{"id":120355,"date":"2017-04-25T11:18:29","date_gmt":"2017-04-25T13:18:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120355"},"modified":"2017-04-25T11:18:29","modified_gmt":"2017-04-25T13:18:29","slug":"macbeth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/macbeth","title":{"rendered":"Macbeth"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<div>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\"><b>DUNCAN<\/b>, rei da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>MALCOLM<\/b>, seu filho<br \/>\n<b>DONALBAIN<\/b>, seu filho.<br \/>\n<b>MACHBETH<\/b>, General do ex\u00e9rcito do rei<br \/>\n<b>BANQUO<\/b>, General do ex\u00e9rcito do rei.<br \/>\n<b>MACDUFF<\/b>, Nobre da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>ROSS<\/b>, Nobre da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>MENTEITH<\/b>, Nobre da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>ANGUS<\/b>, Nobre da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>CAITHNESS<\/b>, Nobre da Esc\u00f3cia.<br \/>\n<b>FLEANCE<\/b>, filho de Banquo.<br \/>\n<b>SIWARD<\/b>, duque de Northumberland, general do ex\u00e9rcito ingl\u00eas.<br \/>\nO jovem Siward, seu filho.<br \/>\n<b>SEYTON<\/b>, oficial ligado a Macbeth.<br \/>\nMenino, filho de Macduff.<br \/>\nUm m\u00e9dico ingl\u00eas.<br \/>\nUm m\u00e9dico escoc\u00eas.<br \/>\nUm sargento.<br \/>\nUm porteiro.<br \/>\nUm velho.<br \/>\n<b>Lady Macbeth<\/b><br \/>\n<b>Lady Macduff<\/b><br \/>\nCriado de quarto de Lady Macbeth.<br \/>\nH\u00e9cate e tr\u00eas bruxas.<br \/>\nNobres, gentis-homens, oficiais, soldados, assassinos, criados e mensageiros. O fantasma de Banquo e outras apari\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a name=\"at1c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Lugar deserto. Trov\u00f5es e rel\u00e2mpagos. Entram tr\u00eas bruxas.<\/i><\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Quando estaremos \u00e0 m\u00e3o com chuva, raio e trov\u00e3o?<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Depois de calma a baralha e vencida esta batalha.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Hoje mesmo, ent\u00e3o, sem falha.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Onde?<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Da charneca ao p\u00e9.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Para encontrarmos Macbeth<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Graymalkin, n\u00e3o faltarei.<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Paddock chama.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Depressa!<\/p>\n<p>TODAS \u2014 S\u00e3o iguais o belo e o feio; andemos da n\u00e9voa em meio.<\/p>\n<p>(<i>Saem<\/i>).<\/p>\n<p><a name=\"at1c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Um campo perto de Forres. Alarma dentro. Entram o rei Duncan, Malcolm, Donalbain, Lennox e pessoas do s\u00e9quito. Encontram um sargento ferido.<\/i><\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Quem \u00e9 esse indiv\u00edduo ensang\u00fcentado? Pelo que mostra, pode dizer algo sobre o estado recente da revolta.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 \u00c9 o sargento que, como bom e intr\u00e9pido soldado, me livrou do cativeiro. Salve, valente amigo! Ao rei relata quanto sabes da luta at\u00e9 ao momento em que sa\u00edste dela.<\/p>\n<p>SARGENTO \u2014 Duvidoso era o desfecho, como dois cansados nadadores que um no outro se embara\u00e7am, a arte prejudicando mutuamente. O impiedoso Macdonwald, digno em tudo de ser mesmo um rebelde \u2014 que as in\u00fameras vilanias do mundo em torno dele como enxames esvoa\u00e7am \u2014 suprimentos das ilhas do oeste recebeu de quernes e galowglasses; e a fortuna, rindo para sua querela amaldi\u00e7oada, mostrou-se prostituta de um rebelde. Mas tudo isso foi fraco em demasia, porque o bravo Macbeth \u2014 merece o t\u00edtulo \u2014 desdenhando a fortuna, de a\u00e7o em punho, a fumegar da execu\u00e7\u00e3o sangrenta, tal como o favorito da bravura, soube um caminho abrir at\u00e9 postar-se bem na frente do escravo, n\u00e3o lhe tendo apertado a m\u00e3o nem dito nenhum adeus, enquanto de alto a baixo n\u00e3o o descoseu e em nossos parapeitos pendurou-lhe a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Oh bravo primo! Que digno gentil-homem!<\/p>\n<p>SARGENTO \u2014 Como nascem tempestades terr\u00edveis e arrebentam pavorosos trov\u00f5es do mesmo lado em que o sol principia a levantar-se: da mesma fonte, assim, de onde o socorro parecia manar, surgiu o alarma. Presta aten\u00e7\u00e3o agora, rei da Esc\u00f3cia: mal havia a justi\u00e7a, redobrada pelo valor, for\u00e7ado os \u00e1geis quernes a confiar nos pr\u00f3prios calcanhares, quando o senhor dos noruegueses, tendo percebido a vantagem, com polidas armas e gente fresca de refor\u00e7o, recome\u00e7ou o assalto.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 E porventura temor n\u00e3o causou isso em nossos cabos Banquo e Macbeth?<\/p>\n<p>SARGENTO \u2014 Como os pardais \u00e0s \u00e1guias ou a lebre ao le\u00e3o. Para dizer o que houve, terei de relatar que pareciam canh\u00f5es com dupla carga refor\u00e7ados. Assim eles redobravam no imigo duplos golpes. Se queriam banhar-se em fumegantes feridas, se dar fama a um outro G\u00f3lgota, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo. Mas temo desmaiar; minhas feridas reclamam por socorro.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Teu relato te orna t\u00e3o bem como esses ferimentos; l\u00eddimo sabor de honra eles revelam. Ide buscar um cirurgi\u00e3o para ele. (<i>Sai o sargento, acompanhado.<\/i>) (<i>Entra Ross.<\/i>) Quem vem a\u00ed?<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 O muito digno thane de Ross. Nos olhos dele, quanta pressa! O olhar assim teria quem nos viesse dar not\u00edcias de fatos muito estranhos.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Que Deus proteja o rei.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Mui digno thane, de onde vens?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Grande rei, venho de Fife, onde as bandeiras norueguesas zombam do c\u00e9u e deixam fria nossa gente com sua agita\u00e7\u00e3o. O soberano noruegu\u00eas em pessoa, com terr\u00edvel n\u00famero, refor\u00e7ado pelo thane de Cawdor o traidor desleal e p\u00e9rfido, deu in\u00edcio a um conflito pavoroso, at\u00e9 que o forte noivo de Belona, \u00e0 prova de valor, veio com ele defrontar-se em combate singular, espada contra espada, bra\u00e7o contra bra\u00e7o rebelde, e fez que seu esp\u00edrito altivo se curvasse. Em conclus\u00e3o: a vit\u00f3ria pendeu do nosso lado.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Grande felicidade!<\/p>\n<p>ROSS \u2014 De tal medo que Sweno, o noruegu\u00eas, paz nos implora. Mas n\u00e3o o deixamos sepultar os mortos sem que, antes, em Saint Colme, dez mil d\u00f3lares houvesse pago para nossa caixa.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Jamais de novo h\u00e1 de trair o thane de Cawdor nosso afeto. Sem delongas o condenai \u00e0 morte e com seu t\u00edtulo saudai Macbeth.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 A mim tomo esse encargo.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Folga Macbeth com o que para ele \u00e9 amargo.<\/p>\n<p>(<i>Saem).<\/i><\/p>\n<p><a name=\"at1c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>A charneca. Trov\u00f5es. Entram as tr\u00eas bruxas.<\/i><\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Onde estiveste, irm\u00e3?<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Matando porco.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 E tu, irm\u00e3?<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Cheio o rega\u00e7o tinha de castanhas a mulher de um marujo, e mastigava, mascava, mastigava. \u201cCede-me uma\u201d, lhe disse. \u201cVai-te embora, bruxa!\u201d grita-me a gorda comedora de babugem. Em caminho de Alepo est\u00e1 o marido, como chefe do \u201cTigre\u201d. Mas como rato cot\u00f3 numa peneira vou s\u00f3. E roque, roque, roque!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Vou dar-te um bom vento.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Vem a meu contento.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Com mais um podes contar.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Saberei outros achar e os portos de mais zunidos e os pontos deles sabidos na carta dos marinheiros. Vou deix\u00e1-lo como enguia, sem que o sono, noite e dia, lhe baixe aos olhos um nada. Vai ser vida amaldi\u00e7oada. Semanas noventa e nove, fraco e magro, nem se move; e embora n\u00e3o perca o barco, de tuf\u00f5es n\u00e3o ser\u00e1 parco. V\u00ea o que eu trouxe!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Mostra-me! Mostra-me!<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 O dedo de um marinheiro que naufragou no roteiro.<\/p>\n<p>(<i>Barulho de tambor, dentro.<\/i>)<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Tambor! Tambor! Eis Macbeth, o vencedor!<\/p>\n<p>TODAS \u2014 As tr\u00eas bruxas, m\u00e3os unidas, por estradas n\u00e3o batidas, por mar e terra se v\u00e3o. Tr\u00eas para ti, tr\u00eas a mim. tr\u00eas para nove no fim. Sil\u00eancio! O encanto est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>(<i>Entram Macbeth e Banquo.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Nunca vi dia assim, t\u00e3o feio e belo.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 A que dist\u00e2ncia ainda se encontra Forres? Quem s\u00e3o essas criaturas t\u00e3o mirradas e de vestes selvagens, que habitantes n\u00e3o parecem da terra e, no entretanto, nela se movem? Acaso tendes vida? Sois algo a que perguntas dirijamos? Pareceis compreender-me, pois a um tempo levais os dedos \u00f3sseos a esses l\u00e1bios encarquilhados. Quase vos tomara por mulheres; no entanto vossas barbas n\u00e3o me permitem dar-vos esse nome.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Respondei, se puderdes: quem sois v\u00f3s?<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Viva, viva Macbeth! N\u00f3s te saudamos, thane de Glamis!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Viva, viva Macbeth! N\u00f3s te saudamos, thane de Cawdor!<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Viva Macbeth, que h\u00e1 de ser rei mais tarde!<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Meu bondoso senhor, por que motivo vos mostrais assustado, parecendo recear o que de ouvir \u00e9 assim t\u00e3o belo? Em nome da verdade, imagin\u00e1rias sereis realmente, ou o que mostrais por fora? Meu nobre companheiro foi saudado com t\u00edtulos, por v\u00f3s, de atual valia e grande predi\u00e7\u00e3o de haveres nobres e de real esperan\u00e7a, que parece deix\u00e1-lo arrebatado. Por\u00e9m nada me dissestes. Se podeis ver a seara do tempo e predizer quais as sementes que h\u00e3o de brotar, quais n\u00e3o, falai comigo, que n\u00e3o procuro nem receio vosso dio ou vosso favor.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Salve!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Salve!<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Salve!<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Menor do que Macbeth, por\u00e9m maior!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 N\u00e3o t\u00e3o feliz, mas muito mais feliz!<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Gerar\u00e1s reis, embora rei n\u00e3o sejas! Assim, viva Macbeth e viva Banquo!<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Viva Banquo e Macbeth! A todos, viva!<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Um momento, oradoras imperfeitas. Falai-me mais um pouco. Pela morte de Sinel eu fiquei thane de Glamis. Mas, Cawdor, de que jeito? Vive o thane de Cawdor, gentil-homem muito pr\u00f3spero; e ser rei ultrapassa os horizontes da cren\u00e7a tanto ou mais do que ser Cawdor. Dizei de onde tirastes t\u00e3o ins\u00f3lita not\u00edcia e por que causa nos fizestes parar nesta charneca desolada, com sauda\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas? Intimo-vos a me falar.<\/p>\n<p>(<i>As bruxas desaparecem.<\/i>)<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 A terra tem borbulhas, tal como a \u00e1gua. Elas s\u00e3o justamente isso. Mas para onde sumiram?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 No ar; e tudo quanto nos parecia ser corp\u00f3reo se fundiu como ao vento nosso an\u00e9lito. Oh! se tivessem demorado um pouco!<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Aqui estiveram, mesmo, essas criaturas sobre que conversamos, ou ter\u00edamos comido da raiz mals\u00e3 que deixa prisioneira a raz\u00e3o?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Reis, vossos filhos?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Chegareis a rei.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 E assim, thane de Cawdor. N\u00e3o foi isso?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Esse, o tom e as palavras. Quem vem vindo?<\/p>\n<p>(<i>Entram Ross e Angus.<\/i>)<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Macbeth, com alegria o rei as novas recebeu da vit\u00f3ria que obtiveste, e quando ouve falar que aventuraste tua pessoa contra esses rebeldes, p\u00f5em-se nele a lutar os elogios e a admira\u00e7\u00e3o sobre que parte fora justo te reservar, qual a ele pr\u00f3prio. Se sobre isso n\u00e3o fala, compendiando quanto houve neste dia extraordin\u00e1rio, descobre-te na fila dos intr\u00e9pidos noruegueses, imp\u00e1vido ante as formas da morte estranhas por ti pr\u00f3prio criadas. Bastos como granizo, os mensageiros se sucediam, todos portadores de enc\u00f4mios para ti nesta grandiosa defesa de seu reino, derramando-lhe aos p\u00e9s os elogios.<\/p>\n<p>ANGUS \u2014 Aqui estamos para trazer-te os agradecimentos de nosso real senhor e te levarmos \u00e0 sua frente, n\u00e3o para pagar-te.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 E como arras de uma honra de mais vulto, por ele devo te chamar de thane de Cawdor. Salve, pois, mui digno thane, por essa promo\u00e7\u00e3o, pois teu \u00e9 o t\u00edtulo.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Como! Falou o diabo, ent\u00e3o, verdade?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vive o thane de Cawdor; qual a causa de me vestirdes com a roupagem de outrem?<\/p>\n<p>ANGUS \u2014 O que foi thane ainda est\u00e1 com vida: mas sob pesado ju\u00edzo a vida se acha que ele malbaratou. Ou mantivesse combina\u00e7\u00e3o com os pr\u00f3prios noruegueses, ou por meios secretos os rebeldes procurasse auxiliar, ou dos dois lados se empenhasse na ru\u00edna de sua p\u00e1tria, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo; mas o certo \u00e9 que altas trai\u00e7\u00f5es, j\u00e1 confessadas e provadas, o fizeram cair.<\/p>\n<p>MACBETH (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Glamis e thane de Cawdor&#8230; O maior vir\u00e1 a seu tempo. (<i>A Ross e Angus.<\/i>) Agrade\u00e7o o trabalho.<i> (A Banquo.<\/i>) Esperan\u00e7ado n\u00e3o ficais de que venham vossos filhos a ser reis, uma vez que as que de thane de Cawdor me chamaram, n\u00e3o menores coisas lhes prometeram?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Uma grande confian\u00e7a na promessa poderia vos inflamar para chegar ao trono, mais que thane de Cawdor. Mas \u00e9 estranho; por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas alguns fatos ver\u00eddicos, seduzem-nos com coisas inocentes, por\u00e9m de pouca monta, para nos arrastar a conseq\u00fc\u00eancias incalcul\u00e1veis. Primo, uma palavrinha, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p>MACBETH (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Duas verdades foram ditas, pr\u00f3logo feliz do ato elevado, cujo tema \u00e9 simplesmente real. \u2014 Muito obrigado. senhores. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Essa solicita\u00e7\u00e3o t\u00e3o sobrenatural pode ser boa, como pode ser m\u00e1&#8230; Se n\u00e3o for boa, por que me deu as arras de bom \u00eaxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder \u00e0 sugest\u00e3o, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos \u00e9 menos de temer que as mais terr\u00edveis mas fict\u00edcias cria\u00e7\u00f5es. Meu pensamento no qual o crime por enquanto \u00e9 apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada al\u00e9m do que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Como ficou absorto nosso amigo!<\/p>\n<p>MACBETH (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se o acaso quer que eu seja rei, o acaso me poder\u00e1 coroar sem que eu me mexa.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 As honras mais recentes caem nele como em n\u00f3s roupa nova, que somente com o uso v\u00eam a se ajeitar no corpo.<\/p>\n<p>MACBETH (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Venha o que vier, que a hora da alegria chega depois do mais cansado dia.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Digno Macbeth, por v\u00f3s \u00e9 que esperamos.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Desculpai-me; mas meu pesado c\u00e9rebro se ocupava com coisas esquecidas. Vosso trabalhos, dignos cavalheiros, gravados ficam onde diariamente virar eu possa as folhas para l\u00ea-los. Procuremos o rei.<i> (A Banquo.<\/i>) Pensai no que houve, que mais tarde, depois de refletirmos, com o cora\u00e7\u00e3o aberto falaremos.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Por hoje basta. Amigos, vamos!<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c4\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Forres. Um quarto no pal\u00e1cio. Fanfarra. Entram Duncan, Malcolm, Donalbain, Lennox e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Cawdor j\u00e1 foi executado? Os homens incumbidos do feito j\u00e1 voltaram?<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Meu suserano, ainda n\u00e3o vieram; mas falei com algu\u00e9m que o viu morrer, que me disse haver ele confessado francamente as trai\u00e7\u00f5es, pedido a Vossa Grandeza lhe perdoasse e revelado grande arrependimento. Nada em vida tanto o ornou como o modo de deix\u00e1-la. Morreu tal como se estudado houvesse como na hora da morte desfazer-se do mais precioso bem, como se fosse de somenos valor.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 N\u00e3o existe arte que ensine a ler no rosto as fei\u00e7\u00f5es da alma. Era um fidalgo em quem depositava absoluta confian\u00e7a. (<i>Entram Macbeth, Banquo, Ross e Angus.<\/i>) \u00d3 digno primo! Neste instante pesava-me o pecado de minha ingratid\u00e3o. T\u00e3o na dianteira te achas agora, que as mais lestes asas da recompensa se revelam tardas demais para alcan\u00e7ar-te. Quem me dera que teus m\u00e9ritos fossem mais modestos, porque estivesse em mim a conta certa dos agradecimentos e da paga! S\u00f3 me resta dizer-te que mereces mais, muito mais do que as mais ricas messes.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 O servi\u00e7o e a lealdade que vos devo por si mesmos se pagam, competindo t\u00e3o-somente a Vossa Honra contar sempre com nossa obriga\u00e7\u00e3o, consistindo esta em bem servir o trono, o Estado, os filhos e os servidores, que s\u00f3 fazem quanto devem fazendo tudo quanto podem com rela\u00e7\u00e3o a vosso amor e gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 S\u00ea bem-vindo. A plantar-te comecei; hei de esfor\u00e7ar-me, assim, para que alcances crescimento completo. Nobre Banquo, que menos n\u00e3o fizeste e cujos feitos ficar n\u00e3o devem menos conhecidos: permite que te abrace e aperte muito de encontro ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Se em tal terreno eu me der bem, vossa ser\u00e1 a colheita.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 As minhas abundantes alegrias, \u00e9brias de plenitude, ora procuram ocultar-se nas togas da tristeza. Filhos, parentes, thanes, e v\u00f3s outros que vos achais mais pr\u00f3ximos: sabei que refor\u00e7ar queremos nosso Estado em nosso primog\u00eanito Malcolm a quem nomeamos doravante pr\u00edncipe de Cumberl\u00e2ndia. Mas n\u00e3o h\u00e1 de essa honra a ele somente ornar. N\u00e3o; como estrelas, t\u00edtulos brilhar\u00e3o de alta nobreza sobre quem merecer. (<i>A Macbeth.<\/i>) Daqui sigamos para Inverness, a fim de que se dobrem minhas obriga\u00e7\u00f5es para convosco.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Trabalho ser\u00e1 o \u00f3cio que em proveito vosso n\u00e3o for usado. Eu mesmo quero ser o aposentador de Vossa Alteza, para que jubilosos os ouvidos deixe de minha esposa com a not\u00edcia de que em breve estareis em nossa casa. Assim, despe\u00e7o-me.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 Meu digno Cawdor!<\/p>\n<p>MACBETH (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 J\u00e1 pr\u00edncipe de Cumberl\u00e2ndia! \u00c9 escolho que ao mar me joga, se eu n\u00e3o abrir o olho. Estrelas, escondei a luz jucunda, para que a escurid\u00e3o n\u00e3o veja funda de meus negros anseios! Que na frente da m\u00e3o o olho se feche prestesmente; mas que se concretize o que, acabado, fa\u00e7a o olho estremecer de horrorizado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 \u00c9 certo, digno Banquo; \u00e9 mui valente. Dos elogios dele me alimento; s\u00e3o para mim banquete. Acompanhemo-lo. O zelo dele vai na nossa frente para nos preparar o acolhimento. N\u00e3o h\u00e1 parente igual.<\/p>\n<p>(<i>Fanfarras. Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c5\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Inverness. Castelo de Macbeth. Entra lady Macbeth, lendo uma carta.<\/i><\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 \u201cElas me encontraram no dia da vit\u00f3ria e pude verificar, pela mais exata confirma\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o dotadas de saber mais do que humano. Quando eu ardia em desejos de continuar a interrog\u00e1-las, desfizeram-se em ar, no qual se dissiparam. Enquanto eu me encontrava tomado de estupor com o que acontecera, chegaram mensageiros do rei, que me cumprimentaram a uma voz como \u201cThane de Cawdor\u201d, t\u00edtulo com que, antes, me haviam saudado as irm\u00e3s feiticeiras, referindo-se ao meu futuro por este modo: \u201cSalve! Ainda vir\u00e1s a ser rei!\u201d. Pareceu-me bem comunicar-te o que se passou, companheira querida de minha grandeza, para que n\u00e3o viesses a perder a parte que te cabe dessa felicidade, com ignorares o futuro que te est\u00e1 prometido. Guarda isto no cora\u00e7\u00e3o e adeus.\u201d<\/p>\n<p>Glamis j\u00e1 \u00e9s e Cawdor, e em futuro vir\u00e1s a ser o que te prometeram. Temo, por\u00e9m, a tua natureza cheia de leite da bondade humana, que entrar n\u00e3o te consente pela estrada que vai direito \u00e0 meta. Desejaras ser grande, e n\u00e3o te encontras destitu\u00eddo, de todo, de ambi\u00e7\u00e3o; por\u00e9m careces da inerente maldade. O que desejas com fervor, desejaras santamente; n\u00e3o queres jogo il\u00edcito, ruas queres ganhar mal. Desejaras, grande Glamis, possuir o que te grita: \u201cDesse modo precisar\u00e1s fazer, para que o tenhas!\u201d Mas antes medo tens de fazer isso do que desejas que n\u00e3o fique feito. Vem para c\u00e1, para que meus esp\u00edritos nos ouvidos te deite e com a ousadia de minha l\u00edngua chicoteie quantos obst\u00e1c&#8217;los te separam do \u00e1ureo c\u00edrculo com que o destino e o aux\u00edlio metaf\u00edsico como que desde j\u00e1 te coroaram. (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) Quais s\u00e3o as novidades?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Hoje \u00e0 noite o rei chegar\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Como! Est\u00e1s louco? Acaso teu senhor n\u00e3o est\u00e1 com ele? N\u00e3o deixaria de instru\u00e7\u00f5es mandar-me, para os preparativos.<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Com licen\u00e7a. mas \u00e9 verdade. Vai chegar o thane. Um dos meus camaradas a dianteira dele tomou, de estafa quase morto, mal lhe restando o f\u00f4lego preciso para dar o recado.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Cuidem dele com carinho; traz grandes novidades. (<i>Sai o mensageiro.<\/i>) Rouco est\u00e1 o pr\u00f3prio corvo que crocita a chegada fat\u00eddica de Duncan \u00e0 minha fortaleza. Vinde, esp\u00edritos que os pensamentos espreitais de morte, tirai-me o sexo, cheia me deixando, da cabe\u00e7a at\u00e9 aos p\u00e9s, da mais terr\u00edvel crueldade! Espessai-me todo o sangue; obstru\u00ed os acessos da consci\u00eancia, porque batida alguma compungida da natureza sacudir n\u00e3o venha minha h\u00f3rrida vontade, promovendo acordo entre ela e o ato. Ao feminino peito baixai-me, e fel bebei por leite, auxiliares do crime, de onde as vossas subst\u00e2ncias incorp\u00f3reas sempre se acham \u00e0 espreita de desgra\u00e7as deste mundo. Vem, noite espessa, e embu\u00e7a-te no manto dos vapores do inferno mais sombrios, porque as feridas meu punhal agudo n\u00e3o veja que fizer, nem o c\u00e9u possa espreitar atrav\u00e9s do escuro manto e gritar: \u201cP\u00e1ra! P\u00e1ra!\u201d (<i>Entra Macbeth.<\/i>) Grande Glamis, digno Cawdor, maior do que ambos, ainda, pela futura sauda\u00e7\u00e3o. Tua carta al\u00e9m me p\u00f4s deste presente n\u00e9scio, sentindo eu futuro neste instante.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Duncan, meu caro amor, chega esta noite.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 E quando vai embora?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Amanh\u00e3 mesmo, segundo pensa.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 O sol, oh! nunca, nunca ver\u00e1 esse amanh\u00e3. Vosso rosto, meu thane, \u00e9 um livro aberto em que podemos ler coisas estranhas. Para o mundo enganardes, a apar\u00eancia tomai do mundo; tende boas-vindas nas m\u00e3os, nos olhos e na pr\u00f3pria l\u00edngua; a todos parecei flor inocente, mas sede a serpe que na flor se esconde. Cuidemos do h\u00f3spede que chega, sendo que a meu cargo deveis deixar o grande neg\u00f3cio desta noite, que nos h\u00e1 de legar dias e noites de alegria, de mando soberano e de valia.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Depois conversaremos.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 S\u00f3 te digo que a voz mudar \u00e9 revelar perigo. Deixa o resto comigo.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c6\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Diante do castelo. Obo\u00e9s e tochas. Entram Duncan, Malcolm, Donalbain, Banquo, Lennox, Macduff, Ross, Angus e pessoas do s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 \u00c9 bela a posi\u00e7\u00e3o deste castelo. O ar afaga os sentidos delicados por maneira agrad\u00e1vel e serena. Os h\u00f3spedes do estio, as andorinhas, dos templos familiares, bem demonstram com seus ninhos mimosos que o celeste h\u00e1lito aqui cativa com o perfume. N\u00e3o h\u00e1 sacada, friso, arcobotante, ou favor\u00e1vel canto em que esses p\u00e1ssaros n\u00e3o suspendam seu leito e o ber\u00e7o f\u00e9rtil. Onde eles gostam de viver, notei-o, o ar \u00e9 mui delicado. (<i>Entra lady Macbeth.<\/i>) Vede! Vede! Nossa hospedeira ilustre! O amor que segue nossos passos, por vezes nos perturba. Mas, sendo amor, agradecemos sempre. Com isso vos ensino a dirigir-nos um \u201cDeus vos recompense\u201d pelos muitos trabalhos que vos damos, e a os inc\u00f4modos ainda agradecer-nos.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Fossem duplos nossos trabalhos, sob qualquer aspecto, e depois redobrados, ainda foram coisinhas sem valor, se comparados com as honrarias grandes e profundas com que sobrecarrega nossa casa vossa alta majestade. Pelos velhos benef\u00edcios e as honras mais recentes que lhe acrescentastes, confessamo-nos como vossos devotos.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 E onde o thane de Cawdor se meteu? No encal\u00e7o dele corremos at\u00e9 aqui, pensando mesmo que de aposentador lhe servir\u00edamos. Mas ele monta muito bem, e o grande afeto que nos vota, agudo como suas esporas, \u00e0 sua pr\u00f3pria casa o trouxe antes de n\u00f3s. Formosa e digna hospedeira, esta noite ficaremos aqui como vosso h\u00f3spede.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 A exist\u00eancia tiveram sempre os servos, eles pr\u00f3prios e seus haveres todos como simples dep\u00f3sito ao dispor de Vossa Alteza, pronto a ser devolvido.<\/p>\n<p>DUNCAN \u2014 A m\u00e3o vos tomo; para o meu hospedeiro conduzi-me. Temos-lhe grande amor e mostrar-lhe-emos provas ainda mais de nossa gra\u00e7a. Permiti-me, hospedeira.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c7\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Um quarto no castelo. Obo\u00e9s e tochas. Um trinchante atravessa o palco com diversos criados, que carregam pratos e acess\u00f3rios da mesa. Depois entra Macbeth<\/i>.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se feito fosse quanto fosse feito, seria bom fazermo-lo de pronto. Se o assass\u00ednio enredasse as conseq\u00fc\u00eancias e alcan\u00e7asse, com o fim, \u00eaxito pleno; se este golpe aqui fosse tudo, e tudo terminasse aqui em baixo, aqui somente, neste banco de areia da exist\u00eancia, a vida de ap\u00f3s morte arriscar\u00edamos. Mas \u00e9 aqui mesmo nosso julgamento em semelhantes casos; s\u00f3 fazemos ensinar as senten\u00e7as sanguin\u00e1rias que, uma vez aprendidas, em tormento se viram do inventor. Essa justi\u00e7a serena e equilibrada a nossos l\u00e1bios apresenta o conte\u00fado envenenado da ta\u00e7a que n\u00f3s mesmos prepar\u00e1ramos. Ele est\u00e1 aqui sob dupla salvaguarda. De in\u00edcio, sou parente dele e s\u00fadito, duas raz\u00f5es de for\u00e7a contra esse ato; depois, sou o hospedeiro, que devera fechar a porta a seus assaltadores, n\u00e3o levantar contra ele minha faca. Esse Duncan, por fim, tem revelado t\u00e3o brandas qualidades de regente, seu alto of\u00edcio tem exercitado por maneira t\u00e3o pura que suas claras virtudes h\u00e3o de reclamar, sem d\u00favida, contra o crime infernal de sua morte. E a piedade, tal como um rec\u00e9m-nado despido, cavalgando a tempestade, ou querubim celeste que montasse nos corc\u00e9is invis\u00edveis das rajadas, h\u00e1 de atirar esse ato inomin\u00e1vel contra os olhos de todas as pessoas, at\u00e9 que o vento as l\u00e1grimas afoguem. Esporas n\u00e3o possuo, para os flancos picar do meu projeto, mas somente a empolada ambi\u00e7\u00e3o que, ultrapassando no salto a sela, vai cair sobre outrem. (<i>Entra lady Macbeth.<\/i>) Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 J\u00e1 est\u00e1 no fim da ceia. Por que sa\u00edstes?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Perguntou por mim?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Pois ainda me fazeis essa pergunta?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o iremos mais longe neste assunto. Muitas honras me fez ultimamente, havendo eu conquistado \u00e1ureo conceito junto de toda gente, que desejo mostrar com o novo brilho, n\u00e3o de lado jogar sem mais nem menos.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Encontra-se embriagada a esperan\u00e7a que at\u00e9 h\u00e1 pouco vos revestia? Adormeceu, decerto, desde ent\u00e3o e acordou agora, p\u00e1lida e verde a contemplar o que ela pr\u00f3pria come\u00e7ara t\u00e3o bem? Desde este instante para mim teu amor vale isso mesmo. Tens medo de nos atos e coragem mostrar-te igual ao que \u00e9s em teus anelos? Queres vir a possuir o que avalias como ornamento m\u00e1ximo da vida, mas qual poltr\u00e3o viver em tua estima, deixando que um \u201cN\u00e3o ouso\u201d v\u00e1 no rasto de um \u201cDesejara\u201d, como o pobre gato de que fala o prov\u00e9rbio?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Paz, te pe\u00e7o. Ouso fazer tudo o que faz um homem; quem fizer mais, \u00e9 que deixou de s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Que animal foi, ent\u00e3o, que teve a id\u00e9ia de me participar esse projeto? Quando ousastes faz\u00ea-lo \u00e9reis um homem, e querendo ser mais do que ent\u00e3o \u00e9reis tanto mais homem a ficar vir\u00edeis. Lugar e tempo ent\u00e3o n\u00e3o concordavam; no entanto desej\u00e1veis ajeit\u00e1-los; e ora que se acomodam por si mesmos, essa boa vontade vos abate! J\u00e1 amamentei e sei como \u00e9 inef\u00e1vel amar a crian\u00e7a que meu leite mama; mas no momento em que me olhasse, rindo, o seio lhe tirara da boquinha desdentada e a cabe\u00e7a lhe partira, se tivesse jurado, como o hav\u00edeis em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se falharmos&#8230;<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Falharmos? Bastar\u00e1 aparafusardes vossa coragem at\u00e9 o ponto m\u00e1ximo, para que n\u00e3o falhemos. Quando Duncan se puser a dormir \u2014 e a rude viagem de hoje o convidar\u00e1 para isso mesmo \u2014 ambos os camareiros de tal modo dominarei com vinho, que a mem\u00f3ria, essa guarda do c\u00e9rebro, fuma\u00e7a t\u00e3o-somente ser\u00e1 e o recept\u00e1culo da raz\u00e3o, alambique. E quando os corpos nesse sono de porco se encontrarem, como se mortos fossem, que de coisas n\u00e3o faremos em Duncan indefeso, que culpas n\u00e3o imputaremos a esses servidores-esponjas, porque fiquem respons\u00e1veis por nosso grande crime?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 S\u00f3 deves dar \u00e0 luz a filhos homens, pois teu vigor ind\u00f4mito s\u00f3 pode filhos homens nutrir. Ser\u00e1 aceit\u00e1vel, quando de sangue besuntado houvermos os dois homens que dormem no seu quarto, e seus pr\u00f3prios punhais tamb\u00e9m usado, que foram eles os autores disso?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Quem ousar\u00e1 pensar de outra maneira, quando rugirmos nossa dor e os altos clamores rimbombarem sobre o morto?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Preparado me encontro e deixo tensos todos os nervos para esse ato horr\u00edvel. Vamos! Recomponhamo-nos primeiro; cora\u00e7\u00e3o falso e rosto lisonjeiro.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at2c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Inverness. P\u00e1tio no interior do castelo. Entram Banquo e Fleance, precedidos de um criado com uma tocha.<\/i><\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Quanto da noite j\u00e1 ser\u00e1, menino?<\/p>\n<p>FLEANCE \u2014 N\u00e3o ouvi bater horas, mas a lua j\u00e1 se escondeu.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Ela se esconde \u00e0s doze.<\/p>\n<p>FLEANCE \u2014 Penso, senhor, que ser\u00e1 mais do que isso.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Toma aqui minha espada. H\u00e1 economia no c\u00e9u; todas as luzes se apagaram. Fica tamb\u00e9m com isto. Em mim se exerce uma press\u00e3o pesada como chumbo. No entretanto, quisera n\u00e3o dormir. Detende em mim, poderes criadores, os pensamentos maus que a natureza permite aos que repousam. (<i>Entra Macbeth, acompanhado de criado, com uma tocha.<\/i>) Quem vem l\u00e1?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Um amigo.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Como, senhor! Ainda estais de p\u00e9? O rei j\u00e1 foi deitar-se; revelava ins\u00f3lita alegria, tendo enchido de grossos cabedais vossos celeiros. Sa\u00fada vossa esposa, oferecendo-lhe este diamante, como \u00e0 mais bondosa das hospedeiras. Foi-se para o quarto com um contentamento sem limites.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Tomada de surpresa, nossa boa vontade se mostrou serva da falta. Se n\u00e3o, teria inteira liberdade.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Tudo vai bem. Sonhei na \u00faltima noite com as tr\u00eas irm\u00e3s fatais. Muito ver\u00eddicas com rela\u00e7\u00e3o a v\u00f3s se revelaram.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o penso nelas; no entretanto, quando tivermos alguma hora favor\u00e1vel dedicaremos a isso umas palavras, se o tempo vos sobrar.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Com todo o gosto.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se no tempo oportuno concordardes com meu modo de ver, ganhareis honra.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Se n\u00e3o vier a perd\u00ea-la no prop\u00f3sito de faz\u00ea-la aumentar, puro deixando-me o cora\u00e7\u00e3o e l\u00edmpida a obedi\u00eancia, ouvir-vos-ei de grado.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Bom repouso at\u00e9 esse dia.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Muito agradecido, meu senhor; iguais votos vos dirijo.<\/p>\n<p>(<i>Saem Banquo e Fleance.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vai dizer \u00e0 senhora que me fa\u00e7a sinal com o sino, quando estiver pronta minha bebida. Depois disso, deita-te. (<i>Sai o criado.<\/i>) Ser\u00e1 um punhal que vejo em minha frente com o cabo a oferecer-se-me? Peguemo-lo. N\u00e3o te apanhei ainda; no entretanto, vejo-te sempre. N\u00e3o ser\u00e1s sens\u00edvel, vis\u00e3o funesta, ao tato como \u00e0 vista? Ou de um punhal n\u00e3o passas, simplesmente, do pensamento, uma cria\u00e7\u00e3o fict\u00edcia, procedente do c\u00e9rebro escaldante? Percebo-te, no entanto, e t\u00e3o palp\u00e1vel como este que ora empunho. Mostras-me a estrada que seguir eu devo e o instrumento que a usar serei for\u00e7ado. Se meus olhos joguete n\u00e3o se mostram de meus outros sentidos, sobrepujam todos eles. Ainda te percebo, manchado o cabo e a l\u00e2mina de gotas de sangue que antes n\u00e3o estava neles. N\u00e3o existe tal coisa; \u00e9 o sanguin\u00e1rio projeto que a meus olhos toma forma. Em metade do mundo, neste instante, parece estar sem vida a natureza; os sonhos maus iludem sob as p\u00e1lpebras o sono bem velado; feiticeiras o rito exercem singular da p\u00e1lida H\u00e9cate; o esqu\u00e1lido assassino, posto de alerta pela sua sentinela, o lobo, cujo uivar lhe serve de horas, com passo de ladr\u00e3o e o andar furtivo de Tarqu\u00ednio, da meta se aproxima, tal qual fantasma. \u00d3 terra forte e s\u00f3lida, n\u00e3o ou\u00e7as o barulho de meus passos, seja qual for a dire\u00e7\u00e3o que tomem, porque as pr\u00f3prias pedrinhas n\u00e3o propalem para onde eu vou e dissipar n\u00e3o fa\u00e7am o horror desta hora que t\u00e3o bem lhe fica. Eu amea\u00e7o; ele vive; congelada pelo meu sopro a a\u00e7\u00e3o se torna em nada. (<i>O sino soa.<\/i>) J\u00e1 vou; est\u00e1 feito. O sino me convida. Duncan, n\u00e3o ou\u00e7as; \u00e9 um chamado eterno que para o c\u00e9u te leva ou para o inferno. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at2c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Entra lady Macbeth.<\/i><\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 O que os embebedou me deu coragem: fogo me deu o que os deixou extintos. Ouvi! Sil\u00eancio! \u00c9 o pio da coruja, sentinela fatal que augura a mais sinistra noite. Vai dar o golpe; a porta se acha aberta; o ressonar dos guardas embriagados zomba do of\u00edcio deles. Pus mistura na bebida de todos, de tal forma que a morte e a natureza neles lutam sobre se v\u00e3o morrer ou ficar vivos.<\/p>\n<p>MACBETH (<i>dentro<\/i>) \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? Ol\u00e1!<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Que pena! Temo, que acordassem e nada esteja feito. O que nos atrapalha \u00e9 a tentativa, somente, n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o. Ouvi! De jeito deixei os punhais deles; n\u00e3o podiam ficar despercebidos. Se n\u00e3o fosse parecer-se no sono com meu pai, eu pr\u00f3pria o realizara. \u2014 Meu marido!<\/p>\n<p>(<i>Entra Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Realizei o ato. Ouviste algum barulho?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 O pio, apenas, da coruja, e o grito do grilo. N\u00e3o falastes?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quando?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Agora.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quando eu descia?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Sim.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Escuta um pouco. Quem \u00e9 que est\u00e1 naquele quarto ao lado?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Donalbain.<\/p>\n<p>MACBETH (<i>Contemplando as m\u00e3os<\/i>) \u2014 Oh, que vista lastim\u00e1vel!<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 \u00c9 um pensamento n\u00e9scio dizer isso: \u201cQue vista lastim\u00e1vel!\u201d<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Um, no sono, sorriu, e o outro gritou: \u201cAi! Assass\u00ednio!\u201d E, com isso, acordaram. Escutando-os, me detive. Mas eles murmuraram ora\u00e7\u00f5es, t\u00e3o-somente, e dispuseram-se a dormir outra vez.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 No mesmo quarto se acham dois.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Um gritou: \u201cDeus nos ampare!\u201d E \u201cAm\u00e9m\u201d disse o outro, como se tivessem percebido as m\u00e3os sujas do carrasco. Ao escutar-lhe o temor, n\u00e3o pude dizer \u201cAm\u00e9m\u201d, quando eles murmuraram \u201cDeus nos ampare\u201d.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 prudente pensar tanto sobre isso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Por que causa n\u00e3o pude, ent\u00e3o, dizer \u201cAm\u00e9m?\u201d De b\u00ean\u00e7\u00e3o tinha necessidade mui premente; mas na garganta o \u201cAm\u00e9m\u201d ficou pegado.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Essas coisas n\u00e3o devem ser pensadas dessa maneira. \u00c9 de deixar-nos loucos.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Uma voz pareceu-me ouvir, aos gritos de: \u201cN\u00e3o durmais! Macbeth matou o sono!\u201d o meigo sono, o sono que desata a emaranhada teia dos cuidados, que \u00e9 o sepulcro da vida cotidiana, banho das lides dolorosas, b\u00e1lsamo dos cora\u00e7\u00f5es feridos, a outra forma da grande natureza, o mais possante p\u00e1bulo do banquete da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Que pretendeis dizer?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Por toda a casa continuava a gritar: \u201cBasta de sono! N\u00e3o durmais! Glamis destruiu o sono! Por isso Cawdor j\u00e1 dormir n\u00e3o pode, Macbeth dormir n\u00e3o pode!\u201d<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Quem gritava por esse modo? Ora, meu digno thane, relaxais vossas nobres energias considerando as coisas por maneira t\u00e3o doentia. Arranjai um pouco de \u00e1gua, para das m\u00e3os tirardes todas essas testemunhas manchadas. Por que causa trouxestes os punhais de onde se achavam? Precisam ficar l\u00e1. Tomai a p\u00f4-los em seus lugares e sujai de sangue os criados que ainda dormem.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o volto. Tenho pavor s\u00f3 de pensar no feito; voltar a contempl\u00e1-lo me \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Oh! que vontade fraca! Dai-me as armas. Os mortos e os que dormem s\u00e3o pinturas, nada mais. \u00c9 somente o olho da crian\u00e7a que tem medo do diabo desenhado. Se estiver a sangrar, deixarei tintos com isso o rosto de seus pr\u00f3prios criados, pois \u00e9 preciso que pare\u00e7a que eles o crime cometeram.<\/p>\n<p>(<i>Sai. Pancadas dentro.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Onde batem? Que se passa comigo, para um simples ru\u00eddo apavorar-me? E aquelas m\u00e3os, ai! que os olhos me arrancam? Todo o oceano do potente Netuno poderia de tanto sangue a m\u00e3o deixar-me limpa? N\u00e3o; antes minha m\u00e3o faria p\u00farpura do mar universal, tornando rubro o que em si mesmo \u00e9 verde.<\/p>\n<p>(<i>Volta lady Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 De vossa cor as m\u00e3os agora tenho; mas de possuir ficara envergonhada um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o branco. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Ouvi! Novas batidas. Ide logo vestir vosso roup\u00e3o; se nos chamarem, n\u00e3o devemos mostrar que n\u00e3o dormimos. N\u00e3o deveis entregar-vos a essas cismas t\u00e3o miseravelmente.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Conhecer o que fiz&#8230; Melhor me fora se n\u00e3o me conhecesse. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Acordam Duncan batendo desse modo. Ah! se acordasses!<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at2c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Pancadas dentro. Entra o porteiro.<\/i><\/p>\n<p>PORTEIRO \u2014 Isso, sim, \u00e9 que \u00e9 bater! Quem fosse porteiro no inferno n\u00e3o faria outra coisa sen\u00e3o virar a chave. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Bate, bate, bate! Quem est\u00e1 a\u00ed, em nome de Belzebu? Eis que chega um lavrador que se enforcou, na expectativa de uma boa colheita. Chegais na hora. Trazei boa carga de len\u00e7os, por isso que tereis de suar aqui a valer. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Bate, bate, bate! Quem est\u00e1 a\u00ed, em nome do outro diabo? Por minha f\u00e9, \u00e9 um sujeito de l\u00edngua equ\u00edvoca, que poderia jurar em qualquer um dos pratos da balan\u00e7a, contra o outro prato, que cometeu bastantes trai\u00e7\u00f5es por amor de Deus, mas n\u00e3o p\u00f4de equivocar o c\u00e9u. Oh! entrai, meu equivocador! (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Bate, bate, bate! Quem est\u00e1 ai? Por minha f\u00e9, \u00e9 um alfaiate ingl\u00eas que vem para c\u00e1 por ter roubado uns cal\u00e7\u00f5es franceses. Entrai, senhor alfaiate! Aqui podereis aquecer \u00e0 vontade vosso ferro de engomar. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Bate, bate! N\u00e3o h\u00e1 sossego de jeito nenhum. Quem sois? Mas, para inferno, este lugar \u00e9 muito frio. N\u00e3o continuarei nele por mais tempo como porteiro do diabo. Tinha pensado em deixar entrar gente de todas as profiss\u00f5es, que vai para os fogos eternos pela estrada semeada de rosas. (<i>Pancadas dentro.<\/i>) Um momento! Um momento! Por obs\u00e9quio, n\u00e3o vos esque\u00e7ais do porteiro. (<i>Abre o port\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entram Macduff e Lennox.<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Fostes, amigo, vos deitar t\u00e3o tarde para demorar tanto a levantar-vos?<\/p>\n<p>PORTEIRO \u2014 Em verdade, senhor, ficamos a beber at\u00e9 ao segundo canto do galo, e a bebida, senhor, \u00e9 um grande provocador de tr\u00eas coisas.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Quais s\u00e3o as tr\u00eas coisas que a bebida provoca especial mente?<\/p>\n<p>PORTEIRO \u2014 Ora, senhor, nariz vermelho, sono e urinas. A lasc\u00edvia, senhor, ela provoca e deixa sem efeito; provoca o desejo, mas impede a execu\u00e7\u00e3o. Por isso pode-se dizer que a bebida usa de subterf\u00fagios com a lasc\u00edvia: ela a cria e a destr\u00f3i; anima-a e desencoraja-a; f\u00e1-la ficar de p\u00e9 e depois a obriga a n\u00e3o ficar de p\u00e9. Em resumo: leva-a a dormir com muita l\u00e1bia e, lan\u00e7ando-lhe o desmentido, abandona-a a si mesma.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Penso que a bebida te lan\u00e7ou o desmentido esta noite.<\/p>\n<p>PORTEIRO \u2014 Foi isso mesmo, senhor, que ela fez comigo, pela garganta a dentro. Mas eu lhe dei o troco do desmentido; porque sendo, como penso ser, mais forte do que ela, embora por vezes ela me quisesse passar rasteira, acabei por jog\u00e1-la ao solo.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Teu senhor j\u00e1 se levantou? (<i>Entra Macbeth.<\/i>) O barulho acordou-o. Ei-lo que chega.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Nobre senhor, bom dia.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Para todos tamb\u00e9m bom dia.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 O rei, mui digno thane, j\u00e1 ter\u00e1 acordado?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o, ainda.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Pediu-me que o chamasse bem cedinho. Por pouco perdi a hora.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vou levar-vos at\u00e9 onde ele se encontra.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Sei que alegre vos deixa esse trabalho. Por\u00e9m sempre ser\u00e1 trabalho.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 O trabalho agrad\u00e1vel \u00e9 rem\u00e9dio da canseira. Eis a porta.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A liberdade vou tomar de bater, pois a incumb\u00eancia que recebi foi essa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 O rei parte hoje?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Parte; assim decidiu.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 A noite toda foi desassossegada. Onde dormimos o vento derrubou a chamin\u00e9. Dizem que no ar se ouviram muitos prantos, gritos de morte estranhos, profecias, em terr\u00edveis acentos, de horrorosas devasta\u00e7\u00f5es, confusos acidentes, ninhada destes tempos ominosos. Durante toda a noite a ave das trevas n\u00e3o deixou de piar. Dizem que a terra teve febre e tremeu.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Foi uma noite muito rude, em verdade.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Minha jovem mem\u00f3ria n\u00e3o se lembra de outra igual.<\/p>\n<p>(<i>Volta Macduff.<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Horror, horror, horror! N\u00e3o pode a l\u00edngua, n\u00e3o pode o cora\u00e7\u00e3o nem conceber-te nem dar-te nome algum.<\/p>\n<p>MACBETH e LENNOX \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A destrui\u00e7\u00e3o concluiu sua obra-prima. Arrombou o sacr\u00edlego assass\u00ednio o templo ungido do Senhor, e a vida roubou do pr\u00f3prio altar.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Como dissestes? A vida?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Pretendeis dizer que \u00e9 a vida de Sua Majestade?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Ide at\u00e9 o quarto e a vista destru\u00ed ante outra G\u00f3rgona. Quero ficar calado. Ide v\u00f3s mesmos, para depois falardes. (<i>Saem Macbeth e Lennox.<\/i>) Despertai! Despertai! Trai\u00e7\u00e3o e morte! Malcolm, Banquo, Donalbain, depressa, sacudi esse sono de penugem, simulacro da morte, e vinde a pr\u00f3pria morte encarar. De p\u00e9! A imagem vede do grande julgamento. Malcolm! Banquo! Vinde como das tumbas, como esp\u00edritos, para ver este horror. Tocai o sino!<\/p>\n<p>(<i>Soa o sino.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entra lady Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Que aconteceu aqui, para que, t\u00e3o medonha, uma trombeta desperte os moradores desta casa, para parlamentar? Falai! Falai!<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 \u00d3 gentil dama, n\u00e3o deveis ouvir-me no que tenho a dizer. Esse relato, repetido ao ouvido de uma dama, produziria a morte. (<i>Entra Banquo.<\/i>) \u00d3 Banquo! Banquo! assassinado foi nosso real amo.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Ai! como? Em nossa casa?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Oh! muito cruel, pouco importa onde fosse. Caro Duff, desmente-te a ti pr\u00f3prio, por obs\u00e9quio, e dize que houve engano.<\/p>\n<p>(<i>Voltam Macbeth e Lennox.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se eu tivesse morrido uma hora, apenas, antes de isto se dar, teria tido uma vida aben\u00e7oada. Doravante nada mais h\u00e1 de s\u00e9rio no universo. Tudo \u00e9 farandolagem; a honra e a gl\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o existem. Esgotado se acha o vinho da exist\u00eancia, s\u00f3 restando simples borra no fundo desta adega com que possa jactar-se.<\/p>\n<p>(<i>Entram Malcolm e Donalbain.<\/i>)<\/p>\n<p>DONALBAIN \u2014 Que foi que aconteceu?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Como! Estais vivos e n\u00e3o sabeis o que houve? A fonte, a origem, o princ\u00edpio secou de vosso sangue, a pr\u00f3pria origem j\u00e1 parou de todo.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Vosso real pai se encontra assassinado.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Oh! E por quem?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Ao que parece, foram seus pr\u00f3prios camareiros que o mataram. De sangue o rosto e as m\u00e3os tinham manchados, como os punhais que sem bainha achamos sobre seus travesseiros. De olhar fixo se achavam, como alheados. N\u00e3o deviam ter-lhes confiado a vida de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Agora me arrependo de os ter morto na minha indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Por que o fizestes?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quem s\u00e1bio pode ser e estupefacto, moderado e furioso, leal e neutro na mesma hora? Ningu\u00e9m. A dilig\u00eancia do meu amor violento deixou longe a raz\u00e3o vagarosa. Neste ponto se achava Duncan, com sua cute branca acairelada pelo sangue de ouro; as feridas abertas pareciam brechas da natureza, adrede feitas para a entrada da ru\u00edna vastadora; al\u00e9m, os assassinos, embebidos da cor da profiss\u00e3o, monstruosamente recobertas de sangue as pr\u00f3prias armas&#8230; Quem poderia reprimir-se, tendo cora\u00e7\u00e3o para amar e, nele, o brio de tornar conhecidos seus pendores?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Oh! Tirai-me daqui!<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Vede a senhora.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 (<i>\u00e0 parte, a Donalbain<\/i>) \u2014 Por que ficamos mudos, se este caso de perto nos atinge mais que a todos?<\/p>\n<p>DONALBAIN (<i>\u00e0 parte, a Malcolm<\/i>) \u2014 Por que falar aqui, onde o destino, a espiar de algum buraco, poderia lan\u00e7ar-se sobre n\u00f3s? Fujamos; nossas l\u00e1grimas n\u00e3o est\u00e3o bem preparadas.<\/p>\n<p>MALCOLM (<i>\u00e0 parte, a Donalbain<\/i>) \u2014 Nem nossa grande dor para a vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Socorrei a senhora. (<i>Lady Macbeth \u00e9 levada para fora.<\/i>) E ap\u00f3s agasalharmos a fraqueza, muito sens\u00edvel a este tempo frio, reunamo-nos a fim de interrogarmos esta obra enormemente sanguin\u00e1ria, para com mais vagar a conhecermos. A d\u00favida e o receio nos abalam. Na grande m\u00e3o de Deus ora me encontro, disposto a combater as n\u00e3o sabidas inten\u00e7\u00f5es da mal\u00edcia criminosa.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Como eu.<\/p>\n<p>TODOS \u2014 Como n\u00f3s todos.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Com presteza viril nos aprontemos para em pouco nos reunirmos na sala.<\/p>\n<p>TODOS \u2014 Bem pensado.<\/p>\n<p>(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Malcolm e Donalbain.<\/i>)<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Que pretendeis fazer? N\u00e3o nos unamos com essa gente. \u00c9 muito f\u00e1cil para o homem fingido aparentar tristeza. Irei para a Inglaterra.<\/p>\n<p>DONALBAIN \u2014 E eu para a Irlanda. Separados, assim, nossos destinos cuidar\u00e3o de n\u00f3s dois com maior zelo. Os sorrisos aqui punhais escondem. Quanto mais perto o sangue dos parentes, maior \u00e9 a afinidade sanguin\u00e1ria.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 A mort\u00edfera flecha disparada ainda n\u00e3o caiu; nosso caminho mas seguro \u00e9 evitar-lhe a trajet\u00f3ria. A cavalo, portanto, sem perdermos tempo com despedidas delicadas. Saiamos de mansinho. Conden\u00e1vel n\u00e3o pode ser o roubo da prud\u00eancia, quando n\u00e3o h\u00e1 nem rasto de dem\u00eancia.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at2c4\" name=\"at2c4\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Do lado de fora do castelo. Entram Ross e um velho.<\/i><\/p>\n<p>O VELHO \u2014 Posso lembrar-me bem de setenta anos; nesse espa\u00e7o de tempo vi terr\u00edveis horas e coisas por demais estranhas; mas esta noite triste deixa longe tudo quanto at\u00e9 agora eu conhecia.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 \u00d3 meu bom pai! O c\u00e9u, como est\u00e1s vendo, indignado com o jogo dos humanos, comina amea\u00e7as ao sangu\u00edneo palco. Pelo rel\u00f3gio, \u00e9 dia; no entretanto, atrasa a l\u00e2mpada ambulante a noite caliginosa. E t\u00e3o potente a noite? \u00c9 a vergonha do dia que permite que a treva cubra o rosto, assim, da terra, a que beijar devera a luz radiosa?<\/p>\n<p>O VELHO \u2014 \u00c9 contra a natureza, tal como o ato que aqui foi perpetrado. Na passada ter\u00e7a-feira um falc\u00e3o que se gloriava no rem\u00edgio habitual, preado e morto foi por uma coruja ca\u00e7a-ratos.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 E os cavalos de Duncan \u2014 fato estranho por demais, por\u00e9m certo \u2014 t\u00e3o velozes e formosos, ornatos de sua ra\u00e7a, tornaram-se selvagens, as cocheiras arrebentaram, contra as ordens todas, puseram-se a correr, como querendo guerrear a humanidade.<\/p>\n<p>O VELHO \u2014 Dizem que eles se devoraram mutuamente.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 \u00c9 certo; para perplexidade destes olhos, que tudo presenciaram. A\u00ed vem vindo o bondoso Macduff. (<i>Entra Macduff<\/i>) Ent\u00e3o, senhor, como vai indo o mundo?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o vedes?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 J\u00e1 se conhece o autor desse atentado mais do que sanguin\u00e1rio?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Os camareiros apunhalados por Macbeth.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Oh dia! E acaso a que vantagens aspiravam?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Estavam subornados; os dois filhos do rei, Malcolm e Donalbain, fugiram, o que faz cair neles a suspeita.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Sempre contr\u00e1rio \u00e0 natureza! \u00d3 f\u00fatil ambi\u00e7\u00e3o que destr\u00f3is as pr\u00f3prias fontes de tua vida! Assim, \u00e9 bem poss\u00edvel que Macbeth suba ao trono.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Proclamado j\u00e1 foi, tendo ido agora para Scone, a fim de ser coroado.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 E que fizeram do cad\u00e1ver de Duncan?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Foi levado para Kolmekill, sacra sepultura de seus antepassados e guarida de seus restos mortais.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Ireis a Scone?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 N\u00e3o, primo; vou a Fife.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Pois eu vou.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Que tenhais festa alegre e sem fadiga, n\u00e3o vindo a lastimar a roupa antiga.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Adeus, pai.<\/p>\n<p>O VELHO \u2014 Deus vos proteja e a quantos sabem a arte de trazer o inimigo \u00e0 boa parte.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c1\" name=\"at3c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Forres. Um quarto no pal\u00e1cio. Entra Banquo.<\/i><\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Tens tudo agora: \u00e9s rei, Cawdor e Glamis, como as bruxas prof\u00e9ticas disseram. Mas temo que roubado ao jogo houv\u00e9sseis. Mas foi dito tamb\u00e9m que n\u00e3o havia de ficar isso em tua descend\u00eancia e que viria a ser raiz e tronco de numerosos reis. Se falam certo, como se deu, Macbeth, a teu respeito, por que \u2014 se tudo quanto te auguraram se tornou realidade \u2014 n\u00e3o h\u00e3o de elas ser-me o mesmo que or\u00e1culo, deixando-me tamb\u00e9m esperan\u00e7ado? Mas, sil\u00eancio!<\/p>\n<p>(<i>Fanfarra. Entram Macbeth, como rei; lady Macbeth, como rainha; Lennox, Ross, nobres, damas e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Eis nosso convidado principal.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Se olvidado ele houvesse sido, fora como um vazio em nossa grande festa, vindo tudo a falhar.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Uma solene ceia, senhor, daremos esta noite, esperando que nela tomeis parte.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Bastar\u00e1 que mo ordene Vossa Alteza, a quem me liga minha obedi\u00eancia, para sempre, por la\u00e7os inquebr\u00e1veis.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Viajareis esta tarde?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se n\u00e3o, pedira vossos bons conselhos \u2014 que de peso s\u00e3o sempre e proveitosos \u2014 para a reuni\u00e3o que vamos ter agora. Nesse caso, amanh\u00e3 vos ouviremos. Ides longe?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 O suficiente, meu senhor, apenas para o tempo ocupar de agora \u00e0 ceia. Se n\u00e3o se esfor\u00e7ar muito meu cavalo, \u00e0 noite poderei pedir de empr\u00e9stimo uma ou duas de suas horas foscas.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vinde sem falta para nossa festa.<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 N\u00e3o faltarei, milorde.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Not\u00edcia j\u00e1 tivemos de que nossos sanguin\u00e1rios parentes se passaram para a Inglaterra e Irlanda, e que ainda negam o parric\u00eddio cruel, enchendo as ou\u00e7as de todos com estranhas fantasias. Mas sobre isso, amanh\u00e3, j\u00e1 que teremos de tratar de um neg\u00f3cio de import\u00e2ncia relativo ao Estado. Levais Fleance?<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Sim, meu senhor; o tempo nos reclama.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Desejo-vos cavalos de p\u00e9s firmes e bem velozes, e ao costado deles vos recomendo. Adeus. (<i>Sai Banquo.<\/i>) Todos agora o tempo gastem como lhes parecer melhor, at\u00e9 \u00e0s sete horas. Porque depois nos seja a sociedade muito mais agrad\u00e1vel, at\u00e9 \u00e0 ceia iremos ficar s\u00f3. At\u00e9 esse instante, que Deus seja convosco. (<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Macbeth e um criado.<\/i>) Ol\u00e1, maroto, uma palavra! Aguardam nossas ordens aqueles indiv\u00edduos?<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 Sim, milorde, no port\u00e3o do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ide busc\u00e1-los. (<i>Sai o criado.<\/i>) Ser rei assim, \u00e9 nada; \u00e9 necess\u00e1rio s\u00ea-lo com seguran\u00e7a. \u00c9 muito grande nosso medo de Banquo; em sua postura soberana domina qualquer coisa que deve ser temido. E corajoso como poucos e \u00e0 t\u00eampera indom\u00e1vel do esp\u00edrito une uma sabedoria que faz o valor no alvo acertar sempre. Tirante ele, n\u00e3o h\u00e1 pessoa alguma de quem eu tenha medo, e junto dele meu g\u00eanio se intimida, como dizem que com o de Marco Ant\u00f4nio acontecia, quando junto de C\u00e9sar. Dirigiu-se corajoso \u00e0s irm\u00e3s, interpelando-as quando o nome de rei elas me deram, for\u00e7ando-as a falar-lhe a seu respeito, ao que elas, quais videntes, o saudaram como pai de uma s\u00e9rie de monarcas. Na cabe\u00e7a puseram-me a coroa sem frutos e nas m\u00e3os o cetro est\u00e9ril, para que mo arrebate um punho estranho, pois para herdeiro nenhum filho tenho. Se for assim, para a posteridade de Banquo, t\u00e3o-somente, sujei a alma; matei para eles o gracioso Duncan; por causa deles \u00f3dio pus no vaso da minha paz, havendo entregue a minha j\u00f3ia eterna ao comum imigo do homem, para faz\u00ea-los reis, para dos filhos de Banquo fazer reis! Antes que venha isso a se dar, que \u00e0 li\u00e7a baixe o fado, para o combate eterno. Quem vem l\u00e1? (<i>Entra o criado, com dois assassinos.<\/i>) Fica na porta e espera at\u00e9 que eu chame. (<i>Sai o criado.<\/i>) N\u00e3o foi ontem que juntos conversamos?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Sim, com vossa licen\u00e7a, majestade.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Muito bem; refletistes no que eu disse? Sabeis, pois, que foi ele quem, at\u00e9 hoje, vos tem deixado em posi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, o que pens\u00e1veis que era culpa minha. Tudo isso vos expus \u00e0 farta em nossa \u00faltima confer\u00eancia; apresentei-vos as provas da maneira por que tendes sido prejudicados e burlados, os instrumentos, quem os manejava, e tudo o mais, que proclamar faria at\u00e9 mesmo meia alma ou tipo idiota: \u201cEis o que Banquo fez!\u201d<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Sim, explicastes-nos.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Sim; mas fiz mais ainda, o que \u00e9 o objeto desta nossa segunda confer\u00eancia. Porventura a paci\u00eancia predomina tanto em v\u00f3s, que deixeis passar tudo isso? T\u00e3o religiosos sois, que poder\u00edeis rezar pela prosperidade deste bom homem e dos seus, sendo verdade que sua m\u00e3o pesada \u00e0 sepultura vos fez vergar e para todo o sempre vos arruinou a casa?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Somos homens, meu suserano.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Sim, passais por homens no cat\u00e1logo, como os perdigueiros, os galgos e os mastins, al\u00e3os e gosos, molossos, bra\u00e7os, dogues e rafeiros tamb\u00e9m de c\u00e3es, por junto, s\u00e3o chamados; mas distingue o registo o vagaroso, o veloz, o guardi\u00e3o, o de bom faro, cada um conforme as pr\u00f3prias qualidades que lhe haja dado a liberal natura e que um t\u00edtulo \u00e0 parte lhes granjeia na lista em que se encontram conglobados. Com os homens d\u00e1-se o mesmo. Assim, se tendes um lugar no registo, n\u00e3o sendo ele o mais mesquinho e vil da humanidade, falai, que ent\u00e3o vos confiarei ao peito certo assunto, de cujo cumprimento resultar\u00e1 ficar vosso inimigo supresso para sempre e v\u00f3s mais presos \u00e0 nossa gratid\u00e3o e nosso afeto, pois tamb\u00e9m se ressente nosso estado da vida dele, e s\u00f3 se refar\u00e1 se vier a falecer.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Meu suserano, sou um indiv\u00edduo que os maldosos golpes do mundo e seus embates irritado de tal modo deixaram, que faria n\u00e3o importa o que for para vex\u00e1-lo.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 E eu sou outro t\u00e3o lasso de desastres, t\u00e3o amassado pelo vil destino, que a vida arriscaria em qualquer lance, para de vez perd\u00ea-la ou endireit\u00e1-la.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Sabeis que Banquo foi vosso inimigo.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 \u00c9 certo, meu senhor.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 E meu \u00e9 ainda, em conflito a tal ponto sanguin\u00e1rio, que os minutos de toda a sua vida ferem de perto o cora\u00e7\u00e3o da minha. \u00c9 bem verdade que eu podia, \u00e0s claras, varr\u00ea-lo para longe, reportando-me t\u00e3o-s\u00f3 ao meu querer. Mas me contenho por causa de comuns amigos, cuja afei\u00e7\u00e3o n\u00e3o desejo ver perdida. Terei de lastimar, assim, a morte de quem eu derrubei. Esse o motivo de recorrer agora a vosso aux\u00edlio, pois me for\u00e7am raz\u00f5es de muito peso a evitar que se vulgue esse neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Senhor, faremos quanto nos mandardes.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Embora nossas vidas&#8230;<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 A coragem transparece de v\u00f3s. Dentro de uma hora, no m\u00e1ximo, hei de vos mostrar o ponto em que deveis ficar e a par vos ponho da ocasi\u00e3o mais prop\u00edcia para a coisa, do momento adequado, pois que tudo precisar\u00e1 ser feito ainda esta noite, a uma certa dist\u00e2ncia do pal\u00e1cio, sem que vos esque\u00e7ais de que preciso ficar sem mancha nisso. Juntamente com ele \u2014 para que o trabalho saia sem o menor sen\u00e3o \u2014 Fleance, seu filho, que com ele tamb\u00e9m saiu de viagem e cujo afastamento n\u00e3o me importa menos do que o do pai, compartir deve tamb\u00e9m dessa hora negra. Tomai vossas resolu\u00e7\u00f5es \u00e0 parte; j\u00e1 vos sigo.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 J\u00e1 resolvemos, meu senhor.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Em pouco vos chamarei; ficai dentro de casa. (<i>Saem os assassinos.<\/i>) Est\u00e1 feito. Se h\u00e1 ponto em que se acoite, Banquo, tua alma no c\u00e9u, ser\u00e1 esta noite. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c2\" name=\"at3c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Outro quarto no pal\u00e1cio. Entram Lady Macbeth e um criado.<\/i><\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Banquo deixou o p\u00e1tio?<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 Deixou, senhora; mas retorna \u00e0 noite.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Vai, dize ao rei que eu quero ter com ele uma conversa r\u00e1pida.<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 Isso mesmo, senhora, lhe direi. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Tudo \u00e9 perdido, quando o desejo fica repartido. Toca ao morto decerto melhor sorte que a de alegrar-se assim quem lhe deu morte. (<i>Entra Macbeth.<\/i>) Ent\u00e3o, marido, por que s\u00f3 ficardes, tendo por companhia as fantasias mais desconsoladoras e ocupando-vos com pensamentos que j\u00e1 deveriam ter morrido com quem se relacionam? O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio, n\u00e3o devera ser pensado sequer. O que est\u00e1 feito, n\u00e3o est\u00e1 por fazer.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00f3s s\u00f3 talhamos a serpe, sem mat\u00e1-la. Em pouco tempo se refar\u00e1 e volta a ser o que era, ficando o nosso miser\u00e1vel \u00f3dio de novo exposto ao seu antigo dente. Que a estalar venham todas as junturas das coisas e a gemer ambos os mundos, antes de termos de tomar os nossos alimentos com medo e de dormirmos na afli\u00e7\u00e3o desses sonhos pavorosos que nos t\u00eam abalado as noites todas. Muito melhor nos fora estar com o morto que, para nossa pr\u00f3pria paz, mandamos para o seio da paz, do que vivermos no banco de tormento de nossa alma, numa ang\u00fastia sem fim. Duncan descansa no sepulcro; tranq\u00fcilo dorme, agora, depois das convuls\u00f5es febris da vida. A trai\u00e7\u00e3o lhe fez tudo o que podia; a perf\u00eddia dom\u00e9stica, o veneno, o a\u00e7o, a invas\u00e3o de fora, nada pode, doravante, atingi-lo.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Caro esposo, saiamos. Alisai esse olhar crespo; sede claro e jovial com todos hoje.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 S\u00ea-lo-ei, amor; o mesmo vos desejo. A Banquo dedicai todas as vossas aten\u00e7\u00f5es, distinguindo-o dentre todos com palavras e olhares. Pouco firme \u00e9 nossa situa\u00e7\u00e3o, enquanto for preciso lavar nossas honras nessa corrente aduladora e as fei\u00e7\u00f5es empregarmos como m\u00e1scara do cora\u00e7\u00e3o, que os tra\u00e7os lhe disfarce.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Precisais deixar isso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Oh! tenho o esp\u00edrito cheio de escorpi\u00f5es, querida esposa! Sabeis que vivem Banquo e seu Fleance.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Mas eterna n\u00e3o \u00e9 neles a c\u00f3pia da natureza.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 \u00c9 o que consola a gente; s\u00e3o vulner\u00e1veis. Fica, pois, alegre. Antes de completar o v\u00f4o em torno do convento o morcego e H\u00e9cate negra ter ordenado que o besouro c\u00f3rneo com seu zumbido surdo d\u00ea o toque sonolento da noite, ser\u00e1 feito algo aqui de mem\u00f3ria pavorosa.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 O que \u00e9 que vai ser feito?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o macules tua inoc\u00eancia com saberes isso, minha pombinha, at\u00e9 saudares o ato. Vem, noite cega, tapa os olhos ternos do dia compassivo, e com sangrentas m\u00e3os e invis\u00edveis rasga o grande pacto que me deixa t\u00e3o p\u00e1lido! Escurece; para a mata sombria voa a gralha. Vacila o claro agente, de fraqueza; mas a noite se atira para a presa. Admiras-te; mas fica sossegada, que o mal refor\u00e7a a a\u00e7\u00e3o mal come\u00e7ada. Por favor, acompanha-me.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c3\" name=\"at3c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Um parque com uma estrada que vai ter ao pal\u00e1cio. Entram tr\u00eas assassinos.<\/i><\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Quem te disse que viesses ter conosco?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o de desconfiarmos, porque ele se acha a par de tudo quanto nos incumbiram, repetindo ponto por ponto as instru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Fica conosco. Ainda brilham no poente algumas riscas da luz solar. \u00c9 a hora em que o viajante retardado esporeia a montaria para alcan\u00e7ar o desejado albergue, e de n\u00f3s se aproxima o que esperamos.<\/p>\n<p>TERCEIRO ASSASSINO \u2014 Sil\u00eancio! Ou\u00e7o cavalos.<\/p>\n<p>BANQUO (<i>dentro<\/i>) \u2014 Uma luz, A\u00ed! Tragam-nos luz! Ol\u00e1!<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 \u00c9 ele, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Os outros convidados j\u00e1 se encontram no p\u00e1tio.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Seu cavalo fez um desvio.<\/p>\n<p>TERCEIRO ASSASSINO \u2014 Quase de uma milha. Mas, como todos, ele comumente vai a p\u00e9 deste ponto at\u00e9 o pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Uma luz! Uma luz!<\/p>\n<p>TERCEIRO ASSASSINO \u2014 \u00c9 ele.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 \u00c9 agora<\/p>\n<p>(<i>Entram Banquo e Pleance, com uma tocha.<\/i>)<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Vai chover hoje \u00e0 noite.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Ent\u00e3o que caia. (<i>Atiram-se sobre Banquo.<\/i>)<\/p>\n<p>BANQUO \u2014 Oh! trai\u00e7\u00e3o! Foge, foge, bom Fleance! Podes vingar-me. Foge! Que bandido! (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p>TERCEIRO ASSASSINO \u2014 Quem apagou a luz?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o era o certo?<\/p>\n<p>TERCEIRO ASSASSINO \u2014 Um, somente, caiu, o filho foi-se.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Metade, ent\u00e3o, perdemos do trabalho.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Bem; mas vamos contar quanto foi feito.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c4\" name=\"at3c4\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Um sal\u00e3o do pal\u00e1cio. Mesa posta para banquete. Entram Macbeth, lady Macbeth, Ross, Lennox, nobres e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Conheceis vossos postos; assentai-vos. E de uma vez por todas: sois bem-vindos de todo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>NOBRES \u2014 Agradecemos a Vossa Majestade.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Desejamos misturar-nos em vossa companhia, na qualidade de h\u00f3spede modesto. Nossa hospedeira fica no seu posto; mas no momento certo lhe daremos as boas-vindas.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Dai-a em meu nome, caro marido, a todos os amigos; pois diz-me o cora\u00e7\u00e3o que s\u00e3o bem-vindos.<\/p>\n<p>(<i>O primeiro assassino aparece \u00e0 porta.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 V\u00ea, todos eles agradecimentos de cora\u00e7\u00e3o te enviam. Os dois lados est\u00e3o iguais; sentar-me-ei no centro. Ficai alegres; logo beberemos uma rodada. (<i>Aproxima-se da porta.<\/i>) Sangue tens no rosto.<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 Nesse caso, \u00e9 de Banquo.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Antes por fora de ti que dentro dele. Liquidados?<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 A garganta, senhor, tem ele aberta. Fiz-lhe isso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 \u00c9s o melhor dos cortadores de garganta. Por\u00e9m ser\u00e1 t\u00e3o h\u00e1bil quem tiver feito a Fleance a mesma coisa.<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 Meu muito real senhor, Fleance escapou.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Volta-me, ent\u00e3o, o acesso. N\u00e3o fora isso, e eu estaria bom, firme qual rocha, inteiro como o m\u00e1rmore, t\u00e3o largo, t\u00e3o vasto e universal como o ar ambiente. Mas agora estou preso, barricado, metido num curral, atado ao poste do medo das ang\u00fastias insolentes. Mas Banquo est\u00e1 seguro?<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 Sim, milorde; no fundo de uma vala, tendo vinte feridas na cabe\u00e7a, das quais uma qualquer j\u00e1 fora mais que suficiente.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Obrigado por isso. A velha serpe j\u00e1 se encontra vencida; o vermezinho que conseguiu fugir tem natureza para mais tarde produzir veneno, mas carece de dentes por enquanto. Vai-te logo; amanh\u00e3 conversaremos.<\/p>\n<p>(<i>Sai o assassino.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Meu real senhor, n\u00e3o animais os h\u00f3spedes. Fica estragada a festa, quando muitas e muitas vezes, enquanto ela dura, n\u00e3o afirmamos quanto nos \u00e9 grata. Para comer, t\u00eam todos suas casas; o tempero melhor em casa alheia \u00e9 sempre a cortesia, parecendo sem ela as reuni\u00f5es lugar deserto.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Galante conselheira! Que \u00e0 alegria da mesa a digest\u00e3o venha associar-se. \u00c0 sa\u00fade das duas!<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Vossa Alteza n\u00e3o querer\u00e1 sentar-se?<\/p>\n<p>(<i>Entra o fantasma de Banquo e se senta no lugar de Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Nosso teto abrigaria agora as honras todas da na\u00e7\u00e3o, se a pessoa primorosa de Banquo aqui estivesse, a quem desejo antes ter de ralhar por faltazinha que lastimar qualquer desastre grave.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Sua aus\u00eancia, senhor, manchou a promessa por ele feita. Queira Vossa Gra\u00e7a distinguir-nos com vossa real presen\u00e7a.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 A mesa est\u00e1 completa.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Aqui, milorde, h\u00e1 um lugar reservado.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Onde?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Aqui mesmo, meu bom senhor. Que \u00e9 que vos abala dessa maneira?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Qual de v\u00f3s fez isso?<\/p>\n<p>NOBRES \u2014 Fez qu\u00ea, meu bom senhor?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Dizer n\u00e3o podes que fui eu que fiz isso. N\u00e3o sacudas para mim teu cabelo ensang\u00fcentado.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Levantai-vos, senhores; Sua Alteza est\u00e1 passando mal.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Ficai, amigos; meu marido \u00e9 assim mesmo desde crian\u00e7a. Sentai-vos, por obs\u00e9quio; o acesso passa. Se aten\u00e7\u00e3o lhe prestardes, insistente, podereis ofend\u00ea-lo, contribuindo para agravar o mal. Comei, portanto, sem olhardes para ele. \u2014 N\u00e3o sois homem?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Sim, corajoso, que se atreveria a encarar o que espanta o pr\u00f3prio diabo.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Que mat\u00e9ria admir\u00e1vel! \u00c9 o produto do medo, apenas; \u00e9 o punhal a\u00e9reo que \u2014 dissestes \u2014 a Duncan vos levara. Esse olhar espantado, esses tremores que o verdadeiro medo parodiam, muito bem estariam numa hist\u00f3ria que uma mulher contasse ao p\u00e9 do fogo com a aprova\u00e7\u00e3o da av\u00f3. Envergonhai-vos! Por que tantas caretas? Feita a conta, s\u00f3 olhais uma cadeira.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vede ali, por favor! Olhai! Olhai! Que me dissestes? Ora, que me importa. Se sacudir consegues a cabe\u00e7a, \u00e9 que podes falar. Se as sepulturas e as carneiras os mortos nos reenviam que nelas enterramos, das entranhas dos abutres faremos nossos t\u00famulos.<\/p>\n<p>(<i>O fantasma desaparece.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Qu\u00ea! Desvirilizou-vos a loucura?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 T\u00e3o certo como achar-me aqui, eu o vi.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Fora, fora! Que opr\u00f3brio!<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Derramado muito sangue j\u00e1 foi, nos velhos tempos, antes que a humana lei limpado houvesse o mundo dos pag\u00e3os, sim, e at\u00e9 mesmo depois t\u00eam sido perpetrados crimes terr\u00edveis de se ouvir. J\u00e1 houve tempo em que, saltado o c\u00e9rebro, morria de vez algu\u00e9m e&#8230; tudo estava feito. Mas os mortos, agora, se levantam com vinte fatais golpes na cabe\u00e7a e de nossas cadeiras nos empurram. E mais estranho do que o pr\u00f3prio crime.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Vossos nobres amigos, caro esposo, j\u00e1 sentem vossa a aus\u00eancia.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 \u00c9 que o esquecera&#8230; Caros amigos, n\u00e3o fiqueis pasmados. pois sofro h\u00e1 muito de uma doen\u00e7a estranha, que nada significa para quantos me conhecem de perto. Vinde; a todos, amizade e sa\u00fade. Vou sentar-me. Dai-me vinho. Bem cheio; beber quero \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 alegria dos presentes e \u00e0 do nosso querido amigo Banquo, que n\u00e3o est\u00e1 conosco. Oh! se estivesse! A todos! Ao ausente! Tudo a todos!<\/p>\n<p>TODOS \u2014 Com lealdade homenagem vos prestamos.<\/p>\n<p>(<i>Volta ao fantasma.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Fora, fora de minha vista! Esconda-te a terra! Os ossos tens sem vida alguma; enregelado o sangue. N\u00e3o tens vista nesses olhos que tanto resplandecem.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 N\u00e3o vejais, nobres pares, em tudo isso sen\u00e3o algo habitual. N\u00e3o \u00e9 outra coisa. Apenas nos estraga a festa de hoje.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 O que o homem ousa eu ouso. Tal qual h\u00edspido urso da R\u00fassia vem para o meu lado, rinoceronte encoura\u00e7ado, tigre da Hirc\u00e2nia. Assume qualquer forma, menos essa; nenhuma os nervos firmes conseguir\u00e1 abalar-me. Ou torna \u00e0 vida e, de espada na m\u00e3o, me lan\u00e7a um repto para um lugar deserto. Acontecendo que a tremer eu me mostre, de menino me acoima ou rapariga. Pavorosa sombra, fora daqui! Caricatura fingida, fora! fora! (<i>O fantasma desaparece.<\/i>) Bem, agora que sumiste, me sinto outra vez homem. Por obs\u00e9quio, sentai-vos.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Expulsastes a alegria, estragastes o conv\u00edvio com esse desarranjo mais que ins\u00f3lito.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Podem dar-se tais coisas e envolver-nos como nuvem de Outono, sem que o espanto mais alto nos provoque? Assim, fazeis-me duvidar de mim pr\u00f3prio, quando vejo que encarais tais vis\u00f5es, sem que das faces se vos altere o natural rosado, enquanto eu fico p\u00e1lido de medo.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Que vis\u00f5es, meu senhor?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 N\u00e3o, por obs\u00e9quio, n\u00e3o lhe faleis. Est\u00e1 piorando muito. As perguntas o deixam mais furioso. Boa noite para todos. A sa\u00edda n\u00e3o vos preocupe a ordem. Ide logo, sem outras cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Boa noite; muitas melhoras para Sua Alteza.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Uma noite tranq\u00fcila para todos<\/p>\n<p>(<i>Saem os nobres e as pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Afirmam todos que isso chama sangue; o sangue chama sangue. As pedras podem mover-se, j\u00e1 foi visto, e falar a \u00e1rvore. Os \u00e1ugures e ocultas rela\u00e7\u00f5es j\u00e1 conseguiram pela voz das gralhas, pegas e corvos descobrir os crimes de sangue mais ocultos. Em que ponto se encontra a noite?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 A competir com o dia, sem que se saiba qual vantagens tenha.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Que dizes de Macduff ter recusado nosso invite solene?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Acaso enviastes-lhe, senhor, algum recado?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Casualmente soube disso; mas vou mandar-lhe um pr\u00f3prio. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em cuja casa eu deixe de ter algum espia. Amanh\u00e3 mesmo, bem cedinho, vou ver as irm\u00e3s bruxas. Ter\u00e3o de falar mais alguma coisa, pois estou decidido a saber tudo pelos piores meios. Para minha salva\u00e7\u00e3o tudo tem de abrir caminho. A tal ponto atolado estou no sangue que, esteja onde estiver, t\u00e3o imprudente ser\u00e1 recuar como seguir \u00e0 frente. Tenho em mente uma id\u00e9ia pervertida, que urge concretizar numa investida.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Careceis do que \u00e0 vida \u00e9 grato: sono.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vamos dormir; minha ilus\u00e3o selvagem \u00e9 muito nova; falta-lhe coragem. Somos mo\u00e7os demais.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c5\" name=\"at3c5\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>A charneca. Trov\u00e3o. Entram as tr\u00eas bruxas, que encontram H\u00e9cate.<\/i><\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 H\u00e9cate, que houve? Pareceis zangada.<\/p>\n<p>H\u00c9CATE \u2014 Causa n\u00e3o tenho, feiticeiras? Qual a raz\u00e3o, bisbilhoteiras, de ser Macbeth neste neg\u00f3cio de morte e enigmas vosso s\u00f3cio, enquanto eu, dona de v\u00f3s todas, que apresto sempre as negras bodas, n\u00e3o fui chamada a tomar parte no brilho e gl\u00f3ria de nossa arte? E o que \u00e9 pior: quanto fizestes a tudo vos mostrando prestes, foi para um tipo truculento de mui grosseiro acabamento. que n\u00e3o vos tem nenhuma estima e s\u00f3 de ego\u00edsmo em tudo prima. Mas emendai-vos; e defronte do fundo charco do Aqueronte amanh\u00e3 cedo ide encontrar-me, que ele em estado est\u00e1 de alarme, e para l\u00e1, quase sem tino, ir\u00e1 saber de seu destino. Vasos e encantos tende \u00e0 m\u00e3o; de tudo basta provis\u00e3o. Para o ar me vou; na noite escura farei bem cedo uma a\u00e7\u00e3o dura. De uma grande obra a fantasia ser\u00e1 completa enquanto \u00e9 dia. Ora uma gota espessa e crua dos cornos pende ali da lua. Vou apanh\u00e1-la antes que caia, pois, destilada, de atalaia g\u00eanios por\u00e1 de tanto alcance que, por sua for\u00e7a, ele se lance na destrui\u00e7\u00e3o, \u00e0 morte e ao fado a resistir qual renegado, pondo a esperan\u00e7a acima em tudo da pr\u00f3pria gra\u00e7a e o medo agudo. Para os mortais a seguran\u00e7a \u00e9 o imigo mor, que jamais cansa. (<i>Can\u00e7\u00e3o dentro: \u201cVinde, vinde,\u201d etc.<\/i>) Chamam-me; \u00e9 meu esp\u00edrito travesso que me aguarda das nuvens num cabe\u00e7o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Apressemo-nos; ela volta logo.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c6\" name=\"at3c6\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Forres. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Lennox e outro nobre.<\/i><\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Meu discurso anterior s\u00f3 mui de leve tocou em vossos pensamentos, sendo-vos agora facultado interpret\u00e1-lo como vos aprouver. Direi somente que tudo se passou por modo estranho. Por Macbeth foi chorado o meigo Duncan. Que pena! Estava morto. Muito tarde saiu de casa o nosso bravo Banquo, que, podereis dizer, se assim quiserdes, Fleance matou, pois Fleance fugiu logo. \u00c9 perigoso passear de noite. A quem n\u00e3o ocorreu o pensamento de qu\u00e3o monstruoso foi haver Malcolm e Donalbain o pai assassinado? Que a\u00e7\u00e3o maldita! E como entristecido deixou Macbeth! Pois ele, na mesma hora, arrebatado de um furor piedoso, em peda\u00e7os n\u00e3o fez os dois fac\u00ednoras, servos do sono e escravos da bebida? N\u00e3o foi nobre tudo isso? E foi prudente. Pais qualquer cora\u00e7\u00e3o se tornaria por demais irritado, quando os homens negar ouvisse o fato. Assim, vos digo, soube fazer a coisa, como penso que se ele vier a ter sob chave os filhos de Duncan \u2014 o que nunca, Deus louvado, chegar\u00e1 a conseguir \u2014 h\u00e3o de ver ambos o que \u00e9 matar o pai. E o mesmo, Fleance. Mas, sil\u00eancio! Por causa de palavras um tanto livres e por ter faltado \u00e0 festa do tirano, soube h\u00e1 pouco que em desgra\u00e7a Macduff agora vive. Caro senhor, dizer-me poder\u00edeis em que lugar ele encontrou abrigo?<\/p>\n<p>NOBRE \u2014 Na corte da Inglaterra vive o filho de Duncan, cuja heran\u00e7a verdadeira o tirano ret\u00e9m, e \u00e9 recebido pelo piedoso Eduardo com tal gra\u00e7a que a m\u00e1 vontade da fortuna em nada do alto respeito merecido o priva. Para l\u00e1 foi Macduff, a fim de ao santo rei suplicar aux\u00edlio, no sentido de estimular Northumberland e o bravo Siward, e assim, com a ajuda desses nobres \u2014 confirmando l\u00e1 do alto Deus tudo isso \u2014 possamos restituir a nossas mesas os alimentos, sono a nossas noites, livrar nossos festejos e banquetes das facas sanguin\u00e1rias, homenagens da lei prestar e receber as honras a que temos direito, coisas essas que nos faltam de todo. Essa not\u00edcia exasperou o rei de tal maneira que aprontando se est\u00e1 para uma guerra.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Mandou ele a Macduff algum recado?<\/p>\n<p>NOBRE \u2014 Mandou; por\u00e9m o mensageiro turvo com um resoluto \u201cEu n\u00e3o, senhor!\u201d as costas voltou-me decidido, resmungando, como quem diz: \u201cHaveis de arrepender-vos do tempo que me imp\u00f5e essa resposta\u201d.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Que isso o ensine a ser cauto, conservando-se a dist\u00e2ncia que possa aconselh\u00e1-lo sua sabedoria. Se um santo anjo fosse \u00e0 Inglaterra e desse o seu recado antes de ele chegar, para que pronta b\u00ean\u00e7\u00e3o se espalhe logo em nossa p\u00e1tria que geme ao peso dessa m\u00e3o maldita!<\/p>\n<p>NOBRE \u2014 Mandaria com ele minhas preces.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<div>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Uma caverna. No meio, um caldeir\u00e3o a ferver. Trov\u00e3o. Entram as tr\u00eas bruxas.<\/i><\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Gato malhado j\u00e1 miou tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Tr\u00eas e mais uma j\u00e1 guinchou o ouri\u00e7o.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 A harpia j\u00e1 gritou: \u201c\u00c9 hora! \u00c9 hora!\u201d<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Atirai no caldeir\u00e3o entranhas em podrid\u00e3o. Os sapos das pedras frias que durante trinta e um dias suaram seu bom bocado, jogai no pote encantado.<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Mais dores para a barrela. mais fogo para a panela.<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Lombo de cobra novinha atirai no pote asinha, p\u00e9 de sapo e lagartixa, de c\u00e3o a l\u00edngua que espicha, p\u00ealos brandos de morcego, asa de bufo-sossego, de lagarto a perna fina, ac\u00faleo de colubrina jogai na sopa do mal nesta mistura infernal.<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Mais dores para a barrela, mais fogo para a panela.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Tr\u00eas escamas de drag\u00e3o, com bucho de tubar\u00e3o que os mareantes intimida; cicuta \u00e0 noite colhida, bofes de um judeu malvado, ramo de teixo tirado em noite de muito escuro; bei\u00e7o de t\u00e1rtaro, o duro nariz de turco, o dedinho de uma crian\u00e7a sem linho que matado a m\u00e3e houvesse sem dizer nenhuma prece. Deixai bem forte a mistura; juntai do tigre a fressura, porque nosso caldeir\u00e3o tenha caldo em profus\u00e3o.<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Mais dores para a barrela, mais fogo para a panela.<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Esfriai com sangue de mico que o encanto ficar\u00e1 rico.<\/p>\n<p>(<i>Entra H\u00e9cate.<\/i>)<\/p>\n<p>H\u00c9CATE \u2014 Muito bem feito; seu quinh\u00e3o todas por isto ainda ter\u00e3o. Agora como elfos e fadas cantai \u00e0 volta, de m\u00e3os dadas, para que o encanto se complete.<\/p>\n<p>(<i>M\u00fasica e a can\u00e7\u00e3o \u201cEsp\u00edritos negros\u201d etc.<\/i>)<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Meu ded\u00e3o est\u00e1 co\u00e7ando. Vem algum patife andando. Ferrolhos, fora! Estamos na hora.<\/p>\n<p>(<i>Entra Macbeth<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Que fazeis, misteriosas e sombrias bruxas de meia-noite?<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Algo sem nome.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Conjuro-vos por vosso pr\u00f3prio of\u00edcio, seja qual for sua origem: respondei-me. Mesmo que os ventos a soltar vi\u00e9sseis, jogando-os contra as torres das igrejas; mesmo que as ondas escumantes venham a destruir os navios e a trag\u00e1-los; ainda que o trigo verde caia todo e as \u00e1rvores se vejam derrubadas; embora o cimo dos castelos caia na cabe\u00e7a dos guardas, e as pir\u00e2mides e os pal\u00e1cios os picos altanados nivelem com suas bases; muito embora venha a desmoronar todo o tesouro dos germes da natura, de tal modo que a pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o se mostre farta: respondei \u00e0s perguntas que vos fa\u00e7o.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Fala.<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 Pergunta.<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 Vamos responder-te.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Que preferes: ouvir de nossas bocas ou da de nossos mestres?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Invocai-os; desejo v\u00ea-los.<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 Sangue de porca, ent\u00e3o, nesse fogo atira, que comesse seus nove filhos, gordura de uma corda bem segura, de que pendesse, enforcado, um suicida amaldi\u00e7oado.<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Mostra agora que \u00e9s ousado.<\/p>\n<p>(<i>Trov\u00e3o. Primeira apari\u00e7\u00e3o: uma cabe\u00e7a, armada de capacete.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ouve-me, for\u00e7a ignota&#8230;<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 N\u00e3o prossigas. Sabe o que pensas. Ouve e nada digas.<\/p>\n<p>PRIMEIRA APARI\u00c7\u00c3O \u2014 Macbeth, Macbeth, Macbeth! Toma cuidado com Macduff, acautela-te com o thane de Fife! Desobriga-me; \u00e9 o bastante.<\/p>\n<p>(<i>Desce.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quem quer que sejas, fico-te obrigado pela boa advert\u00eancia. Isso concorda com meus receios. Mais uma palavra&#8230;<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 N\u00e3o aceita injun\u00e7\u00f5es. Eis que vem outro ainda mais forte que ele.<\/p>\n<p>(<i>Trov\u00f5es. Segunda apari\u00e7\u00e3o: uma crian\u00e7a ensang\u00fcentada.<\/i>)<\/p>\n<p>SEGUNDA APARI\u00c7\u00c3O \u2014 Macbeth, Macbeth, Macbeth!<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se tr\u00eas ouvidos tivesse, te ouviria.<\/p>\n<p>SEGUNDA APARI\u00c7\u00c3O \u2014 Sanguin\u00e1rio s\u00ea sempre, ousado e resoluto, e aprende a rir do homem, porque ningu\u00e9m nascido de mulher poder\u00e1, em nenhum tempo, fazer mal a Macbeth.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ent\u00e3o, Macduff, podes viver. Por que de ti recear-me? Contudo, quero a seguran\u00e7a em dobro segurar, e penhor obter do fado. Vivo n\u00e3o ficar\u00e1s, para que eu possa dizer que mente o medo de alma p\u00e1lida e, apesar dos trov\u00f5es, dormir tranq\u00fcilo. (<i>Trov\u00e3o. Terceira apari\u00e7\u00e3o: uma crian\u00e7a coroada, com uma \u00e1rvore na m\u00e3o.<\/i>) Quem \u00e9 que surge como descendente de um soberano e na infantil cabe\u00e7a traz o fecho e diadema do comando?<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Escuta s\u00f3; n\u00e3o fales.<\/p>\n<p>TERCEIRA APARI\u00c7\u00c3O \u2014 Veste a for\u00e7a do le\u00e3o, s\u00ea orgulhoso e n\u00e3o te importes com quem quer que resmungue ou se rebele, ou contra ti conspire, pois vencido n\u00e3o h\u00e1 de ser Macbeth, enquanto o grande bosque de Birnam n\u00e3o subir contra ele ao alto Dunsinane. (<i>Desce.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Jamais isso poder\u00e1 dar-se, pois quem tem poderes para a floresta armar e dizer \u00e0 \u00e1rvore que liberte a raiz fixa na terra? \u00d3timo ind\u00edcio! Belo! N\u00e3o eleves, rebeli\u00e3o, a cabe\u00e7a sem que o bosque de Birnam se levante, e assim o nosso grande Macbeth h\u00e1 de chegar ao termo da natureza at\u00e9 ao alento extremo, segundo o mortal uso. Mas agita-me o cora\u00e7\u00e3o esta fatal pergunta: Dizei-me \u2014 se vossa arte chega a tanto \u2014 alcan\u00e7ar\u00e3o um dia os descendentes de Banquo o trono e o cetro deste reino?<\/p>\n<p>TODAS \u2014 N\u00e3o queiras saber mais.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o; \u00e9 preciso satisfazer-me. Se n\u00e3o me fizerdes esta vontade, apenas, que uma eterna maldi\u00e7\u00e3o vos destrua. Saber quero. Par que este caldeir\u00e3o est\u00e1 afundando? E que barulho \u00e9 esse?<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 V\u00ea!<\/p>\n<p>SEGUNDA BRUXA \u2014 V\u00ea!<\/p>\n<p>TERCEIRA BRUXA \u2014 V\u00ea!<\/p>\n<p>TODAS \u2014 Mostrai-vos como vis\u00e3o, angustiai-lhe o cora\u00e7\u00e3o, aparecendo qual sombra, para sumir pela alfombra.<\/p>\n<p>(<i>Aparece uma seq\u00fc\u00eancia de oito reis, tendo o \u00faltimo um espelho na m\u00e3o; segue-o o fantasma de Banquo.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Pareces muito o esp\u00edrito de Banquo. Desce! Tua coroa cauteriza-me os olhos; teus cabelos \u2014 tu, uma outra fronte de ouro cingida \u2014 se parecem com os do primeiro, tal como o terceiro que se lhe segue. Bruxas repugnantes, por que me mostrais isto? Outro! \u00c9 o quarto! Olhos, estarrecei. Como! esta linha se estender\u00e1 at\u00e9 ao fim do mundo? Mais um, ainda? o s\u00e9timo? N\u00e3o quero ver mais nada; por\u00e9m eis que surge o \u00faltimo com um espelho na m\u00e3o, que muitos outros, ainda, me revelam. Uns distingo com duplo globo e cetro triplicado. Pavorosa vis\u00e3o! Agora vejo que \u00e9 verdade, pois Banquo, recoberto de sangue, me sorri e mos indica, como se filhos dele fossem todos. (<i>As vis\u00f5es desaparecem.<\/i>) Como! \u00c9 assim!<\/p>\n<p>PRIMEIRA BRUXA \u2014 \u00c9 assim mesmo. Mas por que Macbeth treme do que v\u00ea? Manas, ele desvaria; infundamos-lhe alegria, revelando de nossa arte a mais sedutora parte. No ar porei muitos encantos. enchendo-o de sons e cantos, enquanto v\u00f3s a rodada deixareis bem acabada, para que este rei potente conosco fique contente.<\/p>\n<p>(<i>M\u00fasica. As bruxas dan\u00e7am, desaparecendo depois, com H\u00e9cate.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Onde est\u00e3o? J\u00e1 se foram? Que maldita se torne sempre esta hora perniciosa no calend\u00e1rio. \u2014 Entrai! Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>(<i>Entra Lennox.<\/i>)<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Que quer Vossa Grandeza?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Acaso vistes as irm\u00e3s feiticeiras?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 N\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Infectado seja o ar em que cavalgam e maldito quem quer que lhes d\u00ea cr\u00e9dito. H\u00e1 pouco ouvi barulho de cavalo. Chegou algu\u00e9m?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Sim; dois ou tr\u00eas correios, milorde, que a not\u00edcia vos trouxeram de que Macduff fugiu para a Inglaterra.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Para a Inglaterra!<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Sim, senhor bondoso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 \u00d3 tempo! antecipaste-te a meus atos assustadores! Nunca alcan\u00e7aremos a inten\u00e7\u00e3o fugitiva, se com ela n\u00e3o fizemos seguir o ato expedito. Doravante ser-me-\u00e3o os primog\u00eanitos do cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m os primog\u00eanitos do bra\u00e7o. E agora mesmo, porque fiquem coroadas as a\u00e7\u00f5es com os pensamentos, em pr\u00e1tica ponhamos essa id\u00e9ia. Vou surpreender o burgo de Macduff, de Fife apoderar-me, sua esposa passar \u00e0 espada, os filhos e, assim, todas as almas desgra\u00e7adas de sua ra\u00e7a. Amea\u00e7as n\u00e3o farei qual um demente; dobra-se o ferro enquanto ele est\u00e1 quente. Basta de apari\u00e7\u00f5es. \u00c9 os tais senhores, onde se encontram? Conduzi-me a eles.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c2\" name=\"at4c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Fife. Castelo de Macduff. Entram lady Macduff, seu filho e Ross.<\/i><\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Que fez, para exilar-se assim de s\u00fabito?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Precisais ser paciente, nobre dama.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ele o n\u00e3o foi. Loucura foi a fuga; quando n\u00e3o pelos atos, pelo medo nos mostramos traidores.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 N\u00e3o sabemos se o medo h\u00e1 nisso parte ou s\u00f3 prud\u00eancia.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Prud\u00eancia? Abandonar a esposa e os filhos, a casa, as dignidades, numa parte de onde ele mesmo foge? N\u00e3o nos ama; n\u00e3o possui cora\u00e7\u00e3o. A carricinha \u2014 dos passarinhos o de menor porte \u2014 em defesa da prole no seu ninho briga com a coruja. O medo \u00e9 tudo, nada o amor, e a prud\u00eancia \u00e9 coisa alguma numa fuga assim fora de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Querida prima, sede moderada, por obs\u00e9quio, pois vosso esposo \u00e9 s\u00e1bio, nobre, sensato e, mais do que n\u00f3s todos, conhece as injun\u00e7\u00f5es do nosso tempo. N\u00e3o me atrevo a falar mais claramente, mas cruel \u00e9 o tempo em que traidores somos sem o sabermos, quando ouvimos boatos sobre o que receamos, sem sabermos o que nos faz ter medo, desgarrados vamos num mar violento e tempestuoso, sem dire\u00e7\u00e3o alguma. Bem, despe\u00e7o-me. Dentro de pouco aqui estarei de volta. As coisas, quando o ponto pior atingem, ou a\u00ed param, ou de novo sobem para onde antes estavam. Lindo primo, que Deus vos aben\u00e7oe.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ainda tem pai; no entanto, \u00e9 como se j\u00e1 n\u00e3o tivesse.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Revelo-me insensato; se mais tempo ficasse aqui, podia desgra\u00e7ar-me, sobre prejudicar-vos. Bem, despe\u00e7o-me definitivamente.<\/p>\n<p>(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ol\u00e1, menino, vosso pai est\u00e1 morto. Que destino tereis agora? Como vivereis?<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Como os p\u00e1ssaros, m\u00e3e.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Como! De vermes e de mosquitos?<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 N\u00e3o; do que encontrar, foi o que eu quis dizer; como eles fazem.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Pobre bichinho! Nunca ter\u00e1s medo de la\u00e7o, m\u00e1quina e armadilha.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Medo por qu\u00ea? N\u00e3o foi tudo isso feito para os p\u00e1ssaros pobres. Ainda vive meu paizinho, apesar do que dissestes.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 N\u00e3o, morreu. Como vais fazer agora para arranjar um pai?<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 De que maneira fareis, tamb\u00e9m, para arranjar marido?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ora, em qualquer mercado compro vinte.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Ent\u00e3o os comprareis para vend\u00ea-los?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Falas com muito esp\u00edrito e, de fato, bastante para a idade.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 M\u00e3e, meu pai foi um traidor?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Sim, \u00e9 o que ele foi.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Que \u00e9 um traidor?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ora, \u00e9 toda pessoa que jura e mente.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Todos os que fazem isso s\u00e3o traidores?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Quem quer que assim proceda, \u00e9 traidor e merece ser enforcado.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 E precisam ser enforcadas todas as pessoas que juram e mentem?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Todas.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 E quem \u00e9 que as enforca?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Ora, os homens de bem.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Ent\u00e3o os mentirosos e os que juram n\u00e3o passar\u00e3o de grande tolos, pois h\u00e1 mentirosos e jurados bastantes para darem nos homens de bem e para os enforcarem.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Que Deus te ajude agora, macaquinho. Mas, como far\u00e1s para arranjar outro pai?<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Se ele tivesse morrido, haver\u00edeis de chorar a morte dele. Se o n\u00e3o fiz\u00e9sseis, seria sinal certo de que eu logo iria ter novo pai.<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Pobre tagarela, como sabes falar!<\/p>\n<p>(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Formosa dama, Deus vos aben\u00e7oe. N\u00e3o sabeis quem eu sou, conquanto eu saiba tudo o que se refere ao vosso estado. Temo que algum perigo esteja prestes a vos tocar. No caso de aceitardes o conselho de um homem t\u00e3o singelo, n\u00e3o vos deixeis ser encontrada aqui. Fugi com vossos filhos. Estou certo de que, atemorizando-vos, procedo como selvagem; mas ser mais expl\u00edcito fora crueldade b\u00e1rbara, que muito perto de v\u00f3s j\u00e1 se acha. O c\u00e9u vos guarde. N\u00e3o me atrevo a ficar aqui mais tempo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 Para onde hei de fugir? Nunca fiz mal. Mas agora me ocorre que me encontro neste mundo terreno, onde \u00e9 louv\u00e1vel fazer o mal, \u00e0s vezes, e, por vezes, o bem fazer \u00e9 ins\u00e2nia perigosa. Par que valer-me, ent\u00e3o, dessa defesa feminina, dizendo simplesmente que n\u00e3o fiz mal? (<i>Entram assassinos.<\/i>) Que caras ser\u00e3o essas?<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 Onde est\u00e1 vosso esposo?<\/p>\n<p>LADY MACDUFF \u2014 N\u00e3o h\u00e1 de estar, espero-o, em nenhum ponto t\u00e3o profano que possa ser achado por tipos como tu.<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 \u00c9 um traidor.<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Mentes, peludo!<\/p>\n<p>ASSASSINO \u2014 Como, esp\u00e9cie de Ovo? Filhinho da trai\u00e7\u00e3o! (<i>Apunhala-o.<\/i>)<\/p>\n<p>O FILHO \u2014 Ele matou-me, m\u00e3e. Fugi, sem demora. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Lady Macduff sai gritando \u201cAssass\u00ednio!\u201d perseguida pelos assassinos.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c3\" name=\"at4c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Inglaterra. Diante do pal\u00e1cio do rei. Entram Malcolm e Macduff<\/i><\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Busquemos uma sombra desolada para desafogar os tristes peitos, chorando seus pesares.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 N\u00e3o! Saquemos da espada cortadora e, como bravos, amparar procuremos nossa p\u00e1tria que amea\u00e7a desabar. Novas vi\u00favas, cada manh\u00e3, ululam; novos \u00f3rf\u00e3os solu\u00e7am; novas dores no c\u00e9u batem, que ressoa tal como se sofresse juntamente com a Esc\u00f3cia e as mesmas s\u00edlabas emitisse de dor.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Chorar s\u00f3 hei de sobre o que creio; creio o que conhe\u00e7o, e assim que o tempo se mostrar amigo, estando em mim fazer alguma coisa tornando-se-me o tempo favor\u00e1vel, farei o que puder. O que dissestes, talvez seja verdade. Esse tirano, cujo nome, t\u00e3o-s\u00f3, nos deixa a l\u00edngua coberta de feridas, como honesto j\u00e1 foi considerado. V\u00f3s o amastes. Atingido por ele ainda n\u00e3o fostes. Sou mo\u00e7o; mas por mim talvez pud\u00e9sseis torn\u00e1-lo vosso devedor. A ast\u00facia manda sacrificar um cordeirinho pobre, inocente e fraco, para a c\u00f3lera propiciar de um deus.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 N\u00e3o sou traidor.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Mas traidor \u00e9 Macbeth. Pode dobrar-se uma leal natureza e em tudo boa ante uma imperial ordem. Mas preciso que me perdoeis; modificar n\u00e3o posso com o pensamento o que realmente sois. Os anjos ainda brilham, muito embora tenha ca\u00eddo o mais brilhante deles. Se as fei\u00e7\u00f5es da virtude os v\u00edcios todos a assumir viessem, ela nem por isso deixaria de ter o mesmo aspecto.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 J\u00e1 perdi a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Porventura no mesmo ponto em que achar fui a d\u00favida. Par que raz\u00e3o deixastes, t\u00e3o de s\u00fabito e sem vos despedir, a esposa e os filhos, esses caros penhores, elos fortes do verdadeiro amo? Nessas suspeitas n\u00e3o vejais, por obs\u00e9quio, mancha alguma que vos possa atingir, mas t\u00e3o-somente minha tranq\u00fcilidade. Mui sincero podereis ser, pense eu o que pensar.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Sangra, ent\u00e3o, grande p\u00e1tria. Poderosa tirania, refor\u00e7a tua base, porque a virtude contra ti n\u00e3o se al\u00e7a. Carrega o roubo, pois o teu direito j\u00e1 viste confirmado. Adeus, milorde; ser n\u00e3o quero o vil\u00e3o que ora imaginas, nem por todas as terras que nas garras se encontram do tirano, acrescentadas das riquezas do Oriente.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Ofensa alguma desejara fazer-vos. N\u00e3o por medo absoluto de v\u00f3s assim me exprimo penso que nossa p\u00e1tria sob o jugo sucumbe do tirano; chora e sangra, vendo aumentar-lhe cada dia as chagas uma ferida nova. Sei que muitas m\u00e3os se levantariam na defesa de meus direitos, e aqui mesmo acaba de ofertar-me a Inglaterra generosa alguns milhares delas. Mas, ao cabo, depois de haver pisado na cabe\u00e7a do tirano, ou de t\u00ea-la em minha espada, ficar\u00e1 minha p\u00e1tria desditosa com mais v\u00edcios do que antes, padecendo muito mais, por maneiras mais variadas do que nunca, debaixo do dom\u00ednio de quem lhe suceder.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Quem ser\u00e1 esse?<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Eu mesmo, \u00e9 claro, em quem percebo v\u00edcios enxertados t\u00e3o bem que, se algum dia a pegar vierem, at\u00e9 mesmo o negro Macbeth parecer\u00e1 nitente neve, considerando-o nossa pobre p\u00e1tria como um cordeiro, quando comparado com minha enormidade de defeitos.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Nem mesmo nas legi\u00f5es do h\u00f3rrido inferno poder-se-ia encontrar um mais completo dem\u00f4nio que a Macbeth no mal se iguale.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Concedo que ele seja sanguin\u00e1rio, l\u00fabrico, falso, enganador, avaro, violento, malicioso e com os sentidos sempre vivos a todos os pecados que possam ser nomeados; por\u00e9m fundo n\u00e3o tem, n\u00e3o pode ter, minha lasc\u00edvia. Vossas esposas, vossas filhas, vossas matronas, vossas virgens jamais h\u00e3o de deixar plena a cisterna de meus v\u00edcios, vindo a vencer minha avidez os \u00f3bices que ao meu desejo, acaso, se opuserem. Antes Macbeth que um rei com tais defeitos.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A licenciosidade \u00e9 tirania da pr\u00f3pria natureza, que bastantes tronos felizes j\u00e1 deixou vazios antes do tempo e ocasionou a queda de muitos reis. Mas n\u00e3o tenhais receio de vos apoderar do que j\u00e1 \u00e9 vosso. Podereis expans\u00e3o dar aos prazeres em toda plenitude, parecendo, no entanto, frio e, assim, burlando o mundo. Damas condescendentes n\u00e3o nos faltam. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que abrigueis abutre no \u00edntimo, que devore quantas forem entregar-se \u00e0 grandeza que pendida para elas perceberem.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Al\u00e9m disso, de minha natureza mal formada nasce avareza t\u00e3o descomedida que, vindo eu a reinar, darei a morte a muitos nobres, para despoj\u00e1-los de suas propriedades; os tesouros deste cobi\u00e7arei; deste outro, a casa. Todo aumento de bens ser-me-\u00e1 tempero para excitar-me a fome, de tal modo que farei suscitar brigas injustas entre os melhores e mais leais vassalos, para destru\u00ed-los e ficar com tudo.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A avareza penetra mais, emite ra\u00edzes mais nocivas que a lux\u00faria transit\u00f3ria do estio; foi o gl\u00e1dio que matou nossos reis. Mas pouco importa: nada temais; a Esc\u00f3cia tem recursos para saciar-vos s\u00f3 com o que for vosso. Tudo isso \u00e9 suport\u00e1vel, que as virtudes contrabalan\u00e7am tudo.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Mas \u00e9 o que eu n\u00e3o possuo! As qualidades pr\u00f3prias de um rei: justi\u00e7a, temperan\u00e7a, perseveran\u00e7a, devo\u00e7\u00e3o, piedade, coragem, destemor, magnifici\u00eancia me s\u00e3o de todo estranhas, e eu me alegro com dividir os v\u00edcios em diversas variedades, a fim de pratic\u00e1-los de todas as maneiras. Se estivesse em meu poder, atiraria logo no inferno o doce leite da conc\u00f3rdia, a paz universal deixara esfeita e confundira toda seguran\u00e7a que no mundo existisse.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Oh Esc\u00f3cia! Esc\u00f3cia!<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Se \u00e9 digno de reinar um homem desses, falai, pois sou tudo isso que vos disse.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Se \u00e9 digno de reinar? Nem de viver. \u00d3 povo miser\u00e1vel, governado por um monstro ileg\u00edtimo, de cetro cheio de sangue! Quando novamente poder\u00e1s ver teus dias de sa\u00fade, se o herdeiro mais aut\u00eantico do trono, maldito se declara, blasfemando contra sua pr\u00f3pria ra\u00e7a? Teu virtuoso pai foi um santo rei; a soberana que \u00e0 luz te deu, vivendo mais de joelhos do que de p\u00e9, matava os dias todos de sua pr\u00f3pria vida. Meus; os males que em tua pr\u00f3pria cabe\u00e7a despejaste me baniram da Esc\u00f3cia. \u00d3 cora\u00e7\u00e3o! tua esperan\u00e7a acaba neste ponto!<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Macduff, essa emo\u00e7\u00e3o em tudo nobre, nascida da pureza, a negra d\u00favida me tirou da alma e, alfim, meus pensamentos reconciliou com tua f\u00e9 sem ja\u00e7a e tua probidade. O demon\u00edaco Macbeth tem procurando por enredos desse g\u00eanero p\u00f4r-me ao seu alcance, ensinando-me, assim, a mais modesta sabedoria a desconfiar da pressa cr\u00e9dula por demais. Mas que l\u00e1 do alto juiz Deus seja entre n\u00f3s dois agora, pois desde este momento sob a tua dire\u00e7\u00e3o me coloco. Aqui renego minha autodetra\u00e7\u00e3o e abjuro todos os v\u00edcios e defeitos que em mim pr\u00f3prio lan\u00e7ara h\u00e1 pouco, como incompat\u00edveis com minha natureza. Nunca tive contacto com mulher, n\u00e3o fui perjuro mal cobicei aquilo que \u00e9 meu mesmo, jamais quebrei qualquer promessa feita, dem\u00f4nio algum tra\u00ed para seus pr\u00f3prios companheiros do inferno. Como \u00e0 vida, tenho amor \u00e0 verdade. Minha estr\u00e9ia na mentira foi esta a meu respeito. O que eu realmente sou se encontra \u00e0 tua disposi\u00e7\u00e3o e do meu pobre povo. Para auxili\u00e1-lo aqui se achava h\u00e1 pouco, no instante de chegares, o anci\u00e3o Siward com dez mil aguerridos combatentes, no ponto de partirem. Vamos juntos; que o favor da vit\u00f3ria corresponda \u00e0 justi\u00e7a de nossa discord\u00e2ncia. Por que ficais calado?<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 \u00c9 mui dif\u00edcil reconciliar eventos a um s\u00f3 tempo n\u00e3o gratos e agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>(<i>Entra um m\u00e9dico.<\/i>)<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Bem; voltaremos a falar sobre isso. Dizei-me, por obs\u00e9quio: o rei vem vindo?<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Sim, senhor; numerosos desgra\u00e7ados o aux\u00edlio dele aguardam, pois a doen\u00e7a de que padecem tem zombado da arte. Mas sua m\u00e3o \u2014 tal \u00e9 a santidade com que o c\u00e9u a dotou \u2014 vai s\u00e3os deix\u00e1-los no instante de os tocar.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Agradecido, doutor, vos fico.<\/p>\n<p>(<i>Sai o m\u00e9dico.<\/i>)<\/p>\n<p>MADCUFF \u2014 De que doen\u00e7a fala?<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Chamam-lhe o mal. Miraculoso feito realiza este bom rei, j\u00e1 presenciado v\u00e1rias vezes por mim, desde que me acho no reino da Inglaterra. De que modo consegue o c\u00e9u mover, s\u00f3 ele sabe. Mas pessoas tocadas de mol\u00e9stias estranhas, cheias de \u00falceras, trist\u00edssimo espet\u00e1culo a todos, desespero da medicina, s\u00e3s ele tem posto com lhes p\u00f4r ao pesco\u00e7o uma \u00e1urea estampa, ao tempo em que murmura santas preces. Dizem tamb\u00e9m que aos reis seus sucessores transmitir\u00e1 esse poder bendito de curas realizar. Mas al\u00e9m dessa virtude estranha, o dom possui celeste da profecia, sobre lhe cercarem o trono v\u00e1rias b\u00ean\u00e7\u00e3os que o declaram cheio de gra\u00e7as.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Olhai quem vem chegando!<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Um dos meus compatriotas; mas ainda n\u00e3o o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>(<i>Entra Ross.<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Sede aqui bem-vindo, meu sempre gentil primo.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Reconhe\u00e7o-o agora. \u00d3 Deus bondoso, afasta em tempo tudo quanto estrangeiros nos tem feito.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Am\u00e9m, senhor.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A Esc\u00f3cia continua no mesmo lugar de antes?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Pobre p\u00e1tria, revela medo at\u00e9 de conhecer-se. De nossa m\u00e3e n\u00e3o pode ser chamada, mas nossa sepultura, porque nela s\u00f3 ri ainda quem ignora tudo; os gritos e suspiros, os gemidos que os ares dilaceram, emitidos apenas s\u00e3o, sem serem percebidos. As mais violentas dores assemelham-se a emo\u00e7\u00e3o cotidiana; os dobres f\u00fanebres passam despercebidos e as pessoas de bem fenecem antes de murcharem as flores do chap\u00e9u e a vida perdem sem virem a adoecer.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Oh! rela\u00e7\u00e3o muito precisa e, no entretanto certa!<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Qual \u00e9 a \u00faltima dor?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 A que de vida tem uma hora faria ser vaiado quem viesse relat\u00e1-la; a cada instante nasce uma nova dor.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 E minha esposa, como ficou?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Ora, essa ficou bem.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 E meus filhos?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A paz de todos n\u00e3o havia o tirano ainda assaltado?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 N\u00e3o; deixei-os em paz ao despedir-me.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Sede menos avaro de palavras. Que aconteceu?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 No instante em que eu trazia para aqui essas novas que t\u00e3o fundo pesavam sobre mim, soube do boato de que bastantes homens valorosos se tinham posto em campo, o de que logo me convenci ao ver os contingentes do tirano aprestados para a luta. Eis o momento de intervirmos. Vossos olhares, l\u00e1 na Esc\u00f3cia, aprestariam soldados, levariam para a luta nossas mulheres, para porem termo \u00e0 desgra\u00e7a indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Sirva a todos de consolo saber que j\u00e1 me encontro a caminho da Esc\u00f3cia. Dez mil homens cedeu-nos a Inglaterra, comandados pelo bondoso Siward. Mais completo guerreiro e mais idoso n\u00e3o se encontra em toda a Cristandade.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Ah! se eu pudesse dar-vos not\u00edcia t\u00e3o reconfortante! Mas trouxe-vos palavras para serem uivadas no ar deserto, onde n\u00e3o possam ser percebidas por nenhum ouvido.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 A que dizem respeito? \u00c0 causa p\u00fablica? Ou trata-se, talvez, de sofrimento particular, que a um peito, apenas, toca?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Todas as almas nobres t\u00eam sua parte; mas a maior, decerto, vos pertence.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Se me pertence, n\u00e3o me priveis dela. Vamos; dai-ma depressa.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Que n\u00e3o fiquem vossos ouvidos para sempre odiando minha l\u00edngua, por ter de molest\u00e1-los com os sons mais tristes que jamais ouviram.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Hum! Presumo o que seja.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Vosso burgo foi assaltado; vossa esposa e os filhos, mortos selvagemente. Relatar-vos como se deu, o mesmo fora ao monte de ca\u00e7as abatidas vosso corpo sem vida acrescentar.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Oh c\u00e9u piedoso! N\u00e3o, homem! Levantai vosso chap\u00e9u! Dai palavras \u00e0 dor. Quando a tristeza perde a fala, sibila ao cora\u00e7\u00e3o, provocando de pronto uma explos\u00e3o.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Meus filhinhos tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Esposa, filhos, criados, tudo o que acharam.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 E eu, ausente! Tamb\u00e9m minha mulher?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 J\u00e1 vo-lo disse.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Coragem! Aprestemos o rem\u00e9dio para essa dor mortal com prepararmos nossa vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Ah! Ele n\u00e3o tem filhos! Todos os meus pequenos t\u00e3o graciosos? Dissestes \u201ctodos?\u201d Oh infernal abutre! Como! Todos? Os lindos pequerruchos juntamente com a m\u00e3e, num s\u00f3 mergulho?<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Como homem, resisti.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 \u00c9 o que farei; mas preciso tamb\u00e9m sentir como homem. N\u00e3o consigo esquecer que hajam vivido essas pessoas que t\u00e3o caras me eram. O c\u00e9u viu isso, sem que os amparasse? Depravado Macduff Por tua causa assassinados todos eles foram; por mim, que nada valho. N\u00e3o por culpas pr\u00f3prias, mas pelas minhas, t\u00e3o-somente, caiu a morte sobre as almas deles. Que o c\u00e9u lhes d\u00ea sossego.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Que seja isso a pedra de amolar de vossa espada. Fazei que a dor se vos transforme em c\u00f3lera; n\u00e3o emboteis o peito: enraivecei-o.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Como mulher, agora, poderia representar com os olhos e mostrar-me valente s\u00f3 com a l\u00edngua. \u00d3 c\u00e9u bondoso! p\u00f5e termo \u00e0s dila\u00e7\u00f5es e, face a face com o dem\u00f4nio da Esc\u00f3cia me coloca, ficando ele ao alcance de meu gl\u00e1dio: vindo a escapar, que lhe perdoe o c\u00e9u.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Viril \u00e9 essa cantiga. Vamos, vamos procurar logo o rei. Prestes se encontram nossas for\u00e7as; s\u00f3 falta despedirmo-nos. Macbeth est\u00e1 maduro para a queda, j\u00e1 tendo prestes os poderes do alto os instrumentos que h\u00e3o de sacudi-lo. Criai coragem; n\u00e3o h\u00e1 noite fria, por mais longa que seja, sem seu dia.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c1\" name=\"at5c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Dunsinane. Um quarto no castelo. Entram um m\u00e9dico e uma camareira.<\/i><\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Estive de vig\u00edlia convosco durante duas noites consecutivas, mas n\u00e3o posso descobrir ind\u00edcio de verdade em tudo o que dissestes. Quando foi que ela andou como son\u00e2mbula pela \u00faltima vez?<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Desde que Sua Majestade foi para a campanha eu a tenho visto levantar-se da cama, atirar sobre si o roup\u00e3o de dormir, abrir a escrivaninha, tira uma folha de papel, dobr\u00e1-la, escrever alguma coisa, ler o que escreveu, selar depois a folha e voltar em seguida para a cama, fazendo tudo isso, no entanto, no mais profundo sono.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 \u00c9 ind\u00edcio de uma grande perturba\u00e7\u00e3o da natureza receber os benef\u00edcios do sono e executar, simultaneamente, os atos de vig\u00edlia. Nessa inquieta\u00e7\u00e3o do sono, al\u00e9m desses passeios e de ocupa\u00e7\u00f5es concretas, n\u00e3o percebestes se, por vezes, ela dizia alguma coisa?<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Ouvi coisas, senhor, que n\u00e3o me atrevo a repetir.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 A mim podereis dizer o que ouvistes, sendo mesmo de vantagem que o fa\u00e7ais.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Nem a v\u00f3s nem a ningu\u00e9m, uma vez que n\u00e3o tenha testemunha para confirmar o que disser. (<i>Entra Lady Macbeth, com uma vela.<\/i>) Vede! A\u00ed vem ela! \u00c9 assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Como conseguiu essa luz?<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao p\u00e9 de si; s\u00e3o ordens expressas.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Como vedes, est\u00e1 com os olhos bem abertos.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 \u00c9 certo; mas os sentidos est\u00e3o fechados.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Que faz ela agora? Vede como esfrega as m\u00e3os.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 \u00c9 um gesto habitual nela, fazer como quem lava as m\u00e3os. J\u00e1 a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Aqui ainda h\u00e1 uma mancha.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Aten\u00e7\u00e3o! Est\u00e1 falando. Vou tomar nota do que ela disser, para refor\u00e7ar a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Sai, mancha amaldi\u00e7oada! Sai! Estou mandando. Um dois&#8230; Sim, j\u00e1 \u00e9 tempo de faz\u00ea-lo. O inferno \u00e9 sombrio&#8230; Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que algu\u00e9m o venha a saber, se ningu\u00e9m poder\u00e1 pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Ouvistes o que ela disse?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas m\u00e3os nunca ficar\u00e3o limpas? Basta, senhor; n\u00e3o falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Ela falou o que n\u00e3o devia, tenho certeza. S\u00f3 Deus sabe o que ela sabe.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Aqui ainda h\u00e1 odor de sangue. Todo o perfume da Ar\u00e1bia n\u00e3o conseguiria deixar cheirosa esta m\u00e3ozinha. Oh! Oh! Oh!<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Que suspiro! Tem o cora\u00e7\u00e3o por demais opresso.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Eu n\u00e3o quisera ter no peito um cora\u00e7\u00e3o assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Bem, bem, bem.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Esta doen\u00e7a ultrapassa minha arte. No entanto, conheci son\u00e2mbulos que morreram santamente em suas camas.<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Ide lavar as m\u00e3os; vesti vosso roup\u00e3o de dormir. N\u00e3o fiqueis assim t\u00e3o p\u00e1lido. Torno a dizer-vos que Banquo est\u00e1 enterrado; n\u00e3o poder\u00e1 sair da sepultura.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Tamb\u00e9m isso?<\/p>\n<p>LADY MACBETH \u2014 Para o leito! Para o leito! Est\u00e3o batendo no por t\u00e3o. Vinde, vinde! Dai-me a m\u00e3o. O que est\u00e1 feito n\u00e3o est\u00e1 por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 E agora, ela vai para o leito?<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Diretamente.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Circulam por a\u00ed terr\u00edveis boatos. feitos contra a natura sempre engendram conseq\u00fc\u00eancias doentias. As consci\u00eancias manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros. Mais de padre tem ela precis\u00e3o do que de m\u00e9dico. Deus, Deus que nos perdoe! Acompanhai-a. Deixai bem longe dela quanto possa causar-lhe qualquer dano. E ora, boa noite. Ela deixou-me o esp\u00edrito confuso e a vista absorta com tamanho abuso. Penso, mas n\u00e3o me atrevo a dizer nada.<\/p>\n<p>A CAMAREIRA \u2014 Boa noite, bom doutor.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c2\" name=\"at5c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Plan\u00edcie perto de Dunsinane. Entram com bandeiras e tambores Menteith, Caithness, Angus, Lennox e soldados<\/i><\/p>\n<p>MENTEITH \u2014 As for\u00e7as da Inglaterra j\u00e1 est\u00e3o perto. Tr\u00e1-las Malcolm, seu velho tio Siward e o valente Macduff. Arde a vingan\u00e7a neles todos, pois uma causa dessas far\u00e1 os pr\u00f3prios mortos levantarem-se para o combate atroz e sanguin\u00e1rio.<\/p>\n<p>ANGUS \u2014 Decerto vamos encontr\u00e1-los perto da floresta de Birnam; v\u00eam por l\u00e1.<\/p>\n<p>CAITHNESS \u2014 Algu\u00e9m sabe informar se Donalbain vem com o irm\u00e3o?<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Decerto n\u00e3o, senhor. Possuo a lista da nobreza toda; nela o filho se encontra do bom Siward e muitos outros mo\u00e7os ainda imberbes, que como homens estr\u00e9iam.<\/p>\n<p>MENTEITH \u2014 E, o tirano, que est\u00e1 fazendo?<\/p>\n<p>CAITHNESS \u0097 Alenta a resist\u00eancia do grande Dunsinane. Alguns murmuram que ele est\u00e1 louco; outros, que o odeiam menos, o nome d\u00e3o de f\u00faria valorosa. Mas certo \u00e9 que ele sua natureza desmanchada abarcar j\u00e1 n\u00e3o consegue no cintur\u00e3o da regra.<\/p>\n<p>ANGUS \u2014 Ele ora sente como as m\u00e3os se lhe envisgam com seus crimes secretos. A toda hora uma revolta lhe exprobra a deslealdade. Seus soldados n\u00e3o os move o amor; ordens somente cumprem. Come\u00e7ou a notar que a dignidade do t\u00edtulo de rei lhe envolve o corpo como faria a roupa de um gigante a um an\u00e3o que a roubasse.<\/p>\n<p>MENTEITH \u2014 Quem pudera censurar-lhe os sentidos, exaltados por tantos sobressaltos e recuos, quando tudo o que h\u00e1 nele se envergonha por nele se encontrar?<\/p>\n<p>CAITHNESS \u2014 Ent\u00e3o sigamos para a frente; prestemos a obedi\u00eancia pelo dever imposta. Dirijamo-nos para o m\u00e9dico desta terra doente, e, para restaurarmos nossa p\u00e1tria, derramemos com ele todo o sangue de nossas veias.<\/p>\n<p>LENNOX \u2014 Ou somente quanto bastar para orvalhar a flor bendita e afogar a ciz\u00e2nia parasita. Marchemos para Birnam.<\/p>\n<p>(<i>Saem marchando.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c3\" name=\"at5c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Dunsinane. Um quarto no castelo. Entram Macbeth, o m\u00e9dico e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Deixai de me trazer essas not\u00edcias. Que fujam todos, pois enquanto a mata de Birnam n\u00e3o chegar a Dunsinane, n\u00e3o poder\u00e1 manchar-me o frio medo. Que \u00e9 o pequeno Malcolm? Porventura n\u00e3o nasceu de mulher? Ora, os esp\u00edritos que os processos mortais mui bem conhecem, a meu respeito assim se pronunciaram: \u201cNada temas, Macbeth, pois nenhum homem nascido de mulher pode vencer-te\u201d. Fugi, portanto, miser\u00e1veis thanes, e ide associar-vos aos ingleses l\u00fabricos. Jamais se dobrar\u00e1 meu forte esp\u00edrito sob o peso da d\u00favida, nem h\u00e1 de mostrar meu cora\u00e7\u00e3o menor vontade. (<i>Entra um criado.<\/i>) Que o diabo te condene em negro, biltre de cara de coalhada. Onde encontraste essas fei\u00e7\u00f5es de ganso?<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 \u00c9 que h\u00e1 dez mil&#8230;<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Gansos, vil\u00e3o?<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 Soldados, meu senhor.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Vai esfregar o rosto e de vermelho pintar o medo, f\u00edgado de l\u00edrio! Que soldados, poltr\u00e3o? Morte de tua alma! Essas bochechas brancas como linho s\u00e3o ministro do medo. Que soldados, cara de leite?<\/p>\n<p>CRIADO \u2014 N\u00e3o vos desagrade, os soldados ingleses.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Tira a tua cara daqui. Depressa! (<i>Sai o criado.<\/i>) Seyton! D\u00f3i-me demais o cora\u00e7\u00e3o, quando contemplo&#8230; Seyton! torno a chamar&#8230; Essa batalha vai-me dar alegria para sempre ou tirar-me do trono neste instante. J\u00e1 vivi muito; minha vida inclina-se para o Outono de folhas amarelas, e a nada do que deve vir no rasto da velhice: amor, honras, obedi\u00eancia, amigos, poderei eu aspirar. Em lugar disso, maldi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ditas em voz alta, mas fundas; homenagens \u00e0 flor da boca apenas, que, de grado o pobre cora\u00e7\u00e3o contestaria, conquanto n\u00e3o se atreva&#8230; Seyton! digo.<\/p>\n<p>SEYTON \u2014 Que \u00e9 o vosso prazer gracioso agora?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quais s\u00e3o as outras novidades?<\/p>\n<p>SEYTON \u2014 Quanto vos disseram, senhor, foi confirmado.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Hei de lutar at\u00e9 que me retalhem toda a carne dos ossos. Dai-me logo minha armadura. Vamos!<\/p>\n<p>SEYTON \u2014 Ainda \u00e9 cedo.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quero vesti-la j\u00e1. Mais cavaleiros mandai j\u00e1 limpar a redondeza. Dai-me a armadura. Como vai passando vossa doente, doutor?<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 N\u00e3o se acha doente, propriamente, senhor, mas perseguida por freq\u00fcentes vis\u00f5es que do repouso de todo a t\u00eam privado.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Cura-a disso. N\u00e3o podes encontrar nenhum rem\u00e9dio para um c\u00e9rebro doente, da mem\u00f3ria tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores a\u00ed escritas e com algum ant\u00eddoto de obl\u00edvio doce e agrad\u00e1vel aliviar o peito que opresso geme ao peso da mat\u00e9ria maldosa que comprime o cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Para isso deve o doente achar os meios.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ent\u00e3o atira aos c\u00e3es a medicina. N\u00e3o quero saber dela. Vamos logo! Minha armadura! Dai-me o meu bast\u00e3o. Seyton, manda sair&#8230; Doutor, os thanes fogem de mim. \u2014 Vamos! Mais pressa nisso! \u2014 Se examinar, doutor, pudesses a \u00e1gua do meu reino, encontrar a doen\u00e7a dele, restituir-lhe por meio de uma purga a sa\u00fade primeira, t\u00e3o not\u00f3ria, aplaudir-te-ia que os pr\u00f3prios ecos aplaudissem de novo. \u2014 Fora! digo \u2014 Que ruibarbo, que sene ou droga dr\u00e1stica nos limpar\u00e1 desses ingleses todos? J\u00e1 ouviste falar deles?<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO \u2014 Sim, bondoso senhor; vossos reais preparativos nos for\u00e7am a ouvir algo.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o hei de ter da morte medo inane, se Birnam n\u00e3o vier a Dunsinane.<\/p>\n<p>O M\u00c9DICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 E eu se longe estivesse neste dia, nenhum lucro a voltar me obrigaria.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c4\" name=\"at5c4\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Plan\u00edcie perto da mata de Dunsinane. Entram com tambores e bandeiras Malcolm, o velho Siward e seu filho, Macduff, Menteith, Caithness, Angus, Lennox, Ross e soldados, marchando.<\/i><\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Primos, creio que o dia se aproxima de ficarem seguras nossas casas.<\/p>\n<p>MENTEITH \u2014 N\u00e3o o duvidamos.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Que floresta \u00e9 esta?<\/p>\n<p>MENTEITH \u2014 \u00c9 a floresta de Birnam.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Que cada homem corte um galho e o carregue, pois, com isso, n\u00e3o s\u00f3 faremos sombra para as tropas, como a erro induziremos o inimigo no c\u00f4mputo dos nossos.<\/p>\n<p>SOLDADOS \u2014 Ser\u00e1 feito.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 S\u00f3 o que ouvimos dizer \u00e9 que o tirano, confiante sempre, em Dunsinane se acha, onde vai resistir ao nosso cerco.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 \u00c9 nisso que dep\u00f5e toda a esperan\u00e7a, pois sempre que ocasi\u00e3o se tem mostrado, todos o deixam, grandes e pequenos, s\u00f3 \u00e0 for\u00e7a o servindo os que ainda restam, mas sem que o cora\u00e7\u00e3o influa nisso.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Que nosso justo ju\u00edzo aguarde a marcha dos acontecimentos. Enquanto isso, em pr\u00e1tica ponhamos toda a nossa ci\u00eancia de bons soldados.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Est\u00e1 na hora de ficarmos sabendo com certeza quem tem a haver, quem fez maior despesa. Da mente nasce uma esperan\u00e7a ingl\u00f3ria; mas dos golpes certeiros, a vit\u00f3ria, que \u00e9 para onde marchamos.<\/p>\n<p>(<i>Saem marchando.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c5\" name=\"at5c5\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>Dunsinane. No interior do castelo. Entram com tambores e bandeiras Macbeth, Seyton e soldados.<\/i><\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Desfraldai as bandeiras nas muralhas de fora. A senha \u00e9 sempre: \u201cA\u00ed v\u00eam eles!\u201d Nosso forte castelo ri de um cerco de brinquedo como este. Que a\u00ed fiquem, at\u00e9 que a fome e a peste os extermine. Se eles n\u00e3o se tivessem refor\u00e7ado com os que do nosso lado estar deviam, barba com barba n\u00f3s os enfrent\u00e1ramos sem receio nenhum e os tocar\u00edamos, vencidos, para casa.<\/p>\n<p>(<i>Ouve-se dentro um grito de mulher.<\/i>)<\/p>\n<p>SEYTON \u2014 Um grito de mulher, meu bom senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Quase esqueci que gosto tem o medo. J\u00e1 houve tempo em que um s\u00f3 grito, \u00e0 noite, gelados os sentidos me deixava, e a rela\u00e7\u00e3o de qualquer fato horrendo eri\u00e7ar os cabelos me fazia, como se vivos fossem. Entupi-me de tal modo com coisas pavorosas, que o horror, j\u00e1 agora familiar das minhas cogita\u00e7\u00f5es de morte, n\u00e3o consegue abalar-me no m\u00ednimo. (<i>Volta Seyton.<\/i>) Que houve?<\/p>\n<p>SEYTON \u2014 A rainha morreu, senhor.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Devia ter morrido mais tarde; ent\u00e3o, houvera ocasi\u00e3o certa para tal palavra. O amanh\u00e3, o amanh\u00e3. Outro amanh\u00e3, dia a dia se escoam de mansinho, at\u00e9 que chegue, alfim, a \u00faltima s\u00edlaba do livro da mem\u00f3ria. Nossos ontens para os tolos a estrada deixam clara da empoeirada morte. Fora! apaga-te, candeia transit\u00f3ria! A vida \u00e9 apenas uma sombra ambulante, um pobre c\u00f4mico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, ap\u00f3s, ouvido; \u00e9 uma hist\u00f3ria contada por idiotas, cheia de f\u00faria e muita barulheira, que nada significa. (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) Vens para usar a l\u00edngua; fala logo.<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Meu gracioso senhor, desejara dizer-vos o que penso ter visto, mas n\u00e3o sei como expressar-me.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Muito bem; pois falai, caro senhor.<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Quando estava de guarda na colina, olhei naturalmente para Birnam, tendo-me parecido que a floresta come\u00e7ava a mover-se.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Mentiroso lacaio!<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Que em mim caia vossa c\u00f3lera, se n\u00e3o for mesmo assim, pois \u00e0 dist\u00e2ncia de tr\u00eas milhas podeis v\u00ea-la avan\u00e7ando: uma floresta em movimento. \u00c9 isso.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Se estiveres mentindo, no mais pr\u00f3ximo galho ser\u00e1s dependurado vivo, at\u00e9 que a fome venha ressecar-te; se a verdade falaste, n\u00e3o me importa que comigo procedas de igual modo. De coragem revisto-me e come\u00e7o a suspeitar do equ\u00edvoco do demo que mente sob a capa da verdade. \u201cNada temas at\u00e9 que a Dunsinane chegue a mata de Birnam.\u201d E ora acontece que uma floresta vem a Dunsinane! \u00c0s armas, logo! \u00c0s armas! Para fora! Se o que ele disse \u00e9 certo, \u00e9 indiferente fugir daqui ou combater na frente. Come\u00e7o a achar a luz do sol enjoada. Ah! se este mundo se acabasse em nada! Tocai o alarma! Abri-vos, sepultura! Posso morrer, mas dentro da armadura.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c6\" name=\"at5c6\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Uma plan\u00edcie diante do castelo. Entram com tambores e bandeiras Malcolm, o velho Siward, Macduff etc. e seu ex\u00e9rcito, com galhos de \u00e1rvores.<\/i><\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Eis-nos bastante perto; jogai fora vosso amparo de folhas e mostrai-vos como sois mesmo. V\u00f3s, meu digno tio, com vosso nobre filho, meu bom primo, comandareis nosso primeiro corpo. N\u00f3s e o digno Macduff encarregados ficaremos do mais, de acordo em tudo com nossas pr\u00f3prias ordens.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Passai bem. Se hoje eu achar as for\u00e7as do tirano, que a morrer venha, se n\u00e3o causar dano.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Tocai logo os clarins; soprai bem forte nesses arautos de sangueira e morte.<\/p>\n<p>(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c7\" name=\"at5c7\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\"><i>O mesmo. Outra parte da plan\u00edcie. Alarma. Entra Macbeth.<\/i><\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Amarraram-me ao poste; \u00e9-me imposs\u00edvel fugir, sendo preciso que, como urso, ag\u00fcente o ataque deles. Onde se acha quem n\u00e3o houvesse de mulher nascido? Esse \u00e9 que eu temer devo; mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>(<i>Entra o jovem Siward.<\/i>)<\/p>\n<p>O JOVEM SIWARD \u2014 Teu nome?<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ter\u00e1s medo s\u00f3 de ouvi-lo.<\/p>\n<p>O JOVEM SIWARD \u2014 N\u00e3o; ainda mesmo que mais quente fosse do que o de todos que no inferno se acham.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Ent\u00e3o, Macbeth me chamo.<\/p>\n<p>O JOVEM SIWARD \u2014 O pr\u00f3prio diabo n\u00e3o poderia pronunciar um t\u00edtulo que mais odioso fosse a meus ouvidos.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o; nem mais de temer.<\/p>\n<p>O JOVEM SIWARD \u2014 Mentes, tirano detest\u00e1vel. Com a ponta desta espada vou provar que mentiste.<\/p>\n<p>(<i>Batem-se; o jovem Siward \u00e9 morto.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Tu nasceste de mulher. Para mim s\u00e3o como o vento golpes de quem teve esse nascimento. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Alarma. Entra Macduff<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Deste lado \u00e9 o barulho. Mostra o rosto, tirano! Se n\u00e3o cais por minha espada, perseguido serei eternamente pelo fantasma de minha esposa e pelos de meus filhinhos caros. Imposs\u00edvel me ser\u00e1 atacar esses coitados que trazem armas s\u00f3 pelo sal\u00e1rio. Ou te encontro, Macbeth, ou na bainha reponho a espada, intacta e sem trabalho. Deves estar ali. Aquele estr\u00e9pito quer anunciar algu\u00e9m de grande fama. Faze que o encontre, \u00f3 Fado! Mais n\u00e3o pe\u00e7o. (<i>Sai. Alarma.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Entram Malcolm e o velho Siward.<\/i>)<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Por aqui, meu senhor; sem resist\u00eancia entregou-se o castelo. Est\u00e3o lutando dos dois lados os homens do tirano. Os nobres thanes nesta guerra deram provas de alto valor. O pr\u00f3prio dia est\u00e1 a vosso favor; j\u00e1 quase nada resta para fazer.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Vimos de perto como o imigo lutava.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Eis o castelo, caro senhor, entrai.<\/p>\n<p>(<i>Saem. Alarma.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Volta Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Por que fazer como o romano bobo e o corpo atravessar com a pr\u00f3pria espada? Enquanto vidas eu achar, os golpes ser\u00e3o para elas, n\u00e3o para o meu corpo.<\/p>\n<p>(<i>Volta Macduff<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Volta-te, c\u00e3o do inferno!<\/p>\n<p>MACBETH -Dentre todos os homens s\u00f3 a ti tenho evitado. Retira-te; tenho a alma carregada por demais de teu sangue.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 N\u00e3o me sobram palavras; minha voz \u00e9 minha espada, monstro mais sanguin\u00e1rio do que possa expressar a linguagem.<\/p>\n<p>(<i>Batem-se.<\/i>)<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 \u00c9 trabalho perdido o teu. Com mais facilidade poderias fender o ar impalp\u00e1vel com tua espada aguda do que sangue do meu corpo arrancar. Deixa que a l\u00e2mina caia sobre cimeiras vulner\u00e1veis. Ampara-me um encanto; a vida tenho assegurada contra qualquer homem nascido de mulher.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Perde a confian\u00e7a em tal encantamento, e que o mau anjo a que serviste at\u00e9 hoje te declare que do ventre materno foi Macduff tirado antes do tempo.<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 Maldita seja a l\u00edngua que diz isso, pois com medo deixou a melhor parte de minha intrepidez, e que n\u00e3o sejam cridos jamais esses dem\u00f4nios falsos que nos enganam com palavras dobres e sustenta a promessa feita a nossos ouvidos, sem que a nossas esperan\u00e7as intacta a deixem nunca. N\u00e3o pretendo cruzar armas contigo.<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Ent\u00e3o, entrega-te, covarde, e vive para te tornares espet\u00e1culo e assombro do universo. Como fazemos com esses monstros raros, teu retrato ser\u00e1 posto num mastro, tendo em baixo a inscri\u00e7\u00e3o: \u201cEis o tirano!\u201d<\/p>\n<p>MACBETH \u2014 N\u00e3o me rendo; beijar n\u00e3o hei de a terra diante dos p\u00e9s do juvenil Malcolm, nem de isca servirei para a canalha. Embora Birnam viesse a Dunsinane e tu, que me resistes, n\u00e3o tivesses nascido de mulher, vou tentar o \u00faltimo recurso. Ponho assim, em frente ao corpo, meu escudo guerreiro. Vem, Macduff! E que por todos seja amaldi\u00e7oado quem primeiro gritar: \u201cEstou cansado!\u201d<\/p>\n<p>(<i>Saem, lutando.<\/i>)<\/p>\n<p>(<i>Retirada. Voltam, com tambores e bandeiras, Malcolm, o velho Siward, Ross, thanes e soldados.<\/i>)<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Desejara que salvos estivessem os amigos que faltam.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 E for\u00e7oso que algu\u00e9m pere\u00e7a. Mas, por quanto vejo, custou barato um dia t\u00e3o glorioso.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Falta Macduff e vosso nobre filho.<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Vosso filho, senhor, pagou a d\u00edvida de soldado. Viveu at\u00e9 ser homem; logo que p\u00f4de comprovar a for\u00e7a no posto em que, sem vacilar, lutava, como homem pereceu.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Ent\u00e3o, morreu?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Sim; seu corpo, tamb\u00e9m, j\u00e1 foi trazido do campo de batalha. N\u00e3o podemos medir a causa de vosso alto luto pelo m\u00e9rito dele, o que seria deix\u00e1-la sem limites.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Foi ferido na frente?<\/p>\n<p>ROSS \u2014 Sim, na frente.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 Que soldado de Deus, ent\u00e3o, se torne. Se tantos filhos eu tivesse quantos cabelos, n\u00e3o quisera mais bonita morte para nenhum. Esse \u00e9 o seu dobre de finados.<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 Merece maior luto; disso me incumbirei.<\/p>\n<p>SIWARD \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o merece. Dizem que morreu bem; pagou o escote. Assim, Deus o acompanhe. Mas diviso novo conforto que nos chega a tempo.<\/p>\n<p>(<i>Volta Macduff, com a cabe\u00e7a de Macbeth.<\/i>)<\/p>\n<p>MACDUFF \u2014 Salve, rei! pois que o \u00e9s. Olha onde se acha a cabe\u00e7a maldita do tirano. O mundo j\u00e1 est\u00e1 livre. Ora te vejo cercado pelas j\u00f3ias de teu reino, que sauda\u00e7\u00e3o te enviam do imo peito e a cujas vozes associo a minha: s\u00ea feliz, Rei da Esc\u00f3cia!<\/p>\n<p>TODOS \u2014 S\u00ea feliz, Rei da Esc\u00f3cia!<\/p>\n<p>(<i>Fanfarras.<\/i>)<\/p>\n<p>MALCOLM \u2014 N\u00e3o deixaremos que se passe o tempo sem que com vosso amor justemos contas e, assim, fiquemos quites com v\u00f3s todos. Meu thanes e parentes, sede condes de hoje em diante, os primeiros que na Esc\u00f3cia tal t\u00edtulo recebem. Quanto resta para fazer e que ser\u00e1 plantado, segundo as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es do tempo: como o repatriamento dos amigos que para longe foram, porque \u00e0s malhas fugissem da astuciosa tirania; o julgamento dos cru\u00e9is ministros do carniceiro morto e sua esposa t\u00e3o infernal quanto ele e que, segundo consta, p\u00f4s termo \u00e0 vida com viol\u00eancia, por suas pr\u00f3prias m\u00e3os: tudo isso e quanto mais ainda for preciso, pela gra\u00e7a da Gra\u00e7a a cabo havemos de levar na medida do tempo e do lugar. Convido-vos, assim, de mui bom grado, para que em Scone me vejais coroado.<\/p>\n<p>(<i>Fanfarras. Saem.<\/i>)<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens DUNCAN, rei da Esc\u00f3cia. MALCOLM, seu filho DONALBAIN, seu filho. MACHBETH, General do ex\u00e9rcito do rei BANQUO, General do ex\u00e9rcito do rei. MACDUFF, Nobre da Esc\u00f3cia. ROSS, Nobre da Esc\u00f3cia. MENTEITH, Nobre da Esc\u00f3cia. ANGUS, Nobre da Esc\u00f3cia. CAITHNESS, Nobre da Esc\u00f3cia. FLEANCE, filho de Banquo. 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