{"id":120299,"date":"2017-04-24T13:54:37","date_gmt":"2017-04-24T15:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120299"},"modified":"2017-04-24T13:54:37","modified_gmt":"2017-04-24T15:54:37","slug":"ricardo-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ricardo-iii","title":{"rendered":"Ricardo III"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>RICARDO, Duque de Gloucester, (mais tarde Rei Ricardo III).<br \/>\nDUQUE DE CLARENCE, seu irm\u00e3o, (mais tarde o seu fantasma).<br \/>\nSENHOR ROBERTO DE BRAKENBURY, Tenente da Torre.<br \/>\nSENHOR DE HASTINGS, o Camareiro-Mor, (mais tarde o seu fantasma).<br \/>\nDONA ANA, vi\u00fava de Eduardo, Pr\u00edncipe de Gales, (mais tarde o seu fantasma).<br \/>\nTRESSEL, fidalgo do s\u00e9quito de Dona Ana.<br \/>\nBERKELEY, fidalgo do s\u00e9quito de Dona Ana.<br \/>\nUm alabardeiro<br \/>\nUm fidalgo<br \/>\nRAINHA ISABEL, mulher do Rei Eduardo IV<br \/>\nMARGARIDA, vi\u00fava do Rei Henry VI<br \/>\nSENHOR DE RIVERS, seu irm\u00e3o<br \/>\nO SENHOR DE GREY, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)<br \/>\nMARQU\u00caS DE DORSET, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)<br \/>\nDUQUE DE BUCKINGHAM (mais tarde o seu fantasma).<br \/>\nSTANLEY, CONDE DE DERBY<br \/>\nSENHOR GUILHERME CATESBY<br \/>\nDois assassinos<br \/>\nGuarda da Torre<br \/>\nREI EDUARDO IV<br \/>\nSENHOR RICARDO DE RATCLIFFE<br \/>\nA DUQUESA DE YORK, m\u00e3e de Ricardo, Eduardo IV e Clarence<br \/>\nMenino, filho de Clarence<br \/>\nMenina, filha de Clarence<br \/>\nTr\u00eas cidad\u00e3os<br \/>\nARCEBISPO DE YORK<br \/>\nDUQUE DE YORK, filho mais novo do Rei Eduardo IV, (mais tarde o seu fantasma).<br \/>\nSENHOR CARDEAL BOURCHIER, Arcebispo de Gantu\u00e1ria<br \/>\nAlcaide de Londres<br \/>\nUm mensageiro<br \/>\nHASTINGS,<br \/>\nUm padre<br \/>\nSENHOR TOM\u00c1S DE VAUGHAN<br \/>\nBISPO DE ELY, Jo\u00e3o Morton<br \/>\nDUQUE DE NORFOLK<br \/>\nSENHOR DE LOVELL<br \/>\nUm escriv\u00e3o<br \/>\nDois bispos (Shaa e Penkier)<br \/>\nUm pajem<br \/>\nSENHOR JAIME TYRREL<br \/>\nQuatro mensageiros<br \/>\nCRIST\u00d3V\u00c3O DE URSWICK, um padre<br \/>\nXerife de Wiltshire<br \/>\nCONDE DE RICHMOND, depois Rei Henrique VII<br \/>\nCONDE DE OXFORD<br \/>\nSENHOR JAIME BLUNT<br \/>\nSENHOR WALTER HERBERT<br \/>\nCONDE DE SURREY<br \/>\nSENHOR GUILHERME DE BRANDON<br \/>\nFantasma de EDUARDO, Pr\u00edncipe de Gales, filho de Henrique VI<br \/>\nFantasma do REI HENRIQUE VI<br \/>\nUm mensageiro<br \/>\nGuardas, alabardeiros, fidalgos, um passavante, senhores, criados, soldados.<\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p>(Entra Ricardo, Duque de Gloucester)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso ver\u00e3o por este sol de York, e todas as nuvens que amea\u00e7avam a nossa casa est\u00e3o enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora as nossas frontes est\u00e3o coroadas de palmas gloriosas. As nossas armas rompidas suspensas como trof\u00e9us, os nossos feros alarmes mudaram-se em encontros apraz\u00edveis, as nossas h\u00f3rridas marchas em compassos deleitosos, a guerra de rosto sombrio amaciou a sua fronte enrugada. E agora, em vez de montar cavalos armados para amedrontar as almas dos tem\u00edveis advers\u00e1rios, pula como um potro nos aposentos de uma dama ao som lascivo e ameno do ala\u00fade. Mas eu, que n\u00e3o fui moldado para jogas nem brincos amorosos, nem feito para cortejar um espelho enamorado. Eu, que rudemente sou marcado, e que n\u00e3o tenho a majestade do amor para me pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privado sou da harmoniosa propor\u00e7\u00e3o, erro de forma\u00e7\u00e3o, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lan\u00e7ado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e t\u00e3o fora de esta\u00e7\u00e3o que os c\u00e3es me ladram quando passo, coxeando, perto deles. Pois eu, neste ocioso e mole tempo de paz, n\u00e3o tenho outro deleite para passar o tempo afora a espiar a minha sombra ao sol e cantar a minha pr\u00f3pria deformidade. E assim, j\u00e1 que n\u00e3o posso ser amante que goze estes dias de pr\u00e1ticas suaves, estou decidido a ser ruim vil\u00e3o e odiar os prazeres vazios destes dias. Armei conjuras, tramas perigosas, por entre sonhos, acusa\u00e7\u00f5es e \u00e9brias profecias, para lan\u00e7ar o meu irm\u00e3o Clarence e o Rei um contra o outro, num \u00f3dio mort\u00edfero, e se o Rei Eduardo for t\u00e3o verdadeiro e justo quanto eu sou sutil, falso e trai\u00e7oeiro, ser\u00e1 Clarence hoje mesmo encarcerado devido a uma profecia que diz ser\u00e1 um \u201cg\u00ea\u201d o assassino dos herdeiros de Eduardo. Mergulhai, pensamentos, fundo, fundo na minha alma. Ali vem Clarence. (Entram Clarence e Brakenbury com alguns guardas.) Irm\u00e3o, bom dia. Que significam estes guardas armados ao servi\u00e7o de Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Sua Majestade, interessada na seguran\u00e7a da minha pessoa, enviou esta escolta para me conduzir \u00e0 Torre.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E qual a causa?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Porque o meu nome \u00e9 George.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Oh! Senhor meu, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 vossa a culpa. Deveria ele, por tal raz\u00e3o, prender vossos padrinhos. Oh, talvez Sua Majestade tenha intento de outra vez vos batizar na Torre. Mas que se passa, Clarence? Posso saber?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Podes, Ricardo, quando eu pr\u00f3prio o souber, porque juro que n\u00e3o sei ainda, mas, pelo que ouvi, ele cr\u00ea em profecias e em sonhos, e do alfabeto escolhe a letra \u201cg\u00ea\u201d, e diz que um mago feiticeiro lhe revelou que \u00e9 por um \u201cg\u00ea\u201d que um dia ser\u00e1 deserdada a sua prole e porque o meu nome come\u00e7a por g\u00ea ele conclui que serei eu. Estas, quanto eu sei, e outras ninharias semelhantes levaram Sua Alteza a mandar-me prender.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Pois assim \u00e9 quando os homens s\u00e3o dominados por mulheres. N\u00e3o \u00e9 o Rei quem vos manda para a Torre, mas a senhora de Grey, sua esposa, Clarence, \u00e9 ela quem o leva a tais extremos. N\u00e3o foi ela e aquele homem que tem fama t\u00e3o subida, Ant\u00f4nio de Woodville, esse seu irm\u00e3o, que o fizeram mandar Hastings para a Torre, donde hoje mesmo sair\u00e1? N\u00e3o estamos a salvo, Clarence, n\u00e3o estamos a salvo!<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, c\u00e9us, n\u00e3o creio que algu\u00e9m esteja a salvo afora os parentes da Rainha e os mensageiros da noite que percorrem a dist\u00e2ncia entre o Rei e essa senhora Shore. N\u00e3o ouviste dizer quantas humilha\u00e7\u00f5es sofreu o senhor de Hastings para conseguir a liberdade?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Humildes s\u00faplicas a essa deidade concederam a Sua Excel\u00eancia o Camareiro-Mor a liberdade. Uma coisa te direi: cuido que nosso caminho ser\u00e1, se nos quisemos manter nas boas gra\u00e7as de El-Rei, fazermo-nos servos dela e usar sua libr\u00e9. Desde que nosso irm\u00e3o as transformou em nobres damas, a vi\u00fava gasta e invejosa, e ela pr\u00f3pria, s\u00e3o comadres poderosas neste reino nosso.<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Perdoem-me Vossas Gra\u00e7as: sua Majestade com rigor recomendou que ningu\u00e9m, fosse quem fosse, pudesse em privado conversar com vosso irm\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ah; sim? Se aprouver a Vossa Merc\u00ea, Brakenbury, podeis tomar parte em tudo o que dissemos. N\u00e3o falamos de trai\u00e7\u00e3o, homem, dizemos que o Rei \u00e9 astuto e virtuoso, e a nobre Rainha bem conservada, formosa, e sem ci\u00fame. Dizemos que a mulher de Shore tem p\u00e9 de jaspe, boca de rubi, belos olhos, l\u00edngua am\u00e1vel e fugaz; e que os parentes da Rainha agora s\u00e3o fidalgos. Que tendes a dizer, senhor? Ousais negar estas senten\u00e7as?<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Nada disso, senhor, me diz respeito.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Nada, nem a senhora Shore? Digo-te, companheiro, que, a n\u00e3o ser um s\u00f3, quem com ela tiver trato melhor far\u00e1 que o fa\u00e7a secretamente, a s\u00f3s.<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Quem \u00e9 esse \u201cum s\u00f3\u201d, senhor?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O marido dela, velhaco! Querias trair-me.<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Imploro o perd\u00e3o de Vossa Gra\u00e7a e ao mesmo tempo que cesse de falar com o nobre Duque.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Sabemos o teu dever, Brakenbury, e obedeceremos.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Somos os m\u00edseros servos da Rainha, somos for\u00e7ados a obedecer. Irm\u00e3o, adeus. Vou ao encontro de El-Rei, seja o que for que me mandeis fazer, mesmo chamar \u201cirm\u00e3\u201d \u00e0 vi\u00fava do Rei Eduardo eu o farei para vos libertar. Entretanto, este rude golpe nos fraternos la\u00e7os fere-me mais profundamente do que podeis cuidar. (Abra\u00e7a Clarence, chorando)<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Eu bem sei que isso n\u00e3o apraz a nenhum dos dois.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Bom, vossa pris\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 longa. Libertar-vos-ei, ou eu me enredarei por v\u00f3s. Em tanto, sofrei com paci\u00eancia.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Assim por for\u00e7a terei de fazer. Adeus.<\/p>\n<p>(Sai Clarence Brakenbury e guardas)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Vai, percorre esse caminho que n\u00e3o ter\u00e1s regresso. Simples, incauto Clarence, hei por ti tamanho amor que em breve enviarei para o c\u00e9u a tua alma, se o c\u00e9u aceitar o dom feito assim por nossas m\u00e3os. Mas quem vem a\u00ed? Hastings neste instante libertado?<\/p>\n<p>(Entra o senhor de Hastings)<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 O meu bom dia a meu ilustre senhor.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O mesmo desejo a meu bom senhor, o Camareiro-Mor; mui bem-vindo sois a este ar puro e livre. Como suportou Vossa Senhoria a pris\u00e3o?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Com paci\u00eancia, nobre senhor, como \u00e9 dever dos cativos, mas viverei, senhor, para dar gra\u00e7as aos que foram causa da minha pris\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Que assim seja! E o mesmo ser\u00e1 com Clarence, porque os que eram inimigos vossos, dele o s\u00e3o tamb\u00e9m, e contra ele ganharam, como contra v\u00f3s.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Pena \u00e9 haver \u00e1guias prisioneiras quando milhafres e abutres rapinam em liberdade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Que novas haveis de fora? N\u00e3o h\u00e1, de fora, nova t\u00e3o m\u00e1 como esta c\u00e1 de dentro: o Rei est\u00e1 enfermo, fraco e melanc\u00f3lico, e os f\u00edsicos temem por ele.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Por S\u00e3o Jo\u00e3o essa nova \u00e9 deveras m\u00e1. Oh, ele teve por usan\u00e7a largo tempo nocivas regras e gastou em demasia sua real pessoa. \u00c9 doloroso pensar em tal. Onde est\u00e1 ele, em seu leito?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Em seu leito.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 I-vos adiante, eu vos seguirei. (Sai Hastings) Ele n\u00e3o viver\u00e1, assim espero, e n\u00e3o pode morrer antes de George ser mandado de carruagem para os c\u00e9us. Vou procurar El-Rei para mais excitar seu \u00f3dio contra Clarence com mentiras temperadas de argumentos ponderosos; e se n\u00e3o errar este meu profundo intento, Clarence n\u00e3o ter\u00e1 nem mais um dia para viver. Feito isto, tenha Deus em sua miseric\u00f3rdia El-Rei Eduardo, e deixe a mim o mundo para eu me mover nele. Ent\u00e3o desposarei a filha mais nova de Warwick. Que importa se lhe matei o marido e lhe matei o pai? A melhor forma de dar rem\u00e9dio ao mal que fiz \u00e0 mo\u00e7a \u00e9 tornar-me seu marido e seu pai tamb\u00e9m. \u00c9 isto que eu quero, n\u00e3o tanto por amor mas por outro intento mui secreto que alcan\u00e7arei casando-me com ela. Por\u00e9m, cada coisa a seu tempo. Clarence ainda respira, Eduardo ainda vive e reina; quando eles j\u00e1 n\u00e3o forem, ent\u00e3o farei contas aos meus ganhos. (Sai)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p>(Entra o corpo de Henrique VI com uma guarda de alabardeiros, e Dona Ana conduz o pr\u00e9stito acompanhada por Tressel, Berkeley e outros nobres.)<\/p>\n<p>ANA \u2014 Pousai, pousai vosso digno fardo se \u00e9 que a dignidade pode ser amortalhada em ata\u00fade, enquanto eu, em fun\u00e9rea cerim\u00f4nia, lamento a queda prematura do virtuoso Lancastre. Pobre figura r\u00edgida e fria de um piedoso rei, p\u00e1lidas cinzas da casa de Lancastre, tu, \u00f3 resto exangue daquele sangue real, que me seja permitido invocar o teu esp\u00edrito para ouvir as lamenta\u00e7\u00f5es da desafortunada Ana, esposa do teu Eduardo, teu filho assassinado, ferido por essa mesma m\u00e3o que ora produziu estas feridas. Coitada de mim, nas frestas que deixam escoar a tua vida eu verto o b\u00e1lsamo sem esperan\u00e7a destes meus coitados olhos. Oh, maldita seja a m\u00e3o que causou estas feridas, maldito o cora\u00e7\u00e3o que teve for\u00e7a de o fazer, maldito o sangue que derramou este sangue. Sobre o hediondo miser\u00e1vel que miser\u00e1veis nos tornou com a tua morte, mais horrores se abatam do que aqueles que posso desejar a serpentes, aranhas, sapos, a qualquer r\u00e9ptil venenoso que vivente seja. Se ele alguma vez tiver um filho, que seja aborto, tempor\u00e3o, monstruoso, de aspecto t\u00e3o horrendo e desigual que temor ter\u00e1, em o vendo, a esperan\u00e7osa m\u00e3e, e que seja o herdeiro da sua m\u00e1 fortuna. Se ele algum dia tiver mulher, que ela por sua morte se sinta mais m\u00edsera e mesquinha do que eu me sinto agora pela do meu jovem senhor e pela tua. Vinde agora para Chertsey com vosso sagrado fardo trazido de Saint Paul para ali ser sepultado. E quantas vezes o peso vos cansar, descansai, enquanto eu choro o corpo do Rei Henrique.<\/p>\n<p>(Entra Ricardo)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ficai, v\u00f3s que transportais o corpo. Pousai-o aqui.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Que negro mago esconjura este inimigo para que fa\u00e7a impedimento a atos piedosos e devotos?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ruins vil\u00f5es! Pousai o corpo, ou, por S\u00e3o Paulo, de quem desobedece farei eu um corpo morto!<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 Afastai-vos, senhor, e deixai passar o ata\u00fade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 C\u00e3o danado! Para quando te ordeno! Ergue a tua alabarda mais alto que o meu peito ou, por S\u00e3o Paulo, estendo-te a meus p\u00e9s, e te esmago, miser\u00e1vel, pela tua ousadia.<\/p>\n<p>ANA \u2014 O qu\u00ea? Tremeis? Haveis medo? Pobre de mim, n\u00e3o vos posso censurar, que sois mortais, e os olhos dos mortais n\u00e3o podem sofrer o maligno. Vai-te de ante mim, temeroso ministro dos infernos! T\u00e3o s\u00f3 sobre seu corpo mortal tinhas poder; a alma, essa, n\u00e3o a podes ter; por isso, vai-te.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Doce santa, por caridade, n\u00e3o blasfemeis assim.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Dem\u00f4nio imundo, vai-te por amor de Deus, e n\u00e3o nos atormentes; que da terra feliz fizeste o teu inferno, encheste-a com gritos de maldi\u00e7\u00e3o e com profundos clamores. Se te deleitas em contemplar teus feitos odiosos, p\u00f5e os olhos neste exemplo de tua carnificina. Oh, senhores! Olhai, olhai as feridas do Rei Henrique sem vida abrindo bocas congeladas e de novo sangrando. Vergonha para ti, vergonha, \u00f3 tu, massa informe de s\u00f3rdida disformidade, pois que \u00e9 tua presen\u00e7a que aqui faz verter o sangue das veias geladas e vazias onde o sangue j\u00e1 n\u00e3o tem morada! O teu feito inumano e contr\u00e1rio \u00e0 natureza provoca este dil\u00favio contr\u00e1rio a toda a natureza. Oh, Deus! Tu que criaste este sangue, vinga a sua morte. Oh, terra! Tu que bebes este sangue, vinga a sua morte. Ou que os rel\u00e2mpagos dos c\u00e9us se abatam sobre o assassino, ou que a terra se abra e de s\u00fabito o devore, tal como tu, \u00f3 terra, sorves todo o sangue deste bondoso Rei que seu bra\u00e7o comandado pelo inferno t\u00e3o cruelmente matou.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Senhora minha, n\u00e3o conheceis as leis da caridade que mandam retribuir com o bem o mal, com b\u00ean\u00e7\u00e3os as maldi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>ANA \u2014 P\u00e9rfido, tu n\u00e3o conheces nem a lei de Deus nem a lei dos homens. N\u00e3o h\u00e1 besta alguma, por mais feroz, que n\u00e3o conhe\u00e7a a piedade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Mas eu n\u00e3o a conhe\u00e7o, de sorte que n\u00e3o sou besta alguma.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Oh, maravilha, quando os dem\u00f4nios dizem a verdade!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Mor maravilha quando os anjos se enfurecem desta sorte. Permiti, \u00f3 mulheril, divina perfei\u00e7\u00e3o, que me seja poss\u00edvel desses supostos crimes defender-me passo a passo.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Permite, \u00f3 varonil pestilenta infec\u00e7\u00e3o, que apenas me seja poss\u00edvel destes males conhecidos acusar tua maldita pessoa passo a passo.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 \u00d3 mais formosa do que a l\u00edngua pode dizer, d\u00e1-me um tempo paciente para me poder escusar.<\/p>\n<p>ANA \u2014 \u00d3 mais torpe do que o cora\u00e7\u00e3o consegue imaginar, n\u00e3o podes manifestar outra escusa a n\u00e3o ser o teu pr\u00f3prio enforcamento.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Esse desespero seria a minha acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ANA \u2014 E por esse desespero ser\u00e1s tu escusado por, finalmente digno, teres vingado em ti a carnificina indigna que cometeste noutros.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E se eu n\u00e3o os tivesse assassinado?<\/p>\n<p>ANA \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o foram abatidos mas est\u00e3o mortos, e por ti, \u00f3 escravo do diabo.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o matei o teu marido.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 que ele est\u00e1 vivo.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o, est\u00e1 morto, e foi abatido pela m\u00e3o de Eduardo.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Maior mentira nunca o mundo ouviu. A Rainha Margarida viu a tua l\u00e2mina assassina fumegante do seu sangue, a mesma que apontaste contra o peito seu mas cuja ponta os teus irm\u00e3os desviaram.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Fui provocado pela l\u00edngua injuriosa da Rainha que lan\u00e7ava a culpa que eles tinham sobre os meus ombros sem culpa.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Foste provocado pelo teu esp\u00edrito perverso que nunca sonha com mais nada sen\u00e3o carnificinas. N\u00e3o mataste este Rei?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Concedo-vos que sim.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus tamb\u00e9m uma maldi\u00e7\u00e3o sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era am\u00e1vel, doce e virtuoso.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Melhor para o Rei dos c\u00e9us que o tem agora.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Est\u00e1 no c\u00e9u, onde tu nunca entrar\u00e1s.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Deixai que ele me agrade\u00e7a para l\u00e1 t\u00ea-lo enviado, pois era o seu lugar, mais esse que na terra.<\/p>\n<p>ANA \u2014 E o teu lugar n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o inferno.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Sim, outro lugar ainda, se quiserdes que o nomeie.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Uma masmorra?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 A vossa alcova.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Que se abata a inquietude sobre a alcova onde te deitas.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Assim acontece, senhora, at\u00e9 que me deite convosco.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Assim o espero!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Eu sei que assim \u00e9. Mas, gentil Dona Ana, deixemos esta arguta querela de nossos engenhos e retomemos mais vagaroso m\u00e9todo: n\u00e3o ser\u00e1 o causador das mortes prematuras destes Plantagenetas, Henrique e Eduardo, t\u00e3o culpado como o seu executor?<\/p>\n<p>ANA \u2014 Tu foste a causa e o seu mais vil efeito.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 A vossa formosura foi causa de tal efeito,a vossa formosura que me perseguia em sonhos a fim de me dar cargo da morte do mundo inteiro para que pudesse uma hora s\u00f3 viver sobre o vosso suave peito.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Se eu tal cuidasse, digo-te, homicida, estas unhas arrancariam a formosura de meu rosto.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Estes olhos meus n\u00e3o sofreriam os destro\u00e7os dessa formosura, n\u00e3o vos desfigurar\u00edeis, se eu estivesse ao p\u00e9 de v\u00f3s. Tal como o mundo todo se alegra com o sol, assim me alegro eu com vossa formosura, ela \u00e9 o meu dia, ela \u00e9 a minha vida.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Que a noite negra escure\u00e7a teu dia, e a morte tua vida.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o te amaldi\u00e7oes, formosa criatura, tu \u00e9s ambas as coisas.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Prouvera que fosse, para me vingar de ti.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 \u00c9 uma disputa horrenda, vingares-te em quem te ama.<\/p>\n<p>ANA \u2014 \u00c9 uma disputa justa e conforme \u00e0 raz\u00e3o vingar-me de quem matou meu marido.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Quem te privou, senhora, de teu marido, f\u00ea-lo para te ajudar a encontrar marido melhor.<\/p>\n<p>ANA \u2014 N\u00e3o respira sobre a terra homem melhor do que ele.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Est\u00e1 vivo quem te ama mais do que ele p\u00f4de.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Diz que nome tem.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Plantageneta.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Isso era ele.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O nome, o mesmo, mas algu\u00e9m de mais nobre natureza.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Aqui. (Ela cospe para cima dele) Porque me cospes?<\/p>\n<p>ANA \u2014 Oxal\u00e1, para teu bem, fosse veneno mortal.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Nunca de fonte t\u00e3o doce brotou veneno.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Nunca escorreu veneno de sapo mais imundo. Fora da minha vista! Envenenas os meus olhos.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Teus olhos, gentil senhora, envenenaram os meus.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Oxal\u00e1 fossem basiliscos para te matarem.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Oxal\u00e1 fossem, para eu neste instante morrer, porque eles me matam agora de uma morte viva. Esses teus olhos arrancaram dos meus l\u00e1grimas amargas, envergonharam-lhes o aspecto com uma chuva de gotas infantis; estes olhos, que nunca derramaram uma s\u00f3 l\u00e1grima de remorso. Nem quando meu pai York e Eduardo choraram ao ouvir o queixume plangente que Rutland soltou quando o negro Clifford o trespassou com a espada, nem quando o teu belicoso pai, como crian\u00e7a, contou a triste hist\u00f3ria da morte de meu pai, e vinte vezes parou solu\u00e7ando e chorando, de tal guisa que toda a companhia tinha as faces molhadas como \u00e1rvores desfeitas pela chuva. Naquela hora triste meus olhos viris desprezaram at\u00e9 uma humilde l\u00e1grima. E o que estas penas n\u00e3o lograram causar, logrou tua formosura, e com o pr\u00f3prio choro os cegou. Nunca supliquei a amigo, a inimigo, minha l\u00edngua nunca experimentou suave e lisonjeira fala, mas eis que tua formosura \u00e9 o reino que eu desejo, o meu orgulhoso cora\u00e7\u00e3o suplica, e for\u00e7a a minha l\u00edngua a falar. (Ela olha para ele com esc\u00e1rnio) N\u00e3o ensines a teus l\u00e1bios esc\u00e1rnio tal, porque foram feitos, senhora, para beijar, e n\u00e3o para tal desd\u00e9m. Se teu cora\u00e7\u00e3o, prenhe de vingan\u00e7a, n\u00e3o pode perdoar, aqui est\u00e1, entrego-te esta espada de ponta afiada, para que a enterres, se te apraz, neste peito leal, e deixa partir a alma que te adora, exponho-o nu ao golpe mortal e de joelhos, humilde, te imploro a morte. (Ajoelha-se descobre o peito, oferece-o ao mesmo tempo que a espada) N\u00e3o, n\u00e3o hesites, porque eu matei o Rei Henrique, mas foi a tua formosura que a tal me conduziu. V\u00e1, depressa, fui eu que apunhalei o jovem Eduardo, mas foi o teu rosto celestial que a isso me for\u00e7ou. (Ela deixa cair a espada) Levanta a espada, ou levanta-me a mim.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Ergue-te, homem enganador. Embora eu deseje a tua morte. (Ele levanta-se) N\u00e3o serei eu o teu carrasco.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ordena ent\u00e3o que eu me mate, e f\u00e1-lo-ei.<\/p>\n<p>ANA \u2014 J\u00e1 ordenei.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Isso foi em tua c\u00f3lera. Repete agora, profere a palavra. Esta m\u00e3o, que por teu amor matou o teu amor, matar\u00e1, por teu amor, um amor bem mais leal. C\u00famplice te tornar\u00e1s em ambas essas mortes.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Quisera conhecer teu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Est\u00e1 espelhado na minha l\u00edngua.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Temo que ambos sejam falsos.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ent\u00e3o nunca existiu um homem verdadeiro.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Pois bem, embainhai ent\u00e3o vossa espada.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E tu diz que haverei paz.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Sab\u00ea-lo-\u00e1s mais tarde.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Mas poderei viver com uma esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>ANA \u2014 Todos os homens, espero, vivem assim.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Promete usar este anel.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Receber n\u00e3o \u00e9 dar.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 V\u00ea como o meu anel se ajusta ao teu dedo, tal como o teu peito encerra meu triste cora\u00e7\u00e3o. Usa-los ambos, porque ambos s\u00e3o teus,e se for l\u00edcito a este teu pobre e dedicado servo implorar um favor \u00e0 tua graciosa m\u00e3o, para todo o sempre assim confirmarias a sua felicidade.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Qual favor?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O favor de deixares estes tristes deveres a quem tem mais raz\u00e3o para lamentar a morte e de partir j\u00e1 para Crosby Place, onde eu, depois de solenemente enterrar no Mosteiro de Chertsey este nobre rei, e de molhar seu t\u00famulo com arrependidas l\u00e1grimas, vos procurarei para vos servir. Por v\u00e1rias e ignotas raz\u00f5es vos suplico que me concedais este favor.<\/p>\n<p>ANA \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o. Muito me alegra tamb\u00e9m ver-vos t\u00e3o arrependido. Tressel e Berkeley, vinde comigo.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Dizei-me adeus.<\/p>\n<p>ANA \u2014 \u00c9 mais do que mereceis, mas porque me ensinais a dar-vos louvores, imaginai ent\u00e3o que j\u00e1 vos disse adeus.<\/p>\n<p>(Saem Tressel e Berkeley com Ana)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Senhores, levai o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 Para Chertsey, nobre senhor?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o, para Whitefriars. Esperai a\u00ed por mim. (Saem os fidalgos e alabardeiros com o cad\u00e1ver) Ter\u00e1 havido mulher de tal sorte cortejada? Ter\u00e1 havido mulher de tal sorte conquistada? Ser\u00e1 minha, mas n\u00e3o por largo tempo. Qu\u00ea, eu que lhe matei o marido e a este o pai, conquist\u00e1-la quando ela tinha o cora\u00e7\u00e3o cheio do \u00f3dio mais extremo, com maldi\u00e7\u00f5es nos l\u00e1bios e l\u00e1grimas nos olhos. Junto da sangrenta testemunha do seu \u00f3dio, tendo contra mim Deus, a sua consci\u00eancia e estas teias. E sem amigos que ajuda me dessem nessa obra, s\u00f3 o dem\u00f4nio e estes olhares enganadores, e mesmo assim conquist\u00e1-la, tanta coisa para nada! Ha! J\u00e1 ter\u00e1 ela esquecido o formoso Pr\u00edncipe Eduardo, seu senhor, que eu, h\u00e1 cerca de tr\u00eas meses, agastado apunhalei em Tewkesbury? Fidalgo mais galante e mais gentil, fruto duma natureza generosa, jovem, animoso, s\u00e1bio, e sem d\u00favida qualquer de r\u00e9gia estirpe, n\u00e3o pode o vasto mundo de novo engendrar. Por\u00e9m, ela aceita baixar a vista sobre mim, que colhi a dourada primavera deste doce Pr\u00edncipe e que a tornei vi\u00fava em doloroso leito? Sobre mim, que inteiro n\u00e3o igualo metade de Eduardo? Sobre mim, que coxeio e sou assim disforme? O meu ducado contra um m\u00edsero vint\u00e9m, tenho, todo este tempo, medido mal minha pessoa! Por minha vida ela pensa \u2014 embora eu n\u00e3o \u2014 que sou um homem honesto e maravilhoso. Comprarei um espelho, e aprazarei mais de vinte, mais de trinta alfaiates para estudarem as vestes que adornar\u00e3o meu corpo. J\u00e1 que me deleito com as minhas pr\u00f3prias gra\u00e7as, farei disp\u00eandios para que a coisa assim perdure. Mas primeiro deitarei aquele para a cova, e ent\u00e3o, com lamentos, tornarei ao meu amor. Brilha Sol, luminoso, at\u00e9 eu comprar um espelho para que minha sombra possa eu ver enquanto passo. (Sai)<\/p>\n<h3>Cena III<\/h3>\n<p>(Entra a Rainha Isabel, o senhor de Rivers, o senhor de Grey e o Marqu\u00eas de Dorset)<br \/>\nRIVERS \u2014 Tende paci\u00eancia, senhora, Sua Majestade retomar\u00e1 em breve a sua costumada sa\u00fade.<\/p>\n<p>GREY \u2014 Quanto maior \u00e2nsia manifestardes pior lhe fareis, por isso, pelo amor de Deus, alimentai boa esperan\u00e7a e dai \u00e2nimo a Sua Gra\u00e7a com um olhar ledo e vivo.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Se ele morresse, que seria de mim?<\/p>\n<p>GREY \u2014 Nenhum outro mal afora perder um tal senhor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Perder um tal senhor inclui todos os males.<\/p>\n<p>GREY \u2014 Os c\u00e9us aben\u00e7oaram-vos com um formoso filho e nele conforto encontrareis, quando o rei j\u00e1 n\u00e3o viver.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Oh!, ele \u00e9 jovem, e como infante est\u00e1 entregue \u00e0 guarda de Ricardo de Gloucester, homem que n\u00e3o me quer bem, nem a qualquer de v\u00f3s.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 J\u00e1 est\u00e1 conclu\u00eddo ser ele o Protector?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Est\u00e1 decidido, conclu\u00eddo ainda n\u00e3o, mas assim ter\u00e1 de ser, se o Rei sucumbir.<\/p>\n<p>(Entram Buckingham e Stanley, Conde de Derby)<\/p>\n<p>GREY \u2014 Ali v\u00eam os senhores de Buckingham e de Derby.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 \u00c0 Vossa Real Gra\u00e7a, o meu bom dia.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Deus fa\u00e7a feliz Vossa Majestade, como sempre tendes sido.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 A Condessa de Richmond, meu bom senhor de Derby, \u00e0 vossa boa prece a custo dir\u00e1 amem. Contudo, Derby, apesar de ser ela vossa esposa, e de n\u00e3o me querer bem, ficai seguro, senhor, de que vos n\u00e3o odeio por sua fera arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Eu vos imploro, n\u00e3o tomeis por verdadeiras as cal\u00fanias invejosas dos seus falsos acusadores, ou se for ela acusada com verdade perdoai sua fraqueza, que eu cuido tem origem em doentio humor, e n\u00e3o em profunda maldade.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Vistes hoje El-Rei, meu senhor de Derby?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Agora mesmo o Duque de Buckingham e eu estivemos em presen\u00e7a de Sua Majestade.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 H\u00e1 esperan\u00e7a de melhoras, senhores?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhora, esperan\u00e7a h\u00e1; Sua Gra\u00e7a fala alegremente.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Deus lhe d\u00ea sa\u00fade. Haveis praticado com ele?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhora, sim. Ele deseja p\u00f4r em paz o Duque de Gloucester e vossos irm\u00e3os, e eles e o senhor Camareiro-Mor, e mandou fossem chamados a sua real presen\u00e7a.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Oxal\u00e1 tudo tenha bom fim, mas isso nunca ser\u00e1. Temo que nossa felicidade tenha chegado a seu cume.<\/p>\n<p>(Entram Ricardo e Hastings)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Eles procedem mal comigo, e eu tal n\u00e3o sofrerei. Quem se lamenta a El-Rei de eu ser, por Deus, fero e de n\u00e3o lhes querer bem? Por S\u00e3o Paulo, amam pouco Sua Gra\u00e7a aqueles que lhe enchem os ouvidos destes insanos rumores. Porque n\u00e3o sei dar lisonja nem ter aspecto af\u00e1vel, sorrir perante os homens, afagar, enganar e fingir, curvar-me como os franceses e arremedar cortesias, tenho de ser considerado um rancoroso inimigo? N\u00e3o poder\u00e1 ser que um homem simples viva e n\u00e3o pense mal, sem que a sua simples verdade n\u00e3o seja injuriada por uns quaisquer Joanes insinuantes e astutos?<\/p>\n<p>GREY \u2014 A qual de n\u00f3s aqui presentes se dirige Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 A ti, que n\u00e3o tens honestidade nem tens gra\u00e7a. Quando foi que procedi mal para contigo? Quando foi que te fiz mal? Ou a ti? Ou a ti? Ou a algu\u00e9m da vossa fac\u00e7\u00e3o? Que a peste se abata sobre todos v\u00f3s! A Sua Real Gra\u00e7a \u2014 e oxal\u00e1 Deus o preserve mais do que o podeis v\u00f3s desejar \u2014 n\u00e3o pode respirar em sossego um s\u00f3 momento sem que v\u00f3s o perturbeis com vossas queixas depravadas.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Irm\u00e3o Gloucester, n\u00e3o haveis entendido a quest\u00e3o: El-Rei, por sua pr\u00f3pria e r\u00e9gia vontade, e n\u00e3o levado por pedido algum, havendo talvez em mente o vosso \u00f3dio profundo que se manifesta em vossos atos vis\u00edveis contra meus filhos, irm\u00e3os, e contra mim pr\u00f3pria, manda chamar-vos, para saber a raz\u00e3o da vossa malqueren\u00e7a, e desse modo remov\u00ea-la.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o sei dizer. O mundo tornou-se t\u00e3o perverso que as carri\u00e7as fazem presas onde as \u00e1guias n\u00e3o ousam pousar. Desde que qualquer Joane se muda em fidalgo, h\u00e1 muita gente fidalga que se transforma em Joane.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ent\u00e3o, ent\u00e3o, sabemos o que quereis dizer, irm\u00e3o Gloucester. Tendes inveja \u00e0 minha ascens\u00e3o e \u00e0 dos meus amigos. Deus permita que nunca tenhamos necessidade de v\u00f3s.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Entretanto, Deus permita que tenhamos n\u00f3s necessidade de v\u00f3s. Est\u00e1 preso o nosso irm\u00e3o por culpa vossa, eu pr\u00f3prio desgra\u00e7ado, e a nobreza \u00e9 desprezada, enquanto dia a dia se concede nobre condi\u00e7\u00e3o aos que ainda h\u00e1 menos de dois dias mal valiam um centil.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Por Deus que me elevou da felicidade tranq\u00fcila que eu gozava a essas alturas inseguras, nunca incitei Sua Majestade contra o Duque de Clarence, mas tenho sido, sim, advogado s\u00e9rio a interferir por ele. Senhor meu, lan\u00e7ais sobre mim infame inj\u00faria envolvendo-me com falsidade nestas suspeitas vis.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Podeis negar que n\u00e3o haveis sido a causa da recente pris\u00e3o do senhor de Hastings?<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Senhor, ela pode, porque&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ela pode, senhor de Rivers. Pois quem o n\u00e3o sabe? Ela pode fazer mais, senhor, do que negar esse feito. Ela pode ajudar-vos \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de muitos belos cargos e depois negar que foi a protetora m\u00e3o em tudo isso, e atribuir honrarias a vosso subido m\u00e9rito. O que \u00e9 que ela n\u00e3o pode? Ela pode, sim, ela pode casar&#8230;<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 O qu\u00ea, pode casar?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Pode casar com quem? Casar com um rei solteiro e mancebo formoso. Cuido que vossa av\u00f3 fez pior casamento.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Meu senhor de Gloucester, sofri tempo de mais as vossas \u00e1speras censuras e zombarias amargas. Pelos c\u00e9us, irei contar a Sua Majestade os insultos ignaros que ami\u00fade suportei.<\/p>\n<p>(Entra a velha Rainha Margarida)<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Quisera eu ser mo\u00e7a do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha de Inglaterra.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 (\u00c0 parte) E que esse pequeno contentamento se torne mais pequeno ainda, eu vos imploro, meu Deus. Pertencem-me a tua honra, o teu estado e o teu lugar.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qu\u00ea, amea\u00e7ais contar a El-Rei? Contai, contai sem temperan\u00e7a. Lembrai-vos bem do que vos disse. Serei capaz de o afirmar em presen\u00e7a de El-Rei. Ouso aventurar-me a ser mandado para a Torre. \u00c9 tempo de falar, j\u00e1 esqueceram os meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 (\u00c0 parte) Fuge, dem\u00f4nio! Por demais me lembro eu deles: mataste na Torre meu marido Henrique, e Eduardo, meu filho, em Tewkesbury.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Antes de serdes Rainha, sim, ou o vosso esposo Rei, j\u00e1 eu era a besta de carga em seus importantes tratos, quem mondava seus orgulhosos advers\u00e1rios, quem premiava com liberalidade os seus amigos. Para coroar o sangue dele, cansei meu pr\u00f3prio sangue.<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Assim foi, e sangue bem melhor do que o dele e do que o teu.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Durante esse longo tempo, v\u00f3s e o vosso esposo Grey \u00e9reis partid\u00e1rios da Casa de Lancastre. E Rivers, v\u00f3s o haveis sido tamb\u00e9m. N\u00e3o foi morto o vosso esposo na batalha de Margarida, em Santo Albano? Deixai-me que vos lembre, se n\u00e3o haveis mem\u00f3ria disso, o que \u00e9reis antes disto, e o que sois e tamb\u00e9m o que eu era e o que ora sou.<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Um s\u00f3rdido assassino, e ainda o \u00e9s.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O pobre Clarence abandonou seu pai Warwick, sim, e perjurou \u2014 que Jesus lhe perdoe!<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Que Deus o vingue!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Para lutar ao lado de Eduardo pela coroa, e como recompensa, pobre senhor, est\u00e1 encarcerado. Prouvera a Deus que meu cora\u00e7\u00e3o fosse de pedra, como \u00e9 o de Eduardo, ou que o de Eduardo fosse brando e misericordioso como \u00e9 o meu. Sou demasiado tolo e pueril para este mundo.<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Esconde-te no inferno por vergonha e deixa este mundo. \u00d3 tu, dem\u00f4nio, o teu reino \u00e9 ali.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Meu senhor de Gloucester, nesses dias conturbados, que aqui recordais para dar prova de que fomos inimigos, segu\u00edamos n\u00f3s nosso senhor, o nosso Rei soberano. Tamb\u00e9m v\u00f3s n\u00f3s seguir\u00edamos, se fosseis v\u00f3s nosso rei.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Se fosse? Antes quisera ser mendigo! Longe viva do meu cora\u00e7\u00e3o tal pensamento.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Como \u00e9 pouca a alegria, senhor meu, que imaginais pod\u00edeis ter, se f\u00f4sseis Rei neste pa\u00eds, assim podeis imaginar ser pouca alegria que eu tenho em ser Rainha aqui.<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Sim, pouca alegria tem a Rainha, porque eu sou ela e tamb\u00e9m sem alegria. N\u00e3o posso calar-me por mais tempo! (Avan\u00e7a) Ouvi-me, v\u00f3s, piratas em contenda, que entre v\u00f3s lutais ao dividir o que me haveis pilhado: qual de v\u00f3s n\u00e3o treme ao olhar para mim? Ou porque sou a Rainha, e como s\u00fabitos vos curvais, ou porque, por v\u00f3s deposta, como rebeldes tremeis? Ah, nobre vil\u00e3o! N\u00e3o te apartes daqui.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Bruxa velha e imunda, que fazes diante de mim?<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 T\u00e3o-s\u00f3 a narra\u00e7\u00e3o de todos os teus estragos: isso farei, antes de te deixar partir.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o foste para o ex\u00edlio, para n\u00e3o sofreres a morte?<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Fui, mas maior sofrimento encontro no ex\u00edlio do que a morte me pode causar aqui em minha casa. Deves-me um marido e um filho; e tu um reino; v\u00f3s todos lealdade. Esta m\u00e1goa que tenho \u00e9 vossa por direito, e todos os prazeres que me usurpais s\u00e3o meus.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 A maldi\u00e7\u00e3o que o meu nobre pai lan\u00e7ou sobre ti quando coroaste a sua fronte guerreira de papel, e com teu esc\u00e1rnio fizeste brotar rios dos seus olhos, e depois, para os secares, deste ao Duque um trapo embebido no sangue inocente do formoso Rutland, as suas maldi\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o, do \u00e2mago da alma arrancadas contra ti, sobre ti ca\u00edram todas, e Deus, n\u00e3o fomos n\u00f3s, castigou o teu feito sangrento.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Assim Deus \u00e9 justo quando faz justi\u00e7a ao inocente.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Oh! Foi o mais ingente crime matar aquele infante, e a mais impiedosa obra que a mem\u00f3ria guarda.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Os pr\u00f3prios tiranos verteram l\u00e1grimas ao ouvirem o relato.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 N\u00e3o houve homem algum que n\u00e3o fizesse profecia de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Northumberland, ent\u00e3o presente, chorou em vendo.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Qu\u00ea? Est\u00e1veis v\u00f3s todos rosnando antes da minha chegada prontos a filarem-se uns aos outros pelo pesco\u00e7o e virais agora todos v\u00f3s o \u00f3dio contra mim? A medonha maldi\u00e7\u00e3o de York teve nos c\u00e9us tal poder que a morte de Henrique, a morte de meu querido Eduardo, a perda do seu reino, o meu doloroso ex\u00edlio, n\u00e3o s\u00e3o mais que o pre\u00e7o da morte dessa crian\u00e7a impertinente? Podem as maldi\u00e7\u00f5es atravessar as nuvens e chegar at\u00e9 ao c\u00e9u? Pois ent\u00e3o, deixai passar negras nuvens, minhas lestas maldi\u00e7\u00f5es. Que morra o vosso Rei n\u00e3o na guerra, mas por excessos, tal como o nosso \u00e0s m\u00e3os do assassino, para que esse se tornasse Rei. Que morra na sua juventude, de igual modo v\u00edtima de viol\u00eancia precoce, Eduardo, teu filho, que agora \u00e9 Pr\u00edncipe de Gales. Por Eduardo, meu filho, que era Pr\u00edncipe de Gales. Que tu pr\u00f3pria Rainha, por mim que fui Rainha, sobrevivas \u00e0 tua gl\u00f3ria, tal como eu, infeliz. Que vivas muitos anos para chorar a morte dos teus filhos, e para ver uma outra ornada dos teus direitos, como que os teus dias felizes pere\u00e7am muito antes da tua morte. E que, ap\u00f3s largas horas de sofrimento, morras sem j\u00e1 ser m\u00e3e, sem j\u00e1 ser esposa, nem Rainha de Inglaterra. Rivers e Dorset, v\u00f3s est\u00e1veis presentes, e tu tamb\u00e9m, senhor de Hastings, quando com sangrentos punhais foi ferido o meu filho. \u00d3 Deus, eu vos suplico que nenhum de v\u00f3s chegue ao termo natural da sua idade, mas que sucumbais a imprevisto acidente.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Acabaste o teu feiti\u00e7o, tu, odiosa velha bruxa?<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Sem te incluir a ti? Fica a\u00ed, c\u00e3o, porque ter\u00e1s de me ouvir. Se os c\u00e9us tiverem concebido praga mais penosa do que aquela que consigo desejar-te, oh, que eles aguardem at\u00e9 estarem maduros teus pecados. E que ent\u00e3o lancem sua ira sobre ti, perturbador da paz deste triste mundo. Que o verme da consci\u00eancia te roa a alma; que suspeites teus amigos de trai\u00e7\u00e3o enquanto vivo fores; e que tomes por teus \u00edntimos amigos os maiores traidores; que o sono jamais cerre esses teus olhos mort\u00edferos a n\u00e3o ser para que tormentosos sonhos te amedrontem com seu inferno de hediondos dem\u00f4nios. Tu, denominado aborto de refocilante porco, tu, que \u00e0 nascen\u00e7a foste assinalado escravo da natureza, e filho dos infernos, tu, vergonha do ventre da tua m\u00e3e, tu, odiado produto dos quadris de teu pai, tu, farrapo de honra, tu, desprez\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Margarida!<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Ricardo!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qu\u00ea?<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 N\u00e3o te chamei.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Pe\u00e7o-te perd\u00e3o, cuidei que me tinhas tu chamado todos aqueles nomes amargos.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Assim foi, mas resposta n\u00e3o esperava. Oh, deixa-me acabar esta minha maldi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Eu a fiz, e termina em \u201cMargarida\u201d.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Proferistes assim contra v\u00f3s mesma a maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Pobre rainha de fantasia, v\u00e3 decora\u00e7\u00e3o da minha sorte, porque lan\u00e7as tu a\u00e7\u00facar sobre essa aranha inchada suja teia mortal te envolve toda? Louca, louca! Afias a faca para te matar. Vir\u00e1 o dia em que tu desejar\u00e1s que eu te ajude \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o deste sapo marreco e venenoso. Mulher fementida, acaba a tua maldi\u00e7\u00e3o infrene, evitando assim que, para teu mal, nos esgotes a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Inf\u00e2mia sobre v\u00f3s todos, haveis esgotado a minha.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Bem vos serviria quem vos ensinasse os vossos deveres.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Para me bem servirdes, ter\u00edeis de cumprir v\u00f3s vossos deveres. Ensinai-me a ser vossa Rainha e v\u00f3s s\u00fabditos meus. Oh, servi-me bem, e aprendei bem esses deveres.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 N\u00e3o despendais raz\u00f5es com ela, ensandeceu.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Paz, senhor Marqu\u00eas. Sois desavergonhado. Vosso t\u00edtulo recente ainda n\u00e3o \u00e9 moeda usada. Oh, se a vossa tenra nobreza pudesse fazer ju\u00edzo do que \u00e9 perd\u00ea-la e assim ser miser\u00e1vel! Aqueles que est\u00e3o no alto cume s\u00e3o por muitos ventos sacudidos, e, se ca\u00edrem, em peda\u00e7os se repartem.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Bom conselho, por minha f\u00e9! Fazei por segui-lo, Marqu\u00eas, fazei.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Tanto toca a v\u00f3s, senhor, como me toca a mim. Oh, e muito mais. Mas eu nasci em alto estado, o nosso ninho \u00e9 no cimo de um cedro, e brinca com o vento e escarnece do sol.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 E transforma o sol em sombra, coitada de mim, coitada! \u00c9 testemunho o meu filho, agora na sombra da morte, cujos raios brilhantes, resplandecentes, a tua turva c\u00f3lera envolveu em eterna escurid\u00e3o. O teu ninho foi feito no nosso ninho. Oh, Deus, que tal vedes, n\u00e3o tolereis coisa assim. como foi ganho com sangue, assim tamb\u00e9m seja perdido.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Calai-vos, calai-vos, por vergonha se n\u00e3o for por caridade.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 N\u00e3o me pe\u00e7as caridade nem vergonha. Sem caridade haveis privado comigo e sem vergonha foram por v\u00f3s cruelmente mortas as minhas esperan\u00e7as. A minha caridade \u00e9 o ultraje, a vida minha vergonha, e nessa vergonha viva sempre o furor das minhas m\u00e1goas.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Acabai, acabai!<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 \u00d3 nobre Buckingham, beijarei a tua m\u00e3o em sinal de alian\u00e7a e amizade para contigo. Que os c\u00e9us te sejam prop\u00edcios e \u00e0 tua nobre Casa, as tuas vestes n\u00e3o est\u00e3o manchadas do meu sangue, nem tu cabes dentro da minha maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Nem ningu\u00e9m aqui, porque nunca as maldi\u00e7\u00f5es passam dos l\u00e1bios dos homens que as proferem.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 N\u00e3o cuide assim, porque elas sobem aos c\u00e9us, e a\u00ed despertam a dormente e gentil paz de Deus. \u00d3 Buckingham, acautelai-te com aquele c\u00e3o! Nota que quando ele nos afaga, morde; e quando morde o seu dente venenoso fere mortalmente. N\u00e3o tenhas trato com ele, tem cuidado com ele, pecado, morte e inferno deixaram nele seus sinais, e todos os seus servos lhe obedecem.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Que diz ela, meu senhor de Buckingham?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Nada que eu acate, meu bom senhor.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Qu\u00ea, desprezas-me por este meu conselho amigo, e adulas o dem\u00f4nio contra quem eu te previno? Oh, mas recorda este outro dia quando ele quebrar de dor o teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, e diz que a pobre Margarida era profeta. Vivei, cada um de v\u00f3s ao \u00f3dio dele sujeito, e ele ao vosso, e todos v\u00f3s ao de Deus. (Sai)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Arrepiam-se-me as carnes de a ouvir proferir tais maldi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 E a mim tamb\u00e9m. N\u00e3o entendo a raz\u00e3o de ela estar em liberdade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o a condeno. Pela santa m\u00e3e de Deus, ela sofreu duras ofensas, e eu me arrependo da parte que me cabe.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Nunca a ofendi, ciente que o fazia.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Tendes, no entanto, todo o proveito de suas ofensas. Por paix\u00e3o fui levado a bem fazer a algu\u00e9m que \u00e9 demasiado frio para pensar nisso agora. Por minha f\u00e9, quanto a Clarence, ele est\u00e1 bem recompensado: por seus males fechado em pocilga para a engorda. Deus perdoe \u00e0queles que foram causa de tal dano.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Conclus\u00e3o crist\u00e3 e virtuosa: orar por quem tais danos nos causou.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 \u00c9 o que eu sempre fa\u00e7o de si para si bem avisado como sou. Se maldi\u00e7\u00e3o eu agora tivera proferido, teria a maldi\u00e7\u00e3o ca\u00eddo sobre mim.<\/p>\n<p>(Entra Catesby)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Senhora, Sua Majestade chama por v\u00f3s, E por Vossa Gra\u00e7a, e por v\u00f3s, gentis senhores.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Catesby, eu vou. Senhores, vindes comigo?<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Acompanhamos Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>(Saem todos exceto Ricardo)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Eu fa\u00e7o o mal, e sou o primeiro a queixar-me. Os secretos agravos que ami\u00fade vou tecendo fa\u00e7o que outros tomem deles penoso cargo. Clarence, a quem eu, decerto, lancei na escurid\u00e3o, eu o lastimo frente a muitos galin\u00e1ceos, nomeadamente Derby, Hastings, Buckingham, e digo-lhes que \u00e9 a Rainha e seus aliados que ati\u00e7am o Rei contra o Duque meu irm\u00e3o. Cr\u00eaem eles agora em tal, e me movem a vingar-me em Rivers, em Dorset e em Grey. Entretanto eu suspiro, e com uma palavra da Escritura, lhes digo que manda Deus retribuir o mal com o bem. E assim cubro a minha inf\u00e2mia manifesta com estranhos farrapos das Sagradas Escrituras, e semelho a um santo, quando fa\u00e7o de diabo o mais que posso. (Entram dois assassinos) Mas devagar, a\u00ed v\u00eam os meus executores. Ora ent\u00e3o, meus animosos companheiros, vigorosos e audazes, ides agora rematar a quest\u00e3o?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Vamos, senhor, e viemos buscar a licen\u00e7a. Que nos permita entrar no local onde ele est\u00e1.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Bem pensado. Tenho-a aqui. Quando tiverdes conclu\u00eddo, ide a Crosby Place. Mais, senhores, sede lestos na execu\u00e7\u00e3o. E sem remiss\u00e3o, n\u00e3o deis ouvidos a suas preces, porque Clarence tem boas falas e talvez possa mover a piedade vossos cora\u00e7\u00f5es, se lhe prestardes aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Qu\u00ea, senhor! N\u00e3o nos quedaremos a falar. Quem muito fala pouco faz. Ficai certo de que vamos usar as nossas m\u00e3os, e n\u00e3o a nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Dos vossos olhos caem pedras, quando dos olhos dos tolos brotam l\u00e1grimas. Gosto de v\u00f3s, mo\u00e7os. Ao trabalho, j\u00e1. Ide, ide, depressa.<\/p>\n<p>AMBOS \u2014 Vamos, meu nobre senhor.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p>Cena IV<\/p>\n<p>(Entra Clarence e guarda)<br \/>\nGUARDA \u2014 Porque tem hoje Vossa Gra\u00e7a um aspecto t\u00e3o grave?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, passei uma noite tormentosa, cheia de h\u00f3rridos sonhos, de feras vis\u00f5es, tanto que eu, crist\u00e3o e crente, n\u00e3o passaria nova noite assim, fora embora para comprar um mundo de dias felizes, t\u00e3o prenhe de funesto horror foi esse tempo.<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 Que sonho foi esse, senhor? Dizei, vos pe\u00e7o.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Cuidei ter fugido da Torre, e estava numa barca para ir at\u00e9 Borgonha; e em minha companhia, Gloucester, meu irm\u00e3o, que me tentou para que deixasse o camarote e fosse ao tombadilho. Dali olhamos a Inglaterra e falamos dos mil dif\u00edceis tempos das guerras de York e de Lancastre, por que hav\u00edamos passado. Enquanto and\u00e1vamos por sobre o ch\u00e3o escorregadio do tombadilho, cuidei que Gloucester trope\u00e7ava, e ao cair me lan\u00e7ou \u2014 a mim que, cuidava eu, o amparava \u2014 borda fora, para o fundo das alt\u00edssimas ondas do oceano. Oh, Deus! Cuidei saber a dor do afogamento, o terr\u00edfico ru\u00eddo das ondas nos ouvidos, as vis\u00f5es da crua morte nos meus olhos! Cuidei que via mil funestos naufr\u00e1gios, dez mil homens que os peixes devoravam, barras de ouro, \u00e2ncoras ingentes, c\u00f4moros de p\u00e9rolas, pedras preciosas, j\u00f3ias de valor inestim\u00e1vel, tudo espalhado no fundo do mar. Algumas havia dentro de cr\u00e2nios de cad\u00e1veres, e nos buracos que outrora os olhos habitavam tinham-se alojado, como se escarnecessem dos olhos, pedras cintilantes, que faziam cortesia ao fundo enlameado das profundezas, e se riam dos ossos que por ali jaziam.<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 Haveis tido tempo \u00e0 hora da morte de olhar esses segredos das profundezas?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Cuido que tive. E muitas vezes me esforcei por exalar o \u00faltimo suspiro, por\u00e9m a invejosa torrente retinha a minha alma, e n\u00e3o a deixava sair para encontrar os ares incertos, vastos e livres, Mas a escondia no meu arquejante peito, que quase rebentava ao vomit\u00e1-la no mar.<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 E n\u00e3o haveis despertado no meio dessa terr\u00edfica agonia?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o. Foi-se o meu sonho prolongando para al\u00e9m da vida. Oh, a procela come\u00e7ou ent\u00e3o para a minha alma. Cuidei que passava o rio da melancolia com esse fero barqueiro de que falam os poetas, e que entrava no reino da noite sem fim. O primeiro a saudar a minha alma de forasteiro foi meu ilustre sogro, o famoso Warwick, que em voz alta chamou: \u201cQue flagelo pelo perj\u00fario pode oferecer este escuro reino ao falso Clarence?\u201d Posto o que desapareceu. Surgiu ent\u00e3o errante uma sombra que um anjo semellhava, de luminosos cabelos tingidos de sangue, e alto gritou: \u201cClarence \u00e9 chegado, o perjuro, o falso Clarence das duas faces que me apunhalou na batalha de Tewkesbury! Agarrai-o, f\u00farias! Conduzi-o ao supl\u00edcio!\u201d Entretanto, cuidei, uma legi\u00e3o de s\u00f3rdidos dem\u00f4nios me cercaram, e lan\u00e7aram para o fundo de meus ouvidos gritos de tal modo hediondos que o pr\u00f3prio ru\u00eddo me despertou em sobressalto, e por um tempo n\u00e3o ousava crer que n\u00e3o estava no inferno, tal a temerosa afli\u00e7\u00e3o causada pelo sonho.<\/p>\n<p>GUARDA \u2014 N\u00e3o \u00e9 motivado espanto, senhor, o terror que sentistes; de vos ouvir, t\u00e3o s\u00f3, eu sinto terror.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, guarda, guarda, eu cometi esses feitos que agora testemunham contra a minha alma por amor de Eduardo, e v\u00ea como ele me paga. Oh, Deus, se minhas preces profundas n\u00e3o te podem abrandar, mas queres vingar-te dos meus crimes, abate a Tua ira apenas sobre mim. Oh, poupa minha mulher inocente e meus desgra\u00e7ados filhos. Guarda, pe\u00e7o-te, senta-te por um momento ao p\u00e9 de mim. Est\u00e1 grave a minha alma, e com vontade dormiria. Ficarei, senhor. Que Deus conceda a Vossa Gra\u00e7a um repousado descanso.<\/p>\n<p>(Entra Brakenbury, o Tenente)<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 A dor quebra as esta\u00e7\u00f5es e as horas de repouso, faz da noite manh\u00e3, e da tarde noite. Os pr\u00edncipes mais n\u00e3o t\u00eam que os t\u00edtulos por gl\u00f3ria, honras exteriores para um interior tormento, e em lugar de imaginados prazeres irreais, eles muitas vezes sentem um mundo de desassossegados cuidados. De sorte que entre seus t\u00edtulos e um humilde nome n\u00e3o h\u00e1 qualquer diferen\u00e7a sen\u00e3o a fama exterior.<\/p>\n<p>(Entram os dois assassinos)<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Eh, quem est\u00e1 aqui?<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Que queres, companheiro? E como chegaste at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Queria falar a Clarence, e cheguei aqui pelas minhas pernas.<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Qu\u00ea, t\u00e3o breve?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 \u00c9 melhor, senhor, do que ser importuno. Deixa-o ver a ordem que trazemos e n\u00e3o fales mais.<\/p>\n<p>(Brakenbury l\u00ea)<\/p>\n<p>BRAKENBURY \u2014 Isto me manda entregar o nobre Duque de Clarence em vossas m\u00e3os. N\u00e3o discutirei o que tr\u00e1s isto se esconde. Ficarei eu inocente do intento. Ali est\u00e1 o Duque adormecido, e ali as chaves. Irei junto de El-Rei, e lhe direi que a v\u00f3s entreguei o meu encargo.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Senhor, ide. Assim manda a prud\u00eancia. Ide em paz.<\/p>\n<p>(Saem Brakenbury e guardas)<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Ent\u00e3o, mato-o enquanto dorme?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o. Assim ele dir\u00e1, quando acordar, que agimos com covardia.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Ora, ele nunca acordar\u00e1 sen\u00e3o no Dia do Ju\u00edzo.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Ora, e ent\u00e3o vai dizer que o matamos quando dormia.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Essa palavra \u201cju\u00edzo\u201d, de pesada, fez nascer em mim a modos que um remorso.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Qu\u00ea, tens medo?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o de o matar \u2014 porque tenho ordem \u2014 mas de ser condenado por o ter morto, e disso n\u00e3o h\u00e1 ordem que defenda.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Cuidei que estavas determinado.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 E estou, a deix\u00e1-lo viver.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Irei junto do Duque de Gloucester e isso lhe contarei.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o, pe\u00e7o-te que fiques um instante. Espero que se mude este meu humor apaixonado. Costuma durar s\u00f3 o tempo de contar at\u00e9 aos vinte.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Como te sentes agora?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 H\u00e1 ainda em mim uns restos de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Lembra-te do pr\u00eamio, quando o feito estiver cumprido.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Com mil dem\u00f4nios, que morra! J\u00e1 me esquecera o pr\u00eamio.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Onde est\u00e1 agora a tua consci\u00eancia?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Oh, na bolsa do Duque de Gloucester.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Quando ele abrir a bolsa para nos dar o pr\u00eamio, a tua consci\u00eancia foge de l\u00e1?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Isso n\u00e3o importa, deixa-a ir. H\u00e1 poucos que a tenham, ou mesmo ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 E se ela voltar outra vez para ti?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o quero pacto com ela, \u00e9 causa de covardia. N\u00e3o pode um homem roubar sem que ela o acuse; n\u00e3o pode um homem blasfemar sem que ela o censure; n\u00e3o pode um homem deitar-se com a mulher do vizinho, sem que ela o traia. \u00c9 um esp\u00edrito envergonhado, que cora, que faz motim no peito de um homem. Enche um homem de impedimentos. Uma vez fez-me entregar uma bolsa cheia de ouro que encontrei por acaso. Arruina todo aquele que ficar com ela. Foi expulsa das cidades e das vilas como coisa perigosa, e todo o homem que pretende viver bem faz por confiar em si e viver sem ela.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Com mil dem\u00f4nios, ela est\u00e1 agora mesmo aqui ao meu lado, a convencer-me a n\u00e3o matar o Duque.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Agarra o diabo em teu esp\u00edrito e nele n\u00e3o creias. Era capaz de se meter por ti dentro s\u00f3 para te fazer suspirar.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Tenho forte estatura, n\u00e3o consegue vencer-me.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Falaste como um valente que respeita a fama que tem. Anda, lancemo-nos ao trabalho!<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Bate-lhe na cabe\u00e7orra com os copos da tua espada, e depois atiramo-lo para dentro do barril de malvasia que est\u00e1 no quarto ao lado.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Oh, que excelente ardil! E faz-se dele umas sopas.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Chiu, que acorda.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Bate-lhe!<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o, vamos argumentar com ele.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Onde est\u00e1s, guarda? D\u00e1-me um copo de vinho.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Tereis em breve, senhor, todo o vinho que quiserdes.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Por Deus, quem \u00e9s tu?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Um homem, tal como v\u00f3s.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Mas n\u00e3o r\u00e9gio como eu.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Nem v\u00f3s leal, como ele e eu.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 A tua voz \u00e9 de trov\u00e3o, mas o teu semblante humilde.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 A minha voz agora \u00e9 a do Rei, e o semblante \u00e9 o meu.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Qu\u00e3o sombria e funesta \u00e9 a tua fala. Vossos olhos me amea\u00e7am. Porque vos pusestes p\u00e1lido? Quem vos mandou aqui? Para que viestes v\u00f3s?<\/p>\n<p>AMBOS \u2014 Para&#8230; para&#8230; para&#8230;<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Para me matar?<\/p>\n<p>AMBOS \u2014 Sim, sim.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Quase n\u00e3o tendes cora\u00e7\u00e3o para mo dizer, E por isso n\u00e3o tereis cora\u00e7\u00e3o para o fazer. Amigos, em que vos ofendi?<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 N\u00e3o nos ofendestes a n\u00f3s, ofendestes ao Rei.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Ainda um dia estarei em paz com ele.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Nunca, senhor. Por isso aparelhai-vos para a morte.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Haveis sido arrancados ao mundo dos homens para matar o inocente? Que ofensa \u00e9 a minha? Onde est\u00e1 a prova que me acusa? Que demanda forneceu o veredicto ao severo juiz? Ou quem pronunciou amarga senten\u00e7a da morte do pobre Clarence? Antes de ser condenado pela for\u00e7a da lei, \u00e9 mui fora de lei amea\u00e7ar-me com a morte. Eu vos ordeno, posto que esperais a reden\u00e7\u00e3o, pelo sagrado sangue de Cristo, derramado por nossos grandes pecados, que partais e que n\u00e3o ponhais vossas m\u00e3os sobre mim. \u00c9 conden\u00e1vel o feito que empreendeis.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 O que faremos ser\u00e1 por obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 E foi o nosso Rei quem ordenou.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Cegos vassalos! O Sumo Rei dos reis ordenou na grande t\u00e1bua dos seus mandamentos: n\u00e3o matar\u00e1s. Escarnecereis ent\u00e3o da sua ordem, e cumprireis a ordem de um mortal? Havei cuidado! Porque Ele tem a vingan\u00e7a em Sua m\u00e3o. Para a lan\u00e7ar sobre as cabe\u00e7as dos que quebram Sua lei.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 E a mesma vingan\u00e7a ele a lan\u00e7a sobre ti. Por perj\u00fario e tamb\u00e9m por assass\u00ednio. No altar haveis jurado lutar pela Casa de Lancastre.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 E, qual traidor do nome do Senhor, quebraste o voto, e com tua trai\u00e7oeira l\u00e2mina rasgaste as entranhas ao filho do teu Rei.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 A quem havias jurado estimar e defender.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Como podes chamar contra n\u00f3s a terr\u00edvel lei de Deus quando tu a violaste e t\u00e3o fundamente?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Coitado de mim, por quem cometi eu obra t\u00e3o funesta? Por Eduardo, por meu irm\u00e3o, por ele. N\u00e3o vos manda ele matar-me por essa raz\u00e3o, porque em tal pecado est\u00e1 ele t\u00e3o metido como eu. Se Deus quiser vingar um tal cometimento, ficai sabendo, Ele o far\u00e1 sem qualquer encobrimento. N\u00e3o usurpeis a querela ao Seu bra\u00e7o poderoso. Ele n\u00e3o precisa de meios \u00ednvios ou sem lei para punir aqueles que O ofenderam.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Quem te tornou ministro sangrento quando o valoroso, galante e promissor Plantageneta, esse tenro pr\u00edncipe, sucumbiu \u00e0s tuas m\u00e3os?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 O amor a meu irm\u00e3o, o dem\u00f4nio e a minha c\u00f3lera.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 O amor a teu irm\u00e3o, o nosso dever e os teus crimes nos levam agora a matar-te.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, se amais meu irm\u00e3o, n\u00e3o me odieis. Sou seu irm\u00e3o, e tenho-o em grande estima. Se vos pagam por tal cometimento, ide-vos, e eu vos enviarei a meu irm\u00e3o Gloucester, que pela minha vida maior pr\u00eamio vos dar\u00e1 do que Eduardo pela nova de minha morte.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Estais enganado, vosso irm\u00e3o Gloucester odeia-vos.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, n\u00e3o, ele ama-me, e tem por mim profunda estima. Ide da minha parte junto dele.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Pois, assim faremos.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Dizei-lhe que quando o nosso ilustre pai York deu a b\u00ean\u00e7\u00e3o a seus tr\u00eas filhos com seu bra\u00e7o vitorioso, e do fundo da sua alma ordenou que nos am\u00e1ssemos uns aos outros, ele n\u00e3o tinha em mente esta amizade rompida. Dizei a Gloucester que atente nisto, e ele chorar\u00e1.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Sim, pedras, assim nos ensinou a chorar.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Oh, n\u00e3o o calunieis, porque ele \u00e9 bom.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Decerto, como a neve para a seara. Vamos, estais a iludir-vos. \u00c9 ele quem nos manda para aqui vos destruirmos.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 N\u00e3o pode ser assim, porque ele chorou a minha sorte. E me abra\u00e7ou, e jurou solu\u00e7ando que havia de porfiar por alcan\u00e7ar a minha liberdade.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Pois \u00e9 o que ele faz, com libertar-vos do vale de l\u00e1grimas desta terra para as alegrias do c\u00e9u.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Fazei a paz com Deus, porque ides morrer, senhor.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Haveis em vossas almas esse sagrado sentimento que me d\u00e1 conselho de fazer a paz com Deus e estais t\u00e3o cegos com respeito a vossas almas que quereis fazer guerra a Deus com a minha morte? \u00d3 senhores, considerai. Os que vos moveram a esta obra, por tal obra vos odiar\u00e3o.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Que faremos?<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 Tende piedade, e salvai as vossas almas.<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Ter piedade! N\u00e3o, isso \u00e9 covardia e feminil fraqueza.<\/p>\n<p>CLARENCE \u2014 N\u00e3o ter piedade \u00e9 feroz, selvagem e pr\u00f3prio do dem\u00f4nio. Qual de v\u00f3s, se fosse filho de um pr\u00edncipe, estando como eu privado de liberdade, se dois assassinos como v\u00f3s se aproximassem n\u00e3o imploraria a vida? Ah, v\u00f3s hav\u00edeis de a pedir, se viv\u00easseis a minha m\u00e1 fortuna. (Para o segundo assassino) Amigo, entrevejo piedade no teu gesto. Oh, se os teus olhos n\u00e3o forem fingidores, passa para meu lado, e intercede por mim. Um pr\u00edncipe pedinte, que pedinte o n\u00e3o lastima?<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Olhai para tr\u00e1s, senhor!<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Toma! Toma! (Apunhala-o) Se tudo isto n\u00e3o bastar, vou afogar-vos no barril de malvasia. (Sai com o corpo)<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Feito sangrento, e cometido em desespero. Com vontade lavaria as m\u00e3os, como Pilatos, deste assass\u00ednio t\u00e3o atroz. (Entra o primeiro assassino) E ent\u00e3o? Que raz\u00f5es tiveste tu para me n\u00e3o ajudares? Com mil dem\u00f4nios, o Duque ter\u00e1 conhecimento da tua covardia.<\/p>\n<p>SEGUNDO ASSASSINO \u2014 Oxal\u00e1 ele soubesse que eu tinha salvo o irm\u00e3o. Fica tu com o pr\u00eamio e conta-lhe o que eu te digo porque estou arrependido de estar assassinado o Duque. (Sai)<\/p>\n<p>PRIMEIRO ASSASSINO \u2014 Eu n\u00e3o. Vai, covarde que tu \u00e9s. Bem, vou esconder o corpo em alguma cova, at\u00e9 que o Duque ordene a sua sepultura, e quando tiver o meu pr\u00eamio, ir-me-ei, porque isto se saber\u00e1, e eu n\u00e3o posso ficar aqui. (Sai)<\/p>\n<h3>ATO II<br \/>\nCena I<\/h3>\n<p>(Toque de trombetas. Entram o Rei Eduardo, a Rainha Isabel, Dorset, Rivers, Hastings, Buckingham e Grey)<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Assim \u00e9, fiz o trabalho de um dia bom. V\u00f3s, pares, conservai unida esta alian\u00e7a. Espero em cada dia uma embaixada do meu Redentor, para daqui me redimir, e numa paz maior partir\u00e1 minha alma para os c\u00e9us, eis que concertei a paz na terra entre os meus amigos. Rivers e Hastings, apertai a m\u00e3o, n\u00e3o dissimuleis o vosso \u00f3dio, jurai o vosso amor.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Pelos c\u00e9us, est\u00e1 minha alma limpa de \u00f3dios rancorosos, e com minha m\u00e3o selo o amor de meu cora\u00e7\u00e3o leal.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Prospere eu tanto quanto \u00e9 verdade essa mesma jura que ora fa\u00e7o.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Acautelai-vos, n\u00e3o useis de fingimento perante vosso Rei, para que Aquele que \u00e9 o Sumo Rei dos Reis n\u00e3o desconcerte vossa escondida falsidade e n\u00e3o determine ser cada um de v\u00f3s o fim do outro.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Prospere eu tanto quanto \u00e9 perfeito o amor que eu ora juro.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 E eu, que estimo Hastings do fundo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Senhora, v\u00f3s n\u00e3o sois estranha a isto. Nem v\u00f3s, filho Dorset, Buckingham, nem v\u00f3s. Haveis sido facciosos, um contra o outro. Esposa minha, estimai o senhor de Hastings, deixai-o beijar vossa m\u00e3o. E o que fizerdes, fazei-o sem fingimento.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Aqui a tendes, Hastings. N\u00e3o mais terei mem\u00f3ria do nosso antigo \u00f3dio, assim eu e os meus prosperem.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Dorset, abra\u00e7ai-o. Hastings, estimai o senhor Marqu\u00eas.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Esta troca de estima, aqui o asseguro, por minha parte n\u00e3o ser\u00e1 manchada.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Assim tamb\u00e9m o juro.<\/p>\n<p>(Abra\u00e7am-se)<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Agora, ilustre Buckingham, sela tu esta alian\u00e7a, abra\u00e7ando os aluados de minha esposa, e faz-me feliz com esta vossa uni\u00e3o.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Se alguma vez Buckingham lan\u00e7ar seu \u00f3dio sobre Vossa Gra\u00e7a, se n\u00e3o vos estimar, a v\u00f3s e aos vossos, com respeitoso amor, que Deus me castigue com o \u00f3dio daqueles de quem eu mais amor espero. No momento em que eu mais precisar de um amigo, e mais certeza tiver de que ele \u00e9 amigo, que ele seja para mim escuro, vazio, enganador e cheio de fel. \u00c9 o que eu imploro a Deus quando meu amor tiver arrefecido para v\u00f3s e para os vossos.<\/p>\n<p>(Abra\u00e7am-se)<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Um doce refrig\u00e9rio, ilustre Buckingham, \u00e9 este voto teu para meu doente cora\u00e7\u00e3o. Falta agora aqui nosso irm\u00e3o Gloucester para com felicidade firmar a nossa paz.<\/p>\n<p>(Entram Ratcliffe e Ricardo)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 E em boa hora ali v\u00eam o senhor Ricardo de Ratcliffe e o Duque.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Um bom dia ao meu soberano Rei e \u00e0 Rainha; e aos ilustres pares, um tempo feliz.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Feliz, sim, como passamos o dia. Gloucester, fizemos a\u00e7\u00f5es caridosas, fizemos da inimizade paz, do \u00f3dio leal amor, entre estes pares arrogantes e sem raz\u00e3o incensados.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Aben\u00e7oado trabalho, meu senhor mui soberano. Se, de entre esta ilustre companhia, algu\u00e9m aqui, por perverso entendimento ou falsa suposi\u00e7\u00e3o, me tem por inimigo, se eu, involuntariamente ou movido pela ira, tiver alguma vez cometido, o que com dificuldade se aceita, contra algu\u00e9m aqui presente, desejo conciliar-me com sua am\u00e1vel paz, viver em inimizade \u00e9 morte para mim. Eu tal odeio, e desejo a estima dos homens bons. Imploro primeiro a v\u00f3s, senhora, uma vera paz. Que retribuirei com servi\u00e7o respeitoso. E a v\u00f3s, meu nobre primo Buckingham, se alguma vez ressentimento entre n\u00f3s houve. E a v\u00f3s, senhor de Rivers, e senhor de Grey, e a v\u00f3s todos os que sem raz\u00e3o me malqueiram, duques, condes, senhores, fidalgos, a todos v\u00f3s, a todos, n\u00e3o conhe\u00e7o ingl\u00eas algum contra o qual minha alma se levante mais do que faria um menino acabado de nascer. Dou gra\u00e7as a Deus por minha humildade.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Este \u00e9 um dia santo e para sempre assim guardado. Provera a Deus que houvesse rem\u00e9dio para todas as contendas. Meu soberano senhor, imploro a Vossa Alteza que estenda a Vossa Gra\u00e7a a nosso irm\u00e3o Clarence.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qu\u00ea, senhora! Ofereci eu o meu amor para tal, para assim ser escarnecido nesta presen\u00e7a r\u00e9gia? Quem n\u00e3o sabe que est\u00e1 morto o gentil Duque? (Todos se sobressaltaram) V\u00f3s o injuriais, zombando do seu cad\u00e1ver!<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Quem n\u00e3o sabe que ele est\u00e1 morto? Mas quem sabe que ele est\u00e1 morto?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 C\u00e9us que tudo vedes, que mundo \u00e9 este?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Estarei t\u00e3o p\u00e1lido, senhor de Dorset, como est\u00e3o todos os outros?<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Estais, senhor, e n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m aqui presente a quem a cor do rosto se n\u00e3o tenha mudado.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Clarence est\u00e1 morto? A ordem era j\u00e1 outra.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Mas ele, pobre homem, \u00e0 vossa ordem primeira morreu, e essa um Merc\u00fario com asas transportou. Algum coxo vagaroso levou a ordem contr\u00e1ria e chegou t\u00e3o tarde que nem o enterro viu. Deus permita que alguns, menos nobres e menos leais, mais pr\u00f3ximos nos pensamentos sanguinosos, mas menos no sangue, e que no entanto s\u00e3o livres de suspei\u00e7\u00e3o, mere\u00e7am a mesma sorte que o desditoso Clarence.<\/p>\n<p>(Entra Stanley, Conde de Derby)<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Recompensa, meu soberano, pelo servi\u00e7o prestado!<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Deixa-me, eu te pe\u00e7o; minha alma \u00e9 prenhe de amargura.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 N\u00e3o me levantarei enquanto Vossa Alteza n\u00e3o me ouvir.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Ent\u00e3o diz de cont\u00ednuo o que desejas.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 A gra\u00e7a, meu soberano, da vida de um meu criado que assassinou hoje um fidalgo desordeiro que a este tempo servia o Duque de Norfolk.<\/p>\n<p>REI EDUARDO IV \u2014 Tenho l\u00edngua que condena \u00e0 morte o meu irm\u00e3o e essa mesma l\u00edngua dar\u00e1 perd\u00e3o a um escravo? Meu irm\u00e3o n\u00e3o matou homem algum, seu crime foi o pensamento, e contudo o castigo foi a morte amarga. Quem me rogou em seu favor? Quem, em minha ira, se ajoelhou a meus p\u00e9s e me pediu que ponderasse? Quem falou de fraternal amor? Quem falou de amor? Quem me contou que aquela alma triste abandonou o poderoso Warwick e combateu por mim? Quem me contou que, na batalha, em Tewkesbury, quando Oxford me derrubou, ele me salvou e disse: \u201cQuerido irm\u00e3o, vive e s\u00ea rei\u201d! Quem me contou, quando est\u00e1vamos n\u00f3s ambos deitados no campo, quase mortos pelo frio, que ele me cobriu com suas pr\u00f3prias vestiduras, e se entregou magro e nu, \u00e0 noite mui fria? Tudo isto de minha lembran\u00e7a a bruta ira em pecado arrancou, e de entre v\u00f3s n\u00e3o houve um s\u00f3 que tivesse bondade bastante para mo p\u00f4r em mente. Mas quando vossos carreteiros ou vossos servos \u00e9brios cometem um assass\u00ednio, e maculam a preciosa imagem de nosso querido Redentor, logo vos pondes de joelhos pedindo \u201cperd\u00e3o, perd\u00e3o!\u201d E eu, injusto em demasia, sou for\u00e7ado a conced\u00ea-lo. Mas em favor de meu irm\u00e3o n\u00e3o falou homem algum. Nem eu, desgra\u00e7ado, para mim pr\u00f3prio falei em seu favor, coitado. Os mais orgulhosos de entre v\u00f3s deviam-lhe favores durante a vida, mas nenhum de v\u00f3s intercedeu uma s\u00f3 vez pela vida dele. \u00d3 Deus, temo que por tal se abata sobre mim Tua justi\u00e7a, e sobre v\u00f3s, e sobre os meus e sobre os vossos. Vinde, Hastings, ajudai-me a chegar a minha c\u00e2mara. Oh, pobre Clarence!<\/p>\n<p>(Saem algumas pessoas com o Rei e a Rainha)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 S\u00e3o estes os frutos da leviandade: n\u00e3o haveis notado como os culpados parentes da Rainha empalideceram com ouvir dizer a morte de Clarence? Oh, foram eles que com insist\u00eancia a exigiram de El-Rei. Deus ving\u00e1-lo-\u00e1. Vinde, senhores, vinde confortar Eduardo com a nossa companhia.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Servimos Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p>Cena II<\/p>\n<p>(Entra a velha Duquesa de York com os dois filhos de Clarence.)<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Dizei-me, av\u00f3 querida, o nosso pai morreu?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 N\u00e3o, menino.<\/p>\n<p>MENINA \u2014 Porque chorais tantas vezes e porque bateis no peito? E porque gritais: \u201cOh, Clarence, meu desafortunado filho\u201d?<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Porque olhais para n\u00f3s e meneais a cabe\u00e7a, e nos chamais \u00f3rf\u00e3os, infelizes, condenados, se ainda vive o nosso nobre pai?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Meus primos queridos, n\u00e3o me haveis entendido: eu lamento a doen\u00e7a de El-Rei com medo de o perder, n\u00e3o a morte de vosso pai. Seria dor perdida chorar por quem perdido est\u00e1.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Confessais, ent\u00e3o, av\u00f3, que ele morreu. El-Rei, meu tio, \u00e9 culpado. Deus ving\u00e1-lo-\u00e1, Deus: a quem eu hei de importunar com preces honestas, todas a isso destinadas.<\/p>\n<p>MENINA \u2014 E eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Sossegai, meninos, sossegai. El-Rei ama-vos muito. Fr\u00e1geis e n\u00e9scios inocentes, n\u00e3o podeis imaginar quem foi causa da morte de vosso pai.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Podemos, av\u00f3, porque meu bom tio Gloucester me disse que El-Rei, movido a tal pela Rainha, imaginou acusa\u00e7\u00f5es para o prender, e quando meu tio me contou isto chorava e me lamentava, e com afei\u00e7\u00e3o me beijou a face. Mandou-me que confiasse nele como se fora meu pai e ele me amaria com ternura como se eu fora seu filho.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Oh, que a hipocrisia se disfarce em forma t\u00e3o gentil e esconda o profundo v\u00edcio com viseira virtuosa! Ele \u00e9 meu filho, sim, e a\u00ed est\u00e1 minha afronta, mas n\u00e3o foi de meus peitos que ele bebeu hipocrisia.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Cuidais, av\u00f3, que meu tio dissimulou?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Menino, assim o cuido.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Eu n\u00e3o posso assim cuidar. Ouvi, que rumor \u00e9 este?<\/p>\n<p>(Entra a Rainha Isabel com o cabelo desgrenhado, Rivers e Dorset atr\u00e1s dela.)<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ah! Quem me impedir\u00e1 de lamentar e chorar, de maldizer minha sorte e de a mim pr\u00f3pria me atormentar? Contra minha alma eu me juntarei ao negro desespero e farei de mim pr\u00f3pria inimiga.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 A que vem esta cena de t\u00e3o rude impaci\u00eancia?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Vem causar um ato de tr\u00e1gica viol\u00eancia. Eduardo, o meu senhor, teu filho, nosso Rei, morreu. Porque crescem os ramos, quando a raiz se foi? Porque n\u00e3o secam as folhas que necessitam da seiva? Se viverdes, lamentai. Se morrerdes, sede breves, para que as nossas almas de asas velozes possam apanhar a alma de El-Rei ou segui-lo como vassalos obedientes at\u00e9 seu novo reino de imut\u00e1vel noite.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Ah, tanto interesse tenho eu em tua dor, quanto tinha influi\u00e7\u00e3o sobre teu nobre esposo. Chorei a morte de um esposo virtuoso, e vivi a contemplar suas imagens. Por\u00e9m estora dois espelhos de sua figura de pr\u00edncipe est\u00e3o quebrados em peda\u00e7os pela maligna morte, e eu, por refrig\u00e9rio, n\u00e3o hei mais que um falso espelho, que me enoja quando vejo nele minha vergonha. Tu \u00e9s vi\u00fava, por\u00e9m \u00e9s m\u00e3e, e teus filhos por amparo ainda tens. Mas a morte arrancou meu esposo dos meus bra\u00e7os e retirou das minhas d\u00e9beis m\u00e3os duas muletas, Clarence e Eduardo. Oh, que raz\u00f5es n\u00e3o terei, se tuas queixas s\u00e3o s\u00f3 metade das minhas, para vencer tua dor e abafar teus brados.<\/p>\n<p>MENINO \u2014 Ah, tia, n\u00e3o haveis chorado a morte de nosso pai. Como vos podemos n\u00f3s confortar com nossos prantos?<\/p>\n<p>MENINA \u2014 Nossa tristeza de meninos sem pai ningu\u00e9m chorou. Que ningu\u00e9m chore tamb\u00e9m a vossa dor de vi\u00fava.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o me ajudeis em meus lamentos, sou bem capaz de manifestar meus nojos. Todas as fontes conduzem suas \u00e1guas a meus olhos para que eu, governada pela \u00famida lua, possa verter l\u00e1grimas tamanhas que o mundo inundem. Oh, por meu esposo, por meu querido senhor Eduardo!<\/p>\n<p>MENINOS \u2014 Oh, por nosso pai, por nosso querido senhor de Clarence!<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Coitada de mim, por pelos dois, por meu Eduardo e por meu Clarence!<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o tinha outro amparo afora Eduardo, e ele \u00e9 morto.<\/p>\n<p>MENINOS \u2014 N\u00e3o t\u00ednhamos outro amparo afora Clarence, e ele \u00e9 morto!<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 N\u00e3o tinha outros amparos afora eles, e eles s\u00e3o mortos.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Vi\u00fava nunca houve que sofresse perda t\u00e3o dolorida.<\/p>\n<p>MENINOS \u2014 \u00d3rf\u00e3os nunca houve que sofressem perda t\u00e3o dolorida.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 M\u00e3e nunca houve que sofresse perda t\u00e3o dolorida coitada de mim, sou m\u00e3e destes pesares. As dores que t\u00eam s\u00e3o peda\u00e7os, a dor que tenho \u00e9 inteira. Ela chora um Eduardo, e eu tamb\u00e9m. Eu choro um Clarence, mas ela n\u00e3o. Estes meninos choram Clarence, e eu tamb\u00e9m. Eu choro um Eduardo, mas eles n\u00e3o. Coitada de mim; em triplicada dor, sobre mim v\u00e1s tr\u00eas. Todas as vossas l\u00e1grimas verteis. Sou ama de vossa dor e com lamenta\u00e7\u00f5es a embalarei.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Conformai-vos, querida m\u00e3e. A Deus n\u00e3o apraz que sua obra aceiteis com ingratid\u00e3o. Nas coisas mundanas, s\u00f3i dizer-se que \u00e9 ingrato pagar com sombria malqueren\u00e7a uma d\u00edvida que m\u00e3o generosa amavelmente consertou. Assim muito mais contr\u00e1ria estais ao c\u00e9u que exige a r\u00e9gia d\u00edvida do empr\u00e9stimo que vos fez.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Qual m\u00e3e extremosa, senhora, pensai no jovem Pr\u00edncipe, vosso filho. Mandai-o buscar. Que ele seja coroado. Nele reside o vosso amparo. Enterrai a desatinada dor no t\u00famulo de Eduardo morto e plantai as alegrias vossas no trono de Eduardo vivo.<\/p>\n<p>(Entram Ricardo, Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings e Ratcliffe.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Irm\u00e3, conformai-vos. Todos n\u00f3s temos raz\u00f5es de chorar o empalidecer de nossa estrela brilhante, mas ningu\u00e9m chorando cura suas m\u00e1goas. Senhora, minha m\u00e3e, imploro-vos perd\u00e3o, Vossa Gra\u00e7a n\u00e3o vi. Posto de joelhos humildemente a vossa b\u00ean\u00e7\u00e3o suplico. (Ajoelha)<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Que Deus te aben\u00e7oe, e ponha brandura em teu peito, amor, caridade, obedi\u00eancia e lealdade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Amem. (Levanta-se.) (\u00c0 parte). E me traga a morte em boa avan\u00e7ada idade. \u00c9 esta a conclus\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e. Maravilhado estou que Sua Gra\u00e7a a tenha deixado fora.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 \u00d3 v\u00f3s, soturnos pr\u00edncipes e pares de cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado que suportais este t\u00e3o pesado fardo m\u00fatuo de lamenta\u00e7\u00f5es, alegrai-vos ora no amor entre v\u00f3s todos. Se bem que tenhamos deste rei perdido nosso fruto, novo fruto colheremos de seu filho. O rancor que correu da chaga de vossos \u00f3dios, h\u00e1 t\u00e3o pouco cortada, cosida e reunida, com temperan\u00e7a deve ser cuidado, tratado e resguardado. Julgo ser raz\u00e3o que o jovem pr\u00edncipe com pequena companhia contino venha de Ludlow at\u00e9 Londres para ser coroado novo Rei.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Por qu\u00ea com pequena companhia, meu senhor de Buckingham?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Por minha f\u00e9, senhor meu, para que n\u00e3o se abra na for\u00e7a do ajuntamento a chaga da maldade h\u00e1 t\u00e3o pouco curada, o que teria tanto mais perigo quanto est\u00e1 tenro o estado e ainda sem governo. Quando os cavalos tomam as r\u00e9deas que os conduzem e podem dirigir-se como bem lhes apraz, cuido eu que devemos evitar tanto o temor do mal, como o mal que se v\u00ea.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Espero que o Rei nos tenha consertado a todos e o juramento \u00e9 firme e leal dentro em mim. E dentro em mim tamb\u00e9m, e da mesma fei\u00e7\u00e3o cuido, dentro em todos n\u00f3s. Por\u00e9m, como a paz \u00e9 ainda muito tenra, n\u00e3o devia ser posta diante qualquer vis\u00edvel apar\u00eancia de rompimento, que podia por acaso surgir com companhia assim. Por isso digo com o nobre Buckingham que avisado \u00e9 mandar pelo Pr\u00edncipe t\u00e3o pouca gente.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 O mesmo digo eu.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ent\u00e3o que assim seja, e vamos determinar quem contino se partir\u00e1 para Ludlow. Senhora, e v\u00f3s, minha irm\u00e3, quereis dar vosso parecer nesta quest\u00e3o?<\/p>\n<p>ISABEL e DUQUESA \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Saem todos exceto Buckingham e Ricardo)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu, por Deus n\u00e3o fiquemos ambos em casa, seja quem for que viaje a buscar o pr\u00edncipe, porque na jornada eu acharei ocasi\u00e3o, em seguimento do que h\u00e1 pouco conversamos, de apartar do pr\u00edncipe os orgulhosos parentes da Rainha.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Meu outro eu, meu cons\u00edlio, meu or\u00e1culo, meu profeta, meu querido primo, eu, como crian\u00e7a, por ti me deixarei guiar. Ent\u00e3o para Ludlow, n\u00e3o ficaremos para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p>Cena III<\/p>\n<p>(Entra um cidad\u00e3o por uma porta e outro por outra porta.)<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Bom dia, vizinho; aonde is com tanta pressa?<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Crede que nem eu pr\u00f3prio sei. Haveis ouvido as novas?<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ouvi, que o Rei morreu.<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 M\u00e1s novas, Jesus Maria Jos\u00e9; uma nova m\u00e1 nunca vem s\u00f3 receio, receio que isto traga desgra\u00e7as para o mundo.<\/p>\n<p>(Entra outro cidad\u00e3o)<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Vizinhos, Deus vos salve.<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Tende um bom dia, senhor.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 vera a nova da morte de El-Rei Eduardo?<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 \u00c9 senhor, sim, infelizmente \u00e9 vera, Deus nos acuda.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ent\u00e3o, meus senhores, aparelhai-vos para ver desgra\u00e7as grandes.<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, pela boa gra\u00e7a de Deus, o filho dele ser\u00e1 Rei.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ai da terra governada por infante.<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Nele esperan\u00e7a de governa\u00e7\u00e3o h\u00e1, em sua idade menor, por um conselho em seu nome, e por si pr\u00f3prio em sua idade maior e em seus maduros anos. Decerto bom regimento haver\u00e1 ent\u00e3o e at\u00e9 l\u00e1 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Assim estava o reino quando Henrique VI foi coroado em Paris na idade de apenas nove meses.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Assim estava? N\u00e3o, n\u00e3o, amigos meus, Deus \u00e9 disso testemunha. Que nesse tempo esta terra era bem rica em s\u00e1bios, sisudos conselheiros. Ent\u00e3o o Rei tinha tios virtuosos que protegiam Sua Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ora, este tamb\u00e9m tem, tanto pelo pai como pela m\u00e3e.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Antes fossem todos pelo pai, ou pelo pai nenhum houvesse, porque a disputa sobre quem estar\u00e1 mais perto, de mui perto nos tocar\u00e1 a todos, se Deus n\u00e3o nos poupar. Oh, mui perigoso \u00e9 o Duque de Gloucester, e altivos e orgulhosos os filhos e irm\u00e3os da Rainha. E, se fossem governados e n\u00e3o governassem, esta terra achacosa bem podia retomar suas for\u00e7as como outrora.<\/p>\n<p>PRIMEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Ora, ora, receamos o pior, tudo terminar\u00e1 bem.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Quando v\u00eaem nuvens, os homens prudentes vestem suas capas; quando caem muitas folhas, est\u00e1 o Inverno chegando; quando o Sol se p\u00f5e, quem h\u00e1 que n\u00e3o espere a noite? Tempestades fora de saz\u00e3o fazem que os homens receiem a pobreza. Tudo pode terminar bem, mas se Deus assim quiser. \u00c9 mais do que merecimento nosso, ou que esperan\u00e7a minha.<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 De verdade, os cora\u00e7\u00f5es dos homens prenhes de medo est\u00e3o. Quase n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dispensar raz\u00f5es com homem que n\u00e3o semelhe cuidoso e temeroso.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 Sempre assim \u00e9 antes dos dias de mudan\u00e7a. Por divino instinto as mentes dos homens pressentem o perigo que a\u00ed vem, como se v\u00ea subir as \u00e1guas antes de grande procela.<\/p>\n<p>SEGUNDO CIDAD\u00c3O \u2014 Por minha f\u00e9, fomos chamados aos juizes.<\/p>\n<p>TERCEIRO CIDAD\u00c3O \u2014 E eu tamb\u00e9m. Irei em vossa companhia.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena IV<\/h3>\n<p>(Entram o Arcebispo de York, o jovem Duque de York, a Rainha Isabel e a Duquesa de York.)<\/p>\n<p>ARCEBISPO \u2014 Ouvi contar que ontem \u00e0 noite repousaram em Stony Stratford e que em Northampton se quedar\u00e3o esta noite. Amanh\u00e3, ou depois, aqui estar\u00e3o.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Desejo mui ardentemente ver o Pr\u00edncipe espero que muito tenha crescido desde que o hei visto pela derradeira vez.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ouvi contar que assim n\u00e3o \u00e9. Dizem que meu filho j\u00e1 quase o passou em altura.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Sim, minha m\u00e3e, desejaria que eu assim n\u00e3o fosse.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Porque, meu bom primo? \u00c9 bom crescer.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Av\u00f3, uma noite, como est\u00e1vamos sentados a cear, meu tio Rivers disse que eu tinha crescido mais que meu irm\u00e3o. \u201cSim\u201d, disse meu tio Gloucester, \u201cas plantas pequenas s\u00e3o graciosas, as ervas ruins crescem depressa\u201d e por isso cuido que n\u00e3o gostaria de crescer com tanta pressa, porque as formosas flores s\u00e3o lentas e as ervas ruins apressuradas.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Pelos c\u00e9us, tal ditado n\u00e3o se conserta com aquele que tal raz\u00e3o contra si despendeu. Era coisa mui mesquinha quando era crian\u00e7a, t\u00e3o demorado no crescer, t\u00e3o retardado, que se tal lei fora verdade ele seria a gra\u00e7a mesma.<\/p>\n<p>ARCEBISPO \u2014 E sem d\u00favida o \u00e9, minha senhora graciosa.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Espero que assim seja, mas deixai que as m\u00e3es possam duvidar.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Por minha f\u00e9, se me lembrara, podia ter zombado da Gra\u00e7a de meu tio, escarnecendo de seu crescer mais do que ele do meu.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 De que sorte, meu jovem York? Pe\u00e7o que mo contes.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Ora, dizem que meu tio cresceu t\u00e3o depressa que podia morder uma c\u00f4dea com duas horas de idade. Eu bem dois anos vivi sem que um dente tivesse. Av\u00f3, isto seria um brinco mordace!<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Diz-me, formoso York, quem te contou cenas tais?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Av\u00f3, a ama dele mo contou.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 A ama dele? Mas se ela morreu antes que tu nada fosses.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Se n\u00e3o foi ela, j\u00e1 n\u00e3o sei quem foi.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Sagaz mancebo, \u00e9s por demais astuto.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Senhora, n\u00e3o vos agasteis com o infante.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ouve mais do que deve.<\/p>\n<p>(Entra um mensageiro)<\/p>\n<p>ARCEBISPO \u2014 A\u00ed vem um mensageiro. Que novas?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Novas tais, senhor, que \u00e9 doloroso cont\u00e1-las.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Como est\u00e1 o Pr\u00edncipe?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Senhora, bem e de boa sa\u00fade.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Que novas trazes?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 O senhor de Rivers e o senhor de Grey foram mandados para Pomfret, e com eles o senhor Tom\u00e1s de Vaughan, todos eles cativos.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Quem os prendeu?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Os poderosos duques de Gloucester e de Buckingham.<\/p>\n<p>ARCEBISPO \u2014 Por que ofensa?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Tudo o que sabia j\u00e1 vos relatei: por que raz\u00e3o ou por qu\u00ea os fidalgos foram presos, ignoro, meu gracioso senhor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Coitada de mim! Vejo a ru\u00edna de minha casa: o tigre pilhou a t\u00edmida cor\u00e7a, a insultuosa tirania come\u00e7a a engrossar por sobre o inocente e indefeso trono. Bem-vindos sejam o estrago, o sangue e a carnificina: vejo, como num mapa, o fim de tudo.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Inseguros e malditos dias de contendas, quantos de v\u00f3s j\u00e1 meus olhos n\u00e3o viram! Perdeu meu marido a vida para alcan\u00e7ar a coroa, e ami\u00fade foram meus filhos lan\u00e7ados ora acima, ora abaixo para que eu me alegrasse ou chorasse com seus ganhos ou perdas. E alcan\u00e7ado o poder, passadas que foram as dom\u00e9sticas tormentas, eles pr\u00f3prios, vencedores, repugnantes se arremessam em guerras, irm\u00e3o contra irm\u00e3o, sangue contra sangue, cada um contra si pr\u00f3prio. O \u00f3dio, desarrazoado e cheio de frenesi, p\u00f5e fim a teu furor danado, ou deixa-me morrer, para que eu n\u00e3o volte a ver a morte.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Vem, vem, meu menino. Vamos para o santu\u00e1rio. Senhora, adeus.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Esperai, eu vos acompanho.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o haveis para tal raz\u00e3o.<\/p>\n<p>ARCEBISPO \u2014 Senhora minha, ide, e para l\u00e1 levai vossas riquezas e vossos bens. Por mim, entrego a Vossa Gra\u00e7a o selo que guardo, e assim Deus me proteja t\u00e3o bem quanto eu vos estimo a v\u00f3s e aos vossos. Ide, conduzir-vos-ei ao santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p>ATO III<br \/>\nCena I<\/p>\n<p>(Soam trombetas. Entram o jovem Pr\u00edncipe Eduardo, os Duques de Gloucester e de Buckingham, o senhor Cardeal Bourchier, Catesby e outros)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bem-vindo, doce Pr\u00edncipe, a Londres, vosso aposento.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Bem-vindo, querido primo, soberano dos meus pensamentos. O caminho, de cansa\u00e7o tornou-vos melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 N\u00e3o, tio, mas as contrariedades na viagem tornaram-na aborrecida, trabalhosa e grave. Quero eu aqui mais tios para me acolherem.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Doce Pr\u00edncipe, a virtude isenta de vossos anos n\u00e3o se internou ainda nos enganos do mundo. De um homem mais n\u00e3o podeis distinguir do que a sua forma aparente, a qual \u2014 Deus o sabe \u2014 poucas vezes, ou mesmo nunca, \u00e9 conforme ao cora\u00e7\u00e3o. Os tios que desejais eram perigosos. Vossa Gra\u00e7a ouviu as suas brandas falas mas n\u00e3o viu o veneno em seus peitos. Deus vos guarde longe deles, e de t\u00e3o falsos amigos!<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Deus me defenda de falsos amigos, mas eles n\u00e3o eram tal.<\/p>\n<p>(Entra o Alcaide com s\u00e9quito.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Meu senhor, o Alcaide de Londres, vem cumprimentar-vos.<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 D\u00ea Deus a Vossa Gra\u00e7a sa\u00fade e felicidade!<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Eu vos agrade\u00e7o, meu bom senhor, e a todos v\u00f3s. Cuidei que minha m\u00e3e e meu irm\u00e3o York h\u00e1 largo tempo teriam ido ao nosso encontro. Vergonha! Que lesma \u00e9 esse Hastings que n\u00e3o vem para nos dizer se s\u00e3o vindos ou n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>(Entra o senhor de Hastings.)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 E em boa altura a\u00ed vem o lasso senhor.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Bem-vindo, senhor. Ent\u00e3o, vir\u00e1 a ver-nos nossa m\u00e3e?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Por qualquer raz\u00e3o que s\u00f3 Deus sabe, eu n\u00e3o sei, a rainha vossa m\u00e3e e vosso irm\u00e3o York seguiram para um santu\u00e1rio. Gostaria o jovem Pr\u00edncipe de ter comigo vindo ao encontro de Vossa Gra\u00e7a, mas foi por sua m\u00e3e impedido de o fazer.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Vergonha! Que fei\u00e7\u00e3o enganadora e arrogante. E a dela! Senhor Cardeal, poder\u00e1 Vossa Gra\u00e7a persuadir a Rainha a neste momento mandar aqui o Duque de York junto de seu nobre irm\u00e3o? Se ela negar, senhor de Hastings, ide v\u00f3s com ele, e arrancai-o de for\u00e7a a seus ciumentos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>BOURCHIER \u2014 Meu senhor de Buckingham, se minha fraca ret\u00f3rica puder arrancar o Duque de York a sua m\u00e3e, esperai-o em breve aqui. Mas se for ela surda a suaves pedidos, que Deus nos c\u00e9us impe\u00e7a que violemos o santo privil\u00e9gio do sagrado santu\u00e1rio! Nem por amor desta terra toda seria eu culpado de pecado t\u00e3o nefando.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Sois, senhor meu, demasiado insano e rigoroso, tendes demasiado acatamento por cerim\u00f4nias e usan\u00e7as. Ponde isso em balan\u00e7a com a rudeza destes tempos. N\u00e3o violais o santu\u00e1rio ao filar o pr\u00edncipe. O benef\u00edcio do asilo est\u00e1 sempre assegurado aos que por seus atos tal lugar mereceram, e aos que t\u00eam a arg\u00facia de tal lugar pedir. O Pr\u00edncipe nem o pediu nem o mereceu: e por essa causa, em meu ju\u00edzo, n\u00e3o o pode ter. E assim, retirando-o de um lugar que n\u00e3o \u00e9 esse, n\u00e3o rompeis nem leis nem privil\u00e9gios. Ouvi ami\u00fade falar de homens com asilo em santu\u00e1rios, mas de crian\u00e7as nunca at\u00e9 agora ouvi.<\/p>\n<p>BOURCHIER \u2014 Por uma vez vencestes, senhor meu, meu pensamento. Vinde, senhor de Hastings, vindes comigo?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Vou, senhor meu.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Bons senhores, ide t\u00e3o lestos quanto puderdes. (Saem o Cardeal e Hastings) Dizei-me, tio Gloucester, se o nosso irm\u00e3o chegar, onde moraremos n\u00f3s at\u00e9 sermos coroados?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Onde melhor pare\u00e7a a Vossa Real pessoa. Se conselho vos posso dar, um dia ou dois se quedar\u00e1 na Torre Vossa Alteza. Depois, onde quiserdes e onde for julgado mais conforme a vossa melhor sa\u00fade e vossa recrea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 N\u00e3o gosto da Torre, n\u00e3o gosto, n\u00e3o. Foi J\u00falio C\u00e9sar quem a edificou, senhor?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Foi ele, meu gracioso senhor, quem come\u00e7ou a edific\u00e1-la e depois, nas sucessivas eras, de novo a edificaram.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Est\u00e1 posto em cr\u00f4nica, ou \u00e9 contado sucessivamente, de era em era, que ele a edificou?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Em cr\u00f4nica, meu gracioso senhor.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Mas dizei-me, senhor, se escrito n\u00e3o fosse cuido que a verdade viveria de era para era, porque seria contada a toda a posteridade at\u00e9 ao derradeiro dia.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) (\u00c0 parte) \u2014 T\u00e3o s\u00e1bio e t\u00e3o jovem, como s\u00f3i dizer-se, nunca haver\u00e1 longa vida.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Que dizeis, tio?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Digo que mesmo sem uso fazer dos caracteres, todo o preg\u00e3o tem longa vida. (\u00c0 parte) E assim, tal como o diabo o faz nos autos, dou por moralidade a uma senten\u00e7a dois sentidos.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Esse J\u00falio C\u00e9sar era homem famoso. Seu esp\u00edrito usou para dar vida a seu valor, aquilo com que seu valor a seu esp\u00edrito deu riqueza. A morte n\u00e3o vence este vencedor. Porque ele em sua fama agora vive, que n\u00e3o em sua vida. Uma coisa vos direi, meu primo Buckingham.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Qu\u00ea, meu gracioso senhor?<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Se eu viver at\u00e9 ser homem, conquistarei de novo nosso direito antigo \u00e0 Fran\u00e7a, ou morrerei soldado tal como rei vivi.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ver\u00e3o curto, Primavera precoce.<\/p>\n<p>(Entram o jovem Duque de York, Hastings e o Cardeal.)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Em boa hora chega o Duque de York.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Ricardo de York, como se encontra o nosso querido irm\u00e3o?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Bem, meu tem\u00edvel senhor \u2014 assim agora vos devo chamar.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 Sim, irm\u00e3o, por nossa grande m\u00e1goa, como por vossa. Bem pouco tempo h\u00e1 que morreu quem devia merecer tal tratamento, o qual por essa morte perdeu muita majestade.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Como se encontra o nosso primo, nobre senhor de York?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Gra\u00e7as vos dou, gentil tio. Oh, senhor meu, Haveis dito que crescem depressa as ervas ruins; o Pr\u00edncipe meu irm\u00e3o cresceu muito mais que eu!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Cresceu, senhor.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 E \u00e9 por isso ruim?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 \u00d3 meu formoso primo, tal n\u00e3o posso eu dizer!<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Ent\u00e3o vos deve ele mais gratid\u00e3o que eu.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ele pode governar-me como meu soberano, mas v\u00f3s tendes sobre mim poder como parente.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Pe\u00e7o-vos, tio, dai-me esse punhal.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 O meu punhal, meu pequeno primo? De todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 A pedir, irm\u00e3o?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 A meu am\u00e1vel tio, que eu sei dar\u00e1, por n\u00e3o ser mais que brinquedo, coisa que n\u00e3o \u00e9 m\u00e1goa dar.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 D\u00e1diva maior farei eu a meu primo.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 D\u00e1diva maior? Ah, \u00e9 tamb\u00e9m a espada.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Sim, gentil primo, se ela mais leve fora.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Oh, ent\u00e3o vejo que vos separais s\u00f3 de coisas leves. Em coisas de mor peso negais a quem vos pede.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 \u00c9 pesada de mais para Vossa Gra\u00e7a a usar.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Cuido que \u00e9 leve, ainda que mais pesada fora.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qu\u00ea, quer\u00edeis ter minha arma, meu pequeno senhor?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Queria, para vos dar agradecimento igual ao nome por que me tratais.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qual?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Pequeno.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 O meu senhor de York continua a ter l\u00edngua perversa. Mas, sabe Vossa Gra\u00e7a, tio, suport\u00e1-lo.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Quereis dizer suportar meu peso \u00e0s costas, e n\u00e3o suportar-me a mim. Tio, meu irm\u00e3o zomba de v\u00f3s e de mim tamb\u00e9m. Por ser eu pequeno como o macaco, cuida seria meu peso que v\u00f3s dev\u00edeis suportar em vossos ombros!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Com que engenho defende ele suas raz\u00f5es. Para mitigar o esc\u00e1rnio que lan\u00e7a sobre o tio escarnece de si pr\u00f3prio com ligeireza e gra\u00e7a. Maravilha \u00e9, t\u00e3o jovem e t\u00e3o sagaz.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Senhor, quereis vir? Eu e o meu bom primo Buckingham vamos ao encontro de vossa m\u00e3e, para assim lhe pedir que vos procure na Torre e vos sa\u00fade.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Qu\u00ea, ides para a Torre, senhor?<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 O senhor meu protetor assim o quer.<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 N\u00e3o dormirei em paz na Torre.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Por que raz\u00e3o, que receais?<\/p>\n<p>DUQUE DE YORK \u2014 Que h\u00e1 de ser? A sombra irada de meu tio Clarence. Contou-me minha av\u00f3 que foi l\u00e1 assassinado.<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 N\u00e3o me receio eu de tios que mortos s\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Nem de nenhum que vivo seja, espero!<\/p>\n<p>PR\u00cdNCIPE EDUARDO \u2014 E se vivos s\u00e3o, espero n\u00e3o precise de ter medo. Mas vinde, senhor. Com o cora\u00e7\u00e3o grave, cuidando neles, eu me dirijo \u00e0 Torre.<\/p>\n<p>(Toque de trombeta. Saem o Pr\u00edncipe, York, Hastings, Dorset, Ricardo, Buckingham e Catesby)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 N\u00e3o cuidais, senhor meu, que este pequeno Pr\u00edncipe foi movido por sua sutil m\u00e3e a t\u00e3o vergonhosamente zombar e escarnecer de v\u00f3s?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Decerto, decerto. Oh, \u00e9 mancebo perigoso: destemido, vivaz, engenhoso, atrevido, inteligente. Semelha a m\u00e3e, desde a cabe\u00e7a \u00e0s pontas dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bom, deixai-os repousar. Vem aqui, Catesby. H\u00e1s jurado cumprir nossos intentos assim como guardar o que te confiamos. Conheces nossas raz\u00f5es, que te contamos na jornada. Que pensas tu? N\u00e3o \u00e9 empresa f\u00e1cil trazer D. Guilherme, o senhor de Hastings, para o intento que temos de colocar este nobre Duque no r\u00e9gio assento desta afamada ilha?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Tem ele em tanta estima o Pr\u00edncipe, por amor de seu pai, que nenhuma coisa o mover\u00e1 a p\u00f4r-se contra ele.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 E que pensas tu de Stanley? Ele n\u00e3o?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Far\u00e1 tudo o que Hastings fizer.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bom, ent\u00e3o nada mais afora isto: vai, gentil Catesby, e como se de um rumor se tratara, colhe do senhor de Hastings o seu ju\u00edzo acerca do nosso intento. E convoca-o para que amanh\u00e3 na Torre esteja presente na coroa\u00e7\u00e3o. Se cuidares que poder\u00e1 ele p\u00f4r-se a nosso lado, encoraja-o, e conta-lhe todas as nossas raz\u00f5es. Se ele endurecido estiver, frio, gelado, contra n\u00f3s, mostra-te assim tamb\u00e9m, e d\u00e1 a conversa\u00e7\u00e3o por finda, e diz-nos qual a sua disposi\u00e7\u00e3o. Porque amanh\u00e3 haver\u00e1 dois conselhos separados, e neles tu pr\u00f3prio ter\u00e1s subido emprego.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 D\u00e1 minhas sauda\u00e7\u00f5es ao senhor D. Guilherme; diz-lhe, Catesby, que do antigo bando de seus advers\u00e1rios perigosos correr\u00e1 amanh\u00e3 sangue no Castelo de Pomfret. E diz ao senhor que, no regozijo destas boas novas, d\u00ea \u00e0 senhora Shore um beijo mais.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bom Catesby, vai cumprir bem esta empresa.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Senhores meus, com todo o zelo que posso.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Teremos novas de ti, Catesby, antes de nos deitarmos?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Tereis, senhor.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Em Crosby Place, a\u00ed nos encontrar\u00e1s.<\/p>\n<p>(Sai Catesby)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 E que faremos, senhor, se virmos que o senhor de Hastings \u00e0 nossa conjura n\u00e3o d\u00e1 assentimento?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 A cabe\u00e7a fora, homem, alguma coisa faremos. E olha, quando eu for rei pede-me o condado de Hereford e todos os seus bens mov\u00edveis que eram perten\u00e7a de El-Rei, meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Lembrarei essa promessa \u00e0 m\u00e3o de Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E olha que a cumprirei de todo o cora\u00e7\u00e3o. Anda, vamos cear, para que depois possamos bem digerir nossas conjuras.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena II<\/h3>\n<p>(Entra um mensageiro, que para \u00e0 porta do senhor de Hastings. Bate \u00e0 porta.)<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Senhor, senhor!<\/p>\n<p>HASTINGS (De dentro) \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Algu\u00e9m com recado do senhor de Stanley.<\/p>\n<p>(Entra Hastings.)<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Que hora \u00e9?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Acabam de soar as quatro.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 N\u00e3o poder\u00e1 o senhor de Stanley passar estas aborrecidas noites em paz?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Parece que n\u00e3o, pelo que vos tenho a dizer. Antes do mais, ele sa\u00fada Vossa Nobre Senhoria.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 E que mais?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Mais declara a Vossa Senhoria que esta noite sonhou que o javali lhe havia destro\u00e7ado o elmo. Diz ainda que haver\u00e1 dois conselhos e o que num for decidido pode no outro voltar-se contra v\u00f3s e contra ele. Manda por isso saber se Vossa Senhoria, neste mesmo instante, querer\u00e1 p\u00f4r-se a cavalo e a toda a brida rumar com ele ao norte para escusar o perigo que sua alma adivinha.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Vai, mo\u00e7o, vai. Volta junto de teu senhor. Diz-lhe que n\u00e3o tema os conselhos separados. Sua Senhoria e eu pr\u00f3prio estaremos presentes num deles, e no outro o meu bom amigo Catesby. Ali nenhuma coisa que nos toque poder\u00e1 acontecer sem que eu de contino dela tome conhecimento. Diz-lhe que seus temores s\u00e3o sem causa, sem raz\u00e3o. E quanto ao sonho, maravilho-me que ele seja t\u00e3o inocente que creia nos fingimentos de turvados sonhos. Fugir do javali antes que o javali nos siga, seria mover o javali a nos seguir, e a seguir-nos quando ca\u00e7ar n\u00e3o intentava. Vai, diz a teu amo que se levante e venha ao meu encontro, e iremos os dois \u00e0 Torre, onde ele ver\u00e1 o javali fazer-nos gentil tratamento.<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Irei, senhor, e dir-lhe-ei o que me estais dizendo.<\/p>\n<p>(Sai. Entra Catesby)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Muitos bons dia a meu nobre senhor.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Um bom dia, Catesby. Estais levantado muito cedo. Que novas, que novas haveis neste nosso inst\u00e1vel reino?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Senhor, \u00e9, em verdade, um munido de mudan\u00e7a, e creio que nunca quedo ser\u00e1 sen\u00e3o quando Ricardo cingir na fronte a palma do reino.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Como, cingir a palma? Queres dizer a coroa?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Quero, meu bom senhor.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Mandarei cortar dos ombros esta coroa minha antes que veja a coroa t\u00e3o mal assentada. Mas imaginas tu que ele tem tal intento?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Tem, por vida minha, e espera ter-vos do seu lado para a conquista dela. E por essa causa vos envia esta boa nova, que hoje mesmo os inimigos vossos, os parentes da Rainha, morrer\u00e3o em Pomfret.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Em verdade, tal nova n\u00e3o lamento, que eles meus advers\u00e1rios foram sempre. Mas levantar eu minha voz por Ricardo para impedimento dos herdeiros do meu senhor, diretos descendentes, Deus sabe que o n\u00e3o farei, nem que por tal eu morra.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Deus guarde Vossa Senhoria nesse am\u00e1vel sentimento.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Mas rirei bem doze meses passados, por vivo estar e ver o tr\u00e1gico fim daqueles que me lan\u00e7aram o \u00f3dio do meu senhor. Bem, Catesby, quinze dias n\u00e3o viverei sem que eu do mundo expulse quem jamais em tal pensou.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 \u00c9 coisa horrenda morrer, meu gracioso senhor, quando os homens n\u00e3o est\u00e3o aparelhados e n\u00e3o esperam tal.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Oh, horrendo, horrendo! E assim \u00e9 com Rivers, Vaughan, Grey; e assim ser\u00e1 com alguns outros homens que se pensam em tanta seguridade quanto tu e eu, que como sabes somos estimados pelo nobre Ricardo e por Buckingham.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Ambos os pr\u00edncipes vos t\u00eam em mui subida estima&#8230; (\u00c0 parte) que na Ponte estimam ver vossa cabe\u00e7a exposta.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Eu sei, e bem o mereci. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Vinde, vinde. Onde tendes a vossa lan\u00e7a, homem? Temeis o javali, e andais assim t\u00e3o desarmado?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Senhor, bom dia. Bom dia, Catesby. Podeis gracejar, mas, pela Sant\u00edssima Cruz, n\u00e3o me aprazem estes conselhos v\u00e1rios, n\u00e3o me aprazem, n\u00e3o.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Meu senhor, tanto prezo minha vida como v\u00f3s a vossa, e nunca foi ela, aqui declaro, t\u00e3o preciosa como para mim agora \u00e9. Cuidais que se n\u00e3o considerasse nossa situa\u00e7\u00e3o segura estaria triunfante como ora estou?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Os fidalgos que est\u00e3o em Pomfret, quando de Londres sa\u00edram ledos iam, e cuidavam estar seguros, e n\u00e3o tinham na verdade raz\u00e3o para n\u00e3o confiar, mas vede como o dia logo ensombreceu. Turva-me esta s\u00fabita estocada de rancor, oxal\u00e1 prove ser covarde sem raz\u00e3o. Ent\u00e3o, vamos \u00e0 Torre? O dia \u00e9 chegado. Ent\u00e3o, ent\u00e3o, ouvi, sabeis que mais, senhor? S\u00e3o hoje decapitados os fidalgos de quem haveis falado.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Por serem verdadeiros, das cabe\u00e7as que t\u00eam s\u00e3o eles mais dignos do que dos chap\u00e9us que usam muitos dos que os acusaram. Mas vinde, senhor, partamos.<\/p>\n<p>(Entra Hastings, Passavante.)<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Ide adiante. Quedo-me a falar com este bom companheiro. (Saem Stanley e Catesby) Bom encontro, Hastings; como vai contigo o mundo?<\/p>\n<p>PASSAVANTE \u2014 Ainda melhor por Vossa Senhoria se dignar perguntar.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Digo-te, homem, tudo melhor comigo se conserta agora do que na derradeira vez que te encontrei neste lugar mesmo. Ia ent\u00e3o cativo para a Torre, por est\u00edmulo dos aliados da Rainha. Mas eu te digo agora e guarda-o para ti: s\u00e3o hoje executados esses inimigos, e eu em posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o subida como nunca tive!<\/p>\n<p>PASSAVANTE \u2014 Deus mantenha as coisas a vosso grado, senhor.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Gr\u00e3 merc\u00ea te dou. Toma, bebe por mim. Atira-lhe a bolsa (Sai)<\/p>\n<p>PASSAVANTE \u2014 Agrade\u00e7o a Vossa Merc\u00ea.<\/p>\n<p>(Entra um padre.)<\/p>\n<p>PADRE \u2014 Bom encontro, meu senhor. Alegro-me em ver Vossa Merc\u00ea.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Agrade\u00e7o-te bom senhor D. Jo\u00e3o, de todo o meu cora\u00e7\u00e3o. Ainda vos sou devedor de vosso \u00faltimo servi\u00e7o. Voltai no pr\u00f3ximo s\u00e1bado e eu pr\u00eamio vos darei. Diz-lhe qualquer coisa ao ouvido<\/p>\n<p>(Entra Buckingham.)<\/p>\n<p>PADRE \u2014 Esperarei por Vossa Senhoria. (Sai o padre)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Qu\u00ea, praticando com um padre, senhor Camareiro? Vossos amigos em Pomfret, esses bem necessitam de padre; Vossa Honra n\u00e3o ter\u00e1 necessidade de se confessar!<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Por minha f\u00e9, quando encontrei este santo homem lembrei-me dos homens de quem me falais. Ent\u00e3o, ides \u00e0 Torre?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Vou, meu senhor, mas por l\u00e1 n\u00e3o me posso eu alongar. De l\u00e1 tornarei eu antes de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 E poss\u00edvel, sim, pois l\u00e1 me quedarei para o jantar.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM (\u00c0 parte) \u2014 E para a ceia tamb\u00e9m, embora ainda o n\u00e3o saibais. Vinde \u2014 vamos?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Eu vos acompanho, senhor.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena III<\/h3>\n<p>(Entra o senhor D. Ricardo de Ratcliffe, com alabardeiros, que conduzem os nobres Rivers, Grey e Vaughan para serem executados em Pomfret.)<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Vinde, trazei os cativos.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Senhor D. Ricardo de Ratcliffe permite que te diga: vais ver hoje um s\u00fadito morrer pela verdade, pelo dever e pela lealdade.<\/p>\n<p>GREY \u2014 Deus guarde o Pr\u00edncipe do nefasto bando que v\u00f3s sois! Sois uma companhia de malditas sanguessugas.<\/p>\n<p>VAUGHAN \u2014 Est\u00e1 vivo quem um dia em alta grita lamentar\u00e1 tudo isto.<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Depressa, \u00e9 chegado o limite de vossas vidas.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 \u00d3 Pomfret, Pomfret! \u00d3 tu, masmorra sanguinosa, fatal e pressaga para nobres pares! Dentro do espa\u00e7o criminoso dos teus muros foi Ricardo II assassinado. E para maior vergonha do teu lugar terr\u00edfico, damos-te a beber do nosso inocente sangue.<\/p>\n<p>GREY \u2014 Caiu fera sobre nossas cabe\u00e7as a maldi\u00e7\u00e3o de Margarida quando a lan\u00e7ou sobre Hastings, sobre v\u00f3s e sobre mim, por termos visto Ricardo quando apunhalou seu filho.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Ent\u00e3o amaldi\u00e7oou Ricardo, ent\u00e3o amaldi\u00e7oou Buckingham, ent\u00e3o amaldi\u00e7oou Hastings. \u00d3, lembrai-Vos, Deus, de ouvir a sua prece por eles, como agora por n\u00f3s e pela minha irm\u00e3 e por seus r\u00e9gios filhos. Contentai-vos, Senhor, t\u00e3o-s\u00f3 do nosso sangue leal, que, como sabeis, vai ser sem justi\u00e7a derramado.<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Depressa, \u00e9 chegada a hora da morte.<\/p>\n<p>RIVERS \u2014 Vinde, Grey, vinde Vaughan, abracemo-nos. Adeus, at\u00e9 que no c\u00e9u nos encontremos.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena IV<\/h3>\n<p>(Entram Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings, o Bispo de Ely, Norfolk, Ratcliffe, Lovell e outros a uma mesa.)<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Pois bem, nobres pares, aqui nos encontramos para sobre a coroa\u00e7\u00e3o determinarmos. Em nome de Deus, falai: qual ser\u00e1 do rei o dia?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Est\u00e1 tudo aparelhado para a cerim\u00f4nia real?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Est\u00e1, e falta s\u00f3 determinar o dia.<\/p>\n<p>ELY \u2014 Amanh\u00e3, ent\u00e3o, cuido ser dia feliz.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Quem conhece o pensamento do Protector? Quem est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do nobre Duque?<\/p>\n<p>ELY \u2014 Vossa Gra\u00e7a, cuidamos, ser\u00e1 quem mais depressa conhecer\u00e1 seu parecer.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Os restos sabemos um do outro. Quanto a nossos cora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sabe ele mais do meu do que eu dos vossos, ou eu do dele, senhor, ou v\u00f3s do meu. Senhor Hastings, v\u00f3s e ele, sois amigos pr\u00f3ximos. Agradecido estou a Sua Gra\u00e7a, eu sei que ele bem me quer, mas quanto aos seus intentos sobre a coroa\u00e7\u00e3o nenhuma coisa hei perguntado, nem ele me confiou o que neste caso te causaria prazer. Mas v\u00f3s, meus nobres senhores, podeis assinalar o dia. E eu em nome do Duque levantarei minha voz, o que, cuido, de boa fei\u00e7\u00e3o ele aceitar\u00e1.<\/p>\n<p>(Entra Ricardo.)<\/p>\n<p>ELY \u2014 Em azado momento ali vem o pr\u00f3prio Duque.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Meus nobres senhores, e primos todos, bom dia. Dormi em excesso, mas cuido que minha aus\u00eancia n\u00e3o ter\u00e1 feito retardar algum caso grave que em minha presen\u00e7a podia ter sido conclu\u00eddo.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Se n\u00e3o houv\u00e9sseis entrado a tempo, senhor, D. Guilherme, senhor de Hastings, teria tomado vossa parte, quero dizer, teria sido a vossa voz sobre a coroa\u00e7\u00e3o do rei.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Afora o meu senhor de Hastings ningu\u00e9m tal ousar podia. Sua Senhoria conhece-me bem, e tem por mim grande afei\u00e7\u00e3o. Senhor de Ely, quando pela derradeira vez em Holborn estive vi belas amoras no vosso quintal. Pe\u00e7o-vos, mandai buscar algumas.<\/p>\n<p>ELY \u2014 C\u00e9us, e assim farei senhor meu, de todo o cora\u00e7\u00e3o. (Sai)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Primo de Buckingham, uma palavra s\u00f3. Catesby inquiriu Hastings sobre o nosso caso e encontra firmeza tal no obstinado fidalgo que prefere a cabe\u00e7a perder, mais que consentir que o filho de seu senhor (como com acatamento diz) perca de Inglaterra o real trono.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Apartai-vos por um pouco. Irei ao vosso encontro.<\/p>\n<p>(Saem Ricardo e Buckingham)<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Ainda n\u00e3o determinamos este dia triunfal. Amanh\u00e3, em meu parecer, \u00e9 cedo em demasia porque eu pr\u00f3prio n\u00e3o estou t\u00e3o bem aparelhado como estaria se fosse mais retardado o dia.<\/p>\n<p>(Entra o Bispo de Ely.)<\/p>\n<p>ELY \u2014 Onde est\u00e1 meu senhor, o Duque de Gloucester? Mandei buscar estas amoras que ele queria.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Hoje tem Sua Gra\u00e7a ledo e doce semblante. Ter\u00e1 em mente algum pensamento que lhe apraz para dar os bons-dias com \u00e2nimo tal. Cuido n\u00e3o haver homem algum na cristandade que menos do que ele seu amor ou seu \u00f3dio saiba esconder, que pelo rosto se lhe conhece num pronto o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Que haveis de seu cora\u00e7\u00e3o entendido no seu rosto da alegria que hoje h\u00e1 manifestado?<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 C\u00e9us, que n\u00e3o sente ofensa de homem algum aqui presente, porque, se sentisse, seu semblante o mostraria.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Rogo a Deus que n\u00e3o, vos digo.<\/p>\n<p>(Entram Ricardo e Buckingham.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Pe\u00e7o-vos me digais o que merecem os que urdem minha morte em teias demon\u00edacas de negra magia, e fizeram triunfar contra o meu corpo os seus feiti\u00e7os malditos.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 A grande estima que por Vossa Gra\u00e7a tenho, meu senhor, faz-me ser quem primeiro nesta nobre assembl\u00e9ia condene os culpados, sejam eles quem forem. Digo, senhor meu, merecem a morte.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ent\u00e3o sejam vossos olhos testemunhas do seu maligno ato. Olhai como estou enfeiti\u00e7ado! Vede, meu bra\u00e7o semelha uma vara seca e queimada! E foi a mulher de Eduardo, essa bruxa monstruosa, de parelha com essa mundanal manceba, a prostituta Shore, que assim me assinalaram com seus feiti\u00e7os.<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Se elas tal feito cometeram, meu senhor&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Se? Tu, protetor dessa maldita meretriz, falas-me em \u201cses\u201d! Traidor \u00e9s tu. Fora com a sua cabe\u00e7a! Por S\u00e3o Paulo, juro que n\u00e3o jantarei hoje sem que tanto veja. Lovell e Ratcliffe, tratai do caso. V\u00f3s outros que afei\u00e7\u00e3o me t\u00eam, levantai-vos e segui-me.<\/p>\n<p>(Saem todos exceto Lovell e Ratcliffe e o senhor de Hastings)<\/p>\n<p>HASTINGS \u2014 Desgra\u00e7ada, desgra\u00e7ada Inglaterra! Mas n\u00e3o desgra\u00e7ado de mim, porque eu, inocente em demasia, podia t\u00ea-lo evitado. Stanley sonhou que o javali lhe havia destru\u00eddo o elmo, e eu escarneci de tal e desdenhei fugir. Tr\u00eas vezes hoje o meu cavalo aparelhado trope\u00e7ou e se turvou ao ver a Torre, como se lhe pesasse trazer-me ao matadouro. Agora sim. Falta-me o padre que comigo falou. Repentido estou de ter dito ao passavante, \u00e0 maneira de triunfo, que os meus inimigos morreriam hoje em Pomfret em carnificina sangrenta. E que eu pr\u00f3prio seguro me sentia de estar em gra\u00e7a e favor. \u00d3 Margarida, Margarida, eis que tua pesada maldi\u00e7\u00e3o atingiu a m\u00edsera cabe\u00e7a do pobre Hastings.<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Vinde, vinde, prestes. O Duque querer\u00e1 jantar. Fazei breve confiss\u00e3o. Ele deseja ver vossa cabe\u00e7a. \u00d3 dos homens mortais a gra\u00e7a breve que n\u00f3s mais procuramos do que de Deus a gra\u00e7a. Quem constr\u00f3i a esperan\u00e7a nos ares de vosso bom semblante vive como marinheiro \u00e9brio no topo de um mastro, a cada instante pronto a despenhar-se nas profundezas fatais do mar profundo.<\/p>\n<p>LOVELL \u2014 Vinde, vinde, prestes. De nada valem lamenta\u00e7\u00f5es. \u00d3 sanguinoso Ricardo! M\u00edsera Inglaterra, profetizo para ti o mais temeroso tempo que alguma vez \u00e9poca alguma contemplou. Vinde, conduzi-me ao cadafalso. Levai-lhe minha cabe\u00e7a. Os que de mim escarnecem em breve mortos ser\u00e3o.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena V<\/h3>\n<p>(Entram Ricardo e Buckingham com armaduras ferrugentas, maravilhosamente feios.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 V\u00e1, primo, podes tremer e de cor mudar, assassinar teu sopro a meio de uma palavra, e ent\u00e3o de novo come\u00e7ar, e voltar a parar, como se estivesses turvado e sandeu de terror?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ora, eu sei mudar-me em grande tr\u00e1gico. Falar e olhar para tr\u00e1s e espreitar por todos os lados, tremor e assustar-me com o bulir de uma palha, manifestando suspei\u00e7\u00e3o profunda. Olhares terr\u00edficos tenho-os a meu mando tal como sorrisos fingidos, e ambos como meus servidores prontos est\u00e3o em qualquer tempo a ajudar minha manhas. Mas qu\u00ea, Catesby foi-se?<\/p>\n<p>(Entram o Alcaide e Catesby)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Foi, e olha, consigo vem o Alcaide.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor Alcaide&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Olha a Ponte, al\u00e9m!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ouvi, um tambor!<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Catesby, vigia as muralhas!<\/p>\n<p>(Sai Catesby)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor Alcaide, a raz\u00e3o por que mandamos&#8230;<\/p>\n<p>(Entram Lovell e Ratcliffe, com a cabe\u00e7a de Hastings.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Olha para tr\u00e1s! Defende-te, s\u00e3o inimigos!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Que Deus e nossa inoc\u00eancia nos defendam e nos guardem<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Calma-te, amigos s\u00e3o: Ratcliffe e Lovell.<\/p>\n<p>LOVELL \u2014 Eis a cabe\u00e7a daquele ign\u00f3bil traidor, o perigoso e insuspeitado Hastings.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Tanta estima sentia por esse homem, que devo chorar. Cuidei que ele era a criatura mais simples e inocente, o crist\u00e3o melhor que jamais na terra respirou, fiz dele meu livro onde minha alma gravava a hist\u00f3ria de todos seus sigilosos pensamentos, de tal forma ele escondia seu v\u00edcio sob virtuoso aspecto, que, afora esta aparente e clara culpa, falo de suas pr\u00e1ticas com a mulher de Shore. Ele vivia longe de toda a suspei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ora, ora, foi o traidor mais fingido e disfar\u00e7ado. Pod\u00edeis imaginar, ou quase crer, que, se n\u00e3o fora por grande dita, n\u00e3o viver\u00edamos hoje para vos contar que este sutil traidor tinha forjado hoje durante o conselho matar-me a mim e a meu bom senhor de Gloucester?<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Isso fez ele?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Qu\u00ea, cuidais que somos turcos ou infi\u00e9is? Ou que ir\u00edamos, contra o que dita a lei, decidir assim prontamente sobre a morte do ruim vil\u00e3o, n\u00e3o fora o perigo extremo da quest\u00e3o, a paz de Inglaterra, e a seguridade de nossas pessoas, obrigar-nos a essa execu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Que os c\u00e9us vos aben\u00e7oem! Ele mereceu a morte. E v\u00f3s, senhores, haveis ambos procedido bem, para assim afastardes traidores de tais intentos<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Nunca de suas m\u00e3os esperei boas a\u00e7\u00f5es depois que ele esteve em companhia da Senhora Shore. Por\u00e9m n\u00e3o t\u00ednhamos determinado que ele morresse antes de Vossa Senhoria chegar para presenciar seu fim&#8230; O que a pressa am\u00e1vel destes amigos nossos n\u00e3o permitiu, posto que contra nossa inten\u00e7\u00e3o&#8230; Porque, meu senhor, gostar\u00edamos n\u00f3s que tiv\u00e9sseis ouvido o traidor falar, e timidamente confessar a guisa e a finalidade de sua trai\u00e7\u00e3o, para que pud\u00e9sseis contar aos cidad\u00e3os, que por acaso possam ter desconfian\u00e7a de n\u00f3s por causa sua e chorar sua morte.<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Mas, meu bom senhor, as palavras de Vossa Gra\u00e7a servir\u00e3o da mesma guisa que se eu o vira e ouvira falar; e, n\u00e3o tenhais d\u00favida, mui nobres pr\u00edncipes, que darei conhecimento a nossos leais cidad\u00e3os de todos vossos justos cometimentos nesta causa.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E para tal quisemos que viesse aqui Vossa Senhoria evitando assim maus ju\u00edzos do maldizente mundo.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Mas, j\u00e1 que haveis chegado tarde demais para nosso intento, testemunhai ent\u00e3o aquilo que ouvis termos intentado. E assim, meu bom Alcaide, nos despedimos.<\/p>\n<p>(Sai o Alcaide)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ide ap\u00f3s ele, ide, primo Buckingham: o Alcaide dirige-se, apressurado ao Guildhall. Ali, na ocasi\u00e3o mais conforme, provai que s\u00e3o bastardos os filhos de Eduardo; dizei-lhes que Eduardo matou um cidad\u00e3o s\u00f3 por este dizer que faria de seu filho o herdeiro da Coroa \u2014 tendo apenas em mente sua taberna, que por tal ins\u00edgnia ter da coroa era chamada. E mais, falai da sua lux\u00faria, e de seu bestial apetite na busca dos prazeres, que se estendia a servos, filhas, mulheres, por todo o lado que seu incendido olhar e cora\u00e7\u00e3o selvagem sem regra cobi\u00e7assem fazer presa. Bem, e se for mister, em vossa pr\u00e1tica rondai minha pessoa: dizei-lhes que quando minha m\u00e3e prenhe ficou desse insaci\u00e1vel Eduardo, pelejava o nobre York, meu nobre pai, em Fran\u00e7a, e ainda que, pelo contar do tempo, ele concluiu n\u00e3o ser o progenitor, o que bem se manifestou no pr\u00f3prio semblante, que em nada semelhava ao Duque, meu pai&#8230; Por\u00e9m, falai nisto com mesura, como se o caso remoto fosse, porque, meu senhor, sabeis que \u00e9 viva minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 N\u00e3o duvideis, meu senhor. Orador serei como se fora meu o pr\u00eamio de ouro que alcan\u00e7ar intento. E assim, senhor meu, adeus.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Se tanto conseguirdes, levai-os ao Castelo de Baynard, onde me encontrareis em boa companhia Entre reverendos padres e doutos bispos.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Parto-me, e entre as tr\u00eas e as quatro horas esperais pelas novas que o Guildhall dar\u00e1. (Sai)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Vai, Lovell, a toda a pressa junto do doutor Shaa. (Para Ratcliffe) E tu junto de Frei Penker; diz a ambos que antes que passe uma hora me procurem no Castelo de Baynard. (Saem Ratcliffe e Lovell) Irei agora ordenar secretamente que fa\u00e7am desaparecer esses crian\u00e7as de Clarence, e dar conhecimento que em tempo algum a ningu\u00e9m \u00e9 permitido chegar junto a esses pr\u00edncipes. (Sai)<\/p>\n<h3>Cena VI<\/h3>\n<p>(Entra um escriv\u00e3o com um papel na m\u00e3o.)<\/p>\n<p>ESCRIV\u00c3O \u2014 Eis a condena\u00e7\u00e3o do bom senhor de Hastings escrita em grandes letras na melhor escritura para que hoje possa ser lida em Saint Paul. E notai a harmonia da sua ordena\u00e7\u00e3o: onze horas demorei eu a escrev\u00ea-la, entregue que me foi ontem \u00e0 noite por Catesby; o original demorou o mesmo tempo a compor, e contudo faz agora cinco horas vivia Hastings inocente, sem julgamento, livre, em liberdade. Que bom mundo, este! Quem t\u00e3o bruto \u00e9 que n\u00e3o veja ardil t\u00e3o manifesto? Por\u00e9m, quem t\u00e3o ousado \u00e9 que diga que o est\u00e1 vendo? O mundo \u00e9 mau, todas as coisas acabam no mal quando tais nefastos efeitos se t\u00eam de guardar no pensamento. (Sai)<\/p>\n<h3>Cena VII<\/h3>\n<p>(Entram Ricardo e Buckingham por portas diferentes.)<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ent\u00e3o? Ent\u00e3o? Que dizem os cidad\u00e3os?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bem, pela Sant\u00edssima M\u00e3e de Nosso Senhor, os cidad\u00e3os mudos est\u00e3o e n\u00e3o dizem palavra alguma.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Haveis dito que os filhos de Eduardo eram bastardos?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Disse, e seu contrato com a senhora de Lucy, e seu outro contrato em Fran\u00e7a, por embaixador, a voracidade insaci\u00e1vel de seu desejo, e suas viol\u00eancias sobre as mulheres da cidade, sua tirania por coisas sem valia, ele pr\u00f3prio ser bastardo, pois concebido foi estando vosso pai em Fran\u00e7a, e ainda seu semblante n\u00e3o semelhar ao Duque. Entretanto, mencionei vossas fei\u00e7\u00f5es, que de vosso pai s\u00e3o fiel retrato, n\u00e3o s\u00f3 na apar\u00eancia como na nobreza do esp\u00edrito, apresentei todas vossas vit\u00f3rias na Esc\u00f3cia, Vossa disciplina na guerra, vossa ci\u00eancia na paz, Vossa generosidade, virtude e n\u00e3o manchada humildade. De fato, nada omiti que pudesse favorecer Vosso intento, de tudo falei e a tudo aludi em meu discurso. E quando minha eloq\u00fc\u00eancia chegou ao termo mandei os que amavam o bem de seu pa\u00eds bradar: \u201cViva Ricardo, Rei de Inglaterra!\u201d<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 E eles bradaram?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 N\u00e3o, assim Deus me ajude, n\u00e3o disseram palavra alguma, mas como est\u00e1tuas mudas ou pedras que respiram olharam-se uns aos outros e p\u00e1lidos de morte se tornaram. Pelo que eu, nisto vendo, lhes fiz grande reprimenda. E perguntei ao Alcaide o sentido de t\u00e3o obstinado sil\u00eancio. Sua resposta foi que o povo n\u00e3o era costumado a que, afora o arauto, algu\u00e9m para ele falasse. Pedi-lhe ent\u00e3o que repetisse o meu discurso: \u201cisto diz o Duque; o Duque isto afirmou\u201d&#8230; E nada disse de sua vontade. Quando chegou ao termo, alguns dos meus sequazes, no extremo da sala, arremessaram seus chap\u00e9us e algumas dez vozes bradaram \u201cViva El-Rei Ricardo!\u201d Tirei ent\u00e3o proveito destes poucos: \u201cgra\u00e7as amigos e gentis cidad\u00e3os\u201d, disse eu, \u201ceste geral aplauso e estes alegres brados vossa ci\u00eancia manifestam e vossa afei\u00e7\u00e3o por Ricardo.\u201d E neste ponto parei e fui-me dali.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Que, cepos mudos eram eles? N\u00e3o h\u00e3o querido falar! O Alcaide e sua confraria n\u00e3o querem vir aqui?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 O Alcaide \u00e9 aqui por perto. Fingi temor. N\u00e3o deixeis que vos fale sen\u00e3o depois de forte inst\u00e2ncia. E n\u00e3o vos esque\u00e7a ter na m\u00e3o um livro de ora\u00e7\u00f5es, e permanecer entre dois padres, meu bom senhor, que sobre tal farei eu santo serm\u00e3o. E n\u00e3o vos deixeis facilmente vencer por nossos rogos, fazei de donzela: muito embora digais n\u00e3o, concedei.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Eu me vou, e se em nome deles intercederdes t\u00e3o bem como eu por minha parte te saberei dizer n\u00e3o, sem d\u00favida levaremos este caso a seu bom termo.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ide, ide para a galeria, o Alcaide bate \u00e0 porta. (Sai Ricardo) (Entram o Alcaide e cidad\u00e3os) Sede bem-vindo, meu senhor. Aqui me encontro \u00e0 espera. Cuido que o Duque n\u00e3o quer receber ningu\u00e9m. (Entra Catesby em cima.) Ent\u00e3o, Catesby, que diz vosso senhor a meu pedido?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Ele pede a Vossa Gra\u00e7a, meu nobre senhor, que amanh\u00e3 o procure, ou no dia seguinte. Ele est\u00e1 a\u00ed dentro em companhia de dois reverendos padres, divinamente entregue \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, e s\u00faplica mundana nunca o levaria a afastar-se daquele santo exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Volta, bom Catesby, junto do gracioso Duque: diz-lhe que eu pr\u00f3prio, o Alcaide e os homens-bons, acerca de assuntos graves, de casos de maior urg\u00eancia, t\u00e3o importantes como o bem de todos n\u00f3s, aqui viemos para ter conversa\u00e7\u00e3o com Sua Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Isso mesmo lhe direi de imediato. (Sai)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ah! Ah!, senhor meu, este pr\u00edncipe n\u00e3o \u00e9 um Eduardo, n\u00e3o se reclina em morno leito de amor, mas, posto de joelhos, medita, n\u00e3o se apraz com uma parelha de cortes\u00e3s, mas medita em companhia de dois venerandos padres, n\u00e3o dorme, para engordar seu corpo ocioso, mas reza, para enriquecer sua alma atenta. Feliz seria a Inglaterra se t\u00e3o virtuoso Pr\u00edncipe aceitasse sobre si a sua soberania. Mas temo que a tanto n\u00e3o o saibamos mover.<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 C\u00e9us, Deus n\u00e3o permita que Sua Gra\u00e7a nos diga \u201cn\u00e3o\u201d!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Temo que sim. (Entra Catesby.) Ali vem de novo Catesby. Ent\u00e3o, Catesby, que diz Sua Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Pergunta com que fim haveis chamado tais hordas de cidad\u00e3os que a ele se dirigem, do caso tudo ignorando Sua Gra\u00e7a. Teme, senhor, que vossos intentos n\u00e3o lhe sejam de fei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Lamento que meu nobre primo possa suspeitar de que n\u00e3o lhe sejam de fei\u00e7\u00e3o os meus intentos. Pelos c\u00e9us, dele nos acercamos em perfeito amor. E assim, ide de novo e contai a Sua Gra\u00e7a. (Sai Catesby) Quando homens crentes, devotos e santos est\u00e3o em suas preces, delas \u00e9 dif\u00edcil arranc\u00e1-los, t\u00e3o doce \u00e9 a fervorosa contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Entra Ricardo, no alto, entre dois bispos com Catesby.)<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Vede onde se tem Sua Gra\u00e7a, entre dois cl\u00e9rigos!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Duas escoras de virtude para um Pr\u00edncipe crist\u00e3o, que o impedem da queda na vaidade, e vede, um livro de ora\u00e7\u00f5es entre as m\u00e3os&#8230; Veros ornamentos com que se conhece um homem santo. Afamado Pantageneta, mui gracioso Pr\u00edncipe, presta ao que te pedimos ouvidos favor\u00e1veis e perdoa-nos esta suspens\u00e3o de tua devo\u00e7\u00e3o e de teu mui crist\u00e3o fervor.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Meu senhor, escusado \u00e9 tal pedido de desculpa. Perd\u00e3o imploro a Vossa Gra\u00e7a, se, no ardor com que servia ao meu Deus, retardei a visita de meus amigos. Mas, deixemos isso, que apraz a Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 O mesmo que, espero, apraz a Deus l\u00e1 no alto, e a todos os homens bons desta ilha sem governo.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Suspeito ter cometido uma ofensa, que parece desagradar aos olhos da cidade. E que aqui vindes repreender meu erro.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Assim \u00e9, meu senhor: e provera a Vossa Gra\u00e7a emendar com os nossos pedidos vosso erro.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Sem tal fazer, como poderia viver em terra crist\u00e3?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Sabei ent\u00e3o, erro vosso \u00e9 recusar o lugar supremo, o majestoso trono, o of\u00edcio coroado de vossos maiores, o estado que deveis a vossa fortuna e a vosso nascimento, \u00e0 gl\u00f3ria heredit\u00e1ria de vossa Casa Real, em favor da corrup\u00e7\u00e3o de um ramo maculado, enquanto na do\u00e7ura de vossos sonolentos pensamentos, donde vos acordamos para o bem de nossa terra, a nobre ilha reclama seus veros membros com a face esfacelada por cicatrizes de inf\u00e2mia, com o tronco real enxertado de ign\u00f3beis plantas, e quase perdendo o p\u00e9 no abismo devorador do negro esquecimento e do profundo nada. Para tanto prevenir, do cora\u00e7\u00e3o rogamos a vossa graciosa pessoa que tomeis v\u00f3s o c\u00e1rrego e o r\u00e9gio regimento desta terra vossa, n\u00e3o como Protetor, intendente ou substituto, ou baixo servidor para proveito de outrem, mas por direito de linhagem de sangue para sangue, vosso direito de nascimento, vosso imp\u00e9rio, vossos bens. \u00c9 para tanto que, consertado com os cidad\u00e3os, vossos mui devotos e leais amigos, e por sua veemente instiga\u00e7\u00e3o, venho nesta justa causa demover Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 N\u00e3o sei dizer o que melhor responde a meu estado ou a vossa condi\u00e7\u00e3o. Se em sil\u00eancio apartar-me, ou se amargamente contra v\u00f3s falar, se resposta n\u00e3o vos der, porventura poder\u00edeis cuidar que minha ambi\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua me prendendo, sem resposta dar, acedera a carregar o dourado jugo da soberania que v\u00f3s amavelmente sobre mim aqui quereis impor. Se vos reprovar por esta vossa peti\u00e7\u00e3o, assim condimentada pelo amor que por mim tendes, ent\u00e3o, por outro lado, reprovava meus amigos. Portanto, para falar, e evitar o primeiro caso, e, ao falar, no segundo n\u00e3o cair, eu deste modo vos dou minha resposta final: merece vosso amor a minha gratid\u00e3o, mas meu desmerecimento recusa, por imerecida, vossa subida inst\u00e2ncia. Primeiro, se todos os embargos estivessem removidos, e fora plano o meu caminho para o trono, por devida heran\u00e7a e por linhagem, ainda assim, \u00e9 tal a pobreza de meu esp\u00edrito, tantos e tamanhos s\u00e3o os meus defeitos, que antes quisera esconder-me de minha grandeza, eu fr\u00e1gil barca para cometer alteroso mar, que desejar em minha grandeza ser escondido e no vapor da minha gl\u00f3ria sufocado. Mas, Deus seja louvado, de mim n\u00e3o careceis e eu de muito care\u00e7o para ajuda vos dar, se dela carecerdes. A \u00e1rvore r\u00e9gia nos deixou um r\u00e9gio fruto, o qual, sazonado pelas horas do tempo veloz, bem se ajustar\u00e1 ao majestoso assento, e, decerto, nos tornar\u00e1 felizes com o seu reinado. Sobre ele deponho o que v\u00f3s sobre mim depor quisestes: o direito e a fortuna de sua estrela feliz, e Deus n\u00e3o permita que eu lhos furte.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Meu senhor, isto prova consci\u00eancia em Vossa Gra\u00e7a. Mas os motivos s\u00e3o ligeiros e banais, bem consideradas as circunst\u00e2ncias todas. Dizeis que Eduardo \u00e9 filho de vosso irm\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00f3s o dizemos. Mas n\u00e3o da mulher de Eduardo, porque primeiro foi comprometido com a senhora de Lucy. Vossa m\u00e3e \u00e9 viva testemunha desse voto e por procura\u00e7\u00e3o casou depois com Bona, irm\u00e3 do rei de Fran\u00e7a. Repudiadas ambas, uma pobre mulher, que peti\u00e7\u00f5es fazia, m\u00e3e cuidadosa de muitos filhos, vi\u00fava triste e de beleza gasta, no entardecer j\u00e1 de seus melhores dias, conquistou e comprou seu libertino olhar, seduziu as alturas de seu estado at\u00e9 \u00e0 decad\u00eancia vil e infame bigamia. Dela, nesse leito ilegal, teve ele este Eduardo, a quem por cortesia damos o nome de Pr\u00edncipe. Mais amargamente podia eu protestar, n\u00e3o fora impor discreto limite a minha l\u00edngua por respeito a pessoas ainda em vida. Meu bom senhor, tomai pois sobre vossa real pessoa este benef\u00edcio da dignidade que vos ofertamos. Se n\u00e3o for para nos tornar felizes, e conosco o pa\u00eds todo, ser\u00e1 para arrancar vossa nobre linhagem da corrup\u00e7\u00e3o de tempos aviltantes para um curso reto e verdadeiro.<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Aceitai, meu bom senhor. Vossos cidad\u00e3os assim vos rogam.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 N\u00e3o recuseis, poderoso senhor, o amor que assim vos ofertamos.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Oh, fazei-os felizes, acedei a seu leg\u00edtimo pedido.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Ai de mim, porque me pondes tamanho peso em cima? N\u00e3o sou feito para o trono e a majestade. Pe\u00e7o-vos, n\u00e3o mo tomeis a mal. N\u00e3o posso, nem irei, a v\u00f3s ceder.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Se recusardes, pois por amor e devo\u00e7\u00e3o Sois contr\u00e1rio a depor o infante, filho de vosso irm\u00e3o. Como bem conhecemos a brandura de vosso cora\u00e7\u00e3o, e a disposi\u00e7\u00e3o gentil, am\u00e1vel e feminil que bem notamos com respeito a vossos parentes e que \u00e9 de fato igual \u00e0 que usais para todos os estados, sabei contudo que, quer aceiteis ou n\u00e3o a nossa peti\u00e7\u00e3o, o filho de vosso irm\u00e3o nunca ser\u00e1 nosso Rei, antes um outro assentaremos no trono para desgra\u00e7a e queda de vossa Casa e com esta decis\u00e3o n\u00f3s vos deixamos. Vinde, cidad\u00e3os. Por Deus, n\u00e3o pe\u00e7o mais!<\/p>\n<p>RICARDO III (Duque de Gloucester) \u2014 Oh, n\u00e3o praguejeis, meu senhor de Buckingham!<\/p>\n<p>(Saem Buckingham, Alcaide e cidad\u00e3os)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Chamai-os de novo, doce Pr\u00edncipe. Aceitai seu pedido. Se o recusardes, todo o pa\u00eds lamentar\u00e1.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Quereis for\u00e7ar-me a um mundo de tormentos? Chamai-os de novo. N\u00e3o sou feito de pedra, e me moverei a vossas am\u00e1veis dilig\u00eancias, posto que contra minha consci\u00eancia e minha alma seja. (Entram Buckingham e o resto) Primo de Buckingham, e v\u00f3s homens s\u00e1bios e graves. Pois quereis afivelar-me a fortuna sobre o dorso para que lhe suporte o fardo queira eu ou n\u00e3o, devo ser paciente e suportar o peso. Mas se por acaso negro esc\u00e2ndalo ou imunda censura chegar no seguimento de vossa imposi\u00e7\u00e3o, vossa coa\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 me libertar\u00e1 de qualquer sinal e mancha impura, porque Deus sabe, e v\u00f3s talvez vereis em parte, qu\u00e3o longe estou de tal coisa desejar.<\/p>\n<p>ALCAIDE \u2014 Deus aben\u00e7oe Vossa Gra\u00e7a. Assim o vemos e assim o diremos.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Em o dizendo, direis s\u00f3 a verdade.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Eu vos sa\u00fado ent\u00e3o com este real apelido: viva Ricardo, digno Rei de Inglaterra!<\/p>\n<p>TODOS \u2014 Amem.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Apraz-vos, senhor, amanh\u00e3 ser coroado?<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Quando a v\u00f3s aprouver, j\u00e1 que assim o quereis.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Esperaremos amanh\u00e3 por Vossa Gra\u00e7a. E mui alegremente vos dizemos adeus.<\/p>\n<p>RICARDO (Duque de Gloucester) \u2014 Vamos, tomemos a nosso santo trabalho. Adeus, meu primo, adeus, gentis amigos.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h3>\n<p>(Entram a Rainha Isabel, a Duquesa de York, o Marqu\u00eas de Dorset, por uma porta; Ana, Duquesa de Gloucester, por outra com a filha de Clarence.)<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Quem vem ao nosso encontro? Minha sobrinha Plantageneta trazida por m\u00e3o de sua am\u00e1vel tia de Gloucester. Por minha f\u00e9, vai em dire\u00e7\u00e3o da Torre, em miss\u00e3o de puro amor, saudar o tenro Pr\u00edncipe. Filha, bom encontro \u00e9 este.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Conceda Deus a Vossas Gra\u00e7as tempo contente e ledo neste dia.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Tanto como a ti, boa irm\u00e3. Onde ides?<\/p>\n<p>ANA \u2014 N\u00e3o mais longe do que a Torre, e, cuido eu, com o mesmo intento que a v\u00f3s vos leva, l\u00e1 saudar os gentis pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Boa irm\u00e3, eu vos agrade\u00e7o. Em companhia entraremos. (Entra Brackenbury.) E em boa hora aqui vem o Tenente. Senhor Tenente, se mo permitis, pe\u00e7o me digais: como vai o Pr\u00edncipe e o meu jovem filho York?<\/p>\n<p>BRACKENBURY \u2014 Muito bem, senhora querida. Pacientai, n\u00e3o posso permitir vossa visita, o Rei com rigor ordenou o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 O Rei? Quem \u00e9?<\/p>\n<p>BRACKENBURY \u2014 Falo do senhor Protetor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Que o Senhor o defenda desse t\u00edtulo real! Ele imp\u00f4s fronteiras entre mim e o amor que eles a mim t\u00eam. Sou sua m\u00e3e. Quem poder\u00e1 deles apartar-me?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Sou a m\u00e3e de seu pai. Quero v\u00ea-los.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Por lei sou sua tia, sua m\u00e3e por amor leva-me a v\u00ea-los. Eu suportarei a tua culpa, e te libertarei do encargo, o risco ser\u00e1 meu.<\/p>\n<p>BRACKENBURY \u2014 Senhora, n\u00e3o, tal n\u00e3o posso permitir. Fiz juramento, e por tal me perdoeis.<\/p>\n<p>(Entra Stanley, Conde de Derby)<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Passe uma hora s\u00f3, senhoras, e se vos encontrar saudarei Vossa Gra\u00e7a de York como m\u00e3e e veneranda testemunha de duas formosas rainhas. (Para Ana) Vinde, senhora, deveis ir sem deten\u00e7a a Westminster, onde sereis coroada real Rainha de Ricardo.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ah, cortai-me o corpete para que meu dolorido cora\u00e7\u00e3o ganhe espa\u00e7o para bater, ou sen\u00e3o eu desfale\u00e7o a estas novas mortais.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Cruel mensagem! Oh, enojadas novas!<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Alento, minha m\u00e3e. Como passa Vossa Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 \u00d3 Dorset, comigo n\u00e3o faleis, fuge. A morte e destrui\u00e7\u00e3o ladram-te \u00e0s canelas. O nome da tua m\u00e3e \u00e9 funesto para os filhos. Se queres vencer a morte, vai, cruza os mares e vai viver com Richmond, longe do alcance do inferno. Vai, esconde-te, esconde-te longe deste matadouro ou tornar\u00e1s maior o n\u00famero dos mortos e me far\u00e1s morrer como escrava da maldi\u00e7\u00e3o de Margarida: nem m\u00e3e, nem esposa, nem rainha reconhecida de Inglaterra.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 \u00c9 vosso conselho, senhora, prenhe de s\u00e1bia inquietude. (Para Dorset) Tirai prestes a vantagem destas horas. Levareis cartas minhas, a meu filho em vosso favor, para que v\u00e1 ao vosso encontro no caminho. N\u00e3o vos tardeis com demoras fora de raz\u00e3o.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 \u00d3 vento de mis\u00e9ria que o mal desparze! \u00d3 maldito ventre meu, leito de morte! Deste ao mundo uma serpente cujo olhar, a que ningu\u00e9m pode fugir, \u00e9 assassino.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Vinde, senhora, vinde. Fui mandado a toda a pressa.<\/p>\n<p>ANA \u2014 E eu irei com toda a minha malqueren\u00e7a. Oh provera a Deus que o c\u00edrculo de ouro que deve cingir minha fronte fora incendido em brasa para me queimar at\u00e9 o c\u00e9rebro. Ungida eu seja com mortal veneno, e morra antes que algu\u00e9m possa dizer: viva a Rainha.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Vai, vai, pobre de ti, coitada! Inveja n\u00e3o tenho \u00e0 tua gl\u00f3ria. Para nutrires meu humor, n\u00e3o te desejes mal.<\/p>\n<p>ANA \u2014 N\u00e3o? Porqu\u00ea? Quando aquele que ora \u00e9 meu esposo veio ao meu encontro, acompanhava eu o corpo de Henrique, quando ele de suas m\u00e3os mal lavara ainda o sangue derramado por meu outro anjo e marido meu, e desse santo querido que eu em pranto acompanhava, Oh, quando, vos digo, olhei o rosto de Ricardo, foi este meu desejo: \u201cMaldito sejas\u201d, disse eu, \u201cpor me tornares, t\u00e3o nova, em vi\u00fava t\u00e3o velha, e quando te casares que a dor te assombre o leito. E que tua mulher \u2014 se alguma por loucura o for \u2014 seja mais m\u00edsera por tua vida do que tu me fizeste pela morte de meu querido senhor\u201d. Coitada de mim, antes que possa aqui repetir a mesma maldi\u00e7\u00e3o, em tempo t\u00e3o pouco, meu cora\u00e7\u00e3o de mulher deixou-se rudemente cativar por suas palavras de mel, e mudei-me em objeto da maldi\u00e7\u00e3o de minha pr\u00f3pria alma, o que, desde ent\u00e3o, todo o repouso retirou aos olhos meus, pois em seu leito uma hora sequer jamais gozei do sono o dourado orvalho, sempre acordava com seus temerosos sonhos. E mais, ele tem-me \u00f3dio por meu pai Yarwick, e breve, n\u00e3o duvido, se livrar\u00e1 de mim.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Pobre cora\u00e7\u00e3o, adieu. Lamento teus queixumes.<\/p>\n<p>ANA \u2014 N\u00e3o mais que em minha alma lamento eu os vossos.<\/p>\n<p>DORSET \u2014 Adeus, \u00f3 tu que dolorosamente a gl\u00f3ria agasalhas.<\/p>\n<p>ANA \u2014 Adieu, pobre alma que dela te despedes.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 (Para Dorset) Vai para junto de Richmond, e que te guie a boa sorte. (Para Ana) Vai para junto de Ricardo e que te guardem anjos bons. (Para Isabel) Vai para o santu\u00e1rio, e que te ocupem pensamentos bons. Eu vou para a minha sepultura, onde a paz e a quietude comigo morar\u00e3o. Oitenta anos de amargura j\u00e1 eu vi, e cada hora de alegria despeda\u00e7ada por uma semana de dor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ficai, olhai ainda comigo a Torre. V\u00f3s, pedras antigas, tende piedade desses tenros infantes que a inveja encarcerou dentro de vossos muros, rude ber\u00e7o para t\u00e3o lindos meninos, ama rude e esfarrapada, velha e severa companhia para tenros pr\u00edncipes, dai bom tratamento a meus filhos. E assim a louca dor diz adeus a vossas pedras.<\/p>\n<p>Saem<\/p>\n<h3>Cena II<\/h3>\n<p>(As trombetas anunciam um conselho. Entra Ricardo em grande pompa, coroado; Buckingham, Catesby Ratcliffe, Lovell com outros nobres e um pajem)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Afastai-vos todos. Primo de Buckingham!<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Meu gracioso soberano!<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 D\u00e1-me a tua m\u00e3o. (Sobe ao trono. Soam trombetas) Aqui t\u00e3o alto, por conselho teu e teu aux\u00edlio, se assenta o Rei Ricardo. Mas vestiremos estas gl\u00f3rias por um dia ou ser\u00e3o duradouras e nelas prazer teremos?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Agora vivas est\u00e3o, e oxal\u00e1 para sempre durem!<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ah, Buckingham, eu fa\u00e7o agora de pedra de toque para provar se \u00e9s de verdade ouro de lei. Est\u00e1 vivo o jovem Eduardo, imagina agora o que eu dizer queria.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Continuai, meu estimado senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ora, Buckingham, digo que queria ser Rei.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ora, mas v\u00f3s sois, meu senhor tr\u00eas vezes afamado.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 H\u00e3, Rei sou? Pois sim, mas est\u00e1 vivo Eduardo.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Em verdade, nobre Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Oh seguimento amargo! Que ainda viva Eduardo em verdade, nobre Pr\u00edncipe! Primo, n\u00e3o costumavas ter pouco entendimento. Queres que seja claro? Quero os bastardos mortos. E quero isto feito j\u00e1, depressa. Que dizes agora? Fala prestes, s\u00ea breve.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Vossa Gra\u00e7a pode fazer o que lhe aprouver.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Tss, tss, \u00e9s gelo, todo. Tua amizade arrefece. Diz, tenho teu consentimento para a sua morte?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Dai-me um tempo para respirar, uma pausa, querido senhor, antes de sobre isto meu ju\u00edzo manifestar. Em breve aqui vos darei minha resposta. (Sai)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 O Rei est\u00e1 irado. Vede, o l\u00e1bio mordendo est\u00e1.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) (\u00c0 parte) \u2014 Eu conversarei com parvos de duro entendimento e mo\u00e7os sem consci\u00eancia. Por mim n\u00e3o s\u00e3o os que me olham com olhos prudentes. O ilustre Buckingham torna-se cauteloso. Mo\u00e7o!<\/p>\n<p>PAJEM \u2014 Senhor?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Conheces algu\u00e9m que o ouro corruptor possa tentar a sigiloso feito de morte?<\/p>\n<p>PAJEM \u2014 Conhe\u00e7o um fidalgo sem contentamento cujas humildes posses n\u00e3o se concertam com seu esp\u00edrito altivo. O ouro valeria para ele vinte oradores, e por certo o tentar\u00e1 seja ao que for.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Qual \u00e9 o seu nome?<\/p>\n<p>PAJEM \u2014 O seu nome, senhor meu, \u00e9 Tyrrel.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Conhe\u00e7o um pouco o homem. Vai cham\u00e1-lo aqui. (Sai o pajem) (\u00c0 parte) O ponderado, engenhoso Buckingham n\u00e3o mais ser\u00e1 vizinho para meus conselhos. Tanto comigo andou sem se cansar e para agora para respirar! Bom, assim seja! (Entra Stanley, Conde de Derby) Ent\u00e3o, senhor de Stanley, que novas h\u00e1?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Sabei, meu am\u00e1vel senhor, que o Marqu\u00eas de Dorset, segundo ouvi, fugiu ao encontro de Richmond para as partes em que ele mora.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Vem c\u00e1, Catesby. Lan\u00e7a o rumor de que Ana, minha mulher, est\u00e1 com gravidade enferma. Ordenarei que ela seja mantida cativa. Descobre por a\u00ed um qualquer pobre e m\u00edsero fidalgo que eu possa j\u00e1 casar com a filha de Clarence&#8230; O mancebo parvo \u00e9 e dele n\u00e3o me receio. Olha, tu est\u00e1s sonhando? Outra vez te digo, espalha por a\u00ed que Ana, a minha Rainha, enferma \u00e9 e quase morta. Vai, que me \u00e9 for\u00e7oso cortar todas as esperan\u00e7as cujo crescimento me possa mal fazer. (Sai Catesby) E mister que case com a filha de meu irm\u00e3o, ou ent\u00e3o tem meu reinado funda\u00e7\u00f5es de vidro. Assassinar-lhe seus irm\u00e3os, e despos\u00e1-la depois&#8230; Modo incerto de ganhar! Mas estou de tal guisa imerso em sangue que pecado causar\u00e1 novo pecado. A chorosa piedade n\u00e3o tem morada nestes olhos. (Entra Tyrrel.) O teu nome \u00e9 Tyrrel?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Jaime Tyrrel, e o vosso mais obediente servidor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Deveras?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Provai-me, meu gracioso senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ousarias matar um amigo meu?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Se tal vos aprouver. Mas antes queria matar dois inimigos.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 A\u00ed os tens ent\u00e3o, dois grandes inimigos, do meu repouso advers\u00e1rios e turvadores do meu doce sono. \u00c9 deles que eu quereria que te ocupasses tu Tyrrel, falo dos bastardos na Torre.<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Dai-me maneira de chegar a eles, e cedo vos livrarei do temor que tendes deles.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Cantas m\u00fasica suave. Ouve, vem c\u00e1, Tyrrel, toma este testemunho. Levanta-te e escuta bem. (Segreda-lhe ao ouvido) Mais n\u00e3o \u00e9 que isto. Diz que feito est\u00e1 e eu te estimarei e por tal meu favorito ser\u00e1s. (Sai)<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Vou sem tardan\u00e7a concluir o caso.<\/p>\n<p>(Entra Buckingham.)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu, em meu pensamento ponderei a \u00faltima quest\u00e3o sobre a qual me haveis sondado.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ora, deixai isso em paz. Dorset fugiu at\u00e9 junto de Richmond.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ouvi a nova, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Stanley, ele \u00e9 o filho de vossa mulher. Bem, cuidai nisso.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu, reclamo o pr\u00eamio, que por promessa me \u00e9 devido. E pelo qual haveis penhorado vossa honra e vossa f\u00e9: o condado de Hereford e todos os pertences que haveis prometido eu iria possuir.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Stanley, vigiai vossa mulher. Se ela enviar cartas a Richmond, v\u00f3s respondereis por isso.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Que diz Vossa Alteza a meu justo pedido?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Eu bem me lembro que Henrique VI profetizou que Richmond seria rei, quando Richmond era uma crian\u00e7a impertinente. Um rei!&#8230; talvez&#8230; talvez&#8230;<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu!<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Como foi que n\u00e3o pode o profeta \u00e0quele tempo dizer-me, a mim que estava l\u00e1, que eu o mataria?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu, vossa promessa do condado&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Richmond! Quando pela derradeira vez estive em Exeter, o Alcaide por cortesia me mostrou o castelo, e chamou-lhe Rougemont, e a esse nome tremi porque um bardo da Irlanda me disse uma vez que eu n\u00e3o viveria largo tempo depois de haver visto Richmond.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Senhor meu&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim&#8230; Que hora \u00e9?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ouso lembrar a Vossa Gra\u00e7a a promessa que me fez.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Bem, mas que hora \u00e9?<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Bateram as dez.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Bom, deixa bater.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Por que deixar bater?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Porque, como mecanismo de rel\u00f3gio, bate compasso entre teu pedido e minha medita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou hoje em humor de dar.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Ser\u00e1 que vos apraz dar resposta a meu pedido?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Aborreces-me, n\u00e3o estou eu nesse humor. (Sai seguido por todos, exceto Buckingham)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Isso \u00e9 assim? Paga ele meu subido servi\u00e7o com tamanho desd\u00e9m? Foi para tal que o fiz Rei? Oh, deixai-me pensar em Hastings e partirei para Brecknock enquanto ainda est\u00e1 sobre os ombros a minha cabe\u00e7a amea\u00e7ada. (Sai)<\/p>\n<h3>Cena III<\/h3>\n<p>(Entra Tyrrel.)<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Cumprido est\u00e1 o tir\u00e2nico e sangrento ato, o feito mais ingente de lament\u00e1vel massacre de que alguma vez esta terra foi culpada. Dighton e Forrest, que eu subornei para cometer esta obra de \u00edmpia carnificina, sendo embora carn\u00edvoros vil\u00e3os, sanguinosos mastins, movidos de ternura e suave compaix\u00e3o, como crian\u00e7as choraram contando a triste hist\u00f3ria de suas mortes. \u201cOh\u201d, disse Dighton, \u201cassim repousavam os gentis meninos.\u201d \u201cAssim, assim\u201d, disse Forrest, \u201cum no outro enla\u00e7ados em seus inocentes bra\u00e7os de alabastro. Seus l\u00e1bios eram quatro rosas vermelhas no mesmo ramo, e no ver\u00e3o da sua beldade se beijavam um ao outro. Um livro de ora\u00e7\u00f5es sobre a almofada estava, que por instantes\u201d, disse Forrest, \u201cquase mudou meu querer. Mas oh, o Demo.\u201d Aqui o ruim vil\u00e3o parou, quando Dighton ainda disse: \u201cSufocamos a obra mais doce e mais perfeita que a natureza desde a primeira cria\u00e7\u00e3o alguma vez formou!\u201d Foram-se os dois com consci\u00eancia e com remorso de tal guisa que nem falar podiam, e por isso eu os deixei para trazer a nova ao sanguinoso Rei. (Entra o Rei Ricardo.) E ei-lo que ali vem. Sa\u00fade, meu soberano senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Am\u00e1vel Tyrrel, acharei felicidade em tuas novas?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Se ter cumprido aquilo cujo cargo me haveis dado vos traz felicidade, sede ent\u00e3o feliz, porque feito est\u00e1.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Mas viste-los mortos?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Vi, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 E enterrados, gentil Tyrrel?<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 O capel\u00e3o da Torre os enterrou, mas onde, para dizer a verdade, eu o n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Vai junto de mim, Tyrrel, logo depois da ceia. E ent\u00e3o me contar\u00e1s a sua morte com min\u00facia. Em tanto, pensa como te poderei bem fazer e sejas tu o herdeiro de teu pr\u00f3prio desejo. Adeus, at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>TYRREL \u2014 Humildemente me despe\u00e7o. (Sai)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 O filho de Clarence em forte pris\u00e3o o pus, a filha a mesquinho casamento a destinei, os filhos de Eduardo dormem no seio de Abra\u00e3o, e Ana, minha mulher, disse ao mundo boa noite. Agora, pois sei que o bret\u00e3o Richmond pretende a jovem Isabel, filha de meu irm\u00e3o, e por esse la\u00e7o olha com orgulho para a coroa, junto dela vou para com sucesso e alegria a cortejar.<\/p>\n<p>(Entra Ratcliffe.)<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Meu senhor!<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Boas ou m\u00e1s novas, que assim vens t\u00e3o pressuroso?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 M\u00e1s novas, meu senhor. Morton tomou fuga para junto de Richmond, e Buckingham, sustentado pelos audazes galeses, est\u00e1 em guerra, e seu poder aumenta.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ely com Richmond me trazem mais inquietude do que Buckingham e suas tropas pressurosamente recrutadas. Vem, aprendi que a medrosa discuss\u00e3o \u00e9 pl\u00fambea serva da escura tardan\u00e7a. A tardan\u00e7a comanda a mis\u00e9ria impotente e vagarosa como o caracol. Seja ent\u00e3o a fogosa prontid\u00e3o a minha asa, Merc\u00fario de J\u00fapiter, arauto de um rei. Vai, chama for\u00e7as. Meu escudo \u00e9 meu conselho. Devemos ser breves, quando traidores desafiam \u00e0 batalha.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena IV<\/h3>\n<p>(Entra a velha Rainha Margarida.)<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Eis que a prosperidade come\u00e7a a ser madura e a escorrer para dentro da boca podre da morte. Aqui destes confins com ast\u00facia espiei para ver a decad\u00eancia de meus inimigos. Testemunha sou de um pr\u00f3logo terr\u00edvel, e vou para Fran\u00e7a, esperando que o seguimento provar\u00e1 ser t\u00e3o amargo, negro e tr\u00e1gico. (Entram a Duquesa de York e a Rainha Isabel.) Afasta-te, desgra\u00e7ada Margarida, quem vem l\u00e1?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ah, meus pobres pr\u00edncipes! Ah, meu tenros meninos, minhas flores por desabrochar, bot\u00f5es que mal abriram! Se vossas almas gentis ainda voam pelos ares, e n\u00e3o est\u00e3o presas em perp\u00e9tua condena\u00e7\u00e3o, pairai em meu redor com vossas a\u00e9reas asas e escutai os lamentos de vossa m\u00e3e.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 (\u00c0 parte) Pairai em seu redor. Dizei-lhe que a justi\u00e7a por justi\u00e7a ensombreceu vossa manh\u00e3 infante em noite idosa.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Tantas foram as desgra\u00e7as que me quebraram a voz, que minha l\u00edngua desgastada de dor est\u00e1 muda e queda. Eduardo Plantageneta, por que raz\u00e3o \u00e9s morto?<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 Plantageneta mata Plantageneta. Eduardo, por Eduardo, paga d\u00edvida de morte.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Pudeste, \u00f3 Deus, apartar-te de tais gentis cordeiros e arremess\u00e1-los para as entranhas do lobo? Estavas dormindo quando tal feito se fez?<\/p>\n<p>MARGARIDA (\u00c0 parte) \u2014 E quando morreu o santo Rei Henrique, e o meu doce filho?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Vida morta, vista cega, pobre fantasma vivo de um mortal, cena de dor, vergonha do mundo, propriedade do t\u00famulo pela vida usurpada, breve sum\u00e1rio e registro de dias tediosos. (Sentando-se) Sossega teu desassossego no leg\u00edtimo ch\u00e3o de Inglaterra, ilegitimamente embriagado com sangue inocente.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ah, se me pudesses ofertar um t\u00famulo t\u00e3o prestes como me podes conceder um melanc\u00f3lico assento, a\u00ed eu esconderia ent\u00e3o meus ossos, n\u00e3o os sossegaria aqui. (Sentando-se) Ah, quem afora n\u00f3s tem causa de lamentos?<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Se a dor antiga for mais veneranda dai \u00e0 minha o benef\u00edcio da avan\u00e7ada idade, e deixai que meus males sombrios fiquem em lugar cimeiro. Se a dor aceita companhia, contais vossos males de novo ao ver os meus. Eu tinha um Eduardo, at\u00e9 que um Ricardo o matou. Eu tinha um marido, at\u00e9 que um Ricardo o matou. Tu tinhas um Eduardo, at\u00e9 que um Ricardo o matou. Tu tinhas um Ricardo, at\u00e9 que um Ricardo o matou.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Eu tamb\u00e9m tinha um Ricardo, e tu mataste-o. Eu tamb\u00e9m tinha um Rutland, tu ajudaste a mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Tu tamb\u00e9m tinhas um Clarence, e Ricardo o matou. Do canil do teu ventre saiu rastejando um mastim do inferno que nos persegue at\u00e9 \u00e0 morte. Esse c\u00e3o, ele teve dentes antes de ter olhos, para assustar cordeiros e lamber seu gentil sangue. Esse grande e supremo tirano mais que todos da terra reina em mortificados olhos de plangentes almas. Esse imundo destruidor da obra de Deus, teu ventre o soltou para nos perseguir at\u00e9 nossas sepulturas. \u00d3 Deus reto, justo e vero em suas senten\u00e7as! Como te agrade\u00e7o que este rafeiro sangrento devore o que sa\u00eddo foi do corpo de sua m\u00e3e e que de outros na dor a fa\u00e7a companheira.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 \u00d3, mulher de Henrique, n\u00e3o triunfes tu com minhas m\u00e1goas. Deus \u00e9 testemunha que eu hei chorado pelas tuas.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Pacientai, tenho fome de vingan\u00e7a, e agora me sacio ao contempl\u00e1-la. Teu Eduardo, esse est\u00e1 morto, ele matou o meu Eduardo, teu outro Eduardo, morto, em paga de meu Eduardo. O jovem York, esse n\u00e3o \u00e9 mais que demasia, porque os dois juntos n\u00e3o atingem a subida perfei\u00e7\u00e3o de minha perda. Teu Clarence, esse est\u00e1 morto, ele que apunhalou meu Eduardo, e as testemunhas deste impiedoso ato, o ad\u00faltero Hastings, Rivers, Vaughan, Grey, antes do tempo abafados em seus t\u00famulos sombrios. Ricardo ainda vive, dos infernos negro agente. A ele s\u00f3 o guardam como feitor para comprar almas e as mandar para l\u00e1. Mas cerca, cerca est\u00e1 seu deplor\u00e1vel, n\u00e3o deplorado fim. Abre-se a terra, arde o inferno, rugem os dem\u00f4nios, oram os santos, para que daqui s\u00fabito o arranquem. Rompe, querido Deus, assim te pe\u00e7o, seu pacto com a vida, para que eu possa viver e dizer: \u201cO c\u00e3o \u00e9 morto.\u201d<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Oh, tu h\u00e1s profetizado que tempo viria em que eu desejasse que ajuda me desses na maldi\u00e7\u00e3o dessa aranha inchada, desse sapo marreco.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Dei-te nome, ent\u00e3o, de ornamento v\u00e3o de minha vida, dei-te nome, ent\u00e3o, de pobre sombra, rainha de fantasia, t\u00e3o-s\u00f3 imagem do que eu fui, lisonjeiro sinal de horr\u00edfico espet\u00e1culo, t\u00e3o alto posta, para t\u00e3o baixo ser lan\u00e7ada, m\u00e3e burlesca de dois tenros meninos, sonho do que foste, garrido estandarte para alvo de cada perigoso tiro, sinal de dignidade, sopro, bolha, rainha de com\u00e9dia, s\u00f3 para encher a cena. Onde est\u00e1 agora teu marido? Onde estar\u00e3o teus irm\u00e3os? Onde est\u00e3o os teus dois filhos? Em que encontras tu deleite? Quem suplica e se p\u00f5e de joelhos e diz \u201cViva a Rainha!\u201d? Onde estar\u00e3o os pares que se curvavam para te lisonjear? Onde estar\u00e3o as multid\u00f5es que te seguiam? Lembra tudo isto, e v\u00ea o que ora \u00e9s: em vez de esposa feliz, mui m\u00edsera vi\u00fava, em vez de m\u00e3e ditosa, m\u00e3e que desse nome se lamenta; em vez daquela a quem todos suplicavam, uma que humildemente suplica; em vez de Rainha, vera cativa de cuidados coroada; em vez daquela que de mim escarneceu, uma que por mim agora \u00e9 escarnecida; em vez daquela voz que todos temiam, uma que vive agora em temor; em vez daquela que todos comandava, uma de ningu\u00e9m obedecida. Assim rodou o curso da justi\u00e7a e uma presa do tempo apenas de ti fez, nada mais tendo do que pensamento do que foste para mais te torturar, sendo o que \u00e9s. Meu lugar usurpaste, e n\u00e3o usurpas tu a justa propor\u00e7\u00e3o de minha m\u00e1goa? Agora teus ombros orgulhosos carregam a metade do meu pesado jugo, da qual eu aqui mesmo liberto minha lassa cabe\u00e7a e sobre ti deixo todo o peso de meu fardo. Adeus, mulher de York, Rainha de m\u00e1 fortuna. Estas m\u00e1goas inglesas far-me-\u00e3o sorrir em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 \u00d3 tu, que t\u00e3o s\u00e1bia \u00e9s em maldi\u00e7\u00f5es, atende um pouco e ensina-me a maldizer meus inimigos.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 N\u00e3o consintas teu dormir de noite e faz jejum de dia, compara a felicidade morta com a m\u00e1goa viva, pensa que mais doces eram teus meninos do que de verdade eram, e aquele que os matou mais imundo do que \u00e9. Tua perda engrandecer \u00e9 agravar o causador. Pensando nisto aprender\u00e1s a maldizer.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 S\u00e3o rombas minhas palavras. Oh, agu\u00e7a-as com as tuas.<\/p>\n<p>MARGARIDA \u2014 Tuas m\u00e1goas as far\u00e3o agu\u00e7adas como as minhas. (Sai)<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Porque ser\u00e1 a calamidade t\u00e3o prenhe de palavras?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Advogadas de vento para as m\u00e1goas de seus clientes, di\u00e1fanas herdeiras de intestadas alegrias, pobres oradores de sopro para mis\u00e9rias! Deixai-lhes liberdade. Posto que o que elas ofere\u00e7am n\u00e3o sirva a mais nada, elas aliviam o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Se assim \u00e9, n\u00e3o prendas tua l\u00edngua. Comigo vem e sufoquemos no sopro de amargas palavras meu filho maldito, que teus dois gentis meninos sufocou. Soa a trombeta. N\u00e3o poupes teus brados. (Entram o Rei Ricardo e seu s\u00e9quito incluindo Catesby marchando ao som de tambores e trombetas.)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Quem me impede em minha expedi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Oh, aquela que te poderia ter impedido, estrangulando-te em seu amaldi\u00e7oado ventre, todos os assass\u00ednios, miser\u00e1vel, que tu h\u00e1s cometido.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Com uma coroa de ouro escondes essa fronte, que devia estar marcada, se justi\u00e7a houvera, pelo assass\u00ednio do Pr\u00edncipe a quem essa coroa pertencia e pela m\u00edsera morte de meus pobres filhos e irm\u00e3os? Diz-me tu, ruim vil\u00e3o, onde est\u00e3o meus filhos?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Tu, sapo, tu, sapo, onde est\u00e1 teu irm\u00e3o Clarence, e o pequeno Ned Plantageneta, seu filho?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Onde est\u00e1 o gentil Vaughan, Grey?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Onde est\u00e1 o am\u00e1vel Hastings?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Soai trombetas. Tocai alarme, tambores! N\u00e3o deixeis que os c\u00e9us escutem estas comadres acusar o ungido do Senhor. Tocai, vos digo! (Som de trombetas. Alarmes) Pacientai, falai-me com brandura, se n\u00e3o, com clamorosos e belicosos rumores abafarei eu vossos brados.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 \u00c9s tu, meu filho?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim, pela gra\u00e7a de Deus, de meu pai e de v\u00f3s mesma.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Ent\u00e3o com paci\u00eancia d\u00e1 ouvidos a minha impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Senhora, herdei de v\u00f3s esta fei\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder sofrer o som da censura.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Oh, deixa-me falar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Falai, mas n\u00e3o vos ouvirei.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Serei suave e gentil em meu falar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 E breve, boa m\u00e3e, que tenho pressa.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Est\u00e1s assim t\u00e3o apressado? Por ti esperei, Deus sabe, em tormenta e agonia.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 E n\u00e3o cheguei por fim para vos dar conforto?<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 N\u00e3o, pela Cruz Sant\u00edssima, tu mui bem sabes, vieste \u00e0 terra para da terra fazeres o meu inferno. Grave fardo foi teu parto para mim; tua primeira idade, turbulenta e caprichosa; teus dias de escola, assustadores, desesperados, selvagens e furiosos; tua idade de mancebo audaz, atrevida e de aventura; tua idade madura orgulhosa, astuta, falsa e sangrenta: mais branda, todavia mais perigosa ainda, doce em seu odiar. Que hora de conforto podes tu dizer que alguma vez me tenha agraciado com tua companhia?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Por minha f\u00e9, nem uma, a n\u00e3o ser a hora em que Humphrey Vossa Gra\u00e7a convidou a almo\u00e7ar longe de minha companhia. Se t\u00e3o falto de gra\u00e7a sou a vossos olhos, permiti que me v\u00e1 e que n\u00e3o vos ofenda, senhora. Soai, tambores!<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Eu te pe\u00e7o, ouve-me falar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 \u00c9 vosso falar demasiado amargo.<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Ouve uma palavra minha, que nunca mais contigo falarei.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Seja!<\/p>\n<p>DUQUESA DE YORK \u2014 Ou ser\u00e1s morto pela justa ordem de Deus antes que desta guerra sejas o vencedor, ou morrerei eu de dor e de pesada idade e teu rosto n\u00e3o mais verei. Por isso, contigo leva minha mais grave maldi\u00e7\u00e3o, para que ela no dia da batalha te canse mais que a armadura inteira que tu vestes. Minhas preces combatem no campo do advers\u00e1rio, e que l\u00e1 as alminhas dos filhos de Eduardo murmurem aos esp\u00edritos de teus inimigos e lhes prometam bom sucesso e a vit\u00f3ria. \u00c9s sanguinoso, sanguinoso ser\u00e1 teu fim. A vergonha serve a tua vida e espera a tua morte. (Sai)<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Mor causa hei, por\u00e9m mora em mim menos alento para maldizer. A ela digo. Amem.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ficai, senhora. Tenho uma palavra para vos dizer.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o tenho mais filhos de sangue real que tu possas matar. Porque minhas filhas, Ricardo, essas ser\u00e3o freiras que oram e n\u00e3o rainhas que choram. N\u00e3o apontes a arma para atingir suas vidas.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Tendes uma filha de nome Isabel, virtuosa e bela, r\u00e9gia e graciosa.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 E por isso dever\u00e1 morrer? Oh, deixa-a viver, e eu corromperei sua virtude, mancharei sua formosura, e me caluniarei como infiel ao leito de Eduardo. Sobre ela lan\u00e7arei o v\u00e9u da inf\u00e2mia. Para que ela possa viver livre do assass\u00ednio sangrento confessarei que ela n\u00e3o era filha de Eduardo.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 N\u00e3o mancheis seu nascimento, \u00e9 uma princesa real.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Para salvar sua vida eu direi que tal n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sua vida tem seguran\u00e7a somente em seu nascimento.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 E nessa seguran\u00e7a somente morreram seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ai, em nascendo as boas estrelas lhes foram contr\u00e1rias.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o, maus amigos \u00e0 sua vida se opuseram.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Inevit\u00e1vel \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o do destino.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Decerto, quando a gra\u00e7a evitada em destino se transforma. Meus meninos estavam destinados a mais justa morte se a gra\u00e7a te tivera aben\u00e7oado com mais justa vida.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Falais como se eu tivera assassinado meus primos.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Primos em verdade! E pelo tio despojados de conforto, reino, parentes, liberdade, vida. De quem quer que fosse a m\u00e3o que seus tenros cora\u00e7\u00f5es apunhalou, tua cabe\u00e7a foi que inviamente o mando lhe deu. Sem d\u00favida a assassina faca estava romba e embotada at\u00e9 que agu\u00e7ada foi no teu cora\u00e7\u00e3o de pedra para penetrar nas entranhas de meus cordeirinhos. Por\u00e9m, se a usan\u00e7a constante da dor n\u00e3o demorar a dor selvagem, n\u00e3o nomeara minha l\u00edngua a teus ouvidos meus meninos antes que minhas unhas ancoradas fossem em teus olhos, e que eu, nessa enseada de morte de tamanho desespero, qual pobre barca sem velas e sem remos, me despeda\u00e7asse contra teu rochoso peito.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Senhora, assim eu prospere em minha empresa e nos perigosos acasos das guerras sangrentas, como vos prometo maior bem a v\u00f3s e aos vossos do que o mal que v\u00f3s e os vossos por mim haveis sofrido.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Que bem, coberto pela face do c\u00e9u, em sendo descoberto, me poder\u00e1 ser bem?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 A ascens\u00e3o de vossos filhos, gentil senhora.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ao cadafalso, para a\u00ed perderem suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 \u00c0 dignidade e aos cumes da fortuna, alto emblema imperial da gl\u00f3ria desta terra!<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Lisonjeia minha dor com tal relato. Diz-me: que estado, que dignidade, que honra a um filho meu podes tu conferir?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Tudo o que eu tenho, sim, e eu pr\u00f3prio, e tudo, quero eu doar a um filho teu, para que no Lethes de tua alma irada possas afogar a triste lembran\u00e7a daquelas ofensas que sup\u00f5es eu te hei causado.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 S\u00ea breve, para que o processo de tua bondade n\u00e3o dure mais que o tempo de tua bondade.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sabe ent\u00e3o que do fundo de minha alma eu amo tua filha.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 A m\u00e3e de minha filha em sua alma pensa.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Que pensais?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Que amas minha filha do fundo de tua alma. Tamb\u00e9m do fundo de tua alma amaste seus irm\u00e3os, e do fundo do cora\u00e7\u00e3o por isso te agrade\u00e7o.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 N\u00e3o vos apresseis a mal entender meu pensamento. Quero dizer que com minha alma amo vossa filha e \u00e9 meu intento fazer dela Rainha de Inglaterra.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Ora bem, quem pensas ent\u00e3o que ser\u00e1 seu Rei?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Precisamente quem dela far\u00e1 Rainha. Quem mais seria?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Qu\u00ea, tu?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Esse mesmo. Disso que pensais?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Como podes cortej\u00e1-la?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Isso poderia convosco aprender, j\u00e1 que a seu humor v\u00f3s sois a mais costumada.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 E isso comigo queres tu aprender?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Senhora, com todo o meu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Manda-lhe, pelo homem que assassinou seus irm\u00e3os, dois cora\u00e7\u00f5es sangrando. Neles cinzelai \u201cEduardo\u201d e \u201cYork\u201d. Talvez que ent\u00e3o ela chore. Em seguida oferece-lhe \u2014 como outrora Margarida fez a teu pai, embebido no sangue de Rutland \u2014 um len\u00e7o, o qual, diz-lhe, enxugou a purp\u00farea seiva do corpo de seu doce irm\u00e3o, e diz-lhe que com ele seque seus chorosos olhos. Se este incentivo n\u00e3o a levar a amar, manda-lhe uma carta com teus nobres feitos. Diz-lhe que fizeste desaparecer seu tio Clarence, seu tio Rivers, sim, e que por amor dela breve te desfizeste de sua boa tia Ana.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Zombais de mim, senhora, n\u00e3o \u00e9 esta a guisa de ganhar a vossa filha!<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Outra guisa n\u00e3o h\u00e1. A menos que pudesses tomar qualquer outra forma e n\u00e3o fosses Ricardo, e n\u00e3o houvesses tudo isto cometido.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 E se lhe disser que tudo isto cometi por amor dela?<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 N\u00e3o, que ent\u00e3o ela outra escolha n\u00e3o teria afora o odiar-te, por teres comprado amor com t\u00e3o sangrento esp\u00f3lio.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Olhai, o que feito est\u00e1 n\u00e3o pode mais ser emendado. Os homens agem por vezes sem raz\u00e3o e o porvir lhes concede tempo para arrependimento. Se a vossos filhos eu tomei o reino, em repara\u00e7\u00e3o a vossa filha eu o darei. Se matei o fruto de vosso ventre, para dar vida a descendentes vossos, irei gerar fruto meu de sangue vosso em vossa filha. O nome de av\u00f3 pouco menos tem de amor que o apaixonado t\u00edtulo de m\u00e3e. S\u00e3o como filhos, num degrau mais em baixo; feitos do vosso metal, do vosso pr\u00f3prio sangue; da mesma dor, afora uma noite de gemidos que suporta aquela por quem v\u00f3s igual pena haveis sofrido. Vossos filhos foram nojo para vossa juventude, mas o meu ser\u00e1 conforto para vossos anos avan\u00e7ados. A perda que haveis \u00e9 s\u00f3 um filho que era Rei e por essa perda ser\u00e1 Rainha vossa filha. N\u00e3o posso dar-vos a repara\u00e7\u00e3o que eu desejara, por isso aceitai a bondade de que sou capaz. Dorset, vosso filho, que com alma temerosa d\u00e1 passos descontentes em estrangeiro solo, esta bela alian\u00e7a breve o chamar\u00e1 ao lar para subidas promo\u00e7\u00f5es e grande dignidade. O Rei que chama esposa a vossa formosa filha, como parente chamar\u00e1 a teu Dorset irm\u00e3o. Sereis de novo m\u00e3e de um Rei. E todas as ru\u00ednas de desgostosos tempos reparadas ser\u00e3o com dobradas riquezas de contentamento. Qu\u00ea! Ainda veremos muitos e bons dias. As l\u00edquidas gotas das l\u00e1grimas que haveis derramado de novo voltar\u00e3o mudadas em porias do Oriente, pagando delas o empr\u00e9stimo com bons juros de dez vezes o dobrado ganho de felicidade. Vai ent\u00e3o, minha m\u00e3e, vai adiante tua filha. Com vossa experi\u00eancia animai seus t\u00edmidos anos, aparelhai seus ouvidos para ouvirem proposi\u00e7\u00f5es de amor, ponde em seu tenro peito a chama desejosa da dourada soberania, dai conhecimento \u00e0 Princesa das horas silenciosas e doces das alegrias do himeneu. E quando este meu bra\u00e7o houver punido o m\u00edsero rebelde, o pouco entendido Buckingham, regressarei cingido em triunfais coroas e guiarei tua filha ao leito de um vencedor. A ela contarei a vit\u00f3ria que ganhei e ela s\u00f3 ser\u00e1 a vencedora, C\u00e9sar do pr\u00f3prio C\u00e9sar.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Que ser\u00e1 melhor dizer? Que o irm\u00e3o de seu pai quereria ser o seu senhor? Ou devo dizer seu tio? Ou aquele que assassinou os seus irm\u00e3os e seus tios? Qual t\u00edtulo usarei para em teu nome cortejar, que Deus, a lei, minha honra e seu amor possam tornar am\u00e1vel a seus tenros anos?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Fala da paz da bela Inglaterra por meio desta alian\u00e7a.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Que ela comprar\u00e1 com infind\u00e1vel guerra.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Diz-lhe que o Rei, que pode mandar, suplica.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Aquilo que, nas m\u00e3os dela, o Rei dos Reis pro\u00edbe.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Diz-lhe que ser\u00e1 Rainha sublime e poderosa.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Para deixar o t\u00edtulo como agora sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Diz que toda a eternidade a amarei.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Mas essa eternidade quanto tempo dura?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Com do\u00e7ura viver\u00e1, at\u00e9 que sua formosa vida tenha fim.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Mas quanto tempo durar\u00e1 sua doce vida em formosura?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Tanto tempo quanto o c\u00e9u e a natureza o permitirem.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Tanto tempo como o inferno e Ricardo o desejarem.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Diz que eu, seu soberano, sou seu humilde s\u00fabdito.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Mas ela, vossa s\u00fabdita, odeia tal soberania.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 S\u00ea eloq\u00fcente diante dela em meu favor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Mais favorece um conto honesto se for feito com simpleza.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ent\u00e3o diz-lhe com simpleza o conto de meu amor.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Simples e n\u00e3o honesto \u00e9 estilo demasiado discordante.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Vossas raz\u00f5es s\u00e3o demasiado leves e demasiado vivas.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Oh, n\u00e3o, minhas raz\u00f5es s\u00e3o demasiado pesadas e mortas; demasiado pesados e mortos, pobres infantes, em seus t\u00famulos.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Essa corda n\u00e3o deveis tanger, senhora, passado \u00e9.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Tangerei, at\u00e9 que se quebrem as cordas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Pois pelo meu S\u00e3o Jorge, pela minha Jarreteira e por minha coroa&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Profanado um, desonrada a outra e a terceira usurpada&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Juro&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Por nada, que isto n\u00e3o \u00e9 juramento. O teu S\u00e3o Jorge, profanado, perdeu sua sagrada honra. A tua Jarreteira, manchada, penhorou sua fidalga virtude. A tua coroa, usurpada, desgra\u00e7ou sua gl\u00f3ria real. Se por alguma coisa quiseres jurar para que algu\u00e9m te creia, jura ent\u00e3o por coisa que n\u00e3o tenhas ofendido.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Bom, pelo mundo&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Prenhe est\u00e1 de imundas ofensas.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 A morte de meu pai&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Tua vida a desonrou.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ent\u00e3o por mim pr\u00f3prio&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Tu pr\u00f3prio a ti pr\u00f3prio usaste mal.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ora ent\u00e3o, por Deus&#8230;<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 A ofensa a Deus \u00e9 de todas a maior: se temeras quebrar uma jura que a Ele tiveras feito, a uni\u00e3o que o Rei, meu marido, concertou, n\u00e3o a terias tu quebrado, nem meus irm\u00e3os morrido. Se houveras temido quebrar uma jura que por Ele tiveras feito, o metal imperial que ora cinge tua fronte teria ornado a suave testa de meu filho, e aqui estariam os dois pr\u00edncipes que agora \u2014 dois tenros companheiros de leito destinados \u00e0 poeira \u2014 a tua f\u00e9 quebrada em presa de vermes transformou. Porque coisa podes agora jurar?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 O tempo por vir!<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Esse tu o ofendeste no tempo que \u00e9 passado, que eu pr\u00f3pria muitas l\u00e1grimas tenho para lavar. O tempo por vir, pelo tempo passado que tu ofendeste. Vivem os filhos cujos pais assassinaste: juventude abandonada, que o lamentar\u00e1 na velhice. Vivem os pais cujos filhos tu com crueza mataste: velhas, est\u00e9reis plantas, que o lamentar\u00e3o com a velhice. N\u00e3o jures pelo tempo por vir, que esse ofendeste tu, antes de usado, por tempos mal usados do passado.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Tal como \u00e9 meu intento prosperar e repentir-me, assim ven\u00e7a eu em meus tratos perigosos de armas hostis! Eu pr\u00f3prio a mim pr\u00f3prio me destrua! Deus e fortuna, negai-me horas felizes! Dia, n\u00e3o me concedas tua luz, nem tu, noite, teu repouso! Sede contr\u00e1rios, todos v\u00f3s, planetas de boa sorte, a meus procedimentos, se, com o amor de um leal cora\u00e7\u00e3o, imaculada devo\u00e7\u00e3o e subidos pensamentos, eu n\u00e3o amar tua real, formosa filha. Nela tem assento minha felicidade e a tua. Sem ela, haver\u00e1 para mim e para ti, para ela pr\u00f3pria, para a terra e para muita alma crist\u00e3, morte, desola\u00e7\u00e3o, ru\u00edna e decad\u00eancia. Isto s\u00f3 assim se pode evitar. Portanto, querida m\u00e3e \u2014 assim vos devo chamar \u2014, sede o advogado do meu amor por ela, falai do que eu serei, n\u00e3o do que eu hei sido; n\u00e3o naquilo que mere\u00e7o mas do que hei de merecer. Instai na necessidade e no estado dos tempos, e n\u00e3o vos mostreis contr\u00e1ria a grandes intentos.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Deverei ser tentada assim pelo dem\u00f4nio?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim, se o dem\u00f4nio vos tentar a fazer bem.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Deverei a mim pr\u00f3pria esquecer para ser eu pr\u00f3pria?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim, se a lembran\u00e7a de v\u00f3s pr\u00f3pria a v\u00f3s pr\u00f3pria ofender.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Por\u00e9m, tu mataste meus filhos.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Mas no ventre de vossa filha eu os enterro, e a\u00ed, nesse oloroso ninho, renascer\u00e3o de si pr\u00f3prios, para conforto vosso.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Deverei eu ir aparelhar minha filha para o teu desejo?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 E sede, por esse feito, m\u00e3e feliz.<\/p>\n<p>ISABEL \u2014 Eu vou. Escrevei-me muito em breve e sabereis de mim seu pensamento.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Levai-lhe o beijo de meu vero amor. Beija-a. E ent\u00e3o adeus. (Sai Isabel) Resignada louca, mulher mut\u00e1vel e vazia! (Entra Ratcliffe.) Ent\u00e3o, que novas?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Mui poderoso soberano, na costa ocidental navega poderosa armada. \u00c0s nossas praias se dirige um ajuntamento de muitos amigos duvidosos, vazios de cora\u00e7\u00e3o, desarmados, e pouco decididos a atac\u00e1-los. Pensam que Richmond \u00e9 o almirante. E ali flutuam, t\u00e3o-s\u00f3 esperando o aux\u00edlio de Buckingham para os acolher no desembarque.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Que um amigo lesto corra junto do Duque de Norfolk. Ratcliffe, tu, ou Catesby. Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Aqui, meu bom senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Catesby, voa junto do Duque.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Isso farei, meu senhor, com toda a pressa que conv\u00e9m.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ratcliffe, vem c\u00e1. Corre a Salisbury. Quando voltares&#8230; (Para Catesby) Imbecil, miser\u00e1vel vil\u00e3o! Porque est\u00e1s ainda aqui e n\u00e3o te partiste junto do Duque?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Primeiro, poderoso senhor, dizei-me de vossa vontade, o que da parte de Vossa Gra\u00e7a deverei contar ao Duque.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 \u00d3, \u00e9 verdade, bom Catesby! Diz-lhe que levante de imediato as maiores for\u00e7as e tropas que puder, e que v\u00e1 de cont\u00ednuo ao meu encontro em Salisbury.<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Eu vou. (Sai)<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Dizei-me, se vos apraz, que devo fazer em Salisbury?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Porqu\u00ea, que farias tu l\u00e1 antes que eu fosse?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Vossa Alteza me disse que eu devia correr antes.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Mudei meu intento. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Stanley, que novas trazeis?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Nenhuma, meu suserano, que vos possa agradar ouvir. Nenhuma tamb\u00e9m t\u00e3o m\u00e1 que a n\u00e3o deva bem contar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Eia, uma adivinha! Nem boa nem m\u00e1&#8230; \u00c9 mister correr tantas milhas em redor se h\u00e1 caminho mais direto para me dizeres teu conto? Uma vez mais, que novas?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Richmond est\u00e1 no mar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Que a\u00ed se afunde e que o mar o cubra! Renegado covarde! Que faz ele l\u00e1?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 N\u00e3o sei, poderoso soberano, apenas adivinho.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim e que adivinhas tu?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Movido por Dorset, Buckingham e Morton, vem a Inglaterra reclamar a coroa.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Est\u00e1 o trono vago? N\u00e3o est\u00e1 empunhada a espada? Est\u00e1 morto o Rei? O imp\u00e9rio sem governante? Que outro herdeiro de York \u00e9 vivo afora n\u00f3s? E quem \u00e9 Rei de Inglaterra sen\u00e3o o herdeiro do grande York? Dizei-me, ent\u00e3o, que faz ele por sobre os mares?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Mais do que isto, meu suserano, n\u00e3o posso adivinhar.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Mais do que ele vir para ser vosso suserano n\u00e3o podeis adivinhar que coisa faz vir o Gal\u00eas. Tu te revoltar\u00e1s e fugir\u00e1s junto dele, receio eu.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor, n\u00e3o desconfieis de mim.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Onde est\u00e1 ent\u00e3o tua for\u00e7a para o atacares? Onde s\u00e3o teus vassalos e os teus sequazes? N\u00e3o s\u00e3o eles agora na costa ocidental desembarcando a salvo os revoltosos dos navios?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor, meus amigos s\u00e3o a norte.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Frios amigos eles me s\u00e3o. Que fazem eles a norte, quando deviam servir seu soberano a ocidente?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Ordens tais n\u00e3o receberam, poderoso Rei, queira Vossa Majestade despedir-me. Ajuntarei meus amigos e encontrarei Vossa Gra\u00e7a onde e quando a Vossa Majestade aprouver.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Sim, sim, tu gostarias de ir, para te ajuntares a Richmond. Mas n\u00e3o confiarei em ti.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Mui poderoso soberano, raz\u00e3o n\u00e3o haveis de p\u00f4r em d\u00favida minha amizade. Falso nunca fui, nem nunca serei.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ide ent\u00e3o, e ajuntai homens&#8230; mas deixai para tr\u00e1s vosso filho George Stanley. Cuidai que seja firme vosso cora\u00e7\u00e3o, ou bem fraca ser\u00e1 a seguridade de sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Tratai com ele conforme as provas de lealdade que eu vos der. (Sai)<\/p>\n<p>(Entra um mensageiro.)<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Meu gracioso soberano, agora no condado de Devon \u2014 assim mo contaram amigos verdadeiros \u2014 o senhor Eduardo de Courtney e o altivo prelado, o Bispo de Exeter, seu irm\u00e3o mais velho, com muitos mais confederados, se puseram em armas.<\/p>\n<p>(Entra outro mensageiro.)<\/p>\n<p>SEGUNDO MENSAGEIRO \u2014 Em Kent, meu suserano, os Guildfords se puseram em armas, e a cada hora mais companheiros se juntam aos revoltosos, e o seu poder recresce.<\/p>\n<p>(Entra outro mensageiro.)<\/p>\n<p>TERCEIRO MENSAGEIRO \u2014 Meu senhor, o ex\u00e9rcito do grande Buckingham&#8230;<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Fora daqui, corujas! Nada mais que can\u00e7\u00f5es de morte? (Bate-lhe) Anda, torna, at\u00e9 que tragas novas melhores.<\/p>\n<p>TERCEIRO MENSAGEIRO \u2014 As novas que tenho para Vossa Majestade \u00e9 que, por repentinas cheias e muita chuva, o ex\u00e9rcito de Buckingham \u00e9 disperso e desfeito, e ele pr\u00f3prio erra sozinho ningu\u00e9m sabe por onde.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Suplico-te perd\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 a minha bolsa, para curar a tua ferida. Algum prudente amigo houve que tenha proclamado alguma recompensa \u00e0quele que trouxer o traidor?<\/p>\n<p>TERCEIRO MENSAGEIRO \u2014 Tal proclama\u00e7\u00e3o foi feita, meu senhor.<\/p>\n<p>(Entra outro mensageiro.)<\/p>\n<p>QUARTO MENSAGEIRO \u2014 O senhor Tom\u00e1s de Lovell e o senhor Marqu\u00eas de Dorset, diz-se, meu suserano, no condado de York se puseram em armas, mas este bom conforto trago eu a Vossa Alteza: a armada bret\u00e3 foi dispersada pela procela. Richmond, no condado de Dorset, enviou uma embarca\u00e7\u00e3o \u00e0 costa, para saber dos que estavam nas praias, se eram aliados seus, se sim se n\u00e3o. Ao que lhe responderam que vinham da parte de Buckingham para o sustentar. Ele, neles n\u00e3o confiando, deu velas e navegou de novo rumo \u00e0 Bretanha.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Marchemos, marchemos, pois que nos pusemos em armas, se n\u00e3o para lutar contra inimigos de fora, pelo menos para derrotar estes revoltosos c\u00e1 de dentro.<\/p>\n<p>(Entra Catesby.)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Meu suserano, o Duque de Buckingham est\u00e1 cativo. Esta nova \u00e9 a melhor. Que o Conde de Richmond desembarcou com poderosa for\u00e7a em Milford e mais fria nova, contudo dever\u00e1 ser dita.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Vamos para Salisbury! Enquanto aqui despendemos raz\u00f5es pode ser ganha ou perdida uma batalha real. Que algu\u00e9m ordene que tragam Buckingham a Salisbury; os outros marchem comigo.<\/p>\n<p>(Toque de trombetas. Saem)<\/p>\n<h3>Cena V<\/h3>\n<p>(Entram Stanley, Conde de Derby, e o senhor D. Crist\u00f3v\u00e3o de Urswich.)<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Senhor D. Crist\u00f3v\u00e3o diz de minha parte a Richmond que no antro do javali mais mort\u00edfero est\u00e1 retido meu filho George Stanley. Se me revolto, salta a cabe\u00e7a do jovem George. Tal receio me impede de ajuda prestar neste momento. Agora vai-te. Encomenda-me ao teu senhor. Diz entanto que a Rainha do cora\u00e7\u00e3o concedeu que ele desposasse sua filha Isabel. Mas diz-me, onde est\u00e1 ora o pr\u00edncipe Richmond?<\/p>\n<p>D. CRISTOV\u00c3O \u2014 Em Pembroke, ou em Harfodwest, no Pa\u00eds de Gales.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Que homens de nomeada a ele se juntaram?<\/p>\n<p>D. CRISTOV\u00c3O \u2014 O senhor D. Walter Herbert, um soldado famoso; o senhor D. Gilberto Talbot, o senhor D. Guilherme Stanley, Oxford, o terr\u00edvel Pembroke, o senhor D. Jaime Blunt, e D. Rice a Thomas, com muitos homens valentes, e muitos outros de grande nome e valor, e para Londres dirigem suas hostes se no caminho n\u00e3o lhes puserem embargo.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Bom, vai junto de teu senhor. Beija-lhe a m\u00e3o. Minha carta lhe dir\u00e1 do meu intento. Adeus.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>ATO V<br \/>\nCena I<\/h3>\n<p>(Entram o Xerife com alabardeiros e Buckingham a caminho do cadafalso.)<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 N\u00e3o permitir\u00e1 El-Rei Ricardo que eu fale com ele?<\/p>\n<p>XERIFE \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor, por isso pacientai.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Hastings e filhos de Eduardo, Grey e Rivers, Santo Rei Henrique, e teu formoso filho Eduardo, Vaughan, e todos aqueles que pereceram por fingida, corrompida e ign\u00f3bil injusti\u00e7a, se vossas almas soturnas e sem contentamento contemplam atrav\u00e9s das nuvens a presente hora, juntamente por vingan\u00e7a zombai de meu estrago. Hoje \u00e9 Dia de Finados, n\u00e3o \u00e9 assim, companheiro?<\/p>\n<p>XERIFE \u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>BUCKINGHAM \u2014 Pois ent\u00e3o \u00e9 o Dia de Finados o Dia do Ju\u00edzo de meu corpo. Foi este o dia que, em tempos de El-Rei Eduardo, desejei se abatera sobre mim se provas houvera de minha falsidade a seus filhos e aliados da Rainha. Foi este o dia em que tive desejo de cair por falsa f\u00e9 daquele em quem mais confian\u00e7a tinha. Este, este Dia de Finados, \u00e9 para minha temerosa alma o derradeiro prazo para a puni\u00e7\u00e3o de minhas culpas. Ele que tudo v\u00ea e com quem usei de fingimento desviou minha fingida prece por sobre minha cabe\u00e7a, e tomou por vero o que eu por brinco manifestava. Desta guisa ele for\u00e7a as espadas de ruins var\u00f5es a voltarem suas pontas contra os peitos de seus donos. Desta guisa grave cai sobre meus ombros a maldi\u00e7\u00e3o de Margarida. \u201cQuando ele\u201d, disse ela, \u201cquebrar de dor o teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, lembra-te de que Margarida era profeta!\u201d Vinde, levai-me, guardas, para junto do cepo da vergonha, o agravo tem apenas o agravo e a culpa a d\u00edvida da culpa. (Sai com os guardas)<\/p>\n<h3>Cena II<\/h3>\n<p>(Entram Richmond, Oxford, Blunt, Herbert e outros, com tambores e bandeiras)<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Companheiros de armas e meus amigos mui queridos, feridos sob o jugo da tirania, at\u00e9 aqui, aqui dentro das entranhas da terra, avan\u00e7amos sem embargo, e eis que de nosso pai Stanley recebemos laudas de bom agasalho e encorajamento. O javali usurpador, sanguinoso e miser\u00e1vel, que estrangulou vossas colheitas de ver\u00e3o e vossas vinhas frut\u00edferas, sorve vosso sangue quente como se lavadura fora, e usa como gamela vossas entranhas abertas. Esse porco imundo ora \u00e9 no centro mesmo desta ilha, cerca da cidade de Leicester, segundo soubemos. Tanworth n\u00e3o dista mais desse lugar que um dia de marcha. Em nome de Deus, alegremente avante, amigos valorosos, para que fa\u00e7amos ceifa de perp\u00e9tua paz por este ju\u00edzo sanguinoso de acendida guerra.<\/p>\n<p>OXFORD \u2014 A consci\u00eancia de cada homem vale mil homens no combate contra o culpado homicida.<\/p>\n<p>HERBERT \u2014 N\u00e3o duvido de que meus amigos se juntem a n\u00f3s.<\/p>\n<p>BLUNT \u2014 Ele n\u00e3o tem amigos afora aqueles que por temor amigos s\u00e3o, que dele fugir\u00e3o quando a ele mais necess\u00e1rios forem.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Tudo \u00e9 em nosso favor. Ent\u00e3o, em nome de Deus, marchemos. A vera esperan\u00e7a \u00e9 veloz e voa com asas de andorinha, muda em deuses reis, e em reis criaturas mais humildes.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena III<\/h3>\n<p>(Entra o Rei Ricardo armado, com Norfolk, Ratcliffe, e o Conde de Surrey, com outros.)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Assentai aqui nossa tenda, aqui mesmo no campo de Bosworth. (Levantam a tenda de Ricardo, num lado do palco) Meu senhor de Surrey, porque mostrais t\u00e3o triste semblante?<\/p>\n<p>SURREY \u2014 Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 ledo dez vezes mais que meu semblante.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Meu senhor de Norfolk.<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Aqui, mui gracioso suserano.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Norfolk, muitas estocadas haver\u00e1&#8230; h\u00e1, n\u00e3o haver\u00e1?<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Haver\u00e1 para dar e receber, meu estimado senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Levantai minha tenda! Esta noite aqui me deitarei. Mas onde, amanh\u00e3? Bem, \u00e9 tudo o mesmo. Quem descobriu o n\u00famero dos traidores?<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Seis ou sete mil, n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ora, as nossas hostes triplicam essa conta! E mais, o nome do Rei \u00e9 uma fortaleza de que carece a fac\u00e7\u00e3o adversa. Levantai a tenda! Vinde, nobres fidalgos, estudemos os benef\u00edcios do terreno. Chamai alguns homens de boa experi\u00eancia. Que n\u00e3o fale\u00e7a o rigor, que n\u00e3o haja tardan\u00e7a, que amanh\u00e3, senhores, \u00e9 dia operoso!<\/p>\n<p>(A tenda est\u00e1 agora pronta. Saem por uma porta)<\/p>\n<p>(Entram pela outra porta Richmond, o senhor D. Guilherme de Brandon, Oxford e Herbert Blunt e outros, que armam a tenda de Richmond no outro lado do palco.)<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 O lasso sol em ouro se deitou, e pelo luminoso rasto de seu carro de fogo faz promessa para amanh\u00e3 de um dia bom. Senhor D. Guilherme de Brandon, empunhareis meu estandarte. Meu senhor de Oxford, v\u00f3s, senhor D. Guilherme de Brandon, e v\u00f3s, senhor D. Walter Herbert, comigo permanecei. O Conde de Pembroke conserva seu regimento. Bom capit\u00e3o Blunt, levai-lhe da minha parte a boa noite. E pela segunda hora da manh\u00e3 pedi ao Conde que me procure na tenda. Uma coisa mais, por\u00e9m, bom capit\u00e3o, por mim fazei: onde assentou arraial o senhor de Stanley, sabeis?<\/p>\n<p>BLUNT \u2014 A menos que eu tenha confundido suas cores, o que hei por certeza n\u00e3o ter feito, seu regimento se assenta pelo menos a meia milha a sul do poderoso ex\u00e9rcito do Rei.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Se for poss\u00edvel sem perigo, am\u00e1vel Blunt, achai bons meios de com ele falar. E dai-lhe da minha parte este papel mui necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>BLUNT \u2014 Por vida minha, senhor meu, tal farei eu. E assim Deus vos conceda bom repouso nesta noite.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Boa noite, bom capit\u00e3o Blunt. (Sai Blunt) Dai-me tinta e papel em minha tenda. Tra\u00e7arei a forma e disposi\u00e7\u00e3o de nossa batalha. Darei a cada chefe o limite de seus variados cargos, e com justa medida repartirei nosso pequeno ex\u00e9rcito. Vinde, senhores, despenderemos raz\u00f5es sobre os sucessos de amanh\u00e3. Entremos em minha tenda, o orvalho \u00e9 frio e cru.<\/p>\n<p>(Richmond, Brandon, Oxford e Herbert v\u00e3o para dentro da tenda. Os outros saem)<\/p>\n<p>(Entram o Rei Ricardo, Ratcliffe, Norfolk, Catesby e guardas)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Que hora \u00e9?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 \u00c9 hora da ceia, meu senhor, nove horas.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 N\u00e3o cearei eu esta noite. Dai-me tinta e papel. Ent\u00e3o, \u00e9 meu elmo mais suave do que era, e toda minha armadura \u00e9 posta em minha tenda?<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Assim \u00e9, meu suserano, e todas as coisas prestes s\u00e3o.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Bom Norfolk, vai lesto tomar teu cargo. Faz guarda cuidadosa, escolhe ordenan\u00e7as seguras.<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Vou, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Levanta-te amanh\u00e3 com a cotovia, gentil Norfolk.<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Disso podeis estar certo, meu senhor. (Sai)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Catesby!<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Manda um passavante junto do regimento de Stanley. Ordena-lhe que traga suas hostes antes que nas\u00e7a o sol, ou seu filho George cair\u00e1 no abismo cego da eterna noite. (Sai Catesby) Enchei-me uma ta\u00e7a de vinho. Dai-me uma candeia. Aparelhai o branco Surrey para a batalha, amanh\u00e3. Vede se s\u00e3o firmes minhas lan\u00e7as, mas n\u00e3o pesadas demais.<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 H\u00e1s visto o melanc\u00f3lico senhor de Northumberland?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 D. Tom\u00e1s, o Conde de Surrey e ele pr\u00f3prio, \u00e0 hora em que se deitam as galinhas, de companhia em companhia andaram pelo ex\u00e9rcito, e davam \u00e2nimo aos soldados.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Bem, contente sou. Dai-me uma ta\u00e7a de vinho. N\u00e3o tenho eu aquela alacridade do esp\u00edrito nem o regozijo que eu em minha mente usava ter. P\u00f5e isso a\u00ed. Est\u00e1 pronto o papel e a tinta?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Est\u00e1, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 P\u00f5e minha guarda em vig\u00edlia. Deixa-me s\u00f3. Ratcliffe, pelo meio da noite vem \u00e0 minha tenda e ajuda-me a vestir a armadura. Deixa-me, te digo eu.<\/p>\n<p>(Sai Ratcliffe. Ricardo desaparece dentro da tenda, soldados em guarda vigiam-na. Entra Stanley, Conde de Derby, na tenda de Richmond)<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Que a Fortuna e a Vit\u00f3ria pousem sobre teu elmo!<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Que todo o agasalho que a noite escura pode conceder seja para tua pessoa, nobre padrasto. Diz-me, como se encontra nossa querida m\u00e3e?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Em seu nome, eu te aben\u00e7oo da parte de tua m\u00e3e, Que reza sem cessar pelo bem de Richmond. E quanto a isto terminei. As horas silenciosas seguem seu furtivo curso e a escurid\u00e3o em l\u00e2minas se quebra por dentro do Oriente. Sendo breve, pois a tanto nos obriga a ocasi\u00e3o, prepara tua batalha de manh\u00e3 mui cedo e dep\u00f5e tua fortuna no arb\u00edtrio das sangrentas estocadas e da guerra de mort\u00edfero olhar. Eu, como puder \u2014 o que faria n\u00e3o posso eu fazer \u2014 da melhor sorte enganarei o tempo e socorro te darei neste recontro de armas duvidoso. Mas n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel que eu tome com clareza tua parte por n\u00e3o teu irm\u00e3o, o jovem George, ser diante de seu pai executado. Adeus. A prontid\u00e3o e a hora temerosa impedem os usados votos do bem querer e o vasto com\u00e9rcio de pr\u00e1ticas amenas em que amigos h\u00e1 longo tempo separados se deviam tardar. Deus nos d\u00ea ocasi\u00e3o para estes ritos do bem querer. Uma vez mais adieu; s\u00ea valente e que a fortuna te acompanhe.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Bons senhores, conduzi-o a seu regimento. Tentarei, com turvados pensamentos, dormir um pouco para que amanh\u00e3 o pl\u00fambeo sono me n\u00e3o derrube quando montar devia com as asas da vit\u00f3ria. Uma vez mais, boa noite, am\u00e1veis senhores e fidalgos. (Saem Stanley com Brandon, Oxford e Herbert) (Ajoelha-se) \u00d3 Tu, de quem me tomo por capit\u00e3o, contempla minhas hostes com benigno olhar. Dep\u00f5e em suas m\u00e3os os contundentes ferros de tua ira porque eles possam esmagar, com grave queda, os elmos usurpadores de nossos advers\u00e1rios. Nos torna em Teus ministros do castigo, porque na vit\u00f3ria Te possamos louvar. A Ti encomenda minha alma vigilante antes que deixe cair as fenestras de meus olhos. Adormecido e acordado, \u00f3 sempre me defende! (Levanta-se, desaparece na tenda, deita-se e dorme)<\/p>\n<p>(Entra o fantasma do jovem Pr\u00edncipe Eduardo, filho de Henrique VI.)<\/p>\n<p>FANTASMA DO PR\u00cdNCIPE EDUARDO (ao Rei Ricardo) \u2014 Sentir\u00e1s o meu peso amanh\u00e3 em tua alma. Lembra-te como me apunhalaste na Primavera da minha juventude em Tewkesbury. Por isso desespera e morre. (Para Richmond) Alegra-te, Richmond, que as maltratadas almas de pr\u00edncipes assassinados lutam em teu favor. O filho do Rei Henrique, Richmond, te conforta.<\/p>\n<p>(Sai. Entra o fantasma de Henrique VI)<\/p>\n<p>FANTASMA DE HENRIQUE VI (ao Rei Ricardo) \u2014 Quando eu era mortal, meu corpo ungido por ti crivado foi de chagas mortais. Pensa na Torre e em mim. Desespera e morre. Henrique VI ordena que desesperes e morras! (Para Richmond) Virtuoso e santo, s\u00ea tu o vencedor. Henrique, que profetizou que Rei serias, em teu sono te conforta. Vive e floresce.<\/p>\n<p>(Sai. Entra o fantasma de Clarence.)<\/p>\n<p>FANTASMA DE CLARENCE (ao Rei Ricardo) \u2014 Que sintas amanh\u00e3 meu peso em tua alma, eu, que fui morto em banho de imundo vinho, eu, pobre Clarence, por ti tra\u00eddo at\u00e9 \u00e0 morte. Amanh\u00e3, na batalha, pensa em mim, e que caia sem gume tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, fruto da Casa de Lancastre, os maltratados herdeiros de York oram por ti. Guardem os anjos bons tua batalha. Vive e floresce.<\/p>\n<p>(Sai. Entram os fantasmas de Rivers, Grey e Vaughan)<\/p>\n<p>FANTASMA DE RIVERS (ao Rei Ricardo) \u2014 Que sintas amanh\u00e3 meu peso em tua alma, sou Rivers que morreu em Pomfret. Desespera e morre.<\/p>\n<p>FANTASMA DE GREY (ao Rei Ricardo) \u2014 Pensa em Grey e que tua alma desespere.<\/p>\n<p>FANTASMA DE VAUGHAM (ao Rei Ricardo) \u2014 Pensa em Vaughan, e com culpado temor deixa cair tua lan\u00e7a. Desespera e morre.<\/p>\n<p>TODOS (para Richmond) \u2014 Acorda e pensa que nossas ofensas no peito de Ricardo o vencer\u00e3o. Acorda e ganha o dia.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p>(Entra o fantasma de Hastings.)<\/p>\n<p>FANTASMA DE HASTINGS (ao Rei Ricardo) \u2014 Sanguinolento e culpado, em culpa acorda e em batalha sanguinolenta finda teus dias. Pensa na senhora de Hastings. Desespera e morre. (Para Richmond) Alma pura, calma, acorda, acorda. Arma-te, peleja e vence por amor da formosa Inglaterra.<\/p>\n<p>(Sai. Entram os fantasmas dos dois jovens pr\u00edncipes.)<\/p>\n<p>FANTASMAS (ao Rei Ricardo) \u2014 Pensa em teus primos sufocados na Torre. Chumbo sejamos dentro em teu peito, Ricardo, e com nosso peso te arremessemos para a ru\u00edna, inf\u00e2mia e morte. As almas de teus sobrinhos ordenam que desesperes e morras. (Para Richmond) Dorme, Richmond, dorme em paz, e com alegria acorda. Guardem-te os anjos bons dos ataques do javali. Vive e gera feliz linhagem de reis. Os infelizes filhos de Eduardo ordenam que flores\u00e7as.<\/p>\n<p>(Saem. Entra o fantasma da senhora Dona Ana, sua esposa)<\/p>\n<p>FANTASMA DE ANA (ao Rei Ricardo) \u2014 Ricardo, tua mulher, essa m\u00edsera Ana, tua mulher, que n\u00e3o dormiu contigo uma s\u00f3 hora feliz, enche agora teu sono de turva\u00e7\u00f5es. Amanh\u00e3 na batalha pensa em mim, e caia, sem gume, tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, alma tranq\u00fcila, dorme teu sono tranq\u00fcilo. Sonha bom sucesso e uma vit\u00f3ria feliz. A mulher de teu advers\u00e1rio ora por ti.<\/p>\n<p>(Sai. Entra o fantasma de Buckingham)<\/p>\n<p>FANTASMA DE BUCKINGHAM (ao Rei Ricardo) \u2014 Fui aquele que primeiro te ajudou a chegar \u00e0 coroa, o \u00faltimo que sentiu a tua tirania. Oh, na batalha pensa em Buckingham, e morre no terror das tuas culpas. Sonha, sonha sanguinolentos feitos e morte. Em perdendo for\u00e7as desespera, em desesperando, exala teu derradeiro sopro. (Para Richmond) Morri na esperan\u00e7a e antes que te pudesse ajudar, mas que teu cora\u00e7\u00e3o se alegre, e n\u00e3o esmore\u00e7as. Deus e os anjos bons pelejam ao lado de Richmond. E Ricardo cai do cume de todo seu orgulho. (Sai)<\/p>\n<p>(Ricardo acorda sobressaltado)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas! Tende piedade, Jesus! Chiu, t\u00e3o-s\u00f3 sonhava. \u00d3 covarde consci\u00eancia, como me atormentas! As luzes ardem azuis, \u00e9 a meia noite dos mortos. Gotas frias de terror s\u00e3o no meu corpo tremente. De que me receio? De mim pr\u00f3prio? N\u00e3o \u00e9 mais ningu\u00e9m aqui. Ricardo ama Ricardo, ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? N\u00e3o! Sim, sou eu! Ent\u00e3o fuge. Qu\u00ea, de mim pr\u00f3prio? Boa raz\u00e3o h\u00e1, n\u00e3o me v\u00e1 eu vingar! Qu\u00ea, eu pr\u00f3prio contra mim pr\u00f3prio? Coitado de mim, eu amo-me a mim pr\u00f3prio. Porqu\u00ea? Pelos bens que eu pr\u00f3prio a mim pr\u00f3prio ofereci? Oh, n\u00e3o, pobre coitado, antes a mim pr\u00f3prio tenho \u00f3dio por feitos odiosos que eu pr\u00f3prio cometi. Sou ruim vil\u00e3o&#8230; mas minto, eu o n\u00e3o sou! Sandeu, diz bem de ti pr\u00f3prio! Sandeu, n\u00e3o uses de lisonja! Minha consci\u00eancia tem milhares de l\u00ednguas diferentes e cada l\u00edngua me diz um conto diferente, e cada conto me condena como ruim vil\u00e3o: perj\u00fario, perj\u00fario, no mais subido grau; assass\u00ednio, assass\u00ednio horrendo, no mais horr\u00edfico grau. Todos os pecados diferentes, todos cometidos em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando: \u201cCulpado, culpado!\u201d Em desespero cairei. N\u00e3o h\u00e1 criatura que me ame, e se eu morrer, ningu\u00e9m me lamentar\u00e1&#8230; E porque o fariam, se eu pr\u00f3prio em mim pr\u00f3prio por mim pr\u00f3prio n\u00e3o encontro d\u00f3? Cuido que as almas de todos os que assassinei vieram a minha tenda, e cada qual me amea\u00e7ou que amanh\u00e3 a vingan\u00e7a tombaria sobre a cabe\u00e7a de Ricardo.<\/p>\n<p>(Entra Ratcliffe.)<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Pelo demo! Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Ratcliffe, senhor, sou eu. O galo da alva na aldeia por duas vezes saudou a alvorada. Vossos amigos erguidos s\u00e3o e cingem suas armaduras.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 \u00d3 Ratcliffe, sonhei um sonho horrendo! Que cuidas: provar\u00e3o nossos amigos todos ser leais?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 N\u00e3o duvido, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 \u00d3 Ratcliffe, hei gr\u00e3 temor, hei gr\u00e3 temor!<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor, n\u00e3o vos arreceeis de sombras.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Por S\u00e3o Paulo Ap\u00f3stolo, esta noite sombras h\u00e3o lan\u00e7ado mais terror na alma de Ricardo do que a subst\u00e2ncia de dez mil soldados mui bem armados e conduzidos pelo inexperto Richmond. Ainda \u00e9 longe o dia. Anda, vem comigo. Entre nossas tendas em sigilo escutarei, para que veja se algu\u00e9m intenta apartar-se de mim.<\/p>\n<p>(Saem Ricardo e Ratcliffe)<\/p>\n<p>(Entram os fidalgos na tenda de Richmond, que est\u00e1 sentado.)<\/p>\n<p>FIDALGOS \u2014 Bom dia, Richmond.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Pe\u00e7o clem\u00eancia, senhores e fidalgos em vig\u00edlia, por aqui encontrardes lento madra\u00e7o.<\/p>\n<p>PRIMEIRO FIDALGO \u2014 Como haveis dormido, senhor?<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 O mais doce sono e os sonhos mais esperan\u00e7osos que alguma vez entraram em dormida mente, eu os tive, meus senhores, desde que v\u00f3s haveis partido. Cuido que as almas daqueles corpos que Ricardo assassinou vieram a minha tenda e bradaram por vit\u00f3ria. Eu vos dou por certo que minha alma se deleita na lembran\u00e7a de sonho t\u00e3o formoso. \u00c9 mui avan\u00e7ada a manh\u00e3, senhores?<\/p>\n<p>PRIMEIRO FIDALGO \u2014 Soam as quatro.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 \u00c9 tempo ent\u00e3o que nos armemos e que demos nossas ordens. (Sai da tenda) (A sua ora\u00e7\u00e3o aos soldados) Mais do que hei j\u00e1 dito, amados homens de minha terra, a prontid\u00e3o e a necessidade do momento n\u00e3o permitem demorar-nos. Por\u00e9m, lembrai-vos disto: Deus, e nossa justa causa, lutam a nosso lado; as preces de sagrados santos e de almas ofendidas, semelhantes a mui altos baluartes, s\u00e3o diante nossos rostos. Afora Ricardo, aqueles contra quem lutamos antes queriam ver-nos vencedores do que aquele que eles seguem. Pois quem \u00e9 aquele que seguem? Em verdade, senhores, um sanguinoso tirano e um homicida; um que se ergueu com sangue, e em sangue se firmou; um que n\u00e3o olhou a meios para alcan\u00e7ar o que tem, e assassinou aqueles que foram meios para o ajudar. Uma pedra imunda e vil, tornada preciosa polo encaste do trono de Inglaterra, onde est\u00e1 com falsidade assente; um que sempre h\u00e1 sido inimigo de Deus. E assim, se pelejardes contra o inimigo de Deus, Deus, por justi\u00e7a, vos tomar\u00e1 por Seus soldados; se suardes para derrubar um tirano, dormireis em paz, sendo o tirano morto; se lutardes contra os inimigos de vossa terra, a riqueza de vossa terra vos pagar\u00e1 a renda de vossas dores; se lutardes pela seguridade de vossas mulheres, vossas mulheres recolher\u00e3o em casa os vencedores; se libertardes vossos filhos da espada, os filhos de vossos filhos vos agasalhar\u00e3o na velhice. E assim, em nome de Deus e de todos estes direitos, erguei vossos estandartes, com coragem brandi vossas espadas! Para mim, a expia\u00e7\u00e3o de minha ousada empresa talvez seja jazer este corpo frio na face fria da terra. Mas se vencer, o ganho de minha empresa repartido ser\u00e1 por cada um de v\u00f3s. Soai, tambores e trombetas, com coragem e alegria. Deus e S\u00e3o Jorge! Richmond e vit\u00f3ria!<\/p>\n<p>(Saem Richmond e os seguidores)<\/p>\n<p>(Entram R. Ricardo, Ratcliffe e soldados.)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Que disse Northumberland, no que respeita a Richmond?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Que nunca foi em armas ensinado.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Disse a verdade. E que disse Surrey?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Sorriu, e disse: \u201cMelhor para n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Raz\u00e3o tinha, e assim decerto \u00e9. O rel\u00f3gio d\u00e1 horas. Dizei a hora. Dai-me um almanaque. Quem viu hoje o Sol?<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Eu n\u00e3o, meu senhor.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Ent\u00e3o ele desdenha brilhar, porque, conforme o livro, h\u00e1 uma hora j\u00e1 que ele devia ter aparecido a oriente. Dia negro ser\u00e1 este para algu\u00e9m. Ratcliffe!<\/p>\n<p>RATCLIFFE \u2014 Meu senhor?<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Hoje o Sol n\u00e3o ser\u00e1 visto! O c\u00e9u se turva e chora sobre nosso ex\u00e9rcito. Gostaria eu que estas l\u00e1grimas como orvalho subissem do ch\u00e3o. Hoje n\u00e3o brilhar? Ora, que \u00e9 isso para mim mais que para Richmond? Porque o mesmo c\u00e9u que sobre mim se turva a ele olha com tristeza.<\/p>\n<p>(Entra Norfolk.)<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Armai-vos, armai-vos, meu senhor, o inimigo arrogante avan\u00e7a para o campo<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Vamos, prestes, prestes! Ajaezai meu cavalo. (Ricardo arma-se) Chamai o senhor de Stanley. Mandai-o trazer suas hostes. Conduzirei de contino meus soldados \u00e0 plan\u00edcie, e ser\u00e1 ordenada assim minha batalha: a minha vanguarda toda se estender\u00e1 em comprimento e ser\u00e1 formada de cavalos e pe\u00f5es; nossos arqueiros permanecer\u00e3o no centro. D. Jo\u00e3o, Duque de Norfolk, D. Tom\u00e1s, Conde de Surrey, comandar\u00e3o esses pe\u00f5es e cavalos. Avan\u00e7ando eles, seguiremos n\u00f3s no corpo da batalha, cuja puissance em cada lado ser\u00e1 escudada por nossos melhores cavalos. Assim, e S\u00e3o Jorge ajudando! Que pensas, Norfolk?<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Boas ordens, soberano guerreiro. (Mostra-lhe um papel). Encontrei isto na minha tenda esta manh\u00e3.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) (Lendo) \u2014 \u201cPalafreneiro de Norfolk, n\u00e3o sejas t\u00e3o destemido, porque Ricardelho, teu amo, foi comprado e vendido.\u201d Cousa que o inimigo engendrou. Ide, senhores, cada homem a seu posto. Que nossos sonhos sandeus n\u00e3o amedrontem nossas almas. Consci\u00eancia \u00e9 t\u00e3o-s\u00f3 uma palavra que os covardes usam, primeiro engendrada para causar temor aos fortes. Que nossos fortes bra\u00e7os sejam nossa consci\u00eancia, as espadas nossa lei. Marchemos! Juntemos-nos com valentia. Lancemo-nos na confus\u00e3o&#8230; Se n\u00e3o para o c\u00e9u, ent\u00e3o de m\u00e3os dadas para o inferno. (A sua ora\u00e7\u00e3o ao ex\u00e9rcito) Que direi eu, mais do que j\u00e1 sugeri? Lembrai-vos quem s\u00e3o vossos advers\u00e1rios: uma horda de vagabundos, plebeus e fugitivos um bando de bret\u00f5es e vis lacaios camponeses, que sua terra golfa em congest\u00e3o e lan\u00e7a em desesperadas aventuras e segura destrui\u00e7\u00e3o. A v\u00f3s, que dormis em seguridade, eles trazem desassossego; a v\u00f3s, que possuis terras e aben\u00e7oados sois com esposas formosas, eles tornariam as primeiras e as outras desonrariam. E quem os comanda sen\u00e3o um homem vil que h\u00e1 muito vive na Bretanha a custos de nosso irm\u00e3o? Um fraldiqueiro! Um homem que jamais em sua vida sentiu o frio da neve atravessar seus sapatos. Vamos escorra\u00e7ar estes vagabundos de novo para o outro lado do mar, repelir daqui estes arrogantes miser\u00e1veis de Fran\u00e7a, estes pedintes famintos, lassos de suas vidas&#8230; Que, se n\u00e3o fora o sonho deste belo cometimento, por falta de meios, pobres ratos, se teriam enforcado. Se houvermos de ser vencidos, que sejam homens a vencer-nos! E n\u00e3o estes bastardos bret\u00f5es, que nossos pais bateram em suas pr\u00f3prias terras, saquearam e espezinharam, e na hist\u00f3ria foram feitos herdeiros da sua ignom\u00ednia. Gozar\u00e3o de nossas terras? Dormir\u00e3o com nossas mulheres? Violar\u00e3o nossas filhas? (Soam tambores ao longe) Atentai, ou\u00e7o seu tambor. Lutai, senhores de Inglaterra! Lutai, valorosos pe\u00f5es! Puxai, arqueiros, puxei vossas setas \u00e0s cabe\u00e7as! Esporeai forte vossos bravos cavalos e cavalgai em sangue! Assombrai o c\u00e9u com vossas lan\u00e7as quebradas! (Entra um mensageiro) Que diz o senhor de Stanley? Trar\u00e1 suas hostes?<\/p>\n<p>MENSAGEIRO \u2014 Meu senhor, ele nega-se a vir.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Fora com a cabe\u00e7a de seu filho George!<\/p>\n<p>NORFOLK \u2014 Meu senhor, o inimigo passou o p\u00e2ntano! Depois da batalha mandai matar George Stanley.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Mil cora\u00e7\u00f5es batem vivos em meu peito. Avan\u00e7ai, estandartes nossos! Lan\u00e7ai-vos sobre o inimigo! Que nosso velho brado de coragem, \u201cpor S\u00e3o Jorge\u201d, nos inspire com o alento de drag\u00f5es de fogo! A eles! A vit\u00f3ria se assenta em nossos elmos.<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena IV<\/h3>\n<p>(Alarmes. Escaramu\u00e7as. Entram Norfolk e soldados; depois por outra porta Catesby.)<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Socorro! Meu senhor de Norfolk, socorro, socorro! O Rei faz mais prod\u00edgios que um homem, ousando opor-se a todos os perigos. Seu cavalo \u00e9 morto, e a p\u00e9 combate, procurando Richmond na garganta da morte. Socorro, meu senhor, ou est\u00e1 perdido o dia!<\/p>\n<p>(Saem Norfolk e os soldados)<\/p>\n<p>(Alarmes. Entra o Rei Ricardo)<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!<\/p>\n<p>CATESBY \u2014 Fugi, meu senhor, eu vos levarei um cavalo.<\/p>\n<p>RICARDO III (Rei) \u2014 Escravo! Joguei aos dados minha vida, e suportarei o acaso do jogo. Cuido haver seis Richmonds no campo de batalha, cinco matei eu hoje em seu lugar. Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<h3>Cena V<\/h3>\n<p>(Alarmes. Entram Rei Ricardo e Richmond; lutam. Ricardo \u00e9 morto, soa ent\u00e3o \u00e0 retirada. Sai Richmond. Levam o corpo de Ricardo. Trombetas. Entram Richmond, Stanley, Conde de Derby com a coroa, e outros nobres e soldados.)<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Deus e vossas armas sejam louvados, amigos vitoriosos. \u00c9 nosso o dia. \u00c9 morto o sanguinoso c\u00e3o.<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 Valente Richmond, teu dever cumpriste bem! (Apresentando a coroa) Vede, aqui, esta realeza h\u00e1 longo tempo usurpada, da fronte morta deste sanguinoso miser\u00e1vel a arranquei para com ela ornar tua testa. Usa-a, goza-a e enobrece-a.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Grande Deus dos c\u00e9us, a todos eu digo amem! Mas dizei-me, ainda \u00e9 vivo o jovem Stanley?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 \u00c9, meu senhor, e em seguridade na cidade de Leicester, Para onde, se vos apraz, nos podemos agora partir.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Que homens ilustres morreram em ambos os lados?<\/p>\n<p>STANLEY \u2014 D. Jo\u00e3o, Duque de Norfolk, D. Walter, senhor de Fertrers, o senhor D. Roberto de Brakenbury e o senhor D. Guilherme de Brandon.<\/p>\n<p>RICHMOND \u2014 Sepultai seus corpos como conv\u00e9m a seus nascimentos. Proclamai um perd\u00e3o aos soldados que fugiram e que submissos a n\u00f3s tornarem, e ent\u00e3o, como solenemente houvemos jurado, uniremos a rosa branca e a vermelha. Sorride, c\u00e9us, a esta ditosa alian\u00e7a j\u00e1 que t\u00e3o longo tempo haveis ensombrecido a sua inimizade. Que traidor me escuta e n\u00e3o diz amem? A Inglaterra muito h\u00e1 que \u00e9 sandia e se tem a si pr\u00f3pria maltratado: o irm\u00e3o cegamente sangue de irm\u00e3o derramou; o pai desrazoadamente seu pr\u00f3prio filho matou; o filho, mau grado seu, de seu pai foi carniceiro. Tudo isto dividiu York e Lancastre, dividiu, em medonha divis\u00e3o. Oh, que estora Richmond e Isabel, veros sucessores de cada casa real, pela justa ordem de Deus se unam e que seus herdeiros, \u00f3 Deus, se assim te apraz, enrique\u00e7am o tempo por vir com a paz de macio rosto, com ridente abund\u00e2ncia e belos, pr\u00f3speros dias. Torna rombas as espadas dos traidores, gracioso Senhor, que quiserem fazer reviver estes dias sangrentos e fazer chorar a pobre Inglaterra em torrentes de sangue. N\u00e3o permitais que vivam para gozar a prosperidade desta terra os que com trai\u00e7\u00e3o quiserem ferir a paz desta formosa terra. Agora as guerras internas est\u00e3o cerradas; a paz vive de novo. Que ela aqui possa viver por longo tempo, \u00f3 Deus, diz Amem!<\/p>\n<p>(Saem)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.ebooksbrasil.org<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS RICARDO, Duque de Gloucester, (mais tarde Rei Ricardo III). DUQUE DE CLARENCE, seu irm\u00e3o, (mais tarde o seu fantasma). SENHOR ROBERTO DE BRAKENBURY, Tenente da Torre. SENHOR DE HASTINGS, o Camareiro-Mor, (mais tarde o seu fantasma). DONA ANA, vi\u00fava de Eduardo, Pr\u00edncipe de Gales, (mais tarde o seu fantasma). 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