{"id":120337,"date":"2017-04-25T10:01:28","date_gmt":"2017-04-25T12:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120337"},"modified":"2017-04-25T10:01:28","modified_gmt":"2017-04-25T12:01:28","slug":"romeu-e-julieta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/romeu-e-julieta","title":{"rendered":"Romeu e Julieta"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2 class=\"esquerda\" align=\"justify\">PERSONAGENS TR\u00c1GICOS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>ESCALO<\/b>, Pr\u00edncipe de Verona.<br \/>\n<b>P\u00c1RIS<\/b>, jovem nobre, parente do pr\u00edncipe.<br \/>\n<b>MONTECCHIO<\/b>, chefe de uma das casa rivais.<br \/>\n<b>CAPULETO<\/b>, chefe de uma das casa rivais.<br \/>\nUm tio de Capuleto.<br \/>\n<b>ROMEU<\/b>, filho de Montecchio.<br \/>\n<b>MERC\u00daCIO<\/b>, parente do pr\u00edncipe, (<i>amigo de Romeu<\/i>).<br \/>\n<b>BENV\u00d3LIO<\/b>, sobrinho de Montecchio, (<i>amigo de Romeu<\/i>).<br \/>\n<b>TEBALDO<\/b>, sobrinho da senhora Capuleto.<br \/>\n<b>FREI LOUREN\u00c7O<\/b>, franciscano.<br \/>\n<b>FREI JO\u00c3O<\/b>, da mesma Ordem.<br \/>\n<b>BALTASAR<\/b>, criado de Romeu.<br \/>\n<b>SANS\u00c3O<\/b>,criado de Capuleto<br \/>\n<b>GREG\u00d3RIO<\/b>, criado de Capuleto.<br \/>\n<b>PEDRO<\/b>, criado da ama de Julieta.<br \/>\n<b>ABRA\u00c3O<\/b>, criado de Montecchio.<br \/>\nUm botic\u00e1rio.<br \/>\nTr\u00eas m\u00fasicos.<br \/>\nPajem de Merc\u00facio; pajem de P\u00e1r\u00eds; outro pajem; o oficial.<br \/>\n<b>SENHORA MONTECCHIO<\/b>, esposa de Montecchio.<br \/>\n<b>SENHORA CAPULETO<\/b>, esposa de Capuleto.<br \/>\n<b>JULIETA<\/b>, filha de Capuleto.<br \/>\n<b>AMA<\/b> de Julieta.<br \/>\nCoro.<\/p>\n<p><a name=\"pro\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">PR\u00d3LOGO<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Entra o coro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CORO \u2014 Duas casas, iguais em dignidade na formosa Verona vos dir\u00e3o \u2014 reativaram antiga inimizade, manchando m\u00e3os fraternas sangue irm\u00e3o. Do fatal seio desses dois rivais um par nasceu de amantes desditosos, que em sua sepultura o \u00f3dio dos pais depuseram, na morte venturosos. Os lances desse amor fadado \u00e0 morte e a obstina\u00e7\u00e3o dos pais sempre exaltados que teve fim naquela triste sorte em duas horas vereis representados. Se emprestardes a tudo ouvido atento, supriremos as faltas a contento.<\/p>\n<p><a name=\"rj11\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Sans\u00e3o e Greg\u00f3rio, armados de espada e broquel.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Por minha palavra, Greg\u00f3rio: n\u00e3o devemos levar desaforo para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 \u00c9 certo; para n\u00e3o ficarmos desaforados.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 O que quero dizer \u00e9 que quando eu fico encolerizado puxo logo da espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Sim, mas se quiseres viver, toma cuidado para n\u00e3o ficares encolarinhado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Quando me irritam, eu ataco prontamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Mas n\u00e3o te irritas prontamente para atacar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 At\u00e9 um cachorro da casa dos Montecchios me deixa irritado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Ficar irritado \u00e9 p\u00f4r-se em movimento, e ser valente \u00e9 estacar. Logo, se ficares irritado, p\u00f4r-te-\u00e1s a correr.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Um cachorro daquela casa me far\u00e1 fazer p\u00e9 firme. Encostar-me-ei na parede contra qualquer homem ou rapariga da casa de Montecchio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Isso prova que n\u00e3o passas de um escravo fraco, porque o mais fraco \u00e9 que se encosta \u00e0 parede.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 \u00c9 certo; \u00e9 por isso que as mulheres, como vasilhas mais fracas, s\u00e3o sempre encostadas \u00e0 parede. Por isso, afastarei da parede os homens de Montecchio e encostarei nela as raparigas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 A pend\u00eancia \u00e9 entre nossos amos e n\u00f3s, seus servidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Pouco importa; hei de revelar-me tirano: depois de lutar com os homens, serei cruel com as raparigas; arranharei a pele de todas as virgens.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Como! A pele de todas as virgens?<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Perfeitamente; a pele de todas as virgens, ou sua pele de virgem. Interpreta isso no sentido que quiseres.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 As que o sentirem, que o interpretem no seu verdadeiro sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 A mim elas ter\u00e3o de sentir, enquanto eu for capaz de resistir, pois bem sabes que sou um belo peda\u00e7o de carne.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 \u00c9 bom que n\u00e3o sejas peixe; porque se o fosses, n\u00e3o passarias de bacalhau. Vamos; arranca teus instrumentos, que ai v\u00eam vindo dois da casa de Montecchio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Abra\u00e3o e Baltasar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Minha arma nua j\u00e1 est\u00e1 fora; briga tu que eu defenderei tuas costas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Como assim? Viras as costas e corres?<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 N\u00e3o tenhas medo de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Ora essa! Eu, ter medo de ti?<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Fiquemos com a lei do nosso lado; eles que principiem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Vou franzir o rosto, quando passar por eles; e eles que interpretem isso como entenderem.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 N\u00e3o; como ousarem. Vou morder o polegar, o que para eles ser\u00e1 desonroso, no caso de n\u00e3o retrucarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABRA\u00c3O \u2014 \u00c9 para n\u00f3s que estais mordendo o polegar, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Estou mordendo o polegar, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABRA\u00c3O \u2014 \u00c9 para n\u00f3s que mordeis o polegar, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O (<i>\u00e0 parte, a Greg\u00f3rio<\/i>) Se eu disser que sim, ficaremos com a lei de nosso lado?<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO (<i>\u00e0 parte, a Sans\u00e3o<\/i>) N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 N\u00e3o, senhor; n\u00e3o \u00e9 para v\u00f3s que estou mordendo o polegar; mas estou mordendo o polegar, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO \u2014 Estais querendo brigar, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABRA\u00c3O \u2014 Eu, senhor, querendo brigar? N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Porque, se o quiserdes, senhor, estou \u00e0s vossas ordens; sirvo a um senhor t\u00e3o bom quanto o vosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABRA\u00c3O \u2014 Por\u00e9m n\u00e3o melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GREG\u00d3RIO (<i>\u00e0 parte, a Sans\u00e3o<\/i>) Dize \u201cmelhor\u201d; a\u00ed vem vindo um parente de nosso amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Sim, senhor: melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABRA\u00c3O \u2014 Estais mentindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANS\u00c3O \u2014 Desembainhai, se fordes homem! Greg\u00f3rio, n\u00e3o te esque\u00e7as de teu bote de fundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Benv\u00f3lio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Loucos, parai com isso! Guardai vossas espadas. N\u00e3o sabeis o que fazeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Tebaldo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Como! Sacas da espada contra uns pobres cor\u00e7ozinhos sem for\u00e7a? Aqui, Benv\u00f3lio! Vem encarar a morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Procurava separar esta gente. Guarda a espada e me ajuda a acalm\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Como! Falas em paz e a espada arrancas? T\u00e3o grande \u00f3dio tenho a esse termo como ao pr\u00f3prio inferno, a todos os Montecchios e a ti mesmo. Defende-te, covarde!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram partid\u00e1rios das duas casas, que se misturam com os combatentes; depois entram cidad\u00e3os, armados de paus e partasanas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CIDAD\u00c3OS \u2014 Varas e partasanas! Derrubai-os! Descei o pau! Abaixo os Capuletos! Fora os Montecchios!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Capuleto, de roup\u00e3o de dormir, e a Senhora Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Que barulho \u00e9 esse? Minha espada comprida! Ide busc\u00e1-la! Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Muletas, isso sim: muletas! Por que pedir espada?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 A espada! digo. Chega o velho Montecchio e brande a l\u00e2mina, para fazer-me acinte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Montecchio e a Senhora Montecchio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Capuleto, Vil\u00e3o!&#8230; Deixai! Tem de se haver comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA MONTECCHIO \u2014 N\u00e3o dar\u00e1s um s\u00f3 passo para o inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o pr\u00edncipe com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 S\u00faditos revoltosos, inimigos da paz, que profanais vossas espadas no sangue dos vizinhos&#8230; Qu\u00ea! N\u00e3o ouvem? Ol\u00e1, senhores, animais selvagens que as chamas apagais de vossa f\u00faria perniciosa na fonte purpurina de vossas pr\u00f3prias veias. Sob amea\u00e7a de tortura, jogai das m\u00e3os sangrentas as armas para o mal, s\u00f3, temperadas, e a senten\u00e7a escutai de vosso pr\u00edncipe irritado. Tr\u00eas vezes essas lutas civis, nascidas de palavras a\u00e9reas, por tua causa, velho Capuleto, por ti, Montecchio, a paz de nossas ruas tr\u00eas vezes perturbaram. Os provectos cidad\u00e3os de Verona, despojando-se das vestes graves que t\u00e3o bem os ornam, nas velhas m\u00e3os lan\u00e7as antigas brandem, vosso \u00f3dio enferrujado. Se de novo vierdes a perturbar nossa cidade, pela quebrada paz dareis as vidas. Por agora, que todos se retirem. V\u00f3s, Capuleto, seguireis comigo, e v\u00f3s Montecchio, \u00e0 tarde ireis \u00e0 velha Cidade-Franca, corte da Justi\u00e7a, para conhecimento, assim, tomardes de quanto resolvermos sobre o caso. J\u00e1! Sob pena de morte, dispersai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Montecchio, a senhora Montecchio e Benv\u00f3lio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Quem reavivou esta querela antiga? Sobrinho, dize: onde te achavas na hora?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Antes de eu vir aqui j\u00e1 se encontravam em luta engalfinhados vossos homens e os de vosso inimigo. Tencionando separ\u00e1-los, saquei de minha espada. Nesse instante, por\u00e9m, chegou o ardente Tebaldo, espada em punho, que, soprando-me desafios sem conta, n\u00e3o parava de voltear a arma em torno da cabe\u00e7a, cortando, assim, os ventos que, de nada molestados com isso, s\u00f3 faziam assobiar para ele com desprezo. Enquanto revid\u00e1vamos os botes e as estocadas, foi chegando gente que aumentou o furor de ambas as partes, at\u00e9 que o duque separasse as partes.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA MONTECCHIO \u2014 Oh! E onde est\u00e1 Romeu? Sabes, acaso? Alegra-me n\u00e3o v\u00ea-lo neste caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Uma hora antes de haver o sol sagrado cortado as franjas de ouro do nascente, senhora, me levou o inquieto esp\u00edrito a fazer um passeio l\u00e1 por fora, onde \u00e0 sombra de um bosque de sic\u00f4moros que se estende para oeste da cidade vi vosso filho a andar, que madrugara. Dirigi-me para ele; mas, havendo-me pressentido, esgueirou-se para a sombra mais densa do arvoredo. Eu, que seu \u00edntimo medira pelo meu, que mais procura justamente onde nada achar consegue, demais j\u00e1 sendo para mim eu pr\u00f3prio, meu capricho segui, deixando o dele, e de grado evitei quem me evitava.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Muitas manh\u00e3s tem ele sido visto nesse bosque, a aumentar com suas l\u00e1grimas o orvalho matutino e acrescentando com seus suspiros fundos novas nuvens \u00e0s nuvens existentes. Por\u00e9m logo que principia o sol, que tudo alegra, a abrir no este long\u00ednquo o v\u00e9u sombroso do t\u00e1lamo da Aurora, da luz foge meu filho atribulado, recolhendo-se casa, onde se fecha no seu quarto, cerra as janelas, a luz clara expulsa, e noite artificial, assim, prepara. Poder\u00e1 acabar mal todo esse enli\u00e7o, se n\u00e3o for afastada a causa disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Meu nobre tio, conheceis a causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 N\u00e3o, nem consigo saber dele nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Acaso j\u00e1 insististes junto dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 N\u00e3o s\u00f3 eu, como alguns amigos nossos. Mas ele confidente de suas pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es \u2014 ignoro at\u00e9 que ponto verdadeiro se mostra \u2014 t\u00e3o discreto consigo mesmo \u00e9 sempre e t\u00e3o distante de se deixar sondar e patentear-se como o bot\u00e3o que o verme escuro morde antes que no ar ostente as doces folhas e a formosura \u00e0 luz do sol dedique. Se a causa eu conhecesse da tristeza deix\u00e1-lo-ia curado, isso \u00e9 certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Ei-lo que chega. Ponde-vos de lado; h\u00e1 de falar-me ou se mostrar zangado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Oh! Quem dera que o ouvisses, em boa hora, em confiss\u00e3o! Vamos, madame, embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Montecchio e a senhora.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Bom dia, primo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como assim! J\u00e1 \u00e9 dia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 S\u00e3o nove horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 A dor \u00e9 um tardo guia. N\u00e3o foi meu pai que se afastou com pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Perfeitamente; mas que dor as horas retarda de Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o ter aquilo que, se o tivesse, as deixaria curtas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 No amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Fora&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Do amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Fora do amor de quem me traz cativo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Ah! que apar\u00eancia tenha amor t\u00e3o branda, mas, de fato, seja \u00e1spero e tirano<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ah! que, apesar da venda, amor consiga descobrir seus caminhos sem fadiga. Onde iremos comer? Oh! que batalha por aqui houve? Mas n\u00e3o contes nada, que j\u00e1 soube de tudo. O \u00f3dio d\u00e1 muito trabalho por aqui; mas mais, o amor. Ent\u00e3o, amor brig\u00e3o! \u00d3 \u00f3dio amoroso! \u00c9s tudo, sim; do nada fostes criado desde o princ\u00edpio. Leviandade grave, vaidade s\u00e9ria, caos imano e informe de belas apar\u00eancias, chumbo leve, fuma\u00e7a luminosa, chama fria, sa\u00fade doente, sono sempre esperto, que n\u00e3o \u00e9 nunca o que \u00e9. Eis a\u00ed o amor que eu sinto e que me causa apenas dor. N\u00e3o queres rir?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 N\u00e3o, primo; chorar quero.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Por qu\u00ea, bondoso amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Por ver que tens opresso o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Do amor \u00e9 sempre assim a transgress\u00e3o. As dores pr\u00f3prias pesam-me no peito; mas agora redobras-lhes o efeito com mostrares as tuas; o tormento que revelaste, ao meu deu mais alento. O amor \u00e9 dos suspiros a fuma\u00e7a; puro, \u00e9 fogo que os olhos amea\u00e7a; revolto, um mar de l\u00e1grimas de amantes&#8230; Que mais ser\u00e1? Loucura temperada, fel ingrato, do\u00e7ura refinada. Adeus, primo. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Mais calma; irei tamb\u00e9m; se me deixardes n\u00e3o procedeis bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ora, j\u00e1 me perdi. N\u00e3o sou Romeu. Esse est\u00e1 longe. Est\u00e1 n\u00e3o sei bem onde.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Dizei-me seriamente a quem amais.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como! Precisarei gemer o tempo todo que te falar?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Gemer? Oh, n\u00e3o! Mas dizer, em verdade, quem seja ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Mandai fazer o doente o testamento. Que id\u00e9ia triste para o desalento! Primo, em verdade: adoro uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Acertado tamb\u00e9m nesse alvo eu tinha, ao vos imaginar apaixonado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00d3timo atirador! E ela \u00e9 formosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Primo, acertar assim \u00e9 grande dita.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Nisso vos enganais. Ela \u00e9 catita. A seta de Cupido n\u00e3o cogita de bater nela. S\u00e1bia como Diana, a castidade \u00e9 sua soberana. Do arco gentil do amor est\u00e1 amparada e, assim, da lenga-lenga apaixonada. Resistir pode a todos os assaltos dos olhares morteiros, n\u00e3o chegando nunca a cair-lhe no rega\u00e7o a chuva de ouro que os pr\u00f3prios santos tem vencido. Oh! \u00e9 rica em beleza, mais que bela, porque a beleza morrer\u00e1 com ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Ent\u00e3o jurou que sempre h\u00e1 de ser casta?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Jurou; e sua avareza t\u00e3o nefasta grandes estragos fez, pois a beleza com tal severidade, de fraqueza quase veio a morrer, tendo ficado sem prole alguma. Incr\u00edvel atentado! \u00c9 muito bela e s\u00e1bia, sabiamente formosa para estar sempre contente com me fazer sofrer. Fez juramento de n\u00e3o amar jamais, um s\u00f3 momento. E nesse voto infausto eu vivo morto s\u00f3 de a todos contar meu desconforto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Por mim guiar te deixes nisso: esquece-a<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! A esquecer-me ensina o pensamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 D\u00e1 liberdade aos olhos; examina outras belezas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Esse \u00e9 o meio certo de mais consciente me tornar ainda de sua formosura em tudo rara. Essas felizes m\u00e1scaras que as frontes beijam das jovens belas, sendo pretas pensar nos fazem que a beleza escondem. Quem chegou a cegar, jamais se esquece da j\u00f3ia rara que perdeu com a vista. Mostrai-me uma mulher de inexced\u00edvel formosura; para algo servir pode, sen\u00e3o de sugest\u00e3o para que eu leia quem a excedeu em tanta formosura? N\u00e3o, nunca h\u00e1s de ensinar-me o esquecimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Hei de nisso empregar o meu talento.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"rj12\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entram Capuleto, P\u00e1ris e um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Tanto eu como Montecchio recebemos igual penalidade. Como velhos em paz viver n\u00e3o nos ser\u00e1 dif\u00edcil.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Ambos gozais de alt\u00edssimo conceito, sendo de lastimar que h\u00e1 tanto tempo vivais em desaven\u00e7a. Mas agora, milorde, que dizeis de meu pedido?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Repito o que j\u00e1 disse. Minha filha ainda \u00e9 uma estrangeira neste mundo; mal o curso notou de quatorze anos. De dois estios murchar\u00e1 o orgulho, sem que ou\u00e7amos das n\u00fapcias o barulho.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 M\u00e3es venturosas j\u00e1 s\u00e3o muitas outras jovens mais mo\u00e7as ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 As que come\u00e7am antes do tempo, tamb\u00e9m morrem cedo. Todas as minhas esperan\u00e7as foram tragadas pela terra; somente essa me resta, herdeira grata do que tenho. Mas meu P\u00e1ris gentil, falai com ela; nisso, minha vontade uma parcela, t\u00e3o-s\u00f3, \u00e9 do seu querer. Sendo do gosto dela, no mesmo ponto estou disposto a dar, alegre, o meu consentimento. Seguindo agora o velho regimento, darei hoje uma festa de alegria para a qual convidei a companhia de pessoas amigas. V\u00f3s, tamb\u00e9m, sendo mais um, fazeis, como ningu\u00e9m, jus ao convite. Completai a lista, sem ser preciso que eu sobre isso insista. Em minha pobre casa heis de irradiantes estrelas hoje ver, que, mui galantes, da terra lan\u00e7am luz ao c\u00e9u sombrio. A sensa\u00e7\u00e3o que tem o homem sadio, quando abril ataviado segue os passos do coxo inverno, tr\u00eamulos e lassos, em casa hoje heis de ter, no mesmo instante em que virdes o bando deslumbrante de bot\u00f5es femininos. Sede atento para todas, mostrai contentamento com a que vos parecer mais bem prendada. Entre muitas, tamb\u00e9m, examinada minha filha h\u00e1 de ser, que embora possa ter m\u00e9rito, a nenhuma far\u00e1 mossa. Vinde comigo. (<i>Entrega um papel a um dos criados.<\/i>) Ol\u00e1, rapaz! Depressa corre \u00e0 bela Verona e os nomes dessa lista procura, a todos anunciando que hoje ter\u00e3o de minha casa o marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Capuleto e P\u00e1ris.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Procurar os donos dos nomes desta lista! Est\u00e1 escrito que o sapateiro se ocupar\u00e1 com sua jarda, o alfaiate com suas formas, o pescador com seu pincel, o pintor com suas redes. Mas a mim me incumbem de procurar os donos dos nomes escritos aqui, sem que eu jamais possa encontrar os nomes anotados pela pessoa que escreveu isto. Tenho de procurar gente instru\u00edda. Oh! Em boa hora!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Benv\u00f3lio e Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Ora, rapaz! Inc\u00eandio a inc\u00eandio cura. Uma dor faz minguar a mais antiga. Desvirar do virar sara a tontura. Um desespero a velha dor mitiga. Deixa os olhos pegar nova infec\u00e7\u00e3o, porque da velha possas ficar s\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vossa folha de pl\u00e1tano para isso fora excelente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Para qu\u00ea, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Para perna quebrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 &#8211; Est\u00e1s maluco, Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Maluco? N\u00e3o; mas mais atado do que um louco furioso; encarcerado, morto de fome, chibateado, posto no banco de tormento e&#8230; Salve, amigo<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Deus vos salve, senhor. Por obs\u00e9quio, senhor, sabeis ler?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sei, sim; minha mis\u00e9ria e a pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Talvez tiv\u00e9sseis aprendido isso sem o aux\u00edlio de livros. Mas, por obs\u00e9quio, sereis capaz de ler tudo o que virdes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sou, se souber a l\u00edngua e vir o escrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Falais com honestidade. Passai bem. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Espera a\u00ed, rapaz; sei ler. Signior Martino, sua esposa e filhas; o conde Anselmo com suas encantadoras irm\u00e3s; a senhora vi\u00fava de Vitr\u00favio; signior Plac\u00eancio e suas am\u00e1veis sobrinhas; Merc\u00facio e seu irm\u00e3o Valentino; meu tio Capuleto, sua esposa e filhas; minha linda sobrinha Rosalina; L\u00edvia: o signior Val\u00eancio com seu primo Tebaldo; L\u00facio e a encantadora Helena.\u201d Belo conjunto. Onde \u00e9 que ser\u00e1 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 L\u00e1 em cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Na ceia em nossa casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Casa de quem?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Do meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Com efeito; \u00e9 o que eu deveria ter perguntado em primeiro lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Mas vou dizer-vos, sem que mo pergunteis. Meu amo \u00e9 o grande e rico Capuleto, e se n\u00e3o fordes da casa dos Montecchios, pe\u00e7o-vos que tamb\u00e9m vades esvaziar uma ta\u00e7a de vinho. Prossegui alegre. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Nessa tradicional festividade de Capuleto vai cear a tua formosa Rosalina, juntamente com as demais beldades de Verona. Vai tamb\u00e9m, e com olhos imparciais compara o rosto dela com o de quantas eu te mostrar por l\u00e1, que sem estorvo, ver\u00e1s teu cisne transformado em corvo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Se meus olhos devotos falsidade t\u00e3o grande sustentarem, que em fogueira de suas l\u00e1grimas morra sem piedade, como hereges pass\u00edveis de cegueira. Mais linda que ela! Nunca o sol radiante no mundo todo viu t\u00e3o bela amante.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Pesaste-a nos dois pratos da balan\u00e7a de teus olhos, sem outra vizinhan\u00e7a. Mas sopesa nos pratos de cristal tua beldade e outra qualquer vestal que eu te mostrar brilhante nessa festa, e logo a tua te ser\u00e1 indigesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Irei; n\u00e3o para ver tal resplendor, mas para me ofuscar em meu amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"rj13\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto em casa de Capuleto. Entram a senhora Capuleto e a ama.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ama, onde est\u00e1 Julieta? Vai cham\u00e1-la<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Por minha virgindade quando eu tinha doze anos: j\u00e1 a chamei. Minha ovelhinha. Vem c\u00e1, meu cora\u00e7\u00e3o! Deus me perdoe, mas onde est\u00e1 a menina? Oh, Julieta!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que \u00e9 que houve? Quem me chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Vossa m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Senhora, aqui estou eu. Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Eis o assunto&#8230; Ama, deixa-nos sozinhas por algum tempo. Tenho de falar-lhe muito em particular. N\u00e3o, ama: volta! Lembrei-me agora que \u00e9 preciso que ou\u00e7as nossa conversa, pois h\u00e1 muito tempo conheces minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 \u00c9 certo, posso dizer que idade tem, hora por hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Tem quatorze anos incompletos.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Jogo quatorze de meus dentes muito embora, para minha afli\u00e7\u00e3o, s\u00f3 tenha quatro \u2014 em como n\u00e3o fez ainda quatorze anos. Para um de agosto quanto falta ainda?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Uma quinzena e pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pouco ou muito, n\u00e3o importa. O que \u00e9 certo \u00e9 que no dia um de agosto completa quatorze anos. Ela e Susana Deus ampare as almas crist\u00e3s! \u2014 eram da mesma idade. Bem; Susana est\u00e1 com Deus. Mas, como disse: na noite de primeiro ela completa quatorze anos. \u00c9 certo: quatorze anos. Lembro-me bem. Desde o tremor de terra, onze anos se passaram. Desmamada foi nesse tempo; nunca hei de esquec\u00ea-lo, pois nos seios passado havia losna, sentada ao sol, embaixo do pombal. V\u00f3s e o patr\u00e3o em M\u00e2ntua vos ach\u00e1veis \u2014 Oh! que mem\u00f3ria a minha! \u2014 Mas, como ia dizendo: quando ela sentiu o gosto de losna no mamilo e o achou amargo \u2014 coisinha tola! \u2014 como ficou brava! como bateu nos seios! Nisso, \u201cCrac!\u201d fez o pombal. N\u00e3o foi preciso mais para eu mexer-me. J\u00e1 se passaram, desde ent\u00e3o, onze anos. De p\u00e9, sozinha, ela j\u00e1 ent\u00e3o ficava. Sim, pela Santa Cruz, podia mesmo correr a cambalear por toda a casa, pois no dia anterior ferira a testa. Foi quando meu marido \u2014 Deus conserve sempre sua alma! Era de g\u00eanio alegre \u2014 levantou a menina. \u201cSim\u201d, disse ele, \u201cca\u00eds agora de frente? Pois de costas cair\u00e1s, quando tiveres mais esp\u00edrito. N\u00e3o \u00e9, Julu?\u201d E, pela Santa Virgem, parando de chorar, a pirralhinha respondeu: \u201cSim\u201d. Uma pilh\u00e9ria <i>fina verti<\/i> sempre a tempo. Juro que ainda mesmo que mil anos eu viva, jamais hei de me esquecer do epis\u00f3dio. Perguntou-lhe: \u201cN\u00e3o \u00e9, Julu?\u201d E aquela pirralhinha parando de chorar, respondeu: \u201cSim\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Sobre isso, basta. Fica quieta, pe\u00e7o-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pois n\u00e3o, senhora; mas n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel deixar de rir, ao recordar como ela interrompeu o choro e disse Sim\u201d. No entretanto, crescera-lhe na testa, jurar posso. um calombo grande como test\u00edculo de galo. Que pancada! E ela chorava amargamente. \u201c\u00c9 certo\u201d, disse-lhe meu marido; \u201ccais de frente, n\u00e3o \u00e9 assim? Mas vais cair de costas, quando fores maior. N\u00e3o \u00e9, Julu?\u201d E ela, j\u00e1 sem chorar, respondeu: \u201cSim\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ent\u00e3o p\u00e1ra tamb\u00e9m, ama; \u00e9 o que pe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Bem, j\u00e1 acabei. Que Deus te tenha em gra\u00e7a. Foste a crian\u00e7a mais linda que eu criei. Se algum dia eu puder ver-te casada, \u00e9 tudo o que desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Pois foi para falar em casamento que te chamei. Filha Julieta, dize-me: em que disposi\u00e7\u00e3o est\u00e1s para isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00c9 uma honra com a qual jamais sonhei.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Honra! Se n\u00e3o tivesses tido apenas uma ama, afirmaria que, com o leite, tinhas mamado ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Pois estamos na \u00e9poca de pensar em casamento. Mais jovens do que v\u00f3s, aqui em Verona, senhoras de respeito, j\u00e1 s\u00e3o m\u00e3es. Se n\u00e3o me engano, vossa m\u00e3e tornei-me com a mesma idade em que ainda sois donzela. Para ser breve: o valoroso P\u00e1ris requesta vosso amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Que homem, menina! Um homem desses&#8230; N\u00e3o&#8230; Em todo o mundo&#8230; S\u00f3 feito de encomenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 A primavera de Verona n\u00e3o tem mais bela flor.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Sim, uma flor! A verdadeira flor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Que dizeis? Sois capaz de amar o jovem? Hoje \u00e0 noite v\u00ea-lo-eis em nossa festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos escritos pela pena da beleza. Examinai-lhe os tra\u00e7os delicados e vede como se acham bem casados. E se no livro achardes algo obscuro, encontrareis nos olhos o esconjuro. Esse manual de amor s\u00f3 necessita de uma capa adequada e bem bonita. Vive no mar o peixe; \u00e9 muito certo que deva o amor ficar algo encoberto. As letras de ouro da lombada a gl\u00f3ria ter\u00e3o em parte da formosa hist\u00f3ria. Ficareis, pois, com ele associada sem que vos diminuais, com isso, em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh! n\u00e3o diminuir\u00e1. Pelo contr\u00e1rio; as mulheres com os homens sempre aumentam.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Enfim, que me dizeis do amor de P\u00e1ris?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista chegar al\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 de do que me consentir vossa vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhora, os h\u00f3spedes j\u00e1 chegaram; a comida est\u00e1 na mesa; estais sendo procurada; reclamam a presen\u00e7a da senhorita; na copa amaldi\u00e7oam a ama. Tudo est\u00e1 de pernas para o ar. Tenho de voltar para servir. Por obs\u00e9quio, vinde logo, vinde logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 J\u00e1 te sigo. Julieta, o conde espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Belas noites te almejo; sou sincera.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"rj14\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo Uma rua. Entram Romeu, Merc\u00facio, Benv\u00f3lio, com cinco ou seis mascarados, portadores de tochas e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Por escusas faremos um discurso, ou entramos sem nenhuma apologia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Muito falar destoa deste dia. N\u00e3o precisamos hoje de Cupido com venda sobre os olhos e arco t\u00e1rtaro de ripa multicor, que infunde medo, como espantalho o faz, no mulherio. N\u00e3o; nem tamb\u00e9m de pr\u00f3logo matado, que o ponto diz antes de nossa entrada. Que nos tomem por quem melhor acharem; mediremos com todos alguns passos e, ap\u00f3s, sa\u00edmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Dai-me uma das tochas; n\u00e3o me acho hoje disposto para saltos. Estando enfarruscado, aclaro a estrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o; tereis de dan\u00e7ar, gentil Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o; podeis crer-me: tendes sapatinhos de sola leve, pr\u00f3pria para dan\u00e7a. Eu, tenho alma de chumbo que, prendendo-me \u00e0 terra, n\u00e3o me deixa dar um passo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Sois um apaixonado. Por empr\u00e9stimo tomai as lestes asas de Cupido, que heis de pairar por sobre a mediania.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 T\u00e3o traspassado estou por suas setas que suas lestes asas n\u00e3o conseguem transportar-me para o alto: t\u00e3o peado, que n\u00e3o posso deixar a dor obscura, sob o fardo do amor gemendo sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Mas para estar sob ele, \u00e9 necess\u00e1rio que carregueis o amor, peso excessivo para coisa t\u00e3o terna.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Coisa terna julgais que seja o amor? N\u00e3o; muito dura: dura e brutal, e fere como espinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Se o amor convosco \u00e9 duro, sede duro tamb\u00e9m com ele, revidando todas as pancadas que der. Ponde-o no ch\u00e3o. Dai-me uma cobertura para o rosto. Em cima de uma m\u00e1scara ponho outra. Que me importa que o olhar curioso possa perceber a fei\u00fara? Por mim h\u00e3o de corar estas salientes sobrancelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Vamos bater e entrar e, uma vez dentro, que bom uso das pernas todos fa\u00e7am.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Dai-me uma tocha; que esses rapazolas de leve cora\u00e7\u00e3o c\u00f3cegas fa\u00e7am com os sapatos nos juncos insens\u00edveis. J\u00e1 meu av\u00f4 dizia sentencioso: seguro a luz e fico a observar tudo. Fora, muita algazarra; eu, triste e mudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Mudo \u00e9 o rato no charco, diz o guarda. Se mudo te tornares, arrancamos-te do charco \u2014 com licen\u00e7a! de Cupido, onde est\u00e1s enterrado at\u00e9 \u00e0s orelhas. Sigamos, que isto \u00e9 acender luz de dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Minha alegoria, senhor, indica que, como de dia, gastamos nossa luz inutilmente. Conservai esse dito sempre em mente, que mais saber cont\u00e9m do que, reunidos, todos os nossos cinco ou seis sentidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, \u00e9 o que fa\u00e7o nesta mascarada; mas \u00e9 absurdo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Por que n\u00e3o vos agrada?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Tive um sonho esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Oh! eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sobre qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Sonho algum verdade tem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Quando dormimos, tudo neles cabe.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Oh! Visitou-vos a Rainha Mab.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Quem \u00e9 a Rainha Mab?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 \u00c9 a parteira das fadas, que o tamanho n\u00e3o chega a ter de uma preciosa pedra no dedo indicador de alta pessoa. Viaja sempre puxada por parelha da pequeninos \u00e1tomos, que pousam de trav\u00e9s no nariz dos que dormitam. As longas pernas das aranhas servem-lhe de raios para as rodas; \u00e9 a capota de asa de gafanhotos; os tirantes, das teias mais sutis; o colarzinho, de \u00famidos raios do luar prateado. O cabo do chicote \u00e9 um p\u00e9 de grilo; o pr\u00f3prio a\u00e7oite, simples filamento. De cocheiro lhe serve um mosquitinho de casaco cinzento, que n\u00e3o chega nem \u00e0 metade do pequeno bicho que nos dedos costuma arredondar-se das criadas pregui\u00e7osas. O carrinho de casca de avel\u00e3 vazia, feito foi pelo esquilo ou pelo mestre verme, que desde tempo imemorial o posto mant\u00e9m de fabricante de carruagens para todas as fadas. Assim posta, noite ap\u00f3s noite ela galopa pelo c\u00e9rebro dos amantes que, ent\u00e3o, sonham com coisas amorosas; pelos joelhos dos cortes\u00e3os, que com salamaleques a sonhar passam logo; pelos dedos dos advogados, que a sonhar come\u00e7am com honor\u00e1rios; pelos belos l\u00e1bios das jovens, que com beijos logo sonham, l\u00e1bios que Mab, \u00e0s vezes, irritada, deixa cheios de p\u00fastulas, por v\u00ea-los com o h\u00e1lito estragado por confeitos. Por cima do nariz de um palaciano por vezes ela corre, farejando logo ele, em sonhos, um processo gordo. Com o rabinho enrolado de um pequeno leit\u00e3o de d\u00edzimo, ela faz coceiras no nariz do vig\u00e1rio adormecido, que logo sonha com mais um presente. Na nuca de um soldado ela galopa, sonhando este com cortes de pesco\u00e7o, ciladas, brechas, l\u00e2minas de Espanha e cop\u00e1zios bebidos \u00e0 sa\u00fade, de cinco bra\u00e7as de alto. De repente, por\u00e9m, estoura pelo ouvido dele, que estremece e desperta e, aterrorado, reza uma ou duas vezes e, de novo, p\u00f5e-se a dormir. \u00c9 a mesma Rainha Mab que a crina dos cavalos enredada deixa de noite e a cabeleira gr\u00e1cil dos elfos muda em s\u00f3rdida melena que, destran\u00e7ada, augura maus eventos. Essa \u00e9 a bruxa que, estando as raparigas de costas, faz press\u00e3o no peito delas, ensinando-as, assim, como mulheres, a ag\u00fcentar todo o peso dos maridos. \u00c9 ela, ainda&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Paz, Merc\u00facio! Paz!<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Sim, s\u00f3 falo de sonhos, prole ociosa de um c\u00e9rebro vadio, a qual de nada prov\u00e9m sen\u00e3o da in\u00fatil fantasia, que \u00e9 t\u00e3o firme como o ar, mais inconstante do que o vento que faz a corte ao frio seio do norte e, sendo repelido, volta de l\u00e1 bufando e o rosto vira para o sul orvalhoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Pois o vento de que falais nos toca para longe de n\u00f3s pr\u00f3prios. A ceia est\u00e1 acabada; chegamos muito tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! muito cedo, tenho receio. Apreende meu esp\u00edrito algo que ainda pende das estrelas e que vai iniciar seu fatal curso na festa desta noite, pondo termo \u00e0 vida desprez\u00edvel que eu carrego no peito, com qualquer delito absurdo de morte extempor\u00e2nea. Mas Aquele que se acha no tim\u00e3o de minha viagem vai dirigir-me a vela. Adiante, amigos<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Tocai, tambor!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"rj15\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um sal\u00e3o em casa de Capuleto. M\u00fasicos esperam. Entram criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Onde est\u00e1 o Ca\u00e7arola, que n\u00e3o vem ajudar a tirar a mesa? Aquele troca-pratos! Ol\u00e1, Raspa-pratos!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Retira esses tamboretes, arrasta o aparador. Cuidado com a baixela! Amigo, separa para mim um peda\u00e7o de massap\u00e3o. E se me tens amizade, dize ao porteiro que deixe entrar Nell e Susana Grindstone. Ant\u00f4nio! Ca\u00e7arola!<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Aqui, rapaz! Estamos prontos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Est\u00e3o vos chamando, est\u00e3o vos procurando, reclamam vossa presen\u00e7a na sala grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 N\u00e3o podemos estar aqui e l\u00e1 ao mesmo tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Alegria, rapazes! Ficai l\u00e9pidos pelo menos uma vez na vida. Quem viver mais tempo, ficar\u00e1 com tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Afastam-se para o fundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Capuleto, Julieta e outras pessoas da casa, que se encontram com h\u00f3spedes e mascarados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Cavalheiros, bem-vindos. As senhoras que n\u00e3o sofrerem no ded\u00e3o de calos h\u00e3o de dan\u00e7ar convosco. Ol\u00e1, senhoras! Qual de v\u00f3s h\u00e1 de agora recusar-se a dar uma voltinha? A que mimosa se mostrar por demais, fa\u00e7o uma aposta em como ter\u00e1 calos. Como! Agora ficamos juntos? Sede aqui bem-vindos, meus senhores! J\u00e1 vi tamb\u00e9m os dias em que punha uma m\u00e1scara e sabia cochichar uma ou duas palavrinhas nuns ouvidos bonitos. E agradavam! Mas j\u00e1 l\u00e1 vai o tempo&#8230; Tudo passa. Sois bem-vindos, senhores. Vinde, m\u00fasicos! Tocai logo! Licen\u00e7a! Abri caminho&#8230; Com licen\u00e7a! Meninas, ligeireza! (<i>M\u00fasica e dan\u00e7a.<\/i>) Mais luz, marotos! Arrastai as mesas e apagai esse fogo, que est\u00e1 muito quente aqui dentro. Ah! essas brincadeiras inesperadas chegam sempre a tempo. Sim, sentai-vos, sentai-vos, caro primo Capuleto; n\u00f3s dois j\u00e1 n\u00e3o estamos na idade de dan\u00e7ar. H\u00e1 quanto tempo deixamos de p\u00f4r m\u00e1scara?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAPULETO \u2014 Trinta anos, pela Virgem; trinta anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Como, primo! N\u00e3o, n\u00e3o faz tanto tempo; \u00e9 muita coisa. Foi desde o casamento de Luc\u00eancio. Venha quando quiser o Pentecostes, ser\u00e3o vinte e cinco anos&#8230;. N\u00f3s, de m\u00e1scara&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAPULETO \u2014 Muito mais! Muito mais! O filho dele, senhor, tem mais idade; tem trinta anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Que dizeis! Pois se esse filho dele h\u00e1 uns dois anos maior n\u00e3o era ainda!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Que dama \u00e9 aquela que enriquece o bra\u00e7o daquele cavalheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Desconhe\u00e7o-a, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face est\u00e1 pendente da noite, tal qual j\u00f3ia mui preciosa da orelha de uma et\u00edope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena. Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procur\u00e1-la, ao terminar a dan\u00e7a porque a esta rude m\u00e3o possa dar ansa de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu cora\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! que simpleza! Nunca soube at\u00e9 agora o que \u00e9 beleza.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Pela voz este aqui \u00e9 algum Montecchio. Rapaz, vai buscar logo minha espada. Como! Esse escravo atreve-se a, com m\u00e1scara grotesca, vir aqui, para de nossa festividade rir e fazer pouco? Pela honra do meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte n\u00e3o julgo ser pecado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Que tens, sobrinho? Que se d\u00e1 contigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Tio, aquele \u00e9 um Montecchio, nosso inimigo; um vil\u00e3o que aqui entrou por zombaria, para nos estragar toda a alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 N\u00e3o \u00e9 o jovem Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 O mesmo, o biltre Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Gentil sobrinho, fica quieto; deixa-o tranq\u00fcilo. Ele se tem mostrado perfeito gentil-homem. Para ser-te franco, Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso e mui polido. Nem por toda a riqueza da cidade quisera que ele aqui fosse ofendido. Acalma-te, portanto, e fica alegre; essa \u00e9 a minha vontade. Se a acatares, fica alegre e desfaze essa carranca que n\u00e3o vai bem com nossa alacridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Vai, sim, quando um vil\u00e3o se mete nela. N\u00e3o o suporto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Ter\u00e1s de suport\u00e1-lo. Como, rapaz! Estou mandando: deixa-o! Quem manda aqui, acaso; v\u00f3s ou eu? Ora, n\u00e3o o suportais! Deus me salve a alma. Quereis fazer barulho entre meus h\u00f3spedes? Provocar briga? Ser mand\u00e3o na festa?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Mas, tio, \u00e9 vergonhoso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Ide, ide. Sois petulante, n\u00e3o? Prejudicar-vos ainda pode esta hist\u00f3ria. Sei de tudo. Procurais contrariar-me? Eis o momento. \u2014 Muito bem, cora\u00e7\u00f5es! \u2014 Sois um fedelho. Ide acalmar-vos \u2014 Luz! Mais luz! \u2014 Que opr\u00f3brio! J\u00e1 vou deixar-vos quieto. \u2014 Assim, meus caros! Alegria! Alegria!<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 A paci\u00eancia e o furor, equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou sair; mas o intruso que hoje \u00e9 mel, ser\u00e1 amanh\u00e3 o mais amargo fel. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU (<i>a Julieta<\/i>) \u2014 Se minha m\u00e3o profana o relic\u00e1rio em remiss\u00e3o aceito a penit\u00eancia: meu l\u00e1bio, peregrino solit\u00e1rio, demonstrar\u00e1, com sobra, rever\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ofendeis vossa m\u00e3o, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas m\u00e3os dos santos pega o paladino. Esse \u00e9 o beijo mais santo e conveniente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Os santos e os devotos n\u00e3o t\u00eam boca?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, peregrino, s\u00f3 para ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Deixai, ent\u00e3o, \u00f3 santa! que esta boca mostre o caminho certo aos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sem se mexer, o santo exal\u00e7a o voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ent\u00e3o fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. (<i>Beija-a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que passaram, assim, para meus l\u00e1bios.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Beijais tal qual os s\u00e1bios.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Vossa m\u00e3e quer falar-vos, senhorita.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Quem \u00e9 a m\u00e3e dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e s\u00e1bia. Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a despos\u00e1-la, ficar\u00e1 cheio de ouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 Capuleto? Oh conta cara! Minha vida \u00e9 d\u00edvida de hoje em diante no livro do inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 A festa j\u00e1 acabou; vamos embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Acabou? Para mim come\u00e7a agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 N\u00e3o, cavalheiros, n\u00e3o saiais t\u00e3o cedo; ainda teremos uma ceiazinha. Mas partis mesmo? A todos, obrigado. Muito obrigado, honesto cavalheiro. Boa noite. \u2014 Trazei-me aqui mais tochas! Sendo assim, vou deitar-me. \u00c9 certo, amigo: j\u00e1 est\u00e1 ficando tarde. Vou deitar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Julieta e a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ama, quem \u00e9 aquele gentil-homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Herdeiro e filho de Tib\u00e9rio, o velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 E aquele que ora passa pela porta?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Se n\u00e3o me engano, \u00e9 o filho de Petrucchio.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 E aquele que ali vai, que n\u00e3o dan\u00e7ou?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 N\u00e3o sei quem seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ent\u00e3o vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um t\u00famulo ser\u00e1 todo o meu fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Romeu \u00e9 o nome dele; \u00e9 um dos Montecchios, filho \u00fanico do vosso grande inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Como assim? Como assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Isso \u00e9 uma rima que aprender fui com quem dancei h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 J\u00e1 vamos! Um momento! \u2014 Est\u00e1 na hora; j\u00e1 se foram os h\u00f3spedes embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">PR\u00d3LOGO<\/h2>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o coro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CORO \u2014 Moribundo se encontra o antigo afeto, querendo o novo amor ser seu herdeiro; da beldade fatal o externo aspecto frente a Julieta \u00e9 monstro verdadeiro. Ama Romeu, sendo tamb\u00e9m amado. Cada um nos olhos do outro acha feiti\u00e7o; queixa-se ele do inimigo proclamado; na mais pungente dor cria ela vi\u00e7o. Sendo inimigo, acesso junto dela n\u00e3o obt\u00e9m ele para suas juras; nem ela sabe, como, com cautela, lhe poder\u00e1 dizer palavras puras. Mas o amor, em tamanha extremidade, sabe fazer da dor felicidade.<\/p>\n<p><a id=\"rj21\" name=\"rj21\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Um beco junto do muro do jardim de Capuleto. Entra Romeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como afastar-me, se daqui n\u00e3o pode sair meu cora\u00e7\u00e3o? D\u00e1 meia-volta, pesada argila, e o centro teu procura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Escala o muro e salta para o jardim.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Benv\u00f3lio e Merc\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Romeu! Primo Romeu!<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Ele \u00e9 prudente, por minha f\u00e9, e soube achar a estrada para o leito macio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Em disparada veio at\u00e9 aqui, tendo pulado o muro que d\u00e1 para o jardim. Chama-o, Merc\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Vou conjur\u00e1-lo, sim. Romeu! Capricho! paix\u00e3o! sujeito louco! enamorado! Vem sob a forma de um gemido fundo; dize uma rima s\u00f3, que isso me basta. Geme \u201cai!\u201d e rima \u201camor\u201d com \u201ctrovador\u201d, dize \u00e0 comadre V\u00eanus algo belo; o filho cego e herdeiro dela insulta, Cupido, o mo\u00e7o archeiro que um disparo fez t\u00e3o airoso, quando o Rei Cof\u00e9tua se apaixonou de uma mendiga jovem. N\u00e3o ouve, n\u00e3o se mexe, est\u00e1 parado. O macaco est\u00e1 morto. Vou fazer-lhe um conjuro mais forte. Eu te conjuro pelos olhos sem par de Rosalina, por sua fronte, os l\u00e1bios escarlates, os delicados p\u00e9s, as belas pernas, as tremulantes coxas e os dom\u00ednios adjacentes. Conjuro-te, repito, que, tal como \u00e9s, em nossa frente surjas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Se ele te ouve, decerto vais mago\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o, isso n\u00e3o o magoa. O que o magoara fora invocar no c\u00edrculo da amada um esp\u00edrito estranho e ai deix\u00e1-lo at\u00e9 que ela o tivesse exorcismado. Isso sim, poderia aborrec\u00ea-lo; mas minha invoca\u00e7\u00e3o \u00e9 bela e honesta; o nome digo de sua pr\u00f3pria amada, s\u00f3 para que ele possa reanimar-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Vamos; ele ocultou-se entre essas \u00e1rvores, para perto ficar da \u00famida noite. Seu cego amor diz bem com a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Se o amor \u00e9 cego, nunca acerta no alvo. Agora vai sentar-se sob a fronde de um nespereiro, a desejar que a amada fosse a fruta que as jovens chamam n\u00easpera, quando riem sozinhas. \u00d3 Romeu! se ela fosse um \u201cEt cetera\u201d, realmente, bem aberto, e tu, p\u00eara a\u00e7ucarada! Romeu, boa noite! Vou para meu leito de rodas; esta cama de campanha para mim \u00e9 muito \u00famida. \u2014 N\u00e3o vamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Vamos, ent\u00e3o; pois \u00e9 canseira in\u00fatil procurar quem n\u00e3o quer ser encontrado.<\/p>\n<p><a id=\"rj22\" name=\"rj22\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Jardim de Capuleto. Entra Romeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 S\u00f3 ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. (<i>Julieta aparece na janela.<\/i>) Mas sil\u00eancio! Que luz se escoa agora da janela? Ser\u00e1 Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra p\u00e1lida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, \u00e9s mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela \u00e9 invejosa. Somente os tolos usam sua t\u00fanica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! \u00e9 o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, n\u00e3o diz nada. Que importa? Com o olhar est\u00e1 falando. Vou responder-lhe. N\u00e3o; sou muito ousado; n\u00e3o se dirige a mim: duas estrelas do c\u00e9u, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupa\u00e7\u00e3o, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, at\u00e9 que elas voltassem. Que se dera se ficassem l\u00e1 no alto os olhos dela, e na sua cabe\u00e7a os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no c\u00e9u espalhariam, que os p\u00e1ssaros, despertos, cantariam. Vede como ela apoia o rosto \u00e0 m\u00e3o. Ah! se eu fosse uma luva dessa m\u00e3o, para poder tocar naquela face!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ai de mim!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque \u00e9s t\u00e3o glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emiss\u00e1rio alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais at\u00f4nitos, que, para v\u00ea-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Romeu, Romeu! Ah! por que \u00e9s tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou ent\u00e3o, se n\u00e3o quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Meu inimigo \u00e9 apenas o teu nome. Continuarias sendo o que \u00e9s, se acaso Montecchio tu n\u00e3o fosses. Que \u00e9 Montecchio? N\u00e3o ser\u00e1 m\u00e3o, nem p\u00e9, nem bra\u00e7o ou rosto, nem parte alguma que perten\u00e7a ao corpo. S\u00ea outro nome. Que h\u00e1 num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designa\u00e7\u00e3o teria igual perfume. Assim Romeu, se n\u00e3o tivesse o nome de Romeu, conservara a t\u00e3o preciosa perfei\u00e7\u00e3o que dele \u00e9 sem esse t\u00edtulo. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que n\u00e3o \u00e9 parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, aceito tua palavra. D\u00e1-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em diante n\u00e3o serei Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Quem \u00e9s tu que, encoberto pela noite, entras em meu segredo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Por um nome n\u00e3o sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me \u00e9 odioso, por ser teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Minhas orelhas ainda n\u00e3o beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconhe\u00e7o o tom. N\u00e3o \u00e9s Romeu, um dos Montecchios?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o, bela menina; nem um nem outro, se isso te desgosta.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Dize-me como entraste e porque vieste. Muito alto \u00e9 o muro do jardim, dif\u00edcil de escalar, sendo o ponto a pr\u00f3pria morte \u2014 se quem \u00e9s atendermos \u2014 caso fosses encontrado por um dos meus parentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Do amor as lestes asas me fizeram transvoar o muro, pois barreira alguma conseguir\u00e1 deter do amor o curso, tentando o amor tudo o que o amor realiza. Teus parentes, assim, n\u00e3o poderiam desviar-me do prop\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 No caso de seres visto, poder\u00e3o matar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ai! Em teus olhos h\u00e1 maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com do\u00e7ura, e \u00e9 quanto basta para deixar-me prova do \u00f3dio deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Por nada deste mundo desejara que fosses visto aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames, e eles que me vejam! Prefiro ter cerceada logo a vida pelo \u00f3dio deles, a ter morte longa, faltando o teu amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Com quem tomaste informa\u00e7\u00f5es para at\u00e9 aqui chegares?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Com o amor, que a inquirir me deu coragem; deu-me conselhos e eu lhe emprestei olhos. N\u00e3o sou piloto; mas se te encontrasses t\u00e3o longe quanto a praia mais extensa que o mar long\u00ednquo banha, aventurara-me para obter t\u00e3o preciosa mercancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sabe-lo bem: a m\u00e1scara da noite me cobre agora o rosto; do contr\u00e1rio, um rubor virginal me pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. Desejara \u2014 oh! minto! \u2014 retratar-me do que disse. Mas fora! fora com as formalidades! Amas-me? Sei que vais dizer-me sim\u201d, e creio no que dizes. Se o jurares, por\u00e9m, talvez te mostres inconstante, pois dos perj\u00farios dos amantes, dizem, Jove sorri. \u00d3 meu gentil Romeu! Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que foi f\u00e1cil minha conquista, vou tornar-me r\u00edspida, franzir o sobrecenho e dizer \u201cn\u00e3o\u201d, porque me fa\u00e7as novamente a corte. Se n\u00e3o, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio, \u00e9 certo: estou perdida, louca de amor; da\u00ed poder pensares que meu procedimento \u00e9 assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que hei de mais fiel mostrar-me do que quantas t\u00eam bastante ast\u00facia para serem cautas. Poderia ter sido mais prudente, preciso confess\u00e1-lo, se n\u00e3o fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paix\u00e3o. Assim, perdoa-me, n\u00e3o imputando \u00e0 leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto t\u00e3o facilmente pela noite escura.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas estas \u00e1rvores frut\u00edferas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o jures pela lua, essa inconstante, que seu contorno circular altera todos os meses, porque n\u00e3o pare\u00e7a que teu amor, tamb\u00e9m, \u00e9 assim mud\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Por que devo jurar?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o jures nada, ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que \u00e9 o objeto de minha idolatria. Assim, te creio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Se o amor sincero deste cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 P\u00e1ra! n\u00e3o jures; muito embora sejas toda minha alegria, n\u00e3o me alegra a alian\u00e7a desta noite; irrefletida foi por demais, precipitada, s\u00fabita, tal qual como o rel\u00e2mpago que deixa de existir antes que dizer possamos: Ei-lo! brilhou! Boa noite, meu querido. Que o h\u00e1lito do estio amadure\u00e7a este bot\u00e3o de amor, porque ele possa numa flor transformar-se delicada, quando outra vez nos virmos. At\u00e9 \u00e0 vista; boa noite. Possas ter a mesma calma que neste instante se me apossa da alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vais deixar-me sair mal satisfeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que alegria querias esta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Trocar contigo o voto fiel de amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Antes que mo pedisses, j\u00e1 to dera; mas desejara ter de d\u00e1-lo ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Desejas retir\u00e1-lo? Com que intuito, querido amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Porque, mais generosa, de novo to ofertasse. No entretanto, n\u00e3o quero nada, afora o que possuo. Minha bondade \u00e9 como o mar: sem fim, e t\u00e3o funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que muito mais me sobra: ambos s\u00e3o infinitos. (<i>A ama chama dentro.<\/i>) Ou\u00e7o bulha dentro de casa. Adeus, amor! Adeus! \u2014 Ama, vou j\u00e1! \u2014 S\u00ea fiel, doce Montecchio. Espera um momentinho; volto logo. (<i>Retira-se da janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! que noite aben\u00e7oada! Tenho medo, de um sonho, lisonjeiro em demasia para ser realidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Julieta torna a aparecer em cima.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Romeu querido, s\u00f3 tr\u00eas palavrinhas, e boa noite outra vez. Se esse amoroso pendor for s\u00e9rio e honesto, amanh\u00e3 cedo me envia uma palavra pelo pr\u00f3prio que eu te mandar: em que lugar e quando pretendes realizar a cerim\u00f4nia, que a teus p\u00e9s deporei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo como a senhor e esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Senhorita!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 J\u00e1 vou! J\u00e1 vou! \u2014 Por\u00e9m se n\u00e3o for puro teu pensamento, pe\u00e7o-te&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Menina!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 J\u00e1 vou! Neste momento! \u2014 &#8230; que n\u00e3o sigas com tuas insist\u00eancias e me deixes entregue \u00e0 minha dor. Amanh\u00e3 cedo te mandarei recado por um pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Por minha alma&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Boa noite vezes mil. (<i>Retira-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o, m\u00e1 noite, sem tua luz gentil. O amor procura o amor como o estudante que para a escola corre: num instante. Mas, ao se afastar dele, o amor parece que se transforma em colegial refece.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Julieta torna a aparecer em cima.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Psiu! Romeu, psiu! Oh! quem me dera o grito do falcoeiro, porque chamar pudesse esse nobre gavi\u00e3o! O cativeiro tem voz rouca; n\u00e3o pode falar alto, sen\u00e3o eu for\u00e7aria a gruta de Eco, deixando ainda mais rouca do que a minha sua voz a\u00e9rea, \u00e0 for\u00e7a de cem vezes o nome repetir do meu Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Minha alma \u00e9 que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a l\u00edngua dos amantes \u00e0 noite, tal qual m\u00fasica langorosa que ouvido atento escuta?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Romeu!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Minha querida?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 A que horas, cedo, devo mandar algu\u00e9m para falar-te?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c0s nove horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sem falta. S\u00f3 parece que at\u00e9 l\u00e1 s\u00e3o vinte anos. Esqueci-me do que tinha a dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Deixa que eu fique parado aqui, at\u00e9 que te recordes.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Esquec\u00ea-lo-ia, s\u00f3 para que sempre ficasses ai parado, recordando-me de como adoro tua companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 E eu ficaria, para que esquecesses, deixando de lembrar-me de outra casa que n\u00e3o fosse esta aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00c9 quase dia; desejara que j\u00e1 tivesses ido, n\u00e3o mais longe, por\u00e9m, do que travessa menina deixa o meigo passarinho, que das m\u00e3os ela solta \u2014 tal qual pobre prisioneiro na corda bem torcida \u2014 para logo pux\u00e1-lo novamente pelo fio de seda, t\u00e3o ciumenta e amorosa \u00e9 de sua liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Quisera ser teu passarinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 O mesmo, querido, eu desejara; mas de tanto te acariciar, podia, at\u00e9, matar-te. Adeus; calca-me a dor com tanto af\u00e3, que boa-noite eu diria at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Que aos teus olhos o sono baixe e ao peito. Fosse eu o sono e dormisse desse jeito! Vou procurar meu pai espiritual, para um conselho lhe pedir leal. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj23\" name=\"rj23\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Cela de frei Louren\u00e7o. Entra frei Louren\u00e7o com um cesto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Ri para a noite escura a manh\u00e3 bela e de riscas as nuvens acairela; como um b\u00eabedo, foge cambaleante a escurid\u00e3o, na estrada do levante, deixando atr\u00e1s o carro do Tit\u00e3. Antes, por\u00e9m, que o sol venha a manh\u00e3 tornar alegre, com seu olho ardente e o orvalho desmanchar da flor pendente, encher vou de sementes perigosas meu paneiro e de flores venenosas. A terra \u00e9 a m\u00e3e e a tumba da natura; ministra a morte e, assim, apresta a cura. Filhos de v\u00e1ria esp\u00e9cie, no seu seio a mamar encontramos, sem receio; uns, por v\u00e1rias virtudes, excelentes; cada um com a sua, todos diferentes. Oh! \u00e9 admir\u00e1vel a potente gra\u00e7a que h\u00e1 nas ervas, na flor, na pedra crassa, pois at\u00e9 mesmo o que h\u00e1 de vil na terra algo de bom, influ\u00eancia dela, encerra; nem nada bom existe, que, torcido do uso normal, n\u00e3o se revele infido \u00e0 pr\u00f3pria natureza e nascimento. At\u00e9 mesmo a alta virtude, num momento, mal aplicada, em v\u00edcio se transforma, e este, por vezes, ao dever d\u00e1 a norma. Na corola infantil desta florzinha veneno mora que d\u00e1 morte asinha. Cheirado, ao corpo todo d\u00e1 alegria; mas p\u00e1ra o cora\u00e7\u00e3o no mesmo dia, quando dado a beber. Dois reis potentes nas plantas e nos homens oponentes acampamento t\u00eam: a atroz cobi\u00e7a e a gra\u00e7a benfazeja. Se insubmissa se mostra a pior, ent\u00e3o vem logo o verme da morte e r\u00f3i essa plantinha inerme.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Bom dia, meu bom padre.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Benedicite! Quem me fala a estas horas? Como! Disse-te algo ruim o cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o cedo, que te causasse, assim, cuidado ou medo? Nas p\u00e1lpebras dos velhos o cuidado de guarda sempre est\u00e1; e onde um soldado desses se encontra, o sono n\u00e3o penetra. Mas cedo ou tarde, em plena noite tetra, quando os membros estende a mocidade despreocupada e livre \u2014 bela idade! \u2014 domina o sono de ouro. Por tudo isso tua apar\u00eancia, assim, de pleno vi\u00e7o, nesta hora matutina me assegura que algo escondes de grave na postura. Ou ent\u00e3o direi, se acaso em erro estou, que esta noite Romeu n\u00e3o se deitou.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, mas tive um repouso papafina.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Ah! Deus que te perdoe; com Rosalina?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Rosalina, bom padre? Que pergunta! Esqueci esse nome e a dor adjunta.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 \u00c9s meu bom filho. Ent\u00e3o, onde estiveste?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vou te contar, pois permiss\u00e3o me deste. Fui \u00e0 casa do nosso grande inimigo, onde ferido fui, para castigo, por quem feri tamb\u00e9m. Nosso rem\u00e9dio s\u00f3 nos poder\u00e1 vir por interm\u00e9dio de teu aux\u00edlio e sacra medicina. Santo homem, n\u00e3o agraves minha sina, porque este meu pedido \u2014 observa-o bem a minha imiga amparar\u00e1 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 S\u00ea mais claro, meu filho; a confiss\u00e3o por enigmas n\u00e3o chega \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ouve ent\u00e3o, sem me teres por faceto, que amo a filha do rico Capuleto. Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 dela; o dela \u00e9 meu. Tudo est\u00e1 combinado; no apogeu do amor estamos, s\u00f3 faltando, agora, que nos designes o lugar e a hora para o sagrado enlace. Mais de espa\u00e7o te contarei, sem alterar um tra\u00e7o, onde nos vimos, como nos falamos e de que modo os votos confirmamos. Mas n\u00e3o concluas que te falo a esmo; desejo que nos cases hoje mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Por S\u00e3o Francisco! Que mudan\u00e7a \u00e9 essa? Rosalina adorada e t\u00e3o depressa posta no esquecimento? O cora\u00e7\u00e3o no amor dos mo\u00e7os nada influi, sen\u00e3o somente os olhos. Ai! Jesus Maria! Quantas ondas salgadas, noite e dia, a postura banharam-te amarela, s\u00f3 pelo amor de Rosalina bela? Quanta \u00e1gua salsa em v\u00e3o jogada fora por um amor que ele n\u00e3o sente agora! N\u00e3o desfez ainda o sol, em muitos giros, os vapores, no c\u00e9u, de teus suspiros. Sinto ainda tuas queixas nos ouvidos. Eis em tua face, aqui, dos tempos idos, uma l\u00e1grima ainda n\u00e3o lavada, que origem teve em tua namorada. Se o mesmo ainda \u00e9s, que s\u00f3 de amor se fina, foi causa de tudo isso Rosalina. Mudaste tanto? Ouve a senten\u00e7a amara: cai a mulher, quando o homem n\u00e3o a ampara.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Censuravas o amor a Rosalina.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 N\u00e3o o amor, o exagero que se fina.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Disseste que o enterrasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 N\u00e3o em cova, para aqui fora achar paix\u00e3o mais nova.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o me censures, pois a minha amada na afei\u00e7\u00e3o n\u00e3o me fica a dever nada, o que com a outra n\u00e3o acontecia.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Oh! Explica-se: \u00e9 que ela bem sabia que o amor era de cor, n\u00e3o soletrava. Mas vem contar-me essa paix\u00e3o t\u00e3o brava, meu jovem sonhador. Vem, vem comigo, que nesse lance me ter\u00e1s contigo, pois \u00e9 poss\u00edvel que t\u00e3o bela alian\u00e7a fa\u00e7a mudar esse \u00f3dio que n\u00e3o cansa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! Vamos logo. Estou com muita pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Prud\u00eancia! Quem mais corre mais trope\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj24\" name=\"rj24\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua. Entram Benv\u00f3lio e Merc\u00facio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Onde diabo meteu-se esse Romeu? Passou a noite em casa, porventura?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 N\u00e3o na do pai, pois conversei com este.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Oh! \u00e9 essa mesma Rosalina p\u00e1lida de cora\u00e7\u00e3o de pedra que o atormenta, a ponto de deix\u00e1-lo quase louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Tebaldo, aquele tipo aparentado com o velho Capuleto, enviou uma carta \u00e0 casa do pai dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 \u00c9 um desafio, posso jurar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Romeu vai responder-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Qualquer pessoa que saiba escrever, pode responder a uma carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 N\u00e3o; ele ir\u00e1 mostrar ao autor da carta como sabe desafiar, quando \u00e9 desafiado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Ah! pobre Romeu! J\u00e1 est\u00e1 morto; apunhalado pelos olhos negros de uma donzela branca; atravessados tem os ouvidos por uma can\u00e7\u00e3o de amor; partida a mais secreta cavilha do cora\u00e7\u00e3o, pela seta sem barbela do archeiro cego. Ser\u00e1 o homem apropriado para enfrentar Tebaldo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Ora, quem \u00e9 esse Tebaldo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 nenhum pr\u00edncipe dos gatos, posso afian\u00e7ar-vos. Oh! \u00e9 o valente capit\u00e3o dos salamaleques. Bate-se como cantais uma \u00e1ria, por m\u00fasica, sem perder os tempos, nem o compasso, nem o tom. Observa suas pausas: uma, duas&#8230; A terceira ser\u00e1 em vosso peito. Verdadeiro carniceiro dos bot\u00f5es de seda, um duelista! Um cavalheiro da primeira linha em todas as causas de primeira e segunda categorias. Ah! o imortal \u201cpassado!\u201d o \u201cpunto reverso!\u201d o ponto \u201ca\u00ed!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 O ponto qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 A peste que carregue esses pelotiqueiros rid\u00edculos, que falam cheios de esses e com afeta\u00e7\u00e3o, esses afinadores de novos tons! Por Jesus, que l\u00e2mina excelente! Que belo rapag\u00e3o! Que rameira de truz!\u201d Ora, meu velho, n\u00e3o \u00e9 lament\u00e1vel que nos vejamos perseguidos por essas moscas estrangeiras, por esses criadores de modas, esses <i>pardonnez-moi<\/i> que se escarrancham t\u00e3o bem nas \u00faltimas maneiras que nem podem sentar-se comodamente em nossos velhos bancos? Oh, e os seus <i>bien, bien<\/i>!&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Mas sem suas milharas, seco como um bacalhau. carne! carne! como est\u00e1s peixificada! Agora ele s\u00f3 aprecia as conson\u00e2ncias derramadas por Petrarca. Comparada com sua dama, Laura n\u00e3o era mais do que uma criada de cozinha \u2014 com a breca! \u2014 mas teve um amante que sabia rim\u00e1-la muito bem; Dido, uma lambisg\u00f3ia; Cle\u00f3patra, uma cigana; Helena e Hero, bruxas e prostitutas; Tisbe, uma sujeitinha de olho cinzento, ou coisa parecida, mas destitu\u00edda de import\u00e2ncia. Signior Romeu, bom dia! Aqui tendes uma sauda\u00e7\u00e3o francesa para vossas bragas francesas. Esta noite passaste-nos uma bela moeda falsa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Bom dia para ambos. Que moeda falsa vos passei?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 A de vila-diogo, senhor! A de vila-diogo! N\u00e3o me compreendeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Perd\u00e3o, meu Merc\u00facio; mas tinha um neg\u00f3cio muito importante em m\u00e3os; e num caso desses parece-me l\u00edcito for\u00e7ar um pouco a cortesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 O que eq\u00fcivale a dizer que num caso como o vosso somos for\u00e7ados a dobrar a perna.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, por cortesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Acertastes com muita galantaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 uma exposi\u00e7\u00e3o muito cort\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 \u00c9 que eu sou um legitimo alfinete da cortesia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9s um alfinete de flor.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 S\u00f3 assim eu ficaria com os sapatos floridos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Muito espirituoso. Continua com a pilh\u00e9ria, at\u00e9 gastares os sapatos, porque quando sua \u00fanica sola estiver gasta, ficar\u00e1 tamb\u00e9m sozinha a tua pilh\u00e9ria singular.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Isso \u00e9 que se chama pilh\u00e9ria de sola fina, e apenas espirituosa por ser isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Corre em meu aux\u00edlio, bondoso Benv\u00f3lio, que sinto o esp\u00edrito desfalecer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Chicote e espora nele! Chicote e espora nele! Caso contr\u00e1rio, cantarei vit\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 \u00c9 natural; se o teu esp\u00edrito tomar parte na corrida de pato, dou-me antecipadamente por vencido, por teres mais de pato-selvagem em um s\u00f3 dos teus esp\u00edritos, do que eu \u2014 tenho certeza \u2014 em todos cinco. Mas estive l\u00e1 contigo por causa de algum pato?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Nunca estiveste comigo que n\u00e3o fosse por causa de alguma pata.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 S\u00f3 por essa brincadeira vou morder-te a ponta da orelha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o, bondoso pato, n\u00e3o me mordas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Teu esp\u00edrito \u00e9 uma verdadeira ma\u00e7\u00e3 agridoce; possui caldo bem picante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 E n\u00e3o ir\u00e1 bem com uma patinha doce?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 \u00c9 esp\u00edrito de pele de cabrito, que, espichado, vai de uma polegada \u00e0 largura de um c\u00f4vado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Pois vou espich\u00e1-lo ainda mais, s\u00f3 por causa dessa largura, que acrescentada ao patinho, prova que n\u00e3o passas de um pato largo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 E n\u00e3o ser\u00e1 melhor ser isso do que andar a suspirar de amor? Mas agora, sim, revelas-te soci\u00e1vel. Agora, sim: \u00e9s homem; agora \u00e9s o que \u00e9s, por arte e natureza. Por que esse teu amor disparatado \u00e9 tal qual um grande idiota que corre a cambalear por a\u00ed tudo, para, no fim, esconder sua bugiaria em qualquer buraco.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 P\u00e1ra a\u00ed! P\u00e1ra a\u00ed!<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Queres que eu corte a minha hist\u00f3ria e a deixe cot\u00f3?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Sim, que do contr\u00e1rio ficaria de rabo muito comprido.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Oh! est\u00e1s enganado; ficaria curto, pois eu j\u00e1 havia atingido o fundo da hist\u00f3ria, n\u00e3o tencionando prosseguir no argumento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Eis aqui um assunto retesado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram a ama e Pedro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Uma vela! Uma vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Duas! duas! Uma camisa e um casaco.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pedro!<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Que mandais?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Meu leque, Pedro.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Sim, Pedrinho, para esconder o rosto; por que dos dois, o leque ainda \u00e9 o mais pass\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Deus vos d\u00ea bom dia, cavalheiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 E para v\u00f3s, boa tarde, bela dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 J\u00e1 \u00e9 boa tarde?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 menos, \u00e9 o que vos digo, porque a m\u00e3o obscena do mostrador segura neste momento o ponteiro do meio-dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ficai longe da minha vista! Que esp\u00e9cie de homem sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Um homem, nobre dama, que Deus fez para que ele pr\u00f3prio se estragasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Por minha f\u00e9, muito bem dito: \u201cPara que ele pr\u00f3prio se estragasse!\u201d Cavalheiros, algum dos senhores poder\u00e1 dizer-me onde eu poderei encontrar o jovem Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Eu posso; mas no instante em que encontrardes o jovem Romeu, ele estar\u00e1 mais velho do que quando o procur\u00e1veis. Sou eu o mais mo\u00e7o desse nome, em falta de outro pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Dizeis bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Como! O pior, ent\u00e3o, est\u00e1 bem? Bem apanhado, de fato. Com arg\u00facia, com muita arg\u00facia.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Se sois ele mesmo, senhor, desejara ter convosco uma conversa particular.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Deve ser convite para alguma ceia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Uma alcoviteira, uma alcoviteira, oh! oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Que est\u00e1s farejando nisso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 uma lebre, senhor; a menos que seja alguma lebre de pastel de quaresmas j\u00e1 meio passada e embolorada, antes mesmo de ser comida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Canta.<\/i>)Uma lebre embolorada, uma lebre embolorada na quaresma \u00e9 um bom petisco. Por\u00e9m lebre embolorada vale menos do que nada quando cria muito cisco. Romeu, n\u00e3o ides \u00e0 casa de vosso pai? Vamos jantar l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 J\u00e1 vos sigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Adeus, antiga dama; adeus. (<i>Canta.<\/i>) Dama, dama, dama&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Merc\u00facio e Benv\u00f3lio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Sim, adeus. Por obs\u00e9quio, senhor: quem \u00e9 esse tipo desavergonhado, que s\u00f3 traz velhacarias na cabe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 um cavalheiro, ama, que tem prazer em ouvir a pr\u00f3pria voz e que em um minuto prometer\u00e1 mais coisas do que possa realizar em um m\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Mas se ele disser algo contra minha pessoa, eu o demolirei, ainda que seja mais forte do que parece, e vinte bobos como ele. E se n\u00e3o puder faz\u00ea-lo, saberei encontrar quem o fa\u00e7a por mim. Piolhento! N\u00e3o sou nenhuma aloucada; n\u00e3o sou dessas doudivanas. (<i>A Pedro.<\/i>) E tu, est\u00e1s ai e permites que qualquer velhaco fa\u00e7a de mim o que bem entender?<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Nunca vi ningu\u00e9m fazer de v\u00f3s o que bem entendesse; que, se o visse, minha espada teria saltado logo da bainha, posso asseverar-vos. Saco da espada com tanta rapidez como qualquer pessoa, sempre que topo com uma boa briga e tenho a lei de meu lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Agora, diante de Deus, fiquei de tal modo col\u00e9rica, que sinto todo o corpo tremer. Sujeito \u00e0-toa! Uma palavra, senhor, por obs\u00e9quio. Como j\u00e1 vos disse, minha jovem senhora mandou que vos procurasse. O que ela me ordenou que vos dissesse, guardarei dentro de mim. Mas primeiro permiti que vos diga que se pretendeis lev\u00e1-la para o para\u00edso dos loucos, como se diz, seria um p\u00e9ssimo procedimento, por assim dizer. Porque a senhorita \u00e9 jovem, e se fizerdes com ela jogo duplo, realmente, ser\u00e1 coisa muito m\u00e1, para ser feita com uma nobre senhorita, a\u00e7\u00e3o muito censur\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ama, recomenda-me \u00e0 tua senhora. Juro-te&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh! que lindeza! Realmente, vou dizer-lhe isso mesmo. Oh Senhor! como ela vai ficar contente!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Mas que \u00e9 que ir\u00e1s dizer-lhe, ama, se nem ouves o que eu falo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Dir-lhe-ei, senhor, que jurastes, o que me parece ser uma promessa de gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Dize-lhe que procure pretexto de hoje \u00e0 tarde ir confessar-se, que na cela de frei Louren\u00e7o ela h\u00e1 de confessar-se e casar. Agora aceita isto pelo trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 N\u00e3o, em verdade, senhor; nem uma moedinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vamos, aceita; estou dizendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Esta tarde, senhor. Bem; estar\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Boa mulher, espera um pouco. Dentro de uma hora, atr\u00e1s do muro da abadia ir\u00e1s ver meu criado com uma escada de cordas, que h\u00e1 de me levar ao pico do mastar\u00e9u de minha grande dita, na calada da noite. Adeus. Conserva-te fiel que eu saberei recompensar-te. D\u00e1 recomenda\u00e7\u00f5es \u00e0 senhorita.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Agora, que Deus do c\u00e9u te aben\u00e7oe. Escutai, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Que disseste, querida ama?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Poderemos confiar em vosso criado? Pois bem sabeis: dois guardar\u00e3o segredo, quando um nada souber de todo o enredo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Posso asseverar-te que o meu homem \u00e9 t\u00e3o firme quanto o a\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Muito bem, senhor; minha ama \u00e9 uma senhora muito gentil. Ah, senhor! senhor! Quando ela ainda era uma coisinha tagarela&#8230; Oh! na cidade h\u00e1 um nobre, um tal P\u00e1ris, que de muito bom grado lan\u00e7aria o seu arp\u00e3o para abord\u00e1-la. Mas aquele cora\u00e7\u00e3ozinho prefere ver um sapo, um sapo de verdade, a olhar para ele. \u00c0s vezes eu a deixo irritada com dizer-lhe que n\u00e3o h\u00e1 mo\u00e7o t\u00e3o bonito quanto P\u00e1ris. Mas, posso asseverar-vos que sempre que eu digo isso ela se torna t\u00e3o p\u00e1lida como qualquer cueiro no mundo universal. Rosmaninho e Romeu n\u00e3o come\u00e7am pela mesma letra?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, ama. Mas por que isso? Ambos come\u00e7am por R.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Isso \u00e9 rosnado de c\u00e3o. R \u00e9 para&#8230; N\u00e3o; sei muito bem que come\u00e7am por outra letra, tendo ela composto sobre v\u00f3s e o rosmaninho as mais lindas senten\u00e7as que ter\u00edeis muito gosto em ouvir.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Recomenda-me \u00e0 tua senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pois n\u00e3o; mil vezes. (<i>Sai Romeu.<\/i>) Pedro!<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Que ordenais?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pedro, segura meu leque e vai na frente<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj25\" name=\"rj25\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Jardim de Capuleto.<\/i><br \/>\n(<i>fEntra Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Nove horas o rel\u00f3gio tinha soado, quando eu mandei a ama. Prometeu-me que voltaria dentro de meia hora. Talvez n\u00e3o o encontrasse&#8230; Oh! ela \u00e9 coxa. Como arautos do amor s\u00f3 deveriam servir os pensamentos, que mais c\u00e9leres dez vezes s\u00e3o que os raios do sol claro, quando as sombras expulsam das colinas. \u00c9 por isso que o amor sempre \u00e9 levado por al\u00edgeras pombas, e Cupido, como o vento veloz, tem asas lestes. Agora o sol est\u00e1 na altura m\u00e1xima de seu curso diurno; h\u00e1 das nove horas at\u00e9 \u00e0s doze tr\u00eas horas demoradas. No entanto, ela n\u00e3o chega. Se dotada fosse ela de paix\u00f5es e sangue mo\u00e7o, correria veloz como uma bala; minhas palavras a teriam feito lan\u00e7ar-se contra o meu amor, e as dele para mim a jogara. Mas gente velha nunca chega ao porto; \u00e9 chumbo escuro e lerdo, quase morto. (<i>Entram a ama e Pedro.<\/i>) Oh Deus! ei-la, afinal! Que novidades me trouxeste, doce ama? Acaso o viste? Manda embora teu criado.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Pedro, espera l\u00e1 fora. (<i>Sai Pedro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ent\u00e3o, m\u00e3ezinha? Oh Deus! Por que est\u00e1s triste? Se forem tristes tuas novidades, conta-as alegremente; sendo alegres, n\u00e3o estragues a m\u00fasica, tocando-a com uma cara t\u00e3o t\u00e9trica.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Deixai-me repousar um momento; estou cansada. Como os ossos me doem! Que corrida!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Quisera que tivesses os meus ossos, e eu, tuas novidades. Vamos; pe\u00e7o-te, boa ama: fala logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Quanta pressa, Jesus! N\u00e3o podereis esperar nada? Pois ent\u00e3o n\u00e3o notais que estou sem f\u00f4lego?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Como sem f\u00f4lego, se est\u00e1s com f\u00f4lego bastante para me dizer que f\u00f4lego n\u00e3o tens para falar? Esse pretexto de tanta dila\u00e7\u00e3o \u00e9 mais comprido do que a hist\u00f3ria a que serve de desculpa. Tuas not\u00edcias s\u00e3o ruins ou boas? Responde-me logo isso, que as min\u00facias escutarei depois, com mais paci\u00eancia. Satisfaze-me nisso: m\u00e1s ou boas?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Bem; fizestes uma escolha muito simples; n\u00e3o sabeis escolher homem. Romeu&#8230; N\u00e3o, ele n\u00e3o! Conquanto ele tenha o rosto mais bonito do que n\u00e3o importa quem for, suas pernas levam vantagem sobre as de todos os homens. Quanto \u00e0s m\u00e3os, p\u00e9s e o corpo, muito embora nada se tenha a dizer, est\u00e3o acima de qualquer confronto. N\u00e3o \u00e9 a flor da cortesia; mas, posso asseverar-vos, \u00e9 manso como um cordeiro. Prossegui nesse caminho, menina e continuai servindo a Deus. Como! j\u00e1 jantaram por aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o; mas isso tudo eu j\u00e1 sabia. E sobre o casamento, que disse ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh! que dor de cabe\u00e7a! Que cabe\u00e7a, senhor, a minha! Como bate! Creio que estalar vai em vinte pedacinhos. E, do outro lado, as costas! Oh! as costas! Oh! que esse cora\u00e7\u00e3o seja punido por me ter feito procurar a morte, a galopar sem pausa.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, contrista-me saber que n\u00e3o est\u00e1s bem. Mas, minha doce, doce ama, que te disse meu amor?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Vosso amor disse, como cavalheiro honesto e cort\u00eas, e bondoso, e belo, e \u2014 posso assegur\u00e1-lo \u2014 virtuoso&#8230; Onde est\u00e1 vossa m\u00e3e?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Onde est\u00e1 minha m\u00e3e? Est\u00e1 l\u00e1 dentro. Onde podia estar? Oh! que resposta! \u201cVosso amor diz, qual cavalheiro honesto, onde est\u00e1 vossa m\u00e3e?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh Santa Virgem! Por que tamanho ardor? Ide, vos digo; \u00e9 essa, somente, vossa cataplasma para meus pobres ossos? De hoje em diante, de vossas comiss\u00f5es cuidai v\u00f3s mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Quantos rodeios! E Romeu, que disse?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Podeis ir confessar? Tendes licen\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Tenho.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 N\u00e3o percais tempo, ent\u00e3o, e \u00e0 cela correi de frei Louren\u00e7o, onde um marido achareis que vos vai deixar mulher. Ora vos sobe ao rosto o sangue l\u00fabrico; a qualquer nova, torna-se escarlate. Correi \u00e0 igreja, que a outra parte eu tenho de ir depressa, prover-me de uma escada, para que vosso amor consiga o ninho do p\u00e1ssaro alcan\u00e7ar, quando for noite. Besta de carga sou de vossa festa, mas a noite um bom peso vos apresta. Vou jantar. Ide \u00e0 cela bem contrita.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Adeus, querida; \u00e9 para minha dita.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Cela de frei Louren\u00e7o. Entram frei Louren\u00e7o e Romeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Que o c\u00e9u sorria para este ato santo, sem que horas tristes venham perturbar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Am\u00e9m, am\u00e9m! Por\u00e9m que venham quantas tristezas vierem, que apagar n\u00e3o podem a troca de alegria que sua vista num minuto me d\u00e1. Basta que as m\u00e3os nos juntes com palavras consagradas; e que a morte, depois, que o amor devora, fa\u00e7a o que bem quiser. A mim j\u00e1 chega poder chamar-lhe minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Essas violentas alegrias t\u00eam fim tamb\u00e9m violento, falecendo no triunfo, como a p\u00f3lvora e o fogo, que num beijo se consomem. O mel mais delicioso \u00e9 repugnante por sua pr\u00f3pria del\u00edcia, confundindo com seu sabor o paladar mais \u00e1vido. Tem, pois, modera\u00e7\u00e3o, que o vagaroso, como o apressado, atrasam-se do pouso. (<i>Entra Julieta.<\/i>) Eis a dama que chega; uns p\u00e9s t\u00e3o leves n\u00e3o gastar\u00e3o jamais a pedra eterna. O amante pode andar por sobre as teias que no ar balou\u00e7am, \u00e1lacre, do estio, sem, contudo, cair; leve \u00e9 a vaidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Para o meu santo confessor, bom dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Filha, Romeu por n\u00f3s vai responder-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ele est\u00e1 nisso inclu\u00eddo; do contr\u00e1rio, longo seria quanto ele dissesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ah! Julieta, se cheia como a minha j\u00e1 estiver a medida de teu gozo, e se possu\u00edres a arte de enfeit\u00e1-lo, o ar ambiente embalsama com teu h\u00e1lito, deixando que a variada e rica m\u00fasica de tua l\u00edngua desdobre a grata imagem da ventura que um do outro recebemos neste encontro feliz.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Mais rico o sentimento em conte\u00fado do que em palavras, sente-se orgulhoso com a pr\u00f3pria ess\u00eancia, n\u00e3o com os ornamentos. S\u00e3o s\u00f3 os mendigos que contar conseguem quanto dinheiro t\u00eam. Mas a tal ponto meu amor verdadeiro tomou vulto, que a metade, sequer, n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel avaliar do que tenho.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Vamos, vamos; simplifiquemos o ato. Aqui, sozinhos, n\u00e3o pretendo deixar-vos um momento, sem que a Igreja celebre o casamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj31\" name=\"rj31\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Merc\u00facio, Benv\u00f3lio, pajem e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Pe\u00e7o-te, bom Merc\u00facio: retiremo-nos. Quente est\u00e1 o dia; os Capuletos andam pela cidade. Caso os encontremos, n\u00e3o poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Tu te assemelhas a esses tipos que, mal entram numa taberna, batem com a espada em cima da mesa e gritam: \u201cQueira Deus que eu n\u00e3o venha a ter necessidade de ti!\u201d e que ap\u00f3s o efeito do segundo copo, sacam-na contra o taberneiro sem a menor necessidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Serei, acaso, um tipo desse g\u00eanero?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Vamos, vamos; \u00e9s t\u00e3o esquentado como quem mais o for em toda a It\u00e1lia; muito prontamente raivoso para ser arrebatado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 E a prop\u00f3sito de qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Se houvesse mais outro tipo como tu, dentro de pouco tempo n\u00e3o existiria nenhum, porque vos matar\u00edeis mutuamente. \u00c9s capaz de brigar com um homem por que tem um fio a mais ou a menos na barba do que tu; brigar\u00e1s com quem estiver quebrando nozes, sem outro motivo al\u00e9m do de teres os olhos cor de nozes. Que olhos, a n\u00e3o serem esses mesmos, seriam capazes de descobrir semelhante briga? Tua cabe\u00e7a \u00e9 t\u00e3o cheia de rixas como de alimento o ovo, se bem que, por causa de brigas, tenha sido batida tantas vezes como clara de ovo. J\u00e1 brigaste com um homem que tossiu na rua e despertou o teu c\u00e3o, que dormia ao sol. Pois n\u00e3o tiveste uma rixa com um alfaiate, s\u00f3 por ter ele vestido um casaco novo, antes da P\u00e1scoa? E com outro, por ter amarrado os sapatos novos com cord\u00f5es usados? Sendo, pois, o que \u00e9s, pretendes dar-me li\u00e7\u00f5es de prud\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Se eu fosse t\u00e3o briguento como tu, ningu\u00e9m compraria os bens alodiais de minha vida, simplesmente por uma hora e um quarto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Simplesmente? Que simplicidade!<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Por minha cabe\u00e7a, ai vem vindo um Capuleto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Por meu p\u00e9, a mim isso pouco importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Tebaldo e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Ficai perto de mim, pois vou falar-lhe. Cavalheiros, bom dia; uma palavra com qualquer um de v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 S\u00f3 uma palavra com um de n\u00f3s? Acrescentai mais alguma coisa; que seja uma palavra e uma estocada.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Haveis de encontrar-me disposto para isso, quando me fornecerdes oportunidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o achais oportunidade, sem que vo-la ofere\u00e7am?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Merc\u00facio, tu est\u00e1s concertado com Romeu&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Concertado? Como! Tomas-nos por m\u00fasicos? Se nos tomares por m\u00fasicos, prepara-te para ouvir s\u00f3 desarmonias. Aqui est\u00e1 o arco da minha rabeca, que vos far\u00e1 dan\u00e7ar. A-la-f\u00e9! Concertado!<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Estamos conversando numa pra\u00e7a bastante freq\u00fcentada. Retiremo-nos para algum ponto \u00e0 parte ou ide embora, que sobre n\u00f3s os olhos est\u00e3o fixos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Para ver \u00e9 que os olhos foram feitos. Que nos vejam. Daqui n\u00e3o dou um passo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Ficai em paz, senhores; eis meu homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Que me enforquem se ele usa vossa farda. Para o campo segui, que ele ir\u00e1 junto. Nesse sentido, \u00e9 certo: ele \u00e9 vosso homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 O \u00f3dio, Romeu, que me despertas, sabe dizer-te apenas isto: \u00e9s um vil\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 A raz\u00e3o de te amar, que eu tenho agora, Tebaldo, escusa \u00e0 saciedade a raiva de uma tal sauda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sou o que dizes. Adeus; bem vejo que n\u00e3o me conheces.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Isso, rapaz, n\u00e3o basta como escusa para quantas inj\u00farias me tens feito. Faze, pois, meia-volta e arranca a espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Protesto que jamais te fiz inj\u00faria. Tenho-te mais amor do que imaginas, at\u00e9 que saibas o motivo disso. Assim, bom Capuleto \u2014 oh nome caro! t\u00e3o caro quanto o meu \u2014 fica contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Oh calma submiss\u00e3o, vil e insultuosa! <i>Alla stoccata!<\/i> Decidamos logo. (<i>Saca da espada.<\/i>) Tebaldo, ca\u00e7ador de rato, queres dar voltazinhas?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Que desejas?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Nada mais, meu bom rei dos gatos, al\u00e9m de uma das vossas nove vidas, que tomarei a liberdade de tirar, deixando as outras oito para malhar depois, conforme o tratamento que me derdes. N\u00e3o vos resolveis a puxar vossa espada pela orelha e tir\u00e1-la da bainha? Mas ponde pressa nisso, para que a minha n\u00e3o vos atinja as orelhas antes de ficar de fora a vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO (<i>sacando da espada<\/i>) \u2014 Estou ao vosso dispor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Gentil Merc\u00facio, guarda a espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Vamos, senhor; vosso passado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Benv\u00f3lio, saca a espada; desarmemo-los. Cavalheiros, que opr\u00f3brio! Evitai isso. Oh Merc\u00facio! Tebaldo! O pr\u00edncipe proibiu expressamente essas brigas nas ruas de Verona. Tebaldo! Bom Merc\u00facio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Tebaldo com seus partid\u00e1rios.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Estou ferido. A peste caia em vossas casas. Morto! E ele n\u00e3o teve nada? Foi embora?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Como! Foste ferido?<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Um arranh\u00e3o, um arranh\u00e3o somente; mas j\u00e1 chega. Que leve a breca! E o pajem, onde se acha? Patife, vai buscar um cirurgi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o pajem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Coragem, homem! O ferimento n\u00e3o deve ser profundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fundo quanto um po\u00e7o, nem t\u00e3o largo quanto porta de igreja. Mas \u00e9 o suficiente e quanto basta. Perguntai por mim amanh\u00e3, que haveis de encontrar-me bem quieto. Para este mundo j\u00e1 estou salgado, posso afian\u00e7ar-vos! Um c\u00e3o, um rato, um camundongo, um pulha, um biltre, que briga segundo as regras da aritm\u00e9tica! Por que diabo vos metestes entre n\u00f3s? Fui ferido por baixo de vosso bra\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Eu estava bem-intencionado.<\/p>\n<p align=\"justify\">MERC\u00daCIO \u2014 Conduze-me, Benv\u00f3lio, a alguma casa; sen\u00e3o, desmaio. A peste em vossas casas! De mim fizeram pasto para os vermes. J\u00e1 tenho a minha parte. Vossas casas!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Merc\u00facio e Benv\u00f3lio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Este fidalgo, pr\u00f3ximo parente do pr\u00edncipe, sincero amigo meu, por mim, t\u00e3o-s\u00f3, ferido foi de morte. Minha reputa\u00e7\u00e3o est\u00e1 manchada com o insulto de Tebaldo, esse Tebaldo que meu parente foi durante uma hora. Doce Julieta! Tua formosura fez de mim um maricas; a coragem do a\u00e7o se abranda e verga no meu peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Benv\u00f3lio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Romeu, Romeu, o bom Merc\u00facio \u00e9 morto! Foi para as nuvens esse bravo esp\u00edrito que desprezou t\u00e3o cedo o p\u00f3 terreno.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Hoje o fado somente d\u00e1 o rebate para que o tempo as dores arremate.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Tebaldo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 O furioso Tebaldo est\u00e1 de volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vivo! Em triunfo! E morto o bom Merc\u00facio? Vai para o c\u00e9u, brandura respeitosa! F\u00faria de olhar de fogo, s\u00ea meu guia! Tebaldo, ora recebe de retorno o \u201cvil\u00e3o\u201d que me deste n\u00e3o faz muito, pois a alma de Merc\u00facio ainda se encontra perto de nossas fontes, aguardando que a tua v\u00e1 fazer-lhe companhia. Um de n\u00f3s dois ter\u00e1, pois, de ir com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TEBALDO \u2014 Pobre rapaz, que estavas de seu lado, \u00e9s tu que vais partir.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Pois decidamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se; Tebaldo cai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Romeu, foge depressa! Os cidad\u00e3os se amotinaram. Morto est\u00e1 Tebaldo. N\u00e3o fiques aturdido, pois o pr\u00edncipe vai condenar-te \u00e0 morte, se encontrado fores aqui. Despacha-te depressa!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sou o bobo da fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Foge! Ora essa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Para onde foi o que matou Merc\u00facio? O assassino, Tebaldo, onde se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Tebaldo? Aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Em nome, ent\u00e3o, do pr\u00edncipe, vos intimo, senhor; vinde comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o pr\u00edncipe, com s\u00e9q\u00fcito; Montecchio, Capuleto, suas esposas e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Quem desafiou, assim, o meu castigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Dizer-te posso, \u00f3 pr\u00edncipe, a maneira por que teve come\u00e7o esta cegueira. Pelo jovem Romeu ali se encontra morto o homem que matou o teu parente, nosso bravo Merc\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Como! O primo Tebaldo? O filho do meu caro irm\u00e3o? Primo, marido, pr\u00edncipe, no ch\u00e3o vejo o sangue correr de um meu parente. Se veraz fores, pr\u00edncipe, realmente, sangue desses Montecchios h\u00e1 de, agora, ser tamb\u00e9m derramado, sem demora. Oh primo! primo!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Quem deu come\u00e7o \u00e0 luta dolorida?<\/p>\n<p align=\"justify\">BENV\u00d3LIO \u2014 Tebaldo, que Romeu deixou sem vida; Romeu, que lhe falou com termos brandos, com ele instando para que pensasse na aus\u00eancia de motivo da querela, tendo invocado, at\u00e9, vosso desgosto, tudo isso com voz doce, olhar tranq\u00fcilo e ademanes corteses, sem que tr\u00e9guas conseguisse alcan\u00e7ar da grande c\u00f3lera do furioso Tebaldo, que com a\u00e7o pontiagudo visava uma e mais vezes o peito de Merc\u00facio valoroso. Este, s\u00f3 chamas, ponta op\u00f5e a ponta; com desprezo marcial, a fria morte faz afastar com uma das m\u00e3os, ao tempo em que com a outra a devolvia c\u00e9lere ao peito de Tebaldo que, habilmente, de retorno lha enviava. Em altas vozes Romeu gritava: \u201cAmigos, separai-vos!\u201d E mais r\u00e1pido, ainda, que sua l\u00edngua, seu \u00e1gil bra\u00e7o desviava as pontas, entre ambos se interpondo. Mas por baixo do bra\u00e7o dele um golpe malfadado de Tebaldo a exist\u00eancia atinge em cheio do valente Merc\u00facio. Ent\u00e3o Tebaldo se p\u00f5e em fuga, mas retorna logo para Romeu, que, nesse instante, havia concebido a vingan\u00e7a. Mais velozes que o raio se engalfinham e, assim, antes de eu poder separ\u00e1-los, cai sem vida o valente Tebaldo, a cuja vista Romeu fugiu. Se nisto houver maldade, vivo Benv\u00f3lio prosseguir n\u00e3o h\u00e1 de.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Parente \u00e9 dos Montecchios; bom servi\u00e7o presta aos seus com mentir-vos em tudo isso. Foi de vinte, no m\u00ednimo, a sortida, para tirar apenas uma vida. Justi\u00e7a, pr\u00edncipe! e que seja breve: Romeu matou Tebaldo; morrer deve.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Matou quem a Merc\u00facio antes matara. Quem paga o pre\u00e7o dessa vida cara?<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Pr\u00edncipe, n\u00e3o Romeu; ele era amigo de Merc\u00facio; s\u00f3 fez dar o castigo que a pr\u00f3pria lei impunha: incontinenti dando a morte a Tebaldo imprevidente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Por essa transgress\u00e3o de nosso \u00e9dito ficar\u00e1 de Verona j\u00e1 proscrito. Vosso \u00f3dio atinge a mim, tamb\u00e9m, de perto; sangra-me o cora\u00e7\u00e3o por ele aberto. Mas hei de vos impor a. pena dura que minha dor desde hoje vos augura. Surdo serei a escusas e pedidos; nem l\u00e1grimas nem preces os ouvidos poder\u00e3o abalar-me. Assim, com pressa fazei Romeu partir; ordem \u00e9 expressa. Porque se acaso nisso houver demora, ouvido ele ter\u00e1 sua \u00faltima hora. Levai o corpo. O excesso de dem\u00eancia causa mortes tamb\u00e9m, por imprud\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj32\" name=\"rj32\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Jardim de Capuleto. Entra Julieta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Correi, correi, corc\u00e9is de p\u00e9s de fogo, para a casa de Febo. Um condutor como Faetonte vos teria h\u00e1 muito tocado para o poente e, na mesma hora, trazido a noite escura. Espalha tua cortina, \u00f3 noite, guarda dos amores, porque os olhos curiosos nada vejam e a estes bra\u00e7os Romeu se precipite, de manso e sem ser visto. Os namorados enxergam no ato do amoroso rito, pela pr\u00f3pria beleza; ou ent\u00e3o, se \u00e9 cego, de fato, o amor, diz bem com a negra noite. Vem, noite circunspecta, com teu manto de matrona severa, todo preto, e me ensina a perder uma partida que j\u00e1 est\u00e1 ganha e em que se jogam duas virgindades sem mancha. Ao rosto sobe-me o sangue t\u00edmido; em teu manto envolve-o, at\u00e9 que o amor esquivo, j\u00e1 se tendo tornado corajoso, s\u00f3 inoc\u00eancia veja no ato do amor sincero e puro. Vem, noite! Vem, Romeu! tu, noite e dia, pois vais ficar nas asas desta noite mais branco do que neve sobre um corvo. Vem, gentil noite! vem, noite amorosa de escuras sobrancelhas! Restitui-me o meu Romeu, e quando, mais adiante, ele vier a morrer, em pedacinhos o corta, como estrelas bem pequenas, e ele a face do c\u00e9u far\u00e1 t\u00e3o bela que apaixonado o mundo vai mostrar-se da morte, sem que o sol esplendoroso continue a cultuar. Comprei a casa de um amor, sem estar na posse dela; vendida embora me ache, possu\u00edda n\u00e3o fui ainda. T\u00e3o tedioso e lento \u00e9 este dia, tal como a noite em v\u00e9spera de alguma grande festa para crian\u00e7a impaciente que tenha roupa nova, mas n\u00e3o possa vesti-la. Oh! a\u00ed vem a ama. (<i>Entra a ama, com cordas.<\/i>) Traz novidades, sim. Todas as l\u00ednguas que s\u00f3 sabem dizer Romeu, Romeu, falam com eloq\u00fc\u00eancia celestial. Ent\u00e3o, ama, que \u00e9 que h\u00e1? Que trazes a\u00ed? As cordas de Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Sim, sim; as cordas. (<i>Atira-as ao ch\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ai de mim! Que acontece? Por que torces as m\u00e3os dessa maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh dia! Oh dia! Morreu! morreu! morreu! Oh! dia! Estamos perdidas, senhorita! Sim! perdidas! Mataram-no! Que dia! Est\u00e1 sem vida!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 T\u00e3o invejoso o c\u00e9u pode mostrar-se?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Romeu o pode, embora o c\u00e9u n\u00e3o possa. Oh Romeu! Oh Romeu! Quem poderia ter pensado em tal coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Por que diabo me atormentas assim? Essa tortura rugida deveria ser no inferno. Suicidou-se Romeu? Basta dizeres \u201csim\u201d que essa palavrinha mais veneno para mim conter\u00e1 do que a mirada fatal do basilisco. Morta me acho, se esse \u201csim\u201d existir, se j\u00e1 estiverem sem vida os olhos que esse \u201csim\u201d indicam. J\u00e1 morreu? Vive? Dize \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d; um som \u00e9 tudo para o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Vi a ferida, vi com estes olhos \u2014 Deus nos acuda! \u2014 em seu valente peito. Pobre cad\u00e1ver! pobre e ensang\u00fcentado; p\u00e1lido como cinza, recoberto de co\u00e1gulos de sangue. A esse espet\u00e1culo desmaiei.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Cora\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o estala! Ide para a pris\u00e3o, olhos ociosos, porque n\u00e3o mais vereis a liberdade. Argila vil, a morte aqui n\u00e3o erra; que em Romeu e em ti pese a mesma terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 \u00d3 Tebaldo, Tebaldo! grande amigo! \u00d3 Tebaldo polido, cavalheiro de grande honestidade! Ter eu vida para morto te ver!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que tempestade de golpes t\u00e3o atravessados? Morto foi Romeu e Tebaldo est\u00e1 sem vida? Meu caro primo, meu querido esposo? Ent\u00e3o, fatal trombeta, soa o ju\u00edzo final! Quem poder\u00e1 ficar com vida, se os dois mortos est\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Assassinado foi Tebaldo, e Romeu se acha banido; tendo-o matado, logo foi banido.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Deus! A m\u00e3o de Romeu derramou o sangue de meu primo Tebaldo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Derramou, derramou. Oh! que dia! Derramou.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh cora\u00e7\u00e3o serpente, mascarado com fei\u00e7\u00f5es de uma flor! Em algum tempo drag\u00e3o j\u00e1 houve em cova t\u00e3o formosa? Monstro atraente, ang\u00e9lico dem\u00f4nio, corvo de belas penas, cordeirinho devorador como o insaci\u00e1vel lobo, subst\u00e2ncia desprez\u00edvel de apar\u00eancia mais que divina, justamente o oposto do que mostravas ser! Santo maldito, muito honrado vil\u00e3o! \u00d3 natureza, que tinhas a fazer no negro inferno, quando puseste um infernal esp\u00edrito no mortal para\u00edso de uma carne t\u00e3o bela e t\u00e3o perfeita? J\u00e1 houve livro de mat\u00e9ria t\u00e3o vil, que encadernado fosse com tanto esmero? Oh! que a mentira tenha morada num pal\u00e1cio desses!<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Nos homens n\u00e3o h\u00e1 f\u00e9, n\u00e3o h\u00e1 confian\u00e7a, nenhuma honestidade. Todos eles s\u00e3o mentirosos, falsos e perjuros. N\u00e3o valem nada. Onde est\u00e1 meu criado? D\u00eaem-me <i>aqua vitae<\/i>. Todas estas dores, estas tristezas me deixaram velha. Caia o opr\u00f3brio em Romeu!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que tua l\u00edngua de p\u00fastulas se cubra, por haveres formulado esse voto! Para o opr\u00f3brio n\u00e3o nasceu ele. Sobre sua fronte o opr\u00f3brio se envergonha de sentar-se, pois \u00e9 trono em que pode ser coroada a honra como monarca incontest\u00e1vel da terra universal. Oh! fui aut\u00eantico animal, por haver falado dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Elogiais quem matou vosso parente?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Poderei falar mal de meu marido? Ah! meu pobre senhor, que l\u00edngua pode teu nome acariciar, se eu, h\u00e1 tr\u00eas horas apenas, tua esposa, o mutilei? Mas por que deste a morte, miser\u00e1vel, a meu primo? \u00c9 que o primo miser\u00e1vel teria dado a morte a meu marido. Voltai, l\u00e1grimas tolas, para vossa fonte de origem; \u00e0 tristeza s\u00e3o devidas as gotas tribut\u00e1rias que por engano ofereceis ao riso. Vivo est\u00e1 meu esposo, que Tebaldo desejava matar; morto, Tebaldo, que teria matado meu marido. Isso consola. Ent\u00e3o, por que chorar? Mas h\u00e1 uma palavra pior ainda que a morte de Tebaldo e que me mata. Desejara esquec\u00ea-la; mas, oh dor! pesa-me na mem\u00f3ria: \u201cAssassinado foi Tebaldo e Romeu se acha banido!\u201d Essa palavra s\u00f3, esse \u201cbanido\u201d, matou dez mil Tebaldos. Essa morte de Tebaldo j\u00e1 fora dor bastante, se terminasse a\u00ed. Ou, ainda mesmo que a dor amarga amasse a companhia, e acompanhada se fizesse sempre de outras desgra\u00e7as, por que causa, quando ela disse: \u201cTebaldo est\u00e1 sem vida\u201d, n\u00e3o se seguiu, tamb\u00e9m: \u201cteu pai foi morto\u201d, ou \u201ctua m\u00e3e\u201d, ou ambos, sim, que fora raz\u00e3o de sobra para as ordin\u00e1rias lamenta\u00e7\u00f5es? Mas vindo a retaguarda da morte de Tebaldo com este t\u00edtulo: \u201cRomeu banido foi\u201d, n\u00e3o h\u00e1 limite, medida, fim, nem termo para a morte dessa palavra. Tudo est\u00e1 sem norte. Meus pais, ama, onde est\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 A morte fria de Tebaldo lastimam neste dia. Quereis ir v\u00ea-los? Posso conduzir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Eles lavam com l\u00e1grimas doridas o corpo de Tebaldo. Mais sentidas as minhas correr\u00e3o neste momento para chorar do amor o banimento. Junta estas cordas. Ai! fostes logradas, assim como eu, \u00f3 cordas malfadadas! porque Romeu agora est\u00e1 no ex\u00edlio. Ele contava com o vosso aux\u00edlio para chegar at\u00e9 meu virgem leito; mas vi\u00fava vai achar-me, deste jeito. Vem, ama; traze as cordas, pois \u00e0 morte, n\u00e3o a Romeu, me liga a triste sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Recolhei-vos a vossos aposentos. Hei de encontrar Romeu, para trazer-vos algum consolo. Sei onde se encontra. Ficai certa de t\u00ea-lo aqui esta noite. Vou busc\u00e1-lo j\u00e1 j\u00e1. Est\u00e1 escondido na cela de Louren\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh! traze-o logo! D\u00e1-lhe este anel e dize ao meu amado que me venha trazer o \u00faltimo adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj33\" name=\"rj33\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Cela de frei Louren\u00e7o. Entra frei Louren\u00e7o.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Romeu, vem c\u00e1, homem medroso! As afli\u00e7\u00f5es de ti se enamoraram. Desposaste a desgra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Romeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Padre, que novidades? E a senten\u00e7a do pr\u00edncipe, qual foi? Qual \u00e9 a tristeza que eu ainda n\u00e3o conhe\u00e7o e que deseja tocar-me a m\u00e3o de perto?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 O meu querido filho por demais \u00edntimo se mostra com essas companhias t\u00e3o adversas. Vou contar-te o que foi que disse o pr\u00edncipe, qual foi sua senten\u00e7a,<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o teria sido o ju\u00edzo final sua senten\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Dos l\u00e1bios lhe saiu uma senten\u00e7a mais branda: n\u00e3o a morte para o corpo, mas o ex\u00edlio do corpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ex\u00edlio! ex\u00edlio! S\u00ea clemente, dizendo logo \u201cmorte\u201d, pois mais horror cont\u00e9m no olhar o ex\u00edlio que a pr\u00f3pria morte. Assim, n\u00e3o me repitas essa palavra: \u201cEx\u00edlio\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Est\u00e1s banido de Verona. Reveste-te de calma, pois o mundo \u00e9 bastante grande e largo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Mundo n\u00e3o pode haver fora dos muros de Verona, mas dores, purgat\u00f3rio, o pr\u00f3prio inferno. Estar daqui banido, \u00e9 banido tamb\u00e9m estar do mundo, e semelhante banimento \u00e9 a morte. Alcunha, assim, da morte \u00e9 \u201cbanimento\u201d. Dando \u00e0 morte esse nome, com machado de ouro a cabe\u00e7a me apartais do tronco rindo do golpe que me tira a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Oh pecado mortal! Oh rude e absurdo desagradecimento! Nossas leis d\u00e3o o nome de morte \u00e0 tua falta, Mas o ben\u00edgno pr\u00edncipe, tomando teu partido, a lei p\u00f4s de lado, logo, e em ex\u00edlio mudou o escuro termo. \u00c9 gra\u00e7a, e grande, e tu n\u00e3o queres v\u00ea-la!<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 tortura, n\u00e3o gra\u00e7a. O c\u00e9u se encontra onde Julieta vive. Um simples gato, um ratinho, um cachorro, as coisas \u00ednfimas aqui vivem no c\u00e9u e podem v\u00ea-la. Mas n\u00e3o o pode Romeu. Mais import\u00e2ncia, mais dignidade, mais cortesania se acham nas varejeiras dos monturos, que no pobre Romeu. Tocar conseguem no c\u00e2ndido milagre da querida m\u00e3o de Julieta e mortal b\u00ean\u00e7\u00e3o podem dos l\u00e1bios lhe roubar que, com mod\u00e9stia pura e vestal, corados ainda ficam por julgarem que os beijos s\u00e3o pecado. As moscas fazem isso; e eu sou for\u00e7ado a muscar-me daqui; s\u00e3o povo livre; eu, banido. E ainda dizer que esse ex\u00edlio n\u00e3o significa a morte? N\u00e3o possuis mistura venenosa, faca afiada, ou qualquer meio r\u00e1pido de morte, por mais baixo que seja e que me mate, tirante esse \u201cbanido\u201d? Ora, banido! \u00d3 frade! essa palavra os condenados usam no inferno e de urros a acompanham. Na qualidade de homem santo, sendo, como \u00e9s, um confessor, que tem poderes para perdoar pecados, meu amigo declarado, pretendes esmagar-me com esse termo: \u201cBanido\u201d?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Homem sem ju\u00edzo, ouve-me ao menos uma palavrinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Oh! vais falar de ex\u00edlio novamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Vou emprestar-te uma armadura, para esse termo amparar: filosofia, o leite doce e s\u00e3o da adversidade, que te h\u00e1 de confortar, embora estejas, em verdade, banido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Mas, \u201cbanido\u201d! P\u00f5e a filosofia numa forca, a menos que a filosofia possa fazer uma Julieta, uma cidade mudar, ou deixar \u00edrrito um decreto. Se n\u00e3o, de nada vale, para nada pode servir-me. N\u00e3o me fales nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Vejo que os loucos n\u00e3o possuem orelhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como t\u00ea-las, se os s\u00e1bios n\u00e3o t\u00eam olhos?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Deixa-me discorrer sobre o teu caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Falar n\u00e3o podes sobre o que n\u00e3o sentes. Se, como eu, fosses mo\u00e7o; se Julieta te pertencesse, por se ter tornado tua esposa h\u00e1 uma hora; se tivesses morto Tebaldo, e louco, apaixonado como eu te visses: bem, assim podias falar, arrepelar a cabeleira, jogar-te ao solo como o fa\u00e7o agora, para dar a medida de uma cova que ainda vai ser aberta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem dentro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Est\u00e3o batendo, Romeu. Levanta-te depressa e esconde-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o; a menos que o sopro dos gemidos do cora\u00e7\u00e3o, guisa de neblina, me ocultasse da busca dos olhares.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Escuta! Est\u00e3o batendo novamente. \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? \u2014 Romeu, Romeu, levanta-te. Podes ser preso. \u2014 Um momentinho apenas. \u2014 (<i>Batem.<\/i>) Levanta-te! Esconde-te em meu quarto. \u2014 J\u00e1 vou! J\u00e1 vou! \u2014 Por Deus, como \u00e9s teimoso! \u2014 (<i>Batem.<\/i>) J\u00e1 vou! Quem bate com tamanha for\u00e7a? Da parte de quem vindes? Que quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Deixai-me entrar, para que eu d\u00ea o recado. A senhora Julieta \u00e9 que me manda.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Bem-vinda sois, ent\u00e3o. (<i>Entra a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 \u00d3 santo frade, dizei-me, santo frade, onde se encontra o senhor de minha ama? Onde est\u00e1 ele? Romeu, que \u00e9 dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Ali, jogado ao solo, embriagado por suas pr\u00f3prias l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh! justamente o caso de minha ama! Justamente o seu caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Oh simpatia dolorosa, terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ela est\u00e1 justamente assim, deitada, chorando e lastimando-se, chorando sem parar. Levantai-vos! levantai-vos! Sede homem, por amor, sim, de Julieta. Por que vos consumirdes em lamentos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Ama?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ah meu senhor! A morte \u00e9 o fim de tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Fala-me de Julieta. Como pensa? N\u00e3o me julga assassino inveterado, pelo fato de eu ter manchado a inf\u00e2ncia de nossa grande dita com um sangue t\u00e3o pr\u00f3ximo do seu? Onde est\u00e1 ela? Que faz? Que diz minha secreta esposa do nosso amor destru\u00eddo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh! n\u00e3o diz nada, senhor; mas chora, chora sem parar. Ora se joga ao leito, ora levanta-se, chama \u201cTebaldo\u201d, grita o vosso nome, e cai de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como se esse nome, por um canh\u00e3o contra ela disparado, lhe desse a morte, como a m\u00e3o maldita de tal nome o fizera com seu primo. frade, dize-me: em que parte abjeta de minha anatomia est\u00e1 meu nome? Dize, que eu saquearei, no mesmo instante, a casa do inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saca da espada.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Det\u00e9m essa desesperada m\u00e3o. Acaso \u00e9s homem? Tua postura o afirma, mas as l\u00e1grimas s\u00e3o de mulher, mostrando esses teus atos desesperados o furor selvagem dos pr\u00f3prios animais. \u00d3 deformada mulher, sob a apar\u00eancia de um mancebo, ou animal deturpado, sob a forma de ambos: pasmado estou. Pela minha ordem sagrada: sempre fiz outro ju\u00edzo de teu temperamento. N\u00e3o mataste Tebaldo? Agora queres suicidar-te e, assim, matar a tua pr\u00f3pria esposa, que de tua vida vive, revertendo contra ti pr\u00f3prio esse \u00f3dio amaldi\u00e7oado? Por que insultas o ber\u00e7o, o c\u00e9u e a terra? O ber\u00e7o, o c\u00e9u e a terra unidos se acham em ti, e de uma vez perd\u00ea-los queres? Ora, envergonhas tua forma, o esp\u00edrito, o amor, que em barda tens, como usur\u00e1rio, sem que nada uses no seu vero emprego para te ornar a forma, o amor, o esp\u00edrito. Tua nobre figura \u00e9 como imagem de cera, se o vigor viril lhe falta; teu amor t\u00e3o prezado, oco perj\u00fario que mata o amor que proteger juraste; o esp\u00edrito, esse ornato da postura, como do amor, se encontra deformado pela conduta de ambos, como p\u00f3lvora no frasco de um soldado inexperiente, que por tua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia explode, com tuas pr\u00f3prias armas desmembrando-te. Vamos, homem: levanta-te! Est\u00e1 viva tua Julieta, por quem te achas quase no ponto de morrer. Est\u00e1s com sorte. Tebaldo quis matar-te; a morte deste-lhe. Nisso foste tamb\u00e9m mui venturoso. A lei se mostra tua amiga, a pena de morte atenuando para ex\u00edlio: outra ventura. Sobre o dorso um fardo de b\u00ean\u00e7\u00e3os te caiu. Com seus mais ricos atavios te vem fazendo a corte sempre a felicidade; mas no jeito de um rapaz n\u00e3o polido e caprichoso, com a sorte e o amor amuado te revelas. Toma cuidado! Quem assim procede, acaba sempre mal. Vamos, levanta-te! Vai ter com teu amor, como assentamos. Escala o quarto e leva-lhe conforto. Tem cautela, por\u00e9m; n\u00e3o te demores at\u00e9 que venham iniciar a guarda, porque ent\u00e3o para M\u00e2ntua n\u00e3o sa\u00edras, que \u00e9 onde vais viver at\u00e9 que achemos a hora oportuna de anunciar as bodas, a reconcilia\u00e7\u00e3o fazer de todos os vossos conhecidos, e a dem\u00eancia do pr\u00edncipe alcan\u00e7ar, para chamar-te, finalmente, de volta, retornando tu com cem vezes mil mais alegrias do que tinhas de dores ao partires. Ama, segue na frente. Recomenda-me \u00e0 senhorita e dize-lhe que cuide de mandar para a cama toda a casa, a isso disposta pelos cru\u00e9is eventos. Romeu vai logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh Deus! Aqui ficara toda a noite, para ouvir bons conselhos. Quanto vale, quanto, a instru\u00e7\u00e3o! Senhor, \u00e0 senhorita anunciarei vossa ida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Sim, e dize-lhe que se prepare para repreender-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Eis um anel, senhor, por ela entregue para que vo-lo desse. Vamos, vinde depressa que j\u00e1 est\u00e1 ficando tarde. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Como isto o cora\u00e7\u00e3o me fortalece!<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Sa\u00ed, boa noite, e toda vossa dita sabeis depende disto: ou sa\u00ed antes de iniciarem a guarda, ou, muito cedo disfar\u00e7ado, deixai nossa cidade. Ficai em M\u00e2ntua, que eu acharei meios de encontrar vosso criado. Ele vos h\u00e1 de com freq\u00fc\u00eancia levar as boas novas do que se for passando em nosso meio. Dai-me a m\u00e3o. Passai bem, H\u00e1 pressa. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o fosse a dita me levar daqui, sentira dor em me afastar de ti. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj34\" name=\"rj34\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto da casa de Capuleto. Entram Capuleto, a senhora Capuleto e P\u00e1ris.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 As coisas, meu senhor, tomaram rumo t\u00e3o infeliz, que tempo n\u00e3o tivemos de advertir nossa filha. Vede bem: dedicava afei\u00e7\u00e3o sincera ao primo Tebaldo. Tal como eu. Bem; s\u00f3 nascemos para morrer. J\u00e1 \u00e9 muito tarde; agora ela n\u00e3o descer\u00e1. Posso afian\u00e7ar-vos que, se n\u00e3o fosse vossa companhia, h\u00e1 uma hora j\u00e1 me houvera recolhido.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Este tempo de dor n\u00e3o \u00e9 prop\u00edcio para a corte fazermos. Bem, despe\u00e7o-me. Senhora, passai bem. A vossa filha recomendai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Farei isso mesmo. Saberei cedo o pensamento dela. Hoje ela est\u00e1 na dor enclausurada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Senhor P\u00e1ris, atrevo-me a afian\u00e7ar-vos o amor de minha filha. Ela se deixa, quero crer, dirigir por mim em tudo. Sim, estou certo disso. Ao quarto dela subi, mulher, antes de vos deitardes. Contai-lhe o amor de nosso filho P\u00e1ris e, notai bem, contai-lhe que na pr\u00f3xima quarta-feira&#8230; Por\u00e9m, que dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Segunda, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Ah! ah! Segunda! Muito bem. Quarta-feira \u00e9 muito cedo. Ser\u00e1 na quinta. Sim, comunicai-lhe que ela desposar\u00e1 na quinta-feira este mui nobre conde. Estareis pronto? Aprovais tanta pressa? N\u00e3o faremos muito barulho; uns dois ou tr\u00eas amigos, nada mais, ora vede; porque, tendo sido morto Tebaldo, h\u00e1 pouco tempo, poderemos dar azo a que se pense que n\u00e3o lhe dedic\u00e1vamos estima como a parente, e que comemos muito. Por isso reuniremos uma d\u00fazia de amigos, t\u00e3o-somente, e&#8230; ponto nisso. E agora que dizeis de quinta-feira?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Senhor, quisera que essa quinta-feira j\u00e1 fosse amanh\u00e3 mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Podeis ir. Muito bem. Pois que seja quinta-feira. Antes de vos deitar, ide falar-lhe. Preparai-a para esse casamento. Adeus, senhor. Ol\u00e1! Luz no meu quarto! Aqui, primeiro! Aqui! J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o tarde, que, com mais um pouquinho, poderemos dizer que \u00e9 cedo. Bem, adeus. Boa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj35\" name=\"rj35\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 J\u00e1 vais partir? O dia ainda est\u00e1 longe. N\u00e3o foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. \u00c9 o rouxinol, amor; cr\u00ea no que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 a cotovia, o arauto da manh\u00e3; n\u00e3o foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos p\u00e9s o alegre dia se p\u00f5e, no pico das montanhas \u00famidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o \u00e9 do dia aquela claridade, podes acreditar-me. \u00c9 algum meteoro que o sol exala, para que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de M\u00e2ntua. Assim, espera. N\u00e3o precisas partir assim t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi que aquele ponto acinzentado n\u00e3o \u00e9 o olho do dia, mas o p\u00e1lido reflexo do diadema da alta C\u00edntia, e tamb\u00e9m que n\u00e3o foi a cotovia, cujas notas a ab\u00f3bada celeste t\u00e3o longe ferem sobre nossas frontes. Ficar \u00e9 para mim grande ventura; partir \u00e9 dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00c9 dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! \u00c9 a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca, discordantes modula\u00e7\u00f5es for\u00e7ando e insuport\u00e1veis. Dizem que ela \u00e9 s\u00f3 fonte de harmonia; n\u00e3o \u00e9 assim, pois ora nos divide. H\u00e1 quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos a voz tamb\u00e9m trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim t\u00e3o cedo, como grito de ca\u00e7a mete medo. Oh vai! A luz aumenta a cada instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 A luz? A escurid\u00e3o apavorante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Senhora!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ama?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Vossa m\u00e3e se dirige para c\u00e1. Sede prudente; j\u00e1 raiou o dia, como podereis ver. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ent\u00e3o, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Adeus, adeus! Um beijo, e des\u00e7o logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Desce.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 J\u00e1 foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Not\u00edcias quero ter todas as horas, porque um minuto encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Adeus. N\u00e3o deixarei passar um s\u00f3 momento sem te mandar contar o meu tormento.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o o duvides; todas estas dores nos servir\u00e3o ainda unicamente para doces deixar nossos col\u00f3quios.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh Deus! Um cora\u00e7\u00e3o tenho agourento. Vendo-te assim, t\u00e3o longe, s\u00f3 parece que est\u00e1s sem vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou est\u00e1s, realmente, p\u00e1lido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A afli\u00e7\u00e3o sedenta nos bebe todo o sangue. Adeus! Adeus! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00d3 fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores, mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade t\u00e3o famoso? S\u00ea inconstante, fortuna, pois espero que em vez de o seq\u00fcestrares muito tempo, logo o far\u00e1s voltar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO (<i>dentro<\/i>) \u2014 \u00d3 filha! filha! J\u00e1 est\u00e1s de p\u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Quem \u00e9 que est\u00e1 chamando? \u00c9 minha m\u00e3e? N\u00e3o se deitou ainda, ou j\u00e1 acordou t\u00e3o cedo? Qual o ins\u00f3lito motivo que a faz vir falar-me agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra a senhora Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ent\u00e3o, Julieta, como est\u00e1s?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Senhora, n\u00e3o estou boa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com l\u00e1grimas tir\u00e1-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, imposs\u00edvel te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma dor \u00e9 ind\u00edcio de amizade; mas muito choro indica pouco esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Mas deixai-me chorar t\u00e3o grande perda.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Sentis a perda, apenas, n\u00e3o o amigo, cuja perda chorais.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sentindo a perda tanto assim, outra coisa n\u00e3o me resta sen\u00e3o chorar o amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Sim, menina; n\u00e3o choras tanto pela morte dele, como porque est\u00e1 vivo o miser\u00e1vel que da vida o privou.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Que miser\u00e1vel, minha senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Esse vil\u00e3o Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Vil\u00e3o e ele estejam separados por milhares de l\u00e9guas. \u2014 Que perdoado seja por Deus como por mim j\u00e1 o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 \u00c9 que esse biltre, esse assassino ainda est\u00e1 com vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, e longe do alcance destas m\u00e3os. Oh! se eu, t\u00e3o-s\u00f3, vingar pudesse a morte do meu querido primo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ainda haveremos de ving\u00e1-lo; por isso n\u00e3o te aflijas. P\u00e1ra, pois, com essas l\u00e1grimas. A M\u00e2ntua, ex\u00edlio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe d\u00ea uma bebida t\u00e3o fora do comum, que logo ele h\u00e1 de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficar\u00e1s contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente \u2014 morto. Assim meu pobre cora\u00e7\u00e3o lamenta a perda de meu primo. Se pud\u00e9sseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu cora\u00e7\u00e3o ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te not\u00edcias mais alegres.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora, poderei sab\u00ea-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu pr\u00f3pria poderia pensar.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia ser\u00e1 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Filha, v\u00ea s\u00f3! Na quinta-feira pr\u00f3xima na igreja de S\u00e3o Pedro o conde P\u00e1ris, valente mo\u00e7o e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te far\u00e1 finalmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ora, por essa igreja de S\u00e3o Pedro, e por S\u00e3o Pedro, de mim n\u00e3o far\u00e1 ele noiva alegre. Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes at\u00e9 de me fazer a corte! Dizei, senhora, a meu senhor e pai, que n\u00e3o quero casar; \u00e9 muito cedo; e que, quando o fizer, posso jur\u00e1-lo, antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde P\u00e1ris. Eis a\u00ed novidade de primeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 A\u00ed vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso v\u00f3s mesma e vede as conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Capuleto e a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Quando o sol morre, o c\u00e9u chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove torrencialmente. Ent\u00e3o, menina, que goteira \u00e9 essa? Ainda e sempre em l\u00e1grimas? Que \u00e9 isso? Sempre a chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu chamo, fluxo e refluxo mostram, s\u00f3 de l\u00e1grimas; teu corpo \u00e9 o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os ventos, que em conflito permanente com as l\u00e1grimas se encontram e que h\u00e3o de so\u00e7obrar-te o fr\u00e1gil corpo t\u00e3o maltratado pela tempestade, se n\u00e3o fizer a tempo calmaria. Ent\u00e3o, mulher: falastes-lhe a respeito de nossa decis\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Sim, conversamos. Ela, por\u00e9m, com isso n\u00e3o concorda. Muito vos agradece. Eu desejara que essa tola casasse com seu t\u00famulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! N\u00e3o quer casar? E ainda agradece? N\u00e3o se sente orgulhosa? N\u00e3o se julga muito feliz sendo, como \u00e9, indigna \u2014 por lhe termos obtido um noivo desses, t\u00e3o digno gentil-homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Orgulhosa n\u00e3o estou, mas vos sou agradecida. N\u00e3o posso ter orgulho do que odeio; mas agrade\u00e7o justamente esse \u00f3dio que significa amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? Agradecida\u201d e \u201cn\u00e3o agradecida\u201d, \u201corgulhosa\u201d e tamb\u00e9m \u201cn\u00e3o orgulhosa\u201d&#8230; N\u00e3o precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes para, quinta-feira pr\u00f3xima, a igreja de S\u00e3o Pedro irdes com P\u00e1ris. Caso contr\u00e1rio, para l\u00e1 te levo dentro de uma carro\u00e7a. Fora! Fora! carni\u00e7a doente! Fora, marafona! cara de vela!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ora essa! Estais maluco?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Vai te enforcar, rapariguinha \u00e0-toa! Tipo desobediente! J\u00e1 te mostro. Vai quinta-feira \u00e0 igreja, ou n\u00e3o me encares nunca mais, nunca mais! N\u00e3o me repliques coisa nenhuma. Basta! N\u00e3o me fales. Nos dedos sinto c\u00f3cegas. Pens\u00e1vamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus s\u00f3 nos dera uma menina; mas vejo agora que esta j\u00e1 nos sobra e que com ela a maldi\u00e7\u00e3o nos veio. Rameira \u00e0-toa!<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Deus do c\u00e9u que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insult\u00e1-la desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Por qu\u00ea, dona prud\u00eancia? Guardai na boca a l\u00edngua sabe-tudo. Ide mas \u00e9 ensinar vossas comadres.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 De mal n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Bom proveito.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 N\u00e3o se pode falar?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas senten\u00e7as para vossas iguais. N\u00e3o precisamos delas aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Estais muito excitado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Sacramento de Deus! \u00c9 de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, s\u00f3, no meio dos companheiros, tinha apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o: sab\u00ea-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem, rico, de fina educa\u00e7\u00e3o, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e t\u00e3o proporcionado como melhor n\u00e3o fora conceb\u00edvel, l\u00e1 vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lam\u00farias, ao lhe sorrir a sorte, declarar-me:\u201cSou muito nova\u201d, \u201camar n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel\u201d, \u201cn\u00e3o desejo casar-me\u201d, \u201cdesculpai-me, por obs\u00e9quio\u201d. Pois n\u00e3o, vou desculpar-vos, se n\u00e3o quereis casar. Procurai pasto onde bem entenderdes, que aqui em casa n\u00e3o ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar n\u00e3o \u00e9 meu h\u00e1bito. Quinta-feira est\u00e1 perto; aconselhai-vos com o cora\u00e7\u00e3o. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo sereis dada. Mas se o n\u00e3o fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois \u2014 pela alma o juro! \u2014 jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poder\u00e1 ser \u00fatil. Reflete bem, pois n\u00e3o serei perjuro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o haver\u00e1 piedade em meio \u00e0s nuvens, para dor me sondar at\u00e9 o mais fundo? Oh! n\u00e3o me repilais, bondosa m\u00e3e! Adiai esse espos\u00f3rio pelo prazo de um m\u00eas, uma semana; ou se imposs\u00edvel vos for tal coisa, preparai o t\u00e1lamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra sepultado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 N\u00e3o me fales. N\u00e3o digo nada; faze o que entenderes, que para mim n\u00e3o representas nada. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh Deus! \u00d3 ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a f\u00e9, no c\u00e9u. De que modo essa f\u00e9 poder\u00e1 vir-me de novo para a terra, a menos que ele do c\u00e9u ma envie, ap\u00f3s deixar a terra? Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o c\u00e9u de tais estratagemas com um ser t\u00e3o delicado! N\u00e3o me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Sim, digo isto: Romeu est\u00e1 banido; o mundo todo contra nada, em como ele n\u00e3o retorna para vos reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, for\u00e7oso \u00e9 que isso seja muito \u00e0s ocultas. Ora, estando as coisas nesse p\u00e9, mais razo\u00e1vel me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo t\u00e3o gracioso! Romeu, ao lado dele, n\u00e3o \u00e9 mais do que um pano de cozinha. Uma \u00e1guia, senhorita, n\u00e3o tem olhos t\u00e3o penetrantes, verdes e bonitos como os de P\u00e1ris. Quero que maldito fique meu cora\u00e7\u00e3o, se venturosa n\u00e3o vos fizer este segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que n\u00e3o vencesse, aquele j\u00e1 est\u00e1 morto, ou \u00e9 como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Falas de cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 E tamb\u00e9m de alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha m\u00e3e que por haver deixado meu pai aborrecido, fui \u00e0 cela de frei Louren\u00e7o, com o fim de confessar-me para ser absolvida.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Dir-lhe-ei isso; procedeis bem. (<i>Sai,<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh velha amaldi\u00e7oada! Oh dem\u00f4nio perverso! Que pecado ser\u00e1 maior: querer-me ver perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milh\u00f5es de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge. Dar-me-\u00e1 rem\u00e9dio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj41\" name=\"rj41\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Cela de Frei Louren\u00e7o. Entram frei Louren\u00e7o e P\u00e1ris.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Quinta-feira, senhor? O prazo \u00e9 curto.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Foi o pai Capuleto que assim quis, sem que eu propenso esteja para frouxa deixar a pressa dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Mas dissestes que n\u00e3o sabeis ainda o que a donzela sobre isso resolveu. Esse caminho n\u00e3o o considero certo; n\u00e3o me agrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Chora sem pausa a morte de Tebaldo. Por essa causa, pouco conversamos a respeito de amor; n\u00e3o sorri V\u00eanus numa casa de l\u00e1grimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela entregar-se desse modo \u00e0 tristeza, e tem em sua sabedoria posto pressa \u00e0s n\u00fapcias, para sustar a inunda\u00e7\u00e3o das l\u00e1grimas. O que na solid\u00e3o toma incremento, pode minguar na vida em sociedade. Sabeis, pois, as raz\u00f5es de tanta pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Quisera n\u00e3o saber quais os motivos que \u00e0 dila\u00e7\u00e3o obrigam. \u2014 Vede, conde: a\u00ed vem a dama em dire\u00e7\u00e3o cela.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Feliz encontro, minha esposa e dona!<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Assim poder\u00e1 ser, quando casar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 O &#8220;poder\u00e1&#8221; ser\u00e1 na quinta-feira pr\u00f3xima.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 O que tiver de ser, ser\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 \u00c9 um dito muito certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Aqui viestes para vos confessar com este monge?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Dar-vos uma resposta, j\u00e1 seria confessar-me convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Revelai-lhe que me tendes amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 A v\u00f3s diria que lhe dedico amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Do mesmo modo lhe direis que me amais, tenho certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Se assim fosse, teria mais valia n\u00e3o vos dizer no rosto, mas nas costas.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Pobre alma, o rosto as l\u00e1grimas te ofendem.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00c9 vit\u00f3ria pequena para as l\u00e1grimas, pois, antes disso, ele j\u00e1 era feio.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Mais o ofendeste agora, assim falando, do que com tuas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Cal\u00fania n\u00e3o foi, senhor; s\u00f3 disse o que \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Teu rosto \u00e9 meu; com isso o caluniaste.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Pode ser, que a mim mesma n\u00e3o pertence. Tendes vagar agora, santo padre, ou voltar devo \u00e0 tarde, para a missa?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Tenho vagar agora, minha filha pensativa. Senhor, ser\u00e1 preciso que nos deixeis sozinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Deus n\u00e3o queira que eu possa perturbar a devo\u00e7\u00e3o! Julieta, quinta-feira, bem cedinho, hei de vos despertar. At\u00e9 esse instante, adeus: Ficai com este beijo pio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh! fecha a porta logo! E, ap\u00f3s a teres fechado, vem tamb\u00e9m chorar comigo. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a, nem rem\u00e9dio, n\u00e3o h\u00e1 socorro algum.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 \u00d3 Julieta! j\u00e1 sei do teu desgosto. Ele ultrapassa de muito meus esp\u00edritos. Disseram-me que vais casar na quinta-feira pr\u00f3xima com o Conde P\u00e1ris, sem que nada possa adiar a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o me fales, padre, no que soubeste a esse respeito, se o meio n\u00e3o disseres de evit\u00e1-lo. Se em toda tua ci\u00eancia n\u00e3o achares nenhum recurso, ao menos chamai s\u00e1bia minha resolu\u00e7\u00e3o, pois esta faca j\u00e1 j\u00e1 me ensejar\u00e1 rem\u00e9dio pronto. Meu cora\u00e7\u00e3o e o de Romeu reunidos foram por Deus; as m\u00e3os tu nos juntaste. Antes, pois, que esta m\u00e3o, por ti fechada na de Romeu, possa servir de timbre para outra transa\u00e7\u00e3o, ou que o meu fido cora\u00e7\u00e3o, com perf\u00eddia revoltosa, corra para outro, assim os dois liquido. Por tudo isso, com tua experi\u00eancia, d\u00e1-me logo um conselho. Do contr\u00e1rio, ver\u00e1s como esta faca sanguin\u00e1ria de \u00e1rbitro vai servir entre mim pr\u00f3pria e a minha dor imensa, decidindo sobre o que a autoridade de teus anos e de tanto saber n\u00e3o conseguiram levar a termo honroso. N\u00e3o retardes a resposta. Viver me causa t\u00e9dio, se falar n\u00e3o me vieres do rem\u00e9dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 P\u00e1ra, filha! Vislumbro uma esperan\u00e7a, mas a tal ponto desesperadora, como \u00e9 desesperado o que queremos impedir que aconte\u00e7a. Se energia tens suficiente para suicidar-te, s\u00f3 para a m\u00e3o n\u00e3o dar ao Conde P\u00e1ris, ser\u00e1 melhor, ent\u00e3o, que te resolvas a empreender algo que suic\u00eddio lembra, para afastar o opr\u00f3brio, assim lutando com a morte, para dela te furtares. Se ousares isso, arranjarei os meios.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Oh! mandai que eu me jogue das ameias daquela torre, mas de casamento com o conde n\u00e3o faleis; ou concitai-me a andar pelas estradas de assaltantes, ou a esconder-me em ninhos de serpentes; amarrai-me com ursos rugidores; numa carneira me fechai \u00e0 noite, cheia de ossos humanos, que se choquem, de t\u00edbias negras, cr\u00e2nios sem mand\u00edbulas; mandai-me entrar num t\u00famulo recente, para esconder-me, ao lado do defunto, sob sua pr\u00f3pria mortalha; coisas essas que, s\u00f3 de ouvir, tremer j\u00e1 me fizeram. Sem a menor vacila\u00e7\u00e3o, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha de quem amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Escuta, ent\u00e3o: vai para casa, mostra-te alegre e dize que disposta te achas a desposar o conde. Quarta-feira \u00e9 amanh\u00e3; amanh\u00e3, noite, deita-te sozinha, sem que fique a ama no quarto. Toma este frasco, e quando te deitares em tua cama, bebe seu conte\u00fado, que pelas veias, logo, h\u00e1 de correr-te humor frio, de efeito entorpecente, sem que a bater o pulso continue em seu curso normal, parando logo. Calor nenhum nem h\u00e1lito tua vida poder\u00e3o atestar; mudadas ficam essas rosas das faces e da boca em cinza desmaiada, a cair vindo as janelas dos olhos, como quando fecha o dia da vida a morte escura. Do male\u00e1vel poder os membros todos ficando, ent\u00e3o, privados, h\u00e3o de frios e r\u00edgidos tornar-se como a morte. Vinte e quatro horas ficar\u00e1s com esse t\u00e9trico aspecto da engelhada morte, para acordar como de um doce sono. Quando, portanto, cedo vier o noivo despertar-te do leito, estar\u00e1s morta. Ent\u00e3o \u2014 como \u00e9 costume em nossa terra \u2014 com belas vestes, num esquife aberto, posta ser\u00e1s no mesmo antigo t\u00famulo em que toda a fam\u00edlia Capuleto tem sido sepultada. Nesse em meio, antes de despertares, Romeu h\u00e1 de, por minhas cartas, conhecer o que houve e vir\u00e1 para c\u00e1. Aguardaremos, eu e ele, que despertes, conduzindo-te Romeu, na mesma noite, para M\u00e2ntua. Do opr\u00f3brio amea\u00e7ador esse projeto te livrar\u00e1, se o medo feminino ou o capricho vol\u00favel, \u00e0 \u00faltima hora, n\u00e3o te privarem do valor consueto.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Dai-mo! dai-mo! e vereis se tenho medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Eis aqui. Parti logo e conservai-vos nessa resolu\u00e7\u00e3o. Vou mandar prestes a M\u00e2ntua um portador com uma carta de minha parte para teu marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Triunfe o amor, e eis tudo resolvido. Adeus, meu caro padre. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj42\" name=\"rj42\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo, Sala em casa de Capuleto. Entram Capuleto, senhora Capuleto, ama e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Convidai as pessoas desta lista. (<i>Sai o criado.<\/i>) E tu, maroto a\u00ed! Vai contratar-me vinte h\u00e1beis cozinheiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 N\u00e3o arranjareis nenhum cozinheiro ruim, senhor, porque eu me incumbirei de verificar se eles sabem lamber os dedos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 E de que modo conseguir\u00e1s isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Ora, senhor, o cozinheiro que n\u00e3o sabe lamber os dedos, n\u00e3o presta. Por isso, deixarei de trazer os que n\u00e3o souberem faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Est\u00e1 bem; vai logo. (<i>Sai o segundo criado.<\/i>) Vai faltar muita coisa; o tempo \u00e9 curto. Quem saber\u00e1 dizer-me se Julieta foi cela do monge?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Foi, realmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Talvez ele lhe d\u00ea um bom conselho. \u00c9 uma rapariguinha cabe\u00e7uda.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ei-la contente; vem da confiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Ent\u00e3o, cabe\u00e7udinha? Onde estivestes saracoteando?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Onde aprendi, realmente, a arrepender-me do pecado grave de desobedecer a vossas ordens, tendo-me frei Louren\u00e7o, esse santo homem, ordenado que viesse aqui prostrar-me para pedir perd\u00e3o. Perd\u00e3o vos pe\u00e7o. De hoje em diante sereis meu guia em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Ide chamar o conde; contai-lhe isso. Ser\u00e1 firmado o enlace amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Vi o conde na cela de Louren\u00e7o, tendo-lhe dado tudo o que \u00e9 poss\u00edvel conceder dentro da \u00e1rea da mod\u00e9stia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Isso me alegra muito. Bem; levanta-te. Assim vai tudo bem. Vou ver o conde. Com a breca! Ol\u00e1, maroto! vai busc\u00e1-lo. Deus louvado. Esse frade reverendo, toda a cidade o tem em grande estima.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Quereis, ama, ir comigo at\u00e9 o meu quarto para escolhermos juntas os enfeites que mais pr\u00f3prios achardes para a festa?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 N\u00e3o; at\u00e9 quinta-feira h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Vai, ama; vai com ela. N\u00f3s iremos at\u00e9 \u00e0 igreja amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Julieta e a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 V\u00e3o faltar provis\u00f5es, e \u00e9 quase noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Oh diabo! Vou mexer-me; e tudo, tudo, mulher, termina bem, posso afirmar-te. Vai ajudar Julieta nos enfeites. Deixem-me s\u00f3; hoje n\u00e3o vou deitar-me. Por esta vez serei dona de casa. Ol\u00e1, rapazes! Qual! sa\u00edram todos. Irei sozinho ver o Conde P\u00e1ris, para anim\u00e1-lo para amanh\u00e3 cedo. O cora\u00e7\u00e3o por demais leve sinto desde que essa menina criou ju\u00edzo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj43\" name=\"rj43\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Julieta e a ama.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, estas s\u00e3o as pe\u00e7as mais bonitas. Mas, gentil ama, deixa-me esta noite; desejo ficar s\u00f3, pois necessito de rezar muito, para que consiga fazer sorrir o c\u00e9u para o meu lado, pois bem sabeis: tenho a alma atormentada e cheia de pecados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra a senhora Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ocupada bastante, n\u00e3o? Necessitais de mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 N\u00e3o, senhora; escolhemos, t\u00e3o-somente, quanto nos pareceu mais necess\u00e1rio para amanh\u00e3 vestir na cerim\u00f4nia. Assim, vos pe\u00e7o me deixeis sozinha, dormindo a ama esta noite em vosso quarto, pois sei que vos achais assoberbada de ocupa\u00e7\u00f5es para esta festa s\u00fabita.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Boa noite, ent\u00e3o. E tu, podes deitar-te; n\u00e3o temos precis\u00e3o de teus servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem a senhora Capuleto e a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Adeus. Deus sabe quando nos veremos outra vez. Pelas veias me passeia um medo frio e l\u00e2nguido, que quase deixa o calor da vida inteiri\u00e7ado. Vou cham\u00e1-los de novo para darem-me coragem. Ama!&#8230; Mas, por que vir c\u00e1? Precisarei representar sozinha meu terr\u00edvel papel. Vamos, frasquinho. E se esta droga n\u00e3o fizer efeito? Terei de me casar amanh\u00e3 cedo? N\u00e3o; isto o impedir\u00e1. Fica aqui perto. (<i>P\u00f5e de lado um punhal.<\/i>) E se for um veneno que esse frade com ast\u00facia me deu para matar-me, temendo o opr\u00f3brio que podia vir-lhe do casamento, por me haver casado com Romeu antes disso? Sinto medo. Contudo, quero crer, n\u00e3o o faria, pois como santo \u00e9 tido h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o devo ter t\u00e3o baixo pensamento. E se, depois de estar na sepultura, eu vier a despertar, sem que Romeu chegue para salvar-me? Oh caso horr\u00edvel! N\u00e3o ficarei asfixiada dentro da sepultura, cuja boca imunda n\u00e3o respira ar sadio, e, assim, morrendo sufocada sem vir o meu Romeu? Ou se eu viver, n\u00e3o ser\u00e1 mui plaus\u00edvel que aquela imagem de negror e morte, associada ao pavor do pr\u00f3prio ponto \u2014 um sepulcro, carneira onde h\u00e1 centenas de meus antepassados; onde se acha desde pouco Tebaldo ensang\u00fcentado, a decompor-se em seu sud\u00e1rio branco; onde, assim dizem, em determinadas horas da noite esp\u00edritos vagueiam?&#8230; Ai! ai de mim! Pois n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel que eu venha a despertar antes do tempo?&#8230; Aquele cheiro repugnante, os gritos que como o das mandr\u00e1goras, ao serem arrancadas da terra, influem loucura em todos quantos porventura os ouvem&#8230; Ao despertar n\u00e3o ficarei demente no meio desses medos pavorosos, pondo-me, louca, a remexer nos ossos de meus antepassados, e a puxar de seu len\u00e7ol Tebaldo mutilado? Ou, tomada de f\u00faria, com um osso de um dos meus bisav\u00f3s, que ir\u00e1 servir-me de clava n\u00e3o farei saltar meu c\u00e9rebro desesperado? Oh! vede! o esp\u00edrito parece de meu primo, que anda em busca de Romeu, que espetou seu pobre corpo na ponta do punhal. P\u00e1ra, Tebaldo! Romeu, aqui! Bebo isto por tua causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Cai sobre o leito, para dentro das cortinas.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj44\" name=\"rj44\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Sala da casa de Capuleto. Entram a senhora Capuleto e a ama.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ama, toma estas chaves e nos traze mais temperos e cheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Os pasteleiros querem marmelo e t\u00e2mara.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Depressa! Mexam-se! Vamos! O segundo galo j\u00e1 cantou e o sinal de apagar fogo h\u00e1 muito j\u00e1 foi dado. S\u00e3o tr\u00eas horas. Cuida dos bolos, minha boa Ang\u00e9lica, sem poupar coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ide, ide embora, metedi\u00e7o; o len\u00e7ol est\u00e1 chamando. Por minha f\u00e9, assim ficais doente, por haverdes velado a noite toda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Nem um pouquinho. Ora essa! Muitas noites j\u00e1 passei acordado por motivos bem menores, sem ter ficado doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 \u00c9 certo, em vossa mocidade and\u00e1veis a ca\u00e7ar ratos; mas agora eu tomo sobre mim o trabalho de poupar-vos de tais ca\u00e7adas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem a senhora Capuleto e a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Oh ci\u00fames! ci\u00fames! (<i>Entram tr\u00eas ou quatro criados, com espetos, achas de lenha e cestos.<\/i>) Amigos, que levais a\u00ed dentro?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Coisas que o cozinheiro reclamou, senhor; n\u00e3o sei bem o que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Pressa! pressa! (<i>Sai o primeiro criado.<\/i>) e tu, maroto, traze lenha seca; Pedro pode indicar onde \u00e9 o dep\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Tenho cabe\u00e7a para achar a lenha; n\u00e3o vou incomodar para isso o Pedro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Raios! Boa resposta! O sem-vergonha tem g\u00eanio alegre, ah! ah! Dar\u00e1 bom cepo. Por minha f\u00e9, j\u00e1 \u00e9 dia; mais um pouco e o conde chegar\u00e1 mais os seus m\u00fasicos. Foi o que ele que disse. (<i>Ouve-se m\u00fasica..<\/i>) Ei-lo! J\u00e1 o ou\u00e7o. Ama! Mulher! Estou chamando. Ol\u00e1! (<i>Volta a ama.<\/i>) Vai acordar Julieta e prepar\u00e1-la. Vou conversar com P\u00e1ris. Toda pressa! Mais pressa nisso! O noivo j\u00e1 est\u00e1 pronto. Mais pressa! digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj45\" name=\"rj45\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Quarto de Julieta.<br \/>\n(Entra a ama.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Senhora, ol\u00e1! Julieta! \u00c9 quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Ent\u00e3o, senhora? Ent\u00e3o? Que dorminhoca! Ent\u00e3o, amor? Senhora! Estou chamando&#8230; Cora\u00e7\u00e3ozinho! Noiva!&#8230; Como! Muda? Agora desforrais a vossa parte, dormindo uma semana; mas garanto-vos que na noite que vem o Conde P\u00e1ris repouso n\u00e3o ter\u00e1, porque repouso tamb\u00e9m n\u00e3o possais ter. Deus me perdoe. Santa Virgem e am\u00e9m! Que sono calmo! Mas preciso acord\u00e1-la. Ol\u00e1, senhora! Que o conde venha vos tirar da cama, e hei de vos espantar. N\u00e3o falei certo? Como assim? J\u00e1 vestistes toda a roupa, e outra vez a dormir? Vou despert\u00e1-la, Senhora! Ol\u00e1!&#8230; Oh Deus!&#8230; Socorro! A patroa est\u00e1 morta!&#8230; Aqui!&#8230; Socorro! Oh dia triste! Assim nunca eu nascesse. <i>Aqua vitae<\/i>! Senhor! Senhora!&#8230; Acudam!..<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra a senhora Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Que barulheira \u00e9 essa?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh dia triste!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Que aconteceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Olhai, senhora&#8230; Oh dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Oh! minha \u00fanica filha! Minha filha! Reanima-te, olha para mim, ou deixa-me morrer tamb\u00e9m contigo. Aqui! Socorro! Vai chamar gente!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Capuleto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Que vergonha! Trazei Julieta logo; o noivo j\u00e1 chegou.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Est\u00e1 sem vida, morta, sem vida! Oh dia desgra\u00e7ado!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Oh que dia! Morreu! Morreu! Morreu!<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Deixai-me v\u00ea-la. Oh dor! J\u00e1 est\u00e1 gelada. O sangue est\u00e1 parado; os membros, duros. Estes l\u00e1bios e a vida h\u00e1 muito tempo separados j\u00e1 est\u00e3o. A morte se acha sobre ela como geada mui precoce sobre a flor mais gentil de todo o campo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh dia lament\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Oh tristeza!<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 A morte que a tirou de mim com o fito de fazer-me gemer, a l\u00edngua me ata, n\u00e3o me deixando pronunciar palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram frei Louren\u00e7o e P\u00e1ris, com m\u00fasicos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 A noiva j\u00e1 est\u00e1 pronta para a igreja?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Sim, para ir para a igreja, sem que nunca possa de l\u00e1 voltar. \u00d3 filho, a morte, na v\u00e9spera do dia de tuas n\u00fapcias, deitou-se com tua noiva; \u00e9 minha herdeira; cortejou minha filha. Morrer quero, para levar \u00e0 morte o que possuo: vida, bens; tudo \u00e9 dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Quis tanto ver a face deste dia, para enfim contemplar este espet\u00e1culo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Dia infeliz, maldito, desgra\u00e7ado! A hora mais triste que j\u00e1 viu o tempo em toda a sua peregrina\u00e7\u00e3o comprida e laboriosa. Uma s\u00f3 filha, uma s\u00f3, pobre filha, e t\u00e3o amada, para gozo e consolo um ser apenas, e a cruel morte arrancar-ma, assim, da vista<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Oh dia triste! Oh dia triste! Oh dor! O dia mais escuro e lament\u00e1vel que eu vi em toda. a vida. Oh dia triste! Oh dia odioso! Oh dia! Oh dia triste Nunca vi dia de t\u00e3o densas trevas. Oh dia triste! Oh dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Ludibriado, ofendido, separado desprezado, destru\u00eddo&#8230; Morte odiosa, ludibriado por ti, por ti, cruel morte, arruinado de todo. Oh amor! Oh vida&#8230;! N\u00e3o, vida n\u00e3o: amor na pr\u00f3pria morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Odiado, desprezado, desolado, martirizado, morto! Inconsol\u00e1vel tempo, por que motivo vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh filha! Filha, n\u00e3o: alma querida! J\u00e1 n\u00e3o vives! morreste! Ah! minha filha j\u00e1 n\u00e3o vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Calma! pe\u00e7o-vos; a cura da desordem vir n\u00e3o pode da desorienta\u00e7\u00e3o. Tal como v\u00f3s, tinha o c\u00e9u parte nesta bela crian\u00e7a. Agora o c\u00e9u tem tudo, o que \u00e9, por certo, melhor para a donzela. N\u00e3o vos fora poss\u00edvel subtrair da morte a parte que t\u00ednheis nela, mas o c\u00e9u \u00e0 dele vida eterna vai dar. O que quer\u00edeis era v\u00ea-la elevada; todo o vosso c\u00e9u consistia justamente nisso. E agora a lastimais, vendo-a exaltada, t\u00e3o acima das nuvens, no alto c\u00e9u? Com vosso amor amais a vossa filha t\u00e3o mal que vos mostrais desesperados por sab\u00ea-la t\u00e3o bem? As bem casadas n\u00e3o s\u00e3o as que assim vivem muito tempo; mas bem casada est\u00e1 quem morre cedo. Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante rosmaninho, e, tal como \u00e9 de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja. Embora chorar mande a natureza, ri a raz\u00e3o ao choro da tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral. Os instrumentos viram melanc\u00f3licos sinos; nosso festim, jantar fun\u00e9reo; nossos hinos solenes, puras n\u00eanias; as flores nupciais ir\u00e3o de enfeite servir para o cad\u00e1ver, transmudando-se, assim, em seu contr\u00e1rio as coisas todas.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Retirai-vos, senhor; acompanhai-o, minha senhora; e v\u00f3s, conde, tamb\u00e9m. Que todos se preparem para o belo corpo levar tumba. Porventura o c\u00e9u vos pune por qualquer maldade; n\u00e3o o irriteis, pois essa \u00e9 a sua vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Capuleto, a senhora Capuleto, P\u00e1ris e monge.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Por minha f\u00e9, podemos guardar as gaitas e ir embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMA \u2014 Ah! meus homens, guardai-as, guardai-as, que isso \u00e9 um caso doloroso!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Oh! \u00e9 certo; poderia ser melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pedro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 M\u00fasicos! Ol\u00e1! \u201cAlegra-te, cora\u00e7\u00e3o! Alegra-te, cora\u00e7\u00e3o!\u201d Se quereis que eu viva, tocai \u201cAlegra-te cora\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Por que \u201cAlegra-te, cora\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Oh! m\u00fasicos, porque meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o toca \u201cO cora\u00e7\u00e3o me pesa de tristeza\u201d. Oh! tocai uma litania alegre, para reconfortar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO M\u00daSICO \u2014 N\u00e3o, nada de litanias; n\u00e3o \u00e9 hora de tocar m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o quereis tocar?<\/p>\n<p align=\"justify\">M\u00daSICOS \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Nesse caso vou tratar-vos como o mereceis.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 De que modo pretendes tratar-nos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 com dinheiro, \u00e9 claro; mas com pilh\u00e9rias. Vou arranjar-vos um arranhador de rabeca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Nesse caso eu arranjarei para ti um servente de cozinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 E eu vos atirarei na cabe\u00e7a a faca do servente de cozinheiro. Eu sou assim; n\u00e3o levo sem\u00ednimas para casa. Vou fazer de v\u00f3s r\u00e9 e f\u00e1. Tomastes nota?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Se de n\u00f3s fizerdes r\u00e9 e f\u00e1, viraremos notas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO M\u00daSICO \u2014 Por obs\u00e9quio, por obs\u00e9quio: esconde essa faca e mostra o esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Tomai cuidado com meu espirito! Vou malhar-vos com meu esp\u00edrito de a\u00e7o e embainhar minha faca. Respondei-me como homens: Quando a dor e a tristeza libertinas me oprimem a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica de notas argentinas&#8230; Por que \u201cnotas argentinas\u201d? Por que \u201cm\u00fasica de notas argentinas\u201d? Que dizeis a isso, Sim\u00e3o Catling?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Ora, senhor, porque a prata tem um som agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Tolice! Que pensais, Hugo Rabeca?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO M\u00daSICO \u2014 Penso que \u201cnotas argentinas\u201d significam que os m\u00fasicos tocam suas notas para adquirir prata.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Oh! pe\u00e7o perd\u00e3o. E sois cantores! Vou dar a explica\u00e7\u00e3o por v\u00f3s. A frase \u201cm\u00fasica de notas argentinas\u201d significa que os m\u00fasicos nunca v\u00eaem ouro com suas notas&#8230;a m\u00fasica de notas argentinas com seu poder me deixa outra vez s\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO M\u00daSICO \u2014 Que sujeito pestilencioso!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO M\u00daSICO \u2014 Que se enforque! Vamos; entremos, para assistir ao enterro e esperar pelo jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj51\" name=\"rj51\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>M\u00e2ntua. Uma rua. Entra Romeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Se eu tiver de dar cr\u00e9dito \u00e0 verdade do sono aduladora, os sonhos dizem-me que est\u00e1 iminente alguma alegre nova. Em seu trono sentado est\u00e1 de leve o senhor do meu peito, e o dia todo com risonhas imagens um esp\u00edrito desconhecido me ergue do ch\u00e3o duro. Sonhei que meu amor tinha chegado e me encontrara morto. Estranho sonho, que n\u00e3o destr\u00f3i no morto o pensamento! E com beijos tal vida me insuflava que eu revivi e imperador tornei-me. Qu\u00e3o doce deve ser o amor possu\u00eddo, se assim t\u00e3o venturoso \u00e9 sua sombra! (<i>Entra Baltasar, de botas.<\/i>) Not\u00edcias de Verona! Que acontece, Baltasar? Frei Louren\u00e7o mandou carta? E meu pai, est\u00e1 bem? Minha Julieta, como a deixaste? Torno a perguntar-te, nada ir\u00e1 mal, se bem ela estiver.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Ent\u00e3o ela est\u00e1 bem; nada est\u00e1 mal. Seu corpo est\u00e1 dormindo no sepulcro dos Capuletos e a imortal ess\u00eancia vive agora entre os anjos. Vi quando ela foi deposta na tumba da fam\u00edlia. Perdoai-me por trazer-vos tais not\u00edcias; mas destes-me, senhor, essa incumb\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9 assim? Ent\u00e3o, estrelas, desafio-vos! Sabes bem onde eu moro; vai buscar-me papel e tinta e aluga-me uns cavalos. Partirei esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Revesti-vos de paci\u00eancia, senhor, vos pe\u00e7o; tendes p\u00e1lidas as fei\u00e7\u00f5es e desvairadas, pressagiando desgra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o; enganas-te. Vai logo e faze o que te disse h\u00e1 pouco. N\u00e3o me mandou o monge alguma carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Nenhuma, bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Bem; n\u00e3o importa. Vai tratar logo de alugar cavalos; irei j\u00e1 para casa. (<i>Sai Baltasar.<\/i>) Bem, Julieta; deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios&#8230; \u00d3 desgra\u00e7a! como rapidamente te intrometes nos pensamentos dos desesperados! Lembro-me de ter visto um botic\u00e1rio \u2014 mora aqui perto \u2014 n\u00e3o faz muito tempo, maltrapilho, de cenho carregado, a separar suas ervas. Rosto esqu\u00e1lido, tinha-o ro\u00eddo at\u00e9 aos ossos a mis\u00e9ria. Pendida via-se uma tartaruga em sua pobre loja, um crocodilo morto e empalhado, e muitas outras peles de peixes desconformes; pelas sujas prateleiras, uns montes miser\u00e1veis de caixinhas vazias, potes verdes, bexigas e sementes bolorentas, restos de fios, velhos p\u00e3es de rosas, magramente espalhados para efeito. Vendo tanta mis\u00e9ria, a s\u00f3s comigo observei que se algu\u00e9m necessitasse algum dia veneno que, sob pena de morte agora n\u00e3o se vende em M\u00e2ntua, ali vivia um desgra\u00e7ado escravo que decerto o vendera. Oh! essa id\u00e9ia veio muito antes da necessidade. Esse coitado vai vender-me a droga. Se n\u00e3o me engano, a casa \u00e9 aqui defronte. Sendo feriado, a loja est\u00e1 fechada. Ol\u00e1! oh!&#8230; Botic\u00e1rio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o botic\u00e1rio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTIC\u00c1RIO \u2014 Quem me chama com tanta for\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Vem aqui, amigo. Vejo que \u00e9s pobre; toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma dracma de veneno, mas droga t\u00e3o violenta que t\u00e3o veloz se espalhe pelas veias, que a pessoa cansada desta vida, bebendo-a, caia morta, e que do corpo o f\u00f4lego se aparte t\u00e3o depressa como p\u00f3lvora acesa, ao desprender-se do fatal ventre do canh\u00e3o medonho.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTIC\u00c1RIO \u2014 Possuo esse veneno perigoso; por\u00e9m as leis de M\u00e2ntua morte certa cominam para quantos o venderem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 \u00c9s t\u00e3o nu e t\u00e3o cheio de mis\u00e9rias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas faces; as ang\u00fastias e o infort\u00fanio de fome em teu olhar est\u00e3o morrendo; do dorso pendem-te a mis\u00e9ria e a ofensa. N\u00e3o se te mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo. Em todo o mundo n\u00e3o h\u00e1 uma lei para deixar-te rico. N\u00e3o sejas pobre, ent\u00e3o; passa por cima da lei e toma isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTIC\u00c1RIO \u2014 Aceita a minha pobreza o que me d\u00e1s, n\u00e3o a vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 N\u00e3o a vontade, pago-te a pobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTIC\u00c1RIO \u2014 Ponde isto em qualquer l\u00edquido; tomando-o, embora a resist\u00eancia possuirdes de vinte homens, caireis de pronto morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que n\u00e3o podes vender. Dei-te veneno; n\u00e3o tu a mim. Adeus. Compra alimento e engorda um pouco mais. Vamos, cordial, n\u00e3o veneno. Ao sepulcro vem comigo de Julieta, mostrar que \u00e9s meu amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj52\" name=\"rj52\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Verona. Cela de frei Louren\u00e7o. Entra frei Jo\u00e3o<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FREI JO\u00c3O \u2014 Santo irm\u00e3o franciscano! Ol\u00e1, irm\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra frei Louren\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 A voz \u00e9 de frei Jo\u00e3o. Deve ser ele. \u00d3 tu que vens de M\u00e2ntua, s\u00ea bem-vindo. Romeu que disse? Ou ent\u00e3o, se o pensamento mandou escrito, d\u00e1-me sua carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI JO\u00c3O \u2014 Fui procurar um frade de nossa ordem de p\u00e9s descal\u00e7os, que visita os doentes, para ir comigo a M\u00e2ntua, mas os guardas da cidade, pensando que tiv\u00e9ssemos estado numa casa em que a infecciosa pestil\u00eancia domina, as portas logo fecharam, n\u00e3o deixando que sa\u00edssemos. Desta arte minha pressa de ir a M\u00e2ntua ficou parada.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 E quem levou a carta para Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o pude remet\u00ea-la \u2014 ei-la aqui outra vez \u2014 tentei, embalde, achar um portador para lev\u00e1-la, tanto medo t\u00eam todos de infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Quanta falta de sorte! Por minha ordem, essa carta n\u00e3o \u00e9 sem import\u00e2ncia, mas de peso e conte\u00fado muito grave. O atraso pode ser de conseq\u00fc\u00eancias muito s\u00e9rias. Frei Jo\u00e3o, vai bem depressa buscar uma alavanca; estou na cela.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI JO\u00c3O \u2014 Pois n\u00e3o, irm\u00e3o; lev\u00e1-la-ei j\u00e1 j\u00e1. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Agora tenho de ir sozinho ao t\u00famulo. Dentro destas tr\u00eas horas vai a bela Julieta despertar; vai maldizer-me porque Romeu ficou sem ter not\u00edcias de quanto aconteceu. Mas para M\u00e2ntua vou escrever de novo; em minha cela vou deix\u00e1-la escondida, at\u00e9 que possa Romeu chegar aqui. Pobre cad\u00e1ver vivo, enterrado numa sepultura! (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"rj53\" name=\"rj53\"><\/a><\/p>\n<h2 align=\"justify\">Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um cemit\u00e9rio, com o t\u00famulo dos Capuletos. Entram P\u00e1ris e seu pajem, trazendo flores e uma tocha.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 D\u00e1-me a tocha, rapaz, e fica \u00e0 parte. N\u00e3o, apaga-a; n\u00e3o quero que me vejam. Deita-te ali embaixo do cipreste e o ouvido encosta junto do oco solo. Assim, n\u00e3o pisar\u00e1 o cemit\u00e9rio nenhum p\u00e9, sendo o solo pouco firme, frouxo e escavado pelas sepulturas, sem que o percebas. Deves assobiar-me, em sinal de que vem chegando gente. D\u00e1-me essas flores. Faze o que te disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Sinto um pouco de medo, por sozinho me ver no cemit\u00e9rio. Mas que seja. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Minha querida flor, espalho flores em teu leito \u2014 Oh! de pedras \u00e9 o dossel! \u2014 De \u00e1gua \u00e0 noite trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel. Os funerais de nossa desventura flores far-te-\u00e3o nascer na sepultura. (<i>O pajem assobia.<\/i>) O menino me avisa que vem gente. Que p\u00e9 maldito pisa estes caminhos durante a noite, para perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro? Como! Traz uma tocha? Noite, esconde-me durante alguns instantes. (<i>Retira-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Romeu e Baltasar, com uma tocha, enxad\u00e3o, etc.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 D\u00e1-me o ferro e o enxad\u00e3o. Toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entreg\u00e1-la ao meu senhor e pai. Agora, a tocha. Por tua vida te exorto: embora vejas e ou\u00e7as seja o que for, fica a de parte, sem vires perturbar-me. Se ora des\u00e7o a este leito de morte, em parte \u00e9 apenas para o rosto ainda ver de minha esposa, mas, sobretudo, para de seu dedo de morta o anel tirar muito precioso que necessito para um caso extremo. Por isso, parte logo. Mas se, acaso s\u00f3 por curiosidade retornares para espiar o que fazer pretendo: pelo c\u00e9u! quebrar-te-ei todas as juntas e encherei o faminto cemit\u00e9rio com partes de teu corpo. Meus intuitos a esta hora s\u00e3o selvagens, mais violentos e inexor\u00e1veis ainda do que o tigre faminto e o mar revolto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Assim, me provar\u00e1s tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo, passa bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. N\u00e3o confio nele e temo seu olhar. (<i>Retira-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Matriz da morte. detest\u00e1vel maxila, que est\u00e1s cheia da mais cara part\u00edcula da terra: assim te for\u00e7o os maxilares podres (<i>Abre a sepultura.<\/i>) e te obrigo a aceitar mais alimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Este \u00e9 o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incompar\u00e1vel. Ei-lo agora que vem para fazer nesses cad\u00e1veres alguma vilania oprobriosa. Vou prend\u00ea-lo. (<i>Adianta-se.<\/i>) Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! \u00c9 cr\u00edvel que a vingan\u00e7a v\u00e1 al\u00e9m da pr\u00f3pria morte? Est\u00e1s preso, banido desprez\u00edvel. Obedece e me segue; morrer deves.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Devo morrer, \u00e9 fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar n\u00e3o queiras um desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te, mancebo, n\u00e3o me fa\u00e7as arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim pr\u00f3prio armado. N\u00e3o fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS \u2014 Import\u00e2ncia n\u00e3o dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Queres me provocar? Ent\u00e3o defende-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Batem-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Batem-se, oh Deus! Vou j\u00e1 chamar a guarda. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00c1RIS (<i>cai<\/i>) \u2014 Estou morto! Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ROMEU \u2014 Em verdade o farei. Por\u00e9m vejamos estas fei\u00e7\u00f5es: o nobre conde P\u00e1ris, parente de Merc\u00facio! Que me disse meu criado, quando juntos caminh\u00e1vamos para c\u00e1 e minha alma atormentada n\u00e3o escutava nada? N\u00e3o me disse que P\u00e1ris e Julieta iam casar-se? N\u00e3o foi assim, ou ter\u00e1 sido sonho? Ou ent\u00e3o, por estar louco, pensei nisso, quando ele me falava de Julieta? D\u00e1-me essa m\u00e3o, \u00f3 tu que est\u00e1s inscrito, como eu tamb\u00e9m, no livro do infort\u00fanio. Vou depor-te num t\u00famulo glorioso. T\u00famulo? N\u00e3o, mancebo assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada a\u00ed e sua formosura faz desta ab\u00f3bada uma sala r\u00e9gia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado. (<i>Coloca no t\u00famulo o corpo de P\u00e1ris.<\/i>) Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? \u00c9 o clar\u00e3o da despedida, dizem quantos o doente est\u00e3o velando. Oh! poderei chamar clar\u00e3o a esta hora? \u00d3 meu amor! querida esposa! A morte que sugou todo o mel de teu doce h\u00e1lito poder n\u00e3o teve em tua formosura. N\u00e3o; conquistada ainda n\u00e3o foste; a ins\u00edgnia da beleza em teus l\u00e1bios e nas faces ainda est\u00e1 carmesim, n\u00e3o tendo feito progresso o p\u00e1lido pend\u00e3o da morte. Tebaldo, jazes num len\u00e7ol de sangue? Oh! que maior favor fazer-te posso do que com esta mesma m\u00e3o que a tua mocidade cortou, destruir, agora, tamb\u00e9m, a do que foi teu inimigo? Primo, perdoa-me. Ah! querida esposa, por que ainda \u00e9s t\u00e3o formosa? Pensar devo que a morte insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horr\u00edvel para amante nas trevas te conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; \u00e9 a \u00faltima. Um abra\u00e7o permiti-vos tamb\u00e9m, \u00f3 bra\u00e7os! L\u00e1bios, que sois a porta do h\u00e1lito, com um beijo leg\u00edtimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia de gosto repugnante! \u00d3 tu, piloto desesperado! lan\u00e7a de um s\u00f3 golpe contra a rocha escarpada teu barquinho t\u00e3o cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor. (<i>Bebe.<\/i>) \u00d3 botic\u00e1rio veraz e honesto! tua droga \u00e9 r\u00e1pida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida. (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra pelo outro lado do cemit\u00e9rio frei Louren\u00e7o com lanterna, alavanca e uma p\u00e1.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 S\u00e3o Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite meus p\u00e9s enfraquecidos trope\u00e7aram em t\u00famulos? Quem vive?<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 \u00c9 um amigo, que muito vos conhece.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Deus te aben\u00e7oe. Querido amigo, dize-me que tocha \u00e9 aquela ali que embalde a sua luz aos vermes empresta e aos cr\u00e2nios cegos? Ao que parece, est\u00e1 no monumento dos Capuletos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Sim, \u00e9 l\u00e1, santo homem. L\u00e1 se acha meu senhor, de quem gostais.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Quem \u00e9 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Romeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 ele l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 H\u00e1 cerca de meia hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Vem comigo at\u00e9 o t\u00famulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 N\u00e3o ouso fazer isso, senhor; meu amo pensa que eu fui embora e me amea\u00e7ou de morte se eu ficasse a espreit\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Ent\u00e3o espera; irei s\u00f3; j\u00e1 come\u00e7o a sentir medo. Oh! receio algum caso desastrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Tendo dormido sob aquele teixo, vi em sonhos, parece, que meu amo se batia com outro, tendo-o morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O (<i>adiantando-se<\/i>) \u2014 Romeu! Romeu! Oh dor! Que sangue \u00e9 este que mancha a entrada p\u00e9trea do sepulcro? Que querer\u00e3o dizer estas espadas sem dono, a estilar sangue e descoradas, neste lugar de paz? (<i>Entra no t\u00famulo.<\/i>) Romeu! Oh, p\u00e1lido! Quem mais? Qu\u00ea! Tamb\u00e9m P\u00e1ris? E encharcado de sangue? Oh! que hora dura teve culpa deste acontecimento lament\u00e1vel? A senhora se mexe.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Julieta desperta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 \u00d3 meu bom frade, onde est\u00e1 meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro. Mas onde est\u00e1 Romeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Barulho dentro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Ou\u00e7o bulha. Sa\u00ed, senhora, desse ninho de morte, de cont\u00e1gio e sono contr\u00e1rio \u00e0 natureza. Uma pot\u00eancia por demais forte para que a ven\u00e7amos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo! Teu marido em teu seio se acha morto; P\u00e1ris tamb\u00e9m. Vem logo; vou levar-te para um convento de piedosas freiras. N\u00e3o percas tempo com perguntas; vamos; a guarda est\u00e1 chegando. Vem, bondosa Julieta; n\u00e3o me atrevo a esperar mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Vai, que eu daqui n\u00e3o sairei jamais. (<i>Sai frei Louren\u00e7o.<\/i>) Que vejo aqui? Um copo bem fechado na m\u00e3o de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh! que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma s\u00f3 gota amiga, para alivio. Vou beijar esses l\u00e1bios; \u00e9 poss\u00edvel que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte. (<i>Beija-o.<\/i>) Teus l\u00e1bios est\u00e3o quentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Vamos, guia-me, rapaz; qual \u00e9 o caminho?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Ou\u00e7o barulho. Preciso andar depressa. Oh! s\u00ea bem-vindo, punhal! (<i>Apodera-se do punhal de Romeu.<\/i>) Tua bainha \u00e9 aqui. Repousa ai bem quieto e deixa-me morrer. (<i>Cai sobre o corpo de Romeu e morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram os homens da guarda, com o pajem de P\u00e1ris.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 \u00c9 ali o ponto, onde est\u00e1 acesa a tocha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 H\u00e1 sangue pelo ch\u00e3o. Passai revista em todo o cemit\u00e9rio, e se encontrardes algu\u00e9m, prendei-o. (<i>Saem alguns guardas.<\/i>) Oh vista dolorosa! Aqui se encontra, assassinado, o conde, e Julieta a sangrar de novo e morta recentemente, que h\u00e1 dois dias fora posta neste sepulcro. Ide depressa chamar os Capuletos e os Montecchios. Na busca prossegui v\u00f3s outros. (<i>Saem outros guardas.<\/i>) Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgra\u00e7as lastim\u00e1veis, s\u00f3 podemos ficar sabendo ap\u00f3s maior estudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam alguns guardas com Baltasar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GUARDA \u2014 \u00c9 o criado de Romeu; fomos ach\u00e1-lo dentro do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Segurai-o com bem cautela, at\u00e9 que chegue o pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta outro guarda, com frei Louren\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GUARDA \u2014 Aqui est\u00e1 um frade que suspira e chora, sem parar de tremer. Nas m\u00e3os trazia uma p\u00e1 e este ferro, e deste lado vinha do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 S\u00e3o ind\u00edcios suspeitos; segurai tamb\u00e9m o frade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o pr\u00edncipe com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Que desgra\u00e7a se deu aqui t\u00e3o cedo, para tirar assim nossa pessoa de seu sono habitual?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Capuleto, a senhora Capuleto e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Por que esses gritos por toda parte? Que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Pelas pra\u00e7as o nome de Romeu o povo grita; outros, o de Julieta; outros, de P\u00e1ris, correndo com clamores toda a gente para o lado do nosso monumento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Que horror \u00e9 esse que nos fere a vista?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Pr\u00edncipe, aqui est\u00e1, morto o conde P\u00e1ris; morto, Romeu; e a que antes falecera, Julieta, quente est\u00e1 e outra vez morta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Investigai por outra parte como se deu este horroroso mortic\u00ednio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GUARDA \u2014 Aqui est\u00e1 um frade e aqui, tamb\u00e9m, o criado de Romeu; instrumentos carregavam para arrombar o t\u00famulo dos mortos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Oh c\u00e9us! Mulher, v\u00ea nossa filha: sangra! Enganou-se o punhal; sua bainha se acha vazia ao lado de Montecchio. Est\u00e1 mal colocado em nossa filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">SENHORA CAPULETO \u2014 Ai de mim! Este quadro s\u00f3 de mortes \u00e9 como um toque f\u00fanebre que a minha velhice chama para a sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Montecchio e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Vem c\u00e1, Montecchio; cedo te levantas para mais cedo ver baixar teu filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 O meu senhor! durante a noite a minha senhora faleceu; cortou-lhe o f\u00f4lego a tristeza do ex\u00edlio de meu filho. Que mais conspira contra minha idade?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Olha e ver\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 O n\u00e9scio! n\u00e9scio! que costume \u00e9 esse de, antes do pai, entrar na sepultura?<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Sela a boca do ultraje por um pouco, at\u00e9 que este mist\u00e9rio esclare\u00e7amos e fiquemos sabendo sua origem e verdadeiro curso. Depois disso, comandante serei de vossas dores e conduzir-vos-ei \u00e0 pr\u00f3pria morte. At\u00e9 l\u00e1 sossegai e que a desgra\u00e7a se submeta \u00e0 paci\u00eancia. Apresentai-nos as pessoas suspeitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Dos presentes sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num s\u00f3 momento condenado e absolto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Dize ent\u00e3o logo o que sobre isto sabes.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI LOUREN\u00c7O \u2014 Serei breve, porque meu curto f\u00f4lego n\u00e3o \u00e9 mais longo do que hist\u00f3ria ins\u00edpida. Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, morta tamb\u00e9m aqui, era a fiel consorte deste Romeu. Fui eu que os desposei. O dia dessas n\u00fapcias clandestinas foi o do final ju\u00edzo de Tebaldo, cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele, n\u00e3o por Tebaldo, que Julieta se vinha definhando. V\u00f3s, com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes, tencionando cas\u00e1-la a contragosto. Procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso que a livrasse desse segundo casamento, ou ent\u00e3o l\u00e1 mesmo, sem vacilar, poria termo \u00e0 vida. Dei-lhe ent\u00e3o \u2014 por minha arte aconselhado \u2014 um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu por mim visado, a apar\u00eancia emprestando-lhe da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta noite de horrores ajudar-me a retir\u00e1-la de seu falso sepulcro, pois o efeito do veneno nessa hora cessaria. Mas a pessoa que levou a carta, Frei Jo\u00e3o, detido foi por acidente, tendo-ma devolvido ontem \u00e0 noite. Ent\u00e3o, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retir\u00e1-la do t\u00famulo dos seus, a id\u00e9ia tendo de escond\u00ea-la na minha pobre cela, at\u00e9 chamar Romeu. Aqui chegando, por\u00e9m \u2014 alguns minutos antes da hora de Julieta acordar \u2014 encontrei mortos antes de tempo o nobre conde P\u00e1ris e o fiel Romeu. Julieta despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paci\u00eancia o que o c\u00e9u lhe destinara. Nisso, um barulho me afastou do t\u00famulo, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo, ao que parece, posto termo \u00e0 exist\u00eancia. Sei s\u00f3 isso. A ama se achava a par do casamento. Se algo nisto falhou por minha culpa, que minha velha vida, algumas horas antes do tempo, o expie em sacrif\u00edcio, sob o rigor da mais severa pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Por um santo homem sempre te tivemos. E o criado de Romeu, que nos informa?<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de M\u00e2ntua para c\u00e1, para este mesmo t\u00famulo, tendo-me ordenado que esta carta a seu pai desse bem cedo. Ao penetrar no t\u00famulo, amea\u00e7ou-me de morte se eu n\u00e3o fosse logo embora e n\u00e3o o deixasse aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 D\u00e1-me essa carta; quero ver o que diz. E onde est\u00e1 o pajem do conde P\u00e1ris, que chamou a guarda? Que fazia teu amo aqui, pequeno?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Veio com flores para a sepultura de sua noiva, tendo-me ordenado que ficasse de parte. Obedeci-lhe. Depois, com luz, chegou um homem, para violar a sepultura, tendo logo sacado meu senhor contra ele a espada. Sa\u00ed correndo e fui chamar a guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Confirma a carta o que nos disse o monge: como o amor decorreu, a falsa nova da morte dela. Aqui ele nos conta que veneno comprou de um botic\u00e1rio e que vinha morrer neste sepulcro, para ficar ao lado de Julieta. Onde se encontram esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede como sobre vosso \u00f3dio a maldi\u00e7\u00e3o caiu e como o c\u00e9u vos mata as alegrias valendo-se do amor. Por minha parte, por ter condescendido com v\u00f3s todos, dois parentes perdi. Fomos punidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 D\u00e1-me tua irm\u00e3o, irm\u00e3o Montecchio; \u00e9 o dote de minha filha. Mais, pedir n\u00e3o posso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MONTECCHIO \u2014 Mas eu posso dar mais, pois hei de a est\u00e1tua dela mandar fazer do mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem ter\u00e1 tanto pre\u00e7o como a da fiel e mui veraz Julieta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAPULETO \u2014 Romeu fama tamb\u00e9m dar\u00e1 \u00e0 cidade; v\u00edtimas s\u00e3o de nossa inimizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE \u2014 Esta manh\u00e3 nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que h\u00e1 de viver de todos na mem\u00f3ria de Romeu e Julieta a triste hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS TR\u00c1GICOS ESCALO, Pr\u00edncipe de Verona. P\u00c1RIS, jovem nobre, parente do pr\u00edncipe. MONTECCHIO, chefe de uma das casa rivais. CAPULETO, chefe de uma das casa rivais. Um tio de Capuleto. ROMEU, filho de Montecchio. MERC\u00daCIO, parente do pr\u00edncipe, (amigo de Romeu). BENV\u00d3LIO, sobrinho de Montecchio, (amigo de Romeu). TEBALDO, sobrinho da senhora Capuleto. 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