{"id":120359,"date":"2017-04-25T11:23:03","date_gmt":"2017-04-25T13:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120359"},"modified":"2017-04-25T11:23:03","modified_gmt":"2017-04-25T13:23:03","slug":"coriolano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/coriolano","title":{"rendered":"Coriolano"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2 class=\"esquerda\" align=\"justify\">PERSONAGENS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>CAIO M\u00c1RCIO<\/b>, depois Caio M\u00e1rcio Coriolano.<br \/>\n<b>TITO L\u00c1RCIO<\/b>, General contra os volscos.<br \/>\n<b>COM\u00cdNIO<\/b>, General contra os volscos.<br \/>\n<b>MEN\u00caNIO AGRIPA<\/b>, amigo de Coriolano.<br \/>\n<b>SIC\u00cdNIO VELUTO<\/b>, Tribuno do povo.<br \/>\n<b>J\u00daNIO BRUTO<\/b>, Tribuno do povo,<br \/>\nO jovem M\u00e1rcio, filho de Coriolano.<br \/>\nUm arauto romano.<br \/>\nTulo Auf\u00eddio, general dos volscos.<br \/>\nTenente de Auf\u00eddio.<br \/>\nConspiradores com Auf\u00eddio.<br \/>\nNicanor, um romano.<br \/>\nUm cidad\u00e3o de \u00c2ntio.<br \/>\nAdriano, um volsco.<br \/>\nDois guardas volscos.<br \/>\n<b>VOL\u00daMNIA<\/b>, m\u00e3e de Coriolano.<br \/>\n<b>VERG\u00cdLIA<\/b>, mulher de Coriolano.<br \/>\n<b>VAL\u00c9RIA<\/b>, amiga de Verg\u00edlia.<br \/>\nDamas, ao servi\u00e7o de Verg\u00edlia.<br \/>\nSenadores romanos e volscos, patr\u00edcios, edis, lictores, soldados, cidad\u00e3os, mensageiros, criados de Auf\u00eddio e outros servidores.<\/p>\n<p><a name=\"crl11\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Entra um grupo de cidad\u00e3os amotinados, com bast\u00f5es, varas e outras armas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Antes de irmos adiante, ouvi-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Falai! Falai!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Estais mesmo decididos a morrer, de prefer\u00eancia a passar fome?<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Estamos! Estamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Inicialmente, sabeis que Caio M\u00e1rcio \u00e9 o principal inimigo do povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Sabemos! Sabemos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Matemo-lo, portanto, e teremos trigo pelo pre\u00e7o que bem entendermos. Resolvido?<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 A esse respeito, nem mais uma palavra. Passemos \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Uma palavra, bons cidad\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Somos tidos na conta de cidad\u00e3os pobres; s\u00f3 os patr\u00edcios \u00e9 que s\u00e3o bons. O que deixa fartos os dirigentes bastaria para aliviar-nos. Se nos cedessem apenas as sobras deles, que ainda estivessem em boas condi\u00e7\u00f5es, poder\u00edamos imaginar que eles nos aliviavam humanamente. Mas acham que somos por demais caros. A magreza que nos aflige, retrato de nossa mis\u00e9ria, \u00e9 como que o invent\u00e1rio minucioso da riqueza de todos eles. Para eles nosso sofrimento \u00e9 lucro. Vinguemo-nos, portanto, com nossos bast\u00f5es, antes de ficarmos reduzidos a ripas; pois os deuses sabem que o que me faz dizer isso \u00e9 a fome de p\u00e3o, n\u00e3o a sede de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Quereis agir especialmente contra Caio M\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Contra ele em primeiro lugar; \u00e9 um verdadeiro c\u00e3o para o povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 J\u00e1 pensastes nos servi\u00e7os que ele prestou ao pa\u00eds?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Perfeitamente, e com muito gosto lhe faria por isso boas refer\u00eancias; mas ele se apaga com o pr\u00f3prio orgulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Ora! falai sem maldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 o que vos digo. O que ele fez de glorioso foi apenas para esse fim. Muito embora as pessoas de consci\u00eancia delicada possam dizer com sufici\u00eancia que ele fez tudo isso pela p\u00e1tria, f\u00ea-lo para agradar a m\u00e3e e por causa do seu pr\u00f3prio orgulho, que, sem d\u00favida, vai de par com seu merecimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Considerais v\u00edcio nele o que \u00e9 inerente \u00e0 sua natureza. Pelo menos n\u00e3o podereis dizer que ele seja c\u00fapido<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Se n\u00e3o posso diz\u00ea-lo, nem por isso fico sem acusa\u00e7\u00f5es contra ele. Tem defeitos de sobra, que cansaria enumerar. (<i>Gritos ao longe.<\/i>) Que gritos ser\u00e3o esses? O outro lado da cidade j\u00e1 se revoltou. E n\u00f3s que fazemos aqui, a tagarelar? Ao Capit\u00f3lio!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Sil\u00eancio! Quem vem a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Men\u00eanio Agripa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 o digno Men\u00eanio Agripa. Sempre se mostrou amigo do povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 muito honesto. Quem nos dera que todos fossem como ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que tendes, meus concidad\u00e3os, em mira? Para onde ides com paus e cachaporras? Que se passa? Dizei-me, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Nossa causa n\u00e3o \u00e9 desconhecida do senado; nestes quinze dias eles j\u00e1 farejaram o que pretendemos fazer e que vamos mostrar-lhes agora com os pr\u00f3prios fatos. Eles dizem que os suplicantes pobres t\u00eam f\u00f4lego comprido; mas h\u00e3o de ver que nossos bra\u00e7os tamb\u00e9m s\u00e3o compridos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Mestres, caros amigos, bons vizinhos, quereis arruinar-nos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel, senhor; j\u00e1 estamos arruinados.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Acreditai-me, amigos: os patr\u00edcios t\u00eam por v\u00f3s todos a mais caridosa solicitude. Com respeito a vossas necessidades e o que estais sofrendo com essa carestia, tanto vale bater no c\u00e9u com todas essas armas, como jog\u00e1-las no romano Estado, que seguir\u00e1 seu curso, arrebentando dez mil freios mais fortes do que quanta resist\u00eancia pud\u00e9sseis antepor-lhe. No que respeita \u00e0 carestia \u2014 os deuses, n\u00e3o os patr\u00edcios, s\u00e3o seus causadores \u2014 rem\u00e9dio lhe vir\u00e1 de vossos joelhos, n\u00e3o dos bra\u00e7os. Oh c\u00e9us! Fostes levados pela calamidade aonde maiores, ainda, vos esperam. Caluniastes os pilotos do Estado, que de todos v\u00f3s cuidam como pais, sempre zelosos, enquanto os insultais como a inimigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Cuidam de n\u00f3s? Muito certo, realmente! Nunca se incomodaram conosco; deixam-nos morrer de fome, enquanto seus celeiros est\u00e3o abarrotados de trigo; promulgam editos sobre a usura, para favorecerem os onzeneiros; revogam diariamente dispositivos estabelecidos contra os ricos e promulgam todos os dias estatutos cada vez mais vexat\u00f3rios, para encadear e oprimir o povo. Se as guerras n\u00e3o nos devorarem antes, eles o far\u00e3o. \u00c9 esse todo o amor que revelam a nosso respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 De duas uma: ou confessais que sois muito maldosos, ou tolos por demais. Vou relatar-vos uma f\u00e1bula muito interessante. Decerto a conheceis; mas como serve muito bem a meus fins, vou arriscar-me a cont\u00e1-la de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Muito bem; vamos ouvi-la, senhor; mas n\u00e3o vades imaginar que podereis chasquear de nossa mis\u00e9ria com uma fabulazinha qualquer. N\u00e3o tem import\u00e2ncia; quando quiserdes podereis principiar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Contra o est\u00f4mago os membros se insurgiram certo dia, acusando-o de no meio do corpo colocar-se, pregui\u00e7oso sempre e inativo, e, como sorvedouro, absorver, insaci\u00e1vel, a comida, sem nunca contribuir com sua parte para o comum trabalho, enquanto os outros \u00f3rg\u00e3os viam, andavam, refletiam, sentiam e falavam, contribuindo cada um, assim, com sua parte, para proverem \u00e0s comuns necessidades e apetites do corpo. Respondeu-lhes o est\u00f4mago&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ora bem, senhor: qual foi a resposta do est\u00f4mago?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vou dizer-vos, senhor. Com uma esp\u00e9cie de sorriso, que n\u00e3o se originava dos pulm\u00f5es, um sorriso deste modo \u2014 pois, no final de contas, tanto posso dotar o est\u00f4mago de fala como fazer que ele sorria \u2014 com um sorriso desdenhoso falou aos insurrectos, aos membros sediciosos que invejavam suas atividades absorventes, tal como ora fazeis, s\u00f3 por maldade, com nossos senadores, por n\u00e3o serem em tudo iguais a v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Mas a resposta do est\u00f4mago? Que disse? Se a cabe\u00e7a de real coroa, os olhos vigilantes, o conselheiro cora\u00e7\u00e3o, os bra\u00e7os nossos soldados, os corc\u00e9is \u2014 as pernas \u2014 a l\u00edngua nosso trombeteiro e as outras aparelhagens e menores pe\u00e7as de nossa constru\u00e7\u00e3o, se todos, disse&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 E ent\u00e3o? E ent\u00e3o? Mas como ele \u00e9 eloq\u00fcente! E ent\u00e3o, que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Se todos ficam lesados pelo est\u00f4mago voraz, que \u00e9 a sentina do corpo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caNIO \u2014 Bem, e agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Se eles, os principais, fizeram queixa, que poderia responder o est\u00f4mago?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 J\u00e1 vou dizer-vos. Se me concederdes um pouco do que quase nada tendes, que \u00e9 paci\u00eancia, direi sua resposta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Quantas voltas fazeis para diz\u00ea-la!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Aten\u00e7\u00e3o, caro amigo! Nosso est\u00f4mago, sempre grave, manteve-se tranq\u00fcilo, sem revelar exalta\u00e7\u00e3o nenhuma, como seus detratores. Deste modo lhes respondeu: \u201c\u00c9 certo, meus amigos incorporados\u201d, disse, \u201cque eu recebo, antes de outro qualquer, todo o alimento de que viveis, e \u00e9 justo que assim seja, por ser eu o dep\u00f3sito e celeiro de todo o corpo. Mas se estais lembrados, pelos canais de vosso sangue tudo de novo mando \u00e0 corte, ao cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 alta sede do c\u00e9rebro, e assim, pelos sinuosos passos da oficina humana, os nervos mais potentes e as menores arter\u00edolas de mim recebem tudo de quanto necessitam para a vida. E muito embora todos v\u00f3s, a um tempo, meus bons amigos&#8230;\u201d isso disse o est\u00f4mago, observai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Pois n\u00e3o, senhor. Adiante!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u201cE muito embora todos v\u00f3s, a um tempo, n\u00e3o vejais o que eu dou em separado para cada um, mui f\u00e1cil \u00e9 provar-vos por um c\u00e1lculo certo e rigoroso, que recebeis de mim toda a farinha, sobrando-me de tudo s\u00f3 o farelo.\u201d Que dizeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Foi resposta boa. E a sua aplica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Os senadores de Roma s\u00e3o esse bondoso est\u00f4mago; v\u00f3s, os membros rebeldes. Seus conselhos examinai, suas canseiras todas, e heis de reconhecer que os benef\u00edcios gerais que recebeis v\u00eam t\u00e3o-somente da parte deles, nunca de v\u00f3s mesmos. E v\u00f3s a\u00ed, que pensais disto, sendo, como sois, o ded\u00e3o do p\u00e9 do grupo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Eu, o ded\u00e3o do p\u00e9? Por que o ded\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Porque sendo, como \u00e9s, um dos mais baixos, mais pobres e ordin\u00e1rios desta muito sapiente rebeli\u00e3o, vais sempre \u00e0 frente. E se assim fazes, \u00e9 porque farejas qualquer vantagem pr\u00f3pria. Vamos! Ide preparar vossas clavas resistentes, vossos bast\u00f5es, que Roma est\u00e1 no ponto de bater-se com os ratos. Um dos lados ter\u00e1 de ser malhado. (<i>Entra Caio M\u00e1rcio.<\/i>) Nobre M\u00e1rcio, Salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Muito obrigado. Que acontece, marotos rezingueiros, que de tanto co\u00e7ar a pobre crosta da vaidade vos transformais em sarna?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 S\u00f3 palavras boas \u00e9 que nos dais.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Quem vos desse palavras boas vos adularia de produzir engulhos. Que vos falta, c\u00e3es ordin\u00e1rios, se n\u00e3o vos agrada nem a paz nem a guerra? Esta vos causa pavor; aquela vos aumenta a emp\u00e1fia. Quem se fiasse de v\u00f3s, na hora precisa, em vez de le\u00f5es encontraria lebres; em lugar de raposas, simples patos. N\u00e3o; mais seguros n\u00e3o vos mostrais nunca do que um carv\u00e3o ardente sobre o gelo, ou saraiva no sol. Vossa virtude consiste em exaltar quem abatido se acha das pr\u00f3prias faltas, para, logo, malsinar a justi\u00e7a. Quem se mostra merecedor de gl\u00f3ria, de vosso \u00f3dio tamb\u00e9m se mostra. Tal como os desejos de certos doentes s\u00e3o vossos impulsos, que visam sobretudo quanto possa aumentar-lhes a doen\u00e7a. Quem depende de vossa gra\u00e7a nada com espadanas de chumbo e abate robles com gravetos. Enforcai-vos! Confiar em v\u00f3s? Mudais de id\u00e9ia a cada instante; achais que \u00e9 nobre quem vosso dio at\u00e9 h\u00e1 pouco merecia, e infame o que era vosso emblema m\u00e1ximo. Que aconteceu? Por que motivo em v\u00e1rios quarteir\u00f5es da cidade gritais tanto contra o nobre senado que sob a \u00e9gide dos deuses vos mant\u00e9m sempre com medo, que, do contr\u00e1rio, vos devorar\u00edeis uns aos outros? \u2014 Dizei: que \u00e9 que eles querem?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Trigo por pre\u00e7o que eles estipulem, pois acham que h\u00e1 bastante na cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 V\u00e3o todos se enforcar! Acham? Ao fogo! Ficam sentados e saber presumem quanto no Capit\u00f3lio est\u00e1 passando: quem poder\u00e1 subir, quem enriquece, quem declina; a fac\u00e7\u00f5es diversas se unem, conjeturais alian\u00e7as p\u00f5em por terra, refor\u00e7am seus partidos e enfraquecem os que no desagrado lhes ca\u00edram, pondo-os abaixo dos sapatos rotos. Acham que h\u00e1 muito trigo? Se a nobreza pusesse a compaix\u00e3o de lado e a espada deixasse que eu usasse, logo um monte faria de peda\u00e7os desses biltres, da altura desta lan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o; estes est\u00e3o j\u00e1 persuadidos, pois embora lhes falte em grande escala qualquer discernimento, s\u00e3o covardes a mais n\u00e3o poder ser. Mas, por obs\u00e9quio, que diz o outro magote?<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Dispersaram-se. Que se enforquem! Disseram-se esfomeados. Sopravam certas m\u00e1ximas: que a fome rompe muralhas; ou que at\u00e9 cachorro precisa de alimentos; que comida foi feita para as bocas, e que os deuses n\u00e3o deram trigo apenas para os ricos. Com esses trapos \u00e9 que fazem vento para suas lam\u00farias. Responderam-lhes, e tendo sido satisfeito numa das exig\u00eancias \u2014 coisa perigosa, de arrebentar o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da generosidade e deixar p\u00e1lido o poder mais altivo \u2014 logo os gorros a jogar para cima come\u00e7aram, como se pretendessem espet\u00e1-los l\u00e1 nos cornos da lua, arrefecendo de pronto a grande ard\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 E que vit\u00f3ria a\u00ed alcan\u00e7aram?<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 A de terem cinco tribunos, por escolha livre deles, para defesa da sabedoria do populacho. J\u00fanio Bruto \u00e9 um deles, e Sic\u00ednio Veluto, e&#8230; os outros. \u2014 Bolas! \u2014 Como posso saber? Destelharia primeiro essa canalha Roma inteira, antes de obter de mim uma tal coisa. O tempo os deixar\u00e1 mais fortes, sobre dar nascimento a temas de mais peso, para novas revoltas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 curioso!<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Ide embora, fragmentos! Para casa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra apressadamente um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Onde est\u00e1 Caio M\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Aqui. Que \u00e9 que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhor, a novidade \u00e9 que esses volscos est\u00e3o em armas.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Muito isso me alegra; assim, teremos oportunidade de ventilar um pouco as nossas sobras emboloradas. Vede, a\u00ed v\u00eam vindo nossos graves anci\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Com\u00ednio, Tito L\u00e1rcio e outros senadores; J\u00fanio Bruto e Sic\u00ednio Veludo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 M\u00e1rcio, \u00e9 verdade quanto nos referistes n\u00e3o faz muito: que se haviam os volscos levantado.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 \u00c9 que eles t\u00eam um chefe, Tulo Auf\u00eddio, que vos dar\u00e1 trabalho. Tenho inveja, confesso-o, da nobreza que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. N\u00e3o fosse eu ser eu mesmo, desejara ser ele, t\u00e3o-somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 J\u00e1 tivestes ocasi\u00e3o de com ele medir for\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Se metade do mundo se encontrasse com a outra parte em luta, e ele estivesse do meu lado, eu passara para o inimigo, s\u00f3 para o combater, s\u00f3 pelo orgulho de ca\u00e7ar esse le\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Ent\u00e3o, meu digno M\u00e1rcio, servi sob a ordem de Com\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Assim o prometestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Sim, confirmo, senhor, minha promessa; sou constante. Tito L\u00e1rcio, h\u00e1s de ver-me novamente atacar Tulo Auf\u00eddio. Como! Coxo? Vais ficar fora?<\/p>\n<p align=\"justify\">TITO \u2014 N\u00e3o, meu Caio M\u00e1rcio; antes firmar-me numa das muletas e combater com a outra, do que ver-me exclu\u00eddo dessa pugna.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Oh sangue nobre!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Ide conosco at\u00e9 ao Capit\u00f3lio, onde os nossos melhores companheiros, tenho certeza, est\u00e3o nossa espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">TITO (<i>a Com\u00ednio<\/i>) \u2014 Ide na frente. (<i>A M\u00e1rcio.<\/i>) Acompanhai Com\u00ednio; seguiremos atr\u00e1s. A preced\u00eancia o m\u00e9rito \u00e9 que indica.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Nobre M\u00e1rcio!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR (<i>aos cidad\u00e3os<\/i>) A vossa casas recolhei-vos. Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 N\u00e3o; que nos sigam todos. T\u00eam os volscos bastante trigo; levai esses ratos para roerem os celeiros deles. Dignos amotinados, vosso brio j\u00e1 come\u00e7a a dar frutos. Vinde! Vinde!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os senadores, Com\u00ednio, M\u00e1rcio, Tito e Men\u00eanio; os cidad\u00e3os se dispersam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 H\u00e1 algu\u00e9m, como este M\u00e1rcio, t\u00e3o soberbo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m como ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Quando escolhidos fomos para o cargo de tribunos do povo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o notastes os olhos dele e os l\u00e1bios?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o; apenas seus sarcasmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Achando-se irritado, n\u00e3o teme criticar os pr\u00f3prios deuses.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Nem fazer tro\u00e7a da modesta lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que esta guerra o devore! Est\u00e1 ficando muito infindo de sua valentia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Tal natureza, lisonjeada pelo grande \u00eaxito, desdenha a pr\u00f3pria sombra em que pisa de dia. S\u00f3 me admiro de que sua insol\u00eancia se conforme em ficar sob o mando de Com\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 A fama a que ele visa e que de gra\u00e7as j\u00e1 o cumulou bastante, nunca pode ser obtida t\u00e3o bem como num posto subalterno ao primeiro, porque todos os reveses \u00e0 conta s\u00e3o lan\u00e7ados do general somente, muito embora este tivesse feito o que cabia nos recursos humanos, e a censura leviana, ent\u00e3o, houvera proclamado: \u201cOh! se M\u00e1rcio estivesse frente disto!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Al\u00e9m do mais, correndo bem as coisas, a opini\u00e3o, que de M\u00e1rcio tanto pende, roubar\u00e1 de Com\u00ednio todo o m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sim; metade das gl\u00f3rias de Com\u00ednio ser\u00e1 de M\u00e1rcio, muito embora M\u00e1rcio n\u00e3o as tenha ganhado, e suas faltas redundar\u00e3o, tamb\u00e9m, em gl\u00f3ria deste, conquanto n\u00e3o lhe caiba nenhum m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Vamos saber agora as provid\u00eancias determinadas e com que recursos, al\u00e9m de seu valor, ele se apresta para a presente guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"crl12\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Cor\u00edolos. O senado. Entram Tulo Auf\u00eddio e senadores.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Assim, Auf\u00eddio, sois de parecer que os de Roma conhecem nossos planos e a par est\u00e3o de quanto ora intentamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 o vosso tamb\u00e9m? Qual \u00e9 a id\u00e9ia que j\u00e1 foi agitada em nosso Estado e em nosso Estado realizar-se p\u00f4de sem que, antes, Roma a n\u00e3o deixasse frustra? H\u00e1 quatro dias, s\u00f3, ouvi sobre isso, estas mesmas palavras&#8230; N\u00e3o, presumo que a carta est\u00e1 comigo. Aqui est\u00e1 ela. \u201cAliciaram soldados; n\u00e3o se sabe, por\u00e9m, se \u00e9 para leste ou para oeste. \u00c9 grande a carestia; amotinado se acha o povo, e o boato est\u00e1 correndo por aqui fora que Com\u00ednio, M\u00e1rcio, vosso velho inimigo \u2014 mais odiado da pr\u00f3pria Roma do que de v\u00f3s mesmo \u2014 e Tito L\u00e1rcio, esse viril romano, que os tr\u00eas dirigir\u00e3o os contingentes para onde se destinam, sendo quase certo que \u00e9 contra v\u00f3s. Pensai no caso.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 J\u00e1 temos nossas for\u00e7as na campanha. N\u00e3o duvidamos nunca de que prontos para a guerra os romanos estivessem.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Nem se vos figurou nunca tolice guardar sigilo sobre o plano ousado, at\u00e9 que por si mesmo se mostrasse. Mas pelo jeito, Roma soube disso ainda na chocadeira. Semelhante particularidade nos encurta demais o plano de tomar de assalto muitas cidades antes de ter Roma not\u00edcia de que est\u00e1vamos em campo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SENADOR \u2014 Assumi vosso posto, nobre Auf\u00eddio, tomando logo a dire\u00e7\u00e3o das tropas. De guarda ficaremos em Cor\u00edolos. Se eles vierem cercar-nos, trazei logo para aqui vossos homens. Mas eu penso que seus preparativos n\u00e3o vos visam.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Oh! n\u00e3o o duvideis; falo com provas. Mais, ainda: uma parte de seus homens j\u00e1 est\u00e1 em marcha, e para nossas bandas. Deixo Vossas Nobrezas. Se eu e Caio M\u00e1rcio nos encontrarmos, j\u00e1 fizemos o juramento de lutar sem pausa, at\u00e9 que um de n\u00f3s dois fique por terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Que os deuses vos assistam.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 E conservem Vossas Honras em paz.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SENADOR \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"crl13\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto em casa de M\u00e1rcio. Entram Vol\u00famnia e Verg\u00edlia; sentam-se em dois tambores e come\u00e7am a costurar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Cantai alguma coisa, filha, por obs\u00e9quio, ou exprimi-vos por qualquer outro modo prazenteiro. Se meu filho fosse meu marido, eu me mostraria mais alegre com essa aus\u00eancia, em que ele ganha honra, do que com os abra\u00e7os do leito nupcial com que ele me testemunhasse mais amor. Quando ele ainda era gr\u00e1cil de corpo e o \u00fanico filho de minhas entranhas; quando sua adolesc\u00eancia, com a gra\u00e7a muito pr\u00f3pria, atra\u00eda todos os olhares; quando qualquer outra m\u00e3e, ainda que instada durante um dia todo por um rei, n\u00e3o se teria privado de uma hora da satisfa\u00e7\u00e3o de contempl\u00e1-lo: eu, considerando que o mais adequado adorno de sua beleza seria a gl\u00f3ria e que ele valeria tanto como um quadro pendurado na parede, se aquela n\u00e3o o animasse, aprazia-me em mand\u00e1-lo procurar perigo onde pudesse encontrar a fama. Mandei-o para uma guerra cruel, de onde ele retornou com a fronte coroada de louros. Digo-te, filha, que n\u00e3o foi menor a minha alegria ao ouvir que havia dado \u00e0 luz a um var\u00e3o, do que ao saber pela primeira vez que ele se afirmara como homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Mas se ele tivesse morrido nesse neg\u00f3cio, senhora: que aconteceria depois?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Depois, o meu filho ficaria sendo seu belo nome, que me teria dado posteridade. Permite que te confesse com sinceridade: se eu tivesse uma d\u00fazia de filhos, todos iguais em meu amor, e nenhum menos caro do que o teu e o meu bom M\u00e1rcio, preferira ver onze morrer nobremente por sua p\u00e1tria a que um somente se fartasse numa ina\u00e7\u00e3o cheia de vol\u00fapia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra uma dama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DAMA \u2014 A senhora Val\u00e9ria veio ver-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Dai-me licen\u00e7a para retirar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 N\u00e3o; de jeito nenhum. S\u00f3 me parece que ou\u00e7o o tambor, daqui, de vosso esposo; vejo-o a puxar pelo cabelo Auf\u00eddio, fugindo dele os volscos como as crian\u00e7as fogem dos ursos; vejo-o como bate com o p\u00e9 no ch\u00e3o, assim, e como grita: \u201cPoltr\u00f5es, segui-me! Concebidos fostes no medo, embora em Roma ao mundo vi\u00e9sseis!\u201d A fronte ensang\u00fcentada, ent\u00e3o, limpando com a m\u00e3o de malha, segue para diante, tal como o ceifador que recebera por tarefa segar toda a lavoura, se receber quiser o estipulado.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 A fronte ensang\u00fcentada! Oh n\u00e3o! Por J\u00fapiter! Sangue, n\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh! calai-vos, minha tola. Sangue \u00e9 adorno mais belo, para os homens, do que trof\u00e9u dourado. O seio de H\u00e9cuba amamentando Heitor, mais agrad\u00e1vel apar\u00eancia n\u00e3o tinha do que a fronte do pr\u00f3prio Heitor, quando estilava sangue nos pr\u00e9lios contra os gregos. A Val\u00e9ria dize que ela \u00e9 bem-vinda a nossa casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai a dama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Que os c\u00e9us amparem meu marido contra o terr\u00edvel Auf\u00eddio!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Ele h\u00e1 de a fronte fazer vergar de Auf\u00eddio at\u00e9 aos joelhos, e o pesco\u00e7o pisar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta a dama com Val\u00e9ria e um porteiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Minhas senhoras, bom dia para ambas.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Querida senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Alegro-me por Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Como estais passando? Ambas sois notoriamente caseiras. Que est\u00e1veis cosendo? Belo modelo, em verdade. Como est\u00e1 vosso filhinho?<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Fico muito agradecida a Vossa Gra\u00e7a: est\u00e1 passando bem, minha boa senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Ele prefere ver espadas e ouvir tambor, a olhar para o mestre-escola.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Dou minha palavra em como \u00e9 igualzinho ao pai. Iria jurar que \u00e9 uma crian\u00e7a linda. Por minha f\u00e9, na quarta-feira eu o contemplei durante meia hora: tem uma fisionomia decidida. Vi-o correr emp\u00f3s de uma borboleta dourada; depois de a ter pegado, soltou-a de novo; depois, tornou a persegui-la por v\u00e1rias vezes, sempre a correr atr\u00e1s dela, at\u00e9 tornar a apanh\u00e1-la. Por \u00faltimo, ou por ter ficado exasperado por ter ca\u00eddo, ou por outra raz\u00e3o qualquer, rangeu os dentes assim e a despeda\u00e7ou. Oh! dever\u00edeis ter visto como a deixou em pedacinhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Revela os mesmos caprichos do pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Realmente; \u00e9 uma nobre crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 \u00c9 muito esperto, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Vamos, ponde de lado essa costura; passareis comigo a tarde de hoje como donas de casa desocupadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, minha boa senhora; hoje n\u00e3o porei os p\u00e9s fora da porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 N\u00e3o poreis os p\u00e9s fora da porta?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, sim; ela o far\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, se mo permitirdes. N\u00e3o transporei o umbral da casa enquanto meu senhor n\u00e3o voltar da guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Ora! Encarcerais-vos por maneira absurda. Vamos; precisais ir visitar a boa senhora que teve crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Almejo-lhe pronto restabelecimento e a visitarei com minhas ora\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o poderei ir \u00e0 sua casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 E por qu\u00ea, pergunto-vos?<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 para furtar-me a esse trabalho, nem por falta de amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Dever\u00edeis ser uma segunda Pen\u00e9lope. No entanto h\u00e1 quem diga que toda a l\u00e3 que ela fiou na aus\u00eancia de Ulisses s\u00f3 serviu para encher \u00cdtaca de tra\u00e7as. Vinde; desejara que vossa cambraia fosse t\u00e3o sens\u00edvel quanto vossos dedos, para que, por compaix\u00e3o, deixasses de espet\u00e1-la. Vamos; tereis de sair conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, minha boa senhora; desculpai-me, mas n\u00e3o sairei de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Por minha f\u00e9, vinde comigo, que vos darei excelentes not\u00edcias de vosso esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Oh! minha boa senhora; n\u00e3o pode ter chegado ainda nenhuma not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 \u00c9 certo; n\u00e3o estou brincando: chegaram not\u00edcias ontem \u00e0 tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 \u00c9 verdade, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Falando com toda a seriedade: \u00e9 certo. Ouvi-as da boca de um senador. Passou-se deste modo: os volscos t\u00eam em campo um ex\u00e9rcito, contra o qual partiu Com\u00ednio, na qualidade de general, com parte de nossas for\u00e7as romanas. Vosso marido e Tito L\u00e1rcio puseram cerco cidade de Cor\u00edolos. Eles n\u00e3o t\u00eam a menor d\u00favida com respeito \u00e0 vit\u00f3ria e ao t\u00e9rmino da campanha. Eis a verdade, por minha honra. Assim, vos pe\u00e7o, vinde conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Perdoai-me, minha boa senhora; por\u00e9m mais tarde vos serei obediente em tudo o mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Deixemo-la sozinha, minha senhora; no estado em que est\u00e1, s\u00f3 poder\u00e1 estragar-nos a alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Realmente, \u00e9 tamb\u00e9m o que penso. Passai bem, ent\u00e3o. Vamos, boa e querida senhora. Por obs\u00e9quio. Verg\u00edlia, p\u00f5e tua solenidade porta fora e vem passear conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, decididamente, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Est\u00e1 bem. Ent\u00e3o, adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante de Cor\u00edolos. Entram com tambores e estandartes M\u00e1rcio, Tito L\u00e1rcio, oficiais e soldados. Depois, aproxima-se um mensageiro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Ali vem novidade. Apostar quero em como houve combate.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Meu cavalo contra o vosso: n\u00e3o houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Aceito.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Aceito.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Dize: encontrou o general os volscos?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Est\u00e3o \u00e0 vista, mas n\u00e3o se falaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 O bom cavalo \u00e9 meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Compro-o de volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 N\u00e3o o vendo nem o dou, mas vo-lo empresto por cinq\u00fcenta anos. Intimai Cor\u00edolos para parlamentar.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 A que dist\u00e2ncia os dois corpos est\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 H\u00e1 milha e meia.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 certo ouvirmos seus rebates e eles os nossos. Marte, ouve meu voto! D\u00e1 que possamos terminar logo isto, para, de espadas fumegantes, irmos auxiliar os amigos na campanha. Corneteiro, o sinal! (<i>Toque para parlamentar. Sobre os muros aparecem dois senadores e v\u00e1rios cidad\u00e3os.<\/i>) Dentro dos muros se encontra Tulo Auf\u00eddio?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o temos na cidade ningu\u00e9m que vos receie menos que ele, o que \u00e9 menos do que nada. (<i>Toque de tambor.<\/i>) Ouvi! Nossos tambores os mancebos levam para o combate. Antes, decerto, derruirmos nossos muros, que ficarmos encurralados neles. Nossas portas, que julgais bem trancadas, est\u00e3o presas apenas por cani\u00e7os: por si mesmas h\u00e3o de se escancarar. Ouvi ao longe! (<i>Rebate long\u00ednquo.<\/i>) \u00c9 Tulo Auf\u00eddio. Ouvi de longe o estrago que ele faz, como fenda, em vosso ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 se atracaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Que esse estrondo nos sirva de li\u00e7\u00e3o. Escadas, eh!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Os volscos passam para o palco.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 N\u00e3o nos temem, pois saem da cidade. Em frente ao cora\u00e7\u00e3o ponde os escudos e combatei com cora\u00e7\u00f5es mais duros do que os pr\u00f3prios escudos. Bravo Tito, para a frente. O desd\u00e9m que eles demonstram ultrapassa de muito o que pens\u00e1vamos. Suo de indigna\u00e7\u00e3o. Meus companheiros, avan\u00e7ai! Tomarei por um dos volscos quem eu vir a recuar, e hei de mostrar-lhe se meu a\u00e7o \u00e9 cortante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Os romanos s\u00e3o repelidos at\u00e9 suas pr\u00f3prias trincheiras. Volta M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Que os flagelos do sul sobre v\u00f3s caiam! Sois o opr\u00f3brio de Roma, sois rebanho&#8230; Que as \u00falceras e as chagas vos emplastrem, para que vos torneis aborrecidos antes mesmo de terdes sido vistos, e cada um a infec\u00e7\u00e3o transmita aos outros, contra o vento, a uma milha de dist\u00e2ncia. Almas de pato com feitio de homens! Fugis de escravos. At\u00e9 mesmo os monos os teriam batido. Pluto e inferno! Todos feridos por detr\u00e1s! As costas rubras e as faces p\u00e1lidas de medo febril, todos fugis! Voltai \u00e0 carga, pelos fogos do c\u00e9u! Caso contr\u00e1rio, deixarei o inimigo e farei guerra contra v\u00f3s todos. Tende mais coragem! Vinde! Se persistirmos, a eles todos para as pr\u00f3prias esposas tocaremos, como conosco est\u00e3o fazendo agora para nossas trincheiras. (<i>Novo rebate. Tornam a entrar os volscos e os romanos, sendo renovada a pugna. Os volscos se retiram para Cor\u00edolos, perseguindo-os M\u00e1rcio at\u00e9 \u00e0s portas da cidade.<\/i>) Vede, as portas est\u00e3o escancaradas; secundai-me. A sorte se abre para os que perseguem, n\u00e3o para os fugitivos. Vede tudo que eu fizer e segui-me. (<i>Entra na cidade.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Que loucura! N\u00e3o o acompanharei.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Nem eu, tampouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fecham-se as portas da cidade.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Ei-lo trancado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Est\u00e1 perdido, aposto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O alarma continua.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Tito L\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Que foi feito de M\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Morto, chefe, sem d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Perseguindo bem rente aos calcanhares os fugintes, entrou com eles. Mas a porta, s\u00fabito, sobre ele se fechou. Est\u00e1 sozinho, para a toda cidade fazer frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 \u00d3 nobre companheiro! que insens\u00edvel! sendo, faz mais do que o insens\u00edvel gl\u00e1dio e firme se mant\u00e9m onde este dobra! Est\u00e1s abandonado, Caio M\u00e1rcio. Uma pedra preciosa de teu porte n\u00e3o fora j\u00f3ia de maior valia. Eras guerreiro em tudo condizente com os votos de Cat\u00e3o: n\u00e3o s\u00f3 com golpes rudes e violentos, mas tamb\u00e9m com a tua mirada pavorosa e as atroadoras pancadas de tua voz, os inimigos estremecer fazias, parecendo que tremia de febre o mundo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta M\u00e1rcio, coberto de sangue, perseguido pelos inimigos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Olhai, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 \u00c9 Caio M\u00e1rcio! Vamos libert\u00e1-lo ou, se n\u00e3o, morrer com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se, entrando todos na cidade.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"crl15\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Cor\u00edolos. Uma rua. Entram alguns romanos, com despojos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ROMANO \u2014 Levo isto para Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO ROMANO \u2014 E eu, isto aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO ROMANO \u2014 Ora que peste! Parecia prata!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O tumulto prossegue ao longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram M\u00e1rcio e Tito L\u00e1rcio, com um corneteiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Vede essa gente ativa, que avalia seu tempo pelas dracmas j\u00e1, fendidas. S\u00f3 colheres de chumbo, travesseiros, ferro velho, gib\u00f5es como os carrascos com os pr\u00f3prios donos enterrar costumam&#8230; \u00c9 o com que estes escravos se preocupam antes de estar a pugna terminada. Abaixo com eles todos! Vede a bulha que faz o general! Vamos salv\u00e1-lo! Eis ali o \u00f3dio de minha alma, Auf\u00eddio, a espetar os romanos&#8230; Nobre Tito, ficai com gente suficiente para segurar a cidade, enquanto eu corro com os que forem dotados de coragem, a socorrer Com\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Caro amigo, est\u00e1s sangrando muito; teu esfor\u00e7o foi por demais violento, para em outra refrega te arriscares.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Deixai desses elogios, senhor, que meu trabalho n\u00e3o me esquentou ainda. Passai bem. O sangue extravasado \u00e9 mais saud\u00e1vel para mim que nocivo. \u00c9 deste modo que quero ver Auf\u00eddio e combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Agora que Fortuna, a bela deusa, se enamore de ti e com seus grandes encantamentos deixe confundidas as espadas imigas. Destemido gentil-homem, que tenhas como pajem sempre a felicidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 E que n\u00e3o menos amiga se te mostre, como a quantos ela mais favorece. E agora, adeus!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Oh meu not\u00e1vel M\u00e1rcio! (<i>Sai M\u00e1rcio.<\/i>) Vai logo soar o toque de trombeta na pra\u00e7a do mercado, convocando todos os oficiais do burgo, para ficarem conhecendo nosso intento. Depressa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"crl16\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Perto do acampamento de Com\u00ednio. Entra Com\u00ednio com suas for\u00e7as, em retirada.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Tomai f\u00f4lego, amigos. Combatemos muito bem. Procedemos em tudo isto como romanos: nem sem pouco tino em nossa resist\u00eancia, nem covardes na hora da retirada. Acreditai-me, senhores, vamos ter novo recontro. Enquanto nos bat\u00edamos, nas pausas, o vento nos fazia ouvir a bulha dos ataques de nossos companheiros. Deuses romanos! dai que eles alcancem tudo o que para n\u00f3s tamb\u00e9m queremos, porque nossos ex\u00e9rcitos se juntem com faces sorridentes e vos prestem, em gratid\u00e3o, solene sacrif\u00edcio! (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Os homens de Cor\u00edolos as portas transpuseram da cidade e em luta se acham j\u00e1 com L\u00e1rcio e M\u00e1rcio. Vi nossos homens repelidos para nossas trincheiras. Nisso, vim correndo.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Embora digas a verdade, creio que n\u00e3o falaste bem. H\u00e1 quanto tempo foi isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 H\u00e1 mais de uma hora, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Daqui l\u00e1 h\u00e1 uma milha. H\u00e1 pouco ouvimos seus tambores. Por que gastaste uma hora para andar uma milha e nos trazeres not\u00edcias atrasadas?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Sentinelas volscas me perseguiram, obrigando-me a fazer uma volta de tr\u00eas milhas ou quatro, mais ou menos. N\u00e3o fora isso, meu senhor, eu teria em meia hora cumprido esta miss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Quem aparece naquele ponto, como se tivesse sido esfolado vivo? Oh deuses grandes! tem a forma de M\u00e1rcio, sendo certo que j\u00e1 o vi desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO (<i>dentro<\/i>) \u2014 Cheguei tarde?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o distingue o pastor com mais acerto entre o trov\u00e3o e o rufo de tambores, como eu distingo a voz do grande M\u00e1rcio entre outras mais humildes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Cheguei tarde?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Sim, caso n\u00e3o tragais sangue inimigo como manto, mas pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Num abra\u00e7o como do meu noivado vos aperto de encontro ao cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o jubiloso como no casamento, quando tochas para o leito de n\u00fapcias me levavam.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Flor dos guerreiros, que \u00e9 de Tito L\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Est\u00e1 ocupado apenas com decretos, uns \u00e0 morte condena, outros, a ex\u00edlio; deste se compadece, a um outro amea\u00e7a, aceita o pre\u00e7o do resgate de outro, Cor\u00edolos conservando para Roma tal como d\u00f3cil galgo na correia que \u00e0 vontade afrouxamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Onde se acha o poltr\u00e3o que me disse que v\u00f3s t\u00ednheis recuado at\u00e9 \u00e0s trincheiras? Onde se acha? Chamai-o aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Deixai-o, pois vos disse, t\u00e3o-somente, a verdade. Quanto a nossos cavalheiros, a plebe numerosa \u2014 a peste em todos! e v\u00e3o ter tribunos! \u2014 nunca do gato correu tanto o rato, como eles de poltr\u00f5es piores do que eles.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Teremos tempo para tais hist\u00f3rias? Onde est\u00e1 o inimigo? Sois senhores do campo? Se o n\u00e3o sois, por que parastes antes de s\u00ea-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 M\u00e1rcio, n\u00e3o tivemos sorte no encontro e fomos obrigados a recuar at\u00e9 aqui, por estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Onde est\u00e1 o inimigo? Sabeis a ordem de suas tropas e onde dispuseram seus homens de confian\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Penso, M\u00e1rcio, que as tropas da vanguarda s\u00e3o de ant\u00edates, as de maior confian\u00e7a, sob o mando de Auf\u00eddio, o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de suas mais gratas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Pelos pr\u00e9lios em que j\u00e1 temos combatido juntos; pelo sangue que, juntos, derramamos; por nossos votos de amizade eterna, conjuro-vos a enviar-me sem demora ao encontro de Auf\u00eddio e seus ant\u00edates. N\u00e3o deixeis escapar a conjuntura; mas, enchendo o ar de espadas e de lan\u00e7as, aproveitemos a hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Muito embora preferisse vos ver num grato banho e, ap\u00f3s, os membros refor\u00e7ar com b\u00e1lsamo, n\u00e3o ouso denegar vosso pedido: escolhei, pois, os que melhor vos podem auxiliar nessa empresa.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Os mais capazes s\u00e3o os de boa vontade. Assim, vos digo: se houver algu\u00e9m aqui \u2014 fora pecado duvid\u00e1-lo que tenha amor \u00e0 tinta com que me vejo agora besuntado; que por sua pessoa menos tema do que por um mau nome, e considere que \u00e9 prefer\u00edvel uma her\u00f3ica morte \u00e0 vida mal vivida; algu\u00e9m que a p\u00e1tria coloque muito acima de si mesmo: que esse valente \u2014 seja um s\u00f3, ou muitos \u2014 agite o bra\u00e7o assim, para mostrar-nos sua disposi\u00e7\u00e3o, e siga M\u00e1rcio. (<i>Todos prorrompem em exclama\u00e7\u00f5es, agitam as espadas, carregam M\u00e1rcio e jogam os bon\u00e9s para o alto.<\/i>) Oh, deixai-me! Pensais que eu seja espada? Se essas demonstra\u00e7\u00f5es forem sinceras, quem n\u00e3o valer\u00e1 mais que quatro volscos? N\u00e3o h\u00e1 entre v\u00f3s outros quem n\u00e3o possa antepor um escudo ao grande Auf\u00eddio, t\u00e3o duro quanto o dele. Muito embora a todos agrade\u00e7a, um certo n\u00famero, somente, escolher vou. Em qualquer outro recontro os mais ter\u00e3o a sua parte, conforme as circunst\u00e2ncias o exigirem. Em frente, pois. E agora, bem depressa, quatro entre v\u00f3s escolham para minha sortida os mais dispostos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ide, amigos, a lealdade provai de vosso gesto; conosco parte igual tereis em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>As portas de Cor\u00edolos. Tito L\u00e1rcio, tendo posto sentinelas nas portas de Cor\u00edolos, sai da cidade com tambor e corneta, para ir ao encontro de Caio M\u00e1rcio, acompanhado de um tenente, um destacamento de soldados e de um batedor.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Assim; guardai as portas; cumpri todas as minhas instru\u00e7\u00f5es. Enviai-me aquelas cent\u00farias, se eu mandar pedir refor\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TENENTE \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Entrai, fechando sobre n\u00f3s vossas portas. Vamos, guia; conduze-nos ao campo dos romanos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl18\" name=\"crl18\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VIII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um campo de batalha entre o acampamento dos romanos e dos volscos. Alarma. Entram por lados diferentes M\u00e1rcio e Auf\u00eddio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 S\u00f3 lutarei contigo, pois te odeio mais ainda que a um perjuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Justamente como eu a teu respeito. N\u00e3o possui a \u00c1frica uma serpente que eu odeie mais do que a tua gl\u00f3ria insuport\u00e1vel. Firma o p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Como escravo do outro morra quem primeiro correr e que o condenem depois os imortais.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Se eu fugir, M\u00e1rcio, escorra\u00e7a-me como a lebrezinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 H\u00e1 pouco menos de tr\u00eas horas, Tulo, sozinho combati em vossos muros. Fiz l\u00e1 o que bem quis. N\u00e3o \u00e9 meu sangue que v\u00eas a revestir-me. Para tua vingan\u00e7a, pois, arma tua for\u00e7a ao m\u00e1ximo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Ainda que Heitor tu fosses, o flagelo de que se ufana vossa altiva ra\u00e7a, n\u00e3o poderias escapar-me agora. (<i>Batem-se. Entram alguns volscos em socorro de Auf\u00eddio.<\/i>) Serventes, n\u00e3o guerreiros, vosso aux\u00edlio amaldi\u00e7oado me cobriu de opr\u00f3brio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem combatendo, perseguidos por M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl19\" name=\"crl19\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IX<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento romano. Rebate. Toque de retirada. Fanfarras. Entram, por um lado, Com\u00ednio e soldados romanos; por outro, M\u00e1rcio com o bra\u00e7o na tip\u00f3ia, e outros romanos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Tivesse eu de contar-te os feitos todos que hoje fizeste, n\u00e3o darias cr\u00e9dito algum ao que eu dissesse. Mas reservo-me para narr\u00e1-los onde os senadores v\u00e3o misturar com l\u00e1grimas sorrisos, onde os grandes patr\u00edcios a princ\u00edpio encolher\u00e3o os ombros, acabando por demonstrar espanto; onde as senhoras, com medo e a estremecer alegremente, querer\u00e3o ouvir mais; onde os tribunos obtusos e os plebeus embolorados, que \u00f3dio entranhado a tua gl\u00f3ria votam, a seu mau grado exclamar\u00e3o: \u201cAos deuses agradecemos terem dado a Roma semelhante guerreiro!\u201d De nossa festa s\u00f3 ter\u00e1s migalhas, pois j\u00e1 comeste \u00e0 farta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Tito L\u00e1rcio com suas tropas, de volta da persegui\u00e7\u00e3o ao inimigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 \u00d3 general! eis o corcel; n\u00f3s somos a gualdrapa, t\u00e3o-somente. N\u00e3o viste&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Deixai disso, por favor. Minha m\u00e3e, que carta branca possui para exaltar seu pr\u00f3prio sangue, me ofende ao elogiar-me. N\u00e3o fiz nada que n\u00e3o houv\u00e9sseis feito, isto \u00e9: o poss\u00edvel&#8230; Como v\u00f3s, animado&#8230; Pela p\u00e1tria foi tudo. Quem mostrou boa vontade, fez o que eu fiz.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o ireis ser o t\u00famulo de vosso pr\u00f3prio m\u00e9rito; \u00e9 preciso que Roma venha a conhecer seus filhos. Fora recepta\u00e7\u00e3o pior do que roubo, t\u00e3o vil como a cal\u00fania, vossos feitos ocultar e calar os elogios do que, elevado aos galarins da fama, parecera modesto. Assim, vos pe\u00e7o, em sinal do que sois, n\u00e3o como pr\u00eamio do que fizestes, que eu, em vossa frente fale a nossos soldados.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Tenho algumas feridas pelo corpo, que me doem, quando s\u00e3o relembradas.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Se as deixarmos no esquecimento a ingratid\u00e3o podia faz\u00ea-las gangrenar, vindo a cur\u00e1-las, assim, com a pr\u00f3pria morte. Dos cavalos apreendidos \u2014 e h\u00e1 muitos e excelentes de todos os tesouros que reunimos na cidade e no campo de batalha, o d\u00e9cimo vos damos, que apartado dever\u00e1 ser por vossa pr\u00f3pria escolha, antes da divis\u00e3o do grande esp\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Agradecido, general, vos fico; contudo, o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o me consente receber peita para minha espada. Recuso-me a aceit\u00e1-la, persistindo em reclamar o lote, simplesmente, que me toca em comum com os que tomaram parte ativa no feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra prolongada. Todos gritam: \u201cM\u00e1rcio! M\u00e1rcio!\u201d e atiram os bon\u00e9s e as lan\u00e7as. Com\u00ednio e L\u00e1rcio descobrem a cabe\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00c1RCIO \u2014 Que n\u00e3o tomem a soar os instrumentos que profanais assim. Se aduladores na campanha os tambores e as cornetas a tal ponto se mostram, que nas cortes e cidades pulule o servilismo de refalsado olhar. Quando o a\u00e7o fica t\u00e3o brando quanto a seda do vadio, fa\u00e7amos desta a prote\u00e7\u00e3o da guerra. Basta, vos digo. Por n\u00e3o ter ainda lavado o sangue do nariz nem posto por terra algum coitado, o que fizeram muitos outros tamb\u00e9m sem mais alarde, exaltais-me com vivas exagerados, como se eu gostasse de alimentar a minha pouquidade com louvores molhados em mentiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 \u00c9 excesso de mod\u00e9stia. Revelais-vos mais desumano para vossa gl\u00f3ria do que reconhecido aos companheiros que vo-la damos com sinceridade. Com vossa permiss\u00e3o, mas se viol\u00eancia contra v\u00f3s pr\u00f3prio praticais, algemas vos poremos \u2014 tal como se procede com quem se prejudica \u2014 e, ap\u00f3s, falamos com calma e seguran\u00e7a. Assim, que fique conhecido de n\u00f3s, do mundo todo, que a M\u00e1rcio toca a palma da vit\u00f3ria. Em testemunho disso, presenteio-o com meu nobre cavalo, conhecido no nosso acampamento, acompanhado de todos os pertences. De hoje em diante, por causa de seus feitos em Cor\u00edolos, ser\u00e1 \u2014 com a aclama\u00e7\u00e3o de todo o ex\u00e9rcito \u2014 chamado Caio M\u00e1rcio Coriolano! Possas usar o nome com nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Caio M\u00e1rcio Coriolano!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Sons de trombetas e tambores.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vou lavar-me; depois de limpo o rosto, vereis se eu coro ou n\u00e3o. De qualquer forma, vos fico agradecido. De bom grado monto em vosso cavalo, prometendo trazer esse bonito sobrenome como penacho do elmo e enaltec\u00ea-lo quanto em mim estiver.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Agora vamos para as tendas; mas antes do descanso escreveremos para Roma sobre nosso grande sucesso. Tito L\u00e1rcio, tereis de retornar para Cor\u00edolos e nos mandar os cidad\u00e3os mais dignos com quem posamos conversar acerca dos nossos interesses e dos deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Assim farei, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 J\u00e1 come\u00e7aram os deuses a zombar de mim. Havendo neste momento recusado d\u00e1divas principescas, for\u00e7ado ora me vejo a pedir um favor ao general.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 De antem\u00e3o est\u00e1 feito. Que desejas?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 De uma feita em Cor\u00edolos hospedei-me em casa de um pobre homem, que acolhida muito amiga me deu. Vi-o h\u00e1 momentos prisioneiro; gritou para o meu lado. Mas nesse instante descobri Auf\u00eddio, abafando-me a c\u00f3lera a piedade. Requeiro-vos, assim, a liberdade de meu pobre hospedeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Oh! bem pedido! Fosse ele o matador de um de meus filhos, livre seria como o pr\u00f3prio vento. Tito, soltai-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 M\u00e1rcio, e o nome dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por J\u00fapiter, esqueci! Estou cansado. Sinto a mem\u00f3ria fraca. N\u00e3o teremos vinho aqui perto?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vinde a nossa tenda. Est\u00e1 secando o sangue em vosso rosto. \u00c9 tempo de cuidarmos disso. Vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl110\" name=\"crl110\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena X<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento dos volscos. Fanfarra. Toque de corneta. Entra Tulo Auf\u00eddio, coberto de sangue, acompanhado de dois ou tr\u00eas soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Foi tomada a cidade!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Vai ser restitu\u00edda em vantajosas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Condi\u00e7\u00f5es! Quisera ser romano, pois n\u00e3o posso, como volsco, ser tudo o que sou mesmo. Condi\u00e7\u00f5es! Que tratado conter pode condi\u00e7\u00f5es boas para uma das partes que \u00e0 merc\u00ea est\u00e1 da outra? Cinco vezes, M\u00e1rcio, lutei contigo, e cinco vezes fui derrotado, o que se dar\u00e1 sempre, quero crer, se med\u00edssemos as for\u00e7as o n\u00famero de vezes que comemos. Oh! pelos elementos! Se de novo com ele me encontrar barba com barba, meu ser\u00e1 ou eu dele. J\u00e1 n\u00e3o mostra meu ardor a lealdade costumeira. Antes, pensava em vir a domin\u00e1-lo em iguais condi\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia: espada honrosa contra espada&#8230; Agora, se de novo o atacar, de qualquer jeito hei de venc\u00ea-lo: por ast\u00facia ou for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Ele \u00e9 o dem\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Muito mais ousado, mas menos astucioso. Envenenado meu valor se acha agora pela ofensa feita por ele. S\u00f3 por causa dele fugir\u00e1 de si mesmo. Nem santu\u00e1rio, nem sono, o estado de nudez, de doen\u00e7a, nenhum templo, nem mesmo o Capit\u00f3lio, a hora do sacrif\u00edcio, as santas preces dos sacerdotes, todos esses \u00f3bices antepostos \u00e0 f\u00faria, nada pode doravante antepor seus privil\u00e9gios e usos embolorados contra o grande \u00f3dio que eu voto a M\u00e1rcio. Vindo a ach\u00e1-lo, seja na minha casa, sob a guarda de meu irm\u00e3o, e at\u00e9 contra o direito sagrado que a todo h\u00f3spede devemos, no sangue de seu cora\u00e7\u00e3o pretendo lavar a m\u00e3o feroz. Ide \u00e0 cidade saber que for\u00e7a h\u00e1 l\u00e1 e que pessoas como ref\u00e9ns ter\u00e3o de ir para Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 E v\u00f3s, n\u00e3o vindes?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o; vou esperar-vos no bosque de ciprestes. For obs\u00e9quio \u2014 fica no sul dos moinhos da cidade \u2014 ide contar-me como vai o mundo. Conforme os passos dele, hei de esfor\u00e7ar-me por apressar os meus.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl21\" name=\"crl21\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Men\u00eanio, Sic\u00ednio e Bruto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 O \u00e1ugur me disse que esta noite vamos ter not\u00edcias.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Boas ou m\u00e1s?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caNIO \u2014 Pouco conformes aos votos do povo, pois ele n\u00e3o gosta de M\u00e1rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 A natureza ensina os animais a conhecer os amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 For obs\u00e9quio, a quem ama o lobo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ao cordeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sim, para devor\u00e1-lo, tal como os plebeus famintos desejariam fazer com M\u00e1rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 um cordeiro, com efeito, que bala como urso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 um urso, com efeito, que vive como cordeiro. Ambos v\u00f3s sois velhos; respondei ao que vos vou perguntar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO e BRUTO \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 De que enormidade \u00e9 M\u00e1rcio pobre, que n\u00e3o tenhais em abund\u00e2ncia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ele n\u00e3o \u00e9 pobre de nenhum defeito, sen\u00e3o bem provido de todos eles.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Principalmente de orgulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E a todos ultrapassa em jact\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 extraordin\u00e1rio! N\u00e3o sabeis em que conceito sois tidos aqui na cidade, quero dizer, por n\u00f3s outros da ala direita? N\u00e3o o sabeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBOS \u2014 Como assim? De que nos censuram?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 J\u00e1 que falais de orgulho&#8230; Mas n\u00e3o ireis ficar zangados, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBOS \u2014 Falai, senhor! Falai!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ora, n\u00e3o tem muita import\u00e2ncia, porque o pequeno ladr\u00e3o oportunidade vos roubar\u00e1 uma grande dose de paci\u00eancia. Soltai as r\u00e9deas ao capricho e ficai aborrecidos quanto quiserdes, no caso de encontrardes prazer nisso. Censurais M\u00e1rcio por causa de seu orgulho?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o somos os \u00fanicos a faz\u00ea-lo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sei muito bem que, sozinhos, fazeis muito pouca coisa, porque sem bastantes auxiliares vossos feitos se tornam espantosamente escassos. Tendes qualidades muito infantis para, sozinhos, realizardes muita coisa. Falais de orgulho&#8230; Oh! se pud\u00e9sseis virar a vista para a nuca e passar em revista vosso interior! Oh! se o pud\u00e9sseis!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que aconteceria, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ora, ent\u00e3o descobrir\u00edeis um par de magistrados \u2014 ali\u00e1s bobos \u2014 orgulhosos, sem merecimento, arbitr\u00e1rios e cabe\u00e7udos, como n\u00e3o h\u00e1 iguais em toda Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Men\u00eanio, v\u00f3s tamb\u00e9m sois bastante conhecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sim, sou conhecido como um patr\u00edcio bem humorado, que aprecia um bom copo de vinho quente sem mistura de nenhuma gota do Tibre; que passa por ter o pequeno defeito de prestar ouvidos \u00e0s primeiras reclama\u00e7\u00f5es; vivo e inflam\u00e1vel aos menores est\u00edmulos; um sujeito que se mostra mais familiar com o traseiro da noite do que com a fronte da manh\u00e3&#8230; Digo o que penso, gastando nesse esfor\u00e7o toda a minha maldade. Ao encontrar dois conselheiros como v\u00f3s \u2014 n\u00e3o poderei dizer que sois Licurgos redivivos \u2014 no caso de me ser desagrad\u00e1vel ao paladar a bebida que me derdes, fa\u00e7o logo uma careta. N\u00e3o poderei dizer que Vossas Senhorias elucidaram bem a mat\u00e9ria, quando descubro asneira em todas as vossas palavras; e conquanto precise mostrar-me satisfeito com os que dizem que sois pessoas graves e reverendas, ainda assim mentem descaradamente os que afirmam que tendes fisionomias agrad\u00e1veis. Se ledes todas essas coisas no mapa de meu microcosmo, conclui-se que sou bastante conhecido? Que defeito poder\u00e1 descobrir em meu car\u00e1ter vossa sagacidade m\u00edope, admitindo-se que eu seja mesmo t\u00e3o conhecido assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos, senhor; vamos; conhecemos-vos perfeitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o me conheceis, como n\u00e3o conheceis a v\u00f3s mesmos nem a coisa nenhuma. S\u00f3 ambicionais os chap\u00e9us e as pernas dos pobres diabos; gastais uma saud\u00e1vel e santa manh\u00e3 s\u00f3 em ouvir uma disputa entre um taberneiro e uma vendedora de laranja, e adiais para outra audi\u00eancia essa controv\u00e9rsia que n\u00e3o vale tr\u00eas vint\u00e9ns. Quando estais ouvindo a discuss\u00e3o entre as partes, se por acaso sois pin\u00e7ados pela c\u00f3lica, fazeis caretas de mascarados; levantais a bandeira vermelha contra toda paci\u00eancia e, reclamando aos gritos um urinol, despedis uma controv\u00e9rsia sangrenta, que fica ainda mais enleada depois de vossa audi\u00eancia, consistindo todo o vosso acordo em chamardes de marotos a ambos os litigantes. Um bem estranho par \u00e9 o que sois.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos, vamos, senhor; v\u00ea-se perfeitamente que sois mais h\u00e1bil como palha\u00e7o de mesa do que como juiz no Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 At\u00e9 os nossos sacerdotes se tornam zombadores, quando encontram tipos rid\u00edculos como v\u00f3s. O que dizeis com mais discernimento n\u00e3o paga o trabalho que tendes com agitar a barba, n\u00e3o merecendo vossas barbas t\u00famulo mais honroso do que servir de enchimento de travesseiro. No entanto dizeis que M\u00e1rcio \u00e9 orgulhoso, M\u00e1rcio que, num c\u00e1lculo muito por baixo, vale por todos os vossos antepassados at\u00e9 Deucali\u00e3o, muito embora seja bem poss\u00edvel que os melhores dentre eles n\u00e3o tivessem passado de carrascos heredit\u00e1rios. Muito boa tarde para Vossas Senhorias. Uma conversa\u00e7\u00e3o mais prolongada convosco poderia infectar-me o c\u00e9rebro, por serdes pastores dos bestiais plebeus. Tomo a ousadia de despedir-me de ambos. (<i>Bruto e Sic\u00ednio se afastam.<\/i>) (<i>Entram Vol\u00famnia, Verg\u00edlia e Val\u00e9ria.<\/i>) Ent\u00e3o, minhas formosas e nobres damas \u2014 e a lua, se fosse terrena, n\u00e3o teria mais nobreza \u2014 para onde vos leva os olhos com tanta pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Digno Men\u00eanio, o meu nobre M\u00e1rcio est\u00e1 a chegar. Pelo amor de Juno, vamos logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como! M\u00e1rcio est\u00e1 de volta?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Est\u00e1, meu digno Men\u00eanio; com a mais feliz confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Fica com o meu bon\u00e9, J\u00fapiter, e ainda te agradecerei. Ol\u00e1! M\u00e1rcio est\u00e1 de volta!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA e VERG\u00cdLIA \u2014 \u00c9 certo! \u00c9 certo!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Aqui est\u00e1 uma carta dele; o governo recebeu outra; sua esposa, uma terceira, e eu penso que em casa h\u00e1 outra para v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Hoje \u00e0 noite porei minha casa de pernas para o ar. Uma carta para mim!<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Sim, \u00e9 isso; uma carta para v\u00f3s. Eu pr\u00f3pria a vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Uma carta para mim! Isso me deixa com sa\u00fade para sete anos, durante os quais assobiarei para o m\u00e9dico. Comparada com esse cordial, a mais soberana prescri\u00e7\u00e3o de Galeno n\u00e3o passa de mezinha rid\u00edcula, que vale tanto como rem\u00e9dio de cavalo. N\u00e3o foi ferido? Ele sempre costumava voltar ferido para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Oh! n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh, sim! Est\u00e1 ferido; dou gra\u00e7as aos deuses por semelhante fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como eu tamb\u00e9m o fa\u00e7o, se as feridas n\u00e3o forem perigosas. Traz a vit\u00f3ria no bolso? As feridas sempre lhe v\u00e3o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Na fronte, Men\u00eanio; pela terceira vez ele retorna da guerra com a coroa de carvalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 E Auf\u00eddio, ele castigou com vontade?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Tito L\u00e1rcio escreveu que eles se bateram, mas Auf\u00eddio conseguiu escapar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Escapou a tempo, posso asseverar-lhe; que se ele houvesse persistido, eu n\u00e3o desejara ser aufidiuzado daquele jeito nem por todas as arcas de Cor\u00edolos. O senado j\u00e1 foi informado de tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sigamos, boas senhoras. Sim, sim, sim; o senado recebeu cartas do general, que atribui a meu filho toda a gl\u00f3ria da guerra. Nesta campanha ele ultrapassou do dobro suas proezas anteriores.<\/p>\n<p align=\"justify\">VAL\u00c9RIA \u2014 Realmente, contam-se coisas prodigiosas a seu respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Prodigiosas, sim, posso garantir-vos, e n\u00e3o sem o devido m\u00e9rito de sua parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Permitam os deuses que sejam verdadeiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Verdadeiras? Ora! ora!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caNIO \u2014 Verdadeiras, sim. Fosso jurar em como s\u00e3o verdadeiras. Onde \u00e9 que ele foi ferido? (<i>Aos tribunos.<\/i>) Deus guarde Vossas Rever\u00eancias! M\u00e1rcio est\u00e1 de volta; traz novos motivos de orgulho. (<i>A Vol\u00famnia.<\/i>) Onde \u00e9 que ele foi ferido?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 No ombro e no bra\u00e7o esquerdo. Ficar\u00e1 com cicatrizes grandes, para mostrar ao povo, quando tiver de pleitear um posto. Na expuls\u00e3o de Tarqu\u00ednio ele recebeu sete ferimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Um no pesco\u00e7o e dois na coxa&#8230; Que eu saiba, s\u00e3o nove.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Antes desta expedi\u00e7\u00e3o ele tinha vinte e cinco cicatrizes.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caNIO \u2014 Ent\u00e3o, agora tem vinte e sete; cada fenda representa o t\u00famulo de um inimigo. (<i>Fanfarras e aclama\u00e7\u00f5es.<\/i>) Escutai: trombetas!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 S\u00e3o os emiss\u00e1rios de M\u00e1rcio; \u00e0 frente ele traz barulho; atr\u00e1s s\u00f3 deixa l\u00e1grimas. O g\u00eanio escuro traz no bra\u00e7o forte; feroz o vibra: \u00e9 para todos morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sinal de advert\u00eancia. Trombetas. Entram Com\u00ednio e Tito L\u00e1rcio; entre eles, Coriolano com a coroa de carvalho, capit\u00e3es, soldados e um arauto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 Fica sabendo, Roma, que, sozinho, M\u00e1rcio lutou nas portas de Cor\u00edolos, onde ganhou, com honra, mais um nome, que a Caio M\u00e1rcio seguir\u00e1 com gl\u00f3ria: Coriolano! Bem-vindo sois a Roma, glorioso Coriolano!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Sois bem-vindo, glorioso Coriolano!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Basta! basta! Isso magoado o cora\u00e7\u00e3o me deixa. For obs\u00e9quio, \u00e9 o bastante.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Olhai, senhor, vossa m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Oh! J\u00e1 sei que conjurastes todos os deuses para o meu bom \u00eaxito. (<i>Ajoelha-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 N\u00e3o! de p\u00e9, meu soldado valoroso, meu gentil M\u00e1rcio, meu mui digno Caio, e o nome ganho com recentes gl\u00f3rias&#8230; Como \u00e9?&#8230; Devo chamar-te Coriolano? Mas, oh! tua mulher!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Meu gracioso sil\u00eancio, salve! Como! Terias rido, acaso, se eu tivesse voltado num esquife, j\u00e1 que choras por me veres em triunfo? \u00d3 minha cara! Olhos assim, somente t\u00eam as vi\u00favas de Cor\u00edolos e as m\u00e3es que os filhos choram.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Possam os deuses coroar-te agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Como! Ainda vives? (<i>A Val\u00e9ria.<\/i>) Oh! perd\u00e3o, senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 N\u00e3o sei para onde me virar. Bem-vindo! Bem-vindo, general, e assim v\u00f3s todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Um milh\u00e3o de bem-vindos. Posso, a um tempo, chorar e rir; estou pesado e leve. Bem-vindo sois. Que a maldi\u00e7\u00e3o atinja de cheio o cora\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o fica contente por te ver. Roma devia por v\u00f3s tr\u00eas estar sempre apaixonada. Mas pela f\u00e9, em nossas terras temos umas macieiras bravas que n\u00e3o podem ser enxertadas para vosso gosto. N\u00e3o importa. Bem-vindos sois, guerreiros! Urtiga \u00e9 sempre urtiga; n\u00e3o lhe damos outro nome; e os defeitos da estult\u00edcia ser\u00e3o sempre tolices.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Muito certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Men\u00eanio, sempre! sempre!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 Abri caminho por ali e avan\u00e7ai.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 A m\u00e3o&#8230; A vossa tamb\u00e9m. Antes de em casa ir a cabe\u00e7a refrescar, tenho de ir fazer visita \u00e0queles bons patr\u00edcios que me encheram n\u00e3o s\u00f3 de cumprimentos, mas, com estes, um fardo de honrarias.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Tive vida bastante para ver meus mais ardentes desejos realizados e conclu\u00eddo o edif\u00edcio de minha fantasia. S\u00f3 uma coisa ainda falta que, estou certa, nossa Roma ter\u00e1 de conceder-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ficai sabendo, boa m\u00e3e: prefiro servi-los como entendo a ser part\u00edcipe do comando como eles entenderem.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ao Capit\u00f3lio, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras de cornetas. Saem solenemente como entraram; os tribunos ficam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Todas as bocas falam dele, e para v\u00ea-lo as vistas j\u00e1 turvas p\u00f5em \u00f3culos. Vossa ama tagarela seu pimpolho deixa gritar a ponto de afogar-se. s\u00f3 para falar nele; a varredora de cozinha ata em torno do pesco\u00e7o pouco limpo seu pano mais valioso e, para olh\u00e1-lo, se pendura ao muro. As lojas, as sacadas, as janelas est\u00e3o cheias, repletos os telhados; as cumeeiras, montadas por figuras as mais variadas, todos empenhados, t\u00e3o-s\u00f3, em contempl\u00e1-lo. Os pr\u00f3prios fl\u00e2mines, t\u00e3o raramente vistos, se comprimem por entre a multid\u00e3o e ora se esbofam para um lugar obterem junto \u00e0 plebe. Nossas damas de v\u00e9us a guerra entregam entre o rosado e o branco em suas faces belamente pintadas aos estragos livres dos beijos do ardoroso Febo. Tamanha \u00e9 a confus\u00e3o, que at\u00e9 parece que o deus que o guia houvesse, de mansinho, penetrado em seu corpo transit\u00f3rio, para gra\u00e7a emprestar-lhe \u00e0 compostura.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Afirmo desde j\u00e1 que vai ser c\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nossas fun\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, em seu governo poder\u00e3o cochilar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ele n\u00e3o h\u00e1 de ter o comedimento necess\u00e1rio para at\u00e9 ao fim levar as honrarias; acabar\u00e1 perdendo o que ganhou.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 o que nos deixa, em parte, mais tranq\u00fcilos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o o duvideis um s\u00f3 momento: o povo, que n\u00f3s representamos, com seu velho e habitual \u00f3dio, ao menor pretexto h\u00e1 de esquecer seus t\u00edtulos recentes, sendo ele mesmo que h\u00e1 de oferecer-lhes essa oportunidade, estou cert\u00edssimo, m\u00e1xime porque timbra em demonstr\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Jurar o ouvi que se a pleitear o posto viesse de c\u00f4nsul, n\u00e3o se mostraria na pra\u00e7a do mercado, nem as vestes sujas dos suplicantes vestiria, nem, como de uso, mostraria as suas cicatrizes ao povo de mau h\u00e1lito, para pedir-lhes voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 \u00c9 muito certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Foram suas palavras: preferira n\u00e3o alcan\u00e7ar o posto, a vir a obt\u00ea-lo por outro meio que n\u00e3o seja o voto dos senhores e o anelo da nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Nada me agrada tanto como v\u00ea-lo persistir nessa id\u00e9ia e p\u00f4-la em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 o que far\u00e1, decerto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 E que h\u00e1 de em nosso proveito redundar, sendo para ele segura destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se n\u00e3o a dele, ent\u00e3o ser\u00e1 a de nossa autoridade. For isso relembremos aos do povo o \u00f3dio que M\u00e1rcio votou sempre a todos e como, se pudesse, os transformara em animais de carga, silenciara seus defensores e cortara todas as suas liberdades, sobre t\u00ea-los em tal conceito quanto aos atos pr\u00f3prios do ser humano e o esfor\u00e7o produtivo, que mais alma n\u00e3o chega a conceder-lhes do que aos pr\u00f3prios camelos de campanha, que alimentos s\u00f3 obt\u00eam, quando carregam pesados fardos, e pancada a rodo, quando caem sob a carga.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Tal id\u00e9ia, como o dissestes, sugerida a tempo, quando sua insol\u00eancia insuport\u00e1vel houver deixado o povo mais alerta \u2014 sendo que essa ocasi\u00e3o vir\u00e1 depressa, se excit\u00e1-lo soubermos, o que muito mais f\u00e1cil nos ser\u00e1 do que cachorros a\u00e7ular contra ovelhas \u2014 esse o fogo vai ser que incendiar\u00e1 sua palha seca, e cujas labaredas para sempre v\u00e3o deix\u00e1-lo tisnado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 No Capit\u00f3lio vos reclamam. Dizem que M\u00e1rcio vai ser c\u00f4nsul. Apertarem-se vi mudos para v\u00ea-lo, e muitos cegos para ouvi-lo falar. Nossas matronas atiram luvas; damas e meninas, len\u00e7os e charpas \u00e0 passagem dele. Dobram-se os nobres como se estivessem ante a est\u00e1tua de Jove, tendo os pr\u00f3prios comuns feito uma chuva de trovoada com seus gorros e vivas. \u00c9 inaudito.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos ao Capit\u00f3lio; disponhamos de olhos e ouvidos para o dia de hoje, mas de disposi\u00e7\u00e3o para o que possa resultar de tudo isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Irei convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo, O Capit\u00f3lio. Entram dois oficiais para colocar almofadas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO OFICIAL \u2014 Vamos! vamos! Eles j\u00e1 v\u00eam perto. Quantos s\u00e3o os candidatos para o consulado?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO OFICIAL \u2014 Tr\u00eas, \u00e9 o que dizem; mas todos est\u00e3o certos de que Coriolano ganhar\u00e1 o pleito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO OFICIAL \u2014 \u00c9 um sujeito valente, mas orgulhoso a conta inteira, e n\u00e3o gosta do povo comum.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO OFICIAL \u2014 For minha f\u00e9, h\u00e1 muitas personagens de proje\u00e7\u00e3o que adularam o povo, sem nunca lhes terem dedicado a menor afei\u00e7\u00e3o, como h\u00e1 outros que o povo amou sem saber porqu\u00ea. Ora, se o povo ama sem saber porqu\u00ea, tamb\u00e9m odeia sem maior fundamento. Assim, n\u00e3o se preocupando nem com o amor nem com o \u00f3dio que os plebeus possam votar-lhe, Coriolano prova que conhece perfeitamente a disposi\u00e7\u00e3o de todos eles, o que revela \u00e0 saciedade com sua nobre indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO OFICIAL \u2014 Se ele n\u00e3o se preocupa nem com o \u00f3dio nem com o amor dos plebeus, mant\u00e9m-se em equil\u00edbrio, sem lhes fazer bem nem mal. Mas a verdade \u00e9 que procura o \u00f3dio deles com mais empenho do que eles poderiam ser capazes de revelar-lho, sem deixar por fazer nada que possa apresent\u00e1-lo como inimigo declarado de todos. Ora, procurar t\u00e3o abertamente o \u00f3dio e o descontentamento do povo \u00e9 t\u00e3o prejudicial como o que ele pr\u00f3prio reprova; adul\u00e1-lo para obter-lhe as gra\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO OFICIAL \u2014 Ele se tornou benem\u00e9rito da p\u00e1tria; sua ascens\u00e3o n\u00e3o se fez por degraus t\u00e3o suaves como os dos que subiram \u00e0 for\u00e7a de se mostrarem insinuantes e corteses para o povo, desfazendo-se em zumbaias, sem que nada mais houvessem feito para se afirmarem em sua estima e aprecia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o; de tal modo plantou ele a honra nos olhos de todos e seus grandes feitos no cora\u00e7\u00e3o do povo, que ficarem caladas as bocas, sem proclamarem essa verdade, fora ingratid\u00e3o culposa, e contest\u00e1-lo, maldade inomin\u00e1vel que, dando a si pr\u00f3pria o desmentido, provocaria de quem quer que o ouvisse protestos e reprova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO OFICIAL \u2014 Bem; n\u00e3o falemos mais dele; \u00e9 um homem digno. Abramos caminho, que eles j\u00e1 est\u00e3o chegando.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trompa. Entram, precedidos de lictores, o C\u00f4nsul Com\u00ednio, Men\u00eanio, Coriolano, grande n\u00famero de senadores, Sic\u00ednio e Bruto. Os senadores sentam-se em seus lugares; os tribunos sentam-se \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 O neg\u00f3cio dos volscos terminado e ap\u00f3s termos mandado a Tito L\u00e1rcio ordem para voltar, o assunto m\u00e1ximo desta nossa reuni\u00e3o extraordin\u00e1ria vai consistir em premiar os nobres servi\u00e7os de quem soube com tal \u00eaxito defender sua p\u00e1tria. Assim, vos resta pedir agora, venerandos padres, que o atual c\u00f4nsul que na feliz campanha foi nosso general nos conte um pouco de todas as a\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias feitas por Caio M\u00e1rcio Coriolano, a quem agradecer agora vamos e enaltecer com honras dignas dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Bom Com\u00ednio, falai, sem omitir nada por ser extenso, convencendo-nos de que antes poder\u00e1 mostrar-se Roma deficiente no pr\u00eamio do que falhos de gratid\u00e3o seus filhos. (<i>Aos tribunos.<\/i>) De v\u00f3s outros, tribunos populares, reclamamos amig\u00e1vel ouvido e, ap\u00f3s, a vossa benigna interfer\u00eancia junto ao povo, para que aprove quanto aqui fizermos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Aqui comparecemos convocados para um pacto amig\u00e1vel, encontrando-nos de cora\u00e7\u00e3o dispostos a dar honras ao assunto agitado e a incentiv\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 O que faremos tanto mais felizes, se doravante ele mostrar que o povo tem em mais alto apre\u00e7o do que sempre revelou no passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vamos logo! Passemos ao que importa. Prefer\u00edvel fora nada dizer. N\u00e3o querer\u00edeis ouvir falar Com\u00ednio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 De bom grado; mas minha restri\u00e7\u00e3o tem mais cabida do que vossa censura.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ele aprecia vosso povo; mas n\u00e3o deveis for\u00e7\u00e1-lo a dormir a seu lado. Agora fale o mui digno Com\u00ednio. (<i>Coriolano se levanta e faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>) N\u00e3o; ficai.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Sentai-vos, Coriolano, sem corardes das gloriosas a\u00e7\u00f5es que praticastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Nobres, perdoai-me; mas preferiria ter de pensar de novo estas feridas a ouvir contar como cheguei a obt\u00ea-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Quero crer, meu senhor, que n\u00e3o deixastes vosso lugar por causa do que eu disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Oh n\u00e3o, senhor! Por\u00e9m j\u00e1 se tem dado resistir eu a golpes e, no entanto, p\u00f4r-me em fuga por causa de palavras. N\u00e3o me adulastes; logo, n\u00e3o feristes. Vosso povo, avalio-o pelo peso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 For obs\u00e9quio, sentai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Preferira que ao sol o cr\u00e2nio todo me arranhassem, quando soasse o alarma, a aqui sentar-me sem fazer coisa alguma e ouvir meus nadas transformados em monstros assombrosos. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Homens do povo, como poderia ele adular vossa cambada infinda \u2014 onde, entre mil, um bom, somente, se acha \u2014 quando, como estais vendo, ele prefere todos os membros arriscar pela honra, a deixar que um s\u00f3 ouvido ou\u00e7a seus feitos? Com\u00ednio, principiai.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 A voz me falta. Proclamados n\u00e3o podem ser os feitos de Coriolano por um peito d\u00e9bil. A virtude suprema \u2014 afirmam todos \u2014 \u00e9 a coragem, que mais que tudo os homens eleva e dignifica. Sendo certa semelhante premissa, em todo o mundo n\u00e3o h\u00e1 quem possa ser equiparado ao var\u00e3o de que falo. Quando tinha dezesseis anos e Tarqu\u00ednio contra Roma se levantou, ele nas pugnas se distinguiu de todos. O ent\u00e3o nosso ditador, a quem cito com louvores, o viu lutar, tendo testemunhado como ele, com seu queixo de amazona, correr fazia l\u00e1bios bigodudos. Defendeu um romano que ca\u00edra, tendo, \u00e0 vista do c\u00f4nsul, derrubado tr\u00eas dos opositores. Sim, ao pr\u00f3prio Tarqu\u00ednio se atreveu e o fez, de um golpe, tocar com o joelho em terra. Nesse dia de altos feitos, em que ele poderia representar como mulher na cena, provou ser o mais farte da campanha e alcan\u00e7ou a coroa de carvalho. Tendo passado, assim, da adolesc\u00eancia para virilidade t\u00e3o gloriosa, como o oceano cresceu, e no entrechoque de dezessete pugnas, depois disso, os louros empalmou dos gl\u00e1dios todos. De seu \u00faltimo feito, diante e dentro de Cor\u00edolos, confesso que n\u00e3o posso, falar como devera. Fugitivos soube deter, e por seu raro exemplo fez os covardes terem por brinquedo quanto era, ent\u00e3o, terror. Como sarga\u00e7os diante da quilha de um navio \u00e0 vela, dobravam-se os imigos e ficavam debaixo de seu beque. Sua espada, timbre da morte, n\u00e3o deixava nunca de marcar no alvo certo. Da cabe\u00e7a aos p\u00e9s era uma coisa s\u00f3 de sangue, cujas passadas eram concertadas com gritos de agonia. Ele, sozinho, entrou na mortal porta da cidade que tingiu com o destino inevit\u00e1vel; sem aux\u00edlio, escapo e, de repente, com s\u00fabito refor\u00e7o foi em cima, de Cor\u00edolos cair como um planeta. Tudo, ent\u00e3o, lhe pertence. E quando, aos poucos, o clangor da batalha o ouvido fino come\u00e7ou de ferir-lhe, in continenti duplamente restauram-lhe os esp\u00edritos o que na carne se encontrava lasso, e voltou para a luta, onde passava fumegante por sobre a vida de homens como se fosse a destrui\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua. E s\u00f3 quando a cidade e o vasto campo pudemos chamar nosso, foi que pausa ele se permitiu, para que f\u00f4lego viesse enfim a tomar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Digno romano!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Adequadas \u00e0 sua envergadura s\u00e3o as honras que vamos conferir-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Em nosso esp\u00f3lio deu com o p\u00e9, olhando para as coisas mais ricas, como se elas n\u00e3o passassem de esc\u00f3ria vil terrena. Cobi\u00e7a menos do que poderia dar-lhe a pr\u00f3pria mis\u00e9ria. A recompensa de seus atos, e encontra-a em realiz\u00e1-los, e, arrematando-os, passa alegre o tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 nobre em toda linha. Convocai-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Que chamem Coriolano!<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 J\u00e1 vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Coriolano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Alegra-se o senado, Coriolano, em fazer de ti c\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Minha vida sempre lhes deverei e meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 S\u00f3 falta dirigirdes-vos ao povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Pe\u00e7o-vos dispensardes-me desse uso, pois n\u00e3o posso vestir a loba humilde, de cabe\u00e7a despida apresentar-me e suplicar ao povo que por minhas feridas me conceda seus sufr\u00e1gios Dispensai-me, vos pe\u00e7o, dessa parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Senhor, o povo deve ter seu voto. Jamais abater\u00e3o uma part\u00edcula desse cerimonial.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o forceis muito, por favor; conformai-vos a essa praxe e recebei essa honra como todos vossos predecessores: como \u00e9 de uso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 uma com\u00e9dia que eu s\u00f3 represento vermelho de vergonha e que podia muito bem ser do povo retirada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO (<i>\u00e0 parte, a Sic\u00ednio<\/i>) \u2014 Estais vendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Gabar-me diante deles: \u201cFiz isto e aquilo!\u201d patentear-lhes minhas cicatrizes in\u00f3cuas, que de todos eu devera ocultar, como se houvesse ganho essas marcas s\u00f3 pelo sal\u00e1rio do h\u00e1lito deles todos!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Basta! Basta! N\u00e3o insistais sobre isso. A v\u00f3s, tribunos do povo, apresentamos a proposta, e ao nosso nobre c\u00f4nsul desejamos honra e felicidade!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENADORES \u2014 A Coriolano honra e felicidade!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Sic\u00ednio e Bruto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 S\u00f3 por isso, vedes como ele vai tratar o povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Oh! possam eles perceber-lhe o intento! Ir\u00e1s falar-lhes como quem se indigna de que dependa deles conceder-lhes o que lhes vai pedir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos embora. Vou inform\u00e1-los do que aqui fizemos. Tenho ci\u00eancia de que nos esperam na pra\u00e7a do mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl23\" name=\"crl23\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O foro. Entram v\u00e1rios cidad\u00e3os.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Em resumo: se ele pedir nossos votos, n\u00e3o devemos negar-lhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Poderemos, senhor, se o quisermos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Temos esse direito; mas \u00e9 um direito que n\u00e3o temos o direito de exercer. Forque se ele nos mostrar suas feridas e nos relatar seus feitos, teremos de emprestar nossas vozes \u00e0quelas feridas e de falar por elas. Desse modo, se ele nos contar seus nobres feitos, por nossa parte teremos de exprimir-lhe nossa nobre aprova\u00e7\u00e3o. A ingratid\u00e3o \u00e9 coisa monstruosa; deixar que a multid\u00e3o se torne ingrata \u00e9 transform\u00e1-la em monstro; ora, sendo n\u00f3s membros da multid\u00e3o, passaremos a ser membros monstruosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 precisa muita coisa para que n\u00e3o seja muito melhor do que isso o ju\u00edzo que ele faz de todos n\u00f3s, porque no tempo em que nos amotinamos por causa do trigo ele n\u00e3o vacilou em chamar-nos de monstro de mil cabe\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Muita gente j\u00e1 nos tem dado esse nome, que n\u00e3o vem do fato de haver entre n\u00f3s cabe\u00e7as louras, castanhas, pretas ou calvas, mas de termos o esp\u00edrito de colorido diferente. E, em verdade, estou convencido de que se todos os nossos pensamentos tivessem de sair de um s\u00f3 cr\u00e2nio, voariam de pronto para leste, norte e sul, s\u00f3 havendo unanimidade, quanto ao caminho direito, em se dispersarem imediatamente pelos quatro pontos cardeais.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Essa \u00e9 a vossa opini\u00e3o? Para que lado, ent\u00e3o, pensais que meu pensamento voaria?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ora, vosso pensamento n\u00e3o escaparia t\u00e3o velozmente como o de qualquer outra pessoa; est\u00e1 muito fortemente encavilhado numa cabe\u00e7a de pau. Mas no caso de libertar-se, \u00e9 certeza que seguiria para o lado do sul.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 E por que para esse lado?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Para perder-se num nevoeiro; depois de ficar com tr\u00eas quartas partes dissolvidas nas brumas p\u00fatridas, retornaria a quarta, por quest\u00e3o de consci\u00eancia, para ajudar-vos a arranjar uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Estais, sempre com brincadeiras. Continuai! continuai!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Estais, portanto, resolvidos a dar o vosso voto? Pouco importa. \u00c9 a maioria que decide. Penso que se ele se inclinar para o povo, n\u00e3o haver\u00e1 homem mais digno. (<i>Entra Coriolano, com traje humilde, e Men\u00eanio.<\/i>) A\u00ed vem ele com vestes humildes; observai sua atitude. N\u00e3o devemos ficar juntos; passemos por ele insuladamente, ou em grupos de dois e de tr\u00eas. Ter\u00e1 de fazer o pedido a cada cidad\u00e3o, com o que cada um de n\u00f3s ganhar\u00e1 honra em dar-lhe o voto com a pr\u00f3pria voz e a pr\u00f3pria boca. For isso, acompanhai-me, que eu vos indicarei o modo de vos aproximardes dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 De acordo! de acordo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Senhor, estais errado; pois decerto sabeis que os cidad\u00e3os mais conceituados assim mesmo fizeram.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 De que modo falar-lhes? \u201cPe\u00e7o-vos, senhor&#8230;\u201d Malditos! N\u00e3o posso p\u00f4r a l\u00edngua nesse passo. \u201cContemplai, meu senhor, estas feridas; no servi\u00e7o da p\u00e1tria ganhei todas, quando muitos dos vossos companheiros aos urros debandavam, s\u00f3 de ouvirem nossos pr\u00f3prios tambores.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Pelos deuses! n\u00e3o faleis assim. Deveis lev\u00e1-los a pensar sobre v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Pensar em mim? Que se enforquem! Prefiro que se esque\u00e7am do que me diz respeito, como o fazem com a virtude que, em pura perda, os padres gastam com eles todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Desse modo estragar\u00edeis tudo. Vou deixar-vos. For obs\u00e9quio, falai-lhes, por obs\u00e9quio, por maneira razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Nesse caso mandai que todos v\u00e3o lavar o rosto e limpar mais os dentes. (<i>Sai Men\u00eanio.<\/i>) Eis que chega uma parelha deles. (<i>Voltam dois cidad\u00e3os.<\/i>) Com certeza sabeis, senhor, por que me encontro aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Perfeitamente, senhor; dizei-nos o que vos levou a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Meu pr\u00f3prio m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Vosso pr\u00f3prio m\u00e9rito!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim, que n\u00e3o foi meu desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Como! N\u00e3o vosso desejo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o, senhor, pois nunca desejei incomodar com pedidos os pobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Deveis imaginar que se vos dermos alguma coisa ser\u00e1 com a esperan\u00e7a de obter alguma recompensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ent\u00e3o dizei-me, por obs\u00e9quio, qual \u00e9 o pre\u00e7o do consulado?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 O pre\u00e7o \u00e9 um pedido delicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Delicado! Ora, senhor! concedei-mo, por obs\u00e9quio. Tenho que mostrar-vos cicatrizes, o que poderei fazer em particular. Vosso bom voto, senhor&#8230; Que me dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Ser\u00e1 vosso, digno senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Neg\u00f3cio feito, senhor. Ao todo, j\u00e1 mendiguei dois dignos votos. Aceito vossos \u00f3bolos. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Tudo isso \u00e9 um pouco estranho!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Se tiv\u00e9ssemos de conced\u00ea-lo de novo&#8230; Ora! n\u00e3o importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os dois cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam dois outros cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por obs\u00e9quio, se se concilia com o tom de vossa voz que eu venha a ser c\u00f4nsul, aqui me encontro com as vestes do estilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Tomastes-vos com nobreza merecedor da p\u00e1tria, e n\u00e3o vos tomastes merecedor com nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vossa charada?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Fostes flagelo para os inimigos dela; fostes a\u00e7oite para seus amigos. O certo \u00e9 que jamais amastes o povo comum.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Tanto maior \u00e9 o cabedal de virtude que dever\u00edeis levar \u00e0 minha conta, por eu n\u00e3o ter sido comum em minhas afei\u00e7\u00f5es. Vou adular, senhor, meus irm\u00e3os jurados, as pessoas, do povo, para merecer deles mais cordial estima&#8230; por ser essa a condi\u00e7\u00e3o que eles consideram am\u00e1vel. E por preferirem eles, em sua sabedoria, meu chap\u00e9u a meu cora\u00e7\u00e3o, vou exercitar-me nas curvaturas aduladoras, para sair-me do caso com o mais-completo fingimento. Quero dizer, senhor, vou imitar a fascina\u00e7\u00e3o de algum homem popular e conced\u00ea-la a mancheias a quantos a desejarem. Por isso, concordai, vos pe\u00e7o em que eu venha a ser c\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Esperamos encontrar em v\u00f3s um amigo; por isso, de cora\u00e7\u00e3o vos damos nossos votos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Recebestes muitas feridas na defesa da p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o desejo selar vosso conhecimento com mostrar-vo-las. Farei grande cabedal de vossos votos, n\u00e3o desejando incomodar-vos por mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBOS OS CIDAD\u00c3OS \u2014 Que os deuses vos d\u00eaem alegria, senhor, de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que votos agrad\u00e1veis! Antes morrer de fome, alarvemente, do que ter de pedir a tanta gente quanto j\u00e1 nos pertence. Como logo vestido, assim, que fa\u00e7o \u2014 grande bobo! \u2014 pedindo a Pedro e a Jo\u00e3o o voto estulto? Chamam a isso costume; \u00e9 quase um culto; mas se seguirmos o costume em tudo, o p\u00f3 do tempo ficar\u00e1 rabudo, e tal montanha de erros se levanta, que a verdade, de vez, enfim suplanta. Se n\u00e3o quiser estupidificar-me deixemos logo o of\u00edcio com seu carme para quem se disp\u00f5e a exercit\u00e1-lo. J\u00e1 consegui vencer meio intervalo. Ora, tendo sofrido uma metade, a outra, por isso, perecer n\u00e3o h\u00e1 de. Eis outros votos que nos chegam. (<i>Voltam mais tr\u00eas cidad\u00e3os.<\/i>) Vossos votos, senhores. Foi por vossos votos que eu combati; velei por vossos votos; recebi duas d\u00fazias de feridas, ou mais, por vossos votos. Vi batalhas e ouvi tr\u00eas vezes seis; s\u00f3 pelos vossos votos fiz muitas coisas; umas, grandes; outras, pequenas. Bem; os vossos votos. Desejara ser c\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINTO CIDAD\u00c3O \u2014 Ele se conduziu com nobreza, n\u00e3o podendo, portanto, deixar de alcan\u00e7ar o voto das pessoas honestas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEXTO CIDAD\u00c3O \u2014 Ent\u00e3o, que se torne c\u00f4nsul. Que os deuses lhe concedam alegria e o fa\u00e7am amigo do povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Am\u00e9m! Am\u00e9m! Deus te proteja, nobre c\u00f4nsul!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Dignos votos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Men\u00eanio, com Bruto e Sic\u00ednio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Passastes bem o prazo estipulado. Os tribunos vos d\u00e3o a voz do povo. Agora s\u00f3 vos resta p\u00f4r as vestes oficiais e logo ir para o senado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Aqui j\u00e1 terminou?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Satisfizestes os costumes do rogo. Assim, o povo vos aprova, ficando convocado para a confirma\u00e7\u00e3o de vossa escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Onde isso? No senado?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Sim, l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Posso trocar de roupa?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Sim, mui digno senhor; podeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vou fazer isso logo; e, depois de voltar a ser eu mesmo, irei para o senado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Irei convosco. N\u00e3o vindes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos esperar o povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Passai bem. (<i>Saem Coriolano e Men\u00eanio.<\/i>) Alcan\u00e7ou o que queria. No olhar revela, quero crer, o ardor que tem no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Com que arrog\u00e2ncia envergou ele as vestes da humildade! Despedireis o povo?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ent\u00e3o, meus mestres? Elegestes esse homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Teve os nossos votos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 S\u00f3 pe\u00e7o aos deuses que ele mere\u00e7a vosso amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Am\u00e9m, senhor. Segundo minha humilde observa\u00e7\u00e3o, de n\u00f3s zombava ao nos pedir os votos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 certo: motejou de ponta a ponta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o zombou de n\u00f3s; fala assim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 A n\u00e3o ser v\u00f3s, h\u00e1 quem n\u00e3o afirme que nos tratou com insol\u00eancia extrema. N\u00e3o nos mostrou as cicatrizes de honra que recebeu lutando pela p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Como! Mostrou; tenho certeza disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o! Ningu\u00e9m as viu.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Somente disse que tinha cicatrizes e que estava pronto a mostr\u00e1-las em particular. Agitando, depois, com ar de esc\u00e1rnio, deste modo, o chap\u00e9u, \u201cDesejaria ser c\u00f4nsul\u201d disse, \u201ce c\u00f4nsul n\u00e3o consente o uso antigo que seja sem que obtenha vossos votos. Por isso: vossos votos!\u201d E ap\u00f3s lhos concedermos: \u201cAgrade\u00e7o\u201d, prosseguiu, \u201cvossos votos; obrigado vos sou por esses votos inef\u00e1veis. Mas, uma vez que vos comprometestes, liquidemos as contas\u201d. N\u00e3o \u00e9 isso, dizei, puro sarcasmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 E como fostes t\u00e3o ignaros que n\u00e3o o percebestes, ou, tendo-o percebido, revelastes tamanha ingenuidade, para dar-lhe vosso voto amig\u00e1vel?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o pod\u00edeis ter-lhe dito, tal como vos instru\u00edmos, que quando ele n\u00e3o tinha for\u00e7a alguma, qual subalterno servidor do Estado, era vosso inimigo, falou sempre contra vosso direito e os privil\u00e9gios de que gozais no corpo da rep\u00fablica? E agora, ap\u00f3s ter alcan\u00e7ado um posto poderoso no leme do governo, se continuar a se mostrar inimigo maligno dos plebeus, n\u00e3o poderia dar-se que vossos votos a ser venham a maldi\u00e7\u00e3o que contra v\u00f3s se vira? Dever\u00edeis ter dito que assim como seus dignos feitos mereciam quanto pretendia ele ent\u00e3o, tamb\u00e9m seria de esperar que ele em sua natureza graciosa se lembrasse de v\u00f3s todos e dos votos pedidos, transformando-se em amizade a sua malqueren\u00e7a e ele em vosso afetuoso protetor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Essa linguagem, como vos dissemos antecipadamente, lhe teria calado fundo na alma e posto \u00e0 prova seu pendor verdadeiro, sobre ter-lhe promessas amig\u00e1veis arrancado, de que depois vos aproveitar\u00edeis conforme as ocasi\u00f5es; ou ent\u00e3o deixara corro\u00edda sua natureza abrupta, que n\u00e3o se dobra a imposi\u00e7\u00e3o nenhuma. Ora, uma vez zangado, poder\u00edeis ter tirado partido de sua c\u00f3lera, para n\u00e3o eleg\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Percebestes o sarcasmo com que ele vos falava, pedindo vosso apoio, quando tinha necessidade de alcan\u00e7ar uns votos, e imaginais que seu desprezo nunca vir\u00e1 a vos ser nocivo, quando for\u00e7a ele tiver para esmagar a todos? Como! N\u00e3o tendes cora\u00e7\u00e3o no corpo? S\u00f3 l\u00edngua para gritar contra os pr\u00f3prios preceitos da raz\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 J\u00e1 recusastes muitos pedintes, para agora dardes a quem nada pediu e riu de todos, vossos sufr\u00e1gios t\u00e3o solicitados?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00e3o foi ainda confirmado; f\u00e1cil nos fora recus\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 E assim furemos; tenho quinhentos votos desse timbre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 E eu duas vezes isso, sem contarmos os votos dos amigos deles todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ide logo dizer a esses amigos que eles agora um c\u00f4nsul elegeram que os privar\u00e1 de suas liberdades e a voz dos c\u00e3es, apenas, vai deixar-lhes, nos quais batemos por ladrarem, sendo que os criamos para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ide reuni-los; e que, ap\u00f3s julgamento mais sadio, essa escolha desfa\u00e7am mais que est\u00fapida. Insisti sobre o orgulho e no velho \u00f3dio que sempre vos dicou, e, sobretudo, n\u00e3o deixeis de falar no alto desprezo com que envergou as vestes da humildade; como vos desprezava com toda a alma. Lembrai, por\u00e9m, que vossas simpatias, tomando em conta seus atuais servi\u00e7os, a esquecer vos levou sua conduta neste momento, impertinente e f\u00fatil, pauta apenas no \u00f3dio inveterado que a todos v\u00f3s dedica.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Toda a culpa descarregai em n\u00f3s, vossos tribunos, dizendo que nos esfor\u00e7amos para remover os obst\u00e1culos, fazendo que vossa escolha reca\u00edsse nele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Dizei-lhes que o escolhestes mais por nossas injun\u00e7\u00f5es do que mesmo iluminados por vossos verdadeiros sentimentos; e que, tendo ocupado, assim, o esp\u00edrito mais com o que vos impunham do que mesmo com o que fazer, apenas, dever\u00edeis, contra vossos desejos o elegestes para esse cargo. Ponde em n\u00f3s a culpa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Isso! N\u00e3o nos poupeis, dizendo a todos como vos doutrinamos v\u00e1rias vezes sobre os servi\u00e7os que ele, ainda t\u00e3o jovem, prestou a nossa terra e continua prestando, e sobre o trono origin\u00e1rio, a casa nobil\u00edssima dos M\u00e1rcios, de onde Anco M\u00e1rcio veio, aquele filho de uma filha de Numa, que o reinado aqui teve depois do grande Host\u00edlio. Da mesma casa foram P\u00fablio e Quinto, que a melhor \u00e1gua por canais nos deram&#8230; Mais: Censorino, assim apelidado \u2014 com honra, pois censor foi duas vezes \u2014 foi mui glorioso antepassado dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Com uma origem dessas e, por cima, com predicados pr\u00f3prios que o tornavam digno do posto, fui recomendado por n\u00f3s a vossa estima. Mas achastes, depois de sopesar sua conduta presente com o passado, que ele \u00e9 vosso figadal inimigo e que, por isso, retirais vosso voto irrefletido.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Dizei-lhes que jamais ter\u00edeis feito tal coisa \u2014 insisti muito nesse ponto \u2014 sem nossa sugest\u00e3o. E quando todos estiverem reunidos, dirigi-vos direto ao Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Assim faremos. Quase todos est\u00e3o arrependidos de semelhante escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que prossigam. Ser\u00e1 melhor correr os riscos deste levantamento do que, sem certeza, condi\u00e7\u00f5es mais prop\u00edcias esperarmos. Se, com o g\u00eanio que tem, ficar furioso com a recusa deles, observemos bem sua c\u00f3lera e tiremos dela o m\u00e1ximo proveito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ao Capit\u00f3lio! Antes da onda do povo l\u00e1 estaremos, parecendo, o que em parte \u00e9 verdadeiro, que por impulso pr\u00f3prio agiram, quando, de fato, os aguilhoamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma rua. Cornetas. Entram Coriolano, Men\u00eanio, Com\u00ednio, Tito L\u00e1rcio, senadores e patr\u00edcios.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 certo, ent\u00e3o, que Tulo Auf\u00eddio se acha novamente de p\u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Perfeitamente, senhor, sendo essa a causa de nos termos unido t\u00e3o depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ent\u00e3o os volscos se encontram como no princ\u00edpio, prontos, conforme as circunst\u00e2ncias, a atacar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 T\u00e3o gastos, senhor c\u00f4nsul, est\u00e3o todos, que mui dificilmente em nossas vidas veremos seus pend\u00f5es outra vez soltos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vistes Auf\u00eddio?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Veio procurar-me com passe livre, tendo amaldi\u00e7oado todos os volscos, por cedido haverem a cidade com tanta covardia. Retirou-se para \u00c2ntio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Falou de mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Falou, senhor,<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Mas como? Que disse?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Que convosco se encontrara muitas vezes, espada contra espada; que n\u00e3o h\u00e1 coisa alguma sobre a terra de que ele, como a v\u00f3s, tanto \u00f3dio tenha, e que de grado arriscaria todos os seus bens em parada perigosa, contanto que pudesse ser chamado de vosso vencedor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vive ora em \u00c2ntio?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c1RCIO \u2014 Em \u00c2ntio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Desejara ter motivo para ir l\u00e1 procur\u00e1-lo e, assim, opor-me de cheio, ao seu rancor. Sois mui bem-vindo. (<i>Entram Sic\u00ednio e Bruto.<\/i>) Os tribunos do povo, vede! a l\u00edngua da boca dos comuns! Tenho por eles s\u00f3 desprezo, por causa da maneira por que se pavoneiam nos seus cargos. N\u00e3o h\u00e1 paci\u00eancia nobre que os suporte.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Parai a\u00ed!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que \u00e9 que houve? Que acontece?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Seria perigoso ir mais adiante.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Qual foi a causa de uma tal mudan\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o foi, acaso, eleito pelos nobres e, assim, pelos comuns?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o, Com\u00ednio; n\u00e3o foi.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ent\u00e3o s\u00f3 obtive votos de crian\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Abri-nos o caminho, tribunos; ele vai para o mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Exaltado contra ele se acha o povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Detende-vos; se n\u00e3o, sair\u00e1 barulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Esse \u00e9 o vosso rebanho? Ser\u00e1 digno de votar quem promete seu sufr\u00e1gio para, no mesmo instante, retir\u00e1-lo? Que foi feito de vossa autoridade? Se a boca sois do povo, por que causa n\u00e3o dirigis seus dentes? Porventura n\u00e3o os espica\u00e7astes?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Calma! calma!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 de caso pensado; houve conjura para dobrar o voto da nobreza. Tolerai isso e, ap\u00f3s vivei com quem n\u00e3o sabe nem mandar nem ser mandado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o faleis de conjura. O povo grita que o ludibriastes e que h\u00e1 pouco tempo, quando foi distribu\u00eddo trigo gr\u00e1tis, v\u00f3s murmurastes e fizestes tro\u00e7a de seus representantes e os chamastes de criados do momento, aduladores, inimigos dos nobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Mas tudo isso era mais que sabido.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o de todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Quer dizer que depois os informastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Eu, inform\u00e1-los? Como!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sois capazes de semelhantes atos,<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pelo menos sou capaz de melhores do que os vossos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ent\u00e3o, por que eu teria de ser c\u00f4nsul? Oh! pelas nuvens! Arranjai um jeito de, como v\u00f3s, eu me tornar inepto e me nomeai tribuno ao vosso lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Revelais em excesso o que tem feito tanto excitar o povo. Se quiserdes alcan\u00e7ar o alvo a que visais, for\u00e7oso vos ser\u00e1 procurar a estrada certa, de que vos afastais, com outro esp\u00edrito, ou nunca alcan\u00e7areis o nobre posto de c\u00f4nsul, nem sereis jungido ao lado dele como tribuno.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ficai calmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Semelhantes trapa\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o dignas de Roma, nem merece Coriolano que atiremos com tanta falsidade na estrada reta de seu grande m\u00e9rito lixo t\u00e3o desonroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ora! falarem-me de trigo! Novamente vou dizer-vos qual foi o meu discurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o agora! Depois! Depois!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Nem nesse estado de alma, caro senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por minha vida, agora! Quero falar. Meus nobres companheiros, pe\u00e7o vosso perd\u00e3o. Quanto aos muitos, mut\u00e1veis sempre, e sempre mal cheirosos, que em mim venham mirar-se \u2014 que eu a ningu\u00e9m adulo \u2014 e se conhe\u00e7am. Repito: lisonjeando-os desse modo, contra nosso senado alimentamos o germe da revolta, da insol\u00eancia, da rebeli\u00e3o, lan\u00e7ado por n\u00f3s pr\u00f3prios no sulco aberto e no terreno ao longe semeado e dispersado, com os termos trazido para o n\u00famero dos nobres que de virtude nem poder carecem, sen\u00e3o das que deixamos aos mendigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 o bastante! \u00c9 o bastante!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Nem mais uma palavra, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Nem mais uma? Como! Do mesmo modo que na guerra o sangue derramei por minha p\u00e1tria sem temer for\u00e7a externa, h\u00e3o de palavras cunhar os meus pulm\u00f5es at\u00e9 pararem, contra estes lazarentos, que receamos possam contaminar-nos, mas fazemos tudo para pegar a doen\u00e7a deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Falais do povo como se um deus f\u00f4sseis para punir, e n\u00e3o um homem fraco como qualquer um deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Bom seria que f\u00f4ssemos falar ao povo disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como! Falar de qu\u00ea? De sua c\u00f3lera?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 C\u00f3lera? Embora eu fosse calmo como o sono da meia-noite \u2014 pelo grande Jove! \u2014 meu modo de pensar seria o mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 \u00c9 um modo de pensar que ficar deve, como veneno que \u00e9, no lugar pr\u00f3prio, sem que continuar possa a ser nocivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Deve ficar? Ouvistes o que disse o trit\u00e3o das sardinhas? Percebestes seu absoluto \u201cdeve\u201d?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Foi um lapso de express\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Como! \u201cDeve\u201d? \u00d3 generosos mas levianos patr\u00edcios! Como, graves senadores, por\u00e9m imprevidentes, permitistes a essa hidra que escolhesse representante para, com um \u201cdeve\u201d impudente, ele que \u00e9, t\u00e3o-s\u00f3, a tromba e o barulho do monstro, ter o ousio de pretender mudar num fosso estreito a corrente de vossa autoridade, transformando no dele vosso leito? Se ele \u00e9 potente, ent\u00e3o acomodai-vos em vossa estupidez; se n\u00e3o, que acorde vossa indulg\u00eancia mais que perigosa. Se sois esclarecidos, que n\u00e3o seja vossa conduta como a dos idiotas; n\u00e3o o sendo, ent\u00e3o, que eles tamb\u00e9m se sentem ao vosso lado em moles almofadas. Sois plebeus, se eles forem senadores; e menos n\u00e3o ser\u00e3o desde que, tendo misturado seus votos com os dos nobres, sente o fino padar ao gosto deles. Escolheram os seus representantes do tipo deste que antep\u00f4s seu \u201cdeve\u201d, seu \u201cdeve\u201d popular, a este conclave de graves senadores, como nunca franziu outro na Gr\u00e9cia o cenho augusto. Por Jove! Isso rebaixa nossos c\u00f4nsules. Sofro at\u00e9 o fundo da alma, quando vejo dois poderes de p\u00e9, sem que o primado nenhum alcance, e como facilmente penetra a confus\u00e3o no espa\u00e7o entre ambos, vindo, assim, mutuamente a se destru\u00edrem.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Bem: mas vamos \u00e0 pra\u00e7a do mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Quem teve a id\u00e9ia de distribuir gr\u00e1tis o trigo dos dep\u00f3sitos, tal como algumas vezes j\u00e1 se fez na Gr\u00e9cia&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Muito bem! muito bem! Sobre isso basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 &#8230;embora o povo l\u00e1 tivesse muito mais for\u00e7a que entre n\u00f3s, com isso apenas trabalhou para a ru\u00edna da rep\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Como! Poder\u00e1 o povo dar seu voto para quem fala assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vou dar-vos minhas raz\u00f5es, que valem mais que o voto deles. Eles tinham certeza de que o trigo que lhe demos n\u00e3o era recompensa por coisa alguma, pois jamais haviam feito jus a tal pr\u00eamio. Quando instados para a guerra, no instante em que a rep\u00fablica atingida se via nas entranhas, n\u00e3o ousaram p\u00f4r p\u00e9 fora das portas. Merecer\u00e1 servi\u00e7o desse g\u00eanero distribui\u00e7\u00e3o de trigo? Na campanha, seus motins e revoltas, com os quais todos sobretudo mostravam valentia, a favor deles n\u00e3o falavam nunca. As recrimina\u00e7\u00f5es que, t\u00e3o freq\u00fcentes, contra nosso senado levantaram, todas elas de causa inexistente, n\u00e3o poderiam nunca ser motivo de d\u00e1diva t\u00e3o franca. Bem; e agora? Como essa multid\u00e3o de vista curta digere a cortesia do senado? Que traduzam seus atos os discursos em tudo iguais \u00e0queles: \u201cExigimos; somos a grande massa, tendo sido por puro medo que eles concederam tudo quanto pedimos\u201d. Rebaixamos, assim, a natureza do mandato, justificando que a canalha o nome de medo d\u00ea ao que \u00e9 solicitude. Dentro de pouco, as portas do senado ser\u00e3o for\u00e7adas e no seu recinto os corvos bicar\u00e3o as pr\u00f3prias \u00e1guias.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vamos; j\u00e1 chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Chega com excesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o, ouvi o que falta. Quanto as juras constituem, humanas e divinas, sele agora o meu fecho. Esse o governo de dois poderes, no qual uma parte sente desprezo, com raz\u00e3o, da outra, sendo por ela, sem nenhum motivo, coberta s\u00f3 de inj\u00farias; em que os t\u00edtulos, a experi\u00eancia, a nobreza n\u00e3o conseguem decidir coisa alguma sem que alcancem o sim ou o n\u00e3o da estupidez dos muitos: acabar\u00e1 das reais necessidades se descuidando, para ver-se presa da inconstante fraqueza. Quando todos os prop\u00f3sitos, todos, morrem frustros, tudo passa a ser feito sem prop\u00f3sito. Por isso vos conjuro, v\u00f3s que menos medrosos quereis ser do que discretos; que amais os fundamentos da rep\u00fablica bastantemente para n\u00e3o quererdes v\u00ea-los modificados; que uma vida com nobreza antepondes \u00e0 exist\u00eancia prolongada e sem cor, e arr\u00edscar\u00edeis aplicar um rem\u00e9dio perigoso num corpo que, sem isso, perecera: j\u00e1 j\u00e1 tirai \u00e0 multid\u00e3o a l\u00edngua; que ela n\u00e3o lamba o mel que \u00e9 seu veneno. Vosso rebaixamento deixa em postas o s\u00e3o ju\u00edzo e priva o alto governo da inviolabilidade, indispens\u00e1vel, que nenhum bem agora fazer pode pelo mal que o dirige.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Falou muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Falou como traidor, devendo a pena receber dos traidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Grande tolo, que o desprezo te esmague! Que \u00e9 que pode fazer o povo com tribunos calvos? Porque depende deles, nega toda rever\u00eancia ao poder mais elevado. Foi uma rebeli\u00e3o que os elegeu, quando a coa\u00e7\u00e3o \u00e9 lei, n\u00e3o o direito. Denominai, numa hora mais prop\u00edcia, direito o que \u00e9 direito e ao p\u00f3 da rua atirai seu poder.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Trai\u00e7\u00e3o patente!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Isto \u00e9 ser c\u00f4nsul? Nunca!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ol\u00e1! Edis! Venham logo prend\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um edil.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Chama o povo, (<i>Sai o edil.<\/i>) em cujo nome eu te detenho, como inovador trai\u00e7oeiro e da rep\u00fablica declarado inimigo. Ordeno-o; segue-me e entrega-te \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Velho bode, para tr\u00e1s!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENADORES \u2014 De cau\u00e7\u00e3o lhe serviremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Velho, abaixai a m\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sai, coisa podre! do contr\u00e1rio, farei saltar-te os ossos de dentro dessa roupa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Cidad\u00e3os! Socorro, cidad\u00e3os!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram outros edis, com um magote de cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 De ambos os lados, mais reflex\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ali podeis ver o homem que quisera deixar-vos sem direitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Edis, prendei-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Abaixo! Abaixo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENADORES \u2014 Armas! Armas! Armas! (<i>Correm todos, aos gritos, para o lado de Coriolano.<\/i>) Tribunos! Cidad\u00e3os! Patr\u00edcios! Oh! Sic\u00ednio! Bruto! Coriolano! Amigos! Paz, paz! Detende-vos! Sil\u00eancio! Paz!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que se vai dar? Estou quase sem f\u00f4lego. Estamos na imin\u00eancia de um desastre. N\u00e3o sei falar&#8230; Tribunos populares, v\u00f3s a\u00ed&#8230; Coriolano, mais paci\u00eancia! Bom Sic\u00ednio, falai!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Povo, escutai-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Nosso tribuno vai falar! Ou\u00e7amo-lo! Paz! Sil\u00eancio!&#8230; Falai, falai, falai!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Arriscados estais a perder todas as vossas liberdades; desejara M\u00e1rcio vo-las tirar, M\u00e1rcio que c\u00f4nsul acabais de eleger.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ora, que coisa! Isso \u00e9 aumentar, n\u00e3o extinguir a chama.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 A cidade destruir, arrasar tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 E que \u00e9 a cidade, se n\u00e3o for o povo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Sim, \u00e9 certo: a cidade \u00e9 o pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Fomos eleitos seus representantes pelo voto geral.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 E nesse posto continuareis.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 o que parece, mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Esse \u00e9 o caminho de arrasar os muros, de p\u00f4r o teto rente aos alicerces e enterrar quanto ainda se acha em ordem sob um mont\u00e3o de ru\u00ednas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ser\u00e1 a morte para isso a pena certa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ou damos prova de nossa autoridade, ou perd\u00ea-la-emos definitivamente. Declaramos, pois, em nome do povo, cuja for\u00e7a nos elegeu representantes dele, que Caio \u00e9 digno de imediata morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Segurai-o, portanto, e o levai logo para a rocha Tarp\u00e9ia, de onde seja precipitado e morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Edis, prendei-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 M\u00e1rcio, entrega-te!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ouvi-me num palavra. Conjuro-vos, tribuno: uma palavra, t\u00e3o-somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIS \u2014 Sil\u00eancio! Paz!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Agora sede o que pareceis: amigos certos de vossa p\u00e1tria e procedei com calma para o conserto do que por viol\u00eancia pretendeis corrigir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Senhor, processos frios como esse, que com mui prudentes recursos se assemelham, s\u00e3o veneno quando o mal \u00e9 violento. \u2014 Segurai-o! Para a rocha arrastai-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o; primeiro me tirar\u00e3o a vida. (<i>Arranca a espada.<\/i>) Alguns dos vossos J\u00e1 me viram lutar. Vinde e em v\u00f3s pr\u00f3prios experimentai o que fazer me vistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Abaixai essa espada! Retirai-vos, tribunos, um momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Segurai-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Socorrei M\u00e1rcio! \u2014 Aqui! Socorrei M\u00e1rcio. v\u00f3s da nobreza! Aqui, mo\u00e7os e velhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Abaixo Coriolano! Abaixo! Abaixo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>No tumulto os tribunos, os edis e o povo s\u00e3o repelidos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 J\u00e1! retirai-vos para vossas casas; se n\u00e3o, tudo ir\u00e1 mal.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SENADOR \u2014 Sim, retirai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Fiquemos firmes, pois \u00e9 igual o n\u00famero de amigos e inimigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Chegaremos a esse ponto?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Que os deuses n\u00e3o o permitam! Pe\u00e7o-te, nobre amigo, por obs\u00e9quio, vai para casa e deixa a nosso cargo o tratamento disto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 D\u00f3i-nos muito n\u00e3o poderdes pensar v\u00f3s mesmo a chaga. Por favor, retirai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vinde, vinde, meu senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Desejara que eles fossem b\u00e1rbaros \u2014 como o s\u00e3o, embora tenham tido todos em Roma a manjedoura \u2014 n\u00e3o romanos \u2014 o que n\u00e3o s\u00e3o, realmente, muito embora paridos tenham sido todos junto ao port\u00e3o do Capit\u00f3lio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Retirai-vos, sem p\u00f4r em vossa boca tanta c\u00f3lera nobre. Ainda veremos o dia da vingan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Em campo liso bateria quarenta desses biltres.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Eu pr\u00f3prio me incumbira de um par deles, os mais valentes, sim, os dois tribunos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Mas a despropor\u00e7\u00e3o agora \u00e9 enorme; passa da conta, merecendo o nome de loucura a coragem que se oponha a um edif\u00edcio que a cair esteja. N\u00e3o quereis ir antes que a corja volte? Sua raiva parece-se com a \u00e1gua represada, que vence os altos diques que venc\u00ea-la so\u00edam.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ide, pe\u00e7o-vos. Quero ver se ainda d\u00e1 meu velho esp\u00edrito para tratar com quem nenhum possui. \u00c9 indiferente a cor do pano usado como remendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vamos, vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Coriolano, Com\u00ednio e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PATR\u00cdCIO \u2014 Este homem estragou a pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 De natural \u00e9 em demasia nobre para este mundo. N\u00e3o adularia Netuno sob amea\u00e7a do tridente, nem Jove pela for\u00e7a de seu raio. A boca \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o; ao que se forja dentro do peito a l\u00edngua d\u00e1 sa\u00edda. Chega a esquecer, quando encolerizado, que o nome ouviu da morte em qualquer tempo. (<i>Barulho dentro.<\/i>) Vamos ter coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO PATR\u00cdCIO \u2014 Fossem para as camas!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 No Tibre \u00e9 que os quisera. Com os dem\u00f4nios! Mas por que causa n\u00e3o falou com modos?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam Bruto e Sic\u00ednio, com a ral\u00e9.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Onde est\u00e1 aquela v\u00edbora que Roma quisera despovoar para tornar-se todo o mundo ele s\u00f3?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Dignos tribunos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Com rigorosas m\u00e3os ser\u00e1 atirado j\u00e1 da rocha Tarp\u00e9ia. Resistiu \u00e0 lei; por isso a lei desprezar deve quaisquer formalidades e entreg\u00e1-lo ao rigor do poder do pr\u00f3prio povo por ele desprezado tanto e tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Fique ele, assim, sabendo que os tribunos s\u00e3o a cabe\u00e7a do povo e n\u00f3s, seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Oh! vai ficar sabendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Mas senhores&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdN\u00cdO \u2014 Calai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o griteis \u201cAvan\u00e7a!\u201d quando ca\u00e7ar s\u00f3 poder\u00edeis com direitos em tudo relativos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Por que causa, meu senhor, o ajudastes nesta fuga?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ouvi-me um pouco. Assim como conhe\u00e7o todo o valor do c\u00f4nsul, tamb\u00e9m posso apontar suas faltas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 C\u00f4nsul? Que c\u00f4nsul!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 O c\u00f4nsul Coriolano.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 C\u00f4nsul, ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Se com o consentimento dos tribunos e o vosso, meu bom povo, eu conseguisse dizer-vos uma ou duas palavrinhas, quando muito algum tempo perder\u00edeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ent\u00e3o sede sucinto, porque estamos determinados a matar aquele viperino traidor. Grande perigo fora expuls\u00e1-lo; nossa morte certa, conserv\u00e1-lo entre n\u00f3s. Ficou assentado, por isso, que esta tarde a morrer venha.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Os deuses n\u00e3o permitam que a famosa Roma, cujo alto apre\u00e7o por seus filhos merit\u00f3rios impresso est\u00e1 no livro do grande Jove, m\u00e3e desnaturada se revele, comendo os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 \u00c9 doen\u00e7a que precisa ser cortada pela raiz.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Oh n\u00e3o! \u00c9 um membro doente, t\u00e3o-somente. Cort\u00e1-lo \u00e9 perigoso; cur\u00e1-lo \u00e9 f\u00e1cil. Que fez ele a Roma que s\u00f3 mere\u00e7a a morte? Ter matado nossos inimigos? Quando perdeu sangue \u2014 que ultrapassa de muitas on\u00e7as, posso vos afirmar, quanto ele ainda possua \u2014 derramado foi todo pela p\u00e1tria. Se sua p\u00e1tria agora derramasse o pouco que lhe resta, para todos n\u00f3s que nisso tivermos parte, ou formos simples espectadores, fora inf\u00e2mia que duraria at\u00e9 acabar o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Pura tolice, tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E sem prop\u00f3sito. Quando ele amou a p\u00e1tria, esta o exaltou.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Se nosso p\u00e9 gangrena, deixaremos de estimar seus servi\u00e7os anteriores?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Basta de palavr\u00f3rio. Ide busc\u00e1-lo em sua pr\u00f3pria casa, de l\u00e1 mesmo tirando-o \u00e0 for\u00e7a, para que essa doen\u00e7a, que pega facilmente, n\u00e3o se alastre.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Uma palavra, ainda; uma palavra! Essa f\u00faria de p\u00e9s de tigre, quando perceber os preju\u00edzos resultantes da precipita\u00e7\u00e3o, h\u00e1 de, mui tarde, desejar ter nos p\u00e9s libras de chumbo. Prossegui desse modo, para verdes \u2014 que ele \u00e9 muito estimado \u2014 levantarem-se os partidos em luta e ser saqueada a grande Roma pelos pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se tal se desse&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Para que falardes? J\u00e1 n\u00e3o ficamos conhecendo a sua desobedi\u00eancia? N\u00e3o nos desafiou? N\u00e3o bateu nos edis? Sigamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Refleti que ele criado foi nas guerras desde que p\u00f4de manejar a espada, mal iniciado foi nos artif\u00edcios da linguagem polida, misturando sem distin\u00e7\u00e3o a boa e a m\u00e1 farinha. Se me derdes licen\u00e7a, irei busc\u00e1-lo, para que ele responda legalmente, em paz, correndo os riscos e perigos que ele pr\u00f3prio criou.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Nobres tribunos, esse \u00e9 o caminho humano; o outro processo por demais sanguin\u00e1rio se revela, n\u00e3o conhecendo o fim seu pr\u00f3prio in\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ireis ficar, ent\u00e3o, nobre Men\u00eanio, como oficial do povo. Abaixai vossas armas, meus mestres.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o vos recolhais.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ide j\u00e1 para a pra\u00e7a do mercado. (<i>A Men\u00eanio.<\/i>) L\u00e1 vos esperaremos; mas no caso de n\u00e3o levardes M\u00e1rcio, em nosso plano prosseguiremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o; hei de lev\u00e1-lo. (<i>Aos senadores.<\/i>) Desejo que me acompanheis; for\u00e7oso ser\u00e1 que venha; do contr\u00e1rio, graves ser\u00e3o as conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Ent\u00e3o vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl32\" name=\"crl32\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto em casa de Coriolano. Entram Coriolano e patr\u00edcios.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ainda mesmo que todos eles venham dilacerar-me a orelha, ou amea\u00e7ar-me de morte pela roda ou esquartejado por cavalos selvagens; ainda mesmo que dez colinas empilhadas ponham sobre a rocha Tarp\u00e9ia, porque a queda se venha a dar sem que a vis\u00e3o a alcance: n\u00e3o modificarei minha atitude.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PATR\u00cdCIO \u2014 Tanto mais nobre ela ser\u00e1 em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 O que me admira \u00e9 ver que n\u00e3o concorda comigo minha m\u00e3e sobre este ponto, ela que sempre lhes chamou escravos de roupa de algod\u00e3o, coisinhas feitas para o com\u00e9rcio de vint\u00e9m, apenas, e para nas reuni\u00f5es aparecerem de cabe\u00e7a despida, boca aberta, sem dizerem palavra, revelando grande espanto, quando um do meu calibre se al\u00e7a para falar de paz e guerra. (<i>Entra Vol\u00famnia.<\/i>) Falo de v\u00f3s. Por que desejar\u00edeis ver-me mais brando? Preferis que eu seja infiel \u00e0 minha pr\u00f3pria natureza? Fora melhor quererdes que meu pr\u00f3prio papel eu represente.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh homem! homem! homem! Quisera que primeiro o posto tiv\u00e9sseis alcan\u00e7ado, embora vi\u00e9sseis depois a malgast\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Pouco importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Poder\u00edeis ter sido inteiramente o homem que sois, sem tanto empenho em s\u00ea-lo. Vossas disposi\u00e7\u00f5es teriam vindo a encontrar menos \u00f3bices, no caso de n\u00e3o terdes mostrado aos advers\u00e1rios quais elas eram antes que eles for\u00e7a pudessem ter para contradizer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ora! forca para eles.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 E fogueira.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Men\u00eanio e v\u00e1rios senadores.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vamos, vamos! V\u00f3s fostes muito brusco, muito brusco, realmente. \u00c9 necess\u00e1rio virdes conosco, para endireitardes o que foi feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 N\u00e3o h\u00e1 outro meio. Caso n\u00e3o concordeis com isso, nossa boa cidade ficar\u00e1 cindida em duas partes, vindo a destruir-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sede cordato, pe\u00e7o-vos. Possuo tamb\u00e9m um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o impetuoso quanto o vosso. Contudo, tenho c\u00e9rebro que sabe dirigir a estuosa c\u00f3lera para vantagem pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Muito certo, nobre dama! Antes que ele se curvasse perante a turba, se violenta crise do tempo n\u00e3o pedisse esse rem\u00e9dio, para que todo o Estado a sarar viesse, envergaria eu pr\u00f3prio minhas armas que mal sustentar posso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que \u00e9 preciso que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ir para junto dos tribunos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Muito bem! Muito bem! E depois disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Retratar-vos de tudo o que dissestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Como! Perante o povo? Se nem mesmo perante os deuses poderei faz\u00ea-lo serei for\u00e7ado agora a retratar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sois muito rigoroso. Muito embora grande nobreza em tudo revel\u00e1sseis, fala a necessidade. N\u00e3o dissestes uma vez que na guerra a ast\u00facia e a honra, como grandes amigas, de m\u00e3os dadas andam todos os dias? Concedei-me esse ponto e dizei-me em que uma delas pode perder na paz, para que tenha de separar-se da outra?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Basta! Basta!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Excelente quest\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Se em vossas guerras for honra parecer o que n\u00e3o sois \u2014 o que, para ganhar, vos manda a ast\u00facia \u2014 em que ser\u00e1 menor ou deprimente as duas amizades n\u00e3o fazerem na paz como na guerra, se isso exigem ambas com o mesmo empenho?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por que causa sobre isso insistis tanto?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Porque importa muito falardes hoje para o povo, n\u00e3o segundo a experi\u00eancia vos ditar, nem como o cora\u00e7\u00e3o vos aconselha, mas com palavras que s\u00f3 tenham curso superficial na l\u00edngua, pensamentos bastardos e fraseado sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a lealdade do imo peito. Ora, isso vos desonra tanto como tomar um burgo com palavras brandas sem as quais vos ver\u00edeis obrigado a confiar na fortuna sempre m\u00f3vel e a arriscar muito sangue. Eu dissimularia a natureza, quando a pr\u00f3pria fortuna e a dos amigos em perigo o exigissem de minha honra. \u00c9 assim que eu penso, vossa esposa, o filho, todos os senadores, nossos nobres. Mas preferis mostrar aos farrapentos como franzis o cenho, a um sorrisinho gastar com eles, para que a herdar vi\u00e9sseis o que, de outra maneira, se perdera.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Nobre senhora! Vamos! Vamos logo! Falai direito para remediardes n\u00e3o somente o presente perigoso, como os males passados.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, meu filho, dirige-te para eles com teu gorro na m\u00e3o, assim, levando-o bem \u00e0 frente, e deixa que teu joelho beije a terra, porque nesses assuntos a eloq\u00fc\u00eancia melhor \u00e9 o gesto; muito mais instru\u00eddo \u00e9 o olho do ignorante do que o ouvido; inclina a fronte assim, que muitas vezes o altivo cora\u00e7\u00e3o te repreendeu, e t\u00e3o humilde a deixa como a amora madura que mal pede ser tocada. Ou ent\u00e3o lhes dize que \u00e9s soldado deles, e por teres crescido nas campanhas desconheces os meios delicados \u2014 confessar\u00e1s tamb\u00e9m \u2014 mais condizentes com a atitude que fora de exigir-se de quem implora o bom favor de todos: mas que ao feitio deles, em verdade, pretendes adaptar-te quanto a tua pessoa e as energias permitirem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Fazei apenas quanto ela aconselha e tereis ganho o cora\u00e7\u00e3o de todos, pois a perdoar t\u00e3o prontos est\u00e3o, sempre, quando solicitados, como f\u00e1ceis se mostram de palavras sem prop\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Vamos; s\u00ea comedido, por obs\u00e9quio, embora eu saiba que preferirias ir em persegui\u00e7\u00e3o de teu inimigo num abismo de chamas, a adul\u00e1-lo num relvado macio. A\u00ed vem Com\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Com\u00ednio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Venho da pra\u00e7a p\u00fablica; \u00e9 preciso, senhor, que reforceis vossos adeptos ou que cuideis de vossa salva\u00e7\u00e3o pela modera\u00e7\u00e3o ou pela aus\u00eancia. A indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Dirigi-lhes palavras amig\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Suficientes poder\u00e3o ser, tenho certeza disso, se o g\u00eanio ele dobrar nesse sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 H\u00e1 de faz\u00ea-lo e de bom grado. Vamos! dizei que assim quereis e parti logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ser\u00e1 preciso, ent\u00e3o, mostrar a todos a cabe\u00e7a raspada? Com fingida l\u00edngua imporei ao cora\u00e7\u00e3o altivo uma mentira dessas? Bem; que seja. Mas se em perigo apenas estivesse este terr\u00e3o, o molde deste M\u00e1rcio, antes disso o teriam reduzido a poeira fina e a arremessado aos ventos. Bem; para a pra\u00e7a p\u00fablica! Impusestes-me um papel que jamais ser\u00e1 poss\u00edvel representar direito.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vamos, vamos; serviremos de ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Eu te suplico, meu caro filho: tens asseverado que ficaste guerreiro t\u00e3o-somente pelos meus elogios. Ora cumpre representares um papel in\u00e9dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Bem; represent\u00e1-lo-ei. Fora, nativa disposi\u00e7\u00e3o! De mim se aposse agora o esp\u00edrito de alguma prostituta. Minha goela guerreira, que fazia coro com meu tambor, torne-se c\u00e2nula t\u00e3o fina como a voz de eunuco ou virgem, quando no ber\u00e7o embala as criancinhas. Que em minhas faces fixe moradia o riso dos poltr\u00f5es; tape as janelas de meus olhos o choro de meninos; que em minha boca a l\u00edngua de mendigo se ponha em movimento e que estes joelhos armados, nunca afeitos a dobrarem-se sen\u00e3o para montar, ora se curvem como os do pobre que recebe esmola! N\u00e3o! N\u00e3o farei tal coisa, que n\u00e3o posso deixar de honrar minha verdade intr\u00ednseca, o que faria se, pela atitude do corpo, \u00e0 alma ensinasse tal baixeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Como queiras, ent\u00e3o; maior desonra \u00e9 para mim pedir-te do que mesmo dirigires-te ao povo. Venha abaixo tudo quanto h\u00e1, que \u00e9 prefer\u00edvel dares a sentir a tua m\u00e3e teu grande orgulho a faz\u00ea-la recear-se, em qualquer tempo, de tua perigosa teimosia, pois rio-me da morte com tanto \u00e2nimo como tu pr\u00f3prio. Faze o que quiseres; teu hero\u00edsmo vem de mim; mamaste-o com meu leite; por\u00e9m todo esse orgulho s\u00f3 a ti mesmo deves.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por obs\u00e9quio, m\u00e3e, acalmai-vos. Vou para o mercado; j\u00e1 decidi. Parai com esses ralhos. Pretendo escamotear o amor de todos, o cora\u00e7\u00e3o furtar-lhes, retornando adorado por todos os art\u00edfices de nossa Roma. Vede: j\u00e1 vou indo. Dai recomenda\u00e7\u00f5es a minha esposa. Voltarei como c\u00f4nsul; do contr\u00e1rio, nunca mais confiarei em minha l\u00edngua no que \u00e0 bajula\u00e7\u00e3o disser respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Fazei o que quiserdes. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vamos logo! Os tribunos j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 vossa espera. Disponde-vos a lhes falar com calma, pois em reservas, dizem todos, t\u00eam acusa\u00e7\u00f5es mais forte do que quantas j\u00e1 vos houvessem feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u201cBrandamente\u201d, \u00e9 a senha de hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vamos, por obs\u00e9quio. Que inventem contra mim o que quiserem, que minha honra ser\u00e1 toda a resposta.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Com brandura, por\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim, com brandura. Que seja: com brandura!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O foro. Entram Sic\u00ednio e Bruto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sobre esse ponto carregai com for\u00e7a: que ele aspira ao poder da tirania. No caso de escapar-nos, acusai-o de odiar o povo e de n\u00e3o ter, at\u00e9 hoje, feito a distribui\u00e7\u00e3o do grande esp\u00f3lio conquistado na guerra dos ant\u00edates. (<i>Entra um edil.<\/i>) Como \u00e9: vem ou n\u00e3o vem?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 J\u00e1 est\u00e1 chegando.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E quem agora vem com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 O velho Men\u00eanio e os senadores que costumam satisfaz\u00ea-lo em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Conseguistes organizar a lista, por cabe\u00e7a, das vozes que do nosso lado se acham?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Consegui; est\u00e1 pronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Organizaste-las segundo as tribos?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ent\u00e3o, depressa convocai todo o povo. No momento em que me ouvirem declarar: \u201cDe acordo com o direito e a vontade dos comuns, ser\u00e1 desta maneira\u201d, quer se trate de morte, multa ou banimento, todos, se eu disser: multa! gritar devem \u201cMulta\u201d se: morte! gritem \u201cMorte\u201d, persistindo nos velhos privil\u00e9gios e na for\u00e7a da verdade da causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Hei de inform\u00e1-los do que dizeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E desde que tiverem come\u00e7ado a gritar, n\u00e3o se detenham; com confuso alarido exijam pronta execu\u00e7\u00e3o de quanto resolvermos, seja qual for a pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Fortes os conservai e sempre atentos ao sinal que teremos de fazer-lhes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ponde pressa em tudo isso. (<i>Sai o edil.<\/i>) Tratai logo de deix\u00e1-lo col\u00e9rico. Ele se acha acostumado a dominar em tudo, afirmando o valor na resist\u00eancia. Uma vez alterado, n\u00e3o se deixa refrear pela prud\u00eancia e fala tudo que tem no cora\u00e7\u00e3o, s\u00f3 parecendo que se empenha, com nossa interfer\u00eancia, em quebrar o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 A\u00ed vem ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Coriolano, Men\u00eanio, Com\u00ednio, senadores e patr\u00edcios.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Calma, \u00e9 s\u00f3 o que vos pe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim, tal como o servente que por \u00edntima moedinha engole pencas de \u201cvelhacos\u201d que os altos deuses sempre amparem Roma, as cadeiras provejam da justi\u00e7a com pessoas de bem, e entre n\u00f3s todos a conc\u00f3rdia semeiem. Que com cenas de paz apinhem sempre nossos templos, n\u00e3o as ruas com mostras belicosas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Um nobre voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o edil, seguido de cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Aproximai-vos, povo!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Ouvi os tribunos! Prestai toda aten\u00e7\u00e3o. Sil\u00eancio! digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Permiti que eu comece.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBOS OS TRIBUNOS \u2014 Bem; falai. Sil\u00eancio, a\u00ed!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Acabar\u00e3o, acaso, minhas acusa\u00e7\u00f5es com essas de hoje?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Pergunto se vos submeteis ao voto do povo, se aceitais seus magistrados e concordais em que se instaure pronta sindic\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s faltas que imputadas vos forem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim, concordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Cidad\u00e3os! Ele disse que concorda. Considerai agora seus servi\u00e7os durante a guerra a refleti nas marcas que no corpo ele traz e que parecem sepulturas num santo cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Pequenos arranh\u00f5es de espinho, apenas, esfoladuras que provocam riso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Al\u00e9m do mais, consideremos que ele n\u00e3o fala como cidad\u00e3o, a todos qual soldado se mostra, n\u00e3o devendo, portanto, serem tidos seus acentos \u00e1speros como fala maliciosa. mas, como disse, pr\u00f3pria de um soldado, sem que possa ofender-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Bem; j\u00e1 basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por que motivo, tendo eu sido eleito por unanimidade para o posto de c\u00f4nsul, na mesma hora sofro a afronta de minha indica\u00e7\u00e3o ver anulada?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 A v\u00f3s \u00e9 que compete responder-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Falai; \u00e9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00f3s vos acusamos de tentar suprimir de Roma todos os postos constitu\u00eddos e de ao mando tir\u00e2nico aspirar, assim tornando-vos traidor ao povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Como assim! Traidor?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Com mais calma. Lembrai-vos da promessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que as chamas do mais baixo inferno envolvam de uma vez esse povo! Eu, insultado de traidor, e por ti, tribuno infame! Embora nesses olhos se assentassem vinte mil mortes e em tuas m\u00e3os crispadas outros tantos milh\u00f5es, em tua l\u00edngua caluniosa os dois n\u00fameros somados, dir-te-ia \u201cMentes!\u201d com uma voz t\u00e3o livre como quando oro aos deuses.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Observastes o que ele disse, povo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Para a rocha! Para a rocha com ele!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o! Sil\u00eancio! N\u00e3o precisamos de mat\u00e9ria nova para contra ele fazer carga. Tudo quanto o vistes fazer e dele ouvistes: de insultos vos cobrir, bater em vossos representantes, pela for\u00e7a bruta \u00e0s leis se opor, desafiar agora a autoridade que julg\u00e1-lo iria&#8230; Este atentado, por si s\u00f3, t\u00e3o grande, merece a pena de mais dura morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Mas, \u00e0 vista de ter servido Roma&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por que tagarelar de meus servi\u00e7os?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Digo o que sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Quem? V\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Essa \u00e9 a promessa que a vossa m\u00e3e fizestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Por obs\u00e9quio, ficai sabendo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o quero coisa nenhuma. Eles que me condenem \u00e0 alcantilada morte da Tarp\u00e9ia, ao vagabundo ex\u00edlio, a me arrancarem aos poucos toda pele, a definhar-me lentamente no c\u00e1rcere, s\u00f3 tendo por alimento um gr\u00e3o em cada dia: n\u00e3o comprarei nunca o favor deles \u00e0 custa de um s\u00f3 termo delicado, nem a minha coragem eu refreara por todos seus presentes, muito embora s\u00f3 \u201cBom dia\u201d dizer-lhes me custasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Tendo-se em vista que por v\u00e1rias vezes \u2014 quanto dele, somente, dependia \u2014 conspirou contra o povo, procurando meios para priv\u00e1-lo dos poderes, chegando a se valer recentemente da viol\u00eancia culposa, o que foi feito n\u00e3o s\u00f3 em frente da justi\u00e7a augusta, mas at\u00e9 na dos pr\u00f3prios servidores que incumbidos est\u00e3o de ministr\u00e1-la: em nome, assim, do povo e dos poderes que nos s\u00e3o inerentes, n\u00f3s, tribunos, o declararmos, a partir de agora banido da cidade, n\u00e3o podendo, sob pena de jogado ser a rocha Tarp\u00e9ia, nunca as portas transpor de Roma. Em nome, pois, do povo, repito-o: assim ser\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Assim ser\u00e1! Assim ser\u00e1! Que parta!<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ouvi-me, mestres e comuns amigos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 J\u00e1 foi dada a senten\u00e7a; agora \u00e9 tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Permiti que vos fale. J\u00e1 fui c\u00f4nsul, podendo vos mostrar no corpo as marcas dos golpes dos inimigos da cidade. Dedico ao bem-estar de minha p\u00e1tria mais respeitoso amor e mais profundo, mais terno e sacrossanto que a mim mesmo, minha esposa estimada, seus rebentos, tesouros de meus flancos. Vou dizer-vos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 J\u00e1 sabemos qual seja vosso intento. Vamos! Que ireis dizer?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada para dizer, sen\u00e3o que est\u00e1 banido como inimigo do povo e da cidade. Assim ser\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Assim ser\u00e1! Assim ser\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vil matilha de c\u00e3es, cujo mau h\u00e1lito odeio como o p\u00e2ntano empestado, e cuja simpatia estimo tanto quanto o cad\u00e1ver insepulto e podre que deixa o ar corrompido e irrespir\u00e1vel: sou eu que vos desterro, e aqui vos deixo com vossa inconsist\u00eancia. Que o mais fraco rumor o cora\u00e7\u00e3o vos deixe inquieto, e que s\u00f3 com moverem seus penachos vos insuflem terror os inimigos. Ficai com for\u00e7a para banir todos os vossos defensores, at\u00e9 o dia em que vossa ignor\u00e2ncia, que s\u00f3 entende quanto venha a sentir, tiver limpado com todos, menos v\u00f3s \u2014 os inimigos de v\u00f3s mesmos \u2014 alfim vos entregando como fracos escravos a algum povo que vos conquiste sem fazer esfor\u00e7o. Por vossa causa desprezando Roma dou-lhe as costas. O mundo \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Coriolano, Com\u00ednio, Men\u00eanio, senadores e patr\u00edcios.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 O inimigo do povo j\u00e1 partiu!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Foi-se nosso inimigo! Est\u00e1 banido! Hu! Hu!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Todos prorrompem em aclama\u00e7\u00f5es e atiram os gorros para o alto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Acompanhem-no todos at\u00e9 \u00e0 porta, como ele fez convosco, demonstrando-lhe o m\u00e1ximo desprezo. Atormentai-o, que ele bem o merece. Mandai uma guarda nos escoltar pela cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Vamos! Acompanhemo-lo at\u00e9 \u00e0 porta! Vamos todos! Os deuses nos conservem sempre os nobres tribunos! Vamos todos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Em frente da porta da cidade. Entram Coriolano, Vol\u00famnia, Verg\u00edlia, Men\u00eanio, Com\u00ednio e muitos jovens patr\u00edcios.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Vamos, vamos! parai com essas l\u00e1grimas. Apenas uma despedida r\u00e1pida. Empurra-me o animal de mil cabe\u00e7as. Ora, m\u00e3e! Onde est\u00e1 vossa coragem? Costum\u00e1veis dizer que a adversidade p\u00f5e \u00e0 prova os esp\u00edritos; que os homens comuns suportam bem as ocorr\u00eancias mais vulgares; que estando o mar sereno, bons veleiros s\u00e3o todos os navios; mas que quando a fortuna assesta os golpes com for\u00e7a, para os suportar com calma faz-se mister de nobre habilidade. Muitas e muitas vezes carregastes-me de regras que invenc\u00edvel deixariam o cora\u00e7\u00e3o que viesse a assimil\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Oh c\u00e9us! Oh c\u00e9us!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o, por favor, querida&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Que a peste rubra agora ataque todos os artes\u00e3os e extinga seus of\u00edcios.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 T\u00e1, t\u00e1, t\u00e1! Tornar-me-ei querido deles. quando a sentir vierem minha falta. Assim n\u00e3o, m\u00e3e! Mostrai aquele esp\u00edrito que a dizer vos levava tantas vezes que se tiv\u00e9sseis sido esposa de H\u00e9rcules ter\u00edeis feito seis de seus trabalhos e muito suor poupado a vosso esposo. Adeus, Com\u00ednio! Levantai a fronte. Adeus, esposa! Minha m\u00e3e, adeus! Tudo acabar\u00e1 bem. Meu fiel e velho Men\u00eanio, mais amargas s\u00e3o tuas l\u00e1grimas do que as de um mo\u00e7o e, assim, mais venenosas para teus olhos. Meu antigo chefe, severo j\u00e1 te tenho visto, e muitas vezes j\u00e1 contemplaste cenas duras, de deixarem de pedra o cora\u00e7\u00e3o: explica a estas mulheres pesarosas que t\u00e3o pueril \u00e9 lastimar os golpes inevit\u00e1veis como zombar deles. Minha m\u00e3e, bem sabeis que meus perigos sempre grande alegria vos causaram; podeis crer firmemente que, partindo sozinho como parto, solit\u00e1rio drag\u00e3o vou parecer que de seu charco mais medo infunde e assanha coment\u00e1rios do que se deixa ver. Ou vosso filho se elevar\u00e1 de muito sobre a plebe, ou ser\u00e1 preso pelas armadilhas e la\u00e7os da trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Meu primog\u00eanito, para onde ir\u00e1s? Leva at\u00e9 certo ponto contigo o bom Com\u00ednio; toma alguma decis\u00e3o quanto ao teu itiner\u00e1rio, sem te expores a todos os acasos que te possam surgir na estrada incerta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Oh deuses!<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ficarei um m\u00eas contigo; combinaremos o retiro juntos, para que possas receber not\u00edcias de n\u00f3s e n\u00f3s de ti. Assim, no caso de nos lan\u00e7ar o tempo algum pretexto para te repatriar, n\u00f3s n\u00e3o teremos necessidade de correr o mundo t\u00e3o vasto em busca de uma s\u00f3 pessoa, sem que venhamos a perder o ensejo que sempre se arrefece, quando ausente se acha o necessitado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Adeus a todos. Tens muitos anos sobre ti e te achas por demais carregado das orgias da guerra para ires correr mundo com quem ainda est\u00e1 sem pisaduras. Vem at\u00e9 \u00e0 porta; vem, querida esposa, minha adorada m\u00e3e, caros amigos de nobre toque! Quando al\u00e9m dos muros eu estiver, dizei-me adeus sorrindo. Vamos, vamos, vos pe\u00e7o. Enquanto firme eu estiver na terra, haveis de novas ouvir a meu respeito, por\u00e9m nada que n\u00e3o seja tal como eu antes era.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Nada mais digno ouviu orelha alguma. Paremos de chorar. Ah! se eu pudesse tirar das velhas pernas e dos bra\u00e7os pelo menos sete anos, pelos deuses bondosos, passo a passo te seguira.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o. Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl42\" name=\"crl42\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua perto da porta da cidade. Entram Sic\u00ednio, Bruto e um edil.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Mandai que se recolham; j\u00e1 partiu. Vamos parar aqui, que os nobres se acham irritados conosco, pois bem vimos como todos ficaram de seu lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tendo provado nossa for\u00e7a, vamos mostrar mais humildade ap\u00f3s o feito do que durante a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Mandai que todos v\u00e3o para suas casas. O inimigo m\u00e1ximo, lhes direis, j\u00e1 foi embora, tendo eles recobrado a for\u00e7a antiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Mandai que se recolham para casa. (<i>Sai o edil.<\/i>) (<i>Entram Vol\u00famnia, Verg\u00edlia e Men\u00eanio.<\/i>) A\u00ed vem a m\u00e3e dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Retiremo-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Por que raz\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Dizem que ficou louca.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 J\u00e1 nos viu; continuemos o caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh! chegais muito a tempo. Recompense-vos os deuses a afei\u00e7\u00e3o com seus flagelos acumulados.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Paz! Falai mais baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 N\u00e3o fossem minhas l\u00e1grimas, hav\u00edeis de ouvir-me&#8230; N\u00e3o! Tereis de ouvir um pouco. (<i>A Bruto.<\/i>) J\u00e1 quereis ir embora?<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA (<i>A Sic\u00ednio<\/i>) \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio que tamb\u00e9m v\u00f3s fiqueis. Ah! se eu pudesse dizer a mesma coisa a meu marido!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Sois ser humano, acaso?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, idiota; ser\u00e1 vergonha s\u00ea-lo? Que cretino! N\u00e3o foi homem meu pai? E tu, que esp\u00e9cie de raposa ser\u00e1s, para banires de Roma o her\u00f3i que a seu favor mais golpes dera do que palavras j\u00e1 disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Oh c\u00e9u bendito!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Mais gloriosos golpes pela causa de Roma do que em todas as sensatas palavras de tua vida. Vou dizer-te&#8230; N\u00e3o; vai&#8230; \u00c9 bom que fiques. Quisera que meu filho se encontrasse na Ar\u00e1bia, e diante dele tua tribo \u00e0 dist\u00e2ncia de sua boa espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Bem; e depois?<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Depois? Extinguiria tua posteridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, bastardos e tudo o mais. Quantas feridas ele recebeu pela p\u00e1tria!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Quisera que ele houvesse continuado como de in\u00edcio, sem soltar o la\u00e7o glorioso que o prendia \u00e0 sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Eu tamb\u00e9m? Gatos! Todos v\u00f3s apreciar podeis seu grande m\u00e9rito como eu penetrar posso nos mist\u00e9rios que o c\u00e9u n\u00e3o quer que a terra a saber venha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Partamos, por favor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, homens, ide! Realizastes um ato de bravura! Mas antes de vos irdes ouvi isto: Como ultrapassa o Capit\u00f3lio as casas mais humildes de Roma, assim, meu filho que foi por v\u00f3s banido \u2014 o esposo desta senhora que aqui vedes \u2014 vos excede. Sim, a v\u00f3s todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Bem; vamos deixar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Por que ficarmos tanto tempo im\u00f3veis, servindo de alvo para as invectivas de uma pessoa que perdeu o ju\u00edzo?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Levai as minhas preces. (<i>Saem os tribunos.<\/i>) Desejara que nada mais para fazer tivessem os deuses a n\u00e3o ser dar cumprimento \u00e0s minhas maldi\u00e7\u00f5es. Se os encontrasse uma vez, pelo menos, cada dia, aliviaria o cora\u00e7\u00e3o do peso que tanto o oprime.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Destes-lhes de rijo. E com raz\u00e3o, por minha f\u00e9, vos digo. Vamos cear.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Meu alimento \u00e9 a c\u00f3lera; ceio a mim mesma; e, assim, morro de fome, de tanto me fartar. Vamos embora. Parai com esses pios abafados e lamentai-vos tal como eu: col\u00e9rica, como outra Juno! Vamos! vamos! vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Ora! ora!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl43\" name=\"crl43\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Estrada real entre Roma e \u00c2ntio. Um romano e um volsco se encontram.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Conhe\u00e7o-vos, senhor; como v\u00f3s tamb\u00e9m me conheceis. Se n\u00e3o me engano, chamais-vos Adriano.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 \u00c9 isso mesmo, senhor. Mas, por minha f\u00e9, n\u00e3o me recordo de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Sou de Roma; mas, como v\u00f3s, trabalho contra os romanos. Reconheceis-me agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 Nicanor, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Ele mesmo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 T\u00ednheis mais barba, quando vos vi pela \u00faltima vez; mas, pela voz, reavivam-se-me na mem\u00f3ria vossos tra\u00e7os fision\u00f4micos. Que novidades h\u00e1 em Roma? Recebi do governo volsco a incumb\u00eancia de procurar-vos l\u00e1; poupastes-me um dia de caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Em Roma houve insurrei\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias: o povo contra os senadores, patr\u00edcios e nobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 Houve? Ent\u00e3o j\u00e1 terminaram? Nossos governantes n\u00e3o pensam desse modo; est\u00e3o promovendo enormes preparativos b\u00e9licos, esperando surpreender os romanos no maior ardor de suas dissen\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 As labaredas mais fortes j\u00e1 passaram; mas a menor coisa poder\u00e1 reaviv\u00e1-las. Porque os nobres se apaixonaram a tal ponto com o banimento de Coriolano, que se encontram maduramente dispostosa retirar todo o poder do povo e privar este para sempre de seus tribunos. \u00c9 uma brasa debaixo de cinza, posso afian\u00e7ar-vos, que se acha quase no ponto de reacender-se com viol\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 Coriolano, banido?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Banido, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 Com essa not\u00edcia, Nicanor, sereis bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 A ocasi\u00e3o lhes \u00e9 prop\u00edcia. Tenho ouvido dizer que a melhor hora para seduzir uma mulher \u00e9 quando ela briga com o marido. Vosso nobre Tulo Auf\u00eddio vai sobressair-se nestas guerras, uma vez que seu grande advers\u00e1rio. Coriolano, ficou sem fun\u00e7\u00e3o em sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 N\u00e3o tem por onde escolher. Considero-me feliz, por vos ter acidentalmente encontrado. Convosco termina minha miss\u00e3o; com muito prazer vos acompanharei at\u00e9 vossa casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 At\u00e9 \u00e0 hora da ceia vos contarei coisas mir\u00edficas dos romanos, tendentes todas para a felicidade de seus advers\u00e1rios. Estais novamente com um ex\u00e9rcito em p\u00e9 de guerra, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 E um ex\u00e9rcito verdadeiramente real. Os centuri\u00f5es e seus corpos j\u00e1 se encontram nos quart\u00e9is, a soldo do governo, prontos a marchar com uma hora de aviso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Alegra-me saber que est\u00e3o de prontid\u00e3o, parecendo-me que sou eu o homem que os vai p\u00f4r em movimento. Assim, senhor, dou-vos de cora\u00e7\u00e3o as boas-vindas e me declaro encantado com vossa companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLSCO \u2014 Assim me privais do que me pertence, senhor; sou eu que tenho mais raz\u00f5es para alegrar-me com a vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMANO \u2014 Muito bem; sigamos juntos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl44\" name=\"crl44\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>\u00c2ntio. Defronte da casa de Auf\u00eddio. Entra Coriolano, disfar\u00e7ado, com vestes humildes e a cabe\u00e7a encoberta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Bela cidade, esta \u00c2ntio. Tuas vi\u00favas, \u00f3 cidade! fui eu que fiz. In\u00fameros herdeiros destes belos edif\u00edcios em minhas guerras vi precipitarem-se com estertores. N\u00e3o me reconhe\u00e7as agora, para que, de espeto armadas tuas mulheres, e de pedra os filhos, n\u00e3o me venham matar numa batalha que pare\u00e7a de an\u00f5es. (<i>Entra um cidad\u00e3o.<\/i>) O c\u00e9u vos guarde, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3O \u2014 Como a v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Se vos agrada, mostrai-me onde reside o grande Auf\u00eddio. Est\u00e1 em \u00c2ntio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3O \u2014 Est\u00e1, e nesta noite d\u00e1 para os nobres da cidade, em sua pr\u00f3pria casa, uma festa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por obs\u00e9quio, onde fica essa casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 essa que vedes em vossa frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Muito agradecido, meu senhor; passai bem. (<i>Sai o cidad\u00e3o.<\/i>) \u00d3 mundo, mundo, de voltas inconstantes! Dois amigos jurados, que nesta hora pareciam ter um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o no duplo peito; cujos leitos, lazeres, exerc\u00edcios e refei\u00e7\u00f5es de acordo sempre andavam, g\u00eameos ao parecer, insepar\u00e1veis pela for\u00e7a do amor: dentro de uma hora, por uma diverg\u00eancia de coisinha, na mais amarga diverg\u00eancia explodem. Assim tamb\u00e9m ferrenhos inimigos, cujas paix\u00f5es e planos destrutivos impediam de ao sono se entregarem, por um simples acaso, algum pretexto que n\u00e3o vale um centil, tornam-se amigos do peito e d\u00e3o-se em casamento os filhos. Assim se d\u00e1 comigo: odeio a p\u00e1tria; amo agora a cidade do inimigo. Vou entrar. Caso a vida ele me tire, far\u00e1, t\u00e3o-s\u00f3, justi\u00e7a; em me acolhendo, \u00e0 p\u00e1tria dele prestarei servi\u00e7o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl45\" name=\"crl45\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Vest\u00edbulo em casa de Auf\u00eddio. M\u00fasica dentro. Entra um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Vinho! vinho! vinho! Que servi\u00e7o dessa gente! S\u00f3 parece que todos est\u00e3o dormindo! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra outro criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Onde est\u00e1 Cotus? O patr\u00e3o est\u00e1 chamando. Cotus! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Coriolano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Bela casa! A ceia cheira bem; eu \u00e9 que n\u00e3o pare\u00e7o h\u00f3spede.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o primeiro criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Que desejais, amigo? De onde sois? Aqui n\u00e3o h\u00e1 lugar para v\u00f3s. Ficai na porta, por obs\u00e9quio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o mere\u00e7o acolhida mais af\u00e1vel, j\u00e1 que sou Coriolano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o segundo criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 De onde sois, senhor? O porteiro estar\u00e1 com os olhos no lugar, para permitir a entrada a um tipo desses? Por obs\u00e9quio, ide embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Arreda!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 \u201cArreda?\u201d V\u00f3s \u00e9 que tereis de arredar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Mostrai-vos insolente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Ah! sois t\u00e3o valente assim? J\u00e1 vamos ter uma conversazinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o terceiro criado; volta o primeiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Quem \u00e9 esse sujeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 \u00c9 um tipo original, como nunca vi outro assim. N\u00e3o consigo faz\u00ea-lo sair daqui. Vai chamar o patr\u00e3o, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Amigo, que tens a fazer aqui? Por obs\u00e9quio, evita esta casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Permiti que me conserve de p\u00e9; n\u00e3o causarei dano \u00e0 lareira.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Quem sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Um gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Admiravelmente pobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 o que sou, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Por favor, gentil-homem pobre, escolhei pousada. Aqui n\u00e3o h\u00e1 lugar para v\u00f3s. Ide embora, por obs\u00e9quio. Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Continuai com vossas ocupa\u00e7\u00f5es; empanturrai-vos de frios. (<i>D\u00e1-lhe um empurr\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Ah! n\u00e3o quereis? Por favor, faze saber ao patr\u00e3o que h\u00f3spede estranho ele tem aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Vou j\u00e1. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Onde moras?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Debaixo da ab\u00f3bada.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 \u201cDebaixo da ab\u00f3bada?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 E onde fica isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Na cidade dos milhanos e dos corvos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 \u201cNa cidade dos milhanos e dos corvos?\u201d Que grande asno! Nesse caso, moras tamb\u00e9m com as gralhas?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o estou a servi\u00e7o de teu patr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Como assim, senhor! Tendes alguma coisa que ver com meu patr\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Sim, alguma coisa mais honesta do que seria intrometer-me com tua patroa. N\u00e3o paras de falar. Leva teu prato! Fora daqui! (<i>Expulsa-o com pancada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Auf\u00eddio e o primeiro criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Quem \u00e9 esse camarada?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Aqui, senhor. Eu o teria batido como num c\u00e3o, se n\u00e3o fosse o receio de incomodar l\u00e1 dentro os nobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Que queres? De onde vens? Qual o teu nome? Por que n\u00e3o falas? Vamos, homem: fala! Como te chamas?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO (<i>descobrindo o rosto<\/i>) \u2014 Se n\u00e3o me conheces ainda, Tulo, e, vendo-me, n\u00e3o pensas quem eu seja, de fato, ser\u00e1 for\u00e7a que eu mesmo me nomeie.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Qual teu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Os criados se afastam para o fundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Um nome dissonante para os volscos e duro aos teus ouvidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Dize: o nome? Tens aspecto sanhoso, mas revelas o mando nas fei\u00e7\u00f5es, e embora roto tragas todo o velame, inculcas barco de nobre compostura. Qual teu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ent\u00e3o prepara a fronte; vais franzi-la. Inda n\u00e3o me conheces?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o; teu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Meu nome \u00e9 Caio M\u00e1rcio, que a ti pr\u00f3prio e aos volscos todos causa foi de males e preju\u00edzos in\u00fameros, conforme meu sobrenome o prova: Coriolano. Os trabalhos penosos, os perigos por que passei, as incont\u00e1veis gotas de sangue derramadas pela minha p\u00e1tria de todo ingrata, me valeram t\u00e3o-somente este nome, monumento magn\u00edfico e penhor do \u00f3dio e repulsa que me deves votar. Resta-me apenas esse t\u00edtulo. A inveja e a m\u00e1 vontade do povo, consentidas pelos nossos nobres bastardos, que me abandonaram, tudo o mais consumiram. Sim, deixaram que de Roma eu chegasse a ser expulso pela voz dos escravos. Foi t\u00e3o grande calamidade que ao teu lar me trouxe; n\u00e3o na esperan\u00e7a \u2014 quero que me entendas \u2014 de conservar a vida. Se eu tivesse medo da morte, dentre os homens todos, de ti, principalmente, fugiria. Foi o rancor, apenas, o desejo de com meus proscritores justar contas que \u00e0 tua frente me trouxe. Se tiveres um cora\u00e7\u00e3o cheio de raiva, pronto para vingar os males a ti feitos e endireitar os aleij\u00f5es que o opr\u00f3brio em tua p\u00e1tria causou: n\u00e3o percas tempo e de minha desgra\u00e7a te aproveita; usa-a de forma que meus vingadores servi\u00e7os favore\u00e7am teus intentos, pois combater pretendo minha p\u00e1tria gangrenada com toda a odiosidade dos dem\u00f4nios do inferno. Mas no caso de n\u00e3o quereres arriscar-te a tanto, de j\u00e1 estares cansado de aventuras&#8230; Para ser breve: mais do que enfarado da vida me declaro e ao teu antigo rancor estendo agora este pesco\u00e7o. Tolo te mostrar\u00e1s, se o n\u00e3o cortares, pois teus passos segui sempre com \u00f3dio, do seio de tua p\u00e1tria toneladas de sangue fiz correr, j\u00e1 n\u00e3o podendo viver sen\u00e3o para teu grande opr\u00f3brio, a menos que servi\u00e7os te prestasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 \u00d3 M\u00e1rcio! M\u00e1rcio! Uma por uma as tuas palavras arrancaram-me do peito as ra\u00edzes de meu rancor antigo. Se J\u00fapiter, com sua voz divina, do alto daquela nuvem me dissesse: \u201c\u00c9 certo!\u201d n\u00e3o lhe dera maior cr\u00e9dito do que te dou, meu M\u00e1rcio, em tudo nobre. Deixa que eu passe os bra\u00e7os nesse corpo em que cem vezes eu quebrei a lan\u00e7a e de estilha\u00e7os arranhei a lua. Cinjo a bigorna, assim, de minha espada, e com tanta veem\u00eancia e com nobreza luto com teu afeto, como sempre lutei com f\u00faria cobi\u00e7osa contra tua bravura. A ti, somente, o digo: amava a jovem que ora \u00e9 minha esposa. Jamais noivo nenhum soltou suspiros t\u00e3o sinceros que os meus. Por\u00e9m, ao ver-te neste momento \u2014 a ser em tudo nobre! \u2014 mais enlevado o cora\u00e7\u00e3o no peito sinto saltar, do que quando a soleira transp\u00f4s de casa pela vez primeira minha esposa recente. Ora te conto, Marte, que j\u00e1 aprestamos Outro ex\u00e9rcito, e que eu tinha a inten\u00e7\u00e3o de novamente tentar das carnes arrancar-te o escudo, ou perder nisso o bra\u00e7o. Derrotaste-me doze vezes a fio, e desde essa \u00e9poca sonhei todas as noites com recontros entre n\u00f3s dois. Travados, no meu sono, rol\u00e1vamos no ch\u00e3o, o capacete um do outro a desatar, e nos pesco\u00e7os, encrispados, os dedos, do que sempre meio morto sem causa eu despertava. Digno M\u00e1rcio, se mais nenhuma queixa de Roma n\u00f3s tiv\u00e9ssemos, afora teres sido banido, alistar\u00edamos de doze at\u00e9 setenta os homens todos e nas entranhas dessa ingrata Roma far\u00edamos correr a guerra como rio impetuoso que transborda e alaga. Vem para dentro e aperta a m\u00e3o amiga de nossos senadores, que aqui vieram trazer-me as despedidas, pois armado ora estou contra vossos territ\u00f3rios, muito embora n\u00e3o contra a pr\u00f3pria Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00d3 deuses, aben\u00e7oais-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Assim, guerreiro sem par, se a dire\u00e7\u00e3o tomar quiseres de tua pr\u00f3pria repres\u00e1lia, aceita metade de meus homens e, de acordo com teu alto saber neste dom\u00ednio, j\u00e1 que conheces a fraqueza e a for\u00e7a de teu pa\u00eds, regula a tua marcha, ou seja para contra as pr\u00f3prias portas dos romanos bater, ou com viol\u00eancia visit\u00e1-los nas partes mais remotas e derrot\u00e1-los antes de destru\u00ed-los. Mas entra! Quero logo apresentar-te aos que ter\u00e3o de dizer \u201cSim\u201d a todos os teus desejos. Vezes mil boas-vindas! E agora mais amigo do que sempre fui inimigo. E, M\u00e1rcio, eu o fui de fato. Vossa m\u00e3o. Sois bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Coriolano e Auf\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO (<i>avan\u00e7ando<\/i>) \u2014 Eis a\u00ed uma modifica\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Por esta m\u00e3o, tinha pensado em bater-lhe com um porrete; mas agora me diz o esp\u00edrito que a roupa dele n\u00e3o dizia o que ele era.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 E que punho ele tem! S\u00f3 com um dedo e o polegar fez-me rodar que nem um pi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Pelo rosto eu vi que ele n\u00e3o era pouca coisa. Homem, ele tinha fei\u00e7\u00f5es, parece-me&#8230; Nem sei como caracteriz\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 \u00c9 certo. Parecia&#8230; Quero ser enforcado se eu n\u00e3o suspeitei de que ele encerrava mais do que eu poderia imaginar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Eu tamb\u00e9m posso jur\u00e1-lo. \u00c9 simplesmente o homem mais raro do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 \u00c9 isso mesmo; mas decerto conheceis um guerreiro maior do que ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Quem \u00e9? Meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Isso nem se pergunta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Vale seis como ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o tanto assim; mas considero-o maior guerreiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Com a breca! Ora vede&#8230; A gente nem sabe como dizer, mas para a defesa de uma cidade, nosso general \u00e9 excelente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Sim, e tamb\u00e9m para um assalto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o terceiro criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 \u00d3 escravos! Posso contar-vos novidades! Novidades, marotos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO e SEGUNDO CRIADOS \u2014 Quais! quais? quais? Conta-nos algumas.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Entre todos os povos, n\u00e3o quisera ser romano; equivaleria a estar condenado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO e SEGUNDO CRIADOS \u2014 Por qu\u00ea? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Ora, acha-se l\u00e1 dentro quem estava acostumado a zurzir nosso general: Caio M\u00e1rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Por que dissestes: \u201czurzir nosso general?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 N\u00e3o digo que ele tenha zurzido nosso general; mas sempre lhe deu muito trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Vamos, aqui entre n\u00f3s, somos amigos e companheiros; foi sempre muito duro para ele; ouvi o pr\u00f3prio general dizer-lhe isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Era muito duro para ele. Para dizer a verdade sem rodeios: diante de Cor\u00edolos ele o cortou e retalhou como um carbonado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 E se tivesse natureza de canibal, o teria comido assado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Mas continua a contar as novidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Ora, l\u00e1 dentro ele est\u00e1 sendo tratado como se fosse filho e herdeiro de Marte; deram-lhe a cabeceira da mesa; nenhum senador lhe faz qualquer pergunta, a n\u00e3o ser de p\u00e9, na frente dele e de cabe\u00e7a descoberta. At\u00e9 nosso general o trata como a namorada, benze-se com uma das m\u00e3os e revira os olhos, quando ele fala. Mas o ponto principal da novidade \u00e9 que o nosso general foi cortado em dois, j\u00e1 n\u00e3o sendo sen\u00e3o a metade do que era ontem, porque o outro ficou com a outra metade, por inst\u00e2ncia e consentimento de toda a mesa. Diz ele que vai puxar as orelhas do porteiro de Roma; vai ceifar tudo o que encontrar, deixando raso o caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 E ele \u00e9 t\u00e3o capaz de fazer isso, como qualquer pessoa que eu imagine.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Capaz? H\u00e1 de faz\u00ea-lo. Porque, ora vede, senhor: tanto ele tem amigos como inimigos, os quais amigos, senhor \u2014 por assim dizer \u2014 n\u00e3o ousam \u2014 ora vede, senhor \u2014 como dizemos \u2014 declarar-se amigos, enquanto o virem na indire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Indire\u00e7\u00e3o? Que quer dizer isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Mas quando eles virem, senhor, o homem em condi\u00e7\u00f5es, com a crista novamente de p\u00e9, todos eles sair\u00e3o das tocas como coelhos depois que chove e vir\u00e3o banquetear-se com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Mas para quando ser\u00e1 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Amanh\u00e3, hoje, neste momento. Hoje \u00e0 tarde ouvireis rufar o tambor. \u00c9, por assim dizer, a primeira parte do festim, para ser executada antes de limparem os l\u00e1bios.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Bem; nesse caso vamos ver outra vez o mundo de pernas para o ar. Esta paz s\u00f3 serve para enferrujar o ferro, engordar os alfaiates e aumentar o n\u00famero dos fazedores de baladas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Que venha a guerra, \u00e9 o que eu digo; ela ultrapassa tanto a paz como o dia a noite; \u00e9 lesta, de ouvido fino e cheia de atividades. A paz \u00e9 uma verdadeira apoplexia, um letargo, obtusa, surda, sonolenta, insens\u00edvel e \u00e9 maior geradora de bastardos do que a guerra \u00e9 destruidora de homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 \u00c9 isso mesmo. E assim como a guerra, de algum modo, pode ser denominada o maior fautor de viola\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode negar que seja a paz grande fazedora de cabr\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Sim, \u00e9 causa de se odiarem os homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 E a raz\u00e3o \u00e9 que eles, ent\u00e3o, t\u00eam menos necessidade uns do outros. Guerra, custe quanto custar! Espero ver os romanos por pre\u00e7o t\u00e3o barato quanto os volscos. Est\u00e3o se levantando da mesa! Est\u00e3o se levantando!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Entremos! Entremos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl46\" name=\"crl46\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Sic\u00ednio e Bruto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Nada ouvimos falar a seu respeito; n\u00e3o precisamos, pois, ter medo dele. Seu furor se acalmou com a paz reinante e a quieta\u00e7\u00e3o do povo, que vivia em desordem selvagem. Seus amigos diante de n\u00f3s envergonhados ficam por tudo correr bem; prefeririam muito embora tamb\u00e9m a sofrer viessem, ver desordeiros perturbar as ruas a ver os negociantes em suas lojas cantar alegremente ou dirigirem-se em paz para o trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Men\u00eanio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Soubemos escolher o tempo certo. N\u00e3o \u00e9 Men\u00eanio?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 \u00c9 ele! \u00c9 ele! Am\u00e1vel se tem mostrado ultimamente. Salve, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Meus cumprimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ningu\u00e9m sente falta, senhor, de vosso Coriolano, exclu\u00eddos seus amigos. A rep\u00fablica continua de p\u00e9 e assim ficara, embora mais raivoso ele se achasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Tudo est\u00e1 bem; por\u00e9m melhor seria se ele tivesse contemporizado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Para onde foi? Sabeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 A esse respeito n\u00e3o ouvi coisa alguma. A m\u00e3e e a esposa n\u00e3o t\u00eam not\u00edcias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram tr\u00eas ou quatro cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Deus a ambos ampare.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Boa tarde, vizinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Boa tarde para todos! Boa tarde para todos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00f3s, com mulher e filhos, nos sentimos na obriga\u00e7\u00e3o de orar por v\u00f3s de joelho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Vivei e prosperai.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Adeus, vizinhos. Desejara que M\u00e1rcio vos amasse como n\u00f3s dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Os deuses vos protejam.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO e BRUTO \u2014 Adeus! Adeus!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 O tempo agora \u00e9 muito mais alegre e melhor de viver do que quando estes camaradas corriam pelas ruas gritando por socorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Caio M\u00e1rcio na guerra sempre foi oficial digno, mas insolente, pelo orgulho inflado, ambicioso sem conta, muito ego\u00edsta&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 E desejoso de estar s\u00f3 no trono, sem assistente algum.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o penso assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Para nosso pesar \u00e9 o que ter\u00edamos verificado, se ele conseguisse ter sido c\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Felizmente os deuses preveniram tal coisa e agora Roma sem ele continua calma e firme.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um edil.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDIL \u2014 Dignos tribunos, um escravo preso por n\u00f3s e encarcerado trouxe a nova de que os volscos, em dois distintos corpos, os nossos territ\u00f3rios invadiram e com furor guerreiro incontrast\u00e1vel derrubam tudo o que acham no caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 Auf\u00eddio, que do ex\u00edlio tendo ouvido do nosso M\u00e1rcio, novamente ao mundo mostra os cornos, que sempre conservara dentro da concha, sem ousar tir\u00e1-los, quando ao lado de Roma estava M\u00e1rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Por que falais de M\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Mandai logo chicotear esse espalhador de boatos. \u00c9 imposs\u00edvel que os volscos se atrevessem a romper nossos pactos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 imposs\u00edvel? Sabemos muito bem que isso \u00e9 poss\u00edvel; s\u00f3 em meu tempo vi tr\u00eas vezes isso. Mas conv\u00e9m conversar com esse escravo antes de castig\u00e1-lo, e perguntar-lhe onde ele se informou. N\u00e3o aconte\u00e7a virdes a chibatear o pr\u00f3prio aviso e dar no mensageiro que vos manda ter cautela com o que h\u00e1 de ser temido.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o faleis nisso; sei que isso \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Todos os nobres foram para o senado muito cabisbaixos. Chegou qualquer not\u00edcia que a eles todos deixou completamente transtornados.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Foi o escravo; mandai que o chibateiem diante do povo. Isso \u00e9 trabalho dele; foi a not\u00edcia, apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Sim, mui digno senhor; foi confirmada essa not\u00edcia, al\u00e9m de outras bem mais, bem mais terr\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Que outras not\u00edcias mais terr\u00edveis?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Fala-se por muitas bocas, claramente \u2014 ignoro quanto haja de verdade nisso tudo \u2014 que M\u00e1rcio, juntamente com Auf\u00eddio, contra Roma dirige um grande ex\u00e9rcito, prometendo vingan\u00e7a da largura da dist\u00e2ncia que vai das coisas velhas \u00e0s mais recentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 \u00c9 de acreditar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Foi espalhada essa not\u00edcia apenas para que a gente de \u00e2nimo abatido deseje a volta do bondoso M\u00e1rcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Eis todo o ardil da coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 inveross\u00edmil; ele e Auf\u00eddio concordam tanto como duas contradi\u00e7\u00f5es irredut\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra outro mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Do senado vos chamam. Um ex\u00e9rcito pavoroso, com Caio M\u00e1rcio \u00e0 frente, com Auf\u00eddio associado, assola nossos territ\u00f3rios; \u00e0 for\u00e7a abrem caminho; o inc\u00eandio espalham e tomam tudo o que acham.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Com\u00ednio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Oh! realizastes um trabalho e tanto!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que aconteceu? Quais s\u00e3o as novidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Oh! violar conseguistes vossas filhas, sobre vossas cabe\u00e7as todo o chumbo da cidade fundir, em vossos pr\u00f3prios narizes desonrar vossas esposas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que novidades h\u00e1? Que novidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vossos templos queimados at\u00e9 \u00e0 base, vossas imunidades, de que tanto caso faz\u00edeis, apertadas dentro de um furo de verruma.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Por obs\u00e9quio, que novidades h\u00e1? \u2014 Fizestes obra magistral, \u00e9 o que temo. \u2014 Por obs\u00e9quio, vossas not\u00edcias? Se, em verdade, M\u00e1rcio com os volscos se juntou&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 \u201cSe?\u201d \u00c9 o deus dos volscos. Condu-los como um ser que houvesse sido por um criador formado, diferente da natureza e mais habilidoso na feitura dos homens, e eles todos sob sua dire\u00e7\u00e3o avan\u00e7am contra nossos bonecos t\u00e3o confiantes como meninos que perseguem borboletas ou a\u00e7ougueiros quando matam moscas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Belo trabalho o vosso e o desses homens de avental, que import\u00e2ncia d\u00e1veis tanto aos votos dos art\u00edfices e ao h\u00e1lito dos comedores de alho.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Vossa Roma vai ele sacudir em vossas pr\u00f3prias orelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Tal como H\u00e9rcules fazia nas \u00e1rvores de frutas. Que trabalho admir\u00e1vel o vosso!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Mas \u00e9 certo, senhor, o que dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ora, cert\u00edssimo. Podeis tornar-vos p\u00e1lido at\u00e9 achardes not\u00edcias em contr\u00e1rio. Sorridentes, passam-se muitos para os volscos; quantos procuram resistir s\u00e3o transformados em alvo de chacota pela ign\u00e1via valorosa, morrendo como todos de provada const\u00e2ncia. Quem o pode censurar? Tanto os vossos inimigos como os dele o valor lhe reconhecem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Estaremos perdidos, se o mui nobre vencedor n\u00e3o tiver de n\u00f3s piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Quem ir\u00e1 suplicar-lhe? Por vergonha n\u00e3o o far\u00e3o os tribunos, merecendo sua dem\u00eancia o povo como o lobo merece a do pastor. Se lhe dissessem seus melhores amigos: \u201cS\u00ea benigno para Roma\u201d, teriam procedido como os que o \u00f3dio dele mereceram, comportando-se, assim, como inimigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 certo; caso o viesse atear em minha casa o fogo que iria consumi-la, n\u00e3o teria coragem de dizer-lhe: \u201cParai, vos pe\u00e7o!\u201d Bela m\u00e3o tivestes nesse neg\u00f3cio, v\u00f3s e todos esses artes\u00e3os de m\u00e3os destras. Trabalhastes belamente com as m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Chamastes sobre Roma um tremor que desafia a cura.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO e BRUTO \u2014 N\u00e3o digais que o chamamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como! \u00c9 isso por caso, obra nossa? N\u00f3s o am\u00e1vamos; por\u00e9m como animais e nobres fracos o entregamos a vossa malta informe, que o expulsou, entre apupos, da cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Mas receio que aos urros eles todos o reconduzam. Tulo Auf\u00eddio, o nome segundo entre os ilustres, obedece, como subordinado, \u00e0s ordens dele. O desespero \u00e9 toda a arte pol\u00edtica, toda a for\u00e7a e defesa de que Roma ora disp\u00f5e contra ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um bando de cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 A\u00ed vem o bando. \u2014 Ent\u00e3o Auf\u00eddio est\u00e1 com ele? \u2014 Fostes v\u00f3s que empestastes o ar, quando jog\u00e1veis para o alto vossos gorros fedorentos e engordurados, e solt\u00e1veis gritos pelo ex\u00edlio de M\u00e1rcio. Ele a\u00ed vem vindo, n\u00e3o havendo um cabelo na cabe\u00e7a de seus soldados que ora n\u00e3o se mude num bom chicote. Todos os idiotas que para cima os gorros atiraram vai ele derrubar para pagar-se dos votos alcan\u00e7ados. N\u00e3o importa; mesmo que ele a n\u00f3s todos consumisse num s\u00f3 ti\u00e7\u00e3o: de sobra o merecemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Em verdade, a not\u00edcia \u00e9 assustadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Por minha parte, quando eu disse: \u201cVoto pela expuls\u00e3o!\u201d acrescentei: \u201cE pena!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 O mesmo eu fiz.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Eu tamb\u00e9m; e, para dizer a verdade, muitos outros disseram a mesma coisa. O que fizemos foi pelo melhor, e embora tiv\u00e9ssemos concordado voluntariamente em que ele fosse banido, deu-se isso contra nossa vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Bela coisa sois todos v\u00f3s, com vossos votos!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00d3tima coisa v\u00f3s e vossa malta conseguistes fazer. E agora, vamos ao Capit\u00f3lio?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Sim, que mais faremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Com\u00ednio e Men\u00eanio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ide, meus mestres, para vossas casas. N\u00e3o fiqueis assustados. Esses fazem parte de um grupo que se alegraria se visse confirmado o que simula, t\u00e3o-somente, temer. Ide, acolhei-vos a vossas casas, sem mostrar receio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Que os deuses se amerceiem de n\u00f3s! Vamos, mestres; vamos para casa. Eu sempre disse que proced\u00edamos mal em bani-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 E assim todos. Mas vamos para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Essa not\u00edcia n\u00e3o me agrada em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Nem a mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vamos ao Capit\u00f3lio. Perderia metade de meus bens com muito gosto, s\u00f3 para desmenti-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl47\" name=\"crl47\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Acampamento a pequena dist\u00e2ncia de Roma. Entram Auf\u00eddio e seu tenente.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Continua passando muita gente para o Romano?<\/p>\n<p align=\"justify\">TENENTE \u2014 Ignoro o seu feiti\u00e7o, mas para vossos homens ele \u00e9 a prece de antes das refei\u00e7\u00f5es, toda a conversa \u00e0 mesa, e as gra\u00e7as quando se levantam. Nesta campanha, meu senhor, ficastes eclipsado at\u00e9 mesmo para os vossos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer nada agora, para n\u00e3o estropiar a pr\u00f3pria marcha de meus planos, com quanto ora empregasse. Sua atitude \u00e9 muito mais altiva, at\u00e9 mesmo comigo, do que fora de imaginar no instante de abra\u00e7\u00e1-lo pela primeira vez. Inalter\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 a sua natureza, sendo-me for\u00e7oso desculpar o que n\u00e3o pode jamais ser corrigido.<\/p>\n<p align=\"justify\">TENENTE \u2014 No entretanto, senhor, eu desejara \u2014 e s\u00f3 digo isso visando vosso bem \u2014 que n\u00e3o tiv\u00e9sseis a dire\u00e7\u00e3o com ele dividido. Deveria o comando ser s\u00f3 vosso, ou dele, t\u00e3o-somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Sim, compreendo-te. Mas podes ficar certo de que quando ele tiver de prestar contas, hei de dele exigir o que ele nem suspeita. Muito embora pare\u00e7a, e ele assim pense, e ao pr\u00f3prio olho do vulgo se afigure que ele administra bem o Estado volsco, luta como um drag\u00e3o, bastando a espada sacar para vencer: algo ele deixa por fazer, que o pesco\u00e7o ir\u00e1 quebrar-lhe, ou p\u00f4r o meu em risco, quando as contas tivermos de justar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TENENTE \u2014 Uma pergunta, senhor: acreditais, realmente, que ele venha a conquistar Roma?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Toma todos os burgos antes mesmo de cerc\u00e1-los; a nobreza de Roma lhe pertence; amam-no os senadores e os patr\u00edcios; os tribunos n\u00e3o lutam, e seu povo ser\u00e1 t\u00e3o pressuroso em repatri\u00e1-lo como foi na expuls\u00e3o precipitado. Sou de opini\u00e3o que ele far\u00e1 com Roma como com o peixe faz a \u00e1guia marinha, que o apanha por direito soberano da natureza. Foi primeiro um nobre servidor do pa\u00eds, mas sempre inapto para mostrar modera\u00e7\u00e3o nas honras, fosse isso por orgulho, com que o \u00eaxito de todo dia mancha o homem de sorte, ou por qualquer defeito do ju\u00edzo, que o impede sempre de tirar partido dos casos de que \u00e9 dono; ou fosse efeito de sua natureza que n\u00e3o muda de atitude no casco e na almofada, levando-o a ser na paz t\u00e3o rigoroso e austero que na guerra: uma somente dessas faltas \u2014 pois germe tem de todas \u2014 n\u00e3o todas \u2014 quero ser com ele justo \u2014 o fez temido, odiado e, alfim, banido. \u00c9 grande o seu merecimento, \u00e9 certo; mas asfixia-o quando o manifesta. Nossas virtudes s\u00e3o medidas pelo julgamento do tempo, n\u00e3o possuindo qualquer poder, de si recomend\u00e1vel, mais not\u00f3rio, sepulcro do que a c\u00e1tedra de onde \u00e9 feito seu pr\u00f3prio paneg\u00edrico. O prego expulsa o prego; a chama, a chama; perante um t\u00edtulo outro perde a fama. A for\u00e7a vence a for\u00e7a&#8230; Que prossiga! Quando tiveres Roma como amiga, caro M\u00e1rcio, mais pobre ficar\u00e1s e em pouco tempo em meu poder cair\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl51\" name=\"crl51\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Men\u00eanio, Com\u00ednio, Bruto, Sic\u00ednio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o irei; ouvistes o que disse ao seu antigo general; que o amava por maneira especial&#8230; Dava-me o nome de pai; mas que importa isso? Ide v\u00f3s mesmos que o banistes; prostrai-vos a uma milha de sua tenda e percorrei, de joelhos, a estrada que possa ir diretamente \u00e0 sua compaix\u00e3o. Uma vez que ele n\u00e3o quis ouvir Com\u00ednio, vou deixando-me ficar por aqui mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Ele fingiu que n\u00e3o me conhecia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Mas uma vez chamou-me pelo nome. Falei-lhe em nossas rela\u00e7\u00f5es antigas e nas gotas que, juntos, derramamos. N\u00e3o atendeu ao nome \u201cCoriolano\u201d, proibindo-me de dar-lhe qualquer outro, por julgar-se sem t\u00edtulo, uma esp\u00e9cie de coisa alguma, at\u00e9 que um novo nome na fornalha de Roma ele forjasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Vedes que bela coisa realizastes? Dois tribunos que se sacrificaram no banco de tormentos, porque em Roma carv\u00e3o barato houvesse. Belo feito!<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Cheguei a lhe lembrar quanta nobreza h\u00e1 no perd\u00e3o que j\u00e1 ningu\u00e9m espera. Disse ser isso peti\u00e7\u00e3o mesquinha de um Estado \u00e0 pessoa que ele pr\u00f3prio mandara castigar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Perfeitamente. Poderia falar de outra maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Procurei o interesse despertar-lhe para os amigos a ele mais chegados. Toda sua resposta foi que tempo n\u00e3o lhe sobrava para separ\u00e1-los de um monte de refugos bolorentos. Era loucura, disse, s\u00f3 por causa de um pobre gr\u00e3o ou dois, n\u00e3o lan\u00e7ar fogo no monturo que o olfato nos ofende.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Um pobre gr\u00e3o ou dois! Eu sou um deles. A m\u00e3e, a esposa, o filho, este valente companheiro os gr\u00e3os somos. Os refugos bolorentos sois v\u00f3s, cujo mau cheiro chega a passar a lua. Assim, teremos de ser queimados s\u00f3 por vossa causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o, tende compaix\u00e3o? Se vosso aux\u00edlio nos recusais numa necessidade t\u00e3o grande como nunca, pelo menos exprobrar n\u00e3o queirais nossa desgra\u00e7a. Mas \u00e9 certeza: se vos resolv\u00easseis a causa a defender de vossa p\u00e1tria, vossa bela palavra, mais potente, muito mais, do que a for\u00e7a que pud\u00e9ssemos improvisar, deter conseguiria nosso compatriota.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o entro nisso. De forma alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ide falar-lhe, por compaix\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Que poderei fazer?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tentar, apenas, o que para Roma junto de M\u00e1rcio vosso amor consegue.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Bem; mas digamos que ele me despe\u00e7a, como fez com Com\u00ednio, sem ouvir-me&#8230; E depois? Um amigo molestado, atingido de cheio pela m\u00e1goa de sua grosseria&#8230; E se for isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Vossa boa vontade, nesse caso, ter\u00e1 alcan\u00e7ado a gratid\u00e3o de Roma, por terdes procedido nobremente.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Bem, vou tentar; espero ser ouvido. Mas ter mordido o l\u00e1bio e resmungado para nosso Com\u00ednio, me apavora. N\u00e3o foi bem apanhado; certamente ainda estava sem jantar. Vazias as veias, nosso sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue com comida e vinho, fica-nos a alma muito mais male\u00e1vel do que durante esses jejuns de padre. Vou esperar, assim, que entre na dieta de meu pedido, para ent\u00e3o falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Conheceis o caminho da bondade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria; extraviar-vos \u00e9 imposs\u00edvel<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caNIO \u2014 Por minha f\u00e9! vou p\u00f4-la \u00e0 prova, venha da\u00ed o que vier. Dentro de pouco ficarei conhecendo meu prest\u00edgio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 Jamais ele o ouvir\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 N\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">COM\u00cdNIO \u2014 \u00c9 o que eu penso. Sentado est\u00e1 em ouro; os olhos, rubros como para lan\u00e7ar o inc\u00eandio em Roma, sendo sua pr\u00f3pria inj\u00faria o carcereiro de sua compaix\u00e3o. Ajoelhei-me na frente dele; muito vagamente murmurou: Levantai-vos! despedindo-me assim, com a m\u00e3o muda. O que pretende fazer, depois mandou-me por escrito, e o que jamais far\u00e1; por juramento se acha obrigado a cumprir tudo \u00e0 risca. Assim, n\u00e3o temos esperan\u00e7a alguma. a menos que sua nobre m\u00e3e e a esposa, conforme me disseram, se resolvam a lhe impetrar piedade para a p\u00e1tria. Vamos, pois, procur\u00e1-las, apressando-as quanto estiver em nossa justa inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl52\" name=\"crl52\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento volsco diante de Roma. Os guardas est\u00e3o em seus postos; Men\u00eanio aproxima-se deles.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Alto a\u00ed! De onde vindes?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Nem um passo mais para a frente!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sois, valentes guardas. Mas, com licen\u00e7a: oficial eu sou do Estado e vim falar com Coriolano.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 De que parte?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 De Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o pode; for\u00e7oso \u00e9 que volteis; o nosso chefe n\u00e3o quer ouvir de l\u00e1 coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Vereis Roma entre chamas, antes mesmo de poderdes falar com Coriolano.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Caros amigos, se j\u00e1 ouvistes vosso chefe falar de Roma e dos amigos que ele tem l\u00e1: aposto cem contra um que meu nome j\u00e1 vos feriu o ouvido: Men\u00eanio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Pouco importa qual seja ele. Para tr\u00e1s, que a virtude desse nome aqui n\u00e3o tem passagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Companheiro, teu general, repito, \u00e9 meu amigo. O livro tenho sido de seus atos valorosos, no qual os homens leram sua fama sem par, at\u00e9 aumentada, que exaltar sempre eu soube meus amigos \u2014 dos quais ele \u00e9 o primeiro \u2014 com a amplitude que a verdade comporta sem decl\u00ednio. Algumas vezes, mesmo, como bola num terreno macio, estive a ponto de ultrapassar a meta; em louvor dele quase pus a chancela nas mentiras. Por isso tudo, amigo, \u00e9 necess\u00e1rio deixardes-me passar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Em verdade, senhor, ainda mesmo que houv\u00e9sseis dito tantas mentiras a seu favor quantas palavras pronunciastes em vosso pr\u00f3prio proveito, n\u00e3o passar\u00edeis aqui. N\u00e3o; nem que fosse t\u00e3o virtuoso mentir, como viver castamente. Por obs\u00e9quio, retornai.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Por obs\u00e9quio, amigo, lembrai-vos de que meu nome \u00e9 Men\u00eanio, adepto sempre entusiasta de vosso general.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Ainda que tiv\u00e9sseis sido seu caluniador \u2014 como h\u00e1 pouco o confessastes \u2014 sou homem que digo a verdade sob as ordens dele, raz\u00e3o por que vos declaro que n\u00e3o podeis passar. Por isso, retornai.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Poder\u00e1s informar-me se ele j\u00e1 jantou? Porque s\u00f3 desejo falar-lhe depois do jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Sois romano, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sou o que \u00e9 teu general.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Nesse caso dever\u00edeis ter \u00f3dio a Roma, como ele tem. Poder\u00edeis, quando pusestes porta fora seu verdadeiro defensor, e, numa crassa ignor\u00e2ncia popular, entregastes vosso escudo ao inimigo, poder\u00edeis crer que ser\u00edeis capazes de conter sua vingan\u00e7a com os gemidos f\u00e1ceis das velhas, as palmas virgens de vossas filhas ou com a interfer\u00eancia paral\u00edtica de um velho tonto como pareceis ser? Acreditais, mesmo que o inc\u00eandio que est\u00e1 prestes a destruir vossa cidade possa ser apagado com um sopro assim t\u00e3o fraco? N\u00e3o; estais enganado. Voltai, pois, para vossa Roma e preparai-vos para a execu\u00e7\u00e3o. Estais condenados, nosso general n\u00e3o vos conceder\u00e1 tr\u00e9gua nem perd\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Maroto, se teu capit\u00e3o soubesse que me encontro aqui, tratar-me-ia com considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Vamos! Meu capit\u00e3o n\u00e3o vos conhece.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Quero dizer: teu general.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Meu general n\u00e3o se preocupa convosco. Para tr\u00e1s! J\u00e1 disse; do contr\u00e1rio, derramarei a meia pinta de sangue&#8230; Para tr\u00e1s!&#8230; que \u00e9 s\u00f3 o que vos resta. Para tr\u00e1s!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sim&#8230; Mas, companheiro! companheiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Coriolano e Auf\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Agora, companheiro, vou mostrar-vos como as coisas s\u00e3o; vereis em que conceito eu sou tido. Chegou o momento de verificardes que n\u00e3o cabe nas obriga\u00e7\u00f5es de um Jo\u00e3o-porteiro separar-me de meu filho Coriolano. Deduz, da maneira por que vou ser recebido, se n\u00e3o te encontras em perigo de ser enforcado ou de qualquer outra morte mais demorada para os espectadores e mais cruel para o paciente. Olha agora bem de frente e desmaia por causa do que te espera. (<i>A Coriolano.<\/i>) Que os deuses gloriosos se re\u00fanam a todas as horas em conselho, para tratar de tua prosperidade, e que n\u00e3o te amem menos do que o teu velho pai Men\u00eanio. \u00d3 meu filho! meu filho! Preparas fogo para n\u00f3s. Olha: aqui trago \u00e1gua para apag\u00e1-lo. Custou-me a decidir-me a vir falar-te; mas por estar convencido de que somente eu poderia comover-te, deixei que os suspiros me trouxessem at\u00e9 vossas portas, para conjurar-te a perdoar a Roma e a teus compatriotas suplicantes. Que os deuses bondosos abrandem tua c\u00f3lera e lancem sua borra sobre este tipo que, como um bloco de pedra, me negou acesso a tua presen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Para tr\u00e1s!<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como! Para tr\u00e1s!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Esposa, m\u00e3e e filho, desconhe\u00e7o-os. Confiados a outros tenho os meus neg\u00f3cios. \u00c9 certo que a vingan\u00e7a me pertence; por\u00e9m minha dem\u00eancia ora se encontra no cora\u00e7\u00e3o dos volscos. A amizade que tivemos, primeiro o olvido ingrato deixar\u00e1 venenosa, que a piedade poder\u00e1 avaliar. Por isso, parte. Mais fortes s\u00e3o os meus ouvidos contra vossos pedidos do que vossas portas contra minha investida. No entretanto, por j\u00e1 te ter amado, recebe isto. (<i>D\u00e1-lhe um papel.<\/i>) Foi escrito somente por tua causa, e tencionava enviar-to. Outra palavra, Men\u00eanio, n\u00e3o desejo que me digas. Auf\u00eddio, este homem foi meu bem-amado na cidade de Roma. No entretanto, como v\u00eas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Revelai-vos sempre firme.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Coriolano e Auf\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Ent\u00e3o, senhor, vosso nome \u00e9 Men\u00eanio?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Como vistes, \u00e9 uma palavra m\u00e1gica, de grande efici\u00eancia. Agora aprendestes o caminho de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Ouvistes como fomos censurados, por termos interceptado a passagem de Vossa Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Que raz\u00e3o imaginais que eu tenha para desmaiar?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o me preocupo nem com o mundo nem com vosso general. Seres como v\u00f3s dois, nem chego a conceber que possam existir, t\u00e3o insignificantes sois. Quem tem a possibilidade de morrer por suas pr\u00f3prias m\u00e3os, n\u00e3o tem medo de que os outros o matem. Que vosso general pratique as piores barbaridades. Quanto a v\u00f3s, continuai por muito tempo sendo o que sois, e que com a idade aumente vossa mis\u00e9ria. Digo-vos o que me disseram: para tr\u00e1s! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Um nobre companheiro, posso asseverar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 O companheiro mais digno \u00e9 nosso general: \u00e9 uma rocha, um carvalho, que vento algum consegue abalar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl53\" name=\"crl53\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Tenda de Coriolano. Entram Coriolano, Auf\u00eddio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Acamparemos amanh\u00e3 defronte das muralhas de Roma. Como s\u00f3cio meu que sois nesta empresa, aos comandantes volscos relatareis minha lisura em todo este neg\u00f3cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 S\u00f3 cuidastes dos interesses deles, e os ouvidos fechastes para as s\u00faplicas romanas; n\u00e3o admitistes o menor cochicho de ningu\u00e9m, nem ainda dos amigos que se prezavam de maior prest\u00edgio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 O \u00faltimo, aquele velho que eu reenviei com o cora\u00e7\u00e3o partido para Roma, tinha por mim mais do que amor paterno. Sim, chegava a endeusar-me. A vinda dele representa o \u00faltimo recurso. Embora me mostrasse com ele muito r\u00edspido, levando em conta nosso antigo afeto de novo ofereci-lhes as primeiras condi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 por eles recusadas e que, por isso, n\u00e3o ser\u00e3o aceitas. Fiz isso para prestigiar o amigo que alcan\u00e7ar muito mais imaginava. Cedi, alguma coisa. Doravante, por\u00e9m, ouvidos n\u00e3o terei para outras embaixadas ou s\u00faplicas, ou venham do Estado, ou dos amigos, meus privados. (<i>Clamor fora.<\/i>) Que clamor ser\u00e1 esse? Porventura querer\u00e3o obrigar-me a ser perjuro na hora precisa em que formulo o voto? Tal n\u00e3o farei. (<i>Com vestes de luto entram Verg\u00edlia, Vol\u00famnia que conduz o jovem M\u00e1rcio, Val\u00e9ria e criadas.<\/i>) \u00c0 frente, minha esposa; depois, a honrosa forma em que este tronco foi plasmado, trazendo pela m\u00e3o o neto de seu sangue. Fora, fora, compaix\u00e3o! Arrebentem-se os liames e os privil\u00e9gios todos da natura. Ser obstinado, agora, \u00e9 ser virtuoso. Que significam essas rever\u00eancias, esses olhos de pomba, que podiam deixar perjuros at\u00e9 aos pr\u00f3prios deuses? Comovo-me. N\u00e3o sou feito de argila mais forte do que os outros. At\u00e9 ao solo se curva minha m\u00e3e, como se o Olimpo diante de um monte de toupeira viesse, humilhado, abaixar-se; e meu filhinho fei\u00e7\u00f5es de suplicante ora apresenta, que a declarar obriga a natureza: \u201cN\u00e3o recuses!\u201d Que os volscos arem Roma e o rastrilho por toda a It\u00e1lia passem. Nunca o papel farei dos gansozinhos que ao instinto obedecem; mas como homem resistirei, que houvesse de si mesmo sido gerado e que n\u00e3o conhecesse nenhum parente.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 Meu senhor e esposo!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 N\u00e3o vejo as coisas como via em Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 A tristeza que tanto nos transforma \u00e9 que vos faz pensar dessa maneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Tal como ator est\u00fapido, esqueci-me do meu papel e fui vaiado e expulso. \u00d3 tu, parte melhor de minha carne, perdoa ao meu rigor, mas n\u00e3o me digas que aos romanos perdoe. E agora um beijo t\u00e3o longo quanto meu ex\u00edlio, doce como minha vingan\u00e7a. Pela c\u00f3lera da rainha do c\u00e9u, digo-te que este beijo eu tomei de ti, minha querida, e desde ent\u00e3o a minha fiel boca virgem se conservou. Oh deuses! Falo sem medida, e a mais nobre m\u00e3e do mundo deixo sem sauda\u00e7\u00e3o! Dobra-te, joelho, at\u00e9 ao ch\u00e3o e na terra imprime marcas de tua rever\u00eancia mais profundas que as do filhos comuns.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh, n\u00e3o! Levanta-te e s\u00ea bendito. Eu, sim, que em almofada m\u00e3o mais mole que a pedra, dobro os joelhos diante de ti e impropriamente mostro rever\u00eancia, tal como se durante toda a vida enganado me tivesse com a atitude dos pais para seus filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Como! Diante de mim vos ajoelhais? Ent\u00e3o, que os seixos da marinha praia nos astros v\u00e3o bater. Ent\u00e3o, que os ventos amotinados lancem contra o ardente sol os cedros altivos, o imposs\u00edvel matando, com deixar trabalho f\u00e1cil o que n\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 \u00c9s meu guerreiro; foste feito por mim. N\u00e3o reconheces esta senhora aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 a nobre irm\u00e3 de Publ\u00edcola; a lua ela \u00e9 de Roma, casta como o cristal feito da neve mais pura que do templo de Diana estivesse a pender: cara Val\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Este \u00e9 um pobre resumo de v\u00f3s pr\u00f3prio, que com o aperfei\u00e7oamento do futuro talvez consiga vos pegar em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Que o deus dos combatentes, com a anu\u00eancia de J\u00fapiter supremo, de nobreza te inspire o pensamento, porque possas mostrar-te invulner\u00e1vel ao opr\u00f3brio e ficar nas batalhas como grande baliza que resiste \u00e0s tempestades e salva a quantos para ti olharem.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Pequeno, ajoelha-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 \u00c9 o meu bravo filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Sim, ele, vossa esposa \u2014 esta senhora \u2014 e eu pr\u00f3pria somos vossos suplicantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Por obs\u00e9quio, calai-vos. Ou, no caso de falardes, lembrai-vos de que nunca podeis considerar como recusa de minha parte o que por juramento obrigado me vejo a recusar-vos. N\u00e3o mandeis que eu despe\u00e7a meus soldados ou que a capitular de novo venha com os artes\u00e3os de Roma. N\u00e3o desejo que me mostreis o em que desnaturado pare\u00e7o agora, nem que minha c\u00f3lera e meu rancor tenteis tranq\u00fcilizar com o frio racioc\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Oh! basta! basta! N\u00e3o nos concedeis nada, j\u00e1 o dissestes, pois a pedir n\u00e3o temos outra coisa a n\u00e3o ser o que j\u00e1 nos recusastes. Contudo, vamos formular a s\u00faplica, pois se nos recusardes o pedido s\u00f3 em vosso rigor recaia o opr\u00f3brio. Por isso, ouvi-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Tomai nota, Auf\u00eddio; e v\u00f3s, volscos, tamb\u00e9m; pois n\u00e3o queremos ouvir de Roma coisa alguma \u00e0 parte. Qual \u00e9 o vosso pedido?<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Se fic\u00e1ssemos calados, sem dizer palavra alguma, nossas vestes e o estado destes corpos mostrariam a vida que levamos depois de teu ex\u00edlio. Considera quanto mais infelizes do que todas as mulheres n\u00f3s somos no momento de procurar-te, pois a tua vista, que deveria, de prazer, os olhos marejar-nos de l\u00e1grimas e aos saltos o cora\u00e7\u00e3o deixar-nos, de conforto, de pavor e tristeza for\u00e7a aqueles a chorar e a este deixa estremecido, com obrigar a esposa, a m\u00e3e e o filho a verem o marido, o filho e o pai as entranhas rasgar da pr\u00f3pria p\u00e1tria. A n\u00f3s, coitadas, muito mais que \u00e0s outras \u00e9 teu \u00f3dio fatal, pois nos impede de aos deuses dirigirmos nossas s\u00faplicas, o que grande conforto \u00e9 para todas, com exce\u00e7\u00e3o de n\u00f3s. Pois como fora poss\u00edvel \u2014 ai de n\u00f3s! \u2014 como nos fora poss\u00edvel implorar por nossa p\u00e1tria \u2014 como \u00e9 nosso dever \u2014 e, ao mesmo tempo, pedir que possas alcan\u00e7ar vit\u00f3ria, como \u00e9 nosso dever? Ah! \u00e9 preciso que percamos a p\u00e1tria, a ama querida, ou ent\u00e3o tua pessoa, nosso amparo e alegria na p\u00e1tria. Inevit\u00e1vel calamidade sobre n\u00f3s se apresta, seja qual for o voto que se exalce quanto \u00e0 final vit\u00f3ria. Pois for\u00e7oso ser\u00e1 que, como um malfeitor estranho, passes em ferros pelas nossas ruas, ou que pises triunfante nos escombros de tua p\u00e1tria e a palma a alcan\u00e7ar venhas por haveres o sangue derramado bravamente da esposa e de teu filho. Porque, meu filho, protelar n\u00e3o hei de at\u00e9 que possa decidir a sorte sobre o fim desta guerra. Se imposs\u00edvel me \u00e9 de todo fazer que, enfim, te mostres com as duas partes nobre e generoso, em vez de a ru\u00edna de uma procurares, fica sabendo que n\u00e3o h\u00e1s de os muros assaltar da cidade \u2014 isso \u00e9 certeza \u2014 sem passares primeiro sobre o ventre da m\u00e3e que te deu vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">VERG\u00cdLIA \u2014 E tamb\u00e9m sobre o meu, onde gerado foi teu filho, porque teu nome nele perpetuasses.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Sobre o meu corpo ele n\u00e3o pisa, que hei de sair correndo, e quando ficar grande, volto para brigar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Se n\u00e3o quisermos na alma ter de mulher a semelhan\u00e7a, ver n\u00e3o devemos nem mulher nem crian\u00e7a. J\u00e1 esperei muito tempo. (<i>Levanta-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIA \u2014 Desse modo n\u00e3o nos deixeis. Se nossa interfer\u00eancia a favor dos romanos implicasse a destrui\u00e7\u00e3o dos volscos, a servi\u00e7o dos quais estais agora, poder\u00edeis ver em n\u00f3s o veneno de vossa honra. N\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 tal. Queremos, t\u00e3o-somente, que a reconcilia\u00e7\u00e3o fa\u00e7ais entre eles, de forma que dizer os volscos possam: \u201cMostramo-nos clementes\u201d, e os romanos: \u201cCom rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s\u201d, rompendo todos em calorosos vivas para tua pessoa com dizerem: \u201cS\u00ea bendito por semelhante paz!\u201d Meu grande filho, como bem sabes, toda guerra \u00e9 incerta. Mas uma coisa \u00e9 certa: se chegares a ganhar Roma, lucrar\u00e1s apenas um nome que h\u00e1 de ser por toda parte dito com maldi\u00e7\u00e3o e cuja cr\u00f4nica repetir\u00e1: \u201cEra pessoa nobre. mas com o \u00faltimo feito rebaixou-se: destruiu a p\u00e1tria, havendo transmitido para a posteridade um nome abjeto\u201d. Fala, meu filho. Sempre te esfor\u00e7aste por ter os delicados tra\u00e7os da honra, por imitar dos imortais a gra\u00e7a, com teus trov\u00f5es dilacerando as largas bochechas do ar, mais disparando um raio capaz apenas de fender um roble. Por que n\u00e3o dizes nada? Acaso pensas que seja honroso para um nobre sempre relembrar as inj\u00farias? Falai, filha; ele n\u00e3o d\u00e1 valor ao vosso choro. Menino, fala tu, \u00e9 bem poss\u00edvel que comov\u00ea-lo possa mais que nossas raz\u00f5es tua inoc\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 filho que mais deva a sua m\u00e3e; no entanto, deixa-me falar agora sem parar, tal como condenado no cepo. Em toda a vida nunca deste a tua m\u00e3e prova de afeto. Ela \u2014 pobre ave! n\u00e3o se preocupava com segunda ninhada \u2014 para as guerras com seu cacarejar sempre te enviava e, coberto de gl\u00f3ria, te fazia voltar s\u00e3o para casa. Dize apenas que meu pedido \u00e9 injusto e me repele. Mas, se tal n\u00e3o se der, faltas com a honra, castigando-te os deuses por me haveres recusado a obedi\u00eancia que me toca por direito de m\u00e3e. Ele se vira! De joelho, damas! Possam humilh\u00e1-lo nossas genuflex\u00f5es. O sobrenome Coriolano lhe infunde mais orgulho que compaix\u00e3o todas as nossas s\u00faplicas. De joelhos; acabemos. Vai ser a \u00faltima tentativa. Voltemos para Roma e com nossos vizinhos pere\u00e7amos. N\u00e3o; olha para n\u00f3s. Este menino que n\u00e3o sabe dizer o que pretende, mas apenas se ajoelha e as m\u00e3os levanta, traz raz\u00f5es mais potentes do que possas aduzir em contr\u00e1rio. Mas voltemos. Por m\u00e3e este homem teve mulher volsca; a esposa est\u00e1 em Cor\u00edolos; o filho s\u00f3 por acaso tem os tra\u00e7os dele. Mas despachemo-nos; quero ficar quieta at\u00e9 nossa cidade ver em chamas; depois ainda direi alguma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 (<i>tomando Vol\u00famnia, que se cala, pela m\u00e3o.<\/i>) M\u00e3e! \u00f3 m\u00e3e! que fizestes? Oh! entreabrem-se os c\u00e9us, e os deuses que nos v\u00eaem riem desta cena contr\u00e1ria \u00e0 natureza. \u00d3 minha m\u00e3e! \u00d3 m\u00e3e! \u00d3 minha m\u00e3e! Ganhastes para Roma uma vit\u00f3ria muito feliz, mas para vosso filho, podeis crer-me \u2014 oh! podeis \u2014 prevalecestes sobre ele por maneira perigosa, se mortal n\u00e3o lhe for. Por\u00e9m que venha. Auf\u00eddio, muito embora eu j\u00e1 n\u00e3o possa dirigir guerra leal, ao menos posso concluir honrosa paz. Bondoso Auf\u00eddio, se em meu lugar agora vos ach\u00e1sseis, ter\u00edeis, porventura, ouvido menos vossa m\u00e3e, caro Auf\u00eddio, ou concedido menos do que pedisse?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Comovido fiquei, confesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Eu o asseveraria. E, amigo, podeis crer que pouca coisa dos olhos n\u00e3o me faz pingar piedade. Meu bondoso senhor, aconselhai-me sobre a paz que quereis fazer com eles. Por minha parte n\u00e3o irei a Roma; retornarei convosco. Por obs\u00e9quio, neste passo auxiliai-me. Oh m\u00e3e! oh esposa!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Muito me alegra ver que em tua alma lutam a compaix\u00e3o e a honra. Com isso tudo saberei refazer a antiga sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>As senhoras fazem sinal a Coriolano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Neste momento. Mas bebamos juntos, e levareis a Roma um testemunho melhor do que palavras, que haveremos de subscrever em condi\u00e7\u00f5es id\u00eanticas. Vamos, entremos juntos. V\u00f3s, senhoras, um templo mereceis que vos construam; as espadas da It\u00e1lia, suas armas confederadas, nunca chegariam a alcan\u00e7ar uma paz como a de agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl54\" name=\"crl54\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Men\u00eanio e Sic\u00ednio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Estais vendo aquela sali\u00eancia do Capit\u00f3lio, a pedra angular?<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Estou; mas a que vem isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Se conseguirdes abal\u00e1-la com o dedo m\u00ednimo, haver\u00e1 alguma esperan\u00e7a de que as damas de Roma, principalmente a m\u00e3e dele, consigam alguma coisa. Mas, como disse, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a; estamos com as gargantas sentenciadas \u00e0 espera somente da execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel que um tempo t\u00e3o curto modifique a esse ponto a natureza de uma pessoa?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 H\u00e1 muita diferen\u00e7a entre a cris\u00e1lida e a borboleta; no entanto, a borboleta j\u00e1 foi cris\u00e1lida. De homem, este M\u00e1rcio se transformou em drag\u00e3o; adquiriu asas; \u00e9 algo mais do que um ser que rasteja.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Era muito afei\u00e7oado \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Como a mim tamb\u00e9m o foi. Mas agora ele se recorda tanto de sua m\u00e3e como de um cavalo de oito anos. A aspereza de seu rosto azeda uvas maduras. Quando anda, move-se como uma m\u00e1quina de guerra, rachando-se o solo \u00e0s suas passadas. S\u00f3 com o olhar \u00e9 capaz de furar um arn\u00eas; fala como um dobre de finados e seu murm\u00fario \u00e9 uma bateria. Senta-se em sua cadeira como quem representa Alexandre. O que ele ordena que se fa\u00e7a, fica feito s\u00f3 com a simples ordem. Para ser um deus s\u00f3 lhe falta a eternidade e um c\u00e9u para servir-lhe de trono.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Oh! compaix\u00e3o! se o descreveis com fidelidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 Na descri\u00e7\u00e3o atenho-me ao seu car\u00e1ter. Observai a gra\u00e7a que sua m\u00e3e alcan\u00e7ou junto dele. H\u00e1 piedade nele como leite em um tigre macho, \u00e9 o de que ter\u00e1 de certificar-se nossa cidade. E tudo isso \u00e9 trabalho vosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Que os deuses se compade\u00e7am de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 N\u00e3o; num caso destes eles n\u00e3o se compadecer\u00e3o de n\u00f3s. Quando banimos Coriolano, n\u00e3o fizemos conta dele; voltando Coriolano agora para cortar-nos o pesco\u00e7o, n\u00e3o far\u00e3o conta de n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhor se amais a vida, recolhei-vos para casa. Os plebeus se apoderaram de vosso companheiro de mandato, d\u00e3o-lhe empurr\u00f5es e juram que se as damas romanas n\u00e3o trouxerem boas novas, h\u00e3o de tirar-lhe a vida aos pedacinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra outro mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Boas not\u00edcias? Boas not\u00edcias! boas! \u00c0s matronas prevaleceram. J\u00e1 o acampamento os volscos levantaram, M\u00e1rcio foi-se. Nunca viu Roma t\u00e3o alegre dia, nem mesmo quando expulso foi Tarqu\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Amigo, tens certeza do que dizes? N\u00e3o haver\u00e1 engano?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Tenho tanta certeza como de que o sol \u00e9 fogo. Por onde vos metestes, para terdes d\u00favida sobre o que houve? Nunca as \u00e1guas da mar\u00e9 se comprimem com tanto \u00edmpeto debaixo do arco, como os aliviados se atiram pelas portas da cidade. Mas Ouvi! (<i>Soam trombetas, obo\u00e9s e tambores em confus\u00e3o; aclama\u00e7\u00f5es dentro.<\/i>) Sacabuxas, harpas, p\u00edfaros, trombetas, c\u00edmbalos, tambores, vivas dos romanos \u00e0 dan\u00e7a o sol arrastam. (<i>Aclama\u00e7\u00f5es dentro.<\/i>) Estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00caIO \u2014 \u00c9 muito boa a nova. Vou ao encontro das senhoras. Essa Vol\u00famnia vale uma cidade cheia de senadores, c\u00f4nsules e nobres; de tribunos assim, um mar repleto, toda a terra. Soubestes rezar hoje. Esta manh\u00e3 eu n\u00e3o daria um \u00f3bolo para comprar dez mil gargantas vossas. Ouvi, quanta alegria!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Aclama\u00e7\u00f5es e m\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Inicialmente, aben\u00e7oem-vos os deuses pelas novas; depois vos dou meus agradecimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Motivos todos n\u00f3s temos bastantes para agradecimentos sublimados.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 J\u00e1 se est\u00e3o da cidade aproximando?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 J\u00e1 no ponto de entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SIC\u00cdNIO \u2014 Saiamos todos a encontr\u00e1-los e o j\u00fabilo aumentemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Retiram-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Atravessam o palco as damas acompanhadas dos senadores, patr\u00edcios e povo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Vede a vida de Roma, a protetora de todos n\u00f3s! Reuni todas as tribos; orai aos deuses e acendei fogueiras de regozijo; atapetai de flores o caminho por onde elas passarem. Com novos vivas abafei os gritos que de Roma expulsaram Caio M\u00e1rcio. Nas sauda\u00e7\u00f5es da m\u00e3e chamai-o \u00e0 p\u00e1tria. Gritai todos: Senhoras, sois bem-vindas!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Senhoras, sois bem-vindas!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras e tambores. Saem todos.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"crl55\" name=\"crl55\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Cor\u00edolos. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entra Tulo Auf\u00eddio com criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Anunciai aos senhores da cidade que eu j\u00e1 cheguei e dai-lhes este escrito. Depois de o terem lido convocai-os para o mercado, onde, no ouvido deles e nos do povo provarei tudo isso. Quem eu acuso j\u00e1 transp\u00f4s as portas da cidade e pretende apresentar-se ante o povo, esperando com palavra justificar-se. Muita pressa em tudo. (<i>Saem os criados.<\/i>) (<i>Entram tr\u00eas ou quatro conspiradores do partido de Auf\u00eddio.<\/i>) Sede bem-vindos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CONSPIRADOR \u2014 Como vai passando o nosso general?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Como pessoa envenenada pela pr\u00f3pria esmola e que a bondade mata.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CONSPIRADOR \u2014 Muito nobre senhor, se persistirdes no projeto para o qual desejastes nosso aux\u00edlio, n\u00f3s nos incumbiremos de livrar-vos dessa grande coa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Nada vos posso dizer, senhor; teremos de portar-nos conforme virmos que se mostra o povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CONSPIRADOR \u2014 O povo ficar\u00e1 sempre indeciso, enquanto entre v\u00f3s dois houver disc\u00f3rdia. A queda de um far\u00e1 de tudo herdeiro o que sobreviver.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 \u00c9 muito certo. Os motivos que tenho de atac\u00e1-lo s\u00e3o mais do que plaus\u00edveis. Elevei-o e por sua lealdade empenhei a honra. Mas ele, uma vez no alto, as novas plantas irrigou com o orvalho da lisonja, seduziu meus amigos, violentando para esse fim sua pr\u00f3pria natureza, conhecida at\u00e9 ent\u00e3o como indom\u00e1vel, independente e brusca.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CONSPIRADOR \u2014 Sua emp\u00e1fia, senhor, quando ele obteve o consulado, que a perder veio por n\u00e3o ter sabido tergiversar em tempo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Ia falar-vos a esse respeito. Tendo sido expulso por isso mesmo, veio a minha casa e o pesco\u00e7o estendeu \u00e0 minha faca. Acolhi-o; fiz dele meu cons\u00f3cio, dei-lhe azo a que os desejos expandisse. Fiz mais: deixei que ele escolhesse dentre meus pr\u00f3prios contingentes os melhores e mais dispostos homens, porque a cabo levasse seus projetos. Em pessoa servi aos seus des\u00edgnios, ajudando-o a madurar a fama que na ceifa para ele, s\u00f3, ficou, tendo ele orgulho revelado em fazer-me essa injusti\u00e7a. Em remate, chegamos a tal ponto, que mais seu subalterno eu parecia do que mesmo parceiro, tendo-me ele recompensado com seus ademanes como se mercen\u00e1rio dele eu fosse.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CONSPIRADOR \u2014 Justamente, senhor; e muito espanto causou isso no ex\u00e9rcito. Por \u00faltimo, quando Roma j\u00e1 t\u00ednhamos vencido e f\u00e9 todos faz\u00edamos no esp\u00f3lio, como na gl\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 \u00c9 a\u00ed que bate o ponto, contra ele tenso meus tend\u00f5es deixando. Por algumas gotinhas de catarro de umas senhoras, que s\u00e3o t\u00e3o baratas quanto mentiras, o trabalho e o sangue vendeu ele de nosso esfor\u00e7o ingente. Por isso morrer deve; sua queda me far\u00e1 levantar. Mas, escutemos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Barulho de trombetas e de tambores, de mistura com aclama\u00e7\u00f5es do povo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CONSPIRADOR \u2014 Como se f\u00f4sseis um correio entrastes na cidade natal, sem que boas-vindas tiv\u00e9sseis de ningu\u00e9m; mas ele volta rasgando o ar com o barulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CONSPIRADOR \u2014 Esses pac\u00edficos todos a quem ele privou dos filhos, rasgam as goelas vis no louvor deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CONSPIRADOR \u2014 Para vossa vantagem, desse modo, antes que ele se expanda e possa o povo comover com discursos, vossa espada dai-lhe a provar, que vos secundaremos. Jogando ele por terra, sua hist\u00f3ria contada a vosso jeito, juntamente com o corpo enterrar\u00e1 seus argumentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Nem mais uma palavra; eis os senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram os nobres da cidade.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRES \u2014 Sois entre n\u00f3s bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o mere\u00e7o semelhante acolhida. Mas senhores, lestes atentamente meu escrito?<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRES \u2014 Lemos, sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 E ficamos contristados. Suas primeiras faltas, \u00e9 o que penso, podiam ser sanadas facilmente. Mas terminar onde primeiro estava, abrir m\u00e3o das vantagens do armamento, \u00e0 nossa pr\u00f3pria custa indenizar-nos, onde houve rendi\u00e7\u00e3o firmar tratados, desculpas n\u00e3o admite.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Ei-lo que chega; v\u00f3s pr\u00f3prios o ouvireis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Coriolano com tambores e bandeiras; grande n\u00famero de cidad\u00e3os o segue.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Salve, senhores! Como vosso soldado aqui retorno, sem que do amor da p\u00e1tria ora me encontre mais infectado do que no momento em que parti daqui, mas o supremo comando vosso obediente sempre. Passo a dizer-vos que com muita sorte fiz esse ataque, tendo por caminhos sanguinosos levado vossas guerras at\u00e9 \u00e0s portas de Roma. O que trouxemos como esp\u00f3lio ultrapassa pelo menos de um ter\u00e7o das despesas da campanha. Conclu\u00edmos uma paz t\u00e3o digna para v\u00f3s ant\u00edates como vergonhosa para os romanos. Eis que vos transmito, pelos patr\u00edcios assinado e os c\u00f4nsules, juntamente com o selo do senado, o acordo que firmamos com os romanos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Nobres senhores, n\u00e3o leiais o escrito, mas dizei ao traidor que em grau muito alto ele abusou de vossa autoridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Traidor! Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Traidor, M\u00e1rcio. Isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 M\u00e1rcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Sim, M\u00e1rcio: Caio M\u00e1rcio. Pensas, acaso, que enfeitar-te vou com o nome roubado, Coriolano, e isso em Cor\u00edolos? Senhores e cabe\u00e7as da rep\u00fablica, ele traiu os vossos interesses perfidamente, e por algumas gotas salgadas entregou vossa cidade, Roma \u2014 sim, digo: vossa! \u2014 \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 esposa, rompendo os juramentos e os prop\u00f3sitos como um la\u00e7o de fita apodrecida. Nunca ouviu um conselho de campanha, mas da m\u00e3e ante as l\u00e1grimas p\u00f4s fora, choramingando e urrando, vossos louros, o que os pajens deixou enrubescidos e os homens de valor fez entreolharem-se, tomados de estupor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ouviste, Marte?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o invoques o deus, chor\u00e3o menino.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 N\u00e3o prossigas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Mentiroso imenso, grande demais o cora\u00e7\u00e3o deixaste-me, para caber no peito. Qu\u00ea! \u201cMenino?\u201d Miser\u00e1vel&#8230; Perdoai-me, meus senhores; \u00e9 a vez primeira que a insultar me for\u00e7am. Vosso ju\u00edzo, ponderados nobres, vai dar o desmentido a este cachorro; e sua pr\u00f3pria consci\u00eancia \u2014 que as estrias de meus golpes ainda tem presentes, marcas que h\u00e1 de levar ao pr\u00f3prio t\u00famulo \u2014 h\u00e1 de vos secundar no desmentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Ficai quietos e deixai que eu fale.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Cortai-me em pedacinhos, volscos! Homens e mo\u00e7os, vinde em mim manchar os gl\u00e1dios. \u201cMenino!\u201d C\u00e3o hip\u00f3crita! Se houv\u00e9sseis vossos anais escrito com verdade, l\u00e1 poder\u00edeis ler que tal como \u00e1guia num pombal pus em fuga os vossos volscos, em Cor\u00edolos. Eu, eu s\u00f3! \u201cMenino!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Como! nobres senhores, quereis mesmo que as fa\u00e7anhas da sorte dele cega \u2014 vosso opr\u00f3brio \u2014 vos sejam relembradas por este fanfarr\u00e3o desnaturado, ante vossos ouvidos, vossos olhos?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSPIRADORES \u2014 Que ele morra por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS OS CIDAD\u00c3OS \u2014 Espeda\u00e7ai-o, j\u00e1 j\u00e1! \u2014 Matou meu filho! \u2014 Minha filha!- Matou meu pai! \u2014 Matou meu primo Marco!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Sil\u00eancio a\u00ed! Nada de insultos. Calma! \u00c9 um homem nobre e sua fama ocupa o orbe todo da terra. A \u00faltima ofensa que nos fez h\u00e1 de ser regularmente em ju\u00edzo discutida. P\u00e1ra, Auf\u00eddio; n\u00e3o perturbes a paz.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORIOLANO \u2014 Ah! se o tivesse com seis outros Auf\u00eddios e sua tribo ao alcance de minha leal espada!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Celerado insolente!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSPIRADORES \u2014 Morte! Morte para ele! Morte! Morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Auf\u00eddio e os conspiradores sacam da espada e matam Coriolano, que cai. Auf\u00eddio p\u00f5e o p\u00e9 sobre o cad\u00e1ver.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRES \u2014 N\u00e3o! Parai! Parai! Parai! Parai!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Meus nobres mestres, deixai que vos explique o que houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Oh Tulo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Chora a coragem ante o que fizeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO NOBRE \u2014 N\u00e3o o piseis. Senhores, acalmai-vos! Guardai vossas espadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Meus senhores, quando a saber chegardes \u2014 o que neste grande furor, por ele suscitado, poss\u00edvel n\u00e3o ser\u00e1 \u2014 todo o perigo com que nos amea\u00e7ava a vida dele, ficareis satisfeitos por ter sido morto ele deste modo. Vossas Honras podem chamar-me \u00e0 frente do Senado, que hei de provar que sou vosso fiel servo, ou submeter-me a vosso grave ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Levai daqui o corpo. E pranteai-o. Ser\u00e1 tido na conta do mais nobre cad\u00e1ver que j\u00e1 foi acompanhado pelo arauto at\u00e9 \u00e0 urna funer\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Seu arrebatamento justifica por uma boa parte o erro de Auf\u00eddio. Tiremos disso todas as vantagens.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUF\u00cdDIO \u2014 Minha f\u00faria passou. Sinto-me agora tomado de tristeza. Levantai-o. Ajudai tr\u00eas guerreiros, dos melhores; serei o quarto. Bate em teu tambor, de forma que ele fale tristemente. Abaixai vossas lan\u00e7as. Muito embora tenhamos ainda na cidade muitas mulheres que sem filhos, sem maridos ele deixou e que ainda se ressentem de seus golpes at\u00e9 este momento, h\u00e1 de alcan\u00e7ar mui nobre monumento. Carreguemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem levando o corpo de Coriolano, ao som de uma marcha f\u00fanebre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS CAIO M\u00c1RCIO, depois Caio M\u00e1rcio Coriolano. TITO L\u00c1RCIO, General contra os volscos. COM\u00cdNIO, General contra os volscos. MEN\u00caNIO AGRIPA, amigo de Coriolano. SIC\u00cdNIO VELUTO, Tribuno do povo. J\u00daNIO BRUTO, Tribuno do povo, O jovem M\u00e1rcio, filho de Coriolano. Um arauto romano. Tulo Auf\u00eddio, general dos volscos. Tenente de Auf\u00eddio. 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