{"id":120327,"date":"2017-04-24T20:48:59","date_gmt":"2017-04-24T22:48:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120327"},"modified":"2017-04-24T20:50:03","modified_gmt":"2017-04-24T22:50:03","slug":"dom-casmurro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/dom-casmurro","title":{"rendered":"Dom Casmurro"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ DO T\u00cdTULO<\/h2>\n<p>Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conhe\u00e7o de vista e de chap\u00e9u. Cumprimentou-me, sentou-se ao p\u00e9 de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que n\u00e3o fossem inteiramente maus. Sucedeu, por\u00e9m, que, como eu estava cansado, fechei os olhos tr\u00eas ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.<\/p>\n<p>&#8212; Continue, disse eu acordando.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 acabei, murmurou ele.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o muito bonitos.<\/p>\n<p>Vi-lhe fazer um gesto para tir\u00e1-los outra vez do bolso, mas n\u00e3o passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que n\u00e3o gostam dos meus h\u00e1bitos reclusos e calados, deram curso \u00e0 alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por gra\u00e7a, chamam-me assim, alguns em bilhetes: &#8220;Dom Casmurro, domingo vou jantar com voc\u00ea.&#8221;&#8211;&#8220;Vou para Petr\u00f3polis, Dom Casmurro; a casa \u00e9 a mesma da Renania; v\u00ea se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai l\u00e1 passar uns quinze dias comigo.&#8221;&#8211;&#8220;Meu caro Dom Casmurro, n\u00e3o cuide que o dispenso do teatro amanh\u00e3; venha e dormir\u00e1 aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe ch\u00e1, dou-lhe cama; s\u00f3 n\u00e3o lhe dou mo\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o consultes dicion\u00e1rios. Casmurro n\u00e3o est\u00e1 aqui no sentido que eles lhe d\u00e3o, mas no que lhe p\u00f4s o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tamb\u00e9m n\u00e3o achei melhor t\u00edtulo para a minha narra\u00e7\u00e3o &#8211; se n\u00e3o tiver outro daqui at\u00e9 ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficar\u00e1 sabendo que n\u00e3o lhe guardo rancor. E com pequeno esfor\u00e7o, sendo o t\u00edtulo seu, poder\u00e1 cuidar que a obra \u00e9 sua. H\u00e1 livros que apenas ter\u00e3o isso dos seus autores; alguns nem tanto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO II\/ DO LIVRO<\/h2>\n<p>Agora que expliquei o t\u00edtulo, passo a escrever o livro. Antes disso, por\u00e9m, digamos os motivos que me p\u00f5em a pena na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivo s\u00f3, com um criado. A casa em que moro \u00e9 pr\u00f3pria; fi-la construir de prop\u00f3sito, levado de um desejo t\u00e3o particular que me vexa imprimi-lo, mas v\u00e1 l\u00e1. Um dia. h\u00e1 bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indica\u00e7\u00f5es que lhes fiz: \u00e9 o mesmo pr\u00e9dio assobradado, tr\u00eas janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes \u00e9 mais ou menos igual, umas grinaldas de flores mi\u00fadas e grandes p\u00e1ssaros que as tomam nos blocos, de espa\u00e7o a espa\u00e7o. Nos quatro cantos do tecto as figuras das esta\u00e7\u00f5es, e ao centro das paredes os medalh\u00f5es de C\u00e9sar, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo&#8230; N\u00e3o alcan\u00e7o a raz\u00e3o de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, j\u00e1 ela estava assim decorada; vinha do dec\u00eanio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor cl\u00e1ssico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais \u00e9 tamb\u00e9m an\u00e1logo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um po\u00e7o e lavadouro. Uso lou\u00e7a velha e mob\u00edlia velha. Enfim, agora, como outrora, h\u00e1 aqui o mesmo contraste da vida interior, que \u00e9 pacata, com a exterior, que \u00e9 ruidosa.<\/p>\n<p>O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolesc\u00eancia. Pois, senhor, n\u00e3o consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto \u00e9 igual, a fisionomia \u00e9 diferente. Se s\u00f3 me faltassem os outros, v\u00e1 um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna \u00e9 tudo. O que aqui est\u00e1 \u00e9, mal comparando, semelhante \u00e0 pintura que se p\u00f5e na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o h\u00e1bito externo, como se diz nas aut\u00f3psias; o interno n\u00e3o ag\u00fcenta tinta. Uma certid\u00e3o que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas n\u00e3o a mim. Os amigos que me restam s\u00e3o de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto \u00e0s amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas cr\u00eaem na mocidade. Duas ou tr\u00eas fariam crer nela aos outros, mas a l\u00edngua que falam obriga muita vez a consultar os dicion\u00e1rios, e tal freq\u00fc\u00eancia \u00e9 cansativa.<\/p>\n<p>Entretanto, vida diferente n\u00e3o quer dizer vida pior, \u00e9 outra cousa a certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas \u00e9 tamb\u00e9m exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de mem\u00f3ria, conservo alguma recorda\u00e7\u00e3o doce e feiticeira. Em verdade, pouco apare\u00e7o e menos falo. Distra\u00e7\u00f5es raras. O mais do tempo \u00e9 gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e n\u00e3o durmo mal.<\/p>\n<p>Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me tamb\u00e9m. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprud\u00eancia. filosofia e pol\u00edtica acudiram-me, mas n\u00e3o me acudiram as for\u00e7as necess\u00e1rias. Depois, pensei em fazer uma &#8220;Hist\u00f3ria dos Sub\u00farbios&#8221; menos seca que as mem\u00f3rias do Padre Lu\u00eds Gon\u00e7alves dos Santos relativas \u00e0 cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo \u00e1rido e longo. Foi ent\u00e3o que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles n\u00e3o alcan\u00e7avam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narra\u00e7\u00e3o me desse a ilus\u00e3o, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, n\u00e3o o do trem, mas o do Fausto: A\u00ed vindes outra vez, inquietas sombras?&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o alegre com esta id\u00e9ia, que ainda agora me treme a pena na m\u00e3o. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande C\u00e9sar, que me incitas a fazer os meus coment\u00e1rios, agrade\u00e7o-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminisc\u00eancias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a m\u00e3o para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evoca\u00e7\u00e3o por uma c\u00e9lebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do esp\u00edrito. \u00c9 o que vais entender, lendo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO III\/ A DEN\u00daNCIA<\/h2>\n<p>Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atr\u00e1s da porta. A casa era a da Rua de Mata-cavalos, o m\u00eas novembro, o ano \u00e9 que \u00e9 um tanto remoto, mas eu n\u00e3o hei de trocar as datas \u00e0 minha vida s\u00f3 para agradar \u00e0s pessoas que n\u00e3o amam hist\u00f3rias velhas; o ano era de 1857.<\/p>\n<p>&#8211;D. Gl\u00f3ria, a senhora persiste na id\u00e9ia de meter o nosso Bentinho no semin\u00e1rio? \u00c9 mais que tempo, e j\u00e1 agora pode haver uma dificuldade.<\/p>\n<p>&#8211;Que dificuldade?<\/p>\n<p>&#8211;Uma grande dificuldade.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e quis saber o que era. Jos\u00e9 Dias, depois de alguns instantes de concentra\u00e7\u00e3o, veio ver se havia algu\u00e9m no corredor; n\u00e3o deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao p\u00e9, a gente do P\u00e1dua.<\/p>\n<p>&#8211;A gente do P\u00e1dua?<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 algum tempo estou para lhe dizer isto, mas n\u00e3o me atrevia. N\u00e3o me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta \u00e9 a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora ter\u00e1 muito que lutar para separ\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o acho. Metidos nos cantos?<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que n\u00e3o sai de l\u00e1. A pequena \u00e9 uma desmiolada; o pai faz que n\u00e3o v\u00ea; tomara ele que as cousas corressem de maneira, que&#8230; Compreendo o seu gesto; a senhora n\u00e3o cr\u00ea em tais c\u00e1lculos, parece-lhe que todos t\u00eam a alma candida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas, Sr. Jos\u00e9 Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que fa\u00e7a desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze \u00e0 semana passada; s\u00e3o dous crian\u00e7olas. N\u00e3o se esque\u00e7a que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, h\u00e1 dez anos, em que a fam\u00edlia P\u00e1dua perdeu tanta cousa; da\u00ed vieram as nossas rela\u00e7\u00f5es. Pois eu hei de crer?. . . Mano Cosme, voc\u00ea que acha? Tio Cosme respondeu com um &#8220;Ora!&#8221; que, traduzido em vulgar, queria dizer: &#8220;S\u00e3o imagina\u00e7\u00f5es do Jos\u00e9 Dias os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde est\u00e1 o gam\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Sim, creio que o senhor est\u00e1 enganado.<\/p>\n<p>&#8211;Pode ser minha senhora. Oxal\u00e1 tenham raz\u00e3o; mas creia que n\u00e3o falei sen\u00e3o depois de muito examinar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha m\u00e3e; vou tratar de met\u00ea-lo no semin\u00e1rio quanto antes.<\/p>\n<p>&#8211;Bem, uma vez que n\u00e3o perdeu a id\u00e9ia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho h\u00e1 de satisfazer os desejos de sua m\u00e3e e depois a igreja brasileira tem altos destinos. N\u00e3o esque\u00e7amos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feij\u00f3 governou o Imp\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Governo como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&#8211;Perd\u00e3o, doutor, n\u00e3o estou defendendo ningu\u00e9m, estou citando O que eu quero \u00e9 dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea o que quer \u00e9 um capote; ande, v\u00e1 buscar o gam\u00e3o. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente \u00e9 melhor que n\u00e3o comece a dizer missa atr\u00e1s das portas. Mas, olhe c\u00e1, mana Gl\u00f3ria, h\u00e1 mesmo necessidade de faz\u00ea-lo padre?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 promessa, h\u00e1 de cumprir-se.<\/p>\n<p>&#8211;Sei que voc\u00ea fez promessa&#8230; mas uma promessa assim&#8230; n\u00e3o sei&#8230; Creio que, bem pensado&#8230; Voc\u00ea que acha, prima Justina?<\/p>\n<p>&#8212; Eu?<\/p>\n<p>&#8211;Verdade \u00e9 que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme- Deus \u00e9 que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos&#8230; Mas, que \u00e9 isso, mana Gl\u00f3ria? Est\u00e1 chorando? Ora esta pois isto \u00e9 cousa de l\u00e1grimas?<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto sil\u00eancio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra for\u00e7a maior, outra emo\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: &#8220;Prima Gl\u00f3ria! Prima Gl\u00f3ria!&#8221; Jos\u00e9 Dias desculpava-se: &#8220;Se soubesse, n\u00e3o teria falado, mas falei pela venera\u00e7\u00e3o, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amar\u00edssimo&#8230; &#8221;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IV \/ UM DEVER AMAR\u00cdSSIMO!<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Dias amava os superlativos. Era um modo de dar fei\u00e7\u00e3o monumental \u00e0s id\u00e9ias; n\u00e3o as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gam\u00e3o, que estava no interior da casa. Cosi-me muito \u00e0 parede, e vi-o passar com as suas cal\u00e7as brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos \u00faltimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as cal\u00e7as curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de a\u00e7o por dentro, imobilizava-lhe o pesco\u00e7o; era ent\u00e3o moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerim\u00f4nia. Era magro, chupado, com um princ\u00edpio de calva; teria os seus cinq\u00fcenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, n\u00e3o aquele vagar arrastado se era dos pregui\u00e7osos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da conseq\u00fc\u00eancia, a conseq\u00fc\u00eancia antes da conclus\u00e3o. Um dever amar\u00edssimo!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO V \/ O AGREGADO<\/h2>\n<p>Nem sempre ia naquele passo vagaroso e r\u00edgido. Tamb\u00e9m se descompunha em acionados, era muita vez r\u00e1pido e l\u00e9pido nos movimentos, t\u00e3o natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto \u00e1s bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, grav\u00edssimo.<\/p>\n<p>Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itagua\u00ed, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por m\u00e9dico homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia ent\u00e3o um anda\u00e7o de febres; Jos\u00e9 Dias curou o feitor e uma escrava, e n\u00e3o quis receber nenhuma remunera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o meu pai prop\u00f4s-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. Jos\u00e9 Dias recusou, dizendo que era justo levar a sa\u00fade \u00e0 casa de sap\u00e9 do pobre.<\/p>\n<p>&#8211;Quem lhe impede que v\u00e1 a outras partes? V\u00e1 aonde quiser, mas fique morando conosco.<\/p>\n<p>&#8211;Voltarei daqui a tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estip\u00eandio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a fam\u00edlia, ele veio tamb\u00e9m, e teve o seu quarto ao fundo da ch\u00e1cara. Um dia, reinando outra vez febres em Itagua\u00ed, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. Jos\u00e9 Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que n\u00e3o era m\u00e9dico. Tomara este t\u00edtulo para ajudar a propaganda da nova escola, e n\u00e3o o fez sem estudar muito e muito; mas a consci\u00eancia n\u00e3o lhe permitia aceitar mais doentes.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, voc\u00ea curou das outras vezes.<\/p>\n<p>&#8211;Creio que sim; o mais acertado, por\u00e9m, \u00e9 dizer que foram os rem\u00e9dios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlat\u00e3o&#8230; N\u00e3o negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia \u00e9 a verdade, e, para servir \u00e0 verdade, menti; mas \u00e9 tempo de restabelecer tudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi despedido, como pedia ent\u00e3o; meu pai j\u00e1 n\u00e3o podia dispens\u00e1-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necess\u00e1rio; dava-se por falta dele, como de pessoa da fam\u00edlia. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; n\u00e3o me lembra. Minha m\u00e3e ficou-lhe muito grata, e n\u00e3o consentiu que ele deixasse o quarto da ch\u00e1cara; ao s\u00e9timo dia. depois da missa, ele foi despedir-se dela.<\/p>\n<p>&#8211;Fique, Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>&#8211;Obede\u00e7o, minha senhora.<\/p>\n<p>Teve um pequeno legado no testamento, uma ap\u00f3lice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. &#8220;Esta \u00e9 a melhor ap\u00f3lice&#8221;, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na fam\u00edlia, certa audi\u00eancia, ao menos; n\u00e3o abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, n\u00e3o direi \u00f3timo, mas nem tudo \u00e9 \u00f3timo neste mundo. E n\u00e3o lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do c\u00e1lculo que da \u00edndole. A roupa durava-lhe muito; ao contr\u00e1rio das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma eleg\u00e2ncia pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao ser\u00e3o e \u00e0 sobremesa, ou explicar algum fen\u00f4meno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos p\u00f3los e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera \u00e0 Europa, e confessava que a n\u00e3o sermos n\u00f3s, j\u00e1 teria voltado para l\u00e1; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa fam\u00edlia, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.<\/p>\n<p>&#8211;Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.<\/p>\n<p>&#8211;Abaixo, repetiu Jos\u00e9 Dias cheio de venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E minha m\u00e3e, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. Jos\u00e9 Dias agradeceu de cabe\u00e7a. Minha m\u00e3e dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a c\u00f3pia de pap\u00e9is de autos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI \/ TIO COSME<\/h2>\n<p>Tio Cosme vivia com minha m\u00e3e, desde que ela enviuvou. J\u00e1 ent\u00e3o era vi\u00favo, como prima Justina; era a casa dos tr\u00eas vi\u00favos.<\/p>\n<p>A fortuna troca muita vez as m\u00e3os \u00e0 natureza. Formado para as serenas fun\u00e7\u00f5es do capitalismo, tio Cosme n\u00e3o enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escrit\u00f3rio na antiga Rua das Violas, perto do j\u00fari, que era no extinto Aljube. Trabalhava no crime. Jos\u00e9 Dias n\u00e3o perdia as defesas orais de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais modesto que quisesse ser. sorria de persuas\u00e3o.<\/p>\n<p>Era gordo e pesado, tinha a respira\u00e7\u00e3o curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recorda\u00e7\u00f5es mais antigas era v\u00ea-lo montar todas as manh\u00e3s a besta que minha m\u00e3e lhe deu e que o levava ao escrit\u00f3rio. O preto que a tinha ido buscar \u00e0 cocheira segurava o freio, enquanto ele erguia o p\u00e9 e pousava no estribo &#8211; a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflex\u00e3o. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo amea\u00e7ava subir, mas n\u00e3o subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, ap\u00f3s alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as for\u00e7as f\u00edsicas e morais, dava o \u00faltimo surto da terra, e desta vez ca\u00eda em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia a trote.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na ro\u00e7a (donde vim com dous anos) e apesar dos costumes do tempo, eu n\u00e3o sabia montar, e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove anos), sozinho e desamparado, o ch\u00e3o l\u00e1 embaixo, entrei a gritar desesperadamente: &#8220;Mam\u00e3e! mam\u00e3e!&#8221; Ela acudiu p\u00e1lida e tr\u00eamula, cuidou que me estivessem matando, pegou-me, afagou-me, enquanto o irm\u00e3o perguntava:<\/p>\n<p>&#8211;Mana Gl\u00f3ria, pois um tamanh\u00e3o destes tem medo de besta mansa?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o est\u00e1 acostumado.<\/p>\n<p>&#8211;Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vig\u00e1rio na ro\u00e7a, \u00e9 preciso que monte a cavalo; e, aqui mesmo, ainda n\u00e3o sendo padre, se quiser florear como os outros rapazes, e n\u00e3o souber, h\u00e1 de queixar-se de voc\u00ea, mana Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211;Pois que se queixe; tenho medo.<\/p>\n<p>&#8211;Medo! Ora, medo!<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que eu s\u00f3 vim a aprender equita\u00e7\u00e3o mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que n\u00e3o sabia montar. &#8220;Agora \u00e9 que ele vai namorar deveras&#8221;, disseram quando eu comecei as li\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho costume e necessidade. J\u00e1 n\u00e3o dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de muitas damas, al\u00e9m de partid\u00e1rio exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor pol\u00edtico e sexual, e a gordura acabou com o resto de id\u00e9ias p\u00fablicas e espec\u00edficas. Agora s\u00f3 cumpria as obriga\u00e7\u00f5es do of\u00edcio e sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilh\u00e9rias.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VII \/ D. GL\u00d3RIA<\/h2>\n<p>Minha M\u00e3e era boa criatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de idade, e podia voltar para Itagua\u00ed. N\u00e3o quis; preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns que p\u00f4s ao ganho ou alugou, uma d\u00fazia de pr\u00e9dios, certo n\u00famero de ap\u00f3lices, e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos, onde vivera os dous \u00faltimos anos de casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a fam\u00edlia Fernandes.<\/p>\n<p>Ora, pois, naquele ano da gra\u00e7a de 1857, D. Maria da Gl\u00f3ria Fernandes Santiago contava quarenta e dous anos de idade. Era ainda bonita e mo\u00e7a, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preserv\u00e1-la da a\u00e7\u00e3o do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em tri\u00e2ngulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em band\u00f3s, eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia a touca branca de folhas. Lidava assim, com os seus sapatos de cordov\u00e3o rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os servi\u00e7os todos da casa inteira, desde manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda d\u00e1 id\u00e9ia de ambos. N\u00e3o me lembra nada dele, a n\u00e3o ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno. O pesco\u00e7o sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara \u00e9 toda rapada, salvo um trechozinho pegado \u00e0s orelhas. O de minha m\u00e3e mostra que era linda. Contava ent\u00e3o vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a flor ao marido. O que se l\u00ea na cara de ambos \u00e9 que, se a felicidade conjugal pode ser comparada \u00e0 sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.<\/p>\n<p>Concluo que n\u00e3o se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ningu\u00e9m tachou de m\u00e1 a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperan\u00e7a no fundo; em alguma parte h\u00e1 de ela ficar. Aqui os tenho aos dous bem casados de outrora, os bem-amados, os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para eles, e esque\u00e7o os bilhetes brancos e a boceta fat\u00eddica. S\u00e3o retratos que valem por originais. O de minha m\u00e3e, estendendo a flor ao marido, parece dizer: &#8220;Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!&#8221; O de meu pai, olhando para a gente, faz este coment\u00e1rio: &#8220;Vejam como esta mo\u00e7a me quer&#8230;&#8221; Se padeceram mol\u00e9stias, n\u00e3o sei, como n\u00e3o sei se tiveram desgostos: era crian\u00e7a e comecei por n\u00e3o ser nascido. Depois da morte dele, lembra-me que ela chorou muito; mas aqui est\u00e3o os retratos de ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira express\u00e3o. S\u00e3o como fotografias instant\u00e2neas da felicidade.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VIII \/ E TEMPO<\/h2>\n<p>Mas \u00e9 tempo de tornar \u00e0quela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que mor\u00e1vamos. Verdadeiramente foi o princ\u00edpio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia&#8230; Agora \u00e9 que eu ia come\u00e7ar a minha \u00f3pera. &#8220;A vida \u00e9 uma \u00f3pera&#8221;, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu&#8230; E explicou-me um dia a defini\u00e7\u00e3o, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena d\u00e1-la; \u00e9 s\u00f3 um Cap\u00edtulo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO IX \/ A \u00d3PERA<\/h2>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. &#8220;O desuso \u00e9 que me faz mal&#8221;, acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empres\u00e1rio e expunha-lhe todas as injusti\u00e7as da terra e do c\u00e9u; o empres\u00e1rio cometia mais uma, e ele sa\u00eda a bradar contra a iniq\u00fcidade. Trazia ainda os bigodes dos seus pap\u00e9is. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babil\u00f4nia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto &#8211; vozes assim abafadas s\u00e3o sempre poss\u00edveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a defini\u00e7\u00e3o do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma \u00f3pera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabe\u00e7a e replicou:<\/p>\n<p>&#8211;A vida \u00e9 uma \u00f3pera e uma grande \u00f3pera. O tenor e o bar\u00edtono lutam pelo soprano, em presen\u00e7a do baixo e dos comprimir\u00e1s, quando n\u00e3o s\u00e3o o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presen\u00e7a do mesmo baixo e dos mesmos comprimir\u00e1s. H\u00e1 coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestra\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas, meu caro Marcolini&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Qu\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>E depois, de beber um gole de licor, pousou o c\u00e1lix, e exp\u00f4s-me a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o, com palavras que vou resumir.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 o poeta. A m\u00fasica \u00e9 de Satan\u00e1s, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservat\u00f3rio do c\u00e9u. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, n\u00e3o tolerava a preced\u00eancia que eles tinham na distribui\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios. Pode ser tamb\u00e9m que a m\u00fasica em demasia doce e m\u00edstica daqueles outros condisc\u00edpulos fosse aborrec\u00edvel ao seu g\u00eanio essencialmente tr\u00e1gico. Tramou uma rebeli\u00e3o que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservat\u00f3rio. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus n\u00e3o houvesse escrito um libreto de \u00f3pera do qual abrira m\u00e3o, por entender que tal g\u00eanero de recreio era impr\u00f3prio da sua eternidade. Satan\u00e1s levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o c\u00e9u,&#8211;comp\u00f4s a partitura, e logo que a acabou foi lev\u00e1-la ao Padre Eterno.<\/p>\n<p>&#8211;Senhor, n\u00e3o desaprendi as li\u00e7\u00f5es recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, retorquiu o Senhor, n\u00e3o quero ouvir nada.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, Senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Nada! nada!<\/p>\n<p>Satan\u00e1s suplicou ainda, sem melhor fortuna, at\u00e9 que Deus, cansado e cheio de miseric\u00f3rdia, consentiu em que a \u00f3pera fosse executada, mas fora do c\u00e9u. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, prim\u00e1rias e comprim\u00e1rias, coros e bailarinos.<\/p>\n<p>&#8211;Ouvi agora alguns ensaios!<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, n\u00e3o quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.<\/p>\n<p>Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audi\u00eancia pr\u00e9via e a colabora\u00e7\u00e3o amiga teriam evitado com efeito, h\u00e1 lugares em que o verso vai para a direita e a m\u00fasica, para a esquerda. N\u00e3o falta quem diga que nisso mesmo est\u00e1 a al\u00e9m da composi\u00e7\u00e3o, fugindo \u00e0 monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a \u00e1ria de Abel, os coros da guilhotina e da escravid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 raro que os mesmos lances se reproduzam, sem raz\u00e3o suficiente. Certos motivos cansam \u00e0 for\u00e7a de repeti\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m h\u00e1 obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais s\u00e3o ali\u00e1s tratadas com grande per\u00edcia. Tal \u00e9 a opini\u00e3o dos imparciais.<\/p>\n<p>Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra t\u00e3o bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da \u00f3pera \u00e9 prov\u00e1vel que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapare\u00e7am inteiramente, n\u00e3o se negando o maestro a emendar a obra onde achar que n\u00e3o responde de todo ao pensamento sublime do poeta. J\u00e1 n\u00e3o dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, \u00e9 absolutamente diversa e at\u00e9 contr\u00e1ria ao drama. O grotesco, por exemplo, n\u00e3o est\u00e1 no texto do poeta; \u00e9 uma excresc\u00eancia para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto \u00e9 contestado pelos satanistas com alguma apar\u00eancia de raz\u00e3o. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satan\u00e1s comp\u00f4s a grande \u00f3pera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta ingl\u00eas n\u00e3o teve outro g\u00eanio sen\u00e3o transcrever a letra da \u00f3pera, com tal arte e fidelidade, que parece ele pr\u00f3prio o autor da composi\u00e7\u00e3o; mas, evidentemente, \u00e9 um plagi\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Esta pe\u00e7a, concluiu o velho tenor, durar\u00e1 enquanto durar o teatro, n\u00e3o se podendo calcular em que tempo ser\u00e1 ele demolido por utilidade astron\u00f4mica. O \u00eaxito \u00e9 crescente. Poeta e m\u00fasico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que n\u00e3o s\u00e3o os mesmos, porque a regra da divis\u00e3o \u00e9 aquilo da Escritura: &#8220;Muitos s\u00e3o os chamados, poucos ao escolhidos&#8221;. Deus recebe eu ouro, Satan\u00e1s em papel.<\/p>\n<p>&#8211;Tem gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Gra\u00e7a? bradou ele com f\u00faria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu n\u00e3o tenho gra\u00e7a, eu tenho horror \u00e0 gra\u00e7a. Isto que digo \u00e9 a verdade pura e \u00faltima. Um dia. quando todos os livros forem queimados por in\u00fateis, h\u00e1 de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo \u00e9 m\u00fasica, meu amigo. No princ\u00edpio era o d\u00f3, e do d\u00f3 fez-se r\u00e9, etc. Este c\u00e1lix (e enchia-o novamente), este c\u00e1lix \u00e9 um breve estribilho. N\u00e3o se ouve? Tamb\u00e9m n\u00e3o se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma \u00f3pera&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO X \/ ACEITO A TEORIA<\/h2>\n<p>Que \u00e9 demasiada metaf\u00edsica para um s\u00f3 tenor, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; mas a perda da voz explica tudo, e h\u00e1 fil\u00f3sofos que s\u00e3o, em resumo, tenores desempregados.<\/p>\n<p>Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, n\u00e3o s\u00f3 pela verossimilhan\u00e7a, que \u00e9 muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem \u00e0 defini\u00e7\u00e3o. Cantei um duo tecnicismo, depois um trio, depois um quatro&#8230; Mas n\u00e3o adiantemos; vamos \u00e0 primeira parte, em que eu vim a saber que j\u00e1 cantava, porque a den\u00fancia de Jos\u00e9 Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim \u00e9 que ele me denunciou.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XI \/ A PROMESSA<\/h2>\n<p>T\u00e3o depressa vi desaparecer o agregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri \u00e0 varanda do fundo. N\u00e3o quis saber de l\u00e1grimas nem da causa que as fazia verter a minha m\u00e3e. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesi\u00e1sticos, e a ocasi\u00e3o destes \u00e9 a que vou dizer, por ser j\u00e1 ent\u00e3o hist\u00f3ria velha; datava de dezesseis anos.<\/p>\n<p>Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha m\u00e3e pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse var\u00e3o, met\u00ea-lo na Igreja. Talvez esperasse uma menina. N\u00e3o disse nada a meu pai, nem antes, nem depois de me dar \u00e0 luz, contava faz\u00ea-lo quando eu entrasse para a escola, mas enviuvou antes disso. Vi\u00fava, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era t\u00e3o devota, t\u00e3o temente a Deus, que buscou testemunhas da obriga\u00e7\u00e3o, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separ\u00e1ssemos o mais tarde poss\u00edvel, fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por aquele Padre Cabral, velho amigo do tio Cose, que ia l\u00e1 jogar \u00e0s noites.<\/p>\n<p>Prazos largos s\u00e3o f\u00e1ceis de subscrever; a imagina\u00e7\u00e3o os faz infinitos. Minha m\u00e3e esperou que os anos viessem vindo. Entretanto ia-me afei\u00e7oando \u00e0 id\u00e9ia da Igreja; brincos de crian\u00e7a, livros devotos. imagens de santos, conversa\u00e7\u00f5es de casa, tudo convergia para o altar quando \u00edamos \u00e0 missa, dizia-me sempre que era para aprender a ser padre, e que reparasse no padre, n\u00e3o tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa,&#8211;um tanto \u00e0s escondidas, porque minha m\u00e3e dizia que missa n\u00e3o era cousa de brincadeira. Arranj\u00e1vamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacrist\u00e3o, e alter\u00e1vamos o ritual, no sentido de dividirmos a h\u00f3stia entre n\u00f3s, a h\u00f3stia era sempre um doce. No tempo em que brinc\u00e1vamos assim, era muito comum ouvir \u00e0 minha vizinha: &#8220;Hoje h\u00e1 missa?&#8221; Eu j\u00e1 sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente, e ia pedir h\u00f3stia por outro nome Voltava com ela, arranj\u00e1vamos o altar, engrol\u00e1vamos o latim e precipit\u00e1vamos as cerim\u00f4nias. Dominus, non sum dignus&#8230; Isto, que eu devia dizer tr\u00eas vezes, penso que s\u00f3 dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacrist\u00e3o. N\u00e3o beb\u00edamos vinho nem \u00e1gua; n\u00e3o t\u00ednhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Ultimamente n\u00e3o me falavam j\u00e1 do semin\u00e1rio, a tal ponto que eu supunha ser neg\u00f3cio findo. Quinze anos, n\u00e3o havendo voca\u00e7\u00e3o, podiam antes o semin\u00e1rio do mundo que o de S. Jos\u00e9. Minha m\u00e3e ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na m\u00e3o, a pretexto de nada, para apert\u00e1-la muito.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XII \/ NA VARANDA<\/h2>\n<p>Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o cora\u00e7\u00e3o parecendo querer sair-me pela boca fora. N\u00e3o me atrevia a descer \u00e0 ch\u00e1cara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>&#8220;Sempre juntos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Em segredinhos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Se eles pegam de namoro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, segundo eu ia ou vinha, em v\u00f3s me ficou a melhor parte da crise, a sensa\u00e7\u00e3o de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava n\u00e3o sei que b\u00e1lsamo interior. \u00c0s vezes dava por mim, sorrindo, um ar de riso de satisfa\u00e7\u00e3o, que desmentia a abomina\u00e7\u00e3o do meu pecado. E as vozes repetiam-se confusas;<\/p>\n<p>&#8220;Em segredinhos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Sempre juntos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Se eles pegam de namoro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que n\u00e3o era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze, ao contr\u00e1rio, os adolescentes daquela idade n\u00e3o tinham outro of\u00edcio, nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. P\u00e1ssaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estilo, toda a gente viva do ar era da mesma opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Com que ent\u00e3o eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido \u00e0s saias dela, mas n\u00e3o me ocorria nada entre n\u00f3s que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o col\u00e9gio, eram tudo travessuras de crian\u00e7a; depois que saiu do col\u00e9gio, \u00e9 certo que n\u00e3o estabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no \u00faltimo ano era completa. Entretanto, a mat\u00e9ria das nossas conversa\u00e7\u00f5es era a de sempre. Capitu chamava-me \u00e0s vezes bonito, mocet\u00e3o, uma flor &#8211; outras pegava-me nas m\u00e3os para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a m\u00e3o pelos cabelos, dizendo que os achava lind\u00edssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Ent\u00e3o Capitu abanava a cabe\u00e7a com uma grande express\u00e3o de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admir\u00e1veis &#8211; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na v\u00e9spera, e eu dizia que n\u00e3o, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordin\u00e1rias, que sub\u00edamos ao Corcovado pelo ar, que dan\u00e7\u00e1vamos na lua, ou ent\u00e3o que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos and\u00e1vamos unidinhos. Os que eu tinha com ela n\u00e3o eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez n\u00e3o passavam da simples repeti\u00e7\u00e3o do dia. alguma frase, algum gesto. Tamb\u00e9m eu os contava. Capitu um dia notou a diferen\u00e7a, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesita\u00e7\u00e3o, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava&#8230; Fez-se cor de pitanga.<\/p>\n<p>Pois, francamente, s\u00f3 agora entendia a como\u00e7\u00e3o que me davam essas e outras confid\u00eancias. A emo\u00e7\u00e3o era doce e nova, mas a causa dela fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os sil\u00eancios dos \u00faltimos dias, que me n\u00e3o descobriam nada, agora os sentia como sinais de alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a inf\u00e2ncia. Tamb\u00e9m adverti que era fen\u00f4meno recente acordar com o pensamento em Capitu, e escut\u00e1-la de mem\u00f3ria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha casa, prestava mais aten\u00e7\u00e3o que dantes, e, segundo era louvor ou cr\u00edtica, assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando \u00e9ramos somente companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele m\u00eas, com intervalos, \u00e9 verdade, mas com exclusivismo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Tudo isto me era agora apresentado pela boca de Jos\u00e9 Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e de outro. Naquele instante, a eterna Verdade n\u00e3o valeria mais que ele, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tr\u00eamulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revela\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia a si pr\u00f3pria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse compar\u00e1vel qualquer outra sensa\u00e7\u00e3o da mesma esp\u00e9cie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tamb\u00e9m por ser a primeira.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIII \/ CAPITU<\/h2>\n<p>De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao p\u00e9:<\/p>\n<p>E no quintal:<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e!<\/p>\n<p>E outra vez na casa:<\/p>\n<p>&#8211;Vem c\u00e1!<\/p>\n<p>N\u00e3o me pude ter. As pernas desceram-me os tr\u00eas degraus que davam para a ch\u00e1cara, e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, \u00e0s tardes, e \u00e0s manh\u00e3s tamb\u00e9m. Que as pernas tamb\u00e9m s\u00e3o pessoas, apenas inferiores aos bra\u00e7os, e valem de si mesma, quando a cabe\u00e7a n\u00e3o as rege por meio de id\u00e9ias. As minhas chegaram ao p\u00e9 do muro. Havia ali uma porta de comunica\u00e7\u00e3o mandada rasgar por minha m\u00e3e, quando Capitu e eu \u00e9ramos pequenos. A porta n\u00e3o tinha chave nem taramela- abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente o uma corda. Era quase que exclusivamente nossa. Em crian\u00e7as, faz\u00edamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro cor, muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitu adoeciam, o m\u00e9dico era eu. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do bra\u00e7o, para imitar o bengal\u00e3o do Doutor Jo\u00e3o da Costa, tomava o pulso \u00e0 doente e pedia-lhe que mostrasse a l\u00edngua. &#8220;\u00c9 surda, coitada!&#8221;, exclamava Capitu. Ent\u00e3o eu co\u00e7ava o queixo, como o doutor, e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomit\u00f3rio: era a terap\u00eautica habitual do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211;Capitu!<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e!<\/p>\n<p>&#8211;Deixa de estar esburacando o muro &#8211; vem c\u00e1.<\/p>\n<p>A voz da m\u00e3e era agora mais perto, como se viesse j\u00e1 da porta dos fundos. Quis passar ao quintal, mas as pernas, h\u00e1 pouco t\u00e3o andarilhas, pareciam agora presas ao ch\u00e3o. Afinal fiz um esfor\u00e7o, empurrei a porta, e entrei. Capitu estava ao p\u00e9 do muro fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta f\u00ea-la olhar para tr\u00e1s; ao dar comigo, encostou-se ao muro, como se quisesse esconder alguma cousa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta:<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9 que voc\u00ea tem?<\/p>\n<p>&#8211;Eu? Nada.<\/p>\n<p>&#8211;Nada, n\u00e3o; voc\u00ea tem alguma cousa.<\/p>\n<p>Quis insistir que nada, mas n\u00e3o achei l\u00edngua. Todo eu era olhos e cora\u00e7\u00e3o, um cora\u00e7\u00e3o que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora. N\u00e3o podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tran\u00e7as, com as pontas atadas uma \u00e0 outra, \u00e0 moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As m\u00e3os, a despeito de alguns of\u00edcios rudes, eram curadas com amor, n\u00e3o cheiravam a sab\u00f5es finos nem \u00e1guas de toucador, mas com \u00e1gua do po\u00e7o e sab\u00e3o comum trazia-as sem m\u00e1cula. Cal\u00e7ava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9 que voc\u00ea tem? repetiu.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 nada, balbuciei finalmente.<\/p>\n<p>E emendei logo.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 uma not\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211;Not\u00edcia de qu\u00ea?<\/p>\n<p>Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o semin\u00e1rio e espreitar a impress\u00e3o que lhe faria. Se a consternasse \u00e9 que realmente gostava de mim; se n\u00e3o, \u00e9 que n\u00e3o gostava. Mas todo esse c\u00e1lculo foi obscuro e r\u00e1pido; senti que n\u00e3o poderia falar claramente, tinha agora a vista n\u00e3o sei como&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea sabe&#8230;<\/p>\n<p>Nisto olhei para o muro, o lugar em que ela estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a m\u00e3e. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. Ent\u00e3o quis v\u00ea-los de perto, e dei um passo. Capitu agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adiante e apagou o escrito. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIV \/ A INSCRI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Tudo o que contei no fim do outro Cap\u00edtulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais r\u00e1pido. Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, e sim dispostos:<\/p>\n<h2>BENTO<\/h2>\n<h2>CAPITOLINA<\/h2>\n<p>Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no ch\u00e3o. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro&#8230; Confiss\u00e3o de crian\u00e7as, tu valias bem duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas, mas quero ser poupado. Em verdade, n\u00e3o falamos nada; o muro falou por n\u00f3s. N\u00e3o nos movemos, as m\u00e3os \u00e9 que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. N\u00e3o marquei a hora exata daquele gesto. Devia t\u00ea-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas n\u00e3o traria nenhum, tal era a diferen\u00e7a entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.<\/p>\n<p>N\u00e3o soltamos as m\u00e3os, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros&#8230; Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Ep\u00edstola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o c\u00e1lix, os l\u00e1bios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ningu\u00e9m aprende e \u00e9 a l\u00edngua cat\u00f3lica dos homens. N\u00e3o me tenhas por sacril\u00e9gio, leitora minha devota a limpeza da inten\u00e7\u00e3o lava o que puder haver menos curial no estilo. Est\u00e1vamos ali com o c\u00e9u em nossas m\u00e3os, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma s\u00f3, mm uma s\u00f3 criatura ser\u00e1fica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de boca \u00e9 que nem tentavam sair, tornavam ao cora\u00e7\u00e3o caladas como vinham&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XV \/ OUTRA VOZ REPENTINA<\/h2>\n<p>Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00eas est\u00e3o jogando o siso?<\/p>\n<p>Era o pai de Capitu, que estava \u00e0 porta dos fundos, ao p\u00e9 da mulher. Soltamos as m\u00e3os depressa, e ficamos atrapalhados. Capitu foi ao muro, e, com o prego, disfar\u00e7adamente, apagou os nossos nomes escritos.<\/p>\n<p>&#8212; Capitu!<\/p>\n<p>&#8211;Papai!<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me estragues o reboco do muro.<\/p>\n<p>Capitu riscava sobre o riscado, para apagar bem o escrito. P\u00e1dua saiu ao quintal, a ver o que era, mas j\u00e1 a filha tinha come\u00e7ado outra cousa, um perfil, que disse ser o retrato dele, e tanto podia ser dele como da m\u00e3e &#8211; f\u00ea-lo rir, era o essencial. De resto, ele chegou sem c\u00f3lera, todo meigo, apesar do gesto duvidoso, ou menos que duvidoso em que nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e bra\u00e7os curtos, costas abauladas, donde lhe veio a alcunha de Tartaruga, que Jos\u00e9 Dias lhe p\u00f4s. Ningu\u00e9m lhe chamava assim l\u00e1 em casa; era s\u00f3 o agregado.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00eas estavam jogando o siso? perguntou.<\/p>\n<p>Olhei para um p\u00e9 de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu por ambos.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1vamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, n\u00e3o ag\u00fcenta.<\/p>\n<p>&#8211;Quando eu cheguei \u00e0 porta, n\u00e3o ria.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 tinha rido das outras vezes; n\u00e3o pode. Papai quer ver?<\/p>\n<p>E s\u00e9ria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto \u00e9 naturalmente s\u00e9rio &#8211; eu estava ainda sob a a\u00e7\u00e3o do que trouxe, entrada de P\u00e1dua, e n\u00e3o fui capaz de rir, por mais que devesse faz\u00ea-lo, para legitimar a resposta de Capitu. Esta, cansada de esperar, desviou o rosto, dizendo que eu n\u00e3o ria daquela vez por estar ao p\u00e9 do pai. E nem assim ri. H\u00e1 cousas que s\u00f3 se aprendem tarde \u00e9 mister nascer com elas para faz\u00ea-las cedo. E melhor \u00e9 naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitu, ap\u00f3s duas voltas, foi ter com a m\u00e3e, que continuava \u00e0 porta da casa, deixando-nos a mim e ao pai encantados dela; o pai, olhando para ela e para mim, dizia-me, cheio de ternura:<\/p>\n<p>&#8211;Quem dir\u00e1 que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. Mam\u00e3e est\u00e1 boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 muitos dias que n\u00e3o a vejo. Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas n\u00e3o tenho podido, ando com trabalhos da reparti\u00e7\u00e3o, em casa; escrevo todas as noites que \u00e9 um desespero; neg\u00f3cio de relat\u00f3rio. Voc\u00ea j\u00e1 viu o meu gaturamo? Est\u00e1 ali no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; ande ver.<\/p>\n<p>Que o meu desejo era nenhum, cr\u00ea-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo c\u00e9u nem pela terra. Meu desejo era ir atr\u00e1s de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava; mas o pai era o pai, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de v\u00e1ria esp\u00e9cie, cor e tamanho. A \u00e1rea que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de can\u00e1rios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava p\u00e1ssaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no pr\u00f3prio quintal, armando al\u00e7ap\u00f5es. Tamb\u00e9m, se adoeciam, tratava deles como se fossem gente.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO VI \/ O ADMINISTRADOR INTERINO<\/h2>\n<p>P\u00e1dua era empregado em reparti\u00e7\u00e3o dependente do Minist\u00e9rio da Guerra. N\u00e3o ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de r\u00e9is. A primeira id\u00e9ia do P\u00e1dua, quando lhe saiu o pr\u00eamio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adere\u00e7o de brilhantes para a mulher, uma sepultura perp\u00e9tua de fam\u00edlia, mandar vir da Europa alguns p\u00e1ssaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que ali est\u00e1 \u00e0 porta dos fundos da casa, em p\u00e9, falando \u00e0 filha, alta, forte, cheia, como a tia, a mesma cabe\u00e7a, os mesmos olhos claros, a mulher \u00e9 que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir \u00e0s mol\u00e9stias grandes. P\u00e1dua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha m\u00e3e, a quem D. Fortunata pediu aux\u00edlio. Nem foi s\u00f3 nessa ocasi\u00e3o que minha m\u00e3e lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao P\u00e1dua. Escutai; a anedota \u00e9 curta.<\/p>\n<p>O administrador da reparti\u00e7\u00e3o em que P\u00e1dua trabalhava teve de ir ao Norte, em comiss\u00e3o. P\u00e1dua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designa\u00e7\u00e3o, ficou substituindo o administrador com os respectivos honor\u00e1rios. Esta mudan\u00e7a de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes dos dez contos. N\u00e3o se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se \u00e0s despesas sup\u00e9rfluas, deu j\u00f3ias \u00e0 mulher, nos dias de festa matava um leit\u00e3o, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dous meses na suposi\u00e7\u00e3o de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque chegara o efetivo naquela manh\u00e3. Pediu \u00e0 minha m\u00e3e que velasse pelas infelizes que deixava; n\u00e3o podia sofrer a desgra\u00e7a, matava-se. Minha m\u00e3e falou-lhe com bondade, mas ele n\u00e3o atendia a cousa nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, minha senhora, n\u00e3o consentirei em tal vergonha! Fazer descer a fam\u00edlia, tornar atr\u00e1s&#8230; J\u00e1 disse, mato-me! N\u00e3o hei de confessar \u00e0 minha gente esta mis\u00e9ria. E os outros? Que dir\u00e3o os vizinhos? E os amigos? E o p\u00fablico?<\/p>\n<p>&#8211;Que p\u00fablico, Sr. P\u00e1dua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre se que sua mulher n\u00e3o tem outra pessoa&#8230; e que h\u00e1 de fazer? Pois um homem&#8230; Seja homem, ande.<\/p>\n<p>P\u00e1dua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova,&#8211;ou ent\u00e3o no quintal, ao p\u00e9 do po\u00e7o, como se a id\u00e9ia da morte teimasse nele. D. Fortunata ralhava:<\/p>\n<p>&#8211;Jo\u00e3ozinho, voc\u00ea \u00e9 crian\u00e7a?<\/p>\n<p>Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir \u00e0 minha m\u00e3e que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha m\u00e3e foi ach\u00e1-lo \u00e0 beira do po\u00e7o, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgra\u00e7ado, por causa de uma gratifica\u00e7\u00e3o menos, e perder um emprego interino? N\u00e3o, senhor, devia ser homem, pai de fam\u00edlia, imitar a mulher e a filha&#8230; P\u00e1dua obedeceu; confessou que acharia for\u00e7as para cumprir a vontade de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Vontade minha, n\u00e3o; obriga\u00e7\u00e3o sua.<\/p>\n<p>&#8211;Pois seja obriga\u00e7\u00e3o; n\u00e3o desconhe\u00e7o que \u00e9 assim mesmo.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido \u00e0 parede, cara no ch\u00e3o. N\u00e3o era o mesmo homem que estragava o chap\u00e9u em cortejar a vizinhan\u00e7a, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administra\u00e7\u00e3o interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando P\u00e1dua come\u00e7ou a interessar-se pelos neg\u00f3cios dom\u00e9sticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranq\u00fcilo as noites e as tardes, a conversa e dar not\u00edcias da rua. A serenidade regressou; atr\u00e1s dela veio a alegria, um domingo, na figura de &#8211; dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. J\u00e1 ele ria, j\u00e1 brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.<\/p>\n<p>Com o tempo veio um fen\u00f4meno interessante. P\u00e1dua come\u00e7ou s falar da administra\u00e7\u00e3o interina, n\u00e3o somente sem as saudades dos honor\u00e1rios, nem o vexame da perda, mas at\u00e9 com desvanecimento e orgulho. A administra\u00e7\u00e3o ficou sendo a h\u00e9gira, donde ele contava para diante e para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211;No tempo em que eu era administrador&#8230;<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administra\u00e7\u00e3o, ou um dous meses antes&#8230; Ora espere; a minha administra\u00e7\u00e3o come\u00e7ou. \u00c9 isto, m\u00eas e meio antes; foi m\u00eas e meio antes, n\u00e3o foi mais.<\/p>\n<p>Ou ainda:<\/p>\n<p>&#8211;Justamente; havia j\u00e1 seis meses que eu administrava&#8230;<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o sabor p\u00f3stumo das gl\u00f3rias interinas. Jos\u00e9 Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o vizinho P\u00e1dua se dava a li\u00e7\u00e3o de Elif\u00e1s a J\u00f3: &#8220;N\u00e3o desprezes a corre\u00e7\u00e3o do Senhor; Ele fere e cura&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO XVII \/ OS VERMES &#8220;ELE FERE E CURA!&#8221;<\/h2>\n<p>Quando, mais tarde, vim a saber que a lan\u00e7a de Aquiles tamb\u00e9m curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma disserta\u00e7\u00e3o a este prop\u00f3sito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compar\u00e1-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do or\u00e1culo pag\u00e3o e do pensamento israelita. Catei os pr\u00f3prios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos ro\u00eddos por eles.<\/p>\n<p>&#8211;Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, n\u00f3s n\u00e3o sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; n\u00f3s roemos.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto sil\u00eancio sobre os textos ro\u00eddos fosse ainda um modo de roer o ro\u00eddo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XVIII \/ UM PLANO<\/h2>\n<p>Pai nem m\u00e3e foram ter conosco, quando Capitu e eu, na sala de visitas, fal\u00e1vamos do semin\u00e1rio. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que not\u00edcia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se cor de cera.<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu n\u00e3o quero, acudi logo, n\u00e3o quero entrar em semin\u00e1rios; n\u00e3o entro, \u00e9 escusado teimarem comigo, n\u00e3o entro.<\/p>\n<p>Capitu, a princ\u00edpio, n\u00e3o disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda parada. Ent\u00e3o eu, para dar for\u00e7a \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es, comecei a jurar que n\u00e3o seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o semin\u00e1rio. Capitu n\u00e3o parecia crer nem descrer, n\u00e3o parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis cham\u00e1-la, sacudi-la, mas faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dan\u00e7ara, creio at\u00e9 que dormira comigo, deixava-me agora com os bra\u00e7os atados e medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara l\u00edvida, e rompeu nestas palavras furiosas:<\/p>\n<p>&#8211;Beata! carola! papa-missas!<\/p>\n<p>Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha m\u00e3e, e minha m\u00e3e dela, que eu n\u00e3o podia entender tamanha explos\u00e3o. \u00c9 verdade que tamb\u00e9m gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, cousa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a amea\u00e7a da separa\u00e7\u00e3o; mas os improp\u00e9rios, como entender que lhe chamasse nomes t\u00e3o feios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que ela tamb\u00e9m ia \u00e0 missa, e tr\u00eas ou quatro vezes minha m\u00e3e \u00e9 que a levou, na nossa velha sege. Tamb\u00e9m lhe dera um ros\u00e1rio, uma cruz de ouro e um livro de Horas&#8230; Quis defend\u00ea-la, mas Capitu n\u00e3o me deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz t\u00e3o alta que tive medo fosse ouvida dos pais. Nunca a vi t\u00e3o irritada como ent\u00e3o; parecia disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabe\u00e7a&#8230; Eu, assustado, n\u00e3o sabia que fizesse, repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea? Voc\u00ea entra.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o entro.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea ver\u00e1 se entra ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha mudado; n\u00e3o e ainda a Capitu do costume, mas quase. Estava s\u00e9ria, sem afli\u00e7\u00e3o, falava baixo. Quis saber a conversa\u00e7\u00e3o da minha casa; eu contei-lha toda, menos a parte que lhe dizia respeito.<\/p>\n<p>&#8211;E que interesse tem Jos\u00e9 Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.<\/p>\n<p>&#8211;Acho que nenhum; foi s\u00f3 para fazer mal. \u00c9 um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me h\u00e1 de pagar. Quando eu for dono d. casa, quem vai para a rua \u00e9 ele; voc\u00ea ver\u00e1; n\u00e3o me fica um instante Mam\u00e3e \u00e9 boa demais; d\u00e1-lhe aten\u00e7\u00e3o demais. Parece at\u00e9 que chorou.<\/p>\n<p>&#8211;Jos\u00e9 Dias?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Chorou por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei; ouvi s\u00f3 dizer que ela n\u00e3o chorasse, que n\u00e3o era cousa de choro&#8230; Ele chegou a mostrar-se arrependido, e saiu; eu ent\u00e3o, para n\u00e3o ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas, deixe estar, que ele me paga!<\/p>\n<p>Disse isto fechando o punho, e proferi outras amea\u00e7as. Ao relembr\u00e1-las, n\u00e3o me acho rid\u00edculo; a adolesc\u00eancia e a inf\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o, neste pontos rid\u00edculas; \u00e9 um dos seus privil\u00e9gios. Este mal ou este perigo come\u00e7a na mocidade, cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. Aos quinze anos, h\u00e1 at\u00e9 certa gra\u00e7a em amea\u00e7ar muito e n\u00e3o executar nada.<\/p>\n<p>Capitu refletia. A reflex\u00e3o n\u00e3o era cousa rara nela, e conheciam-se as ocasi\u00f5es pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circunst\u00e2ncias mais, as pr\u00f3prias palavras de uns e de outros, e o tom delas. Como eu n\u00e3o queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ela mesma, n\u00e3o lhe pude dar toda a significa\u00e7\u00e3o. A ten\u00e7\u00e3o de Capitu estava agora particularmente nas l\u00e1grimas de minha m\u00e3e; n\u00e3o acabava de entend\u00ea-las. Em meio disto, confessou que certamente n\u00e3o era por mal que minha m\u00e3e me queria fazer padre; era a promessa antiga que ela, temente a Deus, n\u00e3o podia deixar de cumprir. Fiquei t\u00e3o satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as inj\u00farias que lhe sa\u00edram do peito, pouco antes, que peguei da m\u00e3o dela e apertei-a muito. Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. T\u00ednhamos chegado \u00e0 janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211;Sinhazinha, qu\u00e9 cocada hoje?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, respondeu Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;Cocadinha t\u00e1 boa.<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e1-se embora, replicou ela sem rispidez.<\/p>\n<p>&#8211;D\u00ea c\u00e1! disse eu descendo o bra\u00e7o para receber duas.<\/p>\n<p>Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfei\u00e7\u00e3o. como imperfei\u00e7\u00e3o, mas o momento n\u00e3o \u00e9 para defini\u00e7\u00f5es tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e l\u00facida, n\u00e3o quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contr\u00e1rio, o preg\u00e3o que o preto foi cantando, o preg\u00e3o das velhas tardes, t\u00e3o sabido do bairro e da nossa inf\u00e2ncia:<\/p>\n<p>Chora, menina, chora<\/p>\n<p>Chora, porque n\u00e3o tem<\/p>\n<p>Vint\u00e9m,<\/p>\n<p>a modo que lhe deixara uma impress\u00e3o aborrecida. Da toada n\u00e3o era; ela a sabia de cor e de longe, usava repeti-la nos nossos jogos da puer\u00edcia, rindo, saltando, trocando os pap\u00e9is comigo, ora vendendo, ora comprando um doce ausente. Creio que a letra, destinada a picar a vaidade das crian\u00e7as, foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:<\/p>\n<p>&#8211;Se eu fosse rica, voc\u00ea fugia, metia-se no paquete e ia para a Europa.<\/p>\n<p>Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que eles n\u00e3o lhe disseram nada, ou s\u00f3 agradeceram a boa inten\u00e7\u00e3o. Com efeito, o sentimento era t\u00e3o amigo que eu podia escusar o extraordin\u00e1rio da aventura.<\/p>\n<p>Como v\u00eas, Capitu, aos quatorze anos, tinha j\u00e1 id\u00e9ias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram s\u00f3 atrevidas em si, na pr\u00e1tica faziam-se h\u00e1beis, sinuosas, surdas, e alcan\u00e7avam o fim proposto, n\u00e3o de salto, mas aos saltinhos. N\u00e3o sei se me explico bem. Suponde uma concep\u00e7\u00e3o grande executada por meios pequenos. Assim, para n\u00e3o sair do desejo vago e hipot\u00e9tico de me mandar para a Europa, Capitu, se pudesse cumpri-lo, n\u00e3o me faria embarcar no paquete e fugir; estenderia uma fila de canoas daqui at\u00e9 l\u00e1, por onde eu, parecendo ir \u00e0 fortaleza da Laje em ponte movedi\u00e7a, iria realmente at\u00e9 Bord\u00e9us, deixando minha m\u00e3e na praia, \u00e0 espera. Tal era a fei\u00e7\u00e3o particular do car\u00e1ter da minha amiga; pelo que, n\u00e3o admira que, combatendo os meus projetos de resist\u00eancia franca, fosse antes pelos meios brandos, pela a\u00e7\u00e3o de empenho, da palavra, da persuas\u00e3o lenta e diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem pod\u00edamos contar. Rejeitou tio Cosme, era um &#8220;boa-vida&#8221;, se n\u00e3o aprovava a minha ordena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era capaz de dar um passo para suspend\u00ea-la. Prima Justina era melhor que ele, e melhor que os dous seria o Padre Cabral, pela autoridade, mas o padre n\u00e3o havia de trabalhar contra a Igreja; s\u00f3 se eu lhe confessasse que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Posso confessar?<\/p>\n<p>&#8211;Pois, sim, mas seria aparecer francamente, e o melhor \u00e9 outra cousa. Jos\u00e9 Dias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Que tem Jos\u00e9 Dias?<\/p>\n<p>&#8211;Pode ser um bom empenho.<\/p>\n<p>&#8211;Mas se foi ele mesmo que falou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o importa, continuou Capitu; dir\u00e1 agora outra cousa. Ele gosta muito de voc\u00ea. N\u00e3o lhe fale acanhado. Tudo \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o tenha medo, mostre que h\u00e1 de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que pode. D\u00ea-lhe bem a entender que n\u00e3o \u00e9 favor. Fa\u00e7a-lhe tamb\u00e9m elogios; ele gosta muito de ser elogiado, D. Gl\u00f3ria presta-lhe aten\u00e7\u00e3o; mas o principal n\u00e3o \u00e9 isso; \u00e9 que ele, tendo de servir a voc\u00eas falar\u00e1 com muito mais calor que outra pessoa.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o acho, n\u00e3o, Capitu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o v\u00e1 para o semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; fa\u00e7am que lhe digo. Dona Gl\u00f3ria pode ser que mude de resolu\u00e7\u00e3o; se n\u00e3o mudar, faz-se outra cousa, mete-se ent\u00e3o o Padre Cabral. Voc\u00ea n\u00e3o se lembra como \u00e9 que foi ao teatro pela primeira vez h\u00e1 dous meses D. Gl\u00f3ria n\u00e3o queria e bastava isso para que Jos\u00e9 Dias n\u00e3o teimasse; mas ele queria ir, e fez um discurso, lembra-se?<\/p>\n<p>&#8211;Lembra-me; disse que o teatro era uma escola de costumes.<\/p>\n<p>&#8211;Justo; tanto falou que sua m\u00e3e acabou consentindo, e pagou a entrada aos dous&#8230; Ande, pe\u00e7a, mande. Olhe, diga-lhe que est\u00e1 pronto a ir estudar leis em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Estremeci de prazer. S. Paulo era um fr\u00e1gil biombo, destinado a ser arredado um dia. em vez da grossa parede espiritual e eterna Prometi falar a Jos\u00e9 Dias nos termos propostos. Capitu repetiu, acentuando alguns como principais; e inquiria-me depois sobre eles, a ver se entendera bem, se n\u00e3o trocara uns por outros. E insistia em que pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de \u00e1gua a pessoa que tem obriga\u00e7\u00e3o de o trazer. Conto estas min\u00fancias cias para que melhor se entenda aquela manh\u00e3 da minha amiga; logo vir\u00e1 a tarde, e da manh\u00e3 e da tarde se far\u00e1 o primeiro dia, como no G\u00eanesis, onde se fizeram sucessivamente sete.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XIX \/ SEM FALTA<\/h2>\n<p>Quando voltei casa era noite. Vim depressa, n\u00e3o tanto, por\u00e9m, que n\u00e3o pensasse nos termos em que falaria ao agregado. Formulei o pedido de cabe\u00e7a, escolhendo as palavras que diria e o tom delas, entre seco e ben\u00e9volo. Na ch\u00e1cara, antes de entrar em casa, repeti-as comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es de Capitu: &#8220;Preciso falar-lhe, sem falta. amanh\u00e3; escolha o lugar e diga-me&#8221;. Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem falta, como para sublinh\u00e1-las. Repeti-as ainda, e ent\u00e3o achei-as secas demais, quase r\u00edspidas, e, francamente, impr\u00f3prias de um crian\u00e7ola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras e parei.<\/p>\n<p>Afinal disse comigo que as palavras podiam servir, tudo era diz\u00ea-las em tom que n\u00e3o ofendesse. E a prova \u00e9 que, repetindo-as novamente, sa\u00edram-me quase s\u00faplices. Bastava n\u00e3o carregar tanto, nem ado\u00e7ar muito, um meio-termo. &#8220;E Capitu tem raz\u00e3o, pensei, a casa \u00e9 minha, ele \u00e9 um simples agregado&#8230; Jeitoso \u00e9, pode muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mam\u00e3e.&#8221;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XX \/ MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS<\/h2>\n<p>Levantei os olhos ao c\u00e9u, que come\u00e7ava a embruscar-se, mas n\u00e3o foi para v\u00ea-lo coberto ou descoberto. Era ao outro c\u00e9u que eu erguia a minha alma; era ao meu ref\u00fagio, ao meu amigo. E ent\u00e3o disse de mim para mim: &#8220;Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se Jos\u00e9 Dias arranjar que eu n\u00e3o v\u00e1 para o semin\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>A soma era enorme. A raz\u00e3o \u00e9 que eu andava carregado de promessas n\u00e3o cumpridas. A \u00faltima foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se n\u00e3o chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. N\u00e3o choveu, mas eu n\u00e3o rezei as ora\u00e7\u00f5es. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao c\u00e9u os seus favores, mediante ora\u00e7\u00f5es que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e \u00e0 medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos n\u00fameros vinte, trinta, cinq\u00fcenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das ora\u00e7\u00f5es; al\u00e9m disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a d\u00edvida antiga. Mas v\u00e3o l\u00e1 matar a pregui\u00e7a de uma alma que a trazia do ber\u00e7o e n\u00e3o a sentia atenuada pela vida! O c\u00e9u fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.<\/p>\n<p>&#8220;Mil, mil&#8221;, repeti comigo.<\/p>\n<p>Realmente, a mat\u00e9ria do benef\u00edcio era agora imensa, n\u00e3o menos que a salva\u00e7\u00e3o ou o naufr\u00e1gio da minha exist\u00eancia inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro&#8230; Homem grave, \u00e9 poss\u00edvel que estas agita\u00e7\u00f5es de menino te enfadem, se \u00e9 que n\u00e3o as achas rid\u00edculas. Sublimes n\u00e3o eram. Cogitei muito no modo de resgatar a d\u00edvida espiritual. N\u00e3o achava outra esp\u00e9cie em que, mediante a inten\u00e7\u00e3o, tudo se cumprisse, fechando a escritura\u00e7\u00e3o da minha consci\u00eancia moral sem deficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Gl\u00f3ria para ouvir uma, ir \u00e0 Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas c\u00e9lebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no esp\u00edrito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por for\u00e7a. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXI \/ PRIMA JUSTINA<\/h2>\n<p>Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera.<\/p>\n<p>&#8211;Estive aqui ao p\u00e9, conversando com D. Fortunata, e distra\u00ed-me. \u00c9 tarde, n\u00e3o \u00e9? Mam\u00e3e perguntou por mim?<\/p>\n<p>&#8211;Perguntou, mas eu disse que voc\u00ea j\u00e1 tinha vindo.<\/p>\n<p>A mentira espantou-me, n\u00e3o menos que a franqueza da not\u00edcia. N\u00e3o \u00e9 que prima Justina fosse de biocos, dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que mentira \u00e9 que me pareceu novidade. Era quadragen\u00e1ria, magra e p\u00e1lida, boca fina e olhos curiosos. Vivia conosco por favor de minha m\u00e3e, e tamb\u00e9m por interesse; minha m\u00e3e queria ter uma senhora \u00edntima ao p\u00e9 de si, e antes parenta que estranha.<\/p>\n<p>Passeamos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampi\u00e3o. Quis saber se eu n\u00e3o esquecera os projetos eclesi\u00e1sticos de minha m\u00e3e, e dizendo-lhe eu que n\u00e3o, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha \u00e0 vida de padre. Respondi esquivo:<\/p>\n<p>&#8211;Vida de padre \u00e9 muito bonita.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, \u00e9 bonita; mas o que pergunto \u00e9 se voc\u00ea gostaria de ser padre, explicou rindo.<\/p>\n<p>&#8211;Eu gosto do que mam\u00e3e quiser.<\/p>\n<p>&#8211;Prima Gl\u00f3ria deseja muito que voc\u00ea se ordene, mas ainda que n\u00e3o desejasse, h\u00e1 c\u00e1 em casa quem lhe meta isso na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211;Quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Ora, quem! Quem \u00e9 que h\u00e1 de ser? Primo Cosme n\u00e3o \u00e9, que n\u00e3o se importa com isso; eu tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Jos\u00e9 Dias? conclu\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211;Naturalmente.<\/p>\n<p>Enruguei a testa interrogativamente, como se n\u00e3o soubesse nada Prima Justina completou a not\u00edcia dizendo que ainda naquela tarde Jos\u00e9 Dias lembrara a minha m\u00e3e a promessa antiga.<\/p>\n<p>&#8211;Prima Gl\u00f3ria pode ser que, em passando os dias, v\u00e1 esquecendo a promessa; mas como h\u00e1 de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos, z\u00e1s que dar\u00e1s, falando do semin\u00e1rio? E os discursos que ele faz, os elogios da Igreja, e que a vida de padre \u00e9 isto e aquilo, tudo com aquelas palavras que s\u00f3 ele conhece, e aquela afeta\u00e7\u00e3o&#8230; Note que \u00e9 s\u00f3 para fazer mal, porque ele \u00e9 t\u00e3o religioso como este lampi\u00e3o. Pois \u00e9 verdade, ainda hoje. Voc\u00ea n\u00e3o se d\u00ea por achado&#8230; Hoje de tarde falou como voc\u00ea n\u00e3o imagina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas falou \u00e0 toa? perguntei, a ver se ela contava a den\u00fancia do meu namoro com a vizinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousa que n\u00e3o podia dizer. Novamente me recomendou que n\u00e3o me desse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de Jos\u00e9 Dias e n\u00e3o era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apesar da casca de polidez, um grosseir\u00e3o. Eu, passados alguns instantes, disse:<\/p>\n<p>&#8211;Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?<\/p>\n<p>&#8211;De qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Era capaz de&#8230; Suponha que eu gostasse de ser padre&#8230; a senhora podia pedir a mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Isso n\u00e3o, atalhou prontamente; prima Gl\u00f3ria tem este neg\u00f3cio firme na cabe\u00e7a, e n\u00e3o h\u00e1 nada no mundo que a fa\u00e7a mudar de resolu\u00e7\u00e3o; s\u00f3 o tempo. Voc\u00ea ainda era pequenino, j\u00e1 ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou s\u00f3 conhecidas. L\u00e1 avivar-lhe a mem\u00f3ria, n\u00e3o, que eu n\u00e3o trabalho para a desgra\u00e7a dos outros; mas tamb\u00e9m, pedir outra cousa, n\u00e3o pe\u00e7o, Se ela me consultasse bem; se ela me dissesse: &#8220;Prima Justina, voc\u00ea que acha?&#8221;, a minha resposta era: &#8220;Prima Gl\u00f3ria, eu penso que, se ele gosta de ser padre, pode ir; mas, se n\u00e3o gosta, o melhor \u00e9 ficar&#8221;. \u00c9 o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, n\u00e3o fa\u00e7o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXII \/ SENSA\u00c7\u00d5ES ALHEIAS<\/h2>\n<p>N\u00e3o alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Ent\u00e3o, como eu quisesse ir para dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor e da pr\u00f3xima festa da Concei\u00e7\u00e3o, dos meus velhos orat\u00f3rios, e finalmente de Capitu. N\u00e3o disse mal dela; ao contr\u00e1rio insinuou-me que podia vir a ser uma mo\u00e7a bonita. Eu, que j\u00e1 a achava lind\u00edssima, bradaria que era a mais bela criatura do mundo, se o receio me n\u00e3o fizesse discreto. Entretanto, como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha a minha m\u00e3e, tudo isto me acendeu a ponto de elogi\u00e1-la tamb\u00e9m. Quando n\u00e3o era com palavras, era com o gesto de aprova\u00e7\u00e3o que dava a cada uma das asser\u00e7\u00f5es da outra, e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. N\u00e3o adverti que assim confirmava a den\u00fancia de Jos\u00e9 Dias, ouvida por ela, \u00e0 tarde, na sala de visitas, se \u00e9 que tamb\u00e9m ela n\u00e3o desconfiava j\u00e1. S\u00f3 pensei nisso na cama. S\u00f3 ent\u00e3o senti que os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o of\u00edcio de todos os sentidos. Ci\u00fames n\u00e3o podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma vi\u00fava quarentona n\u00e3o havia lugar para ci\u00fames. \u00c9 certo que, ap\u00f3s algum tempo, modificou os elogios a Capitu, e at\u00e9 lhe fez algumas cr\u00edticas, disse-me que era um pouco tr\u00eafega e olhava por baixo; mas ainda assim, n\u00e3o creio que fossem ci\u00fames. Creio antes&#8230; sim&#8230; sim, creio isto. Creio que prima Justina achou no espet\u00e1culo das sensa\u00e7\u00f5es alheias uma ressurrei\u00e7\u00e3o vaga das pr\u00f3prias. Tamb\u00e9m se goza por influi\u00e7\u00e3o dos l\u00e1bios que narram.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXIII \/ PRAZO DADO<\/h2>\n<p>&#8211;Preciso falar-lhe amanh\u00e3, sem falta; escolha o lugar e diga-me.<\/p>\n<p>Creio que Jos\u00e9 Dias achou desusado este meu falar. O tom n\u00e3o me sa\u00edra t\u00e3o imperativo como eu receava, mas as palavras o eram, e o n\u00e3o interrogar, n\u00e3o pedir, n\u00e3o hesitar, como era pr\u00f3prio da crian\u00e7a e do meu estilo habitual, certamente lhe deu id\u00e9ia de uma pessoa nova e de uma nova situa\u00e7\u00e3o. Foi no corredor, quando \u00edamos para o ch\u00e1. Jos\u00e9 Dias vinha andando cheio de leitura de Walter Scott que fizera a minha m\u00e3e e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castelos e os parques sa\u00edam maiores da boca dele, os lagos tinham mais \u00e1gua e a &#8220;ab\u00f3bada celeste&#8221; contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. Nos di\u00e1logos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com modera\u00e7\u00e3o a ternura e a c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me ele:<\/p>\n<p>&#8211;Amanh\u00e3, na rua. Tenho umas compras que fazer, voc\u00ea pode ir comigo, pedirei a mam\u00e3e. \u00c9 dia de li\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;A li\u00e7\u00e3o foi hoje.<\/p>\n<p>&#8211;Perfeitamente. N\u00e3o lhe pergunto o que \u00e9; afirmo desde j\u00e1 que \u00e9 mat\u00e9ria grave e pura.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211;At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Fez-se tudo o melhor poss\u00edvel. Houve s\u00f3 uma altercar\u00e3o; minha m\u00e3e achou o dia quente e n\u00e3o consentiu que eu fosse a p\u00e9; entramos no \u00f4nibus, \u00e0 porta de casa.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o importa, disse-me Jos\u00e9 Dias; podemos apear-nos \u00e0 porta do Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXIV \/ DE M\u00c3E E DE SERVO<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Dias tratava-me com extremos de m\u00e3e e aten\u00e7\u00f5es de servo. A primeira cousa que consegui logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo \u00e0 rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha pros\u00f3dia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desin\u00eancia exata, ele a corrigia, meio s\u00e9rio para dar autoridade \u00e0 li\u00e7\u00e3o, meio risonho para obter o perd\u00e3o da emenda Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e hist\u00f3ria sagrada, ele assistia \u00e0s li\u00e7\u00f5es, fazia reflex\u00f5es eclesi\u00e1sticas, e, no fim, perguntava ao padre: &#8220;N\u00e3o \u00e9 verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?&#8221; Chamava-me &#8220;um prod\u00edgio&#8221;; dizia a minha m\u00e3e ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possu\u00eda j\u00e1 certo n\u00famero de qualidades morais s\u00f3lidas. Eu, posto n\u00e3o avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXV \/ NO PASSEIO P\u00daBLICO<\/h2>\n<p>Entramos no Passeio P\u00fablico. Algumas caras velhas, outras doentes ou s\u00f3 vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terra\u00e7o. Seguimos para o terra\u00e7o. Andando, para me dar animo, falei do jardim:<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o venho aqui, talvez um ano.<\/p>\n<p>&#8211;Perdoe-me, atalhou ele, n\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas meses que esteve aqui com o nosso vizinho P\u00e1dua; n\u00e3o se lembra?<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 verdade, mas foi t\u00e3o de passagem. . .<\/p>\n<p>&#8211;Ele pediu a sua m\u00e3e que o deixasse trazer consigo, e ela, que \u00e9 boa como a m\u00e3e de Deus, consentiu; mas ou\u00e7a-me, j\u00e1 que falamos nisto, n\u00e3o \u00e9 bonito que voc\u00ea ande com o P\u00e1dua na rua.<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu andei algumas vezes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Quando era mais jovem; em crian\u00e7a, era natural, ele podia passar por criado. Mas voc\u00ea est\u00e1 ficando mo\u00e7o e ele vai tomando confian\u00e7a. D. Gl\u00f3ria, afinal, n\u00e3o pode gostar disso. A gente P\u00e1dua n\u00e3o \u00e9 de todo m\u00e1. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu&#8230; Voc\u00ea j\u00e1 reparou nos olhos dela? S\u00e3o assim de cigana obl\u00edqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se n\u00e3o fosse a vaidade e a adula\u00e7\u00e3o. Oh! a adula\u00e7\u00e3o! D. Fortunata merece estima, e ele n\u00e3o nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima n\u00e3o bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as m\u00e1s companhias em que ele anda. P\u00e1dua tem uma tend\u00eancia para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo \u00e9 com ele. N\u00e3o digo isto por \u00f3dio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, h\u00e1 dias, dos meus sapatos acalcanhados&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Perd\u00e3o, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal do senhor; pelo contr\u00e1rio, um dia. n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, disse ele a um sujeito, em minha presen\u00e7a, que o senhor era &#8220;um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas camaras.&#8221;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esfor\u00e7o grande e fechou outra vez o rosto; depois replicou:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o lhe agrade\u00e7o nada. Outros, de melhor sangue, me t\u00eam feito o favor de ju\u00edzos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos outra vez andado, subimos ao terra\u00e7o, e olhamos para o mar.<\/p>\n<p>&#8211;Vejo que o senhor n\u00e3o quer sen\u00e3o o meu benef\u00edcio, disse eu depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>&#8211;Pois que outra cousa, Bentinho?<\/p>\n<p>&#8211;Neste caso, pe\u00e7o-lhe um favor.<\/p>\n<p>&#8211;Um favor? Mande, ordene, que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Durante algum tempo n\u00e3o pude dizer o resto, que era pouco, e vinha de cor. Jos\u00e9 Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura, levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ansioso tamb\u00e9m, como a prima Justina na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e qu\u00ea? Que \u00e9 que tem mam\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e quer que eu seja padre, mas eu n\u00e3o posso ser padre, disse finalmente.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tobias endireitou-se pasmado.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o posso, continuei eu, n\u00e3o menos pasmado que ele, n\u00e3o tenho jeito, n\u00e3o gosto da vida de padre. Estou por tudo o que ela quiser, mam\u00e3e sabe que eu fa\u00e7o tudo o que ela manda; estou pronto a ser o que for do seu agrado, at\u00e9 cocheiro de \u00f4nibus. Padre, n\u00e3o; n\u00e3o posso ser padre. A carreira \u00e9 bonita, mas n\u00e3o \u00e9 para mim.<\/p>\n<p>Todo esse discurso n\u00e3o me saiu assim, de vez, enfiado natural mente, perempt\u00f3rio, como pode parecer do texto, mas aos peda\u00e7os, mastigado, em voz um pouco surda e t\u00edmida. N\u00e3o obstante, Jos\u00e9 Dias ouvira-o espantado. N\u00e3o contava certamente com a resist\u00eancia, por mais acanhada que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclus\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Conto com o senhor para salvar-me.<\/p>\n<p>Os olhos do agregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se, e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mostrou em nenhum dos m\u00fasculos. Toda a cara dele era pouca para a estupefa\u00e7\u00e3o. Realmente, a mat\u00e9ria do discurso revelara em mim uma alma nova; eu pr\u00f3prio n\u00e3o me conhecia. Mas a palavra final \u00e9 que trouxe um vigor \u00fanico. Jos\u00e9 Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram \u00e0s dimens\u00f5es ordin\u00e1rias:<\/p>\n<p>&#8211;Mas que posso eu fazer? perguntou.<\/p>\n<p>&#8211;Pode muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam Mam\u00e3e pede muita vez os seus conselhos, n\u00e3o \u00e9? Tio Cosme diz que o senhor \u00e9 pessoa de talento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o bondades, retorquiu lisonjeado. S\u00e3o favores de pessoas dignas, que merecem tudo&#8230; A\u00ed est\u00e1! nunca ningu\u00e9m me h\u00e1 de ouvir dizer nada de pessoas tais, por qu\u00ea? porque s\u00e3o ilustres e virtuosas. Sua m\u00e3e \u00e9 uma santa, seu tio \u00e9 um cavalheiro perfeit\u00edssimo Tenho conhecido fam\u00edlias distintas; nenhuma poder\u00e1 vencer a sua em nobreza de sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho, mas \u00e9 s\u00f3 um,&#8211;\u00e9 o talento de saber o que \u00e9 bom e digno de admira\u00e7\u00e3o e de apre\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 de ser tamb\u00e9m o de proteger os amigos, como eu.<\/p>\n<p>&#8211;Em que lhe posso valer, anjo do c\u00e9u? N\u00e3o hei de dissuadir sua m\u00e3e de um projeto que \u00e9, al\u00e9m de promessa, a ambi\u00e7\u00e3o e O sonho de longos anos. Quando pudesse, \u00e9 tarde. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: &#8220;Jos\u00e9 Dias, preciso meter Bentinho no semin\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Timidez n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, \u00e9 prov\u00e1vel que, com a indigna\u00e7\u00e3o que experimentei, rompesse a chamar-lhe mentiroso, mas ent\u00e3o seria preciso confessar-lhe que estivera \u00e0 escuta, atr\u00e1s da porta, e uma a\u00e7\u00e3o valia outra. Contentei-me de responder que n\u00e3o era tarde.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 tarde, ainda \u00e9 tempo, se o senhor quiser.<\/p>\n<p>&#8212; Se eu quiser? Mas que outra cousa quero eu, sen\u00e3o servi-lo. Que desejo, sen\u00e3o que seja feliz, como merece?<\/p>\n<p>&#8211;Pois ainda \u00e9 tempo. Olhe, n\u00e3o \u00e9 por vadia\u00e7\u00e3o. Estou pronto: para tudo; se ela quiser que eu estude leis, vou para S. Paulo&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXVI \/ AS LEIS S\u00c3O BELAS<\/h2>\n<p>Pela cara de Jos\u00e9 Dias passou algo parecido com o reflexo de uma id\u00e9ia, &#8212; uma id\u00e9ia que o alegrou extraordinariamente. Calou se alguns instantes; eu tinha os olhos nele, ele voltara os seus para o lado da barra. Como insistisse:<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 tarde, disse ele, mas, para lhe provar que n\u00e3o h\u00e1 falta de vontade, irei falar a sua m\u00e3e. N\u00e3o prometo vencer, mas lutar; trabalharei com alma. Deveras, n\u00e3o quer ser padre? As leis s\u00e3o belas; meu querido&#8230; Pode ir a S. Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe. H\u00e1 boas universidades por esse mundo fora. V\u00e1 para as leis, se tal \u00e9 a sua voca\u00e7\u00e3o. Vou falar a D. Gl\u00f3ria, mas n\u00e3o conte s\u00f3 comigo, fale tamb\u00e9m a seu tio.<\/p>\n<p>&#8211;Hei de falar.<\/p>\n<p>&#8211;Pegue-se tamb\u00e9m com Deus,&#8211; com Deus e a Virgem Sant\u00edssima, concluiu apontando para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>O c\u00e9u estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes p\u00e1ssaros negros faziam giros, avan\u00e7ando ou pairando, e desciam a ro\u00e7ar os p\u00e9s, na \u00e1gua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem as sombras do c\u00e9u, nem as dan\u00e7as fant\u00e1sticas dos p\u00e1ssaros me desviavam o esp\u00edrito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim, emendei-me:<\/p>\n<p>&#8211;Deus far\u00e1 o que o senhor quiser.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o blasfeme. Deus \u00e9 dono de tudo; ele \u00e9, s\u00f3 por si, a terra e o c\u00e9u, o passado, o presente e o futuro. Pe\u00e7a-lhe a sua felicidade que eu n\u00e3o fa\u00e7o outra cousa&#8230; Uma vez que voc\u00ea n\u00e3o pode ser padre, e prefere as leis&#8230; As leis s\u00e3o belas, sem desfazer na teologia que \u00e9 melhor que tudo, como a vida eclesi\u00e1stica \u00e9 a mais santa&#8230;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o h\u00e1 de ir estudar leis fora daqui? Melhor \u00e9 ir logo para alguma universidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja: Podemos ir juntos, veremos as terras estrangeiras, ouviremos ingl\u00eas, franc\u00eas, italiano, espanhol, russo e at\u00e9 sueco. D. Gl\u00f3ria provavelmente n\u00e3o poder\u00e1 acompanh\u00e1-lo; ainda que possa e v\u00e1, n\u00e3o querer\u00e1 guiar os neg\u00f3cios, pap\u00e9is, matr\u00edculas, e cuidar de hospedarias, e andar com voc\u00ea de um lado para outro&#8230; Oh! as leis s\u00e3o bel\u00edssimas!<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 dito, pede a mam\u00e3e que me n\u00e3o meta no semin\u00e1rio?<\/p>\n<p>&#8211;Pedir, pe\u00e7o, mas pedir n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ar. Anjo do meu cora\u00e7\u00e3o, se vontade de servir \u00e9 poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo! Ah! voc\u00ea n\u00e3o imagina o que \u00e9 a Europa; Oh! a Europa&#8230;<\/p>\n<p>Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambi\u00e7\u00f5es era tornar \u00e0 Europa, falava dela muitas vezes, sem acabar de tentar minha m\u00e3e nem tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as belezas&#8230; N\u00e3o contava com esta possibilidade de ir comigo, e l\u00e1 ficar durante a eternidade dos meus estudos.<\/p>\n<p>&#8211;Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXVII \/ AO PORT\u00c3O<\/h2>\n<p>No port\u00e3o do Passeio, um mendigo estendeu-nos a m\u00e3o. Jos\u00e9 Dias passou adiante, mas eu pensei em Capitu e no semin\u00e1rio, tirei dous vint\u00e9ns do bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, meu devoto!<\/p>\n<p>&#8211;Chamo-me Bento, acrescentei para esclarec\u00ea-lo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXVIII \/ NA RUA<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Dias ia t\u00e3o contente que trocou o homem dos momentos graves, como era \u00e0 rua, pelo homem dobradi\u00e7o e inquieto. Mexia-se todo, falava de tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz de teatro. Contava-me o enredo de algumas pe\u00e7as, recitava mon\u00f3logos em verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu alugu\u00e9is de casa; para si comprou um vig\u00e9simo de loteria. Afinal, o homem teso rendeu o flex\u00edvel, e passou a falar pausado, com superlativos. N\u00e3o vi que a mudan\u00e7a era natural; temi que houvesse mudado a resolu\u00e7\u00e3o assentada, e entrei a trat\u00e1-lo com palavras e gestos carinhosos, at\u00e9 entrarmos no \u00f4nibus.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXIX \/ O IMPERADOR<\/h2>\n<p>Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O \u00f4nibus em que \u00edamos parou, como todos os ve\u00edculos; os passageiros desceram \u00e0 rua e tiraram o chap\u00e9u, at\u00e9 que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma id\u00e9ia fant\u00e1stica, a id\u00e9ia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o confiaria esta id\u00e9ia a Capitu. &#8220;Sua Majestade pedindo, mam\u00e3e cede&#8221;, pensei comigo.<\/p>\n<p>Vi ent\u00e3o o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha m\u00e3e; eu beijava-lhe a m\u00e3o, com l\u00e1grimas. E logo me achei em casa, \u00e0 esperar at\u00e9 que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; \u00e9 o Imperador! \u00e9 o Imperador! toda a gente chegava as janelas para v\u00ea-lo passar, mas n\u00e3o passava, o coche parava \u00e0 nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoro\u00e7o na vizinhan\u00e7a: &#8220;O Imperador entrou em casa de D. Gl\u00f3ria! Que ser\u00e1? Que n\u00e3o ser\u00e1?&#8221; A nossa fam\u00edlia sa\u00eda a receb\u00ea-lo; minha m\u00e3e era a primeira que lhe beijava a m\u00e3o. Ent\u00e3o o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, &#8211;n\u00e3o me lembra bem, os sonhos s\u00e3o muita vez confusos,&#8211;pedia a minha m\u00e3e que me n\u00e3o fizesse padre, &#8212; e ela, lisonjeada e obediente, prometia que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;A medicina, por que lhe n\u00e3o manda ensinar medicina?<\/p>\n<p>&#8211;Uma vez que \u00e9 do agrado de Vossa Majestade..<\/p>\n<p>&#8211;Mande ensinar-lhe medicina; \u00e9 uma bonita carreira, e n\u00f3s temos aqui bons professores. Nunca foi \u00e0 nossa Escola? \u00c9 uma bela Escola. J\u00e1 temos m\u00e9dicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A medicina \u00e9 uma grande ci\u00eancia; basta s\u00f3 isto de dar a sa\u00fade aos outros, conhecer as mol\u00e9stias. combat\u00ea-las, venc\u00ea-1as&#8230; A senhora mesma h\u00e1 de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doen\u00e7a era fatal, e ele n\u00e3o tinha cuidado em si&#8230; \u00c9 uma bonita carreira: mande-o para a nossa Escola. Fa\u00e7a isso por mim, sim? Voc\u00ea quer, Bentinho?<\/p>\n<p>&#8212; Mam\u00e3e querendo.<\/p>\n<p>&#8212; Quero, meu filho. Sua Majestade manda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Imperador dava outra vez a m\u00e3o a beijar, e sa\u00eda, acompanhado de todos n\u00f3s, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um sil\u00eancio de assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: &#8220;A medicina, a nossa Escola.&#8221; E o coche partia entre invejas e agradecimentos.<\/p>\n<p>Tudo isso vi e ouvi. N\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o de Ariosto n\u00e3o \u00e9 mais f\u00e9rtil que a das crian\u00e7as e dos namorados, nem a vis\u00e3o do imposs\u00edvel precisa mais que de um recanto de \u00f4nibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, at\u00e9 destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXX \/ O SANT\u00cdSSlMO<\/h2>\n<p>Ter\u00e1s entendido que aquela lembran\u00e7a do Imperador acerca da medicina n\u00e3o era mais que a sugest\u00e3o da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado s\u00e3o como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclina\u00e7\u00f5es e das nossas recorda\u00e7\u00f5es. V\u00e1 que fosse para S. Paulo, mas a Europa&#8230; Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperan\u00e7as a Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;Parece que vai sair o Sant\u00edssimo, disse algu\u00e9m no \u00f4nibus. Ou\u00e7o um sino; \u00e9, creio que \u00e9 em Santo Ant\u00f4nio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!<\/p>\n<p>O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao bra\u00e7o do cocheiro, o \u00f4nibus parou, e o homem desceu. Jos\u00e9 Dias deu duas voltas r\u00e1pidas \u00e0 cabe\u00e7a, pegou-me no bra\u00e7o e fez-me descer consigo. Ir\u00edamos tamb\u00e9m acompanhar o Sant\u00edssimo. Efetivamente, o sino chamava os fi\u00e9is \u00e0quele servi\u00e7o da \u00faltima hora. J\u00e1 havia algumas pessoas na sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento t\u00e3o grave; obedeci, a princ\u00edpio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade do servi\u00e7o que por me dar um of\u00edcio de homem. Quando o sacrist\u00e3o come\u00e7ou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho P\u00e1dua, que tamb\u00e9m ia acompanhar o Sant\u00edssimo. Deu conosco, veio cumprimentar-nos. Jos\u00e9 Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as m\u00e3os. Depois, como P\u00e1dua falasse ao sacrist\u00e3o, baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma cousa. P\u00e1dua solicitava do sacrist\u00e3o uma das varas do p\u00e1lio. Jos\u00e9 Dias pediu uma para si.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 s\u00f3 uma dispon\u00edvel, disse o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Pois essa, disse Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou P\u00e1dua.<\/p>\n<p>&#8211;Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu Jos\u00e9 Dias; eu j\u00e1 c\u00e1 estava. Leve uma tocha.<\/p>\n<p>P\u00e1dua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo isto em voz baixa e surda. O sacrist\u00e3o achou meio de conciliar a rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do p\u00e1lio que cedesse a vara ao P\u00e1dua, conhecido na par\u00f3quia, como Jos\u00e9 Dias. Assim fez, mas Jos\u00e9 Dias transtornou ainda esta combina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, uma vez que t\u00ednhamos outra vara dispon\u00edvel, pedia-a para mim, &#8220;jovem seminarista&#8221;, a quem esta distin\u00e7\u00e3o cabia mais diretamente. P\u00e1dua ficou p\u00e1lido, como as tochas. Era p\u00f4r \u00e0 prova o cora\u00e7\u00e3o de um pai. O sacrist\u00e3o, que me conhecia de me ver ali com minha m\u00e3e, aos domingos, perguntou de curioso se eu era deveras seminarista.<\/p>\n<p>&#8211;Ainda n\u00e3o, mais vai s\u00ea-lo, respondeu Jos\u00e9 Dias piscando o olho esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.<\/p>\n<p>&#8211;Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.<\/p>\n<p>Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Sant\u00edssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha, mas que a \u00faltima vez conseguira uma vara do p\u00e1lio. A distin\u00e7\u00e3o especial do p\u00e1lio vinha de cobrir o vig\u00e1rio e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto, cheio de uma gl\u00f3ria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoro\u00e7o com que entrara na igreja; era a segunda vez do p\u00e1lio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. E nada! E tornava \u00e0 tocha comum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo&#8230; Quis ceder-lhe a vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacrist\u00e3o que nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas da frente, rompendo a marcha do p\u00e1lio.<\/p>\n<p>Opas enfiadas, tochas distribu\u00eddas e acesas, padre e cib\u00f3rio prontos, o sacrist\u00e3o de hissope e campainha nas m\u00e3os, saiu o pr\u00e9stito \u00e0 rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fi\u00e9is, que se ajoelhavam. fiquei comovido. P\u00e1dua ro\u00eda a tocha amargamente.<\/p>\n<p>\u00c9 uma met\u00e1fora, n\u00e3o acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilha\u00e7\u00e3o do meu vizinho. De resto, n\u00e3o pude mir\u00e1-lo por muito tempo, nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabe\u00e7a com o ar de ser ele pr\u00f3prio o Deus dos ex\u00e9rcitos. Com pouco, senti-me me cansado; os bra\u00e7os ca\u00edam-me, felizmente a casa era perto, na Rua do Senado.<\/p>\n<p>A enferma era uma senhora vi\u00fava, t\u00edsica, tinha uma filha de quina ou dezesseis anos que estava chorando \u00e0 porta do quarto. A mo\u00e7a n\u00e3o era formosa, talvez nem tivesse gra\u00e7a, os cabelos ca\u00edam despenteados, e as l\u00e1grimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. N\u00e3o obstante o total falava e cativava o cora\u00e7\u00e3o. O vig\u00e1rio confessou a doente, deu-lhe a comunh\u00e3o e os santos \u00f3leos. O pranto da mo\u00e7a redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Vim para perto de uma janela. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembran\u00e7a de minha m\u00e3e, doeu-me mais, e, quando enfim pensei em Capitu, senti um \u00edmpeto de solu\u00e7ar tamb\u00e9m, enfiei pelo corredor, e ouvi algu\u00e9m dizer-me:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o chore assim!<\/p>\n<p>A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imagina\u00e7\u00e3o, assim como lhe atribu\u00edra l\u00e1grimas, h\u00e1 pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora; vi-a escrever no muro, falar-me, andar \u00e0 volta, com os bra\u00e7os no ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma do\u00e7ura que me embriagou, e a voz era dela. As tochas acesas, t\u00e3o l\u00fagubres na ocasi\u00e3o tinham-me ares de um lustre nupcial&#8230; Que era lustre nupcial N\u00e3o sei; era alguma cousa contr\u00e1ria \u00e0 morte, e n\u00e3o vejo outra mais que bodas. Esta nova sensa\u00e7\u00e3o me dominou tanto que Jos\u00e9 Dias veio a mim, e me disse ao ouvido, em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o ria assim!<\/p>\n<p>Fiquei s\u00e9rio depressa. Era o momento da sa\u00edda. Peguei da minha vara; e, como j\u00e1 conhecia a distancia, e agora volt\u00e1vamos para a igreja, o que fazia a distancia menor, &#8212; o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol c\u00e1 fora, a anima\u00e7\u00e3o da rua, os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja, as devotas que chegavam \u00e0s janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam \u00e0 nossa passagem, tudo me enchia a alma de lepidez nova.<\/p>\n<p>P\u00e1dua, ao contr\u00e1rio, ia mais humilhado. Apesar de substitu\u00eddo por mim, n\u00e3o acabava de se consolar da tocha, da miser\u00e1vel tocha. E contudo havia outros que tamb\u00e9m traziam tocha, e apenas mostravam a compostura do ato; n\u00e3o iam garridos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o iam tristes. Via-se que caminhavam com honra.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXI \/ AS CURIOSIDADES DE CAPITU<\/h2>\n<p>Capitu preferia tudo ao semin\u00e1rio. Em vez de ficar abatida com a amea\u00e7a da larga separa\u00e7\u00e3o, se vingasse a id\u00e9ia da Europa, mostrou se satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, Bentinho, deixemos o Imperador sossegado, replicou; fiquemos por ora com a promessa de Jos\u00e9 Dias. Quando \u00e9 que ele disse que falaria a sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o marcou dia; prometeu que ia ver; que falaria logo que pudesse, e que me pegasse com Deus.<\/p>\n<p>Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado, as altera\u00e7\u00f5es do gesto e at\u00e9 a pirueta, que apenas lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narra\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo, tudo parecia remoer consigo. Tamb\u00e9m se pode dizer que conferia, rotulava e pregava na mem\u00f3ria a minha exposi\u00e7\u00e3o. Esta imagem \u00e9 porventura melhor que a outra, mas a \u00f3tima delas \u00e9 nenhuma. Capitu era Capitu, isto \u00e9, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o n\u00e3o disse, a\u00ed fica. Se disse, fica tamb\u00e9m. H\u00e1 conceitos que se devem incutir na alma do leitor, \u00e0 for\u00e7a de repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m mais curiosa. As curiosidades de Capitu d\u00e3o para um Cap\u00edtulo. Eram de v\u00e1ria esp\u00e9cie, explic\u00e1veis e inexplic\u00e1veis, assim \u00fateis como in\u00fateis, umas graves, outras fr\u00edvolas; gostava de saber tudo. No col\u00e9gio onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, franc\u00eas, doutrina e obras de agulha, n\u00e3o aprendeu, por exemplo, a fazer renda- por isso mesmo, quis que prima Justina lhe ensinasse. Se n\u00e3o estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre, depois de lhe propor gracejando, acabou dizendo que latim n\u00e3o era l\u00edngua de meninas. Capitu confessou-me um dia que esta raz\u00e3o acendeu nela o desejo de o saber. Em compensa\u00e7\u00e3o, quis aprender ingl\u00eas com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo, mas n\u00e3o foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe gam\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Anda apanhar um capotinho, Capitu, dizia-lhe ele.<\/p>\n<p>Capitu obedecia e jogava com facilidade, com aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se diga com amor. Um dia fui ach\u00e1-la desenhando a l\u00e1pis um retrato; dava os \u00faltimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha m\u00e3e tinha na sala e que ainda agora est\u00e1 comigo. Perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o era; ao contr\u00e1rio, os olhos sa\u00edram esbugalhados, e os cabelos eram pequenos c\u00edrculos uns sobre outros. Mas, n\u00e3o tendo ela rudimento algum de arte, e havendo feito aquilo de mem\u00f3ria em poucos minutos, achei que era obra de muito merecimento- descontai-me a idade e a simpatia. Ainda assim, estou que aprenderia facilmente pintura, como aprendeu m\u00fasica mais tarde. J\u00e1 ent\u00e3o namorava o piano da nossa casa, velho traste in\u00fatil, apenas de estima\u00e7\u00e3o. Lia os nossos romances, folheava os nossos livros de gravuras, querendo saber das ru\u00ednas, das pessoas, das campanhas, o nome, a hist\u00f3ria, o lugar. Jos\u00e9 Dias dava-lhe essas not\u00edcias com certo orgulho de erudito. A erudi\u00e7\u00e3o deste n\u00e3o avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo.<\/p>\n<p>Um dia. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. O agregado disse-lho sumariamente, demorando-se um pouco mais em C\u00e9sar, com exclama\u00e7\u00f5es em latim:<\/p>\n<p>&#8211;C\u00e9sar! J\u00falio C\u00e9sar! Grande homem! Tu quoque, Brute?<\/p>\n<p>Capitu n\u00e3o achava bonito o perfil de C\u00e9sar, mas as a\u00e7\u00f5es citadas por Jos\u00e9 Dias davam-lhe gestos de admira\u00e7\u00e3o. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma p\u00e9rola do valor de seis milh\u00f5es de sest\u00e9rcio!<\/p>\n<p>&#8211;E quanto valia cada sest\u00e9rcio?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias, n\u00e3o tendo presente o valor do sest\u00e9rcio, respondeu entusiasmado:<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o maior homem da hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>A p\u00e9rola de C\u00e9sar acendia os olhos de Capitu. Foi nessa ocasi\u00e3o que ela perguntou a minha m\u00e3e por que \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o usava as j\u00f3ias do retrato; referia-se ao que estava na sala, com o de meu pai, tinha um grande colar, um diadema e brincos.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o j\u00f3ias vi\u00favas, como eu, Capitu.<\/p>\n<p>&#8212; Quando \u00e9 que botou estas?<\/p>\n<p>&#8212; Foi pelas festas da Coroa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Oh! conte-me as festas da Coroa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Sabia j\u00e1 o que os pais lhe haviam dito, mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas. Queria a not\u00edcia das tribunas da Capela Imperial e dos sal\u00f5es dos bailes. Nascera muito depois daquelas festas c\u00e9lebres. Ouvindo falar v\u00e1rias vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora este acontecimento; disseram-lho, e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. Tudo era mat\u00e9ria \u00e0s curiosidades de Capitu, mob\u00edlias antigas, alfaias velhas, costumes, not\u00edcias de Itagua\u00ed, a inf\u00e2ncia e a mocidade de minha m\u00e3e, um dito daqui, uma lembran\u00e7a dali, um ad\u00e1gio dacol\u00e1&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXII \/ OLHOS DE RESSACA<\/h2>\n<p>Tudo era mat\u00e9ria \u00e0s curiosidades de Capitu. Caso houve, por\u00e9m, no qual n\u00e3o sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. \u00c9 o que contarei no outro Cap\u00edtulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manh\u00e3. D. Fortunata, que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 na sala penteando o cabelo, disse-me; v\u00e1 devagarzinho para lhe pregar um susto.<\/p>\n<p>Fui devagar, mas ou o p\u00e9 ou o espelho traiu-me. Este pode ser que n\u00e3o fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de lat\u00e3o, pendente da parede, entre as duas janelas. Se n\u00e3o foi ele, foi o p\u00e9. Um ou outro, a verdade \u00e9 que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e s\u00f3 lhe ouvi esta pergunta:<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 alguma cousa?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o h\u00e1 nada, respondi; vim ver voc\u00ea antes que o Padre Cabral chegue para a li\u00e7\u00e3o. Como passou a noite?<\/p>\n<p>&#8211;Eu bem. Jos\u00e9 Dias ainda n\u00e3o falou?<\/p>\n<p>&#8211;Parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent\u00e3o quando fala?<\/p>\n<p>&#8211;Disse-me que hoje ou amanh\u00e3 pretende tocar no assunto; n\u00e3o vai logo de pancada, falar\u00e1 assim por alto e por longe, um toque. Depois, entrar\u00e1 em mat\u00e9ria. Quer primeiro ver se mam\u00e3e tem a resolu\u00e7\u00e3o feita&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se n\u00e3o fosse preciso algu\u00e9m para vencer j\u00e1, e de todo, n\u00e3o se lhe falaria. Eu j\u00e1 nem sei se Jos\u00e9 Dias poder\u00e1 influir tanto; acho que far\u00e1 tudo, se sentir que voc\u00ea realmente n\u00e3o quer ser padre, mas poder\u00e1 alcan\u00e7ar?&#8230; Ele \u00e9 atendido; se, por\u00e9m&#8230; \u00c9 um inferno isto! Voc\u00ea teime com ele, Bentinho.<\/p>\n<p>&#8211;Teimo- hoje mesmo ele h\u00e1 de falar.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea jura?<\/p>\n<p>&#8211;Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.<\/p>\n<p>Tinha-me lembrado a defini\u00e7\u00e3o que Jos\u00e9 Dias dera deles, &#8220;olhos de cigana obl\u00edqua e dissimulada.&#8221; Eu n\u00e3o sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. S\u00f3 me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordin\u00e1rio; a cor e a do\u00e7ura eram minhas conhecidas. A demora da contempla\u00e7\u00e3o creio que lhe deu outra id\u00e9ia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mir\u00e1-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal express\u00e3o que&#8230;<\/p>\n<p>Ret\u00f3rica dos namorados, d\u00e1-me uma compara\u00e7\u00e3o exata e po\u00e9tica para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. N\u00e3o me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? V\u00e1, de ressaca. \u00c9 o que me d\u00e1 id\u00e9ia daquela fei\u00e7\u00e3o nova. Traziam n\u00e3o sei que fluido misterioso e en\u00e9rgico, uma for\u00e7a que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para n\u00e3o ser arrastado, agarrei-me \u00e0s outras partes vizinhas, \u00e0s orelhas, aos bra\u00e7os, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas t\u00e3o depressa buscava as pupilas, a onda que sa\u00eda delas vinha crescendo, cava e escura, amea\u00e7ando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? S\u00f3 os rel\u00f3gios do c\u00e9u ter\u00e3o marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas p\u00eandulas; nem por n\u00e3o acabar nunca deixa de querer saber a dura\u00e7\u00e3o das felicidades e dos supl\u00edcios. H\u00e1 de dobrar o gozo aos bem-aventurados do c\u00e9u conhecer a soma dos tormentos que j\u00e1 ter\u00e3o padecido no inferno os seus inimigos; assim tamb\u00e9m a quantidade das del\u00edcias que ter\u00e3o gozado no c\u00e9u os seus desafetos aumentar\u00e1 as dores aos condenados do inferno. Este outro supl\u00edcio escapou ao divino Dane; mas eu n\u00e3o estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo n\u00e3o marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas ent\u00e3o com as m\u00e3os, e disse-lhe,&#8211;para dizer alguma cousa,&#8211;que era capaz de os pentear, se quisesse.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Eu mesmo.<\/p>\n<p>&#8211;Vai embara\u00e7ar-me o cabelo todo, isso sim.<\/p>\n<p>&#8211;Se embara\u00e7ar, voc\u00ea desembara\u00e7a depois.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos ver.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO XIXI \/ O PENTEADO<\/h2>\n<p>E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhando. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alis\u00e1-los com o pente, desde a testa at\u00e9 as \u00faltimas pontas, que lhe desciam \u00e0 cintura. Em p\u00e9 n\u00e3o dava jeito: n\u00e3o esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.<\/p>\n<p>&#8211;Senta aqui, \u00e9 melhor.<\/p>\n<p>Sentou-se. &#8220;Vamos ver o grande cabeleireiro&#8221;, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas por\u00e7\u00f5es iguais, para compor as duas tran\u00e7as. N\u00e3o as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de of\u00edcio, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, \u00e0s vezes por desazo, outras de prop\u00f3sito para desfazer o feito e refaz\u00ea-lo. Os dedos ro\u00e7avam na nuca da pequena ou nas esp\u00e1duas vestidas de chita, e a sensa\u00e7\u00e3o era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermin\u00e1veis. N\u00e3o pedi ao c\u00e9u que eles fossem t\u00e3o longos como os da Aurora, porque n\u00e3o conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei pente\u00e1-los por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos, tecer duas tran\u00e7as que pudessem envolver o infinito por um n\u00famero inomin\u00e1vel de vezes. Se isto vos parecer enf\u00e1tico, desgra\u00e7ado leitor, \u00e9 que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as m\u00e3os adolescentes na jovem cabe\u00e7a de uma ninfa&#8230; Uma ninfa! Todo eu estou mitol\u00f3gico. Ainda h\u00e1 pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever T\u00e9tis; risquei T\u00e9tis, risquemos ninfa, digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as pot\u00eancias crist\u00e3s e pag\u00e3s. Enfim acabei as duas tran\u00e7as. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas Em cima da mesa, um triste peda\u00e7o de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tran\u00e7as, uni-as por um la\u00e7o, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, at\u00e9 que exclamei:<\/p>\n<p>&#8211;Pronto!<\/p>\n<p>&#8211;Estar\u00e1 bom?<\/p>\n<p>&#8211;Veja no espelho.<\/p>\n<p>Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? N\u00e3o vos esque\u00e7ais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabe\u00e7a, a tal ponto que me foi preciso acudir com as m\u00e3os e ampar\u00e1-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabe\u00e7a, podia ficar tonta, machucar o pesco\u00e7o. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta raz\u00e3o a moveu.<\/p>\n<p>&#8211;Levanta, Capitu!<\/p>\n<p>N\u00e3o quis, n\u00e3o levantou a cabe\u00e7a, e ficamos assim a olhar um para o outro, at\u00e9 que ela abrochou os l\u00e1bios, eu desci os meus, e&#8230;<\/p>\n<p>Grande foi a sensa\u00e7\u00e3o do beijo; Capitu ergueu-se, r\u00e1pida, eu recuei at\u00e9 \u00e0 parede com uma esp\u00e9cie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no ch\u00e3o. N\u00e3o me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me l\u00edngua. Preso. atordoado, n\u00e3o achava gesto nem \u00edmpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras c\u00e1lidas e mimosas&#8230; N\u00e3o mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) n\u00e3o pensava ainda na diferen\u00e7a dos sexos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXIV \/ SOU HOMEM!<\/h2>\n<p>Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu comp\u00f4s-se depressa, t\u00e3o depressa que, quando a m\u00e3e apontou \u00e0 porta, ela abanava a cabe\u00e7a e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contra\u00e7\u00e3o de acanhamento, um riso espont\u00e2neo e claro, que ela explicou por estas palavras alegres:<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que tran\u00e7as!<\/p>\n<p>&#8211;Que tem? acudiu a m\u00e3e, transbordando de benevol\u00eancia . Est\u00e1 muito bem, ningu\u00e9m dir\u00e1 que \u00e9 de pessoa que n\u00e3o sabe pentear.<\/p>\n<p>&#8211;O que, mam\u00e3e? Isto? redarg\u00fciu Capitu, desfazendo as tran\u00e7as. Ora, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>E com um enfadamento gracioso e volunt\u00e1rio que \u00e0s vezes tinha, pegou do pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. D. Fortunata chamou-lhe tonta, e disse-me que n\u00e3o fizesse caso, n\u00e3o era nada, maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ela. Depois, parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido \u00e0 parede, achou talvez que houvera entre n\u00f3s algo mais que penteado, e sorriu por dissimula\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Como eu quisesse falar tamb\u00e9m para disfar\u00e7ar o meu estado, chamei algumas palavras c\u00e1 de dentro, e elas acudiram de pronto, mas de atropelo, e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. O beijo de Capitu fechava-me os l\u00e1bios. Uma exclama\u00e7\u00e3o, um simples artigo, por mais que investissem com for\u00e7a, n\u00e3o logravam romper de dentro. E todas as palavras recolheram-se ao cora\u00e7\u00e3o, murmurando: &#8220;Eis aqui um que n\u00e3o far\u00e1 grande carreira no mundo, por menos que as emo\u00e7\u00f5es o dominem&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Assim, apanhados pela m\u00e3e, \u00e9ramos dous e contr\u00e1rios, ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo sil\u00eancio. D. Fortunata tirou-me daquela hesita\u00e7\u00e3o, dizendo que minha m\u00e3e me mandara chamar para a li\u00e7\u00e3o de latim; o Padre Cabral estava \u00e0 minha espera. Era uma sa\u00edda; despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a m\u00e3e censurava as maneira da filha, mas a filha n\u00e3o dizia nada.<\/p>\n<p>Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas n\u00e3o passei \u00e0 sala da li\u00e7\u00e3o; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. Tinha estreme\u00e7\u00f5es, tinha uns esquecimentos em que perdia a consci\u00eancia de mim e das cousas que me rodeavam, para viver n\u00e3o sei onde nem como. E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o ch\u00e3o, ouvia algum som de fora, vago, pr\u00f3ximo ou remoto, e logo perdia tudo para sentir somente os bei\u00e7os de Capitu Sentia-os estirados, embaixo dos meus, igualmente esticados para os dela, e unindo-se uns aos outros. De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:<\/p>\n<p>&#8211;Sou homem!<\/p>\n<p>Supus que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e corri \u00e0 porta da alcova. N\u00e3o havia ningu\u00e9m fora. Voltei para dentro, e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo n\u00e3o o teve maior, descobrindo a Am\u00e9rica, e perdoai a banalidade em favo; do cabimento- com efeito, h\u00e1 em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. A den\u00fancia de Jos\u00e9 Dias alvoro\u00e7ara-me, a li\u00e7\u00e3o do velho coqueiro tamb\u00e9m, a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensa\u00e7\u00e3o do beijo. Podiam ser mentira ou ilus\u00e3o. Sendo verdade, eram os ossos da verdade, n\u00e3o eram a carne e o sangue dela. As pr\u00f3prias m\u00e3os tocadas, apertadas, como que fundidas, n\u00e3o podiam dizer tudo.<\/p>\n<p>&#8211;Sou homem!<\/p>\n<p>Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no semin\u00e1rio, mas como se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens n\u00e3o s\u00e3o padres. O sangue era da mesma opini\u00e3o. Outra vez senti os bei\u00e7os de Capitu. Talvez abuso um pouco das reminisc\u00eancias osculares, mas a saudade \u00e9 isto mesmo; \u00e9 o passar e repassar das mem\u00f3rias antigas Ora, de todas as daquele tempo creio que a mais doce \u00e9 esta, a mais nova, a mais compreensiva, a que inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas, doces tamb\u00e9m, de v\u00e1ria esp\u00e9cie, muitas intelectuais, igualmente intensas. Grande homem que fosse, a recorda\u00e7\u00e3o era menor que esta.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXV \/ O PROTONOT\u00c1RIO APOST\u00d3LICO<\/h2>\n<p>Enfim, peguei dos livros e corri \u00e0 li\u00e7\u00e3o. N\u00e3o corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma cousa. Tive id\u00e9ia de mentir, alegar uma vertigem que me houvesse deitado no ch\u00e3o, mas o susto que causaria a minha m\u00e3e fez-me rejeit\u00e1-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos; tinha, por\u00e9m, outra promessa em aberto e outro favor pendente&#8230; N\u00e3o, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando entrei na sala, ningu\u00e9m ralhou comigo.<\/p>\n<p>O Padre Cabral recebera na v\u00e9spera um recado do intern\u00fancio; foi ter com ele, e soube que, por decreto pontif\u00edcio, acabava de ser nomeado protonot\u00e1rio apost\u00f3lico. Esta distin\u00e7\u00e3o do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o t\u00edtulo com admira\u00e7\u00e3o- era a primeira vez que ele soava i aos nossos ouvidos, acostumados a c\u00f4negos, monsenhores, bispos, n\u00fancios, e intern\u00fancios; mas que era protonot\u00e1rio apost\u00f3lico? O Padre Cabral explicou que n\u00e3o era propriamente o cargo da c\u00faria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exal\u00e7ar-se no parceiro de voltarete, e repetia:<\/p>\n<p>&#8211;Protonot\u00e1rio apost\u00f3lico!<\/p>\n<p>E voltando-se para mim:<\/p>\n<p>&#8211;Prepara-te, Bentinho, tu podes vir a ser protonot\u00e1rio apost\u00f3lico Cabral ouvia com gosto a repeti\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo. Estava em p\u00e9, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do t\u00edtulo como que lhe dobrava a magnific\u00eancia, posto que, para lig\u00e1-lo ao nome, era demasiado comprido- esta segunda reflex\u00e3o foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que n\u00e3o era preciso diz\u00ea-lo todo, bastava que lhe chamassem o protonot\u00e1rio Cabral. Subentendia-se apost\u00f3lico.<\/p>\n<p>&#8211;Protonot\u00e1rio Cabral.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, tem raz\u00e3o; protonot\u00e1rio Cabral.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, Sr. protonot\u00e1rio, &#8212; acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do t\u00edtulo,&#8211;isto o obriga a ir a Roma?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, D. Justina.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, s\u00e3o s\u00f3 as honras, observou minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Agora, n\u00e3o impede,&#8211;disse Cabral, que continuava a refletir, &#8211;n\u00e3o impede que nos casos de maior formalidade, atos p\u00fablicos, cartas de cerim\u00f4nia, etc; se empregue o t\u00edtulo inteiro: protonot\u00e1rio apost\u00f3lico. No uso comum, basta protonot\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Justamente, assentiram todos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias, que entrou pouco depois de mim, aplaudia a distin\u00e7\u00e3o, e recordou, a prop\u00f3sito, os primeiros atos pol\u00edticos de Pio IX, grandes esperan\u00e7as da It\u00e1lia; mas ningu\u00e9m pegou do assunto; o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi que devia cumpriment\u00e1-lo tamb\u00e9m, e este aplauso n\u00e3o lhe foi menos ao cora\u00e7\u00e3o que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente, e acabou dando-me f\u00e9rias. Era muita felicidade para uma s\u00f3 hora. Um beijo e f\u00e9rias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas Jos\u00e9 Dias corrigiu a alegria:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o tem que festejar a vadia\u00e7\u00e3o; o latim sempre lhe h\u00e1 de ser preciso, ainda que n\u00e3o venha a ser padre.<\/p>\n<p>Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lan\u00e7ada \u00e0 terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da fam\u00edlia. Minha m\u00e3e sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu logo:<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 de ser padre, e padre bonito.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o esque\u00e7a, mana Gl\u00f3ria, e protonot\u00e1rio tamb\u00e9m. Protonot\u00e1rio apost\u00f3lico.<\/p>\n<p>&#8211;O protonot\u00e1rio Santiago, acentuou Cabral.<\/p>\n<p>Se a inten\u00e7\u00e3o do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do t\u00edtulo com o nome, n\u00e3o sei bem; o que sei \u00e9 que quando ouvi o meu nome ligado a tal t\u00edtulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma id\u00e9ia, uma id\u00e9ia sem l\u00edngua, que se deixou ficar quieta e muda, tal como da\u00ed a pouco outras id\u00e9ias&#8230; Ali\u00e1s essas pedem um Cap\u00edtulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordena\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, ainda que sem grande interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da pr\u00f3pria gl\u00f3ria, mas era esta que o deslumbrava na ocasi\u00e3o. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso, n\u00e3o propriamente glut\u00e3o; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha m\u00e3e lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma sa\u00fade, os olhos com que aceitou seriam de protonot\u00e1rio, mas n\u00e3o eram apost\u00f3licos. E para agradar a minha m\u00e3e novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesi\u00e1stico, e queria saber se ia para o semin\u00e1rio agora, no ano pr\u00f3ximo, e oferecia-se a falar ao &#8220;senhor bispo&#8221;, tudo marchetado do &#8220;protonot\u00e1rio Santiago.&#8221;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXVI \/ ID\u00c9IA SEM PERNAS E ID\u00c9IA SEM BRA\u00c7OS<\/h2>\n<p>Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura da manh\u00e3. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e at\u00e9 com latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo \u00e0 casa vizinha, agarrar Capitu, desfazer-lhe as tran\u00e7as, refaz\u00ea-las e conclu\u00ed Ias daquela maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos \u00e9 isto&#8230; Id\u00e9ia s\u00f3! id\u00e9ia sem pernas! As outras pernas n\u00e3o queriam correr nem andar. Muito depois \u00e9 que sa\u00edram vagarosamente e levaram-me \u00e0 casa de Capitu. Quando ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa, almofada no rega\u00e7o, cosendo em paz. N\u00e3o me olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, obl\u00edqua e dissimulada. As m\u00e3os pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu, do lado oposto da mesa, n\u00e3o sabia que fizesse e outra vez me fugiram as palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos, at\u00e9 que ela deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela, e perguntei se a m\u00e3e havia dito alguma cousa; respondeu-me que n\u00e3o A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de aproxima\u00e7\u00e3o. Certo \u00e9 que Capitu recuou um pouco.<\/p>\n<p>Era ocasi\u00e3o de peg\u00e1-la, pux\u00e1-la e beij\u00e1-la&#8230; Id\u00e9ia s\u00f3! id\u00e9ia sem bra\u00e7os! Os meus ficaram ca\u00eddos e mortos. N\u00e3o conhecia nada da Escritura. Se conhecesse, \u00e9 prov\u00e1vel que o esp\u00edrito de Satan\u00e1s me fizesse dar \u00e0 l\u00edngua m\u00edstica do C\u00e2ntico um sentido direto e natural. Ent\u00e3o obedeceria ao primeiro vers\u00edculo: &#8220;Aplique ele os l\u00e1bios, dando-me o \u00f3sculo da sua boca&#8221;. E pelo que respeita aos bra\u00e7os, que tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.\u00b0 do cap. II: &#8220;A sua m\u00e3o esquerda se p\u00f4s j\u00e1 debaixo da minha cabe\u00e7a, e a sua m\u00e3o direita me abra\u00e7ar\u00e1 depois&#8221;. Vedes a\u00ed a cronologia dos gestos. Era s\u00f3 execut\u00e1-la; mas ainda que eu conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora t\u00e3o retra\u00eddas, que n\u00e3o sei se n\u00e3o continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou daquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXVII \/ A ALMA E CHEIA DE MIST\u00c9RIOS<\/h2>\n<p>&#8212; Padre Cabral estava esperando h\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>&#8211;Hoje n\u00e3o dei li\u00e7\u00e3o; tive f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Expliquei-lhe o motivo das f\u00e9rias. Contei-lhe tamb\u00e9m que o Padre Cabral falara da minha entrada no semin\u00e1rio, apoiando a resolu\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e, e disse dele cousas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, \u00e0 tarde em minha casa.<\/p>\n<p>&#8211;Pode, mas para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Papai naturalmente h\u00e1 de querer ir tamb\u00e9m, mas \u00e9 melhor que ele v\u00e1 \u00e0 casa do padre, \u00e9 mais bonito. Eu n\u00e3o, que j\u00e1 sou meia mo\u00e7a, concluiu rindo.<\/p>\n<p>O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma tro\u00e7a consigo mesma, uma vez que, desde manh\u00e3, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe gra\u00e7a, e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era mo\u00e7a inteira. Peguei-lhe levemente na m\u00e3o direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e tr\u00eamulo. Era a id\u00e9ia com m\u00e3os. Quis puxar as de Capitu, para obrig\u00e1-la a vir atr\u00e1s delas, mas ainda agora a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondeu \u00e0 inten\u00e7\u00e3o. Contudo, achei-me forte e atrevido. N\u00e3o imitava ningu\u00e9m- n\u00e3o vivia com rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. N\u00e3o conhecia a viola\u00e7\u00e3o de Lucr\u00e9cia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patr\u00edcios de P\u00f4ncio Pilatos. N\u00e3o nego que o final do penteado da manh\u00e3 era um Brande passo no caminho da movimenta\u00e7\u00e3o amorosa, mas o gesto de ent\u00e3o foi justamente o contr\u00e1rio deste. De manh\u00e3, ela derreou a cabe\u00e7a, agora fugia-me; nem \u00e9 s\u00f3 nisso que os lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repeti\u00e7\u00e3o, houve contraste.<\/p>\n<p>Penso que ameacei pux\u00e1-la a mim. N\u00e3o juro, come\u00e7ava a estar t\u00e3o alvoro\u00e7ado, que n\u00e3o pude ter toda a consci\u00eancia dos meus atos; mas concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as m\u00e3os das minhas; depois, talvez por n\u00e3o poder recuar mais, colocou um dos p\u00e9s adiante e o outro atr\u00e1s, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as m\u00e3os com for\u00e7a. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabe\u00e7a n\u00e3o quis ceder tamb\u00e9m, e ca\u00edda para tr\u00e1s, inutilizava todos os meus esfor\u00e7os, porque eu j\u00e1 fazia esfor\u00e7os, leitor amigo. N\u00e3o conhecendo a li\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico, n\u00e3o me acudiu estender a m\u00e3o esquerda por baixo da cabe\u00e7a dela; demais, este gesto sup\u00f5e um acordo de vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se \u00e0 outra m\u00e3o e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estr\u00e9pito, porque apesar do ataque e da defesa, n\u00e3o perd\u00edamos a cautela necess\u00e1ria para n\u00e3o sermos ouvidos l\u00e1 de dentro; a alma \u00e9 cheia de mist\u00e9rios. Agora sei que a puxava; a cabe\u00e7a continuou a recuar; at\u00e9 que cansou; mas ent\u00e3o foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso, relativamente \u00e0 minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais&#8230;<\/p>\n<p>Nisto ouvimos bater \u00e0 porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu, que voltava da reparti\u00e7\u00e3o um pouco mais cedo, como usava \u00e0s vezes. &#8220;Abre, Nanata! Capitu, abre!&#8221; Aparentemente era o mesmo lance da manh\u00e3, quando a m\u00e3e deu conosco, mas s\u00f3 aparentemente verdade, era outro. Considerai que de manh\u00e3 tudo estava acabado, e o passo de D. Fortunata foi um aviso para que nos compus\u00e9ssemos. Agora lut\u00e1vamos com as m\u00e3os presas, e nada estava sequer come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a m\u00e3e que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que n\u00e3o tive tempo de soltar as m\u00e3os da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tent\u00e1-lo, mas Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado, pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar \u00e0 for\u00e7a. Repito, a alma \u00e9 cheia de mist\u00e9rios.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXVIII \/ QUE SUSTO, MEU DEUS!<\/h2>\n<p>Quando P\u00e1dua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em p\u00e9, de costas para mim, inclinada sobre a costura, como a recolh\u00ea-la, perguntava em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211;Mas, Bentinho, que \u00e9 protonot\u00e1rio apost\u00f3lico?<\/p>\n<p>&#8211;Ora, vivam! exclamou o pai.<\/p>\n<p>&#8212; Que susto, meu Deus!<\/p>\n<p>Agora \u00e9 que o lance \u00e9 o mesmo; mas se conto aqui, tais quais, ou dous lances de h\u00e1 quarenta anos, \u00e9 para mostrar que Capitu n\u00e3o se dominava s\u00f3 em presen\u00e7a da m\u00e3e, o pai n\u00e3o lhe meteu mais medo No meio de uma situa\u00e7\u00e3o que me atava a l\u00edngua, usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. A minha persuas\u00e3o \u00e9 que cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe batia mais nem menos. Alegou susto, e deu \u00e0 cara um ar meio enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e Fiquei com inveja. Foi logo falar ao pai, que apertou a minha m\u00e3o, e quis saber por que a filha falava em protonot\u00e1rio apost\u00f3lico. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim, e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele; ela iria \u00e0 minha. E coligindo os petrechos da costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:<\/p>\n<p>&#8212; Mam\u00e3e, jantar, papai chegou!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XXXIX \/ A VOCA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as m\u00ednimas congratula\u00e7\u00f5es valem por odes. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta, sem agradecimentos. O alvoro\u00e7o da primeira hora \u00e9 melhor, esse estado da alma que v\u00ea na inclina\u00e7\u00e3o do arbusto, tocado do vento, um parab\u00e9m da flora universal, traz sensa\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas e finas que qualquer outro. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer.<\/p>\n<p>&#8211;Obrigado, Capitu, muito obrigado; estimo que voc\u00ea goste tamb\u00e9m. Papai est\u00e1 bom? E mam\u00e3e? A voc\u00ea n\u00e3o se pergunta- essa cara \u00e9 mesmo de quem vende sa\u00fade. E como vamos de rezas?<\/p>\n<p>A todas as perguntas Capitu ia respondendo prontamente e bem trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. N\u00e3o entrou com a familiaridade do costume, deteve-se um instante \u00e0 porta da sala antes de ir beijar a m\u00e3o a minha m\u00e3e e ao padre. Como desse a este duas vezes em cinco minutos, o t\u00edtulo de protonot\u00e1rio, Jos\u00e9 Dias para se desforrar da concorr\u00eancia, fez um pequeno discurso em honra &#8220;ao cora\u00e7\u00e3o paternal e august\u00edssimo de Pio IX.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea \u00e9 um grande prosa, disse tio Cosme, quando ele acabou Jos\u00e9 Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado, sem os seus superlativos; ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princ\u00edpio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:<\/p>\n<p>&#8211;A voca\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo. O estado eclesi\u00e1stico \u00e9 perfeit\u00edssimo, contanto que o sacerdote venha j\u00e1 destinado do ber\u00e7o. N\u00e3o havendo voca\u00e7\u00e3o, falo de voca\u00e7\u00e3o sincera e real, um jovem pode muito bem estudar as letras humanas, que tamb\u00e9m s\u00e3o \u00fateis e honradas.<\/p>\n<p>Padre Cabral retorquia:<\/p>\n<p>&#8211;A voca\u00e7\u00e3o \u00e9 muito, mas o poder de Deus \u00e9 soberano. Um homem pode n\u00e3o ter gosto \u00e0 igreja e at\u00e9 persegui-la, e um dia a voz de Deus lhe fala, e ele sai ap\u00f3stolo; veja S. Paulo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o contesto, mas o que eu digo \u00e9 outra cousa. O que eu digo \u00e9 que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre c\u00e1 fora; pode-se ou n\u00e3o se pode?<\/p>\n<p>&#8211;Pode-se.<\/p>\n<p>&#8211;Pois ent\u00e3o? exclamou Jos\u00e9 Dias triunfalmente, olhando em volta de si. Sem voca\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 bom padre, e em qualquer profiss\u00e3o liberal se serve a Deus, como todos devemos.<\/p>\n<p>&#8211;Perfeitamente, mas voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do ber\u00e7o que se traz.<\/p>\n<p>&#8211;Homem, \u00e9 a melhor.<\/p>\n<p>&#8211;Um mo\u00e7o sem gosto nenhum \u00e0 vida eclesi\u00e1stica pode acabar por ser muito bom padre; tudo \u00e9 que Deus o determine. N\u00e3o me quero dar por modelo, mas aqui estou eu que nasci com a voca\u00e7\u00e3o da medicina- meu padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pai para que me metesse no semin\u00e1rio; meu pai cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto aos estudos e \u00e0 companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas, suponha que n\u00e3o acontecia assim, e que eu n\u00e3o mudava de voca\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 que acontecia? Tinha estudado no semin\u00e1rio algumas mat\u00e9rias que \u00e9 bom saber, e s\u00e3o sempre melhor ensinadas naquelas casas.<\/p>\n<p>Prima Justina interveio:<\/p>\n<p>&#8211;Como? Ent\u00e3o pode-se entrar para o semin\u00e1rio e n\u00e3o sair padre?<\/p>\n<p>Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para mim, falou da minha voca\u00e7\u00e3o, que era manifesta; os meus brinquedos foram sempre de igreja, e eu adorava os of\u00edcios divinos. A prova n\u00e3o provava; todas as crian\u00e7as do meu tempo eram devotas. Cabral acrescentou que o reitor de S. Jos\u00e9, a quem contara ultimamente a promessa de minha m\u00e3e, tinha o meu nascimento por milagre; ele era da mesma opini\u00e3o. Capitu, cosida \u00e0s saias de minha m\u00e3e, n\u00e3o atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava; tamb\u00e9m n\u00e3o parecia escutar a conversa\u00e7\u00e3o sobre o semin\u00e1rio e suas conseq\u00fc\u00eancias, e, ali\u00e1s, decorou o principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui \u00e0 janela, esperando que ela fosse tamb\u00e9m, e fic\u00e1ssemos \u00e0 vontade, sozinhos, at\u00e9 acabar o mundo, se acabasse, mas Capitu n\u00e3o me apareceu. N\u00e3o deixou minha m\u00e3e, sen\u00e3o para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.<\/p>\n<p>&#8211;Vai com ela, Bentinho, disse minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o precisa, n\u00e3o, D. Gl\u00f3ria, acudiu ela rindo, eu sei o caminho. Adeus, Sr. protonot\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Adeus, Capitu.<\/p>\n<p>Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala, \u00e9 claro que o meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da idade e da ocasi\u00e3o eram atravess\u00e1-la de todo, seguir a vizinha corredor fora, descer \u00e0 ch\u00e1cara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. N\u00e3o me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor; mas, Capitu que ia depressa, estacou e fez-me sinal que voltasse. N\u00e3o obedeci; cheguei-me a ela.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o venha, n\u00e3o; amanh\u00e3 falaremos.<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu queria dizer a voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211;Escuta!<\/p>\n<p>&#8211;Fica!<\/p>\n<p>Falava baixinho; pegou-me na m\u00e3o, e p\u00f4s o dedo na m\u00e3o. Uma preta, que veio de dentro acender o lampi\u00e3o do corredor, vendo-nos naquela atitude, quase \u00e0s escuras, riu de simpatia e murmurou em tom que ouv\u00edssemos alguma cousa que n\u00e3o entendi bem nem mal. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara, e ia talvez contar \u00e0s outras. Novamente me intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado, agarrado ao ch\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XL \/ UMA \u00c9GUA<\/h2>\n<p>Ficando s\u00f3, refleti algum tempo, e tive uma fantasia. J\u00e1 conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa de Engenho Novo, reproduzindo a de Mata-cavalos&#8230; A imagina\u00e7\u00e3o foi a companheira de toda a minha exist\u00eancia, viva, r\u00e1pida, inquieta, alguma vez t\u00edmida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em T\u00e1cito que as \u00e9guas iberas concebiam pelo vento, se n\u00e3o foi nele, foi noutro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imagina\u00e7\u00e3o era uma grande \u00e9gua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que sa\u00eda logo cavalo de Alexandre; mas deixemos met\u00e1foras atrevidas e impr\u00f3prias dos meus quinze anos. Digamos o caso simplesmente. A fantasia daquela hora foi confessar a minha m\u00e3e os meus amores para lhe dizer que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. A conversa sobre voca\u00e7\u00e3o tornava-me agora toda inteira. e, ao passo que me assustava, abria-me uma porta de sa\u00edda. &#8220;Sim, \u00e9 isto, pensei; vou dizer a mam\u00e3e que n\u00e3o tenho voca\u00e7\u00e3o, e confesso o nosso namoro; se ela duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia. o penteado e o resto&#8230;&#8221;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLI \/ A AUDI\u00caNCIA SECRETA<\/h2>\n<p>O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor, pensando. Vi entrar o Doutor Jo\u00e3o da Costa, e preparou-se logo o voltarete do costume. Minha m\u00e3e saiu da sala, e, dando comigo, perguntou se acompanhara Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, senhora, ela foi s\u00f3.<\/p>\n<p>E quase investindo para ela:<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e, eu queria dizer-lhe uma cousa.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9?<\/p>\n<p>Toda assustada, quis saber o que \u00e9 que me do\u00eda, se a cabe\u00e7a, se o peito, se o est\u00f4mago, e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o tenho nada n\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent\u00e3o que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma cousa, mam\u00e3e&#8230; Mas, escute, olhe, \u00e9 melhor depois do ch\u00e1; logo&#8230; N\u00e3o \u00e9 nada mau; mam\u00e3e assusta-se por tudo; n\u00e3o \u00e9 cousa de cuidado.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 mol\u00e9stia?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>\u00c9, isso \u00e9 volta de constipa\u00e7\u00e3o. Disfar\u00e7as para n\u00e3o tomar suadouro, mas tu est\u00e1s constipado; conhece-se pela voz.<\/p>\n<p>Tentei rir, para mostrar que n\u00e3o tinha nada. Nem por isso permitiu adiar a confid\u00eancia, pegou em mim, levou-me ao quarto dela, acenda vela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Ent\u00e3o eu perguntei-lhe, para principiar, quando \u00e9 que ia para o semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Agora s\u00f3 para o ano, depois das f\u00e9rias.<\/p>\n<p>&#8211;Vou&#8230; para ficar?<\/p>\n<p>&#8211;Como ficar?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o volto para casa?<\/p>\n<p>&#8211;Voltas aos s\u00e1bados e pelas f\u00e9rias; \u00e9 melhor. Quando te ordenares padre, vens morar comigo.<\/p>\n<p>Enxuguei os olhos e o nariz. Ela afagou-me, depois quis repreender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinha os olhos \u00famidos. Disse-lhe que tamb\u00e9m sentia a nossa separa\u00e7\u00e3o. Negou que fosse separa\u00e7\u00e3o; era s\u00f3 alguma aus\u00eancia, por causa dos estudos; s\u00f3 os primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres, e acabaria gostando de viver com eles.<\/p>\n<p>&#8211;Eu s\u00f3 gosto de mam\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve c\u00e1lculo nesta palavra, mas estimei diz\u00ea-la, por fazer crer que ela era a minha \u00fanica afei\u00e7\u00e3o; desviava as suspeitas de cima de Capitu. Quantas inten\u00e7\u00f5es viciosas h\u00e1 assim que embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira \u00e9 muita vez t\u00e3o involunt\u00e1ria como a transpira\u00e7\u00e3o. Por outro lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu, quando havia chamado minha m\u00e3e justamente para confirm\u00e1-las; mas as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o deste mundo. A verdade \u00e9 que minha m\u00e3e era c\u00e2ndida como a primeira aurora, anterior ao primeiro pecado; nem por simples intui\u00e7\u00e3o era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto \u00e9, n\u00e3o concluiria da minha repentina oposi\u00e7\u00e3o que eu andasse em segredinhos com Capitu, como lhe dissera Jos\u00e9 Dias. Calou-se durante alguns instantes; depois replicou-me sem imposi\u00e7\u00e3o nem autoridade, o que me veio animando \u00e0 resist\u00eancia. Da\u00ed o falar-lhe na voca\u00e7\u00e3o que se discutira naquela tarde, e que eu confessei n\u00e3o sentir em mim.<\/p>\n<p>&#8211;Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ela; n\u00e3o te lembras que at\u00e9 pedias para ir ver sair os seminaristas de S. Jos\u00e9, com as suas batinas? Em casa, quando Jos\u00e9 Dias te chamava Reverend\u00edssimo, tu rias com tanto gosto! Como \u00e9 que agora?&#8230; N\u00e3o creio, n\u00e3o, Bentinho. E depois&#8230; Voca\u00e7\u00e3o? Mas a voca\u00e7\u00e3o vem com o costume, continuou repetindo as reflex\u00f5es que ouvira ao meu professor de latim.<\/p>\n<p>Como eu buscasse contest\u00e1-la, repreendeu-me sem aspereza, mas com alguma for\u00e7a, e eu tornei ao filho submisso que era. Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera; n\u00e3o me disse as circunst\u00e2ncias nem a ocasi\u00e3o, nem os motivos dela, cousas que s\u00f3 vim a saber mais tarde. Afirmou o principal, isto \u00e9, que a havia de cumprir, em pagamento a Deus.<\/p>\n<p>&#8211;Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua exist\u00eancia, n\u00e3o lhe hei de mentir nem faltar, Bentinho; s\u00e3o cousas que n\u00e3o se fazem sem pecado, e Deus que \u00e9 grande e poderoso, n\u00e3o me deixaria assirn, n\u00e3o, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre \u00e9 bom e santo; voc\u00ea conhece muitos, como o Padre Cabral, que vive t\u00e3o feliz com a irm\u00e3; um tio meu tamb\u00e9m foi padre, e escapou de ser bispo, dizem&#8230; Deixa de manha, Bentinho.<\/p>\n<p>Creio que os olhos que lhe deitei foram t\u00e3o queixosos que ela emendou logo a palavra; manha, n\u00e3o, n\u00e3o podia ser manha, sabia muito bem que eu era amigo dela, e n\u00e3o seria capaz de fingir um sentimento que n\u00e3o tivesse. Moleza \u00e9 o que queria dizer, que me deixas de moleza, que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em benef\u00edcio dela e para bem da minha alma. Todas essas cousas e outras foram ditas um pouco atropeladamente, e a voz n\u00e3o lhe sa\u00eda clara, mas velada e esganada. Vi que a emo\u00e7\u00e3o dela era outra vez grande, mas n\u00e3o recuava dos seus prop\u00f3sitos, e aventurei-me a perguntar-lhe:<\/p>\n<p>&#8211;E se mam\u00e3e pedisse a Deus que a dispensasse da promessa?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, n\u00e3o pe\u00e7o. Est\u00e1s tonto, Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava?<\/p>\n<p>&#8211;Talvez em sonho; eu sonho \u00e0s vezes com anjos e santos.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu, meu filho; mas \u00e9 in\u00fatil&#8230; Vamos, \u00e9 tarde; vamos para a sala. Est\u00e1 entendido: no primeiro ou no segundo m\u00eas do ano que vem, ir\u00e1s para o semin\u00e1rio. O que eu quero \u00e9 que saibas bem os livros que est\u00e1s estudando; \u00e9 bonito, n\u00e3o s\u00f3 para ti, como para o Padre Cabral. No semin\u00e1rio h\u00e1 interesse em conhecer-te, porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo.<\/p>\n<p>Caminhou para a porta, sa\u00edmos ambos. Antes de sair, voltou-se para mim, e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que n\u00e3o seria padre. Este era j\u00e1 o seu desejo \u00edntimo, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava o tempo. Quisera um modo de pagar a d\u00edvida contra\u00edda, outra moeda, que valesse tanto ou mais, e n\u00e3o achava nenhuma.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLII \/ CAPITU REFLETINDO<\/h2>\n<p>No dia seguinte fui \u00e0 casa vizinha, logo que pude. Capitu despedia-se de tr\u00eas amigas que tinham ido visit\u00e1-la, Paula e Sancha, companheiras de col\u00e9gio, aquela de quinze, esta de dezessete anos&#8221; primeira filha de um m\u00e9dico, a segunda de um comerciante de objetos americanos. Estava abatida, trazia um len\u00e7o atado na cabe\u00e7a; a m\u00e3e contou-me que fora excesso de leitura na v\u00e9spera, antes e depois do ch\u00e1, na sala e na cama, at\u00e9 muito depois da meia-noite, e com lamparina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Se eu acendesse vela, mam\u00e3e zangava-se. J\u00e1 estou boa.<\/p>\n<p>E como desatasse o len\u00e7o, a m\u00e3e disse-lhe timidamente que era melhor at\u00e1-lo, mas Capitu respondeu que n\u00e3o era preciso, estava boa.<\/p>\n<p>Ficamos s\u00f3s na sala; Capitu confirmou a narra\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. Tamb\u00e9m eu lhe contei o que se dera comigo, a entrevista com minha m\u00e3e, as minhas s\u00faplicas, as l\u00e1grimas dela, e por fim as \u00faltimas respostas decisivas: dentro de dous ou tr\u00eas meses iria para o semin\u00e1rio. Que far\u00edamos agora? Capitu ouvia-me com aten\u00e7\u00e3o s\u00f4frega, depois sombria; quando acabei, respirava a custo, como prestes a estalar de c\u00f3lera, mas conteve-se.<\/p>\n<p>H\u00e1 tanto tempo que isto sucedeu que n\u00e3o posso dizer com seguran\u00e7a se chorou deveras, ou se somente enxugou os olhos; cuido que os enxugou somente. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na m\u00e3o para anim\u00e1-la, mas tamb\u00e9m eu precisava ser animado. Ca\u00edmos no canap\u00e9, e ficamos a olhar para o ar. Minto- ela olhava para o ch\u00e3o. Fiz o mesmo, logo que a vi assim&#8230; Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma, enquanto que eu fitava deveras o ch\u00e3o, o ro\u00eddo das fendas, duas moscas andando e um p\u00e9 de cadeira lascada. Era pouco, mas distra\u00eda-me da afli\u00e7\u00e3o. Quando tornei a olhar para Capitu, vi que n\u00e3o se mexia, e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. Capitu tornou c\u00e1 para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha m\u00e3e. Satisfi-la, atenuando o texto desta vez, para n\u00e3o amofin\u00e1-la. N\u00e3o me chames dissimulado, chama-me compassivo; \u00e9 certo que receava perder Capitu, se lhe morressem as esperan\u00e7as todas, mas do\u00eda-me v\u00ea-la padecer. Agora, a verdade \u00faltima, a verdade das verdades, \u00e9 que j\u00e1 me arrependia de haver falado a minha m\u00e3e, antes de qualquer trabalho efetivo por parte de Jos\u00e9 Dias; examinando bem, n\u00e3o quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo, ainda que demorado. Capitu refletia, refletia, refletia&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLIII \/ VOC\u00ca TEM MEDO?<\/h2>\n<p>De repente, cessando a reflex\u00e3o, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.<\/p>\n<p>&#8211;Medo?<\/p>\n<p>&#8211;Sim, pergunto se voc\u00ea tem medo.<\/p>\n<p>&#8211;Medo de qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi. Se ela me tem dito simplesmente: &#8220;Vamos embora!&#8221; pode ser que eu obedecesse ou n\u00e3o; em todo caso, entenderia. Mas aquela pergunta assim, vaga e solta, n\u00e3o pude atinar o que era.<\/p>\n<p>&#8211;Mas&#8230; n\u00e3o entendo. De apanhar?<\/p>\n<p>&#8211;Sim.<\/p>\n<p>&#8211;Apanhar de quem? Quem \u00e9 que me d\u00e1 pancada?<\/p>\n<p>Capitu fez um gesto de impaci\u00eancia. Os olhos de ressaca n\u00e3o se mexiam e pareciam crescer. Sem saber de mim, e, n\u00e3o querendo interrog\u00e1-la novamente, entrei a cogitar donde me viriam pancadas, e por que, e tamb\u00e9m por que \u00e9 que seria preso, e quem \u00e9 que me havia de prender. Valha-me Deus! vi de imagina\u00e7\u00e3o o aljube, uma casa escura e infecta. Tamb\u00e9m vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Corre\u00e7\u00e3o. Todas essas belas institui\u00e7\u00f5es sociais me envolviam no seu mist\u00e9rio, sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capitu foi n\u00e3o deix\u00e1-los crescer infinitamente, antes diminuir at\u00e9 \u00e0s dimens\u00f5es normais, e dar-lhe o movimento do costume. Capitu tornou ao que era, disse-me que estava brincando, n\u00e3o precisava afligir-me, e, com um gesto cheio de gra\u00e7a, bateu-me na cara, sorrindo, e disse:<\/p>\n<p>&#8211;Medroso!<\/p>\n<p>&#8211;Eu? Mas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nada, Bentinho. Pois quem \u00e9 que h\u00e1 de dar pancada ao prender voc\u00ea? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Capitu; voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 brincando; nesta ocasi\u00e3o, nenhum de n\u00f3s tem vontade de brincar.<\/p>\n<p>&#8211;Tem raz\u00e3o, foi s\u00f3 maluquice; at\u00e9 logo.<\/p>\n<p>&#8211;Como at\u00e9 logo?<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1-me voltando a dor de cabe\u00e7a; vou botar uma rodela de lim\u00e3o nas fontes.<\/p>\n<p>Fez o que disse, e atou o len\u00e7o outra vez na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda a\u00ed nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do po\u00e7o. Ventava, o c\u00e9u estava coberto. Capitu falou novamente da nossa separa\u00e7\u00e3o, como de um fato certo e definitivo, por mais que eu. receoso disso mesmo, buscasse agora raz\u00f5es para anim\u00e1-la. Capita, quando n\u00e3o falava, riscava no ch\u00e3o, com um peda\u00e7o de taquara, narizes e perfis. Desde que se metera a desenhar, era uma das suas divers\u00f5es; tudo lhe servia de papel e l\u00e1pis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ela no muro, quis fazer o mesmo no ch\u00e3o, e pedi-lhe a taquara. N\u00e3o me ouviu ou n\u00e3o me atendeu.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLIV \/ O PRIMEIRO FILHO<\/h2>\n<p>&#8211;D\u00ea c\u00e1, deixe escrever uma cousa.<\/p>\n<p>Capitu olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a defini\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Dias, obl\u00edquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211;Diga-me uma cousa, mas fale verdade, n\u00e3o quero disfarce; h\u00e1 de responder com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9? Diga.<\/p>\n<p>&#8211;Se voc\u00ea tivesse de escolher entre mim e sua m\u00e3e, a quem \u00e9 que escolhia?<\/p>\n<p>&#8212; Eu?<\/p>\n<p>Fez-me sinal que sim.<\/p>\n<p>&#8211;Eu escolhia&#8230; mas para que escolher? Mam\u00e3e n\u00e3o \u00e9 capaz de me perguntar isso.<\/p>\n<p>&#8211;Pois sim, mas eu pergunto. Suponha voc\u00ea que est\u00e1 no semin\u00e1rio e recebe a not\u00edcia de que eu vou morrer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o diga isso!<\/p>\n<p>&#8212; &#8230;Ou que me mato de saudades, se voc\u00ea n\u00e3o vier logo, e sua m\u00e3e n\u00e3o quiser que voc\u00ea venha, diga-me, voc\u00ea vem?<\/p>\n<p>&#8211;Venho.<\/p>\n<p>&#8211;Contra a ordem de sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211;Contra a ordem de mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea deixa semin\u00e1rio, deixa sua m\u00e3e, deixa tudo, para me ver morrer?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o fale em morrer, Capitu!<\/p>\n<p>Capitu teve um risinho descorado e incr\u00e9dulo, e com a taquara escreveu uma palavra no ch\u00e3o, inclinei-me e li: mentiroso.<\/p>\n<p>Era t\u00e3o estranho tudo aquilo, que n\u00e3o achei resposta. N\u00e3o atinava com a raz\u00e3o do escrito, como n\u00e3o atinava com a do falado. Se me acudisse ali uma inj\u00faria grande ou pequena, \u00e9 poss\u00edvel que a escrevesse tamb\u00e9m, com a mesma taquara, mas n\u00e3o me lembrava nada. Tinha a cabe\u00e7a vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que algu\u00e9m nos pudesse ouvir ou ler. Quem, se \u00e9ramos s\u00f3s? D. Fortunata chegara uma vez \u00e0 porta da casa, mas entrou logo depois. A solid\u00e3o era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa; ningu\u00e9m mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos do P\u00e1dua. Nada mais, ou somente este fen\u00f4meno curioso, que o nome escrito por ela, n\u00e3o s\u00f3 me espiava do ch\u00e3o com gesto escarninho, mas at\u00e9 me pareceu que repercutia no ar. Tive ent\u00e3o uma id\u00e9ia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre n\u00e3o era m\u00e1, e eu podia aceit\u00e1-la sem grande pena. Como desfor\u00e7o, era pueril; mas eu sentia a secreta esperan\u00e7a de v\u00ea-la atirar-se a mim lavada em l\u00e1grimas. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:<\/p>\n<p>&#8211;Padre \u00e9 bom, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; melhor que padre s\u00f3 c\u00f4nego, por causa das meias roxas. O roxo \u00e9 cor muito bonita. Pensando bem, \u00e9 melhor c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211;Mas n\u00e3o se pode ser c\u00f4nego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211;Bem; comece pelas meias pretas, depois vir\u00e3o as roxas. O que eu n\u00e3o quero perder \u00e9 a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido \u00e0 moda saia bal\u00e3o e babados grandes. . . Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A igreja h\u00e1 de ser grande, Carmo ou S. Francisco.<\/p>\n<p>&#8211;Ou Candel\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211;Candel\u00e1ria tamb\u00e9m. Qualquer serve, contanto que eu ou\u00e7a a missa nova. Hei de fazer um figur\u00e3o. Muita gente h\u00e1 de perguntar: &#8220;Quem \u00e9 aquela mo\u00e7a faceira que ali est\u00e1 com um vestido t\u00e3o bonito?&#8221;&#8211;&#8220;Aquela \u00e9 D. Capitolina, uma mo\u00e7a que morou na Rua de Mata-cavalos&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Que morou? Voc\u00ea vai mudar-se?<\/p>\n<p>&#8211;Quem sabe onde \u00e9 que h\u00e1 de morar amanh\u00e3? disse ela com um tom leve de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E voc\u00ea no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando&#8230; Pater noster&#8230;<\/p>\n<p>Ah! como eu sinto n\u00e3o ser um poeta rom\u00e2ntico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela, a gra\u00e7a de um e a prontid\u00e3o de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, at\u00e9 ao meu golpe final que foi este:<\/p>\n<p>&#8211;Pois sim, Capitu, voc\u00ea ouvir\u00e1 a minha missa nova, mas com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao que ela respondeu:<\/p>\n<p>&#8211;Vossa Reverend\u00edssima pode falar.<\/p>\n<p>&#8211;Promete uma cousa?<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Diga se promete.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sabendo o que \u00e9, n\u00e3o prometo.<\/p>\n<p>&#8211;A falar verdade s\u00e3o duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido outra id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211;Duas? Diga quais s\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;A primeira \u00e9 que s\u00f3 se h\u00e1 de confessar comigo, para eu lhe dar a penit\u00eancia e a absolvi\u00e7\u00e3o. A segunda \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;A primeira est\u00e1 prometida, disse ela vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda.<\/p>\n<p>Palavra que me custou, e antes n\u00e3o me chegasse a sair da boca: n\u00e3o ouviria o que ouvi, e n\u00e3o escreveria aqui uma cousa que vai talvez achar incr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>&#8212; A segunda&#8230; sim&#8230; \u00e9 que&#8230; Promete-me que seja eu o padre que case voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Que me case? disse ela um tanto comovida.<\/p>\n<p>Logo depois fez descair os l\u00e1bios, e abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo, voc\u00ea n\u00e3o vai ser padre j\u00e1 amanh\u00e3, leva muitos anos&#8230; Olhe, prometo outra cousa; prometo que h\u00e1 de batizar o meu primeiro filho.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLV \/ ABANE A CABE\u00c7A, LEITOR<\/h2>\n<p>Abane a cabe\u00e7a leitor; fa\u00e7a todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o t\u00e9dio j\u00e1 o n\u00e3o obrigou a isso antes tudo \u00e9 poss\u00edvel. Mas, se o n\u00e3o fez antes e s\u00f3 agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma p\u00e1gina, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, n\u00e3o h\u00e1 nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.<\/p>\n<p>Quanto ao meu espanto, se tamb\u00e9m foi grande, veio de mistura com uma sensa\u00e7\u00e3o esquisita. Percorreu-me um fluido. Aquela amea\u00e7a de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separa\u00e7\u00e3o absoluta, a perda, a aniquila\u00e7\u00e3o, tudo isso produzia um tal efeito, que n\u00e3o achei palavra nem gesto fiquei est\u00fapido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no ch\u00e3o&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLVI \/ AS PAZES<\/h2>\n<p>As Pazes fizeram-se como a guerra, depressa. Buscasse eu neste livro a minha gl\u00f3ria, e diria que as negocia\u00e7\u00f5es partiram de mim, mas n\u00e3o, foi ela que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu estivesse cabisbaixo, ela abaixou tamb\u00e9m a cabe\u00e7a, mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quis levantar-me para ir embora; mas nem me levantei, nem sei se iria. Capitu fitou-me uns olhos t\u00e3o ternos, e a posi\u00e7\u00e3o os fazia t\u00e3o s\u00faplices, que me deixei ficar, passei-lhe o bra\u00e7o pela cintura, ela pegou-me na ponta dos dedos, e&#8230;<\/p>\n<p>Outra vez D. Fortunata apareceu \u00e0 porta da casa; n\u00e3o sei para que, se nem me deixou tempo de puxar o bra\u00e7o; desapareceu logo. Podia ser um simples descargo de consci\u00eancia, uma cerim\u00f4nia, como as rezas de obriga\u00e7\u00e3o, sem devo\u00e7\u00e3o, que se dizem de tropel; a n\u00e3o ser que fosse para certificar aos pr\u00f3prios olhos a realidade que o cora\u00e7\u00e3o lhe dizia&#8230;<\/p>\n<p>Fosse o que fosse, o meu bra\u00e7o continuou a apertar a cintura da filha, e foi assim que nos pacificamos. O bonito \u00e9 que cada um de n\u00f3s queria agora as culpas para si, e ped\u00edamos reciprocamente perd\u00e3o. Capitu alegava a ins\u00f4nia, a dor de cabe\u00e7a, o abatimento do esp\u00edrito, e finalmente &#8220;os seus calundus.&#8221; Eu, que era muito chor\u00e3o por esse tempo, sentia os olhos molhados&#8230; Era amor puro, era efeito dos padecimentos da amiguinha, era a ternura da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO XLVII \/ &#8220;A SENHORA SAIU&#8221;<\/h2>\n<p>&#8211;Est\u00e1 bom, acabou, disse eu finalmente; mas, explique-me s\u00f3 uma cousa, por que \u00e9 que voc\u00ea me perguntou se eu tinha medo de apanhar?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o foi por nada, respondeu Capitu, depois de alguma hesita\u00e7\u00e3o&#8230; Para que bulir nisso?<\/p>\n<p>&#8211;Diga sempre. Foi por causa do semin\u00e1rio?<\/p>\n<p>&#8211;Foi; ouvi dizer que l\u00e1 d\u00e3o pancada&#8230; N\u00e3o? Eu tamb\u00e9m n\u00e3o creio.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o agradou-me; n\u00e3o tinha outra. Se, como penso, Capitu n\u00e3o disse a verdade, for\u00e7a \u00e9 reconhecer que n\u00e3o podia diz\u00ea-la, e a mentira \u00e9 dessas criadas que se d\u00e3o pressa em responder \u00e0s visitas que &#8220;a senhora saiu&#8221;, quando a senhora n\u00e3o quer falar a ningu\u00e9m. H\u00e1 nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala por instantes a condi\u00e7\u00e3o das pessoas, n\u00e3o contando o prazer que d\u00e1 a cara das visitas enganadas, e as costas com que elas descem&#8230; A verdade n\u00e3o saiu, ficou em casa, no cora\u00e7\u00e3o de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu n\u00e3o desci triste nem zangado; achei a criada galante, apetec\u00edvel. melhor que a ama.<\/p>\n<p>As andorinhas vinham agora em sentido contr\u00e1rio, ou n\u00e3o seriam as mesmas. N\u00f3s \u00e9 que \u00e9ramos os mesmos; ali ficamos somando as nossas ilus\u00f5es, os nossos temores, come\u00e7ando j\u00e1 a somar as nossas saudades.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLVIII \/ JURAMENTO DO PO\u00c7O<\/h2>\n<p>&#8211;N\u00e3o! exclamei de repente.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Tinha havido alguns minutos de sil\u00eancio, durante os quais refleti muito e acabei por uma id\u00e9ia; o tom da exclama\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, foi t\u00e3o alto que espantou a minha vizinha.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o h\u00e1 de ser assim, continuei. Dizem que n\u00e3o estamos em idade de casar, que somos crian\u00e7as, crian\u00e7olas,&#8211;j\u00e1 ouvi dizer crian\u00e7olas. Bem; mas dous ou tr\u00eas anos passam depressa. Voc\u00ea jura uma cousa? lura que s\u00f3 h\u00e1 de casar comigo?<\/p>\n<p>Capitu n\u00e3o hesitou em jurar, e at\u00e9 lhe vi as faces vermelhas de prazer. Jurou duas vezes e uma terceira:<\/p>\n<p>&#8211;Ainda que voc\u00ea case com outra, cumprirei o meu juramento, n\u00e3o casando nunca.<\/p>\n<p>&#8211;Que eu case com outra?<\/p>\n<p>&#8211;Tudo pode ser. Bentinho. Voc\u00ea pode achar outra mo\u00e7a que lhe queira, apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu para voc\u00ea lembrar-se de mim nessa ocasi\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu tamb\u00e9m juro! Juro, Capitu, juro por Deus Nosso Senhor que s\u00f3 me casarei com voc\u00ea. Basta isto?<\/p>\n<p>&#8211;Devia bastar, disse ela; eu n\u00e3o me atrevo a pedir mais. Sim, voc\u00ea jura&#8230; Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.<\/p>\n<p>Compreendeis a diferen\u00e7a, era mais que a elei\u00e7\u00e3o do c\u00f4njuge, era a afirma\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio. A cabe\u00e7a da minha amiga sabia pensar claro e depressa. Realmente, a f\u00f3rmula anterior era limitada, apenas exclusiva. Pod\u00edamos acabar solteir\u00f5es, como o sol e a lua, sem mentir ao juramento do po\u00e7o. Esta f\u00f3rmula era melhor, e tinha? a vantagem de me fortalecer o cora\u00e7\u00e3o contra a investidura eclesi\u00e1stica. Juramos pela segunda f\u00f3rmula, e ficamos t\u00e3o felizes que todo receio de perigo desapareceu. \u00c9ramos religiosos, t\u00ednhamos o c\u00e9u por testemunha. Eu nem j\u00e1 temia o semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Se teimarem muito, irei; mas fa\u00e7o de conta que \u00e9 um col\u00e9gio qualquer; n\u00e3o tomo ordens.<\/p>\n<p>Capitu temia a nossa separa\u00e7\u00e3o, mas acabou aceitando este alvitre, que era o melhor. N\u00e3o aflig\u00edamos minha m\u00e3e, e o tempo correria at\u00e9 o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contr\u00e1rio, qualquer resist\u00eancia ao semin\u00e1rio confirmaria a den\u00fancia de Jos\u00e9 Dias. Esta reflex\u00e3o n\u00e3o foi minha, mas dela.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XLIX \/ UMA VELA AOS S\u00c1BADOS<\/h2>\n<p>Eis aqui como, ap\u00f3s tantas canseiras, toc\u00e1vamos o porto a que nos dev\u00edamos ter abrigado logo. N\u00e3o nos censures, piloto de m\u00e1 morte, n\u00e3o se navegam cora\u00e7\u00f5es como os outros mares deste mundo. Est\u00e1vamos contentes, entramos a falar do futuro. Eu prometia \u00e0 minha esposa uma vida sossegada e bela, na ro\u00e7a ou fora da cidade. Vir\u00edamos aqui uma vez por ano. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde, ningu\u00e9m nos fosse aborrecer. A casa, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o devia ser grande nem pequena, um meio-termo; plantei-lhe flores, escolhi m\u00f3veis, uma sege e um orat\u00f3rio. Sim, hav\u00edamos de ter um orat\u00f3rio bonito, alto, de jacarand\u00e1, com a imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o. Demorei-me mais nisto que no resto, em parte porque \u00e9ramos religiosos, em parte para compensar a batina que eu ia deitar \u00e0s urtigas- mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a prote\u00e7\u00e3o do c\u00e9u. Hav\u00edamos de acender uma vela aos s\u00e1bados&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO L \/ UM MEIO-TERMO<\/h2>\n<p>Meses depois fui para o semin\u00e1rio de S. Jos\u00e9. Se eu pudesse contar as l\u00e1grimas que chorei na v\u00e9spera e na manh\u00e3, somaria mais que todas as vertidas desde Ad\u00e3o e Eva. H\u00e1 nisto alguma exagera\u00e7\u00e3o; mas \u00e9 bom ser enf\u00e1tico, uma ou outra vez, para compensar este escr\u00fapulo de exatid\u00e3o que me aflige. Entretanto, se eu me ativer s\u00f3 \u00e0 lembran\u00e7a da sensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo \u00e9 infinito. Realmente, por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m padeceu, mas sofria com alma e cora\u00e7\u00e3o; demais, o Padre Cabral achara um meio-termo, experimentar-me a voca\u00e7\u00e3o; se no fim de dous anos, eu n\u00e3o revelasse voca\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, seguiria outra carreira.<\/p>\n<p>&#8211;As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Suponha que Nosso Senhor nega disposi\u00e7\u00e3o a seu filho, e que o costume do semin\u00e1rio n\u00e3o lhe d\u00e1 o gosto que me concedeu a mim, \u00e9 que a vontade divina \u00e9 outra. A senhora n\u00e3o podia p\u00f4r em seu filho, antes de nascido, uma voca\u00e7\u00e3o que Nosso Senhor lhe recusou&#8230;<\/p>\n<p>Era uma concess\u00e3o do padre. Dava a minha m\u00e3e um perd\u00e3o antecipado, fazendo vir do credor a releva\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. Os olhos dela brilharam, mas a boca disse que n\u00e3o. Jos\u00e9 Dias, n\u00e3o tendo alcan\u00e7ado ir comigo para a Europa, agarrou-se ao mais pr\u00f3ximo, e apoiou o &#8220;alvitre do Sr. protonot\u00e1rio&#8221;; s\u00f3 lhe parecia que um ano era bastante.<\/p>\n<p>&#8211;Estou certo, disse ele, piscando-me o olho, que dentro de um ano a voca\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. H\u00e1 de ser um padre de m\u00e3o-cheia. Tamb\u00e9m, se n\u00e3o vier em um ano&#8230;<\/p>\n<p>E a mim, mais tarde, em particular:<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e1 por um ano; um ano passa depressa. Se n\u00e3o sentir gosto nenhum, \u00e9 que Deus n\u00e3o quer, como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o melhor rem\u00e9dio \u00e9 a Europa.<\/p>\n<p>Capitu deu-me igual conselho, quando minha m\u00e3e lhe anunciou a minha ida definitiva para o semin\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211;Minha filha, voc\u00ea vai perder o seu companheiro de crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Fez-lhe t\u00e3o bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha m\u00e3e lhe dava), que nem teve tempo de ficar triste; beijou-lhe a m\u00e3o, e disse-lhe que j\u00e1 sabia disso por mim mesmo. Em particular animou-me a suportar tudo com paci\u00eancia; no fim de um ano as cousas estariam mudadas, e um ano andava depressa. N\u00e3o foi ainda a nossa despedida; esta fez-se na v\u00e9spera, por um modo que pede Cap\u00edtulo especial. O que unicamente digo aqui \u00e9 que, ao passo que nos prend\u00edamos um ao outro, ela ia prendendo minha m\u00e3e, fez-se mais ass\u00eddua e terna, vivia ao p\u00e9 dela, com os olhos nela. Minha m\u00e3e era de natural simp\u00e1tico, e igualmente sens\u00edvel; tanto se do\u00eda como se aprazia de qualquer cousa. Entrou a achar em Capitu uma por\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as novas, de dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. N\u00e3o consentiu em fotografar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco anos, e, depois de algumas hesita\u00e7\u00f5es, resolveu dar-lha. Os olhos de Capitu, quando recebeu o mimo, n\u00e3o se descrevem, n\u00e3o eram obl\u00edquos, nem de ressaca, eram direitos, claros, l\u00facidos. Beijou o retrato com paix\u00e3o, minha m\u00e3e fez-lhe a mesma cousa a ela. Tudo isto me lembra a nossa despedida.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LI \/ ENTRE LUZ E FUSCO<\/h2>\n<p>Entre luz e fusco, tudo h\u00e1 de ser breve como esse instante. Nem durou muito a nossa despedida, foi o mais que p\u00f4de, em casa dela, na sala de visitas, antes do acender das velas; a\u00ed \u00e9 que nos despedimos de uma vez. Juramos novamente que hav\u00edamos de casar um com outro, e n\u00e3o foi s\u00f3 o aperto de m\u00e3o que selou o contrato, como no quintal, foi a conjun\u00e7\u00e3o das nossas bocas amorosas&#8230; Talvez risque isto na impress\u00e3o, se at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o pensar de outra maneira; se pensar. fica. E desde j\u00e1 fica, porque, em verdade, \u00e9 a nossa defesa. O que o mandamento divino quer \u00e9 que n\u00e3o juremos em v\u00e3o pelo santo nome de Deus. Eu n\u00e3o ia mentir ao semin\u00e1rio, uma vez que levava um contrato feito no pr\u00f3prio cart\u00f3rio do c\u00e9u. Quanto ao selo, Deus, como fez as m\u00e3os limpas, assim fez os l\u00e1bios limpos, e a mal\u00edcia est\u00e1 antes na tua cabe\u00e7a perversa que na daquele casal de adolescentes&#8230; Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. Jos\u00e9, a buscar de apar\u00eancia a investidura sacerdotal, e antes dela a voca\u00e7\u00e3o. Mas a voca\u00e7\u00e3o eras tu, a investidura eras tu.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LII \/ O VELHO P\u00c1DUA<\/h2>\n<p>J\u00e1 agora conto tamb\u00e9m os adeuses do velho P\u00e1dua. Logo cedo veio \u00e0 nossa casa. Minha m\u00e3e disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.<\/p>\n<p>&#8211;D\u00e1 licen\u00e7a? perguntou metendo a cabe\u00e7a pela porta.<\/p>\n<p>Fui apertar-lhe a m\u00e3o; ele abra\u00e7ou-me com ternura.<\/p>\n<p>&#8211;Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos n\u00f3s estimamos muito ao senhor, como merece. Se lhe disserem outra cousa, n\u00e3o acredite. S\u00e3o intrigas. Tamb\u00e9m eu, quando me casei, fui v\u00edtima de intrigas; desfizeram-se. Deus \u00e9 grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua m\u00e3e e seu tio,&#8211;cousa que eu, por esta luz que me alumia, n\u00e3o desejo, porque s\u00e3o boas pessoas, excelentes pessoas, e eu sou grato \u00e0s finezas recebidas&#8230; N\u00e3o, eu n\u00e3o sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desuni\u00e3o das fam\u00edlias, aduladores baixos, n\u00e3o- eu sou de outra esp\u00e9cie; n\u00e3o vivo papando os jantares nem morando em casa alheia&#8230; Enfim, s\u00e3o os mais felizes!<\/p>\n<p>&#8220;Por que falar\u00e1 assim? pensei. Naturalmente sabe que Jos\u00e9 Dias diz mal dele.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, pode contar com a nossa companhia. N\u00e3o \u00e9 suficiente em import\u00e2ncia, mas a afei\u00e7\u00e3o \u00e9 imensa, creia. Padre que seja, a nossa casa est\u00e1 \u00e0s suas ordens. Quero s\u00f3 que me n\u00e3o esque\u00e7a; n\u00e3o esque\u00e7a o velho P\u00e1dua&#8230;<\/p>\n<p>Suspirou e continuou:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o esque\u00e7a o seu velho P\u00e1dua, e, se tem algum trapinho que me deixe em lembran\u00e7a, um caderno latino, qualquer cousa, um bot\u00e3o de colete, cousa que j\u00e1 lhe n\u00e3o preste para nada. O valor \u00e9 a lembran\u00e7a. Tive um sobressalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos, t\u00e3o grandes e t\u00e3o bonitos, cortados na v\u00e9spera. A inten\u00e7\u00e3o era lev\u00e1-los a Capitu, ao sair; mas tive id\u00e9ia de d\u00e1-lo ao pai, a filha saberia tom\u00e1-lo e guard\u00e1-lo. Peguei do embrulho e dei-lho.<\/p>\n<p>&#8211;Aqui est\u00e1, guarde.<\/p>\n<p>&#8211;Um cachinho dos seus cabelos! exclamou P\u00e1dua abrindo e fechando o embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou d\u00e1-lo \u00e0 velha, para guard\u00e1-lo, ou \u00e0 pequena, que \u00e9 mais cuidadosa que a m\u00e3e. Que lindos que s\u00e3o! Como \u00e9 que se corta uma beleza destas? D\u00ea c\u00e1 um abra\u00e7o! outro! mais outro! adeus!<\/p>\n<p>Tinha os olhos \u00famidos deveras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um s\u00f3 bilhete todas as suas economias de esperan\u00e7as, e v\u00ea sair branco o maldito n\u00famero,&#8211;um n\u00famero t\u00e3o bonito!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LIII \/ A CAMINHO!<\/h2>\n<p>Fui para o semin\u00e1rio. Poupa-me as outras despedidas. Minha m\u00e3e apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada. H\u00e1 pessoas a quem as l\u00e1grimas n\u00e3o acodem logo nem nunca, diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfar\u00e7ava naturalmente os seus padecimentos \u00edntimos, emendando os descuidos de minha m\u00e3e, fazendo-me recomenda\u00e7\u00f5es, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a m\u00e3o em despedida, disse-me rindo:<\/p>\n<p>&#8211;Anda l\u00e1, rapaz, volta-me papa!<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias, composto e grave, n\u00e3o dizia nada a princ\u00edpio; t\u00ednhamos falado na v\u00e9spera, no quarto dele, onde fui ver se era ainda poss\u00edvel evitar o semin\u00e1rio. J\u00e1 n\u00e3o era, mas deu-me esperan\u00e7as e principalmente animou-me muito. Antes de um ano estar\u00edamos a bordo. Como eu achasse muito breve, explicou-se.<\/p>\n<p>&#8211;Dizem que n\u00e3o \u00e9 bom tempo de atravessar o Atl\u00e2ntico, vou indagar; se n\u00e3o for, iremos em mar\u00e7o ou abril.<\/p>\n<p>&#8211;Posso estudar medicina aqui mesmo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias correu os dedos pelos suspens\u00f3rios com um gesto de impaci\u00eancia, apertou os bei\u00e7os, at\u00e9 que formalmente rejeitou o alvitre.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o duvidaria aprovar a id\u00e9ia, disse ele, se na Escola de Medicina n\u00e3o ensinassem, exclusivamente, a podrid\u00e3o alopata. A alopatia \u00e9 o erro dos s\u00e9culos, e vai morrer; \u00e9 o assassinato, \u00e9 a mentira, \u00e9 a ilus\u00e3o. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ci\u00eancia comum a todos os sistemas, \u00e9 verdade; a alopatia \u00e9 erro na terap\u00eautica. Fisiologia, anatomia, patologia, n\u00e3o s\u00e3o alop\u00e1ticas nem homeop\u00e1ticas, mas \u00e9 melhor aprender logo tudo de uma vez, por livros e por l\u00edngua de homens cultores da verdade&#8230;<\/p>\n<p>Assim falara na v\u00e9spera e no quarto. Agora n\u00e3o dizia nada, ou proferia algum aforismo sobre a religi\u00e3o e a fam\u00edlia; lembro-me deste: &#8220;Dividi-lo com Deus \u00e9 ainda possu\u00ed-lo&#8221;. Quando minha m\u00e3e me deu o \u00faltimo beijo: &#8220;Quadro amant\u00edssimo!&#8221; suspirou ele. Era manh\u00e3 de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomam a b\u00ean\u00e7\u00e3o: &#8220;B\u00ean\u00e7\u00e3o, nh\u00f4 Bentinho! n\u00e3o se esque\u00e7a de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmec\u00ea!&#8221; Na rua Jos\u00e9 Dias insistiu nas esperan\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211;Ag\u00fcente um ano; at\u00e9 l\u00e1 tudo estar\u00e1 arranjado.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LIV \/ PANEG\u00cdRICO DE SANTA M\u00d4NICA<\/h2>\n<p>No Semin\u00e1rio&#8230; Ah! n\u00e3o vou contar o semin\u00e1rio, nem me bastaria a isso um Cap\u00edtulo. N\u00e3o, senhor meu amigo; algum dia. sim, \u00e9 poss\u00edvel que componha um abreviado do que ali vi e vivi, das pessoas que tratei, dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos cinq\u00fcenta anos, n\u00e3o despega mais. Na mocidade \u00e9 poss\u00edvel curar-se um homem dela; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no semin\u00e1rio tive um companheiro que comp\u00f4s versos, \u00e0 maneira dos de Junqueira Freire, cujo livro de frade-poeta era recente. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.<\/p>\n<p>&#8211;Que versos? perguntou meio espantado.<\/p>\n<p>&#8211;Os seus. Pois n\u00e3o se lembra que no semin\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Ah! sorriu ele.<\/p>\n<p>Sorriu, e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte, confessou-me que n\u00e3o fizera mais versos depois de ordenado. Foram c\u00f3cegas da mocidade; co\u00e7ou-se, passou, estava bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia. a vida cara, um serm\u00e3o do padre X&#8230;, uma vigairaria mineira&#8230;<\/p>\n<p>Contr\u00e1rio a isso foi um seminarista que n\u00e3o seguiu a carreira. Chamava-se&#8230; N\u00e3o \u00e9 preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um Paneg\u00edrico de Santa M\u00f4nica, elogiado por algumas pessoas e ent\u00e3o lido entre os seminaristas. Alcan\u00e7ou licen\u00e7a de imprimi-lo, e dedicou-o a Santo Agostinho. Tudo isso \u00e9 hist\u00f3ria velha; o que \u00e9 mais mo\u00e7o \u00e9 que um dia. em 1882, indo ver certo neg\u00f3cio em reparti\u00e7\u00e3o de marinha, ali dei com este meu colega, feito chefe de uma se\u00e7\u00e3o administrativa. Deixara semin\u00e1rio, deixara letras, casara e esquecera tudo, menos o Paneg\u00edrico de Santa M\u00f4nica, umas vinte e nove p\u00e1ginas, que veio distribuindo pela vida fora. Como eu precisasse de algumas informa\u00e7\u00f5es, fui pedir-lhas, e seria imposs\u00edvel achar melhor nem mais pronta vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso Naturalmente conversamos do passado, mem\u00f3rias pessoais, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu c\u00e1 fora, e rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso velho semin\u00e1rio. Ou porque eram dele, ou porque \u00e9ramos ent\u00e3o mo\u00e7os, as recorda\u00e7\u00f5es traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra contr\u00e1ria houve ent\u00e3o, n\u00e3o apareceu agora. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu, quase todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente \u00e0s suas prov\u00edncias, e os daqui tomaram vigairarias fora.<\/p>\n<p>&#8212; Bom tempo! suspirou ele.<\/p>\n<p>E, ap\u00f3s alguma reflex\u00e3o, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos, perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211;Conservou o meu Paneg\u00edrico?<\/p>\n<p>N\u00e3o achei que dizer; tentei mover os bei\u00e7os, mas n\u00e3o tinha palavra, afinal perguntei:<\/p>\n<p>&#8211;Paneg\u00edrico? Que paneg\u00edrico?<\/p>\n<p>&#8211;O meu Paneg\u00edrico de Santa M\u00f4nica.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembrou logo, mas a explica\u00e7\u00e3o devia bastar; e depois de alguns instantes de pesquisa mental, respondi que por muito tempo o conservara, mas as mudan\u00e7as, as viagens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Hei de levar-lhe um exemplar.<\/p>\n<p>Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um velho folheto de vinte e seis anos, encardido, manchado do tempo, mas sem lacuna, e com uma dedicat\u00f3ria manuscrita e respeitosa.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o pen\u00faltimo exemplar, disse-me; agora s\u00f3 me resta um, que n\u00e3o posso dar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>E como me visse folhear o op\u00fasculo:<\/p>\n<p>&#8211;Veja se lhe lembra algum peda\u00e7o, disse-me.<\/p>\n<p>Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e ass\u00edduas, mas era cortesia, era quase caridade recordar alguma lauda; li uma delas, acentuando certas frases para lhe dar a impress\u00e3o de que achavam eco em minha mem\u00f3ria. Concordou que fossem belas, mas preferia outras, e apontou-as.<\/p>\n<p>&#8211;Recorda-se bem?<\/p>\n<p>&#8211;Perfeitamente. Paneg\u00edrico de Santa M\u00f4nica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o semin\u00e1rio, creia. Os anos passam, os acontecimentos v\u00eam uns sobre outros, e as sensa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, e vieram amizades novas que tamb\u00e9m se foram depois, como \u00e9 lei da vida&#8230; Pois, meu caro colega, nada fez apagar aquele tempo da nossa conviv\u00eancia, os padres, as li\u00e7\u00f5es, os recreios&#8230; os nossos recreios, lembra-se? o Padre Lopes, oh! o Padre Lopes&#8230;<\/p>\n<p>Ele, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia, mas s\u00f3 me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de sil\u00eancio, recolhendo os olhos e um suspiro!<\/p>\n<p>&#8211;Tem agradado muito este meu Paneg\u00edrico!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LV \/ UM SONETO<\/h2>\n<p>Dita a palavra, apertou-me as m\u00e3os com as for\u00e7as todas de um vasto agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei s\u00f3 com o Paneg\u00edrico, e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um Cap\u00edtulo ou mais. Antes, por\u00e9m, e porque tamb\u00e9m eu tive o meu Paneg\u00edrico, contarei a hist\u00f3ria de um soneto que nunca fiz: era no tempo do semin\u00e1rio, e o primeiro verso \u00e9 o que ides ler:<\/p>\n<p>Oh! flor do c\u00e9u! oh! flor c\u00e2ndida e pura!<\/p>\n<p>Como e por que me saiu este verso da cabe\u00e7a, n\u00e3o sei; saiu assim, estando eu na cama como uma exclama\u00e7\u00e3o solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma cousa, um soneto. A ins\u00f4nia, musa de olhos arregalados, n\u00e3o me deixou dormir uma longa hora ou duas; as c\u00f3cegas pediam-me unhas, e co\u00e7ava-me com alma. N\u00e3o escolhi logo, logo, o soneto; a princ\u00edpio cuidei de outra forma, e tanto de rima como de verso solto. r afinal ative-me ao soneto. Era um poema breve e prestadio. Qual \u00e0 id\u00e9ia, o primeiro verso n\u00e3o era ainda uma id\u00e9ia, era uma exclama\u00e7\u00e3o; a id\u00e9ia viria depois. Assim na cama, envolvido no len\u00e7ol. tratei de poetar. Tinha o alvoro\u00e7o da m\u00e3e que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado, e ent\u00e3o na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos len\u00e7\u00f3is; francamente achava-o bonito, e ainda agora n\u00e3o me parece mau:<\/p>\n<p>Oh! flor do c\u00e9u! oh! flor c\u00e2ndida e pura!<\/p>\n<p>Quem era a flor? Capitu, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religi\u00e3o, qualquer outro conceito a que coubesse a met\u00e1fora da flor, e flor do c\u00e9u. Aguardei o resto, recitando sempre verso, e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; afinal deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim. vinha mais nada. Ent\u00e3o adverti que os sonetos mais gabados eram os que conclu\u00edam com chave de ouro, isto \u00e9, um desses versos capitas no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfei\u00e7\u00e3o louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Assim foi que me deter minei a compor o \u00faltimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:<\/p>\n<p>Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<\/p>\n<p>Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magn\u00edfico. Sonoro, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. E tinha um pensamento, a vit\u00f3ria ganha \u00e0 custa da pr\u00f3pria vida, pensamento alevantado e nobre. Que n\u00e3o fosse novidade, \u00e9 poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era vulgar; e ainda agora n\u00e3o explico por que via misteriosa entrou numa cabe\u00e7a de t\u00e3o poucos anos. Naquela ocasi\u00e3o achei-o sublime. Recitei uma e muitas v\u00eazes a chave de ouro, depois repeti os dous versos seguidamente, e dispus-me a lig\u00e1-los pelos doze centrais. A id\u00e9ia agora, \u00e0 vista do \u00faltimo verso, pareceu-me melhor n\u00e3o ser Capitu; seria a justi\u00e7a. Era mais pr\u00f3prio dizer que, na pugna pela justi\u00e7a, perder-se-ia acaso a vida, mas a batalha ficava ganha. Tamb\u00e9m me ocorreu aceitar a batalha, no sentido natural, e fazer dela a luta pela p\u00e1tria, por exemplo; nesse caso a flor do c\u00e9u seria a liberdade. Esta acep\u00e7\u00e3o por\u00e9m, sendo o poeta um seminarista, podia n\u00e3o caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justi\u00e7a, mas afinal aceitei definitivamente uma id\u00e9ia nova a caridade, e recitei os dous versos, cada um a seu modo, um languidamente:<\/p>\n<p>Oh! flor do c\u00e9u! oh! flor c\u00e2ndida e pura<\/p>\n<p>e o outro com grande brio:<\/p>\n<p>Perde-se a vida, ganha-se a batalha!<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o que tive \u00e9 que ia sair um soneto perfeito. Come\u00e7ar bem e acabar bem n\u00e3o era pouco. Para me dar um banho de inspira\u00e7\u00e3o, evoquei alguns sonetos c\u00e9lebres, e notei que os mais deles eram fac\u00edlimos; os versos sa\u00edam uns dos outros, com a id\u00e9ia em si, t\u00e3o naturalmente, que se n\u00e3o acabava de crer se ela \u00e9 que os fizera, se eles \u00e9 que a suscitavam. Ent\u00e3o tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo; o segundo n\u00e3o vinha, nem terceiro, nem quarto; n\u00e3o vinha nenhum. Tive alguns \u00edmpetos de raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas&#8230;<\/p>\n<p>Cansado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do \u00faltimo verso, com a simples transposi\u00e7\u00e3o de duas palavras, assim:<\/p>\n<p>Ganha-se a vida, perde-se a batalha!<\/p>\n<p>O sentido vinha a ser justamente o contr\u00e1rio; mas talvez isso mesmo trouxesse a inspira\u00e7\u00e3o. Neste caso, era uma ironia: n\u00e3o exercendo a caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do c\u00e9u. Criei for\u00e7as novas e esperei. N\u00e3o tinha janela; se tivesse, \u00e9 poss\u00edvel que fosse pedir uma id\u00e9ia \u00e0 noite. E quem sabe se os vagalumes luzindo c\u00e1 embaixo, n\u00e3o seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva met\u00e1fora n\u00e3o me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos pr\u00f3prios?<\/p>\n<p>Trabalhei em v\u00e3o, busquei, catei, esperei, n\u00e3o vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas p\u00e1ginas em prosa, e agora estou compondo esta narra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal. Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que n\u00e3o fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma raz\u00e3o de ordem metaf\u00edsica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na ro\u00e7a, em qualquer ocasi\u00e3o de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo \u00e9 dar-lhe uma id\u00e9ia e encher o centro que falta.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LVI \/ UM SEMINARISTA<\/h2>\n<p>Tudo meia repetindo o diabo do op\u00fasculo, com as suas letras velhas e cita\u00e7\u00f5es latinas. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas, os irm\u00e3os Albuquerques, por exemplo, um dos quais \u00e9 c\u00f4nego na Bahia, enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um espec\u00edfico contra a febre amarela. Vi o Bastos, um magricela, que est\u00e1 de vig\u00e1rio em Meia-Ponte, se n\u00e3o morreu j\u00e1; Lu\u00eds Borges, apesar de padre, fez-se pol\u00edtico, e acabou senador do imp\u00e9rio&#8230; Quantas outras caras me fitavam das p\u00e1ginas frias do Paneg\u00edrico! N\u00e3o, n\u00e3o eram frias; traziam o calor da juventude nascente, o calor do passado, o meu pr\u00f3prio calor. Queria l\u00ea-las outra vez, e lograva entender algum texto, t\u00e3o recente como no primeiro dia. ainda que mais breve. Era um encanto ir por ele; \u00e0s vezes, inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade; creio que era quando os olhos me ca\u00edam na palavra do fim da p\u00e1gina, e a m\u00e3o, acostumada a ajud\u00e1-los, fazia o seu of\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as m\u00e3os, como os p\u00e9s, como a fala, como tudo. Quem n\u00e3o estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, n\u00e3o sabendo por onde lhe pegasse. N\u00e3o fitava de rosto, n\u00e3o falava claro nem seguido as m\u00e3os n\u00e3o apertavam as outras, nem se deixavam apertar delas, por que os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava t\u00ea-los entre os seus, j\u00e1 n\u00e3o tinha nada. O mesmo digo dos p\u00e9s, que lia depressa estavam aqui como l\u00e1. Esta dificuldade em pousar foi a maior obst\u00e1culo que achou para tomar os costumes do semin\u00e1rio. O sorriso era instant\u00e2neo, mas tamb\u00e9m ria folgado e largo. Uma cousa n\u00e3o seria t\u00e3o fugitiva, como o resto, a reflex\u00e3o; \u00edamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual, ou ent\u00e3o que recordava a li\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freq\u00fcentemente explica\u00e7\u00f5es e repeti\u00e7\u00f5es mi\u00fadas, e tinha mem\u00f3ria para guard\u00e1-las todas, at\u00e9 as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.<\/p>\n<p>Era mais velho que eu tr\u00eas anos, filho de um advogado de Curitiba, aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro, que servia de correspondente ao pai. Este era homem de fortes sentimentos cat\u00f3licos. Escobar tinha uma irm\u00e3, que era um anjo, dizia ele.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na beleza que \u00e9 um anjo, mas tamb\u00e9m na bondade. N\u00e3o imagina que boa criatura que ela \u00e9. Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe as cartas dela.<\/p>\n<p>De fato, eram simples e afetuosas, cheias de car\u00edcias e conselhos. Escobar contava-me hist\u00f3rias dela, interessantes, todas as quais vinham a dar na bondade e no esp\u00edrito daquela criatura; tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se n\u00e3o fosse Capitu. Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras dele, estive quase a contar-lhe logo, logo, a minha hist\u00f3ria. A princ\u00edpio, fui t\u00edmido, mas ele fez-se entrado na minha confian\u00e7a. Aqueles modos fugitivos, cessavam quando ele queria, e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua at\u00e9 o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, \u00e9 uma casa assim disposta, n\u00e3o raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Tamb\u00e9m as h\u00e1 fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, \u00e0 semelhan\u00e7a de conventos e pris\u00f5es. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou pa\u00e7os suntuosos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que era a minha. Eu n\u00e3o era ainda casmurro, nem dom casmurro; o receio \u00e9 que me tolhia a franqueza, mas como as portas n\u00e3o tinham chaves nem fechaduras, bastava empurr\u00e1-las, e Escobar empurrou-as e entrou. C\u00e1 o achei dentro, c\u00e1 ficou, at\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LVII \/ DE PREPARA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Ah! Mas n\u00e3o eram s\u00f3 os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Paneg\u00edrico. Elas me trouxeram tamb\u00e9m sensa\u00e7\u00f5es passadas, tais e tantas que eu n\u00e3o poderia diz\u00ea-las todas, sem tirar espa\u00e7o ao resto. Uma dessas, e das primeiras quisera cont\u00e1-la aqui em latim. N\u00e3o \u00e9 que a mat\u00e9ria n\u00e3o ache termos honestos em nossa l\u00edngua, que \u00e9 casta para os castos, como pode ser torpe para os torpes. Sim, leitora cast\u00edssima, como diria o meu finado Jos\u00e9 Dias podeis ler o Cap\u00edtulo at\u00e9 ao fim, sem susto nem vexame.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora meto a hist\u00f3ria em outro Cap\u00edtulo. Por mais composto que este me saia, h\u00e1 sempre no assunto alguma cousa menos austera, que pede umas linhas de repouso e prepara\u00e7\u00e3o. Sirva este de prepara\u00e7\u00e3o. E isto \u00e9 muito, leitor meu amigo; o cora\u00e7\u00e3o, quando examina a possibilidade do que h\u00e1 de vir, as propor\u00e7\u00f5es dos acontecimentos e a c\u00f3pia deles, fica robusto e disposto, e o mal \u00e9 menor mal. Tamb\u00e9m, se n\u00e3o fica ent\u00e3o, n\u00e3o fica nunca. E aqui ver\u00e1s tal ou qual esperteza minha; porquanto, ao ler o que vais ler, \u00e9 prov\u00e1vel que o aches menos cru do que esperavas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LVIII \/ O TRATADO<\/h2>\n<p>Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para o semin\u00e1rio, vi cair na rua uma senhora. O meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser de pena ou de riso; n\u00e3o foi uma nem outra cousa, porquanto (e \u00e9 isto que eu quisera dizer em latim), porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas, e n\u00e3o as sujou, levava ligas de seda, e n\u00e3o as perdeu. V\u00e1rias pessoas acudiram, mas n\u00e3o tiveram tempo de a levantar; ela ergueu-se muito vexada, sacudiu-se, agradeceu, e enfiou pela rua pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&#8211;Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor, dizia-me Jos\u00e9 Dias andando e comentando a queda, \u00e9 evidentemente um erro. As nossas mo\u00e7as devem andar como sempre andaram, com seu vagar e paci\u00eancia, e n\u00e3o este tique-tique afrancesado&#8230;<\/p>\n<p>Eu mal podia ouvi-lo. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim, e andavam, ca\u00edam, erguiam-se e iam-se embora. Quando chegamos \u00e0 esquina, olhei para a outra rua, e vi, a distancia, a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique, tique-tique&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Parece que n\u00e3o se machucou, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;Tanto melhor para ela, mas \u00e9 imposs\u00edvel que n\u00e3o tenha arranhado os joelhos; aquela presteza \u00e9 manha&#8230;<\/p>\n<p>Creio que foi &#8220;manha&#8221; que ele disse; eu fiquei &#8220;nos joelhos arranhados&#8221;. Dali em diante, at\u00e9 o semin\u00e1rio, n\u00e3o vi mulher na rua, a quem n\u00e3o desejasse uma queda, a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas&#8230; Tal haveria que nem levasse meias&#8230; Mas eu as via com elas&#8230; Ou ent\u00e3o&#8230; Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>Vou esgar\u00e7ando isto com retic\u00eancias para dar uma id\u00e9ia das minhas id\u00e9ias, que eram assim difusas e confusas; com certeza n\u00e3o dou nada. A cabe\u00e7a ia-me quente, e o andar n\u00e3o era seguro. No semin\u00e1rio, a primeira hora foi insuport\u00e1vel. As batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a queda da senhora. J\u00e1 n\u00e3o era uma s\u00f3 que eu via cair; todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me agora de relance as ligas azuis; eram azuis. De noite, sonhei com elas. Uma multid\u00e3o de abomin\u00e1veis criaturas veio andar \u00e0 roda de mim, tique-tique&#8230; Eram belas, umas finas, outras grossas, todas \u00e1geis como o diabo. Acordei, busquei afugent\u00e1-las com esconderijos e outros m\u00e9todos, mas t\u00e3o depressa dormi como tornaram, e, com as m\u00e3os presas em volta de mim, faziam um vasto c\u00edrculo de saias ou, trepadas no ar, choviam p\u00e9s e pernas sobre a minha cabe\u00e7a. Assim fui at\u00e9 madrugada. N\u00e3o dormi mais; rezei padre-nossos, ave-marias, e credos, e sendo este livro a verdade pura, \u00e9 for\u00e7a confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas ora\u00e7\u00f5es para acompanhar no escuro uma figura ao longe, tique-tique, tique-tique&#8230; Pegava depressa na ora\u00e7\u00e3o, sempre no meio para concert\u00e1-la bem, como se n\u00e3o tivesse havido interrup\u00e7\u00e3o, mas certamente n\u00e3o unia a frase nova \u00e0 antiga.<\/p>\n<p>Vindo o mal pela manh\u00e3 adiante, tentei venc\u00ea-lo, mas por um modo que o n\u00e3o perdesse de todo. S\u00e1bios da Escritura, adivinhai o que podia ser. Foi isto. N\u00e3o podendo rejeitar de mim aqueles quadros, recorri a um tratado entre a minha consci\u00eancia e a minha imagina\u00e7\u00e3o. As vis\u00f5es feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarna\u00e7\u00f5es dos v\u00edcios, e por isso mesmo contempl\u00e1veis, como o melhor modo de temperar o car\u00e1ter e aguerri-lo para os combates \u00e1speros da vida. N\u00e3o formulei isto por palavras, nem foi preciso; o contrato fez-se tacitamente, com alguma repugn\u00e2ncia, mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que evocava as vis\u00f5es para fortalecer-me, e n\u00e3o as rejeitava, sen\u00e3o quando elas mesmo de cansadas, se iam embora.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LIX \/ CONVIVAS DE BOA MEM\u00d3RIA<\/h2>\n<p>H\u00e1 dessas reminisc\u00eancias que n\u00e3o descansam antes que a pena ou a l\u00edngua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa mem\u00f3ria. A vida \u00e9 cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a mem\u00f3ria fraca seja exatamente n\u00e3o me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o, a minha mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 boa. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 compar\u00e1vel a algu\u00e9m que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstancias. A quem passe a vida na mesma casa de fam\u00edlia, com os seus eternos m\u00f3veis e costumes, pessoas e afei\u00e7\u00f5es, \u00e9 que se lhe grava tudo pela continuidade e repeti\u00e7\u00e3o. Como eu invejo os que n\u00e3o esqueceram a cor das primeiras cal\u00e7as que vestiram! Eu n\u00e3o atino com a das que enfiei ontem Juro s\u00f3 que n\u00e3o eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confus\u00e3o.<\/p>\n<p>E antes seja olvido que confus\u00e3o; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, n\u00e3o me aflijo nunca. O que fa\u00e7o, em chegando ao fim, \u00e9 cerrar os olhos e evocar todas as cousas que n\u00e3o achei nele. Quantas id\u00e9ias finas me acodem ent\u00e3o! Que de reflex\u00f5es profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que n\u00e3o vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas \u00e1guas, as suas \u00e1rvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes tamb\u00e9m preencher as minhas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LX \/ QUERIDO OP\u00daSCULO<\/h2>\n<p>Assim fiz eu ao Paneg\u00edrico de Santa M\u00f4nica, e fiz mais: pus-lhe n\u00e3o s\u00f3 o que faltava da santa, mas ainda cousas que n\u00e3o eram dela. Viste o soneto, as meias, as ligas, o seminarista Escobar e v\u00e1rios outros. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das p\u00e1ginas amarelas do op\u00fasculo.<\/p>\n<p>Querido op\u00fasculo, tu n\u00e3o prestavas para nada, mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto, h\u00e1 muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dous p\u00e9s. Gastas e rotas, n\u00e3o deixam de lembrar que uma pessoa as cal\u00e7ava de manh\u00e3, ao erguer da cama, ou as descal\u00e7ava \u00e0 noite, ao entrar ela. E se a compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale, porque as chinelas s\u00e3o ainda uma parte da pessoa e tiveram o contacto dos p\u00e9s, aqui est\u00e3o outras lembran\u00e7as, como a pedra da rua, a porta da casa, um assobio particular, um preg\u00e3o de quitanda, como aquele das cocadas que contei no cap. XVIII. Justamente, quando contei o preg\u00e3o das cocadas, fiquei t\u00e3o curtido de saudades que me lembrou faz\u00ea-lo escrever por um amigo, mestre de m\u00fasica, e grud\u00e1-lo \u00e0s pernas do Cap\u00edtulo. Se depois jarretei o Cap\u00edtulo, foi porque outro m\u00fasico, a quem o mostrei, me confessou ingenuamente n\u00e3o achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. Para que n\u00e3o aconte\u00e7a o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem, melhor \u00e9 poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. V\u00eas que n\u00e3o pus nada, nem ponho. J\u00e1 agora creio que n\u00e3o basta que os preg\u00f5es de rua, como os op\u00fasculos de semin\u00e1rio, encerrem casos, pessoas e sensa\u00e7\u00f5es; \u00e9 preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que tudo \u00e9 calado e incolor.<\/p>\n<p>Mas, vamos ao mais que me foi saindo das p\u00e1ginas amarelas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXI \/ A VACA DE HOMERO<\/h2>\n<p>O mais foi muito. Vi sa\u00edrem os primeiros dias da separa\u00e7\u00e3o, duros e opacos, sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas, e as de minha m\u00e3e e tio Cosme, trazidas por Jos\u00e9 Dias ao semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Todos est\u00e3o saudosos, disse-me este, mas a maior saudade est\u00e1 naturalmente no maior dos cora\u00e7\u00f5es; e qual \u00e9 ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos.<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e, acudi eu.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias apertou-me as m\u00e3os com alvoro\u00e7o, e logo pintou a tristeza de minha m\u00e3e, que falava de mim todos os dias, quase a todas as horas. Como a aprovasse sempre, e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera, o desvanecimento de minha m\u00e3e nessas ocasi\u00f5es era indescrit\u00edvel; e contava-me tudo isso cheio de uma admira\u00e7\u00e3o lacrimosa. Tio Cosme tamb\u00e9m se enternecia muito.<\/p>\n<p>&#8211;Ontem at\u00e9 se deu um caso interessante. Tendo eu dito \u00e0 Excelent\u00edssima que Deus lhe dera, n\u00e3o um filho, mas um anjo do c\u00e9u e doutor ficou t\u00e3o comovido que n\u00e3o achou outro modo de vencer o choro sen\u00e3o fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que s\u00f3 ele sabe. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que D. Gl\u00f3ria enxugou furtivamente uma l\u00e1grima. Ou ela n\u00e3o fosse m\u00e3e! Que cora\u00e7\u00e3o amant\u00edssimo!<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Sr. Jos\u00e9 Dias, e a minha sa\u00edda daqui?<\/p>\n<p>&#8212; Isso \u00e9 neg\u00f3cio meu. A viagem \u00e0 Europa \u00e9 o que \u00e9 preciso, mas pode fazer-se daqui a um ou dous anos, em 1859 ou 1860.<\/p>\n<p>&#8211;T\u00e3o tarde!<\/p>\n<p>&#8211;Era melhor que fosse este mesmo ano, mas demos tempo em tempo. Tenha paci\u00eancia, v\u00e1 estudando, n\u00e3o se perde nada em ir sabendo j\u00e1 daqui alguma cousa; e, demais, ainda n\u00e3o acabando padre a vida do semin\u00e1rio \u00e9 \u00fatil, e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos \u00f3leos da teologia&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto,&#8211;lembra-me como se fosse hoje,&#8211;os olhos de Jos\u00e9 Dias fulguraram t\u00e3o intensamente que me encheram de espanto As p\u00e1lpebras ca\u00edram depois, e assim ficaram por alguns instantes, at\u00e9 que novamente se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do p\u00e1tio, como que embebidos em alguma cousa, se n\u00e3o era em si mesmos, depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo p\u00e1tio todo. Podia compar\u00e1-lo aqui \u00e0 vaca de Homero; andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. N\u00e3o lhe perguntei o que \u00e9 que tinha, j\u00e1 por acanhamento, j\u00e1 porque dous lentes, um deles de teologia, vinham caminhando na nossa dire\u00e7\u00e3o. Ao passarem por n\u00f3s, o agregado, que os conhecia, cortejou-os com as defer\u00eancias devidas, e pediu-lhes not\u00edcias minhas.<\/p>\n<p>&#8211;Por ora nada se pode afian\u00e7ar, disse um deles, mas parece que dar\u00e1 conta da m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;O que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu Jos\u00e9 Dias. Conto ouvir-lhe a missa nova; mas ainda que n\u00e3o chegue a ordenar-se, no pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da exist\u00eancia, concluiu demorando mais as palavras, ir\u00e1 ungido com os santos \u00f3leos da teologia&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez a fulgura\u00e7\u00e3o dos olhos foi menor, as p\u00e1lpebras n\u00e3o lhe ca\u00edram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. Ao contr\u00e1rio, todo ele era aten\u00e7\u00e3o e interroga\u00e7\u00e3o; quando muito, um sorriso claro e amigo lhe errava nos l\u00e1bios. O lente de teologia gostou da met\u00e1fora, e disse-lho; ele agradeceu, explicando que eram id\u00e9ias que lhe escapavam no correr da conversa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o escrevia nem orava. Eu \u00e9 que n\u00e3o gostei nada; e logo que os lentes se foram, sacudi a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o quero saber dos santos \u00f3leos da teologia; desejo sair daqui o mais cedo que puder, ou j\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1, meu anjo, n\u00e3o pode ser; mas pode suceder que muito antes do que imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito, e penso j\u00e1 nas palavras com que hei de exp\u00f4-lo a D. Gl\u00f3ria; estou certo que ela ceder\u00e1 e ir\u00e1 conosco.<\/p>\n<p>&#8211;Duvido que mam\u00e3e embarque.<\/p>\n<p>&#8211;Veremos. M\u00e3e \u00e9 capaz de tudo; mas, com ela ou sem ela, tenho por certa a nossa ida, e n\u00e3o haver\u00e1 esfor\u00e7o que eu n\u00e3o empregue, deixe estar. Paci\u00eancia \u00e9 que \u00e9 preciso. E n\u00e3o fa\u00e7a aqui nada que d\u00ea lugar a censuras ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ouviu o elogio do lente? \u00c9 que voc\u00ea tem-se portado bem. Pois continue.<\/p>\n<p>&#8211;Mas, 1859 ou 1860 \u00e9 muito tarde.<\/p>\n<p>&#8211;Ser\u00e1 este ano, replicou Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>&#8211;Daqui a tr\u00eas meses?<\/p>\n<p>&#8211;Ou seis.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>&#8211;Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro qualquer. \u00c9 combinar a aus\u00eancia de voca\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e a necessidade de mudar de ares. Voc\u00ea por que n\u00e3o tosse?<\/p>\n<p>&#8211;Por que n\u00e3o tusso?<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1, j\u00e1, n\u00e3o, mas eu hei de avisar voc\u00ea para tossir, quando for preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei preparando a Excelent\u00edssima&#8230; Oh! tudo isto \u00e9 em benef\u00edcio dela. Uma vez que o filho n\u00e3o pode servir a Igreja, como deve ser servida, o melhor modo de cumprir a vontade de Deus \u00e9 dedic\u00e1-lo a outra cousa. O mundo tamb\u00e9m \u00e9 igreja para os bons&#8230;<\/p>\n<p>Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este &#8220;mundo tamb\u00e9m \u00e9 igreja para os bons&#8221;, fosse outro bezerro, irm\u00e3o dos &#8220;santos \u00f3leos da teologia.&#8221; Mas n\u00e3o dei tempo \u00e0 ternura materna, e repliquei:<\/p>\n<p>&#8211;Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:<\/p>\n<p>&#8211;Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu h\u00e1 meses que desconfio do seu peito. Voc\u00ea n\u00e3o anda bom do peito. Em pequeno, teve umas febres e uma ronqueira&#8230; Passou tudo, mas h\u00e1 dias em que est\u00e1 mais descorado. N\u00e3o digo que j\u00e1 seria o mal, mas o mal pode vir depressa. Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora n\u00e3o quiser ir conosco,&#8211;ou para que v\u00e1 mais depressa, acho que uma boa tosse&#8230; Se a tosse h\u00e1 de vir de verdade, melhor \u00e9 apress\u00e1-la&#8230; Deixe estar, eu aviso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Bem, mas em saindo daqui n\u00e3o h\u00e1 de ser para embarcar logo; saio primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque \u00e9 que pode ficar para o ano. N\u00e3o dizem que o melhor tempo \u00e9 abril ou Maio? Pois seja maio. Primeiro deixo o semin\u00e1rio daqui a dous meses&#8230;<\/p>\n<p>E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta r\u00e1pida, e perguntei-lhe \u00e0 queima-roupa:<\/p>\n<p>&#8211;Capitu como vai?<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXII \/ UMA PONTA DE IAGO<\/h2>\n<p>A pergunta era imprudente, na ocasi\u00e3o em que eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou \u00fanico da minha repulsa ao semin\u00e1rio era Capitu, e fazer crer Improv\u00e1vel a viagem. Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como, nem ele me deu tempo.<\/p>\n<p>&#8211;Tem andado alegre, como sempre; \u00e9 uma tontinha. Aquilo enquanto n\u00e3o pegar algum peralta da vizinhan\u00e7a, que case com ela&#8230;<\/p>\n<p>Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A not\u00edcia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. H\u00e1 alguma exagera\u00e7\u00e3o nisto; mas o discurso humano \u00e9 assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audi\u00eancia aqui n\u00e3o \u00e9 das orelhas, sen\u00e3o da mem\u00f3ria, chegaremos \u00e0 exata verdade. A minha mem\u00f3ria ouve ainda agora as pancadas do cora\u00e7\u00e3o naquele instante. N\u00e3o esque\u00e7as que era a emo\u00e7\u00e3o do primeiro amor. Estive quase a perguntar a Jos\u00e9 Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que \u00e9 que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra id\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>Outra id\u00e9ia, n\u00e3o,&#8211;um sentimento cruel e desconhecido, o pulo ci\u00fame, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de Jos\u00e9 Dias: &#8220;Algum peralta da vizinhan\u00e7a.&#8221; Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia t\u00e3o nela, dela e para ela, que a interven\u00e7\u00e3o de um peralta era como uma no\u00e7\u00e3o sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhan\u00e7a, v\u00e1ria idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu,&#8211;e t\u00e3o senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admira\u00e7\u00e3o e de inveja. Separados um do outro pelo espa\u00e7o e pelo destino, o mal aparecia-me agora, n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre \u00e9 que j\u00e1 namorava a outro, acompanh\u00e1-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia \u00e0 janela, \u00e0s ave-marias, trocariam flores e&#8230;<\/p>\n<p>E&#8230; qu\u00ea? Sabes o que \u00e9 que trocariam mais- se o n\u00e3o achas por ti mesmo, escusado \u00e9 ler o resto do Cap\u00edtulo e do livro, n\u00e3o achar\u00e1s mais nada, ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste, compreender\u00e1s que eu, depois de estremecer, tivesse um \u00edmpeto de atirar-me pelo port\u00e3o fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar \u00e0 casa do P\u00e1dua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos, quantos, quantos j\u00e1 lhe dera o peralta da vizinhan\u00e7a. N\u00e3o fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto n\u00e3o tiveram, naqueles tr\u00eas ou quatro minutos, esta l\u00f3gica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confus\u00e3o, um turbilh\u00e3o, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, Jos\u00e9 Dias conclu\u00eda uma frase, cujo princ\u00edpio n\u00e3o ouvi, e o mesmo fim era vago: &#8220;A conta que dar\u00e1 de si.&#8221; Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a vontade morreu ao nascer, como tantas outras gera\u00e7\u00f5es delas. Limitei-me a inquirir do agregado quando \u00e9 que iria a casa ver minha m\u00e3e.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>&#8212; Estou com saudades de mam\u00e3e. Posso ir j\u00e1 esta semana?<\/p>\n<p>&#8211;Vai s\u00e1bado.<\/p>\n<p>&#8211;Vai s\u00e1bado.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e1bado? Ah! sim! sim! Pe\u00e7a a mam\u00e3e que me mande buscar s\u00e1bado! S\u00e1bado! Este s\u00e1bado, n\u00e3o? Que me mande buscar, sem falta.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXIII \/ METADES DE UM SONHO<\/h2>\n<p>Fiquei ansioso pelo s\u00e1bado. At\u00e9 l\u00e1 os sonhos perseguiam-me, ainda acordado, e n\u00e3o os digo aqui para n\u00e3o alongar esta parte do livro. Um s\u00f3 ponho, e no menor n\u00famero de palavras, ou antes porei dous, porque um nasceu de outro, a n\u00e3o ser que ambos formem duas metades de um s\u00f3. Tudo isto \u00e9 obscuro, dona leitora, mas a culpa \u00e9 do vosso sexo, que perturbava assim a adolesc\u00eancia de um pobre seminarista. N\u00e3o fosse ele, e este livro seria talvez uma simples pr\u00e1tica paroquial, se eu fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma enc\u00edclica, se papa, como me recomendara tio Cosme: &#8220;Anda l\u00e1, meu rapaz, volta-me papa!&#8221; Ah! por que n\u00e3o cumpri esse desejo? Depois de Napole\u00e3o, tenente e imperador, todos os destinos est\u00e3o neste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhan\u00e7a, vi um destes que conversava com a minha amiga ao p\u00e9 da janela. Corri ao lugar, ele fugiu; avancei para Capitu, mas n\u00e3o estava s\u00f3 tinha o pai ao p\u00e9 de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. N\u00e3o me parecendo isto claro, ia pedir a explica\u00e7\u00e3o, quando ele de si mesmo a deu; o peralta fora levar-lhe a lista dos pr\u00eamios da loteria, e o bilhete sa\u00edra branco. Tinha o n\u00famero 4004. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela, e provavelmente a roda andara mal; era imposs\u00edvel que n\u00e3o devesse ter a sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a boca. E aqui entra a segunda parte do sonho. P\u00e1dua desapareceu, como as suas esperan\u00e7as do bilhete, Capitu inclinou-se para fora, eu relancei os olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas m\u00e3os, resmunguei n\u00e3o sei que palavras, e acordei sozinho no dormit\u00f3rio.<\/p>\n<p>O interesse do que acabas de ler n\u00e3o est\u00e1 na mat\u00e9ria do sonho, mas nos esfor\u00e7os que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Nunca dos nuncas poder\u00e1s saber a energia e obstina\u00e7\u00e3o que empreguei em fechar os olhos, apert\u00e1-los bem, esquecer tudo para dormir, mas n\u00e3o dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono at\u00e9 \u00e0 madrugada. Sobre a madrugada, consegui concili\u00e1-lo, mas ent\u00e3o nem peraltas, nem bilhetes de loterias, nem sortes grandes ou pequenas,&#8211;nada dos nadas veio ter comigo. N\u00e3o sonhei mais aquela noite, e dei mal as li\u00e7\u00f5es daquele dia.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXIV \/ UMA ID\u00c9IA E UM ESCR\u00daPULO<\/h2>\n<p>Relendo o Cap\u00edtulo passado, acode-me uma id\u00e9ia e um escr\u00fapulo. O escr\u00fapulo \u00e9 justamente de escrever a id\u00e9ia, n\u00e3o a havendo mais banal na terra, posto que daquela banalidade do sol e da lua, que o c\u00e9u nos d\u00e1 todos os dias e todos os meses. Deixei o manuscrito, e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas dimens\u00f5es, disposi\u00e7\u00f5es e pinturas, \u00e9 reprodu\u00e7\u00e3o da minha antiga casa de Mata-cavalos. Outrossim, como te disse no Cap\u00edtulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida, o que ali\u00e1s na alcancei. Pois o mesmo sucedeu \u00e0quele sonho do semin\u00e1rio, por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos oficiais do homem \u00e9 fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite mo\u00e7a. Tal \u00e9 a id\u00e9ia banal e nova que eu n\u00e3o quisera p\u00f4r aqui e s\u00f3 provisoriamente a escrevo.<\/p>\n<p>Antes de concluir este Cap\u00edtulo, fui \u00e0 janela indagar da noite por que raz\u00e3o os sonhos h\u00e3o de ser assim t\u00e3o t\u00eanues que se esgar\u00e7am ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e n\u00e3o continuam mais A noite n\u00e3o me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espa\u00e7o morria de sil\u00eancio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos j\u00e1 n\u00e3o pertencem \u00e0 sua jurisdi\u00e7\u00e3o Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu pal\u00e1cio, e donde os fazia sair com as suas caras de v\u00e1ria fei\u00e7\u00e3o, dar-me-ia explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no c\u00e9rebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, n\u00e3o poderiam faz\u00ea-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, s\u00e3o agora objeto da ambi\u00e7\u00e3o e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Era uma alus\u00e3o \u00e0s Filipinas. Pois que n\u00e3o amo a pol\u00edtica, e ainda menos a pol\u00edtica internacional, fechei a janela e vim acabar este cap\u00edtulo para ir dormir. N\u00e3o pe\u00e7o agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da mem\u00f3ria ou da digest\u00e3o; basta-me um sono quieto e apagado. De manh\u00e3, com a fresca, irei dizendo o mais da minha hist\u00f3ria e suas pessoas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXV \/ A DISSIMULA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Chegou S\u00e1bado, chegaram outros s\u00e1bados, e eu acabei afei\u00e7oando me \u00e0 vida nova. Ia alternando a casa e o semin\u00e1rio. Os padres gostavam de mim, os rapazes tamb\u00e9m, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperan\u00e7as; Capitu refreou-me.<\/p>\n<p>&#8211;Escobar \u00e9 muito meu amigo, Capitu!<\/p>\n<p>&#8211;Mas n\u00e3o \u00e9 meu amigo.<\/p>\n<p>&#8211;Pode vir a ser; ele j\u00e1 me disse que h\u00e1 de vir c\u00e1 para conhecer mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o importa; voc\u00ea n\u00e3o tem direito de contar um segredo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 seu, mas tamb\u00e9m meu, e eu n\u00e3o lhe dou licen\u00e7a de dizer nada a pessoa nenhuma.<\/p>\n<p>Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em que obedeci \u00e0s suas reflex\u00f5es foi, logo no primeiro s\u00e1bado, quando eu fui \u00e0 casa dela, e, ap\u00f3s alguns minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.<\/p>\n<p>&#8211;Hoje n\u00e3o fique aqui mais tempo; v\u00e1 para casa, que eu l\u00e1 vou logo. \u00c9 natural que D. Gl\u00f3ria queira estar com voc\u00ea muito tempo, ou todo, se puder.<\/p>\n<p>Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos n\u00e3o se fizeram sen\u00e3o para ser citados, e este \u00e9 t\u00e3o bom que a omiss\u00e3o seria um crime. Foi \u00e0 minha terceira ou quarta vinda \u00e0 casa. Minha m\u00e3e, depois que lhe respondi \u00e0s mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam, os estudos, as rela\u00e7\u00f5es, a disciplina, e se me do\u00eda alguma cousa, e se dormia bem, tudo o que a ternura das m\u00e3es inventa para cansar a paci\u00eancia de um filho, concluiu voltando-se para Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>&#8211;Sr. Jos\u00e9 Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?<\/p>\n<p>&#8211;Excelent\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;E voc\u00ea, Capitu, interrompeu minha m\u00e3e voltando-se para a filha do P\u00e1dua que estava na sala, com ela,&#8211;voc\u00ea n\u00e3o acha que o nosso Bentinho dar\u00e1 um bom padre?<\/p>\n<p>&#8211;Acho que sim, senhora, respondeu Capitu cheia de convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostei da convic\u00e7\u00e3o. Assim lhe disse, na manh\u00e3 seguinte, no quintal dela, recordando as palavras da v\u00e9spera, e lan\u00e7ando-lhe em rosto, pela primeira vez, a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no semin\u00e1rio, quando eu vivia curtido de saudades. Capitu fez-se muito s\u00e9ria, e perguntou-me como \u00e9 que queria que se portasse, uma vez que suspeitavam de n\u00f3s; tamb\u00e9m tivera noites desconsoladas, e os dias, em casa dela, foram t\u00e3o tristes como os meus; podia indag\u00e1-lo do pai e da m\u00e3e. A m\u00e3e chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que n\u00e3o pensasse mais em mim.<\/p>\n<p>&#8211;Com D. Gl\u00f3ria e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que n\u00e3o pare\u00e7a que a den\u00fancia de Jos\u00e9 Dias \u00e9 verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem n\u00e3o me recebendo&#8230; Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro.<\/p>\n<p>Era isto mesmo, dev\u00edamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior, e construir tranq\u00fcilos o nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte, ao almo\u00e7o; minha m\u00e3e, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que m\u00e3o havia eu de aben\u00e7oar o povo \u00e0 missa, contou que, dias antes, estando a falar de mo\u00e7as que se casam cedo, Capitu lhe dissera: &#8220;Pois a mim quem me h\u00e1 de casar h\u00e1 de ser o padre Bentinho, eu espero que ele se ordene!&#8221; Tio Cosme riu da gra\u00e7a, Jos\u00e9 Dias n\u00e3o dessorriu, s\u00f3 prima Justina \u00e9 que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu, que havia olhado para todos, n\u00e3o pude resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas comi mal, estava t\u00e3o contente com aquela grande dissimula\u00e7\u00e3o de Capitu que n\u00e3o vi mais nada, e, logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a ast\u00facia. Capitu sorriu de agradecida.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea tem raz\u00e3o, Capitu, conclu\u00ed eu; vamos enganar toda esta gente.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9? disse ela com ingenuidade.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXVI \/ INTIMIDADE<\/h2>\n<p>Capitu ia agora entrando na alma de minha m\u00e3e. Viviam o mais do tempo juntas, falando de mim, a prop\u00f3sito do sol e da chuva, ou de nada; Capitu ia l\u00e1 coser, \u00e0s manh\u00e3s; alguma vez ficava para jantar.<\/p>\n<p>Prima Justina n\u00e3o acompanhava a parenta naquelas finezas, mas n\u00e3o tratava de todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de algu\u00e9m, e n\u00e3o sentia bem de pessoa alguma Talvez do marido, mas o marido era morto; em todo caso, n\u00e3o existiria homem capaz de competir com ele na afei\u00e7\u00e3o, no trabalho e na honestidade, nas maneiras e na agudeza de esp\u00edrito. Esta opini\u00e3o, segundo tio Cosme, era p\u00f3stuma, pois em vida andavam \u00e0s brigas, e os \u00faltimos seis meses acabaram separados. Tanto melhor para a justi\u00e7a dela; o louvor dos mortos \u00e9 um modo de orar por eles. Tamb\u00e9m gostaria de minha m\u00e3e, ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro. Compreende-se que, de apar\u00eancia, lhe desse a estima devida. N\u00e3o penso que ela aspirasse a algum legado- as pessoas assim dispostas excedem os servi\u00e7os naturais, fazem-se mais risonhas, mais ass\u00edduas, multiplicam os cuidados, precedem os f\u00e2mulos. Tudo isso era contr\u00e1rio \u00e0 natureza de prima Justina, feita de azedume e de implic\u00e2ncia. Como vivesse de favor na casa, explica-se que n\u00e3o desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos, ou s\u00f3 dissesse mal dela a Deus e ao Diabo.<\/p>\n<p>Caso tivesse ressentimentos de minha m\u00e3e, n\u00e3o era uma raz\u00e3o mais para detestar Capitu, nem ela precisava de raz\u00f5es suplementares. Contudo, a intimidade de Capitu f\u00ea-la mais aborrec\u00edvel \u00e0 minha parenta Se a princ\u00edpio n\u00e3o a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. Capitu, atenta, desde que a n\u00e3o via, indagava dela e ia procur\u00e1-la. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida \u00e9 cheia de obriga\u00e7\u00f5es que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. Demais, Capitu usava certa magia que cativa, prima Justina acabava sorrindo, inda que azedo mas a s\u00f3s com minha m\u00e3e achava alguma palavra ruim que dizer da menina.<\/p>\n<p>Como minha m\u00e3e adoecesse de uma febre, que a p\u00f4s \u00e0s portas da morte, quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. Prima Justina, posto que isto a aliviasse de cuidados penosos, n\u00e3o perdoou \u00e0 minha amiga a interven\u00e7\u00e3o. Um dia. perguntou-lhe se n\u00e3o tinha que fazer em casa, outro dia. rindo, soltou-lhe este epigrama: &#8220;N\u00e3o precisa correr tanto; o que tiver de ser seu \u00e0s m\u00e3os lhe h\u00e1 de ir&#8221;.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXVII \/ UM PECADO<\/h2>\n<p>J\u00e1 agora n\u00e3o tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. Ao cabo de cinco dias, minha m\u00e3e amanheceu t\u00e3o transtornada que ordenou me mandassem buscar ao semin\u00e1rio. Em v\u00e3o tio Cosme:<\/p>\n<p>&#8211;Mana Gl\u00f3ria, voc\u00ea assusta-se sem motivo, a febre passa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o! n\u00e3o! mandem busc\u00e1-lo! Posso morrer, e a minha alma n\u00e3o se salva, se Bentinho n\u00e3o estiver ao p\u00e9 de mim.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos assust\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211;Pois n\u00e3o lhe digam nada, mas v\u00e3o busc\u00e1-lo, j\u00e1, j\u00e1, n\u00e3o se demorem.<\/p>\n<p>Cuidaram fosse del\u00edrio- mas, n\u00e3o custando nada trazer-me, Jos\u00e9 Dias foi incumbido do recado. Entrou t\u00e3o atordoado que me assustou. Contou particularmente ao reitor o que havia, e recebi licen\u00e7a para ir a casa. Na rua, \u00edamos calados, ele n\u00e3o alterando o passo do costume,&#8211; a premissa antes da conseq\u00fc\u00eancia, a conseq\u00fc\u00eancia antes da conclus\u00e3o,&#8211;mas cabisbaixo e suspirando, eu temendo ler no rosto dele alguma not\u00edcia dura e definitiva. S\u00f3 me falara na doen\u00e7a, como neg\u00f3cio simples; mas o chamado, o sil\u00eancio, os suspiros podiam dizer alguma cousa mais. O cora\u00e7\u00e3o batia-me com for\u00e7a, as pernas bambeavam-me, mais de uma vez cuidei cair&#8230;<\/p>\n<p>O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto, me envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos, mais me aterrava a id\u00e9ia de chegar a casa, de entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defunto&#8230; Oh! eu n\u00e3o poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terr\u00edveis minutos. A rua, por mais que Jos\u00e9 Dias andasse superlativamente devagar, parecia fugir-me debaixo dos p\u00e9s, as casas voavam de um e outro lado, e uma corneta que nessa ocasi\u00e3o tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do ju\u00edzo final.<\/p>\n<p>Fui, cheguei aos Arcos, entrei na Rua de Mata-cavalos. A casa n\u00e3o era logo ali, mas muito al\u00e9m da dos inv\u00e1lidos, perto da do Senado. Tr\u00eas ou quatro vezes, quisera interrogar o meu companheiro, sem ousar abrir a boca; mas agora, j\u00e1 nem tinha tal desejo. Ia s\u00f3 andando, aceitando o pior, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana, e foi ent\u00e3o que a Esperan\u00e7a, para combater o Terror, me segredou ao cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras, mas uma id\u00e9ia que poderia ser traduzida por elas: &#8220;Mam\u00e3e defunta, acaba o semin\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Leitor, foi um rel\u00e2mpago. T\u00e3o depressa alumiou a noite, como se esvaiu, e a escurid\u00e3o fez-se mais cerrada, pelo efeito do remorso que me ficou. Foi uma sugest\u00e3o da lux\u00faria e do ego\u00edsmo. A piedade filial desmaiou um instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo desaparecimento da d\u00edvida e do devedor; foi um instante, menos que um instante, o cent\u00e9simo de um instante, ainda assim o suficiente para complicar a minha afli\u00e7\u00e3o com um remorso.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias suspirava. Uma vez olhou para mim t\u00e3o cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado, e eu quis pedir-lhe que n\u00e3o dissesse nada a ningu\u00e9m, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena trazia tanto amor, que n\u00e3o podia ser pesar do meu pecado; mas ent\u00e3o era sempre a morte de minha m\u00e3e&#8230; Senti uma ang\u00fastia grande, um n\u00f3 na garganta, e n\u00e3o pude mais, chorei de uma vez.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9, Bentinho?<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o! n\u00e3o! Que id\u00e9ia \u00e9 essa? O estado dela \u00e9 grav\u00edssimo, mas n\u00e3o \u00e9 mal de morte, e Deus pode tudo. Enxugue os olhos, que \u00e9 feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. N\u00e3o h\u00e1 de ser nada, uma febre&#8230; As febres, assim como d\u00e3o com for\u00e7a, assim tamb\u00e9m se v\u00e3o embora&#8230; Com os dedos, n\u00e3o; onde est\u00e1 o len\u00e7o?<\/p>\n<p>Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de Jos\u00e9 Dias uma s\u00f3 me ficasse no cora\u00e7\u00e3o; foi aquele grav\u00edssimo. Vi depois que ele s\u00f3 queria dizer grave, mas o uso do superlativo faz a boca longa, e, por amor do per\u00edodo, Jos\u00e9 Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da mesma fam\u00edlia, avisa-me, leitor para que o emende na segunda edi\u00e7\u00e3o; nada h\u00e1 mais feio que dal pernas longu\u00edssimas a id\u00e9ias brev\u00edssimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ansioso agora por chegar a casa, e pedir perd\u00e3o a minha m\u00e3e do ruim pensamento que tive. Enfim, chegamos, entramos, subi tr\u00eamulo os seis degraus da escada, e da\u00ed a pouco, debru\u00e7ado sobre a cama, ouvia as palavras ternas de minha m\u00e3e que me apertava muito as m\u00e3os, chamando-me seu filho. Estava queimando os olhos ardiam nos meus, toda ela parecia consumida por um vulc\u00e3o interno. Ajoelhei-me ao p\u00e9 do leito, mas como este era alto, fiquei longe das suas car\u00edcias:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, meu filho, levanta, levanta!<\/p>\n<p>Capitu, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os meus gestos, palavras e l\u00e1grimas, segundo me disse depois; mas n\u00e3o suspeitou naturalmente todas as causas da minha afli\u00e7\u00e3o. Entrando no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha m\u00e3e, logo que ela ficasse boa, mas esta id\u00e9ia n\u00e3o me mordia, era uma veleidade pura, uma a\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o faria nunca, por mais que o pecado me doesse Ent\u00e3o levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha m\u00e3e, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. Padre que me l\u00eas, perdoa este recurso; foi a \u00faltima vez que o empreguei A crise em que me achava, n\u00e3o menos que o costume e a f\u00e9, explica tudo. Eram mais dous mil; onde iam os antigos? N\u00e3o paguei uns nem outros, mas saindo de almas c\u00e2ndidas e verdadeiras tais promessas s\u00e3o como a moeda fiduci\u00e1ria,&#8211;ainda que o devedor as n\u00e3o pague, valem a soma que dizem.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXVIII \/ ADIEMOS A VIRTUDE<\/h2>\n<p>Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Mata-cavalos. Eu confessarei tudo o que importar \u00e0 minha hist\u00f3ria. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j&#8217;escris, c&#8217;est moi, c&#8217;est mon essence. Ora, h\u00e1 s\u00f3 um modo de escrever a pr\u00f3pria ess\u00eancia, \u00e9 cont\u00e1-la toda, o bem e o mal. Tal fa\u00e7o eu, \u00e0 medida que me vai lembrando e convidando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o ou reconstru\u00e7\u00e3o de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma bela a\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, se me lembrasse, mas n\u00e3o me lembra; fica transferida a melhor oportunidade.<\/p>\n<p>Nem perder\u00e1s em esperar, meu amigo; ao contr\u00e1rio, acode-me agora que&#8230; N\u00e3o s\u00f3 as belas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o belas em qualquer ocasi\u00e3o como s\u00e3o tamb\u00e9m poss\u00edveis e prov\u00e1veis, pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes, n\u00e3o menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo n\u00famero deles e delas, aliados por matrim\u00f4nio para se compensarem na vida. Quando um de tais c\u00f4njuges \u00e9 mais forte que o outro, ele s\u00f3 guia o indiv\u00edduo, sem que este, por n\u00e3o haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra \u00e9 dar-se a pr\u00e1tica simult\u00e2nea dos dous, com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da terra e do c\u00e9u. \u00e7 pena que eu n\u00e3o possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos; falta-me tempo.<\/p>\n<p>Pelo que me toca, \u00e9 certo que nasci com alguns daqueles casais, e naturalmente ainda os possuo. J\u00e1 me sucedeu, aqui no Engenho Novo, por estar uma noite com muita dor de cabe\u00e7a, desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas, ainda que morresse algu\u00e9m; e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que n\u00e3o trazia bord\u00e3o. Voil\u00e0 mes gestes, voil\u00e0 mon essence.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXIX \/ A MISSA<\/h2>\n<p>Um dos gestos que melhor exprimem a minha ess\u00eancia foi a devo\u00e7\u00e3o com que corri no domingo pr\u00f3ximo a ouvir missa em S. Ant\u00f4nio dos Pobres. O agregado quis ir comigo, e principiou a vestir-se, mas era t\u00e3o lento nos suspens\u00f3rios e nas presilhas, que n\u00e3o pude esperar por ele. Demais, eu queria estar s\u00f3. Sentia necessidade de evitar qualquer conversa\u00e7\u00e3o que me desviasse o pensamento do fim a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no Cap\u00edtulo LXVII. Nem era s\u00f3 pedir-lhe perd\u00e3o do pecado, era tamb\u00e9m agradecer o restabelecimento de minha m\u00e3e, e, visto que digo tudo, faz\u00ea-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. Jeov\u00e1, posto que divino, ou por isso mesmo, \u00e9 um Rothschild muito mais humano, e n\u00e3o faz morat\u00f3rias, perdoa as d\u00edvidas integralmente, uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. Ora, eu n\u00e3o queria outra cousa; dali em diante n\u00e3o faria mais promessas que n\u00e3o pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.<\/p>\n<p>Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e sa\u00fade de minha m\u00e3e; depois pedi perd\u00e3o do pecado e revela\u00e7\u00e3o da d\u00edvida, e recebi a b\u00ean\u00e7\u00e3o final do oficiante como um ato solene de reconcilia\u00e7\u00e3o. No fim, lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confession\u00e1rio um cart\u00f3rio seguro, e na confiss\u00e3o o mais aut\u00eantico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. Mas a minha incorrig\u00edvel timidez me fechou essa porta certa; receei n\u00e3o achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a public\u00e1-lo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXX \/ DEPOIS DA MISSA<\/h2>\n<p>Rezei anda, persignei-me, fechei o livro de missa e caminhei para a porta. A gente n\u00e3o era muita, mas a igreja tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 grande, e n\u00e3o pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, velhos e mo\u00e7os, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e belos, mas eu n\u00e3o vi uns nem outros. Ia na dire\u00e7\u00e3o da porta, com a onda, ouvindo as sauda\u00e7\u00f5es e os cochichos. No adro, onde se fez claro, parei e olhei para todos. Vi ent\u00e3o uma mo\u00e7a e um homem, que sa\u00edam da igreja e pararam; e a mo\u00e7a olhava para mim falando ao homem, e o homem olhava para mim, ouvindo a mo\u00e7a. E chegaram-me estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211;Mas que queres?<\/p>\n<p>&#8211;Queria saber dela; papai pergunte.<\/p>\n<p>Era sinhazinha Sancha, a companheira de col\u00e9gio de Capitu que queria not\u00edcias de minha m\u00e3e. O pai veio a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois sa\u00edmos, mostrou-me a casa dele, e, como eu vinha na mesma dire\u00e7\u00e3o, viemos juntos. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais, com propens\u00e3o a engrossar o ventre; era muito obsequioso; chegando \u00e0 porta da casa, quis por for\u00e7a que eu fosse almo\u00e7ar com ele.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado; mam\u00e3e espera-me. [<\/p>\n<p>&#8212; Manda-se l\u00e1 um preto dizer que o senhor fica almo\u00e7ando, e ira mais tarde.<\/p>\n<p>&#8211;Venho outro dia.<\/p>\n<p>Sinhazinha Sancha, voltada para o pai, ouvia e esperava. N\u00e3o ela feia; s\u00f3 se lhe podia notar a semelhan\u00e7a do nariz, que tamb\u00e9m acabava grosso, mas h\u00e1 fei\u00e7\u00f5es que tiram a gra\u00e7a de uns para d\u00e1-la a outros. Vestia simples. Gurgel era vi\u00favo e morria pela filha. Como eu recusasse o almo\u00e7o, quis que descansasse alguns minutos. N\u00e3o pude recusar e subi. Quis saber a minha idade, os meus estudos, a minha f\u00e9, e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre; disse me o n\u00famero do armaz\u00e9m, Rua da Quitanda. Enfim, despedi-me veio ao patamar da escada; a filha deu-me recomenda\u00e7\u00f5es para Capitu e para minha m\u00e3e. Da rua olhei para cima; o pai estava \u00e0 janela e fez-me um gesto largo de despedida.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXI \/ VISITA DE ESCOBAR<\/h2>\n<p>Em casa, tinham j\u00e1 mentido dizendo a minha m\u00e3e que eu voltara e estava mudando de roupa.<\/p>\n<p>&#8220;A missa das oito j\u00e1 h\u00e1 de ter acabado&#8230; Bentinho devia est\u00e1 de volta&#8230; Teria acontecido alguma cousa, mano Cosme?&#8230; Mandem ver&#8230;&#8221; Assim falava ela, de minuto a minuto, mas eu entrei e comigo a tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>Era o dia das boas sensa\u00e7\u00f5es. Escobar foi visitar-me e saber da sa\u00fade de minha m\u00e3e. Nunca me visitara at\u00e9 ali, nem as nossas rela\u00e7\u00f5es estavam J\u00e1 t\u00e3o estreitas, como vieram a ser depois- mas sabendo a raz\u00e3o da minha sa\u00edda, tr\u00eas dias antes, aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou n\u00e3o. Quando lhe disse que n\u00e3o, respirou.<\/p>\n<p>&#8211;Tive receio, disse ele.<\/p>\n<p>&#8211;Os outros souberam?<\/p>\n<p>&#8211;Parece que sim: alguns souberam.<\/p>\n<p>Tio Cosme e Jos\u00e9 Dias gostaram do mo\u00e7o; o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido e, conquanto falasse mais do que veio a falar depois ainda assim n\u00e3o era tanto como os rapazes da nossa idade; naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Tio Cosme quis que jantasse conosco. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:<\/p>\n<p>&#8211;Manda-se l\u00e1 um preto dizer que o senhor janta aqui, e ir\u00e1 depois.<\/p>\n<p>&#8211;Tanto inc\u00f4modo!<\/p>\n<p>&#8211;Inc\u00f4modo nenhum, interveio tio Cosme.<\/p>\n<p>Escobar aceitou e jantou. Notei que os movimentos r\u00e1pidos que tinha e dominava na aula, tamb\u00e9m os dominava agora, na sala como na mesa. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possu\u00eda. Gostou muito do retrato de meu pai; depois de alguns instantes de contempla\u00e7\u00e3o, virou-se e disse-me:<\/p>\n<p>&#8211;V\u00ea-se que era um cora\u00e7\u00e3o puro!<\/p>\n<p>Os olhos de Escobar, claros como j\u00e1 disse, eram dulc\u00edssimos; assim os definiu Jos\u00e9 Dias, depois que ele saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. Nisto n\u00e3o houve exagera\u00e7\u00e3o do agrado. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa \u00e9 que era um pouso baixa, vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda- mas tinha sempre a altura necess\u00e1ria para n\u00e3o afrontar as outras fei\u00e7\u00f5es, nem diminuir a gra\u00e7a delas. Realmente, era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito, de quando em quando e veio a perd\u00ea-lo, desde que um de n\u00f3s lhe notou um dia no semin\u00e1rio; primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos mi\u00fados.<\/p>\n<p>Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma prima Justina achou que era um mo\u00e7o muito apreci\u00e1vel, apesar&#8230; Apesar de qu\u00ea? perguntou-lhe Jos\u00e9 Dias, vendo que ela n\u00e3o acabava a frase. N\u00e3o teve resposta, nem podia t\u00ea-la; prima Justina provavelmente n\u00e3o viu defeito claro ou importante no nosso h\u00f3spede; o apesar era uma esp\u00e9cie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia.; ou ent\u00e3o foi obra de uso velho, que levou a restringir, onde n\u00e3o achara restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui lev\u00e1-lo \u00e0 porta, onde esperamos a passagem de um \u00f4nibus. Disse-me que o armaz\u00e9m do correspondente era na Rua dos Pescadores, e ficava aberto at\u00e9 \u00e0s nove horas: ele \u00e9 que se n\u00e3o queria demorar fora. Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do \u00f4nibus, ainda me disse adeus, com a m\u00e3o. Conservei-me \u00e0 porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para tr\u00e1s, mas n\u00e3o olhou.<\/p>\n<p>&#8211;Que amigo \u00e9 esse tamanho? perguntou algu\u00e9m de uma janela ao p\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que era Capitu. S\u00e3o cousas que se adivinham na vida, como nos livros, sejam romances, sejam hist\u00f3rias verdadeiras. Era Capitu, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro da veneziana, e agora abrira inteiramente a janela, e aparecera. Viu as nossas despedidas t\u00e3o rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o Escobar, disse eu indo p\u00f4r-me embaixo da janela, a olhar para cima.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LX \/ UMA REFORMA DRAM\u00c1TICA<\/h2>\n<p>Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta hist\u00f3ria poderia responder mais, t\u00e3o certo \u00e9 que o destino, como todos os dramaturgos, n\u00e3o anuncia as perip\u00e9cias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, at\u00e9 que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores v\u00e3o dormir. Nesse g\u00eanero h\u00e1 porventura alguma cousa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as pe\u00e7as come\u00e7assem pelo fim. Otelo mataria a si e a Desd\u00eamona no primeiro ato, os tr\u00eas seguintes seriam dados \u00e0 a\u00e7\u00e3o lenta e decrescente do ci\u00fame, e o \u00faltimo ficaria s\u00f3 com as cenas iniciais da amea\u00e7a dos turcos, as explica\u00e7\u00f5es de Otelo e Desd\u00eamona, e o bom conselho do fino lago: &#8220;Mete dinheiro na bolsa.&#8221; Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no teatro a charada habitual que os peri\u00f3dicos lhe d\u00e3o, por que os \u00faltimos atos explicam o desfecho do primeiro, esp\u00e9cie de: conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impress\u00e3o de ternura e de amor:<\/p>\n<p>Ela amou o que me afligira,<\/p>\n<p>Eu amei a piedade dela.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXIII \/ O CONTRA-REGRA<\/h2>\n<p>O destino n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dramaturgo, \u00e9 tamb\u00e9m o seu pr\u00f3prio contra-regra, isto \u00e9, designa a entrada dos personagens em cena, d\u00e1-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao di\u00e1logo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era mo\u00e7a representou-se a\u00ed, em n\u00e3o sei que teatro, um drama que acabar pelo ju\u00edzo final. O principal personagem era Asaverus, que no \u00faltimo quadro conclu\u00eda um mon\u00f3logo por esta exclama\u00e7\u00e3o: &#8220;Ou\u00e7o a trombeta do arcanjo!&#8221; N\u00e3o se ouviu trombeta nenhuma. Asaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas ainda nada. Ent\u00e3o caminhou para o fundo, disfar\u00e7adamente tr\u00e1gico, mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: &#8220;O pis\u00e3o! o pis\u00e3o! o pis\u00e3o!&#8221; O p\u00fablico ouviu esta palavra e desatou a rir, at\u00e9 que, quando a trombeta soou deveras, e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo, um gaiato da plat\u00e9ia corrigiu c\u00e1 de baixo: &#8220;N\u00e3o, senhor, \u00e9 o pist\u00e3o do arcanjo&#8221;<\/p>\n<p>Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro, um dandy, como ent\u00e3o diz\u00edamos. Montava um belo cavalo alaz\u00e3o, firme na sela, r\u00e9dea na m\u00e3o esquerda a direita \u00e0 cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara n\u00e3o me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atr\u00e1s; todos iam \u00e0s suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavalo. Rel\u00ea Alencar: &#8220;Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de teatro de 1858) n\u00e3o pode estar sem estas duas cousas, um cavalo e uma namorada.&#8221; Rel\u00ea Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias \u00e9 destinada a contar (1851) que residia em Catumbi, e, para ver a namorada no Catete, alugara um cavalo por tr\u00eas mil-r\u00e9is&#8230; Tr\u00eas mil-r\u00e9is! tudo se perde na noite dos tempos!<\/p>\n<p>Ora, o dandy do cavalo baio n\u00e3o passou como os outros; era a trombeta do ju\u00edzo final e soou a tempo; assim faz o Destino. que \u00e9 o seu pr\u00f3prio contra-regra. O cavaleiro n\u00e3o se contentou de ir andando, mas voltou a cabe\u00e7a para o nosso lado, o lado de Capitu e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo andava, a cabe\u00e7a do homem deixava-se ir voltando para tr\u00e1s. Tal foi o segundo dente de ci\u00fame que me mordeu. A rigor, era natural admirar as belas figuras; mas aquele sujeito costumava passar ali, \u00e0s tardes; morava no antigo Campo da Aclama\u00e7\u00e3o, e depois&#8230; e depois&#8230; V\u00e3o l\u00e1 raciocinar com um cora\u00e7\u00e3o de brasa, como era o meu! Nem disse nada a Capitu; sa\u00ed da rua \u00e0 pressa, enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim, estava na sala de visitas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXIV \/ A PRESILHA<\/h2>\n<p>Na sala de visitas, tio Cosme e Jos\u00e9 Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. A vista de Jos\u00e9 Dias lembrou-me o que ele me dissera no semin\u00e1rio: &#8220;Aquilo enquanto n\u00e3o pegar algum peralta da vizinhan\u00e7a que case com ela&#8230;&#8221; Era certamente alus\u00e3o ao cavaleiro. Tal recorda\u00e7\u00e3o agravou a impress\u00e3o que eu trazia da rua; mas n\u00e3o seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me disp\u00f4s a crer na mal\u00edcia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em Jos\u00e9 Dias pela gola, lev\u00e1-lo ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hip\u00f3tese; mas Jos\u00e9 Dias, que parara ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir \u00e0 casa ao p\u00e9, imaginava que Capitu sa\u00edsse da janela assustada e n\u00e3o tardasse a aparecer, para indagar e explicar&#8230; E os dous falavam, at\u00e9 que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente, e Jos\u00e9 Dias veio ter comigo, ao v\u00e3o da outra janela.<\/p>\n<p>H\u00e1 um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-mo, fiquei com medo de ouvi-lo. Quis tapar-lhe a boca. Jos\u00e9 Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da express\u00e3o habitual, e perguntou-me com interesse:<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9, Bentinho?<\/p>\n<p>Para n\u00e3o fit\u00e1-lo, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das cal\u00e7as do agregado estava desabotoada, e, como ele insistisse em saber o que \u00e9 que eu tinha, respondi apontando com o dedo:<\/p>\n<p>&#8211;Olhe a presilha, abotoe a presilha.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias inclinou-se, eu sa\u00ed correndo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXV \/ O DESESPERO<\/h2>\n<p>Escapei ao agregado, escapei a minha m\u00e3e n\u00e3o indo ao quarto dela, mas n\u00e3o escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atr\u00e1s de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me \u00e0 cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os solu\u00e7os com a ponta do len\u00e7ol. Jurei n\u00e3o ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me j\u00e1 ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perd\u00e3o, mas eu, frio e sereno, n\u00e3o teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.<\/p>\n<p>Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha m\u00e3e, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, n\u00e3o me fez sair do quarto e Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuei surdo, a s\u00f3s comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pesco\u00e7o, enterr\u00e1-las bem, at\u00e9 ver-lhe sair a vida com o sangue&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXVI \/ EXPLICA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Ao fim de algum tempo, estava sossegado, mas abatido. Como me achasse estirado na cama, com os olhos no tecto, lembrou-me a recomenda\u00e7\u00e3o que minha m\u00e3e fazia de me n\u00e3o deitar depois do jantar para evitar alguma congest\u00e3o. Ergui-me de golpe, mas n\u00e3o sa\u00ed do quarto. Capitu ria agora menos e falava mais baixo; estaria aflita E com a minha reclus\u00e3o, mas nem por isso me abalou.<\/p>\n<p>N\u00e3o ceei e dormi mal. Na manh\u00e3 seguinte n\u00e3o estava melhor, estava diferente. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido al\u00e9m do que convinha, deixando de examinar o neg\u00f3cio. Posto que a cabe\u00e7a me doesse um pouco, simulei maior inc\u00f4modo, com o fim de n\u00e3o ir ao semin\u00e1rio e falar a Capitu. Podia estar zangada comigo, podia n\u00e3o querer-me agora e preferir o cavaleiro. Quis resolver tudo, ouvi-la e julg\u00e1-la; podia ser que tivesse defesa e explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa da minha reclus\u00e3o da v\u00e9spera, disse-me que era grande inj\u00faria que lhe fazia; n\u00e3o podia crer que depois da nossa troca de juramentos, t\u00e3o leviana a julgasse que pudesse crer&#8230; E aqui romperam-lhe l\u00e1grimas, e fez um gesto de separa\u00e7\u00e3o; mas eu acudi de pronto, peguei-lhe das m\u00e3os e beijei as com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou os olhos com os dedos, eu os beijei de novo, por eles e pelas l\u00e1grimas; depois suspirou, depois abanou a cabe\u00e7a. Confessou-me que n\u00e3o conhecia o rapaz, sen\u00e3o como os outros que ali passavam \u00e0s tardes, a cavalo ou a p\u00e9. Se olhara para ele, era prova exatamente de n\u00e3o haver nada entre ambos; se houvesse, era natural dissimular.<\/p>\n<p>&#8211;E que poderia haver, se ele vai casar? concluiu.<\/p>\n<p>&#8211;Vai casar?<\/p>\n<p>Ia casar, disse-me com quem, com uma mo\u00e7a da Rua dos Barbonos. Esta raz\u00e3o quadrou-me mais que tudo, e ela o sentiu no meu gesto; nem por isso deixou de dizer que, para evitar nova equivoca\u00e7\u00e3o, deixaria de ir mais \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o! n\u00e3o! n\u00e3o! n\u00e3o lhe pe\u00e7o isto!<\/p>\n<p>Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra, e foi que, \u00e0 primeira suspeita da minha parte, tudo estaria dissolvido entre n\u00f3s Aceitei a amea\u00e7a, e jurei que nunca a haveria de cumprir; era a primeira suspeita e a \u00faltima.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXVII \/ PRAZER DAS DORES VELHAS<\/h2>\n<p>Contando aquela crise do meu amor adolescente, sinto uma cousa que n\u00e3o sei se explico bem, e \u00e9 que as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo que chegam a diluir-se no prazer. N\u00e3o \u00e9 claro isto, mas nem tudo \u00e9 claro na vida ou nos livros A verdade \u00e9 que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento, quando \u00e9 certo que ele me lembra outros que n\u00e3o quisera lembrar por nada.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXVIII \/ SEGREDO POR SEGREDO<\/h2>\n<p>De resto, naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a algu\u00e9m o que se passava entre mim e Capitu. N\u00e3o referi tudo, mas s\u00f3 uma parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao semin\u00e1rio, na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me que era sua inten\u00e7\u00e3o ir ver-me, se eu me demorasse mais um dia em casa. Perguntava-me com interesse o que \u00e9 que tivera, e se estava bom de todo.<\/p>\n<p>&#8211;Estou.<\/p>\n<p>Ouvia, espetando-me os olhos. Tr\u00eas dias depois disse que me estavam achando muito distra\u00eddo; era bom disfar\u00e7ar o mais que pudesse. Ele, \u00e0 sua parte, tinha raz\u00f5es para andar distra\u00eddo tamb\u00e9m, mas buscava ficar atento.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o parece-lhe?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Sim, voc\u00ea \u00e0s vezes est\u00e1 que n\u00e3o ouve nada. olhando para ontem; disfarce, Santiago.<\/p>\n<p>&#8211;Tenho motivos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Creio; ningu\u00e9m se distrai \u00e0 toa.<\/p>\n<p>&#8211;Escobar&#8230;<\/p>\n<p>Hesitei; ele esperou.<\/p>\n<p>&#8211;Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Escobar, voc\u00ea \u00e9 meu amigo, eu sou seu amigo tamb\u00e9m; aqui ao semin\u00e1rio voc\u00ea \u00e9 a pessoa que mais me tem entrado no cora\u00e7\u00e3o, e l\u00e1 fora, a n\u00e3o ser a gente da fam\u00edlia, n\u00e3o tenho propriamente um amigo.<\/p>\n<p>&#8211;Se eu disser a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perde a gra\u00e7a; parece que estou repetindo. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o tenho aqui rela\u00e7\u00f5es com ningu\u00e9m, voc\u00ea \u00e9 o primeiro e creio que j\u00e1 notaram, mas eu n\u00e3o me importo com isso.<\/p>\n<p>Comovido, senti que a voz se me precipitava da garganta.<\/p>\n<p>&#8211;Escobar, voc\u00ea \u00e9 capaz de guardar um segredo?<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea que pergunta \u00e9 porque duvida, e nesse caso. ..<\/p>\n<p>&#8211;Desculpe, \u00e9 um modo de falar. Eu sei que \u00e9 mo\u00e7o s\u00e9rio, e fa\u00e7o de conta que me confesso a um padre.<\/p>\n<p>&#8211;Se precisa de absolvi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 absolvido.<\/p>\n<p>&#8211;Escobar, eu n\u00e3o posso ser padre. Estou aqui, os meus acreditam, e esperam; mas eu n\u00e3o posso ser padre.<\/p>\n<p>&#8211;Nem eu, Santiago.<\/p>\n<p>&#8211;Nem voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Segredo por segredo; tamb\u00e9m eu tenho o prop\u00f3sito de n\u00e3o acabar o curso; meu desejo \u00e9 o com\u00e9rcio, mas n\u00e3o diga nada, absolutamente nada- fica s\u00f3 entre n\u00f3s. E n\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o seja religioso; sou religioso, mas o com\u00e9rcio \u00e9 a minha paix\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00f3 isso?<\/p>\n<p>&#8211;Que mais h\u00e1 de ser?<\/p>\n<p>Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confid\u00eancia, t\u00e3o escassa e surda, que n\u00e3o a ouvi eu mesmo; sei por\u00e9m que disse &#8220;uma pessoa&#8230;&#8221; com retic\u00eancia. Uma pessoa?&#8230; N\u00e3o foi preciso mais para que ele entendesse. Uma pessoa devia ser uma mo\u00e7a. Nem cuides que pasmou de me ver namorado; achou at\u00e9 natural e espetou-me outra vez os olhos. Ent\u00e3o contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto Escobar escutava com interesse; no fim da nossa conversa\u00e7\u00e3o declarou-me que era segredo enterrado em cemit\u00e9rio. Deu-me de conselhos que n\u00e3o me fizesse padre. N\u00e3o podia levar para a igreja um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era do c\u00e9u, mas da terra; seria um mau padre, nem seria padre. Ao contr\u00e1rio, Deus protegia os sinceros; uma vez que eu s\u00f3 podia servi-lo no mundo, a\u00ed me cumpria ficar.<\/p>\n<p>N\u00e3o calculas o prazer que me deu a confid\u00eancia que lhe fiz. Era como que uma felicidade mais. Aquele cora\u00e7\u00e3o mo\u00e7o que me ouvia e me dava raz\u00e3o, trazia a este mundo um aspecto extraordin\u00e1rio. Era um grande e belo mundo, a vida uma carreira excelente, e eu nem mais nem menos um mimoso do c\u00e9u; eis a minha sensa\u00e7\u00e3o. Nota que eu n\u00e3o lhe disse tudo, nem o melhor; n\u00e3o lhe referi o Cap\u00edtulo do penteado, por exemplo, nem outros assim; mas o contado era multo.<\/p>\n<p>Que voltamos ao assunto, n\u00e3o \u00e9 preciso diz\u00ea-lo. Voltamos uma e muitas vezes: eu louvava as qualidades morais de Capitu, mat\u00e9ria adequada \u00e0 admira\u00e7\u00e3o de um seminarista, a simpleza, a mod\u00e9stia. O amor do trabalho e os costumes religiosos. N\u00e3o lhe tocava nas gra\u00e7as f\u00edsicas, nem ele me perguntava por elas; apenas insinuei a conveni\u00eancia de a conhecer de vista.<\/p>\n<p>&#8211;Agora n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, disse-lhe na primeira semana, ao voltar de casa; Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inv\u00e1lidos. Quando ela vier, voc\u00ea ir\u00e1 l\u00e1; mas pode ir antes, pode ir sempre; por que n\u00e3o foi ontem jantar comigo?<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea n\u00e3o me convidou.<\/p>\n<p>&#8212; Pois precisa convidar? L\u00e1 em casa todos ficaram gostando muito de voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu fiquei gostando de todos, mas \u00e9 poss\u00edvel fazer distin\u00e7\u00e3o, confesso-lhe que sua m\u00e3e \u00e9 uma senhora ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 verdade? retorqui cheio de alvoro\u00e7o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXIX \/ VAMOS AO CAP\u00cdTULO<\/h2>\n<p>Com efeito, gostei de ouvi-lo falar assim. Sabes a opini\u00e3o que eu tinha de minha m\u00e3e. Ainda agora, depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede, acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade. Nem de outro modo se explica a opini\u00e3o de Escobar, que apenas trocara com ela quatro palavras Uma s\u00f3 bastava a penetrar-lhe a ess\u00eancia \u00edntima; sim, sim, minha m\u00e3e era ador\u00e1vel. Por mais que me estivesse ent\u00e3o obrigando a uma carreira que eu n\u00e3o queria, n\u00e3o podia deixar de sentir que era ador\u00e1vel, como uma santa.<\/p>\n<p>E porventura era certo que me obrigava \u00e0 carreira eclesi\u00e1stica? Aqui chego a um ponto, que esperei viesse depois tanto que j\u00e1 pesquisava em que altura lhe daria um Cap\u00edtulo. Realmente, n\u00e3o cabia dizer agora o que s\u00f3 mais tarde presumi descobrir, mas, uma vez que toquei no ponto, melhor \u00e9 acabar com ele. \u00c9 grave e complexo, delicado e sutil, um destes em que o autor tem de atender ao filho, e o filho h\u00e1 de ouvir o autor, para que um e outro digam a verdade, s\u00f3 a verdade, mas toda a verdade. Cabe ainda notar que esse ponto \u00e9 que torna justamente a santa mais ador\u00e1vel, sem preju\u00edzo (ao contr\u00e1rio!) da parte humana e terrestre que havia nela. Basta de pref\u00e1cio ao Cap\u00edtulo; vamos ao Cap\u00edtulo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXX \/ VENHAMOS AO CAP\u00cdTULO<\/h2>\n<p>Venhamos ao Cap\u00edtulo. Minha m\u00e3e era temente a Deus; sabes disto, das suas pr\u00e1ticas religiosas, e da f\u00e9 pura que as animava. Nem ignoras que a minha carreira eclesi\u00e1stica era objeto de promessa feita quando fui concebido. Tudo est\u00e1 contado oportunamente. Outorgam, sabes que para o fim de apertar o v\u00ednculo moral da obriga\u00e7\u00e3o, confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. A promessa, feita com fervor, aceita com miseric\u00f3rdia, foi guardada por ela, com alegria, no mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. Meu pai, se vivesse, \u00e9 poss\u00edvel que alterasse os planos, e, como tinha a voca\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, \u00e9 prov\u00e1vel que me encaminhasse somente \u00e0 pol\u00edtica, embora os dous of\u00edcios n\u00e3o fossem nem sejam inconcili\u00e1veis, e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. Mas meu pai morrera sem saber nada, e ela ficou diante do contrato, como \u00fanica devedora.<\/p>\n<p>Um dos aforismos de Franklin \u00e9 que, para quem tem de pagar na p\u00e1scoa, a quaresma \u00e9 curta. A nossa quaresma n\u00e3o foi mais longa que as outras, e minha m\u00e3e, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, come\u00e7ou a adiar a minha entrada no semin\u00e1rio. \u00c9 o que se chama, comercialmente falando, reformar uma letra. O credor era arquimilion\u00e1rio, n\u00e3o dependia daquela quantia para comer, e consentiu nas transfer\u00eancias de pagamento, sem sequer agravar a taxa do juro. Um dia. por\u00e9m, um dos familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de entregar o pre\u00e7o ajustado; est\u00e1 num dos Cap\u00edtulos primeiros. Minha m\u00e3e concordou e recolhi-me a S. Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Ora, nesse mesmo Cap\u00edtulo, verteu ela umas l\u00e1grimas, que enxugou sem explicar, e que nenhum dos presentes nem tio Cosme, nem prima Justina, nem o agregado Jos\u00e9 Dias entendeu absolutamente: eu, que estava atr\u00e1s da porta, n\u00e3o as entendi mais que eles. Bem examinadas, apesar da distancia, v\u00ea-se que eram saudades pr\u00e9vias, a m\u00e1goa da separa\u00e7\u00e3o, &#8212; e pode ser tamb\u00e9m (\u00e9 o princ\u00edpio do ponto), pode ser que arrependimento da promessa. Cat\u00f3lica e devota, sentia muito bem que as promessas se cumprem; a quest\u00e3o \u00e9 se \u00e9 oportuno e adequado faz\u00ea-las todas, e naturalmente inclinava-se \u00e0 negativa. Por que \u00e9 que Deus a puniria, negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida, sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. Era um racioc\u00ednio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma conclus\u00e3o primeira; mas, n\u00e3o bastando concluir para destruir, tudo se manteve, e eu fui para o semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um cochilo da f\u00e9 teria resolvido a quest\u00e3o a meu favor, mas a f\u00e9 velava com os seus grandes olhos ing\u00eanuos. Minha m\u00e3e faria, st pudesse, uma troca de promessa, dando parte dos seus anos para conservar-me consigo, fora do clero, casado e pai: \u00e9 o que presumo, assim como suponho que rejeitou tal id\u00e9ia, por lhe parecer uma deslealdade. Assim a senti sempre na corrente da vida ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sucedeu que a minha aus\u00eancia foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. Esta come\u00e7ou a fazer-se-lhe necess\u00e1ria. Pouco a pouco veio-lhe a persuas\u00e3o de que a pequena me faria feliz. Ent\u00e3o (\u00e9 o final do ponto anunci\u00e1-lo), a esperan\u00e7a de que o nosso amor, tornando-me absolutamente incompat\u00edvel com o semin\u00e1rio, me levasse a n\u00e3o ficar l\u00e1 nem por Deus nem pelo Diabo, esta esperan\u00e7a \u00edntima e secreta entrou a invadir o cora\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e. Neste caso, eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. Era como se, tendo confiado a algu\u00e9m a import\u00e2ncia de uma d\u00edvida para lev\u00e1-la ao credor o portador guardasse o dinheiro consigo e n\u00e3o levasse nada. Na vida comum, o ato de terceiro n\u00e3o desobriga o contratante; mas a vantagem de contratar com o c\u00e9u \u00e9 que inten\u00e7\u00e3o vale dinheiro.<\/p>\n<p>H\u00e1s de ter tido conflitos parecidos com esse, e, se \u00e9s religioso, haver\u00e1s buscado alguma vez conciliar o c\u00e9u e a terra, por modo id\u00eantico ou an\u00e1logo. O c\u00e9u e a terra acabam conciliando-se; eles s\u00e3o quase irm\u00e3os g\u00eameos, tendo o c\u00e9u sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. Como Abra\u00e3o, minha m\u00e3e levou o filho ao monte da Vis\u00e3o, e mais a lenha para o holocausto, o fogo e o cutelo. E atou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou do cutelo e levantou-o ao alto. No momento de faz\u00ea-lo cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: &#8220;N\u00e3o fa\u00e7as mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus&#8221;. Tal seria a esperan\u00e7a secreta de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. A verdade \u00e9 que minha m\u00e3e n\u00e3o podia t\u00ea-la agora longe de si. A afei\u00e7\u00e3o crescente era manifesta por atos extraordin\u00e1rios. Capitu passou a ser a flor da casa, o sol das manh\u00e3s, o frescor das tardes, a lua das noites; l\u00e1 vivia horas e horas, ouvindo, falando e cantando. Minha m\u00e3e apalpava-lhe o cora\u00e7\u00e3o, revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXI \/ UMA PALAVRA<\/h2>\n<p>Assim contado o que descobri mais tarde, posso trasladar para aqui uma palavra de minha m\u00e3e. Agora se entender\u00e1 que ela me dissesse, no primeiro s\u00e1bado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capitu estava na Rua dos Inv\u00e1lidos, com sinhazinha Gurgel:<\/p>\n<p>&#8211;Por que n\u00e3o vais v\u00ea-la? N\u00e3o me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa?<\/p>\n<p>&#8211;Ofereceu.<\/p>\n<p>&#8211;Pois ent\u00e3o? Mas \u00e9 se queres. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo; certamente a amiga pediu-lhe que dormisse l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211;Talvez ficassem namorando, insinuou prima Justina.<\/p>\n<p>N\u00e3o a matei por n\u00e3o ter \u00e0 m\u00e3o ferro nem corda, pistola nem punhal- mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam suprido tudo. Um dos erros da Provid\u00eancia foi deixar ao homem unicamente os bra\u00e7os e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingan\u00e7a pronta, com este acr\u00e9scimo que, para desnortear a justi\u00e7a, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a v\u00edtima. Prima Justina escapou aos meus; eu e que n\u00e3o escapei ao efeito da insinua\u00e7\u00e3o, e no domingo, \u00e0s onze horas, corri \u00e0 Rua dos Inv\u00e1lidos.<\/p>\n<p>O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava enferma- ca\u00edra na v\u00e9spera com uma febre, que se ia agravando. Como ele queria muito \u00e0 filha, pensava j\u00e1 v\u00ea-la morta, e anunciou-me que se mataria tamb\u00e9m. Eis aqui um Cap\u00edtulo f\u00fanebre como um cemit\u00e9rio, mortes, suic\u00eddios e assassinatos. Eu ansiava por um raio de luz clara e c\u00e9u azul. Foi Capitu que os trouxe \u00e0 porta da sala, vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 pior? perguntou Gurgel assustado.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, senhor, mas quer falar-lhe.<\/p>\n<p>&#8211;Fique aqui um bocadinho, disse-lhe ele; e voltando-se para mim: E a enfermeira de Sancha, que n\u00e3o quer outra; eu j\u00e1 volto.<\/p>\n<p>Capitu trazia sinais de fadiga e como\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o depressa me viu, ficou toda outra, a mocinha de sempre, fresca e lepida, n\u00e3o menos que espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me, quis que lhe falasse, e efetivamente conversamos por alguns minutos, mas s\u00e3o t\u00e3o baixo e abafado que nem as paredes ouviram, elas que t\u00eam ouvidos. De resto, se elas ouviram algo, nada entenderam, nem elas nem os m\u00f3veis, que estavam t\u00e3o tristes como o dono.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXII \/ O CANAP\u00c9<\/h2>\n<p>Deles, s\u00f3 o canap\u00e9 pareceu haver compreendido a nossa situa\u00e7\u00e3o moral, visto que nos ofereceu os servi\u00e7os da sua palhinha, com tal insist\u00eancia que os aceitamos e nos sentamos. Data da\u00ed a opini\u00e3o particular que tenho do canap\u00e9. Ele faz aliar a intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dous homens sentados nele podem debater o destino de um imp\u00e9rio, e duas mulheres a gra\u00e7a de um vestido- mas, um homem e uma mulher s\u00f3 por aberra\u00e7\u00e3o das leis naturais dir\u00e3o outra cousa que n\u00e3o seja de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitu e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei- a febre parece que cede&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita \u00e0 Rua dos inv\u00e1lidos, com a pura verdade, isto \u00e9, a conselho de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Conselho dela? murmurou Capitu.<\/p>\n<p>E acrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente &#8212; Seremos felizes!<\/p>\n<p>Repeti estas palavras, com os simples dedos, apertando os dela. O canap\u00e9, quer visse ou n\u00e3o, continuou a prestar os seus servi\u00e7o \u00e0s nossas m\u00e3os presas e \u00e0s nossas cabe\u00e7as juntas ou quase juntas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXIII \/ O RETRATO<\/h2>\n<p>Gurgel tornou \u00e0 sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. Eu levantei-me depressa e n\u00e3o achei compostura; metia os olhos pelas cadeiras. Ao contr\u00e1rio, Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentar\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, disse ele.<\/p>\n<p>Nem sobressalto nem nada, nenhum ar de mist\u00e9rio da parte de Capitu; voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembran\u00e7as a minha m\u00e3e e a prima Justina, e que at\u00e9 breve, estendeu-me a m\u00e3o e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas foram com ela. Como era poss\u00edvel que Capitu se governasse t\u00e3o facilmente e eu n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 uma mo\u00e7a, observou Gurgel olhando tamb\u00e9m para ela.<\/p>\n<p>Murmurei que sim. Na verdade, Capitu ia crescendo \u00e0s carreiras as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade moralmente a mesma cousa. Era mulher por dentro e por fora, mulher \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, mulher por todos os lados, e desde os p\u00e9s at\u00e9 \u00e0 cabe\u00e7a. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam ter outra reflex\u00e3o, e a boca outro imp\u00e9rio. Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de mo\u00e7a, perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato.<\/p>\n<p>Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opini\u00e3o prov\u00e1vel do meu interlocutor, desde que a mat\u00e9ria n\u00e3o me agrava, aborrece ou imp\u00f5e. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Ent\u00e3o ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma cousa. Tamb\u00e9m achava que as fei\u00e7\u00f5es eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao g\u00eanio, era um, pareciam irm\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8212; Finalmente, at\u00e9 a amizade que ela tem a Sanchinha- a m\u00e3e n\u00e3o era mais amiga dela&#8230; Na vida h\u00e1 dessas semelhan\u00e7as assim esquisitas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXIV \/ CHAMADO<\/h2>\n<p>No sagu\u00e3o e na rua, examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma cousa, mas achei que n\u00e3o e pus-me a andar. Ia satisfeito com a visita, com a alegria de Capitu, com os louvores de Gurgel, a tal ponto que n\u00e3o acudi logo a uma voz que me chamava:<\/p>\n<p>&#8211;Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!<\/p>\n<p>S\u00f3 depois que a voz cresceu e o dono dela chegou \u00e0 porta \u00e9 que eu parei e vi o que era e onde estava. Estava j\u00e1 na Rua de Matacavalos. A casa era uma loja de lou\u00e7a, escassa e pobre: tinha as portas meio cerradas, e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido.<\/p>\n<p>&#8211;Sr. Bentinho, disse-me ele chorando; sabe que meu filho Manduca morreu?<\/p>\n<p>&#8211;Morreu?<\/p>\n<p>&#8211;Morreu h\u00e1 meia hora, enterra-se amanh\u00e3. Mandei recado a sua m\u00e3e agora mesmo, e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caix\u00e3o. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre d\u00f3i. Que vida que ele teve!&#8230; Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se estava no semin\u00e1rio&#8230; Quer v\u00ea-lo? Entre, ande v\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto. Quis responder que n\u00e3o, que n\u00e3o queria ver o Manduca, e fiz at\u00e9 um gesto para fugir. N\u00e3o era medo; noutra ocasi\u00e3o pode ser at\u00e9 que entrasse com facilidade e curiosidade, mas agora ia t\u00e3o contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada&#8230; H\u00e1 cousas que se n\u00e3o ajustam nem combinam. A simples not\u00edcia era j\u00e1 uma turva\u00e7\u00e3o grande. As minhas id\u00e9ias de ouro perderam toda a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia, e n\u00e3o distingui mais nada. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa, mas provavelmente n\u00e3o falei por palavras claras, nem sequer humanas, porque ele, encostado ao portal, abria-me espa\u00e7o com o gesto, e eu, sem alma para entrar nem fugir, deixei ao corpo fazer o que pudesse, e o corpo acabou entrando.<\/p>\n<p>N\u00e3o culpo ao homem; para ele, a cousa mais importante do momento era o filho. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o me culpem a mim; para mim, a cousa mais importante era Capitu. O mal foi que os dous casos se conjugassem na mesma tarde, e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro. Eis o mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer, nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. Por que morrer exatamente h\u00e1 meia hora? Toda hora \u00e9 apropriada ao \u00f3bito; morre-se muito bem \u00e0s seis ou sete horas da tarde.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXV \/ O DEFUNTO<\/h2>\n<p>Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de lou\u00e7a. A loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as janelas da \u00e1rea estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a m\u00e3e chorando; \u00e0 porta da alcova duas crian\u00e7as olhavam espantadas para dentro, com o dedo na boca. O cad\u00e1ver jazia na cama; a cama&#8230;<\/p>\n<p>Suspendamos a pena e vamos \u00e0 janela espairecer a mem\u00f3ria. Realmente, o quadro era feio, j\u00e1 pela morte, j\u00e1 pelo defunto, que era horr\u00edvel&#8230; Isto aqui, sim, \u00e9 outra cousa. Tudo o que vejo l\u00e1 fora respira vida, a cabra que rumina ao p\u00e9 de uma carro\u00e7a, a galinha que marisca no ch\u00e3o da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a palmeira que investe para o c\u00e9u, e finalmente aquela torre de igreja, apesar de n\u00e3o ter m\u00fasculos nem folhagem. Um rapaz, que ali no beco empina um papagaio de papel, n\u00e3o morreu nem morre, posto tamb\u00e9m se chame Manduca.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que o outro Manduca era mais velho. Teria dezoito ou dezenove anos, mas tanto lhe darias quinze como vinte e dous, a cara n\u00e3o permitia trazer a idade \u00e0 vista antes a escondia nas dobras da&#8230; V\u00e1, diga-se tudo; \u00e9 morto, os seus parentes s\u00e3o mortos, se existe algum n\u00e3o \u00e9 em tal evid\u00eancia que se vexe ou doa. Diga-se tudo, Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada menos que a lepra. Vivo era feio- morto pareceu-me horr\u00edvel. Quando eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquele meu vizinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. N\u00e3o sei que m\u00e3o oculta me compeliu a olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, at\u00e9 que recuei de todo e sa\u00ed do quarto.<\/p>\n<p>&#8211;Padeceu muito! suspirou o pai.<\/p>\n<p>&#8211;Coitado de Manduca! solu\u00e7ava a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Eu cuidei de sair, disse que era esperado em casa, e despedi-me O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro; respondi com a verdade, que n\u00e3o sabia, faria o que minha m\u00e3e quisesse. E r\u00e1pido sa\u00ed, atravessei a loja, e saltei \u00e0 rua.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXVI \/ AMAI, RAPAZES!<\/h2>\n<p>Era t\u00e3o perto, que antes de tr\u00eas minutos me achei em casa. Parei no corredor, a tomar f\u00f4lego- buscava esquecer o defunto, p\u00e1lido e disforme, e o mais que n\u00e3o disse para n\u00e3o dar a estas p\u00e1ginas um aspecto repugnante, mas podes imagin\u00e1-lo. Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na cara fresca e l\u00e9pida de Capitu&#8230; Amai, rapazes! e, principalmente, amai mo\u00e7as lindas e graciosas; elas d\u00e3o rem\u00e9dio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida&#8230; Amai, rapazes!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXVII \/ A SEGE<\/h2>\n<p>Chegara ao \u00faltimo degrau, e uma id\u00e9ia me entrou no c\u00e9rebro, como se estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancela. Ouvi de mem\u00f3ria as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Refleti um instante; sim, podia ir ao enterro, pediria a minha m\u00e3e que me alugasse um carro&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o gosto da condu\u00e7\u00e3o. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com minha m\u00e3e \u00e0s visitas de amizade ou de cerim\u00f4nia e \u00e0 missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pai, que ela conservou o mais que p\u00f4de. O cocheiro, que era nosso escravo, t\u00e3o velho como a sege, quando me via \u00e0 porta, vestido, esperando minha m\u00e3e, dizia-me rindo:<\/p>\n<p>&#8211;Pai Jo\u00e3o vai levar nhonh\u00f4!<\/p>\n<p>E era raro que eu n\u00e3o lhe recomendasse:<\/p>\n<p>&#8211;Jo\u00e3o, demora muito as bestas; vai devagar.<\/p>\n<p>&#8211;Nh\u00e3 Gl\u00f3ria n\u00e3o gosta.<\/p>\n<p>&#8211;Mas demora!<\/p>\n<p>Fica entendido que era para saborear a sege, n\u00e3o pela vaidade, porque ela n\u00e3o permitia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um \u00f3culo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.<\/p>\n<p>&#8211;Senta, Bentinho!<\/p>\n<p>&#8211;Deixa espiar, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>E em p\u00e9, quando era mais pequeno, metia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a r\u00e9dea da outra; na m\u00e3o levava o chicote grosso e comprido. Tudo inc\u00f4modo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava e eu tamb\u00e9m. Dos lados via passar as casas, lojas ou n\u00e3o, abertas ou fechadas, com gente ou sem ela, e na rua as pessoas que iam e vinham, ou atravessavam diante da sege, com grandes pernadas ou passos mi\u00fados. Quando havia impedimento de gente ou de animais, a sege parava, e ent\u00e3o o espet\u00e1culo era particularmente interessante; as pessoas paradas na cal\u00e7ada ou \u00e0 porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si, naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: &#8220;\u00c9 aquela senhora da Rua de Mata-cavalos, que tem um filho, Bentinho&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A sege ia tanto com a vida rec\u00f4ndita de minha m\u00e3e, que quando j\u00e1 n\u00e3o havia nenhuma outra, continuamos a andar nela, e era conhecida na rua e no bairro pela &#8220;sege antiga.&#8221; Afinal minha m\u00e3e consentiu em deix\u00e1-la, sem a vender logo; s\u00f3 abriu m\u00e3o dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. A raz\u00e3o de a guardar in\u00fatil foi exclusivamente sentimental; era a lembran\u00e7a do marido. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um peda\u00e7o dele, um resto da pessoa, a mesma alma integral e pura. Mas o uso, esse era filho tamb\u00e9m do carrancismo que ela confessava aos amigos. Minha m\u00e3e exprimia bem a fidelidade aos velhos h\u00e1bitos, velhas maneiras, velhas id\u00e9ias, velhas modas. Tinha o seu museu de rel\u00edquias, pentes desusados, um trecho de mantilha; umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo, a si mesma se queria fazer velha; mas j\u00e1 deixei dito que, neste ponto, n\u00e3o alcan\u00e7ava tudo o que queria.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO LXXXVIII \/ UM PRETEXTO HONESTO<\/h2>\n<p>N\u00e3o, a id\u00e9ia de ir ao enterro n\u00e3o vinha da lembran\u00e7a do carro e suas do\u00e7uras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia seguinte, n\u00e3o iria ao semin\u00e1rio, e podia fazer outra visita a Capitu, um tanto mais demorada. Bis a\u00ed o que era. A lembran\u00e7a do carro podia vir acessoriamente depois, mas a principal e imediata foi aquela. Voltaria \u00e0 Rua dos Inv\u00e1lidos, a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. Contava que tudo me sa\u00edsse como naquele dia. Gurgel aflito, Capitu comigo no canap\u00e9, as m\u00e3os presas, o penteado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Vou pedir a mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Abri a cancela. Antes de transp\u00f4-la, assim como ouvira da mem\u00f3ria a palavra do pai do morto, ouvi agora a da m\u00e3e, e repeti a meia voz:<\/p>\n<p>&#8211;Coitado de Manduca!<\/p>\n<p>Minha M\u00e3e ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.<\/p>\n<p>&#8211;Perder um dia de semin\u00e1rio<\/p>\n<p>Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente pobre&#8230; Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela negativa.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea acha que n\u00e3o deve ir? perguntou-lhe minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Acho que n\u00e3o. Que amizade \u00e9 essa que eu nunca vi?<\/p>\n<p>Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao agregado, este sol riu, e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente n\u00e3o dar ao enterro &#8220;o lustre da minha pessoa&#8221;. Fosse o que fosse, fiquei amuado; no dia seguinte, pensando no motivo, n\u00e3o me desagradou; mais tarde achei-lhe um sabor particular.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XC \/ A POL\u00caMICA<\/h2>\n<p>No dia seguinte, passei pela casa do defunto, sem entrar nem parar &#8211;ou, se parei, foi s\u00f3 um instante, ainda mais breve que este em que vo-lo digo. Se me n\u00e3o engano, andei at\u00e9 mais depressa, receando que me chamassem como na v\u00e9spera. Uma vez que n\u00e3o ia ao enterro antes longe que pr\u00f3ximo. Fui andando e pensando no pobre-diabo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9ramos amigos, nem nos conhec\u00edamos de muito. Intimidade que intimidade podia haver entre a doen\u00e7a dele e a minha sa\u00fade? Tivemos rela\u00e7\u00f5es breves e distantes. Fui pensando nelas, recordando algumas. Reduziam-se todas a uma pol\u00eamica, entre n\u00f3s, dous anos antes, a prop\u00f3sito&#8230; Mal podeis crer a que prop\u00f3sito foi. Foi a guerra da Crim\u00e9ia.<\/p>\n<p>Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pai enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi ali que o vi uma vez, e n\u00e3o fiquei pouco espantado; a doen\u00e7a ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto n\u00e3o atra\u00eda decerto. Tinha eu de treze para quatorze anos. Da segunda vez que o vi ali, como fal\u00e1ssemos da guerra da Crim\u00e9ia, que ent\u00e3o ardia e andava nos jornais, Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Pois veremos, tornou ele. S\u00f3 se a justi\u00e7a n\u00e3o vencer neste mundo, o que \u00e9 imposs\u00edvel, e a justi\u00e7a est\u00e1 com os aliados.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, senhor, a raz\u00e3o \u00e9 dos russos.<\/p>\n<p>Naturalmente, \u00edamos com o que nos diziam os jornais da cidade transcrevendo os de fora, mas pode ser tamb\u00e9m que cada um de n\u00f3s tivesse a opini\u00e3o do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas id\u00e9ias. Defendi o direito da R\u00fassia, Manduca fez o mesmo ao dos aliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. Ent\u00e3o Manduca prop\u00f4s que troc\u00e1ssemos a argumenta\u00e7\u00e3o por escrito, e na ter\u00e7a ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposi\u00e7\u00e3o e defesa do direito dos aliados, e da integridade da Turquia, concluindo por esta frase prof\u00e9tica:<\/p>\n<p>&#8220;Os russos n\u00e3o h\u00e3o de entrar em Constantinopla!&#8221;<\/p>\n<p>Li-a e meti-me a refut\u00e1-la. N\u00e3o me recorda um s\u00f3 dos argumentos que empreguei, nem talvez interesse conhec\u00ea-los, agora que o s\u00e9culo est\u00e1 a expirar; mas a id\u00e9ia que me ficou deles \u00e9 que eram irrespond\u00edveis. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde ele jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos. Ou gosto da pol\u00eamica ou qualquer outra causa que n\u00e3o alcan\u00e7o, n\u00e3o me deixou sentir toda a repugn\u00e2ncia que sa\u00eda da cama e do doente, e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte, por mais nojosa que tivesse ent\u00e3o a cara, o sorriso que a acendeu dissimulou o mal f\u00edsico. A convic\u00e7\u00e3o com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia \u00e9 que n\u00e3o tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade; n\u00e3o era exaltada, n\u00e3o era ruidosa, n\u00e3o tinha gestos, nem a mol\u00e9stia os permitiria, era simples, grande, profunda, um gozo infinito de vit\u00f3ria, antes de saber os meus argumentos. Tinha j\u00e1 papel, pena e tinta ao p\u00e9 da cama. Dias depois recebi a r\u00e9plica; n\u00e3o me lembra se trazia cousas novas ou n\u00e3o; o calor \u00e9 que crescia, e o final era o mesmo:<\/p>\n<p>&#8220;Os russos n\u00e3o h\u00e3o de entrar em Constantinopla!&#8221;<\/p>\n<p>Trepliquei, e da\u00ed continuou por algum tempo uma pol\u00eamica ardente, em que nenhum de n\u00f3s cedia, defendendo cada um os seus clientes com for\u00e7a e brio. Manduca era mais longo e pronto que eu. Naturalmente a mim sobravam mil cousas que distra\u00edam, o estudo, os recreios, a fam\u00edlia, e a pr\u00f3pria sa\u00fade, que me chamava a outros exerc\u00edcios. Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha s\u00f3 esta guerra, assunto da cidade e do mundo, mas que ningu\u00e9m ia tratar com ele. O acaso dera-lhe em mim um advers\u00e1rio; ele, que tinha gosto \u00e0 escrita, deitou-se ao debate, como a um rem\u00e9dio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres; os olhos desaprenderam de chorar, se porventura choravam antes. Senti esta mudan\u00e7a dele nas pr\u00f3prias maneiras do pai e da m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o imagina como ele anda agora, depois que o senhor lhe escreve aqueles pap\u00e9is, dizia-me o dono da loja, uma vez, \u00e0 porta da rua. Fala e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os pap\u00e9is dele, entra a indagar da resposta, e se demorar\u00e1 muito, e que pergunte ao moleque, quando passar. Enquanto espera, rel\u00ea jornais e toma notas. Mas tamb\u00e9m, apenas recebe os seus pap\u00e9is, atira-se a l\u00ea-los, e come\u00e7a logo a escrever a resposta. H\u00e1 ocasi\u00f5es em que n\u00e3o come ou come mal; tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, \u00e9 que n\u00e3o os mande \u00e0 hora do almo\u00e7o ou de jantar&#8230;<\/p>\n<p>Fui eu que cansei primeiro. Comecei a demorar as respostas, at\u00e9 que n\u00e3o dei mais nenhuma- ele ainda teimou duas ou tr\u00eas vezes depois do meu sil\u00eancio, mas n\u00e3o recebendo contesta\u00e7\u00e3o alguma, por fadiga tamb\u00e9m ou por n\u00e3o aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A \u00faltima como a primeira, como todas, afirmava a mesma predi\u00e7\u00e3o eterna:<\/p>\n<p>&#8220;Os russos n\u00e3o h\u00e3o de entrar em Constantinopla!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o entraram, efetivamente, nem ent\u00e3o, nem depois, nem at\u00e9 agora. Mas a predi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 eterna? N\u00e3o chegar\u00e3o a entrar algum dia? Problema dif\u00edcil. O pr\u00f3prio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tr\u00eas anos de dissolu\u00e7\u00e3o, t\u00e3o certo \u00e9 que a natureza, como a hist\u00f3ria, n\u00e3o se faz brincando. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma alian\u00e7a como a anglo-francesa, n\u00e3o se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farm\u00e1cia. Morreu afinal, como os Estados morrem; r nosso caso particular, a quest\u00e3o \u00e9 saber, n\u00e3o se a Turquia morre porque a morte n\u00e3o poupa a ningu\u00e9m, mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla; essa era a quest\u00e3o para o meu vizinho leproso, debaixo da triste, rota e infecta colcha de retalhos&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCI \/ ACHADO QUE CONSOLA<\/h2>\n<p>\u00c9 claro que as reflex\u00f5es que a\u00ed deixo n\u00e3o foram feitas ent\u00e3o, a caminho do semin\u00e1rio, mas agora no gabinete do Engenho Novo Ent\u00e3o n\u00e3o fiz propriamente nenhuma, a n\u00e3o ser esta: que servi de al\u00edvio um dia ao meu vizinho Manduca. Hoje pensando melhor, acho que n\u00e3o s\u00f3 servi de al\u00edvio, mas at\u00e9 lhe dei felicidade. E o achado consola-me; j\u00e1 agora n\u00e3o esquecerei mais que dei dous ou tr\u00eas meses de felicidade a um pobre-diabo, fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. \u00c9 alguma cousa na liquida\u00e7\u00e3o da minha vida. Se h\u00e1 no outro mundo tal ou qual pr\u00eamio para as virtudes sem inten\u00e7\u00e3o, esta pagar\u00e1 um ou dous dos meus muitos pecados. Quanto ao Manduca, n\u00e3o creio que fosse pecado opinar contra a R\u00fassia, mas, se era, ele estar\u00e1 purgando h\u00e1 quarenta anos a felicidade que alcan\u00e7ou em dous ou tr\u00eas meses,&#8211;donde concluir\u00e1 (j\u00e1 tarde) que era ainda melhor haver gemido somente, sem opinar cousa nenhuma.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCII \/ O DIABO N\u00c3O \u00c9 T\u00c3O FEIO COMO SE PINTA<\/h2>\n<p>Manduca enterrou-se sem mim. A muitos outros aconteceu a mesma cousa, sem que eu sentisse nada, mas este caso afligiu-me particular mente pela raz\u00e3o j\u00e1 dita. Tamb\u00e9m senti n\u00e3o sei que melancolia ao recordar a primeira pol\u00eamica da vida, o gosto com que ele recebia os meus pap\u00e9is e se propunha a refut\u00e1-los, n\u00e3o contando o gosto do carro&#8230; Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurrei\u00e7\u00f5es. Nem foi s\u00f3 ele; duas pessoas vieram ajud\u00e1-lo, Capitu, cuja imagem dormiu comigo na mesma noite, e outra que direi no Cap\u00edtulo que vem. O resto deste Cap\u00edtulo \u00e9 s\u00f3 para pedir que, se algu\u00e9m tiver de ler o meu livro com alguma aten\u00e7\u00e3o mais da que lhe exigir o pre\u00e7o do exemplar, n\u00e3o deixe de concluir que o Diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio como se pinta. Quero dizer&#8230;<\/p>\n<p>Quero dizer que o meu vizinho de Mata-cavalos, temperando o mal com a opini\u00e3o anti-russa, dava \u00e0 podrid\u00e3o das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. H\u00e1 consola\u00e7\u00e3o maiores, decerto e uma das mais excelentes \u00e9 n\u00e3o padecer esse nem outro mal algumas a natureza \u00e9 t\u00e3o divina que se diverte com tais contrastes, e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. E talvez saia assim a flor mais bela, o meu jardineiro afirma que as violetas, para terem um cheiro superior, h\u00e3o mister de estrume de porco. N\u00e3o examinei, mas deve ser verdade.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCIII \/ UM AMIGO POR UM DEFUNTO<\/h2>\n<p>Quanto \u00e0 outra pessoa que teve a for\u00e7a obliterativa, foi o meu colega Escobar que no domingo, antes do meio-dia, veio ter a Mata-cavalos. Um amigo supria assim um defunto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha m\u00e3o entre as suas, como se me n\u00e3o visse desde longos meses.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea janta comigo, Escobar?<\/p>\n<p>&#8211;Vim para isto mesmo.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e ele respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra pronta. J\u00e1 viste que n\u00e3o era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o homem n\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo em todos os instantes. O que ele disse, em resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educa\u00e7\u00e3o; no semin\u00e1rio todos me queriam bem, nem podia deixar de ser assim, acrescentou. Insistia na educa\u00e7\u00e3o, nos bons exemplos, &#8220;na doce e rara m\u00e3e&#8221; que o c\u00e9u me deu&#8230; Tudo isso com a voz engasgada e tr\u00eamula.<\/p>\n<p>Todos ficaram gostando dele. Eu estava t\u00e3o contente como se Escobar fosse inven\u00e7\u00e3o minha. Jos\u00e9 Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme dous capotes, e prima Justina n\u00e3o achou tacha que lhe p\u00f4r; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metedi\u00e7o e tinha uns olhos policiais a que n\u00e3o escapava nada.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o os olhos dele, expliquei.<\/p>\n<p>&#8211;Nem eu digo que sejam de outro.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o olhos refletidos, opinou tio Cosme.<\/p>\n<p>&#8211;Seguramente, acudiu Jos\u00e9 Dias; entretanto, pode ser que a senhora D. Justina tenha alguma raz\u00e3o. A verdade \u00e9 que uma cousa n\u00e3o impede outra, e a reflex\u00e3o casa-se muito bem \u00e0 curiosidade natura. Parece curioso, isso parece, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;A mim parece-me um mocinho muito s\u00e9rio, disse minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Justamente! confirmou Jos\u00e9 Dias, para n\u00e3o discordar dela.<\/p>\n<p>Quando eu referi a Escobar aquela opini\u00e3o de minha m\u00e3e (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordin\u00e1rio. Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tamb\u00e9m minha m\u00e3e, senhora grave, distinta e mo\u00e7a, muito mo\u00e7a&#8230; Que idade teria?<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 fez quarenta, respondi eu vagamente por vaidade.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! exclamou Escobar. Quarenta anos! Nem parece trinta- est\u00e1 muito mo\u00e7a e bonita. Tamb\u00e9m a algu\u00e9m h\u00e1 de voc\u00ea sair, com esses olhos que Deus lhe deu; s\u00e3o exatamente os dela. Enviuvou h\u00e1 muitos anos?<\/p>\n<p>Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. Escobar escutava atento, perguntando mais, pedindo explica\u00e7\u00e3o das passagens omissas ou s\u00f3 escuras. Quando eu lhe disse que n\u00e3o me lembrava nada da ro\u00e7a, t\u00e3o pequenino viera, contou-me duas ou tr\u00eas reminisc\u00eancias dos seus tr\u00eas anos de idade, ainda agora frescas. E n\u00e3o cont\u00e1vamos voltar<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, agora n\u00e3o voltamos mais. Olhe, aquele preto que ali vai passando, \u00e9 de l\u00e1. Tom\u00e1s!<\/p>\n<p>&#8211;Nhonh\u00f4!<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na horta da minha casa, e o preto andava em servi\u00e7o; chegou-se a n\u00f3s e esperou.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 casado, disse eu para Escobar. Maria onde est\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 socando milho, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea ainda se lembra da ro\u00e7a, Tom\u00e1s?<\/p>\n<p>&#8211;Alembra, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, v\u00e1-se embora.<\/p>\n<p>Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquele Jos\u00e9, aquele outro Dami\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Todas as letras do alfabeto, interrompeu Escobar.<\/p>\n<p>Com efeito, eram diferentes letras, e s\u00f3 ent\u00e3o reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como Jo\u00e3o Fulo, Maria Gorda ou de na\u00e7\u00e3o como Pedro Benguela, Ant\u00f4nio Mo\u00e7ambique&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E est\u00e3o todos aqui em casa? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, alguns andam ganhando na rua, outros est\u00e3o alugados N\u00e3o era poss\u00edvel ter todos em casa. Nem s\u00e3o todos os da rosa: a maior parte ficou l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; O que me admira \u00e9 que D. Gl\u00f3ria se acostumasse logo a viver, em casa da cidade, onde tudo \u00e9 apertado; a de l\u00e1 \u00e9 naturalmente grande.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei, mas parece. Mam\u00e3e tem outras casas maiores que esta; diz por\u00e9m que h\u00e1 de morrer aqui. As outras est\u00e3o alugadas. Algumas s\u00e3o bem grandes, como a da Rua da Quitanda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Conhe\u00e7o essa, \u00e9 bonita.<\/p>\n<p>&#8211;Tem tamb\u00e9m no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Catete&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o lhe h\u00e3o de faltar tectos, concluiu ele sorrindo com simpatia.<\/p>\n<p>Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante a\u00ed, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflex\u00f5es a prop\u00f3sito do asseio; depois continuamos. Quais foram as reflex\u00f5es n\u00e3o me lembra agora; lembra-me s\u00f3 que as achei engenhosas, e ri, ele riu tamb\u00e9m. A minha alegria acordava a dele, e o c\u00e9u estava t\u00e3o azul, e o ar t\u00e3o claro, que a natureza parecia rir tamb\u00e9m conosco. S\u00e3o assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras t\u00e3o finas e altas que me comoveram; depois, a prop\u00f3sito da beleza moral que se ajusta \u00e0 f\u00edsica, tornou a falar de minha m\u00e3e, &#8220;um anjo dobrado&#8221;, disse ele.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCIV \/ ID\u00c9IAS ARITM\u00c9TICAS<\/h2>\n<p>N\u00e3o digo o mais, que foi muito. Nem ele sabia s\u00f3 elogiar \u00e9 pensar, sabia tamb\u00e9m calcular depressa e bem. Era das cabe\u00e7as aritm\u00e9ticas de Holmes (2 + 2 = 4). N\u00e3o se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. A divis\u00e3o que foi sempre uma das opera\u00e7\u00f5es dif\u00edceis para mim, era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denomina\u00e7\u00f5es dos algarismos: estava pronto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A voca\u00e7\u00e3o era tal que o fazia amar os pr\u00f3prios sinais das somas, e tinha esta opini\u00e3o que os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 letras in\u00fateis e letras dispens\u00e1veis, dizia ele. Que servi\u00e7o diverso prestam o d e o t? T\u00eam quase o mesmo som. O mesmo digo do b e do p, o mesmo do s, do c e do z, o mesmo do k e do g, etc. S\u00e3o trapalhices caligr\u00e1ficas. Veja os algarismos: n\u00e3o h\u00e1 dous que fa\u00e7am o mesmo of\u00edcio; 4 \u00e9 4, e 7 \u00e9 7. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta cousa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e ter\u00e1 22; multiplique por igual n\u00famero, d\u00e1 484, e assim por diante. Mas onde a perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 maior \u00e9 no emprego do zero. O valor do zero \u00e9, em si mesmo, nada; mas o of\u00edcio deste sinal negativo \u00e9 justamente aumentar. Um 5 sozinho \u00e9 um 5; ponha-lhe dous 00, \u00e9 500. Assim, o que n\u00e3o vale nada faz valer muito, cousa que n\u00e3o fazem as letras dobradas, pois eu tanto aprovo com um p como com dous pp.<\/p>\n<p>Criado na ortografia de meus pais, custava-me a ouvir tais blasf\u00eamias, mas n\u00e3o ousava refut\u00e1-lo. Contudo, um dia. proferi algumas palavras de defesa, ao que ele respondeu que era um preconceito, e acrescentou que as id\u00e9ias aritm\u00e9ticas podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram mais f\u00e1ceis de menear. Assim que, eu n\u00e3o era capaz de resolver de momento um problema filos\u00f3fico ou ling\u00fc\u00edstico, ao passo que ele podia somar. em tr\u00eas minutos, quaisquer quantias.<\/p>\n<p>&#8211;Por exemplo&#8230; d\u00ea-me um caso, d\u00ea-me uma por\u00e7\u00e3o de n\u00fameros que eu n\u00e3o saiba nem possa saber antes&#8230; olhe, d\u00ea-me o n\u00famero das casas de sua m\u00e3e e os alugu\u00e9is de cada uma, e se eu n\u00e3o disser a soma total em dous, em um minuto, enforque-me!<\/p>\n<p>Aceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos alugu\u00e9is. Escobar pegou o papel, passou-os pelos olhos a fim de os decorar. e enquanto eu fitava o rel\u00f3gio, ele erguia as pupilas, cerrava as p\u00e1lpebras, e sussurrava&#8230; Oh! o vento n\u00e3o \u00e9 mais r\u00e1pido! Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:<\/p>\n<p>&#8211;D\u00e1 tudo 1:070$000 mensais.<\/p>\n<p>Fiquei pasmado. Considera que eram n\u00e3o menos de nove casas, e que os alugu\u00e9is variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo isto em que eu gastaria tr\u00eas ou quatro minutos, &#8211;e havia de ser no papel,&#8211;f\u00ea-lo Escobar de cor, brincando. Olhava-me triunfalmente, e perguntava se n\u00e3o era exato. Eu, s\u00f3 por lhe mostrar que sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total, e mostrei-lho; era aquilo mesmo, nem um erro: 1:070$000.<\/p>\n<p>&#8211;Isto prova que as id\u00e9ias aritm\u00e9ticas s\u00e3o mais simples, e portanto mais naturais. A natureza \u00e9 simples. A arte \u00e9 atrapalhada.<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que n\u00e3o pude deixar de abra\u00e7\u00e1-lo. Era no p\u00e1tio; outros seminaristas notaram a nossa efus\u00e3o; um padre que estava com eles n\u00e3o gostou.<\/p>\n<p>&#8211;A mod\u00e9stia, disse-nos, n\u00e3o consente esses gestos excessivos podem estimar-se com modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e prop\u00f4s-me viver separados. Interrompi-o dizendo que n\u00e3o inveja, tanto pior para eles.<\/p>\n<p>&#8211;Quebremos-lhe a castanha na boca!<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Fiquemos ainda mais amigos que at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Escobar apertou-me a m\u00e3o \u00e0s escondidas, com tal for\u00e7a que ainda me doem os dedos. \u00c9 ilus\u00e3o, decerto, se n\u00e3o \u00e9 efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a pena por alguns instantes&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCV \/ O PAPA<\/h2>\n<p>A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de Jos\u00e9 Dias n\u00e3o lhe quis ficar atr\u00e1s. Na primeira semana disse-me este em casa:<\/p>\n<p>&#8211;Agora \u00e9 certo que voc\u00ea vai sair j\u00e1 do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Como?<\/p>\n<p>&#8211;Espere at\u00e9 amanh\u00e3. Vou jogar com eles que me chamaram, amanh\u00e3, l\u00e1 no quarto, no quintal, ou na rua, indo \u00e0 missa, conto-lhe o que h\u00e1. A id\u00e9ia \u00e9 t\u00e3o santa que n\u00e3o est\u00e1 mal no santu\u00e1rio. Amanha, Bentinho.<\/p>\n<p>&#8212; Mas \u00e9 cousa certa?<\/p>\n<p>&#8211;Cert\u00edssima!<\/p>\n<p>No dia seguinte revelou-me o mist\u00e9rio. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era n\u00e3o menos que isto. Minha m\u00e3e, ao parecer dele, estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me c\u00e1 fora, mas entendia que o v\u00ednculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria romp\u00ea-lo, e para tanto valia a Escritura, com o poder de desligar dado aos ap\u00f3stolos. Assim que, ele e eu ir\u00edamos a Roma pedir a absolvi\u00e7\u00e3o do papa&#8230; Que me parecia?<\/p>\n<p>&#8212; Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflex\u00e3o. Pode ser um bom rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o \u00fanico, Bentinho, \u00e9 o \u00fanico! Vou j\u00e1 hoje conversar com D. Gl\u00f3ria, expondo-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous meses, ou antes&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Melhor \u00e9 falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Pensar em qu\u00ea? Voc\u00ea o que quer&#8230; Digo? N\u00e3o se amofina com o seu velho? Voc\u00ea o que quer \u00e9 consultar a uma pessoa.<\/p>\n<p>Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar, mas eu neguei a p\u00e9s juntos que quisesse consultar ningu\u00e9m. E que pessoa, o reitor? N\u00e3o era natural que lhe confiasse tal assunto. N\u00e3o, nem reitor, nem professor, nem ningu\u00e9m; era s\u00f3 o tempo de refletir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde j\u00e1 lhe dizia que a id\u00e9ia n\u00e3o me parecia m\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;Pois resolvamos hoje mesmo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o se vai a Roma brincando.<\/p>\n<p>&#8211;Quem tem boca vai a Roma, e boca no nosso caso \u00e9 a moeda. Ora, voc\u00ea pode muito bem gastar consigo&#8230; Comigo, n\u00e3o; um par de cal\u00e7as, tr\u00eas camisas e o p\u00e3o di\u00e1rio, n\u00e3o preciso mais. Serei como S. Paulo, que vivia do of\u00edcio enquanto ia pregando a palavra divina. Pois eu vou, n\u00e3o preg\u00e1-la, mas busc\u00e1-la. Levaremos cartas do intern\u00fancio e do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos&#8230; Bem sei a obje\u00e7\u00e3o que se pode opor a esta id\u00e9ia; dir\u00e3o que \u00e9 dado pedir a dispensa c\u00e1 de longe; mas, al\u00e9m do mais que n\u00e3o digo, basta refletir que \u00e9 muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano, e prostrar-se aos p\u00e9s do papa o pr\u00f3prio objeto do favor, o levita prometido, que vai pedir para sua m\u00e3e tern\u00edssima e dulc\u00edssima a dispensa de Deus. Considere o quadro, voc\u00ea beijando o p\u00e9 ao pr\u00edncipe dos ap\u00f3stolos; Sua Santidade, com o sorriso evang\u00e9lico, inclina-se, interroga, ouve, absolve e aben\u00e7oa. Os anjos o contemplam, a Virgem recomenda ao sant\u00edssimo filho que todos os seus desejos, Bentinho, sejam satisfeitos, e que o que voc\u00ea amar na terra seja igualmente amado no c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o digo mais, porque \u00e9 preciso acabar o cap\u00edtulo, e ele n\u00e3o acabou o discurso. Falou a todos os meus sentimentos de cat\u00f3lico e de namorado. Vi a alma aliviada de minha m\u00e3e, vi a alma feliz de Capitu, ambas em casa, e eu com elas, e ele conosco, tudo mediante uma pequena viagem a Roma, que eu s\u00f3 geograficamente sabia onde ficava; espiritualmente, tamb\u00e9m, mas a distancia que estaria da vontade de Capitu \u00e9 que n\u00e3o. Eis o ponto essencial. Se Capitu achasse longe, n\u00e3o iria- mas era preciso ouvi-la, e assim tamb\u00e9m a Escobar, que me daria um bom conselho.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCVI \/ UM SUBSTITUTO<\/h2>\n<p>Expus a Capitu a id\u00e9ia de Jos\u00e9 Dias. Ouviu-me atentamente. e acabou triste.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea indo, disse ela, esquece-me inteiramente.<\/p>\n<p>&#8211;Nunca!<\/p>\n<p>&#8211;Esquece. A Europa dizem que \u00e9 t\u00e3o bonita, e a It\u00e1lia principalmente. N\u00e3o \u00e9 de l\u00e1 que v\u00eam as cantoras? Voc\u00ea esquece-me, Bentinho. E n\u00e3o haver\u00e1 outro meio? D. Gl\u00f3ria est\u00e1 morta para que voc\u00ea saia do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, mas julga-se presa pela promessa.<\/p>\n<p>Capitu n\u00e3o achava outra id\u00e9ia, nem acabava de adotar esta. De caminho, pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.<\/p>\n<p>&#8211;Juro.<\/p>\n<p>&#8211;Por Deus?<\/p>\n<p>&#8211;Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.<\/p>\n<p>Mas se o papa n\u00e3o tiver ainda soltado a voc\u00ea? Mando dizer isso mesmo.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea mentir?<\/p>\n<p>Esta palavra doeu-me muito, e n\u00e3o achei logo que lhe replicasse Capitu meteu o neg\u00f3cio \u00e0 bulha, rindo e chamando-me disfar\u00e7ado Depois, declarou crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda assim n\u00e3o consentiu logo; ia ver se n\u00e3o haveria outra cousa. e eu que visse tamb\u00e9m por meu lado.<\/p>\n<p>Quando voltei ao semin\u00e1rio, contei tudo ao meu amigo Escobar que me ouviu com igual aten\u00e7\u00e3o e acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de costume fugidios, quase me comeram de contempla\u00e7\u00e3o. De repente, vi-lhe no rosto um clar\u00e3o, um reflexo de id\u00e9ia e ouvi-lhe dizer com volubilidade:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Bentinho, n\u00e3o \u00e9 preciso isso. H\u00e1 melhor, &#8211;n\u00e3o dizia melhor, porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo,&#8211;mas ha cousa que produz o mesmo efeito.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Sua m\u00e3e fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote n\u00e3o \u00e9? Pois bem, d\u00ea-lhe um sacerdote, que n\u00e3o seja voc\u00ea. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho \u00f3rf\u00e3o, faz\u00ea-lo ordenar \u00e0 sua custa, est\u00e1 dado um padre ao altar, sem que voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Entendo, entendo, \u00e9 isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o acha? continuou ele. Consulte sobre isto o protonot\u00e1rio: ele lhe dir\u00e1 se n\u00e3o \u00e9 a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer e se ele hesitar, fala-se ao Sr. bispo.<\/p>\n<p>Eu, refletindo:<\/p>\n<p>&#8211;Sim, parece que \u00e9 isso; realmente, a promessa cumpre-se, n\u00e3o se perdendo o padre.<\/p>\n<p>Escobar observou que, pelo lado econ\u00f4mico, a quest\u00e3o era f\u00e1cil minha m\u00e3e gastaria o mesmo que comigo, e um \u00f3rf\u00e3o n\u00e3o precisaria grandes comodidades. Citou a soma dos alugu\u00e9is das casas, &#8230; 1.070$000, al\u00e9m dos escravos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o h\u00e1 outra cousa, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;E sa\u00edmos juntos.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m eu. Vou melhorar o meu latim e saio; nem dou teologia. O pr\u00f3prio latim n\u00e3o \u00e9 preciso; para que no com\u00e9rcio?<\/p>\n<p>&#8211;In hoc signo vinces, disse eu rindo.<\/p>\n<p>Sentia-me pilh\u00e9rico. Oh! como a esperan\u00e7a alegra tudo. Escobar sorriu, parecendo gostar da resposta. Depois ficamos a cuidar de n\u00f3s mesmos, cada um com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os dele estavam assim. quando tornei de longe, e agradeci de novo o plano lembrado; n\u00e3o podia hav\u00ea-lo melhor. Escobar ouviu-me content\u00edssimo.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda uma vez, disse ele gravemente, a religi\u00e3o c a liberdade fazem boa companhia.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCVII \/ A SA\u00cdDA<\/h2>\n<p>Tudo se fez por esse teor. Minha m\u00e3e hesitou um pouco, mas acabou cedendo, depois que o Padre Cabral, tendo consultado o bispo. voltou a dizer-lhe que sim, que podia ser. Sa\u00ed do semin\u00e1rio no fim to ano.<\/p>\n<p>Tinha ent\u00e3o pouco mais de dezessete&#8230; Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperi\u00eancia fez-me ir atr\u00e1s da pena, e chego quase ao fim do papel, com o melhor da narra\u00e7\u00e3o por dizer. Agora n\u00e3o h\u00e1 mais que lev\u00e1-la a grandes pernadas, cap\u00edtulo sobre cap\u00edtulo, pousa emenda, pouca reflex\u00e3o, tudo em resumo. J\u00e1 esta p\u00e1gina vale por meses, outras valer\u00e3o por anos, e assim chegaremos ao fim. Um dos sacrif\u00edcios que fa\u00e7o a esta dura necessidade \u00e9 a an\u00e1lise das minhas emo\u00e7\u00f5es dos dezessete anos. N\u00e3o sei se alguma vez tiveste dezessete anos. Se sim, deves saber que \u00e9 a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um s\u00f3 curioso. Eu era um curios\u00edssimo, diria o meu agregado Jos\u00e9 Dias, e n\u00e3o diria mal. O que essa qualidade superlativa me rendeu n\u00e3o poderia nunca diz\u00ea-lo aqui, sem cair no erro que acabo de condenar; a an\u00e1lise das minhas emo\u00e7\u00f5es daquele tempo \u00e9 que entrava no meu plano. Posto que filho do semin\u00e1rio e de minha m\u00e3e, sentia j\u00e1, debaixo do recolhimento casto, uns assomos de petul\u00e2ncia e de atrevimento; eram do sangue, mas eram tamb\u00e9m das mo\u00e7as que na rua ou da janela n\u00e3o me deixavam viver sossegado. Achavam-me lindo, e diziam-mo; algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza, e a vaidade \u00e9 um princ\u00edpio de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCVIII \/ CINCO ANOS<\/h2>\n<p>Venceu a raz\u00e3o; fui-me aos estudos.<\/p>\n<p>Passei os dezoito anos, os dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e dous era bacharel em Direito.<\/p>\n<p>Tudo mudara em volta de mim. Minha m\u00e3e resolvera-se a envelhecer; ainda assim os cabelos brancos vinham de m\u00e1 vontade, aos poucos e espalhadamente; a touca, os vestidos, os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. J\u00e1 n\u00e3o andaria tanto de um lado para outro. Tio Cosme padecia do cora\u00e7\u00e3o e ia descansar. A prima Justina apenas estava mais idosa. Jos\u00e9 Dias tamb\u00e9m, n\u00e3o tanto que me n\u00e3o fizesse a fineza de ir assistir \u00e0 minha gradua\u00e7\u00e3o, e descer comigo a serra, l\u00e9pido e vi\u00e7oso, como se o bacharel fosse ele. A m\u00e3e de Capitu falecera, o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demiss\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Escobar come\u00e7ava a negociar em caf\u00e9 depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. Era opini\u00e3o de prima Justina que ele afagara a id\u00e9ia de convidar minha m\u00e3e a segundas n\u00fapcias; mas, se tal id\u00e9ia houve, cumpre n\u00e3o esquecer a grande diferen\u00e7a de idade. Talvez ele n\u00e3o pensasse em mais que associ\u00e1-la aos seus primeiros tentamens comerciais, e de fato, a pedido meu, minha m\u00e3e adiantou-lhe alguns dinheiros, que ele lhe restituiu, logo que p\u00f4de, n\u00e3o sem este remoque: &#8220;D. Gl\u00f3ria \u00e9 medrosa e n\u00e3o tem ambi\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos esfriou. Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. As rela\u00e7\u00f5es que travou com o pai de Sancha estreitaram as que j\u00e1 trazia com Capitu, e f\u00ea-lo servir a ambos n\u00f3s, como amigo. A princ\u00edpio, custou-lhe a ela aceit\u00e1-lo, preferia Jos\u00e9 Dias, mas Jos\u00e9 Dias repugnava-me por um resto de respeito de crian\u00e7a. Venceu Escobar posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi m\u00e3e e av\u00f3 das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obs\u00e9quio&#8230; Que ele casou,&#8211;adivinha com quem,&#8211;casou com a boa Sancha a amiga de Capitu, quase irm\u00e3 dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a &#8220;sua cunhadinha.&#8221; Assim se formam as afei\u00e7\u00f5es e os parentescos, as aventuras e os livros.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO XCIX \/ O FILHO \u00c9 A CARA DO PAI<\/h2>\n<p>Minha m\u00e3e, quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade Ainda ou\u00e7o a voz de Jos\u00e9 Dias, lembrando o evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o, e dizendo ao ver-nos abra\u00e7ados:<\/p>\n<p>&#8212; Mulher, eis a\u00ed o teu filho! Filho, eis a\u00ed a tua m\u00e3e!<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, entre l\u00e1grimas:<\/p>\n<p>&#8212; Mano Cosme, \u00e9 a cara do pai, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposi\u00e7\u00e3o do rosto. \u00c9 o pai, um pouco mais moderno, concluiu por chala\u00e7a. E diga-me agora mana Gl\u00f3ria, n\u00e3o foi melhor que ele n\u00e3o teimasse em ser padres Veja se este peralta daria um padre capaz.<\/p>\n<p>&#8211;Como vai o meu substituto?<\/p>\n<p>&#8211;Vai indo, ordena-se para o ano, respondeu tio Cosme. H\u00e1s de ir ver a ordena\u00e7\u00e3o; eu tamb\u00e9m, se o meu senhor cora\u00e7\u00e3o consentir. \u00c9 bom que te sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Justamente! exclamou minha m\u00e3e. Mas veja bem, mano Cosme, veja se n\u00e3o \u00e9 a figura do meu defunto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora \u00e9 muito mais. O bigode \u00e9 que desfaz um pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Sim, mana Gl\u00f3ria, o bigode realmente&#8230; mas \u00e9 muito parecido.<\/p>\n<p>E minha m\u00e3e beijava-me com uma ternura que n\u00e3o sei escrever Tio Cosme, para alegr\u00e1-la, chamava-me doutor, Jos\u00e9 Dias tamb\u00e9m, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, P\u00e1dua, a filha, e ela mesma repetiam-me o t\u00edtulo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO C \/ &#8220;TU SER\u00c1S FELIZ, BENTINHO&#8221;<\/h2>\n<p>No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade e na gl\u00f3ria. Via o casamento e a carreira ilustre, enquanto Jos\u00e9 Dias me ajudava calado e zeloso. Uma fada invis\u00edvel desceu ali, e me disse em voz igualmente macia e c\u00e1lida: &#8220;Tu ser\u00e1s feliz, Bentinho; tu vais ser feliz.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;E por que n\u00e3o seria feliz? perguntou Jos\u00e9 Dias, endireitando o tronco e fitando-me.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea ouviu? perguntei eu erguendo-me tamb\u00e9m. espanta<\/p>\n<p>&#8211;Ouviu o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211;Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 boa! Voc\u00ea mesmo \u00e9 que est\u00e1 dizendo&#8230;<\/p>\n<p>Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e dos versos, meteram-se no cora\u00e7\u00e3o da gente e falam de dentro para fora. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi clara e distinta. H\u00e1 de ser prima das feiticeiras da Esc\u00f3cia: &#8220;Tu ser\u00e1s rei, Macbeth!&#8221; &#8212; &#8220;Tu ser\u00e1s feliz, Bentinho!&#8221; Ao cabo, \u00e9 a mesma predi\u00e7\u00e3o, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso de Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma que ali est\u00e1, que n\u00e3o \u00e9 favor de ningu\u00e9m. A distin\u00e7\u00e3o que tirou em todas as mat\u00e9rias \u00e9 prova disso; j\u00e1 lhe contei que ouvi da boca dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a gl\u00f3ria, \u00e9 tamb\u00e9m outra cousa&#8230; Ah! voc\u00ea n\u00e3o confiou tudo ao velho Jos\u00e9 Dias! O pobre Jos\u00e9 Dias est\u00e1 a\u00ed para um canto, \u00e9 caju chupado, n\u00e3o vale nada; agora s\u00e3o os novos, os Escobares&#8230; N\u00e3o lhe nego que \u00e9 mo\u00e7o muito distinto, e trabalhador, e marido de truz; mas, enfim, velho tamb\u00e9m sabe amar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211;Que h\u00e1 de ser? Quem \u00e9 que n\u00e3o sabe tudo?&#8230; Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto, que \u00e9 verdadeiramente uma b\u00ean\u00e7\u00e3o do c\u00e9u, porque ela \u00e9 um anjo, \u00e9 um anj\u00edssimo&#8230; Perdoe a cincada, Bentinho, foi um modo de acentuar a perfei\u00e7\u00e3o daquela mo\u00e7a. Cuidei o contr\u00e1rio, outrora; confundi os modos de crian\u00e7a com express\u00f5es de car\u00e1ter, e n\u00e3o vi que essa menina travessa e j\u00e1 de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce&#8230; Por que \u00e9 que n\u00e3o me contou tamb\u00e9m o que outros sabem, e c\u00e1 em casa est\u00e1 mais que adivinhado e aprovado?<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e aprova deveras?<\/p>\n<p>&#8211;Pois ent\u00e3o? Temos falado sobre isso, e ela fez-me o favor de pedir a minha opini\u00e3o. Pergunte-lhe o que \u00e9 que eu lhe disse em termos claros e positivos; pergunte-lhe. Disse-lhe que n\u00e3o podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente&#8230; e uma dona de casa, que n\u00e3o lhe digo nada. Depois da morte da m\u00e3e, tomou conta de tudo. P\u00e1dua, agora que se aposentou, n\u00e3o faz mais que receber o ordenado e entreg\u00e1-lo \u00e0 filha. A filha \u00e9 que distribui o dinheiro, paga as contas, faz o rol das despesas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz; voc\u00ea j\u00e1 a viu o ano passado. E quanto \u00e0 formosura voc\u00ea sabe melhor que ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas, deveras, mam\u00e3e consultou o senhor sobre o nosso casamento?<\/p>\n<p>&#8211;Positivamente, n\u00e3o; fez-me o favor de perguntar se Capitu n\u00e3o daria uma boa esposa; eu \u00e9 que, na resposta, falei em nora. D. Gl\u00f3ria n\u00e3o negou e at\u00e9 deu um ar de riso.<\/p>\n<p>&#8211;Mam\u00e3e sempre que me escrevia, falava de Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea sabe que elas se d\u00e3o muito, e por isso \u00e9 que sua prima anda cada vez mais amuada. Talvez agora case mais depressa.<\/p>\n<p>&#8211;Prima Justina?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sabe? S\u00e3o contos, naturalmente; mas enfim, o Doutor Jo\u00e3o da Costa enviuvou h\u00e1 poucos meses, e dizem (n\u00e3o sei, o protonot\u00e1rio \u00e9 que me contou) dizem que os dous andam meio inclinados a acabar com a viuvez, entre si, casando-se. H\u00e1 de ver que n\u00e3o ha nada, mas n\u00e3o \u00e9 fora de prop\u00f3sito, contanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos&#8230; S\u00f3 se ela \u00e9 um cemit\u00e9rio, comentou rindo; e logo s\u00e9rio: Digo isto por gracejo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvi o resto. Ouvia s\u00f3 a voz da minha fada interior, que me repetia mas j\u00e1 ent\u00e3o sem palavras: &#8220;Tu ser\u00e1s feliz, Bentinho!&#8221; E a voz de Capitu me disse a mesma cousa, com termos diversos, e assim tamb\u00e9m a de Escobar, os quais ambos me confirmaram a not\u00edcia de Jos\u00e9 Dias pela sua pr\u00f3pria impress\u00e3o. Enfim, minha m\u00e3e, algumas semanas depois, quando lhe fui pedir licen\u00e7a para casar, al\u00e9m do consentimento, deu-me igual profecia, salva a reda\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de m\u00e3e: &#8220;Tu ser\u00e1s feliz, meu filho!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CII\/ NO C\u00c9U<\/h2>\n<p>Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto de esperar, e v\u00e1 espairecer a outra parte; casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde de mar\u00e7o, por sinal que chovia. Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, o c\u00e9u recolheu a chuva e acendeu as estrelas, n\u00e3o s\u00f3 as j\u00e1 conhecidas, mas ainda as que s\u00f3 ser\u00e3o descobertas daqui a muitos s\u00e9culos. Foi grande fineza e n\u00e3o foi \u00fanica. S. Pedro, que tem as chaves do c\u00e9u, abriu-nos as portas dele, fez-nos entrar, e depois de tocar-nos com o b\u00e1culo, recitou alguns vers\u00edculos da sua primeira ep\u00edstola: &#8220;As mulheres sejam sujeitas a seus maridos&#8230; N\u00e3o seja o adorno delas o enfeite dos cabelos ri\u00e7ados ou as rendas de ouro, mas o homem que est\u00e1 escondido no cora\u00e7\u00e3o&#8230; Do mesmo modo, v\u00f3s, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais fracos, e herdeiras convosco da gra\u00e7a da vida&#8230;&#8221; Em seguida, fez sinal aos anjos, e eles entoaram um trecho do c\u00e2ntico, t\u00e3o concertadamente, que desmentiriam a hip\u00f3tese do tenor italiano, se a execu\u00e7\u00e3o fosse na terra; mas era no c\u00e9u. A m\u00fasica ia com o texto, como se houvessem nascido juntos, \u00e0 maneira de uma \u00f3pera de Wagner. Depois, visitamos uma parte daquele lugar infinito. Descansa que n\u00e3o farei descri\u00e7\u00e3o alguma, nem a l\u00edngua humana possui formas id\u00f4neas para tanto.<\/p>\n<p>Ao cabo, pode ser que tudo fosse um sonho, nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. A verdade que Capitu, que n\u00e3o sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras, como estas, por exemplo: &#8220;Sentei-me \u00e0 sombra daquele que tanto havia desejado.&#8221; Quanto \u00e0s de S. Pedro, disse-me no dia seguinte que estava por tudo, que eu era a \u00fanica renda e o \u00fanico enfeite que jamais poria em si. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO CII \/ DE CASADA<\/h2>\n<p>Imagina um rel\u00f3gio que s\u00f3 tivesse p\u00eandulo, sem mostrador, de maneira que n\u00e3o se vissem as horas escritas. O p\u00eandulo iria de um lado para outro mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi aquela semana da Tijuca.<\/p>\n<p>De quando em quando, torn\u00e1vamos ao passado e divert\u00edamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo de n\u00e3o sairmos de n\u00f3s. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados, os anos da adolesc\u00eancia, a den\u00fancia que est\u00e1 nos primeiros cap\u00edtulos, e r\u00edamos de Jos\u00e9 Dias que conspirou a nossa desuni\u00e3o, e acabou festejando o nosso cons\u00f3rcio. Uma ou outra vez, fal\u00e1vamos em descer, mas as manh\u00e3s marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e n\u00f3s esper\u00e1vamos um dia encoberto, que teimava em n\u00e3o vir.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. Concordava em ficar, mas ia falando do pai e de minha m\u00e3e, da falta de not\u00edcias nossas, disto e daquilo, a ponto que nos arrufamos um pouco. Perguntei-lhe se j\u00e1 estava aborrecida de mim.<\/p>\n<p>&#8211;Eu?<\/p>\n<p>&#8211;Parece.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea h\u00e1 de ser sempre crian\u00e7a, disse ela fechando-me a cara entre as m\u00e3os e chegando muito os olhos aos meus. Ent\u00e3o eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? N\u00e3o, Bentinho; digo isto porque \u00e9 realmente assim, creio que eles podem estar desejosos de, ver-nos e imaginar alguma doen\u00e7a, e, confesso, pela minha parte, que queria ver papai.<\/p>\n<p>&#8211;Pois vamos amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; h\u00e1 de ser com tempo encoberto, redarg\u00fciu rindo.<\/p>\n<p>Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaci\u00eancia continuou, e descemos com sol.<\/p>\n<p>A alegria com que p\u00f4s o seu chap\u00e9u de casada, e o ar de casada com que me deu a m\u00e3o para entrar e sair do carro, e o bra\u00e7o para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaci\u00eancia de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. N\u00e3o lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas \u00e1rvores; precisava do resto do mundo tamb\u00e9m. E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma cousa. Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabe\u00e7a curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: &#8220;Quem s\u00e3o?&#8221; e um sabido explicava: &#8220;Este \u00e9 o Doutor Santiago, que casou h\u00e1 dias com aquela mo\u00e7a, D. Capitolina, depois de uma longa paix\u00e3o de crian\u00e7as; moram na Gl\u00f3ria, as fam\u00edlias residem em Mata-cavalos.&#8221; E ambos os dous: &#8220;A uma mocetona!&#8221;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CIII \/ A FELICIDADE TEM BOA ALMA<\/h2>\n<p>Mocetona \u00e9 vulgar; Jos\u00e9 Dias achou melhor. Foi a \u00fanica pessoa c\u00e1 de baixo que nos visitou na Tijuca, levando abra\u00e7os dos nossos e palavras suas, mas palavras que eram m\u00fasicas verdadeiras; n\u00e3o as ponho aqui para ir poupando papel, mas foram deliciosas. Um dia. comparou-nos a aves criadas em dous v\u00e3os de telhados cont\u00edguos. Imagina o resto, as aves emplumando as asas e subindo ao c\u00e9u, e o c\u00e9u agora mais largo para poder cont\u00ea-las tamb\u00e9m. Nenhum de n\u00f3s riu, ambos escut\u00e1vamos comovidos e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858&#8230; A felicidade tem boa al\u00e7a.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CIV \/ AS PIR\u00c2MIDES<\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Dias dividia-se agora entre mim e minha m\u00e3e, alternando os jantares da Gl\u00f3ria com os almo\u00e7os de Mata-cavalos. Tudo corria bem.<\/p>\n<p>Ao fim de dous anos de casado, salvo o desgosto grande de n\u00e3o ter um filho, tudo corria bem. Perdera meu sogro, \u00e9 verdade, e o tio Cosme estava por pouco, mas a sa\u00fade de minha m\u00e3e era boa; a nossa excelente.<\/p>\n<p>Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando. Escobar contribu\u00edra muito para as minhas estr\u00e9ias no foro. Interveio com um advogado c\u00e9lebre para que me admitisse \u00e0 sua banca, e arranjou-me algumas procura\u00e7\u00f5es, tudo espontaneamente.<\/p>\n<p>Demais, as nossas rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia estavam previamente feitas; Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e eu a do semin\u00e1rio. Eles moravam em Andara\u00ed, aonde que riam que f\u00f4ssemos muitas vezes, e, n\u00e3o podendo ser tantas como desej\u00e1vamos, \u00edamos l\u00e1 jantar alguns domingos, ou eles vinham faz\u00ea-lo conosco. Jantar \u00e9 pouco, \u00edamos sempre muito cedo, logo depois do almo\u00e7o, para gozarmos o dia compridamente, e s\u00f3 nos separ\u00e1vamos \u00e0s nove, dez e onze horas, quando n\u00e3o podia ser mais. Agora que penso naqueles dias de Andara\u00ed e da Gl\u00f3ria, sinto que a vida e o resto n\u00e3o sejam t\u00e3o rijos como as Pir\u00e2mides.<\/p>\n<p>Escobar e a mulher viviam felizes, tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido, neg\u00f3cio de teatro, n\u00e3o sei que atriz ou bailarina, mas se foi certo, n\u00e3o deu esc\u00e2ndalo. Sancha era modesta, o marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava n\u00e3o ter um filho, replicou-me:<\/p>\n<p>&#8211;Homem, deixa l\u00e1. Deus os dar\u00e1 quando quiser, e se n\u00e3o der nenhum \u00e9 que os quer para si, e melhor ser\u00e1 que fiquem no c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211;Uma crian\u00e7a, um filho \u00e9 o complemento natural da vida.<\/p>\n<p>&#8211;Vir\u00e1, se for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o vinha. Capitu pedia-o em suas ora\u00e7\u00f5es, eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo. J\u00e1 n\u00e3o era como em crian\u00e7a; agora pagava antecipadamente, como os alugu\u00e9is da casa.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CV \/ OS BRA\u00c7OS<\/h2>\n<p>No mais, tudo corria bem. Capitu gostava de rir e divertir-se, e, nos primeiros tempos, quando \u00edamos a passeios ou espet\u00e1culos, era como um p\u00e1ssaro que sa\u00edsse da gaiola. Arranjava-se com gra\u00e7a e mod\u00e9stia. Embora gostasse de j\u00f3ias, como as outras mo\u00e7as, n\u00e3o queria que eu lhe comprasse muitas nem caras, e um dia afligiu-se tanto que prometi n\u00e3o comprar mais nenhuma; mas foi s\u00f3 por pouco tempo.<\/p>\n<p>A nossa vida era mais ou menos pl\u00e1cida. Quando n\u00e3o est\u00e1vamos com a fam\u00edlia ou com amigos, ou se n\u00e3o \u00edamos a algum espet\u00e1culo ou ser\u00e3o particular (e estes eram raros) pass\u00e1vamos as noites \u00e0 nossa janela da Gl\u00f3ria, mirando o mar e o c\u00e9u, a sombra das montanhas e dos navios, ou a gente que passava na praia. As vezes, eu contava a Capitu a hist\u00f3ria da cidade, outras dava-lhe not\u00edcias de astronomia; not\u00edcias de amador que ela escutava atenta e curiosa, nem sempre tanto que n\u00e3o cochilasse um pouco. N\u00e3o sabendo piano, aprendeu depois de casada, e depressa, e da\u00ed a pouco tocava nas casas de amizade. Na Gl\u00f3ria era uma das nossas recrea\u00e7\u00f5es; tamb\u00e9m cantava, mas pouco e raro, por n\u00e3o ter voz; um dia chegou a entender que era melhor n\u00e3o cantar nada e cumpriu o alvitre. De dan\u00e7ar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os bra\u00e7os \u00e9 que&#8230; Os bra\u00e7os merecem um per\u00edodo.<\/p>\n<p>Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, n\u00e3o creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram ent\u00e3o de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no m\u00e1rmore, donde vieram, ou nas m\u00e3os do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvane acontecimento. Conversava mal com as outras pessoas, s\u00f3 para v\u00ea-los, por mais que eles se entrela\u00e7assem aos das casacas alheias. l\u00e1 n\u00e3o foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens n\u00e3o se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que ro\u00e7avam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro n\u00e3o fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus t\u00e9dios, concordou logo comigo.<\/p>\n<p>&#8211;Sanchinha tamb\u00e9m n\u00e3o vai, ou ir\u00e1 de mangas compridas;<\/p>\n<p>o contr\u00e1rio parece-me indecente.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9? Mas n\u00e3o diga o motivo; h\u00e3o de chamar-nos seminaristas. Capitu j\u00e1 me chamou assim.<\/p>\n<p>Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprova\u00e7\u00e3o de Escobar.<\/p>\n<p>Ela sorriu e respondeu que os bra\u00e7os de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu depressa, e n\u00e3o foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio vestidos de escumilha ou n\u00e3o sei que, que nem cobria nem descobria inteiramente, como o cendal de Cam\u00f5es.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CVI \/ DEZ LIBRAS ESTERLINAS<\/h2>\n<p>Eu j\u00e1 disse que era poupada, ou fica dito agora, e n\u00e3o s\u00f3 de dinheiro mas tamb\u00e9m de cousas usadas, dessas que se guardam por tradi\u00e7\u00e3o, por lembran\u00e7a ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo, uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do p\u00e9 e princ\u00edpio da perna, os \u00faltimos que usou antes de cal\u00e7ar botinas, trouxe-os para casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da c\u00f4moda, com outras velharias, dizendo-me que eram peda\u00e7os de crian\u00e7a. Minha m\u00e3e, que tinha o mesmo g\u00eanio, gostava de ouvir falar e fazer assim. Quanto \u00e0s puras economias de dinheiro, direi um caso, e basta.<\/p>\n<p>Foi justamente por ocasi\u00e3o de uma li\u00e7\u00e3o de astronomia, \u00e0 Praia da Gl\u00f3ria. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite perdeu-se em fitar o mar, com tal for\u00e7a e concentra\u00e7\u00e3o, que me deu ci\u00fames.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea n\u00e3o me ouve, Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;Eu? Ou\u00e7o perfeitamente.<\/p>\n<p>&#8211;O que \u00e9 que eu dizia?<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea&#8230;voc\u00ea falava de S\u00edrius.<\/p>\n<p>&#8211;Qual S\u00edrius, Capitu. H\u00e1 vinte minutos que eu falei de S\u00edrius.<\/p>\n<p>&#8211;Falava de&#8230; falava de Marte, emendou ela apressada.<\/p>\n<p>Realmente, era de Marte, mas \u00e9 claro que s\u00f3 apanhara o som da palavra, n\u00e3o o sentido. Fiquei s\u00e9rio, e o \u00edmpeto que me deu foi deixar a sala, Capitu, ao perceb\u00ea-lo, fez-se a mais mimosa das criaturas, come\u00e7ou-me na m\u00e3o, confessou-me que estivera contando, isto \u00e9, somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que n\u00e3o achava. Tratava-se de uma convers\u00e3o de papel em ouro. A princ\u00edpio supus que era um recurso para desenfadar-me, mas da\u00ed a pouco estava eu mesmo calculando tamb\u00e9m, j\u00e1 ent\u00e3o com papel e l\u00e1pis, sobre o joelho, e dava a diferen\u00e7a que ela buscava.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que libras s\u00e3o essas? perguntei-lhe no fim.<\/p>\n<p>Capitu fitou-me rindo, e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. Ergueu-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas, na m\u00e3o; eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo isto?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 muito, dez libras s\u00f3; \u00e9 o que a avarenta de sua mulher p\u00f4de arranjar, em alguns meses, concluiu fazendo tinir o ouro na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Quem foi o corretor?<\/p>\n<p>&#8212; O seu amigo Escobar.<\/p>\n<p>&#8211;Como \u00e9 que ele n\u00e3o me disse nada?<\/p>\n<p>&#8211;Foi hoje mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Ele esteve c\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211;Pouco antes de voc\u00ea chegar; eu n\u00e3o disse para que voc\u00ea n\u00e3o desconfiasse.<\/p>\n<p>Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo, mas Capitu deteve-me. Ao contr\u00e1rio, consultou-me sobre o que hav\u00edamos de fazer daquelas libras.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o suas, respondi.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o nossas, emendou.<\/p>\n<p>&#8211;Pois voc\u00ea guarde-as.<\/p>\n<p>No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armaz\u00e9m, e ri-me do segredo de ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escrit\u00f3rio contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasi\u00e3o da nossa \u00faltima visita a Andara\u00ed, e disse-lhe a raz\u00e3o do segredo.<\/p>\n<p>&#8211;Quando contei isto a Sanchinha, concluiu ele, ficou espantada:<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 que Capitu pode economizar, agora que tudo est\u00e1 t\u00e3o caro?&#8221;&#8211;&#8220;N\u00e3o sei, filha; sei que arranjou dez libras.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;V\u00ea se ela aprende tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o creio; Sanchinha n\u00e3o \u00e9 gastadeira, mas tamb\u00e9m n\u00e3o poupada; o que lhe dou chega, mas s\u00f3 chega.<\/p>\n<p>Eu, depois de alguns instantes de reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Capitu \u00e9 um anjo!<\/p>\n<p>Escobar concordou de cabe\u00e7a, mas sem entusiasmo, como quem sentia n\u00e3o poder dizer o mesmo da mulher. Assim pensarias m tamb\u00e9m, t\u00e3o certo \u00e9 que as virtudes das pessoas pr\u00f3ximas nos d\u00e3o te ou qual vaidade, orgulho ou<\/p>\n<p>consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CVII \/ CI\u00daMES DO MAR<\/h2>\n<p>Se n\u00e3o fosse a astronomia, n\u00e3o descobriria eu t\u00e3o cedo as dez libras de Capitu; mas n\u00e3o \u00e9 por isso que torno a ela, \u00e9 para que n\u00e3o cuides que a vaidade de professor \u00e9 que me fez padecer com a desaten\u00e7\u00e3o de Capitu e ter ci\u00fames do mar. N\u00e3o, meu amigo. Venho explicar-te que tive tais ci\u00fames pelo que podia estar na cabe\u00e7a de minha mulher, n\u00e3o fora ou acima dela. \u00c9 sabido que as distra\u00e7\u00f5es de uma pessoa podem ser culpadas, metade culpadas, um ter\u00e7o, um quinto, um d\u00e9cimo de culpadas, pois que em mat\u00e9ria de culpa a gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 infinita. A recorda\u00e7\u00e3o de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imagina\u00e7\u00e3o deles. N\u00e3o \u00e9 mister pecado efetivo e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou sinal ainda mais mi\u00fado e leve. Um an\u00f4nimo ou an\u00f4nima que passe na esquina da rua faz com que metamos S\u00edrius dentro de Marte, e tu sabes, leitor, a diferen\u00e7a que h\u00e1 de um a outro na distancia e no tamanho, mas a astronomia tem dessas confus\u00f5es. Foi isto que me fez empalidecer, calar e querer fugir da sala para voltar, Deus sabe quando; provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, estaria eu outra vez na sala, ao piano ou \u00e0 janela, continuando a li\u00e7\u00e3o interrompida:<\/p>\n<p>&#8211;Marte est\u00e1 a distancia de&#8230;<\/p>\n<p>T\u00e3o pouco tempo? Sim, t\u00e3o pouco tempo, dez minutos. Os meus ci\u00fames eram intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o c\u00e9u, a terra e as estrelas.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que fiquei mais amigo de Capitu, se era poss\u00edvel, ela ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus. E n\u00e3o foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto, nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia, mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. Escobar tamb\u00e9m se me fez mais pegado ao cora\u00e7\u00e3o. As nossas visitas foram-se tornando mais pr\u00f3ximas, e as nossas conversa\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CVIII \/ UM FILHO<\/h2>\n<p>Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho, um triste menino que fosse, amarelo e magro, mas um filho, um filho pr\u00f3prio da minha pessoa. Quando \u00edamos a Andara\u00ed e v\u00edamos a filha de Escobar e Sancha, familiarmente Capituzinha, por diferen\u00e7\u00e1-la de minha mulher, visto que lhe deram o mesmo nome \u00e0 pia, fic\u00e1vamos cheios de invejas. A pequena era graciosa e gorducha, faladeira e curiosa. Os pais, como os outros pais, contavam as travessuras e agudezas da menina, e n\u00f3s, quando volt\u00e1vamos \u00e0 noite para a Gl\u00f3ria, v\u00ednhamos suspirando as nossas invejas, e pedindo mentalmente ao c\u00e9u que no-las matasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;As invejas morreram, as esperan\u00e7as nasceram, e n\u00e3o tardou que viesse ao mundo o fruto delas. N\u00e3o era escasso nem feio, como eu j\u00e1 pedia, mas um rapag\u00e3o robusto e lindo.<\/p>\n<p>A minha alegria quando ele nasceu, n\u00e3o sei diz\u00ea-la; nunca a tive igual, nem creio que a possa haver id\u00eantica, ou que de longe ou de perto se pare\u00e7a com ela. Foi uma vertigem e uma loucura. N\u00e3o cantava na rua por natural vergonha, nem em casa para n\u00e3o afligir Capitu convalescente. Tamb\u00e9m n\u00e3o ca\u00eda, porque h\u00e1 um deus para os pais novos. Fora, vivia com o esp\u00edrito no menino; em casa, com os olhos a observ\u00e1-lo, a mir\u00e1-lo, a perguntar-lhe donde vinha, e por que \u00e9 que eu estava t\u00e3o inteiramente nele, e v\u00e1rias outras tolices sem palavras, mas pensadas ou deliradas a cada instante. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido.<\/p>\n<p>Capitu n\u00e3o era menos terna para ele e para mim. D\u00e1vamos as m\u00e3os um ao outro, e, quando n\u00e3o olh\u00e1vamos para o nosso filho, convers\u00e1vamos de n\u00f3s, do nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior encanto e mist\u00e9rio eram as de amamenta\u00e7\u00e3o. Quando eu via o meu filho chupando o leite da m\u00e3e, e toda aquela uni\u00e3o da natureza para a nutri\u00e7\u00e3o e vida de um ser que n\u00e3o fora nada, mas que o nosso destino afirmou que seria, e a nossa const\u00e2ncia e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. ficava que n\u00e3o sei dizer nem digo; positivamente n\u00e3o me lembra, e receio que o que dissesse me sa\u00edsse escuro. Escusai min\u00facias. Assim que, n\u00e3o \u00e9 preciso contar a dedica\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e e de Sancha, que tamb\u00e9m foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. Quis rejeitar o obs\u00e9quio de Sancha; respondeu me que eu n\u00e3o tinha nada com isso; tamb\u00e9m Capitu, em solteira, fora trat\u00e1-la \u00e0 Rua dos Inv\u00e1lidos.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o se lembra que o senhor foi l\u00e1 v\u00ea-la?<\/p>\n<p>&#8211;Lembra-me; mas Escobar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Eu virei jantar com voc\u00eas, e \u00e0s noites sigo para Andara\u00ed; oito dias, e est\u00e1 tudo passado. Bem se v\u00ea que voc\u00ea \u00e9 pai de primeira viagem.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m voc\u00ea- onde est\u00e1 a segunda?<\/p>\n<p>Us\u00e1vamos ent\u00e3o estas gra\u00e7as em fam\u00edlia. Hoje, que me recolhi \u00e0 minha casmurrice, n\u00e3o sei se ainda h\u00e1 tal linguagem, mas deve haver. Escobar cumpriu o que disse; jantava conosco, e ia-se \u00e0 noite. Sobre tarde desc\u00edamos \u00e0 praia ou \u00edamos ao Passeio P\u00fablico, fazendo ele os seus c\u00e1lculos, eu os meus sonhos. Eu via o meu filho m\u00e9dico, advogado, negociante, meti-o em v\u00e1rias universidades e bancos, e at\u00e9 aceitei a hip\u00f3tese de ser poeta. A possibilidade de pol\u00edtico foi consultada, e cri que me sa\u00edsse orador, e grande orador.<\/p>\n<p>&#8211;Pode ser, redarg\u00fcia Escobar; ningu\u00e9m diria o que veio a se Dem\u00f3stenes.<\/p>\n<p>Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices; tamb\u00e9m interrogava o futuro. Chegou a falar da hip\u00f3tese de casar o pequeno com a filha. A amizade existe; esteve toda nas m\u00e3os com que apertei as de Escobar, ao ouvir-lhe isto, e na total aus\u00eancia de palavras com que ali assinei o pacto, estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo cora\u00e7\u00e3o, que batia com grande for\u00e7a. Aceitei a lembran\u00e7a, e propus que os encaminh\u00e1ssemos a este fim, pela educa\u00e7\u00e3o igual e comum, pela inf\u00e2ncia unida e correta.<\/p>\n<p>Era minha id\u00e9ia que Escobar fosse padrinho do pequeno; a madrinha devia ser e seria minha m\u00e3e. Mas a primeira parte se trocou por interven\u00e7\u00e3o do tio Cosme, que, ao ver a crian\u00e7a, disse-lhe entre outros carinhos:<\/p>\n<p>&#8211;Anda, toma a b\u00ean\u00e7\u00e3o a teu padrinho, velhaco.<\/p>\n<p>E, voltando-se para mim:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o desisto do favor; e h\u00e1 de ser depressa o batizado, antes que a minha doen\u00e7a me leve de vez.<\/p>\n<p>Contei discretamente a anedota a Escobar, para que ele me compreendesse e desculpasse; riu-se e n\u00e3o se magoou. Fez mais, quis que o almo\u00e7o do batizado fosse na ch\u00e1cara dele, e foi. Eu ainda tentei espa\u00e7ar a cerim\u00f4nia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro \u00e0 doen\u00e7a, mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. N\u00e3o houve rem\u00e9dio sen\u00e3o levar o menino \u00e0 pia, onde se lhe deu o nome de Ezequiel; era o de Escobar, e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CIX \/ UM FILHO \u00daNICO<\/h2>\n<p>Ezequiel, quando come\u00e7ou o cap\u00edtulo anterior, n\u00e3o era ainda gerado; quando acabou era crist\u00e3o e cat\u00f3lico. Este outro \u00e9 destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos, um rapag\u00e3o bonito, com os seus olhos claros, j\u00e1 inquietos, como se quisessem namorar todas as mo\u00e7as da vizinhan\u00e7a, ou quase todas.<\/p>\n<p>Agora, se considerares que ele foi \u00fanico, que nenhum outro veio, certo nem incerto, morto nem vivo, um s\u00f3 e \u00fanico, imaginar\u00e1s os cuidados que nos deu, os sonos que nos tirou, e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras, a menor febr\u00edcula, toda a exist\u00eancia comum das crian\u00e7as. A tudo acud\u00edamos, segundo cumpria e urgia, cousa que n\u00e3o era necess\u00e1rio dizer, mas h\u00e1 leitores t\u00e3o obtusos, que nada entendem, se lhes n\u00e3o relata tudo e o resto. Vamos ao resto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CX \/ RASGOS DA INF\u00c2NCIA<\/h2>\n<p>O resto come-me ainda muitos cap\u00edtulos; h\u00e1 vidas que os t\u00eam menos, e fazem-se ainda assim completas e acabadas.<\/p>\n<p>Aos cinco e seis anos, Ezequiel n\u00e3o parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Gl\u00f3ria- ao contr\u00e1rio, adivinhavam-se nele todas as voca\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, desde vadio at\u00e9 ap\u00f3stolo. Vadio \u00e9 aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se \u00e0s vezes consigo, e nisto fazia lembrar a m\u00e3e, desde pequena. Assim tamb\u00e9m, agitava-se todo e instava por ir persuadir \u00e0s vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras; n\u00e3o o fazia antes de farto deles, mas tamb\u00e9m os ap\u00f3stolos n\u00e3o levam a boa doutrina sen\u00e3o depois de a terem toda no cora\u00e7\u00e3o. Escobar, bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclina\u00e7\u00e3o, talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da pr\u00f3pria gra\u00e7a, e anunciava-me que o fana seu s\u00f3cio.<\/p>\n<p>Gostava de m\u00fasica, n\u00e3o menos que de doce, e eu disse a Capitu que lhe tirasse ao piano o preg\u00e3o do preto das cocadas de Matacavalos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o me lembra.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o diga isso; voc\u00ea n\u00e3o se lembra daquele preto que vendia doce, \u00e0s tardes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Lembra-me de um preto que vendia doce, mas n\u00e3o sei mais da toada.<\/p>\n<p>&#8212; Nem das palavras?<\/p>\n<p>&#8211;Nem das palavras.<\/p>\n<p>A leitora, que ainda se lembrar\u00e1 das palavras, dado que me tenha lido com aten\u00e7\u00e3o, ficar\u00e1 espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que lhe lembrar\u00e3o ainda as vozes da sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia haver\u00e1 olvidado algumas, mas nem tudo fica na cabe\u00e7a. Assim me replicou Capitu, e n\u00e3o achei tr\u00e9plica. Fiz, por\u00e9m, o que ela n\u00e3o esperava; corri aos meus pap\u00e9is velhos. Em S. Paulo, quando estudante, pedi a um professor de m\u00fasica que me transcrevesse a toada do preg\u00e3o; ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de mem\u00f3ria), e eu guardei o papelinho; fui procur\u00e1-lo. Da\u00ed a pouco interrompi um romance que ela tocava, com o pedacinho de papel na m\u00e3o. Expliquei-lho- ela teclou as dezesseis notas.<\/p>\n<p>Capitu achou \u00e0 toada um sabor particular, quase delicioso- contou ao filho a hist\u00f3ria do preg\u00e3o, e assim o cantava e teclava. Ezequiel aproveitou a m\u00fasica para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro.<\/p>\n<p>Fazia de m\u00e9dico de militar, de ator e bailarino. Nunca lhe dei orat\u00f3rios; mas cavalos de pau e espada \u00e0 cinta eram com ele. J\u00e1 n\u00e3o falo dos batalh\u00f5es que passavam na rua, e que ele corria a ver; todas as crian\u00e7as o fazem. O que nem todas fazem \u00e9 ter os olhos que esta tinha. Em nenhuma vi as ansias de gosto com que assistia \u00e0 passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, papai! olha!<\/p>\n<p>&#8211;Estou vendo, meu filho!<\/p>\n<p>&#8212; Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados!<\/p>\n<p>Um dia amanheceu tocando corneta com a m\u00e3o- dei-lhe uma cornetinha de metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo, gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse uma pe\u00e7a de artilharia, um soldado ca\u00eddo, outro de espada al\u00e7ada, e todos os seus amores iam para o de espada al\u00e7ada. Um dia (ing\u00eanua idade!), perguntou-me impaciente:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, papai, por que \u00e9 que ele n\u00e3o deixa cair a espada de uma vez?<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho, \u00e9 porque \u00e9 pintado.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent\u00e3o por que \u00e9 que ele se pintou?<\/p>\n<p>Ri-me do engano e expliquei-lhe que n\u00e3o era o soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador, e tive de explicar tamb\u00e9m o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu, em suma.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o os principais rasgos da inf\u00e2ncia: mais um e acabo o cap\u00edtulo Um dia. na ch\u00e1cara de Escobar, deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. O gato nem deixava a presa, nem via por onde fugisse. Ezequiel n\u00e3o disse nada, deteve-se, acocorou-se, e ficou olhando. Ao v\u00ea-lo assim atento, perguntamos-lhe de longe o que era; fez-nos sinal que nos cal\u00e1ssemos. Escobar concluiu:<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e3o ver que \u00e9 o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a infestar-me a casa, que \u00e9 o diabo. Vamos ver Capitu quis tamb\u00e9m ver o filho; acompanhei-os. Efetivamente, era um gato e um rato, lance banal, sem interesse nem gra\u00e7a. A \u00fanica circunstancia particular era estar o rato vivo, esperneando, e o meu pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que sentiu mais gente, disp\u00f4s-se a correr; o menino, sem tirar-lhe os olhos de cima, fez-nos outro sinal de sil\u00eancio; e o sil\u00eancio n\u00e3o podia ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas aqui a ponho outra vez, n\u00e3o s\u00f3 por significar a totalidade do sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m porque havia naquela a\u00e7\u00e3o do gato e do rato alguma cousa que prendia com ritual. O \u00fanico rumor eram os \u00faltimos guinchos do rato, ali\u00e1s froux\u00edssimos- as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. 0s outros nem tiveram tempo de atalhar-me, Ezequiel ficou abatido.<\/p>\n<p>&#8211;Ora, papai!<\/p>\n<p>&#8211;Que foi? A esta hora o rato est\u00e1 comido.<\/p>\n<p>&#8211;Pois sim, mas eu queria ver.<\/p>\n<p>Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe gra\u00e7a.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXI \/ CONTADO DEPRESSA<\/h2>\n<p>Achei-lhe gra\u00e7a, e n\u00e3o lhe nego ainda agora, apesar do tempo passado, dos sucessos ocorridos, e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim; teve gra\u00e7a. N\u00e3o me pesa diz\u00ea-lo; os que amam a natureza como ela quer ser amada, sem rep\u00fadio parcial nem exclus\u00f5es injustas, n\u00e3o acham nela nada inferior. Amo o rato, n\u00e3o desamo o gato. J\u00e1 pensei em os fazer viver juntos, mas vi que s\u00e3o incompat\u00edveis. Em verdade, um r\u00f3i-me os livros, outro o queijo; mas n\u00e3o \u00e9 muito que eu lhes perdoe, se j\u00e1 perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstancias. Contarei o caso depressa.<\/p>\n<p>Foi quando nasceu Ezequiel; a m\u00e3e estava com febre, Sancha vivia ao p\u00e9 dela, e tr\u00eas c\u00e3es na rua latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi como se procurasse o leitor, que s\u00f3 agora sabe disto. Ent\u00e3o resolvi mat\u00e1-los; comprei veneno, mandei fazer tr\u00eas bolas de carne, e eu mesmo inseri nelas a droga. De noite, sa\u00ed; era uma hora; nem a doente. nem a enfermeira podiam dormir, com a bulha dos c\u00e3es. Quando eles me viram, afastaram-se, dous desceram para o lado da Praia do Flamengo, um ficou a curta distancia, como que esperando. Fui-me a ele, assobiando e dando estalinhos com os dedos. O diabo ainda latiu, mas fiado nos sinais de amizade, foi-se calando, at\u00e9 que se calou de todo. Como eu continuasse, ele veio a mim, devagar, mexendo a cauda, que \u00e9 o seu modo de rir deles; eu tinha j\u00e1 na m\u00e3o as bolas envenenadas, e ia deitar-lhe uma delas, quando aquele riso especial, carinho, confian\u00e7a ou o que quer que seja, me atou a vontade; fiquei assim n\u00e3o sei como, tocado de pena e guardei as bolas no bolso. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o c\u00e3o ao sil\u00eancio. N\u00e3o digo que n\u00e3o; eu cuido que ele n\u00e3o me quis atribuir perf\u00eddia ao gesto, e entregou-se-me. A conclus\u00e3o \u00e9 que se livrou.<\/p>\n<p>Tal n\u00e3o faria Ezequiel. N\u00e3o comporia bolas envenenadas, suponho, mas n\u00e3o as recusaria tamb\u00e9m. O que faria com certeza era ir atr\u00e1s dos c\u00e3es, a pedrada, at\u00e9 onde lhe dessem as pernas. E se tivesse um pau, iria a pau. Capitu morria por aquele batalhador futuro.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sai a n\u00f3s, que gostamos da paz, disse-me ela um dia. mas papai em mo\u00e7o era assim tamb\u00e9m; mam\u00e3e \u00e9 que contava.<\/p>\n<p>&#8211;Sim n\u00e3o sair\u00e1 maricas, repliquei, eu s\u00f3 lhe descubro um defeitozinho gosta de imitar os outros.<\/p>\n<p>&#8211;Imitar como?<\/p>\n<p>&#8211;Imitar os gestos, os modos, as atitudes; imita prima Justina, imita Jos\u00e9 Dias; j\u00e1 lhe achei at\u00e9 um jeito dos p\u00e9s de Escobar e dos olhos&#8230;<\/p>\n<p>Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim, e disse afinal que era preciso emend\u00e1-lo. Agora reparava que realmente era vezo do filho, mas parecia-lhe que era s\u00f3 imitar por imitar, como sucede a muitas pessoas grandes, que tomam as maneiras dos outros; e para que n\u00e3o fosse mais longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m n\u00e3o vamos mortific\u00e1-lo. Sempre h\u00e1 tempo de corrigi-lo.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1, vou ver. Voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o era assim, quando se zangava com algu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Quando me zangava, concordo; vingan\u00e7a de menino.<\/p>\n<p>&#8211;Sim, mas eu n\u00e3o gosto de imita\u00e7\u00f5es em casa.<\/p>\n<p>&#8211;E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face.<\/p>\n<p>A resposta de Capitu foi um riso doce de esc\u00e1rnio, um desses risos que n\u00e3o se descrevem, e apenas se pintar\u00e3o, depois estirou os bra\u00e7os e atirou-mos sobre os ombros, t\u00e3o cheios de gra\u00e7a que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. Eu fiz o mesmo aos meus, e senti n\u00e3o haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um peda\u00e7o de m\u00e1rmore. S\u00f3 brilharia o artista, \u00e9 certo. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem, ningu\u00e9m quer saber de modelo, mas da obra, e a obra \u00e9 que fica. N\u00e3o importa; n\u00f3s saber\u00edamos que \u00e9ramos n\u00f3s.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXIII \/ EMBARGOS DE TERCEIRO<\/h2>\n<p>Por falar nisto, \u00e9 natural que me perguntes se, sendo antes t\u00e3o cioso dela, n\u00e3o continuei a s\u00ea-lo apesar do filho e dos anos. Sim. senhor, continuei. Continuei, a tal ponto que o menor gesto me afligia, a mais \u00ednfima palavra, uma insist\u00eancia qualquer; muita vez s\u00f3 a indiferen\u00e7a bastava. Cheguei a ter ci\u00fames de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, mo\u00e7o ou maduro, me enchia de terror ou desconfian\u00e7a. \u00c9 certo que Capitu gostava de ser vista, e o meio mais pr\u00f3prio a tal fim (disse-me uma senhora, um dia) \u00e9 ver tamb\u00e9m, e n\u00e3o h\u00e1 ver sem mostrar que se v\u00ea.<\/p>\n<p>A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim, e foi naturalmente por n\u00e3o achar da minha parte correspond\u00eancia aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. Outros olhos me procuravam tamb\u00e9m, n\u00e3o muitos, e n\u00e3o digo nada sobre eles, tendo ali\u00e1s confessado a princ\u00edpio as minhas aventuras vindouras, mas eram ainda vindouras. Naquele tempo, por mais mulheres bonitas que achasse, nenhuma receberia a m\u00ednima parte do amor que tinha a Capitu. A minha pr\u00f3pria m\u00e3e n\u00e3o queria mais que metade. Capitu era tudo e mais que tudo; n\u00e3o vivia nem trabalhava que n\u00e3o fosse pensando nela. Ao teatro \u00edamos juntos; s\u00f3 me lembra que fosse duas vezes sem ela, um benef\u00edcio de ator, e uma estr\u00e9ia de \u00f3pera, a que ela n\u00e3o foi por ter adoecido, mas quis por for\u00e7a que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote a Escobar, sa\u00ed, mas voltei no fim do primeiro ato. Encontrei Escobar \u00e0 porta do corredor.<\/p>\n<p>&#8211;Vinha falar-te, disse-me ele.<\/p>\n<p>Expliquei-lhe que tinha sa\u00eddo para o teatro donde voltara receoso de Capitu, que ficara doente.<\/p>\n<p>&#8211;Doente de qu\u00ea? perguntou Escobar.<\/p>\n<p>&#8211;Queixava-se da cabe\u00e7a e do est\u00f4mago.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, vou-me embora. Vinha para aquele neg\u00f3cio dos embargos&#8230;<\/p>\n<p>Eram uns embargos de terceiro; ocorrera um incidente importante, e, tendo ele jantado na cidade, n\u00e3o quis ir para casa sem dizer-me o que era, mas j\u00e1 agora falaria depois&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, falemos j\u00e1, sobe; ela pode estar melhor. Se estiver pior, desces.<\/p>\n<p>Capitu estava melhor e at\u00e9 boa. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabe\u00e7a de nada, mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. N\u00e3o falava alegre, o que me fez desconfiar que mentia, para me n\u00e3o meter medo, mas jurou que era a verdade pura. Escobar sorriu e disse:<\/p>\n<p>&#8211;A cunhadinha est\u00e1 t\u00e3o doente como voc\u00ea ou eu. Vamos aos embargos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXIV \/ EM QUE SE EXPLICA O EXPLICADO<\/h2>\n<p>Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que j\u00e1 ficou explicado, mas n\u00e3o bem explicado. Viste que eu pedi (cap. CX) a um professor de m\u00fasica de S. Paulo que me escrevesse a toada daquele preg\u00e3o de doces de Mata-cavalos. Em si, a mat\u00e9ria \u00e9 chocha, e n\u00e3o vale a pena de um cap\u00edtulo, quanto mais dous; mas h\u00e1 mat\u00e9rias tais que trazem ensinamentos interessantes, sen\u00e3o agrad\u00e1veis. Expliquemos o explicado.<\/p>\n<p>Capitu e eu t\u00ednhamos jurado n\u00e3o esquecer mais aquele preg\u00e3o; foi em momento de grande ternura, e o tabeli\u00e3o divino sabe as cousas que se juram em tais momentos, ele que as registra nos livros eternos.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea jura?<\/p>\n<p>&#8211;Juro, disse ela estendendo tragicamente o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Aproveitei o gesto para beijar-lhe a m\u00e3o; estava ainda no semin\u00e1rio. Quando fui para S. Paulo, querendo um dia relembrar a toada, vi que a ia perdendo inteiramente; consegui record\u00e1-la e corri ao professor, que me fez o obs\u00e9quio de a escrever no pedacinho de papel.<\/p>\n<p>Foi para n\u00e3o faltar ao juramento que fiz isto. Mas h\u00e1s de crer que quando corri aos pap\u00e9is velhos, naquela noite da Gl\u00f3ria, tamb\u00e9m n\u00e3o me lembrava j\u00e1 da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento, e este \u00e9 que foi o meu pecado; esquecer, qualquer esquece.<\/p>\n<p>Ao certo, ningu\u00e9m sabe se h\u00e1 de manter ou n\u00e3o um juramento. Cousas futuras! Portanto, a nossa constitui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, transferindo o juramento \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o simples, \u00e9 profundamente moral. Acabou com um pecado terr\u00edvel. Faltar ao compromisso \u00e9 sempre infidelidade, mas a algu\u00e9m que tenha mais temor a Deus que aos homens n\u00e3o lhe importar\u00e1 mentir, uma vez ou outra, desde que n\u00e3o mete a alma no purgat\u00f3rio. N\u00e3o confudam purgat\u00f3rio com inferno, que \u00e9 o eterno naufr\u00e1gio. Purgat\u00f3rio \u00e9 uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, at\u00e9 que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXV \/ D\u00daVIDAS SOBRE D\u00daVIDAS<\/h2>\n<p>Vamos agora aos embargos&#8230; E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrev\u00ea-los, quanto mais cont\u00e1-los. Da circunstancia nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse ent\u00e3o, isto \u00e9, que n\u00e3o valia nada.<\/p>\n<p>&#8211;Nada?<\/p>\n<p>&#8211;Quase nada.<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o vale alguma cousa.<\/p>\n<p>&#8212; Para refor\u00e7ar as raz\u00f5es que j\u00e1 temos vale menos que o ch\u00e1 que voc\u00ea vai tomar comigo.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 tarde para tomar ch\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211;Tomaremos depressa.<\/p>\n<p>Tomamos depressa. Durante ele, Escobar olhava para mim descer fiado, como se cuidasse que eu recusava a circunstancia nova para forrar-me a escrev\u00ea-la, mas tal suspeita n\u00e3o ia com a nossa amizade.<\/p>\n<p>Quando ele saiu, referi as minhas d\u00favidas a Capitu; ela as desfez com a arte fina que possu\u00eda, um jeito uma gra\u00e7a toda sua, capaz de dissipar as mesmas tristezas de Ol\u00edmpio.<\/p>\n<p>&#8211;Seria o neg\u00f3cio dos embargos, concluiu; e ele que veio at\u00e9 aqui. a esta hora, \u00e9 que est\u00e1 impressionado com a demanda.<\/p>\n<p>&#8211;Tens raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Palavra puxa palavra, falei de outras d\u00favidas. Eu era ent\u00e3o um po\u00e7o delas; coaxavam dentro de mim, como verdadeiras r\u00e3s, a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. Disse-lhe que come\u00e7ava a achar minha m\u00e3e um tanto fria e arredia com ela. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1 disse a voc\u00ea o que \u00e9; cousas de sogra. Mam\u00e3ezinha tem ci\u00fames de voc\u00ea; logo que eles passem e as saudades aumentem, ela torna a ser o que era. Em lhe faltando o neto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu tenho notado que j\u00e1 \u00e9 fria tamb\u00e9m com Ezequiel Quando ele vai comigo, mam\u00e3e n\u00e3o lhe faz as mesmas gra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211;Quem sabe se n\u00e3o anda doente?<\/p>\n<p>&#8211;Vamos n\u00f3s jantar com ela amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211;Vamos&#8230; N\u00e3o&#8230; Pois vamos.<\/p>\n<p>Fomos jantar com a minha velha. J\u00e1 lhe podia chamar assim, posto que os seus cabelos brancos n\u00e3o o fossem todos nem totalmente, e o rosto estivesse comparativamente fresco- era uma esp\u00e9cie de mocidade q\u00fcinquagen\u00e1ria ou de ancianidade vi\u00e7osa, \u00e0 escolha&#8230; Mas nada de melancolias; n\u00e3o quero falar dos olhos molhados, \u00e0 entrada e \u00e0 sa\u00edda. Pouco entrou na conversa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o era diferente da costumada. Jos\u00e9 Dias falou do casamento e suas belezas, da pol\u00edtica, da Europa e da homeopatia, tio Cosme das suas mol\u00e9stias, prima Justina da vizinhan\u00e7a, ou de Jos\u00e9 Dias, quando este sa\u00eda da sala.<\/p>\n<p>Quando voltamos, \u00e0 noite, viemos por ali a p\u00e9, falando das minhas d\u00favidas. Capitu novamente me aconselhou que esper\u00e1ssemos. Sogras eram todas assim; l\u00e1 vinha um dia e mudavam. Ao passo que me falava, recrudescia de ternura. Dali em diante foi cada vez mais doce comigo; n\u00e3o me ia esperar \u00e0 janela, para n\u00e3o espertar-me os ci\u00fames, mas quando eu subia, via no alto da escada, entre as grades da cancela, a cara deliciosa da minha amiga e esposa, risonha como toda a nossa inf\u00e2ncia. Ezequiel \u00e0s vezes estava com ela; n\u00f3s o hav\u00edamos acostumado a ver o \u00f3sculo da chegada e da sa\u00edda. e ele enchia-me a cara de beijos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXVI \/ FILHO DO HOMEM<\/h2>\n<p>Apalpei Jos\u00e9 Dias sobre as maneiras novas de minha m\u00e3e; ficou espantado. N\u00e3o havia nada, nem podia haver cousa nenhuma, tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia &#8220;\u00e0 bela e virtuosa Capitu.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Agora, quando os ou\u00e7o, entro tamb\u00e9m no coro, mas a princ\u00edpio ficava envergonhad\u00edssimo. Para quem chegou, como eu, a arrenegar deste casamento, era duro confessar que ele foi uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o do c\u00e9u. Que digna senhora nos saiu a crian\u00e7a travessa de Mata-cavalos. O pai \u00e9 que nos separou um pouco, enquanto n\u00e3o nos conhec\u00edamos, mas tudo acabou em bem. Pois, sim, senhor, quando D. Gl\u00f3ria elogia a sua nora e comadre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o mam\u00e3e?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Perfeitamente!<\/p>\n<p>&#8211;Mas, por que \u00e9 que n\u00e3o nos visita h\u00e1 tanto tempo?<\/p>\n<p>&#8211;Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. Este ano tem feito muito frio&#8230; Imagine a afli\u00e7\u00e3o dela, que andava o dia inteiro; agora \u00e9 obrigada a estar quieta, ao p\u00e9 do irm\u00e3o, que l\u00e1 tem o seu mal&#8230;<\/p>\n<p>Quis observar-lhe que tal raz\u00e3o explicava a interrup\u00e7\u00e3o das visitas, e n\u00e3o a frieza quando \u00edamos n\u00f3s a Mata-cavalos; mas n\u00e3o estendi t\u00e3o longe a intimidade do agregado. Jos\u00e9 Dias pediu para ver o nosso &#8220;profetazinho&#8221; (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. Desta vez falou ao modo b\u00edblico (estivera na v\u00e9spera a folhear o livro de Ezequiel, como soube depois) e perguntava-lhe: &#8220;Como vai isso, filho do homem?&#8221; &#8220;Dize-me, filho do homem, onde est\u00e3o os teus brinquedos?&#8221; &#8220;Queres comer doce, filho do homem?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211;Que filho do homem \u00e9 esse? perguntou-lhe Capitu agastada.<\/p>\n<p>&#8211;S\u00e3o os modos de dizer da B\u00edblia.<\/p>\n<p>&#8211;Pois eu n\u00e3o gosto deles, replicou ela com aspereza.<\/p>\n<p>&#8211;Tem raz\u00e3o, Capitu, concordou o agregado. Voc\u00ea n\u00e3o imagina como a B\u00edblia \u00e9 cheia de express\u00f5es cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar&#8230; Tu como vais, meu anjo? Meu anjo, como \u00e9 que eu ando na rua?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, atalhou Capitu; j\u00e1 lhe vou tirando esse costume de imitar os outros.<\/p>\n<p>&#8211;Mas tem muita gra\u00e7a; a mim, quando ele copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de D. Gl\u00f3ria, t\u00e3o bem que ela lhe deu um beijo em paga. Vamos, como \u00e9 que eu ando?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Ezequiel, disse eu, mam\u00e3e n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>Eu mesmo achava feio tal sestro. Alguns dos gestos j\u00e1 lhe iam ficando mais repetidos, como os das m\u00e3os e p\u00e9s de Escobar, ultimamente, at\u00e9 apanhara o modo de voltar a cabe\u00e7a deste, quando falava, e o de deix\u00e1-la cair, quando ria. Capitu ralhava. Mas o menino era travesso, como o diabo; apenas come\u00e7amos a falar de outra cousa, saltou ao meio da sala, dizendo a Jos\u00e9 Dias:<\/p>\n<p>&#8211;O senhor anda assim.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de rir, eu mais que ningu\u00e9m. A primeira pessoa que fechou a cara, que o repreendeu e chamou a si foi Capitu.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o quero isso, ouviu?<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXVII \/ AMIGOS PR\u00d3XIMOS<\/h2>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o Escobar deixara Andara\u00ed e comprara uma casa no Flamengo, casa que ainda ali vi, h\u00e1 dias, quando me deu na gana experimentar se as sensa\u00e7\u00f5es antigas estavam mortas ou dormiam s\u00f3; n\u00e3o posso diz\u00ea-lo bem, porque os sonos, quando s\u00e3o pesados, confundem vivos e defuntos, a n\u00e3o ser a respira\u00e7\u00e3o. Eu respirava um pouco, mas pode ser que fosse do mar, meio agitado. Enfim, passei, acendi um charuto, e dei por mim no Catete, tinha subido pela Rua da Princesa, uma rua antiga&#8230; o ruas antigas! \u00f3 casas antigas! \u00f3 pernas antigas! Todos n\u00f3s \u00e9ramos antigos, e n\u00e3o \u00e9 preciso dizer que no mau sentido, no sentido de velho e acabado.<\/p>\n<p>Velha \u00e9 a casa, mas n\u00e3o lhe alteraram nada. N\u00e3o sei at\u00e9 se ainda tem o mesmo n\u00famero. N\u00e3o digo que n\u00famero \u00e9 para n\u00e3o irem indagar e cavar a hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 que Escobar ainda l\u00e1 more nem sequer viva; morreu pouco depois, por um modo que hei de contar. Enquanto viveu, uma vez que est\u00e1vamos t\u00e3o pr\u00f3ximos, t\u00ednhamos por assim dizer uma s\u00f3 casa- eu vivia na dele, ele na minha, e o peda\u00e7o de praia entre a Gl\u00f3ria e o Flamengo era como um caminho de uso pr\u00f3prio e particular. Fazia-me pensar nas duas casas de Mata-cavalos, com o seu muro de permeio.<\/p>\n<p>Um historiador da nossa l\u00edngua, creio que Jo\u00e3o de Barros, p\u00f5e na boca de um rei b\u00e1rbaro algumas palavras mansas, quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao p\u00e9 uma fortaleza, dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros, n\u00e3o perto, para se n\u00e3o zangarem como as \u00e1guas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. Que a sombra do escritor me perdoe, se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto, e n\u00e3o fez mal, porque \u00e9 bonita; realmente, \u00e9 bonita. Eu creio que o mar ent\u00e3o batia na pedra, como \u00e9 seu costume, desde Ulisses e antes. Agora que a compara\u00e7\u00e3o seja verdadeira \u00e9 que n\u00e3o. Seguramente h\u00e1 inimigos cont\u00edguos, mas tamb\u00e9m h\u00e1 amigos de perto e do peito. E o escritor esquecia (salvo se ainda n\u00e3o era do seu tempo) esquecia o ad\u00e1gio: longe dos olhos, longe do cora\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o pod\u00edamos ter os cora\u00e7\u00f5es agora mais perto. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra, n\u00f3s pass\u00e1vamos as noites c\u00e1 ou l\u00e1 conversando, jogando ou mirando o mar. Os dous pequenos passavam dias, ora no Flamengo, ora na Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu, acharam todos que sim, e Sancha acrescentou que at\u00e9 j\u00e1 se iam parecendo. Eu expliquei:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; \u00e9 porque Ezequiel imita os gestos dos outros.<\/p>\n<p>Escobar concordou comigo, e insinuou que alguma vez as crian\u00e7as que se freq\u00fcentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei de cabe\u00e7a, como me sucedia nas mat\u00e9rias que eu n\u00e3o sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo \u00e9 que eles se queriam muito, e podiam acabar casados, mas n\u00e3o acabaram casados.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXVIII \/ A M\u00c3O DE SANCHA<\/h2>\n<p>Tudo acaba, leitor; \u00e9 um velho tru\u00edsmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. Esta segunda parte n\u00e3o acha crentes f\u00e1ceis, ao contr\u00e1rio, a id\u00e9ia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que \u00e9 feito, dificilmente se despegar\u00e1 da cabe\u00e7a, e \u00e9 bom que seja assim, para que se n\u00e3o perca o costume daquelas constru\u00e7\u00f5es quase eternas.<\/p>\n<p>O nosso castelo era s\u00f3lido, mas um domingo&#8230; Na v\u00e9spera t\u00ednhamos passado a noite no Flamengo, n\u00e3o s\u00f3 os dous casais insepar\u00e1veis, como ainda o agregado e prima Justina. Foi ent\u00e3o que Escobar, falando-me \u00e0 janela, disse-me que f\u00f4ssemos l\u00e1 jantar no dia seguinte; precis\u00e1vamos falar de um projeto em fam\u00edlia, um projeto para os quatro.<\/p>\n<p>&#8211;Para os quatro? Uma contradan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9s capaz de adivinhar o que seja, nem eu digo. Vem amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Sancha n\u00e3o tirava os olhos de n\u00f3s durante a conversa, ao canto da janela. Quando o marido saiu, veio ter comigo. Perguntou-me de que \u00e9 que fal\u00e1ramos- disse-lhe que de um projeto que eu n\u00e3o sabia qual fosse, ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem \u00e0 Europa dali a dous anos. Disse isto de costas para dentro, quase suspirando. O mar batia com grande for\u00e7a na praia; havia ressaca.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos todos? perguntei por fim.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos.<\/p>\n<p>Sancha ergueu a cabe\u00e7a e olhou para mim com tanto prazer que eu, gra\u00e7as \u00e0s rela\u00e7\u00f5es dela e Capitu, n\u00e3o se me daria beij\u00e1-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha n\u00e3o convidavam a expans\u00f5es fraterais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra cousa, e n\u00e3o tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.<\/p>\n<p>Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao p\u00e9 do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhum passavam. Tal se d\u00e1 na rua entre dous teimosos. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na mem\u00f3ria se alguma vez olhara para ela com a mesma express\u00e3o, e fiquei incerto. Tive um certeza s\u00f3, \u00e9 que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa; mas ent\u00e3o dar-se-ia que ela adivinhando&#8230; Talvez o simples pensamento me transluzisse c\u00e1 fora, e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invenc\u00edvel&#8230; Invenc\u00edvel; esta palavra foi como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de padre \u00e0 missa, que a gente recebe e repete em si mesma.<\/p>\n<p>&#8211;O mar amanh\u00e3 est\u00e1 de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao p\u00e9 de mim.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea entra no mar amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211;Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Voc\u00ea n\u00e3o imagina o que \u00e9 um bom mar em hora bravia. \u00c9 preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulm\u00f5es disse ele batendo no peito, e estes bra\u00e7os; apalpa.<\/p>\n<p>Apalpei-lhe os bra\u00e7os, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confiss\u00e3o, mas n\u00e3o posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem s\u00f3 os apalpei com essa id\u00e9ia, mas ainda senti outra cousa, achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edmos, tornei a falar com os olhos \u00e0 dona da casa. A m\u00e3o dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume<\/p>\n<p>A mod\u00e9stia pedia ent\u00e3o, como agora, que eu visse naquele gesto de Sancha uma san\u00e7\u00e3o ao projeto do marido e um agradecimento. Assim devia ser. mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclus\u00e3o que deixo escrita. Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no rel\u00f3gio do tempo; quando cheguei o rel\u00f3gio ao ouvido, trabalhavam s\u00f3 os minutos da virtude e da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; &#8230;Uma senhora delicios\u00edssima, concluiu Jos\u00e9 Dias um discurso que vinha fazendo.<\/p>\n<p>&#8211;Delicios\u00edssima! repeti com algum ardor, que moderei logo, emendando-me: Realmente, uma bela noite!<\/p>\n<p>&#8211;Como devem ser todas as daquela casa, continuou o agregado. C\u00e1 fora, n\u00e3o, c\u00e1 fora o mar est\u00e1 zangado; escute.<\/p>\n<p>Ouvia-se o mar forte,&#8211;como j\u00e1 se ouvia de casa,&#8211;a ressaca era grande e, a distancia, viam-se crescer as ondas. Capitu e prima Justina, que iam adiante, detiveram-se numa das voltas da praia, e fomos conversando os quatro, mas eu conversava mal. N\u00e3o havia meio de esquecer inteiramente a m\u00e3o de Sancha nem os olhos que trocamos. Agora achava-lhes isto, agora aquilo. Os instantes do Daho intercalavam-se nos minutos de Deus, e o rel\u00f3gio foi assim marcando alternativamente a minha perdi\u00e7\u00e3o e a minha salva\u00e7\u00e3o. Jos\u00e9 Dias despediu-se de n\u00f3s \u00e0 porta. Prima Justina dormiu em nossa casa; iria embora, no dia seguinte, depois do almo\u00e7o e da missa. Eu recolhi-me ao meu gabinete, onde me demorei mais que de costume.<\/p>\n<p>O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao p\u00e9 do de minha m\u00e3e, falou-me como se fosse a pr\u00f3pria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo, rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma inten\u00e7\u00e3o daquela esp\u00e9cie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram t\u00e3o amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Quando houvesse alguma inten\u00e7\u00e3o sexual, quem me provaria que n\u00e3o era mais que uma sensa\u00e7\u00e3o fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? H\u00e1 remorsos que n\u00e3o nascem de outro pecado, nem t\u00eam maior dura\u00e7\u00e3o. Agarrei-me a esta hip\u00f3tese que se conciliava com a m\u00e3o de Sancha, que eu sentia de mem\u00f3ria dentro da minha m\u00e3o, quente e demorada, apertada e apertando&#8230;<\/p>\n<p>Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a atra\u00e7\u00e3o. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o c\u00e9u que d\u00e1 as nossas virtudes, a timidez tamb\u00e9m, n\u00e3o contando o acaso, mas o acaso \u00e9 um mero acidente; a melhor origem delas \u00e9 o c\u00e9u. Entretanto, como a timidez vem do c\u00e9u, que nos d\u00e1 a compleic\u00e3o, a virtude, filha dela, \u00e9, genealogicamente, o mesmo sangue celestial. Assim refletiria se pudesse, mas a princ\u00edpio vaguei \u00e0 toa. Paix\u00e3o n\u00e3o era nem insinua\u00e7\u00e3o. Capricho seria ou qu\u00ea? Ao fim de vinte minutos era nada, inteiramente nada. O retrato de Escobar pareceu falar-me- vi-lhe a atitude franca e simples, sacudi a cabe\u00e7a e fui deitar-me.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXIX \/ N\u00c3O FA\u00c7A ISSO, QUERIDA!<\/h2>\n<p>A leitora, que \u00e9 minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje, quer fech\u00e1-lo \u00e0s pressas, ao ver que beiramos um abismo. N\u00e3o fa\u00e7a isso, querida; eu mudo de rumo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXX \/ OS AUTOS<\/h2>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte acordei livre das abomina\u00e7\u00f5es da v\u00e9spera; chamei-lhes alucina\u00e7\u00f5es, tomei caf\u00e9, percorri os jornais e fui estudar uns autos. Capitu e prima Justina sa\u00edram para a missa das nove, na Lapa. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alega\u00e7\u00f5es da parte adversa, que eu ia lendo nos autos, alega\u00e7\u00f5es falsas, inadmiss\u00edveis, sem apoio na lei nem nas praxes. Vi que era f\u00e1cil ganhar a demanda- consultei Dalloz, Pereira e Sousa&#8230;<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 vez olhei para o retrato de Escobar. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. Estava de p\u00e9, sobrecasaca abotoada, a m\u00e3o esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida ao peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei p\u00f4r n\u00e3o encobria a dedicat\u00f3ria, escrita embaixo, n\u00e3o nas costas do cart\u00e3o: &#8220;Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.&#8221; Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manh\u00e3, e espancaram de todo as recorda\u00e7\u00f5es da v\u00e9spera. Naquele tempo a minha vista era boa; eu podia l\u00ea-las do lugar em que estava. Tornei aos autos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXI \/ A CAT\u00c1STROFE<\/h2>\n<p>No melhor deles, ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou, soaram palmas, golpes na cancela, vozes, acudiram todos, acudi eu mesmo. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava<\/p>\n<p>&#8211;Para ir l\u00e1&#8230; sinh\u00f4 nadando, sinh\u00f4 morrendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o disse mais nada, ou eu n\u00e3o lhe ouvi o resto. Vesti-me, deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo.<\/p>\n<p>Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar meteu-se a na dar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cad\u00e1ver.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXII \/ O ENTERRO<\/h2>\n<p>A Vi\u00fava&#8230; Poupo-vos as l\u00e1grimas da vi\u00fava, as minhas, as da outra gente. Sa\u00ed de l\u00e1 cerca de onze horas; Capitu e prima Justina esperavam-me, uma com o parecer abatido e est\u00fapido, outra enfastiada apenas.<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e3o fazer companhia \u00e0 pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.<\/p>\n<p>Assim fizemos. Quis que o enterro fosse pomposo, e a aflu\u00eancia dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, Pra\u00e7a da Gl\u00f3ria, tudo eram carros, muitos deles particulares. A casa n\u00e3o sendo grande, n\u00e3o podiam l\u00e1 caber todos, muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando o lugar em que Escobar falecera, ouvindo referir a chegada do morto. Jos\u00e9 Dias ouviu tamb\u00e9m falar dos neg\u00f3cios do finado, divergindo alguns na avalia\u00e7\u00e3o dos bens, mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar, um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco- est\u00e1vamos em mar\u00e7o de 1871. Nunca me esqueceu o m\u00eas nem o ano.<\/p>\n<p>Como eu houvesse resolvido falar no cemit\u00e9rio, escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a Jos\u00e9 Dias, que as achou realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as palavras, e confirmou a primeira opini\u00e3o; no Flamengo espalhou a not\u00edcia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, vamos ouvi-lo?<\/p>\n<p>&#8211;Quatro palavras.<\/p>\n<p>Poucas mais seriam. Tinha-as escrito com receio de que a emo\u00e7\u00e3o me impedisse de improvisar. No t\u00edlburi em que andei uma ou duas horas, n\u00e3o fizera mais que recordar o tempo do semin\u00e1rio, as rela\u00e7\u00f5es de Escobar, as nossas simpatias, a nossa amizade, come\u00e7ada, continuada e nunca interrompida, at\u00e9 que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. De quando em quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tr\u00eas perguntas sobre a minha situa\u00e7\u00e3o moral; n\u00e3o me arrancando nada, continuou o seu of\u00edcio. Chegando a casa, deitei aquelas emo\u00e7\u00f5es ao papel; tal seria o discurso.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXIII \/ OLHOS DE RESSACA<\/h2>\n<p>Enfim, chegou a hora da encomenda\u00e7\u00e3o e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam tamb\u00e9m, as mulheres todas. S\u00f3 Capitu, amparando a vi\u00fava, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arranc\u00e1-la dali. A confus\u00e3o era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cad\u00e1ver t\u00e3o fixa, t\u00e3o apaixonadamente fixa, que n\u00e3o admira lhe saltassem algumas l\u00e1grimas poucas e caladas&#8230;<\/p>\n<p>As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de car\u00edcias para a amiga, e quis lev\u00e1-la; mas o cad\u00e1ver parece que a retinha tamb\u00e9m. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da vi\u00fava, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar l\u00e1 fora, como se quisesse tragar tamb\u00e9m o nadador da manh\u00e3.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXIV \/ O DISCURSO<\/h2>\n<p>&#8211;Vamos, s\u00e3o horas&#8230;<\/p>\n<p>Era Jos\u00e9 Dias que me convidava a fechar o ata\u00fade. Fechamo-lo, e eu peguei numa das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando cheguei \u00e0 porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabe\u00e7as descobertas, tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam \u00e0 execu\u00e7\u00e3o: foi atirar \u00e0 rua caix\u00e3o, defunto e tudo. No carro disse a Jos\u00e9 Dias que se calasse. No cemit\u00e9rio tive de repetir a cerim\u00f4nia da casa, desatar as correias, e ajudar a levar o f\u00e9retro \u00e0 cova. O que isto me custou imagina. Descido o cad\u00e1ver \u00e0 cova, trouxeram a cal e a p\u00e1; sabes disto, ter\u00e1s ido a mais de um enterro, mas o que n\u00e3o sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro estranho, \u00e9 a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim, os p\u00e9s quietos, as orelhas atentas, e, ao cabo de alguns instantes de total sil\u00eancio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas, sinais, e algu\u00e9m, Jos\u00e9 Dias, que me dizia ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, fale.<\/p>\n<p>Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso anunciado. Maquinalmente, meti a m\u00e3o no bolso, saquei o papel e li-o aos trambolh\u00f5es, n\u00e3o todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar cm vez de sair, as m\u00e3os tremiam-me. N\u00e3o era s\u00f3 a emo\u00e7\u00e3o nova que me fazia assim, era o pr\u00f3prio texto, as mem\u00f3rias do amigo, as saudades confessadas, os louvores \u00e0 pessoa e aos seus m\u00e9ritos; tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a verdade, forcejava por escond\u00ea-la bem. Creio que poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de compreens\u00e3o c de aprova\u00e7\u00e3o. As m\u00e3os que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam: &#8220;Muito bonito! muito bem! magn\u00edfico!&#8221; Jos\u00e9 Dias achou que a eloq\u00fc\u00eancia estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista, pediu-me licen\u00e7a para levar o manuscrito e imprimi-lo. S\u00f3 a minha grande turva\u00e7\u00e3o recusaria um obs\u00e9quio t\u00e3o simples.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXV \/ UMA COMPARA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Pr\u00edamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a m\u00e3o daquele que lhe matou o filho. Homero \u00e9 que relata isto, e \u00e9 um bom autor, n\u00e3o obstante cont\u00e1-lo em verso, mas h\u00e1 narra\u00e7\u00f5es exatas em verso, e at\u00e9 mau verso. Compara tu a situa\u00e7\u00e3o de Pr\u00edamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera, defunto, aqueles olhos&#8230; \u00c9 imposs\u00edvel que algum Homero n\u00e3o tirasse da minha situa\u00e7\u00e3o muito melhor efeito, ou quando menos igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Cam\u00f5es; n\u00e3o, senhor, faltam-nos, \u00e9 certo, mas \u00e9 porque os Pr\u00edamos procuram a sombra e o sil\u00eancio. As l\u00e1grimas, se as t\u00eam, s\u00e3o enxugadas atr\u00e1s da porta, para que as caras apare\u00e7am limpas e serenas, os discursos s\u00e3o antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles n\u00e3o matasse Heitor.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXVI \/ CISMANDO<\/h2>\n<p>Pouco depois de sair do cemit\u00e9rio, rasguei o discurso e deitei os peda\u00e7os pela portinhola fora, sem embargo dos esfor\u00e7os de Jos\u00e9 Dias para impedi-lo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o presta para nada, disse-lhe eu, e como posso ter a tenta\u00e7\u00e3o de d\u00e1-lo a imprimir, fica j\u00e1 destru\u00eddo de uma vez. N\u00e3o presta, n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias demonstrou longamente o contr\u00e1rio, depois elogiou o enterro, e por \u00faltimo fez o paneg\u00edrico do morto, uma grande alma, esp\u00edrito ativo, cora\u00e7\u00e3o reto, amigo, bom amigo, digno da esposa amant\u00edssima que Deus lhe dera&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto do discurso, deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. O que cismei foi t\u00e3o escuro e confuso que n\u00e3o me deixou tomar p\u00e9. No Catete mandei parar o carro, disse a Jos\u00e9 Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa; eu iria a p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Vou fazer uma visita.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o disto era acabar de cismar, e escolher uma resolu\u00e7\u00e3o que fosse adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as pernas- estas iriam pausadas ou n\u00e3o, podia afrouxar o passo. parar, arrepiar caminho, e deixar que a cabe\u00e7a cismasse \u00e0 vontade. Fui andando e cismando. Tinha j\u00e1 comparado o gesto de Sancha na v\u00e9spera e o desespero daquele dia; eram inconcili\u00e1veis. A vi\u00fava era realmente amant\u00edssima. Assim se desvaneceu de todo a ilus\u00e3o da minha vaidade. N\u00e3o seria o mesmo caso de Capitu. Cuidei de recompor-lhe os olhos, a posi\u00e7\u00e3o em que a vi, o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimula\u00e7\u00e3o, se houvesse algo que dissimular. O que aqui vai por ordem l\u00f3gica e dedutiva, tinha sido antes uma barafunda de id\u00e9ias e sensa\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as aos solavancos do carro e \u00e0s interrup\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Dias. Agora, por\u00e9m, raciocinava e evocava claro e bem. Conclu\u00ed de mim para mim que era a antiga paix\u00e3o que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre.<\/p>\n<p>Quando cheguei a esta conclus\u00e3o final, chegava tamb\u00e9m \u00e0 porta de casa, mas voltei para tr\u00e1s, e subi outra vez a Rua do Catete. Eram as d\u00favidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas; andei largo espa\u00e7o, at\u00e9 que me senti sossegar, e endireitei para casa. Batiam oito horas numa padaria.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXVII \/ O BARBEIRO<\/h2>\n<p>Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rebeca e n\u00e3o tocava inteiramente mal. Na ocasi\u00e3o em que ia passando, executava n\u00e3o sei que pe\u00e7a. Parei na cal\u00e7ada a ouvi-lo (tudo s\u00e3o pretextos a um cora\u00e7\u00e3o agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. N\u00e3o atendeu a um fregu\u00eas, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras \u00e0 navalha. Perdeu-os sem perder uma nota- ia tocando para mim. Esta considera\u00e7\u00e3o fez-me chegar francamente \u00e0 porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma mo\u00e7a trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele, creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presen\u00e7a o favor que eu fazia ao marido. Se me n\u00e3o engano, chegou a diz\u00ea-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava&#8230;<\/p>\n<p>Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estr\u00e9pito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta m\u00e1xima, que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos comp\u00eandios de escola. A m\u00e1xima \u00e9 que a gente esquece devagar as boas a\u00e7\u00f5es que pratica, e verdadeiramente n\u00e3o as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite, que eram o p\u00e3o do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um traunseunte. Sup\u00f5e agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava \u00e0 porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher, ent\u00e3o \u00e9 que ele, todo arco, todo rebeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXVIII \/ PUNHADO DE SUCESSOS<\/h2>\n<p>Como ia dizendo, subi as escadas sem estr\u00e9pito, empurrei a cancela, que estava apenas encostada, e dei com prima Justina e Jos\u00e9 Dias jogando cartas na saleta pr\u00f3xima. Capitu levantou-se do canap\u00e9 e veio a mim. O rosto dela era agora sereno e puro. Os outros suspenderam o jogo, e todos falamos do desastre e da vi\u00fava. Capitu censurou a imprud\u00eancia de Escobar, e n\u00e3o dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. Perguntei-lhe por que n\u00e3o ficara com Sancha aquela noite.<\/p>\n<p>&#8211;Tem l\u00e1 muita gente; ainda assim ofereci-me, mas n\u00e3o quis. Tamb\u00e9m lhe disse que era melhor vir para c\u00e1, e passar aqui uns dias conosco.<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m n\u00e3o quis?<\/p>\n<p>&#8211;Tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Entretanto, a vista do mar h\u00e1 de ser-lhe penosa, todas as manh\u00e3s, ponderou Jos\u00e9 Dias, e n\u00e3o sei como poder\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas passa; o que \u00e9 que n\u00e3o passa? atalhou prima Justina.<\/p>\n<p>E como em torno desta id\u00e9ia come\u00e7\u00e1ssemos uma troca de palavras, Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. Ao passar pelo espelho, concertou os cabelos t\u00e3o demoradamente que pareceria afeta\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o soub\u00e9ssemos que ela era muito amiga de si. Quando tornou, trazia os olhos vermelhos; disse-nos que, ao mirar o filho dormindo, pensara na filhinha de Sancha, e na afli\u00e7\u00e3o da vi\u00fava. E, sem se lhe dar das visitas, nem reparar se havia algum criado, abra\u00e7ou-me e disse-me que, se quisesse pensar nela, era preciso pensar primeiro na minha vida. Jos\u00e9 Dias achou a frase &#8220;lind\u00edssima&#8221;, e perguntou a Capitu por que \u00e9 que n\u00e3o fazia versos. Tentei meter o caso \u00e0 bulha, e assim acabamos a noite.<\/p>\n<p>No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado o discurso, n\u00e3o que quisesse d\u00e1-lo a imprimir, mas era lembran\u00e7a do finado. Pensei em recomp\u00f4-lo, mas s\u00f3 achei frases soltas, que uma vez juntas n\u00e3o tinham sentido. Tamb\u00e9m pensei em fazer outro, mas era j\u00e1 dif\u00edcil, e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemit\u00e9rio. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados \u00e0 rua, era tarde; estariam j\u00e1 varridos.<\/p>\n<p>Inventariei as lembran\u00e7as de Escobar, livros, um tinteiro de bronze, uma bengala de marfim, um p\u00e1ssaro, o \u00e1lbum de Capitu, duas paisagens do Paran\u00e1 e outras. Tamb\u00e9m ele as possu\u00eda de minha m\u00e3o. Vivemos assim a trocar mem\u00f3rias e regalos, ora em dia de anos, ora sem raz\u00e3o particular. Tudo isso me empanava os olhos&#8230; Vieram os jornais do dia: davam not\u00edcia do desastre e da morte de Escobar, os estudos e os neg\u00f3cios deste, as qualidades pessoais, a simpatia do com\u00e9rcio, e tamb\u00e9m falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Tudo isso foi na segunda-feira. Na ter\u00e7a-feira foi aberto o testamento, que me nomeava segundo testamenteiro; o primeiro lugar cabia a mulher. N\u00e3o me deixava nada, mas as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. Capitu desta vez chorou muito; mas comp\u00f4s-se depressa.<\/p>\n<p>Testamento, invent\u00e1rio, tudo andou quase t\u00e3o depressa como aqui vai dito. Ao cabo de pouco tempo, Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paran\u00e1.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXIX \/ A D. SANCHA<\/h2>\n<p>D. Sancha, pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o leia este livro; ou, se o houver lido at\u00e9 aqui, abandone o resto. Basta fech\u00e1-lo; melhor ser\u00e1 queim\u00e1-lo, para lhe n\u00e3o dar tenta\u00e7\u00e3o e abri-lo outra vez. Se, apesar do aviso, quiser ir at\u00e9 o fim, a culpa \u00e9 sua; n\u00e3o respondo pelo mal que receber. O que j\u00e1 lhe tiver feito, contando os gestos daquele s\u00e1bado, esse acabou, uma vez que os acontecimentos, e eu com eles, desmentimos a minha ilus\u00e3o; mas o que agora a alcan\u00e7ar, esse \u00e9 indel\u00e9vel. N\u00e3o, amiga minha, n\u00e3o leia mais. V\u00e1 envelhecendo, sem marido nem filha, que eu fa\u00e7o a mesma cousa, e \u00e9 ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. Um dia. iremos daqui at\u00e9 \u00e0 porta do c\u00e9u, onde nos encontraremos renovados, como as plantas novas, come piante novelle,<\/p>\n<p>Rinovellate di novelle fronde.<\/p>\n<p>O resto em Dante.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXX \/ UM DIA&#8230;<\/h2>\n<p>Por enquanto, um dia Capitu quis saber o que \u00e9 que me fazia andar calado e aborrecido. E prop\u00f4s-me a Europa, Minas, Petr\u00f3polis, uma s\u00e9rie de bailes, mil desses rem\u00e9dios aconselhados aos melanc\u00f3licos. Eu n\u00e3o sabia que lhe respondesse; recusei as divers\u00f5es. Como insistisses repliquei-lhe que os meus neg\u00f3cios andavam mal. Capitu sorriu para animar-me. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e at\u00e9 l\u00e1 as j\u00f3ias, os objetos de algum valor seriam vendidos, e ir\u00edamos residir em algum beco. Viver\u00edamos sossegados e esquecidos; depois tornar\u00edamos \u00e0 tona da \u00e1gua. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe secamente que n\u00e3o era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. Ela prop\u00f4s-me jogar cartas ou damas, um passeio a p\u00e9, uma visita a Mata-cavalos; e, como eu n\u00e3o aceitasse nada, foi para a sala, abriu o piano, e come\u00e7ou a tocar; eu aproveitei a aus\u00eancia, peguei do chap\u00e9u e sa\u00ed.<\/p>\n<p>&#8230;Perd\u00e3o, mas este cap\u00edtulo devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, ocorrido poucas semanas antes, dous meses depois da partida de Sancha. Vou escrev\u00ea-lo; podia antep\u00f4-lo a este antes de mandar o livro ao prelo, mas custa muito alterar o n\u00famero das p\u00e1ginas; vai assim mesmo, depois a narra\u00e7\u00e3o seguir\u00e1 direita at\u00e9 o fim. Demais, \u00e9 curto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXI \/ ANTERIOR AO ANTERIOR<\/h2>\n<p>Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e pl\u00e1cida, a banca do advogado rendia-me bastante, Capitu estava mais bela, Ezequiel ia crescendo. Come\u00e7ava o ano de 1872.<\/p>\n<p>&#8211;Voc\u00ea j\u00e1 reparou que Ezequiel tem nos olhos uma express\u00e3o esquisita? perguntou-me Capitu. S\u00f3 vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado de papai, n\u00e3o precisa revirar os olhos, assim, assim&#8230;<\/p>\n<p>Era depois de jantar, est\u00e1vamos ainda \u00e0 mesa, Capitu brincava com o filho, ou ele com ela, ou um com outro, porque, em verdade, queriam-se muito, mas \u00e9 tamb\u00e9m certo que ele me queria ainda mais a mim. Aproximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha raz\u00e3o; eram os olhos de Escobar, mas n\u00e3o me pareceram esquisitos por isso. Afinal n\u00e3o haveria mais que meia d\u00fazia de express\u00f5es no mundo, e muitas semelhan\u00e7as se dariam naturalmente. Ezequiel n\u00e3o entendeu nada, olhou espantado para ela e para mim, e afinal saltou-me ao colo:<\/p>\n<p>&#8211;Vamos passear, papai?<\/p>\n<p>&#8211;Logo, meu filho.<\/p>\n<p>Capitu, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas, dizendo-lhe eu que, na beleza, os olhos de Ezequiel sa\u00edam aos da m\u00e3e, Capitu sorriu abanando a cabe\u00e7a com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque n\u00e3o gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afei\u00e7\u00e3o da gente, e \u00e9 da\u00ed que mestre Povo tirou aquele ad\u00e1gio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capitu tinha meia d\u00fazia de gestos \u00fanicos na terra. Aquele entrou-me pela alma dentro. Assim fica explicado que eu corresse \u00e0 minha esposa e amiga e lhe enchesse a cara de beijos; mas este outro incidente n\u00e3o \u00e9 radicalmente necess\u00e1rio \u00e0 compreens\u00e3o do cap\u00edtulo passado e dos futuros; fiquemos nos olhos de Ezequiel.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXII \/ O DEBUXO E O COLORIDO<\/h2>\n<p>Nem s\u00f3 os olhos, mas as restantes fei\u00e7\u00f5es, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, at\u00e9 que a fam\u00edlia p\u00eandula o quadro na parede, em mem\u00f3ria do que foi e j\u00e1 n\u00e3o pode ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o efeito da mudan\u00e7a; mas a mudan\u00e7a fez-se, n\u00e3o \u00e0 maneira de teatro, fez-se como a manh\u00e3 que aponta vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois l\u00ea-se a carta na rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janelas; a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. Li a carta, mal a princ\u00edpio e n\u00e3o toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe, \u00e9 certo, metia o papel no bolso, corria a casa, fechava-me, n\u00e3o abria as vidra\u00e7as, chegava a fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a letra era clara e a not\u00edcia clar\u00edssima.<\/p>\n<p>Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do semin\u00e1rio e do Flamengo para se sentar comigo \u00e0 mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manh\u00e3, ou pedir-me \u00e0 noite a b\u00ean\u00e7\u00e3o do costume. Todas essas a\u00e7\u00f5es eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava as, para me n\u00e3o descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, n\u00e3o podia faz\u00ea-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ningu\u00e9m. Quando nem m\u00e3e nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava mat\u00e1-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida emba\u00e7ada e agoniada. Quando, por\u00e9m, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro.<\/p>\n<p>O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, n\u00e3o se notar\u00e1 aqui, por ser t\u00e3o mi\u00fado e repetido, e j\u00e1 t\u00e3o tarde que n\u00e3o se poder\u00e1 diz\u00ea-lo sem falha nem canseira. Mas o principal ir\u00e1. E o principal \u00e9 que os nossos temporais eram agora cont\u00ednuos e terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Antes de descoberta aquela m\u00e1 terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; n\u00e3o tardava que o c\u00e9u se fizesse azul, o sol claro e o mar ch\u00e3o, por onde abr\u00edamos novamente as velas que nos levavam \u00e0s ilhas e costas mais belas do universo, at\u00e9 que outro p\u00e9 de vento desbaratava tudo, e n\u00f3s, postos \u00e0 capa, esper\u00e1vamos outra bonan\u00e7a, que n\u00e3o era tardia nem d\u00fabia, antes total, pr\u00f3xima e firme.<\/p>\n<p>Releva-me estas met\u00e1foras; cheiram ao mar e \u00e0 mar\u00e9 que deram morte ao meu amigo e combor\u00e7o Escobar. Cheiram tamb\u00e9m aos olhos de ressaca de Capitu. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquela parte da minha vida, como um marujo contaria o seu naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre n\u00f3s s\u00f3 faltava dizer a palavra \u00faltima; n\u00f3s a l\u00edamos, por\u00e9m, nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha para n\u00f3s n\u00e3o fazia mais que separar-nos. Capitu prop\u00f4s met\u00ea-lo em um col\u00e9gio, donde s\u00f3 viesse aos s\u00e1bados; custou muito ao menino aceitar esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Quero ir com papai! Papai h\u00e1 de ir comigo! bradava ele.<\/p>\n<p>Fui eu mesmo que o levei um dia de manh\u00e3, uma segunda-feira. Era no antigo Largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a p\u00e9, pela m\u00e3o, como levara o ata\u00fade do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria v\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Vou.<\/p>\n<p>&#8211;Papai n\u00e3o vai!<\/p>\n<p>&#8211;Vou sim.<\/p>\n<p>&#8211;Jura, papai!<\/p>\n<p>&#8211;Pois sim.<\/p>\n<p>&#8211;Papai n\u00e3o diz que jura.<\/p>\n<p>&#8211;Pois juro.<\/p>\n<p>E l\u00e1 o levei e deixei. A aus\u00eancia tempor\u00e1ria n\u00e3o atalhou o mal, e toda a arte fina de Capitu para faz\u00ea-lo atenuar, ao menos, foi como se n\u00e3o fosse; eu sentia-me cada vez pior. A mesma situa\u00e7\u00e3o nova agravou a minha paix\u00e3o. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista; mas a volta dele, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava, ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhan\u00e7a, era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. At\u00e9 a voz, dentro de pouco, j\u00e1 me parecia a mesma. Aos s\u00e1bados, buscava n\u00e3o andar em casa e s\u00f3 entrar quando ele estivesse dormindo; mas n\u00e3o escapava ao domingo, no gabinete, quando eu me achava entre jornais e autos. Ezequiel entrava turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora uma avers\u00e3o que mal podia disfar\u00e7ar, tanto a ela como aos outros. N\u00e3o podendo encobrir inteiramente esta disposi\u00e7\u00e3o moral, cuidava de me n\u00e3o fazer encontradi\u00e7o com ele, ou s\u00f3 o menos que pudesse; ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora sa\u00eda ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXIII \/ UMA ID\u00c9IA<\/h2>\n<p>Um dia&#8211;era uma sexta-feira,&#8211;n\u00e3o pude mais. Certa id\u00e9ia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a bat\u00ea-las de um lado para outro, como fazem as id\u00e9ias que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas tamb\u00e9m pode ter sido prop\u00f3sito; fui educado no terror daquele dia. ouvi cantar baladas, em casa, vindas da ro\u00e7a e da antiga metr\u00f3pole, nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto, n\u00e3o havendo almanaques no c\u00e9rebro, \u00e9 prov\u00e1vel que a id\u00e9ia n\u00e3o batesse as asas sen\u00e3o pela necessidade que sentia de vir ao ar e \u00e0 vida. A vida \u00e9 t\u00e3o bela que a mesma id\u00e9ia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida. J\u00e1 me vais entendendo; l\u00ea agora outro cap\u00edtulo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXIV \/ O DIA DE S\u00c1BADO<\/h2>\n<p>A id\u00e9ia saiu finalmente do c\u00e9rebro. Era noite, e n\u00e3o pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Tamb\u00e9m nenhuma noite me passou t\u00e3o curta. Amanheceu, quando cuidava n\u00e3o ser mais que uma ou duas horas.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, supondo deixar a id\u00e9ia em casa; ela veio comigo. C\u00e1 fora tinha a mesma cor escura, as mesmas asas tr\u00e9pidas, e posto avoasse com elas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, n\u00e3o que me encobrisse as cousas externas, mas via-as atrav\u00e9s dela, com a cor mais p\u00e1lida que de costume, e sem se demorarem nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei uma substancia, que n\u00e3o digo, para n\u00e3o espertar o desejo de prov\u00e1-la. A farm\u00e1cia faliu, \u00e9 verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, porque o pr\u00eamio da loteria gasta-se, e a morte n\u00e3o se gasta. Fui a casa de minha m\u00e3e, com o fim de despedir-me, a t\u00edtulo de visita. Ou de verdade ou por ilus\u00e3o, tudo ali me pareceu melhor nesse dia. minha m\u00e3e menos triste, tio Cosme esquecido do cora\u00e7\u00e3o, prima Justina da l\u00edngua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir m\u00e3o do projeto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXV \/ OTELO<\/h2>\n<p>Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu n\u00e3o vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincid\u00eancia. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um len\u00e7o. &#8211;um simples len\u00e7o!&#8211;e aqui dou mat\u00e9ria \u00e0 medita\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3logos deste e de outros continentes, pois n\u00e3o me pude furtar \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de que um len\u00e7o bastou a acender os ci\u00fames de Otelo e compor a mais sublime trag\u00e9dia deste mundo. Os len\u00e7os perderam-se. hoje s\u00e3o precisos os pr\u00f3prios len\u00e7\u00f3is; alguma vez nem len\u00e7\u00f3is h\u00e1 e valem s\u00f3 as camisas. Tais eram as id\u00e9ias que me iam passando pela cabe\u00e7a, vagas e turvas, \u00e0 medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua cal\u00fania. Nos intervalos n\u00e3o me levantava da cadeira- n\u00e3o queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Ent\u00e3o eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas n\u00e3o teria amado algu\u00e9m que jazesse agora no cemit\u00e9rio, e vinham outras incoer\u00eancias, at\u00e9 que o pano subia e continuava a pe\u00e7a. O \u00faltimo ato mostrou-me que n\u00e3o eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as s\u00faplicas de Desd\u00eamona, as suas palavras amorosas e puras, e a f\u00faria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos fren\u00e9ticos do p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8211;E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; &#8212; que faria o p\u00fablico, se ela deveras fosse culpada, t\u00e3o culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro n\u00e3o bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a p\u00f3, e o p\u00f3 seria lan\u00e7ado ao vento, como eterna extin\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, \u00e9 verdade um quase nada, mas o bastante para ir at\u00e9 \u00e0 manh\u00e3. Vi as \u00faltimas horas da noite e as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores, as primeiras carro\u00e7as, os primeiros ru\u00eddos, os primeiros albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. N\u00e3o tornaria a contemplar o mar da Gl\u00f3ria, nem a serra dos \u00f3rg\u00e3os, nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. A gente que passava n\u00e3o era tanta, como nos dias comuns da semana, mas era j\u00e1 numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria depois; eu \u00e9 que n\u00e3o repetiria mais nada.<\/p>\n<p>Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi p\u00e9 ante p\u00e9, e meti-me no gabinete, iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a \u00faltima, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte.<\/p>\n<p>Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O segundo continha s\u00f3 o necess\u00e1rio, claro e breve. N\u00e3o lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe s\u00f3 de Escobar e da necessidade de morrer.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXVI \/ A X\u00cdCARA DE CAF\u00c9<\/h2>\n<p>O meu plano foi esperar o caf\u00e9, dissolver nele a droga e ingeri-la. At\u00e9 l\u00e1, n\u00e3o tendo esquecido de todo a minha hist\u00f3ria romana, lembrou-me que Cat\u00e3o, antes de se matar, leu e releu um livro de Plat\u00e3o. N\u00e3o tinha Plat\u00e3o comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do c\u00e9lebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e para em tudo imit\u00e1-lo, estirei-me no canap\u00e9. Nem era s\u00f3 imit\u00e1-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do fil\u00f3sofo, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignor\u00e2ncia \u00e9 n\u00e3o ter este rem\u00e9dio \u00e0 \u00faltima hora. H\u00e1 muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira, mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa esp\u00e9cie de coca\u00edna moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imita\u00e7\u00e3o, lembra-me bem que, para n\u00e3o ser encontrado ao p\u00e9 de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a not\u00edcia nas gazetas com a da cor das cal\u00e7as que eu ent\u00e3o vestia, assentei de p\u00f4-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.<\/p>\n<p>O copeiro trouxe o caf\u00e9. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a x\u00edcara. J\u00e1 a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A m\u00e3o tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na x\u00edcara, e comecei a mexer o caf\u00e9, os olhos vagos, a mem\u00f3ria em Desd\u00eamona inocente; o espet\u00e1culo da v\u00e9spera vinha intrometer-se na realidade da manh\u00e3. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando; l\u00e1 estava ele, com a m\u00e3o nas costas da cadeira, a olhar ao longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Acabemos com isto&#8221;, pensei.<\/p>\n<p>Quando ia a beber, cogitei se n\u00e3o seria melhor esperar que Capitu e o filho sa\u00edssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:<\/p>\n<p>&#8211;Papai! papai!<\/p>\n<p>Leitor, houve aqui um gesto que eu n\u00e3o descrevo por hav\u00ea-lo inteiramente esquecido, mas cr\u00ea que foi belo e tr\u00e1gico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar at\u00e9 dar de costas na estante. Ezequiel abra\u00e7ou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos p\u00e9s, como que rendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:<\/p>\n<p>&#8211;Papai! papai!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXVII \/ SEGUNDO IMPULSO<\/h2>\n<p>Se eu n\u00e3o olhasse para Ezequiel, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro \u00edmpeto foi correr ao caf\u00e9 e beb\u00ea-lo. Cheguei a pegar na x\u00edcara, mas o pequeno beijava-me a m\u00e3o, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui;- mas v\u00e1 l\u00e1, diga-se tudo. Chamem me embora assassino; n\u00e3o serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se j\u00e1 tomara caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211;J\u00e1, papai; vou \u00e0 missa com mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211;Toma outra x\u00edcara, meia x\u00edcara s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211;E papai?<\/p>\n<p>&#8212; Eu mando vir mais; anda, bebe!<\/p>\n<p>Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a x\u00edcara, t\u00e3o tr\u00eamulo que quase a entornei, mas disposto a faz\u00ea-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o caf\u00e9 estava frio&#8230; Mas n\u00e3o sei que senti que me fez recuar. Pus a x\u00edcara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabe\u00e7a do menino.<\/p>\n<p>&#8211;Papai! papai! exclamava Ezequiel.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, n\u00e3o, eu n\u00e3o sou teu pai!<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXVIII \/ CAPITU QUE ENTRA<\/h2>\n<p>Quando levantei a cabe\u00e7a, dei com a figura de Capitu diante de mim. Eis a\u00ed outro lance, que parecer\u00e1 de teatro, e \u00e9 t\u00e3o natural como o primeiro, uma vez que a m\u00e3e e o filho iam \u00e0 missa, e Capitu n\u00e3o sa\u00eda sem falar-me. Era j\u00e1 um falar seco e breve; a maior parte das vezes, eu nem olhava para ela. Ela olhava sempre, esperando.<\/p>\n<p>Desta vez, ao dar com ela, n\u00e3o sei se era dos meus olhos, mas Capitu pareceu-me l\u00edvida. Seguiu-se um daqueles sil\u00eancios, a que, sem mentir, se pode chamar de um s\u00e9culo, tal \u00e9 a extens\u00e3o do tempo nas grandes crises. Capitu recomp\u00f4s-se; disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o h\u00e1 que explicar, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 tudo, n\u00e3o entendo as tuas l\u00e1grimas nem as de Ezequiel. Que houve entre voc\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o ouviu o que lhe disse?<\/p>\n<p>Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que ouvira tudo claramente mas confess\u00e1-lo seria perder a esperan\u00e7a do sil\u00eancio e da reconcilia\u00e7\u00e3o por isso negou a audi\u00eancia e confirmou unicamente a vista. Sem lhe contar o epis\u00f3dio do caf\u00e9, repeti-lhe as palavras do final do cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>&#8211;O qu\u00ea? perguntou ela como se ouvira mal.<\/p>\n<p>&#8211;Que n\u00e3o \u00e9 meu filho.<\/p>\n<p>Grande foi a estupefa\u00e7\u00e3o de Capitu, e n\u00e3o menor a indigna\u00e7\u00e3o que lhe sucedeu, t\u00e3o naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. J\u00e1 ouvi que as h\u00e1 para v\u00e1rios casos, quest\u00e3o de pre\u00e7o; eu n\u00e3o creio, tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou n\u00e3o testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; a pr\u00f3pria natureza jurava por si, e eu n\u00e3o queria duvidar dela. Assim que, sem atender \u00e0 linguagem de Capitu, aos seus gestos, \u00e0 dor que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolu\u00e7\u00e3o que a fizeram afrouxar. Ap\u00f3s alguns instantes, disse-me ela:<\/p>\n<p>&#8211;S\u00f3 se pode explicar tal inj\u00faria pela convic\u00e7\u00e3o sincera; entretanto voc\u00ea que era t\u00e3o cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfian\u00e7a. Que \u00e9 que lhe deu tal id\u00e9ia? Diga,&#8211; continuou vendo que eu n\u00e3o respondia nada, &#8212; diga tudo; depois do que ouvi, posso ouvir o resto, n\u00e3o pode ser muito. Que \u00e9 que lhe deu agora tal convic\u00e7\u00e3o? Ande, Bentinho, fale! fale! Despe\u00e7a-me daqui, mas diga tudo primeiro.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1 cousas que se n\u00e3o dizem.<\/p>\n<p>&#8211;Que se n\u00e3o dizem s\u00f3 metade; mas j\u00e1 que disse metade, diga tudo.<\/p>\n<p>Tinha-se sentado numa cadeira ao p\u00e9 da mesa. Podia estar um tanto confusa, o porte n\u00e3o era de acusada. Pedi-lhe ainda uma vez que n\u00e3o teimasse.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se voc\u00ea acha que tenho defesa, ou pe\u00e7o-lhe desde j\u00e1 a nossa separa\u00e7\u00e3o: n\u00e3o posso mais!<\/p>\n<p>&#8211;A separa\u00e7\u00e3o \u00e9 cousa decidida, redarg\u00fci pegando-lhe na proposta. Era melhor que a fiz\u00e9ssemos por meias palavras ou em sil\u00eancio; cada um iria com a sua ferida. Uma vez, por\u00e9m, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o disse tudo; mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitu n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir, de um riso que eu sinto n\u00e3o poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente ir\u00f4nico e melanc\u00f3lico:<\/p>\n<p>&#8211;Pois at\u00e9 os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ci\u00fames!<\/p>\n<p>Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, enquanto eu, que n\u00e3o pedia outra cousa mais que a plena justifica\u00e7\u00e3o dela, disse-lhe n\u00e3o sei que palavras adequadas a este fim. Capitu olhou para mim com desd\u00e9m, e murmurou:<\/p>\n<p>&#8211;Sei a raz\u00e3o disto; \u00e9 a casualidade da semelhan\u00e7a&#8230; A vontade de Deus explicar\u00e1 tudo&#8230; Ri-se? \u00c9 natural- apesar do semin\u00e1rio n\u00e3o acredita em Deus; eu creio&#8230; Mas n\u00e3o falemos nisto; n\u00e3o nos fica bem dizer mais nada.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXXXIX \/ A FOTOGRAFIA<\/h2>\n<p>Palavra que estive a pique de crer que era v\u00edtima de uma grande ilus\u00e3o, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando:&#8211;&#8220;Mam\u00e3e! mam\u00e3e! \u00e9 hora da missa!&#8221; restituiu-me \u00e0 consci\u00eancia da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confus\u00e3o dela fez-se confiss\u00e3o pura. Este era aquele; havia por for\u00e7a alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, por\u00e9m, n\u00e3o confessou nada; repetiu as \u00faltimas palavras, puxou do filho e sa\u00edram para a missa.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXL \/ VOLTA DA IGREJA<\/h2>\n<p>Ficando s\u00f3, era natural pegar do caf\u00e9 e beb\u00ea-lo. Pois, n\u00e3o, senhor; tinha perdido o gosto \u00e0 morte. A morte era uma solu\u00e7\u00e3o; eu acabava de achar outra, tanto melhor quanto que n\u00e3o era definitiva, e deixava a porta aberta \u00e0 repara\u00e7\u00e3o, se devesse hav\u00ea-la. N\u00e3o disse perd\u00e3o, mas repara\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, justi\u00e7a. Qualquer que fosse a raz\u00e3o do ato, rejeitei a morte, e esperei o regresso de Capitu. Este foi mais demorado que de costume; cheguei a temer que ela houvesse ido \u00e0 casa de minha m\u00e3e, mas n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>&#8211;Confiei a Deus todas as minhas amarguras, disse-me Capitu ao voltar da igreja; ouvi dentro de mim que a nossa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel, e estou \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>Os olhos com que me disse isto eram embu\u00e7ados, como espreitando um gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com a pr\u00f3pria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro, mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que aparecia agora, desde que impress\u00f5es novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e far\u00edamos o que eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito.<\/p>\n<p>No intervalo, evocara as palavras do finado Gurgel, quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher, parecido com Capitu. H\u00e1s de lembrar-te delas; se n\u00e3o, rel\u00ea o cap\u00edtulo, cujo n\u00famero n\u00e3o ponho aqui, por n\u00e3o me lembrar j\u00e1 qual seja, mas n\u00e3o fica longe. Reduzem-se a dizer que h\u00e1 tais semelhan\u00e7as inexplic\u00e1veis&#8230; Pelo dia adiante, e nos outros dias, Ezequiel ia ter comigo ao gabinete, e as fei\u00e7\u00f5es do pequeno davam id\u00e9ia clara das do outro, ou eu ia atentando mais nelas. De envolta, lembravam-me epis\u00f3dios vagos e remotos, palavras, encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira n\u00e3o p\u00f4s mal\u00edcia, e a que faltou o meu velho ci\u00fame. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados, um segredo que me fez rir, uma palavra dela sonhando, todas essas reminisc\u00eancias vieram vindo agora, em tal atrop\u00ealo que me atordoaram&#8230; E por que os n\u00e3o esganei um dia. quando desviei os olhos da rua onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegr\u00e1fico? Dentro, as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar, os olhos enfiados nos olhos, mas t\u00e3o cautelosos que se desenfiaram logo, dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora, e acharam-lhe gra\u00e7a; Escobar declarou que, para ele, seria melhor se as andorinhas, em vez de trepadas no fio de arame, estivessem \u00e0 mesa do jantar cozidas. &#8220;Nunca comi os ninhos delas, continuou, mas devem ser bons, se os chins os inventaram.&#8221; E ficamos a tratar dos chins e dos cl\u00e1ssicos que falaram deles, enquanto Capitu, confessando que a aborrec\u00edamos, foi a outros cuidados. Agora lembrava-me tudo o que ent\u00e3o me pareceu nada.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLI \/ A SOLU\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Aqui est\u00e1 o que fizemos. Pegamos em n\u00f3s e fomos para a Europa, n\u00e3o passear, nem ver nada, novo nem velho; paramos na Su\u00ed\u00e7a. Uma professora do Rio Grande, que foi conosco, ficou de companhia a Capitu, ensinando a l\u00edngua materna a Ezequiel, que aprenderia o resto nas escolas do pa\u00eds. Assim regulada a vida, tornei ao Brasil.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns meses, Capitu come\u00e7ara a escrever-me cartas, a que respondi com brevidade e sequid\u00e3o. As dela eram submissas, sem \u00f3dio, acaso afetuosas, e para o fim saudosas; pedia-me que a fosse ver. Embarquei um ano depois, mas n\u00e3o a procurei, e repeti a viagem com o mesmo resultado. Na volta, os que se lembravam dela, queriam not\u00edcias, e eu dava-lhes, como se acabasse de viver com ela; naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar a opini\u00e3o. Um dia, finalmente&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLII \/ UMA SANTA<\/h2>\n<p>Entenda-se que, se nas viagens que fiz \u00e0 Europa, Jos\u00e9 Dias n\u00e3o foi comigo, n\u00e3o \u00e9 que lhe faltasse vontade; ficava de companhia a tio Cosme, quase inv\u00e1lido e a minha m\u00e3e, que envelheceu depressa. Tamb\u00e9m ele estava velho, posto que rijo. Ia a bordo despedir-se de mim, e as palavras que me dizia, os gestos de len\u00e7o, os pr\u00f3prios olhos que enxugava eram tais que me comoviam tamb\u00e9m. A \u00faltima vez n\u00e3o foi a bordo.<\/p>\n<p>&#8211;Venha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 com medo?<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o; n\u00e3o posso. Agora, adeus, Bentinho, n\u00e3o sei se me ver\u00e1 mais; creio que vou para a outra Europa, a eterna&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o foi logo; minha m\u00e3e embarcou primeiro. Procura no cemit\u00e9rio de S. Jo\u00e3o Batista uma sepultura sem nome, com esta \u00fanica indica\u00e7\u00e3o: Uma santa. \u00c9 a\u00ed. Fiz fazer essa inscri\u00e7\u00e3o com alguma dificuldade. O escultor achou-a esquisita, o administrador do cemit\u00e9rio consultou o vig\u00e1rio da par\u00f3quia; este ponderou-me que as santas es t\u00e3o no altar e no c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, perd\u00e3o, atalhei, eu n\u00e3o quero dizer que naquela sepultura est\u00e1 uma canonizada. A minha id\u00e9ia \u00e9 dar com tal palavra uma defini\u00e7\u00e3o terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. Tanto \u00e9 assim que, sendo a mod\u00e9stia uma delas, desejo conserv\u00e1-la p\u00f3stuma, n\u00e3o lhe escrevendo o nome.<\/p>\n<p>&#8211;Todavia, o nome, a filia\u00e7\u00e3o, as datas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quem se importar\u00e1 com datas, filia\u00e7\u00e3o, nem nomes, depois que eu acabar?<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer que era uma santa senhora, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211;Justamente. O protonot\u00e1rio Cabral, se fosse vivo, confirmaria aqui o que lhe digo.<\/p>\n<p>&#8211;Nem eu contesto a verdade, hesito s\u00f3, na f\u00f3rmula. Conheceu ent\u00e3o o protonot\u00e1rio?<\/p>\n<p>&#8212; Conheci-o. Era um padre-modelo.<\/p>\n<p>&#8212; Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso, continuou o vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211;E possu\u00eda algumas prendas de sociedade, disse eu; l\u00e1 em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gam\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vig\u00e1rio. Um dado de mestre!<\/p>\n<p>&#8211;Ent\u00e3o, parece-lhe&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211;Uma vez que n\u00e3o h\u00e1 outro sentido, nem poderia hav\u00ea-lo, sim, senhor, admite-se&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias assistiu a estas dilig\u00eancias, com grande melancolia. No fim, quando sa\u00edmos, disse mal do padre, chamou-lhe meticuloso. S\u00f3 lhe achava desculpa por n\u00e3o ter conhecido minha m\u00e3e, nem ele nem os outros homens do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o a conheceram; se a conhecessem mandariam esculpir sant\u00edssima.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLIII \/ O \u00daLTIMO SUPERLATIVO<\/h2>\n<p>N\u00e3o foi o \u00faltimo superlativo de Jos\u00e9 Dias. Outros teve que n\u00e3o vale a pena escrever aqui, at\u00e9 que veio o \u00faltimo, o melhor deles, o mais doce, o que lhe fez da morte um peda\u00e7o de vida. J\u00e1 ent\u00e3o morava comigo; posto que minha m\u00e3e lhe deixasse uma pequena lembran\u00e7a, veio dizer-me que, com legado ou sem ele, n\u00e3o se separaria de mim. Talvez a esperan\u00e7a dele fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capitu, a que pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel; mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio, at\u00e9 que ele n\u00e3o pediu mais nada, a n\u00e3o ser o cora\u00e7\u00e3o do jovem estudante; pedia-lhe tamb\u00e9m que n\u00e3o deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do av\u00f4, &#8220;destinado pelo c\u00e9u a amar o mesmo sangue.&#8221; Era assim que ele preparava os cuidados da terceira gera\u00e7\u00e3o; mas a morte veio antes de Ezequiel. A doen\u00e7a foi r\u00e1pida. Mandei chamar um m\u00e9dico homeopata.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, Bentinho, disse ele- basta um alopata; em todas as escolas se morre. Demais, foram id\u00e9ias da mocidade, que o tempo levou; converto-me \u00e0 f\u00e9 de meus pais. A alopatia \u00e9 o catolicismo da medicina&#8230;<\/p>\n<p>Morreu sereno, ap\u00f3s uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o c\u00e9u estava lindo, e pediu que abr\u00edssemos a janela.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o, o ar pode fazer-lhe mal.<\/p>\n<p>&#8211;Que mal? Ar \u00e9 vida.<\/p>\n<p>Abrimos a janela. Realmente, estava um c\u00e9u azul e claro. Jos\u00e9 Dias soergueu-se e olhou para fora; ap\u00f3s alguns instantes, deixou cair a cabe\u00e7a, murmurando: Lind\u00edssimo! Foi a \u00faltima palavra que proferiu neste mundo. Pobre Jos\u00e9 Dias! Por que hei de negar que chorei por ele?<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLIV \/ UMA PERGUNTA TARDIA<\/h2>\n<p>Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo, mas n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel. Tenho-me feito esquecer. Moro longe e saio pouco. N\u00e3o \u00e9 que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, conquanto reproduza a de Mata-cavalos, apenas me lembra aquela, e mais por efeito de compara\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o que de sentimento. J\u00e1 disse isto mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e3o de perguntar-me por que raz\u00e3o, tendo a pr\u00f3pria casa velha, na mesma rua antiga, n\u00e3o impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. A pergunta devia ser feita a princ\u00edpio, mas aqui vai a resposta. A raz\u00e3o \u00e9 que, logo que minha m\u00e3e morreu, querendo ir para l\u00e1, fiz primeiro uma longa visita de inspe\u00e7\u00e3o por alguns dias, e toda a casa me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o po\u00e7o, a ca\u00e7amba velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de reto, como outrora, tinha agora um ar de ponto de interroga\u00e7\u00e3o; naturalmente pasmava do intruso. Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que ali deixasse, e n\u00e3o achei nenhum. Ao contr\u00e1rio, a ramagem come\u00e7ou a sussurrar alguma cousa que n\u00e3o entendi logo, e parece que era a cantiga das manh\u00e3s novas. Ao p\u00e9 dessa m\u00fasica sonora e jovial, ouvi tamb\u00e9m o grunhir dos porcos, esp\u00e9cie de tro\u00e7a concentrada e filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Tudo me era estranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e, mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta reprodu\u00e7\u00e3o por explica\u00e7\u00f5es que dei ao arquiteto, segundo contei em tempo.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLV \/ O REGRESSO<\/h2>\n<p>Ora, foi j\u00e1 nesta casa que um dia. estando a vestir-me para almo\u00e7ar, recebi um cart\u00e3o com este nome:<\/p>\n<p>EZEQUIEL A. DE SANTIAGO<\/p>\n<p>&#8211;A pessoa est\u00e1 a\u00ed? perguntei ao criado.<\/p>\n<p>&#8211;Sim senhor, ficou esperando.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. S\u00f3 depois \u00e9 que me lembrou que cumpria ter certo alvoro\u00e7o e correr, abra\u00e7\u00e1-lo, falar-lhe na m\u00e3e. A m\u00e3e,&#8211;creio que ainda n\u00e3o disse que estava morta e enterrada. Estava; l\u00e1 repousa na velha Su\u00ed\u00e7a. Acabei de vestir-me \u00e0s pressas. Quando sa\u00ed do quarto, com ares de pai, um pai entre manso e crespo, metade Dom Casmurro Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e n\u00e3o fiz rumor N\u00e3o obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. N\u00e3o me mexi; era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do semin\u00e1rio de Jos\u00e9, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava \u00e0 moderna naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o pr\u00f3prio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu combor\u00e7o; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela m\u00e3e; eu tamb\u00e9m estava de preto. Sentamo-nos.<\/p>\n<p>&#8211;Papai n\u00e3o faz diferen\u00e7a dos \u00faltimos retratos, disse-me ele<\/p>\n<p>A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogat\u00f3rio para ter menos que falar e dominar assim a minha emo\u00e7\u00e3o. Mas isto mesmo dava anima\u00e7\u00e3o \u00e0 cara dele, e o meu colega do semin\u00e1rio ia ressurgindo cada vez mais do cemit\u00e9rio. Ei-lo aqui. diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obs\u00e9quio e a mesma gra\u00e7a. Ansiava por ver-me. A m\u00e3e falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.<\/p>\n<p>&#8212; Morreu bonita, concluiu.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Se pensas que o almo\u00e7o foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de aborrecimento, \u00e9 verdade; a princ\u00edpio doeu-me que Ezequiel n\u00e3o fosse realmente meu filho, que me n\u00e3o completasse e continuasse. Se o rapaz tem sa\u00eddo \u00e0 m\u00e3e, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na v\u00e9spera evocava a meninice, cenas e palavras, a ida para o col\u00e9gio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Papai ainda se lembra quando me levou para o col\u00e9gio? perguntou rindo.<\/p>\n<p>&#8211;Pois n\u00e3o hei de lembrar-me?<\/p>\n<p>&#8211;Era na Lapa; eu ia desesperado, e papai n\u00e3o parava, dava-me cada pux\u00e3o, e eu com as perninhas&#8230; Sim, senhor, aceito.<\/p>\n<p>Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia assim tamb\u00e9m, com a cara metida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de arqueologia, que era a sua paix\u00e3o. Falava da antiguidade com amor, contava o Egito e os seus milhares de s\u00e9culos, sem se perder nos algarismos; tinha a cabe\u00e7a aritm\u00e9tica do pai. Eu, posto que a id\u00e9ia da paternidade do outro me estivesse j\u00e1 familiar, n\u00e3o<\/p>\n<p>gostava da ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, fechava os olhos para n\u00e3o ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e ria por ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo rem\u00e9dio sen\u00e3o ficar com ele, fiz-me pai deveras. A id\u00e9ia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar, que Capitu por descuido levasse consigo, n\u00e3o me acudiu, nem se acudisse, persistiria. Ezequiel cria em mim como na m\u00e3e. Se fosse vivo Jos\u00e9 Dias, acharia nele a minha pr\u00f3pria pessoa. Prima Justina quis v\u00ea-lo, mas estando enferma, pediu-me que o levasse l\u00e1. Conhecia aquela parenta. Creio que o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no mo\u00e7o o debuxo que porventura houvesse achado no menino. Seria um regalo \u00faltimo; atalhei-o a tempo.<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 muito mal, disse eu a Ezequiel que queria ir v\u00ea-la, qualquer emo\u00e7\u00e3o pode trazer-lhe a morte. Iremos v\u00ea-la, quando ficar melhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos; a morte levou-a dentro de poucos dias. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caix\u00e3o e n\u00e3o a conheceu, nem podia, t\u00e3o outra a fizeram os anos e a morte. No caminho para o cemit\u00e9rio, iam-lhe lembrando uma por\u00e7\u00e3o de cousas, alguma rua, alguma torre, um trecho de praia, e era todo alegria. Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao fim do dia; contava-me as recorda\u00e7\u00f5es que ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara, como se as casas morressem meninas.<\/p>\n<p>Ao cabo de seis meses, Ezequiel falou-me em uma viagem \u00e0 Gr\u00e9cia, ao Egito, e \u00e0 Palestina, viagem cient\u00edfica, promessa feita a alguns amigos.<\/p>\n<p>&#8211;De que sexo? perguntei rindo.<\/p>\n<p>Sorria vexado, e respondeu-me que as mulheres eram criaturas t\u00e3o da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ru\u00edna de trinta s\u00e9culos. Eram dous colegas da universidade. Prometi-lhe recursos, e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. Como disse que uma das conseq\u00fc\u00eancias dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho; antes lhe pagasse a lepra&#8230; Quando esta id\u00e9ia me atravessou o c\u00e9rebro, senti-me t\u00e3o cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apert\u00e1-lo ao cora\u00e7\u00e3o, mas recuei; encarei-o depois, como se faz a um filho de verdade; os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLVI \/ N\u00c3O HOUVE LEPRA<\/h2>\n<p>N\u00e3o houve lepra, mas h\u00e1 febres por todas essas terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tif\u00f3ide, e foi enterrado nas imedia\u00e7\u00f5es de Jerusal\u00e9m, onde os dous amigos da universidade lhe levantaram um t\u00famulo com esta inscri\u00e7\u00e3o, tirada do profeta Ezequiel, em grego: &#8220;Tu eras perfeito nos teus caminhos.&#8221; Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para n\u00e3o tornar a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, achei que era exato, mas tinha ainda um complemento: &#8220;Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua cria\u00e7\u00e3o.&#8221; Parei e perguntei calado: &#8220;Quando seria o dia da cria\u00e7\u00e3o de Ezequiel?&#8221; Ningu\u00e9m me respondeu. Eis a\u00ed mais um mist\u00e9rio para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLVII \/ A EXPOSI\u00c7\u00c3O RETROSPECTIVA<\/h2>\n<p>J\u00e1 sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, n\u00e3o ficou a\u00ed para um canto como uma flor l\u00edvida e solit\u00e1ria. N\u00e3o lhe dei essa cor ou descor. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura, \u00e9 verdade. Elas \u00e9 que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva, e, ou se fartam de v\u00ea-la, ou a luz da sala esmorece. Uma s\u00f3 dessas visitas tinha carro \u00e0 porta e cocheiro de libr\u00e9. As outras iam modestamente, calcante pede, e, se chovia, eu \u00e9 que ia buscar um carro de pra\u00e7a, e as metia dentro, com grandes despedidas, e maiores recomenda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; Levas o cat\u00e1logo?<\/p>\n<p>&#8212; Levo; at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211;At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00e3o voltavam mais. Eu ficava \u00e0 porta, esperando, ia at\u00e9 \u00e0 esquina, espiava, consultava o rel\u00f3gio, e n\u00e3o via nada nem ningu\u00e9m. Ent\u00e3o, se aparecia outra visita, dava-lhe o bra\u00e7o, entr\u00e1vamos, mostrava-lhe as paisagens, os quadros hist\u00f3ricos ou de g\u00eanero, uma aquarela, um pastel, uma gouache, e tamb\u00e9m esta cansava, e ia embora com o cat\u00e1logo na m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<h2>CAP\u00cdTULO CXLVIII \/ E BEM, E O RESTO?<\/h2>\n<p>Agora , por que \u00e9 que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu cora\u00e7\u00e3o? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana obl\u00edqua e dissimulada. Mas n\u00e3o \u00e9 este propriamente o resto do livro. O resto \u00e9 saber se a Capitu da Praia da Gl\u00f3ria j\u00e1 estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ci\u00fames, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: &#8220;N\u00e3o tenhas ci\u00fames de tua mulher para que ela n\u00e3o se meta a enganar-te com a mal\u00edcia que aprender de ti&#8221;. Mas eu creio que n\u00e3o, e tu concordar\u00e1s comigo; se te lembras bem da Capitu menina, h\u00e1s de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.<\/p>\n<p>E bem, qualquer que seja a solu\u00e7\u00e3o, uma cousa fica, e \u00e9 a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, t\u00e3o extremosos ambos e t\u00e3o queridos tamb\u00e9m, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me&#8230; A terra lhes seja leve! Vamos \u00e0 &#8220;Hist\u00f3ria dos Sub\u00farbios.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte:www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO PRIMEIRO \/ DO T\u00cdTULO Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conhe\u00e7o de vista e de chap\u00e9u. Cumprimentou-me, sentou-se ao p\u00e9 de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. 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