{"id":120330,"date":"2017-04-25T09:59:40","date_gmt":"2017-04-25T11:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120330"},"modified":"2017-04-25T09:59:40","modified_gmt":"2017-04-25T11:59:40","slug":"vida-e-morte-do-rei-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/vida-e-morte-do-rei-joao","title":{"rendered":"Vida e Morte do Rei Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>REI JO\u00c3O<\/b>.<br \/>\n<b>PR\u00cdNCIPE HENRIQUE<\/b>, filho do rei.<br \/>\n<b>CONDE DE PEMBROKE<\/b>.<br \/>\n<b>CONDE DE ESSEX<\/b>.<br \/>\n<b>CONDE DE SALISBURY<\/b>.<br \/>\n<b>LORDE BIGOT<\/b>.<br \/>\n<b>HUBERT DE BURGH<\/b>.<br \/>\n<b>ROBERTO FAULCONBRIDGE<\/b>, filho de sir Roberto Faulconbridge.<br \/>\n<b>FILIPE<\/b>, o Bastardo, seu irm\u00e3o materno.<br \/>\n<b>JAMES GURNEY<\/b>, criado de lady Faulconbridge.<br \/>\n<b>PETER DE POMFRET<\/b>, profeta.<br \/>\n<b>FILIPE<\/b>, rei da Fran\u00e7a.<br \/>\n<b>LUIS<\/b>, delfim.<br \/>\n<b>LIMOGES<\/b>, duque da \u00c1ustria.<br \/>\n<b>CARDEAL PANDOLFO<\/b>, legado do papa.<br \/>\n<b>MELUN<\/b>, nobre franc\u00eas.<br \/>\n<b>CHATILLON<\/b>, embaixador da Fran\u00e7a.<br \/>\n<b>RAINHA ELEONOR<\/b>, m\u00e3e do rei Jo\u00e3o.<br \/>\n<b>CONSTAN\u00c7A<\/b>, m\u00e3e de Artur.<br \/>\n<b>BRANCA DE ESPANHA<\/b>, sobrinha do rei Jo\u00e3o.<br \/>\n<b>LADY FAULCONBRIDGE<\/b>.<br \/>\nNobres, fidalgos, cidad\u00e3os de Angers, xerife, arautos, oficiais, soldados, mensageiros e gente de servi\u00e7o.<\/p>\n<p><a name=\"2\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<\/h2>\n<p><a name=\"3\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A sala do trono no pal\u00e1cio. Entram o rei Jo\u00e3o, a rainha Eleonor, Pembroke, Essex, Salisbury e outros, com Chatillon.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Agora dize, Chatillon: a Fran\u00e7a que deseja de n\u00f3s?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHATILLON \u2014 Ap\u00f3s saudar-vos, desta arte o rei da Fran\u00e7a por mim fala ao Poder, \u00e0 emprestada Majestade da Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Come\u00e7o muito estranho: Majestade emprestada!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o falemos, bondosa m\u00e3e; ou\u00e7amos a embaixada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHATILLON \u2014 Filipe, rei da Fran\u00e7a, com o direito que lhe herdou teu irm\u00e3o j\u00e1 falecido, filho de Godofredo, Artur, de nome Plantagenet, reclama legalmente esta bela ilha e mais os territ\u00f3rios de Anjou, Poictiers, Touraine, Irlanda e Maine; deseja que de lado a espada ponhas que te defende os usurpados t\u00edtulos, e ao mo\u00e7o Artur a entregues, teu sobrinho e, j\u00e1 agora, tamb\u00e9m teu soberano.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 E que resultar\u00e1 se renuirmos?<\/p>\n<p align=\"justify\">CHATILLON \u2014 O jugo altivo de uma guerra a um tempo violenta e sanguinosa, que demonstre pela for\u00e7a o direito contestado.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ent\u00e3o guerra por guerra, dize \u00e0 Fran\u00e7a, sangue por sangue e for\u00e7a contra for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHATILLON \u2014 Por minha boca, pois, o desafio te deixo do meu rei; \u00e9 o extremo encargo de minha comiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Leva-lhe o meu, tamb\u00e9m, e parte em paz S\u00ea um rel\u00e2mpago para os olhos da Fran\u00e7a, que, bem antes de poderes dar conta da embaixada, eu farei que o trov\u00e3o por l\u00e1 se escute dos meus canh\u00f5es. Vai logo! S\u00ea a trombeta de nossa c\u00f3lera, o ruim press\u00e1gio de vossa pr\u00f3pria perda. Que lhe seja dada uma escolta honrosa; cuidai disso, Pembroke. Chatillon, \u00e9 tudo; adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Chatillon e Pembroke.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Ent\u00e3o, meu filho? Eu n\u00e3o dizia que essa ambiciosa Constan\u00e7a n\u00e3o parava enquanto n\u00e3o houvesse posto fogo na Fran\u00e7a e em todo o mundo para a causa do filho defender? Essa pend\u00eancia poderia ter sido prevenida, fora f\u00e1cil, somente com protestos de amizade. Ora \u00e9 for\u00e7a que dois reinos a decidam por meios sanguinosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Nosso direito e a for\u00e7a nos amparam.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 A for\u00e7a apenas, temo; do contr\u00e1rio, muito mal eu e v\u00f3s ora estar\u00edamos. Permiti que em segredo conversemos o que o c\u00e9u, t\u00e3o-somente, e n\u00f3s sabemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um xerife, que fala baixo a Essex.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESSEX \u2014 Meu pr\u00edncipe, aqui temos a pend\u00eancia mais estranha do mundo, que vos chega do interior, a fim de ser julgada. Posso mandar entrar os querelantes?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Sim, fazei-os entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o xerife.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">As abadias e os prioratos h\u00e3o de pagar todos os gastos dessa guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o xerife com Roberto Faulconbridge e Filipe, seu irm\u00e3o bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Quem Sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Sou s\u00fadito fiel, de origem nobre, nascido aqui em Northamptonshire e filho mais velho, como penso, de Roberto Faulconbridge, soldado que foi feito cavaleiro no campo de batalha pela m\u00e3o generosa de Ricardo Cora\u00e7\u00e3o-de-Le\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 E tu, quem \u00e9s?<\/p>\n<p align=\"justify\">ROBERTO \u2014 Filho e herdeiro do mesmo Faulconbridge.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Como! Se este \u00e9 o mais velho, \u00e9s tu o herdeiro? Tendes m\u00e3e diferente, ao que parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Uma s\u00f3 m\u00e3e, decerto, poderoso monarca; isso \u00e9 sabido; e um pai apenas, segundo creio. Mas sobre esse ponto somente ela e o alto c\u00e9u \u00e9 que vos podem revelar a verdade. Eu, como todo filho de homem, mantenho as minhas d\u00favidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Sai da\u00ed, grosseir\u00e3o! Com essas suspeitas feres tua m\u00e3e e o nome lhe enxovalhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Eu, senhora? Jamais tive motivo para tanto. A quest\u00e3o foi levantada por meu mano, que, vindo a aduzir provas do que afirmou, me levar\u00e1 uma renda de nada menos que quinhentas libras. Deus as terras me ampare e a honra materna.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Que tipo franco! E por que causa, sendo mais mo\u00e7o, ele reclama a tua heran\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Ignoro-o; mas talvez cobice as terras. De uma feita acoimou-me de bastardo. Mas se o meu nascimento foi leg\u00edtimo ou n\u00e3o, s\u00f3 minha m\u00e3e \u00e9 respons\u00e1vel. Quanto ao saber-se se eu fui bem gerado, meu nobre soberano \u2014 em paz repousem os ossos que por mim se azafamaram! \u2014 julgai v\u00f3s mesmo, os rostos comparando-nos. Se o velho Sir Roberto nos gerou, realmente, e \u00e9 nosso pai, e se esse filho se parece com ele, \u00f3 Sir Roberto, meu bom velho, agrade\u00e7o aos c\u00e9us de joelho por n\u00e3o te ver quando me vejo ao espelho!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Que esp\u00edrito estouvado o c\u00e9u nos manda!<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 H\u00e1 um qu\u00ea de parecen\u00e7a com Ricardo Cora\u00e7\u00e3o-de-Le\u00e3o; a voz \u00e9 a mesma. N\u00e3o achais alguns tra\u00e7os de meu filho na avantajada complei\u00e7\u00e3o deste homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Meus olhos o examinam e concluem que \u00e9 Ricardo tal qual. E v\u00f3s, que causa vos leva a reclamar as terras dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Por ter como meu pai s\u00f3 meio rosto, quer com ele abiscoitar-me as propriedades; um perfil de moeda vai render-lhe a ninharia de quinhentas libras.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROBERTO \u2014 Meu soberano, vosso irm\u00e3o, em vida de meu pai, o empregou freq\u00fcentes vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Assim n\u00e3o heis de obter as minhas terras. O que cumpre saber \u00e9 de que jeito ele ent\u00e3o empregava minha m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROBERTO \u2014 &#8230; e o mandou de uma feita em embaixada \u00e0 Alemanha tratar de altos neg\u00f3cios com o Imperador. O rei soube valer-se de sua aus\u00eancia e morou nesse entrementes em casa de meu pai. Quanto ele pode conseguir, envergonha-me diz\u00ea-lo; mas a verdade \u00e9 uma: muitas l\u00e9guas de \u00e1gua e de terra se interpunham entre minha m\u00e3e e meu pai como por vezes ouvi meu pai dizer \u2014 quando este alegre senhor foi concebido. No seu leito de morte legou-me ele seus haveres e jurou por aquela hora solene que este filho de sua esposa, filho dele n\u00e3o era, salvo se tivesse nascido antes do tempo nada menos de quarenta semanas. Por tudo isso, meu soberano, permiti que eu entre na posse do que \u00e9 meu: as propriedades de meu pai, tal como este o desejava.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Vosso irm\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo; a consorte de vosso pai o teve ap\u00f3s as n\u00fapcias. Se ela prevaricou, a falta \u00e9 sua, falta, ali\u00e1s, que se inclui entre os azares de quem toma mulher. Se n\u00e3o, dizei-me: meu irm\u00e3o, que, segundo o revelastes, se esfor\u00e7ou na feitura deste filho de vosso pai, o reclamou acaso? Vosso pai, caro amigo, poderia ficar com o bezerro de sua vaca contra a opini\u00e3o de todos. Sim, podia, sem d\u00favida. ainda mesmo que ele fosse de meu irm\u00e3o, o mano n\u00e3o teria nenhum direito, como n\u00e3o podia vosso pai recus\u00e1-lo, embora dele com certeza n\u00e3o fosse. Em suma: o filho de minha m\u00e3e foi quem gerou o herdeiro de vosso pai; o herdeiro, ent\u00e3o, que fique com os bens que vosso pai possu\u00eda em vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROBERTO \u2014 Ent\u00e3o de nada vale o testamento de meu pai, nem tem for\u00e7a para um filho deserdar que ele disse n\u00e3o ser dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 N\u00e3o tem for\u00e7a, senhor, de deserdar-me. como n\u00e3o teve de gerar-me, creio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Que preferes: chamar-te Faulconbridge e, como teu irm\u00e3o, ter propriedades, ou ser considerado como filho de Cora\u00e7\u00e3o-de-Le\u00e3o, senhor de tua nobreza, t\u00e3o-somente, sem fortuna?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Se meu irm\u00e3o, senhora, uma apar\u00eancia como a minha possu\u00edsse, e eu, por meu lado, com Sir Roberto em tudo parecesse, tal como ele, e tivesse as pernas finas que nem duas varas de montar, os bra\u00e7os como peles de enguias estofadas, e um rosto t\u00e3o delgado que uma rosa na orelha eu n\u00e3o pusesse, s\u00f3 de medo de algu\u00e9m dizer: Ol\u00e1! Uma moeda nova! E, se com essa figura, eu fosse herdeiro de toda a terra, afirmo-o, n\u00e3o quisera dar mais um passo e abrira m\u00e3o de tudo, at\u00e9 do \u00faltimo real, para ser esse mesmo sou, embora n\u00e3o comesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Agradas-me; n\u00e3o queres tua fortuna renunciar e a teu irm\u00e3o ceder as terras, para me acompanhares? Sou um soldado e de viagem me encontro para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Irm\u00e3o, ficai com tudo; aceito esta ansa; bela renda ganhaste com esta cara, que por cinco vint\u00e9ns ainda era cara. At\u00e9 \u00e0 morte, senhora hei de seguir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 N\u00e3o; prefiro que vades v\u00f3s na frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Os melhores que n\u00f3s t\u00eam preced\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Como te chamas?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Filipe, primog\u00eanito da esposa de sir Roberto, que j\u00e1 em paz repousa.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Passar\u00e1s doravante a usar o nome de quem trazes a forma. Dobra os joelhos como Filipe e te al\u00e7a como o grande sir Ricardo e Plantagenet. Levanta-te!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Irm\u00e3o materno, a m\u00e3o! Eu herdo um nome; v\u00f3s, terras; nunca mais passarei fome. Louvarei noite e dia o instante azado em que, ausente Roberto, eu fui gerado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Plantagenet legitimo no g\u00eanio! Ricardo, eu sou tua av\u00f3; d\u00e1-me esse nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Por acaso \u00e9 que o sois; mas que importa isso? Quem n\u00e3o pode andar certo, anda de esguelha, pula a janela ou mesmo a clarab\u00f3ia, foge da luz, com a noite se aconselha para ser rico, embora com tram\u00f3ia. Um pouco mais ou menos de fuligem&#8230; Se eu sou quem sou, que importa a minha origem?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 J\u00e1 tens, Ricardo, quanto te apetece; um cavalheiro pobre te enriquece. Vamos, vamos, senhora, para a Fran\u00e7a com toda a pressa; a hora solene avan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Adeus, irm\u00e3o; o c\u00e9u de ti se agrade; foste gerado em plena honestidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, menos o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Sou agora um p\u00e9 de honra mais do que antes, mas perdi muitos p\u00e9s de terras boas. Posso fazer senhora qualquer Joana. \u201cBom-dia, sir Ricardo!\u201d \u201cDeus vos guarde!\u201d lhe respondo; e se Jorge for seu nome, Pedro lhe chamarei porque a nobreza concedida de pouco troca os nomes \u00e0s pessoas, \u00e9 ind\u00edcio de respeito na nova situa\u00e7\u00e3o e de import\u00e2ncia. Mas passemos agora \u00e0 sobremesa, que o nosso amigo, a palitar os dentes se acha no meu lugar. Quando bem farto sentir o nobre est\u00f4mago, um pouquinho chupo os dentes e digo ao elegante provinciano: \u201cMeu caro&#8230;\u201d assim falando me apoio ao cotovelo, deste modo: \u201cPe\u00e7o-vos&#8230;\u201d A Pergunta, agora, \u00e9 tudo. A Resposta \u00e9 igualzinha \u00e0 da cartilha: \u201cOh, meu senhor\u201d, diz a Resposta, \u201c\u00e0s vossas ordens; em tudo vosso, caro amigo!\u201d \u201cN\u00e3o\u201d, retruca a Pergunta, \u201ceu \u00e9 que em tudo me acho ao vosso dispor\u201d. E assim, muito antes de saber a Resposta o que deseja dela a Pergunta, em cumprimentos toda se desfazendo e a parolar, sem pausa, do rio P\u00f3, dos Alpes e Apeninos e at\u00e9 dos Pireneus, espicha a sua conclus\u00e3o at\u00e9 a mesa levantar-se. Mas isso \u00e9 sociedade respeit\u00e1vel que diz bem com um esp\u00edrito elevado como o meu, pois n\u00e3o passa de um bastardo do tempo quem n\u00e3o tem faro agu\u00e7ado para sentir o alto valor das formas \u2014 ali\u00e1s bastardo eu sou de qualquer jeito \u2014 n\u00e3o somente o que diz respeito aos tra\u00e7os exteriores, s vestes e \u00e0 conduta, como tamb\u00e9m quem n\u00e3o gerar veneno desde o \u00edntimo, bem doce, muito doce, para o gosto do tempo, o que hei de logo procurar aprender, n\u00e3o com o intuito de enganar, mas t\u00e3o-s\u00f3 como defesa, para aliviar-me o esfor\u00e7o da subida. Mas quem chega apressada, \u00e0 cavaleira? Uma mulher-correio? N\u00e3o tem ela marido que o trabalho a si tomasse de anunciar com um corno a sua chegada?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram lady Faulconbridge e James Gurney<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Que vejo! Minha m\u00e3e! Ent\u00e3o, senhora, que \u00e9 que vos traz \u00e0 corte com tal pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LADY FAULCONBRIDGE \u2014 Onde se acha teu mano, aquele biltre que atassalha minha honra em toda a parte?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Roberto, meu irm\u00e3o? Filho do velho sir Roberto? O gigante irresist\u00edvel, Colbrant, o homem de for\u00e7a mais que humana? Buscais o filho, ent\u00e3o, de Sir Roberto?<\/p>\n<p align=\"justify\">LADY FAULCONBRIDGE \u2014 Como, rapaz irreverente! Filho de sir Roberto? Zombas, porventura, de sir Roberto? N\u00e3o \u00e9 ele, acaso, t\u00e3o filho de Roberto como tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 James Gurney, n\u00e3o queres afastar-te por algum tempo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GURNEY \u2014 Sim, meu bom Filipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Filipe? suba! James, h\u00e1 um zunzum a\u00ed por fora. Depois conversaremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Gurney.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Minha m\u00e3e, eu n\u00e3o sou filho do velho sir Roberto, que bem podia a parte que ele em mim tem comer na sexta-feira da Paix\u00e3o sem quebrar, com isso, o jejum. Sir Roberto era gente; mas, franqueza: podia ele gerar-me? Sir Roberto n\u00e3o podia faz\u00ea-lo; conhecemos sua marca. Por isso, m\u00e3e querida, a quem devo a feitura destes membros? Sir Roberto jamais fez esta perna.<\/p>\n<p align=\"justify\">LADY FAULCONBRIDGE \u2014 Est\u00e1s mancomunado com Roberto, quando devias a honra defender-me para vantagem pr\u00f3pria? Que traduzem semelhantes palavras, malcriado?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Boa m\u00e3e, cavaleiro, cavaleiro, como o foi Basilisco. Fui armado cavaleiro; ainda trago a marca no ombro. Mas, minha boa m\u00e3e, eu n\u00e3o sou filho de sir Roberto. J\u00e1 abri m\u00e3o de tudo, de sir Roberto e de suas terras: nome, nascimento leg\u00edtimo, acabou-se! Por isso, m\u00e3e, falai-me \u00e0 puridade: quem foi meu pai? Algum sujeito digno quero crer. Mas seu nome m\u00e3e querida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LADY FAULCONBRIDGE \u2014 Renegaste o teu nome Faulconbridge?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Como se renegasse o pr\u00f3prio diabo<\/p>\n<p align=\"justify\">LADY FAULCONBRIDGE \u2014 O rei Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o foi teu pai. Ap\u00f3s longas e veementes investidas, pode ele convencer-me de deix\u00e1-lo subir para o meu leito conjugal. N\u00e3o me puna o c\u00e9u por isso. \u00c9s o produto dessa cara ofensa que me deixou sem for\u00e7as e indefensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Por esta luz, senhora, se de novo tivesse eu de nascer, n\u00e3o desejara melhor pai. H\u00e1 pecados que desfrutam de certos privil\u00e9gios. Nesse caso se acha o vosso; n\u00e3o foi loucura a falta. importava rend\u00easseis a vontade, como tributo volunt\u00e1rio, ao \u00edmpeto da paix\u00e3o ele Ricardo, a cuja c\u00f3lera e for\u00e7a irresist\u00edveis nem o imp\u00e1vido le\u00e3o o ousio teve de antepor-se, deixando nas m\u00e3os fortes do advers\u00e1rio o cora\u00e7\u00e3o real. Quem teve for\u00e7a para arrancar o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s feras, facilmente vencera uma mulher. Agrade\u00e7o-te, \u00f3 m\u00e3e, mui cordialmente, o ter o pai que tenho. E se algum biltre disser que eu n\u00e3o nasci de amor eterno, mandarei sua alma logo para o inferno. Agora a meus parentes vou mostrar-te. Todos dir\u00e3o, ver\u00e1s, que foi honroso no teu leito Ricardo tomar parte. E quem o n\u00e3o disser \u00e9 mentiroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"4\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<\/h2>\n<p><a name=\"5\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Fran\u00e7a. Diante dos muros de Angers. Entram, por um lado, o duque d\u2019\u00c1ustria, com tropas, por outro, Filipe, rei da Fran\u00e7a, com tropas, Lu\u00eds, Constan\u00e7a, Artur e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI FILIPE \u2014 Salve, diante de Angers, \u00c1ustria valente! Artur, teu grande antepassado, aquele Ricardo que arrancou ao rei das feras o cora\u00e7\u00e3o e foi na guerra santa da Palestina, prematuro ao t\u00famulo baixou por causa deste bravo duque, que ora, em repara\u00e7\u00e3o aos descendentes, aqui se acha, atendendo a nossas s\u00faplicas, com as cores desfraldadas na defesa do teu direito e, assim, para castigo da usurpa\u00e7\u00e3o de teu perverso tio, o ingl\u00eas Jo\u00e3o. Abra\u00e7a-o, por tudo isso. tem-lhe amor e lhe almeja as boas-vindas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Possa o c\u00e9u perdoar-vos pela morte de Cora\u00e7\u00e3o-de-Le\u00e3o, j\u00e1 que ora vindes dar vida a seus herdeiros, amparando-lhes o direito sob vossas fortes asas. Dou-vos as boas-vindas com m\u00e3o fraca, mas com amor sem mancha a transbordar-me do peito. Sede, pois, bem-vindo, duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Nobre crian\u00e7a, quem n\u00e3o te amparara?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Este beijo afetuoso que na face te deponho, \u00e9 o carimbo do contrato por que me obrigo a n\u00e3o voltar a casa enquanto Angers e o jus que tens na Fran\u00e7a com esta praia p\u00e1lida, esta praia de faces brancas, cujo p\u00e9 recha\u00e7a as ondas mugidoras do oceano e contra o assalto dos demais pa\u00edses protege os insulares; enquanto essa Inglaterra, cercada pelas ondas, esse baluarte de muralhas l\u00edquidas. confiar na prote\u00e7\u00e3o que a p\u00f5e a salvo de estranhas incurs\u00f5es: enquanto esse \u00faltimo recanto do ocidente n\u00e3o te houver saudado como rei. At\u00e9 esse instante, n\u00e3o pensarei em ver a minha casa, nem deporei as armas, belo jovem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Aceitai o que pode dar-vos uma vi\u00fava e m\u00e3e: somente muitas gra\u00e7as, at\u00e9 que vosso bra\u00e7o forte o mostre vigoroso bastante, para dar-vos outras provas de amor mais adequadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 A paz do c\u00e9u est\u00e1 com quem empunha a espada em tal pend\u00eancia justa e santa.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 M\u00e3os \u00e0 obra, pois. Viremos contra o rosto da cidade rebelde os nossos fortes canh\u00f5es. Chamai os entendidos na arte da guerra, porque os planos nos indiquem de melhores vantagens. Os reais ossos deixaremos defronte destes muros, andaremos a vau em puro sangue franc\u00eas, at\u00e9 o mercado, mas, submissa a cidade a esta crian\u00e7a entregaremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Esperai a resposta da embaixada, porque as espadas n\u00e3o se tinjam antes de haver necessidade. \u00c9 bem poss\u00edvel que da Inglaterra Chatillon nos traga precisamente a paz que ora intentamos obter pela viol\u00eancia. Cada gota nos pesara, do sangue que uma c\u00f3lera impensada desse azo a se perder.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Chatillon.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Um milagre, senhora! Vosso anelo se positiva: eis Chatillon que chega! O que disse a Inglaterra, dize em poucas palavras, gentil lorde. Todos calmos, vamos ouvir-te. Fala, Chatillon.<\/p>\n<p align=\"justify\">CHATILLON \u2014 Virai, pois, vossas for\u00e7as deste cerco mesquinho e as aplicai num grande feito. Inglaterra, irritado com a justi\u00e7a de vossa causa, encontra-se ora em armas. A mon\u00e7\u00e3o, que foi causa da demora do meu retorno, lhe deu tempo para desembarcar junto comigo as suas legi\u00f5es que a esta cidade se encaminham. Suas for\u00e7as s\u00e3o fortes; os soldados, confiantes em si pr\u00f3prios. Com ele, ainda, vem a rainha-m\u00e3e, Ate medonha, que a sangue e lutas sem cessar o incita. Lady Branca de Espanha, sua sobrinha, a acompanha, e o bastardo do monarca falecido. O vigor irrefreado do pa\u00eds, volunt\u00e1rios ardorosos. turbulentos sem medo, de apar\u00eancia feminil, mas com \u00edmpeto de ardentes e tem\u00edveis drag\u00f5es, de seus haveres na p\u00e1tria desfizeram-se e, orgulhosos, agora o patrim\u00f4nio ao dorso trazem, para nova fortuna aqui tentarem. Em resumo: um pugilo t\u00e3o seleto de peitos indom\u00e1veis, como os que ora nas quilhas da Inglaterra se balou\u00e7am, jamais flutuou nas ondas empoladas para a ru\u00edna trazer \u00e0 cristandade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se ru\u00eddo de tambor.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Dispensam seus tambores impudentes f\u00fateis divaga\u00e7\u00f5es; acham-se \u00e0 m\u00e3o, ou para luta, ou para confer\u00eancia. Preparai-vos, portanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Como chega fora de tempo semelhante ex\u00e9rcito!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Quanto mais imprevisto, mais \u00e9 for\u00e7a que primemos nos meios de defesa. Exalta-se a coragem com o momento. Sejam bem-vindos; prontos nos achamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o rei Jo\u00e3o, Eleonor, Branca, o bastardo, nobres e tropas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 A paz seja com a Fran\u00e7a, caso a Fran\u00e7a nos permitir em paz a justa posse do que temos direito. Do contr\u00e1rio, venha a sangrar a Fran\u00e7a e a paz se evole, enquanto n\u00f3s, iroso mandat\u00e1rio da c\u00f3lera de Deus, corrigiremos a insol\u00eancia que expulsa a paz divina.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Seja a paz com a Inglaterra, se esta guerra da Fran\u00e7a se virar de vez contra ela, a fim de em paz ali viver. Amamos a Inglaterra; \u00e9 por ela, t\u00e3o-somente, que suamos sob o peso destas armas. \u00c9 a ti que competia este trabalho; mas o amor da Inglaterra est\u00e1 t\u00e3o longe de dar-te algum cuidado, que arruinaste seu pr\u00f3prio rei leg\u00edtimo, cortaste-lhe a ordem da sucess\u00e3o, lan\u00e7aste esc\u00e1rnio sobre a menoridade da realeza e violaste a inoc\u00eancia da coroa. Contempla aqui as fei\u00e7\u00f5es de teu irm\u00e3o Godofredo: estes olhos, esta fronte, foram moldados por seus tra\u00e7os; este pequenino resumo abrange quanto morreu em Godofredo; a m\u00e3o do Tempo vai transform\u00e1-lo num volume grande. Mais velho do que tu Godofredo era; \u00e9 seu filho este aqui. Era a Inglaterra de Godofredo por direito, que ora passou por sucess\u00e3o para seu filho. Em nome, pois, de Deus, como se explica o chamares-te rei, se nestas fontes pulsa ainda o sangue vivo a que compete, t\u00e3o-somente, a coroa que usurpaste?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 quem te confere, Fran\u00e7a, ora o direito de exigires de mim tantas respostas?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 O juiz superno que desperta em todos os peitos generosos o desejo de descobrir as manchas e desonras ao Direito infligidas, esse mesmo juiz que me fez tutor deste menino, que hei de salvaguardar de toda inj\u00faria. Com seu aux\u00edlio espero castigar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o queiras usurpar autoridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Perd\u00e3o! A usurpa\u00e7\u00e3o \u00e9 que eu co\u00edbo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Fran\u00e7a, a quem chamas tu de usurpador?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Eu quero responder: teu pr\u00f3prio filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Para tr\u00e1s, insolente! Desejaras que teu bastardo fosse rei, somente para, como rainha, governares.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Meu leito sempre foi fiel a teu filho como o teu, porventura, a teu marido, e este menino tem mais parecen\u00e7a com seu pai Godofredo do que, acaso, no g\u00eanio, Jo\u00e3o contigo, em que pare\u00e7am como \u00e1gua e chuva, o diabo e a pr\u00f3pria m\u00e3e. Bastardo, o meu filhinho! Por minha alma! N\u00e3o creio que seu pai tivesse sido gerado mais lealmente. N\u00e3o! Como isso fora poss\u00edvel, se a ele deste vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Que m\u00e3e, menino, que a teu pai difama!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Que av\u00f3, meu filho, que infamar-te almeja!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Ficai quietas!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Ou\u00e7amos o pregoeiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Que diabo \u00e9s tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Algu\u00e9m que h\u00e1 de convosco, senhor, fazer de diabo, quando acaso vos encontrar sozinho e a vossa pele. Sois a lebre da f\u00e1bula, que puxa pela barba ao le\u00e3o morto; se de jeito vos pegar, o casaco hei de sujar-vos. Acautelai-vos, tipo; hei de faz\u00ea-lo!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 Assentam bem as vestes do le\u00e3o a quem ao pr\u00f3prio le\u00e3o soube roub\u00e1-las.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Assentam-lhe t\u00e3o bem ao dorso, como as de H\u00e9rcules num asno. Vou tirar-vos, asno, das costas esse fardo ingente e outro p\u00f4r que vos vai deixar doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Quem \u00e9 o fanfarr\u00e3o que nos aturde as orelhas com f\u00f4lego sup\u00e9rfluo?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Decide logo, Lu\u00eds, o que faremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Ol\u00e1, mulheres e homens sem ju\u00edzo, cessai de discutir! Rei Jo\u00e3o, eis quanto nos importa: a Inglaterra, Maine, Irlanda, Anjou e Touraine eu as reclamo, como pertencentes a Artur. Est\u00e1s disposto a resign\u00e1-las e a depor as armas?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Antes a vida. Fran\u00e7a, desafio-te! Vem, Artur de Bretanha! A mim confia-te; meu amor vai te dar mais do que quanto pudesse conquistar a m\u00e3o covarde da Fran\u00e7a. Vem, menino!<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Vem, meu filho; \u00e9 tua av\u00f3 que te chama.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Vai, meu bem; vai com tua av\u00f3 e lhe oferece um reino, que tua av\u00f3 te dar\u00e1 uma cereja, passas e figo. \u00c9 uma excelente av\u00f3!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Paz, minha boa m\u00e3e! Desejara j\u00e1 estar na sepultura. N\u00e3o sou digno da luta que se trava por minha causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Coitadinho! Chora; sua m\u00e3e o envergonha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Em v\u00f3s recaia toda a vergonha se isso for verdade. Os insultos da av\u00f3, n\u00e3o a vergonha da m\u00e3e s\u00e3o que lhe arrancam essas p\u00e9rolas que o c\u00e9u comovem e que o c\u00e9u recebe como penhor. E certo: esse ros\u00e1rio de cristal vai peitar o c\u00e9u, levando-o a fazer-lhe justi\u00e7a e castigar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Monstro que o c\u00e9u e a terra calunia!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Monstro que ao c\u00e9u e \u00e0 terra atira inj\u00farias! N\u00e3o digas que me valho de cal\u00fanias. Tu e teu filho \u00e9 que usurpais as terras, a realeza e os direitos desta crian\u00e7a desprotegida, filho de teu filho mais velho, que em ti, s\u00f3, encontra causa de chamar-se infeliz. Os teus pecados s\u00e3o castigados nesta pobre crian\u00e7a. A lei o atinge, visto ele encontrar-se separado do ventre do pecado por duas gera\u00e7\u00f5es, t\u00e3o simplesmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Basta, louca!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Direi mais isto, apenas: que meu filho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 castigado pelos pecados dela; Deus fez dela, como de seus pecados, o castigo deste seu descendente, castigado por ela e por sua causa. O seu pecado \u00e0 crian\u00e7a causa dano, \u00e9 o respons\u00e1vel por tudo. Na pessoa desta crian\u00e7a ela \u00e9 punida. A peste que a carregue!<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Boca ferina, eu poderia o t\u00edtulo de teu filho anular com um testamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Quem o duvida! Ora essa! Um testamento de mulher, de uma av\u00f3 sem cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Calma, senhora, calma nessa l\u00edngua! Este lugar \u00e9 impr\u00f3prio para palmas a essas repeti\u00e7\u00f5es desafinadas. Chame algum trombeteiro para os muros os cidad\u00e3os de Angers. Que nos declarem qual o t\u00edtulo que eles reconhecem: o de Artur ou o de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trombeta; aparecem cidad\u00e3os sobre os muros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Quem nos convoca para parlamentar desta muralha?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Fran\u00e7a, pela Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Inglaterra, por si. V\u00f3s, cidad\u00e3os de Angers, meus fi\u00e9is s\u00faditos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 V\u00f3s, homens de Angers, a Artur sujeitos, convocou-vos nossa trombeta para am\u00e1vel fala&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 &#8230; que nos toca de perto. Ouvi-nos, pois. As bandeiras da Fran\u00e7a, desfraldadas ante a vista e as fei\u00e7\u00f5es desta cidade, aqui vieram, t\u00e3o-s\u00f3, para arruinar-vos. Seus canh\u00f5es t\u00eam entranhas transbordantes de c\u00f3lera e se encontram preparados para cuspir em vossos muros sua indigna\u00e7\u00e3o de ferro. Os impiedosos preparativos para um cerco horr\u00edvel os olhos ora amea\u00e7am da cidade, estas portas fechadas. Se n\u00e3o fosse nossa vinda, essas pedras sonolentas que, como cinto protetor, vos cercam, a estas horas teriam de seu leito de cal sido arrancadas pela for\u00e7a da atroz artilharia, que estadeara larga brecha por onde a sanguinosa viol\u00eancia vossa paz destruir pudesse. Mas \u00e0 vista do vosso rei leg\u00edtimo \u2014 que, com bastante sacrif\u00edcio, em marchas for\u00e7adas conseguiu colocar for\u00e7as eficientes em face destes muros, a fronte protegendo da cidade \u2014 os franceses, tomados de surpresa, em uma confer\u00eancia condescendem, e agora, em vez de balas envolvidas em fogo, para febre abaladora nos muros produzir-vos, eles jogam palavras brandas em fuma\u00e7a envoltas porque os ouvidos a erro vos induzam. Concedei-lhes o apre\u00e7o que merecem, caros concidad\u00e3os, e entrada franca permiti-nos, a vosso soberano, cujo \u00e2nimo, no af\u00e3 de tantas marchas cansativas reclama asilo certo no recinto de vossa alta cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Depois de eu ter falado, respondei-nos. Aqui vedes \u00e0 minha m\u00e3o direita que se votou diante de Deus causa do bem e da justi\u00e7a, o jovem pr\u00edncipe Plantagenet, sobrinho que \u00e9 deste homem, por ser filho de seu irm\u00e3o mais velho e, por isso, seu rei e de quanto ele possa ter. E no nome da eq\u00fcidade conspurcada que a relva ante estes muros calcamos com o aparato belicoso de nossa expedi\u00e7\u00e3o, ainda que vossos inimigos n\u00e3o somos, sen\u00e3o quanto de n\u00f3s o exige o zelo hospitaleiro que a consci\u00eancia nos dita para al\u00edvio desta crian\u00e7a oprimida. \u00c9 de justi\u00e7a, portanto, que presteis fidelidade a quem for de direito: ao jovem pr\u00edncipe. E como urso a\u00e7aimado, nossas armas, tirante o aspecto, mansas v\u00e3o tornar-se; a mal\u00edcia de nossa artilharia ser\u00e1 v\u00e3mente gasta contra as nuvens invulner\u00e1veis do alto; em retirada sem c\u00f3lera e entre b\u00ean\u00e7\u00e3os, livres nossos elmos de qualquer mossa, espadas limpas, a casa o sangue alegre levaremos que viemos derramar ante estes muros, e as esposas e os filhos vos deixamos, bem como a v\u00f3s, em paz. Mas se afastardes nossa oferta amig\u00e1vel, loucamente, n\u00e3o ser\u00e1, por sem d\u00favida, a espessura de vossos muros carcomidos que h\u00e1 de proteger-vos de nossos mensageiros da guerra, muito embora estes ingleses, com sua disciplina, abrigo achassem em seu \u00e2mbito rude. Declarai-nos, portanto, se a cidade nos conhece como donos, e donos que aqui viemos desafiar-vos, ou se \u00e9, ainda, preciso fazer soar o sinal de nossa c\u00f3lera irreprim\u00edvel e atrav\u00e9s de sangue alcan\u00e7armos a posse do que \u00e9 nosso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Em resumo: guardamos a cidade para o rei da Inglaterra, de quem somos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Reconhecei-me, pois; deixai-me entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00e3o pode ser; ao que provar que \u00e9 rei, nos mostraremos leais; mas, at\u00e9 ent\u00e3o, ao mundo inteiro as portas fecharemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o servir\u00e1 de prova esta coroa? Se n\u00e3o bastar, aduzo testemunhas: trinta mil cora\u00e7\u00f5es da cepa inglesa&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Bastardos e outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 &#8230; que com a vida o direito nos defendem.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 T\u00e3o numerosos e t\u00e3o bem nascidos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Tamb\u00e9m com alguns bastardos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 &#8230; estes aqui lhe negam tal direito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Enquanto n\u00e3o provardes quem possui melhores t\u00edtulos, em nome desse mais digno vos negamos submiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Que Deus absolva, ent\u00e3o, todas as almas que hoje subirem para a sua eterna morada, antes que chegue a tarde r\u00f3rida.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Am\u00e9m! Am\u00e9m! \u00c0s armas, cavalheiros!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 S\u00e3o Jorge, que o drag\u00e3o malhou de rijo, e que montado em seu cavalo ainda hoje se acha na tabuleta sobre a porta da hospedagem em que eu resido h\u00e1 tempos, que me ensine a brigar!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ao duque d\u2019\u00c1ustria.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Ol\u00e1, maroto! se na vossa caverna eu me encontrasse com vossa leoa, eu colocara nessa pele de le\u00e3o uns alentados chifres, em monstro transformando-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Tremei, que estais ouvindo o le\u00e3o rugir.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Para a plan\u00edcie, porque nossas tropas disponhamos em ordem de combate.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Com pressa, ent\u00e3o; fiquemos com a vantagem do terreno.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Ser\u00e1 dessa maneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>A Lu\u00eds.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Na outra colina conservai as tropas de reserva. E ora: Deus e nossa causa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de rebate e movimento de tropas; depois, retirada. Entra um arauto franc\u00eas, com trombetas, e avan\u00e7a at\u00e9 \u00e0s portas da cidade.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO FRANC\u00caS \u2014 Abri de par em par, homens de Angers, vossas portas a Artur, o jovem duque da Bretanha, que gra\u00e7as \u00e0 m\u00e3o forte da Fran\u00e7a deu assunto para l\u00e1grimas a muitas m\u00e3es inglesas, cujos filhos sobre o solo sangrento ora se encontram. Muitas vi\u00favas, tamb\u00e9m, v\u00eaem os maridos abra\u00e7ando, sem vida, a terra p\u00e1lida. Com poucas perdas a vit\u00f3ria exulta nos l\u00e1baros franceses que, triunfantes, j\u00e1 se acham desfraldados para entrarem como conquistadores e, aqui dentro, proclamarem o duque da Bretanha rei da Inglaterra e vosso soberano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um arauto ingl\u00eas, com trombetas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAUTO INGL\u00caS \u2014 Homens de Angers, mandai tocar os sinos em sinal de alegria, que o rei Jo\u00e3o, rei da Inglaterra e vosso soberano, j\u00e1 se aproxima como vencedor deste dia dif\u00edcil e agitado. Suas armas, t\u00e3o brancas at\u00e9 h\u00e1 pouco, voltam tintas no sangue dos franceses; nenhuma pena, ondeante, a nossos elmos, foi tirada por lan\u00e7as inimigas; nossas bandeiras ainda v\u00eam trazidas pelas m\u00e3os que, ao partirmos, as levavam. E como ca\u00e7adores turbulentos que os alegres ingleses ora voltam, com m\u00e3os empurpuradas pela tinta que correu da matan\u00e7a dos inimigos. Abri, pois, vossas portas \u00e0 vit\u00f3ria!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Arautos, destas torres n\u00f3s pudemos acompanhar o assalto e a retirada das for\u00e7as em combate, sem que nossos melhores olhos censurar pudessem seu perfeito equil\u00edbrio: sangue a sangue comprou, golpes a golpes respondiam, for\u00e7a a for\u00e7a se opunha, resist\u00eancias iguais se confrontavam. Sois iguais. Assim, de ambos gostamos igualmente. Mas \u00e9 preciso que um de v\u00f3s d\u00ea provas de superioridade. Enquanto fordes de peso igual, n\u00e3o h\u00e1 de ser a nossa cidade de nenhum, mas de v\u00f3s ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam os dois reis com suas tropas, separadamente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ainda podes perder, Fran\u00e7a, mais sangue? Dize-nos se a corrente do direito que defendemos j\u00e1 tem livre curso. Irritada com tua resist\u00eancia, vai ela o leito abandonar e em f\u00faria vastadora inundar os teus dom\u00ednios, a menos que consintas v\u00e3o suas \u00e1guas argentinas defluindo no seu curso pac\u00edfico, at\u00e9 o oceano.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Ouve, Inglaterra: nesta prova ardorosa n\u00e3o poupaste uma gota de sangue mais que a Fran\u00e7a. Perdeste muitas mais. Por esta m\u00e3o que impera at\u00e9 onde o clima aqui se estende, juramos n\u00e3o depor as nossas armas votadas \u00e0 Justi\u00e7a, sem que ao solo te joguemos, escopo desta guerra, ou aumentemos o n\u00famero dos mortos de uma unidade real, para que a lista que relatar o mortic\u00ednio ingente se enrique\u00e7a com o nome de um monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 \u00d3 Majestade! como a tua gl\u00f3ria sobe de ponto, quando o rico sangue dos monarcas se incende! Agora a morte recobre de a\u00e7o os fortes maxilares; s\u00e3o-lhe dentes e garras as espadas dos soldados; alegre banqueteia-se, tragando carne humana nas contendas indecisas dos reis. Por que se encontram estupefactas essas tropas reais? Gritai \u201cChacina!\u201d \u00f3 reis! Levai de novo para o campo sangrento vossas for\u00e7as equilibradas, vossos inflamados esp\u00edritos! Depois, que a perda de uma das partes a vit\u00f3ria da outra afirme. Mas at\u00e9 l\u00e1, s\u00f3 golpes, sangue e morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 A gente da cidade com quem fica?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Falai pela Inglaterra, cidad\u00e3os: quem \u00e9 vosso monarca?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 o da Inglaterra, logo que o conhecermos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Nesse caso, reconhecei-o em n\u00f3s, que o defendemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Em n\u00f3s, representantes de n\u00f3s pr\u00f3prios, e que nossa pessoa aqui trazemos, donos de n\u00f3s, de v\u00f3s e da cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Um poder mais possante do que o nosso n\u00e3o nos deixa aceder. Enquanto a luta n\u00e3o ficar decidida, trancaremos com portas bem fechadas nosso medo, que em n\u00f3s h\u00e1 de mandar, at\u00e9 que venha dep\u00f4-lo e desfaz\u00ea-lo um rei de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 \u00d3 reis! Essa canalha est\u00e1 zombando de todos v\u00f3s! Postados nas ameias dos muros, como em teatro, sem correrem perigo algum, criticam calmamente vossas cenas sutis e atos de morte. Que vossas reais presen\u00e7as sigam nisso meu conselho: firmai pacto amistoso, como em Jerusal\u00e9m de certa feita os rebeldes fizeram e, de acordo, dirigi contra os muros da cidade toda a vossa mal\u00edcia destruidora. Poste a Fran\u00e7a e a Inglaterra a leste e a oeste seus canh\u00f5es carregados at\u00e9 \u00e0 boca, para que seus bramidos terrorantes fa\u00e7am ruir por terra os p\u00e9treos membros da cidade impudente. Em vosso caso, eu n\u00e3o daria tr\u00e9gua a esses velhacos, enquanto n\u00e3o ficassem entre as ru\u00ednas t\u00e3o despidos como o ar que respiramos. Isso feito, apartai de novo as for\u00e7as e as bandeiras que unidas estiveram; oponde rosto a rosto e ponta a ponta sanguinosa, e a Fortuna, em pouco tempo, seu feliz favorito dentre as vossas filas h\u00e1 de escolher, a quem, bondosa, ceder\u00e1 toda a gl\u00f3ria da jornada, conferindo-lhe o beijo da vit\u00f3ria. Poderosos Estados, agradais-vos do conselho selvagem? N\u00e3o revela certo sabor, que lembra o da pol\u00edtica?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Por este c\u00e9u, que no alto se distende, agrada-me o conselho. Queres, Fran\u00e7a, unir as for\u00e7as e arrasar Angers, para, ap\u00f3s, decidirmos pelas armas quem deve govern\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Se tiveres brio de rei, magoado como deves estar qual n\u00f3s estamos, com as ofensas desta cidade impertinente, faze como n\u00f3s: vira a tua artilharia contra esta fortaleza petulante, porque depois de ao solo a nivelarmos, daremos p\u00e1bulo a nosso \u00f3dio eterno em luta pelo c\u00e9u ou pelo inferno.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Que seja. E ora dizei-nos: de que ponto dareis o assalto?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Do oeste mandaremos destrui\u00e7\u00e3o ao peito da cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Eu, do norte.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Do sul, nossos trov\u00f5es despejar\u00e3o seus raios contra os muros.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Sul contra norte! Oh! espl\u00eandida estrat\u00e9gia! Fran\u00e7a e \u00c1ustria, assim, com a artilharia rouca uma \u00e0 outra h\u00e1 de fazer calar a boca. Conv\u00e9m espica\u00e7\u00e1-los. Toca! Avante!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Grandes reis, atendei-nos um instante. Vou mostrar-vos o modo de firmardes paz, tornar-vos amigos, a cidade conquistar sem mais perdas nem viol\u00eancia, permitindo que a Morte, de futuro, no leito alcance as vidas que nos campos agora ao sacrif\u00edcio se acham prontas. N\u00e3o prossigais, monarcas, e atendei-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Fala; tens permiss\u00e3o; vamos ouvir-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Essa filha da Espanha, lady Branca, a\u00ed presente, \u00e9 parenta da Inglaterra. Contai os anos dessa linda mo\u00e7a e os do delfim Lu\u00eds. Se o vigoroso Amor sa\u00edsse em busca de beleza, onde a achara mais bela do que em Branca? Se o Amor zeloso ansiasse por virtude, onde a achara mais pura do que em Branca? Se, cheio de ambi\u00e7\u00e3o, o Amor fizesse quest\u00e3o de nascimento, onde encontrara sangue de mais nobreza do que o sangue que em suas veias pulsa? Tal como ela, em beleza, virtude e nascimento, \u00e9, tamb\u00e9m, o Delfim, completo em tudo. Se algo falece, \u00e9 que ele ela n\u00e3o \u00e9. A ela, por sua vez, nada lhe falta \u2014 se em falta se falar \u2014 a n\u00e3o ser que ela, n\u00e3o sendo ele, n\u00e3o pode ser completa. Ele \u00e9 a metade de um feliz mancebo, que deve ser por ela completada; ela, excel\u00eancia em parte dividida, que espera a perfei\u00e7\u00e3o dele somente. Se essas correntes argentinas vierem a se unir algum dia, gl\u00f3ria imensa conferir\u00e3o \u00e0s margens que as ladeiem. Sede, portanto, \u00f3 reis, para essas duas correntes confundidas as fronteiras, os limites, as praias, contribuindo para a uni\u00e3o dos dois jovens. Esse enlace ser\u00e1 de mais efeito sobre os nossos bem fechados port\u00f5es que toda a f\u00faria de vossas baterias, pois mais r\u00e1pido que a p\u00f3lvora, far\u00e1 que se escancarem para vos dar passagem. Mas sem ele, n\u00e3o h\u00e1 de ser mais surdo o mar furioso, os le\u00f5es, mais resolutos, nem mais firmes montanhas e rochedos; nem a pr\u00f3pria Morte poder\u00e1 ser mais perempt\u00f3ria do que n\u00f3s na defesa da cidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Eis um preg\u00e3o que a p\u00fatrida carca\u00e7a da Morte faz mexer-se nos seus trapos! Boca imensa, de fato, que vomita morte e montanhas, mares e rochedos, e t\u00e3o familiarmente se refere a le\u00f5es ferozes, como, a seus c\u00e3ezinhos, menina de treze anos. Ter\u00e1 sido gerado esse sujeito t\u00e3o valente por algum canhoneiro? S\u00f3 se exprime por canh\u00f5es, fogo, fumo, estrondo e gritos. Com a l\u00edngua, bastonadas ele aplica; rompe-nos os ouvidos; n\u00e3o profere palavra que n\u00e3o bata mais certeira do que um punho franc\u00eas. Nunca as palavras me desancaram tanto, d\u00eas que o nome de papai dei ao pai de meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR (<i>\u00e0 parte, ao rei Jo\u00e3o<\/i>) \u2014 Filho, aceita a proposta, firma as n\u00fapcias; prontifica-te a dar um dote grande para nossa sobrinha, que esse la\u00e7o de tal modo a coroa pouco firme vir\u00e1 consolidar-te; luz prop\u00edcia jamais poder\u00e1 ter aquela crian\u00e7a para os frutos opimos que promete. No semblante de Fran\u00e7a leio anu\u00eancia. V\u00ea como eles cochicham. Vamos! Urge com eles insistir, enquanto na alma revelam ambi\u00e7\u00e3o, para que o zelo da piedade e da s\u00faplica de novo n\u00e3o se congele e volte a ser o que era.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Por que as duas grandezas nada dizem \u00e0 id\u00e9ia amiga da cidade aflita?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Inicie Inglaterra, por ter sido quem a cidade interpelou primeiro. Que dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Se o Delfim, teu nobre filho, ler neste livro de beleza \u201cEu amo\u201d, como de uma rainha ser\u00e1 o dote da noiva, porque Anjou, Touraine bela, Maine, Poictiers e tudo quanto deste lado das \u00e1guas \u2014 excetuando apenas esta cidade a que ora pomos cerco \u2014 a nossa Dignidade est\u00e1 sujeito, dourar\u00e1 o leito \u00e0 noiva e a far\u00e1 rica em poderios, t\u00edtulos e estima, como em sangue, beleza e fino trato ela a qualquer princesa se equipara.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Que dizes, filho? Olha de frente a mo\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 \u00c9 o que eu fa\u00e7o, senhor, e maravilha nos olhos lhe descubro, ou bem, milagre maravilhoso: minha sombra a\u00ed vejo, que embora seja a sombra, simplesmente, de vosso filho, em sol se torna e deixa vosso filho a uma sombra reduzido. Juro que nunca amei tanto a mim mesmo como agora, ao me ver reproduzido na tela aduladora desses olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fala em segredo com Branca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Desenhado na tela dos seus olhos! Pendente de um dos ganchos das pestanas! No peito, esquartejado! Que de abrolhos no caminho do amor! S\u00f3 sinto ganas de esquartejar, de fato, esse pasc\u00e1cio que para amar recorre a tal pref\u00e1cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 Neste particular acedo a quanto meu tio decidir. Se ele vir algo que lhe possa agradar em vosso todo, seja o que for, farei com que esse adorno para minha vontade se transfira, ou, se o quiserdes, sem ambages: hei de saber recomend\u00e1-lo ao meu afeto. Mais n\u00e3o direi, milorde, lisonjeando-vos, que me merece amor quanto em v\u00f3s vejo. Direi somente que n\u00e3o vejo nada \u2014 ainda que viesse a Inveja ora julgar-vos \u2014 que \u00f3dio ou repulsa despertar consiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Que diz o jovem par? E v\u00f3s, sobrinha?<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 Que a honra obriga a fazer sempre o que vossa sabedoria decidir por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ent\u00e3o, Delfim, responde-nos se podes amar esta beldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Perguntai-me se me \u00e9 poss\u00edvel de ador\u00e1-la abster-me, porque lhe tenho amor sinceramente.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Com ela, ent\u00e3o, te dou cinco prov\u00edncias: Anjou, Poictiers, Vexin, Touraine e Maine, com mais trinta mil marcos de ouro ingl\u00eas. V\u00ea, Filipe da Fran\u00e7a, se concordas em que teus filhos ora as m\u00e3os apertem.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Apraz-nos, sim; uni, filhos, as m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 E os l\u00e1bios, por que n\u00e3o? Nem fareis mais do que eu, quando asselei meus esponsais.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Abri as portas, agora, homens de Angers, para entrar a alian\u00e7a que firmastes, pois v\u00e3o ser celebradas logo as n\u00fapcias na capela dicada \u00e0 m\u00e3e de Deus. N\u00e3o est\u00e1 lady Constan\u00e7a entre os presentes? Vejo que n\u00e3o; caso contr\u00e1rio, fora perturbada a alegria desta alian\u00e7a. Onde ela est\u00e1? E o filho? Quem o sabe?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Triste, \u00e0 tenda se foi de Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Por minha f\u00e9, a alian\u00e7a que firmamos s\u00f3 dar\u00e1 pouco al\u00edvio \u00e0s suas penas. Caro irm\u00e3o da Inglaterra, de que modo contentaremos a rainha vi\u00fava? Viemos a defend\u00ea-la; no entretanto, Deus o sabe, desviamo-nos da estrada, para nossa vantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ser\u00e1 f\u00e1cil sanar tudo isso: o t\u00edtulo daremos ao mo\u00e7o Artur de duque da Bretanha e conde de Richmond, sobre fazermo-lo senhor desta cidade rica e bela. Sem demora chamai lady Constan\u00e7a; v\u00e1 logo um mensageiro convid\u00e1-la para a solenidade. Penso ser-nos poss\u00edvel, quando n\u00e3o toda a medida encher de seus desejos, pelo menos satisfaz\u00ea-la de tal modo que ela ficar\u00e1 sem motivo de queixar-se. Vamos com a pressa que nos for poss\u00edvel para a festa imprevista e improvisada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o do Bastardo. Os cidad\u00e3os se retiram das ameias.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Mundo louco! Reis loucos! Louca alian\u00e7a! Para deter as pretens\u00f5es, por junto, de Artur, de grado Jo\u00e3o cede uma parte; a Fran\u00e7a, que com as armas da consci\u00eancia seria invulner\u00e1vel e que o zelo crist\u00e3o e a caridade transformaram num soldado de Deus, impulsionando-a para o campo da luta, ouvidos presta a esse muda-projetos, a esse diabo manhoso, o alcoviteiro que transforma no contr\u00e1rio a lealdade, jura falso cem vezes por minuto e ganha sempre de todos, de mendigos, reis, mancebos, raparigas e anci\u00f5es, e que, no caso de n\u00e3o ter a perder mais coisa alguma sen\u00e3o o termo \u201cvirgem\u201d, burla as virgens; esse senhor de t\u00e3o macio rosto, o Interesse insinuante e adulador, sim, o Interesse, a rampa em que despenha, sem se deter, o mundo, que em si mesmo revelava equil\u00edbrio e que rolava lisamente em terreno sempre plano at\u00e9 que esse proveito, essa ladeira viciada, esse fautor de movimento, o Interesse, o tirasse do equil\u00edbrio, de toda a dire\u00e7\u00e3o, projeto e intento! E esse mesmo pendor, esse Interesse, esse alcaiote tecedor de intrigas, palavra que transforma tudo a todos os momentos, lan\u00e7ado contra os olhos da Fran\u00e7a t\u00e3o vol\u00favel, fez que logo desistisse do aux\u00edlio que ela pr\u00f3pria decidira prestar e de uma guerra principiada com honra, para, agora, concluir uma paz vil e infamante. Por que cubro de inj\u00farias o Interesse? T\u00e3o-somente por n\u00e3o me ter ainda conquistado. E certeza: eu n\u00e3o teria coragem de fechar a m\u00e3o, se, acaso, se dispusessem seus bonitos anjos a me cumprimentar. N\u00e3o tendo sido tentada ainda, ela \u00e9 como a dos pobres mendigos que os rica\u00e7os vitupera. Pois o mesmo farei, enquanto pobre: n\u00e3o h\u00e1 pecado como o da riqueza, direi ent\u00e3o; mas quando ficar rico, direi ser a mis\u00e9ria o \u00fanico v\u00edcio. Se a ambi\u00e7\u00e3o, entre os reis, \u00e9 quase uma arte, Interesse, \u00e9s meu deus: quero adorar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"6\" name=\"6\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<\/h2>\n<p><a id=\"7\" name=\"7\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Fran\u00e7a. A tenda do rei franc\u00eas. Entram Constan\u00e7a, Artur e Salisbury.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Foram casar-se! A paz vai ser jurada! Sangue perjuro unido a sangue falso! V\u00e3o ser amigos! Lu\u00eds fica com Branca, e esta fica de posse das prov\u00edncias! N\u00e3o pode ser; ouviste mal; enganas-te. Reflete bem; repete a tua hist\u00f3ria; n\u00e3o pode ser assim; \u00e9s tu que o dizes, simplesmente. Confio que n\u00e3o posso confiar no que disseste, que a palavra sa\u00edda da tua boca \u00e9 o sopro, apenas, de indiv\u00edduo comum. Fica sabendo, homem, que n\u00e3o te creio; oposta a isso, tenho a jura de um rei. Vais ser punido por me assustares tanto; eu sou sens\u00edvel ao medo, sou doente, acabrunhada de injusti\u00e7as. Por isso, tenho medo; n\u00e3o tenho j\u00e1 marido, sou vi\u00fava, medrosa, sou mulher, naturalmente nascida para estar sujeita ao medo. E embora confessasses que querias apenas gracejar, eu n\u00e3o pudera mais sossegar o esp\u00edrito assustado que vai ficar tremendo o dia todo. Por que a cabe\u00e7a abanas tanto e tanto? Por que t\u00e3o tristemente olhas meu filho? Por que essas tristes l\u00e1grimas te escapam dos olhos, como rio que transborda? Confirmam tais sinais o que disseste? Fala de novo, n\u00e3o a hist\u00f3ria toda de h\u00e1 pouco, mas somente uma palavra: se \u00e9 verdade ou mentira o que contaste.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 T\u00e3o verdadeiro, como credes falsos quantos os que t\u00eam culpa de sentirdes a verdade de toda a minha hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Se me ensinas a crer nessa tristeza, mostra \u00e0 tristeza o meio de matar-me, fazendo que se encontre a cren\u00e7a e a vida, como a f\u00faria de dois desesperados que se chocam, a um tempo e, mortos, caem. Lu\u00eds casar com Branca! Onde te encontras, meu filho? Amiga a Fran\u00e7a da Inglaterra, que de mim ser\u00e1 feito? Homem, retira-te! J\u00e1 n\u00e3o suporto ver-te! Essa noticia te transforma em criatura horripilante.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Senhora, que fiz eu, sen\u00e3o contar-vos o mal que outras pessoas praticaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 T\u00e3o odioso \u00e9 esse mal em sua ess\u00eancia, que quem dele se ocupa causa dano.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Acalmai-vos, senhora, eu vos suplico.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A. \u2014 Se tu, que me concitas a acalmar-me, fosses feio, rid\u00edculo, a vergonha do ventre de tua m\u00e3e, cheio de n\u00f3doas repugnantes, de manchas repulsivas, coxo, idiota, cambaio, negro, monstro, cheio de horr\u00edveis marcas, de verrugas desagrad\u00e1veis, pouco me importara; poderia ficar, at\u00e9, contente, porque, assim, n\u00e3o te amara, n\u00e3o terias sido merecedor de tua alta estirpe, nem da coroa. No entretanto, \u00e9s belo; ao nasceres, crian\u00e7a, a natureza com a Fortuna, em porfia, te exaltaram. Em dons da natureza tu suportas paralelo com os l\u00edrios inocentes e com os bot\u00f5es de rosa. Mas a falsa Fortuna se mudou, foi corrompida, desviada do teu lado; ela comete a toda hora adult\u00e9rio com teu tio; com sua m\u00e3o dourada incita Fran\u00e7a a pisar os direitos da realeza, transformando-o num reles alcaiote. Fran\u00e7a faz o papel de alcoviteiro entre a Fortuna e Jo\u00e3o, essa Fortuna prostituta e o rei Jo\u00e3o usurpador! Dize, amigo, se Fran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 perjuro. Envenena-o ao menos com palavras, ou retira-te e as dores abandona que suportar a mim, t\u00e3o-s\u00f3, compete.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Perd\u00e3o, senhora, mas sem v\u00f3s n\u00e3o posso retornar presen\u00e7a dos monarcas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Podes e deves; n\u00e3o irei contigo. Vou ensinar a tristeza a ter orgulho, que a dor \u00e9 altiva e ao sofredor faz digno. Os reis que me procurem nos dom\u00ednios da minha grande dor. T\u00e3o grande ela \u00e9, que s\u00f3 poder\u00e1 ter como suporte a imensid\u00e3o da terra. Aqui me fico; com tal dor n\u00e3o me sinto em abandono; venham curvar-se os reis ante o meu trono.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Senta-se no ch\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o rei Jo\u00e3o, o rei Filipe, Lu\u00eds, Branca, Eleonor, o Bastardo, o duque d\u2019\u00c1ustria e s\u00e9quito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Sim, filha encantadora, a Fran\u00e7a h\u00e1 de esta data comemorar daqui por diante. Para soleniz\u00e1-la, o sol glorioso vai deter a sua marcha para ao jeito fazer dos alquimistas, transformando, com o brilho dos seus olhos, esta magra costa da terra em ouro cintilante. A volta anual de semelhante dia h\u00e1 de ser para n\u00f3s sempre feriado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A (<i>levantando-se<\/i>) \u2014 Feriado n\u00e3o! Um dia amaldi\u00e7oado! Qual o valor do dia, que fez ele para ficar inscrito em letras de ouro como alto festival do calend\u00e1rio? N\u00e3o! Deveis apag\u00e1-lo da semana, porque indica opress\u00e3o, perj\u00fario e opr\u00f3brio. No caso ele ficar, ent\u00e3o que rezem as mulheres em v\u00e9spera de parto porque do peso n\u00e3o se vejam livres neste dia maldito, s\u00f3 de medo de monstros se tornarem seus anelos. S\u00f3 neste dia os viajantes devem ter medo de naufr\u00e1gio; nele, apenas, n\u00e3o mantenham palavra os contratantes. Quanto for come\u00e7ado nesta data, ter\u00e1 de acabar mal; at\u00e9 a lealdade se mudar\u00e1 na vil hipocrisia.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Penso, senhora, que n\u00e3o tendes causa de amaldi\u00e7oar os feitos deste dia. N\u00e3o tendes em penhor minha realeza?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Passastes-me uma moeda com a apar\u00eancia, t\u00e3o-s\u00f3, dessa realeza, que n\u00e3o pode resistir aos exames. Sois perjuro, perjuro! Armado viestes para o sangue verter dos meus inimigos, mas agora com vossas armas refor\u00e7ais as deles. O vigor combativo e a catadura da guerra se embrandecem na amizade, no artif\u00edcio da paz; esse contrato vai buscar for\u00e7a em nosso sofrimento. Armai-vos, c\u00e9u! Puni os reis perjuros! \u00c9 uma vi\u00fava que clama! Esposo sede-me! Que as horas deste dia amaldi\u00e7oado n\u00e3o transcorram em paz, mas que muito antes de o sol se recolher nas\u00e7a a disc\u00f3rdia entre estes reis perjuros. Atendei-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Lady Constan\u00e7a, calma!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Guerra! Guerra! n\u00e3o paz! A paz \u00e9 guerra para mim. \u00d3 Limoges! \u00d3 \u00c1ustria! \u2014 tu envergonhas teu esp\u00f3lio sangrento! Miser\u00e1vel, covarde, escravo indigno! Tu, valente pequeno, grande apenas nas torpezas! S\u00f3 refor\u00e7as o lado dos mais fortes. Pioneiro da Fortuna, tu n\u00e3o lutas sen\u00e3o quando essa dama caprichosa se acha perto e te enseja a salvaguarda. \u00c9s perjuro, tamb\u00e9m, porque bajulas a grandeza. Que tolo primoroso te revelaste, um tolo rastejante, para te pavoneares tanto e tanto no meu lado e jurares defender-me! N\u00e3o trovejaste do meu lado, escravo de sangue frio, que me ampararias? N\u00e3o me disseste que confiasse em tua fortuna, em teu poder? E n\u00e3o passaste para os meus inimigos? Trazes uma pele de le\u00e3o. Retira-a, envergonhado; p\u00f5e nesses ombros vis a de um carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Se um homem me dissesse essas palavras!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 P\u00f5e nesses ombros vis a de um carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Por tua vida, vil\u00e3o, n\u00e3o mo repitas!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 P\u00f5e nesses ombros vis a de um carneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Esqueces-te de ti; n\u00e3o gosto disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pandolfo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 O legado do Papa vem chegando.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Salve, ungidos de Deus e deputados do c\u00e9u! E a ti, rei Jo\u00e3o, que se dirige minha miss\u00e3o sagrada. Aqui me encontro, eu, Pandolfo, cardeal de Mil\u00e3o bela, como legado de Inoc\u00eancio, para te perguntar por ele, em s\u00e3 consci\u00eancia, por que com tanta obstina\u00e7\u00e3o maltratas a Igreja, nossa m\u00e3e, e por que causa com viol\u00eancia expulsaste de sua sede a Est\u00eav\u00e3o Langton, arcebispo eleito de Cantu\u00e1ria? E em nome do citado santo papa Inoc\u00eancio, que eu te fa\u00e7o todas essas perguntas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Qual \u00e9 o nome terreno que se arroga o privil\u00e9gio de impor qualquer tarefa ao livre sopro de um monarca sagrado? N\u00e3o podias, cardeal, citar um nome t\u00e3o rid\u00edculo, t\u00e3o indigno e vazio, para a alguma resposta me for\u00e7ar, como o do papa. Pois conta-lhe isso e o que ora sai da boca da Inglaterra: nenhum padre italiano receber\u00e1 em nossas terras d\u00edzimos ou qualquer outro imposto. Porque somos sob o c\u00e9u o poder mais elevado, determinamos governar sozinhos onde afeta nos \u00e9 a supremacia, sem o aux\u00edlio de m\u00e3o mortal alguma. Dize isso ao papa, sem maior respeito a ele ou sua usurpada autoridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Blasfemais, caro mano da Inglaterra!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ainda que os reis da cristandade em peso vos deixeis conduzir grosseiramente por esse padre intrometido, e medo mostreis da maldi\u00e7\u00e3o que se abastarda, uma vez que se compra por vil ouro, por esc\u00f3rias, por poeira, o corrompido perd\u00e3o de um indiv\u00edduo que na venda mercadeja o perd\u00e3o dele somente; embora enrique\u00e7ais com vossas rendas, v\u00f3s e os mais, a esse astuto feiticeiro, eu sozinho \u2014 sozinho! \u2014 me levanto contra o papa, passando doravante a ter por inimigos seus amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Ent\u00e3o, pelo poder de que me encontro revestido, \u00e9s maldito e excomungado! Aben\u00e7oado ser\u00e1 quem seu apoio negar daqui por diante a um tal herege, e merit\u00f3ria seja a m\u00e3o chamada, canonizada e tida como santa, que conseguir truncar, de qualquer jeito, essa vida execranda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Oh, que me seja permitido tamb\u00e9m, por um momento, amaldi\u00e7oar com Roma! Dizei am\u00e9m meu bom padre cardeal, a meus ardentes votos de maldi\u00e7\u00e3o. Sem os motivos dos meus agravos, todos, l\u00edngua alguma poder\u00e1 com direito amaldi\u00e7o\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 A minha maldi\u00e7\u00e3o, senhora, encontra confirma\u00e7\u00e3o na lei.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Tamb\u00e9m a minha. Quando n\u00e3o pode a lei fazer justi\u00e7a, \u00e9 legal impedir que seja injusta. Por lei, meu filho n\u00e3o obt\u00e9m seu reino, porque quem o det\u00e9m, det\u00e9m a lei. Se a lei, pois, \u00e9 injusti\u00e7a, como pode obstar que minha l\u00edngua amaldi\u00e7oe?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Filipe, deixa a m\u00e3o desse arqui-her\u00e9tico, se n\u00e3o queres ficar amaldi\u00e7oado, e levanta contra ele toda a Fran\u00e7a, a menos que ele a Roma se submeta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Empalideces, Fran\u00e7a? N\u00e3o retires a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Aten\u00e7\u00e3o, Diabo! N\u00e3o consintas que Fran\u00e7a tire a m\u00e3o; perdes uma alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Rei Filipe de Fran\u00e7a, ouvi o cardeal.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 P\u00f5e nos ombros a pele de um carneiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Sou for\u00e7ado a embolsar, biltre, essa afronta, porque&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 &#8230; tendes as cal\u00e7as bem folgadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Filipe, que respondes ao cardeal?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Que poder\u00e1 dizer, sen\u00e3o o que o pr\u00f3prio cardeal j\u00e1 enunciou?<\/p>\n<p align=\"justify\">LU\u00cdS \u2014 Pai, refleti, que a diferen\u00e7a \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o pesada de Roma ou a leve perda da Inglaterra. Abri m\u00e3o da mais leve.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 A maldi\u00e7\u00e3o de Roma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Luis, s\u00ea firme; o diabo veio tentar-te sob a forma de uma noiva de cabelos ao vento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 N\u00e3o se exprime lady Constan\u00e7a com lisura; apenas fala a necessidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Se concedes essa necessidade, que s\u00f3 vive porque a f\u00e9 pereceu, ser-te-\u00e1 for\u00e7oso inferir que vivera a f\u00e9 de novo, caso a necessidade perecesse. Quando a necessidade derrubares, a f\u00e9 se elevar\u00e1 resplandecente; deixa aquela de p\u00e9 que esta se abate.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 O rei est\u00e1 comovido; n\u00e3o responde.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Dele te afasta e dize-lhe o que importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 Faze isso, rei Filipe; n\u00e3o prossigas mais suspenso.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Suspende a pele, apenas, de um carneiro, \u00f3 meu doce paspalh\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Estou perplexo; o que dizer, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Mais perplexo h\u00e1s de ser com o que disseres, Se ficares maldito e excomungado.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 No meu lugar vos ponde, reverendo, e dizei-me o que hav\u00edeis de fazer. Esta real m\u00e3o e a minha, n\u00e3o faz muito, viram-se unidas; acham-se casados os cora\u00e7\u00f5es, ligados no imo peito pela for\u00e7a de votos religiosos e liames sacrossantos. O nosso \u00faltimo alento que fez soar umas palavras tratava de amizade, amor sincero, paz e fidelidade entre os dois reinos e nossas reais pessoas. No entretanto, pouco antes dessas tr\u00e9guas, n\u00e3o mais tempo do que o preciso para as m\u00e3os lavarmos, a fim de que esse pacto real firm\u00e1ssemos, s\u00f3 Deus o sabe, estavam elas sujas do pincel carregado da chacina com que a Vingan\u00e7a desenhado havia o terr\u00edvel diss\u00eddio entre monarcas. E ora essas m\u00e3os, que s\u00f3 de pouco se acham limpas de sangue, t\u00e3o recentemente no amor entrela\u00e7adas, que t\u00e3o fortes em ambos se mostravam, esses la\u00e7os ir\u00e3o quebrar e os sacros juramentos? Zombar, assim, da f\u00e9? Brincar com as coisas sagradas, como crian\u00e7as inconstantes, e desligar as m\u00e3os t\u00e3o bem unidas? Mostrarem-se perjuros, sobre o leito de n\u00fapcias, todo em flor, lan\u00e7ar um h\u00f3spede sanguinoso e aprestar um mortic\u00ednio na gentil fronte da amizade pura? \u00d3 reverendo padre, homem sagrado, resolvei de outro modo! Em vossa gra\u00e7a excogitai, imponde outra medida menos severa, que feliz seremos em acat\u00e1-la, continuando amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Informe \u00e9 a forma e desordeira a ordem que contra o amor ingl\u00eas n\u00e3o se opuserem. Por isso, \u00e0s armas! S\u00ea campe\u00e3o da Igreja; caso contr\u00e1rio, a Igreja, nossa m\u00e3e, a maldi\u00e7\u00e3o te lan\u00e7a, maldi\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e contra o filho revoltado. Fran\u00e7a, ser-te-\u00e1 mais f\u00e1cil segurares pela l\u00edngua a serpente, o le\u00e3o zangado pela pata terr\u00edvel e o fam\u00e9lico tigre pelos queixais, do que nas tuas essa m\u00e3o prosseguires apertando.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Posso a m\u00e3o retirar, n\u00e3o a palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Fazes da honra a inimiga da pr\u00f3pria honra; como em civil disc\u00f3rdia, juramento op\u00f5es a juramento, l\u00edngua a l\u00edngua. Em primeiro lugar, realiza o voto que ante o c\u00e9u assumiste, isto \u00e9, de seres campe\u00e3o de nossa Igreja; o que juraste depois, contra ti pr\u00f3prio foi jurado; por ti mesmo n\u00e3o pode ser cumprido, pois tudo o que juraste erradamente, se com acerto obrares, se corrige. Onde a a\u00e7\u00e3o tende ao mal, o certo, sempre, consistir\u00e1 em n\u00e3o fazer mais erros. O melhor, sempre que algo de incorreto pretendemos fazer, \u00e9 errar de novo. Conquanto isso consista num desvio, este vai dar, alfim, no bom caminho. A falsidade cura a falsidade, tal como o fogo abranda o pr\u00f3prio fogo dentro das veias que o caut\u00e9rio abrasa. E a religi\u00e3o que os votos nos preserva. Foi contra a religi\u00e3o que te empenhaste; jurando por aquilo por que juras, apresentaste um juramento como penhor de tua f\u00e9, numa emerg\u00eancia contra esse juramento. A f\u00e9, no entanto, que a jurar te levou, te obriga, apenas, a n\u00e3o seres perjuro. Do contr\u00e1rio, que esc\u00e1rnio n\u00e3o seria o juramento! Juraste para ser, t\u00e3o-s\u00f3, perjuro, o que ser\u00e1s mais ainda, persistindo. Teu voto \u00faltimo, pois, contra o primeiro \u00e9 revolta de ti contra ti mesmo, jamais conseguir\u00e1s maior vit\u00f3ria do que armando a const\u00e2ncia e o que de nobre tens no imo peito contra esses engodos. \u00c9 para essa por\u00e7\u00e3o que dirigimos nossas preces, no caso de atend\u00ea-las. Caso contr\u00e1rio, sabe que o perigo de nossa maldi\u00e7\u00e3o sobre ti pende por maneira t\u00e3o grave que imposs\u00edvel ser-te-\u00e1 livrar-te dela, sendo for\u00e7a pereceres sob esse negro fardo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c1USTRIA \u2014 E franca rebeli\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 N\u00e3o tapar\u00e1 essa boca uma pele de carneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Pai, \u00e0s armas!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 No dia de tuas n\u00fapcias? Contra o sangue que acabas de esposar? Como! Festejaremos nosso enlace com corpos mutilados? As trombetas atroantes e os tambores rumorosos \u2014 clamor do inferno \u2014 marcar\u00e3o o compasso para o nosso cortejo? O esposo, escuta-me! Esposo! Como \u00e9 nova essa palavra dita por mim! Por esse nome caro, que eu jamais pronunciei at\u00e9 este instante, imploro-te de joelhos n\u00e3o pegares armas contra meu tio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Nestes joelhos, \u00e0 for\u00e7a de ajoelhar t\u00e3o calejados, virtuoso Delfim, eu te suplico n\u00e3o mudares o curso do destino que o c\u00e9u determinou!<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 Ora vou ver se me amas. Qual o nome que mais te obrigar\u00e1 do que o de esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 O que ampara teu pr\u00f3prio sustent\u00e1culo: sua honra! Lu\u00eds, tua honra, a tua pr\u00f3pria honra!<\/p>\n<p align=\"justify\">LU\u00cdS \u2014 Por que t\u00e3o frio Vossa Majestade se mostra, quando tem tantos motivos para atuar sem delongas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Vou lan\u00e7ar-lhe a maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 N\u00e3o tens necessidade. Inglaterra, separo-me de ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Oh! retorno admir\u00e1vel da banida Majestade!<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Oh! trai\u00e7\u00e3o mais do que abjeta da inconst\u00e2ncia francesa!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Antes de uma hora, Fran\u00e7a, vais lastimar este momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Se o velho Tempo concordar, o calvo relojoeiro que inuma as horas todas, muito bem, vai a Fran\u00e7a arrepender-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 De sangue se acha o sol ora coberto. Dia formoso, adeus! Para que lado decidir-me? Sou de ambos. Cada ex\u00e9rcito me prende uma das m\u00e3os; a ambos estando presa, \u00e9 for\u00e7a que fique desmembrada, quando se separarem. Caro esposo, rezar n\u00e3o posso para tua vit\u00f3ria; tio, devo pedir que tu n\u00e3o ven\u00e7as; pai, n\u00e3o posso almejar tua fortuna; av\u00f3, n\u00e3o quero que teus votos vinguem. Ven\u00e7a quem for, a perda ser\u00e1 minha; minha derrota se acha assegurada, antes mesmo que o jogo principie.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Tua fortuna se acha onde eu me encontro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BRANCA \u2014 Onde ela vive, minha vida morre.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Primo, re\u00fane logo as nossas for\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fran\u00e7a, queima-me c\u00f3lera esbraseante. O calor que me inflama \u00e9 de tal monta que nada o aplacar\u00e1, sen\u00e3o s\u00f3 sangue, sangue do mais precioso que haja em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Ficar\u00e1s consumido pela c\u00f3lera, a cinzas reduzido, antes que o nosso sangue possa apagar esse braseiro. Toma conta de ti; ao Fado escuta.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Faze o mesmo, tamb\u00e9m. A luta! A luta!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"8\" name=\"8\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Plan\u00edcie perto de Angers. Rebate. Movimento de tropas. Entra o Bastardo com a cabe\u00e7a do duque d\u2019\u00c1ustria.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Por minha vida, o dia est\u00e1 ficando quente demais. Algum dem\u00f4nio a\u00e9reo paira no c\u00e9u e faz chover desgra\u00e7as. Cabe\u00e7a de \u00c1ustria, fica a\u00ed enquanto Filipe toma f\u00f4lego.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o rei Jo\u00e3o, Artur e Hubert.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Hubert, guarda o menino. Toda a pressa, Filipe. Minha m\u00e3e foi assaltada em nossa tenda e aprisionada, temo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Eu a salvei, milorde; Sua Alteza se acha em lugar seguro; n\u00e3o temais. Mas continuemos, meu senhor; um pouco mais de esfor\u00e7o dar\u00e1 bom fim a tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"9\" name=\"9\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Rebate. Movimento de tropas. Entram o rei Jo\u00e3o, Eleonor, Artur, o Bastardo, Hubert e nobres.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O (<i>a Eleonor<\/i>) \u2014 Ser\u00e1 assim; bem guardada, Vossa Gra\u00e7a vai ficar para tr\u00e1s. N\u00e3o te amofines, caro primo; tua av\u00f3 te ama, e teu tio por ti far\u00e1 como um segundo pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Oh! minha m\u00e3e vai sucumbir de ang\u00fastia!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Para a Inglaterra, primo, a toda pressa! E antes de n\u00f3s chegarmos, trata logo de sacudir os sacos do tesouro dos prelados; liberta os anjos presos. As costelas da paz v\u00e3o ser o pingue sustento dos famintos. Cumpre nossa comiss\u00e3o sem pesar as conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Sinos, livros e velas for\u00e7a alguma ter\u00e3o para impedir que eu me aproxime, quando o ouro e a prata o invite me fizerem. Deixo Vossa Grandeza. Boa av\u00f3, hei de rezar \u2014 no caso de ter tempo para tornar-me um tanto religioso \u2014 por vossa seguran\u00e7a. As m\u00e3os vos beijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Adeus, meu gentil primo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Primo, adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Meu netinho, vem c\u00e1; quero falar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Afasta-se com Artur.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Vem aqui, meu caro Hubert. \u00d3 caro Hubert, devo-te muito! Dentro destes muros de carne, uma alma habita que te exalta como credor sem par, determinando pagar-te o amor com juros generosos. Teu juramento volunt\u00e1rio, amigo, com carinho se encontra neste peito. D\u00e1-me a m\u00e3o. Tencionava dizer-te algo, mas vou deixar para momento azado. Pelo c\u00e9u, Hubert! Quase me envergonha confessar a amizade que te voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Sou muito grato a Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Caro amigo, n\u00e3o tens ainda motivo para exprimir-te assim. Mas h\u00e1s de t\u00ea-lo. O tempo h\u00e1 de em seu curso demorado propiciar ocasi\u00e3o de bem fazer-te. Ia dizer-te&#8230; Bem; deixemos isso. Brilha o sol no alto; esse orgulhoso dia \u00e9 fr\u00edvolo demais, \u00e9 muito alegre para me ouvir. Se porventura o sino da meia-noite soasse com sua boca de a\u00e7o e l\u00edngua de ferro uma pancada na noite sonolenta; se estiv\u00e9ssemos num cemit\u00e9rio e tu te visses presa de desgostos sem conta; se esse esp\u00edrito triste, a Melancolia, te fizesse crasso e pesado o sangue, embara\u00e7ando-o de correr e nas veias fazer c\u00f3cegas, para que o riso idiota dominasse os olhos e tornasse as belfas t\u00famidas numa ociosa alegria \u2014 mostras essas odiosas a meus planos \u2014 ou se, acaso, me enxergasses sem olhos e me ouvisses sem ouvidos, podendo responder-me sem \u00e0 voz recorreres, s\u00f3 valendo-te do pensamento, sem ouvidos, olhos e o nocivo barulho das palavras&#8230; ent\u00e3o eu te confiara ao peito quanto na alma retenho, sem temor do dia vigilante que os gestos nos espia. N\u00e3o, n\u00e3o quero!&#8230; Contudo, amo-te muito. E penso que tamb\u00e9m tu me amas muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Tanto, milorde, que podeis mandar-me fazer seja o que for. Embora a morte a isso esteja ligada, hei de cumpri-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Porventura n\u00e3o o sei? Hubert, bom Hubert, contempla aquela crian\u00e7a. Escuta, amigo: \u00e9 uma serpente que se me depara no caminho; onde quer que eu ponha o p\u00e9, ela sempre se encontra. Tu me entendes; deixo-a sob tua guarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Hei de guard\u00e1-la de maneira que a Vossa Majestade n\u00e3o possa ela ofender.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Milorde?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Quero uma sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Entendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Basta. Posso alegrar-me, agora. Hubert, eu te amo. Bem, nada te direi do que tenciono fazer por ti; recorda-te. Senhora, passai bem; vou mandar aquelas tropas para guarda de Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELEONOR \u2014 Recebe minha b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Parti, primo, para a Inglaterra; como companheiro tereis Hubert, em tudo devotado. N\u00e3o percais tempo. Vamos! A Calais!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"10\" name=\"10\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. A tenda do rei da Fran\u00e7a. Entram o rei Filipe, Lu\u00eds, Pandolfo e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Por uma tempestade, assim, nas ondas, a armada inteira as velas viu destru\u00eddas e dispersada toda sua maruja.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Coragem! Tudo ainda h\u00e1 de correr bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Que \u00e9 que pode correr, sen\u00e3o n\u00f3s mesmos? N\u00e3o fomos derrotados? N\u00e3o perdemos Angers? N\u00e3o se acha Artur em m\u00e3os inimigas? Muitos amigos nossos n\u00e3o morreram? E Inglaterra sangrento n\u00e3o se encontra novamente a caminho da Inglaterra, a despeito da Fran\u00e7a e dos obst\u00e1culos?<\/p>\n<p align=\"justify\">LU\u00cdS \u2014 Quanto ganhou, soube deixar bem firme. Tamanha rapidez com tanta ordem, tudo t\u00e3o bem pensado em meio \u00e0 pressa, \u00e9 sem exemplo. Quem j\u00e1 leu ou, ao menos, j\u00e1 ouviu falar de coisa semelhante?<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 O elogio \u00e0 Inglaterra eu suportara, se pudesse encontrar algum modelo para nossa vergonha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Constan\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Eis quem nos chega! O sepulcro de uma alma que, bem contra seu alvedrio, o sempiterno esp\u00edrito ainda ret\u00e9m no c\u00e1rcere aflitivo do pr\u00f3prio peito. Por favor, senhora, vinde comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Vede o resultado da vossa paz!<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Paci\u00eancia, nobre dama! Gentil Constan\u00e7a, calma!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 N\u00e3o! Desprezo qualquer conforto, todo desagravo, com exce\u00e7\u00e3o do conforto verdadeiro, o \u00faltimo desagravo: a morte! a morte! Morte am\u00e1vel, podrid\u00e3o cheirosa, s\u00e3 carni\u00e7a, levanta-te do leito da Noite sempiterna, tu que nutres \u00f3dio e terror a tudo o que prospera, e hei de beijar-te os ossos detest\u00e1veis e os olhos p\u00f4r nessas vazias \u00f3rbitas; adornarei os dedos com teus vermes, entupirei com poeira repugnante esta frincha de alento, para monstro putrefeito virar como tu pr\u00f3pria! Vou fazer-te caretas, porque eu pense que me sorris e beijos te prodiga como se noivos f\u00f4ssemos! \u00d3 amante miser\u00e1vel, assiste-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 O magn\u00edfica afli\u00e7\u00e3o, tende calma!<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o hei de ficar calada, enquanto tiver f\u00f4lego para gritar! Oh, se eu tivesse a l\u00edngua da boca do trov\u00e3o! Abalaria com minha dor o mundo e despertara do seu sono fatal esse esqueleto maldoso que se mostra surdo aos d\u00e9beis queixumes de uma dama e faz ca\u00e7oada das f\u00f3rmulas comuns dos exorcismos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Senhora, isso \u00e9 loucura, n\u00e3o tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Um homem santo n\u00e3o me desmentira desse modo. N\u00e3o estou fora do ju\u00edzo; os cabelos que arranco, me pertencem; sou Constan\u00e7a; j\u00e1 fui a esposa amada de Godofredo; o mo\u00e7o Artur \u2014 ai dele! \u2014 \u00e9 meu filho&#8230; Perdido para sempre! N\u00e3o estou louca. Ao c\u00e9u assim prouvera, porque ent\u00e3o me esquecera de mim pr\u00f3pria. Oh, se eu ficasse louca, de que imensa tristeza eu me livrara! Prega-me uma filosofia que me deixe louca de todo, e tu ser\u00e1s canonizado, Cardeal! N\u00e3o sendo louca e continuando sens\u00edvel ao sofrer, procura a parte racional que me \u00e9 pr\u00f3pria o meio azado de livrar-me das dores, ensinando-me a enforcar-me ou matar-me. Fosse eu louca, poderia esquecer-me do filhinho, ou imaginar que ele era, t\u00e3o-somente, um boneco de trapos. N\u00e3o sou louca; sinto perfeitamente as variadas torturas de cada uma das desgra\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Prendei as tran\u00e7as&#8230; Quanto amor eu noto na bela multid\u00e3o desses cabelos! Se cai neles, acaso, uma s\u00f3 l\u00e1grima argentina, de pronto pressurosos amigos, aos milhares, a\u00ed se colam numa comunidade de tristeza, tal como amantes fi\u00e9is e insepar\u00e1veis que nas calamidades se congregam.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Vamos para a Inglaterra, Se o quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Prendei esses cabelos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Sim, f\u00e1-lo-ei. Mas para que prend\u00ea-los? Ao solt\u00e1-los dos atilhos, gritei: Oh, se pudessem estas m\u00e3os libertar meu caro filho como o fazem, soltando estes cabelos! Agora invejo a liberdade deles e de novo prend\u00ea-los desejara, por saber que meu filho se acha preso. Cardeal, j\u00e1 vos ouvi dizer que havemos de ver e conhecer nossos amigos no c\u00e9u. Se isso \u00e9 verdade, ent\u00e3o eu hei de tornar a ver meu filho. Desde o dia em que Caim nasceu, o primeiro homem que veio \u00e0 luz, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima crian\u00e7a que ontem, somente respirou gritando, jamais nasceu criatura t\u00e3o graciosa. Ora, por\u00e9m, o cancro da tristeza vai corroer meu bot\u00e3o e de suas faces expulsar o frescor e encantos pr\u00f3prios, deixando-o com a apar\u00eancia dos espectros, t\u00e3o magro quanto a febre e, assim, t\u00e3o triste, para, alfim, perecer. Ressuscitado, quando, acaso, o encontrar na corte emp\u00edrea, n\u00e3o poderei sequer reconhec\u00ea-lo. Por isso nunca mais terei a dita, \u2014 nunca mais! \u2014 de rever o meu Artur, meu gracioso filhinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Isso revela um odioso respeito \u00e0 desventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 Quem assim fala nunca teve filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Estimais igualmente a dor e o filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONSTAN\u00c7A \u2014 A dor tomou o lugar de meu filhinho, deita-se no seu leito, anda ao meu lado, assume aquele olhar, repete apenas suas palavras, traz-me a todo o instante \u00e0 mem\u00f3ria seus dotes inef\u00e1veis, reveste a forma dele com os vazios trajos que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios. Logo, eu tenho raz\u00f5es de sobra para amar a minha dor incomensur\u00e1vel. Passai bem. Se tiv\u00e9sseis perdido o que eu perdi, eu vos consolaria por maneira melhor do que o fazeis. N\u00e3o mais suporto na cabe\u00e7a este enfeite, quando tenho no esp\u00edrito a desordem. \u00d3 Senhor! Meu Artur, meu menino, meu filhinho, minha vida e alegria, meu sustento, meu tudo neste mundo, meu consolo de vi\u00fava, meu rem\u00e9dio na tristeza!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Temo alguma viol\u00eancia; vou segui-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Nada h\u00e1 no mundo que me fa\u00e7a alegre. A vida \u00e9 t\u00e3o tediosa como hist\u00f3ria duas vezes contada, que importuna o ouvido de pessoa sonolenta. Uma vergonha amarga de tal modo me estragou todo o gosto deste mundo, que amargor e ignom\u00ednia em tudo sinto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Antes da cura de uma doen\u00e7a grave, no instante do vigor e da melhora, o acesso \u00e9 sempre forte. Quando os males se despedem, o fazem com viol\u00eancia. Que perdestes com a perda deste dia?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Todos os dias belos e gloriosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Isso seria, se o tiv\u00e9sseis ganho. N\u00e3o, n\u00e3o! Quando a Fortuna quer aos homens fazer um benef\u00edcio, ela os contempla com olhos pouco amigos. \u00c9 espantoso quanto o rei Jo\u00e3o perdeu no dia em que ele julga t\u00e3o bem conclu\u00eddo. N\u00e3o vos causa tristeza o ver Artur seu prisioneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 T\u00e3o cordialmente quanto ele se alegra por t\u00ea-lo como presa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Tendes a alma t\u00e3o jovem quanto o sangue. Ouvi-me agora, que vos falo com esp\u00edrito prof\u00e9tico. O sopro do que entendo ora dizer-vos vai tirar todo o p\u00f3, qualquer palhinha, os menores obst\u00e1culos da estrada que dever\u00e1s pisar para alcan\u00e7ares o trono da Inglaterra. Ouve-me atento: Jo\u00e3o prendeu Artur; enquanto o sangue correr quente nas veias dessa crian\u00e7a, em sua posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o deslocada n\u00e3o poder\u00e1 ter Jo\u00e3o uma hora, menos, um minuto sequer, em que lhe seja poss\u00edvel repousar tranq\u00fcilamente. Um cetro arrebatado com viol\u00eancia precisa ser mantido por processos iguais aos da conquista. Quem se encontra em lugar pouco firme n\u00e3o despreza meio algum por que possa sustentar-se. Para que Jo\u00e3o se firme, \u00e9 necess\u00e1rio que Artur caia. N\u00e3o h\u00e1 outro dilema.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 E que posso lucrar com a queda dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Pelo direito da senhora Branca, vossa esposa, podeis, certo, arrogar-vos as pretens\u00f5es de Artur.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 E, como Artur, tamb\u00e9m perder a vida e tudo o mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Como sois novo neste velho mundo! Jo\u00e3o conspira por v\u00f3s; o tempo o ajuda, pois quem mergulha a salva\u00e7\u00e3o em sangue, s\u00f3 alcan\u00e7a salva\u00e7\u00e3o sang\u00fc\u00ednea e falsa. Esta a\u00e7\u00e3o, concebida com perf\u00eddia, vai esfriar o peito de seus s\u00faditos e o zelo enregelar-lhes de tal modo que eles procurar\u00e3o todo pretexto, ainda o menos razo\u00e1vel, para o trono investir-lhe e abalar-lhe. Os sinais todos do c\u00e9u, por mais comuns, qualquer fen\u00f4meno natural, uma tarde enfarruscada, um vento inesperado, ou mesmo um fato n\u00e3o previsto, ser\u00e3o por todos logo despojados de suas causas simples, tornando-se prod\u00edgios, advert\u00eancias do c\u00e9u, press\u00e1gios, maus sinais, abortos que chamam contra Jo\u00e3o a ira celeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 \u00c9 poss\u00edvel que a vida ele n\u00e3o tire do mo\u00e7o Artur, tratando de firmar-se t\u00e3o-somente com t\u00ea-lo prisioneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Oh c\u00e9us! Quando ele ouvir que estais chegando, far\u00e1 morrer o mo\u00e7o Artur, se este ainda vivo estiver acaso. Ent\u00e3o, seus s\u00faditos a afei\u00e7\u00e3o lhe retiram, para os l\u00e1bios beijar de uma mudan\u00e7a inesperada, encontrando pretexto suficiente de c\u00f3lera e revolta no espet\u00e1culo dos dedos reais, com sangue real manchados. Parece que j\u00e1 vejo deflagrada toda essa confus\u00e3o. Oh! Como as coisas se arranjar\u00e3o ainda melhor em vosso benef\u00edcio do que eu posso contar-vos! Faulconbridge, o bastardo, se acha agora na Inglaterra, pilhando nossos templos, manchando a caridade. Se uma d\u00fazia de franceses armados l\u00e1 estivessem, valeriam por grito de chamada para logo reunir dez mil ingleses do lado deles, como um flocozinho de neve que, ao rolar, vira montanha. \u00c9 inconceb\u00edvel quanto pode vir-nos do descontentamento dessa gente. Ora que o \u00f3dio fermenta na alma deles, cuidemos de passar para a Inglaterra. Eu vou tratar de estimular o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Os grandes feitos nascem da raz\u00e3o; se dizeis sim, o rei n\u00e3o dir\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO IV<\/h2>\n<p><a id=\"12\" name=\"12\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Northampton. Um quarto no castelo. Entram Hubert e dois criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Aquecei logo os ferros e vos ponde por detr\u00e1s da cortina. Ao me escutardes bater com o p\u00e9 no ch\u00e3o, sem mais delongas acorrei e amarrai bem firmemente na cadeira o menino que encontrardes comigo! Sede cautos. Ide! A postos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Espero que em tudo isso tereis plena responsabilidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Ora, que escr\u00fapulos descabidos! Por que tanto receio? M\u00e3os \u00e0 obra, logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Vinde c\u00e1, menino; tenho algo que dizer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Artur.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Hubert, bom-dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Meu pequeno pr\u00edncipe, bom-dia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 T\u00e3o pequeno, na verdade, quanto poss\u00edvel, possuindo t\u00edtulo para ser maior pr\u00edncipe. Estais triste!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 J\u00e1 estive mais alegre, \u00e9 fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Oh c\u00e9us! Pensava que eu, somente, tinha causa para estar triste. Mas agora ocorre-me que na Fran\u00e7a os rapazes, por capricho, pareciam t\u00e3o tristes como a noite. Pelo meu cristianismo, se eu me visse livre desta pris\u00e3o e a guardar cabras, alegre ficaria o dia todo. Sim, at\u00e9 mesmo aqui podia s\u00ea-lo, se n\u00e3o fosse o cuidado de que intenta meu tio contra mim qualquer maldade. Receia-se de mim, tal como eu dele. \u00c9 minha a culpa, acaso, de ser filho de Godofredo? N\u00e3o; de forma alguma. Quem dera, Hubert, que eu fosse vosso filho, porque, assim, me ter\u00edeis muito amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se eu me puser a conversar, a sua garrulice inocente acorda a minha piedade que est\u00e1 morta. Urge, portanto, n\u00e3o perder tempo e p\u00f4r um ponto nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Hubert, sentis-vos mal? Hoje estais p\u00e1lido. Desejara, de fato, que estiv\u00e9sseis um pouco doente, s\u00f3 para que as noites eu passasse de guarda a vosso leito. Uma coisa \u00e9 certeza: que eu vos amo mais do que v\u00f3s a mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT (<i>\u00c0 parte.<\/i>) \u2014 Suas palavras prendem-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Mostrando um papel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Lede isto, Artur! (<i>\u00c0 parte.<\/i>) E agora esta \u00e1gua est\u00fapida, tocando porta a fora a tortura! Urge apressar-me, se n\u00e3o a decis\u00e3o me cai dos olhos como l\u00e1grimas d\u00e9beis de mulher. N\u00e3o podeis ler? N\u00e3o se acha bem escrito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 At\u00e9 demais para uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o vil. Com ferro quente ides queimar-me os olhos?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 \u00c9 preciso, menino.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 E ides faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Sim, estou decidido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 N\u00e3o vos falta coragem? Ao doer-vos a cabe\u00e7a, amarrei-vos a testa com meu len\u00e7o, o melhor que eu possu\u00eda; uma princesa bordara-o para mim. No entanto, nunca pedi que o devolv\u00easseis. Suspendi-vos a cabe\u00e7a com jeito em meio \u00e0 noite; e assim como os minutos cuidam da hora, eu, sem pausa, animava o lerdo tempo dizendo: \u201cQue vos falta?\u201d \u201cOnde vos d\u00f3i?\u201d ou \u201cQue prova de amor vos posso eu dar?\u201d Muitos meninos pobres ficariam sem se importar convosco e sem dizer-vos uma palavra, ao menos, de carinho. No entanto t\u00ednheis um enfermeiro pr\u00edncipe! Talvez imagineis que o meu afeto seja fingido e o batizeis de ast\u00facia. Fazei como o quiserdes. Se a vontade do c\u00e9u for que eu receba alguma ofensa de vossa parte, bem: deveis faz\u00ea-lo. Arrancar-me-eis os olhos? Estes olhos que nunca olhar severo vos lan\u00e7aram, nem jamais o far\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Dei a palavra; por isso, com estes ferros vou queim\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Somente nesta nossa idade f\u00e9rrea \u00e9 que h\u00e1 quem possa praticar tal ato! O pr\u00f3prio ferro, embora ao rubro aceso, ao tocar-me nos olhos, minhas l\u00e1grimas beberia, estancando a indigna\u00e7\u00e3o, justamente por ver minha inoc\u00eancia. Mais, ainda: estragara-se em ferrugem depois disso, por ter contido fogo capaz de me ofender os fracos olhos. Sois mais duro que o ferro endurecido? Ainda que viesse um anjo procurar-me para dizer-me que Hubert pretendia tirar-me os olhos, n\u00e3o no acreditara; somente no pr\u00f3prio Hubert eu creria.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT (<i>batendo com o p\u00e9 no ch\u00e3o<\/i>) \u2014 Vinde logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram os criados, com cordas, ferros, etc.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fazei como vos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Socorro, Hubert, socorro! Ao s\u00f3 aspecto destes homens ferozes sinto os olhos saltarem-me das \u00f3rbitas!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Os ferros entregai-me, vos digo, e atai-o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Ai de mim! Por que serdes t\u00e3o violentos? N\u00e3o farei resist\u00eancia; vou manter-me quieto como uma pedra. Pelo c\u00e9u, Hubert, n\u00e3o consintais que eles me amarrem, e eu ficarei sentado, t\u00e3o quietinho como uma ovelha; n\u00e3o direi palavra, n\u00e3o farei gesto algum, n\u00e3o hei de aos ferros lan\u00e7ar olhar zangado. Mandai esses homens embora e eu vos perd\u00f4o quantas torturas ainda vierdes a infligir-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Retirai-vos; deixai-me s\u00f3 com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Alegra-me sair deste neg\u00f3cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Ai de mim, que perdi um grande amigo! E de olhar duro, sim, mas de bon\u00edssimo cora\u00e7\u00e3o. Novamente o mandai vir, porque sua compaix\u00e3o desperte a vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Vamos, menino, preparai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Como! N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio algum?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Nenhum, afora ficardes sem os olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Oh meu Deus! Se nos vossos houvesse um gr\u00e3o apenas, um argueiro, um mosquito, uma poeirinha, um pequeno cabelo, qualquer coisa que o precioso sentido vos turvasse: ent\u00e3o, sentindo como as coisas m\u00ednimas ali causam tormento, vosso abjeto plano vos parecera mais que horr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Foi isso o que me prometestes? Vamos, refreai essa l\u00edngua.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Em se tratando de assunto da defesa de dois olhos, n\u00e3o \u00e9 demais a fala de duas l\u00ednguas. N\u00e3o mandeis que eu me cale, Hubert; deixai-me continuar a falar, ou, se o quiserdes, Hubert, a l\u00edngua me arrancai, contanto que os olhos eu conserve. Sim, poupai-nos, ainda que seja s\u00f3 para eu vos ver. Olhai como o instrumento j\u00e1 est\u00e1 frio; n\u00e3o me quer fazer mal.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Posso aquec\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 O fogo se extinguiu s\u00f3 de tristeza, por se ver obrigado a causar dores, ele que fora criado t\u00e3o-somente para espalhar o bem. Vede v\u00f3s mesmo: n\u00e3o tem mal\u00edcia este carv\u00e3o ardente; o c\u00e9u soprou-lhe a chama, e na cabe\u00e7a deitou-lhe as cinzas do arrependimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Posso aviv\u00e1-la, crian\u00e7a, com meu sopro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Fareis, com isso, apenas que ele core, Hubert, e se enrubes\u00e7a por vosso ato. Talvez aos olhos ele vos atire fa\u00edscas e, tal como o c\u00e3o que o dono quer obrigar \u00e0 luta, a m\u00e3o ofenda que tentar incit\u00e1-lo. As coisas todas que empregardes com o fim de molestar-me, se negar\u00e3o a isso. V\u00f3s, somente, careceis de bondade que \u00e9 inerente ao duro ferro e ao fogo, que s\u00e3o tidos como elementos sem piedade alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Vede para viver; n\u00e3o hei de os olhos vos tocar, nem por todos os tesouros de vosso tio. No entretanto, crian\u00e7a, jurei faz\u00ea-lo e tinha resolvido que eu pr\u00f3prio os queimaria com estes ferros.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Finalmente voltastes a ser Hubert! At\u00e9 este instante est\u00e1veis disfar\u00e7ando.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Nem mais uma palavra! Vosso tio n\u00e3o poder\u00e1 saber que estais com vida. Vou jogar a esses c\u00e3es que nos espiam falsas not\u00edcias. Ador\u00e1vel crian\u00e7a, dorme tranq\u00fcila, que Hubert, nem todo ouro do mundo o levar\u00e1 nunca a ofender-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 Oh c\u00e9us! Eu te agrade\u00e7o, Hubert.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Caluda! Nem mais uma palavra. Vem comigo; por tua causa eu corro atroz perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"13\" name=\"13\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. A sala do trono no pal\u00e1cio. Entram o rei Jo\u00e3o, coroado, Pembroke, Salisbury e outros nobres, O rei se senta no trono.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Eis-nos aqui de novo, novamente coroado e, quero cr\u00ea-lo, objeto apenas de olhares amistosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Se n\u00e3o for a Vossa Alteza grato, o \u201cnovamente\u201d se tornara sup\u00e9rfluo, pois j\u00e1 est\u00e1veis coroado; a alta realeza n\u00e3o vos tinha sido arrancada, a f\u00e9 de vossos s\u00faditos n\u00e3o se vira manchada com revoltas, o pa\u00eds n\u00e3o se achava perturbado por nenhuma esperan\u00e7a ou velho anseio de altera\u00e7\u00e3o para melhor estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Por isso, tomar posse duas vezes, enriquecer um t\u00edtulo j\u00e1 rico, dourar ouro de lei, pintar o l\u00edrio, despejar mais perfume na violeta, querer deixar o gelo ainda mais liso, nova cor ajuntar ao arco-\u00edris, ou presumir que a luz de vela pode dar mais brilho ao formoso olho celeste, \u00e9 rid\u00edculo excesso, sobre in\u00fatil.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Tirante vosso real prazer, esse ato se assemelha a uma hist\u00f3ria j\u00e1 sabida que, ao ser contada, engendra apenas t\u00e9dio, por ser lembrada fora de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Desse modo a apar\u00eancia digna e simples dos costumes antigos se transforma, e, como faz o vento incerto, muda de sua diretriz o pensamento, de forma tal que a considera\u00e7\u00e3o se espanta e assusta, adoece a opini\u00e3o s\u00e3 e a verdade n\u00e3o pode mais ser crida por trocar, s\u00f3 por moda, a vestimenta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Os artes\u00e3os que querem fazer muito, por ambi\u00e7\u00e3o a habilidade estragam, e, tentando por vezes desculpar-se de uma falta, por fim mais grave a tornam, como remendo posto num pequeno rasg\u00e3o, que, em vez de o mascarar, o deixa mais \u00e0 vista do que antes do conserto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 A esse respeito conversamos antes da nova coroa\u00e7\u00e3o, mas foi do agrado de Vossa Alteza n\u00e3o levar em conta nosso modo de ver, o que nos deixa satisfeitos, por vermos que as menores partes do que queremos v\u00e3o quebrar-se ante a vossa vontade irresist\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 J\u00e1 vos apresentei alguns motivos da dupla coroa\u00e7\u00e3o, que julgo fortes, e quando diminuir o meu receio vos darei outros mais, bem mais valiosos. At\u00e9 l\u00e1, me pedi somente quanto julgardes que precisa de reforma, porque vos conven\u00e7ais de quanto almejo ouvir-vos e atender a vossas queixas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Nesse caso, como \u00f3rg\u00e3o, escolhido pelos presentes, eu, por mim, por eles, a bem de vossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, que constitui o objeto dos cuidados de n\u00f3s todos, vos pe\u00e7o a liberdade de Artur, cuja pris\u00e3o d\u00e1 pasto aos l\u00e1bios dos descontentes, que se apegam a este perigoso argumento: se o que tendes em paz vos pertencesse por direito, n\u00e3o vos levara o medo \u2014 que, segundo todos dizem, sequaz \u00e9 da injusti\u00e7a \u2014 a prender um parente delicado, seus dias oprimir na mais selvagem ignor\u00e2ncia e negar-lhe \u00e0 mocidade a alta vantagem do exerc\u00edcio livre. Para que os vossos inimigos de hoje n\u00e3o se possam valer desse argumento, permiti que um pedido dos que, h\u00e1 pouco, nos mandaste fazer, seja o de pordes em liberdade o jovem prisioneiro. S\u00f3 cuidamos de nossos interesses por dizer nosso bem, que em tudo se acha dependente do vosso, que a soltura de Artur ao vosso bem \u00e9 imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Hubert.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Que seja; entrego a sua mocidade \u00e0 vossa dire\u00e7\u00e3o. Hubert, que novas?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Conversam \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Eis quem devia executar o feito; ele pr\u00f3prio mostrou a um meu amigo a ordem do infando crime, que nos olhos se lhe reflete. Seu sombrio aspecto denuncia o conflito do imo peito. Diz-me o medo que \u00e9 fato consumado tudo quanto tem\u00edamos que o fosse.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 A cor do rei se encontra vacilante entre sua consci\u00eancia e seus intentos, como arauto postado entre dois campos de tem\u00edveis ex\u00e9rcitos. Madura sua emo\u00e7\u00e3o se encontra; estala prestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Receio muito que, ao estalar, expila a corrup\u00e7\u00e3o da morte de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o podemos prender os fortes bra\u00e7os da Morte. Bons senhores, muito embora tenha eu vivo desejo de atender-vos, morreu vosso pedido, j\u00e1 n\u00e3o vive: disse-me ele que Artur n\u00e3o mais existe.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Rece\u00e1vamos, de fato, que a doen\u00e7a de que sofria fosse sem rem\u00e9dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 J\u00e1 ouv\u00edramos falar, realmente, que ele muito perto da morte se encontrava antes de a pr\u00f3pria crian\u00e7a aperceber-se de que estava adoentada. Aqui ou alhures isso ter\u00e1 de ser chamado a contas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Por que me olhais assim com tal conspecto? Imaginais, acaso, que eu disponho da tesoura do Fado, ou que no pulso da vida eu possa ter qualquer influ\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 O jogo \u00e9 vergonhoso; causa pasmo que a grandeza se preste a tais manobras. Desejo-vos bom lucro. Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Espera, Salisbury; irei contigo, em busca do legado dessa crian\u00e7a, o reinozinho de um for\u00e7ado t\u00famulo. \u00d3 sangue a que tocava toda esta ilha, ocupa s\u00f3 tr\u00eas p\u00e9s. Oh! mundo infame! \u00c9 insuport\u00e1vel! Tudo est\u00e1 t\u00e3o tenso, que explodir\u00e1 mais cedo do que eu penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os nobres.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ardem de indigna\u00e7\u00e3o; eu me arrependo. N\u00e3o se constr\u00f3i em sangue; vida alguma tranq\u00fcila pode haver com a morte de outrem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Tens o olhar espantado; onde est\u00e1 o sangue que eu j\u00e1 vi residindo nessas faces? Um c\u00e9u assim t\u00e3o l\u00fagubre s\u00f3 pode tornar-se claro com uma tempestade. Despeja logo: em Fran\u00e7a que se passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Passa para a Inglaterra o que h\u00e1 na Fran\u00e7a. Nunca tais for\u00e7as foram levantadas em terra alguma para invadir outra, porque, quando dev\u00edeis ter aviso de seus aprestos, o que chega \u00e9 a nova de que todos j\u00e1 se acham deste lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 E onde se embriagou nossa pol\u00edcia? Onde dormiu? Onde se encontra o zelo de minha m\u00e3e, que nada ouviu na Fran\u00e7a acerca da reuni\u00e3o de tal ex\u00e9rcito?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Milorde, a poeira lhe enche ora os ouvidos; a primeiro de abril morreu a vossa nobre progenitora. Ouvi rumores de que lady Constan\u00e7a a precedera de tr\u00eas dias, ap\u00f3s longo del\u00edrio. Mas, como o disse, ouvi da voz do povo, n\u00e3o podendo afirmar se isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Terr\u00edvel ocasi\u00e3o, refreia o passo! Oh! liga-te comigo at\u00e9 que eu possa contentar os meus pares! Como! Morta minha m\u00e3e? Meus neg\u00f3cios pela Fran\u00e7a como andam, pois? E esse poder da Fran\u00e7a quem o comanda, para assim dizeres que j\u00e1 desembarcou em nossas praias?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 O Delfim \u00e9 que o traz.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Tuas not\u00edcias t\u00e3o ruins, me deixaram com vertigens.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o Bastardo, com Peter de Pomfret.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Que diz o mundo, ent\u00e3o, de vossos atos? N\u00e3o procureis meter-me na cabe\u00e7a mais not\u00edcias ruins, que j\u00e1 est\u00e1 cheia.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Se ouvir o pior vos causa medo, ent\u00e3o sobre v\u00f3s caia o pior, sem ser ouvido.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Primo, desculpa-me; a mar\u00e9 deixou-me meio atordoado; mas agora inspiro de novo sobre as ondas e ouvir posso qualquer not\u00edcia, por pior que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Quanto pude alcan\u00e7ar junto do clero, sab\u00ea-lo-eis pela soma que vos trouxe. Contudo, em minha viagem de retorno me foi dado ver gentes esquisitas, dominadas boatos, perseguidas por sonhos maus, que as causas ignoravam do medo que sentiam, mas com medo. Eis um profeta que comigo eu trouxe das ruas de Pomfret, onde o encontrei seguido de centenas de curiosos que lhe ouviam, cantado em versos rudes, o vatic\u00ednio de que Vossa Alteza vai, na manh\u00e3 da pr\u00f3xima Ascens\u00e3o, a coroa depor.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Por que motivo, sonhador mentiroso, disseste isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETER \u2014 Porque conhe\u00e7o a ci\u00eancia do futuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Fora daqui com ele, Hubert; atira-o na pris\u00e3o e, da\u00ed, ao meio-dia, na data em que terei, como ele disse, de abdicar a coroa, forca o levem. A boa guarda o entrega e volta logo, que eu preciso de ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Hubert com Peter.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00d3 gentil primo, n\u00e3o sabes quem chegou \u00e0s nossas praias?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Os franceses, milorde; n\u00e3o h\u00e1 l\u00edngua que fale de outra coisa. Mais, ainda: acabei de encontrar-me com dois lordes, Bigot e Salisbury, cujos olhos brilhavam mais que fogo rec\u00e9m-feito, e mais outros, que andavam \u00e0 procura do t\u00famulo de Artur, matado, afirmam todos, por vossa pr\u00f3pria sugest\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Meu gentil primo, sai e te mistura com eles; tenho um meio para o afeto de novo conquistar-lhes. Traze-os c\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Vou procur\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Sim, mas vai com pressa; um p\u00e9 l\u00e1, outro c\u00e1. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter como inimigos os meus pr\u00f3prios s\u00faditos, quando as cidades o estrangeiro espanta com mostras pavorosas de uma intr\u00e9pida invas\u00e3o. S\u00ea Merc\u00fario na ida, usando asas nos p\u00e9s, e volta t\u00e3o depressa, da parte deles, como o pensamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 O esp\u00edrito do tempo me faz lestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Falas como um fidalgo entusiasmado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Acompanha-o; talvez ele precise de uma pessoa que entre mim e os pares sirva de intermedi\u00e1rio: ser\u00e1s isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o, meu soberano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Faleceu minha m\u00e3e!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Hubert.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Dizem, milorde, que esta noite cinco luas apareceram: quatro, fixas, e mais uma que em torno delas dava giros extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Cinco luas?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Velhos e velhas pelas ruas fazem profecias terr\u00edveis sobre o caso. A uma coisa, somente, se referem: o trespasso de Artur, e, assim fazendo, as cabe\u00e7as sacodem, falam baixo, junto do ouvido. O que discorre, pega o punho ao companheiro, que estarrece, faz gestos de terror, a testa franze, vira os olhos, a fronte balanceia. Eu vi um ferreiro com o martelo, assim&#8230; Enquanto o ferro na bigorna esfriava, de boca aberta, ele engolia quanto contava um alfaiate, que a tesoura e a medida sustinha e que se achava de chinelas \u2014 na pressa, ele as cal\u00e7ara com os p\u00e9s trocados \u2014 a falar de muitos milhares de franceses aguerridos que est\u00e3o em Kent em ordem de combate. Outro artista, magrela e pouco limpo, lhe interrompeu a narrativa, para falar da morte do infeliz Artur.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Por que procuras inspirar-me susto? Por que insistes assim sobre o trespasso do mo\u00e7o Artur? Tu o mataste. Eu tinha raz\u00e3o para querer que ele morresse, mas tu, nenhuma para assassin\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Como, senhor! A instiga\u00e7\u00e3o foi vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 \u00c9 maldi\u00e7\u00e3o dos reis serem servidos por escravos que v\u00eaem em seus caprichos ordens para irromper pela sangrenta casa da vida, leis num simples gesto de autoridade encontram, o sentido da perigosa majestade escrutam, quando, acaso, ela o sobrecenho enruga mais por irreflex\u00e3o do que por zanga.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Vossa carta e este selo me asseguram por tudo quanto fiz.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Oh! quando forem feitas as contas entre o c\u00e9u e a terra, v\u00e3o servir contra n\u00f3s de testemunhas essa carta e esse selo, para nossa condena\u00e7\u00e3o. Por vezes, a s\u00f3 vista do instrumento do mal provoca o fato. Se perto n\u00e3o te achasses, como um tipo marcado pela m\u00e3o da natureza, apontado, escolhido para um feito vergonhoso, esse crime n\u00e3o me viera sequer ao pensamento. Mas notando-te o horroroso conspecto, por ter visto que eras apto para essas vilanias sanguin\u00e1rias e pronto para os casos perigosos, falei-te vagamente sobre a morte de Artur, e para as gra\u00e7as conquistares de um rei, n\u00e3o vacilaste um momento em tirar a vida a um pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Milorde&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Se a cabe\u00e7a tivesses sacudido, sequer, ou vacilado, quando em termos obscuros eu falei do meu projeto, ou me houvesses lan\u00e7ado olhar de d\u00favida, como a pedir que eu fosse mais expl\u00edcito, eu teria calado de vergonha, sem mais dizer palavras; teus receios me teriam tamb\u00e9m feito receoso. Mas meus sinais te foram suficientes, e, por sinais, com o crime tu falaste; sim, sem vacila\u00e7\u00f5es prontificou-se-te o peito e, conseq\u00fcentemente, a rude m\u00e3o a efetuar o ato que n\u00f3s ambos coramos de nomear. Fora de minha presen\u00e7a! N\u00e3o me surjas mais \u00e0 vista! Meus nobres me abandonam, meus Estados v\u00eaem-se desafiados por ex\u00e9rcitos estrangeiros at\u00e9 nas suas portas. Dentro mesmo do corpo desta terra de carne, nos confins do sangue e alento, reina a guerra civil e a hostilidade entre a minha consci\u00eancia e esse delito, a morte do meu primo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Armai-vos contra os outros inimigos, que eu me incumbo de firmar paz entre vossa alma e v\u00f3s. Artur vive; esta m\u00e3o ainda est\u00e1 virgem, \u00e9 inocente, n\u00e3o se acha maculada de crimes sanguin\u00e1rios. Neste peito nunca entrou um terr\u00edvel movimento, sequer, de pensamento criminoso. Caluniastes em mim a natureza; por mais rude que seja a minha forma, abriga uma alma demasiado bela para a\u00e7ougueiro ser de um pobre infante.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Vive Artur? Sai em busca de meus pares, derrama essa not\u00edcia em sua c\u00f3lera inflamada e de novo os deixa d\u00f3ceis para a obedi\u00eancia. Esquece os coment\u00e1rios que fez minha paix\u00e3o sobre os teus tra\u00e7os, porque se achava cega a minha c\u00f3lera, e os olhos, vendo sangue em toda parte, muito mais horroroso te faziam do que \u00e9s em realidade. Oh! n\u00e3o respondas! Os nobres! Vai! N\u00e3o sei mais como pe\u00e7a; sou lento no falar; vai mais depressa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"14\" name=\"14\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Diante do castelo. Aparece Artur sobre a muralha.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ARTUR \u2014 A muralha \u00e9 muito alta&#8230; Apesar disso, vou saltar. Ch\u00e3o bondoso, tem piedade, n\u00e3o me machuques. Poucos me conhecem, talvez ningu\u00e9m&#8230; Mas mesmo assim, com este trajo de marinheiro, estou mudado. Tenho medo; contudo, \u00e9 necess\u00e1rio. Se eu saltar sem quebrar-me, hei de achar meios para evadir-me. Tanto vale a morte, tentando a fuga, como de outra sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Salta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Meu tio influi de longe nesta terra! Ao c\u00e9u dou a alma, os ossos, \u00e0 Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Pembroke, Salisbury e Bigot.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Senhores, vou estar com ele em Santo Edmundsbury. \u00c9 a nossa salva\u00e7\u00e3o; urge aceitarmos a oferta am\u00e1vel deste tempo incerto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Por quem o cardeal mandou esta carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Pelo conde Melun, nobre da Fran\u00e7a, que pessoalmente me falou da parte do Delfim, com mais provas de amizade do que se deduzira dessas linhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 Amanh\u00e3 cedo, ent\u00e3o, vamos-lhe ao encontro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 N\u00e3o! Partamos j\u00e1, j\u00e1, pois, para v\u00ea-lo, teremos de viajar dois longos dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Senhores agastados, novamente bom-dia! O rei, por mim, manda chamar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Privou-se o rei de n\u00f3s por culpa pr\u00f3pria. Nossa honra n\u00e3o se presta para forro de sua capa fina e maculada, nem pode ir nas pegadas de quem deixa sujo de sangue o ch\u00e3o por onde passa. Dizei-lhe isso; sabemos j\u00e1 o bastante.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Pensai como quiserdes, mas eu julgo que \u00e9 conveniente uma resposta calma.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 N\u00e3o fala agora a cortesia; as queixas \u00e9 que em n\u00f3s raciocinam.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Mas h\u00e1 poucas raz\u00f5es em vossas queixas; fora, entanto, razo\u00e1vel revelardes-vos corteses.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 A impaci\u00eancia, senhor, tem privil\u00e9gios.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Sim, de prejudicar quem se impacienta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Eis a pris\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Vendo Artur.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas quem se acha aqui morto?<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 A Morte est\u00e1 vaidosa com a pureza desta beleza real. N\u00e3o tem a terra um buraco onde esconda esta fa\u00e7anha.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 O criminoso, odiando seu pr\u00f3prio ato, deixou-o patente, a reclamar vingan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 Ou melhor: ao fadar esta beleza para o sepulcro, achou-a em demasia preciosa e principesca para um t\u00famulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Que pensais, sir Ricardo, de tudo isso? J\u00e1 lestes ou j\u00e1 ouvistes o que vedes, podeis pensar, ou imaginais, apenas, que vedes, muito embora estejais vendo? Sem esta vista, acaso, existiria a id\u00e9ia de tal ato? Eis o remate, o pin\u00e1culo, a crista da cimeira das armas do assassino. E a mais sangrenta ignom\u00ednia, a crueldade mais selvagem, a a\u00e7\u00e3o mais repulsiva que j\u00e1 tenha em qualquer tempo a c\u00f3lera esgazeada ou a raiva furibunda oferecido s l\u00e1grimas da branda compaix\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Todos os assass\u00ednios do passado desculpa encontram neste; este, sozinho, na sua hediondez, vai tornar puras e santas as fa\u00e7anhas mais terr\u00edveis que o tempo no seu seio ainda conserva. Diante deste espet\u00e1culo horroroso, n\u00e3o passar\u00e3o de simples brincadeira as mais terr\u00edveis efus\u00f5es de sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o sanguin\u00e1ria e amaldi\u00e7oada, ato imperdo\u00e1vel de uma m\u00e3o grosseira, se \u00e9 que pode haver m\u00e3o para tal crime.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Se \u00e9 que pode haver m\u00e3o para tal crime! Por um pressentimento, j\u00e1 sab\u00edamos que isto viria a dar-se. \u00c9 o vil trabalho da m\u00e3o de Hubert, o efeito de um projeto do pr\u00f3prio soberano, a quem minha alma se recusa a prestar mais obedi\u00eancia. De joelhos ante a ru\u00edna desta vida, esparjo na excel\u00eancia que n\u00e3o vive o incenso de uma jura sacrossanta: n\u00e3o provar dos prazeres deste mundo, nem ficar infectado com os deleites, nem ao \u00f3cio entregar-me e ao comodismo, sem dar gl\u00f3ria a este bra\u00e7o, consagrando-o no culto da vingan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE E BIGOT \u2014 Nossas almas com toda a un\u00e7\u00e3o confirmam esse voto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Hubert.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Senhores, aqueci-me a procurar-vos; Artur est\u00e1 com vida, o rei vos chama.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Oh, que desfa\u00e7atez! Nem mesmo a morte o faz enrubescer! Fora, patife desprez\u00edvel! Retira-te daqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 N\u00e3o sou patife.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY (<i>sacando da espada<\/i>) \u2014 Violarei a lei?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Senhor, guardai a espada; ela est\u00e1 limpa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Enquanto a n\u00e3o meter num criminoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Detende-vos, milorde Salisbury! Pelo c\u00e9u! minha espada \u00e9 t\u00e3o afiada quanto a vossa, \u00e9 o que eu digo. N\u00e3o desejo que venhais a esquecer-vos de v\u00f3s pr\u00f3prio. nem a enfrentar o risco decorrente de uma justa defesa, porque diante dessas mostras de c\u00f3lera eu podia olvidar-me de vossa dignidade e, assim, de vosso m\u00e9rito e nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 Fora, monturo! Insultas um fidalgo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Por minha vida, n\u00e3o! Mas na defesa de minha vida honrada, n\u00e3o me temo nem de um imperador.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 \u00c9s assassino!<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Dai-me as provas. N\u00e3o o sou. Quem quer que a l\u00edngua use para tal fim, diz inverdades; quem n\u00e3o fala verdade, \u00e9 mentiroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Picai-o em pedacinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Paz, eu digo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Para tr\u00e1s, Faulconbridge; do contr\u00e1rio eu vos irritarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Fora mais pr\u00e1tico. irritares o diabo, Salisbury. Se fizeres carranca ou o p\u00e9 mexeres, ou ensinares a c\u00f3lera a ofender-me, jogo-te morto ao solo. Guarda a espada, se n\u00e3o te malharei e a esse espeto, de maneira que penses seja o diabo que te surgiu do inferno.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 Que pretendes, famoso Faulconbridge? Dar m\u00e3o forte a um vil\u00e3o e assassino?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 N\u00e3o sou isso, lorde Bigot.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 E quem matou o pr\u00edncipe?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Deixei-o bom, talvez n\u00e3o haja uma hora; tinha-lhe amor, honrava-o; enquanto o alento me sustentar, hei de chorar a perda de uma t\u00e3o doce vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 N\u00e3o confieis nas l\u00e1grimas astutas desses olhos, que a maldade \u00e9 capaz de tais chorrilhos. Matreiro como ele \u00e9, faz que pare\u00e7am c\u00f3rregos de piedade e de inoc\u00eancia. Os que sentirem na alma repugn\u00e2ncia a essas emana\u00e7\u00f5es de matadouro, venham comigo; sinto-me abafado com este miasma de crime.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIGOT \u2014 Vamos todos para Bury; o Delfim l\u00e1 nos aguarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Dizei ao rei que l\u00e1 pode ele achar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os nobres.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 V\u00e3o indo bem as coisas&#8230; Conhec\u00edeis este belo trabalho? Por mais ampla que seja a Gra\u00e7a, infinda, ilimitada, Se esta a\u00e7\u00e3o criminosa, Hubert, por obra de tua m\u00e3o, no inferno j\u00e1 te encontras.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Senhor, ouvi-me ao menos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Vou dizer-te uma coisa: Es um r\u00e9probo t\u00e3o negro&#8230; Nada h\u00e1 t\u00e3o negro. Est\u00e1s mais condenado do que o pr\u00edncipe L\u00facifer; no inferno n\u00e3o pode haver dem\u00f4nio mais monstruoso do que tu, se mataste este menino.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Por minha alma&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Ainda mesmo que s\u00f3 tenhas dado o consentimento para este ato, podes perder toda a esperan\u00e7a. Caso necessites de corda, o mais delgado filamento que o ventre de uma aranha j\u00e1 expeliu servir\u00e1 para esganar-te. Uma palhinha \u00e9 for\u00e7a resistente para te pendurares; se quiseres afogar-te, \u00e9 bastante despejares \u00e1gua numa colher: ser\u00e1 um oceano para cobrir um biltre do teu porte. Desconfio demais de tua pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Se por a\u00e7\u00e3o, ou coniv\u00eancia, ou ao menos por pensamento eu tenho a menor culpa no roubo do doce h\u00e1lito que nesta bela argila morava, s\u00f3 desejo que seja o inferno pobre de supl\u00edcios para me torturar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Leva-o nos bra\u00e7os. Estou confuso, creio; desoriento-me pelos riscos e espinhos deste mundo. Como suspendes f\u00e1cil a Inglaterra! Dessa migalha de realeza morta j\u00e1 se evolaram para o c\u00e9u a vida, o direito e a verdade deste reino, s\u00f3 restando \u00e0 Inglaterra engalfinhar-se, dilacerar, rasgar at\u00e9 com os dentes a sucess\u00e3o sem dono da orgulhosa soberania. Por esse osso ro\u00eddo da majestade, a guerra, enraivecida, se eri\u00e7a toda e rosna para os meigos olhos da paz. As for\u00e7as estrangeiras e o descontentamento dos de casa j\u00e1 se encontraram num s\u00f3 ponto, achando-se ora a devasta\u00e7\u00e3o \u00e0 espreita, apenas \u2014 como os corvos o fazem ante a presa moribunda \u2014 da queda inevit\u00e1vel da realeza alcan\u00e7ada pela for\u00e7a. Feliz de quem possui cintura e manto para essa tempestade. Leva a crian\u00e7a e me segue depressa; o rei busquemos. Mil neg\u00f3cios nos surgem desta guerra; o pr\u00f3prio c\u00e9u amea\u00e7a nossa terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"15\" name=\"15\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<\/h2>\n<p><a id=\"16\" name=\"16\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto no pal\u00e1cio. Entram o rei Jo\u00e3o, Pandolfo com a coroa, e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Desta arte em vossa m\u00e3o deponho o c\u00edrculo de minha gl\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO (<i>entregando a coroa a Jo\u00e3o<\/i>) \u2014 Recebei de novo de minha m\u00e3o, por jus que vem do papa, vossa grandeza real e autoridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Vossa palavra santa ora mantende, aos franceses buscai e toda a for\u00e7a de Sua Santidade usai com o intento de deter-lhes a marcha, antes que em chamas n\u00f3s fiquemos. Os nobres se revoltam, com a obedi\u00eancia o povo se acha em luta, jurando submiss\u00e3o e amor sincero \u00e0 realeza estrangeira e a sangue estranho. A inunda\u00e7\u00e3o de tanta seiva azeda s\u00f3 por v\u00f3s poder\u00e1 ser corrigida. Por isso, n\u00e3o tardeis; t\u00e3o doente se acha nosso tempo, que \u00e9 urgente ministrar-lhe medicina adequada, se quisermos evitar conseq\u00fc\u00eancias incur\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Meu sopro deflagrou esta tormenta por vossa teima em resistir ao papa; mas uma vez que vos tornais um d\u00f3cil convertido, farei que a tempestade belicosa se aplaque, restituindo a calma a vossa terra perturbada. Lembrai-vos que hoje, dia da Ascens\u00e3o, depois de vos mostrardes fiel ao papa, eu sa\u00ed ao encontro dos franceses para incit\u00e1-los a depor as armas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Hoje \u00e9 a Ascens\u00e3o? N\u00e3o disse aquele vate que eu tinha de depor esta coroa na manh\u00e3 deste dia? Assim se deu. Pensava que o faria constrangido; gra\u00e7as a Deus, foi tudo por vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Todo o Kent se rendeu; somente h\u00e1 luta no castelo de Dover. Como a um h\u00f3spede bem-vindo, Londres o Delfim recebe com todo o seu poder. Os vossos nobres n\u00e3o vos querem ouvir; foram em busca do inimigo, a oferecer-lhes os servi\u00e7os. Terr\u00edvel confus\u00e3o transtorna os poucos amigos duvidosos que vos restam.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 N\u00e3o voltaram os nobres, quando ouviram dizer que o mo\u00e7o Artur estava vivo?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Encontraram-no morto em meio \u00e0 rua, um escr\u00ednio vazio, de onde fora por m\u00e3o danada arrebatada a j\u00f3ia preciosa da exist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 O miser\u00e1vel Hubert me disse que ele estava vivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Disse, realmente, o que ele acreditava ser a verdade. Mas por que penderdes a cabe\u00e7a? Por que vos mostrais triste? Sede grande nos atos como o fostes nos pensamentos. N\u00e3o perceba o mundo que o medo e a indecis\u00e3o no movimento do olhar do rei influem. Sede vivo como o tempo; com o fogo sede fogo; gritai alto com quem vos faz amea\u00e7as, enfrentai a carranca jactanciosa do temor. Desse modo os olhos mi\u00fados que a atitude dos grandes sempre imitam, com vosso exemplo h\u00e3o de crescer, enchendo-se de decisivo e inelut\u00e1vel \u00e2nimo. Vamos! Brilhai tal qual o deus da guerra, quando ingressa nos campos de batalha. Mostrai confian\u00e7a altiva e atrevimento! Vir\u00e3o, pois, procurar o le\u00e3o na cova, para assust\u00e1-lo e medo lhe infundir? Oh! que ningu\u00e9m diga isso. Correi logo contra a desgra\u00e7a, para subjug\u00e1-la bem antes de ficar ela mais perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Esteve aqui o embaixador do papa: conclu\u00edmos feliz paz, tendo ele dito que mandaria para a Fran\u00e7a as for\u00e7as do Delfim.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Oh! que liga vergonhosa! Pois ent\u00e3o, quando as terras nos invadem, enviamos sauda\u00e7\u00f5es, nos resignamos a aceitar compromisso, a enviar recados, propor \u00e0s armas invasoras tr\u00e9gua desonrosa? Um menino ainda imberbe, um maricas de seda h\u00e1 de manchar-nos a terra, estadear sua coragem neste solo guerreiro, e com os ociosos estandartes zombar de nossos ventos, sem achar resist\u00eancia? \u00c0s armas, logo, meu soberano, \u00e0s armas! E poss\u00edvel que n\u00e3o cumpra o cardeal o que promete; mas embora essa paz ele consiga, diga-se, ao menos, que eles todos viram, em n\u00f3s, firme inten\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Assume a dire\u00e7\u00e3o deste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Avante, pois! Com toda a alacridade evitemos que o inimigo nos degrade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"17\" name=\"17\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Plan\u00edcie perto de Santo Edmundsbury. Acampamento franc\u00eas. Entram, armados, Lu\u00eds, Salisbury, Melun, Pembroke, Bigot e soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LU\u00cdS \u2014 Lorde Melun, tirai disto uma c\u00f3pia que guardareis para mem\u00f3ria nossa. O original conv\u00e9m que seja dado novamente a estes nobres, para que eles e eu, compulsando as notas a\u00ed contidas, nas quais nossos desejos se consignam, nos lembremos da causa de ora havermos tornado o sacramento, e mantenhamos firme e inviol\u00e1vel a palavra dada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Jamais de nosso lado a quebraremos. Mas meu nobre Delfim, ainda que jura vos tiv\u00e9ssemos feito de espont\u00e2nea fidelidade e de uma volunt\u00e1ria devo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me apraz que esta enferma \u00e9poca ande usando revolta despicienda, como emplastro que cure uma ferida produzindo milhentas. Oh! Compunge-me a alma ter de arrancar do flanco a espada para tornar-me um fazedor de vi\u00favas justamente onde o nome Salisbury significa socorro e salvamento. Mas assim \u00e9 a infec\u00e7\u00e3o do nosso tempo; o zelo que a sa\u00fade do direito nos imp\u00f5e sempre, sempre nos obriga a atuar t\u00e3o-s\u00f3 com a m\u00e3o da mais severa sem-raz\u00e3o e dos males da desordem. N\u00e3o causa pena, \u00f3 amigos agravados! que n\u00f3s, filhos e crian\u00e7as desta terra, tenhamos vindo ao mundo para sermos testemunhas de um dia como o de hoje em que o seio da p\u00e1tria n\u00f3s pisamos nas pegadas de tropas estrangeiras, completando as fileiras inimigas \u2014 sou for\u00e7ado a afastar-me, para ao choro me entregar, pela for\u00e7a desta escolha \u2014 para honrarmos nobreza peregrina e aqui mesmo juntarmo-nos a estranhos? Como! Aqui? \u00d3 Na\u00e7\u00e3o! Se te mudasses! Se os bra\u00e7os de Netuno, que te abarcam, te tirassem de teu conhecimento, para em praia pag\u00e3 te colocarem onde os crist\u00e3os em luta o exacerbado sangue correr fizessem pelas veias de uma alian\u00e7a, em lugar de o derramarem pelo ch\u00e3o, como o fazem maus vizinhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">LU\u00cdS \u2014 Revelas nesse anelo alma de escol. A luta dos afetos nesse peito causa um tremor de terra de nobreza. Oh! que nobre combate sustentaste entre o bravo respeito e a compuls\u00e3o! Permite-me que limpe o orvalho honroso que te desce das faces como prata. J\u00e1 senti muitas vezes abalar-se-me o cora\u00e7\u00e3o com o choro feminino, que \u00e9 inunda\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, de todo dia; mas a efus\u00e3o de l\u00e1grimas t\u00e3o m\u00e1sculas, esse aguaceiro provocado pela tempestade de uma alma, os olhos deixa-me espantados e faz-me mais confuso do que se eu visse na sid\u00e9rea ab\u00f3bada multid\u00e3o de meteoros incendiados. Famoso Salisbury, ergue esse rosto e, decidido, aplaca a tempestade; deixa essas \u00e1guas para os olhos fracos dos meninos que nunca contemplaram o gigante do mundo enraivecido, nem jamais se encontraram com a Fortuna sen\u00e3o em festas, no calor do sangue, em galhofas in\u00f3cuas e alegria. Vem mergulhar a m\u00e3o na rica bolsa de que a Prosperidade se envaidece, bem como v\u00f3s, \u00f3 nobres, que ajustastes \u00e0 minha resist\u00eancia os nervos fortes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pandolfo, com s\u00e9quito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Julguei ouvir h\u00e1 pouco a voz de um anjo. Vede o santo Legado que nos chega para nos transmitir plenos poderes da m\u00e3o do c\u00e9u, e todos nossos atos justificar com seu sagrado sopro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Sa\u00fade, nobre pr\u00edncipe da Fran\u00e7a! Eis a \u00faltima: o rei Jo\u00e3o fez paz com Roma; converteu-se-lhe o esp\u00edrito, que tanta resist\u00eancia mostrara \u00e0 santa Igreja, a sede, a alta metr\u00f3pole romana. Por isso enrola essas terr\u00edveis cores e aplaca o bravo esp\u00edrito da guerra, para que esta se torne como leoa na m\u00e3o alimentada, e venha, calma, deitar-se aos p\u00e9s da paz, sem revelar-se perigosa, a n\u00e3o ser nas apar\u00eancias.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Perdoe-me Vossa Gra\u00e7a; eu n\u00e3o recuo. Nasci muito alto para ser mandado, para me submeter como um escravo que recebe ordens, como humilde e d\u00f3cil servidor, o instrumento de que possa dispor a seu prazer qualquer pot\u00eancia. O vosso sopro foi que ateou as chamas do carv\u00e3o apagado desta guerra entre mim e este reino t\u00e3o culpado. Trouxestes material para anim\u00e1-las; agora o fogo est\u00e1 muito alto para ser apagado pelo fraco vento que a princ\u00edpio o avivou. V\u00f3s me ensinastes a conhecer a face do direito, a encontrar interesse nesta terra; mais, ainda: despertastes-me a vontade para tal entrepresa. E ora me vindes comunicar que Jo\u00e3o fez paz com Roma? Que me importa essa paz? Reclamo esta ilha para mim, pelo jus do matrim\u00f4nio, visto ter falecido o mo\u00e7o Artur. E ora que me acho em meio da conquista, hei de recuar por ter o rei Jo\u00e3o feito paz com Roma? Serei de Roma escravo? Quanto dinheiro, acaso, gastou Roma, que homens mandou, que muni\u00e7\u00f5es de guerra para apoiar a empresa? N\u00e3o suporto sozinho todo o peso? Quem mais pode, afora eu e os que ao mando me obedecem, dizer que sua neste empreendimento e esta guerra sustenta? Por acaso n\u00e3o ouvi como os \u00edncolas gritavam \u201cVive le roy!\u201d quando por suas vilas eu costeava? N\u00e3o me acho ora de posse das cartas decisivas para o jogo facilmente ganhar em que por pr\u00eamio foi posta uma coroa? E justamente nesta altura abrirei m\u00e3o da partida? Por minha alma, ningu\u00e9m dir\u00e1 tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Considerais o assunto s\u00f3 por fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Ou por fora, ou por dentro, pouco importa. N\u00e3o voltarei, enquanto a tentativa n\u00e3o estiver glorificada quanto foi prometido \u00e0 minha alta esperan\u00e7a antes de eu ter reunido este pugilo de guerreiros, esp\u00edritos eleitos que do mundo tirei para esta empresa em que h\u00e3o de conquistar alto renome nas fauces dos perigos e da morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se toque de trombetas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Que trombetas alegres nos convocam?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o Bastardo, com s\u00e9quito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Seguindo nisto o belo uso do mundo dai-me audi\u00eancia. Aqui vim para falar-vos. Por mandado do rei, meu santo lorde de Mil\u00e3o, vim saber o que fizestes por ele. Como for vossa resposta, ficarei conhecendo a liberdade que \u00e0 l\u00edngua me concedem, os seus liames.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO -.. Obstina-se o Delfim na resist\u00eancia, sem querer atender a meu pedido; declara n\u00e3o querer depor as armas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Por quanto sangue a F\u00faria j\u00e1 bebeu, tem raz\u00e3o! Escutai ora Inglaterra, pois sua real pessoa por mim fala: Ele est\u00e1 preparado e vos declara que esta entrada rid\u00edcula em suas terras, mascarada arnesada, rega-bofe sem reflex\u00e3o, imberbe petul\u00e2ncia, que estas tropas de crian\u00e7as lhe provocam somente o riso, e que ele se acha pronto para expulsar a chicotadas essas armas-an\u00e3s, esses pigmeus-soldados, para al\u00e9m das fronteiras de suas terras. Pois a m\u00e3o que vos deu t\u00e3o grande tunda diante de vossas portas, obrigando-vos a procurar abrigo e, como baldes, a mergulhar em po\u00e7os escondidos, a ficar sob o estrado resistente das camas; como coisas penhoradas, a demorar em cofres e canastras, dormir com porcos, procurar a doce salva\u00e7\u00e3o nas pris\u00f5es e em catacumbas, a estremecer de medo at\u00e9 com o canto do galo nacional, por confundi-lo com o linguajar de algum ingl\u00eas armado, vai fraquejar agora, ela que soube castigar-vos em vossos pr\u00f3prios quartos? Oh, n\u00e3o! Ficai sabendo que o valente monarca se acha armado e, como uma \u00e1guia em suas altas ameias, est\u00e1 pronto para atirar-se sobre o menor vulto que o ninho lhe amea\u00e7ar. E v\u00f3s, ingratos revoltosos, e v\u00f3s, degenerados, v\u00f3s, Neros que rasgais o ventre a vossa cara m\u00e3e, a Inglaterra, envergonhai-vos, corai de pejo! At\u00e9 vossas mulheres vossas p\u00e1lidas filhas, como nobres Amazonas, ao rufo dos tambores pressurosas acorrem, transformando os dedais em manoplas, as agulhas em lan\u00e7as resistentes e a brandura que lhes \u00e9 pr\u00f3pria em sanguin\u00e1ria e altiva disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Aqui terminam tuas bravatas; vai-te em paz. Concedo: vences-nos em saber descompor. Adeus; n\u00e3o temos tempo para gastar em falat\u00f3rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">PANDOLFO \u2014 Deixai-me ora falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 N\u00e3o; falo eu mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 N\u00e3o ouvirei nenhum. Tocai tambores! Fale a l\u00edngua da guerra, na defesa de nossas pretens\u00f5es neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Que seja! Ao lhes baterdes, os tambores h\u00e3o de gritar, tal qual v\u00f3s, quando fordes batidos. E bastante despertares a voz do teu tambor, para que logo responda outro tambor na mesma altura. Faze soar um terceiro, e, in continenti, outro mais alto abalar\u00e1 o ouvido do firmamento, rindo do profundo barulho do trov\u00e3o, porque bem perto \u2014 por n\u00e3o confiar neste Legado coxo, de que ele se serviu mais por brinquedo que por necessidade \u2014 se acha Jo\u00e3o, que traz na fronte a Morte descarnada, cujo of\u00edcio vai ser, hoje, somente regalar-se em milhares de franceses.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Tambores! Quero ver esse perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 H\u00e1s de v\u00ea-lo, Delfim; \u00e9 s\u00f3 o que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"18\" name=\"18\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um campo de batalha. Rebate. Entram o rei Jo\u00e3o e Hubert.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Como est\u00e1 o dia para n\u00f3s? Dize, Hubert.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Receio que v\u00e1 mal. E Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Esta febre, que nunca me abandona, pesa demais em mim. Oh! D\u00f3i-me tudo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Milorde, vosso primo valoroso, Faulconbridge, aconselha Vossa Gra\u00e7a a abandonar o campo e a aproveitar-me, para lhe enviar not\u00edcia do caminho que pretendeis tomar.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Para Swinstead, dizei-lhe; na abadia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Reanimai-vos, porque os grande refor\u00e7os esperados pelo Delfim, sofreram h\u00e1 tr\u00eas noites naufr\u00e1gio nas areias de Goodwin. Foi trazida a Ricardo essa not\u00edcia, n\u00e3o faz muito. Os franceses j\u00e1 perderam o entusiasmo e o terreno v\u00e3o cedendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Ai de mim! Esta febre me tortura; n\u00e3o me deixa gozar essa not\u00edcia. Vamos para Swinstead. Minha liteira! Sinto-me fraco. Vamos! J\u00e1 desmaio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"19\" name=\"19\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do campo de batalha. Entram Salisbury, Pembroke, Bigot e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Jamais imaginei que o rei tivesse tantos amigos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Novamente \u00e0 carga! Animemos os francos; estaremos perdidos se ca\u00edrem.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Faulconbridge, esse diabo, a despeito do despeito, sozinho \u00e9 o sustent\u00e1culo do dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Dizem que o rei Jo\u00e3o foi retirado do campo, muito doente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Melun, ferido, conduzido por soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MELUN \u2014 Levai-me aos revoltosos da Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Quando \u00e9ramos felizes, n\u00e3o nos davam esse t\u00edtulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 \u00c9 o conde de Melun.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Mortalmente ferido.<\/p>\n<p align=\"justify\">MELUN \u2014 Fugi, nobres ingleses, porque estais todos vendidos. Desfiai a rebeli\u00e3o de aspecto rude e acolhei novamente a f\u00e9 banida; procurai o rei Jo\u00e3o e aos p\u00e9s ca\u00ed-lhe, pois se o Franc\u00eas ganhar esta jornada barulhenta, pretende indenizar-vos das penas, as cabe\u00e7as vos cortando. Isso o Delfim jurou, e eu junto com ele, e outros muitos comigo, ao p\u00e9 do altar de Santo Edmundsbury, justamente no altar em que vos t\u00ednhamos jurado gratid\u00e3o e amor eterno.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel? Pode ser verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">MELUN \u2014 Diante de mim n\u00e3o vejo a morte hedionda? E a vida que me resta, quase nada, n\u00e3o dessangra aos pouquinhos, como forma de cera que se esfaz junto do fogo? Que me faria ora mentir no mundo, se nenhuma vantagem me vem disso? Por que seria eu falso, se \u00e9 bem certo que aqui morrer eu devo para, adiante, reviver na verdade? Ouvi de novo: se Lu\u00eds ganhar o dia e v\u00f3s puderdes contemplar o nascer do sol no oriente mais uma vez, ele ser\u00e1 perjuro. N\u00e3o! Ser\u00e1 nesta noite, cujo negro h\u00e1lito venenoso j\u00e1 se exala do penacho esbraseante do sol velho, fraco e cansado do trabalho diurno. O imposto da trai\u00e7\u00e3o foi avaliado justamente no fim trai\u00e7oeiro e infame de vossas vidas, caso Lu\u00eds consiga vencer com vosso aux\u00edlio esta jornada. Recomendai-me a um Hubert, que se encontra com vosso rei. O amor que lhe dedico e o fato de eu provir de av\u00f3s ingleses, me leva a confessar-vos estas coisas. Em recompensa, pe\u00e7o conduzirdes-me para longe do ru\u00eddo e dos clamores da batalha, onde em paz reunir eu possa os pensamentos que me restam e a alma do corpo separar, voltado todo para a contempla\u00e7\u00e3o e anseios pios.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Acreditamos-te, e maldita seja minha alma, se eu n\u00e3o vier a amar a forma desta bela ocasi\u00e3o que nos enseja desandar o caminho a esta danada deser\u00e7\u00e3o. Como as \u00e1guas na vazante da mar\u00e9, deixaremos nosso curso violento e irregular, para reentrarmos nos limites que hav\u00edamos transposto, defluindo na mais pl\u00e1cida obedi\u00eancia at\u00e9 que em nosso mar desemboquemos, no nosso grande Jo\u00e3o. Aux\u00edlio certo vais achar nestes bra\u00e7os para p\u00f4r-te fora daqui, pois vejo nesses olhos os sinais da cruel luta da morte. Em fuga, amigos! Outra novidade, mas no rumo da pr\u00edstina lealdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"20\" name=\"20\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. O acampamento franc\u00eas. Entra Luis com seu cortejo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Pareceu-me que o sol mostrava certa repugn\u00e2ncia em baixar, tendo parado na descida e tingido o firmamento pelas bandas do ocaso, quando em fuga desarvorada o pr\u00f3prio solo p\u00e1trio os ingleses mediam. Oh! que bravo remate o nosso, quando lhes mandamos a \u00faltima carga, quase dispens\u00e1vel depois de tanto sangue, ao lhes enviarmos nosso boa-noite e as fl\u00e2mulas rasgadas enrolarmos, os \u00faltimos no campo de batalha e senhores, quase, dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Meu pr\u00edncipe, o Delfim, onde se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Aqui. Que novas h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Morreu o conde Melun. Por seu conselho, os da Inglaterra novamente tra\u00edram. Os refor\u00e7os que esper\u00e1veis h\u00e1 tanto, se perderam num naufr\u00e1gio na praia de Goodwin.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Que novas infernais! Maldito sejas por mas trazeres! N\u00e3o pensei que havia de ficar esta noite assim t\u00e3o triste. Quem foi que disse que o rei Jo\u00e3o fugira pouco antes de haver feito a noite incerta separar nossas for\u00e7as esgotadas?<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO \u2014 Quem o disse, milorde, n\u00e3o mentiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUIS \u2014 Muito bem; ponde guardas vigilantes esta noite. N\u00e3o h\u00e1 de o novo dia levantar-se antes que eu de p\u00e9 me encontre para a bela aventura de amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"21\" name=\"21\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Pra\u00e7a descampada na vizinhan\u00e7a da abadia de Swinstead. Entram o Bastardo e Hubert, separadamente.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed? Falai; falai depressa, se n\u00e3o disparo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 \u00c9 amigo. E tu, quem \u00e9s?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Da parte da Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Teu destino?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Que tens que ver com isso? Por que causa n\u00e3o posso eu perguntar de teus neg\u00f3cios como o fazes com os meus?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Penso que \u00e9s Hubert.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Pensaste certo. A todo azar aposto que \u00e9s um dos meus amigos, pois conheces t\u00e3o bem meu tom de voz. Como te chamas?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Como o queiras. Se for do teu agrado, podes dar-me o prazer n\u00e3o despiciendo de pensar que o destino, em linha reta, ao dos Plantagenet ligou meu sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Oh, que mem\u00f3ria! Tu e a noite cega me envergonhastes. Bravo her\u00f3i, perdoa-me por terem escapado alguns acentos de tua voz \u00e0 minha percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Basta de cortesias. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Achava-me a passear na face escura da noite s\u00f3 com o fito de encontrar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 S\u00ea breve, ent\u00e3o; qual \u00e9 a novidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Oh, meu doce senhor, novas de acordo com a noite: horr\u00edveis, negras, pavorosas e desencorajantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Sem rodeios mostra-me a chaga dessa m\u00e1 not\u00edcia; n\u00e3o sou mulher para cair de susto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Temo que o rei se encontre envenenado por um frade; sem fala, quase, estava, quando o deixei. Depressa vim buscar-vos, para vos p\u00f4r a par da m\u00e1 not\u00edcia, porque pud\u00e9sseis precaver-vos contra o imprevisto, melhor do que se vi\u00e9sseis a saber mais de espa\u00e7o do ocorrido.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Veneno! Como foi? Quem provou antes?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Um frade, disse; um biltre decidido, cujas entranhas rebentaram logo. O rei ainda falava; talvez seja poss\u00edvel escapar.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 E quem deixaste para cuidar de Sua Majestade?<\/p>\n<p align=\"justify\">HUBERT \u2014 Pois n\u00e3o o sabeis? Os nobres j\u00e1 voltaram; est\u00e3o ao redor dele; vieram juntos com o pr\u00edncipe Henrique, a cuja s\u00faplica o rei perdoou a todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 C\u00e9u potente, refreia a indigna\u00e7\u00e3o, sem nos tentares al\u00e9m de nossas for\u00e7as! Ouve-me, Hubert: esta noite, metade dos meus homens, ao passar os baixios, foi tragada pela mar\u00e9; os lama\u00e7ais de Lincoln a todos devorou. Com muito custo pude escapar, por ter um bom cavalo. Vamos, leva-me ao rei; temo que a morte lhe venha, antes que possa estar com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"22\" name=\"22\"><\/a><\/p>\n<h2>CENA VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Jardim da abadia de Swinstead. Entram o pr\u00edncipe Henrique, Salisbury e Bigot.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 \u00c9 muito tarde; corrompida se acha toda a vida do sangue. As incoerentes fantasias do c\u00e9rebro \u2014 morada, segundo alguns, bem fr\u00e1gil de nossa alma \u2014 o fim predizem da mortalidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pembroke.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Sua Alteza ainda fala alguma coisa; pensa que se o expusermos ao ar livre, achar\u00e1 lenitivo para o fogo do veneno trai\u00e7oeiro que o domina.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Determinai que sem demora o tragam para o jardim.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Bigot.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Ainda est\u00e1 furioso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PEMBROKE \u2014 Est\u00e1 agora mais calmo do que quando viestes de l\u00e1; h\u00e1 pouco ele cantava.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Oh! vaidade da doen\u00e7a! O sofrimento, quando excessivo e demorado, acaba por deixar-nos \u00e0 dor indiferentes. A morte, ap\u00f3s fartar-se no de fora, deixa-o insens\u00edvel, dirigindo o assalto contra o esp\u00edrito, que ela espeta e fere com legi\u00f5es de esquisitas fantasias, que, no aperto do embate contra este \u00faltimo reduto, acabam sempre confundindo-se. \u00c9 curioso que a Morte cantar possa. O cisnezinho eu sou desse outro cisne descorado que entoa o lastimoso hino da pr\u00f3pria morte e que com as notas da fraqueza canta a alma e o corpo canta, prestes a repousarem para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Pr\u00edncipe, sede forte; ao mundo viestes para impor alguma ordem na mat\u00e9ria, rude e informe que o rei deixa, ao morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Bigot, acompanhado de criados, que trazem o rei Jo\u00e3o em uma cadeira.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Minha alma agora est\u00e1 com o espa\u00e7o livre; n\u00e3o quis sair por portas nem janelas. Sinto um ver\u00e3o t\u00e3o quente no imo peito, que as entranhas em poeira se convertem. Sou uma figura desenhada em folha de pergaminho; vou me engruvinhando, pouco a pouco, a este fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Como passa Vossa Grandeza?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Envenenado, doente, morto, esquecido, abandonado, tudo&#8230; E ningu\u00e9m manda vir o inverno e ordena na boca me enfiar a m\u00e3o gelada, nem faz que os rios todos do meu reino venham banhar-me o seio afogueado, nem pede ao Norte que seus ventos frios os l\u00e1bios ressequidos me umede\u00e7am e algo me reconfortem. N\u00e3o vos pe\u00e7o nada excessivo: um pouco s\u00f3 de frio. Mas t\u00e3o sovinas sois, al\u00e9m de ingratos, que at\u00e9 mesmo esse pouco me negais.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Se houvesse em minhas l\u00e1grimas virtude para vos reanimar!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Contem sal quente. Trago o inferno aqui dentro, onde o veneno se confina \u00e0 maneira de um dem\u00f4nio que tiranize o sangue condenado sem remiss\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o Bastardo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Oh! encontro-me quase a ferver, por ter corrido muito, no af\u00e3 de poder ver Vossa Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI JO\u00c3O \u2014 Vieste para fechar-me os olhos, primo. Amolgada e queimada est\u00e1 a polia do cora\u00e7\u00e3o, achando-se a cordoalha do velame da vida reduzida a um filamento, um fio de cabelo. O cora\u00e7\u00e3o trabalha sustentado por uma fibra apenas, que resiste t\u00e3o-somente at\u00e9 o ponto de dizeres o que h\u00e1 de novo. Ent\u00e3o, de tudo quanto v\u00eas aqui, restar\u00e1 somente um pouco de argila sem valor, imagem falsa da realeza destru\u00edda para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Prepara-se o Delfim para atacar-nos aqui mesmo. S\u00f3 Deus sabe a maneira de resistir-lhe, pois numa s\u00f3 noite, um recuo intentando vantajoso, inesperadamente a melhor parte dos meus homens perdeu-se nuns baixios, submergida em mar\u00e9 trai\u00e7oeira e s\u00fabita.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O rei morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 A ouvidos mortos dais not\u00edcias mortas. Meu soberano! Meu senhor! H\u00e1 pouco, t\u00e3o grande majestade, ora isto apenas!<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Como ele, hei de correr e, assim, parar. De que vale a mais f\u00falgida carreira, se o que h\u00e1 pouco era rei, agora \u00e9 poeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Partiste desse modo? Eu me demoro mais um pouco, somente o necess\u00e1rio para o obs\u00e9quio prestar-te da vingan\u00e7a, depois do que minha alma ir\u00e1 servir-te no c\u00e9u, como na terra vem fazendo. E agora, estrelas que girais em vossas leg\u00edtimas esferas, onde se acha vosso poder? Mostrai-vos mais constantes e agora mesmo retomai comigo, para que repilamos a ru\u00edna e a vergonha perp\u00e9tua para longe das fracas portas desta terra exausta! Antecipemo-los, se n\u00e3o seremos, procurados. Em nossos calcanhares o Delfim furibundo j\u00e1 vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Parece que sabeis menos que n\u00f3s, porque o cardeal Pandolfo se acha a\u00ed dentro, descansando. N\u00e3o faz uma hora, veio da parte do Delfim com uma proposta de paz que, sem desdouro, poderemos aceitar para pormos termo \u00e0 guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Mais apressado em tudo h\u00e1 de mostrar-se, quando souber que vamos defender-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Sim, de algum modo \u00e9 coisa decidida, porque ele j\u00e1 mandou muita bagagem para o lado do mar, havendo entregue sua causa ao cardeal, a quem delega poderes irrestritos. \u00c9 com este que eu, e v\u00f3s, e outros nobres, se julgardes de bom aviso, ainda esta tarde havemos de encontrar-nos, a fim de dar remate feliz a este neg\u00f3cio demorado.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Que seja assim. E v\u00f3s, meu nobre pr\u00edncipe, juntamente com outros que puderem ser dispensados, ficareis com o fito de cuidar das obs\u00e9quias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Seus despojos em Worcester depois devem ser postos. Era esse o seu desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 Ser\u00e1 feito como o determinou. E ora consiga suportar felizmente vossa grata pessoa o Estado e a gl\u00f3ria desta terra! Com toda a submiss\u00e3o, de joelhos, ponho-vos aos p\u00e9s os meus servi\u00e7os, como preito do meu devotamento sempiterno.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALISBURY \u2014 Nosso amor, de igual modo, vos dicamos, porque sem mancha fique eternamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00cdNCIPE HENRIQUE \u2014 Minha alma desejara, amiga, dar-vos mostras de gratid\u00e3o; por\u00e9m s\u00f3 sabe faz\u00ea-lo se de l\u00e1grimas valer-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">O BASTARDO \u2014 S\u00f3 paguemos ao tempo a indispens\u00e1vel tristeza, por se ter antecipado demais \u00e0 nossa dor. Esta Inglaterra nunca jamais caiu sob o orgulhoso p\u00e9 de inimigo algum, sen\u00e3o no instante em que ela quis ferir o pr\u00f3prio seio. Mas agora que os pr\u00edncipes voltaram, ainda que contra n\u00f3s armados venham os tr\u00eas cantos do mundo, saberemos defender-nos. Jamais teremos causa de pesar, se, na paz como na guerra, fiel a si mesma for, sempre, a Inglaterra.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.ebooksbrasil.org<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS REI JO\u00c3O. PR\u00cdNCIPE HENRIQUE, filho do rei. CONDE DE PEMBROKE. CONDE DE ESSEX. CONDE DE SALISBURY. LORDE BIGOT. HUBERT DE BURGH. ROBERTO FAULCONBRIDGE, filho de sir Roberto Faulconbridge. FILIPE, o Bastardo, seu irm\u00e3o materno. JAMES GURNEY, criado de lady Faulconbridge. PETER DE POMFRET, profeta. FILIPE, rei da Fran\u00e7a. LUIS, delfim. 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