{"id":120351,"date":"2017-04-25T10:38:36","date_gmt":"2017-04-25T12:38:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120351"},"modified":"2017-04-25T10:38:36","modified_gmt":"2017-04-25T12:38:36","slug":"otelo-o-mouro-de-veneza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/otelo-o-mouro-de-veneza","title":{"rendered":"Otelo, O Mouro de Veneza"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\">O Doge de Veneza.<br \/>\n<b>BRAB\u00c2NCIO<\/b>, senador. Outros senadores.<br \/>\n<b>GRACIANO<\/b>, irm\u00e3o de Brab\u00e2ncio.<br \/>\n<b>LUDOVICO<\/b>, parente de Brab\u00e2ncio.<br \/>\n<b>OTELO<\/b>, mouro nobre, a servi\u00e7o da Rep\u00fablica de Veneza.<br \/>\n<b>C\u00c1SSIO<\/b>, seu tenente.<br \/>\n<b>IAGO<\/b>, seu alferes.<br \/>\n<b>RODRIGO<\/b>, fidalgo veneziano.<br \/>\n<b>MONTANO<\/b>, governador de Chipre antes de Otelo.<br \/>\n<b>BOBO<\/b>, criado de Otelo.<br \/>\n<b>DESD\u00caMONA<\/b>, filha de Brab\u00e2ncio e esposa de Otelo.<br \/>\n<b>EM\u00cdLIA<\/b>, esposa de Iago.<br \/>\n<b>BIANCA<\/b>, amante de C\u00e1ssio.<br \/>\nMarinheiro, oficiais, gentis-homens, mensageiros, m\u00fasicos, arautos, criados.<\/p>\n<p><a name=\"at1c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<\/h2>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entram Rodrigo e Iago.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Cala-te! N\u00e3o me fales. Aborrece-me demais verificar que justamente tu, Iago, que dispunhas \u00e0 vontade de minha bolsa, como se teus fossem seus cord\u00f5es, conhecesses isso tudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mas escuta-me, ao menos! Se eu j\u00e1 sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Dito me havias que lhe tinhas \u00f3dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Despreza-me, se n\u00e3o for assim mesmo. Tr\u00eas pessoas de grande influ\u00eancia aqui vieram falar-lhe, chap\u00e9u na m\u00e3o, com humildade, para que fizesse de mim o seu tenente. E por minha f\u00e9 de homem, tenho plena consci\u00eancia do que valho; n\u00e3o mere\u00e7o posto menor do que esse. Ele, no entanto, consultando somente o orgulho e os pr\u00f3prios interesses, furtou-se com fraseado bomb\u00e1stico, recheado s\u00f3 de ep\u00edtetos de guerra. Em conclus\u00e3o: n\u00e3o entendeu aos meus intercessores. \u201cPois j\u00e1 escolhi meu oficial\u201d, lhes disse. E quem \u00e9 ele? Ora, por minha f\u00e9, um matem\u00e1tico, um tal Micael C\u00e1ssio, um florentino, um tipo quase pelo pr\u00f3prio inferno fadado a ser uma mulher bonita, que nunca comandou nenhum soldado em campo de batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira; erudi\u00e7\u00e3o de livros, simplesmente, sobre o que podem dissertar com a mesma profici\u00eancia que a dele os nossos c\u00f4nsules togados; palavr\u00f3rio sem sentido, carecente de pr\u00e1tica: eis sua arte. No entanto, meu senhor, foi o escolhido; ao passo que eu, que aos pr\u00f3prios olhos dele provas cabais j\u00e1 dera em Chipre e Rodes e em muitos outros pontos habitados por crist\u00e3os e pag\u00e3os, terei de, agora, ficar a sota-vento e calmaria, s\u00f3 por causa do dever-e-haver de um simples calculista, que \u2014 oh tempos! \u2014 vai tornar-se tenente, enquanto que eu \u2014 Deus me perdoe! \u2014 continuarei sendo do Mouro o alferes.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Pelo c\u00e9u, preferira ficar sendo carrasco dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. \u00c9 a maldi\u00e7\u00e3o do of\u00edcio: as promo\u00e7\u00f5es se obt\u00eam s\u00f3 por pedidos e amizades, n\u00e3o pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo o posto do primeiro. Ora, senhor, ajuizai v\u00f3s mesmos se raz\u00f5es tenho para amar o Mouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Assim, eu n\u00e3o ficara sob suas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00d3 senhor, acalmai-vos. Se me ponho sob suas ordens \u00e9 s\u00f3 em proveito pr\u00f3prio. Mestres nem todos podem ser, nem todos os mestres podem ter bons servidores. J\u00e1 tereis visto por a\u00ed bastantes sujeitos obsequiosos, de flex\u00edveis joelhos que, apaixonados pela pr\u00f3pria escravid\u00e3o, o tempo todo gastam como o asno do amo, s\u00f3 pela comida; e, quando ficam velhos: despedidos. Chicote nessa gente muito honesta! Outros h\u00e1 que sabendo a forma externa revelar do dever, as fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, o cora\u00e7\u00e3o conservam sempre atentos no proveito pessoal; enquanto aos amos dispensam mostras de servi\u00e7o, apenas, prosperam muito bem, e, ao mesmo tempo que os casacos lhes forram, a si pr\u00f3prios prestam boa homenagem. Esses tipos t\u00eam alguma alma, e entre eles eu me incluo, posso afian\u00e7ar-vos. Pois senhor, t\u00e3o certo como serdes Rodrigo, se em verdade eu fosse o Mouro, n\u00e3o queria um Iago sob minhas ordens, pois seguindo-o, apenas sigo a mim pr\u00f3prio. O c\u00e9u \u00e9 testemunha: n\u00e3o me move o dever nem a amizade, mas, sem o revelar, s\u00f3 o interesse. Se as mostras exteriores de meus atos me traduzissem os motivos pr\u00f3prios do cora\u00e7\u00e3o em tra\u00e7os manifestos, carregaria o cora\u00e7\u00e3o na manga, para atir\u00e1-lo \u00e0s gralhas. Ficai certo: n\u00e3o sou o que sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Que sorte a desse tipo de l\u00e1bios grossos, se puder, realmente, levar isso at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Chama o pai dela; desperta-o; corre atr\u00e1s do Mouro, p\u00f5e-lhe veneno na alegria; o nome dele proclama pelas ruas, os parentes dela deixa excitados, e ainda que ele more em clima ador\u00e1vel, atormenta-o com praga de mosquitos. Muito embora sua alegria seja verdadeira, com tais contrariedades o persegue, que a cor a perder venha.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Fica aqui mesmo a casa do pai dela; vou chamar em voz alta.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mas com vozes de medo e uivos terr\u00edveis, como quando por neglig\u00eancia, \u00e0 noite, o fogo estala num burgo populoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Ol\u00e1, Brab\u00e2ncio! Senhor Brab\u00e2ncio, ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ladr\u00f5es! Brab\u00e2ncio! Brab\u00e2ncio, despertai! Ladr\u00f5es! Ladr\u00f5es! Cuidai de vossa casa, vossa filha, de vossos cofres! Acordai! Ladr\u00f5es!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Brab\u00e2ncio aparece na janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Qual \u00e9 o motivo de t\u00e3o grande bulha? Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Senhor, tendes a\u00ed dentro toda vossa fam\u00edlia?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vossos quartos est\u00e3o fechados?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Ora, qual a causa de perguntardes isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Com mil diabos, senhor, fostes roubado; por vergonha, ide vestir a toga; arrebentado tendes o cora\u00e7\u00e3o; metade da alma j\u00e1 vos foi alienada. Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro est\u00e1 cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o sino, para que despertem os cidad\u00e3os que roncam; do contr\u00e1rio, o diabo vos far\u00e1 ficar av\u00f4. Despertai! \u00c9 o que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Mas que \u00e9 isso! Perdestes o ju\u00edzo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Vener\u00e1vel senhor, reconheceis-me pela voz?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 N\u00e3o; mas quem sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Rodrigo; assim me chamo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Pior nome n\u00e3o podias revelar-me. N\u00e3o te proibi de me rondar a casa? N\u00e3o me ouviste dizer, com leal franqueza, que para ti n\u00e3o era minha filha? Por que me vens agora, transtornado pela ceia e os vapores da bebida, com tua tratantagem maliciosa perturbar-me o repouso?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Meu senhor, senhor, senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Mas podes ficar certo de que minha coragem e meu posto na rep\u00fablica t\u00eam poder bastante para fazer-te amargurar por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Paci\u00eancia, bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Por que me falas em roubo? Estamos em Veneza; minha casa n\u00e3o \u00e9 uma granja.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Vener\u00e1vel senhor, vim procurar-vos com lisura.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, senhor! Sois uma dessas pessoas que se negariam a servir a Deus, se fosse o diabo que lhes ordenasse. Por que viemos prestar-vos um servi\u00e7o e nos tendes na conta de velhacos, quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos netos relinchem atr\u00e1s de v\u00f3s? Quereis ter cordeis como primos e ginetes como parentes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Quem \u00e9s tu, miser\u00e1vel licencioso?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sou um homem, senhor, que vim revelar-vos que vossa filha e o Mouro se acham no ponto de fazer o animal de duas costas<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Sois um vil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E v\u00f3s&#8230; um senador.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Vais pagar-me. Conhe\u00e7o-te, Rodrigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Responderei por tudo. Mas pergunto-vos, senhor, se foi com vosso assentimento, vosso s\u00e1bio conselho como quase fico a pensar \u2014 que vossa linda filha, na calada de noite t\u00e3o escura, saiu em companhia de um sujeito nem melhor nem pior do que um velhaco por qualquer alugado, num gondoleiro, para aos abra\u00e7os torpes entregar-se de um Mouro luxurioso; se, realmente, sabeis de tudo e concordais com isso, bem: nesse caso \u00e9 certo vos fazermos inomin\u00e1vel e atrevida ofensa. Mas se desconheceis o que se passa, ensina-me o costume que n\u00e3o tendes raz\u00e3o de censurar-nos desse modo. N\u00e3o creiais que t\u00e3o falho eu me revele de cortesia, para vir agora zombar de vossa grande rever\u00eancia. Vossa filha \u2014 de novo vos declaro \u2014 se n\u00e3o lhe destes permiss\u00e3o, mui grave pecado cometeu, unindo o esp\u00edrito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro andejo e desgarrado daqui e de toda parte. Convencei-vos neste momento: se no quarto dela fordes ach\u00e1-la, ou mesmo em toda casa, entregai-me \u00e0 justi\u00e7a da rep\u00fablica por vos ter enganado desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Acendei fogo! Ol\u00e1! Dai-me uma vela! Despertai todo mundo. Este incidente n\u00e3o destoa dos sonhos que j\u00e1 tive. S\u00f3 de pensar em tal, me sinto opresso. Luz, repito! Um vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Retira-se da janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Adeus; n\u00e3o posso ficar mais tempo aqui. N\u00e3o \u00e9 prudente \u2014 dado o meu posto \u2014 nem recomend\u00e1vel ser chamado a ju\u00edzo contra o Mouro, o que aconteceria se eu ficasse. Pois sei-o bem: o Estado, muito embora venha a afligi-lo com alguma cr\u00edtica, n\u00e3o pode dispensar-lhe os bons servi\u00e7os sem correr grande risco. Com t\u00e3o fortes raz\u00f5es o encarregaram da campanha contra os chipriotas \u2014 que ora se acha em curso \u2014 que para a vida assegurar de todos n\u00e3o encontram ningu\u00e9m de igual calibre capaz de dirigir esse neg\u00f3cio. Por isso, muito embora lhe vote \u00f3dio como \u00e0s penas do inferno, sou for\u00e7ado pelas necessidades do presente a arvorar a bandeira da amizade que n\u00e3o passa de simples apar\u00eancia. Para terdes certeza de encontr\u00e1-lo, encaminhai na dire\u00e7\u00e3o do albergue do Sagit\u00e1rio os que h\u00e3o de procur\u00e1-lo. L\u00e1, como ele estarei. E agora, adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Brab\u00e2ncio e criados, com tochas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Minha infelicidade \u00e9 mais que certa. Fugiu mesmo. Do tempo desprez\u00edvel que me resta de vida n\u00e3o espero sen\u00e3o t\u00e3o-s\u00f3 tristezas. Onde a viste, Rodrigo? \u2014 Oh! que menina sem ju\u00edzo! \u2014 Junto com o Mouro, foi o que disseste? \u2014 Quem quisera ser pai! \u2014 Por quais ind\u00edcios vieste a reconhec\u00ea-la? Oh! Iludiu-me de modo inconceb\u00edvel. Que te disse? \u2014 Ol\u00e1! Trazei mais velas! Despertai todos os meus parentes! Acreditas que se tenham casado?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 \u00c9 o que parece, para vos ser sincero.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Oh c\u00e9us! Que meios ela encontrou para sair de casa? Oh! que trai\u00e7\u00e3o do sangue! Doravante, pais, n\u00e3o confieis no esp\u00edrito das filhas s\u00f3 por suas a\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 feiti\u00e7os capazes de alterar as qualidades das virgens inocentes? Nunca lestes, Rodrigo, qualquer coisa a esse respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Em verdade, senhor, li qualquer coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Ide chamar o mano. Oh! se a tiv\u00e9sseis desposado! \u2014 Cada um v\u00e1 por um lado. \u2014 Sabeis onde podemos apanh\u00e1-la juntamente com o Mouro?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Estou bem certo de poder encontr\u00e1-los, se quiserdes dar-me uma boa escolta e vir comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Servi de guia. Baterei em todas as casas; meu poder \u00e9 muito grande. \u2014 Trazei armas, ol\u00e1! Fazei que venha logo a ronda! \u2014 Sigamos, bom Rodrigo; hei de saber vos ser agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra rua. Entram Otelo, Iago e criados com tochas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito embora no of\u00edcio de soldado eu j\u00e1 tenha matado muita gente, assunto considero de consci\u00eancia premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em fur\u00e1-lo aqui, sob a costela.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Est\u00e1 melhor como est\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim; por\u00e9m ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma s\u00f3 coisa vos pergunto, senhor: estais realmente casado? H\u00e1 seguran\u00e7a? Uma certeza podereis ter: que \u00e9 muito venerado entre n\u00f3s e Magn\u00edfico, valendo sua voz como a do doge em tudo quanto nele toca de perto. Se o div\u00f3rcio n\u00e3o conseguir levar a cabo, ele h\u00e1 de causar-vos tanto inc\u00f4modo e desgosto quanto o Direito, com sua for\u00e7a toda, lhe afrouxar as amarras.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Desabafe como bem entender, porque os servi\u00e7os que eu prestei ao Conselho, suas queixas todas suplantar\u00e3o. Eis o momento de se saber \u2014 o que tornarei p\u00fablico quando essa ostenta\u00e7\u00e3o constituir honra \u2014 que o ser e a vida eu recebi de ber\u00e7o de descend\u00eancia real e que meus m\u00e9ritos aspirar podem, de cabe\u00e7a erguida, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje me alcan\u00e7aram. Porque te juro, Iago: se n\u00e3o fosse o amor que voto \u00e0 mui gentil Desd\u00eamona, eu n\u00e3o iria p\u00f4r a minha livre condi\u00e7\u00e3o de solteiro em nenhum elo que viesse confin\u00e1-la. N\u00e3o; por todos os tesouros do mar. Mas olha: luzes! V\u00eam nesta dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 o pai, decerto, com os parentes que foram despertados. Seria mais prudente retirar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 De forma alguma! Quero que me encontrem. Meus servi\u00e7os, meu posto, a alma tranq\u00fcila v\u00e3o demonstrar-lhes quem eu sou, de fato. Mas s\u00e3o eles?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Por Jano! N\u00e3o parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram C\u00e1ssio e certos oficiais, com tochas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 S\u00e3o pessoas do doge e o meu tenente. Que a noite vos proteja, bons amigos. Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 O doge manda saudar-vos, general, e vos convida com o m\u00e1ximo de pressa a aparecerdes agora mesmo na presen\u00e7a dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sabeis para que seja?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Algum assunto com rela\u00e7\u00e3o a Chipre, \u00e9 o que presumo; neg\u00f3cio muito urgente. J\u00e1 mandaram das galeras uns doze mensageiros desde que ficou noite, um ap\u00f3s o outro. Muitos dos membros do Conselho foram despertados e est\u00e3o junto com o doge. Com bastante insist\u00eancia vos procuram, e, como em casa n\u00e3o vos encontrassem, enviaram mensageiros por tr\u00eas partes diferentes, a fim de vos chamarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Foi bom haver sido eu por v\u00f3s achado. Vou apenas dizer duas palavras a esta casa; depois vos acompanho. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Alferes, que faz ele aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora essa! Esta noite abordou uma caraca terrestre. Sendo a presa declarada leg\u00edtima, realmente, ele est\u00e1 feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o compreendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Casou.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Casou com quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora essa, com&#8230; (<i>Volta Otelo.<\/i>) N\u00e3o vamos, capit\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Estou pronto.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A\u00ed vem uma outra tropa, para vos convocar.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito cuidado, general! \u00c9 Brab\u00e2ncio. Ele n\u00e3o vem com boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Brab\u00e2ncio, Rodrigo e oficiais, armados e com tochas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ol\u00e1! Parai!<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Senhor, \u00e9 o Mouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Morte a esse ladr\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>De ambos os lados se desembainham espadas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 V\u00f3s, Rodrigo? Senhor, estou convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Guardai essas espadas, que o sereno vai causar-lhes ferrugem. Vener\u00e1vel senhor, maior autoridade vossos anos imp\u00f5em que todas essas armas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 O infame raptor! onde escondeste minha filha? Infernal como \u00e9s, decerto a enfeiti\u00e7aste. Apelo para todos os seres de sentido: se n\u00e3o fosse ter sido presa por cadeias m\u00e1gicas, como uma jovem t\u00e3o formosa e terna, t\u00e3o feliz, t\u00e3o avessa ao casamento que evitava a presen\u00e7a dos mancebos ricos e de cabelos anelados de nosso Estado, como poderia, expondo-se \u00e0 irris\u00e3o de toda gente fugir de seu guardi\u00e3o, para abrigar-se no seio escuro e cheio de fuligem de uma coisa como \u00e9s, mais feito para susto causar do que qualquer deleite? Sirva de testemunha o mundo inteiro de como praticaste encantamentos com ela, abomin\u00e1veis, abusaste de sua mocidade inexperiente com in\u00fameras drogas que no esp\u00edrito atuam e o enfraquecem. Vou prov\u00e1-lo. \u00c9 fato indiscut\u00edvel, evidente. Por isso te detenho e prendo como a embusteiro universal, que exerce arte ilegal proibida pelo Estado. Prendei-lo logo. Caso vos resista, usai de for\u00e7a, embora com perigo de perder ele a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 As m\u00e3os detende, tanto os que est\u00e3o comigo como os outros. Se minha deixa fosse de combate, dispensaria o ponto. Aonde \u00e9 preciso que eu v\u00e1, para vos dar cabal resposta sobre o de que me arg\u00fcis?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Para a pris\u00e3o, at\u00e9 que decorrido o tempo certo a uma sess\u00e3o legal tu compare\u00e7as, para me responderes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 E no caso de vos obedecer? Como h\u00e1 de o doge mostrar-se satisfeito, se ao meu lado tenho seus emiss\u00e1rios, incumbidos de me levarem para onde ele se acha, para tratar de assuntos de rep\u00fablica?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAIS \u2014 Muito nobre senhor, o que ele disse \u00e9 tudo verdadeiro. O doge se acha no Conselho, e estou certo de que Vossa Nobreza foi chamado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Como! O doge convocou o Conselho? E em plena noite! Levai-o! Minha causa \u00e9 de import\u00e2ncia; o pr\u00f3prio doge e os manos do governo h\u00e3o de sentir a ofensa como pr\u00f3pria. Se um crime tal n\u00e3o for bem castigado, pag\u00e3os e escravos mandar\u00e3o no Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A C\u00e2mara do Conselho. O doge e senadores, sentados \u00e0 mesa. Oficiais de p\u00e9.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 As not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o de todo acordes, porque possamos dar-lhes muito cr\u00e9dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 \u00c9 certo; minha carta fala em cento e setenta galeras.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Fala a minha s\u00f3 em cento e quarenta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SENADOR \u2014 Pois a minha se refere a duzentas. Mas embora n\u00e3o haja acordo nesse ponto \u2014 como s\u00f3i dar-se quando \u00e9 feito o c\u00f4mputo por simples conjeturas \u2014 todas elas concordes s\u00e3o em afirmar que a armada do turco ora veleja para Chipre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 \u00c9 quanto basta para um ju\u00edzo certo. Um erro de min\u00facias n\u00e3o me impede de ficar apreensivo quanto ao ponto de maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO (<i>dentro<\/i>) \u2014 Ol\u00e1! Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Um novo mensageiro das galeras.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um marinheiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Ent\u00e3o, que novas h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 A armada turca veleja para Rodes, \u00e9 o recado que ao senado mandou o signior \u00c2ngelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 E agora que dizeis dessa mudan\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 N\u00e3o pode ser; \u00e9 contra a boa l\u00f3gica. \u00c9 uma ilus\u00e3o, t\u00e3o-s\u00f3, para obrigar-nos a olhar para o outro lado. Reflitamos na import\u00e2ncia de Chipre para o turco, muito maior ainda que a de Rodes e como lhe ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil conquist\u00e1-la, por ter poucas defesas, enquanto Rodes est\u00e1 muito armada: se em tudo isso pensarmos, haveremos de compreender que o turco n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cego que para \u00faltimo deixe o que lhe importa primacialmente, abrindo m\u00e3o de um ganho mais do que certo e, sobretudo, f\u00e1cil, para correr um risco sem proveito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 N\u00e3o se trata de Rodes, \u00e9 certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Chega outra novidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Os otomanos, reverendo e gracioso, est\u00e3o de rota batida para Rodes, e em caminho se refor\u00e7aram com uma nova armada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Tal qual como pensei. E quantas velas imaginais que sejam?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Trinta. E agora fazem caminho inverso, dirigindo, sem rodeios o curso para Chipre. \u00c9 o que o signior Montano, vosso bravo e dedicado servidor, vos manda comunicar com a liberdade pr\u00f3pria de seu dever, pedindo inteiro cr\u00e9dito para a not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Assim, \u00e9 mais que certo v\u00e3o para Chipre. E na cidade se acha Marcos Luccico?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 N\u00e3o; est\u00e1 em Floren\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Escrevei-lhe de nossa parte e urg\u00eancia, muita urg\u00eancia, inculcai-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 A\u00ed vem Brab\u00e2ncio com o valente Mouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Brab\u00e2ncio, Otelo, Iago, Rodrigo e oficiais.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Bravo Otelo, precisamos mandar-vos neste instante contra o inimigo comum, contra o otomano. (<i>A Brab\u00e2ncio.<\/i>) N\u00e3o vos vira, gentil senhor; bem-vindo. Vosso conselho e ajuda nos faltaram na reuni\u00e3o desta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 E a mim os vossos. Perdoe-me Vossa Gra\u00e7a, mas n\u00e3o foram minhas obriga\u00e7\u00f5es nem quaisquer novas relativas ao Estado que do leito me tiraram a esta hora; os interesses gerais me importam pouco, pois a minha m\u00e1goa particular \u00e9 de tal modo transbordante e impetuosa que em seu curso submerge e absorve todas as tristezas sem se alterar em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Que foi que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Oh! Minha filha! Minha filha!<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE e SENADORES \u2014 Morta?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Sim, para mim. Foi seduzida, foi-me roubada, corrompida por feiti\u00e7os e drogas adquiridas de embusteiros. Para que se desgarre a natureza por modo t\u00e3o absurdo, sem que seja nem defeituosa, coxa dos sentidos, nem privada de vista, \u00e9 necess\u00e1rio que haja feiti\u00e7aria.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Seja quem for que tenha usado desses processos vis para deixar privada vossa filha do ju\u00edzo e, assim, v\u00f3s mesmo de vossa pr\u00f3pria filha: o sanguin\u00e1rio livro das leis haveis de interpret\u00e1-lo como vos aprouver, no mais amargo sentido das palavras, sim, ainda que nosso pr\u00f3prio filho fosse o objeto de tal acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Humildemente vos agrade\u00e7o. Aqui se encontra o homem, este Mouro, que foi, ao que parece, por especial recado aqui chamado para assuntos do Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE e SENADORES \u2014 Penaliza-nos semelhante not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE (<i>a Otelo<\/i>) \u2014 E v\u00f3s, que tendes sobre isso a responder?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Nada; \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Muito acatados, graves e potentes senhores; muito nobres e aprovados mestres, em tudo justos; que eu tivesse raptado a filha deste senhor velho, \u00e9 mais do que verdade, como \u00e9 certo j\u00e1 t\u00ea-la desposado. A fronte e o cimo de minha ofensa v\u00e3o at\u00e9 a esse ponto, nem mais nem menos. Rude sou de fala, estranho ao doce linguajar da paz, pois desde que estes bra\u00e7os alcan\u00e7aram a for\u00e7a de sete anos, at\u00e9 agora, deduzidas algumas nove luas, t\u00e3o-somente, em mais nada se empregaram com mais amor do que \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos campos abarracados. Sobre muito pouca coisa posso falar no vasto mundo se n\u00e3o for de batalhas e contendas. Por isso, quando exponho assunto pr\u00f3prio n\u00e3o saberei orn\u00e1-lo com vantagens. Mas se vossa graciosa paci\u00eancia me permitir, um p\u00e1lido relato farei, sem digress\u00f5es, de todo o curso de meu amor, que drogas, que feiti\u00e7os, que conjuros, que m\u00e1gica potente \u2014 pois disso tudo, agora, \u00e9 que me acusam \u2014 usei para ganhar a filha dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Uma jovem t\u00e3o t\u00edmida, de esp\u00edrito t\u00e3o sossegado e calmo, que corava de seus pr\u00f3prios anseios! E a despeito da natureza, do pa\u00eds, da idade, do cr\u00e9dito, de tudo, apaixonar-se do que de olhar, t\u00e3o-s\u00f3, a apavorava! S\u00f3 um ju\u00edzo coxo e falho \u00e9 que afirmara que desviar-se a sa\u00fade poderia das leis da natureza. \u00c9 necess\u00e1rio que as infernais ast\u00facias admitamos, quanto tal coisa ocorre. Por tudo isso, de novo afirmo que, com algum composto de influ\u00eancia sobre o sangue, ou beberagem enfeiti\u00e7ada para tal efeito, ele sobre ela atuou.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Somente a simples afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta para a prova, porque, sem testemunho mais patente, n\u00e3o passa de suspeitas e apar\u00eancias sem consist\u00eancia o que afirmais contra ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Mas, Otelo, falai! Por meios indiretos e violentos dominastes, acaso, e envenenastes o amor dessa donzela? Ou deu-se tudo por meio de declara\u00e7\u00f5es e ditos sinceros, como uma alma a outra alma fala?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Suplico-vos mandar buscar a dama no Sagit\u00e1rio, permitindo que ela diante do pr\u00f3prio pai relate o caso. Se em sua fala encontrardes algo indigno sobre minha pessoa, despojai-me do meu of\u00edcio, da confian\u00e7a antiga que em mim deposit\u00e1veis; mais: que vossa senten\u00e7a atinja minha pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Trazei aqui Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ide, alferes, busc\u00e1-la, pois sabeis onde ela se acha. (<i>Saem Iago e alguns criados.<\/i>) E enquanto ela n\u00e3o vem, quero, com a mesma lealdade com que o c\u00e9u confesso as faltas do meu sangue, contar a esses ouvidos severos como pude apaixonar-me dessa donzela e ser por ela amado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Contai-nos isso, Otelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O pai dela me amava; convidou-me muitas vezes, fazia-me perguntas sobre a hist\u00f3ria de toda a minha vida, ano por ano, pr\u00e9lios, cercos, lances por que passara. E narrava-lhe tudo, desde os dias de minha inf\u00e2ncia, at\u00e9 o momento em que ele me mandara falar, enumerando-lhe situa\u00e7\u00f5es perigosas, acidentes no mar e em terra, em tudo emocionantes, como salvei a vida por um fio, na brecha perigosa, como fora pelo insolente inimigo aprisionado, vendido como escravo, e de que modo, depois, me resgatara, e dos sucessos que em minhas viagens a esses se seguiram, quando, ent\u00e3o, lhe falava de cavernas descomunais, rochedos escabrosos, ilhas desertas, montes cujos picos no c\u00e9u iam tocar. E assim por diante, no mesmo tom dos canibais falava, que uns aos outros se comem, de antrop\u00f3fagos e de homens com cabe\u00e7a sob os ombros. Para isso ouvir, Desd\u00eamona se achava sempre inclinada; mas os afazeres da casa muitas vezes a obrigavam a se afastar, o que ela quase sempre depressa arrematava, porque viesse novamente, com \u00e1vidos ouvidos, devorar meu discurso. Percebendo-o, da hora me aproveitei e encontrei meios de lhe arrancar a s\u00faplica ardorosa, para que lhe contasse sem rodeios as minhas aventuras, cuja hist\u00f3ria s\u00f3 por partes ouvira, desconexas. Fiz-lhe a vontade; e muitas vezes pude roubar-lhe algumas l\u00e1grimas, no instante de lhe narrar algum sucesso triste por que passara minha mocidade. Minha hist\u00f3ria conclu\u00edda, ela me dava por tanta dor um mundo de suspiros e jurava em verdade, que era estranho, mais do que estranho, por demais tocante, muito comovedora. Desejara jamais a ter ouvido, mas quisera que o c\u00e9u houvesse feito dela esse homem. Agradeceu-me e disse-me que, quando algum amigo eu viesse a ter, que a amasse, bastaria ensinar-lhe o modo simples de contar minha hist\u00f3ria, para que ele, sem falta, a conquistasse. Aproveitando tal insinua\u00e7\u00e3o, disse-lhe tudo. Ela me amou \u00e0 vista dos perigos por que passei, e muito amor lhe tive, por se ter revelado compassiva. Foi essa toda a minha bruxaria. Mas a\u00ed vem a dama; ela que fale.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Desd\u00eamona, Iago e pessoas do s\u00e9quito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Quero crer que uma hist\u00f3ria tal como essa seduziria minha pr\u00f3pria filha, caro Brab\u00e2ncio. Examinai por outro prisma o assunto que se acha mutilado. \u00c9 mais vantagem fazermos uso de armas j\u00e1 partidas, do que das m\u00e3os vazias.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Por obs\u00e9quio, permiti que ela fale. Dizendo ela que assim favoreceu essa conquista, caia-me a destrui\u00e7\u00e3o sobre a cabe\u00e7a, se novamente eu dirigir a este homem qualquer doesto ofensivo. Aproximai-vos, gentil menina, e respondei-me: acaso percebeis neste c\u00edrculo seleto algu\u00e9m a quem deveis mais obedi\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Meu nobre pai, percebo um dividido dever: A vida e a educa\u00e7\u00e3o vos devo, educa\u00e7\u00e3o e vida que me ensinam a saber respeitar-vos. Sois o dono do meu dever, sendo eu, pois, vossa filha. Mas tamb\u00e9m aqui vejo meu marido; e quanto minha m\u00e3e vos foi submissa, preferindo-vos mesmo aos pr\u00f3prios pais, tanto agora pretendo revelar-me em rela\u00e7\u00e3o ao Mouro, a quem perten\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Deus esteja convosco. J\u00e1 acabei. Se Vossa Gra\u00e7a desejar, passemos a tratar dos neg\u00f3cios da rep\u00fablica. Antes filha adotiva que gerada. Mouro, vem para c\u00e1. De todo o cora\u00e7\u00e3o te dou aquilo que se j\u00e1 teu n\u00e3o fosse, eu recusara de todo o cora\u00e7\u00e3o. Por vossa causa, minha j\u00f3ia, sinto a alma jubilosa, por n\u00e3o ter outra filha; tua fuga ensinado me houvera a ser tirano, pondo-a no cepo. Terminei, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Permiti-me falar como v\u00f3s mesmo de certo falar\u00edeis, pronunciando uma senten\u00e7a que degrau e escada vai ser para que os dois enamorados possam vir a integrar-se novamente no vosso afeto. O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio est\u00e1 sanado s\u00f3 em ver o perigo j\u00e1 passado. Chorar, depois de salvo, uma desgra\u00e7a, \u00e9 chamar outra ainda mais feia e crassa. O que nos for tirado pela sorte, qual perda h\u00e1 de ser tido n\u00e3o de porte. O roubado que ri, rouba ao ladr\u00e3o; o que chora, a si rouba outra por\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Que o Turco, ent\u00e3o, roubar-vos Chipre venha; vamos rir e cantar com voz roufenha. S\u00f3 escuta de bom grado uma seten\u00e7a quem em proveito pr\u00f3prio nela pensa. Mas fica duplamente atribulado quem perder a paci\u00eancia ante o recado. Conselhos, ou de a\u00e7\u00facar ou de fel, amb\u00edguos sempre s\u00e3o como hidromel. Palavras s\u00e3o palavras; pelo ouvido jamais o cora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 atingido. Humildemente suplico a Vossa Gra\u00e7a que passemos aos assuntos do Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 O Turco se dirige para Chipre com preparativos poderosos. Otelo, conheceis perfeitamente os meios de defesa daquela pra\u00e7a. E embora tenhamos nela um lugar-tenente de indiscutida compet\u00eancia, a opini\u00e3o p\u00fablica, a mais alta soberana do \u00eaxito, vos distingue com o seu voto. Por isso, ser\u00e1 for\u00e7oso emba\u00e7ardes o brilho de vossa recente fortuna com esta expedi\u00e7\u00e3o por demais teimosa e barulhenta.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 A tirania do h\u00e1bito, severos senadores, da cama de a\u00e7o e pedra da guerra fez-me um leito de penugem. Confesso que as empresas arriscadas sempre me deixam \u00e1lacre e disposto. Assim, aceito a dire\u00e7\u00e3o da guerra contra esses otomanos. Mas, curvando-me mui respeitosamente ante v\u00f3s outros, suplico que tomeis as convenientes disposi\u00e7\u00f5es para que minha esposa alojamento venha a ter e trato condignos de seu alto nascimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Em casa do pai dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 N\u00e3o concordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nem eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Nem eu tampouco. N\u00e3o desejo voltar a morar l\u00e1, porque n\u00e3o deixe de meu pai os sentidos impacientes com minha vista. Mui gracioso doge, favor\u00e1veis ouvidos concedei para o que vou dizer, porque na vossa palavra eu achar possa um privil\u00e9gio para minha fraqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Que desejas, Desd\u00eamona?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Eu amei o Mouro, para viver junto com ele, \u00e9 o que proclama ao mundo todo minha a\u00e7\u00e3o violenta. Submeteu-se-me o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 ess\u00eancia mesma de meu marido, vi o retrato de Otelo em seu esp\u00edrito, e a suas honras e partes valorosas, minha sorte e a alma inteira dediquei. Assim, meus caros senhores, se eu ficar qual parasita da paz e ele partir para essa guerra, privada me verei das qualidades que am\u00e1-lo me fizeram, sobre ser-me necess\u00e1rio ag\u00fcentar esse intervalo moroso e fatigante de sua aus\u00eancia. Deixai, pois, que com ele eu tamb\u00e9m siga.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dai-lhe essa permiss\u00e3o. Por testemunha invoco o c\u00e9u de como fazendo esse pedido n\u00e3o desejo dar p\u00e1bulo ao paladar dos apetites nem acalmar o ardor da mocidade \u2014 que j\u00e1 deixei de lado \u2014 ou secund\u00e1rias satisfa\u00e7\u00f5es pessoais, mas t\u00e3o-somente para fazer justi\u00e7a a seu esp\u00edrito. E n\u00e3o permita o c\u00e9u que em vossos puros cora\u00e7\u00f5es a admitir venhais que eu possa prejudicar neg\u00f3cios de tal monta, de tanta gravidade, s\u00f3 porque ela vai ficar ao meu lado. N\u00e3o; se um dia o alado devaneio de Cupido me selar com sensual embotamento as faculdades especulativas e os \u00f3rg\u00e3os para a a\u00e7\u00e3o, vindo os prazeres a manchar meu dever e corromp\u00ea-lo, que do meu elmo vossas cozinheiras fa\u00e7am um caldeir\u00e3o, e os mais indignos opositores se levantem contra o apre\u00e7o em que sou tido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Seja como vos aprouver, ou ela fique ou siga. O assunto exige pressa; diligente deve ser a resposta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio partirdes esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 De bom grado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Amanh\u00e3 \u00e0s nove horas voltaremos a reunir-nos aqui. Deixai, Otelo, um oficial, para que vos transmita nossas ordens e o mais que diz respeito a vosso posto e \u00e0s honras inerentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se concordais, o alferes \u00e9 pessoa honesta e de confian\u00e7a. A seus cuidados confio minha esposa e tudo quanto Vossa Gra\u00e7a quiser depois mandar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Que seja assim. Boa noite para todos. (<i>A Brab\u00e2ncio.<\/i>) Muito nobre senhor, se de beleza a virtude n\u00e3o for destitu\u00edda, mais belo \u00e9 vosso genro do que preto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SENADOR \u2014 Adeus, valente Mouro; s\u00ea bondoso para Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRAB\u00c2NCIO \u2014 Cuidado, Mouro! Se olhos tens, abre-os bem em toda a parte; se o pai ela enganou, pode enganar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o doge, senadores, oficiais, etc.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pela sua lealdade empenho a vida! Honesto Iago, confio-te Desd\u00eamona. D\u00e1-lhe por companheira tua esposa e, logo que te for poss\u00edvel, leva-a para junto de mim. Vamos, Desd\u00eamona; s\u00f3 disponho de uma hora para assuntos mundanos e ordens v\u00e1rias, que h\u00e1 de ser-te dedicada tamb\u00e9m. \u00c9 necess\u00e1rio ao tempo nos mostrarmos obedientes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Otelo e Desd\u00eamona.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Iago!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que disseste, nobre cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Que imaginas que eu vou fazer?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, deitar-te e dormir.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Vou imediatamente afogar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Bem; se fizeres tal coisa, nunca mais te terei amizade. E por que isso, meu tolo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 \u00c9 tolice viver quando a vida \u00e9 um tormento, dispondo n\u00f3s da prescri\u00e7\u00e3o de morrer, quando a morte \u00e9 nosso m\u00e9dico.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh, miser\u00e1vel! Contemplo o mundo h\u00e1 quatro vezes sete anos, e desde que me tornei capaz de distinguir de uma inj\u00faria um benef\u00edcio, nunca encontrei um homem que soubesse como amar a si mesmo. Antes de eu dizer que pretendia afogar-me por causa de uma galinha-d\u2019angola, trocaria a forma humana pela de um bugio.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Que devo fazer? Confesso que me sinto envergonhado, por me sentir a esse ponto tomado de paix\u00e3o; mas n\u00e3o encontro em minha virtude o rem\u00e9dio para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Virtude? Uma figa! Depende de n\u00f3s mesmos sermos assim ou assado. Nossos corpos s\u00e3o nossos jardins, cujos jardineiros s\u00e3o nossas vontades; de modo que se quisermos plantar urtiga e semear alface, deixar hissopo ou arrancar tomilho, prov\u00ea-los apenas de determinada esp\u00e9cie de erva ou ench\u00ea-los de muitas variedades, esteriliz\u00e1-los pela pregui\u00e7a ou cultiv\u00e1-los pelo trabalho&#8230; Ora, o poder exclusivo e a for\u00e7a reguladora de tudo reside apenas em nossa vontade. Se a balan\u00e7a de nossa vida n\u00e3o dispusesse de um prato de raz\u00e3o para contrabalan\u00e7ar o da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos conduziriam \u00e0s mais absurdas situa\u00e7\u00f5es. Mas possu\u00edmos a raz\u00e3o para acalmar nossos instintos furiosos, os ac\u00faleos da carne, os desejos desenfreados. De onde concluo que o que denominais amor n\u00e3o \u00e9 mais do que um sarmento ou uma verg\u00f4ntea.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 N\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 apenas um apetite do sangue e uma concess\u00e3o da vontade. Vamos! S\u00ea homem! Afogares-te? Faze isso com gatos e c\u00e3ezinhos rec\u00e9m-nascidos. Declarei que sou teu amigo e me confesso ligado ao teu servi\u00e7o por cabos de resist\u00eancia \u00e0 toda prova. Nunca te poderei ser t\u00e3o \u00fatil como agora. P\u00f5e dinheiro na bolsa, toma parte nesta guerra, desfigura as fei\u00e7\u00f5es com uma barba posti\u00e7a. Repito: p\u00f5e dinheiro na bolsa! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que Desd\u00eamona continue apaixonada do Mouro por muito tempo \u2014 p\u00f5e dinheiro na bolsa! \u2014 nem ele dela. Foi um come\u00e7o muito violento, da parte dela, ao que ainda ver\u00e1s seguir-se uma separa\u00e7\u00e3o correspondente. P\u00f5e dinheiro na bolsa! Esses mouros s\u00e3o muito inconstantes em suas inclina\u00e7\u00f5es \u2014 enche de dinheiro tua bolsa! \u2014 O prato que para ele, agora, \u00e9 t\u00e3o agrad\u00e1vel como alfarroba dentro de pouco lhe ser\u00e1 t\u00e3o amargo como coloqu\u00edntida. \u00c9 fatal que ela o troque por um mo\u00e7o; quando ficar saciada do corpo dele, perceber\u00e1 o erro da escolha que fez. Ter\u00e1 de troc\u00e1-lo por outro: \u00e9 fatal. Por isso, p\u00f5e dinheiro na bolsa! Mas se queres absolutamente condenar-te \u00e0s penas eternas, faz\u00ea-o por um processo mais delicado do que o afogamento. Arranja quanto dinheiro puderes! Se a santidade de um juramento fr\u00e1gil entre um b\u00e1rbaro err\u00e1tico e uma veneziana arquisabida n\u00e3o for coisa muito dura para minha intelig\u00eancia e para todas as tribos do inferno, acabar\u00e1s gozando-a. Por isso, trata de arranjar dinheiro! A peste para o teu afogamento! Nada tem que ver com este neg\u00f3cio. Far\u00e1s melhor enforcando-te depois de satisfazeres os teus desejos do que afogando-te sem proveito nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Disp\u00f5es-te a apoiar minhas esperan\u00e7as, no caso de eu me firmar nesse prop\u00f3sito?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Podes contar comigo. Vai; arranja dinheiro. J\u00e1 te disse muitas vezes e tomo a diz\u00ea-lo pela cent\u00e9sima vez: odeio o Mouro; tenho para isso motivos arraigados no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o te faltam, tamb\u00e9m, para isso raz\u00f5es igualmente ponderosas. Unamo-nos, portanto, para nos vingarmos dele. Se lhe puseres um par de chifres, para ti ser\u00e1 um prazer, e para mim um divertimento. O seio do tempo encerra muitos acontecimentos que ter\u00e3o de concretizar-se. Em frente! Marcha! Trata de arranjar dinheiro. Amanh\u00e3 voltaremos a falar sobre isso. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Onde nos encontraremos amanh\u00e3?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 No meu aposento.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Estarei l\u00e1 bem cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vai; adeus. Compreendeste, Rodrigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Que dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Afastai a id\u00e9ia de afogamento, estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 J\u00e1 refleti melhor; vou tratar de vender todas as minhas terras.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vai; adeus. P\u00f5e bastante dinheiro na bolsa. (<i>Sai Rodrigo.<\/i>) Assim, de um tolo fa\u00e7o minha bolsa. Profanaria, meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a n\u00e3o ser para proveito pr\u00f3prio ou por distra\u00e7\u00e3o. Odeio o Mouro. H\u00e1 quem murmure que ele o meu trabalho j\u00e1 fez em meus len\u00e7\u00f3is. Se \u00e9 certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo n\u00e3o, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afei\u00e7\u00e3o. Meu plano, desse modo, sobre ele vi atuar com mais certeza. C\u00e1ssio \u00e9 um homem de bem. Ora vejamos como posso alcan\u00e7ar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que C\u00e1ssio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de C\u00e1ssio e seu todo insinuante o predisp\u00f5em a tomar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza \u00e9 o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, t\u00e3o-s\u00f3, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poder\u00e1 ser levado, tal qual os asnos. Pronto; j\u00e1 est\u00e1 gerado. A noite e o inferno \u00e0 luz h\u00e3o de trazer meu plano eterno. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO II<\/h2>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Porto de mar em Chipre. Pra\u00e7a perto do cais. Entram Montano e dois gentis-homens.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Que distinguis no mar, desde essa ponta?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Nada a dist\u00e2ncia; as ondas se encapelam; entre o alto mar e o c\u00e9u n\u00e3o se percebe vela nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 O vento falou alto para terra, parece-me. Jamais t\u00e3o desenfreada tempestade abalou nossas ameias. Se em pleno mar rugiu dessa maneira, que costela de roble ficou firme no encaixe, ao derreterem-se sobre ela montanhas desse porte? Que teremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 A dispers\u00e3o, t\u00e3o-s\u00f3, da armada turca. Basta a praia espumante examinares. S\u00f3 parece que as ondas ralhadoras as nuvens chicoteiam; a mareta de crina gigantesca, sacudida pelo vento, parece jogar \u00e1gua na Ursa inflam\u00e1vel e apagar as guardas do p\u00f3lo sempre fixo. N\u00e3o vi nunca revolta assim das ondas irritadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Se n\u00e3o p\u00f4de abrigar-se a armada turca nalgum porto ou ba\u00eda, est\u00e1 perdida. \u00c9 imposs\u00edvel que houvesse resistido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um terceiro gentil-homem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Novas, rapazes! Acabou-se a guerra! Maltratou a furiosa tempestade os turcos de tal jeito, que seus planos ficaram mancos. Um navio nobre de Veneza assistiu ao pavoroso naufr\u00e1gio e sofrimento da mor parte da armada deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Como! \u00c9 ent\u00e3o verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 O barco est\u00e1 no porto; \u00e9 de Veneza. Miguel C\u00e1ssio, tenente do guerreiro mouro, Otelo, saltou em terra; o pr\u00f3prio Mouro se acha no mar, com carta branca, a caminho de Chipre.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Muito alegre me deixa essa not\u00edcia; \u00e9 um muito digno governador.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Mas esse mesmo C\u00e1ssio, muito embora se exprima com confian\u00e7a sobre as perdas dos turcos, est\u00e1 triste, rezando pela salva\u00e7\u00e3o do Mouro, pois violenta e medonha tempestade dele o fez separar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 O c\u00e9u o atenda, pois servi sob o Mouro; ele \u00e9 soldado na mais lata acep\u00e7\u00e3o. Mas vamos logo para o porto, n\u00e3o s\u00f3 porque vejamos o barco rec\u00e9m-vindo, como para olhar tamb\u00e9m do lado que h\u00e1 de vir-nos o bravo Otelo, at\u00e9 que a nossos olhos desapare\u00e7a o mar e o azul-celeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Fa\u00e7amos isso, sim; cada momento nos traz a expectativa de outros barcos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Meus agradecimentos aos valentes desta ilha valorosa, por mostrardes tanta afei\u00e7\u00e3o ao Mouro. Oh! Que lhe d\u00eaem os c\u00e9us defesa contra os elementos pois o perdi num mar perigos\u00edssimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Est\u00e1 num bom navio?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Seu barco tem altivos vigamentos e disp\u00f5e de piloto experimentado bastantes vezes, sendo s\u00f3 por isso que, n\u00e3o tendo esperan\u00e7a empanturrada para morrer, confio em sua cura.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOZES (<i>dentro<\/i>) \u2014 Uma vela! Uma vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E esses gritos?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Deserta est\u00e1 a cidade; sobre a borda do mar o povo todo, em filas, grita: Uma vela! Uma vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Diz-me o peito que \u00e9 a do governador.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Disparam tiros de cortesia. \u00c9 amigo, pelo menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, ide informar-vos e trazei-nos not\u00edcias mais precisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Perfeitamente. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Mas meu bom tenente, casou-se o vosso general?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por sorte; traz uma esposa que ultrapassa toda descri\u00e7\u00e3o e alta fama, deixa longe os conceitos da pena aduladora, e que no respeitante \u00e0s qualidades naturais da cria\u00e7\u00e3o, deixa estafado, s\u00f3 com ela, o inventor. (<i>Volta o segundo gentil-homem.<\/i>) Ent\u00e3o, quem era?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 \u00c9 um certo Iago, alferes junto ao nosso general.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Realizou a travessia em boas condi\u00e7\u00f5es e pouco tempo. A pr\u00f3pria tempestade, o mar furioso. os ventos sibilantes, os penedos escarpados, os bancos movedi\u00e7os traidores de emboscada para os barcos inocentes prenderem \u2014 todos, todos, como se do sentido da beleza fossem dotados, transmudada sua natureza nociva, permitiram que por eles passasse, s\u00e3 e salva, a divina Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Quem \u00e9 ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A de quem vos falei, a capitoa de nosso capit\u00e3o. Em companhia ele a mandou do destemido Iago, cuja vinda ultrapassa nossos c\u00e1lculos de uma semana. O poderoso Jove, protege Otelo e enfuna suas velas com teu bafejo todo poderoso, porque aben\u00e7oar ele nos venha o porto com seu navio, palpitar nos bra\u00e7os carinhosos de sua bem-amada, reacender-nos o esp\u00edrito apagado e trazer alegria a toda Chipre! (<i>Entram Desd\u00eamona, Em\u00edlia, Iago, Rodrigo e s\u00e9quito.<\/i>) Oh! Vede! J\u00e1 desembarcados foram os tesouros do barco. Ajoelhai-vos, moradores de Chipre! Salve, dama! Possa diante de ti ficar a Gra\u00e7a celestial, por detr\u00e1s, por toda a parte, envolvendo-te toda.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Agradecida, valente C\u00e1ssio. Que not\u00edcia tendes do meu marido?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ainda n\u00e3o chegou. N\u00e3o sei mais nada, salvo que ele se acha com sa\u00fade e que breve aqui estar\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Contudo, tenho medo. Qual a causa por que vos separastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A atroz luta das \u00e1guas e do c\u00e9u me afastou dele. Mas, ouvi: uma vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">VOZES (<i>dentro<\/i>) \u2014 Vela! Vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouvem-se tiros de canh\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 O barco est\u00e1 saudando a cidadela. \u00c9 outro amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vai ver o que h\u00e1 de novo. Bem-vindo, bom alferes. (<i>A Em\u00edlia.<\/i>) V\u00f3s, senhora, tamb\u00e9m sois mui bem-vinda. Que n\u00e3o seja causa de se enturvar vossa paci\u00eancia, bondoso Iago, a extens\u00e3o dos meus saudares. \u00c9 minha educa\u00e7\u00e3o que me confere sauda\u00e7\u00f5es de tamanho atrevimento. (<i>Beija a Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Se ela vos desse, meu senhor, dos l\u00e1bios tanto quanto da l\u00edngua me concede, em pouco tempo ficar\u00edeis farto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Coitada, ela nem fala!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o? Demais. Quando quero dormir \u00e9 que o percebo. Mas em frente de Vossa Senhoria a espertalhona guarda um pouco a l\u00edngua no cora\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a em pensamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o tendes causa para assim falardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vamos; fora de casa sois pinturas; nos quartos, sinos; na cozinha, gatos; santas, quando ofendeis; dem\u00f4nios puros, quando sois ofendidas; chocarreiras no governo da casa e boas donas do lar quando na cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! vai saindo, caluniador!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quero ser turco, caso n\u00e3o seja assim. Brincais o dia inteiro; s\u00f3 na cama h\u00e1 trabalho verdadeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o haveis de escrever meu elogio.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Nem o desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 E como escreverias, se incumbido te visses de elogiar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Cuidado, gentil dama, que outra coisa n\u00e3o sou, tirante um cr\u00edtico modesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Tentai, tentai! \u2014 Algu\u00e9m foi at\u00e9 ao porto?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Foi, sim, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Alegre n\u00e3o me sinto, mas engano meu pr\u00f3prio estado, simulando o gosto. Vamos: de que maneira me elogiaras?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 J\u00e1 estou quase no ponto; mas do casco me sai sempre a inven\u00e7\u00e3o como da bolsa visco de passarinho: vem o c\u00e9rebro, e tudo o mais, grudado. Minha musa, por\u00e9m, come\u00e7a a sentir dores fortes e \u00e0 luz, por fim, d\u00e1 isto: Se ela tiver esp\u00edrito e beleza, aquele \u00e9 d\u00e1diva; natureza.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00d3timo! E se for preta e espirituosa?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Preta e espirituosa&#8230; Que mistura! Mas um branco h\u00e1 de achar para a fei\u00fara.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 De mal para pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 E se for bela e tonta?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mulher tonta n\u00e3o h\u00e1, sendo bonita, pois sabe arranjar filho e ser catita.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 S\u00e3o paradoxos velhos, para fazer rir os tolos nas cervejarias. Que m\u00edsero elogio reservaste para as feias e tontas?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 feia t\u00e3o tola que n\u00e3o possa nas belas e sabidas fazer mossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh ignor\u00e2ncia maci\u00e7a! Fizeste maior elogio das piores. Mas que dir\u00e1s em louvor da mulher verdadeiramente merecedora de enc\u00f4mios, que, escudada em seu merecimento, obriga a render-se \u00e0 pr\u00f3pria maledic\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 A que bela foi sempre, n\u00e3o vaidosa, e, podendo falar, n\u00e3o foi verbosa; a que, tendo ouro \u00e0 larga, n\u00e3o se enfeita, e, coibindo-se, diz: numa outra feita; a que, ofendida e a ponto de vingar-se, sabe conter-se e a f\u00faria deixa alar-se; a que n\u00e3o fosse n\u00e9scia que trocasse salm\u00e3o por bacalhau com alegre face; a que pensasse e n\u00e3o dissesse nada e aos chichisb\u00e9us fugisse recatada; tal mulher, se existisse, claro seja&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 De que fora digna?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 De criar pasc\u00e1cios e provar cerveja.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! Semelhante conclus\u00e3o \u00e9 por demais coxa, muito d\u00e9bil. Em\u00edlia, n\u00e3o aprendas nada com ele, embora seja teu marido. Que pensais, C\u00e1ssio? N\u00e3o \u00e9 um conselheiro licencioso e de muito m\u00e1 l\u00edngua?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A linguagem dele \u00e9 rude, de fato, minha senhora; \u00e9 preciso ficardes apreciando nele mais o soldado do que o erudito.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Ele a segura pela m\u00e3o. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha t\u00e3o pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de C\u00e1ssio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas pr\u00f3prias cortesias. Tendes raz\u00e3o: \u00e9 assim mesmo. Se vierdes a perder o posto de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido n\u00e3o ter beijado tantas vezes os tr\u00eas dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! \u00c9 assim mesmo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Levais mais uma vez os dedos \u00e0 boca? Quisera que vos servissem com outras tantas c\u00e2nulas de clister&#8230; (<i>Ouve-se toque de trombeta.<\/i>) Mouro! Conhe\u00e7o o som da trombeta dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 ele mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vamos ao encontro dele para receb\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ei-lo que chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Otelo e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Minha linda guerreira!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Caro Otelo!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Tanto contentamento quanto espanto me causa ver que antes de mim chegastes. \u00d3 alegria de minha alma! Caso viesse sempre depois da tempestade semelhante bonan\u00e7a, poderiam soprar os ventos de acordar a morte. Que o meu barquinho escale montes de \u00e1gua t\u00e3o altos quanto o Olimpo e, ap\u00f3s, afunde tanto quanto distar do c\u00e9u o inferno. A morte, agora, para mim seria uma felicidade, pois t\u00e3o grande \u00e9 a ventura que da alma se me apossa, que n\u00e3o pode, receio-o, reservar-me outra igual o futuro nebuloso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Permita o c\u00e9u que nosso amor e nossa felicidade cres\u00e7am como os dias que ainda temos de vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Am\u00e9m, poderes inef\u00e1veis! N\u00e3o posso falar muito sobre esse assunto. Sinto-me abafado: \u00e9 excessiva alegria. (<i>Beijando Desd\u00eamona.<\/i>) Recebe este, e este tamb\u00e9m. Que a \u00fanica disc\u00f3rdia de nossos cora\u00e7\u00f5es tenha este aspecto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Oh! Por enquanto estais bem afinados; mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal m\u00fasica; t\u00e3o certo como eu ser gente honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vamos logo para o castelo. Trago novidades, caros amigos. Acabou-se a guerra; os turcos se afogaram. Como passam os moradores da ilha, meus amigos? Vais ser amor, muito querida em Chipre. Em todos encontrei muita amizade. \u00d3 minha doce amiga, estou pulando de um assunto para outro, desconexo; tanta felicidade me estonteia. Por obs\u00e9quio, bom Iago, vai ao porto, desembarca meus cofres e conduze ao forte o comandante. \u00c9 um homem digno; seus m\u00e9ritos imp\u00f5em s\u00f3 respeito. Desd\u00eamona, subamos. Novamente: \u00e9s mui bem-vinda a Chipre.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Iago e Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vai logo encontrar-me no porto. Aproxima-te. Se fores um rapaz valente, sendo verdade, como dizem, que as pessoas de baixa extra\u00e7\u00e3o, quando apaixonadas revelam mais nobreza do que seria de esperar de sua natureza: escuta-me. Hoje \u00e0 noite o tenente ficar\u00e1 de vigia no corpo da guarda. Para come\u00e7ar, preciso dizer-te o seguinte: Desd\u00eamona est\u00e1 apaixonada por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Por ele? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 P\u00f5e o dedo assim e deixa que tua alma se instrua. Recorda a viol\u00eancia com que de in\u00edcio ela amou o Mouro, s\u00f3 por causa de suas fanfarronadas e de suas aventuras mentirosas. Am\u00e1-lo-ia sempre por sua tagarelice? Que o teu cora\u00e7\u00e3o discreto n\u00e3o acredite em semelhante coisa. Ela precisar\u00e1 espairecer a vista; e que deleite poder\u00e1 encontrar na contempla\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio? Quando o sangue se torna pesado pelo ato do prazer, para inflam\u00e1-lo de novo e para despertar o apetite \u00e0 saciedade \u00e9 preciso que o amante seja de apar\u00eancia agrad\u00e1vel e que haja uma esp\u00e9cie de simpatia quanto \u00e0 idade, os costumes e os encantos pessoais, o de que o Mouro carece por completo. Ora, n\u00e3o existindo esses requisitos vantajosos, sua ternura delicada ficar\u00e1 desiludida, sentir\u00e1 n\u00e1useas, revelando, por fim, repulsa e asco pelo Mouro. A pr\u00f3pria natureza lhe ensinar\u00e1 essas coisas, levando-a a fazer uma segunda escolha. E agora, senhor, uma vez admitido isso \u2014 proposi\u00e7\u00e3o mais do que certa e n\u00e3o for\u00e7ada \u2014 quem se acha mais alto do que C\u00e1ssio na escada dessa felicidade? \u00c9 um tipo vol\u00favel, cuja escrupulosidade s\u00f3 vai at\u00e9 ao ponto de permiti-lo assumir a simples forma de uma apar\u00eancia af\u00e1vel e educada, para melhor satisfazer os apetites mais inconfessos e licenciosos. Ningu\u00e9m mais! Ningu\u00e9m mais! \u00c9 um tipo astucioso e equ\u00edvoco, sempre \u00e0 cata de oportunidades, com um olho que pode cunhar e falsificar vantagens, muito embora a verdadeira vantagem nunca chegue a se apresentar&#8230; Um sujeito diab\u00f3lico! Ao lado disso, de figura apresent\u00e1vel, mo\u00e7o, com todos os requisitos que atraem o olhar do povinho inexperiente e desmiolado; \u00e9 um biltre pestilencioso a conta inteira, que j\u00e1 chamou a aten\u00e7\u00e3o da mulherzinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 N\u00e3o posso acreditar em tal coisa, em se tratando dela; \u00e9 exornada das mais celestes qualidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Celestes, uma figa! O vinho que ela bebe \u00e9 feito de uva; se fosse celeste, nunca se teria apaixonado do Mouro. Um pudim celeste! N\u00e3o viste como ela brincava com a m\u00e3o dele? N\u00e3o observaste isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Vi, sem d\u00favida; mas era por simples cortesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Lasc\u00edvia, por esta m\u00e3o! \u00cdndice e pr\u00f3logo obscuro de uma hist\u00f3ria de lux\u00faria e de pensamentos libidinosos. Ficaram com os l\u00e1bios t\u00e3o pr\u00f3ximos, que seus h\u00e1litos se abra\u00e7aram. Pensamentos torpes, Rodrigo! Quando essas reciprocidades iniciam a campanha, segue-lhe no rasto a manobra principal, a conclus\u00e3o carnal. Ora! Mas, senhor, deixai-vos guiar por mim. Trouxe-vos de Veneza. Ficai de guarda hoje \u00e0 noite; eu mesmo vos indicarei o ponto. C\u00e1ssio n\u00e3o vos conhece; n\u00e3o ficarei muito longe. Arranjai oportunidade de irritar C\u00e1ssio, ou falando-lhe muito alto, ou transgredindo suas determina\u00e7\u00f5es, ou por qualquer outro meio que a ocasi\u00e3o vos sugerir.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ele \u00e9 violento e se encoleriza com facilidade, podendo acontecer que vos bata. Provocai-o, para que ele fa\u00e7a isso mesmo, pois pretendo valer-me desse pretexto, justamente, para amotinar o pessoal de Chipre, cuja pacifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser restabelecida com a destitui\u00e7\u00e3o de C\u00e1ssio. Desse modo, encurtareis o caminho de vossos desejos, gra\u00e7as aos meios que eu arranjar para promov\u00ea-los, ficando removido com facilidade o obst\u00e1culo sem o qual n\u00e3o poderemos esperar nenhum \u00eaxito.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 \u00c9 o que farei, no caso de encontrar oportunidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Por isso eu me responsabilizo. Vai logo procurar-me no forte; tenho de desembarcar a bagagem do Mouro. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que amor lhe tenha C\u00e1ssio, \u00e9 o que acredito; que ela o ame, \u00e9 quase certo e compreens\u00edvel. O Mouro, embora eu suportar n\u00e3o o possa, por natureza \u00e9 firme, nobre e am\u00e1vel, tendo eu plena certeza de que ele h\u00e1 de ser o marido ideal para Desd\u00eamona. Mas eu tamb\u00e9m a amo, n\u00e3o por simples concupisc\u00eancia, muito embora eu seja tamb\u00e9m pass\u00edvel dessa grande falta. N\u00e3o; \u00e9 para saciar minha vingan\u00e7a, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corr\u00f3i as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites: \u00e9 mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ci\u00fame despertar no Mouro, que n\u00e3o possa cur\u00e1-lo o racioc\u00ednio. Para obter isso \u2014 caso este sabujo de Veneza, que \u00e0 trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme \u2014 pegarei Miguel C\u00e1ssio pelo flanco, pois temo que ele tamb\u00e9m tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amar\u00e1, ficar-me-\u00e1 reconhecido, e um pr\u00eamio me dar\u00e1 por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, at\u00e9 nas raias ir bater da loucura. Aqui est\u00e1 tudo. Meio confuso, \u00e9 certo; mas, inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at2c2\" name=\"at2c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua. Entra um arauto com uma proclama\u00e7\u00e3o; seguem-no pessoas do povo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO \u2014 \u00c9 vontade de Otelo, nosso nobre e valente general, que, por motivo das not\u00edcias do complexo desbarato da arma da turca, festejem todos esse triunfo com trajes alegres, ou seja dan\u00e7ando, ou acendendo fogueiras, ou entregando-se aos divertimentos e prazeres a que estiverem mais inclinados. Porque al\u00e9m dessas not\u00edcias auspiciosas, celebra Otelo tamb\u00e9m o seu casamento. Assim, determinou que se fizesse esta proclama\u00e7\u00e3o. Todas as lojas ficar\u00e3o abertas, havendo inteira liberdade de divers\u00e3o, desde agora, cinco horas da tarde, at\u00e9 dar o sino o sinal das onze. Que o c\u00e9u aben\u00e7oe a ilha de Chipre e o nosso nobre general Otelo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at2c3\" name=\"at2c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala no castelo. Entram Otelo, Desd\u00eamona, C\u00e1ssio e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Caro Miguel, cuidai da guarda \u00e0 noite. Mostremos pelo exemplo a decorosa modera\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o haja excesso nas festas permitidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 J\u00e1 dei ordens, para Iago, a esse respeito. N\u00e3o obstante, pessoalmente irei ver tudo de perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Iago \u00e9 pessoa honesta. Boa noite, Miguel; quanto mais cedo for poss\u00edvel, vinde amanh\u00e3 falar-me. (<i>A Desd\u00eamona.<\/i>) Vamos, querida; j\u00e1 fizemos a compra; ora \u00e9 preciso saber aproveit\u00e1-la com ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Otelo, Desd\u00eamona e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Iago.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sede bem-vindo, Iago. Precisamos ir para a guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ainda falta muito tempo, tenente; n\u00e3o s\u00e3o dez horas. Nosso general nos despediu assim t\u00e3o cedo por amor de sua Desd\u00eamona, pelo que, ali\u00e1s, n\u00e3o podemos censur\u00e1-lo; ainda n\u00e3o passou uma noite regalada com ela, que \u00e9 um pratinho para Jove.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 uma senhora admir\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 deliciosa, posso asseverar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Realmente, uma criatura muito lou\u00e7\u00e3 e delicada.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E que olhos tem! Soam-me como um convite para o assalto.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Olhar atraente, de fato, mas muito modesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E quando fala, n\u00e3o parece uma alvorada para o amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9, de fato, a perfei\u00e7\u00e3o em pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito bem; felicidade para seus len\u00e7\u00f3is. Vamos, tenente; tenho um quartal de vinho e a\u00ed fora um par de galantes chipriotas que de bom grado beberiam \u00e0 sa\u00fade do negro Otelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o hoje \u00e0 noite, meu bom Iago; tenho a cabe\u00e7a muito fraca para bebidas. Desejara que a cortesia inventasse outras maneiras de manifestarmos a alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh! s\u00e3o nossos amigos! Um copo, somente; beberei em vosso lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 S\u00f3 bebi esta noite um copo, e assim mesmo muito dilu\u00eddo; mas, apesar disso, podeis ver que desarranjo produziu aqui. \u00c9 um defeito lastim\u00e1vel; n\u00e3o quero p\u00f4r \u00e0 prova mais uma vez a minha fraqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, homem! A noite, hoje, \u00e9 de folia! Os rapazes que insistem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Onde se encontram?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Aqui, \u00e0 porta; chamai-os, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vou faz\u00ea-lo, mas a contragosto. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Se eu puder empurrar-lhe mais um copo al\u00e9m do que ele j\u00e1 bebeu \u00e0 tarde, ficar\u00e1 t\u00e3o rixendo e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, \u00e0 sa\u00fade de Desd\u00eamona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais tr\u00eas rapazes de alto e nobre esp\u00edrito, que em dist\u00e2ncia prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles ir\u00e3o tamb\u00e9m dar guarda. Ora, no meio de tantos b\u00eabados, farei que C\u00e1ssio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a seq\u00fcela, meu barco correr\u00e1 com vento e vela.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta C\u00e1ssio, acompanhado de Montano e v\u00e1rios cavalheiros. Entram criados com vinho.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por Deus! J\u00e1 me fizeram beber uma boa caneca.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Pequenita, por minha f\u00e9; n\u00e3o chegava a uma pinta; t\u00e3o certo como eu ser soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Tragam-nos vinho, ol\u00e1! (<i>Canta.<\/i>) Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!&#8230; A vida \u00e9 quente, soldado \u00e9 gente&#8230; Soldado&#8230; que leve a breca! Mais vinho, rapazes!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por Deus, excelente can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Aprendi-a na Inglaterra, onde se bebe, em verdade, largamente. Vosso dinamarqu\u00eas, vosso alem\u00e3o e vosso holand\u00eas pan\u00e7udo \u2014 \u00e0 sa\u00fade, ol\u00e1! \u2014 s\u00e3o nada, comparados com os ingleses.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vosso ingl\u00eas \u00e9 t\u00e3o entendido em bebidas, assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, com a maior facilidade ele bebe de matar vosso dinamarqu\u00eas n\u00e3o chega a suar para derrubar vosso alem\u00e3o e faz vosso holand\u00eas vomitar antes de encherem de novo a caneca.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c0 sa\u00fade do nosso general!<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 O mesmo eu digo, tenente; fa\u00e7o-vos justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh, doce Inglaterra! (<i>Canta.<\/i>) O rei Est\u00eav\u00e3o, mui digno par, deu pelas cal\u00e7as uma coroa; mas achou caro; n\u00e3o quer pagar; chama o alfaiate de coisa \u00e0-toa. Era de casa de grande fama; mas tu n\u00e3o passas de um gafanhoto. O orgulho o reino joga na lama; por isso veste teu manto roto. Mais vinho, ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Essa can\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais esquisita do que a outra.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Desejais que a repita?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o, porque considero indigno de seu posto quem se conduz por esse modo. Sim, Deus est\u00e1 acima de tudo; h\u00e1 almas que devem salvar-se e h\u00e1 almas que n\u00e3o devem salvar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 certo, meu bom tenente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 No que me diz respeito \u2014 longe de mim a inten\u00e7\u00e3o de ofender o general ou qualquer outra pessoa de posi\u00e7\u00e3o espero salvar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Eu tamb\u00e9m, tenente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sim; mas, com vossa permiss\u00e3o, n\u00e3o antes de mim; o tenente deve ser salvo antes do alferes. N\u00e3o falemos mais disso; voltemos para nosso trabalho. Deus perdoe nossos pecados. Cavalheiros, cuidemos da obriga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vades pensar, cavalheiros, que eu estou b\u00eabado. Este aqui \u00e9 o meu alferes; esta, a minha m\u00e3o direita; esta, a esquerda. Agora n\u00e3o estou b\u00eabado; posso manter-me de p\u00e9 e falar sem atrapalhar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Perfeitamente!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o, muito bem; n\u00e3o deveis imaginar que eu estej\u00e1 embriagado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 \u00c0 esplanada, senhores! Para a guarda!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vistes o tipo que saiu h\u00e1 pouco? \u00c9 soldado que a C\u00e9sar n\u00e3o desonra; digno de comandar. Mas vede o v\u00edcio, equin\u00f3cio adequado de seu m\u00e9rito: um, t\u00e3o longo quanto o outro. Faz-me pena. Temo sinceramente que a confian\u00e7a que Otelo nele deposita, possa numa hora aziaga sacudir esta ilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Fica assim muitas vezes?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sempre o pr\u00f3logo esse \u00e9 do sono dele. Duas voltas completas do rel\u00f3gio ele consegue ficar de sentinela, quando o vinho n\u00e3o lhe sacode o leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Bom seria que ao general fal\u00e1ssemos sobre isso. Decerto ignora tudo; ou, porventura, sua bondade louva em C\u00e1ssio apenas a virtude aparente, sem das faltas tomar conhecimento. N\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>\u00e0 parte, a Rodrigo<\/i>) \u2014 Que h\u00e1 de novo, Rodrigo? Por obs\u00e9quio, ide atr\u00e1s do tenente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 \u00c9 lastim\u00e1vel que o nobre Mouro arrisque um lugar desse, em import\u00e2ncia logo ap\u00f3s o dele, com um sujeito tachado de fraqueza. A\u00e7\u00e3o honesta fora algu\u00e9m com o Mouro falar a esse respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Eu, n\u00e3o! Nem mesmo por esta formosa ilha. Gosto muito de C\u00e1ssio; hei de fazer todo o poss\u00edvel para cur\u00e1-lo dessa enfermidade. Mas, escutai! Que barulheira \u00e9 essa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRITOS (<i>dentro<\/i>) \u2014 Socorro! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e1ssio, empurrando Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Miser\u00e1vel! Patife!<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Que acontece, tenente?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Um pulha destes, pretendendo ensinar-me o dever. Pois vou infl\u00e1-lo numa garrafa, \u00e0 custa de pauladas.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Bater em mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ainda resmungas, choldrar? (<i>Bate em Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO (<i>segurando C\u00e1ssio<\/i>) \u2014 Meu bom tenente, calma, por obs\u00e9quio! Detende a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Senhor, deixai-me livre; caso contr\u00e1rio, amasso-vos o cr\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Deixai disso; estais b\u00eabado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Eu, b\u00eabado?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Lutam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>\u00e0 parte, a Rodrigo<\/i>) \u2014 Sa\u00ed, vos digo. Ide tocar alarma. (<i>Sai Rodrigo.<\/i>) N\u00e3o, meu caro tenente! Oh Deus! Senhores! Socorro, ol\u00e1! Tenente! Bom Montano! Socorro, ol\u00e1! Que bela guarda temos! (<i>O sino toca.<\/i>) Quem estar\u00e1 tocando o sino? Diabo! V\u00e3o alarmar toda a cidade. Calma! Calma, senhores! Calma! Para sempre vos heis de envergonhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Otelo e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Com a breca! Estou sangrando; estou ferido gravemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Parai, por vossas vidas!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Calma, tenente! Cavalheiros, calma! Porventura perdestes todo o senso do dever e lugar? Parai! Que opr\u00f3brio!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ent\u00e3o, que aconteceu? Como foi isso? Viramos turcos para permitir-nos o que o c\u00e9u n\u00e3o consente aos otomanos? Pelo pudor crist\u00e3o, parai com essa gritaria de b\u00e1rbaros. Aquele que se mexer para saciar a raiva, n\u00e3o faz caso da vida; \u00e9 homem morto. Fazei calar esse terr\u00edvel sino, que ele espanta a ilha e a tira de seus h\u00e1bitos. Que aconteceu, senhores? Honesto Iago, pareces morto de tristeza; dize-me: quem come\u00e7ou? Por teu amor, intimo-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o sei; amigos \u00e9ramos h\u00e1 pouco, neste momento, em termos como noivos, quando se despem antes de ir deitar-se. De repente, agorinha mesmo, como se algum planeta houvesse o mundo todo deixado dementado, espadas fora, visando o peito um do outro, em sanguin\u00e1ria oposi\u00e7\u00e3o. Dizer n\u00e3o posso como principiou esta odiosa diferen\u00e7a. Fora melhor haver no campo de honra perdido as pernas que me conduziram para ser parte nisto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Qual a causa, Miguel, de vos haverdes esquecido de v\u00f3s mesmo a este ponto?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 S\u00f3 vos pe\u00e7o que me perdoeis, porque falar n\u00e3o posso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Digno Montano, sempre fostes probo; conhece o mundo a calma e a gravidade de vossa mocidade; vosso nome grande \u00e9 na boca dos ju\u00edzes s\u00e1bios. Que aconteceu, para que vossa fama desabotoeis assim e a vossa rica reputa\u00e7\u00e3o gasteis s\u00f3 pelo nome de brigador noturno? Respondei-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Digno Otelo, ferido estou de morte. Iago, vosso oficial, pode informar-vos \u2014 porque eu me poupe, que falar me cansa \u2014 tudo o que sei. N\u00e3o sei de nada errado que esta noite eu tivesse dito ou feito, a n\u00e3o ser que o amor-pr\u00f3prio seja um v\u00edcio e pecado nos pormos em defesa, quando algu\u00e9m nos ataca.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Agora, pelo c\u00e9u, sinto que o sangue come\u00e7a a dirigir-me o entendimento, e que a paix\u00e3o, j\u00e1 tendo obscurecido minha raz\u00e3o, procura arrebatar-me. Se eu me mexer ou levantar o bra\u00e7o, o melhor dentre v\u00f3s cair\u00e1 ao peso de minha repreens\u00e3o. Dizei-me como teve princ\u00edpio esse tropel est\u00fapido, quem foi o causador. Quem quer que tenha sido o culpado de t\u00e3o cru delito \u2014 irm\u00e3o g\u00eameo me fosse, de um s\u00f3 parto \u2014 de mim o afastarei. Pois como! Numa pra\u00e7a de guerra inquieta ainda, todos com o cora\u00e7\u00e3o a transbordar de medo, provocarem quest\u00f5es particulares, de noite e no local, precisamente, da guarda e seguran\u00e7a! Oh! \u00c9 monstruoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Se raz\u00f5es de amizade ou de hierarquia a dizer te levarem mais ou menos do que a verdade, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9s soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o me aperte assim. Preferiria que da boca esta l\u00edngua me cortassem, a ofender de algum modo a Miguel C\u00e1ssio. Mas convencido estou de que a verdade mal nenhum lhe far\u00e1. Eis como tudo se passou, general. Eu e Montano a conversar est\u00e1vamos. De s\u00fabito, a gritar por socorro entra um sujeito perseguido por C\u00e1ssio, que, de espada desembainhada, a ponto se encontrava de desferir-lhe um golpe. Este fidalgo, senhor, deteve C\u00e1ssio, procurando demov\u00ea-lo do intento. Eu sa\u00ed logo em p\u00f3s do tipo que corria aos berros, para ver se evitava que seus gritos \u2014 como se deu, de fato \u2014 provocassem o alarma na cidade. Mas, dotado de p\u00e9 velozes, ele, em pouco tempo, me frustrou a inten\u00e7\u00e3o, tendo eu achado mais prudente voltar, por ter ouvido tinir de espadas e exaltadas juras proferidas por C\u00e1ssio, o que imposs\u00edvel me fora acreditar at\u00e9 esta noite. Ao retomar porque tudo isso fora obra de alguns momentos \u2014 encontrei-os engalfinhados, em defesa e ataque, tal como estava, quando aqui chegastes, para vir separ\u00e1-los. \u00c9 tudo quanto sei sobre esse assunto. Mas os homens s\u00e3o homens, e por vezes o melhor pode errar. Embora C\u00e1ssio houvesse feito alguma ofensa ao outro \u2014 pois quando arrebatados, machucamos at\u00e9 o melhor amigo \u2014 estou convicto de que ele recebeu do que fugia uma dessas inj\u00farias nunca ouvidas, que admitir a paci\u00eancia n\u00e3o consegue.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Iago, sei bem que a tua honestidade e teu bom cora\u00e7\u00e3o ora te levam a atenuar este assunto, para que ele pese menos em C\u00e1ssio. C\u00e1ssio, estimo-te; mas nunca mais ser\u00e1s meu oficial. (<i>Entra Desd\u00eamona, acompanhada.<\/i>) Vede! Acordaram minha terna esposa! (<i>A C\u00e1ssio.<\/i>) Um castigo exemplar pretendo dar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Tudo est\u00e1 bem querida. Retorna para o leito. (<i>A Montano.<\/i>) Desses golpes, senhor, o cirurgi\u00e3o serei eu pr\u00f3prio. Levai-o logo. (<i>Montano \u00e9 conduzido.<\/i>) Iago, inspeciona bem toda a cidade e tranq\u00fciliza os que essa vil querela possa ter alarmado. Vem, Desd\u00eamona; \u00e9 sempre assim a vida de um soldado: ter ami\u00fade o sono despertado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Iago e C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Qu\u00ea! Estais ferido, tenente?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sim, sem possibilidade de cura.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh! N\u00e3o o permita o c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Reputa\u00e7\u00e3o, reputa\u00e7\u00e3o, reputa\u00e7\u00e3o! Oh! perdi a reputa\u00e7\u00e3o, perdi a parte imortal de mim pr\u00f3prio, s\u00f3 me tendo restado a bestial. Minha reputa\u00e7\u00e3o, Iago; minha reputa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 T\u00e3o certo como eu ser um homem honesto, pensei que houvesses recebido algum ferimento no corpo; h\u00e1 mais preju\u00edzo nisso do que na reputa\u00e7\u00e3o. A reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ap\u00eandice ocioso e enganador; obtido, muitas vezes, sem merecimento, e perdido sem nenhuma culpa. N\u00e3o perdestes nenhuma reputa\u00e7\u00e3o, a menos que vos considereis como tendo sofrido semelhante perda. Que \u00e9 isso, homem! H\u00e1 muitos meios de reconquistar a estima do general; fostes despedido apenas em um momento de mau humor; um castigo aplicado mais por considera\u00e7\u00f5es de ordem geral do que por maldade, justamente como no caso de bater algu\u00e9m em seu c\u00e3ozinho inofensivo, para amedrontar um le\u00e3o tem\u00edvel. Implorai-lhe perd\u00e3o e ele se tornar\u00e1 vosso outra vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Preferira implorar o seu desprezo a enganar um comandante t\u00e3o bom com um oficial t\u00e3o leviano, b\u00eabado e indiscreto. Embriagado! Falando como papagaio! Provocar brigas, fazer fanfarronadas, jurar e falar empolado com a pr\u00f3pria sombra! \u00d3 esp\u00edrito invis\u00edvel do vinho! Se n\u00e3o \u00e9s ainda conhecido por nenhum nome, recebe o de dem\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quem era o sujeito a quem persegu\u00edeis de espada em punho? Que vos havia feito?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Recordo-me de uma infinidade de coisas, mas nada distintamente; de uma briga, por\u00e9m n\u00e3o de seus motivos. Oh Deus! Terem os homens o inimigo na pr\u00f3pria boca, para roubar-lhes o c\u00e9rebro! Constituir para n\u00f3s alegria, prazer, divertimento e j\u00fabilo isso de nos transformarmos em brutos!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mas \u00e9 interessante que estais agora inteiramente l\u00facido! De que modo recuperastes os sentidos assim t\u00e3o depressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Aprouve ao dem\u00f4nio da embriaguez ceder o lugar ao dem\u00f4nio c\u00f3lera. Uma imperfei\u00e7\u00e3o me mostra outra, ensinando-me a detestar-me sem reservas.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, vamos; sois um moralista muito severo. Considerando-se o momento, o lugar e as condi\u00e7\u00f5es da cidade, sinceramente, eu preferira que tudo isso n\u00e3o houvesse acontecido; mas j\u00e1 que \u00e9 como \u00e9, tratai de consertar as coisas em proveito pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vou pedir-lhe que me reintegre no meu posto; ele vai responder-me que eu sou um b\u00eabado. Se eu tivesse tantas bocas como a hidra, semelhante respostas mas entupiria todas. H\u00e1 pouco eu era um indiv\u00edduo ajuizado; logo depois, um tolo; e neste momento, um bruto. Oh! \u00e9 terr\u00edvel! E amaldi\u00e7oado todo copo bebido fora da conta, sendo o seu conte\u00fado o pr\u00f3prio diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vamos, vamos; o bom vinho \u00e9 um camarada bondoso e de confian\u00e7a, quando tomado com sabedoria; n\u00e3o continueis a falar mal dele. E, meu bom tenente, creio que tendes \u00e7erteza de que vos tenho amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 J\u00e1 tive disso sobejas provas, senhor. Eu, b\u00eabado!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, homem! V\u00f3s, ou qualquer pessoa viva podeis embriagar-vos de vez em quando. Vou dizer-vos o que deveis fazer. A mulher do nosso general \u00e9 agora o general. Posso exprimir-me dessa maneira, por ter-se ele devotado e dedicado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, ao exame e \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de suas partes e gra\u00e7as. Falai-lhe com franqueza; importunai-a, que ela vos ajudar\u00e1 a reconquistar esse lugar. \u00c9 de uma disposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o franca e generosa, t\u00e3o bondosa e aben\u00e7oada, que em sua bondade considera v\u00edcio n\u00e3o fazer mais do que o que se lhe pede. Pedi-lhe que conserte a fratura da articula\u00e7\u00e3o existente entre v\u00f3s e o marido dela. E todos os meus bens contra qualquer coisa sem valor em como essa fratura do vosso amor vai ficar mais forte do que era antes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Dais-me um bom conselho.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Podeis crer que o fa\u00e7o com a maior sinceridade e com afei\u00e7\u00e3o honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Tenho certeza disso; logo que amanhecer, vou pedir \u00e0 virtuosa Desd\u00eamona que interceda a meu favor. Perderei a confian\u00e7a na sorte, se ela me for contr\u00e1ria neste passo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Tendes raz\u00e3o. Boa noite, tenente; preciso ir para a guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Boa noite, honesto Iago. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quem poder\u00e1 dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei \u00e9 honesto e leal, muito plaus\u00edvel e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque \u00e9 muito f\u00e1cil de conseguir que a complacente Desd\u00eamona se empenhe em qualquer s\u00faplica honesta; \u00e9 dadivosa com a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa \u2014 muito embora para ele se tratasse de abrir m\u00e3o do batismo, das ins\u00edgnias e s\u00edmbolos de uma alma redimida \u2014 tanto ele o cora\u00e7\u00e3o traz encadeado na afei\u00e7\u00e3o de Desd\u00eamona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado, por ter mostrado a C\u00e1ssio esse caminho que vai dar ao seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial apar\u00eancia lhes emprestam, tal como agora fa\u00e7o. Pois, enquanto este imbecil honesto pede \u00e0 bela Desd\u00eamona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz s\u00f3 por lux\u00faria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, h\u00e1 de perder o cr\u00e9dito. Transformarei em pez sua virtude, e com a pr\u00f3pria bondade apresto a rede que h\u00e1 de a todos pegar. (<i>Volta Rodrigo.<\/i>) Ent\u00e3o, Rodrigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Sigo-te nesta ca\u00e7ada n\u00e3o como um cachorro que persegue, mas como o que apenas completa a matilha. J\u00e1 gastei quase todo o meu dinheiro; esta noite fui sovado de rijo, estando certo de que o resultado final consistir\u00e1 em ganhar experi\u00eancia \u00e0 custa pr\u00f3pria, e, assim, sem dinheiro nenhum e com um pouco mais de sabedoria, voltar para Veneza.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Qu\u00e3o pobre \u00e9 quem carece de paci\u00eancia! Qual \u00e9 a ferida que n\u00e3o sara aos poucos? Bem sabes que eu trabalho com a cabe\u00e7a, n\u00e3o por meio de m\u00e1gica, e em tudo depende aquela do tardio tempo. N\u00e3o vai tudo t\u00e3o bem? C\u00e1ssio bateu-te; e em troca dessas dores de brinquedo fizeste que ele o seu lugar perdesse. Posto sazone o sol todos os frutos, os da primeira flora\u00e7\u00e3o se tornam maduros mais depressa. S\u00ea paciente. Mas, pela Missa! J\u00e1 \u00e9 quase dia! Os folguedos e a a\u00e7\u00e3o as horas fazem parecer muito curtas. Mas retira-te; vai logo para o teu alojamento. N\u00e3o te demores, digo; mais de espa\u00e7o te contarei o que h\u00e1. Vamos, retira-te. (<i>Sai Rodrigo.<\/i>) E agora, duas coisas: sobre C\u00e1ssio, falar minha mulher junto \u00e0 senhora; vou concit\u00e1-la j\u00e1. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar C\u00e1ssio, quando falando estiver este com Desd\u00eamona. Esse \u00e9 o caminho certo; que a tardan\u00e7a n\u00e3o me fa\u00e7a perder a seguran\u00e7a. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO III<\/h2>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Chipre. Diante do castelo. Entram C\u00e1ssio e alguns m\u00fasicos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Mestres, cantai; pagar-vos-ei o inc\u00f4modo. Algo bem curto; e, ao fim, falai desta arte: \u201cBom dia, general!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ol\u00e1, mestres! Vossos instrumentos estiveram em N\u00e1poles, para falarem assim pelo nariz?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Como assim, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por obs\u00e9quio: \u00e9 a isso que chamais instrumentos de vento?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ent\u00e3o eles devem ter um ap\u00eandice.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Como ap\u00eandice, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, senhor, como muitos instrumentos de vento que eu conhe\u00e7o. Mas, caros mestres, trago-vos este dinheiro. O general aprecia tanto vossa m\u00fasica, que em nome da amizade vos pede n\u00e3o continuardes com esse barulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Perfeitamente, senhor; n\u00e3o continuaremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se tiverdes alguma m\u00fasica que n\u00e3o se ou\u00e7a, ent\u00e3o que venha essa; mas com a que se ouve, o general n\u00e3o se preocupa, nem eu tampouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Dessa esp\u00e9cie n\u00e3o temos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Nesse caso, enfiai as flautas nos sacos, porque preciso retirar-me. Vamos! Desaparecei no ar! Toca!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os m\u00fasicos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Est\u00e1s ouvindo, meu honesto amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o estou ouvindo vosso honesto amigo; estou vos ouvindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por obs\u00e9quio, p\u00e1ra com essas gra\u00e7as. Aqui tens uma pequena moeda de ouro. Se a dama de companhia da senhora do general j\u00e1 estiver de p\u00e9, dize-lhe que aqui fora se encontra um certo C\u00e1ssio que solicita dela alguns momentos de aten\u00e7\u00e3o. Far-me-\u00e1s isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ela j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9, senhor; no caso de vir ela at\u00e9 este ponto, dar-lhe-ei vosso recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sim, caro amigo. (<i>Sai o bobo.<\/i>) (<i>Entra Iago.<\/i>) Em feliz hora, Iago.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o vos deitastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Oh, n\u00e3o! Raiou o dia, quando nos separamos. Tomei, Iago, a liberdade de mandar um pr\u00f3prio chamar vossa mulher; quero pedir-lhe o obs\u00e9quio de me obter uma entrevista com a virtuosa Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sem falta, farei que vos procure agora mesmo. Al\u00e9m do mais, vou arranjar um meio para distrair o Mouro e, assim, poderdes falar de vosso assunto livremente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 De todo cora\u00e7\u00e3o vos agrade\u00e7o. (<i>Sai Iago.<\/i>) Nunca vi florentino t\u00e3o honesto e servi\u00e7al.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Bom dia, bom tenente. Estou penalizada por vos terdes desavindo com Otelo. Mas em pouco, tudo acabar\u00e1 bem. Neste momento o general e a esposa falam nisso, com ardor pleiteando ela vossa causa. Mas o Mouro lhe objeta que a pessoa que feristes \u00e9 em Chipre conceituada e de alta parentela, aconselhando-o por isso, a demitir-vos a prud\u00eancia. Por outro lado, afirma que vos ama, n\u00e3o tendo precis\u00e3o de outros padrinhos al\u00e9m da afei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, e que s\u00f3 espera momento azado para reintegrar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Contudo, vos suplico \u2014 se julgardes conveniente ou poss\u00edvel \u2014 a vantagem me obterdes de eu falar a s\u00f3s com ela, numa entrevista curta.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Por obs\u00e9quio, acompanhai-me. Arranjarei as coisas de modo que possais com liberdade desafogar o peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Agradecido vos sou de todo o cora\u00e7\u00e3o por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c2\" name=\"at3c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram Otelo, Iago e gentis-homens.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Iago, entrega estas cartas ao piloto, e que ao Senado ele me recomende. Nesse entrementes, vou olhar as obras; vai ter comigo l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Perfeitamente, meu bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Quereis, meus caros nobres, inspecionar aquela fortaleza?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIS-HOMENS \u2014 Estamos ao dispor de Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c3\" name=\"at3c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante do castelo. Entram Desd\u00eamona, C\u00e1ssio e Em\u00edlia.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcilo, meu bom C\u00e1ssio; farei por v\u00f3s o que me for poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Sim, bondosa senhora; meu marido se aborreceu tanto com isso, como se fosse dele o caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! Que homem de valor! N\u00e3o tenhais d\u00favida, C\u00e1ssio, que hei de fazer que v\u00f3s e Otelo vos torneis bons amigos como dantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Generosa senhora, seja a sorte qual for de Miguel C\u00e1ssio, nunca ele h\u00e1 de ser outra coisa, sen\u00e3o t\u00e3o-somente vosso leal servidor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Tenho certeza disso e vos agrade\u00e7o. Amais a Otelo; h\u00e1 muito o conheceis. Ficai, pois, certo que a frieza dele durar\u00e1 somente, enquanto as conveni\u00eancias o exigirem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Pois n\u00e3o, senhora; mas as conveni\u00eancias poder\u00e3o ser morosas e viverem com dieta t\u00e3o aguada e delicada ou com tais circunst\u00e2ncias se nutrirem, que, ausente eu me encontrando e j\u00e1 ocupado meu posto, acabar\u00e1 por olvidar-se meu general do meu amor e pr\u00e9stimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que isso n\u00e3o te preocupe. Aqui, em frente de Em\u00edlia te asseguro o antigo posto. Podes ficar tranq\u00fcilo; quando eu fa\u00e7o um voto de amizade, cumpro-o \u00e0 risca. Meu marido n\u00e3o mais ter\u00e1 sossego; hei de amans\u00e1-lo \u00e0 custa de vig\u00edlias; sua paci\u00eancia ser\u00e1 posta \u00e0 prova; escola vai virar o leito dele; confession\u00e1rio, a mesa. Em tudo quanto quiser fazer, misturarei a s\u00faplica de C\u00e1ssio. Por tudo isso, C\u00e1ssio, alegra-te; porque, antes de desistir de tua causa h\u00e1 de a vida perder teu advogado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Iago e Otelo e se conservam a dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Senhora, a\u00ed vem meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Senhora, aqui despe\u00e7o-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Esperai para ouvir-me defender-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Noutra ocasi\u00e3o, senhora; estou indisposto e incapaz de servir meu pr\u00f3prio intuito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Como quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Isso n\u00e3o me agrada!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Nada, meu senhor; ou, talvez&#8230; J\u00e1 n\u00e3o sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o era C\u00e1ssio que estava a conversar com minha esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 C\u00e1ssio, senhor? Acreditar n\u00e3o posso que ele como culpado se esgueirasse, quando vos viu chegar.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Creio que era ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! meu marido! Estive a conversr com um suplicante; que vosso desfavor faz definhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 A quem vos referis?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! a vosso tenente C\u00e1ssio. Caro marido, se eu possuo gra\u00e7a ou for\u00e7a para vos comover, reconciliai-vos com ele desde j\u00e1. Se n\u00e3o se trata de uma pessoa que vos \u00e9 afei\u00e7oada sinceramente, e errou mais por descuido do que por inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei, de fato, reconhecer uma fei\u00e7\u00e3o honesta. Pe\u00e7o-te que o reintegres no seu posto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Daqui n\u00e3o saiu ele agora mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sim, e t\u00e3o abatido que comigo deixou parte das m\u00e1goas que ainda me compungem. Chama-o, caro!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Mais tarde, agora n\u00e3o, cara Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Mas ser\u00e1 logo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Logo que poss\u00edvel, minha querida, j\u00e1 que assim desejas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Hoje de noite, \u00e0 ceia?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 A noite, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o amanh\u00e3 cedo, \u00e0 hora do almo\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o estarei em casa amanh\u00e3 cedo; almo\u00e7arei com os capit\u00e3es no forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Quando? Amanh\u00e3 \u00e0 noite? Ou ter\u00e7a-feira pela manh\u00e3? ou \u00e0 noite? ou quarta-feira cedinho? Por obs\u00e9quio: marca a data; contanto que n\u00e3o passe de tr\u00eas dias. Arrependeu-se, \u00e9 certo. Ali\u00e1s, seu erro, segundo o s\u00e3o ju\u00edzo \u2014 se n\u00e3o fosse dizerem que na guerra \u00e9 necess\u00e1rio castigar os melhores, para exemplo \u2014 \u00e9 falta que mal pode ser punida. Quando poder\u00e1 vir? Dizei-me, Otelo. Pergunto-me, admirada, o que pod\u00edeis pedir-me que eu negasse, ou me deixasse vacilante a esse ponto. \u00c9 incompreens\u00edvel! Miguel C\u00e1ssio, esse mesmo que se achava convosco, quando a corte me fizestes, e que, mais de uma vez, se acontecia eu de v\u00f3s dizer algo em desacordo, vos defendia logo: terei tanto trabalho para reemposs\u00e1-lo agora? Acreditai-me: eu poderia muito&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por favor, n\u00e3o prossigas. Pois que venha, quando bem entender; n\u00e3o te recuso coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ora, isso n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a; \u00e9 como se eu pedisse que pus\u00e9sseis as luvas ou com\u00easseis pratos pingues, n\u00e3o vos resfri\u00e1sseis, insistindo muito sobre algo que vos fosse de proveito. N\u00e3o; se vos fa\u00e7o algum pedido, para p\u00f4r vosso amor \u00e0 prova, ser\u00e1 sempre de muito peso e mui penoso fardo, de grave concess\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o te recuso coisa nenhuma. Mas, por isso mesmo te suplico um favor; vais conceder-mo, deixando-me um pouquinho a s\u00f3s comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Eu, recusar-to? N\u00e3o. Adeus, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Adeus, querida; \u00e9 s\u00f3 por uns momentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Em\u00edlia, vamos logo. Seja tudo como vossos caprichos entenderem. Tal como fordes, hei de obedecer-vos. (<i>Sai com Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ador\u00e1vel criatura! Que minha alma a apanhe a perdi\u00e7\u00e3o, se eu n\u00e3o te amar; e se n\u00e3o te amo, que este mundo volte de novo para o caos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Nobre senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que queres, Iago?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Acaso Miguel C\u00e1ssio estava a par de vossos sentimentos, quando a corte fizestes \u00e0 senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Desde o in\u00edcio at\u00e9 o fim. Por que o perguntas?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Para satisfazer o pensamento; n\u00e3o h\u00e1 mal\u00edcia alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como, Iago! Que pensamento?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 que eu pensava que ele ent\u00e3o n\u00e3o a conhecesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Conhecia! Muitas vezes serviu de intermedi\u00e1rio entre n\u00f3s dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Realmente?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, realmente. Encontras algo, nisso, censur\u00e1vel? Ele n\u00e3o \u00e9 honesto?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Honesto, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Honesto, sim; honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Por tudo o que sei dele&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 E que \u00e9 que pensas?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que penso, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u201cQue penso, meu senhor?\u201d Oh! Pelo c\u00e9u! Ele me serve de eco! S\u00f3 parece que traz no pensamento um monstro horr\u00edvel, horr\u00edvel por demais, para ser visto. Alguma coisa deves ter em mente. H\u00e1 pouco, quando C\u00e1ssio se afastava, Iago, disseste-me: \u201cIsso n\u00e3o me agrada\u201d. Que \u00e9 que n\u00e3o te agrada? E ao declarar-te que ele de confidente me servira, quando eu fazia a corte \u00e0 minha esposa, exclamaste: \u201cRealmente?\u201d e contra\u00edste, fechaste o sobrecenho, parecendo que trancavas, ent\u00e3o, dentro do c\u00e9rebro, alguma id\u00e9ia horr\u00edvel. Caso me ames, revela-me o que pensas.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sabeis, senhor, quanto vos quero bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sei disso; e por saber quanto \u00e9s honesto, quanta afei\u00e7\u00e3o albergas, e que pesas tuas palavras antes de insuflar-lhes o sopro animador, mais intranq\u00fcilo me deixa o interromp\u00ea-las. Se essas coisas se passassem com algum sujeito \u00e0-toa, sem lealdade nem f\u00e9, eu as tomara por manhas habituais. Em se tratando, por\u00e9m, de um homem justo, s\u00e3o avisos e dela\u00e7\u00f5es sinceras, escapadas de um cora\u00e7\u00e3o que dominar n\u00e3o pode seus pr\u00f3prios movimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quanto a C\u00e1ssio, atrevo-me a jurar que ele \u00e9 honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 tamb\u00e9m o que eu penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou ent\u00e3o n\u00e3o parecer o que n\u00e3o fossem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, deveriam ser o que parecem.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sendo assim, considero C\u00e1ssio honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o; ocultas algo. Pe\u00e7o-te que me fales o que pensas, como as id\u00e9ias fores ruminando, e as mais terr\u00edveis digas com palavras mais terr\u00edveis tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Senhor, perdoai-me; mas conquanto obrigado esteja a todos os atos do dever, sinto-me livre para me recusar a fazer algo que dos pr\u00f3prios escravos n\u00e3o se exige. Qual \u00e9 o pal\u00e1cio em que n\u00e3o se introduzem, por vezes, coisas sujas? E que peito t\u00e3o puro pode haver, que n\u00e3o contenha culp\u00e1veis apreens\u00f5es, que n\u00e3o se assentem nos tribunais, para emitir senten\u00e7as lado a lado \u00e0s id\u00e9ias mais leg\u00edtimas?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Conspiras, Iago, contra teu amigo se, julgando-o ultrajado, seus ouvidos deixas como estrangeiros ao que pensas.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Suplico-vos, no caso de algo err\u00f4neo haver no que suspeito \u2014 pois confesso que minha natureza se ressente desse defeito de aventar maldades e que por vezes meu ci\u00fame inventa faltas que n\u00e3o existem \u2014 que ora a vossa sabedoria n\u00e3o empreste a m\u00ednima import\u00e2ncia a quem pensa por maneira t\u00e3o defeituosa, nem fundeis vexames no que ele possa ter conjeturado por modo t\u00e3o disperso e pouco firme. N\u00e3o fora de vantagem para vosso repouso e paz de esp\u00edrito, nem para minha sabedoria, honestidade, meus sentimentos de homens, conhecerdes o que ora estou pensando.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que pretendes dizer com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Um nome imaculado, caro senhor, para a mulher e o homem \u00e9 a melhor j\u00f3ia da alma. Quem da bolsa me priva, rouba-me uma ninharia; \u00e9 qualquer coisa, nada; pertenceu-me, \u00e9 dele, escravo foi de mil pessoas. Mas quem do nome honrado me espolia, me priva de algo que n\u00e3o o enriquece, mas me deixa paup\u00e9rrimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pelo c\u00e9u, saber quero o que ora pensas.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o o poder\u00edeis, mesmo que tiv\u00e9sseis meu cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, m\u00e1xime, achando-se ele sob minha guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Acautelai-vos senhor, do ci\u00fame; \u00e9 um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, n\u00e3o dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais n\u00e3o conta quem adora e duvida, quem suspeitas cont\u00ednuas alimenta e ama deveras!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh mis\u00e9ria!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quem com sua pobreza est\u00e1 contente, \u00e9 rico, muito rico; mas riquezas infinitas s\u00e3o como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, c\u00e9u bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ci\u00fames!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por qu\u00ea? Por que tudo isso? Cr\u00eas, de fato, que eu passaria a vida tendo ci\u00fames e as mudan\u00e7as da lua acompanhara com suspeitas crescentes? N\u00e3o; a d\u00favida j\u00e1 me traria a solu\u00e7\u00e3o do caso. Troca-me por um bode, se o andamento de minha alma eu torcer, com base apenas em infladas e v\u00e1cuas conjeturas, como ora as apresentas. N\u00e3o me deixa enciumado dizerem-me que minha mulher \u00e9 linda, que aprecia a mesa, gosta da sociedade, \u00e9 de linguagem mui desembara\u00e7ada, dan\u00e7a, canta e representa bem. Onde h\u00e1 virtude, tudo isso mais virtuoso, ainda, se torna. N\u00e3o tirarei de meu modesto m\u00e9rito o menor medo ou d\u00favida a respeito de seu procedimento; ela tinha olhos e me escolheu. N\u00e3o, Iago; primeiro hei de ver para duvidar. E ap\u00f3s a d\u00favida, precisarei de provas; feitas essas, uma s\u00f3 coisa resta: liquidemos de vez o amor e o ci\u00fame.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Isso me alegra, porque me enseja base suficiente para provar-vos com mais franco esp\u00edrito a afei\u00e7\u00e3o e lealdade que vos voto. Assim, j\u00e1 que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas n\u00e3o de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e C\u00e1ssio falam; lan\u00e7ai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. N\u00e3o desejara que vossa natureza leal e nobre v\u00edtima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Vigiai-os bem. Conhe\u00e7o minha terra; em Veneza as mulheres n\u00e3o se correm de confessar ao c\u00e9u as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: N\u00e3o deixes de fazer, mas em segredo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Cr\u00eas que seja assim mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia \u00e0 vossa vista, mais vos era afei\u00e7oada.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Tirai a conclus\u00e3o: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feiti\u00e7o&#8230; Mas confesso-me pass\u00edvel de censura. Humildemente vos pe\u00e7o me perdoeis tanta amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Obrigado te fico para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Percebo que ficastes abalado com o que vos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nada! Nem um pouco!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Em verdade, receio-o. Mas espero que considerareis tudo o que eu disse como oriundo, t\u00e3o-s\u00f3, do meu afeto. Mas estais comovido. Instantemente vos pe\u00e7o n\u00e3o tirar de meu discurso for\u00e7adas conclus\u00f5es, nem distend\u00ea-lo sen\u00e3o at\u00e9 \u00e0 suspeita.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Apenas isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Se tal fiz\u00e9sseis, meu senhor, tir\u00e1reis de minha fala conseq\u00fc\u00eancias crassas, que n\u00e3o me obriga a mente. Considero C\u00e1ssio meu digno amigo. Por\u00e9m vejo, senhor, quanto abalado&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nada disso! Mas n\u00e3o posso deixar de ter Desd\u00eamona como muito virtuosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vida longa tenha ela assim, e v\u00f3s tamb\u00e9m, guardando semelhante certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 No entretanto, como pode transviar-se a natureza&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim, esse \u00e9 o ponto. Para falar franco convosco: recusado haver propostas de casamento de sua pr\u00f3pria terra, estado e parentesco, em que se achara conforme em tudo a pr\u00f3pria natureza&#8230; Bah! poder-se-ia farejar no caso uma vontade mais do que corrupta, instintos pervertidos, pensamentos contr\u00e1rios \u00e0 natura. Mas perdoai-me; n\u00e3o avan\u00e7o essas coisas, tendo em vista a ela precisamente, muito embora chegue a recear que seus desejos possam vir dar de encontro a um ju\u00edzo mais sadio e com seus compatriotas confrontar-vos, levando-a, porventura, a arrepender-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Adeus, adeus; se de algo mais souberes, n\u00e3o deixes de contar-mo. D\u00e1 \u00e0 tua esposa a incumb\u00eancia de espi\u00e1-la. Deixa-me, Iago.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Despe\u00e7o-me, senhor. (<i>Retirando-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por que casei? Esta criatura honesta sabe mais, muito mais do que revela.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>retornando<\/i>) \u2014 Desejara, senhor, poder pedir-vos que n\u00e3o pens\u00e1sseis mais sobre esse assunto. Confiai-o ao tempo. Embora C\u00e1ssio deva ser reintegrado em seu antigo posto \u2014 em que, em verdade, ele se desempenha com muita habilidade \u2014 no entretanto se mant\u00ea-lo quis\u00e9sseis afastado mais algum tempo, poder\u00edeis logo conhecer o indiv\u00edduo e seus processos. Notai se vossa esposa pede a volta dele com insist\u00eancia muito inc\u00f4moda. J\u00e1 fora muita coisa. Nesse em meio, deixai-me parecer exagerado nos meus receios \u2014 como tenho causas para pensar que o seja \u2014 e inteiramente livre a deixai; \u00e9 o que a Vossa Honra eu pe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Serei discreto em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mais uma vez despe\u00e7o-me. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Esse rapaz \u00e9 a pr\u00f3pria honestidade; de esp\u00edrito experiente, os m\u00f3veis todos discernir sabe das a\u00e7\u00f5es humanas: Se ela se revelar falc\u00e3o rebelde, ainda que seus atilhos fossem fibras do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o que aqui me bate, assobiarei, soltando-a, para que alce v\u00f4o a favor do vento e fa\u00e7a presas como a sorte o ensejar. Porque sou negro e de fala mel\u00edflua n\u00e3o disponho qual petimetre, ou porque j\u00e1 me encontro no declive da idade \u2014 mas n\u00e3o tanto \u2014 ela se foi, havendo-me enganado. Meu consolo vai ser agora, apenas, ter avers\u00e3o por ela. Oh! Maldi\u00e7\u00e3o do casamento! Ser-nos facultado nossas chamas a essas criaturas fr\u00e1geis e n\u00e3o seus apetites! Preferira ser um sapo e viver s\u00f3 dos vapores de um c\u00e1rcere, a ceder uma part\u00edcula da coisa amada para que outrem a use. Serem os grandes sempre flagelados por ter quinh\u00e3o menor que o dos pequenos, \u00e9 coisa inevit\u00e1vel como a morte. Esta peste farpada j\u00e1 se achava para n\u00f3s destinada ao nascimento. Mas vede que ela chega! Se for falsa, \u00e9 que o c\u00e9u de si pr\u00f3prio est\u00e1 zombando.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Desd\u00eamona e Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o, querido Otelo? A ceia e os nobres insulanos que hav\u00edeis convidado est\u00e3o \u00e0 vossa espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sou pass\u00edvel de censura.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por que falais t\u00e3o fraco? Sentis-vos indisposto?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 D\u00f3i-me a fronte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00c9 que tendes velado todo o tempo. H\u00e1 de passar; deixai que vos aperte bem a cabe\u00e7a e heis de sarar numa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 por demais pequeno vosso len\u00e7o. (<i>Desd\u00eamona deixa cair o\u00a0 len\u00e7o.<\/i>) Deixai! Deixai! Vamos; irei convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Otelo e Desd\u00eamona.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Fico contente por haver achado justamente este len\u00e7o, que \u00e9 a primeira lembran\u00e7a a ela ofertada pelo Mouro. Meu estranho marido umas cem vezes me pediu que o roubasse. Mas t\u00e3o grato para ela \u00e9 o mimo \u2014 por pedir-lhe o esposo que o conservasse sempre \u2014 que a toda hora o traz consigo, e o beija, e com ele fala. Mandarei que me tirem uma c\u00f3pia e darei este a Iago. Qual a sua inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo; mas seus caprichos me despertam zelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Iago.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que fazeis aqui s\u00f3?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o vos zangueis; tenho um presente a dar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Um presente? Coisa \u00e9 muito comum&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 &#8230; ter uma mulher louca.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh! nada mais? Ent\u00e3o, que me dar\u00edeis por este len\u00e7o aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Como! Que len\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que len\u00e7o? Ora, o que o Mouro deu como primeiro mimo de seu amor, e me mandastes tantas vezes roubar.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Dela o tiraste?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o; por descuido ela o deixou cair. Aproveitando o ensejo, estando eu perto, levantei-o do ch\u00e3o. Ei-lo; aqui o vedes.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9s uma rapariga e tanto! D\u00e1-mo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que pretendeis fazer com ele, para que me ped\u00edsseis com tamanho empenho que o escamoteasse?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E que vos importa isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Arrebata-lhe o len\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Se n\u00e3o for para alguma coisa boa, restitu\u00ed-mo. Coitada da senhora! Ficar\u00e1 louca ao dar por falta dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Finge que nada sabes. Tenho emprego para ele. Podes ir. (<i>Sai Em\u00edlia.<\/i>) Dentro do quarto de C\u00e1ssio jogarei o len\u00e7o, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves com o ar, para quem tem ci\u00fames, s\u00e3o verdades t\u00e3o firmes como trechos da sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno j\u00e1 produziu altera\u00e7\u00f5es no Mouro. Certos conceitos s\u00e3o por natureza verdadeiros venenos que, de inicio, n\u00e3o provocam nenhuma repugn\u00e2ncia, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. N\u00e3o me engano. Ei-lo que chega! (<i>Entra Otelo.<\/i>) Agora, nem papoula, mandr\u00e1gora, nem todos os xaropes sonolentos do mundo poderiam dar-te de novo o doce sono de ontem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ah! Ah! Ela, enganar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ent\u00e3o, meu general? Parai com isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Retira-te! Retira-te! Puseste-me a tratos. Pelo c\u00e9u, \u00e9 prefer\u00edvel ser enganado muito, a saber pouco do que se passa.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Como, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que percep\u00e7\u00e3o eu tinha de suas horas roubadas de lux\u00faria? N\u00e3o sabia de nada, n\u00e3o pensava em coisa alguma, nada me compungia. A noite toda dormia bem; livre me achava e alegre. N\u00e3o encontrava em sua boca os beijos de C\u00e1ssio. Quem n\u00e3o d\u00e1 por falta nunca de algo que lhe tirassem, continue na ignor\u00e2ncia, pois nunca foi roubado.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Entristece-me ouvir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Feliz teria sido, muito embora todo o campo, inclusive a recovagem, lhe tivesse provado o doce corpo, sem que eu conhecimento houvesse disso. Oh! mas agora, adeus tranq\u00fcilidade de esp\u00edrito! Oh! Adeus, contentamento! Para sempre. Adeus, tropas de penacho, ex\u00e9rcitos altivos, que em virtude mudam toda ambi\u00e7\u00e3o! Adeus! Adeus! Adeus cavalos relinchantes, trompas belicosas, tambores animosos, p\u00edfaros estrindentes, reais bandeiras, tudo o que o orgulho constitui, a pompa e a aparelhagem da gloriosa guerra! E a v\u00f3s tamb\u00e9m, adeus, mortais engenhos, cujas rudes gargantas os estrondos terrorantes imitam do alto Jove: a obra de Otelo j\u00e1 n\u00e3o tem sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 poss\u00edvel, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Infame, d\u00e1-me a prova de que minha mulher \u00e9 prostituta. Fica certo: quero prova evidente; ou, pelo m\u00e9rito de minha alma imortal, melhor te fora teres nascido c\u00e3o que responderes agora \u00e0 minha c\u00f3lera desperta.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Chegamos a esse ponto?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Quero prova vis\u00edvel ou, no m\u00ednimo, uma coisa que n\u00e3o tenha nem gancho nem presilha onde a d\u00favida possa pendurar-se. Se n\u00e3o, ai de tua vida!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito nobre senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se a caluniaste e me torturas, rezar j\u00e1 n\u00e3o precisas; abandona todo o remorso; sobre o horror empilha novos horrores; com teus crimes faze chover o c\u00e9u, estarrecer a terra: n\u00e3o acrescentar\u00e1s mais nada \u00e0 tua condena\u00e7\u00e3o que aquilo sobrepuje.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh Gra\u00e7a! C\u00e9u, ampara-me! Sois homem? Tendes alma e sentidos! Deus vos guarde. Tirai-me o posto. \u00d3 desgra\u00e7ado idiota, teres vivido at\u00e9 hoje, para veres tachar de v\u00edcio tua honestidade! Mundo monstruoso! Toma nota, mundo! \u00c9 perigoso ser sincero e honesto. Agrade\u00e7o a li\u00e7\u00e3o; mas doravante renuncio \u00e0 amizade, pois ofensa pode causar quem nisso menos pensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o, fica; deverias ser honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o; devera ser s\u00e1bio. A honestidade, como tolo, ao patr\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 preju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pelo mundo! Ora penso que \u00e9 virtuosa, ora penso que \u00e9 infiel; sincero te acho, e, ao mesmo tempo, falso. Quero provas. O nome dela, que era t\u00e3o singelo como o rosto de Diana, ora se encontra como meu pr\u00f3prio rosto: negro e sujo. Se cordas ainda houver, facas, veneno, fogo ou \u00e1gua asfixiante, ent\u00e3o n\u00e3o hei de suportar esse insulto. Oh! se eu tivesse uma prova qualquer!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Meu senhor, vejo que a paix\u00e3o vos corr\u00f3i. Arrependido me sinto por ter sido a causa disso. Querer\u00edeis a prova?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Quereria, n\u00e3o; quero!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Podeis t\u00ea-la. De que modo? Como haveis de vos dar por convencido? Aberta a boca, ficareis no posto de espectador est\u00fapido, no instante em que ela for coberta?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Morte e inferno.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convenc\u00ea-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo que os carregue, se poss\u00edvel for a olhar de mortais, tirante o deles, v\u00ea-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? N\u00e3o vos ser\u00e1 poss\u00edvel ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e t\u00e3o grosseiros como o ser mais alvar, quando embriagado. Contudo, vos direi, se alguns ind\u00edcios, circunst\u00e2ncias de peso, que conduzem diretamente \u00e0 porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de t\u00ea-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 D\u00e1-me uma prova real de que ela \u00e9 falsa.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o me agrada esse of\u00edcio. Mas j\u00e1 que fui t\u00e3o longe nesse caso, levado pela honestidade est\u00fapida e a amizade, t\u00e3o-s\u00f3, n\u00e3o me detenho. Passei com C\u00e1ssio uma das noites \u00faltimas; mas por estar sentindo dor de dentes, n\u00e3o podia dormir. Ora, h\u00e1 pessoas de alma t\u00e3o largada que no sono revelam seus neg\u00f3cios. C\u00e1ssio \u00e9 dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmurava: \u201cDesd\u00eamona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!\u201d Ent\u00e3o, senhor, pegando-me das m\u00e3os e as apertando, suspirava: \u201cOh criatura ador\u00e1vel!\u201d e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus l\u00e1bios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: \u201cOh fado amaldi\u00e7oado, que te foi entregar para esse Mouro!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Monstruoso! Monstruoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mas tudo isso era somente sonho.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, mas sonho que experi\u00eancias passadas nos inculcam; suspeita atroz, embora s\u00f3 de sonhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E que podem deixar mais consistentes outras provas que t\u00eanues ainda se achem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vou deix\u00e1-la em peda\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sede cauto; ainda n\u00e3o vimos nada; \u00e9 bem poss\u00edvel que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: n\u00e3o vistes porventura na m\u00e3o de vossa esposa, algumas vezes, um len\u00e7o com bordados de morangos?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dei-lhe um assim; foi meu primeiro mimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ignorava esse fato; por\u00e9m tenho certeza plena de ter hoje visto C\u00e1ssio passar na barba um len\u00e7o desses, que foi de vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se era o mesmo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 O mesmo, ou outro qualquer dos len\u00e7os dela, \u00e9 prova muito forte, ao lado de outras.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Se a escrava tivesse dez mil vidas! Uma s\u00f3 ser\u00e1 pouco, muito pouco, para minha vingan\u00e7a. Agora vejo que tudo era verdade. Iago, olha aqui: sopro assim para o c\u00e9u meu amor n\u00e9scio; j\u00e1 n\u00e3o existe. Negra vingan\u00e7a, surge do oco inferno! Passa tua coroa, \u00f3 amor, e o trono do cora\u00e7\u00e3o para o \u00f3dio mais ferino! Intumesce-te, peito, com tua carga de l\u00ednguas de serpentes!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ficai calmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Sangue! sangue! sangue!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de id\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Jamais, Iago. Tal como o Ponto Euxino, cuja corrente fria e o forte curso n\u00e3o se ressentem do refluxo nunca, e seguem sem parar para a Prop\u00f4ntida, para o Helesponto: assim meus pensamentos sanguin\u00e1rios, com passos furibundos avan\u00e7am sempre, sem jamais olharem para tr\u00e1s nem reflu\u00edrem para o amor, at\u00e9 que uma vingan\u00e7a avassalante e ampla os envolva e absorva. (<i>Ajoelhando-se.<\/i>) Por aquele c\u00e9u de m\u00e1rmore, empresto a essas palavras a gravidade de um sagrado voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o vos levanteis ainda. (<i>Ajoelha-se.<\/i>) Testemunhas me sede, luzes sempiternas do alto; v\u00f3s, tamb\u00e9m, elementos, que por todas as partes nos cingis: Iago dedica as m\u00e3os, o cora\u00e7\u00e3o e todo o esp\u00edrito ao ultrajado Otelo. Dando ele ordens, por mais cru\u00e9is que sejam, ser\u00e1 caso, para mim, de consci\u00eancia, obedecer-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Agrade\u00e7o teu voto, n\u00e3o com termos formais, apenas, mas com sentimento de gratid\u00e3o, estando decidido a recorrer j\u00e1 aos teus servi\u00e7os: nestes tr\u00eas dias quero que me digam que C\u00e1ssio j\u00e1 morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Morto est\u00e1 meu amigo; ser\u00e1 feita vossa vontade. Mas poupai Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que baixe para o inferno essa lasciva prostituta! Que baixe para o inferno! Fica \u00e0 parte comigo; retirar-me desejo, para refletir nalguma modalidade suave de exterm\u00ednio para esse belo diabo. Doravante ser\u00e1s o meu tenente.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E eu me declaro vosso por toda a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante do castelo. Entram Desd\u00eamona, Em\u00edlia e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Maroto, por acaso sabes onde pousa o tenente C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o me atrevo a dizer que ele pouse em qualquer parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por qu\u00ea, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por ser ele soldado; dizer que um soldado pousa, \u00e9 arriscar-se a ser apunhalado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vamos, dize, maroto! Onde ele mora?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se eu vos dissesse onde ele mora, era o mesmo que dizer onde iria p\u00f4r o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Haver\u00e1 quem possa entender isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o sei onde ele mora; se lhe atribu\u00edsse qualquer morada e vos dissesse que ele se deita neste ou naquele lugar, seria p\u00f4r em risco o pr\u00f3prio pesco\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 E n\u00e3o poderias informar-te a esse respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vou catequizar o mundo inteiro a respeito dele, isto \u00e9, apresentar perguntas e responder a elas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vai procur\u00e1-lo e dizer-lhe que venha at\u00e9 aqui. Participa-lhe que eu j\u00e1 deixei meu marido inclinado a seu favor, e que espero termine tudo bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Semelhante incumb\u00eancia cai dentro do \u00e2mbito do entendimento humano; por isso vou tent\u00e1-la. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Onde eu deixei aquele len\u00e7o, Em\u00edlia?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o sei, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Podes crer: preferira ter perdido minha bolsa, repleta de cruzados. N\u00e3o fosse ter meu pobre Mouro o esp\u00edrito estreme de suspeita e das esc\u00f3rias das criaturas ciumentas, essa perda poderia inspirar-lhe pensamentos de todo maus.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ele n\u00e3o \u00e9 ciumento?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Quem? Ele? Ao vir ao mundo, estou bem certa, o sol lhe retirou do sangue todos os humores do ci\u00fame.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ei-lo que chega!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o o deixarei, enquanto no seu posto n\u00e3o tiver sido C\u00e1ssio reintegrado. (<i>Entra Otelo.<\/i>) Como passais, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dai-me essa m\u00e3o. \u00damida est\u00e1, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 At\u00e9 este instante, n\u00e3o conheceu velhice nem cuidados.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Isso revela desperd\u00edcio e, em tudo, cora\u00e7\u00e3o liberal. \u00damida e quente! Esses sinais indicam que \u00e9 preciso cercear a liberdade e, assim, impor-vos jejuns e rezas, pios exerc\u00edcios e mortifica\u00e7\u00f5es, pois um dem\u00f4nio suarento aqui demora, que costuma rebelar-se. A m\u00e3o tendes muito boa, muito franca, em verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 A v\u00f3s assiste raz\u00e3o para afirm\u00e1-lo, pois foi ela que de meu cora\u00e7\u00e3o vos fez presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 M\u00e3o liberal. Os cora\u00e7\u00f5es antigos davam m\u00e3os; mas a nova ci\u00eancia her\u00e1ldica de cora\u00e7\u00e3o carece; s\u00f3 tem m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sobre isso nada entendo. Mas falemos outra vez da promessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que promessa, minha pomba?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Mandei recado a C\u00e1ssio, para vos vir falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Estou sofrendo de um catarro importuno. Por obs\u00e9quio, empresta-me teu len\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ei-lo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Aquele que vos dei.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o o tenho aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Realmente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 grande falta. Esse len\u00e7o foi dado a minha m\u00e3e por uma eg\u00edpcia. Era uma feiticeira que podia ler, quase, os pensamentos das pessoas. Disse-lhe, ent\u00e3o, que enquanto o conservasse, grata a meu pai seria, e ao amor dela preso o teria sempre. Mas no caso de perd\u00ea-lo ou presente fazer dele, os olhos de meu pai com repugn\u00e2ncia passariam a v\u00ea-la e seu esp\u00edrito correria ap\u00f3s outras fantasias. Ao morrer, minha m\u00e3e mo deu de heran\u00e7a, tendo recomendado que, no instante em que o destino me trouxesse esposa, com ele a presenteasse, o que j\u00e1 fiz. Tomai cuidado, pois, e o tende sempre como j\u00f3ia t\u00e3o cara quanto os olhos. Perd\u00ea-lo ou d\u00e1-lo a algu\u00e9m fora desgra\u00e7a de propor\u00e7\u00f5es incr\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00c9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 como estou dizendo. Seu tecido cont\u00e9m virtude m\u00e1gica; por uma sibila que na terra j\u00e1 contara do sol duzentas voltas foi bordado durante acessos de furor prof\u00e9tico. De vermes consagrados viera o fio, que tinto foi no suco retirado de cora\u00e7\u00f5es de virgens e habilmente conservado at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Realmente! \u00c9 certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Mais do que certo. Assim, tomai cuidado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Quem dera, ent\u00e3o, que nunca o houvesse visto!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por que causa me falais assim brusco e violento?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Foi perdido? Como? Dizei-me: n\u00e3o podeis ach\u00e1-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 O c\u00e9u nos aben\u00e7oe.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Perdido n\u00e3o se encontra. Mas, no caso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Repito: n\u00e3o est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ent\u00e3o trazei-o aqui; desejo v\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ora, senhor; faria, se o quisesse; mas n\u00e3o agora. Vejo que isso \u00e9 um meio para que eu n\u00e3o vos fa\u00e7a meu pedido. Por obs\u00e9quio, chamai de novo C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ide buscar o len\u00e7o; meu esp\u00edrito pressente algo funesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vamos, vamos; n\u00e3o achareis ningu\u00e9m mais competente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O len\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por favor, falai de C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O len\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Uma pessoa que durante toda a vida fundou sua fortuna. sobre vossa amizade e sempre esteve nos perigos convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O len\u00e7o, digo!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sois digno de censura.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Fora! Fora! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ent\u00e3o este homem n\u00e3o ser\u00e1 ciumento?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Nunca o vi assim antes. \u00c9 certeza conter aquele len\u00e7o algo de extraordin\u00e1rio. Desolada me sinto com sua perda.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Nem dois anos s\u00e3o suficientes para conhecermos os homens. S\u00e3o est\u00f4mago, somente, e n\u00f3s, os alimentos. Todos eles nos devoram com \u00e2nsia; mas, repletos, nos vomitam. Oh! C\u00e1ssio e meu marido!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Iago e C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 outro caminho sen\u00e3o esse; ela h\u00e1 de consegui-lo. Oh! Quanta sorte! Insisti junto dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o, bom C\u00e1ssio, que h\u00e1 de novo convosco?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ainda e sempre, minha senhora, aquele meu pedido. Pe\u00e7o-vos que, por vossa interfer\u00eancia virtuosa, eu existir outra vez possa, voltando a ser um membro da amizade de quem com todo o cora\u00e7\u00e3o venero. Basta de dila\u00e7\u00f5es; se minha falta t\u00e3o mortal se afigura, que os servi\u00e7os passados, as tristezas do presente e a determina\u00e7\u00e3o de comportar-me melhor para o futuro n\u00e3o conseguem devolver-me a amizade de meu chefe, que ao menos disso eu possa ter certeza. J\u00e1 me fizera bem, pois assumira alegria for\u00e7ada e me dispunha a aguardar o que a sorte me aprestasse por vias diferentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh, tr\u00eas vezes am\u00e1vel C\u00e1ssio! Minha intercess\u00e3o, neste momento, est\u00e1 desafinada. Otelo est\u00e1 mudado; n\u00e3o me fora f\u00e1cil reconhec\u00ea-lo, se o car\u00e1ter alterado tivesse como o rosto. T\u00e3o certo como eu desejar a ajuda dos esp\u00edritos do alto, vossa causa foi por mim defendida com carinho, chegando eu, at\u00e9 mesmo, a transformar-me no alvo do seu desgosto pela minha franqueza de falar. \u00c9 necess\u00e1rio mostrardes-vos paciente. Farei quanto me for poss\u00edvel; farei mais, ainda, do que me atreveria em causa pr\u00f3pria. Que isso vos satisfa\u00e7a por enquanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 O general acaso est\u00e1 irritado?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Saiu daqui agora mesmo e, certo, num estado de estranha agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ele, irritado? \u00c9 incr\u00edvel. Muitas vezes, muitas, vi o canh\u00e3o lan\u00e7ar seus homens pelos ares e, como atroz dem\u00f4nio, seu pr\u00f3prio irm\u00e3o dos bra\u00e7os arrancar-lhe. Mostrar-se ele irritado? Alguma coisa de grave aconteceu. Vou procur\u00e1-lo. Se est\u00e1 irritado, \u00e9 que h\u00e1 motivo s\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Faze isso, por obs\u00e9quio. (<i>Sai Iago.<\/i>) Algum neg\u00f3cio, certamente, de Estado, ou de Veneza, ou conluio, talvez, aqui de Chipre turvou-lhe o claro esp\u00edrito. Em tais casos, da natureza humana \u00e9 muito pr\u00f3prio irritar-se por coisas despiciendas, quando se ocupa com raz\u00f5es de peso. \u00c9 sempre assim. Quando nos d\u00f3i o dedo, aos membros s\u00e3os ele transmite o inc\u00f4modo. N\u00e3o pensemos que os homens sejam deuses; esperar deles n\u00e3o podemos sempre tratamento de noivos. Mas tens muita raz\u00e3o, Em\u00edlia, para censurar-me, pois me portei como guerreira injusta, na alma o acusando de ter sido duro; mas vejo que peitei as testemunhas e o acusei falsamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Praza aos c\u00e9us que s\u00f3 sejam, mesmo, assuntos de Estado, como credes, n\u00e3o caprichos nem veneta de ci\u00fame, que vos digam respeito mui de perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh dia infausto! Nunca lhe dei motivo para tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Mas os ciumentos n\u00e3o atendem a isso; n\u00e3o precisam de causa para o ci\u00fame: t\u00eam ci\u00fame, nada mais. O ci\u00fame \u00e9 monstro que se gera em si mesmo e de si nasce.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que o c\u00e9u proteja o esp\u00edrito de Otelo de semelhante monstro.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Am\u00e9m, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vou procur\u00e1-lo. Neste em meio, C\u00e1ssio, ficai passeando aqui. Se o achar disposto, pleitearei vossa causa, sem recurso nenhum deixar de lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Agradecido vos fico humildemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Desd\u00eamona e Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bianca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Bom dia, amigo C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Que neg\u00f3cios vos tiraram de casa? Como passa minha formosa Bianca? Francamente, caro amor, ia agora procurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 E a vossa casa eu tamb\u00e9m ia, C\u00e1ssio. Uma semana ausente? Sete dias e sete noites? Cento e sessenta horas com mais oito de quebra? E horas passadas longe do amante, que mais longas s\u00e3o cento e sessenta vezes do que as horas do mostrador. Oh c\u00e1lculo penoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bianca, perd\u00e3o. Todo esse tempo estive premido por preocupa\u00e7\u00f5es de chumbo. Mas quando eu dispuser de alguma folga, riscarei essas d\u00edvidas da aus\u00eancia. Querida Bianca, (<i>Dando-lhe o len\u00e7o de Desd\u00eamona.<\/i>) tira c\u00f3pia disto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 De onde veio isto, C\u00e1ssio? Algum presente, decerto, de outra amiga. Agora entendo o motivo da aus\u00eancia t\u00e3o sentida. Chegamos a esse ponto? Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sa\u00ed da\u00ed, mulher! Jogai aos dentes do diabo vossas infernais suspeitas, pois dele as recebestes. S\u00f3 ficastes com ci\u00fame por pensardes que \u00e9 lembran\u00e7a de alguma amiga. Podeis crer-me, Bianca, juro que n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Ent\u00e3o, a quem pertence?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o sei, querida; achei-o no meu quarto. Mas gostei do trabalho; e antes que o venham reclamar \u2014 o que certo n\u00e3o demora \u2014 quero mandar copiar esse desenho. Levai-o, pois, deixando-me sozinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Deixar-vos? Para qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Espero aqui o general e penso de nenhuma vantagem ser por ele visto na situa\u00e7\u00e3o de amaridado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 E o motivo, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 por falta de amor da minha parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 \u00c9 s\u00f3 por falta de amor da vossa parte. Por obs\u00e9quio, acompanhai-me um pouco e declarai-me se ainda vos verei antes da noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o posso acompanhar-vos muito longe, pois neste ponto o espero. Ser\u00e1 logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Que assim seja; terei de conformar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c1\" name=\"at4c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<\/h2>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Chipre. Diante do Castelo. Entram Otelo e Iago.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ser\u00e1 cr\u00edvel tal coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Cr\u00edvel, Iago?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Beijar \u00e0s escondidas!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Foram beijos proibidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nua no leito, sem ruins inten\u00e7\u00f5es? Hipocrisia fora, com rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio diabo. Os que assim fazem com ten\u00e7\u00f5es virtuosas, a virtude lhes tenta o diabo, enquanto tentam eles o c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Se nada fazem \u00e9 um pecado venial. Por\u00e9m no caso de eu dar um len\u00e7o \u00e0 minha esposa&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, senhor; seria dela o len\u00e7o. E, dela sendo, penso que podia d\u00e1-lo a quem entendesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Da pr\u00f3pria honra ela \u00e9 tamb\u00e9m guardi\u00e3. Por isso pode fazer presente dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 A honra \u00e9 uma ess\u00eancia que n\u00e3o cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao len\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pelo c\u00e9u! Mui de grado me esquecera de semelhante coisa. Ias dizendo \u2014 Oh! \u00e0 mem\u00f3ria me retorna o assunto como o corvo aos lugares emprestados. gritando a todos \u2014 que ele tem meu len\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Bem; e depois?.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 coisa muito grave.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por a\u00ed fora, como certos biltres que \u2014 tendo conquistado alguma dama, ou por impertin\u00eancia nos assaltos, ou com o consentimento dela pr\u00f3pria. depois de convencida \u2014 de indiscretos falam por toda a parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 E ele, disse algo?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim, senhor. Mas podeis ter a certeza de que n\u00e3o disse nada que n\u00e3o possa negar sob juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que disse ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh c\u00e9u! Que tinham&#8230; Que sei eu?&#8230; Que tinha&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Qu\u00ea? Qu\u00ea? Falai.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Deitado&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Qu\u00ea! Com ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Deitar-se ele com ela! Em cima dela! Dizemos que algu\u00e9m se deita por cima dela, quando a est\u00e1 cobrindo. Deitar-se ele com ela! Oh! \u00e9 asqueroso! O len\u00e7o&#8230; a confiss\u00e3o&#8230; o len\u00e7o! Confessar, e, pelo trabalho: forca! Primeiro, a forca; depois a confiss\u00e3o. Estou tremendo. A natureza n\u00e3o se deixaria abafar por sentimentos t\u00e3o escuros, se n\u00e3o se tratasse de alguma advert\u00eancia. N\u00e3o me deixo abalar assim por meias palavras. Ora! Narizes, orelhas, l\u00e1bios&#8230; Ser\u00e1 poss\u00edvel? Confessai!&#8230; O len\u00e7o&#8230; Oh, diabo! (<i>Cai com um ataque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Trabalha, meu veneno! Trabalha! Desse modo \u00e9 que pegamos os idiotas cr\u00e9dulos. E \u00e9 assim, tamb\u00e9m, que muitas damas dignas e castas, sem sen\u00e3o, ficam faladas. Ol\u00e1, senhor! Senhor, repito! Otelo! (<i>Entra C\u00e1ssio.<\/i>) Ent\u00e3o, C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Que \u00e9 que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 um ataque de epilepsia que teve o general. Este \u00e9 o segundo, pois j\u00e1 teve um ontem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Friccionai-o nas t\u00eamporas.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Deixemo-lo. Deve seguir seu curso a letargia, sem atropelos. Do contr\u00e1rio, em breve, com a boca ficar\u00e1 cheia de espuma, caindo, ap\u00f3s, em furioso acesso de loucura. Ora vede: j\u00e1 se mexe. Ficai de lado por alguns instantes. Ele vai despertar. Ap\u00f3s sua ida, quero falar-vos de um assunto grave. (<i>Sai C\u00e1ssio.<\/i>) Como ent\u00e3o, general! N\u00e3o machucastes a cabe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 De mim est\u00e1s zombando?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Eu, zombando de v\u00f3s? N\u00e3o, pelo c\u00e9u. Como homem, suportai vosso destino.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O homem de chifres \u00e9 animal, \u00e9 monstro.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ent\u00e3o numa cidade populosa h\u00e1 muitos desses animais e muitos monstros civilizados.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ele pr\u00f3prio o contou?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Meu bom senhor, sede homem e lembrai-vos de que todo tipo de barba, quando sob a canga, pode puxar convosco o mesmo carro. H\u00e1 no mundo milh\u00f5es de homens que dormem \u00e0 noite em camas de outrem, cujos donos juram que s\u00e3o unicamente suas. Vosso caso \u00e9 melhor. Oh! \u00e9 ironia do inferno, arqui-sarcasmo do dem\u00f4nio beijar uma rameira em leito limpo e imagin\u00e1-la casta. N\u00e3o; preciso saber o que h\u00e1; sabendo o que sou mesmo, sei o que vai ser dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Tens raz\u00e3o; \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ficai um pouco \u00e0 parte; numa li\u00e7a paciente confinai-vos. Enquanto vos ach\u00e1veis dominado por vossa grande dor \u2014 paix\u00e3o impr\u00f3pria de um homem como v\u00f3s \u2014 C\u00e1ssio chegou. Mandei-o embora, dando uma desculpa para vosso desmaio, mas lhe disse que aqui voltasse para conversarmos, no que ele concordou. Ficai de espia e observai seus remoques e sarcasmos, o not\u00e1vel desd\u00e9m que se lhe expande do rosto todo, pois pretendo agora lev\u00e1-lo a relatar-me outra vez tudo: como, onde, de que modo, h\u00e1 quanto tempo, quantas vezes deitou-se e h\u00e1 de deitar-se com vossa esposa. Os gestos observai-lhe. Mas \u00e9 preciso calma. Do contr\u00e1rio, direi que estais col\u00e9rico e n\u00e3o tendes de homem coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ouves-me, Iago? Vou mostrar-me astucioso em minha calma, por\u00e9m \u2014 est\u00e1s me ouvindo? \u2014 sanguin\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 mal; mas tudo tem seu tempo. N\u00e3o quereis afastar-vos? (<i>Otelo se coloca \u00e0 parte.<\/i>) Bem; agora vou conversar com C\u00e1ssio sobre Bianca, rapariga que vende seus favores para comprar, com a venda, p\u00e3o e roupa. \u00c9 doidinha por C\u00e1ssio; mas \u00e9 sina das prostitutas enganarem muitos para por um, tamb\u00e9m, serem logradas. Quando ouve falar dela, quase estoura de tanto rir. A postos; a\u00ed vem ele. (<i>Volta C\u00e1ssio.<\/i>) Com isso Otelo vai ficar furioso; seus ci\u00fames ignorantes h\u00e3o de err\u00f4neo sentido dar aos gestos e sorrisos do pobre C\u00e1ssio e \u00e0 sua leviandade. \u2014 Ent\u00e3o, tenente, como estais agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Tanto pior, por me dardes esse t\u00edtulo, cuja falta me mata.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Com Desd\u00eamona falai sobre isso, que obtereis o posto. (<i>Abaixando a voz.<\/i>) Se de Bianca o pedido dependesse, tudo se arranjaria num momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ah! Coitadinha dela!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Vede! Vede! J\u00e1 come\u00e7ou a rir.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mulher alguma j\u00e1 vi que tanto amor tivesse a um homem, como ela vos dedica.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Pobre diaba! Creio que ela, realmente, me idolatra.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Escuta, C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Agora ele o importuna, para que a hist\u00f3ria conte por mi\u00fado. Continuai. Muito bem!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ela assoalha por a\u00ed fora que ides despos\u00e1-la. Haver\u00e1 sombra de verdade nisso?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ah ah, ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Romano, est\u00e1s triunfando? Est\u00e1s triunfando?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Eu, casar-me com ela? Uma mulher p\u00fablica? Por favor, sede mais complacente com meu esp\u00edrito, n\u00e3o imaginando que ele esteja t\u00e3o depravado. Ah, ah, ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Assim, assim ri quem est\u00e1 ganhando.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 o que vos digo: corre por a\u00ed o boato de que ides despos\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Por favor, deixai de brincadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quero ser um biltre, se n\u00e3o estiver dizendo a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 J\u00e1 me pusestes o ferrete? Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E aquela macaca mesma que anda dizendo isso. A id\u00e9ia de que eu possa despos\u00e1-la nasceu de sua pr\u00f3pria ilus\u00e3o, n\u00e3o de qualquer promessa de minha parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Iago me fez um sinal; vai come\u00e7ar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Neste momento ela esteve aqui; persegue-me por toda arte.H\u00e1 dias eu estava na praia a conversar com certos venezianos, quando, de repente, surge essa coisinha e me salta ao pesco\u00e7o, deste modo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 A suspirar: \u201cMeu querido C\u00e1ssio!\u201d O gesto expressivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ela se pendura em mim, gruda-me comigo e chora e me puxa e me repele deste modo&#8230; Ah, ah, ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Ele est\u00e1 contando agora como ela o puxou para o meu quarto. Oh! Estou vendo vosso nariz, mas n\u00e3o sei ainda para que c\u00e3o hei de atir\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Preciso afastar-me dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Santo Deus! Ei-la que vem chegando!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E uma outra doninha e, ainda por cima, perfumada. (<i>Entra B\u00edanca.<\/i>) Que pretendeis comigo, para me perseguirdes desse modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Que o diabo e sua m\u00e3e vos persigam! Que pretendeis fazer com aquele len\u00e7o que me destes h\u00e1 pouco? Fui uma grande tonta em aceit\u00e1-lo. E para eu tirar uma c\u00f3pia, pois n\u00e3o? E terei de acreditar que o achastes em vosso quarto, sem saber quem o deixara ali&#8230; \u00c9 presente de alguma sirigaita, e eu ainda terei de copiar o modelo! Pois aqui o tendes; dai-o a vossa queridinha. Tenha ele vindo de onde quer que seja, n\u00e3o copiarei coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Como assim, minha querida Bianca! Como assim!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Pelo c\u00e9u! Pode ser o meu len\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 E se quiserdes vir cear esta noite, podereis faz\u00ea-lo. Caso contr\u00e1rio, vireis quando tiverdes vontade. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Correi atr\u00e1s dela! Correi atr\u00e1s dela!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 o que precisarei fazer; se n\u00e3o, ela se por\u00e1 a dizer disparates por a\u00ed fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Pretendeis cear em casa dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Em verdade, pretendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Bem; \u00e9 poss\u00edvel que nos encontremos l\u00e1, porque tenho grande necessidade de falar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sim, por obs\u00e9quio. Ireis l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Parti logo; nem mais uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>avan\u00e7ando<\/i>) \u2014 Como fazer para mat\u00e1-lo, Iago?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Percebestes como ele ria de seu pr\u00f3prio ato pecaminoso?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh, Iago!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E vistes o len\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Era o meu?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim, o vosso, por esta m\u00e3o. Vede em que apre\u00e7o ele tem a tonta da vossa esposa. Ela lhe fez presente do len\u00e7o, e ele o deu a outra pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Desejaria levar nove anos a assassin\u00e1-lo. Uma mulher t\u00e3o bela, t\u00e3o encantadora, t\u00e3o meiga!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ser\u00e1 preciso esquecer tudo isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que ela apodre\u00e7a, que morra, que seja condenada esta noite mesmo. Porque n\u00e3o continuar\u00e1 viva. N\u00e3o! Meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 se tornou de pedra; ao golpe\u00e1-lo, sinto que me d\u00f3i a m\u00e3o. Oh! N\u00e3o havia criatura mais doce em todo o mundo; era digna de compartilhar do leito de um imperador e de ditar-lhe leis.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Estais vos afastando do assunto principal.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ela que se enforque! Disse apenas o que ela era. T\u00e3o habilidosa na agulha! T\u00e3o admir\u00e1vel na m\u00fasica! Oh! Com uma can\u00e7\u00e3o poderia domesticar um urso. Com um esp\u00edrito t\u00e3o rico e elevado, t\u00e3o inventivo!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Tudo isso s\u00f3 deixa mais censur\u00e1vel sua conduta.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, mil vezes mais. E de um car\u00e1ter t\u00e3o franco!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim, muito franco.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sem d\u00favida. Mas, que pena, Iago! Que pena, Iago!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Se vos encontrais t\u00e3o apaixonado de sua iniq\u00fcidade, concedei-lhe patente para pecar, porque se n\u00e3o fordes atingido, ningu\u00e9m mais o ser\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vou deix\u00e1-la reduzida a cacos&#8230; Enganar-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh! \u00c9 abomin\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Com o meu oficial!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mais abomin\u00e1vel, ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Arranja-me algum veneno, Iago. Esta noite. N\u00e3o quero ter com ela nenhuma explica\u00e7\u00e3o, de medo que seu corpo e seus encantos me desarmem a inten\u00e7\u00e3o. Esta noite, Iago.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no pr\u00f3prio leito que ela poluiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Bem, bem; agrada-me essa justi\u00e7a. Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quanto a C\u00e1ssio, deixai a meu cargo essa tarefa. L\u00e1 pela meia-noite ouvireis mais alguma coisa a esse respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Excelente. (<i>Ouve-se dentro um toque de trombeta.<\/i>) Que trombeta \u00e9 essa?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Not\u00edcia de Veneza, certamente. \u00c9 Ludovico, enviado pelo doge. E vede! Vossa esposa vem com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ludovico, Desd\u00eamona e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Deus vos guarde, mui digno general!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 De todo cora\u00e7\u00e3o vos agrade\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 O doge e os senadores de Veneza vos enviam saudar. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Beijo este int\u00e9rprete das ordens deles todos. (<i>Abre a carta e l\u00ea.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 E as novidades, bom primo Ludovico?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito alegre, signior, me deixa vossa vista. Sois bem-vindo a Chipre.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Agradecido. E como passa o tenente C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Senhor, vivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Houve uma certa desaven\u00e7a, primo, entre ele e meu marido. Mas espero que possais concili\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Tendes plena certeza disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Como, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u201cN\u00e3o deixeis de faz\u00ea-lo, quando houverdes&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 N\u00e3o vos chamou; a carta \u00e9 que o preocupa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Muito de lastimar. Daria tudo para reconcili\u00e1-los, pelo afeto que diquei sempre a C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Fogo e enxofre!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sois discreta?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que acontece, para ele estar zangado?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Com certeza isso \u00e9 efeito da carta, pois parece-me que ordem lhe veio de ir para Veneza, deixando C\u00e1ssio aqui no lugar dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Isso me alegra, podeis crer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Eu tamb\u00e9m fico contente por vos ver louca.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por que causa, Otelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dem\u00f4nia! (<i>D\u00e1-lhe uma bofetada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Mereci receber isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Houve excesso, senhor, de vossa parte. Ningu\u00e9m acreditara isso em Veneza, muito embora eu jurasse que o observara. Desculpas lhe pedi; est\u00e1 chorando.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh, dem\u00f4nio! Dem\u00f4nio! Se, com l\u00e1grimas de mulher fosse a terra fecundada, cada gota gerara um crocodilo. Fora da minha vista!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 J\u00e1 que minha presen\u00e7a vos ofende, eu me retiro. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Que esposa t\u00e3o cordata! Senhor, tende a bondade de cham\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que ordenais?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dizei-lhe agora que quereis dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Eu, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 V\u00f3s mesmo. Pedistes que a chamasse. Ei-la, senhor. Ela pode virar uma e mais vezes, ir embora, voltar de novo. Pode, tamb\u00e9m, chorar, senhor; chorar. \u00c9 muito cordata. Assim dissestes. Mui cordata. Continuai a chorar. \u2014 No que respeita a este assunto, senhor \u2014 oh sentimento bem pintado! \u2014 chamado fui de novo. \u2014 Podeis sair! mandar-vos-ei recado dentro de pouco. \u2014 Acatarei as ordens, senhor, e voltarei para Veneza. \u2014 Fora daqui! Depressa! \u2014 (<i>Sai Desd\u00eamona.<\/i>) Deixo C\u00e1ssio no meu lugar. Cearemos juntos hoje, caro senhor. Sois mui bem-vindo a Chipre. Bodes e micos! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 \u00c9 esse o nobre Mouro que nossos senadores n\u00e3o se cansam de proclamar perfeito e capac\u00edssimo? A criatura de prol que sacudida nunca \u00e9 pelas paix\u00f5es? Cuja virtude jamais foi atingida pelos tiros da sorte e os arremessos da fortuna?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Est\u00e1 muito mudado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Estar\u00e1 no uso perfeito da raz\u00e3o? N\u00e3o ter\u00e1 fraca, porventura, a cabe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ele \u00e9 o que \u00e9. Manifestar n\u00e3o devo o meu ju\u00edzo. Se ele n\u00e3o \u00e9 o que devera ser&#8230; Prouvera ao c\u00e9u que o fosse!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Inconceb\u00edvel! Bater na pr\u00f3pria esposa!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Isso, em verdade, n\u00e3o fica bem. Mas s\u00f3 quisera, mesmo, saber que o pior foi essa bofetada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 \u00c9 sempre assim? Ou, porventura, a carta no sangue atuando, \u00e0 fala deu origem?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ai de mim! Ser\u00e1 quebra de lealdade revelar o que sei ou tenho visto? V\u00f3s mesmo o observareis; sua conduta vai revel\u00e1-lo tal como \u00e9, poupando-me, assim, de dizer algo. Mas segui-o, para ver de que modo ele prossegue.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 D\u00f3i-me ter-me enganado a seu respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c2\" name=\"at4c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram Otelo e Em\u00edlia.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nada vistes, ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Nem ouvi nada, nem suspeitas tive.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por\u00e9m com C\u00e1ssio a conversar j\u00e1 a viste.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Mas nada vi de mal, e todas, todas as s\u00edlabas ouvi que pronunciaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o cochichavam?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Nunca, nunca, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nem mandavam que sa\u00edsses?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Nunca, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Para ir buscar o leque, sua m\u00e1scara, a luva, ou qualquer coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Nunca, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Apostaria que ela \u00e9 honesta, senhor, pondo minha alma, por causa dela, a tratos. Se outras coisas imaginais, tirai-as da cabe\u00e7a, que vos causam dist\u00farbio. Se algum biltre vos fez acreditar em tal absurdo, que fa\u00e7a o c\u00e9u cair sobre ele a pr\u00f3pria maldi\u00e7\u00e3o da serpente. Pois se honesta n\u00e3o for, casta e sincera, haver n\u00e3o pode marido algum feliz, porque a mais santa das esposas ainda \u00e9 mais horrenda do que a pr\u00f3pria cal\u00fania.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vai cham\u00e1-la. (<i>Sai Em\u00edlia.<\/i>) \u00c9 uma sutil rameira, gabinete muito seguro, chave dos segredos mais \u00edntimos. No entanto, ajoelhar pode para rezar. J\u00e1 a vi nessa postura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Em\u00edlia com Desd\u00eamona.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que desejais, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Aproximais-vos, minha pombinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que mandais que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Mostrai-me os olhos; frente a frente olhai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que fantasia horr\u00edvel \u00e9 essa agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO (<i>a Em\u00edlia<\/i>) \u2014 Reassumi por um pouco vosso of\u00edcio, minha senhora, a s\u00f3s alguns instantes deixando-nos procriar. Fechai a porta; tossi ou gritai \u201cHum!\u201d se virdes gente. Vosso mister! Vosso mister! Depressa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 De joelhos vos pergunto que \u00e9 que exprime semelhante discurso. Entendo a c\u00f3lera de vossas express\u00f5es, n\u00e3o as palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ora, que \u00e9s tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Senhor, sou vossa esposa, vossa esposa leal e verdadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vem jurar-me e condena-te, sim, para que, por um anjo te tomando, o diabo se tema de pegar-te. Assim, condena-te duas vezes, jurando que \u00e9s honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 O c\u00e9u sabe de tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O c\u00e9u bem sabe que \u00e9s falsa como o inferno.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Falsa como, meu senhor? Para quem? De que maneira vos tenho sido falsa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh c\u00e9u! Desd\u00eamona! Para tr\u00e1s! Para tr\u00e1s!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh dia horr\u00edvel! Por que chorais? Sou eu a causa dessas l\u00e1grimas, meu senhor? Se porventura suspeitais que meu pai tenha influ\u00eddo na ordem que vos mandaram a Veneza, n\u00e3o me imputeis a culpa. Se o perdestes, tamb\u00e9m eu o perdi.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se o c\u00e9u tivesse querido p\u00f4r-me \u00e0 prova de amarguras, mil cuidados e afrontas me fazendo cair sobre a cabe\u00e7a, na mis\u00e9ria mais profunda at\u00e9 aos l\u00e1bios me enterrando, e se me houvesse aprisionado e \u00e0s minhas mais caras esperan\u00e7as, eu teria nalguma parte de minha alma achado ao menos uma gota de paci\u00eancia. Mas, ai! na est\u00e1tua im\u00f3vel transformar-me que com o dedo que aos poucos se desloca marca a hora do escarninho&#8230; Tamb\u00e9m isso pudera suportar. Bem; muito bem. Mas onde eu tinha enceleirado o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, de onde eu tinha de ter vida, se morrer n\u00e3o quisesse; o nascedoiro que meu curso alimenta, para que ele n\u00e3o se resseque&#8230; Ser dali expulso, ou conserv\u00e1-lo como uma cisterna cheia de horr\u00edveis sapos, que se juntam para reproduzir!&#8230; Empalidece paci\u00eancia, querubim de l\u00e1bios r\u00f3seos, e enfarruscada fica como o inferno!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Estou certa de que meu nobre esposo me considera honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh, sim! Sem d\u00favida! como as moscas no a\u00e7ougue, que recebem vida da podrid\u00e3o. \u00d3 erva daninha, t\u00e3o bela ao parecer e t\u00e3o cheirosa que ofendes os sentidos! Oh! se nunca tivesses vindo ao mundo!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que pecado cheguei a cometer, sem que o soubesse?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Teria sido feito um t\u00e3o formoso papel, t\u00e3o belo livro, para nele ficar escrito o nome \u201cProstituta\u201d? Que cometeste? Como! Cometeste, mulher p\u00fablica? Destas minhas faces faria fr\u00e1guas que reduziriam a cinzas a mod\u00e9stia, se eu chegasse a dizer o que fazes. Cometeste? Tapa o nariz o c\u00e9u; a lua, os olhos; o z\u00e9firo lascivo que, \u00e0 passagem, beija tudo o que encontra, se acomoda no oco das minas para que n\u00e3o saiba tudo o que fazes. Como! Que fizeste, rameira descarada?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Injustamente me acusais, pelo c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o sois rameira?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o; t\u00e3o verdade, como eu ser crist\u00e3. Se este vaso guardar para o meu dono imune de qualquer contacto impuro for n\u00e3o ser prostituta, n\u00e3o sou isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como! N\u00e3o sois rameira?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o; t\u00e3o certo como quero ser salva.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 ent\u00e3o poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que o c\u00e9u de n\u00f3s se apiade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Nesse caso, pe\u00e7o perd\u00e3o, pois tinha-vos tomado pela rameira astuta de Veneza que desposara Otelo. \u2014 E v\u00f3s, senhora que o of\u00edcio oposto tendes de S\u00e3o Pedro na porteira do inferno! (<i>Volta Em\u00edlia.<\/i>) V\u00f3s! V\u00f3s mesma! J\u00e1 chegamos ao fim. Eis vossa paga. Passai a chave, por obs\u00e9quio, e sede discreta nisto tudo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh c\u00e9us, que id\u00e9ia veio a este cavalheiro? E v\u00f3s, senhora, como vos encontrais? Que estais sentindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Por minha f\u00e9, com muito sono.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Boa senhora, que acontece com meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Com quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ora, senhora; com meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Quem \u00e9 teu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 O vosso, boa dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Amo n\u00e3o tenho, Em\u00edlia; n\u00e3o me fales. Chorar n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel e n\u00e3o posso responder a n\u00e3o ser com muitas l\u00e1grimas. Por obs\u00e9quio, esta noite p\u00f5e na cama meu vestido de noiva. N\u00e3o te esque\u00e7as. E chama teu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que mudan\u00e7a radical houve aqui! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00c9 muito justo que ele me trate assim; \u00e9 muito justo. Que fiz eu para que ele pendurasse sua menor suspeita no mais \u00ednfimo descuido meu?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Em\u00edlia, com Iago.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que desejais, senhora? Como passais?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Dizer n\u00e3o posso nada. Os que educam crian\u00e7as usam meios brandos e lhes imp\u00f5em tarefas curtas. Ele bem poderia ter ralhado comigo desse modo, que, em verdade, sou como crian\u00e7a para ouvir censuras.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que aconteceu, minha senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh, Iago! Chamou-a o general de prostituta e o rosto lhe atirou t\u00e3o baixos termos, pesados e insultuosos, que um sincero cora\u00e7\u00e3o suportar n\u00e3o poderia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sou esse nome, Iago?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Bela dama, que nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 O nome que ela disse h\u00e1 pouco, que o meu senhor dissera a meu respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Chamou-lhe prostituta. Essa palavra nem mesmo um vagabundo, embriagado aplica \u00e0 sua am\u00e1sia.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 E a raz\u00e3o disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ignoro-a; por\u00e9m sei que n\u00e3o sou isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o choreis! N\u00e3o choreis! Oh dia triste!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ter renunciado a tantos casamentos, ao pr\u00f3prio pai, \u00e0 p\u00e1tria, aos conhecidos, para chamada ser de prostituta! N\u00e3o \u00e9 para fazer chorar a gente?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00c9 o meu triste destino.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Caiam nele todas as maldi\u00e7\u00f5es. E de que modo lhe veio essa loucura?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 O c\u00e9u o sabe.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Quero ser enforcada se tudo isso n\u00e3o for obra de algum vil\u00e3o diab\u00f3lico, de algum pulha insinuante e intrometido, de algum escravo que rasteja e adula para alcan\u00e7ar um posto e haja inventado semelhante cal\u00fania. Que me enforquem, se n\u00e3o for isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora essa! N\u00e3o existe um bomem desse jeito. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 E caso exista, o c\u00e9u que lhe perdoe.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Perdoe-lhe mas \u00e9 a forca e lhe corroa o inferno os ossos todos. Por que causa lhe chamou prostituta? Que pessoa recebeu ela? Em que lugar? que tempo? sob que pretexto? O Mouro foi logrado por algum miser\u00e1vel, algum pulha de baixeza not\u00f3ria, algum tinhoso. \u00d3 c\u00e9u! por que n\u00e3o nos descobres o homem e um chicote n\u00e3o p\u00f5es na m\u00e3o de todas as pessoas honestas, porque o biltre seja a\u00e7oitado, nu, por todo o mundo, de leste a oeste?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o faleis t\u00e3o alto, que ouvir podem l\u00e1 fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que ou\u00e7am todos! Um tipo desses foi que vosso esp\u00edrito virou no avesso, a suspeitar levando-vos de que eu com o Mouro tinha alguma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sois bem louca. Sa\u00ed!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00d3 bondoso Iago, como devo fazer para que possa reaver o meu marido? Ide falar-lhe, meu caro, pois, por esta luz celeste, n\u00e3o sei como o perdi. Aqui me ajoelho. Se a seu amor, em qualquer tempo, a minha vontade transgrediu, ou pelos meandros do pensamento ou por a\u00e7\u00f5es concretas; se pelos olhos ou qualquer sentido me veio algum prazer com refer\u00eancia a outra pessoa que n\u00e3o fosse a dele; se como at\u00e9 hoje, agora e em todo o tempo n\u00e3o lhe dedico o afeto mais sincero, muito embora a atirar-me ele ainda venha ao div\u00f3rcio indigente: que a alegria de todo me abandone. A grosseria consegue muito; sua austeridade pode destruir-me a vida, mas n\u00e3o h\u00e1 de jamais manchar-me o amor. Dizer n\u00e3o posso \u201cProstituta\u201d; horroriza-me somente pronunciar esse termo, sem que todas as vaidades do mundo conseguissem levar-me a realizar o menor ato que me fizesse merecer tal nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sossegai; \u00e9 um capricho passageiro; os neg\u00f3cios do Estado o irritam muito; por isso vos repreende.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! se fosse isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Posso afian\u00e7ar-vos; \u00e9 isso, t\u00e3o-somente. (<i>Trombetas.<\/i>) Ouvi! \u00c9 o toque que anuncia a ceia. Os mensageiros de Veneza aguardam para serem servidos. Ide logo; n\u00e3o choreis; tudo ainda acaba bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Desd\u00eamona e Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Acho que n\u00e3o est\u00e1s procedendo lealmente comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que tens a contestar?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Todos os dias tu me logras com algum pretexto, Iago, parecendo-me, agora, que, muito longe de obteres para mim a vantagem da menor esperan\u00e7a, afastadas de mim todas as oportunidades. Estou decidido a n\u00e3o suportar por mais tempo semelhante situa\u00e7\u00e3o, sem que me tenha convencido a digerir em sil\u00eancio tudo o que at\u00e9 agora venho sofrendo estupidamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quereis ouvir-me, Rodrigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Em verdade, j\u00e1 vos ouvi demais, porque vossas palavras e vossas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam nenhuma afinidade entre si.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Acusais-me injustamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 S\u00f3 digo o que \u00e9 verdade. Dissipei toda a minha fortuna; as j\u00f3ias que vos entreguei para que as d\u00e9sseis a Desd\u00eamona, teriam bastado para corromper uma freira. Dissestes-me que ela as havia aceito e me destes esperan\u00e7as e o consolo de uma aproxima\u00e7\u00e3o e de favores para breve, sem que nada disso se concretize.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Bem; continuai; muito bem!<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 \u201cMuito bem! Continuai!\u201d Desse jeito, homem, n\u00e3o poderei continuar, nem vai muito bem coisa nenhuma. Por esta m\u00e3o, afirmo que tudo isso \u00e9 muito indecente e que j\u00e1 come\u00e7o a perceber que estou sendo ludibriado.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Torno a dizer que nada est\u00e1 muito bem. Vou procurar Desd\u00eamona; se ela me devolver as j\u00f3ias, paro com minhas pretens\u00f5es e me arrependo das minhas solicita\u00e7\u00f5es il\u00edcitas. Caso contr\u00e1rio, posso assegurar-vos, haveis de me dar satisfa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 J\u00e1 terminastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 J\u00e1, e n\u00e3o disse sen\u00e3o o que estou no firme prop\u00f3sito de realizar.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora bem; come\u00e7o a perceber que \u00e9s um rapaz corajoso, e a partir deste momento passo a fazer de ti uma opini\u00e3o mais lisonjeira do que antes. D\u00e1-me a m\u00e3o, Rodrigo; levantas-te contra mim uma obje\u00e7\u00e3o muito justa; no entanto, posso asseverar-te que tenho procedido com lisura neste neg\u00f3cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 N\u00e3o parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Realmente, concordo em que n\u00e3o parece, n\u00e3o sendo vossas suspeitas de todo carecentes de sentido e de sagacidade. Mas, Rodrigo, se possuis o que mais do que nunca eu tenho raz\u00f5es para imaginar que possuis, a saber: iniciativa, coragem e valentia, prova-o esta noite. Se na pr\u00f3xima noite n\u00e3o vieres a possuir Desd\u00eamona, tira-me trai\u00e7oeiramente deste mundo e inventa supl\u00edcios para fazer-me morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Bem, de que se trata? \u00c9 alguma coisa razo\u00e1vel e poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Senhor, veio uma ordem especial de Veneza, para que C\u00e1ssio fique no lugar de Otelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Isso \u00e9 verdade? Nesse caso Otelo e Desd\u00eamona ter\u00e3o de voltar para Veneza.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh, n\u00e3o! Ele vai para a Maurit\u00e2nia e levar\u00e1 consigo a bela Desd\u00eamona, a menos que sua perman\u00eancia aqui seja prolongada por algum acidente, n\u00e3o havendo nenhum mais decisivo do que o afastamento de C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 E que entendeis por isso: \u201cO afastamento de C\u00e1ssio?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ora, ficar incapaz de ocupar o lugar de Otelo, por lhe terem estourado os miolos.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 E \u00e9 isso que desejais que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sim, no caso de quererdes tirar partido com o exerc\u00edcio de vosso diretor. Hoje \u00e0 noite ele vai jantar em casa de uma cortes\u00e3, onde pretendo visit\u00e1-lo. Ainda n\u00e3o sabe nada a respeito de sua honrosa felicidade. Se quiserdes ficar de espreita no momento em que ele se dirigir para l\u00e1 o que arranjarei que se d\u00ea entre as doze e uma hora \u2014 podereis surpreend\u00ea-lo com seguran\u00e7a. Estarei por perto, para auxiliar-vos no ataque, sendo certeza que n\u00e3o nos escapar\u00e1. Vamos, n\u00e3o fiqueis t\u00e3o estupefacto; vinde comigo. Vou demonstrar-vos de tal modo a necessidade da morte dele, que vos sentireis na obriga\u00e7\u00e3o de mat\u00e1-lo. Mas j\u00e1 estamos mais do que em tempo de cear, e a noite corre. M\u00e3o \u00e0 obra!<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Desejo que me apresenteis raz\u00f5es mais convincentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Haveis de ficar satisfeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c3\" name=\"at4c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no castelo. Entram Otelo, Ludovico, Desd\u00eamona, Em\u00edlia e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 N\u00e3o vos canseis, senhor, por minha causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o \u00e9 trabalho; faz-me bem passear.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Senhora, boa noite! Humildemente me despe\u00e7o de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Vossa Honra \u00e9 mui bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Vamos logo, meu senhor? Oh, Desd\u00eamona!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ide deitar-vos imediatamente; voltarei neste instante. Mandai a camareira embora. Cuidai disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Assim farei, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Otelo, Ludovico e os criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 E como v\u00e3o as coisas? Ele mostra-se agora mais af\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Avisou-me de que voltava logo, tendo dito que me deitasse e, ap\u00f3s, vos despedisse.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Despedir-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sim; foram suas ordens. Por isso, boa Em\u00edlia, d\u00e1-me logo minha camisa de dormir, e adeus. Conv\u00e9m n\u00e3o contrari\u00e1-lo em coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Desejara que nunca o houv\u00e9sseis visto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Pois eu n\u00e3o. A tal ponto o recomenda meu amor, que at\u00e9 mesmo suas teimas, repreens\u00f5es e viol\u00eancias s\u00e3o dotadas de certa gra\u00e7a e encanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Pus na cama os len\u00e7\u00f3is que pedistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Est\u00e1 bem. Oh c\u00e9us! Como por vezes somos loucas! Caso eu venha a morrer primeiro, envolve-me num len\u00e7ol destes.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ora, que tolice, tudo isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Minha m\u00e3e teve uma criada de nome B\u00e1rbara. Ela amou a um mo\u00e7o que a abandonou, por ser um doidivanas. Cantar so\u00eda a letra do salgueiro, balada antiga, por\u00e9m mui de acordo com seu destino. E se finou cantando-a. Essa balada n\u00e3o me sai da mente toda esta noite. Tenho de conter-me, para a cabe\u00e7a n\u00e3o deixar pendida e, como a pobre B\u00e1rbara, cant\u00e1-la. P\u00f5e pressa nisso. Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Trago vossa camisa de dormir?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o; tira todos os alfinetes. Esse Ludovico \u00e9 bem apessoado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Bem bonito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Conversa muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Conhe\u00e7o uma senhora de Veneza que iria a p\u00e9 \u00e0 Palestina, descal\u00e7a, s\u00f3 por um ligeiro contacto de seu l\u00e1bio inferior.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 A suspirar cantava a coitadinha \u00e0 sombra do salgueiro. Canto de dor cora\u00e7\u00e3o lhe vinha: Oh salgueiro! salgueiro! Triste, ouvia-a o regato todo o dia: Oh salgueiro! salgueiro! O pranto a pedra dura amolecia. Deixa esse de lado. Oh salgueiro! salgueiro! Mais pressa, por favor; ele j\u00e1 chega. De salgueiro farei minha coroa. N\u00e3o o censureis, que o seu desd\u00e9m me \u00e9 grato. N\u00e3o \u00e9 a vez disso. Escuta! Quem bateu?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Foi o vento.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Chamei-o de perjuro. E ele, que disse? Elas me v\u00eaem&#8230; Conquista-os&#8230; Que tolice! Vai-te embora. Boa noite. Doem-me os olhos. Ser\u00e1 ind\u00edcio de choro?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Coisa alguma!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ouvi dizer que sim. Oh! Esses homens! Esses homens! Em s\u00e3 consci\u00eancia, Em\u00edlia, dize-me se acreditas que haja esposas capazes de enganar os seus maridos por modo t\u00e3o grosseiros?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Sim, h\u00e1 algumas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 E tu, farias isso, por todo o mundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ora essa! N\u00e3o o far\u00edeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o; pela luz celeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 O mesmo eu digo: n\u00e3o pela luz celeste. Poderia faz\u00ea-lo, mas no escuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o farias isso por todo o mundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 O mundo todo \u00e9 muita coisa; pre\u00e7o exorbitante para um pequeno v\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o creio que tu sejas capaz de fazer isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Em verdade, penso que sim, para desfazer depois o que houvesse feito. N\u00e3o faria tal coisa por uma alian\u00e7a dupla, nem por alguns c\u00f4vados de cambraia, nem por vestidos, saias e toucas, nem por qualquer presentezinho de pouca monta. Mas pelo mundo todo! Que mulher n\u00e3o enganaria o marido, para faz\u00ea-lo monarca? Para tanto, eu arriscaria o purgat\u00f3rio<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Maldita eu venha a ser, se fizer isso, por todo o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ora, o ultraje s\u00f3 \u00e9 ultraje no mundo; e se ganh\u00e1sseis o mundo por vosso trabalho, seria um ultraje em vosso pr\u00f3prio mundo que poder\u00edeis corrigir rapidamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o creio que haja uma mulher assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Sim, h\u00e1 uma d\u00fazia delas, e com tantas de crescen\u00e7a, que foram suficientes para prover o mundo que por pr\u00eamio lhes fosse dado. Mas estou convicta de que os maridos \u00e9 que s\u00e3o culpados da queda das esposas. Logo, afrouxam de seus deveres, em rega\u00e7o estranho derramam nossos bens, ou ent\u00e3o explodem em ci\u00fame impertinente, ou nos imp\u00f5em peias de todo g\u00eanero, ou nos batem, fazendo pouco de quanto antes \u00e9ramos. Ora, n\u00f3s temos fel; e ainda que boas, poderemos vingar-nos. Os maridos devem se convencer de que as esposas t\u00eam sentidos como eles: v\u00eaem e cheiram, distinguir sabem o que \u00e9 azedo e doce, t\u00e3o bem como os maridos. Que \u00e9 que fazem todos eles, trocando-nos por outra? Ser\u00e1 que \u00e9 divers\u00e3o? Penso que sim. Haver\u00e1 nisso amor? \u00c9 bem poss\u00edvel. Ser\u00e1 a fraqueza que erra tanto neles? Justamente. Ora bem. E n\u00f3s, acaso n\u00e3o temos afei\u00e7\u00f5es, prazer n\u00e3o temos para os divertimentos, ou fraqueza, tal como os homens? Eles que nos tratem, portanto, bem, e saibam que \u00e9 com eles que aprendemos tamb\u00e9m a zombar deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Bem, boa noite! O c\u00e9u me ajude, para do mal tirar toda a virtude.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c1\" name=\"at5c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<\/h2>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Chipre. Uma rua. Entram Iago e Rodrigo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Fica atr\u00e1s do pilar; ele vem logo. Arranca a tua boa espada e vibra-a com seguran\u00e7a. Vamos logo! Vamos! N\u00e3o tenhas medo, que eu estarei por perto. Disso depende tudo, n\u00e3o te esque\u00e7as: ou subirmos agora, ou nos perdermos. Afirma-te, portanto, no prop\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Ficai perto, que eu posso errar o golpe. (<i>Afasta-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Estou \u00e0 m\u00e3o. Coragem! Vai, esconde-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 N\u00e3o me sinto inclinado a fazer isso. Mas raz\u00f5es suficientes ele deu-me. Ser\u00e1 um de menos. Vamos, minha espada; sai logo da bainha! Vou mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Esfreguei tanto esta borbulha jovem, de quase a arrebentar. Est\u00e1 arruinado. Agora, se ele matar C\u00e1ssio, ou C\u00e1ssio o eliminar, ou os dois se trucidarem, ganharei dos dois lados. Se Rodrigo ficar vivo, vir\u00e1 pedir-me a volta de tudo o que me deu em ouro e j\u00f3ias, e que dele eu tirei sob o pretexto de presentear Desd\u00eamona. Isso n\u00e3o pode ser. Sobrando C\u00e1ssio, beleza cotidiana tem na vida que me deixa horroroso, sem contarmos que o Mouro pode revelar-lhe tudo. Corro grande perigo. N\u00e3o; precisa morrer. Que morra, ent\u00e3o. Ei-lo que chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Conhe\u00e7o o passo dele. Morre, biltre! (<i>D\u00e1 um bote em C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quase inimigo meu fora esse golpe, se mais duro n\u00e3o fosse o meu casaco do que pensavas. Vou provar o teu. (<i>Saca da espada e fere Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Oh! Oh! Estou ferido!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Iago, por tr\u00e1s de C\u00e1ssio o fere na perna e sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E eu, aleijado para sempre. Socorro, oh! Assassino! (<i>Cai,<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Otelo, a dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 a voz de C\u00e1ssio; Iago tem palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Que miser\u00e1vel sou!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 assim, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Socorro Luz! Socorro! Um cirurgi\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 ele. \u00d3 valente Iago, honesto e justo! Que nobreza revelas ante o ultraje de teu amigo! Ensinas-me Pombinha, teu querido est\u00e1 morto e teu destino j\u00e1 se aproxima. Aqui vou eu, rameira! Do cora\u00e7\u00e3o retiro o teu feiti\u00e7o; teu sangue mau vai terminar tudo isso. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ludovico e Graciano, a dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ronda, ol\u00e1! Ningu\u00e9m vem? Crime! Assassino!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 O grito \u00e9 de afli\u00e7\u00e3o. \u00c9 coisa grave.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Escutai!<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Vil\u00e3o maldito!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 S\u00e3o dois ou tr\u00eas gemidos. \u00c9 noite alta; pode ser fingimentos. \u00c9 perigoso ir at\u00e9 l\u00e1 sem termos um refor\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Ningu\u00e9m me acode? Morro dessangrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Escutai.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Iago, com uma luz.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Eis algu\u00e9m em camisa, com luz e arma.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? Quem grita por socorro?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 N\u00e3o o sabemos. Ouvistes algum grito?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Aqui! Socorro! Pelo c\u00e9u, socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Parece que \u00e9 o alferes do general Otelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Ele, em pessoa, rapaz de muito m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Que tendes, para gritar assim t\u00e3o dolorido?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 Iago? Uns assassinos me assaltaram. Presta-me algum socorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00d3 tenente, quem foi que vos fez isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Penso que um deles deve estar por perto; n\u00e3o pode ter fugido.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh, miser\u00e1veis! (<i>A Ludovico e Graciano.<\/i>) Quem Sois? Vinde ajudar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Socorro! Aqui! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 um dos meliantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh, vil\u00e3o! Assassino! (<i>Apunhala Rodrigo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">RODRIGO \u2014 Maldito Iago! C\u00e3o desumano!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Assassinar pessoas no escuro! Esses bandidos sanguin\u00e1rios por onde se meteram? Que sil\u00eancio nesta cidade! Acudam! Homic\u00eddio! E v\u00f3s, quem sois? Amigos ou inimigos?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Para louvar-nos, ponde-nos \u00e0 prova.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 o signior Ludovico?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Ele mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Pe\u00e7o desculpas, mas aqui est\u00e1 C\u00e1ssio ferido por ladr\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Mano, que tens?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Feriram-me na perna.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 O c\u00e9u n\u00e3o queira que seja assim. Senhores, luz! Com minha camisa vou pens\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bianca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Que acontece? Quem gritou por socorro?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Quem gritou?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Oh meu querido C\u00e1ssio! Doce C\u00e1ssio! C\u00e1ssio, C\u00e1ssio, C\u00e1ssio!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Oh not\u00e1vel rameira! C\u00e1ssio, tendes, porventura, suspeita de quem sejam os ladr\u00f5es que aleijado vos deixaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Pesa-me por achar-vos nesse estado, pois vinha procurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Emprestai-me uma liga. Est\u00e1 bem. Ah! Se pud\u00e9ssemos carreg\u00e1-lo daqui numa cadeira!<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Oh, desmaiou! Oh C\u00e1ssio, C\u00e1ssio, C\u00e1ssio!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Cavalheiros, suspeito que esta coisa tem parte neste crime. Ficai calmo, bondoso C\u00e1ssio. Vamos, vamos logo. Iluminai aqui. Conheceremos esta fisionomia? Oh! Meu amigo, meu conterr\u00e2neo! \u00c9s tu, Rodrigo? N\u00e3o \u00e9&#8230; Sim&#8230; Com certeza. Oh c\u00e9us! Rodrigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Aquele de Veneza?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Justamente. Conhecei-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Decerto que o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Signior Graciano? Pe\u00e7o-vos desculpas; estas cenas sangrentas justificam minha conduta, assim vos esquecendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Estou contente por vos ver de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 C\u00e1ssio, como ides? A cadeira logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Rodrigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Trazem uma cadeira.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ele, ele mesmo. Enfim, eis a cadeira! Com cuidado alguns homens caridosos o transportem daqui. Vou buscar logo o cirurgi\u00e3o do general. Senhora, quanto a v\u00f3s, n\u00e3o vos deis tanto trabalho. C\u00e1ssio, o ferido, e eu somos amigos. entre v\u00f3s dois havia alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Nada no mundo; n\u00e3o conhe\u00e7o o homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO (<i>a Bianca<\/i>) \u2014 Por que ficais t\u00e3o p\u00e1lida? \u2014 Oh! Tirai-o do vento! (<i>C\u00e1ssio e Rodrigo s\u00e3o carregados para fora.<\/i>) N\u00e3o vos retireis, senhores. Mudais de cor, senhora? \u2014 Percebestes que ar espantado tem? Se estais at\u00f4nitos, cedo haveremos de saber mais coisas. Observai-a, senhores, por obs\u00e9quio. Viste-la, cavalheiros? Sim, a culpa se trai, embora a l\u00edngua fique muda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que aconteceu, marido? Que foi que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 C\u00e1ssio foi atacado aqui no escuro, por Rodrigo e outros tipos que escaparam. Est\u00e1 grave; Rodrigo a morrer veio.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Bom gentil-homem! Ah! Bondoso C\u00e1ssio!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Tudo isso \u00e9 por ter sido mulherengo. Mas procura saber, Em\u00edlia, logo, onde ele ontem ceou. Como! Tremestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Ceou comigo; mas n\u00e3o fiquei tr\u00eamula.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Ah, foi assim? Ent\u00e3o acompanhai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ora, rameira \u00e0-toa!<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 N\u00e3o sou isso; sou t\u00e3o honesta como quem me insulta.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Como eu? N\u00e3o tens vergonha?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Cavalheiros, tratemos de pensar o pobre C\u00e1ssio. V\u00f3s, agora, senhora, ireis contar-nos uma outra hist\u00f3ria. Corre ao forte, Em\u00edlia, e dize tudo ao meu senhor e \u00e0 esposa. Quereis passar \u00e0 frente? (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Minha sorte se decide hoje: ou caio, ou fico forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c2\" name=\"at5c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto de dormir, no castelo. Desd\u00eamona dorme, no leito. Uma candeia acesa. Entra Otelo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Esta \u00e9 a causa, minha alma. Oh! Esta \u00e9 a causa! N\u00e3o vo-la nomearei, castas estrelas! Esta \u00e9 a causa! N\u00e3o quero verter sangue, nem ferir-lhe a epiderme ainda mais branca do que neve e mais lisa que o alabastro. Mas \u00e9 fatal que morra; do contr\u00e1rio, vir\u00e1 ainda a enganar mais outros homens. Apaga a luz! Depois&#8230; Apaga a luz! Se te apagar, ministro flamejante, poderei restituir-te a luz primeira, se vier a arrepender-me. Mas extinta que seja tua luz, \u00f3 tu, modelo primoroso da excelsa natureza! de onde o fogo trazer de Prometeu, para dar nova luz \u00e0 tua chama? Se tua rosa colher, \u00e9-me imposs\u00edvel o vital crescimento restituir-lhe: fatal \u00e9 que fene\u00e7a. Vou aspir\u00e1-la no pr\u00f3prio galho. (<i>Beija-a.<\/i>) O h\u00e1lito aromoso, que quase a convencer chegaste a pr\u00f3pria Justi\u00e7a a espeda\u00e7ar a sua espada! Mais um! Mais um! Se assim ficares, morta, quero tirar-te a vida, e, ap\u00f3s, amar-te. Mais outro; ser\u00e1 o \u00faltimo; um t\u00e3o doce jamais foi t\u00e3o fatal. Chorar preciso l\u00e1grimas impiedosas; \u00e9 celeste meu sofrimento, pois castiga ao que ama. Vai acordar!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? Otelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, Desd\u00eamona.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o vindes para o leito, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Desd\u00eamona, rezastes esta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh, decerto, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se vos lembrardes de alguma falta n\u00e3o perdoada ainda pelo c\u00e9u e sua gra\u00e7a, cuidai logo de t\u00ea-la redimida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00d3 meu senhor! Que pretendeis dizer com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Bem; fazei o que vos disse e sede breve. Passarei nesse em meio; n\u00e3o desejo trucidar-vos o esp\u00edrito manchado. N\u00e3o pelo c\u00e9u! N\u00e3o vos matarei a alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Qu\u00ea! Falais em matar?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, \u00e9 isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o que o c\u00e9u de mim tenha piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Am\u00e9m, de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Se assim falais, \u00e9 que n\u00e3o pretendeis matar-me agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Hum!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Contudo, sinto medo, pois terr\u00edvel sois sempre, quando revirais os olhos dessa maneira. A causa desse medo, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo, pois n\u00e3o sou culpada; por\u00e9m sinto que tenho muito medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pensa nos teus pecados.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 S\u00f3 consistem no amor que vos dedico.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pois por ele vais agora morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00c9 contra a natureza dar a morte a algu\u00e9m por ter amor. Ah! Por que causa mordeis o l\u00e1bio assim? Toda a postura tendes ora abalada, por alguma sanguin\u00e1ria paix\u00e3o. \u00c9 mau agouro; contudo espero, espero que nenhuma amea\u00e7a me comine.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Paz e aquieta-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Estou quieta. Que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O len\u00e7o que te dei, que eu tanto amava, a C\u00e1ssio o deste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 N\u00e3o, por minha vida, por minha alma, n\u00e3o o dei. Mandai cham\u00e1-lo e interrogai-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ju\u00edzo, querida alma, n\u00e3o jures falso, pois est\u00e1s agora no teu leito de morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sim, no leito, mas n\u00e3o para morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, neste instante. Assim, confessa francamente a culpa, pois se com juramentos contestasses ponto por ponto, em nada isso alterara ou sustara o prop\u00f3sito em que me acho e que gemer me faz. Urge que morras.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Que Deus de mim se apiade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Digo am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Sede tamb\u00e9m piedoso. Em toda a vida jamais vos ofendi. Nunca amei C\u00e1ssio, s\u00f3 lhe tendo dedicado essa amizade que o c\u00e9u permite, e nunca o presenteei.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Pelo c\u00e9u, vi meu len\u00e7o na m\u00e3o dele. Mulher perjura, em pedra me transmudas o cora\u00e7\u00e3o e o nome d\u00e1s de crime ao que eu pensava ser um sacrif\u00edcio. Vi o len\u00e7o! Eu mesmo!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 que ele o achou. Nunca lho dei. Mandai cham\u00e1-lo, para vir confessar o que h\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 J\u00e1 confessou.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Confessou qu\u00ea, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que te possuiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Como? Ilicitamente?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Absurdo! N\u00e3o dir\u00e1 isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o, porque tapada j\u00e1 tem a boca, pois o honesto Iago tomou suas provid\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh! Meu medo tinha raz\u00e3o de ser! Ent\u00e3o, morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se seus cabelos todos vivos fossem, minha grande vingan\u00e7a os devorara.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ai de mim! Foi tra\u00eddo e estou perdida!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sai, prostituta infame! Vais chor\u00e1-lo na minha frente?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 \u00d3 meu senhor! Bani-me de vossa vista, mas deixai-me viva.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Para tr\u00e1s, prostituta!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Hoje, n\u00e3o; amanh\u00e3! Deixai-me viva!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Se resistires&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Meia hora apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 tr\u00e9gua; est\u00e1 feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 O tempo, apenas, de rezar uma vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 muito tarde. (<i>Asfixia-a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Senhor! Senhor! Ol\u00e1 Senhor! Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Que ru\u00eddo \u00e9 esse? Como! N\u00e3o morreu? N\u00e3o morreu de uma vez? Embora eu seja cruel, sou compassivo. N\u00e3o desejo causar-te sofrimento prolongado. Assim&#8230; Assim&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Ol\u00e1, senhor! Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Senhor, uma palavra convosco, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim; \u00e9 Em\u00edlia&#8230; Devagar&#8230; Est\u00e1 morta&#8230; Com certeza vem me falar de C\u00e1ssio; fez barulho. Como! J\u00e1 n\u00e3o se mexe? Est\u00e1 quieta como uma sepultura&#8230; Deixo-a entrar? Seria de vantagem?&#8230; Penso que ainda se mexe um pouco. N\u00e3o. Que fazer devo? Se eu deixar que entre, h\u00e1 de querer falar com minha esposa&#8230; Que esposa? \u00c9 o que n\u00e3o tenho. Que hora pesada! Oh coisa insuport\u00e1vel! Fora bem se se desse um grande eclipse do sol como da lua e que o assustado globo em dois se fendesse a essa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, uma palavra! \u00d3 bondoso senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ia esquecendo de ti. Oh, entra, Em\u00edlia! Neste instante. \u2014 S\u00f3 o tempo de correr estas cortinas. \u2014 Onde est\u00e1s? (<i>Abre a porta.<\/i>) Que \u00e9 que tens para dizer-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 O bondoso senhor! Um crime horr\u00edvel aconteceu l\u00e1 fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como! Agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Neste momento, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9 efeito do desvio da lua; ela aproxima-se agora mais da terra do que de h\u00e1bito, e deixa os homens loucos.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 C\u00e1ssio matou Rodrigo, meu senhor, um mo\u00e7o de Veneza.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Qu\u00ea! Rodrigo foi morto? E C\u00e1ssio, tamb\u00e9m morto?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! C\u00e1ssio n\u00e3o foi morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o foi morto? Ent\u00e3o est\u00e1 fora de tom a morte e a agrad\u00e1vel vingan\u00e7a desafina.<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Oh dor! Assassinada injustamente!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1? Que grito \u00e9 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Como? Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh! \u00c9 a voz da senhora. Aqui! Socorro! O senhora, falai de novo! Doce Desd\u00eamona, falai! Minha senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Morro, e morro inocente.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh! Quem fez isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DESD\u00caMONA \u2014 Ningu\u00e9m; eu mesma. Adeus! Faze que sempre de mim se lembre meu querido esposo. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por que haveria de ter sido morta?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Quem poder\u00e1 sab\u00ea-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ouvistes que ela disse que n\u00e3o fui eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Sim, ela o disse; vou espalhar a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Para as chamas do inferno foi como uma mentirosa: quem a matou fui eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Tanto mais anjo ela \u00e9 por isso; e v\u00f3s, dem\u00f4nio negro.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Entregara-se ao v\u00edcio; era rameira.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o passas de um dem\u00f4nio a caluni\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Era falsa como a \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 E tu \u00e9s selvagem como o fogo, dizendo que era falsa. N\u00e3o! Ela te era fiel celestialmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 C\u00e1ssio a manchou. Pergunta a teu marido o mais que desejares. Condenado devera eu ser no ponto mais profundo do inferno, se tivesse procedido dessa maneira sem motivos justos. Teu marido est\u00e1 a par de tudo o que houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Meu marido?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, teu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que aos seus deveres ela fora falsa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, com C\u00e1ssio. Se fiel tivesse sido e o c\u00e9u um mundo diferente houvesse feito de um s\u00f3 cris\u00f3lito admir\u00e1vel, n\u00e3o o trocara por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Meu marido!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, foi ele o primeiro a prevenir-me. \u00c9 um homem muito honrado e odeia a lama que adere \u00e0s a\u00e7\u00f5es baixas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Meu marido!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ora, mulher! Por que repetes isso? Teu marido, j\u00e1 disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh, querida ama! Diverte-se com o amor a vilania. Meu marido afirmou que ela era falsa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, mulher; ele mesmo, teu marido. Compreendes o que digo? Teu marido, meu amigo, o honesto Iago, mais que honesto&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Se ele for tal, que sua alma perniciosa meio gr\u00e3o apodre\u00e7a cada dia. Mentiu conscientemente. Apaixonada ela estava de sua indigna escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Faze o que houver de pior. T\u00e3o indigno \u00e9 do c\u00e9u este teu feito como \u00e9s indigno dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Mais lucraras se te calasses.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o disp\u00f5es de for\u00e7a que me fa\u00e7a sofrer nem a metade do que posso ag\u00fcentar. \u00d3 n\u00e9scio! \u00d3 est\u00fapido! T\u00e3o ignorante como a pr\u00f3pria lama! Cometeste uma a\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o tenho medo dessa espada! Vou dar-te a conhecer, embora a perder venha vinte vidas. Socorro! Assassino! Ol\u00e1! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Montano, Graciano, Iago e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Que \u00e9 que houve, general? Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 \u00d3 Iago! tamb\u00e9m viestes? Procedestes otimamente, para que ao pesco\u00e7o os homens seus delitos vos atirem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 De que se trata?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Desmente este vil\u00e3o, se fores homem. Ele afirmou que foi de ti que soube que a esposa lhe era infiel. Tenho certeza de que n\u00e3o poderias ter dito isso. N\u00e3o \u00e9s pulha a esse ponto. Fala logo, que tenho o cora\u00e7\u00e3o por demais cheio.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Disse-lhe o que pensava, sem que houvesse contado nada al\u00e9m do que ele pr\u00f3prio julgara natural e verdadeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Mas dissestes-lhes que ela fora infiel?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Dissestes uma inf\u00e2mia odiosa. Por minha alma, ele mente; \u00e9 um pervertido. Ela, falsa com C\u00e1ssio? E assim? Com C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Com C\u00e1ssio, sim senhora. Retirai-vos daqui e ponde cobro nessa l\u00edngua.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o ponho cobro em nada. Falar quero. Minha ama ali se encontra, assassinada.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 N\u00e3o o permita o c\u00e9u!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Senhores, n\u00e3o vos espanteis; \u00e9 a pura verdade o que ela disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Muito estranha verdade!<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 Ato monstruoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Inf\u00e2mia, inf\u00e2mia! Penso nisso, torno a pensar&#8230; Suspeito&#8230; Oh vilania! J\u00e1 havia suspeitado. Vou matar-me s\u00f3 de tristeza. Oh inf\u00e2mia!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Como! Ficastes louca? Retirai-vos para casa, j\u00e1, j\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Caros senhores permiti-me falar. Sei que lhe devo plena obedi\u00eancia; n\u00e3o, por\u00e9m, agora. Talvez, Iago, eu n\u00e3o volte para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh, oh, oh! (<i>Atira-se sobre o leito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Sim, rebolca-te e ruge, pois a morte deste \u00e0 mulher mais inocente e meiga que jamais viu a luz.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Era culpada. N\u00e3o vos reconheci, meu tio. Vossa sobrinha ali se encontra, cujo alento por estas m\u00e3os foi abafado h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Pobre Desd\u00eamona! Por sorte minha, teu pai j\u00e1 faleceu. Este cons\u00f3rcio para ele foi fatal: e d\u00e9bil fio da vida pela dor teve cortado. Se vivesse, esta vista o levaria, decerto, ao desespero, amaldi\u00e7oara seu anjo tutelar, escorra\u00e7ando-o de seu lado e, com isso, se perdera.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 D\u00e1-me pena; mas Iago sabe que ela com C\u00e1ssio praticou mais de mil vezes o ato impudico. C\u00e1ssio o confessou, tendo-lhe ela os trabalhos amorosos recompensado com o penhor e mimo de amor que, de princ\u00edpio, eu lhe ofertara: era um len\u00e7o, lembran\u00e7a muito antiga que a minha m\u00e3e meu pai outrora dera.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Oh c\u00e9u! Poderes celestiais!<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Sil\u00eancio! Fica quieta!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Preciso dizer tudo! Preciso dizer tudo! Eu, ficar quieta, senhor? De forma alguma. Falar quero t\u00e3o livre como o vento. O c\u00e9u, os homens, todos os diabos, tudo, tudo pode exprobar-me esta a\u00e7\u00e3o, mas falar quero.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 S\u00ea prudente e retorna para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o vou.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Iago amea\u00e7a ferir Em\u00edlia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Virar contra a mulher a espada!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 \u00d3 Mouro bruto! o len\u00e7o de que falas foi por mim encontrado casualmente e dei-o a meu marido, pois bem vezes com mui s\u00e9ria insist\u00eancia \u2014 mais, de fato, do que tal ninharia merecia \u2014 pedira que o roubasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Vil rascoa!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ela o ter dado a C\u00e1ssio? N\u00e3o! Achei-o e o dei a meu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 \u00c9 falso, imunda!<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Pelo c\u00e9u, cavalheiros, \u00e9 a verdade. Oh palha\u00e7o assassino! Que haveria de fazer um cretino rematado com uma mulher t\u00e3o boa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Por que as pedras todas do c\u00e9u s\u00f3 servem para o raio? Celerado completo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Corre para Iago; Iago apunhala Em\u00edlia e sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Ela desmaia! Creio que ele matou a pr\u00f3pria esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Ai, ai! Deitai-me ao lado de minha ama.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Fugiu, mas a mulher deixou sem vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTANO \u2014 \u00c9 um not\u00f3rio vil\u00e3o. Guardai esta arma que eu ao Mouro tomei. Vigiai a porta, n\u00e3o deixando que saia. Antes, matai-o. Vou procurar aquele miser\u00e1vel; \u00e9 um escravo maldito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Montano e Graciano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 J\u00e1 valente n\u00e3o sou; qualquer menino me desarma. Deve a honra viver mais do que a virtude? Que leve o demo tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Que queria, senhora, pressagiar tua cantiga? Vou fazer como o cisne; morro e canto: Oh, salgueiro, salgueiro! Mouro, ela era casta. Cruel Mouro, ela o amava muito. Assim minha alma seja salva, como digo a pura verdade. Desse modo falando como penso&#8230; morro&#8230; morro. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Tenho outra arma no quarto, antiga espada de Espanha, temperada em \u00e1gua fria. Ah! Ei-la! Tio, abri, para que eu saia.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO (<i>dentro<\/i>) \u2014 Se tentares sair, custar-te-\u00e1 caro. N\u00e3o tens armas; preciso \u00e9, pois, que sofras.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Ent\u00e3o me olha e me fala; do contr\u00e1rio, embora desarmado, hei de assaltar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Graciano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Que \u00e9 que se passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 V\u00ea, tenho outra espada. Melhor do que esta nunca ao lado esteve da coxa de um soldado. J\u00e1 vi o dia em que este curto bra\u00e7o e esta boa arma me franqueavam caminho com obst\u00e1culos vinte vezes mais s\u00e9rios do que os vossos. Mas, oh bravata in\u00fatil! Quem o fado dominar pode? J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim, Nada receies, por me veres de arma. Cheguei ao fim da viagem, esta \u00e9 a meta, a baliza da minha \u00faltima vela. Recuais p\u00e1lido assim? \u00c9 medo in\u00fatil. Se algu\u00e9m vier contra Otelo com um cani\u00e7o, Otelo recuar\u00e1. Para onde iria? Que aspecto tens agora, malfadada rapariga? Da cor do teu sud\u00e1rio. Quando nos encontrarmos para o ajuste de contas, teu olhar h\u00e1 de minha alma precipitar do c\u00e9u, apoderando-se dela os dem\u00f4nios logo. Est\u00e1s gelada, minha menina, t\u00e3o gelada como tua pr\u00f3pria castidade. Oh! maldito, maldito celerado! Dem\u00f4nios, com a\u00e7oites expulsai-me da vista desta apari\u00e7\u00e3o divina! Entregai-me aos tuf\u00f5es, no enxofre assai-me, em tanques me lavai de fogo l\u00edquido. Oh Desd\u00eamona! Morta! Oh, oh! Desd\u00eamona!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ludovico, Montano, C\u00e1ssio carregado em uma cadeira, e oficiais com Iago, prisioneiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Onde est\u00e1 o violento e infeliz homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Esse que foi Otelo? Aqui me encontro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 E onde se encontra a v\u00edbora? Trazei-nos esse infame.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Procuro ver-lhe os p\u00e9s. Mas n\u00e3o&#8230; \u00c9 pura f\u00e1bula. Se fores o diabo, n\u00e3o conseguirei matar-te. (<i>Fere Iago.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Tomai-lhe a espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 Estou ferido, apenas, senhor; mas n\u00e3o morri.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 N\u00e3o me aborrece saber isso; \u00e9 melhor que fiques vivo, pois a morte, a, meu ver, \u00e9 gr\u00e3-ventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 \u00d3 tu, Otelo, que t\u00e3o bom j\u00e1 foste, como vieste a cair nas artimanhas de um celerado? Que dir\u00e3o de ti?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 O que quiserem. Assassino honrado, se assim vos aprouver, porque fiz tudo pela honra, n\u00e3o por \u00f3dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Este patife j\u00e1 confessou em parte as vilanias. Mas \u00e9 verdade, mesmo, que com ele t\u00ednheis premeditado matar C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 \u00c9&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Meu general, eu nunca vos fiz nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Disso estou certo e pe\u00e7o-vos perd\u00e3o. Perguntai, por favor, a este dem\u00f4nio porque a alma e o corpo me enleou a tal ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">IAGO \u2014 N\u00e3o me pergunteis nada; o que sabeis, j\u00e1 sabeis. N\u00e3o direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Qu\u00ea! Nem mesmo para rezar?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Haveis de abrir a boca no banco de tormentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Sim, faze isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Ireis saber agora tudo o que houve, senhor, o que decerto ainda ignorais. Esta carta se achava num dos bolsos do corpo de Rodrigo. Aqui est\u00e1 outra. Numa delas se l\u00ea que deveria Rodrigo matar C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh, miser\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 B\u00e1rbaro a todo ponto e repulsivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Esta outra carta cheia de censuras tamb\u00e9m estava num dos bolsos dele. Parece que Rodrigo pretendia envi\u00e1-la a este malvado; mas decerto nesse em meio ele deu-lhe explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh biltre pernicioso! De que modo, C\u00e1ssio, vos foi parar \u00e0s m\u00e3os o len\u00e7o de minha esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Achei-o no meu quarto, e o pr\u00f3prio Iago confessou, h\u00e1 pouco, que ali o jogara, tendo em vista um plano que muito lhe importava.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Oh! Tolo, tolo!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 L\u00eaem-se tamb\u00e9m na carta de Rodrigo censuras dele a Iago por hav\u00ea-lo for\u00e7ado a provocar-me, quando est\u00e1vamos de guarda, o que me fez perder meu posto. E agora mesmo, tendo de si voltado, depois de estar por morto, declarou-nos que Iago o ferira e que por ele mesmo tinha sido instigado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 For\u00e7oso \u00e9 que deixeis este aposento, para virdes conosco. Do comando j\u00e1 fostes destitu\u00eddo. Agora \u00e9 C\u00e1ssio quem manda em Chipre. Quanto a este bandido, se houver algum tormento prolongado que o fa\u00e7a durar muito, ser\u00e1 dele. Ficareis como nosso prisioneiro, at\u00e9 que o Estado de Veneza tome conhecimento do que aqui fizestes. Vamos! levai-o logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Docemente! Uma palavra ou duas antes de irdes. Prestei alguns servi\u00e7os \u00e0 Rep\u00fablica, o que \u00e9 sabido. Mas sobre isso, basta. Pe\u00e7o-vos por favor que em vossas cartas, ao relatardes estes tristes fatos, faleis de mim tal como sou, realmente, sem exagero algum, mas sem mal\u00edcia. Ent\u00e3o a algu\u00e9m tereis de referir-vos que amou bastante, embora sem prud\u00eancia; a algu\u00e9m que n\u00e3o sabia ser ciumento, mas, excitado, cometeu excessos, e cuja m\u00e3o, tal como o vil judeu, jogou fora uma p\u00e9rola mais rica do que toda sua tribo; a algu\u00e9m com olhos vencidos e que embora pouco usados aos sentimentos moles, maior n\u00famero de gotas derramaram do que as \u00e1rvores da Ar\u00e1bia fazer soem com sua goma medicinal. Contai-lhes isso tudo. E tamb\u00e9m que em Alepo, certo dia, um turco de turbante e malicioso bateu num veneziano e em termos baixos falou do Estado, e que eu, pela garganta detendo aquele c\u00e3o circuncidado, o feri deste modo, assim&#8230; assim&#8230; (<i>Apunhala-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO \u2014 Oh conclus\u00e3o sangrenta!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Foi in\u00fatil tudo quanto dissemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OTELO \u2014 Dei-te um beijo antes de te matar. S\u00f3 me restava (<i>Caindo sobre o corpo de Desd\u00eamona.<\/i>) morrer beijando a quem eu tanto amara. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Receava isso mesmo; mas sem armas julgava que estivesse. Era pessoa de grande cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUDOVICO (<i>a Iago<\/i>) \u2014 \u00d3 c\u00e3o de Esparta, mais cruel que a fome, a ang\u00fastia e o pr\u00f3prio oceano! Contempla nesse leito o fardo tr\u00e1gico. \u00c9 tua obra. Envenena a vista o quadro. Tapemo-lo. Graciano, a casa, agora, vos pertence; guardai os bens do Mouro, pois sois o herdeiro dele. A v\u00f3s compete, senhor governador, dar o castigo a este biltre infernal. Marcai o dia, o lugar e a tortura. Oh! rigorosa! De bordo escreverei para o senado, relatando tudo isto, angustiado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens O Doge de Veneza. BRAB\u00c2NCIO, senador. Outros senadores. GRACIANO, irm\u00e3o de Brab\u00e2ncio. LUDOVICO, parente de Brab\u00e2ncio. OTELO, mouro nobre, a servi\u00e7o da Rep\u00fablica de Veneza. C\u00c1SSIO, seu tenente. IAGO, seu alferes. RODRIGO, fidalgo veneziano. MONTANO, governador de Chipre antes de Otelo. BOBO, criado de Otelo. 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