{"id":120340,"date":"2017-04-25T10:04:53","date_gmt":"2017-04-25T12:04:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120340"},"modified":"2017-04-25T10:04:53","modified_gmt":"2017-04-25T12:04:53","slug":"a-tempestade-1623","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-tempestade-1623","title":{"rendered":"A Tempestade (1623)"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\"><b>ALONSO<\/b>, rei de N\u00e1poles.<br \/>\n<b>SEBASTI\u00c3O<\/b>, seu irm\u00e3o.<br \/>\n<b>PR\u00d3SPERO<\/b>, o leg\u00edtimo duque de Mil\u00e3o<br \/>\n<b>ANT\u00d4NIO<\/b>, seu irm\u00e3o, duque usurpador de Mil\u00e3o.<br \/>\n<b>FERDINANDO<\/b>, filho do rei de N\u00e1poles.<br \/>\n<b>GONZALO<\/b>, um velho e honesto conselheiro.<br \/>\n<b>ADRIANO<\/b>, nobre,<br \/>\n<b>FRANCISCO<\/b>, nobre.<br \/>\n<b>CALIB\u00c3<\/b>, escravo selvagem e disforme.<br \/>\n<b>TR\u00cdNCULO<\/b>, palha\u00e7o.<br \/>\n<b>EST\u00c9FANO<\/b>, despenseiro b\u00eabado.<br \/>\n<b>MIRANDA<\/b>, filha de Pr\u00f3spero.<br \/>\n<b>ARIEL<\/b>, esp\u00edrito do ar.<br \/>\n<b>\u00cdRIS<\/b>,<br \/>\n<b>CERES<\/b>, esp\u00edrito.<br \/>\n<b>JUNO<\/b>, esp\u00edrito.<br \/>\nComandante de um navio, contramestre, marinheiros.<br \/>\nNinfas, esp\u00edritos.<br \/>\nSegadores, esp\u00edritos.<br \/>\nOutros esp\u00edritos, a servi\u00e7o de Pr\u00f3spero.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">ATO I<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena I<\/span><\/h2>\n<p align=\"justify\">\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>A bordo de um navio no mar. Tempestade, com rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es. Entram, por lados diferentes, Um comandante de navio e um contramestre<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">COMANDANTE \u2014 Contramestre!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Aqui, comandante! Tudo bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">COMANDANTE \u2014 Bem. Falai com os marinheiros. Pegai firme, se n\u00e3o, iremos dar \u00e0 costa. M\u00e3os \u00e0 obra! M\u00e3os \u00e0 obra!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram marinheiros<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Vamos, cora\u00e7\u00f5es! Coragem! Coragem, meus cora\u00e7\u00f5es! For\u00e7a! Coragem! Amainai a mezena! Prestai aten\u00e7\u00e3o ao apito do comandante! \u2014 Sopra, vento, at\u00e9 arrebentar, se houver espa\u00e7o bastante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Alonso, Sebasti\u00e3o, Ant\u00f4nio, Ferdinando, Gonzalo e outros).<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Cuidado, cuidado, bondoso contramestre! Onde est\u00e1 o comandante? Sede homens!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Por obs\u00e9quio, ficai l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Contramestre, onde est\u00e1 o comandante?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 N\u00e3o o estais ouvindo? Mas, assim, atrapalhais nosso trabalho. Permanecei nos camarotes; estais mas \u00e9 ajudando a tempestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Tende paci\u00eancia, amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Quando o mar tiver paci\u00eancia. Vamos, fora daqui! Que importa a estes berradores o nome de rei? Ide para os camarotes! Sil\u00eancio! N\u00e3o nos prejudiqueis!<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Bem; mas lembra-te de quem levas a bordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Ningu\u00e9m a quem eu ame mais do que a mim pr\u00f3prio. Sois conselheiro, n\u00e3o? Se pudermos impor sil\u00eancio a estes elementos e estabelecer ordem imediata, n\u00e3o tocaremos em uma s\u00f3 corda mais. Recorrei a vossa autoridade; mas se ela for inoperante, dai gra\u00e7as ao c\u00e9u por terdes vivido tanto e ficai nos camarotes preparados para o que vossa hora vos reservou. \u2014 Coragem, meus cora\u00e7\u00f5es! \u2014 Sa\u00ed do caminho, j\u00e1 disse! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Tenho muita confian\u00e7a neste camarada. N\u00e3o tem cara de quem h\u00e1 de morrer afogado. Tem mais cara de enforcado. Persisti, bondoso Fado, no enforcamento dele. Fazei que a corda de seu destino seja nosso cabo, que o nosso mesmo n\u00e3o oferece nenhuma resist\u00eancia. Mas se ele n\u00e3o nasceu para a forca, nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 miser\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem. Volta o Comandante.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Amainai o joanete! Vamos! Depressa! Mais baixo! Mais baixo! Experimentemos deixar s\u00f3 a vela grande! (<i>Ouve-se um grito no interior.<\/i>) A peste leve esses gritadores! Fazem mais barulho do que a tempestade e todas as manobras. (<i>Voltam Sebasti\u00e3o, Ant\u00f4nio e Gonzalo.<\/i>) Outra vez? que fazeis aqui? Ser\u00e1 preciso largar tudo e perecer afogado? Quereis ir para o fundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Que a bexiga vos ataque a goela, c\u00e3o gritador, blasfemo e sem caridade!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Nesse caso, trabalhai!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vai te enforcar, mastim! Vai te enforcar, gritador insolente e sem-vergonha! Temos menos medo de perecer afogado do que tu.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Sirvo eu de fiador em como ele n\u00e3o morrer\u00e1 afogado, ainda que o navio fosse t\u00e3o resistente quanto uma casca de noz, e vazasse tanto quanto uma rapariga incontinente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Or\u00e7a! Or\u00e7a! Largai duas velas! Virai de bordo outra vez! Ao largo! Ao largo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram marinheiros com roupas molhadas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIROS \u2014 Est\u00e1 tudo perdido! Vamos rezar! Vamos rezar! Est\u00e1 tudo perdido! (<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Como! Teremos de ficar com a boca fria?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 O rei e o filho rezam; imitemo-los, que o nosso caso \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 \u00c9 intoler\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 A vida temos \u00e0 merc\u00ea de uns b\u00eabedos, trapaceiros no jogo. Aquele biltre de boca escancarada&#8230; S\u00f3 quisera ver-te a afogar, e que levado fosses por dez mar\u00e9s!<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Espera-o mas \u00e9 a forca, muito embora a isso se opusessem todas as gotas de \u00e1gua e se alargassem, para trag\u00e1-lo de uma vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Rumores confusos no interior.<\/i>) Miseric\u00f3rdia!\u201d \u201cO navio est\u00e1 abrindo! Naufragamos!\u201d \u201cAdeus, irm\u00e3o!\u201d \u201cEstamos naufragando!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pere\u00e7amos com o rei. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Despe\u00e7amo-nos dele. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Daria agora mil est\u00e1dios de mar por uma jeira de terra est\u00e9ril com urzes longas, tojo escuro&#8230; fosse o que fosse. Seja feita a vontade l\u00e1 de cima; mas preferia ter morte seca. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"tmpt12\"><\/a><\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena II<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>A ilha. Diante da cela de Pr\u00f3spero.<br \/>\nEntram Pr\u00f3spero e Miranda.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Se com vossa arte, pai querido, as \u00e1guas selvagens levantastes, acalmai-as. Derramaria o c\u00e9u pez escaldante, se at\u00e9 sua face o mar n\u00e3o se elevasse, para apagar o fogo. Como a vista dos que sofriam me era dolorosa! Um navio t\u00e3o bravo, que, sem d\u00favida, conduzia pessoas excelentes, reduzido a peda\u00e7os! Transpassaram-me o cora\u00e7\u00e3o seus gritos. Pobres almas! Pereceram. Se eu fosse um deus potente, pela terra absorvido o mar seria, antes de naufragar t\u00e3o bom navio com sua carga de almas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Tranq\u00fciliza-te. Acalma o susto e conta ao teu piedoso cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o houve nenhum dano.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! Que dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Nehum. Tudo o que fiz, foi por ti, simplesmente, minha filha, por tua causa, filha idolatrada, que n\u00e3o sabes quem \u00e9s, nem tens not\u00edcia de onde eu teria vindo, nem que eu possa ser mais que Pr\u00f3spero, talvez, o dono desta gruta e teu pai n\u00e3o muito grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Desejos nunca tive de obter outras informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 \u00c9 tempo de saberes alguma coisa mais. A m\u00e3o me empresta e dos ombros me tira o manto m\u00e1gico. \u2014 Perfeitamente. (<i>Tira o manto.<\/i>) Fica a\u00ed, minha arte. \u2014 As l\u00e1grimas enxuga; fica alegre. O espet\u00e1culo terr\u00edvel do naufr\u00e1gio que em ti fez despertar a pr\u00f3pria for\u00e7a da compaix\u00e3o, por mim foi de tal modo dirigido, com tanta seguran\u00e7a, que, de toda essa gente, cujos gritos ouviste e que \u00e0 tua vista naufragou, nenhuma alma, nenhuma, nem um fio de cabelo sofreu nenhum preju\u00edzo. Senta-te aqui; precisas saber tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Mais de uma vez quisestes revelar-me quem eu sou; mas par\u00e1veis, entregando-me a v\u00e3s cogita\u00e7\u00f5es, e me diz\u00edeis: \u201cEspera mais; \u00e9 cedo\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Chegou a hora, n\u00e3o, o minuto justo em que \u00e9 preciso teres o ouvido aberto. Ora obedece-me e aten\u00e7\u00e3o presta a tudo. Tens alguma lembran\u00e7a da \u00e9poca em que n\u00f3s ainda n\u00e3o viv\u00edamos nesta cela pobre? N\u00e3o acredito, pois naquele tempo n\u00e3o contavas tr\u00eas anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! decerto, senhor, posso lembrar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Por que ind\u00edcios? Outra casa? Pessoas diferentes? A imagem me revela do que possas ainda ter conservado na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Tudo muito distante. \u00c9 mais um sonho do que certeza o que a reminisc\u00eancia me leva a asseverar. N\u00e3o houve uma \u00e9poca, h\u00e1 muito tempo, em que de mim cuidavam quatro ou cinco mulheres?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sim, Miranda; e mais, at\u00e9. Por\u00e9m, como te lembras de semelhante coisa? Que distingues, al\u00e9m disso, no escuro do passado e no seio do tempo? Se consegues lembrar-te de algo acontecido em \u00e9poca anterior \u00e0 tua vinda, tamb\u00e9m podes lembrar-te como para c\u00e1 vieste.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Disso, por\u00e9m, n\u00e3o tenho id\u00e9ia alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 H\u00e1 doze anos, Miranda, sim, doze anos, era teu pai um poderoso pr\u00edncipe, e Duque de Mil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Ent\u00e3o, senhor, n\u00e3o sois meu pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Tua m\u00e3e foi um modelo de virtude, e me disse que, em verdade, minha filha tu eras. Teu pai era, pois, Duque de Mil\u00e3o. Como herdeira \u00fanica tinha ele uma princesa, nada menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh c\u00e9us! Por que trai\u00e7\u00e3o perdemos isso? Ou foi melhor assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ambas as coisas. Sim, por trai\u00e7\u00e3o, como disseste, viemos parar aqui; mas redundou em nossa felicidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh c\u00e9us! O cora\u00e7\u00e3o me sangra s\u00f3 de pensar em quanto vos fui causa de sofrimento, do que n\u00e3o me resta nada mais na mem\u00f3ria. Prossegui, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Meu mano, e, pois, teu tio, de nome Ant\u00f4nio&#8230; Pe\u00e7o-te prestar-me toda aten\u00e7\u00e3o. \u2014 Concebe-se que possa ser um irm\u00e3o t\u00e3o p\u00e9rfido a esse ponto? \u2014 Depois de ti, era a ele que eu amava mais do que tudo neste mundo, tendo-lhe confiado a dire\u00e7\u00e3o de meu Estado, que, na \u00e9poca, primava sobre todos, tal como Pr\u00f3spero entre os outros pr\u00edncipes. Gozando de t\u00e3o alta dignidade, n\u00e3o achava rival no que respeita s artes liberais. A estas dedicando todo o meu tempo, o peso do governo transferi a meu mano, assim tornando-me cada vez mais estranho \u00e0 minha terra, porque s ci\u00eancias secretas dedicado. Teu falso tio, entanto&#8230; Est\u00e1s me ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Sou toda ouvidos, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Havendo ficado inteiramente a par de como satisfazer pedidos ou neg\u00e1-los, a quem favorecer, a quem de todo burlar nas pretens\u00f5es, criou de novo minhas criaturas, ou melhor, mudou-lhes a natureza, outra fei\u00e7\u00e3o lhes dando. A um s\u00f3 tempo dispondo dos of\u00edcios e da chave do cargo, afinou todos os cora\u00e7\u00f5es de acordo com a toada que aos ouvidos mais grata lhe soasse, e na hera se mudou, pois, que meu trono principesco escondia e que lhe a seiva vital sugava toda. Mas n\u00e3o prestas aten\u00e7\u00e3o ao que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Presto, sim, meu bondoso senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 N\u00e3o percas nada pe\u00e7o-te. Descurando dos assuntos temporais e vivendo inteiramente retirado, a cuidar, t\u00e3o-s\u00f3, dos meios de aperfei\u00e7oar o esp\u00edrito com as artes que, a n\u00e3o serem secretas, no conceito dos homens subiriam, fiz instintos perversos despertar no mano p\u00e9rfido. Minha confian\u00e7a, como pai bondoso, fez nascer nele uma trai\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande quanto minha boa-f\u00e9, que era, em verdade, sem limites, imensa. Assim, tornado senhor n\u00e3o s\u00f3 de quanto minhas rendas lhe facultavam, mas tamb\u00e9m de tudo que meu poder, ent\u00e3o, lhe permitia \u2014 como algu\u00e9m que o pecado da mem\u00f3ria cometesse, por dar inteiro cr\u00e9dito \u00e0s suas pr\u00f3prias mentiras, enunciadas como verdades puras \u2014 chegou ele a acreditar que era, de fato, o duque, por ser o substituto e estar afeito \u00e0s mostras exteriores da realeza e aos privil\u00e9gios inerentes a ela. Tendo sua ambi\u00e7\u00e3o tomado vulto&#8230; Est\u00e1s me ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Estou, senhor, que a vossa narra\u00e7\u00e3o curaria os pr\u00f3prios surdos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Porque anteparo algum se interpusesse entre o papel que ent\u00e3o lhe competia e o ator desse papel, julgou preciso tornar-se de Mil\u00e3o o \u00fanico dono. Eu, coitado, ducado muito grande j\u00e1 me era a biblioteca. Ele julgou-me incapaz da realeza tempor\u00e1ria; confederou-se com o Rei de N\u00e1poles \u2014 tal era a sua sede de dom\u00ednio! \u2014 prometendo pagar-lhe anual tributo e prestar-lhe homenagem, sujeitando sua coroa \u00e0 dele, e, assim, deixando-a \u2014 pobre Mil\u00e3o, que nunca se dobrara! \u2014 na mais vil sujei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh c\u00e9us!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Reflete sobre essas condi\u00e7\u00f5es e as conseq\u00fc\u00eancias de semelhante alian\u00e7a, e ora me dize se era um irm\u00e3o esse homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Fora grande pecado ajuizar mal de minha av\u00f3. J\u00e1 se t\u00eam visto muito nobres ventres dar \u00e0 luz ruins filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Mas cheguemos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es. Sendo esse Rei de N\u00e1poles meu inimigo ac\u00e9rrimo, a proposta de meu irm\u00e3o aceita, isto \u00e9, em troca da vassalagem e do estipulado tributo \u2014 n\u00e3o sei quanto \u2014 compromete-se a me expulsar e aos meus do meu ducado, entregando Mil\u00e3o, a incompar\u00e1vel, com suas honras todas, a meu mano. Assim, reunido um trai\u00e7oeiro ex\u00e9rcito, em certa noite apropriada ao feito abriu Ant\u00f4nio as portas da cidade e em plena escurid\u00e3o os seus asseclas me tiraram dali rapidamente, contigo, pobrezinha, esfeita em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh, que tristeza! Tendo-me esquecido como eu chorava ent\u00e3o, desejos sinto de chorar novamente; os olhos for\u00e7a-me esta oportunidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Alguns momentos mais de aten\u00e7\u00e3o, para chegarmos logo ao ponto principal, sem o que fora toda esta hist\u00f3ria assaz impertinente.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Por que n\u00e3o nos tiraram logo a vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Bela pergunta, jovem, suscitada por minha narrativa. N\u00e3o ousaram, querida \u2014 tanto o povo me estimava p\u00f4r um selo t\u00e3o rubro nesse assunto; mas emprestaram cores mais risonhas a seus nefandos fins. Em suma, \u00e0 pressa, puseram-nos num barco e a algumas l\u00e9guas da costa nos levaram, onde tinham prestes uma carca\u00e7a apodrecida de navio, sem mastros, sem cordoalha, sem vela, nada, enfim. Os pr\u00f3prios ratos o haviam, por instinto, abandonado. Guindaram-nos para a\u00ed, porque chor\u00e1ssemos s ondas mugidoras e suspiros envi\u00e1ssemos aos ventos, que, piedosos, devolvendo os suspiros, nos faziam sofrer por amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! Quanto inc\u00f4modo n\u00e3o vos causei!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Um querubim tu foste, que a vida me salvou. Ent\u00e3o sorrias, enquanto eu borrifava o mar com l\u00e1grimas salgadas, a gemer sob o meu fardo. Isso me deu a irresist\u00edvel for\u00e7a para ag\u00fcentar quanto o futuro incerto me reservasse ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 E de que modo fomos bater praia?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 A Provid\u00eancia divina nos guiou. Conosco t\u00ednhamos alimentos alguns e um pouco de \u00e1gua pot\u00e1vel que Gonzalo, da nobreza napolitana, e que incumbido fora da execu\u00e7\u00e3o de todo esse projeto, por piedade, t\u00e3o-s\u00f3, nos concedera, al\u00e9m de ricas vestes, linho, panos e muitas outras coisas, que t\u00eam sido de grande utilidade. Assim, por pura gentileza, sabendo quanto apego eu tinha aos livros, trouxe-me de minha biblioteca volumes que eu prezava mais do que meu ducado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! Se algum dia pudesse eu ver esse homem!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ora fico de p\u00e9 outra vez. (<i>Torna a vestir o manto.<\/i>) Sentada continua, para ouvires o fim de nossos longos dissabores mar\u00edtimos. Chegamos a esta ilha, e aqui me foi poss\u00edvel, como teu preceptor, fazer que progredisses mais do que outras princesas que disp\u00f5em de muitas horas f\u00fateis e n\u00e3o contam com um mestre t\u00e3o ass\u00edduo e dedicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 O c\u00e9u vos recompense. E ora dizei-me, por favor, que ainda tenho inquieto o esp\u00edrito: por que essa tempestade levantastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Aprender\u00e1s mais isso. Por acaso muito estranho a Fortuna generosa, minha senhora mui prezada agora, trouxe os meus inimigos a esta praia. A ci\u00eancia do futuro me revela que o meu z\u00eanite se acha dominado por um astro auspicioso, cuja influ\u00eancia me cumpre aproveitar, caso n\u00e3o queira que se apague de vez a minha sorte. E agora basta de perguntas. Mostras-te inclinada a dormir, sendo preciso ceder a esse torpor em tudo grato. N\u00e3o podes escolher, tenho certeza. (<i>Miranda adormece.<\/i>) Servidor, estou pronto novamente! Vem, meu Ariel! Aqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ariel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Meu grande mestre, salve! Salve, grave senhor! Vim para em tudo obedecer-te, ou seja para voar, nadar, no fogo mergulhar, ou montar nas nuvens densas. Tua vontade forte \u00e9 que domina Ariel e seu poder.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Executaste, esp\u00edrito, direito a tempestade, conforme te ordenei?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Ponto por ponto. Assaltei o real barco; ora na proa, ora nos flancos, na coberta, em todos os camarotes acendi o susto. Dividido, por vezes, inflamava-me em diversos lugares: sobre o mastro, no gurup\u00e9s, nas vergas, em distintas chamas aparecia, para numa, depois, me concentrar. N\u00e3o s\u00e3o mais r\u00e1pidos nem mais ofuscadores os rel\u00e2mpagos de Jove, precursores das trovoadas assustadoras. Tanto fogo e o embate do sulf\u00farico estrondo pareciam tomar de assalto o muito poderoso Netuno e amedrontar suas bravas ondas. Sim, at\u00e9 o tridente formid\u00e1vel lhe tremia nas m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Meu bravo esp\u00edrito! Quem ter\u00e1 sido t\u00e3o constante e firme que a raz\u00e3o n\u00e3o pendesse em tal revolta?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 N\u00e3o houve alma que a febre da loucura n\u00e3o revelasse e n\u00e3o mostrasse certos sinais de desespero. Com exce\u00e7\u00e3o dos marinheiros, todos mergulharam na espumosa voragem, desertando o navio, que em chamas eu deixara. O herdeiro da coroa, Ferdinando, com os cabelos em p\u00e9 \u2014 mais parecia junco do que cabelo \u2014 deu o exemplo, e, ao altar, exclamou: Ficou vazio todo o inferno; os dem\u00f4nios est\u00e3o soltos!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Muito bem, meu esp\u00edrito! Foi isso perto da praia, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Bem perto, mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Mas Ariel, est\u00e3o salvos mesmo todos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 N\u00e3o se perdeu um fio de cabelo, nem h\u00e1 nas vestes com que se salvaram uma mancha sequer; mais frescas todas est\u00e3o do que antes. E, de acordo sempre com o que recomendaste, dispersei-os em bandos por toda a ilha. O herdeiro pr\u00edncipe, fi-lo chegar a terra por si pr\u00f3prio. Deixei-o a refrescar o ar com suspiros, sentado a um canto estranho da ilha, os bra\u00e7os tristemente cruzados, deste modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 O real navio, com seus marinheiros, dize onde foi parar, e os mais da frota?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 O navio do rei est\u00e1 no porto, no golfo em que uma vez me convocaste para buscar orvalho das Bermudas tempestuosas. Ali se acha escondido. Todos os marinheiros est\u00e3o dentro da escotilha; com meus encantamentos secundando a fadiga dos trabalhos, deixei-os a dormir. Os outros barcos que eu dispersara est\u00e3o de novo juntos. Pelo Mediterr\u00e2neo agora singram, tristemente rumando para N\u00e1poles, certos de terem visto a capitania, que o rei levava, so\u00e7obrar e Sua Grandeza perecer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ariel, cumpriste tua miss\u00e3o a ponto; mas ainda ter\u00e1s o que fazer. Que tempo \u00e9 agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Meio-dia passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Pelo menos de duas ampulhetas. Preciso que aproveitar saibamos o intervalo de agora at\u00e9 seis horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Mais fadigas? J\u00e1 que novos trabalhos me destinas, permite que te lembre uma promessa que ainda n\u00e3o cumpriste.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Qu\u00ea! Zangado? Que podes desejar?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 A liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Antes do tempo certo? Nunca!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Lembra-te que te prestei servi\u00e7os importantes nunca menti, n\u00e3o descuidei de nada nem me mostrei queixoso ou rabugento. Prometeste abater-me um ano inteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Pareces esquecido do tormento de que te libertei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Eu, esquecido?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sim, esqueceste, e julgas de mais peso pisar no limo do salgado p\u00e9lago, ir emp\u00f3s do cortante vento norte, nas veias, para mim, descer da terra, quando o gelo a recoze.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Senhor, n\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Mentes, coisa maligna! N\u00e3o te lembras da repelente bruxa Sicorax, que a idade e a inveja em arco recurvaram? J\u00e1 te esqueceste dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 S\u00f3 parece que sim. Se n\u00e3o, me dize: de onde era ela? Onde nasceu? Responde.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Na Arg\u00e9lia, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ah! sim? Preciso todos os meses repetir quem foste, coisa de que te esqueces a toda hora. Essa bruxa maldita, Sicorax, por crimes horrorosos e terr\u00edveis feiti\u00e7arias que os mortais ouvidos n\u00e3o podem suportar, se viu banida, como sabes, da Arg\u00e9lia. Uma s\u00f3 coisa \u2014 ia ser m\u00e3e \u2014 p\u00f4de salvar-lhe a vida. N\u00e3o \u00e9 verdade tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Por gr\u00e1vida encontrar-se, essa megera de olhos azuis foi para c\u00e1 trazida e abandonada pelos marinheiros. Tu, meu escravo, como te nomeias, eras, ent\u00e3o, seu criado. Mas por seres um esp\u00edrito muito delicado para suas ordens por demais terrenas e repugnantes, n\u00e3o te submetias a quanto ela ordenava, raz\u00e3o clara de te haver ela, ouvindo o imperativo de seu furor imenso e com o aux\u00edlio de seus ministros de poder mais forte, fechado numa fenda de pinheiro. Nessa racha de tronco, atormentado, uns doze anos ficaste, no qual tempo veio a morrer a amaldi\u00e7oada bruxa, na pris\u00e3o te deixando, onde soltavas gemidos t\u00e3o freq\u00fcentes como as rodas do moinho em seu girar. Ent\u00e3o, esta ilha \u2014 se excetuarmos o filho que ela teve, um mostrengo manchado \u2014 forma humana nenhuma a enobrecia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Sim, seu filho Calib\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Coisa obtusa, \u00e9 o que te digo. \u00c9 o mesmo Calib\u00e3 que ora me serve. Ningu\u00e9m melhor que tu sabe os tormentos em que te achei. Faziam teus gemidos ulular lobos e calavam fundo no cora\u00e7\u00e3o dos ursos indom\u00e1veis. Era mart\u00edrio para os condenados aos supl\u00edcios eternos, que desfeito j\u00e1 n\u00e3o podia ser por Sicorax.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Agrade\u00e7o-te, mestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Caso venhas de novo a murmurar, fendo um carvalho e como cunha te comprimo dentro de seu nodoso corpo, at\u00e9 que venhas ululado durante doze invernos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Perd\u00e3o, mestre; mas hei de conformar-me a quanto me ordenares, perfazendo de grado minha obriga\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Faze assim, porque dentro de dois dias dar-te-ei a liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Eis o meu nobre mestre, novamente! Que \u00e9 preciso fazer? Dize. Que mandas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 A forma adquire logo de uma ninfa, a mim e a ti vis\u00edvel, t\u00e3o-somente, a ningu\u00e9m mais. Assume essa postura e volta para c\u00e1. Vamos! Depressa! (<i>Sai Ariel.<\/i>) Acorda, cora\u00e7\u00e3o, acorda logo; j\u00e1 dormiste bastante.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA (<i>despertando<\/i>): O extraordin\u00e1rio de vossa hist\u00f3ria me deixou com sono.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sacode-o. Vamos ver o meu escravo Calib\u00e3, que s\u00f3 tem palavras duras para minhas perguntas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 \u00c9 um velhaco, meu senhor, cuja vista me repugna.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Contudo, n\u00e3o podemos dispens\u00e1-lo. Acende-nos o fogo, traz-nos lenha e nos presta servi\u00e7os variados de muita utilidade. Ol\u00e1! Escravo! Bloco de terra! Calib\u00e3! Responde!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 (<i>dentro<\/i>) \u2014 H\u00e1 muita lenha em casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vem! J\u00e1 disse. Vou dar-te outro servi\u00e7o. Tartaruga, vem logo! Vens? (<i>entra Ariel, metamorfoseado em ninfa do mar.<\/i>) Que linda apari\u00e7\u00e3o! Meu precioso Ariel, ouve-me \u00e0 parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Ser\u00e1 feito, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vem para fora, escravo venenoso, pelo pr\u00f3prio diabo gerado em tua m\u00e3e maldita.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Calib\u00e3.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Que em v\u00f3s dois caia orvalho t\u00e3o nocivo como o que minha m\u00e3e tinha por h\u00e1bito colher nos charcos p\u00fatridos com uma asa negra de corvo. Em v\u00f3s sopre o suloeste e vos deixe cobertos de feridas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Por isso, fica certo, h\u00e1s de esta noite sofrer c\u00e3ibras cont\u00ednuas e pontadas sentir que te h\u00e3o de perturbar o f\u00f4lego. \u00c0 noite, todo o tempo em que puderem mexer-se os duendes, h\u00e3o de exercitar-se sem pausa sobre ti. T\u00e3o densamente como um favo de mel ser\u00e1s picado, sendo mais dolorosa cada uma dessas ferretoadas do que quantas d\u00eaem as pr\u00f3prias abelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Est\u00e1 na hora do meu jantar. Esta ilha \u00e9 minha; herdei-a de Sicorax, a minha m\u00e3e. Roubaste-ma; adulavas-me, quando aqui chegaste; fazias-me car\u00edcias e me davas \u00e1gua com bagas, como me ensinaste o nome da luz grande e da pequena, que de dia e de noite sempre queimam. Naquele tempo, tinha-te amizade, mostrei-te as fontes frescas e as salgadas, onde era a terra f\u00e9rtil, onde est\u00e9ril&#8230; Seja eu maldito por hav\u00ea-lo feito! Que em cima de v\u00f3s caia quanto tinha de encantos Sicorax: besouros, sapos e morcegos. Eu, todos os vassalos de que dispondes, era nesse tempo meu pr\u00f3prio soberano. Mas agora me enchiqueirastes nesta dura rocha e me proibes de andar pela ilha toda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Escravo mentiroso, s\u00f3 pancada te pode comover, nunca o bom trato. Sujo como \u00e9s, tratei-te como gente, alojando-te em minha pr\u00f3pria cela, at\u00e9 ao momento em que tiveste o ousio de querer desonrar a minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Oh oh! Oh oh! Quisera t\u00ea-lo feito; mas mo impediste. Se n\u00e3o fora isso, com Calib\u00e3s houvera a ilha povoado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Escravo abomin\u00e1vel, carecente da menor chispa de bondade, e apenas capaz de fazer mal! Tive piedade de ti; n\u00e3o me poupei canseiras, para ensinar-te a falar, n\u00e3o se passando uma hora em que n\u00e3o te dissesse o nome disto ou daquilo. Ent\u00e3o, como selvagem, n\u00e3o sabias nem mesmo o que querias; emitias apenas gorgorejos, tal como os brutos; de palavras v\u00e1rias dotei-te as inten\u00e7\u00f5es, porque pudesses tom\u00e1-las conhecidas. Mas embora tivesse aprendido muitas coisas, tua vil ra\u00e7a era dotada de algo que as naturezas nobres n\u00e3o comportam. Por isso, merecidamente, foste restringido a esta rocha, sendo certo que mais do que pris\u00e3o tu merecias.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 A falar me ensinastes, em verdade. Minha vantagem nisso, \u00e9 ter ficado sabendo como amaldi\u00e7oar. Que a peste vermelha vos carregue, por me terdes ensinado a falar vossa linguagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Fora daqui, filho de feiticeira! Vai buscar lenha e n\u00e3o demores nada, e o que te digo, que ainda tens servi\u00e7o. Ah! Pouco se te d\u00e1, dem\u00f4nio? Caso negligencies ou fa\u00e7as de mau grado quanto estou a mandar, com velhas c\u00e3ibras a tratos ficar\u00e1s, cheios teus ossos de dores lancinantes, que te obriguem a rugir de tal modo, que at\u00e9 as feras h\u00e3o de tremer \u00e0 tua gritaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o, por favor&#8230; (<i>\u00e0 parte.<\/i>) For\u00e7oso \u00e9 obedecer. Sua arte \u00e9 t\u00e3o potente, que lhe fora poss\u00edvel dominar at\u00e9 Setebos, o deus de minha m\u00e3e e transform\u00e1-lo em seu vassalo, at\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vai logo, escravo! (<i>Sai Calib\u00e3. Volta Ariel, invis\u00edvel, tocando e cantando; Ferdinando o segue.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CANTIGA DE ARIEL: Sobre esta areia amarela saudai a bela. E ap\u00f3s a terdes beijado e o mar caiado, cantai, esp\u00edritos ledos, em coro, vossos brinquedos. Ouvi! Ouvi!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Coro disperso.<\/i>) Au! Au! Os c\u00e3es ladram em sarau<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Coro disperso.<\/i>) Au! Au! Ouvi sequer o canto do chantecler: Co-co-ri-c\u00f3!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 De onde vem esta m\u00fasica? Da terra? Do c\u00e9u, talvez? Parou. \u00c9 dirigida, certamente, a algum deus desta bela ilha. Na praia eu me encontrava, a lastimar-me pelo naufr\u00e1gio de meu pai, o rei, quando por sobre as \u00e1guas esta m\u00fasica chegou at\u00e9 a mim, deixando serenada com o seu doce encanto, a um tempo, a f\u00faria delas e a minha m\u00e1goa. Acompanhei-a at\u00e9 aqui, ou melhor: fui arrastado. Mas j\u00e1 parou. N\u00e3o! Ei-ia novamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL canta:<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Teu pai est\u00e1 a cinco bra\u00e7as.<br \/>\nDos ossos nasceu coral,<br \/>\ndos olhos, p\u00e9rolas ba\u00e7as.<br \/>\nTudo nele \u00e9 perenal;<br \/>\nmas em algo peregrino<br \/>\ntransforma-o o mar de cont\u00ednuo<br \/>\nO sino das ninfas soa:<br \/>\n(<i>Coro.<\/i>) Dim, dim, d\u00e3o!<br \/>\nEscutai como reboa:<br \/>\n(<i>Coro.<\/i>) Dim, dim, d\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Faz-me lembrar a toada o pai defunto. N\u00e3o \u00e9 mortal cantiga, nem terrenos s\u00e3o esses sons. Agora os ou\u00e7o em cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Afasta as franjas que te os olhos cobre e dize o que ali v\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Ser\u00e1 esp\u00edrito? Oh c\u00e9us! que olhar o dele! Acreditai-me, senhor, a forma \u00e9 bela. Mas \u00e9 esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 N\u00e3o, menina; ele dorme, come e bebe como n\u00f3s dois, e tem iguais sentidos. Perfeitamente iguais. Esse mancebo que ali v\u00eas \u00e9 um dos n\u00e1ufragos. N\u00e3o fosse ora achar-se algum tanto maculado pela tristeza \u2014 o verme da beleza \u2014 poderias chamar-lhe um homem belo. Perdeu os companheiros e ora vaga pela ilha a procur\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Chamar-lhe-ia, de grado, algo divino. Jamais coisa natural vi t\u00e3o nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Tudo marcha como na alma desejo. \u2014 a belo esp\u00edrito, s\u00f3 por isto dar-te-ei a liberdade nestes dois dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Certamente \u00e9 a deusa a quem era dedicada aquela m\u00fasica. \u2014 Dai-me saber se tendes na ilha a sede e se podeis instruir-me sobre o modo de comportar-me aqui. Minha primeira pergunta, que por \u00faltimo enuncio, ser\u00e1: \u00d3 maravilha! Sois humana ou divina? Que sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 N\u00e3o maravilha, n\u00e3o divina, senhor; mulher, decerto.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Minha linguagem! C\u00e9us! Sou o mais alto dos que esta l\u00edngua falam! Se de novo me achasse no pa\u00eds em que \u00e9 falada!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Como assim? O mais alto? Que diria, se te ouvisse falar, o Rei de N\u00e1poles?<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Algo modesto, tal como ora sou, que se mostra admirado por ouvir-te falar do Rei de N\u00e1poles. Ele ouve-me; por isso mesmo, choro. Eu, s\u00f3, sou N\u00e1poles, que com estes olhos, desde ent\u00e3o em pranto, vi o rei naufragar, o rei meu pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh, dor!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 \u00c9 certo; com seus nobres todos. O Duque de Mil\u00e3o, tamb\u00e9m com eles, e seu valente filho, pereceram.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O Duque de Mil\u00e3o e sua filha n\u00e3o menos valorosa poderiam contradizer-te, se mais oportuna fosse a ocasi\u00e3o. \u2014 Logo \u00e0 primeira vista trocou com ela olhares. S\u00f3 por isto, meu delicado Ariel, vou libertar-te. \u2014 Uma palavra, meu senhor. Receio que dizendo isso, vos prejudiqueis.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Por que meu pai se expressa por maneira t\u00e3o pouco delicada? Este \u00e9 o terceiro homem que jamais vi, sendo o primeiro que me fez suspirar. Que a piedade possa inclinar meu pai para o meu lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se fordes virgem e se n\u00e3o tiverdes comprometido o cora\u00e7\u00e3o, de N\u00e1poles rainha vos farei.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Mais devagar, caro senhor. Uma palavra, ainda. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Ambos est\u00e3o rendidos. \u00c9 preciso, por\u00e9m, deixar um pouco mais dif\u00edcil essa conquista, para que a vit\u00f3ria f\u00e1cil demais n\u00e3o desmere\u00e7a o pre\u00e7o. (<i>A Ferdinando.<\/i>) Uma palavra. Intimo-te a escutar-me. Um nome usurpas que n\u00e3o te pertence e como espi\u00e3o chegaste a esta ilha, para ma tomares, a mim, o senhor dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 N\u00e3o; por minha honra de homem, vo-lo afirmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Nada de mau pode abrigar tal templo. Se de casa t\u00e3o nobre dispusesse o esp\u00edrito ruim, tudo o que \u00e9 belo se esfor\u00e7aria para morar nela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>a Ferdinando<\/i>): Acompanha-me! (<i>A Miranda.<\/i>) Dele n\u00e3o me fales. \u00c9 um traidor. (<i>A Ferdinando.<\/i>) Vamos logo. Hei de prender-te com fortes elos o pesco\u00e7o e as pernas. \u00c1gua do mar ter\u00e1s como bebida; como alimento encontrar\u00e1s somente mexilh\u00f5es dos regatos, ressequidas ra\u00edzes e folhelhos, onde as glandes tenham feito seus leitos. Vamos logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 N\u00e3o; vou opor-me a esse tratamento at\u00e9 que meu inimigo me domine. (<i>Saca da espada, mas, por encantamento, fica sem poder mover-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! N\u00e3o o provoqueis, pai extremoso, com tanta rispidez. Ele \u00e9 educado, n\u00e3o temeroso em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Como! Tenho de obedecer aos p\u00e9s? \u2014 Guarda essa espada, traidor! Fazes men\u00e7\u00e3o, t\u00e3o-s\u00f3, de us\u00e1-la, mas coragem n\u00e3o tens, que, assaz pesada, te reprime a consci\u00eancia. Deixa logo de tomar posi\u00e7\u00e3o, que eu poderia com meu bast\u00e3o fazer cair-te essa arma.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Pai, compaix\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Solta-me a roupa, digo!<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Piedade, pai. Serei tua fiadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Nem mais uma palavra! Do contr\u00e1rio, repreender-te-ei, se n\u00e3o chegar a odiar-te. Como! Advogando de um traidor a causa? Sil\u00eancio, disse! Pensas que no mundo n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m assim, porque s\u00f3 viste a Calib\u00e3 e a este. Rapariga sem ju\u00edzo! Comparado a muitos homens, este \u00e9 outro Calib\u00e3, como s\u00e3o anjos os homens perto dele<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Nesse caso, muito modestos s\u00e3o meus sentimentos; n\u00e3o ambiciono ver ningu\u00e9m mais belo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vem comigo; obedece-me. Teus m\u00fasculos ainda est\u00e3o na inf\u00e2ncia n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Realmente; como em sonho tenho o esp\u00edrito: acorrentado. A morte de meu pai, a fraqueza que sinto, num naufr\u00e1gio perdidos os amigos, as amea\u00e7as deste senhor, de quem sou prisioneiro, tudo eu suportaria, se pudesse, uma s\u00f3 vez ao dia, de meu c\u00e1rcere contemplar esta jovem. Que me importa que em todo o vasto mundo a liberdade possa encontrar guarida? Assaz espa\u00e7o terei nesta pris\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Vai bem. (<i>A Ferdinando.<\/i>) Sigamos. (<i>A Ariel.<\/i>) Trabalhaste a primor, querido Ariel. (<i>A Ferdinando.<\/i>) Acompanha-me. (<i>A Ariel.<\/i>) Aguarda as minhas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Senhor, ficai tranq\u00fcilo; melhor g\u00eanio tem meu pai do que o inculcam tais palavras. O que ele fez agora \u00e9 inteiramente fora do natural.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ser\u00e1s t\u00e3o livre como o vento, mas faze exatamente tudo o que eu te mandar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Ponto por ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Acompanhai-me. \u2014 N\u00e3o me digas nada. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">ATO II<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena I<\/span><\/h2>\n<p align=\"justify\">(<i>Outra parte da ilha. Entram Alonso, Sebasti\u00e3o, Ant\u00f4nio, Gonzalo, Adriano, Francisco e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, ficai alegre. Tendes motivo, como n\u00f3s, de j\u00fabilo, pois de muito ultrapassa o que salvamos a tudo o que perdemos. Nossa causa de tristeza \u00e9 comum. Todos os dias uma mulher de marinheiro, o chefe de algum barco de carga, ou mesmo o dono desse barco, o mesm\u00edssimo motivo t\u00eam de tristeza. Mas no que respeita ao milagre, refiro-me, sem d\u00favida, nossa salva\u00e7\u00e3o, poucas pessoas falar\u00e3o como n\u00f3s. Por isso, penso, caro senhor, que contrabalan\u00e7adas est\u00e3o as perdas com o que lucramos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Cala-te, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Essas palavras s\u00e3o para ele tal qual um caldo frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas o visitador ainda insiste.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 O rel\u00f3gio do esp\u00edrito ele apresta; vai dar horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Uma! Falai.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Quando as tristezas s\u00e3o assim tratadas, sabeis o que se ganha?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Sei; um d\u00f3lar.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Isso mesmo: uma dor. Falastes com mais acerto do que poder\u00edeis imaginar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E v\u00f3s interpretastes o dito com mais esp\u00edrito do que eu esperava que o fiz\u00e9sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Assim sendo, meu senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh c\u00e9us! Como ele \u00e9 pr\u00f3digo com a l\u00edngua!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Por favor, parai com isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 J\u00e1 parei. Contudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Ele precisa continuar a falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quem ser\u00e1 o primeiro a cantar: ele ou Adriano? Vamos apostar?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 O galo velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, o novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Feito. Quanto apostamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Uma gargalhada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Aceito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Conquanto esta ilha pare\u00e7a deserta&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Ah, ah, ah! J\u00e1 estais pago.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Inabitada e quase inacess\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Contudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Contudo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ele n\u00e3o poderia deixar de ach\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Precisar\u00e1 ser de sutil, doce e agrad\u00e1vel temperan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Temperan\u00e7a era uma rapariga delicada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E sutil, como ele disse com muita erudi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Sentimos-lhe o suave bafejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Como de pulm\u00f5es podres.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ou como se tivesse sido perfumado por um p\u00e2ntano.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Tudo aqui \u00e9 vantajoso para a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, com exce\u00e7\u00e3o dos mantimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Que \u00e9 o que n\u00e3o se encontra, ou muito pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Que apar\u00eancia fresca e agrad\u00e1vel a desta relva! Como \u00e9 verde!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Realmente; o ch\u00e3o \u00e9 aleonado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Com uma pequena tonalidade verde.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ele quase n\u00e3o erra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Realmente; apenas afasta-se por completo da verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Mas o mais raro de tudo isso, que, por assim dizer, \u00e9 inacredit\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Como se d\u00e1 com a maioria das raridades muito recomendadas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 &#8230; \u00e9 que as nossas vestes, molhadas, como o foram, pela \u00e1gua do mar, nada perderam do frescor e do lustre. Mais parecem tingidas pela \u00e1gua do mar, do que manchadas por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se ao menos um de seus bolsos pudesse falar, tach\u00e1-lo-ia de mentiroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 A menos que embolsasse com habilidade os seus dizeres.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Tenho a impress\u00e3o de que nossas vestes est\u00e3o agora t\u00e3o frescas como quando as pusemos pela primeira vez na \u00c1frica, no casamento de Claribel, a bela filha do rei, com o Pr\u00edncipe de T\u00fanis.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Foi um belo casamento, tendo sido n\u00f3s, ao retorno, muito bem sucedidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Nunca T\u00fanis tivera a gra\u00e7a de possuir uma rainha t\u00e3o incompar\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 \u00c9 certo; desde o tempo da vi\u00fava Dido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vi\u00fava, como? A peste que a carregue! Por que essa vi\u00fava, agora? Ora, a vi\u00fava Dido!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E se ele tivesse dito tamb\u00e9m: o vi\u00favo En\u00e9ias? Como interpretais as coisas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 \u201cA vi\u00fava Dido\u201d; n\u00e3o foi o que dissestes? Levastes-me a refletir sobre o caso; ela n\u00e3o era de T\u00fanis, mas de Cartago.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Essa T\u00fanis, senhor, era Cartago.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Cartago?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Posso assegurar-vos: Cartago.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sua palavra pesa mais do que a harpa miraculosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 N\u00e3o levantou apenas muralhas, mas tamb\u00e9m casas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Qual ser\u00e1 o pr\u00f3ximo imposs\u00edvel que ele vai deixar f\u00e1cil?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Sou de pensar que ele acabar\u00e1 levando a ilha no bolso, para casa, a fim de d\u00e1-la para o filho, como uma ma\u00e7\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Cujas sementes ele semear\u00e1 no mar, para que nas\u00e7am mais ilhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, no tempo certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO (<i>a Alonso<\/i>) \u2014 Est\u00e1vamos dizendo, senhor, que nossas vestes parecem agora t\u00e3o frescas como quando nos encontr\u00e1vamos em T\u00fanis, no casamento de vossa filha, hoje rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 A mais completa rainha que j\u00e1 foi ter \u00e0quelas plagas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Com licen\u00e7a: se excetuarmos a vi\u00fava Dido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh! a vi\u00fava Dido! Sim, a vi\u00fava Dido.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Meu gib\u00e3o, senhor, n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o fresco como no primeiro dia em que o vesti? Quero dizer, de certo modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Um modo muito bem pescado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Quando o vesti no casamento de vossa filha&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Entupis-me os ouvidos com palavras que de todo me s\u00e3o insuport\u00e1veis. Antes em tal lugar nunca eu tivesse casado minha filha, pois, \u00e0 volta, perdi meu filho, como tamb\u00e9m a ela, porque da It\u00e1lia estando t\u00e3o distante, jamais a reverei. \u00d3, meu herdeiro de Mil\u00e3o e de N\u00e1poles, que estranho peixe ter\u00e1 de ti feito alimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Senhor, provavelmente ainda est\u00e1 vivo. Vi-o por cima das ondas, a bat\u00ea-las, as cristas cavalgando-lhes. Das \u00e1guas a c\u00f3lera afastava, a avan\u00e7ar sempre, e opondo o peito \u00e0 t\u00famida corrente; mantinha a ousada fronte sempre acima das ondas contenciosas e remava com os bra\u00e7os fortes mui galhardamente, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia, que, inclinada sobre a base batida pelo oceano, parecia, abaixando-se, ajud\u00e1-lo. Tenho quase certeza de que p\u00f4de salvo alcan\u00e7ar a praia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 N\u00e3o; morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 A v\u00f3s, senhor, \u00e9 que deveis dar gra\u00e7as por semelhante perda. N\u00e3o quisestes \u00e0 nossa Europa conceder a gra\u00e7a de possuir vossa filha, preferindo vir a perd\u00ea-la para um africano, onde banida a tendes, para sempre, dos olhos que com causa ora a pranteiam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Paz, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Todos n\u00f3s, de joelhos, instantes, vos pedimos, e ela pr\u00f3pria \u2014 bela alma! \u2014 vacilante se mostrava sobre o prato a pender: o da obedi\u00eancia ou o da avers\u00e3o. Perdemos vosso filho, receio-o, para sempre. Mais vi\u00favas ganhou Mil\u00e3o e N\u00e1poles com isso do que homens poder\u00edamos levar-lhes para consolo delas, e foi tudo, tudo por vossa culpa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 A maior perda tamb\u00e9m me coube em sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Sebasti\u00e3o, essas verdades s\u00e3o inoportunas e indelicadas; arranhais a \u00falcera, em vez de p\u00f4r-lhe emplastro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E cirurgicamente doutrinado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Para n\u00f3s todos, meu senhor, o tempo fica ruim, quando ficais nublado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Muito ruim?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Horr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Se eu tivesse nesta ilha, meu senhor, uma lavoura&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Urtiga plantaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Ou malva e grama.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 E eu, que faria, se rei dela fosse?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 N\u00e3o vos embriagar\u00edeis, por n\u00e3o terdes vinho para beber.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 N\u00e3o; na rep\u00fablica faria tudo pelos seus contr\u00e1rios, pois n\u00e3o admitiria esp\u00e9cie alguma de com\u00e9rcio; de magistrados, nada, nem mesmo o nome; o estudo ficaria ignorado de todo; suprimiria, de vez, ricos e pobres e os servi\u00e7os; contratos, sucess\u00f5es, quest\u00f5es de terra, demarca\u00e7\u00f5es, cuidados da lavoura, planta\u00e7\u00e3o de vinhedos, nada, nada. Nenhum uso, tamb\u00e9m, de \u00f3leo e de vinho, trigo e metal. Ocupa\u00e7\u00e3o, nenhuma. Todos os homens, ociosos, todos. E as mulheres, tamb\u00e9m; mas inocentes e puras. Faltaria, de igual modo, soberania&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Mas o rei era ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Da rep\u00fablica o fim esquece o in\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Todas as coisas em comum seriam, sem suor nem esfor\u00e7o, produzidas pela natura. Espadas, espingardas, facas, chu\u00e7os, trai\u00e7\u00f5es e felonias, eu n\u00e3o admitiria. A natureza produziria tudo por si mesma, s\u00f3 para alimentar meu povo ing\u00eanuo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E casamentos, haveria entre eles?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o, meu caro senhor; vadios todos: vil\u00e3os e prostitutas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 De tal modo governaria, que deitara sombra \u00e0 pr\u00f3pria idade de ouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Deus vos guarde, majestade!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Gonzalo viva! Viva!<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 E v\u00f3s, senhor, n\u00e3o me estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 P\u00e1ra, por obs\u00e9quio; para mim n\u00e3o falaste coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Acredito no que diz Vossa Alteza; mas assim fiz, para aproveitar a oportunidade de mostrar a estes cavalheiros que eles s\u00e3o de pulm\u00f5es t\u00e3o delicados e sens\u00edveis, que riem por coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Est\u00e1vamos rindo de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 De mim, que em mat\u00e9ria de gracejos, sou coisa nenhuma para v\u00f3s. Assim, continuais a rir de coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que golpe certeiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Se n\u00e3o bateu de lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Sois cavalheiros de humor valente, capazes de levantar de sua esfera a lua, no caso de vir ela a ficar cinco semanas sem se modificar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ariel, invis\u00edvel, tocando m\u00fasica solene.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Sim, far\u00edamos isso, para depois irmos ca\u00e7ar morcegos com archotes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o vos agasteis, meu caro senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Tranq\u00fcilizai-vos; n\u00e3o vou perder o senso assim com tanta facilidade. Sinto os olhos pesados; quereis rir, vendo-me dormir?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Dormi e escutai-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Todos adormecem, com exce\u00e7\u00e3o de Alonso, Sebasti\u00e3o e Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Como assim! J\u00e1 dormiram? T\u00e3o depressa? Quem me dera que os olhos, a um s\u00f3 tempo, se me fechassem e estes pensamentos! Mas parece que est\u00e3o propensos a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 N\u00e3o recuseis sua pesada oferta; mui raramente ele visita a m\u00e1goa, mas, quando o faz, \u00e9 de real consolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00f3s dois, caro senhor, vos guardaremos. Velaremos, enquanto repousardes, por vossa seguran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Agradecido. Cansa\u00e7o extraordin\u00e1rio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Adormece. Ariel sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Que curiosa fadiga se apossou de todos eles!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sem d\u00favida \u00e9 do clima.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E nossas p\u00e1lpebras, por que n\u00e3o baixa o clima? N\u00e3o me sinto sonolento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Nem eu, tampouco. Tenho despertos os esp\u00edritos. Ca\u00edram todos a um tempo, como por vontade. Parecem sucumbidos por um raio. Meu digno Sebasti\u00e3o, que poder\u00edamos&#8230; Sim, que nos fora&#8230; N\u00e3o; sobrestejamos nisso por ora. No entretanto, leio-te no rosto tudo o que podias ser. \u00c9 a ocasi\u00e3o que te chama. A minha v\u00edvida fantasia percebe uma coroa que te baixa cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Est\u00e1s desperto?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o ouves minha voz?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Ou\u00e7o. Contudo, \u00e9 uma linguagem sonolenta. Falas do fundo de teu sono. Que disseste? Repouso extraordin\u00e1rio, esse; com os olhos abertos, e a dormir; de p\u00e9, falando, movendo-te, e a dormir pesadamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Meu nobre Sebasti\u00e3o, deixas a tua adormecer, morrer de todo, piscar, enquanto ficas acordado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Roncas distintamente. H\u00e1 algum sentido nesse teu ronco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estou falando s\u00e9rio, mais do que de costume, o que dev\u00edeis fazer tamb\u00e9m, porque me compreendesseis. Assim, tua valia triplicara.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Sou uma \u00e1gua parada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Vou mostrar-vos como ela h\u00e1 de correr.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Fazei-o; minha pregui\u00e7a heredit\u00e1ria me encoraja mais a refluir.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh! Se soub\u00e9sseis quanto dais for\u00e7a \u00e0 id\u00e9ia assim zombando dela! Quanto, torcendo aos termos o sentido, os deixais ajustados a v\u00f3s mesmo! E certo, quem reflui, por vezes chega quase a tocar o fundo, seja a causa disso o medo ou a pregui\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Fala logo. O rosto e os olhos te anunciam algo cujo parto te custa muitas dores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, senhor, ouvi. Conquanto aquele nobre ali, de mem\u00f3rias um tanto fraca e que mais fraca h\u00e1 de ficar, depois que ele baixar terra, tenha quase persuadido o monarca \u2014 pois \u00e9 o esp\u00edrito da persuas\u00e3o, sem que outra coisa fa\u00e7a, a n\u00e3o ser isso mesmo \u2014 que seu filho ainda est\u00e1 vivo&#8230; T\u00e3o absurdo \u00e9 que este n\u00e3o se tenha afogado como a esse homem que ali dorme nadar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 N\u00e3o tenho a m\u00ednima esperan\u00e7a de que ele haja escapado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh! Como dessa m\u00ednima esperan\u00e7a vos nasce uma esperan\u00e7a muito grande! N\u00e3o ter sobre isto a m\u00ednima esperan\u00e7a, \u00e9 ter sobre outra coisa uma t\u00e3o grande, que a pr\u00f3pria vista da ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode devassar-lhe os arcanos, duvidando de quanto ali descobre. Concedeis-me que Ferdinando pereceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Concedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Podeis dizer-me, ent\u00e3o, quem seja o herdeiro mais pr\u00f3ximo do trono?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Claribel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 A Rainha de T\u00fanis, que demora dez l\u00e9guas para al\u00e9m da vida humana, que not\u00edcias n\u00e3o pode ter de N\u00e1poles, salvo se o sol servisse de correio \u2014 fora lerdo demais o homem da lua \u2014 antes de um queixo rec\u00e9m-nado achar-se no ponto de barbear-se? Ela, por causa de quem fomos tragados pelas ondas, embora alguns se vissem vomitados por elas outra vez, para que parte tomar pudessem numa grande pe\u00e7a em que o passado \u00e9 pr\u00f3logo e o futuro depende s\u00f3 de n\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Que trapalhada! Como dissestes? \u00c9 verdade: a filha de meu irm\u00e3o rainha ora \u00e9 de T\u00fanis; herdeira ela \u00e9 de N\u00e1poles, havendo algum espa\u00e7o entre esses dois pa\u00edses.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sim, mas espa\u00e7o em que todos os c\u00fabitos nos parecem gritar: \u201cDe que maneira h\u00e1 de a volta medir-nos para N\u00e1poles essa tal Claribel? Que fique em T\u00fanis, e acorde Sebasti\u00e3o!\u201d Ora, admitamos que a morte fosse que a estes dominasse neste momento. N\u00e3o se encontrariam em pior situa\u00e7\u00e3o. Vive quem pode N\u00e1poles governar t\u00e3o bem como esse que dorme ali estendido, como h\u00e1 nobres t\u00e3o faladores como esse Gonzalo, desnecessariamente tagarela. Eu, tamb\u00e9m, se o quisesse, poderia papaguear como ele. Oh, se tiv\u00e9sseis meu modo de pensar! Como este sono em vossa promo\u00e7\u00e3o vos ajudara! Compreendeis-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Parece que compreendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E como aplaudireis a vossa dita?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Lembro-me agora que j\u00e1 destronastes vosso irm\u00e3o Pr\u00f3spero.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c9 verdade. Vede como estas vestes me v\u00e3o bem no corpo; muito melhor do que antes. Os vassalos de meu irm\u00e3o, meus companheiros eram; hoje s\u00e3o meus criados.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Quanto \u00e0 vossa consci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ora, senhor! Onde \u00e9 que h\u00e1 isso? Se fosse uma frieira, obrigar-me-ia a cal\u00e7ar as chinelas; mas no peito n\u00e3o sinto essa deidade. Se coubessem entre mim e Mil\u00e3o vinte consci\u00eancias poderiam gelar e derreter-se, sem que me molestassem. Ali se acha vosso irm\u00e3o. Em verdade, n\u00e3o valera mais do que a terra sobre que repousa, se fosse o que parece ser: defunto, sendo que eu poderia facilmente, com este a\u00e7o obediente \u2014 usando apenas tr\u00eas polegadas dele \u2014 para sempre deix\u00e1-lo preso ao leito. De igual modo far\u00edeis v\u00f3s, lan\u00e7ando num sil\u00eancio que nunca acabe aquele velho traste, o tal senhor Conselho, que, desta arte, n\u00e3o nos censuraria. Quanto aos outros, aceitam sugest\u00f5es t\u00e3o facilmente como os gatinhos, leite. Est\u00e3o dispostos a fazer soar as horas quantas vezes lhes dissermos que \u00e9 tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Caro amigo, teu caso \u00e9 o meu fanal. Do mesmo modo que obtiveste Mil\u00e3o, hei de obter N\u00e1poles. Saca da espada; um golpe vai livrar-te de um tributo, enquanto eu, teu soberano, te votarei afeto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Saquemos juntos; ao levantar a m\u00e3o, fazei o mesmo para atacar Gonzalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Uma palavra!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Conversam \u00e0 parte. M\u00fasica. Toma a entrar Ariel, invis\u00edvel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Meu mestre, gra\u00e7as \u00e0 sua parte, soube do perigo em que est\u00e1 seu grande amigo. Por isso me mandou \u2014 que, do contr\u00e1rio, lhe falharia o plano \u2014 porque a vida te conservasse nesta conjuntura. (<i>Canta ao ouvido de Gonzalo.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Enquanto dormes tranq\u00fcilo,<br \/>\na trai\u00e7\u00e3o, como do estilo,<br \/>\nest\u00e1 desperta.<br \/>\nSe ainda tens amor \u00e0 vida,<br \/>\np\u00f5e fim \u00e0 sesta comprida.<br \/>\nAlerta! Alerta!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, sejamos r\u00e1pidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Agora, bons anjos, amparai o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Despertam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Que \u00e9 isso? Que \u00e9 isso? Despertai! Por que arrancastes das espadas? Por que esse olhar de fantasma?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Enquanto n\u00f3s est\u00e1vamos a vos vigiar o sono, cuidadosos, um ru\u00eddo cavo ouvimos, qual rugido de touros ou de le\u00f5es. N\u00e3o acordastes? Para mim era um ru\u00eddo insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 N\u00e3o ouvi nada disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Oh! Um estrondo de apavorar o ouvido at\u00e9 de um monstro, de produzir um terremoto. Certo, era o rugir de le\u00f5es em grandes bandos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Gonzalo, ouvistes algo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Por minha honra, senhor, ouvi apenas um sussurro muito estranho, realmente, que, de pronto, me fez ficar desperto. Sacudi-vos, senhor, e vos chamei. Foi quando os olhos abri, vendo as espadas assim nuas. Houve barulho, \u00e9 certo; \u00e9 mais prudente de guarda n\u00f3s ficarmos, ou mudarmos de lugar. Arranquemos as espadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Saiamos logo, para procurarmos meu pobre filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Possa o c\u00e9u guard\u00e1-lo dessas feras terr\u00edveis, pois \u00e9 certo encontrar-se nesta ilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Vamos logo. (<i>Sai com os outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 O que o mestre mandou, cumpri com brilho. Parte, rei, \u00e0 procura de teu filho. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena II<\/span><\/h2>\n<p align=\"justify\">(<i>Outra parte da ilha. Entra Calib\u00e3, com uma carga de lenha. Ouve-se ru\u00eddo de trov\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Que quantas infec\u00e7\u00f5es o sol aspira dos atoleiros, dos pauis e charcos, sobre Pr\u00f3spero caiam, morte lenta fazendo-o padecer. Necessidade tenho de amaldi\u00e7o\u00e1-lo, muito embora seus esp\u00edritos me ou\u00e7am. \u00c9 verdade que eles s\u00f3 me beliscam, me amedrontam com visagem de duendes, s\u00f3 me atiram nos loda\u00e7ais, ou do caminho certo, no escuro, me desviam, sob a forma de ti\u00e7\u00f5es movedi\u00e7os, quando Pr\u00f3spero os manda assim fazer. Mas por coisinhas de nada sobre mim eles se atiram, \u00e0s vezes como monos careteiros, que os dentes batem e depois me mordem; sob a forma de porco-espinho, \u00e0s vezes, que suas pontas eri\u00e7am, machucando-me demais os p\u00e9s desnudos. Outras vezes, fico todo envolvido por serpentes que me sibilam com suas l\u00ednguas b\u00edfidas, de me deixarem louco. (<i>Entra Tr\u00ednculo.<\/i>) Justamente! Eis um de seus esp\u00edritos. S\u00f3 veio para me atormentar, por eu ser tardo no transporte da lenha. Vou deitar-me rente ao ch\u00e3o; pode ser que n\u00e3o me veja.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Por aqui n\u00e3o h\u00e1 nem bosques, nem arbustos, para a gente se resguardar do tempo, e j\u00e1 se anuncia nova tempestade. J\u00e1 ou\u00e7o assobiar o vento. Aquela nuvem escura l\u00e1 embaixo, aquela grande ali, parece-se com um alforje sujo, que esteja prestes a derramar o seu conte\u00fado. Se trovejar como da outra vez, n\u00e3o sei onde esconder a cabe\u00e7a. Aquela nuvem n\u00e3o poder\u00e1 deixar de despejar-se aos baldes. \u2014 Ol\u00e1! Que temos aqui? E homem ou peixe? Est\u00e1 vivo ou morto? \u00c9 peixe; o cheiro \u00e9 de peixe, esse velho cheiro de ran\u00e7o, que lembra muito a peixe, no jeito de bacalhau meio passado. Mas, que peixe esquisito! Se eu estivesse agora na Inglaterra \u2014 como j\u00e1 me aconteceu de outra feita \u2014 e fosse dono deste peixe pelo menos em pintura, n\u00e3o haveria tolo de feira que n\u00e3o pagasse uma moeda de prata para v\u00ea-lo. Este monstro me deixaria homem. Naquela terra n\u00e3o h\u00e1 animal estranho que n\u00e3o fa\u00e7a homens. N\u00e3o d\u00e3o um ceitil para auxiliar um aleijado, mas dar\u00e3o dez para ver um \u00edndio morto. As pernas s\u00e3o como as de gente; as barbatanas parecem bra\u00e7os&#8230; E est\u00e1 quente, por minha f\u00e9! Abandono minha primeira id\u00e9ia; n\u00e3o \u00e9 peixe, mas um insulano que a trovoada derrubou. (<i>trov\u00f5es.<\/i>) Ai de mim! Recome\u00e7a a tempestade. O melhor que tenho a fazer \u00e9 ficar debaixo do manto dele; em toda a redondeza n\u00e3o h\u00e1 outro abrigo. A necessidade nos faz habituar com estranhos companheiros de leito. Vou esconder-me aqui, at\u00e9 que passe a borra da tempestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Est\u00e9fano, cantando, com uma garrafa na m\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Jamais ao mar voltarei. Desejo morrer na praia&#8230; Essa melodia \u00e9 muito l\u00fagubre para o enterro de uma pessoa. Muito bem. Aqui est\u00e1 o meu consolo. (<i>Bebe.<\/i>) O comandante, o contramestre e eu, e o grumete tamb\u00e9m, gost\u00e1vamos do Meg, Isbel e Iseu; mas de Kate, ningu\u00e9m, porque nos espachava com risota: \u201cVai te enforcar, idiota!\u201d N\u00e3o gostava de piche e de alcatr\u00e3o; mas o alfaiate nela punha a m\u00e3o. Ao mar, rapazes! Ela que se enforque! Essa tamb\u00e9m \u00e9 t\u00e9trica; mas aqui tenho o consolo. (<i>Bebe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o me atormentem, oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Que ser\u00e1 isso? Teremos dem\u00f4nios por aqui? Pregai-nos pe\u00e7as, fantasiando-vos de selvagens e homens da \u00cdndia? Ah! N\u00e3o escapei de morrer afogado, para ter medo desses quatro p\u00e9s. \u00c9 dito conhecido: n\u00e3o h\u00e1 homem de quatro p\u00e9s que me fa\u00e7a ceder terreno; o que poder\u00e1 ser repetido enquanto Est\u00e9fano respirar pelo nariz.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 O esp\u00edrito me atormenta, oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Deve ser um monstro da ilha, com quatro pernas, que provavelmente apanhou febre. Mas onde diabo ter\u00e1 ele aprendido nossa linguagem? Que n\u00e3o seja por mais nada, vou dar-lhe algum fortificante. Se o deixar bom e puder domestic\u00e1-lo e lev\u00e1-lo comigo para N\u00e1poles, ser\u00e1 presente para qualquer imperador que ande sobre couro de boi.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Por favor, n\u00e3o me atormentes mais; levo j\u00e1 a lenha para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Est\u00e1 com acesso agora, n\u00e3o havendo muito senso no que fala.Vou dar-lhe a prova da minha garrafa. Se ele nunca bebeu vinho, h\u00e1 muita probabilidade de livrar-se da febre. Se o deixar bom e o domesticar, n\u00e3o ter\u00e1 sido muito grande o desembolso; quem ficar com ele, pagar\u00e1 com sobra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Por enquanto, n\u00e3o me atormentas muito; mas dentro de pouco ir\u00e1s faz\u00ea-lo, vejo-o pelo teu tremor. Neste momento Pr\u00f3spero est\u00e1 influindo sobre ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Criai \u00e2nimo! Abri a boca. Isto, gato, vos far\u00e1 soltar a l\u00edngua. Abri a boca; isto vos sacudir\u00e1 o pr\u00f3prio tremor, \u00e9 o que vos digo \u00e0 maravilha. (<i>D\u00e1 de beber a Calib\u00e3.<\/i>) Ningu\u00e9m sabe onde tem um amigo. Abri novamente a mand\u00edbula.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Parece-me que conhe\u00e7o essa voz. Deve ser de&#8230; N\u00e3o, pereceu afogado; estes aqui s\u00e3o dem\u00f4nios. Oh! Defendei-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Quatro pernas e duas vozes; \u00e9 um monstro primoroso. Com voz da frente, fala bem dos amigos; com a de tr\u00e1s calunia e pronuncia discursos horrorosos. Se bastar todo o vinho de minha garrafa, hei de curar-lhe a febre. Vamos. Am\u00e9m. Vou p\u00f4r tamb\u00e9m um pouco naquela outra boca.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Est\u00e9fano!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 A tua outra boca me chamou pelo nome? Piedade! Piedade! N\u00e3o \u00e9 monstra, \u00e9 dem\u00f4nio. Vou deix\u00e1-lo; n\u00e3o tenho comigo uma colher grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Est\u00e9fano! Se fores Est\u00e9fano, toca-me e fala-me, porque sou Tr\u00ednculo. N\u00e3o tenhas medo; sou o teu bom amigo Tr\u00ednculo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Se fores Tr\u00ednculo, vem para c\u00e1. Vou puxar-te pelas pernas mais curtas. Se aqui h\u00e1 pernas de Tr\u00ednculo, t\u00eam de ser for\u00e7osamente estas. \u00c9s Tr\u00ednculo, em verdade! Mas como \u00e9 que ficaste sendo o excremento deste bezerro da lua? Ser\u00e1 que ele expele Tr\u00ednculos?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Pensei que ele houvesse sido v\u00edtima de raio. Mas n\u00e3o morreste afogado, Est\u00e9fano? Tenho esperan\u00e7a, agora, de que n\u00e3o tivesses morrido, realmente. J\u00e1 passou a tempestade? De medo da tempestade, escondi-me debaixo da capa do bezerro da lua. E tu, Est\u00e9fano, est\u00e1s vivo? Oh, Est\u00e9fano! Dois napolitanos salvos!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Por favor, n\u00e3o me vires desse jeito; n\u00e3o tenho o est\u00f4mago muito firme.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se s\u00e3o esp\u00edritos, s\u00e3o coisa fina. Aquele \u00e9 um deus valente, que me pode dar licor celestial; vou ajoelhar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Como escapaste? Como chegaste at\u00e9 aqui? Jura-me por esta garrafa como conseguiste escapar. Eu me salvei em cima de uma barrica de xerez que os marinheiros atiraram ao mar. Juro por esta garrafa que eu fiz de uma casca de \u00e1rvore com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os, depois que fui lan\u00e7ado praia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Quero jurar por essa garrafa que ficarei sendo teu vassalo fiel, porque esse licor n\u00e3o \u00e9 terreno.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Aqui! E agora jura-me: como conseguiste escapar?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Nadando para a praia, homem, como um pato. Nado como um pato, posso jur\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Aqui, beija o livro. (<i>D\u00e1 a Tr\u00ednculo a garrafa.<\/i>) Podes nadar como um pato, mas foste feito como um ganso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 \u00d3 Est\u00e9fano, ainda h\u00e1 mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Uma barrica inteira, homem. Minha adega fica num rochedo perto do mar. Foi l\u00e1 que eu escondi o vinho. Ent\u00e3o, bezerro da lua, como vai a febre?<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o ca\u00edste do c\u00e9u?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Ca\u00ed da lua, posso asseverar-te. J\u00e1 houve tempo em que eu era o homem da lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Eu j\u00e1 te vi dentro dela e me prostrei diante de ti. Minha ama me mostrava onde tu estavas, teu c\u00e3o e o feixe de lenha.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Vamos; jura por isto; beija o livro! Dentro de pouco tornarei a ench\u00ea-lo. Jura!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Por esta boa luz, esse monstro \u00e9 bem simpl\u00f3rio. E eu tive medo dele! Muito fraco, em verdade, o tal monstro. Ora, o homem da lua! Que monstro ing\u00eanuo! Bonito trago, monstro, por minha f\u00e9!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Todas as polegadas vou mostrar-te. De terra f\u00e9rtil da ilha. Os p\u00e9s te beijo. S\u00ea meu deus, por favor.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Por esta luz, \u00e9 um monstro borracho e muito p\u00e9rfido. Quando o deus dele estiver dormindo, ele lhe roubar\u00e1 a garrafa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Beijo-te os p\u00e9s e quero vassalagem permanente jurar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Ent\u00e3o vem; ajoelha-te e jura.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Hei de rir at\u00e9 morrer, \u00e0 custa deste monstro de cabe\u00e7a de cachorro. N\u00e3o pode haver monstro mais indecente do que este. Tenho gana de dar-lhe uma boa co\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Vamos, beija.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Como est\u00e1 b\u00eabado o pobre monstro! Que monstro abomin\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Hei de mostrar-te as fontes mais saud\u00e1veis; pescarei para ti, colherei bagas, trarei lenha bastante. Possa a peste carregar o tirano a que estou preso. J\u00e1 n\u00e3o lhe levarei feixes de lenha; sim, vou seguir-te, homem prodigioso!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 E um monstro excessivamente rid\u00edculo; fazer de um pobre b\u00eabado um prod\u00edgio!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Permite que te traga ma\u00e7\u00e3s bravas; com minhas unhas grandes vou tirar-te da terra belas t\u00fabaras; um ninho de galo vou mostrar-te e o meio f\u00e1cil de armar ciladas para os macaquinhos. Irei contigo aos bosques de aveleiras e algumas vezes te trarei das rochas filhotes de gaivotas. Vamos? Vamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 S\u00f3 quero agora que me indiques o caminho, sem maior palavreado. \u2014 Tr\u00ednculo, uma vez que o rei e todos os da nossa companhia pereceram afogados, tomaremos posse disto. \u2014 Aqui! Leva a garrafa! \u2014 Amigo Tr\u00ednculo, daqui a pouquinho tornaremos a ench\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Adeus, mestre! Adeus! Adeus! (<i>Canta, embriagado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Um monstro que uiva; um monstro que se embriaga!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 J\u00e1 n\u00e3o farei barragem para peixe, nem fogo irei buscar, quando ele me mandar. N\u00e3o lavo prato nem carrego feixe. B\u00e3, b\u00e3, b\u00e3, Calib\u00e3! outro mestre amanh\u00e3! Liberdade! Viva! Liberdade! Liberdade!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 V\u00e1 bravo monstro! Vamos; mostra-nos o caminho. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">ATO III<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena I<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Diante da cela de Pr\u00f3spero.<br \/>\nEntra Ferdinando, carregando um feixe de lenha.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 H\u00e1 jogos fatigantes, mas aumenta-lhes a fadiga a atra\u00e7\u00e3o. Muitos servi\u00e7os de baixa qualidade s\u00e3o levados a cabo com nobreza, e assuntos m\u00ednimos a ricos fins podem levar por vezes. Esta tarefa humilde poderia ser-me t\u00e3o repugnante quanto odiosa; mas a dama a que sirvo anima os mortos e em prazer me transforma estas canseiras. Dez vezes mais gentil ela se mostra do que o pai intrat\u00e1vel, todo feito de aspereza e rigor. Em obedi\u00eancia \u00e0 sua imposi\u00e7\u00e3o, preciso agora carregar e empilhar alguns milheiros destas achas de lenha. Minha doce senhora sofre, quando me contempla neste \u00e1spero trabalho, e diz que nunca imposta foi tarefa assim t\u00e3o baixa a um tal trabalhador. Sou esquecido; mas estes pensamentos agrad\u00e1veis as for\u00e7as me estimulam; quanto menos penso na situa\u00e7\u00e3o, mais produtiva se me torna a tarefa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Miranda; Pr\u00f3spero a segue a certa dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! Por obs\u00e9quio, n\u00e3o trabalheis assim! Antes o raio queimasse toda a lenha que obrigado sois a empilhar. Quando ela for queimada, h\u00e1 de chorar por vos haver cansado. Agarrado meu pai est\u00e1 com os livros. Descansai, por favor. Nestas tr\u00eas horas ele n\u00e3o aparece.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 \u00d3, mui prezada senhora, baixar\u00e1 o sol no ocaso, sem que eu possa concluir minha tarefa.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Se vos quiserdes assentar, um pouco carregarei as achas. Por obs\u00e9quio, dai-me essa; eu mesma a deporei na pilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 N\u00e3o, preciosa criatura; preferira quebrar o dorso, arrebentar os nervos, a vos ver degradada num servi\u00e7o t\u00e3o humilhante, enquanto eu fico ocioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 \u00c9 t\u00e3o digno de mim esse trabalho quanto de v\u00f3s, sobre me ser poss\u00edvel execut\u00e1-lo muito mais depressa, porque n\u00e3o me repugna, como vejo que acontece convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Pobre crian\u00e7a; j\u00e1 est\u00e1s tocada; esta visita o prova.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Pareceis fatigado.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 N\u00e3o, mui nobre senhora; para mim faz manh\u00e3 fresca, na noite em que de v\u00f3s estiver perto. Dizei-me, por obs\u00e9quio, vosso nome; s\u00f3 desejo inclu\u00ed-lo, de ora em diante, nas minhas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 \u00d3 pai! Revelei-o, de encontro ao que ordenastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Admir\u00e1vel Miranda! Sim, remate de toda perfei\u00e7\u00e3o, digna de quanto no mundo h\u00e1 de mais raro. A numerosas damas j\u00e1 dirigi olhares ternos, por vezes tendo-me ficado presos os atentos ouvidos na harmonia de seu doce falar. Dotes variados me fizeram gostar de outras mulheres, sem, contudo, empenhar nisso a alma toda, porque sempre se opunha algum defeito s suas qualidades mais sublimes, para o valor manchar-lhes. V\u00f3s, no entanto, ah! t\u00e3o perfeita e incompar\u00e1vel, fostes feita de tudo o que de mais custoso pode haver na cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 N\u00e3o me recordo de ningu\u00e9m do meu sexo, nem vi nunca fei\u00e7\u00f5es de outra mulher, tirante as minhas, quando ao espelho estou. Do mesmo modo, jamais tive ante os olhos, dentre os seres a que eu podia dar o nome de homem, sen\u00e3o v\u00f3s, caro amigo, e meu bom pai. Como a gente \u00e9 l\u00e1 fora, desconhe\u00e7o. Mas por minha pureza \u2014 a j\u00f3ia rara de meu dote de noiva \u2014 n\u00e3o quisera ter outro companheiro em todo o mundo sen\u00e3o v\u00f3s t\u00e3o-somente, nem comigo criar na imagina\u00e7\u00e3o outra pessoa a que eu pudesse amar. Mas falo muito, vejo-o agora, olvidada inteiramente das recomenda\u00e7\u00f5es de meu bom pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Por posi\u00e7\u00e3o, Miranda, eu sou um pr\u00edncipe, ou, porventura, rei \u2014 antes n\u00e3o o fosse! \u2014 a quem fora tampouco suport\u00e1vel este servi\u00e7o vil de carrear lenha como sentir nos l\u00e1bios uma mosca. Minha alma \u00e9 que vos vai falar agora: no mesmo instante em que vos vi, voou-me do peito o cora\u00e7\u00e3o, para servir-vos, raz\u00e3o de eu me ter feito vosso escravo. Por vossa causa, apenas, transformei-me num paciente lenhador.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Amais-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 \u00d3 c\u00e9u! \u00d3 terra! Sede testemunhas do que ora vou dizer, e com prop\u00edcio resultado coroai meu juramento, se eu falar a verdade. Sendo eu falso, por desgra\u00e7as trocai quanto o futuro me reserve de bens. Mais do que a tudo neste mundo eu vos amo, estimo e honro.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Sou tola por chorar do que me alegra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Belo encontro de dois afetos raros. Possa o c\u00e9u chover gra\u00e7as no que entre ambos neste instante germina.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Qual a causa de chorardes?<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 De minha desvalia, que n\u00e3o se atreve a oferecer-vos tudo que eu desejara dar e, muito menos, a receber o que me fora morte n\u00e3o chegar a possuir. Mas \u00e9 criancice tudo isso; quanto mais tenta esconder-se minha afei\u00e7\u00e3o, maior se patenteia. Fora, fora, esperteza vergonhosa! Santa inoc\u00eancia, ensina-me a expressar-me! Sou vossa esposa, se me desposardes; caso contr\u00e1rio, morrerei servindo-vos; podeis me recusar por companheira, mas vossa criada poderei ser sempre, quer o queirais, quer n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Minha querida, minha senhora! E eu sempre assim, humilde.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Meu marido, portanto?<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Sim, aceita-vos o cora\u00e7\u00e3o com o mesmo entusiasmo que a escravid\u00e3o aceita a liberdade. Eis minha m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 E a minha aqui; com ela vos dou meu cora\u00e7\u00e3o. E agora, adeus, por uma meia hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Oh, por milhares!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ferdinando e Miranda saem por lados diferentes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 T\u00e3o alegre quanto eles n\u00e3o presumo que possa estar, pois foram surpreendidos por quanto aconteceu; coisa nenhuma me deixa mais alegre. Mas \u00e9 tempo de voltar a meu livro, pois preciso realizar at\u00e9 \u00e0 ceia muita coisa de extrema relev\u00e2ncia. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena II<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Outra parte da ilha. Entra Calib\u00e3 com uma garrafa, Est\u00e9fano e Tr\u00ednculo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 N\u00e3o me fales! Quando o barril ficar vazio, beberemos \u00e1gua.Antes disso, nem uma gota. Por isso, criemos coragem e vamos abord\u00e1-lo! Monstro-criado, bebe \u00e0 minha sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Monstro-criado! A loucura desta ilha! Dizem que s\u00f3 h\u00e1 cinco habitantes na ilha. Tr\u00eas aqui est\u00e3o; se os outros dois tiverem o c\u00e9rebro como n\u00f3s, o Estado n\u00e3o ir\u00e1 l\u00e1 muito bem das pernas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Bebe, monstro-criado, quando eu mandar. Tens os olhos quase enfiados na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Onde querias que ele os tivesse? Seria um monstro muito famoso, em verdade, se tivesse os olhos na cauda.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Meu servo-monstro afogou a l\u00edngua em xerez. Quanto a mim, o mar n\u00e3o poder\u00e1 afogar-me. Sem tocar p\u00e9 em terra, posso nadar, de ida e vinda, trinta e cinco l\u00e9guas. Por esta luz. Monstro, ser\u00e1s o meu tenente, ou o meu porta-bandeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Tenente, se quiserdes, pois segurar a bandeira \u00e9 o que ele n\u00e3o poder\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 N\u00e3o haveremos de correr, monsieur Monstro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Nem andar, tampouco; ficareis deitados, como c\u00e3es, sem dizer palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Bezerro da lua, fala uma vez na vida, se fores um bom bezerro da lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Como passa tua Honra? Deixa-me lamber a sola de teus sapatos. N\u00e3o hei de continuar no servi\u00e7o dele; n\u00e3o \u00e9 corajoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Mentes, monstro ignorante! Encontro-o em condi\u00e7\u00f5es de esbarrar num oficial de justi\u00e7a. Vamos, responde, peixe devasso: j\u00e1 houve algum covarde que bebesse tanto xerez como eu bebi hoje? N\u00e3o querer\u00e1s dizer uma mentira monstruosa, sendo, como \u00e9s, metade peixe e metade monstro?<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 V\u00ea como ele zomba de mim! Consentes isso, pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 \u201cPr\u00edncipe\u201d, foi o que ele disse! Como um monstro assim pode ser t\u00e3o ing\u00eanuo!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 V\u00ea! V\u00ea! Vai recome\u00e7ar! Por favor, mata-o a dentadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Tr\u00ednculo, p\u00e1ra com essa l\u00edngua suja. Se provocares desordem&#8230; a primeira \u00e1rvore! O pobre monstro \u00e9 meu s\u00fadito e n\u00e3o sofrer\u00e1 nenhuma indignidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Obrigado, meu nobre lorde. Queres mais uma vez ouvir minha proposta?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Quero, sem d\u00favida. Ajoelha e repete-a. Eu e Tr\u00ednculo ficaremos de p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ariel invis\u00edvel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Como j\u00e1 te disse, sou servo de um tirano, de um feiticeiro, que por meio de sua ast\u00facia me despojou desta ilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Mentes!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Tu \u00e9 que mentes, s\u00edmio bobo. Por mim, meu valente amo te matava. N\u00e3o menti nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Tr\u00ednculo, se o interromperdes mais uma vez em sua hist\u00f3ria, por esta m\u00e3o, arranco-vos alguns dentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 N\u00e3o falei nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Ent\u00e3o, psiu! Nem mais uma palavra. (<i>A Calib\u00e3.<\/i>) Continua.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Foi por feiti\u00e7aria, como disse, que ele ficou com a ilha. Caso tua Honra se dispuser a castig\u00e1-lo \u2014 pois sei que tens coragem, que \u00e9 o que falta \u00e0quele tipo \u2014.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Ser\u00e1s o dono da ilha e eu teu criado.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Mas de que modo levaremos a cabo o empreendimento? Podes conduzir-me at\u00e9 ao inimigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Posso, sim, meu senhor. Hei de entregar-to quando estiver dormindo, onde poss\u00edvel te for meter-lhe na cabe\u00e7a um prego.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 \u00c9 mentira! N\u00e3o podes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Bobo sarapintado! Tipo imundo! Suplico \u00e0 tua Alteza dar-lhe golpes e tomar-lhe a garrafa; ela conosco, ele que beba \u00e1gua do mar, somente, pois n\u00e3o lhe mostrarei as fontes frescas.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Tr\u00ednculo, n\u00e3o enfrentes outro perigo. Se interromperes mais uma vez o monstro com uma \u00fanica palavra, por esta m\u00e3o, mandarei embora a minha miseric\u00f3rdia e te farei virar bacalhau.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Mas que fiz eu? N\u00e3o fiz nada. Vou mudar de lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 N\u00e3o disseste que o monstro estava mentindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Mentes!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Minto, n\u00e3o? Ent\u00e3o toma isto. (<i>Bate em Tr\u00ednculo.<\/i>) Se gostares disto, desmente-me mais uma vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Eu n\u00e3o te desmenti. Al\u00e9m de transtornado do esp\u00edrito, ficastes com os ouvidos perturbados? A peste seja de vossa garrafa. Tudo isso \u00e9 efeito do xerez. Que a peste carregue vosso monstro e o diabo vos arranque os dedos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Agora, prossegue a tua hist\u00f3ria. Tu, a\u00ed, coloca-te mais longe!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Bate-lhe com vontade! Mais um pouco, que eu baterei tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Mais longe! \u2014 Adiante!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Ora, como eu te disse, ele tem o h\u00e1bito de dormir toda tarde. A\u00ed, te fora poss\u00edvel asfixi\u00e1-lo, ap\u00f3s o teres privado de seus livros; ou, munido de um pau, lhe partir\u00e1s em dois o cr\u00e2nio; se n\u00e3o, o estripar\u00e1s com qualquer vara, ou a garganta com faca lhe seccionas. Mas, primeiro, \u00e9 preciso que te lembres de lhe tomar os livros, pois, sem eles, \u00e9 um palerma como eu, j\u00e1 n\u00e3o dispondo de esp\u00edrito nenhum sobre que mande. Todos, como eu, lhe t\u00eam \u00f3dio entranhado. Basta queimar-lhe os livros. Utens\u00edlios valiosos tamb\u00e9m tem \u2014 assim lhes chama \u2014 para enfeitar sua futura casa. Mas o que \u00e9 sobretudo de estimar-se \u00e9 a beleza da filha, que ele pr\u00f3prio considera sem par. Mulher nenhuma jamais eu vi, tirante Sicorax, minha m\u00e3e, e ela mesma. Mas t\u00e3o longe deixa ela Sicorax como o que \u00e9 grande ao que \u00e9 muito pequeno.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Assim bonita?<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Muito, senhor; h\u00e1 de enfeitar-te o leito, posso jurar-te, e dar-te bela prole.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Monstro, vou matar esse homem. Sua filha e eu seremos rei e rainha. \u2014 Viva nossa Gra\u00e7a! \u2014 E Tr\u00ednculo e tu pr\u00f3prio sereis vice-reis. Agrada-te a proposta, Tr\u00ednculo?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Excelente.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o. Entristece-me haver-te batido; mas enquanto viveres, guarda uma boa l\u00edngua na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 \u00c9 certo ele dormir nesta meia hora. Queres, ent\u00e3o, destru\u00ed-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Por minha honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Vou contar isso para o meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Transbordo de prazer; deixas-me alegre. Rejubilemos, pois. Cantar n\u00e3o queres o estribilho que h\u00e1 pouco me ensinaste?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Farei o que me pedes, monstro; farei tudo o que me pedires. Cantemos, Tr\u00ednculo. (<i>Canta.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\">Zombemos dele, oh oh! Vamos rir dele!<br \/>\nVamos rir dele, oh oh! Zombemos dele!<br \/>\nO pensamento \u00e9 livre.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o \u00e9 essa a melodia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ariel toca a melodia num tamboril e numa flauta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Que significa isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 \u00c9 a melodia de nosso estribilho, tocada pelo fantasma de Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Se fores um homem, mostra-te sob a tua verdadeira forma; se fores o dem\u00f4nio, assume a que bem te aprouver.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Oh! Que os meus pecados sejam perdoados!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Quem morre, salda as d\u00edvidas. Desafio-te! Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Est\u00e1s com medo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 N\u00e3o, monstro; eu, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o tenhas medo; esta ilha \u00e9 sempre cheia de sons, ru\u00eddos e agrad\u00e1veis \u00e1rias, que s\u00f3 deleitam, sem causar-nos dano. Muitas vezes estrondam-me aos ouvidos mil instrumentos de possante bulha; outras vezes s\u00e3o vozes, que me fazem dormir de novo, embora despertado tenha de um longo sono. Ent\u00e3o, em sonhos presumo ver as nuvens que se afastam, mostrando seus tesouros, como prestes a sobre mim choverem, de tal modo que, ao acordar, choro porque desejo prosseguir a sonhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Que reino e tanto me vai ser este! Vou ter m\u00fasica de gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Uma vez destru\u00eddo Pr\u00f3spero.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 O que se dar\u00e1 dentro de pouco. N\u00e3o me esqueci da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 O som est\u00e1 se distanciando; acompanhemo-lo, para depois liquidarmos o nosso neg\u00f3cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Monstro, vai na frente, que n\u00f3s te acompanhamos. Quisera ver esse tamborileiro; tem talento, de fato. N\u00e3o vens?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Eu tamb\u00e9m vou Est\u00e9fano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena III<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Outra parte da ilha.<br \/>\nEntram Alonso, Sebasti\u00e3o, Ant\u00f4nio, Gonzalo, Adriano, Francisco e Outros<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Oh! Por Nossa Senhora! \u00c9-me imposs\u00edvel, senhor, dar mais um passo. Os velhos ossos me doem de rachar. Isso \u00e9 um perfeito labirinto, ora reto, ora com voltas. Com licen\u00e7a, preciso de descanso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 N\u00e3o te censuro, velho, porque eu pr\u00f3prio fatigado me sinto de tal modo, que os esp\u00edritos tenho obnubilados. Assenta-te e descansa. Neste ponto, deixo toda esperan\u00e7a, recusando-me a ouvir-lhe as v\u00e3s lisonjas. J\u00e1 n\u00e3o vive quem tanto procuramos; afogou-se, rindo-se o mar do nosso af\u00e3 na terra. Pois que se v\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO (<i>\u00e0 parte, a Sebasti\u00e3o<\/i>) \u2014 Alegro-me por v\u00ea-lo t\u00e3o desesperan\u00e7ado. S\u00f3 por causa de um primeiro malogro, certamente n\u00e3o haveis de abrir m\u00e3o de vosso intento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O (<i>\u00e0 parte, a Ant\u00f4nio<\/i>) \u2014 Aproveitemos o primeiro ensejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO (<i>\u00e0 parte, a Sebasti\u00e3o<\/i>) \u2014 Que seja \u00e0 noite, pois estando todos prostrados de fadiga, embora o queiram, n\u00e3o poder\u00e3o ficar t\u00e3o vigilantes, como quando dispostos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O (<i>\u00e0 parte, a Ant\u00f4nio<\/i>) \u2014 Bem, \u00e0 noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica solene e estranha. No alto, Pr\u00f3spero, invis\u00edvel. Embaixo entram figuras bizarras, que carregam uma mesa com iguarias; dan\u00e7am volta da mesa, saudando gentilmente; depois de convidarem o rei e as demais pessoas para comer, desaparecem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Que harmonia! Escutai, meus bons amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Que suave e deliciosa melodia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 \u00d3 c\u00e9us! Dai-nos bons guardas. Que foi isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 S\u00e3o fantoches com vida. Agora creio que haja unic\u00f3rnios, que na Ar\u00e1bia serve uma \u00e1rvore de trono para a f\u00eanix que a reinar l\u00e1 se encontra neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Creio nos dois; e tudo o mais que de h\u00e1bito tem sido posto em d\u00favida, procure-me; jurarei que \u00e9 verdade nua e crua. Os viajantes n\u00e3o mentem, muito embora na p\u00e1tria os tolos os acoimem disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Se eu relatasse em N\u00e1poles tudo isto, algu\u00e9m me acreditara? Se contasse de que jeito s\u00e3o estes insulanos \u2014 pois s\u00e3o, sem d\u00favida, habitantes da ilha \u2014 que embora sejam de exterior monstruoso \u2014 observai bem! revelam gentileza muito maior do que o fariam muitos \u2014 melhor, ningu\u00e9m \u2014 da gera\u00e7\u00e3o humana?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Falastes com acerto, nobre honesto, que muitos do que est\u00e3o hoje nesta ilha s\u00e3o piores que o diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Ao fim n\u00e3o chego de minha admira\u00e7\u00e3o ante estas formas, estes gestos e sons, que, embora do uso da fala carecentes, concretizam uma linguagem muda e eloq\u00fcent\u00edssima.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Elogio \u00e0 sa\u00edda.<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCO \u2014 Eles sumiram por modo muito estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Pouco importa, uma vez que as viandas nos deixaram, pois fome n\u00e3o nos falta, Sois servidos a provar o que h\u00e1 aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Muito obrigado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Ora, senhor, n\u00e3o tenhais medo. Quando n\u00f3s \u00e9ramos meninos, quem creria, porventura, que houvesse montanheses com barbela de touro na garganta, a pender-lhes do peito como saco balou\u00e7ante de carne? Ou gente houvesse com a cabe\u00e7a no peito? Ora, tudo isso nos \u00e9 presentemente asseverado pelos viajantes sobre os quais apostas correm de um contra cinco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Vou sentar-me para comer, embora perca a vida. O melhor j\u00e1 passou; todo o restante n\u00e3o vale nada. Mano, nobre duque, vinde, imitai-nos nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Trov\u00f5es e rel\u00e2mpagos. Entra Ariel sob a forma de uma harpia, agita as asas sobre a mesa e faz desaparecer as iguarias por meio de um artif\u00edcio engenhoso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Tr\u00eas pecadores sois que ora o Destino \u2014 que tem como instrumento o baixo mundo e tudo o que ele encerra \u2014 fez nas praias \u2014 vomitar pelo mar nunca saciado, justamente nesta ilha que n\u00e3o deve conter seres humanos, por n\u00e3o serdes dignos de conviver com os outros homens. Vou deixar-vos privados da raz\u00e3o. (<i>Vendo Alonso, Sebasti\u00e3o, etc. sacar das espadas.<\/i>) \u00c9 com valor como esse que os humanos se enforcam e se afogam. Loucos todos! Eu e meus companheiros somos servos do Fado. Os elementos de que vossas espadas s\u00e3o compostas, poderiam t\u00e3o bem ferir os ventos sibilantes, ou matar com pancadas irris\u00f3rias as \u00e1guas que n\u00e3o cessam de reunir-se, como estragar de leve uma penugem, sequer, de minhas asas. Igualmente invulner\u00e1veis s\u00e3o meus companheiros. Mas embora pud\u00e9sseis fazer algo: ora as vossas espadas se tornaram muito pesadas para vossas for\u00e7as; n\u00e3o as levantar\u00edeis. Mas lembrai-vos \u2014 que esta \u00e9 a minha incumb\u00eancia neste instante \u2014 que v\u00f3s tr\u00eas o bom Pr\u00f3spero expulsastes de Mil\u00e3o, entregando-o, e sua filha, ao mar que ora vos pune. Foi por esse feito facinoroso que as Pot\u00eancias \u2014 que tardar podem, mas jamais esquecem \u2014 contra vosso sossego concitaram tantos mares furiosos, tantas praias, sim, todas as criaturas. De teu filho, Alonso, te privaram. Pela minha voz te anunciam destrui\u00e7\u00e3o morosa, pior do que qualquer modalidade de morte repentina, que vos h\u00e1 de passo a passo seguir por onde fordes. Para vos preservardes dessa c\u00f3lera \u2014 que sobre v\u00f3s h\u00e1 de cair sem falta nesta ilha desolada \u2014 s\u00f3 de aux\u00edlio vos ser\u00e1 contri\u00e7\u00e3o muito sincera e, de ora em diante, uma exist\u00eancia pura. (<i>Desaparece em meio de trov\u00f5es. A seguir, ao som de uma m\u00fasica agrad\u00e1vel, tornam a entrar as figuras bizarras, que se p\u00f5em a dan\u00e7ar fazendo momices e contor\u00e7\u00f5es e depois carregam a mesa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Com muita perfei\u00e7\u00e3o tomaste a forma, meu Ariel, de harpia: era graciosa, a um tempo, e amea\u00e7adora. Em teu discurso, n\u00e3o te afastaste em nada do que eu disse. Do mesmo modo, os criados secund\u00e1rios, com muita exatid\u00e3o e sempre a ponto, de seus pap\u00e9is sa\u00edram. Eficientes est\u00e3o sendo meus altos sortil\u00e9gios, achando-se estes meus imigos presos \u00e0 sua pr\u00f3pria loucura. Todos eles est\u00e3o em minhas m\u00e3os. Mas vou deix\u00e1-los com seus del\u00edrios, para ir ver o mo\u00e7o Ferdinando, que morto todos cr\u00eaem, e \u00e0 minha e sua amada estremecida. (<i>Desaparece.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Em nome de quanto h\u00e1 de mais sagrado, por que, senhor, olhais t\u00e3o fixamente?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 \u00c9 monstruoso! monstruoso! Pareceu-me que as ondas tinham voz e me falavam, que ventos me cantavam e que o pr\u00f3prio trov\u00e3o \u2014 \u00f3rg\u00e3o profundo e pavoroso \u2014 o nome vinham me dizer de Pr\u00f3spero e com voz grave a morte me anunciavam. \u00c9 certo, ent\u00e3o: leito encontrou meu filho no ch\u00e3o lodoso. Irei, pois, procur\u00e1-lo at\u00e9 onde n\u00e3o chegou sonda nenhuma e na lama com ele sepultar-me. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 D\u00e1-me de cada vez um s\u00f3 dem\u00f4nio, que as legi\u00f5es vencerei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estou contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Sebasti\u00e3o e Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Aqueles tr\u00eas est\u00e3o desesperados. Tal qual veneno, cuja a\u00e7\u00e3o demora para se patentear, o crime deles s\u00f3 agora os r\u00f3i por dentro. Assim, concito-vos \u2014 por terdes todos juntas mais flex\u00edveis \u2014 a ir atr\u00e1s deles, para os resguardarmos das conseq\u00fc\u00eancias a que poderia lev\u00e1-los a loucura.<\/p>\n<p align=\"justify\">ADRIANO \u2014 Vinde, pe\u00e7o-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">ATO IV<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena I<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Diante da cela de Pr\u00f3spero.<br \/>\nEntram Pr\u00f3spero, Ferdinando e Miranda.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Se vos puni com muita austeridade, farto pr\u00eamio os trabalhos vos compensa, pois o fio vos dou de minha vida, de que eu pr\u00f3prio dependo. Novamente nas m\u00e3os ta deposito. Todas essas vexa\u00e7\u00f5es n\u00e3o passavam de experi\u00eancias a que tua afei\u00e7\u00e3o foi submetida. Galhardamente resististe a todas. Ratifico ante o c\u00e9u meu rico mimo. \u00d3 Ferdinando! N\u00e3o me julgues f\u00fatil por elogi\u00e1-la assim, pois vais em breve convencer-te de quanto ela ultrapassa quaisquer louvores, que a coxear se esfor\u00e7am, mas em v\u00e3o, por segui-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Creio nisso, embora o contestasse algum or\u00e1culo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Ent\u00e3o recebe minha filha, como presente meu e tua aquisi\u00e7\u00e3o dignamente alcan\u00e7ada. Mas se acaso o la\u00e7o virginal lhe desatares antes de haverem sido celebradas, sem omiss\u00e3o, as santas cerim\u00f4nias e seus ritos sagrados: muito longe de aben\u00e7oar essa uni\u00e3o o c\u00e9u, deitando sobre ela o grato orvalho, h\u00e1 de o \u00f3dio est\u00e9ril, o desd\u00e9m de olho mau e a atroz disc\u00f3rdia o leito vos juncar de ervas daninhas de tal modo nojentas, que repulsa por ele sentireis. Acautelai-vos, por isso, e que vos ilumine a l\u00e2mpada de Himeneu.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Pelo meu desejo ardente de vir a ter, com tal amor, tranq\u00fcilos dias, vida mui longa e bela prole: as cavernas mais negras, os lugares mais oportunos, os mais poderosos argumentos dos g\u00eanios da maldade que em n\u00f3s pr\u00f3prios habitam, nunca me h\u00e1 de mudar a honra em lux\u00faria, nem deixar-me sem fio o gume desse dia santo. Antes de tal pensar, ficar\u00e3o mancos os cavalos de Febo e acorrentada nos abismos a noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Bela jura. Senta-te, pois, e fala-lhe; pertence-te. Aqui, Ariel, meu servo diligente! (<i>Entra Ariel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Que deseja meu mestre poderoso? Aqui estou.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Muito a ponto realizaste com meus servos menores minhas ordens mais recentes. Preciso novamente de todos v\u00f3s, para uma pe\u00e7a id\u00eantica. Vai buscar-me os esp\u00edritos, depressa, sobre os quais te dei for\u00e7a, e aqui os re\u00fane. Concita-os a moverem-se de pronto, porque desejo apresentar aos olhos deste amoroso e jovem par algumas ilus\u00f5es de minha arte. Prometi-lhes que o faria, e de mim isso ora esperam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Neste momento?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sim, num piscar de olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Sem que digas \u201cMuito bem!\u201d ou me grites \u201cVai e vem!\u201d Velozes como ningu\u00e9m aqui estar\u00e3o sem por\u00e9m. Amais-me, mestre, tamb\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 De cora\u00e7\u00e3o, meu delicado Ariel. Antes de eu te chamar n\u00e3o te aproximes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Muito bem. Compreendi. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Olha, s\u00ea verdadeiro; n\u00e3o afrouxes a r\u00e9dea dos carinhos; os mais fortes juramentos s\u00e3o palha para o fogo dos sentidos. Procura comedir-te; do contr\u00e1rio, boa noite, juramentos!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Senhor, ficai tranq\u00fcilo; a branca e fria neve da virgindade que ora trago no cora\u00e7\u00e3o me abate por completo o calor dos sentidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Muito bem. \u2014 Agora, meu Ariel, volta depressa! Antes de haver esp\u00edrito de sobra do que faltar-nos um. S\u00ea prestimoso. \u2014 E agora, apenas olhos; ningu\u00e9m fale.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica serena. Mascarada. Entra \u00cdris.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00cdRIS \u2014 Ceres, deusa ben\u00e9fica, apressada de teus campos te afasta de cevada, de trigo, aveia, ervilha e de centeio, de teus prados virentes, onde, em meio de forragem, rumina o lento gado; dos c\u00f3rregos de margens com bordado de pe\u00f4nias e cani\u00e7os, em que abril faz nascer, ao teu gesto, flores mil, porque coroas castas as pudicas ninfas possam tecer; das matas ricas de sombra, a que se acolhem namorados do desd\u00e9m das zagalas j\u00e1 cansados; das vinhas especadas, das ruidosas praias do mar, e, assim, das alterosas montanhas onde ao sol costumas p\u00f4r-te&#8230; A rainha que no alto tem a corte. de quem sou ponte de \u00e1gua e mensageira, te ordena deixar tudo e, mesureira, \u00e0 sua gra\u00e7a juntar-te soberana, para que aqui, com cortesia lhana, brinques com ela. Seus pav\u00f5es, de v\u00ea-la j\u00e1 se ufanam. Vem, Ceres, receb\u00ea-la!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ceres.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CERES \u2014 Mensageira de cores variegadas, que a consorte de leve sempre agradas, que com tuas asas de a\u00e7afr\u00e3o \u00e0s flores deitas orvalho e restituis as cores e com teu arco azul linda coroa nos bosques p\u00f5es e na sutil lagoa: linda charpa da terra dadivosa, que quer de mim tua rainha airosa? Por que me mandou vir para o gramado?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00cdRIS \u2014 Porque um contrato seja celebrado de amor sincero, e para que se apreste volunt\u00e1rio presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CERES \u2014 Arco celeste, saber\u00e1s informar-me se com ela est\u00e3o V\u00eanus e o filho? Desde aquela vez em que, por ast\u00facia, a filha amada me tiraram, em presa cobi\u00e7ada de Dis a transformando, a escandalosa companhia abjurei da deusa airosa e de seu filho cego.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00cdRIS \u2014 A companhia dos dois n\u00e3o te amedronte, que na via de Pafo os encontrei; num carro lindo de pombas ia o filho. N\u00e3o sorrindo se partiram daqui, porque feiti\u00e7o libertino tentaram, antes disso, lan\u00e7ar neste casal de namorados que haviam feito votos sublimados de n\u00e3o subirem para o casto leito sem que acendido j\u00e1 tivesse a jeito sua tocha Himeneu. Mas foi em v\u00e3o; partiu sem realizar sua inten\u00e7\u00e3o a acolorada amante de Mavorte. Seu petulante filho, de tal sorte ficou zangado que quebrou as setas, juras fazendo claras e secretas de n\u00e3o lan\u00e7ar nenhum disparo mais, por\u00e9m, como os peraltas, com os pardais gastar o tempo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CERES \u2014 Pelo andar percebo que a alta Juno est\u00e1 a chegar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Juno.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JUNO \u2014 Como vai indo minha irm\u00e3? Comigo vinde aben\u00e7oar este casal amigo, porque sejam felizes e exal\u00e7ados nos filhos por nascer.<\/p>\n<p class=\"verso\" align=\"justify\"><i>Cantiga<\/i><br \/>\nJUNO \u2014 Honras, filhos e riquezas,<br \/>\nvida longa sem surpresas,<br \/>\nhoras felizes sem conta<br \/>\nJuno agora vos apronta.<\/p>\n<p>CERES \u2014 Celeiro sempre repleto,<br \/>\nde tudo, do ch\u00e3o ao teto,<br \/>\nvides ao peso encurvadas,<br \/>\nplantas sempre carregadas;<br \/>\ns\u00f3 vos chegue a primavera<br \/>\nestando a colheita \u00e0 espera.<br \/>\nFelicidades sem conta<br \/>\n\u00e9 o que Ceres vos apronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Nunca vi espet\u00e1culo t\u00e3o belo. Fascinante harmonia! Temer\u00e1rio n\u00e3o serei por demais imaginando que se trate de esp\u00edritos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Esp\u00edritos que eu conjurei de seus confins long\u00ednquos, por meio de minha arte, para darem corpo \u00e0s minhas presentes fantasias.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Oh! Deixai-me viver sempre aqui mesmo; um pai t\u00e3o raro e s\u00e1bio, em para\u00edso transforma este lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Juno e Ceres falam baixo e mandam Iris executar uma ordem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sil\u00eancio, amigo. Juno e Ceres cochicham gravemente. Algo ainda h\u00e1 por fazer. Sil\u00eancio agora; caso contr\u00e1rio, ficar\u00e1 quebrada toda nossa magia.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00cdRIS \u2014 N\u00e1iades ninfas das correntes ledas, de coroas de junco e express\u00f5es quedas, sa\u00ed de vossos leitos e na grama vinde dan\u00e7ar; \u00e9 Juno que o proclama. Ninfas pudicas, nada vos impe\u00e7a de exaltar este enlace. Bem depressa. (<i>Entram algumas ninfas.<\/i>) Segadores tostados pelo sol, de agosto lassos, \u00e0 reuni\u00e3o de escol comparecei alegres, e com vossos chap\u00e9us de palha de centeio nossos festejos animai, porque hoje \u00e9 dia feriado. Dando mostras de alegria, vinde todos tirar uma das ninfas que, de pouco, deixaram suas linfas, para dan\u00e7ar na grama. (<i>Entram alguns segadores, com vestes limpas, e se re\u00fanem \u00e0s ninfas, em dan\u00e7a graciosa. Quase no fim da dan\u00e7a, Pr\u00f3spero estremece subitamente e fala, com o que todos desparecem devagar, no meio de um ru\u00eddo cavo e confuso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte.<\/i>) \u2014 Por pouco n\u00e3o me esquece a tra\u00e7a infame do animal Calib\u00e3 e de seus c\u00famplices, contra a minha exist\u00eancia. Estamos quase no minuto da trama combinada. (<i>Aos esp\u00edritos.<\/i>) Muito bem; \u00e9 o bastante; ide-vos todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Curioso como vosso pai se encontra sob violenta paix\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 A n\u00e3o ser hoje, nunca o vi externar t\u00e3o forte c\u00f3lera.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Pareceis, caro filho, um tanto inquieto, como quem sente medo. Criai \u00e2nimo, senhor; nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram esp\u00edritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalp\u00e1vel. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os pal\u00e1cios altivos, as igrejas majestosas, o pr\u00f3prio globo imenso, com tudo o que cont\u00e9m, h\u00e3o de sumir-se, como se deu com essa vis\u00e3o t\u00eanue, sem deixarem vest\u00edgio. Somos feitos da mat\u00e9ria dos sonhos; nossa vida pequenina \u00e9 cercada pelo sono. Reconhe\u00e7o, senhor, que estou irritado. Suportai-me, vos pe\u00e7o; \u00e9 da fraqueza. Enturva-se-me o c\u00e9rebro j\u00e1 velho. N\u00e3o vos amofineis com minha doen\u00e7a. Caso vos for do agrado, entrai na cela, para a\u00ed repousardes. Enquanto isso, darei algumas voltas, porque possa tornar-me calmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO E MIRANDA \u2014 Paz vos desejamos. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 R\u00e1pido como o pensamento, vem meu Ariel. Agrade\u00e7o-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ariel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Sigo sempre de perto tuas inten\u00e7\u00f5es. Que queres?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Precisamos, esp\u00edrito, estar prontos para que Calib\u00e3 n\u00e3o nos surpreenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 \u00c9 certo, mestre. Quando trouxe Ceres, pensei em te falar; mas tive medo de causar-te desgosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Dize-me onde deixaste esses lacaios?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Como disse, senhor, todos estavam vermelhos de bebida e t\u00e3o valentes, que o pr\u00f3prio ar atacavam pelo ousio de lhes soprar no rosto, o ch\u00e3o calcavam por lhes beijar os p\u00e9s, e sempre atentos na tra\u00e7a combinada. Nesse instante toquei meu tamboril, ao que eles, logo, como potros selvagens, com as orelhas em p\u00e9 ficaram, olhos espantados, e as narinas abertas, como o cheiro de m\u00fasica a sentir. Enfeiti\u00e7ados lhes deixei os ouvidos de tal forma, que, como bezerrinhos, os mugidos me seguiam por entre os tojos duros, os espinheiros e as mordentes sar\u00e7as, que nas pernas mui fr\u00e1geis lhes entravam. Por fim deixei-os no paul coberto de imund\u00edcies, atr\u00e1s de vossa cela, onde at\u00e9 ao queixo se contorcem, para da lama se livrarem pegajosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Muito bem, caro p\u00e1ssaro. Conserva-te invis\u00edvel por mais alguns momentos. Vai a casa e me traze o que encontrares de badulaques; com isso engendraremos armadilha para esses malfeitores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Vou j\u00e1! Vou j\u00e1! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 \u00c9 um dem\u00f4nio, um dem\u00f4nio de nascen\u00e7a, em cuja natureza jamais p\u00f4de atuar a educa\u00e7\u00e3o. Foram perdidos todos os meus esfor\u00e7os; sim, perdido completamente, sempre, quanto hei feito a ele por amor \u00e0 humanidade. Seu corpo com a idade fica hediondo e cada vez mais ulcerado o esp\u00edrito. Atorment\u00e1-los vou at\u00e9 que rujam. (<i>Volta Ariel, carregado de vestimentas brilhantes, etc.<\/i>) Vamos, pendura tudo nessa corda. (<i>Pr\u00f3spero e Ariel se tornam invis\u00edveis. Entram Calib\u00e3, Est\u00e9fano e Tr\u00ednculo, inteiramente molhados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Agora, por favor, pisai de leve, porque a toupeira cega n\u00e3o perceba quando nos caem os p\u00e9s. Estamos perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Monstro, vossa fada, que diz\u00edeis ser uma fada sem maldade, procedeu simplesmente conosco como com marotos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Monstro, estou sentindo o cheiro de urina de cavalo, o que me causa grande indigna\u00e7\u00e3o ao nariz.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Ao meu tamb\u00e9m. Est\u00e1s ouvindo, monstro? Se me causares o menor aborrecimento&#8230; Toma cuidado!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 N\u00e3o passar\u00e1s de um monstro perdido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Concedei-me, meu bom senhor, um pouco mais de vosso favor; sede paciente, que o pr\u00eamio prometido vai deixar-vos esquecido de tantos contratempos. Por isso falai baixo; tudo se acha t\u00e3o sossegado como \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Sim, mas perdemos as garrafas no atoleiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 O que n\u00e3o constitui para n\u00f3s, monstro, apenas uma desgra\u00e7a, mas perda irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Que eu sinto mais do que toda esta umidade. Isso, monstro, ainda \u00e9 trabalho de vossa fada sem maldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Hei de recuperar a minha garrafa, ainda que me atole at\u00e9 \u00e0s orelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Acalma-te, meu rei. Est\u00e1s vendo isto? \u00c9 a boca da caverna. Entra sem bulha e o bom crime comete decidido, que dono te far\u00e1 desta bela ilha e de mim, Calib\u00e3, teu lambe-p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o; j\u00e1 come\u00e7o a ter pensamentos sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 \u00d3 Rei Est\u00e9fano! \u00d3 par! \u00d3 digno Est\u00e9fano, v\u00ea que belo guarda-roupa aqui est\u00e1 para ti!<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Deixa isso, tolo; s\u00e3o bugigangas.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Oh, oh, monstro! Sabemos muito bem o que sejam pacotilhas. \u00d3 Rei Est\u00e9fano!<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Tira esse manto, Tr\u00ednculo. Por esta m\u00e3o, quero esse manto para mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Tua Gra\u00e7a o ter\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Na hidropsia se afogue este pateta. Que estais pensando, para assim ficardes diante desses andrajos? Deixai isso. Primeiro, a morte dele. Caso acorde, desde os p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a vai deixar-nos a pele triturada, de n\u00f3s todos fazendo bela papa.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Fica quieto, monstro! \u2014 Senhora linha, este gib\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o meu? Presentemente o gib\u00e3o j\u00e1 passou a linha. Agora gib\u00e3o, vais perder os cabelos e tornar-te gib\u00e3o careca.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 A ele! A ele! Com licen\u00e7a de Vossa Gra\u00e7a, mas sabemos roubar em linha reta.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Muito obrigado pela pilh\u00e9ria. Fica com esta roupa. N\u00e3o se dir\u00e1 que o esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 recompensado enquanto eu for rei deste pa\u00eds. Roubamos em linha reta!\u201d Multo bem dito, realmente. Toma mais esta pe\u00e7a, como pr\u00eamio da frase.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Vem, monstro; passa um pouco de visgo nos dedos e some com o resto da roupa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 N\u00e3o quero nada; perderemos tempo com isso, e nos transformaremos em macacos ou em patos bravos, de testa acanhada e para baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Monstro, espicha os dedos. Ajuda a levar isto para onde est\u00e1 o meu barril de vinho. Caso contr\u00e1rio, expulso-te do meu reino. Mimos, carrega isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 E isto tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Sim, e mais isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se barulho de ca\u00e7ada. Entram diversos esp\u00edritos sob a forma de c\u00e3es, que se p\u00f5em a perseguir Est\u00e9fano, Tr\u00ednculo e Calib\u00e3. Pr\u00f3spero e Ariel os espica\u00e7am com gritos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Pega, Montanha! Pega!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Prateado! Por aqui, Prateado!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Aqui, F\u00faria! Aqui, Sult\u00e3o! Pega! Pega! (<i>Calib\u00e3, Est\u00e9fano e Tr\u00ednculo saem perseguidos.<\/i>) Vai, incumbe os meus duendes de torce-lhes com secas convuls\u00f5es todas as juntas, de com c\u00e3ibras os nervos repuxar-lhes, com belisc\u00f5es deixando-os mais manchados do que os gatos selvagens e as panteras.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Escuta: est\u00e3o rugindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Que sejam perseguidos sem piedade. Meus inimigos, neste instante, se acham de todo ao meu dispor. Dentro de pouco ter\u00e1s o ar vontade. Alguns momentos, ainda, me acompanha e cumpre tudo que eu te mandar fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">ATO V<\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Cena I<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Diante da cela de Pr\u00f3spero.<br \/>\nEntram Pr\u00f3spero, com suas vestes m\u00e1gicas, e Ariel<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Concretizam-se, enfim, meus planos todos; meus feiti\u00e7os n\u00e3o falham; meus esp\u00edritos me obedecem e o tempo segue em linha reta com sua carga. Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Seis horas, meu senhor; precisamente a hora em que me dissestes deveriam cessar nossos trabalhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sim, disse isso, quando fiz levantar a tempestade. Mas agora me informa, meu esp\u00edrito, como est\u00e1 o rei e a sua comitiva.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Fechados todos eles, tal qual como t\u00ednheis determinado; justamente como os deixastes, prisioneiros todos no bosque de limeiras que protege, senhor, vossa caverna. Nenhum deles se livrar\u00e1 sem vosso assentimento. O rei, o mano dele e o vosso se acham completamente fora do ju\u00edzo; os demais os lastimam, transpassados de dor e desespero, salientando-se aquele que chamastes de \u201cO bom velho senhor Gonzalo\u201d. As l\u00e1grimas lhe correm pelos fios da barba como gotas do inverno nos cani\u00e7os. De tal modo vossos encantamentos os trabalham, que, se os v\u00edsseis agora, era certeza ficardes comovido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 \u00c9 assim que pensas, esp\u00edrito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Eu, senhor, se fosse humano, decerto ficaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Pois o mesmo comigo vai se dar. Sendo ar, apenas, como \u00e9s, revelas tanto sentimento por suas afli\u00e7\u00f5es; e eu, que me incluo entre os de sua esp\u00e9cie, e as dores sinto, como os prazeres, t\u00e3o profundamente tal como qualquer deles, n\u00e3o podia mostrar-me agora menos abalado. Muito embora seus crimes me tivessem tocado t\u00e3o de perto, em meu aux\u00edlio chamo a nobre raz\u00e3o, para sofrearmos de todo minha c\u00f3lera. \u00c9 mais nobre o perd\u00e3o que a vingan\u00e7a. Estando todos arrependidos, n\u00e3o se estende o impulso do meu intento nem sequer a um simples franzir do sobrecenho. Vai, liberta-os, meu Ariel. Vou romper o encantamento, a raz\u00e3o restituir-lhes e faz\u00ea-los voltar a ser o que eram.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Vou busc\u00e1-los. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 V\u00f3s, elfos das colinas e dos c\u00f3rregos, das lagoas tranq\u00fcilas e dos bosques; e v\u00f3s que rasto n\u00e3o deixais na areia, quando ca\u00e7ais Netuno nas vazantes, ou dele vos furtais, quando retorna; v\u00f3s, an\u00f5ezinhos brincalh\u00f5es, que c\u00edrculos, \u00e0 luz do luar, tra\u00e7ais de ervas amargas, que as ovelhas recusam; e v\u00f3s outros que criais por brinquedo os cogumelos noturnos e vos alegrais com o toque solene da manh\u00e3; com cujo aux\u00edlio \u2014 muito embora sejais mestres fraquinhos \u2014 fiz apagar-se o sol ao meio-dia, chamei os ventos revoltados, guerra suscitei atroadora entre o mar verde e a ab\u00f3boda azulada, o ribombante trov\u00e3o provi de fogo, o tronco altivo do carvalho de Jove abri ao meio, de seu pr\u00f3prio corisco me valendo; abalado deixei os promont\u00f3rios de fortes alicerces, os pinheiros e cedros arranquei pelas ra\u00edzes&#8230; Ao meu comando, os t\u00famulos faziam despertar os que neles repousavam, e, abrindo-se, deixavam-nos sair, t\u00e3o forte era minha arte. Mas abjuro, neste momento, da magia negra; uma vez conjurado mais um pouco de m\u00fasica celeste \u2014 o que ora fa\u00e7o \u2014 para que nos sentidos lhes atue \u2014 tal \u00e9 o poder do encantamento a\u00e9reo quebrarei a varinha; a muitas bra\u00e7as do solo a enterrarei, e em lugar fundo, jamais tocado por nenhuma sonda, afogarei meu livro. (<i>M\u00fasica solene. Volta Ariel; Alonso o segue com ademanes fren\u00e9ticos, acompanhado por Gonzalo; Sebasti\u00e3o e Ant\u00f4nio, no mesmo estado, acompanhado por Adriano e Francisco. Todos entram no c\u00edrculo feito por Pr\u00f3spero e a\u00ed se conservam sob a a\u00e7\u00e3o do encantamento. Pr\u00f3spero os contempla e fala.<\/i>) Que uma can\u00e7\u00e3o solene, o mais possante consolador das mentes perturbadas, o c\u00e9rebro te cure, que no cr\u00e2nio te ferve, agora, in\u00fatil. P\u00e1ra a\u00ed mesmo, porque imobilizado ora te encontras por meus encantamentos. Impec\u00e1vel Gonzalo, homem honrado: meus olhos, compassivos com a atitude dos teus deixam cair gotas amigas. O encantamento se desfaz aos poucos. Assim como a manh\u00e3, roubando a noite, dilui a escurid\u00e3o, do mesmo modo a despertar come\u00e7am-lhe os sentidos e a expulsar os vapores ignorantes que a nitente raz\u00e3o lhes revestia. Meu salvador sincero, bom Gonzalo, servidor dedicado de teu amo, hei de pagar-te em casa os benef\u00edcios com palavras e obras. Por maneira crudel\u00edssima, Alonso, procedeste comigo e minha filha. Foste nisso levado por teu mano. Esse o motivo, Sebasti\u00e3o, de sofreres tantas dores, e v\u00f3s a\u00ed, meu sangue e minha carne, meu irm\u00e3o, que \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o deste acolhida, expulsando o remorso e a natureza \u2014 raz\u00e3o de serem muito mais intensas as compun\u00e7\u00f5es internas \u2014 planejastes assassinar aqui vosso monarca. Embora sejas um desnaturado, recebe o meu perd\u00e3o. \u2014 O entendimento j\u00e1 come\u00e7a a crescer e a mar\u00e9 pr\u00f3xima dentro de pouco cobrir\u00e1 a praia da raz\u00e3o, que ainda est\u00e1 cheia de lama. Nenhum deles me v\u00ea nem reconhece. Ariel, vai at\u00e9 \u00e0 cela e de l\u00e1 traze minha espada e o chap\u00e9u. (<i>Sai Ariel.<\/i>) Troco esta roupa e vou ficar como em Mil\u00e3o eu era. Esp\u00edrito, depressa! Falta pouco para ficares livre. (<i>Volta Ariel cantando, e ajuda Pr\u00f3spero a vestir-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Como as abelhas volito em busca do mel bendito. Numa corola dormito, quando o bufo solta o grito. Meu cavalinho bonito \u2014 um morcego sempre incito a ter o ver\u00e3o bem fito. Vou viver, vou viver alegremente sob os ramos da selva florescente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Oh, reconhe\u00e7o o meu gentil Ariel. Vou sentir tua falta&#8230; Pouco importa. Ficar\u00e1s livre. Assim&#8230; Assim&#8230; Assim&#8230; Como \u00e9s, sem seres visto, vai ao barco do rei, onde achar\u00e1s os marinheiros a dormir na escotilha. Despertados o comandante e o contramestre, obriga-os a vir para este ponto. Isso, depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL \u2014 Engulo o ar no caminho e aqui retorno antes de o pulso vos bater duas vezes. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Todas as dores, confus\u00f5es, espantos, todos os desesperos aqui moram. Algum poder celeste nos retire deste pa\u00eds terr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Aqui vedes Pr\u00f3spero, senhor rei, o antigo Duque de Mil\u00e3o. Como prova de que um pr\u00edncipe vivo contigo fala neste instante, abra\u00e7o-te e te dou as mais sinceras boas-vindas e a todos de teu s\u00e9q\u00fcito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Se \u00e9s ele mesmo ou n\u00e3o, ou qualquer m\u00e1gico fantasma, como os outros que at\u00e9 h\u00e1 pouco de mim zombaram, como decidir-me? Como de carne e sangue tens o pulso, e desde que te vi sinto acalmar-se-me a inquieta\u00e7\u00e3o da mente, que a loucura, muito o receio, em mim nascer fizera. Tudo isso \u2014 se isso tudo for verdade \u2014 tem uma hist\u00f3ria por demais estranha. Resigno o teu ducado e te conjuro a me perdoar as faltas. Por\u00e9m como pode estar vivo Pr\u00f3spero e nesta ilha?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Primeiramente, nobre amigo, deixa que te abrace a velhice, pois tua honra n\u00e3o conhece medida nem limites.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Se isto tudo \u00e9 real ou imagin\u00e1rio, n\u00e3o poderei jur\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Em v\u00f3s atuam ainda algumas sutilezas da ilha, que n\u00e3o vos deixam crer na realidade. Bem-vindos sois, amigos. (<i>\u00c0 parte, a Sebasti\u00e3o e Ant\u00f4nio.<\/i>) Se o quisesse, meu par de nobres, eu pudera agora fazer que contra v\u00f3s se condensasse a c\u00f3lera do rei, desmascarando-vos como dois vis traidores. Mas n\u00e3o quero neste instante contar coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O diabo fala pela tua boca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 N\u00e3o; a v\u00f3s senhor perverso, a que n\u00e3o posso dar o nome de irm\u00e3o sem que me suje, a falta mais hedionda vos perd\u00f4o&#8230; Perd\u00f4o todas, mas neste momento reclamo o meu ducado que, por for\u00e7a, tereis de me entregar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Se fores Pr\u00f3spero, realmente, ent\u00e3o revela-nos algumas particularidades sobre o modo como, enfim, te salvaste; dize como nos encontraste aqui, n\u00f3s que h\u00e1 tr\u00eas horas, apenas, naufragamos nesta praia, onde perdi \u2014 como \u00e9 pungente o ac\u00faleo da lembran\u00e7a! \u2014 meu caro Ferdinando.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Sinto muito, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 \u00c9 irrepar\u00e1vel a perda, e diz-me a paci\u00eancia que ela pr\u00f3pria nada consegue neste caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Penso, ao contr\u00e1rio, que n\u00e3o procurastes seu aux\u00edlio eficiente. Em perda id\u00eantica, por sua doce gra\u00e7a, contemplado me vi com sua ajuda soberana, ficando satisfeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Perda id\u00eantica?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 T\u00e3o grande como a vossa, e t\u00e3o recente. E para suport\u00e1-la n\u00e3o dispunha dos meios de consolo que vos restam, pois perdi minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Filha? O C\u00e9us! Se em N\u00e1poles os dois ora estivessem, como rei e rainha! Para tanto, desejara enterrado ora encontrar-me no leito cenagoso em que meu filho repousa neste instante. H\u00e1 quanto tempo sofrestes essa perda irrepar\u00e1vel?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Na \u00faltima tempestade. Mas percebo que estes senhores por tal modo se acham estupefactos ante o nosso encontro, que a raz\u00e3o perdem, n\u00e3o acreditando que os olhos usam no seu pr\u00f3prio of\u00edcio e que sua faia \u00e9 natural an\u00e9lito. Por\u00e9m, por mais que todos deslocados houv\u00e9sseis sido dos sentidos, crede como certo que eu sou, de fato, Pr\u00f3spero que de Mil\u00e3o, h\u00e1 tempo, fui expulso e que desembarquei por modo estranho na mesma praia em que ora naufragastes, para ser dono dela. Mas sobre isso, por ora, \u00e9 quanto basta; \u00e9 larga hist\u00f3ria, para contada ser dia por dia, n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o para fazer-se \u00e0 mesa e muito menos ao primeiro encontro. Sois bem-vindo, senhor. \u00c9 nesta ceia que tenho minha corte; nela poucas pessoas me acompanham, sem que s\u00fadito nenhum tenha aqui fora. Examinai-a, por obs\u00e9quio. Uma vez que o meu ducado me restitu\u00edstes, vou recompensar-vos com um presente precioso. Pelo menos vou fazer um milagre que vos h\u00e1 de t\u00e3o contente deixar como exultante fiquei com meu ducado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Abre-se a porta da cela, deixando ver Ferdinando e Miranda, que jogam xadrez.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Estais usando de esperteza, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 N\u00e3o, querida; por nada neste mundo poderia faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Sim, por um par de reinos poder\u00edeis altercar, e eu vos juro que chamara a isso jogo correto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Se tudo isto for outra vez uma ilus\u00e3o desta ilha, duas vezes perdi meu caro filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Oh Milagre estupendo!<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 Muito embora ameacem sempre, os mares s\u00e3o piedosos. Amaldi\u00e7oei-os sem raz\u00e3o para isso. (<i>Ajoelha-se em frente de Alonso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Que te envolvam as b\u00ean\u00e7\u00e3os incont\u00e1veis de um venturoso pai. Al\u00e7a-te e dize como aqui vieste ter.<\/p>\n<p align=\"justify\">MIRANDA \u2014 Oh! Que milagre! Que soberbas criaturas aqui vieram! Como os homens s\u00e3o belos! Admir\u00e1vel mundo novo que tem tais habitantes!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Para ti isso \u00e9 novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Quem \u00e9 a jovem com quem jogavas? Vossas mais antigas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o ter\u00e3o mais de tr\u00eas horas. A deusa que nos separou, por que ora de novo nos reunira?<\/p>\n<p align=\"justify\">FERDINANDO \u2014 \u00c9 criatura mortal, senhor; mas pela Provid\u00eancia imortal me foi dada. Fiz a escolha, quando o consentimento n\u00e3o podia pedir do meu bom pai, estando certo de que pai j\u00e1 n\u00e3o tinha. Ela \u00e9 a filha do mui famoso Duque de Mil\u00e3o, de que tanto j\u00e1 ouvira, mas que nunca chegara a contemplar. Recebi dele uma segunda vida, e ora um segundo pai me fez dele esta gentil menina.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Sou todo dela. Mas como me \u00e9 estranho ter de pedir perd\u00e3o ao pr\u00f3prio filho!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Parai a\u00ed, senhor; n\u00e3o nos dobremos sob o peso do fardo das lembran\u00e7as do que j\u00e1 se passou.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Derramei l\u00e1grimas interiores; se n\u00e3o j\u00e1 me teria manifestado. \u00d3 deuses! Inclinai-vos por uns momentos, e sobre estes jovens fazei descer uma coroa benta, pois fostes v\u00f3s que a estrada nos tra\u00e7astes para aqui nos reunirmos neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Digo am\u00e9m, bom Gonzalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Assim, Mil\u00e3o foi de Mil\u00e3o expulso, porque viessem seus descendentes a ser reis de N\u00e1poles? Oh! Alegrai-vos sobremodo e o fato gravai a ouro em perdur\u00e1veis l\u00e1pides. Foi achar Claribel, numa viagem a T\u00fanis, o marido; Ferdinando, seu irm\u00e3o, uma esposa, onde ele pr\u00f3prio se dava por perdido; o Duque Pr\u00f3spero, o ducado numa ilha t\u00e3o modesta; e todos n\u00f3s nos encontramos, quando j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos donos de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO (<i>a Ferdinando e Miranda<\/i>) \u2014 Dai-me as m\u00e3os. Que a tristeza e os pesadumes o cora\u00e7\u00e3o apertem de quem votos n\u00e3o fizer de alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">GONZALO \u2014 Seja. Am\u00e9m. (<i>Volta Ariel com o Comandante e o Contramestre que o seguem com sinais de estupefa\u00e7\u00e3o.<\/i>) Olhai, senhor! Olhai! Mais gente nossa. Deu certo a minha profecia: caso forcas houvesse em terra, este sujeito n\u00e3o morreria na \u00e1gua. E ora, blasfemo, que ao mar jogavas a divina Gra\u00e7a, aqui em terra esgotaram-se-te as pragas? Que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 A melhor delas \u00e9 termos encontrado s\u00e3os e salvos o rei e os de seu s\u00e9q\u00fcito. A segunda \u00e9 que nosso navio, que h\u00e1 tr\u00eas horas, somente, acredit\u00e1vamos perdido, est\u00e1 firme e arvorado, como quando iniciamos a viagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL (<i>\u00e0 parte, a Pr\u00f3spero<\/i>) \u2014 Fiz tudo isso, mestre, neste intervalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte, a Ariel<\/i>) \u2014 \u00d3 meu esp\u00edrito habilidoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Naturais eventos n\u00e3o pode ser tudo isso. A um fato estranho, segue outro ainda maior. Dizei-nos como chegaste at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONTRAMESTRE \u2014 Caso eu tivesse certeza plena de que estou desperto, tentaria fazer cabal relato. Mortos de sono est\u00e1vamos, embaixo das escotilhas todos \u2014 n\u00e3o sabemos como isso aconteceu \u2014 quando, de s\u00fabito, desencontrada confus\u00e3o se eleva de rugidos atroantes e de guinchos, barulho de cadeias arrastadas e outras esp\u00e9cies v\u00e1rias de ru\u00eddos, todos horr\u00edveis, que nos despertaram. No mesmo instante livres nos achamos e em toda galhardia percebemos nosso real, galante e bravo barco e nosso comandante, embasbacado, que pulava de alegre. De repente \u2014 com vossa permiss\u00e3o \u2014 como num sonho nos separamos e trazidos fomos para aqui, atordoados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARIEL (<i>\u00e0 parte, a Pr\u00f3spero<\/i>) \u2014 Foi bem feito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO (<i>\u00e0 parte, a Ariel<\/i>) \u2014 Otimamente, meu zeloso esp\u00edrito; em breve ser\u00e1s livre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 E o mais estranho labirinto que os homens j\u00e1 pisaram ultrapassa tudo isso a natureza no seu curso normal. Ser\u00e1 preciso buscar a explica\u00e7\u00e3o nalgum or\u00e1culo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 N\u00e3o aflijais, meu soberano o esp\u00edrito, procurando explicar com tanto empenho a estranheza do caso. Mais de espa\u00e7o \u2014 o que vai ser em breve \u2014 hei de contar-vos com particularidades que vos h\u00e3o de parecer aceit\u00e1veis, tudo quanto se passou por aqui. Nesse entrementes, ficai alegre e pensai bem de tudo. (<i>\u00c0 parte, a Ariel.<\/i>) Aproxima-te, esp\u00edrito; liberta Calib\u00e3 e os demais; desfaze o encanto. (<i>Sai Ariel.<\/i>) Meu gracioso senhor como se sente? ainda est\u00e3o faltando alguns sujeitos esquisitos de vossa companhia, de que n\u00e3o vos lembrais. (<i>Volta Ariel empurrando Calib\u00e3, Est\u00e9fano e Tr\u00ednculo, com as roupas roubadas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Cada um cuide s\u00f3 dos outros, sem se importar consigo mesmo, porque tudo s\u00f3 depende da sorte. Coragem, monstro-raio! Coragem!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 Se o que eu trago na cabe\u00e7a forem espi\u00f5es de verdade, temos aqui uma apari\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Oh Setebos! Que esp\u00edritos not\u00e1veis, em verdade! Qu\u00e3o belo est\u00e1 meu amo! Temo que me castigue.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Ah! Ah! Que coisas ora nos surgem, meu senhor Ant\u00f4nio? Poderemos compr\u00e1-las com dinheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Decerto poderemos; uma delas \u00e9 puro peixe e, sem nenhuma d\u00favida, vend\u00e1vel no mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vede apenas, senhores, as roupagens destes homens. Dizei-me agora se eles s\u00e3o honestos. Esse tipo disforme que ali vedes, teve por m\u00e3e uma terr\u00edvel bruxa, e de poder t\u00e3o grande que at\u00e9 mesmo na lua tinha influ\u00eancia, e provocava mar\u00e9s e baixa-mar\u00e9s, realizando da lua o of\u00edcio, sem o poder dela. Esses tr\u00eas indiv\u00edduos me roubaram; e aquele meio-diabo \u2014 pois \u00e9 filho bastardo, j\u00e1 se v\u00ea \u2014 tramou com eles assassinar-me. Dois desses marotos s\u00e3o vossos conhecidos; este bloco de escurid\u00e3o \u00e9 minha propriedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 Beliscado serei de ficar morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Aquele ali n\u00e3o \u00e9 acaso, Est\u00e9fano, meu despenseiro b\u00eabado?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 Est\u00e1 b\u00eabado; mas como arranjou vinho?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Cambaleante de b\u00eabado est\u00e1 Tr\u00ednculo. Mas como ter\u00e3o eles achado esse admir\u00e1vel elixir que os deixou t\u00e3o remo\u00e7ados? Como vieste a cair nesta salmoura?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00cdNCULO \u2014 De tal maneira eu me meti na salmoura desde a \u00faltima vez que vos vi, que tenho receio de que nunca mais me saia dos ossos. Agora posso desafiar as picadas dos mosquitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 E tu a\u00ed, Est\u00e9fano! Como vais passando?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Oh! N\u00e3o me toqueis! N\u00e3o sou Est\u00e9fano, mas pura c\u00e3ibra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Querias ser rei da ilha, n\u00e3o, maroto?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Daria um rei bem doentio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO (<i>apontando para Calib\u00e3<\/i>) \u2014 \u00c9 a coisa mais estranha que eu j\u00e1 vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 E t\u00e3o disforme nos costumes como no feitio exterior. Ide, maroto, j\u00e1 para minha cela, acompanhado de vossos dois amigos. Se quiserdes ser perdoado, arrumai-a com bem zelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CALIB\u00c3 \u2014 \u00c9 o que farei; e de ora avante quero mostrar-me mais razo\u00e1vel e obter gra\u00e7a. Mas que asno refor\u00e7ado eu fui, tomando por um deus este b\u00eabado e inclinando-me diante deste imbecil!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Vai logo. Fora! Ide repor essas quinquilharias no lugar onde estavam.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEBASTI\u00c3O \u2014 De onde foram roubadas, \u00e9 o mais certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Calib\u00e3, Est\u00e9fano e Tr\u00ednculo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Senhor, convido Vossa Alteza e os vossos a entrar em minha pobre cela, para descansar esta noite, pretendendo parte dela empregar com narrativas de t\u00e3o grande atra\u00e7\u00e3o que \u2014 n\u00e3o o duvido \u2014 depressa passar\u00e1: a hist\u00f3ria toda de minha vida e, assim, os acidentes por que passei at\u00e9 chegar a esta ilha. Logo pela manh\u00e3 hei de levar-vos ao vosso barco e, logo ap\u00f3s, a N\u00e1poles, onde espero assistir ao matrim\u00f4nio destes dois entes que nos s\u00e3o t\u00e3o caros. Da\u00ed me acolherei ao meu Mil\u00e3o, onde cada terceiro pensamento ser\u00e1 dicado \u00e0 minha sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALONSO \u2014 Estou ansioso por ouvir a hist\u00f3ria de vossa vida, que h\u00e1 de estranhamente prender-nos a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3SPERO \u2014 Contarei tudo, prometendo-vos mares calmos, auras auspiciosas e velas t\u00e3o velozes que alcan\u00e7areis, dentro de pouco tempo, vossa real esquadra. (<i>\u00c0 parte, a Ariel.<\/i>) Meu Ariel, deixo isso a teu cuidado, e, ap\u00f3s, s\u00ea livre nos elementos. Passa bem, querido. \u2014 Por obs\u00e9quio, senhores, entrai logo. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"epilogo\" name=\"epilogo\"><\/a><\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Ep\u00edlogo<\/span><\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Dito por Pr\u00f3spero.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Meu encanto terminado, reduzi-me ao pr\u00f3prio estado, que \u00e9 bem prec\u00e1rio, em verdade. Agora, vossa vontade aqui poder\u00e1 deixar-me ou a N\u00e1poles enviar-me. Mas \u00e9 certo que alcancei meu ducado, e j\u00e1 perdoei quem mo roubara. Por isso, n\u00e3o queira vosso feiti\u00e7o que eu nesta ilha permane\u00e7a t\u00e3o est\u00e9ril e revessa, mas dos encantos mals\u00e3os livrai-me com vossas m\u00e3os. Vosso h\u00e1lito deve inflar minhas veias pelo mar; caso contr\u00e1rio, meu plano de agradar ser\u00e1 vesano, pois de todo ora care\u00e7o da arte negra de alto pre\u00e7o, que os esp\u00edritos fazia surgir de noite ou de dia. Restou-me o temor escuro; por isso, o aux\u00edlio procuro de vossa prece que assalta at\u00e9 mesmo a Gra\u00e7a mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de todos vossos pecados, permiti que sem viol\u00eancia me solte vossa indulg\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens ALONSO, rei de N\u00e1poles. SEBASTI\u00c3O, seu irm\u00e3o. PR\u00d3SPERO, o leg\u00edtimo duque de Mil\u00e3o ANT\u00d4NIO, seu irm\u00e3o, duque usurpador de Mil\u00e3o. FERDINANDO, filho do rei de N\u00e1poles. GONZALO, um velho e honesto conselheiro. ADRIANO, nobre, FRANCISCO, nobre. CALIB\u00c3, escravo selvagem e disforme. TR\u00cdNCULO, palha\u00e7o. EST\u00c9FANO, despenseiro b\u00eabado. MIRANDA, filha de Pr\u00f3spero. ARIEL, esp\u00edrito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120340","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Tempestade (1623), William Shakespeare A Tempestade (1623)<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Tempestade (1623), William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, A Tempestade (1623)\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A 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