{"id":120357,"date":"2017-04-25T11:21:38","date_gmt":"2017-04-25T13:21:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120357"},"modified":"2017-04-25T11:21:38","modified_gmt":"2017-04-25T13:21:38","slug":"tito-andronico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tito-andronico","title":{"rendered":"Tito Andr\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<div>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\"><b>SATURNINO<\/b>, filho mais velho do \u00faltimo imperador de Roma, posteriormente proclamado imperador.<br \/>\n<b>BASSIANO<\/b>, irm\u00e3o de Saturnino<br \/>\n<b>TITO ANDR\u00d4NICO<\/b>, general romano.<br \/>\n<b>MARCO ANDR\u00d4NICO<\/b>, tribuno do povo e irm\u00e3o de Tito.<br \/>\n<b>L\u00daCIO<\/b>, filho de Tito Andr\u00f4nico<br \/>\n<b>QUINTO<\/b>, filho de Tito Andr\u00f4nico<br \/>\n<b>M\u00c1RCIO<\/b>, filho de Tito Andr\u00f4nico<br \/>\n<b>M\u00daCIO<\/b>, filho de Tito Andr\u00f4nico<br \/>\n<b>O MENINO L\u00daCIO<\/b>, filho de L\u00facio.<br \/>\n<b>P\u00daBLIO<\/b>, filho de Marco Andr\u00f4nico<br \/>\n<b>SEMPR\u00d4NIO<\/b>, parente de Tito<br \/>\n<b>CAIO<\/b>, parente de Tito<br \/>\n<b>VALENTINO<\/b>, parente de Tito<br \/>\n<b>EMILIO<\/b>, nobre romano.<br \/>\n<b>ALARBO<\/b>, filho de Tamora<br \/>\n<b>DEM\u00c9TRIO<\/b>, filho de Tamora<br \/>\n<b>QUIR\u00c3O<\/b>, filho de Tamora<br \/>\n<b>AAR\u00c3O<\/b>, mouro amante de Tamora<br \/>\nUm capit\u00e3o, tribunos, mensageiros, um bobo; romanos.<br \/>\nGodos e romanos.<br \/>\n<b>TAMORA<\/b>, rainha dos godos.<br \/>\n<b>LAV\u00cdNIA<\/b>, filha de Tito Andr\u00f4nico.<br \/>\nUma ama, e a crian\u00e7a negra.<br \/>\nSenadores, tribunos, oficiais, soldados e criados.<\/p>\n<p><a name=\"and11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Roma. V\u00ea-se o t\u00famulo dos Andr\u00f4nicos. Em cima, os tribunos e os senadores. Depois entra por um lado Saturnino com seus partid\u00e1rios, e por outro, Bassiano em companhia dos dele, com tambores e bandeiras.<\/i><\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Nobres patr\u00edcios, da justi\u00e7a amparo, com armas defendei a minha causa! E v\u00f3s, meus compatriotas e ajudantes, com vossos gl\u00e1dios defendei meus t\u00edtulos heredit\u00e1rios. Sou o primog\u00eanito do que na fronte carregou por \u00faltimo o diadema imperial de nosso burgo. Que a gl\u00f3ria de meu pai em mim prossiga, sem de meus anos se tornar imiga.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Romanos, companheiros, bons amigos, defensores de minha justa causa, se at\u00e9 hoje gra\u00e7a achou ante os reais olhos da alta Roma Bassiano, descendente de C\u00e9sar, tomai conta da passagem que vai ao Capit\u00f3lio, n\u00e3o deixando que a desonra se achegue ao trono altivo consagrado virtude, \u00e0 contin\u00eancia, \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 nobreza, Brilhe o m\u00e9rito numa elei\u00e7\u00e3o honesta. A liberdade, romanos, defendei com vossa escolha.<\/p>\n<p>(<i>Em cima entra Marco Andr\u00f4nico, com a coroa.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Pr\u00edncipes, que por meio de partidos e de amigos, buscais, ambiciosos, o governo exercer, ficai sabendo que os romanos, dos quais com muito zelo defendemos a causa, por un\u00e2nime resolu\u00e7\u00e3o na escolha de seu chefe a Andr\u00f4nico indicou, chamado o Pio, pelos servi\u00e7os leais e numerosos que a Roma tem prestado. Mais valente guerreiro, mais nobre homem n\u00e3o se encontra atualmente entre os muros da cidade. Pelo Senado \u00e0 p\u00e1tria foi chamado das duras guerras contra os godos b\u00e1rbaros. Com seus filhos, dos nossos inimigos terror constante, subjugou um povo de valor e adestrado nos combates. Dez anos j\u00e1 passaram desde que ele tomando a peito a causa da alta Roma, castigou com as armas a arrog\u00e2ncia de nossos inimigos. Recoberto de sangue, cinco vezes veio a Roma, dos campos de batalha carregando em esquife seus filhos valorosos. Agora, finalmente, carregado de gloriosos esp\u00f3lios, volta a Roma o mui famoso Tito, o alto Andr\u00f4nico, em toda sua gl\u00f3ria de guerreiro. Concito-vos, pela honra de tal nome, daquele para quem quereis um digno sucessor, e tamb\u00e9m pelos direitos do Capit\u00f3lio e pelos do Senado, que pretendeis honrar com defer\u00eancia, a retirar-vos, desistir da for\u00e7a, dispersar vossos homens, para, humildes e em paz, como compete a candidatos, defender vossos m\u00e9ritos.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Que efeito sedativo em mim teve a bela fala desse tribuno!<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 De tal modo, Marco, tenho confian\u00e7a em tua integridade nunca abalada, e tanto te honro, e estimo teu nobre mano Tito e seus rebentos, e aquela a quem meu pensamento acata, a graciosa Lav\u00ednia, alto ornamento de Roma, que aqui mesmo os meus amigos devotados disperso e minha causa \u00e0 sorte entrego e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do povo, a fim de que ele a ponha na balan\u00e7a.<\/p>\n<p>(<i>Saem os seguidores de Bassiano.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Amigos que ampararam meu direito, a todos agrade\u00e7o e vos dispenso, e ao amor e ao favor de minha p\u00e1tria me entrego, como entrego minha causa. (<i>Saem os seguidores de Saturnino.<\/i>) Roma, justa e graciosa s\u00ea comigo, como confiante e bom eu sou contigo. Abri as portas e deixai que eu entre.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Como eu, tribunos, candidato humilde.<\/p>\n<p>(<i>Fanfarras. Todos se dirigem para o Senado.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entra um capit\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>CAPIT\u00c3O \u2014 Romanos, dai lugar! Eis que Andr\u00f4nico, patrono da virtude, o mais valente campe\u00e3o de Roma, vencedor em todas as batalhas, retorna agora, rico de gl\u00f3rias e fortuna, dos lugares que ele delimitou com sua espada, sob o jugo calcando os inimigos.<\/p>\n<p>(<i>Soam trombetas e tambores; depois entram M\u00e1rcio e M\u00facio; a seguir, dois homens carregando um esquife coberto de preto; depois, L\u00facio e Quinto. Logo ap\u00f3s entra Tito Andr\u00f4nico; a seguir, Tamora com Alarbo, Quir\u00e3o, Dem\u00e9trio, Aar\u00e3o e outros godos, prisioneiros. Soldados e povo. Os carregadores dep\u00f5em o esquife no ch\u00e3o e Tito fala.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Salve Roma, no luto vitoriosa! Tal como o barco que mui longe havia sua mercadoria transportado, e com lastro precioso volta ao porto de que muito antes a \u00e2ncora soltara: assim volta Andr\u00f4nico, coroado com ramos de loureiro, para a p\u00e1tria saudar com l\u00e1grimas, por\u00e9m com l\u00e1grimas de verdadeiro j\u00fabilo, por causa de seu regresso a Roma. O grande guarda do nosso Capit\u00f3lio, lan\u00e7a olhares graciosos para os ritos que iniciamos. De vinte e cinco filhos valorosos, romanos, \u2014 a metade, justamente, do n\u00famero dos filhos do rei Priamo \u2014 contemplai os despojos miser\u00e1veis, vivos e mortos. Recompense Roma com amor os que vivem e com o t\u00famulo junto dos seus antepassados quantos eu trouxe para o pouso derradeiro. Somente aqui os godos consentiram que eu embainhasse a espada. Por que causa, t\u00e3o cruel e indiferente ao pr\u00f3prio sangue, Tito, consentes que, insepultos ainda, teus filhos errem pela praia horr\u00edvel da Estige pavorosa? Abri caminho para junto dos manos os depormos. (<i>O t\u00famulo \u00e9 aberto.<\/i>) L\u00e1 recebei a sauda\u00e7\u00e3o silente a que os mortos j\u00e1 se acham habituados e em paz dormi, \u00f3 v\u00f3s que perecestes em defesa da p\u00e1tria! O consagrado dep\u00f3sito de minhas alegrias, doce morada de \u00e2nimo e nobreza, quantos filhos a\u00ed dentro vi ca\u00eddos, que jamais me ser\u00e3o restituidos!<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Dos prisioneiros godos entregai-nos o de mais alto brio, porque os membros lhe decepemos e, num monte, as carnes sacrifiquemos ad manes fratrum ante a pris\u00e3o terrena de seus ossos, porque acalmadas fiquem logo as sombras, sem que na terra venham perseguir-nos, depois, os seus espectros.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Aqui te entrego o mais nobre de todos, o primeiro filho desta rainha desgra\u00e7ada.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Parai, irm\u00e3os romanos! Vitorioso Tito, conquistador muito gracioso, tem piedade das l\u00e1grimas que eu verto, por uma m\u00e3e vertidas por seu filho. Se em algum tempo um filho te foi caro, oh! n\u00e3o deixes o meu ao desamparo! N\u00e3o basta termos vindo para Roma para dar brilho ao teu triunfal retorno como tua cativa, e mais: dobrada sob o jugo romano? E necess\u00e1rio que na rua meu filho seja morto, por ter com brilho defendido a p\u00e1tria? Se para ti dever sagrado \u00e9 a luta em defesa do rei e da rep\u00fablica, conosco d\u00e1-se o mesmo. N\u00e3o macules, Andr\u00f4nico, com sangue o monumento. Se a natureza queres ter dos deuses, ent\u00e3o faze como eles: s\u00ea bondoso, que o penhor da nobreza \u00e9 a pr\u00f3pria gra\u00e7a. Oh! poupa, Tito, o meu primeiro filho!<\/p>\n<p>TITO \u2014 Acalmai.vos, senhora, e desculpai-me. Os irm\u00e3os aqui vedes dos que os godos viram vivos e mortos. Pelos mortos eles exigem religiosamente sacrif\u00edcio condigno. Vosso filho foi marcado para isso; morrer deve para acalmar as sombras que partiram.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Levai.o logo e acendei presto a chama. Ap\u00f3s, com nossos gl\u00e1dios, na fogueira os membros lhe cortemos, at\u00e9 serem consumidos de todo.<\/p>\n<p>(<i>Saem L\u00facio, Quinto, M\u00e1rcio e M\u00facio, com Alarbo.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Oh! que piedade cruel e irreligiosa!<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Em qualquer tempo metade disso foi a C\u00edtia b\u00e1rbara?<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o compareis \u2014 oh n\u00e3o! \u2014 C\u00edtia com Roma. Alarbo foi para o repouso eterno; mas n\u00f3s vivemos para sentir medo sob a vista de Tito amea\u00e7adora. Coragem, pois, senhora, mas ao mesmo tempo esperai, que as mesmas divindades que \u00e0 rainha de Tr\u00f3ia ensejo deram de, por modo cabal, tomar vingan\u00e7a do tirano da Tr\u00e1cia em sua tenda, ajudar\u00e3o Tamora, a soberana dos godos \u2014 quando os godos eram godos e Tamora rainha \u2014 a, nos inimigos, vingar-se dos ultrajes sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<p>(<i>Voltam L\u00facio, Quinto, M\u00e1rcio e M\u00facio com as espadas ensang\u00fcentadas.<\/i>)<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Vede, pai e senhor, como cumprimos os costumes romanos. Decepamos de Alarbo os membros todos; as entranhas dele as sagradas chamas alimentam, cuja fuma\u00e7a, parecendo incenso, vai perfumar o c\u00e9u. S\u00f3 resta agora sepultarmos os manos e com altos cumprimentos em Roma os acolhermos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Fa\u00e7a-se desse modo, e que dirija Andr\u00f4nico a suas almas o adeus \u00faltimo. (<i>Toque de trombeta; o esquife \u00e9 depositado no t\u00famulo.<\/i>) Em paz e honra repousai, meus filhos. Defensores de Roma valorosos, ao abrigo ficai aqui das dores e das vicissitudes deste mundo. Deste ponto a trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o vos espreita, a inveja n\u00e3o se exalta, n\u00e3o prosperam ervas malditas, n\u00e3o h\u00e1 tempestades nem barulho; s\u00f3 calma e sono eterno. Em paz e honra repousai, meus filhos.<\/p>\n<p>(<i>Entra Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Em paz e honra viva o senhor Tito! Viva com gl\u00f3ria meu senhor e pai! V\u00ea como a este sepulcro trago as minhas l\u00e1grimas tribut\u00e1rias, para os ritos f\u00fanebres de meus manos, e com l\u00e1grimas de j\u00fabilo a teus p\u00e9s ora me ajoelho, por haveres voltado. Oh! aben\u00e7oa-me com tua m\u00e3o guerreira, cuja sorte os melhores romanos enaltecem.<\/p>\n<p>TITO \u2014 \u00d3 boa Roma, que me preservaste com carinho o rem\u00e9dio da velhice, para alegria ao cora\u00e7\u00e3o trazer-me! Que \u00e0 gl\u00f3ria de teu pai, e \u00e0 senectude sobrevivas, Lav\u00ednia, com virtude.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Viva bastante o mano, o senhor Tito, her\u00f3i gracioso aos olhos dos romanos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Agradecido, meu gentil tribuno, Marco, meu nobre irm\u00e3o.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Sede bem-vindos, tamb\u00e9m, sobrinhos, dessa feliz guerra; os que viveis e os que dormis na gl\u00f3ria. Bravos senhores, sorte igual tivestes todos quantos os gl\u00e1dios empunhastes no servi\u00e7o da p\u00e1tria. Por\u00e9m triunfo mais brilhante \u00e9 toda esta pompa f\u00fanebre que \u00e0 dita de Sol\u00e3o deu cumprimento, vencendo o acaso neste leito de honra. Tito Andr\u00f4nico, o povo da cidade, de que defensor leal sempre tu foste, por mim te envia, seu fiel tribuno, este p\u00e1lio de brilho imaculado e te convida para concorreres elei\u00e7\u00e3o para chefe do governo com os filhos de nosso \u00faltimo monarca. S\u00ea candidato, pois; veste este manto e d\u00e1 cabe\u00e7a a Roma que, nesta hora, carece de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>TITO \u2014 A esse glorioso corpo melhor ficara uma cabe\u00e7a que n\u00e3o tremesse de fraqueza e idade. Por que envergar a toga e incomodar-vos, ser, por aclama\u00e7\u00e3o, hoje escolhido, amanh\u00e3 resignar o trono e a vida, e a todos aprestar novos trabalhos? Roma, fui teu soldado quarenta anos, conduzi com vantagem teus ex\u00e9rcitos e enterrei vinte e um filhos valorosos; todos, no campo feitos cavaleiros, de armas na m\u00e3o tombaram como bravos, a servi\u00e7o de sua nobre p\u00e1tria. Dai-me um bast\u00e3o, honroso para um velho, n\u00e3o cetro de comando para o mundo: soube empunh\u00e1-lo o que o empunhou por \u00faltimo.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Tito, obter\u00e1s o imp\u00e9rio, se o pedires.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Orgulhoso tribuno, que disseste?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Pr\u00edncipe Saturnino, ficai calmo.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Romanos, sede justos; as espadas, patr\u00edcios, arrancai, sem que de novo as embainheis, enquanto Saturnino n\u00e3o ficar sendo imperador de Roma. Andr\u00f4nico, antes para o inferno houvesses ido, do que a tal ponto me privares do cora\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Saturnino presun\u00e7oso, interrompes o magn\u00e2nimo Tito no que de bom te destinasse.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Calma, pr\u00edncipe; vou restituir-te o cora\u00e7\u00e3o do povo, procurando de si mesmo alien\u00e1-lo.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 N\u00e3o te adulo, Andr\u00f4nico, mas te honro e hei de faz\u00ea-lo enquanto vivo for. Se refor\u00e7ares meu partido com teus amigos certos, agradecido te serei. Bem sabes que o reconhecimento, para as almas generosas, \u00e9 nobre recompensa.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Povo de Roma, e v\u00f3s, tribunos dignos, pe\u00e7o vosso sufr\u00e1gio e vosso apoio. Para Andr\u00f4nico os concedeis de grado?<\/p>\n<p>TRIBUNOS \u2014 Para a Andr\u00f4nico sermos agrad\u00e1veis e celebrarmos seu feliz retorno, o povo aceitar\u00e1 seu candidato.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Tribunos, obrigado. Ora vos pe\u00e7o que seja eleito o filho primog\u00eanito do imperador defunto, Saturnino, cuja virtude, espero-o, sobre Roma h\u00e1 de lan\u00e7ar sua luz como na terra faz o Tit\u00e3, deixando sazonada nesta nossa rep\u00fablIca a justi\u00e7a. Assim, se vos guiais por meus conselhos, coroai-o e a uma voz gritai comigo: \u201cQue viva muito nosso imperador!\u201d<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Com sinais de alegria os mais variados. patricios e plebeus, n\u00f3s elegemos imperador de Roma Saturnino, gritando: \u201cViva muito Saturnino!\u201d<\/p>\n<p>(<i>Prolongado toque de trombeta.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Tito Andr\u00f4nico, pelo teu aux\u00edlio hoje em nossa elei\u00e7\u00e3o, como o mereces, os agradecimentos te apresento, prometendo pagar-te a gentileza por meio de atos claros. E de inicio, Tito, para exal\u00e7ar tua fam\u00edlia em tudo nobre, e tua pr\u00f3pria fama, de Lav\u00ednia farei minha consorte, imperatriz de Roma, de meu peito dominadora, e no Pante\u00e3o sagrado prometo despos\u00e1-la. Ouve Andr\u00f4nico: essa mo\u00e7\u00e3o te deixar\u00e1 contente?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Sim, meu digno senhor; com esse enlace considero-me honrado sumamente por Vossa Gra\u00e7a. \u00c0 vista, assim, de Roma, a Saturnino, rei e comandante da rep\u00fablica, imperador do mundo, consagro minha espada, o carro e todos os prisioneiros, dons em tudo dignos do senhor imperial da grande Roma. Recebe-os, pois, como tributos pr\u00f3prios; aos p\u00e9s te ponho os meus trof\u00e9us honrosos.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Muito obrigado, muito, alto Andr\u00f4nico, pai da minha exist\u00eancia. Quanto orgulho sinto por tua causa e teus presentes, Roma vir\u00e1 a saber; e caso eu venha em qualquer tempo a me esquecer da m\u00ednima parcela destes dons inestim\u00e1veis, romanos, retirai-me vosso apoio.<\/p>\n<p>TITO (<i>a Tamora<\/i>) \u2014 Prisioneira, senhora, sois agora de nosso imperador, que, bem lembrado de vossa posi\u00e7\u00e3o e dignidade, vos dar\u00e1 tratamento em tudo nobre e a vossos seguidores.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Em verdade, que dama encantadora! uma beleza que eu escolhera, se tivesse ainda de escolher outra vez. Bela rainha, clareai esse semblante nebuloso. Conquanto os acidentes de uma guerra a alegria te tenham conturbado, n\u00e3o vieste para Roma a fim de que alvo possas servir do opr\u00f3brio, pois tratada ser\u00e1s como princesa em toda parte. Fia-te no que eu digo, n\u00e3o deixando que a tristeza te abata as esperan\u00e7as. Senhora, quem vos diz essas palavras poder\u00e1 vos deixar maior ainda que a rainha dos godos. N\u00e3o vos causa desagrado, Lav\u00ednia, quanto eu disse?<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 N\u00e3o, senhor, pois uma real nobreza vos garante as palavras, \u00e9 certeza.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Doce Lav\u00ednia, muito agradecido. Vamos, romanos. Sem nenhum resgate, libertemos os presos. Nosso t\u00edtulo proclamai com trombetas e tambores.<\/p>\n<p>(<i>Fanfarra. Saturnino, por m\u00edmica, faz a corte a Tamora.<\/i>)<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Senhor Tito, com vossa permiss\u00e3o, esta donzela \u00e9 minha. (<i>Apodera-se de Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Como! Como!meu senhor! Por acaso falais s\u00e9rio?<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Sim, nobre Tito, e resolvido, ainda, a defender for\u00e7a o meu direito.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Suum cuique, \u00e9 a justi\u00e7a dos romanos; s\u00f3 reclama o que \u00e9 dele nosso pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 E h\u00e1 de obt\u00ea-lo, se L\u00facio tiver vida.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Trai\u00e7\u00e3o! trai\u00e7\u00e3o! Onde se encontra a guarda do imperador? Trai\u00e7\u00e3o, senhor! Lav\u00ednia foi surpreendida.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Surpreendida, como? Por quem?<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Por quem agora arrebatara de todo o mundo a sua noiva cara.<\/p>\n<p>(<i>Saem Marco e Bassiano, com Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>M\u00daCIO \u2014 Ajudai-nos, irm\u00e3os, a retir\u00e1-la; com meu gl\u00e1dio defendo esta sa\u00edda.<\/p>\n<p>(<i>Saem L\u00facio, Quinto e M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Pr\u00edncipe, ide em p\u00f3s dela, que, de volta, vo-la trarei j\u00e1 j\u00e1.<\/p>\n<p>M\u00daCIO \u2014 Por este lado, senhor, n\u00e3o passareis.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Menino \u00e0-toa como! Queres barrar-me a estrada em Roma? (<i>Apunhala M\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p>M\u00daCIO \u2014 Socorro, L\u00facio! Aqui. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Volta L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Fostes injusto, meu senhor, mais do que isso, pois matastes numa querela injusta vosso filho.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o, filhos meus n\u00e3o sois, nem v\u00f3s nem ele. Nunca meus filhos me desonrariam por esse modo. Vamos, restitui Lav\u00ednia, biltre, ao nosso imperador.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Morta, se o desejares, por\u00e9m nunca para ser sua esposa, por achar-se prometida para outro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, Tito, o imperador j\u00e1 n\u00e3o precisa dela, nem de ti, de ningu\u00e9m de tua estirpe. As cegas n\u00e3o confio em quem fez mofa de mim alguma vez; em ti tampouco, nem em teus filhos, falsos e insolentes, que se reuniram para desonrar-me. Tirante Saturnino, n\u00e3o havia quem em Roma servisse de brinquedo? Mui de acordo esses atos, Andr\u00f4nico, est\u00e3o com tua afirmativa tola de que eu pedi de tuas m\u00e3os o imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Monstruoso! Que censura me assacaste?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Prossegue assim em teu caminho; entrega essa mulher vol\u00favel ao que a espada por ela manejou. Vais ter um genro muito valente, feito para aliar-se \u00e0 malta de teus filhos turbulentos, que o alvoroto implantaram na rep\u00fablica.<\/p>\n<p>TITO \u2014 O cora\u00e7\u00e3o ferido essas palavras me atingem como ac\u00faleos.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Por tudo isso, soberana dos godos, admir\u00e1vel Tamora, que, tal como Febe augusta entre suas ninfas, na penumbra deixas as romanas mais belas e galantes: se concordares nesta minha s\u00fabita resolu\u00e7\u00e3o, escolho-te, Tamora, para noiva, criando-te ora mesmo de Roma a imperatriz. Dize, rainha dos godos: n\u00e3o aplaudes minha escolha? E agora juro pelos nossos deuses, j\u00e1 que padre e \u00e1gua-benta temos perto, e os fachos brilham tanto, estando tudo pronto para o himeneu, que me \u00e9 imposs\u00edvel rever de Roma as ruas ou de novo entrar em meu pal\u00e1cio, se comigo daqui n\u00e3o te levar como consorte.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 E ante a face do c\u00e9u a Roma eu juro que se elevar at\u00e9 ele Saturnino a rainha dos godos, ela escrava ser\u00e1 de seus desejos, amor\u00e1vel ama e m\u00e3e para sua mocidade.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Bela rainha, vamos ao Pante\u00e3o. Acompanhai, senhores, vosso digno imperador e sua bela noiva, mandada pelo c\u00e9u a Saturnino, que lhe dar\u00e1 futuro mais risonho. Realizaremos J\u00e1 o despos\u00f3rio.<\/p>\n<p>(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Tito.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Convite n\u00e3o me fez para o cortejo. Tito, quando ficaste t\u00e3o sozinho, desonrado e de ultrajes encurvado?<\/p>\n<p>(<i>Voltam Marco, L\u00facio, Quinto e M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 O Tito, Tito! V\u00ea o que fizeste: numa disputa est\u00fapida mataste um filho t\u00e3o virtuoso!<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o, tribuno tolo, n\u00e3o \u00e9 meu filho, como nada \u00e9s para mim, nem tu nem nenhum desses que a ti se uniram para esse ato baixo que desonrou nossa fam\u00edlia toda. Filhos indignos! Irm\u00e3o \u00e9s indigno!<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Mas deixai que o enterremos como cumpre: junto dos manos deponhamos M\u00facio.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Traidores, para tr\u00e1s! O corpo dele n\u00e3o ser\u00e1 colocado no sepulcro. J\u00e1 tem quinhentos anos este t\u00famulo que eu mandei refazer com todo o esmero. Em honra aqui repousam t\u00e3o-somente guerreiros e de Roma defensores, n\u00e3o quem venha a morrer vilmente em rixas, Sepultai-o onde bem vos aprouver, que aqui n\u00e3o ser\u00e1 posto.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Isso \u00e9 impiedade, senhor, de vossa parte. Os altos feitos de meu sobrinho M\u00facio muito o exaltam; tem de ser sepultado com seus manos.<\/p>\n<p>QUINTO e M\u00c1RCIO \u2014 Ter\u00e1 de s\u00ea-lo, ou ent\u00e3o o seguiremos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ter\u00e1 de ser? Que biltre afirmou isso?<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Quem o sustentar\u00e1 em toda parte, menos aqui.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Como! Estareis disposto, mesmo, a inum\u00e1-lo, embora a meu mau grado?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 N\u00e3o, nobre Tito; mas te conjuramos a perdoar M\u00facio e dar-lhe sepultura.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Tu tamb\u00e9m, Marco, me assentaste um golpe e com esses rapazes me deixaste estra\u00e7alhado o nome. Considero-vos a todos inimigos. Assim sendo, cessai de importunar-me e parti logo.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Est\u00e1 fora de si, vamos embora.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 N\u00e3o me retirarei, enquanto os ossos n\u00e3o sepultar de M\u00facio.<\/p>\n<p>(<i>Marco e os filhos de Tito se ajoelham.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Irm\u00e3o, implora em semelhante nome a natureza&#8230;<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Pai, nesse nome a natureza faia&#8230;<\/p>\n<p>TITO \u2014 Sil\u00eancio, para que eu os outros ou\u00e7a.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Grande Tito, metade de minha alma&#8230;<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Querido pai, subst\u00e2ncia de n\u00f3s todos&#8230;<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Permite que teu mano Marco enterre neste ninho virtuoso seu sobrinho que com honra morreu e na defesa da causa de Lav\u00ednia. \u00c9s um romano, n\u00e3o sejas b\u00e1rbaro, que os pr\u00f3prios gregos, ap\u00f3s conselho, deram sepultura a Ajaz que se matara, tendo o filho prudente de Laertes defendido com calma os funerais. Assim, n\u00e3o queiras excluir deste sepulcro o jovem L\u00facio, teu filho predileto at\u00e9 h\u00e1 momentos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Marco, levanta-te. Este \u00e9 o mais terr\u00edvel dia que eu j\u00e1 vivi. Ser por meus filhos em Roma desonrado! Bem; enterra-o, e a mim logo depois.<\/p>\n<p>(<i>O corpo de M\u00facio \u00e9 deposto no t\u00famulo.<\/i>)<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Querido M\u00facio, repousa a\u00ed, ao lado dos amigos, at\u00e9 que te enfeitemos o sepulcro.<\/p>\n<p>TODOS (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Ningu\u00e9m derrame l\u00e1grimas no corpo do jovem M\u00facio, pois com gl\u00f3ria vive quem morreu pela causa da virtude.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Senhor, porque a tristeza dissipemos, como acontece que a sutil rainha dos godos t\u00e3o de s\u00fabito tivesse subido tanto em Roma?<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o sei, Marco; s\u00f3 sei que \u00e9 isso mesmo. Se houve ast\u00facia, somente o c\u00e9u dizer nos poderia. Mas n\u00e3o deve ela obriga\u00e7\u00f5es ao homem que a fez feliz, trazendo-a de t\u00e3o longe?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Decerto; e h\u00e1 de premi\u00e1-lo nobremente.<\/p>\n<p>(<i>Fanfarra. Entram, por um lado, Saturnino com seu s\u00e9q\u00fcito, Tamora, Dem\u00e9trio, Quir\u00e3o e Aar\u00e3o; por outro Bassiano, Lav\u00ednia e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Bassiano, assim ganhastes vosso pr\u00eamio; que Deus, senhor, vos d\u00ea felicidade com vossa bela esposa.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 E a v\u00f3s com a vossa, meu senhor; n\u00e3o vos digo sen\u00e3o isso, nem menos vos desejo. E aqui despe\u00e7o-me.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Traidor, havendo lei em Roma ou for\u00e7a no nosso bra\u00e7o, tu e teus sequazes vireis a arrepender-vos deste roubo.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Chamais, senhor, de roubo o apoderar-me do que \u00e9 meu mesmo, a que era minha noiva e ora \u00e9 minha consorte? Que decidam sobre isso as leu de Roma, que, entrementes. de posse fico do que me pertence.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor. Tratais-nos secamente: mas, se vida tivermos, haveremos de vos tratar mais secamente ainda.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Senhor, por quanto fiz, do melhor modo que poss\u00edvel me for, sou respons\u00e1vel, embora nisso empenhe a pr\u00f3pria vida. Apenas direi isto a Vossa Gra\u00e7a: por meus deveres todos para Roma, este nobre senhor, o nobre Tito foi ultrajado na honra e no conceito, pois, tentando Lav\u00ednia restituir-vos, com a pr\u00f3pria m\u00e3o matou seu filho M\u00facio, por zelo a vossa causa e de indignado por contrariado ver-se numa d\u00e1diva t\u00e3o espont\u00e2nea e livre. Assim, concede-lhe o teu favor de novo, Saturnino, pois em seus atos ele pai e amigo de ti se mostrou sempre e da cidade.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Deixa de defender meus atos, pr\u00edncipe Bassiano. Desonrado eu fui somente por ti e esses ai. Roma e o c\u00e9u justo podem testemunhar o acatamento e o amor que votei sempre a Saturnino.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Muito digno senhor, se em qualquer tempo teus olhos reais algum prazer acharam em contemplar Tamora, ent\u00e3o permite que imparcialmente sobre todos fale: perdoa, amor, o que passou, te pe\u00e7o.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Como, senhora! Ver-me desonrado de p\u00fablico, e perdoar covardemente, sem de nada tomar cabal vingan\u00e7a?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 N\u00e3o, meu caro senhor. As divindades de Roma n\u00e3o consintam que eu me torne para v\u00f3s um motivo de desonra. Mas a honra atrevo-me a empenhar em como o senhor Tito em tudo est\u00e1 inocente. A franqueza da c\u00f3lera \u00e9 que exprime seu imenso pesar. Para agradar-me, portanto, lan\u00e7a-lhe um olhar benigno. N\u00e3o percas, por suposi\u00e7\u00f5es sem base, um amigo t\u00e3o digno, nem aflijas seu gentil cora\u00e7\u00e3o olhando-o duro. (<i>\u00c0 parte a Saturnino.<\/i>) Senhor, deixai que eu vos oriente nisto; cedei, dissimulai vosso desgosto. \u00c9 de temer que o povo, juntamente com os patr\u00edcios, ap\u00f3s melhor exame, se passe para Tito, derrubando-vos, ent\u00e3o, sob o pretexto de que fostes para com ele ingrato, o que reputa Roma um dos crimes mais abomin\u00e1veis. Concedei-me esse ponto e aos meus cuidados deixai o resto, que hei de achar o dia para matar a todos e a fam\u00edlia destruir e seu partido, o cruel Tito juntamente com seus traidores filhos, a quem a vida supliquei, embalde, de meu querido filho. Hei de ensinar-lhes o que seja ajoelhar-se uma rainha em plena rua e suplicar em v\u00e3o. (<i>Alto.<\/i>) Querido imperador, vem! Andr\u00f4nico, vem para c\u00e1. Levanta este bom velho, e o cora\u00e7\u00e3o lhe alegra, que sucumbe \u00e0 vista dos bulc\u00f5es de teu conspecto.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 De p\u00e9, Tito, de p\u00e9, que minha esposa prevaleceu.<\/p>\n<p>TITO \u2014 A Vossa Alteza e a ela, senhor, muito agrade\u00e7o. Essas palavras e esses olhares me d\u00e3o outra vida.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Incorporada a Roma, Tito, me acho, reconhecida agora felizmente como romana. Cumpre-me, portanto, aconselhar o imperador em tudo. Morrem hoje, Andr\u00f4nico, as rixas todas; deixai que seja o meu mais belo t\u00edtulo, meu senhor, ter-vos eu reconciliado com estes vossos amigos. Dei a minha palavra de honra, pr\u00edncipe Bassiano, ao meu marido em como de futuro vos mostrareis mais d\u00f3cil e trat\u00e1vel. Assim, ficai tranq\u00fcilos, meus senhores. E v\u00f3s, tamb\u00e9m, Lav\u00ednia. E agora todos, seguindo meu conselho, arrependidos ireis ficar de joelho, para a Sua Majestade pedir que vos perdoe.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Assim faremos, e juramos diante de Sua Alteza que fizemos tudo com boas inten\u00e7\u00f5es, visando apenas a honra de nossa irm\u00e3 e a nossa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 E o que eu tamb\u00e9m confirmo sob palavra.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Retirai-vos; cessai de incomodar-nos.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, meu caro imperador; teremos de ser amigos. Marco e seus sobrinhos vos imploram de joelhos. Imposs\u00edvel ser\u00e1 que indefirais esse pedido. Vira para o meu lado, cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Por teu pedido, Marco, e de teu mano, bem como pelas s\u00faplicas instantes da graciosa Tamora, minha esposa, perd\u00f4o a falta odiosa destes mo\u00e7os. Levantai-vos, Lav\u00ednia, muito embora me tiv\u00e9sseis deixado como a um biltre, tive sorte, tendo jurado pela morte certa n\u00e3o me afastar do altar como solteiro. Vamos; se houver espa\u00e7o no pal\u00e1cio do imperador para um noivado duplo, meus h\u00f3spedes sereis, Lav\u00ednia, e todos esses vossos amigos. Hoje o dia vai ser de amor, Tamora.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Caso Vossa Majestade concorde, amanh\u00e3 mesmo comigo ca\u00e7areis pantera e veado. Com latidos e trompa, muito cedo vos daremos bom dia.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Pois que seja, Tito, assim mesmo; muito agradecido.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"and21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Roma. Diante do pal\u00e1cio. Entra Aar\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Tamora j\u00e1 subiu para o alto Olimpo, fora dos botes da fortuna incerta; ao abrigo se encontra, entronizada, do estrondo do trov\u00e3o e, assim, do fogo do rel\u00e2mpago longe das amea\u00e7as da descorada inveja. Assim como o \u00e1ureo sol sa\u00fada a manh\u00e3 e, tendo o oceano dourado com seus raios e o zod\u00edaco medido como seu carro esplendoroso, paira por cima dos mais altos montes: assim Tamora faz. Dobram-se ao seu esp\u00edrito as terrenas honrarias e, ao cenho seu fechado, para e treme a virtude. Aar\u00e3o, por isso, refor\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o e agu\u00e7a o esp\u00edrito, para alcan\u00e7ar tua imperial senhora na altura em que ela est\u00e1, j\u00e1 que de h\u00e1 muito em teu triunfo prisioneira a trazes, acorrentada aos elos amorosos, e ao fascinante olhar de Aar\u00e3o mais presa do que amarrado Prometeu no C\u00e1ucaso. Fora as vestes de escravo e id\u00e9ias baixas! Luzido quero ser, brilhar com p\u00e9rolas e ouro para servir \u00e0 soberana rec\u00e9m-casada. Qu\u00ea! Para servi-la? Direi melhor: para folgar com ela, esta rainha, deusa, esta Semiramis, ninfa, sereia que encantar vai prestes a Roma do consorte, conduzindo para o naufr\u00e1gio o imperador e o Estado.<\/p>\n<p>(<i>Entram discutindo Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Quir\u00e3o, teus poucos anos mostram falha de entendimento; teu entendimento n\u00e3o tem penetra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tens maneiras para que te insinues deste modo junto de quem aceita minha corte e que, pelo que viste, \u00e9 conquist\u00e1vel.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Dem\u00e9trio, sempre foste presumido, como agora te mostras, pretendendo que com tuas bravatas me intimide. A diferen\u00e7a de um ou de dois anos n\u00e3o h\u00e1 de me deixar menos gracioso, ou a ti com mais ventura. Considero-me t\u00e3o h\u00e1bil como tu e t\u00e3o capaz de alcan\u00e7ar o favor de uma senhora.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Aqui! Aqui! Dois namorados brigam!<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Menino, se, por imprud\u00eancia, nossa m\u00e3e vos deu essa espada de brinquedo, tanto vos exaltais, que contra um pr\u00f3prio parente arremeteis? Deixai guardada vossa ripa at\u00e9 terdes aprendido como deveis brandi-la.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Nesse em meio, senhor, a minha pouca habilidade te mostrar\u00e1 quanto a fazer me atrevo.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Como, menino! Estais t\u00e3o exaltado?<\/p>\n<p>(<i>Sacam das espadas.<\/i>)<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Senhores, ora! Ousais sacar da espada t\u00e3o perto, assim, da casa do monarca, e defender vossa querela em p\u00fablico? Conhe\u00e7o bem a causa dessa rixa. Mas n\u00e3o quisera por nenhum tesouro que vos ouvisse quem tem parte nisso, nem vossa m\u00e3e por muito mais quisera vir a ficar t\u00e3o desonrada em Roma. Corai do que fazeis. Guardai a espada!<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o, s\u00f3 o farei depois de mergulh\u00e1-la no peito dele e, pela goela abaixo, ter-lhe empurrado os termos insultuosos que ele aqui disse para desonrar-me.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Para isso estou disposto e preparado, covard\u00e3o desbocado, que trovejas apenas com palavras, sem coragem teres de fazer uso desse gl\u00e1dio.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Para tr\u00e1s, digo! Agora, pelos deuses que os guerreiros godos adoram, esta rixazinha poder\u00e1 desgra\u00e7ar-nos num momento. Senhores, n\u00e3o pensastes, porventura, no risco que correis, para pisardes nos direitos de um pr\u00edncipe? Lav\u00ednia ter\u00e1 ca\u00eddo tanto, ou t\u00e3o sem brio Bassiano est\u00e1, que pelo afeto dela possam surgir disputas, sem nenhuma proibi\u00e7\u00e3o, castigo nem vingan\u00e7a? Muito cuidado, jovens! Se a rainha viesse a saber a causa desta briga, desafinada a m\u00fasica achar\u00edeis.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Que me importa o saiba ela e todo o mundo? Amo Lav\u00ednia mais que a todo o mundo.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Mocinho, tem cuidado; faze escolha mais modesta, porque Lav\u00ednia \u00e9 a meta de teu irm\u00e3o mais velho.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Porventura ficastes loucos? Ignorais, acaso, como os homens em Roma s\u00e3o violentos e impacientes, sem nunca permitirem competi\u00e7\u00e3o no amor? Senhores, digo-vos que assim fazendo procurais a morte.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Aar\u00e3o, aceitaria dez mil mortes para vir a possuir a minha amada.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Possuir! De que maneira?<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Que te causa esse espanto? Ela \u00e9 mulher; pode ser cortejada. Ela \u00e9 mulher; pode ser conquistada. Ela \u00e9 Lav\u00ednia; poder\u00e1 ser amada. Ora, homem! Ora! Muito mais \u00e1gua passa pelo moinho do que o moleiro pensa, e \u00e9 muito f\u00e1cil \u2014 sabe-lo bem \u2014 tirar uma fatia de um p\u00e3o antes cortado. Embora seja Bassiano irm\u00e3o do rei, gente mais alta j\u00e1 tem usado o enfeite de Vulcano.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 (<i>\u00c0 parte<\/i>) \u2014 Pois n\u00e3o, t\u00e3o alta como Saturnino.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Ent\u00e3o, por que desesperar quem sabe fazer a corte com olhares meigos, palavras e presentes? Como! Nunca te aconteceu matar estranha cor\u00e7a e carreg\u00e1-la ante o nariz do dono?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Um rapto, ou coisa assim, bem me parece, melhor vos conviria nesse caso.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Oh! conviria.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Aar\u00e3o, deste no vinte.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Prouvera que tamb\u00e9m houv\u00e9sseis dado, porque ora eu n\u00e3o me visse t\u00e3o cansado com todo este barulho. Ouvi-me! ouvi-me! Sois t\u00e3o tolos assim, para brigardes por semelhante coisa? Ficar\u00edeis aborrecidos, se ambos obtiv\u00e9sseis \u00eaxito junto dela?<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Eu n\u00e3o, decerto.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Nem eu tamb\u00e9m, se tomar parte nisso.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Ora, que opr\u00f3brio! Que vos fa\u00e7a amigos quanta ora vos separa. Com pol\u00edtica e habilidade alcan\u00e7areis o intento. Seja este vosso plano: n\u00e3o podendo levar a cabo o que \u00e9 do vosso agrado, por viol\u00eancia alcan\u00e7ai o que puderdes. Aceitai meu conselho: mais pudica do que Lucr\u00e9cia nunca foi Lav\u00ednia, a esposa de Bassiano. Precisamos encontrar uma estrada mais direta do que tantos requebros demorados. Encontrei o caminho. Meus senhores, uma ca\u00e7ada espl\u00eandida se apresta. As romanas gentis tomar\u00e3o parte. Espa\u00e7osas e grandes alamedas a floresta apresenta, como passos em quantidade menos freq\u00fcentados, pr\u00f3prios para a viol\u00eancia ou qualquer crime. Fazei que para um ponto desses vossa cor\u00e7a gentil se aparte e dominai-a pela for\u00e7a, se n\u00e3o por argumentos. S\u00f3 assim podereis ter esperan\u00e7as; de outro jeito, nenhuma. Contar vamos a nossa imperatriz esse projeto; seu esp\u00edrito agudo, consagrado a toda sorte de vingan\u00e7a e inf\u00e2mias, com seus conselhos mais limados h\u00e1 de deixar nossos recursos, n\u00e3o querendo que venhais a brigar. Pelo contr\u00e1rio: a ambos por\u00e1 no cimo dos desejos. Como a casa da Fama \u00e9 nossa corte: cheio de l\u00ednguas, de olhos e de ouvidos o pal\u00e1cio est\u00e1 sempre, mas a mata \u00e9 insens\u00edvel, terr\u00edvel, surda e obtusa. Ali falai e agi, bravos rapazes, saciai vosso apetite, protegidos do claro olhar do c\u00e9u e no tesouro de Lav\u00ednia \u00e0 vontade regalai-vos.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Teu conselho, rapaz, n\u00e3o mostra cheiro de covardia.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Sit fas aut nefas at\u00e9 que a corrente possa encontrar em que acalmar o fogo, qualquer encanto para os meus transportes. Per Styga, per manes vehor.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Uma floresta. Ouve-se toque de trombeta e latido de c\u00e3es. Entra Tito Andr\u00f4nico com ca\u00e7adores, etc., Marco. L\u00facio, Quinto e M\u00e1rcio.<\/i><\/p>\n<p>TITO \u2014 Principiou a ca\u00e7ada, bela e clara vem rompendo a manh\u00e3; cheiroso \u00e9 o campo, verdejantes os bosques. Desatrela neste lugar os c\u00e3es, que sua bulha desperte o imperador e a bela esposa, fa\u00e7a acordar o pr\u00edncipe. Toquemos um carrilh\u00e3o de ca\u00e7a, porque \u00e0 volta toda a corte reboe. Filhos, seja vosso cuidado, como \u00e9 tamb\u00e9m nosso, zelar com bem carinho da pessoa do imperador. Durante toda a noite incomodado fui por pesadelos; mas conforto me deu o novo dia. (<i>Latido de c\u00e3es e toque de trompa em confus\u00e3o. Entram Saturnino, Tamora, Bassiano, Lav\u00ednia, Dem\u00e9trio, Quir\u00e3o e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>) Muitos bons dias para Vossa Altezal E para v\u00f3s, princesa, o mesmo n\u00famero de dias venturosos. Prometi-vos uma ca\u00e7ada muito barulhenta.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 E alegre, meu senhor, mas porventura cedo demais para rec\u00e9m-casadas.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Lav\u00ednia, que dizeis?<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 N\u00e3o acho cedo; acordada j\u00e1 estava havia duas horas ou mais.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Ent\u00e3o vamos embora. Tragam-nos logo carros e cavalos. (<i>A Tamora.<\/i>) Assistireis agora a uma ca\u00e7ada romana, cara esposa.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Meus cachorros, senhor, far\u00e3o correr a mais ardente pantera da floresta, e s\u00e3o capazes de subir ao mais alto promont\u00f3rio.<\/p>\n<p>TITO \u2014 E meus cavalos seguir\u00e3o a ca\u00e7a por onde quer que v\u00e1, de leve o plairio ro\u00e7ando como lestes andorinhas.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Quir\u00e3o, n\u00e3o temos galgos nem cavalo, mas nossa cor\u00e7a nos dar\u00e1 regalo.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and23\" name=\"and23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Trecho isolado da floresta. Entra Aar\u00e3o com uma bolsa de ouro.<\/i><\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Quem tem intelig\u00eancia h\u00e1 de julgar-me destitu\u00eddo dela, porque embaixo de uma \u00e1rvore tanto ouro enterrar venho, dele, assim, me privando inteiramente. Fique sabendo, pois, quem t\u00e3o mesquinho conceito faz de mim que todo este ouro um plano me cunhou que, se com jeito for realizado, h\u00e1 de trazer ao mundo uma obra-prima de velhacaria. Ouro, a\u00ed fica e o mal produze asinha em quem achar a esmola da rainha. (<i>Esconde o ouro.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entra Tamora.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Querido Aar\u00e3o, por que te mostras triste, quando tudo em redor \u00e9 provocante de tanta alacridade? Os passarinhos em cada ramo cantam melodias, a serpente se aquece ao sol risonho, as folhas tremem sob o vento fresco, no ch\u00e3o fazendo sombra axadrezada. Descansemos, Aar\u00e3o, sob este abrigo, e enquanto os ecos brincalh\u00f5es despistam os c\u00e3es, com voz aguda repetindo a fanfarra das trompas harmoniosas como se a um s\u00f3 tempo perceb\u00eassemos uma dupla ca\u00e7ada, descansemos para apreciar esse latido alegre. E depois do conflito apaixonado que o her\u00f3i errante e Dido \u2014 \u00e9 o que se conta \u2014 outrora aproximou, quando se viram por feliz tempestade surpreendidos e em discreta caverna se abrigaram: assim, nos bra\u00e7os um do outro presos, conclu\u00eddo o passatempo, poderemos dormir um sono de ouro, enquanto as trompas, o latido dos c\u00e3es, a voz dos p\u00e1ssaros ser\u00e3o o canto, para n\u00f3s, das amas, que faz dormir no ber\u00e7o a criancinha.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Minha senhora, muito embora V\u00eanus mande em vossos desejos, \u00e9 Saturno dominador dos meus. Que significa meu olhar fixo e anunciador da morte, meu sil\u00eancio, esta atroz melancolia, este velo lanoso de cabelos que se distende agora como serpe que se prepare para o fatal bote? N\u00e3o, princesa, n\u00e3o s\u00e3o sinais de V\u00eanus. No cora\u00e7\u00e3o abrigo s\u00f3 vingan\u00e7a, morte tenho nas m\u00e3os, sangue e vindita martelam-me a cabe\u00e7a. Ouve, Tamora, rainha de minha alma, que s\u00f3 aspira conservar teu c\u00e9u \u00edntimo; este dia vai ser para Bassiano decisivo; ficar\u00e1 muda a sua Filomela; teus filhos v\u00e3o roubar-lhe a castidade e a m\u00e3o lavar no sangue de Bassiano. V\u00eas esta carta? L\u00ea-a, por obs\u00e9quio e ao rei entrega este fatal escrito. N\u00e3o me perguntes nada mais, estamos sendo espiados. Eis que vem chegando uma parte do nosso gordo esp\u00f3lio que n\u00e3o suspeita de sua queda pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Oh! doce mouro, para mim mais doce que a pr\u00f3pria vida!<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Nada mais, rainha; Bassiano j\u00e1 vem perto. Neste em meio vou procurar teus filhos e ajud\u00e1-los, seja qual for a causa que defendam. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entram Bassiano e Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Oh! quem vemos? De Roma a alta rainha, separada de seu brilhante s\u00e9q\u00fcito? Ou ser\u00e1 Diana com a apar\u00eancia dela. que seus bosques sagrados abandona para ver a ca\u00e7ada na floresta?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Atrevido censor de nossos passos particulares, se eu tivesse a for\u00e7a que a Diana todos d\u00e3o, desde este instante com os cornos de Act\u00e9one ficaras, e os cachorros a forma transmudada te dilacerariam, insolente, intrometido que \u00e9s.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Com vossa gra\u00e7a, gentil imperatriz, mas todos dizem que em mat\u00e9ria de cornos sois sabida, sendo de crer que v\u00f3s e o vosso mouro vos apartastes dos demais apenas para tentar a prova. Ampare Jove dos c\u00e3es vosso marido neste dia, que poder\u00e3o tom\u00e1.lo por um gamo.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 Rainha, podeis crer, vosso noturno cimeriano vossa honra deixa escura como a epiderme dele: detestada, manchada, abomin\u00e1vel. Por que causa vos encontrais do s\u00e9q\u00fcito afastada? Por que deixastes vosso bom cavalo branco de neve e viestes esconder-vos neste recanto obscuro, pelo b\u00e1rbaro mouro seguida, se n\u00e3o vos houvesse trazido algum desejo obsceno e torpe?<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 E tendo sido perturbada em vosso divertimento, \u00e9 justo que meu nobre senhor seja acoimado de impudente. Por favor, vamos logo, concedamos-lhe os prazeres do amor da cor de corvo. Este vale \u00e9 mui pr\u00f3prio para o feito.<\/p>\n<p>BASSIANO \u2014 O rei meu mano, vai saber de tudo.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Apontado j\u00e1 foi por essas coisas. Bom rei, como tens sido ludibriado!<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Como tenho paci\u00eancia para tanto?<\/p>\n<p>(<i>Entram Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Querida soberana, m\u00e3e graciosa, qual a raz\u00e3o de achar-se Vossa Alteza t\u00e3o p\u00e1lida e confusa?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Porventura n\u00e3o terei causa para ficar p\u00e1lida? Estas duas pessoas me atra\u00edram para este vale, como vedes, \u00e1rido e desolado; as \u00e1rvores, embora no ver\u00e3o estejamos, desfolhadas e ressequidas se acham, pelo musgo dominadas e pelo fatal visgo. Nunca se mostra o sol, nada aqui vive, se n\u00e3o for t\u00e3o-somente o fatal corvo e a coruja noturna. E, ao me mostrarem este passo horroroso, me disseram que aqui, durante a noite, \u00e0s horas mortas, dez mil esp\u00edritos, silvantes serpes, dez mil t\u00famidos sapos e outros tantos ouri\u00e7os t\u00e3o terr\u00edvel e confusa gritaria levantam, que a pessoa mortal que a perceber logo enlouquece, quando n\u00e3o cai in continenti morta. Mal tinham terminado o infernal conto, amea\u00e7aram-me os dois de me amarrarem no tronco deste teixo pavoroso, para eu vir a morrer por modo horr\u00edvel. Chamaram-me, depois, de infame ad\u00faltera, goda lasciva, enfim, todos os termos insultuosos que nunca ouvido humano tenha entendido para tal efeito. E, se, por um milagre, n\u00e3o tiv\u00e9sseis aparecido aqui, eles teriam levado a cabo o plano. Assim, vingai-me, se amais a vossa m\u00e3e e n\u00e3o quiserdes que de chamar de filhos eu vos deixe.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Eis a prova de que ainda sou teu filho. (<i>Apunhala Bassiano.<\/i>)<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 E isto vai demonstrar se eu tenho for\u00e7a. (<i>Apunhala tamb\u00e9m Bassiano, que morre.<\/i>)<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Sem\u00edramis&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o! Tamora b\u00e1rbara, pois s\u00f3 te fica bem teu pr\u00f3prio nome, \u00e9 tua a vez.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Empresta-me essa adaga. Vereis que a m\u00e3o de vossa m\u00e3e, meus filhos, punir sabe os insultos a ela feitos.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Parai, senhora! Ela vai ver mais que isso. Malhai primeiro o trigo e, ap\u00f3s, a palha \u00e0s chamas entregai. Da castidade se orgulha esta boneca, de seu voto conjugal, da lealdade, e com virtude t\u00e3o bem pintada contra v\u00f3s se atreve. Levar\u00e1, pois, tudo isso para o t\u00famulo?<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Se tal se der, eunuco me declaro. Levemos o marido dela para qualquer lugar secreto e de seu corpo sem vida um travesseiro para nossa lux\u00faria preparemos.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Ap\u00f3s terdes, por\u00e9m, provado o mel, tirai a vida dessa vespa, porque ela n\u00e3o nos pique.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Sobre isso, vos afirmo: tomaremos nossas medidas. Vamos, minha bela, teremos de provar, \u00e0 for\u00e7a, dessa virtude que guardais com tanto zelo.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 O Tamora! tens rosto feminino&#8230;<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Levai-a logo, n\u00e3o desejo ouvi-la.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Pedi-lhe, meus senhores, que me escute s\u00f3 uma palavrinha.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Dai-lhe ouvidos, bela senhora. Seja vossa gl\u00f3ria contemplar suas l\u00e1grimas, mas que estas ao cora\u00e7\u00e3o vos sejam como as gotas da chuva para a rocha inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Em que tempo se viu os tigrezinhos algo \u00e0 m\u00e3e ensinarem? Essa f\u00faria j\u00e1 a recebeste dela, n\u00e3o lha ensines. O leite que mamaste virou m\u00e1rmore; tua crueldade vem do peito dela. Mas os filhos nem sempre saem \u00e0 m\u00e3e. (<i>A Quir\u00e3o.<\/i>) Concita-a a ser como mulher: piedosa.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Desejas que bastardo me declare?<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 N\u00e3o gera o corvo a cotovia, \u00e9 certo. Por\u00e9m j\u00e1 ouvi contar \u2014 oh! se isso agora se confirmasse! \u2014 que pela piedade movido, o le\u00e3o consente que lhe aparem as garras reais, como h\u00e1 tamb\u00e9m quem diga que os corvos d\u00e3o comida aos pequeninos enjeitados, enquanto nos seus ninhos deixam morrer \u00e0 fome os pr\u00f3prios filhos. Oh! muito embora o cora\u00e7\u00e3o de pedra te diga n\u00e3o, revela-te comigo, n\u00e3o direi t\u00e3o bondosa, mas amiga<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 N\u00e3o sei o que seja isso. Vamos logo!<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Oh! deixa que to ensine agora. Em nome de meu pai que podendo dar-te a morte, te deixou viva, n\u00e3o te mostres dura, abre os ouvidos surdos.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Muito embora nunca ofendido me tivesses, nunca, justamente por causa desse nome teria de mostrar-me sem piedade. Lembrai-vos, filhos, que eu chorei debalde para que vosso irm\u00e3o salvar pudesse do sacrif\u00edcio, mas o fero Tito n\u00e3o se deixou mover. Assim, levai-a e com ela fazei o que entenderdes. Quanto pior para ela, mais aplausos de mim recebereis.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Oh! s\u00ea rainha gentil, Tamora, e neste mesmo instante com tua pr\u00f3pria m\u00e3o me tira a vida. N\u00e3o era a vida que eu pedia tanto; morto Bassiano, eu tamb\u00e9m morta fora.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Que pedias, ent\u00e3o? Deixa-me, louca!<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Quero a morte imediata, simplesmente, e algo mais, que dizer n\u00e3o me permite a l\u00edngua da mod\u00e9stia. Oh! n\u00e3o permitas que eles d\u00eaem expans\u00e3o a essa lux\u00faria que \u00e9 muito pior que a morte. Nalgum fosso me atira, horr\u00edvel, onde o olhar humano jamais possa enxergar-me. Assim fazendo ser\u00e1s uma assassina caridosa.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Meus filhos privarei de sua paga? Essa bondade seu prazer estraga.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Vamos! J\u00e1 nos prendeste muito tempo.<\/p>\n<p>LAV\u00cdNIA \u2014 Nenhuma compaix\u00e3o nem gra\u00e7a encontro? \u00f3 criatura bestial, mancha e inimiga de nosso comum nome: que a ru\u00edna te caia em cima&#8230;<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 A boca vou tapar-te. Traze o marido dela; \u00e9 nesta furna que Aar\u00e3o mandou lan\u00e7\u00e1ssemos o corpo.<\/p>\n<p>(<i>Dem\u00e9trio atira o corpo de Bassiano no precip\u00edcio; depois saem Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o arrastando Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Adeus, filhos; em bom lugar a ponde. Jamais conhecer\u00e1 prazer legitimo meu cora\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o ficarem os Andr\u00f4nicos todos liquidados. Vou ver agora o meu querido mouro. E que ela perca logo o seu tesouro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entra Aar\u00e3o, com Quinto e M\u00e1rcio.<\/i>)<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Vinde, senhores, o p\u00e9 firme adiante. Vou mostrar-vos o horr\u00edvel precip\u00edcio em que a pantera vi adormecida profundamente.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Tenho a vista turva; n\u00e3o sei o que seja isso.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Eu tamb\u00e9m tenho, posso afirmar. N\u00e3o fosse ter vergonha, deixava a ca\u00e7a e descansava um pouco. (<i>Cai no fosso.<\/i>)<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Como! Ca\u00edste! Que trai\u00e7oeiro fosso ser\u00e1 este, de boca recoberta de espinhos rudes, cujas folhas mostram gotas de sangue fresco, t\u00e3o recente como o orvalho nas flores matutinas? Esse lugar parece ser funesto. Fala, mano; feriste-te na queda?<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Sim, feri-me no quadro mais horrendo que ao cora\u00e7\u00e3o chorar j\u00e1 fez a vista.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Agora vou fazer que o rei os ache, para que pense, pelas apar\u00eancias, que s\u00e3o os assassinos do irm\u00e3o dele. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Por que n\u00e3o me confortas nem me ajudas a sair desta cova amaldi\u00e7oada e manchada de sangue?<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Apoderou-se de mim um medo horr\u00edvel, suor frio me escorre pelas juntas vacilantes. O cora\u00e7\u00e3o suspeita muita coisa que a vista n\u00e3o percebe.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Para veres como teu cora\u00e7\u00e3o foi verdadeiro, com Aar\u00e3o olha para aqui, contempla esta cena de sangue e mortic\u00ednio.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Aar\u00e3o j\u00e1 foi embora; o comovido cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o consente que meus olhos se fixem no que tr\u00eamulos o deixam por simples conjeturas. Mas descreve-me o que se passa; nunca fui t\u00e3o crian\u00e7a como nesta hora, para sentir medo, sem saber bem de qu\u00ea.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 O nobre pr\u00edncipe Bassiano est\u00e1 todo banhado em sangue, como ovelha abatida, neste fosso maldito, escuro e recendente a crime.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Como o reconheceste, se est\u00e1 escuro?<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 \u00c9 que ele tr\u00e1s no dedo ensang\u00fcentado uma pedra preciosa que ilumina toda a caverna e que, tal como c\u00edrio de t\u00famulo, a fei\u00e7\u00e3o terrosa aclara do cad\u00e1ver e mostra os intestinos rugosos deste fosso. N\u00e3o mais p\u00e1lida brilhou a lua sobre o pobre P\u00edramo na noite em que ele morto se encontrava no sangue virginal. Oh mano! ajuda-me com tua fraca m\u00e3o \u2014 temo que o medo, tal como a mim, fraca a tivesse feito \u2014 a sair deste horrendo recept\u00e1culo, odioso como as fauces do Cocito.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 Estende-me tua m\u00e3o, para que eu possa ajudar-te a sair. Caso eu n\u00e3o tenha for\u00e7a para prestar-te esse servi\u00e7o nas fauces tragadoras desse abismo serei tamb\u00e9m lan\u00e7ado, \u00e0 sepultura de Bassiano infeliz. Vigor n\u00e3o tenho para fazer que venhas at\u00e9 \u00e0 borda.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Nem eu para subir sem teu auxilio.<\/p>\n<p>QUINTO \u2014 D\u00e1-me outra vez a m\u00e3o; n\u00e3o vou solt\u00e1-la enquanto n\u00e3o puder p\u00f4r-te aqui fora, ou a\u00ed dentro cair. Vir n\u00e3o consegues para onde estou: irei ficar contigo. (<i>Precipita-se.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Volta Aar\u00e3o com Saturnino.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Vem comigo; desejo ver o fosso e quem acaba de saltar l\u00e1 dentro. Responde-me: quem \u00e9s, que neste instante nessa fenda da terra penetraste?<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 Do velho Tito o filho desgra\u00e7ado, num momento infeliz aqui trazido, para achar morto teu irm\u00e3o Bassiano.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Meu irm\u00e3o? Deve ser pilh\u00e9ria tua. Ele e a esposa se encontram na barraca do lado norte deste ameno bosque. N\u00e3o faz uma hora que os deixei l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p>M\u00c1RCIO \u2014 N\u00e3o podemos saber onde o deixastes, mas \u2014 \u00f3 dor! \u2014 encontramo-lo aqui morto.<\/p>\n<p>(<i>Volta Tamora com pessoas do s\u00e9q\u00fcito, Tito Andr\u00f4nico e L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Onde est\u00e1 meu marido?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Aqui, Tamora, embora aflito por mortal tristeza.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 E teu irm\u00e3o Bassiano?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Ora mexeste no mais fundo da chaga; o desgra\u00e7ado Bassiano assassinado ali se encontra.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Tarde demais, ent\u00e3o, venho trazer-te este fatal escrito, todo o plano da trag\u00e9dia nefasta. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>) Causa pasmo que o rosto humano esconda entre sorrisos agrad\u00e1veis um crime t\u00e3o hediondo.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 \u201cSe n\u00e3o nos for poss\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo de jeito, caro ca\u00e7ador \u2014 refiro-me a Bassiano \u2014 n\u00e3o deixes, pelo menos, de abrir-lhe a sepultura. A recompensa a encontrar\u00e1s no meio das urtigas, ao p\u00e9 do sabugueiro, junto ao fosso em que devemos enterrar Bassiano. Faze isso e ter\u00e1s ganho amigos certos.\u201d Este \u00e9 o fosso, e este o p\u00e9 de sabugueiro. Vede, senhores, se encontrais por perto o ca\u00e7ador que assassinou Bassiano.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Eis a bolsa de moedas, caro pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>SATURNINO (<i>a Tito<\/i>) \u2014 Dois c\u00e3es de tua estirpe sanguin\u00e1ria a vida a meu irm\u00e3o aqui tiraram. Arrancai-os, senhores, desse fosso e os ponde sob cust\u00f3dia, at\u00e9 que eu tenha pensado nalgum meio de inaudita tortura para os dois.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Como! Est\u00e3o dentro desse buraco? Oh coisa extraordin\u00e1ria! Um crime se descobre facilmente.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Possante imperador, sobre os meus fracos joelhos quero suplicar-te a gra\u00e7a \u2014 com l\u00e1grimas a custo derramadas \u2014 de que este crime horr\u00edvel de meus filhos amaldi\u00e7oados, sim, amaldi\u00e7oados, se realmente ficar provado o crime&#8230;<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Provado? Como v\u00eas, est\u00e1 patente. Quem achou esta carta? V\u00f3s, Tamora?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 N\u00e3o, o pr\u00f3prio Andr\u00f4nico.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Sim, realmente, senhor; mas permiti que eu fique sendo o fiador deles. Pela sepultura veneranda de meus antepassados, a um aceno de Vossa Majestade eles prontos est\u00e3o para, com o sangue, se defenderem de qualquer suspeita.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Fiador n\u00e3o ser\u00e1s deles, vem comigo; algu\u00e9m traga o cad\u00e1ver, sem demora; outros, os assassinos, n\u00e3o deixando que conversem. A culpa est\u00e1 patente. Pois, em verdade, se pior fim houvesse do que a morte, esse fim seria o deles.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Tito, intercederei a favor deles junto do rei. N\u00e3o temas por teus filhos; tudo acabar\u00e1 bem.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Saiamos, L\u00facio; n\u00e3o pares para conversar com eles.<\/p>\n<p>(<i>Saem Por lugares diferentes.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and24\" name=\"and24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Outra parte da floresta. Entram Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o, conduzindo Lav\u00ednia, violada, com as m\u00e3os e a l\u00edngua decepadas.<\/i><\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Se falar podes, vai contar agora quem te violou e te cortou a l\u00edngua.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Escreve o pensamento, exprime a id\u00e9ia e, se puderes, faze desses cotos o papel de escriv\u00e3o.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 V\u00ea como pode garatujar s\u00f3 com sinais e gestos.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Vai buscar \u00e1gua para as m\u00e3os lavares.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 L\u00edngua n\u00e3o tem para pedir, nem m\u00e3os com que possa lavar-se. Ora deixemo-la sozinha em seu passeio silencioso.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Fosse eu, e me haveria j\u00e1 enforcado.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Ah! se pudesses preparar a corda!<\/p>\n<p>(<i>Saem Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entra Marco.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Quem \u00e9? Minha sobrinha, que se escapa t\u00e3o velozmente? Prima, uma palavra. Onde est\u00e1 vosso esposo? Se isto \u00e9 sonho, que meus bens todos possam despertar-me. Se estou desperto, venha algum planeta por terra derrubar-me, porque possa dormir o sono eterno. Fala, meiga sobrinha, que impiedosas m\u00e3os e b\u00e1rbaras te mutilaram desse modo e o corpo te deixaram privado dos dois galhos, esses doces ornatos, cuja fronde sombrosa os pr\u00f3prios reis se disputavam, para nela dormir, sem que pudessem jamais a dita obter incalcul\u00e1vel de conquistar-te o amor? Por que n\u00e3o falas? Oh dor! Um rio carmesim de sangue quente, como fonte revolta pelo vento, se eleva e cai entre os teus l\u00e1bios r\u00f3seos, sumindo e aparecendo com teu h\u00e1lito. Algum Tereu, decerto, violentou-te, e, para que n\u00e3o fosse descoberto, a l\u00edngua te cortou. Viras o rosto \u2014 ah! \u2014 de vergonha, e n\u00e3o obstante teres perdido tanto sangue, que despejas como fonte com bocas tr\u00eas abertas, incendem-se e as faces como o rosto do Tit\u00e3, quando encontra alguma nuvem. Devo falar por ti? Foi isso mesmo? Oh! se o teu cora\u00e7\u00e3o eu conhecesse e soubesse quem foi o miser\u00e1vel e o amaldi\u00e7oasse, para meu al\u00edvio! A m\u00e1goa reprimida, como forno cuja boca \u00e9 tapada, abrasa o peito, deixando o cora\u00e7\u00e3o desfeito em cinzas. A linda Filomela a l\u00edngua, apenas, veio a perder, e num dorido pano pode bordar tudo o que lhe ia na alma. Mas ficaste privada desse meio, ador\u00e1vel sobrinha, que um mais forte Tereu vieste a encontrar. Ele cortou-te os delicados dedos, que sabiam bordar muito melhor que Filomela. Oh! se esse monstro houvesse visto as tuas m\u00e3os, como as folhas de frondoso choupo, palpitarem nas cordas do ala\u00fade, n\u00e3o lhes tocara nem para salvar-se. Ou se tivesse nalgum tempo ouvido a harmonia celeste produzida por essa doce l\u00edngua, a faca houvera soltado e adormecera, como C\u00e9rbero aos p\u00e9s do poeta tr\u00e1cio. Vamos logo deixar teu pai sem vista, porque um quadro como este deixa cego qualquer pai. Uma hora de tormenta alaga os prados mais fragrantes. Que n\u00e3o far\u00e3o dos olhos de teu pai meses e anos s\u00f3 de prantos? Vem, n\u00e3o me fujas; chorarei contigo. Fosse meu choro \u00e0 tua dor abrigo!<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and31\" name=\"and31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Roma. Uma rua. Entram senadores, tribunos e oficiais de justi\u00e7a com M\u00e1rcio e Quinto que, amarrados, v\u00e3o sendo conduzidos para o lugar de execu\u00e7\u00e3o; Tito, como suplicante. vai \u00e0 frente.<\/i><\/p>\n<p>TITO \u2014 Meus venerandos padres, escutai-me! Parai, nobres tribunos! Por piedade \u00e0 minha idade, cujos anos jovens foram gastos em guerras perigosas, enquanto v\u00f3s dorm\u00edeis calmamente; por todo o sangue que eu verti na grande causa de Roma, pelas noites frias que a velar eu passei e pelas l\u00e1grimas que ora vedes a encher os velhos sulcos de minhas faces: sede compassivos para meus filhos ora condenados, que alma t\u00e3o corrompida n\u00e3o possuem, como em geral se pensa. Pelos outros vinte e dois filhos nunca chorei tanto, porque morreram no alto leito da honra. Por estes, estes, na poeira escrevo, nobres tribunos, a profunda m\u00e1goa do cora\u00e7\u00e3o com minhas tristes l\u00e1grimas. (<i>Atira-se ao ch\u00e3o. Os senadores, tribunos, etc. passam por ele e saem com os prisioneiros.<\/i>) L\u00e1grimas, apagai a sede seca da terra; o doce sangue de meus filhos a deixaria rubra de vergonha. (<i>Entra L\u00facio, com a espada desembainhada.<\/i>) Tribunos reverendos, gentis velhos, soltai meus caros filhos, comutai-lhes a senten\u00e7a de morte, permitindo que vos afirme quem n\u00e3o chorou nunca que hoje l\u00e1grimas teve eloq\u00fcent\u00edssimas.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 \u00d3 nobre pai! \u00e9 em v\u00e3o que chorais tanto. Nenhum tribuno vos est\u00e1 ouvindo; n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m aqui. \u00c0 pedra dura relatais vossas m\u00e1goas.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ah! meu L\u00facio! deixa-me interceder por teus irm\u00e3os. Graves tribunos, pe\u00e7o-vos de novo&#8230;<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Meu gracioso senhor, nenhum tribuno vos ouve neste instante.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Pouco importa, rapaz. Se eles me ouvissem, n\u00e3o veriam minha pessoa; mas embora a vissem, de mim n\u00e3o se apiedaram. Mas preciso pedir-lhes, muito embora sem proveito. Por isso digo \u00e0s pedras meus pesares. Se \u00e0s minhas dores responder n\u00e3o podem, num ponto s\u00e3o melhores que os tribunos, por n\u00e3o interromperem meu relato. Quando choro, recebem minhas l\u00e1grimas, humildes, a meus p\u00e9s, s\u00f3 parecendo que de mim se condoem. Se em solene vestu\u00e1rio se envolvessem, n\u00e3o teria Roma tribunos de t\u00e3o grande pre\u00e7o. A pedra \u00e9 mole como cera; duros como pedra s\u00e3o todos os tribunos. Calada \u00e9 a pedra e n\u00e3o nos incomoda; os tribunos, com sua fala, \u00e0 morte condenam qualquer um. (<i>Levanta-se.<\/i>) Mas por que causa est\u00e1s de espada nua?<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Para os manos livrar da morte, e, por tentado hav\u00ea-lo, os ju\u00edzes me exilaram para sempre.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Oh! que homem venturoso! Revelaram-se amigos teus. Como, insensato L\u00facio, n\u00e3o percebeste que n\u00e3o passa Roma de um deserto de tigres? Necessitam de presa os tigres, n\u00e3o havendo em Roma presa alguma, afora eu e minha gente. Quanto \u00e9s feliz, por teres-te afastado desses devoradores! Mas, que vejo? Quem \u00e9 que o mano Marco vem trazendo?<\/p>\n<p>(<i>Entram Marco e Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Tito, prepara para o choro os velhos olhos, ou o nobre cora\u00e7\u00e3o para partir-se. Trago para teus anos dor pungente.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ir\u00e1 matar-me? Ent\u00e3o desejo v\u00ea-la.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Esta foi tua filha.<\/p>\n<p>TITO \u2014 \u00c9 ainda, Marco.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Oh! que desgra\u00e7a! Mata-me este quadro.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Levanta-te, maricas, e olha-a fixo! Lav\u00ednia, fala: qual a m\u00e3o maldita que \u00e0 vista de teu pai, sem m\u00e3os, te manda? Que louco quis ao mar deitar mais \u00e1gua ou um feixinho de lenha na fogueira de Tr\u00f3ia incandescente? Minha m\u00e1goa no auge se achava, antes de aqui chegares, mas, como o Nilo, ela desdenha as margens. D\u00e1-me essa espada, as m\u00e3os quero amputar-me tamb\u00e9m, porque debalde se esfor\u00e7aram pela causa de Roma; alimentando minha vida cuidavam de meus males; em preces v\u00e3s t\u00eam elas sido al\u00e7adas; delas fiz uso sem nenhum proveito. A \u00fanica coisa que ora exijo delas, por isso, \u00e9 que uma ajude a cortar a outra. \u00c9 bom, Lav\u00ednia, que ora m\u00e3os n\u00e3o tenhas; para servirem Roma in\u00fateis foram.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Dize, gentil irm\u00e3: quem te fez isso?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Que dor! Esse instrumento delicioso do pensamento dela, que eloq\u00fc\u00eancia t\u00e3o agrad\u00e1vel modulava sempre, foi arrancado da gentil gaiola, onde, tal como p\u00e1ssaro mel\u00f3dico, cantava suaves notas e variadas, que as ou\u00e7as de n\u00f3s todos deleitavam.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Fala por ela: quem lhe fez tal coisa?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Oh! no parque a encontrei assim, vagante, procurando esconder-se, como a cor\u00e7a quando \u00e9 ferida de incur\u00e1vel golpe.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Sempre ela foi a minha cor\u00e7azinha. Quem a feriu me deu mais fundo golpe do que se me matasse. Agora me acho como algu\u00e9m num rochedo circundado pelo mar bravo, que a mar\u00e9 montante v\u00ea subir em cada onda e espera apenas que uma vaga invejosa enfim o absorva nas salgadas entranhas. Foi por este caminho que meus filhos desgra\u00e7ados seguiram para a morte; este outro filho aqui est\u00e1: exilado foi de Roma. Meu mano aqui, minhas desgra\u00e7as chora. Mas o que mais me punge a alma angustiada \u00e9 a querida Lav\u00ednia, mais querida do que minha pr\u00f3pria alma. Se eu te houvesse apenas em pintura visto assim, teria enlouquecido. Que \u00e9 preciso que fa\u00e7a agora, vendo-te em pessoa maltratada a esse ponto? As m\u00e3os te faltam para limpar as l\u00e1grimas, careces de l\u00edngua para revelar o nome de quem te executou esse mart\u00edrio. Teu marido morreu; por sua morte sentenciados teus irm\u00e3os se viram, vindo a morrer por isso. Ah! Olha, M\u00e1rcio! L\u00facio, meu filho, olha para ela! Quando falei nos irm\u00e3os dela, frescas l\u00e1grimas lhe umedeceram de repente as faces, tal como o doce orvalho sobre o l\u00edrio colhido e quase murcho.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Talvez chore a morte do marido; talvez mesmo por saber que os irm\u00e3os s\u00e3o inocentes.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Se eles mataram teu esposo, fica contente, pois punidos foram ambos. N\u00e3o, imposs\u00edvel \u00e9 que cometido tivessem t\u00e3o feio ato, como o prova a dor que a pr\u00f3pria irm\u00e3 revela agora. Deixa, Lav\u00ednia, que eu te beije os l\u00e1bios, ou por sinais me dize de que modo poderei aliviar-te. N\u00e3o desejas que eu, teu bom tio, com teu mano L\u00facio, juntamente contigo nos sentemos \u00e0 volta de uma fonte, cabisbaixos, para as faces fanadas contemplarmos, por\u00e9m n\u00e3o secas, tal como as baixadas que a inunda\u00e7\u00e3o cheias de lama deixa? Fixaremos a fonte tanto e tanto at\u00e9 que sua limpidez se turve pelo amargor de nossas quentes l\u00e1grimas? Ou as m\u00e3os, tal como as tuas, cortaremos? Ou com os dentes a l\u00edngua amputaremos, para passar em pantomima os dias odiosos que nos restam? Que faremos? N\u00f3s, que ainda temos l\u00edngua, combinemos algum projeto de mis\u00e9ria extrema que espanto de n\u00f3s fa\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Pai, deixai de chorar; vede que nossas lamenta\u00e7\u00f5es a solu\u00e7ar convidam minha infeliz irm\u00e3.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Cara sobrinha, paci\u00eancia, meu bom Tito, enxuga os olhos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ah Marco, Marco! Sei perfeitamente, mano, que esse teu len\u00e7o n\u00e3o consegue enxugar uma s\u00f3 das minhas l\u00e1grimas, porque com as tuas o inundaste, amigo.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Querida irm\u00e3, vou enxugar-te as faces.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Olha, Marco, compreendo os gestos dela. Se ela tivesse l\u00edngua, ora diria ao mano o que eu te disse: que n\u00e3o pode ser-lhe de utilidade o len\u00e7o dele para enxugar-lhe as faces, por achar-se t\u00e3o embebido de piedosas l\u00e1grimas. Que harmonia! t\u00e3o longe do sorriso quanto do limbo dista o para\u00edso.<\/p>\n<p>(<i>Entra Aar\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Tito Andr\u00f4nico, o imperador meu amo te manda dizer isto: se a teus filhos tens amor, que ent\u00e3o Marco, L\u00facio, ou mesmo tu, velho Tito, uma das m\u00e3os decepe e a envie para o rei, que ele, de volta, te mandar\u00e1 com vida teus dois filhos, sendo essa a multa pelo crime deles.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Oh gracioso monarca! Aar\u00e3o bondoso! Canta o corvo tal como a cotovia, que da aurora nos traz feliz not\u00edcia? Alegre ao rei uma das m\u00e3os envio. N\u00e3o queres auxiliar-me a decep\u00e1-la, bondoso Aar\u00e3o?<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 P\u00e1ra, senhor! A tua nobre m\u00e3o, que venceu tantos inimigos, n\u00e3o lhe ser\u00e1 enviada. Para o caso a minha vai servir. A mocidade, mais do que v\u00f3s, pode esbanjar o sangue, que a vida vai salvar de meus dois manos.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Em defesa de Roma qual das vossas m\u00e3os n\u00e3o se ergueu, brandindo a machadinha sangrenta e a destrui\u00e7\u00e3o deixando impressa no castelo do inimigo? Oh! as m\u00e3os de ambos s\u00e3o altamente her\u00f3icas, mas a minha se mostrou pregui\u00e7osa. Ora, servindo para livrar da morte meus sobrinhos, para um fim digno as conservei at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Decidi qual das m\u00e3os ser\u00e1 amputada, porque eles, antes, a morrer n\u00e3o venham.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 A minha.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Pelo c\u00e9u! n\u00e3o essa; a minha.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Deixai de discutir, senhores! Erva seca como esta \u00e9 para ser cortada. Por isso, a minha.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Pai bondoso, tenho de ser considerado vosso filho; livrar deixai-me os meus irm\u00e3os da morte.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Por nosso pai e nossa m\u00e3e, consente que amor fraterno eu te revele agora.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Decidi entre v\u00f3s, n\u00e3o corto a minha.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Vou buscar um machado.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Mas apenas para eu me servir dele.<\/p>\n<p>(<i>Saem L\u00facio e Marco.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vem c\u00e1, Aar\u00e3o; vou burlar ambos. Tua m\u00e3o me empresta, que te darei a minha.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se isto o nome de burla merecer, vou ser honesto, a ningu\u00e9m mais burlando em toda a vida. Mas enganar-vos vou de outra maneira, o que havereis de ver dentro de uma hora. (<i>Corta a m\u00e3o de Tito.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Voltam L\u00facio e Marco.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Parai com vossa discuss\u00e3o agora; pois j\u00e1 foi feito o que era necess\u00e1rio. Entrega minha m\u00e3o ao rei, Aar\u00e3o, e dize-lhe que contra mil perigos ela sempre o amparou. Ele que a inume. Mereceu muito mais; conceda-lhe isso. Quanto a meus filhos, dize-lhe que os tenho na conta de obras-primas, adquiridas por baixo pre\u00e7o e, no entretanto, caro, pois comprei o que \u00e9 meu.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Vou j\u00e1, Andr\u00f4nico. Em troca de tua m\u00e3o, dentro de pouco receber\u00e1s teus filhos. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) A cabe\u00e7a deles, quero dizer. Oh! como a id\u00e9ia, t\u00e3o-s\u00f3, dessa partida me deleita! Os tolos que achem na bondade gosto; a alma Aar\u00e3o tem t\u00e3o negra como o rosto. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Agora ao c\u00e9u elevo a m\u00e3o restante e a ru\u00edna fraca para a terra inclino. Se algum poder das l\u00e1grimas se apiada dos infelizes, a ele me dirijo. (<i>A Lav\u00ednia.<\/i>) Como! Queres tamb\u00e9m ficar de joelho? Faze isso, cora\u00e7\u00e3o, que nossas preces o c\u00e9u nos h\u00e1 de ouvir, nossos suspiros h\u00e3o de deixar a ab\u00f3bada emba\u00e7ada, ou com sua espessa bruma o sol manchamos como as nuvens com ele \u00e0s vezes fazem, quando o escondem no seio \u00famido e mole.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 \u00d3 mano, fala com mais senso; deixa de atirar-te em abismos t\u00e3o profundos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o \u00e9 profunda minha dor? sem fundo? Que seja assim tamb\u00e9m minha tristeza.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Mas que a raz\u00e3o governe teus queixumes.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Se houvesse uma raz\u00e3o para a mis\u00e9ria, em limites a dor confinaria. Quando o c\u00e9u chora, a terra n\u00e3o transborda? Quando o vento enlouquece, n\u00e3o se torna furioso o mar, a ab\u00f3bada amea\u00e7ando com o rosto intumescido? E ainda reclamas raz\u00e3o para esta dor? Eu sou o oceano. Ouve como suspira minha filha. Ela, em prantos, \u00e9 o c\u00e9u, eu sou a terra. Seus suspiros ter\u00e3o, assim, de as minhas ondas intumescer, e minhas v\u00e1rzeas com seu pranto cont\u00ednuo h\u00e3o de mudar-se num dil\u00favio, inundadas e afogadas. Minhas entranhas n\u00e3o podendo as dores comportar que ela mostra, como uni b\u00eabedo terei de vomit\u00e1-las. N\u00e3o mo impe\u00e7as, portanto, pois quem perde encontra alivio para a opress\u00e3o nos termos amargosos.<\/p>\n<p>(<i>Entra um mensageiro, que traz duas cabe\u00e7as e uma m\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Muito mal pago foste, alto Andr\u00f4nico, pela m\u00e3o que mandaste ao soberano. Eis as cabe\u00e7as de teus nobres filhos, e aqui, tua m\u00e3o, que, por esc\u00e1rnio, volta. \u00c9 desporto para ele tua m\u00e1goa; tua resolu\u00e7\u00e3o, divertimento. Dor grande sinto em tua dor pensando, maior que \u00e0 id\u00e9ia de meu pai defunto.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Que o Etna, agora, na Sicilia esfrie. Seja meu cora\u00e7\u00e3o inferno ardente. Ultrapassam de muito estas mis\u00e9rias a resist\u00eancia humana. Algum al\u00edvio obt\u00e9m quem se lastima com quem chora; mas dupla morte \u00e9 a dor escarnecida.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Oh! que esta vista cause tais feridas, sem que se extinga a vida detestada! Que a morte empreste o pr\u00f3prio nome \u00e0 vida, quando a esta apenas os suspiros restam!<\/p>\n<p>(<i>Lav\u00ednia beija Tito.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Ah! pobre cora\u00e7\u00e3o! Essa car\u00edcia \u00e9 t\u00e3o inoperante quanto o gelo para a serpe faminta e enregelada.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Quando termina este terr\u00edvel sono?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Lisonja, adeus! Morre, Andr\u00f4nico, morre; n\u00e3o poder\u00e1s dormir. V\u00ea as cabe\u00e7as de teus dois filhos, tua m\u00e3o guerreira, a filha mutilada, este outro filho banido que, em presen\u00e7a deste quadro, ficou exangue e p\u00e1lido, e teu mano, eu, como est\u00e1tua, frio e entorpecido. Nunca mais te direi que fiques calmo. Arranca esses cabelos cor de prata; com os dentes dilacera a m\u00e3o restante, deixando que este horr\u00edvel espet\u00e1culo para sempre nos feche a infeliz vista. \u00c9 a hora de atacar. Por que te calas?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ah! ah! ah!<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Por que est\u00e1s rindo? N\u00e3o \u00e9 hora disso.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ora, n\u00e3o me sobrou uma s\u00f3 l\u00e1grima. Demais, essa tristeza \u00e9 um inimigo que pretende tornar meus olhos \u00famidos e com o tributo os arrasar de l\u00e1grimas. Assim, como depois achar pudera a cova da vingan\u00e7a? Estas cabe\u00e7as parece que me falam, amea\u00e7ando-me de perder a ventura, enquanto todas estas atrocidades n\u00e3o voltarem para a garganta dos autores delas. Vejamos, pois, o que fazer me resta. V\u00f3s, gente desgra\u00e7ada, circundai-me, para que eu possa dirigir-me a todos e jurar que essa ofensa vingaremos. Jurei. Mano, segura uma cabe\u00e7a; com esta m\u00e3o carregarei a outra. Lav\u00ednia, tu tamb\u00e9m vais ajudar-nos: carrega minha m\u00e3o, filha, nos dentes. E tu, rapaz, some de minha vista; ficar n\u00e3o podes, pois est\u00e1s banido. Vai para os godos e alicia gente. Se me amas, como o penso, despe\u00e7amo-nos com um beijo; muito que fazer nos resta.<\/p>\n<p>(<i>Saem Tito, Marco e Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Adeus, meu pai! adeus, nobre Andr\u00f4nico, o ser mais infeliz que j\u00e1 viu Roma. Adeus, Roma orgulhosa; at\u00e9 que L\u00facio retorne deixa aqui penhor mais caro do que sua pr\u00f3pria vida. Adeus, Lav\u00ednia, nobre irm\u00e3. Oh! quem dera que ainda fosses como antes eras! Mas Lav\u00ednia e L\u00facio no esquecimento, apenas, ora vivem, no sofrimento odioso. Conseguindo L\u00facio viver, h\u00e1 de vingar-te a ofensa. O altivo Saturnino e sua esposa, como Tarqu\u00ednio, h\u00e3o de esmolar \u00e0 porta. Vou formar um ex\u00e9rcito entre os godos, que me vingue de Roma e Saturnino. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and32\" name=\"and32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>O mesmo. Casa de Tito em Roma. Um banquete preparado. Entram Tito, Marco, Lav\u00ednia e um menino, filho de L\u00facio.<\/i><\/p>\n<p>TITO \u2014 Assim, assim, sentai-vos. N\u00e3o comamos sen\u00e3o o suficiente para a for\u00e7a nos preservar para vingarmos nossos amargos infort\u00fanios. Caro Marco, desata-me este n\u00f3 do desespero. Eu e tua sobrinha \u2014 pobres almas! \u2014 carecemos de m\u00e3os e n\u00e3o podemos aliviar nossa dor decuplicada cruzando nossos bra\u00e7os. Esta pobre destra me foi deixada para o peito poder tiranizar. E quando, louco de dor, o cora\u00e7\u00e3o quiser al\u00e7ar-se na pris\u00e3o cava desta minha carne, deste modo o reprimo. (<i>A Lav\u00ednia.<\/i>) Tu, mapa de desgra\u00e7as, que s\u00f3 falas por meio de sinais! quando teu pobre cora\u00e7\u00e3o te atacar selvagemente, n\u00e3o poder\u00e1s dar nele e reprimi-lo. Fere-o, menina, com suspiros; mata-o com teus gemidos, ou uma pequenina faca toma entre os dentes e abre um furo perto do cora\u00e7\u00e3o, para que todas as gotas que ca\u00edrem de teus olhos corram para esse po\u00e7o e, ap\u00f3s ench\u00ea-lo, o tolo afogues com salgadas l\u00e1grimas, que s\u00f3 sabe queixar-se.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Ora essa, mano! n\u00e3o lhe ensines o modo de matar-se com m\u00e3os violentas.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ora, Marco! Ora essa! S\u00f3 eu tenho o direito de ser louco. Com m\u00e3os violentas ela suicidar-se? Por que falaste em m\u00e3os? Isso \u00e9 pedirmos a En\u00e9ias que relate duas vezes como Tr\u00f3ia acabou e na mis\u00e9ria se viu ele atirado. Oh! n\u00e3o nos fales em m\u00e3os; muda de tema, pois podemos lembrar-nos de que m\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o possu\u00edmos. Ora! como carece de sentido minha linguagem! como se poss\u00edvel fosse n\u00e3o nos lembrarmos de que estamos sem m\u00e3os, no caso de que n\u00e3o tivesse Marco falado nisso. Vamos, vamos comecemos. Come isto, rapariga. Aqui n\u00e3o h\u00e1 bebida. Escuta, Marco, quanto ela diz. Interpretar consigo todos os seus sinais martirizados. Diz que sua bebida \u00e9 apenas l\u00e1grimas, fermentadas na dor e misturadas em suas faces. Querelante muda, leio-te o pensamento; tua m\u00edmica vai ficar sendo para mim t\u00e3o \u00edntima quanto as sagradas preces para o monge. N\u00e3o h\u00e1s de suspirar nem ajoelhar-te, fazer qualquer sinal, um gesto mudo, sem que eu forme de tudo um alfabeto e, aplicando-me, venha a interpret\u00e1-lo.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Avozinho, deixai esses lamentos; alegrai minha tia com uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Ah! pobre crian\u00e7a! Pela dor movido, chora a grande tristeza do avozinho.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Acalma-te, pimpolho, \u00e9s s\u00f3 de l\u00e1grimas, e estas te podem derreter a vida. (<i>Marco bate com a faca no prato.<\/i>) Em que bateste, Marco, com tua faca?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Nesta mosca, senhor, deixei-a morta.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Fora, assassino! O cora\u00e7\u00e3o me partes. De tirania tenho os olhos fartos. N\u00e3o fica bem para um irm\u00e3o de Tito matar um inocente. Vai-te embora; n\u00e3o tens cabida em minha companhia.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Mas senhor, foi apenas uma mosca.<\/p>\n<p>TITO \u2014 E se essa mosca m\u00e3e e pai tivesse? Como cair deixara as asas de ouro, zumbindo no ar gemidos e lamentos! Pobre e inocente mosca, que com seu melodioso cantozinho veio para alegrar-nos! e mataste-a!<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Perd\u00e3o, senhor, mas era um mosc\u00e3o negro, de feia catadura, como o mouro da imperatriz. Da\u00ed, t\u00ea-lo matado.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Oh! oh! oh! Ent\u00e3o perdoa haver-te repreendido, pois realizaste uma obra merit\u00f3ria. D\u00e1-me tua faca, que exultar desejo com enganar-me que aqui tenho o mouro que viesse adrede para envenenar-me. Este \u00e9 teu! Este aqui \u00e9 de Tamora&#8230; Ah, bandido! Penso que ainda n\u00e3o descemos tanto que reunidos matar n\u00e3o consigamos uma mosca que venha importunar-nos sob a figura do retinto mouro.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Pobre homem! De tal modo a dor o abate, que a sombra toma pela vera ess\u00eancia.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vamos; tirai tudo isso. Vem, Lav\u00ednia; vamos para o teu quarto, para lermos hist\u00f3rias tristes de passadas eras. Vem, pequeno, tamb\u00e9m; tens vista jovem. Ler\u00e1s um pouco ao se enturvar a minha.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<div>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Roma. Jardim da casa de Tito. Entram Tito e Marco; depois entram o jovem L\u00facio e Lav\u00ednia, que corre atr\u00e1s dele.<\/i><\/p>\n<p>MENINO \u2014 Avozinho, socorro! Minha tia Lav\u00ednia vai para onde eu vou; n\u00e3o posso saber o que ela quer. Bom tio Marco, vede como ela corre! Pobre tia, n\u00e3o posso adivinhar o vosso intento.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 P\u00e1ra, L\u00facio; n\u00e3o tenhas medo dela.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Demasiado ela te ama, L\u00facio, para querer fazer-te mal.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 \u00c9 certo; amava-me, quando meu pai ainda estava em Roma.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Que querer\u00e1 dizer, minha sobrinha com todos esses gestos?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Nada temas, L\u00facio, ela quer dizer alguma coisa. Observa, L\u00facio, como ela te agrada. Com certeza deseja que a acompanhes. Ah, menino! jamais com tanto zelo Corn\u00e9lia leu para seus pr\u00f3prios filhos como contigo tua tia estuda a Orat\u00f3ria de T\u00falio e a alta poesia.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Saber n\u00e3o podes por que ela insta tanto?<\/p>\n<p>MENINO \u2014 N\u00e3o, meu senhor, adivinhar n\u00e3o posso; salvo se for acesso de loucura, pois ouvi muitas vezes do avozinho que a dor extrema deixa os homens loucos, e tenho lido que H\u00e9cuba de Tr\u00f3ia enlouqueceu de dor. Dai, ter medo, embora saiba, meu senhor, que minha nobre tia me tem amor materno, n\u00e3o podendo querer, por isso mesmo, medo infundir em minha mocidade, a n\u00e3o ser num momento de loucura. Isso me fez jogar o livro longe e fugir dela, sem raz\u00e3o, decerto. Boa tia, perd\u00e3o. Por\u00e9m, senhora, se o tio Marco quiser vir comigo, de grado irei com Vossa Senhoria.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Sim, L\u00facio; farei isso.<\/p>\n<p>(<i>Lav\u00ednia mexe nos livros que L\u00facio deixara cair.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ent\u00e3o, Lav\u00ednia? Marco, que ser\u00e1? Decerto quer folhear um livro desses. Qual \u00e9 deles, menina? Abre-os, pequeno. Por\u00e9m \u00e9s mais instru\u00edda e ler consegues outros escritos. Vem comigo e escolhe entre os meus livros quantos desejares para distrair tua m\u00e1goa, at\u00e9 que possa mostrar o c\u00e9u o autor desse atentado. Por que ela agita um bra\u00e7o depois do outro?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Penso que ela deseja revelar-nos que houve mais de um culpado nesse crime. Sim, decerto, mais de um. Salvo se os bra\u00e7os dirige ao c\u00e9u para implorar vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>TITO \u2014 L\u00facio, que livro \u00e9 esse em que ela mexe?<\/p>\n<p>MENINO \u2014 S\u00e3o \u201cAs Metamorfoses\u201d, avozinho, de Ov\u00eddio. Minha m\u00e3e foi quem mo deu.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Por amor da defunta, certamente, separou-o dos demais.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Cuidado! Vede como ela vira as folhas. Auxiliemo-la. Que quer ela? Poderei ler, Lav\u00ednia? E a hist\u00f3ria tr\u00e1gica de Filomela, da trai\u00e7\u00e3o de Tereu e da viol\u00eancia; e a viol\u00eancia, receio-o muito, se acha no fundo de sua pena.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Observa, mano, como ela indica a p\u00e1gina!<\/p>\n<p>TITO \u2014 Lav\u00ednia, surpreendida assim foste, doce filha, ultrajada e violada, como outrora Filomela for\u00e7ada foi nas matas infind\u00e1veis, injustas e impiedosas? Vede! vede! H\u00e1 um vale assim, onde uma vez ca\u00e7amos \u2014 se nunca l\u00e1 tiv\u00e9ssemos estado! \u2014 tal como o poeta o dele aqui descreve, para a viol\u00eancia feito e para o crime.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Por que faria a natureza um antro t\u00e3o medonho, se os deuses n\u00e3o achassem deleite nas trag\u00e9dias?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Filha, fala-nos por meio de sinais, somos amigos. Que romano fidalgo ousou tal crime? N\u00e3o se ter\u00e1 esgueirado Saturnino para junto de ti, como Tarqu\u00ednio, quando deixou o acampamento, para manchar o sacro leito de Lucr\u00e9cia?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Boa sobrinha, senta-te; vem, mano, sentar-te aqui tamb\u00e9m. Apolo, Palas, Jove e Merc\u00fario iluminar-me possam, para que eu venha a descobrir o crime. Olhai aqui, senhor; olha, Lav\u00ednia. O terreno \u00e9 arenoso; se puderes, gira este pau, tal como o fa\u00e7o agora. (<i>Escreve na areia, segurando o bast\u00e3o com a boca e dirigindo-o com os p\u00e9s.<\/i>) Consegui escrever o pr\u00f3prio nome, sem o aux\u00edlio das m\u00e3os. Maldito seja no fundo da alma quem nos for\u00e7a a tanto. Boa sobrinha, escreve, e alfim nos mostra quanto quer Deus que fique manifesto para a vingan\u00e7a. O c\u00e9u te guie a pena para expressares claramente as m\u00e1goas, porque fiquemos, afinal, sabendo toda a verdade e o nome dos traidores.<\/p>\n<p>(<i>Lav\u00ednia segura o bast\u00e3o com a boca e escreve, guiando-o com os bra\u00e7os mutilados.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Consegues ler, senhor, o que ela escreve? \u201cEstupro. Quir\u00e3o. Dem\u00e9trio.\u201d<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Como! Os filhos lascivos de Tamora s\u00e3o os autores deste crime hediondo?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Magni dominator poli, Tam lentus audis scelera? tam lentus vides?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Acalma-te, senhor, embora eu saiba que o que ficou escrito sobre a terra seja o bastante para uma revolta suscitar nos esp\u00edritos mais calmos e armar os cora\u00e7\u00f5es at\u00e9 das crian\u00e7as. Ajoelha-te comigo; e tu, Lav\u00ednia, faze o mesmo tamb\u00e9m. Menino, ajoelha-te \u2014 \u00e9s a esperan\u00e7a do romano Heitor \u2014 e comigo prestai o juramento que outrora fez ao infeliz esposo e ao pai da casta dama desonrada J\u00fanio Bruto, ao violada ser Lucr\u00e9cia: que empregaremos todos os recursos para tomar cabal vingan\u00e7a desses p\u00e9rfidos godos, e ou derramaremos o sangue deles, ou sob esse ultraje perderemos a vida.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Uma vez isso determinado, resta achar os meios. Ir\u00e1s despertar a ursa, se bulires com os filhos dela. Toma, pois, cuidado: se ela te farejar, lembra-te sempre que em liga estreita com o le\u00e3o se encontra, o acalenta, deitando-se de costas; e, vindo ele a dormir, faz quanto queira. Marco, \u00e9s um ca\u00e7ador inexperiente. Deixa isso. Vem comigo; vou prover-me de uma folha de ferro, e com uma ponta de a\u00e7o gravarei nela essas palavras, para depois guard\u00e1-las, que o violento vento norte dispersa toda a areia, tal como o faz com a folhas da Sibila. E que ser\u00e1, assim, de vosso texto? Que achas disso, menino?<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Acho, avozinho, que, se eu fosse homem, n\u00e3o seria o quarto da m\u00e3e deles amparo suficiente para esses malfeitores que se encontram sob o jugo romano.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Assim, menino! Muitas vezes teu pai fez isso mesmo para esta p\u00e1tria ingrata.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Caso eu viva, tio, farei de novo a mesma coisa.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vamos \u00e0 sala de armas. Quero armar-te, L\u00facio. Depois, menino, alguns presentes de minha parte levar\u00e1s aos filhos da imperatriz. Vem logo. Vamos. H\u00e1s de fazer o que te pe\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 certo?<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Cravando meu punhal no peito deles.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o, menino; assim, n\u00e3o. Vou ensinar-te quanto deves fazer. Vamos, Lav\u00ednia. Marco, cuida da casa; vou com L\u00facio fazer algo na corte. \u00c9 certo, amigo. Pelo c\u00e9u! vamos ser muito aplaudidos.<\/p>\n<p>(<i>Saem Tito, Lav\u00ednia e o menino.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Deuses, ouvis gemer um homem destes, sem mostrardes piedade nem ternura? N\u00e3o o abandones, Marco, em seu del\u00edrio. Mais cicatrizes de tristeza mostra no cora\u00e7\u00e3o, que marcas dos inimigos no escudo deformado. No entretanto, t\u00e3o fiel se mostra que n\u00e3o quer vingar-se. Vingai o velho, \u00f3 c\u00e9us! \u00f3 alto Andr\u00f4nico. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and42\" name=\"and42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram, por um dos lados, Aar\u00e3o, Dem\u00e9trio e Quit\u00e3o; por outro, o menino L\u00facio e um criado com um feixe de armas, que trazem inscri\u00e7\u00f5es em versos.<\/i><\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Eis o filho de L\u00facio, que nos trouxe, Dem\u00e9trio, uma mensagem.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Sim, alguma mensagem louca de seu louco av\u00f4.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Com a humildade poss\u00edvel, meus senhores, trago-vos sauda\u00e7\u00f5es do alto Andr\u00f4nico. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) E que os deuses romanos vos confundam.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Obrigado, menino. Que foi que houve?<\/p>\n<p>MENINO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O que houve \u00e9 que j\u00e1 fostes descobertos como dois celerados acoimados de sedu\u00e7\u00e3o. (<i>Alto.<\/i>) Se for de vosso gosto, bem avisado meu av\u00f4 mandou-vos as mais vistosas armas e prestantes de sua cole\u00e7\u00e3o, para ornamento de vossa mocidade em tudo honrosa, esperan\u00e7a de Roma. Isso me disse que vos dissesse, como o fa\u00e7o agora, a Vossas Senhorias entregando seus mimos, para que fiqueis armados e defendidos, quando for preciso. Dito isto, me despe\u00e7o de v\u00f3s ambos. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Como de celerados sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<p>(<i>Saem o menino e o criado.<\/i>)<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Que \u00e9 isto? Um rolo de papel, escrito todo \u00e0 volta! Vejamos: (<i>L\u00ea.<\/i>) Integer vitae, scelerisque purus, Non eget Mauri jaculis, nec arcu.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Oh! s\u00e3o versos de Hor\u00e1cio! Sim, recordo-me, h\u00e1 muito tempo os li numa gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Isso! um verso de Hor\u00e1cio. Sois ladino. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Como \u00e9 feio ser asno! N\u00e3o se trata de pilh\u00e9ria. O velhote est\u00e1 sabendo quais s\u00e3o os criminosos e lhes manda armas com versos que penetram fundo sem que eles o percebam. Se estivesse nossa sagaz imperatriz desperta, aplaudiria a mente de Andr\u00f4nico. Mas que descanse em seu descanso inquieto. (<i>Alto.<\/i>) Ent\u00e3o, jovens senhores, n\u00e3o foi astro bondoso que nos trouxe para Roma, estrangeiros como \u00e9ramos e, ainda, na situa\u00e7\u00e3o de escravos, para em pouco tempo chegarmos a esta culmin\u00e2ncia? A mim fez bem, na porta do pal\u00e1cio desafiar o tribuno na presen\u00e7a do pr\u00f3prio irm\u00e3o.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 E a mim, ver um fidalgo com mimos adular-nos baixamente.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 E n\u00e3o ter\u00e1 raz\u00e3o, senhor Dem\u00e9trio? N\u00e3o tratastes t\u00e3o bem a filha dele?<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Desejara dispor de mil romanas, para, \u00e0 vontade, nelas nos saciarmos.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Voto cheio de amor e caridoso.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Somente vossa m\u00e3e est\u00e1 faltando para dizer am\u00e9m.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 O que faria cons rela\u00e7\u00e3o a vinte mil romanas.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Vamos logo; rezemos para os deuses por nossa m\u00e3e, que est\u00e1 com tantas dores.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Para o diabo, que os deuses nos deixaram.<\/p>\n<p>(<i>Ouve-se um toque de trombeta.<\/i>)<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Por que soa a trombeta do monarca?<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Sem d\u00favida por ter nascido um filho do imperador.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Sil\u00eancio! Quem vem vindo?<\/p>\n<p>(<i>Entra a ama, trazendo nos bra\u00e7os uma crian\u00e7a de cor preta.<\/i>)<\/p>\n<p>AMA \u2014 Bom dia, meus senhores. Informai-me: Vistes o mouro Aar\u00e3o?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Est\u00e1 presentes se n\u00e3o tiver sa\u00eddo. Eis aqui Aar\u00e3o. Que \u00e9 que desejais dele?<\/p>\n<p>AMA \u2014 \u00d3 gentil mouro, estamos desgra\u00e7ados! \u00c9 preciso que nos ajudes, se te queres salvo.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Que aconteceu? Por que todo esse miado? Que \u00e9 que procuras ocultar nos bra\u00e7os?<\/p>\n<p>AMA \u2014 O que dos olhos esconder quisera do pr\u00f3prio c\u00e9u, o opr\u00f3brio da rainha, a desonra de Roma soberana. J\u00e1 descansou, senhores, a rainha; j\u00e1 descansou.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Descansou, como?<\/p>\n<p>AMA \u2014 Digo que deu \u00e0 luz um filho.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Bom descanso o c\u00e9u lhe d\u00ea. Que foi que lhe enviou ele?<\/p>\n<p>AMA \u2014 Um diabo.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 E que ela, ent\u00e3o, \u00e9 a m\u00e3e do diabo. Que bela conseq\u00fc\u00eancia!<\/p>\n<p>AMA \u2014 Conseq\u00fc\u00eancia triste, maldita, t\u00e3o negra e desgra\u00e7ada. Eis a crian\u00e7a, t\u00e3o feia como um sapo que se encontrasse junto dos meninos de nossa terra. A imperatriz ta envia, tua impress\u00e3o tua chancela pura, e manda que o batizes com teu gl\u00e1dio.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Sai, prostituta! Preto \u00e9 cor t\u00e3o feia? Certo te julgas uma flor bonita com uma cara dessas.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Que fizestes, miser\u00e1vel?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 O que j\u00e1 n\u00e3o consegues desfazer.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Nossa m\u00e3e est\u00e1 perdida.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 N\u00e3o, vil\u00e3o; pois por mim foi encontrada.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 E assim, c\u00e3o infernal, a desgra\u00e7aste. Coitada dela! Amaldi\u00e7oada seja sua escolha asquerosa, e condenado o produto de um diabo t\u00e3o lodoso.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 N\u00e3o dever\u00e1 viver.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 N\u00e3o dever\u00e1 morrer.<\/p>\n<p>AMA \u2014 Aar\u00e3o, \u00e9 a pr\u00f3pria m\u00e3e que assim resolve.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Ah! \u00c9 assim, ama? Ent\u00e3o, pessoa alguma, a n\u00e3o ser eu, h\u00e1 de aplicar a pena em minha pr\u00f3pria carne e no meu sangue.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Vou fisgar o girino no meu gl\u00e1dio. Ama, entrega-mo; vou por pressa nisso.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Antes, a espada te enfiarei nas tripas. (<i>Toma da ama a crian\u00e7a e saca da espada.<\/i>) Assassinos, parai! Quereis a vida tirar do pr\u00f3prio irm\u00e3o? Pelos ardentes fachos do firmamento, que brilhavam quando foi concebida esta crian\u00e7a, na ponta desta minha cimitarra morrer\u00e1 quem tocar no meu herdeiro, no meu primeiro filho. Jovens, digo-vos que nem o pr\u00f3prio Enc\u00e9lado com todos os filhos de Tif\u00e3o, bando espantoso, nem Alcides glorioso e o deus da guerra. das m\u00e3os paternas tirar\u00e3o a presa. Vamos, vamos, meninos coradinhos, de cora\u00e7\u00e3o vazio, variegados escudos de taberna, muros brancos de caiadura: a cor mais firme \u00e9 a preta como carv\u00e3o, pois n\u00e3o suporta as outras, pois toda a \u00e1gua do oceano as negras pernas do cisne n\u00e3o consegue deixar brancas, embora sempre as lave na corrente. Dizei \u00e0 imperatriz que eu tenho idade para amparar meus bens, Que me desculpe como puder.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Trair, ent\u00e3o, pretendes, dessa maneira, tua nobre amante?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Amante \u00e9 amante, esta criancinha, entanto, sou eu mesmo, o vigor, o pr\u00f3prio quadro de minha mocidade. Que a prefira a tudo o mais \u00e9 certo. Contra o mundo saberei defend\u00ea-la, e dura pena sofrer\u00e1 quem de v\u00f3s lhe fizer dano.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 A nossa m\u00e3e traz isso opr\u00f3brio eterno.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Por essa transgress\u00e3o t\u00e3o reprov\u00e1vel vai Roma desprez\u00e1-la.<\/p>\n<p>AMA \u2014 Em sua c\u00f3lera o imperador vai conden\u00e1-la \u00e0 morte.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Coro s\u00f3 de pensar nessa ignom\u00ednia.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Ora, esse \u00e9 o privil\u00e9gio da beleza que vos define. Fora, cor traidora! que trai pelo rubor os sentimentos do cora\u00e7\u00e3o e seus secretos planos. Eis um garoto Feito de outra tinta. Vede como o negrinho est\u00e1 sorrindo para seu pai, tal como se dissesse: \u201cMeu velho, sou teu mesmo\u201d. E vosso mano, meus senhores, recentemente feito do mesmo sangue a que deveis a vida; do mesmo ventre em que estivestes presos foi ele libertado e \u00e0 luz trazido. E vosso irm\u00e3o do lado certo, embora no rosto traga impresso meu carimbo.<\/p>\n<p>AMA \u2014 Que devo, Aar\u00e3o, dizer \u00e0 imperatriz?<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Pensa, Aar\u00e3o, no que cumpre ora fazermos, que n\u00f3s concordaremos com teu plano. Salva a crian\u00e7a, contanto que nos salves.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Sentemo-nos, ent\u00e3o, e reflitamos. Eu e meu filho ficaremos de olho em v\u00f3s ambos. Sentai-vos a\u00ed. E agora falai em salva\u00e7\u00e3o. (<i>Sentam-se.<\/i>)<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Quantas mulheres viram a crian\u00e7a?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 \u00c9 isso, meus senhores: quando estamos de acordo eu sou cordeiro. Mas se o mouro irritais, Aar\u00e3o se exalta como o mar bravo, o javali sanhoso, a leoa das montanhas. Mas dizei-me: quantas pessoas viram esta crian\u00e7a?<\/p>\n<p>AMA \u2014 A parteira Corn\u00e9lia, apenas, e eu, sem incluirmos, decerto, a parturiente.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 V\u00f3s, a parteira e a imperatriz&#8230; E isso? Duas pessoas guardar\u00e3o segredo, quando falta a terceira. Assim, vai logo contar \u00e0 imperatriz que eu te disse isto: \u201cCo\u00e9! Co\u00ea!\u201d (<i>Apunhala-a.<\/i>) Assim grita um leit\u00e3o esfaqueado.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Que pretendes, Aar\u00e3o? Por que a mataste?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Oh senhor! Por um ato de pol\u00edtica. Ir\u00edamos deix\u00e1-la viva, para revelar nossa falta? Uma comadre faladora como ela? N\u00e3o, meus caros. E agora vos direi todo o meu plano. Mora aqui perto meu compatriota Mulei, cuja mulher na \u00faltima noite deu \u00e0 luz uma crian\u00e7a parecida com ela e, como v\u00f3s, de pele clara. Ide assentar com ele esse neg\u00f3cio; \u00e0 mulher dai dinheiro, contai a ambos tudo o que aconteceu e como o filho deles ir\u00e1 subir de agora em diante, passando a ser o herdeiro da coroa, pois no lugar do meu vai ficar sempre, para acalmar o furac\u00e3o da corte. E que o rei o acalente como pr\u00f3prio. Olhai aqui, senhores; como vedes, dei-lhe o rem\u00e9dio certo. (<i>Apontando para a ama.<\/i>) \u00c9 necess\u00e1rio que trateis das ex\u00e9quias dela agora. O campo \u00e9 perto; sois valentes mo\u00e7os. Feito isso, n\u00e3o deveis perder mais tempo: mandai logo a parteira procurar-me. Uma vez a parteira e a ama afastadas, as mulheres que falem quanto queiram.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Pelo que vejo, Aar\u00e3o, nem mesmo ao vento confias um segredo.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Esse cuidado que tens com nossa m\u00e3e a deixa e aos filhos penhorados contigo para sempre.<\/p>\n<p>(<i>Saem Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o carregando o corpo da ama.<\/i>)<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 E agora, t\u00e3o veloz como andorinhas corramos para os godos, para, entre eles, guardar este tesouro e com os amigos da imperatriz falar secretamente. Vamos, bei\u00e7udo, vou depor-vos longe, que a causa sois de toda a trapalhada. Ra\u00edzes comereis e frutas bravas, coalhada e soro. Mamareis em cabra, morareis em caverna e, ap\u00f3s crescerdes, vos tornareis guerreiro e comandante. (<i>Sai levando a crian\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and43\" name=\"and43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>O mesmo. Uma praia publica. Entra Tito carregando setas, em cujas pontas est\u00e3o presas cartas; seguem-no Marco, o menino L\u00facio, P\u00fablio, Sempr\u00f4nio, Caio e outros senhores, com arcos.<\/i><\/p>\n<p>TITO \u2014 Vem, Marcos; vem! Este \u00e9 o caminho, primos. Garoto, agora mostra quanto \u00e9s h\u00e1bil na pontaria. Puxa bem a corda, que a seta ir\u00e1 direito. Terras Astraea reliquit. Sim, Marcos, n\u00e3o te esque\u00e7as disto: foi-se, fugiu. Agora, meus senhores, todos peguem nos instrumentos. V\u00f3s, meu primo, o oceano rondareis, jogai a rede. Porventura no mar ireis ach\u00e1-la, muito embora a justi\u00e7a esteja ausente de l\u00e1, como da terra. N\u00e3o, n\u00e3o, P\u00fablio! N\u00e3o, Sempr\u00f4nio! \u00e9 preciso fazer isso. Precisareis cavar com p\u00e1 e enxada at\u00e9 o centro da terra mais profundo. Ent\u00e3o, chegados \u00e0 regi\u00e3o de Pluto, pe\u00e7o-vos, entregai-lhe este pedido, dizendo-lhe que trata de um pedido de justi\u00e7a, de ajuda, e que mandado pelo velho Andr\u00f4nico foi, de dores acabrunhado nesta ingrata Roma. Ah! Roma&#8230; Bem, deixei-te, miser\u00e1vel, quando os sufir\u00e1gios alcancei do povo para eleger a quem me tiraniza. Ide embora, vos pe\u00e7o. Sede cautos, sem que deixeis de investigar em todos os navios de guerra. E bem poss\u00edvel que esse maldito imperador a tenha levado para bordo e, assim, parentes, podemos assobiar: Adeus, Justi\u00e7a!<\/p>\n<p>MARCO \u2014 \u00d3 P\u00fablio! n\u00e3o \u00e9 coisa dolorosa ver desvairar nosso t\u00e3o nobre tio?<\/p>\n<p>P\u00daBLIO \u2014 Por isso mesmo, meu senhor, devemos dia e noite cuidar muito bem dele, satisfazendo-lhe os caprichos quanto for poss\u00edvel, at\u00e9 que o tempo mostre qualquer rem\u00e9dio azado.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Sua m\u00e1goa, primos, j\u00e1 n\u00e3o tem cura. Para os godos vos passai e, em campanha assoladora desafogai-vos dessa ingrata Roma e ao traidor Saturnino dai a paga.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ent\u00e3o, P\u00fablio? Meus mestres, como fostes? Conseguistes saber onde ela se acha?<\/p>\n<p>P\u00daBLIO \u2014 N\u00e3o, bondoso senhor. Por\u00e9m mandou-vos Pluto dizer que se quereis vingan\u00e7a da parte dele podereis obt\u00ea-la. Quanto \u00e0 Justi\u00e7a, \u00e9 de opini\u00e3o que se acha no c\u00e9u ou em qualquer parte, em desempenho de incumb\u00eancia de J\u00fapiter. For\u00e7oso ser\u00e1, portanto, que espereis um pouco.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Comigo \u00e9 injusto protelando tanto. Vou mergulhar no lago chamejante e do Aqueronte pelos calcanhares para cima traz\u00ea-la. Somos, Marco, arbustozinhos, n\u00e3o possantes cedros, n\u00e3o gigantes, no jeito dos Ciclopes. Somos de ferro, Marco, \u00e9 certo; temos as costas de a\u00e7o, mas o sofrimento f\u00ea-la dobrar al\u00e9m do suport\u00e1vel. Por\u00e9m j\u00e1 que a Justi\u00e7a nem na terra se encontra nem no inferno, bater quero no c\u00e9u e comover os deuses, para que a Justi\u00e7a nos mande, porque nossas inj\u00farias vingue logo. M\u00e3os \u00e0 obra! Marco, \u00e9s um bom archeiro. (<i>D\u00e1-lhe flechas.<\/i>). \u201cAd Jovem\u201d, esta \u00e9 para v\u00f3s. Esta outra: \u201cAd Apollinem\u201d, \u201cad Martem\u201d, para mim. Aqui, menino, para Palas; aqui, para Merc\u00fario. Esta outra, Caio, vai para Saturno, n\u00e3o para Saturnino; melhor fora disparar contra o vento. Ficai prestes. Menino! Marco! A um sinal meu, soltai-as. Sob palavra, escrevi \u00e0 maravilha, sem deixar de pedir a um s\u00f3 dos deuses.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Disparai, primos, para a corte as flechas; humilhemos o orgulho do monarca.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Disparai, mestres. (<i>Todos disparam suas setas.<\/i>) Bravo, L\u00facio! Bravo! Menino, a Virgo no rega\u00e7o. a Palas!<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Mais de milha, senhor, passei da lua; vossa missiva j\u00e1 chegou a J\u00fapiter.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ah! que fizeste, T\u00falio! V\u00ea: bateste num dos cornos de Taurus.<\/p>\n<p>MARCO \u2014A pilh\u00e9ria, meu senhor, est\u00e1 nisso, justamente. Tendo P\u00fablio atirado, enraivecido ficou o Touro, e tamanha cabe\u00e7ada deu em Aries, que os cornos do Carneiro foram parar na corte. E quem havia de encontr\u00e1-los, sen\u00e3o o pr\u00f3prio biltre da imperatriz? Rindo, ela disse ao mouro que outro meio n\u00e3o tinha sen\u00e3o d\u00e1-lo de presente ao nuarido.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Otimamente. Deus d\u00ea alegria a Sua Senhoria. (<i>Entra o bobo, com dois pombos num cesto.<\/i>) Novas, novas do c\u00e9u! Marco, o correio! Maroto, que nos contas? Trazes cartas? Terei justi\u00e7a? J\u00fapiter, que disse?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Quem, o carrasco? Mandou dizer que ainda n\u00e3o levantou a forca porque o homem s\u00f3 poder\u00e1 ser executado na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Mas J\u00fapiter que disse? E o que pergunto.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Ora, senhor, n\u00e3o conhe\u00e7o J\u00fapiter. Em toda minha vida nunca bebemos juntos.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Como, vil\u00e3o! N\u00e3o \u00e9s carteiro, acaso?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Sim, senhor, de meus pombos; de mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o vieste, ent\u00e3o, do c\u00e9u?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Do c\u00e9u? Ora, senhor! Nunca estive l\u00e1. Deus me livre de ter a ousadia de querer penetrar no c\u00e9u durante os meus dias de mocidade. Vede, dirijo-me com meus pombos para o tribunal popular, para acalmar uma pend\u00eancia entre meu tio e um dos criados do imperador.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Ora vede, senhor; isto vem a calhar para mandar vossa peti\u00e7\u00e3o. Dizei-lhe que entregue de vossa parte os pombos ao imperador.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Dize-me: saber\u00e1s transmitir com gra\u00e7a uma s\u00faplica ao imperador?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 N\u00e3o, senhor; de forma alguma. Nunca disse uma gra\u00e7a em toda a minha vida.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vamos, maroto; basta de conversa. Dai ao imperador os vossos pombos. Farei que de suas m\u00e3os justi\u00e7a alcances. Espera um pouco; toma este dinheiro por tua comiss\u00e3o. D\u00eaem-me papel e tinta. Ent\u00e3o, maroto, com gra\u00e7as saber\u00e1s dar um recado?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ent\u00e3o aqui tendes o pedido. E quando chegardes \u00e0 frente dele, ser\u00e1 preciso que logo vos ajoelheis. Depois, beijai-lhe os p\u00e9s; depois, entregai-lhe os pombos e, a seguir, aguardai a recompensa. Ficarei por perto, senhor; fazei as coisas com decis\u00e3o.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Ficai sem cuidado, meu senhor, deixai isso a meu encargo.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o ter\u00e1s uma faca a\u00ed, maroto? Deixa-me v\u00ea-la. Embrulha-a no pedido, Marco; pois como humilde suplicante foi que o escreveste. E tu, depois de o teres dado ao imperador, vem ao meu quarto contar-me o que ele disse.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Que Deus esteja convosco, senhor. Assim farei.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vamos, Marco, partamos. P\u00fablio, segue-me.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and44\" name=\"and44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>O mesmo. Diante do pal\u00e1cio. Entram Saturnino, Tamora, Dem\u00e9trio, Quir\u00e3o, nobres e outras pessoas. Saturnino tem nas m\u00e3os as flechas disparadas por Tito.<\/i><\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Que pensais, meus senhores, desta ofensa? Em qualquer tempo o imperador de Roma j\u00e1 se viu perseguido desse modo, confundido, vexado e, por ter sido sempre imparcial, tratado com desprezo? Senhores, bem sabeis, como os potentes deuses tamb\u00e9m o sabem \u2014 por mais que esses perturbadores da tranq\u00fcilidade de nosso reino falem junto ao povo \u2014 que n\u00e3o foi feito nada contra os filhos vis do velho Andr\u00f4nico sem do nosso lado termos a lei. Dando-se o caso de que a dor a raz\u00e3o lhe transtornasse, perseguido teremos de ser sempre por seus del\u00edrios, frenesis, doidices? Agora aos deuses escreveu pedindo repara\u00e7\u00e3o dos males. Eis a carta para J\u00fapiter; esta \u00e9 de Merc\u00fario; esta, de Apolo; esta, do deus da guerra, inocentes escritos para serem jogados pelas ruas da cidade! Que quer isso dizer, sen\u00e3o apenas difamar o Senado e apresentar-nos por toda a parte como prepotente? Pilh\u00e9ria espirituosa, n\u00e3o, senhores? Como quem diz: n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a em Roma. H\u00e3o de ficar sabendo, ele e os parentes, que em Saturnino \u00e9 que a Justi\u00e7a vive. Se ela, acaso, dormita, ele h\u00e1 de logo despert\u00e1-la, de forma que em sua c\u00f3lera a destruir venha o mais intoler\u00e1vel conspirador do mundo.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Meu gracioso senhor, meu mui querido Saturnino, senhor de minha vida, dirigente dos pensamentos meus: n\u00e3o te exasperes e considera as faltas da velhice de Tito como efeitos da tristeza, por ter perdido os valorosos filhos, o que fundo o atingiu, atravessando-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Procura consol\u00e1-lo em sua triste sorte, sem castigo cominar ao maior, ao mais humilde, por todas as afrontas. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) E com l\u00e1bia que \u00e0 astuciosa Tamora conv\u00e9m sempre falar com todo o mundo. Mas eu soube, Tito, ferir-te e fiz correr o sangue do cora\u00e7\u00e3o. Se Aar\u00e3o for cauteloso, tudo vai bem e ao porto chegaremos. (<i>Entra o bobo.<\/i>) Que h\u00e1? Queres falar conosco, amigo?<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Sim, em verdade, se Vossa Senhoria for imperial.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 A imperatriz sou eu, e aquele que est\u00e1 sentado ali \u00e9 o imperador.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 E ele. Deus e Santo Est\u00eav\u00e3o vos d\u00eaem uma boa tarde. Trouxe-vos uma carta e um casal de pombos.<\/p>\n<p>(<i>Saturnino l\u00ea a carta.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Daqui o levai e o pendurai na forca.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Quanto dinheiro eu vou ganhar?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Vamos, maroto, vais ser mas \u00e9 enforcado.<\/p>\n<p>BOBO \u2014 Enforcado? Pela Virgem! Assim, trouxe o pesco\u00e7o para um belo fim. (<i>Sai escoltado.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Acintoso demais, intoler\u00e1vel! Terei de suportar esses insultos? Sei bem de onde procede a brincadeira. Terei de ag\u00fcentar tudo isso? Como se seus filhos traidores, que morreram por terem nosso irm\u00e3o assassinado, por meu alvitre injustamente houvessem sido mortos no cepo! ide buscar-me pelos cabelos esse miser\u00e1vel. Nem a velhice, nem as dignidades lhe servir\u00e3o de amparo. S\u00f3 por esta zombaria vou ser o teu carrasco. Velhaco louco e astuto, ao me ajudares a conquistar o trono, s\u00f3 pensavas em vir a governar em mim e em Roma. (<i>Entra Emilio.<\/i>) Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p>EMILIO \u2014 Armas, armas, senhor! Nunca houve em Roma tanta raz\u00e3o para isso. Novamente levantaram-se os godos. Com uma for\u00e7a de homens dispostos, que ao esp\u00f3lio visam, v\u00eam contra n\u00f3s, ao mando obedecendo de L\u00facio, o filho de Andr\u00f4nico, o velho, que em sua f\u00faria repetir amea\u00e7a quanto fez Coriolano outrora em Roma.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 \u00c9 o bravo L\u00facio o general dos godos? Essa not\u00edcia me enregela, e a fronte deixo cair tal como as flores fazem ap\u00f3s a geada, ou a grama nas tormentas. Sim, as preocupa\u00e7\u00f5es j\u00e1 se aproximam. Sempre foi estimado pelo povo. Eu pr\u00f3prio ouvi falar bastantes vezes entre os comuns, quando passeava inc\u00f3gnito, que banido ele fora injustamente. sendo geral aspira\u00e7\u00e3o que L\u00facio venha a imperar em Roma.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 De que tendes tanto receio? Roma n\u00e3o \u00e9 forte?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 E; mas os cidad\u00e3os preferem L\u00facio e me abandonar\u00e3o para auxili\u00e1-lo.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Seja rei, qual teu nome, teu esp\u00edrito: imperial. Porventura o sol se empana, quando voa uma mosca? As \u00e1guias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com seu trinado alegre, certas de que com a sombra de suas asas poder\u00e3o reduzi-los ao sil\u00eancio, quando bem entenderem. Coisa id\u00eantica far\u00e1s com esses romanos inconstantes. \u00c2nimo, ent\u00e3o, imperador! Pois sabe que eu pretendo encantar esse Andr\u00f4nico com palavras mais doces e, no entanto, mais fatais do que a isca para o peixe ou, para a ovelha, o trevo de carvalho: uma na isca vai ferir-se; a outra, empachada vem a morrer do cibo delicioso.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Mas ele junto ao filho, certamente n\u00e3o falar\u00e1 por n\u00f3s.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Caso Tamora a isso o concite, falar\u00e1 decerto. Posso adular-lhe o ouvido encanecido, cheio deixando-o com promessas \u00e1ureas. Tivesse o cora\u00e7\u00e3o inexpugn\u00e1vel e surdo o ouvido, cora\u00e7\u00e3o e ouvido obedientes \u00e0 minha voz seriam. (<i>A Emilio.<\/i>) Vai na frente; s\u00ea nosso embaixador. Dize que o rei parlamentar deseja com o valoroso L\u00facio e marca o encontro justamente na casa de Andr\u00f4nico.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Desempenha-te, Emilio, honrosamente dessa nossa mensagem. Se ele, acaso, pedir ref\u00e9ns para ficar tranq\u00fcilo, ele que diga qual penhor deseja.<\/p>\n<p>EMILIO \u2014 Com zelo cumprirei vosso mandado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Vou j\u00e1 \u00e0 procura de Andr\u00f4nico, o velho, para, com meus recursos, convenc\u00ea-lo a fazer que se passe dos guerreiros godos o bravo L\u00facio. E agora, am\u00e1vel imperador, fica de novo alegre, sepultando o temor em meus conselhos.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Vai convenc\u00ea-lo, ent\u00e3o, e obt\u00e9m bom \u00eaxito.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and51\" name=\"and51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Plan\u00edcie perto de Roma. Fanfarra. Entra L\u00facio com um ex\u00e9rcito de godos, com tambores e bandeiras.<\/i><\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Guerreiros valorosos, bons amigos, recebi cartas da grandiosa Roma, que o \u00f3dio refletem que ao monarca votam e o desejo que todos t\u00eam de ver-nos. Por isso, bons senhores, como vossos t\u00edtulos o confirmam, revelai-vos altivos e impacientes de vingar-vos das inj\u00farias sofridas. Por um dano que Roma vos tivesse ocasionado, paga tripla podeis haver agora.<\/p>\n<p>PRIMEIRO GODO \u2014 Bravo rebento do \u00ednclito Andr\u00f4nico, cujo nome j\u00e1 foi pavor dos godos, ora nosso conforto, cujos feitos altanados e fama sempiterna pagou a ingrata Roma com desprezo ignominioso: s\u00ea conosco ousado. Iremos todos aonde nos levares, como abelhas armadas, que nos dias mais quentes do ver\u00e3o o mestre leva para os prados floridos, e vinguemo-nos da maldita Tamora.<\/p>\n<p>GODOS \u2014 O que ele disse, todo o ex\u00e9rcito diz.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Humildemente lhe agrade\u00e7o e a v\u00f3s todos. Mas quem chega conduzido por um alegre godo?<\/p>\n<p>(<i>Entra um godo, conduzindo Aar\u00e3o que traz nos bra\u00e7os seu pr\u00f3prio filho.<\/i>)<\/p>\n<p>SEGUNDO GODO \u2014 Alto L\u00facio, afastei-me das fileiras para ver as ru\u00ednas de um mosteiro; e quando os olhos eu fixava atento numa casa assolada, ouvi de s\u00fabito choro de crian\u00e7a por detr\u00e1s de um muro. Para l\u00e1 dirigi-me; mas nessa hora a voz ouvi de algu\u00e9m que procurava desta maneira consolar a crian\u00e7a: \u201cCala-te, escravo escuro! Em meu socorro vem e de tua m\u00e3e. Que o colorido de tua pele n\u00e3o te traia a origem. Se a natureza ao menos te tivesse dado a cor de tua m\u00e3e, ser poderias imperador. Mas quando o touro e a vaca s\u00e3o cor de leite, nunca o bezerrinho sair\u00e1 como carv\u00e3o. Quieto, velhaco! Fica quietinho a\u00ed!\u201d \u2014 Dessa maneira, realmente, consolava ele o menino \u2014 \u201cVou entregar-te a um godo de confian\u00e7a que, quando a saber vier que tu nasceste de uma alta imperatriz, h\u00e1 de com zelo cuidar de ti por causa de tua m\u00e3e.\u201d Nessa altuira, sacando minha espada, de s\u00fabito o peguei e vo-lo trouxe, porque dele trateis como quiserdes.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 O godo, este \u00e9 o dem\u00f4nio em carne e osso que a Andr\u00f4nico privou da m\u00e3o valente, a p\u00e9rola que fascinou os olhos da imperatriz, e aqui se encontra o baixo produto da lux\u00faria ardente de ambos. Dize-me, escravo de olho branco: aonde pretendias levar esta futura imagem de tua face demon\u00edaca? Por que n\u00e3o falas? Como! \u00c9s surdo e mudo? Soldados, uma corda! Pendurai-o nesta \u00e1rvore, e ao seu lado o bastardinho.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 N\u00e3o toqueis no menino; \u00e9 de real sangue.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Mui semelhante ao pai, para que possa ser bom. Primeiro pendurai a crian\u00e7a, porque ele veja como ela esperneia, e assim se aflija o cora\u00e7\u00e3o paterno. Uma escada!<\/p>\n<p>(<i>Trazem uma escada, na qual Aar\u00e3o \u00e9 for\u00e7ado a subir.<\/i>)<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 N\u00e3o mates, L\u00facio, a crian\u00e7a. De minha parte \u00e0 imperatriz a entrega. Se fizerdes assim, coisas mir\u00edficas te contarei, que te ser\u00e3o muito \u00fateis. Se n\u00e3o me ouvires, bem; que me aconte\u00e7a seja o que for. Direi apenas isto: a peste e a maldi\u00e7\u00e3o sobre v\u00f3s todos!<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Fala. Se me agradar o que disseres, viva ela ficar\u00e1, cuidando eu pr\u00f3prio de sua educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Se te agradares do que eu disser? Oh! posso assegurar-te que na alma h\u00e1 de pungir-te o meu discurso, porque falar pretendo de assass\u00ednios, viola\u00e7\u00f5es e massacres, atos negros da escura noite, abomin\u00e1veis feitos, trai\u00e7\u00f5es, conjuras, vilanias, fraudes terr\u00edveis de se ouvir, mas realizadas por modo lastim\u00e1vel. Isso tudo sepultado vai ser com minha morte, se n\u00e3o me prometeres que meu filho vivo continuar\u00e1.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Dize o que sabes. Prometo que teu filho fica vivo.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Jura primeiro, que a falar come\u00e7o.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Jurar! Por qu\u00ea? N\u00e3o cr\u00eas que Deus exista. Se assim \u00e9, como cr\u00eas num juramento?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Que importa que eu n\u00e3o creia? \u00c9 assim, de fato. Mas sei que \u00e9s religioso e que uma coisa tens chamada consci\u00eancia, e que d\u00e1s cr\u00e9dito a vinte ou trinta ritos e momices sacerdotais, que cumpres com bem zelo. Eis o motivo de exigir que jures; pois uma vez sabendo que um idiota por um deus toma suas bugigangas e a palavra mant\u00e9m por ela dada, nessa base reclamo dele a jura. Assim, ter\u00e1s de me jurar por esse mesmo deus \u2014 pouco importa qual seja ele adorado por ti e reverenciado, que salvar\u00e1s meu filho e o criar\u00e1s. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o te direi nada.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Juro pelo meu Deus que farei isso.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Fica sabendo, ent\u00e3o, logo de in\u00edcio, que a imperatriz \u00e9 a m\u00e3e deste meu filho.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Oh mulher de lux\u00faria insaci\u00e1vel!<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Ora, L\u00facio! isso foi apenas ato de caridade, junto com o que ainda ter\u00e1s de ouvir de mim. Foram seus filhos que mataram Bassiano e, ap\u00f3s, violaram tua irm\u00e3, lhe amputaram as m\u00e3os brancas, a l\u00edngua lhe cortaram, enfeitando-a da maneira que viste.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 \u00d3 miser\u00e1vel! Chamas a isso enfeitar?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Ora, lavada foi, cortada, enfeitada, tendo sido tudo isso para os dois belo brinquedo.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Oh! monstros como tu, bestiais e b\u00e1rbaros!<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Realmente, o guia eu fui do que fizeram. Da m\u00e3e lhes veio o esp\u00edrito lascivo, t\u00e3o certo como haver na mesa o trunfo; mas a sede de sangue foi comigo, parece, que aprenderam, t\u00e3o verdade como atacar um c\u00e3o de frente sempre. Bem, que meus atos provem quanto valho. Atra\u00ed teus irm\u00e3os para a trai\u00e7oeira cova onde o corpo de Bassiano estava. E minha a carta por teu pai achada, tendo sido eu, tamb\u00e9m, que escondi o ouro de que nela se fala, combinado tendo tudo isso com Tamora e os filhos. Que fato houve, em resumo, de que causa n\u00e3o achasses de dor, em que eu deixasse de tomar parte ativa? Usei de fraude para a m\u00e3o de teu pai ver decepada, e, ao receb\u00ea-la, retirei-me \u00e0 parte, chegando quase a arrebentar o peito, de tanta gargalhada. Colocara-me a espiar por um buraco da parede, quando a cabe\u00e7a recebeu dos filhos, em troco da m\u00e3o dele. Vi suas l\u00e1grimas e ri-me tanto que fiquei com os olhos molhados como os deles, e ap\u00f3s, no instante de contar \u00e0 rainha a brincadeira, ela quase morreu de tanto gosto, ao ouvir minha hist\u00f3ria divertida, vinte beijos me dando pela nova.<\/p>\n<p>PRIMEIRO GODO \u2014 Como! Contas tudo isso sem ficares enrubescido?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Sim, como um c\u00e3o negro, como diz o prov\u00e9rbio.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o te sentes arrependido dessas vilanias?<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Sim, por n\u00e3o ter dez mil como essas feito. Agora mesmo amaldi\u00e7\u00f4o o dia \u2014 e creio que bem poucos caem dentro do c\u00edrculo maldito \u2014 em que eu deixasse de praticar qualquer not\u00f3ria inf\u00e2mia, como seja: tirar a algu\u00e9m a vidaa, ou, quando menos, maquinar-lhe a morte, violar uma donzela ou dar a id\u00e9ia para tal fim, sob falso juramento contra algum inocente fazer carga, entre amigos semear a odiosidade, fazer que do alto caia e se arrebente o rebanho do pobre, \u00e0s altas horas da noite incendiar medas e celeiros, para aos donos gritar que com suas l\u00e1grimas as chamas apagassem. Muitas vezes desenterrei dos t\u00famulos os mortos, colocando-os de p\u00e9, junto das portas dos amigos queridos, justamente quando a dor j\u00e1 se achava quase extinta, na pele dos cad\u00e1veres gravando com minha faca, tal como na casca das \u00e1rvores se faz, em caracteres romanos: \u201cN\u00e3o deixeis que a dor se extinga, conquanto eu j\u00e1 morresse\u201d. Ora! milhares de a\u00e7\u00f5es terr\u00edveis fiz com a mesma calma com que mato uma mosca, nada havendo que tanto me entriste\u00e7a como a id\u00e9ia de mais dez mil n\u00e3o realizar como essas.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Levai esse dem\u00f4nio, sua morte deve ser prolongada; a forca, apenas, fora branda demais.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Se houver dem\u00f4nios, desejo ser um deles, porque viva no fogo eterno a me queimar, contanto que ao meu lado vos tenha l\u00e1 no inferno, s\u00f3 para vos atormentar sem pausa com minhas invectivas amargosas.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Tapai-lhe a boca; n\u00e3o deixeis que fale.<\/p>\n<p>(<i>Entra um godo.<\/i>)<\/p>\n<p>GODO \u2014 Chegou, senhor, de Roma um mensageiro que deseja poder falar convosco.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Fazei-o entrar. (<i>Entra Emilio.<\/i>) Emilio, \u00e9s mui bem-vindo. Que noticia de Roma nos trouxeste?<\/p>\n<p>EMILIO \u2014 Glorioso L\u00facio e v\u00f3s, fidalgos godos, o imperador romano vos sa\u00fada por minha boca. Por haver sabido que em armas vos achais, prop\u00f5e que em casa de vosso pai convosco a falar venha. Podeis pedir ref\u00e9ns, se o desejardes, que vos ser\u00e3o entregues sem delongas.<\/p>\n<p>PRIMEIRO GODO \u2014 Que diz o general?<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Em\u00edlio, caso Saturnino a meu pai e ao tio Marco entregue seu penhor, n\u00e3o faltaremos. Avante! Marcha!<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and52\" name=\"and52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>Roma. Diante do casa de Tito. Entram Tamora, Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o, disfar\u00e7ados.<\/i><\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Com esta triste e estranha vestimenta falarei a Andr\u00f4nico, declarando-lhe que eu sou a Vingan\u00e7a, l\u00e1 de baixo enviada para a ele me agregar e dar al\u00edvio ao seu incomport\u00e1vel sofrimento. Batei logo no quarto; dizem que ele se fecha a\u00ed, a excogitar projetos estranhos de vingan\u00e7a pavorosa. Dizei-lhe que a Vingan\u00e7a aqui se encontra para a ru\u00edna acelerar de todos os inimigos dele.<\/p>\n<p>(<i>Quir\u00e3o e Dem\u00e9trio batem na porta.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Tito aparece em cima.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Quem veio perturbar meu pensamento? Vosso plano \u00e9 for\u00e7ar-me a abrir a porta para que sumam meus projetos tristes, frustro ficando todo o meu trabalho? Mas estais enganados. Vede! Quanto fazer pretendo j\u00e1 deixei fixado nestas linhas de sangue, pretendendo realizar tudo o que se encontra escrito.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Tito, s\u00f3 vim aqui para falar-te.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o, nem uma palavra; como posso falar com gra\u00e7a, se de m\u00e3o care\u00e7o para com o gesto sublinhar a fala? Sobre mim tens vantagens. Foral Fora!<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Se soubesses quem sou, desejarias comigo conversar.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o estou louco; sei muito bem quem \u00e9s; de testemunho sirva este pobre coto, sirvam estas linhas da cor de. sangue, estes profundos sulcos cavados pelo sofrimento; sirvam tamb\u00e9m de testemunho os dias inacab\u00e1veis, as pesadas noites, as dores infind\u00e1veis&#8230; Sim, conhe\u00e7o-te perfeitamente, como sendo a nossa soberba imperatriz, a poderosa Tamora. Vens tirar-me a m\u00e3o restante?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Sabe, homem triste, que n\u00e3o sou Tamora; essa \u00e9 tua inimiga; eu, tua amiga. Sou a Vingan\u00e7a, enviada pelo inferno para aplacar o abutre corrosivo que tens no pensamento, com deixar-te plenamente vingado dos inimigos. Vem, pois, saudar-me neste mundo claro; falemos sobre mortes e assass\u00ednios. N\u00e3o h\u00e1 esconderijo, escura cova, vale brumoso, funda obscuridade onde se escondem, t\u00edmidos, o crime sanguinolento, o detestado estupro. que de encontrar mui f\u00e1cil n\u00e3o me seja. Segreda a todos meu terr\u00edvel nome, Vingan\u00e7a, e logo o criminoso treme.<\/p>\n<p>TITO \u2014 \u00c9s a Vingan\u00e7a, ent\u00e3o, e foste enviada para que os inimigos eu torture?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Ela mesma; assim, desce e vem saudar-me.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Um servi\u00e7o me presta, antes que eu des\u00e7a. Ao lado teu o Estupro e a Morte vejo. Agora prova que a Vingan\u00e7a \u00e9s mesmo: apunhala-os, ou passa com teu carro por cima deles, que eu irei saudar-te, de cocheiro servir-te, para em volta do globo n\u00f3s girarmos. Dois ginetes apropriados arranja, negros, negros como azeviche, para velozmente teu carro vingador daqui levarem e procura assassinos em seus antros. Quando teu carro com as cabe\u00e7as deles estiver carregado, ent\u00e3o eu salto para correr junto das rodas como criado humilde, de p\u00e9 o dia todo, desde que Hip\u00e9rio se alce no levante. Farei todos os dias isso tudo, se o Estupro e a Morte, que a\u00ed est\u00e3o, matares.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 S\u00e3o meus ministros ambos, acompanham-me.<\/p>\n<p>TITO \u2014 S\u00e3o teus ministros? Como s\u00e3o chamados?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Morte e Estupro: esses nomes receberam por castigarem os culpados disso.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Deus bondoso! como eles se parecem com os filhos da rainha e tu com ela! Mas n\u00f3s, homens terrenos, temos olhos enganadores, miser\u00e1veis, loucos. \u00d3 Vingan\u00e7a agrad\u00e1vel, n\u00e3o demoro; vou j\u00e1 falar-te. E se te basta o abra\u00e7o de um lado s\u00f3, neste momento mesmo te apertarei ao peito. Des\u00e7o logo. (<i>Recolhe-se.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Conv\u00e9m ao seu estado concordarmos assim com seus caprichos. Com palavras apropriadas dai for\u00e7a a qualquer plano que eu, acaso, inventar para alimento de sua fantasia tresloucada. Convicto est\u00e1 de que a Vingan\u00e7a eu seja. Uma vez certo dessa id\u00e9ia louca, dir-Ihe-ei que mande algu\u00e9m chamar o filho, L\u00facio, e, enquanto o retenho num banquete, hei de fazer que se dispersem todos os godos inconstantes, ou inimigos seus, ao menos, fazer de todos eles. A\u00ed vem ele. Volto ao meu papel.<\/p>\n<p>(<i>Entra Tito.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 H\u00e1 muito tempo estou desamparado, e tudo por tua causa. S\u00e9 bem-vinda, terr\u00edvel F\u00faria, \u00e0 minha casa triste. Roubo e Morte, a v\u00f3s dois tamb\u00e9m sa\u00fado. Mas como \u00e0 imperatriz e seus dois filhos vos pareceis! S\u00f3 falta para.o grupo terdes convosco o mouro. Todo o inferno fornecer n\u00e3o vos p\u00f4de um tal dem\u00f4nio? Pois sei que a imperatriz n\u00e3o d\u00e1 um passo sem ter o mouro em sua companhia. Para a representardes com capricho indispens\u00e1vel fora que obtiv\u00e9sseis semelhante dem\u00f4nio. Pouco importa: sois bem-vindos assim. Mas, que faremos?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Andr\u00f4nico, que queres que fa\u00e7amos?<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO \u2014 Mostra-me um assassino, e logo o prendo.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Mostra-me um celerado que violado tivesse algu\u00e9m, porque o castigue logo.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Mil sujeitos me mostra, que te houvessem feito algum dano, para que os castigue.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Corre as malditas ruas da cidade, e quando \u2014 \u00f3 Morte! \u2014 achares um sujeito parecido contigo, mata-o logo, porque \u00e9 um assassino. Vai com ele, bondoso Estupro; e quando, por teu lado, encontrares algu\u00e9m que se pare\u00e7a milito contigo, meu bondoso Estupro, mata-o: um violador \u00e9 de mulheres. Parte no encal\u00e7o deles, pois na corte do imperador h\u00e1 uma rainha sempre seguida por um mouro. Muito f\u00e1cil te ser\u00e1 conhec\u00ea-la, pois \u00e9 tua c\u00f3pia perfeita, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Inflige-lhes, te pe\u00e7o, qualquer g\u00eanero de morte pavorosa. pois mostraram-se cru\u00e9is comigo e minha gente toda.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 As tuas instru\u00e7\u00f5es ser\u00e3o cumpridas. Antes, por\u00e9m, bondoso Tito, pe\u00e7o-te que mandes um recado para L\u00facio, teu filho triplamente valoroso, que contra Roma traz guerreiros godos, e a um banquete o convida em tua casa. Uma vez ele ali, precisamente em teu festim solene, hei de trazer-te a imperatriz e os filhos, o monarca, todos os teus inimigos, que h\u00e3o de, humildes, a teus p\u00e9s ajoelhar e suplicar-te, podendo tu descarregar em todos as tristezas que o peito te angustiam. Que diz desse expediente o alto Andr\u00f4nico?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Mano Marco! Quem chama \u00e9 o infeliz Tito. (<i>Entra Marco.<\/i>) Marco, procura teu sobrinho L\u00facio; encontr\u00e1-lo-\u00e1s entre os valentes godos. Da minha parte, dize-lhe que venha falar-me em minha casa, acompanhado dos mais not\u00e1veis pr\u00edncipes dos godos. Que onde estiver acampe seus soldados. O imperador e a imperatriz, lhe dize, num festim tomam parte em minha casa, devendo L\u00facio vir, para saud\u00e1-los. Se amor me tens, d\u00e1-lhe o recado certo; e ele que fa\u00e7a tudo o que te disse, se a vida preza de seu pai idoso.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Farei tudo isso e voltarei depressa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Agora vou cuidar de teus neg\u00f3cios; comigo levo estes meus dois ministros.<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! Deixa comigo o Estupro e a Morte! Do contr\u00e1rio, farei voltar o mano, confiando a L\u00facio, apenas, o vingar-me.<\/p>\n<p>TAMORA (<i>\u00e0 parte, aos filhos<\/i>) \u2014 Que achais, meninos? Ficareis com ele, enquanto eu vou contar ao meu marido que surtiu bom efeito a brincadeira? Cedei ao seus caprichos, adulai-o, falai-lhe com bons modos, entretendo-o at\u00e9 ao meu retorno.<\/p>\n<p>TITO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Reconhe\u00e7o-os perfeitamente, muito embora pensem que estou fora do ju\u00edzo. Hei de apanh\u00e1-los em sua pr\u00f3pria armadilha, a esses malditos mastins do inferno e \u00e0 m\u00e3e que os p\u00f4s no mundo.<\/p>\n<p>DEM\u00c9TRIO (<i>\u00e0 parte, a Tamora<\/i>) \u2014 Podeis sair, senhora, sem cuidado, deixando-nos aqui.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Sim, Andr\u00f4nico; cuidar vai a Vingan\u00e7a dos castigos que ir\u00e3o j\u00e1 receber teus inimigos. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Adeus, doce Vingan\u00e7a; estou contente.<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Dize-nos velho: que fazer devemos?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Sil\u00eancio! Reservei-vos muita coisa. P\u00fablio, vem c\u00e1! Vem, Caio! Valentino!<\/p>\n<p>(<i>Entram P\u00fablio e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p>P\u00daBLIO \u2014 Que desejais?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Conheces estes dois?<\/p>\n<p>P\u00daBLIO \u2014 Os filhos s\u00e3o da imperatriz, Dem\u00e9trio, parece-me, e Quir\u00e3o.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ora, ora, P\u00fablio! Est\u00e1s muito enganado, Morte e Crime, \u00e9 como eles se chamam. Por tudo isso, meu gentil P\u00fablio, amarra-os; Valentino, Caio, as prestantes m\u00e3os sobre eles ponde. Suspirar j\u00e1 me vistes muitas vezes por este instante que ora se apresenta. Amarrai-os, portanto, com bem for\u00e7a, e a boca lhes tapai, se protestarem.<\/p>\n<p>(<i>Sai. P\u00fablio e os outros seguram Quir\u00e2o e Dem\u00e9trio.<\/i>)<\/p>\n<p>QUIR\u00c3O \u2014 Miser\u00e1veis, parai! Somos os filhos da imperatriz.<\/p>\n<p>P\u00daBLIO \u2014 Por isso mesmo vamos dar cumprimento \u00e0s ordens recebidas. A boca lhes tapai, n\u00e3o permitindo que pronunciem uma s\u00f3 palavra. Est\u00e1s bem preso? Ponde for\u00e7a nisso.<\/p>\n<p>(<i>Volta Tito cons uma faca, e Lav\u00ednia com uma bacia.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vem ver, Lav\u00ednia; vem. Est\u00e3o bem presos os teus dois inimigos. Amarrai-lhes a boca, n\u00e3o deixando que me falem. O Quir\u00e3o e Dem\u00e9trio! Celerados! Eis aqui a fonte que deixastes turva com todo o vosso lodo, o ameno estio que destru\u00edstes com vosso frio inverno. Matastes-lhe o marido; condenados por esse crime foram seus dois manos. Perdi uma das m\u00e3os por mero esc\u00e1rnio; ela, as duas, a l\u00edngua, e o que \u00e9 mais caro que m\u00e3os e l\u00edngua: a pura castidade, por v\u00f3s roubada, monstros impiedosos! Que poder\u00edeis alegar em vossa defesa, se falar eu vos deixasse? Miser\u00e1veis! Implorar gra\u00e7a o pejo n\u00e3o vos permitiria. Ouvi, bandidos, de que modo pretendo castigar-vos. Ficou-me uma das m\u00e3os para o pesco\u00e7o cortar-vos neste instante, enquanto fixa Lav\u00ednia nos dois cotos a bacia que aparar vai vosso culposo sangue. Sabeis que vossa m\u00e3e vem banquetear-se comigo, daqui a pouco, apresentando-se como a Vingan\u00e7a, por julgar-me louco. Ouvi-me, celerados! Vossos ossos vou reduzir a poeira, que no sangue misturada uma pasta me forne\u00e7a com que uma torta aprontarei de vossas cabe\u00e7as infamantes, para, logo, dizer \u00e0quela prostituta, vossa maldita m\u00e3e, que, como a pr\u00f3pria terra, devorar venha os filhos. Esse \u00e9 o banquete para que a convidei, sendo esse o prato com que ela vai fartar-se. Pois se minha filha sofreu bem mais que Filomela, mais do que Progne hei de vingar-me agora. Preparai as gargantas. Vem, Lav\u00ednia. (<i>Degola-os.<\/i>) Apara o sangue, e, ap\u00f3s terem morrido, a poeira lhes reduzo os ossos todos, porque a misture neste odioso l\u00edquido e as vis cabe\u00e7as coza nessa pasta. Vamos! Vamos! Que todos se azafamem no aprestar o banquete, pois pretendo mais sinistro deix\u00e1-lo e sanguin\u00e1rio que o festim dos Centauros. Carregai-os&#8230; Assim&#8230; Assim&#8230; Vou ser o cozinheiro, para arranjar as coisas de maneira que, ao vir a m\u00e3e, eles estejam prontos.<\/p>\n<p>(<i>Saem carregando os cad\u00e1veres.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"and53\" name=\"and53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"center\"><i>O mesmo. P\u00e1tio da casa de Tito. Um banquete preparado. Entram L\u00facio, Marco e godos, com Aar\u00e3o prisioneiro.<\/i><\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Tio, Marco, uma vez que \u00e9 da vontade de meu pai que eu retorne para Roma, por v\u00f3s me deixo guiar.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Como n\u00f3s todos por ti, venha o que vier.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Bondoso tio, guardai o mouro b\u00e1rbaro, esse tigre devorador, dem\u00f4nio amaldi\u00e7oado. N\u00e3o lhe deis alimento, acorrentai-o at\u00e9 que seja conduzido \u00e0 frente da imperatriz, para servir de prova contra a conduta criminosa dela. Temo que o imperador contra n\u00f3s todos rumine alguma ins\u00eddia.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Que um dem\u00f4nio maldi\u00e7\u00f5es me segrede e me permita soltar a l\u00edngua e articular todo o \u00f3dio venenoso que o peito me angustia.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Para tr\u00e1s, c\u00e3o maldito! escravo infame! Senhores, ajudai meu tio nisso. (<i>Saem os godos com Aar\u00e3o; soam trombetas.<\/i>) O toque \u00e9 ind\u00edcio de que o rei vem perto.<\/p>\n<p>(<i>Entram Saturnino e Tamora, com Emilio, senadores, tribunos e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Que tal? H\u00e1 mais de um sol no firmamento?<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Por que motivo como sol te julgas?<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Imperador de Roma, caro L\u00facio, interrompei a fala. Estas querelas resolvidas ter\u00e3o de ser com calma. Est\u00e1 pronto o festim que o cuidadoso Tito aprestou com um intento honroso, para o amor, a conc\u00f3rdia e o bem de Roma. Tomai vossos lugares, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Assim faremos, Marco.<\/p>\n<p>(<i>Soam obo\u00e9s.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entram Tito, vestido de cozinheiro, Lav\u00ednia com um v\u00e9u no rosto, o menino L\u00facio e outras pessoas. Tito coloca os pratos na mesa.<\/i>)<\/p>\n<p>TITO \u2014 Gracioso imperador, sois mui bem-vindo. Bem-vinda sois, rainha temerosa. Guerreiros godos, salve! Salve, L\u00facio! Sa\u00fado a todos. Muito embora seja pobre a comida, h\u00e1 de satisfazer-vos. Come\u00e7ai, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Qual a causa de vos vestirdes, Andr\u00f4nico, assim?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Para ter a certeza de que nada h\u00e1 de faltar para condignamente servirmos Vossa Alteza e a imperatriz.<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Meu bondoso Andr\u00f4nico, muito gratos vos ficamos por isso.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vossas Honras realmente o ficariam, se soubessem quanto em meu cora\u00e7\u00e3o se passa agora. Meu nobre imperador, resolvei-me isto: Teria procedido com acerto o impetuoso Virg\u00ednio, ao dar a morte com a pr\u00f3pria m\u00e3o \u00e0 filha, por ter sido manchada, desonrada e deflorada?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Sim, Andr\u00f4nico, com acerto.<\/p>\n<p>TITO \u2014 E as vossas raz\u00f5es, grande senhor?<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 E que a donzela sobreviver n\u00e3o deveria \u00e0 pr\u00f3pria desonra nem as dores reavivar-lhe.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Forte raz\u00e3o, possante e decisiva. Exemplo, precedente, penhor vivo para que eu, infeliz, o mesmo fa\u00e7a. Morre, morre, Lav\u00ednia, e o teu opr\u00f3brio, com ele morre o opr\u00f3brio de teu pai. (<i>Mata Lav\u00ednia.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 B\u00e1rbaro, desumano, que fizeste?<\/p>\n<p>TITO \u2014 Matei quem me deixou sem vista os olhos. T\u00e3o desgra\u00e7ado sou quanto Virginio, e mil raz\u00f5es mais que ele tenho para perpetrar este crime. J\u00e1 est\u00e1 feito.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Como! Ela foi violada? Ent\u00e3o revela-nos quem foi o autor desse ato.<\/p>\n<p>TITO \u2014 Vossa Alteza n\u00e3o querer\u00e1 comer? Desdenha o invite?<\/p>\n<p>TAMORA \u2014 Por que matar o pai a pr\u00f3pria filha?<\/p>\n<p>TITO \u2014 N\u00e3o fui eu que a matei, por\u00e9m Dem\u00e9trio com Quir\u00e3o juntamente. Ap\u00f3s haverem dela abusado, a l\u00edngua lhe cortaram. Eles, apenas, lhe fizeram isso.<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Ide busc\u00e1-los; imediatamente!<\/p>\n<p>TITO \u2014 Ora, ora! Ambos est\u00e3o naquela torta com que a m\u00e3e deles tem-se regalado, comendo, assim, a pr\u00f3pria carne que ela mesma engendrou. E certo, \u00e9 certo; atesta-o a ponta aguda desta minha faca. (<i>Mata Tamora.<\/i>)<\/p>\n<p>SATURNINO \u2014 Morre, louco, por essa a\u00e7\u00e3o maldita! (<i>Mata Tito<\/i>)<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o pode ver o filho ao pai sangrante, sem que a retribui\u00e7\u00e3o d\u00ea num instante. (<i>Mata Saturnino. Grande tumulto, O povo se dispersa em confus\u00e3o. Marco, L\u00facio e seus partid\u00e1rios sobem \u00e0 janela.<\/i>)<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Povo e filhos de Roma, de semblante perplexo, que estas mortes dispersaram como aves que debandam sob o impulso dos ventos tempestuosos: permiti-me que vos ensine a recolher de novo numa paveia o trigo tresmalhado, num corpo s\u00f3 os arrancados membros! N\u00e3o deixei-nos que Roma se transforme no seu pr\u00f3prio flagelo, nem forcemos a cidade, ante a qual possantes reinos se t\u00eam curvado, a lan\u00e7ar m\u00e3os violentas em si pr\u00f3pria, tal como o vil proscrito que o abandono levasse ao desespero. Se estes sinais de geada, estes meus sulcos, testemunhas mui graves de experi\u00eancia profunda e verdadeira, n\u00e3o puderem vos induzir a ouvir minhas palavras, (<i>a L\u00facio<\/i>) fala, amigo de Roma, como outrora fez nosso antepassado, quando em grave discurso relatou ao triste ouvido da apaixonada Dido toda a hist\u00f3ria daquela noite lastimosa e rubra em que os gregos astutos surpreenderam o rei de Tr\u00f3ia, Priamo. Revela-nos o Sin\u00e3o que os ouvidos nos burlou, ou quem foi que nos trouxe a fatal m\u00e1quina que produziu em nossa Tr\u00f3ia, em Roma, a ferida intestina. Nem de pedra nem de a\u00e7o tenho o cora\u00e7\u00e3o, nem posso dar forma a todo o meu queixume amargo; afogada se v\u00ea minha orat\u00f3ria nestas ondas de l\u00e1grimas que cortam minhas palavras, justamente quando deveriam mover-vos a escutar-me, ensejando-me vossa simpatia. Aqui tendes um chefe, ele que conte tudo o que se passou, que seu relato o cora\u00e7\u00e3o em prantos vai deixar-vos.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Ficai sabendo ent\u00e3o, nobre audit\u00f3rio, que Dem\u00e9trio e Quir\u00e3o, esses infames, os assassinos foram de Bassiano, irm\u00e3o de nosso rei, tendo sido eles, outrossim, que violaram nossa irm\u00e3. Por seus crimes nefandos nossos manos foram decapitados, desprezadas de nosso pai as l\u00e1grimas sentidas, sobre o terem privado por embuste da m\u00e3o leal que a causa defendera de Roma em tantas pugnas e os inimigos enviara para o t\u00famulo. Por \u00faltimo, injustamente fui daqui banido; vi contra mim fecharem-se os port\u00f5es, a chorar fui expulso da cidade, para, entre os pr\u00f3prios inimigos dela pedir auxilio, os quais em minhas l\u00e1grimas sinceras afogaram seus rancores, nos bra\u00e7os, como a amigo, recebendo-me. Pois bem, ficai sabendo que eu, proscrito, fui que comprei a salva\u00e7\u00e3o de Roma \u00e0 custa de meu sangue, tendo a espada do inimigo desviado de seu peito, com receber todo o a\u00e7o neste corpo. Jamais fui fanfarr\u00e3o, sabei-lo todos. As cicatrizes de meu corpo, embora sejam mudas, atestam que o relato que vos fiz \u00e9 sincero e verdadeiro. Mas, devagar! Receio ter feito uma digress\u00e3o muito grande com lembrar-vos do meu pequeno m\u00e9rito. Perdoai-me; mas somos obrigados a elogiar-nos, quando perto n\u00e3o h\u00e1 pessoa amiga.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 Minha \u00e9 a vez de falar. Vede esta crian\u00e7a. Tamora a deu \u00e0 luz; foi concebida por um mouro sem f\u00e9, autor prec\u00edpuo conspirador de todas estas dores. Esse infame ainda est\u00e1 com vida em casa de Tito, e muito embora seja um r\u00e9probo, confirmar pode quanto vos afirmo. Julgai agora se n\u00e3o tinha Tito raz\u00e3o para vingar tantos ultrajes inenarr\u00e1veis, que ultrapassam quanto suportar possa qualquer ser humano. Agora que a verdade toda ouvistes, romanos, que dizeis? Se houve exagero no que fizemos, apontai-nos onde, que deste mesmo ponto em que nos vedes, n\u00f3s todos, os restantes Andr\u00f4nicos, sem vacilarmos, de m\u00e3os dadas, vamos precipitar-nos de cabe\u00e7a baixa, para que nessas pedras pontiagudas partamos a cabe\u00e7a e assim, de pronto, ponhamos fim a nossa pobre casa. Romanos, repeli um suplicante, que eu e L\u00facio morremos neste instante.<\/p>\n<p>EMILIO \u2014 Vamos, vamos, romano vener\u00e1vel, pela m\u00e3o traze nosso imperador, sim, nosso imperador, L\u00facio, ele mesmo, pois o povo comum, tenho certeza, vai aclam\u00e1-lo com a maior presteza.<\/p>\n<p>ROMANOS \u2014 Salve L\u00facio, de Roma o real senhor!<\/p>\n<p>MARCO (<i>aos criados<\/i>) \u2014 Ide \u00e0 triste mans\u00e3o do velho Tito e arrastai para aqui o mouro incr\u00e9dulo, para que condenado seja a um g\u00eanero de morte sanguin\u00e1ria e pavorosa como pena de sua vida infame.<\/p>\n<p>(<i>Saem os criados.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>L\u00facio, Marco e os demais descem da sacada.<\/i>)<\/p>\n<p>ROMANOS \u2014 Salve L\u00facio, de Roma o real senhor!<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Romanos, obrigado. S\u00f3 desejo vir a ter no governo o grato ensejo de dar rem\u00e9dio aos males da cidade, curando suas dores. Gentil povo, um momentinho, ainda, concedei-me que um pesado dever a natureza de mim agora exige. Ficai longe; mas v\u00f3s, tio, aqui perto, para l\u00e1grimas sentidas derramarmos neste corpo. Na boca fria, agora, um beijo quente, (<i>Beija o cad\u00e1ver de Tito.<\/i>) estas l\u00e1grimas tristes em teu rosto cheio de sangue, as \u00faltimas obs\u00e9quias de teu amado filho.<\/p>\n<p>MARCO \u2014 A mesma coisa teu mano Marco faz nesses teus l\u00e1bios: beijos por beijos, l\u00e1grimas por l\u00e1grimas. E se infinita fosse a soma deles, ilimitada, todos eu pagara.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Vem para aqui, menino; vem e aprende conosco a derreter-te de tristeza. Teu av\u00f4 te estimava grandemente. Quantas e quantas vezes sobre os joelhos n\u00e3o te punha a dan\u00e7ar, cantarolava para que adormecesses, ajeitando-te para dormir no pr\u00f3prio peito dele! Que de hist\u00f3rias bonitas n\u00e3o sabia, pr\u00f3prias para tua idade de alegria! Como filho amoroso, assim, lembrado de tudo isso, derrama algumas gotas de tua tenra fonte, que a bondosa natureza assim manda: com os amigos ficaremos, na dita e nos perigos. Dize-lhe adeus; entrega o corpo \u00e0 terra; dize-lhe adeus e te despede dele.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Avozinho, avozinho! Quem me dera ter morrido, contanto que vivesseis Oh Senhor! Imposs\u00edvel me \u00e9 dizer-lhe qualquer palavra, que mo impede o pranto. Se abrir a boca, em l\u00e1grimas me afogo.<\/p>\n<p>(<i>Voltam os criados com Aar\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>PRIMEIRO ROMANO \u2014 Ponde remate \u00e0s dores, Andr\u00f4nicos, e a senten\u00e7a dizei do miser\u00e1vel que foi o causador destas desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Enterrai-o at\u00e9 o peito, porque \u00e0 fome venha a morrer. Que fique assim, raivoso, gritando por comida. E havendo, acaso, quem o socorra ou compaix\u00e3o revele, venha a morrer por isso. Essa \u00e9 a senten\u00e7a. Cuide algu\u00e9m de enterr\u00e1-lo como eu disse.<\/p>\n<p>AAR\u00c3O \u2014 Oh! por que \u00e9 muda a raiva e surda a c\u00f3lera? N\u00e3o sou crian\u00e7a medrosa, para \u00e0s baixas ora\u00e7\u00f5es recorrer e, muito menos, para me arrepender dos crimes feitos. Cometera outros, dez mil vezes piores, se poss\u00edvel me fosse realiz\u00e1-los. Se em toda a vida fiz uma a\u00e7\u00e3o boa, no fundo da alma, agora me arrependo.<\/p>\n<p>L\u00daCIO \u2014 Agora o imperador alguns amigos daqui removam, para sepult\u00e1-lo no t\u00famulo de seus antepassados. Meu pai e minha irm\u00e3 depositados v\u00e3o ser na sepultura da fam\u00edlia. Quanto a essa odiosa tigre, essa Tamora, n\u00e3o ter\u00e1 ritos f\u00fanebres, nem prantos, nem dobre melanc\u00f3lico de sinos por ocasi\u00e3o do enterro. N\u00e3o; jogai-a para pasto das feras e das aves. Vida animal teve ela, sem piedade; n\u00e3o teremos com ela, assim, piedade. Providenciai para que seja logo feita justi\u00e7a nesse mouro infame, fonte e origem de nossos males todos. Apliquemos depois todo o cuidado no bem-estar do nosso grande Estado.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS SATURNINO, filho mais velho do \u00faltimo imperador de Roma, posteriormente proclamado imperador. BASSIANO, irm\u00e3o de Saturnino TITO ANDR\u00d4NICO, general romano. MARCO ANDR\u00d4NICO, tribuno do povo e irm\u00e3o de Tito. 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