{"id":120346,"date":"2017-04-25T10:07:33","date_gmt":"2017-04-25T12:07:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120346"},"modified":"2017-04-25T10:07:33","modified_gmt":"2017-04-25T12:07:33","slug":"antonio-e-cleopatra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/antonio-e-cleopatra","title":{"rendered":"Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens Dram\u00e1ticas<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>MARCO ANT\u00d4NIO<\/b>, tri\u00fanviro,<br \/>\n<b>OT\u00c1VIO C\u00c9SAR<\/b>, tri\u00fanviro,<br \/>\n<b>M. EM\u00cdLIO L\u00c9PIDO<\/b>, tri\u00fanviro,<br \/>\n<b>SEXTO POMPEU<\/b>,<br \/>\n<b>DOM\u00cdCIO ENOBARBO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>VENT\u00cdDIO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>EROS<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>ESCARO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>DERCETAS<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>DEM\u00c9TRIO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>FILO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>MECENAS<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>AGRIPA<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>DOLABELA<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>PROCULEIO<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>TIREU<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>GALO<\/b>, amigo de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>MENAS<\/b>, amigo de Pompeu,<br \/>\n<b>MEN\u00c9CRATES<\/b>, amigo de Pompeu,<br \/>\n<b>VARRIO<\/b>, amigo de Pompeu,<br \/>\n<b>TAURO<\/b>, tenente-general de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>CAN\u00cdDIO<\/b>, tenente-general de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>S\u00cdLIO<\/b>, oficial sob as ordens de Vent\u00eddio,<br \/>\n<b>EUFR\u00d4NIO<\/b>, embaixador de Ant\u00f4nio para C\u00e9sar,<br \/>\n<b>ALEXAS<\/b>, servidor de Cle\u00f3patra,<br \/>\n<b>MARDIAN<\/b>, servidor de Cle\u00f3patra,<br \/>\n<b>SELEUCO<\/b>, servidor de Cle\u00f3patra,<br \/>\n<b>DIOMEDES<\/b>, servidor de Cle\u00f3patra,<br \/>\nUm adivinho,<br \/>\nUm bobo,<br \/>\n<b>CLE\u00d3PATRA<\/b>, rainha do Egito,<br \/>\n<b>OT\u00c1VIA<\/b>, irm\u00e3 de C\u00e9sar e esposa de Ant\u00f4nio,<br \/>\n<b>CHARMIAN<\/b>, criada de Cle\u00f3patra,<br \/>\n<b>IRAS<\/b>, criada de Cle\u00f3patra,<br \/>\nOficiais, soldados, mensageiros e gente de servi\u00e7o<\/p>\n<p><a name=\"cleo11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio de Cle\u00f3patra. Entram Dem\u00e9trio e Filo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FILO \u2014 N\u00e3o! Passa da medida essa loucura do nosso general. Aqueles olhos altivos que brilhavam como Marte com seu arn\u00eas chapeado, dominando multid\u00f5es de soldados em revista, ora se abaixam, ora se desviam do of\u00edcio e devo\u00e7\u00e3o que lhes s\u00e3o pr\u00f3prios, para uma fronte escura. Aquele grande cora\u00e7\u00e3o, que na grita das batalhas monumentais fazia que saltassem, partidas, as fivelas da coura\u00e7a, agora renegou o autodom\u00ednio, para tornar-se a ventarola e o fole que acalmar tenta o ardor de uma cigana. Vede onde eles v\u00eam vindo! (<i>Entram Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra, com os respectivos s\u00e9q\u00fcitos; eunucos a abanam.<\/i>) Tomai nota, e observareis como um dos tr\u00eas pilares do mundo no palha\u00e7o de uma simples rameira se mudou. Examinai-os!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Se \u00e9 amor, realmente, revelai-me quanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pobre \u00e9 o amor que pode ser contado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vou p\u00f4r um marco, para o ponto extremo do amor assinalar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Fora preciso descobrir novos c\u00e9us, uma outra terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um ajudante.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AJUDANTE \u2014 Novas de Roma, meu bondoso chefe.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que estais! Vamos l\u00e1: resume a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o, Ant\u00f4nio! Ouvi tudo. Talvez F\u00falvia se encontre estomagada, ou talvez ainda o C\u00e9sar quase imberbe vos haja ordens mandado perempt\u00f3rias: \u201cFaze isto e aquilo; toma aquele reino, liberta este outro! Cumpre as minhas ordens, se n\u00e3o quiseres receber castigo.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Como, querida?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Talvez? N\u00e3o; \u00e9 certo: n\u00e3o podereis ficar aqui mais tempo; C\u00e9sar j\u00e1 vos enviou a demiss\u00e3o. Por isso, Ant\u00f4nio, ouvi: onde \u00e9 que se acha a expressa ordem de F\u00falvia&#8230; isto \u00e9, de C\u00e9sar&#8230; de ambos? \u2014 Fazei entrar os mensageiros. \u2014 T\u00e3o certo como eu ser do Egito a rainha, Ant\u00f4nio, tu coraste. Esse teu sangue \u00e9 a maior homenagem feita a C\u00e9sar, se n\u00e3o for o tributo da vergonha que tuas faces pagam, quando a l\u00edngua estr\u00eddula de F\u00falvia te repreende. Ol\u00e1! Os mensageiros!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que se afunde Roma no Tibre e de seus gonzos salte a gigantesca ab\u00f3bada do imp\u00e9rio. Meu espa\u00e7o \u00e9 este aqui. Todos os remos s\u00e3o argila, mais nada; nossa terra cenagosa alimenta homens e brutos, indiferentemente. Com nobreza viver \u00e9 proceder desta maneira, (<i>Abra\u00e7a-a.<\/i>) quando se encontra um par t\u00e3o ajustado, como se d\u00e1 conosco. Desafio todo o mundo, sob pena de castigo, para vir convencer-se de que somos sem confronto poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Admir\u00e1vel falsidade! Por que casou com F\u00falvia, se n\u00e3o lhe tinha amor? Quero a apar\u00eancia manter da tola que n\u00e3o sou realmente; continuar\u00e1 Ant\u00f4nio sendo o mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas amimado agora por Cle\u00f3patra. Mas, pelo amor do Amor e de seus brandos momentos, n\u00e3o gastemos nosso tempo com debates fastientos. Nossas vidas n\u00e3o cont\u00eam um minuto, um s\u00f3, que deva passar sem nos deixar qualquer ventura. Qual \u00e9 o divertimento desta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ouvi os embaixadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que rainha implicante, em que tudo assenta bem: repreender, rir, chorar, e em que se esfor\u00e7am as paix\u00f5es porque em ti se tornem belas e admiradas. Nenhum correio, salvo se vier de tua parte. Os dois, sozinhos, percorreremos hoje \u00e0 noite as ruas, para observarmos como vive o povo. Vamos, minha rainha, que isso mesmo quer\u00edeis ontem. N\u00e3o; ficai calada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra com seus s\u00e9q\u00fcitos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Como! T\u00e3o pouco caso faz Ant\u00f4nio de C\u00e9sar a esse ponto!<\/p>\n<p align=\"justify\">FILO \u2014 Algumas vezes, senhor, isso se d\u00e1, quando ele deixa de ser Ant\u00f4nio e se desfaz um pouco daquela dignidade que devia sempre estar com Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Fico triste por ver que ele confirma os maldizentes da rua que sobre ele em Roma falam. Mas esperemos que amanh\u00e3 revele mais d\u00edgna compostura. Bom repouso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"cleo12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Outro quarto. Entram Charmian, Iras, Alexas e um adivinho.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Senhor Alexas, suave Alexas, extraordin\u00e1rio Alexas, onde est\u00e1 o adivinho que tanto elogiastes \u00e0 rainha? Oh! Quero que ele me mostre o marido que, como dizeis, ter\u00e1 de p\u00f4r grinaldas nos cornos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Adivinho!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Que desejais!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 \u00c9 este o homem? Sois v\u00f3s, senhor, que conheceis as coisas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 No grande livro da natura, alguma coisa consigo ler.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Mostrai-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Aprestai o banquete, sem demora, com vinho em profus\u00e3o, para \u00e0 sa\u00fade de Cle\u00f3patra beberem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Meu bom senhor, dai-me uma boa sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 N\u00e3o dou sorte; apenas a revelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Ent\u00e3o, por obs\u00e9quio, revelai a minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Ainda ficareis mais clara do que sois.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Ele se refere \u00e0 carne.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 N\u00e3o; \u00e9 que vos pintareis, quando ficardes velha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Que as rugas n\u00e3o o permitam!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 N\u00e3o perturbeis sua presci\u00eancia; prestai aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Amareis mais do que sereis amada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Prefiro aquecer o f\u00edgado com bebida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 N\u00e3o; ou\u00e7amo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Muito bem; agora qualquer sorte fora do comum. Fazei-me casar com tr\u00eas reis, numa \u00fanica manh\u00e3, e enviuvar deles todos; fazei que eu tenha um filho aos cinq\u00fcenta, a quem prestar\u00e1 homenagem Herodes da Jud\u00e9ia; revelai que vou casar-me com Ot\u00e1vio C\u00e9sar, e equiparai-me, assim, \u00e0 minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Sobrevivereis \u00e0 senhora a que servis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Oh! excelente! Gosto mais de vida longa do que de figos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 J\u00e1 vistes e provastes melhor sorte do que a que vos espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 que meus filhos ficar\u00e3o sem nome. Mas, por obs\u00e9quio: ao todo, quantos meninos e quantas meninas irei ter?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Um milh\u00e3o, se cada um de vossos desejos tivesse ventre e pudesse ser fecundado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Vai saindo, tolo! Mas enfim, por seres bruxo, te perd\u00f4o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Pens\u00e1veis que vossos anelos s\u00f3 eram conhecidos da roupa da cama?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Vamos! vamos! Contai agora a sorte de Iras.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 N\u00f3s todos queremos saber a nossa sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 A minha sorte, como a da maior parte da dos presentes, hoje \u00e0 noite consistir\u00e1&#8230; em ir b\u00eabedo para a cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Quando mais n\u00e3o seja, haveis de descobrir castidade na palma desta m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Parece o Nilo, que, quando transborda, pressagia fome.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Vai saindo, estouvada! N\u00e3o entendes de vatic\u00ednios.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Ora essa! Se uma palma untuosa n\u00e3o for ind\u00edcio de fecundidade, n\u00e3o poderei co\u00e7ar as orelhas. Por favor, predizei-lhe apenas uma morte vulgar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Vossa sorte \u00e9 igual dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Como assim? Como assim? Descei a particularidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 J\u00e1 disse o que tinha a dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o tenho nem uma polegada de sorte mais do que ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Bem; mas dando-se o caso de terdes mesmo uma s\u00f3 polegada de sorte mais do que eu, onde a ir\u00edeis procurar?<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 N\u00e3o haveria de ser no nariz do meu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Possa o c\u00e9u endireitar nossos pensamentos piores. Agora Alexas! A sorte dele! A sorte dele! \u00d3 suave sis s\u00f3 te pe\u00e7o que o fa\u00e7ais casar com uma mulher que n\u00e3o ande. E que ela venha a morrer, para dar lugar a outra pior, seguindo-se sempre \u00e0 pior outra pior ainda, at\u00e9 que a pior de todas o acompanhe, rindo, \u00e0 sepultura, cinq\u00fcenta vezes corno manso! Exal\u00e7a-me esse voto, bondosa \u00cdsis, ainda que me venhas a negar mat\u00e9ria de mais peso. Imploro-te, bondosa \u00cdsis.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Am\u00e9m. Querida deusa, atende s ora\u00e7\u00f5es do povo, por que assim como aperta o cora\u00e7\u00e3o ver mal casado um belo rapaz, mata de tristeza ver um r\u00fastico sem cornos. Por isso, bondosa sis, sem ofender o decoro, dai-lhe a sorte que ele merece.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Ora vede! Se dependesse delas fazer-me cabr\u00e3o, tornar-se-iam prostitutas, s\u00f3 para que isso acontecesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Cuidado! Eis a\u00ed Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 N\u00e3o; \u00e9 Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Cle\u00f3patra<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o vistes meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 N\u00e3o o vi, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Aqui n\u00e3o se encontrava?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Estava bem disposto; mas, de s\u00fabito, uma id\u00e9ia romana o deixou triste. Enobarbo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Sai em busca dele e o traze at\u00e9 aqui. Onde est\u00e1 Alexas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Aqui, \u00e0s vossas ordens. Eis meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ant\u00f4nio, com mensageiros e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o desejamos v\u00ea-lo. Vem conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Cle\u00f3patra, Enobarbo, Alexas, Iras, Charmian, o adivinho e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 F\u00falvia, tua mulher, foi quem primeiro se p\u00f4s em campo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Contra o mano L\u00facio?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Sim. Essa guerra, por\u00e9m, terminou logo; a condi\u00e7\u00e3o do tempo os fez amigos, a juntar-se levando-os contra C\u00e9sar que, vitorioso no primeiro embate, da It\u00e1lia os expulsou.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bem; que h\u00e1 de pior?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 As m\u00e1s not\u00edcias infectado deixam quem tiver de cont\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 S\u00f3 no caso de interessarem um covarde ou um tolo. Vamos, falai; o passado n\u00e3o tem for\u00e7a nenhuma sobre mim. \u00c9 o que te digo. Quem me conta a verdade, embora a morte se ache no que disser, por mim \u00e9 ouvido como se me adulasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ent\u00e3o, Labieno \u2014 eis a not\u00edcia amarga \u2014 desde o Eufrates com suas for\u00e7as partas tomou a \u00c1sia; seu estandarte vencedor levado foi da S\u00edria at\u00e9 \u00e0 L\u00eddia e \u00e0 I\u00f4nia, enquanto&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ant\u00f4nio, ias dizer&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Oh! meu senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 S\u00ea franco em teu falar; n\u00e3o atenues a linguagem do povo; chama Cle\u00f3patra como em Roma lhe chamam; fala dela no fraseado de F\u00falvia e censurando-me todas as faltas com o atrevimento s\u00f3 pr\u00f3prio da verdade e da mal\u00edcia. Oh! \u00e9 certo: de n\u00f3s brotam ciz\u00e2nias quando repousam nossos ventos c\u00e9leres. Enumerar nosso defeitos vale tanto quanto mond\u00e1-los. Por enquanto, deixa-me s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 \u00c0s vossas gratas ordens. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Onde est\u00e1 o mensageiro de Sic\u00edone?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 H\u00e1 algu\u00e9m a\u00ed que viesse de Sic\u00edone?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Aguarda vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, que entre. Preciso arrebentar os fortes elos do Egito; do contr\u00e1rio, viro tonto. (<i>Entra outro mensageiro.<\/i>) Quem sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 F\u00falvia, tua esposa, j\u00e1 n\u00e3o vive.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Morreu? Onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Em Sic\u00edone. O decurso da doen\u00e7a e tudo o mais de relev\u00e2ncia, que te importa saber, aqui se encontra. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Podes sair. (<i>Sai o segundo mensageiro.<\/i>) Partiu um grande esp\u00edrito! E assim o desejei! O que o desprezo muitas vezes atira para longe, reaver desejar\u00edamos. O gozo presente, declinando no seu curso, vem a tornar-se o oposto de si mesmo. Boa tornou-se por j\u00e1 ter morrido; a m\u00e3o que a repeliu desejaria atra\u00ed-la de novo. \u00c9 necess\u00e1rio que eu largue esta rainha feiticeira. Dez mil calamidades, mais que todos os males que eu conhe\u00e7o, est\u00e1 chocando minha grande na\u00e7\u00e3o. Ol\u00e1, Enobarbo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Que desejais, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sair daqui o mais depressa poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Se isso acontecer, mataremos as nossas mulheres. D\u00e1 pena elimin\u00e1-las por um motivo t\u00e3o pequeno, muito embora com rela\u00e7\u00e3o a uma grande causa elas todas devam ser tidas na conta de coisa nenhuma. Aos primeiros ru\u00eddos da partida Cle\u00f3patra morrer\u00e1 instantaneamente; j\u00e1 a vi morrer vinte vezes por motivos muito mais insignificantes. Estou convencido de que na morte h\u00e1 qualquer subst\u00e2ncia que exerce influ\u00eancia amorosa sobre ela, tal \u00e9 a freq\u00fc\u00eancia com que ela tem morrido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sua ast\u00facia escapa \u00e0 compreens\u00e3o humana.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ah, senhor! N\u00e3o! Suas paix\u00f5es s\u00e3o feitas exclusivamente do mais puro amor; n\u00e3o podemos dar o nome de suspiros e de l\u00e1grimas aos furac\u00f5es que lhe saem do peito e \u00e0s catadupas que lhe brotam dos olhos: s\u00e3o vendavais e tempestades mais terr\u00edveis do que os que o calend\u00e1rio anuncia. N\u00e3o, n\u00e3o pode ser ast\u00facia de sua parte, pois se assim fosse, ela seria capaz de produzir chuva tanto como Jove.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quem me dera que nunca a tivesse visto!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Oh, senhor! Ter\u00edeis deixado de ver uma obra-prima maravilhosa, ficando vossa viagem desacreditada por esse fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 F\u00falvia morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 F\u00falvia morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 F\u00falvia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Morta!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Neste caso, senhor, aprestai \u00e0s divindades um sacrif\u00edcio gratulat\u00f3rio. Quando aos deuses apraz tirar a mulher a algum marido, este descobre neles o alfaiate da terra, consolando-se com a id\u00e9ia de que, quando as roupas velhas se tornam imprest\u00e1veis, n\u00e3o faltam membros para fazer outras mais novas. Se em todo o mundo n\u00e3o houvesse outra mulher al\u00e9m de F\u00falvia, ent\u00e3o, sim; ter\u00edeis, realmente, recebido um corte, o que seria de lamentar. Essa m\u00e1goa \u00e9 coroada pelo consolo de que a vossa velha camisola de mulher dar\u00e1 nascimento a uma saia nova. Em verdade, as l\u00e1grimas que se cont\u00eam numa cebola, dariam para lavar essa tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Os neg\u00f3cios de Estado que por ela eram sempre tratados, n\u00e3o permitem agora minha aus\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 E os neg\u00f3cios de que tratais aqui, s\u00f3 se conservam de p\u00e9 por vossa causa, principalmente o de Cle\u00f3patra, que depende s\u00f3 e s\u00f3 de vossa perman\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Basta de brincadeiras. Comunica aos nossos oficiais o que intentamos. Vou me abrir com a rainha sobre as causas desta nossa partida, o assentimento dela esperando obter. N\u00e3o s\u00f3 a morte de F\u00falvia com sinais mais insistentes nos concita a isso mesmo: muitas cartas de Roma, de igual modo, de pessoas dedicadas reclamam nossa volta. Sexto Pompeu lan\u00e7ou um repto a C\u00e9sar; todo o imp\u00e9rio do mar a ele obedece. Nosso povo inconstante \u2014 cujo afeto nunca ao homem de m\u00e9rito se liga, sen\u00e3o depois que o m\u00e9rito est\u00e1 morto \u2014 j\u00e1 come\u00e7ou a ver Pompeu, o grande, com suas dignidades, em seu filho que alto j\u00e1 se acha por estado e nome, mas mais ainda pelo g\u00eanio e sangue como o maior guerreiro se apresenta. Se a crescer continuar, os pr\u00f3prios flancos do mundo p\u00f5e em risco. Muita coisa se acha incubada que, tal como os fios da crina do cavalo fabuloso, tem vida apenas, mas carece ainda do veneno da serpe. Nosso alvitre \u2014 dize a todos que est\u00e3o sob as nossas ordens \u2014 ordena que partamos sem demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Assim farei.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"cleo13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Outro quarto. Entram Cle\u00f3patra, Charmian, Iras e Alexas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 N\u00e3o o vejo h\u00e1 tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vede onde est\u00e1, que faz, quem o acompanha. N\u00e3o vos mandei. Se virdes que est\u00e1 triste, dizei que estou dan\u00e7ando; se contente, que me vi atacada de mal s\u00fabito. Ide logo e voltai.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Alexas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Senhora, creio que, se lhe dedicam amor sincero, em pr\u00e1tica n\u00e3o pondes o que fora preciso para o mesmo alcan\u00e7ar dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como fora preciso que fizesse?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Em tudo concordar com ele, nunca contrari\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Qual tola tu me ensinas o modo de perd\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Sede cauta; n\u00e3o o tenteis. Por vezes, muito cedo votamos \u00f3dio ao que nos causa medo. Mas a\u00ed vem Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Aborrecida me encontro e doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Muito me entristece ter de comunicar-vos meu intento&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ajuda-me a sair, querida Charmian; sinto que vou cair. Isto n\u00e3o pode continuar assim por muito tempo. A natureza n\u00e3o resiste a tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Agora, minha cara soberana&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Por obs\u00e9quio, afastai-vos mais um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 De vosso olhar deduzo que chegaram not\u00edcias lisonjeiras. Que diz vossa mulher? Podeis ir logo. Quem me dera que ela nunca vos tivesse deixado vir; e, sobretudo, nunca possa dizer que eu sou quem vos retenho. Em v\u00f3s n\u00e3o mando; sois somente dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Os deuses sabem muito bem&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh! nunca se viu uma rainha assim tra\u00edda. Mas desde o in\u00edcio vi brotar a ins\u00eddia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Cle\u00f3patra&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como posso dar-vos cr\u00e9dito sobre me pertencerdes de verdade, embora vossas juras abalassem o alto trono de Jove, se perjuro com rela\u00e7\u00e3o a F\u00falvia vos mostrastes? Loucura rematada, ver-se presa nas malhas dessas juras s\u00f3 de boca, que se quebram por si, quando enunciadas!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Rainha mui querida&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Nada, nada de apresentar desculpas para a viagem. Dizei adeus e parti logo. Quando para ficar ped\u00edeis, era tempo somente de palavras; em partida n\u00e3o se falava; a eternidade t\u00ednhamos nos olhos e nos l\u00e1bios; gr\u00e3 ventura das sobrancelhas sempre nos pendia. N\u00e3o havia parcela em n\u00f3s, por \u00ednfima que fosse, que do c\u00e9u n\u00e3o derivasse. E tudo ainda est\u00e1 no mesmo ponto, salvo se tu, o her\u00f3i de mais destaque no mundo todo, te mudaste agora no maior mentiroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Quisera ter as tuas polegadas; verias que h\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o no Egito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Escutai-me, rainha. A mais premente necessidade exige meus servi\u00e7os noutro lugar, mas fica aqui convosco todo meu cora\u00e7\u00e3o. Rebrilha ao longe nossa It\u00e1lia com os gl\u00e1dios de seus filhos; junto ao porto de Roma j\u00e1 se encontra Sexto Pompeu. As for\u00e7as balan\u00e7adas de dois n\u00facleos nativos alimentam dissens\u00e3o cautelosa. Quem odiado era at\u00e9 h\u00e1 pouco, forte se tornando, passou a ser amado pelo povo. O proscrito Pompeu, rico das honras paternas, na afei\u00e7\u00e3o sabe insinuar-se dos que no estado atual n\u00e3o prosperaram, cujo n\u00famero \u00e9 enorme. Pela in\u00e9rcia tornada doente, a paz procura al\u00edvio em qualquer varia\u00e7\u00e3o desesperada. O motivo pessoal que me preocupa, mas que perante v\u00f3s me justifica, \u00e9 o da morte de F\u00falvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Embora a idade n\u00e3o me preservasse, de todo, da loucura, pelo menos credulidade n\u00e3o me deu de crian\u00e7a. F\u00falvia pode morrer?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Morreu, rainha. L\u00ea isto, e no teu \u00f3cio soberano fica sabendo quanta barafunda p\u00f4de ela suscitar. Por fim, inteira-te de como ela morreu e onde foi isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh mui fingido amor! Onde se encontram os vasos sacrossantos que devias encher com tuas l\u00e1grimas doloridas? Agora vejo, vejo pela morte de F\u00falvia como vai ser recebida a not\u00edcia da minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Parai logo com essas obje\u00e7\u00f5es e preparai-vos para ficar sabendo meu intento, que ficar\u00e1 de p\u00e9 ou vem abaixo, conforme resolverdes. Pelo fogo que anima o lodo do sagrado Nilo, parto daqui soldado teu ou servo; guerra farei, ou paz, como quiseres.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Charmian, desata-me este la\u00e7o; vamos! N\u00e3o; deixa. Sinto-me depressa doente e boa a um tempo. \u00c9 assim o amor de Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por obs\u00e9quio, rainha incompar\u00e1vel, acreditai no amor que ele vos vota, pois resiste a uma prova muito honrosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 o que F\u00falvia me ensina. Por obs\u00e9quio, ide chor\u00e1-la a um canto. Dirigi-me, depois, as despedidas, declarando que ao Egito essas l\u00e1grimas pertencem. Vamos; representai mais uma cena de excelente diss\u00edmulo, fazendo-a passar por mostras da mais alta fama.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Com isso me esquentais o sangue. Chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Podeis fazer melhor; mas isso basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por minha espada&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 E pelo meu escudo&#8230; Melhorou, mas ainda falta muito. Charmian, v\u00ea como assentam bem nesse H\u00e9rcules romano os surtos de uma grande c\u00f3lera.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Senhora, vou deixar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Delicado senhor, uma palavra. \u00c9 necess\u00e1rio que aqui nos separemos&#8230; N\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 isso. Senhor, j\u00e1 nos amamos&#8230; N\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 isso. Tudo isso v\u00f3s sabeis, e alguma coisa foi por minha vontade. Oh! que mem\u00f3ria! \u00c9 um verdadeiro Ant\u00f4nio! Esqueci tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se o capricho n\u00e3o fosse vosso s\u00fadito, diria que sois ele em carne e osso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Trabalho cansativo \u00e9 trazer sempre junto do cora\u00e7\u00e3o um tal capricho, como Cle\u00f3patra faz. Mas desculpai-me, senhor, porque me causa a morte tudo que em mim vai bem, mas n\u00e3o vos causa agrado. A honra vos chama; assim, continuai mudo para minha tolice irremedi\u00e1vel. E que todos os deuses vos escoltem. Que a l\u00e1urea da vit\u00f3ria carregada seja por vosso gl\u00e1dio e que o brando \u00eaxito de flores atapete vossa estrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Partamos logo. Nossa despedida desta maneira foge e permanece: aqui permanecendo, vais comigo; eu, fugindo de ti, fico contigo. Em caminho!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"cleo14\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto em casa de C\u00e9sar. Entram Ot\u00e1vio C\u00e9sar, L\u00e9pido e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 L\u00e9pido, podeis ver e, doravante, sabendo ficareis que n\u00e3o \u00e9 v\u00edcio pr\u00f3prio de C\u00e9sar odiar o nosso grande competidor. De Alexandria s\u00e3o estas as not\u00edcias: ele pesca, bebe e consome as l\u00e2mpadas da noite em cont\u00ednuas orgias; n\u00e3o se mostra mais viril do que Cle\u00f3patra, nem esta \u2014 vi\u00fava de Ptolomeu \u2014 efeminada tamb\u00e9m \u00e9 mais do que \u00e9 ele. Raramente d\u00e1 audi\u00eancia ou condescende em recordar-se de que ainda tem colegas. Nele vedes um indiv\u00edduo que os defeitos todos dos homens compendia.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 A convencer-me n\u00e3o chego de que possa haver defeitos bastantes para obnubilar-lhe os tra\u00e7os nativos de bondade. Nele as faltas s\u00e3o como as manchas que no c\u00e9u se v\u00eaem, no contraste das trevas mais terr\u00edveis, que ele mudar n\u00e3o pode, sendo for\u00e7a seguir-lhes o pendor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sois indulgente por demais. Admitamos que n\u00e3o haja grande mal em no t\u00e1lamo deitar-se de Ptolomeu, em dar um reino em troco de uma pilh\u00e9ria, em se sentar ao lado de um escravo e beber com ele \u00e0 roda, cambalear pelas ruas a desoras e trocar socos com qualquer labrego que fede a suor&#8230; Dizei-me que isso lhe orna \u2014 conquanto deva ser muito estranh\u00e1vel a natureza que n\u00e3o sai manchada de semelhantes atos. \u2014 Mas \u00e9 certo que n\u00e3o se justifica dos defeitos, porque sobre n\u00f3s pesa todo o fardo de sua leviandade. Se o \u00f3cio ele enche com a vol\u00fapia, ter\u00e1 de justar contas com a saciedade e a consump\u00e7\u00e3o dos ossos. Mas malgastar o tempo que o desperta dos prazeres com toques de rebate, e que t\u00e3o alto como a n\u00f3s. lhe fala do dever a cumprir, \u00e9 revelar-se merecedor de justa reprimenda, como crian\u00e7a de saber maduro que por fugaz prazer empenha todas as li\u00e7\u00f5es do passado e se rebela contra a pr\u00f3pria raz\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Mais novidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Executadas foram tuas ordens, \u00f3 muito nobre C\u00e9sar. De hora em hora novas receber\u00e1s do que se passa l\u00e1 por longe. Pompeu domina os mares, parecendo que \u00e9 amado por aqueles que s\u00f3 temiam C\u00e9sar. Para os portos os descontentes correm, comentando todos que ele sofreu grande injusti\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 F\u00e1cil me fora tal coisa ter previsto. Ensina-nos a hist\u00f3ria desde o in\u00edcio do tempo que quem \u00e9, s\u00f3 e querido at\u00e9 chegar a ser, e que a pessoa que se acha no decl\u00ednio e que n\u00e3o fora prezada enquanto d\u00edgna era de s\u00ea-lo, grata se torna por estar ausente. Essa turba sem nome se assemelha aos sarga\u00e7os que b\u00f3iam na corrente, sem dire\u00e7\u00e3o nenhuma, servos sempre da vari\u00e1vel mar\u00e9 e que com o pr\u00f3prio movimento se esfazem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 C\u00e9sar, trago-te a nova de que Menas e Men\u00e9crates, corsos de alto valor, o mar obrigam a obedecer-lhes, que com muitas quilhas eles lavram, abrindo fundos sulcos. Feros assaltos d\u00e3o por toda a It\u00e1lia; os moradores da orla ficam p\u00e1lidos s\u00f3 de pensar em tal; a mocidade valorosa se insurge. Nenhum barco pode sair do porto; sendo visto, tomado \u00e9 incontinenti, pois s\u00f3 o nome de Pompeu pode mais do que sua pr\u00f3pria campanha organizada.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ant\u00f4nio, deixa teus banquetes lascivos! Quando, h\u00e1 tempo, foste expulso de M\u00f3dena por teres morto Hirto e Pansa, c\u00f4nsules, a fome seguiu-te os calcanhares. Mas lutaste com ela, muito embora sempre vida tivesses dissipada, revelando resist\u00eancia maior que a de um selvagem. Urina de cavalo ent\u00e3o bebeste e o charco cintilante que refugam os pr\u00f3prios animais. N\u00e3o desdenhava teu paladar o mais azedo fruto das mais silvestres sebes. Como o cervo, quando a neve recobre todo o pasto, chegaste a roer das \u00e1rvores a casca. Nos Alpes, dizem, de uma carne estranha te alimentaste que causava a muitos a morte s\u00f3 de ver. E todas essas priva\u00e7\u00f5es \u2014 a lembran\u00e7a delas a honra te a\u00e7oita neste instante \u2014 suportaste-as como brioso soldado, de tal modo que nem murchas as faces te ficaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 D\u00e1 pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que depressa o chame a Roma seu pr\u00f3prio brio, pois \u00e9 mais que tempo de na campanha aparecermos juntos. Para esse fim reunamos o conselho. Lucra Pompeu com nossa ociosidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Amanh\u00e3, C\u00e9sar, poderei dizer-vos com seguran\u00e7a at\u00e9 que ponto chegam minhas for\u00e7as de mar e terra para fazer face \u00e0 presente situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 At\u00e9 nos vermos, vou fazer o mesmo. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Adeus, senhor. O que souberdes sobre as desordens que se d\u00e3o l\u00e1 fora, far-me-eis grande obs\u00e9quio revelando-mas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ficai tranq\u00fcilo, meu senhor, sobre isso; conhe\u00e7o meu dever.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"cleo15\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Cle\u00f3patra, Charmian, Iras e Mardian.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Charmian!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ah! Quero beber mandr\u00e1gora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Mandr\u00e1gora, senhora? Para qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Para que possa passar dormindo toda a grande brecha de tempo em que est\u00e1 ausente o meu Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Pensais por demais nele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ele traiu-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 N\u00e3o penso assim, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Eunuco Mardian!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Agora que deseja Vossa Alteza?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o te ouvir cantar hoje. N\u00e3o me agrada quanto os eunucos t\u00eam. \u00c9 muito grande felicidade, sendo destitu\u00eddo, como \u00e9s, do sexo, n\u00e3o fugirem nunca do Egito teus vadios pensamentos. Acaso tens desejos?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Sim, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 De fato?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Assim, de fato, n\u00e3o senhora; pois s\u00f3 me \u00e9 permitido agir de modo perfeitamente honesto. Mas desejos tenho ardorosos e reflito sempre em quanto Marte praticou com V\u00eanus.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00d3 Charmian! Onde \u00e9 que pensas que ele esteja neste momento? Est\u00e1 de p\u00e9? Sentado? Passeia, porventura? Est\u00e1 a cavalo? \u00d3 ginete feliz, por carregares todo o peso de Ant\u00f4nio! Oh, s\u00ea brioso, corcel! N\u00e3o adivinhas quem te monta? O meio Atlas da terra, o bra\u00e7o e o elmo dos homens. Neste instante ele murmura: \u201cAcaso onde estar\u00e1 minha serpente do velho Nilo?\u201d \u00c9 assim que ele me chama. Agora vivo de um veneno raro. De mim se lembrar\u00e1, que os amorosos raios do ardente Febo enegreceram e que enrugada vai deixando o tempo? C\u00e9sar de fronte larga, quando neste solo estiveste eu era apetec\u00edvel para qualquer monarca, tendo o grande Pompeu parado para olhar-me a fronte. Ali quisera ele ancorar os olhos E morrer contemplando a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Alexas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Soberana do Egito, salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como com Marco Ant\u00f4nio n\u00e3o pareces nada! Mas vindo de sua parte, essa tintura das tinturas te fez ficar dourado. Como passa meu bravo Marco Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Querida soberana, a \u00faltima coisa que ele fez foi beijar \u2014 depois de muitos beijos dobrados \u2014 esta rica p\u00e9rola. Trago no cora\u00e7\u00e3o suas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 De l\u00e1 h\u00e3o de tir\u00e1-las meus ouvidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 \u201cCaro amigo\u201d, falou, \u201co fiel Romano, dize-lhe, envia \u00e0 majestade eg\u00edpcia este tesouro que prov\u00e9m de uma ostra. Para a insignific\u00e2ncia do presente compensar, a seus p\u00e9s pretendo reinos acumular, para deixar mais rico seu opulento trono. Todo o Oriente, lhe dir\u00e1s, vai chamar-lhe soberana.\u201d Ao concluir, acenou-me, e, altivamente, subiu para o seu r\u00e1pido ginete, cujo nitrido ressoou t\u00e3o forte que brutalmente abafa tudo quanto eu pudesse dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como estava ele: alegre ou triste?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Parecia o tempo que medeia entre os dois extremos do ano, de calor e de frio. N\u00e3o estava nem alegre nem triste.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh equilibrada disposi\u00e7\u00e3o! Atenta nisso, Charmian; observa bem: \u00e9 o homem. Toma nota. Triste n\u00e3o se encontrava, pois queria lan\u00e7ar luz sobre quantos a postura pautam segundo a dele. Nem alegre, parecendo indicar que o pensamento tinha no Egito, onde a alegria estava. Mas entre os dois. Oh celestial mistura! Fiques alegre ou triste&#8230; Em nenhuma outra pessoa, como em ti, t\u00e3o bem assenta qualquer desses extremos. Encontraste meus correios, acaso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Sim, senhora; uns vinte, em separado. Por que os mandas t\u00e3o ami\u00fade?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Quem nascer no dia em que eu a Ant\u00f4nio n\u00e3o mandar recado, morrer\u00e1 na mis\u00e9ria. Boa Charmian, traze tinta e papel. Bondoso Alexas, sejas bem-vindo. Em algum tempo, Charmian, eu amei C\u00e9sar tanto?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Oh! bravo C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que um outro grito desses te asfixie. Dize: Que bravo Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Grande C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Por tais, ficar\u00e1s com os dentes rubros, se novamente comparares C\u00e9sar com esse homem \u00fanico.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Com vosso perd\u00e3o gracioso, mas estou cantando segundo vosso tom.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh inexperi\u00eancia de minha mocidade, quando verde eu tinha o ju\u00edzo e frio o sangue! Vamos: d\u00e1-me papel e tinta. Hei de mandar-lhe um mensageiro di\u00e1rio, embora venha a despovoar o Egito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(Saem.)<\/p>\n<p><a name=\"cleo21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Messina. Um quarto em casa de Pompeu. Entram Pompeu, Men\u00e9crates e Menas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Se os deuses poderosos forem justos, h\u00e3o de amparar quem se mostrar mais justo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00c9CRATES \u2014 Como sabeis, digno Pompeu, demora n\u00e3o \u00e9 recusa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Enquanto suplicamos diante do trono deles, vai ficando mais fraca a causa por que lhes pedimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MEN\u00c9CRATES \u2014 Por nos desconhecermos, muitas vezes pedimos o que mal causar nos pode, o que as s\u00e1bias pot\u00eancias nos denegam, visando ao nosso bem. Assim, lucramos em n\u00e3o ver nossos votos exal\u00e7ados.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Hei de vencer. O povo me idolatra e o mar \u00e9 meu. Em progressivo aumento minhas for\u00e7as est\u00e3o, prognosticando-me as esperan\u00e7as que elas h\u00e3o de em breve chegar \u00e0 cheia m\u00e1xima. No Egito Marco Ant\u00f4nio est\u00e1 \u00e0 mesa, n\u00e3o pensando em lutar extramuros. Onde C\u00e9sar obt\u00e9m dinheiro, os cora\u00e7\u00f5es alija. L\u00e9pido adula os dois, sendo por eles adulado tamb\u00e9m, por\u00e9m n\u00e3o ama nenhum, pois s\u00f3 desprezo ambos lhe votam.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 L\u00e9pido e C\u00e9sar j\u00e1 em campo se acham, \u00e0 frente de uma for\u00e7a poderosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Quem vos disse isso? \u00c9 falsa essa not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 De S\u00edlvio a ouvi, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Est\u00e1 sonhando. Sei que eles dois em Roma agora se acham e a Ant\u00f4nio esperam. Que os encantos todos do amor, ardente Cle\u00f3patra, te deixem mais macios ainda os l\u00e1bios murchos! Acrescenta a magia \u00e0 formosura, e \u00e0s duas a lasc\u00edvia. O libertino deixa preso num campo de festejos, a mente lhe mantendo sempre em n\u00e9voas. Despertem-lhe o apetite cozinheiros epic\u00fareos, com molhos esquisitos, e que o sono e os festins lhe arrastem a honra at\u00e9 a apatia ele alcan\u00e7ar do Lete. (<i>Entra V\u00e1rrio.<\/i>) Ent\u00e3o, V\u00e1rrio, que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">V\u00c1RRIO \u2014 \u00c9 inteiramente certo o que vou dizer. Em Roma espera-se Marco Ant\u00f4nio chegar a cada instante. O tempo desde o dia da partida dele do Egito dava para viagem mais longa ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 De bom grado ouvira not\u00edcias menos grave. N\u00e3o pensava, Menas, que esse amoroso libertino chegasse a p\u00f4r o capacete para ingressar numa guerra t\u00e3o mesquinha. Como guerreiro, ele sozinho pesa mais do dobro dos outros dois reunidos. Mas elevemos o conceito pr\u00f3prio, por ver que nossa espora teve for\u00e7a para arrancar dos bra\u00e7os da vi\u00fava do Egito a Marco Ant\u00f4nio, esse devasso que jamais se sacia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 N\u00e3o espero que Ant\u00f4nio e C\u00e9sar a entender-se venham.A falecida esposa do primeiro ofendeu muito a C\u00e9sar; o irm\u00e3o dele tamb\u00e9m o combateu, embora eu pense que nisso Ant\u00f4nio n\u00e3o tivesse parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 N\u00e3o sei, Menas, n\u00e3o sei como as pequenas inimizades d\u00e3o lugar \u00e0s grandes. N\u00e3o fosse termos de lutar com todos, bom fora que eles entre si brigassem, pois motivo n\u00e3o falta a nenhum deles para sacar da espada. Mas at\u00e9 onde poder\u00e1 o medo que lhes inspiramos cimentar a cis\u00e3o que entre eles houve e liga p\u00f4r em suas rixazinhas, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo. Seja tudo como quiserem nossos deuses. Nossa vida vai depender, t\u00e3o-s\u00f3, desta partida. Menas, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto em casa de L\u00edpido. Entram Enobarbo e L\u00e9pido.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Caro Enobarbo, \u00e9 obra merit\u00f3ria, d\u00edgna de v\u00f3s, levar o vosso chefe a falar com bons modos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Convenc\u00ea-lo pretendo a responder como ele mesmo. Se C\u00e9sar o irritar, que Ant\u00f4nio o mire sobranceiro e depois t\u00e3o alto fale como o estrondo de Marte. Sim, por J\u00fapiter, se eu fosse o portador da barba dele, hoje a n\u00e3o rasparia.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 N\u00e3o \u00e9 tempo de briguinhas pessoais.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 N\u00e3o; qualquer tempo serve para os assuntos dele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Mas \u00e9 preciso que os assuntos m\u00ednimos cedam lugar aos grandes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 N\u00e3o, no caso de haverem sido aqueles os primeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Em v\u00f3s fala a paix\u00e3o. Mas, por obs\u00e9quio, n\u00e3o sopreis no borralho. Ali vem vindo o nobre Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00f4nio e Vent\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 E, mais adiante, C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram C\u00e9sar, Mecenas e Agripa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se fizermos aqui um bom acordo: contra os partos. Ouviste bem, Vent\u00eddio?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o sei, Mecenas; pergunta isso a Agripa.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Caros amigos, de import\u00e2ncia m\u00e1xima era o que nos uniu; n\u00e3o permitamos que uma a\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria nos separe. O que estiver errado, com paci\u00eancia dever\u00e1 ser ouvido. Se elevarmos a voz para tratar de assuntos di\u00e1rios, causaremos a morte do que t\u00ednhamos inten\u00e7\u00e3o de curar. Por isso, nobres colegas, vos conjuro instantemente a que trateis dos pontos mais dif\u00edceis com termos delicados, sem deixardes que se imiscua a ofensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bem falado; em frente a nossas for\u00e7as, no momento de se iniciar a pugna, n\u00e3o seria outra a minha linguagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sois bem-vindo a Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sentai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sentai-vos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ent\u00e3o, que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Soube que muitas coisas vos parecem m\u00e1s, sem que o sejam, mas que, embora o fossem, n\u00e3o vos dizem respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Merecia que de mim rissem, se por coisa alguma, por quase nada, eu me considerasse t\u00e3o ofendido assim, principalmente com rela\u00e7\u00e3o a v\u00f3s; e mais ainda fora de censurar se com desprezo viesse a nomear-vos, quando n\u00e3o tivesse raz\u00f5es para citar o vosso nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que \u00e9 que t\u00ednheis que ver, C\u00e9sar, com minha perman\u00eancia no Egito?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Nada, decerto, se, estando eu em Roma, resid\u00edsseis no Egito. Mas no caso de em meu Estado influirdes l\u00e1 do Egito, muito me importa o ponto em que morardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que entendeis por influir?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ser-vos-\u00e1 f\u00e1cil atinar com o sentido, refletindo com o que se tem passado. Vossa esposa com vosso mano me fizeram guerra; \u00e9reis o tema do debate deles, a senha de combate.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Come\u00e7astes por um caminho errado, pois o mano n\u00e3o me envolveu jamais em seus neg\u00f3cios. Investiguei o caso e fidedignas informa\u00e7\u00f5es obtive de pessoas que por v\u00f3s se bateram. N\u00e3o \u00e9 fato que ele prejudicou tanto o meu cr\u00e9dito como o vosso, e fez guerra de igual modo contra mim, que amparava vossa causa? De tudo isso ficastes inteirado por minhas v\u00e1rias cartas. Se quiserdes forjicar uma briga a toda for\u00e7a, tereis de procurar outro pretexto, que esse j\u00e1 n\u00e3o vos serve.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Elogiais-vos com me imputardes racioc\u00ednio errado; mas isso \u00e9 forjicar, t\u00e3o-s\u00f3, desculpas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 De forma alguma! N\u00e3o! Tenho certeza de que n\u00e3o careceis da perspic\u00e1cia precisa para compreender que eu, sendo como sou, vosso aliado numa causa por ele combatida, n\u00e3o podia lan\u00e7ar olhares meigos a essas guerras que a pr\u00f3pria paz amea\u00e7ar me vinham. Quanto \u00e0 minha consorte, desejara que seu esp\u00edrito encontr\u00e1sseis noutra. Vosso \u00e9 um ter\u00e7o do mundo, pela r\u00e9dea podereis dirigi-lo, o que \u00e9 imposs\u00edvel com uma mulher daquelas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Oh! se todos esposa assim tiv\u00e9ssemos! Iriam para a guerra os maridos e as consortes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Inflex\u00edvel como era \u2014 seus tumultos, C\u00e9sar, nasciam do temperamento \u2014 n\u00e3o lhe faltando ast\u00facia \u2014 \u00e9 com tristeza que o confesso tamb\u00e9m \u2014 vos foi motivo de grande inquieta\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m sobre isso s\u00f3 vos cabe dizer que eu n\u00e3o podia alterar coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Enviei-vos cartas, quando em Alexandria vos ach\u00e1veis, num rega-bofe eterno; mas puseste-las no bolso sem as ler e com sarcasmos despachastes da audi\u00eancia o meu correio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ele me surpreendeu sem ser chamado, quando tr\u00eas reis eu recebia \u00e0 mesa. Faltava-me a disposi\u00e7\u00e3o que eu tinha pela manh\u00e3. Mas logo no outro dia eu mesmo lhe falei, o que eq\u00fcivale a apresentar desculpas. Que esse tipo em nada influa em nossa diverg\u00eancia. Se de brigar tivermos, afastai-o de nossas dissens\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o mantivestes o juramento feito, o de que nunca podereis acusar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Mais brandura, C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Deixai-o, L\u00e9pido. Sagrada \u00e9 a honra a que ele se refere e de que me presume carecente. Vamos, C\u00e9sar: qual foi o juramento?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 De vir em meu aux\u00edlio com soldados e numer\u00e1rio, quando vos pedisse, o que me recusastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Melhor fora dizer: negligenciei; e isso na fase em que horas venenosas me deixavam privado da consci\u00eancia de mim mesmo. Quanto em mim estiver, quero mostrar-vos meu arrependimento; mas a minha honestidade diminuir n\u00e3o h\u00e1 de minha grandeza, como sem aquela n\u00e3o h\u00e1 de o meu poder mostrar-se nunca. \u00c9 verdade que F\u00falvia, para atrair-me do Egito, aqui fez guerra. Tendo eu sido disso a causa inocente, pe\u00e7o escusas at\u00e9 onde for poss\u00edvel, sem desdouro, a minha honra inclinar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Nobre fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Se concordardes, n\u00e3o leveis avante tais recrimina\u00e7\u00f5es, pois esquec\u00ea-las de todo lembrar fora que a presente necessidade inculca paz entre ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Mui bem dito, Mecenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ou ent\u00e3o, no caso de cada um pedir, t\u00e3o-somente, por empr\u00e9stimo, o amor do outro, fareis a devolu\u00e7\u00e3o devida logo que n\u00e3o mais ouvirdes falar de Pompeu. Tempo n\u00e3o vos h\u00e1 de faltar para disputas, quando n\u00e3o tiverdes outra coisa a fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sois um soldado, apenas; ficai quieto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ia-me esquecendo de que a verdade n\u00e3o pode falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Perturbais a conversa. Assim, calai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ent\u00e3o, que seja. Vossa pedra pensante.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 O que me desagrada em sua fala n\u00e3o \u00e9 o assunto, mas o modo, apenas, de apresent\u00e1-lo. Assim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuarmos amigos, quando temos maneira de viver t\u00e3o diferente. Se eu conhecesse, ao menos, a cadeia que poderia conservar-nos juntos, de um p\u00f3lo a outro iria procur\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 C\u00e9sar, d\u00e1-me licen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Fala, Agripa.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Tens uma irm\u00e3 do lado teu materno, a admir\u00e1vel Ot\u00e1via. N\u00e3o se encontra vi\u00favo agora o grande Marco Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o digais isso, Agripa, pois se Cle\u00f3patra vos ouvisse, ter\u00edeis merecido a pecha receber de temer\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas eu n\u00e3o sou casado, C\u00e9sar. Vamos ouvir Agripa.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Para em amizade perp\u00e9tua vos manter, irm\u00e3os deixar-vos e os cora\u00e7\u00f5es num la\u00e7o indissol\u00favel vos trazer sempre, tome Ant\u00f4nio a Ot\u00e1via por consorte. A beleza que lhe \u00e9 pr\u00f3pria pede para marido o melhor homem; seus dotes naturais e a gra\u00e7a inata falam melhor do que qualquer linguagem. Com esse casamento as pequeninas invejas que ora nos parecem grandes, e os grandes medos, que perigo inculcam, a nada se reduzem. As verdades parecer\u00e3o hist\u00f3ria, ao passo que hoje meias hist\u00f3rias passam por verdades. O amor que ela vota a ambos, um para o outro h\u00e1 de atrair, enquanto vosso afeto para ela vos inclina. Mas perdoai-me quanto vos disse. \u00c9 um plano meditado maduramente, n\u00e3o fugaz capricho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 A isso que diz C\u00e9sar?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Nada, enquanto n\u00e3o se certificar at\u00e9 onde Ant\u00f4nio abalado se tenha com essa id\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E que poder Agripa tem, no caso de eu lhe dizer: \u201cPois assim seja, Agripa!\u201d para bom termo dar a esse projeto?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Todo o poder de C\u00e9sar e a influ\u00eancia deste junto de Ot\u00e1via.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Nunca eu possa levantar obje\u00e7\u00f5es, nem mesmo em sonhos contra uma id\u00e9ia t\u00e3o encantadora! D\u00e1-me a m\u00e3o; leva avante esse projeto gracioso e que, a partir deste momento, um cora\u00e7\u00e3o de irm\u00e3os dirija os nossos sentimentos e nossos grandes planos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Eis minha m\u00e3o. Mais ternamente nunca irm\u00e3 nenhuma foi amada como a que ora vos entrego. Que ela viva para que o cora\u00e7\u00e3o nos una e os remos, n\u00e3o vindo nunca mais a abandonar-nos nosso sincero amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Am\u00e9m! Am\u00e9m!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o pensei em sacar de novo a espada contra Pompeu, porque recentemente tem ele a meu respeito dado provas de estranha cortesia. Vou mandar-lhe meus agradecimentos, porque minha mem\u00f3ria n\u00e3o pade\u00e7a vitup\u00e9rio. Mas, logo ap\u00f3s, pretendo desafi\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 O tempo nos concita a procurarmos Pompeu se n\u00e3o quisermos que ele venha para nos dar combate.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Junto ao monte Miseno.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 J\u00e1 s\u00e3o grandes suas for\u00e7as de terra?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 J\u00e1 s\u00e3o grandes e sempre em crescimento; mas das \u00e1guas \u00e9 senhor absoluto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 A fama \u00e9 essa. Se lhe houvesse falado! H\u00e1 muita pressa. Antes, por\u00e9m, de nos armarmos, vamos arrematar o assunto de que h\u00e1 pouco nos ocupamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sim, com todo o gosto. Convido-vos a visitar a mana, para a casa de quem vou conduzir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o nos priveis de vossa companhia, L\u00e9pido.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 N\u00e3o, Ant\u00f4nio, nem doen\u00e7a poderia reter-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Saem C\u00e9sar, Ant\u00f4nio e L\u00e9pido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Sede bem-vindo, senhor, de vossa viagem ao Egito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Metade do cora\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar, digno Mecenas! Meu virtuoso amigo Agripa!<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Valente Enobarbo!<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Temos raz\u00e3o para nos alegrarmos, por se terem as coisas resolvido t\u00e3o bem. A vida vos corria bem l\u00e1 no Egito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Perfeitamente, senhor; dorm\u00edamos o dia todo e ilumin\u00e1vamos a noite com patuscadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Oito javalis selvagens, assados inteirinhos, para almo\u00e7o de doze pessoas! \u00c9 verdade isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Isso \u00e9 como um mosquito ao lado de uma \u00e1guia. Com rela\u00e7\u00e3o a festan\u00e7as tivemos hist\u00f3rias muito mais gigantescas do que essa, que mereciam ser contadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 A serem verdadeiros os rumores, \u00e9 uma mulher extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Empalmou o cora\u00e7\u00e3o de Marco Ant\u00f4nio no primeiro encontro que teve com ele, no rio Cidno.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Sim, foi l\u00e1, realmente, que ela lhe apareceu, se \u00e9 que meu informante n\u00e3o mentiu nesse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Vou contar-vos. A barca em que ela estava, trono f\u00falgido, as \u00e1guas incendiava; sua popa era de ouro batido; as velas, p\u00farpura, e a tal ponto cheirosas, que vencidos de amor os ventos todos se mostravam. Eram de prata os remos, que ao compasso se moviam de flautas, apressando com seus golpes as \u00e1guas percutidas, como amorosas deles. Com respeito a ela pr\u00f3pria, mendiga aqui se torna a melhor descri\u00e7\u00e3o. Deitada estava num pavilh\u00e3o todo tecido de ouro, vencendo a pr\u00f3pria V\u00eanus, em que vemos a arte passar de muito a natureza. Ao lado dela estavam dois meninos rechonchudos e lindos \u2014 sorridentes Cupidos \u2014 que agitavam ventarolas de mil cores cambiantes, cujo sopro parecia deixar muito mais vivo o rubor de suas faces delicadas, que acalmar se propunha, desfazendo, dessa maneira, a um tempo, o que fazia.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Que j\u00f3ia para Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Qual nereidas, suas damas, sereias numerosas, dos olhos dela o olhar nunca apartavam, em adorno tomando seus meneios. Uma sereia, ao parecer leg\u00edtima, o leme dirigia, cujas cordas argentinas se inflavam ao contacto daquelas m\u00e3os de rosa que com tanto donaire a dura obriga\u00e7\u00e3o faziam. De toda a barca se evolava estranho e invis\u00edvel perfume, que os sentidos tonteava dos embarcadouros pr\u00f3ximos. A cidade lan\u00e7ou para ela toda sua popula\u00e7\u00e3o, tendo em seu trono ficado Ant\u00f4nio, s\u00f3, na pra\u00e7a p\u00fablica, a sibilar para o ar, que se n\u00e3o fora ter modo de fazer um grande v\u00e1cuo, tamb\u00e9m correra para ver Cle\u00f3patra e um buraco no mundo ocasionara.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Extraordin\u00e1ria eg\u00edpcia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Quando em terra tocou a barca, um mensageiro Ant\u00f4nio lhe mandou com o convite para o almo\u00e7o, ao que ela replicou que melhor fora que h\u00f3spede dela Ant\u00f4nio se tomasse, tendo nisso insistido. Nosso af\u00e1vel Ant\u00f4nio, de quem nunca uma senhora ouviu o termo \u201cN\u00e3o\u201d, tendo-se feito barbear mais de dez vezes, foi \u00e0 festa, com o cora\u00e7\u00e3o, como de praxe, havendo pago tudo o que os olhos devoraram.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Que real rameira! Fez que o grande C\u00e9sar no leito dela depusesse a espada. Ele a lavrou, mas dela foi a safra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 De certa vez a vi saltar cinq\u00fcenta passos, n\u00e3o mais, na rua. Tendo o f\u00f4lego perdido, estaca, quer falar, arqueja, e em gra\u00e7a transformando a defici\u00eancia esbaforida se revela forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Ant\u00f4nio agora h\u00e1 de esquecer-se dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Jamais! N\u00e3o far\u00e1 isso. N\u00e3o a deixa fanada o tempo, nem sua variedade maravilhosa poder\u00e1 tornar-se, com o h\u00e1bito, sedi\u00e7a. Qualquer outra mulher farta o apetite a que d\u00e1 pasto; mas ela quanto mais der alimento, mais a fome desperta. As mais abjetas coisas assentam nela de tal modo que os sacerdotes santos a aben\u00e7oam, quando ela est\u00e1 lasciva.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Se beleza, mod\u00e9stia, discri\u00e7\u00e3o prender puderem o cora\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio, \u00e9 a sorte grande para ele vir a desposar Ot\u00e1via.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Vamos. Caro Enobarbo, ficais sendo h\u00f3spede meu, enquanto aqui estiverdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o vos agrade\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo23\" name=\"cleo23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto em casa de C\u00e9sar. Entram C\u00e9sar e Ant\u00f4nio; entre eles, Ot\u00e1via; criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 O mundo e meu dever, algumas vezes de vossos bra\u00e7os me far\u00e3o ausente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Todo esse tempo, ent\u00e3o, diante dos deuses h\u00e3o de dobrar-se meus joelhos, para pedir por vosso bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Senhor, boa noite. Minha Ot\u00e1via, n\u00e3o leias meus defeitos nos rumores do mundo. N\u00e3o me tenho mantido na medida; doravante, por\u00e9m, tudo farei conforme a regra. Boa noite, cara esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Boa noite, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Boa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem C\u00e9sar e Ot\u00e1via.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o adivinho.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, maroto, retornar quis\u00e9reis agora para o Egito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Melhor fora que eu de l\u00e1 n\u00e3o me houvesse retirado, nem v\u00f3s daqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vossas raz\u00f5es, se as tendes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 No meu \u00edntimo as vejo, n\u00e3o as trago, por enquanto, na l\u00edngua. Mas depressa retornai para o Egito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Revelai-me quem h\u00e1 de ter mais elevada sorte: C\u00e9sar ou eu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Ah! C\u00e9sar. Por isso mesmo, Ant\u00f4nio, n\u00e3o prossigas ao lado dele. Teu dem\u00f4nio \u2014 o esp\u00edrito, digo, que te protege \u2014 \u00e9 corajoso, nobre, alto, incompar\u00e1vel, quando perto n\u00e3o se encontra o de C\u00e9sar. Mas quando ele se aproxima do teu, este se mostra tomado de pavor, como vencido. Assim, deixa que entre ambos v\u00f3s espa\u00e7o bastante se interponha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o me tornes a falar nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 A mais ningu\u00e9m eu falo; s\u00f3 quando estamos s\u00f3s. Se te empenhares com ele em qualquer jogo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a perder vir\u00e1s. Naturalmente tem mais sorte que tu, vindo a vencer-te contra quaisquer vantagens que possuas. Teu esp\u00edrito, tomo a prevenir-te, dirige-te com medo junto dele; longe dele, por\u00e9m, volta a ser nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Podes te retirar. Dize a Vent\u00eddio que desejo falar-lhe. (<i>Sai o adivinho.<\/i>) Para a P\u00e1rtia ter\u00e1 de seguir logo&#8230; Seja acaso, seja por meio de arte, falou certo. Os pr\u00f3prios dados lhe obedecem sempre; em nossas justas minha habilidade ao lance acidental se dobra dele; se tiramos a sorte, ganha sempre; meus galos sempre perdem para os dele, a despeito de todos os progn\u00f3sticos, e sua codorniz bate na rinha sempre a minha, apesar das desvantagens. Vou voltar para o Egito. Muito embora tenha levado a cabo o casamento para ter paz, no Oriente \u00e9 que se encontra toda minha ventura. (<i>Entra Vent\u00eddio.<\/i>) Oh! vinde logo, Vent\u00eddio! Seguireis j\u00e1 para a P\u00e1rtia. Est\u00e1 pronta a ordem; vinde receb\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo24\" name=\"cleo24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entram L\u00e9pido, Mecenas e Agripa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Deixai de vos incomodar com isso. Por obs\u00e9quio, segui logo no rasto de vossos generais.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Marco Ant\u00f4nio, senhor, deseja apenas beijar Ot\u00e1via. Seguiremos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Adeus, adeus, at\u00e9 que vos reveja com vestes de guerreiro, que vos h\u00e1 de assentar muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Pelo que posso conjeturar da viagem, chegaremos primeiro do que v\u00f3s ao cabo, L\u00e9pido.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Vossa rota \u00e9 menor, porque meus planos me obrigam a uma volta; certamente alcan\u00e7areis dois dias de vantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS e AGRIPAS \u2014 Senhor, feliz sucesso!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo25\" name=\"cleo25\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Cle\u00f3patra Charmian, Iras, Alexas e um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dai-me m\u00fasica, m\u00fasica, alimento triste de todos os que o amor mant\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Ol\u00e1, m\u00fasica!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Mardian.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o; deixemos isso. Vamos para o bilhar. Segue-me, Charmian.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 O bra\u00e7o me incomoda. Por obs\u00e9quio, jogai com Mardian.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Tanto faz ser nosso parceiro uma mulher como um eunuco. Vamos, senhor: quereis jogar comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Quanto em mim estiver, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Quando h\u00e1 boa vontade, embora saia tudo aqu\u00e9m de qualquer expectativa, desculpa-se ao ator. Mas j\u00e1 n\u00e3o quero. Traze-me a vara de pescar e vamos para a margem do rio. Ali, ouvindo m\u00fasica ao longe, surpreenderei peixes de escuras barbatanas. Com meu curvo gancho atravessarei suas viscosas mand\u00edbulas, e, na hora de tir\u00e1-los da \u00e1gua, imaginarei que cada um deles \u00e9 outro Ant\u00f4nio e lhe direi: \u201cPeguei-te!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Como eram divertidas as apostas que com ele faz\u00edeis, quando vosso mergulhador prendia no anzol dele qualquer peixe do mar que ele, mui s\u00f4frego, puxava logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Nesse tempo \u2014 oh tempo! \u2014 eu ria dele de deix\u00e1-lo fulo, e \u00e0 noite eu ria para acomod\u00e1-lo, e na manh\u00e3 seguinte, antes das nove, j\u00e1 o tinha emborrachado de tal modo, que se punha a dormir com meus vestidos, enquanto eu punha \u00e0 cinta sua espada vencedora em Filipos. (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) \u00c9 da It\u00e1lia. Finca-me nos ouvidos as not\u00edcias que me trouxeste, pois h\u00e1 muito tempo sem trato eles est\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Morreu Ant\u00f4nio? Se disseres isso, biltre, assassinar\u00e1s tua senhora. Mas com sa\u00fade e livre&#8230; Se o trouxeres assim, aqui tens ouro e aqui tens minha m\u00e3o de veias azuis para a beijares, esta m\u00e3o em que reis bebericaram, beijando-a com temor.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Primeiramente, senhora, ele est\u00e1 bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Toma mais ouro. Mas olha l\u00e1, maroto! toma nota: costumamos dizer dos mortos isso. Se for esse o sentido, este ouro todo, mandarei derret\u00ea-lo e derram\u00e1-lo por essa goela de ruins not\u00edcias.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Boa senhora, ouvi-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Estou ouvindo. Vamos, prossegue! Mas n\u00e3o tens no rosto nada de bom. Se Ant\u00f4nio se acha livre, por que assume fei\u00e7\u00f5es assim t\u00e3o \u00e1cidas o trombeteiro de not\u00edcias boas? Se n\u00e3o estiver bem, vens como F\u00faria coroada de serpentes, n\u00e3o como homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 N\u00e3o quereis escutar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 S\u00f3 tenho \u00edmpeto de te bater antes de me falares. Se disseres, por\u00e9m, que Ant\u00f4nio vive, que est\u00e1 bem de sa\u00fade, vive em termos amistosos com C\u00e9sar, n\u00e3o estando como seu prisioneiro, chuva de ouro farei cair em ti, seguida de uma saraivada de p\u00e9rolas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, ele est\u00e1 bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Muito bem dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 E em bons termos com C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9s um bravo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ele e C\u00e9sar jamais foram t\u00e3o \u00edntimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Basta quereres, para seres rico.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Contudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o me agrada esse \u201ccontudo\u201d; estraga todo o bem que disseste antes. Para longe o \u201ccontudo!\u201d Esse \u201ccontudo\u201d \u00e9 como um carcereiro que liberta da pris\u00e3o algum monstro criminoso. Amigo, por favor, despeja logo nos meus ouvidos tuas novidades, as boas e as ruins, ao mesmo tempo. Amigo ele \u00e9 de C\u00e9sar, j\u00e1 o disseste; est\u00e1 bem de sa\u00fade e acrescentaste que se acha livre.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Livre? Oh! n\u00e3o, senhora! A Ot\u00e1via se acha preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 De que jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Do melhor jeito que encontrar na cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Charmian, n\u00e3o fiquei p\u00e1lida?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, casou-se com Ot\u00e1via.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que em ti caia a mais nociva peste!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Bate-lhe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Boa dama, tende paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que disseste? Fora! (<i>Bate-lhe de novo.<\/i>) Fora daqui, vil\u00e3o abomin\u00e1vel! se n\u00e3o quiseres que te trate os olhos como se fossem bolas de desporto. Vou deixar-te a cabe\u00e7a sem cabelos. (<i>Sacode-o pelos cabelos.<\/i>) com arame tran\u00e7ado azorragar-te, p\u00f4r-te em salmoura, vivo, para em molho de dores definhares.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Mui graciosa senhora, trouxe apenas a not\u00edcia, n\u00e3o fiz o casamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dize que isso n\u00e3o \u00e9 verdade e te farei presente de uma prov\u00edncia, al\u00e9m de tua sorte deixar envaidecida. Essas pancadas que recebeste valem como multa por me haveres a c\u00f3lera agitado. Mais, ainda: dar-te-ei todos os mimos com que possa sonhar tua mod\u00e9stia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, est\u00e1 casado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Miser\u00e1vel, j\u00e1 viveste demais!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saca de um punhal.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Vou j\u00e1 safar-me. Senhora, que pensais? N\u00e3o tenho culpa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Boa senhora, n\u00e3o percais a calma. Esse homem \u00e9 inocente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 O raio atinge a muitos inocentes. Que o Nilo trague o Egito e se transformem em serpes todas as criaturas d\u00f3ceis. Chama de novo o escravo, que eu n\u00e3o mordo, conquanto esteja louca. Traze-o logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Tem receio de vir.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o vou bater-lhe. (<i>Sai Charmian.<\/i>) Estas m\u00e3os se envilecem por baterem em quem me \u00e9 inferior; pois sou eu pr\u00f3pria que contra mim invento esses motivos. (<i>Volta Charmian com o mensageiro.<\/i>) Senhor, aproximai-vos. Muito embora seja honesto, n\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel trazer ruins not\u00edcias. \u00c0s mensagens agrad\u00e1veis dai um milh\u00e3o de l\u00ednguas; mas deixai que as infaustas ocorr\u00eancias se anunciem por si, quando sentidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Cumpri o meu dever.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Est\u00e1 casado? Odiar-te mais n\u00e3o me ser\u00e1 poss\u00edvel, se me disseres novamente \u201csim\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, est\u00e1 casado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ainda o repetes? Que os deuses te confundam.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Deveria mentir, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh! como o desejara! Ainda que meio Egito se alagasse, vindo a tomar-se uma cisterna cheia de serpes escamadas. Vai-te embora. Nem que de rosto fosses um Narciso, me serias medonho. Est\u00e1 casado?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Perdoai-me, alteza&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dize: est\u00e1 casado?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 N\u00e3o vos zangueis com quem n\u00e3o vos ofende. Punir-me pelo que mandais que eu fa\u00e7a parece injusto. Desposou Ot\u00e1via.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh! que seu erro te haja transformado num miser\u00e1vel, ainda que n\u00e3o sejas o que \u00e9s seguramente. Vai-te embora. Os g\u00eaneros romanos que trouxeste s\u00e3o caros por demais; fica com eles; e que por eles venhas a arruinar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Minha querida alteza, ficai calma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Louvando Ant\u00f4nio eu desfazia em C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Muitas vezes, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Castigada estou sendo por isso. Retirai-me daqui. Vou desmaiar. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nada. Oh! Iras! Charmian! Bondoso Alexas, vai atr\u00e1s desse homem e procura saber como \u00e9 Ot\u00e1via, que idade tem, seus gostos, sem que deixe de dizer de que cor tem os cabelos. Traze logo a resposta. (<i>Sai Alexas.<\/i>) Abandonamo-lo para sempre&#8230; Oh, bondosa Charmian! N\u00e3o. Embora \u00e0s vezes seja como a G\u00f3rgona, \u00e0s vezes \u00e9 outro Marte. (<i>A Mardian.<\/i>) Dize a Alexas que me venha contar a altura dela. Apiada-te de mim, Charmian, mas nada me fales. Leva-me para outra sala.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Nos arredores de Miseno. Fanfarras For um lado entram Pompeu e Menas, com trombeta e tambor; por outro, C\u00e9sar, Ant\u00f4nio, L\u00e9pido, Enobarbo, Mecenas, com soldados em marcha.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tenho os vossos ref\u00e9ns; tendes os meus. Conversemos, assim, antes da pugna.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 \u00c9 de vantagem conversarmos antes. Por isso mesmo enviamos por escrito, com antecipa\u00e7\u00e3o, nossas propostas. Se pensaste sobre elas, comunica-nos se as consideras suficientes para deixar-te atada a espada descontente, fazendo regressar para a Sic\u00edlia muitos mo\u00e7os vi\u00e7osos que viriam talvez hoje a morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 \u00c9 av\u00f3s que eu falo, v\u00f3s tr\u00eas que constitu\u00eds todo o senado, representantes \u00fanicos dos deuses: n\u00e3o sei porque meu pai careceria de vingadores, tendo filho e amigos, se o esp\u00edrito de C\u00e9sar, que em Filipos tanto ao bondoso Bruto perseguia, vos v\u00ea agora a trabalhar por ele. Qual foi a causa que levou o p\u00e1lido C\u00e1ssio \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o? que fez o honrado romano, o honesto Bruto, com seus c\u00famplices armados, todos eles namorados da bela liberdade, o Capit\u00f3lio banhar de sangue? Apenas o desejo de que n\u00e3o fosse algu\u00e9m mais do que um homem. Eis a raz\u00e3o que a aparelhar a minha esquadra me levou, com a qual penso disciplinar a ingratid\u00e3o que Roma lan\u00e7ou sobre meu pai em tudo nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Mais devagar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Com todas essas velas, Pompeu, amedrontar-nos n\u00e3o consegues. Falaremos contigo sobre as \u00e1guas; em terra sabes quanto te excedemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Em terra, \u00e9 muito certo, tu me excedes na casa de meu pai. Mas como o cuco jamais constr\u00f3i para si mesmo, fica nela quanto puderes.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Poder\u00edeis ter a bondade de dizer-nos \u2014 que isso foge de nosso assunto \u2014 de que modo recebeis nossa oferta?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 O ponto \u00e9 esse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Press\u00e3o n\u00e3o vos fazemos: sopesai-o com vagar, se quiserdes aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 E o mais que pode acontecer, no caso de quererdes tentar maior fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Consiste vossa oferta em me entregardes a Sic\u00edlia e a Sardenha; devo, ainda, dos piratas limpar todas as \u00e1guas; concedido isso tudo, despedirmo-nos sem entalhos nos gl\u00e1dios, carregando para casa os broqu\u00e9is sem mossa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR, ANT\u00d4NIO e L\u00c9PIDO \u2014 Justamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ficai, ent\u00e3o, sabendo que ao vir aqui, disposto eu me encontrava a aceitar essa oferta. Marco Ant\u00f4nio, por\u00e9m, encontrou meio de irritar-me. Embora meu louvor fique empanado por ser eu pr\u00f3prio que vos falo nisso, deveis lembrar-vos de que quando C\u00e9sar e vosso irm\u00e3o brigavam, na Sic\u00edlia vossa m\u00e3e encontrou boa acolhida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, Pompeu, soube disso, e preparado j\u00e1 me encontrava para o pagamento dos agradecimentos que vos devo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Dai-me a m\u00e3o. N\u00e3o pensei que poderia, senhor, vos encontrar neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 As camas do Nascente s\u00e3o macias. Grato vos sou, no entanto, por me terdes chamado antes do tempo. Ganhei muito por ter vindo mais cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 S\u00e3o not\u00e1veis as modifica\u00e7\u00f5es que em v\u00f3s observo desde a \u00faltima conversa que tivemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 N\u00e3o sei que contas a Fortuna adversa no rosto me escreveu; mas \u00e9 certeza que em meu peito ela nunca h\u00e1 de insinuar-se para deixar-me o cora\u00e7\u00e3o escravo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Feliz encontro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 \u00c9 assim que eu penso, L\u00e9pido. Estamos, pois, de acordo. Agora espero que este nosso contrato seja posto por escrito e selado por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 \u00c9 o que faremos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Depois disso festejemo-nos antes de partirmos, mostrando a sorte quem vai dar come\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quero iniciar, Pompeu; consente nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 N\u00e3o, Ant\u00f4nio; \u00e9 por sorte. Mas embora o primeiro sejais ou o derradeiro, vossa cozinha eg\u00edpcia primorosa a perder n\u00e3o vir\u00e1 sua alta fama. Ouvi dizer que o nosso J\u00falio C\u00e9sar s\u00f3 de comer por l\u00e1 ficou mais gordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ouvistes muita coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tenho honestas inten\u00e7\u00f5es, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E honestamente vos expressais.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Foi quanto me disseram. Ouvi dizer tamb\u00e9m que Apolodoro carregara nos ombros&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Basta! \u00c9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Certo, qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Num colch\u00e3o uma rainha para C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Agora reconhe\u00e7a-te. Como vais, camarada?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Bem, e espero continuar assim, pois temos quatro festins em perspectiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o. Nunca te votei \u00f3dio, mas ao ver-te pelejar invejei tua postura.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Senhor, nunca vos tive muito afeto; mas j\u00e1 vos elogiei, quando dez vezes mais, talvez, merec\u00easseis do que tudo que eu pudesse dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 S\u00ea sempre franco, que n\u00e3o te fica mal essa linguagem. Para minha galera vos convido. Quereis passar na frente, meus senhores?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR, ANT\u00d4NIO e L\u00c9PIDO \u2014 Senhor, mostrai-nos o caminho. Vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Menas e Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Teu pai, Pompeu, jamais teria feito um tratado nessas condi\u00e7\u00f5es. Creio que j\u00e1 nos vimos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 No mar, se n\u00e3o estou enganado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Realizastes grandes feitos na \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Assim como v\u00f3s, em terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Estou pronto a elogiar quem me elogiar, muito embora n\u00e3o se possa negar o que eu fiz em terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Nem o que eu fiz na \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Contudo, para vossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, tereis que negar alguma coisa. Fostes um grande ladr\u00e3o do mar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Assim como v\u00f3s, de terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Nesse ponto eu nego os meus servi\u00e7os de terra. Mas dai-me a m\u00e3o. Se nossos olhos tivesse autoridade, Menas, prenderiam agora dois ladr\u00f5es que se beijam.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 O rosto dos homens \u00e9 sempre honesto, fa\u00e7am as m\u00e3os o que fizerem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Mas nunca houve mulher bonita com rosto honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Sem querer caluni\u00e1-las, roubam cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Viemos aqui para nos batermos convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Por minha parte, entristece-me ter acabado tudo em bebedeira. Sorrindo, Pompeu d\u00e1 hoje um empurr\u00e3o na pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Se o fizer, n\u00e3o poder\u00e1 depois, com l\u00e1grimas, cham\u00e1-la para tr\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 \u00c9 como dizeis, senhor. N\u00e3o esper\u00e1vamos encontrar aqui Marco Ant\u00f4nio. Por obs\u00e9quio, ele se casou com Cle\u00f3patra?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 A irm\u00e3 de C\u00e9sar se chama Ot\u00e1via.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 \u00c9 muito certo, senhor; foi casada com Caio Marcelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Mas agora \u00e9 esposa de Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Que me dizeis, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 A pura verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Nesse caso, C\u00e9sar e ele est\u00e3o unidos para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Se eu tivesse que profetizar a respeito dessa uni\u00e3o, n\u00e3o me exprimiria nesses termos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Sou de opini\u00e3o que os interesses pol\u00edticos entraram com muito maior contingente para a realiza\u00e7\u00e3o desse enlace do que o pr\u00f3prio amor dos interessados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00c9 tamb\u00e9m o que eu penso. Mas ainda chegareis a ver que o la\u00e7o que parece unir a amizade deles dois se transformar\u00e1 justamente na corda que vai estrangular-lhes a afei\u00e7\u00e3o. Ot\u00e1via \u00e9 casta, fria e de exterior sereno.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Quem n\u00e3o desejara uma esposa desse jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Quem n\u00e3o for assim, a saber: Marco Ant\u00f4nio. Ele voltar\u00e1 para a gamela de sua eg\u00edpcia. Ent\u00e3o, os suspiros de Ot\u00e1via ati\u00e7ar\u00e3o o fogo de C\u00e9sar e, como disse h\u00e1 pouco, o que constitui hoje o forte da amizade deles dois, se afirmar\u00e1 como o fator imediato da disc\u00f3rdia entre ambos. Ant\u00f4nio n\u00e3o desviar\u00e1 de l\u00e1 sua afei\u00e7\u00e3o; s\u00f3 desposou aqui sua pr\u00f3pria necessidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 \u00c9 poss\u00edvel que seja assim. Vinde, senhor. N\u00e3o quereis ir para bordo? Desejo beber \u00e0 vossa sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Aceito, senhor. No Egito trabalhamos bem com a garganta.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Ent\u00e3o vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo27\" name=\"cleo27\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A bordo da galera de Pompeu, junto do Cabo Miseno.<br \/>\nM\u00fasica. Entram dois ou tr\u00eas criados com uma mesa posta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 V\u00e3o chegar, homem! V\u00e3o chegar! Muitos desses caules est\u00e3o com a raiz podre; o menor vento os lan\u00e7ar\u00e1 por terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 L\u00e9pido j\u00e1 est\u00e1 muito corado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Fizeram-no beber o resto de todas as garrafas<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Quando eles beliscam reciprocamente suas disposi\u00e7\u00f5es, ele grita: \u201cN\u00e3o prossigais!\u201d reconcilia-os com suas s\u00faplicas e a si pr\u00f3prio com a bebida.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Suscitando com isso diss\u00eddio ainda maior entre ele e a pr\u00f3pria discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Ora, isso acontece quando se tem o nome na companhia dos grandes homens. Prefiro um cani\u00e7o que n\u00e3o me sirva para nada a uma partazana que eu n\u00e3o possa levantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Ser convidado para uma alta esfera e n\u00e3o ser visto mover-se, quando ela se desloca, \u00e9 ser como essas \u00f3rbitas sem olhos que deformam lastimosamente os rostos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trombetas. Entram C\u00e9sar, Ant\u00f4nio, L\u00e9pido, Pompeu, Agripa, Mecenas, Enobarbo, Menas e outros capit\u00e3es.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Assim fazem. Do Nilo a altura tomam por meio de umas marcas na pir\u00e2mide. Pela marca mais alta, m\u00e9dia e baixa sabem se vai haver falta ou abund\u00e2ncia. Quanto mais sobe o Nilo, mais promete. Quando reflui, o semeador espalha na lama e lodo os gr\u00e3os, vindo a colheita pouco tempo depois.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Tendes por l\u00e1 serpentes esquisitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 verdade, L\u00e9pido.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Vossa serpente do Egito nasce do vosso lodo pela a\u00e7\u00e3o de vosso sol, o mesmo acontecendo com o crocodilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 o que se d\u00e1, realmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Sentai-vos! Vamos ao vinho! \u00c0 sa\u00fade de L\u00e9pido!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 N\u00e3o me sinto t\u00e3o bem como quisera, mas nessas coisas nunca fico de fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>a parte<\/i>) \u2014 Enquanto n\u00e3o vos pondes a dormir. Mas receio muito que at\u00e9 l\u00e1 ficareis dentro.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 N\u00e3o, \u00e9 certo. Ouvi dizer que as pir\u00e2mides de Ptolomeu s\u00e3o coisas extraordin\u00e1rias. Sim, foi o que me disseram.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Pompeu uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Segredai-ma. Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Deixa o lugar, meu chefe, para me ouvires uma palavrinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Espera um pouco. Vinho para L\u00e9pido!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 De que jeito \u00e9 o vosso crocodilo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Parece-se muito consigo mesmo, senhor, e \u00e9 da largura que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Sua altura n\u00e3o passa da que ele tem, movimentando-se ele com seus pr\u00f3prios membros. Vive do que o alimenta e, uma vez dispersados os elementos, transmigra para outra parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 De que cor \u00e9 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 De sua pr\u00f3pria cor.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 \u00c9 uma serpente muito esquisita.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Perfeitamente; e suas l\u00e1grimas s\u00e3o \u00famidas?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Essa descri\u00e7\u00e3o o satisfaz?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, depois dos brindes de Pompeu. Fora disso, \u00e9 um verdadeiro epicuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ide enforcar-vos! Para que falar-me? Fazei o que vos disse. Que \u00e9 da ta\u00e7a que vos pedi h\u00e1 pouco?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Se por tudo quanto te fiz quiseres atender-me, deixa a cadeira e vem.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Est\u00e1s maluco? Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Afastam-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Diante de tua sorte sempre fui reverente.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tens-me sempre servido com lealdade. Que mais posso dizer-te. \u2014 Meus senhores, alegria!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Tomai cuidado, L\u00e9pido, com esses bancos de areia; podem absorver-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Queres ficar senhor do mundo todo?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Torno a perguntar-te: queres ficar senhor do mundo todo?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Como fora poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Se me deres consentimento, embora eu seja pobre, poderei dar-te o mundo de presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tens bebido bastante?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 N\u00e3o, Pompeu abstive-me de todo. Se quiseres, ficar\u00e1s sendo o J\u00fapiter terreno. Tudo o que o oceano cerca e o c\u00e9u abarca ficar\u00e1 sendo teu, se o desejares.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Dize-me como poder\u00e1 ser isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Os tr\u00eas competidores, que em tr\u00eas partes o mundo dividiram, ora se acham a bordo de teu barco. Se me deres consentimento, cortarei os cabos. Uma vez afastados, lhes cairemos no pesco\u00e7o, e tudo isto te pertence.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ah! fora bom se houvesses feito tudo sem me dizeres nada. Bom servi\u00e7o de tua parte, em mim fora vileza. Fica sabendo que n\u00e3o \u00e9 o lucro que a honra me impulsiona; \u00e9 a honra mesma. \u00c9 pena que tua l\u00edngua houvesse sido traidora de teu ato. Se tivesses feito em sil\u00eancio, eu acharia jeito, depois, de achar bem feito. Mas agora repilo a id\u00e9ia. Assim, desiste e bebe.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 S\u00f3 por isso nunca mais seguirei tua sorte p\u00e1lida. Quem algo almeja e n\u00e3o o aceita, quando lho oferecem, jamais volta a encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 \u00c0 sa\u00fade de L\u00e9pido!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Levai-o para terra. Pompeu, falo eu por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00c0 tua, Menas!<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Enobarbo, salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Enchei a ta\u00e7a at\u00e9 que suma toda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ali est\u00e1 um tipo bem forte, Menas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Apontando para o criado que sai carregando L\u00e9pido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ora, homem! Pois vai carregando uma ter\u00e7a parte do mundo, n\u00e3o est\u00e1s vendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 B\u00eabeda se acha essa terceira parte. Se assim o mundo todo se encontrasse, andaria de rodas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ent\u00e3o bebe tamb\u00e9m; aumenta as rodas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ainda falta muito para que isto se transforme em festim de Alexandria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Est\u00e1 perto. Batei as ta\u00e7as, oh! Agora para C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Poderia passar sem isso agora? \u00c9 esfor\u00e7o insano verificar que quanto mais o c\u00e9rebro tento lavar, mais ele se me enturva.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 S\u00ea filho de teu tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o, domina-o; \u00e9 como te respondo. Preferira passar sem comer nada quatro dias, a beber tanto num.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>A Ant\u00f4nio<\/i>) \u2014 Meu bravo imperador, n\u00e3o dan\u00e7aremos agora a bacanal eg\u00edpcia, para chorar a bebedeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Vamos, mostra-nos, camarada, como \u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c0s m\u00e3os nos demos, at\u00e9 que o vinho vencedor nos tenha mergulhado os sentidos no suave e delicado Lete.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00c0s m\u00e3os trancemos; os ouvidos deixemos atordoados com m\u00fasica bem forte. Nesse em meio, designarei a todos seus lugares. Este rapaz dar\u00e1 come\u00e7o ao canto. Dir\u00e3o a um tempo todos o estribilho com tanta for\u00e7a quanto permitirem os pulm\u00f5es resistentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Vem depressa, rei do vinho, n\u00e9dio Baco em desalinho. Acabemos com as dietas em tuas tinas repletas, e grinaldas de teus ramos em torno \u00e0 fronte ponhamos. Mais vinho! Que vire o mundo! Mais vinho! Que vire o mundo!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que quereis mais? Pompeu muito boa noite. Permiti, caro mano, que vos leve. Nossos graves cuidados nos censuram por esta leviandade. Meus senhores, fiquemos por aqui, pois estais vendo que em brasa o rosto temos. O fort\u00edssimo Enobarbo \u00e9 mais fraco do que o vinho, fendendo minha l\u00edngua quanto eu digo. Estas vestes selvagens, em palha\u00e7os a todos n\u00f3s mudaram. Que diremos ainda? Boa noite. Caro Ant\u00f4nio, d\u00e1-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Vou levar-vos at\u00e9 \u00e0 praia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor; aceito vossa oferta. Sim, dai-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ant\u00f4nio, arrebatastes-me a casa de meu pai. Mas pouco importa; somos amigos. Vamos para o bote.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Tomai cuidado para n\u00e3o cairdes. (<i>Saem Pompeu, C\u00e9sar, Ant\u00f4nio e criados.<\/i>) Menas, n\u00e3o saltarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 De forma alguma. Para o meu camarote. Esses tambores! essas trombetas! essas flautas! Ouve Netuno, a despedida barulhenta que damos a esses grandes companheiros. Vamos! Barulho, vamos! Que se enforquem!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trombeta, e tambores.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Urra! \u00e9 o que eu digo. Eis o meu gorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENAS \u2014 Urra! Meu nobre capit\u00e3o, avante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo31\" name=\"cleo31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Plan\u00edcie na S\u00edria Entra Vent\u00eddio em triunfo, com S\u00edlio e outros romanos; Oficiais e soldados. A frente \u00e9 trazido o corpo de Pacoro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">VENT\u00cdDIO \u2014 Dardos da P\u00e1rtia, fostes subjugados e agora vingador a sorte am\u00e1vel do trespasse me faz de Marco Crasso. Ponde \u00e0 frente do ex\u00e9rcito o cad\u00e1ver do filho do monarca. Teu Pacoro, Orodes, isto paga a Marco Crasso.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLIO \u2014 Nobre Vent\u00eddio, enquanto tua espada com o sangue parto ainda se encontra quente, persegue os fugitivos, pela M\u00e9dia, pela Mesopot\u00e2mia, nos abrigos em que eles, dispersados, se acolheram. Assim, teu grande capit\u00e3o Ant\u00f4nio te cingir\u00e1 a fronte com guirlandas, carregando-te em carro de triunfo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VENT\u00cdDIO \u2014 \u00d3 S\u00edlio! S\u00edlio! Fiz o suficiente. Um subalterno \u2014 toma nota \u2014 nunca deve fazer qualquer a\u00e7\u00e3o brilhante. Pois S\u00edlio, aprende que \u00e9 de mais proveito deixar de fazer algo do que fama adquirir por um feito, quando ausente se encontrar nosso chefe. Ant\u00f4nio e C\u00e9sar sempre ganharam mais por seus prepostos do que por eles mesmos. O tenente de Ant\u00f4nio, meu antecessor na S\u00edria, S\u00f3ssio, alto nome havendo conquistado rapidamente, por vit\u00f3rias m\u00faltiplas, perdeu o favor dele. Quem na guerra faz mais que o capit\u00e3o, cedo transforma-se em capit\u00e3o do pr\u00f3prio capit\u00e3o. A ambi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a virtude do soldado, prefere uma derrota a uma vit\u00f3ria que venha a desservi-la. Eu poderia fazer muito mais coisas para Ant\u00f4nio; mas isso fora ofensa, e nessa ofensa naufragara meu m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLIO \u2014 Vent\u00eddio, \u00e9s dotado de certas qualidades sem as quais um soldado e sua espada mal podem distinguir-se. N\u00e3o pretendes escrever para Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">VENT\u00cdDIO \u2014 Humildemente lhe comunicarei o que em seu nome \u2014 essa palavra m\u00e1gica da guerra \u2014 pudemos realizar, como, com suas bandeiras e seus homens mui bem pagos, do campo escorra\u00e7amos os cavalos jamais batidos dos soldados partos.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00cdLIO \u2014 Onde est\u00e1 ele agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">VENT\u00cdDIO \u2014 Pretendia ir para Atenas, onde \u00e9 nosso intento procur\u00e1-lo com a pressa permitida pelo peso do esp\u00f3lio que levamos. Sigamos logo. Avante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo32\" name=\"cleo32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto em casa de C\u00e9sar. Entram Agripa e Enobarbo, por lados diferentes.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Como! Os manos j\u00e1 foram?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Assentaram com Pompeu alguns pontos importantes. Pompeu j\u00e1 foi; os outros tr\u00eas se ocupam em selar o tratado. Ot\u00e1via chora por deixar Roma; C\u00e9sar est\u00e1 triste; L\u00e9pido, desde a festa de Pompeu, como diz Menas, sofre de icter\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Como L\u00e9pido \u00e9 nobre!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Primoroso! E como ele ama C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Certo! Certo! Mas tamb\u00e9m como adora Marco Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 C\u00e9sar? Oh! Ele \u00e9 o J\u00fapiter dos homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 E Ant\u00f4nio que ser\u00e1? O deus de J\u00fapiter.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Falais de C\u00e9sar? Oh! \u00e9 sem segundo!<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Oh Ant\u00f4nio, Ant\u00f4nio! P\u00e1ssaro da Ar\u00e1bia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Para elogiarmos C\u00e9sar, \u00e9 bastante dizermos \u201cC\u00e9sar\u201d, sem nenhum acr\u00e9scimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Oh! ele soube dispensar a ambos os elogios mais extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Mas ama mais a C\u00e9sar. Ama a Ant\u00f4nio. Oh! l\u00ednguas, cora\u00e7\u00f5es, pintores, bardos, poetas, escritores n\u00e3o conseguem pensar, falar, cantar, plasmar, dar forma, ah! ao amor que a Ant\u00f4nio ele dedica. Mas em frente de C\u00e9sar, ajoelhai-vos, ca\u00ed de joelhos e mostrai espanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Dedica amor aos dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Eles os \u00e9litros s\u00e3o daquele, que \u00e9 escaravelho de ambos. (<i>Trombetas dentro.<\/i>) \u00c9 o toque de montar. Adeus, Agripa.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Adeus, digno soldado. Muita sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram C\u00e9sar, Ant\u00f4nio, L\u00e9pido e Ot\u00e1via.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o mais longe, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Levais de mim uma por\u00e7\u00e3o bem grande. Nela me dai condigno tratamento. Mana, revela-te uma esposa como penso que \u00e9s em verdade e como as minhas mais altas esperan\u00e7as o desejam. Meu nobre Ant\u00f4nio, n\u00e3o deixeis que o esteio de virtude que entre n\u00f3s dois pusemos, para firmar de vez nossa amizade, no ar\u00edete se mude, destinado a sacudir-lhe as bases. Melhor fora para n\u00f3s dois que amado nos tiv\u00e9ssemos sem este tra\u00e7o de uni\u00e3o, que virmos em qualquer tempo a n\u00e3o querer-lhe muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o me ofendais com vossa desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Tenho dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por mais que vos mostr\u00e1sseis exagerado nisso, nunca hav\u00edeis de achar um tra\u00e7o ao menos do que tanto manifestais receio. Assim, que os deuses vos amparem, deixando concertados a vossos fins os cora\u00e7\u00f5es romanos. Aqui nos despedimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Adeus. Adeus, tamb\u00e9m, irm\u00e3 querida. Sejam-te os elementos generosos, deixando-te os sentidos bem dispostos. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Meu nobre mano<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Abril tem ela nos olhos, primavera dos amores, que por esse aguaceiro \u00e9 conduzida. Fica alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Senhor, olhai a casa de meu marido, e&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que disseste, Ot\u00e1via?<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Vou dizer-vo-lo no ouvido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ao cora\u00e7\u00e3o desobedece a l\u00edngua, tal como aquela a esta. De igual modo, no alto da onda mant\u00e9m-se a plumazinha do cisne, \u00e0 mar\u00e9 cheia, sem voltar-se para lado nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte, a Agripa<\/i>) \u2014 Ser\u00e1 que C\u00e9sar vai chorar?<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Uma nuvem tem no rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Isso j\u00e1 fora ultraje num cavalo. Que n\u00e3o ser\u00e1 num homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Enobarbo, ao ver Ant\u00f4nio a J\u00falio C\u00e9sar morto, quase rugiu de dor, e chorou muito quando morto em Filipos achou Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Naquele ano ele andava endefluxado. Chorava o que ele destruiu de grado? S\u00f3 se eu tamb\u00e9m chorar \u00e9 que hei de cr\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o, doce Ot\u00e1via, mandarei not\u00edcias; o tempo n\u00e3o apaga tua imagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vamos, senhor. Quero lutar convosco com respeito ao amor. Eis meu abra\u00e7o. Deste modo vos solto e vos entrego \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos deuses.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Passai bem. Sede feliz.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Que todas as estrelas te iluminem a estrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Beija Ot\u00e1vio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Soam trombetas. Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo33\" name=\"cleo33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Cle\u00f3patra, Charmian, Iras e Alexas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Onde est\u00e1 o homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 N\u00e3o quer vir; tem medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vai, vai busc\u00e1-lo. (<i>Entra o mensageiro.<\/i>) Vinde aqui, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALEXAS \u2014 Bondosa Alteza, Herodes da Jud\u00e9ia a olhar-vos n\u00e3o se atreve sen\u00e3o quando vos achais bem disposta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 meu desejo vir a ter a cabe\u00e7a desse Herodes. Mas para quem hei de pedi-la, estando de l\u00e1 ausente Ant\u00f4nio? Isso, aproxima-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Graciosa majestade!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Viste Ot\u00e1via?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Vi, sim, rainha vener\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, em Roma. Contemplei-lhe o rosto e vi-a entre o irm\u00e3o dela e Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 t\u00e3o alta quanto eu?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 N\u00e3o \u00e9, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Falar a ouviste? Fala baixo ou alto?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ouvi, sim; fala baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 mau ind\u00edcio; ele n\u00e3o a amar\u00e1 por muito tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Como! Am\u00e1-la? Oh, por \u00cdsis! Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 tamb\u00e9m o que eu penso. Charmian, fala sossegada e \u00e9 baixota. E sua marcha, revela majestade? Pensa nisso, se \u00e9 que j\u00e1 contemplaste majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ela se arrasta, tanto faz mover-se como ficar parada, \u00e9 a mesma coisa. Parece mais cad\u00e1ver do que gente, est\u00e1tua pura, n\u00e3o dotada de alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Estais seguro disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Salvo se olhos eu n\u00e3o tiver.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 N\u00e3o temos tr\u00eas pessoas no Egito que melhor observar saibam.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ele sabe o que diz, estou notando. Ent\u00e3o ela carece de atrativos. Este homem sabe ajuizar as coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Otimamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 E a idade dela? Quantos anos ter\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ela era vi\u00fava, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Charmian, escuta: vi\u00fava!<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Penso que tem trinta anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 E o feitio do rosto, ainda te lembras? \u00c9 redondo ou alongado?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Oh! bem redondo; chega a ser defeituosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 A maior parte das pessoas assim s\u00e3o abobadas. E de que cor s\u00e3o os cabelos dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Senhora, escura, e tem t\u00e3o baixa fronte quanto ela pr\u00f3pria desejar pudera.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Recebe este ouro. A mal levar n\u00e3o deves minha aspereza de antes. Tenho id\u00e9ia de encarregar-te novamente disso, pois vejo que d\u00e1s conta do recado. Vai preparar-te. As cartas est\u00e3o prontas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 \u00c9 um sujeito capaz.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Muito, realmente. Pesa-me, agora, t\u00ea-lo molestado. Por sua descri\u00e7\u00e3o essa criatura n\u00e3o vale grande coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Nada, nada, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ele j\u00e1 viu, decerto, majestade, sabendo, porventura&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Se j\u00e1 viu majestade? Isis me ampare! Servindo-vos aqui h\u00e1 tanto tempo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Tenho uma coisa ainda a perguntar-lhe, boa Charmian. Mas isso pouco importa. Leva-o para onde eu vou fazer as cartas. Talvez ainda conciliemos tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Garanto-vos, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Atenas. Um quarto em casa de Ant\u00f4nio. Entram Ant\u00f4nio e Ot\u00e1via.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o Ot\u00e1via; n\u00e3o \u00e9 isso apenas. Isso fora escus\u00e1vel, isso e in\u00fameros outros fatos iguais. Recentemente contra Pompeu abriu de novo guerra; o testamento fez e leu-o em p\u00fablico. Falou de mim mui perfunctoriamente, e quando tinha de prestar-me homenagem, expressava-se com frieza e a contragosto, s\u00f3 medindo-me por bitola acanhada. Quando tinha boa oportunidade, desprezava-a, de caso bem pensado, ou mui de leve, t\u00e3o-somente, a pegava.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 \u00d3 caro esposo! n\u00e3o deis cr\u00e9dito a tudo, ou, caso o derdes, n\u00e3o leveis tudo a mal. Mulher alguma mais infeliz \u2014 se vier a tomar vulto tal desintelig\u00eancia \u2014 colocada se viu entre os dois campos contendores a rezar pelos dois. H\u00e3o de zombar de mim os deuses pl\u00e1cidos, quando rezar me ouvirem: \u201cProtegei meu senhor e marido!\u201d e, destruindo logo ap\u00f3s esse voto, exclamar alto: \u201cProtegei meu irm\u00e3o!\u201d Ven\u00e7a o marido, ven\u00e7a o irm\u00e3o&#8230; um pedido destr\u00f3i o outro. Nesses extremos n\u00e3o h\u00e1 meio termo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Nobre Ot\u00e1via, coloca o teu afeto onde ele possa ser mais bem guardado. Se eu perder a honra, perco-me a mim mesmo. Prefiro n\u00e3o ser vosso, a pertencer-vos t\u00e3o desgalhado assim. Mas acedendo no que pedis, fareis de medianeira entre mim e ele. Nesse meio tempo, senhora, tratarei dessa campanha que a vosso irm\u00e3o ir\u00e1 deixar na sombra. Se puserdes bastante pressa nisso, realizados vereis vossos desejos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Obrigada vos fico. O poderoso J\u00fapiter fez de mim, fraca, t\u00e3o fraca, vossa conciliadora. Uma contenda entre v\u00f3s, fora como se o universo viesse a rachar, devendo corpos mortos soldar a grande fenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Logo que virdes de onde vem a causa do diss\u00eddio entre n\u00f3s, para essa banda fazei pender o vosso desagrado. Pois nunca poder\u00e3o ser nossas faltas t\u00e3o iguais que mere\u00e7am tratamento igual de vosso amor. Cuidai da viagem. V\u00f3s mesma escolhereis as componentes de vosso s\u00e9q\u00fcito e fareis o c\u00f4mputo das despesas que achardes necess\u00e1rias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo35\" name=\"cleo35\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesma Outro quarto. Entram Enobarbo e Eros, que se encontram.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ent\u00e3o, amigo Eros!<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Chegaram not\u00edcias muito estranhas, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Que not\u00edcias, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 C\u00e9sar e L\u00e9pido atacaram Pompeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ora, isso j\u00e1 \u00e9 velho. E qual foi o resultado?<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 C\u00e9sar, tendo-se aproveitado de L\u00e9pido na guerra contra Pompeu, recusou-se a reconhecer nele um seu igual, n\u00e3o permitindo que lhe tocasse nenhuma parte da gl\u00f3ria desse feito. E sem parar a\u00ed, acusa-o, ainda, de haver escrito antes a Pompeu, motivo por que o prendeu, com base na acusa\u00e7\u00e3o por ele pr\u00f3prio formulada. Assim, o pobre tri\u00fanviro est\u00e1 na grade, at\u00e9 que a morte alargue sua pris\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Desse modo ficaste \u2014 \u00f3 mundo, apenas com um par de queixadas, e ainda mesmo que entre elas jogues tudo o que tiveres, entre si h\u00e3o de moer-se. Onde est\u00e1 Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Passeia no jardim \u2014 assim \u2014 e pisa a erva que acha, a exclamar de quando em quando: \u201cQue est\u00fapido, esse L\u00e9pido!\u201d o pesco\u00e7o do oficial amea\u00e7ado que sem vida deixou Pompeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Aparelhada nossa grande esquadra se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Para o ataque contra C\u00e9sar e a It\u00e1lia. Mais, Dom\u00ednio; meu amo quer falar-vos com urg\u00eancia. Depois vos contarei o que ainda falta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 H\u00e1 de ser quase nada. Pouco importa. Levai-me a Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Ent\u00e3o, senhor, segui-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo36\" name=\"cleo36\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto em casa de C\u00e9sar. Entram C\u00e9sar, Agripa e Mecenas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Em menoscabo a Roma fez tudo isso, mas em Alexandria fez pior. Passou-se assim: em meio \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica em tronos de ouro, sobre uma tribuna de prata ele e Cle\u00f3patra se achavam. Aos p\u00e9s deles Cen\u00e1rio se encontrava, que \u00e9 filho de meu pai, segundo dizem, e todos os produtos ileg\u00edtimos a que a lasc\u00edvia deles dois deu vida. Ent\u00e3o Ant\u00f4nio conferiu a Cle\u00f3patra o governo do Egito e proclamou-a soberana absoluta n\u00e3o somente de Chipre e L\u00eddia, mas da baixa S\u00edria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 E isso \u00e0 vista de todos?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 No recinto p\u00fablico das gin\u00e1sticas. O filho dele foi proclamado rei dos reis. A Alexandre ele deu a grande M\u00e9dia, a P\u00e1tria e a Arm\u00eania; enfim, a Ptolomeu a Fen\u00edcia doou, S\u00edria e Cil\u00edcia. Nesse dia Cle\u00f3patra vestiu-se como a deusa Isis, sendo voz corrente que desse jeito, muitas vezes, antes ela audi\u00eancia j\u00e1 deu.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio que Roma saiba disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 J\u00e1 bastante desgostosa com seu descaramento, de toda estima h\u00e1 de priv\u00e1-lo logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 O povo sabe disso; as queixas dele j\u00e1 foram feitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 A quem ele acusa?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 A C\u00e9sar, alegando que, ap\u00f3s termos na Sic\u00edlia tomado todo o esp\u00f3lio de Pompeu, a lhe dar nos recusamos a sua parte da ilha. Alega, ainda, que eu n\u00e3o lhe devolvi alguns navios que me havia emprestado. Finalmente, acha-se estomagado por ter L\u00e9pido perdido o triunvirato e n\u00f3s nos termos apossado de todos os bens dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 \u00c9 preciso, senhor, responder a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 J\u00e1 foi feito. Partiu o mensageiro. Fiz-lhe ver como L\u00e9pido se tinha mostrado muito cruel e que abusara de sua autoridade, merecendo, por isso, tal castigo. Nas conquistas feitas por mim ele teria parte; por\u00e9m que a mesma coisa eu exigia de sua Arm\u00eania e de outros reinos que ele havia conquistado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Nunca ele h\u00e1 de conceder esse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Nesse caso naquele outro tamb\u00e9m n\u00e3o cederemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ot\u00e1via, com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Salve, senhor! Meu caro C\u00e9sar, salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Chegar a ver-te um dia repudiada!<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Nunca assim me chamastes; n\u00e3o h\u00e1 causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Por que vens surpreender-nos desse modo? N\u00e3o te apresentas como irm\u00e3 de C\u00e9sar. A consorte de Ant\u00f4nio deveria ter como introdutor um grande ex\u00e9rcito, servindo-lhe o relincho dos cavalos de sinal de chegada, muito tempo antes de ela surgir. Por toda a estrada carregadas as \u00e1rvores deviam mostrar-se de homens e a curiosidade definhar por querer o que lhe falta. Mais, ainda: at\u00e9 \u00e0 ab\u00f3boda celeste chegar devia a poeira, levantada pela popula\u00e7\u00e3o cheia de j\u00fabilo. Mas como rapariga do mercado viestes a Roma, assim deixando frustras as manifesta\u00e7\u00f5es de meu afeto que, muitas vezes, sem ser visto, fica tamb\u00e9m sem ser amado. Dever\u00edamos ter ido ao vosso encontro assim em terra como no mar, as esta\u00e7\u00f5es enchendo de sauda\u00e7\u00f5es crescentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Meu bondoso senhor, n\u00e3o vim for\u00e7ada desse jeito, mas por livre vontade. Meu marido, Marco Ant\u00f4nio, ao saber que vos arm\u00e1veis para a guerra, instru\u00e7\u00f5es deu minuciosas a meu aflito ouvido. Obtive dele permiss\u00e3o para vir.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Por ele dada com presteza, por serdes um obst\u00e1culo posto entre ele e a lasc\u00edvia.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 N\u00e3o, bondoso senhor; n\u00e3o digais isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Tenho-o sempre de olho; o vento me traz not\u00edcias dele. Em que lugar ele se encontra agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Em Atenas, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o \u00e9 verdade, muito enganada irm\u00e3; j\u00e1 lhe fez Cle\u00f3patra sinal, chamando-o. A uma prostituta deu ele seu imp\u00e9rio, e os reis da terra ambos, agora, para a guerra incitam. Assim, j\u00e1 convocou Baco, da L\u00edbia, o rei da Paflag\u00f4nia, Filadelfo, Abdala, rei da Tr\u00e1cia, o rei do Ponto, Herodes da Jud\u00e9ia, o soberano da Capad\u00f3cia, que Arquelau se chama, Mitridates de Comagene, Amintas e Polem\u00e3o, de Lica\u00f4nia e M\u00e9dia, e outra lista maior de reis cetrados.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 Ai de mim, infeliz, que dividido tenho ora o cora\u00e7\u00e3o entre dois seres que reciprocamente se maltratam!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sede bem-vinda. Retardaram vossas cartas vossa partida. Desej\u00e1vamos, convencer-nos, tamb\u00e9m, de quanto t\u00ednheis sido ultrajada, e n\u00f3s assim, corrido grande risco com tanta neglig\u00eancia. Reanimai-vos, sem vos amofinardes com o presente que sobre vossa dita tantas preocupa\u00e7\u00f5es tem atirado. Sem nos queixarmos, aceitemos quanto nos imp\u00f5e o destino no seu curso. A Roma sois bem-vinda. Sobre tudo vos dedico afei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pode a mente conceber quanto fostes ultrajada. Os altos deuses, para vos fazerem justi\u00e7a, em seus ministros nos transformam e a todos que vos prezam. Reanimai-vos e sede sempre para n\u00f3s bem-vinda.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Sois bem-vinda, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Mui prezada senhora, sois bem-vinda. Todos os cora\u00e7\u00f5es de Roma, a um tempo, vos amam e lastimam. S\u00f3 o ad\u00faltero Ant\u00f4nio, inteiramente mergulhado em suas ignom\u00ednias, vos repele e seu poder a uma rameira entrega, que contra n\u00f3s atroa.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIA \u2014 \u00c9 assim, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Decerto. Mana, sois bem-vinda. Tende paci\u00eancia, por obs\u00e9quio, irm\u00e3 querida!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo37\" name=\"cleo37\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Acampamento de Ant\u00f4nio, junto do promont\u00f3rio de Actio. Entram Cle\u00f3patra e Enobarbo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Certeza podes ter de que haveremos de ficar quites.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Mas por qu\u00ea? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Por desaconselhardes minha vinda a esta guerra, julgando-a deslocada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 E dai? E dai?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ainda mesmo que n\u00e3o houvesse sido declarada contra n\u00f3s, por que n\u00e3o comparecermos em pessoa a esta guerra?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Poderia dizer que se troux\u00e9ssemos cavalos e \u00e9guas para a campanha, ficar\u00edamos sem cavalos, que as \u00e9guas se veriam a carregar for\u00e7adas os cavalos e os cavaleiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que \u00e9 que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Vossa presen\u00e7a embara\u00e7aria Ant\u00f4nio, reclamar-lhe-ia o cora\u00e7\u00e3o, o c\u00e9rebro, f\u00e1-lo-ia perder tempo, justamente quando nada desviar nos \u00e9 poss\u00edvel. J\u00e1 o acoimam de f\u00fatil, comentando-se em Roma que esta guerra \u00e9 dirigida pelo eunuco Fotino e vossas criadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Desapare\u00e7a Roma e que apodre\u00e7am todas as l\u00ednguas que de n\u00f3s falarem. Tenho fun\u00e7\u00e3o nesta campanha, e como cabe\u00e7a de meu reino hei de mostrar-me soldado de valor. N\u00e3o me retruques; n\u00e3o ficarei atr\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Estou calado. A\u00ed vem o imperador.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00f4nio e Can\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o te parece muito estranho, Can\u00eddio, que ele tenha, partindo de Tarento e de Brund\u00edsio, t\u00e3o velozmente atravessado o J\u00f4nio e tomado Torine? N\u00e3o Ouvistes falar nisso, querida?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Os negligentes \u00e9 que a celeridade mais admiram.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Excelente resposta, que ficaria muito bem no melhor dos combatentes, visando a repreender a neglig\u00eancia. No mar, Can\u00eddio, vou lutar com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 No mar? Que h\u00e1 mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Por que vai fazer isso, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Porque fomos desafiados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Meu senhor poderia desafi\u00e1-lo, se assim \u00e9, para duelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Justamente, e traz\u00ea-lo a Fars\u00e1lia, para o embate, onde Pompeu e C\u00e9sar se encontraram. Propostas que lhe s\u00e3o desfavor\u00e1veis s\u00e3o sempre recusadas. Dever\u00edeis fazer como ele faz.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Vossos navios est\u00e3o mal equipados; a maruja se comp\u00f5e de azem\u00e9is e segadores, gente alistada compulsoriamente. Nos navios de C\u00e9sar se acham muitos que j\u00e1 contra Pompeu provados foram. Seus barcos s\u00e3o ligeiros; mais pesados, todos os vossos. N\u00e3o ser\u00e1 desonra nenhuma recusardes um combate no mar, se forte vos achais em terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 No mar! No mar!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Meu muito digno chefe, abris m\u00e3o, desse modo, da absoluta supremacia que no firme tendes; enfraqueceis o ex\u00e9rcito, composto, em sua maioria, de pedestres j\u00e1 provados na guerra; sem proveito vossa fama deixais e a alta experi\u00eancia, desviai-vos do caminho que promete melhor sucesso, para vos lan\u00e7ardes nos perigos do azar, abandonando de todo a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vou bater-me no mar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dou-vos sessenta embarca\u00e7\u00f5es. C\u00e9sar n\u00e3o tem melhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Queimaremos nosso excesso de barcos. Com os restantes, bem tripulados, bateremos C\u00e9sar, quando ele vier se aproximando de Actio. No caso de perdermos, poderemos desbarat\u00e1-lo em terra. (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) Que not\u00edcias?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 \u00c9 certo, meu senhor, ele est\u00e1 \u00e0 vista. C\u00e9sar tomou Torine.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ele, em pessoa, l\u00e1! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E estranho que tivesse tanta for\u00e7a. Em terra tomar\u00e1s conta de nossas dezenove legi\u00f5es, Can\u00eddio, e nossos doze mil de cavalo. Para bordo! Vem, minha T\u00e9tis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um soldado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 \u00d3 nobre imperador, n\u00e3o combatais no mar, n\u00e3o ponhais vossa confian\u00e7a em pranchas podres. Por acaso j\u00e1 n\u00e3o confiais neste meu gl\u00e1dio e nestas extensas cicatrizes? Que os eg\u00edpcios e os fen\u00edcios mergulhem; n\u00f3s estamos afeitos a vencer em terra firme, lutando p\u00e9 com p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bem, bem, sigamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio, Cle\u00f3patra e Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Por H\u00e9rcules! no entanto, estou convicto de que tenho raz\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Tens, sim, soldado; mas \u00e9 que os atos dele j\u00e1 n\u00e3o se acham guiados pela raz\u00e3o, pois dirigido vai sendo quem devia dirigir-nos, e a soldados ficamos reduzidos de uma mulher, apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 O comando de todos os cavalos e dos homens de p\u00e9 vos foi confiado, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Marco Ot\u00e1vio e tamb\u00e9m Marco Justeio com Publ\u00edcola e C\u00e9lio o mar dirigem. N\u00f3s temos ordem de ficar em terra. \u00c9 incr\u00edvel essa rapidez de C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Em Roma estando ele ainda, suas for\u00e7as iam saindo em t\u00e3o pequenos grupos que a todos os espi\u00f5es mistificavam.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Quem os comanda, sabereis dizer-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Um Tauro, dizem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Ah! Conhe\u00e7o o homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 O imperador mandou chamar Can\u00eddio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 De novidades est\u00e1 prenhe o tempo; nasce uma a cada instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo38\" name=\"cleo38\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VIII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Plan\u00edcie perto de Actio. Entram C\u00e9sar, Tauro, oficiais e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Tauro!<\/p>\n<p align=\"justify\">TAURO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Evita choque em terra; n\u00e3o espalhes os homens; n\u00e3o provoques a batalha sem que no mar tenhamos decidido. At\u00e9m-te \u00e0s instru\u00e7\u00f5es aqui exaradas. Nossa sorte depende deste lan\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Ant\u00f4nio e Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 P\u00f5e nossos esquadr\u00f5es naquele lado do monte, olhando o ex\u00e9rcito de C\u00e9sar. Divisamos dali todos os barcos, para agirmos de acordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Can\u00eddio com sua for\u00e7a de terra, e marcha por um lado da cena; Tauro, tenente de C\u00e9sar, marcha pelo outro lado. Depois de passarem, ouve-se o ru\u00eddo do combate naval.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Volta Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Est\u00e1 tudo perdido! Tudo, tudo! Ver isso \u00e9-me imposs\u00edvel. A Antonfada, a capit\u00e2nia eg\u00edpcia, juntamente com seus sessenta barcos, vira bordo, pondo-se em fuga. Isso me estraga a vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Escaro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Deuses e deusas e o conc\u00edlio inteiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Por que essa exclama\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 A mais not\u00e1vel por\u00e7\u00e3o do mundo vai ficar perdida, por simples ignor\u00e2ncia. Entre dois beijos abrimos m\u00e3o de remos e prov\u00edncias.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 E a pugna, como est\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 De nossa parte, como a peste, em que a morte \u00e9 inevit\u00e1vel. A marafona eg\u00edpcia \u2014 possa a lepra lev\u00e1-la de uma vez! \u2014 em plena luta, quando a fortuna, como um par de g\u00eameos se comportava, mas o nosso um tanto maior, ao parecer, tal como a vaca de Juno, que o tavardo exasperasse, i\u00e7a velas e foge.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Presenciei isso, os olhos me doeram ante esse quadro, sem que suportassem contempl\u00e1-lo mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Uma vez ela virada a barlavento, a nobre ru\u00edna de seu feiti\u00e7o, Ant\u00f4nio, tatalando suas asas marinhas, como pato no cio, deixa a pugna, no momento culminante, e em p\u00f3s dela sai fugindo. Jamais vi ato de tamanho opr\u00f3brio. A experi\u00eancia, a coragem, a honra nunca se rebaixaram tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Oh c\u00e9us! Oh c\u00e9us!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Can\u00eddio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Nossa sorte no mar est\u00e1 sem f\u00f4lego e naufraga por modo lament\u00e1vel. Se nosso general tivesse sido o que ele sabe ser, \u00e0 maravilha tudo, ent\u00e3o, nos correra. Seu exemplo oprobrioso nos serviu de norma, para tamb\u00e9m fugirmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ah! Chegastes a esse ponto? Boa noite, ent\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Fugiram para o Peloponeso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Ser\u00e1 f\u00e1cil chegarmos at\u00e9 l\u00e1, onde pretendo aguardar o que o tempo nos reserva.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAN\u00cdDIO \u2014 Vou entregar a C\u00e9sar meus cavalos e todas as legi\u00f5es. Seis reis a estrada que vai \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o j\u00e1 me indicaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Continuarei a acompanhar a sorte mal ferida de Ant\u00f4nio, muito embora se sente contra mim o entendimento na corrente do vento.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo39\" name=\"cleo39\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IX<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Ant\u00f4nio e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Alto! A terra n\u00e3o quer que eu pise nela; tem vergonha de mim. Amigos, vinde! De tal modo atrasei-me neste mundo, que para sempre me desviei da estrada. Tenho um navio carregado de ouro. Ficai com ele e dividi-o; as pazes fazei com C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADOS \u2014 Como! N\u00f3s, fugirmos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eu n\u00e3o fugi? N\u00e3o ensinei aos fracos de que modo correr e virar costas? Amigos, ide; entrei por um caminho que de v\u00f3s n\u00e3o precisa. Abandonai-me. No porto se acha o meu tesouro; \u00e9 vosso. Oh! fui no encal\u00e7o do que neste instante me faz ficar corado s\u00f3 de olh\u00e1-lo. Revolta sinto at\u00e9 nestes cabelos, pois os brancos acusam de imprud\u00eancia aos pretos, assacando estes \u00e0queles s\u00f3 medo e presun\u00e7\u00e3o. Amigos, ide. Vou escrever a alguns amigos para que a estrada vos aplanem. Por obs\u00e9quio, n\u00e3o fiqueis tristes, nem me deis respostas a contragosto. Aproveitai o aceno que vos dirijo em tanto desespero. Abandonai quem a si mesmo deixa. Ide diretamente para a praia, l\u00e1 vos entregarei o barco e o ouro. Deixai-me alguns instantes, por obs\u00e9quio. Fazei isso, vos pe\u00e7o, que, em verdade, ordens j\u00e1 n\u00e3o sei dar. Por isso, pe\u00e7o. Dentro de pouco havemos de rever-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Senta-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Cle\u00f3patra conduzida por Charmian e Iras; Eros a segue.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Senhora, ide falar-lhe, consolai-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Sim, fazei isso, cara soberana.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Fazei, fazei! Que mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Quero sentar-me. Oh, Juno!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Senhor, n\u00e3o a estais vendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oral Ora!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Minha senhora! Boa soberana!<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Senhor! Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 certo, meu senhor. Ele, em Filipos levava a espada como um dan\u00e7arino. enquanto eu abatia o magro C\u00e1ssio e liquidava o tresloucado Bruto. Tudo o que ele fazia era por meio dos tenentes, sem ter nenhuma pr\u00e1tica dos destemidos esquadr\u00f5es da guerra. No entanto, agora&#8230; Pouco importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ah! Fica!<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 \u00c9 a rainha, senhor: a soberana.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Senhora, ide falar-lhe. Ele est\u00e1 fora de si, inteiramente, de vergonha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Pois que seja. Amparai-me. Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Muito nobre senhor, eis a rainha. Levantai-vos. A cabe\u00e7a pendida, a morte dela se amparar\u00e1, se n\u00e3o lhe fordes logo levar algum consolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ofendi minha gl\u00f3ria enormemente. Um desvio, privado de nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 A rainha, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Para onde, Egito, me conduziste? V\u00ea como eu afasto de tua vista meu imenso opr\u00f3brio, olhando para tr\u00e1s de mim e vendo quanto ficou em ru\u00edna e desonrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00d3 meu senhor, perdoai as minhas velas medrosas, em excesso. N\u00e3o pensava que pod\u00edeis seguir-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Tu sabias perfeitamente, Egito, que em teu leme com fio atado o cora\u00e7\u00e3o eu tinha, e que me levarias arrastado. Tinhas consci\u00eancia da supremacia que sobre mim exerces e que a um simples aceno teu eu infringira as ordens dos pr\u00f3prios deuses.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh! perd\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Agora ser\u00e1 preciso que a esse mo\u00e7o eu mande proposi\u00e7\u00f5es humildes, que me valha de fingimentos e desvios longos, de tra\u00e7as vergonhosas, eu, que tinha meio mundo nas m\u00e3os, como brinquedo, e carreiras fazia e desfazia. Sabias muito bem quanto me tinhas sob teu dom\u00ednio, e que esta minha espada tornada fraca pelo amor, s\u00f3 a este, em qualquer circunst\u00e2ncia, obedecera.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Perd\u00e3o! Perd\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o chores. S\u00f3 uma dessas l\u00e1grimas vale mais do que tudo que eu perdesse. D\u00e1-me um beijo; j\u00e1 estou com isto pago. Mandamos nosso preceptor falar-lhe. J\u00e1 retornou? Amor, sinto-me agora como se fosse chumbo! \u2014 Tragam vinho! A\u00ed! Tragam comida! \u2014 Sabe a sorte que quanto mais apanho mais sou forte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo310\" name=\"cleo310\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA X<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Egito. Acampamento de C\u00e9sar. Entram C\u00e9sar, Dolabela, Tireu e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que entre o enviado de Ant\u00f4nio. Conhecei-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 C\u00e9sar, \u00e9 o preceptor dos filhos dele. Preciso \u00e9 que ele esteja depenado completamente, para que nos mande uma pena t\u00e3o fraca, ele que tinha, n\u00e3o h\u00e1 bastantes luas, soberanos como seus mensageiros.<\/p>\n<div align=\"justify\">(<i>Entra Eufr\u00f4nio.<\/i>)<\/div>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Entra e fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">EUFR\u00d4NIO \u2014 Tal como sou, da parte vim de Ant\u00f4nio. At\u00e9 bem pouco eu era t\u00e3o pequeno para seus planos como o fresco orvalho numa folha de mirto, comparado com a grandeza do mar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que seja assim. D\u00e1 logo o teu recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EUFR\u00d4NIO \u2014 Ele te envia saudares, como ao dono de sua sorte, e te pede poder viver no Egito. Sendo-lhe isso negado, diminui de muito seu pedido, suplicando-te que respirar o deixes entre a terra e ao alto c\u00e9u, como cidad\u00e3o de Atenas. Quanto a ele, s\u00f3. E agora, quanto a Cle\u00f3patra: ante tua grandeza ela se inclina, ao teu poder se entrega e de ti pede deixar para seus filhos o diadema dos Ptolomeus, de que disp\u00f5e tua gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Dize a Ant\u00f4nio que ouvidos n\u00e3o possuo para quanto ele diga. A soberana n\u00e3o ficar\u00e1 sem ser ouvida, sendo-lhe concedido o que pede, se ao Egito ela expulsar seu degradado amigo, ou l\u00e1 mesmo o matar. Fazendo ela isso, n\u00e3o pedir\u00e1 em v\u00e3o. Para ambos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">EUFR\u00d4NIO \u2014 Que te diga a Fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Acompanhai-o com uma escolta pelo Acampamento. (<i>Sai Eufr\u00f4nio.<\/i>) (<i>A Tireu.<\/i>) Chegou o momento de experimentares tua eloqu\u00eancia. P\u00f5e bem depressa nisso. De Cle\u00f3patra separa Marco Ant\u00f4nio. Concede em nosso nome tudo quanto te pedir, e oferece o que julgares conveniente inventar. Nos dias pr\u00f3speros as mulheres n\u00e3o s\u00e3o bastante fortes, mas a necessidade leva \u00e0 quebra dos votos a vestal nunca tocada. Tireu, revela tua habilidade e faze o edito para o teu trabalho, que, como lei, por tudo respondemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Partirei, C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 V\u00ea como \u00e9 que Ant\u00f4nio recebe esse rev\u00e9s e nos transmite teu modo de pensar de como os fatos possam influir nele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 F\u00e1-lo-ei, C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo311\" name=\"cleo311\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena XI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Cle\u00f3patra, Enobarbo, Charmian e Iras.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que fazer, Enobarbo, depois disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Pensar; depois, morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Quem \u00e9 culpado: Ant\u00f4nio ou n\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ant\u00f4nio; apenas ele, que deixou dominar seu apetite, por completo, \u00e0 raz\u00e3o. Se desertastes da grande face da batalha, cujas filas umas \u00e0s outras punham medo, por que raz\u00e3o seguir-vos? O prurido de seu afeto n\u00e3o devera nunca no mando dele influir, principalmente quando o mundo lutava meio a meio, sendo ele o assunto pr\u00f3prio da contenda. N\u00e3o foi menor opr\u00f3brio do que perda correr em p\u00f3s de vossos estandartes fugitivos, deixando seus navios de todo atarantados.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Paz, te pe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ant\u00f4nio com Eufr\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Foi isso que ele disse?<\/p>\n<p align=\"justify\">EUFR\u00d4NIO \u2014 Foi, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E a rainha achar\u00e1 dem\u00eancia nele, no caso de querer sacrificar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">EUFR\u00d4NIO \u2014 Isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 preciso que ela o saiba. Basta que envies ao mancebo C\u00e9sar esta minha cabe\u00e7a j\u00e1 grisalha, para que vejas cheios at\u00e9 \u00e0 borda teus desejos de reinos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como! Tua cabe\u00e7a, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO (<i>a Eufr\u00f4nio<\/i>) \u2014 Retorna a C\u00e9sar. Dize-lhe que ele a flor da mocidade traz em sua pessoa, de que o mundo alguma coisa espera. Suas moedas, suas legi\u00f5es, seus barcos poderiam a um covarde servir, sobressaindo-se seus auxiliares tanto sob o mando de C\u00e9sar como sob o de uma crian\u00e7a. Assim, o desafio a p\u00f4r de lado suas vantagens todas e a medir-se com meu ocaso, espada contra espada, n\u00f3s dois apenas. Vou escrever-lhe isso. Acompanha-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio e Eufr\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Pois n\u00e3o. Seria muito interessante que o vitorioso C\u00e9sar degradasse sua felicidade, para aos olhos do p\u00fablico mostrar-se medindo armas com um espadachim. Vejo que o ju\u00edzo dos homens \u00e9 uma parte diminuta de sua sorte. As coisas exteriores as faculdades interiores puxam, para o mesmo sofrerem. Sonhar ele \u2014 que t\u00e3o equilibrado se mostrava \u2014 que C\u00e9sar cheio vai mandar resposta a sua vacuidade! Derrotaste, C\u00e9sar, tamb\u00e9m o julgamento dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Um correio de C\u00e9sar<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como! Agora? Sem mais formalidades? Damas, vede: diante da rosa aberta o nariz tapam os que adoravam o bot\u00e3o fechado. Fazei-o entrar, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Em luta franca nos encontramos, eu e a honestidade. Querer ser fiel a um louco, \u00e9 deixar louco at\u00e9 o pr\u00f3prio dever. Mas quem consegue manter-se fiel a um senhor ca\u00eddo, domina o vencedor de seu pr\u00f3prio amo, e herda um lugar na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Tireu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que manda C\u00e9sar?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Dir-to-ei \u00e0 parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 S\u00e3o s\u00f3 amigos; fala francamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Mas amigos, qui\u00e7\u00e1, tamb\u00e9m de Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ele tem precis\u00e3o, de tantos amigos quanto C\u00e9sar; do contr\u00e1rio, nos dispensara a todos. Concordando C\u00e9sar com isso, correr\u00e1 meu amo para ser dele amigo. Quanto aos outros, bem o sabeis, amigos somos sempre de quem for ele amigo, isto \u00e9: de C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Que seja, ent\u00e3o. \u00d3 tu, rainha ilustre, C\u00e9sar te pede que n\u00e3o consideres em tua situa\u00e7\u00e3o sen\u00e3o apenas que ele \u00e9 C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Adiante. Como pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Ele sabe que \u00e9 menos por afeto do que por medo que abra\u00e7ais Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Apiada-se, por isso, dos estragos causados em vossa honra e os considera manchas \u00e0 for\u00e7a impostas, n\u00e3o buscadas por vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ele \u00e9 um deus, e, assim, conhece a verdade integral. Abandonada n\u00e3o foi minha honra, mas t\u00e3o-s\u00f3 vencida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Para disso poder obter certeza vou perguntar a Ant\u00f4nio. Amigo, amigo, tanta \u00e1gua est\u00e1s fazendo, que nos basta deixar-te naufragar, pois tua pr\u00f3pria querida te abandona. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Digo a C\u00e9sar o que dele almejais? Pois ele quase pede que supliqueis alguma coisa. Ficaria contente se quis\u00e9sseis um cajado fazer da sorte dele, para vos apoiardes. Mas ao c\u00famulo chegara da alegria se me ouvisse dizer que Ant\u00f4nio abandonastes, para vos colocardes sob o amparo dele, o senhor do universo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vosso nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Tireu me chamo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Caro mensageiro, dizei ao grande C\u00e9sar que eu lhe beijo, por comiss\u00e3o, as m\u00e3os conquistadoras. Comunicai-lhe que disposta me acho a lhe depor aos p\u00e9s minha coroa e, ali mesmo, ajoelhar-me. Revelai-lhe que seu h\u00e1lito todo-poderoso o destino do Egito ir\u00e1 dizer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Muito nobre \u00e9 o caminho que escolhestes. Quando a sabedoria entra em conflito com a fortuna, se n\u00e3o ousa aquela nada al\u00e9m do poss\u00edvel, abalada n\u00e3o ser\u00e1 pelo acaso. Concedei-me depor em vossa m\u00e3o minha incumb\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 O pai de vosso C\u00e9sar, muitas vezes, quando pensava em conquistar imp\u00e9rios, nesse lugar indigno os l\u00e1bios punha, que ent\u00e3o choviam beijos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Ant\u00f4nio e Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Como! Gra\u00e7a? Por Jove atroador! Quem \u00e9s maroto?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Algu\u00e9m que apenas executa as ordens do mais poderoso homem, do mais digno de ser obedecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 N\u00e3o escapas da chibata.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Aproxima-te! \u00c9s tu mesma, v\u00edbora! Agora \u2014 deuses e dem\u00f4nios! \u2014 sinto que se me escapa a autoridade. Antes, quando eu gritava \u201cOl\u00e1!\u201d tal como crian\u00e7a em jogo, os reis se apressuravam gritando: \u201cQue quereis?\u201d N\u00e3o tendes ou\u00e7as? Ainda sou Ant\u00f4nio. (<i>Entram criados.<\/i>) Levai este malandro e chibateai-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 \u00c9 melhor provocar um le\u00e3ozinho do que um le\u00e3o j\u00e1 velho e moribundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pela lua e as estrelas! Chibateai-o! Embora fossem vinte dos mais fortes tribut\u00e1rios de C\u00e9sar, se os achasse com tamanho desplante a m\u00e3o pegando desta&#8230; Sim, qual seu nome, depois que ela Cle\u00f3patra j\u00e1 n\u00e3o \u00e9? Azorragai-o, amigos, at\u00e9 que ele, como crian\u00e7a, contraia o rosto e compaix\u00e3o implore. Levai-o bem depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIREU \u2014 Marco Ant\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Levai-o logo; e, uma vez bem zurzido, trazei-o aqui de novo. Esse lacaio de C\u00e9sar vai levar-lhe meu recado. (<i>Saem criados com Tireu.<\/i>) Quando vos conheci, j\u00e1 vos ach\u00e1veis meio passada. Ah! Ter deixado em Roma meu travesseiro, sem p\u00f4r nele a marca da cabe\u00e7a; privar-me de uma prole leg\u00edtima com minha esposa rara, para abusado assim me ver por uma mulher que d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o a parasitas!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Meu bondoso senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sempre fostes vers\u00e1til. Quando o calo criamos no v\u00edcio \u2014 oh opr\u00f3brio! \u2014 os deuses s\u00e1bios os olhos nos embu\u00e7am, atolando-se no pr\u00f3prio lodo o nosso claro ju\u00edzo; fazem que nossos erros adoremos, riem de n\u00f3s, enquanto, mui vaidosos, marchamos para nossa decad\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como! Chegamos a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Fui achar-vos como um bocado frio na travessa do falecido C\u00e9sar&#8230; N\u00e3o, apenas uma migalha para Cneu Pompeu; sem mencionarmos as ardentes horas que a fama n\u00e3o marcou e que soubestes abocar com lux\u00faria. Pois embora possais saber o que \u00e9 a temperan\u00e7a \u2014 disso tenho certeza \u2014 nunca a vistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Aonde quereis chegar?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Deixar que um tipo que recebe propinas e responde: \u201cQue Deus vos recompense!\u201d se mostre \u00edntimo de minha companheira de folguedos, dessa m\u00e3o, timbre real, penhor donoso de altivos cora\u00e7\u00f5es! Oh! se eu me achasse sobre o monte Basan, para mais alto mugir ainda do que os bois de chifre! Tenho raz\u00f5es selvagens para tanto. Moralmente aduzi-las fora como se um pesco\u00e7o no la\u00e7o ao seu carrasco agradecesse a grande habilidade. (<i>Voltam os criados com Tireu.<\/i>) Foi chibateado?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Sim, senhor; de rijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Gritou? Pediu perd\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Pediu piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se teu pai vive, que ele se arrependa de n\u00e3o teres nascido filha dele. Enquanto a ti, reflete o que acontece aos que acompanham C\u00e9sar em seu triunfo, Pois s\u00f3 por isso fostes azorragado. Fica com febre doravante, \u00e0 vista das brancas m\u00e3os de uma senhora; treme t\u00e3o-s\u00f3 de olhar para elas. Vai; retorna para C\u00e9sar e dize como foste recebido por mim. V\u00ea: vais dizer-lhe que irritado em excesso ele me deixa, por altivo mostrar-se e desdenhoso, a tocar sempre e sempre a mesma m\u00fasica: o que sou, por\u00e9m n\u00e3o \u2014 o que ele sabe muito bem \u2014 o que fui. Isso me irrita, o que ora \u00e9 muito f\u00e1cil, porque os astros benfazejos, meus guias at\u00e9 h\u00e1 pouco, vazias suas \u00f3rbitas deixaram, disparando seus fogos t\u00e3o-somente nos abismos do inferno. Caso minhas palavras o exasperem, tudo o que houve, lembra-lhe que com ele se acha Hiparco, meu escravo liberto, que, \u00e0 vontade, pode ele chibatear, p\u00f4r a tormentos, enforcar&#8230; como queira, para quite ficar comigo. P\u00f5e bem depressa nisso. Fora daqui com essas pisaduras!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Tireu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 J\u00e1 terminastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ah! nossa terrena lua sofreu eclipse e s\u00f3 proclama o decl\u00ednio de Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dar-lhe-ei tempo para que se refa\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Poder\u00edeis, para adular a C\u00e9sar, lan\u00e7ar olhos morteiros para quem lhe amarra os la\u00e7os?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Desconheceis-me ainda?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Indiferente serdes comigo? Cora\u00e7\u00e3o ter frio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ah, querido! Se eu for assim, que deste cora\u00e7\u00e3o frio o c\u00e9u granizo fa\u00e7a e na fonte o envenene, e que a primeira pedra atingir me venha no pesco\u00e7o, com minha vida, a um tempo, se esfazendo. Caia em Ces\u00e1rio a outra, at\u00e9 que, aos poucos jazam todos os frutos de meu ventre sem sepultura, e meus eg\u00edpcios bravos nessa alude de pedras, t\u00e9 que as moscas e os mosquitos do Nilo a todos eles d\u00eaem a tumba das presas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Basta-me isso. C\u00e9sar est\u00e1 em frente a Alexandria, onde pretendo desafiar-lhe a sorte. Nossas for\u00e7as de terra se portaram nobremente; os navios dispersados se reuniram de novo e ora navegam, os mares amea\u00e7ando. Onde te achavas, meu cora\u00e7\u00e3o? Escutas-me, senhora? Se eu voltar novamente da campanha para os l\u00e1bios beijar-te, recoberto de sangue me ver\u00e1s. Eu e esta espada para a lenda entraremos. A esperan\u00e7a n\u00e3o se apagou de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9s meu valente Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sinto-me agora com tr\u00eas vezes mais cora\u00e7\u00e3o, com triplicado f\u00f4lego, com m\u00fasculos dobrados para \u00e0 luta me atirar com viol\u00eancia. Quando as minhas horas eram risonhas e felizes, a vida os inimigos resgatavam com simples brincadeiras. Mas agora os dentes rangerei e para as trevas mandarei quem me vier barrar o passo. Vem! Aprestemos outra noite alegre; convoca os capit\u00e3es atribulados; mais uma vez enchamos nossas ta\u00e7as e zombemos do sino da alta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Hoje \u00e9 meu natal\u00edcio. Imaginara que iria festej\u00e1-lo pobremente. Mas, uma vez que meu senhor Ant\u00f4nio voltou a ser, eu tamb\u00e9m sou Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Tudo h\u00e1 de melhorar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dizei aos nobres capit\u00e3es que venham falar com meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Manda cham\u00e1-los. Isso mesmo. Desejo conserv\u00e1-los Essa noite hei de dar-lhes tanto vinho, que vai jorrar at\u00e9 das cicatrizes. Vamos, rainha; ainda temos seiva. No pr\u00f3ximo combate a pr\u00f3pria morte vai amar-me; pretendo concorr\u00eancia fazer ao seu pestilencial alfanje.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Ofuscar pretende ele ora o rel\u00e2mpago. Ficar enfurecido \u00e9 revelar-se assombrado de medo. Neste estado, contra o avestruz se atreve a pr\u00f3pria pomba. Verifico tamb\u00e9m que toda falha no c\u00e9rebro d\u00e1 \u00e2nimo \u00e0 coragem de nosso capit\u00e3o. Sempre que presa faz da raz\u00e3o a pr\u00f3pria valentia, corr\u00f3i a espada que \u00e0 defesa serve. Vou procurar um meio de deix\u00e1-lo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante de Alexandria. Acampamento de C\u00e9sar. Entra C\u00e9sar, lendo uma carta; Agripa, Mecenas e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Chama-me de menino e me repreende, como se for\u00e7a ele tivesse para do Egito me expulsar. Meu emiss\u00e1rio foi por ele a\u00e7oitado. Desafia-me para um duelo: Ant\u00f4nio contra C\u00e9sar. Pois que o velho buf\u00e3o fique sabendo que eu sei de outros caminhos para a morte. Mas at\u00e9 l\u00e1 seu desafio apenas o riso me provoca.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 C\u00e9sar deve considerar que quando uma pessoa t\u00e3o grande se revela assim furiosa, e que se sente acuada ao ponto extremo. N\u00e3o lhe deis tr\u00e9gua para refazer-se, mas procurai tirar todo o partido de sua distra\u00e7\u00e3o. Jamais a c\u00f3lera foi boa guardadora de si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Dizei aos capit\u00e3es que amanh\u00e3 cedo tencionamos travar a derradeira das numerosas pugnas da campanha. Entre nossas fileiras temos muitos que at\u00e9 bem pouco tempo ainda serviam a Marco Ant\u00f4nio, em n\u00famero bastante para apossar-se da pessoa dele. Providenciai logo isso. Dai comida a nossos homens. Temos provimento e eles bem o merecem. Pobre Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo42\" name=\"cleo42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Ant\u00f4nio, Cle\u00f3patra Enobarbo, Charmian, Iras, Alexas e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Dom\u00edcio, n\u00e3o se bater\u00e1 comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00c9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Porque, julgando-se com sorte vinte vezes mais risonha, pensa que a luta, assim, travada fora de vinte contra um.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Em mar e em terra lutarei amanh\u00e3; ou continuo com vida, ou banharei a moribunda gl\u00f3ria em meu sangue, para que reviva. Pretendes lutar bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Hei de bater-me gritando: \u201cToma tudo!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mui bem dito. Vamos; chama meus criados. Que haja mesa liberal esta noite. (<i>Entram tr\u00eas ou quatro criados.<\/i>) D\u00e1-me a m\u00e3o. Honesto sempre foste. E eu, tamb\u00e9m. E tu, e tu&#8230; V\u00f3s sempre me servistes muito bem, tendo reis por companheiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA (<i>\u00e0 parte, a Enobarbo<\/i>) \u2014 Que \u00e9 que ele quer?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte, a Cle\u00f3patra<\/i>) \u2014 \u00c9 uma dessas baldas que faz nascer do c\u00e9rebro a tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Tu tamb\u00e9m \u00e9s honesto. Desejara poder ser dividido em muitos homens, e que v\u00f3s num Ant\u00f4nio vos reun\u00edsseis, porque t\u00e3o bons servi\u00e7os vos prestasse como a mim tendes feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADOS \u2014 Oh! que os deuses n\u00e3o o permitam<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Caros companheiros: servi-me ainda esta noite, n\u00e3o poupando minhas ta\u00e7as. Fazei comigo como se tamb\u00e9m um de v\u00f3s fosse meu reino e as ordens me acatasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA (<i>\u00e0 parte, a Enobarbo<\/i>) \u2014 Que quer ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO (<i>\u00e0 parte, a Cle\u00f3patra<\/i>) \u2014 Fazer que os criados chorem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Servi-me ainda esta noite. \u00c9 bem poss\u00edvel que vossa obriga\u00e7\u00e3o a\u00ed termine. Talvez n\u00e3o me vejais de novo, ou apenas como a sombra disforme; talvez a outro senhor ireis servir amanh\u00e3 mesmo. Olho-vos como algu\u00e9m que se despede. Meus fi\u00e9is amigos, n\u00e3o vos mando embora; como amo, desposei vossos servi\u00e7os, de que s\u00f3 pela morte me separo. Servi-me ainda esta noite duas horas; mais n\u00e3o pe\u00e7o, e que os deuses vos premiem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Senhor, por que deix\u00e1-los abatidos? Olhai, est\u00e3o chorando, e eu, um grande asno, julgo tamb\u00e9m cebola ter nos olhos. Ora, ora! N\u00e3o fa\u00e7ais de n\u00f3s mulheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ho, ho, ho! Leve-me a bruxa, se eu pensava nisso. Nasce a felicidade dessas gotas. Caros amigos, dais um doloroso sentido ao meu discurso; quanto eu disse foi com a inten\u00e7\u00e3o apenas de animar-vos, para a noite com tochas incendiardes. Sabei, meus cora\u00e7\u00f5es, que espero muito do dia de amanh\u00e3, e que vos levo para onde hei de alcan\u00e7ar vida gloriosa, n\u00e3o a morte com honra. Para a ceia sigamos, e afoguemos a tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo43\" name=\"cleo43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Diante do pal\u00e1cio. Entram dois soldados, para ficarem de guarda.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Bom dia, irm\u00e3o; \u00e9 amanh\u00e3 o dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Que vai decidir tudo. Passai bem. Ouviste algo estranho pelas ruas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o ouvi coisa alguma. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Talvez seja s\u00f3 boato. Boa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor; o mesmo vos desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram dois outros soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Prestai muita aten\u00e7\u00e3o durante a guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 V\u00f3s tamb\u00e9m. Boa noite. Boa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Os dois primeiros soldados se colocam em seus lugares.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO SOLDADO \u2014 N\u00f3s dois, aqui. (<i>Colocam-se tamb\u00e9m nos seus.<\/i>) Caso amanh\u00e3 a armada leve a melhor, tenho esperan\u00e7a plena de que as for\u00e7as de terra fiquem firmes.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 \u00c9 um ex\u00e9rcito bravo e decidido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica subterr\u00e2nea, como de obo\u00e9s.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO SOLDADO \u2014 Paz! Que barulho \u00e9 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Ouvi! Ouvi!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Ouvi!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 M\u00fasica no ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o, sob a terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO SOLDADO \u2014 \u00c9 bom sinal, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Paz, vos digo. Por que ser\u00e1 essa m\u00fasica?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 \u00c9 o deus H\u00e9rcules t\u00e3o amado de Ant\u00f4nio e que o abandona.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Vamos saber se os outros guardas ouvem o que estamos ouvindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Adiantam-se para o outro posto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Ent\u00e3o, amigos?<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADOS \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1! Que \u00e9 que h\u00e1? Ouvis alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Ouvimos; n\u00e3o \u00e9 estranho?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Estais ouvindo, mestres? Estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Acompanhemos o ru\u00eddo at\u00e9 onde for a guarda. Vejamos como acaba.<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADOS \u2014 Certo. \u00c9 estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo44\" name=\"cleo44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra, Charmian e outros servidores<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eros, minha armadura.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dorme um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, pombinha. Vem, Eros! A armadura! (<i>Entra Eros, com a armadura.<\/i>) Vamos, amigo; veste-me esses ferros. Se hoje a fortuna n\u00e3o ficar conosco, \u00e9 porque a desafiamos. Vamos logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o, eu a ajudo. Para que serve isto?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, deixa isso, \u00e9s o armeiro do meu peito. Errado! Errado!&#8230; \u00c9 assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Devagarinho, quero ajudar tamb\u00e9m. Deve ser isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Muito bem; muito bem. D\u00e1 tudo certo. Vos, bom amigo? Agora vai armar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Sem demora, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Afivelado n\u00e3o ficou tudo bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Otimamente. Quem vier desfazer isto, antes de termos resolvido gozar de algum repouso, colher\u00e1 tempestades. N\u00e3o tens jeito, Eros, nenhum; minha rainha mostra-se escudeiro mais h\u00e1bil. Vamos logo. \u00d3 amor! n\u00e3o te ser poss\u00edvel hoje ver-me lutar e compreender um pouco da real atividade! Ent\u00e3o verias um verdadeiro mestre. (<i>Entra um soldado armado.<\/i>) A ti, bom dia. Bem vindo sejas. Mostras pelo aspecto que conheces o of\u00edcio dos guerreiros. Cedo nos levantamos para quanto dedicamos amor e, mui contentes, a tarefa iniciamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Um milheiro de soldados, senhor, desde bem cedo, como eu, vestiram-se de ferro e aguardam \u00e0 porta vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouvem-se exclama\u00e7\u00f5es. Fanfarra.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram capit\u00e3es e soldados<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPIT\u00c3O \u2014 Radiosa est\u00e1 a manh\u00e3. Muito bom dia, general.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 General, muito bom dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Boa m\u00fasica, amigos. Esse dia come\u00e7a com o esp\u00edrito de um jovem que promete ser grande desde cedo. Assim&#8230; D\u00e1-me isso&#8230; Bem. Muito bem dito. Senhora, adeus. Seja qual for meu dia, eis um beijo marcial. (<i>Beija-a.<\/i>) Fora mostrar-me pass\u00edvel de censura, digno mesmo de cr\u00edtica oprobriosa, por mais tempo ficar aqui sem cumprimentos baixos. Como homem de a\u00e7o vou deixar-te agora. Os que quiserem ir lutar, me sigam, pois saberei gui\u00e1-los. Bem; adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio, Eros, o capit\u00e3o e os soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Por favor retirai-vos para o quarto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Conduze-me. Partiu galantemente. Oh! se ele e C\u00e9sar esta grande guerra decidissem em luta corpo a corpo! Ent\u00e3o, Ant\u00f4nio&#8230; Mas assim&#8230; Que seja!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo45\" name=\"cleo45\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Acampamento de Ant\u00f4nio. Toque de trombeta. Entram Ant\u00f4nio e Eros; um soldado avan\u00e7a ao encontro de ambos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Que hoje os deuses a Ant\u00f4nio d\u00eaem bom dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ah! quem me dera que eu te houvesse ouvido, quando instavas, com essas cicatrizes, para eu lutar em terra!<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Se o tivesses feito, os monarcas que se revoltaram contra ti, e o soldado que hoje cedo te abandonou, contigo seguiriam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quem fugiu hoje cedo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Quem? Pessoa muito chegada a ti. Chama Enobarbo, que ele n\u00e3o te ouvir\u00e1, ou ent\u00e3o, do campo de C\u00e9sar, te dir\u00e1: \u201cN\u00e3o sou dos teus.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que me dizes?<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Senhor, est\u00e1 com C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Senhor, suas canastras e tesouros, ele deixou aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o partiu?<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Nada mais certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Envia-lhe, Eros, tudo, todo o tesouro. Sim, faze isso logo, \u00e9 o que te digo. Escreve-lhe uma carta \u2014 assin\u00e1-la-ei \u2014 com cordiais adeuses e cumprimentos, e que fa\u00e7o voto para que ele jamais tenha motivo de uma vez mais vir a mudar de mestre. Oh! minha sorte infausta chegou mesmo a corromper os bons. Vai. Enobarbo!<\/p>\n<p><a id=\"cleo46\" name=\"cleo46\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante de Alexandria. Acampamento de C\u00e9sar. Fanfarra. Entra C\u00e9sar com Agripa, Enobarbo e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Vai, Agripa; inicia logo a luta. Meu desejo \u00e9 que Ant\u00f4nio seja feito prisioneiro; fazei sab\u00ea-lo a todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Perfeitamente, C\u00e9sar. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Aproxima-se a paz universal. Se o dia de hoje for venturoso, o mundo de tr\u00eas cantos levar\u00e1 livre o ramo de oliveira.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Ant\u00f4nio est\u00e1 no campo de batalha.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ent\u00e3o ordena a Agripa que coloque todos os desertores na vanguarda, para que, de algum modo, Ant\u00f4nio gaste contra si mesmo a f\u00faria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai C\u00e9sar com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Alexas desertou; indo \u00e0 Jud\u00e9ia a neg\u00f3cios de Ant\u00f4nio, o grande Herode persuadiu a passar-se para C\u00e9sar, abandonando seu senhor Ant\u00f4nio. Como pr\u00eamio, enforc\u00e1-lo mandou C\u00e9sar. Can\u00eddio e os mais que a Ant\u00f4nio abandonaram, t\u00eam tratamento, mas n\u00e3o muito honroso. Procedi muito mal e disso mesmo de tal modo me acuso, que imposs\u00edvel me ser\u00e1 readquirir minha alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um soldado de C\u00e9sar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Enobarbo, mandou-te, Ant\u00f4nio toda tua riqueza, com mais outras d\u00e1divas generosas. O portador achou-me no meu posto de guarda; neste instante em tua tenda descarrega as mulas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Podes ficar com tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SOLDADO \u2014 Est\u00e1s pensando que \u00e9 pilh\u00e9ria, Enobarbo? Falo s\u00e9rio. Farias bem em escoltar teu h\u00f3spede at\u00e9 fora do campo, que eu preciso cuidar da obriga\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o fora isso, eu pr\u00f3prio o acompanhara. Continua sendo um J\u00fapiter vosso imperador. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Sou o \u00fanico vil\u00e3o de toda a terra, e sinto-o fundamente. \u00d3 Ant\u00f4nio! Ant\u00f4nio! tesouro inesgot\u00e1vel de favores! Como n\u00e3o pagarias meus servi\u00e7os, se coroas com ouro a vilania? Partem-me o cora\u00e7\u00e3o tantos abalos. Se o remorso veloz n\u00e3o o arrebenta. h\u00e1 de haver meio mais veloz do que ele. Mas \u00e9 certeza: s\u00f3 o remorso basta. Eu, lutar contra ti? De forma alguma. Hei de achar uma fossa onde enterrar-me; a mais imunda \u00e9 a que conv\u00e9m a \u00faltima parte de minha vida. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo47\" name=\"cleo47\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Campo de batalha entre os dois acampamentos. Fanfarra. Tambores e trombetas. Entram Agripa e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Conv\u00e9m recuar, pois avan\u00e7amos muito. O pr\u00f3prio C\u00e9sar v\u00ea-se assoberbado. Vai muito al\u00e9m de nossa expectativa a press\u00e3o que eles fazem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Entram Ant\u00f4nio e Escaro, ferido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Oh bravo imperador! Isto, realmente, \u00e9 que \u00e9 saber lutar! Se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos feito assim desde o in\u00edcio, enxotar\u00edamos todos eles com a testa amarrotada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Est\u00e1s sangrando muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Esta ferida tinha a forma de um T; mas, acrescida de outra, virou H.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eles recuam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Havemos de bat\u00ea-los, at\u00e9 mesmo no interior das privadas. Ainda tenho lugar para levar mais seis gilvazes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Eros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Vencemo-los, senhor; nossa vantagem vale por uma espl\u00eandida vit\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Risquemo-lhes as costas e agarremo-los como se faz com as lebres: pelo dorso. \u00c9 desporto malhar um fugitivo<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Hei de pegar-te o g\u00eanio sempre alegre e premiar-lhe dez vezes a bravura. Acompanhai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Irei; embora aos pulos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo48\" name=\"cleo48\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VIII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Junto aos muros de Alexandria. Fanfarra. Entra Ant\u00f4nio, em marcha militar, seguido de Escaro e de soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 For\u00e7amo-lo a acolher-se ao pr\u00f3prio campo. V\u00e1 algu\u00e9m na frente para nossos feitos anunciar \u00e0 rainha. Amanh\u00e3 cedo, antes de o sol nos ver, derramaremos o sangue que deixou de correr hoje. A todos agrade\u00e7o. Valorosos vos mostrardes, lutando n\u00e3o apenas como se a causa de outrem defend\u00easseis, mas cada um, tal como eu, a causa pr\u00f3pria. Outros tantos Heitores parec\u00edeis. Entrai um pouco na cidade, vossas esposas abra\u00e7ai, vossos amigos. Contai-lhes vossos feitos. Ledas l\u00e1grimas vos limpar\u00e3o de co\u00e1gulos as chagas, beijos far\u00e3o sarar os nobres talhos. (<i>A Escaro.<\/i>) D\u00e1-me a m\u00e3o. (<i>Entra Cle\u00f3patra, com s\u00e9q\u00fcito.<\/i>) A esta fada extraordin\u00e1ria recomendo teus feitos. Recompensem-te seus agradecimentos. Luz do mundo, em teus bra\u00e7os aperta-me o pesco\u00e7o. Salta-me ao cora\u00e7\u00e3o com todos esses adornos, atrav\u00e9s desta coura\u00e7a, e l\u00e1 te embala no pular glorioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Rei dos reis, hero\u00edsmo sem limites, sorridente escapaste da cilada gigantesca do mundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Meu querido rouxinol, para a cama os expulsamos. Ent\u00e3o, menina, embora uns fios brancos j\u00e1 se mostrem no meio dos castanhos, c\u00e9rebro temos que alimenta os nervos e com os mo\u00e7os disputa a primazia. Contempla este guerreiro; aos l\u00e1bios dele concede tua m\u00e3o. Beija-a, meu bravo. Hoje ele combateu como se um deus, por \u00f3dio \u00e0 humanidade, lhe tivesse tomado a forma para dizim\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vou dar-te, amigo, uma armadura de ouro; pertenceu a um monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ele a merece, embora de rubis fosse ela cheia, como o sagrado carro do alto Febo. D\u00e1-le tua m\u00e3o; faze uma bela marcha por toda Alexandria, carregando nossos escudos de t\u00e3o grandes brechas, como seus pr\u00f3prios donos. Se pudesse nosso grande pal\u00e1cio abrigar todos os seus soldados, juntos cear\u00edamos e brinde levantar\u00edamos ao dia de amanh\u00e3, que perigo r\u00e9gio apresta. Trombeteiros, com vosso som met\u00e1lico ensurdecei o ouvido da cidade, de mistura com o rufo dos tambores, para que o c\u00e9u e a terra soem juntos e nossa marcha aplaudam.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo49\" name=\"cleo49\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IX<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Acampamento de C\u00e9sar. Sentinelas a postos.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Dentro de uma hora, se n\u00e3o nos renderem, ser\u00e1 preciso que nos recolhamos para o corpo da guarda. H\u00e1 claridade; \u00e0s duas horas da manh\u00e3, disseram, ser\u00e1 iniciada a pugna.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 O dia de ontem foi para n\u00f3s terr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Enobarbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 Noite, serve-me de testemunha!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Quem ser\u00e1 esse homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Ficai perto e escutai.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00d3 lua santa, quando em futuro forem relembrados com mem\u00f3ria odiosa os desertores, testemunha me sejas de que em tua face o pobre Enobarbo se arrepende.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Enobarbo!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Sil\u00eancio! Ou\u00e7amos mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">ENOBARBO \u2014 \u00d3 grande soberana das tristezas verdadeiras, em mim despeja todos os vapores pest\u00edferos da noite, porque a vida, j\u00e1 agora divorciada de meu querer, em mim n\u00e3o mais se prenda. Joga meu cora\u00e7\u00e3o de encontro \u00e0 rocha e \u00e0 dureza de minha grande falta, que, ressecado estando de tristeza, vai transformar-se em p\u00f3, dando remate, desta arte, aos pensamentos vergonhosos. \u00d3 Ant\u00f4nio \u2014 mais nobre \u00e9s do que vil\u00edssima foi minha deser\u00e7\u00e3o \u2014 possas em tua alma perdoar o que te fiz e, ap\u00f3s, que o mundo me inscreva em seu registo como tr\u00e2nsfuga e ingrato ao pr\u00f3prio dono. Oh Ant\u00f4nio, Ant\u00f4nio! (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Vamos falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o; fiquemos quietos. A C\u00e9sar pode interessar tudo isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Bem; que seja. Parece estar dormindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Ou melhor, desmaiou, pois ningu\u00e9m reza dessa maneira, quando vai deitar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Vamos cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Ol\u00e1, senhor, falai-nos! Meu senhor, acordai!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 A m\u00e3o da morte j\u00e1 baixou sobre ele. (<i>Tambor ao longe.<\/i>) Ouvi! O rufo dos tambores deixa despertos os que dormem. Tranportemo-lo para o corpo da guarda. \u00c9 gente fina. J\u00e1 passou nosso quarto.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Vamos, ainda pode voltar a si.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem carregando o corpo.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo410\" name=\"cleo410\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena X<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Plan\u00edcie entre os dois acampamentos. Entram Ant\u00f4nio e Escaro, com for\u00e7as, em marcha.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Hoje os preparativos deles visam a um combate no mar; n\u00e3o lhes deixamos boa impress\u00e3o em terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Visam a ambos, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Desejara que quisessem brigar no ar e no fogo que eu iria bat\u00ea-los at\u00e9 l\u00e1. Mais eis o ponto: a Infantaria ficar\u00e1 conosco na colina mais perto da cidade. Para o mar j\u00e1 dei ordens. Os navios o porto abandonaram, colocando-se onde melhor possamos observ\u00e1-los e ver como manobram.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e9sar com suas for\u00e7as, em marcha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Se n\u00e3o nos atacarem, ficaremos quietos em terra, que \u00e9 como pensamos que vai acontecer, pois as galeras ele equipou com seus melhores homens. Des\u00e7amos para o vale. Sede atento para quanto nos possa dar vantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam Ant\u00f4nio e Escaro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ainda n\u00e3o se chocaram. De onde aquele pinheiro se al\u00e7a poderei ver tudo. Logo virei contar-te o que acontece. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCARO \u2014 Nas antenas de Cle\u00f3patra constru\u00edram ninhos as andorinhas. Consultados, os \u00e1ugures respondem que n\u00e3o sabem, que n\u00e3o podem falar, fazem carranca, n\u00e3o se atrevendo a revelar-nos nada. Ant\u00f4nio ora \u00e9 valente, ora abatido, com sobressaltos, sua sorte inquieta lhe infunde medo ou o deixa reanimado, conforme considere o que j\u00e1 obteve ou o que falta alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Barulho ao longe, como de batalha naval.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Perdido tudo! Traiu-me a Eg\u00edpcia infame; minha esquadra se passou para o imigo; os marinheiros jogam para o ar os gorros e, formando grupos ali, alegremente bebem como amigos h\u00e1 muito separados. Tr\u00eas vezes prostituta! fui vendido por ti a esse novi\u00e7o. A ti, somente, meu cora\u00e7\u00e3o faz guerra. Dize a todos que fujam, pois quando eu puder vingar-me da feiticeira, terei feito tudo. Dize a todos que fujam. Vai depressa. (<i>Sai Escaro.<\/i>) \u00d3 sol! n\u00e3o mais verei teu nascimento. Ant\u00f4nio e sua sorte aqui se apartam; as m\u00e3os nos apertamos neste ponto. Chegaremos a isto? Os cora\u00e7\u00f5es que vinham rastejar a meus p\u00e9s, como sabujos, aos quais eu sempre fiz todos os gostos, agora se dispersam, derramando sobre o fl\u00f3rido C\u00e9sar seus perfumes. E fendido se encontra este pinheiro que a todos abrigava. Fui tra\u00eddo. O cora\u00e7\u00e3o enganador do Egito, fatal feiti\u00e7o cujos olhos sempre me armavam para a guerra ou me faziam dela sair, em cujo peito eu tinha minha coroa, a meta da exist\u00eancia! tal como uma cigana, em enganaste de todo jeito e me lan\u00e7aste ao pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da desgra\u00e7a! Eros! Eros! (<i>Entra Cle\u00f3patra.<\/i>) Para tr\u00e1s, malef\u00edcio!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Por que se acha com seu amor o meu senhor zangado?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Some de minha vista; do contr\u00e1rio, dar-te-ei o que mereces, estragando o triunfo, assim, de C\u00e9sar. Que te pegue, que te exponha aos apupos da canalha! Vai atr\u00e1s de seu carro, como a grande mancha de todo o sexo. Por um \u00f3bolo, pela menor entrada ser\u00e1s vista como um dos monstros mais caracter\u00edsticos; e que com suas unhas bem afiadas a meiga Ot\u00e1via te lacere o rosto. (<i>Sai Cle\u00f3patra.<\/i>) Fizeste bem fugindo, se se pode dizer assim, por continuares viva. Fora melhor que presa ora te visses de minha f\u00faria, que tua morte, apenas, prevenira muitas. Eros! Eros! A camisa de Nessus me comprime. Alcides, meu antepassado, ensina-me tua c\u00f3lera! Deixa que nos cornos da lua eu ponha Licas, e com esta mesma m\u00e3o que brandiu a dava ingente a melhor parte de mim pr\u00f3prio extinga. Que morra a feiticeira! Ela vendeu-me para o jovem romano; caio v\u00edtima da conjura dos dois. Morra por isso. Eros, ol\u00e1! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo411\" name=\"cleo411\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena XI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Cle\u00f3patra, Charmian, Iras e Mardian.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Auxiliai-me, querida. Ele se acha mais louco do que o pr\u00f3prio Telam\u00f4nio, quando perdeu o escudo. O javali da Tess\u00e1lia jamais ficou t\u00e3o bravo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 No mausol\u00e9u fechai-vos e mandai-lhe dizer que j\u00e1 morrestes. A alma e o corpo n\u00e3o lutam com mais for\u00e7a ao se apartarem, como a grandeza, quando vai embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Sim, para o t\u00famulo. Vai, Mardian; dize-lhe que eu me matei. Deves tamb\u00e9m contar-lhe que, ao expirar, minha \u00faltima palavra foi \u201cAnt\u00f4nio\u201d. Mas, por favor, exprime-te com bastante \u00eanfase. Vai, Mardian, logo, e vem contar-me de que modo a nova recebeu dessa morte. Para o t\u00famulo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo412\" name=\"cleo412\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena XII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Outro quarto. Entram Ant\u00f4nio e Eros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eros, ainda me v\u00eas?<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Sim, nobre chefe.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c0s vezes contemplamos uma nuvem que parece drag\u00e3o; \u00e0s vezes forma toma o vapor de le\u00e3o ou feroz urso, de cidade com torres, pedra ingente de promont\u00f3rio azul coroado de \u00e1rvores, que oscila sobre o mundo, e nossa vista deixa atemorizada sem motivo. Sinais como esses j\u00e1 tens visto muitos; s\u00e3o fantasmas das tardes enubladas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Sim, meu senhor, j\u00e1 vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 O que um ginete parecia transformar-se, no instante de refletires, e desaparece como \u00e1gua na pr\u00f3pria \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Justamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eros, bravo menino, um corpo desses agora \u00e9 o teu senhor. Ainda Ant\u00f4nio sou neste instante, mas durar n\u00e3o pode muito tempo esta forma que aparece. Fiz as guerras do Egito. Mas Cle\u00f3patra, no entanto \u2014 cujo cora\u00e7\u00e3o meu era, pois o meu era dela, e em todo o tempo que foi meu anexava muitos outros, um milh\u00e3o mais&#8230; todos perdidos todos \u2014 ela, Eros, como disse, jogou cartas com C\u00e9sar e roubou minha alta gl\u00f3ria, para triunfar do imigo. N\u00e3o, n\u00e3o chores, meu gentil Eros, pois nos resta ainda darmos fim a n\u00f3s pr\u00f3prios. (<i>Entra Mardian.<\/i>) Tua vil ama me roubou a espada!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 N\u00e3o, Ant\u00f4nio; minha ama te adorava e a sorte dela entrela\u00e7ou com a tua.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Fora daqui, eunuco imundo! Fora! Ela traiu-me e vai morrer por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Ningu\u00e9m duas vezes paga \u00e0 morte a d\u00edvida. A dela j\u00e1 est\u00e1 paga. O que querias fazer foi feito perto de ti mesmo Sua \u00faltima palavra foi \u201cAnt\u00f4nio! meu muito nobre Ant\u00f4nio!\u201d um lacerante gemido em dois partiu de Ant\u00f4nio o nome, que ficou dividido entre seus l\u00e1bios e o cora\u00e7\u00e3o. Assim perdeu a vida, sepultando teu nome nela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARDIAN \u2014 Morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eros, desarma-me. A tarefa do dia est\u00e1 conclu\u00edda, precisamos dormir. (<i>A Mardian.<\/i>) Parte com vida; paga-te isso o trabalho ricamente. (<i>Sai Mardian.<\/i>) Arranca-me tudo isto. Nem o escudo de Ajaz, de sete folhas, poderia conter os batimentos com que ao peito me ataca o cora\u00e7\u00e3o. flancos, abri-vos! Cora\u00e7\u00e3o, uma vez somente mostra-te mais poderoso do que teu inv\u00f3lucro, arrebentando tua fr\u00e1gil caixa. Depressa, Eros, depressa! O combatente j\u00e1 se extinguiu. Ide, peda\u00e7os soltos; fostes usados com alguma honra. Eros, deixa-me s\u00f3 por uns momentos. (<i>Sai Eros.<\/i>) Vou alcan\u00e7ar-te, Cle\u00f3patra, e, com l\u00e1grimas, obter o meu perd\u00e3o. Tem de ser isso; qualquer tardan\u00e7a, agora, \u00e9 sofrimento. Extinta a tocha, deita-te, deixando de andar por descaminhos. Todo esfor\u00e7o, de agora em diante estragaria a obra. At\u00e9 o pr\u00f3prio vigor se embara\u00e7ara na resist\u00eancia pr\u00f3pria. P\u00f5e o selo, e tudo est\u00e1 acabado. Eros, atende-me! \u2014 J\u00e1 vou, minha rainha! \u2014 Eros, escuta-me! Onde as almas repousam sobre flores, m\u00e3o com m\u00e3o n\u00f3s iremos, e os espectros deixaremos at\u00f4nitos com nossa postura apaixonada. Sem cortejo vai ficar Dido e seu querido En\u00e9\u00edas, correndo todos para n\u00f3s. Vem, Eros!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Eros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Que deseja meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Desde a morte de Cle\u00f3patra t\u00e3o baixa \u00e9 a minha vida que somente asco tem causado aos deuses. Eu que com a espada o mundo retalhava e constru\u00edda cidades de navios no glauco dorso de Netuno, agora me maldigo por ver que sou mais fraco que uma mulher e por n\u00e3o ter o esp\u00edrito nobre daquela que por sua morte ao nosso C\u00e9sar disse: \u201cDe mim pr\u00f3pria fui a conquistadora.\u201d Prometeste-me, Eros, que quando fosse necess\u00e1rio \u2014 o que acontece justamente agora \u2014 e nas costas eu visse a inevit\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o do horror e da desgra\u00e7a, a um sinal meu a vida me tiraras. Faze isso. Chegou a hora. N\u00e3o me feres, assim fazendo; a C\u00e9sar \u00e9 que frustras. P\u00f5e um pouco de cor nessas bochechas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Os deuses que me amparem! Poderia fazer o que jamais as flechas partas, apesar de inimigas, conseguiram, falhando todas o alvo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eros, querias de uma janela da grandiosa Roma ver teu amo de bra\u00e7os amarrados, o submisso pesco\u00e7o assim dobrado, a fronte baixa ante a vergonha imensa, enquanto roda \u00e0 frente dele o carro do venturoso C\u00e9sar, mais relevo dando com isso \u00e0 sua humilha\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 N\u00e3o desejara v\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o vem logo; um golpe, s\u00f3, me vai deixar curado. Saca essa honesta espada, que servi\u00e7os t\u00e3o valiosos j\u00e1 tem prestado \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Oh! poupai-me, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ao libertar-te, n\u00e3o me juraste que farias isso no instante em que o pedisse? Ent\u00e3o s\u00ea pronto, para que teus servi\u00e7os n\u00e3o pare\u00e7am frutos do acaso, apenas, sem prop\u00f3sito. Saca da espada e vem.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Bem; nesse caso virai para o outro lado o nobre aspecto, em que o respeito est\u00e1 do mundo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO (<i>virando-se<\/i>) \u2014 Vem logo, ent\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 J\u00e1 estou de espada em punho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Usa-a depressa para o que a tiraste.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Meu caro mestre, capit\u00e3o querido, meu caro imperador, deixai que eu diga, antes de dar esse sang\u00fc\u00edneo golpe, deixai que eu diga adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pois, n\u00e3o, amigo; adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Adeus, meu chefe. Posso ferir agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Podes, Eros.<\/p>\n<p align=\"justify\">EROS \u2014 Ent\u00e3o, que seja. Assim fujo \u00e0 tristeza de lastimar Ant\u00f4nio. (<i>Mata-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh! tr\u00eas vezes mais nobre do que eu mesmo. Meu valente Eros, mostra-me o que eu pr\u00f3prio, n\u00e3o tu, fazer devia. O gesto altivo de Eros e da rainha me fizeram despertar a nobreza. Mas desejo ser o noivo da morte e dirigir-me para ela como para o leito amado. Que venha, ent\u00e3o. E assim, Eros, teu amo deixar\u00e1 a vida como teu disc\u00edpulo. A fazer isto me ensinaste. (<i>Deixa-se cair sobre a espada.<\/i>) Como! N\u00e3o morri? N\u00e3o morri? Ol\u00e1! A guarda! Oh! Acabai de vez com minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Dercetas e Guardas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Quem faz esse barulho?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00d3 meus amigos, fiz mal o meu trabalho. Dai remate a quanto principiei.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Baixou a estrela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 E chega ao fim o tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Oh! que desgra\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quem me amar, venha dar-me o mortal golpe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Eu, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Nem eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GUARDA \u2014 Nenhum de n\u00f3s, por certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os guardas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DERCETAS \u2014 Tua morte e os desastres afugentam teus seguidores. Basta que esta espada leve eu a C\u00e9sar e lhe d\u00ea a nova, para por ele ser bem recebido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Diomedes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Onde est\u00e1 Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">DERCETAS \u2014 Aqui, aqui, Diomedes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Est\u00e1 com vida? N\u00e3o respondes, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Dercetas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estais a\u00ed, Diomedes? Tira a espada e vem ferir-me at\u00e9 chegar a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Alto senhor, aqui mandou-me Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quando foi isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Agora, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Onde ela est\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Fechou-se no sepulcro. Tomada viu-se de um pressentimento angustioso do que podia dar-se. Pois ao certificar-se \u2014 o que imposs\u00edvel ser\u00e1 que se confirme \u2014 de que t\u00ednheis suspeita de ter ela combinado qualquer coisa com C\u00e9sar \u2014 e incur\u00e1vel era vosso furor \u2014 mandou dizer-vos que se havia matado. Mas, receando as conseq\u00fc\u00eancias da not\u00edcia, logo me enviou para dizer-vos a verdade. Mas temo ter chegado muito tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, bondoso Diomedes, muito tarde. Por favor, chama a guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Ol\u00e1! a guarda do Imperador! A guarda! vinde logo; o senhor \u00e9 que chama!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram quatro ou cinco homens, da guarda de Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bons amigos, levai-me para onde est\u00e1 Cle\u00f3patra. \u00c9 o \u00faltimo servi\u00e7o que vos pe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Que desgra\u00e7a, senhor, n\u00e3o terdes vida para a n\u00f3s todos at\u00e9 o fim dar ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Que dia carregado!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bons amigos, n\u00e3o deixeis que o destino amargo ria de vossas dores. Deve ser bem-vindo o que venha punir-vos; e punamo-lo, por nosso lado, recebendo-o alegres. Levantai-me. J\u00e1 vos guiei bastante; agora me arrastai, caros amigos. Por tudo, agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem, levando Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo413\" name=\"cleo413\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um t\u00famulo. Em cima entra Cle\u00f3patra com seu s\u00e9q\u00fcito, Charmian e Iras.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh Charmian! Nunca mais sairei daqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Consolai-vos, embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o quero. Ser\u00e1 bem-vindo quanto for terr\u00edvel e extraordin\u00e1rio. Desprezamos toda palavra de consolo. Nossa forma de tristeza, medida por sua causa, ter\u00e1 de ser proporcionada sempre com o que a fez nascer. (<i>Entra, em baixo, Diomedes.<\/i>) Ent\u00e3o! Morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIOMEDES \u2014 Paira sobre ele a morte, mas ainda n\u00e3o est\u00e1 morto. Olhai para o outro lado do vosso monumento; os guardas dele o trazem para aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra, em baixo, Ant\u00f4nio, carregado pelos guardas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00d3 sol, abrasa a grande esfera em que te moves, deixa sem luz a estrela deste mundo v\u00e1rio! Oh Ant\u00f4nio, Ant\u00f4nio, Ant\u00f4nio! Acode, Charmian! Iras, acode! Amigos a\u00ed de baixo, ajudai a traz\u00ea-lo para cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sil\u00eancio! N\u00e3o foi C\u00e9sar e sua for\u00e7a que derrubou Ant\u00f4nio, mas Ant\u00f4nio de si pr\u00f3prio triunfou.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Assim devia, realmente, acontecer. Somente Ant\u00f4nio conquistaria Ant\u00f4nio. Mas \u00e9 l\u00e1stima que tal se desse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Morro, Egito; morro. S\u00f3 por um pouco aqui detenho a morte, at\u00e9 que eu possa, de um milh\u00e3o de beijos, dar-te nos l\u00e1bios o \u00faltimo, o mais pobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 A descer n\u00e3o me atrevo, meu querido \u2014 Oh meu senhor, perd\u00e3o! \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o me atrevo, com medo de ser presa. No cortejo do sobremodo afortunado C\u00e9sar jamais virei a ser qualquer enfeite. Se as facas, as serpentes e os venenos tiverem corte, ac\u00f3leo ou eleito certo, salva estarei. Vossa consorte Ot\u00e1via, com seu gesto tranq\u00fcilo e olhos modestos n\u00e3o vai enaltecer-se, contemplando-me e torcendo o nariz. Mas vem, Ant\u00f4nio! Mulheres, ajudai-me! Precisamos p\u00f4-lo aqui em cima. Vinde, bons amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Depressa, se n\u00e3o morro.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Que exerc\u00edcio! Como pesais, senhor! A nossa for\u00e7a mudou-se em pesadume, contribuindo para aumentar o peso. Se eu tivesse todo o poder da majestosa Juno, a resist\u00eancia de Merc\u00fario alado, iria levantar-te, colocando-te lado a lado de Jove. Vem um pouco. Quem faz votos \u00e9 tola. Vem, vem, vem! (<i>Colocam Ant\u00f4nio no alto, ao lado de Cle\u00f3patra.<\/i>) S\u00ea bem-vindo, bem-vindo. Vem o esp\u00edrito exalar justamente onde viveste. Reanima-te com beijos; se meus l\u00e1bios tivessem tal poder, eu os gastara.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Oh! que triste espet\u00e1culo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estou morrendo, Egito; estou morrendo. D\u00e1-me um pouco de vinho, porque possa falar ainda um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o, eu falo; e em voz t\u00e3o alta farei minhas queixas, que a senhora Fortuna, sempre falsa, a roda quebrar\u00e1, de enraivecida, pelo que lhe disser.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Uma palavra, doce rainha: seguran\u00e7a e honra procura junto a C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Nunca juntas andam as duas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ouve-me, querida: dos que circundam C\u00e9sar, n\u00e3o confies sen\u00e3o em Proculejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 S\u00f3 confio nas minhas m\u00e3os, no brio muito pr\u00f3prio; em ningu\u00e9m junto a C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o choreis a mudan\u00e7a lastimosa que em meu fim se observou; n\u00e3o seja causa de vos entristecerdes; mas de minha sorte anterior alimentai o esp\u00edrito, quando eu era o maior senhor do mundo, o de maior nobreza, que nesta hora n\u00e3o morre baixamente. N\u00e3o com medo ao meu patr\u00edcio entrego o capacete; por um romano foi heroicamente dominado um romano. Meu esp\u00edrito j\u00e1 me abandona. Mais, n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh! Vais morrer, criatura nobil\u00edssima? De mim n\u00e3o fazes caso? \u00c9 ent\u00e3o preciso que eu permane\u00e7a neste mundo est\u00fapido que, privado de ti, valer\u00e1 tanto como simples cocheira? Oh! vede, vede, mulheres, o que passa. (<i>Ant\u00f4nio morre.<\/i>) Derreteu-se a coroa da terra. Meu Senhor! Murcha a grinalda dos combates se acha; o estandarte caiu. No mesmo n\u00edvel dos homens est\u00e3o mo\u00e7os e meninas; planificou-se tudo, n\u00e3o ficando na terra nada mais que se destaque nas visitas da lua. (<i>Desmaia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Calma, calma, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Nossa soberana tamb\u00e9m morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Ol\u00e1, princesa!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Oh princesa! princesa!<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Real Egito! Imperatriz!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Calma, Iras; fica quieta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Agora sou uma mulher apenas, por paix\u00f5es dominadas, como criada do est\u00e1bulo, ocupada em vis misteres. Jogar agora me cumpria o cetro nos deuses maliciosos e dizer-lhes que nosso mundo igual ao deles era enquanto eles privado n\u00e3o nos tinham de nossa j\u00f3ia rara. Tudo \u00e9 nada. A paci\u00eancia \u00e9 est\u00fapida; a impaci\u00eancia s\u00f3 fica bem para um cachorro louco. Ser\u00e1 crime correr para a secreta casa da morte sem chamados sermos? Mulheres, que fazeis? Vamos? Coragem! Charmian, que \u00e9 isso? Nobres raparigas&#8230; Ah! meninas, meninas! Vede: nossa l\u00e2mpada se apagou; estava exausta. Coragem, bons amigos. Vamos logo cuidar da morte dele. Ap\u00f3s, nos resta fazer o que for nobre e muito ousado, segundo a moda alt\u00edssima de Roma, porque de n\u00f3s possa orgulhar-se a morte. Vamos embora. J\u00e1 est\u00e1 frio o inv\u00f3lucro deste esp\u00edrito nobre. \u00d3 minhas caras, vamos embora, vamos! S\u00f3 nos resta, depois disto, um aux\u00edlio sempre \u00e0 m\u00e3o: um fim r\u00e1pido e pronta decis\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem carregando o corpo de Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo51\" name=\"cleo51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Alexandria Acampamento de C\u00e9sar. Entram C\u00e9sar. Agripa, Dolabela, Mecenas, Galo, Proculeio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Vai Dolabela, procur\u00e1-lo; intima-o a que se renda e dize-lhe que, estando t\u00e3o por baixo, s\u00f3 faz tornar-se objeto de mofa, por perder todo esse tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 C\u00e9sar, assim farei. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dercetas com a espada de Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que significa tal coisa, e quem \u00e9s tu para atreveres-te a aparecer assim em nossa frente?<\/p>\n<p align=\"justify\">DERCETAS \u2014 Sou chamado Dercetas; no servi\u00e7o de Marco Ant\u00f4nio estive, o homem mais digno de ser mais bem servido. Enquanto esteve de p\u00e9 e ordens me dava, foi meu amo, fazendo eu uso, s\u00f3, de minha vida contra seus inimigos. Se quiseres receber-me tal como eu fui para ele, assim servirei C\u00e9sar; do contr\u00e1rio, te entrego minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DERCETAS \u2014 Digo, C\u00e9sar, que Ant\u00f4nio j\u00e1 est\u00e1 morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 A queda de uma coisa desse porte deveria fazer maior barulho. Em todo o mundo os le\u00f5es correr deviam para o meio das ruas, procurando suas covas os homens da cidade. O trespasse de Ant\u00f4nio n\u00e3o \u00e9 um caso particular, pois esse nome abrange metade do universo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DERCETAS \u2014 J\u00e1 est\u00e1 morto, C\u00e9sar; n\u00e3o pelo bra\u00e7o da justi\u00e7a p\u00fablica, nem por ferro assalariado. A pr\u00f3pria m\u00e3o que em feitos altanados escreveu sua gl\u00f3ria, com a coragem que o cora\u00e7\u00e3o lhe dava, lacerado lhe deixou o cora\u00e7\u00e3o. Eis sua espada que eu roubei de seu golpe; podes v\u00ea-la manchada com seu sangue muito nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Amigos, ficais tristes? Tal not\u00edcia \u2014 embora os deuses possam castigar-me \u2014 at\u00e9 os olhos dos reis deixa molhados.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 \u00c9 estranho que nos force a natureza a chorar o que mais obter quer\u00edamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Seus defeitos e m\u00e9ritos se achavam em perfeito equil\u00edbrio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA \u2014 Nunca esp\u00edrito mais raro dirigiu a ra\u00e7a humana; mas com faltas, \u00f3 deuses! nos fizestes, a fim de que pud\u00e9ssemos ser homens. C\u00e9sar est\u00e1 abalado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MECENAS \u2014 Quando p\u00f5em diante dele um espelho desse porte, for\u00e7oso \u00e9 que se mire.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 \u00d3 Ant\u00f4nio! Ant\u00f4nio! para isso te segui? Mas lancetamos certas doen\u00e7as do corpo. Inevit\u00e1vel era mostrar-te um dia de decl\u00ednio, ou contemplar o teu. Juntos n\u00e3o fora poss\u00edvel que coub\u00e9ssemos no mundo. Mas quero lastimar com estas l\u00e1grimas t\u00e3o soberanas como o pr\u00f3prio sangue do cora\u00e7\u00e3o, que, meu irm\u00e3o, meu \u00eamulo no alto de toda empresa, igual no mando, amigo e companheiro nas batalhas, o bra\u00e7o deste corpo e o cora\u00e7\u00e3o em que meu pensamento se aquecia, os nossos astros irreconcili\u00e1veis nos hajam dividido, embora f\u00f4ssemos t\u00e3o iguais. Bons amigos, escutai-me. (<i>Entra um eg\u00edpcio.<\/i>) N\u00e3o; depois voltaremos a esse ponto. Nas fei\u00e7\u00f5es a mensagem traz este homem. Ou\u00e7amo-la. Da parte de quem vens?<\/p>\n<p align=\"justify\">EG\u00cdPCIO \u2014 Uma pobre mulher eg\u00edpcia, a minha senhora e soberana, confinada a tudo que ora \u00e9 dela \u2014 o pr\u00f3prio t\u00famulo \u2014 deseja conhecer os teus projetos, porque enveredar possa pela estrada a que seguir a for\u00e7am.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Tranq\u00fciliza-a. Por um de n\u00f3s, dentro de pouco tempo, vai ter conhecimento da maneira carinhosa por que ser\u00e1 tratada, pois C\u00e9sar descort\u00eas n\u00e3o ser\u00e1 nunca.<\/p>\n<p align=\"justify\">EG\u00cdPCIO \u2014 Que os deuses te conservem. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Proculeio, vem c\u00e1. Vai j\u00e1 dizer-lhe que n\u00e3o receie humilha\u00e7\u00e3o nenhuma. D\u00e1-lhe o conforto que exigir o g\u00eanero de sua dor, porque ela, em seu orgulho, por um golpe mortal n\u00e3o nos escape, pois com sua vida, em Roma, deixaremos eterno nosso triunfo. Vai e traze-nos o mais rapidamente que puderes not\u00edcia do que quer que ela houver dito e de como a tiveres encontrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 C\u00e9sar, assim farei. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Galo, acompanha-o. (<i>Sai Galo.<\/i>) Onde est\u00e1 Dolabela? Que acompanhe Proculeio, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">AGRIPA e MECENAS \u2014 Oh Dolabela!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o, deixai-o; pois me recordo agora que o incumbi de um recado. Vir\u00e1 logo. Vamos \u00e0 minha tenda. Heis de ver nela como entrei nesta guerra a contragosto, como revelo gentileza e calma nos meus escritos. Vinde, vinde, para verdes as provas do que digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"cleo52\" name=\"cleo52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O t\u00famulo. Entram, em cima, Cle\u00f3patra, Charmian e Iras.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 O pr\u00f3prio desespero me inicia numa vida melhor. \u00c9 pouca coisa ser t\u00e3o-somente C\u00e9sar. Ele julga-se a Fortuna, mas \u00e9 o seu lacaio, subserviente a seus gestos. \u00c9 grandioso realizar o que a tudo p\u00f5e remate, no caso p\u00f5e grilh\u00f5es, tranca as mudan\u00e7as, faz dormir, sem jamais provar da lama de que o mendigo e C\u00e9sar se alimentam.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram, em baixa, Proculeio, Galo e soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 \u00c0 rainha do Egito envia C\u00e9sar muitos saudares e te pede veres que pedido razo\u00e1vel ele pode satisfazer-te agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Qual teu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Chamo-me Proculeio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 J\u00e1 me tinha de v\u00f3s falado Ant\u00f4nio, aconselhando-me a ter confian\u00e7a em v\u00f3s. Mas n\u00e3o se importa de poder ser burlada quem proveito nenhum tirar deseja da confian\u00e7a. Se quer vosso amo que como mendiga lhe fale uma rainha, declarai-lhe que a majestade, para ser coerente, n\u00e3o pode menos de pedir-lhe um reino. Se ele quiser dar a meu filho o Egito conquistado, ter-me-\u00e1, assim, dado tanto do que \u00e9 meu mesmo, que hei de, agradecida, ajoelhar-me a seus p\u00e9s.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Ficai tranq\u00fcila. Nada temais; estais na m\u00e3o de um pr\u00edncipe. Ao meu senhor vos entregai confiante, pois sua gra\u00e7a \u00e9 tanta que se estende a todos os que dela necessitam. Permiti que lhe conte o modo brando por que vos submeteis, e vereis que ele, qual vencedor, prefere a complac\u00eancia, sempre que apelo \u00e9 feito \u00e0 sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Comunicai-lhe, por favor, que serva sou de sua fortuna, e que lhe envio a grandeza por ele conquistada. A cada hora que passa, aprendo as regras da obedi\u00eancia e, de grado, neste instante de frente o contemplara.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Excelsa dama, vou dizer-lhe isso mesmo. Ficai calma, pois sei que vossa condi\u00e7\u00e3o comove quem foi seu causador.<\/p>\n<p align=\"justify\">GALO \u2014 Bem vedes como \u00e9 f\u00e1cil surpreend\u00ea-la. (<i>Proculeio e dois guardas sobem para o monumento por uma escada, por tr\u00e1s de Cle\u00f3patra. Outros guardas tiram as trancas dos port\u00f5es, patenteando o compartimento inferior do monumento.<\/i>) Guardai-a bem, at\u00e9 que C\u00e9sar chegue. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Real rainha!<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Cle\u00f3patra, princesa, est\u00e1s presa!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Depressa, m\u00e3os bondosas! (<i>Saca de um punhal.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Parai, parai, d\u00edgna senhora! Calma! (<i>Segura-a e desarma-a.<\/i>) N\u00e3o fa\u00e7ais a v\u00f3s pr\u00f3pria essa injusti\u00e7a. Amparada aqui fostes, n\u00e3o tra\u00edda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 At\u00e9 mesmo da morte que liberta da peste nossos c\u00e3es?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Cle\u00f3patra, sede prudente, n\u00e3o deixando assim frustrada a generosidade de meu amo, com vos fazerdes ora essa viol\u00eancia. Possa o mundo admirar sua nobreza, que, com vosso trespasse, ficaria para sempre abafada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Onde est\u00e1s, morte? Vem aqui; vem depressa apoderar-te de uma rainha que, por certo, vale bem um monte de crian\u00e7as e mendigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Modera\u00e7\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 De ora em diante n\u00e3o comerei, senhor, nem beberei. E se preciso for falar \u00e0 toa, n\u00e3o dormirei tamb\u00e9m. Em ru\u00ednas hei de deixar a mortal casa. Fa\u00e7a C\u00e9sar o que puder. Ficai, senhor, sabendo que amarrada jamais hei de deixar-me mostrar na corte de vosso alto mestre, nem castigada pelo olhar tranq\u00fcilo daquela Ot\u00e1via est\u00fapida. Teria de ser i\u00e7ada e, assim, ficar exposta \u00e0 gritante ral\u00e9 da altiva Roma? Antes achar amena sepultura numa vala do Egito; antes na lama do Nilo me postai, de todo nua, para que em monstro as moscas me transformem; antes forca fazerem das pir\u00e2mides altas de minha terra, para delas ficar dependurada por cadeias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Expandis mais os pensamentos t\u00e9tricos do que podeis raz\u00e3o achar em C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dolabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 C\u00e9sar, teu amo, sabe, Proculeio, tudo quanto tens feito. Mandou ordem para que retornasses. Quanto \u00e0 rainha, fica sob minha guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROCULEIO \u2014 Assim me agrada, Dolabela, com ela s\u00ea bondoso. (<i>A Cle\u00f3patra.<\/i>) Direi a C\u00e9sar o que desejardes, se de mim vos servirdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Pois dizei-lhe que desejo morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Proculeio e os soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Nobre rainha, certamente de mim falar j\u00e1 ouviste?<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o poderei dizer-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Certamente me conheceis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ora, senhor, que importa quanto eu j\u00e1 tenha ouvido ou conhecido? Certamente achais gra\u00e7a quando as crian\u00e7as ou as mulheres vos falam de seus sonhos. \u00c9 essa vossa pilh\u00e9ria?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 N\u00e3o compreendo minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Sim, sonhei que havia um rei por nome Ant\u00f4nio. Ah! se eu pudesse mais uma vez dormir para, de novo, ver um homem como ele!<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Se quiserdes&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Como o c\u00e9u tinha o rosto; nele havia sol e lua, que o giro perfaziam e a terra iluminavam, este zero pequenino.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Criatura soberana&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Abarcava com as pernas o oceano; seu bra\u00e7o, levantado, de cimeira servia para o mundo. A voz tinha ele como a harmonia das esferas, sempre que aos amigos falava; mas querendo fazer tremer o mundo ou amedront\u00e1-lo, era um trov\u00e3o atroante. Para sua munific\u00eancia n\u00e3o havia inverno; era um constante outono, que aumentava a cada novo corte. Seus deleites eram como o golfinho: o dorso sempre deixavam ver por sobre as pr\u00f3prias ondas. Coroas e diademas apertavam-se em seu s\u00e9q\u00fcito, remos e ilhas eram quais moedas que do bolso lhe ca\u00edssem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Cle\u00f3patra&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Imaginais que pode haver um homem, que houve algum homem como o do meu sonho?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Gentil senhora, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Mentis, por tudo quanto os deuses ouvem. Por\u00e9m que tenha havido ou existir possa uma pessoa assim, \u00e9 o que ultrapassa, de muito, qualquer sonho. \u00c0 natureza falta mat\u00e9ria para concorr\u00eancia fazer \u00e0 fantasia. Mas o fato de um Ant\u00f4nio haver criado, \u00e9 o maior golpe da natureza contra a fantasia, que o descr\u00e9dito lan\u00e7a em seus produtos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Boa senhora, ouvi-me. Vossa perda, tal, como v\u00f3s, \u00e9 grande, sendo certo que acarretais com todo o peso dela. Que nunca realizado eu ver consiga nenhum anseio antigo; na ru\u00edna do vosso eu sinto uma tristeza imensa, que o cora\u00e7\u00e3o me fere no mais \u00edntimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Obrigada, senhor. Sabeis, acaso, o que C\u00e9sar de mim fazer pretende?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Desejaria que soub\u00e9sseis quanto me repugna dizer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Por obs\u00e9quio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Embora seja generoso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Pensa em me levar no triunfo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Sim, senhora; tenho certeza disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Vozes, dentro: \u201cAbri caminho! Abri caminho! C\u00e9sar!\u201d<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram C\u00e9sar, Galo, Proculeio, Mecenas, Seleuco e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 A rainha do Egito est\u00e1 presente?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Senhora, \u00e9 o imperador.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Cle\u00f3patra se ajoelha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o; levantai-vos, levantai-vos, Egito, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Senhor, os deuses querem desse modo; submissa ao meu senhor sou totalmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Abandonai os pensamentos tristes. Muito embora o relato das ofensas que nos fizestes tenha sido escrito em nossa carne, delas nos lembramos como de fatos casuais, apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00danico \u00e1rbitro do mundo, n\u00e3o consigo definir minha causa de maneira que vos pare\u00e7a clara; mas confesso que sobre mim pesavam muitas faltas que sempre envergonharam nosso sexo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sabei Cle\u00f3patra: sempre preferimos aliviar a agravar. Se vos mostrardes sensata em rela\u00e7\u00e3o a nossos planos \u2014 que a respeito de v\u00f3s s\u00e3o generosos \u2014 benef\u00edcio achareis nessa mudan\u00e7a; por\u00e9m se o peso sobre mim lan\u00e7ardes de uma crueldade, entrando pela via seguida por Ant\u00f4nio, dos ben\u00e9ficos efeitos vos privais de meus projetos e expondes vossos filhos \u00e0 ru\u00edna de que pretendo resguard\u00e1-los, caso me reveleis confian\u00e7a. Aqui despe\u00e7o-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Podeis atravessar o mundo todo. Pertence-vos. E n\u00f3s, vossos escudos e trof\u00e9us da vit\u00f3ria, ficaremos pregados onde quer que vos agrade. Aqui, nobre senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Em tudo havemos de vos ouvir no que respeita a Cle\u00f3patra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 (<i>entregando-lhe um papel<\/i>) \u2014 Aqui se encontra a rela\u00e7\u00e3o das j\u00f3ias, do dinheiro e a baixela que eu possuo, em seu valor exato, sem incluirmos coisinhas sem valor. Onde se encontra Seleuco?<\/p>\n<p align=\"justify\">SELEUCO \u2014 Aqui, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 o tesoureiro. Consenti, meu senhor, que ele vos diga, nisso empenhando a pr\u00f3pria vida, como nada me reservei. Fala a verdade, Seleuco.<\/p>\n<p align=\"justify\">SELEUCO \u2014 Senhora, antes selada ter a boca do que sob, penhor da pr\u00f3pria vida, dizer uma inverdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Alguma coisa foi desviada por mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">SELEUCO \u2014 O suficiente para comprar o que ora declarastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Cle\u00f3patra, n\u00e3o coreis; aprovo nisso vossa sabedoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vede, C\u00e9sar, oh! vede como a pompa atrai os homens! Todos os meus, agora vos pertencem; mas se troc\u00e1ssemos as sortes, todos os vossos meus seriam. Dementada me deixa a ingratid\u00e3o desse Seleuco. \u00d3 escravo, em que se pode confiar tanto como no amor comprado! Como? foges? Fazes bem em fugir, posso afian\u00e7ar-te. Mas hei de os olhos arrancar-te, embora sejam dotados de asas. Vil escravo, vil\u00e3o sem alma, c\u00e3o, canalha raro!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Acalmai-vos, bondosa soberana.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00d3 C\u00e9sar, como d\u00f3i tamanho opr\u00f3brio! Na hora em que concordais em visitar-me, a mim, t\u00e3o pequenina: vir meu pr\u00f3prio servidor aumentar minha desgra\u00e7a com a parcela da inveja muito sua. Digamos, meu bom C\u00e9sar, que de lado tivesse eu posto algumas ninharias de que as mulheres gostam, coisas simples e sem valor nenhum, desses objetos que costumamos dar aos conhecidos, ou digamos, tamb\u00e9m, que eu apartasse qualquer lembran\u00e7a um tanto mais valiosa destinada por mim a L\u00edvia e Ot\u00e1via, para que a meu favor intercedessem: poderia ter sido denunciada por quem houvesse de meu p\u00e3o comido? Deuses! isso me faz cair mais baixo do que j\u00e1 me encontrava. (<i>A Seleuco.<\/i>) Vai-te embora; caso contr\u00e1rio, sentir\u00e1s as brasas do meu furor por entre a cinza fria do meu pr\u00f3prio destino. Caso fosses homem, de mim terias te apiedado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Vai-te embora, Seleuco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Seleuco.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 \u00c9 sabido que n\u00f3s, os grandes, somos respons\u00e1veis por quanto os outros fazem, e que, quando ca\u00edmos, nosso nome serve para cobrir o alheio m\u00e9rito. Por isso somos dignos de piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 No rol n\u00e3o incluiremos da conquista, Cle\u00f3patra, quanto houv\u00e9sseis apartado, nem mesmo nada do que declarastes. Tudo \u00e9 vosso; disponde disso como melhor vos aprouver. E podeis crer-me: C\u00e9sar n\u00e3o \u00e9 um comerciante, vindo para convosco regatear o pre\u00e7o do que \u00e9 vendido pelos comerciantes. Ficai, portanto, alegre, n\u00e3o fazendo vossa pris\u00e3o dos pr\u00f3prios pensamentos. Cara rainha, n\u00e3o; pois pretendemos convosco proceder sempre de acordo com vossa orienta\u00e7\u00e3o. Alimentai-vos; ide dormir. Tanto cuidado temos, e piedade, de v\u00f3s, que continuamos amigo sendo vosso. E agora, adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Meu mestre e meu senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Sai C\u00e9sar com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ele fala comigo, caras, fala somente para que eu n\u00e3o continue nobre comigo mesma. Mas escuta, Charmian. (<i>Fala-lhe ao ouvido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Conclu\u00ed, minha senhora; o dia radioso terminou; agora estamos em plena escurid\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vai l\u00e1 de novo; j\u00e1 falei nisso; est\u00e1 providenciado. Vai logo; apressa-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Pois n\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Dolabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Onde est\u00e1 a rainha?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Ali, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Dolabela!<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Senhora, preso \u00e0 jura que de mim exigistes, que meu zelo transforma num dever, digo-vos isto: C\u00e9sar pretende atravessar a S\u00edria, sendo sua inten\u00e7\u00e3o, nestes tr\u00eas dias na frente vos mandar com vossos filhos. Como puderdes, fazei uso disto. Como o quer\u00edeis, fiz o prometido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Sou vossa devedora, Dolabela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 E eu, vosso servo. Adeus, boa rainha. Preciso esperar C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vai; adeus. De novo, agradecida. (<i>Sai Dolabela.<\/i>) Iras, que dizes disso tudo? \u00c9s uma boneca eg\u00edpcia e, como eu, vais em Roma ser mostrada. Escravos artes\u00e3os, de avental sujo, r\u00e9guas e malhos, h\u00e3o de levantar-nos para melhor nos verem. Envolvidas vamos ser por seus h\u00e1litos pesados que a alimentos grosseiros, s\u00f3, tresandam, e que a aspirar for\u00e7adas nos veremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Os deuses nos amparem!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o; \u00e9 certo, Iras; \u00e9 mais que certo. Descarados lictores, como a prostitutas, h\u00e3o de vir apalpar-nos, e versistas p\u00edfios nos cantar\u00e3o fora de metro e rima. Histri\u00f5es habilidosos, no tablado nos improvisar\u00e3o, representando nossas festas joviais de Alexandria. Ant\u00f4nio, b\u00eabedo, h\u00e1 de entrar no palco, tendo eu de ver algum menino-Cle\u00f3patra de voz fina imitar minha grandeza com gestos de rameira.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Oh grandes deuses!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Podes acreditar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">IRAS \u2014 Nunca hei de ver tal coisa; tenho as unhas \u2014 estou certa \u2014 mais duras do que os olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Bravo! \u00c9 o caminho de lograr seus planos e destruir-lhes o intento mais que absurdo. (<i>Volta Charmian.<\/i>) Agora, Charmian minhas companheiras, vinde arranjar-me como a uma rainha. Trazei o meu vestido mais custoso. De novo terei de ir ao Cidno, para ver-me com Marco Ant\u00f4nio. Iras, vai logo. Agora estamos prontas, nobre Charmian. E quando houveres feito esse servi\u00e7o, liberdade te dou para brincares at\u00e9 o dia do ju\u00edzo derradeiro. Traze a coroa e tudo o mais. (<i>Sai Iras. Ouve-se barulho.<\/i>) Que \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta um dos guardas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GUARDA \u2014 A\u00ed fora est\u00e1 um r\u00fastico que insiste em ver Vossa Grandeza. Traz-vos figos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Manda-o entrar. (<i>Sai o guarda.<\/i>) Como uma a\u00e7\u00e3o grandiosa pode ser feita por um meio humilde! Trouxe-me a liberdade. Continuo na mesma decis\u00e3o, sem coisa alguma de mulher ter em mim. Tal como o m\u00e1rmore, sou da cabe\u00e7a aos p\u00e9s: inabal\u00e1vel. A lua incerta n\u00e3o \u00e9 o meu planeta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o guarda com o bobo, que traz uma cesta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GUARDA \u2014 Eis aqui o homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Vai-te embora e deixa-o. Ent\u00e3o, trouxeste o bonitinho verme do Nilo que, sem dor, p\u00f5e termo \u00e0 vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Trouxe-o, com certeza; mas n\u00e3o serei eu que vos aconselhe a tocar nele, porque sua picada \u00e9 mortal. Os que morrem em conseq\u00fc\u00eancia disso, raramente, ou nunca, se restabelecem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Sabes de algu\u00e9m que assim morrido houvesse?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh! em quantidade! Homens e mulheres tamb\u00e9m. Ainda anteontem ouvi falar de um caso: uma mulher de grande honestidade, mas um tanto amiga de mentir \u2014 o que a mulher nunca deve fazer, sen\u00e3o por maneira muito honesta \u2014 como veio a morrer da picada e que dores sentiu. Realmente, ela deu uma \u00f3tima informa\u00e7\u00e3o do verme; mas quem der cr\u00e9dito a tudo o que as mulheres dizem, n\u00e3o se salvar\u00e1 com a metade do que elas pr\u00f3prias fazem. Mas isso \u00e9 muito fal\u00edvel, o verme \u00e9 um verme muito caprichoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Bem, at\u00e9 logo; podes retirar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Desejo que tenhais muito prazer com o verme. (<i>Dep\u00f5e a cesta no ch\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o deveis esquecer, vede bem, que o verme tem suas manhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Pois n\u00e3o; pois n\u00e3o. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vede bem! N\u00e3o se pode confiar no verme, a n\u00e3o ser sob a guarda de gente muito experta, porque, de fato, n\u00e3o h\u00e1 nele sombra de bondade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 N\u00e3o te preocupes, que eu saberei tratar dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Perfeitamente N\u00e3o lhe d\u00eas nada a comer, que ele n\u00e3o vale o que come.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Ser\u00e1 que ele comeria?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o haveis de pensar que eu seja t\u00e3o simpl\u00f3rio para n\u00e3o saber que o pr\u00f3prio diabo n\u00e3o come uma mulher. Sei muito bem que a mulher \u00e9 prato para os deuses, quando n\u00e3o \u00e9 o diabo que o prepara. Mas em verdade, esses malditos diabos causam muito mal aos deuses com as mulheres, porque de cada dez que estes aprontam, os diabos estragam cinco.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Bem, podes ir embora. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sim, por minha f\u00e9! Desejo-vos muita alegria com o verme. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Iras com o manto, a coroa, etc.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 D\u00e1-me o manto; coloca-me a coroa. Anseios imortais em mim se agitam. Nunca jamais h\u00e1 de molhar-me os l\u00e1bios o l\u00edquido de nossa vinha eg\u00edpcia. Vamos, Iras; depressa! S\u00f3 parece que ou\u00e7o Ant\u00f4nio chamar-me; levantar-se vejo-o e elogiar meu ato valoroso. Ou\u00e7o como ele zomba da ventura de C\u00e9sar, que aos mortais os deuses cedem para depois justificar sua c\u00f3lera. Caro esposo, eis-me aqui! Minha coragem ir\u00e1 provar que fa\u00e7o jus ao t\u00edtulo. Sou ar e fogo; os outros elementos cedo \u00e0 vida inferior. J\u00e1 conclu\u00edste? Ent\u00e3o vem e recebe de meus l\u00e1bios o calor derradeiro. Adeus, querida Charmian; Iras querida, um longo adeus. (<i>Beija-as; Iras cai e morre.<\/i>) Tenho, acaso, nos l\u00e1bios a serpente? Como! Ca\u00edste! Se te separaste da natureza assim t\u00e3o gentilmente, \u00e9 que o golpe da morte \u00e9 como aperto de namorado, que machuca um pouco mas sempre \u00e9 desejado. Est\u00e1s tranq\u00fcila? Se assim te foste, \u00e9 porque ao mundo contas que digno ele n\u00e3o \u00e9 de despedida.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Nuvem, espalha o teu negrume e chove, para que eu dizer possa que at\u00e9 os deuses est\u00e3o chorando.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Isto s\u00f3 prova a minha pusilanimidade. Se primeiro do que eu ela encontrar o meu Ant\u00f4nio de cabelos cacheados, ele o beijo nela dar\u00e1 que para mim \u00e9 o c\u00e9u. Vem, coisinha fatal; (<i>Aplica a serpente ao seio.<\/i>) com o dente agudo o n\u00f3 complexo vem soltar da vida. Fica zangado, tolo venenoso; termina de uma vez. Oh! se falasses, chamarias o grande C\u00e9sar de asno sem nenhuma vis\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Estrela do nascente!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 Oh, n\u00e3o! Sil\u00eancio! N\u00e3o v\u00eas que ao seio tenho o meu menino, na ama, a dormir, mamando?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Parai! Parai!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d3PATRA \u2014 T\u00e3o doce como b\u00e1lsamo, brando como o ar, gentil&#8230; Oh meu Ant\u00f4nio!&#8230; Sim, tu tamb\u00e9m ter\u00e1s o meu carinho. (<i>Aplica no bra\u00e7o outra serpente.<\/i>) Por que haveria de ficar mais tempo&#8230; (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 &#8230;neste mundo t\u00e3o vil? Assim, adeus. Agora, morte, podes vangloriar-te de que uma rapariga incompar\u00e1vel em teus bra\u00e7os sustentas. \u00d3 janelas emplumadas, fechai-vos! \u00d3 radioso Febo jamais ser\u00e1 de novo visto por uns olhos t\u00e3o reais. Vossa coroa ficou pendida; vou endireit\u00e1-la e, ap\u00f3s, representar a minha parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um guarda, precipitadamente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Onde est\u00e1 a rainha?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Falai baixo, para n\u00e3o despert\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 C\u00e9sar mandou&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 &#8230;um mensageiro lerdo. (<i>Aplica em si pr\u00f3pria uma serpente.<\/i>) Vem depressa. Termina. Mal te sinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Aproximai-vos, ah! Algo se passa. C\u00e9sar foi enganado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Dolabela veio da parte dele, ide cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Que \u00e9 que houve por aqui? \u00d3 Charmian! Charmian! Achas que foi bem feito?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHARMIAN \u2014 Foi bem feito, digno de uma princesa que descende de tantos reais monarcas. Ah! soldado&#8230; (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Dolabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Que aconteceu aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 Morreram todas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 C\u00e9sar, teus pensamentos se confirmam neste particular. Tu pr\u00f3prio chegas para ver realizado o horr\u00edvel ato que evitar procuraste tanto e tanto!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Dentro: \u201cDa\u00ed passagem a C\u00e9sar. Dai passagem!\u201d<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta C\u00e9sar, com todo o seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 \u00d3 senhor! sois um \u00e1ugur de confian\u00e7a; o que rece\u00e1veis, deu-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Corajosa foi at\u00e9 o fim. Por ter desconfiado de nossas inten\u00e7\u00f5es, como leg\u00edtima soberana, tomou o caminho pr\u00f3prio. Como morreram? N\u00e3o percebo sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Quem por \u00faltimo esteve junto delas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Um vil camp\u00f4nio, que lhe trouxe figos dentro desta cestinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ent\u00e3o, estavam envenenados.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 C\u00e9sar, esta Charmian at\u00e9 h\u00e1 pouco vivia. Estava p\u00e1lida e falou. Encontrei-a endireitando o diadema da morta. Ela tremia e caiu de repente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Oh muito nobre fraqueza! Se elas ingerido houvessem algum veneno, logo o conhec\u00earamos pelo incha\u00e7o exterior. Mas apar\u00eancia tem ela de quem dorme, de quem fosse prender um Outro Ant\u00f4nio nas cadeias fortes de seus encantos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOLABELA \u2014 Sobre o seio tem um ponto de sangue, um pouco inchado, tal como aqui no bra\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 \u00c9 a marcazinha de uma \u00e1spide; estas folhas de figueira deixam ver lodo, tal como se encontra nas cavernas do Nilo em que h\u00e1 serpentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 \u00c9 bem prov\u00e1vel que ela assim morresse. Seu m\u00e9dico me disse que ela tinha feito infinitas experi\u00eancias sobre os meios de morrer mais facilmente. O leito carregai; do monumento o corpo retirai tamb\u00e9m das criadas. Sepultada vai ser junto do corpo do Marco Ant\u00f4nio dela. Nenhum t\u00famulo jamais encerrar\u00e1 em toda a terra um t\u00e3o famoso par. Altos eventos como este aqui comovem at\u00e9 mesmo seus pr\u00f3prios causadores. Sua hist\u00f3ria t\u00e3o d\u00edgna foi causa de chorados serem. Com solene aparato, nosso ex\u00e9rcito o enterro seguir\u00e1. Depois, a Roma. A maior pompa. Dolabela, \u00e9 que h\u00e1 de determinar esta solenidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens Dram\u00e1ticas MARCO ANT\u00d4NIO, tri\u00fanviro, OT\u00c1VIO C\u00c9SAR, tri\u00fanviro, M. EM\u00cdLIO L\u00c9PIDO, tri\u00fanviro, SEXTO POMPEU, DOM\u00cdCIO ENOBARBO, amigo de Ant\u00f4nio, VENT\u00cdDIO, amigo de Ant\u00f4nio, EROS, amigo de Ant\u00f4nio, ESCARO, amigo de Ant\u00f4nio, DERCETAS, amigo de Ant\u00f4nio, DEM\u00c9TRIO, amigo de Ant\u00f4nio, FILO, amigo de Ant\u00f4nio, MECENAS, amigo de C\u00e9sar, AGRIPA, amigo de C\u00e9sar, DOLABELA, amigo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ant\u00f4nio E Cle\u00f3patra, William Shakespeare Ant\u00f4nio E Cle\u00f3patra<\/title>\n<meta name=\"description\" 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