{"id":120343,"date":"2017-04-25T10:06:07","date_gmt":"2017-04-25T12:06:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120343"},"modified":"2017-04-25T10:06:07","modified_gmt":"2017-04-25T12:06:07","slug":"julio-cesar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/julio-cesar","title":{"rendered":"J\u00falio C\u00e9sar"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens Dram\u00e1ticas<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>J\u00daLIO C\u00c9SAR<\/b>,<br \/>\n<b>OT\u00c1VIO C\u00c9SAR<\/b>, Tri\u00fanviro depois da morte de J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>MARCO ANT\u00d4NIO<\/b>, Tri\u00fanviro depois da morte de J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>M. EM\u00cdLIO L\u00c9PIDO<\/b>,Tri\u00fanviro depois da morte de J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>CICERO<\/b>,Senador,<br \/>\n<b>P\u00daBLIO<\/b>, Senador,<br \/>\n<b>POP\u00cdLIO LENA<\/b>, Senador,<br \/>\n<b>MARCO BRUTO<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>C\u00c1SSIO<\/b>,Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>CASCA<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>TREB\u00d4NIO<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>LIG\u00c1RIO<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>D\u00c9CIO BRUTO<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>METELO C\u00cdMBER<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>CINA<\/b>, Conspirador contra J\u00falio C\u00e9sar,<br \/>\n<b>FL\u00c1VIO<\/b> e <b>MARULO<\/b>, tribunos,<br \/>\n<b>ARTEMIDORO<\/b>, sofista de Cnido,<br \/>\nUm adivinho,<br \/>\n<b>CINA<\/b>, poeta,<br \/>\nOutro poeta,<br \/>\n<b>LUC\u00cdLIO<\/b>, <b>TIT\u00cdNIO<\/b>, <b>MESSALA<\/b>, o mo\u00e7o Cat\u00e3o e Vol\u00famnio; amigos de Bruto e C\u00e1ssio,<br \/>\n<b>VARRO<\/b>, <b>CLITO<\/b>, <b>CL\u00c1UDIO<\/b>, <b>ESTRATO<\/b>, <b>L\u00daCIO<\/b>, <b>DARD\u00c2NIO<\/b>, criados de Bruto,<br \/>\n<b>P\u00cdNDARO<\/b>, criado de C\u00e1ssio,<br \/>\n<b>CALP\u00daRNIA<\/b>, esposa de C\u00e9sar,<br \/>\n<b>P\u00d3RCIA<\/b>, esposa de Bruto,<br \/>\nSenadores, cidad\u00e3os, guardas, pessoas do s\u00e9q\u00fcito, etc.<\/p>\n<p><a name=\"jcat11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Uma rua. Entram Fl\u00e1vio, Marulo e alguns cidad\u00e3os.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FL\u00c1VIO \u2014 Fora daqui, mandri\u00f5es! Hoje \u00e9 feriado? J\u00e1 todos para casa! Sendo art\u00edfices, n\u00e3o podeis ignorar que n\u00e3o dev\u00edeis sair \u00e0 rua em dia de trabalho sem trazerdes os s\u00edmbolos do of\u00edcio. Que profiss\u00e3o \u00e9 a tua? Vamos, dize.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Carpinteiro, senhor; carpinteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 E tua r\u00e9gua, onde est\u00e1? Onde puseste teu avental de Couro? Por que causa vestiste hoje esse traje domingueiro? E o vosso of\u00edcio, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Para dizer a verdade, senhor, em rela\u00e7\u00e3o a um trabalhador de classe, n\u00e3o passo, como dir\u00edeis, de um remend\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 Mas de que of\u00edcio? Vamos, dize logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Um of\u00edcio, senhor, que espero poder exercer com a consci\u00eancia tranq\u00fcila. Esse of\u00edcio, senhor, consiste em remendar solas estragadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 Que of\u00edcio, maroto? Responde logo, biltre: que of\u00edcio?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, n\u00e3o estragueis a paci\u00eancia por minha causa; mas o certo \u00e9 que, se ficardes estragado, poderei remendar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 Que queres dizer com isso, atre\u00advi\u00addo: remendar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Perfeitamente, se\u00adnhor; p\u00f4r-vos um re\u00admen\u00addo de sola.<\/p>\n<p align=\"justify\">FL\u00c1VIO \u2014 Assim, queres dizer que \u00e9s re\u00admen\u00add\u00e3o de sapateiro, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 certo, senhor; vivo exclusivamente de minha sovela. N\u00e3o me meto em assuntos de mercadores nem de mulheres; s\u00f3 me ocupo com a minha sovela. Para dizer tudo, senhor, sou um cirurgi\u00e3o de sapatos velhos; quando estes se acham em grande perigo, restituo-lhes a sa\u00fade. N\u00e3o h\u00e1 gente fina que ande sobre couro de boi, que n\u00e3o pise em trabalho feito por estas m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">FL\u00c1VIO \u2014 Mas por que hoje sa\u00edste da oficina? Por que andas pelas ruas com estes homens?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Para falar franco, senhor, \u00e9 para que eles gastem os sapatos e eu venha a obter mais trabalho. Mas a verdade, senhor, \u00e9 que fizemos feriado para ver C\u00e9sar e nos regozijarmos com o seu triunfo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 Por que regozijar? Qual foi a grande conquista que ele fez? Que tribut\u00e1rios o acompanham a Roma, para as rodas enfeitar-lhe do carro com seus liames do cativeiro? N\u00e3o passais de troncos e de pedras; sois piores do que as coisas insens\u00edveis. Cora\u00e7\u00f5es duros, todos! Romanos cru\u00e9is, j\u00e1 n\u00e3o vos lembra o nome de Pompeu? Quantas vezes n\u00e3o trepastes pelos muros e ameias e nas torres ficastes e janelas e at\u00e9 mesmo no alto das chamin\u00e9s, com vossos filhos nos bra\u00e7os e, pacientes, esperastes o dia todo, s\u00f3 para poderdes ver o grande Pompeu, quando passasse pelas ruas de Roma? E quando o carro dele v\u00edeis, embora s\u00f3 de longe, vivas n\u00e3o d\u00e1veis, com ardor tamanho que no seu leito o Tibre estremecia ao estrondo que os ecos espalhavam por suas margens c\u00f4ncavas? E ora vestis vossas melhores roupas e inventais um feriado? Espalhais flores \u00e0 passagem de quem marcha em triunfo no sangue de Pompeu? Fora daqui! Recolhei-vos a casa, ajoelhai-vos e aos deuses suplicai que a peste afastem que tanta ingratid\u00e3o torna iminente.<\/p>\n<p align=\"justify\">FL\u00c1VIO \u2014 Ide, bons cidad\u00e3os; por esta falta reuni os coitados como v\u00f3s, e \u00e0s margens do Tibre os conduzi, para chorar-lhe no leito, at\u00e9 que as ondas mais humildes os mais altos barrancos beijar possam. (<i>Saem os cidad\u00e3os.<\/i>) Vede se n\u00e3o se derreteu o baixo metal de que s\u00e3o feitos. Retiraram-se com a l\u00edngua atada pela pr\u00f3pria culpa. Tomai a dire\u00e7\u00e3o do Capit\u00f3lio, que eu sigo por aqui. Despojai todas as est\u00e1tuas que achardes enfeitadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARULO \u2014 Poderemos faz\u00ea-lo? Deveis estar lembrado de que o dia hoje \u00e9 das Lupercais.<\/p>\n<p align=\"justify\">FL\u00c1VIO \u2014 Ora! Que importa? N\u00e3o deixeis que os trof\u00e9us de C\u00e9sar pendam de est\u00e1tua alguma. Vou correr as ruas e espalhar o povinho. A mesma coisa fareis v\u00f3s, onde os virdes aos magotes. Essas penas nascentes, arrancadas \u00e0 asa de C\u00e9sar, v\u00e3o cercear-lhe o v\u00f4o, s\u00f3 o deixando elevar-se a um plano m\u00e9dio. Caso contr\u00e1rio, pairaria longe da mirada dos homens, conservando-nos atados ao temor servil e baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"jcat12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram, em prociss\u00e3o com m\u00fasica C\u00e9sar, Ant\u00f4nio preparando para a corrida, Calp\u00farnia, P\u00f3rcia, D\u00e9cio, C\u00edcero, Bruto, C\u00e1ssio e Casca, seguidos de grande multid\u00e3o, na qual se acha um adivinho.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Calp\u00farnia!<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ol\u00e1! Sil\u00eancio! C\u00e9sar fala!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>P\u00e1ra a m\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Calp\u00farnia!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 Aqui, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Fica no ponto por onde Ant\u00f4nio h\u00e1 de passar correndo. Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 C\u00e9sar, meu senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ant\u00f4nio, n\u00e3o vos esque\u00e7a, quando aqui passardes, de tocar em Calp\u00farnia. J\u00e1 diziam nossos maiores que a mulher est\u00e9ril, de sua maldi\u00e7\u00e3o se via livre, quando tocada neste santo curso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o hei de me esquecer. Sempre que C\u00e9sar diz: Faze isto! j\u00e1 est\u00e1 feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Come\u00e7ai, sem que rito algum se omita.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Eh! Quem me chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sil\u00eancio, novamente! Pare tudo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>P\u00e1ra a m\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Quem dentre a multid\u00e3o disse meu nome? Ouvi uma voz, mais alta do que a m\u00fasica, bradar por C\u00e9sar. Fala; C\u00e9sar se acha disposto para ouvir-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Tem cui\u00adda\u00addo com os idos de mar\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que homem \u00e9 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Um adivinho; manda acautelardes-vos com os idos de mar\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Pois trazei-mo; quero ver-lhe as fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Amigo, avan\u00e7a; sai do meio da turba; vem ver C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que me dizes agora? Outra vez fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 \u00c9 dos idos de mar\u00e7o. Tem cui\u00adda\u00addo!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 \u00c9 um sonhador. Deixemo-lo. Si\u00adga\u00admos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarra. Saem todos, menos Bruto e C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o ides ver a ordem da corrida?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ide, pe\u00e7o-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o sou jovial; care\u00e7o desse esp\u00edrito vivaz que h\u00e1 em Ant\u00f4nio. Mas n\u00e3o quero servir-vos de empecilho nesse ponto. Vou deixar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bruto, h\u00e1 algum tempo vos observo e noto que no olhar j\u00e1 n\u00e3o tendes a brandura, aquelas mostras de amizade que antes eu costumava achar. Usais de modos por demais esquisitos, muito duros com respeito a um amigo que vos ama.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Meu caro C\u00e1ssio, n\u00e3o vos iludais; se o olhar tenho velado, \u00e9 apenas contra mim mesmo que dirijo meu desgosto. Paix\u00f5es de diferente natureza me afligem de algum tempo, pensamentos que t\u00e3o-somente a mim dizem respeito, e que minha conduta, porventura, sujam de algumas manchas. Mas n\u00e3o seja isso motivo, C\u00e1ssio, para m\u00e1goa por parte dos amigos \u2014 entre o n\u00famero dos quais estais inclu\u00eddo \u2014 n\u00e3o convindo que procureis explica\u00e7\u00e3o diversa sen\u00e3o dizer que Bruto, estando em guerra consigo mesmo, esquece-se, por vezes, de patentear o amor que vota aos outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o, Bruto, enganei-me so\u00adbre\u00admo\u00addo quanto \u00e0 causa de estardes alterado, raz\u00e3o de haver at\u00e9 hoje aqui no peito sepultado importantes pensamentos, dignos de reflex\u00e3o. Bondoso Bruto, podeis, acaso, ver vosso conspecto?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o, C\u00e1ssio; o olho a si mesmo n\u00e3o se enxerga, sen\u00e3o pelo reflexo em outra coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 justo. Por isso, Bruto, \u00e9 que por toda a parte se lastima n\u00e3o terdes um espelho que aos olhos vos reflita o oculto m\u00e9rito, porque pud\u00e9sseis ver a pr\u00f3pria sombra. J\u00e1 ouvi os romanos de maior respeito \u2014 exceto o imortal C\u00e9sar \u2014 referirem-se a Bruto e, suspirando sob o jugo de nosso ingrato tempo, lastimarem que Bruto olhos n\u00e3o tenha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 A que perigos, C\u00e1ssio, quereis levar-me, concitando-me a procurar em mim o que me \u00e9 estranho?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o, bondoso Bruto, ouvi-me atento; e uma vez que sabeis ser imposs\u00edvel a v\u00f3s pr\u00f3prio vos verdes, sem usar de um reflexo qualquer, eu, vosso espelho, por maneira modesta vou mostrar-vos o que de v\u00f3s desconheceis ainda. N\u00e3o suspeiteis de mim, bondoso Bruto; se eu fosse um desses zombadores f\u00fateis, como h\u00e1 tantos no mundo, e o meu afeto prostitu\u00edsse com juras ordin\u00e1rias com o primeiro falador solene que se me apresentasse; se souberdes de mim que os homens lisonjear costumo, de encontro ao peito os prendo e, ap\u00f3s, lhes lan\u00e7o as maiores cal\u00fanias; ou se, acaso, me tomais por um desses que se expandem nos banquetes dos muitos&#8230; bem, concordo em ser considerado perigoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouvem-se clarins e aclama\u00e7\u00f5es.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Essas aclama\u00e7\u00f5es que significam? Receio que haja o povo dado a C\u00e9sar o t\u00edtulo de rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ah! Receais isso? Concluo, assim, que tal n\u00e3o desej\u00e1reis.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Realmente, C\u00e1ssio; no entretanto, eu o amo. Mas por que me detendes tanto tempo? Que tendes a confiar-me? Sendo assunto do bem p\u00fablico, em frente de um dos olhos me ponde a honra e na do outro a feia morte, que eu, sem tremer, as fixarei de face. Sejam-me em tudo os deuses favor\u00e1veis, como a honra prezo e a morte n\u00e3o receio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sei, Bruto, que possu\u00eds essa vir\u00adtu\u00adde, como conhe\u00e7o vosso aspecto externo. A honra vai ser o assunto da conversa. Ignoro o que pensais e os outros homens sobre esta vida; mas com refer\u00eancia a mim pr\u00f3prio, direi que preferira n\u00e3o viver, a viver sempre com medo de um ser tal como sou. Nasci t\u00e3o livre quanto C\u00e9sar, tal qual se deu convosco; n\u00f3s dois, t\u00e3o bem quanto ele, nos criamos, como podemos suportar, como ele, os rigores do inverno. De uma feita, numa tarde enublada e tempestuosa, em que o Tibre agitado se batia dentro das pr\u00f3prias margens, perguntou-me C\u00e9sar: \u201cC\u00e1ssio, ousarias atirar-te, junto comigo, na corrente infensa e nadar at\u00e9 ali?\u201d Mal acabara de falar-me, vestido como estava, joguei-me na \u00e1gua e a me seguir chamei-o, o que ele fez de fato. A correnteza roncava; n\u00f3s lut\u00e1vamos contra ela com membros indefesos, apartando-a e \u00e0 sua f\u00faria opondo o ousado peito. Mas antes de alcan\u00e7armos nossa meta, C\u00e9sar gritou: Socorro, C\u00e1ssio! Afogo-me!\u201d Ent\u00e3o, tal como En\u00e9ias, nosso grande progenitor, que carregam aos ombros o velho Anquises e o salvara \u00e0s chamas que Tr\u00f3ia devastavam: da corrente do Tibre, assim, tirei o exausto C\u00e9sar. Num deus, agora, est\u00e1 mudado esse homem, sendo C\u00e1ssio uma m\u00edsera criatura que precisa curvar-se, quando C\u00e9sar com enfado lhe faz um gesto vago. Na Espanha apanhou febre; e, quando o acesso lhe vinha, notei bem como tremia. Sim, esse deus tremia; seus covardes l\u00e1bios ficaram p\u00e1lidos, e os mesmos olhos que ao mundo todo inspiram medo o brilho a perder vieram. Muitas vezes o ouvi gemer. Sim, essa mesma l\u00edngua que os romanos deixava estupefactos, levando-os a guardar os seus discursos, ah! gritava tal qual donzela doente: \u201c\u00c1gua, Tit\u00ednio! D\u00e1-me um pouco de \u00e1gua!\u201d Muito me espanta, \u00f3 deuses! ver que um homem de uma constitui\u00e7\u00e3o assim t\u00e3o fraca tenha passado \u00e0 frente neste mundo majestoso e, sozinho, obtido a palma.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras e aclama\u00e7\u00f5es<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Aclama\u00e7\u00f5es de novo. Esses aplau\u00adsos devem significar que novas honras v\u00e3o sendo acumuladas sobre C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ele cavalga, amigo, o mundo estreito como um outro Colosso, enquanto os homens pequeninos lhe andamos por debaixo das pernas gigantescas e espreitamos por toda parte, a fim de ver se t\u00famulos desonrados achamos. H\u00e1 momentos em que os homens s\u00e3o donos de seus fados. N\u00e3o \u00e9 dos astros, caro Bruto, a culpa, mas de n\u00f3s mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos. Bruto e C\u00e9sar! Que pode haver nessa palavra \u201cC\u00e9sar\u201d, para soar melhor que vosso nome? Escrevei-os a par; t\u00e3o belo \u00e9 o vosso como o dele, n\u00e3o menos. Pronunciai-os: tanto um como outro assenta bem na boca. Pesai-os; quilibram-se. Valei-vos deles para esconjuros; \u00e9 certeza que \u201cBruto\u201d far\u00e1 vir qualquer esp\u00edrito com a mesma rapidez que o far\u00e1 \u201cC\u00e9sar\u201d. Em nome, pois, dos deuses em conjunto, dizei-me de que pratos nosso C\u00e9sar se alimentou para ficar t\u00e3o grande? Tempo, est\u00e1s conspurcado! J\u00e1 perdeste, Roma a semente de teu sangue nobre! Que idade, das in\u00fameras passadas desde o grande dil\u00favio, ficou c\u00e9lebre por um homem somente? Quem j\u00e1 disse, ao referir-se a Roma, que seus muros uma pessoa, apenas, abarcavam? Roma a\u00ed est\u00e1, sendo realmente grande, se dentro dela s\u00f3 houver um homem. Oh! Ambos n\u00f3s de nossos pais ouvimos que outro Bruto j\u00e1 houve, que aceitara com igual disposi\u00e7\u00e3o em Roma a corte postar o diabo ou um rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que me tendes amor, n\u00e3o ponho d\u00favida; o que esperais de mim, quase o adivinho; o que sobre isso penso e de nossa \u00e9poca, mais tarde vos direi. Mas por enquanto, se como amigo franco falar posso, desejaria que n\u00e3o insist\u00edsseis comigo. Vou pensar no que dissestes; com paci\u00eancia ouvirei o que ainda tendes a me dizer, e ocasi\u00e3o prop\u00edcia hei de encontrar para trocarmos nossas impress\u00f5es sobre assunto de tal monta. At\u00e9 ent\u00e3o ruminai, prezado amigo, nestas palavras: Bruto preferira ser um alde\u00e3o a se contar no n\u00famero dos filhos da alta Roma sob as duras condi\u00e7\u00f5es que estes tempos nos amea\u00e7am.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Alegro-me, por ver que minhas fracas palavras conseguiram tantas chispas fazer saltar de Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Terminaram os jogos; n\u00e3o demora, C\u00e9sar volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quando por n\u00f3s passarem, puxai Casca pela manga, que em seu falar azedo nos contar\u00e1 o que houve de importante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e9sar com seu s\u00e9qaito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Farei dessa maneira. Por\u00e9m C\u00e1ssio, observai como brilha no semblante de C\u00e9sar o sinal de grande c\u00f3lera, e como os outros todos t\u00eam o aspecto de criados repreendidos. Muito p\u00e1lida est\u00e1 Calp\u00farnia, e lan\u00e7a olhares C\u00edcero de fur\u00e3o, t\u00e3o ardentes como quando no Capit\u00f3lio o vemos, ao sentir-se contraditado pelos senadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Casca nos contar\u00e1 o que h\u00e1 de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Ao meu lado s\u00f3 quero gente gorda, pessoas de cabelos luzidios, que durmam toda a noite. Aquele C\u00e1ssio \u00e9 seco por demais; inculca fome, pensa muito. \u00c9 indiv\u00edduo perigoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o tenhas medo dele; n\u00e3o \u00e9 homem perigoso, sen\u00e3o romano nobre e bem intencionado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Desejara que n\u00e3o fosse t\u00e3o magro. Pouco importa! N\u00e3o o temo. Contudo, se meu nome comportasse algum medo, n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m a que evitar eu procurasse como esse magro C\u00e1ssio, que l\u00ea muito. \u00c9 um grande observador e possui vista que devassa as raz\u00f5es dos nosso atos; n\u00e3o aprecia o teatro, como o fazes, Ant\u00f4nio, nem se apraz em ouvir m\u00fasica. Raramente sorri, e de tal modo sempre o faz, que parece estar zombando de si mesmo, por ter-se comovido a ponto de sorrir por qualquer coisa. Indiv\u00edduos assim nunca se sentem bem ao lado de algu\u00e9m maior do que eles, sendo por isso muito perigosos. Digo-te antes o que \u00e9 para temer-se, N\u00e3o o que temo, pois sou sempre C\u00e9sar. P\u00f5e-te \u00e0 minha direita, pois n\u00e3o ou\u00e7o bem deste ouvido, e dize-me o que pensas a seu respeito, usando de franqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Clarins. Sai C\u00e9sar com seu s\u00e9q\u00fcito; Casca fica para tr\u00e1s.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Puxastes o meu manto; tendes algo para falar comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tenho, Casca. Contai-me o que passou, para que C\u00e9sar ficasse de ar severo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ora, estivestes junto dele, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se tal se houvesse dado, por que eu teria feito a Casca semelhante pergunta?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ora, ofereceram-lhe uma coroa, e no ato de lha ofertarem ele a repeliu com o dorso da m\u00e3o, deste jeito. Ent\u00e3o o povo prorrompeu em aclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E qual foi a causa da segunda gritaria?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ora, a mesma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Houve tr\u00eas aclama\u00e7\u00f5es. A \u00faltima, por que foi?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ora, a mesma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ofereceram-lhe tr\u00eas vezes a coroa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sim, por minha f\u00e9, e ele a repeliu tr\u00eas vezes, cada uma com gesto mais brando; e de cada vez que a afastou de si, os meus honestos vizinhos prorrompiam em aclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quem lhe ofereceu a coroa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Am\u00e1vel Casca, conta-nos como isso se passou.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Posso deixar-me enforcar t\u00e3o bem como dizer a maneira por que isso se deu. Pura palha\u00e7ada; n\u00e3o prestei a menor aten\u00e7\u00e3o. Vi Marco Ant\u00f4nio oferecer-lhe uma coroa, n\u00e3o uma coroa de verdade, mas uma esp\u00e9cie de diadema. E, como j\u00e1 disse, ele a afastou de si uma vez; mas no meu modo de ver, apesar de tudo ele desejaria ficar com ela. Depois Ant\u00f4nio lha ofereceu de novo, tendo-a ele recusado mais uma vez; mas, segundo penso, custou-lhe retirar os dedos de cima dela. Ent\u00e3o, pela terceira vez, ele a afastou de si, e, a cada recusa, a ral\u00e9 prorrompia em aclama\u00e7\u00f5es, batia as m\u00e3os calosas, atirava para o ar os gorros suarentos de dormir e exalava um h\u00e1lito de tal modo repugnante, por haver C\u00e9sar recusado a coroa, que quase asfixiou C\u00e9sar, pois ele desmaiou e caiu. De minha parte, n\u00e3o ousei rir, de medo de abrir a boca e aspirar o mau ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Devagar, por obs\u00e9quio. Como! C\u00e9sar desmaiou?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Caiu na pra\u00e7a p\u00fablica; tinha espuma na boca e ficou sem fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 poss\u00edvel, pois sofre de ataques.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 C\u00e9sar, mas sois v\u00f3s e eu e o honesto Casca que sofremos disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ignoro o que quereis dizer com isso; mas tenho certeza de que C\u00e9sar caiu. Se a gentalha n\u00e3o o aplaudia e apupava, conforme o prazer ou o desprazer que achava nele, tal como costuma fazer no teatro com os comediantes, quero deixar de ser homem honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E que disse ele quando voltou a si?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Ora, antes de cair, ao perceber que o rebanho p\u00fablico se alegrava por haver ele recusado a coroa, abriu as vestes e ofereceu o pesco\u00e7o para que Iho cortassem. Se eu fosse um desses homens de trabalho, teria ido para o inferno com os patifes, se n\u00e3o lhe houvesse segurado a palavra. Nessa altura, ele caiu. Quando recuperou os sentidos, declarou que se por acaso houvesse feito ou dito algo inconveniente, pedia a Suas Senhorias que levassem isso \u00e0 conta da doen\u00e7a. Tr\u00eas ou quatro marafonas que se achavam ao meu lado exclamaram: \u201cOh! Que bela alma!\u201d e lhe perdoaram de todo o cora\u00e7\u00e3o. Mas essa opini\u00e3o carece de valor, porque elas teriam dito a mesma coisa, se C\u00e9sar lhes houvesse apunhalado as pr\u00f3prias m\u00e3es.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E depois disso ele se retirou abor\u00adre\u00adci\u00addo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 C\u00edcero disse alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sim; falou em grego.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Com que inten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Se v\u00ea-lo disser, desejo nunca mais olhar-vos o rosto; mas os que o compreenderam riram uns para os outros e sacudiram a cabe\u00e7a; mas para mim era grego. Posso contar-vos mais algumas novidades. Marulo e Fl\u00e1vio, por haverem despojado das ins\u00edgnias as est\u00e1tuas de C\u00e9sar, ficaram mudos para sempre. Passai bem. Houve outras palha\u00e7adas, mas esqueceram-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quereis cear hoje comigo, Casca?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 N\u00e3o, j\u00e1 tenho compromisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quereis jantar comigo amanh\u00e3?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sim, no caso de estar vivo, de n\u00e3o mudardes de id\u00e9ia e de ser convidativo o jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Muito bem; ent\u00e3o espero-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Podeis esperar. Passai bem. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Como ficou grosseiro este sujeito! No tempo de col\u00e9gio era mui vivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Apesar de assumir essa apar\u00eancia, ainda n\u00e3o mudou, quando se trata de executar algo de ousado ou nobre. Nele a rudeza \u00e9 apenas o tempero de esp\u00edrito sadio, que o apetite aos homens abre, porque facilmente digerir possam todos seus discursos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 isso mesmo. Por ora, vou deixar-vos. Vou procurar-vos amanh\u00e3, no caso de quererdes falar-me, ou, se o quiserdes, vinde at\u00e9 aqui, que por v\u00f3s espero.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Prefiro ir. At\u00e9 l\u00e1, pensai no mun\u00addo. (<i>Sai Bruto.<\/i>) Muito bem Bruto; \u00e9s nobre. No entretanto, percebo que o ouro honrado de que \u00e9s feito pode ser alterado. Desse modo, seria conveniente que os esp\u00edritos nobres s\u00f3 convivessem com seus pares; pois quem ser\u00e1 t\u00e3o firme que n\u00e3o possa ser reduzido? C\u00e9sar me tem \u00f3dio, mas ama a Bruto. Se ora eu fosse Bruto, sendo ele C\u00e1ssio, C\u00e9sar n\u00e3o viria condescender comigo. Vou jogar-lhe na janela, hoje \u00e0 noite, alguns bilhetes de letra diferente, para que ele pense que s\u00e3o diversos os autores que acordam no exalar o alto conceito que dele Roma faz. De modo vago, mencionada ser\u00e1 a ambi\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar. Que C\u00e9sar se acautele depois disso, pois vai conosco ter muito servi\u00e7o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"jcat13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Trov\u00f5es e rel\u00e2mpagos. Por lados diferentes entram Casca, de espada em punho, e C\u00edcero.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00cdCERO \u2014 Boa Noite, Casca. Acompanhastes C\u00e9sar? Por que estais alterado e assim sem f\u00f4lego?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 N\u00e3o ficais comovido, quando tre\u00admem os pilares da terra, como coisa sem resist\u00eancia? \u00d3 C\u00edcero! J\u00e1 tenho presenciado borrascas em que os ventos ralhadores fendiam os nodosos carvalhos, e j\u00e1 vi o oceano altivo, cheio de espuma e raiva, intumescer-se como se desejasse ir at\u00e9 \u00e0s nuvens amea\u00e7adoras. Mas at\u00e9 hoje \u00e0 noite, at\u00e9 agora, jamais atravessei borrasca que chovesse apenas fogo. Ou h\u00e1 guerra civil no firmamento, ou este mundo, insolente em demasia com rela\u00e7\u00e3o aos deuses, os incita a enviar-nos destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00cdCERO \u2014 J\u00e1 presenciastes nada mais es\u00adpan\u00adto\u00adso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Um vil escravo \u2014 conhecei-lo de vista \u2014 levantou a m\u00e3o esquerda que queimava e ardia tal como vinte tochas. No entretanto, a m\u00e3o, sem perceber o ardor do figo, permanecia intacta. Al\u00e9m de tudo \u2014 desde esse instante n\u00e3o guardei a espada \u2014 encontrei um le\u00e3o no Capit\u00f3lio que em mim o olhar fixou e, sem tocar-me, prosseguiu, a rosnar, o seu caminho. Uma centena de mulheres p\u00e1lidas num grupo se apinhavam mais adiante, transtornadas de medo, e que juravam ter visto homens de fogo pelas ruas. E ontem de dia o p\u00e1ssaro da noite desceu at\u00e9 ao mercado, enchendo os ares de pios e gemidos. Sempre que esses prod\u00edgios a tal ponto se congregam, n\u00e3o me venham dizer: \u201cT\u00eam suas causas, s\u00e3o fatos naturais!\u201d pois estou certo de que s\u00e3o coisas de funesto agouro para a regi\u00e3o desta arte assinalada.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00cdCERO \u2014 Nossa \u00e9poca \u00e9 realmente muito estranha. Mas os homens os fatos interpretam conforme bem entendem, sem dar cr\u00e9dito aos fins dos pr\u00f3prios fatos. Vir\u00e1 C\u00e9sar ao Capit\u00f3lio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Vem, depois disse a Ant\u00f4nio que vos participasse isso amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00cdCERO \u2014 Ent\u00e3o, boa noite, Casca; n\u00e3o devemos sair \u00e0 rua com um tempo destes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Boa noite, C\u00edcero.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai C\u00edcero.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e1ssio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quem est\u00e1 ai?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Um romano.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Se a voz \u00e9 dele, \u00e9 Casca.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 \u00d3timo ouvido, C\u00e1ssio. Mas que noite!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Noite agrad\u00e1vel para gente ho\u00adnes\u00adta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Quem amea\u00e7as do c\u00e9u j\u00e1 viu desta arte?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Os que a terra conhecem por faltosa. Por minha parte, atravessei as ruas expondo-me aos perigos desta noite, e assim, desabotoado, como vedes, o peito ofereci ao duro raio. E quando parecia que o rel\u00e2mpago azul em cruz ao c\u00e9u rasgava o peito, no alvo me punha de seu forte brilho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Por que tentais os c\u00e9us dessa maneira? Os mortais deveriam mostrar medo, quando os deuses potentes nos enviam sinais terr\u00edveis para aterrorar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sois lerdo, Casca; ou careceis das vivas centelhas que devia haver no peito de todos os romanos, ou, se as tendes, n\u00e3o fazeis uso delas. Estais p\u00e1lido, olhais estarrecido, revelando-vos cheio de medo e espanto ante o espet\u00e1culo da c\u00f3lera dos c\u00e9us pouco freq\u00fcentes. Mas se a escrutar as verdadeiras causas vos resolv\u00easseis desses fogos todos dos fantasmas errantes, desses p\u00e1ssaros e animais esquisitos; porque os velhos, os tolos e os meninos profetizam, porque essas coisas todas mudam tanto, suas leis, natureza, faculdades inatas em monstruosas apar\u00eancias, ver\u00edeis que se o c\u00e9u nelas infunde tal esp\u00edrito \u00e9 s\u00f3 para empreg\u00e1-las como instrumento de terror e aviso para os homens de uma \u00e9poca monstruosa. No entanto, Casca, eu poderia um homem nomear-te igual a esta terr\u00edvel noite, um homem que troveja e emite raios, abre sepulcros e espantoso ruge tal qual o le\u00e3o do Capit\u00f3lio, um homem que em si mesmo n\u00e3o \u00e9 mais poderoso do que eu ou tu, mas que cresceu por modo miraculoso, como todas essas estranhas erup\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Falas de C\u00e9sar, n\u00e3o \u00e9 verdade, C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Pouco importa quem seja. S\u00e3o dotados os romanos de m\u00fasculos e membros como nossos antepassados; mas, para desgra\u00e7a de todos, morto est\u00e1, bem morto, o esp\u00edrito de nossos pais, passando a governar-nos a alma de nossas m\u00e3es. Nossa paci\u00eancia no sofrer, nosso jugo, \u00e9 bem o ind\u00edcio de que somos mulheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 \u00c9 verdade; os senadores amanh\u00e3 \u2014 murmura-se \u2014 querem fazer de C\u00e9sar rei, podendo este usar a coroa em toda parte, no mar e em terra, exceto aqui na It\u00e1lia.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 sei como hei de usar a adaga. C\u00e1ssio h\u00e1 de libertar o pr\u00f3prio C\u00e1ssio da escravid\u00e3o. Deixais, para isso, \u00f3 deuses! os fracos fortes e, para isso, \u00f3 deuses! derrubais os tiranos. N\u00e3o h\u00e1 torre de pedra nem muralha de a\u00e7o duro, nem calabou\u00e7o infecto ou fortes elos que \u00e0 for\u00e7a possam resistir do esp\u00edrito. A vida, quando lassa dos entraves deste mundo, recursos n\u00e3o lhe faltam de p\u00f4r termo a si pr\u00f3pria. Se sei isso, sabe o resto do mundo que a parcela de tirania sob a qual eu gemo, poderei arroj\u00e1-la para longe no instante em que o quiser.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Trov\u00f5es<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Como eu, tamb\u00e9m. Assim, o es\u00adcra\u00advo tem nas m\u00e3os os meios de cancelar o pr\u00f3prio cativeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o, por que h\u00e1 de C\u00e9sar ser tirano? Pobre homem! N\u00e3o ficara sendo lobo, sei-o bem, se n\u00e3o visse que os romanos n\u00e3o passam de carneiros. Quem deseja fazer depressa uma fogueira deve come\u00e7ar por gravetos. Que refugo, que montoeira de lixo ou bagaceira deve ser Roma, para transformar-se no baixo material que serve apenas para luz emprestar a uma criatura t\u00e3o p\u00edfia quanto C\u00e9sar! Mas, \u00f3 dor! para onde me levaste! Eu talvez fale diante de quem \u00e9 escravo volunt\u00e1rio. Devo, pois, preparar minha resposta. Mas pouco importa; estou armado; todos os perigos me s\u00e3o indiferentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Falais a Casca, n\u00e3o a um desses homens zombadores e amigos de cochichos. Dai-me a m\u00e3o. Cabalai porque possamos reparar esses males, que hei de p\u00f4r-me junto dos que estiverem na dianteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Combinado. Ficai sabendo, Casca, que eu pude convencer alguns romanos mais bem intencionados a ajudarem-me numa empreitada, cujas conseq\u00fc\u00eancias podem ser arriscadas e gloriosas. Neste momento esperam-me no p\u00f3rtico de Pompeu, pois em noite assim medonha como a de hoje ningu\u00e9m vem para as ruas fazer agita\u00e7\u00e3o ou divertir-se. O aspecto e a inquieta\u00e7\u00e3o dos elementos parece-se com a empresa que intentamos: cheia de fogo e sangue e mui terr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Cuidado! A\u00ed vem vindo algu\u00e9m com pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 Cina; reconhe\u00e7o-o pelos passos. \u00c9 amigo. (<i>Entra Cina<\/i>) Cina, por que tanta pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Ia a vossa procura. Quem \u00e9 esse? Metelo C\u00edmber?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Casca, um associado de nosso planos. Cina, acaso esperam-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Muito me alegra. Mas que noite horr\u00edvel! Alguns dos nossos companheiros viram formas estranhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E eu, sou esperado, Cina? Res\u00adpon\u00addei logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Sim, esperam-vos. \u00d3 C\u00e1ssio! Se pu\u00add\u00e9s\u00adseis ga\u00adnhar o nobre Bruto para a causa!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ficai tranq\u00fcilo. Meu bondoso Cina, tomai este papel e ide dep\u00f4-lo na curul do pretor, para que Bruto tenha de ach\u00e1-lo; este outro, pela sua janela atirareis; este, com cera dever\u00e1 ser fixado ao p\u00e9 da est\u00e1tua do velho Bruto. Depois disso vinde \u00e0 sala de Pompeu, onde estaremos. D\u00e9cio Bruto e Treb\u00f4nio j\u00e1 est\u00e3o l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Salvo Metelo C\u00edmber, j\u00e1 est\u00e3o todos. \u00c0 vossa casa C\u00edmber foi buscar-vos. Vou logo distribuir estes bilhetes conforme me indicastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Isso feito, comparecei ao teatro de Pompeu. (<i>Sai Cina.<\/i>) Vinde, Casca. Eu e v\u00f3s, antes da aurora veremos Bruto em casa. J\u00e1 s\u00e3o nossas tr\u00eas partes dele, vindo a pertencer-nos o homem todo, ao primeiro assalto nosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Oh! Lugar muito grande ele tem sempre no cora\u00e7\u00e3o do povo. Tudo quanto de nossa parte parecera ofensa, sua reputa\u00e7\u00e3o, com alquimia poderosa, em virtude transmudara e em m\u00e9rito elevado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Com justeza o indiv\u00edduo apre\u00adcias\u00adtes e seus m\u00e9ritos, e como precisamos dele. Vamos; passa de meia-noite. Antes do dia teremos de acord\u00e1-lo e conquist\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. No jardim de Bruto. Entra Bruto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ol\u00e1, L\u00facio! Eh! Pela altura dos astros n\u00e3o consigo saber quanto ainda falta para o dia. L\u00facio! N\u00e3o ouves? L\u00facio! Quem me dera ter sono assim pesado. L\u00facio! Acorda! Vamos, L\u00facio, levanta-te! N\u00e3o me ouves?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Chamaste-me, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 L\u00facio, p\u00f5e uma vela no meu quarto; e, depois de acend\u00ea-la, vem chamar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Preciso \u00e9 que ele morra. Eu, por meu lado, raz\u00e3o pessoal n\u00e3o tenho para odi\u00e1-lo, afora a do bem p\u00fablico. Deseja ser coroado. At\u00e9 onde influir\u00e1 isso em sua natureza, eis a quest\u00e3o. \u00c9 o dia claro que as serpentes chama, aconselhando-nos a andar com jeito. Ele, coroado? Sim, mas \u00e9 certeza com isso darmos-lhe um ferr\u00e3o, que o deixa capaz de realizar o mal que entenda. A grandeza exorbita, quando aparta da consci\u00eancia o poder. Para ser franco com rela\u00e7\u00e3o a C\u00e9sar, nunca soube que as paix\u00f5es ou a raz\u00e3o nele tivessem qualquer preponder\u00e2ncia. Mas \u00e9 coisa sabida em demasia que a humildade para a ambi\u00e7\u00e3o nascente \u00e9 boa escada. Quem ascende por ela, olha-a de frente; mas, uma vez chegado bem no cimo, volta-lhe o dorso, e as nuvens, s\u00f3, contempla, desprezando os degraus por que subira. C\u00e9sar assim far\u00e1. Antes que o fa\u00e7a, ser\u00e1 bom prevenir. E, como a luta n\u00e3o poder\u00e1 alegar o que ele \u00e9 agora, argumentemos que se a sua ess\u00eancia vier a ser aumentada, \u00e9 bem poss\u00edvel que incorra em tais e tais extremidades. Consideremo-lo ovo de serpente que, chocado, por sua natureza, se tornar\u00e1 nocivo. Assim, matemo-lo, enquanto est\u00e1 na casca.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor, j\u00e1 est\u00e1 no quarto a vela acesa. Ao procurar, senhor, a pederneira na janela, encontrei este papel, selado como est\u00e1. Tenho certeza de que l\u00e1 n\u00e3o se achava, no momento em que fui para a cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vai deitar-te novamente; ainda \u00e9 noite. Mas, menino, n\u00e3o s\u00e3o os idos, amanh\u00e3, de mar\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o sei senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vai ver no calend\u00e1rio e vem dizer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Perfeitamente, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Os meteoros que zunem pelos ares clareiam tanto que \u00e9 poss\u00edvel ler. (<i>Abre a carta.<\/i>) \u201cBruto, dormes. Desperta e te contempla! Dever\u00e1 Roma, etc. Fala, fere, conserta o que est\u00e1 torto! Bruto, dormes. Desperta!\u201d Insinua\u00e7\u00f5es como esta me t\u00eam sido jogadas no caminho \u201cDever\u00e1 Roma, etc.\u201d A mim compete acrescentar o resto: Dever\u00e1 Roma ter pavor de um homem? Como? Roma? Tarqu\u00ednio foi expulso de suas ruas por meus antepassados, ao ser nomeado rei. \u201cFala, fere, conserta o que est\u00e1 torto!\u201d assim, me incitam a falar e a ferir? \u00d3 Roma! Tenho contigo o juramento de, no caso de haver repara\u00e7\u00e3o, das m\u00e3os de Bruto satisfa\u00e7\u00e3o completa receberes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Meu senhor, j\u00e1 expirou o d\u00e9cimo quarto dia do m\u00eas de mar\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Bem. Bateram; vai ver quem \u00e9. (<i>Sai L\u00facio.<\/i>) N\u00e3o durmo desde o instante em que me incitou C\u00e1ssio contra C\u00e9sar. Entre a realiza\u00e7\u00e3o de algum projeto pavoroso e a primeira id\u00e9ia dele, o intervalo \u00e9 um fantasma, um sonho horr\u00edvel. O g\u00eanio e os mortais \u00f3rg\u00e3os permanecem em conselho, ficando o estado do homem, como um pequeno reino, a sofrer todos os males inerentes \u00e0s revoltas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor, vosso irm\u00e3o C\u00e1ssio \u00e9 que est\u00e1 \u00e0 porta; deseja conversar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Est\u00e1 s\u00f3?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o, senhor; est\u00e3o com ele outras pessoas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Reconheceste algu\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ningu\u00e9m, senhor; o chap\u00e9u todos trazem bem puxado, e no manto escondido, quase, o rosto, raz\u00e3o de n\u00e3o poder reconhec\u00ea-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ent\u00e3o faze-os entrar. (<i>Sai L\u00facio.<\/i>) Conspira\u00e7\u00e3o, se \u00e0 noite tens vergonha de descobrir o rosto perigoso, quando os males circulam livremente: onde achar\u00e1s, ent\u00e3o, durante o dia, caverna assaz escura, porque o rosto monstruoso esconder possas? N\u00e3o procures, conspira\u00e7\u00e3o, caverna desse jeito; esconde-o entre sorrisos e mesuras, pois se sob teu aspecto verdadeiro resolveres andar, nem o pr\u00f3prio \u00c9rebo ser\u00e1 bastante escuro porque possa livrar-te de ser vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram os conspiradores C\u00e1ssio, Casca, D\u00e9cio, Cina, Metelo C\u00edmber e Treb\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bom dia, Bruto. Acaso in\u00adco\u00admo\u00adda\u00admos? Receio que sejamos importunos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o dormi at\u00e9 agora; a noite inteira tenho estado de p\u00e9. Essas pessoas s\u00e3o minhas conhecidas?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Todas elas. N\u00e3o h\u00e1 entre os presentes quem n\u00e3o fa\u00e7a alto ju\u00edzo de v\u00f3s, sendo desejo de todos que tiv\u00e9sseis de v\u00f3s pr\u00f3prio o conceito que tem todo romano de nobre e honrado sangue. Este \u00e9 Treb\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Seja bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Este outro \u00e9 D\u00e9cio Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tamb\u00e9m bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Aqui, Casca; aqui, Cina; e este, Metelo C\u00edmber.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sejam todos bem-vindos. Que cuidados vigilantes se vos interpuseram entre os olhos e esta noite agitada?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Poderemos dizer uma palavra?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Bruto e C\u00e1ssio conversam baixo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Deste lado fica o nascente. O sol n\u00e3o nasce ali?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Perd\u00e3o, senhor, mas nasce. Aquelas raias cinzentas pelas nuvens anunciam que o dia vai nascer.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Haveis agora de confessar que estais muito enganados. Deste ponto que minha espada mostra \u00e9 que o sol se levanta, o qual j\u00e1 avan\u00e7a bastante para o sul e a saz\u00e3o jovem do ano consigo leva. Mais dois meses, e h\u00e1 de ele ao norte conduzir os raios. O alto nascente, como o Capit\u00f3lio, fica diretamente deste lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Dai-me as m\u00e3os; um por um.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ora juremos nossa resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 De forma alguma; nada de ju\u00adra\u00admen\u00adtos. Se o conspecto dos homens, o que na alma j\u00e1 sofremos, os abusos do tempo, se tudo isso n\u00e3o for motivo suficiente, nesse caso ser\u00e1 melhor n\u00e3o prosseguirmos e aos leitos pregui\u00e7osos retornarmos. Que fa\u00e7a o que entender a tirania, sorteando nossa morte quando o queira. Por\u00e9m se essas raz\u00f5es, do que estou certo, contam fogo bastante para os pr\u00f3prios covardes inflamar e deixar rijo o esp\u00edrito male\u00e1vel das mulheres: ent\u00e3o, concidad\u00e3os, que outros ac\u00faleos, al\u00e9m de nossa causa, serviriam de espica\u00e7ar-vos para o desagravo? Que outro liame mais forte, do que terem empenhado romanos fidedignos a palavra, sem virem a quebr\u00e1-la? Que melhor juramento, do que a pr\u00f3pria honestidade \u00e0 honestidade aliada no compromisso de fazer tal coisa, ou de morrer na empresa? Fa\u00e7am juras os padres, os covardes e os astutos, e esses tipos sem fibra, e as almas t\u00edmidas que sa\u00fadam, de grado, as injusti\u00e7as. Jure nas ruins causas essa gente que inspira desconfian\u00e7a. N\u00e3o manchemos, por\u00e9m, a alta virtude desta empresa nem nosso irresist\u00edvel ardimento, com admitir que exige nossa causa, nossa resolu\u00e7\u00e3o, alguma jura. Porque todas as gotas, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima, do sangue de um romano, e sangue nobre, ficariam pass\u00edveis da suspeita de bastardia, se ele a quebrar viesse a menor parte da palavra dada.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E C\u00edcero? Conv\u00e9m sond\u00e1-lo, acaso? \u00c9 quase certo que nos apoiara com bastante entusiasmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 \u00c9 conveniente termo-lo ao nosso lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Oh! Seguremo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">METELO \u2014 Precisamos ganh\u00e1-lo para a causa. Seus cabelos prateados nos granjeiam valiosas opini\u00f5es e v\u00e3o trazer-nos vozes que recomendem nossos feitos. Dir-se-\u00e1 que as m\u00e3os tivemos dirigidas por seu entendimento, n\u00e3o deixando seu venerando aspecto que se note quanto h\u00e1 de tumultuoso e irrefletido em nossa mocidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Oh! N\u00e3o o nomeeis. N\u00e3o lhe con\u00adte\u00admos nada, que ele nunca tomar\u00e1 parte em algo cuja id\u00e9ia parta de outra pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ent\u00e3o deixemo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Realmente, n\u00e3o conv\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Al\u00e9m de C\u00e9sar, ningu\u00e9m mais cair\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Mui bem pensado, D\u00e9cio. No meu modo de ver todo esse assunto. Marco Ant\u00f4nio, t\u00e3o amado de C\u00e9sar, n\u00e3o devia sobreviver a C\u00e9sar. Haveremos de encontrar nele um h\u00e1bil intrigante. Sabeis que se ele lan\u00e7ar m\u00e3o dos meios de que disp\u00f5e, nos ir\u00e1 dar trabalho. A fim de evitar isso, \u00e9 conveniente que Ant\u00f4nio e C\u00e9sar caiam.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sanguin\u00e1ria parecera essa em\u00adpre\u00adsa, Caio C\u00e1ssio, se a cabe\u00e7a cort\u00e1ssemos e os membros fiz\u00e9ssemos em postas, como a c\u00f3lera assassina a que a inveja, depois, segue. Membro de C\u00e9sar \u00e9 Ant\u00f4nio, apenas. Caio, sejamos sacrificadores, n\u00e3o carniceiros. Todos n\u00f3s estamos agora contra o esp\u00edrito de C\u00e9sar, e no esp\u00edrito do homem n\u00e3o h\u00e1 sangue. Se o esp\u00edrito de C\u00e9sar ating\u00edssemos, sem desmembrarmos C\u00e9sar! Imposs\u00edvel, infelizmente. Assim, por causa dele, C\u00e9sar tem de sangrar. Nobres amigos, cortemo-lo em peda\u00e7os como prato para os deuses, em vez de mutil\u00e1-lo como carca\u00e7a pr\u00f3pria para c\u00e3es. Que nossos cora\u00e7\u00f5es procedam como certos amos astutos, que d\u00e3o ordem aos servos para um ato de viol\u00eancia, fingindo censur\u00e1-los depois disso. Assim, parecer\u00e1, quanto fizermos, necess\u00e1rio, sem laivo algum de inveja, o que aos olhos do povo h\u00e1 de ensejar-nos sermos chamados purificadores, n\u00e3o assassinos. Quanto a Marco Ant\u00f4nio, n\u00e3o penseis nele; s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel que ele chegue aonde for a m\u00e3o de C\u00e9sar, quando a cabe\u00e7a a C\u00e9sar deceparmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Apesar disso, inspira-me receio; pois no amor arraigado que ele a C\u00e9sar&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ora, bondoso C\u00e1ssio, deixai disso! Se ele ama a C\u00e9sar, s\u00f3 contra ele pode refluir quanto fa\u00e7a: lastimar-se, morrer por C\u00e9sar, e isso ser\u00e1 muito, pois \u00e9 dado aos prazeres e \u00e0s loucuras, gostando de estar sempre acompanhado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TREB\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 de que temer; que fique vivo, para rir, em futuro, de tudo isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Um rel\u00f3gio bate horas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Paz! Contemos as horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Tr\u00eas pancadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">TREB\u00d4NIO \u2014 J\u00e1 \u00e9 hora de irmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Mas \u00e9 duvidoso que C\u00e9sar hoje saia; ultimamente tem-se mostrado mui su\u00adpers\u00adti\u00adci\u00adoso, ao inv\u00e9s do que era antes, no tocante aos sacrif\u00edcios, fantasia e sonhos. \u00c9 bem poss\u00edvel que os prod\u00edgios claros desta noite, o terror inusitado e a palavra dos \u00e1ugures o impe\u00e7am de ir hoje ao Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Deixai isso por minha conta. Caso ele resolva por esse modo, sei como dobr\u00e1-lo. Gosta de ouvir dizer que os unic\u00f3rnios com \u00e1rvores se pegam, com espelhos os ursos, os le\u00f5es com fortes redes, os elefantes com profundas covas e os homens com lisonjas. Mas, se digo que ele detesta aduladores, d\u00e1-me raz\u00e3o, sem perceber quanto se deixa levar pela lisonja mais patente. Deixai-me trabalhar; saberei dirigir-lhe a fantasia, sendo certo lev\u00e1-lo ao Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vamos todos busc\u00e1-lo \u00e0 casa dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c0s oito em ponto, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 O mais tardar. \u00c9 preciso que nisso ningu\u00e9m falte.<\/p>\n<p align=\"justify\">METELO \u2014 Caio Lig\u00e1rio n\u00e3o suporta C\u00e9sar, que censurou umas palavras suas em louvor de Pompeu. Estranho muito nenhum de v\u00f3s ter-se lembrado dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Passai em casa dele, bom Metelo; dedica-me afei\u00e7\u00e3o, tendo-lhe eu dado motivo para tanto. Ele que venha falar-me, que hei de em pouco convenc\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A manh\u00e3 nos alcan\u00e7a. Am\u00e1vel Bruto, vamos partir. Amigos, dispersemo-nos, mas lembrai-vos de tudo o que dissestes e mostrai-vos romanos verdadeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Cavalheiros, mostrai semblante alegre, sem revelar no olhar nossos protestos. Imitai nisso os nossos comediantes, com vivo esp\u00edrito e formal const\u00e2ncia. E agora, adeus; bom dia para todos. (<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Bruto.<\/i>) Pequeno! L\u00facio! Adormeceu de novo? Ora, que mal h\u00e1 nisso? Goza o orvalho doce e grave do sono. N\u00e3o te inquietam esses fantasmas e as vis\u00f5es que o zelo sempre ativo nos c\u00e9rebros engendra. Por isso dormes t\u00e3o profundamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra P\u00f3rcia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Querido esposo! Bruto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 P\u00f3rcia, que houve! Por que vos le\u00advan\u00adtas\u00adtes? \u00c9 imprud\u00eancia expor o corpo gr\u00e1cil aos rigores de uma manh\u00e3 t\u00e3o fria.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 O mesmo eu digo com rela\u00e7\u00e3o a v\u00f3s. Por modo pouco delicado fugistes-me do leito, e ontem \u00e0 noite, \u00e0 ceia, bruscamente vos levantastes e, de m\u00e3os nas costas, vos pusestes a andar de um lado e do outro, a meditar e a suspirar freq\u00fcente. E ao perguntar-vos o que acontecera, em mim fixastes um olhar severo. Insisti; a cabe\u00e7a, ent\u00e3o, co\u00e7ando, no solo o p\u00e9 batestes impaciente. N\u00e3o desisti, contudo, sem resposta nenhuma obter, afora me acenardes com a m\u00e3o, como a indicar que vos deixasse. Obedeci, de medo que pudesse irritar ainda mais a impaci\u00eancia que parecia estar t\u00e3o inflamada, afagando a esperan\u00e7a de que tudo fosse efeito do humor que em nosso esp\u00edrito tem, por vezes, suas horas. O apetite vos tirou esse humor, n\u00e3o vos deixando dormir nem conversar, de tal maneira predominando sobre vosso esp\u00edrito e a forma vos mudando, que at\u00e9 eu pr\u00f3pria, Bruto, vos desconhe\u00e7o. Caro esposo, comunicai-me a causa dessa m\u00e1goa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o me sinto disposto; \u00e9 apenas isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Bruto \u00e9 s\u00e1bio; se doente ele es\u00adti\u00adves\u00adse, procuraria os meios de curar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 o que fa\u00e7o, realmente, boa P\u00f3rcia; ide deitar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Bruto est\u00e1 doente&#8230; \u00c9 saud\u00e1vel, ent\u00e3o, sair de casa mal vestido e aspirar este humor \u00famido da manh\u00e3? Como! Bruto est\u00e1 doente, e se esgueira do leito agasalhado, para expor-se ao cont\u00e1gio vil da noite, a este ar assim t\u00e3o \u00famido e nocivo, para aumentar seus males? N\u00e3o, meu Bruto, no esp\u00edrito \u00e9 que tendes uma doen\u00e7a, que, por direito e obriga\u00e7\u00e3o de esposa, preciso conhecer. Assim, de joelhos, pela beleza que j\u00e1 me elogiastes, pelas juras de amor que me fizestes e por aquele voto t\u00e3o solene que nos uniu num corpo, uma pessoa fazendo de n\u00f3s dois: pe\u00e7o dizerdes-me, a mim, v\u00f3s pr\u00f3prio, a mim, vossa metade, o que vos deixa assim t\u00e3o pensativo e que homens eram esses que esta noite vos vieram procurar; sim, pois \u00e9 certo que aqui estiveram seis ou sete vultos que at\u00e9 da noite os rostos escondiam.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Gentil P\u00f3rcia, levanta-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 De joelhos n\u00e3o ficara, se fosseis gentil Bruto. Dizei-me, Bruto, se constava cl\u00e1usula no contrato do nosso casamento, segundo a qual eu nunca deveria tomar conhecimento dos assuntos que vos tocam de perto. Eu sou v\u00f3s pr\u00f3prio, mas, por assim dizer, com toda sorte de restri\u00e7\u00f5es? Apenas para o leito vos partilhar, estar convosco \u00e0 mesa, e conversar por vezes? Moro apenas no sub\u00farbio de vossa inclina\u00e7\u00e3o? Se for assim, esposa n\u00e3o \u00e9 P\u00f3rcia de Bruto, mas apenas concubina.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sois minha honrada e verdadeira esposa, t\u00e3o cara como as gotas que me afluem ao triste cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Se fosse certo quando dizeis, saber eu deveria qual seja esse segredo. Sou, de fato, mulher; mas a mulher que o senhor Bruto escolheu para esposa. Sou, de fato, mulher; por\u00e9m mulher mui respeitada: sou filha de Cat\u00e3o. Pensais que, tendo tal pai e tal marido, eu n\u00e3o consiga. vencer o pr\u00f3prio sexo? Revelai-me vossos segredos, que hei de ser discreta. H\u00e1 pouco pus minha const\u00e2ncia \u00e0 prova, em mim mesma causando esta ferida, aqui, na coxa. A dor suportaria com paci\u00eancia e os segredos n\u00e3o guardara que o esposo me confiasse?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00d3 deuses! deuses! Deixai-me digno de t\u00e3o nobre esposa! (<i>Batem.<\/i>) Escuta! Est\u00e3o batendo. P\u00f3rcia, afasta-te, que pouco a pouco ao seio hei de contar-te quanto ora o cora\u00e7\u00e3o me traz inquieto. Revelar-te-ei meus compromissos todos, quanto se l\u00ea neste semblante triste. Sai logo. (<i>Sai P\u00f3rcia.<\/i>) L\u00facio, algu\u00e9m bateu \u00e0 porta?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta L\u00fac\u00edo, com Lig\u00e1rio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 uma pessoa doente, que convosco deseja conversar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Caio Lig\u00e1rio, de que falou Metelo! Fica \u00e0 parte, menino. Ent\u00e3o, Caio Lig\u00e1rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">LIG\u00c1RIO \u2014 De uma d\u00e9bil l\u00edngua aceitai muito bom dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Oh! que tempo escolhestes, bravo Caio, para estar doente! Se estiv\u00e9sseis s\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">LIG\u00c1RIO \u2014 Estarei bom, se em mente tiver Bruto qualquer a\u00e7\u00e3o digna do nome da honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tenho em mente essa a\u00e7\u00e3o, Caio Lig\u00e1rio, se ouvido s\u00e3o tiverdes para ouvi-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">LIG\u00c1RIO \u2014 Oh! pelos deuses ante os quais se curvam os romanos, liberto-me da doen\u00e7a. Alma de Roma! Bravo filho, oriundo de rins honestos! Tal como exorcista, conjuraste-me o esp\u00edrito dolente. Manda agora que eu corra, pois me sinto capaz de empreender coisas imposs\u00edveis e sair vencedor. Que h\u00e1 por fazer?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Algo capaz de deixar bom os doentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LIG\u00c1RIO \u2014 E n\u00e3o teremos de deixar doente algu\u00e9m que ainda est\u00e1 s\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Isso tamb\u00e9m. O que seja, meu Caio, hei de contar-te em caminho do ponto em que tivermos de executar o ato.<\/p>\n<p align=\"justify\">LIG\u00c1RIO \u2014 Ide na frente que, com o peito inflamado, hei de seguir-vos, para realizar o que ainda ignoro. Basta ser Bruto o guia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ent\u00e3o segui-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat22\" name=\"jcat22\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Em casa de C\u00e9sar. Trov\u00f5es e rel\u00e2mpagos. Entra C\u00e9sar, em camisa de dormir.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 N\u00e3o ficaram em paz o c\u00e9u e a terra durante toda a noite. Em meio ao sono, por tr\u00eas vezes gritou Calp\u00farnia: \u201cAcudam!\u201d \u201cEst\u00e3o matando C\u00e9sar!\u201d \u2014 \u201cVenha algu\u00e9m!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Manda que os sacerdotes sa\u00adcri\u00adfi\u00adquem e traze-me depressa um bom aug\u00fario.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Calp\u00farnia<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 C\u00e9sar, que pre\u00adten\u00addeis? Quereis sair? N\u00e3o poreis hoje o p\u00e9 fora de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 C\u00e9sar sair\u00e1. As coisas que me amea\u00e7am, s\u00f3 me olham pelas costas; quando devem de C\u00e9sar ver o rosto, j\u00e1 sumiram.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 C\u00e9sar, jamais dei cr\u00e9dito a prod\u00edgios, mas ora tenho medo. A\u00ed dentro h\u00e1 algu\u00e9m que a tudo que n\u00f3s vimos e escutamos acrescenta vis\u00f5es apavorantes que aos guardas esta noite apareceram. Uma leoa na rua teve o parto; abriram-se sepulcros, expulsando seus mortos; pelas nuvens incendiados guerreiros digladiavam em fileiras e esquadr\u00f5es ordenados, como em guerra, tendo sangue manchado o Capit\u00f3lio. Agitava-se no ar a gritaria da batalha; cavalos relinchavam; gemiam moribundos, e os fantasmas, dando gritos, as ruas percorriam. \u00d3 C\u00e9sar! essas coisas ultrapassam a comum experi\u00eancia e me amedrontam.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Podemos evitar o que por meta assentaram os deuses poderosos? Apesar disso, C\u00e9sar vai sair, pois essas predi\u00e7\u00f5es se relacionam tanto ao mundo em geral como a ele apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 Quando morrem mendigos n\u00e3o se v\u00eaem surgir cometas, mas o c\u00e9u se incumbe de iluminar a morte dos monarcas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Muito antes de morrer, morre o covarde; s\u00f3 uma vez o homem forte prova a morte. Das coisas raras de que tenho ci\u00eancia, sempre me pareceu a mais estranha terem os homens medo, embora saibam que a morte, um fim a todos necess\u00e1rio, vem quando vem. (<i>Volta o criado.<\/i>) Os \u00e1ugures que dizem?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Que n\u00e3o deveis hoje sair de casa. Retirando da v\u00edtima as entranhas, verificaram que ao animal faltava o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Os deuses fazem isso para vergonha, s\u00f3, da covardia. C\u00e9sar fora animal sem cora\u00e7\u00e3o, se hoje, de medo, n\u00e3o sa\u00edsse \u00e0 rua. N\u00e3o; C\u00e9sar vai sair. Sabe o perigo que mais do que ele \u00e9 C\u00e9sar perigoso. Somos dois le\u00f5es, nascidos num s\u00f3 dia; mas o mais velho eu sou e o mais terr\u00edvel. C\u00e9sar sair\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 \u00d3 meu senhor! Anula-se vossa sabedoria ante esse arrojo. N\u00e3o saiais hoje. Declarai a todos que o que vos prende em casa \u00e9 o meu receio, n\u00e3o o vosso. Mandaremos ao senado Marco Ant\u00f4nio, incumbido de dizer-lhes que n\u00e3o vos sentis bem. Que assim, de joelho, eu consiga de v\u00f3s alcan\u00e7ar isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Marco Ant\u00f4nio dir\u00e1 que estou in\u00addis\u00adpos\u00adto; para agradar-te ficarei em casa. (<i>Entra D\u00e9cio.<\/i>) Eis D\u00e9cio Bruto; ele dar\u00e1 o recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Salve, C\u00e9sar! Bom dia, digno C\u00e9sar. S\u00f3 vim para levar-vos ao senado.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Chegais na hora precisa, para aos dignos senadores levardes meus saudares e lhes comunicar que hoje n\u00e3o saio. Que n\u00e3o posso&#8230; seria uma mentira. N\u00e3o me atrevo&#8230; pior. Dize-lhes, D\u00e9cio, apenas que hoje n\u00e3o sairei de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALP\u00daRNIA \u2014 Podeis acrescentar que ele est\u00e1 doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 C\u00e9sar pode mentir? Teria, acaso, t\u00e3o longe o bra\u00e7o posto nas conquistas, para vir a ter medo de a verdade dizer a uns barbas-brancas? D\u00e9cio, dize-lhes que C\u00e9sar n\u00e3o sair\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Mui poderoso C\u00e9sar, contai-me alguma causa, ao menos, porque de mim n\u00e3o riam ao falar-lhes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Minha vontade \u00e9 a causa: n\u00e3o sairei. Como raz\u00e3o para o senado, basta. Mas, porque vos estimo, para vossa satisfa\u00e7\u00e3o, vou ser-vos mais expl\u00edcito. Minha esposa, Calp\u00farnia, \u00e9 que me prende, n\u00e3o querendo que eu saia. Viu, em sonho, minha est\u00e1tua, esta noite, como fonte que despejava sangue por cem bocas, na qual as m\u00e3os banhavam, sorridentes e robustos romanos. Ela toma semelhante vis\u00e3o como advert\u00eancia de perigo iminente e mau agouro, tendo, de joelho, suplicado que hoje de casa eu n\u00e3o sa\u00edsse.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Mas o sonho foi mal interpretado! \u00c9 auspiciosa toda a vis\u00e3o e de feliz agouro. Vossa est\u00e1tua a jorrar por muitos canos o sangue em que romanos sorridentes mergulhavam as m\u00e3os, \u00e9 sinal certo de que de v\u00f3s h\u00e1 de tirar mui breve sangue renovador a grande Roma, empenhando-se os homens mais ilustres por alcan\u00e7ar de v\u00f3s bras\u00f5es mais novos, rel\u00edquias e penhores. Isso, apenas, \u00e9 o que revela o sonho de Calp\u00farnia.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Mui bem o interpretaste desse modo:<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 M\u00e1xime, quando ouvirdes o que tenho para comunicar. Ouvi, portanto. Decidiu o senado ofertar hoje uma coroa ao poderoso C\u00e9sar. Se ficardes em casa e lhes mandardes recado por algu\u00e9m, nesse sentido, talvez mudem de id\u00e9ia. Al\u00e9m do mais, poder\u00e3o pilheriar a esse respeito, se algu\u00e9m vier a dizer: \u201cSer\u00e1 prudente adiarmos a sess\u00e3o at\u00e9 que a esposa de C\u00e9sar tenha sonhos mais risonhos\u201d. Pode a aus\u00eancia de C\u00e9sar ser motivo de cochichar algu\u00e9m ao companheiro: \u201cOl\u00e1! C\u00e9sar tem medo\u201d. Perdoai-me, C\u00e9sar! Mas \u00e9 o amor profundo por quanto vos atinja que me leva a criticar assim vossa atitude. E \u00e0 raz\u00e3o segue o amor sempre em tais casos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Calp\u00farnia, como o vosso medo agora se nos mostra rid\u00edculo! Envergonho-me de lhe ter dado ouvidos. Dai-me a toga, pois resolvi sair. (<i>Entram P\u00fablio, Bruto, Lig\u00e1rio, Metelo, Casca, Treb\u00f4nio e Cina<\/i>) Eis a\u00ed Metelo; veio buscar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00daBLIO \u2014 Salve, grande C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Sede bem-vindo, P\u00fablio. Como, Bruto! T\u00e3o cedo e j\u00e1 de p\u00e9? Bom dia, Casca. Caio Lig\u00e1rio, nunca vosso inimigo foi C\u00e9sar tanto, como agora a febre que vos deixou t\u00e3o magro. Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 C\u00e9sar, bateram oito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Muito grato vos sou pelo trabalho e cortesia. (<i>Entra Ant\u00f4nio.<\/i>) Vede! Ant\u00f4nio, que as noites passa em festa, j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9 t\u00e3o cedo. Salve, Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bom dia ao nobre C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Dai dentro ordem para que se preparem. A demora vai deixar-me pass\u00edvel de censura. Como? Cina e Metelo, ent\u00e3o? Treb\u00f4nio, temos uma horazinha de conversa. N\u00e3o vos esque\u00e7a visitar-me ainda hoje; ficai perto de mim, porque me lembre.<\/p>\n<p align=\"justify\">TREB\u00d4NIO \u2014 Pois n\u00e3o, C\u00e9sar. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) T\u00e3o perto hei de ficar, que h\u00e3o de querer os vossos partid\u00e1rios ver-me um pouco mais longe.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Entrai, amigos; bebamos vinho juntos. Depois disso, sigamos todos como bons amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Que o que parece igual nem sempre \u00e9 o mesmo, sangra ao pensar o cora\u00e7\u00e3o de Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat23\" name=\"jcat23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua perto do Capit\u00f3lio. Entra Artemidoro, lendo um papel.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ARTEMIDORO \u2014 C\u00e9sar, acautela-te de Bruto; toma cuidado com C\u00e1ssio; n\u00e3o te aproximes de Casca; fica de olho com Cina; n\u00e3o confies em Treb\u00f4nio; observa bem Metelo C\u00edmber; D\u00e9cio Bruto n\u00e3o te ama; ofendeste Caio Lig\u00e1rio. Todos esses homens est\u00e3o animados de uma \u00fanica inten\u00e7\u00e3o, que se volta contra C\u00e9sar. Se n\u00e3o fores imortal, olha \u00e0 volta de ti. A neglig\u00eancia favorece a conspira\u00e7\u00e3o. Que os deuses poderosos te defendam. Teu amigo Artemidoro. Esperarei a vinda, aqui, de C\u00e9sar, para dar-lhe isto como suplicante. O cora\u00e7\u00e3o confrange-se-me \u00e0 id\u00e9ia de que escapar jamais possa a virtude \u00e0s dentadas da inveja. Se me leres, \u00f3 C\u00e9sar! viver\u00e1s. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 que o destino tamb\u00e9m te \u00e9 nef\u00e1rio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat24\" name=\"jcat24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Outra parte da mesma rua, em frente \u00e0 casa de Bruto. Entram P\u00f3rcia e L\u00facio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pequeno, por favor, corre ao senado. N\u00e3o percas tempo com respostas; corre! Que \u00e9 que aguardas?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhora, vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Quisera ter-te l\u00e1 e aqui de volta, sem que fosse preciso mandar nada. Assiste-me, firmeza! N\u00e3o me deixes, e entre meu cora\u00e7\u00e3o e a minha l\u00edngua p\u00f5e de permeio uma montanha ingente. Tenho coragem de homem, mas a for\u00e7a \u00e9 toda feminina. Qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 para uma mulher guardar segredo! Ainda est\u00e1s ai?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Que \u00e9 necess\u00e1rio fazer, minha senhora? Ao Capit\u00f3lio correr, mais nada? E retornar, mais nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Isso, menino. Traze-me not\u00edcia de teu amo. Ele bem n\u00e3o se sentia no instante de sair. E toma nota do que faz C\u00e9sar, quais os suplicantes que insistem junto dele. Quieto, L\u00facio! Que barulho foi esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o percebo barulho algum, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Fica atento! Ou\u00e7a um certo rumor, como de luta, que nos viesse trazido pelo vento dali do Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Sob palavra, minha senhora, mas n\u00e3o ou\u00e7o nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o adivinho.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Vem c\u00e1, amigo; vens vindo de que lado?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Do lado de onde moro, boa dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que horas j\u00e1 s\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Senhora, quase nove.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 C\u00e9sar se achar\u00e1 no Capit\u00f3lio?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Ainda n\u00e3o, senhora. Eu, justamente, vou procurar lugar, para que possa v\u00ea-lo, quando passar.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Tens um pedido para fazer a C\u00e9sar, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 Justamente, senhora. Caso C\u00e9sar ouvir-me queira por amor de C\u00e9sar, dir-lhe-ei que seja amigo de si mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Como assim? Tens not\u00edcia de que intentem algum dano contra ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 N\u00e3o prevejo nenhum mal conhecido, mas receio que possa acontecer muita desgra\u00e7a. Mas passai bem; a rua, aqui, \u00e9 estreita. A multid\u00e3o que marcha atr\u00e1s de C\u00e9sar, senadores, pretores, suplicantes de toda esp\u00e9cie, poderia, quase, matar um pobre velho. Vou postar-me num lugar mais folgado, porque possa de passagem falar ao grande C\u00e9sar. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Preciso ir para dentro. Oh! Como \u00e9 fr\u00e1gil o cora\u00e7\u00e3o de uma mulher! \u00d3 Bruto! O c\u00e9u te assista nesse em\u00adpreen\u00addi\u00admento! \u2014 O pequeno me ouviu, decerto. \u2014 Bruto tem um requerimento que n\u00e3o h\u00e1 de ser do gosto de C\u00e9sar. \u2014 Oh! Desmaio. Corre depressa. L\u00facio, recomenda-me ao meu senhor. D\u00e1-lhe not\u00edcias minhas. Estou alegre, dize-lhe; e retorna, porque sua resposta me repitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem por lados diferentes.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Diante do Capit\u00f3lio. O senado est\u00e1 em sess\u00e3o. Grande multid\u00e3o na rua do Capit\u00f3lio, na qual se v\u00eaem Artemidoro e o adivinho. Clarins. Entram C\u00e9sar, Bruto, C\u00e1ssio, Casca, D\u00e9cio, Metelo, Treb\u00f4nio, Cina, Ant\u00f4nio, Pop\u00edlio, P\u00fablio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR (<i>Ao adivinho<\/i>) \u2014 Chegaram os idos de mar\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADIVINHO \u2014 \u00c9 certo, C\u00e9sar; por\u00e9m ainda n\u00e3o passaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTEMIDORO \u2014 Salve, C\u00e9sar! L\u00ea este pedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Treb\u00f4nio pede que esta humilde s\u00faplica mais de espa\u00e7o por v\u00f3s seja atendida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTEMIDORO \u2014 \u00d3 C\u00e9sar! l\u00ea primeiro a minha, que ela toca a C\u00e9sar de perto. Grande C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Com o que nos diz respeito n\u00e3o h\u00e1 pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTEMIDORO \u2014 N\u00e3o demores, \u00f3 C\u00e9sar! L\u00ea depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Como! \u00c9 louco esse tipo?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00daBLIO \u2014 Sai, maroto! Arreda do lugar!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Que \u00e9 isso? Todos apresentam na rua as peti\u00e7\u00f5es? Entrai no Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>C\u00e9sar sobe para o senado; os demais o seguem. Os senadores se levantam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POP\u00cdLIO \u2014 Desejo que sejais bem sucedido no empreendimento de hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o compreendo, Pop\u00edlio, essas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">POP\u00cdLIO \u2014 Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Vai para perto de C\u00e9sar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que vos disse Pop\u00edlio Lena?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Votos para que nosso empreendimento de hoje seja bem sucedido. Tenho medo de que hajam descoberto nosso plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Observai bem como ele fala a C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Casca, h\u00e1 urg\u00eancia; receio, que possamos ser nisso antecipados. Bruto, que h\u00e1 de fazer-se? Se falharem nossos planos, ou C\u00e1ssio ou C\u00e9sar ficar\u00e1 sem vida, pois \u00e9 certo eu matar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sede firme, C\u00e1ssio; Pop\u00edlio Lena n\u00e3o lhe fala de nosso empreendimento. Est\u00e1 sorrindo, sem que C\u00e9sar altere a compostura.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Treb\u00f4nio tem no\u00e7\u00e3o do tempo. Vede, Bruto, como ele afasta Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ant\u00f4nio e Treb\u00f4nio. C\u00e9sar e os senadores se sentam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Metelo C\u00edmber onde esta? Que venha apresentar a C\u00e9sar seu pedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Est\u00e1 pronto; fiquemos perto dele, a fim de secund\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Sereis v\u00f3s, Casca, o primeiro a levantar o bra\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Estamos prontos? N\u00e3o h\u00e1 queixa alguma que C\u00e9sar e o Senado atender possam?<\/p>\n<p align=\"justify\">METELO \u2014 Muito alto, mui glorioso e forte C\u00e9sar, Metelo Cfmber joga ante o teu s\u00f3lio um cora\u00e7\u00e3o humilde. (<i>Ajoelha-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Antes de tudo, C\u00edmber, quero advertir-te: essas zumbaias e esses salamaleques porventura a um homem baixo o sangue agitar podem e mudar uma ordem j\u00e1 emitida e uma senten\u00e7a s\u00e9ria em lei de crian\u00e7a. N\u00e3o sejas tolo de pensar que C\u00e9sar tem sangue t\u00e3o rebelde, que se deixe esbulhar de sua for\u00e7a verdadeira pelo que os tolos enternece, apenas. Por isso entendo essas palavras doces, rever\u00eancias servis e essas car\u00edcias de c\u00e3o adulador. Teu irm\u00e3o se acha banido por decreto. Se te agachas, e acaric\u00edas, e por ele pedes, expulso-te daqui como a um cachorro. Deves saber que C\u00e9sar n\u00e3o \u00e9 injusto e que ningu\u00e9m, sem causa suficiente, consegue demov\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">METELO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 voz mais valiosa do que a minha que aos ouvidos do grande C\u00e9sar soe mais agradavelmente, para a volta do meu banido irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Beijo-te as m\u00e3os C\u00e9sar, mas sem lisonja, desejando que P\u00fablio C\u00edmber possa em breve tempo no gozo entrar de plena liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Como? Bruto!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Perd\u00e3o, C\u00e9sar! Perd\u00e3o! A esses p\u00e9s se ajoelha, humilde, C\u00e1ssio, para a volta pedir de P\u00fablio C\u00edmber.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Se eu fosse v\u00f3s, pudera comover-me. Se eu soubesse pedir, tamb\u00e9m seria male\u00e1vel aos pedidos. Mas sou firme como a estrela do norte, cuja ess\u00eancia constante e inabal\u00e1vel n\u00e3o encontra paralelo no vasto firmamento. Ornam os c\u00e9us in\u00fameras fa\u00edscas, de fogo todas e indiz\u00edvel brilho; mas uma apenas de lugar n\u00e3o muda. Assim, no mundo: de homens est\u00e1 cheio, homens de carne e sangue e intelig\u00eancia. Mas, em tamanha c\u00f3pia, um s\u00f3, conhe\u00e7o que, inatac\u00e1vel, seu lugar n\u00e3o deixa, sempre surdo a pedidos: sou esse homem. Deixai-me, pois, mostrar agora um pouco que, ao banir C\u00edmber, fui constante, como constante sou, no ex\u00edlio conservando-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 \u00d3 C\u00e9sar!&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Fora daqui! Queres virar o Olimpo?<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Grande C\u00e9sar!&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Bruto n\u00e3o se ajoelhou sem obter nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Bra\u00e7os, falai por mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Apunhalam C\u00e9sar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c9SAR \u2014 Et tu, Bruto? Ent\u00e3o, que morra C\u00e9sar. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Morreu a tirania! Liberdade! Proclamai pelas ruas! Liberdade!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Suba algu\u00e9m \u00e0s tribunas e proclame \u201cIndepend\u00eancia, liberdade e ordem!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Senadores e povo, ficai calmos; n\u00e3o precisais revelar medo; a d\u00edvida da ambi\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi paga.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Sobe ao p\u00falpito, Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 C\u00e1ssio tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Onde est\u00e1 P\u00fablio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Aqui, de todo desolado, \u00e0 vista dos acontecimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">METELO \u2014 Ficai juntos, para que n\u00e3o se d\u00ea que um dos amigos de C\u00e9sar&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o falemos disso agora; nada de ficar juntos. P\u00fablio, anima-te! Ningu\u00e9m pensa em fazer-te mal algum, nem a qualquer romano. Ide dizer-lhes isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Conv\u00e9m deixar-nos, P\u00fablio, para evitar que o povo, ao atacar-nos, vos cause dano \u00e0s c\u00e3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sim, fazei isso, e que n\u00e3o chame a si ningu\u00e9m esse ato, sen\u00e3o n\u00f3s, seus autores.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Treb\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Onde est\u00e1 Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">TREB\u00d4NIO \u2014 Em casa, estupefacto. Pais, m\u00e3es e filhos olham-se perplexos, correm em gritos, como se estiv\u00e9ssemos no dia do ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Fado, mostra o que de n\u00f3s pretendes. Que haveremos de morrer, j\u00e1 o sabemos; \u00e9 s\u00f3 o tempo e a sucess\u00e3o dos dias que a esse ponto deixa os homens aflitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CASCA \u2014 Quem vinte anos tira da vida, encurta de igual tempo o medo de morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se isso aceitarmos, ficar\u00e1 sendo a morte um benef\u00edcio. De C\u00e9sar somos, desse modo, amigos, pois o medo da morte encurtamos. Romanos, abaixai-vos! Abaixai-vos! Os bra\u00e7os mergulhemos neste sangue e com ele tinjamos as espadas. Sangue \u00e9 de C\u00e9sar. Depois disso, vamos \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica e, agitando os gl\u00e1dios en\u00adsan\u00adguen\u00adta\u00addos, a uma voz gritemos: \u201cIndepend\u00eancia, paz e liberdade!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Abaixai-vos, ent\u00e3o, e as m\u00e3os tingi. Quantas vezes, nos s\u00e9culos vindoiros, h\u00e1 de ser posto em cena nosso feito sublime, em povos por nascer e l\u00ednguas ainda n\u00e3o constitu\u00eddas!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Quantas vezes sangrar\u00e1 por brinquedo o grande C\u00e9sar, que aos p\u00e9s da est\u00e1tua de Pompeu se encontra valendo quanto o p\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Todas as vezes que isso se vir, de n\u00f3s dir-se-\u00e1 que fomos os que demos \u00e0 p\u00e1tria liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">D\u00c9CIO \u2014 Como \u00e9, vamos ou n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vamos, reunidos. \u00c0 testa marche Bruto; n\u00f3s os passos lhe enfeitaremos com romanos peitos de ousadia e firmeza inigual\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Quietos. Vem vindo algu\u00e9m. Ah! \u00c9 um amigo de Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Bruto, desse modo me ordenou meu senhor que eu me ajoelhasse, e assim, prostrado, me ordenou dizer-vos: Bruto \u00e9 valente, nobre, s\u00e1bio e honesto; C\u00e9sar foi grande, altivo, real e bom. Dize que eu amo a Bruto e sei honr\u00e1-lo. Dize-lhe mais que a C\u00e9sar eu temia, amava e honrava. Permitindo Bruto que, salvo, Ant\u00f4nio dele se aproxime, para saber de que maneira C\u00e9sar mereceu essa morte, Marco Ant\u00f4nio n\u00e3o h\u00e1 de amar C\u00e9sar defunto tanto quanto Bruto com vida, mas, fielmente, h\u00e1 de seguir as obras e o destino do nobre Bruto em todos os azares deste estado de coisas n\u00e3o trilhado. Assim falou meu amo Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Romano bravo e s\u00e1bio \u00e9 o teu senhor. Nunca o julguei ruim. Dize-lhe que se for do agrado dele vir at\u00e9 aqui, far-lhe-ei nisso a vontade, asseverando, sob palavra de honra, que partir\u00e1 ileso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Vou busc\u00e1-lo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sei que ele h\u00e1 de ficar sendo um dos nossos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 o que desejo; mas em mim se agita algo que o teme, e meus pressentimentos, por desgra\u00e7a, s\u00e3o sempre confirmados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Marco Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Eis Marco Ant\u00f4nio. S\u00ea bem-vindo, Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00d3 poderoso C\u00e9sar! T\u00e3o por baixo! Todas as tuas gl\u00f3rias, as conquistas, teus esp\u00f3lios e triunfos, a medida t\u00e3o pequena ficaram reduzidos? Adeus! N\u00e3o sei o que pensais, senhores, sobre os que ainda devem perder sangue, por ter sangue demais. Se achais preciso que eu o derrame, hora n\u00e3o h\u00e1 melhor do que esta em que deixou de viver C\u00e9sar, nem instrumento que em valor se iguale ao de vossas espadas, ora ricas do sangue mais precioso deste mundo. Suplico-vos, no caso de me terdes como suspeito, executai o intento sem perda de um instante, enquanto as rubras m\u00e3os ainda vos fumegam. Se eu vivesse mil anos, imposs\u00edvel fora achar-me t\u00e3o apto para morte como agora. Nenhum lugar me agradaria tanto para morrer, nem g\u00eanero de morte, como junto de C\u00e9sar, sendo eu morto pelos maiores homens de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o nos pe\u00e7as, Ant\u00f4nio, morte alguma. Embora pare\u00e7amos sanguin\u00e1rios neste momento, e cru\u00e9is, como nos mostra o ato por estas m\u00e3os levado a termo, vedes apenas nossas m\u00e3os e a empresa sanguinosa por elas realizada. Os cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o vedes; mas s\u00e3o todos compassivos. Assim, foi a piedade \u2014 tal como o fogo \u00e9 pelo fogo expulso, a piedade \u00e0 piedade d\u00e1 combate \u2014 que em C\u00e9sar isto fez. Nossas espadas, para v\u00f3s, Marco Ant\u00f4nio, s\u00e3o de chumbo. Nestes bra\u00e7os, isentos de mal\u00edcia, e em cora\u00e7\u00f5es de fraternal afeto, vos acolhemos com amor sincero, rever\u00eancia e inten\u00e7\u00f5es em tudo retas.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E na distribui\u00e7\u00e3o das dignidades nenhuma voz ser\u00e1 mais poderosa do que a vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pedimos-vos paci\u00eancia, t\u00e3o-somente, at\u00e9 ver se conseguimos acalmar este povo, que, de medo, ficou fora de si. Depois, diremos porque eu, que amava C\u00e9sar ao golpe\u00e1-lo, me decidi a realizar este ato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vossa sabedoria me conforta. D\u00eaem-me todos, agora, as m\u00e3os sangrentas. Primeiramente, Marco Bruto, a vossa; agora a vossa, Caio C\u00e1ssio; o mesmo faremos, D\u00e9cio Bruto; v\u00f3s Meteleo; v\u00f3s, tamb\u00e9m, Cina; v\u00f3s, valente Casca, e v\u00f3s, meu bom Treb\u00f4nio, conquanto o \u00faltimo n\u00e3o o menos querido. Cavalheiros&#8230; Ai de mim! Que direi? Neste momento minha reputa\u00e7\u00e3o se acha em terreno t\u00e3o escorregadio, que \u00e9 for\u00e7oso verdes-me por dois prismas igualmente deformadores: ou como covarde, ou como adulador. Que eu te votava, C\u00e9sar, amor sem par, oh! \u00e9 verdade. Se nos contempla agora o teu esp\u00edrito, n\u00e3o ser\u00e1 para ti mais doloroso que a pr\u00f3pria morte, veres teu Ant\u00f4nio fazer as pazes com teus inimigos \u2014 \u00f3 nobre C\u00e9sar! \u2014 diante de teu corpo? Se tantos olhos eu tivesse quantas feridas em ti vejo, porque todos l\u00e1grimas derramassem como o sangue que delas ora escorre! Melhor fora para mim, do que ter com teus inimigos conclu\u00eddo assim um pacto de amizade. Perd\u00e3o, meu J\u00falio. Como foste acuado, bravo cervo! Tombaste neste ponto; teus ca\u00e7adores aqui mesmo se acham, do esp\u00f3lio opimo altivos, e ainda rubros das \u00e1guas do teu Lete. \u00d3 mundo, foste deste cervo a floresta, bem como ele, teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Oh mundo! Como pareces onde te achas, uma ca\u00e7a por fidalgos altivos abatida!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Marco Ant\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Perdoa, Caio C\u00e1ssio. Poderiam ser ditas tais palavras por inimigos de C\u00e9sar; proferidas, por\u00e9m, por um amigo, ainda revelam muita modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o vos censuro por elogiardes C\u00e9sar desse modo. Mas como pretendeis ficar conosco? No n\u00famero inclu\u00eddo dos amigos? Seguiremos avante, sem que em nada dependamos de v\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Para isso mesmo apertei-vos as m\u00e3os; mas esqueceu-me no instante de ver C\u00e9sar. Sou amigo de todos v\u00f3s, e amor a todos voto, esperando que haveis de revelar-me porque e como era C\u00e9sar perigoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se n\u00e3o o fosse, isto tudo n\u00e3o passara de espet\u00e1culo selvagem. T\u00e3o razo\u00e1veis s\u00e3o os motivos que ora nos dirigem, que embora fosseis, Marco Ant\u00f4nio, filho de C\u00e9sar, ficar\u00edeis satisfeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o desejo outra coisa. Mas quisera tamb\u00e9m a permiss\u00e3o de p\u00f4r o corpo na pra\u00e7a do mercado e, como amigo do morto, discursar na cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pois n\u00e3o, Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bruto, uma palavra. (<i>\u00c0 parte, para Bruto<\/i>) N\u00e3o lhe deis permiss\u00e3o de ir \u00e0 tribuna, durante os funerais. Fazeis id\u00e9ia de como o povo poder\u00e1 deixar-se mover por seu discurso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Perd\u00e3o, C\u00e1ssio; mas eu, primeiro, falarei de p\u00fablico, para as raz\u00f5es expor do passamento do nosso C\u00e9sar. Quanto Marco Ant\u00f4nio disser depois, explicarei, \u00e9 feito com nossa permiss\u00e3o e inteiro acordo. E mais: que permitimos tenha C\u00e9sar todas as honras f\u00fanebres e os ritos que a lei faculta aos mortos Tiraremos de tudo mais vantagem do que dano.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Quem sabe o que da\u00ed resultar pode? Nada disso me agrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Marco Ant\u00f4nio, aqui tendes o corpo. No discurso f\u00fanebre n\u00e3o deveis lan\u00e7ar nenhuma censura sobre n\u00f3s. Dizei de C\u00e9sar todo o bem que quiserdes, explicando que permiss\u00e3o vos demos para tanto. A n\u00e3o ser isso, ficareis exclu\u00eddo das cerim\u00f4nias f\u00fanebres. E ainda: ser\u00e1 vossa ora\u00e7\u00e3o dita da mesma tribuna em que eu falar, quando conclu\u00eddo eu tiver o discurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mais do que isso n\u00e3o desejo. Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Prepara, ent\u00e3o, o corpo e vem conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00d3 peda\u00e7o de terra a verter sangue, perdoa o revelar-me humilde e brando com estes carniceiros! \u00c9s a ru\u00edna do mais nobre homem que jamais vivera na corrente do tempo. Ai, ai da m\u00e3o que fez correr t\u00e3o precioso sangue! Fa\u00e7o uma profecia em face destas feridas que, de bocas mudas, abrem os l\u00e1bios de rubi para pedir-me \u00e0 lingua voz e fala: sobre os homens pesar\u00e1 maldi\u00e7\u00e3o, lutas internas e uma guerra civil das mais terr\u00edveis todas as partes encher\u00e3o da It\u00e1lia; o sangue e a destrui\u00e7\u00e3o de tal maneira ficar\u00e3o familiares, que somente h\u00e1 se sorrir as m\u00e3es perante a vista dos filhos massacrados pela guerra; asfixiada a piedade vai tornar-se pelo h\u00e1bito do crime, e o grande esp\u00edrito de C\u00e9sar, sequioso de vingan\u00e7a, com Ate ao lado, rubra ainda do inferno, em tom de mando gritar\u00e1 por todos estes confins: \u201cNenhum quartel!\u201d enquanto desprende os c\u00e3es da guerra. Este ato horr\u00edvel emprestar\u00e1 a terra de cad\u00e1veres que reclamam condigna sepultura. (<i>Entra um criado.<\/i>) Servis a Ot\u00e1vio C\u00e9sar, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Perfeitamente, Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 C\u00e9sar lhe havia escrito que viesse a Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Recebeu sua carta e est\u00e1 em caminho, havendo-me ordenado que oralmente vos relatasse&#8230; (<i>Percebendo o cad\u00e1ver<\/i>) \u2014 Oh C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Tens glorioso cora\u00e7\u00e3o. Fica \u00e0 parte e chora a flux. \u00c9 contagiosa a dor, percebo-a agora, pois vendo-te nos olhos essas contas da tristeza, os meus sinto umedecidos. Teu amo, ent\u00e3o, vir\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Ainda esta noite dormiu a sete l\u00e9guas, s\u00f3, de Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o monta depressa e vai contar-lhe quanto aqui se passou. Uma lugente Roma \u00e9 esta, uma Roma perigosa, uma Roma que a Ot\u00e1vio n\u00e3o faculta nenhuma seguran\u00e7a. Vai depressa; relata-lhe o que viste. N\u00e3o! Espera. S\u00f3 ir\u00e1s depois que o corpo eu tiver posto na pra\u00e7a do mercado e haja sondado com minha ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre a maneira por que o povo interpreta as conseq\u00fc\u00eancias da a\u00e7\u00e3o desses sujeitos sanguin\u00e1rios. Conforme o resultado, ao mo\u00e7o Ot\u00e1vio contar\u00e1s em que p\u00e9 est\u00e3o as coisas. Dai-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem com o corpo de C\u00e9sar.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat32\" name=\"jcat32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O Foro. Entram Bruto e C\u00e1ssio, seguidos de grande n\u00famero de cidad\u00e3os.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Dai-nos explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ent\u00e3o, amigos, vinde comigo e me prestai ouvidos. Caio C\u00e1ssio, tomai por outra rua; dividamos o povo. Deixai aqui t\u00e3o-s\u00f3 os que ouvir-me queiram; os que quiserem ir com C\u00e1ssio, sigam-no. Ser\u00e3o ditos em p\u00fablico os motivos de havermos morto C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Eu n\u00e3o saio; quero ouvir Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Eu, C\u00e1ssio. Desse modo, confrontar poderemos os motivos de ambos, depois de ter ouvido \u00e0 parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai C\u00e1ssio com alguns cidad\u00e3os; Bruto sobe \u00e0 tribuna.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sede pacientes at\u00e9 o fim. Romanos, concidad\u00e3os e amigos! Ouvi a exposi\u00e7\u00e3o da minha causa e fazei sil\u00eancio, para que possais ouvir. Crede em minha honra e respeitai minha honra, para que possais acreditar nela. Julgai-me segundo vossa sabedoria e ficai com os sentidos despertos, para que possais julgar melhor. Se houver algu\u00e9m nesta reuni\u00e3o, algum amigo afetuoso de C\u00e9sar, dir-lhe-ei que o amor que Bruto dedicava a C\u00e9sar n\u00e3o era menor do que o dele. E se esse amigo, ent\u00e3o, perguntar por que motivo Bruto se levantou contra C\u00e9sar, eis minhas resposta: n\u00e3o foi por amar menos a C\u00e9sar, mas por amar mais a Roma. Que ter\u00edeis preferido: que C\u00e9sar continuasse com vida e v\u00f3s todos morr\u00easseis como escravos, ou que ele morresse, para que todos viv\u00easseis como homens livres? Por me haver amado C\u00e9sar, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o. Logo: l\u00e1grimas para a sua amizade, alegria para sua fortuna, honra para o seu valor e morte para a sua ambi\u00e7\u00e3o. Haver\u00e1 aqui, neste momento, algu\u00e9m t\u00e3o vil que deseje ser escravo? Se houver algu\u00e9m nessas condi\u00e7\u00f5es, que fale, porque o ofendi. Haver\u00e1 algu\u00e9m t\u00e3o grosseiro para n\u00e3o querer ser romano? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haver\u00e1 algu\u00e9m t\u00e3o desprez\u00edvel, que n\u00e3o ame sua p\u00e1tria? Se houver, que fale, porque o ofendi. Fa\u00e7o uma pausa, para que me respondam.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Ningu\u00e9m, Bruto; ningu\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nesse caso, n\u00e3o ofendi ningu\u00e9m. N\u00e3o fiz a C\u00e9sar se n\u00e3o o que far\u00edeis a Bruto. O inqu\u00e9rito sobre sua morte se acha depositado no Capit\u00f3lio; sua gl\u00f3ria n\u00e3o foi depreciada, com refer\u00eancia aos seus merecimentos, n\u00e3o tendo sido, tamb\u00e9m, exagerados os crimes pelos quais veio a sucumbir. (<i>Entram Ant\u00f4nio e outros, com o corpo de C\u00e9sar.<\/i>) A\u00ed vem o seu corpo, chorado por Marco Ant\u00f4nio, que, muito embora n\u00e3o houvesse tomado parte em sua morte, ser\u00e1 beneficiado por ela, pois passar\u00e1 a ocupar um cargo na Rep\u00fablica. Quem de v\u00f3s, tamb\u00e9m, n\u00e3o ocupar\u00e1 um cargo? Despe\u00e7o-me com isto: assim como matei o meu melhor amigo por amor de Roma, assim tamb\u00e9m conservarei o mesmo punhal para mim pr\u00f3prio, quando minha p\u00e1tria necessitar que eu morra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Viva Bruto! Viva! Viva!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Levai-o para casa tri\u00adun\u00adfal\u00admente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Uma est\u00e1tua eri\u00adja\u00admos e ponhamo-la ao lado das dos seus ante\u00adpas\u00adsados.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Que C\u00e9sar ele seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 As boas partes de C\u00e9sar h\u00e3o de em Bruto ser coroadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Por entre aclama\u00e7\u00f5es e grande j\u00fabilo lev\u00e1-lo-emos a casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Concidad\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Sil\u00eancio! Ficais quietos, que Bruto vai falar!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ol\u00e1! Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Caros concidad\u00e3os, \u00e9 meu desejo voltar s\u00f3 para casa; por\u00e9m pe\u00e7o-vos que por amor de mim fiqueis com Ant\u00f4nio. Prestai honras ao corpo, aqui, de C\u00e9sar, e ao discurso em que Ant\u00f4nio h\u00e1 de suas gl\u00f3rias enaltecer, o que lhe permitimos. Encarecidamente a todos pe\u00e7o que, a n\u00e3o ser eu, ningu\u00e9m daqui se arrede at\u00e9 que Marco Ant\u00f4nio haja falado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ficai todos! Ou\u00e7amos Marco Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Subi \u00e0 tribuna! Vamos escut\u00e1-lo. Nobre Ant\u00f4nio, subi.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Muito obrigado vos fico, por amor, t\u00e3o-s\u00f3, de Bruto. (<i>Sobe \u00e0 tribuna.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Que disse ele de Bruto?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Que obrigado ficava a todos n\u00f3s por amor dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Ser\u00e1 bom que ele aqui n\u00e3o diga nada contra o nome de Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Que tirano foi esse C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Justo. Para Roma, foi grande b\u00ean\u00e7\u00e3o ficar livre dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Ficai quietos! Ou\u00e7amos Marco Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Generosos romanos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Psiu! Ou\u00e7amo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Concidad\u00e3os, romanos, bons amigos, concedei-me aten\u00e7\u00e3o. Vim para o enterro fazer de C\u00e9sar, n\u00e3o para elogi\u00e1-lo. Aos homens sobrevive o mal que fazem, mas o bem quase sempre com seus ossos fica enterrado. Seja assim com C\u00e9sar. O nobre Bruto vos contou que C\u00e9sar era ambicioso. Se ele o foi, realmente, grave falta era a sua, tendo-a C\u00e9sar gravemente expiado. Aqui me encontro por permiss\u00e3o de Bruto e dos restantes \u2014 Bruto \u00e9 homem honrado, como os outros; todos, homens honrados \u2014 aqui me acho para falar nos funerais de C\u00e9sar. C\u00e9sar foi meu amigo, fiel e justo; mas Bruto disse que ele era ambicioso, e Bruto \u00e9 muito honrado. C\u00e9sar trouxe numerosos cativos para Roma, cujos resgates o tesouro encheram. Nisso se mostrou C\u00e9sar ambicioso? Para os gritos dos pobres tinha l\u00e1grimas. A ambi\u00e7\u00e3o deve ser de algo mais duro. Mas Bruto disse que ele era ambicioso, e Bruto \u00e9 muito honrado. V\u00f3s o vistes nas Lupercais: tr\u00eas vezes recusou-se a aceitar a coroa que eu lhe dava. Ambi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 isso? No entretanto, Bruto disse que ele era ambicioso, sendo certo que Bruto \u00e9 muito honrado. Contestar n\u00e3o pretendo o nobre Bruto; s\u00f3 vim dizer-vos o que sei, realmente. Todos antes o am\u00e1veis, n\u00e3o sem causa. Que \u00e9 ent\u00e3o que vos impede de chor\u00e1-lo? O julgamento! Foste para o meio dos brutos animais, tendo os humanos o uso perdido da raz\u00e3o. Perdoai-me; mas tenho o cora\u00e7\u00e3o, neste momento, no ata\u00fade de C\u00e9sar; \u00e9 preciso calar at\u00e9 que ao peito ele me volte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Penso que em sua fala h\u00e1 muito senso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Se bem con\u00adsi\u00adde\u00adrar\u00addes, procederam muito mal contra C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Sim, amigos? Temo que em seu lugar venha outro pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Prestastes aten\u00e7\u00e3o no que ele disse? Recusou a coroa. Logo, \u00e9 certo n\u00e3o ter sido ambicioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Isso provado, muita gente ter\u00e1 de pagar caro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Pobre alma! Tinha os olhos como fogo, \u00e0 for\u00e7a de chorar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Em toda Roma n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m mais nobre do que Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Aten\u00e7\u00e3o! Ele vai falar de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 At\u00e9 ontem a palavra do alto C\u00e9sar podia resistir ao mundo inteiro. Hoje, ei-lo a\u00ed, sem que ante o seu cad\u00e1ver se curve o mais humilde. \u00d3 cidad\u00e3os! Se eu disposto estivesse a rebelar-vos o cora\u00e7\u00e3o e a mente, espica\u00e7ando-os para a revolta, ofenderia Bruto, ofenderia C\u00e1ssio, que s\u00e3o homens honrados, como v\u00f3s bem o sabeis. N\u00e3o pretendo ofend\u00ea-los; antes quero ofender o defunto, a mim e a v\u00f3s, do que ofender pessoas t\u00e3o honradas. Vede este pergaminho: traz o selo de C\u00e9sar. Encontrei-o no seu quarto; \u00e9 o testamento dele. Caso o povo sua leitura ouvisse \u2014 desculpai-me, mas n\u00e3o pretendo l\u00ea-lo \u2014 correriam todos a depor beijos nas feridas do morto C\u00e9sar e a tingir os len\u00e7os em seu sagrado sangue. Mais: viriam mendigar-lhe um cabelo, por lembran\u00e7a, que, ao morrerem, seria em testamento transmitido aos herdeiros sucessivos, como rico legado.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Desejamos ouvir o testamento. Lede-o, Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 O testamento! Lede o testamento de C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Acalmai-vos, bons amigos. N\u00e3o posso l\u00ea-lo; n\u00e3o conv\u00e9m ficardes sabendo quanto C\u00e9sar vos amava. N\u00e3o sois de pedra, nem de pau, mas homens; e, como tal, se ouv\u00edsseis a leitura do testamento dele, poder\u00edeis inflamados ficar, ficar furiosos. Conveniente n\u00e3o \u00e9 ficardes todos sabendo que os herdeiros sois de C\u00e9sar; pois se o soub\u00e9sseis, que n\u00e3o se daria?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 O testamento! Lede o testamento de C\u00e9sar, Marco Ant\u00f4nio! Lede-o logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o podeis acalmar-vos um momento? Fui indiscreto ao vos falar sobre isso. Temo ofender quantos honrados homens apunhalaram C\u00e9sar. Temo-o muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Homens honrados, nada! S\u00e3o traidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 S\u00e3o vil\u00e3os e assassinos todos eles. O testamento! Lede o testamento!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 For\u00e7ais-me, ent\u00e3o, a ler o testamento? Sendo assim, vinde em c\u00edrculo pos tar-vos ao redor do cad\u00e1ver, porque eu possa apontar-vos o autor do testamento. Posso descer? Consentireis que o fa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Vinde para c\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Descei.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ant\u00f4nio desce da tribuna.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Estais autorizado a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Fa\u00e7amos um c\u00edrculo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Afastai-vos do ata\u00fade Afastai-vos do corpo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Demos lugar para Ant\u00f4nio, para o muito nobre Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o me aperteis tanto. Afastai-vos um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Recuai! Espa\u00e7o! Recuai!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se l\u00e1grimas tiverdes, preparai-vos neste momento para derram\u00e1-las. Conheceis este manto. Ainda me lembro quando C\u00e9sar o estreou; era uma tarde de ver\u00e3o, em sua tenda, justamente no dia em que vencera os fortes n\u00e9rvios. Vede o furo deixado pela adaga de C\u00e1ssio; contemplai o estrago feito pelo invejoso Casca; atrav\u00e9s deste apunhalou-o o muito amado Bruto, e ao retirar seu a\u00e7o amaldi\u00e7oado, observai com cuidado como o sangue de C\u00e9sar o seguiu, como querendo vir para a porta, a fim de convencer-se se era Bruto, realmente, quem batia por modo t\u00e3o grosseiro, porque Bruto, como o sabeis, era o anjo do finado. Julgai, \u00f3 deuses! quanto o amava C\u00e9sar. De todos, foi o golpe mais ingrato, pois quando a Bruto viu o nobre C\u00e9sar, a ingratid\u00e3o mais forte do que o bra\u00e7o dos traidores, de todo o p\u00f4s por terra. O cora\u00e7\u00e3o potente, ent\u00e3o, partiu-se-lhe e, no manto escondendo o rosto, veio cair o grande C\u00e9sar justamente ao p\u00e9 da est\u00e1tua de Pompeu, que sangue todo o tempo escorria. Que queda essa, caros concidad\u00e3os! Eu, v\u00f3s, n\u00f3s todos nesse instante ca\u00edmos, alegrando-se sobre n\u00f3s a trai\u00e7\u00e3o rubra de sangue. Oh! Vejo que chorais, que sois sens\u00edveis \u00e0 impress\u00e3o da piedade. Delicadas l\u00e1grimas derramais. Mas chorais tanto, bondosas almas, s\u00f3 de o manto verdes do nosso C\u00e9sar, cheio, assim, de furos? Ent\u00e3o olhai para isto, o pr\u00f3prio corpo de C\u00e9sar, deformado por traidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Oh espet\u00e1culo lament\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Oh nobre C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Oh dia de luto!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Oh celerados! Oh traidores!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Que espet\u00e1culo sangrento!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Queremos vingan\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Vingan\u00e7a! Vamos procur\u00e1-los! Fogo! Morte! Fogo! Matemos os traidores!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Parai, concidad\u00e3os!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Sil\u00eancio! Ou\u00e7amos o nobre Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Queremos ouvi-lo; iremos para onde ele for; queremos morrer com ele!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bons e am\u00e1veis amigos, n\u00e3o desejo levar-vos a uma s\u00fabita revolta. Os autores deste ato s\u00e3o honrados. Ignoro as causas, ai! particulares que a este extremo os levaram; mas s\u00e3o s\u00e1bios, todos eles, e honrados, e decerto vos dariam raz\u00f5es do que fizeram. N\u00e3o vim aqui roubar-vos, meus amigos, o cora\u00e7\u00e3o. Care\u00e7o da eloq\u00fc\u00eancia de Bruto. Sou um homem franco e simples, como bem o sabeis, que tinha o m\u00e9rito de amar o seu amigo, o que sabiam perfeitamente quantos permitiram que eu viesse falar dele. Pois \u00e9 fato: n\u00e3o tenho esp\u00edrito, valor, palavras, gesto, eloq\u00fc\u00eancia e a for\u00e7a da orat\u00f3ria para inflamar o sangue dos ouvintes. Contento-me em falar tal como falo, simplesmente, dizendo-vos apenas o que todos sabeis, e ora vos mostro as feridas do nosso caro C\u00e9sar \u2014 pobres bocas sem fala! \u2014 concitando-as a falarem por mim. Se eu fosse Bruto, sendo ele Ant\u00f4nio, agora aqui ter\u00edeis um Ant\u00f4nio capaz de levantar-vos o esp\u00edrito e em cada uma das feridas de C\u00e9sar uma voz p\u00f4r, que faria revoltarem-se as pedras da alta Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Revolta, sim! Revolta!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Queimaremos logo a casa de Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ent\u00e3o partamos sem demora. Peguemos os traidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Concidad\u00e3os, ouvi-me. Vou falar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Que fale Ant\u00f4nio, o muito nobre Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sabeis, amigos, o que estais a ponto de realizar? Em que mereceu C\u00e9sar ser a tal ponto amado de v\u00f3s todos? Ah! n\u00e3o o sabeis. Preciso, ent\u00e3o, contar-vos. E o testamento, j\u00e1 vos esquecestes, de que falei h\u00e1 pouco?<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 \u00c9 certo! \u00c9 certo! O testamento! Ou\u00e7amos a leitura do testamento!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Aqui vo-lo apresento, com o selo ainda de C\u00e9sar. C\u00e9sar deixa para cada romano em separado setenta e cinco dracmas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Nobil\u00edssimo C\u00e9sar! Vamos vingar a morte dele!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Oh real C\u00e9sar!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ouvi-me com paci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Ol\u00e1! Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Al\u00e9m disso, deixou-vos seus passeios, caramanch\u00f5es privados e os recentes jardins por ele feitos neste lado do Tibre. Sim, deixou-vos, para sempre, para vossos herdeiros, como pontos de divers\u00e3o comum, porque pud\u00e9sseis passear e distrair-vos. Foi um C\u00e9sar, realmente! Outro igual, quando teremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Nunca! Nunca! Sigamos para a pra\u00e7a sagrada, a fim de o corpo ali queimarmos, e com os ti\u00e7\u00f5es as casas incendiemos de todos os traidores. Carreguemos o corpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Trazei fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Derrubemos os bancos.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Derrubai logo janelas, cadeiras, o que for.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os cidad\u00e3os, com o corpo de C\u00e9sar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que v\u00e1 por diante. Desgra\u00e7a, est\u00e1s de p\u00e9; toma ora o curso que bem te parecer. (<i>Entra um criado.<\/i>) Ent\u00e3o, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhor, Ot\u00e1vio j\u00e1 chegou a Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Em casa est\u00e3o de C\u00e9sar, ele e L\u00e9pido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vou j\u00e1 j\u00e1 visit\u00e1-lo. Chega a tempo. A Fortuna est\u00e1 alegre e, assim disposta, n\u00e3o nos regatear\u00e1 coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Ouvi quando ele disse que teriam Bruto e C\u00e1ssio, a galope, como loucos, ganho as portas de Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 que decerto souberam da disposi\u00e7\u00e3o do povo agitado por mim. Leva-me a Ot\u00e1vio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat33\" name=\"jcat33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entra o poeta Cina.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Sonhei que C\u00e9sar e eu nos ban\u00adque\u00adte\u00e1\u00adva\u00admos. A fantasia tenho assoberbada por id\u00e9ias sinistras. Sem nenhuma vontade me acho de sair de casa; mas algo a isso me obriga.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram cidad\u00e3os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Como vos chamais?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Para onde ides?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Onde morais?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Respondei diretamente a cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Sim, e em poucas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 E com sabedoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 E com franqueza, \u00e9 o que vos aconselhamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Como me chamo? Para onde vou? Onde moro? Se sou casado ou solteiro? Ent\u00e3o, para responder diretamente a cada um de v\u00f3s, e em poucas palavras, com sabedoria e franqueza: sabiamente direi que sou solteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 O que equivale a dizer que s\u00e3o loucos os que se casam. Receio que essa resposta vos possa custar caro.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Diretamente, vou aos funerais de C\u00e9sar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Como amigo ou como inimigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Como amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Isso foi diretamente respondido.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 E agora, brevemente, quanto \u00e0 morada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Moro perto do Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Vosso nome, senhor, francamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Francamente, meu nome \u00e9 Cina.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Despeda\u00e7ai-o! \u00c9 conspirador!<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 Eu sou o poeta Cina! Eu sou o poeta Cina!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO CIDAD\u00c3O \u2014 Despeda\u00e7ai por causa de seus maus versos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CINA \u2014 N\u00e3o sou o conspirador Cina!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Pouco importa; tem o nome de Cina. Tiremos-lhe do cora\u00e7\u00e3o apenas o nome e deixemo-lo ir.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Despedacemo-lo! Despedacemo-lo! Fogo! Ti\u00e7\u00f5es! \u00c0 casa de Bruto! De C\u00e1ssio! Queimemos tudo! Sigam alguns para a casa de D\u00e9cio, outros para a de Casca, outros para a de Lig\u00e1rio. Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat41\" name=\"jcat41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Roma. Um quarto da casa de Ant\u00f4nio. Ant\u00f4nio, Ot\u00e1vio e L\u00e9pido, \u00e0 volta de uma mesa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estes tamb\u00e9m t\u00eam de morrer; os nomes est\u00e3o assinalados.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 E v\u00f3s, L\u00e9pido, tendes o irm\u00e3o marcado para a morte. Concordais?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Sim, concordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Assinalai-o, Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 Mas com a condi\u00e7\u00e3o expressa de que P\u00fablio n\u00e3o viva, Marco Ant\u00f4nio, filho de vossa irm\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o viver\u00e1. Vede: com um risco apenas o despacho. Mas L\u00e9pido, ide at\u00e9 \u00e0 casa de C\u00e9sar buscar o testamento. Precisamos fazer nele alguns cortes onerosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00c9PIDO \u2014 E onde vos encontrar depois? Aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Aqui ou no Capit\u00f3lio. (<i>Sai L\u00e9pido.<\/i>) \u00c9 um homem f\u00fatil e de nulo m\u00e9rito. S\u00f3 serve para dar recados. Justo vos parece que o mundo dividido, como vai ser, em tr\u00eas, fique ele sendo dono de uma das partes?<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Fazeis dele esse ju\u00edzo? No entanto lhe pedistes a opini\u00e3o sobre o nome das pessoas condenadas \u00e0 morte em nossa lista negra de proscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 J\u00e1 vi, Ot\u00e1vio, mais dias do que v\u00f3s. Se sobre esse homem acumulamos honras, porque o peso nos poupemos de fardos infamantes, ele as carrega tal como ouro o burro, que geme e sua sob a carga ingente e \u00e9 tocado ou levado pela estrada que bem nos aprouver. Levado todo nosso tesouro ao ponto que quer\u00edamos, dos fardos o aliviamos e o deixamos como burro sem carga, porque \u00e0 solta as orelhas sacuda e se regale nas pastagens do Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Procedei como quiserdes; mas \u00e9 um bom soldado, valente e experimentado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Meu cavalo, Ot\u00e1vio, tamb\u00e9m o \u00e9; por essa causa lhe dou sua ra\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma criatura que ensinei a brigar, virar depressa, correr para atacar, parar de chofre, e cujos movimentos s\u00e3o regidos pela minha vontade. Em muitas coisas L\u00e9pido \u00e9 apenas isso. \u00c9 necess\u00e1rio adestr\u00e1-lo, educ\u00e1-lo, dirigi-lo; \u00e9 um sujeito de esp\u00edrito acanhado, que se alimenta s\u00f3 de rebotalhos, de imita\u00e7\u00f5es, apenas, fora de uso, j\u00e1 bastante surradas, que ele adota por moda. S\u00f3 falai a seu respeito como de um instrumento manej\u00e1vel. E agora, Ot\u00e1vio, ouvi coisas grandiosas: Bruto e C\u00e1ssio aliciam muita gente. Precisamos opor-lhes resist\u00eancia o mais breve poss\u00edvel. Para tanto assentemos de vez nossas alian\u00e7as, conquistemos amigos e ponhamos de p\u00e9 todos os meios. Por enquanto, reunamo-nos, a fim de decidirmos como contar certos assuntos graves e a maneira segura de podermos fazer face aos perigos mais urgentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Fa\u00e7amos isso, pois nos en\u00adcon\u00adtra\u00admos amar\u00adrados ao posto e por inimigos numerosos acuados, sem contarmos que muitos que ora riem, \u00e9 o que temo, no cora\u00e7\u00e3o escondem mil perf\u00eddias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat42\" name=\"jcat42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante da tenda de Bruto, no acampamento perto de Sardes. Tambor. Entram Bruto, Luc\u00edlio, L\u00facio e soldados. Tit\u00ednio e P\u00edndaro entram por outro lado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Alto l\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Dizei a senha e fazei alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Novidades, Luc\u00edlio? Chegou C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o, tendo P\u00edndaro chegado com sauda\u00e7\u00f5es da parte de seu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>P\u00edndaro entrega a Bruto uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 S\u00e3o oportunos esses cum\u00adpri\u00admen\u00adtos. Vosso amo, P\u00edndaro, ou porque mudasse, ou por ter sido mal aconselhado, deu-me raz\u00f5es para querer que muitas coisas j\u00e1 feitas ainda se encontrassem por fazer. Mas se perto ele se encontra, vai explicar-me tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdNDARO \u2014 N\u00e3o duvido que meu muito nobre amor h\u00e1 de mostrar-se tal como sempre foi: honrado e digno.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ningu\u00e9m p\u00f5e isso em d\u00favida. Luc\u00edlio, uma palavra, ainda: saber quero como fostes por ele recebido.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Com cortesia e mostras de respeito, mas sem aquela familiaridade e aquele modo cordial e franco que conosco ele sempre revelara.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Descreveste um amigo acalorado que arrefeceu de todo. Toma nota, Luc\u00edlio: sempre que a amizade adoece, para acabar sumindo, \u00e9 inevit\u00e1vel: lan\u00e7a m\u00e3o dessas f\u00f3rmulas for\u00e7adas. N\u00e3o se coadunam esses artif\u00edcios com a boa f\u00e9 singela. Mas os homens pouco sinceros, s\u00e3o como ginetes dif\u00edceis de conter, que nos d\u00e3o mostras de seu ardor, fazendo muitas voltas. Mas se as esporas rubras lhes chegamos, deixam cair a crina e, tal como \u00e9guas de apar\u00eancia ilus\u00f3ria, a prova perdem. Os homens dele v\u00eam?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Esta noite pensam dormir em Sardes. \u00c9 de C\u00e1ssio o comando de quase todo o ex\u00e9rcito e da cavalaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se m\u00fasica de marcha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ei-lo que chega. Saiamos a encontr\u00e1-lo com do\u00e7ura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra C\u00e1ssio com soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Alto l\u00e1! Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Alto l\u00e1! Transmiti ordens \u00e0s filas!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO SOLDADO \u2014 Alto!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Meu nobre irm\u00e3o, foste comigo injusto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Julgai-me, \u00f3 deuses! Se aos meus inimigos nunca jamais fiz injusti\u00e7a alguma, como admitir que tenha sido injusto para o meu pr\u00f3prio irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A sobriedade, Bruto, que vos \u00e9 pr\u00f3pria, encobre ofensas; e quando as praticais&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 C\u00e1ssio, acalmai-vos; exponde com bravura vossas queixas. Conhe\u00e7o-vos de perto. N\u00e3o briguemos ante o conspecto, assim, de nossas for\u00e7as, que em n\u00f3s s\u00f3 devem perceber conc\u00f3rdia. Mandai que fiquem longe, e em minha tenda, C\u00e1ssio, far-me-eis explana\u00e7\u00e3o de tudo, que vos darei ouvidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Dize, P\u00edndaro, aos nossos co\u00adman\u00addan\u00adtes que removam daqui de perto as tropas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Luc\u00edlio, faze o mesmo; n\u00e3o consintas que algu\u00e9m de nossa tenda se aproxime antes de terminarmos a conversa. L\u00facio e Tit\u00ednio ficar\u00e3o de guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat43\" name=\"jcat43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Na tenda de Bruto. Entram Bruto e C\u00e1ssio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Consiste a ofensa em terdes infligido pena infamante em L\u00facio Pela, em vista de ter sido peitado pelos sardos, sem levardes em conta minhas cartas a seu favor, porque eu conhe\u00e7o o homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 A v\u00f3s mesmo ofendestes, escrevendo-me a favor dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Em semelhante tempo n\u00e3o conv\u00e9m esmiu\u00e7ar pequenas faltas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Permiti que vos fale com franqueza, C\u00e1ssio, mas vos acusam de prurido nas m\u00e3os, de traficardes os empregos e de vend\u00ea-los a sujeitos baixos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Eu, prurido nas m\u00e3os? Sabeis que \u00e9 Bruto quem fala desse modo; n\u00e3o fora isso, seria esse o vosso \u00faltimo discurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 A corrup\u00e7\u00e3o se sente enobrecida pelo nome de C\u00e1ssio; eis o motivo de esconder o castigo ora a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00d3 castigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Recordai-vos de mar\u00e7o! Recordai-vos dos idos desse dia! O grande J\u00falio n\u00e3o sangrou com justi\u00e7a? Que malvado p\u00f4s nele as m\u00e3os e o apunhalou, se a causa justa n\u00e3o defendia? Como! D\u00e1-se que tenhamos matado o mais not\u00e1vel homem do mundo, s\u00f3 por haver ele protegido ladr\u00f5es, e que ora os dedos tenhamos de sujar com vis presentes e de trocar o c\u00edrculo imponente de nossa dignidade por uns poucos tarecos que na m\u00e3o fechar podemos? Prefiro ser cachorro e uivar \u00e0 lua, a ser romano de t\u00e3o baixa marca.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bruto, n\u00e3o me irriteis, que o n\u00e3o suporto. Esqueceis de quem sois, para tomardes comigo essa atitude. Sou soldado mais experimentado e, assim, mais apto do que v\u00f3s para impor tais e tais cl\u00e1usulas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Qual! N\u00e3o sois nada disso, C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Afirmo que o n\u00e3o sois.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o me irriteis, que perco o autodom\u00ednio. Pensai na pr\u00f3pria vida, desistindo de me irritar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Retira-te, homem fraco!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Como! Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Escutai-me, pois desejo falar. Terei de o passo ceder a vossa c\u00f3lera? Assustar-me, quando um louco me fixa?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Oh deuses! deuses! Ver-me for\u00e7ado a suportar tudo isso!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tudo isso? Mais, ainda. Amofinai-vos at\u00e9 romper-se o cora\u00e7\u00e3o altivo. Aos escravos mostrai toda essa c\u00f3lera; vossos servos deixai cheios de medo. Precisarei curvar-me? Estar atento ao menor gesto vosso? Conservar-me de p\u00e9, ou rastejar, de acordo sempre com vossa rabugice? Pelos deuses, tereis de digerir todo o veneno de vossa bile, ainda que com isso venhais a arrebentar. Sim, de hoje em diante vou divertir-me a vossa custa, rir-me quando vos vir raivoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 A isto chegamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Afirmastes que sois melhor soldado. Pois demonstrai-o, apresentando a prova de que tem fundamento essa jact\u00e2ncia, que folgarei com isso. Gosto sempre de aprender algo com pessoas nobres.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 De todo jeito me ofendestes, Bruto; de todo jeito. Disse mais antigo soldado, n\u00e3o melhor. Disse, realmente, \u201cmelhor?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pouco me importa o que dissestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 C\u00e9sar jamais teria tido o ousio de irritar-me a esse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Calma! Calma! V\u00f3s \u00e9 que, C\u00e9sar vivo, n\u00e3o ter\u00edeis coragem de a tal ponto provoc\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o teria coragem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Como! N\u00e3o ousaria provoc\u00e1-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o o ousar\u00edeis, por amor \u00e0 vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o confieis por demais em meu afeto, que eu posso fazer algo de que venha depois a arrepender-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 J\u00e1 fizestes alguma coisa de que dever\u00edeis estar arrependido. N\u00e3o cont\u00eam, C\u00e1ssio, terror algum vossas amea\u00e7as. De tal modo me ampara a honestidade, que por mim passam como o vento ocioso, de que nem me apercebo. Recusastes-me certa quantia, que mandei privar-vos. N\u00e3o sei fazer dinheiro por processos pouco recomend\u00e1veis. Preferira cunhar o cora\u00e7\u00e3o, e todo o sangue, gota por gota, transformar em dracmas, a arrancar das calosas m\u00e3os dos r\u00fasticos, por processos esconsos, suas tristes farandolagens. Para o pagamento de minhas legi\u00f5es se destinava quanto ent\u00e3o vos pedi e mo negastes. Era de C\u00e1ssio tal procedimento? Teria eu respondido a Caio C\u00e1ssio por semelhante modo? Quando Marco Bruto ficar interesseiro, a ponto de esconder dos amigos vis moedas, deixai em forma, \u00f3 deuses, vossos raios, e reduzi-o a nada!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Essa quantia, n\u00e3o vo-la recusei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sim, recusaste-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Afirmo-vos que n\u00e3o. Minha resposta vos foi levada por um mentecapto. O cora\u00e7\u00e3o me partiu Bruto ao meio. O amigo sabe desculpar as faltas de seus amigos; mas as minhas, Bruto deixa maiores do que s\u00e3o, realmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 S\u00f3 o fiz depois de lhes sentir o efeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Afei\u00e7\u00e3o n\u00e3o me tendes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o me agradam vossos defeitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Nunca o olhar amigo deveria enxerg\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o os vira o olhar do adulador, embora fossem t\u00e3o grandes quanto o Olimpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vinde, Ant\u00f4nio! Jovem Ot\u00e1vio, vinde, para em C\u00e1ssio sozinho, vos vingardes, que ele se acha enfarado do mundo, estando odiado por quem tanto e tanto ama, provocado pelo seu pr\u00f3prio irm\u00e3o, tratado como qualquer escravo. Suas faltas todas s\u00e3o escritas de cor, para me serem atiradas aos dentes. Oh! Quisera pelos olhos chorar o pr\u00f3prio esp\u00edrito! Eis meu punhal; o peito nu vos mostro, no qual se encontra um cora\u00e7\u00e3o mais caro do que a mina de Pluto, mais valioso do que o pr\u00f3prio ouro. Sendo tu romano, arranca-mo do peito. Recusei-te ouro, mas dou-te o cora\u00e7\u00e3o em troca. Fere-o como o fizeste no de C\u00e9sar, porque estou certo de que no auge do \u00f3dio lhe tinhas mais amor do que puderas em qualquer tempo dedicar a C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Guardai esse punhal; ficai col\u00e9rico quanto vos aprouver; sois livre nisso. Fazei o que entenderdes; a desonra ser\u00e1 divertimento. \u00d3 C\u00e1ssio! O jugo recebestes ao lado de um cordeiro no qual se cont\u00e9m c\u00f3lera tal como fogo na pederneira, que, batida muitas vezes, revela passageira fa\u00edsca e, logo, torna a ficar fria.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ter\u00e1 vivido C\u00e1ssio apenas para ser objeto de esc\u00e1rnio e de risada de seu querido Bruto, quando a m\u00e1goa e os humores revoltos o deixavam perturbado de todo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ao dizer isso, tamb\u00e9m tinha os humores revoltados.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Concedeis-me esse ponto? Dai-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Oh Bruto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o me tendes amor bastante, para desculpar-me nas horas em que o g\u00eanio violento que de minha m\u00e3e me veio me faz ficar ingrato?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tenho, C\u00e1ssio. E de ora avante, sempre que com vosso Bruto vos excederdes, h\u00e1 de Bruto pensar que \u00e9 vossa m\u00e3e quem deblatera, e em paz vos deixar\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Barulho no interior.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O POETA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Deixai-me entrar! Preciso ver os generais! Entre eles h\u00e1 desacordo. \u00c9 mal ficarem s\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUP\u00cdCIO (<i>dentro<\/i>) \u2014 \u00c9 proibida a entrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">O POETA (<i>dentro<\/i>) \u2014 A morte, apenas, me poder\u00e1 deter.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o poeta, seguido de Luc\u00edlio, Tit\u00ednio e L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O POETA \u2014 Vergonha, generais! Que estais pensando? Sede amigos; um do outro ficai perto. Mais anos do que v\u00f3s j\u00e1 vi, decerto.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ah! Ah! Que rimas p\u00e9ssimas as deste c\u00ednico!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Fora, logo, vagabundo! Fora, tipo lascivo!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Suportai-o, Bruto, que ele \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Suport\u00e1-lo? Quando ele conhecer o seu lugar. Qual \u00e9 a utilidade, numa guerra, desses versistas tolos? Fora, bobo!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sa\u00ed logo! Depressa! Retirai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o poeta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 V\u00f3s, Luc\u00edlio e Tit\u00ednio, aos comandantes dizei que tratem de alojar as tropas, para a noite passarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Depois disso, voltai em companhia de Messala, o mais presto poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Luc\u00edlio e Tit\u00ednio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Uma copa de vinho, L\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Nunca imaginara que pud\u00e9sseis estar t\u00e3o irritado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00d3 C\u00e1ssio! Sofro, a um tempo, tantas dores!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Uso algum n\u00e3o fareis dos s\u00e3os princ\u00edpios que vos s\u00e3o caros, se aten\u00e7\u00e3o prestardes aos males transit\u00f3rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nenhum homem suporta a dor como eu. P\u00f3rcia est\u00e1 morta.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Como! P\u00f3rcia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Como escapei com vida, contrariando-vos? Oh perda comovente e insuport\u00e1vel! De que morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Da dor de minha aus\u00eancia e de pesar por terem aumentado tanto as for\u00e7as de Ot\u00e1vio e Marco Ant\u00f4nio. Recebi a not\u00edcia desse fato ao mesmo tempo que a de sua morte. Desvairada ficou e, aproveitando-se de a terem s\u00f3 deixado alguns momentos, engoliu fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 E assim morreu?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Oh deuses imortais!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta L\u00facio, com vinho e tochas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o falemos mais dela. Agora dai-me uma copa de vinho. Nisto, C\u00e1ssio, sepulto todo sentimento baixo. (<i>Bebe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 O cora\u00e7\u00e3o sedento se me mostra de t\u00e3o nobre penhor. Enche-me a ta\u00e7a, L\u00facio, at\u00e9 transbordar. Em se tratando da amizade de Bruto, nunca muito quanto eu venha a beber. (<i>Bebe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Entrai, Tit\u00ednio. (<i>Volta Tit\u00ednio com Messala.<\/i>) Bem-vindo, bom Messala. Ora assentemo-nos ao p\u00e9 aqui da tocha e conversemos sobre as necessidades do momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00d3 P\u00f3rcia, j\u00e1 morreste!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o falemos mais nisso, por obs\u00e9quio. Bom Messala, nestas cartas informam-me que Ot\u00e1vio e Marco Ant\u00f4nio v\u00eam ao nosso encontro com for\u00e7as poderosas, e que para Filipos ora a expedi\u00e7\u00e3o dirigem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Recebi cartas de teor id\u00eantico.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sem mais nenhum acr\u00e9scimo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Fora da lei por editais os pondo, Ot\u00e1vio, Ant\u00f4nio e L\u00e9pido fizeram perecer cem senadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nesse ponto divergem nossas cartas. As minhas falam de setenta mortos por essas proscri\u00e7\u00f5es; C\u00edcero, um deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 C\u00edcero, um deles!<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 C\u00edcero est\u00e1 morto por proscri\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Essas not\u00edcias vos vieram, meu senhor, de vossa esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o, Messala.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 E a seu respeito, nada vos informam?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nada, Messala.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 \u00c9 extraordin\u00e1rio o caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 For que perguntais isso? Dizem algo a seu respeito as vossas?<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Se sois romano, revelai-me tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Como romano, ent\u00e3o, ouvi a verdade: morreu, \u00e9 certo, e por maneira estranha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nesse caso, adeus, P\u00f3rcia! Morreremos todos, Messala, \u00e9 certo. O pensamento de que ela um dia ou outro deveria tamb\u00e9m morrer, me d\u00e1 coragem para suportar esse golpe.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 \u00cb assim que os grandes homens devem sofrer as grandes dores.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Adoto como v\u00f3s certos princ\u00edpios; Mas nesse ponto a minha natureza se confessa impotente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E agora, vivos, voltemos ao trabalho. Que dir\u00edeis de marcharmos j\u00e1 j\u00e1 para Filipos?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o me parece bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vossas raz\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00c9 melhor que o inimigo nos procure; esgotar\u00e1 os recursos, os soldados se cansar\u00e3o em preju\u00edzo pr\u00f3prio, enquanto n\u00f3s, ficando aqui parados, estamos descansados, protegidos e prontos para o embate.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 As raz\u00f5es boas devem ceder lugar para as melhores. De Filipos aqui os moradores s\u00f3 \u00e0 for\u00e7a se nos mostram dedicados, pois as contribui\u00e7\u00f5es t\u00eam sido dadas com muito m\u00e1 vontade. Se o inimigo fizer esse percurso, os efetivos refor\u00e7ar\u00e1, decerto, aqui chegando com tropas repousadas e acrescidas e de \u00e2nimo elevado. Essas vantagens ficar\u00e3o anuladas, se em Filipos formos fazer-lhe face, atr\u00e1s deixando todos os moradores desta zona.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bondoso irm\u00e3o, ouvi-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Com licen\u00e7a. Deveis, ainda, observar que j\u00e1 pusemos os amigos a provas excessivas; nossos quadros est\u00e3o mais do que cheios; nossa causa, madura. Dia a dia, refor\u00e7a-se o inimigo; n\u00f3s, no \u00e1pice, j\u00e1 atingimos o ponto de descida. Os neg\u00f3cios humanos apresentam altas como as do mar: aproveitadas, levam-nos as correntes \u00e0 fortuna; mas, uma vez perdidas, corre a viagem da vida entre baixios e perigos. Ora flutuamos na mar\u00e9 mais alta. Urge, portanto, aproveitar o curso da corrente, ou perder nossas vantagens.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bem; uma vez que assim quereis, sigamos para Filipos, que tamb\u00e9m iremos encontrar o inimigo nesse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 O negrume da noite baixou sobre nossa conversa\u00e7\u00e3o, sendo preciso que a natureza acate as ordens dadas pela necessidade. Concedamos-lhe como sovinas, pois, o modesto \u00f3bolo de um pequeno descanso. J\u00e1 tratamos de todos os assuntos?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 J\u00e1. Boa noite. Levantaremos amanh\u00e3 bem cedo, e logo partiremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 L\u00facio! (<i>Volta L\u00facio.<\/i>) A toga. Passai bem, bom Messala. Boa noite. Tit\u00ednio. Boa noite e bom repouso, meu nobre, nobre C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 \u00d3, caro irm\u00e3o! Qu\u00e3o triste foi o in\u00edcio desta noite! Que jamais a disc\u00f3rdia nos divida, de novo, o cora\u00e7\u00e3o. Nunca mais, Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Tudo passou.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Boa noite, caro amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Boa noite, mano.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO e MESSALA \u2014 General, boa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Boa noite para todos. (<i>Saem C\u00e1ssio, Tit\u00ednio e Messala.<\/i>) (<i>Volta L\u00facio, com a toga.<\/i>) D\u00e1-me a toga. E o instrumento, onde est\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Aqui na tenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Falas com tanto sono? Pobre crian\u00e7a, n\u00e3o te culpo; n\u00e3o tens dormido nada. Vai chamar Cl\u00e1udio e mais alguns serventes; dormir\u00e3o aqui dentro em travesseiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Varro! Cl\u00e1udio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Varro e Cl\u00e1udio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO \u2014 Chamaste-nos, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 For obs\u00e9quio, dormi dentro da tenda. Pode dar-se que eu vos acorde, para mandar algum recado ao mano C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO \u2014 Se for do vosso agrado, n\u00e3o dormimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o; assim, n\u00e3o. Deitai-vos, bons amigos. Talvez mude de id\u00e9ia. Olha aqui, L\u00facio, o livro que eu pensava ter perdido. No bolso o achei da toga.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Varro e Cl\u00e1udio deitam-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Eu bem sabia que Vossa Senhoria n\u00e3o mo dera.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 S\u00ea paciente comigo, bom menino; estou muito esquecido. Ser-te-\u00e1 f\u00e1cil manter abertas mais alguns instantes as p\u00e1lpebras pesadas e uma ou duas modula\u00e7\u00f5es tirar desse instrumento?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Sim, meu senhor; se for do vosso agrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Perfeitamente, meu menino; fa\u00e7o-te cansar demais; mas sempre foste d\u00f3cil.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 meu dever, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Mas fora justo que eu n\u00e3o te for\u00e7asse no cumprimento dele. O sangue mo\u00e7o, sei-o perfeitamente, quer repouso.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 J\u00e1 passei pelo sono, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Fizeste bem; e vais dormir de novo. Ser\u00e1 por pouco. Caso eu fique vivo, ser\u00e1 bom para ti. (<i>M\u00fasica e canto.<\/i>) A toada \u00e9 de pessoa sonolenta. \u00d3 sono criminoso! A pl\u00fambea clava deixas cair em cima de meu pajem, quando ele toca m\u00fasica? Boa noite, gentil menino. N\u00e3o serei grosseiro, fazendo-te acordar. Se cabeceares, quebrar\u00e1s o instrumento. Vou tir\u00e1-lo. E agora, meu menino, bom repouso. E ora vejamos: n\u00e3o tereis deixado virada a folha onde parei de ler? Parece que \u00e9 esta mesma. (<i>Entra o fantasma de C\u00e9sar.<\/i>) Que luz p\u00e9ssima a desta vela! Oh! Quem vem l\u00e1! Decerto \u00e9 a fraqueza da vista que me mostra t\u00e3o feia apari\u00e7\u00e3o. Vem do meu lado! \u00c9s qualquer coisa? Alguma divindade, algum anjo, talvez, qualquer dem\u00f4nio, que o sangue, assim, me gela, e me arrepia, de tal modo, os cabelos? Quem \u00e9s? Fala!<\/p>\n<p align=\"justify\">FANTASMA \u2014 Teu esp\u00edrito mau, Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ao que vens?<\/p>\n<p align=\"justify\">FANTASMA \u2014 Dizer-te que em Filipos nos veremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Muito bem. Quer dizer que ainda hei de ver-te?<\/p>\n<p align=\"justify\">FANTASMA \u2014 Sim, em Filipos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pois que seja! Em Filipos nos veremos. (<i>Desaparece o fantasma.<\/i>) Agora que eu estava encorajado, foi que desapareceste. Mau esp\u00edrito, quisera ainda falar contigo um pouco. Pequeno! L\u00facio! Varro! Cl\u00e1udio! Cl\u00e1udio! Senhores, despertai!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor, as cordas n\u00e3o est\u00e3o boas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Pensa que ainda se acha a tocar o instrumento. L\u00facio, acorda!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Sonhaste, L\u00facio para assim gritares?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Se gritei, meu senhor, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Gritaste. N\u00e3o viste nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Nada, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ent\u00e3o dorme de novo, L\u00facio. Cl\u00e1udio! Companheiro! Desperta!<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Por que gritais no sono desse modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO e CL\u00c1UDIO \u2014 N\u00f3s gritamos, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Gritastes. Vistes, acaso, alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO \u2014 N\u00e3o vi nada, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Nem eu, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Recomendai-me, ent\u00e3o, ao mano C\u00e1ssio e lhe dizei que parta com seus homens logo que amanhecer, que hei de segui-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VARRO e CL\u00c1UDIO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor; dar-lhe-emos o recado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat51\" name=\"jcat51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Plan\u00edcie de Filipos. Entram Ot\u00e1vio e Ant\u00f4nio, com suas tropas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Agora, Ant\u00f4nio, nossas esperan\u00e7as ficaram confirmadas. Afirmastes que as for\u00e7as inimigas n\u00e3o viriam para a plan\u00edcie, preferindo os montes. Mas o contr\u00e1rio \u00e9 o que se verifica. Est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o. Aqui mesmo em Filipos pretendem desafiar-nos, respondendo-nos antes mesmo de havermos perguntado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ora devasso-lhes o peito, estando perfeitamente a par do que pretendem. Teriam preferido estar algures, mas descem com bravura temerosa, imaginando que ante essa manobra nos d\u00e3o prova de ins\u00f3lita coragem. Mas n\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Generais, a postos! Com bastante ordem o inimigo baixa, o estandarte sangrento solto aos ventos. Algo ter\u00e1 de acontecer em pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estendei devagar, Ot\u00e1vio, os vossos homens no lado esquerdo da plan\u00edcie.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 \u00c0 esquerda fica tu; eu, do outro lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por que me contrariais nesta prem\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 N\u00e3o contrario; apenas farei isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de marcha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Tambores. Entram Bruto, C\u00e1ssio e suas tropas; Luc\u00edlio, Tit\u00ednio, Messala e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Querem parlamentar; est\u00e3o parados.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 P\u00e1ra, Tit\u00ednio; vamos para a frente, a fim de convers\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Marco Ant\u00f4nio, conv\u00e9m dar o sinal para o combate?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, C\u00e9sar; esperemos que comecem. Adiante! Os generais querem falar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Aguardai o sinal.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Palavras, antes; depois, golpe; certo, concidad\u00e3os?<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 por antepormos, como o fazeis, aos golpes as palavras. Boas palavras valem mais, Ot\u00e1vio, do que maus golpes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas vossos maus golpes, Bruto, andam sempre com palavras boas, do que \u00e9 prova cabal o furo feito no cora\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar, ao dizerdes: \u201cSalve, C\u00e9sar! Que tenhas vida longa!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Ant\u00f4nio, ainda ningu\u00e9m sabe o alcance de vossos golpes; mas vossas palavras as abelhas degradam do pr\u00f3prio Hibla, sem mel deixando-as.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas o aguilh\u00e3o fica.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Oh, n\u00e3o! Ficam sem ele e ficam mudas, que tamb\u00e9m lhes roubastes o zumbido, motivo de amea\u00e7ardes sabiamente, quando quereis picar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o procedestes, miser\u00e1veis, assim, quando as adagas vis nos flancos de C\u00e9sar enterrastes. Como monos, os dentes, s\u00f3, mostr\u00e1veis; como c\u00e3es, rastej\u00e1veis servilmente, e, como escravos, vos curv\u00e1veis todos, beijando os p\u00e9s de C\u00e9sar, no momento em que o maldito Casca, como d\u00e9bil c\u00e3ozinho, por detr\u00e1s atingiu C\u00e9sar, em plena nuca. Aduladores todos!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Aduladores! Bruto, a v\u00f3s, apenas, deveis agradecer esse elogio. N\u00e3o nos ofenderia hoje essa l\u00edngua, se a voz de C\u00e1ssio houvesse sido ouvida.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Entremos no que importa. Se \u00e9 verdade que suamos s\u00f3 de argumentar, a prova nos far\u00e1 derramar vermelhas gotas. Vede: Contra conspiradores tiro a espada. Quando julgais que torne a embainh\u00e1-la? Nunca antes de ficarem bem vingadas as vinte e tr\u00eas feridas do alto C\u00e9sar, ou enquanto n\u00e3o tiver um novo C\u00e9sar acrescentado mais um mortic\u00ednio \u00e0 espada dos traidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Nunca, Ot\u00e1vio, te matar\u00e3o traidores, se ao teu lado jamais os consentires.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 \u00c9 o que espero; n\u00e3o nasci para v\u00edtima de espada de Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Caso fosses o mais nobre de tua gera\u00e7\u00e3o, mancebo, nunca poderias achar t\u00e3o digna morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 N\u00e3o merece tanta honra um colegial petulante, que tem por companheiro um farsista e um estr\u00f3ina.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 O velho C\u00e1ssio sempre a falar!<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Ant\u00f4nio, retiremo-nos. Traidores, atiramos-vos aos dentes o desafio. Se hoje, ainda, tiverdes coragem de lutar, ao campo vinde; se n\u00e3o, quando julgardes conveniente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Ot\u00e1vio e Ant\u00f4nio, com seu ex\u00e9rcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Agora, soprai, ventos! Levantai-vos, ondas, e nade o barco! A tempestade se acha desencadeada. Impera o acaso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ol\u00e1! Luc\u00edlio, uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Bruto e Luc\u00edlio falam \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Messala!<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 O general chamou-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bom Messala, hoje \u00e9 o meu natal\u00edcio; justamente no dia de hoje C\u00e1ssio veio ao mundo. Messala, d\u00e1-me a m\u00e3o. \u00c9s testemunha de que \u00e9 for\u00e7ado, como o foi Pompeu, que arrisco numa s\u00f3 batalha todas as nossas liberdades. De Epicuro, bem o sabeis, sou fervoroso adepto e de sua doutrina. Mas agora mudei de parecer e em parte creio que pode haver press\u00e1gios. Quando v\u00ednhamos de Sardes, duas \u00e1guias vieram p\u00f4r-se no estandarte da frente. Colocadas a\u00ed, avidamente recebiam alimento das m\u00e3os dos nossos homens. Assim vieram conosco at\u00e9 Filipos. Mas hoje cedo levantaram v\u00f4o e desapareceram, sobrevoando-nos as cabe\u00e7as, n\u00e3o \u00e1guias, por\u00e9m corvos, gavi\u00f5es e gralhas, que nos olham do alto, como se presas f\u00f4ssemos inermes. Sua sombra parece-se com um p\u00e1lio de mau agouro, sob o qual o ex\u00e9rcito se ache no ponto de exalar o esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 N\u00e3o deis cr\u00e9dito a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Em parte, apenas, terei de dar, pois sou de \u00e2nimo forte e me acho decidido a enfrentar todos os perigos com a m\u00e1xima const\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Isso mesmo, Luc\u00edlio.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Agora, muito nobre Bruto, prop\u00edcios hoje os deuses todos nos sejam, para que possamos, como amigos, em paz, guiar os dias, at\u00e9 ficarmos velhos. Mas n\u00e3o sendo segura nunca a sorte dos humanos, raciocinemos sobre o que nos possa de pior acontecer. Se acaso viermos a perder a batalha, n\u00e3o teremos nenhuma outra ocasi\u00e3o de nos falarmos. Como pensais agir nessa emerg\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 De acordo com os princ\u00edpios da doutrina que me levou a censurar Cat\u00e3o por se ter suicidado. N\u00e3o consigo compreender a raz\u00e3o, mas considero covarde e vil, apenas pelo medo do que ainda possa vir a acontecer-nos, encurtarmos o prazo da exist\u00eancia. De paci\u00eancia saberei armar-me, para esperar alguma provid\u00eancia do poder que l\u00e1 do alto nos governa.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Sendo assim, se perdermos a batalha, ficareis satisfeito quando em triunfo pelas ruas de Roma vos levarem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 N\u00e3o, C\u00e1ssio; n\u00e3o. N\u00e3o penses, como nobre romano que \u00e9s, que Bruto possa, um dia ser levado em correntes para Roma. \u00c9 de esp\u00edrito altivo. Mas o dia de hoje ir\u00e1 dar remate ao que nos idos de mar\u00e7o come\u00e7ou. Ignoro se ainda viremos a encontrar-nos. Despe\u00e7amo-nos, por isso, para sempre. Se de novo nos virmos, sorriremos. Sendo o oposto, fizemos bem de assim nos despedirmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Bruto, adeus para sempre; para sempre. Realmente, se nos virmos, sorriremos. Sendo o oposto, foi bom nos despedirmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Muito bem. Avan\u00e7ai. Oh, se soub\u00e9ssemos o fim desta jornada antes do in\u00edcio! Mas basta que este dia chegue ao t\u00e9rmino, que o fim j\u00e1 saberemos. Vamos! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat52\" name=\"jcat52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O campo de batalha. Alarma. Entram Bruto e Messala.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Corre, Messala, corre e entrega a nota \u00e0s legi\u00f5es do outro lado. (<i>Maior alarma.<\/i>) Devem todas avan\u00e7ar de uma vez, pois noto na ala de Ot\u00e1vio alguns ind\u00edcios de tibieza. Uma arrancada s\u00fabita os dispersa. Corre, Messala; corre! Venham todos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat53\" name=\"jcat53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do campo de batalha. Alarma. Entram C\u00e1ssio e Tit\u00ednio<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Olha, Tit\u00ednio, aqueles miser\u00e1veis est\u00e3o fugindo. Eu pr\u00f3prio transformei-me em inimigo dos nossos. Este l\u00e1baro tinha virado costas; dei a morte ao poltr\u00e3o que o levava e o tomei dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 \u00d3 C\u00e1ssio, Bruto deu o sinal cedo. Tendo alguma vantagem sobre Ot\u00e1vio, precipitou-se muito na ofensiva. Seus soldados entregam-se \u00e0 pilhagem, enquanto Ant\u00f4nio, aqui, nos traz cercados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra P\u00edndaro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdNDARO \u2014 Senhor, fugi, fugi para mais longe! Marco Ant\u00f4nio se encontra em vossas tendas. Nobre C\u00e1ssio, fugi para mais longe!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Desta colina enxerga-se mui longe. Olha Tit\u00ednio, escuta: aquelas tendas em que percebo fogo s\u00e3o as minhas?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Perfeitamente, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Tit\u00ednio, se me amas, monta em meu cavalo, calca-lhe as esporas, at\u00e9 que \u00e0quelas tropas te leve e aqui te traga de retorno, pois saber quero com certeza se elas s\u00e3o amigas, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Com a rapidez do pensamento, aqui estarei de novo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vai, P\u00edndaro, coloca-te no ponto mais alto da colina. Minha vista sempre foi fraca. Observa bem Tit\u00ednio e dize-me o que v\u00eas por todo o campo. (<i>P\u00edndaro sobe a colina.<\/i>) No dia de hoje vim ao mundo; o tempo j\u00e1 deu a volta. Tenho de finar-me no ponto da partida. Minha vida completou o circuito. Ol\u00e1! Que \u00e9 que h\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdNDARO (<i>de cima<\/i>) \u2014 Oh, meu senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Que novidades h\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdNDARO \u2014 Tit\u00ednio est\u00e1 cercado por guerreiros de cavalo, que \u00e0 espora fita o seguem. Mas das suas tamb\u00e9m ele faz uso. Est\u00e3o quase sobre ele&#8230; Isso, Tit\u00ednio! Alguns apearam&#8230; Ele tamb\u00e9m desce&#8230; Foi feito prisioneiro. (<i>Ouvem-se \u00a0aclama\u00e7\u00f5es.<\/i>) Est\u00e3o contentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">C\u00c1SSIO \u2014 Vem para c\u00e1; j\u00e1 chega o que observaste. Oh, como sou covarde! Viver tanto, para ver preso meu melhor amigo, perto dos pr\u00f3prios olhos! Aproxima-te, rapaz. Foi na guerra contra os partos que te fiz prisioneiro. Mas deixando-te com vida, ent\u00e3o, juraste-me que havias de cumprir tudo quanto eu te ordenasse, fosse o que fosse. Vem; cumpre a palavra. Livre \u00e9s daqui por diante, e, fazendo uso desta excelente espada que nas v\u00edsceras de C\u00e9sar penetrou, fere este peito. N\u00e3o repliques; segura aqui no punho, e quando vires que eu cobri o rosto, tal como o fa\u00e7o agora, empurra a espada. C\u00e9sar, foste vingado, justamente com a mesma espada que te deu a morte. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdNDARO \u2014 Desse modo ganhei a liberdade; mas livre n\u00e3o seria, se eu tivesse podido agir por mim. Oh C\u00e1ssio! P\u00edndaro fugir\u00e1 para longe desta terra, onde romano algum possa not\u00e1-lo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam Tit\u00ednio e Messala.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Uma coisa por outra, simplesmente. Ot\u00e1vio foi vencido pelas for\u00e7as do nobre Bruto, assim como o foi C\u00e1ssio pelas legi\u00f5es de Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Essas not\u00edcias reconfortar\u00e3o C\u00e1ssio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Onde o deixastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Nesta colina, de \u00e2nimo abatido. P\u00edndaro, seu escravo, o acompanhava.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 ele que est\u00e1 ali no solo?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Parece n\u00e3o ter vida. Oh, cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 N\u00e3o \u00e9 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Era ele, sim, Messala; C\u00e1ssio j\u00e1 n\u00e3o existe. \u00d3 sol da tarde! Do mesmo modo que com raios rubros somes na noite, o dia, assim, de C\u00e1ssio mergulha no seu sangue purpurino. Entrou o sol de Roma. Nosso dia j\u00e1 se foi. Nuvens, brumas e perigos ter\u00e3o de vir. Nossa obra est\u00e1 completa. Este ato decorreu da desconfian\u00e7a de que eu pudesse ser bem sucedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 De que ainda haver pudesse bom sucesso. \u00d3 erro odioso, filho da tristeza! Por que mostrais ao vivo pensamento dos homens o que \u00e9 falso? Muito cedo concebido, careces sempre e sempre de um feliz nascimento, pois a morte da pr\u00f3pria m\u00e3e engendras.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Ol\u00e1! P\u00edndaro! P\u00edndaro, onde te encontras?<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Vai em busca dele, Tit\u00ednio, enquanto eu vou \u00e0 procura do nobre Bruto, para que os ouvidos lhe fira ante a not\u00edcia desta morte. Sim, digo bem: ferir pois o a\u00e7o agudo e a seta envenenada n\u00e3o seriam aos ouvidos de Bruto menos gratos do que a not\u00edcia do que estamos vendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00cdNIO \u2014 Apressa-te, Messala, que entrementes vou ver se encontro P\u00edndaro. (<i>Sai Messala.<\/i>) Meu bravo C\u00e1ssio, por que mandaste que me fosse? Amigos teus n\u00e3o eram todos quantos ao encontro me sairam? Sobre a fronte n\u00e3o me puseram eles esta bela coroa da vit\u00f3ria, desejando que a ti transmitisse? N\u00e3o ouviste suas exclama\u00e7\u00f5es? Ah, nobre amigo! Interpretaste mal todas as coisas. Mas recebe na fronte esta coroa; teu Bruto me ordenou que ta entregasse. Executo suas ordens. Vem depresa, Bruto, certificar-te da maneira por que honrei C\u00e1ssio. Desculpai-me, deuses; \u00e9 h\u00e1bito dos romanos: vamos, gl\u00e1dio de C\u00e1ssio, encontra o peito de Tit\u00ednio. (<i>Mata-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Volta Messala, com Bruto, o mo\u00e7o Cat\u00e3o, Estrato, Vol\u00famnio e Luc\u00edlio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Messala, onde ficou ca\u00eddo o corpo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Ali; Tit\u00ednio chora ao lado dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Est\u00e1 de rosto para cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAT\u00c3O \u2014 Morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 J\u00falio C\u00e9sar, ainda \u00e9s poderoso! Teu esp\u00edrito vaga pela terra e faz virar nossas espadas contra nossas pr\u00f3prias entranhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma ao longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAT\u00c3O \u2014 Valoroso Tit\u00ednio! N\u00e3o foi ele que a coroa p\u00f4s no defunto C\u00e1ssio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Existir\u00e3o dois romanos como estes? Derradeiro dos romanos, adeus! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que de futuro Roma gerar possa algu\u00e9m igual a ti. Devo mais l\u00e1grimas, amigos, a este corpo, do que possa vir a pagar. Mas pouco importa, C\u00e1ssio; para isso hei de achar tempo, hei de achar tempo. Vamos; enviemos para Tasso o corpo. N\u00e3o dever\u00e3o ser feitas as obs\u00e9quias em nosso acampamento; poderiam deixar-nos abatidos. Vem, Luc\u00edlio; jovem Cat\u00e3o, partamos para o campo de batalha; Lab\u00e9u e Fl\u00e1vio devem guiar nossas legi\u00f5es. J\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas horas. Tentaremos de novo nossa sorte, antes que a noite baixe. Vida ou morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat54\" name=\"jcat54\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do campo de batalha. Alarma. Entram, a lutar, soldados dos dois lados; depois, Bruto, o mo\u00e7o Cat\u00e2o, Luc\u00edlio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Assim, concidad\u00e3os! Coragem! Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">CAT\u00c3O \u2014 Quem n\u00e3o ter\u00e1 coragem? S\u00f3 bastardos poderiam falhar-nos. Quem me segue? Por todo o campo de batalha mando proclamar o meu nome. Ouvi-me! Filho sou de Marco Cat\u00e3o, inimigo ac\u00e9rrimo dos tiranos, amigo dos romanos. Sou o filho de Cat\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 E eu, Marco Bruto! Marco Bruto! Escutai-me! Bruto! Amigo de minha p\u00e1tria. Como a Bruto, ouvi-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Enquanto Bruto sai perseguindo o inimigo, Cat\u00e3o \u00e9 sobrepujado e cai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 \u00d3 Cat\u00e3o, nobre e jovem! J\u00e1 caiste? Morres como Tit\u00ednio: bravamente. Qual filho de Cat\u00e3o, ser\u00e1s honrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Rende-te, se n\u00e3o, morres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 S\u00f3 me rendo para morrer. (<i>Oferecendo-lhe dinheiro.<\/i>) Toma isto; \u00e9 o suficiente para morte me dares imediata. Mata Bruto e, com isso, fica honrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o devemos faz\u00ea-lo; \u00e9 presa nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Abri caminho! Ide dizer a Ant\u00f4nio que Bruto caiu preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Vou levar-lhe a not\u00edcia. Mas eis o general. (<i>Entra Ant\u00f4nio.<\/i>) Senhor, prendemos Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 Em seguran\u00e7a, Ant\u00f4nio; Bruto se acha salvo em lugar seguro. Uma s\u00f3 coisa vos posso asseverar: nenhum inimigo jamais prender\u00e1 vivo o nobre Bruto. Os deuses o defendam desse opr\u00f3brio. Onde quer que o encontrardes, vivo ou morto, igual ser\u00e1 a si pr\u00f3prio, igual a Bruto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 Bruto esse, amigo; mas garanto-vos que n\u00e3o \u00e9 presa de valor somenos. Guardai este homem em lugar seguro, dispensando-lhe trato generoso. Prefiro n\u00e3o ter tais homens como amigos a t\u00ea-los como inimigos. Apressai-vos; ide ver se est\u00e1 Bruto vivo ou morto. Depois, \u00e0 tenda me direis de Ot\u00e1vio como tudo correu.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"jcat55\" name=\"jcat55\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do campo de batalha. Entram Bruto, Dard\u00e2nio, Clito, Estrato e Vol\u00famnio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Vinde, resto minguado dos amigos; descansai nesta pedra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Houve quem visse a tocha de Estat\u00edlio; no entretanto, senhor, ele n\u00e3o veio; ou ficou preso, ou j\u00e1 se encontra morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Clito, senta-te. \u201cMatar\u201d \u00e9 a senha; o feito est\u00e1 em moda. Escuta, Clito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fala-lhe ao ouvido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Que dizeis, senhor? N\u00e3o, pelo mundo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ent\u00e3o, caluda!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Prefiro suicidar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Ouve, Dard\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fala-lhe ao ouvido.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DARD\u00c2NIO \u2014 Eu, incumbir-me de tal coisa? Nunca!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Oh, Dard\u00e2nio<\/p>\n<p align=\"justify\">DARD\u00c2NIO \u2014 Oh, Clito!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Que pedido funesto te fez Bruto?<\/p>\n<p align=\"justify\">DARD\u00c2NIO \u2014 O de mat\u00e1-lo. V\u00ea; ele medita.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Esse vaso admir\u00e1vel se acha, agora, t\u00e3o cheio de amargura, que dos pr\u00f3prios olhos se lhe transbordam.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Bom Vol\u00famnio, chega-te para perto; uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIO \u2014 Que disse meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Isto, Vol\u00famnio: o esp\u00edrito de C\u00e9sar por duas vezes me apareceu de noite; em Sardes, uma; e, na noite passada, aqui nos campos de Filipos. Minha hora j\u00e1 soou.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 assim, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 \u00c9 sim, Vol\u00famnio. Bem v\u00eas, Vol\u00famnio como as coisas correm: neste combate, nossos inimigos at\u00e9 \u00e0 beira do abismo nos trouxeram. \u00c9 mais digno de n\u00f3s saltarmos nele, do que esperar que venham empurrar-nos. Meu bondoso Vol\u00famnio, como sabes, \u00e0 escola fomos juntos. Ora, em nome dessa antiga amizade, instante pe\u00e7o-te: segura-me esta espada, que sobre ela me precipitarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">VOL\u00daMNIO \u2014 Isso, senhor, n\u00e3o \u00e9 servi\u00e7o que um amigo fa\u00e7a<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma ao longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Fugi, senhor. Aqui correis perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Adeus a v\u00f3s, e a v\u00f3s; e a ti, Vol\u00famnio. Dormiste, Estrato, quase todo o tempo; adeus, tamb\u00e9m, Estrato. Compatriotas, o cora\u00e7\u00e3o me salta de alegria pelo fato de nunca haver achado ningu\u00e9m que n\u00e3o me houvesse sido fiel. Mais gl\u00f3ria ganharei nesta jornada desastrosa, que Ot\u00e1vio e Marco Ant\u00f4nio h\u00e3o de alcan\u00e7ar com sua vil conquista. A v\u00f3s todos, adeus; pois dentro em pouco a voz de Bruto acabar\u00e1 sua hist\u00f3ria. A noite escura os olhos me recobrem; j\u00e1 me pedem repouso os lassos ossos, que s\u00f3 se azafamaram tanto e tanto, para esta hora alcan\u00e7arem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Gritos, dentro: \u201cFugi todos!\u201d<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CLITO \u2014 Fugi, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Depressa! J\u00e1 vos sigo. (<i>Saem Clito, Dard\u00e2nio e Vol\u00famnio.<\/i>) Estrato, por obs\u00e9quio, fica ao lado de teu amo. \u00c9s pessoa bem formada; chispas de honra tens sempre revelado. Segura-me esta espada e vira o rosto, porque nela eu me atire. Far-me-\u00e1s isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTRATO \u2014 Dai-me, primeiro, a m\u00e3o, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRUTO \u2014 Adeus, bondoso Estrato. (<i>Atira-se de encontro \u00e0 espada.<\/i>) C\u00e9sar, podes acalmar-te; contente a morte aceito, como no instante de ferir-te o peito. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Alarma. Retirada. Entram Ot\u00e1vio, Ant\u00f4nio, Messala, L\u00facio e o ex\u00e9rcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Quem \u00e9 este homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 O criado de meu amo. Onde se encontra, Estrato, teu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTRATO \u2014 Livre dos elos, Messala, que vos pesam. Cinza, apenas, poder\u00e3o fazer dele os vencedores. Bruto s\u00f3 foi vencido por si mesmo: ningu\u00e9m mais se gloria com sua morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00cdLIO \u2014 \u00c9 assim mesmo que Bruto deveria ser encontrado. Agradecido, Bruto, te fico por haveres confirmado quanto Luc\u00edlio disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 A meu servi\u00e7o h\u00e3o de ficar quantos serviram Bruto. Queres servir-me, amigo, de ora em diante?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTRATO \u2014 Se Messala quiser recomendar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 Fazei isso, Messala.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Estrato, como pereceu teu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTRATO \u2014 A espada eu segurei; jogou-se nela.<\/p>\n<p align=\"justify\">MESSALA \u2014 Ent\u00e3o, Ot\u00e1vio, aceita-o, que ao seu amo prestar soube ele o \u00faltimo servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Foi o mais nobre dos romanos. Todos os mais conspiradores, tirante ele, o feito realizaram por inveja de C\u00e9sar. Bruto, apenas, foi levado por uma id\u00e9ia honesta e o bem de todos a ligar-se aos demais. Era de vida tranq\u00fcila, e os elementos de tal modo nele vieram a se unir, que a natureza podia levantar-se e ao mundo inteiro proclamar: \u201cEis aqui, de fato, um homem!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">OT\u00c1VIO \u2014 De acordo com seu m\u00e9rito o tratemos, realizando com o m\u00e1ximo respeito os ritos funerais. Esta noite seu corpo ficar\u00e1 na minha tenda com honras adequadas a um guerreiro. Mandai tocar repouso para o ex\u00e9rcito. Quanto a n\u00f3s, dividamos com alegria as gl\u00f3rias deste grande e feliz dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<p><iframe id=\"oauth2relay400519365\" tabindex=\"-1\" src=\"https:\/\/accounts.google.com\/o\/oauth2\/postmessageRelay?parent=http%3A%2F%2Fold.portalsaofrancisco.com.br&amp;jsh=m%3B%2F_%2Fscs%2Fapps-static%2F_%2Fjs%2Fk%3Doz.gapi.pt_BR.CHSKBiWwMLU.O%2Fm%3D__features__%2Fam%3DAQ%2Frt%3Dj%2Fd%3D1%2Frs%3DAGLTcCMphwDiM-Pk9K0ic1IWl-jGFbCxFQ#rpctoken=2071110068&amp;forcesecure=1\" name=\"oauth2relay400519365\" width=\"300\" height=\"150\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens Dram\u00e1ticas J\u00daLIO C\u00c9SAR, OT\u00c1VIO C\u00c9SAR, Tri\u00fanviro depois da morte de J\u00falio C\u00e9sar, MARCO ANT\u00d4NIO, Tri\u00fanviro depois da morte de J\u00falio C\u00e9sar, M. 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