{"id":120277,"date":"2017-04-24T12:16:16","date_gmt":"2017-04-24T14:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120277"},"modified":"2017-04-24T12:16:16","modified_gmt":"2017-04-24T14:16:16","slug":"medida-por-medida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/medida-por-medida","title":{"rendered":"Medida por Medida"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>VIC\u00caNCIO<\/b>, Duque.<br \/>\n<b>\u00c2NGELO<\/b>, governador durante a aus\u00eancia do duque.<br \/>\n<b>ESCALO<\/b>, antigo conselheiro, colega de \u00c2ngelo no governo.<br \/>\n<b>CL\u00c1UDIO<\/b>, jovem gentil-homem.<br \/>\n<b>L\u00daCIO<\/b>, tipo folgaz\u00e3o<br \/>\nDois outros gentis-homens.<br \/>\n<b>V\u00c1RRIO<\/b>, gentil-homem, servidor do duque.<br \/>\n<b>PREBOSTE<\/b>.<br \/>\n<b>TOM\u00c1S<\/b>, monge.<br \/>\n<b>PEDRO<\/b>, monge.<br \/>\nUm juiz.<br \/>\n<b>ELBOW<\/b>, oficial de justi\u00e7a simpl\u00f3rio.<br \/>\n<b>FROTH<\/b>, gentil-homem tolo.<br \/>\n<b>POMPEU<\/b>, criado de mistress Overdone.<br \/>\n<b>ABHORSON<\/b>, carrasco.<br \/>\n<b>BERNARDINO<\/b>, prisioneiro dissoluto.<br \/>\n<b>ISABELA<\/b>, irm\u00e3 de Cl\u00e1udio.<br \/>\n<b>MARIANA<\/b>, noiva de \u00c2ngelo.<br \/>\n<b>JULIETA<\/b>, noiva de Cl\u00e1udio.<br \/>\n<b>FRANCISCA<\/b>, freira.<br \/>\n<b>MISTRESS OVERDONE<\/b>, alcoviteira.<br \/>\nSenhores, oficiais, cidad\u00e3os, um pajem e gente de servi\u00e7o.<\/p>\n<p><a name=\"med11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Quarto no pal\u00e1cio do duque. Entram o duque, Escalo, nobres e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Escalo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pretender explicar-vos o que sejam princ\u00edpios do governo, parecera de minha parte apenas falat\u00f3rio carecente de nexo, porque tenho raz\u00f5es para saber que vossa ci\u00eancia, neste particular, transcende a quanto vos pudesse eu dizer. Resta-me agora, portanto, somente isto para vossa capacidade \u2014 sim, que a tendes muita \u2014 deixando que ela opere. A natureza de nosso povo, as normas do Direito, como as institui\u00e7\u00f5es, desta cidade vos s\u00e3o t\u00e3o familiares como a quantos de meu conhecimento que a arte e a pr\u00e1tica hajam feito not\u00f3rios. Eis as nossas instru\u00e7\u00f5es, que deveis cumprir \u00e0 risca. Chama, ou melhor, vai logo dizer a \u00c2ngelo que venha aqui. (<i>Sai um criado.<\/i>) De que maneira credes que ele substituir\u00e1 nossa pessoa. Porque, sabei, nossa alma com carinho muito particular o escolheu para ficar em nossa aus\u00eancia, conferindo-lhe nosso terror, vestindo-o de bondade, provendo-o, como a nosso substituto, de todos os recursos inerentes \u00e0 nossa for\u00e7a. Que pensais do caso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Se h\u00e1 algu\u00e9m em Viena de tamanha gra\u00e7a e tal honra, sem nenhuma d\u00favida \u00e9 lorde \u00c2ngelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vede-o. A\u00ed vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra \u00c2ngelo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Como obediente escravo da vontade de Vossa Gra\u00e7a, venho para vosso prazer ficar sabendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c2ngelo, em tua vida ind\u00edcios se notam que revelam a quem te examinar, toda tua hist\u00f3ria. Nem tuas qualidades te pertencem, nem tu pr\u00f3prio a ti mesmo, para a vida gastares s\u00f3 com elas ou as virtudes contigo apenas. Faz o c\u00e9u conosco como com a luz, que a si n\u00e3o se ilumina. Se nossas qualidades n\u00e3o sa\u00edssem de n\u00f3s, seria \u00e0 justa como se elas n\u00e3o existissem. Todos os adornos de uma bela alma valem t\u00e3o-somente por seus nobres efeitos, n\u00e3o cedendo jamais a natureza um s\u00f3 escr\u00f3pulo de suas excel\u00eancias, sem que exija para si, como deusa previdente, no jeito dos credores, n\u00e3o s\u00f3 os juros, mas tamb\u00e9m gratid\u00e3o. Estou falando a quem conhece bem a natureza de minha situa\u00e7\u00e3o. Ouve, pois, \u00c2ngelo: S\u00ea plenamente N\u00f3s em nossa aus\u00eancia. O castigo e a dem\u00eancia, agora, em Viena, s\u00f3 te pendem do peito e do discurso. O velho Escalo, embora em tudo seja primeiro, \u00e9 teu segundo. Eis o mandato. (<i>Entrega-lho.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Meu bondoso senhor, \u00e9 conveniente que seja posto o meu metal \u00e0 prova antes de ser impressa nele ef\u00edgie t\u00e3o grande e nobre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nada de evasivas! Depois de reflex\u00e3o madura e calma foi que vos escolhemos. Vosso t\u00edtulo deveis, pois, aceitar. A nossa pressa de partir \u00e9 t\u00e3o viva, que somente se v\u00ea a si pr\u00f3pria, descurando assuntos de qualquer outra esp\u00e9cie. \u00c9 nosso intento dar-vos not\u00edcias, quando concitar-nos a isso o tempo e os neg\u00f3cios, esperando saber o que hajais feito. E agora, adeus. \u00c0 grata execu\u00e7\u00e3o ora vos deixo de nossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Consenti, milorde, que eu v\u00e1 convosco em parte da viagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Minha pressa n\u00e3o o deixa, nem deveis, para honrar-me, preocupar-vos com pontos de honra. Achais-vos apto, agora, para fazer como eu, soltando r\u00e9deas \u00e0 lei, ou retraindo-as \u00e0 vontade. Dai-me a m\u00e3o. Vou sair \u00e0s escondidas. Amo o povo; contudo, n\u00e3o me agrada representar para ele; embora corra tudo bem, n\u00e3o confio em seus aplausos rumorosos e vivas entusi\u00e1sticos, bem como nego o nome de discreto a quem s\u00f3i procur\u00e1-los. E, ora, adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Que o c\u00e9u d\u00ea provimento a vossos planos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 S\u00e3o vos leve e feliz vos traga logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Muito obrigado. Adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Desejara, senhor, que liberdade me d\u00e9sseis de falar-vos, pois importa perscrutar, at\u00e9 o fundo, o meu encargo. Disponho de poder, mas ainda ignoro sua esp\u00e9cie e extens\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Comigo se d\u00e1 o mesmo, retiremo-nos, para juntos tratarmos desse ponto, que se h\u00e1 de esclarecer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Vossa Honra o manda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"med12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua. Entram L\u00facio e dois cavalheiros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Se o duque e os demais duques n\u00e3o entrarem em acordo com o rei da Hungria, todos os duques cair\u00e3o sobre o rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Que o c\u00e9u nos conceda paz a todos, menos a do rei da Hungria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Conclu\u00eds como o pirata que se fez ao mar com a t\u00e1bua dos dez mandamentos, mas apagou um deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 \u201cN\u00e3o roubar\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Sim, esse mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Est\u00e1 visto! Tal mandamento iria obrigar o capit\u00e3o e seus asseclas a desistirem do of\u00edcio, porque eles n\u00e3o se faziam \u00e0 vela sen\u00e3o para roubar. Assim tamb\u00e9m n\u00f3s, soldados; n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 que aprecie aquela parte da ora\u00e7\u00e3o do fim das refei\u00e7\u00f5es, referente ao pedido de paz.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 Nunca ouvi nenhum soldado dizer qualquer coisa a esse respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Acredito, porque nunca estiveste onde se rendem gra\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 N\u00e3o? Uma d\u00fazia de vezes, pelo menos; em diferentes tempos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Em tempos e metros diferentes?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Sim, em todos os metros e idiomas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Creio-o bem, e tamb\u00e9m em todos os credos.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por que n\u00e3o? Apesar de todas as controv\u00e9rsias, a Gra\u00e7a \u00e9 sempre Gra\u00e7a. Tu, por exemplo, n\u00e3o passas de um refinado tratante, apesar de todas as gra\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Somos pano de uma s\u00f3 pe\u00e7a, separados pela tesoura.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 De acordo, como a ourela \u00e9 separada do veludo. Tu \u00e9s a ourela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 E tu, o veludo; excelente veludo, franc\u00eas. Falei agora por maneira sens\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Creio que sim; sentiste o efeito de tuas pr\u00f3prias palavras. Com o que disseste, vou aprender a beber tua sa\u00fade. Mas enquanto viver, quero esquecer-me de beber depois de ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Pelo jeito, ofendi-me a mim mesmo, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 \u00c9 certo; quer sofras as conseq\u00fc\u00eancias, quer te mostres livre delas.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Vede, vede onde vem vindo a senhora. Mitiga\u00e7\u00e3o! Sob seu teto comprei doen\u00e7as num total de&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 De quanto, por favor?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Adivinhem.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 De tr\u00eas mil dores por ano.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Suba!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 E mais uma coroa francesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Vives a imaginar doen\u00e7as em mim, mas est\u00e1s redondamente enganado, porque eu sou s\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Pode ser, mas esse som n\u00e3o \u00e9 de sa\u00fade; soas como objeto oco, tens os ossos ocos; a impiedade os corroeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra mistress Overdone.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Ol\u00e1! Em qual das cadeiras a ci\u00e1tica est\u00e1 mais forte?<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Bem, bem; acabam de deter ali e de meter na grade algu\u00e9m que vale por cinco mil de v\u00f3s outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 Quem \u00e9 ele, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Ora essa, Cl\u00e1udio, signior Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 Cl\u00e1udio preso!? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel? Tenho certeza do que digo; vi quando o prenderam. Digo mais: dentro de tr\u00eas dias ser\u00e1 decapitado.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Depois de tantas maluquices, desejara que isso n\u00e3o fosse verdade. Tens certeza do que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Certeza absoluta; \u00e9 por ter engravidado madame Julieta.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 bem poss\u00edvel, podeis crer-me; h\u00e1 duas horas ele deveria ter-se encontrado comigo; no entanto sempre foi muito pontual.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CAVALHEIRO \u2014 Al\u00e9m disso, como sabeis, essa not\u00edcia concorda com o que conversamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CAVALHEIRO \u2014 E, mais do que tudo, com os dizeres da proclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Vamos! \u00c9 preciso ver o que h\u00e1 de verdade em tudo isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem L\u00facio e os cavalheiros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Desse jeito, em parte pela guerra, em parte pelo suor, em parte pela forca e em parte pela mis\u00e9ria, vou perdendo os fregueses.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pompeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Aquele tal foi preso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Est\u00e1 bem; mas que fez ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Mas qual foi a ofensa?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Apanhou trutas em um rio particular.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Como assim? Deixou com filho alguma donzela?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 N\u00e3o; deixou mulher uma donzela. N\u00e3o ouvistes falar da proclama\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Que proclama\u00e7\u00e3o, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 V\u00e3o ser demolidas todas as casas de toler\u00e2ncia dos sub\u00farbios de Viena.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 E o que acontecer\u00e1 com as da cidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ficam para semente; era para serem tamb\u00e9m derrubadas, mas um s\u00e1bio burgu\u00eas intercedeu a favor delas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Ent\u00e3o, v\u00e3o ser demolidas todas as casas de toler\u00e2ncia dos sub\u00farbios?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 At\u00e9 aos alicerces, mistress.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 \u00c9 uma reviravolta completa na rep\u00fablica; que vai ser de mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Vamos; nada de medo; os, bons conselheiros ter\u00e3o sempre clientes; ainda que venhais a mudar de lugar, n\u00e3o tereis necessidade de mudar de profiss\u00e3o. Continuarei como vosso ajudante. Coragem! Haveis de inspirar compaix\u00e3o, pois estragastes os olhos no servi\u00e7o; h\u00e3o de mostrar considera\u00e7\u00e3o convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Que fazemos aqui, ajudante Tom\u00e1s? Retiremo-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 A\u00ed vem vindo o signior Cl\u00e1udio, conduzido para a pris\u00e3o pelo preboste; e ali vem madame Julieta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.;<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o preboste, Cl\u00e1udio, Julieta e oficiais.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Por que me exp\u00f5es, a todo o mundo? Vamos! Leva-me logo para o c\u00e1rcere.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 N\u00e3o \u00e9 por mal que o fa\u00e7o; foi lorde \u00c2ngelo que me deu instru\u00e7\u00f5es nesse sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Desta arte, a semideusa Autoridade nos faz pagar a peso o que pecamos. As palavras do c\u00e9u: \u201cSe eleito, bem; se rejeitado, bem\u201d, s\u00e3o verdadeiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam L\u00facio e os dois cavalheiros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por que est\u00e1s preso, Cl\u00e1udio? Que foi isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Liberdade demais, L\u00facio; excessiva. Do mesmo modo que o comer \u00e0 farta longo jejum engendra, a intemperan\u00e7a nos prazeres nos tolhe a liberdade. Tem sede a Natureza \u2014 como os ratos que em seu pr\u00f3prio veneno se comprazem \u2014 de algo diab\u00f3lico; e, ao beber, morremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Se eu fosse capaz de falar com tamanha sabedoria, quando preso, mandaria chamar alguns dos meus credores. Mas ainda assim, para falar franco, prefiro a loucura da liberdade \u00e0 gravidade da pris\u00e3o. Qual foi o teu crime, Cl\u00e1udio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Falar nisso, ser\u00e1 fazer de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Homic\u00eddio, talvez?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Lux\u00faria?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 D\u00e1-lhe esse nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Vamos, senhor! N\u00e3o podeis ficar parado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Paci\u00eancia, amigo. L\u00facio, uma palavra. (<i>Leva-o \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Cem, se te forem \u00fateis. \u00c9 a lux\u00faria castigada a esse ponto?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Eis minha situa\u00e7\u00e3o: entrei na posse do leito de Julieta ap\u00f3s promessa mui sincera. Sabeis quem ela seja: quase minha mulher. S\u00f3 carecemos de proclamas e de atos exteriores, o que evitamos t\u00e3o-somente para ver se uma heran\u00e7a obt\u00ednhamos que se acha ainda em poder dos seus, dos quais quer\u00edamos esconder nossa uni\u00e3o at\u00e9 que o tempo trabalhasse por n\u00f3s. Mas acontece que o segredo de nossa intimidade se acha escrito em Julieta em caracteres vis\u00edveis por demais.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Gr\u00e1vida, acaso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Infelizmente \u00e9 isso. E ora esse novo representante do poder do duque, seja por novidade ou ofuscamento, ou por julgar que o Estado \u00e9 t\u00e3o-somente um cavalo em que monta o governante, e em que, uma vez na sela, s\u00f3 com o fito de mostrar seu poder, afinca a espora; seja que a Tirania esteja nele ou na pr\u00f3pria emin\u00eancia que o define, n\u00e3o sei dizer. Mas esse novo duque desperta contra mim todas as penas que, como enferrujadas armaduras, pendiam sem proveito h\u00e1 dezenove c\u00edrculos do zod\u00edaco. Por fama, t\u00e3o-somente, aplica ele o ato esquecido, ora fresco e desperto, contra minha pessoa. Sim, s\u00f3 visa a fazer nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Posso afirmar-te que \u00e9 isso mesmo; dessa forma, ficas com a cabe\u00e7a t\u00e3o leve sobre os ombros, que uma vendedora de leite, quando apaixonada, a poderia fazer rodar com um simples suspiro. Apela para o duque; manda algu\u00e9m falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 J\u00e1 o fiz, mas ningu\u00e9m sabe onde ele se acha. Meu caro L\u00facio, faze-me um obs\u00e9quio: minha irm\u00e3 deve entrar hoje no claustro para o tempo passar do noviciado. Dize-lhe em que perigo ora eu me encontro; implora-lhe por mim que arranje amigos junto de t\u00e3o severo governante, que ela pr\u00f3pria o assedie; tenho algumas esperan\u00e7as, que sua mocidade linguagem muda encerra e irresist\u00edvel, que os homens emociona. Ela \u00e9 dotada, tamb\u00e9m, da arte preciosa, quando quer de palavras valer-se e do discurso, de persuadir o ouvinte.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Praza a Deus que o consiga, e isso n\u00e3o somente para encoraja mento dos que venham a ficar como tu, sob t\u00e3o severa coa\u00e7\u00e3o, como para que aproveites a vida, que me desgostaria saber perdida por maneira t\u00e3o n\u00e9scia em um jogo de tique-taque. Vou j\u00e1 procur\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Obrigado, bom L\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Dentro de duas horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Podemos ir, oficial. Adiante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"med13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um convento. Entram o duque e frei Tom\u00e1s.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o, reverendo padre, afastai esse pensamento; n\u00e3o creiais que o dardo fr\u00e1gil do amor possa furar um peito forte. A raz\u00e3o de eu pedir-vos este asilo secreto abriga intento de apar\u00eancia mais enrugada e grave do que os alvos e projetos, da ardente mocidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI TOMAS \u2014 Poder\u00e1 Vossa Gra\u00e7a revelar-mo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Melhor do que ningu\u00e9m sabeis, irm\u00e3o, como sempre apreciei a solitude, dando pouco valor \u00e0s reuni\u00f5es em que campeia a mocidade, a pompa e a v\u00e3 ostenta\u00e7\u00e3o. Dei a lorde \u00c2ngelo \u2014 homem de s\u00e3os princ\u00edpios e de vida abstinente \u2014 meu posto e a autoridade absoluta aqui em Viena. Ele presume que me encontro a viajar pela Pol\u00f4nia, tal como segredei no ouvido p\u00fablico e como todos cr\u00eaem. E ora, piedoso senhor, quereis saber por que tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI TOMAS \u2014 De bom grado, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Possu\u00edmos estatutos rigorosos e leis muito severas \u2014 brida e freio para corc\u00e9is rebeldes \u2014 que se encontram dormindo h\u00e1 quatorze anos como velho le\u00e3o que n\u00e3o deixa a toca pela ca\u00e7a. D\u00e1-se conosco como com esses pais por demais amorosos, que penduram amea\u00e7adoras varas de vidoeiro s\u00f3 para serem vistas pelos filhos; para medo infundir, n\u00e3o para us\u00e1-las. Com o tempo, tornam-se essas varas simples causa de zombarias, n\u00e3o de medo. Assim nossos decretos: se est\u00e3o mortos para serem cumpridos, n\u00e3o t\u00eam vida: da justi\u00e7a a impud\u00eancia infrene zomba, as crian\u00e7as d\u00e3o nas amas, so\u00e7obrando, por fim, todo o decoro.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI TOMAS \u2014 Dependia de Vossa Gra\u00e7a dar a liberdade, quando vos aprouvesse, a essa Justi\u00e7a t\u00e3o peada. Mais tem\u00edvel parecera em v\u00f3s do que em lorde \u00c2ngelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Tem\u00edvel, receio, em demasia. Tendo sido minha a culpa e o povo desenfrear-se, fora muita dureza castig\u00e1-los pelo que permiti que eles fizessem; sim, que \u00e9 dar permiss\u00e3o deixar que as faltas circulem livremente sem que o mesmo se passe com o castigo. Esse o motivo, meu bom padre, de haver eu delegado a \u00c2ngelo meu poder; acobertado por seu nome, pode ele ser severo sem que o menor descr\u00e9dito recaia sobre minha pessoa. Para v\u00ea-lo no exerc\u00edcio do cargo \u00e9 meu desejo, como irm\u00e3o de vossa ordem, a um s\u00f3 tempo visitar o regente e o povo mi\u00fado. Pe\u00e7o-vos, pois, me concedais um h\u00e1bito e me certifiqueis de como devo proceder pessoalmente, para monge parecer de verdade. Mais de espa\u00e7o vos apresentarei novos motivos que justifiquem mais este meu ato. Agora s\u00f3 vos digo que lorde \u00c2ngelo \u00e9 formal e da inveja se resguarda; mal confessa que o sangue nele corre e que o p\u00e3o lhe \u00e9 mais grato do que pedra. Vamos ver se o poder perverte o intento dos homens e o que em n\u00f3s \u00e9 fingimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"med14\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um convento de freiras. Entram Isabela e Francisca.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 V\u00f3s, freiras, n\u00e3o gozais de outros direitos?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCA \u2014 N\u00e3o bastam os que temos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, de fato; n\u00e3o digo isso querendo que fossem mais, sen\u00e3o pelo desejo de que seja realmente bem severa a disciplina da ordem das devotas de Santa Clara.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>dentro<\/i>) \u2014 A paz reine aqui dentro!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Quem \u00e9 que est\u00e1 chamando?<\/p>\n<p align=\"justify\">FRANCISCA \u2014 A voz \u00e9 de homem. Virai, cara Isabela, a chave e vede o que ele quer. Podeis faz\u00ea-lo, eu n\u00e3o; ainda n\u00e3o professastes. Pronunciados os votos, ser-vos-\u00e1 tamb\u00e9m defeso falar com homens, salvo na presen\u00e7a da prioresa, e assim mesmo sem que o rosto vos vejam, sem o que n\u00e3o falareis. Ei-lo a chamar de novo; ide atend\u00ea-lo. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Paz e prosperidade. Quem nos chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Sa\u00fade, virgem, se \u00e9 que o sois; as rosas do rosto, pelo menos, vos proclamam como tal. Poder-me-eis servir de aux\u00edlio, levando-me \u00e0 presen\u00e7a de Isabela, novi\u00e7a do convento e irm\u00e3 graciosa de Cl\u00e1udio, seu irm\u00e3o t\u00e3o desgra\u00e7ado?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Por que, pergunto, irm\u00e3o t\u00e3o desgra\u00e7ado? Tanto mais que \u00e9 for\u00e7oso revelar-vos, que eu sou essa Isabela, irm\u00e3 de Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Gentil, beldade, vosso irm\u00e3o vos manda muitos saudares. Para n\u00e3o cansar-vos direi que ele est\u00e1 preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Oh Deus! E a causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por algo que, se juiz eu pr\u00f3prio fosse, em lugar de castigo lhe daria parab\u00e9ns efusivos: sua amada est\u00e1 gr\u00e1vida dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00c9 conveniente, senhor, n\u00e3o prosseguir.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Falo verdade. Muito embora eu tenha o h\u00e1bito esquisito de com as jovens brincar, tal como o abibe, divorciada da l\u00edngua o cora\u00e7\u00e3o, agora falo s\u00e9rio. Considero-vos algo celeste sacro que a ren\u00fancia do mundo imortaliza e a quem nos cumpre falar sempre veraz como a uma santa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Se for burla, insultais o pr\u00f3prio bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o penseis em tal coisa. Para ser-vos sincero e dizer tudo sem rodeios: vosso irm\u00e3o e sua amada se abra\u00e7aram. Da mesma forma que os que comem se enchem, e que a pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o faz que da terra nua e semeada surja ampla colheita: revela-lhe ora o ventre avolumado que o lavrador ali foi cuidadoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ser\u00e1 a prima Julieta que est\u00e1 gr\u00e1vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 vossa prima?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 De ado\u00e7\u00e3o; trocamos os nomes, no col\u00e9gio, por brinquedo, que amizade reflete, ali\u00e1s, sincera.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Pois \u00e9 ela mesma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ent\u00e3o que ele a despose.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 a\u00ed que bate o ponto. O duque se acha viajando por maneira assaz abstrusa, tendo deixado muitos gentis-homens, entre os quais eu, burlados na esperan\u00e7a de um lugar. Mas soubemos por pessoas enfronhadas nas tricas do governo que seu pretexto se acha em infinita dist\u00e2ncia do motivo verdadeiro. Revestido de toda a autoridade, em seu lugar se encontra o senhor \u00c2ngelo, sujeito que tem neve derretida nas veias, que jamais sentiu as v\u00edvidas picadas dos sentidos, e que o fio da natureza embota com proventos espirituais, jejuns e disciplina. Para medo infundir nos maus costumes que h\u00e1 muito puxam pela lei, tal como fazem ao le\u00e3o os ratos, um edito ele desenterrou sob cujo peso vosso irm\u00e3o perde a vida. Esse o motivo de o ter ele prendido, no que segue mui de perto o rigor dos estatutos, para servir de exemplo. N\u00e3o subsiste mais esperan\u00e7a, a menos que vos seja poss\u00edvel abrandar o senhor \u00c2ngelo com belas ora\u00e7\u00f5es. O n\u00facleo a\u00ed tendes do que entre mim e vosso irm\u00e3o se deu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 T\u00e3o sedento se mostra de sua vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 J\u00e1 foi lida a senten\u00e7a; creio que a ordem de execu\u00e7\u00e3o j\u00e1 se acha com o preboste.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ai! Que recursos posso eu ter, acaso, para favorec\u00ea-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ponde \u00e0 prova vosso poder.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 O meu poder? Duvido&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o passam de traidores nossas d\u00favidas, que nos privam, por vezes, do que fora nosso, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos receio de tent\u00e1-lo. Ide em busca de lorde \u00c2ngelo e ensinai-lhe que quando as virgens pedem, os homens, como deuses, n\u00e3o recusam; mas que quando, entre l\u00e1grimas, se ajoelham, quanto impetram \u00e9 t\u00e3o naturalmente delas, como o que h\u00e1 muito j\u00e1 possuem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Vou ver o que \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Mas depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Vou j\u00e1 cuidar do assunto; s\u00f3 demoro o tempo necess\u00e1rio para \u00e0 madre contar o que se passa. Agradecida. Recomendai-me a meu irm\u00e3o; \u00e0 noite lhe mandarei not\u00edcias do meu \u00eaxito.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Com permiss\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Meus, meu bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"med21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma sala na casa de \u00c2ngelo. Entram \u00c2ngelo, Escalo, um juiz, o preboste, oficiais de justi\u00e7a e empregados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Para p\u00f4r medo \u00e0s aves de rapina n\u00e3o podemos fazer um espantalho da lei, com a mesma forma sempre; acabam transformando-a em poleiro, sem receio mais revelarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Mas \u00e9 prefer\u00edvel sermos agudos e cortarmos pouco, a provocarmos queda e esmagamento. Esse mo\u00e7o, coitado, que eu salvara, se pudesse, \u00e9 de estirpe mui distinta. Reflita Vossa Gra\u00e7a, que em tudo se revela escrupuloso, se n\u00e3o fora poss\u00edvel, no entrechoque das paix\u00f5es, em havendo ensejo disso, sobre favorecer-vos os desejos o lugar e o momento, n\u00e3o faltando nada para que o sangue o alvo alcan\u00e7asse de seus anelos se n\u00e3o fora, digo, poss\u00edvel que uma vez na vida, ao menos, lhe assacais, sobre v\u00f3s, assim, chamando vi\u00e9sseis a cometer o crime que ora todo o rigor da lei.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Mas uma coisa, Escalo, \u00e9 ser tentado, outra \u00e9 cair. N\u00e3o nego que \u00e9 poss\u00edvel haver no j\u00fari, convocado para julgar um criminoso, sobre doze jurados um ou dois ladr\u00f5es de culpa maior do que a do preso. S\u00f3 o que \u00e9 visto \u00e9 que cai sob a al\u00e7ada da Justi\u00e7a. Que sabe a lei das leis que os ladr\u00f5es fazem para a outros condenar? \u00c9 muito claro: ao encontrarmos uma j\u00f3ia, logo nos abaixamos; fora por n\u00f3s vista. Mas passamos por cima da que os olhos n\u00e3o nos fere, sem nem pensar no fato. N\u00e3o deveis os delitos atenuar-lhe, alegando meus erros. Dizei-me, antes, que se vier a se dar que eu, que o condeno, cometa crime igual, minha senten\u00e7a com este julgamento est\u00e1 passada, sem que ningu\u00e9m se meta de permeio. \u00c9 preciso, senhor, que ele pere\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Vossa Sabedoria, pois, decida.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Onde se acha o preboste?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Aqui, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Providenciai para que Cl\u00e1udio seja \u00e0s nove da manh\u00e3 executado. Trazei-lhe confessor; que se prepare, pois o termo da viagem se aproxima.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Que lhe perdoe o c\u00e9u, como a n\u00f3s todos! Uns sobem pelos crimes; outros caem pela virtude. Alguns impunemente vivem sempre, nos v\u00edcios atolados, outros por uma falta s\u00e3o julgados.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Elbow com oficiais de justi\u00e7a, Froth e Pompeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Vamos, fazei-os avan\u00e7ar! Se s\u00e3o pessoas de bem na comunidade as que n\u00e3o fazem mais do que cometer abusos nas casas p\u00fablicas, n\u00e3o sei o que seja lei. Vamos, fazei-os avan\u00e7ar!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ent\u00e3o, senhor! Como vos chamais? Que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Com licen\u00e7a de Vossa Honra, eu sou o aguazil do pobre duque. Meu nome \u00e9 Elbow; apoio-me na justi\u00e7a, senhor, e apresento agora a Vossa Honra dois not\u00f3rios benfeitores.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Benfeitores? Muito bem; que esp\u00e9cie de benfeitores? N\u00e3o ser\u00e3o, acaso, malfeitores?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Com licen\u00e7a de Vossa Honra, n\u00e3o sei bem o que eles sejam; mas o de que n\u00e3o tenho a menor d\u00favida \u00e9 de que s\u00e3o dois velhacos de marca, destitu\u00eddos de toda profana\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria dos bons crist\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 \u00d3timo! V\u00ea-se logo que se trata de um excelente servidor da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Continuai. Que esp\u00e9cie de gente \u00e9 essa? Chamais-vos Elbow? Por que n\u00e3o falais, Elbow?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 N\u00e3o pode faz\u00ea-lo, senhor; est\u00e1 fora de forma.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 E v\u00f3s que sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Ele, senhor? Mo\u00e7o de taberna, meio alcoviteiro, empregado de uma mulher ruim, cuja casa, senhor, foi, como se diz, demolida nos sub\u00farbios e que \u00e9 dona agora de uma casa de banhos, que, a meu ver, \u00e9 tamb\u00e9m uma p\u00e9ssima casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como ficastes sabendo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Minha mulher, senhor, que eu detesto na face do c\u00e9u e de Vossa Senhoria&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como! Tua mulher?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Sim, senhor, e que, gra\u00e7as a Deus, \u00e9 uma mulher honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 E por isso a detestas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Digo, senhor, que me detesto tanto quanto a ela, que, se essa casa n\u00e3o for casa de alcovitice, d\u00e1 l\u00e1stima de sua vida, porque \u00e9 casa de m\u00e1 fama.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como o sabes, aguazil?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Ora, por minha mulher, senhor, que se fosse mulher cardinal, poderia ser acusada de adult\u00e9rio e de toda sorte de imund\u00edcies.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 E tudo por interm\u00e9dio de outra mulher?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Sim, senhor; por interm\u00e9dio de mistress Overdone, que insultou a este aqui, cuspindo-lhe no rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Senhor, com licen\u00e7a de Vossa Senhoria, n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Prova-o diante destes velhacos, homem de bem, prova-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO (<i>a \u00c2ngelo<\/i>) \u2014 Vedes como ele troca tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Senhor, ela ficou gr\u00e1vida e, com respeito de Vossa Senhoria, desejou comer ameixa cozida. Ora, senhor, n\u00f3s s\u00f3 t\u00ednhamos duas em casa, que nessa \u00e9poca long\u00ednqua se achava, por assim dizer, em um prato de frutas, que podia valer tr\u00eas pences. Vossa Honra conhece esses pratos; n\u00e3o s\u00e3o pratos da China, mas s\u00e3o pratos muito bons.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Prossegui! Prossegui! Que h\u00e1 de t\u00e3o importante nesse prato?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Realmente, n\u00e3o h\u00e1 nada, senhor, nem um alfinete; tendes raz\u00e3o, senhor. Mas voltemos ao que importa. Como disse, essa mistress Elbow estando, como disse, gr\u00e1vida, com o ventre crescido, e desejando, como disse, comer ameixas, e como n\u00e3o havia mais do que duas no prato, como disse, porque mestre Froth aqui presente, em pessoa, comera o resto, como disse, e, como digo, tendo pago com toda a honestidade, porque como deveis estar lembrado, mestre Froth, n\u00e3o pude devolver-vos os tr\u00eas pences&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 \u00c9 certo, n\u00e3o o pudestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Muito bem; nesse momento, se bem vos recordais, est\u00e1veis quebrando os caro\u00e7os das ditas ameixas.<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Justamente; \u00e9 o que eu estava fazendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 \u00c9 isso mesmo; e eu vos dizia, se bem vos recordais, que fulano e sicrano nunca poderiam ficar curados daquilo que bem sabeis, a menos que observassem rigorosa dieta, como vos disse&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Tudo isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pois muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Sois um caceteador de marca; entremos logo na mat\u00e9ria. Que foi que fizeram \u00e0 mulher de Elbow, para haver motivo de queixa? Cheguemos logo ao que lhe fizeram.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Senhor, Vossa Honra n\u00e3o pode chegar at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 N\u00e3o senhor; nem era essa a minha inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Mas podeis chegar at\u00e9 l\u00e1, senhor, com licen\u00e7a de vossa Honra. E eu vos rogo, senhor, que olheis bem para mestre Froth, aqui presente, pessoa que conta com renda de oitenta libras anuais e cujo pai faleceu no dia de Todos os Santos. N\u00e3o foi no dia de Todos os Santos, mestre Froth?<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Na v\u00e9spera do dia de Todos os Santos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ent\u00e3o, muito bem; o meu desejo \u00e9 que a verdade apare\u00e7a. E ele, senhor, se achava sentado, como disse, em um barquinha, senhor; e isso se passava na sala dos cachos de uva, onde vos agrada sentar, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Agrada-me, sim, por ser aberta e muito boa para o inverno.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pois muito bem; o meu desejo \u00e9 que a verdade apare\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Isso vai durar mais do que uma noite da R\u00fassia, quando as noites s\u00e3o mais longas. Vou-me embora, deixando-vos o encargo de ouvi-los, com a esperan\u00e7a de que todos d\u00eaem motivo de serem chibateados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 \u00c9 o que eu espero. Bom-dia para Vossa Excel\u00eancia. (<i>Sai \u00c2ngelo.<\/i>) Afinal, senhor, o que foi que aconteceu com a mulher de Elbow, uma vez mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Uma vez mais, senhor? Nada lhe fizeram uma vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Rogo-vos, senhor, que pergunteis a este homem o que ele fez \u00e0 minha mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Suplico a Vossa Honra que me fa\u00e7a essa pergunta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Muito bem, senhor; que foi o que este cavalheiro lhe fez?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pe\u00e7o-vos, senhor, que olheis no rosto deste cavalheiro. Bom mestre Froth, olhai para Sua Honra; \u00e9 com boa inten\u00e7\u00e3o. Vossa Honra est\u00e1 vendo o rosto dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Sim, senhor; perfeitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Observai-o bem, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 \u00c9 o que estou fazendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Enxerga Vossa Honra em suas fei\u00e7\u00f5es alguma coisa de ruim?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pois eu seria capaz de supor sobre a B\u00edblia que o rosto \u00e9 o que ele tem de pior. Pois bem: se o que ele tem de pior \u00e9 o rosto, como poderia mestre Froth causar alguma ofensa mulher do aguazil? \u00c9 o que eu desejara que Vossa Honra me explicasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Tendes raz\u00e3o. Que dizeis a isso, aguazil?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Em primeiro lugar, se n\u00e3o for do vosso desagrado, a casa \u00e9 uma casa de respeito; depois, ele \u00e9 um companheiro respeitado, e sua mulher, tamb\u00e9m, \u00e9 uma mulher de respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Por esta m\u00e3o, senhor, a mulher dele \u00e9 mais respeitada do que todos n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Isso \u00e9 mentira, lacaio! Isso \u00e9 mentira, lacaio de um figa! Ainda est\u00e1 para vir o tempo em que ela seja respeitada como homem, mulher e crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Senhor, ela foi respeitada com ele, antes de ele a desposar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Quem revelar\u00e1 mais senso: a Justi\u00e7a ou a Iniq\u00fcidade? Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 \u00d3 miser\u00e1vel! \u00d3 lacaio! An\u00edbal de uma figa! Eu, respeitado com ela antes do casamento? Se alguma vez eu fui respeitado com ela, ou ela comigo, quero que Vossa Excel\u00eancia n\u00e3o me considere mais oficial de justi\u00e7a do pobre duque. Prova o que disseste, An\u00edbal de uma figa; do contr\u00e1rio tentarei contra ti uma a\u00e7\u00e3o por vias de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 E no caso de vos dar ele uma bofetada, poder\u00edeis intentar-lhe uma a\u00e7\u00e3o por inj\u00faria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 E isso; agrade\u00e7o a Vossa Excel\u00eancia. Que deseja Vossa Excel\u00eancia que eu fa\u00e7a com este biltre miser\u00e1vel?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Realmente, oficial, visto haver ele cometido alguma infra\u00e7\u00e3o que tu descobririas se pudesses, que continue at\u00e9 conseguires saber qual seja ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 \u00c9 isso mesmo; agrade\u00e7o o conselho de Vossa Excel\u00eancia. Est\u00e1s vendo, lacaio de uma figa, o que foste chamar contra ti? Tens de continuar, velhaco, tens de continuar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Onde nasceste, amigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Aqui em Viena, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Tens oitenta libras de renda?<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Sim, se for do vosso agrado, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Est\u00e1 bem. (<i>A Pompeu<\/i>) Qual \u00e9 o vosso of\u00edcio, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Caixeiro de taberna; empregado de uma pobre vi\u00fava.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como se chama vossa patroa?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Mistress Overdone.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Teve ela mais de um marido?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Nove, senhor; depois de Overdone ela ficou queimada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Nove! Vinde c\u00e1, mestre Froth. Mestre Froth, desejara que n\u00e3o fiz\u00e9sseis amizade com caixeiros de taberna. Eles vos limpar\u00e3o, mestre Froth, e v\u00f3s os levareis \u00e0 forca. Podeis ir, e que n\u00e3o me chegue aos ouvidos nada mais a vosso respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">FROTH \u2014 Agrade\u00e7o a Vossa Excel\u00eancia. Por minha parte, nunca entro em uma taberna, sem ficar limpo de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Muito bem; pois n\u00e3o ides mais a nenhuma, mestre Froth; passai bem. (<i>Sai Froth.<\/i>) Vinde c\u00e1, mestre caixeiro; como vos chamais, mestre caixeiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pompeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Que mais?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Traseiro, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Realmente, o traseiro \u00e9 o que tendes de maior; de forma que, no mais grosseiro sentido da palavra, poder\u00edeis ser chamado de Pompeu, o Grande. Pompeu, tu \u00e9s em parte alcaiote, Pompeu, apesar de colorirdes a coisa com esse neg\u00f3cio de caixeiro de taberna, n\u00e3o \u00e9 verdade? Vamos, dizei-me a verdade, que assim vos ser\u00e1 mais proveitoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Para ser sincero, senhor, eu sou um pobre homem que precisa viver.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 E como quereis viver, Pompeu? Como alcoviteiro? Que pensais da profiss\u00e3o, Pompeu? Parece-vos uma profiss\u00e3o legal?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Se a lei o permitir, senhor, \u00e9 legal.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Mas a lei n\u00e3o o permite, Pompeu, nem o permitir\u00e1 jamais em Viena.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tenciona Vossa Excel\u00eancia castrar e mutilar todos os mo\u00e7os da cidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 N\u00e3o, Pompeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Nesse caso, senhor, na minha modesta opini\u00e3o, eles n\u00e3o deixar\u00e3o de ir l\u00e1. Se Vossa Excel\u00eancia tomar provid\u00eancias contra as meretrizes e os maus sujeitos, nada haver\u00e1 a temer dos alcaiotes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 S\u00e3o muito lindas as provid\u00eancias em perspectiva, \u00e9 o que vos digo: tudo se resume em enforcar e decapitar.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Se s\u00f3 pelo prazo de dez anos enforcardes e decapitardes todos os que prevaricarem nesse sentido, podereis calmamente publicar um edito para arranjar mais cabe\u00e7as. Se essa lei for posta em execu\u00e7\u00e3o em Viena durante dez anos, alugarei a mais bela casa da cidade raz\u00e3o de tr\u00eas pences por buraco. Se acaso viverdes o bastante para ver esse estado de coisas, dizei que Pompeu j\u00e1 vos havia predito isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Muito obrigado, meu bom Pompeu; e agora, como retribui\u00e7\u00e3o dessa profecia, ouvi o que passo a dizer-vos: aconselho-vos a n\u00e3o comparecerdes mais \u00e0 minha presen\u00e7a, por motivo nenhum; sim, nem mesmo por morardes onde morais. Caso contr\u00e1rio, Pompeu, como um C\u00e9sar ruim vos levarei de vencida at\u00e9 \u00e1 vossa tenda; ou por outra, Pompeu, e em termos mais compreens\u00edveis: mandar-vos-ei chicotear. Por isso, Pompeu, passai bem desta vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Agrade\u00e7o o bom conselho de \u201cVossa Excel\u00eancia\u201d. (<i>\u00c0 parte<\/i>) \u2014 Mas pretendo segui-lo como a carne e a fortuna melhor o determinarem. Chicote \u00e9 para burro; um forte peito n\u00e3o fica amedrontado desse jeito. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Vinde c\u00e1, mestre Elbow; vinde c\u00e1, mestre aguazil. H\u00e1 quanto tempo exerceis esse cargo de aguazil?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 H\u00e1 sete anos e meio, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 A julgar por vossa profici\u00eancia no of\u00edcio, pensei que o exerc\u00edeis h\u00e1 mais tempo. Sete anos seguidos, foi o que dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 E meio, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Que pena! Quantos inc\u00f4modos deveis ter sofrido! \u00c9 uma injusti\u00e7a muito grande obrigar-vos a servir com tanta assiduidade. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no vosso bairro capaz de desempenhar essas fun\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Por minha f\u00e9, senhor, h\u00e1 muito pouca gente com capacidade para essas coisas. Os que s\u00e3o escolhidos se contentam em indicar-me para substitu\u00ed-los; enquanto a mim, concordo com a troca por algumas moedas e fa\u00e7o o servi\u00e7o de todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Pois tratai de trazer-me o nome de seis ou sete pessoas, das mais capazes de vossa par\u00f3quia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 \u00c0 casa de Vossa Excel\u00eancia, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Sim, \u00e0 minha casa. Passai bem. (<i>Sai Elbow.<\/i>) Que horas pensais que j\u00e1 sejam?<\/p>\n<p align=\"justify\">JUIZ \u2014 Onze, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Convido-vos para almo\u00e7ar comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">JUIZ \u2014 Agrade\u00e7o-vos humildemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 O destino de Cl\u00e1udio me entristece; mas n\u00e3o vejo rem\u00e9dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">JUIZ \u2014 Lorde \u00c2ngelo \u00e9 severo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio; a clem\u00eancia freq\u00fcente, desmerece; do perd\u00e3o o delito nasce e cresce. Contudo, pobre Cl\u00e1udio! que rem\u00e9dio! Vamos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto da mesma casa. Entram o preboste e um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Ele est\u00e1 dando audi\u00eancia; n\u00e3o demora. Vou anunciar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Fazei-o. (<i>Sai o criado.<\/i>) Quero apenas saber que ordens me d\u00e1. Ceder\u00e1, acaso? M\u00edsero Cl\u00e1udio! Errou como que em sonhos; todas as classes, todas as idades esse v\u00edcio recendem, e h\u00e1 de ele, agora, morrer por causa disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra \u00c2ngelo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ent\u00e3o, preboste, que acontece?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Quereis que Cl\u00e1udio morra, de fato, amanh\u00e3 cedo?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 J\u00e1 n\u00e3o disse que sim? N\u00e3o recebeste ordens precisas? Por que, ent\u00e3o, perguntar?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Pelo receio de ser precipitado. N\u00e3o seja isso motivo de censura, mas j\u00e1 tenho visto a Justi\u00e7a arrepender-se logo depois do julgamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Toca! Deixa por minha conta o mais, ou te demitas, que nisto bem podemos dispensar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Vossa honra me perdoe, mas que faremos com a gemente Julieta? J\u00e1 est\u00e1 prestes a dar \u00e0 luz.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Remove-a para s\u00edtio mais conveniente, e que isso n\u00e3o demore.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 A\u00ed se acha a irm\u00e3 do r\u00e9u, que quer licen\u00e7a para falar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ele tem irm\u00e3?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Sim, meu bom lorde, uma virtuosa jovem que est\u00e1 para ser freira, se \u00e9 que os votos j\u00e1 n\u00e3o prestou.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Bem, bem; introduzi-a. (<i>Sai o criado.<\/i>) Fica a vosso cuidado a remo\u00e7\u00e3o dessa fornicadora; dai-lhe apenas o necess\u00e1rio; nada de sup\u00e9rfluo. Sobre isso hei de avisar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Isabela e L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Deus vos guarde. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Esperai mais um pouco. (<i>Para Isabela<\/i>) Sois bem-vinda. Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Como impetrante aflita Vossa Honra ora eu procuro, desejando que me deis aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Que pretendeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 H\u00e1 um v\u00edcio que aborre\u00e7o mais que todos e que quisera ver sempre punido; n\u00e3o desejara interceder por ele, mas agora \u00e9 preciso. Sim, de fato, n\u00e3o desejara interceder por ele, mas em minha alma trava-se um conflito entre o querer e o n\u00e3o querer.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 E o assunto?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Meu irm\u00e3o se acha \u00e0 morte condenado; que o seja, vos suplico, a sua falta, n\u00e3o ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 O c\u00e9u permita que consigas abal\u00e1-lo!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Punir o crime, apenas, sem punir o culpado? Condenadas j\u00e1 est\u00e3o todas as faltas antes mesmo de cometidas. Meu papel seria simplesmente ris\u00edvel, se tratasse de castigar os crimes cujas penas se acham previstas, mas deixasse impunes os infratores.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 J\u00e1 n\u00e3o tenho irm\u00e3o, nesse caso. Que o c\u00e9u guarde Vossa Honra. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 N\u00e3o desistais assim depressa! \u00c0 carga novamente! Assediai-o; ide ajoelhar-vos diante dele; as vestes sacudi-lhe. Fostes fria demais; se desej\u00e1sseis um alfinete apenas, n\u00e3o ter\u00edeis recorrido a linguagem menos viva. \u00c0 carga novamente!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio, pois, que ele morra?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00c9 inevit\u00e1vel, jovem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, mas perdoar-lhe, certo, poder\u00edeis sem ofensa nenhuma ao c\u00e9u e aos homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o o farei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Mas poder\u00edeis, caso o quis\u00e9sseis?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sabei que o que eu n\u00e3o quero fazer, tamb\u00e9m n\u00e3o o posso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Poder\u00edeis perdoar-lhe sem ofensa alguma ao mundo, no caso de abrigardes sentimentos no peito iguais aos meus.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00c9 muito tarde; j\u00e1 se acha sentenciado.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 Com essa frieza!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Muito tarde! Por qu\u00ea? Eu que enuncio uma palavra, posso revoc\u00e1-la. Acreditai: nem todas as ins\u00edgnias da grandeza, a coroa dos monarcas, a espada do comando, a toga austera do juiz, o bast\u00e3o do marechal, ornam jamais nem por metade aos donos, como o faz a dem\u00eancia. Fosse ele como v\u00f3s e v\u00f3s como ele, como ele escorreg\u00e1reis; mas no caso de ele ser v\u00f3s, n\u00e3o fora t\u00e3o severo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Por favor, retirai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Desejara, por Deus! ter vossa for\u00e7a, e que Isabela f\u00f4sseis v\u00f3s. Terminara tudo assim? N\u00e3o; que eu vos mostraria o que \u00e9 ser juiz e o que \u00e9 ser prisioneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 Isso! Tocai-lhe! Essa \u00e9 a linguagem pr\u00f3pria.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Vosso irm\u00e3o se encontra sob a a\u00e7\u00e3o da lei; por isso, malgastais as palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ai de mim! Todas as almas, no passado, estavam condenadas tamb\u00e9m; mas o que tinha poder para puni-las soube dar-lhes rem\u00e9dio. Onde estar\u00edeis se Ele, acaso, que \u00e9 o supremo Juiz, fosse julgar-vos pelo que sois apenas? Pensai nisso, e a Clem\u00eancia da boca h\u00e1 de brotar-vos, como do primeiro homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Resignai-vos, bela menina, mas \u00e9 a lei que pune vosso irm\u00e3o, n\u00e3o sou eu. Fosse ele, embora, meu parente, irm\u00e3o, filho, pouco importa: morreria amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Amanh\u00e3! T\u00e3o depressa! Ele n\u00e3o se acha preparado! Poupai-o! At\u00e9 nas nossas cozinhas escolhemos a esta\u00e7\u00e3o para matar as aves. Mostraremos ao c\u00e9u menos respeito do que \u00e0 nossa grosseria? Bom lorde, meu bom lorde, refleti, por favor. Quem, at\u00e9 hoje, morreu j\u00e1 por tal crime? No entretanto, muitos o cometeram.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, para Isabela<\/i>) \u2014 Oh! bem dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 A lei n\u00e3o estava morta, a lei apenas cochilava. Esses muitos n\u00e3o teriam praticado, sem d\u00favida, o delito, se o primeiro a infringi-la houvesse logo expiado a culpa. Agora est\u00e1 acordada, observa quanto passa e, qual profeta, v\u00ea num espelho os crimes do futuro, quer novos, quer gerados por desleixo. E assim, quase no ponto de crescerem, n\u00e3o deixam sucessores, mas esfazem-se antes de terem vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sem embargo, dai mostras de piedade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00c9 o que fa\u00e7o, ao dar mostras de justi\u00e7a, pois revelo piedade para aqueles que eu n\u00e3o conhe\u00e7o e que viriam, certo, a sofrer por um crime n\u00e3o punido, sobre ser com o culpado apenas justo, pois expiando ele a culpa, n\u00e3o tem tempo de cometer mais crimes. Conformai-vos; vosso irm\u00e3o morrer\u00e1; paras com as queixas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sereis, pois, o primeiro a aplicar esta senten\u00e7a e ele a cumpri-la. \u00c9 grande coisa ter de um gigante a for\u00e7a, mas \u00e9 b\u00e1rbaro, como gigante, us\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 Foi bem dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Se os grandes trovejassem como Jove, de paz o pr\u00f3prio Jove carecera, pois qualquer petimetre ou funcion\u00e1rio de segunda ordem lhe encheria o c\u00e9u de trov\u00f5es, s\u00f3 trov\u00f5es. Deus compassivo! Com teu raio mort\u00edfero e sulf\u00fareo preferes abater o altivo tronco do carvalho a tocar no doce mirto. Mas o homem. o homem cheio de orgulho, revestido de autoridade m\u00ednima, ignorando quanto julga saber: sua ess\u00eancia fr\u00e1gil, qual sanhoso macaco tais momices representa ante o c\u00e9u, que os pr\u00f3prios anjos choram de v\u00ea-lo. Mas, tivessem estes nosso temperamento e fora certo rirem como mortais.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 A ele, donzela! J\u00e1 se abranda; percebo que j\u00e1 cede.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Praza ao c\u00e9u que ela possa comov\u00ea-lo!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 N\u00e3o podemos medir nossos vizinhos pela nossa bitola; os poderosos riem das coisas santas; o que neles \u00e9 esp\u00edrito, n\u00e3o passa de disforme profana\u00e7\u00e3o nos outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 Est\u00e1s certa, menina; continua.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 O que no capit\u00e3o \u00e9 uma palavra col\u00e9rica, \u00e9 blasf\u00eamia no soldado.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 Tens experi\u00eancia disso? Continua.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Por que me interpelais com tais conceitos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Porque conquanto possa a autoridade errar como os demais, encerra em sua natureza o rem\u00e9dio que a ferida faz sarar logo. Ao peito recolhei-vos; batei no cora\u00e7\u00e3o para inquirirdes se ele conhece acaso alguma falta como a de meu irm\u00e3o. Confessando ele qualquer deslize natural como esse, n\u00e3o vos transmita \u00e0 boca pensamento nenhum \u00e0 vida dele atentat\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Fala com tal bom senso, que os sentidos, concordes, me desperta. (<i>Alto<\/i>) \u2014 Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ficai, meu gentil lorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Vou refletir; voltai amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ouvi como eu vos peito; meu bom lorde, retomai.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Como assim! Quereis peitar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, com dons que \u00e0 m\u00e3o-cheia o c\u00e9u vos d\u00eaem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 De outra forma estragaras o discurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 N\u00e3o com siclos abjetos de ouro puro, nem com pedras que podem ser preciosas ou pobres, como as julgue a fantasia, mas com sinceras preces, dirigidas ao firmamento, que h\u00e3o de ao seu destino chegar antes de o sol nascer, com preces enunciadas por virgens de almas puras votadas ao jejum, e a quem n\u00e3o turbam cuidados temporais.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Vinde falar-me amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO (<i>\u00e0 parte, a Isabela<\/i>) \u2014 \u00c9 bastante; retiremo-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Deus proteja Vossa Honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Am\u00e9m, pois me acho, por este andar das coisas, no caminho da tenta\u00e7\u00e3o cortado pelas preces.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 A que horas amanh\u00e3 Vossa Grandeza pretende receber-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 A qualquer hora antes do meio-dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Deus vos guarde!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Isabela, L\u00facio e o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 De ti, de tua virtude, justamente. Que \u00e9 isto? Que acontece? \u00c9 ela a culpada? Serei eu? O tentado ou a tentadora, qual dos dois peca mais? Ah! N\u00e3o \u00e9 ela; n\u00e3o quer tentar-me; eu sim, que em pleno sol, ao lado da violeta, n\u00e3o fa\u00e7o como as flores, mas no jeito da carni\u00e7a corrompo a esta\u00e7\u00e3o boa. Poder\u00e1 dar-se o caso de a mod\u00e9stia deturpar os sentidos mais depressa do que pode faz\u00ea-lo a leviandade? Sobrando-nos espa\u00e7o, desejamos demolir o santu\u00e1rio para nossa abje\u00e7\u00e3o a\u00ed plantar? Que coisa ign\u00f3bil! Que \u00e9s agora, \u00c2ngelo, ou melhor, que fazes? Queres v\u00ea-la enfeada justamente no que a embeleza? A vida ao irm\u00e3o concede; quando os ju\u00edzes roubam, t\u00eam licen\u00e7a de roubar os ladr\u00f5es. Como! Am\u00e1-la-ei, para assim desejar v\u00ea-la de novo, de deleitar-me ouvindo-a? Estou sonhando? \u00d3 inimigo astucioso, atrais os santos com isca de outros santos! A mais grave tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a que incita para o crime por amor \u00e0 virtude. A prostituta, com a dupla for\u00e7a que a arte e a natureza lhe conferem, jamais p\u00f4de abalar-me; mas agora me sinto dominado por esta jovem pura. At\u00e9 este instante, s\u00f3 para rir do amor era eu constante. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med23\" name=\"med23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto na pris\u00e3o. Entram o duque, disfar\u00e7ado de monge, e o preboste.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Deus vos guarde, preboste; n\u00e3o sois ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ele mesmo. E v\u00f3s, monge, que quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Trazido pelo amor crist\u00e3o e os sacros deveres de minha ordem, venho as almas aflitas visitar. Como \u00e9 costume nesses casos, deixai-me convers\u00e1-las e informai-me da esp\u00e9cie de delitos de cada uma, que a todas eu socorra com mais proveito.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Mais faria, se fosse necess\u00e1rio. Eis uma prisioneira, mo\u00e7a nobre, que \u00e0s rajadas da pr\u00f3pria mocidade comprometeu o nome. Acha-se gr\u00e1vida, e condenado \u00e0 morte o respons\u00e1vel, mo\u00e7o, decerto, feito mais para outro delito cometer do que para esse pagar com a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Quando \u00e9 a execu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Amanh\u00e3, penso. (<i>A Julieta<\/i>) \u2014 J\u00e1 arranjei tudo; mais alguns momentos e sereis removida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Arrependeis-vos, jovem, dessa falta?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, e sofro a vergonha resignada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ides fazer exame de consci\u00eancia para eu saber se sois mesmo sincera, ou se o arrependimento \u00e9 pouco s\u00f3lido.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Alegremente o aceito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Amais a esse homem que ofensa vos causou?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Do mesmo modo que amo a mulher que ofensa lhe causou.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Parece, pois, que a falta conden\u00e1vel foi praticada de comum acordo?<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, de comum acordo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nesse caso, vosso pecado \u00e9 bem maior que o dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Sim, meu padre; confesso-o e me arrependo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Est\u00e1 bem, minha filha; mas n\u00e3o seja esse arrependimento motivado pela desonra, apenas, que sofrestes; nada ter\u00e1 o c\u00e9u que ver com esse sentimento, que a n\u00f3s, somente, alcan\u00e7a, sobre vir demonstrar que se evitamos causar ofensa a Deus, nada influi nisso o amor que lhe devemos, mas o medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Arrependo-me como pecadora e aceito as conseq\u00fc\u00eancias do meu ato.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Continuai assim. Conforme soube, deve amanh\u00e3 morrer o vosso c\u00famplice, a quem vou visitar neste momento a fim de prepar\u00e1-lo. A Gra\u00e7a seja convosco. Benedicite. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JULIETA \u2014 Deve amanh\u00e3 morrer! Oh amor infame, que uma vida me deixa, cuja ess\u00eancia n\u00e3o passa de uma morte lenta e horr\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Coitado! Tenho tanta pena dele!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med24\" name=\"med24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto em casa de \u00c2ngelo. Entra \u00c2ngelo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Quando quero pensar em qualquer coisa ao rezar, fa\u00e7o-o sempre distra\u00eddo; sobem ao c\u00e9u palavras desconexas, ao passo que a mem\u00f3ria, surda \u00e0 l\u00edngua, ancora em Isabela. Tenho o nome do c\u00e9u na boca, como se o mascasse sem parar, e no peito o avassalante veneno de meus planos. At\u00e9 agora fiz do Estado o meu livro \u2014 belo livro! \u2014 que \u00e0 for\u00e7a de ser lido j\u00e1 se torna mon\u00f3tono e tedioso. Este meu cargo, de que tanto me orgulho \u2014 que n\u00e3o me ou\u00e7a ningu\u00e9m! \u2014 eu o trocara com vantagem por uma pluma ociosa, que vagueasse tocada pelo vento! \u00d3 posi\u00e7\u00e3o! Quantas vezes apenas com teu h\u00e1bito fazes tremer os tolos e acorrentas em tua falsa apar\u00eancia os pr\u00f3prios s\u00e1bios! Sangue, tu \u00e9s sempre sangue; se a divisa \u201cAnjo bom\u201d n\u00f3s grav\u00e1ssemos no chifre do dem\u00f4nio, de nada lhe servira. (<i>Entra um criado.<\/i>) Que \u00e9 que h\u00e1? Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 A irm\u00e3 Isabela, que deseja falar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Faze-a entrar (<i>Sai o criado.<\/i>) Oh c\u00e9us! Por que me aflui ao cora\u00e7\u00e3o o sangue deixando-o quase morto e, ao mesmo tempo, privando os demais \u00f3rg\u00e3os de seus meios de a\u00e7\u00e3o? \u00c9 assim que faz a multid\u00e3o sem tino com algu\u00e9m que desmaia; correm todos em seu aux\u00edlio e o privam justamente do ar de que mais precisa. O mesmo fazem os s\u00faditos de um rei estremecido: saem dos seus lugares e com mostras de amizade obsequiosa, junto dele de tal modo se postam, que sua est\u00fapida afei\u00e7\u00e3o grande inc\u00f4modo lhe causa. (<i>Entra Isabel.<\/i>) Ent\u00e3o, bela menina?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Vim para ouvir a vossa decis\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Quisera que a soub\u00e9sseis, omitindo essa pergunta. Cl\u00e1udio vai morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Est\u00e1 bem; que o c\u00e9u guarde Vossa Honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Poderia viver \u2014 quem sabe? \u2014 tanto quanto eu ou v\u00f3s. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio que morra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Porque v\u00f3s o sentenciastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sim.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Dizei-me, por obs\u00e9quio, o dia exato, para que nesse prazo, longo ou curto, fique ele em condi\u00e7\u00f5es de salvar a alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Esses v\u00edcios imundos! Fora o mesmo perdoar a quem um ser j\u00e1 feito rouba \u00e0 Natureza, e dar de m\u00e3os \u00e0s r\u00e9deas da lux\u00faria que faz cunhar a imagem do c\u00e9u, quando proibida. Uma exist\u00eancia leg\u00edtima destruir por meios falsos, eq\u00fcivale a deitar metal em molde vedado para criar vida ileg\u00edtima.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Isso \u00e9 certo no c\u00e9u, n\u00e3o c\u00e1 na terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Pensais assim? Pois vou j\u00e1 confundir-vos. Que preferis que a lei precisa e s\u00e1bia a vosso irm\u00e3o, agora, tire a vida, ou que, para salv\u00e1-lo, \u00e0s impurezas voluptuosas o corpo abandon\u00e1sseis, como a que ele manchou?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Podeis dar cr\u00e9dito ao que vos digo: preferira o corpo sacrificar a vir a perder a alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o estou falando da alma; nossas faltas obrigat\u00f3rias nunca s\u00e3o levadas em conta; valem s\u00f3 como parcelas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Como dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Isto \u00e9, n\u00e3o o assevero, pois poderia defender o oposto do que afirmei. Dizei-me apenas isto: Eu, sendo agora a voz da lei escrita, pronuncio senten\u00e7a contra a vida de vosso irm\u00e3o. N\u00e3o se concebe que haja caridade na falta cometida para salvar-lhe a vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Fazei isso; chamo sobre minha alma a culpa toda; n\u00e3o \u00e9 pecado algum, \u00e9 caridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Se o salv\u00e1sseis com risco da pr\u00f3pria alma, a caridade e a falta ficariam bem compensadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Se \u00e9 pecado pela vida dele impetrar, que o c\u00e9u me fa\u00e7a carga de toda a culpa. Se pecardes por me atender, ent\u00e3o, nas minhas preces matinais pedirei que esse pecado seja inclu\u00eddo nos meus, n\u00e3o vos ficando nada a ser computado.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Mas ouvi-me, pois n\u00e3o me acompanhais o pensamento; ou ignorante sois, ou, por ast\u00facia ignor\u00e2ncia fingis, e \u00e9 mau faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Bem, que eu seja ignorante e apenas boa para reconhecer minhas fraquezas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Quando a sabedoria se deprime, \u00e9 por querer que o brilho pr\u00f3prio aumente, como as m\u00e1scaras pretas que proclamam dez vezes mais valiosa a formosura velada, do que quando descoberta. Mas prestai aten\u00e7\u00e3o; para fazer-me compreender vou falar com mais rudeza: vosso irm\u00e3o vai morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 E seu delito \u00e9 tal, como parece, que se encontra pass\u00edvel do castigo previsto pela lei.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Admiti que n\u00e3o haja Outro recurso para salvar-lhe a vida \u2014 n\u00e3o inculco semelhante medida ou qualquer outra; falo em termos gerais a n\u00e3o ser este: que v\u00f3s, sua pr\u00f3pria irm\u00e3, vos encontr\u00e1sseis requestada de algu\u00e9m que, por motivo de sua posi\u00e7\u00e3o, tivesse influ\u00eancia junto do juiz, e a vosso irm\u00e3o pudesse libertar facilmente das algemas da lei que envolve a todos, e que meio terreno n\u00e3o houvesse de salv\u00e1-lo, exceto o de entregardes a mais rica j\u00f3ia do vosso corpo a essa pessoa. Sem isso, fatal fora a morte dele. Que far\u00edeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Por meu irm\u00e3o, o que por mim faria. Se eu me sentisse acaso na imin\u00eancia de morrer, aceitara como sendo rubis as marcas todas do chicote, e me despira para entrar na tumba como em um leito h\u00e1 muito cobi\u00e7ado sem consentir que o corpo me polu\u00edssem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Sendo assim, vosso irm\u00e3o deve morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00c9 o meio mais barato, pois \u00e9 melhor que o irm\u00e3o morra de um lance, do que ficar morrendo eternamente a irm\u00e3, para salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o ser\u00edeis, assim, t\u00e3o cruel como essa senten\u00e7a que acusais?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Resgate ignominioso e perd\u00e3o livre s\u00e3o coisas diferentes; a dem\u00eancia leg\u00edtima n\u00e3o tem afinidades com a reden\u00e7\u00e3o infame.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 H\u00e1 alguns momentos, da lei faz\u00edeis um tirano, vendo no ato de vosso irm\u00e3o mais um desporto do que mesmo uma culpa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Oh, perdoai-me, senhor! Sucede \u00e0s vezes que quem quer algo esconde o pensamento. Atenuo o que odeio, em benef\u00edcio da pessoa a que amo ternamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00f3s todos somos fr\u00e1geis.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Pois que morra meu irm\u00e3o se ele, apenas, sem ter c\u00famplice, for dono e herdeiro dessa tua fraqueza.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 As mulheres s\u00e3o fr\u00e1geis como os homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, como seus espelhos, que t\u00e3o pronto refletem formas, como se espeda\u00e7am. Oh, as mulheres! Deus as guarde! Os homens, delas se aproveitando, estragam tudo quanto eles mesmos criaram. Sim, chamais-nos dez vezes fr\u00e1geis, porque somos brandas como a cute que temos e sens\u00edveis s falsas impress\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 De grado o creio. Firmado, ent\u00e3o, no pr\u00f3prio testemunho do vosso sexo \u2014 pois s\u00f3 somos fortes, penso, ao ponto de sermos abalados pelos deslizes \u2014 vou ser corajoso: pego-vos na palavra; sede apenas o que sois, a saber: mulher. Se fordes mais, n\u00e3o sereis nenhuma. Mas se o sois, como vosso exterior assaz o indica, demonstrai-o nesta hora, revestindo-vos do trajo competente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 S\u00f3 disponho de uma l\u00edngua, senhor; instante pe\u00e7o-vos que volteis a falar na outra linguagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Direi, pois, sem ambages, que vos amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Meu mano amou Julieta, e me dissestes que por isso ele morre.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 N\u00e3o morrer\u00e1, Isabel, se amor me derdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sei que vossa virtude o privil\u00e9gio goza de uma licen\u00e7a com que feia se torna, s\u00f3 com o fim de a outros tentar.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Palavra de honra, crede-me: o que digo \u00e9 todo o meu intento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ah! essa honra \u00e9 pequena em demasia para ser crida. E o intento, mais que infame! Hipocrisia tudo, hipocrisia! Cuidado, \u00c2ngelo! Vou desmascarar-te! Vais assinar-me logo a liberdade de meu irm\u00e3o, se n\u00e3o, com toda a for\u00e7a dos pulm\u00f5es vou gritar por esse mundo que esp\u00e9cie de homem tu \u00e9s.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Quem dar\u00e1 cr\u00e9dito ao que disseres, Isabel? Meu nome sem m\u00e1cula, a austereza do meu modo de viver, a formal contesta\u00e7\u00e3o a quanto asseverardes, e meu posto dentro do Estado, tanto a vossas queixas h\u00e3o de prevalecer que heis de asfixiar-vos em vosso pr\u00f3prio conto, s\u00f3 restando de tudo, ao fim, um cheiro de cal\u00fania. Mas j\u00e1 que principiei, vou soltar r\u00e9deas ao instinto sensual: consente logo no que requer o meu desejo ardente, p\u00e1ra com essas sutilezas, esses rubores dispens\u00e1veis, que s\u00f3 servem para banir o que eles ambicionam; resgata o irm\u00e3o, cedendo aos meus desejos o corpo; do contr\u00e1rio, n\u00e3o somente vai morrer ele a morte cominada e, ante a recusa tua, ora acrescida de morosa agonia. Amanh\u00e3 traze-me a resposta; se n\u00e3o, por esta mesma paix\u00e3o que me domina, eu me transformo para ele num tirano. Quanto a vossas verdades, espalhai-as, que com a minha falsidade irei dar-lhes morte asinha. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 A quem me queixarei? Quem h\u00e1 de crer-me, quando eu contar tudo isto? Oh bocas cheias de perigos, que, com uma l\u00edngua apenas, tanto podem matar como dar vida, dobrando a lei com tais e tais caprichos, que o justo e o injusto espetam no apetite que os maneja \u00e0 vontade! Vou ver Cl\u00e1udio; conquanto a instiga\u00e7\u00e3o do sangue o tenha feito cair, abriga tal esp\u00edrito de honra, que se possu\u00edsse dez cabe\u00e7as para estender nos cepos sanguinosos, sacrific\u00e1-las-ia antes que o corpo sua irm\u00e3 abandonasse a t\u00e3o abjeta profana\u00e7\u00e3o. Morre, irm\u00e3o! Isabel, s\u00ea sempre pura! Os irm\u00e3os passam, a pureza dura. Mas vou contar-lhe o que \u00c2ngelo me disse para que a morte aceite com ledice. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med31\" name=\"med31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto na pris\u00e3o. Entram o duque, disfar\u00e7ado de monge, Cl\u00e1udio e o preboste.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Comais, pois, com o perd\u00e3o do senhor \u00c2ngelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Aos infelizes resta um s\u00f3 rem\u00e9dio: a esperan\u00e7a. Espero ainda viver, mas estou pronto para a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Contas certo com a morte; desse modo, tanto ela como a vida se tornar\u00e3o mais doces. Dialogai com a vida deste modo: Em te perdendo, perderei o que os tolos, t\u00e3o-somente, cuidam de preservar. S\u00f3 \u00e9s um sopro submetido \u00e0s influ\u00eancias mais variadas do tempo, que visitam a toda hora tua casa com afli\u00e7\u00f5es. \u00c9s simplesmente um joguete da morte, pois s\u00f3 cuidas de evit\u00e1-la e n\u00e3o fazes outra coisa sen\u00e3o correr para ela. N\u00e3o \u00e9s nobre, pois quanto de conforto podes dar-nos, se nutre de baixezas; nem valente podes chamar-te, ao menos, pois tens medo do dardo brando e fr\u00e1gil de um gusano mesquinho. Teu melhor repouso \u00e9 o sono, que invocas t\u00e3o freq\u00fcente; no entretanto, mostras pavor insano de tua morte, que outra coisa n\u00e3o \u00e9. Tu n\u00e3o \u00e9s tu, pois vives em milh\u00f5es de gr\u00e3os nascidos da poeira. Feliz, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9s, pois s\u00f3 cuidas de obter o que te falta, olvidando o que tens. N\u00e3o \u00e9s constante, porque tua complei\u00e7\u00e3o, segundo as fases da lua, est\u00e1 sujeita a varia\u00e7\u00f5es. Se \u00e9s rica, \u00e9s pobre; porque tal como o asno vergado sob o peso de tanto ouro, s\u00f3 levas tua riqueza uma jornada, vindo a morte, depois, descarregar-te. Amigos n\u00e3o possuis, porque tuas pr\u00f3prias entranhas, que por m\u00e3e te reconhecem, e at\u00e9 mesmo o que os rins verter costumam, o reumatismo, as \u00falceras e a gota te amaldi\u00e7oam por n\u00e3o darem cabo logo de ti. N\u00e3o tens nem mocidade nem velhice, n\u00e3o sendo, por assim dizer, mais do que um sono ap\u00f3s a sesta, que sonha com ambas, porque a t\u00e3o ditosa juventude envelhece \u00e0 for\u00e7a, apenas, de suplicar esmolas \u00e0 impotente decrepitude. Quando \u00e9s velha e rica, careces de afei\u00e7\u00e3o, calor, beleza, que os bens te tornem gratos. Que merece, pois, o nome de vida nisso tudo? Mais de mil mortes essa vida oculta; no entanto temos tanto medo morte, que \u00e9 o que, no fim da conta, tudo iguala.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o vos agrade\u00e7o. Desejando viver, agora o vejo, s\u00f3 procurava a morte, e, nesse empenho afinal, acho a vida. Pois que venha!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA (<i>dentro<\/i>) \u2014 Abri! Reine aqui a paz, a gra\u00e7a e as boas companhias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Quem bate? Entrai; que o voto merece acolhimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Caro senhor, virei dentro de pouco ver-vos de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Reverendo, fico-vos por isso agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Venho agora para falar com Cl\u00e1udio umas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Sois bem-vinda; senhor, aqui se encontra vossa irm\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Carcereiro, uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Quantas quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ponde-me onde eu possa, sem ser visto, ouvir tudo o que falarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o duque e o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Cara irm\u00e3, que consolo me trazeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Excelente consolo, como todos. Por ter no c\u00e9u neg\u00f3cios, vai lorde \u00c2ngelo mandar-vos para l\u00e1 na qualidade de embaixador, com casa para sempre. Fazei, pois, com bem pressa os necess\u00e1rios preparativos, que amanh\u00e3 \u00e9 o dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio, pois?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Nenhum, se excluirmos o que, para salvar uma cabe\u00e7a, partisse o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Mas h\u00e1 rem\u00e9dio?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, caro irm\u00e3o, h\u00e1 um; podeis viver. No juiz h\u00e1 uma diab\u00f3lica clem\u00eancia; se eu a implorasse, poderia dar-vos a vida, mas com ferros at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Pris\u00e3o perp\u00e9tua?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, pris\u00e3o perp\u00e9tua; restri\u00e7\u00e3o num sentido, embora o mundo tiv\u00e9sseis por menagem<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 De que jeito?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 De um jeito que se a cl\u00e1usula aceit\u00e1sseis, vos descascara logo a honra do tronco, deixando-vos despido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Revelai-mo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00d3 Cl\u00e1udio! tremo tanto por tua causa, s\u00f3 de pensar que podes apegar-te a uma vida febril e achar que meia d\u00fazia de invernos valem mais do que a honra sempiterna. Careces de coragem para morrer? A dor da morte existe s\u00f3 na imagina\u00e7\u00e3o; o pobre inseto que, ao passar, esmagamos, sofre tanto no corpo como o mais alto gigante no transe da agonia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Por que causa me infligis essa afronta? Porventura pensais que para resolver-me eu tenho precis\u00e3o de car\u00edcias ilus\u00f3rias? Se eu tiver de morrer, a noite eterna buscarei como a noiva muito amada que ao peito carinhoso eu conchegasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Falou agora o meu irm\u00e3o; o t\u00famulo de meu pai emitiu esses conceitos. Sim, vais morrer, pois tens muita honra para que a vida alcan\u00e7ar possas com baixezas. Esse governador, santo aparente, de fei\u00e7\u00f5es t\u00e3o tranq\u00fcilas e palavras ponderadas, que os mo\u00e7os ferem certo na cabe\u00e7a e as loucuras paralisam, como faz o falc\u00e3o com as outras aves, n\u00e3o passa de um dem\u00f4nio. Se tir\u00e1ssemos de sua alma toda a lama, poder\u00edamos ver que ela abriga um charco t\u00e3o profundo como o inferno.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Referes-te a lorde \u00c2ngelo?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Acreditas-me, Cl\u00e1udio? Poderias deixar esta pris\u00e3o se eu consentisse em dar-lhe a virgindade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 \u00c9 inconceb\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, deixar-te-ia livre dessa ofensa inomin\u00e1vel, dando-te licen\u00e7a para outros crimes. Hoje eu deveria cometer a ignom\u00ednia cujo nome me causa horror. Caso contr\u00e1rio, deves perecer amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 N\u00e3o o far\u00e1s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Se da vida, somente se tratasse, para salvar-vos, dela me livrara como de um alfinete.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Agradecido, minha cara Isabel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Disp\u00f5e-te, Cl\u00e1udio, portanto, para a morte amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Sim&#8230; Abriga ele, ent\u00e3o, paix\u00f5es que o levam a puxar o nariz da pr\u00f3pria lei, que ele amparar devera? \u00c9 isso; n\u00e3o pode ser pecado mortal; se o for, sem d\u00favida, deve ser o menor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Qual \u00e9 o menor?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Se ficasse por isso condenado, ele, um s\u00e1bio t\u00e3o grande, quereria, por um prazer fugaz, correr o risco das penas sempiternas? Oh Isabel!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Que disse o mano?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 A morte \u00e9 pavorosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 E detestando a vida desonrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Mas morrer e ir quem sabe l\u00e1 para onde? ficar r\u00edgido e frio e decompor-se; tornar-se este calor sens\u00edvel numa pouca de argila argamassada, o esp\u00edrito radioso mergulhar num mar de fogo ou morar em paragens tiritantes, de gelo espesso; ficar preso em ventos impenetr\u00e1veis e soprar com for\u00e7a sempre crescente em torno deste mundo suspenso; ou ser mais miser\u00e1vel, ainda, do que esses miser\u00e1veis que os incertos pensamentos uivando representam&#8230; \u00c9 por demais horr\u00edvel! A exist\u00eancia terrena mais penosa e repugnante, que a mis\u00e9ria, a pris\u00e3o, a idade, as doen\u00e7as possam tornar mais grave, \u00e9 um para\u00edso em confronto com tudo o que tememos da morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Que dizeis?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Querida irm\u00e3, deixai que eu viva! Sim, qualquer pecado cometido somente para a vida de um irm\u00e3o resgatar, de tal maneira o escusa a natureza, que ele acaba tornando-se virtude.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Oh animal! hip\u00f3crita sem f\u00e9! velhaco infame! Queres ter vida \u00e0 custa de meu v\u00edcio? N\u00e3o ser\u00e1 quase incesto obter as bases da vida custa da honra de uma irm\u00e3? Que devo crer? N\u00e3o queira o c\u00e9u que minha m\u00e3e houvesse abusado de meu pai, que o sangue dele nunca poderia ter gerado aleij\u00e3o bruto como este. Pois me recuso a tudo. Morre! Extingue-te! Se, ajoelhando-me, fosse ainda poss\u00edvel mudar o teu destino, deixaria que ele se realizasse. Por tua morte direi mil ora\u00e7\u00f5es, mas serei muda para salvar-te a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Escuta-me, Isabel!<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Oh, que vergonha! Teu pecado n\u00e3o \u00e9 mais acidente, \u00e9 h\u00e1bito. A clem\u00eancia, no teu caso, se tornara terceira. \u00c9 melhor mesmo que pere\u00e7as quanto antes. (<i>Faz men\u00e7\u00e3o de retirar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Escuta-me, Isabela!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o duque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Concedei-me uma palavra, jovem irm\u00e3; somente uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Se dispondes de tempo, desejara falar-vos um momentinho; \u00e9 em vosso pr\u00f3prio interesse que vos fa\u00e7o esse pedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 N\u00e3o tenho tempo dispon\u00edvel; qualquer demora, aqui, redundaria em preju\u00edzo de outras ocupa\u00e7\u00f5es; contudo, consinto em ouvir-vos por alguns momentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE (<i>\u00e0 parte, a Cl\u00e1udio<\/i>) \u2014 Filho, escutei o que se passou entre v\u00f3s e vossa irm\u00e3. \u00c2ngelo n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o de corromp\u00ea-la; quis apenas p\u00f4r \u00e0 prova sua virtude, a fim de ficar conhecendo melhor os homens. Por ser ela ornada do mais puro sentimento de honra, op\u00f4s-lhe a agrad\u00e1vel recusa que ele aceitou de todo o cora\u00e7\u00e3o. Sou o confessor de \u00c2ngelo, e posso afirmar que essa \u00e9 que \u00e9 a verdade. Preparai-vos, portanto, para morrer; n\u00e3o iludais vossa firmeza com esperan\u00e7as enganosas; devereis morrer amanh\u00e3; ajoelhai-vos e preparai-vos para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Permiti que eu pe\u00e7a perd\u00e3o a minha irm\u00e3; encontro-me de tal modo enfarado de vida, que meu \u00fanico desejo, agora, \u00e9 ver-me livre dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Continuai assim. Adeus! (<i>Sai Cl\u00e1udio. Volta o preboste.<\/i>) Preboste, uma palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Que desejais, meu padre?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Que vos retireis, uma vez que voltastes para c\u00e1, e que me deixeis com esta menina por alguns momentos. Meu car\u00e1ter e meu h\u00e1bito vos asseguram que nada lhe acontecer\u00e1 de mal em minha companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Perfeitamente. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 A m\u00e3o que vos fez bela vos fez boa; a bondade pobre de beleza deixa a beleza carecente de bondade; mas a Gra\u00e7a, que \u00e9 a alma de vosso ser, conserva-vos o corpo sempre belo. O acaso me fez conhecer o atentado que sofrestes por parte de \u00c2ngelo; se a fraqueza humana n\u00e3o nos ministrasse exemplos de sua pr\u00f3pria debilidade, eu me admiraria de sua conduta. Que estais disposta a fazer, para contentar a esse ministro e salvar vosso irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Vou procur\u00e1-lo neste momento para dizer-lhe a minha resolu\u00e7\u00e3o: prefiro que meu irm\u00e3o morra por for\u00e7a da lei a nascer-me um filho fora dela. Mas como se engana o bom duque a respeito de \u00c2ngelo! Se algum dia ele voltar e eu vier a falar-lhe, quero n\u00e3o poder mais abrir a boca, se n\u00e3o lhe revelar o modo por que \u00c2ngelo governa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o haver\u00e1 grande preju\u00edzo; mas, dadas as circunst\u00e2ncias, ele saberia livrar-se de vossa acusa\u00e7\u00e3o; quis apenas experimentar-vos. Por isso, prestai aten\u00e7\u00e3o ao que vou dizer-vos. Oferece-se uma oportunidade \u00e0 minha propens\u00e3o para fazer o bem; estou convencido de que podeis prestar um servi\u00e7o merit\u00f3rio a uma pobre rapariga ultrajada, amparar vosso irm\u00e3o perante a c\u00f3lera da lei, n\u00e3o manchar a vossa graciosa pessoa e causar prazer imenso ao duque ausente, no caso de vir ele a saber de semelhante ocorr\u00eancia, quando de sua volta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Explicai-me o caso com mais particularidades: estou disposta a fazer tudo o que n\u00e3o repugnar \u00e0 verdade do meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A virtude \u00e9 corajosa e a bondade jamais revela medo Nunca ouvistes falar de Mariana, a irm\u00e3 de Frederico, o grande soldado que morreu no mar?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 J\u00e1 ouvi falar dessa pessoa, e sempre com boas refer\u00eancias<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Era para se ter casado com esse \u00c2ngelo; j\u00e1 estavam noivos por juramento e o casamento marcado; mas entre o contrato e a celebra\u00e7\u00e3o das n\u00fapcias, seu irm\u00e3o naufragou, tendo ido ao fundo, com o navio sinistrado, o dote da irm\u00e3. Observai agora as tristes conseq\u00fc\u00eancias desse acontecimento para a pobre menina: perdeu nesse naufr\u00e1gio um irm\u00e3o nobre e de nome ilustre, que sempre lhe dedicara a mais terna e natural afei\u00e7\u00e3o; com ele, o dote, tamb\u00e9m, nervo e fundamento de sua fortuna; e com ambos o marido em perspectiva, esse \u00c2ngelo de apar\u00eancia t\u00e3o enganosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel? \u00c2ngelo a abandonou dessa maneira?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Deixou-a entregue \u00e0s pr\u00f3prias l\u00e1grimas, sem procurar secar uma que fosse com o seu conforto; engoliu os juramentos antes feitos sob pretexto de revela\u00e7\u00f5es que a maculavam; em resumo: abandonou-a \u00e0 sua pr\u00f3pria desgra\u00e7a, que ela ainda est\u00e1 suportando por amor dele, enquanto ele, mudado em m\u00e1rmore diante de suas l\u00e1grimas, deixa-se lavar por elas, mas n\u00e3o se abranda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Qu\u00e3o grande seria o merecimento da Morte, se levasse do mundo a essa pobre menina! E como \u00e9 corrupta esta vida que permite viver semelhante homem! Mas que pode ela lucrar com o que se est\u00e1 passando?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 uma ruptura que podereis curar facilmente; e com isso n\u00e3o somente salvareis vosso irm\u00e3o, como ficareis estreme de desonra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Mostrai-me como \u00e9 poss\u00edvel o que dizeis, bom padre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A jovem de que falamos ainda acalenta a sua primitiva afei\u00e7\u00e3o; a aspereza imerecida do seu noivo, que, logicamente, deveria fazer extinguir aquele amor, no jeito dos obst\u00e1culos na corrente, deixou-o ainda mais violento e impetuoso. Ide procurar \u00c2ngelo e acedei a suas inst\u00e2ncias com aquiesc\u00eancia aparente; concordai no essencial com o que ele pedir, impondo apenas algumas condi\u00e7\u00f5es, que h\u00e3o de ser-nos proveitosas: primeiro, que seja curto o prazo da entrevista, que o encontro de corra no escuro e no sil\u00eancio, e que o local corresponda \u00e0s circunst\u00e2ncias. Uma vez obtidas essas condi\u00e7\u00f5es, tudo mais nos correr\u00e1 bem; avisaremos a jovem ultrajada para que compare\u00e7a entrevista em vosso lugar. Se a not\u00edcia desse encontro vier a ser propalada, \u00c2ngelo se ver\u00e1 obrigado a conceder-lhe uma repara\u00e7\u00e3o. Desse modo, vosso irm\u00e3o se salvar\u00e1, vossa honra ficar\u00e1 sem m\u00e1cula, a pobre Mariana lucrar\u00e1 e o corrupto ministro ficar\u00e1 desmascarado. Vou p\u00f4r a jovem a par de tudo e prepar\u00e1-la para o encontro. Se virdes que podeis levar o plano avante, como realmente o podeis, o duplo benef\u00edcio da\u00ed decorrente limpar\u00e1 de qualquer sen\u00e3o o embuste de que nos vamos valer. Que pensais, sobre o caso?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Alegro-me s\u00f3 de pensar nele, esperando que tudo acabe bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Depender\u00e1 de v\u00f3s; ide procurar \u00c2ngelo sem mais delongas; se ele vos invitar a lhe compartilhardes o leito por esta noite, acedei a seu pedido. Vou j\u00e1 a S\u00e3o Lucas; \u00e9 l\u00e1 que mora a repudiada Mariana, em uma granja solit\u00e1ria. Procurai-me nesse local e arranjai as coisas com \u00c2ngelo, de modo que n\u00e3o possa haver demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Agrade\u00e7o-vos o conforto; passai bem, meu bom padre.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua diante da pris\u00e3o. Entram, por um lado o duque, disfar\u00e7ado de monge; pelo outro Elbow, Pompeu e oficiais de justi\u00e7a.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 N\u00e3o pode ser; se n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio e quiserdes continuar a vender homens e mulheres como se vendem animais, o mundo inteiro passar\u00e1 a beber dos bastardos vermelho e branco.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Oh c\u00e9us! Que confus\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 A alegria sumiu do mundo desde que o mais alegre dos dois usur\u00e1rios ficou arruinado e o outro recebeu autoriza\u00e7\u00e3o legal para usar roupa com forro, a fim de aquecer-se; e mais, forrada com pele de raposa e de cordeiro, como para mostrar que a ast\u00facia, por ser mais rica do que a inoc\u00eancia, pode ostentar \u00e0 vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Segui vosso caminho, senhor. Deus vos aben\u00e7oe, meu bom frade.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 E a v\u00f3s tamb\u00e9m, bom irm\u00e3o padre. Que ofensa vos fez esse homem, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Ora, senhor, ofendeu a lei; al\u00e9m do mais, senhor, julgamos que seja ladr\u00e3o, senhor, porque encontramos em seu poder uma gazua especial que hav\u00edamos enviado ao governador.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fora o tunante! Um vil alcoviteiro! O mal que por tua causa se pratica, \u00e9 teu meio de vida. Pensa apenas no que seja entupir essa barriga ou as costas cobrir gra\u00e7as ao v\u00edcio. Dize para ti mesmo: vivo apenas de seus contatos vis e abomin\u00e1veis; deles me visto, bebo e me alimento. Julgas que seja vida tua exist\u00eancia t\u00e3o malcheirosa? Vamos; arrepende-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 De fato, senhor; ela \u00e9, de algum modo, fedorenta; no entanto, senhor, eu poderia provar&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, se o diabo te deu amplo direito de pecar, ser-te-\u00e1 f\u00e1cil o prov\u00e1-lo. Levai-o para o c\u00e1rcere, oficial; o castigo e a instru\u00e7\u00e3o ainda t\u00eam muito que fazer, antes que este animal r\u00fastico possa lucrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 \u00c9 preciso, senhor, que ele compare\u00e7a ante o governador, que o admoestou. O governador n\u00e3o suporta devassos. Se ele for devasso e aparecer diante do governador, mais lhe valera estar a uma milha de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ah! se deixasse os homens a Clem\u00eancia livres de culpas e estas, da apar\u00eancia!<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Ele vai ter no pesco\u00e7o o que tendes na cintura, senhor: uma corda.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 J\u00e1 vislumbro socorro. Hurra! Um fiador! A\u00ed vem vindo um cavalheiro meu amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ent\u00e3o, nobre Pompeu! Como! Jungido ao carro de C\u00e9sar? Est\u00e1s sendo levado em triunfo? Que tal, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel arranjar outras est\u00e1tuas de Pigmali\u00e3o, transformadas em mulheres h\u00e1 pouco tempo, para que enfiem a m\u00e3o nos bolsos da gente e a retirem fechada? Que respondes a isso? Que me dizes desta \u00e1ria, da melodia e do m\u00e9todo? Afogou-se na \u00faltima chuva? Que dizes disso? Continua o mundo a ser o que era, rapaz? Qual \u00e9 a moda agora? Triste e de poucas palavras, ou de que jeito? Qual \u00e9 a trapa\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A mesma, sempre, se n\u00e3o pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Que faz o meu querido peda\u00e7o, tua patroa? Sempre procura de protegidas, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Para dizer a verdade, senhor, j\u00e1 comeu toda a carne, e agora \u00e9 ela que se encontra na tina.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Muito bem; \u00e9 justo; assim mesmo \u00e9 que deveria ser: o pessoalzinho sempre fresco e a alcoviteira, salgada; conseq\u00fc\u00eancia inevit\u00e1vel; tem de ser assim mesmo. Est\u00e1s sendo levado para a pris\u00e3o, Pompeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Sim, por minha f\u00e9, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 mal nisso, Pompeu. Passa bem. Vai; dize que sou eu que te mando para l\u00e1. \u00c9 por d\u00edvida, Pompeu, ou por que causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Por alcovitice, por alcovitice.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Nesse caso, cadeia com ele! Se os alcoviteiros fazem jus \u00e0 cadeia, est\u00e1 muito certo. Alcaiote \u00e9 o que ele \u00e9, sobre isso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, e h\u00e1 muito tempo; \u00e9 alcaiote nato. Adeus, meu bom Pompeu. Recomenda-me pris\u00e3o, Pompeu; vais tomar-te agora um bom marido, Pompeu; \u00f3timo dono de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Espero, senhor, que Vossa Senhoria me sirva de fiador.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o, Pompeu; n\u00e3o farei semelhante coisa, Pompeu; a moda agora \u00e9 diferente. Vou rezar, Pompeu, para que prolonguem o vosso tempo de pris\u00e3o; se n\u00e3o o suportardes com paci\u00eancia, \u00e9 que tendes demasiado ar dor. Meus, honesto Pompeu; Deus vos aben\u00e7oe, monge.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A v\u00f3s tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 A Br\u00edgida continua a pintar-se, Pompeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Segui vosso caminho, senhor. Vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o me dareis fian\u00e7a, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Nem ent\u00e3o, nem agora, Pompeu. Que novidades h\u00e1 por esse mundo, monge, que novidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">ELBOW \u2014 Vamos, senhor, segui vosso caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Vai para o canil, Pompeu; vai.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Elbow, Pompeu e os oficiais de justi\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Tendes not\u00edcias do duque, irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nenhuma; podereis dar-me alguma?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 H\u00e1 quem diga que ele se encontra com o imperador da R\u00fassia; outros dizem que se acha em Roma. Mas onde imaginais que esteja?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o posso sab\u00ea-lo; mas seja onde for, s\u00f3 lhe desejo bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Foi uma loucura verdadeiramente estranha de sua parte, furtar-se do Estado e usurpar a mendic\u00e2ncia para que n\u00e3o nascera. Lorde \u00c2ngelo est\u00e1 ducando muito bem em sua aus\u00eancia; chega at\u00e9 a exceder-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Comporta-se muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Um pouco mais de indulg\u00eancia com a lux\u00faria n\u00e3o lhe faria mal nenhum. Nesses assuntos ele \u00e9 um tanto exagerado, irm\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 um v\u00edcio muito espalhado, que precisa ser curado com energia.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 duvida; de parentela muito grande; disp\u00f5e de aliados importantes; mas n\u00e3o poder\u00e1 ser extirpado, irm\u00e3o, enquanto for permitido comer e beber. Dizem que esse \u00c2ngelo n\u00e3o prov\u00e9m de homem e mulher, conforme o princ\u00edpio geral da cria\u00e7\u00e3o. Acreditais nisso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Como, ent\u00e3o, teria sido gerado?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 H\u00e1 quem diga que uma sereia o desovou; outros, que prov\u00e9m de dois bacalhaus secos. O que \u00e9 certo \u00e9 que quando ele des\u00e1gua, a urina j\u00e1 sai em forma de gelo, o em que eu acredito piamente. \u00c9 um boneco gerado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sois muito espirituoso, senhor, e falais com desenvoltura.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ora, que coisa b\u00e1rbara \u00e9 essa, de tirar a vida a uma pessoa simplesmente porque a braguilha se revoltou! O duque ausente teria feito semelhante coisa? Antes de mandar enforcar um homem por haver gerado um cento de bastardos, ele pagaria a alimenta\u00e7\u00e3o de um milheiro deles. Ele possu\u00eda o sentimento do desporto; conhecia o servi\u00e7o, raz\u00e3o por que era inclinado compaix\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nunca ouvi dizer que o duque ausente fosse dado a mulheres; n\u00e3o tinha essa inclina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Oh, senhor! Engano manifesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Imposs\u00edvel!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Quem? O duque? Quando lhe aparecia a mendiga de cinq\u00fcenta anos, tinha por costume por um ducado no seu prato de bater. E isso; o duque tinha as suas manias; gostava, tamb\u00e9m, de embriagar-se; posso asseverar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o lhe fazeis justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ora, senhor, eu fui \u00edntimo do duque. Ele era um sujeito muito reservado. Penso saber a raz\u00e3o do seu afastamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Qual pode ter sido, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o; ides desculpar-me; trata-se de um segredo que deve permanecer entre os dentes e os l\u00e1bios. Contudo, posso confiar-vos uma particularidade: a maioria dos seus s\u00faditos o tinha na conta de s\u00e1bio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 De s\u00e1bio? Mas sobre isso n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Superficial, ignorante e f\u00fatil \u00e9 o que ele era.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o sei se semelhante ju\u00edzo prov\u00e9m de inveja de vossa parte, de tolice ou de algum equ\u00edvoco. Todo o curso de sua vida e os neg\u00f3cios que ele dirigiu poderiam ensejar-lhe melhor conceito, se de tal fosse mis ter. Se f\u00f4ssemos julg\u00e1-lo por seus atos, ele apareceria aos invejosos como letrado, pol\u00edtico e guerreiro. Falais, portanto, sem conhecimento de causa, se \u00e9 que vosso ju\u00edzo n\u00e3o se encontra obnubilado pela maldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor, eu o conhe\u00e7o e o estimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A estima sempre fala com melhor conhecimento e este com estima mais extremada.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Vamos, senhor; eu sei o que sei.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Custa-me acreditar nisso, uma vez que n\u00e3o sabeis o que estais dizendo. Mas se algum dia o duque voltar \u2014 conforme o podem nossas ora\u00e7\u00f5es \u2014 desejaria que sustent\u00e1sseis isso na frente dele. Se falastes com honestidade, haveis de ter coragem para tanto. Sinto-me obrigado a aprazar-vos. Qual \u00e9 o vosso nome, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Senhor, chamo-me L\u00facio; sou muito conhecido do Duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ele h\u00e1 de ficar vos conhecendo melhor, senhor, se eu tiver vida para poder falar-lhe a vosso respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o me meteis medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Oh! Imaginais, talvez, que o duque n\u00e3o h\u00e1 de voltar, ou me tomais por um advers\u00e1rio inofensivo, conquanto seja certo que n\u00e3o poderei causar-vos muito dano, porque negareis tudo o que dissestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Primeiro me deixaria enforcar. Enganas-te a meu respeito, monge. Mas sobre isso, basta. Sabes dizer-me se Cl\u00e1udio morre amanh\u00e3 mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por que haver\u00e1 ele de morrer, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por qu\u00ea? Por ter enchido uma garrafa com um funil. Desejara que voltasse o duque de que falamos; esse agente castrado vai acabar por despovoar a prov\u00edncia por meio da incontin\u00eancia; os pardais n\u00e3o t\u00eam direito de fazer ninho no telhado de sua casa, por lhe parecerem devas aos. O duque, pelo menos, faria expiar na sombra os atos cometidos no escuro, sem jamais traz\u00ea-los \u00e0 luz. Ah! se ele voltasse! Com a breca! Imaginar que esse Cl\u00e1udio est\u00e1 condenado s\u00f3 porque se desabotoou? Meus, bom monge; pe\u00e7o-te que rezes por mim. Torno a dizer-te que o duque comia carneiro \u00e0s sextas-feiras; ele ainda n\u00e3o est\u00e1 passado de todo; por isso posso assegurar-te que ele ainda poderia fazer caretas com uma mendiga, muito embora ela fedesse a alho e p\u00e3o preto. Podes contar-lhe que fui eu que o disse. Adeus. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o h\u00e1 mortal, por grande, que consiga da censura escapar: para a inimiga trai\u00e7oeira, a vil cal\u00fania, at\u00e9 a mais pura virtude \u00e9 infensa v\u00edtima: n\u00e3o dura. Que monarca se julga assaz potente para destruir o fel do maldizente? Mas quem vem vindo ai?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Escalo, o preboste e oficiais de justi\u00e7a, com mistress Overdone.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Vamos! Metam-na no xadrez!<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Meu bom senhor, sede bondoso comigo; Vossa Honra \u00e9 tido na conta de pessoa misericordiosa, meu bom senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Foi advertida duas e tr\u00eas vezes, e sempre a incidir na mesma falta! A pr\u00f3pria Clem\u00eancia acabaria mandando tudo bugiar e se tornaria tirana.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Com licen\u00e7a de Vossa Honra, ela \u00e9 alcoviteira h\u00e1 onze anos a fio.<\/p>\n<p align=\"justify\">MRS. OVERDONE \u2014 Meu senhor, essa \u00e9 mais uma das informa\u00e7\u00f5es de L\u00facio, para prejudicar-me. Mistress Kate Keepdown ficou gr\u00e1vida dele no tempo do duque; ele prometera que se casaria com ela; a crian\u00e7a vai fazer um ano e um quarto no dia de S\u00e3o Filipe e S\u00e3o Tiago. Eu pr\u00f3pria cuidei dela; no entanto, vede como ele me trata.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Esse sujeito \u00e9 um libertino de marca. Trazei-mo c\u00e1. Vamos, xadrez com ela! Nem mais uma palavra! (<i>Saem os oficiais com Mrs. Overdone.<\/i>) Preboste, o meu irm\u00e3o \u00c2ngelo n\u00e3o se deixou comover. Cl\u00e1udio tem de morrer amanh\u00e3. \u00c9 preciso, portanto, mandar buscar um padre e ministrar-lhe os demais socorros espirituais; se meu irm\u00e3o se deixasse guiar por minha piedade, a sorte de Cl\u00e1udio seria outra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Com vossa licen\u00e7a, mas este monge esteve com ele e j\u00e1 o preparou para a visita da morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Boa-tarde, meu bom padre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A salva\u00e7\u00e3o e a b\u00ean\u00e7\u00e3o sobre v\u00f3s!<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 De onde sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o sou deste pa\u00eds, embora o acaso para c\u00e1 me trouxesse por um tempo. Fa\u00e7o parte de uma ordem venerada; vim h\u00e1 pouco de Roma e estou em miss\u00e3o particular de Sua Santidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Que novidades h\u00e1 pelo mundo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nenhuma, a n\u00e3o ser que deu agora uma febre na virtude, da qual s\u00f3 se curar\u00e1 com a dissolu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 se exige novidade e \u00e9 t\u00e3o perigoso envelhecer em qualquer g\u00eanero de vida, como \u00e9 virtuoso ser constante num empreendimento. Da verdade s\u00f3 subsiste o m\u00ednimo necess\u00e1rio para assegurar a vida social, mas sobra a seguran\u00e7a para amaldi\u00e7oar a camaradagem. A prud\u00eancia do mundo gira em torno desse enigma. Essa novidade \u00e9 bastante velha; contudo, \u00e9 a novidade de todos os dias. Por obs\u00e9quio, senhor, de que disposi\u00e7\u00e3o era o duque?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 De uma disposi\u00e7\u00e3o que, acima de tudo, o levava a procurar conhecer-se a si mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A que prazeres era afei\u00e7oado?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Alegrava-se mais com a alegria dos outros do que com qual quer coisa que inventassem para distra\u00ed-lo; era um gentil-homem equilibrado. Mas rezando para que seja pr\u00f3spera a sua sorte, deixemo-lo entregue a ela e permiti que vos pergunte se encontrastes Cl\u00e1udio prepara do para morrer. Ouvi dizer que acabastes de visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ele me declarou que n\u00e3o acha in\u00edqua a senten\u00e7a do juiz e que se submete com humildade aos decretos da Justi\u00e7a. Contudo, levado pela pr\u00f3pria fraqueza, arquitetara esperan\u00e7as ilus\u00f3rias de continuar a vi ver, o que eu consegui dissipar, estando ele agora decidido a tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Saldastes com o c\u00e9u a d\u00edvida de vossas fun\u00e7\u00f5es e com o prisioneiro a do vosso minist\u00e9rio. Tenho-me esfor\u00e7ado a favor do pobre gentil-homem at\u00e9 onde minha mod\u00e9stia o permite, mas o meu irm\u00e3o juiz estava t\u00e3o severo, que me for\u00e7ou \u00e0 conclus\u00e3o de que ele \u00e9, de fato, o Direito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Se sua vida corresponder \u00e0 retid\u00e3o de sua conduta, nada haver\u00e1 a imputar-lhe; mas se acontecer prevaricar, condena-se a si mesmo desde agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Vou visitar o prisioneiro. Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A paz seja convosco. (<i>Saem Escalo e o preboste.<\/i>) Quem maneja o gl\u00e1dio duro deve ser severo e puro, modelo, em tudo impec\u00e1vel, excelente, inabal\u00e1vel; antes de a algu\u00e9m castigar, deve seus erros pesar. Vergonha para quem pune pecados sem ser imune! Venha o castigo do c\u00e9u para \u00c2ngelo \u2014 o astuto r\u00e9u! \u2014 porque meu reino limpou do que no peito acoitou. Quanta baixeza se abriga em fei\u00e7\u00e3o serena e amiga! Qu\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 \u00e0 hipocrisia, t\u00e3o formosa \u00e0 luz do dia, em teia fina apanhar o que aos outros faz pasmar! Ast\u00facia ao v\u00edcio oporei \u2014 contra os maus a \u00fanica lei. \u2014 Vai ter \u00c2ngelo no leito a noiva, por seu despeito. O enganador, enganado, fica, desta arte, curado, pagando sua fraude antiga com jura veraz e amiga. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med41\" name=\"med41\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>A granja de S\u00e3o Lucas. Entram Mariana e um pajem.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM (<i>canta<\/i>) \u2014 Os l\u00e1bios de mim afasta, que perjuram com do\u00e7ura; os olhos tamb\u00e9m; j\u00e1 basta de tanta luz, tanta alvura. S\u00f3 quero os beijos que eu dei, que eu te dei, selo in\u00fatil no que amei, no que amei.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Termina essa cantiga e vai-te embora. O homem que d\u00e1 conforto vem chegando; seus conselhos muito \u00fateis me t\u00eam sido para esta inquieta\u00e7\u00e3o. (<i>Entra o duque disfar\u00e7ado como antes.<\/i>) Pe\u00e7o perd\u00e3o, senhor; n\u00e3o desejara ter sido achada assim, ouvindo m\u00fasica; mas com isto a alegria eu desterrava para ficar com a dor que me pesava.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por vezes tem a m\u00fasica o poder de, a um s\u00f3 tempo, causar dor e sofrer. Mas, por obs\u00e9quio, dizei-me se hoje algu\u00e9m me procurou aqui? Marquei um encontro mais ou menos para esta hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Ningu\u00e9m vos procurou; n\u00e3o sa\u00ed daqui o dia todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Creio; estamos no prazo; por isso mesmo desejo pedir-vos que vos retireis por alguns momentos; \u00e9 poss\u00edvel que, por vosso pr\u00f3prio interesse, vos torne a chamar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Sempre ao vosso dispor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Bem-vinda e na hora certa. Que not\u00edcias nos traz do bom ministro?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Tem um jardim por muro alto cercado, com uma vinha no lado do ponente; uma porta de t\u00e1bua a\u00ed se encontra; esta chave maior \u00e9 para abri-la; com esta governamos a portinha que o jardim comunica com o vinhedo. Foi a\u00ed que eu fiquei de ir ter com ele na calada da noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Julgais que ser\u00e1 f\u00e1cil orientar-vos?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Tomei nota de tudo com cuidado. Com sigilo culposo, a falar baixo, desfeito em gestos, me mostrou duas vezes ele pr\u00f3prio o caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 E n\u00e3o h\u00e1 nada mais combinado entre ambos que ela tenha de observar na entrevista?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Nada mais, tirante a condi\u00e7\u00e3o de ser no escuro. Fiz-lhe tamb\u00e9m saber que h\u00e1 de ser breve nosso encontro, porque me acompanhava sempre uma criada que ficara \u00e0 espera de minha volta, por pensar que eu ia visitar meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Bem combinado. Nada e nada a Mariana eu disse ainda a esse respeito. Ol\u00e1 de casa! Vinde! (<i>Volta Mariana.<\/i>) Desejo que fa\u00e7ais conhecimento com esta jovem; vem para auxiliar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Desejo a mesma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Estais convicta de que eu zelo por v\u00f3s com interesse?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Sim, irm\u00e3o; j\u00e1 me destes provas disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Levai, pois, vossa amiga pela m\u00e3o; algo importante vai contar-vos ela. Esperarei aqui; mas voltai logo, que a noite vaporosa se aproxima.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Consentireis em ir ali comigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Mariana e Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00d3 poder! \u00d3 grandeza! Milh\u00f5es de olhos falsos em ti se fixam! Grandes ma\u00e7os de not\u00edcias circulam, tendenciosas, sobre tuas a\u00e7\u00f5es. Cabe\u00e7as loucas sem conta te atribuem os pr\u00f3prios sonhos ociosos, e com suas fantasias te colocam no potro. (<i>Voltam Isabela e Mariana.<\/i>) Sede bem-vindas. Tudo combinado?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Consente, padre, na entrepresa, caso a aconselheis a isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014N\u00e3o somente o fa\u00e7o, como suplico, at\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Ao retirardes-vos, n\u00e3o tereis que dizer-lhe muita coisa, mas em voz baixa e branda, apenas isto: de meu irm\u00e3o, agora, recordai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Nada receeis de mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nem v\u00f3s, tampouco, querida filha; ele \u00e9 vosso marido por contrato anterior. Assim, unirdes-vos pecado n\u00e3o ser\u00e1, pois o direito que sobre ele j\u00e1 tendes serve agora para dar cor moral a qualquer fraude. Sigamos, pois. Vai ser grande a colheita, mas deve a semeadura ser bem feita.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med42\" name=\"med42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto na pris\u00e3o. Entram o preboste e Pompeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Vem c\u00e1, maroto! Poderias cortar a cabe\u00e7a a algum homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Sim, senhor; no caso de ser solteiro; porque se for casado, \u00e9 cabe\u00e7a do casal, e eu jamais cortarei a cabe\u00e7a a uma mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Vamos, senhor, deixai dessas sutilezas e respondei-me direito. Amanh\u00e3 cedo Cl\u00e1udio e Bernardino devem morrer; o carrasco de nossa pris\u00e3o est\u00e1 necessitando de um ajudante; se quiserdes assumir a incumb\u00eancia de ajud\u00e1-lo, ficareis livre dos ferros; caso contr\u00e1rio, tereis de cumprir toda a pena, al\u00e9m de serdes chicoteado sem d\u00f3 nem piedade, quando vos soltarem, visto terdes sido not\u00f3rio alcoviteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Senhor, desde tempo imemorial fui alcoviteiro fora da lei; mas agora me contento em ser carrasco legal. Com o m\u00e1ximo prazer receberei instru\u00e7\u00f5es do meu colega de of\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ol\u00e1, Abhorson! Onde est\u00e1 Abhorson?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Abhorson.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Chamastes, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Aqui tendes um tipo para ajudar-vos na execu\u00e7\u00e3o de amanh\u00e3. Se virdes que ele d\u00e1 para a coisa, contratai-o por um ano e deixai-o morando aqui; caso contr\u00e1rio, empregai-o apenas por esta vez e mandai-o embora; n\u00e3o poder\u00e1 dar-se ares de import\u00e2ncia porque era alcoviteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Alcoviteiro, senhor? Que coisa! Ele vai desacreditar nossa arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ora, senhor! pesais a mesma coisa; uma peninha far\u00e1 pender a balan\u00e7a. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, por vossa boa gra\u00e7a \u2014 pois revelais, senhor, decerto, muito boa gra\u00e7a, apesar de terdes fisionomia patibular dais o nome de arte a vossa ocupa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Perfeitamente; \u00e9 arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 A pintura, senhor, segundo ouvi dizer, \u00e9 arte; ora, vossas rameiras, senhor, que fazem parte de minha profiss\u00e3o, ao se pintarem demonstram que essa profiss\u00e3o \u00e9 arte. Mas que esp\u00e9cie de arte pode ha ver no ato de enforcar, ainda que me enforcassem, \u00e9 o que n\u00e3o chego a compreender.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Pois \u00e9 arte mesmo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 A prova?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 A roupa de todo homem honrado assenta bem no vosso ladr\u00e3o; se for pequena demais para ele, o vosso homem honesto a considera suficiente; no caso de lhe ficar muito grande, vosso ladr\u00e3o a julgar\u00e1 ainda pequena. Desta arte a roupa de todo homem honesto assenta em vosso ladr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Combinaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Sim senhor; estou pronto a auxili\u00e1-lo, por ter ficado convencido de que um carrasco \u00e9 mais penitente do que um alcoviteiro: pede perd\u00e3o mais vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ent\u00e3o, vagabundo, aprestai o cepo e o machado para ama nh\u00e3 \u00e0s quatro horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Vamos, alcaiote; vou iniciar-te na profiss\u00e3o; acompanha-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tenho grande desejo de aprender, senhor, e espero que se tiverdes oportunidade de me empregar em v\u00f3s mesmo, havereis de verificar que sou bem lesto, porque, de fato, senhor, a vossa bondade me obriga a ser esfor\u00e7ado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ide buscar Bernardino e Cl\u00e1udio. (<i>Saem Pompeu e Abhorson.<\/i>) Um me inspira piedade; o outro \u2014 assassino \u2014 nem como irm\u00e3o influira em meu destino. (<i>Entra Cl\u00e1udio.<\/i>) A ordem, Cl\u00e1udio, aqui tens para a tua morte. \u00c9 meia-noite agora; \u00e0s oito em ponto ficareis imortal. Onde se encontra Bernardino?<\/p>\n<p align=\"justify\">CL\u00c1UDIO \u2014 Mergulhado em modorra t\u00e3o pesada como o sono inocente que domina os membros fatigados de um viajante; n\u00e3o quer ser despertado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 E para qu\u00ea? Que bem lhe vir\u00e1 disso? Ide aprontar-vos. Mas que barulho \u00e9 esse? O c\u00e9u vos possa reconfortar. (<i>Sai Cl\u00e1udio.<\/i>) J\u00e1 vou! Espero que seja ordem de perd\u00e3o para este gentil Cl\u00e1udio, ou, quando nada, prorroga\u00e7\u00e3o da pena. (<i>Entra o duque, disfar\u00e7ado como antes.<\/i>) Sede bem-vindo, padre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Que os melhores esp\u00edritos da noite e os mais saud\u00e1veis vos envolvam, Preboste. Algu\u00e9m chamou?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ningu\u00e9m, desde o sinal de apagar lume.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nem Isabel?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Nem ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas n\u00e3o tardam.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ser\u00e1 que para Cl\u00e1udio ainda h\u00e1 recurso?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ainda h\u00e1 alguma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 \u00c9 bem severo esse ministro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim. Sua vida se conforma com os ditames de sua santa justi\u00e7a. Ele domina em si, com zelo santo, o que nos outros procura combater. Se o maculassem quejandos crimes, fora vil tirano. Procede como justo. (<i>Batem.<\/i>) Ei-los que chegam. (<i>Sai o preboste.<\/i>) Esse preboste \u00e9 am\u00e1vel; raramente os carcereiros duros s\u00e3o amigos dos homens. (<i>Batem.<\/i>) Esp\u00edrito apressado \u00e9 o que percute desse modo na porta inabal\u00e1vel<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE (<i>para algu\u00e9m de fora<\/i>) \u2014 Espere ai fora at\u00e9 que se levante o empregado que deve introduzi-lo. J\u00e1 o chamaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Acaso recebestes contra-ordem para Cl\u00e1udio? \u00c9 amanh\u00e3 mesmo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Nenhuma, senhor; nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Apesar de ser cedo, carcereiro, antes de amanhecer tereis not\u00edcias.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Decerto sabeis de algo; mas eu penso que n\u00e3o vir\u00e1 contra-ordem. Nunca veio. Al\u00e9m do mais, do pr\u00f3prio tribunal disse lorde \u00c2ngelo o contr\u00e1rio a quantos ouvir quisessem. (<i>Entra um mensageiro.<\/i>) Eis um mensageiro de Sua Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MENSAGEIRO (<i>entregando um papel<\/i>) \u2014 O meu senhor vos envia esta nota, fazendo-vos saber por meu interm\u00e9dio que n\u00e3o deveis afastar-vos uma linha sequer do seu menor artigo, no que respeita \u00e0 hora, ao assunto e s demais circunst\u00e2ncias. Bom-dia, pois presumo que j\u00e1 \u00e9 quase hora disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Hei de obedecer-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o mensageiro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 \u00c9 o seu perd\u00e3o, comprado com um pecado de que \u00e9 c\u00famplice o pr\u00f3prio que h\u00e1 perdoado. Mas a marcha do mal sempre \u00e9 sem termo, quando dele \u00e9 part\u00edcipe o governo. Sendo clemente o v\u00edcio, o criminoso deixa a dem\u00eancia amigo e at\u00e9 glorioso. Quais as novas, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Como vos disse: lorde \u00c2ngelo, julgando-me, talvez, negligente no desempenho de minhas fun\u00e7\u00f5es, me sacode com esta advert\u00eancia inusitada. Acho por demais esquisito, porque ele nunca fez isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por obs\u00e9quio, lede a nota.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 \u201cEmbora possais receber aviso em contr\u00e1rio, Cl\u00e1udio de ver\u00e1 ser executado \u00e0s quatro horas, e Bernardino \u00e0 tarde. Para minha satisfa\u00e7\u00e3o, s cinco horas enviai-me a cabe\u00e7a de Cl\u00e1udio. Cumpri estas ordens sem discrep\u00e2ncia, com a certeza de que sua cabal execu\u00e7\u00e3o \u00e9 de maior monta do que poder\u00edamos inculcar-vos. Por isso, n\u00e3o falteis ao vosso dever, o que vos far\u00e1 assumir os riscos da neglig\u00eancia.\u201d Que dizeis a isto, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Quem \u00e9 esse Bernardino que deve ser executado \u00e0 tarde?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Um bo\u00eamio incorrig\u00edvel, criado e educado aqui mesmo; est\u00e1 preso h\u00e1 nove anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por que motivo o duque ausente n\u00e3o o p\u00f4s em liberdade ou n\u00e3o mandou execut\u00e1-lo? Sempre ouvi dizer que era esse o seu costume.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 \u00c9 que os amigos do prisioneiro sempre conseguiam protela\u00e7\u00e3o; e, de fato, at\u00e9 o governo do senhor \u00c2ngelo, o caso dele parecia duvidoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 E agora, est\u00e1 esclarecido?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Mais do que evidente; ele pr\u00f3prio o confessou.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Revelou arrependimento na pris\u00e3o? Mostra-se abalado?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 \u00c9 um indiv\u00edduo para quem a morte n\u00e3o \u00e9 mais de temer do que o sono da embriaguez; despreocupado, indiferente e sem temor do passado, do presente ou do futuro; insens\u00edvel \u00e0 id\u00e9ia da morte e irremediavelmente mortal.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ele necessita de conselhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Nem quer ouvir falar nisso; sempre teve a liberdade da pris\u00e3o; se lhe derem licen\u00e7a para evadir-se, n\u00e3o a aceitar\u00e1; embriaga-se muitas vezes ao dia, se \u00e9 que n\u00e3o fica dias inteiros na borracheira. Por mais de uma feita o acordamos, como para execut\u00e1-lo, apresentando-lhe uma ordem falsa, sem que isso o emocionasse no m\u00ednimo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Voltaremos a falar dele mais tarde. Tendes escrito na fronte, preboste, honradez e confian\u00e7a; se n\u00e3o leio certo, \u00e9 que me falha a consueta habilidade. Mas, confiado em minha perspic\u00e1cia, vou tentar a aventura. Cl\u00e1udio, a quem tendes ordem de executar, n\u00e3o \u00e9 mais culpado perante a lei do que \u00c2ngelo, que o sentenciou. Pe\u00e7o apenas o prazo de quatro dias para convencer-vos disso; tenho provas inconcussas. \u00c9, por\u00e9m, de necessidade que me presteis um favor t\u00e3o urgente quanto arriscado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 De que esp\u00e9cie, senhor, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Protelando a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Ah, senhor! Como \u00e9 poss\u00edvel aceder a esse pedido, se a hora j\u00e1 est\u00e1 marcada e eu recebi ordem expressa de levar a cabe\u00e7a dele para lorde \u00c2ngelo? Se eu me desviar das instru\u00e7\u00f5es uma linha que seja, terei o mesmo destino de Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pelo voto de minha ordem, eu vos ampararei, se vos guiardes por minhas instru\u00e7\u00f5es. Fazei executar a Bernardino esta manh\u00e3 e enviai a \u00c2ngelo a cabe\u00e7a desse infeliz.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 \u00c2ngelo j\u00e1 viu os dois e ser-lhe-\u00e1 f\u00e1cil identificar-lhes as fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ora! A Morte \u00e9 uma grande transformadora; podeis ajud\u00e1-la nesse mister. Raspai a cabe\u00e7a a Bernardino e amarrai-lhe a barba; direis que o penitente desejou que o preparassem desse jeito; bem sabeis que \u00e9 ocorr\u00eancia freq\u00fcente. Se disso vos advier alguma coisa mais do que agradecimentos e bastante ventura, pelo santo de minha devo\u00e7\u00e3o, de fender-vos-ei com a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Perdoai-me, bom padre, mas isso vai contra o meu juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Prestastes juramento ao duque ou ao seu lugar-tenente?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 A ele e aos seus substitutos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 E se o duque aprovar a retid\u00e3o de vossa conduta, ficareis certo de n\u00e3o haver praticado nenhuma transgress\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Mas h\u00e1 probabilidade de semelhante coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Probabilidade, n\u00e3o; certeza. Mas uma vez que vos vejo com tantos receios, a ponto de nem meu h\u00e1bito, nem minha integridade, nem minha persuas\u00e3o conseguirem demover-vos, irei mais longe do que pretendia, a fim de deixar-vos tranq\u00fcilo. Vede, senhor: aqui est\u00e1 a m\u00e3o e o selo do duque; penso que conheceis a letra dele, n\u00e3o vos devendo ser estranho, tamb\u00e9m, o carimbo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Conhe\u00e7o ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Esta carta trata da volta do duque; para diante podereis l\u00ea-la mais de espa\u00e7o, quando, ent\u00e3o, vos convencereis de que ele vai voltar dentro de dois dias. \u00c2ngelo ignora isso, porque hoje mesmo recebeu cartas de teor muito esquisito, talvez mesmo com a not\u00edcia da morte do duque, talvez com a de que ele se recolheu a um convento, mas, por singular coincid\u00eancia, sem a menor alus\u00e3o ao que se cont\u00e9m nesta. Vede: a estrela matutina chama o pastor! N\u00e3o vos admireis de como essas coisas possam acontecer; as dificuldades, quando conhecidas, tornam-se naturais. Mandai chamar o vosso executor, e fora com a cabe\u00e7a de Bernardino! Vou j\u00e1 confess\u00e1-lo e prepar\u00e1-lo para uma morada melhor. Perece que ainda estais atordoado, mas isto aqui acabar\u00e1 de convencer-vos. Vamos; j\u00e1 come\u00e7a a clarear.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med43\" name=\"med43\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outro quarto da pris\u00e3o. Entra Pompeu.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Encontro-me aqui t\u00e3o \u00e0 vontade como na casa do nosso neg\u00f3cio; poder-se-ia, at\u00e9, pensar que estamos na casa de mistress Overdone, por morarem aqui dentro os seus fregueses mais antigos. Em primeiro lugar, temos o jovem mestre Rash, trancafiado por causa de uma partida de papel escuro e de gengibre velho, que perfazia o total de cento e noventa e sete libras, com que ele arrumou cinco marcos, dinheiro de contado. Nem podia ser de outro jeito: o gengibre ca\u00edra muito, por que as velhas haviam morrido. Depois, temos um tal mestre Cabriola, a requerimento de mestre Tr\u00eas-p\u00ealos, modista, por causa de quatro vestidos de cetim cor de p\u00eassego, que o reduziram a esta pessegada. A seguir, v\u00eaem o jovem Desmiolado, e o jovem mestre Juramento-profundo, e o mestre Espor\u00e3o-de-cobre, e o mestre Lacaio-t\u00edsico, o homem da es pada e do punhal, e mais o jovem Reum\u00e1tico, que matou o corpulento Pudim, e o mestre Expedito, o espadachim e o valente mestre Cord\u00e3o-de-sapato, o grande viajante, e o feroz Pode-\u00e0s-meias, e creio que uns quarenta mais, todos eles trabalhadores em\u00e9ritos em nossa profiss\u00e3o e reduzidos agora ao \u201cPelo amor de Deus\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Abhorson.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Ol\u00e1, malandro, vai buscar Bernardino.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Mestre Bernardino! \u00c9 preciso que vos levanteis para serdes enforcado! Mestre Bernardino!<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Vamos com isso, Bernardino!<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO (<i>dentro<\/i>) \u2014 A peste vos tire o f\u00f4lego! Quem est\u00e1 fazendo tamanho barulho? Quem sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Amigos vossos, homem, o carrasco. \u00ca preciso que tenhais a bondade de vos levantar e de vos deixar matar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO (<i>dentro<\/i>) \u2014 Sai da\u00ed, malandro, que eu estou com sono.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Dizei-lhe que \u00e9 preciso que ele se levante, sem perda de tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Mestre Bernardino, por obs\u00e9quio, ficai acordado, at\u00e9 serdes executado; dormireis depois.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Ide l\u00e1 dentro e trazei-mo.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 J\u00e1 vem vindo, senhor; j\u00e1 vem vindo; j\u00e1 ouvi barulho de palha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 O machado est\u00e1 no cepo, maroto?<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Tudo pronto, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bernardino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO \u2014 Ent\u00e3o, Abhorson! Quais s\u00e3o as \u00faltimas?<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Em verdade, senhor, o que eu desejara agora \u00e9 que fosseis fazer barulho com vossas ora\u00e7\u00f5es. Vede aqui: a ordem da execu\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO \u2014 V\u00e3o para o inferno! Bebi a noite toda; n\u00e3o me acho preparado.<\/p>\n<p align=\"justify\">POMPEU \u2014 Pois tanto melhor, senhor! Porque quem bebe a noite toda e \u00e9 enforcado pela manh\u00e3, dorme muito mais pesadamente o dia seguinte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ABHORSON \u2014 Vede, senhor, a\u00ed vem vindo vosso pai espiritual. Ainda pensais que estamos brincando?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o duque, disfar\u00e7ado como antes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Senhor, induzido por minha caridade, ao saber com que pressa deveis partir deste mundo, vim para aconselhar-vos, confortar-vos e rezar convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO \u2014 Comigo, irm\u00e3o? Absolutamente. Passei a noite toda bebendo; preciso de mais tempo para preparar-me; se n\u00e3o, eles me macetam o c\u00e9rebro. N\u00e3o consinto em morrer hoje, est\u00e1 decidido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Oh, senhor! Mas \u00e9 preciso! Por isso mesmo, suplico-vos pensar na viagem que ides empreender.<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO \u2014 Pois eu juro que n\u00e3o h\u00e1 quem possa convencer-me de morrer hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas ouvi-me&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">BERNARDINO \u2014 Nem mais uma palavra. Se tendes alguma coisa a dizer-me, vinde \u00e0 minha cela, porque de l\u00e1 eu n\u00e3o saio hoje. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Incapaz para a vida e para a morte. Oh cora\u00e7\u00e3o de pedra! Ide atr\u00e1s dele; trazei-o sem demora para o cepo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Abhorson e Pompeu.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Como achastes, senhor, o prisioneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o est\u00e1 preparado para a morte; execut\u00e1-lo nesse estado fora conden\u00e1vel, sem d\u00favida.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Acontece, padre, que hoje morreu na cela um certo Ragozine, pirata consumado, como Cl\u00e1udio na idade, de cabelos e barba iguais aos dele. E se este r\u00e9probo deix\u00e1ssemos de lado, at\u00e9 que fique preparado, e ao ministro apresent\u00e1ssemos a cabe\u00e7a do morto, que \u00e0 de Cl\u00e1udio muito mais se assemelha?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ao c\u00e9u devemos esta casualidade. Enviai-a logo, que j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3xima a hora prefixada por \u00c2ngelo; mandai cort\u00e1-la e em tudo cumpri as instru\u00e7\u00f5es, enquanto eu vejo se persuado este bruto para a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Farei tudo isso, padre; mas \u00e9 urgente que Bernardino morra ainda esta tarde. Como, por\u00e9m, guardar por muito tempo Cl\u00e1udio, para livrar-me do perigo que me adviria se ele fosse achado com vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Procedei desta maneira: ponde em secreto Cl\u00e1udio e Bernardino; antes que o sol sa\u00fade mais duas vezes os homens l\u00e1 de baixo, heis de encontrar-vos sem mais nada a temer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Confio em v\u00f3s inteiramente.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o percais tempo; enviai logo para \u00c2ngelo a cabe\u00e7a. (<i>Sai o Preboste.<\/i>) Agora vou escrever cartas para \u00c2ngelo \u2014 o preboste as entrega \u2014 em que lhe fa\u00e7o saber que j\u00e1 me encontro de tornada e que raz\u00f5es de peso determinam que eu fa\u00e7a entrada p\u00fablica. Convido-o a encontrar-me na fonte consagrada, da cidade a uma l\u00e9gua. Desde a\u00ed, procederei com \u00c2ngelo friamente, desenvolvendo aos poucos o meu plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Eis a cabe\u00e7a; eu pr\u00f3prio vou lev\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Est\u00e1 bem. Voltai logo, pois preciso dizer-vos certas coisas que s\u00f3 em vossos ouvidos poder\u00e3o ser confiadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Irei depressa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA (<i>fora<\/i>) \u2014 A paz seja convosco!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A voz \u00e9 de Isabel; veio saber se j\u00e1 chegou o indulto do irm\u00e3o. Mas vou deix\u00e1-la na ignor\u00e2ncia de sua ventura, para que lhe venha do desespero o b\u00e1lsamo celeste, quando menos pensar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Se o permitis&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Bom-dia para v\u00f3s, piedosa e bela menina.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sauda\u00e7\u00e3o que aceito alegre, por vir de um var\u00e3o santo. J\u00e1 se sabe se o regente livrou meu pobre irm\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, Isabel, do mundo; ap\u00f3s cortarem-lhe a cabe\u00e7a, enviaram-na para \u00c2ngelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 N\u00e3o pode ser!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o \u00e9 de outra maneira. E ora, filha, dai provas de prud\u00eancia, suportando paciente o sofrimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Vou procur\u00e1-lo e os olhos arrancar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o sereis admitida \u00e0 sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Infeliz Cl\u00e1udio! M\u00edsera Isabel! Oh corrup\u00e7\u00e3o! Maldito sejas, \u00c2ngelo!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Isso n\u00e3o lhe faz mossa, nem vos serve para nada. Cessai, por conseguinte, e ao c\u00e9u confiai-vos. Escutai-me agora, que encontrareis at\u00e9 na menor s\u00edlaba pura verdade. O duque vai voltar amanh\u00e3&#8230; \u2014 Assim, n\u00e3o; limpai as l\u00e1grimas! \u2014 Seu confessor mo disse; \u00e9 de nossa ordem. Ele pr\u00f3prio a not\u00edcia j\u00e1 mandou a \u00c2ngelo e Escalo, que se aprestam para lhe ir ao encontro entrada da cidade e o poder transmitir-lhe. Se puderdes, ponde vossa prud\u00eancia no caminho em que desejo v\u00ea-la, e obtereis, certo, vosso anelo, vingardes-vos do biltre, sobre a gra\u00e7a do duque e a estima p\u00fablica alcan\u00e7ardes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Farei como disserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Levai, pois, a frei Pedro esta missiva, a mesma em que ele fala do retorno do duque, e lhe dizei ser isto gaje de que desejo t\u00ea-lo \u00e0 noite em casa de Mariana. P\u00f4-lo-ei a par de tudo que se passou convosco. Ele vos leva \u00e0 presen\u00e7a do duque; acusai \u00c2ngelo cara a cara, sem medo. Enquanto ao pobre da mim, um voto pio me constrange a conservar-me ausente. Dai-lhe a carta; dominai essas l\u00e1grimas doridas com cora\u00e7\u00e3o alegre. Crede em nossa piedosa ordem, jamais vos transviarei. Mas quem vem l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra L\u00facio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Boa-tarde, irm\u00e3o; onde est\u00e1 o preboste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A\u00ed dentro n\u00e3o est\u00e1, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00d3 gentil Isabela, empalide\u00e7o at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o por ver-te de olhos assim vermelhos. Tem paci\u00eancia. Sinto-me obrigado a almo\u00e7ar e jantar apenas p\u00e3o e \u00e1gua; por amor \u00e0 cabe\u00e7a, n\u00e3o me atrevo a encher a barriga; uma ceia copiosa poderia levar-me longe demais. Mas dizem que o duque estar\u00e1 aqui amanh\u00e3. Por minha f\u00e9, Isabel, eu amava a teu irm\u00e3o; se esse duque lun\u00e1tico, de esconderijos esconsos, n\u00e3o se tivesse assentado, teu irm\u00e3o ainda estaria com vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Senhor, o duque vos \u00e9 muito pouco obrigado por vossas refer\u00eancias; felizmente para ele, n\u00e3o depende delas.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Irm\u00e3o, tu n\u00e3o conheces o duque como eu; ele \u00e9 mais mulherengo do que pensas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Est\u00e1 bem; algum dia respondereis por isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o! Espera! Vamos juntos; desejo contar-te coisas muito interessantes, a respeito do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 J\u00e1 me contastes coisas demais, senhor, se \u00e9 que s\u00e3o verdadeiras; mas se o n\u00e3o forem, nenhuma j\u00e1 seria suficiente.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Certa vez eu fui \u00e0 sua presen\u00e7a, por haver engravidado uma donzela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fizestes semelhante coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por que n\u00e3o? Mas jurei de p\u00e9s juntos o contr\u00e1rio, para n\u00e3o ser obrigado a casar com aquela n\u00easpera podre.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Senhor, vossa companhia \u00e9 mais agrad\u00e1vel do que honrosa; passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por minha f\u00e9, vou contigo at\u00e9 o fim da travessa. Se esses assuntos meio livres te escandalizam, n\u00e3o tocarei mais neles. \u00c9 isso, frade, eu sou como espinho do mato: seguro mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med44\" name=\"med44\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um quarto em casa de \u00c2ngelo. Entram \u00c2ngelo e Escalo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Cada uma de suas cartas \u00e9 o desmentido da outra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Por maneira mais contradit\u00f3ria e inexplic\u00e1vel. Seus atos revelam loucura. Praza os c\u00e9us que n\u00e3o esteja com a raz\u00e3o abalada. E por que esse encontro na entrada da cidade, para a\u00ed eu lhe transmitir o poder?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 N\u00e3o posso atinar o que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 E por que motivo, tamb\u00e9m, \u00e9 preciso que eu mande proclamar uma hora antes de ele chegar, que se algu\u00e9m desejar alguma repa ra\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a, dever\u00e1 apresentar a peti\u00e7\u00e3o na rua?<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 A esse respeito ele apresenta raz\u00f5es: resolver logo esses assuntos de queixas e livrar-vos de recrimina\u00e7\u00f5es a respeito do que possa depois ser imputado a n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Pois que seja, vos pe\u00e7o, proclamado. Amanh\u00e3 passarei por vossa casa; mandai aviso a todas as pessoas de posi\u00e7\u00e3o que devem ir saud\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Farei de acordo; passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Boa-noite. (<i>Sai Escalo.<\/i>) Esse ato me transtorna e deixa in\u00fatil para tudo. Uma jovem desonrada, e justamente por pessoa de alta posi\u00e7\u00e3o, que aplicou a crime an\u00e1logo todo o rigor da lei! Por sorte minha o seu terno pudor n\u00e3o dir\u00e1 nada da desonra. Como ela me acusara? A raz\u00e3o vai tirar-lhe todo o ousio. A minha autoridade \u00e9 de tal monta, que esc\u00e2ndalo nenhum pode toc\u00e1-la; primeiro o acusador ficara mudo. Vivo Cl\u00e1udio estaria, se n\u00e3o fosse recear que sua idade turbulenta, tomada de paix\u00e3o, viesse acaso a vingar a exist\u00eancia desonrada que tal pre\u00e7o custou. Fosse ele vivo! Mas n\u00e3o; quem uma vez perdeu a Gra\u00e7a n\u00e3o torna a endireitar, por mais que fa\u00e7a. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med45\" name=\"med45\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Campo, perto da cidade. Entram o duque, em seu trajo habitual, e frei Pedro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 No momento oportuno, dai-me as cartas. (<i>Entrega-lhas.<\/i>) O preboste conhece o nosso plano; uma vez come\u00e7ado, observei todas as instru\u00e7\u00f5es, sem nunca vos desviardes de vosso fim, por mais que as circunst\u00e2ncias tendam a vos levar para outros lados. Ide a casa de Fl\u00e1vio e lhe dizei onde me encontro; dai a mesma nova a Valentim, Rold\u00e3o e Crasso, a todos ordenando que levem as trombetas \u00e0 entrada da cidade. Mas primeiro mandai-me Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Porei nisso pressa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra V\u00e1rrio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Agrade\u00e7o-te, V\u00e1rrio: \u00e9s diligente. Passeemos um pouquinho; outros amigos vir\u00e3o ter j\u00e1 conosco, meu bom V\u00e1rrio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med46\" name=\"med46\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Rua perto da porta da cidade. Entram Isabela e Mariana.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Repugna-me falar com esses rodeios; desejava a verdade. Mas \u00e9 a v\u00f3s que compete acus\u00e1-lo. \u00c9 necess\u00e1rio me disse ele, em raz\u00e3o do nosso plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Deixai-vos guiar por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Disse-me, ainda, que, se acaso ele viesse a censurar-me, tomando o outro partido, eu n\u00e3o devia revelar estranheza, que \u00e9 rem\u00e9dio de gosto amargo apenas no come\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Se frei Pedro&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Caluda! A\u00ed vem o monge.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra frei Pedro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Vinde comigo. Achei um lugar \u00f3timo em que o duque ao passar h\u00e1 de enxergar-vos. As trombetas j\u00e1 soaram duas vezes. Os homens generosos da cidade j\u00e1 se acham nos port\u00f5es por onde o duque deve passar j\u00e1, j\u00e1. Vamos depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"med51\" name=\"med51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma pra\u00e7a p\u00fablica, perto da porta da cidade. Mariana, de v\u00e9u; Isabela e frei Pedro, a dist\u00e2ncia. Entram o duque, V\u00e1rrio, lordes, \u00c2ngelo, Escalo, L\u00facio, preboste, oficiais e cidad\u00e3os.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Meu muito digno primo, eu vos sa\u00fado. Meu velho amigo, alegra-me rever-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO e ESCALO \u2014 Feliz regresso a Vossa Gra\u00e7a real!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Gra\u00e7as vos dou, cordiais e repetidas. De v\u00f3s nos informamos, e a tal ponto ouvimos elogiar vossa justi\u00e7a, que nossa alma n\u00e3o pode denegar-vos esta homenagem p\u00fablica, esperando dar-vos depois maiores recompensas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Isso mais obrigado, ainda, me deixa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fala alto o vosso m\u00e9rito! Seria prejudic\u00e1-lo, se na fortaleza do peito ora o prendesse, pois merece resid\u00eancia segura com letreiro de bronze, que o proteja contra os dentes do tempo e contra o efeito do descaso. Dai-me a m\u00e3o, porque os s\u00faditos compreendam, ante tal gesto, que esta cortesia exterior \u00e9 a express\u00e3o inadequada do reconhecimento que aqui dentro se abriga. Escalo, vemos! Colocai-vos deste lado; sois ambos bons suportes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Frei Pedro e Isabela avan\u00e7am.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Eis a hora! Ajoelhai-vos diante dele e expressai-vos bem alto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00d3 real duque, justi\u00e7a! Os olhos ponde nesta m\u00edsera ultrajada \u2014 quisera dizer: virgem&#8230; \u2014 N\u00e3o desonreis os olhos, digno pr\u00edncipe, volvendo-os a outras coisas, sem primeiro me ouvirdes e fazerdes-me justi\u00e7a, justi\u00e7a, e s\u00f3 justi\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sede breve; contai vossos agravos. Quais? O autor? Aqui se acha lorde \u00c2ngelo, que vossa queixa h\u00e1 de ouvir. Contai-lhe o que vos pesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00d3 nobre duque! Mandais que pe\u00e7a ao diabo a salva\u00e7\u00e3o. Atendei-me v\u00f3s mesmo; o que pretendo revelar vai trazer-me pena amarga, se n\u00e3o encontrar cr\u00e9dito, ou obrigar-vos a uma repara\u00e7\u00e3o. Ouvi-me, ouvi-me, suplico-vos, aqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Milorde, temo que esta mulher n\u00e3o se ache em todo o ju\u00edzo. Ela esteve ante mim como impetrante a favor de um irm\u00e3o, decapitado por for\u00e7a da justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Da justi\u00e7a!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ela fala de modo amargo e estranho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Estranho, sim; contudo, verdadeiro. \u00c9 estranho dizer que \u00c2ngelo \u00e9 perjuro? \u00c9 estranho dizer que \u00c2ngelo \u00e9 assassino? Que \u00e9 um ladr\u00e3o ad\u00faltero, um hip\u00f3crita, um violador de virgens? Muito estranho, pois n\u00e3o? Bastante estranho?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Sim, dez vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 N\u00e3o \u00e9 mais verdadeiro que ele \u00e9 \u00c2ngelo, do que o que eu digo \u00e9 estranho e verdadeiro; verdadeiro dez vezes, que a verdade sempre \u00e9 a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pobre rapariga! Levai-a; fala assim por estar louca.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00d3 pr\u00edncipe! Eu te pe\u00e7o, se acreditas que haja consola\u00e7\u00e3o num outro mundo, que n\u00e3o me repudies sob o pretexto de que eu me ache atacada de loucura. N\u00e3o creias imposs\u00edvel o que apenas improv\u00e1vel parece. \u00c9 bem poss\u00edvel, sim, que o ser humano mais infame pare\u00e7a s\u00e9rio, grave, justo e puro como \u00c2ngelo. Assim, tamb\u00e9m, pode \u00c2ngelo com todas as ins\u00edgnias, vestes, t\u00edtulos, ser um arquivil\u00e3o. Crede-me, pr\u00edncipe: se ele \u00e9 menos, \u00e9 nada; n\u00e3o, \u00e9 mais, mas o nome apropriado n\u00e3o me acode.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por minha honestidade, se for louca \u2014 do que estou convencido \u2014 essa loucura revela muito senso; h\u00e1 nexo l\u00f3gico nas coisas que enuncia, como nunca na loucura se h\u00e1 visto.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00d3 gentil duque! n\u00e3o vos apegueis nisso, repelindo a raz\u00e3o sob pretexto de incoer\u00eancia. Valei-vos da raz\u00e3o para a verdade tirar do esconderijo e a v\u00e3 mentira fazer sumir de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Muita gente que parece sensata n\u00e3o revela t\u00e3o grande descortino. Que quereis?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Eu sou a irm\u00e3 de um Cl\u00e1udio, condenado por crime de lux\u00faria a ter dos ombros separada a cabe\u00e7a; condenado por \u00c2ngelo. Novi\u00e7a em um convento, fui chamada por Cl\u00e1udio; o mensageiro foi um tal L\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Eu, se Vossa Gra\u00e7a mo permite. Busquei-a por mandado do irm\u00e3o e instei com ela porque a sorte graciosa junto de \u00c2ngelo tentasse, para a Cl\u00e1udio salvar.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 \u00c9 ele, de fato.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o vos mandei falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 certo, pr\u00edncipe; mas tamb\u00e9m n\u00e3o dissestes que ficasse calado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fa\u00e7o-o agora. Tomai nota, por obs\u00e9quio, e pedi ao c\u00e9u que quando tiverdes de falar em causa pr\u00f3pria, perfeito vos mostreis.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Posso afian\u00e7ar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ficai com vossa fian\u00e7a, \u00e9 o que vos digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Este senhor j\u00e1 disse algo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pode ser certo, mas estais errado por falardes sem ser o vosso turno. Prossegui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Procurei esse ministro abjeto e pernicioso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Essa linguagem \u00e9 algo disparatada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Desculpai-me; a frase n\u00e3o destoa da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Boa de novo! Vamos ao que importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Em resumo, deixando \u00e0 parte todas as min\u00facias in\u00fateis, a maneira por que falei, tentando comov\u00ea-lo como me pus de joelhos e como ele me repeliu, o que lhe disse em r\u00e9plica \u2014 pois isso iria longe \u2014 vou cingir-me, com vergonha e tristeza, ao vil remate: ao meu irm\u00e3o perdoava, se eu cedesse meu casto corpo \u00e0 sua imoderada concupisc\u00eancia. Ap\u00f3s longo debate entre a piedade e o sentimento da honra, a ele me entreguei. Mas no outro dia, muito cedo, saciados seus desejos, ordem expressa enviou para a cabe\u00e7a de meu irm\u00e3o cortarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 plaus\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Fosse plaus\u00edvel s\u00f3, como \u00e9 verdade!<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Pelo c\u00e9u, tu n\u00e3o sabes o que dizes, infeliz louca, se \u00e9 que subornada n\u00e3o estejas para a honra atassalhar-lhe numa odiosa conjura. Inicialmente, ele \u00e9 de integridade imaculada; depois, fora insensato de sua parte castigar com tal \u00edmpeto delitos semelhantes aos seus. Com essas faltas, teu irm\u00e3o julgam ele por si pr\u00f3prio, n\u00e3o mandando, por isso, justi\u00e7\u00e1-lo. Sim, estais industriada; falai franco; dizei-nos a conselho de quem viestes acus\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 E isto \u00e9 tudo? Nesse caso, \u00f3 bem-aventurados governantes l\u00e1 do alto, concedei-me paci\u00eancia e tomai manifesto na hora pr\u00f3pria o mal que t\u00e3o seguro se acoberta. Do mal vos guarde o c\u00e9u; sem obter nada, nem cr\u00e9dito, retiro-me ultrajada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Bem sei que quereis ir. Ol\u00e1! Um guarda! Para o c\u00e1rcere! \u00c9 cr\u00edvel que possamos deixar que venha a ser envolta assim por um h\u00e1lito impuro e escandaloso pessoa que nos toca t\u00e3o de perto? Decerto \u00e9 alguma trama. Quem sabia de vossas inten\u00e7\u00f5es antes de virdes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Algu\u00e9m que eu desejara aqui estivesse: frei Ludovico.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Um var\u00e3o santo, \u00e9 certo, Quem, aqui, conhece esse Ludovico?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Eu conhe\u00e7o milorde; \u00e9 um intrigante. N\u00e3o o tolero; e se ele fosse leigo, milorde, por algumas refer\u00eancias que lhe ouvi sobre v\u00f3s, eu o teria sovado lindamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Falou de mim? Um monge \u00e0s maravilhas! E, por cima, a incitar esta coitada contra o nosso ministro! Ide busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ainda a noite passada os vi, milorde, na pris\u00e3o; ela e o monge: um descarado, sujeito petulante.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 As b\u00ean\u00e7\u00e3os caiam sobre Vossa Real Gra\u00e7a. Estava parte, milorde, e pude ouvir como abusavam de vossos reais ouvidos. No come\u00e7o, esta mulher, mentindo, acusou vosso substituto que t\u00e3o isento se acha de qualquer mancha ou de contato com ela, como ela de qualquer outra pessoa que por nascer esteja.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 o que pensamos. Conheceis esse frade Ludovico a que ela se refere?<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Tenho-o na conta de um var\u00e3o piedoso e n\u00e3o na de intrigante ou descarado como este gentil-homem disse dele, podendo ainda afian\u00e7ar-vos ser ele homem que jamais caluniou Vossa Grandeza como este aqui pretende.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Podeis crer-me, milorde; \u00e9 um miser\u00e1vel: caluniou-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Bem; \u00e9 poss\u00edvel que ele pr\u00f3prio venha a se justificar um dia; agora, milorde, ele est\u00e1 doente, de uma febre muito estranha. Por\u00e9m tendo sabido que se intentavam queixas contra vosso substituto, pediu-me que aqui viesse para dizer por ele o que ele sabe que \u00e9 falso e o que \u00e9 veraz, e que est\u00e1 pronto, sob juramento, a sustentar o dito como e quando o exigirem. Come\u00e7ando, pois, por esta mulher, para o mui digno lorde justificar, diretamente e em p\u00fablico acusado, haveis de v\u00ea-la desmentida de frente, at\u00e9 que a fraude venha ela a confessar.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ou\u00e7amos isso, bom monge. (<i>Isabela sai escoltada; Mariana avan\u00e7a.<\/i>) N\u00e3o vos faz sorrir tal coisa, lorde \u00c2ngelo? Oh vaidade destes m\u00edseros! Vamos sentar-nos. Neste assunto, primo, vou mostrar-me imparcial; de vossa causa sereis o pr\u00f3prio juiz. \u00c9 a testemunha, monge? Primeiramente, \u00e9 necess\u00e1rio que ela descubra o rosto; depois, file.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Perd\u00e3o, milorde, mas n\u00e3o me descubro sem ordem do marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Oh! Sois casada?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 N\u00e3o milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Solteira?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 N\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Nesse caso, sois vi\u00fava?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 N\u00e3o, tampouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Como! Sois nada, ent\u00e3o, se n\u00e3o sois vi\u00fava, nem virgem, nem casada.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 poss\u00edvel que seja prostituta, senhor, porque muitas delas n\u00e3o s\u00e3o nem virgens, nem vi\u00favas, nem casadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Fazei calar esse homem! Tivesse ele motivo de palrar por conta pr\u00f3pria!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Est\u00e1 bem, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Senhor, confesso nunca ter casado e confesso, tamb\u00e9m, que n\u00e3o sou virgem. Conhe\u00e7o meu marido, e ele n\u00e3o sabe, meu marido, que j\u00e1 me conheceu.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Nesse caso ele estava b\u00eabedo, milorde; n\u00e3o pode ser de outro jeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Para ficardes quieto, quem nos dera que tamb\u00e9m o estiv\u00e9sseis!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Bem, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Mas isso n\u00e3o tem nada com lorde \u00c2ngelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 J\u00e1 chego l\u00e1, milorde. Quem acusa lorde \u00c2ngelo de crime de lux\u00faria, acusa meu marido \u2014 e isso, milorde, posso jur\u00e1-lo \u2014 quando, ternamente nos bra\u00e7os o apertava.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Ela acusa outro?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 N\u00e3o, que o saiba.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ningu\u00e9m? N\u00e3o nos dissestes que era vosso marido?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Justamente, milorde, e esse \u00e9 lorde \u00c2ngelo, que pensa nunca jamais haver-me conhecido, presumindo estar certo de que teve nos bra\u00e7os Isabel.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00c9 uma impostura muito estranha. Descobre-nos o rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Meu marido \u00e9 quem manda; vou faz\u00ea-lo. (<i>Tira o v\u00e9u.<\/i>) Este \u00e9 o rosto, cruel \u00c2ngelo, em que outrora tu achavas digno de pousar os olhos, eis a m\u00e3o que nas tuas apertavas com termos juramentos; este \u00e9 o corpo que chamou para si o compromisso de Isabel e ficou no pavilh\u00e3o do teu jardim, contigo, em lugar dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Conheceis, por acaso, esta mulher?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Carnalmente, disse ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Cala, est\u00fapido!<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Basta, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Confessar \u00e9 for\u00e7oso que a conhe\u00e7o e que entre n\u00f3s, j\u00e1 vai para cinco anos, se falou em cons\u00f3rcio, o que por v\u00e1rios motivos fracassou, em parte m\u00ednima por n\u00e3o ter ela o dote prometido, mas sobretudo por gozar da fama de leviana. Durante esses cinco anos nunca mais lhe falei, nem a vi nunca, nem dela me ocupei, palavra de honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Nobre pr\u00edncipe, t\u00e3o certo como vir do c\u00e9u a luz e as palavras do alento, como h\u00e1 senso na verdade e verdade na virtude, sou a mulher deste homem, a ele presa por la\u00e7os resistentes como os votos formados de palavras. Mais, milorde: no seu caramanch\u00e3o, ter\u00e7a-feira, ele me reconheceu, enfim, como sua esposa. Tanto isso \u00e9 verdadeiro, que vos pe\u00e7o permiss\u00e3o para agora levantar-me; se for mentira, quero ser mudada numa est\u00e1tua de m\u00e1rmore aqui mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 At\u00e9 agora eu sorri; daqui por diante, meu bom senhor, fazei-me s\u00f3 justi\u00e7a. Acabou-se a paci\u00eancia; vejo agora que essas duas taradas s\u00e3o apenas instrumento de algu\u00e9m mais poderoso que por elas atua. Permiti-me, milorde, descobrir toda a conjura.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 De todo cora\u00e7\u00e3o; desejo, mesmo, que o castigo vos deixe satisfeito. Monge insensato, e tu, mulher nociva, c\u00famplice daquela outra, imaginavas que esses teus juramentos \u2014 muito embora pudesses invocar todos os santos \u2014 seriam testemunho contra o cr\u00e9dito de quem j\u00e1 recebeu nossa confian\u00e7a? Ficai v\u00f3s, lorde Escalo, com meu primo, e lhe emprestai vosso bondoso esfor\u00e7o, para ver de onde vem toda esta intriga. Por tr\u00e1s destes aqui se acha outro monge; mandai cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREI PEDRO \u2014 Desejava t\u00ea-lo, milorde, aqui presente, pois foi ele quem incitou, realmente, estas mulheres a apresentarem queixa. O carcereiro sabe onde ele reside; ser-lhe-\u00e1 f\u00e1cil ir procur\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Tratai disso logo. (<i>Sai o preboste.<\/i>) Quanto a v\u00f3s, nobre e sempre honrado primo, a quem compete investigar o assunto, contra as inj\u00farias de que fostes alvo aplicai o castigo que entenderdes. Vou deixar-vos agora alguns momentos; mas n\u00e3o saiais sem terdes liquidado estes caluniadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00c9 o que vamos fazer, milorde, sem perder mais tempo. (<i>Sai o duque.<\/i>) N\u00e3o dissestes, h\u00e1 pouco, signior L\u00facio, que o frade Ludovico \u00e9 desonesto?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Cuculius nonfacit monachum; s\u00f3 \u00e9 honesto no trajo; disse coisas horr\u00edveis contra o duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Rogamo-vos que fiqueis aqui at\u00e9 que ele venha, para depordes contra ele. Vamos descobrir nesse monge um velhaco de marca.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Como n\u00e3o h\u00e1 segundo em Viena, posso assegurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Chamai novamente a essa Isabel; desejo falar-lhe. (<i>Sai uma pessoa do s\u00e9quito.<\/i>) Consenti, senhor, que a interrogue; haveis de ver como sei manej\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 N\u00e3o o sabereis melhor do que ele, segundo ela pr\u00f3pria o disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Que dissestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 O que eu penso, senhor, \u00e9 que se a manejardes em particular, ela confessar\u00e1 mais depressa; \u00e9 poss\u00edvel que assim em p\u00fablico fique acanhada.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Comigo ela h\u00e1 de ver as coisas pretas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 esse o caminho certo, porque no escuro as mulheres s\u00e3o mais facilmente manej\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam oficiais com Isabela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO (<i>a Isabela<\/i>) \u2014 Avan\u00e7ai, senhorita! Aqui est\u00e1 uma senhora que nega tudo o que dissestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Milorde, a\u00ed vem vindo o velhaco de que vos falei. Vem com o preboste.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Chega em tempo; n\u00e3o lhe faleis, enquanto eu n\u00e3o mandar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o duque disfar\u00e7ado de monge e o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Hum!<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Aproximai-vos, senhor. Instigastes estas mulheres a caluniar lorde \u00c2ngelo? Elas confessam que o fizestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9 mentira.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como! Sabeis onde vos encontrais?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Todo o respeito a esse lugar&#8230; O diabo no seu trono do fogo \u00e9 homenageado tamb\u00e9m de quando em vez. Onde est\u00e1 o duque? Ele \u00e9 que deveria interrogar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Ele est\u00e1 em n\u00f3s, e n\u00f3s vamos ouvir-vos; falai sinceramente.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Com coragem, pelo menos. Mas, pobres almas! viestes reclamar da raposa as ovelhinhas? Adeus vossa justi\u00e7a! Onde est\u00e1 o duque? Est\u00e1 ausente, com ele, vossa causa. O duque foi injusto ao esquivar-se ao vosso apelo p\u00fablico, entregando vosso processo ao biltre, justamente, que viestes acusar.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Esse \u00e9 o velhaco de que falei h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Como! frade blasfemo e irreverente! Pois n\u00e3o basta haverdes subornado estas mulheres para acusar este senhor virtuoso? Vindes ainda, com essa boca imunda, chamar-lhe biltre diante de seus pr\u00f3prios ouvidos e, por cima de tudo isso, atirar contra o duque o infame apodo de injusto? Retirai-o daqui logo. Ponde-o no potro! Vemos! Quebrar-lhe-emos, junta por junta, o corpo, at\u00e9 chegarmos a conhecer-lhe o intento. Como! Injusto?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o vos inflameis tanto; igual direito tem o duque em puxar-me um s\u00f3 dos dedos como em puxar os dele. Meus neg\u00f3cios, por aqui, me fizeram testemunha da corrup\u00e7\u00e3o que em Viena bolha e ferve chegando a transbordar. Leis para todas as faltas, mas as faltas de tal modo seguras, que os mais fortes estatutos se assemelham a avisos pendurados nas tendas de barbeiros: s\u00e3o motivo de zombaria mais, que de advert\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Difamador do Estado! Para o c\u00e1rcere!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Que sabeis, signior L\u00facio, a seu respeito? O homem de que falastes \u00e9 mesmo este?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ele mesmo, milorde. Vem c\u00e1, careca; n\u00e3o estais me conhecendo?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Reconhe\u00e7o-vos pelo som da voz; encontramo-nos na pris\u00e3o, durante a aus\u00eancia do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Ah, encontrastes-me? E n\u00e3o vos recordais do que dissestes do duque?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Recordo-me de tudo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 \u00c9 assim? Ent\u00e3o o duque era mulherengo, poltr\u00e3o e imbecil, como pretend\u00edeis que ele fosse?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Antes de me atribuirdes esses conceitos, senhor, dev\u00edeis trocar comigo de pessoa: fostes v\u00f3s que falastes do duque dessa maneira e at\u00e9 mesmo em termos piores.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Oh sujeito descarado! N\u00e3o \u00e9 certo que eu te dei uns pux\u00f5es de nariz por causa do que disseste?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Protesto que amo o duque como a mim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Vede como o velhaco trata de arranjar as coisas, depois de suas assacadilhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Com um sujeito desses n\u00e3o se deve nem discutir. Pris\u00e3o com ele! Onde est\u00e1 o preboste? Levai-o para a pris\u00e3o! Trancafiai-o a sete chaves e n\u00e3o o deixeis falar mais nada. Levai tamb\u00e9m estas rameiras, juntamente com o seu c\u00famplice.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O preboste p\u00f5e a m\u00e3o no duque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Esperai, senhor; esperai um pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Como! Est\u00e1 resistindo? Ajudai o preboste, L\u00facio.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Vamos, senhor; vamos, senhor; vamos, senhor! Ora, senhor! Ent\u00e3o, careca mentiroso, gostas de andar embu\u00e7ado, n\u00e3o? Mostra-nos essa cara de velhaco e vai logo para os diabos que te carreguem. Vamos, descobre logo isso, espertalh\u00e3o, e vai enforcar-te. Como \u00e9, isso n\u00e3o sai? (<i>Faz cair o capuz do frade e descobre o duque.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 \u00c9s o primeiro biltre a criar um duque. Primeiro, carcereiro, servir quero de fiador a estas tr\u00eas gentis pessoas. (<i>A L\u00facio<\/i>) Sim, n\u00e3o vos esquiveis, senhor, que um frade vai dizer-vos ainda uma palavra. Prendei-o bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Isto pode dar em coisa pior do que forca.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE (<i>a Escalo<\/i>) \u2014 Perd\u00f4o o que dissestes; assentai-vos; vou tomar-lhe o lugar. (<i>A \u00c2ngelo<\/i>) Se o permitis&#8230; Tens alguma palavra, estratagema ou impud\u00eancia, enfim, a que recorras? Se assim for, trata logo da defesa, antes que minha hist\u00f3ria seja ouvida, e acaba logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 \u00d3 meu senhor temido! Mais culpado eu seria do que minha culpa, se me julgasse indevass\u00e1vel, porque vejo que Vossa Dignidade, como um ser superior, vigiou meus atos. N\u00e3o prolongueis, portanto, meu bom pr\u00edncipe, minha vergonha; todo o julgamento deve circunscrever-se t\u00e3o-somente minha confiss\u00e3o. S\u00f3 o que vos pe\u00e7o \u00e9 a senten\u00e7a imediata e a morte r\u00e1pida.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vem c\u00e1, Mariana. Ora dizei-me: \u00e9 certo que j\u00e1 fostes um dia noivo dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 Fui, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Ent\u00e3o levai-a e a desposai depressa. Fazei o of\u00edcio, monge; consumado o ato, voltai. Preboste, acompanhai-os.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem \u00c2ngelo, Mariana, frei Pedro e o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 Mais me estranha, milorde, sua desonra do que a estranheza dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Aproximai-vos, Isabel; vosso monge \u00e9 vosso pr\u00edncipe. N\u00e3o mudou com o traje o sentimento; como fui conselheiro em vosso transe, sempre fiel, desejo ser o vosso procurador, tamb\u00e9m, daqui por diante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Perdoai-me por ter eu, vossa vassala, vos ocupado e dado tanto incomodo a Vossa Alteza, que eu n\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Perd\u00f4o-vos, Isabel. E agora, cara menina, quero ser tamb\u00e9m perdoado. Pesa-vos sobre o peito, eu o sei, a morte de vosso irm\u00e3o. Talvez vos admireis de eu ter ficado \u00e0 sombra, trabalhando para salvar-lhe a vida, e, em vez de mostra p\u00fablica apresentar de minha for\u00e7a, n\u00e3o o ter socorrido. generosa menina! Foi o passo apressurado da morte, que eu pensava ser mais lerda, que os planos me frustrou. Repouse em paz! E melhor vida n\u00e3o temer a morte, do que viver temendo-a todo o instante. Sirva-nos de consolo saber que ele n\u00e3o mais receia a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam \u00c2ngelo, Mariana, frei Pedro e o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 A esse rec\u00e9m-casado que a\u00ed vem vindo, de pensamentos maus, que tanta ofensa infligiu em vossa honra bem guardada, por amor, t\u00e3o-somente, de Mariana podeis perdoar. No que respeita a vosso irm\u00e3o fez ele duplo crime de viola\u00e7\u00e3o: da santa castidade e da palavra dada, quanto \u00e0 vida do falecido. Por sua pr\u00f3pria boca nos grita por maneira estrepitosa a dem\u00eancia da lei: Morte por morte, um \u00c2ngelo por Cl\u00e1udio! A pressa exige pressa; e vagar, vagar; o semelhante medida por medida sempre em tudo. \u00c2ngelo, tua falta \u00e9 manifesta; de nada vale neg\u00e1-la; fora in\u00fatil. Condenamos-te, pois, ao mesmo cepo em que Cl\u00e1udio foi morto, e isso depressa. Levai-o!<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 \u00d3 meu senhor muito gracioso! Creio n\u00e3o haja sido brincadeira de vossa parte o ter-me dado esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vosso esposo \u00e9 quem brinca de marido convosco. Achei prudente o casamento para a honra vos guardar. De outra maneira, isso de ele vos ter j\u00e1 conhecido vos mancharia, al\u00e9m de, no futuro, prejudicar-vos. Quanto aos seus haveres, que, por confisco, passam a ser nossos, vos entregamos como dote para comprardes outro esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 N\u00e3o desejo outro esposo, senhor, nem melhor que este.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Esse n\u00e3o me pe\u00e7ais; sou inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Meu nobre soberano&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 N\u00e3o percais tempo. Levai-o logo para a morte! (<i>A L\u00facio<\/i>) \u2014 Agora n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Os joelhos emprestai-me, Isabel; vinde p\u00f4r-vos ao meu lado, que eu porei minha vida de hoje em diante somente em vos servir.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vosso pedido, sobre importuno, \u00e9 in\u00fatil. Se ela viesse impetrar compaix\u00e3o por esse fato, o esp\u00edrito do irm\u00e3o seu leito p\u00e9treo romperia e a levara horrorizada.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Vinde ajoelhar-vos, Isabel, comigo; basta as m\u00e3os levantardes, que eu me incumbo de falar tudo. Dizem que os melhores homens h\u00e3o de conter sempre defeitos e que chegam a ser melhores, quando alguma coisa de ruim cont\u00eam. Meu marido talvez seja assim feito. \u00d3 Isabel! N\u00e3o quereis ceder-me os joelhos?<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vai morrer por haver matado Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ISABELA (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Meu muito generoso soberano, olhai a este homem condenado, como se meu irm\u00e3o vivesse. Creio, em parte, que ele fosse sincero em seus motivos, at\u00e9 quando me viu. Se essa \u00e9 a verdade, n\u00e3o deixeis que ele morra. Houve justi\u00e7a com meu irm\u00e3o, pois ele era culpado do crime por que a vida a perder veio. Quanto a \u00c2ngelo, n\u00e3o chegou a dar corpo a seus intentos; sepultemo-los, pois, tal como a intentos que em caminho morreram. Pensamentos n\u00e3o s\u00e3o vassalos, e os intentos nunca passam de pensamentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARIANA \u2014 Isso mesmo, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Vossa s\u00faplica \u00e9 improf\u00edcua; levantai-vos, portanto. Ora me lembro de outra falta. Preboste, por que causa foi Cl\u00e1udio executado fora de hora?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Porque assim me mandaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Recebestes alguma ordem expressa para tanto?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 N\u00e3o, milorde; somente uma mensagem particular.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Por isso vos deponho de vosso cargo. As chaves. Entregai-mas!<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Perd\u00e3o, nobre senhor! Eu bem receava que n\u00e3o fosse direito, mas n\u00e3o tinha certeza, tendo vindo a arrepender-me depois de refletir. A prova disso vereis no fato de eu deixar com vida a um Outro prisioneiro, que devera ter morrido com Cl\u00e1udio, por ter vindo de igual ordem privada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Qual seu nome?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Chama-se Bernardino.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Quisera que com Cl\u00e1udio tu tivesses feito o mesmo. Traze o outro; quero v\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o preboste.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCALO \u2014 D\u00e1-me pena, lorde \u00c2ngelo, que um homem t\u00e3o instru\u00eddo e discreto, como sempre vos mostrastes, houvesse escorregado por modo t\u00e3o grosseiro; no come\u00e7o pelo calor do sangue, depois disso por falta de eq\u00fcidade na justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c2NGELO \u2014 D\u00f3i-me ver que sou causa dessas dores, e de tal modo se me aperta o peito que prefiro morrer a ser perdoado. E o que eu mere\u00e7o, sei-o; e \u00e9 o que procuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o preboste com Bernardino, Cl\u00e1udio \u2014 encoberto e Julieta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Qual \u00e9 o tal Bernardino?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Este, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Um monge me falou desse sujeito. Disseram-me que \u00e9s de alma endurecida, que n\u00e3o concebe nada al\u00e9m do mundo e que isso te \u00e9 bastante. \u00c9s condenado; mas das faltas terrenas te perd\u00f4o. Aproveita, portanto, esta dem\u00eancia para um melhor futuro. Irm\u00e3o, instru\u00ed-o; em m\u00e3o vo-lo confio. E esse sujeito encapu\u00e7ado ai? De quem se truta?<\/p>\n<p align=\"justify\">PREBOSTE \u2014 Este \u00e9 outro prisioneiro por mim salvo, que devera morrer junto com Cl\u00e1udio e que tanto com Cl\u00e1udio se parece, como ele pr\u00f3prio. (<i>Descobre Cl\u00e1udio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE (<i>a Isabela<\/i>) \u2014 Se ele \u00e9 parecido com vosso irm\u00e3o, de fato, eu lhe perd\u00f4o por amor dele; e por amor de vossa gra\u00e7a, cara Isabel, dizei-me agora, dando-me a m\u00e3o, que esposa heis de ser minha, pois que ele \u00e9 meu irm\u00e3o. Mas falaremos disso depois. J\u00e1 percebeu lorde \u00c2ngelo com isto que est\u00e1 salvo; um brilho vejo-lhe nos olhos. Muito bem, \u00c2ngelo, vossos males vos deixam bem. Tratai agora de amar vossa consorte, que ela \u00e9 digna. Sinto-me hoje inclinado a perdoar tudo. No entanto, h\u00e1 uma pessoa aqui presente a quem n\u00e3o perdoarei. (<i>A L\u00facio<\/i>) \u2014 V\u00f3s, a\u00ed, senhor, que na conta me t\u00ednheis de covarde, mulherengo, imbecil, asno, pateta&#8230; Em que vos mereci para me honrardes com t\u00edtulos t\u00e3o grandes?<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Por minha f\u00e9, senhor, falei por brinquedo, como \u00e9 costume. Se quiserdes enforcar-me por isso, podeis faz\u00ea-lo; mas eu preferira que vos fosse do agrado mandar a\u00e7oitar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Primeiro a\u00e7oite, sim; depois, a forca. Preboste, apregoai pela cidade que se alguma mulher foi ludibriada por este libertino eu mesmo o ouvi dizer que uma ele havia engravidado \u2014 que apare\u00e7a, porque vai despos\u00e1-lo. Conclu\u00edda a cerim\u00f4nia, cuidai logo de mandar chibate\u00e1-lo e de enforc\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Suplico a Vossa Alteza n\u00e3o me case com uma rameira. H\u00e1 pouco Vossa Alteza disse que eu vos havia armado duque. N\u00e3o me recompenseis, meu bom lorde, transformando-me em cabr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Palavra de honra, tens de despos\u00e1-la. Perd\u00f4o-te as cal\u00fanias e ora mesmo te fa\u00e7o gra\u00e7a dos demais castigos. Levai-o para o c\u00e1rcere e cuidai de executar a ponto nossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00daCIO \u2014 Casar com uma rameira, senhor, eq\u00fcivale a morrer a pauladas, a golpes de a\u00e7oite e enforcado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DUQUE \u2014 Quem difama o monarca \u00e9 o que merece. Cuidai de reparar agora, Cl\u00e1udio, a ofensa que fizestes. Alegrai-vos, Mariana! \u00c2ngelo, amai-a; confessei-a, e posso asseverar-vos que \u00e9 virtuosa. Amigo Escalo, sou-te agradecido por toda tua bondade; algo te aguarda bem melhor do que simples cortesia. Obrigado, preboste, por teu zelo e tua discri\u00e7\u00e3o; vamos nomear-vos para cargo mais digno. \u00c2ngelo, pe\u00e7o-vos que lhe perdoeis ter ele substitu\u00eddo a cabe\u00e7a de Cl\u00e1udio, apresentando-vos a de um tal Ragozine. Por si pr\u00f3pria essa falta se escusa. Minha cara Isabel, tenho agora de fazer-vos uma proposta que vos diz respeito. Se tudo o que passou vos comprazeu, o que \u00e9 meu ser\u00e1 vosso e o vosso meu. Vamos para o pal\u00e1cio, onde teremos vagar para contar o que sabemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens VIC\u00caNCIO, Duque. \u00c2NGELO, governador durante a aus\u00eancia do duque. ESCALO, antigo conselheiro, colega de \u00c2ngelo no governo. CL\u00c1UDIO, jovem gentil-homem. L\u00daCIO, tipo folgaz\u00e3o Dois outros gentis-homens. V\u00c1RRIO, gentil-homem, servidor do duque. PREBOSTE. TOM\u00c1S, monge. PEDRO, monge. Um juiz. ELBOW, oficial de justi\u00e7a simpl\u00f3rio. FROTH, gentil-homem tolo. POMPEU, criado de mistress Overdone. ABHORSON, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120277","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Medida Por Medida, William Shakespeare Medida Por Medida<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Medida Por Medida, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Medida Por Medida\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Medida Por Medida, 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