{"id":120348,"date":"2017-04-25T10:27:05","date_gmt":"2017-04-25T12:27:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120348"},"modified":"2017-04-25T10:27:05","modified_gmt":"2017-04-25T12:27:05","slug":"hamlet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/hamlet","title":{"rendered":"Hamlet"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens Dram\u00e1ticas<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>CL\u00c1UDIO<\/b> (<i>rei da Dinamarca<\/i>)<br \/>\n<b>HAMLET<\/b> (<i>filho do defunto rei e sobrinho do rei reinante<\/i>)<br \/>\n<b>FORTIMBRAS<\/b> (<i>pr\u00edncipe da Noruega<\/i>)<br \/>\n<b>HOR\u00c1CIO<\/b> (<i>amigo de Hamlet<\/i>)<br \/>\n<b>POL\u00d4NIO<\/b> (<i>camareiro-mor<\/i>)<br \/>\n<b>LAERTES<\/b> (<i>seu filho<\/i>)<br \/>\n<b>VOLTIMANDO<\/b> (<i>cortes\u00e3o<\/i>)<br \/>\n<b>CORN\u00c9LIO<\/b> (<i>cortes\u00e3o<\/i>)<br \/>\n<b>ROBENCRANTZ<\/b> (<i>cortes\u00e3o<\/i>)<br \/>\n<b>GUILDENSTERN<\/b> (<i>cortes\u00e3o<\/i>)<br \/>\n<b>OSRICO<\/b><br \/>\nUm nobre<br \/>\nUm padre<br \/>\n<b>BERNARDO<\/b> (<i>oficial<\/i>)<br \/>\n<b>MARCELO<\/b> (<i>oficial<\/i>)<br \/>\n<b>FRANCISCO<\/b> (<i>soldado<\/i>)<br \/>\n<b>REINALDO<\/b> (<i>criado de Pol\u00f4nio<\/i>)<br \/>\nUm capit\u00e3o<br \/>\nEmbaixadores ingleses<br \/>\nAtores, coveiros<br \/>\n<b>GERTRUDES<\/b> (<i>rainha da Dinamarca, m\u00e3e de Hamlet<\/i>)<br \/>\n<b>OF\u00c9LIA<\/b> (<i>filha de Pol\u00f4nio<\/i>)<br \/>\nNobres, senhoras, oficiais, soldados, marinheiros, mensageiros e criados<br \/>\nO Fantasma do pai de Hamlet<\/p>\n<p><a name=\"at11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Esplanada do castelo de Elsinor<br \/>\nFrancisco, de sentinela; Bernardo entra.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 N\u00e3o; responda-me; pare e diga o nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Viva o rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Bernardo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Ele mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Vindes exatamente na vossa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Meia-noite, Francisco. Vai deitar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Muito grato vos sou por me renderdes. Que frio! Chega a doer-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Foi calma a guarda?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 N\u00e3o buliu nem rato.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Ent\u00e3o, boa noite. Se vires por a\u00ed Marcelo e Hor\u00e1cio, dize-lhes que se apressem; est\u00e3o ambos escalados comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Julgo ouvi-los. Ol\u00e1! N\u00e3o se aproximem. Quem est\u00e1 a\u00ed? (<i>Entram Hor\u00e1cio e Marcelo<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Amigos desta terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 E s\u00faditos do rei da Dinamarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Boa noite para todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Outro tanto te desejamos n\u00f3s, meu bom soldado. Quem te rendeu na guarda?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Foi Bernardo. Mais uma vez, boa noite. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Ol\u00e1, Bernardo!<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Fale. Hor\u00e1cio est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Ele em pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Bem-vindo, Hor\u00e1cio; salve, bom Marcelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 E a tal coisa, esta noite apareceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 N\u00e3o vi nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Hor\u00e1cio diz que tudo \u00e9 fantasia; n\u00e3o quer acreditar no que contamos sobre a vis\u00e3o que duas vezes vimos. Por isso, o convidei a vir fazer-nos companhia nas horas desta noite. Dessa forma ele confirma nossos olhos, se a apari\u00e7\u00e3o voltar, e fala com ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Qual! N\u00e3o vem! N\u00e3o vem nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Bem, sentemo-nos; renovemos o assalto aos teus ouvidos, que t\u00e3o fortes se mostram para a hist\u00f3ria do que vimos duas noites.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Pois sentemo-nos, para ouvir a Bernardo sobre o assunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Na \u00faltima noite, ao vir iluminar aquela estrela, que est\u00e1 a oeste do p\u00f3lo, a parte exata do c\u00e9u em que ora brilha, eu e Marcelo, ao soar uma hora o sino&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 P\u00e1ra! N\u00e3o continues; ei-lo de novo. (<i>Entra o Fantasma<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Exatamente a forma do rei morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Fala-lhe tu, Hor\u00e1cio, que \u00e9s instru\u00eddo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 N\u00e3o \u00e9 igual ao rei? V\u00ea bem, Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Igual; o espanto e o medo me confundem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Deseja que lhe falem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Fala, Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Quem \u00e9s, que assim usurpas estas horas da noite e a forma nobre e belicosa que ostentava, marchando, a majestade do sepultado rei da Dinamarca? Pelo c\u00e9u, fala; ordeno-te!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Ofendeu-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Vai recuando.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Det\u00e9m-te e fala! Intimo-te! (<i>Sai o Fantasma<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Foi-se, sem dizer nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Ent\u00e3o, Hor\u00e1cio? Assim tremendo e p\u00e1lido&#8230; N\u00e3o \u00e9 mais do que simples fantasia? Que pensais de tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Perante meu Deus, nisso poderia n\u00e3o ter acreditado sem a sens\u00edvel e verdadeira testemunha de meus pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Ao rei se assemelha?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Como tu te assemelhas a ti mesmo. Essas as armas que trazia, quando derrubou o ambicioso Noruegu\u00eas; desse modo franziu o sobrecenho, depois da discuss\u00e3o, quando no gelo jogou a resistente machadinha. \u00c9 muito estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Por duas vezes, j\u00e1, nesta hora morta, passou por n\u00f3s com o mesmo ar belicoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 N\u00e3o posso achar explica\u00e7\u00e3o; contudo, de maneira geral, penso que o fato \u00e9 ind\u00edcio de algum mal para n\u00f3s todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Sentem-se, ent\u00e3o, e quem souber nos diga donde vem fatigarem-se os vassalos deste reino com guardas rigorosas; e mais: por que fundir canh\u00f5es de bronze, por que tanto armamento do estrangeiro, por que trabalham tanto os arsenais, sem das semanas separar os s\u00e1bados? Que nos amea\u00e7a, para que essa faina suarenta a noite mude em companheira de trabalho do dia? Quem me pode dar disso a explica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Eu, quero cr\u00ea-lo. \u00c9 o que se fala, ao menos: o defunto monarca, de quem vimos, ora, a imagem, foi desafiado, como \u00e9 bem sabido, por Fortimbr\u00e1s, a quem ciumento orgulho dava ousadia. O nosso bravo Hamlet \u2014 que assim por estes mundos lhe chamavam \u2014 matou o Noruegu\u00eas, que, por contrato selado e sancionado pelas normas da nobreza, legava ao advers\u00e1rio todos os territ\u00f3rios ocupados, se a vida a perder viesse na compita. Nosso rei, por seu lado, o equivalente de terras empenhou, que caberiam a Fortimbr\u00e1s, no caso de afirmar-se vitorioso, tal como, pela for\u00e7a desse artigo, as daquele para Hamlet foram deixadas. Mas agora o mo\u00e7o Fortimbr\u00e1s, ardoroso por\u00e9m falho de experi\u00eancia, alistou pela fronteira da Noruega, s\u00f3 a pre\u00e7o de comida, uns tipos corajosos e sem terras, que antev\u00eaem qualquer empresa gorda \u2014 que n\u00e3o \u00e9 outra, justamente, como nosso Estado, de h\u00e1 muito, o reconhece \u2014 sen\u00e3o nos constranger pela viol\u00eancia das armas a entregar-lhes esses dom\u00ednios que de seu pai nos vieram. Eis a origem principal, quero crer, de tanta az\u00e1fama, a causa desta guarda e a maior fonte da lufa-lufa em que se agita o reino.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 \u00c9 o que eu penso, tamb\u00e9m; deve ser isso. \u00c9 o que explica passar por nossa guarda semelhante portento sob o aspecto do rei que foi e \u00e9 causa desta guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 O olho da intelig\u00eancia um argueiro o turva. Na \u00e9poca mais gloriosa da alta Roma, pouco antes de cair o grande J\u00falio, sa\u00edram dos sepulcros os cad\u00e1veres em seus len\u00e7\u00f3is, gemendo pelas ruas. Depois, chuviscou sangue, apareceram manchas no Sol, cometas; e o \u00famido astro que tem for\u00e7a no reino de Netuno, do eclipse padeceu do fim das coisas. Id\u00eanticos sinais de cru\u00e9is eventos \u2014 precursores que s\u00e3o sempre dos Fados e pr\u00f3logo de agouros iminentes \u2014 enviaram juntamente o c\u00e9u e a terra por sobre o nosso clima e nosso povo. Mas, sil\u00eancio! Cautela! Ei-lo que volta. (<i>Entra o Fantasma<\/i>) Vou falar-lhe, ainda mesmo que me mate. P\u00e1ra, ilus\u00e3o! Se tens o uso da fala, responde-me! Se \u00e9 de necessidade fazer algo de bom, que te alivie e me d\u00ea gra\u00e7a, fala-me! Se est\u00e1s a par de algum mal iminente de tua p\u00e1tria, e que possa ser desviado, oh, fala-me! Ou, ainda, se escondeste sob a terra, quando vivo, tesouros extorquidos, raz\u00e3o, se diz, de as almas retornarem, (<i>Um galo canta<\/i>) det\u00e9m-te e fala. Agarra-o bem, Marcelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Posso dar-lhe com minha partasana?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Se resistir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Aqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Por este lado! (<i>Sai o Fantasma<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Desapareceu! Foi mal de nossa parte, em tanta mostra de majestade, usarmos de viol\u00eancia. Como o ar, \u00e9 invulner\u00e1vel, n\u00e3o passando de brincadeira os nossos golpes v\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDO \u2014 Ia falar; o galo o n\u00e3o deixou.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Nesse instante, tremeu como culpado diante da cita\u00e7\u00e3o de ruim press\u00e1gio. Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manh\u00e3, com sua voz vibrante e clara, desperta o deus do dia, e que a esse aviso, quer no mar, quer no fogo, no ar, na terra, os errantes esp\u00edritos retornam para seus postos, do que temos clara confirma\u00e7\u00e3o em quanto presenciamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Quando o galo cantou, desvaneceu-se. Dizem que quando o tempo se aproxima de a data festejarmos do natal do nosso Salvador, essa ave canta durante toda a noite. Ent\u00e3o, esp\u00edrito nenhum anda vagante, dizem; todas as noites s\u00e3o salubres; os planetas n\u00e3o t\u00eam influ\u00eancia, os gnomos, os bruxedos: t\u00e3o gracioso \u00e9 esse tempo e t\u00e3o sagrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Ouvi falar, tamb\u00e9m, e em parte o creio. Mas vede: a aurora com seu manto rubro passeia sobre o orvalho al\u00e9m do morro. Ponhamos fim \u00e0 guarda. Sou de aviso que os fatos desta noite os transmitamos ao mo\u00e7o Hamlet, pois, por minha vida, esse esp\u00edrito mudo h\u00e1 de falar-lhe. Concordais em fazer-lhe esse relato que o dever e a afei\u00e7\u00e3o de n\u00f3s o exigem?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Fa\u00e7amo-lo, vos pe\u00e7o; eu sei o ponto em que \u00e9 f\u00e1cil falar-lhe esta manh\u00e3. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala de recep\u00e7\u00e3o no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Hamlet, Pol\u00f4nio, Laertes. Voltimando, Corn\u00e9lio, nobres e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Conquanto esteja fresca, ainda, a mem\u00f3ria do traspasso de Hamlet, o irm\u00e3o saudoso, e chor\u00e1-lo dev\u00eassemos, contraindo toda a corte em tristeza o sobrecenho: tanto a raz\u00e3o se imp\u00f5e \u00e0 natureza que com s\u00e1bia tristura o relembramos ao tempo em que pensamos em n\u00f3s mesmos. Por isso, \u00e0 que era nossa irm\u00e3, e agora nossa rainha, a imperial herdeira deste reino guerreiro, com alegria, por bem dizermos, parcialmente frustra, num dos olhos o choro, no outro o riso, ledos no funeral, tristes na igreja, sabendo equilibrar a dor e o encanto, tomamos como esposa, ap\u00f3s ouvirmos vossos conselhos, sempre e em tudo livres. Nossos agradecimentos por tudo isso. Agora Fortimbr\u00e1s, o mo\u00e7o, como bem o sabeis, subestimando nossa for\u00e7a, ou mesmo pensando que o traspasso de nosso irm\u00e3o poria o Estado fora dos eixos, sonha com vantagens pessoais, n\u00e3o cessando de inquietar-nos com mensagens que visam a reaver-nos as terras que seu pai petdeu na luta, conforme as condi\u00e7\u00f5es estipuladas com nosso bravo irm\u00e3o. Sobre ele, basta. Passemos a tratar de n\u00f3s e desta convoca\u00e7\u00e3o: \u00e9 o caso que escrevemos a Noruega, tio desse mo\u00e7o Fortimbr\u00e1s, que, de cama e muito doente, de certo ignora os planos do sobrinho, pedindo-lhe intervenha no sentido de sofrear-lhe o ardor, visto que as levas e alistamentos est\u00e3o sendo feitos nos seus dom\u00ednios. Da\u00ed vos despacharmos, bom Corn\u00e9lio, e tamb\u00e9m v\u00f3s, Voltimando, com meu saudar ao velho Noruegu\u00eas, sem mais poder pessoal para tratardes com o rei, al\u00e9m do que estiver previsto nas vossas instru\u00e7\u00f5es. E agora, adeus; que a pressa recomende o vosso zelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CORN\u00c9LIO e VOLTIMANDO \u2014 Demonstr\u00e1-lo-emos nisto, como em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Estamos certos disso; passai bem. (<i>Voltimando e Corn\u00e9lio saem<\/i>) Dize agora, Laertes, que pretendes. J\u00e1 nos falaste de algo. Que \u00e9, Laertes? N\u00e3o se dar\u00e1 que percas as palavras, se falares com senso ao soberano da Dinamarca. Que nos poderias pedir, Laertes, que n\u00e3o fosse nossa d\u00e1diva, n\u00e3o pedido de tua parte? A cabe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bem casada com o cora\u00e7\u00e3o, nem serve a m\u00e3o \u00e0 boca com mais zelo, que ao trono teu bom pai. Que desejas, Laertes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Real senhor, permiss\u00e3o de regresso para a Fran\u00e7a. Ainda que de bom grado eu tenha vindo \u00e0 vossa coroa\u00e7\u00e3o, confessar devo que, cumprido o dever, meus pensamentos e desejos, sujeitos vossa alta benevol\u00eancia, \u00e0 Fran\u00e7a me conduzem.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Teu pai j\u00e1 o consentiu? Que diz Pol\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Sim, milorde, arrancou de mim meu tardo consentimento \u00e0 custa de insist\u00eancia, tendo eu, por fim, selado seu pedido com meu custoso \u201csim\u201d. Por isso, pe\u00e7o-vos consentirdes que volte para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Laertes, a hora \u00e9 boa; usa o teu tempo e a teu sabor e dotes o aproveita. E agora, primo Hamlet, primo e filho&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Parente, mais; querido, muito menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Por que sempre o teu rosto com essas nuvens?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nem tanto, meu senhor, o Sol me aquece.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Despe-te, bom Hamlet, desse luto, e deita olhar amigo \u00e0 Dinamarca. N\u00e3o prossigas assim, de olhos ca\u00eddos, a procurar teu nobre pai na poeira. \u00c9 lei comum, tu o sabes; quantos vivem, passam da natureza para a vida da eternidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 lei comum, realmente, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Ent\u00e3o, se \u00e9 assim com todos, que te parece estranho nesse caso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o parece, senhora; \u00e9. N\u00e3o conhe\u00e7o \u201cpareces\u201d, boa m\u00e3e. Nem esta capa sombria, nem as vestes costumeiras de solene cor negra, os tempestuosos suspiros arrancados do imo peito, as torrentes fecundas que me descem dos olhos, o semblante acabrunhado, nem todas as demais modalidades da m\u00e1goa poder\u00e3o nunca, em verdade, definir-me. Parecem, t\u00e3o-somente, pois s\u00e3o gestos de f\u00e1cil fingimento. Mas h\u00e1 algo dentro em mim que n\u00e3o parece. Tudo isso \u00e9 roupa e enfeite do infort\u00fanio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Recomenda-te, Hamlet, a natureza chorares o teu pai dessa maneira Mas, lembra-te: teu pai perdeu um pai, que o seu, tamb\u00e9m, perdera. Ao filho vivo cabe o grato dever de lastim\u00e1-lo por algum tempo. Mas mostrar t\u00e3o grande obstina\u00e7\u00e3o no luto, \u00e9 dar ind\u00edcios de teima e de impiedade; \u00e9 a dor dos fracos; revela uma vontade \u00edmpia e rebelde, cora\u00e7\u00e3o d\u00e9bil, mente anarquizada, intelig\u00eancia pobre e sem cultivo. Se tem de ser assim, tal como as coisas mais comuns que aos sentidos nos afetam, para que nos mostrarmos rigorosos e pueris? Ora! \u00c9 ofensa ao pr\u00f3prio c\u00e9u, natureza, aos mortos, mais que absurda para a raz\u00e3o, cujo princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 o traspasso dos pais, e que n\u00e3o cessa de proclamar desde a hora do primeiro cad\u00e1ver at\u00e9 ao morto deste instante: Tinha de ser assim. Vamos, te pe\u00e7o, deixa essa dor est\u00e9ril e nos trata como a pai. Sim, que o mundo tome nota: o mais chegado \u00e9s tu ao nosso trono. N\u00e3o menos generosos sentimentos dedica ao filho um pai do que os que \u00e0 tua pessoa consagramos. Teu desejo de voltar novamente para a escola de Vitemberga op\u00f5e-se ao nosso alvitre. Por isso, conjuramos-te a ficares sob o grato prazer de nossos olhos, dos nobres o primeiro, primo e filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 N\u00e3o deixes que tua m\u00e3e gaste suas s\u00faplicas em v\u00e3o, Hamlet. Pe\u00e7o-te ficares conosco. N\u00e3o te v\u00e1s a Vitemberga.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quanto em mim for, senhora, serei d\u00f3cil.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Isso sim, que \u00e9 falar sensato e am\u00e1vel. S\u00ea como n\u00f3s na Dinamarca. Vamos, senhora. O volunt\u00e1rio \u201csim\u201d de Hamlet sorri-me ao cora\u00e7\u00e3o. Por isso, os brindes de hoje de Dinamarca o canh\u00e3o grande dever\u00e1 transmiti-los at\u00e9 \u00e0s nuvens. O c\u00e9u vai repetir, a cada ta\u00e7a do rei, trov\u00f5es da terra. E agora, vamo-nos. (<i>Saem o Rei, a Rainha, Laertes, Pol\u00f4nio e o s\u00e9q\u00fcito<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Oh, se esta carne s\u00f3lida, t\u00e3o s\u00f3lida, se esfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno n\u00e3o houvesse condenado o suic\u00eddio! \u00d3 Deus! \u00d3 Deus! Como se me afiguram fastidiosas, f\u00fateis e v\u00e3s as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que s\u00f3 medram ervas daninhas, cheio s\u00f3 das coisas mais rudes e grosseiras. Chegar a isso! Morto h\u00e1 dois meses! N\u00e3o, nem tanto&#8230; Dois? Um rei t\u00e3o bom, que, confrontado com este, era Apolo ante um s\u00e1tiro&#8230; T\u00e3o terno para a esposa, que ao pr\u00f3prio vento obstava de bater-lhe no rosto com viol\u00eancia. Oh c\u00e9us! Record\u00e1-lo-ei? Pendia dele como se seus desejos aumentassem com a saciedade. E um m\u00eas depois&#8230; Paremos. Fragilidade, nome de mulher&#8230; S\u00f3 um m\u00eas, sem ter gasto ainda os sapatos com que o corpo seguiu do meu bom pai, qual N\u00edobe, s\u00f3 l\u00e1grimas. Sim, ela \u2014 \u00d3 c\u00e9u! Um animal que \u00e9 destru\u00eddo da faculdade da palavra, certo choraria mais tempo! \u2014 desposada! pelo irm\u00e3o de meu pai, mas que tem tanto dele tal como eu de H\u00e9rcules. Num m\u00eas, antes que o sal das l\u00e1grimas t\u00e3o falsas secassem de seus olhos tumefeitos estar ela casada! Oh! pressa in\u00edqua de subir para o t\u00e1lamo incestuoso! N\u00e3o pode acabar bem&#8230; Mas despeda\u00e7a-te, cora\u00e7\u00e3o; \u00e9 mister ficar calado. (<i>Entram Hor\u00e1cio, Marcelo e Bernardo<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Deus guarde a Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Alegra-me rever-te com sa\u00fade&#8230; Hor\u00e1cio, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 O mesmo criado, pr\u00edncipe, de sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Amigo, amigo; \u00e9 o nome que eu te dou. Qual a raz\u00e3o de haveres tu deixado. Vitemberga?&#8230; Marcelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Meu bom pr\u00edncipe&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Muito prazer. (<i>A Bernardo<\/i>) Bons dias. Mas falando s\u00e9rio, por que deixaste Vitemberga?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Simples disposi\u00e7\u00e3o de um pregui\u00e7oso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o quisera ouvir isso de teus pr\u00f3prios inimigos. Por isso, n\u00e3o me fa\u00e7as ao ouvido a viol\u00eancia de depores contra ti pr\u00f3prio. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9s vadio. Qual o motivo que a Elsinor te trouxe? Conosco aprender\u00e1s a beber muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Senhor, os funerais de vosso pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Meu caro condisc\u00edpulo, n\u00e3o zombes; creio que vieste para o casamento. de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Realmente, foi bem perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Economia, Hor\u00e1cio! Os bolos f\u00fanebres serviram para os frios do espos\u00f3rio. Preferira encontrar no c\u00e9u o inimigo mais ferrenho, a viver tal dia, Hor\u00e1cio. Meu pai! \u00c0s vezes julgo ver meu pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Como, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Com os olhos da alma, Hor\u00e1cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Vi-o uma vez; um grande rei, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Um homem, na acep\u00e7\u00e3o lata do termo; jamais poderei ver algu\u00e9m como ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Creio, senhor, que o vi nesta noite \u00faltima.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 A vosso pai, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O rei meu pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Prestai-me ouvidos, refreando o espanto por algum tempo, at\u00e9 que eu vos relate tal maravilha, sob o testemunho destes senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pelo c\u00e9u, falai.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Duas noites a fio estes senhores, o Bernardo e o Marcelo, quando guarda montavam, na hora morta da meia-noite, viram uma figura parecida com vosso pai, armado da cabe\u00e7a at\u00e9 aos p\u00e9s, avan\u00e7ando com postura lenta e grave. Tr\u00eas vezes pelos olhos p\u00e1vidos lhes passou, \u00e0 s\u00f3 dist\u00e2ncia de um bast\u00e3o de comando. Eles, gelados pelo medo, ficaram sem ter \u00e2nimo para falar-lhe. O fato me confiaram, sob a maior reserva, ainda abalados. Montei guarda com eles na outra noite&#8230; E eis que na hora indicada, sob a forma que eles a descreveram, tudo exato, voltou a apari\u00e7\u00e3o&#8230; Sim, vosso pai; conheci-o; estas m\u00e3os n\u00e3o se parecem tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Onde foi tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO \u2014 Na esplanada, senhor, onde fic\u00e1vamos de guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Falaste-lhe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Falei-lhe, sim, meu pr\u00edncipe, mas n\u00e3o me respondeu. Contudo, quis-me parecer que ele o rosto levantava, pondo-se em movimento, como prestes a falar. Mas, nessa hora, cantou o galo. A esse canto, esgueirou-se ele apressado, sumindo \u00e0 nossa vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 muito estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Por minha vida, pr\u00edncipe, \u00e9 a verdade. Pensamos que o dever nos prescrevia dar-vos conta de tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o vos encubro a minha inquieta\u00e7\u00e3o. Montais guarda esta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO e BERNARDO \u2014 Sim, alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tinha armas, o dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO e BERNARDO \u2014 Sim, alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Da cabe\u00e7a aos p\u00e9s?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO e BERNARDO \u2014 Sim, de alto a baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o lhe pudestes ver o rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Como n\u00e3o? A viseira estava erguida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E as fei\u00e7\u00f5es, carregadas?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Express\u00e3o mais de dor do que de c\u00f3lera.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Corado ou p\u00e1lido?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Muito p\u00e1lido.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E o olhar? Chegou a fitar-vos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Durante todo o tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Desejara t\u00ea-lo visto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Sem d\u00favida, isso havia de causar-vos profunda admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Muito provavelmente. E demorou-se?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 O tempo de contar, com certa calma, at\u00e9 cem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARCELO e BERNARDO \u2014 Muito mais! Muito mais tempo!<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 N\u00e3o quando o vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E a barba? Era grisalha?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Tal como a vi, quando ele ainda era vivo: negro-prateada.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c0 noite, eu farei guarda; talvez ele retorne.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 \u00c9 quase certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Se ele me aparecer sob a figura de meu pai, falar-lhe-ei, ainda que o inferno se me abrisse e mandasse ficar quieto. Mas pe\u00e7o a todos: se a ningu\u00e9m falastes dessa vis\u00e3o, sede discretos nisso. A qualquer ocorr\u00eancia desta noite, trocai sinais apenas, n\u00e3o palavras. Saberei ser-vos grato. Passai bem. Na esplanada, entre as onze horas e as doze, pretendo aparecer.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Nossos respeitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vosso amor, como o meu. E agora, adeus. (<i>Hor\u00e1cio, Marcelo e Bernardo saem<\/i>) A sombra de meu pai em armas! Tudo vai muito mal. Temo qualquer desgra\u00e7a. Ah! Quem dera que a noite j\u00e1 chegasse! Mas at\u00e9 l\u00e1, minha alma, s\u00ea paciente. As a\u00e7\u00f5es m\u00e1s, embora a terra as cubra, aos olhos dos mortais n\u00e3o se subtraem. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram Rei, a Rainha, Rosencrantz e Guildenstern.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Bem-vindos, Rosencrantz e Guildenstern! Ainda que desej\u00e1ssemos rever-vos, a urg\u00eancia de empregar-vos deu motivo a este chamado. Certo ouvistes algo sobre a transforma\u00e7\u00e3o de Hamlet; assim lhe chamo, que o exterior dele e o seu \u00edntimo n\u00e3o s\u00e3o agora os mesmos. Qual a causa, fora a morte do pai, que o p\u00f4s desta arte, t\u00e3o alheio a sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia, n\u00e3o na posso saber. Por isso, pe\u00e7o-vos \u2014 j\u00e1 que ambos fostes criados juntos com ele, t\u00e3o afins no car\u00e1ter e na idade \u2014 que vos digneis ficar em nossa corte por algum tempo, para o distrairdes com vossa companhia, e tamb\u00e9m para investigardes, sempre que poss\u00edvel, se algo que nos escapa o mortifica, e que, uma vez sabido, remediemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Tem falado bastante nos senhores. N\u00e3o pode haver outras pessoas que ele tanto aprecie. Se vos for do agrado mostrar-nos boa vontade e gentileza, despendendo conosco vosso tempo para lucro t\u00e3o-s\u00f3 de nosso anseio, ter\u00e1 nossa visita pr\u00eamio digno do reconhecimento de um monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Est\u00e1 em Vossas Majestades, pelo jus da soberania, n\u00e3o pedir-nos favor, mas ordenar-nos, como o queira vosso augusto prazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Estamos prontos a obedecer-vos. Tensos at\u00e9 ao m\u00e1ximo, viemos nos p\u00f4r aos p\u00e9s de Vossa Alteza, para sermos mandados.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Muito obrigado Rosencrantz, querido Guildenstern.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Muito obrigada Guildenstern, querido Rosencrantz. \u00c9 com muito carinho que vos pe\u00e7o visitardes meu filho, que se encontra t\u00e3o mudado. \u2014 Um da\u00ed sirva de guia e conduza at\u00e9 Hamlet estes senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Praza ao c\u00e9u que lhe seja \u00fatil e grato nosso aux\u00edlio e presen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Deus o queira. (<i>Saem Rosencrantz, Guildenstern e alguns criados<\/i>) (<i>Entra Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Regressaram contentes da Noruega, meu bom senhor, os nossos emiss\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Sempre fostes o pai de boas novas.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 verdade? Posso assegurar-vos que eu dedico o dever, assim como a alma, primeiro a Deus, depois ao meu querido soberano. E ora penso \u2014 salvo se esta cabe\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o segue como dantes o rasto da prud\u00eancia \u2014 haver achado o motivo de estar Hamlet louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Revelai-mo; a not\u00edcia me alvoro\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Primeiro os emiss\u00e1rios; a not\u00edcia vai ser a sobremesa do banquete.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Pois faze-lhes as honras e os conduze. (<i>Sai Pol\u00f4nio<\/i>) Disse, minha querida, haver achado as origens da doen\u00e7a de teu filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Temo que seja apenas a mais grave: o traspasso do pai e nosso enlace.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Sond\u00e1-lo-emos. (<i>Volta Pol\u00f4nio, com Voltimando e Corn\u00e9lio<\/i>) Bem-vindos, bons amigos. Dizei-me, Voltimando, o que trouxestes de nosso irm\u00e3o Noruega.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOLTIMANDO \u2014 Retribui-vos cumprimentos e envia-vos saudares. Mal nos ouviu, mandou suspender todas as levas do sobrinho, que julgava serem prepara\u00e7\u00f5es contra o Polaco, mas que, certo, depois soube visarem Vossa Alteza. Indignado com tamanho desrespeito \u00e0 sua idade e ao pr\u00f3prio achaque da velhice, mandou vir Fortimbr\u00e1s preso, que lhe obedece prontamente, e ap\u00f3s ser admoestado por Noruega, promete ao tio que jamais as for\u00e7as empregaria contra Vossa Alteza, com o que o velho Noruega, jubiloso, tr\u00eas mil coroas de pens\u00e3o lhe outorga, com a permiss\u00e3o de usar contra o Polaco justamente os soldados alistados, ao lado do pedido aqui explanado, (<i>Entrega uma carta<\/i>) de que vos seja grato o livre tr\u00e2nsito dessas tropas por vosso territ\u00f3rio em condi\u00e7\u00f5es de inteira seguran\u00e7a, contidas nesta carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Muito bem; vamos l\u00ea-la com a calma necess\u00e1ria, responder-lhe e pensar sobre a mat\u00e9ria. Agradecemos vossos bons servi\u00e7os. Agora descansai; cearemos juntos. Bem-vindos ao meu lar. (<i>Saem Voltimando e Corn\u00e9lio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Foi bem solucionada essa pend\u00eancia. Meu rei, minha senhora: pretender explicar o que seja a majestade ou o dever, porque o dia \u00e9 dia e a noite \u00e9 noite, e o tempo \u00e9 tempo, vale o mesmo que malgastar o dia, a noite e o tempo. \u00c9 certo: a concis\u00e3o \u00e9 a alma do esp\u00edrito, como a prolixidade os seus suportes e flores exteriores. Vou ser breve. Vosso filho est\u00e1 louco; sim, \u00e9 o termo mais acertado; pois em que consiste a loucura, sen\u00e3o em sermos loucos? Que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Mais mat\u00e9ria, menos arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Juro que n\u00e3o fa\u00e7o uso de arte alguma. Que \u00e9 louco, \u00e9 certo; \u00e9 certo e mete pena. Mete pena ser certo; ruim ant\u00edtese. Pois deixemo-la; quero falar simples. Louco \u00e9 como lhe chamo; s\u00f3 nos falta descobrir qual a causa desse efeito, ou melhor: qual a causa do defeito, que o efeito defeituoso tem sua causa. Assim ficou; o resto \u00e9 como segue. Considerai: Tenho uma filha \u2014 tenho, enquanto \u00e9 minha \u2014 a qual, fiel \u00e0 obedi\u00eancia que me deve, notai bem, me deu isto. Ora, conclu\u00ed: \u201cAo \u00eddolo de minha alma, \u00e0 divina e embelezada Of\u00e9lia\u201d. Express\u00e3o horrorosa e banal: Embelezada! Muito banal. Mas ouvi at\u00e9 ao fim: \u201cAo seu seio c\u00e2ndido e delicado, estas, etc.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Hamlet lhe enviou isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Senhora, mais paci\u00eancia; direi tudo. \u201cDuvida da luz dos astros, de que o Sol tenha calor, duvida at\u00e9 da verdade, mas confia em meu amor. Querida Of\u00e9lia: n\u00e3o sou muito forte na contagem das s\u00edlabas: n\u00e3o possuo a arte de medir os meus suspiros; mas que te amo muit\u00edssimo, infinitamente, podes crer-me. Adeus. O teu para sempre, querida menina, enquanto esta m\u00e1quina lhe pertencer, Hamlet.\u201d Eis o que minha filha me contou, por obedi\u00eancia; e mais: suas instantes declara\u00e7\u00f5es, segundo o modo, o tempo e as oportunidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 E ela, como o acolheu?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Que pensais, senhor, de mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Que sois pessoa honrada e de confian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Pois prov\u00e1-lo-ei. Que hav\u00edeis de pensar, se eu visse al\u00e7ar o v\u00f4o amor t\u00e3o f\u00e9rvido \u2014 e o percebi, vos digo, antes de minha filha mo revelar \u2014 que pensar\u00edeis, ou a minha majestade aqui presente, se eu tivesse servido de carteira ou pasta de pap\u00e9is, ou ent\u00e3o piscado ao cora\u00e7\u00e3o, ficando quieto e mudo, e indiferente contemplasse o caso? Que pensar\u00edeis? N\u00e3o; pus-me em campanha, e falei deste modo \u00e0 senhorita: \u201cLorde Hamlet est\u00e1 acima de tua esfera; n\u00e3o pode ser\u201d, e dei-lhe bons conselhos para que ela o evitasse da\u00ed em diante, recusasse recados e presentes. P\u00f4s-se ela a aproveitar-se dos conselhos, e ele \u2014 para ser breve \u2014 repelido, cai em melancolia a que se segue jejum, falta de sono, abatimento e distra\u00e7\u00e3o. E assim, piorando sempre, cai na loucura em que ora se debate e nos punge.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Pensais, ent\u00e3o, seja isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Pode ser; bem plaus\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 J\u00e1 aconteceu \u2014 anseio por sab\u00ea-lo \u2014 ter eu dito: \u201cTal coisa \u00e9 deste modo\u201d, que assim n\u00e3o fosse?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o, que o saiba.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>indicando a cabe\u00e7a e os ombros<\/i>) \u2014 Arrancai esta destes, se isso \u00e9 falso. Pelo rasto descubro onde se encontra escondida a verdade, ainda que seja no pr\u00f3prio centro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 E como comprov\u00e1-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Sabeis que ele passeia horas seguidas aqui na galeria.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 \u00c9 h\u00e1bito seu.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Mandarei minha filha vir falar-lhe; n\u00f3s ficamos atr\u00e1s desta cortina. Observai bem os fatos; se a n\u00e3o ama, mudai-me da fun\u00e7\u00e3o de conselheiro para a de carroceiro ou campon\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Fa\u00e7amos a experi\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Mas vede. Como \u00e9 triste! O pobrezinho vem lendo um livro!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 \u00c9 urgente; deveis ambos sair, eu vos suplico. Vou falar-lhe. (<i>Saem o Rei, a Rainha e os criados<\/i>) (<i>Entra Hamlet, lendo<\/i>) Como passa o meu bom pr\u00edncipe Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Bem, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Conheceis-me, milorde?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Perfeitamente; sois um peixeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Eu, n\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pois quisera que f\u00f4sseis t\u00e3o honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Honesto, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sim, porque do jeito em que o mundo anda, ser honesto equivale a ser escolhido entre dez mil.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 \u00c9 muito certo isso, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Porque, se o sol gera vermes no cad\u00e1ver de um c\u00e3o, carni\u00e7a muito bela para ser beijada&#8230; N\u00e3o tendes uma filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Tenho, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o a deixeis passear ao sol; a concep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o; n\u00e3o por\u00e9m, como vossa filha pode conceber. Cuidado, amigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Que quereis dizer com isso? (<i>\u00c0 parte<\/i>) Sempre com a id\u00e9ia em minha filha. No entanto, a princ\u00edpio n\u00e3o me reconheceu, tendo-me tomado por um peixeiro. O mal j\u00e1 vai longe. Mas, para ser franco, na minha mocidade o amor me fez sofrer bastante. Cheguei quase a esse ponto. Vou falar-lhe outra vez. Que \u00e9 que o meu pr\u00edncipe est\u00e1 lendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Palavras, palavras, palavras&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 A que respeito, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Entre quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Refiro-me ao assunto de vossa leitura, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Cal\u00fanias, meu amigo. Este escravo sat\u00edrico diz que os velhos t\u00eam a barba grisalha, a pele do rosto enrugada, que dos olhos lhes destila \u00e2mbar tenue e goma de ameixeira, sobre carecerem de esp\u00edrito e possu\u00edrem pernas fracas. Mas embora, senhor, eu esteja \u00edntima e grandemente convencido da verdade de tudo isso, n\u00e3o considero honesto public\u00e1-lo; por que se pud\u00e9sseis ficar t\u00e3o velho quanto eu, sem d\u00favida alguma andar\u00edeis para tr\u00e1s como caranguejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Apesar de ser loucura, revela m\u00e9todo. N\u00e3o quereis sair do vento, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Entrar na sepultura?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Realmente, desse modo sair\u00edeis do vento. (<i>\u00c0 parte<\/i>) Como s\u00e3o agudas, n\u00e3o raro, as suas respostas! \u00c9 uma felicidade da loucura, algumas vezes, felicidade que a raz\u00e3o e o bom senso n\u00e3o alcan\u00e7am com a mesma facilidade. Vou deix\u00e1-lo, a fim de arranjar maneira de que se encontre com minha filha. Meu muito digno senhor, desejo humildemente pedir permiss\u00e3o para despedir-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pois n\u00e3o; n\u00e3o podeis pedir coisa que eu cedesse de melhor boa vontade; exceto a vida, exceto a vida, exceto a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Passai bem, meu pr\u00edncipe. (<i>Retirando-se<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Esses velhos cacetes e sem miolo! (<i>Entram Rosencrantz e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Procurais lorde Hamlet? Est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Deus vos guarde, senhor. (<i>Sai Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Nobre senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Meu querido pr\u00edncipe&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Caros amigos! Como passais, Guildenstern? Ah, Rosencrantz! Bons amigos, como ides passando?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Como filhos med\u00edocres da terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Felizes por n\u00e3o o sermos em demasia. N\u00e3o somos o bot\u00e3o mais alto do gorro da Fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nem a sola de seus sapatos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Nem isso, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o viveis na zona da cintura, ou no meio de seus favores?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 De fato, vivemos em sua intimidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nas partes secretas da Fortuna? Realmente, \u00e9 uma meretriz. Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Nenhuma, pr\u00edncipe; a n\u00e3o ser que o mundo se tornou honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nesse caso, aproxima-se o dia do Ju\u00edzo. Mas para ficarmos no caminho trilhado da amizade, que vos trouxe a Elsinor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Fazer-vos uma visita, pr\u00edncipe; nada mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sou um mendigo que sofre de pen\u00faria at\u00e9 de agradecimentos. Contudo, agrade\u00e7o-vos; com a certeza, meus caros, de que esses agradecimentos j\u00e1 ser\u00e3o caros demais por um real. N\u00e3o fostes chamados? Viestes de moto pr\u00f3prio? Trata-se de visita espont\u00e2nea? Vamos, vamos! Sede sinceros comigo; dizei-me a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GTJILDENSTERN Que poderemos dizer, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Qualquer coisa, contanto que sirva ao caso. Fostes chamados; leio em vosso olhar uma esp\u00e9cie de confiss\u00e3o, que a mod\u00e9stia que vos \u00e9 pr\u00f3pria n\u00e3o consegue mascarar. Sei perfeitamente que o bom rei e a rainha mandaram chamar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Com que fim, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 o que ireis dizer-me. Mas, conjuro-vos pelos direitos de nossa camaradagem, pela conson\u00e2ncia da idade, pelas obriga\u00e7\u00f5es de nossa sempre comprovada afei\u00e7\u00e3o e por tudo de mais caro que pudesse ser invocado por um orador mais convincente do que eu; sede sinceros comigo: fostes ou n\u00e3o fostes chamados?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 (<i>\u00e0 parte para Guildenstern<\/i>) \u2014 Que dizeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 N\u00e3o vos perco de vista. Se me tendes amizade, nada de evasivas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 De fato, pr\u00edncipe, fomos chamados.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vou dizer-vos o motivo; desse modo, antecipando-se minhas presun\u00e7\u00f5es a vossas declara\u00e7\u00f5es, n\u00e3o oscilar\u00e1 no m\u00ednimo a discri\u00e7\u00e3o que deveis ao rei e \u00e0 rainha. De tempos a esta parte \u2014 por motivos que me escapam \u2014 perdi toda a alegria e descuidei-me dos meus exerc\u00edcios habituais. T\u00e3o grave \u00e9 o meu estado, que esta magn\u00edfica estrutura, a terra, se me afigura um promont\u00f3rio est\u00e9ril; este maravilhoso dossel \u2014 ora vede \u2014 o ar, este excelente firmamento que nos cobre, este majestoso teto, incrustado de \u00e1ureos fogos, tudo isto, para mim n\u00e3o passa de um amontoado de vapores pestilentos. Que obra-prima, o homem! Qu\u00e3o nobre pela raz\u00e3o! Qu\u00e3o infinito pelas faculdades! Como \u00e9 significativo e admir\u00e1vel na forma e nos movimentos! Nos atos qu\u00e3o semelhante aos anjos! Na apreens\u00e3o, como se aproxima dos deuses, adorno do mundo, modelo das criaturas! No entanto, que \u00e9 para mim essa quintesc\u00eancia de p\u00f3? Os homens n\u00e3o me proporcionam prazer; sim, nem as mulheres, apesar de vosso sorriso querer insinuar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 N\u00e3o pensei em semelhante coisa, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o, por que sorristes, quando eu disse que os homens n\u00e3o me proporcionam prazer?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Por pensar que, se isso acontece, os atores v\u00e3o ter uma recep\u00e7\u00e3o de quaresma. Apanhamo-los em caminho; v\u00eam para oferecer-vos os seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ser\u00e1 bem-vindo o que representa o rei; Sua Majestade receber\u00e1 as minhas homenagens; o cavalheiro andante far\u00e1 uso do florete e do escudo; o amante n\u00e3o suspirar\u00e1 de gra\u00e7a; o caprichoso ir\u00e1 em paz at\u00e9 ao fim do seu papel, o bobo far\u00e1 rir aos que tiverem pulm\u00f5es que disparem ao menor toque, as damas expor\u00e3o livremente o seu pensar, para que o verso branco n\u00e3o fique estropiado. Que esp\u00e9cie de atores s\u00e3o eles?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Os mesmos de que tanto gost\u00e1veis: os atores da cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E por que est\u00e3o viajando? Se ficassem fixos, s\u00f3 poderiam ganhar, assim na reputa\u00e7\u00e3o como em vantagens materiais.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Penso ser isso resultado da \u00faltima sedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ainda gozam de conceito igual ao do tempo em que eu estava na cidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 N\u00e3o tanto, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E qual a causa? Ficaram enferrujados?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 N\u00e3o; esfor\u00e7am-se como de costume; mas apareceu por a\u00ed uma ninhada de crian\u00e7as, uns frangotes que trazem a p\u00fablico todas as particularidades da quest\u00e3o, pelo que s\u00e3o barbaramente aplaudidos. Est\u00e3o agora em moda, cacarejando de tal maneira nos teatros comuns \u2014 como eles lhes chamam \u2014 que muita gente de espada receia ir l\u00e1, com medo das penas de pato.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Como assim! S\u00e3o crian\u00e7as? E quem os mantem? Quem lhes paga ordenados? S\u00f3 exercer\u00e3o a arte enquanto puderem cantar? N\u00e3o dir\u00e3o mais tarde, se se tornarem atores comuns \u2014 o que \u00e9 de presumir, uma vez que lhes faltam maiores cabedais \u2014 n\u00e3o dir\u00e3o que os escritores abusaram deles, fazendo os declamar contra seu pr\u00f3prio futuro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ Em verdade, de parte a parte n\u00e3o tem faltado mat\u00e9ria para brigas, sem que o povo revele escr\u00fapulos em espica\u00e7\u00e1-los. \u00c9poca houve em que a pe\u00e7a nada rendia, se o poeta e o ator n\u00e3o fossem \u00e0s vias de fato com seus advers\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Oh! Tem havido grande desperd\u00edcio de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E os meninos, carregaram os louros da vit\u00f3ria?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Foi, realmente, o que se deu, milorde; carregaram H\u00e9rcules e mais o seu fardo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o admira; meu tio \u00e9 rei da Dinamarca, e aqueles que lhe faziam caretas em vida de meu pai, d\u00e3o agora vinte, quarenta, cinq\u00fcenta, e at\u00e9 cem ducados por seu retrato em miniatura. Por minha vida! H\u00e1 algo de sobre-natural em tudo isso. Assim pudesse a filosofia descobri-lo. (<i>Ouve-se toque de clarins<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 S\u00e3o os atores que chegam.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Senhores, sois bem-vindos a Elsinor. Apertemo-nos as m\u00e3os; os cumprimentos e cortesias s\u00e3o as perten\u00e7as das boas-vindas. Consenti que vos sa\u00fade deste modo, para que minha atitude em rela\u00e7\u00e3o aos atores \u2014 e posso assegurar-vos que vai ser de brilhante apar\u00eancia \u2014 n\u00e3o pare\u00e7a acolhimento mais afetuoso do que o que vos dispenso. Sois bem-vindos; mas meu tio-pai e minha tia-m\u00e3e se enganaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Em qu\u00ea, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Eu s\u00f3 fico louco quando o vento sopra de nornoroeste; com vento sul, distingo perfeitamente um falc\u00e3o de uma gar\u00e7a. (<i>Entra Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Meus cumprimentos, senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Escuta, Guildenstern; e tu tamb\u00e9m; para cada ouvido um ouvinte: esse beb\u00ea grande que estais vendo, ainda n\u00e3o saiu dos cueiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Nesse caso, voltou a us\u00e1-los, porque dizem que a velhice \u00e9 uma segunda inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sou capaz de adivinhar que vem falar-me dos atores. Tendes raz\u00e3o, senhor; foi justamente na manh\u00e3 de segunda-feira.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Meu senhor, tenho uma not\u00edcia a dar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Meu senhor, tenho uma not\u00edcia a dar-vos: quando Roscius era ator em Roma&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Os atores acabam de chegar, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Lar\u00e1, lar\u00e1&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Palavra de honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o, cada um veio montado na sua besta.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 S\u00e3o os melhores do mundo para trag\u00e9dia, com\u00e9dia, hist\u00f3ria, pastoral, com\u00e9dia pastoral, pastoral hist\u00f3rica, pastoral tr\u00e1gico-hist\u00f3rica, tr\u00e1gicoc\u00f4mico-hist\u00f3rica, cenas sem divis\u00e3o ou poesia sem limite. Para eles, S\u00eaneca n\u00e3o \u00e9 muito pesado nem Plauto leve demais. S\u00e3o \u00fanicos, tanto para ler como no improviso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00d3 Jeft\u00e9, juiz de Israel, que tesouro possu\u00edas!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Que tesouro era, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ora&#8230; Tinha uma filha, nada mais, que ele adorava sobre tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Sempre com minha filha na id\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o tenho raz\u00e3o, velho Jeft\u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Se me chamais de Jeft\u00e9, senhor, tenho uma filha a quem adoro sobre todas as coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o \u00e9 essa a conseq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Qual ser\u00e1, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ora, A sorte s\u00f3 p\u00f4s o que Deus disp\u00f4s. O resto, sabeis muito bem: Da\u00ed ter-se dado o que era esperado. A primeira parte dessa can\u00e7\u00e3o de Natal vos informar\u00e1 melhor; mas a\u00ed vem vindo o resumo do meu discurso. (<i>Entram quatro ou cinco atores<\/i>) Bem-vindos, senhores; sois todos bem-vindos. Alegro-me ver-te com sa\u00fade. Bem-vindos, bons amigos. Ol\u00e1, meu velho amigo! Da \u00faltima vez que te vi, n\u00e3o tinhas essas franjas no rosto. Vieste \u00e0 Dinamarca para pegar-me pela barba? Oh! a minha menina e senhora! Por Nossa Senhora, Vossa Senhoria est\u00e1 mais perto do c\u00e9u do que da \u00faltima vez que a vi, a diferen\u00e7a de um chapim. Queira Deus que n\u00e3o tenha acontecido com a voz como com as moedas que s\u00e3o retiradas da circula\u00e7\u00e3o, por ficarem rachadas junto da orla. Senhores, sede todos bem-vindos. Fa\u00e7amos, por\u00e9m, como os falcoeiros franceses, que solam contra tudo o que v\u00eam. Linguagem direta: dai-me uma amostra de vossa arte, um discurso bem pat\u00e9tico.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Qual ser\u00e1, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 De uma feita ouvi-te declamar um trecho que nunca foi levado \u00e0 cena, ou, quando muito, uma \u00fanica vez. Lembra-me perfeitamente; a pe\u00e7a n\u00e3o agradou aos milh\u00f5es; era caviar jogado ao povo. Mas, segundo o meu modo de ver e o de pessoas, cuja opini\u00e3o no assunto \u00e9 mais autorizada do que a minha, era uma pe\u00e7a excelente, com boa disposi\u00e7\u00e3o de cenas e escrita com tanta sobriedade quanta arg\u00facia. Recorda-me ter ouvido a algu\u00e9m que os versos n\u00e3o continham nada de picante para torn\u00e1-los aceit\u00e1veis, e que nenhuma express\u00e3o tra\u00eda afeta\u00e7\u00e3o por parte do autor; o estilo foi qualificado de honesto, t\u00e3o sadio quanto agrad\u00e1vel, e apraz\u00edvel sem rebuscamentos. Apreciava muit\u00edssimo certa passagem, e fala de En\u00e9ias a Dido, especialmente quando ele trata do assass\u00ednio de Pr\u00edamo. Se a tens de mem\u00f3ria&#8230; Come\u00e7a pela frase&#8230; Espera um pouco&#8230; Deixa ver&#8230; Como tigre da Hirc\u00e2nia, o feroz Pirro&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Come\u00e7a com Pirro: Esse Pirro feroz, que armas trazia da cor do pr\u00f3prio intenso, igual \u00e0 noite. que o envolvia no ventre do cavalo sinistro e malfadado, a negra forma com bras\u00f5es mais sinistros ora cobre: da cabe\u00e7a at\u00e9 aos p\u00e9s \u00e9 todo rubro; enfeita-o horrendamente o triste sangue dos pais, das m\u00e3es, das filhas, dos filhinhos, ressecado nas ruas abrasadas, que emprestam uma luz maldita e b\u00e1rbara a seus crimes nefandos. A arder de ira, empastado de sangue coagulado, os olhos a brilharem quais carb\u00fanculos, Pirro, o maldito, busca o venerando Pr\u00edamo. Agora prossegue.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Por Deus, pr\u00edncipe; muito bem declamado; boa cad\u00eancia e discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Conseguiu por fim ach\u00e1-lo, a lutar sem vantagem contra os gregos. Sua antiquada espada, ao bra\u00e7o infensa, fica onde cai, rebelde a seus mandados. Em duelo desigual, Pirro o acomete; mas ao simples sibilo de seu gl\u00e1dio, tomba o velho enervado. Ex\u00e2nime, \u00cdlio pareceu ressentir-se desse golpe: dobra at\u00e9 \u00e0 base o pico de suas chamas, e com medonho estrondo prende o ouvido de Pirro. Vede! A espada que j\u00e1 vinha baixando sobre a c\u00e2ndida cabe\u00e7a do venerando Pr\u00edamo, parece que o pr\u00f3prio ar a det\u00e9m: desta arte, Pirro, qual tirano em pintura, fica im\u00f3vel, como que neutro entre a vontade e o bra\u00e7o, sem fazer nada. Mas, tal como pouco antes das tormentas sil\u00eancio em todo o c\u00e9u, calmas as nuvens, os ventos sem falar, e a terra embaixo t\u00e3o quieta quanto a morte \u2014 quando o raio de s\u00fabito fuzila: assim, depois da parada de Pirro, a despertada vingan\u00e7a o compeliu para outros feitos. Os malhos dos Ciclopes nunca as armas de Marte percutiram, fabricadas para ampararem sempre, com t\u00e3o pouco remorso, como bate a espada rubra de Pirro sobre Pr\u00edamo. Fortuna! fora, meretriz! \u00d3 deuses do conselho geral, tirai-lhe a for\u00e7a! Quebrai pinas e raios de seu carro, e fazei do alto c\u00e9u rolar o cubo para o centro do inferno!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Acho muito comprido.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Enviai-a, ent\u00e3o, ao barbeiro, para que a corte juntamente com vossa barba. Continua, pe\u00e7o-te eu; a n\u00e3o ser em farsas ou hist\u00f3rias obscenas, ele adormece logo. Prossegue; cheguemos logo a H\u00e9cuba.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Oh! Quem visse a rainha encapuzada!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o fica mal; rainha encapuzada; vai muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Descal\u00e7a corre, as chamas amea\u00e7ando; as l\u00e1grimas a cegam; por diadema cinge apenas um trapo, e, como vestes, sobre os lombos delgados e sofridos, um cobertor, \u00e0s pressas apanhado. Quem visse tal, com l\u00edngua envenenada, acusara a Fortuna de traidora. Mas se os deuses, nessa hora, a contemplassem, quando ela a Pirro deparou no esporte maligno de cortar do esposo os membros: o clamor subit\u00e2neo de sua m\u00e1goa \u2014 se os mortais n\u00e3o lhe s\u00e3o de todo estranhos \u2014 faria enlanguescer os olhos quentes do c\u00e9u e os pr\u00f3prios deuses se apiedarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Vede como ele muda de cor e tem os olhos marejados de l\u00e1grimas. N\u00e3o prossigas, pe\u00e7o-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Est\u00e1 bem; depois me dir\u00e1s o resto. Caro senhor, quereis incumbir-vos da hospedagem destes atores? Mas tomai nota: que sejam bem tratados, porque s\u00e3o o espelho e a cr\u00f4nica resumida da \u00e9poca. Ser-vos-ia prefer\u00edvel um ruim epit\u00e1fio depois de morto, a andardes em vida difamados por eles.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Pois n\u00e3o, pr\u00edncipe; hei de trat\u00e1-los de acordo com seu merecimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Com a breca, homem! Muito melhor! Se f\u00f4sseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade. Quanto menor o seu merecimento, maior valor ter\u00e1 a vossa generosidade. Levai-os.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Vamos, senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Amigos, acompanhai-o. Amanh\u00e3 teremos representa\u00e7\u00e3o. (<i>Sai Pol\u00f4nio com os atores, com exce\u00e7\u00e3o do primeiro ator<\/i>) Ouviste, velho amigo, podes representar a pe\u00e7a \u201cA Morte de Gonzaga\u201d?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o ser\u00e1 amanh\u00e3 \u00e0 noite. E ser-te-\u00e1 possfvel, em caso de necessidade, decorar um discurso de doze ou dezesseis linhas, que vou escrever, para insertar na pe\u00e7a? \u00c9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Perfeitamente, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Muito bem; acompanha aquele senhor; mas pe\u00e7o-te que n\u00e3o zombes dele. (<i>Sai o primeiro ator<\/i>) Meus bons amigos, vou deix\u00e1-los at\u00e9 \u00e0 noite. Sois bem-vindos a Elsinor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Meu bom senhor! (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que Deus os acompanhe. Enfim, sozinho! Que velhaco sou eu, que vil escravo! Pois n\u00e3o ser\u00e1 monstruoso? Este ator p\u00f4de, numa simples fic\u00e7\u00e3o, num sonho apenas de paix\u00e3o, for\u00e7ar a alma aos seus preceitos, a ponto de fugir-lhe a cor do rosto, marejarem-lhe os olhos, o conspecto confundir-se-lhe, a voz tornar-se tr\u00eamula, e toda a compostura conformar-se \u00e0s suas influi\u00e7\u00f5es. Tudo por nada, por H\u00e9cuba! Que \u00e9 ele de H\u00e9cuba, H\u00e9cuba que \u00e9 dele, para chorar por ela? Que faria, se tivesse, como eu, deixas violentas? Inundara de l\u00e1grimas o palco, rasgara o ouvido a todos com seus gritos; assombrados deixara os inocentes, insanos os culpados, confundidos os ignorantes; sim, deixara at\u00f4nitos os sentidos usuais da vista e ouvido. Ao passo que eu, um parvo feito s\u00f3 de lama, um n\u00e9scio, como um jo\u00e3o-sonhador, sem nenhum plano de vingan\u00e7a, me calo, quando a vida preciosa e o trono um rei a perder veio por maneira t\u00e3o b\u00e1rbara e maldita. Serei covarde? Quem me lan\u00e7a o apodo de vil\u00e3o? a cabe\u00e7a me abre em duas? a barba arranca-me e atira-ma no rosto? puxa-me do nariz? de mentiroso me acoima at\u00e9 os pulm\u00f4es? Quem me faz isso? Ah! Fora bem feito. E a causa n\u00e3o \u00e9 outra: tenho sangue de pombo, o fel me falta que a opress\u00e3o torna amarga, ou j\u00e1 teria dado as entranhas desse escravo a todos os abutres do c\u00e9u. Vil\u00e3o nojento, sanguin\u00e1rio, traidor, devasso, est\u00e9ril! Oh vingan\u00e7a! Oh! Que grande asno eu sou! Como \u00e9 ser bravo! Filho de um pai querido, assassinado, a quem o inferno e o c\u00e9u mandam vingar-se, e aliviar-me a falar como uma simples meretriz, a insultar como uma criada! Que vergonha! Vamos, cabe\u00e7a, a postos! Tenho ouvido dizer que os criminosos, quando assistem a representa\u00e7\u00f5es, de tal maneira se comovem com a cena, que confessam na mesma hora em voz alta seus delitos, pois embora sem l\u00edngua, o crime fala por modo milagroso. Esses atores ir\u00e3o representar para meu tio a morte de meu pai. Hei de observar-lhe os olhos e sondar-lhe a alma at\u00e9 o fundo. Se se assustar, conhe\u00e7o o meu caminho. Talvez que o esp\u00edrito que eu vi n\u00e3o passe do dem\u00f4nio, que pode assumir formas atraentes. Sim, talvez mesmo tencione perder-me, aproveitando-se de minha melancolia e pouca resist\u00eancia, como s\u00f3i proceder com tais esp\u00edritos. Preciso de raz\u00f5es mais convincentes do que isso tudo. E a pe\u00e7a \u00e9 a coisa, eu sei, com que a consci\u00eancia hei de apanhar o rei. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at31\" name=\"at31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Pol\u00f4nio, Of\u00e9lia, Rosencrantz e Guildenstern.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o tivestes ensejo, na conversa, de saber o que o p\u00f4s nessa desordem que seus dias de calma tanto abala com dem\u00eancia inquieta e perigosa?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Confessa que se sente perturbado: mas a causa, persiste em n\u00e3o diz\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 N\u00e3o o achamos disposto a ser sondado; com a ast\u00facia da loucura, se esquivava sempre que pretend\u00edamos lev\u00e1-lo a falar de si mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Como vos recebeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Como perfeito cavalheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Conquanto algo for\u00e7ado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Avaro em perguntar, mas respondendo com liberalidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Convidaste-o para algum passatempo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Aconteceu, senhora, que encontramos em caminho uns atores. A not\u00edcia, recebeu-a com mostras de alegria. J\u00e1 se acham no pal\u00e1cio. Penso, mesmo, que v\u00e3o representar para ele, \u00e0 noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 \u00c9 verdade; pediu-me que falasse com Vossas Majestades, concitando-vos a ver e ouvir a pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o; muito me alegra sab\u00ea-lo assim disposto. Continuai, cavalheiros, a anim\u00e1-lo, despertando-lhe o gosto para as festas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Pois n\u00e3o, senhor! (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Doce Gertrudes, deixa-nos; mandamos vir secretamente a Hamlet, para que ele se encontre com Of\u00e9lia, como por acidente. Eu e seu pai, leg\u00edtimos espias, vendo sem sermos vistos, poderemos avaliar do encontro imparcialmente e concluir, do seu procedimento, se \u00e9 amor, em verdade, ou se outra \u00e9 a causa que o faz sofrer assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 J\u00e1 me retiro. No que te toca, Of\u00e9lia, s\u00f3 desejo que seja a tua beleza a feliz causa da loucura de Hamlet, pois espero que tua virtude o leve \u00e0 trilha antiga, para honra de ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Eu, de mim, o espero, tamb\u00e9m, minha senhora. (<i>Sai a Rainha<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Chega, Of\u00e9lia, para aqui&#8230; Majestade, ora busquemos nosso lugar. E tu, l\u00ea neste livro; a leitura pretexto ser\u00e1 para tua solid\u00e3o. Freq\u00fcentes vezes somos pass\u00edveis de censura, pois abundam provas sobre isso, de que com bondade simulada e a\u00e7\u00f5es pias conseguimos tornar a\u00e7ucarado o pr\u00f3prio diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Qu\u00e3o verdadeiro! Como essas palavras me chicoteiam fundo a consci\u00eancia! O rosto rebocado das rameiras n\u00e3o \u00e9 mais feio, sob a artificial beleza, do que a minha a\u00e7\u00e3o debaixo do verniz com que a enfeitam meus discursos. Oh fardo horr\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Ei-lo que chega, meu senhor; saiamos. (<i>O Rei e Pol\u00f4nio saem<\/i>) (<i>Entra Hamlet<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ser ou n\u00e3o ser&#8230; Eis a quest\u00e3o. Que \u00e9 mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer&#8230; dormir&#8230; mais nada&#8230; Imaginar que um sono p\u00f5e remate aos sofrimentos do cora\u00e7\u00e3o e aos golpes infinitos que constituem a natural heran\u00e7a da carne, \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para almejar-se. Morrer.., dormir&#8230; dormir&#8230; Talvez sonhar&#8230; \u00c9 a\u00ed que bate o ponto. O n\u00e3o sabermos que sonhos poder\u00e1 trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos p\u00f5e suspensos. \u00c9 essa id\u00e9ia que torna verdadeira calamidade a vida assim t\u00e3o longa! Pois quem suportaria o esc\u00e1rnio e os golpes do mundo, as injusti\u00e7as dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor n\u00e3o retribu\u00eddo, as leis amorosas, a implic\u00e2ncia dos chefes e o desprezo da in\u00e9pcia contra o m\u00e9rito paciente, se estivesse em suas m\u00e3os obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se n\u00e3o por temer algo ap\u00f3s a morte \u2014 terra desconhecida de cujo \u00e2mbito jamais ningu\u00e9m voltou \u2014 que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos ref\u00fagio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consci\u00eancia. Desta arte o natural frescor de nossa resolu\u00e7\u00e3o definha sob a m\u00e1scara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflex\u00f5es, e at\u00e9 o nome de a\u00e7\u00e3o perdem. Mas, sil\u00eancio! A\u00ed vem vindo a bela Of\u00e9lia. Em tuas ora\u00e7\u00f5es, ninfa, recorda-te de meus pecados.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA Como tem passado, pr\u00edncipe, no correr de tantos dias?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Muit\u00edssimo obrigado; bem, bem, bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Tenho algumas lembran\u00e7as suas, pr\u00edncipe, que h\u00e1 muito devolver eu desejara; receba-as, por favor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Eu, n\u00e3o; eu, n\u00e3o; eu nunca te dei nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe bem sabe que \u00e9 verdade, e com palavras de t\u00e3o doce an\u00e9lito, que o valor dos presentes aumentava. Mas, evolado o aroma, agora os trago. Os brindes se empobrecem, para uma alma bem-nascida, de par com os sentimentos de quem os d\u00e1. Ei-los aqui, meu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ah! Ah! \u00c9s honesta?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Como assim, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9s bela?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA Que quer dizer Vossa Alteza com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 que se fores, a um tempo, honesta e bela, n\u00e3o deves admitir intimidade entre a tua honestidade e a tua beleza.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA Mas, pr\u00edncipe, poder\u00e1 haver melhor companhia para a beleza do que a honestidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Realmente, que a beleza, com o seu poder, levaria menos tempo para transformar a honestidade em alcoviteira do que esta em modificar a beleza \u00e0 sua imagem. J\u00e1 houve \u00e9poca em que isso era paradoxo; mas agora o tempo o confirma. Cheguei a amar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Em verdade, o pr\u00edncipe me fez acreditar nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o deverias ter-me dado cr\u00e9dito, porque a virtude n\u00e3o pode enxertar-se em nosso velho tronco, sem que deste n\u00e3o remanes\u00e7a algum travo. Nunca te amei.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Tanto maior \u00e9 a minha decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Entra para um convento. Por que h\u00e1s de gerar pecadores? Eu, de mim, considero-me mais ou menos honesto, mas poderia acusar-me de tais coisas, que teria sido melhor que minha m\u00e3e n\u00e3o me houvesse dado \u00e0 luz. Sou orgulhoso, vingativo, cheio de ambi\u00e7\u00e3o, e disponho de maior n\u00famero de delitos do que de pensamentos para vesti-los, imagina\u00e7\u00e3o para dar-lhes forma, ou tempo para realiz\u00e1-los. Para que rastejarem entre o c\u00e9u e a terra tipos como eu? Todos somos consumados velhacos; n\u00e3o deves confiar em ningu\u00e9m. Toma o caminho do convento. Onde se encontra teu pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Em casa, alteza<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que lhe fechem as portas, a fim de impedirem que fa\u00e7a papel de tolo, a n\u00e3o ser em sua pr\u00f3pria casa. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Ajuda-o, c\u00e9u de bondade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Se tiveres de casar, dou-te por dote a seguinte maldi\u00e7\u00e3o: ainda que sejas casta como o gelo e pura como a neve, n\u00e3o escapar\u00e1s \u00e0 cal\u00fania. Vai; entra para o convento; adeus. Ou ent\u00e3o, se tiveres mesmo de casar, escolhe um n\u00e9scio para marido, porque os assisados sabem perfeitamente em que monstros as mulheres os transformam. Para o convento, vai; e isso depressa. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Poderes celestiais, restitu\u00ed-lhe a raz\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Conhe\u00e7o muito bem vossas pinturas; Deus vos deu um rosto e arrumais outro; andais aos pulinhos e com requebros, falais cheias de esses e dais nomes indecentes \u00e0s criaturas de Deus, fazendo vossa leviandade passar por inoc\u00eancia. Vai; n\u00e3o insisto, porque foi isso que me deixou louco. O que digo \u00e9 que n\u00e3o teremos casamentos; os que j\u00e1 s\u00e3o casados, com exce\u00e7\u00e3o de um, h\u00e3o de continuar vivos; os de mais, prosseguir\u00e3o como est\u00e3o. Para o convento; vai! (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Que nobre intelig\u00eancia assim perdida! O olho do cortes\u00e3o, a l\u00edngua e o bra\u00e7o do s\u00e1bio e do guerreiro, a mais florida esperan\u00e7a do Estado, o pr\u00f3prio exemplo da educa\u00e7\u00e3o, o espelho da eleg\u00e2ncia, o alvo dos descontentes, tudo em nada! E eu, a mais desgra\u00e7ada das mulheres, que saboreei o mel de suas juras musicais, ter de ver essa admir\u00e1vel raz\u00e3o perder o som, qual sino velho, essa forma sem par, a flor da idade, fanada pela ins\u00e2nia! \u00d3 dor sem fim! Ter j\u00e1 visto o que vi, e v\u00ea-lo assim! (<i>Entram o Rei e Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Qual amor! Sua doen\u00e7a n\u00e3o vem disso. Depois, o que ele disse, ainda que estranho, n\u00e3o parece loucura. Na alma dele algo a melancolia est\u00e1 chocando; e n\u00e3o duvido que o produto possa causar algum perigo, que \u00e9 preciso prevenir. Da\u00ed eu ter nisto assentado depressa: mand\u00e1-lo-ei sem mais delongas \u00e0 Inglaterra, a cobrar velhos tributos. \u00c9 poss\u00edvel que o mar, o novo clima e a diferen\u00e7a dos objetos venham a libert\u00e1-lo dessa qualquer coisa com que o c\u00e9rebro dele se preocupa, alheando-o de si mesmo. Que pensais?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 H\u00e1 de ganhar com isso; por\u00e9m creio que a origem e o come\u00e7o da tristeza v\u00eam de amor desprezado. Ent\u00e3o, Of\u00e9lia? N\u00e3o precisas falar de lorde Hamlet; ouvimos tudo. Procedei, senhor, como entenderdes; mas, se achardes \u00fatil, fazei que ele se encontre com a rainha depois da pe\u00e7a, para, a s\u00f3s, falar-lhe sobre o que o traz assim. E que ela seja franca. Eu, de mim, se o consentis, me ponho a ouvi-los escondido. Se ela nada conseguir, envi\u00e1-lo-ei sem mais demora para a Inglaterra, ou ent\u00e3o mandareis p\u00f3-lo onde quer que a prud\u00eancia vos indique.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Far-se-\u00e1 dessa maneira. \u00c9 sempre ousada a loucura dos grandes n\u00e3o vigiada. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at32\" name=\"at32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Entram Hamlet e alguns atores.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tem a bondade de dizer aquele trecho do jeito que eu ensinei, com naturalidade. Se encheres a boca, como costumam fazer muitos dos nossos atores, preferira ouvir os meus versos recitados pelo pregoeiro p\u00fablico. N\u00e3o te ponhas a serrar o ar com as m\u00e3os, desta maneira; s\u00ea temperado nos gestos, por que at\u00e9 mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, no turbilh\u00e3o das paix\u00f5es, \u00e9 de mister modera\u00e7\u00e3o para torn\u00e1-las male\u00e1veis. Oh! D\u00f3i-me at\u00e9 ao fundo da alma ver um latag\u00e3o de cabeleira reduzir a frangalhos uma paix\u00e3o, a verdadeiros trapos, trovejar no ouvido dos assistentes, que, na maioria, s\u00f3 apreciam barulho e pantomima sem significado. D\u00e1 gana de a\u00e7oitar o indiv\u00edduo que se p\u00f5e a exagerar no papel de Termagante e que pretende ser mais Herodes do que ele pr\u00f3prio. Por favor, evita isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Vossa Alteza pode ficar tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso ser mole demais; que a discri\u00e7\u00e3o te sirva de guia; acomoda o gesto \u00e0 palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira n\u00e3o ultrapassar a mod\u00e9stia da natureza, porque o exagero \u00e9 contr\u00e1rio aos prop\u00f3sitos da representa\u00e7\u00e3o, cuja finalidade sempre foi, e continuar\u00e1 sendo, como que apresentar o espelho \u00e0 natureza, mostrar \u00e0 virtude suas pr\u00f3prias fei\u00e7\u00f5es, \u00e0 ignom\u00ednia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impress\u00e3o de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de representar, podem provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado \u00e0s pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mais em tua aprecia\u00e7\u00e3o do que os aplausos de quantos enchem o teatro. Oh! j\u00e1 vi serem calorosamente elogiados atores que, para falar com certa irrever\u00eancia, nem na voz, nem no porte mostravam nada de crist\u00e3os, ou de pag\u00e3os, ou de homens sequer, e que de tal forma rugiam e se pavoneavam, que eu ficava a imaginar terem sido eles criados por algum aprendiz da natureza, e pessimamente criados, t\u00e3o abomin\u00e1vel era a maneira por que imitavam a humanidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO ATOR \u2014 Quero crer que entre n\u00f3s tudo isso est\u00e1 bem modificado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Faze uma reforma radical! Que os tru\u00f5es n\u00e3o digam mais do que o que lhes compete, pois h\u00e1 deles que v\u00e3o a ponto de rir, somente para provocarem riso aos parvos, at\u00e9 mesmo em passagens com algo merecedor de aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 vergonhoso, sobre revelar ambi\u00e7\u00e3o est\u00fapida por parte de quem se vale de semelhante recurso. Vai aprontar-te. (<i>Entram Pol\u00f4nio, Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) Ent\u00e3o, senhor, o rei ir\u00e1 ouvir a nossa pe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 E a rainha tamb\u00e9m, sem nenhum atraso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nesse caso, apressai os atores. (<i>Sai Pol\u00f4nio<\/i>) N\u00e3o poder\u00edeis ajud\u00e1-lo nessa tarefa?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN \u2014 Com todo o gosto meu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ol\u00e1, Hor\u00e1cio! (<i>Entra Hor\u00e1cio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Aqui me tendes, senhor, \u00e0s vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Hor\u00e1cio, \u00e9s a pessoa mais talhada para meu companheiro e confidente.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Meu pr\u00edncipe&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o penses que \u00e9 lisonja. Que fora de esperar que me emprestasses, se s\u00f3 tens como renda a tua alma grande, que te veste e alimenta? Por que a um pobre lisonjear? N\u00e3o; a l\u00edngua a\u00e7ucarada lambe as pompas est\u00fapidas; os gonzos moles dos joelhos dobram-se onde lucros adv\u00eam do rastejar. Est\u00e1s me ouvindo? D\u00eas que minha alma cara foi senhora de julgar as pessoas, escolheu-te para si pr\u00f3pria, pois tens sido um homem que mostra n\u00e3o sofrer, sofrendo muito, que aceita indiferente bens e males do destino. Aben\u00e7oado quem revela tal mistura de sangue e julgamento, e por isso jamais pode ser p\u00edfaro com que a Fortuna se divirta. Mostra-me o homem liberto das paix\u00f4es; p\u00f3-lo-ei no cora\u00e7\u00e3o, no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, tal como o fiz contigo. Mas basta. Hoje h\u00e1 espet\u00e1culo ante o rei, com uma cena igual \u00e0s circunst\u00e2ncias da morte de meu pai, como eu te disse. Quando chegar essa passagem, pe\u00e7o-te que com todas as for\u00e7as de tua alma observes a meu tio. Se seu crime n\u00e3o se manifestar ante um discurso, \u00e9 que era alma penada o que n\u00f3s vimos e mais negras as minhas fantasias que a forja de Vulcano. Observa-o bem. Hei de os olhos cravar-lhe no semblante; juntaremos depois nossos ju\u00edzos para julgar-lhe o aspecto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Bem, meu pr\u00edncipe; se algo ele surrupiar durante a cena e conseguir fugir, pago o preju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 J\u00e1 v\u00eam chegando; \u00e9 urgente disfar\u00e7armos; vai para o teu lugar. (<i>Marcha dinamarquesa; clarins. Entram o Rei, a Rainha, Pol\u00f4nio, Of\u00e9lia, Rosencrantz, Guildenstern e outras pessoas<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Como vive o nosso primo Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Otimamente, na verdade; da comida dos camale\u00f5es; alimento-me de ar e entupo-me com promessas. Desse jeito n\u00e3o podereis engordar cap\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Nada tenho que ver com semelhante resposta, Hamlet; essas palavras n\u00e3o me dizem respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E j\u00e1 agora, nem a mim, tamb\u00e9m. (<i>A Pol\u00f4nio<\/i>) J\u00e1 representastes uma vez na Universidade, n\u00e3o mo dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 \u00c9 certo, pr\u00edncipe; e fui considerado bom ator.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E que representastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 J\u00falio C\u00e9sar; era assassinado no Capit\u00f3lio; Bruto me matava.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Bem bruto era ele, para matar um bezerro capital desse porte. Os atores est\u00e3o prontos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Est\u00e3o, pr\u00edncipe; aguardam apenas vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Vem para o meu lado, querido Hamlet; senta-te perto de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o, minha m\u00e3e; o \u00edm\u00e3 deste metal tem mais poder.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>ao Rei<\/i>) \u2014 Oh! Oh! Observastes bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Senhorita, poderei sentar-me no vosso rega\u00e7o? (<i>Senta-se ao p\u00e9 de Of\u00e9lia<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 N\u00e3o, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quero dizer, recostar a cabe\u00e7a em vosso rega\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Sim, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pensastes que eu estivesse usando linguagem do campo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 N\u00e3o pensei nada, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Bonita id\u00e9ia, deitar-se a gente entre as pernas de uma donzela.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Que id\u00e9ia, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe est\u00e1 hoje muito alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quem, eu?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sou apenas vosso bobo. Que pode uma pessoa fazer de melhor, a n\u00e3o ser ficar alegre? Vede minha m\u00e3e, como apresenta semblante prazenteiro; no entanto, meu pai morreu apenas h\u00e1 duas horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 N\u00e3o, pr\u00edncipe; duas vezes dois meses.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 H\u00e1 tanto tempo assim? Ent\u00e3o que o diabo se cubra de luto, que eu vou vestir-me de zibelina. Oh c\u00e9us! Morto h\u00e1 dois meses e ainda n\u00e3o esquecido? Nesse caso, h\u00e1 esperan\u00e7a de que a mem\u00f3ria de um grande homem lhe sobreviva meio ano. Por Nossa Senhora, que trate de fundar igrejas, ou ningu\u00e9m pensar\u00e1 nele, como se deu com o cavalo de pau, cujo epit\u00e1fio rezava: Pois oh! Pois oh! O cavalo de pau ficou esquecido! (<i>Clarins<\/i>) Entra a pantomima: um rei e uma rainha, com mostras de muito afeto; a rainha abra\u00e7a o rei e este a ela. A rainha se ajoelha diante do rei e por meio de gestos lhe assegura submiss\u00e3o. Ele a faz erguer-se e inclina a cabe\u00e7a sobre seu ombro; depois, senta-se sobre um banco de flores. Ao v\u00ea-lo adormecido, ela o deixa. Logo depois, entra um indiv\u00edduo que lhe tira a coroa, beija-a, despeja veneno no ouvido do rei e sai. Volta a rainha e, ao verificar que o rei morrera, d\u00e1 mostras de grande m\u00e1goa. O envenenador volta com duas ou tr\u00eas pessoas, parecendo lamentar-se com a rainha. O corpo \u00e9 removido. O envenenador requesta a rainha com presentes; a princ\u00edpio, a rainha parece relutar, mas acaba aceitando o seu amor. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Que significa isso, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Maroteira disfar\u00e7ada; significa infort\u00fanio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Sem d\u00favida a pantomima serve de argumento \u00e0 pe\u00e7a. (<i>Entra o Pr\u00f3logo<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 o que vamos ver por este fregu\u00eas. Os atores n\u00e3o guardam segredo. Vereis como v\u00e3o revelar tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Ir\u00e1 dizer-nos o que significam aqueles gestos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o s\u00f3 aqueles, mas quantos quiserdes representar-lhe. Se n\u00e3o ficardes acanhada, ele tamb\u00e9m n\u00e3o o ficar\u00e1, para explicar-lhes o sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe \u00e9 mau; o pr\u00edncipe \u00e9 mau; vou prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O PR\u00d3LOGO: Para n\u00f3s toda a indulg\u00eancia, para a trag\u00e9dia e dem\u00eancia de vossa alta paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Isso \u00e9 pr\u00f3logo ou emblema de anel?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Foi curto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tal como o amor das mulheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI DA PE\u00c7A \u2014 Trinta vezes j\u00e1 o Sol o giro h\u00e1 feito por T\u00e9lus e Netuno, e com perfeito c\u00f4mputo trinta vezes doze vezes a lua assinalou ao mundo os meses, d\u00eas que as m\u00e3os Himeneu e Amor o afeto. nos ligaram num v\u00ednculo concreto.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA DA PE\u00c7A \u2014 Que a luz e o Sol nos d\u00eaem iguais jornadas, sem que as rosas do amor fiquem fanadas. Mas t\u00e3o cansado te acho e t\u00e3o mudado da alegria primeira, certo, o estado normal em ti, que o susto ora se apossa de mim, sem que isso, ali\u00e1s, turvar-te possa, pois o amor, na mulher, se casa ao medo: ou grandes at\u00e9 ao fim, ou morrem cedo. J\u00e1 dei provas de ser, no amor, constante, mas se o amor \u00e9 tranq\u00fcilo, o medo \u00e9 instante; um grande amor nos sustos se confirma; crescendo o medo, o amor tamb\u00e9m se afirma.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI DA PE\u00c7A \u2014 Muito cedo deixar-te me \u00e9 for\u00e7oso, que me oprime a fraqueza. No formoso mundo tens de viver, sempre acatada, porventura escolhida e muito amada por um segundo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA DA PE\u00c7A \u2014 Basta! Basta! Um feito de tal negror me condenara o peito. S\u00f3 se alegra com outro companheiro quem foi causa da morte do primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Isso \u00e9 absinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA DA PE\u00c7A \u2014 O interesse mesquinho, nunca o amor, do segundo cons\u00f3rcio \u00e9 o causador. Fora o esposo matar do mesmo jeito a cada beijo do outro no seu leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI DA PE\u00c7A \u2014 Sei que \u00e9s sincera; mas \u00e9 bem freq\u00fcente n\u00e3o cumprirmos a jura mais ardente. Da mem\u00f3ria a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 simples serva; forte ao nascer, o tempo a n\u00e3o conserva; fruto que est\u00e1 no galho por ser duro, para cair por si quando maduro. Parece necess\u00e1rio que no olvido se atire o que a n\u00f3s pr\u00f3prios \u00e9 devido. O que a paix\u00e3o concebe de perfeito, suprimida a paix\u00e3o fica desfeito. A viol\u00eancia da dor ou da alegria com sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o dura um dia. Onde o prazer se exalta a dor se encolhe; um nada a dor extingue e o riso tolhe. O mundo passa; \u00e9 natural, portanto, que com a fortuna o amor se altere tanto; pois \u00e9 problema que ainda est\u00e1 sem norte, se a sorte guia o amor, ou o amor a sorte. Cai um dos grandes, somem-se os amigos; sobe um pequeno, adulam-no inimigos. Da\u00ed ligar-se o amor sempre \u00e0 fortuna; tem amigos quem nunca a outro importuna; pois quem ao falso amigo pede, v\u00ea-se de um imigo aumentado, sem que o cresse. Mas, para terminar pelo come\u00e7o, entre a vontade e a sorte h\u00e1 sempre empe\u00e7o. Nossos planos s\u00e3o frutos s\u00f3 do acaso; a id\u00e9ia \u00e9 nossa; os fins, de cada caso. N\u00e3o digas que de novo n\u00e3o te casas; morto o esposo, o prop\u00f3s\u00edto bate asas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA DA PE\u00c7A \u2014 Que a luz o c\u00e9u me negue; a terra, o p\u00e3o; a noite, a calma; o dia, distra\u00e7\u00e3o; que a esperan\u00e7a se mude em desespero; penit\u00eancia no c\u00e1rcere \u00e9 o que eu espero. Que quanto enturva o rosto da alegria se me antolhe a afligir-me noite e dia. Repudiada seja eu por todo o povo, se, chegando a enviuvar, casar, de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E se ela quebrar o juramento?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI DA PE\u00c7A \u2014 Palavras bem solenes; mas, querida, deixa-me; sinto a fronte dolorida; quero dormir. (<i>Adormece<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA DA PE\u00c7A \u2014 Repousa sossegado; que nenhuma afli\u00e7\u00e3o nos d\u00ea cuidado. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que tal acha a pe\u00e7a, minha senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Parece-me que a dama faz protestos demasiados.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Oh! Mas ela \u00e9 de palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ouviste o argumento? N\u00e3o cont\u00e9m nenhuma ofensa?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o; \u00e9 tudo por brinquedo; envenenam por brinquedo; \u00e9 o que n\u00e3o existe no mundo, ofensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Como se intitula a pe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u201cA Ratoeira\u201d; mas, j\u00e1 se v\u00ea, simples met\u00e1fora. A pe\u00e7a se baseia na hist\u00f3ria de um crime ocorrido em Viena; Gonzago \u00e9 o nome do duque; Batista, o da mulher. Ides ver dentro de pouco: pura velhacaria. Mas, que importa? Nem Vossa Majestade, nem eu, que temos a consci\u00eancia limpa, somos atingidos. Os sendeiros que esperneiem; n\u00e3o estamos com o lombo pisado. (<i>Entra um ator, no papel de Luciano<\/i>) Esse \u00e9 um tal Luciano, sobrinho do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe serve muito bom de coro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Poderia servir de ponto numa vossa conversa com o namorado, se visse os movimentos dos t\u00edteres.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O pr\u00edncipe est\u00e1 muito afiado hoje, muito afiado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Havia de custar-vos gemidos embotar-me o fio.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 De bem para melhor; de mal para pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Os maridos s\u00e3o desse jeito. Vamos, assassino, come\u00e7a logo! Deixa tua cara amaldi\u00e7oada, peste, e principia de uma vez! Vamos. O corvo, em seu grasnar, chama a vingan\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCIANO \u2014 Pensamentos escuros, droga a jeito, tempo oportuno, m\u00e3os para esse feito, ningu\u00e9m perto&#8230; Bebida desprez\u00edvel, tr\u00eas vezes \u00e0 meia-noite com a terr\u00edvel maldi\u00e7\u00e3o de H\u00e9cate mexida: neste corpo despeja os males que escondeste! (<i>Despeja veneno no ouvido do Rei adormecido<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Envenena-o no jardim, por causa do reino; chama-se Gonzago. A hist\u00f3ria existe; foi escrita em italiano primoroso. Vereis dentro de pouco como o assassino obt\u00e9m o amor da mulher de Gonzago.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 O rei se levantou.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que \u00e9 isso? Medo de um falso alarma de fogo?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Como passa o meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Suspendam a representa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Tragam-me luzes! Vamos-nos embora! (<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Hamlet e Hor\u00e1cio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que sangre o veado e ponha-se a fugir, enquanto descansa; uns precisam velar, outros dormir; desta arte o mundo avan\u00e7a. Uma cena como essa e mais uma floresta de penas \u2014 se algum dia a Fortuna se me tornar madrasta \u2014 e um par de rosetas nos sapatos rasos, n\u00e3o me assegurariam um lugar em qualquer matilha de comediantes?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Com metade dos lucros, como n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nada disso, todo o lucro, pois bem sabes, Damon, que o pr\u00f3prio Jove este reino desfez; agora est\u00e1 no trono um verdadeiro&#8230; direi tudo?&#8230; um pav\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Poder\u00edeis ter rimado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Meu bom Hor\u00e1cio! Aposto mil contra um na palavra do fantasma. Percebestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Perfeitamente, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Na hora do veneno?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ah! Ah! Venha m\u00fasica! Tragam os fiajol\u00e9s! Porque se a pe\u00e7a ao rei em nada agrada, n\u00e3o vale coisa alguma, est\u00e1 julgada. Vamos! Tragam m\u00fasica! (<i>Entram Rosencrantz e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Meu bom senhor, concedei-me uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 At\u00e9 uma historia inteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 O rei, senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Como vai ele passando?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 &#8230; recolheu-se indisposto para seus aposentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 De bebida?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 N\u00e3o, senhor; de c\u00f3lera.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vossa sabedoria se revelaria mais opulenta, se cont\u00e1sseis isso ao seu m\u00e9dico; porque se eu lhe aplicar uma purga, talvez lhe fa\u00e7a aumentar ainda mais a c\u00f3lera.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Ponde ordem, meu bom senhor, em vossas palavras, sem vos desviardes tanto do prop\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 J\u00e1 amansei; podeis falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 A rainha vossa m\u00e3e, que se acha muito consternada, mandou que vos procurasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pois sede bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Essa cortesia n\u00e3o vem a prop\u00f3sito, pr\u00edncipe. Se for de vosso agrado dar-me uma resposta sadia, desincumbir-me-ei do recado de vossa m\u00e3e; em caso contr\u00e1rio, com vosso perd\u00e3o e minha retirada darei por finda a miss\u00e3o a que vim.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Que \u00e9 que vos \u00e9 imposs\u00edvel, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Dar-vos uma resposta sadia. Meu esp\u00edrito est\u00e1 doente. Mas ponho a vossas ordens a resposta que me for poss\u00edvel, ou, como o dissestes, \u00e0s ordens de minha m\u00e3e. Por isso, entremos logo no assunto. Minha m\u00e3e, \u00edeis dizendo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Manda dizer-vos que vossa conduta lhe causou assombro e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Oh filho estupendo, que chega a causar assombro \u00e0 pr\u00f3pria m\u00e3e! Mas no calcanhar da admira\u00e7\u00e3o da m\u00e3e n\u00e3o segue nenhuma conseq\u00fc\u00eancia? Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Deseja falar-vos em seus aposentos, antes de vos recolherdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Obedeceria, ainda que ela fosse dez vezes minha m\u00e3e. N\u00e3o tendes nenhum outro assunto a tratar comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Houve tempo, pr\u00edncipe, que me t\u00ednheis amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 At\u00e9 hoje sou o mesmo; juro-o por estes gadanhos de ladr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Meu bom senhor, qual \u00e9 o motivo de vossa altera\u00e7\u00e3o? Pondes trancas em vossa liberdade, negando-vos a revelar a um amigo o motivo de vossa tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Falta-me ser promovido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Como \u00e9 isso poss\u00edvel, se contais com a palavra do pr\u00f3prio rei de que o sucedereis no trono da Dinamarca?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 certo: mas, \u201cEnquanto a grama cresce&#8230;\u201d o prov\u00e9rbio j\u00e1 est\u00e1 enferrujado. (<i>Entram alguns atores com flajol\u00e9s<\/i>) Oh, flajol\u00e9s! Deixa-me ver um. Falando-vos em particular, por que motivo me rodeais desse jeito, a tomar o meu faro, como se quis\u00e9sseis levar-me para alguma cilada?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Oh, pr\u00edncipe! Se o meu dever \u00e9 ousado, minha amizade \u00e9 incivil.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o atino bem com o sentido. Mas, n\u00e3o quereis tocar nesta flauta?<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 N\u00e3o posso, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Acreditai-me, pr\u00edncipe, n\u00e3o posso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Fazei-me esse favor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o uma s\u00f3 posi\u00e7\u00e3o, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto mentir. Com os quatro dedos e o polegar regulais estes orif\u00edcios; depois, bastar\u00e1 soprar, para que saia m\u00fasica muito agrad\u00e1vel. Vede: aqui est\u00e3o as chaves.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Mas n\u00e3o est\u00e1 em mim tirar a menor harmonia, pr\u00edncipe; n\u00e3o possuo essa habilidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ora vede que coisa desprez\u00edvel fazeis de mim. Pretend\u00edeis que eu fosse um instrumento em que poder\u00edeis tocar \u00e0 vontade, por presumirdes que conhec\u00edeis minhas chaves. T\u00ednheis a inten\u00e7\u00e3o de penetrar no cora\u00e7\u00e3o do meu segredo, para experimentar toda a escala dos meus sentimentos, da nota mais grave \u00e0 mais aguda. No entanto, apesar de conter este instrumento bastante m\u00fasica e de ser dotado de excelente voz, n\u00e3o conseguis faz\u00ea-lo falar. Com a breca! Imaginais, ent\u00e3o, que eu sou mais f\u00e1cil de tocar do que esta flauta? Dai-me o nome do instrumento que quiserdes; conquanto voz seja f\u00e1cil escalavrar-me, jamais me fareis produzir som. (<i>Entra Pol\u00f4nio<\/i>) Deus vos guarde, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Senhor, a rainha deseja falar-vos quanto antes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Estais vendo aquela nuvem em forma de camelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Pela Santa Missa! Parece, de fato, um camelo!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Creio que parece mais uma doninha.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 \u00c9 certo; o dorso \u00e9 de doninha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ou uma baleia?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Uma baleia, realmente; muito semelhante.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Bem; se assim \u00e9, irei ter com minha m\u00e3e neste momento. (<i>\u00c0 parte<\/i>) Esta gente brinca de doido comigo, ao ponto de arrebentar-me a paci\u00eancia. (<i>Alto<\/i>) Irei neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Dir-lhe-ei isso mesmo. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Neste momento \u00e9 f\u00e1cil de dizer. Deixai-me, amigos. (<i>Saem todos, menos Hamlet<\/i>) Estamos na hora t\u00e9trica da noite em que se abrem os t\u00famulos e o inferno lan\u00e7a no mundo a peste. Poderia beber, neste momento, sangue quente e realizar tais coisas que fariam tremer o pr\u00f3prio dia. Mas, sil\u00eancio! Procuremos agora minha m\u00e3e. Cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o te esque\u00e7a o de quem \u00e9s. Que neste peito firme jamais entre a alma de Nero; r\u00edspido, mas nunca desnaturado; espadas, s\u00f3 na l\u00edngua, sem que delas me valha: que se irmanem na hipocrisia a l\u00edngua e o cora\u00e7\u00e3o. Se a palavra sair demais pesada, minha alma, n\u00e3o lhe d\u00eas forma adequada. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at33\" name=\"at33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram o Rei, Rosencrantz e Guildenstern.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o me agrada. Al\u00e9m disso, constitui perigo para n\u00f3s deixar sem peias sua loucura. Assim, ide aprontar-vos, que vossas instru\u00e7\u00f5es mandarei logo e ele para a Inglaterra ir\u00e1 convosco. Nossa real dignidade n\u00e3o comporta os riscos que a toda hora seus caprichos fazem nascer.<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Iremos aprontar-nos. O medo religioso e santo cuida da salva\u00e7\u00e3o de tantas exist\u00eancias que se nutrem de Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 A pr\u00f3pria vida singular precisa, com toda a for\u00e7a e as armas do intelecto, defender-se de danos. Que dizer-se da alma de que depende sempre a vida de tanta gente? Nunca a majestade morre sozinha; qual voragem, chupa quanto est\u00e1 perto; \u00e9 roda gigantesca que nos raios cont\u00eam dez mil coisinhas encaixadas, e cuja queda implica a ru\u00edna fragorosa das menores pe\u00e7as que se lhe prendem. O gemido do rei sempre \u00e9 geral, sempre \u00e9 alarido.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Pe\u00e7o vos apresseis para a viagem; queremos p\u00f4r grilhetas nesse medo que passeia t\u00e3o livre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN \u2014 J\u00e1 nos vamos. (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) (<i>Entra Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Ele j\u00e1 foi, senhor, para o aposento da rainha. Por tr\u00e1s do reposteiro vou p\u00f4r-me a ouvi-los. \u00c9 certeza, ela h\u00e1 de repreend\u00ea-lo; e, conforme sabiamente dissestes, \u00e9 preciso que outro ouvido que n\u00e3o o materno, pois a natureza f\u00ea-lo parcial, escute o que falarem. Passai bem, meu senhor; chamar-vos-ei antes de vos deitardes, para dar-vos conta do que souber.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Muito obrigado. (<i>Sai Pol\u00f4nio<\/i>) Est\u00e1 podre o meu crime; o c\u00e9u j\u00e1 o sente. A maldi\u00e7\u00e3o primeira p\u00f4s-lhe o estigma: fratricida. Rezar, n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel, muito embora o pendor siga \u00e0 vontade; a culpa imana vence o belo intento. Tal como algu\u00e9m que empreende dois neg\u00f3cios ao mesmo tempo, mostro-me indeciso sobre qual inicie, acontecendo vir ambos a perder. Se esta maldita m\u00e3o de sangue fraterno se cobrisse, n\u00e3o haveria chuva suficiente no c\u00e9u, para deix\u00e1-la como a neve? Para que serve a Gra\u00e7a, se n\u00e3o serve para enfrentar o rosto do pecado? E a ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o contem dupla virtude, de prevenir a queda e obter completo perd\u00e3o para os que caem? Al\u00e7o os olhos. Meu crime j\u00e1 passou; mas, que modelo de ora\u00e7\u00e3o servir\u00e1 para o meu caso? \u201cPerdoai-me o crime monstruoso e horrendo?\u201d N\u00e3o pode ser, que me acho, ainda, de posse de quanto me levou a pratic\u00e1-lo: o trono, meus anelos e a rainha. Perd\u00e3o alcan\u00e7a quem ret\u00eam o furto? Nos processos corruptos deste mundo pode a justi\u00e7a ser desviada pela m\u00e3o dourada do crime, e muitas vezes o pr\u00eamio compra a lei; mas n\u00e3o l\u00e1 em cima, onde n\u00e3o valem manhas; o processo n\u00e3o padece art\u00edficios, e at\u00e9 mesmo nos dentes e na fronte do delito teremos de depor. Que ainda me resta? Tentar o que o arrependimento pode. Oh! Como \u00e9 poderoso! Mas que pode fazer com quem n\u00e3o sabe arrepender-se? Terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o! \u00d3 peito mais escuro do que a morte! \u00d3 alma viscosa, quanto mais te esfor\u00e7as, mais te sentes enleada! Anjos, socorro! Dobra-te, joelho altivo! Cora\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, fica t\u00e3o brando quanto os m\u00fasculos de um rec\u00e9m-nato. Tudo talvez volte a ser como era. (<i>Afasta-se e ajoelha<\/i>) (<i>Entra Hamlet<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 prop\u00edcia a ocasi\u00e3o; acha-se orando. Vou faz\u00ea-lo. Desta arte, alcan\u00e7a o c\u00e9u&#8230; E assim me vingaria? Em outros termos: mata um biltre a meu pai; e eu, seu filho \u00fanico, despacho esse mesm\u00edssimo velhaco para o c\u00e9u. \u00c9 soldo e recompensa, n\u00e3o vingan\u00e7a. Assassinou meu pai, quando este estava pesado de alimentos, com seus crimes floridos como maio. O c\u00e9u somente saber\u00e1 qual o estado de suas contas; mas, de acordo com nossas presun\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ser\u00e1 bom. Direi que estou vingado, se o matar quando tem a alma expungida e apta para fazer a grande viagem? N\u00e3o. Aguarda, espada, um golpe mais terr\u00edvel, no sono da embriaguez, ou em plena c\u00f3lera, nos prazeres do t\u00e1lamo incestuoso, no jogo, ao blasfemar, ou em qualquer ato que o arraste \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o. Nessa hora, ataca-o; que para o c\u00e9u vire ele os calcanhares, quando a alma estiver negra como o inferno, que \u00e9 o seu destino. Espera-me a rainha; prolonga-te a doen\u00e7a esta mezinha. (<i>Sai<\/i>) (<i>O Rei se levanta e adianta-se<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 O som se evola; o pensamento cansa; um sem o outro jamais o c\u00e9u alcan\u00e7a. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at34\" name=\"at34\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Aposento da Rainha.<\/i> (<i>Entram a Rainha e Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO \u2014 Ele a\u00ed vem; repreendei-o asperamente; mostrai que se excedeu nas brincadeiras, e como se interp\u00f4s Vossa Grandeza entre ele e a grande c\u00f3lera. Mais nada; somente vos reitero: sede r\u00edspida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 (<i>dentro<\/i>) M\u00e3e! M\u00e3e!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcilo; retirai-vos; est\u00e1 ele chegando. (<i>Pol\u00f4nio se esconde atr\u00e1s do reposteiro<\/i>) (<i>Entra Hamlet<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ent\u00e3o, m\u00e3e, que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Grande ofensa a teu pai fizeste, Hamlet.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Grande ofensa a meu pai fizeste, m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Devagar; respondeis com l\u00edngua ociosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vamos, que me falais com l\u00edngua ociosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que \u00e9 isso, Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que h\u00e1 de novo agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA Esquecestes quem sou?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o, pela Cruz! N\u00e3o me esqueci. Sei bem que sois a rainha, casada com o irm\u00e3o de vosso esposo e \u2014 prouvera o contr\u00e1rio \u2014 minha m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA Vou chamar quem convosco falar possa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vamos, sentai-vos; n\u00e3o saireis enquanto n\u00e3o vos apresentar eu um espelho que o rec\u00f4ndito da alma vos reflita.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA Que pretendes fazer? N\u00e3o vais matar-me? Socorro! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>atr\u00e1s<\/i>) \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1? Socorro! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET (<i>desembainhando a espada<\/i>) \u2014 Que \u00e9 isso? Um rato? (<i>Dando uma estocada no reposteiro<\/i>) Aposto que o matei.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00d4NIO (<i>atr\u00e1s<\/i>) \u2014 Estou morto!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Santo Deus, que fizeste!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ignoro-o. N\u00e3o era o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que a\u00e7\u00e3o precipitada e sanguin\u00e1ria!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A\u00e7\u00e3o precipitada e sanguin\u00e1ria? T\u00e3o ruim, boa m\u00e3e, quanto matar um rei e desposar o irm\u00e3o do morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Matar um rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Um rei; foi o que eu disse. (<i>Levanta o reposteiro e descobre o corpo de Pol\u00f4nio<\/i>) Adeus, bobo apressado e intrometido. Julguei que era o teu chefe; \u00e9 o teu destino. V\u00eas que o ser servi\u00e7al traz seus perigos. N\u00e3o tor\u00e7ais tanto as m\u00e3os; sentai-vos; quero lutar com vosso cora\u00e7\u00e3o; no caso de ser ele amolg\u00e1vel, se o maldito costume o n\u00e3o deixou duro como o a\u00e7o, tornando-o resistente \u00e0 persuas\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que fiz eu para usares de linguagem t\u00e3o grosseira?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Uma a\u00e7\u00e3o que mancha a gra\u00e7a e o rubor da mod\u00e9stia, que a virtude transforma em falsidade, muda as rosas da fronte prazenteira do amor puro em chaga repugnante, e os juramentos dos c\u00f5njuges em pragas de viciados. Uma a\u00e7\u00e3o que do corpo dos contratos tira a pr\u00f3pria alma e muda em palavr\u00f3rio a doce religi\u00e3o; a pr\u00f3pria face do c\u00e9u cora de pejo; sim, o mundo compacto, nas fei\u00e7\u00f5es mostra a tristeza do ju\u00edzo final, diante desse ato.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Ai! que a\u00e7\u00e3o t\u00e3o monstruosa, que troveja estrondeando, com o simples enunciado?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Mirai este retrato e mais este outro, que dois irm\u00e3os fielmente representam; vede a gra\u00e7a que encima esta cabe\u00e7a, cachos de Apolo, a fronte alta de J\u00fapiter, o olhar de Marte, ao mando e \u00e0 amea\u00e7a afeito, o porte de Merc\u00fario, o mensageiro, quando pousa nos cumes altanados; uma forma, em resumo, perfeit\u00edssima, em que os deuses seus selos imprimiram para que o mundo visse o que era um homem: esse, foi vosso esposo. Agora o resto: eis vosso esposo, espiga definhada que o irm\u00e3o sadio empesta. Tendes olhos? Deixastes a pastagem deste belo monte por um pau? Ah! tendes olhos? N\u00e3o chameis a isso amor, que em vossa idade o sangue se arrefece, fica humilde e obedece \u00e0 raz\u00e3o. E que raz\u00e3o passa deste para este? Sois sens\u00edvel, pois vos moveis; mas tendes os sentidos paralisados. A loucura acerta; nunca os sentidos ficam subjugados pela paix\u00e3o, a ponto de falharem totalmente na escolha. Que dem\u00f4nio vos logrou de uma vez na cabra-cega? O olho sem tato, o tato sem vis\u00e3o, o ouvido s\u00f3 por si, o olfato apenas, a menor parte, em suma, de um sentido verdadeiro, jamais se estontearia desse feitio. Pudor, por que n\u00e3o coras? Se nos ossos de uma matrona, inferno, te rebelas, que a contin\u00eancia fique, para os mo\u00e7os ardentes, como a cera, que amolece no pr\u00f3prio fogo; nem de mancha fales, quando no ataque se atirar o instinto, uma vez que \u00e9 t\u00e3o quente a pr\u00f3pria geada e a raz\u00e3o \u00e9 alcoveta da vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 N\u00e3o fales mais, Hamlet; a olhar me for\u00e7as no mais \u00edntimo da alma, onde acho manchas profundas e t\u00e3o negras, que n\u00e3o perdem jamais a cor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Viver num leito infecto que tresanda a fartum, onde fervilha a podrid\u00e3o, juntando-se em car\u00edcias num chiqueiro asqueroso!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Oh! N\u00e3o prossigas! Apunhalam-me o ouvido essas palavras. Basta, querido Hamlet!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Um assassino, um vil escravo, que n\u00e3o \u00e9 um vig\u00e9simo do outro marido, um rei-buf\u00e3o, um simples gatuno do governo desta terra, que a coroa empalmou da prateleira e a p\u00f4s no bolso.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Basta!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Um rei-palha\u00e7o, em trajes de mendigo&#8230; (<i>Entra o Fantasma<\/i>) Estendei sobre mim, legi\u00f5es celestes as asas protetoras! Que deseja vossa imagem graciosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Ai de mim! Est\u00e1 louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o viestes censurar o filho tardo, que deixa a ira assentar, e t\u00e3o remisso se mostra no cumprir vossos preceitos? Oh, dizei!<\/p>\n<p align=\"justify\">O FANTASMA \u2014 N\u00e3o te esque\u00e7as: minha vinda s\u00f3 visa a estimular-te o intento rombo. Mas v\u00ea que em tua m\u00e3e se assenta o espanto. Corre a interpor-te entre ela e a sua alma em luta, que nas pessoas fracas \u00e9 terr\u00edvel o estrago da ilus\u00e3o. Fala-lhe, Hamlet.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Senhora, que sentis?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que se passa contigo, que os olhos assim pousas no vazio e com o ar incorp\u00f3reo deblateras? Como se te ilumina a alma nos olhos! E tais como soldados, quando o alarma vem tir\u00e1-los do sono, teus cabelos, parecendo com vida, se desmancham, se curi\u00e7am na tua fronte. \u00d3 meu bom filho! Lan\u00e7a a fria paci\u00eancia sobre as chamas e o fogo do teu mal. Mas, para onde olhas?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Para ele, sim; qu\u00e3o p\u00e1lido nos fixa! Seu destino e sua forma, se influissem nas pedras, racionais as tornariam. Tirai de mim os olhos, para que esse gesto piedoso n\u00e3o transmude minhas \u00e1speras inten\u00e7\u00f5es, pois o que tenho para fazer exige cores vivas. Necessito de sangue em vez de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Para quem falas isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ningu\u00e9m vedes?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Ningu\u00e9m; no entanto vejo o que nos cerca.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E nada ouviste?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Nada; a n\u00f3s somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vede ali! Vede! J\u00e1 se afasta&#8230; Meu pai, tal como em vida se vestia. Acaba \u2014 vede-o! \u2014 de transpor a porta. (<i>Sai o Fantasma<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Isso \u00e9 fruto, somente, de teu c\u00e9rebro. \u00c9 sempre muito f\u00e9rtil o del\u00edrio no inventar essas coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Del\u00edrio! Meu pulso, como o vosso, \u00e9 compassado; toca m\u00fasica s\u00e3. N\u00e3o foi loucura quanto falei; ponde-me \u00e0 prova: posso dizer tudo de novo. Um desvairado divagaria. M\u00e3e, por vossa gra\u00e7a, n\u00e3o lisonjeeis vossa alma, acreditando que ouvis um louco e n\u00e3o vosso delito. A \u00falcera externa, assim, se fecharia, enquanto a corrup\u00e7\u00e3o minara tudo por dentro, sem ser vista. Ao c\u00e9u volvei-vos; mostrai-vos do passado arrependida; evitai o futuro, sem que o joio adubeis e lhe deis, assim, mais vi\u00e7o. Perdoai-me esta virtude, que nesta \u00e9poca bem cevada e de f\u00f4lego cortado necessita a virtude rebaixar-se ao pr\u00f3prio v\u00edcio e apresentar-lhe escusas por tudo o que de bem possa fazer-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">RAINHA \u2014 Hamlet, o cora\u00e7\u00e3o em dois me partes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Jogai fora a metade que n\u00e3o presta, para com a outra parte serdes pura. Boa noite. Mas evitai a cama do meu tio; fazei-vos de virtuosa, se o n\u00e3o fordes. O h\u00e1bito, esse dem\u00f4nio que devora todos os sentimentos, nisso \u00e9 um anjo, pois para o uso de a\u00e7\u00f5es boas e belas empresta vestimenta ou capa externa que lhes v\u00e3o bem. Abstende-vos por hoje, que isso h\u00e1 de conferir facilidade \u00e0 pr\u00f3xima abstin\u00eancia; a outra, mais f\u00e1cil vos h\u00e1 de parecer, que o uso consegue quase modificar a natureza, dominar o dem\u00f4nio e at\u00e9 expeli-lo com poder prodigioso. Uma vez mais, boa noite. Hei de pedir a vossa b\u00ean\u00e7\u00e3o, quando dela tamb\u00e9m necessitardes. Enquanto a este homem, faz-me pena; qui-lo desta arte o c\u00e9u: punir a mim por ele, e a ele por mim. Fui servo, a um tempo, e a\u00e7oite. Vou cuidar dele; fico respons\u00e1vel por esta morte. E ainda uma vez: boa noite. Preciso ser cruel para ser bom; o ruim come\u00e7a; o pior j\u00e1 se acha feito. Uma palavra mais, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que \u00e9 preciso que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nada do que vos disse neste instante. Que outra vez para o leito o rei balofo, vos conduza e no rosto vos belisque vos chame de ratinha, e que dois beijos infectos e car\u00edcias com as m\u00e3os grossas em vossas costas pronto vos induzam a revelar-lhe que estou bom do ju\u00edzo, mas que finjo loucura. Dizei-lhe isso. Que rainha sensata, bela e honesta esconderia coisas t\u00e3o preciosas de um sapo, de um morcego? \u00c9 conceb\u00edvel? Apesar do bom senso, abri a gaiola no telhado e deixai fugir o p\u00e1ssaro; depois, como o macaco conhecido, entrai nela e fazei logo a experi\u00eancia para em baixo partirdes o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Fica tranq\u00fcilo; se o falar consiste em respirar, e o f\u00f4lego for vida, n\u00e3o terei vida alguma que respire quanto me revelaste.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Parto para a Inglaterra; j\u00e1 o sab\u00edeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Ai! que o esquecera&#8230; Assim ficou assentado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Selaram cartas; meus dois companheiros de escola, em quem me fio como em dentes de v\u00edbora, se encontram com a incumb\u00eancia de aplanar-me o caminho e conduzir-me direto ao cativeiro. Pois trabalhem! H\u00e1 de ser engra\u00e7ado ver a bomba fazer saltar o autor. Por mais dificil que seja, hei de cavar mais fundo ainda, para jog\u00e1-los no alto. Como \u00e9 belo ver a ast\u00facia vencer a pr\u00f3pria ast\u00facia! Este homem me ajudou a fazer as malas; vou p\u00f4r no quarto anexo esta barriga. Boa noite, m\u00e3e. Realmente, o conselheiro que era t\u00e3o falador, est\u00e1 sisudo: quietinho, bem discreto, grave e mudo. Vamos, senhor, dar fim a este neg\u00f3cio. Boa noite, m\u00e3e. (<i>Saem por lados diferentes, arrastando Hamlet o corpo de Pol\u00f4nio<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at41\" name=\"at41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Rosencrantz e Guildenstern.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Devem ter uma causa esses suspiros. Conta-ma; desejamos conhec\u00ea-la. Onde se acha teu filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA (<i>A Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) \u2014 Deixai-nos ficar s\u00f3s por um momento. (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) Caro esposo, que coisa eu vi esta noite!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Que foi, Gertrudes? Como achaste Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 T\u00e3o louco quanto o mar e o vento, quando lutam pelo primado. Em seu desvairo, vendo atr\u00e1s da cortina algo mexer-se, saca da espada e grita: um rato! um rato! para matar no acume do del\u00edrio o bom velho que estava ali escondido.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Que triste coisa! O mesmo nos tocara, se estiv\u00e9ssemos l\u00e1. Sua liberdade implica para todos grande amea\u00e7a, para ti, para n\u00f3s, para qualquer. Como explicar esse ato sanguin\u00e1rio? H\u00e3o de culpar-nos, por n\u00e3o termos tido a id\u00e9ia de prender o desvairado mo\u00e7o, para evitar poss\u00edveis males. Mas nosso amor n\u00e3o permitiu sabermos o que quisesse ocultar um mal imundo, s\u00f3 fizemos deixar que nos corroesse a medula vital. Aonde foi ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Foi sepultar o corpo de Pol\u00f4nio, de quem tirou a vida. E nisso a ins\u00e2nia, como gr\u00e3o de ouro em meio \u00e0 ganga impura, se manifesta estreme: chora a morte que ele mesmo causou.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 \u00d3 Gertrudes! saiamos! O sol n\u00e3o beijar\u00e1 de novo os montes, sem que a Hamlet embarquemos. No que toca a esta a\u00e7\u00e3o vil, teremos de aceit\u00e1-la, justificando-a \u00e0 custa de artif\u00edcios e de nossa grandeza. \u00d3 Guildenstern! (<i>Voltam Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) Amigos, procurai quem vos ajude. Hamlet a delirar matou Pol\u00f4nio, tendo o corpo tirado do aposento da rainha. Falai-lhe com bem jeito, e ponde na capela o pobre morto. Muita pressa, vos pe\u00e7o, nisso tudo. (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) Convoquemos, Gertrudes, os amigos, para participar-lhes nosso intento e o ato precipitado. \u00c9 bem poss\u00edvel que desta arte a cal\u00fania, que sussurra t\u00e3o certeira de um p\u00f3lo at\u00e9 outro p\u00f3lo, quanto a bala que no alvo o canh\u00e3o joga, nos poupe o nome e a\u00e7oite apenas o ar, sem mais preju\u00edzo. Vamo-nos; minha alma, em disc\u00f3rdia e terror, n\u00e3o se acha calma. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at42\" name=\"at42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no castelo. Entra Hamlet.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Est\u00e1 em lugar seguro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN \u2014 Hamlet! Lorde Hamlet!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que barulho \u00e9 esse? Quem chama por Hamlet? Oh! Ei-los que chegam. (<i>Entram Rosencrantz e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Onde o corpo pusestes, lorde Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Associei-o ao p\u00f3, de que \u00e9 parente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Dizei-nos onde est\u00e1, porque possamos dep\u00f4-lo na capela.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o deis cr\u00e9dito a semelhante coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 A qu\u00ea, meu pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que eu possa guardar o vosso segredo e n\u00e3o o meu. Al\u00e9m do mais, ser interrogado por uma esponja! Que poder\u00e1 responder-lhe um filho de rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Tomais-me por uma esponja, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sim, senhor, que chupa os favores, as recompensas e a autoridade reais. Ali\u00e1s, semelhantes cortes\u00e3os prestam \u00f3timo servi\u00e7o ao rei, que procede com eles como o macaco, conservando-os por algum tempo no canto da boca, antes de engoli-los. Quando tem necessidade do que acumulastes, basta espremer-vos, para que, esponjas, fiqueis novamente enxutos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 N\u00e3o compreendo o que dizeis, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O que muito me alegra. As sutilezas dormem no ouvido dos parvos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Pr\u00edncipe, dizei-nos onde est\u00e1 o corpo e acompanhai-nos \u00e0 presen\u00e7a do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O corpo est\u00e1 com o rei, mas o rei n\u00e3o est\u00e1 com o corpo. O rei \u00e9 uma coisa&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GUILDENSTERN \u2014 Uma coisa, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 &#8230;de nada. Levai-me \u00e0 sua presen\u00e7a. Esconde-te, raposa! Um atr\u00e1s do outro! (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at43\" name=\"at43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no castelo. Entram o Rei e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Mandei cham\u00e1-lo e procurar o corpo. Que perigo deixar a esse homem solto! Contudo, \u00e9-me imposs\u00edvel ser severo, porque ele \u00e9 amado pela turba n\u00e9scia que escolhe t\u00e3o-somente pela vista. Importa, nessas condi\u00e7\u00f5es, apenas pensar na repress\u00e3o, jamais na culpa. Para evitar desgostos, \u00e9 preciso que esta viagem pare\u00e7a ser produto de reflex\u00e3o madura. Para males desesperados, s\u00f3 rem\u00e9dio en\u00e9rgico, ou nenhum. (<i>Entra Rosencrantz<\/i>) Como ent\u00e3o, que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 N\u00e3o conseguimos que ele nos dissesse o lugar onde o corpo est\u00e1 enterrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 E ele, onde se acha?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 A\u00ed fora, majestade, bem guardado, esperando vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Pois a nossa presen\u00e7a o conduzi.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 \u00d3 Guildenstern! Traze lorde Hamlet! (<i>Entram Hamlet e Guildenstern<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ent\u00e3o, Hamlet, onde est\u00e1 Pol\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Est\u00e1 ceando.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ceando! Onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o onde ele come, mas onde \u00e9 comido. Certa assembl\u00e9ia de vermes pol\u00edticos se ocupa justamente dele. Um verme desse g\u00eanero \u00e9 o verdadeiro imperador da dieta. Engordamos as criaturas, para que nos engordem, e engordamo-nos para dar de comer aos gusanos. Um rei gordo e um mendigo magro s\u00e3o iguanas diferentes; dois pratos, mas para a mesma mesa: eis tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Oh Deus!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Que queres dizer com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Onde est\u00e1 Pol\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 No c\u00e9u; mandai procur\u00e1-lo l\u00e1, e, se o mensageiro n\u00e3o o encontrar, procurai v\u00f3s mesmo em outra parte. Mas, se dentro de um m\u00eas ainda n\u00e3o o tiverdes achado, havereis de descobri-lo pelo olfato, quando subirdes a escada da galeria.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI (<i>a alguns criados<\/i>) \u2014 Procurem-no nesse lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ele espera at\u00e9 que chegueis. (<i>Saem os criados<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Hamlet, para tua seguran\u00e7a, que t\u00e3o cara nos \u00e9 qu\u00e3o doloroso o ato que praticaste, \u00e9 necess\u00e1rio que te ausentes daqui. Vai preparar-te. O navio est\u00e1 pronto, o vento a jeito, \u00e0 espera os companheiros&#8230; tudo para a Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Inglaterra?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Sim, Hamlet.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Bem, de fato, dirias, se soubesses dos nossos planos todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vejo um querubim que os v\u00ea&#8230; Partamos, pois! Para a Inglaterra! Adeus, querida m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 E teu pai afetuoso, Hamlet?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Minha m\u00e3e. Pai e m\u00e3e s\u00e3o marido e mulher; marido e mulher, uma e a mesma carne. Logo, minha m\u00e3e. Vamos, para a Inglaterra! (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Levai-o para bordo sem deten\u00e7a. \u00c9 mister que esta noite esteja longe. Ide; quanto respeita a este neg\u00f3cio j\u00e1 est\u00e1 selado e pronto. Ide depressa. (<i>Saem Rosencrantz e Guildenstern<\/i>) Se prezas, Inglaterra, nossa alian\u00e7a \u2014 visto teres sentido minha for\u00e7a, que as cicatrizes ainda se acham frescas dos golpes infligidos pela espada dinamarquesa e preito volunt\u00e1rio nos renderes \u2014 n\u00e3o deves demorar-te no cumprir nossas ordens soberanas exaradas nas cartas e que exigem que Hamlet morra. Isso, Inglaterra, faze, que ele o sangue me queima tal qual a h\u00e9tica. Urge livrar-me deste mal. Realmente, ele vivo, n\u00e3o posso estar contente. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at44\" name=\"at44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma plan\u00edcie na Dinamarca. Entram Fortimbr\u00e1s, um capit\u00e3o e soldados, em marcha.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Saudai de minha parte a Dinamarca, acrescentando que com sua licen\u00e7a Fortimbr\u00e1s pede franco e livre tr\u00e2nsito por seu reino. Sabeis onde devemos encontrar-nos. Se Sua Majestade quiser falar-nos algo, em sua presen\u00e7a presto estaremos. Dai-lhe esse recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Assim farei, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Em frente, devagar. (<i>Fortimbras e os soldados saem<\/i>) (<i>Entram Hamlet, Rosencrantz, Guildenstern e outros<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Amigo, de quem s\u00e3o esses soldados?<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Da Noruega Senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Por obs\u00e9quio, qual \u00e9 o seu destino?<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Combater uma parte da Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quem \u00e9 o comandante?<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Fortimbr\u00e1s, o sobrinho de Noruega.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Visam toda a Pol\u00f4nia, ou porventura um ponto da fronteira?<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Para falar verdade, sem acr\u00e9scimo, vamos lutar por uma nesgazinha que outro lucro n\u00e3o deixa al\u00e9m da gl\u00f3ria. Cinco ducados, cinco, eu n\u00e3o daria para arrend\u00e1-la, nem mais obteriam a Noruega e a Pol\u00f4nia, se a vendessem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nesse caso, o Polaco a n\u00e3o defende.<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Como n\u00e3o? J\u00e1 se encontra guarnecida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Duas mil almas, vinte ducados n\u00e3o perfazem o pre\u00e7o dessa palha; \u00e9 o apostema da paz e da riqueza, que rompe para dentro, sem que nada por fora a morte inculque. Muito grato.<\/p>\n<p align=\"justify\">O CAPIT\u00c3O \u2014 Que Deus vos acompanhe. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSENCRANTZ \u2014 Continuamos o caminho?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Segui, j\u00e1 vos alcan\u00e7o. (<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Hamlet<\/i>) Como tudo me acusa, espica\u00e7ando-me \u00e0 vingan\u00e7a! Que \u00e9 o homem, se sua m\u00e1xima ocupa\u00e7\u00e3o e o bem maior n\u00e3o passam de comer e dormir? Um simples bruto. Decerto, quem nos criou com a faculdade que ao passado e ao futuro nos transporta, n\u00e3o nos deu a raz\u00e3o divina, para que fique in\u00fatil. Seja esquecimento bestial, ou mesmo escr\u00fapulo covarde que me leva a pensar demais nas coisas \u2014 pensamento com um quarto de bom senso e tr\u00eas de covardia \u2014 ignoro a causa de ficar a dizer: \u201cDevo faz\u00ea-lo\u201d, se para tal me sobram meios, for\u00e7a, causa e disposi\u00e7\u00e3o. Exemplos grandes como a terra me exortam: este ex\u00e9rcito de tal poder e n\u00famero, chefiado por um pr\u00edncipe mo\u00e7o e delicado, cuja coragem a ambi\u00e7\u00e3o divina faz exaltar, levando-o a defrontar-se com os fatos invis\u00edveis e a sua parte mortal e pouco firme a p\u00f4r em risco contra o que ousa a fortuna, o acaso e a morte, por uma casca de ovo. O ser, de fato, grande n\u00e3o \u00e9 empenhar-se em grandes causas; grande \u00e9 quem luta at\u00e9 por uma palha, quando a honra est\u00e1 em jogo. E eu, deste modo, com o pai assassinado, a m\u00e3e poluida \u2014 raz\u00f5es de estimular o sangue e o brio \u2014 nada me esperta? Vejo, envergonhado, vinte mil homens pr\u00f3ximos da morte, que por simples capricho da vaidade caminham para o t\u00famulo tal como se fossem para o leito, e lutam pela conquista de um terreno em que n\u00e3o cabem, e que como sepulcro ainda \u00e9 pequeno para esconder sequer os que a\u00ed tombarem. Doravante terei s\u00f3 pensamentos de sangue ou sem valor, soltos aos ventos. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at45\" name=\"at45\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Elsinor. Um quarto no castelo. Entram a Rainha, Hor\u00e1cio e um nobre.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 N\u00e3o quero falar a ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 De fato, ela \u00e9 importuna no desvario. Compungem os seus modos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que a preocupa?<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 Fala muito no pai; diz ter sabido que o mundo \u00e9 mau, bate no peito, e geme, zangando-se por nada. Diz palavras d\u00fabias e sem sentido: nada, em suma, conquanto esse seu modo leve o ouvinte a tirar conclus\u00f5es, interpretando-lhe as palavras ao jeito do que pensam, concluindo de seus gestos, da maneira de piscar, dos meneios da cabe\u00e7a, que algo querem dizer. Ainda que sejam suposi\u00e7\u00f5es, tudo desgra\u00e7a inculca.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Seria bom falar-lhe, que ela pode suscitar conjeturas dos maldosos. Fazei-a entrar. (<i>Sai O nobre<\/i>) Para a alma criminosa e feperjura, tudo anuncia alguma desventura. Tanto se agita o crime, em tal enredo, que a si mesmo se trai, de puro medo. (<i>Volta o nobre, com Of\u00e9lia<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Onde se encontra a bela Majestade da Dinamarca?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que h\u00e1 de novo, Of\u00e9lia?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA (<i>canta<\/i>) \u2014 Como reconhecer em meio \u00e0 turba o jovem meu amado? Pelo chap\u00e9u de conchas, as sand\u00e1lias, e mais pelo cajado.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Minha doce menina, a que vem isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Que dizeis? Escutais, vos pe\u00e7o, agora: (<i>Canta<\/i>) Senhora, ele se foi; n\u00e3o mais existe; morreu; nada mais ousa. \u00c0 cabe\u00e7a lhe nasce um tufo de erva; sobre o corpo uma lousa. Oh! Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Querida Of\u00e9lia, escuta&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Por favor, escutai: (<i>Canta<\/i>) Como um monte de neve era a mortalha (<i>Entra o Rei<\/i>) enfeitada de flor; orvalhada baixou para o sepulcro, pelo pranto do amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Como vai passando, gentil menina?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA Bem, gra\u00e7as a Deus. Dizem que a coruja era filha de um padeiro. Sabemos, senhor, o que somos, mas n\u00e3o o que viremos a ser. Deus assista na vossa mesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Alus\u00e3o ao pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Por favor, n\u00e3o falemos mais disso; mas se vos perguntarem o que significa, dizei-lhes: (<i>Canta<\/i>) Raiou o dia de S\u00e3o Valentim; de p\u00e9 todos est\u00e3o. Para ser vossa Valentina, irei p\u00f4r-me \u00e0 janela, ent\u00e3o. Ela se al\u00e7a depressa, a roupa veste e a porta lhe franqueou, fazendo entrar a virgem, que, assim, virgem, n\u00e3o mais ali passou.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Meiga Of\u00e9lia&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA Realmente, vou concluir sem nenhum juramento: (<i>Canta<\/i>) Pela Virgem e a Santa Caridade, que vergonha, meu Deus! Os mo\u00e7os o far\u00e3o, se a\u00ed se encontrarem&#8230; Vergonha para os seus. Antes de ao ch\u00e3o tu me jogares, tinhas prometido casar. F\u00e1-lo-ia, respondeu, caso ao meu leito n\u00e3o quisesses entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 ela assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Espero que tudo corra bem. Precisamos de paci\u00eancia, conquanto n\u00e3o possa deixar de chorar, ao pensamento de que v\u00e3o dep\u00f4-lo no ch\u00e3o frio. Meu irm\u00e3o h\u00e1 de ficar sabendo disso. Muito obrigada pelo conselho amigo. Que venha o meu carro. Boa noite, senhoras! Boa noite, encantadoras senhoras! Boa noite! Boa noite! (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ide-lhe em p\u00f3s; vigiai-a com cuidado. (<i>Sai Hor\u00e1cio<\/i>) Dor profunda a envenena; prov\u00e9m tudo do traspasso do pai. Cara Gertrudes, as tristezas n\u00e3o andam como espias, mas sempre em batalh\u00f5es. Primeiro, a morte do pai; depois, a aus\u00eancia de teu filho, causador de seu pr\u00f3prio banimento; o povo alvoro\u00e7ado, crasso e impuro, conjetura em cochichos sobre a morte do bom Pol\u00f4nio; foi inexperi\u00eancia sepult\u00e1-lo \u00e0s ocultas; ora, Of\u00e9lia, solit\u00e1ria de si e do pr\u00f3prio ju\u00edzo, sem o qual somos brutos ou pinturas&#8230; Por \u00faltimo, o que vale mais que tudo, seu irm\u00e3o que voltou secretamente, anda cheio de pasmo, vai \u00e0s nuvens, sem que os murmuradores lhe fale\u00e7am com ditos pestilentos sobre a causa da morte do pai dele, sem falarmos que a pr\u00f3pria confus\u00e3o, n\u00e3o conhecendo como as coisas realmente se passaram, n\u00e3o deixar\u00e1 de envenenar-me o nome de ouvido para ouvido. \u00d3 minha cara Gertrudes, isso tudo, como pe\u00e7a mort\u00edfera disposta em v\u00e1rias partes, morte sobeja ora vai dar-me. (<i>Ouve-se barulho<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Que houve? (<i>Entra um nobre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Onde est\u00e3o meus su\u00ed\u00e7os? Que defendam as portas. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 Majestade, fugi! O oceano, quando rompe os diques, n\u00e3o devora a plan\u00edcie com mais \u00edmpeto do que Laertes, \u00e0 testa dos rebeldes, vence a tropa legal. O populacho lhe chama lorde, e tal como se o mundo fosse recome\u00e7ar, sem que mais lembrem tradi\u00e7\u00f5es, esquecidos os costumes \u2014 sustent\u00e1culos firmes das palavras \u2014 grita: Elejamos rei! Seja Laertes! As l\u00ednguas e os chap\u00e9us, as m\u00e3os o aplaudem at\u00e9 \u00e0s nuvens: Laertes, nosso rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Como ladram joviais na pista falsa! Errastes, falsos c\u00e3es dinamarqueses!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Arrombaram as portas. (<i>Ouve-se barulho<\/i>) (<i>Entra Laertes, armado, seguido de dinamarqueses<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Onde est\u00e1 o rei? Senhores, ficai fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">DINAMARQUESES \u2014 N\u00e3o; entremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Suplico-vos, deixai-nos!<\/p>\n<p align=\"justify\">DINAMARQUESES \u2014 Pois n\u00e3o! Pois n\u00e3o! (<i>Afastam-se para tr\u00e1s da porta<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Obrigado; guardai todas as portas. Rei desprez\u00edvel, dai-me o meu bom pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Calma, meu bom Laertes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 A gota de meu sangue que ficasse calma, me insultaria de bastardo, mancharia meu pai, lan\u00e7ando a pecha de meretriz na fronte imaculada de minha santa m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Qual \u00e9 o motivo, Laertes, de assumir ares gigantes essa rebeli\u00e3o? Deixa-o, Gertrudes; nada temas por n\u00f3s. De tal maneira o car\u00e1ter divino ao rei protege, que a trai\u00e7\u00e3o mal espreita o que almejara, sem nada conseguir&#8230; Dizei, Laertes, o que vos p\u00f4s assim. Gertrudes, deixa-o. Falai, jovem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Meu pai, que \u00e9 dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Mas n\u00e3o por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Deixa que me fale.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Como morreu? N\u00e3o quero ser lud\u00edbrio de ningu\u00e9m. Para o inferno os juramentos! Fidelidade, os diabos a carreguem! Consci\u00eancia e gra\u00e7a, o abismo as sorva logo! Venha a condena\u00e7\u00e3o! Chego at\u00e9 ao ponto de arriscar esta vida e a porvindoira, sem medir conseq\u00fc\u00eancias, t\u00e3o-somente para a meu pai vingar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Que vos det\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Afora o meu querer, nem todo o mundo. Quanto aos recursos, hei de encontrar jeito de obter muito com pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ouvi, Laertes; se desejais, de fato, saber como vosso pai faleceu, acha-se escrito nos vossos planos, que deveis num lance, sem distin\u00e7\u00e3o de amigos e inimigos, arrastar os culpados e inocentes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 N\u00e3o, s\u00f3 seus inimigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Desejais conhec\u00ea-los?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 A quantos se mostrarem seus amigos, os bra\u00e7os tenho abertos e, como o pelicano, com meu sangue lhes darei vida e alento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Essas palavras s\u00e3o de bom filho e bravo gentil-homem. Minha inoc\u00eancia relativa \u00e0 morte de vosso pai, e a m\u00e1goa de perd\u00ea-lo h\u00e3o de ao ju\u00edzo t\u00e3o claro aparecer-vos como aos olhos a luz.<\/p>\n<p align=\"justify\">DINAMARQUESES (<i>dentro<\/i>) \u2014 Deixai-a entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Que significa esse barulho? (<i>Entra Of\u00e9lia<\/i>) Febre. seca-me o c\u00e9rebro! Corroei-me, l\u00e1grimas sete vezes salgadas, a virtude dos olhos! Pelo c\u00e9u! tua loucura ser\u00e1 pesada at\u00e9 que des\u00e7a o prato da balan\u00e7a. Rosa de maio, irm\u00e3, doce menina, querida Of\u00e9lia! \u00d3 c\u00e9u! \u00c9 ent\u00e3o poss\u00edvel que a raz\u00e3o de uma jovem seja fr\u00e1gil como o alento de um velho? A natureza se depura no amor e, florescendo, empresta \u00e0 coisa amada algo da ess\u00eancia preciosa de si mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA (<i>canta<\/i>) \u2014 Levaram-no a enterrar sem cobertura&#8230; Tra-l\u00e1, la-r\u00e1! Quanto choro lhe rega a sepultura! Adeus, pombinho!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Se com toda a raz\u00e3o me concitasses a vingar-te, nem tanto me abalaras.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Dever\u00edeis cantar: \u201cAbaixo! abaixo! Chamai-o para baixo!\u201d Oh! Como a roda lhe vai bem! \u00c9 da can\u00e7\u00e3o do intendente falso que raptou a filha do amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Este nada vale mais do que tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Aqui est\u00e1 rosmaninho, para lembran\u00e7a. N\u00e3o te esque\u00e7as de mim, querido. Estes amores-perfeitos s\u00e3o para o pensamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Uma senten\u00e7a na loucura: a lembran\u00e7a e o pensamento harmonizados!<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA \u2014 Para v\u00f3s, funcho e aquil\u00e9ia; arruda para v\u00f3s, e um pouco para mim, tamb\u00e9m. Poderemos chamar-lhe erva da gra\u00e7a dos domingos, mas a vossa dever\u00e1 ser usada de outro jeito. Eis aqui uma margarida. Quisera dar-vos algumas violetas, mas murcharam todas, quando meu pai morreu. Dizem que ele teve um fim muito bonito. (<i>Canta<\/i>) Para o doce pintarroxo \u00e9 toda minha alegria!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 \u00c0 tristeza, \u00e0 paix\u00e3o, ao pr\u00f3prio inferno, a tudo ela d\u00e1 gra\u00e7a e empresta encanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OF\u00c9LIA (<i>canta<\/i>) \u2014 Nunca mais o veremos? N\u00e3o mais retornar\u00e1? Sumiu deste mundo; baixai para o fundo, que ele n\u00e3o voltar\u00e1. Barba branca de neve, de linho a cabeleira. J\u00e1 foi, sem parar; \u00e9 in\u00fatil chorar; que no c\u00e9u Deus o queira e a todas as almas crist\u00e3s, \u00e9 o que eu rogo a Deus. Deus seja convosco! (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Vedes isto, \u00f3 Deus?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 De vossa m\u00e1goa, Laertes, compartilho; \u00e9 meu direito. Agora retirai-vos por uns momentos e os mais ajuizados amigos escolhei, porque nos ou\u00e7am, para entre mim e v\u00f3s serem ju\u00edzes. Se achardes culpa em n\u00f3s, mediata embora, ser\u00e1 vossa a coroa, nosso reino, a pr\u00f3pria vida e tudo quanto \u00e9 nosso, como satisfa\u00e7\u00e3o. No caso oposto, contentai-vos de ouvir-nos com paci\u00eancia, que, a vossa alma associados, cuidaremos de ressarcir-lhe a dor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Seja. A maneira por que morreu, o enterro misterioso, sem bras\u00e3o, nem espada sobre o t\u00famulo, a aus\u00eancia do ritual e pompas f\u00fanebres, clamam, como atroando o c\u00e9u e a terra, pedindo explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ser-vos-\u00e3o dadas. E onde houver culpa, caia a machadinha. Vinde comigo, pe\u00e7o-vos. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at46\" name=\"at46\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no castelo. Entram Hor\u00e1cio e um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Quem quer falar comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">O CRIADO: Marinheiros, senhor; s\u00e3o portadores de umas cartas.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Que entrem, pois. (<i>Sai o criado<\/i>) Tirando lorde Hamlet, em todo o mundo n\u00e3o sei quem poderia enviar-me cartas. (<i>Entra um marinheiro<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 Deus vos aben\u00e7oe, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 E a ti tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 Assim o far\u00e1, senhor, se for de sua vontade. Esta carta, senhor, \u00e9 para v\u00f3s; vem da parte do embaixador que deveria ir para a Inglaterra, se vos chamardes Hor\u00e1cio, como me afirmaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO (<i>l\u00ea<\/i>) \u2014 \u201cHor\u00e1cio, quando passares os olhos por esta, proporciona a esses homens meios de chegarem at\u00e9 ao rei; s\u00e3o portadores de cartas para ele, tamb\u00e9m. N\u00e3o havia ainda dois dias que nos encontrav\u00e1mos no mar, quando nos deu ca\u00e7a um cors\u00e1rio de grande aparelhagem b\u00e9lica. A morosidade das velas nos tornou valentes \u00e0 for\u00e7a, havendo eu saltado para a tolda do inimigo logo que o abordamos. No mesmo instante conseguiram desvencilhar-se de nosso navio, ficando eu como \u00fanico prisioneiro. Procedem comigo como ladr\u00f5es misericordiosos; mas eles sabem o que fazem, pois esperam tirar de mim grande proveito. Faze chegar ao rei as cartas que lhe envio e vem ter comigo com a pressa que empregarias em fugir da morte. Tenho a dizer-te ao ouvido palavras que te deixar\u00e3o mudo, muito embora ainda sejam leves demais para o calibre do assunto. Essa boa gente h\u00e1 de informar-te onde me encontro. Rosencrantz e Guildenstern continuam a caminho da Inglaterra. Tenho muito que contar-te a respeito deles. Aquele que conheces como te pertencendo, Hamlet.\u201d Vinde comigo: vou facilitar-vos a entrega dessas cartas, porque logo me leveis \u00e0 pessoa que as enviou. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at47\" name=\"at47\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no castelo. Entram o Rei e Laertes.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Vossa consci\u00eancia, agora, me confirma quita\u00e7\u00e3o mais que plena. Podeis mesmo ao peito aconchegar-me como amigo, pois j\u00e1 sabeis, de ouvir de ci\u00eancia certa, que quem matou a vosso nobre pai tamb\u00e9m me quis matar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 \u00c9 o que parece. Mas, por que n\u00e3o punistes esses atos, de si t\u00e3o criminosos, como a vossa dignidade o obrigava, a seguran\u00e7a, tudo, em suma?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Oh! S\u00e3o duas as raz\u00f5es, que talvez vos pare\u00e7am despiciendas, mas que pesam. Sua m\u00e3e vive somente de seus olhares. Quanto ao que me toca \u2014 seja virtude ou doen\u00e7a, pouco monta \u2014 de alma e corpo me sinto a ela t\u00e3o preso, que assim como n\u00e3o sai da \u00f3rbita a estrela, sem ela me n\u00e3o mexo. O outro motivo que me impede de com ele justar contas \u00e9 o grande amor que lhe devota a plebe, que, na afei\u00e7\u00e3o banhando seus defeitos, como as fontes que o lenho em pedra mudam, de ferros faz rel\u00edquias. Minhas setas, talhadas em madeira muito leve para t\u00e3o forte vento, voltariam para o arco, sem que no alvo se encravassem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 E assim perdi meu nobre pai, e vejo ca\u00edda na dem\u00eancia minha irm\u00e3, cujo valor, se \u00e9 l\u00edcito falar-se do que j\u00e1 foi, nenhum outro acharia que pudesse igual\u00e1-lo em perfei\u00e7\u00e3o. Mas espero vingar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Vosso sono n\u00e3o perturbeis com semelhante id\u00e9ia, nem penseis, porventura, que sejamos composto de mat\u00e9ria t\u00e3o grosseira, que deixemos puxar-nos pela barba com viol\u00eancia e ainda achemos que \u00e9 brinquedo. Breve ouvireis o resto. Era afei\u00e7oado a vosso pai; amamos a n\u00f3s mesmos, por isso espero que havereis de, em breve&#8230; (<i>Entra um mensageiro<\/i>) Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhor, cartas de Hamlet, para a rainha e Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 De Hamlet? Quem as trouxe?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Marinheiros, senhor, segundo dizem n\u00e3o lhes falei; foi Cl\u00e1udio quem mas deu; a este \u00e9 que o portador as entrega.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Laertes, vais ouvi-las. Podes ir. (<i>Sai o mensageiro<\/i>) (<i>L\u00ea<\/i>) \u201cAlto e poderoso senhor: sabei que fui trazido nu para vosso reino. Amanh\u00e3 vos pedirei permiss\u00e3o para contemplar vossos reais olhos, quando pretendo, depois de obtido consentimento, relatar-vos os motivos de meu inesperado e muito estranho regresso. Hamlet.\u201d Que \u00e9 isso? E os companheiros, voltariam? N\u00e3o ser\u00e1 tudo apenas uma farsa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 E a letra?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Os tra\u00e7os s\u00e3o de Hamlet: \u201cNu\u201d; e adiante, em p\u00f3s-escrito, diz: \u201cSozinho\u201d. Podeis aconselhar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 N\u00e3o sei tamb\u00e9m que fa\u00e7a. Mas que venha. Sinto que se me inflama o peito \u00e0 id\u00e9ia de viver e poder dizer-lhe aos dentes: Assim fizeste!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Se assim \u00e9, Laertes, e por que n\u00e3o? Por que de outra maneira? Quereis que vos oriente?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Ent\u00e3o, senhor! Contanto que de paz n\u00e3o seja o assunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Vossa paz, simplesmente. J\u00e1 que a viagem ficou frustrada e que ele j\u00e1 n\u00e3o cuida de reinici\u00e1-la, penso em concit\u00e1-lo a um feito em que de h\u00e1 muito estou pensando, que a morte dele implica, sem que vento de censura nenhum nos incomode; a pr\u00f3pria m\u00e3e ver\u00e1 no efeito o acaso, chamando-lhe acidente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Estou de acordo e mais ainda estarei, se dispuserdes que seja eu o instrumento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Vem a tempo. D\u00eas que viajastes, fostes elogiado na presen\u00e7a de Hamlet por um dote em que, se diz, primais. Todas as outras qualidades, reunidas, n\u00e3o tiveram o poder de espertar-lhe tanto a inveja, como essa, que, a meu ver, \u00e9 a mais modesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Que talento, senhor, gabaram tanto?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Um la\u00e7o no chap\u00e9u da juventude, conquanto necess\u00e1rio; porque aos mo\u00e7os cai bem a vestimenta leve e simples, como peles e mantos \u00e0 velhice, que a protegem, tornando-a circunspecta. Aqui esteve, h\u00e1 dois meses, um normando. Lutei contra os franceses; sei, de viso, que s\u00e3o bons cavaleiros. Esse bravo, contudo, fez milagres, de tal modo se unia \u00e0 sela, e tais e tantas coisas ao cavalo obrigava. Pareciam um s\u00f3 corpo e que meia natureza do formoso animal ele possu\u00edsse. De tal modo excedeu meu pensamento, que s\u00f3 de imaginar voltas e saltos fico aqu\u00e9m de seus efeitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Um normando?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Normando, sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Lamord, por minha vida!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Esse mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Conhe\u00e7o-o bem; \u00e9 a p\u00e9rola e a j\u00f3ia de seu povo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Fez-vos grandes enc\u00f4mios, elogiando-vos de tal maneira na arte e no manejo das armas, sobretudo do florete, que proclamavam digno de ser visto, se algu\u00e9m vos desafiasse. Os esgrimistas de sua p\u00e1tria, jurava, careciam de vista, precau\u00e7\u00e3o e agilidade, quando em jogo convosco. Esses enc\u00f4mios envenenaram tanto a alma de Hamlet, que vivia a querer que regress\u00e1sseis porque logo convosco se medisse. Ora, assim sendo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Sendo assim, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Laertes, vosso pai vos era caro, ou sois tal como a imagem da tristeza, rosto sem cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Por que isso agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o penso que esse amor vos falecesse; mas sei que o amor no tempo se origina, sobre haver-me a experi\u00eancia demonstrado que o tempo lhe modera o ardor e o brilho. No centro dessa chama se acha sempre uma mecha ou pavio que a amortece. Nada conserva sempre o mesmo aspecto; que at\u00e9 mesmo a bondade, em demasia, morre do pr\u00f3prio excesso. O que queremos, deve ser feito, que o querer varia, mostrando tantas quedas e delongas quantas l\u00ednguas existem, m\u00e3os e casos, e o \u201cdevia\u201d se muda num suspiro que alivia e faz mal. Mas vamos \u00e0 \u00falcera: Hamlet volta; como demonstr\u00e1reis que de tal pai sois filho, mais com atos do que simples palavras?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Cortar-lhe-ia o pesco\u00e7o na igreja.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 De fato, n\u00e3o devia haver santu\u00e1rio que o homicida amparasse, nem limites para a vingan\u00e7a. Mas, bondoso Laertes, se concordais, ficai no vosso quarto. Hamlet vai saber que j\u00e1 voltastes; cuidarei que de v\u00f3s lhe falem muito, pondo duplo verniz nos elogios do franc\u00eas. Em resumo: aproximamo-nos e faremos apostas. Desatento como ele \u00e9, sobre nobre e sem suspeita, as armas n\u00e3o ver\u00e1. Da\u00ed ser f\u00e1cil, na confus\u00e3o, ficardes com o florete n\u00e3o protegido, o que vos ensejar\u00e1, num bote calculado, compens\u00e1-lo por vos ter morto o pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Aceito o alvitre, e ainda mais: enveneno minha espada. Comprei de um charlat\u00e3o certa mistura t\u00e3o mortal que, banhando nela a faca, uma vez feito o sangue, n\u00e3o h\u00e1 emplastro, ainda que preparado s\u00f3 de simples virtuosos sob a lua, que consiga dar vida a quem tocado for de leve. Vou p\u00f4r esse veneno na minha arma, porque esflorar o contendor j\u00e1 seja para ele a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Vamos tratar disso. Pesemos ora o tempo e as circunst\u00e2ncias adequadas ao caso. Se essa tra\u00e7a falhar, transparecendo nosso intento por falecer-nos jeito, melhor fora n\u00e3o ter tentado. Da\u00ed o ser preciso novo plano, numa esp\u00e9cie de refor\u00e7o, para o caso de a prova n\u00e3o dar certo. Esperai&#8230; Quero ver&#8230; Apostaremos por maneira solene na arte de ambos&#8230; Eis aqui! Quando a luta vos der calor e sede \u2014 esfor\u00e7ai-vos para isso nos ataques \u2014 e ele quiser beber, hei de uma ta\u00e7a ter \u00e0 m\u00e3o. Bastar\u00e1 que nela molhe de leve os l\u00e1bios, caso ele consiga livrar-se do florete envenenado, porque o plano d\u00ea certo. Mas, que \u00e9 isso? (<i>Entra a Rainha<\/i>) Ent\u00e3o, meiga rainha?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Tanto as desgra\u00e7as correm, que se enleiam no encal\u00e7o umas das outras. Vossa irm\u00e3 afogou-se, Laertes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Afogou-se? Onde? Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Um salgueiro reflete na ribeira cristalina sua copa acinzentada. Para a\u00ed foi Of\u00e9lia sobra\u00e7ando grinaldas esquisitas de rain\u00fanculas, margaridas, urtigas e de flores de p\u00farpura, alongadas, a que os nossos camp\u00f4nios chamam nome bem grosseiro, e as nossas jovens \u201cdedos de defunto\u201d. Ao tentar pendurar suas coroas nos galhos inclinados, um dos ramos invejosos quebrou, lan\u00e7ando na \u00e1gua chorosa seus trof\u00e9us de erva e a ela pr\u00f3pria. Seus vestidos se abriram, sustentando-a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar consci\u00eancia da desgra\u00e7a, como criatura ali nascida e feita para aquele elemento. Muito tempo, por\u00e9m, n\u00e3o demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta \u00e1gua e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Afogou-se, dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Afogou-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Querida irm\u00e3, j\u00e1 tens \u00e1gua de sobra; n\u00e3o te darei mais l\u00e1grimas. Contudo, somos assim, que a natureza o obriga, sem que importe a vergonha; uma vez fora, deixou de ser mulher. Adeus, senhor. Com as palavras, s\u00f3 chamas me sairiam, se n\u00e3o fosse apag\u00e1-las a tolice. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Sigamo-lo, Gertrudes. Que trabalho me custou para a c\u00f3lera acalmar-lhe! Receio que de novo a explodir venha. Sigamo-lo, portanto. (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at51\" name=\"at51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um cemit\u00e9rio. Entram dois coveiros, com alvi\u00f5es e p\u00e1s.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Poder\u00e1 ser-lhe dada sepultura crist\u00e3, se foi ela quem procurou a salva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Digo-te que sim: por isso, trata de abrir logo a sepultura; o magistrado j\u00e1 fez investiga\u00e7\u00f5es, tendo conclu\u00eddo pelo sepultamento em ch\u00e3o sagrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Como assim, se ela n\u00e3o se afogou em defesa pr\u00f3pria?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Foi o que decidiram.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Ent\u00e3o foi se ofendendo; n\u00e3o pode ter sido de outro modo, que o ponto principal \u00e9 o seguinte: se eu me afogar voluntariamente, pratico um ato; um ato \u00e9 composto de tr\u00eas partes: agir, fazer e realizar. Logo afogou-se porque quis.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u0097 Mas ouvi, compadre coveiro&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Com licen\u00e7a. Aqui est\u00e1 a \u00e1gua; bem. Aqui est\u00e1 o homem; bem. Se o homem vai para a \u00e1gua e se afoga, \u00e9 ele, quer o queira quer n\u00e3o, que vai at\u00e9 l\u00e1. Toma nota. Mas se a \u00e1gua vem para ele e o afoga, n\u00e3o \u00e9 ele que se afoga. Logo, quem n\u00e3o \u00e9 culpado de sua pr\u00f3pria morte, n\u00e3o encurta a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 E isso \u00e9 lei?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 \u00c9, de acordo com as conclus\u00f5es do magistrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Quereis que vos seja franco? Se n\u00e3o se tratasse de uma senhorinha de import\u00e2ncia, n\u00e3o lhe dariam sepultura crist\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Tu o disseste; \u00e9 pena que neste mundo os grandes tenham mais direito de se enforcarem e afogarem do que os seus irm\u00e3os em Cristo. D\u00e1-me a p\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 nobreza mais antiga do que a dos jardineiros, dos abridores de fossas e dos coveiros; todos exercem a profiss\u00e3o de Ad\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Ad\u00e3o era nobre?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Foi quem primeiro usou armas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Como, se n\u00e3o as possu\u00eda?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Qu\u00ea! \u00c9s pag\u00e3o? Como \u00e9 que interpretas a Escritura? A Escritura diz que Ad\u00e3o cavou. Como poderia ele cavar, se n\u00e3o possuisse armas? Vou fazer-te outra pergunta; se n\u00e3o responderes certo, ter\u00e1s de confessar que \u00e9s&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Pois que venha a pergunta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Quem \u00e9 que constr\u00f3i mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 O que levanta cadafalsos, porque suas constru\u00e7\u00f5es sobrevivem a milhares de inquilinos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Realmente, aprecio a tua vivacidade. O cadafalso faz bem. Mas, para quem faz ele bem? Para os que fazem mal. Por isso, fizeste mal em dizer que o cadafalso \u00e9 mais s\u00f3lido do que a Igreja. Logo o cadafalso te faria bem. Vamos, responde logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Quem \u00e9 que constr\u00f3i mais solidamente do que o pedreiro, o carpinteiro e o construtor de navios?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Justamente. Responde isso e sai da canga.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Desta vez vou acertar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Veremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO COVEIRO \u2014 Com a breca! N\u00e3o o consigo. (<i>Hamlet e Hor\u00e1cio aparecem no fundo<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 N\u00e3o d\u00eas tratos \u00e0 bola, que o teu asno pregui\u00e7oso n\u00e3o andar\u00e1 mais depressa com as chibatadas. Quando te fizerem de novo essa pergunta, responde que \u00e9 o coveiro, porque a casa que \u00eale constr\u00f3i dura at\u00e9 o dia do Ju\u00edzo. Corre \u00e0 hospedaria e traze-me uma caneca de aguardente. (<i>Sai o segundo coveiro<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO (<i>canta, continuando a cavar<\/i>):<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Quando rapaz amei, amei bastante<br \/>\nQu\u00e3o doce me sabia<br \/>\ntudo aquilo! Que tempo! Um s\u00f3 instante<br \/>\nmais que tudo valia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Esse sujeito n\u00e3o ter\u00e1 o sentimento da profiss\u00e3o, para cantar, quando est\u00e1 abrindo uma sepultura?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 O h\u00e1bito facilitou-lhe a tarefa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 isso; as m\u00e3os que trabalham pouco s\u00e3o mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO (<i>canta<\/i>):<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Mas a idade, com passo de ladr\u00e3o,<br \/>\nnas garras me apanhou,<br \/>\ntirando-me do mundo folgaz\u00e3o;<br \/>\ne tudo se acabou.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Joga um cr\u00e2nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tempo houve em que aquele cr\u00e2nio teve l\u00edngua e podia cantar; agora, esse velhaco o atira ao solo, como se se tratasse da mand\u00edbula de Caim, o primeiro homicida. \u00c9 bem poss\u00edvel que a cabe\u00e7a que esse asno maltrata desse jeito seja de algum pol\u00edtico que enganava ao pr\u00f3prio Deus, n\u00e3o te parece?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 \u00c9 bem poss\u00edvel, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ou de algum cortes\u00e3o que sabia dizer: \u201cBom dia, meu doce senhor! Como vai passando, meu bom senhor?\u201d Talvez a de lorde Fulano, que elogiava o cavalo de lorde Cicrano, quando tinha a inten\u00e7\u00e3o de pedir-lho, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E agora, depois de pertencer a lorde Verme, que lhe comeu as carnes, este sujeito lhe bate com a enxada no maxilar. Se pud\u00e9ssemos acompanh\u00e1-lo em todas as fases, surpreender\u00edamos nisso uma bela revolu\u00e7\u00e3o. Levarem tanto tempo esses ossos para se formarem, s\u00f3 para virem a servir de bola! S\u00f3 de pensar em tal coisa, sinto doer os meus.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO (<i>canta<\/i>)<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Uma enxada e uma p\u00e1 bem resistente,<br \/>\nmais um len\u00e7ol bem-feito<br \/>\ne uma cova de lama indiferente,<br \/>\nfazem do h\u00f3spede o leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Joga outro cr\u00e2nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Mais um cr\u00e2nio. Por que n\u00e3o h\u00e1 de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os equ\u00edvocos, os casos, as enfiteuses, todas as suas chicanas? Por que consente que este maroto r\u00fastico lhe bata com a enxada suja, e n\u00e3o lhe arma um processo por les\u00f5es pessoais? Hum! \u00c9 bem poss\u00edvel que esse sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e recupera\u00e7\u00f5es. Consistir\u00e1 a multa das multas e a recupera\u00e7\u00e3o das recupera\u00e7\u00f5es em ficarmos com a bela cabe\u00e7a assim cheia de t\u00e3o bonito lodo? N\u00e3o lhe arranjaram seus fiadores, com as fian\u00e7as duplas, mais espa\u00e7o do que o de seus contratos? Os t\u00edtulos de suas propriedades n\u00e3o caberiam em seu caix\u00e3o; n\u00e3o obter\u00e3o os herdeiros mais do que isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Nada mais, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Pergaminho n\u00e3o \u00e9 feito de pele de carneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Perfeitamente, pr\u00edncipe; e tamb\u00e9m de bezerro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o passam de carneiros e de bezerros os que procuram segurar-se nisso. Vou dirigir-me a esse maroto. De quem \u00e9 essa cova, camarada?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 \u00c9 minha, senhor. e uma cova de lama indiferente fazem do h\u00f3spede o leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Estou vendo que \u00e9 tua, de fato, porque te encontras dentro dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Estais fora dela, senhor; logo, n\u00e3o vos pertence. Enquanto a mim, muito embora n\u00e3o esteja deitado nela, posso dizer que \u00e9 minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o \u00e9 certo dizeres que te pertence porque est\u00e1s dentro dela. Sepultura \u00e9 para os mortos, n\u00e3o para os que est\u00e3o com vida. Logo, est\u00e1s mentindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Uma mentira viva, senhor, que voltar\u00e1 de mim para v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Para que homem est\u00e1s cavando essa sepultura?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 N\u00e3o \u00e9 para nenhum homem, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Para que mulher, ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 N\u00e3o \u00e9 para mulher, tampouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quem \u00e9 que vai ser enterrado nela?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Algu\u00e9m que foi mulher, senhor, e que \u2014 Deus a tenha em sua santa guarda \u2014 j\u00e1 faleceu.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Como esse sujeito \u00e9 meticuloso! Precisamos falar-lhe com a b\u00fassola na m\u00e3o; qualquer equivoco poder\u00e1 ser-nos fatal. Por Deus, Hor\u00e1cio, tenho observado que nestes tr\u00eas \u00faltimos anos o mundo se torna cada vez mais sutil. O p\u00e9 do camp\u00f4nio toca t\u00e3o de perto no calcanhar do nobre, que causa esfoladuras. H\u00e1 quanto tempo \u00e9s coveiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Entre todos os dias do ano, iniciei a profiss\u00e3o no dia em que o nosso defunto Rei Hamlet venceu a Fortimbr\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E quanto tempo faz isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 N\u00e3o sabeis? Qualquer bobo poderia dizer-vos: foi no dia em que nasceu o mo\u00e7o Hamlet, aquele que ficou louco e que mandaram para a Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ah, sim? E por que o mandaram para a Inglaterra?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Ora, porque enloqueceu. L\u00e1, ele h\u00e1 de recuperar o ju\u00edzo; mas se o n\u00e3o fizer, importa pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Por que raz\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 \u00c9 que ningu\u00e9m se aperceber\u00e1 disso; todos por l\u00e1 s\u00e3o t\u00e3o loucos quanto ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E como foi que ele enloqueceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Por maneira muito estranha, dizem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Como estranha?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Ora, perdendo o ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E onde foi isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Ora, aqui na Dinamarca. Entre rapaz e homem feito, sou coveiro h\u00e1 trinta anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quanto tempo pode uma pessoa ficar na terra, sem apodrecer?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 A la f\u00e9, se j\u00e1 n\u00e3o come\u00e7ara a apodrecer em vida, que hoje em dia h\u00e1 muitos bexiguentos que mal esperam pela inuma\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 durar-vos coisa de oito anos ou nove; um curtidor demora nove anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E por que ele mais tempo do que os outros?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Ora, senhor, \u00e9 que a profiss\u00e3o lhe endurece a pele, tornando-a imperme\u00e1vel \u00e0 \u00e1gua, que \u00e9 o mais ativo destruidor do bandido do cad\u00e1ver. Temos aqui outro cr\u00e2nio, que vos ficou na terra seus vinte e tr\u00eas anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 De quem era este?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Do mais extravagante louco que j\u00e1 se viu. Quem pensais que ele fosse?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o posso sab\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Para o diabo com sua loucura! Certa vez atirou-me \u00e0 cabe\u00e7a uma botija de vinho do Reno. Esse cr\u00e2nio a\u00ed, senhor, esse cr\u00e2nio ai, senhor, era o cr\u00e2nio de Yorick, o bobo do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Este?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO COVEIRO \u2014 Precisamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Deixa-me v\u00ea-lo. (<i>Toma o cr\u00e2nio<\/i>) Pobre Yorick! Conheci-o, Hor\u00e1cio; um sujeito de chistes inesgot\u00e1veis e de uma fantasia soberba. Carregou-me muitas vezes \u00e0s costas. E agora, como me atemoriza a imagina\u00e7\u00e3o! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os l\u00e1bios que eu beijei n\u00e3o sei quantas vezes. Onde est\u00e3o agora os chistes, as cabriolas, as can\u00e7\u00f5es, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? N\u00e3o sobrou uma ao menos, para rir de tua pr\u00f3pria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficar\u00e1 deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilh\u00e9ria. Dize-me uma coisa, Hor\u00e1cio, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Que \u00e9, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Acreditas que Alexandre, depois de enterrado, tivesse este mesmo aspecto?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Igual, igual, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E este cheiro? Pu\u00e1! (<i>Joga o cr\u00e2nio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 O mesmo, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A que usos \u00ednfimos temos de prestar-nos, Hor\u00e1cio. Por que n\u00e3o acompanhar a imagina\u00e7\u00e3o as nobres cinzas de Alexandre, at\u00e9 encontr\u00e1-las servindo para tapar um barril?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 \u00c9 ir muito longe, considerar as coisas por esse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 De forma alguma. Acompanhemo-las com bastante mod\u00e9stia, deixando-nos guiar apenas pela verossimilhan\u00e7a. Mais ou menos deste jeito: Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre tornou-se p\u00f3. O p\u00f3 \u00e9 terra; da terra faz-se argila; por que, ent\u00e3o, n\u00e3o se poder\u00e1 tapar um barril de cerveja com a argila em que ele se converteu? O grande C\u00e9sar morto e em p\u00f3 tornado, pode a fenda vedar ao vento irado. O p\u00f3 que o mundo inteiro trouxe atento, ora o muro protege contra o vento. Mas, sil\u00eancio; cautela. Afastemo-nos. A\u00ed vem o rei. (<i>Entram padres, etc. em prociss\u00e3o. O corpo de Of\u00e9lia, Laertes, as carpideiras; o Rei, a Rainha, s\u00e9quito, etc<\/i>) A corte toda, a rainha! A quem sepultam com ritos incompletos? Isso indica que a pessoa a que trazem suicidou-se com m\u00e3o desesperada. E era de estado. Vamo-nos ocultar para observ\u00e1-los. (<i>Retira-se com Hor\u00e1cio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Que cerim\u00f4nia mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Esse \u00e9 Laertes, jovem da alta pros\u00e1pia; observa-o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Que cerim\u00f4nia mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PADRE \u2014 Quanto nos foi poss\u00edvel, prolongamos-lhe as obs\u00e9quias. Sua morte foi suspeita, e a n\u00e3o ser a press\u00e3o sobre nossa ordem, seria sepultada em ch\u00e3o profano at\u00e9 ao clarim final. Em vez de pias ora\u00e7\u00f5es, lhe ter\u00edamos jogado seixos, ti\u00e7\u00f5es e cardos. Ao inv\u00e9s disso, consentimos nas flores sobre a tumba, a coroa de virgem e no dobre de finados durante o saimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 N\u00e3o se far\u00e1 mais nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO PADRE \u2014 Nada mais; manchar\u00edamos agora esse servi\u00e7o se cant\u00e1ssemos R\u00e9quiem, como em casos de morte em santa paz.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Ponde-a na terra! Que de sua carne pura e n\u00e3o manchada nas\u00e7am violetas. Padre bronco, digo-te que minha irm\u00e3 vai ser um anjo, enquanto tu ficar\u00e1s a contorcer-te em urros.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que ou\u00e7o? A bela Of\u00e9lia?<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Para a fragr\u00e2ncia, mais perfume. Adeus. Sempre esperei que viesses a casar-te com meu Hamlet; imaginara o leito de n\u00fapcias enfeitar-te, doce crian\u00e7a, jamais a sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Maldi\u00e7\u00e3o tr\u00edplice, triplicada mais dez vezes, caia sobre a cabe\u00e7a amaldi\u00e7oada do infame causador de teu desvairo. Parai com a terra, at\u00e9 que nestes bra\u00e7os a aperte novamente. (<i>Salta na cova<\/i>) Agora ponde sobre o vivo e o cad\u00e1ver vossa poeira, at\u00e9 que o ch\u00e3o transformeis numa montanha que ven\u00e7a o velho P\u00e9lio ou a azul cabe\u00e7a do celestial Olimpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Quem se queixa com \u00eanfase t\u00e3o grande e com palavras que det\u00eam as estrelas em seu curso como ouvintes pasmados? Sou Hamlet, sim, o Dinamarqu\u00eas. (<i>Salta na cova<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 O diabo te leve a alma! (<i>Atraca-se com ele<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o rezaste direito. Digo-te que me soltes a garganta, pois embora eu n\u00e3o seja nem furioso nem fren\u00e9tico, posso conter algo de que deves recear-te. Tira as m\u00e3os!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Separem-nos!<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Hamlet! Hamlet!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Calma!<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Pr\u00edncipe, por favor&#8230; (<i>Alguns dos presentes os apartam; saem da sepultura<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Por tal motivo lutarei com ele enquanto eu conseguir mover as p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA Que motivo, meu filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Amava Of\u00e9lia; quarenta mil irm\u00e3os n\u00e3o poderiam, com todo o seu amor multiplicado, perfazer o total do que eu lhe tinha. Que farias por ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Laertes, est\u00e1 louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Evitai-o, por Deus.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Com os diabos! Dize logo o que farias. Chorar? Brigar? Jejuar? Fazer-te em tiras? Beber vinagre e at\u00e9 engolir inteiro um crocodilo? Tudo isso eu posso. Que vieste aqui fazer? Gemer apenas? Desafiar-me na cova? Se desejas que te enterrem, tamb\u00e9m posso imitar-te. Se falas de montanhas, que despejem sobre n\u00f3s milh\u00f5es de acres, at\u00e9 que o solo v\u00e1 queimar-se de encontro \u00e0 zona ardente, deixando o Ossa tornar-se uma verruga. Como v\u00eas, eu tamb\u00e9m falo empolado.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 \u00c9 da loucura; o acesso dura pouco; mas logo, t\u00e3o quietinho como a pomba, quando os g\u00eameos lhe nascem de cor de ouro, as asas o sil\u00eancio lhe adormece.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Respondei-me, senhor: por que motivo me tratais desse modo? Amei-vos sempre. Mas isso pouco importa; deixai que H\u00e9rcules fa\u00e7a como entender; o gato mia; o cachorro tamb\u00e9m ter\u00e1 seu dia. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Meu caro Hor\u00e1cio, pe\u00e7o-te, acompanha-o. (<i>Sai Hor\u00e1cio<\/i>) (<i>A Laertes<\/i>) Fortifica a paci\u00eancia no que \u00e0 noite conversamos, que breve decidimos esse assunto. (<i>\u00c0 Rainha<\/i>) Boa Gertrudes, cuida de teu filho. (<i>\u00c0 parte<\/i>) Esta cova h\u00e1 de ter movimento vivo. Uma hora de sossego ainda vir\u00e1; com paci\u00eancia esperemos at\u00e9 l\u00e1. (<i>Saem todos<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at52\" name=\"at52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala no castelo. Entram Hamlet e Hor\u00e1cio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sobre esse assunto, \u00e9 quanto basta; agora cuidemos do outro. Lembras-te de todas as particularidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Se me lembro!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Uma luta travou-se-me no peito, que o sono me tirou; sofria como revoltosos em ferro. De repente \u2014 Viva a temeridade! \u2014 \u00c9 muito certo que a indiscri\u00e7\u00e3o por vezes nos ampara, quando a trama periga. Isso nos mostra que um deus aperfei\u00e7oa nossos planos, ainda que mal tra\u00e7ados.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 \u00c9 bem certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sa\u00ed do camarote envolto \u00e0s pressas no meu roup\u00e3o de viagem, para ach\u00e1-los na escurid\u00e3o. Consigo o intento, lan\u00e7o m\u00e3o do pacote e me retiro para meu quarto novamente. Com aud\u00e1cia, que o medo vence o brio, os selos quebro da grande comiss\u00e3o, achando, Hor\u00e1cio \u2014 oh banditismo real! \u2014 uma ordem clara, com v\u00e1rios argumentos relativos ao bem da Dinamarca e da Inglaterra e n\u00e3o sei mais que duendes e fantasmas, no caso de com vida me deixarem, para que na mesma hora, sem delongas, nem sequer a de afiar a machadinha, me degolassem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Qu\u00ea! \u00c9 ent\u00e3o poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Aqui tens o mandato. Podes l\u00ea-lo com vagar. Mas n\u00e3o queres que te conte como me decidi?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Com todo o gosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Cercado assim por tantas vilanias, mesmo antes de eu poder dizer o pr\u00f3logo, representava o c\u00e9rebro. Sentei-me e escrevi com capricho nova carta. J\u00e1 pensei, como os nossos estadistas, que \u00e9 feio escrever bem, tendo insistido, at\u00e9, em desaprend\u00ea-lo; mas, nessa hora muito bom me foi isso. Quererias saber qual o conte\u00fado da mensagem?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Com todo o gosto, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Rogo instante do rei, considerando que a Inglaterra era fiel subordinada, que o amor entre os dois povos deveria florescer como a palma, que a conc\u00f3rdia a grinalda de trigo apresentava como tra\u00e7o-de-uni\u00e3o entre as coroas, e outros considerandos de igual porte, para que, conhecido o teor da carta, fossem mortos depressa os portadores, sem delongas, e at\u00e9 sem dar-lhes tempo de confessar as culpas.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Bem; e o selo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nisto o c\u00e9u me ajudou. Tinha na bolsa o sinete que fora de meu pai e que serviu de norma para o selo da Dinamarca. Ap\u00f3s, dobrada a carta, subscritada e impresso nela o timbre, pu-la no lugar da outra, sem vest\u00edgio deixar da troca. Deu-se no outro dia o combate. J\u00e1 sabes tudo o mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Desta arte, Rosencrantz e Guildenstern seguiram seu caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ora, homem; foram eles que namoraram esse emprego. Remorso algum me vem por ter feito isso. Caem, por terem sido intrometidos. \u00c9 perigoso, para a gente baixa, ficar entre os floretes inflamados de dois opositores poderosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 E dizer-se que \u00e9 rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o achas que fiz bem? Ele privou-me do meu pai, prostituiu-me a m\u00e3e, meteu-se entre a escolha do povo e meus anelos, jogou o la\u00e7o, visando at\u00e9 a matar-me, e com tanta perf\u00eddia&#8230; Em s\u00e3 consci\u00eancia, n\u00e3o cabe a este meu bra\u00e7o dar-lhe o troco? N\u00e3o \u00e9 crime deixar um verme desses corroer-me por mais tempo a pr\u00f3pria carne?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Dentro de pouco tempo h\u00e3o de chegar-lhe not\u00edcias da Inglaterra sobre o caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 At\u00e9 l\u00e1 o tempo \u00e9 meu. A vida humana n\u00e3o dura mais do que a contagem de um. Mas, meu bondoso Hor\u00e1cio, fico triste por me haver esquecido de mim mesmo, frente a Laertes; vejo em minha causa representada a sua. Estimo-o muito; mas, realmente, as bravatas nos lamentos deixaram-me furioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Basta. Vede quem vem chegando. (<i>Entra Osrico<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Vossa Alteza \u00e9 muito bem-vindo \u00e0 Dinamarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Humildemente vos agrade\u00e7o, meu senhor. (<i>\u00c0 parte, a Hor\u00e1cio<\/i>) Conheces esse mosquito?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 (<i>\u00e0 parte, a Hamlet<\/i>) N\u00e3o, caro pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tanto melhor para a tua salva\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 v\u00edcio conhec\u00ea-lo. Possui muitas terras e todas f\u00e9rteis. Se fosse animal o rei dos animais, a manjedoura deste ficaria sempre ao lado da mesa do rei. \u00c9 um bisb\u00f3rria, mas, como disse, dono de grandes extens\u00f5es de lama.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Meu doce senhor, se Vossa Alteza dispuser de tempo, farei uma comunica\u00e7\u00e3o da parte de Sua Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Receb\u00ea-la-ei com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o. Usai vosso chap\u00e9u de acordo com a sua finalidade; foi feito para a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Agrade\u00e7o a Vossa Senhoria; mas faz muito calor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Ao contr\u00e1rio, podeis crer-me; faz muito frio; \u00e9 vento norte.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Realmente, pr\u00edncipe, est\u00e1 fazendo bastante frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Conquanto me pare\u00e7a que o tempo est\u00e1 abafado e quente para a minha complei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Sim, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, algo abafado, de certo modo&#8230; N\u00e3o sei como me exprima. Mas, senhor, Sua Majestade me incumbiu de comunicar-vos que apostou uma grande quantia sobre vossa pessoa. O caso \u00e9 o seguinte&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET (<i>concitando a cobrir-se<\/i>) \u2014 Pe\u00e7o-vos, n\u00e3o vos esque\u00e7ais&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Deixai, meu caso senhor; estou \u00e0 vontade. Mas senhor, Laertes chegou \u00e0 corte h\u00e1 pouco tempo; um cavalheiro, podeis crer-me, na acep\u00e7\u00e3o lata do termo, com excelentes qualidades, boa presen\u00e7a e conversa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel. De fato, para falar dele com toda a propriedade, \u00e9 a carta ou almanaque da cortesania, por encontrar-se nele a s\u00famula de todos os dotes que pode um gentil-homem ambicionar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O seu elogio nada perdeu em vossa boca, conquanto eu saiba que se f\u00f4ssemos fazer um invent\u00e1rio de suas qualidades, padeceria a aritm\u00e9tica da mem\u00f3ria sem que na rota em que ele vai se observasse a menor guinada. Para exalt\u00e1-lo com toda a sinceridade, considero-o um esp\u00edrito muito aberto, com dotes t\u00e3o preciosos e raros, que, para tudo dizer em uma s\u00f3 palavra, igual a ele, s\u00f3 poder\u00e1 encontrar em seu pr\u00f3prio espelho. Qualquer outra tentativa para retrat\u00e1-lo redundaria em sua simples sombra.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Vossa Alteza fala com convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A que respeito, senhor? Mas, afinal, porque motivo estamos a envolver esse cavalheiro em nosso grosseiro f\u00f4lego?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 N\u00e3o seria poss\u00edvel fazerem-se ambos compreender em outra l\u00edngua? Decerto o podem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A que vem agora o nome desse cavalheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 De Laertes?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Esvaziou-se-lhe a bolsa; est\u00e3o gastas todas as palavras de ouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Dele mesmo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Sei que n\u00e3o ignorais&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Folgo com isso, conquanto n\u00e3o me recomende muito o fato de o saberdes. Prossegui, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 &#8230; n\u00e3o ignorais a que ponto Laertes prima&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o me atrevo a dizer que sim, com medo de comparar-me ao seu merecimento; conhecermos bem uma pessoa, \u00e9 conhecermos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Refiro-me \u00e0 sua habilidade de manejar arma; o conceito de que desfruta nesse terreno n\u00e3o lhe permite competidor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E qual \u00e9 a sua arma?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Florete e adaga.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Seriam, ent\u00e3o, duas. Mas, prossegui.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 O rei, senhor, empenhou seis cavalos berberes, contra os quais, se diz, Laertes joga seis espadas francesas com todas as suas perten\u00e7as: cintur\u00f5es, talabartes e o resto. Tr\u00eas desses trens s\u00e3o realmente soberbos, bem adaptados aos punhos, trabalhados com esmero e de inven\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A que dais o nome de trem?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 J\u00e1 sabia que haver\u00edeis de recorrer \u00e0 nota marginal, antes de chegar ele ao fim.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Trens, meu senhor, s\u00e3o os sustent\u00e1culos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A express\u00e3o assentaria, se us\u00e1ssemos canh\u00f5es \u00e0 cinta. At\u00e9 l\u00e1, fiquemos com sustent\u00e1culos. Mas, prossegui: seis cavalos berberes contra seis espadas com todos os seus acess\u00f3rios e mais tr\u00eas desses trens de elevada inven\u00e7\u00e3o: uma aposta da Fran\u00e7a contra a Dinamarca. Mas, por que motivo, para usar de vossa express\u00e3o, empenharam tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 O rei, senhor, apostou que em doze botes entre Laertes e Vossa Alteza, aquele n\u00e3o levar\u00e1 mais do que tr\u00eas de vantagem; Laertes aposta que vos tocar\u00e1 nove vezes em doze, o que poder\u00e1 ser posto imediatamente \u00e0 prova, se Vossa Alteza se dignar de responder-lhes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 E se eu me decidir pela negativa?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Quero dizer, pr\u00edncipe, no caso de quererdes expor vossa pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Senhor, vou p\u00f4r-me a passear nesta sala; se for do agrado de Sua Majestade, estarei na hora de tomar um pouco de ar fresco. Tragam os floretes, uma vez que o cavalheiro consinta; se o rei persiste em seu intento, ganharei para ele o que puder; em caso contr\u00e1rio, lucrarei apenas a vergonha e os golpes sobressalentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Posso transmitir vossa resposta nesses termos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O sentido \u00e9 esse, senhor, ficando-vos facultado florear de acordo com vossa capacidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Minha gratid\u00e3o se recomenda a Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A minha, a minha. (<i>Sai Osrico<\/i>) Fez ele muito bem em recomendar-se, que n\u00e3o h\u00e1 l\u00ednguas que pudessem faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Esse abibe fugiu do ninho com a casca do ovo na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Para mamar ele fazia mesuras aos peitos da ama; como os muitos do mesmo rebanho, que constituem o encanto de nossa \u00e9poca superficial, adquiriu apenas o tom da moda e o verniz da sociedade, que, como espuma fina, o fazem passar atrav\u00e9s das opini\u00f5es mais joeiradas e batidas. Mas bastar\u00e1 soprar, para que as bolhas se desfa\u00e7am. (<i>Entra um nobre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 Alteza, Sua Majestade se recomendou a v\u00f3s pelo mo\u00e7o Osrico, que de vossa parte lhe disse o aguardar\u00edeis na sala. Agora manda-me saber se \u00e9 de vosso agrado medir-vos logo com Laertes, ou se preferes adiar a partida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Sou constante em meus intentos; meus intentos seguem o prazer do rei. Se falar a sua conveni\u00eancia, a minha nada ter\u00e1 a objetar: agora, ou em qualquer tempo, uma vez que me encontre t\u00e3o forte como agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 O rei, a rainha e toda a corte se encaminham para c\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Em boa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">O NOBRE \u2014 \u00c9 desejo da rainha que Vossa Alteza dirija palavras de cortesia a Laertes, antes de iniciardes a partida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 \u00c9 razo\u00e1vel o que aconselha. (<i>Sai o nobre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Ides perder essa partida, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o creio; desde que ele foi para a Fran\u00e7a, n\u00e3o deixei de praticar a esgrima; vou ganhar dentro da margem que me concede. Mas n\u00e3o fazes id\u00e9ia de como sinto apertar-se-me o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Se assim \u00e9, pr\u00edncipe&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Tolice&#8230; Um pressentimento apenas, mas que bastaria para preocupar uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Se vosso esp\u00edrito revela qualquer repugn\u00e2ncia, conv\u00e9m obedecer-lhe, irei ao encontro deles, para dizer-lhes que vos achais indisposto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 De forma alguma; desafio os press\u00e1gios. H\u00e1 uma especial Provid\u00eancia na queda de um pardal. Se tem de ser j\u00e1, n\u00e3o ser\u00e1 depois; se n\u00e3o for depois, \u00e9 que vai ser agora; se n\u00e3o for agora, \u00e9 que poder\u00e1 ser mais tarde. O principal \u00e9 estarmos preparados, Uma vez que ningu\u00e9m sabe o que deixa, que importa que seja logo? que seja! (<i>Entram o Rei, a Rainha, Laertes, nobres, Osrico, e ajudantes, com floretes, etc<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Recebe, Hamlet, a m\u00e3o que te apresento. (<i>O Rei coloca a m\u00e3o de Laertes sobre a de Hamlet<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Perdoai, senhor; causei-vos grande ofensa. Sabem-no os circunstantes, e decerto j\u00e1 ouvistes comentar, que estou sofrendo de atroz melancolia. Tudo o que fiz, que a vossa natureza porventura ofendesse, e a honra e o car\u00e1ter, proclamo-o: foi loucura. Foi Hamlet que a Laertes magoou? Jamais. Se Hamlet de si mesmo se abstrai e, sem ser ele, causa a Laertes uma ofensa, Hamlet n\u00e3o foi o causador, pode afirm\u00e1-lo. Quem foi, ent\u00e3o? Sua loucura. Logo, Hamlet est\u00e1 do lado do ofendido; seu maior inimigo \u00e9 a pr\u00f3pria doen\u00e7a. Deixai, senhor, que, em face dos presentes, o franco renegar de maus intentos me absolva ante vossa alma generosa. \u00c9 como se uma flecha eu disparasse por sobre a casa e o irm\u00e3o, sem ver, ferisse.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Declaro satisfeita a natureza que raz\u00f5es encontrava de \u00e0 vingan\u00e7a concitar-me. No campo estrito da honra, contudo, impugnarei qualquer proposta de reconcilia\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que mestres idosos, de lealdade comprovada, firmados na experi\u00eancia, me declarem limpo o meu nome. Antes, por\u00e9m, que chegue essa hora, aceitarei vossa amizade, qual \u00e9, sem a magoar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Isso me alegra. Encetarei lealmente esta compita fraternal. Os floretes!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Vamos; quero um, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vou servir de fundo para vosso brilho, Laertes. Minha in\u00e9pcia far\u00e1 luzir vossa arte, como a noite a uma estrela fulgente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Estais zombando.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Por estas m\u00e3os o juro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Jovem Osrico, entrega-lhes as armas. Conheces, primo Hamlet, as condi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Conhe\u00e7o-as. Vossa Gra\u00e7a d\u00e1 vantagens para o mais fraco.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o receio nada; j\u00e1 os vi lutar; mais se ele fez progressos, que seja para n\u00f3s a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Este \u00e9 muito pesado; mostrai-me outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Este \u00e9 bom; todos s\u00e3o de igual tamanho?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Todos, meu bom senhor. (<i>Colocam-se<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Ponde as jarras de vinho sobre a mesa. Se Hamlet da primeira ou da segunda vez o tocar, ou se aparar o golpe na terceira investida, que abram fogo todas as baterias, O rei bebe \u00e0 sa\u00fade de Hamlet, pondo dentro de sua ta\u00e7a uma p\u00e9rola mais rica do que as que em seus diademas ostentaram os quatro \u00faltimos reis da Dinamarca. Tragam ta\u00e7as. Transmitam os timbales a not\u00edcia \u00e0s trombetas, estas logo aos canhoneiros fora o sinal levem, os canh\u00f5es para o c\u00e9u, o c\u00e9u \u00e0 terra: \u00e0 sa\u00fade de Hamlet que o rei bebe! Vamos logo! E v\u00f3s, juizes, olho atento!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Em guarda, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Uma.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O juiz que o decida.<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Tocado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 De novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Descansem; tragam vinho. Hamlet, a p\u00e9rola \u00e9 em teu louvor. Sa\u00fade! D\u00eaem-lhe a ta\u00e7a. (<i>Soam trombetas; disparos de canh\u00f5es no fundo<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Depois; primeiro novo assalto. Vamos. (<i>Lutam<\/i>) Novamente tocado; que dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Fui tocado, confesso-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Nosso filho vai ganhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Est\u00e1 suando e perde o f\u00f4lego. Toma o meu len\u00e7o, Hamlet; limpa a fronte. A rainha ora bebe ao teu bom \u00eaxito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Nobre senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o bebas, Gertrudes.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Consenti, caro esposo; \u00e9 meu desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 A ta\u00e7a envenenada; \u00e9 muito tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o quero ainda, senhora; mais um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 Vem at\u00e9 aqui, para enxugar-te o rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Pretendo desta vez, senhor, toc\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 N\u00e3o creio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Contudo, \u00e9 quase contra minha pr\u00f3pria consci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Vinde, Laertes, para o terceiro assalto. Estais brincando. Pe\u00e7o-vos que empregueis toda a per\u00edcia. Temo que me trateis como a uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 \u00c9 assim? Pois bem. (<i>Lutam<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 De parte a parte, nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Tomai cuidado agora. (<i>Laertes fere a Hamlet; depois, no afogo da luta, trocam as armas e Hamlet fere a Laertes<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Separem-nos! Excedem-se!<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o! Em guarda! (<i>A Rainha cai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Oh! A rainha! Vede-a!<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Ambos se acham feridos. Como estais, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 Como estais v\u00f3s, Laertes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Como um galo silvestre, Osrico, preso no seu la\u00e7o; fui v\u00edtima de minha felonia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Que \u00e9 que houve com a rainha?<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Desmaiou por ter visto sangue em ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A RAINHA \u2014 N\u00e3o \u00e9 isso&#8230; a bebida&#8230; Oh! caro Hamlet! A bebida&#8230; a bebida&#8230; envenenada&#8230; (<i>Morre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Oh! Vilania! Fechem bem as portas! Trai\u00e7\u00e3o! Ah! Procuremos os culpados! (<i>Laertes cai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 Aqui, Hamlet, aqui! Est\u00e1s perdido; nada no mundo existe que te salve; n\u00e3o tens nem meia hora mais de vida. O instrumento fatal se acha em tuas m\u00e3os, sem guarda e envenenado. Minha ast\u00facia se virou contra mim. Jazo por terra para sempre. Tua m\u00e3e.., envenenada. N\u00e3o posso mais&#8230; O rei&#8230; \u00c9 ele o culpado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 A ponta envenenada? Ent\u00e3o, veneno, prossegue em teu trabalho. (<i>Fere o Rei<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Trai\u00e7\u00e3o! Trai\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">O REI \u2014 Amigos, defendei-me! Estou apenas ferido.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Incestuoso assassino, Dinamarqu\u00eas maldito, bebe, bebe tua parte, tamb\u00e9m. Cont\u00e9m tua p\u00e9rola? Vai, vai com minha m\u00e3e. (<i>O Rei morre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAERTES \u2014 \u00c9 justo! \u00c9 justo! O veneno, ele mesmo o preparara. Perdoemo-nos, agora, nobre Hamlet. Que minha morte e a de meu pai n\u00e3o caiam sobre ti, nem a tua sobre mim.(<i>Morre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 O c\u00e9u te absolva; sigo-te. Estou morto, Hor\u00e1cio. Infeliz m\u00e3e, adeus, adeus. V\u00f3s que empalideceis a esta cat\u00e1strofe, que n\u00e3o passais de mudos assistentes desta cena&#8230; Se o tempo me sobrasse \u2014 que a Morte, o beleguim que n\u00e3o conhece contempla\u00e7\u00f5es, \u00e9 sempre rigorosa \u2014 Se pudesse contar-vos! Que importa! Hor\u00e1cio, eu morro, mas tu vives; perante os descontentes, justifica-me e \u00e0 minha causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o penseis nisso; sou mais romano antigo do que mesmo dinamarqu\u00eas. Na ta\u00e7a ainda h\u00e1 veneno.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Como o homem que \u00e9s, entrega-me essa ta\u00e7a. Entrega-ma, por Deus! Larga-a! Desejo-a! \u00d3 Deus! Que nome eu deixo, Hor\u00e1cio caso continuem confusas essas coisas. Se algum dia em teu peito me abrigaste, priva-te por um tempo da ventura e respira cansado mais um pouco neste mundo t\u00e3o duro, para a todos contares minha hist\u00f3ria. (<i>Marcha ao longe; tiros de canh\u00e3o por tr\u00e1s da cena<\/i>) Que barulho marcial se est\u00e1 ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OSRICO \u2014 \u00c9 o jovem Fortimbr\u00e1s que da Pol\u00f4nia retorna vitorioso e os emiss\u00e1rios da Inglaterra sa\u00fada desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HAMLET \u2014 Morro, Hor\u00e1cio; o veneno me domina j\u00e1 quase todo o esp\u00edrito; n\u00e3o posso viver para saber o que nos chega da Inglaterra. Contudo, profetizo que h\u00e1 de ser escolhido Fortimbras. Meu voto moribundo \u00e9 tamb\u00e9m dele. Dize-lhe isso e lhe conta mais ou menos quanto ora aconteceu&#8230; O resto \u00e9 sil\u00eancio. (<i>Morre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Um nobre cora\u00e7\u00e3o que assim se parte. Boa noite, meu bom pr\u00edncipe. Que os anjos com seu canto ao repouso te acompanhem. E esse tambor agora? (<i>Entram Fortimbr\u00e1s, os embaixadores da Inglaterra e outros<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Onde \u00e9 esta cena?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Que esp\u00e9cie procurais? Se de infort\u00fanio, ou de assombro, parai com vossas buscas.<\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Destro\u00e7o \u00e9 o que se v\u00ea. \u00d3 feroz Morte! Que festim se processa em tua cela, para que de um s\u00f3 golpe tantos pr\u00edncipes banhes em sangue?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO EMBAIXADOR \u2014 A vista \u00e9 pavorosa. Chegamos atrasados; surdos se acham os ouvidos que audi\u00eancia deveriam conceder-nos, a fim de lhes contarmos da execu\u00e7\u00e3o de seu mandado: mortos se encontram Rosencrantz e Guildenstern. Quem h\u00e1 de agradecer-nos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 N\u00e3o o rei, certamente, ainda que vida lhe sobrasse para isso, pois n\u00e3o dera ordem no que respeita \u00e0 morte de ambos. Mas, uma vez chegados a esta cena sangrenta, um da Inglaterra, outro da guerra da Pol\u00f4nia, ordenai que os corpos sejam expostos num tablado bem \u00e0 vista, que eu contarei ao mundo, que ainda o ignora, como tudo se deu. Ouvireis todos falar de atos carnais, de incestos, sangue, julgamentos casuais, mortes fortuitas, de crimes por acaso ou pela ast\u00facia, e de planos gorados, que ca\u00edram sobre os pr\u00f3prios autores. Com verdade, tudo isso contarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Que seja logo. Convoquemos os nobres ao conselho Enquanto a mim, com dor abra\u00e7o a sorte: tenho sobre este reino alguns direitos, que o interesse me faz ora lembrados.<\/p>\n<p align=\"justify\">HOR\u00c1CIO \u2014 Tenho algo que dizer tamb\u00e9m sobre isso, em nome de uma boca cujo voto muitos h\u00e1 de arrastar. Ponhamos pressa na execu\u00e7\u00e3o de tudo, enquanto inquietos os esp\u00edritos se acham, para novas desgra\u00e7as evitar, oriundas de erros ou de tramas conscientes.<\/p>\n<p align=\"justify\">FORTIMBR\u00c1S \u2014 Que quatro capit\u00e3es a Hamlet levem como a um soldado e o ponham sobre o leito. Se o trono ele alcan\u00e7asse, tudo o indica, seria um grande rei. Que \u00e0 sua passagem m\u00fasica militar e salvas b\u00e9licas falem alto por ele. Removei logo os corpos; esta vista \u00e9 pr\u00f3pria s\u00f3 dos campos de batalha; neste lugar, por\u00e9m, \u00e9 em tudo falha. Uma salva geral! (<i>Marcha f\u00fanebre. Saem carregando os corpos, depois do que se ouve uma salva de artilharia<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.ebooksbrasil.or<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens Dram\u00e1ticas CL\u00c1UDIO (rei da Dinamarca) HAMLET (filho do defunto rei e sobrinho do rei reinante) FORTIMBRAS (pr\u00edncipe da Noruega) HOR\u00c1CIO (amigo de Hamlet) POL\u00d4NIO (camareiro-mor) LAERTES (seu filho) VOLTIMANDO (cortes\u00e3o) CORN\u00c9LIO (cortes\u00e3o) ROBENCRANTZ (cortes\u00e3o) GUILDENSTERN (cortes\u00e3o) OSRICO Um nobre Um padre BERNARDO (oficial) MARCELO (oficial) FRANCISCO (soldado) REINALDO (criado de Pol\u00f4nio) Um 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