destino n\u00e3o tem retorno. Os c\u00e3es perseguem o veado, os lacaios v\u00e3o atr\u00e1s dos c\u00e3es e o senhor desata aos palavr\u00f5es, irritado com a queda que o atrasou. Quando passa \u00e0 altura de Gorvenal, o fiel servidor sai do abrigo, rememora todo o mal que Guenelon fez ao seu senhor e, com um golpe de espada, corta-lhe a cabe\u00e7a. Em seguida, pega nela, prende-a \u00e0 sela do cavalo e regressa ao ref\u00fagio de Trist\u00e3o.<\/p>\n<p>O bravo repousava na cabana, depois das andan\u00e7as da noite. Dormia na juncada, estreitando contra si a rainha, por quem sentia tanta afli\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o. Que alegria n\u00e3o ser\u00e1 a sua, quando souber que aquele que desejava t\u00e3o ardentemente mat\u00e1-lo perdeu a vida! Gorvenal chega diante da choupana de folhagem, segurando pelos cabelos a cabe\u00e7a do traidor, suspende-a na alta forquilha erguida no centro da cabana, o rosto voltado para o ch\u00e3o. Trist\u00e3o acorda com o barulho, olha para cima e avista na sombra o rosto do inimigo, cujos olhos parecem fix\u00e1-lo; pega na espada que pousara ao p\u00e9 de si e levanta-se de um salto. O escudeiro diz-lhe ent\u00e3o em voz alta e forte: \u201cN\u00e3o te mexas, podes dormir tranq\u00fcilo. Mesmo a cabe\u00e7a de Guenelon, mas j\u00e1 a cortei: j\u00e1 te fizera bastante mal!\u201d Trist\u00e3o fica muito contente com o que ouve; aquele que mais temia morreu. Espalha-se pela Cornualha a nova de que os monteiros de Guenelon, tendo voltado atr\u00e1s, encontraram o seu senhor decapitado: todos est\u00e3o aterrados, ningu\u00e9m mais ousa ir ca\u00e7ar na floresta.<\/p>\n<p>Para escapar mais seguramente aos grandes perigos que corriam, Trist\u00e3o fez um arco de madeira robusta e flex\u00edvel e ajustou-o t\u00e3o habilmente que nunca errava, e matava tudo o que visava; por isso chamou-o \u201co arco que n\u00e3o falha\u201d. No dia em que se muniu desta arma, arriscou-se a fazer incurs\u00f5es em locais mais afastados do ref\u00fagio. Uma bela manh\u00e3 em que os amantes percorriam os grandes bosques em busca de ervas e ra\u00edzes, chegaram por acaso ao orat\u00f3rio de um velho eremita chamado irm\u00e3o Ogrin. Ao sol, debaixo de um bosquezinho de \u00e1ceres, perto da capela, o santo homem, apoiado no bast\u00e3o, caminhava em passos miudinhos. \u201cSenhor Trist\u00e3o \u2014 exclamou \u2014, n\u00e3o sabeis que o rei mandou proclamar um preg\u00e3o por todas as par\u00f3quias do reino? Quem quer que se apodere de v\u00f3s, por for\u00e7a ou ast\u00facia, e vos entregar receber\u00e1 cem den\u00e1rios de ouro fino como recompensa, e todos os bar\u00f5es juraram entregar-vos, morto ou vivo. Arrependei-vos, Trist\u00e3o, pois Deus perdoa sempre ao pecador que se arrepende.\u201d \u201cArrepender-me, senhor Ogrin? E de que crime? V\u00f3s, que nos julgais com tanta seguran\u00e7a, sabeis ao menos que filtro m\u00e1gico, que vinho ervoso bebemos ambos no mar? Sim, o licor encantado embriaga-nos e eu prefiro errar toda a vida nestes lugares selvagens com Isolda e viver de ervas e ra\u00edzes a possuir, sem ela, todos os tesouros do rei Otran.\u201d \u201cSenhor Trist\u00e3o, Deus vos ajude, pois perdestes este mundo e o outro. Nada vos salvar\u00e1 da maldi\u00e7\u00e3o que pesa sobre v\u00f3s. Aquele que trai o seu senhor \u00e9 esquartejado por dois cavalos, queimado na pira e onde a sua cinza cai n\u00e3o nasce mais erva e a lavra \u00e9 in\u00fatil; ai, as \u00e1rvores e a verdura murcham. Trist\u00e3o, conjuro-vos, pela salva\u00e7\u00e3o da vossa alma, entregai a rainha \u00e0quele com quem casou segundo a lei de Roma.\u201d \u201cIrm\u00e3o Ogrin, sabei que j\u00e1 n\u00e3o lhe pertence, pois ele abandonou-a vergonhosamente e entregou-a ao bando de leprosos; foi aos leprosos que a conquistei. Doravante, \u00e9 minha; n\u00e3o me posso separar dela, nem ela de mim.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa noite, o eremita acolheu os dois amantes debaixo do seu teto; por caridade, violou uma vez a sua regra de vida, que lhe proibia receber qualquer mulher. De manh\u00e3zinha, levantaram-se; o eremita rezou por eles e aben\u00e7oou-os. Isolda chorava, prosternada aos p\u00e9s do homem que sofre por Deus. O eremita, para convenc\u00ea-la, citava-lhe palavras do Livro Santo; mas ela, desfeita em lagrimas, abanava a cabe\u00e7a e recusava-se a acreditar: \u201cIrm\u00e3o \u2014 dizia \u2014, s\u00f3 amo Trist\u00e3o e ele s\u00f3 me ama pela for\u00e7a da bebida m\u00e1gica que ambos tomamos por engano e que nos obriga a amarmo-nos. Est\u00e1 fora do nosso poder renunciar a este amor.\u201d \u201cMeu Deus! \u2014 exclama Ogrin. \u2014 Que reconforto se pode dar a mortos? Arrependei-vos, pois aquele que vive em pecado sem arrependimento \u00e9 um morto.\u201d \u201cN\u00e3o \u2014 continuou Trist\u00e3o com for\u00e7a \u2014, n\u00e3o sou um morto, pois vivo e n\u00e3o me arrependo. Irm\u00e3o Ogrin, vamos voltar para a floresta que nos protege e guarda. Vem, Isolda, meu amor!\u201d Isolda levantou-se; deram-se as m\u00e3os e, quando entraram nas altas ervas e na urze, as \u00e1rvores fecharam sobre eles a folhagem.<\/p>\n<p>XXI<\/p>\n<p>A CLEMENCIA DO REI MARCOS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DOIS ANOS haviam passado desde que os amantes se refugiaram com Gorvenal na floresta de Morois: j\u00e1 ai haviam habitado dois ver\u00f5es e dois invernos e viam chegar a esta\u00e7\u00e3o quente pela terceira vez. No fundo dos bosques, longe de qualquer local habitado, Trist\u00e3o e sua amada viviam como animais acossados. Al\u00e9m de frutas selvagens, ervas e ra\u00edzes, s\u00f3 comiam a carne dos animais mortos na ca\u00e7a; fazia-lhes falta o sabor do sal. Na cabana de folhagem onde voltavam sempre depois das caminhadas, o pobre mobili\u00e1rio n\u00e3o passava de alguns vasos de barro que Gorvenal trocara com florestais por pe\u00e7as de ca\u00e7a. Iam buscar a \u00e1gua a uma fonte bastante pr\u00f3xima, que Trist\u00e3o descobrira entre as silvas, no decurso de uma ca\u00e7ada. Sempre fiel e laborioso, Gorvenal entran\u00e7ara alguns cestos de junco e os fugitivos empregavam-nos na colheita das frutas e bagas que tinham de procurar durante horas debaixo das grandes \u00e1rvores e ao longo das veredas. Isolda ficava sozinha todo o dia. enquanto os dois homens iam \u00e0 ca\u00e7a ou \u00e0 procura de um alimento frugal. A rainha depressa renovava a juncada debaixo da choupana de ramagem: o resto do tempo, ficava solit\u00e1ria, \u00e0 espera do regresso do amante. T\u00e3o \u00e1spera e dura era a vida dos desterrados que a sua magreza era extrema e os corpos haviam enfraquecido: quanto mais o tempo passava, mais esta vida de indig\u00eancia e prova\u00e7\u00e3o lhes pesava e mais prontos estavam a sentir a fadiga. As roupas, que n\u00e3o cessaram de trazer durante tantos meses, estavam gastas e caiam aos farrapos, a tal ponto rasgadas pelas silvas que os tr\u00eas companheiros a custo se defendiam contra as intemp\u00e9ries e a frescura das noites. S\u00f3 a for\u00e7a do sortil\u00e9gio impedia os amantes de se apiedarem da sua sorte e lamentarem a sua exist\u00eancia passada.<\/p>\n<p>Era pouco depois do Pentecostes; o sol estava abrasador, e o calor opressivo desde as primeiras horas do dia. Gorvenal j\u00e1 partira para a ca\u00e7a e o c\u00e3o Husdent acompanhara-o. Trist\u00e3o saiu da cabana, cingiu a espada, pegou no \u201carco que n\u00e3o falha\u201d e, sozinho, foi ca\u00e7ar pelos bosques. A sorte n\u00e3o lhe sorriu nesse dia: levantou primeiro uma cor\u00e7a, depois um veado e, durante horas e horas, extenuou-se a persegui-los sem nunca os ter ao alcance das flechas. Parecia-lhe que os membros emagrecidos estavam como que entorpecidos e traiam o seu ardor na persegui\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a. Na hora em que o calor pesava mais, o bravo sentiu-se dominado pela fadiga e, pela primeira vez, renunciou a continuar a ca\u00e7ada. Abandonou a pista e regressou a passos lentos \u00e0 choupana de folhagem onde Isolda o esperava. A rainha adormecera. O rangido seco dos raminhos sob os p\u00e9s de Trist\u00e3o acordou-a. Levantou-se, veio ao seu encontro e disse-lhe, os olhos ainda meio fechados pelo torpor: \u201cBelo amigo, h\u00e1 tanto tempo que me deixaste!\u201d \u201cEncarnicei-me a perseguir uma cor\u00e7a, depois um veado, e n\u00e3o cacei nem um nem outro; morro de lassid\u00e3o e s\u00f3 desejo estender-me e dormir.\u201d<\/p>\n<p>Mal entrou, Trist\u00e3o deitou-se no ch\u00e3o juncado de verdes ramos e, com um gesto cheio de senso, pousou diante de si, ao longo do corpo, a espada nua que trazia na m\u00e3o. Sentia tal necessidade de repouso que n\u00e3o se deu ao trabalho de se despir: conservou os longos cal\u00e7\u00f5es e uma t\u00fanica curta, apertada na cintura com um cinto. Isolda estendeu-se tamb\u00e9m \u00e0 sua frente, do outro lado da espada, o rosto voltado para Trist\u00e3o, sem que todavia os seus l\u00e1bios se aflorassem. Trazia uma t\u00fanica usada e esburacada, que vestira sobre uma longa camisa branca. O dedo estava ornado com um anel de ouro, engastado com uma esmeralda, que Marcos lhe dera no dia do casamento. Nesse dia. tivera alguma dificuldade em coloc\u00e1-lo, mas hoje o dedo tornara-se t\u00e3o delgado que o anel corria o risco de escorregar a cada instante. Trist\u00e3o estendera os dois bra\u00e7os para o rosto da amiga: a m\u00e3o esquerda, colocada sob a cabe\u00e7a de Isolda, mergulhava na trunfa dos seus cabelos; a direita repousava na curva delicada do pesco\u00e7o. Os dois corpos, embora pr\u00f3ximos, n\u00e3o se tocavam e o a\u00e7o frio da espada brilhava entre eles. N\u00e3o tardaram a mergulhar no sono, os dois corpos estendidos frente a frente, im\u00f3veis e belos como est\u00e1tuas. Pela primeira vez desde que haviam entrado na floresta de Morois, repousaram juntos sem obedecerem \u00e0 for\u00e7a do desejo.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, o sol estava mais ardente que nunca: nem uma aragem, nem uma folha se mexe. Aconteceu de um florestal do rei passar por ali. Debaixo de uma \u00e1rvore, notou que a erva fora pisada recentemente e conservava o vest\u00edgio de dois corpos: os amantes haviam ai repousado na v\u00e9spera. O homem ouvira proclamar o preg\u00e3o do rei: sabia que uma grande soma de ouro seria entregue a quem descobrisse o retiro dos fugitivos. A isca do ganho levou-o a procurar o ref\u00fagio dos amantes: meteu-se pelo matagal e, seguindo na erva as pegadas, atingiu o seu novo pouso. Pela porta aberta da cabana avistou-os dormindo estendidos frente a frente no leito de folhagem, e reconheceu-os; mas o pavor apoderou-se dele ao pensar que Trist\u00e3o poderia acordar e maltrat\u00e1-lo. Afastou-se, recuando, na ponta dos p\u00e9s e, quando chegou a uma distancia razo\u00e1vel, desatou a correr e transp\u00f4s as duas l\u00e9guas que o separavam de Tintagel.<\/p>\n<p>No sal\u00e3o, o rei reunia o tribunal, cercado pelos bar\u00f5es. O florestal subiu os degraus da escadaria e irrompeu pela sala, completamente esbaforido. Ao v\u00ea-lo, Marcos exclamou: \u201cQue novas me trazes para entrares assim sem pedir permiss\u00e3o? Resfolegas como um monteiro que andou a correr atr\u00e1s dos c\u00e3es! Contra quem vens apresentar queixa? Fala! Exp\u00f5e o teu pedido!\u201d O florestal aproximou-se do rei e segredou-lhe ao ouvido: \u201cEscuta-me, rei, por favor. Proclamaram por este pais que aquele que encontrasse o teu sobrinho com a rainha deveria, sob pena de morte, informar-te sem demora. Pois bem, descobri-os! Por certo, tive imenso medo quando os vi, pois as flechas de Trist\u00e3o nunca falham o alvo mas temo o teu furor. Se quiseres, levo-te onde eles dormem: que eu morra se n\u00e3o disse a verdade!\u201d Marcos ficou vermelho de emo\u00e7\u00e3o e de c\u00f3lera: \u201cDiz-me, monteiro \u2014 perguntou baixinho \u2014, onde os encontraste?\u201d \u201cNuma cabana da floresta de Morois, a duas boas l\u00e9guas daqui. Vi-os adormecidos um ao p\u00e9 do outro. Vem sem tardar e castiga os autores da tua vergonha. Se n\u00e3o tiras severa vingan\u00e7a, n\u00e3o tens mais direito a governar o teu reino.\u201d O rei disse-lhe: \u201cSe tens amor \u00e0 vida, livra-te de revelar a quem quer que seja o que acabas de me contar. Vai e espera por mim na Cruz Vermelha que se eleva ao longo do caminho \u00e0 entrada do cemit\u00e9rio; n\u00e3o me demoro nada. Ter\u00e1s todo o ouro e toda a prata que quiseres!\u201d O monteiro deixa o rei, vai at\u00e9 o lugar marcado e senta-se no pedestal.<\/p>\n<p>Tendo sa\u00eddo o homem, o rei chama os fi\u00e9is e diz-lhes: \u201cAcabo de saber uma coisa da qual me quero eu pr\u00f3prio certificar. Vou, pois, deixar-vos aqui durante uma hora ou duas. Que nenhum de v\u00f3s tenha a ousadia de me seguir para ver onde vou!\u201d Todos se fitam, boquiabertos, e v\u00e1rios perguntam: \u201cRei, falais a s\u00e9rio? J\u00e1 alguma vez vos viram viajar sem escolta?\u201d<\/p>\n<p>Marcos, que n\u00e3o desejava que eles testemunhassem sua desonra, replicou: \u201cN\u00e3o recebi nenhuma not\u00edcia importante, mas uma donzela marcou-me encontro pedindo-me segredo: desejo ir l\u00e1, sem escudeiro nem companheiro, sozinho com o meu corcel.\u201d<\/p>\n<p>O rei cinge a espada, monta a cavalo e dirige-se para a Cruz Vermelha Enquanto cavalga, traz \u00e0 mem\u00f3ria a trai\u00e7\u00e3o de Trist\u00e3o e como lhe roubou a linda Isolda. Jura que, se os encontra deitados juntos, Lhes far\u00e1 pagar o pre\u00e7o da vergonha trespassando-os com a espada. Na Cruz Vermelha, esperava-o o monteiro.<\/p>\n<p>\u201cConduz-me o mais depressa poss\u00edvel \u00e0 cabana onde os surpreendeste.\u201d<\/p>\n<p>Entraram na floresta. O espi\u00e3o ia \u00e0 frente; o rei seguia-o apertando a espada na m\u00e3o direita. Finalmente, o florestal murmurou: \u201cRei, estamos perto.\u201d<\/p>\n<p>Pegou nas r\u00e9deas do cavalo do rei, segurou no estribo enquanto ele se apeava e atou o animal ao tronco de uma macieira selvagem. Avan\u00e7aram silenciosamente para a cabana florida que avistavam diante deles. Antes de entrar, o rei desapertou o casaco; tinha assim o bra\u00e7o livre para manejar a espada, persuadido de que logo a empregaria na vingan\u00e7a. Por duas vezes jurou a meia-voz: \u201cQue eu morra se os n\u00e3o matar!\u201d Ordenou ao florestal que se afastasse e o esperasse perto do cavalo, depois avan\u00e7ou at\u00e9 ao leito de folhas, a espada erguida, e observou-os um instante, im\u00f3veis a dormir. Vai mat\u00e1-los? Mas eis que o bra\u00e7o tr\u00eamulo de c\u00f3lera cai lentamente; viu que os l\u00e1bios n\u00e3o se tocavam, que haviam conservado as roupas e que os corpos estavam separados pela espada desembainhada de Trist\u00e3o, a mesma que se fendera n\u00e3o h\u00e1 muito no cr\u00e2nio do Morholt. \u201cDeus \u2014 disse para consigo mesmo \u2014, que vejo aqui? Tenho o direito de mat\u00e1-los? H\u00e1 dois anos que vivem juntos neste bosque; se se amassem loucamente, dormiriam vestidos? Teriam colocado entre eles esta espada nua? Os mais s\u00e1bios cl\u00e9rigos ensinam-nos que uma espada desembainhada entre dois corpos \u00e9 guardi\u00e3 e garantia de castidade. N\u00e3o vejo os seus l\u00e1bios desunidos? N\u00e3o, n\u00e3o os matarei; seria um grande pecado mat\u00e1-los quando repousam sem defesa. E se os acordasse, quem sabe se Trist\u00e3o, bruscamente tirado do sono, n\u00e3o dirigiria contra mim a espada? Um de n\u00f3s poderia ser morto. Isso seria comentado durante muito tempo neste pa\u00eds e n\u00e3o traria honra a ningu\u00e9m. Mas vou fazer de modo que, quando despertarem, saibam com toda a certeza que os descobri adormecidos nesta choupana; saber\u00e3o que os poderia matar se quisesse e que me apiedei destes, concedendo- lhes o meu perd\u00e3o e clem\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>O rei sente a c\u00f3lera acalmar pouco a pouco; deseja do fundo do cora\u00e7\u00e3o reconciliar-se com a mulher e o sobrinho. Ent\u00e3o, retira docemente do dedo emagrecido da rainha o anel de ouro, engastado com uma esmeralda, que lhe dera pelo casamento; introduz em seu lugar, sem que ela sinta, o anel com que Isolda o presenteara. \u201cPossa ela compreender que, por esta troca de an\u00e9is, lhe guardo a minha f\u00e9 e o meu amor como no primeiro dia da nossa boda!\u201d Depois, inclinando-se de novo, ergue lentamente pelo bot\u00e3o do punho a espada de Trist\u00e3o que jazia entre os dois corpos e coloca a\u00ed a sua.<\/p>\n<p>\u201cQuerido sobrinho, pela troca que fa\u00e7o das nossas espadas, devolvo-te a minha confian\u00e7a e amizade como no dia cm que te armei cavaleiro quando te preparavas para defrontar o Morholt.\u201d<\/p>\n<p>No momento em que sa\u00eda da cabana, Marcos viu um buraco na sebe de folhas e ramos que formavam o teto; um quente raio penetrava por aquela estreita abertura e vinha iluminar o rosto da rainha, que resplandecia na penumbra.<\/p>\n<p>Pegou nas luvas reais, ornadas de arminho, e disp\u00f4-las na folhagem para defend\u00ea-la do ardor do sol. \u201cQue estas luvas, s\u00edmbolo do poder real, vos sejam penhor, bela Isolda, de que vos tomo como ainda n\u00e3o h\u00e1 muito sob a minha prote\u00e7\u00e3o e salvaguarda!\u201d<\/p>\n<p>Uma vez longe da cabana, Marcos desamarrou o cavalo, saltou para a sela e, como o florestal se admirou por v\u00ea-lo renunciar t\u00e3o facilmente \u00e0 vingan\u00e7a, disse-lhe: \u201cPatife! Desde quando tenho de te prestar contas? Foge para longe e salva o corpo se conseguires!\u201d Quando Marcos regressou a Tintagel, os seus homens perguntaram-lhe onde estivera durante tanto tempo. Mentiu o melhor que p\u00f4de: ningu\u00e9m soube nunca onde nem a que fora. Quanto a ele, regozijava-se secretamente de poder acreditar de novo que a mulher e o sobrinho n\u00e3o o enganavam; agradava-lhe, para melhor se convencer da sua inoc\u00eancia, tomar as apar\u00eancias pela realidade e um s\u00edmbolo por uma prova. A sua natureza levava-o a preferir o perd\u00e3o e apaziguamento \u00e0 dureza e \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto os amantes continuavam a dormir e Isolda sonhava. Parecia-lhe estar numa grande floresta, debaixo de um rico pavilh\u00e3o; le\u00f5es esfomeados precipitavam-se sobre ela, mas, no \u00faltimo momento, em vez de a devorarem, cada um deles colocava a pata direita sobre a cabe\u00e7a da rainha como que para tomarem posse da sua pessoa. Isolda solta um grito de pavor e acorda; com os movimentos que faz, as luvas ornadas de arminho caem-lhe no peito. Trist\u00e3o ouve o grito, ergue-se bruscamente e quer pegar na espada: v\u00ea ent\u00e3o estupefato que a l\u00e2mina n\u00e3o est\u00e1 fendida e, pelo bot\u00e3o do punho em ouro cinzelado, reconhece a espada do rei. No mesmo instante, a rainha nota no dedo o anel que Marcos a\u00ed introduzira. Empalidece e exclama: \u201cQue Deus nos ajude! O rei descobriu-nos! V\u00ea, meu querido, retirou o anel do meu dedo e p\u00f4s o dele em seu lugar!\u201d Trist\u00e3o replica: \u201cLevou a minha espada e deixou-me a sua; sem d\u00favida que me quis dar a conhecer que estive \u00e0 sua merc\u00ea enquanto dormia. Quis dar a entender que estamos em seu poder e \u00e0 sua discri\u00e7\u00e3o; por isso dep\u00f4s as luvas na folhagem da cabana.\u201d<\/p>\n<p>Entrementes, Gorvenal entrou na cabana e, vendo-os t\u00e3o p\u00e1lidos e desamparados, inquietou-se: \u201cQue tendes? Que vos atormenta?\u201d \u201cO rei encontrou-nos aqui enquanto dorm\u00edamos. Poupou-nos, n\u00e3o sei por que, mas deixou a sua espada em lugar da minha e meteu o seu anel no dedo da rainha; al\u00e9m disso, colocou as luvas ornadas de arminho na folhagem da cabana. Que quer isto dizer, que devemos pensar? \u00c9 agora mais do que nunca que temos necessidade dos teus conselhos e da tua sabedoria.<\/p>\n<p>Gorvenal respondeu: \u201cTemo que, por meio de trocas singulares, o rei tenha procurado iludir-vos. Quem sabe se n\u00e3o quis sossegar-vos com uma fingida benevol\u00eancia, enquanto ia a toda a pressa reunir os homens de armas para melhor vos apanhar? Na minha opini\u00e3o, n\u00e3o tendes outro recurso sen\u00e3o a fuga. N\u00e3o tenho melhor conselho a dar-vos. Na d\u00favida em que estais das verdadeiras inten\u00e7\u00f5es do rei, o melhor \u00e9 p\u00f4r uma grande distancia entre ele e v\u00f3s. Depois ser\u00e1 o momento de refletir no que vos conv\u00e9m fazer.\u201d<\/p>\n<p>Os amantes, com Gorvenal, dirigem-se por sendas perdidas para a terra de Gales, nos extremos confins da floresta de Morois. O medo tra\u00e7a-lhes longas etapas sem repouso nem sono. Quantas torturas o Amor n\u00e3o Lhes causou!<\/p>\n<p>XXII<\/p>\n<p>O FIM DO SORTILEGIO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A VIRTUDE do filtro s\u00f3 devia durar tr\u00eas anos; assim o quisera a m\u00e3e de Isolda quando o preparou. O termo chegou como estava fixado: foi alguns dias depois de o rei Marcos ter surpreendido os amantes adormecidos na cabana de folhagem. Nesse dia. Trist\u00e3o levantara-se de manh\u00e3zinha, sem acordar Isolda. Partiu para a ca\u00e7a como habitualmente, mas a tarde caiu sem que tivesse abatido sequer um animal. Em p\u00e9 debaixo de um carvalho, no flanco de um outeiro, surpreendeu-se a pensar com o olhar voltado para longe, para o pais de Gales. Ao cair da noite, acenderam-se fogos a dist\u00e2ncia, uns ap\u00f3s outros, no cimo das colinas: os galeses festejavam o S\u00e3o Jo\u00e3o. Fora nesse mesmo dia. o mais longo do ano, que, tr\u00eas anos atr\u00e1s, na nau que o trazia da Irlanda com Isolda, haviam bebido a fatal beberagem. Ent\u00e3o, sentiu-se bruscamente liberto da a\u00e7\u00e3o do sortil\u00e9gio e novos pensares lhe vieram ao esp\u00edrito:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, n\u00e3o foi por medo nem por manha que o rei nos poupou. Apoderara-se da minha espada, eu dormia, estava \u00e0 sua merc\u00ea: podia ter-me eliminado, para que refor\u00e7os? E se me quisesse apanhar vivo, por que, tendo-me desarmado, me teria deixado a sua pr\u00f3pria espada? Ah, reconhe\u00e7o-te nisso, querido tio: n\u00e3o por manha, mas sim por piedade nos quiseste perdoar. Perdoar-nos? N\u00e3o, n\u00e3o tens nada a perdoar, entreviste confusamente a verdade. Adivinhaste que nunca tive vontade de te ofender: estava dominado por uma for\u00e7a da qual n\u00e3o era senhor. Lembraste-te que, desde que me havias condenado \u00e0 fogueira, eu n\u00e3o reconhecera o meu erro, mas inutilmente reclamara julgamento por meio de batalha; e a nobreza do teu cora\u00e7\u00e3o inclinou-te a compreender coisas de que nem sequer suspeitavas. N\u00e3o que saibas nem jamais possas saber a verdade da bebida m\u00e1gica, mas duvidas, esperas, sentes que eu n\u00e3o menti. Ah, querido tio, como me seria doce fazer as pazes contigo, voltar a vestir ainda ao teu servi\u00e7o o lorig\u00e3o e o elmo. N\u00e3o h\u00e1 muito, perseguido, podia levantar-me contra ti, pois abandonaras Isolda aos leprosos; n\u00e3o era mais tua, era minha. Eis que pela tua piedade e clem\u00eancia me tiraste o direito de te disputar a rainha e de ficar com ela. A rainha? Neste bosque, vive como uma serva. Que fiz da sua juventude? Em lugar do quarto forrado a seda, dei-lhe uma cabana na floresta selvagem, e \u00e9 por mim que ela vive esta rude vida. Ao Senhor Deus, Rei do mundo, pe\u00e7o perd\u00e3o e suplico-lhe que me d\u00ea for\u00e7a para devolver Isolda ao rei Marcos.<\/p>\n<p>A noite tornava-se mais profunda. No matagal cercado de silvas que h\u00e1 tr\u00eas dias lhe servia de abrigo, a loura Isolda aguardava o regresso de Trist\u00e3o. Um raio de lua fez brilhar no dedo o anel de ouro que Marcos lhe enfiara. Pensou: \u201cAquele que por cortesia meteu este anel de ouro no meu dedo durante o meu sono ser\u00e1 o mesmo homem que, levado pela c\u00f3lera, me entregou aos leprosos? N\u00e3o, \u00e9 o soberano cheio de indulg\u00eancia que desde o dia em que abordei a sua terra me acolheu e protegeu. Mas eu vim e causei, sem querer, a inimizade que ergue agora o rei Marcos contra Trist\u00e3o. Trist\u00e3o n\u00e3o deveria viver no pal\u00e1cio do rei, com cem donzelas \u00e0 sua volta? Por mim renunciou a exercer o seu valor: exilado da corte, perseguido neste bosque, leva uma exist\u00eancia miser\u00e1vel. Ser\u00e1, pois, para me agradar, constrangido a passar o resto da vida no meio de priva\u00e7\u00f5es e na obscuridade? N\u00e3o tenho o direito de exigir dele um tal sacrif\u00edcio.\u201d<\/p>\n<p>Ouviu ent\u00e3o os passos de Trist\u00e3o aproximarem-se. Foi ao seu encontro, como de costume, para lhe tirar as armas. Tirou-lhe das m\u00e3os o \u201carco que n\u00e3o falha\u201d e as flechas e desatou as presilhas da espada. \u201cQuerida \u2014 disse Trist\u00e3o \u2014, \u00e9 a espada de Marcos. Devia degolar-nos, mas poupou-nos.\u201d Isolda pegou na espada e contemplou as pedras preciosas que decoravam o bot\u00e3o do punho em ouro. \u201cBela \u2014 disse Trist\u00e3o \u2014, se pudesse chegar a um acordo com o rei! Se ao menos ele me permitisse defender em batalha que nunca, por minha vontade, em palavras ou em atos, te amei com um amor ultrajante para ele! Ent\u00e3o, qualquer homem do seu reino, desde Lidan a Durham, que me ousasse contradizer, encontrar-me-ia pronto a venc\u00ea-lo em campo fechado. Uma vez justificado por este combate, se o rei me quisesse conservar em sua casa, voltar\u00edamos juntos para a corte e servi-lo-ia com grande honra, como meu senhor e tio. Se preferisse afastar-me guardando-te ao p\u00e9 dele, iria para a Fr\u00edsia ou para a Bretanha arm\u00f3rica com Gorvenal por \u00fanico companheiro. Num ou noutro caso, rainha, sempre te pertenceria e ficaria teu. Pode espantar-te que eu pense nesta separa\u00e7\u00e3o, mas a id\u00e9ia nunca me teria acorrido se n\u00e3o fosse a dura mis\u00e9ria que suportas por minha causa desde h\u00e1 tanto tempo, bela, nesta terra deserta!\u201d Isolda refletiu durante um certo tempo, depois replicou: \u201cH\u00e1 dois anos que erramos por esta floresta e suportamos sem nos queixarmos as priva\u00e7\u00f5es, o calor e o frio. Todavia, nunca at\u00e9 hoje me falaste assim. Por que pensas agora, pela primeira vez, em separar-te de mim e devolver-me ao rei Marcos?\u201d \u201cDoce amor, Deus \u00e9 testemunha que o meu amor por ti \u00e9 t\u00e3o forte como antes, mas, n\u00e3o to quero esconder, hoje \u00e9 dia de S\u00e3o Jo\u00e3o e vi os fogos de alegria acenderem-se no cimo das colinas do pais de Gales: ainda ardem neste momento. Fitando de longe as chamas subirem na noite, lembrei-me que tr\u00eas anos haviam decorrido, dia a dia. desde que tu e eu bebemos o filtro do amor. Sabes que a rainha da Irlanda, tua m\u00e3e, o fabricara, por artes de magia, e sabes tamb\u00e9m da sua dura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 no mundo feiticeira igual, e ela n\u00e3o se enganou nos c\u00e1lculos. Tive bruscamente o sentimento de que a for\u00e7a do vinho ervoso cessara de nos dominar; sinto que j\u00e1 se desvaneceu neste instante. Sen\u00e3o, como poderia conceber a id\u00e9ia de te entregar ao rei Marcos? Como, se o filtro ainda te possu\u00edsse, poderias suportar ouvir-me propor esta separa\u00e7\u00e3o? S\u00f3 este pensamento nos seria outrora insuport\u00e1vel a ambos.\u201d \u201cFalas a verdade, querido Trist\u00e3o. Sinto como tu que o sortil\u00e9gio chegou ao fim. O nosso amor continua, como dizes, mais forte que nunca, mas cessou de ser uma coa\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, uma for\u00e7a exterior, invenc\u00edvel e fatal. Vamos amar-nos agora como os outros homens e as outras mulheres desde que o mundo \u00e9 mundo; eis-nos restitu\u00eddos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o comum de todos os mortais. Doravante estaremos sujeitos aos caprichos do destino, \u00e0 flutua\u00e7\u00e3o dos nossos desejos, a todos os movimentos contr\u00e1rios, a todos os remorsos das nossas vontades. Da\u00ed vem que a esta hora, sem cessarmos de nos amar, estejamos a conceber o projeto de nos separarmos.\u201d Trist\u00e3o fitou-a longamente com ternura, depois acrescentou: \u201cCompreendeste como eu, bela amiga, que a nossa vida ia mudar. A partir de agora, n\u00e3o seremos mais conduzidos contra vontade pela for\u00e7a do sortil\u00e9gio; temos de ser n\u00f3s a decidir a nossa sorte. Que homem ser\u00e1 suficientemente s\u00e1bio para nos aconselhar em tal confus\u00e3o?\u201d \u201cTrist\u00e3o, lembra-te do eremita Ogrin, que visitamos n\u00e3o h\u00e1 muito na sua mata. Vamos ter com ele, e que possamos receber, na incerteza em que nos encontramos, um conselho inspirado por Deus!\u201d \u201cN\u00e3o poder\u00edamos fazer melhor\u201d \u2014 respondeu Trist\u00e3o. Renunciando de comum acordo a dormir nessa noite, acordaram Gorvenal O escudeiro precedia-os para abrir-lhes caminho atrav\u00e9s das moitas. Isolda montava o cavalo de Trist\u00e3o, que este conduzia pela r\u00e9dea; ent\u00e3o, atravessando pela \u00faltima vez os bosques mergulhados nas trevas, avan\u00e7am sem uma palavra. Aos primeiros alvores da madrugada, repousaram um pouco, depois retomaram a marcha at\u00e9 chegarem ao eremit\u00e9rio. Na soleira da capela, Ogrin lia um livro. Viu-os e, de longe, chamou-os: \u201cAmigos, como o amor vos persegue de mis\u00e9ria em mis\u00e9ria! Quanto tempo ainda durar\u00e1 a vossa loucura? Coragem, arrependei-vos!\u201d Trist\u00e3o falou em primeiro lugar: \u201cTrazemo-vos, irm\u00e3o Ogrin, uma nova que vos alegrar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o: temos agora vontade de nos reconciliar com o rei. Se ele consentir no acordo que lhe propomos, estou pronto a entregar-lhe a rainha. E at\u00e9, se o exigir, a ir-me para longe, para a Bretanha ou a Fr\u00edsia. Todavia, se o rei me admitisse junto dele, voltaria para a corte e servi-lo-ia corno \u00e9 meu dever.\u201d Isolda falou por sua vez numa voz dolente: \u201cIrm\u00e3o Ogrin, compreendo bem, n\u00e3o posso viver mais a vida que levei durante dois anos. N\u00e3o digo que me arrependo de ter amado e de amar Trist\u00e3o: nunca de tal me arrependerei. Mas n\u00e3o tenho mais for\u00e7a para suportar uma exist\u00eancia t\u00e3o rude e miser\u00e1vel. Suportei-a tanto quanto pude, agora estou fraca demais para persistir nessa vida. Pe\u00e7o-vos, santo eremita, ajudai-nos com os vossos conselhos.\u201d O eremita escutou-a e comoveu-se at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas: \u201cAgrade\u00e7o-te, Deus Todo-Poderoso, por teres inspirado salutares remorsos a estes infelizes. Bendito sejas por me teres deixado viver o suficiente para v\u00ea-los finalmente resolvidos a mudar de vida! Trist\u00e3o e Isolda, escutai-me: quando dois se amaram com amor culpado, depois lamentam o pecado e se afastam um do outro, Deus nunca lhes recusa o perd\u00e3o. Vou escrever uma carta ao rei: far-lhe-ei saber que estais aqui e que nada haveis cometido que justifique o seu rancor. Gra\u00e7as aos c\u00e9us, escapastes \u00e0s intrigas do an\u00e3o, que foi o seu indigno conselheiro. Se Trist\u00e3o levou a rainha consigo, foi por piedade, para n\u00e3o a abandonar ao seu infort\u00fanio, entregue ao bando de leprosos. Eis o que \u00e9 preciso dizer para vos justificar, pois, para fazer as pazes, \u00e9 por vezes permitido mentir um pouco&#8230; Se o rei quiser esquecer os agravos contra v\u00f3s, regressareis de boa f\u00e9 \u00e0 corte.\u201d \u201cHomem de Deus \u2014 disse Trist\u00e3o \u2014, falais com grande senso; \u00e9 assim que \u00e9 necess\u00e1rio escrever ao rei. Acrescentareis somente que, para minha salvaguarda, pe\u00e7o a meu tio que expresse o acordo por escrito. Que mande colocar a resposta num dos bra\u00e7os da Cruz Vermelha. Quando a receber, confiando na sua palavra, cumprirei a sua vontade.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O irm\u00e3o Ogrin serviu-lhes primeiro leite de cabra, p\u00e3o de centeio cozido na cinza e legumes com sal. Quando ficaram saciados, o santo homem aproximou-se da escrivaninha e, num pergaminho novo, escreveu a carta como queria o visitante; em seguida, levantou-se e estendeu-a a Trist\u00e3o, que a selou com o anel. \u201cAmigo \u2014 disse o eremita \u2014, qual de n\u00f3s levar\u00e1 a mensagem?\u201d \u201cEu pr\u00f3prio\u201d \u2014 respondeu Trist\u00e3o. \u201cIsso n\u00e3o pode ser. pois o risco \u00e9 demasiado grande.\u201d \u201cCertamente; conhe\u00e7o bem o local. Partirei a cavalo com Gorvenal e apear-me-ei \u00e0 entrada da cidade.\u201d Ap\u00f3s o p\u00f4r-do-sol, Trist\u00e3o p\u00f5e-se a caminho com o escudeiro. Cavalgam toda a noite e chegam a Tintagel \u00e0 hora em que a sentinela toca a trombeta na muralha para anunciar a aproxima\u00e7\u00e3o do dia. Trist\u00e3o deixa-se deslizar para o fosso, transp\u00f5e a cintura de muralha do castelo e chega sem novidade junto do quarto do rei. Aproxima-se da janela e chama-o pelo nome. Marcos acorda e, espantado, pergunta: \u201cQuem \u00e9s para vires a esta hora?\u201d \u201cSire, \u00e9 Trist\u00e3o. Trago-vos uma carta: encontr\u00e1-la-eis no alargamento do v\u00e3o da janela. N\u00e3o posso demorar: dar-me-eis a resposta no local indicado.\u201d \u201cPor Deus, querido sobrinho, espera que eu j\u00e1 vou.\u201d O rei levanta-se da cama, corre \u00e0 janela, pega na missiva do pergaminho e por tr\u00eas vezes chama Trist\u00e3o. Este est\u00e1 longe, j\u00e1 se juntou a Gorvenal nas portas da cidade. \u201cEst\u00e1s louco? \u2014 exclama o escudeiro. \u2014 Vamos ser perseguidos! Fujamos pela vereda!\u201d Cavalgaram a tal velocidade por um caminho desviado que atingiram o eremit\u00e9rio \u00e0 hora sexta. Na capela, Ogrin pedia a Deus que concedesse o seu socorro a Trist\u00e3o; suspirou quando os viu de volta. Isolda saiu- lhes ao encontro. Desde a partida que achara a espera bem longa. Atormentado com perguntas, Trist\u00e3o contou a escapadela: como penetrara na cidade at\u00e9 ao castelo, o que dissera ao rei e como este o chamara tr\u00eas vezes enquanto fugia. Ogrin junta as m\u00e3os: \u201cSenhor \u2014 exclama \u2014, bendito sejas! Doravante tudo correr\u00e1 bem. O rei n\u00e3o tardar\u00e1 a dar-nos not\u00edcias suas.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXIII<\/p>\n<p>A SEPARA\u00c7\u00c3O DOS AMANTES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>QUANDO marcos encontrou a mensagem, chamou o capel\u00e3o e estendeu- lha. O cl\u00e9rigo quebrou o selo de cera e leu alto o que escrevia Trist\u00e3o. Marcos regozijou-se com as novas que continha a carta, pois continuava a amar a mulher, e desde que a surpreendera adormecida junto de Trist\u00e3o na floresta de Morois, afligia-se por t\u00ea-la perdido. Mandou imediatamente acordar os bar\u00f5es. Mal se encontraram reunidos no sal\u00e3o, tomou a palavra: \u201cSenhores, eis uma carta que acabo de receber. Sou o vosso rei; v\u00eas sois meus vassalos e deveis-me conselho. Escutei, pois, o que me escrevem.\u201d O cl\u00e9rigo desdobrou o pergaminho e leu sem nada omitir: \u201cAo nobre rei Marcos, Trist\u00e3o, seu sobrinho, envia sauda\u00e7\u00f5es e amor, assim como a toda a baronagem! Rei, sabes como, depois de ter morto o drag\u00e3o furioso, conquistei com essa proeza a filha do rei da Irlanda. Trouxe-a para este pais e tu tomaste-a por mulher perante a tua corte reunida. Depois de o teu casamento ter sido celebrado, Kariado mais quatro traidores enganaram-te com as suas cal\u00fanias: mentiam e ainda estou pronto a prov\u00e1-lo e a lutar com armas iguais contra quem tenha falado mal da rainha. E no entanto, querido tio, quiseste-nos queimar vivos, a ela e a mim. Mas Deus ouviu as ora\u00e7\u00f5es das pobres gentes e teve piedade de n\u00f3s. Quanto a mim, escapei da pira saltando do alto de uma fal\u00e9sia; foi ent\u00e3o que entregaste Isolda aos leprosos para melhor a desonrar, mas eu libertei-a das suas m\u00e3os e fiz justi\u00e7a. Poderia deix\u00e1-la \u00e0 merc\u00ea desses vagabundos? Fugi com ela e temos vivido um junto do outro, protegidos de ti pela espessura dos bosques. Mandastes proclamar um preg\u00e3o que prometia uma recompensa a quem nos entregasse, mortos ou vivos, mas Deus, na sua clem\u00eancia, preservou-nos de todo o mal. H\u00e1 poucos dias, surpreendeste-nos numa cabana de folhagem, na floresta de Morois, quando dorm\u00edamos, inocentes, lado a lado. Deus inspirou-te pensamentos de clem\u00eancia: poupaste-nos sem mesmo nos acordares. Deixaste-nos, em penhor da tua benevol\u00eancia, o teu anel, a tua espada e as tuas luvas. Sire, compreendemos a mensagem e queremos responder. Se desejas agora reaver a loura Isolda, e acolher-me de novo no teu pal\u00e1cio, nenhum bar\u00e3o desta terra te servir\u00e1 mais fielmente do que eu. Se me repeles, por temor ou rancor, irei combater para o rico rei de Gavoie e n\u00e3o me tornar\u00e1s a ver. A ti compete a decis\u00e3o; n\u00e3o posso mais suportar ver a rainha viver na mis\u00e9ria e na pen\u00faria, entre os animais da floresta. Se n\u00e3o aceitares o acordo que te proponho e se te recusares a receber a rainha, por amizade e honra a levarei novamente para a Irlanda, donde a trouxe, e reinar\u00e1 no seu pais. Sire, manda suspender a tua resposta, qualquer que seja, num dos bra\u00e7os da Cruz Vermelha.\u201d<\/p>\n<p>Os bar\u00f5es v\u00eaem que Trist\u00e3o, uma vez mais, lhes oferece batalha para demonstrar a inoc\u00eancia de Isolda e a sua. Mas nenhum deles est\u00e1 interessado em pegar nas armas e expor o corpo para sustentar a acusa\u00e7\u00e3o. Os traidores calam-se; Dinas de Lidan e aqueles que nunca haviam acusado Trist\u00e3o exclamam unanimemente: \u201cSire, retomai a vossa mulher, pois foram os insensatos que vos indispuseram contra ela! Mesmo admitindo que tenha cometido alguma imprud\u00eancia, expiou t\u00e3o duramente essa falta que lhe podeis conceder a remiss\u00e3o. Quanto ao vosso sobrinho, sem passar o mar, que v\u00e1 combater para Gavoie, o rico reino que o rei da Esc\u00f3cia acaba de invadir. Ali encontrar\u00e1 emprego para o seu valor. Mais tarde, se o julgardes conveniente, podereis cham\u00e1-lo de novo para junto de v\u00f3s. Mandai-lhe, pois, as vossas condi\u00e7\u00f5es e ordenai-lhe que traga, sem mais tardar, a rainha.\u201d O rei fez sinal ao capel\u00e3o: \u201cSenhor, escrevei-me rapidamente uma carta; os meus bar\u00f5es disseram-vos o que \u00e9 preciso dizer; n\u00e3o tenho nada a acrescentar. O meu \u00fanico desejo \u00e9 rever Isolda, a minha doce esposa, que tanto sofreu. E n\u00e3o deixeis de saudar da minha parte Trist\u00e3o, o meu querido sobrinho. Que desde esta tarde a mensagem seja suspendida num dos bra\u00e7os da Cruz Vermelha.\u201d<\/p>\n<p>Em v\u00e3o Trist\u00e3o tentou dormir nessa noite. Antes de esta chegar a meio, levantou-se, cavalgou atrav\u00e9s da Charneca Branca, at\u00e9 a Cruz Vermelha, encontrou suspensa num dos bra\u00e7os da cruz a carta do rei e trouxe-a para o eremit\u00e9rio. Tendo-a decifrado, Ogrin viu que o rei consentia em acolher de novo Isolda, sua mulher. Falou ent\u00e3o como convinha a um homem que cr\u00ea em Deus: \u201cTrist\u00e3o, o rei ouviu-te. A conselho dos bar\u00f5es, declara-se pronto a receber Isolda, mas n\u00e3o a tomar-te ao seu servi\u00e7o. Tens de guerrear, durante um ano ou dois, em terra estrangeira, e depois, se o rei e a rainha o desejarem, chamar-te-\u00e3o de novo \u00e0 corte. \u00c9 uma s\u00e1bia medida, e a ela te deves submeter. Dentro de tr\u00eas dias, incontestavelmente, conduzir\u00e1s Isolda ao Vau Aventuroso.\u201d \u201cDeus \u2014 exclamou Trist\u00e3o \u2014, que desgosto ter de deixar a minha querida! Mas tenho de me resignar, pois a sua mis\u00e9ria j\u00e1 durou demasiado.\u201d Em seguida, voltando-se para Isolda, disse-lhe: \u201cRainha, esta separa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 bem dura para ti e para mim, mas s\u00f3 durar\u00e1 um tempo. Se me mandares chamar por um mensageiro, voltarei imediatamente para te reconfortar e, se for preciso, para te socorrer; o que quer que me ordenes, cumprirei a tua vontade. Quando chegar a hora de nos separarmos, trocaremos penhores e juraremos acorrer sempre que um de n\u00f3s apelar para o outro.\u201d A rainha soltou um suspiro e respondeu: \u201cTrist\u00e3o, \u00e9 assim que devemos fazer. Queres deixar-me o teu c\u00e3o Husdent, que partilhou das nossas mis\u00e9rias? Jamais c\u00e3o algum ter\u00e1 sido mais amimado, se ficar comigo. Quando estiver triste, belo e doce amigo, ele far-me-\u00e1 pensar em ti e o meu cora\u00e7\u00e3o encher-se-\u00e1 de alegria. Eu tenho um anel de prata, com o engaste de jaspe verde, cuja pedra possui uma virtude maravilhosa. Dar-to-ei e tu us\u00e1-lo-\u00e1s sem cessar no dedo, pois de cada vez que o olhares ver\u00e1s a minha imagem na tua lembran\u00e7a como se eu estivesse presente ao teu lado. Quando me quiseres ao p\u00e9 de ti, confia-lo-\u00e1s ao mensageiro para que eu o reconhe\u00e7a. Bastar-me-\u00e1 v\u00ea-lo e asseguro-te que nenhuma muralha, nem torre, nem fortaleza me impedir\u00e3o de tudo abandonar para cumprir o teu desejo, quer seja sensatez ou loucura.\u201d \u201cBela Isolda, como penhor de amor, deixar-te-ei o meu c\u00e3o Husdent e receberei o teu anel em troca.\u201d<\/p>\n<p>Os banidos n\u00e3o podiam reaparecer na corte com as roupas em farrapos. O bom eremita p\u00f4s-se \u00e0 procura de trajes novos. Dirigiu- se ao monte S\u00e3o Miguel da Cornualha, onde havia um mercado de tudo, Comprou pele de esquilo, branca e cinzenta, finos tecidos de seda, de p\u00farpura e de escarlate e, para Isolda, uma camisa mais branca que flor-de-lis. Vendo-o fazer tais compras, os mercadores riam com gosto e zombavam do santo homem, sem que este se importasse com isso. Tamb\u00e9m adquiriu um belo palafr\u00e9m treinado a andar a passo travado, com arreios decorados a ouro. O eremita gastou nisso todo o seu pec\u00falio, mas pouco lhe importa: tanto procurou, tanto regateou que, com os seus cuidados, a rainha ficou suntuosamente vestida e provida de uma rica equipagem. Isolda agradeceu-lhe alegremente e disse: \u201cEremita, dar-vos-ei tr\u00eas vezes mais quando tiver regressado \u00e0 corte!\u201d<\/p>\n<p>Por toda a terra da Cornualha, Marcos mandou proclamar pelos arautos que ia reconciliar-se publicamente com a rainha e que a acolheria no dia marcado no Vau Aventuroso. As damas e bar\u00f5es s\u00e3o numerosos, de tal modo est\u00e3o desejosos de rever Isolda: era amada por todos, exceto pelos traidores, que Deus os amaldi\u00e7oe! No dia fixado para o encontro, o rei avan\u00e7ou, seguido por um longo cortejo. Ricos pavilh\u00f5es haviam sido erguidos na pradaria. Pouco depois, Trist\u00e3o chegou \u00e0 outra margem, cavalgando no corcel, e a rainha, perto dele, montava o palafr\u00e9m. Gorvenal seguia-os a alguma distancia e bom c\u00e3o Husdent corria em todos os sentidos \u00e0 volta deles. Por prud\u00eancia, Trist\u00e3o, que desconfiava dos traidores, vestira sob a t\u00fanica uma cota de fortes malhas e Gorvenal levava as armas do seu senhor. Viram ao longe as tendas e reconheceram o rei entre os fi\u00e9is. O bravo inclinou-se para Isolda e disse: \u201cEis chegado o momento, bela. Confio-te Husdent, o meu fiel c\u00e3o de ca\u00e7a; n\u00e3o o deixes afastar-se! Vejo do outro lado do vau o rei, teu senhor, com os homens da sua corte; em breve n\u00e3o poderemos mais conversar livremente um com o outro. Mas, por Deus Todo-Poderoso, promete-me que, quando te enviar algum mensageiro portador do teu anel de jaspe verde, far\u00e1s o que te disser.\u201d \u201cAmigo Trist\u00e3o, escuta-me. Se um enviado se apresentar sem o anel de jaspe verde que acabas de p\u00f4r no dedo, n\u00e3o acreditarei em nada do que possa dizer; mas quando vir o anel, nem torre, nem muralha, nem fortaleza me impedir\u00e3o de realizar, lealmente e com toda a honra, a vontade do meu amigo.\u201d \u201cDeus te aben\u00e7oe, bela Isolda!\u201d Atraiu-a a ele e apertou-a nos bra\u00e7os. Depois, como se afastasse, ela segurou-o: \u201cQuerido \u2014 disse \u2014, mais uma palavra. A conselho de Ogrin, vais restituir-me ao rei e em seguida deixar\u00e1s este pa\u00eds. Consinto nisso, mas promete-me que n\u00e3o te afastas antes de saber como o meu senhor se conduzir\u00e1 comigo. Esta noite, vai esconder-te em casa de Orri, o florestal, que j\u00e1 te deu algumas vezes abrigo. O traidor Guenelon morreu, mas os outros sobrevivem e temo as suas ciladas. Esconder-te-\u00e1s no celeiro, debaixo da cabana, e eu enviar-te-ei as mensagens pelo meu lacaio P\u00e9rinis.\u201d \u201cN\u00e3o temas nada, bela amiga. Velarei por ti tanto tempo quanto for preciso. Que aquele que pensa ofender-te se acautele comigo como com Satan\u00e1s!\u201d<\/p>\n<p>Os dois grupos encontravam-se agora um em frente do outro, nas margens opostas do vau. Estavam suficientemente pr\u00f3ximos para trocarem as sauda\u00e7\u00f5es. O rei vinha na frente com o senescal Dinas de Lidan, \u00e0 distancia de um tiro de arco da escolta. Trist\u00e3o agarrou pelas r\u00e9deas o cavalo de Isolda, f\u00ea-lo atravessar o Vau Aventuroso e parou junto de Marcos, a quem primeiramente saudou: \u201cRei, restituo-te a nobre rainha tua mulher. Fica sabendo que jamais homem algum devolveu tesouro mais precioso.\u201d Marcos procurou em v\u00e3o dissimular a emo\u00e7\u00e3o e mostrar-se senhor de si; segurou o estribo \u00e0 rainha enquanto esta se apeava, recebeu-a nos bra\u00e7os e apertou-a ternamente contra o cora\u00e7\u00e3o. Todos os assistentes olhavam em sil\u00eancio e v\u00e1rios ficaram comovidos at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas. Quando os esposos afrouxaram o abra\u00e7o, Trist\u00e3o continuou com voz firme, os olhos fixos no rosto de Marcos: \u201cSire, a rainha n\u00e3o desmereceu, nem eu. Sabe-lo agora, uma vez que nos recebes neste dia com grande honra. Se o quiseres, ficarei junto de ti para te servir, e se algu\u00e9m persistir em me acusar, pe\u00e7o-te que me deixes justificar em presen\u00e7a dos teus bar\u00f5es. Se perder, podes mandar-me queimar em enxofre; se, pelo contr\u00e1rio, o vencer, reterme-\u00e1s ao p\u00e9 de ti.\u201d O rei, no \u00edntimo, inclinava-se a ceder ao desejo de Trist\u00e3o; assim, afastou-se um pouco para deliberar uma \u00faltima vez com o conselho. Confiou a Dinas de Lidan o cuidado de fazer companhia a Isolda. O senescal, que era s\u00e1bio, cort\u00eas e bem-educado, apressou-se a entreter a rainha com palavras am\u00e1veis. Ajudou-a a despir o casaco de escarlate e ela apareceu na t\u00fanica de seda coberta com uma outra de finos bordados. O eremita que os comprou n\u00e3o olhara as despesas! O vestido era rico, e gracioso o corpo que cobria, a despeito das priva\u00e7\u00f5es. S\u00f3 o rosto parecia p\u00e1lido e os tra\u00e7os um pouco abatidos; os olhos claros de Isolda n\u00e3o estavam menos luminosos e os cabelos mais louros que nunca. O senescal admirava- a e sorria de prazer. Dois de entre os traidores, Gondo\u00efne e Denoalen, se enterneceram. Fingindo indigna\u00e7\u00e3o, aproximaram-se do rei e disseram-lhe em confid\u00eancia: \u201cSire, vede a rainha que conversa alegremente com Dinas, como se nenhum remorso a atormentasse. Ser\u00e1 falta de pudor ou inconsci\u00eancia? Tivemos todavia boas raz\u00f5es pata suspeitar dela! Se voltar para a corte em companhia de Trist\u00e3o, a maledic\u00eancia ter\u00e1 raz\u00f5es e as pessoas reprovar\u00e3o a vossa complac\u00eancia. 11 necess\u00e1rio deixar partir o vosso sobrinho e, mais tarde, quando Isolda vos tiver provado a sua sinceridade, podereis cham\u00e1-lo.\u201d \u201cO que quer que me digam \u2014 respondeu Marcos \u2014, seguirei o vosso conselho, pois acho-o bom.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o rei chamou Trist\u00e3o de parte e fez-lhe compreender que devia deixar a Cornualha durante um tempo. Censurava a si pr\u00f3prio o rigor para com o sobrinho e custava-lhe bani-lo, mas temia provocar uma vez mais o ressentimento dos traidores. N\u00e3o querendo deixar Trist\u00e3o sem uma palavra de amizade, perguntou-lhe para onde ia. Trist\u00e3o respondeu: \u201cSire, para a Frisia ou para a Bretanha, ou ent\u00e3o para o rico rei de Gavoie, a quem os escoceses invadiram a terra.\u201d \u201cQuerido sobrinho, basta uma palavra e darte-ei mais que o necess\u00e1rio: ouro e prata em quantidade, peles de esquilo branco e cinzento, com que te vestires e viveres \u00e0 vontade.\u201d \u201cRei da Cornualha \u2014 respondeu Trist\u00e3o \u2014, n\u00e3o tenho que fazer dos vossos bens. De v\u00f3s n\u00e3o aceitarei um vint\u00e9m. Pobre como sou, \u00e9 com grande alegria que irei servir um rei poderoso. O \u00fanico favor que vos solicito hoje \u00e9 que me devolvais a espada, aquela que me destes outrora para combater o Morholt e cuja lamina se fendeu no cr\u00e2nio do gigante. Haveis-ma retirado, nobre tio, quando me surpreendestes numa cabana de Morois, adormecido perto da rainha. Permiti que a recupere agora, antes de partir em terra estrangeira. Mandei o meu escudeiro trazer a vossa espada real com o bot\u00e3o do punho em ouro cinzelado, aquela que colocastes junto de mim, no lugar da minha, em sinal da vossa clem\u00eancia: n\u00e3o conv\u00e9m que a leve comigo para o ex\u00edlio.\u201d E assim foi: Marcos recuperou sua espada e devolveu a de Trist\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem mais nenhuma palavra, Trist\u00e3o pegou nas r\u00e9deas, meteu o cavalo a trote e encaminhou-se para o mar. Isolda seguiu-o com o olhar enquanto o p\u00f4de ver. Dinas havia-se reunido ao jovem: cavalgava a seu lado e falava-lhe para aliviar a sua dor: \u201cAmigo \u2014 disse \u2014, n\u00e3o percas a coragem. Talvez vejas brevemente o fim do ex\u00edlio. E em todo o caso, conhe\u00e7o aqui algu\u00e9m que te n\u00e3o esquecer\u00e1.\u201d \u201cDinas \u2014 respondeu Trist\u00e3o \u2014, sabes por que parto. Nem tu nem eu saber\u00edamos dizer quando regressarei.\u201d Sete vezes se beijaram; depois, cada um, triste e silencioso, foi para seu lado.<\/p>\n<p>A noticia do regresso de Isolda espalhara-se pela cidade. Todos, nobres e vil\u00e3os, homens, mulheres, velhos e crian\u00e7as, haviam sadio ao seu encontro, enquanto os sinos dos mosteiros tocavam a rebate. Mas quando souberam que n\u00e3o veriam Trist\u00e3o, que o rei o havia proscrito, uma grande tristeza apoderou-se deles. No entanto, receberam bem o cortejo e saudaram Isolda com vivas quando esta apareceu, sentada no palafr\u00e9m, na rua principal, juncada de flores, entre as casas engalanadas. O rei, a rainha e os bar\u00f5es subiram a encosta que leva ao mosteiro de Saint-Samson. Bispo, monges e abades, paramentados com alvas e capas, sa\u00edram ao p\u00f3rtico para receb\u00ea-lo. O bispo pegou na m\u00e3o da rainha e conduziu- a \u00e0 igreja, onde lhe apresentaram um tecido de brocado que ela dep\u00f4s no altar. Terminada a cerim\u00f4nia, o rei, os condes e os marqueses levaram Isolda para o pal\u00e1cio, cujas portas foram abertas. Toda a gente p\u00f4de entrar livremente e comer at\u00e9 fartar. Mesmo no dia de n\u00fapcias, Isolda n\u00e3o recebera semelhante honra, pois, para festejar o seu regresso, o rei libertara cinq\u00fcenta servos e armara vinte pajens.<\/p>\n<p>Nos aposentos das mulheres, Isolda encontrou a fiel Brangia: esperava-a h\u00e1 dois anos e nunca cessara de aguardar o seu regresso. Na altura da maior c\u00f3lera do rei, a manhosa soubera, ao mesmo tempo que continuava devotada \u00e0 sua senhora, granjear a benevol\u00eancia do soberano, pois continuava a engan\u00e1-lo estranhamente, fazendo-o crer que abominava Trist\u00e3o e que este a odiava. Reviu Isolda com manifesta\u00e7\u00f5es de alegria, e quando toda a gente se retirou, as duas mulheres passaram longas horas em afetuosas confid\u00eancias. Quanto a P\u00e9rinis, o lacaio irland\u00eas que seguira Isolda at\u00e9 \u00e0 Cornualha, esse soubera, com discri\u00e7\u00e3o e habilidade, passar despercebido no meio da tormenta e ficar no castelo ao servi\u00e7o de Marcos.<\/p>\n<p>Entrementes, Trist\u00e3o, ap\u00f3s a partida de Dinas de Lidan, abandonara a estrada e embrenhara-se, em companhia de Gorvenal, no atalho que conduzia \u00e0 habita\u00e7\u00e3o de Orri, o florestal. Ca\u00eda a noite: penetrou, sem ser visto, na cabana e instalou-se no celeiro. Durante todo o tempo que Trist\u00e3o permaneceu no esconderijo subterr\u00e2neo, recebeu por meio de P\u00e9rinis novas da rainha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXIV<\/p>\n<p>O JURAMENTO JUDICI\u00c1RIO \u00c9 EXIGIDO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A RAINHA AINDA n\u00e3o decorrera um m\u00eas quando o rei foi um dia ca\u00e7ar com os traidores, Audret, Gondo\u00efne e Denoalen, e mais um grupo de monteiros. Numa charneca, num alqueive que os camponeses haviam queimado, o rei parou, prestando aten\u00e7\u00e3o aos latidos dos c\u00e3es. Os tr\u00eas bar\u00f5es aproveitaram este instante de descanso para abordarem- no e falaram-lhe deste modo: \u201cRei, perdoaste \u00e0 rainha, e era teu direito, mas se ela se conduziu como uma mulher leviana, o teu perd\u00e3o n\u00e3o a dispensa de se justificar segundo a lei desta terra. V\u00e1rios dos teus homens freq\u00fcentemente pediram que um processo fosse instaurado e um julgamento realizado sobre os atos censurados a Isolda e a Trist\u00e3o. Exige que a rainha a ele se submeta e, se recusar, que deixe por sua vez este reino!\u201d O rei ficou vermelho de c\u00f3lera: \u201cPor Deus, senhores cornualhenses, n\u00e3o tendes o direito de falar assim. Quando Trist\u00e3o trouxe a rainha at\u00e9 ao Vau Aventuroso, n\u00e3o se prop\u00f4s justificar? Quem de v\u00f3s, nesse momento, ousou pegar em armas contra ele? Bani-o com medo de vos desagradar; obedecer-vos-ei uma vez mais expulsando a minha mulher? Por Santo Est\u00eav\u00e3o, o m\u00e1rtir, impondes-me exig\u00eancias demasiado duras: ser\u00e1 portanto necess\u00e1rio que vos guerreie. Declaro-vos: dentro de poucos dias, vereis reaparecer Trist\u00e3o em minha casa! Deus vos destrua, v\u00f3s que haveis causado a minha vergonha! Sim, chamarei o bravo que expulsastes.\u201d<\/p>\n<p>Perante o furor do rei, os tr\u00eas voltam r\u00e9deas; na charneca, num valezinho, apeiam-se. Um deles diz: \u201cQue poderemos fazer? O rei Marcos vai chamar o sobrinho, e, se ele volta, l\u00e1 se vai o nosso cr\u00e9dito e, quem sabe, a nossa vida. Se nos encontrar sozinhos, na floresta ou no caminho, ningu\u00e9m o poder\u00e1 impedir de nos tirar o sangue do corpo. \u00c9 mais conveniente fazermos as pazes com o rei, a fim de que ele renuncie a chamar o sobrinho. Calemo-nos, n\u00e3o lhe pe\u00e7amos mais nada.\u201d V\u00e3o ter com o rei, que ficara no alqueive. Marcos viu-os aproximarem-se e jurou entre-dentes n\u00e3o considerar o que lhe poderiam dizer. \u201cSire, escutai-nos: v\u00f3s estais triste e enraivecido por nos preocuparmos tanto com a vossa honra. Aconselhamo-vos por dever e v\u00f3s levai-nos a mal. Por\u00e9m, uma vez que n\u00e3o nos quereis acreditar, fazei como vos apraz! Calar-nos-emos, pois n\u00e3o desejamos a guerra. Perdoai somente a nossa lealdade.\u201d O rei, ainda mais furioso, ergue-se no ar\u00e7\u00e3o e exclama, o dedo apontado para o horizonte: \u201cSenhores, o caso est\u00e1 arrumado; afastai-vos da minha terra. Por Santo Andr\u00e9, a quem v\u00e3o rezar al\u00e9m-mar at\u00e9 \u00e0 Esc\u00f3cia, haveis-me feito tal chaga no cora\u00e7\u00e3o que me atormentar\u00e1 um ano inteiro.\u201d \u201cSire \u2014 respondeu Audret \u2014, exaltais-vos contra n\u00f3s sem motivo. Se persistis em querer expulsar-nos, causar-vos-emos preocupa\u00e7\u00f5es como nunca tivestes.\u201d Proferidas estas amea\u00e7as, os traidores afastam-se a toda a pressa; t\u00eam fortes castelos constru\u00eddos em altos rochedos e cercados de estacas agudas. Juram que ai se v\u00e3o entrincheirar e conspirar contra o rei.<\/p>\n<p>Para regressar ao castelo, Marcos n\u00e3o esperou pelos c\u00e3es nem pelos monteiros. Em Tintagel, diante da torre, desce do cavalo e entra, sem ser visto, no quarto das mulheres. Isolda vem ao seu encontro, tira-lhe a espada, depois senta-se aos seus p\u00e9s. O rei pega-lhe na m\u00e3o; ela nota-lhe a express\u00e3o selvagem e cruel do seu rosto. \u201cAi de mim! \u2014 pensa com os seus bot\u00f5es \u2014, Trist\u00e3o foi descoberto! Quem sabe se o rei n\u00e3o se apoderou dele?\u201d Cai de joelhos diante do seu senhor e, o rosto l\u00edvido, desmaia. Marcos ergue-a nos bra\u00e7os e d\u00e1-lhe beijos, de tal modo que ela volta a si. \u201cSenhora, que tendes?\u201d \u201cSire, tenho grande medo.\u201d \u201cEnt\u00e3o de qu\u00ea?\u201d \u201cSire, vejo pelo vosso rosto que estais encolerizado. Por que levar t\u00e3o a s\u00e9rio os acasos e os jogos da ca\u00e7a?\u201d Este dito diverte o rei, que ri e a abra\u00e7a uma vez mais. \u201cQuerida, n\u00e3o \u00e9 de ca\u00e7a que se trata. Se me vistes em tal furor, foi por culpa de tr\u00eas traidores que, desde h\u00e1 muito, procuram romper o nosso casamento. Dei-lhes demasiada aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. Com as suas falsas palavras, afastaram de mim o meu sobrinho, mas quero chamar Trist\u00e3o, que me vingar\u00e1 e os enforcar\u00e1.\u201d A rainha n\u00e3o ousa dizer alto o que pensa: \u201cDeus seja louvado! O meu senhor enfureceu-se contra aqueles que fizeram nascer o esc\u00e2ndalo!\u201d Em seguida, pergunta: \u201cSenhor, que mal disseram de mim? Cada um pode pronunciar as palavras que quiser e, salvo v\u00f3s, n\u00e3o tenho nenhum defensor; com as suas mentiras, sem descanso nem tr\u00e9guas, procuram a minha perda.\u201d \u201cSenhora \u2014 diz o rei \u2014, podeis alegrar- vos, pois bani os tr\u00eas traidores para longe da corte.\u201d \u201cPor que, Sire? Que mais inventaram?\u201d \u201cDefendem que n\u00e3o justificastes o agravo que vos fizeram de ter amado loucamente Trist\u00e3o.\u201d \u201cQuerem verdadeiramente que justifique tal agravo?\u201d \u201cPor certo que o pedem.\u201d \u201cSenhor, estou pronta a submeter-me ao que eles exigem, e o mais brevemente poss\u00edvel. Ah!, nunca mais me deixar\u00e3o uma hora de paz? Mas se Deus manifestar a minha inoc\u00eancia, estou certa de que depois ficar\u00e3o quietos e n\u00e3o pedir\u00e3o mais nada! Tamb\u00e9m quero que o rei Artur e a sua corte assistam ao meu julgamento, Gauvain, o seu sobrinho, Girflet e Keu, o senescal: com eles por testemunhas, pronunciarei o juramento. Senhor, fixai uma data e mandai dizer ao rei Artur que o quereis encontrar, a ele e aos seus fi\u00e9is, no dia marcado na Charneca Branca.\u201d O rei respondeu: \u201cRainha, falastes como \u00e9 de honra.\u201d E manda todos os seus homens dirigirem-se ao julgamento.<\/p>\n<p>Quando Marcos saiu do quarto das mulheres, Isolda chamou Brangia de parte disse-lhe: \u201cProcura comigo, pe\u00e7o-te, a maneira como poderei, sem atrair sobre mim por meio de um perj\u00fario a terr\u00edvel vingan\u00e7a de Deus, pronunciar sobre as rel\u00edquias dos santos o juramento que exigem de mim os traidores.\u201d \u201cSenhora, o mais seguro seria recusardes prestar esse juramento, pois se tomais Deus por testemunha perante um tribunal encobrindo ou dissimulando a verdade, o castigo do Todo-Poderoso n\u00e3o se ter\u00e1 esperar! Todos os mais s\u00e1bios cl\u00e9rigos vo-lo dir\u00e3o.\u201d \u201cSei-o t\u00e3o bem como tu, mas os meus inimigos n\u00e3o me dar\u00e3o tr\u00e9guas enquanto n\u00e3o tiver prestado esse juramento. Tamb\u00e9m prometi ao rei Marcos submeter-me a esse rito, contanto que seja perante um tribunal de justi\u00e7a presidido pelo rei Artur, rodeado pelos bravos da T\u00e1vola Redonda.\u201d \u201cSenhora, \u00e9 a melhor garantia de o direito ser observado nesse julgamento. Mas qual ser\u00e1 a f\u00f3rmula do juramento?\u201d \u201cTerei de jurar que nunca amei Trist\u00e3o com amor culpado ou ofensivo para o meu marido.\u201d \u201cSenhora, n\u00e3o podeis empregar essa f\u00f3rmula sem cometer perj\u00fario e incorrer na c\u00f3lera divina, c\u00e1 embaixo e no outro mundo. O filtro p\u00f4de muito bem servir de desculpa perante o eremita Ogrin, como me haveis contado, mas n\u00e3o vos autoriza a jurar contra a verdade. Acreditai- me, tendes de empregar outra f\u00f3rmula, com palavras t\u00e3o bem escolhidas e t\u00e3o engenhosamente compostas que possam ser interpretadas no sentido da verdade por aqueles que a sabem e num sentido muito diferente por aqueles que a n\u00e3o conhecem.\u201d As duas mulheres come\u00e7aram ent\u00e3o a procurar juntas: imaginaram, para sossegar o rei Marcos sem ofender a Deus, um estranho estratagema para o qual o concurso de Trist\u00e3o era necess\u00e1rio. Brangia riu muito s\u00f3 \u00e0 id\u00e9ia do ardil e Isolda divertiu-se com ela.<\/p>\n<p>J\u00e1 todos sabem pelo pais o dia da assembl\u00e9ia e que o senhor da T\u00e1vola Redonda ai estar\u00e1 com toda a sua corte. Marcos manda P\u00e9rinis levar o mais depressa poss\u00edvel uma mensagem ao rei Artur, rogando-lhe que presida ao julgamento; Isolda chama P\u00e9rinis antes da partida e ordena-lhe que passe primeiro por casa do florestal Orri para prevenir Trist\u00e3o do que dever\u00e1 fazer: \u201cDiz-lhe que no dia marcado se encontre sem falta no P\u00e2ntano do Mau Passo, perto do vau que domina a Charneca Branca, e que separa o reino de Artur do reino da Cornualha; que esteja no outeiro onde come\u00e7a o paneiro de vigas e de ramagens que serve para passar o lodo. Quero que se enferpele com farrapos como um leproso, que segure numa das m\u00e3os um c\u00e1lice de madeira e que se apoie com a outra na muleta. O rosto deve estar pintado e inchado: ele sabe o segredo. A todos os que vierem assistir aos debates, pedir\u00e1 esmola. L\u00e1 estarei, mas fingirei n\u00e3o o reconhecer. Que fique descansado, pois saberei faz\u00ea-lo representar o papel, com a condi\u00e7\u00e3o de se deixar manejar e de me obedecer em tudo.\u201d<\/p>\n<p>P\u00e9rinis parte e chega a casa de Orri ao cair da tarde, no momento em que o florestal e os h\u00f3spedes acabam de comer. Trist\u00e3o acolhe- o com alegria e escuta a mensagem. Jura que todos aqueles que pensaram mal e censuraram a amante agiram no sentido da sua pr\u00f3pria infelicidade. \u201cDiz \u00e0 rainha que, no dia fixado, me encontrarei no local marcado, coberto de andrajos como um pedinte. Mendigarei t\u00e3o bem que o rei Artur, o rei Marcos e todos os outros se n\u00e3o poder\u00e3o dispensar de me dar esmola. Acrescenta que acho muito bom tudo o que faz e far\u00e1 para vencer a prova do juramento e que lhe quero obedecer em tudo. Que se mantenha de boa sa\u00fade e alegre: ser\u00e1 vingada daqueles que lhe estragam a vida. Leva-lhe finalmente a sauda\u00e7\u00e3o e a homenagem que devo \u00e0 sua lealdade.\u201d P\u00e9rinis montou de novo e cavalgou at\u00e9 ao castelo de Durham, onde se encontrava a T\u00e1vola Redonda. A\u00ed, perante o rei Artur e a sua corte, contou como a rainha Isolda aceitara justificar-se com o juramento e qual o dia e o lugar fixados pelo rei Marcos para o julgamento. Os bar\u00f5es endureceram-se contra os tr\u00eas traidores da Cornualha: sire Gauvain e o bravo Girflet desfizeram-se em amea\u00e7as, pedindo ao rei permiss\u00e3o para mat\u00e1-los em duelo. Artur era demasiado cort\u00eas para o consentir: \u201cSenhores \u2014 disse \u2014, livrai-vos dos arrebatamentos da c\u00f3lera e de qualquer descortesia; ponde antes a vossa honra em aparecerdes todos na assembl\u00e9ia desse julgamento no vosso mais belo corcel, com escudo novo e rico paramento, por cortesia para com a rainha Isolda. Em seguida, o rei quis escoltar em pessoa o mensageiro, encarregando- o de levar os seus respeitos \u00e0 senhora da Cornualha.<\/p>\n<p>No caminho, P\u00e9rinis encontrou o florestal que, n\u00e3o h\u00e1 muito, fora \u00e0 corte do rei Marcos, todo esbaforido, comunicar-lhe que descobrira os amantes numa cabana de Morois, mas ficara bem decepcionado, pois nunca recebera a recompensa prometida. Depois disso, num dia em que estava b\u00eabado, o florestal havia-se gabado da trai\u00e7\u00e3o e queixara-se da ingratid\u00e3o de Marcos. P\u00e9rinis reconheceu-o imediatamente. O homem acabava de cavar, no solo da floresta, um buraco profundo e cobria-o habilmente com uma camada de ramos, para apanhar na armadilha lobos e javalis. Viu arremessar-se contra si o lacaio da rainha e quis fugir; mas P\u00e9rinis empurrou-o para a berma do fosso: \u201cEspi\u00e3o, que vendeste a rainha, para que fugir? Fica ai, ao p\u00e9 da sepultura que tu pr\u00f3prio tiveste o cuidado de cavar.\u201d Fez girar o pau de carvalho nodoso, e bate na fonte do fronte do traidor com tal viol\u00eancia que ele caiu inanimado. P\u00e9rinis, o louro, o fiel, empurrou com o p\u00e9 o corpo para o fosso, depois tapou-o com torr\u00f5es de terra e folhas secas.<\/p>\n<p>XXV<\/p>\n<p>O JURAMENTO AMBIGUO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CHEGOU a data da assembl\u00e9ia em que Isolda, a loura, se devia justificar com o julgamento. Era um dia quente, para o fim do ver\u00e3o. Trist\u00e3o, a seu pedido, fizera uma estranha vestimenta: uma cota de burel grosseiro que trazia sem camisa sobre a pele, um alforje e velhas botas de couro remendadas para cobrir-se, talhara uma ampla capa de l\u00e3 castanha, enegrecida pelo fumo. Assim enferpelado, parecia um verdadeiro leproso; por prud\u00eancia, escondia sob a capa a espada, suspensa de uma corda que atara \u00e0 volta da cintura. Gorvenal, que o acompanhara at\u00e9 ali, dera-lhe s\u00e1bios conselhos: \u201cTrist\u00e3o, n\u00e3o sejas tolo por bravata. Observa bem os sinais que te far\u00e1 a rainha e executa as suas ordens.\u201d \u201cSe me ajudares, tudo ira bem; mas n\u00e3o devemos ir sem as armas, pois podem-nos fazer falta. Levar\u00e1s o meu cavalo arreado, com o escudo e a lan\u00e7a, e emboscar-te-\u00e1s numa moita, na proximidade do Mau Passo. Os dois reis estar\u00e3o ai, rodeados pelos seus bar\u00f5es. Enquanto armam as tendas na pradaria, do outro lado do vau, dar-lhes-ei um famoso espet\u00e1culo!\u201d<\/p>\n<p>Gorvenal emboscou-se como Trist\u00e3o lhe dissera. O falso leproso, de bord\u00e3o ao pesco\u00e7o, c\u00e1lice de madeira na m\u00e3o, veio sentar-se no cimo do outeiro que dominava os p\u00e2ntanos e o vau. N\u00e3o era disforme, nem corcunda, mas estava t\u00e3o bem caracterizado que toda a gente acreditava. Aos que passavam por ele dizia, lamentando- se: \u201cInfeliz de mim, que n\u00e3o nasci para me tornar mendigo nem ter tal oficio. Mas, no estado em que estou, n\u00e3o tenho outro rem\u00e9dio.\u201d As pessoas, apiedadas, puxavam das bolsas e ele recebia humildemente as esmolas. At\u00e9 aos pedintes, aos vagabundos que jaziam de costas nas valas das estradas, estendia o c\u00e1lice. . Uns davam-lhe, outros injuriavam-no, chamando-lhe vadio, devasso, e maltratavam-no. Ouvia e suportava tudo sem lhes responder, mas quando se tornavam demasiado amea\u00e7adores, afastava-os com a muleta: magoou uma d\u00fazia. Aos que lhe davam, dizia que ia beber \u00e0 sua sa\u00fade, pois um fogo ardente lhe devorava o corpo. Ningu\u00e9m desconfiou que n\u00e3o fosse verdadeiramente leproso.<\/p>\n<p>Na pradaria, lacaios e escudeiros erguem os pavilh\u00f5es de cores vivas e, por vias e caminhos, chegam os cavaleiros em bandos, apressando-se a atingir o p\u00e2ntano. Meu Deus, como o caminho \u00e9 p\u00e9ssimo! Merece bem a designa\u00e7\u00e3o de Mau Passo! Mal se afastam do pontilh\u00e3o feito de t\u00e1buas postas sobre uma camada de lenha, os cavalos entram no lodo at\u00e9 ao flanco e os cavaleiros cobrem-se de lama. O leproso faz chacota do seu embara\u00e7o; grita-lhes: \u201cSegurai as r\u00e9deas pelo n\u00f3 e dai \u00e0s esporas! Para a frente! N\u00e3o h\u00e1 mais loda\u00e7al!\u201d E quando avan\u00e7am, o p\u00e2ntano afunda-se sob eles. Ent\u00e3o, vendo o cavaleiro estatelar-se na vasa, Trist\u00e3o, radiante, toca a matraca e bate com o c\u00e1lice no bord\u00e3o. Artur aproximou-se do vau. Trist\u00e3o vai ao seu encontro e implora: \u201c\u00d4 grande rei! Sou pobre e filho de pobre, doente, corcunda, desfigurado, leproso. Venho aqui para pedir esmola: n\u00e3o me mandes embora; ouvi tantas vezes falar da tua generosidade! Tens belas roupas de tecido cinzento e o pano de Remos \u00e9 doce \u00e0 tua pele branca. Vejo as tuas pernas estreitamente cingidas por cal\u00e7\u00f5es de fio verde e os teus p\u00e9s cal\u00e7ados de botas escarlates. V\u00ea a minha roupa esburacada, v\u00ea a minha pele, como me co\u00e7o e tenho frio, embora o corpo me arda. Rei, por Deus, d\u00e1-me as tuas polainas.\u201d O nobre rei apieda-se. Dois lacaios o descal\u00e7am; o leproso desce do cabe\u00e7o para receber as polainas e volta depois a subir. Por sua vez, chega o rei Marcos, orgulhoso e bem trajado. O leproso quer ver se consegue qualquer coisa dele. Mais que nunca, agita a matraca e fala com \u00eanfase. O rei p\u00e1ra tira o capuz e s\u00f3 conserva o gorro na cabe\u00e7a \u201cToma, irm\u00e3o, cobre o cr\u00e2nio e os ombros: com certeza que, com o mau tempo, deves sofrer muito.\u201d \u201cSire, obrigado, isto me resguardar\u00e1 do frio.\u201d E p\u00f5e o capuz.<\/p>\n<p>Com grande custo, Marcos atravessou o Mau Passo e juntou-se a Artur, que, na margem dependente do seu reino, diverte-se com os seus homens. Desde logo se informa de Isolda: Vem com o senescal Dinas de Lidan, que se encarregou de escolt\u00e1-la \u2014 respondeu Marcos. \u201cMas como ir\u00e1 atravessar o lameiro deste Mau Passo?\u201d No mesmo instante, dois dos bar\u00f5es traidores, Denoalen e Gondo\u00efne, chegam diante do vau. Avistam o leproso e perguntam-lhe por onde passaram os cavaleiros que menos se enlamearam. Trist\u00e3o aponta com a muleta: \u201cVedes essa turfeira? O melhor caminho; vi v\u00e1rios passarem por ai.\u201d Os traidores avan\u00e7am e, de repente, enterram-se ao mesmo tempo no loda\u00e7al at\u00e9 \u00e0 sela dos cavalos. O leproso grita- lhes: \u201cIde, senhores. Segurai-vos bem aos ar\u00e7\u00f5es e avan\u00e7ai: digo- vos que \u00e9 o caminho, vi passar por ele muita gente hoje.\u201d Mas os outros n\u00e3o encontraram nem margem nem fundo. Para ver como sairiam dali, os dois reis e a sua gente aproximaram-se. Isolda, a bela, chega por sua vez, montada num palafr\u00e9m branco. Vem vestida com uma t\u00fanica de seda clara e um longo casaco forrado de arminho; as suas tran\u00e7as louras caem-lhe at\u00e9 abaixo da cintura, presas na testa por um c\u00edrculo de ouro. Com grande alegria, v\u00ea os invejosos na lama e o amado empoleirado no outeiro, vestido de mendigo; ri com vontade. E Trist\u00e3o, radiante, bate com o c\u00e1lice no bord\u00e3o e agita a matraca. Todos os que a\u00ed se encontram riem tamb\u00e9m \u00e0s gargalhadas. O leproso interpela ent\u00e3o Denoalen: \u201cAgarra no meu bast\u00e3o, bom senhor, segura-o e puxa com for\u00e7a com as duas m\u00e3os!\u201d Quando o traidor segura bem firme, Trist\u00e3o deixa-o cair de costas e grita com voz de falsete: \u201cN\u00e3o consigo segurar- te! O mal entorpeceu-me as m\u00e3os, levou-me as for\u00e7as.\u201d H\u00e1 agora \u00e0 vontade, \u00e0 volta dos dois reis, cem bar\u00f5es que se divertem a observar os dois traidores chafurdando na lama. Estes se livram do lodo com grande custo: t\u00eam de tirar as roupas e tomar banho antes de se apresentarem na assembl\u00e9ia.<\/p>\n<p>Isolda, que descera da montaria, faz sinal a Trist\u00e3o que vai tamb\u00e9m passar o vau. A seu lado, Dinas ocupa-se a ajudar a rainha. \u201cSenhora \u2014 diz-lhe \u2014, ides sujar o vestido ao atravessar o p\u00e2ntano. Ficaria triste se vos acontecesse algum dano.\u201d Isolda ri-se, pois tinha a sua id\u00e9ia na cabe\u00e7a. Despiu o casaco forrado de arminho, que confiou a Dinas de Lidan, s\u00f3 conservando a t\u00fanica de seda branca, o diadema de ouro, as j\u00f3ias do pesco\u00e7o e das m\u00e3os e os finos sapatos. Com um piscar de olhos, fez compreender ao senescal que n\u00e3o precisava dele para atravessar o vau. Dinas afastou-se, seguiu a margem e acabou por encontrar outro vau um pouco mais baixo, por onde passou sem dificuldade.<\/p>\n<p>Isolda sabia perfeitamente que a observavam do outro lado. Aproximou-se do palafr\u00e9m e, mais depressa que um escudeiro, atou sobre o ar\u00e7\u00e3o as presilhas da gualdrapa, meteu a cilha sob a sela, tirou-lhe o freio e o peitoral, e depois, vergastando o animal com a chibata, f\u00ea-lo entrar na \u00e1gua de modo que passou sozinho o p\u00e2ntano e atingiu a outra margem. Isolda via, do outro lado, os dois reis e os vassalos e divertia-se com a sua surpresa. Que lhe aconteceria na travessia do Mau Passo, privada de montada? Viram-na subitamente avan\u00e7ar para a entrada da ponte de feixos e dirigir-se ao leproso empoleirado no outeiro: \u201cMendigo, n\u00e3o me quero sujar na travessia; levar-me-\u00e1s \u00e0s costas como um burro, em passos lentos, sobre as pranchas do pontilh\u00e3o.\u201d \u201cNobre rainha, n\u00e3o me pe\u00e7ais semelhante servi\u00e7o: estou doente e n\u00e3o me seguro nas pernas, de tal modo o mal me enfraqueceu!\u201d \u201cPouco importa, despacha-te e curva o lombo!\u201d O leproso obedece, baixa a cabe\u00e7a e inclina as costas; ela monta nele, que se estica, se apoia na muleta, avan\u00e7a pela travessa de madeira e anda como que com grande esfor\u00e7o, coxeando, fingindo arquejar e escorregar por vezes na lama Quanto a Isolda, muito \u00e0 vontade, perna daqui, perna dali, aperta fortemente o leproso entre as coxas e, com a m\u00e3o, apalpa-lhe as costas. Da margem, os assistentes observam-nos e n\u00e3o adivinham nada. Na montaria, lentamente, Isolda atinge a outra margem do p\u00e2ntano. Artur e Marcos foram ao seu encontro. A rainha deixa-se escorregar. O portador pede-lhe com que se alimentar. \u201cAh! \u2014 diz Artur \u2014, mereceu-o bem, rainha, dai-lhe!\u201d Responde Isolda: \u201cPela f\u00e9 que vos devo, sire, ele n\u00e3o necessita de absolutamente nada. Enquanto o cavalgava, reparei que era um mendigo forte e, apalpando-o, senti que o alforje estava cheio. Tem as vossas polainas e o capuz do meu senhor; nada lhe darei; deve estar contente em ter-me sido \u00fatil.\u201d Nisto, um escudeiro lhe traz o palafr\u00e9m e a rainha monta nele.<\/p>\n<p>Diante das tendas dos dois reis, senhores, cl\u00e9rigos e gente do povo estavam reunidos. Um len\u00e7ol de seda ricamente bordado estava estendido na erva e haviam ai disposto todos os corpos santos do pais, tirados do tesouro das igrejas, relic\u00e1rios de ourivesaria, escr\u00ednios e relic\u00e1rios esmaltados. Artur saiu do seu pavilh\u00e3o e falou em primeiro lugar: \u201cRei Marcos \u2014 disse \u2014, ultrajar a rainha exigir-lhe semelhante juramento. Aqueles que te levaram a reunir esta assembl\u00e9ia fizeram-te uma patifaria e deviam pag\u00e1-la caro. Es demasiado cr\u00e9dulo e deixas-te enganar pelos intrigantes. Mas j\u00e1 que Isolda, a nobre rainha, a complacente, se quer submeter a esta prova\u00e7\u00e3o, consinto que se realize na minha presen\u00e7a. Declaro-o solenemente: uma vez justificada com o juramento, mandarei enforcar todos aqueles que tiverem a aud\u00e1cia de falar mal dela.\u201d Marcos respondeu-lhe: \u201cAi de mim! As tuas censuras atingem-me e aceito-as. Mas que podia fazer quando os meus bar\u00f5es me predispunham contra a rainha? Fiz mal em ouvir- lhes as palavras malevolentes e tomar as suas mentiras por avisos sinceros. Asseguro-te, rei Artur, que, se depois deste julgamento, se obstinarem em a maldizer, n\u00e3o ter\u00e3o de mim nenhum perd\u00e3o.\u201d Artur dirigiu-se ent\u00e3o a toda a multid\u00e3o: \u201cGente da Cornualha, escutai-me! A rainha vai comparecer livremente e de sua plena vontade: sobre as rel\u00edquias dos santos, prestar\u00e1 juramento ao rei do C\u00e9u de que nunca teve com Trist\u00e3o rela\u00e7\u00f5es das quais possa ser censurada. Quando a tiverdes ouvido tomar Deus por testemunha, n\u00e3o mais tereis o direito de suspeitar dela.\u201d<\/p>\n<p>Os assistentes dispuseram-se diante das tendas, e os dois reis conduziram Isolda segurando-lhe as m\u00e3os. A rainha, depois de se ter descal\u00e7ado e suplicado a Deus, os bra\u00e7os estendidos para a frente, avan\u00e7ou para as rel\u00edquias, vestida unicamente com a t\u00fanica de seda branca. Em volta, os bar\u00f5es contemplavam a sua beleza. \u201cEscutai-me, Isolda, a bela \u2014 continuou Artur. \u2014 Jurai aqui que Trist\u00e3o n\u00e3o teve por v\u00f3s mais do que o amor devido \u00e0 mulher de seu tio e que v\u00f3s n\u00e3o tivestes por ele outro amor al\u00e9m do devido ao sobrinho de vosso marido. Jurai-o.\u201d Ent\u00e3o Isolda respondeu: \u201cSire, farei ainda melhor do que o que me pedis. A fim de o rei Marcos e todo o povo da Cornualha ficarem inteiramente seguros de mim, perante Deus e toda a corte celeste, sobre estas santas rel\u00edquias e sobre todas as que est\u00e3o pelo mundo, juro que jamais homem algum entrou nas minhas coxas sen\u00e3o o rei Marcos, meu marido, e aquele leproso que, h\u00e1 pouco, me trouxe \u00e0s costas como um animal de carga.\u201d Estendeu ent\u00e3o a m\u00e3o direita por cima dos corpos santos e, com uma voz forte e segura, pronunciou a f\u00f3rmula sacramental, segundo o rito da Santa Igreja: \u201cAssim como disse a verdade, possa Deus Todo-Poderoso vir em meu socorro!\u201d Fez-se um grande sil\u00eancio entre o povo e os bar\u00f5es, como se esperassem que Deus se manifestasse por meio de um sinal sens\u00edvel, mas nada se produziu. Isolda rompeu o silencio em primeiro lugar e disse: \u201cRei Artur, ouvistes o que jurei do meu marido e do leproso: excluo esses dois do juramento e mais nenhum. Em verdade, n\u00e3o posso fazer mais nada.\u201d Artur respondeu: \u201cTodos os que ouviram a f\u00f3rmula deste juramento concordar\u00e3o que nada mais se pode exigir. A rainha era unicamente obrigada a justificar-se em rela\u00e7\u00e3o a Trist\u00e3o, e prestou um juramento que se aplica, excetuando o leproso, a todos os outros homens! Infeliz daquele que, doravante, suspeite dela!\u201d<\/p>\n<p>O rei Artur dirige-se pela \u00faltima vez ao rei Marcos, em presen\u00e7a de todos os bar\u00f5es: \u201cRei, vimos e ouvimos bem a justifica\u00e7\u00e3o de Isolda: nada mais deixa a desejar. Que os traidores e os maus \u2014 poderia citar-lhes os nomes \u2014 n\u00e3o duvidem; que nunca mais deixem escapar uma cal\u00fania. Pois, em paz ou em guerra, se soubesse que dizem da rainha Isolda qualquer m\u00e1 palavra, nada me impediria de vir eu mesmo ving\u00e1-la!\u201d \u201cNobre senhor \u2014 diz Isolda \u2014, muito vos agrade\u00e7o!\u201d Da assist\u00eancia sobem aclama\u00e7\u00f5es dirigidas \u00e0 rainha; na multid\u00e3o, os traidores e os seus amigos escondem-se e perdem-se. Depois, cada um volta para casa, Artur para Durham e Marcos para Tintagel. Quanto a Trist\u00e3o, depois de ter escutado de longe o juramento, juntara-se a Gorvenal numa moita e voltaram juntos para a cabana do florestal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXVI<\/p>\n<p>DISFARCES E CRUELDADES DO AMOR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>QUANDO Trist\u00e3o, de regresso \u00e0 cabana do florestal Orri, jogou fora o bord\u00e3o e despiu a roupa de leproso, perguntou a si mesmo se n\u00e3o chegara o dia de afastar-se do pa\u00eds da Cornualha. Por que tardar ainda, j\u00e1 que Marcos n\u00e3o dera seguimento ao projeto de voltar a cham\u00e1-lo? Mesmo depois do juramento no Mau Passo, n\u00e3o achara bem p\u00f4r fim ao seu ex\u00edlio. \u00c9 verdade que a rainha se justificara, sa\u00edra vitoriosa da prova\u00e7\u00e3o imposta pelos traidores; o rei, longe de lhe mostrar ressentimento, honrava-a grandemente e amava-a. Artur, em caso de necessidade, tom\u00e1-la-ia sob a sua salvaguarda: nenhuma perf\u00eddia poderia doravante prevalecer contra ela. Por seu lado, Gorvenal observava a Trist\u00e3o que n\u00e3o podia continuar mais tempo, contra a vontade expressa do rei, a rondar \u00e0 volta de Tintagel sem arriscar inutilmente a sua vida, a vida do florestal Orri, que lhe dava asilo, e o repouso de Isolda. Trist\u00e3o tardou ainda tr\u00eas dias, n\u00e3o podendo resolver-se a separar- se do pa\u00eds onde vivia aquela a quem amava. Quando chegou o quarto dia. despediu-se do florestal e disse a Gorvenal: \u201cQuerido mestre, eis chegada a hora da longa partida, vamos para o pa\u00eds de Gales ou para o rico rei de Gavoie.<\/p>\n<p>Puseram-se a caminho, tristemente, pela noite afora. Mas o caminho ladeava o pomar do castelo, cercado de estacas, onde Trist\u00e3o, outrora, esperava pela amiga. A noite estava clara e o c\u00e9u estrelado. Numa curva do caminho, n\u00e3o longe da pali\u00e7ada, viu destacar-se no c\u00e9u claro a silhueta altaneira do pinheiro grande. \u201cQuerido mestre, espera no pr\u00f3ximo bosque, estarei de volta em breve.\u201d \u201cOnde vais, louco? Queres sem descanso provocar a morte?\u201d Mas j\u00e1 com um salto \u00e1gil Trist\u00e3o transpusera a pali\u00e7ada de estacas. Dirigiu-se para o pinheiro grande, perto da fonte e da escadaria de m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>No quarto das mulheres, Isolda, estendida na cama, estava acordada e Brangia repousava n\u00e3o longe dela. Subitamente, o canto de um rouxinol elevou-se no jardim, primeiro d\u00e9bil e hesitante, depois encheu-se e tornou-se mais seguro; a voz entrou no quarto pela janela aberta e encheu-o com a sua quente harmonia. Isolda, extasiada, escutava esta melodia que vinha encantar a noite. A rainha julgara primeiro ouvir um rouxinol. A for\u00e7a de pensar nisso, uma d\u00favida atravessou-lhe o esp\u00edrito e transformou-se em breve numa certeza: \u201cAh! 1: Trist\u00e3o! Assim imitava na floresta de Morois, para me deleitar, todos os p\u00e1ssaros do bosque. Vai partir e afastar-se deste pa\u00eds: este canto \u00e9 o seu \u00faltimo adeus. Como se lamenta! Assim faz o rouxinol quando se despede, no fim do ver\u00e3o. Querido, nunca mais ouvirei a tua voz!\u201d A melodia vibra, mais ardente. \u201cAh!, que exiges? Que eu v\u00e1? N\u00e3o, lembra-te de Ogrin, o eremita, e dos juramentos feitos. Cala te, a morte espreita-nos!\u201d Os trinados redobraram, fizeram-se mais prementes. \u201cQue importa a morte? Chamas-me, queres-me, vou!\u201d<\/p>\n<p>Deslizou para fora da cama e deitou sobre o corpo um casaco forrado de pele de esquilo. Brangia acompanhou-a at\u00e9 ao vest\u00edbulo que dava para o jardim e a\u00ed ficou de atalaia para prevenir a senhora ao primeiro alerta. Isolda transp\u00f4s a soleira e embrenhou- se na alameda que conduzia ao pinheiro grande. A medida que se aproximava do local de onde provinha o chamado, o canto diminu\u00eda de intensidade; em breve abrandou-se e dissipou-se na penumbra. Debaixo das \u00e1rvores, sem uma palavra, Trist\u00e3o apertou a amada contra o peito e os bra\u00e7os enla\u00e7aram-se \u00e0 volta dos corpos. Pela primeira vez se encontravam sozinhos desde que se tinham separado no Vau Aventuroso e Isolda fora entregue a Marcos.<\/p>\n<p>Doravante, nunca mais Trist\u00e3o se poderia encontrar com sua amada, a n\u00e3o ser de longe a longe, com perigo de vida e sob um disfarce do acaso. Na Charneca Branca, vestira a roupa de um leproso para poder lev\u00e1-la \u00e0s costas de uma margem \u00e0 outra do vau. Nessa noite, escolhera a imita\u00e7\u00e3o do rouxinol. At\u00e9 ao aproximar da aurora, n\u00e3o desfizeram o abra\u00e7o. Ent\u00e3o ele saiu do jardim saltando por cima da pali\u00e7ada e, apesar das objurga\u00e7\u00f5es de Gorvenal, resolveu adiar uma vez mais a partida. Com a cumplicidade de Brangia e de P\u00e9rinis, os amantes retomaram como outrora os encontros noturnos, primeiro no jardim e depois no pr\u00f3prio quarto de Isolda. Ora, Gondo\u00efne, um dos traidores, tinha um servo que v\u00e1rias vezes empregara para espiar os amantes. Foi um dia ter com o bar\u00e3o e disse-lhe em grande segredo: \u201cSenhor, n\u00e3o o ignorais: desde a assembl\u00e9ia do Mau Passo que o rei vos tomou \u00f3dio. E, todavia, a rainha fez um juramento falso! Trist\u00e3o, que se devia exilar, violou a promessa e esconde-se n\u00e3o longe daqui. Mais de uma vez, durante a noite, se encontra e faz amor com ela no quarto das mulheres, enquanto Brangia fica de atalaia e Gorvenal espera fora do tapume. Quereis surpreend\u00ea-los em flagrante? Emboscai-vos no pomar e i\u00e7ai-vos at\u00e9 o balc\u00e3o da janela que d\u00e1 para um angulo do jardim. Se seguirdes os meus conselhos, n\u00e3o tardareis a ver Trist\u00e3o aparecer, a espada na bainha, o arco numa das m\u00e3os e duas flechas na outra. Podeis acreditar-me, pois o vi com os meus pr\u00f3prios olhos.\u201d \u201cQuando viste?\u201d \u201cEsta manh\u00e3, antes da alvorada; v\u00ea-lo-eis como eu se o quiserdes. Que me dareis em recompensa?\u201d \u201cVinte marcos de prata, pelo menos, e, se n\u00e3o mentiste, far-te-ei ainda mais rico.\u201d \u201cPrestai aten\u00e7\u00e3o \u2014 disse o devasso. \u2014 A janela alta a que me referi est\u00e1 encoberta com uma tape\u00e7aria de seda. Entrai no pomar, l\u00e1 para o fim da noite, escalando o tapume, e i\u00e7ar-vos-eis sem custo a um rebordo do balc\u00e3o. Tende o cuidado de vos munir de uma vara bem agu\u00e7ada, que espetareis na tape\u00e7aria. Assim, afast\u00e1-la- eis suavemente, a fim de ver o interior. Consinto em ser queimado vivo se, por essa abertura, n\u00e3o contemplares um belo espet\u00e1culo!\u201d<\/p>\n<p>Gondo\u00efne deu parte da noticia a Denoalen, seu compadre, e comunicou-lhe a vontade de tentar em primeiro lugar essa aventura, no dia seguinte; Denoalen arrisc\u00e1-la-ia depois. Resolvida a quest\u00e3o, separaram-se alegremente, pois julgavam-se certos de confundir Trist\u00e3o. A rainha n\u00e3o suspeitava nada das suas intrigas e, como o rei devia partir para a ca\u00e7a pouco depois da meia-noite, enviou P\u00e9rinis a Trist\u00e3o para lhe dizer que podia vir passar a seu lado as \u00faltimas horas da noite. A Lua brilhava ainda quando ele deixou o ref\u00fagio: p\u00f4s-se a caminho atrav\u00e9s dos bosques que o separavam do castelo. Rastejando pela mata, avan\u00e7ava com prud\u00eancia, pois estava sempre a temer uma armadilha. Subitamente, ao desembocar de uma moita de espinheiros, viu Gondo\u00efne avan\u00e7ando ao longo de um atalho. Trist\u00e3o atirou-se para a espessura do matagal. \u201cMeus Deus, fazei que ele n\u00e3o me veja antes de estar ao meu alcance!\u201d E, a espada desembainhada, estava pronto a atacar, mas Gondo\u00efne fez um desvio por outro atalho. Trist\u00e3o lan\u00e7ou-se em v\u00e3o ao seu alcance: o traidor avan\u00e7ara muito e j\u00e1 estava fora de suas vistas.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o retomara a marcha atrav\u00e9s do matagal quando surgiu Denoalen, precedido por dois galgos e montado num cavalo negro. O bravo, dissimulado atr\u00e1s de uma macieira, esperou-o. O outro apressava-se a alcan\u00e7ar os c\u00e3es que enviara \u00e0 frente para espantarem um javali. Mal o homem ficou suficientemente pr\u00f3ximo, Trist\u00e3o tirou o casaco e, com um salto, colocou-se \u00e0 sua frente. O traidor quis fugir: quase nem teve tempo para soltar um grito de pavor, pois Trist\u00e3o decepou-lhe a cabe\u00e7a com a espada. Depois, cortou-lhe as longas tran\u00e7as e meteu-as nos cal\u00e7\u00f5es: lev\u00e1-las-ia a Isolda para melhor se regozijar com ela da morte do traidor. Limpou a espada na erva, meteu-a na bainha e arrastou um pesado tronco para cima do corpo ensang\u00fcentado do inimigo.<\/p>\n<p>Os primeiros clar\u00f5es do dia afugentavam j\u00e1 as trevas. Trist\u00e3o apressava-se agora a atingir a habita\u00e7\u00e3o da rainha. Gondo\u00efne havia-se-lhe antecipado. No rebordo do balc\u00e3o, afastara ligeiramente a tape\u00e7aria com uma vara de ponta afiada e via do alto o interior do quarto das mulheres todo juncado de glad\u00edolos. Primeiro s\u00f3 avistou Brangia, que ainda segurava o pente de marfim com o qual penteara a rainha. Isolda entrou pouco depois, um casti\u00e7al na m\u00e3o, ajustando as vestes. Finalmente, Trist\u00e3o transp\u00f4s a soleira, o casaco desapertado, trazendo numa m\u00e3o o arco de alburno e na outra duas longas tran\u00e7as ruivas. Quando a rainha ia ao seu encontro, viu, perfilada na cortina, a sombra da cabe\u00e7a de Gondo\u00efne. \u201cQuerida \u2014 disse Trist\u00e3o \u2014, trago-vos um rico presente: s\u00e3o as tran\u00e7as de Denoalen. Cortei-lhe o pesco\u00e7o; nunca mais usar\u00e1 a lan\u00e7a ou o escudo.\u201d \u201cMuito obrigada, louvado seja Deus! Mas concedei-me mais alguma coisa!\u201d \u201cO qu\u00ea?\u201d \u2014 perguntou Trist\u00e3o. \u201cGostaria que retes\u00e1sseis o arco para ver como o fazeis., Trist\u00e3o, surpreendido, hesitou um momento sem compreender. Depois, retesou o arco com todas as for\u00e7as. Ent\u00e3o Isolda disse-lhe ao ouvido: \u201cAmor, armai uma flecha: avisto l\u00e1 em cima, na tape\u00e7aria, a sombra de uma cabe\u00e7a que n\u00e3o me agrada nada! E agora, visai com precis\u00e3o!\u201d Trist\u00e3o ergueu o olhar para a janela e reconheceu o rosto do inimigo, cuja sombra se recortava na tape\u00e7aria.<\/p>\n<p>Deus \u2014 pensou \u2014, se sou verdadeiramente um h\u00e1bil arqueiro, faz com que n\u00e3o falhe!\u201d Visou tranq\u00fcilamente e atirou: a flecha voou mais r\u00e1pida que o esmerilh\u00e3o, atingiu com toda a for\u00e7a o olho de Gondo\u00efne e alojou-se-lhe no cr\u00e2nio. o traidor morreu no mesmo instante e o corpo caiu para tr\u00e1s do lado do pomar. Isolda, impressionada, pegou na m\u00e3o de Trist\u00e3o: \u201cDoce amor \u2014 disse-lhe \u2014, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que nos podemos regozijar! Denoalen e Gondo\u00efne j\u00e1 n\u00e3o existem, n\u00e3o vir\u00e3o mais perturbar a paz entre o rei Marcos e eu, e prejudicar o nosso repouso. O fiel P\u00e9rinis enterrar\u00e1 este corpo na floresta.\u201d<\/p>\n<p>Todavia, apesar da embriaguez da vingan\u00e7a, s\u00f3 experimentaram, nessa manh\u00e3, um prazer misturado com inquieta\u00e7\u00e3o e amargura: sentiam mais do que nunca como a sua felicidade era fr\u00e1gil e sempre amea\u00e7ada. Quando Trist\u00e3o se preparou para partir, Isolda disse-lhe: \u201cPor certo que temos hoje menos dois inimigos, o que \u00e9 muito, mas restam na corte o duque Audret, Kariado e bastantes invejosos ou indiscretos para espiarem as nossas idas e vindas. Mais cedo ou mais tarde, encontrar\u00e3o na floresta o corpo decapitado de Denoalen e todos compreender\u00e3o que foste tu quem o matou; se Gondo\u00efne desapareceu, s\u00f3 tu o pudeste suprimir. Desde agora o teu ref\u00fagio n\u00e3o mais poder\u00e1 ser dissimulado. Para tua e minha salva\u00e7\u00e3o, tens de fugir para longe daqui.\u201d \u201cQuerido amor \u2014 respondeu Trist\u00e3o \u2014, partirei ent\u00e3o, uma vez que \u00e9 essa a tua vontade. Prefiro afastar-me de ti a ver-te viver, por minha culpa, na incerteza e na ang\u00fastia. Mesmo que a tua imagem se pudesse apagar um \u00fanico instante do meu cora\u00e7\u00e3o, o teu anel de jaspe verde f\u00e1-la-ia renascer imediatamente: bem sabes que ao teu primeiro apelo virei ter contigo.\u201d Trist\u00e3o beijou-a uma \u00faltima vez e, com o cora\u00e7\u00e3o oprimido, foi juntar-se a Gorvenal, que o esperava no bosque.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXVII<\/p>\n<p>AS FOICES SANGRENTAS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DESTA vez, Trist\u00e3o deixou Tintagel com o pensamento de que n\u00e3o voltaria t\u00e3o cedo, e talvez at\u00e9 nunca mais. Era n\u00e3o contar com a estranha aventura que devia, contra as suas previs\u00f5es, traz\u00ea-lo de volta alguns dias mais tarde. Tomara com Gorvenal o caminho que levava ao reino de Gavoie Depois de terem atravessado a Charneca Branca e o vau do Mau Passo, os dois homens ladeavam a orla de uma floresta quando encontraram um grupo de monteiros do rei Artur e, entre eles, v\u00e1rios companheiros da T\u00e1vola Redonda. Gauvain, sobrinho de Artur, e Keu, o senescal, fizeram bom acolhimento a Trist\u00e3o, de quem conheciam a fama das proezas e das desventuras. \u201cO qu\u00ea? \u2014 perguntaram-lhe. \u2014 Ainda errais pelos bosques com um \u00fanico escudeiro? O rei Marcos n\u00e3o p\u00f4s fim ao vosso ex\u00edlio? N\u00e3o devia deixar-vos voltar para a corte mal a rainha se justificasse em juramento na presen\u00e7a de Artur e na nossa?\u201d \u201cQue querem, senhores? \u2014 respondeu Trist\u00e3o. \u2014 Os meus inimigos, e o duque Audret mais que os outros, t\u00eam demasiado poder na corte sobre o esp\u00edrito do rei para que o meu tio consinta acolher-me de novo junto de si. As suspeitas e a ang\u00fastia apoderaram-se da sua alma e n\u00e3o sei se alguma vez se libertar\u00e1 delas. Presta \u00e0 rainha todas as honras e trata-a com grande defer\u00eancia, mas ainda n\u00e3o levantou at\u00e9 hoje a senten\u00e7a de ex\u00edlio que aplicou contra mim no dia em que lhe restitu\u00ed Isolda.\u201d \u201cQuerido senhor Trist\u00e3o \u2014 continuou o senescal Keu \u2014, agradava-vos rever a rainha uma vez mais, antes de vos exilardes numa terra long\u00ednqua? Vinde conosco: iremos ca\u00e7ar perto de Tintagel e, chegada a noite, fingindo termo- nos perdido, pediremos hospitalidade ao rei. Estareis conosco como um dos monteiros, encarregado de preparar e conduzir a matilha. Assim, nessa vestimenta, podereis aproximar-vos da rainha e conversar com ela.\u201d. Muito obrigado, senescal \u2014 respondeu Trist\u00e3o. \u2014 Uma vez que me ofereceis essa boa aventura, n\u00e3o a posso recusar. Conhe\u00e7o umas ervas m\u00e1gicas que modificar\u00e3o a cor e os tra\u00e7os do meu rosto, de modo que o pr\u00f3prio rei Marcos n\u00e3o me poder\u00e1 reconhecer.\u201d Gorvenal em v\u00e3o qualificou esse projeto de insensato e jurou por todos os deuses que n\u00e3o seguiria Trist\u00e3o nessa louca aventura: de nada adiantou e, no dia seguinte, o plano foi executado.<\/p>\n<p>Marcos, o cort\u00eas, o generoso, acolheu bem Gauvain, o senescal Keu e todos os monteiros. Recebeu-os \u00e0 mesa albergou-os no quarto real. Esse aposento era vasto e alto, coberto por um teto de fortes vigas e de ricos lambris; o ch\u00e3o era de terra batida, mas todo juncado de glad\u00edolos. Por\u00e9m, no meio do alegre tumulto do festim, Marcos estava inquieto e perturbado no intimo, tanto mais que acabara de tom ar conhecimento do assass\u00ednio de Gondo\u00efne e de Denoalen e bem sabia que s\u00f3 Trist\u00e3o podia ser o autor. Atormentado pelos ci\u00fames, assustava-o sentir rodar \u00e0 volta da bela Isolda os desejos de todos os ca\u00e7adores. Mandou chamar tr\u00eas servos e ordenou-lhes que espetassem em circulo, no ch\u00e3o do quarto, \u00e0 volta das camas vizinhas do rei e da rainha, laminas de foices recentemente afiadas, como colocavam nas armadilhas para lobos; glad\u00edolos deviam dissimular o gume das foices, de modo que, se algu\u00e9m se tentasse aproximar, a favor das trevas, do leito da rainha, ferir-se-ia cruelmente nas pernas e seria obrigado a fazer marcha atr\u00e1s. Os tr\u00eas servos espetaram as foices como o rei mandara.<\/p>\n<p>Terminado o festim, vieram os ditos alegres depois de beber; um pouco antes da meia-noite, o pr\u00f3prio Marcos conduziu Isolda at\u00e9 ao leito, com medo que se magoasse nas laminas aceradas. Os convidados, depois de se descal\u00e7arem e despirem, estenderam-se nas camas de tiras de lona dispostas \u00e0 volta do quarto. Quando todos adormeceram, Trist\u00e3o levantou-se sem ru\u00eddo e procurou \u2014 o insensato! \u2014 juntar-se a Isolda no leito. N\u00e3o tardou a rasgar as pernas numa das foices, e teve de rasgar os len\u00e7\u00f3is para estancar o sangue e atar as feridas. Keu, seu vizinho, inclinou-se para ele e perguntou baixinho: \u201cQue tendes? Como vos magoastes?\u201d \u201cSenescal \u2014 murmurou Trist\u00e3o \u2014, foi o rei que, para impedir que se aproximassem da mulher, mandou espetar foices no ch\u00e3o do quarto.\u201d \u201cInfeliz \u2014 respondeu Keu \u2014, ides ser descoberto! Essa ferida far-vos-\u00e1 reconhecer!\u201d O senescal imaginou ent\u00e3o um belo estratagema: mandou transmitir, de uma cama para outra, ordem para que todos os monteiros se levantassem bruscamente, descal\u00e7os, e se injuriassem uns aos outros como se discutissem. Um instante depois, todos os ca\u00e7adores corriam atrav\u00e9s do quarto gesticulando, soltando gritos e lan\u00e7ando-se grosseiras provoca\u00e7\u00f5es: todos se magoaram no gume das foices e fizeram nas pernas profundos golpes. O rei Marcos, despertado em sobressalto e n\u00e3o compreendendo nada da barulheira, ordenou a P\u00e9rinis que acendesse os candelabros. Um espet\u00e1culo inaudito ofereceu-se ent\u00e3o aos olhares: todos os convidados do rei perdiam sangue em abund\u00e2ncia e esfor\u00e7avam-se por estanc\u00e1-lo com pensos improvisados. Todo o quarto estava ensang\u00fcentado. S\u00f3 Keu, o imaginador da artimanha, prudente e fino como de costume, conseguira esquivar-se das foices, mas Gauvain, por gracejo, empurrou-o contra elas, de modo que se feriu mais gravemente que os outros. Ent\u00e3o Keu teve uma nova inspira\u00e7\u00e3o. Na desordem geral, come\u00e7ou a gritar com voz forte: \u201cAndam lobos nesta sala, para que se disponham tais armadilhas? \u00c9 esta a hospitalidade de Marcos?\u201d Que restava ao rei fazer sen\u00e3o acalmar a contenda e desculpar-se por ter deixado p\u00f4r armadilhas no seu pr\u00f3prio quarto? Enquanto cuidavam dos feridos, Trist\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o corria o risco de ser reconhecido entre os feridos, aproveitou para aproximar-se Lia rainha e dirigir-lhe algumas palavras.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, enquanto os homens de Artur voltavam para a floresta, Trist\u00e3o desceu at\u00e9 ao porto onde o fiel Gorvenal, aguardando o seu retorno, se pusera em busca de um navio prestes a largar. Uma nau de mercadores ia fazer-se \u00e0 vela para a Pequena Bretanha; combinaram o pre\u00e7o e embarcaram.<\/p>\n<p>XXVIII<\/p>\n<p>A MIRAGEM DA OUTRA ISOLDA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NESSE tempo reinava na Pequena Bretanha, \u00e0 qual tamb\u00e9m chamavam Arm\u00f3rica, um velho duque de nome Hoel, a quem o vizinho, o conde Riol de Nantes, guerreava rudemente. O duque tinha um filho chamado Kaberdin, bravo e cort\u00eas, e uma filha, bela e bem- educada, a quem chamavam Isolda das m\u00e3os brancas. Trist\u00e3o ofereceu os seus servi\u00e7os ao duque, que o aceitou, e t\u00e3o bem fez, com a ajuda de Kaherdin, que libertou v\u00e1rias cidades sitiadas pelo inimigo e obrigou o conde Riol a implorar a paz.<\/p>\n<p>Porque a filha de Hoel tinha o nome de Isolda e assemelhava-se muito com a Isolda da Irlanda, Trist\u00e3o deleitava-se a fit\u00e1-la. A donzela, porque o via belo e valoroso, apaixonou-se por ele. Um dia em que Trist\u00e3o cavalgava com Kaberdin, come\u00e7ou a pensar em Isolda, a loura, que deixara em Tintagel, e afundou-se num t\u00e3o profundo devaneio que j\u00e1 n\u00e3o sabia se dormia ou estava acordado. Kaherdin apercebeu-se disso, mas n\u00e3o disse uma palavra, receando importun\u00e1-lo. Trist\u00e3o, mergulhado nos seus pensamentos, come\u00e7ou a cantar a meia-voz: Isolda, minha for\u00e7a; Isolda, minha querida Em v\u00f3s, minha morte, em v\u00f3s, minha vida!<\/p>\n<p>Era o refr\u00e3o de um lai bret\u00e3o que compusera n\u00e3o h\u00e1 muito em honra de Isolda, a loura. Quando saiu finalmente deste devaneio, sentiu- se constrangido perante Kaherdin. O companheiro disse-lhe:<\/p>\n<p>\u201cAmigo, n\u00e3o \u00e9 de bom senso pensar demais!\u201d \u201cFalas verdade \u2014 replicou Trist\u00e3o \u2014, mas n\u00e3o \u00e9 de admirar que o homem que tem o cora\u00e7\u00e3o em tormento por vezes se perca.\u201d \u201cAmigo \u2014 disse Kaherdin \u2014, vejo-te mais pensativo do que desejaria e creio bem que \u00e9 por qualquer dama ou donzela. Se te apraz confias-te a mim, n\u00e3o me pouparei a nada para aliviar-te a dor.\u201d \u201cVou dizer-to \u2014 continuou Trist\u00e3o. \u2014 Amo tanto uma bela chamada Isolda, para quem compus esta can\u00e7\u00e3o, que suspiro por ela como podes ver. Se essa Isolda n\u00e3o existisse, desejaria deixar este mundo.\u201d Quando Kaherdin ouviu o nome de Isolda, julgou que Trist\u00e3o referia-se a sua irm\u00e3, pois nunca ouvira falar de outra Isolda e teria muito prazer que Trist\u00e3o se tornasse seu cunhado. Disse: \u201cTrist\u00e3o, por que mo escondeste tanto tempo? Fica sabendo: se tivesse pensado que querias a minha irm\u00e3, asseguro-te que n\u00e3o terias de sofrer uma longa espera.\u201d Trist\u00e3o compreendeu que Kaherdin se enganara quanto ao objeto dos seus sonhos, mas n\u00e3o ousou desengan\u00e1-lo, pois o seu cora\u00e7\u00e3o estava agitado por sentimentos diversos e o seu esp\u00edrito atravessado por pensamentos contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p>A noite, sozinho no quarto, dirigia-se baixinho a Isolda, a loura, como se esta estivesse presente: \u201cBela, como as nossas vidas s\u00e3o diferentes! Na separa\u00e7\u00e3o que suportamos, s\u00f3 h\u00e1 amargura para mim. Perco por ti a alegria e o prazer que enchem os teus dias e as tuas noites. A minha vida n\u00e3o passa de incessantes torturas, a tua de encantamentos de amor. S\u00f3 vivo para te desejar, ainda que s\u00f3 conhe\u00e7as nos bra\u00e7os do teu marido gozo e voluptuosidade. O rei tem todo o vagar para se deliciar contigo: o que foi o meu bem tornou-se a sua presa.\u201d Este pensamento f\u00ea-lo sentir tanta amargura que se apanhou a dizer: \u201cSei bem as alegrias que Isolda tem: ela, por quem o meu cora\u00e7\u00e3o despreza todas as mulheres, compra o prazer com o esquecimento a que me vota. E eis agora que sinto a amarga, ang\u00fastia de me sentir desejado por outra mulher; o amor ardente com que esta donzela me requer torna ainda mais insuport\u00e1vel a dor de ser abandonado pela rainha. Se a loura Isolda n\u00e3o se acautela, terei de renunciar ao que n\u00e3o posso ter: encontrarei o apaziguamento neste novo amor. Em vez de suspirar pelo imposs\u00edvel, restringirei as minhas for\u00e7as \u00e0s coisas acess\u00edveis. Para que eternizar um amor do qual n\u00e3o pode vir nenhuma alegria? Que Isolda, a loura, ame o seu dono e senhor e fique com ele. N\u00e3o a quero censurar: o homem n\u00e3o deve odiar o que adorou, pode unicamente libertar-se, afastar-se e desprender- se disso. Quero doravante esfor\u00e7ar-me, a exemplo da loura Isolda, por apreciar o encanto que h\u00e1 nas car\u00edcias sem amor. Mas como experiment\u00e1-lo sen\u00e3o casando com a jovem que se enamorou de mim e que aspira a dar-me esse prazer?\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o deseja Isolda das m\u00e3os brancas pela sua beleza, que era como que um reflexo da de Isolda da Irlanda, e tamb\u00e9m pelo nome de Isolda, que lhe recorda o primeiro amor: \u00e9 a reuni\u00e3o do nome e da beleza que lhe inspira o des\u00edgnio de tomar a jovem por mulher. O sofrimento vem-lhe de uma Isolda, \u00e9 de outra Isolda que espera a consola\u00e7\u00e3o. Eis que mostra por ela tanto ardor, que tem para com os seus parentes tantas belas palavras, que todos concordam em celebrar o casamento.<\/p>\n<p>No dia fixado, todos os preparativos est\u00e3o terminados para as n\u00fapcias: Trist\u00e3o casa com Isolda das m\u00e3os brancas. O capel\u00e3o celebra o oficio, depois demoram-se num banquete de festa. Saem para divertirem-se na m\u00fasica, no lan\u00e7amento do dardo e na esgrima. O dia passa com os prazeres, a noite est\u00e1 pr\u00f3xima; o leito nupcial est\u00e1 preparado. A mo\u00e7a entra em primeiro lugar. Trist\u00e3o despe a t\u00fanica, mas, ao retirar a manga direita, ajustada ao punho, deixa escorregar do dedo o anel de prata com engaste de jaspe verde que a rainha lhe dera no dia da separa\u00e7\u00e3o. O anel tilinta nas lajes com um som claro, Trist\u00e3o inclina-se para apanh\u00e1-lo e contempla-o longamente. Como por encanto, a radiosa imagem de Isolda, a loura, surgiu diante de si e encheu-o at\u00e9 ao mais fundo do ser de uma emo\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel. O anel m\u00e1gico fez a sua obra. Recolocou diante dos olhos do amante a imagem, um instante esfumada, da long\u00ednqua bem-amada. Um remorso insinua-se- lhe na alma e em breve a domina: arrepende-se da conduta e absorve-se em amargas reflex\u00f5es. Esse anel, que meteu no dedo, rememora-lhe o pacto da m\u00fatua fidelidade conclu\u00eddo com Isolda na hora do \u00faltimo adeus. Suspira do fundo do cora\u00e7\u00e3o e diz para consigo mesmo: \u201cEis que eu pr\u00f3prio me coloquei, por causa de um louco erro, numa dura necessidade. O meu dever de marido \u00e9 de me deitar ali, uma vez que casei com esta donzela. As conveni\u00eancias exigem que me estenda ao lado dela: j\u00e1 \u00e9 tarde para me retirar! Eis o belo trabalho do meu cora\u00e7\u00e3o demente, f\u00fatil e vol\u00favel.\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o deita-se, Isolda enla\u00e7a-o ternamente, beija-lhe a boca e a face. Deseja ardentemente aquilo a que Trist\u00e3o se recusa. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o esteja disposto a acariciar a sua jovem mulher, mas um amor maior ret\u00e9m-no e faz calar o apelo dos sentimentos. A paix\u00e3o por Isolda, a loura, mais forte que nunca no seu cora\u00e7\u00e3o, paralisa-lhe a vontade e torna a natureza impotente. V\u00ea que a jovem \u00e9 desej\u00e1vel e ardente; aspira a vol\u00fapias, mas o outro desejo \u00e9 suficientemente forte para dominar o instinto da carne: tudo cede \u00e0quele grande amor. E \u00e9 para Trist\u00e3o um embara\u00e7o, um tormento, uma inquieta\u00e7\u00e3o e uma ang\u00fastia n\u00e3o saber como se manter casto, que conduta ter com a mulher, a que estratagema recorrer. Subtrai-se aos abra\u00e7os da jovem esposa e ilude o prazer que ela procura. D\u00e1 um \u00fanico beijo a Isolda das m\u00e3os brancas e diz-lhe: \u201cMinha bela amiga, n\u00e3o tomeis isto por uma vilania ou um ultraje. Quero fazer-vos uma confiss\u00e3o, pedindo-vos que a guardeis s\u00f3 para v\u00f3s, pois nunca a confiei a mais ningu\u00e9m. Aqui, no meu lado direito, tenho uma ferida que me afligiu longamente e que ainda esta noite me atormenta duramente. As fadigas que suportei guerreando os inimigos de vosso pai acordaram em mim a dor. Por causa dela, n\u00e3o me posso entregar aos prazeres amorosos. Mas t\u00ea-los-emos quando o quisermos.\u201d Isolda respondeu-lhe: \u201cEstou aflita, mais do que saberia dizer, com o mal de que sofreis. Quanto \u00e0 coisa de que me falais, quero e posso muito bem passar sem ela esta noite.\u201d Assim ficou Trist\u00e3o, durante toda a noite, estendido, sem se mover, ao lado da esposa. Ela, que dos jogos do amor s\u00f3 conhecia os abra\u00e7os e os beijos, adormeceu com toda a simplicidade enla\u00e7ada a Trist\u00e3o. Mas chegada a manh\u00e3, quando as servas lhe ajustaram o v\u00e9u das mulheres casadas, sorriu tristemente e pensou que n\u00e3o tinha nenhum direito a ele.<\/p>\n<p>XXIX<\/p>\n<p>A AGUA ATREVIDA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ALGUNS meses ap\u00f3s o casamento, Trist\u00e3o e Isolda das m\u00e3os brancas dirigiram-se, com Kaherdin, \u00e0 peregrina\u00e7\u00e3o dos Sete Santos da Bretanha. Kaherdin cavalgava \u00e0 direita da jovem, que montava \u00e0 amazona, e Trist\u00e3o \u00e0 esquerda. Trocam mil ditos agrad\u00e1veis, e o que dizem absorve-os de tal modo que deixam ir os cavalos ao sabor do seu capricho. Chegam acidentalmente a um pequeno curso de \u00e1gua quase seco, que atravessam num vau atulhado de pedras. Menos d\u00f3ceis que o cavalo de Trist\u00e3o, o de Kaherdin esquiva-se, o de Isolda empina-se; ela esporeia-o; mas, ao elevar o tac\u00e3o para espore\u00e1-lo de novo, \u00e9-lhe necess\u00e1rio abrir os joelhos e levantar o vestido, segurando-se com a m\u00e3o direita ao ar\u00e7\u00e3o da sela. O palafr\u00e9m avan\u00e7a, deixa-se cair sobre as patas, mas escorrega numa pedra vacilante no meio do riacho. Pousando a pata na pedra mal segura, o cavalo faz jorrar muito alto um esguicho de \u00e1gua, que salta para debaixo do vestido de Isolda, entre os joelhos. A jovem, apanhada pelo frio da \u00e1gua na carne, solta um grito e desata a rir. Kaherdin, que a ouve, teme ter provocado a sua hilaridade com alguma palavra ris\u00edvel ou algum gesto desajeitado. Um pouco confuso, pergunta \u00e0 irm\u00e3: \u201cRis com muita vontade, mas n\u00e3o sei por qu\u00ea. Que fiz eu para ficares nesse estado de alegria?\u201d \u201cIrm\u00e3o \u2014 responde \u2014, n\u00e3o \u00e9 de ti que rio e n\u00e3o te deves melindrar. Rio da agrad\u00e1vel aventura que acaba de me acontecer, quando o cavalo fez saltar a \u00e1gua fria do vau para as minhas pernas. No momento em que ela esguichou para debaixo do meu vestido, estremeci e disse a meia-voz: \u201c\u00c1gua, \u00e9s em verdade muito atrevida e foste mais longe entre as minhas pernas do que foi a m\u00e3o de algum homem, nem mesmo a de Trist\u00e3o!\u201d Trist\u00e3o fingiu n\u00e3o ter ouvido estas palavras e, dando \u00e0s esporas, ganhou avan\u00e7o sobre os companheiros. Quanto a Kaherdin, voltou-se para a irm\u00e3 e perguntou-lhe: \u201cQue me contais? Trist\u00e3o n\u00e3o foi mais atrevido contigo que a \u00e1gua deste riacho?\u201d \u201cIrm\u00e3o, contei-te isso, mas falei demais e estou arrependida.\u201d Kaherdin, espantado, fez-lhe tantas perguntas que ela acabou por lhe dizer a verdade sobre a noite de n\u00fapcias. \u201cQue significa isso? \u2014 interroga Kaherdin. \u2014 N\u00e3o partilhais a mesma cama, Trist\u00e3o e tu, h\u00e1 v\u00e1rios meses, desde que estais casados? Devo compreender que viveis afastados um do outro, como se f\u00f4sseis monge e monja? Se Trist\u00e3o n\u00e3o brinca contigo aos jogos do amor, acho que te faz a pior das ofensas!\u201d \u201cConfesso-te, querido irm\u00e3o, que Trist\u00e3o nunca me tocou: por vezes, antes de adormecer, ainda me d\u00e1 um beijo.\u201d \u201cPor Deus, minha irm\u00e3, Trist\u00e3o enganou-nos e decepcionou-nos gravemente, a ti e a toda a fam\u00edlia. Se te desdenha, t\u00e3o pura e t\u00e3o franca, \u00e9 de certeza porque ama outra mulher. Ah!, se o tivesse sabido mais cedo, nunca teria transposto a soleira do teu quarto!\u201d \u201cIrm\u00e3o, n\u00e3o o deves condenar sem primeiro o ouvir: Trist\u00e3o \u00e9 leal e justo e tem, sem d\u00favida, raz\u00f5es para agir assim. Talvez te as dissesse se o interrogasses?\u201d<\/p>\n<p>Kaherdin levou o cavalo at\u00e9 Trist\u00e3o, que se afastara um pouco, perdido em devaneios. Mas quando chegou \u00e0 sua altura, e lhe ia falar, ficou t\u00e3o embara\u00e7ado que lhe faltaram as palavras para exprimir-se. Sentia uma viva contrariedade e um alanceador cuidado, pois supunha que o cunhado desprezara a irm\u00e3 porque n\u00e3o queria ter um herdeiro descendente da linhagem do duque Hoel. Kaherdin continuou a cavalgar ao lado de Trist\u00e3o, o rosto sombrio e o ar encolerizado, sem lhe dirigir palavra nem responder \u00e0s perguntas do amigo. Trist\u00e3o afligia-se por v\u00ea-lo de t\u00e3o mau humor, ele que se mostrava habitualmente um companheiro t\u00e3o alegre!<\/p>\n<p>Terminada a peregrina\u00e7\u00e3o, quando voltaram para o castelo de Karhaix, Trist\u00e3o chamou-o de parte e perguntou-lhe: \u201cAmigo, por que evitas qualquer conversa comigo? Em que \u00e9 que te desagradei? N\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de um gentil-homem zangar-se com o melhor amigo sem lhe dar uma explica\u00e7\u00e3o.\u201d Kaherdin, dominando o furor, resolveu-se finalmente a exprimir-lhe com franqueza os agravos que tinha contra ele: \u201cN\u00e3o sei por que finges, Trist\u00e3o, n\u00e3o saber o que te censuro; todavia, n\u00e3o ignoras que tenho o direito de te odiar. Nenhum homem da minha linhagem agiria de outro modo no meu lugar, e quando souberem o que eu sei, detestar-te-\u00e3o como eu. Mediste o alcance da afronta que nos fizeste? Casaste com a minha irm\u00e3 em n\u00fapcias legitimas, de teu pleno agrado e de tua livre vontade, e no entanto, v\u00e1rios meses decorreram sem que tenhas consumado essa uni\u00e3o. \u00c9 claro que desdenhas unir-te a ela porque desprezas a nossa fam\u00edlia: n\u00e3o queres ter um herdeiro de minha irm\u00e3. Declaro- te francamente: se n\u00e3o tivesses sido meu companheiro de armas e meu amigo, ter-te-ia feito pagar caro essa inj\u00faria. Eis a minha \u00faltima palavra: se n\u00e3o reparas a tua falta e n\u00e3o tratas doravante a minha irm\u00e3 como tua verdadeira mulher, lan\u00e7o-te o meu desafio, pois tal ultraje s\u00f3 se lava com o sangue!\u201d Trist\u00e3o respondeu-lhe: \u201cIrm\u00e3o, infelizmente, os agravos que tens contra mim s\u00e3o demasiado reais. Compreendo-os e reconhe\u00e7o-lhes o fundamento. Dizes verdade: vim para o meio de v\u00f3s para vossa infelicidade. Se o mal secreto que atormenta o meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o me tivesse alterado a raz\u00e3o e perturbado o bom senso, nunca teria contra\u00eddo esse casamento. Quando te tiver revelado a minha mis\u00e9ria, talvez o teu furor se acalme. Fica, pois, sabendo que amo com ardente amor outra Isolda, a mais bela de todas as mulheres. Durante anos, viveu comigo e conhecemos a felicidade dos amantes. Quando o infort\u00fanio da minha vida obrigou-me a deix\u00e1-la, prometi guardar sempre a sua recorda\u00e7\u00e3o e ficar-lhe fiel, mas n\u00e3o contara com o horr\u00edvel tormento dos ci\u00fames que tortura o meu cora\u00e7\u00e3o. Desde que a restitui ao marido, persuadi-me a mim mesmo, no meu del\u00edrio, que ela me votara ao esquecimento e que encontrava a alegria e o prazer junto de outro. Insensato! Cedi \u00e0 ilus\u00e3o de me vingar procurando, tamb\u00e9m eu, a alegria e o prazer junto de outra mulher, e \u00e9 por isso que, de boa-f\u00e9 e sem pensar em mal, casei com a tua irm\u00e3. Ai de mim! Desde a noite de n\u00fapcias que senti toda a extens\u00e3o do meu erro: sei agora que nunca me ser\u00e1 poss\u00edvel unir-me carnalmente a outra mulher que n\u00e3o seja aquela Isolda cuja exist\u00eancia acabo de te revelar.\u201d \u201cQue grande piada me contas! \u2014 exclamou Kaherdin. \u2014 As tuas palavras s\u00e3o engenhosas e sabes encontrar belos pretextos para desculpar a tua falta. Julgas-me suficientemente ing\u00eanuo para dar cr\u00e9dito a tais f\u00e1bulas? A long\u00edqua Isolda de quem falas, que \u00e9 sen\u00e3o uma quimera que forjaste a contento para acalmar a minha c\u00f3lera?\u201d \u201cEnganas- te, amigo; \u00e9 uma mulher de carne e osso. Vive em Tintagel, no reino da Cornualha, e o marido, a quem a entreguei, \u00e9 o c\u00e9lebre rei Marcos, cuja fama chegou, desde h\u00e1 muito tempo, at\u00e9 aqui. J\u00e1 sabes que sou filho do rei Rivalino de Le\u00f4nis; pois fica sabendo agora que o rei Marcos \u00e9 meu tio, irm\u00e3o de minha m\u00e3e, e que o \u00fanico objeto do meu amor \u00e9 Isolda, a loura, filha de Gormond, rei da Irlanda, e mulher do rei Marcos. Ousas ainda afirmar que s\u00e3o quimeras e v\u00e3s ilus\u00f5es de um esp\u00edrito doente? \u201cKaherdin mergulhou com estas revela\u00e7\u00f5es num estupor t\u00e3o profundo que ficou muito tempo estupefato sem saber que responder. Ent\u00e3o Trist\u00e3o retomou a palavra e contou-lhe pormenorizadamente todo o mist\u00e9rio da sua vida. Disse-lhe como fora \u00e0 Irlanda pedir em casamento, em nome do rei Marcos, a Isolda dos cabelos de ouro; como no mar bebera, sem saber, e partilhara com Isolda o filtro de amor que a rainha da Irlanda destinara ao rei Marcos para a noite de n\u00fapcias; como, durante tr\u00eas anos, Isolda e ele estiveram ligados um ao outro pela for\u00e7a invenc\u00edvel da bebida m\u00e1gica. Narrou as ciladas e os ardis do an\u00e3o corcunda, a trai\u00e7\u00e3o e as den\u00fancias dos bar\u00f5es traidores, a rainha levada \u00e0 pira e entregue ao bando de leprosos, a vida amarga e dura dos amantes na floresta selvagem, e como restitu\u00edra Isolda ao rei Marcos ap\u00f3s o fim do sortil\u00e9gio e como casara com Isolda das m\u00e3os brancas para tentar esquecer aquela que permanecia para ele o verdadeiro e \u00fanico amor. Acrescentou: \u201cSe a tua irm\u00e3, amigo, casou comigo para sua infelicidade, acredita que sofro duplamente: por ela e por mim, que n\u00e3o a quis de modo algum ofender.\u201d Kaherdin ficou impressionado com o acento de sinceridade de Trist\u00e3o e compreendeu que dizia a verdade; teve piedade dele e, mudando de tom, falou-lhe menos amargamente: \u201cTrist\u00e3o \u2014 disse \u2014, h\u00e1 um instante queria matar-te. Sinto agora que o meu furor se acalma e que a minha amizade revive. Seguramente que, se est\u00e1s ligado para sempre a outra mulher por um amor t\u00e3o poderoso, a minha irm\u00e3 n\u00e3o pode pensar em conquistar-te, pois qualquer partilha te seria odiosa. Se eu pudesse verificar com os meus pr\u00f3prios olhos que a rainha da Cornualha te ama com um amor sem par e que a sua beleza n\u00e3o tem igual, perdoar-te-ia, por mais que me custasse, o mal feito a minha irm\u00e3.\u201d \u201cS\u00f3 pe\u00e7o que mo deixes provar-te \u2014 continuou Trist\u00e3o. \u2014 Queres acompanhar-me \u00e0 Cornualha? Ai habita, no grande pal\u00e1cio do rei Marcos, a loura Isolda, o meu \u00fanico amor. Quando a vires, julgar-me-\u00e1s.\u201d<\/p>\n<p>Alguns dias mais tarde, Trist\u00e3o e Kaherdin, reconciliados, confiaram ao duque Hoel e a sua filha Isolda que haviam feito o voto de ir a Inglaterra visitar os mosteiros onde se veneravam os t\u00famulos dos santos de outrora. Pegaram no bord\u00e3o e no alforje de peregrinos e s\u00f3 levaram com eles, com as mesmas vestes, Gorvenal e o escudeiro de Kaherdin. Os quatro homens alcan\u00e7aram a p\u00e9 a beira-mar e arranjaram lugar numa nau que os levou \u00e0 Gr\u00e3- Bretanha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXX<\/p>\n<p>O MOCHO E O CORUJ\u00c3O<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TRIST\u00c3O enganava-se: Isolda n\u00e3o o votara ao esquecimento. \u00c9 verdade que o rei Marcos fazia-lhe uma vida f\u00e1cil e brilhante e mostrava-se atencioso e generoso, e ela lhe estava reconhecida; mas nada disso apagara no seu cora\u00e7\u00e3o a imagem de Trist\u00e3o nem enfraquecera o amor que lhe dedicava. Isolda, sozinha no quarto em companhia do c\u00e3o Husdent, que lhe lembrava sem cessar o amigo, suspira por aquele que tanto deseja. O seu cora\u00e7\u00e3o e o seu pensamento t\u00eam um \u00fanico objetivo: am\u00e1-lo. O que mais a aflige \u00e9 que, desde a sua partida, nunca mais teve uma noticia sua: ignora onde est\u00e1 e em que pais, se est\u00e1 morto ou vivo. Est\u00e1 prostrada de tristeza e o seu esp\u00edrito est\u00e1 assombrado pelo horr\u00edvel pensamento de que talvez o amado tenha perdido a vida. Aguardara durante longo tempo que um mensageiro viesse da sua parte; a espera fora v\u00e3. Forte e ousado como era, n\u00e3o teria exposto o corpo numa aventura?<\/p>\n<p>Havia na corte de Marcos muitas pessoas que estavam informadas dos feitos de Trist\u00e3o na Pequena Bretanha, mas, porque n\u00e3o gostavam nada dele, escondiam a Isolda tais noticias, reservando- se o direito de divulgar em todos os lugares o mal que sabiam por boatos; por isso, Isolda evitava encontrar esses bar\u00f5es cornualhenses. Um dia. no quarto, senta-se e, para melhor pensar no amigo, canta e toca na harpa um lai bret\u00e3o que fora composto por ele. Conta como Guiron foi surpreendido e morto pelo marido da dama que amava acima de tudo, como, manhosamente, o ciumento deu a comer \u00e0 mulher o cora\u00e7\u00e3o de Guiron e como esta sofreu uma dor indescrit\u00edvel. A rainha canta docemente: harmoniza a voz com a harpa. As m\u00e3os s\u00e3o belas, o poema \u00e9 comovente e o tom grave. Aparece ent\u00e3o Kariado, aquele rico conde de alta linhagem que fora outrora companheiro de Trist\u00e3o e o primeiro a, levado pela inveja, denunciar ao rei os amores do sobrinho e da rainha. Desde ent\u00e3o, Kariado nunca mais cessara de cortejar Isolda, embora esta o tenha sempre repelido com desprezo. Se n\u00e3o fizera causa comum com os bar\u00f5es traidores, fora unicamente para n\u00e3o atrair a inimizade aberta da rainha, pois conservava sempre a esperan\u00e7a de conquist\u00e1-la com os seus galanteios e obter os seus favores. Quanto a Trist\u00e3o, seu antigo companheiro, n\u00e3o perdia o ensejo de manifestar a sua malevol\u00eancia e regozijava-se com as prova\u00e7\u00f5es que o oprimiam. Uma vez mais, Kariado deixara o seu belo castelo e as terras f\u00e9rteis; viera a Tintagel na inten\u00e7\u00e3o de obter o amor da rainha. Isolda considerava as suas pretens\u00f5es pura loucura; desde que Trist\u00e3o sa\u00edra do pais, o galante perdera o tempo a cortej\u00e1-la sem nunca obter nada. Era um belo senhor, cort\u00eas, altivo e orgulhoso, mas valia mais nos quartos das damas que na batalha; era, al\u00e9m disso, belo e bom conversador e fino contador de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Encontrou Isolda cantando o lai de Guiron, e como sabia muito bem que era Trist\u00e3o o autor aproveitou para fazer, em tom de gracejo, desagrad\u00e1veis alus\u00f5es \u00e0 poss\u00edvel morte do sobrinho de Marcos: \u201cSenhora \u2014 disse \u2014, eis um canto bem sinistro, onde s\u00f3 se fala de assass\u00ednio e de sangue! Pode dizer-se que \u00e9 o canto do mocho, uma vez que, como \u00e9 cren\u00e7a comum, o canto desse p\u00e1ssaro pressagia um falecimento. Deduzo que vai ser em breve quest\u00e3o de morte de homem. Al\u00e9m do mais, o vosso lai, na minha opini\u00e3o, anuncia a morte do pr\u00f3prio mocho, isto \u00e9, do cantor que comp\u00f4s esse lai.\u201d Isolda respondeu-lhe: \u201cFalais verdade: o meu canto pressagia a morte da ave. mas o mocho ou o coruj\u00e3o sois v\u00f3s que cantais para pesar dos outros; deveis antes temer a vossa morte, se receais que o meu canto seja de mau agouro. Aposto que me trazeis hoje, como \u00e9 vosso h\u00e1bito, uma noticia m\u00e1: comportais-vos exatamente como o coruj\u00e3o. Posso afirmar que nunca me contastes novas das quais tenha tirado satisfa\u00e7\u00e3o e nunca aqui viestes sem anunciar desgra\u00e7as. Nem sequer ter\u00edeis deixado a vossa casa se n\u00e3o tiv\u00e9sseis uma coisa desagrad\u00e1vel para contar. V\u00f3s, Kariado, nunca tivestes a menor vontade de partir para longe a fim de realizardes feitos que vos trouxessem fama. Nunca se ouvir\u00e1 sobre v\u00f3s uma \u00fanica noticia de que os vossos amigos se possam honrar ou com a qual fiquem contristados aqueles que vos odeiam. Estais sempre disposto a dizer mal das a\u00e7\u00f5es de outrem, mas das vossas nunca se falar\u00e1.\u201d Kariado replicou ent\u00e3o: \u201cSenhora, eis-vos encolerizada sem que eu saiba por qu\u00ea. Seria bem louco se receasse a morte que me agourais; isso n\u00e3o me importa absolutamente nada. Dizeis que sou o coruj\u00e3o; poderia responder- vos que sois o mocho e que ambos s\u00e3o p\u00e1ssaros de m\u00e1 sorte. Contudo, coruj\u00e3o ou n\u00e3o, \u00e9 uma dura noticia que vos trago sobre o vosso amigo Trist\u00e3o: est\u00e1 perdido para v\u00f3s, pois casou noutra terra. Doravante servos-\u00e1 licito apelar para outrem, j\u00e1 que ele desdenha o vosso amor. Casou em n\u00fapcias legitimas com outra Isolda, a filha do duque Hoel da Bretanha.\u201d Isolda respondeu com irrita\u00e7\u00e3o: \u201cSempre fostes coruj\u00e3o para dizer mal de Trist\u00e3o. Que Deus me prive de todos os seus bens se n\u00e3o me tornar mocho para v\u00f3s! Destes-me uma m\u00e1 noticia, n\u00e3o vos darei melhor. Declaro-vos, procurais o meu amor inutilmente, nunca obtereis de mim o menor favor e, durante a minha vida, nunca vos amarei nem aos vossos galanteios. Teria procurado uma aventura bem funesta se, h\u00e1 pouco, tivesse aceitado o vosso servi\u00e7o. Mais vale perder o amor de Trist\u00e3o a ganhar o vosso!\u201d Experimenta um violento furor e Kariado n\u00e3o se ilude. Sente que seria contr\u00e1rio aos seus interesses avivar com outras palavras a ang\u00fastia da rainha: despede-se e afasta-se.<\/p>\n<p>A rainha fica sozinha, atormentada por uma grande afli\u00e7\u00e3o. Trist\u00e3o perjurou. Trist\u00e3o! Ser\u00e1 poss\u00edvel? Gostaria de se assegurar da verdade do fato, mas est\u00e1 de tal modo ferida e humilhada no seu intimo que n\u00e3o se ousa confiar a ningu\u00e9m, nem mesmo a Brangia, a s\u00e1bia, nem ao franco P\u00e9rinis.<\/p>\n<p>XXXI<\/p>\n<p>O REENCONTRO DOS AMANTES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PARA Trist\u00e3o e Kaherdin, vogando para a Cornualha com os escudeiros, o vento foi ligeiro e bom. Desembarcaram uma manh\u00e3, antes da aurora, n\u00e3o longe de Tintagel, numa enseada deserta vizinha do castelo de Lidan. Trist\u00e3o sabia que Dinas de Lidan, o bom senescal do rei Marcos, o albergaria e saberia esconder a sua vinda. De manh\u00e3zinha, os quatro companheiros subiam para Lidan quando viram chegar atr\u00e1s deles um homem que seguia o mesmo caminho a passo no cavalo. Esconderam-se nos bosques e o homem passou sem os ver, pois dormitava na sela. Trist\u00e3o reconheceu-o: \u201cIrm\u00e3o \u2014 disse baixinho a Kaherdin \u2014, \u00e9 o pr\u00f3prio Dinas de Lidan. Dorme: sem d\u00favida que volta de casa da amante e ainda sonha com ela. N\u00e3o seria cort\u00eas acord\u00e1-lo; sigamo-lo de longe.\u201d Alcan\u00e7ou Dinas, pegou docemente nas r\u00e9deas do cavalo e caminhou sem ru\u00eddo a seu lado. Finalmente, um passo em falso do cavalo despertou-o. Abriu os olhos, viu Trist\u00e3o, hesitou um instante e exclamou: \u201c\u00c9s tu! \u00c9s tu, Trist\u00e3o! Deus aben\u00e7oe a hora em que te revejo: esperei- te durante tanto tempo!\u201d \u201cAmigo, Deus te salve! Que novas me contais da rainha?\u201d \u201cInfelizmente, duras not\u00edcias. Desde a tua partida para o ex\u00edlio que suspira e chora por ti. Ah!, por que voltas para junto dela? Queres ainda provocar a tua morte e a sua? Trist\u00e3o, tem piedade da rainha, deixa-a descansada!\u201d \u201cAmigo \u2014 disse Trist\u00e3o \u2014, concede-me um dom: esconde-me em Lidan e leva- lhe a minha mensagem. Faz que a possa rever uma vez, uma \u00fanica vez!\u201d Dinas respondeu: \u201cTenho piedade da minha senhora e s\u00f3 te fa\u00e7o o recado se souber que te continua a ser cara acima de todas as mulheres. \u201cAh!, senhor, diz-lhe que ainda \u00e9 meu \u00fanico amor, e ser\u00e1 verdade.\u201d Segue-me ent\u00e3o, Trist\u00e3o: ajudar-te-ei na tua necessidade.\u201d<\/p>\n<p>Em Lidan, o senescal hospedou Trist\u00e3o e Gorvenal, Kaberdin e o escudeiro. Quando Trist\u00e3o lhe contou ponto por ponto as infelizes n\u00fapcias com Isolda das m\u00e3os brancas, Dinas foi a Tintagel saber noticias da rainha. Contaram-lhe que da\u00ed a tr\u00eas dias o rei Marcos e a loura Isolda, com todos os escudeiros e os monteiros, deixariam Tintagel para instalarem-se no castelo de Lancien. Quando Trist\u00e3o soube disto, confiou ao senescal o anel de jaspe verde e a mensagem que devia levar \u00e0 rainha.<\/p>\n<p>Dinas voltou a Tintagel, subiu os degraus e entrou na sala. O rei e Isolda estavam sentados a jogar xadrez. Dinas tomou lugar num escabelo perto da rainha, como que para observar o seu jogo e, por duas vezes, fingindo designar as pedras, pousou a m\u00e3o no tabuleiro. A segunda vez, Isolda reconheceu-lhe no dedo o anel de jaspe. Ent\u00e3o, perdeu a vontade de jogar. Deu um ligeiro encontr\u00e3o ao bra\u00e7o de Dinas, de sorte que v\u00e1rias pe\u00e7as ca\u00edram em desordem. \u201cVede, senescal \u2014 disse \u2014, baralhastes de tal modo o meu jogo que n\u00e3o saberia continu\u00e1-lo.\u201d Marcos deixa a sala, Isolda retira-se para o quarto e Brangia leva Dinas at\u00e9 junto dela: \u201cAmigo, sois mensageiro de Trist\u00e3o?\u201d \u201cSim, rainha; est\u00e1 em Lidan, escondido no meu castelo.\u201d \u201c\u00ca verdade que casou-se na Bretanha?\u201d \u201cRainha, nesse ponto disseram-vos a verdade. Mas ele assegura que, a despeito desse casamento, que ali\u00e1s nunca consumou, n\u00e3o vos traiu de modo algum; que nem um \u00fanico dia cessou de vos amar acima de todas as mulheres; que morre se n\u00e3o vos v\u00ea, nem que seja s\u00f3 uma vez. Suplica-vos que consintais, pela promessa que lhe fizestes no dia em que vos restituiu ao rei.\u201d A rainha manteve-se durante algum tempo calada, pensando com desagrado na outra Isolda em quem n\u00e3o podia impedir-se de ver uma rival. Finalmente, respondeu: \u201cSim, no dia em que se separou de mim, ap\u00f3s o nosso ex\u00edlio na floresta, recordo-me de ter dito: Se alguma vez revir o anel de jaspe verde, nem torre, nem fortaleza, nem proibi\u00e7\u00e3o real me impedir\u00e3o de cumprir a vontade do meu amigo, seja sensatez ou loucura&#8230;\u201d \u201cRainha, daqui a dois dias a corte deve deixar Tintagel para instalar-se em Lancien; Trist\u00e3o manda vos dizer que estar\u00e1 escondido numa moita ao longo do caminho. Suplica-vos que vos apiedeis dele.\u201d \u201cJ\u00e1 o disse: nada me impedir\u00e1 de cumprir-lhe a vontade.\u201d<\/p>\n<p>Dois dias depois, enquanto toda a corte de Marcos preparava-se para a partida, Trist\u00e3o e Gorvenal, Kaherdin e o escudeiro puseram-se a caminho do local designado por atalhos secretos. Atrav\u00e9s da floresta, duas estradas levavam de Tintagel a Lancien: uma bela e bem arranjada, por onde devia passar o cortejo, a outra pedregosa e abandonada. Trist\u00e3o e Kaherdin postaram nesta os dois escudeiros e ordenaram-lhes que os esperassem nesse local com os cavalos e os escudos, enquanto eles pr\u00f3prios meteram-se pelos bosques e esconderam-se numa moita de espinheiros. Em breve o cortejo aparece na estrada. Vem primeiro o s\u00e9quito do rei Marcos. V\u00eam, em boa ordem, os peleiros e os ferreiros, os cozinheiros e os copeiros reais, v\u00eam os mo\u00e7os dos c\u00e3es trazendo galgos e c\u00e3es de ca\u00e7a, depois os falcoeiros levando as aves no punho esquerdo, depois os monteiros, depois os bar\u00f5es e os homens de armas. Avan\u00e7a, ent\u00e3o, o cortejo da rainha. As lavadeiras e as camareiras reais v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a, seguem-se as mulheres e as filhas dos bar\u00f5es e dos condes. Finalmente, aproxima-se um palafr\u00e9m montado pela mais bela que Kaberdin jamais viu: \u00e9 bem feita de corpo e de rosto, as ancas s\u00e3o um pouco baixas, as sobrancelhas bem tra\u00e7adas, os olhos risonhos, os dentes pequenos; cobre-a um vestido de cetim vermelho. \u201c\u00ca a rainha\u201d \u2014 diz Kaherdin em voz baixa. \u201cA rainha? \u2014 exclama Trist\u00e3o. \u2014 N\u00e3o, \u00e9 Brangia, a criada!\u201d Mas numa clareira luminosa que fazia o sol atrav\u00e9s das grandes \u00e1rvores, Isolda, a loura, apareceu, com o duque Audret \u00e0 sua direita. Estava vestida de brocado, os longos cabelos de ouro enquadrando o rosto de tez clara, a cabe\u00e7a ligeiramente inclinada, como se a tornasse pesada um grave cuidado. \u201cDesta vez \u2014 disse Trist\u00e3o a mela voz \u2014, \u00e9 a rainha!\u201d Kaberdin contemplava-a fixamente, e tal era o seu encantamento que ficou boquiaberto. A partir desse instante n\u00e3o mais duvidou da palavra que Trist\u00e3o lhe dera. Nesse momento, da moita de pilriteiros onde estavam os dois companheiros elevaram-se cantos de toutinegra e de cotovia, e Trist\u00e3o punha nestas melodias toda a sua ternura. A rainha reconheceu a voz do amigo. Ent\u00e3o, volta-se para o maci\u00e7o de espinheiros e diz em voz alta: \u201cP\u00e1ssaros deste bosque, que me deleitastes com as vossas can\u00e7\u00f5es, tomo-vos ao meu servi\u00e7o. Enquanto o meu senhor Marcos cavalga at\u00e9 Lancien, quero regressar a Tintagel, pois esta viagem fatiga-me. P\u00e1ssaros, escoltai-me at\u00e9 l\u00e1! Esta noite recompensar-vos-ei largamente, como a bons menestr\u00e9is.\u201d Trist\u00e3o ouve estas palavras e alegra-se. Depois Isolda mandou chamar Brangia e falou-lhe em confid\u00eancia: \u201cAmiga, o cora\u00e7\u00e3o diz-me que Trist\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 longe e que daqui a pouco cessar\u00e3o as minhas ang\u00fastias. Quando estivermos de retorno a Tintagel, vigia a porta. \u00c9 poss\u00edvel que tente vir ter comigo sob algum disfarce. Saber\u00e1s reconhec\u00ea-lo e levar-mo-\u00e1s em segredo.\u201d<\/p>\n<p>Exausto por ter corrido a plan\u00edcie em persegui\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a, o rei mandara erguer os pavilh\u00f5es numa pradaria e repousava. O duque Audret juntara-se a ele enquanto a rainha regressava a Tintagel. A noite caiu, negra e sem lua. Trist\u00e3o e Kaherdin dirigiram-se para o castelo. Trist\u00e3o sabia que Isolda compreendera a sua mensagem e n\u00e3o duvidava de ser bem recebido. Debaixo da capa de peregrino, trazia uma t\u00fanica de seda, cal\u00e7\u00f5es bem ajustados e a espada embainhada. Chegados ao p\u00e9 das muralhas, os dois companheiros avan\u00e7aram at\u00e9 ao fosso e chamaram o porteiro: \u201cSenhor, tende piedade de dois peregrinos que pedem asilo para a noite e, se for poss\u00edvel, alguma comida.\u201d Abriram-lhes a porta, pois era costume em Tintagel dar esmola aos piedosos viajantes e conceder-lhes hospitalidade. Mal os estrangeiros transpuseram a grade de ferro, Brangia avan\u00e7ou para eles; pegou na m\u00e3o de Trist\u00e3o e, sem uma palavra, levou-o atrav\u00e9s das galerias obscuras at\u00e9 ao quarto das mulheres. Trist\u00e3o, apesar do disfarce, n\u00e3o teve de mostrar o anel. Isolda, que o esperava, atirou-se-lhe aos bra\u00e7os e ficaram longamente enla\u00e7ados. Em seguida, f\u00ea-lo sentar ao p\u00e9 dela e pediu-lhe que lhe contasse a sua vida desde que se haviam separado. Esquecendo tudo o que n\u00e3o era o seu amor, abandonaram-se \u00e0 alegria como se estivessem reunidos para sempre. Quando chegou a madrugada, Brangia, a prudente, que fizera companhia a Kaherdin durante a noite, fez sair os dois homens do castelo por uma porta secreta. Os amantes n\u00e3o contavam com a mal\u00edcia dos inimigos. O duque Audret, cujo \u00f3dio por Trist\u00e3o n\u00e3o diminu\u00edra, admirara-se com o estranho comportamento de Isolda ao dirigir-se aos p\u00e1ssaros da floresta, com a sua conversa confidencial com Brangia e com o seu brusco regresso a Tintagel. Como conhecia de longa data o virtuosismo de Trist\u00e3o ao imitar o canto dos p\u00e1ssaros, n\u00e3o demorou muito a suspeitar que Trist\u00e3o regressara \u00e0 Cornualha e que a rainha n\u00e3o tardaria a ir ter com ele. Entrou no pavilh\u00e3o onde repousava o rei e disse: \u201cSire, passam-se coisas estranhas. Apesar da promessa, Trist\u00e3o voltou. Vai tentar ver a rainha e ela receb\u00ea-lo-\u00e1, pois nunca cessaram de se amar. Ela est\u00e1 prevenida do seu retorno e sei que se prepara para recebe-lo em Tintagel, em companhia de Brangia e de P\u00e9rinis, que sempre foram seus c\u00famplices. Rei, pensai em defender a vossa honra! Enquanto v\u00f3s vos afastais para o passatempo da ca\u00e7a, Isolda e o vosso sobrinho entregam-se ao passatempo do amor.\u201d Marcos escutou-o, mas hesitava em acredit\u00e1-lo, pois Isolda havia- lhe fornecido toda a garantia da sua lealdade e Trist\u00e3o, segundo o que lhe haviam dito, guerreava do outro lado do mar. Tamb\u00e9m n\u00e3o queria interromper o seu prazer, pois dispunha-se a ca\u00e7ar as aves aqu\u00e1ticas com a ajuda de falc\u00f5es sabiamente treinados.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma aus\u00eancia de dois dias, Audret estava de regresso \u00e0 tenda do rei. \u201cSire, o meu pressentimento n\u00e3o me enganou. Corri at\u00e9 Tintagel e testemunhei a trai\u00e7\u00e3o de Isolda. Todas as noites Trist\u00e3o bate \u00e0 porta, disfar\u00e7ado de peregrino. A impudente Brangia condu-lo secretamente ao quarto da rainha. Nada mais vos direi, a n\u00e3o ser que esta noite os podereis surpreender.\u201d Marcos levantou-se de um salto e disse a Audret: \u201cSobrinho, agrade\u00e7o-te a vigil\u00e2ncia. Se falaste verdade, receber\u00e1s tal recompensa que nada mais poder\u00e1s desejar. Ordena aos meus lacaios que desarmem as tendas. Manda selar os cavalos, parto contigo.\u201d Andaram t\u00e3o depressa que chegaram a Tintagel antes da noite. No decurso dessa cavalgada silenciosa, o rei ainda duvidava da veracidade das palavras de Audret.<\/p>\n<p>Mal chegou, Marcos quis informar-se ele pr\u00f3prio e mandou chamar Brangia, que, terrificada com as amea\u00e7as, pensava ele, n\u00e3o poderia deixar de revelar tudo. Esta n\u00e3o se fez esperar e veio, a fiel, fingindo a maior surpresa. \u201cMenina \u2014 disse o rei \u2014, respondei francamente. Se mentirdes, o vosso corpo ser\u00e1 queimado e as cinzas espalhadas ao vento. Corre o boato de que Trist\u00e3o voltou, apesar da minha proibi\u00e7\u00e3o, e que a rainha, esquecendo o seu dever, o recebe nos seus aposentos durante a noite. Dizei-me como tal aconteceu, pois, se sou tra\u00eddo pelo meu sobrinho, a minha vingan\u00e7a ser\u00e1 sem piedade.\u201d Brangia sorriu com este discurso e respondeu sem se impressionar: \u201cSire, devo-vos obedi\u00eancia e respeito. Quando a vossa honra est\u00e1 em perigo, n\u00e3o tenho o direito de me calar. No mesmo instante em que me haveis chamado, ia por minha pr\u00f3pria iniciativa advertir-vos do que se trama. ~ verdade, senhor, que Isolda se aborrece, porque desde h\u00e1 quase uma semana que a negligenciais. Quarto vazio faz dama louca, diz o vil\u00e3o, e presa f\u00e1cil tenta o ladr\u00e3o. Se n\u00e3o vos acautelais, ela julgar-se-\u00e1 abandonada e cometer\u00e1 algum disparate. Imaginais que, afastando Trist\u00e3o, suprimis todo o perigo, mas ele nunca a amou. Aquele que a procura com insist\u00eancia \u00e9 Kariado, o rico conde. Deu-lhe t\u00e3o belos presentes, gabou-lhe tanto a gra\u00e7a e a beleza, que pouco faltou para ela sucumbir. Juro-vos que, se n\u00e3o traiu a fidelidade que vos deve, foi gra\u00e7as aos meus cuidados e conselhos. Kariado, sire, \u00e9 belo, cort\u00eas e cheio de ast\u00facia; sabe dizer as palavras que agradam a Isolda e adivinhar os seus desejos. ~ espantoso que ela ainda n\u00e3o tenha cometido nenhuma loucura com esse galanteador que a persegue. O pobre Trist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 perigoso. Deixai-o em paz e desconfiai de Kariado.\u201d Marcos respondeu-lhe: \u201cN\u00e3o me recuso a acreditar-te, mas Trist\u00e3o n\u00e3o infringiu a minha proibi\u00e7\u00e3o voltando para c\u00e1?\u201d \u201cSire, dizem-no, e \u00e9 poss\u00edvel, mas a rainha nunca mais o quer ver e encarregou Kariado de o afastar se tornasse a aparecer. Receio mesmo que esse traidor, levado pelos ci\u00fames, lhe arme uma cilada. Conhe\u00e7o melhor que ningu\u00e9m os erros e defeitos de Trist\u00e3o, mas n\u00e3o seria um grande pecado se Kariado o matasse?\u201d O rei ficou perplexo, pois Trist\u00e3o permanecia-lhe querido. Mas que fazer para salv\u00e1-lo? A falta de melhor, seguir\u00e1 o conselho de Brangia: \u201cQuerida amiga \u2014 disse \u2014, aceito as vossas raz\u00f5es e nada tentarei contra Trist\u00e3o. Mas expulsarei da corte Kariado, esse velhaco que me quer enganar. Quanto a v\u00f3s, n\u00e3o percais de vista a rainha e vigiai-a sem cessar. N\u00e3o quero que tenha, com quem quer que seja, encontros secretos. Coloco-a sob a vossa guarda e dela me dareis conta.\u201d Sem tardar, a mo\u00e7a correu at\u00e9 junto da ama e contou-lhe a conversa que tivera com o rei.<\/p>\n<p>A noite, quando Trist\u00e3o se apresentou \u00e0 porta do castelo, disse- lhe: \u201cUm grande perigo amea\u00e7a Isolda. O rei est\u00e1 informado do vosso regresso; doravante, livrai-vos de vos aproximar do castelo antes de a noite ter ca\u00eddo e sem precau\u00e7\u00f5es; e que os escudeiros, para passarem despercebidos, se dissimulem de todos os olhares num canto afastado da floresta!\u201d<\/p>\n<p>XXXII<\/p>\n<p>O PECADO E A PENIT\u00caNCIA DE ISOLDA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O DUQUE Audret, persuadido do regresso de Trist\u00e3o, mantinha espi\u00f5es para saber o que se tramava no pal\u00e1cio. Soube assim que Brangia todas as noites ia encontrar-se com um desconhecido. Numa noite, Audret at\u00e9 quase o surpreendeu com a serva: era Kaherdin. Conseguiu escapar-se, mas Audret entreviu, na sombra, outro homem que sala dos aposentos da rainha; era Trist\u00e3o, certamente. Resolveu apoderar-se dele. No dia seguinte, p\u00f4s-se \u00e0 sua procura, acompanhado por uma pequena escolta. Por infelicidade, o acaso conduziu-o direto ao bosquezinho perto do castelo onde estavam escondidos Gorvenal e o escudeiro de Kaherdin com os cavalos e as armas dos senhores. Como os dois homens tinham a cabe\u00e7a coberta com um elmo de viseira, Audret tomou-os por Trist\u00e3o e pelo desconhecido que por pouco n\u00e3o surpreendera com Brangia. Mal viram Audret aproximar-se deles, os escudeiros puseram-se em fuga e afastaram-se o mais depressa poss\u00edvel. Audret gritou-lhes com todas as for\u00e7as: \u201cA v\u00f3s a vergonha, covardes! Escondeis-vos como poltr\u00f5es!\u201d Depois, dirigindo-se \u00e0quele que julgava ser Trist\u00e3o: \u201cP\u00e1ra, Trist\u00e3o! Esconjuro-te em nome do teu valor!\u201d Os dois fugitivos nem se voltaram. Ent\u00e3o Audret continuou: \u201cP\u00e1ra, Trist\u00e3o! Esconjuro-te em nome de Isolda, a loura!\u201d Renovou duas vezes esta adjura\u00e7\u00e3o em nome de Isolda, a loura. Em v\u00e3o: os dois homens n\u00e3o diminu\u00edram a velocidade e acabaram por desaparecer na curva de um caminho. Os homens do duque Audret s\u00f3 conseguiram apanhar um dos cavalos que os escudeiros levavam pelas r\u00e9deas e trouxeram-no Para o castelo de Tintagel.<\/p>\n<p>Mal encontrou a rainha, Audret disse-lhe: \u201cSenhora, sei agora que Trist\u00e3o regressou a este pa\u00eds. Avistei-o perto daqui, num bosque, em companhia de um desconhecido. Ambos se puseram em fuga por um velho caminho abandonado. Por tr\u00eas vezes o intimei a parar esconjurando-o em nome de Isolda, a loura, mas ele amedrontou-se e n\u00e3o ousou esperar por mim.\u201d \u201cSire Audret, falais mentira e loucura! Nunca me fareis crer que Trist\u00e3o, esconjurado em meu nome por tr\u00eas vezes, n\u00e3o tenha parado e n\u00e3o tenha ousado fazer-vos frente!\u201d \u201cNo entanto, foi ele quem eu vi! At\u00e9 me apoderei de um dos cavalos: podeis avist\u00e1-lo, todo aparelhado, l\u00e1 embaixo no p\u00e1tio.\u201d<\/p>\n<p>Com isto, Audret despediu-se da rainha, que deixou completamente desamparada. Come\u00e7ou a chorar e disse: \u201cInfeliz, vivi demasiado, pois vi o dia em que Trist\u00e3o me despreza e amaldi\u00e7oa. Outrora, esconjurado em meu nome, que inimigo n\u00e3o defrontaria? \u00c9 ousado e valente: se fugiu diante de Audret e se se recusou a obedecer \u00e0 tripla esconjura\u00e7\u00e3o que lhe era feita em meu nome, \u00e9 porque a outra Isolda o possui e j\u00e1 n\u00e3o faz, na realidade, nenhum caso de mim! Todavia voltara e eu recebera-o com alegria. Ora, n\u00e3o lhe bastou trair-me, quis desonrar-me tamb\u00e9m! N\u00e3o estava eu farta dos meus tormentos antigos? Que volte, pois, por sua vez amaldi\u00e7oado, para Isolda das m\u00e3os brancas!\u201d A rainha chamou P\u00e9rinis, o fiel, e repetiu-lhe as not\u00edcias que Audret lhe trouxera: \u201cAmigo P\u00e9rinis, procura Trist\u00e3o na estrada abandonada que vai de Tintagel a Lancien. Dir-lhe-\u00e1s que n\u00e3o o sa\u00fado e que n\u00e3o seja t\u00e3o audacioso que ouse doravante aproximar-se de mim, pois f\u00e1-lo-ei expulsar pelos sargentos e lacaios.\u201d P\u00e9rinis p\u00f5e-se imediatamente \u00e0 procura de Trist\u00e3o e de Kaherdin; quando os encontrou, transmitiu- lhes a mensagem da rainha. \u201cIrm\u00e3o \u2014 exclamou Trist\u00e3o, espantado \u2014, que me contas? Como ter\u00edamos fugido, Kaberdin e eu, perante o duque Audret, se n\u00e3o encontramos os nossos escudeiros no bosquezinho onde nos deviam esperar? N\u00e3o t\u00ednhamos os cavalos. Procuramos em v\u00e3o Gorvenal e o escudeiro de Kaherdin; ainda os procuramos.\u201d<\/p>\n<p>Nesse mesmo momento, Gorvenal e o outro escudeiro desembocaram do velho caminho abandonado, seguidos por um \u00fanico cavalo. Interrogado por Trist\u00e3o, Gorvenal n\u00e3o p\u00f4s nenhuma dificuldade em confessar que haviam fugido: \u201cSenhor, que outra coisa pod\u00edamos fazer para n\u00e3o cairmos nas m\u00e3os do duque Audret e da sua gente? Se me tivesse deixado reconhecer, o traidor teria descoberto logo o segredo do teu regresso \u00e0 Cornualha.\u201d Ent\u00e3o o bravo disse a P\u00e9rinis: \u201cQuerido amigo, volta depressa para a tua senhora: diz- lhe que lhe mando sauda\u00e7\u00f5es e amor, que n\u00e3o faltei \u00e0 lealdade que lhe devo e que nunca fugi diante de ningu\u00e9m nem ignorei uma esconjura\u00e7\u00e3o feita em seu nome. Pede-lhe que me perdoe, uma vez que n\u00e3o falhei e que toda esta hist\u00f3ria \u00e9 o resultado de um mal- entendido. E n\u00e3o deixes de voltar trazendo-me o seu perd\u00e3o: aguardarei aqui o teu regresso.\u201d<\/p>\n<p>P\u00e9rinis contou \u00e0 rainha o que vira e ouvira; esta recusou-se a acreditar: \u201cAh!, P\u00e9rinis, eras o meu fiel servidor e o meu pai havia-te afei\u00e7oado, ainda crian\u00e7a, \u00e0 minha pessoa. Durante anos, nada houve que te censurar, mas eis que agora Trist\u00e3o, o enganador, te conquistou com as suas mentiras! Tamb\u00e9m tu me tra\u00edste: vai-te!\u201d O lacaio prosternou-se de joelhos diante dela, as m\u00e3os estendidas: \u201cSenhora, dizeis-me palavras duras que me ofendem e afligem. Nunca senti tal dor em toda a minha vida! Mas pouco me importa por mim: se me aflijo, \u00e9 por v\u00f3s, senhora, que ultrajais injustamente o meu senhor Trist\u00e3o, e vos mostrais in\u00edqua com ele. Estou certo de que um dia. mas demasiado tarde, vos arrependereis.\u201d \u201cVai-te, n\u00e3o te acredito! Tamb\u00e9m tu, P\u00e9rinis, o fiel, me atrai\u00e7oaste!\u201d Trist\u00e3o esperou muito tempo pelo perd\u00e3o da rainha: P\u00e9rinis n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, Trist\u00e3o vestiu uma grande capa em farrapos e tingiu o rosto com suco de casca de noz e vermelh\u00e3o, a fim de ficar com o aspecto de um doente carcomido e desfigurado pela lepra, como fizera quando da assembl\u00e9ia da Charneca Branca. Tomou entre as m\u00e3os o bast\u00e3o de madeira venada que lhe dera a rainha e uma matraca. Penetrou assim nas ruas de Tintagel e, disfar\u00e7ando a voz, come\u00e7ou a pedir esmola aos passantes. O seu \u00fanico desejo e esperan\u00e7a eram avistar a rainha e fazer-se reconhecer por ela. Finalmente, ela saiu do castelo, acompanhada por Brangia e um grupo de lacaios e de sargentos. Quando meteu pela rua que levava \u00e0 igreja, o falso leproso juntou-se ao grupo de lacaios fazendo tinir a matraca e suplicando com uma voz dolente: \u201cRainha, fazei- me algum bem, n\u00e3o sabeis a que ponto sofro e estou necessitado!\u201d Isolda n\u00e3o se deixou iludir pela velha capa usada e pela matraca: reconheceu Trist\u00e3o pelo belo corpo, pela nobre estatura e pelo bast\u00e3o de madeira venada que lhe havia oferecido. Mal o reconheceu, o seu corpo estremeceu todo, mas, ofendida no orgulho, n\u00e3o se dignou baixar o olhar para ele. O mendigo implorou de novo e metia d\u00f3 ouvi-lo. Suplicava-lhe arrastando-se ao p\u00e9 dela: \u201cRainha, n\u00e3o vos enfure\u00e7ais se ouso aproximar-me de v\u00f3s! Vede a minha mis\u00e9ria: tende piedade de mim!\u201d Em vez de se comover, chama os lacaios e os sargentos: \u201cExpulsai este vagabundo\u201d \u2014 ordena-lhes. Os lacaios empurram-no e afastam-no batendo-lhe com os paus. Ele enfrenta-os ferozmente e exclama: \u201cRainha, tende piedade! Sofri tanto por v\u00f3s!\u201d Quando ouviu estas palavras, Isolda desatou a rir e entrou rapidamente na igreja. O mendigo calou-se e afastou-se.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia. Trist\u00e3o, depois de abandonar as vestes de leproso, despediu-se de Dinas de Lidan. Estava t\u00e3o desanimado que parecia ter perdido o ju\u00edzo. No dia seguinte, em companhia de Gorvenal, de Kaherdin e do seu escudeiro, todos vestidos de peregrinos, fez-se ao mar para regressar \u00e0 Pequena Bretanha.<\/p>\n<p>Pobres amantes! A rainha n\u00e3o tardou a arrepender-se do seu orgulho e dureza. Recordando a sucess\u00e3o dos acontecimentos, compreendeu finalmente que P\u00e9rinis falara verdade. Trist\u00e3o jamais fugira diante do duque Audret; jamais fora esconjurado em nome de Isolda, a loura; cometera um grave erro ao expuls\u00e1-lo. \u201cInfeliz de mim! \u2014 exclamou. \u2014 Pequei contra o meu amor! Doravante odiar-me-\u00e1 e nunca mais o verei. Jamais saber\u00e1 qu\u00e3o arrependida estou nem que penit\u00eancia irei impor a mim mesma e oferecer-lhe como penhor dos meus remorsos.\u201d Desde esse dia. Isolda, a loura, passou a usar um cil\u00edcio e fez o voto de traz\u00ea-lo contra a carne at\u00e9 que Trist\u00e3o a perdoasse.<\/p>\n<p>XXXIII<\/p>\n<p>TRIST\u00c3O LOUCO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DE REGRESSO ao castelo de Karhaix, a casa do duque Hoel, Trist\u00e3o enlanguesce durante um ano inteiro e pergunta a si mesmo o que deve fazer, pois nada lhe traz reconforto. A sua \u00fanica esperan\u00e7a \u00e9 curar-se do mal de amor: preferia morrer de uma vez para sempre a viver na dor todo o resto da vida. De toda a gente Trist\u00e3o se esconde e duvida; at\u00e9 se cala diante de Kaherdin, o seu bom companheiro, at\u00e9 diante do seu velho mestre Governal e, ainda mais, diante da mulher, Isolda das m\u00e3os brancas. Possui-o e persegue-o um desejo surdo: tornar a atravessar o mar para ver, uma vez mais, a loura Isolda. Uma manh\u00e3 em que errava sem ningu\u00e9m o saber, os passos conduziram-no ao porto, onde encontrou uma grande e bela nau de mercadores estrangeiros. Os marinheiros i\u00e7am a vela e puxam a ancora. Dizem que v\u00e3o alcan\u00e7ar o alto mar, pois o vento \u00e9 bom para bem singrar. Do quebra-mar, Trist\u00e3o grita- lhes, pondo as m\u00e3os em concha: \u201cOnde ides?\u201d V\u00e1rias vozes lhe respondem ao mesmo tempo: \u201cPara a Inglaterra!\u201d Trist\u00e3o continua: \u201cSenhores, levai-me convosco!\u201d \u201cCom todo o gosto; subi depressa!\u201d Trist\u00e3o sobe a escada e salta para a ponte. O vento incha as velas e impele-os diretos \u00e0 Inglaterra.<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo terceiro dia aportam em Tintagel. Trist\u00e3o salta para terra e senta-se \u00e0 beira-mar. A um vil\u00e3o que passa pede novas do rei Marcos e de Isolda, a loura. O vil\u00e3o responde: \u201cO rei est\u00e1 no castelo e tamb\u00e9m a rainha, mas esta tem um ar triste e pensativo como de costume.\u201d Trist\u00e3o procura ent\u00e3o um ardil para aproximar- se dela sem ser reconhecido pelo rei Marcos nem por mais ningu\u00e9m. Passa-lhe uma estranha id\u00e9ia pela cabe\u00e7a: vai fingir de louco e introduzir-se na corte sob este novo disfarce. Entrementes, avista um pescador que se dirige para esse lado, vestido com uma longa cota de burel munida de um capuz. \u201cAmigo \u2014 diz \u2014, troquemos de roupas: ter\u00e1s as minhas, que ainda est\u00e3o boas e novas, e eu terei as tuas vestes, que me agradam imenso.\u201d O pescador observa a roupa de Trist\u00e3o e verifica sem dificuldade que \u00e9 melhor que a sua, aceita-a com alegria e abandona-lhe de bom grado a cota felpuda e remendada. Com uma tesoura, Trist\u00e3o corta- os belos cabelos e faz no alto do cr\u00e2nio uma tonsura em forma de cruz, igual \u00e0 que faziam usar aos loucos desse tempo. Prepara um licor composto por certas ervas do seu conhecimento e tinge o rosto, que n\u00e3o tarda a mudar de cor e a ficar negro. Disfar\u00e7ar a voz era para ele um artificio familiar. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o havia pessoa no mundo que o pudesse reconhecer, tanto ao v\u00ea-lo como ao ouvi-lo. Ao passar ao longo de uma sebe de arbustos espinhosos, pegou na faca e cortou um forte ramo de azevinho, com o qual fez um bord\u00e3o, que suspendeu ao pesco\u00e7o. .Chegado \u00e0 porta da cidade, todos os que ali se encontravam tro\u00e7aram dele. O porteiro do castelo saudou-o com um gracejo: \u201cEntra filho de Urgan, o peludo, pois grande e peludo \u00e9s, lembras o gigante Urgan!\u201d O louco entra pelo postigo: os lacaios correm ao seu encontro e gritam, como na persegui\u00e7\u00e3o de um lobo: \u201cHu, hu! Ao louco! Eis o louco!\u201d<\/p>\n<p>Os servos e os escudeiros perseguem-no atrav\u00e9s do pal\u00e1cio; por vezes, volta-se e se lhe batem no lado direito replica com uma paulada \u00e0 esquerda, como se rachasse de meio a meio um fantasma. Aproxima-se da porta do sal\u00e3o e entra sem maneiras, segurando o bast\u00e3o. Logo o rei, sentado sob o dossel perto da rainha, o avista e diz: \u201cVejo avan\u00e7ar daquele lado um belo rapaz, em verdade! Trazei-o \u00e0 minha presen\u00e7a.\u201d V\u00e1rios se dirigem ao encontro do rec\u00e9m-chegado, sa\u00fadam-no com esc\u00e1rnio, como ele pr\u00f3prio os sa\u00fada, e trazem-no ao rei. Marcos diz-lhe: \u201cAproxima- te mais de mim, amigo. Donde vens e o que desejas?\u201d O outro responde: \u201cAcabo de desembarcar de um navio de mercadores. Tamb\u00e9m vos quero dizer quem sou e o que pe\u00e7o: a minha m\u00e3e era uma baleia que vivia no mar como uma sereia. N\u00e3o sei onde nasci mas sei quem me alimentava: uma grande tigresa aleitava-me numa gruta onde me encontrara. Estava estendido numa larga pedra e ela dava-me de mamar. Tamb\u00e9m tenho uma irm\u00e3 muito bela; dar-vo-la-ei, se quiseres, em troca de Isolda, que amo apaixonadamente. Fa\u00e7amos este neg\u00f3cio! V\u00f3s aborreceis-vos com Isolda: dai-ma e unide-vos a outra mulher. Se me entregardes Isolda, serei vosso homem e servir-vos-ei at\u00e9 ao fim dos meus dias.\u201d O rei riu-se e perguntou: \u201cT\u00e3o verdade como Deus te possa ajudar, se te presenteasse com a rainha, diz-me, o que farias dela? Para onde a levarias?\u201d \u201cRei \u2014 respondeu o louco, conservando o olhar fixo em Isolda \u2014, tenho l\u00e1 em cima no c\u00e9u uma sala onde habito. F: toda feita de vidro, bela e grande: pendurada nas nuvens e toda banhada pelo sol, qualquer que seja a viol\u00eancia dos ventos, n\u00e3o se mexe nem cai. Perto da sala h\u00e1 um quarto feito de cristal; quando o Sol se levanta, a claridade \u00e9 maravilhosa.\u201d O rei e os outros desatam a rir ruidosamente e zombam entre si dos ditos desconexos do louco. \u201cEis seguramente um belo louco, divertido como \u00e9 de desejar e que conta alegres mentiras!\u201d \u201cRei \u2014 diz o louco \u2014, amo Isolda desmedidamente! Por ela o meu cora\u00e7\u00e3o sofre e lamenta-se. Sou T\u00e3otris, o jogral que tanto a amou e amar\u00e1 enquanto durar a sua vida!\u201d Isolda ouve-o e suspira do fundo do cora\u00e7\u00e3o; aquele louco inspira-lhe c\u00f3lera e despeito: \u201cMentes, n\u00e3o \u00e9s T\u00e3otris!\u201d O louco presta mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras de Isolda que \u00e0s dos outros todos; bem v\u00ea que ela est\u00e1 irritada e que o seu rosto mudou de cor. Continua: \u201cRainha, sou T\u00e3otris, o menestrel que outrora curaste. Recordais-vos? Recebi um grave ferimento, pois a lan\u00e7a estava envenenada; o poderoso veneno havia-se espalhado por todo o meu corpo. A minha chegada, estava doente e fraco. Vossa m\u00e3e e v\u00f3s haveis tratado das minhas chagas com a vossa admir\u00e1vel ci\u00eancia da virtude das plantas e ervas. Para vos agradecer, ensinei-vos a tocar na harpa lais do meu pais. N\u00e3o me reconheceis?\u201d \u201cPor certo que n\u00e3o \u2014 respondeu a rainha \u2014, pois T\u00e3otris era belo e nobre e tu \u00e9s demasiado hediondo e feio para que te possamos dar o seu nome. Deixa-nos: \u00e9s louco de nascen\u00e7a e eu n\u00e3o fa\u00e7o caso nenhum de ti nem dos teus disparates!\u201d<\/p>\n<p>Trist\u00e3o volta-se bruscamente e bate ao sabor da ma\u00e7a nos que se encontram perto dele: \u201cGentes loucas, ao largo! Sa\u00ed daqui de dentro, deixai-me sozinho com a rainha, pois vim para am\u00e1-la!\u201d O rei diverte-se imenso, mas Isolda cora e zanga-se: \u201cExpulsai daqui este odioso bobo!\u201d Imperturb\u00e1vel, o louco retoma as divaga\u00e7\u00f5es: \u201cEnt\u00e3o n\u00e3o vos recordais do dia long\u00ednquo em que o rei, querendo casar convosco, me enviou para vos trazer? Fui \u00e0 Irlanda fazendo-me passar por um mercador. Isso n\u00e3o me impediu de, chegado o dia. combater o drag\u00e3o e o matar.\u201d \u201cInsensato! Jamais realizaste os altos feitos de que te vanglorias! Aposto que estavas ontem b\u00eabado ao deitares-te e foi a embriaguez que te fez sonhar isso!\u201d \u201cHavei-lo dito, rainha; estou de verdade embriagado, mas foi por ter bebido uma beberagem como n\u00e3o h\u00e1 outra no mundo. Recordai-vos: vosso pai havia-vos entregue a mim e vossa m\u00e3e conduziu-vos at\u00e9 \u00e0 nau que vos devia trazer at\u00e9 \u00e0 Cornualha. Quando chegamos ao alto mar, vou contar-vos o que aconteceu&#8230;\u201d Nisto o louco interrompeu-se e come\u00e7ou a cantarolar com um ar inspirado, como algu\u00e9m que sabe mais do que quer dizer. Vendo isto, Isolda dissimulou o rosto no casaco e quis levantar- se para se ir embora. O rei puxou-a docemente pelo bra\u00e7o e pediu- lhe que se sentasse de novo junto dele: \u201cTende um pouco de paci\u00eancia, doce amiga; n\u00e3o devemos ir at\u00e9 ao fim da sua loucura? Tenho pressa de saber at\u00e9 onde este vagabundo quer chegar.\u201d Em seguida, virando-se de novo para o louco, fez-lhe muitas perguntas: \u201cQuero saber agora o que sabes fazer. Conheces a arte da montaria por c\u00e3es e por aves?\u201d \u201cRei, quando quero ca\u00e7ar nas florestas, com os meus galgos, ca\u00e7o os grous que voam nas nuvens; com os meus podengos, ca\u00e7o os cisnes, as mo\u00e7as simpl\u00f3rias, os gansos; quando atiro ao arco, ca\u00e7o vivos os mergulh\u00f5es e os alcarav\u00f5es.\u201d Marcos ri singelamente, e assim fazem grandes e pequenos. O rei pergunta em seguida: \u201cDiz-me, irm\u00e3o, que sabes ca\u00e7ar no rio?\u201d \u201cSire, ca\u00e7o tudo o que encontro: com os meus abutres, ca\u00e7o os lobos dos bosques e os grandes ursos; com os meus gerifaltes, os javalis que persigo por montes e vales; com os meus altivos falc\u00f5ezinhos, apanho cabras e gamos; com o gavi\u00e3o, ca\u00e7o a raposa, que tem uma cauda t\u00e3o bela; com o esmerilh\u00e3o, caco as lebres.\u201d \u201cE que mais sabes fazer?\u201d \u201cSei tocar harpa e rota e cantar afinado. Com uma faca, sei talhar aparas que deito nos riachos. Rica rainha, sei amar e nenhum amante me excede! Tamb\u00e9m me sei servir de um pau!\u201d E dizendo isto, come\u00e7a de novo a bater naqueles que estavam \u00e0 sua volta: \u201cDeixai o rei tranq\u00fcilo! Deixai o rei em paz; regressai a casa! Por que ficais a\u00ed fincados como cepos?\u201d<\/p>\n<p>Quando o rei se divertiu \u00e0 farta, mandou o escudeiro selar o cavalo para a ca\u00e7a e perguntou \u00e0 rainha se o desejava acompanhar. \u201cSire \u2014 respondeu \u2014, agrade\u00e7o-vos, mas n\u00e3o me sinto bem e tenho dores de cabe\u00e7a; para n\u00e3o ouvir nenhum barulho, quero ir repousar.\u201d Vai para o quarto, onde encontra Brangia; senta-se na cama, pensativa e dolente: \u201cBrangia, minha doce irm\u00e3, mais valia estar morta, de tal modo a vida me \u00e9 dura e amarga! Tudo o que acabo de ver e de ouvir me contraria mais do que posso exprimir.\u201d \u201cQue haveis ent\u00e3o visto e ouvido?\u201d \u201cUm louco chegou ao sal\u00e3o do castelo, tonsurado em cruz, e fez-me muita pena. Por certo que esse louco \u00e9 adivinho e feiticeiro, pois sabia a minha vida toda de fio a pavio. N\u00e3o vejo quem lhe possa ter revelado tudo aquilo: al\u00e9m de ti, de Trist\u00e3o e de mim pr\u00f3pria, quem conhece assim o pormenor das nossas aventuras?\u201d \u201cSenhora \u2014 inquire Brangia, a avisada \u2014, esse louco ser\u00e1 o pr\u00f3prio Trist\u00e3o?\u201d \u201cOxal\u00e1 que n\u00e3o! \u00c9 grosseiro, hediondo e disforme, enquanto Trist\u00e3o \u00e9 belo, fino e \u00e1gil. Ah!, que Deus confunda esse louco! Maldita seja a hora em que nasceu e maldita a nau que o trouxe para este pais! \u00c9 uma grande pena que os marinheiros n\u00e3o o tenham atirado ao mar profundo!\u201d \u201cSenhora, se n\u00e3o \u00e9 Trist\u00e3o, esse louco n\u00e3o ser\u00e1 o seu mensageiro?\u201d \u201cN\u00e3o sei nem o creio, mas vai tu ter com ele, bela amiga, e procura saber dele quem \u00e9.\u201d<\/p>\n<p>Brangia apressou-se a obedecer \u00e0 sua senhora: dirige-se para o sal\u00e3o e n\u00e3o encontra a\u00ed ningu\u00e9m, nem servo, nem lacaio, salvo o louco sentado num banquinho. Trist\u00e3o reconhece-a imediatamente: \u201cBrangia!, s\u00ea bem-vinda! Por Deus, tem piedade de mim!\u201d \u201cE por que \u00e9 que havia de ter piedade de v\u00f3s?\u201d \u201cEm verdade, sou Trist\u00e3o que tanto sofreu por amor da rainha Isolda.\u201d Como hesitava em acredit\u00e1-lo, ele recordou-lhe como ela servira \u00e0 rainha e a ele pr\u00f3prio a bebida a m\u00e1gica e como tomara o lugar de Isolda no leito do rei para este a achar virgem. Brangia fica interdita e n\u00e3o sabe que responder. No seu desvario, foge para o quarto da rainha; o louco persegue-a suplicando-lhe que tenha piedade dele. Em seguida, penetra no quarto da rainha e, quando v\u00ea Isolda, avan\u00e7a para ela e quer beij\u00e1-la na boca. Ela, confusa e envergonhada, atira-se para tr\u00e1s. Trist\u00e3o diz-lhe: \u201cRainha franca e honrada, considerais-me doravante t\u00e3o vil que j\u00e1 n\u00e3o me quereis amar? Ai de mim!, terei vivido tanto para descobrir que me tomastes desd\u00e9m?\u201d Isolda responde-lhe: \u201cPor mais que vos observe, nada me diz que sejais Trist\u00e3o.\u201d \u201cRainha, recordai-vos do an\u00e3o Frocin que nos espiou dia e noite e, entre os nossos leitos, espalhou farinha-flor.\u201d \u201cQue adivinho sois para terdes descoberto tais segredos?\u201d \u201cIsolda, deveis lembrar-vos do c\u00e3o Husdent que vos dei no dia da nossa separa\u00e7\u00e3o: que haveis feito dele?\u201d \u201cGuardei sem cessar junto de mim o c\u00e3o de que falais. Brangia, vai busc\u00e1-lo e tr\u00e1-lo aqui pela trela.\u201d A criada sai e volta em seguida com Husdent. Trist\u00e3o chama o animal: \u201cAqui, vem c\u00e1, Husdent! eras meu: recupero-te!\u201d Mal o v\u00ea, o c\u00e3o acorre, salta para ele e faz-lhe festa. Levanta a cabe\u00e7a para o dono, agita a cauda, lambe-lhe as m\u00e3os e salta-lhe para a cara. Isolda maravilha-se: freme e treme de ang\u00fastia. Trist\u00e3o segura Husdent nos joelhos e afaga-o. \u201cLembra-se melhor dos cuidados que tive com ele do que v\u00f3s do amor que vos dediquei!\u201d Isolda fica ofendida com esta censura e o rubor tinge-lhe as faces. Trist\u00e3o continua: \u201cSenhora rainha, recordai-vos do anel de jaspe que me destes quando nos separamos na floresta de Morois? Recebi-o de v\u00f3s quando vos deixei recomendando-vos a Deus.\u201d Isolda diz-lhe: \u201c\u00ca um sinal no qual devo acreditar. Se tendes o anel, mostrai- mo!\u201d Tira o anel e apresenta-lho. Isolda observa-o um momento, depois come\u00e7a a chorar: \u201cInfeliz de mim! Trist\u00e3o, o meu doce amante, deve estar morto, pois jamais teria escoltado tal louco como mensageiro e jamais lhe teria confiado este anel!\u201d Vendo as suas l\u00e1grimas, Trist\u00e3o apieda-se: \u201cSenhora, vejo-vos t\u00e3o leal e bela que n\u00e3o me quero mais esconder. ~ altura de me dar a conhecer e a ouvir.\u201d Cessa desde ent\u00e3o de disfar\u00e7ar a voz: \u201cAh, doce amor, perdoa-me por te ter imposto esta prova\u00e7\u00e3o!\u201d Isolda n\u00e3o hesita mais, reconhece a voz que lhe \u00e9 querida, deita os bra\u00e7os \u00e0 volta do pesco\u00e7o de Trist\u00e3o \u00e9 cobre-o de beijos.<\/p>\n<p>Depois desta troca de caricias, Trist\u00e3o vira-se para Brangia e pede-lhe: \u201cTraz-me \u00e1gua: quero tirar do meu rosto este suco de erva que o desfigura.\u201d A criada volta com uma bacia cheia de \u00e1gua fresca e leva-lhe o rosto: o licor de erva vai-se com o suor. Os belos tra\u00e7os de Trist\u00e3o reencontram a sua forma primitiva. \u201cAi de mim! \u2014 exclama Isolda. \u2014 Como foi poss\u00edvel n\u00e3o te ter reconhecido? O receio de ser vitima de uma impostura fechava-me os olhos. Ah! Trist\u00e3o, tem piedade de mim: estou arrependida!\u201d Trist\u00e3o toma-a nos bra\u00e7os e ela aperta-o contra o peito. Ficai sabendo que a rainha de forma alguma o deixou partir nessa noite. Trist\u00e3o teve boa cama, bem feita e bela. Que mais poderia desejar, uma vez que a rainha est\u00e1 com ele?<\/p>\n<p>Chegada a manh\u00e3, Trist\u00e3o diz: \u201cMeu amor, se o rei me surpreendesse contigo neste quarto, mandar-nos-ia matar aos dois. Para tal salva\u00e7\u00e3o, embora me custe, tenho de me afastar de ti uma vez mais.\u201d \u201cAh!, Trist\u00e3o, belo e doce amigo, sei que, em verdade, nunca mais te verei neste mundo.\u201d Trist\u00e3o respondeu-lhe: \u201cN\u00e3o sei o que nos reserva o futuro, mas estou certo de que nunca cessarei de te amar.\u201d Isolda continuou: \u201cBelo amigo, toma-me nos teus bra\u00e7os e leva-me ent\u00e3o para o pais afortunado do qual me falavas n\u00e3o h\u00e1 muito, o pais do qual ningu\u00e9m regressa. Leva-me!\u201d \u201cSim, iremos juntos para o pais afortunado dos vivos. Aproxima-se a hora: n\u00e3o bebemos j\u00e1 toda a mis\u00e9ria e toda a alegria? Aproxima-se o momento: quando tiver chegado, se te chamar, Isolda, vir\u00e1s?\u201d \u201cAmor, bem sabes que irei.\u201d Ent\u00e3o Trist\u00e3o despediu-se da amada, mas jamais em vida a devia tornar a ver.<\/p>\n<p>XXXIV<\/p>\n<p>A SALA DAS IMAGENS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DE REGRESSO \u00c0 Pequena Bretanha, Trist\u00e3o vivia na dor e na ang\u00fastia, pois n\u00e3o via mais nenhum modo de ir ter com Isolda, a loura, a Tintagel e n\u00e3o podia sentir nenhuma alegria verdadeira separado dela. No castelo do duque Hoel, ficava junto de Isolda das m\u00e3os brancas, que todos consideravam sua mulher, mas s\u00f3 era sua esposa de nome, pois nunca teve com ela nenhuma das intimidades que conv\u00e9m a um marido. O duque Hoel jamais concebeu a menor suspeita do estranho comportamento do genro, pois a filha era demasiado reservada para revelar-lhe a sua exist\u00eancia \u00edntima e os seus dissabores conjugais. Kaherdin continuava a ser o \u00fanico a conhecer o triste estado da irm\u00e3 desde que esta lho revelara, dirigindo-se \u00e0 \u00e1gua atrevida, quando cavalgavam juntos na passagem de um vau. O furor que sentira primeiro acalmara desde que Trist\u00e3o lhe confidenciara o drama da sua vida e fizera com ele a viagem at\u00e9 \u00e0 Cornualha: perante o espet\u00e1culo da radiosa beleza da loura Isolda, compreendera a raz\u00e3o por que o companheiro n\u00e3o pudera nem poderia nunca amar carnalmente outra mulher. Mais ainda, a amizade dos jovens tornava-se de dia para dia mais intima e mais confiante.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o tinha por costume errar na floresta bret\u00e3 sob pretexto de perseguir a ca\u00e7a, mas, na realidade, para a\u00ed encontrar a solid\u00e3o propicia aos devaneios e aos pensamentos amorosos que o levavam sempre a Isolda dos cabelos de ouro. Foi no decurso dessas longas caminhadas que lhe acorreu a id\u00e9ia de construir, nas profundezas dos bosques, um ref\u00fagio s\u00f3 dele conhecido para onde teria toda a ocasi\u00e3o de se retirar para pensar na amada. Prometeu a si pr\u00f3prio, j\u00e1 que n\u00e3o a podia ver em carne e osso, esculpir a sua est\u00e1tua com tal parecen\u00e7a que lhe daria a ilus\u00e3o da sua presen\u00e7a. Um feliz acaso n\u00e3o tardou a faz\u00ea-lo descobrir o s\u00edtio que, pelo seu aspecto selvagem e inacess\u00edvel, melhor convinha ao seu projeto.<\/p>\n<p>Um dia em que o duque Hoel ca\u00e7ava com Trist\u00e3o na floresta, chegaram a um rio cujo leito largo e profundo os obrigou a parar. O duque disse ao genro: \u201cEste rio marca o limite do ducado da Bretanha: n\u00e3o se estende mais longe. A corrente \u00e9 t\u00e3o violenta e impetuosa que \u00e9 imposs\u00edvel a um pe\u00e3o ou a um cavaleiro passar de uma margem \u00e0 outra, a n\u00e3o ser que conhe\u00e7a o tra\u00e7ado de um vau muito estreito ao qual nada assinala a exist\u00eancia; nenhum bret\u00e3o lhe conhece hoje a situa\u00e7\u00e3o. Em redor desse vau desenrolaram-se recentemente violentos combates em que muitos guerreiros ca\u00edram de ambos os lados e as suas armas ficaram no leito do rio. A margem oposta pertence a um tem\u00edvel gigante chamado Beliagog, que v\u00e1rias vezes me atacou e mais de uma vez pilhou e devastou os meus dom\u00ednios. S\u00f3 com grande custo consegui repeli-lo e conclui com ele um tratado nos termos do qual este rio marcaria para sempre a fronteira dos nossos dois territ\u00f3rios: ele comprometeu- se a nunca mais invadir o meu ducado e eu prometi em troca nunca transpor este vau para ir \u00e0 sua terra. Ora, eu quero observar esse tratado o mais que puder, pois, se o romper, ele tem o direito de p\u00f4r os meus dom\u00ednios a ferro e fogo e de ai causar o maior mal que puder. Se encontrar homens meus no seu territ\u00f3rio, tem o direito de mat\u00e1-los. Se animais ou c\u00e3es nossos transpuserem este curso de \u00e1gua, somos obrigados a compr\u00e1-los, sem que ningu\u00e9m os possa chamar e recuperar. Todos os meus bar\u00f5es juraram este acordo. Tamb\u00e9m a ti, Trist\u00e3o, pro\u00edbo de passares este rio, pois seria para tua vergonha e morte.\u201d Trist\u00e3o respondeu: \u201cDeus sabe, bom senhor, como n\u00e3o desejo nada avan\u00e7ar at\u00e9 l\u00e1 abaixo. Que faria ai? Esse tal gigante bem pode guardar a sua terra em paz; n\u00e3o quero ter com ele nenhuma contenda. N\u00e3o me faltam florestas onde ca\u00e7ar! \u201cTodavia, cravou demoradamente os olhos na floresta que via al\u00e9m do vau proibido: era feita de belas \u00e1rvores, altas, direitas e robustas e das mais diversas esp\u00e9cies. De um lado, era limitada pelo mar e do outro pelo rio que ningu\u00e9m podia transpor, de modo que formava verdadeiramente uma ilha. Entrementes, o duque voltou r\u00e9deas e p\u00f4s fim \u00e0s reflex\u00f5es de Trist\u00e3o, iludindo as suas perguntas e arrastando-o atr\u00e1s de si pelo caminho de regresso.<\/p>\n<p>Durante toda a noite que se seguiu, Trist\u00e3o pensou na bela floresta solit\u00e1ria e nas suas grandes \u00e1rvores; projetava construir a\u00ed uma nobre habita\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 ele conhecesse, dedicada \u00e0 lembran\u00e7a e \u00e0 imagem de Isolda, a loura. Tamb\u00e9m meditava no gigante Beliagog e desejava encontr\u00e1-lo na esperan\u00e7a de se medir com ele e de realizar uma nova proeza.<\/p>\n<p>Alguns dias mais tarde, partiu sem nada dizer, com o corcel, as armas de guerra e a trompa e avan\u00e7ou at\u00e9 ao rio que marcava o termo e o limite das terras de Hoel e do gigante. O leito, muito profundo, era ladeado por duas altas ribas de areia. Trist\u00e3o procurou o vau, mas, n\u00e3o conhecendo de todo o local, lan\u00e7ou o corcel pela parte mais profunda da corrente. A \u00e1gua cobriu at\u00e9 acima das cabe\u00e7as cavalo e cavaleiro; Trist\u00e3o afundou-se t\u00e3o rapidamente que julgou n\u00e3o sair vivo daquela. Todavia, esfor\u00e7ou-se tanto e t\u00e3o bem que acabou por ganhar p\u00e9 na outra margem. Tirou ao cavalo o freio, as r\u00e9deas e a sela para escorrer a \u00e1gua, deixou o animal repousar, p\u00f4s as roupas a secar e em seguida tornou a montar e embrenhou-se na floresta. Ap\u00f3s ter errado durante algum tempo, como n\u00e3o encontrasse ningu\u00e9m, pegou na trompa e arrancou-lhe um som t\u00e3o forte e prolongado que o gigante o ouviu.<\/p>\n<p>Beliagog acorreu imediatamente, armado com uma ma\u00e7a de \u00e9bano. Viu Trist\u00e3o no corcel e perguntou com c\u00f3lera: \u201cQuem \u00e9s tu, que ousas vir armado \u00e0s minhas terras? Donde \u00e9s? Onde queres ir? Que procuras aqui na minha floresta?\u201d O bravo respondeu tranq\u00fcilamente: \u201cChamam-me Trist\u00e3o e sou genro do duque da Bretanha. Via esta bela floresta e pensei que serviria para abrigar uma casa que quero mandar construir, pois vejo aqui as mais raras e belas esp\u00e9cies de \u00e1rvores: quero abater as mais belas no n\u00famero de quarenta e oito dentro de duas semanas.\u201d Estas palavras tiveram o poder de irritar o gigante, que respondeu: \u201cT\u00e3o verdade como Deus me proteja, se n\u00e3o fosse o fato de viver em paz e amizade com o duque, abater-te-ia com um golpe da ma\u00e7a! Deixa quanto antes esta floresta, feliz por eu te deixar partir as sim!\u201d Trist\u00e3o replicou: \u201cNada tenho a fazer da tua piedade! Quero abater aqui tantas \u00e1rvores quanto me apetecer e aquele que de n\u00f3s dois vencer o outro dispor\u00e1 do resto da floresta.\u201d O gigante exclamou: \u201cN\u00e3o passas de um louco inchado de presun\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o me escapar\u00e1s t\u00e3o facilmente. Vais pagar com a vida a tua louca desmesura. Vejamos se \u00e9s capaz de ag\u00fcentar o meu ataque e se o teu escudo te saber\u00e1 proteger!\u201d Fez girar a ma\u00e7a acima da cabe\u00e7a e lan\u00e7ou-a com todas as for\u00e7as contra Trist\u00e3o. O bravo esquivou-se e assaltou por sua vez o gigante. Como este se esfor\u00e7ava por recuperar a arma para lan\u00e7\u00e1-la de novo, Trist\u00e3o colocou-se entre o gigante e a ma\u00e7a e tentou cortar-lhe a cabe\u00e7a; falhou o alvo, mas quando Beliagog se desviou para evitar o golpe, a espada atingiu-o t\u00e3o violentamente na perna que esta ficou decepada abaixo do joelho e caiu no solo. Trist\u00e3o visava de novo a cabe\u00e7a do gigante quando este lhe gritou: \u201cSire, concede- me a vida salva! Se me poupares, servir-te-ei fielmente e darte-ei todos os meus tesouros. N\u00e3o fa\u00e7o empenho em conservar nenhum dos meus bens, exceto a vida; leva-me para onde quiseres e faz de mim o que te agradar!\u201d<\/p>\n<p>Quando Trist\u00e3o viu que o gigante pedia clem\u00eancia, aceitou a sua submiss\u00e3o e as suas promessas. At\u00e9 lhe pensou o ferimento e talhou uma perna de madeira que ligou fortemente abaixo do joelho. Os servos do gigante, acorridos ao barulho do combate, levaram-no para a gruta onde residia. Mostrou ao vencedor os seus tesouros todos e ofereceu-lhos, mas Trist\u00e3o n\u00e3o lhes prestou muita aten\u00e7\u00e3o, pois o seu pensamento n\u00e3o estava de modo algum, naquele momento, voltado para as riquezas. Quando Beliagog lhe prestou vassalagem por meio de juramento, Trist\u00e3o permitiu-lhe conservar os tesouros e guard\u00e1-los em sua casa. Em seguida, conclu\u00edram uma conven\u00e7\u00e3o segundo a qual o gigante se comprometia a fornecer a Trist\u00e3o os oper\u00e1rios e os materiais de constru\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios. O bravo podia dispor livremente da floresta e cortar todas as \u00e1rvores que quisesse. Finalmente, o gigante acompanhou Trist\u00e3o ao rio e, antes de se despedir, ensinou-lhe o tra\u00e7ado exato do vau que permitia a passagem sem perigo.<\/p>\n<p>De regresso a casa do duque Hoel, Trist\u00e3o n\u00e3o disse uma palavra acerca da sua aventura, fez como se nada lhe tivesse acontecido, e Kaherlin, seu companheiro, n\u00e3o se apercebeu de nada.<\/p>\n<p>A partir do dia seguinte, levantava-se de manh\u00e3zinha, cavalgava sozinho e, secretamente, atravessava o rio no vau e chegava a casa de Beliagog. O gigante executou fielmente as conven\u00e7\u00f5es: arranjou-lhe oper\u00e1rios, materiais e tudo o que havia prometido. Ora Trist\u00e3o, ao procurar o sitio que mais conviria ao seu projeto, notou, na extremidade da ilha do lado do oceano, um outeiro elevado cercado por um fosso circular que comunicava por um canal com o mar e esse fosso era t\u00e3o largo que n\u00e3o se podia tomar p\u00e9 no outeiro nem dele sair se a mar\u00e9 n\u00e3o estivesse completamente vaza. O mont\u00edculo tinha no cimo um rochedo perfeitamente arredondado, no qual haviam sido cavados v\u00e1rios quartos abobadados com a mais ex\u00edmia habilidade. A entrada era alta e quadrada e dava luz a um primeiro aposento alongado de cerca de dez toesas de comprimento e metade de largura. Dai, uma porta dava acesso a uma segunda sala com o dobro da primeira, iluminada de cima por uma clarab\u00f3ia que deixava ver o c\u00e9u e as estrelas, e por onde a \u00e1gua da chuva descia at\u00e9 uma cisterna. No meio da ab\u00f3bada encontrava-se um arco de pedra decorado com folhagens, p\u00e1ssaros e animais fant\u00e1sticos. Nos dois assentos do arco viam-se ornamentos t\u00e3o singulares que nenhum homem vivo teria podido executar semelhantes. Essa bela ab\u00f3bada agradou enormemente a Trist\u00e3o. Era obra de um gigante vindo outrora de \u00c1frica, que pilhara toda a Bretanha at\u00e9 ao monte Saint-Michel.<\/p>\n<p>Trist\u00e3o havia meditado longamente e previsto o arranjo deste pal\u00e1cio subterr\u00e2neo e p\u00f4s nele todo o seu entendimento. Durante os trabalhos, comportou-se com tanta discri\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m entre as gentes do duque da Bretanha sabia onde ele estava nem em que ocupava o tempo. Vinha todos os dias de manh\u00e3zinha e voltava tarde. Trist\u00e3o mandou primeiro tapar a gruta com uma porta feita de v\u00e1rias madeiras preciosas reunidas com grande mestria. Dentro, as paredes foram talhadas e pintadas com ornatos de folhagem e folhas de acanto. Na sala grande, mandou tapar a clarab\u00f3ia com um vitral de diversas cores, engastado em chumbo.<\/p>\n<p>Perto do sop\u00e9 do mont\u00edculo, mas no exterior, mandou construir uma sala de excelente madeira, na qual a floresta era pr\u00f3diga, e cercou esta sala com uma pali\u00e7ada: era ai que trabalhavam os art\u00edfices das diversas mestran\u00e7as, mas nenhum deles conhecia as inten\u00e7\u00f5es de Trist\u00e3o nem por que mandava arranjar aquele pal\u00e1cio e executar tantas esculturas e est\u00e1tuas. Trist\u00e3o apressou tanto os carpinteiros, os fazedores de imagens, os pintores e os ourives que logo a sua tarefa foi terminada. Ent\u00e3o, permitiu-lhes irem-se embora, mas n\u00e3o sem os ter feito jurar que guardariam sil\u00eancio sobre tudo o que haviam visto; depois acompanhou-os at\u00e9 terem deixado a ilha, de regresso a casa. Junto de si n\u00e3o ficou outro companheiro al\u00e9m de Beliagog. Ambos levaram para o interior do pal\u00e1cio subterr\u00e2neo as est\u00e1tuas e as esculturas executadas pelos art\u00edfices e dispuseram-nas segundo o plano previsto por Trist\u00e3o. Cada uma estava pintada e dourada com a mais maravilhosa habilidade.<\/p>\n<p>Na primeira sala, Trist\u00e3o colocou a figura do Morholt estendido morto no seu barco. Diante dele, doze donz\u00e9is, esculpidos em madeira pintada e marfim, e outras tantas donzelas, vestidas de seda e com ornatos bordados, bailavam e dan\u00e7avam a carola: representavam a juventude da Cornualha celebrando alegremente a vit\u00f3ria de Trist\u00e3o sobre o Morholt. Mais atr\u00e1s, via-se o drag\u00e3o da Irlanda que se erguia sobre a cauda, a boca aberta e as garras de fora.<\/p>\n<p>A segunda sala estava ainda mais ricamente ornada do que a primeira. O centro era ocupado por uma imagem de Isolda, a loura, de tamanho natural: as propor\u00e7\u00f5es e as cores, o rosto, o aspecto e a estatura estavam reproduzidos com tanta arte que, ao v\u00ea-la, ningu\u00e9m poderia duvidar que a vida n\u00e3o lhe corresse no corpo. Dos seus l\u00e1bios, por meio de um mecanismo engenhoso, escapava-se um h\u00e1lito t\u00e3o doce que o seu perfume enchia a sala. Estava t\u00e3o magnificamente vestida como convinha a uma rainha. Trazia uma larga sobreveste de escarlate bordado, apertada na cintura por um cinto de placas de prata do qual pendia uma escarcela. A cabe\u00e7a, donde ca\u00edam duas longas tran\u00e7as louras, estava ornada com um circulo de ouro onde se engastavam pedras de todas as cores; um rico colar enfeitava-lhe a garganta, que parecia levantar-se e respirar. Na m\u00e3o direita segurava um cetro terminado nas flores mais delicadamente trabalhadas. A m\u00e3o esquerda, adornada com um anel de jaspe verde, desenrolava uma tira onde se liam estas palavras: \u201cTrist\u00e3o, pega neste anel e guarda-o por amor de mim, a fim de te recordares as nossas alegrias e as nossas dores.\u201d A figura do malvado an\u00e3o Frocin, moldada em lat\u00e3o, estava colocada sob os seus p\u00e9s \u00e0 laia de escabelo. Isolda mantinha-se em p\u00e9 sobre o peito da pitorra disforme, que parecia chorar. Em face da rainha, encostada a um pilar, encontrava-se a sua criada Brangia, tendo aos p\u00e9s o c\u00e3o Husdent, que havia acompanhado os fugitivos na floresta de Morois e que a rainha conservava junto de si como recorda\u00e7\u00e3o do amigo; Trist\u00e3o fizera empenho em esculpir ele pr\u00f3prio na madeira a imagem do fiel animal. A est\u00e1tua da serva era um pouco menor que o natural e menor que a da senhora; t\u00e3o bela como a pr\u00f3pria Brangia e paramentada com os mais belos adornos, segurava na m\u00e3o um vaso coberto com uma tampa, que oferecia a Isolda com um rosto sorridente. A volta do vaso estavam inscritas estas palavras, tal como haviam sido outrora pronunciadas no navio: \u201cRainha Isolda, tomai esta bebida, que foi preparada na Irlanda para o rei Marcos.\u201d<\/p>\n<p>No vest\u00edbulo que precedia a primeira sala, um pouco atr\u00e1s da porta de entrada, Trist\u00e3o ergueu uma est\u00e1tua maior que o tamanho natural: a do gigante Beliagog. Apoiava-se na \u00fanica perna que lhe restava e brandia com as duas m\u00e3os a ma\u00e7a de \u00e9bano por cima do ombro, como que para proteger a imagem da rainha. Estava coberto com uma grande pele de bode; esta n\u00e3o descia muito baixo, de modo que ele estava nu a partir do umbigo. Arreganhava os dentes e lan\u00e7ava olhares furiosos, como se quisesse matar todos aqueles que tentassem entrar na sala. Do outro lado da porta estava postado um grande le\u00e3o moldado em cobre. Erguia-se nas quatro patas e enrolava fortemente a cauda \u00e0 volta de uma imagem feita \u00e0 semelhan\u00e7a de Kariado, que havia desonrado e caluniado Trist\u00e3o junto a Marcos.<\/p>\n<p>Quando todas as obras ficaram prontas, Trist\u00e3o fechou a porta, guardou as chaves e ordenou a Beliagog, assim como ao seu lacaio e ao seu servo, que montassem t\u00e3o boa guarda que ningu\u00e9m se pudesse aproximar da sala subterr\u00e2nea. O gigante conservou os seus outros tesouros e Trist\u00e3o regozijou-se grandemente por ter sido bem-sucedido naquele empreendimento. Regressou como habitualmente ao castelo do duque Hoel, em Karhaix: comia, bebia e dormia junto da mulher, Isolda das m\u00e3os brancas, e conversava amigavelmente com os companheiros. A seguir, continuou a visitar freq\u00fcentemente a sala das imagens, mas ia por caminhos escusos, a fim de n\u00e3o ser surpreendido por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>De certa vez revia a imagem de Isolda, tomava-a nos bra\u00e7os e beijava-a como se ela estivesse viva e lembrava-lhe os seus amores, as suas dores e os tormentos. Quando estava alegre, sentava-se num escabelo de carvalho, no meio da sala, e cantava para agradar \u00e0 amada um dos lais que compusera em sua honra. Mas quando a tristeza se apoderava da sua alma, testemunhava-lhe desagrado e c\u00f3lera, pois ainda lhe acontecia imaginar nos seus devaneios que ela o votava ao esquecimento e que n\u00e3o pudera impedir-se de amar outro na sua aus\u00eancia. Desconfiava sobretudo do belo Kariado, cuja assiduidade ao p\u00e9 da rainha conhecia, e esta preocupa\u00e7\u00e3o levava-o a conceber falsas suspeitas. Quando experimentava tais sentimentos, censurava Isolda e \u00e0s vezes at\u00e9 se recusava a fit\u00e1-la, a sorrir-lhe e a falar-lhe. Nesses momentos, era a Brangia que se dirigia: \u201cBela, venho apresentar queixa junto de v\u00f3s da infidelidade de Isolda, a minha amada.\u201d Depois, pouco a pouco, a seguran\u00e7a abandonava-o, o seu olhar ca\u00eda sobre a m\u00e3o de Isolda e sobre o anel de jaspe verde. Revia a express\u00e3o do seu rosto no momento da partida do amigo e recordava- se do pacto conclu\u00eddo na hora da separa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o pedia-lhe perd\u00e3o pela loucura que o assaltara durante uma hora, e media at\u00e9 que ponto as suas falsas suspeitas o haviam desvairado. Era por isso que havia feito aquela imagem: n\u00e3o tendo mais ningu\u00e9m a quem revelar a sua vontade ou o seu desejo, queria desvendar-lhe o seu cora\u00e7\u00e3o, os seus pensamentos, o seu louco erro, a sua dor e a sua alegria de amor.<\/p>\n<p>Assim vive Trist\u00e3o, a quem a paix\u00e3o possui. Por vezes foge \u00e0 imagem, por vezes volta para ela; por vezes tem para ela olhares radiosos e por vezes mostra-lhe um rosto de desgosto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>XXXV<\/p>\n<p>A \u00daLTIMA FERIDA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A SALA das imagens estava acabada h\u00e1 v\u00e1rios meses quando Kaherdin confidenciou a Trist\u00e3o uma aventura amorosa em que se metera. N\u00e3o longe de Karhaix, numa fortaleza isolada no meio dos bosques e cercada de \u00e1gua por todos os lados, vivia um an\u00e3o rico e poderoso chamado Bedalis, marido ciumento de uma jovem mulher de grande beleza que respondia pelo nome de Gargeolain. Kaherdin avistou um dia a bela \u00e0 janela da sua torre e ficou t\u00e3o apaixonado que tentou v\u00e1rias vezes visit\u00e1-la: todas as suas tentativas s\u00f3 tiveram como resultado excitar ainda mais os ci\u00fames do marido e tornar ainda mais apertado o cativeiro da mulher. Todavia Gargeolain tirou com cera o molde da fechadura da porta flanqueada por duas torres, que se erguia \u00e0 entrada da ponte levadi\u00e7a e dava acesso \u00e0 cadeia, gra\u00e7as \u00e0 qual se podia abaixar ou subir a ponte. F\u00ea-la chegar \u00e0s m\u00e3os de Kaherdin. O apaixonado encarregou um ferreiro de lhe forjar uma chave segundo esse molde; quando ficou pronta, pediu a Trist\u00e3o que o acompanhasse na sua temer\u00e1ria aventura.<\/p>\n<p>Sem outras armas al\u00e9m das espadas e s\u00f3 seguidos pelos escudeiros, chegaram \u00e0 entrada da ponte levadi\u00e7a. Bedalis partira para a ca\u00e7a e todos os servos o haviam acompanhado. Kaherdin abriu a porta, baixou a ponte levadi\u00e7a e foi encontrar-se com Gargeolain no quarto. Trist\u00e3o, enquanto aguardava o retorno do amigo, ficou com Gorvenal e o outro escudeiro numa sala vizinha da entrada e estenderam-se no ch\u00e3o coberto de juncos recentemente cortados. Kaberdin demorou tanto tempo junto da amante que deu ao marido ensejo de regressar. Quando Trist\u00e3o ouviu o barulho dos ca\u00e7adores que se aproximavam, chamou Kaberdin a toda pressa e os quatro companheiros escaparam mesmo ao combate com Bedalis.<\/p>\n<p>Ao regressar ao castelo, o an\u00e3o espantou-se por encontrar a porta aberta e a ponte levadi\u00e7a baixada; as suas suspeitas aumentaram quando viu flutuar na \u00e1gua dos fossos uma canoa de rosas vermelhas que Kaherdin trazia na cabe\u00e7a e que, na fuga precipitada, deixara cair. Armou-se e, \u00e0 cabe\u00e7a de um bando numeroso, lan\u00e7ou-se no encal\u00e7o dos fugitivos. Cercados por advers\u00e1rios muito superiores em n\u00famero, os quatro homens defenderam-se com grande coragem e mataram v\u00e1rios dos assaltantes. Gorvenal desembainhara a espada e resistia valentemente, mas sucumbiu sob o n\u00famero e caiu, trespassado de um lado ao outro. Trist\u00e3o vinha em seu aux\u00edlio quando Bedalis o atingiu no flanco com um terr\u00edvel golpe da sua lan\u00e7a envenenada. O bravo vacilou sob o choque, mas conseguiu manter-se na sela. Kaherdin e o escudeiro realizaram prod\u00edgios de valor para cobrir a sua retirada at\u00e9 ao castelo de Karhaix, onde chegou no limite das for\u00e7as.<\/p>\n<p>Os servos precipitaram-se; desceram-no do cavalo com mil precau\u00e7\u00f5es, mas ele n\u00e3o conseguiu ag\u00fcentar-se em p\u00e9 e caiu sem sentidos no pavimento. Transportaram-no para a habita\u00e7\u00e3o onde residia habitualmente junto da mulher. O primeiro cuidado de Isolda das m\u00e3os brancas foi convocar m\u00e9dicos para pensarem a chaga e tratarem dele. Apresentou-se um grande n\u00famero, mas nenhum deles conseguiu descobrir a natureza do veneno: todos os seus cuidados foram in\u00fateis. A despeito de todos os emplastros, o mal piorava cada vez mais, a tez do ferido alterava-se, as for\u00e7as esgotavam-se, o corpo estava emagrecido e descarnado. Trist\u00e3o dirigiu-se ent\u00e3o a Kaberdin: \u201cEscuta \u2014 disse \u2014, querido companheiro; estou aqui em pais estrangeiro e n\u00e3o tenho nem parente nem homem da minha ra\u00e7a para me socorrer na minha necessidade. Desde que perdi o meu querido Gorvenal, s\u00f3 te tenho a ti como amigo: \u00e9s o \u00fanico ser no qual me posso apoiar. Fica sabendo que mais ningu\u00e9m me pode curar al\u00e9m de Isolda, a loura. S\u00f3 ela, se o quiser, pode realizar esse milagre. Contanto que seja informada do estado em que me encontro, estou certo de que n\u00e3o se poupar\u00e1 a nada para me salvar. E por isso que, em nome da nossa amizade, te suplico que a v\u00e1s procurar ao castelo de Tintagel e lhe pe\u00e7as que venha sem demora contigo para me salvar a vida.\u201d Kaherdin ficou comovido com as lamenta\u00e7\u00f5es de Trist\u00e3o e, para consol\u00e1-lo, disse-lhe doces palavras: \u201cN\u00e3o chores mais, Trist\u00e3o, farei tudo o que quiseres. Se fosse preciso, afrontaria a morte para te devolver a sa\u00fade. Diz-me somente a mensagem que devo levar \u00e0 rainha Isolda e preparar-me-ei sem demora para essa viagem.\u201d \u201cEscuta-me, pois \u2014 respondeu Trist\u00e3o. \u2014 Toma este anel de jaspe verde que me confiou Isolda, a loura, para que seja entre n\u00f3s um sinal de reconhecimento. Quando chegares \u00e0 corte, mal lhe apresentes este anel, ela reconhecer-te-\u00e1 como meu mensageiro e achar\u00e1 maneira de falar-te comodamente sem que ningu\u00e9m vos possa ouvir. Depois de a teres saudado da minha parte, diz-lhe que n\u00e3o h\u00e1 para mim nenhuma esperan\u00e7a de cura se ela n\u00e3o me vier tratar em pessoa. A menos que me reconforte com um beijo da sua boca, terei de ir desta para melhor com grande desgosto meu. Recorda-lhe que, por amor dela, me expulsaram e exilaram vergonhosamente em terra estrangeira: passei por tantas dores e lutei tanto que j\u00e1 s\u00f3 tenho um sopro de vida, muito d\u00e9bil. Desde que fui coagido a afastar-me dela, jamais, e tu sabe-lo, amei outra mulher: quanto mais se esfor\u00e7aram por me separar dela, menos o conseguiram. Companheiro, esfor\u00e7a-te por conduzi-la at\u00e9 ao meu leito de dor; se n\u00e3o regressas depressa com ela, nunca mais me tornar\u00e1s a ver. Toma tamb\u00e9m cuidado para que ningu\u00e9m saiba nada disso al\u00e9m de n\u00f3s os dois: apresent\u00e1-la-\u00e1s como uma h\u00e1bil curandeira vinda de uma terra estrangeira para tratar do meu ferimento. Sobretudo, nada digas a tua irm\u00e3 Isolda das m\u00e3os brancas, a fim de que ela n\u00e3o suspeite do meu amor por Isolda da Irlanda.\u201d Kaherdin respondeu: \u201cDiz-me que navio devo tomar para essa viagem e que prazo me concedes para ir \u00e0 Cornualha e voltar com a rainha.\u201d \u201cLeva a bela nau com que te presenteou o teu nobre pai, o duque Hoel, e recruta a equipagem entre os melhores deste pa\u00eds. N\u00e3o sei ao certo quanto tempo te ser\u00e1 necess\u00e1rio para ir a Tintagel e voltar com a rainha: tudo depender\u00e1 dos ventos e do estado do mar.\u201d \u201cNa minha opini\u00e3o \u2014 observou Kaberdin \u2014, n\u00e3o estarei de retorno, por mais dilig\u00eancias que fa\u00e7a, antes de uma quarentena de dias.\u201d \u201cE poss\u00edvel \u2014 replicou Trist\u00e3o. \u2014 N\u00e3o sei se terei for\u00e7as para ag\u00fcentar tanto tempo sem ser socorrido, mas Deus sustentar-me-\u00e1 pela virtude da esperan\u00e7a. Al\u00e9m disso, para que enlangues\u00e7a menos tempo na incerteza da espera, peco-te, belo companheiro, que leves duas velas contigo: uma branca e outra preta. Se conseguires decidir Isolda a vir curar-me a chaga, i\u00e7a a branca no retorno: assim, a alegria que experimentarei iniciar\u00e1 a minha cura antes mesmo de teres ancorado no porto. Se, por infelicidade, n\u00e3o trouxeres a minha terna amada, ent\u00e3o desfralda a vela preta e eu cessarei de reter o que me poder\u00e1 restar de vida. Vai! Nada mais tenho a dizer-te: que Deus te conduza na tua viagem e te traga s\u00e3o e salvo!\u201d Kaherdin abra\u00e7a Trist\u00e3o e, muito dolorosamente, despede-se dele.<\/p>\n<p>Ao primeiro vento favor\u00e1vel, Kaberdin faz-se ao mar, os marinheiros levantam as ancoras, i\u00e7am o mastro e singram para o largo, levados por uma suave brisa. Durante v\u00e1rios dias cortam a toda a velocidade as vagas e as ondas, a todo o pano. Kaberdin mandou carregar debaixo da ponte tecidos de seda, lou\u00e7a de Tours, vinhos de Anjou e de Poitou, p\u00e1ssaros de Espanha: far-se-\u00e1 passar por um mercador, a fim de dissimular o objetivo real da sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>XXXVI<\/p>\n<p>A MORTE DOS AMANTES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C\u00d3LERA de mulher \u00e9 coisa tem\u00edvel: todo o homem se deve preservar dela, pois onde uma mulher mais amou, a~ por\u00e1 o m\u00e1ximo de ardor a vingar-se. Nas mulheres, o ressentimento dura mais tempo que a afei\u00e7\u00e3o: elas que regateiam o amor, prodigalizam ao desbarato o \u00f3dio enquanto durar a c\u00f3lera. Thomas de Inglaterra n\u00e3o ousa dizer todo o seu pensamento sobre esta quest\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 assunto de um poeta.<\/p>\n<p>Isolda das m\u00e3os brancas, escondida do outro lado da parede, escutara e surpreendera a conversa secreta de Trist\u00e3o, seu marido, com Kaherdin, seu irm\u00e3o. Eis que descobriu, de repente, todo o mist\u00e9rio daquele amor! A c\u00f3lera enche o seu cora\u00e7\u00e3o: n\u00e3o desejou tanto Trist\u00e3o para v\u00ea-lo voltar-se para outra! Agora compreende bem por que \u00e9 que Trist\u00e3o, desde que casara com ela, perdera toda a alegria e jovialidade. Fixa todos os pormenores do que ouviu por manha, fingindo ignor\u00e1-lo, mas, mal tenha ocasi\u00e3o, vingar-se-\u00e1 cruelmente do homem que cr\u00ea amar mais que tudo no mundo. Assim que se abriram as portas, Isolda entrou no quarto. Dissimula a Trist\u00e3o a c\u00f3lera, serve-o com cortesia e mostra um rosto af\u00e1vel, como uma amiga deve mostrar ao seu amigo. Por vezes, at\u00e9 o beija e abra\u00e7a; simula um perfeito amor, mas medita numa vingan\u00e7a trai\u00e7oeira e espreita o momento de saciar o seu rancor. Por vezes procura saber not\u00edcias; pergunta quando Kaherdin deve regressar com o m\u00e9dico que curar\u00e1 Trist\u00e3o. Todavia, \u00e9 falsamente que geme com o sofrimento do marido: a dissimula\u00e7\u00e3o escolheu para morada a sua alma e ela conta, se tiver poder para tal, castigar cruelmente Trist\u00e3o pelo que considera uma infidelidade e um ultraje.<\/p>\n<p>Entretanto, Kaherdin voga no alto mar. Aporta em Tintagel e desembarca com as mercadorias. Diante do castelo do rei, desenfarda a pacotilha, estende os panos de seda, exp\u00f5e em gaiolas os p\u00e1ssaros de Espanha, matizados e soberbos. T\u00e3o depressa empunha um a\u00e7or na muda, como logo desdobra um pano de seda tecido do Oriente. Eis, finalmente, uma ta\u00e7a de trabalho delicado cinzelada e niquelada. Oferta-a ao rei Marcos e diz-lhe, com a maior boa vontade do mundo, que vem ao seu reino portador de ricos tesouros, na esperan\u00e7a de ganhar ainda mais. O rei d\u00e1-lhe toda a liberdade e seguran\u00e7a para vender as mercadorias no seu reino.<\/p>\n<p>Kaherdin solicita ent\u00e3o permiss\u00e3o para ir apresentar \u00e0 rainha Isolda as suas ricas j\u00f3ias. Presenteia-lhe uma fivela de ouro fino, a mais delicadamente trabalhada, afirma, que h\u00e1 em todo o mundo. Nunca Isolda vira uma t\u00e3o bela. Ent\u00e3o Kaherdin, tirando do dedo o anel de jaspe verde que Trist\u00e3o lhe confiara, coloca-o ao lado da fivela e diz: \u201cRainha, vede como as pedras preciosas encastoadas na fivela t\u00eam menos brilho que o jaspe verde no qual \u00e9 feito o engaste deste anel!\u201d Mal a rainha v\u00ea o anel, n\u00e3o se engana \u00e9 aquele mesmo que dera a Trist\u00e3o. Examina mais de perto os tra\u00e7os do mercador e reconhece nele Kaherdin, o companheiro de Trist\u00e3o. Ent\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o salta-lhe no peito, empalidece e suspira profundamente, pois teme que o pretenso mercador seja portador de m\u00e1 noticia. Para saber mais, pergunta se quer vender o anel de jaspe verde e que soma deseja. Kaherdin, fingindo discutir o pre\u00e7o, segue-a at\u00e9 um canto do quarto: \u201cRainha \u2014 diz \u2014, escutai bem o que vos vou anunciar: Trist\u00e3o, o vosso amigo, sa\u00fada-vos como a dama em quem est\u00e1 a sua vida e a sua morte Faz-vos saber que foi ferido por uma lan\u00e7a envenenada: enlanguesce com dores horrorosas e n\u00e3o tem mais nenhuma esperan\u00e7a de recuperar a sa\u00fade e a vida se v\u00f3s n\u00e3o vierdes cur\u00e1-lo em pessoa. Jaz em grande dor, deitando um cheiro repugnante e intoler\u00e1vel. Se lhe recusais a vossa ajuda, n\u00e3o poder\u00e1 sobreviver. Pela fidelidade que lhe deveis, n\u00e3o hesiteis por nada deste mundo em responder ao seu chamamento. Vim expressamente para conduzir-vos at\u00e9 ele.\u201d Ao ouvir esta mensagem, Isolda fica tomada de uma angustia como jamais conhecera. A resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 rapidamente tomada: vai tentar a viagem e acompanhar Kaherdin na nau.<\/p>\n<p>L\u00e1 para a noitinha, Isolda prepara com a ajuda de Brangia aquilo de que necessita para a travessia e aguarda, para sair do castelo, que toda a gente esteja a dormir. l\u00e1 noite cerrada, enquanto Brangia fica de atalaia, sai furtivamente do pal\u00e1cio sem alertar quem quer que seja, deslizando por uma poterna baixa que desembocava no mar. O barco de Kaherdin espera perto dali. Assim que a rainha subiu a bordo, os marinheiros fazem-se \u00e0 vela e v\u00e3o impulsionados pelo vento. Em breve a nau ligeira aponta para a costa arm\u00f3rica.<\/p>\n<p>Ora, Trist\u00e3o, a quem a chaga ret\u00e9m estendido, sofre o mart\u00edrio no seu leito: nada o consegue aliviar, nenhum rem\u00e9dio lhe serve e, o que quer que fa\u00e7a, nada o acalma. Se ainda se esfor\u00e7a por prolongar a vida, \u00e9 porque aguarda a chegada de Isolda, a loura, esperando que ela venha e lhe alivie o mal. Todos os dias envia algu\u00e9m \u00e0 beira-mar para espiar o retorno de Kaherdin, e este \u00fanico desejo lhe absorve todo o ardor da alma. Por vezes, ordena que o levem para a costa, que lhe fa\u00e7am a cama diante do mar para ver se a nau est\u00e1 \u00e0 vista e que vela arvora. Por vezes tamb\u00e9m manda que o tragam de regresso a casa com medo da infelicidade que j\u00e1 adivinha, pois receia de repente que a rainha n\u00e3o venha; se tal acontecesse, preferiria sab\u00ea-lo por outrem a ver com os seus pr\u00f3prios olhos o navio regressar sem ela. De volta a casa, queixa-se muitas vezes \u00e0 mulher, mas sem lhe revelar a verdadeira causa do seu tormento; deplora unicamente a lentid\u00e3o de Kaherdin, que tarda a trazer o m\u00e9dico de que necessita.<\/p>\n<p>O navio que trazia a amiga t\u00e3o desejada aproxima-se agora da costa. A roda da proa tra\u00e7ava nas vagas uma alegre esteira quando uma borrasca se levantou, pegou no mastro com vento de proa e fez o navio girar. Os marinheiros acorrem ao l\u00f3, voltam a vela, mas em v\u00e3o: quer queiram quer n\u00e3o, s\u00e3o impelidos para o largo. O vento sopra furiosamente, levanta as vagas, o mar agita-se at\u00e9 \u00e0s profundezas, o c\u00e9u escurece e uma bruma espessa estende-se sobre as ondas negras. Chove, saraiva; no c\u00e9u amontoam-se nuvens, no barco bolinas e cordames partem-se com estrondo. Descem o mastro e avan\u00e7am bordejando com o vento e as vagas. Isolda, a loura, impressionada com o espet\u00e1culo da tempestade, dirige-se a Trist\u00e3o como se este a pudesse ouvir: \u201cDeus n\u00e3o me quer deixar viver o suficiente para te rever, meu amor. Decidiu que eu pereceria afogada no mar. Trist\u00e3o, se pudesse falar-te ainda uma vez mais, n\u00e3o me importaria com a minha morte. Mas n\u00e3o depende da minha vontade estar perto de ti nesta hora; se Deus o permitisse, j\u00e1 estaria ocupada a curar o teu mal. Amigo, eis o fim de um sonho! Pensava morrer nos teus bra\u00e7os e repousar contigo no mesmo t\u00famulo. Ai de mim!, \u00e9 mais uma ilus\u00e3o que temos de perder!\u201d<\/p>\n<p>Durante dois dias, a borrasca e a tempestade fustigaram o mar; no terceiro, o vento amainou e o bom tempo voltou. Kaherdin, olhando de longe, viu surgir na bruma as fal\u00e9sias da costa bret\u00e3. Radiante, mandou desfraldar o mais alto poss\u00edvel a vela branca, a fim de anunciar a Trist\u00e3o a boa nova: Isolda, a loura, chega! Estava a chegar ao fim o prazo de cerca de quarenta dias que Kaherdin fixara a Trist\u00e3o para a viagem. C\u00famulo do infort\u00fanio: eis que o vento abranda, o sol aquece. O mar fica numa calmaria total, a nau n\u00e3o se move nem para um lado nem para outro e deixa- se embalar pelo marulho das vagas. Os marinheiros est\u00e3o exasperados: a terra est\u00e1 ali \u00e0 vista deles, mesmo pr\u00f3xima, e nenhuma brisa os empurra para ela. Ei-los no pior dos embara\u00e7os.<\/p>\n<p>Entretanto, Trist\u00e3o, doente e cansado, por vezes queixa-se, por vezes suspira por Isolda que tanto deseja. Torce as m\u00e3os e as l\u00e1grimas correm. Neste desgosto, nesta ang\u00fastia, v\u00ea a mulher avan\u00e7ar para ele; esta se lembra de um p\u00e9rfido artif\u00edcio e diz- lhe: \u201cKaherdin est\u00e1 a chegar! Avistei a nau ao longe no mar. Estou certa de que \u00e9 a sua. Deus queira que vos traga uma nova da qual tireis reconforto!\u201d Ao ouvir estas palavras, Trist\u00e3o sobressalta-se e pergunta: \u201cBela amiga, estais absolutamente certa de que \u00e9 a nau de Kaherdin?\u201d \u201cN\u00e3o duvideis; reconheci-a bem \u201c \u201cDizei-me, pe\u00e7o-vos, n\u00e3o mo escondais: de que cor \u00e9 a vela que esvoa\u00e7a na verga?\u201d Isolda responde numa voz que deseja segura: \u201cA vela \u00e9 preta!\u201d Trist\u00e3o n\u00e3o responde nada. Volta-se para a parede e diz: \u201cIsolda, n\u00e3o quisestes vir para junto de mim! Por vosso amor tenho de morrer hoje!\u201d Depois, ap\u00f3s um curto instante, acrescenta numa voz apagada: \u201cN\u00e3o posso reter a vida mais tempo.\u201d Por tr\u00eas vezes, pronunciou \u201cIsolda, meu amor!\u201d; a quarta, entregou a alma a Deus.<\/p>\n<p>No mesmo momento, o vento levantou-se no mar: conduziu sem tardar at\u00e9 \u00e0 margem a nau de Kaherdin. Antes de qualquer outra pessoa, Isolda, a loura, desceu a terra. Ouve grandes lamentos elevaram- se nas ruas de Karhaix e o dobre que soa nos campan\u00e1rios das igrejas. Pergunta aos transeuntes a raz\u00e3o por que tocam os sinos, por quem chora todo aquele povo. Um velho responde-lhe: \u201cBela dama, que Deus me ajude! Aconteceu nesta terra uma grande infelicidade: Trist\u00e3o, o bravo, o franco, morreu! Acaba de falecer na cama de uma ferida de que nenhum m\u00e9dico o p\u00f4de curar.\u201d Ao ouvir esta not\u00edcia, Isolda, a loura, fica muda de dor. Corre pelas ruas como uma louca, o vestido desapertado, pois quer chegar antes dos outros ao castelo. Os bret\u00f5es admiram-na \u00e0 passagem: jamais haviam visto mulher de semelhante beleza, mas n\u00e3o sabem nem quem \u00e9 nem donde vem.<\/p>\n<p>Isolda transp\u00f5e a porta do castelo e atinge logo o quarto onde repousava o corpo do amigo. Isolda das m\u00e3os brancas lamentava-se diante do corpo, chorando e soltando grandes gritos. A rec\u00e9m- chegada, p\u00e1lida e sem uma l\u00e1grima, aproxima-se dela e diz-lhe: \u201cMulher, levanta-te e deixa-me sozinha aqui. Tenho mais direito de me afligir do que tu. Acredita-me: amei-o mais!\u201d Mant\u00e9m-se em p\u00e9 diante do leito f\u00fanebre, a cabe\u00e7a voltada para a frente, as m\u00e3os erguidas para o c\u00e9u, e reza em sil\u00eancio; em seguida dirige- se a ele para deplorar o seu falecimento: \u201cTrist\u00e3o, morreste por amor de mim. Uma vez que j\u00e1 n\u00e3o vives, tamb\u00e9m eu n\u00e3o tenho nenhuma raz\u00e3o para viver. Tudo doravante me ser\u00e1 sem do\u00e7ura, sem alegria, sem prazer. &#8211; Maldita seja a tempestade que me atrasou no mar! Se tivesse podido chegar a tempo, ter-te-ia devolvido a sa\u00fade e tenhamos docemente falado do terno amor que nos une. Mas j\u00e1 que te n\u00e3o posso curar, que possamos ao menos morrer juntos!\u201d Aproxima-se do leito e estende-se a todo o comprido sobre o corpo de Trist\u00e3o, rosto com rosto, boca com boca. Neste abra\u00e7o supremo, sucumbe \u00e0 viol\u00eancia da dor e expira num solu\u00e7o.<\/p>\n<p>Kaherdin, com o assentimento do duque Hoel, seu pai, j\u00e1 demasiado idoso para tomar decis\u00f5es, mandou prestar as honras f\u00fanebres \u00e0 rainha Isolda e a Trist\u00e3o. Mandou embalsamar os corpos com vinho, pimenta e ervas arom\u00e1ticas e colocar cada um, cosido numa pele de veado, numa barca feita de um tronco escavado ao fogo. Os dois corpos foram assim transportados por um navio at\u00e9 ao porto de Tintagel e entregues ao rei Marcos por um enviado de Kaherdin.<\/p>\n<p>\u201cSire \u2014 disse o mensageiro \u2014, o duque Hoel da Bretanha e Kaherdin, seu filho, enviam-vos por mim sauda\u00e7\u00f5es e amizade Encarregaram-me de vos entregar os corpos da rainha Isolda, a loura, vossa mulher, e do bravo Trist\u00e3o, vosso sobrinho, cujas almas ponha Deus entre o escol do Para\u00edso! Trist\u00e3o, que libertou o ducado da Bretanha de todos os seus inimigos e tornou por mulher a filha do duque Hoel, foi ferido pela lan\u00e7a envenenada de um an\u00e3o que Deus amaldi\u00e7oe! Como todos os m\u00e9dicos eram impotentes para curar a ferida, mandou chamar a toda a pressa a rainha Isolda, vossa mulher, que j\u00e1 por duas vezes, por meio da alta ci\u00eancia herdada da m\u00e3e, o havia arrancado \u00e0 morte. Infelizmente, embora tenha acorrido ao primeiro apelo, chegou demasiado tarde a Karhaix, quando Trist\u00e3o acabava de entregar a alma a Deus, e ela pr\u00f3pria morreu de como\u00e7\u00e3o e compaix\u00e3o. Possa o Senhor Todo- Poderoso conceder-vos amparo e consola\u00e7\u00e3o no momento em que haveis perdido ao mesmo tempo a mais bela das mulheres e o mais valente dos sobrinhos! Possa Ele conceder-vos longa vida, sa\u00fade, honra e vit\u00f3ria sobre os vossos inimigos!\u201d<\/p>\n<p>O rei Marcos ficou comovido com este discurso, e quando viu os dois corpos embrulhados nas peles de veado e deitados nas barcas, sentiu extinguir-se a c\u00f3lera e acalmar-se o ressentimento, como outrora, quando havia descoberto os dois fugitivos estendidos lado a lado na cabana de folhagem de Morois. Com grandes honras, no meio das lamenta\u00e7\u00f5es do povo, mandou enterrar perto de uma capela os corpos dos dois amantes. No t\u00famulo de Isolda, a loura, plantou uma roseira vermelha e no de Trist\u00e3o um cepo de nobre vinha. Os dois arbustos cresceram juntos e os seus ramos entrela\u00e7aram-se t\u00e3o intimamente que foi imposs\u00edvel separ\u00e1-los; de cada vez que os podavam, tornavam a crescer com todo o vigor e confundiam a sua folhagem.<\/p>\n<p>Aqui acaba o romance de Trist\u00e3o e Isolda. A todos os amantes, o narrador dirige a sua sauda\u00e7\u00e3o: aos sonhadores, aos enamorados, aos ciumentos, a todos aqueles a quem o desejo morde, aos divertidos, aos enlouquecidos, a todos aqueles que lerem esta hist\u00f3ria! Se n\u00e3o disse a todos o que teriam desejado, disse-o pelo menos o melhor que pude e disse a verdade pura tanto quanto a pude conhecer. Suprimi um pouco \u00e0 narra\u00e7\u00e3o; o que conservei, escolhi-o para ilustrar e embelezar esta hist\u00f3ria, a fim de agradar aos amantes e de estes a\u00ed encontrarem com que deleitar o cora\u00e7\u00e3o. Possam eles dela tirar reconforto contra as trai\u00e7\u00f5es, contra as injusti\u00e7as, contra as dores, contra as l\u00e1grimas, contra todos os desgostos de amor!<\/p>\n<p>Fonte: www.4shared.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joseph B\u00e9dier NOTA INTRODUT\u00d3RIA &nbsp; Trist\u00e3o \u00e9 o protagonista de uma tr\u00e1gica aventura de amor e de morte que, nas representa\u00e7\u00f5es dos trovadores franceses do s\u00e9culo XII, se situa dentro de um vasto marco de empresas de aud\u00e1cia e de cortesia, de m\u00edticas fa\u00e7anhas e de gestas de cavalaria, de aventuras prodigiosas, de encantos, sortil\u00e9gio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120361","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-25T13:24:23+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"327 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Trist\u00e3o e Isolda\",\"datePublished\":\"2017-04-25T13:24:23+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda\"},\"wordCount\":65470,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda\",\"name\":\"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-25T13:24:23+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tristao-e-isolda#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Trist\u00e3o e Isolda\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda","description":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda","og_description":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-25T13:24:23+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"327 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Trist\u00e3o e Isolda","datePublished":"2017-04-25T13:24:23+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda"},"wordCount":65470,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda","name":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare Trist\u00e3o E Isolda","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-25T13:24:23+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Trist\u00e3o E Isolda, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Trist\u00e3o E Isolda","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tristao-e-isolda#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Trist\u00e3o e Isolda"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120361\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}