{"id":120282,"date":"2017-04-24T13:08:57","date_gmt":"2017-04-24T15:08:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120282"},"modified":"2017-04-24T13:08:57","modified_gmt":"2017-04-24T15:08:57","slug":"tudo-bem-quando-termina-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tudo-bem-quando-termina-bem","title":{"rendered":"Tudo Bem Quando Termina Bem"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>O REI DA FRAN\u00c7A<\/b><br \/>\n<b>O DUQUE DE FLOREN\u00c7A<\/b><br \/>\n<b>BERTRAM<\/b>, Conde de Rossilh\u00e3o<br \/>\n<b>LAFEU<\/b>, um velho nobre<br \/>\n<b>PAROLLES<\/b>, companheiro de Bertram<br \/>\nO Intendente da Condessa de Rossilh\u00e3o<br \/>\n<b>LAVACHE<\/b>, bobo da casa da condessa<br \/>\nUm pajem.<br \/>\n<b>A CONDESSA DE ROSSILH\u00c3O<\/b>, m\u00e3e de Bertram.<br \/>\n<b>HELENA<\/b>, jovem nobre, protegida pela condessa.<br \/>\nUma velha vi\u00fava de Floren\u00e7a.<br \/>\n<b>DIANA<\/b>, filha da vi\u00fava.<br \/>\n<b>VIOLENTA<\/b>, vizinha da vi\u00fava e sua amiga.<br \/>\n<b>MARIANA<\/b>, vizinha da vi\u00fava e sua amiga.<br \/>\nNobres, oficiais, soldados, etc., franceses e florentinos.<\/p>\n<p><a name=\"bem11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram Bertram, a Condessa de Rossilh\u00e3o, Helena e Lafeu, todos de luto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Consentindo que meu filho se afaste de mim, enterro um segundo marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 E eu, senhora, partindo, renovo o pranto pela morte de meu pai; mas preciso acatar a ordem de Sua Majestade, de quem ainda sou pupilo, como sou e serei sempre vassalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 O rei, minha senhora, vai ser para v\u00f3s como segundo marido, e para v\u00f3s, senhor, como segundo pai. Quem sempre e em tudo se mostrou bondoso, n\u00e3o h\u00e1 de desmentir-se agora em rela\u00e7\u00e3o a v\u00f3s, cujo merecimento \u00e9 mais pr\u00f3prio para despertar a bondade onde quer que haja falta dela, do que vir a padecer-lhe a falta onde ela viceja com tanta exuber\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que esperan\u00e7as h\u00e1 quanto ao restabelecimento de Sua Majestade?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 J\u00e1 abandonou os m\u00e9dicos, minha senhora, sob cujos cuidados ele malgastava o tempo com esperan\u00e7as, tendo lucrado com essa resolu\u00e7\u00e3o por perder definitivamente a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Esta menina teve pai Oh! que tristes recorda\u00e7\u00f5es se encerram neste \u201cteve\u201d! \u2014 cujo talento era quase t\u00e3o grande quanto a honestidade. A se terem igualado, teria deixado imortal a natureza, ficando a morte em f\u00e9rias, por falta de trabalho. Em benef\u00edcio do rei, fora de desejar que ele ainda estivesse vivo. Penso que seria a morte da doen\u00e7a do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Como se chamava o m\u00e9dico a que vos referis, minha senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Foi muito c\u00e9lebre em sua profiss\u00e3o, senhor, e com toda justi\u00e7a; chamava-se Gerard de Narbon.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Com efeito, minha senhora; foi um excelente m\u00e9dico. N\u00e3o faz muito tempo o rei me falou dele com admira\u00e7\u00e3o e pesar. Seus conhecimentos lhe assegurariam vida longa, se a ci\u00eancia pudesse levar vantagem com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 De que sofre o rei, meu caro senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 De uma f\u00edstula, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ainda n\u00e3o tinha ouvido falar nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Desejara que o fato n\u00e3o fosse not\u00f3rio. Esta senhorita \u00e9 filha de Gerard de Narbon?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Filha \u00fanica, milorde, que ficou confiada aos meus cuidados. Tenho esperan\u00e7as de que a sua bondade confirme o que promete a educa\u00e7\u00e3o. Herdou uma disposi\u00e7\u00e3o que torna mais belos os talentos; pois sempre que um esp\u00edrito grosseiro vai de par com boas qualidades, o elogio arrasta \u00e0 comisera\u00e7\u00e3o: s\u00e3o, a um tempo, virtudes e traidores. Nela, por\u00e9m, essas qualidades se distinguem tanto mais por causa da simplicidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria: a honestidade \u00e9 herdada; a bondade, adquirida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vosso elogio, senhora, arrancou-lhe l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 N\u00e3o h\u00e1 melhor sal para uma jovem temperar o elogio de si pr\u00f3pria. Nunca se lhe aproxima do cora\u00e7\u00e3o a lembran\u00e7a do pai, sem que a tirania da tristeza lhe fa\u00e7a desaparecer das faces a apar\u00eancia da vida. Basta, Helena, basta para que n\u00e3o pare\u00e7a que demonstras uma tristeza que n\u00e3o sentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 A tristeza que eu demonstro \u00e9 realmente sentida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Os mortos t\u00eam direito a lamenta\u00e7\u00f5es moderadas; a tristeza excessiva \u00e9 inimiga da vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se a vida e a tristeza s\u00e3o inimigas, o excesso de tristeza acaba sendo fatal para si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Querida m\u00e3e, imploro vossas santas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU (<i>a Helena<\/i>) \u2014 Como compreendermos isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Eu te aben\u00e7\u00f4o, Bertram. Desejo que herdes de teu pai o exterior e as qualidades. Que o sangue te regule, em compet\u00eancia sempre com a virtude, e que a bondade do ber\u00e7o se te iguale. A todos ama, confia-te de poucos, n\u00e3o ofendas ningu\u00e9m; temer te fa\u00e7as dos inimigos mais pela tua for\u00e7a do que mesmo pelo uso que fazer dela pudesses; guarda o amigo no peito a sete chaves; antes ser censurado por calado do que por falador. Que as b\u00ean\u00e7\u00e3os todas que o c\u00e9u te queira dar e as que te possam advir de meus pedidos, em ti caiam. Passa bem. Ele ainda n\u00e3o se encontra, caro senhor, maduro para a corte. Aconselhai-o para o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 N\u00e3o h\u00e1 de lhe faltar nunca o que puder obter-lhe minha dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os do c\u00e9u caiam sobre ele. Adeus, Bertram. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM (<i>a Helena<\/i>) \u2014 Que fiquem \u00e0 vossa disposi\u00e7\u00e3o todos os bons desejos que amadurecerem em vosso entendimento. Sede o consolo de minha m\u00e3e, vossa senhora, e tende-a sempre em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Adeus, gentil senhorita; \u00e9 preciso sustentardes a reputa\u00e7\u00e3o de vosso pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Bertram e Lafeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Oh, se tudo fosse isso! Mas n\u00e3o penso quase em meu pai. Aquelas grandes l\u00e1grimas lhe honram mais a mem\u00f3ria do que quantas por ele eu derramasse. Como era ele? Esqueci-me de todo; n\u00e3o conservo na retentiva tra\u00e7os fision\u00f4micos al\u00e9m dos de Bertram. Estou perdida. Vida n\u00e3o h\u00e1 onde Bertram n\u00e3o se ache. Mas \u00e9 o mesmo que amar um fulgente astro e querer despos\u00e1-lo. Est\u00e1 t\u00e3o alto! Posso alegrar-me em sua luz radiosa e dela receber algum reflexo, mas n\u00e3o mover-me nunca em sua esfera. Minha ambi\u00e7\u00e3o, desta arte, se castiga. Deve morrer de amor a cor\u00e7a t\u00edmida que aspirava a um le\u00e3o para consorte. Admir\u00e1vel, a um tempo, e doloroso era v\u00ea-lo a toda hora, desenhar-lhe na tela do meu peito os lindos cachos, o arco dos superc\u00edlios o olhar de \u00e1guia, neste peito t\u00e3o \u00e1vido das linhas do menor tra\u00e7o de seu doce rosto. Mas partiu, s\u00f3 restando \u00e0 minha id\u00f3latra paix\u00e3o simples rel\u00edquias. Quem vem vindo? Um de seus companheiros de viagem. Estimo-o s\u00f3 por isso, embora o tenha na conta de um not\u00f3rio mentiroso, poltr\u00e3o de marca, um tolo irremedi\u00e1vel; mas resguardam-no muito esses defeitos e lhe v\u00e3o bem, ao passo que a virtude de ossos de a\u00e7o tirita ao vento frio. N\u00e3o poucas vezes vemos a indigente sabedoria depender em tudo da tolice suntuosa e exuberante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Deus vos guarde, bela rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E a v\u00f3s tamb\u00e9m, monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Monarca, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Nem rainha, tampouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Est\u00e1veis a meditar sobre a virgindade?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Justamente. E j\u00e1 que tendes algo de soldado, permiti que vos fa\u00e7a uma pergunta. O homem \u00e9 inimigo da virgindade: de que modo nos defendermos dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Repelindo-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Mas ele redobra de esfor\u00e7os; e conquanto valente, a virgindade \u00e9 fraca. Ensinai-nos algum processo guerreiro de defesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 \u00c9 tudo in\u00fatil, que o homem assenta diante de v\u00f3s o acampamento, dispara suas minas e vos far\u00e1 ir pelos ares.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 O c\u00e9u nos preserve a virgindade contra mineiros e explos\u00f5es. N\u00e3o haver\u00e1 artif\u00edcio militar que permita \u00e0 virgindade jogar os homens pelos ares?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Quanto mais depressa cair a virgindade, com tanto maior rapidez ir\u00e1 o homem pelos ares. Mas quando recair na brecha que v\u00f3s mesmos fizestes, j\u00e1 tereis perdida a cidade. N\u00e3o h\u00e1 medida pol\u00edtica na rep\u00fablica da natureza capaz de preservar a virgindade. Sua perda \u00e9 de utilidade para a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 virgem que n\u00e3o houvesse nascido de uma virgindade perdida. \u00c9 do metal de que fostes feita que procedem todas as virgens; perdida uma vez a virgindade, poder\u00e1 ser encontrada dez vezes; mas se ficar muito guardada, estar\u00e1 para sempre perdida. N\u00e3o h\u00e1 companhia mais fria do que ela. Fora, pois, com a virgindade!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Pretendo conserv\u00e1-la por algum tempo, ainda que venha a morrer virgem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 A esse respeito n\u00e3o h\u00e1 muito o que dizer; vai contra a lei da natureza. Tomar o partido da virgindade \u00e9 acusar a pr\u00f3pria m\u00e3e, o que constitui flagrante desobedi\u00eancia. A virgem \u00e9 igual ao indiv\u00edduo que se enforca; a virgindade se suicida, e deveria ser enterrada nas estradas, longe dos lugares santificados, tal como se faz com os desesperados, que procedem contra a natureza. A virgindade procria gusanos, como o queijo, gasta-se at\u00e9 \u00e0 casca e morre devorando o pr\u00f3prio est\u00f4mago. Al\u00e9m do mais, \u00e9 rabugenta, ociosa, altiva e composta exclusivamente de ego\u00edsmo, que \u00e9 o pecado mais condenado nos mandamentos. N\u00e3o a conserveis, que s\u00f3 tereis a perder. Fora com ela! Dentro de um ano ter\u00e1 duplicado, o que j\u00e1 \u00e9 um juro apreci\u00e1vel, sem que fique ressentido o capital. Fora com ela!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Como fazer, senhor, para perd\u00ea-la de acordo com o pr\u00f3prio gosto?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Deixai-me refletir&#8230; N\u00e3o h\u00e1 jeito, sen\u00e3o sofrer para ser agrad\u00e1vel a quem se desagrada dela. \u00c9 mercadoria que perde o brilho quando fica muito tempo guardada. Desembara\u00e7ai-vos dela, enquanto pode ser vendida; aproveitai a disposi\u00e7\u00e3o dos compradores. A virgindade \u00e9 como um velho cortes\u00e3o de chap\u00e9u fora da moda e roupagem rica, mas ca\u00edda em desuso, tal como se d\u00e1 com os broches e palitos, que j\u00e1 tiveram sua \u00e9poca. Ficar\u00e1 melhor vossa t\u00e2mara no pastel ou no caldo do que nas faces. Vossa virgindade, vossa velha virgindade \u00e9 tal qual p\u00eara murcha da Fran\u00e7a: de aspecto e gosto insuport\u00e1veis. Pudera! Se n\u00e3o tem seiva! J\u00e1 foi gostosa; mas presentemente n\u00e3o passa de uma p\u00eara murcha. Estou de partida para a corte; quereis alguma coisa de l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Da virgindade, nada. L\u00e1 vai achar teu amo apaixonadas sem conta: m\u00e3e, amante, uma inimiga, uma amiga, uma f\u00eanix, diretora, uma guia, uma deusa, uma rainha, conselheira, traidora, apaixonada; sua humilde ambi\u00e7\u00e3o, alta humildade, conc\u00f3rdia dissonante, desacordo agrad\u00e1vel de ouvir, sua lealdade, seu doce azar e um mundo de afilhados graciosos e travessos, que Cupido deixa ainda mais falantes. Mas agora vai ele&#8230; Nem sei mesmo o que vai ser. Que Deus o ampare. A corte \u00e9 grande escola, e ele \u00e9 um&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Um qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Que eu quero bem. \u00c9 pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Pena por qu\u00ea?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Por n\u00e3o nos ser poss\u00edvel dar um corpo sens\u00edvel aos desejos, por de ber\u00e7o sermos baixos e fadadas por humildes astros a formular t\u00e3o-s\u00f3 desejos que n\u00e3o se concretizam. Poder\u00edamos, ent\u00e3o, chegar at\u00e9 nossos amigos e lhes sentir o que pensamos, o que n\u00e3o nos enseja, de outro modo, nem agradecimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um pajem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Monsieur Parolles, meu amo vos mandou chamar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Adeus, pequena Helena; se n\u00e3o me esquecer, na corte pensarei em ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Monsieur Parolles, nascestes sob a influ\u00eancia de um planeta caridoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sob a influ\u00eancia de Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Foi o que sempre pensei: debaixo de Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por que debaixo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 As guerras vos trazem tanto por baixo, que necessariamente dever\u00edeis ter nascido debaixo de Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Quando ele predominava no firmamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Seria prefer\u00edvel dizer: quando estava em retirada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que vos leva a pensar dessa maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Porque quando vos bateis, recuais sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Para obter vantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 O mesmo se d\u00e1 na fuga, quando o medo aconselha a salva\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o resultante de vossa virtude e de vosso medo \u00e9 uma virtude de boas asas, que vai muito bem com vosso todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 As preocupa\u00e7\u00f5es me assoberbam de tal modo, que n\u00e3o me d\u00e3o vagar para te dar uma resposta espirituosa. Voltarei como cortes\u00e3o perfeito; ent\u00e3o, os meus conhecimentos servir\u00e3o para te naturalizar, no caso, bem entendido, de seres suscet\u00edvel de receber conselhos de um cortes\u00e3o e de compreender o que te comunicar a prud\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, morrer\u00e1s de ingratid\u00e3o, para seres arrebatada pela ignor\u00e2ncia. Adeus. Quando tiveres tempo, dize as tuas ora\u00e7\u00f5es, e se dele careceres, lembra-te dos amigos. Arranja um bom marido e comporta-te com rela\u00e7\u00e3o a ele como ele se comportar contigo. E com isto, adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Em n\u00f3s, por vezes, se acha a medicina que em v\u00e3o ao c\u00e9u pedimos. A divina Provid\u00eancia nos deu livre alvedrio, s\u00f3 se opondo com todo o poderio aos nossos lentos planos, quando escravos nos revelamos e no agir ignavos. Que poder meu amor faz subir tanto, que me abre os olhos e em mim cria o espanto? As maiores dist\u00e2ncias do destino vence a natura em tempo pequeno, fazendo que num beijo se congrace quanto apartava obst\u00e1culo falace. Irrealiz\u00e1vel s\u00f3 parece o plano mais ousado e fator de desengano, para quem pensa muito e considera que o que nunca se deu \u00e9 v\u00e3 quimera. Acaso j\u00e1 deixou de ser amada quem no elogiar-se n\u00e3o ficou parada? Essa doen\u00e7a do rei&#8230; Ser\u00e1 loucura; mas, decidida, atiro-me \u00e0 aventura. (Sai.)<\/p>\n<p><a name=\"bem12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Paris. Um quarto no pal\u00e1cio do rei. Toque de clarins. Entra o Rei de Fran\u00e7a, com cartas na m\u00e3o; nobres e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Est\u00e3o engalfinhados os sienenses e os florentinos; com igual fortuna, t\u00eam ficado at\u00e9 agora; bravamente lutam de parte a parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 o que nos dizem.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 E \u00e9 muito cr\u00edvel. A certeza temo-la de nosso primo de \u00c1ustria, com a not\u00edcia de que logo vir\u00e3o os florentinos pedir-nos pronto aux\u00edlio. Antecipando nossa resolu\u00e7\u00e3o, o caro amigo manifesta o desejo de recusa formal de nossa parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Sua grande dedica\u00e7\u00e3o a Vossa Majestade, aliada ao saber pr\u00f3prio, lhe asseguram, por certo, \u00e0 sugest\u00e3o boa acolhida.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Decidiu-nos, de fato. Os florentinos recusada ter\u00e3o sua requesta antes de a formularem. Mas os nossos fidalgos que quiserem ver a guerra da Toscana, com toda a liberdade poder\u00e3o escolher qualquer partido.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Boa escola, decerto, para os mo\u00e7os que tanto anseiam por a\u00e7\u00f5es her\u00f3icas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Quem \u00e9 que vem ai?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Bertram Lafeu e Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 o jovem Conde de Rossilh\u00e3o, Bertram, meu bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Jovem, tu te pareces com teu pai. A natureza liberal, mostrando-se nesse particular mais cautelosa do que apressada, soube dar-te forma. Possas herdar, tamb\u00e9m, as qualidades de teu bom pai. Paris te acolhe alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Meus agradecimentos e meus pr\u00e9stimos s\u00e3o de Vossa Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Desejara ter a sa\u00fade pr\u00edstina de quando, ligado com teu pai pela amizade, na vida militar nos estreamos. Conhecia ele, como poucos, a arte militar de seu tempo, tendo sido disc\u00edpulo de bravos. Muitos anos conseguiu resistir; mas a velhice disforme em n\u00f3s se insinuou, tirando-nos, finalmente, da li\u00e7a. Falar nele me faz ficar mais jovem. Possu\u00eda na mocidade o esp\u00edrito brilhante que eu noto nos rapazes da nobreza que me cerca. Contudo, por mais que estes procurem gracejar, suas pilh\u00e9rias, n\u00e3o percebidas por ningu\u00e9m, retornam para eles pr\u00f3prios, sem que seus autores disfar\u00e7ar possam suas sutilezas com as roupagens da honra. Era um perfeito cortes\u00e3o: nem desd\u00e9m nem azedume na altivez revelava e na finura. Se tal aconteceu algumas vezes, foi contra seus iguais. A honra, nessa hora, rel\u00f3gio de si pr\u00f3pria, lhe mostrava o minuto preciso em que for\u00e7oso lhe era manifestar-se obedecendo sem deten\u00e7a ao ponteiro a m\u00e3o robusta. Os pequenos tratava como seres de classe diferente, permitindo que sua fronde altiva se inclinasse para a planura deles, com o que a todos orgulhosos deixava da humildade, por se tornar humilde em seus enc\u00f4mios. Aos tempos jovens de hoje falta um homem como esse, para exemplo, o que viria nos demonstrar que para tr\u00e1s andamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Sua mem\u00f3ria, majestade, brilha com mais intensidade em vosso enc\u00f4mio do que no seu sepulcro; nem a pr\u00f3pria l\u00e1pide tumular t\u00e3o alto o exal\u00e7a quanto vossas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Quem me dera que com ele me achasse! Costumava dizer \u2014 S\u00f3 me parece que ainda o ou\u00e7o. Suas palavras de ouro, ele as poupava; n\u00e3o as jogava \u00e0 toa nas orelhas, mas enxertava-as para que, com o tempo, viessem a criar ra\u00edzes e dar frutos. \u2014 \u201cN\u00e3o desejo viver\u201d \u2014 assim sua boa melancolia, \u00e0s vezes, se expressava, no \u00faltimo ato, ao findar o passatempo, quando tudo acabava. \u2014 \u201cN\u00e3o desejo viver\u201d, dizer sofa, quando \u00e0 minha l\u00e2mpada faltar \u00f3leo, para ver-me reduzido a morr\u00e3o da gente mo\u00e7a, cujo leviano esp\u00edrito desdenha quanto n\u00e3o seja novo, e que de id\u00e9ias muda como de roupa, pois com a moda pauta a pr\u00f3pria const\u00e2ncia transit\u00f3ria\u201d. Era a isso que aspirava. Eu, no seu rasto, desejo o mesmo. J\u00e1 que mel e cera n\u00e3o trago para casa, preferira ser retirado logo da colmeia, para ceder o posto a outros obreiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Estima-vos o povo, majestade. Os que vos desconhecem, vossa falta sentir\u00e3o mais que todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Sim, ocupo um lugar; sei disso. Conde, h\u00e1 quanto tempo faleceu o m\u00e9dico de vosso pai? Gozava de alto nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 H\u00e1 seis meses, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Se ainda vivesse, poderia tentar uma experi\u00eancia&#8230; Dai-me o bra\u00e7o&#8230; Os demais me enfraqueceram com tantos tratamentos. Ora podem a natureza e as doen\u00e7as \u00e0 vontade decidir do meu caso. Sois bem-vindo, conde; meu filho n\u00e3o \u00e9 mais caro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Sou muito agradecido a Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem. Clarins.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"bem13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram a condessa, o intendente e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Agora posso ouvir-vos. Que diz\u00edeis dessa senhorita?<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE \u2014 Desejaria, minha senhora, que o zelo revelado por mim na execu\u00e7\u00e3o de vossos desejos fosse registrado no calend\u00e1rio de meus servi\u00e7os anteriores, porque quando n\u00f3s pr\u00f3prios os publicamos, ferimos a mod\u00e9stia e emba\u00e7amos a candura de nosso merecimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que faz este sujeito aqui? Fora daqui, maroto! N\u00e3o quero dar cr\u00e9dito a todas as queixas que me fazem de v\u00f3s. Sou muito lerda para tanto, porque sei perfeitamente que n\u00e3o careceis de loucura, para conceb\u00ea-las, nem de habilidade, para p\u00f4-las em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Como n\u00e3o deveis ignorar, minha senhora, eu n\u00e3o passo de um pobre-diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Bom.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o, minha senhora; n\u00e3o \u00e9 bom que eu seja pobre, conquanto muitos ricos tenham ido parar no inferno. Mas se eu puder alcan\u00e7ar as boas gra\u00e7as de Vossa Senhoria no sentido de me ajudar a tomar estado, eu e Isbel faremos o que for poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Est\u00e1s querendo tornar-te mendigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Mendigo de vossa boa vontade para este caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que caso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Meu caso e de Isbel. Servi\u00e7o n\u00e3o \u00e9 heran\u00e7a. Estou convencido de que n\u00e3o chegarei a alcan\u00e7ar as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Deus, enquanto n\u00e3o vir a minha prole, porque, como diz o povo, os filhos s\u00e3o como b\u00ean\u00e7\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 D\u00e1-me as tuas raz\u00f5es de quereres casar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 \u00c9 o meu corpo que o deseja, minha senhora. Sou arrastado pela carne, e quando o diabo puxa, a gente n\u00e3o pode resistir.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 S\u00e3o essas todas as raz\u00f5es de Vossa Senhoria?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Para dizer toda a verdade, minha senhora, poderia aduzir outras raz\u00f5es t\u00e3o pias quanto essas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Poderia o mundo tomar conhecimento delas?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 At\u00e9 agora, minha senhora, eu tenho sido uma criatura pecadora, como v\u00f3s e todos os seres de carne e sangue. Da\u00ed a raz\u00e3o de querer casar, para poder arrepender-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Mais do casamento do que dos pecados.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Care\u00e7o de amigos, minha senhora, e espero adquirir alguns por interm\u00e9dio de minha mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Amigos dessa esp\u00e9cie s\u00e3o inimigos, tolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Nessa quest\u00e3o de bons amigos, minha senhora, n\u00e3o sois bastantemente profunda, porque os marotos ir\u00e3o fazer o que para mim j\u00e1 for trabalho. Quem lavra a minha terra poupa-me os bois e me enseja vagar para a colheita; se faz de mim cabr\u00e3o, fa\u00e7o dele meu escravo. Quem consola minha mulher, cuida do meu corpo e do meu sangue; quem cuida do meu corpo e do meu sangue, teu amor ao meu corpo e ao meu sangue, e quem tem amor a meu corpo e a meu sangue \u00e9 meu amigo. Logo, quem beija minha mulher \u00e9 meu amigo. Se os homens se contentassem com ser o que s\u00e3o, ningu\u00e9m teria medo de casar. O jovem e puritano Charbon e o velho papista Poysam, por mais discordantes que a religi\u00e3o lhes deixe os cora\u00e7\u00f5es, t\u00eam as cabe\u00e7as do mesmo feitio: podem dar marradas com os cornos t\u00e3o bem como qualquer bode do rebanho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Nunca deixar\u00e1s de ser um boca-suja e maldizente?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Profeta, minha senhora, \u00e9 o que eu sou. S\u00f3 digo a verdade nua e crua. Antiga balada eu canto, que os homens achar\u00e3o certa: o casamento \u00e9 destino, o cuco est\u00e1 sempre alerta.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ide embora, senhor; sobre isso, conversaremos melhor noutra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE \u2014 Se julgardes conveniente, minha senhora, ele poder\u00e1 chamar Helena. \u00c9 a respeito dela que pretendo falar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Maroto, vai dizer a minha dama de companhia que desejo falar-lhe. Refiro-me a Helena.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Foi essa a causa, disse ela, de os gregos queimarem Tr\u00f3ia? Oh, que tolice! Era Helena de Pr\u00edamo a melhor j\u00f3ia? Assim falando, suspira; assim falando, suspira e diz profunda senten\u00e7a: se em nove m\u00e1s, uma \u00e9 boa, se em nove m\u00e1s, uma \u00e9 boa, uma em dez tudo compensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Como! S\u00f3 uma boa entre dez? Est\u00e1s a adulterar a balada, maroto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Uma mulher entre dez, minha senhora. \u00c9 assim que eu purifico a balada. Assim servisse Deus o mundo todos os anos, que eu n\u00e3o teria de que me queixar do d\u00edzimo das mulheres, no caso de ser eu o p\u00e1roco. Se nos nascesse uma mulher boa por cada cometa ou cada tremor de terra, a loteria s\u00f3 teria a lucrar; mas primeiro o homem arrancar\u00e1 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, sem que encontre uma nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ide logo, senhor velhaco, e fazei o que vos ordenei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ser a gente obrigado a obedecer a uma mulher, sem que da\u00ed resulte nenhum mal! Embora a honestidade n\u00e3o seja puritana, n\u00e3o causar\u00e1 mal nenhum; por\u00e1 a sobrepeliz da humanidade sobre as vestes negras de um cora\u00e7\u00e3o inflado. J\u00e1 vou, j\u00e1 vou! \u00c9 para dizer a Helena que venha at\u00e9 aqui. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Agora podeis falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE \u2014 Eu sei, minha senhora, que dedicais grande afei\u00e7\u00e3o a vossa dama de companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Com efeito; seu pai ma confiou ao morrer. Mas por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, sem outras recomenda\u00e7\u00f5es, ela teria direito \u00e0 afei\u00e7\u00e3o que lhe consagro. Devo-lhe mais do que o que lhe pago e lhe pagarei mais do que o que ela vier a exigir de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE \u2014 Recentemente, minha senhora, penso que estive mais perto dela do que ela teria desejado. Achava-se s\u00f3 e falava para os pr\u00f3prios ouvidos, sem suspeitar que ouvidos estranhos pudessem escutar o que ela dizia. O assunto de seu mon\u00f3logo era o amor que ela dedica a vosso filho. A Fortuna, dizia, n\u00e3o era deusa, pois havia criado t\u00e3o grande abismo entre a sua condi\u00e7\u00e3o e a dele; o Amor n\u00e3o era deus, por n\u00e3o usar do seu poder, a n\u00e3o ser quando as qualidades se encontram em igual n\u00edvel; Diana, tamb\u00e9m, n\u00e3o era rainha das virgens, pois permitia que uma de suas pobres ninfas fosse surpreendida sem possibilidade de socorro no primeiro assalto nem, posteriormente, de resgate. Tudo isso ela proferia num tom do mais amargo queixume, como eu nunca ouvira de nenhuma donzela. Por isso, julguei do meu dever vos p\u00f4r a par do que h\u00e1, porque, no caso de alguma desgra\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio saberdes o que se passa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Desincumbistes-vos de vosso recado com honestidade; sede discreto nesse particular, n\u00e3o conversando com ningu\u00e9m a esse respeito. Alguns ind\u00edcios j\u00e1 me tinham levado a pensar nisso; mas de tal modo faziam esses ind\u00edcios oscilar os pratos da balan\u00e7a, que eu n\u00e3o podia crer nem duvidar. Deixai-me, por obs\u00e9quio. Guardai no peito esse segredo. Agrade\u00e7o-vos de cora\u00e7\u00e3o a dilig\u00eancia. Ainda voltarei a vos falar sobre isso. (<i>Sai o intendente. Entra Helena.<\/i>) Quando jovem, tamb\u00e9m passei por isso. A natureza \u00e9 assim; esses espinhos insepar\u00e1veis s\u00e3o da rosa em vi\u00e7o. A muito o sangue obriga em seus caminhos. A natureza claudicar n\u00e3o h\u00e1 de, onde em paix\u00f5es estua a mocidade. Nossos erros de ent\u00e3o, para n\u00f3s todas, virtudes eram de acabar em bodas. O olhar \u00e9 de quem sofre; \u00e9 o que lhe noto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Senhora, que mandais?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Como sabeis, Helena, m\u00e3e vos sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Senhora minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Foi m\u00e3e que eu disse. E por que n\u00e3o? Dizendo \u201cm\u00e3e\u201d, parece que vistes uma serpe. Por que esse nome tanto vos assusta? Sou vossa m\u00e3e, repito, e vos incluo entre os seres nascidos deste ventre. A ado\u00e7\u00e3o a apostar com a natureza por vezes se tem visto, e de semente peregrina nascer galho excelente. Dores maternas nunca me custastes. Gra\u00e7as a Deus, menina! Acaso sentes que o sangue se te esfria, quando me ouves dizer que sou tua m\u00e3e? Por que motivo te cerca os olhos essa n\u00fancia doente das l\u00e1grimas, essa \u00cdris matizada? T\u00e3o somente por seres minha filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Vossa filha n\u00e3o sou.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Mas j\u00e1 vos disse que vos sou m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Perd\u00e3o, minha senhora; mas meu irm\u00e3o n\u00e3o pode ser o Conde de Rossilh\u00e3o. Meu nome \u00e9 muito humilde; o dele \u00e9 da nobreza. Ele meu amo ser\u00e1, caro senhor. Vassala fida dele hei de ser enquanto tiver vida. Irm\u00e3o meu n\u00e3o ser\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Nem eu m\u00e3e vossa?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sois minha m\u00e3e, senhora. Ah, se, realmente \u2014 sem que me fosse irm\u00e3o vosso alto filho \u2014 f\u00f4sseis v\u00f3s minha m\u00e3e! Se de n\u00f3s ambos f\u00f4sseis m\u00e3e! Galard\u00e3o mais elevado, nem mesmo o c\u00e9u eu desejar pudera. Mas sendo eu vossa filha, haver\u00e1 jeito de n\u00e3o ser irm\u00e3 dele por direito?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Sim, Helena, podeis ser minha nora. Deus permita que aceiteis essa hip\u00f3tese. Esses nomes de m\u00e3e e sogra o pulso vos alteram. Por que essa palidez? Minhas suspeitas se confirmam. Percebo ora o mist\u00e9rio de vossa solid\u00e3o e a fonte encontro dessas freq\u00fcentes l\u00e1grimas. \u00c9 claro: amais meu filho. Cora a hipocrisia, diante do que a paix\u00e3o por ti proclama, de me dizer que n\u00e3o. S\u00ea, pois, sincera: dize-me que acertei, porque essas faces contam uma para outra o que se passa, e com tanta clareza os olhos l\u00eaem em tuas atitudes, que o proclamam, sem que o queiras, com sua fala pr\u00f3pria. N\u00e3o fosse essa culposa e infernal teima que a l\u00edngua te reprime, poder-se-ia suspeitar a verdade. Dize: \u00e9 isso? Se for assim, um n\u00f3 bem firme deste; caso contr\u00e1rio, jura-o. Neste instante, s\u00f3 desejo que me uses de franqueza, para que o c\u00e9u me inspire sobre o modo de te poder valer. S\u00ea, pois, sincera.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Perd\u00e3o, minha senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Amais meu filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 N\u00e3o lhe tendes amor, digna senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 N\u00e3o me fujas do ponto, que meu t\u00edtulo de afei\u00e7\u00e3o para o mundo todo \u00e9 v\u00e1lido. Vamos, vamos! Revela-me o que sentes, que tua inquieta\u00e7\u00e3o j\u00e1 disse tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 J\u00e1 que insistis, confesso aqui, de joelhos diante de v\u00f3s e do alto c\u00e9u, que acima de v\u00f3s e abaixo do alto c\u00e9u eu amo vosso filho. Pobres foram meus pais, por\u00e9m honestos; assim \u00e9 meu amor. N\u00e3o vos zangueis, que do fato de ser por mim amado, mal nenhum lhe advir\u00e1. N\u00e3o o persigo com nenhuma insist\u00eancia presun\u00e7osa, nem desejo alcan\u00e7\u00e1-lo sem que tenha chegado a merec\u00ea-lo, muito embora n\u00e3o saiba como merec\u00ea-lo possa. Sei que amo em v\u00e3o, e inutilmente luto contra toda esperan\u00e7a. Apesar disso, nesse crivo capcioso e insustent\u00e1vel n\u00e3o paro nunca de deitar as \u00e1guas do meu amor, sem que jamais se esgotem, porque a perd\u00ea-las venha sem descanso. Como Indiana, portanto, persistente na minha ilus\u00e3o pia, o sol adoro que me olha sem tomar conhecimento de seu humilde crente. Minha cara senhora, que vosso \u00f3dio n\u00e3o castigue meu amor por amar a quem amais. Se v\u00f3s, acaso \u2014 cujas c\u00e3s honradas s\u00e3o penhor de virtuosa mocidade \u2014 vos incendiastes em t\u00e3o pura flama e tivestes t\u00e3o castas esperan\u00e7as, unificando, assim, o Amor e Diana: apiedai-vos, ent\u00e3o, de uma coitada que a emprestar de cont\u00ednuo p\u00f5e o estudo onde venha, afinal, a perder tudo, que n\u00e3o tenta encontrar o que procura e, qual enigma, vive a morte pura.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 N\u00e3o fizeste a inten\u00e7\u00e3o, recentemente, de ir a Paris?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Senhora, sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 S\u00ea franca: com que intuito?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Direi toda a verdade, jurando pela Gra\u00e7a celestial. Como sabeis, meu pai deixou-me algumas f\u00f3rmulas de efici\u00eancia comprovada, que seus conhecimentos muito vastos e a manifesta pr\u00e1tica apontavam como infal\u00edveis. Ao morrer deixou-mas sob o maior sigilo, como notas de intr\u00ednseco valor muito mais alto do que nelas notar se poderia. H\u00e1 uma receita entre essas, de um rem\u00e9dio muito experimentado para os males desesperados de que o rei se fina.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 \u00c9 esse o motivo que vos leva \u00e0 corte? Sede franca.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Milorde, vosso filho, me fez pensar no caso. N\u00e3o fora isso, Paris, a medicina, o rei ausentes teriam sempre estado das conversas que a s\u00f3s comigo mesma \u00e0s vezes tenho.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Mas Helena, pensais que se chegardes a oferecer vosso suposto aux\u00edlio, h\u00e1 de aceit\u00e1-lo o rei? Ele e seus m\u00e9dicos est\u00e3o de acordo nisto: ele, que m\u00e9dico nenhum pode cur\u00e1-lo; eles, que a doen\u00e7a do rei n\u00e3o ter\u00e1 cura. Ser\u00e1 cr\u00edvel que eles revelem confian\u00e7a numa donzela pobre sem nenhum preparo, quando as escolas, gastas as doutrinas, o perigo a si mesmo abandonaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Tenho o pressentimento mais potente do que a arte de meu pai, que foi famoso em sua profiss\u00e3o \u2014 de que essa f\u00f3rmula de efeito comprovado vai servir-me como heran\u00e7a aben\u00e7oada pelos astros mais felizes do c\u00e9u. Se me consente Vossa Honra permiss\u00e3o para a aventura, arriscarei a vida nessa cura, em dia e hora marcados.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Estais bem certa?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sei o que estou dizendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Pois que seja! Dou-te o consentimento e, de crescen\u00e7a, toda a minha afei\u00e7\u00e3o, recursos, gente para seguir contigo, e meus saudares aos amigos da corte. Em casa fico, para pedir a Deus que te auxilie. Parte amanh\u00e3 com a maior certeza de que contas comigo nessa empresa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"bem21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Paris. Um quarto no pal\u00e1cio do rei.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Clarins. Entra o rei com v\u00e1rios fidalgos mo\u00e7os, que se despedem para a guerra de Floren\u00e7a; Bertram, Parolles e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Jovens fidalgos, passai bem; que a vossa disposi\u00e7\u00e3o guerreira se mantenha. Adeus, tamb\u00e9m, senhores. O conselho servir\u00e1 para todos. Se ganhardes, dobrar\u00e1 de valor a recompensa, bastando para os dois.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 O que almejamos, ao voltarmos da guerra como bravos, \u00e9 encontrar Vossa Gra\u00e7a com sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel, posto se me negue o cora\u00e7\u00e3o a confessar que abrigo concede ao mal que me bloqueia a vida. Adeus, jovens senhores; sede sempre, quer eu viva, quer morra, filhos dignos de dignos pais franceses. Que a alta It\u00e1lia \u2014 cuja prole mirrada herdou somente a decad\u00eancia do \u00faltimo governo \u2014 possa ver que n\u00e3o ides como simples cortejadores da honra, mas ansiosos por despos\u00e1-la, e que levais a cabo quanto intentais, onde os mais bravos tremem, porque muito alto a Fama vos consagre. Tomo a dizer: adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Fique a sa\u00fade sempre s ordens de Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 As mo\u00e7as italianas&#8230; Cautelai-vos! Dizem que n\u00f3s, franceses, n\u00e3o sabemos negar o que elas pedem. Prisioneiros n\u00e3o vos torneis, portanto, antes da guerra.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBOS OS NOBRES \u2014 No cora\u00e7\u00e3o guardamos esse aviso.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Adeus. Vinde comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai amparado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Oh! N\u00e3o seguir conosco o nobre conde!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 N\u00e3o cabe culpa alguma ao cavalheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Oh! Como s\u00e3o gloriosas essas guerras!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Admir\u00e1veis! J\u00e1 estive nessas guerras.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Tenho ordem de ficar. O mesmo lema de sempre: \u201c\u00c9s muito mo\u00e7o\u201d \u201c\u00c9 cedo ainda\u201d \u201cNo ano vindouro\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Se te pede o peito, meu rapaz, foge logo com coragem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Terei de aqui ficar, na qualidade de pajem de senhoras, os sapatos a gastar nestas pedras, at\u00e9 vermos toda a honra despendida, sem que sobre outra espada a n\u00e3o ser para bailados. Pelo c\u00e9u, vou fugir!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Honroso feito fora essa fuga.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Fazei isso, conde.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Sou nisso vosso c\u00famplice. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 De tal modo nos identificamos nesse particular, que nossa separa\u00e7\u00e3o mais parece um corpo submetido a tratos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014Adeus, capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Meu caro monsieur Parolles!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Nobres her\u00f3is, minha espada e as vossas s\u00e3o parentas: iguais fa\u00edscas, brilho id\u00eantico. Uma palavra, meus valentes: no regimento dos Spirii haveis de encontrar um Capit\u00e3o Spurio com uma cicatriz, emblema da guerra, aqui na face esquerda. Pois foi cavada com a espada que aqui vedes. Comunicai-lhe que eu ainda vivo e tomai nota do que ele disser de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Assim o faremos, nobre capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os nobres.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que Marte se vos mostre afei\u00e7oado, por serdes novi\u00e7o. Que pretendeis fazer?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ficar. O rei&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o rei. Bertram e Parolles se afastam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sede mais cerimonioso com esses nobres senhores; fechastes-vos nos limites de uma despedida por demais fria. \u00c9 preciso ser mais expansivo com eles, por serem a nata de seu tempo, o modelo do andar, do comer, do conversar, e por se moverem sob o influxo dos mais reconhecidos astros. Ainda que fosse o diabo que marcasse o compasso, deveriam ser seguidos. Correi atr\u00e1s deles e despedi-vos com mais formalidades.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 o que vou fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Rapazes de valor! Com o tempo, as suas espadas se tornar\u00e3o irresist\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Bertram e Parolles. Entra Lafeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Desculpai-me, senhor, e \u00e0s minhas novas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Teu pr\u00eamio \u00e9 levantares-te depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vedes, dessa maneira, uma pessoa que comprou seu perd\u00e3o. S\u00f3 desejara, milorde, que estiv\u00e9sseis de joelho diante de mim, para que a um meu aceno vos levant\u00e1sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Tamb\u00e9m eu quisera isso, que, assim, te quebraria o casco, para pedir, depois, que me perdo\u00e1sseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 De cruz, n\u00e3o \u00e9? Mas, meu gracioso lorde, com licen\u00e7a: quereis ficar curado de vossa enfermidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 \u00c9 certo? N\u00e3o quereis uvas, minha real raposa? Pois haver\u00edeis de quer\u00ea-las, caso minha raposa real pudesse minhas nobres uvas pegar. Vi uma doutora capaz de insuflar vida at\u00e9 nas pedras, de for\u00e7ar um rochedo a andar depressa e vos fazer dan\u00e7ar uma can\u00e1ria com fogo \u00e9 desempeno. Seu contacto ressuscitar faria o Rei Pepino. Mais, ainda: obrigara ao pr\u00f3prio grande Carlos Magno a tomar da pena e versos de amor para ela enviar.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Para \u201cela!\u201d Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Uma doutora, \u00e9 claro. J\u00e1 na corte se acha, milorde, se quiserdes v\u00ea-la. Por minha honra e minha f\u00e9, no caso de eu poder expressar os pensamentos com seriedade, ap\u00f3s esse prel\u00fadio: Falei com uma donzela, cuja idade, sabedoria, profiss\u00e3o, firmeza de car\u00e1ter, perplexo me deixaram mais do que fora de esperar de minha fraqueza irremedi\u00e1vel. Quereis v\u00ea-la \u2014 \u00e9 o seu desejo \u2014 e discorrer ouvi-la? Depois, ride de mim quanto quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Meu bom Lafeu, trazei-me esse milagre, para, juntos, mostrarmos nosso espanto ou fazermos que o teu venha a acabar-se t\u00e3o-s\u00f3 por te espantares de ti pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Ent\u00e3o vos servirei, sem perder tempo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Seus nadas sempre t\u00eam pr\u00f3logos grandes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Lafeu com Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vinde logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Tinha asas sua pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vinde logo. Eis aqui Sua Majestade; dizei-lhe o que pensais. Vossa apar\u00eancia \u00e9 de conspirador, mas Sua Gra\u00e7a desses conspiradores n\u00e3o se teme. Sou o tio de Cressida; n\u00e3o receio deixar-vos em col\u00f3quio. Passai bem. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ent\u00e3o, bela menina, tendes algo a me comunicar?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sim, Majestade. Sou filha de Gerard de Narbon, que em sua profiss\u00e3o teve alta fama.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Conheci-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Isso vem minha tarefa facilitar. Se o conhecestes, basta. Ao morrer me deixou muitas receitas; uma, principalmente, ele avaliava como a mais fina flor de seus estudos, de provada experi\u00eancia a filha amada, tendo pedido que a guardasse como se fosse um terceiro olho, mais precioso para mim do que os pr\u00f3prios. Assim fiz. E por ouvir dizer que Vossa Gra\u00e7a sofria dessa doen\u00e7a perniciosa que t\u00e3o alto elevou a grande fama de meu querido pai, humildemente vos venho oferecer os meus servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00f3s vos agradecemos, rapariga. Mas, de que modo acreditar em cura, se abriram m\u00e3o do caso nossos m\u00e9dicos mais consp\u00edcuos, e toda a Faculdade decidiu que jamais o esfor\u00e7o da arte poder\u00e1 ser aux\u00edlio \u00e0 natureza em seu prec\u00e1rio estado? N\u00e3o devemos, por isso, permitir que nosso ju\u00edzo se deturpe e que falsas esperan\u00e7as nos desviem, a ponto de chegarmos a prostituir a charlat\u00e3es a nossa doen\u00e7a irremedi\u00e1vel, degradando nossa grandeza, assim, e nosso cr\u00e9dito, por julgarmos que possa ainda ter cura um mal que tanto quanto a vida dura.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 O cumprimento do dever me paga de todo o meu trabalho. N\u00e3o insisto nos oferecimentos. S\u00f3 imploro de vossos reais conceitos o modesto favor de permitir que me retire.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Menos n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceder-te, sem passar por ingrato. Imaginaste socorrer-me, raz\u00e3o de agradecer-te como costuma o moribundo a quantos desejam que reviva. Do conjunto da situa\u00e7\u00e3o conheces s\u00f3 uma parte; para o meu mal in\u00fatil \u00e9 tua arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se na descren\u00e7a pondes todo o siso, poder\u00edeis tentar, sem preju\u00edzo, quanto ora vos proponho. O que realiza todas as obras grandes, improvisa muitas vezes os meios, conseguindo com fraca gente resultado infindo. As Santas Escrituras nos meninos reconheceram senso onde os rabinos infantis se mostraram. De minguante fonte pode jorrar \u00e1gua abundante, como p\u00f4de secar um mar profundo, quando o milagre os s\u00e1bios deste mundo tinham por imposs\u00edvel. \u00c9 freq\u00fcente falhar a expectativa mais florente, como concretizar-se, quando fria j\u00e1 se achava a esperan\u00e7a em demasia.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Basta, bela menina; recompensa nenhuma te dar\u00e1 minha descren\u00e7a, sen\u00e3o t\u00e3o-s\u00f3 palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Desse jeito torna est\u00e9ril um sopro o mais perfeito des\u00edgnio. O Ser que sabe quanto passa, n\u00e3o se comporta como nossa escassa percep\u00e7\u00e3o, que das coisas o que estima \u00e9 apar\u00eancia, t\u00e3o-s\u00f3, muito por cima. \u00c9 presun\u00e7\u00e3o, considerar terrena a ajuda com que o c\u00e9u de longe acena. Caro senhor, cedei ao meu pedido; n\u00e3o de mim, mas do c\u00e9u tirai partido. Impostora n\u00e3o sou, para valia me atribuir que transcenda a mediania. Mas podeis crer-me: livre de impostura ser\u00e1 minha arte e, certa, vossa cura.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Vejo que tua f\u00e9 n\u00e3o se embara\u00e7a. Em quanto tempo sararei?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se a Gra\u00e7a divina me der gra\u00e7a, antes que ao poente duas vezes consiga a reluzente parelha conduzir a luz radiosa e H\u00e9spero duas vezes na fumosa f\u00edmbria a tocha mergulhe sonolenta; antes, ainda, de mostrar a lenta ampulheta, por vinte e quatro vezes, aos minutos seus passos descorteses: ficareis bom; a dor ter\u00e1 fugido, para afundar de vez no eterno olvido.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 A tal ponto mostrando-te confiada, que arriscas nessa empresa?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Ser chamada de impudente, de baixa e de rameira; ver a honra divulgada por maneira vergonhosa em baladas infamantes nome impoluto j\u00e1 n\u00e3o ter, como antes; mais, se for conceb\u00edvel: prematura vir a morte a alcan\u00e7ar pela tortura.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Parece que uma for\u00e7a sublimada fala por ti, valendo-se de nada para nos dar de seu poder not\u00edcia. O que ao senso comum fora estult\u00edcia, em tua fala adquire alto sentido. Tua vida \u00e9 preciosa, pois reunido tens em tua pessoa tudo quanto torna o nosso viver digno de encanto: saber, gra\u00e7a, virtude, mocidade, quanto a saz\u00e3o prop\u00edcia, nessa idade de bom pode ensejar. Tanta confian\u00e7a ind\u00edcio \u00e9 de um saber que tudo alcan\u00e7a, se n\u00e3o for de infinito desespero. Assim, cara doutora, com esmero cuida de exercitar a medicina, pois se tua dita se mostrar mofina, resultando-me disso a negra morte, para ti n\u00e3o esperes melhor sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se eu n\u00e3o puder, no prazo combinado, cumprir quanto prometo, que meu fado seja morrer, porque viver n\u00e3o h\u00e1 de quem revelou t\u00e3o grande pravidade. Mas, se o erro n\u00e3o me der sorte t\u00e3o dura, qual vir\u00e1 a ser o galard\u00e3o da cura?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Pede-me o que quiseres.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E obt\u00ea-lo-ei?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Sim, pelo c\u00e9u e meu penhor de rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Tuas m\u00e3os reais, ent\u00e3o, dar-me-\u00e3o o esposo que eu escolher por digno e donairoso, estando em ti ceder-mo, sem que medo conceber possas de um projeto tredo, de eu apontar um pr\u00edncipe da Fran\u00e7a, que a tanto o meu querer n\u00e3o se abalan\u00e7a. Jamais imaginei que de futuro pudesse a ti ligar meu nome obscuro. N\u00e3o; o vassalo que ora trago em mente, poder\u00e1s conceder-me livremente.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Eis minha m\u00e3o, que recusar n\u00e3o h\u00e1 de quanto manifestar tua vontade, depois de me cumprires a promessa. Ora o momento de experi\u00eancia apressa, porque eu, na qualidade de cliente, prometo ser-te em tudo obediente. Muito, ainda, desejava perguntar-te; mas com isso a confian\u00e7a, que tua arte de in\u00edcio me inspirou, n\u00e3o cresceria: como vieste at\u00e9 aqui? E a companhia? S\u00ea, portanto, bem-vinda e aben\u00e7oada, sem maiores perguntas \u00e0 chegada. A m\u00e3o, a\u00ed! Se tua arte for potente, igualar\u00e1 tua cura o meu presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de clarins. Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram a condessa e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Vinde c\u00e1, senhor; desejo p\u00f4r vossa educa\u00e7\u00e3o \u00e0 prova.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Com isso vereis que estou muito bem alimentado, mas pessimamente educado, o que, para a corte, \u00e9 o suficiente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Para a corte? Que lugar, ent\u00e3o, vos merece considera\u00e7\u00e3o, e vos referis \u00e0 corte com t\u00e3o grande desprezo? \u201cPara a corte \u00e9 o suficiente!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Em verdade, minha senhora, quem recebe boas maneiras de Deus, pode perfeitamente desembara\u00e7ar-se delas na corte. Quem n\u00e3o souber fazer um rapap\u00e9, tirar o chap\u00e9u, beijar a m\u00e3o e n\u00e3o dizer palavra, carece de pernas, de m\u00e3o, de boca e de chap\u00e9u. Uma pessoa nessas condi\u00e7\u00f5es, para falar com maior precis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 feita para a corte. Mas no que me diz respeito, tenho uma resposta que servir\u00e1 para todos os homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Para servir a todas as perguntas, deve ser uma resposta liberal.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 \u00c9 tal qual cadeira de barbeiro, que serve para todos os assentos: pontudos, redondos, carnudos&#8230; Para todos, em suma.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Vossa resposta vai bem com todas as perguntas?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 T\u00e3o bem como uma moeda de dez vint\u00e9ns na m\u00e3o de um procurador, ou uma coroa francesa na de uma prostituta vestida de tafet\u00e1, ou o junco de Tib no indicador de Tom, ou um filh\u00f3s na ter\u00e7a-feira gorda, a dan\u00e7a mourisca no dia 1.\u00b0 de maio, o prego no seu buraco, os cornos na fronte de quem os merece, a megera rilhenta ao lado de algum arruaceiro, os l\u00e1bios de uma freira na boca de um monge&#8230; Sim, t\u00e3o bem quanto o chouri\u00e7o na sua pele.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Tendes uma resposta \u2014 torno a perguntar-vos \u2014 t\u00e3o adequada assim para todas as quest\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Desde debaixo do duque at\u00e9 embaixo do inspetor de pol\u00edcia, ir\u00e1 bem com todas as perguntas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ent\u00e3o deve ser uma resposta de dimens\u00f5es monstruosas, para corresponder a todas as perguntas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Para ser sincero, n\u00e3o passar\u00e1 de uma ninharia, para o s\u00e1bio que souber dizer a verdade. Aqui est\u00e1 ela com todos os seus admin\u00edculos: perguntai-me se eu sou cortes\u00e3o; nada tereis a perder com a li\u00e7\u00e3o que eu vos der.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Voltar a ser jovem, se isso fosse poss\u00edvel&#8230; Vou ficar suficientemente tola para vos dirigir essa pergunta, na esperan\u00e7a de que a resposta me deixe s\u00e1bia. Por obs\u00e9quio, senhor, sois cortes\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh Deus, senhor! Foi dito muito depressa. Mais perguntas! Mais perguntas! Dirigi-me cem perguntas iguais a essa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 N\u00e3o passo, meu senhor, de uma humilde amiga vossa, que vos dedica afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh Deus, Senhor! Prossegui! Prossegui! N\u00e3o me poupeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Penso, meu senhor, que n\u00e3o podeis comer nenhum desses pratos caseiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh Deus, Senhor! Ponde-me \u00e0 prova, sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Fostes recentemente chibateado, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh Deus, Senhor! N\u00e3o me poupeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Exclamais \u201cOh Deus, Senhor!\u201d quando estais sendo chibateado e \u201cN\u00e3o me poupeis\u201d? Realmente, o vosso \u201cOh Deus, Senhor!\u201d vem muito a ponto com vossa corre\u00e7\u00e3o. Responder\u00edeis com muito acerto, se fosseis chibateado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Nunca tive t\u00e3o pouca sorte com o meu \u201cOh Deus, Senhor!\u201d Vejo que as coisas podem servir para muito tempo, n\u00e3o, por\u00e9m, para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Como dona de casa esbanjadora, com um bobo, alegre, o tempo estou gastando.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Oh Deus, Senhor! Serviu-me ainda a frase.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Basta, senhor! A Helena entregai isto, e dizei-lhe que logo me responda. Lembran\u00e7as aos parentes e a meu filho. A incumb\u00eancia \u00e9 pequena, me parece.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Pequenas, as lembran\u00e7as para todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Vossa incumb\u00eancia, disse. Compreendestes-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Completamente, estarei l\u00e1 primeiro que minhas pernas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Vinde sem delongas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem por lados diferentes.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem23\" name=\"bem23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Paris. Um quarto no pal\u00e1cio do rei. Entram Bertram, Lafeu e Parolles.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Dizem que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 milagres, e a\u00ed est\u00e1 os nossos fil\u00f3sofos que deixam ordin\u00e1rias e familiares as coisas sobrenaturais e inexplic\u00e1veis. Da\u00ed resulta brincarmos com os fen\u00f4menos mais terr\u00edveis, barricando-nos por tr\u00e1s de nosso suposto conhecimento, quando dev\u00earamos ceder ao medo do desconhecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Realmente, \u00e9 o maior motivo de admira\u00e7\u00e3o de que se teve not\u00edcia nestes \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Com efeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Depois de ter ficado abandonado pelos conhecedores da arte&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 \u00c9 o que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Por Galeno e Paracelso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 \u00c9 o que eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Pelos mais s\u00e1bios e aut\u00eanticos doutores&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 \u00c9 isso mesmo que eu penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Que o deram por incur\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Justamente. \u00c9 tamb\u00e9m o que eu digo. Bela menina, a vista lan\u00e7a em torno. Este grupo de jovens da nobreza, solteiros todos, que aqui v\u00eas reunidos, far\u00e3o minha vontade em toda a linha. Poder tenho sobre eles, n\u00e3o somente de rei, como de pai. Nomeia um deles. De escolheres qualquer tens liberdade; de recusar-te nenhum deles h\u00e1 de.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Que o Amor uma virtuosa e bela noiva d\u00ea a cada um de v\u00f3s salvo a um somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Era capaz de dar o meu cavalo baio rab\u00e3o, com todos os arreios, para ter dentes como estes rapazes e, como eles, n\u00e3o ter barba no queixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Observa-os bem. S\u00e3o todos da nobreza.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Cavalheiros, valendo-se de mim, restituiu Deus ao rei a sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 J\u00e1 o soubemos, e ao c\u00e9u, por isso, agradecidos somos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sou uma donzela humilde; toda a minha fortuna \u00e9 confessar que sou donzela. Se da vontade for de Vossa Gra\u00e7a, declaro que estou pronta, embora as faces, coradas de vergonha, me segredem: \u201cCoramos, por te veres na prem\u00eancia de fazer uma escolha; mas se fores recusada, vir\u00e1 cobrir-nos, pronta, a palidez da morte, sem que as cores jamais recuperemos\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 S\u00ea confiante, que ficar\u00e1 de meu amor \u00e0 parte quem o ousio tiver de recusar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Agora, Diana, o teu altar evito, para cultuar Amor, o deus bendito, a quem dirijo os meus suspiros todos. Ouvir\u00edeis, senhor, o meu pedido?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Sim, e o satisfaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Agradecida; nada mais vos direi.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Preferira ser um dos que v\u00e3o ser escolhidos, a s\u00f3 tirar o \u00e1s a vida inteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 A honra que brilha nesses belos olhos, antes que eu fale, me promete abrolhos. O Amor vos ponha vezes dez acima desta a quem sempre teve em desestima.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Grato; mais n\u00e3o desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Bom sucesso vos d\u00ea Amor. Com isso, me despe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Todos a recusam? Se fossem meus filhos, mandaria chibate\u00e1-los, ou os enviaria para o Turco, a fim de fazer deles eunucos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 (<i>ao terceiro nobre<\/i>) \u2014 De vos tomar a m\u00e3o n\u00e3o mostreis medo; n\u00e3o vos desejo mal; ser\u00e1 brinquedo. Deus vos exalce os votos. Feliz sorte vos d\u00ea Amor na escolha da consorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Esses rapazes s\u00e3o de gelo; nenhum a quer. Por certo todos s\u00e3o bastardos ingleses, que nenhum franc\u00eas os teria nunca gerado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sois mo\u00e7o, bom demais e de alto brilho porque de mim possais vir a obter filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUARTO NOBRE \u2014 N\u00e3o sou desse pensar, bela menina.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Ainda est\u00e1 faltando uma uva. Sei, com seguran\u00e7a que teu pai bebia vinho. Mas se n\u00e3o fores um asno, n\u00e3o passo de um meninote de quatorze anos; h\u00e1 muito que te conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA (<i>a Bertram<\/i>) \u2014 Se vos tomasse a m\u00e3o, fora atrevida. Eu \u00e9 que a v\u00f3s me entrego, enquanto vida tiver, para me guiardes. Eis o esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Jovem Bertram, tomai-a; \u00e9 vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Minha mulher, senhor? A Vossa Alteza suplico me deixar nesses assuntos valer dos pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o soubeste, jovem Bertram, quanto ela por mim fez?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Sim, meu senhor; mas nunca saber pude que devo despos\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o ignoras que, gra\u00e7as a ela, me livrei da morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Mas segue-se, senhor, que minha queda compense vossa cura? Sim, conhe\u00e7o-a; foi educada \u00e0 custa de meu pai. Com a filha me casar de um pobre m\u00e9dico! Prefiro que a vergonha me acabrunhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 desdenhas nela o estado, t\u00e3o-somente, que em mim est\u00e1 prover. \u00c9 muito estranho que o nosso sangue, quando misturado com o das outras pessoas, igual peso, cor e temperatura nos revele. mas tanta diferen\u00e7a gere em todos. Se virtuosa ela for e a desprezares. por ser filha, t\u00e3o-s\u00f3, de um pobre m\u00e9dico, a virtude desprezas por um nome. N\u00e3o procedas assim. Quando a virtude mora em lugar humilde, v\u00ea-se ami\u00fade deixar ela o lugar enobrecido. Mas onde falta, embora haja apelido da mais alta nobreza, a honra \u00e9 vazia. Somente o bem \u00e9 em si de alta valia. O mal \u00e9 mal. As coisas t\u00e3o-somente valem pelo que s\u00e3o, independente dos t\u00edtulos que tenham. Em beleza, mocidade e saber a natureza fez dela em tudo primorosa herdeira, dotando-a de nobreza verdadeira. Zomba da honra quem diz que prov\u00e9m dela sem com ela parecer-se. A honra singela vale mais, quando vem de nosso atos, do que dos av\u00f3s, embora gratos. A palavra honra \u00e9 escravo desonrado sobre cada sepulcro, um mutilado trof\u00e9u na sepultura, que, freq\u00fcente, se cala porque o nome resplendente como mortalha venha a ter a poeira e o merecido olvido. Verdadeira resposta me concede. Se poss\u00edvel te for amar a jovem \u2014 coisa incr\u00edvel t\u00e3o grande indecis\u00e3o! \u2014 farei o resto. Ela e sua virtude manifesto dote constituir\u00e3o; ouro e nobreza de minha parte lhe dar\u00e3o grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Am\u00e1-la, \u00e9-me imposs\u00edvel, nem pretendo esfor\u00e7ar-me para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 A ti te ofendes, mostrando-te indeciso nessa escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Alegra-me saber que estais curado, senhor; deixai o resto.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Minha honra est\u00e1 em jogo; urge valer-me de todo o meu poder. Vamos, aceita-a, mo\u00e7o orgulhoso e f\u00fatil. N\u00e3o mereces ser galardoado com t\u00e3o grande pr\u00eamio. Com teu desd\u00e9m repeles, a um s\u00f3 tempo, meu amor e seu m\u00e9rito. N\u00e3o sonhas que se nos coloc\u00e1ssemos no prato mais leve da balan\u00e7a em que ela se acha, \u00e0s traves te jog\u00e1ramos? Ignoras que depende de n\u00f3s a honra plantar-te onde nos aprouver que a crescer venha? Refreia o orgulho e nosso alvitre acata, que em teu bem, s\u00f3, se esfor\u00e7a. N\u00e3o d\u00eas cr\u00e9dito a esse desd\u00e9m, mas faze que trabalhe para tua fortuna a vassalagem a que o dever te obriga e nossa for\u00e7a. Se n\u00e3o, de nossa gra\u00e7a te afastamos para sempre, atirando-te vertigem da mocidade e aos erros da tolice, e o \u00f3dio e a vingan\u00e7a sobre ti lan\u00e7amos em nome da justi\u00e7a, sem parcela de piedade. Responde-me depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Perd\u00e3o, gracioso rei; a vossos olhos submeto a fantasia. Quando penso no que de honra e de estado a um vosso aceno pode nascer, acabo convencendo-me de que esta jovem, que at\u00e9 pouco me era t\u00e3o baixa para os altos pensamentos, nos louvores de um rei lucrou de modo que a nobreza alcan\u00e7ou, como se nobre, de fato, ela nascesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 tua; toma-lhe a m\u00e3o e faze dela esposa. Comprometo-me a dar-lhe um dote grande, que n\u00e3o ser\u00e1 igual ao teu estado, s\u00f3 porque o exceder\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 A m\u00e3o lhe aceito.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Que a sorte e o real favor a este contrato sejam sempre prop\u00edcios. Esta noite celebrada h\u00e1 de ser a cerim\u00f4nia do recente noivado, mas adiamos o banquete solene, porque a vinda dos amigos ausentes aguardemos. Ama-a com o mesmo amor que me votares, porque te mostres digno de teus pares.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o rei, Bertram, Helena, nobres e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Estais me ouvindo, monsieur? Uma palavrinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que ordenais, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vosso senhor e amo fez muito bem em se retratar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Retratar-se? Meu senhor? Meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Isso mesmo; n\u00e3o falo linguagem de gente?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vossa linguagem \u00e9 muito dura de se ouvir, e s\u00f3 pode ser compreendida com acompanhamento de sangue. Meu amo!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 N\u00e3o pertenceis \u00e0 companhia do Conde de Rossilh\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 De qualquer conde, de todos os condes, de toda a gente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 De toda a gente do conde; mas o amo do conde seria papafina.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sois muito velho, senhor. Que isso vos baste. Sois muito velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 \u00c9 preciso que eu te diga, maroto, que eu sou um homem, o que n\u00e3o chegar\u00e1s a ser nem depois de velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 N\u00e3o ouso fazer o que posso fazer bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Depois de duas ceias em tua companhia, tomei-te por um rapaz de alguma intelig\u00eancia. De tuas viagens fazias um vento toler\u00e1vel. Poderia passar; mas as bandeirolas e os pavilh\u00f5es que apresentavas contribu\u00edram muito para me dissuadir de te considerar navio de grande calado. Agora que te encontrei; pouco se me d\u00e1 perder-te de novo. S\u00f3 serves para que te apanhem do ch\u00e3o, e assim mesmo quase n\u00e3o compensa o trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Se em tua pessoa n\u00e3o mostrasses a carta de privil\u00e9gio da antig\u00fcidade&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 N\u00e3o puxes demasiado pela c\u00f3lera, que isso pode apressar-te o castigo. Se tal acontecer&#8230; Deus se apiade de ti, galinha choca! E com isso, minha boa janela de r\u00f3tulas, passa bem. N\u00e3o tenho necessidade de abrir-te as folhas, porque vejo atrav\u00e9s de ti. D\u00e1-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 O senhor me mimoseia com a mais insigne indignidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que mereces.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Nada fiz por merec\u00ea-la, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Sim, por minha f\u00e9; mereces todas as dracmas dessa indignidade. N\u00e3o abaixarei um escr\u00f3pulo sequer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Est\u00e1 bem; procurarei ser mais razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Que seja isso o mais cedo poss\u00edvel, porque exalas cheiro justamente do oposto. Se algum dia fores amarrado em tua pr\u00f3pria bandeirola e receberes uma co\u00e7a, perceber\u00e1s o que \u00e9 ficar orgulhoso do pr\u00f3prio cativeiro. \u00c0s vezes me d\u00e1 vontade de n\u00e3o interromper nossas rela\u00e7\u00f5es, ou melhor, o meu conhecimento de tua pessoa, para que em caso de apuro pudesse declarar: conhe\u00e7o esse tipo!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Submeteis-me, senhor, a um vexame insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Desejaria poder infligir-te penas infernais para toda a eternidade, mas n\u00e3o tenho poder para tanto. Contudo, n\u00e3o deixarei de fazer o que a idade me permitir, que \u00e9 afastar-me de tua pessoa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Deixa estar! Tens um filho, que vai pagar-me esses insultos. \u00c9 preciso ter paci\u00eancia, que n\u00e3o se pode algemar a circunspec\u00e7\u00e3o. Por minha vida, hei de bater-lhe, no caso de o encontrar de jeito, embora ele fosse duas vezes um senhor de respeito. Terei tanta considera\u00e7\u00e3o com a velhice como&#8230; Hei de lhe dar uma co\u00e7a \u00e0 primeira vez que o encontrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Lafeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Maroto, vosso senhor e amo est\u00e1 casado; trago-vos essa novidade. Tendes nova patroa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Suplico sinceramente a Vossa Senhoria parar um pouco com vossos ultrajes. Ele \u00e9 meu bom senhor; mas s\u00f3 considero como meu amo o que est\u00e1 l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Quem? Deus?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 O diabo \u00e9 que \u00e9 teu amo. Por que p\u00f5es ligas nos bra\u00e7os? Das mangas pretendes fazer cal\u00e7as? Os outros criados andam dessa maneira? Farias melhor se pusesses o assento onde trazes o nariz. Por minha honra, se eu fosse mais mo\u00e7o de duas horas apenas, dar-te-ia uma tunda valente. Pareces-me uma ofensa universal, em que toda a gente deveria bater. Sou de parecer que foste criado para que todo o mundo se exercitasse em tua pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vosso procedimento, senhor, \u00e9 duro e imerecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Ide embora, senhor! Fostes castigado na It\u00e1lia por haverdes roubado pevides de rom\u00e3. N\u00e3o passais de um vagabundo; n\u00e3o sois um viajante verdadeiro. Mostrais-vos mais insolente com os fidalgos e pessoas de respeito do que vos autoriza vossa virtude e a nobreza do vosso nascimento. N\u00e3o mereceis que eu vos d\u00ea nenhum qualificativo, sen\u00e3o t\u00e3o-somente o de velhaco. Deixo-vos sozinho. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Bem; muito bem. Que seja assim. Bem; muito bem. Deixemos isso oculto por algum tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Bertram.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Perdido! Entregue para sempre \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que aconteceu, meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Muito embora jurado eu tenha ao padre, n\u00e3o quero saber dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que acontece, meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00d3 meu Parolles! Acho-me casado! Para a guerra da Toscana prefiro ir, sem jamais subir ao t\u00e1lamo da que hoje \u00e9 minha esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Nossa Fran\u00e7a n\u00e3o passa de um chiqueiro. N\u00e3o merece que p\u00e9s a calquem de homens. \u00c0 guerra! \u00c0 guerra!<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Recebi estas cartas de minha m\u00e3e; n\u00e3o sei o que cont\u00eam.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Isso se ver\u00e1 logo. Para a guerra, meu rapaz, para a guerra! A honra no bolso traz escondida sempre quem se deixa ficar em casa a acariciar a amada, gastando nos seus bra\u00e7os a energia com que os corcovos dominar pudera do ginete de Marte generoso. Para outras terras! De uma estrebaria n\u00e3o passa a Fran\u00e7a, e n\u00f3s, que aqui vivemos, n\u00e3o somos mais do que \u00e9guas. Para a guerra!<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ser\u00e1 assim. Vou mand\u00e1-la para casa; escreverei a minha m\u00e3e acerca do \u00f3dio que lhe dedico e dos motivos de seguir para a guerra, e ao rei, por carta, direi o que n\u00e3o ouso pessoalmente. O dote recebido vai servir-me para os gastos da guerra da Toscana, onde se encontram muitos gentis-homens. Com casa escura e esposa detestada, a guerra \u00e9 brincadeira ou quase nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Esse capricho vai durar bastante?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Vem comigo at\u00e9 o quarto e me aconselha. Mand\u00e1-la-ei embora com presteza; \u00e0 guerra irei, deixando-a sem tristeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Quanta bala a zunir! Que estrondo! \u00c9 duro! Quem casa cedo \u00e9 assim, n\u00e3o tem futuro. Pela guerra abandona-a bravamente. Magoou-te o rei&#8230; Coragem! Para a frente!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem24\" name=\"bem24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Outro quarto no pal\u00e1cio. Entram Helena e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Minha m\u00e3e me envia saudares amistosos. Ela est\u00e1 passando bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o est\u00e1 bem, mas est\u00e1 com sa\u00fade. Encontra-se bastante alegre; contudo, n\u00e3o est\u00e1 bem. Mas gra\u00e7as sejam dadas, porque ela est\u00e1 passando muito bem, sem que nada lhe falte; mas agora, n\u00e3o vai passando bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Mas se ela est\u00e1 passando bem, de que sofre, para n\u00e3o estar bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 O que \u00e9 certo que tudo lhe corre bem, com exce\u00e7\u00e3o de duas coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Quais s\u00e3o elas?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Uma, \u00e9 por n\u00e3o estar ela no c\u00e9u, para onde Deus deveria lev\u00e1-la sem demora; a outra, \u00e9 por se encontrar na terra, de onde Deus deveria tir\u00e1-la o mais depressa poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Deus vos aben\u00e7oe, venturosa dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Penso, meu senhor, que conto com vossa boa vontade para a minha boa sorte, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Contais com minhas ora\u00e7\u00f5es para que ela vos alcance e para que possais segur\u00e1-la e entrar na posse dela. Ol\u00e1, maroto! Como vai passando a minha velha senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se pud\u00e9sseis ter suas rugas e eu o seu dinheiro, desejaria que ela estivesse como dizeis que est\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Mas seu eu n\u00e3o disse nada!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 O que vem provar que sois inteligente, porque muita l\u00edngua de criado faz vir \u00e0 luz os podres do patr\u00e3o. N\u00e3o dizer nada, n\u00e3o fazer nada, n\u00e3o saber de nada e n\u00e3o ter nada: eis o vosso melhor t\u00edtulo, que, afinal, \u00e9 pouco menos de nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vai saindo, maroto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Dever\u00edeis ter dito, senhor, que eu sou um maroto diante de outro; nestes termos: em minha frente n\u00e3o passas de um maroto. Com isso ter\u00edeis dito a verdade, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sai! \u00c9s um bobo espirituoso. Encontrei-te!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ou vos ensinaram a me encontrar? A busca foi proveitosa, senhor, e \u00e9 de desejar que encontreis em v\u00f3s mesmo muita tolice, para maior alegria do mundo e incremento da hilaridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Bom maroto, realmente, e bem nutrido. Senhora, o conde vai partir \u00e0 noite, para tratar de assunto muito urgente. Reconhece, sem d\u00favida, os direitos do amor e os privil\u00e9gios que pod\u00edeis reclamar para v\u00f3s. Mas \u00e9 for\u00e7ado, repito, que a abstin\u00eancia ora ele aceita, cujo prolongamento condiciona no futuro del\u00edcias inef\u00e1veis. O tempo escuro agora nos castiga para que, muito breve, as horas fiquem repletas de alegrias at\u00e9 \u00e0 borda, e de prazer transbordem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Al\u00e9m disso, que mais ele deseja?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que hoje mesmo vos despe\u00e7ais do rei, fazendo ver-lhe que essa resolu\u00e7\u00e3o de v\u00f3s proveio, sobre justificardes tanta pressa com raz\u00f5es que julgardes mais plaus\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Que mais ele me ordena?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que ap\u00f3s terdes alcan\u00e7ado a licen\u00e7a, novas ordens fiqueis dele a aguardar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sua vontade em tudo acatarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vou dizer-lhe isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Muito vos agrade\u00e7o. Vamos bobo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem25\" name=\"bem25\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto no mesmo. Entram Lafeu e Bertram.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Espero que Vossa Senhoria n\u00e3o o tenha na conta de um soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Pois n\u00e3o, senhor, de um soldado de comprovada bravura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Essas informa\u00e7\u00f5es vos vieram dele mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 E de testemunhas fidedignas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Nesse caso, meu rel\u00f3gio n\u00e3o regula. Tomava essa cotovia por uma calhandra.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Posso asseverar-vos, senhor, que ele possui profundos conhecimentos, que v\u00e3o de par com sua valentia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Ent\u00e3o eu pequei contra sua experi\u00eancia e violei as regras de seu valor, sendo a minha situa\u00e7\u00e3o tanto mais perigosa, por n\u00e3o encontrar no cora\u00e7\u00e3o do que me arrepender. A\u00ed vem ele. Por obs\u00e9quio, reconciliai-nos, que me esfor\u00e7arei por cultivar essa amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES (<i>a Bertram<\/i>) \u2014 Tudo est\u00e1 sendo providenciado, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, quem \u00e9 o alfaiate dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Oh! Conhe\u00e7o-o perfeitamente. Sim, senhor; \u00e9 um bom artista, excelente alfaiate.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM (<i>\u00e0 parte, a Parolles<\/i>) \u2014 Ela foi falar com o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Foi.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Partir\u00e1 esta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Conforme o determinastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Escrevi v\u00e1rias cartas, fiz pacotes de todo o meu dinheiro, ordens expressas mandei, porque aprontassem bons cavalos&#8230; E hoje noite, ao inv\u00e9s de entrar na posse do leito nupcial, tudo arremato antes de come\u00e7ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Um viajante inteligente \u00e9 sempre bem-vindo ao fim da refei\u00e7\u00e3o; mas o que vive a soltar mentiras e se vale de uma verdade conhecida para nos impingir mil pataratas, merece ser escutado uma vez e batido tr\u00eas. Deus vos guarde, capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Houve algum desacordo entre v\u00f3s e este nobre senhor, monsieur?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ignoro o motivo de haver incorrido no desagrado de Sua Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Saltastes a\u00e7odadamente para a vasilha, de bota e esporas tal como o buf\u00e3o que se joga no creme, e primeiro vos poreis a correr do que apresentareis raz\u00f5es de a\u00ed vos encontrardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 poss\u00edvel, milorde, que o tiv\u00e9sseis compreendido mal.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 O que sempre acontecer\u00e1, ainda que o venha a encontrar no momento de dizer as ora\u00e7\u00f5es. Passai bem, milorde, e acreditai no que vos digo: n\u00e3o h\u00e1 miolo nessa casca de noz; esse indiv\u00edduo tem a alma no vestu\u00e1rio. N\u00e3o lhe deis cr\u00e9dito em assunto de import\u00e2ncia. J\u00e1 domestiquei muitos tipos dessa esp\u00e9cie e conhe\u00e7o-lhes as manhas. Passai bem, senhor; falei de v\u00f3s em termos mais lisonjeiros do que merec\u00edeis de mim ou possais vir a merec\u00ea-lo. Mas \u00e9 preciso pagarmos o mal com o bem. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sujeito f\u00fatil, sou capaz de jurar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o penso assim.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o o conheceis?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Conhe\u00e7o-o bem; \u00e9 tido pelo povo em muito grande estima. Eis minha cruz.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Senhor, seguindo nisso vossas ordens, falei com o rei e permiss\u00e3o obtive para deixar a corte. Ele somente vos quer dizer uma palavra \u00e0 parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Far-lhe-ei nisso a vontade. Minha conduta, Helena, n\u00e3o vos deve causar admira\u00e7\u00e3o, por parecer-vos sem cor e sem prop\u00f3sito e ir de encontro ao que do meu dever se esperaria. Mas n\u00e3o me achava preparado para tal acontecimento, que, sem d\u00favida me apanhou de surpresa. Esse o motivo de vos pedir que vades para casa sem que estranheza reveleis por isso. Tenho motivos muito mais razo\u00e1veis do que d\u00e3o impress\u00e3o, sendo que h\u00e1 muito mais urg\u00eancia no assunto dessa viagem do que \u00e0 primeira vista poder\u00edeis supor, desconhecendo o que se passa. Dai isto a minha m\u00e3e. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>) Como s\u00f3 posso ver-vos daqui a dois dias, vos entrego \u00e0 vossa discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Nada vos digo, senhor, sen\u00e3o que sou vossa fiel serva.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Deixai; n\u00e3o faleis nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E que hei de sempre me esfor\u00e7ar por suprir o que n\u00e3o p\u00f4de me dar humilde estrela, em tudo digna me mostrando da sorte inesperada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Deixai. Estou com pressa. Voltai logo para casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Perdoai-me, por obs\u00e9quio, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Que pretendeis dizer com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 N\u00e3o mere\u00e7o a fortuna que me coube; n\u00e3o me atrevo a dizer que me pertence. No entanto, \u00e9 minha mesmo. Qual medroso ladr\u00e3o, hei de roubar modestamente do que me deu a lei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Que mais quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Um quase nada&#8230; Muito&#8230; Nada! Nada! N\u00e3o vos direi, senhor, o que me ocorre&#8230; N\u00e3o; vou dizer: s\u00f3 estranhos e inimigos se despedem sem se beijarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Por favor, depressa! Montai logo a cavalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Vossas ordens, meu bom senhor, ser\u00e3o obedecidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 (<i>a Parolles<\/i>): Os outros homens, onde est\u00e3o? (<i>A Helena<\/i>): Adeus, (<i>Sai Helena.<\/i>) Vai logo para casa, onde n\u00e3o hei de tornar a p\u00f4r os p\u00e9s enquanto espada puder brandir e o toque ouvir da luta. Para a guerra!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Coraggio! Bravo! Bravo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem31\" name=\"bem31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Floren\u00e7a. Um quarto no pal\u00e1cio do duque. Clarins. Entram o duque, com s\u00e9q\u00fcito, dois nobres franceses e soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Assim, de ponta a ponta, ouvistes todas as raz\u00f5es desta guerra inevit\u00e1vel, que tanto sangue tem custado e muito mais sede ainda revela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 A luta \u00e9 santa de vosso lado, negra e pavorosa do lado dos contr\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por isso mesmo muito nos surpreende que nosso primo, o Rei da Fran\u00e7a, o peito feche aos nossos apelos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Caro pr\u00edncipe, raz\u00f5es do Estado, nunca as soube, nunca. Como um particular que sempre longe viveu da corte, s\u00f3 na fantasia me figuro os conselhos imponentes. N\u00e3o ouso, pois, dizer-vos o que penso, visto j\u00e1 ter errado muitas vezes em minhas oscilantes conjeturas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Seja o que ele quiser.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Mas estou certo de que os nossos fidalgos, enfarados por n\u00e3o fazerem nada, aqui, bem presto, vir\u00e3o buscar a cura por que anseiam.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ser\u00e3o muito bem-vindos. Neles h\u00e3o de pousar as honras que de mim voarem. Conheceis vossos postos. Tereis sorte, se os grandes alcan\u00e7ar a fria morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Clarins. Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem32\" name=\"bem32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram a condessa e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Tudo se passou como eu o desejara, com a diferen\u00e7a de ele n\u00e3o a trazer consigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por minha f\u00e9, considero meu jovem senhor um homem muito melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Como chegastes a essa conclus\u00e3o, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, ele olha para as botinas e canta, endireita a gola e canta, faz perguntas e canta, palita os dentes e canta. Conhe\u00e7o um homem que tinha esse v\u00edcio da melancolia e vendeu uma bela propriedade por uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA (<i>abrindo a carta<\/i>) \u2014 Vejamos o que ele me escreve e quando pretende voltar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o penso em Isbel desde que estive na corte. Nosso velho bacalhau e os Isb\u00e9is do campo s\u00e3o coisa nenhuma em confronto com o velho bacalhau e as Isb\u00e9is da corte. Meu Cupido levou uma marretada na cabe\u00e7a, tendo eu come\u00e7ado a amar, como os velhos amam o dinheiro, sem grande apetite.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que temos aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Precisamente o que tendes a\u00ed. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 \u201cEnvio-vos uma nora; ela curou o rei e me desgra\u00e7ou. Desposei-a, mas n\u00e3o compartilhei do leito dela, tendo jurado comigo mesmo que esse \u2018N\u00e3o\u2019 ser\u00e1 eterno. Mais cedo ou mais tarde tereis de ficar sabendo da minha partida; recebei, pois, de mim esta not\u00edcia, antes de virdes a sab\u00ea-la por outras vias. Se o mundo for bastante largo, manter-me-ei sempre a grande dist\u00e2ncia. Meus respeitos filiais. Vosso desventurado filho Bertram.\u201d Foi malfeito. Oh rapaz precipitado, sem medida nenhuma! Desse modo desprezar os favores de um monarca, contra ti pr\u00f3prio lhe chamando a c\u00f3lera, por desprezado haver uma donzela t\u00e3o rica de virtudes e que fora digna at\u00e9 mesmo de ocupar um trono!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 \u00d3 madame! L\u00e1 fora h\u00e1 not\u00edcias pesadas entre dois soldados e a minha jovem senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Mas h\u00e1 alguma consola\u00e7\u00e3o nessas not\u00edcias, alguma consola\u00e7\u00e3o: vosso filho n\u00e3o h\u00e1 de ser morto t\u00e3o depressa como eu julgava.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Por que haveria de ser ele morto?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Quero dizer, madame, no caso de fugir, como dizem que o fez. O perigo consiste em enfrentar o perigo, que \u00e9 como os homens perdem e as crian\u00e7as v\u00eam ao mundo. Eis que chegam as pessoas que vos poder\u00e3o contar melhor do que eu o de que se trata. De minha parte, s\u00f3 ouvi dizer que vosso filho fugiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Helena e dois gentis-homens.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Deus vos guarde, senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00d3 condessa! o meu senhor partiu, partiu para sempre!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 N\u00e3o faleis desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ficai calma. Senhores, por obs\u00e9quio&#8230; Tantos golpes me t\u00eam tocado a um tempo, de alegria e tristeza, que imposs\u00edvel ter\u00e1 de ser qualquer deixar-me agora sem a calma precisa. Por obs\u00e9quio: meu filho onde se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Foi, senhora servir na guerra ao Duque de Floren\u00e7a. Em caminho o encontramos, pois viemos justamente de l\u00e1, sendo que logo que nos desincumbirmos da mensagem que \u00e0 corte nos conduz, para Floren\u00e7a voltaremos de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Nesta carta, senhora, encontrareis meu passaporte. Quando conseguires o anel que trago no dedo, e que jamais sair\u00e1 dele, e quando puderes mostrar-me um filho nascido de teu ventre, que tenha sido gerado por mim: ent\u00e3o poder\u00e1s dar-me o nome de esposo. Mas esse \u201cent\u00e3o\u201c vale por um \u201cnunca.\u201d Que senten\u00e7a terr\u00edvel!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Cavalheiros, fostes os portadores desta carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Sim, condessa, pesando-nos o esfor\u00e7o de traz\u00ea-la, ao sabermos do que trata.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Menina, por favor mostra-te alegre; se ficares com todas as tristezas, senhoreias a parte que me toca. Ele era filho meu. Seu nome agora do sangue apago, porque fiques sendo minha filha t\u00e3o-s\u00f3. Ent\u00e3o, certo que foi para Floren\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Sim, condessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Quer ser soldado?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Esse seu nobre empenho, e podeis ficar certa de que o duque vai cobri-lo de quantas honrarias faz jus seu nobre sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Novamente viajais para Floren\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Sim, condessa; com as lestas asas que nos der a pressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u201cEnquanto esposa eu n\u00e3o tiver, em Fran\u00e7a n\u00e3o terei coisa alguma,\u201d \u00c9 muito amargo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Na carta encontrais isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sim, condessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Talvez a m\u00e3o, somente houvesse tido semelhante ousadia, sem que dela tomasse o cora\u00e7\u00e3o conhecimento<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Enquanto esposa n\u00e3o tiver, em Fran\u00e7a n\u00e3o ter\u00e1 coisa alguma! Nada a Fran\u00e7a tem digno dele, se n\u00e3o for Helena, que merece um marido a que servissem dez rapazes assim como ele, rudes, que a toda hora a chamassem de senhora. Quem estava com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Um criado, apenas, e um cavalheiro que eu conhe\u00e7o h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Parolles, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Precisamente, minha cara senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 \u00c9 um tipo difamado, cheio de malvadez. Meu filho estraga na companhia dele o seu car\u00e1ter de princ\u00edpios t\u00e3o bons.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Raz\u00e3o vos sobra no que dizeis, condessa. Ele defeitos em excesso possui, que h\u00e3o de impedi-lo de alguma coisa ser em qualquer tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Sois bem-vindos, senhores. Quando virdes novamente meu filho, por obs\u00e9quio dizei-lhe que jamais com a espada ele h\u00e1 de ganhar a honra perdida. Outros recados de minha parte, em carta, heis de levar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Contai conosco, nobre dama, nisto, como em qualquer assunto de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Isso s\u00f3 bastar\u00e1, se n\u00e3o mudarmos. Vireis comigo, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem a condessa e os gentis-homens.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u201cEnquanto esposa eu n\u00e3o tiver, em Fran\u00e7a n\u00e3o tereis coisa alguma.\u201d N\u00e3o tem nada na Fran\u00e7a, enquanto n\u00e3o tiver esposa! Nenhuma esposa, Rossilh\u00e3o, na Fran\u00e7a vir\u00e1s a ter, nenhuma. Depois, tudo de novo h\u00e1 de ser teu. Pobre marido! Eu sou a que te expulso de tua p\u00e1tria e os gr\u00e1ceis membros aos cru\u00e9is eventos das batalhas te exponho? Eu, que da corte t\u00e3o am\u00e1vel te arranco, onde olhos temos sobre ti convergiam, para seres alvo dos fumegantes mosqueteiros? Mensageiros de chumbo, que os ginetes de fogo cavalgais devastadores, errai o alvo! Cortai o ar sossegado, que canta ao ser rasgado, mas no esposo n\u00e3o me toqueis! Se a mira puser nele qualquer atirador, de mim lhe veio semelhante incumb\u00eancia; se lhe o peito nobre algu\u00e9m atacar, a miser\u00e1vel fui eu que o concitei a essa aventura. E conquanto o n\u00e3o mate, sempre a causa serei de seu trespasse. Melhor fora, para mim, encontrar o le\u00e3o terr\u00edvel, quando ruge acossado pela fome; muito melhor que todas as mis\u00e9rias da natureza, a um tempo, fossem minhas. N\u00e3o, Rossilh\u00e3o, retorna para casa! Esses lugares deixa em que a honra ganha somente cicatrizes e, por vezes, chega tudo a perder. Sairei de casa. Se a causa eu sou de andares desterrado, poderei aqui estar? N\u00e3o! Ainda mesmo que aqui do para\u00edso o ar respirasse e servida por anjos eu me visse. Partirei, porque o boato compassivo fale de minha fuga e, de algum modo, te sirva de consolo. Vem depressa, noite escura! Termina, \u00f3 dia feio! que eu, pobre ladra, as trevas n\u00e3o receio. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Floren\u00e7a. Diante do pal\u00e1cio do duque. Clarins. Entram o duque, Bertram, Parolles e soldados tocando tambores e trombetas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ficar\u00e1s sendo o general de nossa cavalaria. Rico de esperan\u00e7as, depositando nosso amor em tua fortuna promissora.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 muito peso, senhor, para estes ombros. Todavia, por se tratar de vossa causa digna, procurarei lev\u00e1-lo ao ponto extremo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vai logo, e que a Fortuna, qual amada caprichosa, te afague o capacete.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00d3 grande Marte, neste dia eu entro para tuas fileiras! D\u00e1 que eu seja conforme os pensamentos que me agitam, que amante eu provarei ser do tambor, como inimigo ac\u00e9rrimo do amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem34\" name=\"bem34\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram a condessa e o intendente.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Por que aceitaste a carta? N\u00e3o previas que ao te entregar a carta ela haveria de fazer o que fez? L\u00ea-a de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE (<i>l\u00ea<\/i>) \u2014 Parto como devota de S\u00e3o Tiago. Culpada me tornou o amor ousado; descal\u00e7a, agora, o frio ch\u00e3o afago porque demover possa o dum fado. Escrevei logo, porque meu marido, vosso filho, sair possa da guerra. Vivei felizes, que este dolorido cora\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 numa outra terra. Possa ele me perdoar a dura sorte. Juno implac\u00e1vel, o mandei para onde os her\u00f3is acossados s\u00e3o da morte, longe da corte onde o prazer se esconde. \u00c9 bom demais para morrer agora. Que a morte, ent\u00e3o, me leve em boa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Quantos espinhos nessas frases brandas! Rinaldo, nunca te mostraste tanto destitu\u00eddo de senso, como ao teres deixado que se fosse. Se eu tivesse conversado com ela, a demovera de semelhante intento. Ora burlou-nos qualquer expectativa de ret\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">INTENDENTE \u2014 Perd\u00e3o, senhora, mas se eu vos tivesse dado a carta esta noite, \u00e9 bem poss\u00edvel que a houv\u00e9ssemos pegado. Todavia, ela escreveu que tudo fora in\u00fatil.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Como pode haver anjo que aben\u00e7oe marido t\u00e3o indigno? Venturoso jamais poder\u00e1 ser, se lhe faltarem as ora\u00e7\u00f5es da esposa, que acolhida sempre acharam no c\u00e9u, porque da c\u00f3lera do Julgador supremo o deixem livre. Rinaldo, escreve, escreve sem demora ao marido que indigno se revela de uma tal companheira. Que as palavras de tua carta pesem tanto quanto cada um dos grandes m\u00e9ritos de Helena, que t\u00e3o de leve ele avalia agora. Mostra-lhe quanto \u00e9 grande o meu desgosto, conquanto mossa alguma isso lhe fa\u00e7a. Confia a carta a um mensageiro pr\u00e1tico. Talvez retorne, quando ouvir a nova da partida de Helena, sendo cr\u00edvel que esta, ao saber que em casa ele se encontra, voltar\u00e1 sem demora, conduzida pelo mais puro amor. Dizer n\u00e3o posso qual dos dois me \u00e9 mais caro; habilidade para tanto me falta. Cuida logo do mensageiro. O cora\u00e7\u00e3o no peito se me aperta; a velhice em mim j\u00e1 pesa. A chorar a tristeza ora me obriga, mas discursos me arranca a dor imiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem35\" name=\"bem35\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Diante dos muros de Floren\u00e7a. Ao longe, toque de trombeta. Entram uma vi\u00fava de Floren\u00e7a, Violenta, Mariana e v\u00e1rios cidad\u00e3os.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Vinde para mais perto, porque se eles se aproximarem da cidade, n\u00e3o veremos coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Dizem que o conde franc\u00eas prestou servi\u00e7os inestim\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 O que corre por a\u00ed \u00e9 que ele aprisionou o principal comandante e que com a pr\u00f3pria m\u00e3o tirou a vida ao irm\u00e3o do duque. Perdemos o trabalho! Tomaram outra estrada. Aten\u00e7\u00e3o! Trombetas!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Vamos embora. Contentemo-nos em ouvir o que nos contarem. Diana, toma cuidado com esse conde franc\u00eas. A honra de uma donzela \u00e9 sua fama, n\u00e3o havendo dote de mais valor do que a honestidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Contei a minha vizinha que fostes solicitada por um gentil-homem da companhia dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Conhe\u00e7o esse tipo. Que se enforque! Um tal Parolles; \u00e9 um oficial ign\u00f3bil, o dem\u00f4nio tentador do jovem conde. Diana, cuidado com eles; suas promessas, sedu\u00e7\u00f5es, juramentos, presentinhos e todos esses artif\u00edcios da lux\u00faria, n\u00e3o s\u00e3o o que parecem ser. Muitas donzelas j\u00e1 foram desviadas por eles; mas infelizmente o espet\u00e1culo da virgindade naufragada, com suas terr\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias, n\u00e3o serve de exemplo para ser evitado, havendo muitas donzelas que se deixam pegar no visgo que para elas \u00e9 preparado. Penso que n\u00e3o precisarei insistir, por estar certa de que a tua virtude te conservar\u00e1 como est\u00e1s, ainda que a perda da mod\u00e9stia fosse o \u00fanico perigo a temer.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcila a meu respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 \u00c9 o que espero. V\u00eade; a\u00ed vem uma peregrina. \u00c9 certeza ir pousar em casa, porque todos os peregrinos a recomendam. Vou falar-lhe. (<i>Entra Helena, em trajes de peregrino.<\/i>) Deus vos proteja em tudo, peregrina. Onde ides repousar?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Na hospedaria de S\u00e3o Jaques le Grand, onde se alojam todos os peregrinos. Onde fica?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Perto dos Franciscanos, junto ao porto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00c9 este o caminho?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Sim; por a\u00ed mesmo. (<i>Marcha guerreira, ao longe.<\/i>) V\u00eam vindo por aqui. Se demorardes, santa peregrina, para ver o desfile, eu te encarrego de at\u00e9 l\u00e1 conduzir-vos, pois conhe\u00e7o como a mim pr\u00f3pria a dona da hospedagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sois ela, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Decerto, peregrina, se n\u00e3o vos causo inc\u00f4modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Obrigada. Esperarei o tempo que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Viestes da Fran\u00e7a, penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 De l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Ides ver um patr\u00edcio valoroso, que adquiriu grande fama.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Qual seu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 \u00c9 o Conde Rossilh\u00e3o. Sabeis quem seja?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 S\u00f3 de nome o conhe\u00e7o; falam dele com muitos elogios. Nunca o vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Seja quem for, \u00e9 tido em alta conta. Por aqui dizem que fugiu de Fran\u00e7a porque o rei o casou contra a vontade. Pensais que seja assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Pura verdade; conhe\u00e7o sua esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Um gentil-homem do servi\u00e7o de conde fala dela com muito desrespeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Qual seu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Monsieur Parolles.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Dou-lhe todo cr\u00e9dito, porque em mat\u00e9ria de elogios, tendo-se em mira o grande conde, ela \u00e9 pequena por demais para ser sequer lembrada. Consiste todo o seu merecimento na moral mais severa, n\u00e3o havendo quem sobre isso aventure qualquer d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Pobre senhora! \u00c9 escravid\u00e3o penosa casar-se algu\u00e9m com quem \u00f3dio lhe vota.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 decerto. Coitadinha! Em qualquer parte que esteja, h\u00e1 de sofrer. Esta menina que aqui v\u00eades, podia preparar-lhe uma velhacaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Em que sentido dizeis isso? Pensais que, apaixonado dela, o conde podia apresentar-lhe propostas menos l\u00edcitas?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Foi isso, realmente, o que se deu. Ele se vale de todos os engodos que em tais casos a gr\u00e1cil honra amea\u00e7am das donzelas. Mas ela est\u00e1 de guarda e se acautela contra ele numa honesta resist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Deus n\u00e3o queira que seja de outro modo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Bertram e Parolles, precedidos de tambores e estandartes e seguidos de parte do ex\u00e9rcito florentino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Ei-los! Aquele \u00e9 Ant\u00f4nio, o primog\u00eanito do duque. Aquele \u00e9 Escalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Qual \u00e9 o conde franc\u00eas?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Aquele ali, que traz a pluma. \u00c9 um mo\u00e7o lindo. Desejara que ele tivesse amor \u00e0 esposa. Caso fosse mais fiel, me parecera mais am\u00e1vel N\u00e3o \u00e9 elegante?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 A mim parece bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 \u00c9 pena ser desleal. Aquele \u00e9 o biltre que leva o conde para o mau caminho. Se eu fosse a esposa, j\u00e1 teria dado veneno a esse patife.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Qual \u00e9 deles?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Aquele mono ali, cheio de fachas. Mas por que estar\u00e1 triste?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Foi ferido, decerto, no combate.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ora! Ora! Perder nosso tambor!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Parece muito contrariado. Aten\u00e7\u00e3o, que ele nos viu!<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Vai te enforcar, idiota!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Por que tanta rever\u00eancia para um alcoviteiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Bertram, Parolles, oficiais e soldados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 As tropas j\u00e1 passaram. Peregrina, vou levar-vos agora para casa. J\u00e1 est\u00e3o na hospedaria quatro ou cinco penitentes que v\u00e3o cumprir promessa no t\u00famulo do grande S\u00e3o Tiago.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Agrade\u00e7o-vos muito humildemente. Se esta senhora e sua gentil filha se dignarem de cear hoje conosco, os gastos pagarei, sobre ficar-lhes agradecida. Mais: porque vos possa recompensar, darei alguns conselhos a esta menina, dignos de anotados.<\/p>\n<p align=\"justify\">AMBAS \u2014 Aceitamos de grado vosso invite.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem36\" name=\"bem36\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Acampamento diante de Floren\u00e7a. Entram Bertram e dois nobres franceses.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Assim mesmo, caro conde; experimentai-o; fazei-lhe a vontade nesse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Se Vossa Senhoria, n\u00e3o se convencer de que ele \u00e9 um poltr\u00e3o de marca, consinto em perder vossa estima.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Por minha vida, senhor, n\u00e3o passa de uma bolha de sab\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Acreditais que eu me iludi a tal ponto a respeito dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Podeis crer no que vos digo, milorde. Por tudo o que sei a seu respeito, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, falando sem qualquer mal\u00edcia, como se se tratasse de um parente, considero-o um covarde de primeira, mentiroso infinito e ilimitado, sujeito que a todos os momentos falta com a palavra, carecente de qualquer qualidade merecedora das aten\u00e7\u00f5es de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Seria bom que o fic\u00e1sseis conhecendo, para n\u00e3o acontecer que em algum neg\u00f3cio importante venhais a contar com qualidades que ele n\u00e3o possuir e, assim, ficardes em situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Desejara que se oferecesse uma oportunidade para experiment\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 N\u00e3o h\u00e1 melhor oportunidade do que mand\u00e1-lo buscar o tambor que os inimigos lhe tomaram, o que ele tanto se gaba de poder fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Eu e outros florentinos haveremos de surpreend\u00ea-lo. Terei o cuidado de escolher gente desconhecida dele, para que ele julgue tratar-se de inimigos. Havemos de amarr\u00e1-lo e de tapar-lhe os olhos, de forma que n\u00e3o possa deixar de acreditar que o conduzimos para o acampamento dos advers\u00e1rios, quando, em verdade, o levamos para nossas tendas. Assista Vossa Senhoria ao interrogat\u00f3rio a que o submetermos. Se, levado pelo mais vergonhoso medo da morte, s\u00f3 pela promessa de o deixarmos vivo, ele n\u00e3o se prontificar a vos trair e a nos revelar tudo o que sabe a vosso respeito, empenhando nisso at\u00e9 mesmo a salva\u00e7\u00e3o da alma, nunca mais confieis no meu julgamento, seja sobre que assunto for.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Oh! Pelo amor da gargalhada, mandai-o buscar o tambor. Ele espalha por a\u00ed tudo que disp\u00f5e de um estratagema infal\u00edvel. Quando Vossa Senhoria puder enxergar at\u00e9 ao fundo de seu \u00eaxito e se certificar da esc\u00f3ria a que ficou reduzido esse falso lingote de metal, se n\u00e3o passardes a trat\u00e1-lo como um Jo\u00e3o Tambor, \u00e9 que vossa inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente inabal\u00e1vel. Ei-lo que chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Oh! pelo amor da gargalhada, n\u00e3o nos priveis de semelhante brincadeira. Mandai-o buscar o tambor, seja como for.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ent\u00e3o, monsieur! Ainda estais a pensar no tambor?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Ora, que o leve a breca.&#8217; Afinal, que \u00e9 um tambor?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que \u00e9 um tambor? Sim, \u00e9 um tambor. Mas perder um tambor dessa maneira! Excelente comando, em verdade! Atirar a cavalaria contra nossas pr\u00f3prias asas e destro\u00e7ar nossos pr\u00f3prios soldados!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 N\u00e3o devemos censurar o comando; foi um desastre que o pr\u00f3prio C\u00e9sar n\u00e3o poderia ter evitado, se tivesse sido dele a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Bem; n\u00e3o lastimemos o que se deu. \u00c9 certo que alguma desonra nos atinge com a perda desse tambor. Mas agora n\u00e3o podemos pensar em reav\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Pois \u00e9 poss\u00edvel reav\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 J\u00e1 foi poss\u00edvel; agora \u00e9 tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ainda \u00e9 poss\u00edvel. Se o m\u00e9rito dos grandes feitos nas campanhas militares n\u00e3o fosse t\u00e3o raramente atribu\u00eddo a quem os executa com verdade e exatid\u00e3o, eu poderia reaver n\u00e3o s\u00f3 esse tambor como qualquer outro, ou <i>hic jacet.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ent\u00e3o, monsieur, se revelais tanto desejo disso, se tendes a certeza de que vosso misterioso estratagema poder\u00e1 fazer voltar para o seu quartel natal esse instrumento de honra, s\u00eade magn\u00e2nimo no empreendimento, e m\u00e3os \u00e0 obra! Considerarei tal feito como uma fa\u00e7anha gloriosa. Se fordes bem-sucedido, o duque n\u00e3o somente falar\u00e1 de semelhante empreendimento, como vos far\u00e1 sentir os benef\u00edcios de sua grandeza at\u00e9 \u00e0 \u00faltima s\u00edlaba do vosso m\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por esta m\u00e3o de soldado, vou tent\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o deixeis que o assunto durma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vou come\u00e7ar ainda esta tarde, passando desde j\u00e1 a desenhar os planos, a dar for\u00e7a a minha resolu\u00e7\u00e3o e a ditar as minhas \u00faltimas disposi\u00e7\u00f5es. L\u00e1 pela meia-noite ouvireis falar de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Posso ter a ousadia de comunicar a Sua Gra\u00e7a que j\u00e1 destes in\u00edcio a esse empreendimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Qual seja o fim disso, milorde, n\u00e3o saberei diz\u00ea-lo; mas juro que farei uma tentativa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Tenho-te na conta de bravo, e subscrevo tudo o que \u00e9 de esperar de tua coragem de soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 N\u00e3o sou amigo de muitas palavras. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 T\u00e3o pouco amigo quanto o peixe da \u00e1gua. Que achais de um sujeito como esse, milorde, que parece entrar com tamanha confian\u00e7a em um neg\u00f3cio que antecipadamente tem por impratic\u00e1vel? Com essa resolu\u00e7\u00e3o ele mesmo se condena \u00e0s penas eternas, preferindo ser condenado a levar avante o empreendimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 N\u00e3o o conheceis tanto quanto n\u00f3s, milorde. \u00c9 certo que sabe o segredo de insinuar-se nas gra\u00e7as de qualquer pessoa, evitando, por uma semana, que se lhe descubram as tricas; mas, uma vez desmascarado, t\u00ea-lo-eis preso para sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Como! Acreditais que n\u00e3o far\u00e1 nada do que prometeu com tanta solenidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Absolutamente nada; voltar\u00e1 da aventura com uma invencionice qualquer, pespegando-vos duas ou tr\u00eas mentiras a jeito. Mas j\u00e1 lhe descobrimos o rasto; esta noite haveis de v\u00ea-lo na armadilha, porque, em verdade, n\u00e3o \u00e9 digno das aten\u00e7\u00f5es de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Primeiro, brincaremos um pouco com a raposa, antes de lhe tirarmos a pele. O velho senhor Lafeu j\u00e1 est\u00e1 na pista. Quando lhe tirarmos a m\u00e1scara, haveis de ver que tipo s\u00f3rdido ele \u00e9, de fato, o que n\u00e3o passar\u00e1 desta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Preciso ir preparar a armadilha; havemos de apanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Vosso irm\u00e3o ficar\u00e1 comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Como for do agrado de Vossa Senhoria. Deixo-vos. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Agora vou levar-vos \u00e0 hospedagem, onde a jovem est\u00e1 de que falamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Dissestes que ela \u00e9 honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 o seu defeito. Falei-lhe uma s\u00f3 vez, tendo-a encontrado extremamente fria. Mas mandei-lhe por esse mesmo biltre, em cuja pista nos pusemos, presentes e missivas, que ela me devolveu. \u00c9 tudo o que houve. \u00c9 uma criatura linda. Quereis v\u00ea-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Irei de todo cora\u00e7\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem37\" name=\"bem37\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Floren\u00e7a. Um quarto em casa da vi\u00fava. Entram Helena e a vi\u00fava.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se duvidais que eu seja ela, realmente, n\u00e3o sei que outras raz\u00f5es possa aduzir-vos se n\u00e3o for estragando o pr\u00f3prio plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Conquanto empobrecida, sou de boa fam\u00edlia; desconhe\u00e7o esses assuntos. N\u00e3o posso, assim, comprometer o nome numa a\u00e7\u00e3o duvidosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Nunca tive semelhante inten\u00e7\u00e3o. Mas podeis crer-me: o conde \u00e9 meu marido. Tudo quanto vos confiei h\u00e1 momentos \u00e9 verdade, palavra por palavra. Nem poss\u00edvel ser\u00e1, portanto, cometerdes algo pass\u00edvel de censura, se me derdes o aux\u00edlio que vos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Convencida me confesso depois que apresentastes prova de que sois rica.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Tomai esta bolsa com moedas de ouro, permitindo-me vos compre, desta forma, a ajuda amiga, que de pagar n\u00e3o deixarei mais vezes depois de obtido tudo. A vossa filha corteja o conde, tendo posto cerco, com o vi\u00e7o que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, \u00e0 sua rara formosura, disposto a conquist\u00e1-la. Ela que ceda e \u00e0 risca siga os nossos conselhos, que h\u00e1 de em bem acabar tudo. N\u00e3o h\u00e1 de recusar o sangue altivo do conde o que ela exigir dele em paga. Um anel de fam\u00edlia usa ele sempre, que de pai para filho vem passando h\u00e1 quatro ou cinco gera\u00e7\u00f5es, contadas desde o primeiro dono. Em alta estima tem o conde esse anel; mas ante a ard\u00eancia de seus desejos, porque o intento alcance, dele se desfar\u00e1, embora venha depois a arrepender-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 J\u00e1 come\u00e7o a entender vosso plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E quanto ele \u00e9 leg\u00edtimo. Consiste, simplesmente, em mostrar-lhe vossa filha, antes de parecer que se lhe entrega, desejos de possuir aquela j\u00f3ia. Depois lhe marcar\u00e1 uma entrevista, que ficar\u00e1 a meu cargo, conservando-se castamente a dist\u00e2ncia. Alcan\u00e7ando isso, lhe darei, de crescen\u00e7a, como dote, tr\u00eas mil coroas mais do que assentamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Nada mais oporei. S\u00f3 falta, agora, dardes a minha filha as necess\u00e1rias instru\u00e7\u00f5es, porque o tempo e as circunst\u00e2ncias esse embuste legal ajudar possam. Como sempre, \u00e0 noitinha trar\u00e1 m\u00fasicos variados e can\u00e7\u00f5es feitas em honra de sua indignidade. Em v\u00e3o tentamos enxot\u00e1-lo de casa; ele persiste como quem joga nisso a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Ent\u00e3o \u00e0 noite a pe\u00e7a ensaiaremos. Sendo bem-sucedida, em a\u00e7\u00e3o boa transmudaremos o ato que destoa, e embora seja, em si, o passo errado, nenhum dos dois cometer\u00e1 pecado. Mas passemos \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem41\" name=\"bem41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Fora do campo florentino. Entra o primeiro nobre franc\u00eas, com cinco ou seis soldados, que se p\u00f5em de emboscada.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Ele n\u00e3o poder\u00e1 deixar de passar pelo canto desta sebe. Quando saltardes sobre ele, falai a linguagem terr\u00edvel que bem vos parecer, n\u00e3o importando que v\u00f3s mesmos n\u00e3o vos entendais, pois teremos de dar a impress\u00e3o de n\u00e3o entender o que ele disser, com exce\u00e7\u00e3o de um do nosso grupo, que servir\u00e1 de int\u00e9rprete.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Bom capit\u00e3o, permiti que seja eu o int\u00e9rprete.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 N\u00e3o \u00e9s das rela\u00e7\u00f5es dele? Ele n\u00e3o conhece a tua voz?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o, senhor; posso assegurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Mas em que geringon\u00e7a falar\u00e1s conosco?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Na mesma em que me falardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 preciso que ele nos tome por um bando de estrangeiros a soldo do inimigo. Mas como ele possui umas tinturas dos dialetos da vizinhan\u00e7a, cada um de n\u00f3s ter\u00e1 de falar como lhe ditar a fantasia, sem se preocupar com o que os outros possam estar a dizer. O que importa \u00e9 darmos a impress\u00e3o de que nos entendemos; a linguagem das gralhas ou o grasnar dos corvos, tudo serve. Quanto a v\u00f3s, int\u00e9rprete, precisareis agir como um grande pol\u00edtico. Mas agachai-vos! A\u00ed vem ele, para enganar duas horas a dormir e depois voltar e jurar quantas mentiras tenha forjicado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Dez horas! Daqui a tr\u00eas horas ser\u00e1 tempo de voltar para casa. Que direi que fiz neste meio-tempo? Preciso inventar qualquer mentira plaus\u00edvel, que me tire deste apuro. J\u00e1 come\u00e7am a desconfiar; de certo tempo a esta parte, a infelicidade me tem batido \u00e0 porta com bastante freq\u00fc\u00eancia. Sei que tenho a l\u00edngua ousada, mas o cora\u00e7\u00e3o sempre se mostrou medroso de Marte e de seus filhos, motivo por que n\u00e3o se atreve a p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o o que ela avan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Essa \u00e9 a primeira verdade de que em qualquer tempo a tua l\u00edngua se mostrou culpada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Que diabo me levou a dizer que eu podia reaver esse tambor, se eu sabia perfeitamente que se tratava de feito impratic\u00e1vel e nunca tivera a inten\u00e7\u00e3o de realiz\u00e1-lo? Terei de praticar em mim mesmo alguns ferimentos, para poder afirmar, depois, que os adquiri nesta aventura. Mas ferimentos superficiais de nada servir\u00e3o, pois poder\u00e3o objetar-me: \u201cVoltastes da empresa com t\u00e3o pouco?\u201d Bem, mas ferimentos graves, n\u00e3o tenho coragem de fazer. E, afinal, para qu\u00ea? L\u00edngua, p\u00f4r-te-ei na boca de uma mulher de manteiga e comprarei outra dos mudos de Bajazet, se com tua tagarelice te meteres em outra enrascada igual a esta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel que se conhe\u00e7a a tal ponto e continue sendo o que \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Quem me dera que bastasse para me tirar do apuro produzir alguns rasg\u00f5es na roupa, ou quebrar a minha espada espanhola!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O que n\u00e3o te permitir\u00edamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ou cortar a barba, para depois dizer que isso fazia parte dos meus planos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 De pouco te serviria tal servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ou atirar na \u00e1gua as vestes, e dizer que me despojaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Ser\u00e1 dif\u00edcil.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ainda que eu jurasse haver saltado da janela da cidadela&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 De que altura?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 &#8230;trinta toezas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Tr\u00eas juramentos solenes ainda foram insuficientes para que acreditassem em tua palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Se eu conseguisse arranjar um tambor qualquer dos inimigos, juraria que havia reconquistado o meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Vais ouvir um neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Um tambor do inimigo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se sinal de alarma.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Throca movousus, cargo, cargo, cargo!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Cargo, cargo, villianda par corbo, cargo. (<i>Atiram-se sobre Parolles e amarram-lhe os olhos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh! Resgate! Resgate! N\u00e3o me amarreis os olhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Boskos thromuldo boskos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Vejo que sois do regimento Muskos. Oh! Terei de morrer, por ser-me estranha vossa linguagem. Entre v\u00f3s, acaso, n\u00e3o h\u00e1 nenhum franc\u00eas, ou italiano, holand\u00eas, alem\u00e3o, dinamarqu\u00eas? Que me venha falar; hei de fazer-lhe revela\u00e7\u00f5es capazes de a desgra\u00e7a levar aos florentinos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Boskos vauvado. Falo tua l\u00edngua e entendo o que disseste. Kerelybonto, amigo. Pensa na salva\u00e7\u00e3o, pois dezessete punhais tens ante o peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Reza! Reza! Manha revania dulche.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Oscorbidulchos volivorco.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Permite o general que te poupemos. Vendado como est\u00e1s, ir\u00e1s conosco, porque ele te interrogue. Talvez possas dizer-nos algo que te salve a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh! Deixai-me viver, que vos prometo revelar tudo o que h\u00e1 no nosso campo: a quanto montam nossos efetivos, os planos de campanha. Vou deixar-vos perplexos, podeis crer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Sem mentiras?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por minha salva\u00e7\u00e3o: puras verdades.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Acordo linta. Vem conosco; damos-te algum tempo de prova.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem escoltando Parolles alarma ao longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Ide dizei ao meu irm\u00e3o e ao Conde de Rossilh\u00e3o que o p\u00e1ssaro est\u00e1 preso. Vendado vai ficar at\u00e9 que novas venhamos a ter deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Sem demora, meu capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Dizei-lhes, tamb\u00e9m, que ele nos pretende trair para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO SOLDADO \u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Mas que at\u00e9 esse instante na sombra ficar\u00e1 sob sete chaves.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem42\" name=\"bem42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto em casa da vi\u00fava. Entram Bertram e Diana.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Chamai-vos Fontebela? Assim disseram-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 N\u00e3o meu senhor; Diana.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Excelsa deusa.! Sois digna desse nome e demais, ainda. Mas dizei-me, linda alma; nessa forma t\u00e3o perfeita n\u00e3o tem o amor imp\u00e9rio? Se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o vos anima o fogo da mocidade, \u00e9 que n\u00e3o sois vivente, mas uma est\u00e1tua, apenas. Quando morta, ficareis como agora: fria e s\u00e9ria. Mas dever\u00edeis ser neste momento como era vossa m\u00e3e, ao engendrar-vos assim t\u00e3o meiga e bela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Ela era honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 V\u00f3s tamb\u00e9m o sereis.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 N\u00e3o, que ela apenas cumpria o seu dever, tal qual, milorde, como de v\u00f3s espera vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o falemos mais nisso. Por obs\u00e9quio, deixa de resistir a minhas s\u00faplicas. A outra, a mal de meu grado, me ligaram; mas preso a ti me sinto pelos pr\u00f3prios elos do amor, t\u00e3o gratos e inquebr\u00e1veis, pondo-me eternamente a teu servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 V\u00f3s nos servis at\u00e9 que vos sirvamos; mas, uma vez colhidas nossas rosas, permitis, simplesmente, que nos punjam nossos pr\u00f3prios ac\u00faleos, sobre rirdes do estado em que ficamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o te tenho jurado tantas vezes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 A verdade, muitas juras nem sempre a certificam; um s\u00f3 voto, para isso, \u00e9 suficiente, do imo peito nascido. S\u00f3 juramos pelo que \u00e9 mais sagrado, reportando-nos \u00e0 presen\u00e7a do Alt\u00edssimo. Dizei-me, por favor: se eu jurasse pelos grandes atributos de Jove que vos tinha amor quase infinito, acredit\u00e1reis em quanto vos dissesse, se em preju\u00edzo vosso fosse esse amor? N\u00e3o \u00e9 insensato jurar a quem protesto amar deveras que pretendo arruin\u00e1-lo? Vossas juras, portanto, s\u00e3o palavras sem sentido, carecem de chancela, pelo menos no meu modo de ver.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Muda de id\u00e9ia. N\u00e3o sejas cruel e santa ao mesmo tempo. O amor \u00e9 coisa santa. N\u00e3o condiz com meu car\u00e1ter fraude alguma dessas de que acusas os homens. N\u00e3o persistas em tua resist\u00eancia, mas entrega-te ao meu doente desejo, que, com isso, ficar\u00e1 bom de todo. Dize apenas que \u00e9s minha, que este amor ficar\u00e1 sempre como ora se te mostra.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Os homens prendem cordas nas rochas \u00edngremes, visando nosso perigo. Ent\u00e3o dai-me esse anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Poderei emprestar-to, cara amiga, mas n\u00e3o tenho o direito de presente fazer dele a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 N\u00e3o quereis dar-mo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 que esse anel \u00e9 j\u00f3ia de fam\u00edlia, de grande estima\u00e7\u00e3o, que nos vem sendo transmitido de heran\u00e7a; fora m\u00e1cula indel\u00e9vel perd\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 \u00c9 assim minha honra como esse anel. A castidade \u00e9 a j\u00f3ia principal da fam\u00edlia, que vem sendo transmitida de heran\u00e7a; fora m\u00e1cula indel\u00e9vel perd\u00ea-la. Desse modo, vossa sabedoria se transforma em campe\u00e3 de minha honra, protegendo-a contra vossos ataques improf\u00edcuos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Recebe, ent\u00e3o, o anel. Fam\u00edlia, honra, minha pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 tua agora, ficando eu para sempre teu escravo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Batei \u00e0 meia-noite na janela do meu quarto. Farei que n\u00e3o perceba minha m\u00e3e o que passa. Prometei-me, contudo, pela vossa probidade, que depois da conquista do meu leito virginal, ficareis somente uma hora, sem nenhuma palavra dirigir-me. Tenho raz\u00f5es para isso, que a seu tempo vos comunicarei, ao restituir-vos o anel que ora me destes. Esta noite no dedo vos porei um outro anel, que testemunho dar possa em futuro at\u00e9 onde chegou nosso amor puro. N\u00e3o falteis; conquistastes uma esposa, cuja esperan\u00e7a em v\u00f3s, t\u00e3o-s\u00f3, repousa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ganhei um c\u00e9u na terra ao conquistar-te. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Vivei bastante para que, desta arte, me agrade\u00e7ais e ao c\u00e9u. \u00c9 bem poss\u00edvel que algum dia o fa\u00e7ais. Minha m\u00e3e me contou como ele havia de declarar-se. Bem parece que ela lera em seu cora\u00e7\u00e3o. Todos os homens, disse ela, fazem sempre as mesmas juras. Ele jurou que havia de esposar-me, quando a mulher morresse. Assim, somente depois de morta hei de deitar-me com ele. Com franc\u00eas case a mo\u00e7a que quiser, que, virgem, de ningu\u00e9m serei mulher. Nesta fraude n\u00e3o pode haver pecado, que \u00e9 virtude deixar o mal frustrado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem43\" name=\"bem43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O campo florentino. Entram os dois nobres franceses, com dois ou tr\u00eas soldados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Entregastes-lhe a carta da m\u00e3e dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Entreguei-lhe h\u00e1 uma hora. Devia conter algo que o compungiu bastante, pois \u00e0 sua leitura parecia outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Tornou-se pass\u00edvel de censuras graves, por haver repudiado t\u00e3o boa esposa e t\u00e3o digna senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Mas incorreu, principalmente, no eterno desagrado do rei, que j\u00e1 havia afinado a sua generosidade para cantar-lhe a dita. Desejo contar-vos uma coisa, mas devereis guard\u00e1-la no mais rec\u00f4ndito da alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Logo que falardes, ser\u00e1 coisa morta, tornando-me eu a sua sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Ele perverteu uma senhorita aqui de Floren\u00e7a, de nome ilibado. Esta noite ele vai saciar o seu desejo no despojo da honra dela. Fez-lhe presente do anel de fam\u00edlia e se considera felic\u00edssimo com esse compromisso escandaloso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Que Deus nos atenue o instinto de rebeli\u00e3o. Que somos, quando n\u00e3o passamos de n\u00f3s mesmos!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Apenas traidores de n\u00f3s pr\u00f3prios. E da mesma maneira que as trai\u00e7\u00f5es, em seu curso regular, se revelam tais quais s\u00e3o, antes de alcan\u00e7arem a meta abomin\u00e1vel, assim tamb\u00e9m o indiv\u00edduo que pratica viol\u00eancia contra sua dignidade, chega a inundar as pr\u00f3prias margens.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 altamente conden\u00e1vel essa propens\u00e3o de nos fazermos preg\u00f5es de nossas inten\u00e7\u00f5es ileg\u00edtimas? Assim sendo, vamos ficar privados de sua companhia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Mas s\u00f3 depois da meia-noite, que \u00e9 a hora marcada para a entrevista.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Ent\u00e3o falta pouco. Teria muito gosto em que ele visse ser anatomizado o seu amigo, para que pudesse avaliar o seu pr\u00f3prio discernimento, que o leva, por maneira t\u00e3o estranha, a praticar semelhante velhacaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Enquanto o conde n\u00e3o chegar, n\u00e3o nos ocuparemos com o outro, pois \u00e9 a presen\u00e7a dele que lhe vai servir de a\u00e7oite.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Enquanto esperamos, que tendes ouvido a respeito desta guerra?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Ouvi falar em negocia\u00e7\u00f5es de paz.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 isso mesmo, pois posso assegurar-vos que a paz j\u00e1 foi assinada.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Assim sendo, que far\u00e1 o Conde de Rossilh\u00e3o? Continuar\u00e1 a viajar, ou voltar\u00e1 para a Fran\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 S\u00f3 por essa pergunta concluo que sois estranho a seu conselho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Deus me livre, senhor! Que de outro modo me tornaria c\u00famplice de seus atos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 H\u00e1 cerca de dois meses sua esposa desapareceu de casa, sob pretexto de ir em peregrina\u00e7\u00e3o at\u00e9 o santu\u00e1rio de S\u00e3o Jaques le Grand, promessa que cumpriu com austera piedade. Enquanto esteve em casa tornou-se presa do acabrunhamento pela pr\u00f3pria delicadeza de sua constitui\u00e7\u00e3o. Por fim, transformou em gemido o \u00faltimo alento, e agora canta no c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Como se chegou a saber isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Principalmente por cartas dela pr\u00f3pria, que confirmam sua hist\u00f3ria at\u00e9 ao momento da morte, que n\u00e3o podendo ser contada por ela mesma, foi fielmente descrita pelo p\u00e1roco do lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 E o conde, est\u00e1 a par de todos esses fatos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 De todos, ponto por ponto, n\u00e3o lhe sendo estranha a menor part\u00edcula da verdade total.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Sinto de cora\u00e7\u00e3o que ele venha a alegrar-se com essa not\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 extraordin\u00e1rio, isso de encontrarmos, por vezes, consolo em nossas pr\u00f3prias perdas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 E como, muitas vezes, afogamos em l\u00e1grimas aquisi\u00e7\u00f5es reais! As honrarias que a sua bravura lhe granjeou por aqui ir\u00e3o encontrar em casa opr\u00f3brio equivalente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 A teia de nossa vida \u00e9 composta de fios misturados: de bens e de males. Nossas virtudes se tornariam orgulhosas sem os a\u00e7oites de nossos defeitos, como os nossos v\u00edcios desesperariam, se n\u00e3o fossem alentados pela virtude. (<i>Entra um criado.<\/i>) Ent\u00e3o, por onde anda teu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Encontrou o duque na rua, senhor, e despediu-se solenemente dele. Sua Senhoria parte amanh\u00e3 para a Fran\u00e7a. O duque lhe deu cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Que lhe ser\u00e3o mais do que necess\u00e1rias, ainda que em seu louvor digam mais do que possam faz\u00ea-lo<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 N\u00e3o poder\u00e3o ser muito brandas, dada a disposi\u00e7\u00e3o \u00e1spera em que se encontra o rei. A\u00ed vem vindo Sua Senhoria. (<i>Entra Bertram.<\/i>) Ent\u00e3o, milorde; j\u00e1 n\u00e3o passa de meia-noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Liquidei dezesseis neg\u00f3cios esta noite, cada um do comprimento de um m\u00eas, tal foi a minha atividade. Despedi-me do duque, ofereci os pr\u00e9stimos \u00e0s pessoas que o cercam, enterrei uma esposa, pus luto por ela, escrevi a minha m\u00e3e que estou de volta, arrumei as malas e, no intervalo de tantos neg\u00f3cios de monta, ainda pude levar a bom termo algumas coisinhas agrad\u00e1veis. A \u00faltima \u00e9 a mais importante; mas essa ainda n\u00e3o est\u00e1 conclu\u00edda.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Se for cercada de certa dificuldade e tiverdes de viajar amanh\u00e3, ser\u00e1 preciso que Vossa Senhoria se apresse.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Quando digo que ainda n\u00e3o est\u00e1 conclu\u00edda, \u00e9 pelo receio de ouvir falar dela para diante. Mas n\u00e3o tiremos, afinal, representar o di\u00e1logo entre o buf\u00e3o e os soldados? Vamos, trazei-me logo o modelo falso. Enganou-me tal qual profeta de or\u00e1culos duvidosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Ide busc\u00e1-lo. (<i>Saem alguns soldados.<\/i>) Passou a noite no tronco, o coitado do valoroso embusteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o faz mal, que seus calcanhares se tornaram merecedores disso mesmo, por haverem usurpado esporas por tanto tempo. Em que disposi\u00e7\u00e3o se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 J\u00e1 disse a Vossa Senhoria que ele se encontra no cepo. Mas para responder como deveis ser compreendido, direi que chora como uma rapariga que houvesse derramado o leite. Confessou-se com Morgan que ele acreditou ser padre \u2014 enumerando-lhe todos os pecados, desde quando alcan\u00e7a a mem\u00f3ria, at\u00e9 ao recente desastre que lhe valeu ser posto no tronco. E que imaginais que tenha ele confessado?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Decerto nada com rela\u00e7\u00e3o a minha pessoa?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Sua confiss\u00e3o foi tomada por escrito e ser\u00e1 lida em sua presen\u00e7a. Se Vossa Senhoria estiver inclu\u00eddo nela, o de que tenho quase certeza, ser\u00e1 preciso revestir-vos de paci\u00eancia por ocasi\u00e3o de sua leitura.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam os soldados com Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 A peste carregue esse embu\u00e7ado! De mim ele nada poder\u00e1 dizer. Mas sil\u00eancio! Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Chegou o cabra-cega. Porto tartarossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Est\u00e1 determinando a tortura. N\u00e3o quereis falar sem que recorramos a esse processo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Para eu dizer o que sei n\u00e3o h\u00e1 necessidade de viol\u00eancia. Se me apertardes como uma empada nada mais poderei dizer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Bosko chimurcho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Boblibindo chicurmurco.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Sois um general misericordioso. Nosso general vos manda responder \u00e0s perguntas que trago anotadas neste papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Com tanta sinceridade como espero viver.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 \u201cPrimeiro, perguntai-lhe a quanto monta a cavalaria do duque.\u201d Que respondeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Cinco ou seis mil cavalos, mas fracos e imprest\u00e1veis. As tropas est\u00e3o espalhadas, sendo todos os comandantes uns pobres diabos, afirmo-o pela minha reputa\u00e7\u00e3o e meu cr\u00e9dito; t\u00e3o certo como ainda espero viver.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Devo escrever vossa resposta nesses termos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Perfeitamente; poderei confirm\u00e1-la sob juramento, da maneira que julgardes mais conveniente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Para ele tudo \u00e9 o mesmo. O patife est\u00e1 perdido de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Estais enganado, milorde; quem est\u00e1 diante de v\u00f3s \u00e9 monsieur Parolles, o galante militarista \u2014 para usarmos de sua pr\u00f3pria express\u00e3o \u2014 que traz no n\u00f3 da charpa toda a teoria da guerra e na ponteira do punhal a sua pr\u00e1tica de soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 De hoje em diante n\u00e3o confiarei em nenhum homem s\u00f3 porque tras a espada limpa, nem acreditarei que possa ter merecimento s\u00f3 por ser impec\u00e1vel no trajar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Muito bem; j\u00e1 est\u00e1 escrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Cinco ou seis mil homens de cavalo, disse&#8230; S\u00f3 direi a verdade&#8230; Anda por a\u00ed. Podeis tomar nota, pois s\u00f3 direi a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Nesse ponto, de fato, ele anda perto da verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Mas nem por isso lhe sou agradecido pela maneira por que a enunciou.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Uns pobres diabos, \u00e9 o que vos digo. Anotai isso tamb\u00e9m, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Muito bem; j\u00e1 est\u00e1 escrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Humildemente vos agrade\u00e7o, senhor. A verdade \u00e9 a verdade. Os coitados s\u00e3o miser\u00e1veis a conta inteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 \u201cPergunta-lhe a quanto sobe a infantaria.\u201d Que respondeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por minha honra, senhor; tivesse eu de vida apenas esta hora, vou dizer-vos a verdade. Deixai-me refletir: Spurio, cento e cinq\u00fcenta; Sebasti\u00e3o, outro tanto; Corambus, outro tanto; Jaques, outro tanto; Guiltian, Cosmo, Ludovico e Gratii, duzentos e cinq\u00fcenta cada; minha pr\u00f3pria companhia, a de Crist\u00f3v\u00e3o, Vaumond, Bentii, duzentos e cinq\u00fcenta cada. Desse modo, o c\u00f4mputo das tropas, entre doentes e s\u00e3os, por minha vida, andar\u00e1 por umas quinze mil cabe\u00e7as, sendo que metade dessa gente, de medo de cair em peda\u00e7os, n\u00e3o se atreve a sacudir a neve dos casacos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Que \u00e9 que esse sujeito merece que lhe fa\u00e7amos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Nada, a n\u00e3o ser agradecermos-lhe. Pergunta o que ele pensa a meu respeito e de que conceito eu gozo junto do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Muito bem; j\u00e1 est\u00e1 escrito. \u201cDeveis perguntar-lhe se no acampamento h\u00e1 um certo Capit\u00e3o Dumain, franc\u00eas; em que conceito \u00e9 tido pelo duque, se \u00e9 homem de valor, honesto e experiente em assunto de guerra, e se n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel, mediante uma boa soma de ouro induzi-lo a rebelar-se.\u201d Que dizeis disto agora? Sabeis algo a respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por obs\u00e9quio, permiti que responda por partes. Formulai as perguntas uma a uma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Conheceis esse Capit\u00e3o Dumain?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Conhe\u00e7o-o, sim; era aprendiz de um remend\u00e3o, em Paris, de onde foi expulso a chibatadas por haver engravidado uma rapariga simpl\u00f3ria da casa do xerife, idiota e muda, que n\u00e3o sabia dizer n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Dumain, encolerizado, levanta a m\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Por obs\u00e9quio, deixai a m\u00e3o em paz, que o c\u00e9rebro dele se tornar\u00e1 alvo da primeira telha que escapar de cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Muito bem. Esse capit\u00e3o se acha no acampamento do Duque de Floren\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por tudo quanto sei, est\u00e1, e cheio de piolhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Oh, n\u00e3o me olheis desse modo, senhor, que dentro de pouco vamos ouvir falar de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 De que conceito ele goza junto do duque?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 O duque s\u00f3 o considera como um pobre oficial da minha companhia, tendo-me escrito h\u00e1 dias uma carta para que o mandasse embora. Penso que ainda devo ter essa carta no bolso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Ent\u00e3o vamos procur\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Para ser sincero, n\u00e3o tenho muita certeza; se n\u00e3o estiver no bolso, deve estar na minha tenda, num ma\u00e7o de cartas do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Aqui est\u00e1 ela! Se n\u00e3o \u00e9 ela, \u00e9 coisa semelhante. Posso ler-vos o que cont\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 N\u00e3o sei se ser\u00e1 essa carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Nosso int\u00e9rprete representa muito bem o seu papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Excelentemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 \u201cDiana, o conde \u00e9 um bobo cheio de dinheiro&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 a carta do duque, mas uma advert\u00eancia a uma senhorita honesta de Floren\u00e7a, uma tal Diana, para acautelar-se contra as sedu\u00e7\u00f5es de um tal Conde de Rossilh\u00e3o, um rapazola tolo e sem ocupa\u00e7\u00e3o, mas, por isso mesmo, muito luxurioso. Por obs\u00e9quio, guardai esse papel.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o; primeiro hei de l\u00ea-lo, com vossa permiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Minha inten\u00e7\u00e3o, ao escrev\u00ea-lo, posso asseverar-vos, era das mais honestas, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 donzela, pois tenho o conde na conta de um rapaz l\u00fabrico e perigoso, verdadeira baleia da virtude, que devora quanto peixinho lhe passa pela frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Velhaco de uma figa! Patife por todos os lados!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 \u201cEm vez de juras, toma-lhe dinheiro. Conta feita por ele \u00e9 coisa morta. Por isso, trata de o cobrar, primeiro; por menos que lho arranques, \u00e9 o que importa. Ouve, Diana, o conselho de um soldado: beijar n\u00e3o deves mo\u00e7o ou namorado. Conhe\u00e7o bem a condi\u00e7\u00e3o do conde, que nunca soube onde o rubor se esconde. Teu, conforme aos ouvidos j\u00e1 te disse, Parolles.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ser\u00e1 levado por todo o acampamento, para ser chibateado com esses versos na testa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 o vosso amigo devotado, senhor, o famoso poliglota e soldado invenc\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Nunca suportei a vista de gatos; de agora em diante, para mim ele n\u00e3o passar\u00e1 de um gato.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Do olhar de nosso general, senhor, deduzo que teremos de enforcar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh, senhor! A vida, seja por que pre\u00e7o for! N\u00e3o \u00e9 que a morte me cause medo; mas sendo tantos os meus pecados, desejaria passar o que me sobrasse de tempo a arrepender-me deles. Deixai-me viver<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Veremos o que \u00e9 poss\u00edvel fazer, no caso de serdes sincero na confiss\u00e3o. Mas voltemos a esse Capit\u00e3o Dumain. J\u00e1 respondestes com rela\u00e7\u00e3o ao seu valor e ao conceito em que ele \u00e9 tido junto ao duque. E quanto \u00e0 honestidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Roubar\u00e1, senhor, um ovo de um convento, pois quanto a roubos e viola\u00e7\u00f5es s\u00f3 \u00e9 compar\u00e1vel a Nessus. Ele se gaba de n\u00e3o manter juramentos, sendo mais forte do que H\u00e9rcules para quebr\u00e1-los. Mentir\u00e1, senhor, com tal volubilidade, que a verdade vos parecer\u00e1 uma tola. O v\u00edcio da bebida \u00e9 a sua maior virtude, pois se embebeda como um porco e no sono n\u00e3o causa nenhum dano, a n\u00e3o ser \u00e0 roupa da cama. Mas, por ser conhecido nesse particular, \u00e9 posto a dormir sobre palha. A respeito da honestidade, senhor, pouqu\u00edssimo ainda poder\u00e1 ser acrescentado, se n\u00e3o for que ele tem tudo quanto uma pessoa honesta n\u00e3o deve ter, sendo inteiramente carecente de quanto precisa ter uma pessoa honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 J\u00e1 come\u00e7o a am\u00e1-lo por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Por causa da descri\u00e7\u00e3o de tua honestidade? A peste que o carregue! Para mim, cada vez torna-se mais gato.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 E que dizeis de seus conhecimentos b\u00e9licos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por minha f\u00e9, senhor, ele tocou tambor diante dos comediantes ingleses&#8230; N\u00e3o est\u00e1 em mim caluni\u00e1-lo, mas ignoro que houvesse exercido qualquer outra atividade soldadesca, a n\u00e3o ser que teve a honra de ser na Inglaterra oficial no lugar denominado Mile-end, para ensinar os recrutas a formarem a dois de fundo. Desejaria conceder ao homem as honras que pudesse, mas nesse particular n\u00e3o estou muito seguro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 De tal modo ele supervilanizou a vilania, que se tornou digno de admira\u00e7\u00e3o pela sua pr\u00f3pria raridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 A peste que o carregue! Continua sendo um gato.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Sendo t\u00e3o minguado de virtudes, n\u00e3o terei necessidade de perguntar-vos se o ouro poderia lev\u00e1-lo \u00e0 deser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por um quart d&#8217;\u00e9cu, senhor, ele seria capaz de vender sua parte da salva\u00e7\u00e3o e o direito de heran\u00e7a no c\u00e9u, chegando, at\u00e9, a despojar para sempre desse direito todos os seus descendentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 E que dizem de seu irm\u00e3o, o outro Capit\u00e3o Dumain?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Para que perguntar-lhe a meu respeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Como \u00e9 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Corvo do mesmo ninho; n\u00e3o t\u00e3o grande, realmente, em bondade quanto o outro, mas muito maior no mal. Em covardia, sobrepuja o irm\u00e3o, que passa por ser um dos maiores poltr\u00f5es do mundo. Numa retirada, passa na frente de qualquer lacaio; mas quando se trata de avan\u00e7ar, atacam-lhe as c\u00e3ibras.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Se vos deixarmos com vida, consentireis em trair os florentinos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sim, e o capit\u00e3o de sua cavalaria, o Conde de Rossilh\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Vou falar em particular com o general, para ver o que ele decide.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Nunca mais quero saber de tambor. A peste que leve a todos. Meti-me nesse perigo, somente para fingir valentia e desfazer a suspeita desse rapazola lascivo, o conde. Mas quem poderia suspeitar de uma emboscada no ponto em que fui preso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, senhor; tereis de morrer. Disse o nosso general que depois de haverdes revelado por maneira t\u00e3o vil os segredos do ex\u00e9rcito a que pertenceis, e dado informa\u00e7\u00f5es t\u00e3o pest\u00edferas de pessoas tidas em t\u00e3o alto conceito, n\u00e3o podeis ser de nenhum uso honesto neste mundo. Por tudo isso, precisais morrer. Carrasco, fora com a cabe\u00e7a dele!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh, Deus, senhor! Deixai-me viver, ou deixai-me ver a morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Bem; isso vos ser\u00e1 permitido, como tamb\u00e9m despedir-vos de vossos amigos. (<i>Desvenda-lhe os olhos.<\/i>) Olhai \u00e0 volta: conheceis algum dos presentes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Bom dia, nobre capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Deus vos aben\u00e7oe, Capit\u00e3o Parolles.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Deus vos guarde, nobre capit\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO NOBRE \u2014 Capit\u00e3o, tendes alguma comiss\u00e3o para o senhor Lafeu? Estou de viagem para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Meu bom capit\u00e3o, n\u00e3o podeis dar-me uma c\u00f3pia do soneto que escrevestes a Diana, a prop\u00f3sito do Conde de Rossilh\u00e3o? Se eu n\u00e3o fosse t\u00e3o covarde, vo-la tomaria \u00e0 for\u00e7a Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Bertram e os nobres.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Capit\u00e3o, ficastes reduzido a nada, com exce\u00e7\u00e3o de vossa charpa, que ainda conserva um n\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Quem n\u00e3o seria esmagado por uma conjura?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO SOLDADO \u2014 Se puderdes encontrar um lugar em que as mulheres sejam t\u00e3o destitu\u00eddas de vergonha quanto v\u00f3s, fundareis um povo de deslavados. Eu tamb\u00e9m parto para a Fran\u00e7a. L\u00e1 falaremos de v\u00f3s. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ainda assim, agrade\u00e7o. Se no peito tivesse grande cora\u00e7\u00e3o, agora teria ele estourado. Foi-se o t\u00edtulo de capit\u00e3o; mas como qualquer deles vou tratar de comer, beber e ao sono calmamente entregar-me. Minha vida vai depender, de agora em diante, apenas do que realmente sou. Os que na conta se tiverem de biltres tomem nota, pois \u00e9 certeza revelar-se burro todo lorpa que \u00e9 gente por bamburro. Brio, arrefece! Espada, cria ronha! Parolles vai deixar de ter vergonha. A vida continua a ser risonha. Vou segui-los. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem44\" name=\"bem44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Floren\u00e7a. Um quarto em casa da vi\u00fava. Entram Helena, a vi\u00fava e Diana.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Para terdes certeza de que em tudo convosco fui sincera, vou trazer-vos como fiador um nome dos maiores da cristandade, sendo necess\u00e1rio que ante seu trono eu v\u00e1 dobrar os joelhos antes de ao fim chegar do meu prop\u00f3sito. Prestei-lhe h\u00e1 tempo singular servi\u00e7o, t\u00e3o caro quanto a vida. O pr\u00f3prio peito do t\u00e1rtaro insens\u00edvel abalado poderia ficar e em tudo grato. Soube de fonte certa que Sua Gra\u00e7a se acha em Marselha, estando de partida para l\u00e1 um comboio de confian\u00e7a. Dispersadas as tropas, meu marido voltar\u00e1 para casa, onde, com a ajuda do c\u00e9u e a permiss\u00e3o do rei meu amo, chegaremos primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Gentil dama, nunca tivestes serva a quem tocasse t\u00e3o perto vossa dita.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Nem amiga, senhora, j\u00e1 tivestes, cuja mente t\u00e3o indefesa trabalhasse para premiar-vos a amizade. Fui eleita pelo c\u00e9u, podeis crer-me, para o dote prover de vossa filha, assim como ela tamb\u00e9m o foi para ajudar-me agora a reaver meu marido. \u00d3 estranhos homens, que vos mostrais, assim, t\u00e3o carinhosos para quem vos tem \u00f3dio, quando as formas lascivas dos sentidos enganados a tenebrosa noite deixam suja! Desse modo a lux\u00faria se alimenta com o que repulsa lhe produz violenta. Mas depois voltaremos a esse assunto, sendo preciso, Diana, que sob minha modesta dire\u00e7\u00e3o venhais de novo a padecer por mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Embora a morte, de par com a honestidade, me adviesse de vossa imposi\u00e7\u00e3o, a v\u00f3s perten\u00e7o, declarando-me pronta a sofrer quanto me mandardes fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Paci\u00eancia um pouco. N\u00e3o falta muito para que de novo tenhamos o ver\u00e3o, quando as roseiras se cobrirem de flores e de espinhos, agrad\u00e1veis ficando, a um tempo, e agudas. Precisamos partir; nossa carruagem j\u00e1 se acha pronta; o tempo nos convida. \u00c9 sempre bom tudo o que acaba bem. O fim coroa a obra. A trajet\u00f3ria mais dif\u00edcil importa maior gl\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem45\" name=\"bem45\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Entram a condessa, Lafeu e o bobo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! Vosso filho foi desencaminhado por um sujeito vestido de tafet\u00e1, cujo execr\u00e1vel a\u00e7afr\u00e3o poderia tingir toda a mocidade mal cozida e pastosa de uma na\u00e7\u00e3o. Sem ele, vossa nora ainda poderia estar viva, e em Fran\u00e7a vosso filho, muito mais favorecido pelo rei do que por esse zang\u00e3o de cauda vermelha, a que me referi.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Desejara nunca o ter conhecido. Foi a causa da morte da mais virtuosa donzela que jamais a natureza teve a honra de criar. Se ele fosse de meu sangue e me tivesse custado os mais agrad\u00e1veis gemidos de uma m\u00e3e, n\u00e3o poderia dedicar-lhe mais entranhado amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Excelente menina! Excelente menina! Teremos de apanhar mil saladas para encontrar outra verdura igual.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Realmente, senhor, ela era a mangerona, ou melhor, a arruda da salada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Isso n\u00e3o s\u00e3o verduras, idiota, mas flores perfumadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ora, senhor, eu n\u00e3o sou o grande Nabucodonosor; entendo muito pouco de ervas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Que \u00e9 que presumes ser, realmente: velhaco ou tolo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tolo, senhor, a servi\u00e7o de uma mulher, e velhaco ao de um homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Por que essa diferen\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Porque enganaria o homem com sua mulher e faria o servi\u00e7o dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Assim, realmente, ser\u00edeis um velhaco ao servi\u00e7o dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 E \u00e0 mulher dele, senhor, daria o meu bast\u00e3o, pondo-me ao seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Direi de ti que \u00e9s as duas coisas ao mesmo tempo: velhaco e tolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ao vosso servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o! N\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por que n\u00e3o, senhor? Se n\u00e3o puder ficar a vosso servi\u00e7o, poderei ficar no de um pr\u00edncipe t\u00e3o grande quanto v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Quem \u00e9 esse pr\u00edncipe? \u00c9 franc\u00eas, acaso<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por minha f\u00e9, senhor; o nome dele \u00e9 ingl\u00eas, mas sua fisionomia \u00e9 mais quente na Fran\u00e7a do que aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Que pr\u00edncipe \u00e9 esse?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 O pr\u00edncipe negro, senhor; ali\u00e1s, o pr\u00edncipe das trevas, o dem\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Basta; toma esta bolsa, que, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 dada com a inten\u00e7\u00e3o de afastar-te do amo de que falaste. Continua a servi-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Eu sou um habitante dos bosques, senhor, que sempre gostei de uma boa fogueira. Ora, o amor de que vos falei mant\u00e9m sempre um fogo vivo. Mas uma vez que ele \u00e9 o pr\u00edncipe do mundo, que sua nobreza permane\u00e7a na corte. Eu sou pela casa da porta estreita, que considero pequena em demasia para que possa entrar a pompa; os que se humilharem, passar\u00e3o; mas em sua maioria os homens s\u00e3o por demais delicados e friorentos e s\u00f3 transitam pela estrada florida, que vai dar na porta ampla e no fogo vivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Segue o teu caminho. Come\u00e7o a me enfarar de ti, o que declaro com anteced\u00eancia, para que n\u00e3o venhamos a nos desavir. Segue o teu caminho e vai ver se os meus cavalos est\u00e3o sendo tratados sem nenhuma maroteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se com eles usasse de maroteira, senhor, seriam maroteiras cavalares, o que eles t\u00eam direito, pela lei da natureza. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Um maroto ladino e de grande malvadez.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 \u00c9 o que ele \u00e9, de fato. O meu defunto marido se divertia bastante \u00e0 custa dele. S\u00f3 continua aqui em casa por ser isso disposi\u00e7\u00e3o testament\u00e1ria de meu marido, que ele considera carta de privil\u00e9gio para suas maroteiras. O certo \u00e9 que ningu\u00e9m lhe embarga o passo, correndo ele por onde bem entende.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Gosto muito dele; n\u00e3o \u00e9 mau sujeito. Mas estava para dizer-vos que, desde que eu soube da morte da boa senhora e que meu senhor vosso filho j\u00e1 estava de volta, intercedi junto ao rei para que ele lhe falasse a favor de minha filha, o em que Sua Alteza j\u00e1 havia pensado em sua graciosa delibera\u00e7\u00e3o, quando ambos eram de menoridade. Sua Alteza prometeu interceder nesse sentido, o que \u00e9 a melhor maneira de desfazer a m\u00e1 vontade que ele pudesse ter em rela\u00e7\u00e3o a vosso filho. Que diz Vossa Senhoria dessa id\u00e9ia?<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Alegra-me bastante, milorde, sendo meu desejo que possa vir a realizar-se sem nenhum embara\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Sua Alteza chega de Marselha t\u00e3o l\u00e9pido como quando tinha trinta anos. Estar\u00e1 aqui amanh\u00e3, se desta vez n\u00e3o me enganou a pessoa cujas informa\u00e7\u00f5es raramente falham<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Alegra-me a esperan\u00e7a de rev\u00ea-lo antes de morrer. Recebi cartas de meu filho, com a not\u00edcia de sua chegada para esta noite. Pe\u00e7o que Vossa Senhoria se demore aqui em casa, at\u00e9 que eles se falem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Estava a procurar um pretexto, minha senhora, para justificar isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Bastaria invocardes vosso honroso privil\u00e9gio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 A que j\u00e1 tenho recorrido muitas vezes, minha senhora; mas, gra\u00e7as a Deus, ainda conserva o prest\u00edgio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Minha senhora! L\u00e1 fora est\u00e1 o jovem conde, vosso filho, com um emplastro de veludo no rosto. Se esconde alguma cicatriz, s\u00f3 o veludo \u00e9 que poder\u00e1 diz\u00ea-lo. Mas \u00e9 um \u00f3timo emplastro de veludo. A face esquerda dele \u00e9 de tr\u00eas p\u00ealos e meio; mas a direita \u00e9 inteiramente glabra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Uma cicatriz adquirida nobremente, ou uma cicatriz nobre, \u00e9 uma bela distin\u00e7\u00e3o honor\u00edfica, tal como \u00e9 de supor que seja essa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sim, mas o rosto \u00e9 que nos fica riscado!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vamos ao encontro de vosso filho; j\u00e1 me tarda poder conversar com esse jovem e nobre soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por minha f\u00e9! h\u00e1 uma d\u00fazia deles, com chap\u00e9us delicados e ricos, de plumas galantes, que n\u00e3o param de fazer mesuras e cumprimentar todo o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem51\" name=\"bem51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Marselha. Uma rua. Entram Helena, a vi\u00fava e Diana, com dois criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 O viajar incessante, dia e noite, vos deixou esgotada. N\u00e3o podemos dar rem\u00e9dio para isso. Mas se os dias e as noites confundistes, e esse gr\u00e1ceis membros magoastes para meu proveito, tende paci\u00eancia, pois de tal maneira na minha gratid\u00e3o vos enraizastes, que imposs\u00edvel ser\u00e1 dali sairdes. Feliz encontro! (<i>Entra um gentil-homem falcoeiro.<\/i>) Este homem poderia obter-me audi\u00eancia junto ao rei, no caso de usar a meu favor de seu prest\u00edgio. Deus vos guarde, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 E a v\u00f3s tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Em Fran\u00e7a j\u00e1 vos vi, senhor; na corte.<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Sim, l\u00e1 j\u00e1 estive algumas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Creio, senhor, que ainda gozais do alto conceito da bondade que todos vos louvavam. Assim, premida pelas circunst\u00e2ncias que esquecida me fazem por completo das maneiras corteses, ora apelo para vossa virtude, que h\u00e1 de ser-me para sempre lembrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Que quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Que tenhais a bondade de ao rei fazer chegar este pedido de minha parte, humilde, e de ajudar-me quanto em v\u00f3s estiver, porque falar-lhe me venha a ser poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Mas Sua Alteza n\u00e3o se acha aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Que me dizeis, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Partiu \u00e0 \u00faltima noite, com mais pressa do que de h\u00e1bito.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Oh Deus! Perdemos todo nosso trabalho!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Ainda vos afirmo que bem est\u00e1 tudo o que bem acaba, muito embora pare\u00e7a o tempo adverso e os meios deficientes. Por obs\u00e9quio, para onde foi o rei?<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Para o castelo de Rossilh\u00e3o, segundo me disseram. Para l\u00e1 me dirijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, j\u00e1 que \u00e9 prov\u00e1vel encontrardes o rei antes de mim, nas m\u00e3os graciosas entregai-lhe esta carta. Nenhum dano disso vos advir\u00e1, sendo poss\u00edvel que venhais a alcan\u00e7ar alguma gra\u00e7a. Seguir-vos-ei com toda a dilig\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Bem; farei o que pedistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Haveis de ser recompensado, tenha tudo o fim que tiver. Mas \u00e9 preciso montarmos a cavalo novamente. Depressa! Cuidai disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem52\" name=\"bem52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rossilh\u00e3o. P\u00e1tio interior do pal\u00e1cio da condessa. Entram o bobo e Parolles.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Meu bom senhor Lavache, entregai esta carta a milord Lafeu. J\u00e1 me conhecestes em melhores condi\u00e7\u00f5es, senhor, quando eu vivia na familiaridade de roupas mais limpas. Mas agora, senhor, sujei-me no p\u00e2ntano da Fortuna e exalo o cheiro muito ativo de seu ativo desfavor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por minha f\u00e9, \u00e9 preciso que o desfavor da Fortuna seja, de fato, repelente, para exalar cheiro t\u00e3o ativo como dissestes. De hoje em diante n\u00e3o comerei peixe fritado na manteiga da Fortuna. Por obs\u00e9quio, n\u00e3o fiqueis do lado de que sopra o vento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ora, senhor, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de tapardes o nariz; falei s\u00f3 por met\u00e1fora.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Pouco importa, senhor. Se as vossas met\u00e1foras federem, taparei, da mesma forma, o nariz diante delas, como diante das met\u00e1foras de quem quer que seja. Afastai-vos, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, entregai este papel \u00e0 pessoa de que vos falei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Pah! Recuai, senhor! Entregar a um gentil-homem um papel que vem da retrete da Fortuna! Mas v\u00eade! A\u00ed vem vindo ele. (<i>Entra Lafeu.<\/i>) Aqui est\u00e1, senhor, um bichano ou gato da Fortuna \u2014 sem ser almiscareiro que caiu no viveiro nauseabundo do seu desfavor e que, como ele pr\u00f3prio o declarou, se emporcalhou todo. Conjuro-vos, senhor, a proceder com esta carpa da maneira por que bem entenderdes, pois parece ser um pobre-diabo, deca\u00eddo, engenhoso e idiota. Com esses s\u00edmiles de consolo, lamento-lhe a desgra\u00e7a e o entrego a Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Milorde, eu sou uma criatura a quem a Fortuna arranhou por maneira crudel\u00edssima.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 E que quereis que eu fa\u00e7a? Agora \u00e9 tarde para aparar-lhe as unhas. Mas que maroteira fizestes \u00e0 Fortuna, para que ela vos arranhasse? De si, ela \u00e9 uma boa senhora; apenas n\u00e3o suporta que os marotos prosperem sob sua capa. Aqui tendes um quart d&#8217;\u00e9cu. Que o juiz promova a paz entre v\u00f3s; tenho outras ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Suplico a Vossa Honra ouvir-me apenas uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Com isso, apenas mendigais mais um vint\u00e9m. Bem; que seja; ser\u00e1 vosso; mas dispensai-me de ouvir essa palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Meu nome, meu bondoso lorde, \u00e9 Parolles.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Desse modo, pedis mais de uma palavra. Deus \u00e9 a minha paix\u00e3o! Dai-me a m\u00e3o. Como passa o vosso tambor?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Oh, meu bom senhor! Fostes o primeiro a encontrar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Verdade? E o primeiro, tamb\u00e9m, a perder-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Depender\u00e1 de v\u00f3s, milorde, repor-me junto da gra\u00e7a, por que fostes v\u00f3s que me tirastes de perto dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Como assim, maroto! Atribu\u00eds-me, a um s\u00f3 tempo, o oficio de Deus e do diabo? Um te rep\u00f5e na gra\u00e7a e o outro te tira dela. (<i>Ouve-se toque de clarim.<\/i>) O rei vem vindo; conhe\u00e7o-o pelo toque de clarim. Depois procura por mim, maroto; ainda esta noite falei a teu respeito. Embora sejas maroto e tonto, precisar\u00e1s comer. Vamos; vem comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Rogarei a Deus por v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"bem53\" name=\"bem53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio da condessa. Clarins Entram o rei, a condessa, Lafeu, nobres, gentis-homens, guardas, etc.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Nela perdemos uma j\u00f3ia rara, o que nos depreciou. Mas vosso filho, louco de todo em todo, revelou-se inteiramente falho de sentidos para avaliar-lhe o pre\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Isso ao passado pertence, meu senhor. Suplico a Vossa Majestade tomar o caso como rebeli\u00e3o natural da mocidade, em que o leo e o fogo, em demasia fortes para a raz\u00e3o, em chamas se derramam.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Mui prezada senhora, perdoei tudo, tudo esqueci, conquanto j\u00e1 contra ele minha vingan\u00e7a armada se encontrasse, pronta para o disparo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Devo dizer \u2014 pedindo previamente perd\u00e3o do atrevimento que milorde mo\u00e7o ofendeu, de fato, seu monarca, sua m\u00e3e e a consorte; mas foi ele, ele mesmo, quem teve mais preju\u00edzo: perdeu a esposa, cuja formosura ofuscava a vis\u00e3o mais agu\u00e7ada, cuja fala prendia as oi\u00e7as todas, cujo primor for\u00e7ava os mais ardentes peitos a declararem-se cativos.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 O louvor do passado, mais querida deixa sua lembran\u00e7a. Bem; chamei-o. J\u00e1 estamos calmos; a primeira vista apagar\u00e1 qualquer lembran\u00e7a triste. N\u00e3o nos pe\u00e7a perd\u00e3o; morta j\u00e1 se acha a natureza de sua grande culpa, cujos restos ardentes enterramos mais fundo do que o obl\u00edquo. Ele que venha como estrangeiro, n\u00e3o como culpado. Explicai-lhe qual \u00e9 nossa vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Pois n\u00e3o, meu soberano.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Que diz. ele de vossa filha? Acaso lhe falastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 P\u00f5e-se ao dispor de Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ent\u00e3o faremos esse casamento Recebi cartas que me falam dele em termos elogiosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bertram.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 No semblante l\u00ea-se-lhe que est\u00e1 bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o sou um dia de nevoeiro cont\u00ednuo, que a um s\u00f3 tempo poder\u00e1s em mim ver sol e granizo. Cedem, por\u00e9m, o passo as nuvens negras aos raios luminosos. Aproxima-te; volta a ser belo o tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Meu querido soberano, perdoai-me os grandes erros de que sinceramente me arrependo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Tudo est\u00e1 bem; nem mais uma palavra sobre o passado. A ocasi\u00e3o peguemos pelos cabelos, pois j\u00e1 estamos velhos; nossas resolu\u00e7\u00f5es mais apressadas, o p\u00e9 sutil do tempo silencioso talvez as ultrapasse antes que possam tornar-se realidade. Estais lembrado da filha deste nobre?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Com inef\u00e1vel admira\u00e7\u00e3o, senhor. Logo de in\u00edcio fiz dela a minha escolha, antes que o ousado cora\u00e7\u00e3o se atravesse a transformar-me em arauto atrevido a l\u00edngua t\u00edmida. Ao fixar nela os olhos, a mirada desdenhosa emprestou-me o vil desprezo que torce os tra\u00e7os a qualquer beleza, desdenha as cores frescas, por esp\u00farias, e dilata ou comprime qualquer forma proporcional no mais hediondo objeto. Foi por ter isso acontecido que ela \u2014 objeto de louvor de todo o mundo e que eu amava desde que a perdera \u2014 passou-me a ser na vista o gr\u00e3o de poeira que incomoda sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Boa escusa. O fato de lhe teres algum dia dedicado esse amor, apaga enormes colunas de tua d\u00edvida vultosa. Mas o amor atrasado, como a pr\u00f3pria dem\u00eancia relutante e obtida a custo, para o grande doador n\u00e3o cessa nunca de clamar, qual censura merecida: \u201cJ\u00e1 est\u00e1 morto o inocente\u201d. Nossas faltas precipitadas s\u00f3 desprezo mostram por quanto de valioso seja nosso, n\u00e3o lhes dando valor, enquanto dura, sen\u00e3o quando j\u00e1 est\u00e1 na sepultura. Por vezes, nosso desprazer, injusto conosco mesmo, esmaga a todo custo nossos amigos, para lastim\u00e1-los, quando cinza se tornam. Despertado, o amor, em n\u00f3s, lastima o acontecido, enquanto o \u00f3dio dormita a tarde toda. Sirva de dobre de finados isto para a bondosa Helena. E agora esquece-te dela. Remete o teu penhor sincero para a bela Magdala, que j\u00e1 \u00e9 tua. Permanecer aqui \u00e9 meu intento, para assistir do vi\u00favo o casamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Que o c\u00e9u aben\u00e7oar\u00e1 mais que o primeiro; ou, natureza, mata-me ligeiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Filho, em quem deve continuar o nome de minha casa, d\u00e1-me um penhor digno de teu afeto, que a centelha avive no esp\u00edrito da noiva, porque prestes ela venha at\u00e9 aqui. (<i>Bertram lhe entrega um anel.<\/i>) Por minha velha barba e seus p\u00ealos, a defunta Helena era graciosa e boa. Ao despedir-se da corte a \u00faltima vez, vi-lhe no dedo um anel igual a este.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Mas n\u00e3o este!<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Mostrai-mo, por obs\u00e9quio, pois enquanto vos falava o olhar tinha nele fixo. Esse anel j\u00e1 foi meu; a Helena o dei, Tendo-lhe asseverado que se um dia se visse abandonada pela sorte, pronto a auxili\u00e1-la me acharia, vista desta minha lembran\u00e7a. Como o ousio tivestes de priv\u00e1-la do que acima de tudo ela prezava?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Meu gracioso soberano, conquanto vos agrade considerar o anel sob esse aspecto, jamais lhe pertenceu.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Filho, por minha vida, esse anel eu vi no dedo dela, que o amava tanto como a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Tenho certeza de a ter visto com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Enganais-vos, milorde; jamais ela viu semelhante anel. Este jogado, em Floren\u00e7a, me foi de uma janela, num papel envolvido, que continha o nome da pessoa que o jogara. Era uma jovem nobre, que me tinha na conta de solteiro. Mas ao p\u00f4-la a par da situa\u00e7\u00e3o, com informar-lhe sem circunl\u00f3quios que imposs\u00edvel fora, dentro das normas da honra, efetivar-se o que eu adivinhava em seus acenos, ficou de todo satisfeita e nunca me reclamou o anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 O pr\u00f3prio Pluto, sabedor do elixir e da alquimia, n\u00e3o conhece os mist\u00e9rios da natura como eu os desse anel, sim, esse mesmo, que foi meu e de Helena. Pouco importa quem vo-lo houvesse dado. Assim, se tendes pleno conhecimento de v\u00f3s pr\u00f3prio, confessai que esta j\u00f3ia foi de Helena, revelando-nos a \u00e1spera viol\u00eancia por que viestes a obt\u00ea-la. O testemunho ela invocou dos santos, de que nunca do dedo o tiraria, se n\u00e3o fosse para no leito vo-lo dar de n\u00fapcias (<i>a que jamais subistes<\/i>) ou enviar-no-lo, quando se visse em conjuntura extrema.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Ela jamais o viu.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Est\u00e1s mentindo, afirmo-o por minha honra. E ora me fazes admitir conjeturas que o receio me leva a repelir. Caso tu houvesses sido t\u00e3o desumano, o que imposs\u00edvel ser\u00e1 de demonstrar, embora a d\u00favida me remanes\u00e7a, ainda&#8230; Tinhas-lhe \u00f3dio mortal, e ela morreu. Nada podia fazer-me crer mais nisso do que a vista desse anel. Vale o mesmo que eu a houvesse visto morrer. Levai-o daqui preso! (<i>Os guardas seguram Bertram.<\/i>) Seja qual for o desenlace disto, minha experi\u00eancia do passado leva-me a n\u00e3o considerar v\u00e3os meus receios. Vamos! Levai-o logo! Ainda haveremos de examinar esta quest\u00e3o por mi\u00fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Caso possais provar que em qualquer tempo lhe pertenceu o anel, tereis provado que como esposo lhe subi no leito, e isso em Floren\u00e7a, onde ela nunca esteve. (<i>Sai escoltado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Uma suspeita atroz me deixa aflito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o gentil-homem falcoeiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FALCOEIRO \u2014 Gracioso soberano, ignoro se mere\u00e7o, ou n\u00e3o, censura. Este requerimento me foi dado por uma florentina que atrasada ficou de v\u00f3s de tr\u00eas ou quatro postas, para que em m\u00e3os pudesse apresentar-vo-lo. Aceitei a incumb\u00eancia, comovido ante a gra\u00e7a e as palavras eloq\u00fcentes da pobre suplicante, que, segundo me disseram, aguarda aqui despacho. Traduz-se-lhe nos tra\u00e7os fision\u00f4micos a import\u00e2ncia do assunto, que, conforme ela pr\u00f3pria o explicou em termos suaves e concisos, tanto a ela diz respeito como a Vossa Grandeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 \u201cAnte as in\u00fameras promessas de casar comigo, quando sua esposa viesse a falecer \u2014 coro ao confess\u00e1-lo \u2014 deixei-me conquistar por ele. Agora, o Conde de Rossilh\u00e3o est\u00e1 vi\u00favo, falharam todos os seus juramentos, o que me custou a honra. Fugiu de Floren\u00e7a sem despedir-se de mim, tendo-o eu seguido at\u00e9 este pa\u00eds, a fim de impetrar justi\u00e7a. Concedei-ma, \u00f3 rei! que est\u00e1 em v\u00f3s faz\u00ea-lo, que, de outro modo, um sedutor triunfa e uma pobre donzela ficar\u00e1 perdida. Diana Capuleto.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vou comprar um genro na feira; n\u00e3o quero saber deste; pagarei a sua taxa.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Inspirou-te, o c\u00e9u, fazendo-te descobrir isto tudo. Que introduzam logo essas suplicantes e trazei-me de novo o conde. (<i>Saem o gentil-homem falcoeiro e alguns guardas.<\/i>) Tenho muito medo, senhora, de que Helena houvesse sido assassinada por maneira b\u00e1rbara.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ent\u00e3o, justi\u00e7a para os criminosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Bertram escoltado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Admira-me, senhor, que, sendo todas as mulheres, segundo v\u00f3s, uns monstros de que correis, depois de lhes jurardes fidelidade, ainda penseis em n\u00fapcias. (<i>Volta o gentil-homem falcoeiro com a vi\u00fava e Diana.<\/i>) Quem \u00e9 essa mulher?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Uma ultrajada florentina, milorde, que descende da casa dos antigos Capuletos. A par j\u00e1 estais, segundo me disseram, do que me trouxe aqui. Sabeis, portanto, at\u00e9 quando sou digna de piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 \u00c9 minha filha, meu senhor; meus anos e meu nome padecem vitup\u00e9rio pela ofensa que a vossos p\u00e9s nos trouxe, sendo for\u00e7a extinguirem-se, no caso de n\u00e3o nos dardes o rem\u00e9dio azado.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Aproximai-vos, conde. Quem s\u00e3o estas senhoras? Conhecei-las?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Majestade, n\u00e3o posso nem desejo contest\u00e1-lo. Acusam-me de mais alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Por que olhais vossa esposa desse modo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o \u00e9 minha, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Se vos casardes, essa m\u00e3o heis de dar, que me pertence; o voto quebrareis, que me pertence; a mim pr\u00f3pria dareis, que me perten\u00e7o, pois nossas juras nos uniram tanto que quem vos desposar casa comigo. Ou n\u00f3s dois, ou nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU (<i>a Bertram<\/i>) \u2014 Vossa reputa\u00e7\u00e3o caiu muito ante minha filha; n\u00e3o sois marido para ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Senhor, esta mulher \u00e9 uma criatura apaixonada e louca. Diverti-me, por vezes, ao seu lado, mas conjuro Vossa Gra\u00e7a a fazer melhor conceito do meu nome, n\u00e3o dando acolhimento \u00e0 id\u00e9ia de que viesse a cair tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o podereis, senhor, ficar amigo do meu conceito, enquanto, pelos atos, merecedor n\u00e3o vos mostrardes disso. Tratai de dar mais forte brilho ao nome do que o que tem no meu conceito agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Bondoso soberano, perguntai-lhe, sob juramento, se ele n\u00e3o presume que me colheu, de fato, a virgindade?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Que lhe respondes a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 \u00c9 uma impudente, senhor; no acampamento era manceba de todos os soldados.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 \u00c9 injusti\u00e7a, senhor, que ele me faz, porque se eu fosse isso que ora falou, ter-me-ia, certo, adquirido por pre\u00e7o insignificante. Cr\u00e9dito n\u00e3o lhe deis. V\u00eade este anel, que em alta estima e rica avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o acha paralelo. No entretanto, com isto ele comprou uma manceba de todos os soldados, se \u00e9 que eu o era.<\/p>\n<p align=\"justify\">CONDESSA \u2014 Ele ficou corado; \u00e9 o anel dele. Desde seis gera\u00e7\u00f5es vem esta j\u00f3ia sendo doada em testamento e sempre trazida pelo dono em alta estima. Ela \u00e9, de fato, esposa dele; vale por mil provas o anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 N\u00e3o me dissestes que hav\u00edeis visto algu\u00e9m aqui na corte que vos podia confirmar tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Disse, milorde; mas \u00e9 envergonhada que apelo para o testemunho dele. Parolles \u00e9 o seu nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Vi esse homem hoje mesmo na corte, se \u00e9 que o nome de homem podemos dar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ide busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 A que vem ele aqui? Na conta \u00e9 tido de um p\u00e9rfido sujeito, conspurcado de todos os defeitos deste mundo, e que doente se mostra s\u00f3 id\u00e9ia de dizer a verdade. \u00c9 conceb\u00edvel que eu venha a ser o que disser um homem que afirma o que quiserem?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Mas \u00e9 certo ter ela o vosso anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o o nego; \u00e9 o mesmo. Confesso que cheguei a gostar dela e que lho declarei, seguindo nisso o uso da mocidade. Tendo plena consci\u00eancia da dist\u00e2ncia que medeava entre n\u00f3s dois, com risos e nega\u00e7as soube engodar-me o ardor, por ser sabido que tudo o que se op\u00f5e \u00e0 fantasia s\u00f3 serve de excit\u00e1-la. Finalmente, sua infinita ast\u00facia associada \u00e0 beleza vulgar que me inflamava, me venceram de todo. Desse modo conseguiu ela o anel, tendo eu obtido por esse custo o que qualquer soldado viria a ter por pre\u00e7o do mercado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Preciso revestir-me de paci\u00eancia. V\u00f3s, que esposa t\u00e3o nobre repudiastes menoscabar de mim podeis agora. S\u00f3 uma coisa vos pe\u00e7o pois t\u00e3o falho de brio vos mostrais, perco o marido \u2014 mandai buscar o anel, que eu vo-lo entrego; mas devolvei o meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 N\u00e3o est\u00e1 comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Por favor, a que anel vos referistes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Em tudo igual, meu soberano, a esse que vos vejo no dedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Conhecei-lo? At\u00e9 h\u00e1 pouco este anel lhe pertencia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Ent\u00e3o foi esse que lhe dei no leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Assim, n\u00e3o \u00e9 verdade que lho houv\u00e9sseis jogado da janela?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Disse o que houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o criado com Parolles.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Senhor, confesso que esse anel foi dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Vacilais a toda hora; qualquer pena vos faz estremecer. \u00c9 este o sujeito a que vos referistes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Concito-vos, maroto, a declarar-nos \u2014 mas sem mentir e sem mostrardes medo de poder vir a desgostar vosso amo \u2014 o que dele sabeis e desta dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Se for do agrado de Vossa Majestade, direi que meu amo sempre se portou como um gentil-homem honrado. \u00c9 certo ter praticado algumas arrelias, mas isso como qualquer gentil-homem costuma fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Vamos ao que importa. Ele amou esta mulher?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por minha f\u00e9, senhor, amou. Mas como?<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Como? \u00c9 o que pergunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ele a amou, senhor, como um cavalheiro ama uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 E como \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Ele a amou, senhor, e ao mesmo tempo n\u00e3o a amou.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Como tu \u00e9s velhaco e ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9s velhaco. Que sujeito cheio de distin\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Sou um pobre homem, senhor, \u00e0s ordens de Vossa Majestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Tambor ele \u00e9 bom, milorde, mas p\u00e9ssimo orador.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Sabeis que ele me prometeu casamento?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Por minha f\u00e9, sei muito mais do que vou falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o pretendes dizer tudo o que sabes?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAROLLES \u2014 Se for do agrado de Vossa Majestade. Como disse, eu era o intermedi\u00e1rio entre ambos. Mas, acima disso, ele a amava, porque, de fato, estava louco por ela, e falava de Satan\u00e1s, do limbo, das F\u00farias e de n\u00e3o sei o que mais. Naquele tempo era t\u00e3o grande o meu prest\u00edgio junto deles, que eu sabia quando subiam para a cama e outras coisinhas mais, como, por exemplo, a promessa de casamento e certas particularidades que me ensejariam um bom castigo, no caso de vir a revel\u00e1-las. Por isso n\u00e3o direi o que sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 J\u00e1 disseste tudo, a menos que pudesses acrescentar que eles se casaram. Mas \u00e9s muito precioso na tua exposi\u00e7\u00e3o. P\u00f5e-te de lado. Segundo o dissestes, este anel vos pertenceu?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Quem vo-lo deu? Ou ent\u00e3o, onde o compraste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 N\u00e3o o comprei, milorde, nem mo deram.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Quem, pois, vo-lo emprestou?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Ningu\u00e9m, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Onde o encontrastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Em nenhuma parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Se por maneira alguma o anel foi vosso, como o destes a algu\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Nunca dei nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Essa mulher, senhor, \u00e9 tal qual m\u00e3o em luva folgada: entra e sai \u00e0 vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Levai-a presa; n\u00e3o me agrada agora. Ponde-a no c\u00e1rcere: e este aqui tamb\u00e9m. Se n\u00e3o disseres como achaste o anel, morrer\u00e1s hoje mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Jamais hei de confessar-vos tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Ide com ela!<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Posso dar uma fian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Agora creio que eras mesmo rameira de soldados.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Por Jove! Se algum homem me possuiu, fostes v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Por que causa tanto tempo lhe assacastes tais coisas?<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Por ser ele inocente e culpado. Ele tem ci\u00eancia de que eu j\u00e1 n\u00e3o sou virgem, e o jurara; mas eu juro que o sou, sem que ele o creia. N\u00e3o me chameis, \u00f3 rei, de qualquer coisa; ou virgem sou ou deste velho esposa. (<i>Aponta para Lafeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Zomba de n\u00f3s. Levai-a logo presa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DIANA \u2014 Bondosa m\u00e3e, trazei depressa a fian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai a vi\u00fava.<\/i>) J\u00e1 vir\u00e1 o joalheiro, o propriet\u00e1rio do anel, que me ser\u00e1 fiador seguro. Quanto a este nobre, que tem ci\u00eancia plena de me ter desonrado, muito embora mal nenhum me fizesse, absolvo-o em tudo. Julga ele que meu leito est\u00e1 manchado, conquanto a esposa ele haja engravidado. Embora morta, nela o filho pula; nesta charada est\u00e1 minha escapula. Adivinhai agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta a vi\u00fava, com Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Que exorcista me ilude o of\u00edcio natural dos olhos? \u00c9 real o que estou vendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 N\u00e3o, milorde; a sombra apenas vedes de uma esposa; o nome, n\u00e3o a ess\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Oh, ambos! ambos! Perdoa-me!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014\u00d3 bondoso gentil-homem, quando eu era como esta senhorita vos achei sobremodo pressuroso. Vosso anel est\u00e1 aqui, e aqui a carta que me escrevestes. Nela pode ler-se: \u201cQuando do dedo o anel me arrebatares, e um filho meu tiveres&#8230;\u201d Est\u00e1 feito. E ora quereis ser meu com mais direito?<\/p>\n<p align=\"justify\">BERTRAM \u2014 Se ela isso demonstrar, \u00f3 rei, eu juro que lhe dedicarei o amor mais puro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Se tudo claro eu n\u00e3o deixar depois, haja eterno div\u00f3rcio entre n\u00f3s dois. \u00d3 m\u00e3e querida! Vejo-vos com vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">LAFEU \u2014 Sinto alho nos olhos; estou a ponto de chorar. (<i>A Parolles.<\/i>) Meu caro Jo\u00e3o Tambor, empresta-me o len\u00e7o. Assim; obrigado. Aparece l\u00e1 em casa, para me distra\u00edres um pouco; mas deixa de lado esses salamaleques, que s\u00e3o insuport\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">REI \u2014 Contar-me-eis essa hist\u00f3ria inteira e nua, porque a alegria em borbot\u00f5es deflua.(<i>A Diana.<\/i>) Se ainda \u00e9s bot\u00e3o de rosa, escolhe esposo, que eu te darei um dote generoso, pois estou vendo que uma esposa mestra, virgem como \u00e9s, salvaste por honesta. Tudo isso e o mais que ouvir n\u00e3o posso agora me contareis depois, em melhor hora. Tudo parece bem; sendo o fim doce, que importa que o come\u00e7o amargo fosse?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Clarins. Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"epilogo\" name=\"epilogo\"><\/a><\/p>\n<h2>EP\u00cdLOGO<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Dito pelo rei.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Representada a pe\u00e7a, \u00e9 o rei mendigo. Tudo acabar\u00e1 bem, \u00e9 o que vos digo, se palma nos baterdes. Alegria vireis achar aqui dia por dia. Bastem-vos nossas boas inten\u00e7\u00f5es; dai-nos as m\u00e3os; eis nossos cora\u00e7\u00f5es. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fonte: www.ebooksbrasil.org<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS O REI DA FRAN\u00c7A O DUQUE DE FLOREN\u00c7A BERTRAM, Conde de Rossilh\u00e3o LAFEU, um velho nobre PAROLLES, companheiro de Bertram O Intendente da Condessa de Rossilh\u00e3o LAVACHE, bobo da casa da condessa Um pajem. A CONDESSA DE ROSSILH\u00c3O, m\u00e3e de Bertram. HELENA, jovem nobre, protegida pela condessa. Uma velha vi\u00fava de Floren\u00e7a. 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