{"id":120353,"date":"2017-04-25T10:48:16","date_gmt":"2017-04-25T12:48:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120353"},"modified":"2017-04-25T10:48:16","modified_gmt":"2017-04-25T12:48:16","slug":"rei-lear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/rei-lear","title":{"rendered":"Rei Lear"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens Tr\u00e1gicos<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>LEAR<\/b>, rei da Bretanha.<br \/>\nO rei da Fran\u00e7a.<br \/>\nO duque de Burg\u00fandia.<br \/>\nO duque de Cornualha.<br \/>\nO duque de Alb\u00e2nia.<br \/>\nO conde de Kent.<br \/>\nO conde de Gloster.<br \/>\n<b>EDGAR<\/b>, filho de Gloster.<br \/>\n<b>EDMUNDO<\/b>, filho bastardo de Gloster.<br \/>\n<b>CURAN<\/b>, um cortes\u00e3o.<br \/>\n<b>OSVALDO<\/b>, intendente de Goneril.<br \/>\nUm velho, caseiro de Gloster.<br \/>\nUm m\u00e9dico.<br \/>\nO bobo.<br \/>\nUm oficial, empregado por Edmundo.<br \/>\nUm gentil-homem, ligado a Cord\u00e9lia.<br \/>\nUm arauto.<br \/>\nCriados de Cornualha.<br \/>\n<b>GONERIL<\/b>, filha de Lear<br \/>\n<b>REGANE<\/b>, filha de Lear<br \/>\n<b>CORD\u00c9LIA<\/b>, filha de Lear<br \/>\nCavaleiros do s\u00e9q\u00fcito de Lear, oficiais, mensageiros, soldados e criados.<\/p>\n<p><a name=\"lr11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sal\u00e3o nobre do pal\u00e1cio do Rei Lear. Entram Kent, Gloster e Edmundo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Sempre pensei que o rei fosse mais afei\u00e7oado ao duque de Alb\u00e2nia do que ao de Cornualha.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Era o que tamb\u00e9m me parecia; mas agora, na divis\u00e3o do reino, n\u00e3o se pode saber qual dos dois duques ele aprecia mais, porque as partes foram pesadas com tal eq\u00fcidade, que a mais impertinente curiosidade n\u00e3o saber\u00e1 decidir-se por nenhuma delas.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Este rapaz \u00e9 vosso filho, milorde?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Sua educa\u00e7\u00e3o, senhor, esteve a meu cargo. Tantas vezes corei de confess\u00e1-lo, que presentemente j\u00e1 me encontro calejado.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o posso compreender-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Mas a m\u00e3e deste mancebo o compreendia perfeitamente, senhor; tanto assim, que ficou com o ventre arredondado com um filho que arranjou para seu ber\u00e7o, antes de conseguir um marido para o seu leito. Percebeis alguma falta nisso?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o posso desejar que a falta n\u00e3o houvesse sido cometida, \u00e0 vista da gra\u00e7a de suas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Mas possuo um filho leg\u00edtimo, senhor, coisa de um ano mais velho do que este, que nem por isso tenho em mais alta estima. \u00c9 verdade que este peralta veio ao mundo com certo descoco, antes de ser chamado; mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que sua m\u00e3e era muito linda. Foi gerado na folia, sendo-me agora preciso reconhecer o bastardo. Conheceis este gentil-homem, Edmundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 N\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c9 o milorde de Kent; de agora em diante lembra-te dele como de honrado amigo meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ao dispor de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Desejo amar-vos e pe\u00e7o que me ensejeis oportunidades de conhecer-vos mais de perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Esfor\u00e7ar-me-ei por merec\u00ea-lo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Esteve fora nove anos e precisar\u00e1 sair de novo. O rei vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Entram Lear, Cornualha, Alb\u00e2nia, Goneril, Regane, Cord\u00e9lia e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Gloster, fazei entrar na sala os nobres da Fran\u00e7a e da Burg\u00fandia.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Neste instante, meu soberano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Gloster e Edmundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Enquanto isso, mostrar pretendo nossos des\u00edgnios mais rec\u00f4nditos. Um mapa! Ficai sabendo, assim, que dividimos nosso reino em tr\u00eas partes, sendo nossa firme inten\u00e7\u00e3o livrar-nos, na velhice, dos cuidados, bem como dos neg\u00f3cios, para confi\u00e1-los a mais jovens for\u00e7as, e, assim, nos arrastarmos para a morte, de qualquer fardo isento. Nosso filho de Cornualha, assim como v\u00f3s, Alb\u00e2nia, filho tamb\u00e9m n\u00e3o menos caro, temos o prop\u00f3sito certo, neste instante, de declarar publicamente o dote de nossas filhas, para que a disc\u00f3rdia futura fique obviada desde agora. Os pr\u00edncipes da Fran\u00e7a e da Burg\u00fandia, grandes rivais no amor de nossa filha mais nova, em nossa corte j\u00e1 fizeram sua parada longa e apaixonada. Ora aguardam resposta. Minhas filhas \u2014 j\u00e1 que neste momento nos despimos do governo, n\u00e3o s\u00f3, dos territ\u00f3rios e cuidados do Estado \u2014 ora dizei-me qual de v\u00f3s mais amor nos tem deveras, porque alargar possamos nossa d\u00e1diva onde contende a natureza e o m\u00e9rito. Fale primeiro Goneril, a nossa filha mais velha.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Senhor, amo-vos mais do que as palavras poder\u00e3o exprimir, mais ternamente do que a vis\u00e3o, o espa\u00e7o, a liberdade, muito mais do que tudo que \u00e9 prezado, raro ou valioso, tanto quanto \u00e0 vida com sa\u00fade, beleza, honras e gra\u00e7a, como jamais amou filha nenhuma ou pai se viu amado; \u00e9 amor que torna pobre o alento e o discurso balbuciante. Amo-vos para al\u00e9m de todo extremo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Cord\u00e9lia que far\u00e1? Ama e se cala.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Todo este trecho aqui, de uma a outra linha, com suas matas e campinas ricas, com rios caudalosos e seus prados de larga bordadura, te pertencem. De tua prole e de Alb\u00e2nia, como posse perp\u00e9tua vai ficar. Que diz agora nossa segunda filha, a querid\u00edssima Regane, esposa de Cornualha? Fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 De igual metal que minha irm\u00e3 sou feita e pelo pre\u00e7o dela me avalio. No imo peito descubro que ela soube dar express\u00e3o ao meu amor sincero. Mas ficou muito aqu\u00e9m, pois inimiga me declaro de quantas alegrias se contenham na mui preciosa esfera dos sentidos t\u00e3o-s\u00f3. Achei minha \u00fanica felicidade na afei\u00e7\u00e3o de Vossa mui querida Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Ent\u00e3o, coitada de Cord\u00e9lia! Contudo, nem por isso, pois estou certa de que meu afeto mais rico \u00e9 do que a l\u00edngua.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que para ti e os teus fique de heran\u00e7a permanente este ter\u00e7o avantajado do nosso belo reino, em rendas, gra\u00e7as e extens\u00e3o n\u00e3o menor em nenhum ponto do que o que em sorte coube a Goneril. Nossa alegria, agora, conquanto a \u00faltima, n\u00e3o a menor, e cujo afeto jovem os vinhedos da Fran\u00e7a e o branco leite da Burg\u00fandia disputam: que podeis dizer-nos para um ter\u00e7o mais opimo virdes a obter do que os das vossas manas? Falai.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Meu senhor, nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 De nada sair\u00e1 nada. Novamente dizei alguma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Oh desditosa! Trazer n\u00e3o posso o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 boca. Amo a Vossa Grandeza como o dever me imp\u00f5e, nem mais nem menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que \u00e9 isso, Cord\u00e9lia? Concertai um pouco vossas palavras, para n\u00e3o deitardes a perder vossa dita.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Meu bondoso senhor, v\u00f3s me gerastes, educastes e me amastes, pagando eu todos esses benef\u00edcios qual fora de justi\u00e7a: com obedi\u00eancia e amor vos honro sempre extremamente. Por que t\u00eam maridos minhas irm\u00e3s, se dizem que vos amam sobre todas as coisas? Se algum dia vier a casar, h\u00e1 de seguir o dono do meu dever apenas a metade de meu amor, metade dos cuidados e das obriga\u00e7\u00f5es. Certeza \u00e9 nunca vir a casar-me como as duas manas, para amar a meu pai por esse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Do cora\u00e7\u00e3o te veio o que disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Sim, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 T\u00e3o jovem e t\u00e3o \u00e1spera?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 T\u00e3o jovem, meu senhor, e verdadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ent\u00e3o vai ser teu dote s\u00f3 a tua veracidade. Pois pela sagrada irradia\u00e7\u00e3o do sol, pelos mist\u00e9rios de H\u00e9cate e, assim, da noite, pelas grandes opera\u00e7\u00f5es dos orbes que nos fazem viver e definhar: desde este instante me desligo dos la\u00e7os consangu\u00edneos, preocupa\u00e7\u00f5es de pai e parentesco, passando a te considerar como uma pessoa estranha a mim e a meu afeto, de agora para sempre. O cita b\u00e1rbaro ou selvagem que faz da prole p\u00e1bulo para o apetite, h\u00e1 de ser mais vizinho do meu seio, acolhido e consolado, do que tu, que n\u00e3o \u00e9s j\u00e1 filha minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Meu senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Kent, sil\u00eancio; n\u00e3o te metas entre o drag\u00e3o e sua grande c\u00f3lera. Predile\u00e7\u00e3o lhe tinha e pensei sempre que haveria de achar grato repouso em seus carinhos. Foge-me da vista! T\u00e3o certo como eu ter paz no sepulcro, o cora\u00e7\u00e3o de pai lhe tiro agora. Chamai Fran\u00e7a! Que \u00e9 que ainda se mexe? Chamai Burg\u00fandia aqui! Cornualha e Alb\u00e2nia, acrescentai mais este dote aos outros de minhas duas filhas. Que se case com ela o orgulho, a que franqueza chama. Juntamente comigo vos invisto no meu poder, minhas prerrogativas e em todas as extensas dignidades que \u00e0 majestade se unem. N\u00f3s, seguindo nisso o curso mensal e reservando cem cavaleiros, cujo encargo fica por vossa conta, nossa casa havemos de na vossa fazer por modo alterno. De rei, o nome apenas reteremos, com suas dignidades; mas o mando, a execu\u00e7\u00e3o das leis, as rendas, tudo, caros filhos, \u00e9 vosso. E como certo penhor do que ora afirmo, esta coroa dividirei entre ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Real Lear, a quem como meu rei acatei sempre, amei como a meu pai, acompanhei como a senhor e a quem nas minhas preces tinha como padroeiro&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 O arco est\u00e1 armado; sai da frente da seta!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o; dispara-a, embora a farpa o cora\u00e7\u00e3o me atinja. Descort\u00eas ser\u00e1 Kent, se \u00e9 louco Lear. Que est\u00e1s fazendo, velho? Acaso pensas que o dever tenha medo de falar, quando o poder se abaixa at\u00e9 \u00e0 lisonja? A honra obriga \u00e0 franqueza, quando tomba na loucura, assim tanto, a majestade. Anula o teu decreto, e recorrendo aos teus mais ponderosos argumentos, reprime logo essa medonha pressa. Minha vida em penhor do que te afirmo; afei\u00e7\u00e3o inferior n\u00e3o te dedica tua terceira filha, nem tampouco sentir\u00e3o menos as pessoas cuja voz grave n\u00e3o ressoa no vazio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Por tua vida, Kent, nem mais um pio!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Penhor a vida me foi sempre, para contra os teus inimigos arrisc\u00e1-la. Perd\u00ea-la n\u00e3o receio, quando o exige tua pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Fora da minha vista!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 V\u00ea melhor, Lear, e ora consente que a mira de teus olhos eu me torne.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Agora, por Apolo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por Apolo, agora em v\u00e3o juraste por teus deuses.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh vassalo! Insolente! (<i>Leva a m\u00e3o \u00e0 espada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA e CORNUALHA \u2014 N\u00e3o; detende-vos, caro senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Manda matar teu m\u00e9dico e impura doen\u00e7a entrega os honor\u00e1rios! Revoga o teu decreto; do contr\u00e1rio, enquanto alento me restar no peito, direi que est\u00e1s errado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ouve-me, biltre! Por teu dever de vassalagem, ouve-me! J\u00e1 que tentaste provocar a quebra de nosso voto o que jamais fizemos \u2014 e com teimoso orgulho te meteste entre nossa senten\u00e7a e nosso trono \u2014 o que n\u00e3o pode suportar a nossa natureza, nem menos nosso posto \u2014 de p\u00e9 nosso poder, toma tua paga: cinco dias te damos, porque possas contra os males do mundo premunir-te; ao sexto voltar\u00e1s o dorso odioso a todo o nosso reino; e se no d\u00e9cimo esse corpo banido for achado dentro de nossas terras, esse instante ser\u00e1 tua morte. J\u00e1 daqui! Por J\u00fapiter, n\u00e3o haver\u00e1 revoga\u00e7\u00e3o agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Adeus, rei. Declarar quero a verdade: o ex\u00edlio \u00e9 aqui, e longe, a liberdade. (<i>A Cord\u00e9lia.<\/i>) Possam os deuses te amparar, menina, cujo pensar com o bom discurso afina. (<i>A Regane e Goner\u00edl.<\/i>) Que por bons atos sejam confirmados vossos largos discursos e empolados. \u2014 Kent, assim, se despede dos presentes e a novas terras leva os p\u00e9s dolentes. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Volta Gloster com Fran\u00e7a, Burg\u00fandia e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Senhor, Fran\u00e7a e Burg\u00fandia est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Milorde de Burg\u00fandia, primeiramente a v\u00f3s nos dirigimos, que sois rival, com este soberano, na corte \u00e0 nossa filha. Qual o m\u00ednimo que exigis como dote e em cuja falta desistis do pedido?<\/p>\n<p align=\"justify\">BURG\u00daNDIA \u2014 Muito nobre majestade, n\u00e3o pe\u00e7o nada acima do que j\u00e1 ofereceu Vossa Grandeza, que menos n\u00e3o dar\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Nobre Burg\u00fandia, quando cara nos era, n\u00f3s a t\u00ednhamos nesse pre\u00e7o; mas ora baixou muito. Senhor, ali est\u00e1 ela. Se algum tra\u00e7o dessa coisinha de nenhum realce ou at\u00e9 mesmo ela toda, redobrada de nosso desfavor, sem mais acr\u00e9scimo, pode do agrado ser de Vossa Gra\u00e7a: ela aqui est\u00e1; pertence-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BURG\u00daNDIA \u2014 Ignoro que responder.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quereis, com as faltas todas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias, sem nenhum amigo, adotada por nosso recente \u00f3dio, com toda nossa maldi\u00e7\u00e3o por dote, expulsada por nosso juramento, lev\u00e1-la ou recus\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">BURG\u00daNDIA \u2014 Real senhor, perd\u00e3o; mas nessas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 claro, ningu\u00e9m faz uma escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ent\u00e3o deixai-a, senhor; porque vos assevero, em nome do poder que me criou, que toda a sua fortuna \u00e9 o que vos disse. (<i>A Fran\u00e7a.<\/i>) V\u00f3s, potente soberano, de vosso amor n\u00e3o quero t\u00e3o longe me afastar, que almeje ver-vos unido a quem odeio. Assim, suplico-vos desviar vossa afei\u00e7\u00e3o para um objeto mais d\u00edgno do que a m\u00edsera criatura que a natureza quase se envergonha de declarar por sua.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRAN\u00c7A \u2014 \u00c9 muito estranho que aquela que, at\u00e9 h\u00e1 pouco, era a mais rara j\u00f3ia de vosso afeto, o tema excelso de vossos elogios, vosso b\u00e1lsamo na velhice, a melhor, a mais querida, pudesse cometer assim, de pronto, um crime t\u00e3o monstruoso que desmanche tantas pregas da gra\u00e7a. Com certeza mui contr\u00e1rio \u00e0 natura foi seu crime, e muito a deturpou, se vosso afeto t\u00e3o not\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 o que antes era. Acreditar tal coisa a seu respeito, s\u00f3 com o aux\u00edlio da f\u00e9, pois, sem milagre, a isso a raz\u00e3o jamais me levaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Suplico entanto a Vossa Majestade \u2014 pois care\u00e7o dessa arte lisa e untuosa de falar em contr\u00e1rio ao pr\u00f3prio intento, pois o que fazer quero j\u00e1 realizo, mesmo antes de falar \u2014 que deixeis claro n\u00e3o ter sido nenhum v\u00edcio infamante, velhacaria alguma, ato impudico, nem qualquer passo menos decoroso que de vosso favor e vossa gra\u00e7a me privou neste instante, mas apenas a car\u00eancia daquilo que me deixa mais rica ainda: o olhar adulador e l\u00edngua que n\u00e3o ter muito me alegra muito embora essa falta seja a causa de me fazer perder vossa amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Melhor te fora nunca ter nascido, do que deixares de agradar-me agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRAN\u00c7A \u2014 Ent\u00e3o, foi isso apenas? Uma certa lentid\u00e3o natural, que, muitas vezes, deixa de relatar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do que fazer pretende? Que dizeis, milorde de Burg\u00fandia, desta noiva? O amor n\u00e3o \u00e9 amor, quando se mescla de considera\u00e7\u00f5es que muito aberram da meta principal. Ficais com ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">BURG\u00daNDIA \u2014 Dai-lhe, real Lear, unicamente a parte que hav\u00edeis prometido, e, neste instante, tomo Cord\u00e9lia pela m\u00e3o e a fa\u00e7o Duqueza de Burg\u00fandia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Nada; sou firme; fiz um juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BURG\u00daNDIA \u2014 Muito me pesa, ent\u00e3o, que ap\u00f3s haverdes perdido o pai, tamb\u00e9m percais o esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Seja a paz com Burg\u00fandia! J\u00e1 que havia em seu amor intuitos de riquezas, n\u00e3o serei sua esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRAN\u00c7A \u2014 Linda Cord\u00e9lia, pobre, ainda \u00e9s mais rica; mais procurada, ainda, no abandono, e mais amada, quando desprezada: de ti, dessas virtudes, apodero-me neste momento. Seja, assim, leg\u00edtimo apanhar o que foi jogado fora. Que estranho, \u00f3 deuses! que um glacial desprezo o respeito me inflame e deixe preso! Deserdando tua filha, \u00f3 rei! deste ansa para rainha eu a fazer da Fran\u00e7a. Nenhum dos duques da Burg\u00fandia aquosa a noiva minha levar\u00e1 preciosa. Cord\u00e9lia, adeus lhes dize, cru\u00e9is embora; perdes aqui, para ganhar l\u00e1 fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Fran\u00e7a, leva-a contigo; \u00e9 tua; n\u00f3s tal filha j\u00e1 n\u00e3o temos, n\u00e3o, e ap\u00f3s o que houve ela perdeu, por mais que fa\u00e7a, nosso amor, nossa b\u00ean\u00e7\u00e3o, nossa gra\u00e7a. Vamos, nobre Burg\u00fandia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras. Saem Lear, Burg\u00fandia, Cornualha, Alb\u00e2nia, Gloster e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FRAN\u00c7A \u2014 Dizei adeus agora a vossas manas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 J\u00f3ias de nosso pai, com olhos \u00famidos Cord\u00e9lia ora vos deixa. Eu vos conhe\u00e7o, mas como irm\u00e3 n\u00e3o quero dar o nome verdadeiro de vossas faltas todas. Cuidai de nosso pai; entrego-o a vossos peitos que os pr\u00f3prios m\u00e9ritos proclamam. No entanto, ai! se em sua gra\u00e7a eu me encontrasse, talvez melhor asilo lhe mostrasse. Assim, adeus para ambas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 N\u00e3o queirais ensinar nossos deveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Procurai agradar vosso marido que como esmola vos pegou da sorte. Revelastes car\u00e1ter obstinado; digna, portanto, sois do vosso fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 O tempo h\u00e1 de mostrar quem tem mal\u00edcia, que a vergonha \u00e9 o castigo da estult\u00edcia. Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRAN\u00c7A \u2014 Vamos, linda Cord\u00e9lia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Fran\u00e7a e Cord\u00e9lia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Mana, n\u00e3o \u00e9 pouco o que tenho a dizer sobre um assunto que nos toca muito de perto. Creio que nosso pai vai partir esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Isso \u00e9 certeza, e em vossa companhia. No pr\u00f3ximo m\u00eas ficar\u00e1 conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Vistes como sua velhice \u00e9 caprichosa; n\u00e3o \u00e9 das menos valiosas a observa\u00e7\u00e3o que tivemos oportunidade de fazer; sempre revelou muito mais afei\u00e7\u00e3o para nossa irm\u00e3, transparecendo agora claramente a falta de senso com que acaba de expuls\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 \u00c9 a fraqueza da idade, sendo certo que ele sempre se conheceu mal.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 At\u00e9 mesmo na melhor idade e de mais vigor, costumava revelar precipita\u00e7\u00e3o. Por isso, preparemo-nos para receber de sua velhice n\u00e3o somente os defeitos enraizados de longa data, como tamb\u00e9m as rabugices inconvenientes que trazem consigo os anos achacosos e irrit\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Teremos de assistir ainda a muitas explos\u00f5es s\u00fabitas, como essa de que resultou o banimento de Kent.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Ainda ter\u00e3o de realizar-se as cerim\u00f4nias complementares da despedida entre ele e Fran\u00e7a. Unamo-nos, \u00e9 o que vos pe\u00e7o; se nosso pai conservar o poder com semelhante disposi\u00e7\u00e3o, essa \u00faltima abdica\u00e7\u00e3o de sua vontade s\u00f3 nos poder\u00e1 ser prejudicial.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Havemos de refletir melhor sobre isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Precisaremos fazer qualquer coisa, enquanto o assunto est\u00e1 quente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"lr12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sala no castelo do conde de Gloster. Entra Edmundo com uma carta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 S\u00ea minha deusa agora, natureza! A tuas leis empenho meus servi\u00e7os. Porque terei de me curvar \u00e0 peste do costume e deixar que a impertin\u00eancia das na\u00e7\u00f5es me despoje, t\u00e3o-somente porque nasci algumas doze luas, ou catorze, depois de qualquer mano? Por que bastardo? Por que mal nascido, se minhas propor\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o bem feitas, a alma t\u00e3o franca e a compostura toda t\u00e3o certa como a de qualquer rebento de uma senhora honesta? Por que causa, pois, nos estigmatizam de baixeza, bastardo, baixo, baixo?&#8230; Por que baixos todos n\u00f3s que no furto deleitoso da natureza recebemos partes mais ajustadas e mais alto esp\u00edrito do que acontece nos cansados leitos, antiquados e ins\u00edpidos, s\u00f3 feitos para criar uma chusma de casquilhos, entre o sono e a vig\u00edlia concebidos? Assim, Edgar leg\u00edtimo, preciso ficar com vossas terras. Tem o afeto de nosso pai n\u00e3o s\u00f3 o bastardo Edmundo, como o filho leg\u00edtimo. \u201cLeg\u00edtimo!\u201d bela express\u00e3o! Espero, meu leg\u00edtimo, que se esta carta for bem despachada e meu plano der certo, o baixo Edmundo vai passar o leg\u00edtimo. Prospero&#8230; Cres\u00e7o&#8230; Amparai, \u00f3 deuses! os bastardos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Banido Kent assim! Fran\u00e7a, col\u00e9rico, se despediu, e o rei partiu \u00e0 noite! Resignou ao poder, tendo ficado com pens\u00e3o reduzida! E tanta coisa em menos de um segundo! Ol\u00e1, Edmundo, que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO (<i>escondendo a carta<\/i>) N\u00e3o h\u00e1 novidades, se n\u00e3o for do desagrado de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Por que escondeis com tanta precipita\u00e7\u00e3o essa carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 N\u00e3o sei de nenhuma novidade, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Que papel est\u00e1veis lendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Nada, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Nada? Que necessidade havia, ent\u00e3o, de enfi\u00e1-lo t\u00e3o depressa no bolso? O que em si mesmo \u00e9 nada, n\u00e3o tem necessidade de ser escondido desse modo. Deixai-me ver! Vamos! Se for mesmo nada, n\u00e3o precisarei de \u00f3culos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Pe\u00e7o-vos, senhor, que me perdoeis; \u00e9 uma carta de meu irm\u00e3o, que eu ainda n\u00e3o li at\u00e9 ao fim; mas pelo que pude ver assim por cima, penso que seu conte\u00fado \u00e9 impr\u00f3prio para vossa vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Dai-me essa carta, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Farei mal tanto em recus\u00e1-la com em dar-vo-la. Seu conte\u00fado, pelo que pude alcan\u00e7ar, \u00e9 censur\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quero v\u00ea-la; quero v\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Quero crer, como justificativa de meu irm\u00e3o, que ele escreveu apenas com o intuito de provar ou confirmar minha virtude.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u201cNossas institui\u00e7\u00f5es e o respeito \u00e0 velhice tornam o mundo amargo para os nossos melhores anos, privam-nos dos bens at\u00e9 que nossa caduquice n\u00e3o se possa aproveitar deles. Come\u00e7o a ver uma escravid\u00e3o in\u00fatil e presun\u00e7osa na opress\u00e3o da tirania envelhecida, que governa n\u00e3o porque tenha poder, mas por ser tolerada. Procurai-me, para que eu possa expandir-me a esse respeito. Se nosso pai dormisse at\u00e9 que eu o despertasse, gozar\u00edeis para sempre da metade das rendas dele e ser\u00edeis o bem-amado de vosso irm\u00e3o Edgar.\u201d \u2014 Hum! Conspira\u00e7\u00e3o! \u201cSe dormisse at\u00e9 que eu o despertasse, gozar\u00edeis da metade das rendas dele.\u201d \u2014 Meu filho Edgar teve m\u00e3o para escrever isto? cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro para conceb\u00ea-lo? Como te veio isto ter \u00e0s m\u00e3os? Quem te trouxe esta carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 N\u00e3o foi trazida, senhor, e nisso \u00e9 que consiste toda a treta; foi jogada pela janela de meu quarto.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Reconheceis a letra de vosso irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Se o assunto fosse bom, milorde, eu iria jurar que a letra \u00e9 dele; mas quando o considero mais de perto, quero crer que n\u00e3o seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c9 dele, sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A m\u00e3o \u00e9 dele, milorde; mas espero que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o esteja no conte\u00fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Antes, ele nunca vos sondou a esse respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Nunca, milorde; mas por v\u00e1rias vezes j\u00e1 o ouvi asseverar que quando os filhos atingem a idade adulta e os pais come\u00e7am a declinar, o pai deveria tornar-se como que pupilo do filho, ficando seus bens sob a dire\u00e7\u00e3o deste.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Oh celerado! celerado! A mesma coisa que ele diz na carta! Celerado execr\u00e1vel! Celerado desnaturado, odioso, bestial! Pior do que bestial! Vai busc\u00e1-lo imediatamente. Vou prend\u00ea-lo. Abomin\u00e1vel celerado! Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ao certo n\u00e3o sei, milorde. Se concordardes em sustar vossa indigna\u00e7\u00e3o contra meu irm\u00e3o, at\u00e9 que possais tirar dele melhores testemunhos de suas inten\u00e7\u00f5es, seguireis por um caminho certo; ao passo que se procederdes com viol\u00eancia e vos enganardes quanto aos seus planos, abrireis em vossa honra uma grande brecha e destruireis o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de sua obedi\u00eancia. Atrevo-me a apostar a vida em como ele escreveu isso tudo apenas para p\u00f4r \u00e0 prova a afei\u00e7\u00e3o que eu voto a Vossa Honra, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o maldosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Pensais desse modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Se Vossa Honra concordar, eu vos colocarei em um lugar de onde possais ouvir-nos conversar a esse respeito, vindo desta arte a convencer-vos pelo pr\u00f3prio testemunho dos ouvidos, e isso sem delongas, ainda esta tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ele seja t\u00e3o monstruoso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 De forma alguma; tenho certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 &#8230; com rela\u00e7\u00e3o a seu pr\u00f3prio pai, que lhe dedica amor t\u00e3o terno e desinteressado&#8230; C\u00e9u e terra! Edmundo, ide procur\u00e1-lo; sondai-o, por obs\u00e9quio; arranjai tudo de acordo com vossa sabedoria. Daria todos os meus haveres para poder alcan\u00e7ar plena certeza a esse respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Vou procur\u00e1-lo, senhor, neste momento; farei tudo do melhor modo poss\u00edvel e vos porei a par do que houver.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Esses \u00faltimos eclipses do sol e da lua n\u00e3o nos anunciam nada bom. Muito embora a ci\u00eancia da natureza possa explic\u00e1-los desta ou daquela maneira, a pr\u00f3pria natureza se sente chicoteada pelos efeitos que se lhes seguem. O amor esfria, a amizade desaparece, os irm\u00e3os se desav\u00eam; nas cidades, tumultos; nos campos, disc\u00f3rdias; nos pal\u00e1cios, trai\u00e7\u00f5es, rompendo-se os la\u00e7os entre filhos e pais. Esse meu filho desnaturado confirma aqueles sinais: \u00e9 filho contra pai. O rei se afasta da trilha da natureza: \u00e9 pai contra filho. J\u00e1 vimos o melhor de nosso tempo: maquina\u00e7\u00f5es, imposturas, trai\u00e7\u00f5es e toda sorte de desordens ruinosas nos acompanham sem sossego at\u00e9 \u00e0 sepultura. Vai buscar-me esse celerado, Edmundo; nada ter\u00e1s a perder. Procede com cautela. E o nobre e magn\u00e2nimo Kent, banido! Seu crime, a honestidade! \u00c9 muito estranho! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Essa \u00e9 a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas n\u00e3o nos correm bem \u2014 muitas vezes por culpa de nossos pr\u00f3prios excessos \u2014 pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se f\u00f4ssemos celerados por necessidade, tolos por compuls\u00e3o celeste, velhacos, ladr\u00f5es e traidores pelo predom\u00ednio das esferas; b\u00eabedos, mentirosos e ad\u00falteros, pela obedi\u00eancia for\u00e7osa a influ\u00eancias planet\u00e1rias, sendo toda nossa ruindade atribu\u00edda \u00e0 influ\u00eancia divina&#8230; \u00d3tima escapat\u00f3ria para o homem, esse mestre da devassid\u00e3o, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou \u00e0 minha m\u00e3e sob a cauda do Drag\u00e3o e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo p\u00e9 de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasi\u00e3o de minha bastardiza\u00e7\u00e3o. Edgar&#8230; (<i>Entra Edgar.<\/i>) Pronto! Ei-lo que chega, tal qual a cat\u00e1strofe na velha com\u00e9dia. Minha deixa \u00e9 \u201cMelancolia p\u00e9rfida\u201d, com um suspiro como os de Tom de Bedlam. Oh! Esses eclipses pressagiam as desordens que vemos. F\u00e1, sol, l\u00e1, mi!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ol\u00e1, mano Edmundo! Que graves medita\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Estava pensando, mano, numa predi\u00e7\u00e3o que li num dia destes, sobre o que h\u00e1 de seguir-se a estes eclipses.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Preocupai-vos com essas coisas?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Posso afirmar-vos que por infelicidade se realizam os efeitos anunciados, tal como: sentimentos contra as leis da natureza entre pais e filhos; mortes, fome, dissolu\u00e7\u00e3o de amizades antigas, divis\u00f5es no Estado, amea\u00e7as e maldi\u00e7\u00f5es contra os reis e os nobres, suspeitas injustificadas, proscri\u00e7\u00e3o de amigos, dispers\u00e3o de coortes, infra\u00e7\u00f5es conjugais e n\u00e3o sei o que mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 H\u00e1 quanto tempo sois sect\u00e1rio da astronomia?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Vamos, vamos&#8230; Quando vistes meu pai pela \u00faltima vez?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ontem \u00e0 noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Falastes-lhe?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Sim; duas horas seguidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Despedistes-vos em bons termos? N\u00e3o observastes nele nenhum sinal de descontentamento, quer na fisionomia, quer nas express\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Absolutamente nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Refleti melhor sobre o que poder\u00edeis ter feito para ofend\u00ea-lo, e fazei-me neste ponto a vontade, evitando sua presen\u00e7a, at\u00e9 que o tempo se incumba de esfriar o ardor de seu desagrado, que neste momento de tal modo se mostra revolto, que dificilmente poderia acalmar-se com maltratar vossa pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Algum celerado me fez isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 \u00c9 o que eu receio. Pe\u00e7o que o eviteis com paci\u00eancia, at\u00e9 que se torne mais vagaroso o \u00edmpeto de sua c\u00f3lera. E, como disse, retirai-vos para os meus aposentos, onde disporei as coisas de modo que possais ouvir milorde conversar. Ide logo, por obs\u00e9quio. Se vos arriscardes a sair, que seja armado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Armado, irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Mano, eu vos aconselho para vosso bem; sa\u00ed armado. N\u00e3o quero ser homem de bem, se em tudo isso houver algo de bom para v\u00f3s. Contei-vos o que vi e ouvi, mas muito por cima, sem vos apresentar a imagem horrorosa da coisa. Pe\u00e7o-vos, ide logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Terei logo not\u00edcias vossas?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Neste neg\u00f3cio estarei a vosso inteiro dispor. (<i>Sai Edgar.<\/i>) Um pai simpl\u00f3rio e um mano em tudo nobre, que, pela pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o longe se acha de qualquer mal, que nem suspeitas sobre isso pode ter e em cuja tola probidade montar vai facilmente minha velhacaria. A coisa \u00e9 clara: terras vou ter, ganhando-as com finura; falhando o ber\u00e7o, o esp\u00edrito as segura. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no pal\u00e1cio do duque de Alb\u00e2nia. Entram Goneril e seu intendente Osvaldo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Sim, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Dia e noite me ofende. N\u00e3o se passa nenhuma hora sem que ele n\u00e3o fuzile com qualquer grosseria, que a n\u00f3s todos traz somente disc\u00f3rdia. N\u00e3o o suporto; turbulentos est\u00e3o seus cavaleiros e a censurar-nos ele pr\u00f3prio vive por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha. N\u00e3o pretendo falar com ele, quando vier da ca\u00e7a. Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa neglig\u00eancia algum servi\u00e7o, estar\u00e1 bem; responderei por tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Ei-lo, senhora; ou\u00e7o o barulho dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se toque de trompa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Mostrai a neglig\u00eancia que quiserdes, v\u00f3s e os outros de casa, pois desejo que me venha falar a esse respeito. Se n\u00e3o gostar, ent\u00e3o que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou certa, est\u00e1 de acordo com o meu, em n\u00e3o querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre o que j\u00e1 doou! Por minha vida, os velhos tontos s\u00e3o de novo crian\u00e7as; com ralhos, s\u00f3, precisam ser tratados. Lembrai-vos do que eu disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Sim, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 E lan\u00e7ai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei \u00e0 mana, para que ela fa\u00e7a como eu. Prepara logo a ceia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr14\" name=\"lr14\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala no mesmo. Entra Kent disfar\u00e7ado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Se eu puder conseguir uma outra fala que torne a minha estranha, \u00e9 bem poss\u00edvel que minha boa empresa a alcan\u00e7ar venha o \u00eaxito pleno pelo qual as pr\u00f3prias fei\u00e7\u00f5es desfigurei. Banido Kent, se ora servir puderes l\u00e1 mesmo de onde h\u00e1 pouco foste expulso, pode se dar que o mestre a que tanto amas te encontre servi\u00e7al.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trompa. Entram Lear, cavaleiros e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o me fa\u00e7am esperar nem um segundo pelo jantar. Vai logo apront\u00e1-lo. (<i>Sai o criado.<\/i>) Ent\u00e3o, quem \u00e9s tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Um homem, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Qual \u00e9 a tua profiss\u00e3o? Que pretendes de n\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Minha profiss\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ser menos do que pare\u00e7o; servir fielmente a quem confiar em mim; amar quem for honesto; conversar com quem for s\u00e1bio e falar pouco; temer a justi\u00e7a; brigar quando n\u00e3o houver outro jeito, e n\u00e3o comer peixe.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quem \u00e9s tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Um tipo de cora\u00e7\u00e3o honesto e t\u00e3o pobre quanto o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Se como s\u00fadito \u00e9s t\u00e3o pobre quanto ele como rei, \u00e9s, realmente, paup\u00e9rrimo. Que desejas?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 A quem queres servir?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 A v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Conheces-me, companheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o, senhor; mas revelais algo em vossa postura, que me leva a vos chamar de mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 E que coisa \u00e9 essa?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Autoridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que servi\u00e7os podes prestar?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Sei guardar um segredo honesto, montar a cavalo, correr, estropiar uma hist\u00f3ria interessante, dizer grosseiramente uma mensagem f\u00e1cil. Tudo o que um homem ordin\u00e1rio pode fazer, eu tamb\u00e9m posso, sendo o melhor em mim a dilig\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que idade tens?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o sou t\u00e3o jovem, senhor, para amar uma mulher por causa de seu canto, nem t\u00e3o velho para me apaixonar por ela sem motivo: tenho quarenta e oito anos na carcunda.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Segue-me; ir\u00e1s servir-me. Se depois do jantar n\u00e3o me pareceres pior, n\u00e3o nos separaremos muito logo. O jantar, ol\u00e1! Onde est\u00e1 o meu rapaz? O meu bobo? \u2014 V\u00f3s, a\u00ed: ide chamar o meu bobo. (<i>Sai um criado.<\/i>) (<i>Entra Osvaldo.<\/i>) V\u00f3s a\u00ed, maroto: onde est\u00e1 minha filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Se o permitis&#8230; (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que foi que disse aquele tipo? Chamai-me aqui esse r\u00fastico. (<i>Sai um cavaleiro.<\/i>) Onde est\u00e1 o meu bobo, eh! S\u00f3 parece que o mundo est\u00e1 dormindo. Ent\u00e3o, onde est\u00e1 esse mastim?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o cavaleiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAVALEIRO \u2014 Ele disse, milorde, que vossa filha n\u00e3o est\u00e1 passando bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Por que motivo aquele escravo n\u00e3o voltou, quando o chamei?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAVALEIRO \u2014 Senhor, ele me respondeu redondamente que n\u00e3o queria voltar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o queria?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAVALEIRO \u2014 Senhor, n\u00e3o sei o que acontece, mas, a meu ver, Vossa Alteza n\u00e3o \u00e9 tratado com a afei\u00e7\u00e3o cerimoniosa a que est\u00e1veis acostumado. Observa-se sens\u00edvel quebra de carinho, n\u00e3o s\u00f3 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conduta da criadagem, como com a do pr\u00f3prio duque e a de vossa filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ah! \u00c9s dessa opini\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAVALEIRO \u2014 Suplico-vos, milorde, que me perdoeis, se eu estiver enganado, mas o meu zelo n\u00e3o pode ficar calado, quando penso que Vossa Alteza est\u00e1 sendo prejudicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Fazes-me lembrado de minha pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o; ultimamente tenho notado um certo qu\u00ea de neglig\u00eancia, que eu atribu\u00eda mais \u00e0 minha pr\u00f3pria natureza desconfiada do que a qualquer inten\u00e7\u00e3o real e ao prop\u00f3sito de descortesia. Vou examinar isso de mais perto. Mas onde est\u00e1 o meu bobo? H\u00e1 dois dias que n\u00e3o o vejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAVALEIRO \u2014 Desde que a minha jovem senhora partiu para a Fran\u00e7a, senhor, o bobo definhou bastante.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sobre isso, basta; j\u00e1 o havia notado muito bem. \u2014 V\u00f3s a\u00ed! Ide dizer a minha filha que desejo falar-lhe. (<i>Sai o criado.<\/i>) E v\u00f3s, ide chamar o meu bobo! (<i>Sai outro criado.<\/i>) (<i>Entra Osvaldo.<\/i>) Oh! V\u00f3s, Senhor! Vinde c\u00e1, senhor! Quem sou eu, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 O pai da senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u201cO pai da senhora\u201d? O criado do senhor, c\u00e3o! Bastardo, escravo, maroto!<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Com vossa permiss\u00e3o, milorde, mas n\u00e3o sou nada disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Atreves-te a fitar-me desse modo, biltre? (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 N\u00e3o consinto que me batam, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Nem que te d\u00eaem um pontap\u00e9, meu jogador de futebol? (<i>D\u00e1-lhe um pontap\u00e9.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Agrade\u00e7o-te, companheiro; tu me serves, e eu passarei a estimar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Vamos, senhor, levantai-vos! Fora daqui! Vou ensinar-vos a distinguir as pessoas. Fora! Fora! Se quiserdes medir outra vez vosso comprimento de labrego, \u00e9 s\u00f3 continuardes aqui. Caso contr\u00e1rio, fora! Vamos! N\u00e3o tendes senso? Assim! (<i>Empurra Osvaldo para fora.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Muito obrigado, amigo servidor; aqui est\u00e1 pelo teu servi\u00e7o. \u00a0(<i>D\u00e1 dinheiro a Kent.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Eu tamb\u00e9m desejo recompens\u00e1-lo; aqui est\u00e1 o meu barrete. (<i>Oferece o gorro a Kent.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ent\u00e3o, meu belo peralta, que est\u00e1s fazendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Amigo, farias bem em aceitar o meu gorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por qu\u00ea, bobo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por teres tomado o partido de quem j\u00e1 caiu no desagrado. \u00c9 assim; se n\u00e3o puderes sorrir do lado do vento, em pouco tempo apanhar\u00e1s resfriado. Toma; fica como meu gorro. Ora v\u00ea, este sujeito baniu duas de suas filhas e fez um grande favor \u00e0 terceira, contra a pr\u00f3pria vontade dela. Se vais segui-lo, precisar\u00e1s usar o meu gorro. Ent\u00e3o, meu tio? Quisera ter dois gorros e duas filhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Por qu\u00ea, menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se eu chegasse a lhes dar todos os meus haveres, me reservaria os gorros. Este aqui me pertence; pede outro a tuas filhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Toma cuidado com a chibata, maroto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 A verdade \u00e9 um cachorro que se mete na casinha e precisa ser chibateada para sair, enquanto a senhora galga pode ficar a feder junto do fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Pestil\u00eancia amarga para mim!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO (<i>a Kent<\/i>) \u2014 Amigo, vou ensinar-te um discurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ou\u00e7amo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Toma nota, tio: N\u00e3o esbanjes teu estado; embora o saibas, calado; n\u00e3o andes, sejas levado; no aprender, muito cuidado; guarda sempre o maior bocado; deixa as mulheres e o vinho; n\u00e3o te metas com o vizinho, porque em uma e outra dezena ter\u00e1s mais uma vintena.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Isso tudo e nada \u00e9 a mesma coisa, bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 como discurso de advogado sem sal\u00e1rio. Destes-me nada por ele. Tio, poder\u00edeis fazer algum uso de nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o, menino; nada pode ser feito de nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO (<i>a Kent<\/i>) \u2014 Por obs\u00e9quio, dize-lhe a quanto monta a renda de suas terras; ele n\u00e3o acredita num bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Um bobo amargo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Saber\u00e1s dizer, meu rapaz, que diferen\u00e7a h\u00e1 entre um bobo amargo e um bobo doce?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o, menino; ensina-ma.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras p\u00f5e aqui ao lado meu, e o dele toma; n\u00e3o erras: ver\u00e1s logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro a\u00ed mesmo, achacoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 J\u00e1 abriste m\u00e3o de todos os outros t\u00edtulos; esse \u00e9 o \u00fanico que te veio do ber\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Milorde, o que ele disse n\u00e3o \u00e9 inteiramente destitu\u00eddo de senso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o, por minha f\u00e9; os senhores e os grandes n\u00e3o permitir\u00e3o que eu fique sozinho; se eu obtiver o monop\u00f3lio, eles h\u00e3o de querer sua parte, e as senhoras tamb\u00e9m; n\u00e3o deixar\u00e3o que toda a loucura fique comigo; vir\u00e3o arrebatar-me um peda\u00e7o. Tio, d\u00e1-me um ovo, que te darei duas coroas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que esp\u00e9cie de coroas?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, depois de haver cortado o ovo em duas partes e comido o seu conte\u00fado, as duas coroas do ovo. Quando partiste pelo meio a tua coroa e deste as duas metades, carregas-te o burro \u00e0s costas atrav\u00e9s do atoleiro. N\u00e3o tinhas esp\u00edrito em tua coroa calva, quando fizeste presente da de ouro. Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nunca os lobos passaram tanto apuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O s\u00e1bio \u00e9 tolo e fraco;<\/p>\n<p align=\"justify\">a mente n\u00e3o podendo usar no escuro,<\/p>\n<p align=\"justify\">vive como macaco.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Desde quando ficaste t\u00e3o amigo de can\u00e7\u00f5es, maroto?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas m\u00e3es. Porque desde que lhes entregaste a vergasta e desceste os cal\u00e7\u00f5es, elas choram de alegria; de tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia mas na cabe\u00e7a, nem tanto. Tio, por obs\u00e9quio, arranja um mestre-escola que ensine teu bobo a mentir. Desejara muito aprender a mentir.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Se mentires, maroto, ser\u00e1s a\u00e7oitado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me a\u00e7oitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido a\u00e7oitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas n\u00e3o desejo ser o que \u00e9s, tio; dos dois lados raspaste o esp\u00edrito, sem deixar nada no meio. A\u00ed vem vindo uma das raspadoras.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Goneril.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ent\u00e3o, filha? Por que esse diadema carrancudo? Ultimamente s\u00f3 parece que andais sempre de sobrecenho fechado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tu eras um belo tipo, quando n\u00e3o precisavas preocupar-te com as suas carrancas; agora \u00e9s um zero sem n\u00famero. Presentemente, sou mais do que tu; sou um bobo, ao passo que tu \u00e9s nada. (<i>A Goneril.<\/i>) Pois n\u00e3o, pois n\u00e3o! Vou segurar a l\u00edngua, que \u00e9 o que vossa fisionomia me est\u00e1 ordenando, muito embora nada houv\u00e9sseis dito. Mum, mum! Quem n\u00e3o guardou mel nenhum, tem de viver em jejum. Ali est\u00e1 uma ervilha sem gr\u00e3o. (<i>Apontando para Lear.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 N\u00e3o somente, senhor, o vosso bobo, que se permite muitas liberdades, como outros cavaleiros insolentes de vosso s\u00e9q\u00fcito, a cada hora brigam e suscitam quest\u00f5es, fazendo arrua\u00e7as de todo intoler\u00e1veis. Pois, senhor, pensei que, pondo-vos a par do fato, acharia rem\u00e9dio; mas come\u00e7o, realmente, a me temer, pelo que h\u00e1 pouco dissestes e fizestes, que esse abuso apoio encontra em v\u00f3s, tomando alento em vossa toler\u00e2ncia. Se for isso, n\u00e3o deixar\u00e1 de ser punida a falta nem de velar os meios de defesa que, ao bem-estar de todos s\u00f3 visando, poder\u00e1 ofender-vos por maneira que, em outras conex\u00f5es, fora aprobriosa, mas que a necessidade o nome empresta de conduta discreta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Porque, como sabeis, tio, tanto ao pardal o cuco deu bom milho, que a cabe\u00e7a esmagou-lhe o pr\u00f3prio filho. E assim a luz se apagou e n\u00f3s ficamos no escuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sois nossa filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Desejara que us\u00e1sseis o bom senso de que vos sei provido e que pus\u00e9sseis de lado essas disposi\u00e7\u00f5es recentes que a tal ponto vos tem mudado a ess\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o saber\u00e1 um asno, quando a carro\u00e7a puxa o cavalo? \u201cToca, Jug! Eu te amo!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Conhece-me ainda algu\u00e9m? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 Lear. Andava Lear assim? Falava assim? Onde ter\u00e1 os olhos? H\u00e1 de fraca ter a raz\u00e3o e rombos os sentidos. Estarei acordado? N\u00e3o. Quem pode vir-me contar quem em verdade eu seja?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 A sombra de Lear.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Desejaria aprender isso, porque pelos atributos da soberania, do conhecimento e da raz\u00e3o, eu seria levado a crer que tive filhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Que fariam de v\u00f3s um pai obediente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como vos chamais, bela senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Esse espanto, senhor, \u00e9 mui do gosto de vossa nova telha. Desejara que compreend\u00easseis bem minha inten\u00e7\u00e3o. Por velho e vener\u00e1vel, dever\u00edeis ser sensato tamb\u00e9m. Uma centena de cavaleiros e escudeiros tendes para servir-vos, gente de tal modo desordeira, atrevida e depravada, que nossa corte, corrompida pelas pr\u00e1ticas deles todos, se assemelha a taberna em motim. O epicurismo e a torpeza fizeram-na tornar-se mais taberna e bordel do que pal\u00e1cio cheio de tradi\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio pejo est\u00e1 a exigir uma medida urgente. Deixai-vos, pois, rogar por quem, sem isso, vos tomara o que pede, isto \u00e9, de um pouco reduzir vosso s\u00e9q\u00fcito, devendo ser o restante, apenas, destinado a vos cuidar da idade e, sobretudo, ter consci\u00eancia de v\u00f3s e dessa gente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Dem\u00f4nio e inferno! Tragam meu cavalo! Reuni logo meu s\u00e9q\u00fcito! Bastarda degenerada, n\u00e3o desejo ser-te pesado em nada. Resta-me outra filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Bateis na minha gente, e essa canalha desordenada trata os superiores como se fossem criados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Alb\u00e2nia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ai de quem se arrepende tardiamente! (<i>A Alb\u00e2nia.<\/i>) \u00d3 senhor, v\u00f3s aqui? S\u00e3o ordens vossas? Falai, senhor! \u2014 Ol\u00e1! Mandai trazer-me o meu cavalo! \u2014 Ingratid\u00e3o, dem\u00f4nio de cora\u00e7\u00e3o de m\u00e1rmore, mais feio, quando numa crian\u00e7a se revela, do que o monstro marinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, ficai mais calmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR (<i>a Goneril<\/i>) \u2014 Detest\u00e1vel harpia, est\u00e1s mentindo! Minha gente toda \u00e9 escolhida e de costumes limpos; conhecedores s\u00e3o de seus deveres e com muito cuidado mant\u00eam sempre a honra do pr\u00f3prio nome. \u00d3 faltazinha, como em Cord\u00e9lia apareceste feia! Tu, como banco de tormento, as traves de minha natureza deslocaste de seu estado fixo e todo o afeto me chupaste do peito, transformando-o no fel mais amargoso. \u00d3 Lear! \u00d3 Lear! (<i>Batendo na testa.<\/i>) Bate agora a esta porta, que a loucura deixou entrar e o teu t\u00e3o caro ju\u00edzo permitiu que sa\u00edsse. Vamos, vamos, minha gente!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Senhor, sou inocente, como n\u00e3o sei tamb\u00e9m qual o motivo que vos deixou col\u00e9rico.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u00c9 poss\u00edvel, meu senhor. Natureza, agora me ouve! Deusa querida, atende-me! Suspende teus des\u00edgnios, se acaso pretendias deixar fecunda agora esta criatura; ao ventre lan\u00e7a-lhe a esterilidade, ressequidos lhe deixa os \u00f3rg\u00e3os todos da procria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o permitindo nunca que lhe nas\u00e7a do corpo desprez\u00edvel uma crian\u00e7a que a possa honrar um dia. Se tiver de procriar, que tenha um filho feito s\u00f3 de mal\u00edcia, porque viva para um desnaturado e pervertido tormento lhe ser sempre. Que lhe fa\u00e7a muitas rugas nascer na fronte jovem e, com ardentes l\u00e1grimas, profundos sulcos lhe abra nas faces; que compense com chacotas e riso os sofrimentos e cuidados maternos, para que ela possa ver como d\u00f3i mais fundamente que o dente da serpente a filha ingrata. Fora daqui! Partamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Deuses do alto, que adoramos, que \u00e9 que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 N\u00e3o vos seja preocupa\u00e7\u00e3o saberdes o motivo. Que seus caprichos tenham livre o campo que sua caduquice lhes confere.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Lear.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como! Cinq\u00fcenta dos meus homens, postos de lado, de uma vez, em quinze dias?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Que aconteceu, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 J\u00e1 vou contar-te. (<i>A Goneril.<\/i>) Vida e morte! Envergonha-me que tenhas poder para abalar dessa maneira minha virilidade e que estas l\u00e1grimas escaldantes, que \u00e0 for\u00e7a se me escapam, te fa\u00e7am parecer condigna delas. Caiam em ti nevoeiros e rajadas. Que as feridas profundas da paterna maldi\u00e7\u00e3o os sentidos te corroam. Velhos olhos e tontos, se chorardes novamente essa causa, hei de arrancar-vos para ao barro atirar-vos e, com as gotas que estiverdes perdendo, amolec\u00ea-lo. Chegamos a este ponto? Pois que seja! Outra filha me resta, estando eu certo de que ela \u00e9 para mim bondosa e af\u00e1vel. Quando vier a saber o que fizeste, h\u00e1 de com as pr\u00f3prias unhas arranhar-te essas fei\u00e7\u00f5es de lobo. Ent\u00e3o, a forma me ver\u00e1s reassumir que ora presumes perdida para sempre. \u00c9 o que te digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lear, Kent e o s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Ouvistes tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Goneril, n\u00e3o posso ser t\u00e3o parcial, embora vos estime&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Por obs\u00e9quio, \u00e9 o bastante. Ol\u00e1! Osvaldo! (<i>Ao bobo.<\/i>) V\u00f3s, senhor, mais velhaco do que bobo, segui vosso patr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tio Lear! Tio Lear! Espera a\u00ed e leva o bobo contigo! Se uma raposa eu pegasse com sua filha repace e o couro dela tirasse&#8230; De gorro assim sobre a face, seria o bobo da classe. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Esse homem tem raz\u00e3o: cem cavaleiros! Fora boa pol\u00edtica, em verdade, deix\u00e1-lo com cem homens que, por nada, qualquer queixa, capricho ou fantasia, armas \u00e0 caduquice lhe dariam, ficando dependendo nossas vidas s\u00f3 de sua merc\u00ea. Ol\u00e1, Osvaldo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Vosso medo \u00e9 excessivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 \u00c9 mais seguro do que confiar demais. E prefer\u00edvel o obst\u00e1culo afastar de que me temo, a temer ser pegada de surpresa. Conhe\u00e7o-o muito bem; j\u00e1 por escrito comuniquei \u00e0 mana o que ele disse. Se ela o aceitar com todos os seus homens depois de eu ter mostrado&#8230; (<i>Entra Osvaldo.<\/i>) Ent\u00e3o, Osvaldo, j\u00e1 escrevestes a carta para a mana?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Sim, escrevi, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Levai convosco alguns dos nossos homens e parti a cavalo. Dai-lhe plenas informa\u00e7\u00f5es de tudo o que receio, acrescentando o que quiserdes, para refor\u00e7ar o recado. Parti logo, e, assim, voltai depressa. (<i>Sai Osvaldo.<\/i>) N\u00e3o, milorde, essa brandura que mostrais, leitosa, conquanto eu n\u00e3o censure, permiti-me que vos diga, por\u00e9m: mais censurado sois por falta de senso do que mesmo louvado por bondoso em demasia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 N\u00e3o sei at\u00e9 onde vosso olhar alcan\u00e7a, mas temo que estragueis a boa usan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Bem, bem; os fatos o dir\u00e3o. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr15\" name=\"lr15\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>P\u00e1tio diante do mesmo. Entram Lear, Kent e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Parti na frente, para Gloster, com estas cartas. N\u00e3o conteis a minha filha do que sabeis sen\u00e3o o que ela vos perguntar com rela\u00e7\u00e3o ao assunto da carta. Se n\u00e3o fordes muito diligente no recado, chegarei l\u00e1 primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o dormirei, senhor, enquanto n\u00e3o tiver entregue vossa carta. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se o homem tivesse o c\u00e9rebro no calcanhar, n\u00e3o correria o risco de apanhar frieira?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Correria, pequeno.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ent\u00e3o pe\u00e7o-te que fiques alegre, porque o teu esp\u00edrito n\u00e3o ir\u00e1 andar de chinelas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ah, ah, ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vais ver como tua outra filha te trata bem, porque embora ela se pare\u00e7a tanto com esta aqui como uma ma\u00e7\u00e3 silvestre com uma ma\u00e7\u00e3 comum, posso dizer o que posso dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que \u00e9 que podes dizer, pequeno?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Que ela te vai ser de gosto t\u00e3o id\u00eantico ao gosto desta como o de duas ma\u00e7\u00e3s silvestres. Saber\u00e1s dar-me a raz\u00e3o de termos o nariz no meio do rosto?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, \u00e9 para ficarmos com um olho de cada lado do nariz, a fim de espiarmos o que n\u00e3o pudermos cheirar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Fui injusto com ela&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sabes como \u00e9 que a ostra fabrica a valva?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Nem eu; mas poderei dizer-te porque o caracol tem casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Por que \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, \u00e9 para guardar a cabe\u00e7a e n\u00e3o a dar \u00e0s filhas ficando, assim, sem ter onde guardar os cornos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quero esquecer minha natureza. Um pai t\u00e3o carinhoso! Est\u00e3o prontos os cavalos?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Teus asnos foram procur\u00e1-los. A raz\u00e3o por que sete estrelas n\u00e3o s\u00e3o mais de sete \u00e9 muito interessante.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o serem oito?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Justamente. Darias um excelente bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Retom\u00e1-lo pela for\u00e7a! Ingratid\u00e3o monstruosa!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se tu fosses o meu bobo, tio, eu te daria uma sova por teres ficado velho antes do tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o devias ter envelhecido antes de ficares s\u00e1bio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o quero ficar louco, c\u00e9u bondoso! Mant\u00e9m-me o ju\u00edzo; tudo menos louco! (<i>Entra um gentil-homem.<\/i>) Ent\u00e3o, est\u00e3o prontos os cavalos?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Est\u00e3o prontos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Vamos, pequeno.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 A donzela que rir de mim neste momento, donzela n\u00e3o ser\u00e1, se \u00e9 certo o que ora avento.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr21\" name=\"lr21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>P\u00e1tio diante do castelo do duque de Gloster. Entram Edmundo e Curan, que se encontram.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Deus te guarde, Curan.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURAN \u2014 E a v\u00f3s tamb\u00e9m, senhor. Estive com vosso pai e lhe dei a not\u00edcia de que o duque de Cornualha e Regane sua duquesa chegar\u00e3o aqui esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 E por que isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURAN \u2014 Ignoro-o. N\u00e3o ouvistes as not\u00edcias que correm por a\u00ed? Refiro-me apenas \u00e0s que s\u00e3o cochichadas e que n\u00e3o s\u00e3o mais do que assuntos soprados aos ouvidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Eu? N\u00e3o. Por obs\u00e9quio, quais s\u00e3o elas?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURAN \u2014 N\u00e3o ouvistes dizer que \u00e9 muito prov\u00e1vel uma guerra entre os duques de Cornualha e de Alb\u00e2nia?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Nem uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURAN \u2014 Ent\u00e3o ainda haveis de ouvir algo a esse respeite. Passai bem, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 O duque aqui esta noite? Melhor&#8230; \u00d3timo! Isso cai mesmo certo no meu plano. Meu pai p\u00f4s gente em busca de meu mano e um neg\u00f3cio nauseoso ainda me resta para ser posto em pr\u00e1tica. M\u00e3os \u00e0 obra. Celeridade e sorte! Mano, mano! Uma palavra! Vinde! Estou chamando! (<i>Entra Edgar.<\/i>) Meu pai est\u00e1 de espreita. Oh! Fugi logo; deixai o esconderijo, que este ponto j\u00e1 se tornou sabido. \u00c9 conveniente aproveitar a noite. Por acaso n\u00e3o vos manifestastes em preju\u00edzo do duque de Cornualha? Ele vem vindo para aqui, apressado, em plena noite, e Regane com ele. N\u00e3o dissestes a favor dele nada, contra o duque de Alb\u00e2nia? Pensai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 N\u00e3o disse nada, tenho certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ou\u00e7o meu pai que chega. Perdoai-me, mas por fingimento, apenas, tirai tamb\u00e9m a espada e defendei-vos, s\u00f3 por simula\u00e7\u00e3o. Parti, agora. \u2014 Rendei-vos! Vamos ante nosso pai! Luz, aqui! \u2014 Fugi, mano! \u2014 Tochas! Tochas! \u2014 Assim. Adeus, adeus. (<i>Sai Edgar.<\/i>) Agora um pouco de sangue h\u00e1 de fazer nascer a id\u00e9ia de um combate mais s\u00e9rio. (<i>Fere-se no bra\u00e7o.<\/i>) J\u00e1 vi b\u00eabedos fazer por brincadeira mais do que isso. Pai! Pai! Prendei! Prendei! Ningu\u00e9m me ajuda?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Gloster e criados, com tochas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Edmundo, onde est\u00e1 o biltre?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Aqui se achava, no escuro, espada em punho, depravados conjuros resmungando e, como a dama auspiciosa, a invocar a pr\u00f3pria lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Mas onde est\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Senhor, estou sangrando.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Mas onde est\u00e1 esse vil\u00e3o, Edmundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Fugiu por l\u00e1, senhor, quando viu que era de todo in\u00fatil&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 L\u00e1? Ide atr\u00e1s dele! (<i>Saem alguns criados.<\/i>) \u201cDe todo in\u00fatil&#8230;\u201d Qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Sim, persuadir-me a vos tirar a vida. Respondi-lhe que os deuses vingadores desferiam seus duros raios contra os parricidas; lembrei-lhe os la\u00e7os m\u00faltiplos e fortes que aos pais os filhos prendem. Em resumo, senhor: vendo o desgosto que eu opunha a suas inten\u00e7\u00f5es desnaturadas, enraivecido, espada em punho, ataca-me o corpo exposto e o bra\u00e7o aqui me fere. Mas ao ver que os esp\u00edritos eu tinha bem despertos e que pela justeza da causa a combat\u00ea-lo se atreviam, ou por eu ter muito barulho feito, de repente, fugiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Pode esconder-se onde quiser, que neste territ\u00f3rio encontrado h\u00e1 de ser. E, uma vez preso&#8230; liquidado. Meu mestre, o nobre duque, meu mui d\u00edgno patrono e amado pr\u00edncipe chega esta noite. Assim, proclamarei, com sua autoridade, que h\u00e1 de nossa gra\u00e7a alcan\u00e7ar quem quer que encontre o biltre e o covarde assassino entregue ao cepo. E se algu\u00e9m o esconder, morra igualmente!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 E quando procurava dissuadi-lo de semelhante intento, achando-o cada vez mais determinado em realiz\u00e1-lo, e ameacei denunci\u00e1-lo, respondeu-me: \u201cBastardo sem haveres, ent\u00e3o pensas que, se acareados f\u00f4ssemos, alguma confian\u00e7a em teu valor, virtude ou m\u00e9rito refor\u00e7ar poderia o que dissesses? N\u00e3o; pois o que eu negasse \u2014 e hei de faz\u00ea-lo, embora apresentasses cartas minhas \u2014 atribuiria tudo a teus conselhos, tra\u00e7a e manobras p\u00e9rfidas. Preciso fora deixares tolo o mundo inteiro, para que ningu\u00e9m visse quanto o lucro de minha morte te seria est\u00edmulo para que a procurasses\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Celerado teimoso e endurecido! Negaria sua pr\u00f3pria carta? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 meu filho. (<i>Fanfarras.<\/i>) Aten\u00e7\u00e3o! As trombetas s\u00e3o do duque. N\u00e3o sei por que motivo nos visita. Os portos fecharei, para que o biltre n\u00e3o nos possa escapar. O duque me h\u00e1 de permitir isso. Espalharei por toda parte o retrato dele; assim, o reino conhecer\u00e1 seus tra\u00e7os. Minhas terras, rapaz fiel e natural, recursos hei de arranjar para que a herd\u00e1-las venhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Cornualha, Regane e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Ent\u00e3o, meu nobre amigo? Desde o instante que aqui cheguei \u2014 e foi neste momento \u2014 soube coisas mui raras.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Confirmadas, toda vingan\u00e7a ainda n\u00e3o bastara para ir sobre o ofensor. Ent\u00e3o, milorde?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00d3 senhora, senhora! Espeda\u00e7ado ficou-me o cora\u00e7\u00e3o. Espeda\u00e7ado!<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Como! O afilhado de meu pai tentou contra vossa exist\u00eancia? Aquele mesmo em que meu pai p\u00f4s nome? Vosso Edgar?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00d3 senhora! A vergonha ora me manda ficar calado.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Acaso ele n\u00e3o era companheiro dos homens turbulentos que servem a meu pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o sei, senhora Oh! \u00c9 terr\u00edvel tudo!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Sim, senhora; pertencia a esse bando.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Se assim \u00e9, n\u00e3o admira que mostrasse sentimentos t\u00e3o baixos. Partiu deles a id\u00e9ia de matar o velho, para desbaratarem logo seus haveres. De minha irm\u00e3 recebi hoje cedo boas informa\u00e7\u00f5es sobre essa gente, com tantas advert\u00eancias, que, se acaso quiserem ir parar em minha casa, n\u00e3o me encontrarei l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Nem eu, Regane. Edmundo, soube agora que prestastes a vosso pai servi\u00e7os de bom filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 S\u00f3 fiz o meu dever.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Fez frustrar a manobra do outro, tendo recebido a ferida que aqui vedes, quando tentou prend\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Seguiu gente no encal\u00e7o dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Sim, meu bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Sendo apanhado, havemos de deix\u00e1-lo em condi\u00e7\u00f5es de nunca mais receio vir a causar a algu\u00e9m. Tomai v\u00f3s mesmo todas as provid\u00eancias e disponde do meu poder como vos for do agrado. E v\u00f3s, Edmundo, t\u00e3o recompensado neste momento, assim pela obedi\u00eancia como pela virtude, sereis nosso. Pessoas de lealdade t\u00e3o provada s\u00e3o muito necess\u00e1rias. Come\u00e7amos, assim, por nos apoderar de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Embora mais n\u00e3o fa\u00e7a, hei de lealmente servir a meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Muito agrade\u00e7o por ele a Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Com certeza n\u00e3o sabeis a raz\u00e3o desta visita&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 . . .assim fora de tempo, abrindo nosso caminho pela noite de olhos negros. Motivos, nobre Gloster, de algum peso tornam vossos conselhos necess\u00e1rios. Nosso pai nos escreve, e nossa mana, sobre certos diss\u00eddios, parecendo-me mais acertado responder a todos longe de nossa casa. Os mensageiros est\u00e3o aqui \u00e0 espera da resposta. Velho e bondoso amigo, deixai calmo, de todo, o cora\u00e7\u00e3o, e em nosso aux\u00edlio vinde com bons conselhos sobre assunto que exige muita urg\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Ao vosso inteiro dispor, senhor, me encontro. Vossas Gra\u00e7as s\u00e3o bem-vindas aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr22\" name=\"lr22\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante do castelo de Gloster. Entram Kent e Osvaldo, por lados diferentes.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Boa manh\u00e3 para ti, amigo; \u00e9s desta casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Onde poderemos p\u00f4r os cavalos?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 No charco.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Informa-me, por obs\u00e9quio, se me tens amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o te tenho amizade nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Nesse caso n\u00e3o me preocuparei contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Se eu te pegasse no curral de Lipsbury, obrigar-te-ia a te preocupares comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Por que me tratas desse modo? N\u00e3o te conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Mas eu te conhe\u00e7o, traste.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Por quem me tomas tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por um biltre, um canalha, devorador de restos; um biltre ign\u00f3bil, atrevido, oco, indigente, de tr\u00eas libr\u00e9s, massabruta, imundo, de meias estragadas; um biltre com f\u00edgado de l\u00edrio, um chicanista; nascido na sarjeta, namorador do espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que s\u00f3 herdou uma roupa, um tipo que servir\u00e1 de alcoviteiro, \u00e0 guisa de bons servi\u00e7os, mas que n\u00e3o passa de um misto de velhaco, mendigo, covarde, alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um tipo em que darei uma co\u00e7a de arrancar rugidos, no caso de contestares a menor s\u00edlaba de todos estes teus t\u00edtulos honor\u00edficos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Ora, que sujeito monstruoso \u00e9s tu, para deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece nem \u00e9 conhecida por ti?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Que tipo de cara de bronze \u00e9s tu, para dizeres que n\u00e3o me conheces, se h\u00e1 dois dias eu te dei um pontap\u00e9 na frente do rei? Saca a tua espada, pulha; ser noite n\u00e3o importa, visto que h\u00e1 luar; vou fazer de ti uma sopa \u00e0 luz da lua. (<i>Sacando da espada.<\/i>) Vamos, desembainha tamb\u00e9m a tua espada, maroto, coisa \u00e0 toa, peralvilho! Vamos, desembainha!<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Retira-te daqui! N\u00e3o tenho nada que ver contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Desembainha, maroto! Trouxestes cartas contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa, contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se n\u00e3o retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre! Toma posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Socorro! Ol\u00e1! Assassino! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defende-te! Vamos, ataca, lacaio! (<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Edmundo, de florete na m\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ent\u00e3o, que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 \u00c9 convosco, se vos aprouver, meu rapazinho. Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Espadas! Armas! Que se passa aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Por vossa vida, paz! Morre quem prosseguir. Que \u00e9 que se passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Os mensageiros s\u00e3o do rei e da mana.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Qual o motivo dessa briga? Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Quase n\u00e3o posso respirar, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o admira, pois for\u00e7aste demais a valentia. Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por algum alfaiate.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 \u00c9s um tipo curioso; um alfaiate fazer um homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um pintor n\u00e3o o teriam feito t\u00e3o mal, ainda que s\u00f3 trabalhassem duas horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Falai v\u00f3s agora: que foi que originou essa briga?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Este velho desordeiro, senhor, cuja vida eu poupei s\u00f3 por causa daquelas barbas brancas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 \u00d3 amaldi\u00e7oado! Letra in\u00fatil! Milorde, se o permitirdes, amassarei num pil\u00e3o esse vil\u00e3o grosseiro, para enlambuzar com ele as paredes da latrina. Ent\u00e3o poupastes-me as barbas brancas, meu ranheta?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Sil\u00eancio, biltre! Grosseir\u00e3o, desconheces o respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Conhe\u00e7o, sim senhor; mas \u00e9 que a c\u00f3lera tamb\u00e9m tem privil\u00e9gios.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Por que causa ficastes t\u00e3o col\u00e9rico?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por ver de espada um pulha destitu\u00eddo de honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui, tal qual os ratos, roem os la\u00e7os sacrossantos que, por fortes, n\u00e3o podem desmanchar; adulam todas as paix\u00f5es que refervam no imo peito de seus amos; no fogo p\u00f5em mais \u00f3leo; mais neve, nos humores, de si frios; afirmam, negam, viram seus pesco\u00e7os de alci\u00e3o, de acordo com as menores brisas e varia\u00e7\u00f5es dos amos, ignorando, como os c\u00e3es, tudo o mais, sen\u00e3o seguir. A peste nessa cara de epil\u00e9ptico! Do meu discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te apanhasse na plan\u00edcie de Sarnum, tocar-te-ia a Camelot, fazendo-te grasnar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Que \u00e9 isso, velho? Ficastes louco?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Qual a raz\u00e3o disso? Vamos, falai.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o pode haver contr\u00e1rios que revelem maior antipatia do que eu e esse patife.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Por que causa o chamas de patife? Que te fez?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o vou com a cara dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Nem com a minha n\u00e3o \u00e9 assim? E a deste aqui, e a dela?&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Senhor, tenho por h\u00e1bito ser franco: em minha vida toda j\u00e1 vi rostos mais agrad\u00e1veis do que quantos posso discernir sobre os ombros dos presentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 \u00c9 algum sujeito que por j\u00e1 ter sido louvado de franqueza, usa linguagem rude e insolente, contra as pr\u00f3prias vestes de sua natureza. \u00c9-lhe imposs\u00edvel adular. N\u00e3o! Car\u00e1ter reto e honesto. S\u00f3 diz o que \u00e9 a verdade; os mais que a aceitem, se puderem; se n\u00e3o, falou sincero. Conhe\u00e7o muito bem esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos e corruptos intentos do que vinte desses coitados cheios de zumbaias que cumprem belamente seus deveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por minha alma, senhor, pela verdade, com a permiss\u00e3o de vosso augusto aspecto, cujo poder \u00e9 como a aur\u00e9ola r\u00fatila da cabe\u00e7a de Febo coruscante&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Que pretendeis com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Deixando de lado meu estilo, que tanto desaprovais, senhor, sei perfeitamente que n\u00e3o sou bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido n\u00e3o passava de um velhaco, o que, de minha parte, n\u00e3o pretendo ser, ainda que disso me adviesse conquistar o vosso desagrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Que ofensa lhe fizestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido, n\u00e3o faz muito, aprouve ao rei, seu mestre, castigar-me. Para adular-lhe a c\u00f3lera, atirou-se-me este aqui por detr\u00e1s e derrubou-me, sobre insultar-me, por me ver ca\u00eddo, remoques atirando-me e estadeando tanta virilidade, como se algo, de fato, fosse, e enc\u00f4mios ganhou logo do rei, porque atacara quem j\u00e1 estava vencido por si mesmo. E ora, animado pelo \u00eaxito de t\u00e3o grandioso feito, me atacou novamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Todos esses covardes e mandri\u00f5es fazem de bobo ao pr\u00f3prio Ajax.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Tragam-me logo o cepo! Maroto pertinaz, encanecido fanfarr\u00e3o, haveremos de ensinar-vos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Senhor, para aprender sou muito velho. Para mim n\u00e3o mandeis trazer o cepo. Perten\u00e7o ao rei, e foi por seu mandado que vos vim procurar. Revelar\u00edeis pouco respeito e excesso de arrog\u00e2ncia contra a pessoa e a gra\u00e7a de meu amo, pondo no cepo o mensageiro dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Trazei-me o cepo! Por minha alma e honra, h\u00e1 de ficar a\u00ed at\u00e9 ao meio-dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Meio-dia? At\u00e9 \u00e0 noite, meu senhor; a noite toda, ali\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Como, senhora! Se eu fosse o c\u00e3o de vosso pai, decerto n\u00e3o me dar\u00edeis esse tratamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Este tipo \u00e9 da cor dos que nos fala nossa irm\u00e3. Vamos; tragam logo o cepo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O cepo \u00e9 trazido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Deixai-me suplicar a Vossa Gra\u00e7a que n\u00e3o fa\u00e7ais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei, seu bondoso amo, saber\u00e1 castig\u00e1-lo. A pena baixa que ora lhe destinais s\u00f3 \u00e9 aplic\u00e1vel aos mais vis transgressores, por delitos ordin\u00e1rios ou crimes de pilhagem. O rei h\u00e1 de achar mal ver-se tratado com t\u00e3o pouco respeito no emiss\u00e1rio que aqui vai ficar preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Isso \u00e9 comigo; responderei por tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Pior ainda h\u00e1 de achar minha irm\u00e3 que houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem da parte dela. \u2014 Assim; prendei-lhe os p\u00e9s. Caro senhor, partamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Kent \u00e9 posto no cepo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Gloster e Kent.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Amigo, d\u00e1s-me pena; mas o duque foi que o determinou, sabendo todos que seu temperamento n\u00e3o suporta ser friccionado em nada ou posto em xeque. Hei de pedir por ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o, por obs\u00e9quio, senhor; n\u00e3o dormi nada e andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto passarei assobiando. Pode dar-se que pelos calcanhares cres\u00e7a a sorte de um homem de valor. Dou-vos bom dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Est\u00e1 errado o duque. Isto vai mal. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas as b\u00ean\u00e7\u00e3os de um c\u00e9u calmo e l\u00edmpido pelo sol escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo, porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios brandos. Quase nunca vemos milagres, se n\u00e3o for apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o bem, de Cord\u00e9lia, que, por sorte, ficou sabendo de meu curso obscuro e h\u00e1 de achar ocasi\u00e3o, nesta nossa \u00e9poca desordenada, para dar rem\u00e9dio ao que estiver doente. T\u00e3o cansados por cont\u00ednuas vig\u00edlias, alegrai-vos, olhos pesados, por n\u00e3o conseguirdes ver bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa bem; sorri de novo e faze andar mais uma vez a roda. (<i>Adormece.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr23\" name=\"lr23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma parte da charneca. Entra Edgar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Eu pr\u00f3prio ouvi o preg\u00e3o em que diziam que me acho foragido, tendo \u00e0 ca\u00e7a conseguido escapar no oco de uma \u00e1rvore. N\u00e3o h\u00e1 porto algum livre, nenhum ponto em que n\u00e3o haja guarda e rigorosa vigil\u00e2ncia, no intuito de apanhar-me. Salvo estarei enquanto fugir deles, pretendendo assumir a mais abjeta, mais humilde apar\u00eancia com que nunca, no seu desprezo aos homens, a mis\u00e9ria dos animais se houvesse aproximado. Lama no rosto hei de passar, nos lombos porei qualquer coberta, desmanchados trarei sempre os cabelos, e, com minha nudez patente, hei de enfrentar a f\u00faria dos ventos e do c\u00e9u. Tenho modelos e precedentes aqui mesmo, nesses mendigos tresloucados que, com urros, nos bra\u00e7os nus e entorpecidos cravam alfinetes, espinhos, pregos, ramos de rosmaninho e, assim, de aspecto horr\u00edvel, nas cabanas, nas vilas miser\u00e1veis, nos apriscos de ovelhas, nos moinhos, com impreca\u00e7\u00f5es de loucos ou com rezas a caridade for\u00e7am. Pobre Tom! Pobre Turlu! J\u00e1 sou alguma coisa; mas, como Edgar, serei coisa nenhuma. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante do castelo de Gloster. Kent no cepo. Entram Lear, o bobo e um gentil-homem.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u00c9 estranho que de casa se partissem sem me terem reenviado o mensageiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Pelo que saber pude, at\u00e9 esta noite ten\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham de sair de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Salve, meu nobre mestre!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como! Fazes da vergonha recreio?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ah! ah! Usa ligas muito duras. Os cavalos s\u00e3o amarrados pela cabe\u00e7a; cachorros e ursos, pelo pesco\u00e7o; os macacos, pela cintura, e os homens pelas pernas. Quando algu\u00e9m tem as pernas muito desenvoltas, cal\u00e7a meias de pau.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quem errou a tal ponto com teu posto, para te p\u00f4r a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Foi ele e ela; o filho e a filha vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 \u00c9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o, repito.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 O contr\u00e1rio eu tamb\u00e9m digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o fariam tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Pois fizeram.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Juro por J\u00fapiter que n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por Juno, torno a jurar que sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o o ousariam, n\u00e3o poderiam t\u00ea-lo feito. For a pior do que um assass\u00ednio tal ultraje ao respeito infligir. Com a mais decente pressa agora me conta de que modo pudeste merecer, ou antes, eles infligir-te essa pena, se aqui vieste de nossa parte como mensageiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 No instante em que, senhor, na casa deles a missiva entreguei de Vossa Alteza, sem que tivesse tido tempo ainda de al\u00e7ar-me do lugar em que se achava meu dever ajoelhado, fumegante chegou um correio, em \u00e1gua todo esfeito de tanta pressa, o f\u00f4lego cortado, a arquejar cumprimentos de sua ama, Goneril. Entregou-lhes uma carta \u2014 sem se importar com meu recado em curso \u2014 que lida foi de pronto, e a cujo assunto os homens logo re\u00fanem, v\u00e3o diretos para os cavalos, dizem-me que os siga e o vagar da resposta aqui esperasse, dirigindo-me sempre olhares frios. Tendo o outro mensageiro aqui encontrado, cuja chegada, vira-o bem, a minha havia envenenado \u2014 e que era o mesmo velhaco que se comportara contra Vossa Alteza com tanto atrevimento \u2014 mostrando-me mais homem do que s\u00e1bio, saquei da espada, enquanto ele alarmava toda a casa com berros de covarde. Acharam, vosso filho e vossa filha, essa infra\u00e7\u00e3o bastante grave, para o opr\u00f3brio merecer por que ora passo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 O inverno ainda n\u00e3o passou, no caso de voarem nesta dire\u00e7\u00e3o os patos selvagens. Quando os pais s\u00f3 vestem trapos, os filhos nem querem v\u00ea-los; quando s\u00e3o ricos e guapos, s\u00e3o para eles s\u00f3 desvelos. A Fortuna marafona sempre os pobres abandona. Mas apesar de tudo, tuas filhas te proporcionar\u00e3o mais d\u00f3lares do que possas contar em um ano.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh! Como ao peito esta paix\u00e3o me sobe! Desce, \u201chisterica passio\u201d, dor que sobe! \u00c9 em baixo teu lugar. E onde est\u00e1 a filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Senhor, com o conde, a\u00ed dentro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o me sigas; espera aqui. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Nenhuma ofensa, acaso, fizestes, a n\u00e3o ser a que contastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Nenhuma. Mas por que traz o rei t\u00e3o pouca gente?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se tivesses sido posto no tronco por essa pergunta, fora bem merecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por qu\u00ea, bobo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vamos p\u00f4r-te a aprender com uma formiga, que te ensinar\u00e1 que no inverno n\u00e3o h\u00e1 trabalho. Todas as pessoas que seguem o nariz s\u00e3o levadas pelos olhos, com exce\u00e7\u00e3o dos cegos, n\u00e3o havendo um s\u00f3 nariz, entre vinte, que n\u00e3o perceba quem est\u00e1 fedendo. Solta a roda grande, quando ela come\u00e7ar a rolar colina abaixo, se n\u00e3o quiseres quebrar o pesco\u00e7o; mas quando a roda grande subir a colina, bem: que te arraste atr\u00e1s dela. Quando um s\u00e1bio te der melhor conselho, d\u00e1-lhe o meu de retorno. Quisera que s\u00f3 fosse seguido pelos velhos, por ser conselho de bobo. Quem a outrem serve e lucro tem em mira, e tudo o mais desleixa, se chove, apronta a trouxa e se retira, e no peg\u00e3o o deixa. Mas eu n\u00e3o fugirei; o bobo fica; seja o s\u00e1bio fuj\u00e3o. Bobo se torna um biltre, quando estica; mas biltre o bobo, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Onde aprendeste isso, bobo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o foi no cepo, bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Lear, com Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Recusam-se a falar-me? Est\u00e3o doentes? Fatigados? Viajaram toda a noite? Meras tretas; imagens, t\u00e3o-somente, de revolta e abandono. Arranja-me outra resposta mais razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Meu querido senhor, conheceis bem a natureza col\u00e9rica do duque e como sempre persistente se mostra e irredut\u00edvel em quanto determina.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Vingan\u00e7a! Peste! Morte! Confus\u00e3o! Col\u00e9rica? Que natureza? \u00d3 Gloster, escuta: falar quero, neste instante, com o Duque de Cornualha e sua esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Pois n\u00e3o, senhor; j\u00e1 lhes mandei recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u201cJ\u00e1 lhes mandei recado!\u201d Entendes-me, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Entendo, bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 O rei deseja conversar com Cornualha, o pai querido deseja conversar com a pr\u00f3pria filha; quer ser obedecido. J\u00e1 lhes deram semelhante \u201crecado\u201d? Sangue e vida! Col\u00e9rico! O duque \u00e9 mui col\u00e9rico! Dizei ao duque ardente&#8230; N\u00e3o; \u00e9 cedo. Pode ser que se encontre doente mesmo. A descuidar nos levam sempre as doen\u00e7as dos deveres que imp\u00f5e, sempre, a sa\u00fade. J\u00e1 n\u00e3o somos n\u00f3s mesmos, quando, opressa, ordena a natureza ao pr\u00f3prio esp\u00edrito que pade\u00e7a com o corpo. Esperar devo; combater quero este pendor violento que me leva a tomar o acesso m\u00f3rbido pelo homem s\u00e3o. Que morra o meu prest\u00edgio! (<i>Olhando para Kent.<\/i>) Por que raz\u00e3o ele se encontra ali? Esse ato me persuade de que a aus\u00eancia do duque e da duquesa \u00e9 fingimento. Ponham logo meu criado em liberdade! Ide dizer ao duque e sua esposa que desejo falar-lhes neste instante; agora mesmo! Saiam para ouvir-me; se n\u00e3o, em frente aos aposentos deles irei tocar tambor de dar a morte ao sono com o barulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quem me dera que entre v\u00f3s tudo viesse a concertar-se! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ai de mim! Sinto o cora\u00e7\u00e3o subir. Para baixo, de novo!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Grita com ele, tio, como fazia a cozinheira com as enguias, ao p\u00f4-las vivas na frigideira. Batia-lhes na cabe\u00e7a com uma vara e gritava-lhes: \u201cPara baixo, mal-educadas! Para baixo!\u201d No entanto, tinha um irm\u00e3o que, por pura bondade, passava manteiga no feno do cavalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Bom dia aos dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 E salve Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Kent \u00e9 posto em liberdade.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Fico alegre por ver Vossa Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sim, Regane, sei disso; como as causas tamb\u00e9m de pensar dessa maneira. Se o n\u00e3o ficasses, eu me divorciara da tumba de tua m\u00e3e como da de uma mulher ad\u00faltera. (<i>A Kent.<\/i>) Ent\u00e3o, liberto? Depois falamos nisso. Minha cara Regane, ah! tua irm\u00e3 n\u00e3o vale nada. \u00d3 Regane! a maldade corroedora ela amarrou aqui, como um abutre. (<i>Indica o cora\u00e7\u00e3o.<\/i>) Mal te posso falar. N\u00e3o poderias conceber a maneira desumana&#8230; Ah, Regane!<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, tende paci\u00eancia. Penso que estais t\u00e3o longe de apreciar-lhe todo o m\u00e9rito, como de esquecer-se ela de seus deveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 De que modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 N\u00e3o posso crer que minha irm\u00e3 se tenha descuidado no m\u00ednimo de suas obriga\u00e7\u00f5es. Se acaso, meu senhor, procurou restringir a turbul\u00eancia de vossos seguidores, deu-se tudo com bases tais e t\u00e3o recomend\u00e1veis inten\u00e7\u00f5es, que de toda pecha a expungem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Lan\u00e7o-lhe a maldi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 O senhor, j\u00e1 estais velho! A natureza chegou em v\u00f3s ao seu confim postremo. Devereis ser guiado e governado por algu\u00e9m que, melhor do que v\u00f3s mesmo, vossas necessidades compreendesse. Assim, vos pe\u00e7o, retornai para ela, senhor, e confessai que injusto fostes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Eu, pedir-lhe perd\u00e3o? Vede como isso vai bem com nossa casa: Amada filha, confesso que sou velho, sendo certo que a velhice \u00e9 trambolho. Assim, de joelhos, (<i>Ajoelha-se.<\/i>) pe\u00e7o-vos conceder-me cama, roupa e um pouco de alimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Meu bondoso senhor, n\u00e3o prossigais. S\u00e3o descabidas essas momices. Retornai para ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR (<i>levantando-se<\/i>) \u2014 Jamais, Regane; ela cortou-me o s\u00e9q\u00fcito de metade dos homens, dirigiu-me olhares carrancudos, alcan\u00e7ando-me o cora\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua viperina. Que em sua fronte ingrata caiam todas as vingan\u00e7as que o c\u00e9u guardado tenha. Insuflai-lhe nos ossos jovens, ares pestilenciais, humores deformantes!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Ora, senhor, que coisa!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Lan\u00e7ai-lhe, raios \u00e1geis, vossas flamas ofuscantes nos olhos desdenhosos! Infectai-lhe a beleza, brumas densas aspiradas dos charcos e engendradas pelo potente sol, para que venha a abater-se-lhe o orgulho e encarquilhar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Oh deuses aben\u00e7oados! Iguais votos me fareis, quando vosso humor violento tomar conta de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Jamais, Regane; jamais ter\u00e1s a minha maldi\u00e7\u00e3o. Teu ser mui delicado n\u00e3o te leva a nenhuma aspereza. Os olhos dela s\u00e3o ferozes; os teus, por\u00e9m, confortam, n\u00e3o causam queimaduras. N\u00e3o se casa com tua natureza rogar praga contra minhas vontades, reduzir-me o s\u00e9q\u00fcito, lan\u00e7ar-me termos \u00e1speros, limitar-me a pens\u00e3o e, finalmente, ferrolhos antepor \u00e0 minha entrada. N\u00e3o; mais do que ela sabes os deveres da natureza, obriga\u00e7\u00f5es dos filhos, o que a delicadeza imp\u00f5e a todos e \u00e0 gratid\u00e3o devemos. Esquecida n\u00e3o est\u00e1s da metade do meu reino, que te entreguei por dote.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Retornemos ao assunto, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quem p\u00f4s meu homem no cepo?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se toque de trombeta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Que trombeta ser\u00e1 essa?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Conhe\u00e7o o toque; \u00e9 minha irm\u00e3. Sua carta fica assim confirmada com a not\u00edcia de que viria aqui. Chegou a senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Osvaldo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Eis um escravo, cujo orgulho f\u00e1cil e barato repousa nos favores inst\u00e1veis da senhora a que ele serve. Fora da minha vista, sacripanta!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Que quer dizer com isso Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quem ao cepo prendeu este meu criado? Regane, espero que n\u00e3o saibas disto. Mas quem vem l\u00e1? (<i>Entra Goneril.<\/i>) \u00d3 c\u00e9us, se amais os velhos, se com a obedi\u00eancia vosso cetro brando se compadece, se tamb\u00e9m sois velho, tomai o meu partido e vinde p\u00f4r-vos ao meu lado. (<i>A Goneril.<\/i>) N\u00e3o tens vergonha, acaso, de olhar para estas barbas? \u00d3 Regane! tom\u00e1-la pelas m\u00e3os?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Por que n\u00e3o h\u00e1 de faz\u00ea-lo, meu senhor? Qual foi meu erro? Nem tudo \u00e9 ofensa que a tolice julga e a loucura nomeia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u00d3 flancos! duros sois por demais! Resistireis ainda? Por que no cepo foi parar meu homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Fui eu que o pus a\u00ed, senhor; mas suas desordens n\u00e3o faziam jus a tanta promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como assim! Fostes v\u00f3s mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por obs\u00e9quio, meu pai; j\u00e1 que sois fraco, comportai-vos de acordo. Se at\u00e9 ao prazo final de vosso m\u00eas vos conformardes em voltar para a mana, e l\u00e1 ficardes, despedindo metade desse s\u00e9quito, vinde, ent\u00e3o, para mim. Agora me acho fora de casa, sem dispor dos meios necess\u00e1rios a vosso tratamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Procur\u00e1-la de novo? Cinq\u00fcenta homens despedidos? Jamais! Preferiria abjurar todo abrigo e expor-me \u00e0 pr\u00f3pria inimizade do ar, em companheiro transformar-me do lobo e da coruja, sob a dura press\u00e3o da adversidade. Voltar para ela? Esse ardoroso Fran\u00e7a, que recebeu sem dote minha filha mais nova, para mim fora mais f\u00e1cil diante do trono dele ir ajoelhar-me e, tal qual escudeiro, mendigar-lhe pens\u00e3o mesquinha que esta vida abjeta permita sustentar. Voltar para ela! Antes tornar-me escravo ou ser az\u00eamola deste palafreneiro detest\u00e1vel. (<i>Mostrando Osvaldo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Senhor, \u00e0 vossa escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Filha, pe\u00e7o-te que n\u00e3o me deixes louco. N\u00e3o desejo, menina, incomodar-te por mais tempo. Adeus. N\u00e3o nos veremos nunca mais; nunca mais voltaremos a encontrar-nos. Mas \u00e9s meu sangue, minha carne: filha. Ou melhor: uma doen\u00e7a em minha carne, a que for\u00e7ado sou a chamar minha; \u00e9s um incha\u00e7o, uma \u00falcera pestosa, um carb\u00fanculo podre e tumefeito no meu sangue corrupto. Contudo, n\u00e3o quero repreender-te. Que a vergonha venha quando quiser; n\u00e3o vou cham\u00e1-la. N\u00e3o pedirei ao portador de raios que troveje, nem nada a teu respeito direi de mal a Jove, o juiz supremo. Se puderes, emenda-te; melhora quando quiseres. Posso ser paciente. Posso ficar em casa de Regane com meus cem cavaleiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Mais cuidado! N\u00e3o contava convosco, nem me encontro preparada para vos dar condigno acolhimento. Ouvi, senhor, a mana. Quem p\u00f5e raz\u00e3o nesses acessos vossos facilmente conclui que j\u00e1 estais velho. Logo&#8230; Ela sabe o que conv\u00e9m ao caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Isso foi bem falado?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Quero cr\u00ea-lo, senhor. Como! Cinq\u00fcenta seguidores? N\u00e3o vos bastam? Quereis mais gente ainda? Precisareis de tantos? Sim, que os pr\u00f3prios perigos e as despesas esse n\u00famero desaconselham. Como poderia haver paz numa casa entre t\u00e3o grande n\u00famero de homens sob comando duplo? \u00c9 dif\u00edcil se n\u00e3o quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Por que n\u00e3o poder\u00edeis ser servido pela gente da mana ou pela minha?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por que n\u00e3o, meu senhor? Se qualquer deles de v\u00f3s se descuidasse, fora f\u00e1cil repreend\u00ea-los por isso. Se quiserdes, assim, morar comigo \u2014 e agora vejo que tal coisa \u00e9 arriscada \u2014 pediria que troux\u00e9sseis apenas vinte e cinco. Para mais n\u00e3o terei lugar nem mesmo disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Fui eu que vos dei tudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 E em tempo certo o destes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Institu\u00ed-vos minhas deposit\u00e1rias e tutoras, reservando-me apenas uma escolta desse n\u00famero. Como! Deveria procurar-vos, ent\u00e3o, com vinte e cinco? Regane, assim falastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 E repito-o; nem mais um, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Certas criaturas boa apar\u00eancia apresentar conseguem, quando outras em maldade as sobrepujam. N\u00e3o sendo as piores, cabem-lhe elogios. Contigo ficarei; os teus cinq\u00fcenta o dobro s\u00e3o dos vinte e cinco dela, e o seu amor tu vales duas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Senhor, ouvi-me. Que necessidade tendes de vinte e cinco, dez, ou cinco pessoas para vos servir, em casa que disp\u00f5e at\u00e9 mais do dobro disso para tratar de v\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 E por que de uma?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh! n\u00e3o faleis sobre a necessidade. Nossos mendigos mais necessitados muita coisa sup\u00e9rflua ainda possuem. \u00c0 natureza concedei apenas o que ela pr\u00f3pria exige, e a vida humana t\u00e3o barata ser\u00e1 como a das feras. \u00c9s uma dama. Se j\u00e1 fosse luxo andarmos aquecidos, n\u00e3o teria necessidade alguma a natureza dessas vestes luxuosas que em mat\u00e9ria de aquecimento em nada te protegem. Mas a necessidade verdadeira&#8230; \u00d3 c\u00e9us, dai-me paci\u00eancia! \u00c9 de paci\u00eancia que necessito agora. \u00d3 deuses! vedes aqui um pobre velho, t\u00e3o pesado de anos que de cuidados, duplamente desgra\u00e7ado! Se acaso levantastes o cora\u00e7\u00e3o das filhas contra os pais, n\u00e3o me deixeis t\u00e3o parvo que suporte tudo isso humildemente; nobre c\u00f3lera fazei que em mim desperte, sem deixardes que as armas da mulher, as gotas de \u00e1gua, as faces varonis manchar me venham. N\u00e3o, bruxas desumanas! Tal vingan\u00e7a hei de tomar de v\u00f3s, que o mundo inteiro&#8230; Farei tais coisas \u2014 quais, ainda o ignoro \u2014 que h\u00e3o de ser o terror de toda a terra. Pensais talvez que vou derramar l\u00e1grimas? N\u00e3o, n\u00e3o hei de chorar. Tenho causas sobejas para tanto; mas antes de faz\u00ea-lo, h\u00e1 de partir-se-me o cora\u00e7\u00e3o em vinte mil peda\u00e7os. Bobo, vou ficar louco!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lear, Gloster, Kent e o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Recolhamo-nos; vai haver tempestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se a tempestade \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 \u00c9 mui pequena a casa para comportar o velho e mais seus seguidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 \u00c9 s\u00f3 dele toda a culpa. Privou-se do conforto, tendo, assim, de provar da pr\u00f3pria ins\u00e2nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 De grado o acolheria; mas s\u00f3 ele, sem nenhum de seus homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 \u00c9 o que eu penso, tamb\u00e9m. Mas onde est\u00e1 milorde Gloster?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Acompanhou o velho. Ei-lo de volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Est\u00e1 furioso o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Para onde foi?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Pede cavalos; mas n\u00e3o sei para onde tenciona dirigir-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Pois deixemo-lo; saber\u00e1 conduzir-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 N\u00e3o insteis, senhor, de jeito algum para que fique.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Oh c\u00e9us! A noite vem baixando, e os ventos penetrantes j\u00e1 sopram com veem\u00eancia. Em muitas milhas em redor n\u00e3o se acha facilmente um arbusto.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Ora, senhor! os teimosos aprendem com os inc\u00f4modos que a si mesmos procuram. Fechai logo vossas portas; os homens que o acompanham s\u00e3o capazes de tudo. O que eles podem induzi-lo a fazer \u2014 sendo de ouvidos t\u00e3o f\u00e1ceis de enganar \u2014 manda a prud\u00eancia que com raz\u00e3o temamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Fechai logo vossas portas, senhor. Minha Regane vos d\u00e1 um bom conselho. A noite \u00e9 horr\u00edvel; sa\u00ed da tempestade. Recolhamo-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr31\" name=\"lr31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma charneca. Tempestade, com trov\u00f5es e rel\u00e2mpagos. Entram Kent e um gentil-homem, que se encontram.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Al\u00e9m do tempo mau, quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Algu\u00e9m inquieto como o pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Conhe\u00e7o-vos. E o rei, que faz agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Luta com os elementos agitados; manda ao vento que ao mar atire a terra, ou eleve as ondas crespas muito acima dos continentes, para que se mudem todas as coisas, ou de vez acabem; puxa os cabelos brancos que as rajadas impetuosas em seu furor apanham com cega raiva, reduzindo a nada; em seu mundo pequeno de homem, luta por zombar do conflito sempre m\u00f3vel dos ventos e da chuva. Nesta noite, em que, depois de amamentar os filhos, a ursa n\u00e3o se levanta, e o le\u00e3o e o lobo famintos sem molhar a pele ficam, cabe\u00e7a descoberta ele se agita, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o total jogando tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 E quem est\u00e1 com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 O bobo, apenas, que tenta dissipar-lhe com gracejos a dor do cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o trabalhado.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Conhe\u00e7o-vos, senhor; por isso atrevo-me, sob o penhor de tal conhecimento a vos contar um caso muito grave. H\u00e1 disc\u00f3rdia, conquanto ainda encoberta se ache de parte a parte pela ast\u00facia, entre Alb\u00e2nia e Cornualha. Eles possuem \u2014 o mesmo n\u00e3o se d\u00e1 com todos quantos a grande estrela exalta e p\u00f5e num trono? \u2014 criados, ao parecer, mas que, de fato, s\u00e3o espias de Fran\u00e7a e informadores, e que se encontram sempre a par de tudo que aqui se passa: as rixas e as conjuras dos dois duques e, ap\u00f3s, o modo altivo que contra o velho rei t\u00eam revelado, ou algo porventura mais profundo de que seja tudo isso mero ap\u00eandice: o certo \u00e9 que um ex\u00e9rcito da Fran\u00e7a penetrou neste reino dividido, o qual o p\u00e9 firmou muito em segredo, valendo-se de nossa neglig\u00eancia, no nosso melhor porto, e ora se encontra no ponto de mostrar os estandartes. Ora \u00e9 convosco: se puderdes algo construir sobre as minhas refer\u00eancias a ponto de ir a Dover sem demora, encontrareis decerto ali quem h\u00e1 de saber agradecer-vos, quando justo relato lhe fizerdes das tristezas desnaturais e em tudo abaladoras por que o rei tem passado. Por sangue e educa\u00e7\u00e3o sou gentil-homem; \u00e9 com conhecimento, pois, de causa, e confian\u00e7a que disso vos incumbo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Falaremos sobre isso mais de espa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 De forma alguma. Para convencer-vos de que eu sou muito mais do que pare\u00e7o, ficai com o conte\u00fado desta bolsa. Se avistardes Cord\u00e9lia \u2014 o que h\u00e1 de dar-se, ficai bem certo disso \u2014 apresentai-lhe este anel, que ela, ent\u00e3o, vos dir\u00e1 logo quem \u00e9 o camarada que nesta hora ainda n\u00e3o conheceis. Mas que tormenta! Vou procurar o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Dai-me a m\u00e3o. Nada mais quereis dizer-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Pouco; por\u00e9m, de fato, mais que tudo: Quando acharmos o rei \u2014 deveis, por isso, seguir por este lado; eu, por aquele \u2014 quem primeiro o encontrar grita para o outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem por lados diferentes.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr32\" name=\"lr32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte da charneca. A tempestade continua. Entram Lear e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ventos, soprai de arrebentar as pr\u00f3prias bochechas! Enraivai! Soprai com for\u00e7a! Trombas e cataratas, derramai-vos at\u00e9 terdes coberto os campan\u00e1rios e afogado seus galos! Sulfurosos raios, velozes como o pensamento, vanguarda dos coriscos que os carvalhos abrem de meio a meio, chamuscai-me a cabeleira branca! E tu, trov\u00e3o de tudo abalador, achata a espessa redondeza do mundo, quebra os moldes da natureza e de uma vez desfaze todos os germes geradores do homem sem gratid\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 \u00d3 tio, mais vale \u00e1gua benta no p\u00e1tio de uma casa seca, do que toda esta \u00e1gua de chuva ao ar livre. Vai para dentro, bom tio, e pede a b\u00ean\u00e7\u00e3o de tuas filhas. Uma noite como esta n\u00e3o se apiada nem de s\u00e1bios nem de bobos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Deixa o vento roncar! Escarra, fogo! Jorra, chuva! Os trov\u00f5es, o vento, o fogo, minhas filhas n\u00e3o s\u00e3o. N\u00e3o vos acuso de ingratos, elementos. Nunca um reino vos dei, nem vos chamei sequer de filhos. N\u00e3o me deveis nenhuma obedi\u00eancia. Que caia, pois, vosso prazer horr\u00edvel. Aqui me encontro, vosso escravo, um velho pobre, fraco, sem for\u00e7as, desprezado. No entretanto, declaro-vos ministros servis, pois com duas filhas perniciosas, travais vossas batalhas de alta origem contra uma fronte t\u00e3o encanecida e t\u00e3o velha como esta. Oh! Que vergonha!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Quem tem uma casa onde enfiar a cabe\u00e7a, disp\u00f5e de um bom chap\u00e9u. Quando a braguilha quer casa, sem que o dono tenha abrigo dos piolhos \u00e9 a grande vasa, que isso \u00e9 vida de mendigo. Quem p\u00f5e o ded\u00e3o do p\u00e9 onde tem o cora\u00e7\u00e3o, vive a gemer \u2014 a-la-f\u00e9! \u2014 por calos que ins\u00f4nia d\u00e3o, pois nunca houve mulher bonita que n\u00e3o fizesse caretas ao espelho.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Kent.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quero ser um modelo de paci\u00eancia; n\u00e3o direi nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, uma majestade e uma braguilha, isto \u00e9, um s\u00e1bio e um bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Oh senhor! V\u00f3s aqui? Nenhuma coisa que da noite se agrada, se acomoda a uma noite como esta. Os c\u00e9us furiosos metem medo at\u00e9 mesmo nos rondantes da escurid\u00e3o, retendo-os em seus antros. Desde que me fiz homem n\u00e3o me lembro de ter presenciado tantas faixas de fogo, tanto estouro de terr\u00edficos trov\u00f5es, tantos lamentos e bramidos dos ventos e da chuva. A natureza do homem n\u00e3o pode suportar o medo e a afli\u00e7\u00e3o que v\u00eam disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Grandes deuses, que tanto estrondo sobre n\u00f3s retendes, agora procurai vossos inimigos! Treme, malvado, em quem se ocultam crimes pela justi\u00e7a ainda n\u00e3o punidos! M\u00e3o sanguin\u00e1ria, oculta-te! Perjuro, tu tamb\u00e9m; como tu, falso virtuoso, que praticas o incesto! Em estilha\u00e7os arrebenta, bargante, que atentaste contra a vida de algu\u00e9m sob apar\u00eancia tranq\u00fcila e sedutora! Atrocidades no fundo ocultas, estourai as capas que vos escondem e implorai as gra\u00e7as desses admoestadores pavorosos! Quanto a mim, sou mais v\u00edtima de culpa, do que mesmo culpado.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Oh! que tristeza! Cabe\u00e7a descoberta! Meu gracioso soberano, aqui perto h\u00e1 uma cabana, que oferecer-vos pode algum abrigo contra o mau tempo. Recolhei-vos a ela, enquanto eu volto \u00e0quela casa dura \u2014 mais dura do que as pedras de que \u00e9 feita, e que, h\u00e1 momentos, quando eu pretendia saber not\u00edcias vossas, me negou at\u00e9 mesmo a entrada \u2014 para que lhes force a avara cortesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sinto o esp\u00edrito girar em torno. Vamos, meu pequeno! Como te sentes, caro? Muito frio? Eu tamb\u00e9m. Companheiro, onde \u00e9 que h\u00e1 palha? \u00c9 por demais estranha a arte dos pobres que faz preciosas as mais baixas coisas. Vossa cabana&#8230; Seja! Pobre bobo, tenho no cora\u00e7\u00e3o um lugarzinho que se apiada de ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se n\u00e3o perdeste de todo a mente, com hei com h\u00f4, com tamanha chuva, com a pr\u00f3pria sorte fica contente, embora chova todos os dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u00c9 certo, meu pequeno; vamos, leva-nos para essa tal cabana.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lear e Kent.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Eis uma bela noite para deixar fria uma cortes\u00e3. Mas antes de sair quero fazer uma profecia: Quando por obras converter a Igreja e \u00e1gua puser o dono na cerveja; quando o nobre for mestre do alfaiate, e a fogueira n\u00e3o mais o herege mate, mas apenas o amante apaixonado; quando s\u00f3 houver processo bem julgado, d\u00edvidas n\u00e3o tiver o cavaleiro e a cal\u00fania poupar o mundo inteiro; quando evitar o experto a turbamulta e a arca do avaro n\u00e3o ficar oculta; quando as alcoviteiras eloq\u00fcentes constru\u00edrem templos caros e imponentes: cair\u00e1 em confus\u00e3o este reino de Albion. Ent\u00e3o ver\u00e1 quem vivo ainda estiver que com os p\u00e9s andam o homem e a mulher. Esta profecia ser\u00e1 feita por Merlin, porque eu vivo antes do tempo dele. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr33\" name=\"lr33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo de Gloster. Entram Gloster e Edmundo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Ah, Edmundo, Edmundo! N\u00e3o me agrada esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi permiss\u00e3o para apiedar-me dele, privaram-me do uso de minha pr\u00f3pria casa, proibindo-me, sob pena de seu perp\u00e9tuo descontentamento, de falar a respeito dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em aux\u00edlio de qualquer maneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Por demais selvagem e contr\u00e1rio \u00e0 natureza.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Acomoda-te; n\u00e3o digas nada. H\u00e1 divis\u00e3o entre os duques, e pior do que isso. Esta noite recebi uma carta. \u00c9 perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora est\u00e1 passando, ser\u00e3o oportunamente vingados. Parte do ex\u00e9rcito j\u00e1 desembarcou; teremos de ficar do lado do rei. Vou procur\u00e1-lo secretamente e ajud\u00e1-lo. Ide conversar com o duque, para que n\u00e3o seja percebida minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a vida \u2014 que \u00e9 o menos com que estou amea\u00e7ado \u2014 \u00e9 preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. H\u00e1 alguma coisa muito estranha em perspectiva, Edmundo. Aconselho-vos cautela. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A caridade que te foi proibida ser\u00e1 comunicada logo ao duque, como a carta tamb\u00e9m, o que parece servi\u00e7o merit\u00f3rio que me rende quanto meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o mo\u00e7o, o velho fica mudo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr34\" name=\"lr34\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A charneca. Diante de uma choupana. Entram Lear, Kent e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 \u00c9 aqui, senhor. Meu bom senhor, entrai. \u00c9 por demais severa a tirania da noite descoberta, para as for\u00e7as de nossa natureza.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>A tempestade continua.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o; afasta-te! Desejo ficar s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Entrai aqui, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quereis partir-me o cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Primeiro partiria o meu. Bondoso senhor, entrai.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Estais fazendo grande cabedal desta chuva revoltada, que nos molha at\u00e9 os ossos. \u00c9 que a sentes dessa maneira. Por\u00e9m quando a doen\u00e7a maior penetra, as outras n\u00e3o se sentem. Se corres do urso, mas em tua fuga fores bater nas ondas rugidoras, voltar\u00e1s frente para a goela dele. Livre o esp\u00edrito, o corpo \u00e9 delicado. A tempestade que na mente eu trago nada me deixa perceber por meio dos sentidos, afora o que ali bate: a ingratid\u00e3o filial. N\u00e3o fora o mesmo, se a boca decepar quisesse a m\u00e3o que at\u00e9 ela se al\u00e7a para aliment\u00e1-la? Mas saberei tomar cabal vingan\u00e7a. Cessarei de chorar. Fechar-me a porta numa noite como esta! Mais! Despeja, que hei de ag\u00fcentar! E numa noite assim! Ah Goneril! Regane! Vosso velho pai, t\u00e3o bondoso, que vos dera tudo com franco cora\u00e7\u00e3o! Oh! A loucura vem desse lado. Vamos evit\u00e1-la. Sobre isso, basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Bem, milorde; entremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o; por favor, primeiro tu; procura tua comodidade. Este aguaceiro me impede de cuidar de muitas coisas que muito maior dor me causariam. Mas vou entrar. (<i>Ao bobo.<\/i>) Menino, vai na frente. Pobreza sem abrigo&#8230; Entra, entra logo. Rezo primeiro; dormirei depois. (<i>O bobo entra na choupana.<\/i>) Onde quer que estejais, pobres sem roupa, que os golpes suportais desta impiedosa tempestade, dizei-me: de que modo vossos flancos mirrados e as cabe\u00e7as desprotegidas, vossos trapos ricos em furos e janelas h\u00e3o de o corpo vos proteger numa esta\u00e7\u00e3o como esta? Oh! muito pouco me ocupei com isso! Cura-te, fausto! Vai sentir o mesmo que os miser\u00e1veis sentem, porque possas sobre eles derramar o teu sup\u00e9rfluo e os c\u00e9us mostrar mais justos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>dentro<\/i>) \u2014 Pobre Tom! Bra\u00e7a e meia! Bra\u00e7a e meia!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O bobo sai a correr da choupana.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o entres a\u00ed, meu tio! H\u00e1 um esp\u00edrito l\u00e1 dentro. Socorro! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o. Quem est\u00e1 l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Um esp\u00edrito! Um esp\u00edrito! Ele disse que se chama o pobre Tom.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Quem \u00e9s tu, que te p\u00f5es a rosnar assim na palha? Vem para fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Edgar, disfar\u00e7ado de demente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Afastai-vos, que o inimigo me acompanha. Atrav\u00e9s do espinheiro sopra o vento; v\u00ea se te aqueces em teu leito frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Deste \u00e0s tuas duas filhas tudo o que tinhas, para ficares desse jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Quem d\u00e1 alguma coisa para o pobre Tom? O mal\u00edgno o levou atrav\u00e9s do fogo, atrav\u00e9s da flama, atrav\u00e9s do vau e do redemoinho, atrav\u00e9s do lama\u00e7al e do charco; p\u00f4s facas embaixo de seu travesseiro e corda em sua cama; armou ratoeira em sua sopa; deixou-o orgulhoso por poder montar num cavalo baio trot\u00e3o, por cima das pontes de quatro polegadas, em persegui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sombra, como um traidor. Que sejam aben\u00e7oados os teus cinco esp\u00edritos. Tom est\u00e1 com frio. Oh! do d\u00ea, do d\u00ea, do d\u00ea! Que o c\u00e9u te ampare contra os furac\u00f5es, estrelas funestas e malef\u00edcios. Fazei alguma caridade ao pobre Tom, que o dem\u00f4nio impuro atormenta. Poderia peg\u00e1-lo agora, e aqui, e ali outra vez, e aqui&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como! Suas filhas o trouxeram a isso? Nada te reservaste? Deste tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o! Ele reservou para si um cobertor; caso contr\u00e1rio, ter\u00edamos do que nos envergonharmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que caiam sobre tuas filhas todas as mis\u00e9rias que impendem do ar e amea\u00e7am os pecados dos homens!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Senhor, ele n\u00e3o tem filhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Morre, traidor! Pois nada poderia rebaixar de tal modo a natureza, sen\u00e3o filhas ingratas. Ser\u00e1 moda que os pais, depois de despedidos, tenham t\u00e3o pouca pena de sua pr\u00f3pria carne? Castigo judicioso, que essa carne deu nascimento \u00e0s filhas-pelicanas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Pilicoc se achava empoleirado no monte Pilicoc! Al\u00f4! Al\u00f4! Oh oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Esta noite gelada vai acabar fazendo de n\u00f3s todos bobos ou loucos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Acautela-te contra o mal\u00edgno; obedece a teus pais; mant\u00e9m tua palavra; n\u00e3o jures; n\u00e3o cometas adult\u00e9rio com a esposa leg\u00edtima do teu pr\u00f3ximo; n\u00e3o enfeites tua morada com atavios v\u00e3os. Tom est\u00e1 com frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Que eras antes?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Um mo\u00e7o de servir, de cora\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito altivos, que frisava os cabelos, trazia luvas no chap\u00e9u, satisfazia a lux\u00faria da patroa, perpetrando com ela o ato das trevas; fazia tantos juramentos quantas palavras pronunciava, para viol\u00e1-los ante a doce face do c\u00e9u; um tipo que adormecia com planos de libertinagem e acordava para p\u00f4-los em pr\u00e1tica. Amava de cora\u00e7\u00e3o o vinho, os dados, com a m\u00e1xima ternura; e com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, metia na massa o pr\u00f3prio turco; cora\u00e7\u00e3o falso, ouvidos levianos, m\u00e3os sanguin\u00e1rias. Porco, na pregui\u00e7a; raposa, na ast\u00facia; lobo, na voracidade; c\u00e3o, na raiva; le\u00e3o, na pilhagem. N\u00e3o deixes que o ranger dos sapatos e o ru\u00eddo das sedas entregues \u00e0s mulheres teu pobre cora\u00e7\u00e3o. Mant\u00e9m os p\u00e9s fora dos bord\u00e9is, as m\u00e3os fora do colete, as pernas longe do livro do onzeneiro e desafia o mal\u00edgno. O vento frio ainda sopra atrav\u00e9s do espinheiro, gritando zum, mum, ha h\u00f4, no ni! &#8230; Delfim, meu filho, meu filho! Cessa! Deixa-o trotar!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>A tempestade continua.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Estarias melhor na sepultura do que enfrentando com o corpo descoberto estes extremos da esta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o homem mais do que isto? Considerai-o bem. Ao verme n\u00e3o deves a seda, ao animal o abrigo, ao carneiro a l\u00e3 e ao gato de algalia o perfume. Ah! Dos presentes, tr\u00eas somos adulterados; tu \u00e9s a coisa em si. O homem sem atavios n\u00e3o passa de um pobre animal, nu e fendido como tu. Fora, fora com todos estes empr\u00e9stimos! Vamos! Desabotoai-me aqui. (<i>Rasga as vestes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tio, por obs\u00e9quio, fica quieto; a noite est\u00e1 muito ruim para nadarmos. Neste momento, um pequeno fogo em campo grande faria o efeito do cora\u00e7\u00e3o de um velho libertino: uma faiscazinha de nada, e o resto do corpo, que nem gelo. V\u00ea, a\u00ed vem vindo um fogo ambulante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Gloster com uma tocha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 \u00c9 o dem\u00f4nio impuro Flibbertigibbet; chega com o toque de apagar fogo e ronda at\u00e9 ao primeiro canto do galo; produz belidas e catarata, olho vesgo e bei\u00e7o-de-lebre; faz embolorar o trigo branco e atormenta a pobre criatura terrestre. Tr\u00eas vezes S\u00e3o Vital percorre os trilhos, e achando a mula-sem-cabe\u00e7a e os filhos, mandou que ali parasse e preito lhe prestasse. Sai logo, bruxa! Deixa limpa a estrada!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Como passa Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? A quem procurais?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quem sois? Como vos chamais?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O pobre Tom que se alimenta de r\u00e3s nadadoras, sapos, girinos, lagartixas e \u00e1gua; que na f\u00faria de seu cora\u00e7\u00e3o, quando o inimigo imundo esbraveja, devora estrume de vaca como se fosse salada; engole ratos velhos e cachorro pirento; bebe o manto verde do charco estagnado; que \u00e9 chibateado de par\u00f3quia em par\u00f3quia, posto no cepo ou na pris\u00e3o; que j\u00e1 teve tr\u00eas mudas para o dorso, seis camisas para o corpo, cavalo para montar e espada para carregar. H\u00e1 sete anos que Tom s\u00f3 se conserva com ratazanas, ratos e caterva. Tomai cuidado com o meu perseguidor. Fica quieto, Smulkin! Fica quieto, dem\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Como! N\u00e3o tem Vossa Gra\u00e7a melhor companhia?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O pr\u00edncipe das trevas \u00e9 um gentil-homem; chama-se Modo e Mahu.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 A tal ponto, senhor, degenerados temos o sangue e a carne, que a odiar chegam a quem vida lhes deu.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O pobre Tom est\u00e1 com frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Senhor, vinde comigo. N\u00e3o se dobra meu dever \u00e0s senten\u00e7as implac\u00e1veis de vossas filhas. Muito embora tenham dado ordem para que eu fechasse a porta, a esta noite terr\u00edvel entregando-vos, ousei vir procurar-vos, porque possa levar-vos onde h\u00e1 fogo e mesa pronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Primeiro permiti que a este fil\u00f3sofo dirija umas perguntas. Qual \u00e9 a causa do trov\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Aceitai, senhor, o invite que ele vos faz; \u00e0 casa recolhei-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Uma palavra a este tebano s\u00e1bio: em que vos aplicais?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Em fugir do dem\u00f4nio e matar piolho.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Desejo vos pedir algo em segredo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Insisti outra vez, senhor, com ele, para abrigar-se. J\u00e1 revela ind\u00edcios de que n\u00e3o tem bastante firme o esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>A tempestade continua.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Poder\u00e1s censur\u00e1-lo? Suas filhas querem a morte dele. Ah! o bom Kent! Disse que tudo a dar viria nisto. Pobre exilado! Asseveraste h\u00e1 pouco que o rei est\u00e1 ficando louco. Digo-te, que eu tamb\u00e9m estou quase nesse ponto. Tive um filho, que se acha desde pouco banido do meu sangue. Contra a minha vida tentou \u2014 agora mesmo, agora! \u2014 Amava-o como pai t\u00e3o ternamente jamais ao filho amou. Para ser franco contigo, a dor me perturbou o esp\u00edrito. (<i>A tempestade continua.<\/i>) Que noite! Pe\u00e7o, instante, a Vossa Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Pe\u00e7o perd\u00e3o, senhor. Nobre fil\u00f3sofo, fazei-nos companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Tom est\u00e1 com frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Amigo, vem para a cabana; aquece-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Entremos todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por aqui, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Junto com ele; quero ficar sempre perto do meu fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Fazei-lhe nisso a vontade, bom senhor, deixando-o levar esse homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Bem; cuidai v\u00f3s dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Vamos, amigo; vem tamb\u00e9m conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Vamos, bom ateniense.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quietos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O cavaleiro Rol\u00e3o chegou perto do basti\u00e3o dizendo fim, fu e f\u00e3o! Sinto cheiro de bret\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha e Edmundo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Hei de vingar-me antes de deixar a casa dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 As censuras, milorde, de que eu poderei ser alvo, por permitir que a natureza ceda a tal ponto \u00e0 lealdade, deixam-me bastante apreensivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Percebo agora que n\u00e3o foram absolutamente as m\u00e1s inclina\u00e7\u00f5es de vosso irm\u00e3o que o levaram a procurar a morte dele, sen\u00e3o o merit\u00f3rio impulso que se viu estimulado pela ruindade conden\u00e1vel dele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Como \u00e9 p\u00e9rfido o meu destino, que me leva a arrepender-me de ser justo! Aqui est\u00e1 a carta de que ele falou; traz a prova de que \u00e9 partid\u00e1rio dos interesses da Fran\u00e7a. Oh c\u00e9us! Quem me dera que n\u00e3o houvesse semelhante trai\u00e7\u00e3o, ou que n\u00e3o fosse eu o delator!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Vem comigo procurar a duquesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Se for verdadeiro o conte\u00fado dessa folha, tendes em m\u00e3os um neg\u00f3cio muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Verdadeiro ou falso, ele te fez conde de Gloster. Descobre onde est\u00e1 teu pai, para que eu providencie logo sua pris\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se eu o encontrar confortando o rei, isso vir\u00e1 refor\u00e7ar as suspeitas do duque. \u2014 Hei de manter-me na trilha da lealdade, por mais doloroso que seja o conflito entre ela e meu sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Depositarei em ti minha confian\u00e7a; em meu amor encontrar\u00e1s um pai mais carinhoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr36\" name=\"lr36\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma cabana pr\u00f3xima do castelo. Entram Gloster, Lear, Kent, o bobo e Edgar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Aqui \u00e9 melhor do que ao ar livre; aceitai de bom cora\u00e7\u00e3o. Vou providenciar para o vosso conforto como me for poss\u00edvel; n\u00e3o me demorarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Toda a for\u00e7a de seu esp\u00edrito cedeu diante da indigna\u00e7\u00e3o. Que os deuses recompensem vossa bondade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Frateretto me chama para dizer que Nero \u00e9 um pescador no lago das trevas. Reza, inocente, e toma cuidado com o inimigo impuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tio, por obs\u00e9quio, dize-me se um louco \u00e9 gentil-homem ou fazendeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Um rei! Um rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o; foi o fazendeiro que teve um filho gentil-homem; porque \u00e9 preciso ser fazendeiro louco, para deixar que o filho se torne gentil-homem antes dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh! Se mil, a um s\u00f3 tempo, de espetos rubros, se atirassem sobre elas, assobiando&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O dem\u00f4nio impuro est\u00e1 me mordendo as costas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Louco \u00e9 quem se fia na mansid\u00e3o do lobo, na sa\u00fade do cavalo, no amor de um rapaz e no juramento de uma prostituta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Assim farei. Vou intim\u00e1-las j\u00e1. (<i>A Edgar.<\/i>) Senta-te aqui, dout\u00edssimo juiz. (<i>Ao bobo.<\/i>) E v\u00f3s, aqui, s\u00e1bio senhor. E agora passemos \u00e0s raposas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Vede! est\u00e1 ele com os olhos fixos! Precisas de olhos para o processo, madame? Vem para c\u00e1, Bessy; pula o regato.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 O barco dela \u00e9 furado; por isso ela tem cuidado. Por que, ent\u00e3o, n\u00e3o arrisca a vir por cima?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O dem\u00f4nio impuro persegue o pobre Tom sob a voz de um rouxinol; Hopdance grita na barriga de Tom por dois arenques brancos. P\u00e1ra de coaxar, anjo negro! N\u00e3o tenho alimento para dar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Como passais, senhor? Ficai mais calmo. N\u00e3o quereis repousar no travesseiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Primeiro quero ver o julgamento. Trazei as testemunhas. (<i>A Edgar.<\/i>) Juiz togado, senta-te logo. (<i>Ao bobo.<\/i>) E tu, seu companheiro de jugo na Justi\u00e7a, ao lado dele. (<i>A Kent.<\/i>) V\u00f3s sois da comiss\u00e3o; sentai-vos a\u00ed!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Procedamos com justi\u00e7a. Dormes ou velas, belo pastorzinho? teu anho est\u00e1 no trigo. Mas a um grito de tua r\u00f3sea boca, n\u00e3o correr\u00e1 perigo. Prrr! O gato \u00e9 cinzento.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Citei esta em primeiro lugar; \u00e9 Goneril. Presto juramento diante desta honrada assembl\u00e9ia em como ela deu um pontap\u00e9 no pobre rei seu pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Vinde mais para a frente, mo\u00e7a! Vosso nome \u00e9 Goneril?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o poder\u00e1 neg\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Pe\u00e7o desculpas, mas tomei-vos por um tamborete.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Aqui est\u00e1 a outra, cujo olhar de esguelha proclama o que no cora\u00e7\u00e3o se abriga. Prendei-a logo! Armas! espada, fogo! A corrup\u00e7\u00e3o campeia! Juiz corrupto, por que deixaste que ela fosse embora?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Aben\u00e7oados sejam teus cinco esp\u00edritos!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Oh! piedade, senhor! Onde pusestes a paci\u00eancia de que fal\u00e1veis tanto, jurando conserv\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Tanto as l\u00e1grimas ficam do lado dele, que me amea\u00e7am estragar todo o plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Este c\u00e3ozinho, vede, e os outros, Gracioso, Fiel e Neve, se atiram contra mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Tom vai atirar-lhes sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Fora daqui, mastins! De goelas brancas ou pretas, dentes sujos e caretas, mastim, galgo ou perdigueiro, molosso tardo ou ligeiro, de p\u00ealo curto ou lanzudo, Tom vai dar cabo de tudo. Contra eles o coco atiro, fazendo-os correr em giro. Do, de, de, de. Sessa! Vamos, marchai para as festas de igreja, feiras e mercados. Pobre Tom, teu chifre est\u00e1 vazio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Agora dissequem Regane, para ver o que brota de junto do cora\u00e7\u00e3o dela. H\u00e1 alguma causa natural que torne endurecidos esses cora\u00e7\u00f5es? (<i>A Edgar.<\/i>) V\u00f3s, senhor, considero-vos um dos meus cem homens; apenas n\u00e3o me agrada o corte de vossas vestes. Ireis dizer-me que foram feitas \u00e0 moda persa. Contudo, ser\u00e1 conveniente mud\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Agora, meu bom senhor, ide deitar-vos um pouco, para repousar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Nada de barulho, nada de barulho&#8230; Correi a cortina&#8230; Assim, assim, assim&#8230; Pela manh\u00e3 cearemos. Assim, assim, assim&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 E ao meio-dia irei deitar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Aproxima-te, amigo. Onde est\u00e1 o rei, meu mestre?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Aqui, senhor; mas n\u00e3o o perturbeis; perdeu a raz\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Carrega-o, caro amigo, por obs\u00e9quio. H\u00e1 uma conjura contra a vida dele. Aqui perto h\u00e1 uma maca; deita-o nela e corre, amigo, para Dover, onde ir\u00e1s achar boa acolhida e amparo. Levanta teu senhor; se demorares meia hora que seja, a vida dele, como a tua e a de todos os que o seguem, correm para uma perda inevit\u00e1vel. Levante-o com bom jeito e vem comigo, que vou prover-te com bastante urg\u00eancia do que for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 A natureza cansada adormeceu. Este repouso poderia deitar-te um linimento nos nervos torturados, que, na falta de boas condi\u00e7\u00f5es, dificilmente chegar\u00e3o a sarar. (<i>Ao bobo.<\/i>) Vamos, ajuda-me a carregar teu mestre. Tu n\u00e3o podes, tamb\u00e9m, ficar aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Kent, Gloster e o bobo, carregando Lear.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ao veres teu senhor sofrer teus males, convences-te de que de nada vales. Quem sofre s\u00f3, padece em pensamento, por na dita passada estar atento. O esp\u00edrito n\u00e3o fica em desalinho, quando consegue a dor algum vizinho. Qu\u00e3o leve me parece o fardo ingente que me deixa encurvado e o rei gemente! Fez-me meu pai o que para ele as filhas. Tom, cuidado com as vozes! Tu te humilhas somente enquanto a falsidade dura te conservar desviado da ventura. Venha o que vier, contanto que o rei fuja. Aten\u00e7\u00e3o! Aten\u00e7\u00e3o! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr37\" name=\"lr37\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha, Regane, Goneril, Edmundo e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Parti com toda pressa para onde est\u00e1 milorde vosso marido e mostrai-lhe esta carta. O ex\u00e9rcito da Fran\u00e7a desembarcou. \u2014 Procurai o traidor Gloster.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Enforcai-o imediatamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Arrancai-lhe os olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Deixai-o aos cuidados do meu desprazer. Edmundo, fazei companhia a nossa irm\u00e3; as vingan\u00e7as que vamos ser for\u00e7ados a tomar de vosso pai traidor n\u00e3o s\u00e3o adequadas para vossa vista. Avisai o duque, para a casa de quem vos dirigis, que se prepare com a maior urg\u00eancia poss\u00edvel, porque faremos o mesmo. Nossos correios n\u00e3o se poupar\u00e3o, para manter entre n\u00f3s o entendimento preciso. Adeus, querida irm\u00e3; adeus, milorde de Gloster. (<i>Entra Osvaldo.<\/i>) Ent\u00e3o! Onde est\u00e1 o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Levou-o para longe lorde Gloster. Cerca de trinta e cinco ou trinta e seis de seus homens, sequiosos de encontr\u00e1-lo, o esperaram \u00e0 porta, e em companhia de outros homens do lorde se fizeram no caminho de Dover, onde todos se jactam de possuir s\u00f3cios armados.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Prepara a condu\u00e7\u00e3o para a senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Adeus, doce senhor; adeus, irm\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Adeus, Edmundo. (<i>Saem Goneril, Edmundo e Osvaldo.<\/i>) Ide e trazei-me Gloster, esse traidor; os bra\u00e7os algemai-lhe como a um ladr\u00e3o e em nossa frente o ponde. (<i>Saem outros criados.<\/i>) Embora n\u00e3o possamos pronunciar-nos, sem as formas legais, contra sua vida, poder\u00e1 nossa for\u00e7a cortesia fazer \u00e0 nossa c\u00f3lera, o que os homens talvez censurem, mas obstar n\u00e3o podem. Quem vem l\u00e1! \u00d3 traidor?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam os criados, com Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Raposa ingrata! \u00c9 ele mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Amarrai-lhe os bra\u00e7os leves.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Que intendem Vossas Gra\u00e7as? Bons amigos, considerai que sois aqui meus h\u00f3spedes. N\u00e3o me trateis, amigos, com desprezo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Amarrai-o, j\u00e1 disse!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Os criados amarram Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Com mais for\u00e7a! Traidor infecto!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Dama sem piedade, n\u00e3o sou o que dizeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Nesta cadeira; amarrai-o! Vil\u00e3o, vais ver agora&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Regane puxa a barba de Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Pelos deuses bondosos, \u00e9 ignom\u00ednia puxar-me pela barba.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 T\u00e3o branco e t\u00e3o traidor!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Perversa dama, os fios que do queixo ora me arrancas, h\u00e3o de ficar de p\u00e9 para acusar-te. Meus h\u00f3spedes sois todos; n\u00e3o dev\u00edeis com m\u00e3os rapaces machucar-me os tra\u00e7os de dono desta casa. Que quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Vamos, senhor; dizei-me: que not\u00edcias recebestes de Fran\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Sede breve no que disserdes, pois sabemos tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 E que pacto firmastes com os traidores que saltaram h\u00e1 pouco em nosso reino?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 A que m\u00e3os entregastes o rei louco? Falai!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c0s m\u00e3os me veio uma missiva baseada em conjeturas de pessoa neutra e imparcial, n\u00e3o de qualquer inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Astuciosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Traidora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 E o rei, para onde o enviaste?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Para Dover.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por que Dover? Avisado n\u00e3o foras, sob o risco&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Por que Dover? Primeiro responde a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Estou atado ao poste; \u00e9-me imposs\u00edvel fugir destes assaltos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por que Dover?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Porque essas unhas cru\u00e9is n\u00e3o lhe arrancassem os pobres olhos, velhos e cansados, nem tua irm\u00e3 selvagem lhe enterrasse no corpo ungido as presas de javardo. O mar em tempestade como a que ele suportou na cabe\u00e7a descoberta nesta noite infernal, se empolaria para apagar o fogo das estrelas. E o pobre cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o velho, a chuva do c\u00e9u fez aumentar! Se os pr\u00f3prios lobos, com um tempo destes, ululado houvessem diante de tuas portas, certamente terias dito: \u201cBom porteiro, vira depressa a chave!\u201d Todas as crueldades ficariam riscadas. Mas ainda hei de ver a vingan\u00e7a de asas fortes cair sobre tais filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Veres? Nunca! Segurai a cadeira com firmeza. Vou p\u00f4r os p\u00e9s em cima de teus olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quem espera viver at\u00e9 \u00e0 velhice, venha ajudar-me agora. Oh monstro! Oh deuses!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>\u00c9 arrancado um dos olhos de Gloster.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 O outro tamb\u00e9m, para n\u00e3o rir daquele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Se virdes a vingan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Suspendei, milorde, a m\u00e3o. Servi-vos desde crian\u00e7a; mas nunca vos prestei t\u00e3o bom servi\u00e7o, como ao pedir agora que par\u00e1sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Como, cachorro?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Se troux\u00e9sseis barba no queixo eu a arrancara nesta briga. Que pretendeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Um dos meus criados? Como! (<i>Saca da espada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Avan\u00e7ai, pois, e vos medi com a c\u00f3lera. (<i>Desembainha a espada; lutam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Cornualha \u00e9 ferido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Empresta-me tua espada. Rebelar-se um r\u00fastico a este ponto! (<i>Toma da espada e fere o criado pelas costas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Oh! Estou morto! Ainda vos resta um olho, milorde, para v\u00ea-lo desgra\u00e7ado. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Porque n\u00e3o posso ver, fa\u00e7amos isto: fora, gel\u00e9ia vil! Qual \u00e9 teu brilho neste momento?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Escuro em toda parte, desola\u00e7\u00e3o total. Onde se encontra meu filho Edmundo? Edmundo, acende as chispas da natureza e vinga este ato horr\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Vil\u00e3o traidor, invocas quem te odeia. Foi ele pr\u00f3prio quem nos deu not\u00edcia de tua falsidade, ele em pessoa. \u00c9 bom demais para de ti ter pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Oh! Que tolo que fui! Ent\u00e3o Edgar foi caluniado! Deuses bons, perdoai-me, e que ele possa prosperar.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Jogai-o fora da porta e que procure a estrada de Dover pelo cheiro. (<i>Sai um criado conduzindo Gloster.<\/i>) Ent\u00e3o, milorde, como estais?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORNUALHA \u2014 Recebi uma ferida. Senhora, acompanhai-me. Jogai fora esse vil\u00e3o sem olhos; no monturo atirai esse escravo. Estou sangrando demais, Regane; veio-me este golpe muito fora de tempo. Dai-me o bra\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Cornualha apoiado em Regane.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 N\u00e3o quero ter preocupa\u00e7\u00e3o alguma com qualquer vilania, se este tipo vier ainda a acabar bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Se vida longa ela tiver e, ao fim, achar o curso comum da morte, todas as mulheres virar\u00e3o monstros.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Vamos \u00e0 procura do velho conde, para que levado seja pelo man\u00edaco para onde ele o determinar. Suas manias de vagante se prestam para tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Vai; enquanto isso, arranjarei um pouco de linho e clara de ovo, para p\u00f4r-lhe no rosto ensanguentado. O c\u00e9u que o ajude!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem por lados diferentes.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr41\" name=\"lr41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A charneca. Entra Edgar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Melhor assim: saber que \u00e9 desprezado do que s\u00ea-lo sob capa de lisonja. O mais \u00ednfimo ser, com mais desprezo tratado pela sorte, ainda conserva certa esperan\u00e7a e vive sem temores. S\u00f3 muda para pior o que \u00e9 perfeito; o pior volta \u00e0 alegria. S\u00ea bem-vindo, portanto, ar impalp\u00e1vel que respiro! O infeliz que jogaste t\u00e3o por baixo a essas tuas rajadas nada deve. Mas quem vem vindo a\u00ed? (<i>Entra Gloster, conduzido por um velho.<\/i>) Como! Meu pai, trazido por um pobre? \u00d3 mundo! mundo! Sem tuas muta\u00e7\u00f5es inesperadas que nos levam a odiar-te, nunca a vida chegara at\u00e9 \u00e0 velhice.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 \u00d3 bom senhor, de vosso pai e vosso fui rendeiro por volta de oitenta anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Bem; retira-te, bondoso amigo. Vai-te. Teus consolos bem algum me far\u00e3o, mas poderiam prejudicar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 N\u00e3o vereis a estrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o tenho estrada; n\u00e3o preciso de olhos. Tropecei, quando via. Muitas vezes j\u00e1 se tem visto o bem-estar deixar-nos preocupados e a necessidade redundar em proveito. \u00d3 meu querido filho Edgar, alimento da iludida c\u00f3lera de teu pai, se eu tiver vida para te ver ainda, pelo tato, direi que achei os olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Quem vem l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Oh deuses! Quem diria: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel chegar a pior estado!\u201d Nunca estive em piores condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 \u00c9 Tom, o louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 E mais ainda poderei descer. Nunca sofremos o pior, enquanto dizer podemos: \u201cIsto \u00e9 o pior de tudo\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Para onde vais, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c9 algum pedinte?<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Pedinte, a um tempo, e louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Um pouco de raz\u00e3o ainda conserva, sem o que mendigar n\u00e3o poderia. Na noite que passou, da tempestade, vi um sujeito assim, que ao pensamento me trouxe que o homem n\u00e3o \u00e9 mais que um verme. Lembrei-me de meu filho, muito embora dificilmente, ent\u00e3o, amigo dele meu esp\u00edrito fosse. Depois disso aprendi muito. O que para os garotos s\u00e3o as moscas, n\u00f3s somos para os deuses: matam-nos por brinquedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Que \u00e9 que importa tudo isso? Triste \u00e9 a profiss\u00e3o que obriga a zombar da desgra\u00e7a, para inc\u00f4modo de si pr\u00f3prio e dos outros. (<i>A Gloster.<\/i>) Salve, mestre!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c9 o tal mendigo nu?<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Ele, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Por favor, ent\u00e3o deixa-me. Se acaso quiseres, por amor de mim, buscar-nos daqui a uma milha ou duas, no caminho de Dover, faze-o por antigo afeto, e traze roupa para esta alma nua, a quem vou explicar que me conduza.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Oh senhor! Ele \u00e9 louco!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Esse \u00e9 o castigo do tempo, conduzir ao cego o louco. Faze o que eu disse, ou faze o que quiseres; mas, sobretudo, vai-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">O VELHO \u2014 Vou dar-lhe a minha melhor roupa, venha-me disso seja o que for. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Eh! Homem nu!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 O pobre Tom tem frio. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) \u00c9-me imposs\u00edvel fingir mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Vem aqui, amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Mas \u00e9 preciso. \u2014 Aben\u00e7oados sejam teus doces olhos, pois est\u00e3o sangrando.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Conheces o caminho para Dover?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Cancelas e porteiras, caminhos de cavalo e de p\u00e9. Espantaram o esp\u00edrito do pobre Tom. Filho do homem pio. Deus te preserve do dem\u00f4nio impuro. Cinco dem\u00f4nios entraram a um s\u00f3 tempo no pobre Tom: Obidicut, o dem\u00f4nio da lux\u00faria; Obbididance, pr\u00edncipe do mutismo; Mahu, do roubo; Modo, do homic\u00eddio; e Flibbertigibbet, das caretas e contor\u00e7\u00f5es, que desde ent\u00e3o deixou possessas as criadas e governantes. Salve, portanto, mestre!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Fica com esta bolsa, \u00f3 tu, que as pragas do c\u00e9u aos golpes todos humilharam. Minha desgra\u00e7a mais feliz te deixa. Procedei sempre assim, \u00f3 c\u00e9us! Que o homem saturado de bens e de prazeres que deixa subservientes vossas m\u00e1ximas e nada v\u00ea porque n\u00e3o sente nada, sinta depressa toda vossa for\u00e7a. A divis\u00e3o, assim, destr\u00f3i o excesso, tocando a todo o mundo alguma coisa. Conheces Dover?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Sim, conhe\u00e7o, mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 L\u00e1 se encontra um penhasco de cabe\u00e7a alta e inclinada, que olha com receio para o abismo horroroso. Vamos; leva-me at\u00e9 ao rebordo dele, que hei de a tua mis\u00e9ria remediar com algum objeto de valor que ora trago. Da\u00ed em diante dispensarei teus passos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 D\u00e1-me o bra\u00e7o; o pobre Tom vai te servir de guia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr42\" name=\"lr42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante do pal\u00e1cio do Duque de Alb\u00e2nia. Entram Goneril e Edmundo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Sois bem-vindo, senhor. Estranho muito que o nosso brando esposo n\u00e3o nos tenha sa\u00eddo a receber. (<i>Entra Osvaldo.<\/i>) Que \u00e9 de vosso amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Senhora, est\u00e1 l\u00e1 dentro; por\u00e9m nunca homem nenhum mudou, como ele, tanto. Contei-lhe que desembarcaram for\u00e7as. Sorriu \u00e0 nova. Disse-lhe que v\u00ednheis para c\u00e1; respondeu: \u201cTanto pior\u201d. Ao lhe falar da alta trai\u00e7\u00e3o de Gloster e da lealdade de seu filho Edmundo, chamou-me de papalvo, declarando-me que eu havia tomado o pior partido. Tudo quanto ele detestar devia, lhe ensejava prazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL (<i>a Edmundo<\/i>) \u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso, portanto, irdes mais longe. \u00c9 seu esp\u00edrito covarde e aterrorado que n\u00e3o ousa decidir-se por nada. N\u00e3o deseja sentir o ultraje que \u00e0 resposta o force. Os votos que fizemos em caminho talvez se efetuar\u00e3o. Voltai, Edmundo, para o mano; reuni seus homens logo e o comando assumi de seu ex\u00e9rcito. Terei de me aprestar com nossas armas e p\u00f4r na m\u00e3o de meu marido a roca. Este fiel servidor ir\u00e1 servir-nos de intermedi\u00e1rio. Dentro de pouquinho \u2014 se algo arriscardes para vosso ganho \u2014 ordens recebereis de vossa dama. Usai isto. (<i>D\u00e1-lhe uma prenda.<\/i>) Poupai qualquer discurso. Abaixai a cabe\u00e7a. Ora, este beijo se a falar se atrevesse, exal\u00e7aria teu esp\u00edrito \u00e0s nuvens. Vai; compreende e passa bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Confesso-me por vosso nas fileiras da morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Meu car\u00edssimo Gloster! (<i>Sai Edmundo.<\/i>) Oh! Que dist\u00e2ncia vai de um homem para outro! Bem mereces os servi\u00e7os de uma mulher. Meu bobo \u00e9 que me usurpa presentemente o leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 A\u00ed vem meu amo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Alb\u00e2nia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Antes eu merecia um assobio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 \u00d3 Goneril, digna n\u00e3o sois da poeira que vos atira ao rosto o vento rude. Inspira-me pavor vosso car\u00e1ter. Quando renega um ser a pr\u00f3pria origem, em si mesmo contido n\u00e3o prossegue. Quem se arranca a si pr\u00f3prio e se desgalha da seiva substancial, \u00e9 inevit\u00e1vel que a secar venha e pela morte caia.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Basta; o texto \u00e9 cretino.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Para o baixo o saber e a bondade s\u00e3o mesquinhos. S\u00f3 a si mesma aprecia a sujidade. Que perpetrastes? Tigres, sim, n\u00e3o filhas: que fizestes? Um pai, um velho af\u00e1vel, cuja figura r\u00e9gia at\u00e9 mesmo um urso preso \u00e0 corda afagara, por v\u00f3s duas \u2014 degeneradas! b\u00e1rbaras! \u2014 lan\u00e7ado foi \u00e0 loucura. Como se compreende que meu bondoso irm\u00e3o o permitisse, um nobre, um homem que por ele pr\u00f3prio fora beneficiado a m\u00e3os repletas? Se o c\u00e9u n\u00e3o enviar logo seus esp\u00edritos vis\u00edveis para que aqui em baixo venham reprimir essas vis atrocidades, ser\u00e1 fatal: v\u00e3o devorar-se os homens uns aos outros, como os monstros do abismo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 O sujeito de f\u00edgado de leite, com rosto para receber pancada e fronte para insultos! N\u00e3o tens olhos que possam distinguir a honra do insulto. Desconheces que s\u00e3o somente os tolos que mostram compaix\u00e3o do celerado, quando a pena recebe, antes de tempo ter de fazer o mal. Onde se encontra teu tambor? J\u00e1 desfralda os estandartes a Fran\u00e7a em nossa terra silenciosa. Teu matador, com elmo empenachado, te amea\u00e7a, e tu, meu tolo moralista, permaneces sentado e choramingas: \u201cAh! Por que fez ele isso?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Olha em ti pr\u00f3pria, dem\u00f4nia! A original deformidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o repelente nos dem\u00f4nios, como numa mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Oh tolo t\u00edmido!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Cria vergonha, criatura falsa, que de ti pr\u00f3pria retiraste a m\u00e1scara, e cessa de animalizar os tra\u00e7os! Se me ficasse bem deixar que ao sangue as m\u00e3os obedecessem, mui capazes seriam de quebrar-te os ossos todos e lacerar-te as carnes. Mas embora sejas o pr\u00f3prio diabo, ora te ampara a forma de mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Como valente se tornou num instante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhor, morreu o duque de Cornualha. Matou-o um criado, quando pretendia arrancar o segundo olho de Gloster.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Como! Os olhos de Gloster?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Um dos pr\u00f3prios servidores, por ele mesmo criado, se op\u00f4s ao ato, a espada ent\u00e3o sacando contra seu grande mestre, o qual, col\u00e9rico contra ele se lan\u00e7ou e o prostrou morto, n\u00e3o, por\u00e9m, sem aquele fatal golpe que depois o matou.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Isso demonstra que morais a\u00ed em cima, \u00f3 Justiceiros! para punirdes com tamanha pressa os crimes c\u00e1 de baixo. Mas \u00e9 certo que perdeu o outro olho o pobre Gloster?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ambos, senhor. Resposta urgente exige, senhora, esta missiva. Vem da parte de vossa irm\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Agrada-me isso a meias. Mas estando vi\u00fava e ao lado dela meu Gloster se encontrando, \u00e9 bem poss\u00edvel que os castelos de minha fantasia esmagar venham minha vida odiosa. Por\u00e9m por outro lado essa not\u00edcia n\u00e3o me parece m\u00e1. (<i>Ao mensageiro.<\/i>) Vou l\u00ea-la e logo responderei. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 E onde se achava o filho, no momento em que os olhos lhe arrancaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Para c\u00e1 tinha vindo com a senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Mas aqui n\u00e3o se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 N\u00e3o, milorde; encontrei-o de volta novamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Soube ele dessa inf\u00e2mia?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Sim, bondoso senhor; o delator foi ele pr\u00f3prio, tendo sa\u00eddo para que o castigo tivesse livre curso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Gloster, vivo para te dar os agradecimentos pelo amor que mostraste ao rei e para vingar teus olhos. Vem aqui, amigo; conta o mais que souberes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr43\" name=\"lr43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento franc\u00eas, perto de Dover. Entram Kent e um gentil-homem.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Por que o rei da Fran\u00e7a retornou com tanta pressa? Sabeis a raz\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Deixou em suspenso algum assunto de Estado, que o preocupa desde que de l\u00e1 partiu e que, importando para o reino muito temor e perigo, imp\u00f4s como necessidade urgente a volta do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Quem deixou ele atr\u00e1s como general?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 O Marechal de Fran\u00e7a, Monsieur La Far.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Vossas cartas arrancaram da rainha alguma demonstra\u00e7\u00e3o de tristeza?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Pois n\u00e3o, senhor; tomou-as e na minha presen\u00e7a as leu. De quando em quando l\u00e1grimas as faces delicadas lhe sulcavam. Parecia a rainha da tristeza que, tal como os rebeldes, procurava domin\u00e1-la de vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Oh! comoveu-se!<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Mas sem ficar col\u00e9rica; a paci\u00eancia e a dor lutavam para apresent\u00e1-la sob o mais grato aspecto. Com certeza j\u00e1 vistes sol e chuva ao mesmo tempo; pois nela mais encantadores ainda eram o riso e o choro. Os sorrisinhos graciosos que na boca lhe brincavam, pareciam n\u00e3o ter conhecimento dos h\u00f3spedes dos olhos, que deixavam a grata hospedaria como p\u00e9rolas que caem de diamantes. Em resumo: a tristeza seria raridade muito querida, se ficasse em todas as pessoas t\u00e3o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o fez perguntas?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Sim, suspirou por uma ou duas vezes o nome \u201cpai\u201d, gemendo, dolorida, como se o cora\u00e7\u00e3o ele abafasse. Clamava: \u201cIrm\u00e3s! Vergonha das mulheres! Irm\u00e3s! Kent! Meu pai! Como! De noite? Na tempestade? A compaix\u00e3o \u00e9 um mito!\u201d A \u00e1gua benta, depois, cair deixando dos olhos celestiais, que lhe os queixumes umedeciam, s\u00fabito partiu-se para lutar sozinha com sua m\u00e1goa.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 S\u00e3o os astros, os astros l\u00e1 de cima, que determinam nossas condi\u00e7\u00f5es; se n\u00e3o, o mesmo par n\u00e3o poderia filhos gerar assim t\u00e3o diferentes. Falastes-lhe depois?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 E isso tudo se deu antes da volta do monarca?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 N\u00e3o; depois.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Muito bem, senhor; o pobre e inditoso Lear se acha na cidade. Por vezes, quando est\u00e1 mais bem disposto, ocorre-lhe a raz\u00e3o de nossa vinda. Por\u00e9m de modo algum quer ver a filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Por qu\u00ea, meu bom senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Vergonha extrema tanto o deprime \u2014 a rispidez com que ele privou da b\u00ean\u00e7\u00e3o sua pr\u00f3pria filha, entregando-a a acidentes estrangeiros e transferindo a bela heran\u00e7a dela para as irm\u00e3s de cora\u00e7\u00e3o canino \u2014 tudo isso o cora\u00e7\u00e3o de tal maneira com dardo venenoso lhe transpassa, que uma vergonha abrasadora longe de Cord\u00e9lia o det\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Ah! pobre rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 E nada ouvistes sobre os dois ex\u00e9rcitos, de Cornualha e de Alb\u00e2nia?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Est\u00e3o em marcha.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Pois muito bem, senhor; vou conduzir-vos a nosso mestre Lear, l\u00e1 vos deixando para tratardes dele. Alguns neg\u00f3cios de import\u00e2ncia a ficar me obrigam ainda mais algum tempo oculto. Por\u00e9m logo que eu revelar quem sou, n\u00e3o tereis causa de vos arrepender desta amizade. Por obs\u00e9quio, segui-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr44\" name=\"lr44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma tenda. Entram com toque de tambor e bandeiras desfraldadas Cord\u00e9lia, o m\u00e9dico e soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 \u00c9 ele mesmo, ai de mim! Neste momento foi visto, t\u00e3o furioso como o oceano revoltado, a cantar alto e sozinho, coroado de \u00e1spera fum\u00e1ria, urtiga, cicuta, cardamina, pegamassa, joio, ciz\u00e2nia e quanta erva daninha viceja em nosso trigo aliment\u00edcio. Mandai cem homens; que examinem jeira por jeira da lavoura j\u00e1 crescida, e a nossa vista o tragam. (<i>Sai um oficial.<\/i>) Com que meios conta a sabedoria humana, para restituir-lhe a raz\u00e3o? Quanto possuo ficar\u00e1 sendo de quem quer que o cure.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 H\u00e1 recursos, senhora. A ama de nossa natureza \u00e9 o repouso, justamente o de que ele carece, o que \u00e9 poss\u00edvel nele obter pela a\u00e7\u00e3o de muitos simples que baixar\u00e3o a p\u00e1lpebra da ang\u00fastia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Surgi com minhas l\u00e1grimas, segredos aben\u00e7oados, virtudes ainda ocultas da natureza! Vinde em nosso aux\u00edlio, remediando a desgra\u00e7a do bom velho! Procurai-o depressa! Procurai-o, antes que seu furor desordenado lhe dissolva a exist\u00eancia carecente de eficaz dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Novas, senhora! As for\u00e7as da Bretanha se aproximam.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Disso conhecimento j\u00e1 tivemos, e \u00e0 sua espera estamos. \u00c9 a tua causa, querido pai, que eu sirvo. Esse o motivo de ter-se o grande Fran\u00e7a de meu choro apiedado e de meu luto. A vazia ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi que o bra\u00e7o nos armou para a luta, mas apenas o amor, o terno amor, bem como a causa de nosso idoso pai. Pudesse eu v\u00ea-lo dentro de pouco e ouvi-lo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr45\" name=\"lr45\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo de Gloster. Entram Regane e Osvaldo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Mas as for\u00e7as do mano est\u00e3o em campo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Sim, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 E ele pr\u00f3prio \u00e0 frente delas?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Com muita relut\u00e2ncia; vossa mana \u00e9 melhor combatente.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Lorde Edmundo n\u00e3o falou com vosso amo em casa deste?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Qual pode ser o assunto da carta dela, ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 N\u00e3o sei, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 \u00c9 certeza ter sido enviado em muito s\u00e9ria miss\u00e3o. Foi erro indesculp\u00e1vel deixar Gloster com vida, ap\u00f3s os olhos lhe termos arrancado. Onde aparece levanta os cora\u00e7\u00f5es, contra n\u00f3s todos. Edmundo, quero crer, compadecido de sua dor, foi dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo tempo, tentar saber das for\u00e7as do inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Preciso partir logo, para a carta, senhora, lhe entregar.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 As nossas tropas partir\u00e3o amanh\u00e3. Fica conosco, pois n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a nas estradas.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Senhora, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel; a patroa confia em minha dilig\u00eancia nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Qual a necessidade que ela tinha de escrever a Edmundo? N\u00e3o pod\u00edeis transmitir verbalmente seu recado? Talvez&#8230; Alguma coisa&#8230; Como posso sab\u00ea-lo? Amar-te-ia imensamente se permitisses que eu abrisse a carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Preferira, senhora&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 N\u00e3o ignoro que vossa ama n\u00e3o gosta do marido. Tenho certeza disso. Quando da \u00faltima vez ela esteve aqui, lan\u00e7ou estranhos olhares, eloq\u00fcentes sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela sei bem que sois.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Como! Eu, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Sei o que estou dizendo: confidente, tenho certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu conselho. Meu marido faleceu; eu e Edmundo j\u00e1 falamos a esse respeito, sendo mais razo\u00e1vel, assim, que ele me pe\u00e7a a m\u00e3o, deixando de lado a mana. Deduzi o resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por obs\u00e9quio. E quando conversardes com vossa ama sobre este assunto, pe\u00e7o concitarde-la a readquirir sua usual prud\u00eancia. Portanto, passai bem. Se vierdes a encontrar o traidor cego, ganhar\u00e1 muito quem der cabo dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Oh! Quem dera que o visse! Assim, mostrara de que lado me encontro.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Regi\u00e3o perto de Dover. Entram Gloster e Edgar vestido como campon\u00eas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quando estarei no cimo da colina?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 J\u00e1 estais subindo. Vede nosso esfor\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Tenho a impress\u00e3o de que o terreno \u00e9 plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Horrivelmente abrupto. N\u00e3o ouvis o barulho do mar?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o, em verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 E que os outros sentidos tendes fracos pelo que os olhos sofrem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00c9 poss\u00edvel. Parece-me que tens a voz mudada e que com mais sentido agora falas e melhor express\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 \u00c9 puro engano de vossa parte; em nada estou mudado, se n\u00e3o for nestas vestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o; parece-me que te exprimes melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai quieto. Como \u00e9 terr\u00edvel! \u00c9 de dar vertigens olhar nesta dist\u00e2ncia para baixo. Como os corvos e as gralhas que transvoam o ar interm\u00e9dio ficam pequeninos como besouros! V\u00ea-se \u00e0 meia altura, suspenso, um homem que procura funcho. Profiss\u00e3o arriscada! A impress\u00e3o tenho de que ele \u00e9 do tamanho da cabe\u00e7a. Os pescadores que andam pela praia parecem-se com ratos; a barca\u00e7a ali ancorada, t\u00e3o pequena se acha como o pr\u00f3prio escaler, e este se encontra reduzido a uma b\u00f3ia, pequenina demais para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos inumer\u00e1veis e pregui\u00e7osos seixos n\u00e3o se fazem ouvir de tanta altura. \u00c9-me imposs\u00edvel olhar mais tempo assim, pois tenho medo de vir a ter vertigens, atirando-me a vista de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Coloca-me no ponto em que te encontras.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Dai-me a m\u00e3o; s\u00f3 um passo vos separa da borda extrema. Por quanto h\u00e1 debaixo da lua, eu n\u00e3o saltara dessa altura.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Solta-me a m\u00e3o; recebe esta outra bolsa; dentro dela h\u00e1 uma j\u00f3ia que merece ficar com algum pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vai-te embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus passos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Passai bem, bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Agradecido de todo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 A brincadeira que fa\u00e7o com a desgra\u00e7a dele, visa, t\u00e3o-somente, cur\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00d3 deuses grandes, renuncio a este mundo e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu grande sofrimento! Pudesse eu suport\u00e1-lo por mais tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresist\u00edvel, este abjeto morr\u00e3o da natureza se deixara consumir at\u00e9 ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh! aben\u00e7oai-o! E agora, amigo, adeus. (<i>Cai para a frente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Adeus, senhor; j\u00e1 fui embora. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Conceber n\u00e3o posso como a imagina\u00e7\u00e3o roubar consegue da vida a rara j\u00f3ia, quando a pr\u00f3pria vida se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava estar, neste momento pensar j\u00e1 n\u00e3o pudera. Vivo ou morto? (<i>A Gloster.<\/i>) Ent\u00e3o, senhor! Amigo! Estais me ouvindo? Poderia morrer&#8230; Mas n\u00e3o; revive. Que sois, senhor? Dizei-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Vai-te embora e deixa-me morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Se algo mais fosses do que ar, teia de aranha, leve pluma, caindo assim de tantas bra\u00e7as do alto, partido j\u00e1 estarias como um ovo. Mas respiras, possuis pesado corpo, n\u00e3o perdes sangue, est\u00e1s inteiro, filas. Dez mastros superpostos n\u00e3o bastaram para medir a altura de onde ca\u00edste perpendicularmente. Verdadeiro milagre \u00e9 tua vida. Vamos, fala!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Mas eu ca\u00ed ou n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Sim, l\u00e1 do pico desta penha calc\u00e1ria. Olha para o alto; ver e ouvir n\u00e3o se pode a cotovia de garganta estridente. Olha para o alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Ai de mim! N\u00e3o tenho olhos! \u00c9 negada \u00e0 desgra\u00e7a o benef\u00edcio de p\u00f4r termo com a morte \u00e1 pr\u00f3pria ang\u00fastia. Era consolo para o sofrimento poder lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos orgulhosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Dai-me o bra\u00e7o. De p\u00e9! Ent\u00e3o, e agora? Sentis as pernas? Eis-vos levantado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Bem; muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Tudo isso \u00e9 muito estranho. Que era que estava no alto do penhasco e se apartou de v\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Um miser\u00e1vel. Um mendigo infeliz.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Daqui debaixo onde me achava, pareciam duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes, cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar bravo. Decerto era um dem\u00f4nio. Por tudo isso, lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da import\u00e2ncia dos mortais constroem toda sua gl\u00f3ria, a vida te salvaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Agora penso nisso; de hoje em diante pretendo suportar o sofrimento at\u00e9 que por si mesmo ele me grite: \u201cBasta! Basta!\u201d e pere\u00e7a. Por um homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia muitas vezes: \u201cO dem\u00f4nio!\u201d Foi ele que me p\u00f4s naquela ponta.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Possas agora ter s\u00f3 pensamentos tranq\u00fcilos e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem a\u00ed? (<i>Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.<\/i>) Jamais a s\u00e3 raz\u00e3o vestir\u00e1 seu senhor dessa maneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o poder\u00e3o pegar-me por cunhar moedas; sou o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Oh espet\u00e1culo de transpassar o cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse um espantalho&#8230; Cortai-me uma jarda de pano. Vede! Um rato! Paz! Paz! Este peda\u00e7o de queijo frio resolver\u00e1 o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh! Bonito v\u00f4o, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A senha, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Doce manjerona.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Passai.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Conhe\u00e7o essa voz.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me como um c\u00e3o e me disseram que os p\u00ealos brancos de minha barba nasceram antes dos pretos. Responder \u201csim\u201d e \u201cn\u00e3o\u201d a tudo o que eu dizia! \u201cSim\u201d e \u201cn\u00e3o\u201d ao mesmo tempo n\u00e3o era boa teologia. No dia em que a chuva veio para molhar-me e o vento para me fazer bater o queixo, e em que o trov\u00e3o se recusava a obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando lhes percebi o cheiro. Ide embora; n\u00e3o t\u00eam palavra. Disseram-me que eu era tudo. \u00c9 mentira! N\u00e3o estou \u00e0 prova de febre.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Lembro-me dessa voz perfeitamente. N\u00e3o \u00e9 o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Rei da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Vede os vassalos como tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adult\u00e9rio? N\u00e3o morrer\u00e1s! Morrer por adult\u00e9rio? N\u00e3o; isso faz o pintassilgo, e \u00e0 minha vista a mosca dourada \u00e9 libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi melhor para o pai que minhas filhas lealmente geradas. A vontade, lux\u00faria, em toda parte! Preciso de soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo rosto anuncia pura neve na uni\u00e3o das coxas. S\u00f3 virtude mostra, sacudindo a cabe\u00e7a sempre que ouve o nome do prazer. O fur\u00e3o e o corcel arrebatado n\u00e3o revelam mais l\u00fabrico apetite. Abaixo da cintura s\u00e3o centauros, muito embora mulheres para cima. At\u00e9 \u00e0 cintura os deuses \u00e9 que mandam; para baixo, os dem\u00f4nios. Ali \u00e9 o inferno, escurid\u00e3o, abismo sulfuroso, calor, fervura, cheiro de podrid\u00e3o&#8230; Xi! Xi! P\u00e1! \u00d3 bondoso botic\u00e1rio, d\u00e1-me uma on\u00e7a de alm\u00edscar, para eu temperar a imagina\u00e7\u00e3o. Aqui tens dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Deixai-me beijar essa m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Primeiro deixai que a limpe; cheira a mortalidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00d3 arruinada pe\u00e7a da natura! O imenso mundo h\u00e1 de gastar-se todo, reduzindo-se a nada. Reconheces-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Lembro-me perfeitamente de teus olhos. Est\u00e1s piscando para mim? N\u00e3o, Cupido cego; por mais que fa\u00e7as, n\u00e3o chegarei a amar-te. L\u00ea este desafio; observa bem o tra\u00e7o das letras.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Se outros tantos s\u00f3is fossem, n\u00e3o as vira.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se mo dissessem, n\u00e3o o acreditara. No entanto \u00e9 certo e o cora\u00e7\u00e3o me parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 L\u00ea!<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Como! Com as \u00f3rbitas apenas?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh! oh! Alcan\u00e7astes-me nesse ponto? Nem olhos na cabe\u00e7a, nem dinheiro na bolsa? Tendes os olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver como vai o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Vejo-o porque o sinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Como! Estais louco! A gente pode ver sem olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; v\u00ea como aquele juiz invectiva contra um simples ladr\u00e3o. Escuta aqui, s\u00f3 uma palavrinha ao ouvido. Muda de lugar&#8230; Um, dois, tr\u00eas! E agora: qual \u00e9 o ladr\u00e3o? Qual \u00e9 o juiz? J\u00e1 viste um cachorro de fazendeiro ladrar para um mendigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 J\u00e1, sim senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 E a criatura fugir do mastim? Nisso poder\u00e1s contemplar a grande imagem da autoridade: um cachorro no desempenho de suas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 obedecido. Oficial de justi\u00e7a desonesto, suspende a m\u00e3o sangrenta! Por que a\u00e7oitas essa pobre rameira? Vira contra ti pr\u00f3prio essa chibata. Est\u00e1s ardendo de desejos de com ela realizares o ato por que a castigas. O onzeneiro p\u00f5e na forca o ladr\u00e3o. As faltazinhas se deixam ver nos furos dos andrajos; mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de ouro o pecado, e a forte lan\u00e7a da Justi\u00e7a se quebra sem feri-lo; cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por pigmeu vai transpass\u00e1-lo. Ningu\u00e9m comete falta, \u00e9 o que te afirmo; ningu\u00e9m. A todos sirvo de fiador. Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem for\u00e7a tem para fechar a boca da acusa\u00e7\u00e3o. Arranja umas lunetas e, como vil pol\u00edtico, imagina ver coisas que n\u00e3o v\u00eas. Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas. For\u00e7a! For\u00e7a!&#8230; Assim&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Que mistura de senso e de incoer\u00eancia! A raz\u00e3o na loucura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Toma meus olhos, se chorar desejas minha infelicidade. Sei de sobra quem \u00e9s. Teu nome \u00e9 Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre isso um bom serm\u00e3o; s\u00ea, pois, atento.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Oh dia triste!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Mas nascemos, choramos por nos vermos neste grande tablado de dementes. Que bela forma de chap\u00e9u! Seria id\u00e9ia mui sutil p\u00f4r ferraduras de feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tent\u00e1-lo; e, uma vez caindo em cima de meus genros: matar, matar, matar!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um gentil-homem, com criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o. Meu senhor, vossa filha muito amada&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o h\u00e1 socorro! Como! Prisioneiro? Sou realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem; pagar-vos-ei resgate. Trazei-me um cirurgi\u00e3o, pois tenho o c\u00e9rebro muito ofendido.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Haveis de ter de tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ningu\u00e9m vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso em homem de sal mudara um homem, para fazer de irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar \u00famida.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Meu bom senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Morrerei como bravo, como noivo&#8230; Como! Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus mestres; ignorais tal coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 \u00c9 rei not\u00e1vel, a quem muito amamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ent\u00e3o ainda h\u00e1 vida. Se a alcan\u00e7ardes, h\u00e1 de ser na carreira. S\u00e1, s\u00e1, s\u00e1!&#8230; (<i>Sai; os criados o acompanham.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Lastimoso j\u00e1 fora este espet\u00e1culo no mais \u00ednfimo ser e desgra\u00e7ado. Num rei, n\u00e3o cabe no discurso humano. Uma filha ainda tens que a natureza limpa da maldi\u00e7\u00e3o geral que as outras fizeram vir sobre ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Salve, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Senhor, o c\u00e9u vos guarde. Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ouvistes, porventura, falar de uma batalha a ser travada?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 \u00c9 certo e mui sabido. Todo o mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Mas, por obs\u00e9quio: a que dist\u00e2ncia se acha o outro ex\u00e9rcito?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Perto, e vem com pressa. \u00c0 vista surgir\u00e1 dentro de uma hora; \u00e9 o que se espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Agradecido. \u00c9 tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Muito embora a rainha aqui se encontre por um motivo especial, o ex\u00e9rcito dela avan\u00e7ou.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Bem; muito agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o gentil-homem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 \u00d3 deuses sempre bons! tirai-me a vida, n\u00e3o permitindo que meu mau esp\u00edrito tentar me venha novamente, para que \u00e0 vossa revelia eu pe\u00e7a a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Pai, rezais muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Quem sois, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Indiv\u00edduo mui pobre, que os reveses da fortuna amansou e que pela arte das desgra\u00e7as alheias e das pr\u00f3prias \u00e0 compaix\u00e3o se revelou sens\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Do imo peito agrade\u00e7o. Que a bondade do c\u00e9u e sua b\u00ean\u00e7\u00e3o te acompanhem sempre e sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Osvaldo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Oh! Cabe\u00e7a posta a pr\u00eamio! Encontro mui feliz! Essa cabe\u00e7a sem olhos s\u00f3 criou carne porque a minha fortuna prosperasse. Miser\u00e1vel traidor, concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a vida est\u00e1 sacada.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Ent\u00e3o p\u00f5e for\u00e7a em tua m\u00e3o amiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Edgar se interp\u00f5e.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Por que te atreves, r\u00fastico atrevido, a amparar um traidor, publicamente como tal proclamado? Vai-te embora; do contr\u00e1rio, a infec\u00e7\u00e3o da sorte dele passar\u00e1 para ti. Larga-lhe o bra\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 N\u00e3o largo ele, seu mo\u00e7o; n\u00e3o h\u00e1 percis\u00e3o disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Solta-o, escravo! Do contr\u00e1rio, morrer\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ide embora, seu mo\u00e7o; ide embora e deixai o pobre viver. Se as amea\u00e7as pudessem tirar-me a vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. N\u00e3o vos aproximeis do velho; ficai de longe, \u00e9 o que eu digo, ou ent\u00e3o vamos tirar a prova para ver o que \u00e9 mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto de franqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Sai da frente, monturo!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Vou curar vossos dentes, seu mo\u00e7o. Vinde. Vossos botes n\u00e3o me metem medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se; Edgar o abate.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSVALDO \u2014 Oh! matas-te-me, escravo! Coisa \u00e0-toa, fica com minha bolsa. Se desejas prosperar, sepultura d\u00e1 a meu corpo e entrega as cartas que aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte intempestiva! (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Sei quem \u00e9s, um velhaco diligente; t\u00e3o dedicado aos v\u00edcios da patroa quanto a maldade desejar pudera.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Como! Morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os bolsos. Essas cartas de que falou ser\u00e3o talvez amigas. Morreu; s\u00f3 me aborrece n\u00e3o ter ele tido um outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e v\u00f3s, costumes, n\u00e3o nos culpeis; porque saber possamos as id\u00e9ias de nossos inimigos os pr\u00f3prios cora\u00e7\u00f5es lhes abrir\u00edamos. Abrir cartas, assim \u00e9 mais leg\u00edtimo. \u201cLembrai-vos de nossos juramentos rec\u00edprocos. Tendes muitas oportunidades de suprimi-lo; se vontade n\u00e3o vos faltar, oportunidade e lugar haveis de ter de sobra. Nada se ter\u00e1 feito se ele voltar como vencedor, porque ficarei como sua prisioneira e o leito dele como minha pris\u00e3o. Libertai-me, portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso trabalho, ficai com o lugar dele. Vossa \u2014 esposa \u00e9 o que eu desejara chamar-me \u2014 serva afetuosa Goneril.\u201d Oh insond\u00e1vel campo da perf\u00eddia feminina! Uma conjura contra a vida de um marido t\u00e3o virtuoso, para ser por meu mano substitu\u00eddo! Vou enterrar-te aqui na areia mesmo, sacr\u00edlego correio de assassinos luxuriosos, a fim de em tempo certo ferir a vista do amea\u00e7ado duque com este papel fatal. E est\u00e1 com sorte por eu poder contar-lhe de tua morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 O rei ficou insano; qu\u00e3o teimoso meu vil ju\u00edzo se mostra, permitindo-me ficar de p\u00e9 e intacto me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora melhor ficar de todo louco. Assim se apartariam das tristezas os pensamentos, que as desgra\u00e7as perdem a autoconsci\u00eancia, quando sob o imp\u00e9rio de err\u00f4neas fantasias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ru\u00eddo de tambor ao longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Dai-me a m\u00e3o. Ou\u00e7o ao longe um tambor, se n\u00e3o me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a um amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr47\" name=\"lr47\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma tenda no acampamento franc\u00eas. Entram Cord\u00e9lia, Kent, um m\u00e9dico e um gentil-homem.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 \u00d3 meu bondoso Kent, de que maneira posso viver e agir, para que a tua bondade recompense? Minha vida ser\u00e1 curta demais, sem que eu disponha de medida adequada.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 J\u00e1 me sobram, senhora, os vossos agradecimentos Vai de par meu relato com a mais simples verdade, sem acr\u00e9scimos nem falhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Veste roupa melhor; essa roupagem faz lembrar dos momentos muito tristes. Por favor, troca-a.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o, cara senhora; perdoai-me; mas prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer agora. Como gra\u00e7a vos pe\u00e7o continuardes sem me reconhecer, at\u00e9 que o tempo e eu concordemos nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Pois que seja, meu bondoso senhor. (<i>Ao m\u00e9dico.<\/i>) Que faz o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Ainda dorme, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 \u00d3 divindades piedosas, deixai boa a grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os sentidos em desordem e dissonantes deste pai que em crian\u00e7a voltou a transformar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Vossa Alteza permitir\u00e1 que o rei n\u00f3s despertemos? J\u00e1 dormiu muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Segui nisso apenas vossos conhecimentos, procedendo como melhor julgardes. J\u00e1 o vestiram?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 J\u00e1 sim, senhora, pois no mais pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Ficai junto, senhora, no momento de o despertarmos, pois n\u00e3o tenho d\u00favidas quanto a suas melhoras.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Aproximai-vos, por favor. A m\u00fasica, a\u00ed, mais alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 \u00d3 meu querido pai! Em meus l\u00e1bios suspende teus rem\u00e9dios, convalescen\u00e7a, e deixa que este beijo repare a imensa dor que minhas manas produziram em tua rever\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Minha boa princesa e mui querida!<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Mesmo que pai n\u00e3o fosse delas duas, estes cabelos brancos lhes teriam for\u00e7ado \u00e0 compaix\u00e3o. Uma cabe\u00e7a como esta poderia ser exposta \u00e0 f\u00faria das rajadas? defrontar-se com o trov\u00e3o pavoroso e o mais terr\u00edvel ziguezaguear de temerosos raios? Ficar de guarda \u2014 pobre sentinela! \u2014 com este elmo t\u00e3o fino? O pr\u00f3prio c\u00e3o do meu inimigo, embora me tivesse mordido, houvera, numa noite dessas, permanecido junto do meu fogo. E tu, meu pobre pai, foste for\u00e7ado a abrigar-te com porcos e mendigos numa pouca de palha embolorada! Ai, que dor. Maravilha \u00e9 n\u00e3o haveres a um s\u00f3 tempo perdido a vida e o esp\u00edrito. Vai acordar; falai-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 V\u00f3s, senhora; ser\u00e1 melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Como se sente agora meu real senhor? E Vossa Majestade como passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Foi mal de vossa parte retirar-me do t\u00famulo. \u00c9s uma alma da bem-aventuran\u00e7a; eu, por\u00e9m, me acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas pr\u00f3prias l\u00e1grimas escaldam como chumbo fundido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Conheceis-me, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 \u00c9s um esp\u00edrito; conhe\u00e7o-te. Desde quando morreste?<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Divagando sempre por muito longe.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Concedei-lhe mais algum tempo; despertou h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Onde estive? Onde estou? \u00c9 dia claro? Oh! Procederam muito mal comigo; morrer de compaix\u00e3o eu poderia, se visse algu\u00e9m tratado desse modo. N\u00e3o sei o que dizer; jurar n\u00e3o quero que estas m\u00e3os sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada. Quem me dera saber quem sou, realmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Senhor, olhai para o meu lado, e as m\u00e3os estendei sobre mim, para aben\u00e7oar-me. N\u00e3o, meu senhor! N\u00e3o vos ponhais de joelhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Ah! N\u00e3o zombeis de mim, \u00e9 o que vos pe\u00e7o. Sou um velho imprest\u00e1vel e caduco, para cima de oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser sincero, receio ter o esp\u00edrito avariado. Creio vos conhecer e, assim, a este homem; mas em d\u00favida me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo n\u00e3o sei onde passei a \u00faltima noite. Oh! n\u00e3o riais de mim! Porque t\u00e3o certo como eu ser homem, quer afigurar-me que esta dama \u00e9 Cord\u00e9lia, minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Sou ela mesma, meu senhor; sou ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Tendes l\u00e1grimas \u00famidas? Realmente. N\u00e3o choreis, \u00e9 o que pe\u00e7o. Se tiverdes veneno para dar-me, hei de beb\u00ea-lo. Sei que amor n\u00e3o me tendes. Vossas manas \u2014 tanto quanto me lembro \u2014 procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao passo que nenhuma delas tinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Nenhuma causa! N\u00e3o; nenhuma causa!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Estou na Fran\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Em vosso pr\u00f3prio reino, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o me enganeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">O M\u00c9DICO \u2014 Ficai tranq\u00fcila, boa senhora. J\u00e1 est\u00e1 morta nele, como estais vendo, a grande f\u00faria. Agora perigoso \u00e9 faz\u00ea-lo novamente subir ao longo do perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cans\u00e1-lo com perguntas, at\u00e9 que se refa\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Querer\u00e1 Vossa Alteza andar um pouco?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Precisareis comigo ter paci\u00eancia. Esquecei e perdoai-me, por obs\u00e9quio. Estou velho e caduco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lear, Cord\u00e9lia, o m\u00e9dico e os criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Confirmou-se a not\u00edcia, senhor, de que o duque de Cornualha foi morto?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Quem est\u00e1 \u00e0 testa de seus homens?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Dizem que Edgar, seu filho exilado, est\u00e1 na Alemanha com o conde de Kent.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Os boatos variam. \u00c9 tempo de abrirmos os olhos; as for\u00e7as do reino se aproximam com presteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 A decis\u00e3o promete ser sangrenta. Passai bem, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Ou boa ou m\u00e1, a minha conclus\u00e3o os golpes de hoje \u00e0 luz sair far\u00e3o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr51\" name=\"lr51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento ingl\u00eas, perto de Dover. Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Edmundo, Regane, oficiais, soldados e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ide saber do duque se seu \u00faltimo projeto est\u00e1 de p\u00e9, ou se por causas intercorrentes j\u00e1 mudou de plano. Inst\u00e1vel sempre se revela e cheio de queixas de si pr\u00f3prio. Sua firme decis\u00e3o me trazei.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 O mensageiro de minha mana se perdeu, decerto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 \u00c9 o que devemos recear, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 J\u00e1 conheceis, meu caro lorde, quanto bem vos quero. Dizei-me francamente uma verdade s\u00f3: amais \u00e0 mana?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Sim, com amor honroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Mas acaso nunca o caminho achastes de meu mano, para o lugar proibido?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Tal id\u00e9ia, senhora, vos ofende.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Tenho medo de com ela ligado vos achardes e de tal modo unido, que pod\u00edeis ser tido como dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Por minha honra, senhora, o afirmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Nunca o permitira. N\u00e3o vos mostreis t\u00e3o familiar com ela, caro senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcila. Ela a\u00ed vem, com o duque, seu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Alb\u00e2nia, Goneril e soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Preferira perder esta batalha a perd\u00ea-lo por causa desta mana.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Muito querida irm\u00e3, feliz encontro. Senhor, soube que o rei se uniu \u00e0 filha \u2014 com outros que o rigor de nosso jogo a protestar for\u00e7ou. \u2014 Onde n\u00e3o posso mostrar-me honesto, nunca sou valente. Esta campanha nos atinge apenas por haver Fran\u00e7a entrado em nossas terras, n\u00e3o por ter ajudado o rei e os outros que se levantam contra n\u00f3s, receio, por motivos mui justos e de peso.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Falastes nobremente.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Qual a causa de discutirmos isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Dirijamos nossas for\u00e7as conjuntas contra o inimigo; s\u00e3o fora de prop\u00f3sito essas tricas particulares e quest\u00f5es dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Estudemos ent\u00e3o nossa estrat\u00e9gia com o alferes da guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A vossa pr\u00f3pria tenda irei procurar-vos neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Vireis conosco, irm\u00e3?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Seria conveniente. Por obs\u00e9quio, vinde tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Oh oh! Compreendo o enigma. (<i>Alto.<\/i>) Irei.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Edgar, disfar\u00e7ado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Se em algum tempo Vossa Gra\u00e7a j\u00e1 conversou com um pobre t\u00e3o humilde, ouvi-me uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 J\u00e1 vos ou\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Edmundo, Regane, Goneril, oficiais, soldados e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Antes da pugna, lede esta missiva. No caso de vencerdes, que a trombeta chame seu portador. Embora aspecto t\u00e3o pobre eu apresente, tenho meios de fazer vir um campe\u00e3o que pode provar tudo o que a\u00ed est\u00e1 afirmado. Se vierdes a perder, vossos neg\u00f3cios mundanos chegar\u00e3o tamb\u00e9m ao termo, terminando as intrigas. Que a Fortuna vos acompanhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Ficai at\u00e9 que eu leia a carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Foi-me proibido fazer isso. Mas no tempo preciso, bastar\u00e1 que o arauto chame, para que eu me apresente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Ent\u00e3o, adeus. Vou ler o teu papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Edgar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Edmundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 O inimigo est\u00e1 \u00e0 vista. Ponde em linha vossos soldados. Eis aqui o c\u00f4mputo de seu poder exato e de suas for\u00e7as, segundo explora\u00e7\u00f5es bem conduzidas. Mas o momento vos obriga \u00e0 pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Saberemos saudar o tempo certo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Jurei amor \u00e0s duas; uma da outra desconfia, tal como da serpente, quem picado j\u00e1 foi. Qual me reservo? Ambas? Uma? Nenhuma? Com nenhuma me alegrarei, ficando vivas ambas. Ficar com a vi\u00fava \u00e9 exasperar a outra, Goneril; \u00e9 deix\u00e1-la como louca, n\u00e3o podendo eu ganhar minha partida, se seu marido continuar com vida. Aproveitemo-nos de seu prest\u00edgio para a batalha em curso. Uma vez ganha, ela, ent\u00e3o, que de grado o despachara, os recursos mais aptos excogite de logo liquid\u00e1-lo. No que tinge ao plano dele de a Cord\u00e9lia e Lear conceder o perd\u00e3o, ganha a batalha e eles em nossa m\u00e3o, jamais tal gra\u00e7a chegar\u00e1 a alcan\u00e7ar. Imp\u00f5e-me o posto pouco falar e trabalhar com gosto. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr52\" name=\"lr52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um campo entre os dois acampamentos. Alarma. Com tambores e estandartes desfraldados, entram Lear, Cord\u00e9lia e suas tropas. Saem. Entram Edgar e Gloster.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Acolhei-vos aqui, pai, a esta sombra de \u00e1rvore como a um hospedeiro grato. Rezai para que ven\u00e7a a boa causa. Se algum dia eu voltar, ser\u00e1 para trazer-vos doce al\u00edvio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Possa a Gra\u00e7a, senhor, acompanhar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Edgar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Depois, retirada. Volta Edgar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Fujamos, velho! Dai-me a m\u00e3o. Fujamos! Perdeu rei Lear: presos, ele e a filha. Dai-me a m\u00e3o; vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 N\u00e3o, senhor; n\u00e3o darei nem mais um passo. Pode-se apodrecer em qualquer parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Como! De novo pensamentos negros Precisamos mostrar-nos conformados com a nossa vinda ao mundo e ao nos partirmos. Estarmos preparados \u00e9 o que importa. Vamos daqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">GLOSTER \u2014 Tudo isso \u00e9 muito certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"lr53\" name=\"lr53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O acampamento ingl\u00eas, perto de Dover. Entra Edmundo, como vencedor, com tambores e bandeiras; Lear e Cord\u00e9lia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, at\u00e9 que a alta vontade se conhe\u00e7a das pessoas que ter\u00e3o de julg\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORD\u00c9LIA \u2014 Os primeiros n\u00e3o somos a ficar sobre braseiros com boas inten\u00e7\u00f5es. Rei oprimido, por ti, somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna. Tais irm\u00e3s e tais filhas n\u00e3o veremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! Levai-nos para o c\u00e1rcere. N\u00f3s dois, sozinhos, cantaremos como p\u00e1ssaros na gaiola. No momento de a ben\u00e7\u00e3o me pedires, eu me ajoelho e te imploro perd\u00e3o. Dessa maneira viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo sobre os altos mist\u00e9rios do universo como se espi\u00f5es de Deus, acaso, f\u00f4ssemos. Gastaremos, assim, no duro c\u00e1rcere, os partidos e as lutas dos gra\u00fados que com a lua sobem sempre e descem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Levai-os!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sobre um sacrif\u00edcio destes, minha boa Cord\u00e9lia, os pr\u00f3prios deuses jogam incenso. Tenho-te bem presa? Quem quiser separar-nos h\u00e1 de um facho trazer do c\u00e9u, para tocar-nos, como a raposas. Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste h\u00e1 de comer-lhes antes de que eles a chorar nos forcem. Primeiro morrer\u00e3o de fome. Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lear e Cord\u00e9lia, escoltados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Capit\u00e3o, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os at\u00e9 o c\u00e1rcere. J\u00e1 te beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho ter\u00e1s franqueado da mais nobre sorte. Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as \u00e9pocas. Uma alma terna n\u00e3o se casa com a espada. Este mandato n\u00e3o permite obje\u00e7\u00f5es: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Senhor, hei de cumpri-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e cumpre as minhas instru\u00e7\u00f5es \u00e0 risca.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Puxar carro n\u00e3o sei, nem comer feno; mas se \u00e9 trabalho de homem, j\u00e1 est\u00e1 feito. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Entram Alb\u00e2nia, Goneril, Regane, oficiais e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Senhor, mostrastes vossa altiva ra\u00e7a e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros que advers\u00e1rios nossos foram na luta deste dia. De v\u00f3s os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme o pr\u00f3prio m\u00e9rito o exigir e, assim, nossa seguran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgra\u00e7ado rei para alguma pris\u00e3o, sob guarda certa, pois de grande feiti\u00e7o se revela sua d\u00edade e, ainda mais, o pr\u00f3prio t\u00edtulo para arrastar o cora\u00e7\u00e3o do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lan\u00e7as que n\u00f3s mesmos alistamos. Pelas mesmas raz\u00f5es foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanh\u00e3 cedo ou mais de espa\u00e7o, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas s\u00e3o amaldi\u00e7oadas pelos que o corte delas sentem. O problema de Cord\u00e9lia e do pai requer um s\u00edtio mais conveniente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 N\u00e3o vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos s\u00fadito, n\u00e3o irm\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Irm\u00e3o, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim pr\u00f3pria e de minha dignidade, intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irm\u00e3o chamar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Por que tanto calor? Seu pr\u00f3prio m\u00e9rito o exalta mais que vossas distin\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Atingiria, decerto, o \u00e1pice, vindo a desposar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Olar\u00e1! O olho que vos disse isso estava vesgo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 N\u00e3o estou bem, senhora; n\u00e3o fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Disp\u00f5e deles, de mim; teu \u00e9 este burgo. Seja o universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Pensais que j\u00e1 sois dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 N\u00e3o depende de v\u00f3s a permiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Oh! nem de ti!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Depende, sim, tipo de meio sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Faze soar o tambor, e que este prove que meu t\u00edtulo \u00e9 teu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Um momentinho; a raz\u00e3o escutai: Edmundo, prendo-te por trai\u00e7\u00e3o capital, e juntamente contigo esta serpente cheia de ouro, (<i>Apontando para Goneril.<\/i>) porque, formosa irm\u00e3, me oponho a vossas pretens\u00f5es, no interesse, t\u00e3o-somente, de minha esposa, que ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama j\u00e1 est\u00e1 comprometida.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 Que com\u00e9dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Gloster, est\u00e1s armado. Que a trombeta d\u00ea logo o toque. Caso ningu\u00e9m venha para ao rosto lan\u00e7ar-te as tuas pr\u00f3prias trai\u00e7\u00f5es odiosas, m\u00faltiplas e claras, aqui est\u00e1 meu penhor. (<i>Atira a luva.<\/i>) Nessa cabe\u00e7a demonstrarei antes de novamente provar p\u00e3o, que \u00e9s tudo isso que ora afirmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Oh! doente, muito doente!<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 De outro modo n\u00e3o voltara a confiar na medicina.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Eis meu penhor, tamb\u00e9m. (<i>Joga a luva.<\/i>) Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vil\u00e3o. Soe a trombeta! Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra v\u00f3s, contra quem seja, firme defenderei a honra e a lealdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Eh! Um arauto!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ol\u00e1! O arauto! O arauto!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Confia apenas na coragem pr\u00f3pria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, j\u00e1 foram licenciados.<\/p>\n<p align=\"justify\">REGANE \u2014 Meus inc\u00f4modos crescem!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 N\u00e3o se encontra passando bem; levai-a para a tenda. (<i>Sai Regane, amparada.<\/i>) Aproxima-te, arauto. (<i>Entra um arauto.<\/i>) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Soe a trombeta!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se um toque de trombeta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 \u201cSe houver nas fileiras do ex\u00e9rcito qualquer homem de qualidade ou posi\u00e7\u00e3o que queira sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele \u00e9 muitas vezes traidor, apresente-se ao terceiro toque da trombeta. Edmundo est\u00e1 decidido a defender-se.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Tocai!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Primeiro toque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 Outra vez!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Segundo toque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 Outra vez!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Terceiro toque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Uma trombeta responde dentro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 Quem sois v\u00f3s? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da trai\u00e7\u00e3o, deixando-o lacerado de todo. Mas sou nobre tanto quanto o advers\u00e1rio que procuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Quem \u00e9 esse advers\u00e1rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Ele pr\u00f3prio. Que tens para dizer-lhe?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Saca da espada, para que, no caso de um nobre cora\u00e7\u00e3o vir meu discurso magoar, justi\u00e7a obtenhas por teu bra\u00e7o. Eis aqui a minha, como privil\u00e9gio de minha qualidade, juramentos e honrarias, que aqui venho afirmar-te, apesar de tua for\u00e7a, mocidade, posi\u00e7\u00e3o e alto estado; n\u00e3o obstante tua sorte forjada h\u00e1 pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que \u00e9s traidor, falso aos deuses, ao pr\u00f3prio irm\u00e3o e ao pai, conspirador contra este ilustre pr\u00edncipe, e que do ponto extremo da cabe\u00e7a ao mais baixo do p\u00e9 que pisa a poeira, \u00e9s um traidor manchado como o sapo. Se \u201cN\u00e3o\u201d disseres, esta espada, o bra\u00e7o, minha melhor coragem v\u00e3o provar-te no cora\u00e7\u00e3o que mentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A prud\u00eancia me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior t\u00e3o belo, t\u00e3o marcial, e expressar os pensamentos tua l\u00edngua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as delongas que as pr\u00f3prias regras da cavalaria sem desdouro nenhum me asseguraram. Essas trai\u00e7\u00f5es, em tua fronte as jogo, e o cora\u00e7\u00e3o aperto-te na pr\u00f3pria cal\u00fania odiosa como o duro inferno. De leve, t\u00e3o-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto em que repouso ir\u00e3o achar eterno. Falai, trombetas!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma; batem-se; Edmundo cai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Poupai-lhe a vida!<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 \u00c9 uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, n\u00e3o devias aceitar luta com um desconhecido. Vencido n\u00e3o ca\u00edste; foste v\u00edtima do embuste e da trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Fechai a boca, senhora; do contr\u00e1rio, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado, senhor, pior do que os mais feios nomes; l\u00ea teu pr\u00f3prio delito. N\u00e3o, senhora! N\u00e3o a rasgueis! Vejo que a conheceis. (<i>D\u00e1 a carta a Edmundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONERIL \u2014 E se fosse esse o caso? A lei \u00e9 minha, n\u00e3o tua. Quem me chamar\u00e1 a ju\u00edzo? (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Oh! n\u00e3o me pergunteis o que eu conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Ide atr\u00e1s dela; est\u00e1 desesperada. Vigiai-a bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o oficial.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos poucos h\u00e1 de revel\u00e1-las o tempo. Mas tudo isso j\u00e1 passou, tal como eu. Mas quem \u00e9s tu, que tal vantagem sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perd\u00e3o concedo-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ent\u00e3o reciproquemos caridade. N\u00e3o \u00e9 menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for, maior ser\u00e1 tua culpa com rela\u00e7\u00e3o a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre s\u00e3o, e instrumentos de castigo fazem de nossos v\u00edcios agrad\u00e1veis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso onde foste gerado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Com acerto falaste; \u00e9 verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o c\u00edrculo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abra\u00e7ar-te. Que a dor me parta o cora\u00e7\u00e3o, se acaso te tive \u00f3dio, ou a teu pai, em qualquer tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Sei disso, digno pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das mis\u00e9rias de vosso pobre pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma hist\u00f3ria curta, e logo que ela tiver sido contada, oh! que me estale de dor o cora\u00e7\u00e3o. Da sanguin\u00e1ria proclama\u00e7\u00e3o porque escapar pudesse, que t\u00e3o de perto os passos me seguia \u2014 \u00d3 do\u00e7ura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da morte a de uma vez morrer de todo! \u2014 precisei disfar\u00e7ar-me com os andrajos de um demente, assumindo uma apar\u00eancia que at\u00e9 mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos an\u00e9is sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca \u2014 oh falta! \u2014 lhe houvesse revelado quem eu era, sen\u00e3o h\u00e1 cerca de meia hora, quando j\u00e1 me encontrava armado. N\u00e3o me achando seguro de vencer, pedi-lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o e minha peregrina\u00e7\u00e3o contei-lhe, do come\u00e7o at\u00e9 ao fim. Mas seu rachado cora\u00e7\u00e3o, ah! muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paix\u00e3o, alegria e sofrimento, sorrindo arrebentou.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Vosso discurso me comoveu, sendo poss\u00edvel, mesmo, que produza algum bem. Mas prossegui; parece que ainda n\u00e3o contastes tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Se houver outras mis\u00e9rias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o que contastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Julgaria quem n\u00e3o amasse a dor que esse relato j\u00e1 representa tudo. Por\u00e9m se outro viesse juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo. Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha \u00ednfima condi\u00e7\u00e3o e se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, ent\u00e3o, quem era o grande sofredor, em seus bra\u00e7os vigorosos me apertou o pesco\u00e7o, urrou a ponto de arrebentar o c\u00e9u, lan\u00e7ou-se em cima do corpo de meu pai e a mais dorida hist\u00f3ria me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido humano. Ao relat\u00e1-la, a dor o dominava, come\u00e7ando a estalar-lhe as pr\u00f3prias cordas da vida. Mas nessa hora duas vezes soou a trombeta e ex\u00e2nime o deixei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Mas quem \u00e9 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo lhe prestado servi\u00e7os nada pr\u00f3prios, ai! nem mesmo de escravos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um gentil-homem com uma faca ensang\u00fcentada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Aqui, socorro! Socorro, aqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Socorro de que jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Fala, homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 E essa faca ensang\u00fcentada?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Est\u00e1 quente; fumega; neste instante saiu do cora\u00e7\u00e3o dela&#8230; Oh! Morreu!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Quem morreu, homem? Fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irm\u00e3 por ela envenenada; confessou o fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os tr\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Kent a\u00ed vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este ju\u00edzo dos c\u00e9us, que nos abala, n\u00e3o nos deixa, por isso, enternecido. (<i>Sai o gentil-homem.<\/i>) (<i>Entra Kent.<\/i>) Oh! \u00c9 ele mesmo? N\u00e3o permite o tempo saud\u00e1-lo como a cortesia manda.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 S\u00f3 vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. N\u00e3o se acha aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde est\u00e1 o rei? Onde ficou Cord\u00e9lia? Kent, v\u00eas isto?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>S\u00e3o trazidos os corpos de Goneril e Regane.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Oh! Como aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno \u00e0 outra, por minha causa, e se matou depois.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Justamente; cobri-lhes ora o rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A vida j\u00e1 me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha pr\u00f3pria fei\u00e7\u00e3o. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito amea\u00e7a a vida de Cord\u00e9lia e Lear. N\u00e3o percais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Corre! Corre! Corre!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que est\u00e1 disso incumbida? \u00c9 necess\u00e1rio enviares um penhor como contra-ordem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014Por tua vida, n\u00e3o percas tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Edgar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDMUNDO \u2014 A comiss\u00e3o tem ele de tua esposa morta e minha, para na pris\u00e3o a Cord\u00e9lia dar a morte, atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Que os deuses a protejam! Retirai-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Lear, com Cord\u00e9lia nos bra\u00e7os, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Uivai! Uivai! Uivai! Sois empedrados! Se vossas l\u00ednguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal modo, que faria rachar a ab\u00f3bada celeste. Foi-se para sempre! Conhe\u00e7o muito bem quando algu\u00e9m est\u00e1 morto ou quando vive. Morta est\u00e1 como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu h\u00e1lito emba\u00e7ar ou cobrir a superf\u00edcie, ent\u00e3o \u00e9 que ela ainda est\u00e1 com vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Este \u00e9 o fim prometido?<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Ou bem a imagem de tanto horror?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Cai de uma vez e acaba.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 A pluma est\u00e1 a mexer! Ela est\u00e1 viva! Oh! se for assim mesmo, \u00e9 uma ventura que recompensa todos os pesares por que tenho passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Oh meu bom mestre!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sai, por favor!<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 \u00c9 Kent, o vosso amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 A peste sobre v\u00f3s, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia t\u00ea-la salvo, mas foi-se para sempre. \u00d3 Cord\u00e9lia! Cord\u00e9lia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda, agrad\u00e1vel e baixa, predicado na mulher de valor inestim\u00e1vel. Matei o escravo, quando te enforcava.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 \u00c9 certo, meu senhor; matou-o, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 N\u00e3o \u00e9 verdade, amigo? J\u00e1 houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia dan\u00e7ar. Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem sois? N\u00e3o vejo bem. Vou j\u00e1 dizer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui vemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Tenho a vista um tanto ba\u00e7a. Acaso n\u00e3o sois Kent?<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Est\u00e1 morto e bem podre.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o, bondoso senhor; sou ele mesmo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Verei isso neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 &#8230;que desde o come\u00e7o de vossos infort\u00fanios e decl\u00ednio vos tem seguido os lastimosos passos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Sois bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Ningu\u00e9m \u00e9 aqui bem-vindo. Tudo \u00e9 sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se mataram, morrendo em desespero.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Oh! Acredito-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 J\u00e1 n\u00e3o sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 \u00c9 in\u00fatil.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um oficial.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Edmundo faleceu, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Nada significa isso agora. V\u00f3s, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha inten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 dar todo o conforto que com esta grande ru\u00edna se coadune. Enquanto a n\u00f3s, durante a vida desta c\u00e2ndida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (<i>A Kent e Edgar<\/i>). A v\u00f3s, as vossas honrarias, que vossos grandes pr\u00e9stimos mais do que mereceram. Os amigos receber\u00e3o a paga da virtude provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEAR \u2014 Foi enforcada minha bonequinha! N\u00e3o, n\u00e3o! Vida nenhuma! Por que causa ter\u00e1 vida um cavalo, um c\u00e3o, um rato, e tu, f\u00f4lego algum? N\u00e3o voltar\u00e1s, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obs\u00e9quio, soltai-me este bot\u00e3o. Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os l\u00e1bios dela! Olhai aqui! Olhai aqui! (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Desmaia! Senhor! Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Estala, cora\u00e7\u00e3o! Estala, pe\u00e7o-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 Senhor, olhai-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 N\u00e3o lhe molesteis a alma. Que se fine. \u00d3dio lhe tem quem desejar deit\u00e1-lo por mais tempo no banco de tormentos deste mundo t\u00e3o duro.<\/p>\n<p align=\"justify\">EDGAR \u2014 J\u00e1 n\u00e3o vive, realmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 O que \u00e9 admir\u00e1vel \u00e9 que tenha ag\u00fcentado a esse ponto. Sua vida j\u00e1 era usurpada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupa\u00e7\u00e3o prec\u00edpua. (<i>A Kent e Edgar.<\/i>) Amigos d\u2019alma, governai o Estado, que t\u00e3o ferido se acha e malfadado.<\/p>\n<p align=\"justify\">KENT \u2014 Para uma viagem longa vou partir. O mestre \u00e9 que me chama; tenho de ir.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALB\u00c2NIA \u2014 Do tempo triste somos os arrimos; digamos t\u00e3o-somente o que sentimos. Muito o velho sofreu; mais desgra\u00e7ada nossa velhice n\u00e3o ser\u00e1 em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem ao som de uma marcha f\u00fanebre.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens Tr\u00e1gicos LEAR, rei da Bretanha. O rei da Fran\u00e7a. O duque de Burg\u00fandia. O duque de Cornualha. O duque de Alb\u00e2nia. O conde de Kent. O conde de Gloster. EDGAR, filho de Gloster. EDMUNDO, filho bastardo de Gloster. CURAN, um cortes\u00e3o. OSVALDO, intendente de Goneril. Um velho, caseiro de Gloster. Um m\u00e9dico. 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