{"id":120257,"date":"2017-04-24T10:31:27","date_gmt":"2017-04-24T12:31:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120257"},"modified":"2017-04-24T10:31:27","modified_gmt":"2017-04-24T12:31:27","slug":"a-megera-domada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-megera-domada","title":{"rendered":"A Megera Domada"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>UM NOBRE<\/b>,<br \/>\n<b>CRIST\u00d3V\u00c3O SLY<\/b>, caldeireiro,<br \/>\nHoteleira, pajem, atores, ca\u00e7adores e criados,<br \/>\n<b>BATISTA<\/b>, rico gentil-homem de P\u00e1dua.<br \/>\n<b>VIC\u00caNCIO<\/b>, velho gentil-homem de Pisa.<br \/>\n<b>LUC\u00caNCIO<\/b>, filho de Vic\u00eancio, apaixonado de Bianca.<br \/>\n<b>PETRUCCHIO<\/b>, gentil-homem de Verona, pretendente de Catarina.<br \/>\n<b>GR\u00caMIO<\/b>,<br \/>\n<b>HORT\u00caNSIO<\/b>,<br \/>\n<b>TR\u00c2NIO<\/b>,<br \/>\n<b>BIONDELLO<\/b>,<br \/>\n<b>GR\u00daMIO<\/b>,<br \/>\n<b>CURTIS<\/b>,<br \/>\nUm professor, preparado para fazer o papel de Vic\u00eancio.<br \/>\n<b>CATARINA<\/b>, a megera,<br \/>\n<b>BIANCA<\/b>,<br \/>\n<b>VI\u00daVA<\/b>,<br \/>\nAlfaiate, lojista e criados a servi\u00e7o de Batista e de Petrucchio.<\/p>\n<p><a name=\"intc1\"><\/a><\/p>\n<h2>INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Num prado. Defronte de uma cervejaria. Entram a Estalajadeira e Sly<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Hei de vos dar uma tunda, palavra de honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTALAJADEIRA \u2014 Um par de algemas, velhaco!<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Marafona! Os Slys n\u00e3o s\u00e3o velhacos. Lede as cr\u00f4nicas. Chegamos aqui com Ricardo, o conquistador. Por isso, pauca palabris. Deixai o mundo rodar. Cessa!<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTALAJADEIRA \u2014 N\u00e3o quereis pagar os copos que quebrastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 N\u00e3o, nem um real. Vai, por S\u00e3o Jer\u00f4nimo! Vai te aquecer em tua cama fria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESTALAJADEIRA \u2014 J\u00e1 sei o que tenho a fazer; vou chamar o inspetor do quarteir\u00e3o. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Quarteir\u00e3o ou quinteir\u00e3o, pouco me importa. Hei de responder-lhe de acordo com a lei. N\u00e3o cederei uma polegada, rapaz. E ele que venha com jeito. (<i>Deita-se no ch\u00e3o e dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trompa. Entra um nobre que volta da ca\u00e7ada, com ca\u00e7adores e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Ca\u00e7ador, recomendo-te cuidado com meus cachorros. A cadela Merriman de cansada at\u00e9 espuma. Atrela Clowder com a de latido forte. N\u00e3o notaste, rapaz, como o Prateado fez bonito l\u00e1 na dobra da sebe, quando o rasto j\u00e1 fora interrompido? N\u00e3o quisera perd\u00ea-lo agora nem por vinte libras.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CA\u00c7ADOR \u2014 Bellman vale, senhor, tanto quanto ele; n\u00e3o deixou de latir, e por duas vezes voltou a achar a pista, embora o rasto se achasse quase extinto. Acreditai-me: esse \u00e9 o melhor de todos os cachorros.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 \u00c9s um bobo; se fosse Eco mais \u00e1gil, valeria por doze iguais a Bellman. Mas alimenta-os bem e n\u00e3o descures de nenhum, que amanh\u00e3 teremos ca\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CA\u00c7ADOR \u2014 Pois n\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE (<i>enxergando Sly<\/i>) \u2014 Que \u00e9 isso? Morto ou b\u00eabedo? Respira?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CA\u00c7ADOR \u2014 Respira, sim, milorde. Se a cerveja n\u00e3o o aquecesse, o leito em que se encontra por demais frio fora para o sono.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 \u00d3 animal monstruoso! Est\u00e1 deitado como um porco. Medonha morte, como tua pintura \u00e9 feia e repulsiva! Vamos fazer uma experi\u00eancia, amigos, com este b\u00eabedo. Que tal a id\u00e9ia de o pormos numa cama e de o cobrirmos com len\u00e7\u00f3is bem macios, colocarmos-lhe an\u00e9is nos dedos, um banquete op\u00edparo junto ao leito lhe pormos e sol\u00edcitos serventes ao redor, quando ele a ponto estiver de acordar? N\u00e3o esquecera sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o este mendigo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CA\u00c7ADOR \u2014 N\u00e3o teria outra escolha, podeis crer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CA\u00c7ADOR \u2014 Ao despertar, perplexo ficaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Como de um sonho adulador, ou mesmo de in\u00f3cua fantasia. Carregai-o, portanto, e preparai a brincadeira. Ponde-o com jeito em meu mais belo quarto, que adornareis com quadros mui lascivos; \u00e1gua cheirosa e quente na vazia cabe\u00e7a lhe passai, e no aposento queimai lenha arom\u00e1tica, deixando cheiroso todo o ambiente. Arranjai m\u00fasica logo que ele acordar, para que toadas possa ouvir agrad\u00e1veis e divinas. E, se acaso falar, sede sol\u00edcitos E com profunda e humilde rever\u00eancia lhe perguntai: Vossa Honra que deseja?\u201d Um se apresente com bacia arg\u00eantea cheia de \u00e1gua de rosas em que p\u00e9talas donosas sobrenadem; o jarro outro sustente; o guardanapo, enfim, terceiro, que lhe perguntar\u00e1: \u201cVossa Grandeza n\u00e3o quer lavar as m\u00e3os?\u201d Vestes custosas tenha algu\u00e9m prestes, para perguntar-lhe que muda ele prefere; outro lhe fale de seus cavalos e dos c\u00e3es de ca\u00e7a, e lhe diga que a esposa ainda lastima sua infelicidade, convencendo-o de que esteve lun\u00e1tico. E se acaso declarar seu estado verdadeiro, dizei que est\u00e1 sonhando, pois, de fato, ele \u00e9 um nobre importante. Fazei isso, gentis senhores, sim, por\u00e9m, com jeito. Passatempo ser\u00e1 muito agrad\u00e1vel, se discri\u00e7\u00e3o souberdes ter em tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CA\u00c7ADOR \u2014 Garanto-vos, milorde, que sairemos bem do nosso papel, sendo certeza vir ele a convencer-se, t\u00e3o-somente por nossa dilig\u00eancia, de que \u00e9 tudo quanto lhe sugerirmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Levantai-o com bem jeito e na cama o ponde logo. E quando despertar, todos a postos (<i>Sly \u00e9 carregado. Toque de trombeta.<\/i>) Rapaz, vai logo ver o que esse toque de trombeta anuncia. (<i>Sai um criado.<\/i>) Com certeza \u00e9 algum fidalgo que se encontra em viagem e se deteve aqui para descanso. (<i>Volta o criado.<\/i>) Ent\u00e3o, que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Com permiss\u00e3o de Vossa Senhoria, os atores, que oferecem a Vossa Honra os servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Manda-os vir. (<i>Entram comediantes.<\/i>) Amigos, sois bem-vindos.<\/p>\n<p align=\"justify\">COMEDIANTES \u2014 Obrigados ficamos a Vossa Honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 \u00c9 inten\u00e7\u00e3o vossa passar a noite aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">UM COMEDIANTE \u2014 Caso Vossa Honra se digne de aceitar nossos servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o. Ainda me lembro deste rapaz, quando representava de filho de rendeiro. Era na pe\u00e7a em que a corte faz\u00edeis gentilmente a uma senhora nobre. Vosso nome j\u00e1 me esqueceu; mas \u00e9 certeza: dita foi vossa parte com bastante engenho e naturalidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">UM COMEDIANTE \u2014 Vossa Gra\u00e7a decerto pensa no papel de Soto.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Perfeitamente! E tu o representaste por maneira admir\u00e1vel. Bem; chegaste na hora precisa, tanto mais que tenho j\u00e1 iniciado um desporto em que vossa arte muito \u00fatil me ser\u00e1. H\u00e1 aqui um nobre que esta noite deseja ver alguma pe\u00e7a do vosso elenco. Mas receio que n\u00e3o possais guardar a compostura \u00e0 vista da atitude extravagante de Sua Senhoria, por ser certo que Sua Honra jamais foi ao teatro, o que explos\u00e3o de riso vos causara, podendo isso ofend\u00ea-lo. Pois vos digo, senhores, que se rirdes, ele torna-se impaciente a valer.<\/p>\n<p align=\"justify\">UM COMEDIANTE \u2014 Nenhum receio vos cause isso, milorde; saber\u00edamos conter-nos, muito embora se tratasse do mais ris\u00edvel ser que acaso exista.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Recolhe-os tu \u00e0 copa, dando a todos bom tratamento, sem que lhes fale\u00e7a coisa nenhuma do que houver em casa. (<i>Sai um criado com os comediantes.<\/i>) Rapaz, vai logo procurar meu pajem Bartolomeu e manda que se vista como uma dama. Depois disso, leva-o para o quarto do b\u00eabedo, obedece-lhe e d\u00e1-lhe sempre o nome de senhora. De minha parte dize-lhe que adote uma atitude nobre \u2014 se lhe importa minha afei\u00e7\u00e3o tal como tenha visto fazerem damas finas em presen\u00e7a do marido. Do mesmo modo deve proceder com esse b\u00eabedo, falando-lhe com voz suave, fazendo-lhe mesuras e lhe dizendo: \u201cQue me ordena agora Vossa Grandeza, para que revele vossa esposa fiel e muito humilde seu dever e vos prove amor sincero?\u201d Depois, com beijos provocantes, ternos abra\u00e7os, a cabe\u00e7a assim pendida sobre o peito do esposo, ledas l\u00e1grimas dever\u00e1 derramar, por ver a volta da sa\u00fade de seu senhor querido, que durante sete anos se julgara mendigo repulsivo e miser\u00e1vel. Para que chovam l\u00e1grimas de jeito, uma cebola ensejar\u00e1 os meios; se ele a trouxer num len\u00e7o disfar\u00e7ada queira ou n\u00e3o queira, h\u00e1 de ficar com os olhos sempre a lacrimejar. Arranja tudo com a maior pressa que te for poss\u00edvel. Dentro de pouco darei novas ordens. (<i>Sai o criado.<\/i>) Sei que o rapaz usurpar\u00e1 os gestos, a voz, o porte e a gra\u00e7a de uma dama. J\u00e1 quero ver o instante em que ele o nome der de esposo ao borracho, e em que os criados procurarem conter-se, por n\u00e3o rirem, quando mostrarem rever\u00eancia ao r\u00fastico. Vou entrar e mostrar-lhes como se h\u00e1 de fazer a encena\u00e7\u00e3o. Minha presen\u00e7a pode servir para conter-lhes o \u00e2nimo por demais galhofeiro, que, sem isso, promete ultrapassar os lindes pr\u00f3prios.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"intc2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Quarto de dormir em casa do nobre. Aparece Sly com um rico camisol\u00e3o de dormir, cercado de criados; uns sustentam pe\u00e7as de vestu\u00e1rio; outros, bacia, jarros e utens\u00edlios variados. Entra o nobre, vestido de lacaio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Pelo amor de Deus, uma caneca de cerveja fina.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 N\u00e3o querer\u00e1 Vossa Grandeza agora um copo de xerez?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 N\u00e3o apetece a Vossa Honra provar estas conservas?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Que roupa vai Vossa Honra vestir hoje?<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Sou Crist\u00f3v\u00e3o Sly; n\u00e3o me deis o nome de grandeza nem de honra. Nunca na minha vida bebi xerez, e se quereis oferecer-me conserva, que seja de carne de vaca. N\u00e3o me pergunteis que roupa desejo vestir, pois nunca tive mais gib\u00e3o do que dorso, nem mais meias do que pernas, nem mais sapatos do que os p\u00e9s. Sim, algumas vezes chego a ter mais p\u00e9s do que sapatos, ou apenas desses sapatos que deixam ver os dedos pelos furos do couro.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Oh! possa o c\u00e9u curar Vossa Honra dessa ociosa fantasia! Que um fidalgo t\u00e3o poderoso, de t\u00e3o alto ber\u00e7o, t\u00e3o rico e conceituado, ora se encontre dominado por um t\u00e3o baixo esp\u00edrito!<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Como! Quereis dizer-me louco? Ent\u00e3o n\u00e3o sou Crist\u00f3v\u00e3o Sly, filho do velho Sly de Turtonheath, bufarinheiro de nascimento, por educa\u00e7\u00e3o fabricador de cartas, por muta\u00e7\u00e3o condutor de urso, e, presentemente, com a profiss\u00e3o de latoeiro? Bastar\u00e1 perguntardes a Mariana Hacket, a gorda cervejeira de Wincot, se ela n\u00e3o me conhece. Se n\u00e3o disser que eu estou apontado no livro dela por quatorze pences de cerveja pura, podeis ter-me na conta do velhaco mais mentiroso de toda a cristandade. Como! Estarei delirando? Aqui&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Isso \u00e9 que deixa triste vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Isso \u00e9 que abate vossos servidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Eis a raz\u00e3o de todos os parentes se afastarem de casa, como expulsos por loucura t\u00e3o rara. \u00d3 nobre lorde! pensa em teu ber\u00e7o, faze que retornem do ex\u00edlio teus antigos pensamentos e bane o sonho degradante e baixo. V\u00ea como est\u00e3o sol\u00edcitos os criados, desejosos somente de servirem-te, ao teu primeiro gesto. Queres m\u00fasica? (<i>M\u00fasica.<\/i>) Ent\u00e3o escuta: Apolo toca, e logo dez rouxin\u00f3is consonam nas gaiolas. Ou querer\u00e1s dormir? Vamos deitar-te num colch\u00e3o mais macio do que o leito voluptuoso arranjado de prop\u00f3sito para Sem\u00edramis. Se exteriorares desejo de passear, espalharemos flores pelo caminho; se desejas montar num dos ginetes, prontamente mandarei prepar\u00e1-lo com os arreios recamados de p\u00e9rolas e de ouro. Gostas da falcoaria? Teus falc\u00f5es mais alto pairam do que as cotovias madrugadoras. Ou ca\u00e7ar preferes? Teus c\u00e3es far\u00e3o que lhes responda a ab\u00f3bada celeste, despertando das cavernas os ecos estridentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Dize apenas que cavalgar desejas, pois teus galgos como os veados de f\u00f4lego s\u00e3o r\u00e1pidos, mais velozes que a cor\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Se preferes quadros, arranjaremos sem demora o retrato de Ad\u00f4nis repousando nas margens de um regato, ou Citer\u00e9ia velada pelos juncos, parecendo que brinca com o pr\u00f3prio h\u00e1lito e se move como os juncos que os ventos embalan\u00e7am.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Ou te vamos mostrar, quando donzela, como foi surpreendida e arrebatada, t\u00e3o vivo o quadro como a pr\u00f3pria coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 Ou Dafne a errar por entre os espinheiros, as pernas a arranhar de fazer sangue, a cuja vista o triste Apolo chora, tal o primor com que pintadas foram as l\u00e1grimas e o sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 \u00c9s um fidalgo, nada mais que um fidalgo; por consorte possuis uma mulher de mais beleza que todas as de nossa idade escura.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 At\u00e9 o momento em que ela, por tua causa, derramou tantas l\u00e1grimas, que o rosto lhe inundaram gracioso, de invejosas, era a criatura mais encantadora deste mundo; mas ainda se conserva sem confronto poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Sou fidalgo? Tenho uma esposa assim, ou sonho, acaso? Ou sonhei at\u00e9 agora? N\u00e3o; dormindo n\u00e3o estou: vejo, escuto, falar posso, sinto perfumes suaves, toco em coisas agrad\u00e1veis. Por minha vida, \u00e9 certo: sou nobre de verdade, n\u00e3o latoeiro; n\u00e3o sou Crist\u00f3v\u00e3o Sly. Trazei-nos logo nossa nobre consorte e, novamente, uma caneca de cerveja fina.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 N\u00e3o quer lavar as m\u00e3os Vossa Grandeza? (<i>Os criados apresentam-lhe jarro, bacia e toalha.<\/i>) Oh! que felicidade para todos vermos que o ju\u00edzo j\u00e1 recuperastes! Se quem sois compreend\u00easseis finalmente! Nestes quinze anos a sonhar vivestes. And\u00e1veis como mergulhado em sono.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Nestes quinze anos? Raspa! Que tirada! E n\u00e3o falei durante tanto tempo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Oh! falastes, senhor, mas sem sentido. Pois embora estiv\u00e9sseis neste quarto luxuoso, assever\u00e1veis que vos tinham jogado porta fora; dirig\u00edeis insultos contra a dona da taberna, prometendo cham\u00e1-la ante a justi\u00e7a, porque em jarros de barro vos servia, sem trazer a medida verdadeira. Tamb\u00e9m cham\u00e1veis por Cec\u00edlia Hacket.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 \u00c9 o nome da servente da taberna.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO CRIADO \u2014 N\u00e3o conheceis, senhor, essa taberna, nem criada nenhuma desse nome, como n\u00e3o conheceis ningu\u00e9m chamado Est\u00eav\u00e3o Sly, Henrique Pimpernell, Pedro Turf e Jo\u00e3o Naps, o velho grego e outros vinte sujeitos desse tipo<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Gra\u00e7as a Deus, agora estou curado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Am\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Muito obrigado; hei de premiar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o pajem, vestido como uma senhora, com s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Como se sente meu senhor e mestre?<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Muito bem. Isto aqui \u00e9 divertido. Onde est\u00e1 minha esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Aqui presente, nobre senhor. Que \u00e9 que desejas dela?<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Como! Sois minha esposa e de marido n\u00e3o me chamais? Os criados \u00e9 que devem tratar-me de senhor. Sou vosso esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Meu marido e senhor, senhor e esposo, sou vossa esposa, em tudo obediente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Sei disso. De que modo hei de cham\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Madame, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Madame Alice ou Joaninha madame?<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 N\u00e3o; madame, nada mais. Desse modo \u00e9 que os fidalgos chamam suas esposas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Madame esposa, acabam de contar-me que eu dormi e sonhei mais de quinze anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 \u00c9 certo; e pareceram-me trinta anos, porque de vosso leito eu fora exclu\u00edda.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 \u00c9 muito tempo. Criados, retirai-vos; deixai-nos s\u00f3s. Madame, vamos logo: tirai a roupa e vinde para a cama.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Tr\u00eas vezes nobre esposo, instantemente vos concito a esperar uma ou duas noites, ou, pelo menos, at\u00e9 vir o ocaso, pois me recomendaram vossos m\u00e9dicos que do t\u00e1lamo vosso me afastasse. Penso que essa raz\u00e3o me justifica.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Sim, uma vez que h\u00e1 isso&#8230; Para mim \u00e9 muito dif\u00edcil esperar tanto tempo. Mas n\u00e3o desejo voltar a ter aqueles sonhos. Assim, ser\u00e1 for\u00e7oso esperar, apesar da carne e do sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Tendo sabido vossos comediantes que Vossa Honra est\u00e1 bem, determinaram representar uma com\u00e9dia alegre, o que acham proveitoso vossos m\u00e9dicos, por terem visto que a tristeza o sangue vos tinha congelado. Da loucura sendo a melancolia a nutridora, acharam bom que ouv\u00edsseis uma pe\u00e7a que a dor expulsa e a vida deixa longa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Com a breca! Pois que venha. Essa comed\u00edsia n\u00e3o ser\u00e1 uma farsa de Natal ou pe\u00e7a de saltimbancos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 N\u00e3o, senhor; \u00e9 de estofo mais alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Como! Estofo de mob\u00edlia?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 \u00c9 uma esp\u00e9cie de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Vamos v\u00ea-la. Madame esposa, vinde para o meu lado. O mundo que escorregue, que com isso mais mo\u00e7os n\u00f3s ficamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Fanfarras.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"at1c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>P\u00e1dua. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Luc\u00eancio e Tr\u00e2nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Tr\u00e2nio, bem sabes que por teus desejos de ver a bela P\u00e1dua, ama das artes, vim visitar a f\u00e9rtil Lombardia, agrad\u00e1vel jardim da grande It\u00e1lia. Com permiss\u00e3o de meu bom pai amado, sua vontade e tua companhia \u2014 fiel servidor, provado bastas vezes \u2014 respiremos aqui, e em feliz hora no caminho ingressemos dos estudos e do saber. Em Pisa tive o ber\u00e7o, muito famosa por seus homens graves. Meu pai tem l\u00e1 morada, comerciante com neg\u00f3cios por todo o vasto mundo, Vic\u00eancio, do solar dos Bentivoglios. O filho de Vic\u00eancio, que educado foi em Floren\u00e7a, \u00e0s esperan\u00e7as deve do pai dar cumprimento, ornamentando sua fortuna com virtuosos feitos. Por isso, Tr\u00e2nio, empregarei o tempo dos meus estudos com a virtude e a parte dessa filosofia que se esfor\u00e7a para a ventura que a virtude almeja. Que pensas? Para P\u00e1dua vim de Pisa como algu\u00e9m que deixasse uma lagoa n\u00e3o muito funda, para projetar-se no mar, sequioso de estancar a sede.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 \u201cMi perdonate\u201d, meu gentil senhor, mas concordo convosco nisso tudo, feliz por ver que persistis no intento de aspirar as do\u00e7uras da fragrante filosofia. Apenas, meu bom mestre, embora admiradores da virtude, da moral disciplina, n\u00e3o devemos virar est\u00f3icos \u2014 penso \u2014 ou mesmo estacas, nem ficar t\u00e3o devotos de Arist\u00f3teles que a Ov\u00eddio reneguemos como a r\u00e9probo. Com vossas rela\u00e7\u00f5es falai de l\u00f3gica mas na pr\u00e1tica usual sede ret\u00f3rico. Animai-vos com m\u00fasica e poesia; quanto pedir o est\u00f4mago, servi-vos de matem\u00e1tica ou de metaf\u00edsica. Onde n\u00e3o h\u00e1 prazer n\u00e3o h\u00e1 proveito. Em resumo, senhor: \u00e9 aconselh\u00e1vel estudar o que mais vos for do agrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Muito obrigado, Tr\u00e2nio; \u00e9 bom teu plano. Ah, Biondello! Se em terra j\u00e1 estivesses, poder\u00edamos tudo j\u00e1 ter pronto numa casa de jeito preparada para os amigos que eu fizer em P\u00e1dua. Mas, paremos. Que gente est\u00e1 chegando?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Alguma prociss\u00e3o que vem saudar-nos. (<i>Entram Batista, Catarina, Bianca, Gr\u00eamio e Hort\u00eansio. Luc\u00eancio e Tr\u00e2nio se conservam \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Deixai de importunar-me, cavalheiros, pois conheceis qual seja o meu prop\u00f3sito, a saber: n\u00e3o casar minha ca\u00e7ula sem que \u00e0 mais velha tenha dado esposo. Se v\u00f3s ambos amais a Catarina, por eu vos conhecer e estimar muito, permiss\u00e3o tendes de fazer-lhe a corte.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Antes cort\u00e1-la; para mim \u00e9 \u00e1spera. Ent\u00e3o Hort\u00eansio, n\u00e3o quereis esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA (<i>a Batista<\/i>) \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, \u00e9 vosso intento deixar-me encabulada junto destes candidatos a esposo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Oh! candidatos, minha senhora? Que entendeis por isso? Sim, candidatos, quando vos tornardes mais c\u00e2ndida e gentil.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 N\u00e3o tendes causa, senhor, de tanto medo, que, em verdade, ainda n\u00e3o encontrastes o caminho para o cora\u00e7\u00e3o dela. Mas no caso de o achardes, ficai certo, seu primeiro cuidado consistira em alisar-vos os cabelos com um belo tamborete, pintando-vos o rosto de violete.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 De uma dem\u00f4nia dessas, Deus nos livre!<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 E a mim tamb\u00e9m, bom Deus!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Vede, senhor, que bela brincadeira. \u00c9 louca a rapariga ou rezingueira.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Mas no sil\u00eancio da outra vejo r\u00e9stia de branda educa\u00e7\u00e3o e da mod\u00e9stia. Sil\u00eancio, Tr\u00e2nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Pois n\u00e3o, senhor. Saciai agora a vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Senhores, porque eu possa p\u00f4r em pr\u00e1tica quanto vos disse&#8230; Volta para casa, Bianca. Que n\u00e3o seja isso, boa Bianca, raz\u00e3o de te agastares. Continuo, minha querida, a te prezar como antes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Bonequinha mimada! Melhor fora nos olhos dela enfiar os dedos logo. Saberia porqu\u00ea.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Meu infort\u00fanio, mana, te deixa alegre. Humildemente, senhor, subscrevo quanto decidistes. Os instrumentos e meu livro h\u00e3o de fazer-me companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Escuta, Tr\u00e2nio: n\u00e3o parece que est\u00e1s a ouvir Minerva?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Signior Batista, quereis revelar-vos t\u00e3o estranho a esse ponto? Fico triste por ver Bianca sofrer por nossa causa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Ides encarcer\u00e1-la para g\u00e1udio de um dem\u00f4nio infernal, signior Batista? Ter\u00e1 de suportar a l\u00edngua da outra?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Senhores, calma. N\u00e3o altero nada. Bianca, vai para dentro. (<i>Sai Bianca.<\/i>) Como eu sei que a maior del\u00edcia dela consiste em m\u00fasica, instrumentos, versos, vou chamar professores que lhe possam instruir a mocidade. Signior Gr\u00eamio, ou v\u00f3s, Hort\u00eansio, caso conhe\u00e7ais algum, mandai que me procure logo. Sou sempre amigo das pessoas cultas, nada poupando para dar \u00e0s filhas gentil educa\u00e7\u00e3o. E agora, adeus. Catarina, ficai, pois ainda tenho de conversar \u00e0 parte com Bianca. (<i>Sai<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Como! N\u00e3o ficarei. Por que motivo? Quem me imp\u00f5e hora disto, hora daquilo? N\u00e3o saberei orientar-me, acaso? (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Ide para junto da mulher do diabo. Tendes t\u00e3o altas qualidades que ningu\u00e9m aqui est\u00e1 disposto a suportar-vos. Nosso amor, Hort\u00eansio, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o nos permita soprar os dedos juntos e deix\u00e1-lo em jejum. Nosso bolo est\u00e1 cru de ambos os lados. Adeus. Mas pelo amor que dedico \u00e0 minha doce Bianca, se encontrar em qualquer parte um professor capaz de ensinar-lhe aquilo em que ela mais se deleita, encaminh\u00e1-lo-ei para o pai dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Farei a mesma coisa, signior Gr\u00eamio. Mas uma palavrinha, por obs\u00e9quio. Muito embora a natureza de nossa rivalidade n\u00e3o nos tenha permitido at\u00e9 agora nenhum entendimento, depois de refletir sobre o assunto cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que para nosso bem comum \u2014 no caso de obtermos de novo acesso \u00e0 nossa encantadora amada e de voltarmos a ser os felizes rivais no amor a Bianca \u2014 devemos conjugar esfor\u00e7os para alcan\u00e7ar um determinado fim.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 E qual \u00e9 esse fim, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Ora, senhor! Arranjar um marido para a irm\u00e3 dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Um marido? Um dem\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Repito: um marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 E eu repito: um dem\u00f4nio. Acreditas mesmo, Hort\u00eansio, que embora o pai dela seja muito rico, haja algum louco que se disponha a desposar o inferno?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Ora, Gr\u00eamio! Conquanto, meu caro amigo, v\u00e1 al\u00e9m da vossa e da minha paci\u00eancia suportar as suas gritarias, h\u00e1 muitos rapazes bons no mundo \u2014 a dificuldade est\u00e1 em sabermos encontr\u00e1-los que se disporiam a aceit\u00e1-la com todos os seus defeitos e com bastante dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 N\u00e3o sei. Enquanto a mim, fora mais f\u00e1cil aceitar o seu dote, com a condi\u00e7\u00e3o de ser chibateado todas as manh\u00e3s no pelourinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 \u00c9 certo. Como dizeis, entre batatas podres n\u00e3o h\u00e1 o que escolher. Mas desde que este obst\u00e1culo legal nos fez amigos, continuemos no mesmo tom at\u00e9 conseguirmos um marido para a filha mais velha de Batista, deixando, assim, a mais nova sem empecilho para casar-se&#8230; E recomecemos a luta! Ador\u00e1vel! Bianca! Feliz de quem se casar com ela. Quem correr mais depressa, obter\u00e1 o anel. Que vos parece, signior Gr\u00eamio?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Concordo. Desejara ter-lhe feito j\u00e1 presente do melhor cavalo de P\u00e1dua, para que ele desse in\u00edcio \u00e0s suas pretens\u00f5es, vindo a conquist\u00e1-la de todo, a despos\u00e1-la, a deitar-se com ela e a livrar a casa de sua presen\u00e7a. Saiamos juntos. (<i>Saem Gr\u00eamio e Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel, meu senhor, dizei-me, que predomine o amor assim de s\u00fabito?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 \u00d3 Tr\u00e2nio, enquanto eu mesmo o n\u00e3o sentira, n\u00e3o julgara poss\u00edvel nem prov\u00e1vel. Mas v\u00ea: estando aqui, sem fazer nada, os efeitos do amor encontrei no \u00f3cio, confessando-te agora, lisamente \u2014 a ti que \u00e9s para mim o que foi Ana para a rainha de Cartago \u2014 Tr\u00e2nio! abraso-me, definho, morro, Tr\u00e2nio, se n\u00e3o casar com esta meiga jovem. Aconselha-me, Tr\u00e2nio; sei que o podes. Tr\u00e2nio, ajuda-me; sei que queres isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Tempo n\u00e3o \u00e9, senhor, de censurar-vos. N\u00e3o \u00e9 com ralhos que a afei\u00e7\u00e3o se expulsa. Se estais amando, s\u00f3 vos resta agora \u201cRedime te captum, quam queas minimo\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Obrigado, rapaz. Quanto disseste j\u00e1 me conforta um pouco. O resto me h\u00e1 de deixar contente, pois d\u00e1s bons conselhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Ficastes na contempla\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, senhor, t\u00e3o absorvido, que decerto n\u00e3o observastes o que mais importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Oh! vi suave beleza no seu rosto, como a da filha de Antenor que outrora J\u00fapiter obrigou a ser humilde, quando em Creta o levou, na frente dela, com os joelhos a beijar a areia bela.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o vistes nada mais? N\u00e3o observastes como a irm\u00e3 dela come\u00e7ou de s\u00fabito a soltar invectivas, levantando tal tempestade que imposs\u00edvel for a ouvido humano suportar o estrondo?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Vi que ela os l\u00e1bios de coral movia o ambiente perfumando com seu h\u00e1lito. Celeste era e inef\u00e1vel tudo nela.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 \u00c9 tempo de tir\u00e1-lo de tal \u00eaxtase. Acordai, meu caro amo! Se em verdade gostais da rapariga, pensai logo nos meios de alcan\u00e7\u00e1-la. O caso \u00e9 este: a irm\u00e3 mais velha \u00e9 t\u00e3o maligna e bruta que enquanto o pai n\u00e3o se vir livre dela, mestre, solteira vossa amada fica. Por isso ele a trancou a sete chaves, porque dos importunos se livrasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Tr\u00e2nio, que pai cruel! Mas n\u00e3o notaste que se ocupava em alcan\u00e7ar para ela professores capazes?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Sim, com a breca! notei, e agora j\u00e1 formei meu plano.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Eu tamb\u00e9m, Tr\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Mestre, vou jurar-vos que nossos planos se completam, mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Conta-me o teu, primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Disfar\u00e7ais-vos de professor, para ensinar a mo\u00e7a. Eis vossa id\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Certo. \u00c9 realiz\u00e1vel?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o; quem representara vossa parte de filho de Vic\u00eancio, em P\u00e1dua, e em casa ficar\u00e1 dedicado s\u00f3 a estudos? Quem h\u00e1 de receber os compatriotas, os amigos, e festas aprestar-lhes?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Basta. Fica tranq\u00fcilo; tenho um plano. N\u00e3o fomos vistos em nenhuma casa; pelo rosto ningu\u00e9m nos reconhece como patr\u00e3o e criado. Assim faremos: vais ter criados e casa, como eu pr\u00f3prio; vou ser outra pessoa, um florentino, napolitano ou cidad\u00e3o de Pisa. J\u00e1 est\u00e1 chocado o plano, vai ser isso. N\u00e3o percas tempo, Tr\u00e2nio: tira a roupa, toma meu manto e meu chap\u00e9u de cores. Quando Biondello vier, ir\u00e1 servir-te, sendo que antes preciso industri\u00e1-lo para nos dentes n\u00e3o bater com a l\u00edngua.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Trocam as respectivas roupas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Assim ter\u00e1 de ser. Em resumo, senhor: sendo ordens vossas, e estando eu obrigado a obedecer-vos, pois vosso pai me disse ao nos partirmos: \u201cFica sempre a servi\u00e7o de meu filho\u201d embora outra inten\u00e7\u00e3o ele tivesse, tenho certeza \u2014 apraz-me ser Luc\u00eancio, por amor de Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 S\u00ea Luc\u00eancio, Tr\u00e2nio, para lhes seres agrad\u00e1vel. Quanto a mim, passarei a ser escravo, para vir a alcan\u00e7ar essa donzela que me feriu os olhos extasiados. Eis o tratante. (<i>Entra Biondello.<\/i>) Onde estivestes, biltre?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Onde \u00e9 que estive? N\u00e3o; dizei, primeiro, onde \u00e9 que estais. Acaso, mestre, as vestes vos roubou Tr\u00e2nio? Ou v\u00f3s as dele? Ou ambos? Que se passou? Dizei-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 tempo para gracejos. Vem aqui, maroto. Precisas ajeitar-te \u00e0s circunst\u00e2ncias. Para salvar-me a vida, Tr\u00e2nio assume minha apar\u00eancia e veste minha roupa, como eu, para escapar, vesti a dele. Matei um homem mal saltei em terra, e tenho medo de ter sido visto. Ficareis a servi\u00e7o dele, como conv\u00e9m, \u00e9 o que vos digo; e eu daqui logo me afastarei, para salvar a vida. Compreendestes-me bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Eu, senhor? Nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E nessa boca, nada sobre Tr\u00e2nio. Tr\u00e2nio agora \u00e9 Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Tanto melhor para ele. Desejara tamb\u00e9m ser ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 O mesmo eu desejara, rapaz, com a condi\u00e7\u00e3o de que Luc\u00eancio desposasse a ca\u00e7ula de Batista. Mas n\u00e3o por mim, maroto, por vosso amo, em qualquer sociedade usai comigo de muita discri\u00e7\u00e3o. Sozinho estando, volto a ser Tr\u00e2nio; mas com gente estranha, sou vosso amo Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Vamos logo, Tr\u00e2nio. S\u00f3 nos falta p\u00f4r em pr\u00e1tica uma coisa, que ter\u00e1 de ser feita por ti, que \u00e9 apresentares-te tamb\u00e9m como um dos pretendentes. Se me perguntares porqu\u00ea, bastar\u00e1 que te diga que tenho para isso raz\u00f5es boas e de peso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem. Falam as personagens do pr\u00f3logo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Estais cochilando, senhor; n\u00e3o estais prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u2014 Estou prestando, sim, por Santa Ana. \u00c9 uma bonita hist\u00f3ria. Ainda vai demorar muito?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAJEM \u2014 Come\u00e7ou agora, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SLY \u0097 \u00c9 uma excelente obra-prima, madame senhora. Quem dera que j\u00e1 tivesse acabado!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sentam-se e continuam a olhar.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>P\u00e1dua. Um quarto em casa de Batista. Entram Luc\u00eancio, Hort\u00eansio e Bianca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Rabequista, parai; sois muito ousado. J\u00e1 n\u00e3o vos lembra, acaso, o acolhimento que vos fez sua mana Catarina?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Mas, pedante brig\u00e3o, esta \u00e9 a padroeira da celeste harmonia. A preced\u00eancia deveis, pois, conceder-me. E quando houvermos gasto em m\u00fasica uma hora, igual espa\u00e7o de tempo gastareis s\u00f3 com leituras.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Asno atrasado, que n\u00e3o leu bastante para entender por que \u00e9 que existe m\u00fasica: n\u00e3o \u00e9 para aliviar o entendimento depois do estudo e do trabalho di\u00e1rio? Deixai-me ler, assim, filosofia e, ao descansar, servi vossa harmonia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Maroto, n\u00e3o recebo os teus insultos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Senhores, ofendeis-me duplamente, por discutirdes sobre o que depende, t\u00e3o-s\u00f3, do meu querer. N\u00e3o sou menina de col\u00e9gio que apanha chibatadas. N\u00e3o quero ficar presa a hor\u00e1rio fixo, desejando estudar como me agrade. Para cortar a discuss\u00e3o de in\u00edcio, sentemo-nos aqui, e, enquanto lemos, tomai vosso instrumento e ide tocando, que ao fim havemos de chegar primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Terminareis, quando eu ficar acorde? (<i>Retira-se<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Isso, nunca. Afinai vosso instrumento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Onde ficamos ontem?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Neste ponto, senhorita: Hac ibat Simois; hic est Sigeia telius; Hic steterat Priami regia celsa senis.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Traduzi.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 \u201cHac ibat\u201d, como j\u00e1 vos disse, \u201cSimois\u201d, eu me chamo Luc\u00eancio, \u201chic est\u201d, filho de Vic\u00eancio de Pisa, \u201cSigeia teilus\u201d, disfar\u00e7ado para alcan\u00e7ar vosso amor. \u201cHic steterat\u201d e o Luc\u00eancio que se apresentou para vos fazer a corte, \u201cPriami\u201d, \u00e9 meu criado Tr\u00e2nio, \u201cregia\u201d, que tomou o meu nome, \u201ccelsa senis\u201d, para melhor enganarmos o velho pantal\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO (<i>retornando<\/i>) \u2014 O instrumento, madame, est\u00e1 afinado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Vamos ouvi-lo. (<i>Hort\u00eansio toca.<\/i>) Oh! o agudo est\u00e1 desafinado!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Cospe no buraco, amigo, e afina-o de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Vamos ver agora se eu sei traduzir: \u201cHac ibat Simois\u201d, n\u00e3o vos conhe\u00e7o; \u201chic est Sigeia telius\u201d, n\u00e3o tenho confian\u00e7a em v\u00f3s; \u201cHic steterat Priami\u201d, tomai cuidado para que ele n\u00e3o nos ou\u00e7a, \u201cregia\u201d, n\u00e3o sejais muito apressado, \u201ccelsa senis\u201d, n\u00e3o desespereis.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Senhorita, est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Falta o baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 O baixo est\u00e1 afinado. O biltre baixo \u00e9 que estraga o conjunto. Que entusiasmo mostra o nosso pedante! E que atrevido! Mas estou percebendo que o maroto est\u00e1 fazendo a corte \u00e0 minha amada. Vou passar a observar-te com cuidado, professor de uma figa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Com mais tempo poderei crer; agora, desconfio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 N\u00e3o desconfieis, pois \u00e9 certeza: o E\u00e1cida foi Ajax, pelo av\u00f4 assim chamado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Sou for\u00e7ada a dar cr\u00e9dito a meu mestre; se n\u00e3o, afirmo-o, ainda argumentara muito sobre esse ponto duvidoso. Fiquemos por aqui. Agora, L\u00edcio, chegou a vossa vez. Bondosos mestres, n\u00e3o vos zangueis por eu me ter mostrado pilh\u00e9rica com ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO (<i>a Luc\u00eancio<\/i>) \u2014 Ora o posto me cedei, indo dar um bom passeio, pois n\u00e3o tenho can\u00e7\u00e3o para tr\u00eas vozes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Sois t\u00e3o formal, senhor? (<i>\u00c0 parte.<\/i>) N\u00e3o me retiro; vou observ\u00e1-lo, pois se n\u00e3o me iludo, amando est\u00e1 o nosso belo m\u00fasico.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Antes, senhora, de tocar nas cordas, para aprender a posi\u00e7\u00e3o dos dedos, os rudimentos da arte vou dizer-vos. Ensinarei a escala por um m\u00e9todo mais conciso, agrad\u00e1vel e eficiente do que quantos ensinam meus colegas. Est\u00e1 neste papel, com bela escrita.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Mas h\u00e1 muito deixei atr\u00e1s a escala.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Mas a escala de Hort\u00eansio agora lede.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 \u201cEscala\u201d: dos acordes sou o conjunto, A, r\u00e9: de Hort\u00eansio pleiteio o amor; B, mi: Bianca, escolhe-o de p\u00e9 junto, C, f\u00e1: que ter\u00e1s um bom senhor. D, sol, r\u00e9: leva-o un\u00edssona at\u00e9 o porto, E, l\u00e1, mi: se n\u00e3o queres v\u00ea-lo morto. Chamais a isto escala? N\u00e3o me agrada. Prefiro a usan\u00e7a antiga; caprichosa n\u00e3o sou para trocar provadas regras por inven\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhora, vosso pai disse que deixeis os livros, para ajudardes a enfeitar o quarto de vossa irm\u00e3, pois amanh\u00e3 \u00e9 o dia do casamento dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Adeus, meus mestres; precisarei deixar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Bianca e o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Assim sendo, causa n\u00e3o tenho para demorar-me. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Mas tenho-as eu de espiar este pedante. Tem aspecto de quem amando se acha. Ah, Bianca! Se tiveres pensamentos t\u00e3o baixos, para os olhos vagabundos lan\u00e7ares a qualquer aventureiro: pegue-te quem quiser. Vendo-te acaso borboleteando, Hort\u00eansio n\u00e3o se importa de te deixar e ir bater noutra porta. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at3c2\" name=\"at3c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>O mesmo. Diante da casa de Batista. Entram Batista, Gr\u00eamio, Tr\u00e2nio, Catarina, Bianca, Luc\u00eancio e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA (<i>a Tr\u00e2nio<\/i>) \u2014 Hoje \u00e9 o dia das n\u00fapcias de Petrucchio com Catarina, meu senhor Luc\u00eancio; mas n\u00e3o temos not\u00edcia de meu genro. Que se vir\u00e1 a dizer? Quanto motivo de zombaria, se n\u00e3o vier o noivo, j\u00e1 estando o padre \u00e0 espera para os ritos das n\u00fapcias realizar! Que diz Luc\u00eancio da afronta que nos fazem?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Minha, apenas, \u00e9 toda a afronta. Tive de, for\u00e7ada, ceder a m\u00e3o, contra a vontade pr\u00f3pria, a um sujeito estouvado, tipo exc\u00eantrico, que ficou noivo \u00e0 pressa e ora pretende casar-se com vagar. Bem que eu vos disse que era louco varrido e que escondia sob a capa de amargas brincadeiras a grosseria pr\u00f3pria. Porque alegre sujeito parecesse, pediria de mil jovens a m\u00e3o, marcara a data do casamento, convidara amigos, fazendo publicar logo os proclamas, sem pretender, por\u00e9m, casar-se nunca. A pobre Catarina doravante vai apontada ser por toda a gente, que dir\u00e1: \u201cOlha a esposa de Petrucchio, quando Petrucchio se casar com ela!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Paci\u00eancia, Catarina; e v\u00f3s, Batista. Mas posso garantir-vos que Petrucchio tem boas inten\u00e7\u00f5es. \u00c9 que decerto n\u00e3o p\u00f4de vir no prazo combinado. Conquanto seja um tanto brusco, tenho-o na conta de sensato; embora alegre, \u00e9 homem de palavra e muito honesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Prouvera ao c\u00e9u que nunca o houvesse visto a pobre Catarina! (<i>Sai chorando, seguida de Bianca e de outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Vai, menina; n\u00e3o te censuro por chorares hoje. Uma inj\u00faria como esta deixaria vexado um santo, muito mais pessoa de g\u00eanio como o teu, t\u00e3o impaciente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Biondelo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Senhor, senhor! novidade! Uma novidade velha, uma novidade como igual jamais ouvistes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Velha e nova ao mesmo tempo? Como pode ser isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 novidade saberdes que Petrucchio est\u00e1 a chegar?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 J\u00e1 chegou?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ainda n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9 que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Est\u00e1 chegando, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 E quando chegar\u00e1 aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Quando ele estiver onde eu estou e vos vir como eu vos estou vendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Dize logo de uma vez: qual \u00e9 a tua novidade velha?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ora, Petrucchio vem vindo a\u00ed com um chap\u00e9u novo e um casaco velho; uns cal\u00e7\u00f5es tr\u00eas vezes revirados; um par de botas que j\u00e1 serviram de candelabro, uma de fivela e a outra de amarrar com cord\u00e3o; uma espada enferrujada e sem bainha, tirada do arsenal da cidade, com o punho quebrado e com as duas correias arrebentadas. O cavalo em que ele vem \u00e9 manco e traz uma sela bichada e velha, com estribos desaparelhados, al\u00e9m de sofrer de mormo e gosma, de sarna, de escorbuto; est\u00e1 cheio de tumores nas juntas, de esparav\u00e3o caloso; a icter\u00edcia o deixou listado, tem escr\u00f3fula a mais n\u00e3o poder, vive morto de apoplexia, comido de lombrigas; a espinha,, arrebentada; as p\u00e1s, fora do lugar; as pernas da frente s\u00e3o mais curtas, o freio, de um lado s\u00f3, com cabe\u00e7ada de couro de carneiro que de tanto ser puxado para impedi-lo de trope\u00e7ar, j\u00e1 arrebentou em muitas partes, ficando cheio de n\u00f3s. A silha \u00e9 de seis variedades de pano; o selim \u00e9 de mulher, com duas iniciais indicadoras do nome da dona primitiva, desenhadas com tachas e aqui e ali costuradas com barbante.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Quem vem com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Oh, Senhor! O seu lacaio, enfeitado do mesmo jeito que o cavalo, com uma meia de linho em uma das pernas e uma perneira de pano grosso na outra, ligas listadas de azul e vermelho, um velho chap\u00e9u que, guisa de pluma, traz \u201co humor de quarenta fantasias\u201d; um monstro, um verdadeiro monstro nos trajes, n\u00e3o se parecendo em nada com um pajem crist\u00e3o ou com o criado de um gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Algum capricho o leva a assim vestir-se, embora sempre usasse roupa simples.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Alegra-me saber que ele j\u00e1 est\u00e1 em caminho; venha de que jeito vier.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ora, senhor; mas ele n\u00e3o vem vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Mas n\u00e3o dissestes que ele j\u00e1 vinha vindo em caminho?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Quem? Eu? Que Petrucchio vem vindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Sim, que Petrucchio est\u00e1 a chegar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o, senhor; o que eu disse foi que o cavalo dele o trazia no dorso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ora, ora; \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, por S\u00e3o Jac\u00f3! Aposto um bom vint\u00e9m em que um cavalo s\u00f3 e um homem, mais ningu\u00e9m, se eu junto os colocar n\u00e3o formar\u00e3o um par.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Petrucchio e Gr\u00famio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ent\u00e3o, meus elegantes? Todos prontos?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Sois bem-vindo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Mas n\u00e3o vim bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Contudo, n\u00e3o coxeais.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Como n\u00e3o vindes vestido como eu pr\u00f3prio o desejara.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Com roupa fina ou n\u00e3o, o que importava era a ansiedade de vir ter convosco. Mas onde est\u00e1 Quetinha, minha noiva do cora\u00e7\u00e3o? Meu pai, como se sente? Meus senhores, franzis o sobrecenho. Por que esta bela companhia fica como que estupefacta, parecendo ver algum monumento extraordin\u00e1rio, prod\u00edgio raro, amea\u00e7ador cometa?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ora, senhor, sabeis perfeitamente que hoje \u00e9 o dia de vosso casamento. A princ\u00edpio ficamos pesarosos de medo que n\u00e3o vi\u00e9sseis; mas agora mais tristes nos tornamos por vos vermos vestido desse jeito. Tirai isso, que vossa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o honra e mancha nossa festa solene.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E revelai-nos o impedimento grave que afastado de vossa noiva vos deteve tanto, trazendo-vos agora desse modo, t\u00e3o estranho a v\u00f3s pr\u00f3prio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Fastidioso fora contar e pior de ouvir ainda. Vim cumprir a palavra; \u00e9 quanto basta, embora em alguns pontos obrigado tivesse sido a me afastar da meta, do que com mais vagar hei de escusar-me, satisfa\u00e7\u00f5es vos dando suficientes. Mas onde est\u00e1 Quetinha? H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o a vejo! A manh\u00e3 j\u00e1 est\u00e1 passando; j\u00e1 fora tempo de na igreja estarmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o vos apresenteis a vossa noiva com essa fantasia irreverente. Ide ao meu quarto e ponde roupa minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 N\u00e3o; podeis crer-me. Assim, desejo v\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Mas quero crer que n\u00e3o ireis \u00e0 igreja vestido desse modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Justamente desta maneira, meu senhor. Mas basta de tanto palavr\u00f3rio. Ela se casa comigo apenas, n\u00e3o com minha roupa. Caso eu pudesse reparar com tanta facilidade em mim o que ela gasta, como posso trocar estes farrapos, bem estaria para Catarina, e melhor para mim. Mas que pateta, para tagarelar assim convosco, quando devera dar a minha noiva meu bom dia e selar com um terno beijo meu t\u00edtulo inconteste!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Petrucchio, Gr\u00eamio e Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Com tais vestes deve ele ter em mente alguma coisa. Se for poss\u00edvel, vamos persuadi-lo a vestir-se melhor, para ir \u00e0 igreja.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Vou atr\u00e1s dele, para ver como isso tudo vai acabar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Batista, Gr\u00eamio e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 O amor de Bianca, senhor, \u00e9 nada, sem que lhe ajuntemos a permiss\u00e3o paterna. Para obt\u00ea-la, como j\u00e1 disse a Vossa Senhoria, vou procurar um homem \u2014 pouco importa quem ele seja; havemos de instru\u00ed-lo \u2014 que Vic\u00eancio de Pisa vai chamar-se e aqui em P\u00e1dua cau\u00e7\u00e3o nos dar\u00e1 plena de quanto prometi, e mais ainda. Assim, de vossa dita, calmamente desfrutareis, e com consentimento vireis a desposar a doce Bianca.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 N\u00e3o fosse o professor, meu camarada, t\u00e3o de perto vigiar os passos dela, fora f\u00e1cil, parece-me, casarmo-nos por modo clandestino. Uma vez pronto, embora diga \u201cn\u00e3o\u201d o mundo todo, contra o mundo, sozinho, a defendera.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 At\u00e9 l\u00e1 chegaremos pouco a pouco, se cuidarmos de nossos interesses. Mantearemos, assim, o velho Gr\u00eamio, o pai ranzinza espreitador, Minola, o m\u00fasico amoroso e fino, L\u00edcio, s\u00f3 para o bem de meu senhor Luc\u00eancio. Estais vindo da igreja, signior Gr\u00eamio?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Gr\u00eamio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 De t\u00e3o bom grado como do col\u00e9gio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E os casados, v\u00eam vindo para casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Casados? Descasados fora certo, que ela com ele n\u00e3o ganhou marido. Tipo intrat\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Como! Mais do que ela? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Ora, \u00e9 um dem\u00f4nio, um verdadeiro demo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E ela, uma diaba: uma diaba, a mulher do diabo-chefe.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Qual o qu\u00ea! \u00c9 uma ovelha, uma pombinha; junto dele \u00e9 uma tonta. Vou contar-vos, senhor Luc\u00eancio. Ao perguntar-lhe o padre se por esposa ele aceitava a noiva, \u201cSim, pelo raio!\u201d disse, de tal modo gritando que, de medo, o sacerdote deixou cair o livro, e, ao abaixar-se para apanh\u00e1-lo, o noivo tresloucado deu-lhe tamanho murro que rolaram pelo ch\u00e3o padre e livro, livro e padre. \u201cQuem quiser\u201d, disse, \u201cque os levante agora\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E, ao levantar-se o padre, que disse ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Era s\u00f3 medo, que ele sapateava, jurando sem parar, como se o padre quisesse ludibri\u00e1-lo. A cerim\u00f4nia conclu\u00edda, pediu vinho. \u201c\u00c0 vossa sa\u00fade!\u201d gritou, como se a bordo ele estivesse com a maruja, a beber alegremente, depois do furac\u00e3o. Tendo bebido parte do moscatel, jogou no rosto do sacerdote o resto, sem dar outra raz\u00e3o sen\u00e3o dizer-nos que era rala e faminta a barba dele e parecia que implorava um gole. Depois, pelo pesco\u00e7o toma a noiva e com tal bulha lhe beijou os l\u00e1bios que fez o eco estrondar na igreja toda. Vendo isso, de vergonha vim correndo, como estou certo que os demais fizeram. Nunca houve casamento t\u00e3o maluco. Ouvi, por\u00e9m! S\u00e3o os menestr\u00e9is que tocam.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se m\u00fasica. Voltam Petrucchio, Catarina, Bianca, Batista, Hort\u00eansio, Gr\u00famio e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Amigos e senhores, a v\u00f3s todos agrade\u00e7o o trabalho que tivestes. Sei que hoje pretendeis jantar comigo e preparastes um banquete op\u00edparo. Mas o fato \u00e9 que a pressa n\u00e3o permite que eu me demore aqui. Assim, for\u00e7oso ser\u00e1 que me despe\u00e7a de v\u00f3s todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Como! quereis partir ainda esta noite?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 De dia, ainda; antes que a noite chegue. N\u00e3o vos mostreis at\u00f4nitos. Se vi\u00e9sseis a saber os neg\u00f3cios que me chamam, longe de me pedirdes que ficasse, dir\u00edeis que me fosse. Agradecido me declaro a esta honrada companhia, que testemunha p\u00f4de ser de como me entreguei a esta esposa pacient\u00edssima, delicada e virtuosa. Ficai todos com meu pai e com ele banqueteai-vos. Bebei em meu louvor. E agora, adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Permiti que vos pe\u00e7a aqui ficardes at\u00e9 depois da ceia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Atendei-me, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Permiti que vos pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Estou contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Contente vos mostrais, por que ficamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Contente, por pedirdes que fiquemos; por\u00e9m, apesar disso, n\u00e3o ficamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Vamos, ficai, ficai, se amor me tendes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIIO \u2014 Gr\u00eamio, ol\u00e1! Meu cavalo!<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Est\u00e1 pronto, senhor; a aveia j\u00e1 comeu os cavalos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Pois muito bem. Far\u00e1s o que quiseres, mas hoje n\u00e3o sairei, nem amanh\u00e3; s\u00f3 quando o resolver. Senhor, a porta se encontra aberta; \u00e9 ali vosso caminho; podeis sair de trote, enquanto as botas tendes macias. Quanto a mim, decido que s\u00f3 sairei quando me der na telha. Prometeis ser esposo bem cacete, para assim procederdes desde in\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Acalma-te, Quetinha! Por obs\u00e9quio, n\u00e3o te zangues comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Zango, zango; que tens que ver com isso? Ficai calmo, meu pai; ele aqui fica; estou mandando.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Ah! ah! amigo; agora \u00e9 que s\u00e3o elas!<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Senhores, dirigi-vos para a sala do festim nupcial. Agora vejo que uma mulher pode virar cretina, se n\u00e3o mostrar coragem suficiente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Todos ir\u00e3o cear, minha Quetinha, porque assim o ordenaste. Ide, senhores, para o banquete! Obedecei \u00e0 noiva, bebei \u00e0 larga \u00e0 sua virgindade, soltai r\u00e9deas ao j\u00fabilo, mostrai-vos ledos at\u00e9 \u00e0 loucura, ide enforcar-vos&#8230; Mas a minha Quetinha encantadora dever\u00e1 ir comigo. Nada disso, n\u00e3o precisais crescer para o meu lado, nem sapatear, nem escumar de raiva. Quero ser dono do que me pertence; ela \u00e9 minha fazenda, meus bens m\u00f3veis, a mob\u00edlia, o celeiro, a casa, o campo, meu burro, meu cavalo, minha vaca, meu tudo, enfim. Aqui ela se encontra. Quem coragem tiver, que toque nela; saberei defender-me contra o ousado que o passo me quiser barrar em P\u00e1dua. Desembainha, Gr\u00eamio, que cercados estamos por bandidos. Se homem fores, salva tua patroa. N\u00e3o, Quetinha, ningu\u00e9m te tocar\u00e1; hei de amparar-te contra um milh\u00e3o que seja.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Petrucchio, Catarina e Gr\u00famio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Vamos! deixai seguir o par pac\u00edfico.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Se demorassem mais, eu morreria de tanta gargalhada.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Casamento t\u00e3o louco assim, nunca houve.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Senhorita, de vossa mana que pensais agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Que, sendo louca, desposou um louco.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Petrucchio est\u00e1 catarinado, juro-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Amigos e vizinhos, muito embora n\u00e3o ocupem os noivos, por ausentes, seus lugares \u00e0 mesa, estai bem certos de que n\u00e3o faltam bons pit\u00e9us na festa. Luc\u00eancio, o posto tomareis do noivo, e no lugar da irm\u00e3 senta-se Bianca.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Vai praticar de noiva a bela Bianca?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Sim, Luc\u00eancio. Avancemos, cavalheiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c1\" name=\"at4c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Uma sala na casa de campo de Petrucchio. Entra Gr\u00famio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 A peste que carregue todos os cavalos aguados, os patr\u00f5es loucos e os caminhos intransit\u00e1veis! J\u00e1 houve quem apanhasse tanto como eu? Quem ficasse t\u00e3o marcado, t\u00e3o cansado quanto eu? Mandaram-me na frente, para fazer fogo, vindo eles atr\u00e1s, para se aquecerem. Mas se eu n\u00e3o fosse um pote pequeno, que se esquenta com facilidade, poderia ficar com os l\u00e1bios grudados nos dentes, de tanto frio; a l\u00edngua, no c\u00e9u da boca; o cora\u00e7\u00e3o, nas costelas, e isso antes de poder chegar para perto de algum fogo e descongelar-me. Tenciono aquecer-me soprando no fogo. Com um tempo destes, um homem mais alto do que eu se resfriaria facilmente. Ol\u00e1! Curtis! Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Curtis.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Quem \u00e9 que me chama com tanto frio assim?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Um peda\u00e7o de gelo. Se n\u00e3o acreditais no que digo, poder\u00e1s escorregar do meu ombro ao calcanhar t\u00e3o rapidamente como da cabe\u00e7a ao pesco\u00e7o. Fogo, bondoso Curtis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 O patr\u00e3o e a senhora j\u00e1 v\u00eam vindo, Gr\u00eamio?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Oh! v\u00eam, Curtis; v\u00eam. Por isso mesmo, fogo, fogo, sem nenhuma \u00e1gua por cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 E ela, \u00e9 a megera furibunda de que todos falam?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Foi, Curtis, antes desta geada. Mas, como sabes, o inverno amansa o homem, a mulher e o animal, pois assim o fez com meu velho amo, com minha nova patroa e comigo mesmo, camarada Curtis.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Sai da\u00ed, louco de tr\u00eas polegadas! N\u00e3o sou nenhum animal.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 S\u00f3 tenho tr\u00eas polegadas de altura? Pois se teus cornos medem um p\u00e9 de comprimento, deveria ser esse, no m\u00ednimo, o meu tamanho. Mas n\u00e3o queres acender o fogo? Ou deverei queixar-me de ti \u00e0 nossa ama, cuja m\u00e3o \u2014 pois ela j\u00e1 se acha \u00e0 dist\u00e2ncia da m\u00e3o \u2014 tu sentir\u00e1s dentro de pouco, para teu frio consolo, por seres vagaroso no cumprimento de tuas obriga\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Por favor, bondoso Gr\u00eamio, conta-me como vai passando o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 O mundo est\u00e1 frio, Curtis, em todos os of\u00edcios com exce\u00e7\u00e3o do teu. Por isso, trata de acender o fogo. Cumpre o teu dever para alcan\u00e7ares o que te devem, porque o patr\u00e3o e a patroa est\u00e3o quase mortos de frio.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 O fogo est\u00e1 preparado. Por isso, bondoso Gr\u00eamio, quais s\u00e3o as novidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ora, quantas queiras, todas elas na toada da cantiga \u201c\u00d3 Z\u00e9 menino! Ol\u00e1, menino!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Ora, ora! Est\u00e1s sempre com brincadeiras.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Por isso mesmo, cuida do fogo, pois apanhei um frio extremo. Onde est\u00e1 o cozinheiro? A ceia est\u00e1 pronta? a casa enfeitada? os juncos espalhados? as teias de aranha retiradas? Todos os criados est\u00e3o de casaco novo e meias brancas e os demais serventes com suas fardas de gala? Os odres est\u00e3o bonitos por dentro e as jarras bonitas por fora? Os tapetes j\u00e1 foram estendidos, e tudo, enfim, est\u00e1 em ordem?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Tudo est\u00e1 em ordem. Por isso mesmo, torno a perguntar: que novidades h\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Em primeiro lugar fica sabendo que meu cavalo est\u00e1 estrompado; o patr\u00e3o e a patroa ca\u00edram.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Como!<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ora, ca\u00edram da sela na lama; isso daria uma bela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Pois vamos ouvi-la, bondoso Gr\u00eamio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ent\u00e3o apronta a orelha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Aqui est\u00e1 ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO (<i>Dando-lhe uma bofetada<\/i>) \u2014 Ei-la!<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Isso \u00e9 o que se chama sentir uma hist\u00f3ria, n\u00e3o ouvi-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Por isso mesmo \u00e9 que tem o nome de hist\u00f3ria sens\u00edvel. Esse tapa s\u00f3 serviu para chamar a aten\u00e7\u00e3o de tua orelha. Agora vou come\u00e7ar. Imprimis, descemos por uma coluna suj\u00edssima, vindo meu amo na garupa da patroa&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Ambos montados no mesmo cavalo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Que tens que ver com isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Bem; num cavalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Nesse caso, conta tu mesmo a hist\u00f3ria. Se n\u00e3o me tivesses interrompido, terias ouvido como o cavalo dela caiu, tendo ela ficado por baixo dele, como tamb\u00e9m terias ficado sabendo em que lama\u00e7al isso se deu e como ela ficou toda lambuzada de lama; como ele a deixou ficar por baixo do cavalo e me bateu, porque o cavalo havia trope\u00e7ado; como ela se atolou naquela imund\u00edcie, para vir tir\u00e1-lo de cima de mim, como ele praguejava, como ela suplicava, ela que nunca o havia feito at\u00e9 ent\u00e3o; como eu gritava, como o cavalo escapou e saiu correndo, como a r\u00e9dea arrebentou, como eu perdi o meu rabicho, al\u00e9m de muitas outras coisas dignas de mem\u00f3ria, que ir\u00e3o cair no esquecimento, enquanto tu voltar\u00e1s para tua sepultura, sem conhecimento de nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Por essa rela\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se que ele \u00e9 mais intrat\u00e1vel do que ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Sim, o de que o mais atrevido dentre v\u00f3s poder\u00e1 certificar-se, logo que ele chegar. Mas, para que tagarelar dessa maneira? Vai chamar Nataniel, Jos\u00e9, Nicolau, Filipe, V\u00e1lter, Biscoitinho e todos os outros. Que venham com os cabelos bem lisos, as blusas azuis bem escovadas e as ligas uniformes. Que fa\u00e7am rever\u00eancia com a perna esquerda, sem terem a ousadia de tocar num s\u00f3 p\u00ealo do rabo do cavalo de meu amo, antes de beijarem a m\u00e3o dele e a da patroa. Est\u00e3o todos prontos?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Est\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ent\u00e3o chama-os.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Ol\u00e1! Estais ouvindo? Precisamos receber o patr\u00e3o e apresentar os cumprimentos \u00e0 patroa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ora, ora! Cumprimento \u00e9 o que ela tem bastante.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 E quem n\u00e3o sabe disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Tu, parece, porque est\u00e1s mandando que lhe d\u00eaem cumprimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 Chamei-os para que eles reforcem o cr\u00e9dito dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ora, ela n\u00e3o pretender\u00e1 pedir-lhes emprestado coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram v\u00e1rios criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NATANIEL \u2014 Bem-vindo, Gr\u00famio!<\/p>\n<p align=\"justify\">FILIPE \u2014 Ent\u00e3o, Gr\u00famio?<\/p>\n<p align=\"justify\">JOS\u00c9 \u2014 Que \u00e9 que h\u00e1, Gr\u00famio?<\/p>\n<p align=\"justify\">NICOLAU \u2014 Camarada Gr\u00famio!<\/p>\n<p align=\"justify\">NATANIEL \u2014 Como vai isso, meu velho?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Bem-vindo, v\u00f3s; e v\u00f3s, ent\u00e3o? Que foi que houve convosco? E v\u00f3s, camarada? E assim todos os outros cumprimentos. Agora, meus guapos companheiros, est\u00e1 tudo pronto? todas as coisas est\u00e3o nos eixos?<\/p>\n<p align=\"justify\">NATANIEL \u2014 Tudo est\u00e1 nos eixos. A que dist\u00e2ncia se encontra o patr\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 A dois passos daqui; provavelmente j\u00e1 est\u00e1 apeando do cavalo. Por isso, n\u00e3o sejas&#8230; Santo Deus! Sil\u00eancio! Estou ouvindo a voz do patr\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Petrucchio e Catarina.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Onde est\u00e3o esses biltres? Como! A r\u00e9dea ningu\u00e9m me veio segurar \u00e0 porta, nem pegar o cavalo? Onde se encontram Greg\u00f3rio, Nataniel, Jos\u00e9, Filipe?&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS OS CRIADOS \u2014 Aqui, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Aqui, senhor! Aqui, senhor! Aqui, senhor! Cabe\u00e7as ocas, mo\u00e7os de estrebaria \u00e9 o que sois todos. Deveres ningu\u00e9m tem? N\u00e3o h\u00e1 servi\u00e7o? Aten\u00e7\u00f5es ningu\u00e9m mostra? Onde se encontra aquele tolo que eu mandei na frente?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Aqui, senhor; t\u00e3o tolo quanto era antes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 R\u00fastico mandri\u00e3o, rocim maldito, n\u00e3o mandei que no parque me esperasses e que levasses estes outros biltres?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 O casaco, senhor, de Nataniel estava s\u00f3 alinhavado; ainda faltava p\u00f4r salto no sapato de Filipe; n\u00e3o havia morr\u00e3o para darmos cor ao chap\u00e9u de Pedro; falta bainha para a espada de V\u00e1lter. S\u00f3 est\u00e3o prontos Greg\u00f3rio, Ralph e Ad\u00e3o. Todos os outros est\u00e3o que nem trapos, velhos e indigentes. Mas, assim mesmo, vieram receber-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ide, mariolas, preparar a sopa. (<i>Saem alguns criados.<\/i>) \u201cOnde est\u00e1 a vida que eu vivia outorga? Onde est\u00e3o&#8230;\u201d Vem, Quetinha; vem sentar-te&#8230; B\u00e1, b\u00e1, b\u00e1! (<i>Voltam os criados, com sopa.<\/i>) Sois bem-vinda, Quetinha. \u2014 Quando \u00e9 isso? \u2014 Doce Quetinha, fica mais alegre. Mandri\u00f5es, tirai-me as botas! Biltres! Quando? Era um monge da ordem parda, que caminhava sem guarda. Vai para o inferno, biltre! O p\u00e9 me torces. (<i>Bate-lhe.<\/i>) Toma isto, e na outra tenhas mais cuidado. Quetinha, fica alegre. Tragam-me \u00e1gua! Para onde foi meu galgo Tr\u00f3ilo? Chama-me o primo Ferdinando. A\u00ed, maroto! (<i>Sai um criado.<\/i>) Quetinha, \u00e9 uma pessoa que precisas beijar e conhecer. E meus chinelos? E \u00e1gua, n\u00e3o trazem? Lava-te, Quetinha, lava-te e fica alegre. (<i>O criado deixa cair o jarro. Petrucchio bate nele.<\/i>) Biltre, est\u00fapido! Ainda o deixas cair?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Tende paci\u00eancia; foi sem querer.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Cabe\u00e7a empedernida, tipo orelhudo, filho da sarjeta!! Vamos, Quetinha, senta-te. Decerto deves estar com fome. E a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, quem dir\u00e1: eu ou tu? Que \u00e9 isto: carne de carneiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCCHIO \u2014 Quem a trouxe?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Eu.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Pois est\u00e1 queimada e, assim o resto. Sois todos uns cachorros. E essa besta do cozinheiro, onde se encontra? Biltre! Velhacos, como tendes a ousadia de servir-me de tudo o que eu n\u00e3o gosto? (<i>Atira ao ch\u00e3o a mesa, pratos, etc.<\/i>) Retirai isso! Copos, pratos, tudo! Mal-educados! Grosseir\u00f5es! Escravos! Como! Estais resmungando? J\u00e1 vos pego.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Marido, por favor, ficai mais calmo. A comida est\u00e1 boa; bastaria ficardes bem-disposto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 N\u00e3o, Quetinha; estava esturricada e ressequida, e eu me acho expressamente proibido de comidas assim, porque provocam a c\u00f3lera e me deixam irritado. Ser\u00e1 melhor para ambos jejuarmos \u2014 sendo por natureza t\u00e3o col\u00e9ricos \u2014 do que carne ingerirmos t\u00e3o assada. Tem paci\u00eancia; amanh\u00e3 repararemos tudo isso; mas por hoje \u00e9 mais prudente passarmos em jejum. Vem, vem comigo; quero levar-te para nosso quarto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Petrucchio, Catarina e Curtis.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NATANIEL \u2014 Pedro, j\u00e1 viste coisa semelhante?<\/p>\n<p align=\"justify\">PEDRO \u2014 Ele a mata com o pr\u00f3prio g\u00eanio dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Curtis.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Em que parte est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">CURTIS \u2014 No quarto, fazendo-lhe um serm\u00e3o de contin\u00eancia. Briga, jura, aconselha, de tal forma que fica sem saber a coitadinha para onde deva olhar, como expressar-se, de que jeito ficar, tendo acabado por sentar-se, tal como quem desperta de repente de um sonho. Mas, corramos, que ele vem vindo a\u00ed.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Petrucchio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Comecei desse modo o meu reinado com muita habilidade, tencionando chegar ao fim com \u00eaxito completo. Meu falc\u00e3o est\u00e1 afiado e com bem fome, e, enquanto n\u00e3o ficar bastante d\u00f3cil, n\u00e3o encher\u00e1 o papo. De outro modo, n\u00e3o obedecer\u00e1 ao meu aceno. Tenho tamb\u00e9m outro processo para deixar manso o gavi\u00e3o, fazer que volte e habitu\u00e1-lo ao meu grito, isto \u00e9, for\u00e7\u00e1-lo a ficar acordado, como \u00e9 de h\u00e1bito fazer com esses milhanos indom\u00e1veis que se debatem muito. At\u00e9 agora ela n\u00e3o comeu nada, sendo certo que vai ficar assim o dia todo. Na \u00faltima noite n\u00e3o dormiu, nem h\u00e1 de dormir na noite entrante. De igual modo que com a comida fiz, acharei meios de encontrar hipot\u00e9ticos defeitos na arruma\u00e7\u00e3o do leito: os travesseiros atiro para um lado, as almofadas para outro, jogo longe os cobertores, fa\u00e7o voar os len\u00e7\u00f3is. Sim, e em toda essa barulheira infernal direi que fa\u00e7o tudo por causa dela. Em suma: ela h\u00e1 de v\u00edgil passar a noite; e caso os olhos venha a fechar, farei t\u00e3o grande bulha com ralhos e disputas, que por for\u00e7a ter\u00e1 de despertar. Essa \u00e9 a maneira de matar com car\u00edcias uma esposa. Dobrarei desse modo o g\u00eanio dela, opinioso e violento. Se algu\u00e9m sabe como amansar melhor uma megera, venha ensinar-me, que aqui fico \u00e0 espera. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c2\" name=\"at4c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>P\u00e1dua. Diante da casa de Batista. Entram Tr\u00e2nio e Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel, caro amigo L\u00edcio, que outro, que n\u00e3o Luc\u00eancio, possa o afeto vir alcan\u00e7ar da senhorita Bianca? Sim, meu caro senhor, posso afirmar-vos que ela me tem encorajado muito.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Para vos convencer do que vos disse, senhor, ficai de lado e tomai nota como ele d\u00e1 li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Afastam-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Bianca e Luc\u00eancio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Aproveitastes, senhora, alguma coisa da leitura?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 E v\u00f3s, mestre, que ledes? Respondei-me primeiro a essa pergunta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 O que professo: a arte de amar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Possais, senhor, ser mestre na arte que professais com devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E v\u00f3s, a dona de meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Afastam-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Como isso vai depressa! N\u00e3o jur\u00e1veis \u2014 dizei-me agora \u2014 que vossa ama Bianca a ningu\u00e9m mais amava em todo o mundo, se n\u00e3o esse Luc\u00eancio?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Oh falso amor! Sexo inconstante! L\u00edcio, s\u00f3 te digo que \u00e9 muito extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Basta, basta de enganos. N\u00e3o sou L\u00edcio, nem sou m\u00fasico, como pare\u00e7o, mas algu\u00e9m que sente repugn\u00e2ncia em viver com esta m\u00e1scara por uma criatura que despreza um cavalheiro e endeusa um lorpa desses. Senhor, chamo-me Hort\u00eansio, \u00e9 o que vos digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Signior Hort\u00eansio, j\u00e1 bastantes vezes ouvira refer\u00eancias lisonjeiras a vosso amor por Bianca. Mas havendo sido estes olhos testemunhos certos de sua leviandade, juntamente convosco, se de acordo vos mostrardes, abjurarei de vez o amor de Bianca.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Vede como se beijam ternamente, signior Luc\u00eancio! Com firmeza juro por esta m\u00e3o em como vou abster-me de lhe fazer a corte; renuncio a ela, por ser inteiramente indigna das aten\u00e7\u00f5es que at\u00e9 hoje, com tamanha leviandade, eu lhe vinha concedendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Quero tamb\u00e9m fazer o juramento n\u00e3o menos firme de jamais casar-me com ela, embora suplicar-me viesse para esse fim. Que peste! Vede como bestialmente o corteja!<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Desejara que, tirante ele, todos a deixassem. Quanto a mim, porque mais seguramente mantenha o juramento, vou casar-me nestes tr\u00eas dias pr\u00f3ximos com uma vi\u00fava rica que me foi fiel durante todo o tempo em que eu estava pendido para o lado dessa bruxa altiva e impertinente. E assim, meu caro signior Luc\u00eancio, adeus. O cora\u00e7\u00e3o me conquista a bondade feminina, n\u00e3o a bela apar\u00eancia. E ora despe\u00e7o-me, decidido a cumprir o que vos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Luc\u00eancio e Bianca v\u00eam para a frente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Senhora Bianca, caiba-vos a gra\u00e7a dos amantes que t\u00eam amor sem ja\u00e7a. Sim, apanhei-vos de surpresa, amiga, e a v\u00f3s renunciamos, eu e Hort\u00eansio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Tr\u00e2nio, estais gracejando? \u00c9 ent\u00e3o verdade que ambos me renunciastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Sim senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Ent\u00e3o de L\u00edcio j\u00e1 ficamos livres.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Escolheu uma vi\u00fava frescalhona que noiva e esposa vai ficar num dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Deus lhe d\u00ea alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Vai dom\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 \u00c9 o que ele diz, amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; foi tomar aulas de domar, \u00e9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Como! Aulas de domar? H\u00e1 escola disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Sim, senhor; e Petrucchio \u00e9 o professor. Meios conhece de amansar a bruxa, deixando-a mui discreta e n\u00e3o perluxa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Biondello, a correr.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 \u00d3 meu caro patr\u00e3o! Fiquei de espreita por tanto tempo, que esfalfado me acho. Mas, afinal, descer vi da colina um ang\u00e9lico velho que nos serve muito bem aos intentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Quem \u00e9 ele, Biondello?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Um mercador, patr\u00e3o, ou mesmo pedagogo, n\u00e3o sei. Por\u00e9m de vestes muito formais e de apar\u00eancia e porte de um verdadeiro pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E agora, Tr\u00e2nio, que faremos com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Se for cr\u00e9dulo e acreditar em minha hist\u00f3ria, alegre far\u00e1 o papel paterno de Vic\u00eancio, dando as cau\u00e7\u00f5es que forem necess\u00e1rias a Batista Minola, como se ele fosse mesmo Vic\u00eancio. Retirai-vos com vossa noiva; quero estar sozinho<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Luc\u00eancio e Bianca. Entra o professor.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Deus vos guarde, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E a v\u00f3s, senhor. Muito bem-vindo sois. Estais de viagem para mais longe, ou \u00e0 meta j\u00e1 chegastes?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Aqui me deterei por uma ou duas semanas, nada mais. Depois, em Roma ficarei, para a Tr\u00edpoli, em seguida, me dirigir, se Deus me der sa\u00fade.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 De que cidade sois?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 De M\u00e2ntua.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 M\u00e2ntua, meu senhor? Oh! n\u00e3o queira Deus tal coisa! E a P\u00e1dua vindes, sem vos importardes com vossa vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Minha vida! Como senhor? A coisa me parece s\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Muito s\u00e9ria; \u00e9 fatal para os mantuanos que a P\u00e1dua venham. N\u00e3o sabeis a causa? Vossos navios acham-se detidos no porto de Veneza, tendo o doge, por quest\u00e3o singular com o vosso duque, mandado proclamar o que ora digo. \u00c9 de admirar. Por\u00e9m se aqui tiv\u00e9sseis chegado um pouquinho antes, quase nada, ainda ter\u00edeis alcan\u00e7ado o arauto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Oh! para mim \u00e9 muito pior a coisa do que parece, pois comigo trago ordens de pagamento de Floren\u00e7a, que devo apresentar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Para servir-vos, meu senhor, farei isso, ao mesmo tempo que vos dou um conselho. Por\u00e9m antes informai-me se em Pisa j\u00e1 estivestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Sim, meu senhor; estive v\u00e1rias vezes; Pisa, famosa por seus homens graves.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E entre eles conheceis um tal Vic\u00eancio?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 N\u00e3o, mas ouvi falar bastante nele, um mercador de bens incalcul\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Pois \u00e9 meu pai, senhor; e, sob palavra, parece-se convosco alguma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Tal qual uma ostra e uma ma\u00e7\u00e3 madura.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Por que a vida vos salve neste aperto, vou ser-vos \u00fatil s\u00f3 por amor dele. Assim, considerai que \u00e9 muita sorte terdes os tra\u00e7os do senhor Vic\u00eancio. Assumireis o nome e o aspecto dele e em minha casa muito cordialmente ficareis alojado. E agora, muito cuidado para que ningu\u00e9m suspeite de vossa identidade. Compreendeis-me. Em casa ficareis at\u00e9 poderdes liquidar os neg\u00f3cios da cidade. Aceitai de bom grado esse servi\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 \u00d3 meu senhor! Aceito-o, e para sempre passo a considerar-vos o patrono de minha liberdade e minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Vamos ent\u00e3o concretizar a coisa. De passagem vos digo apenas isto: meu pai \u00e9 aqui esperado a cada instante para em contrato assegurar o dote que eu devo dar \u00e0 filha de Batista. A par hei de vos p\u00f4r de quanto importa. Vamos, senhor, vestir-vos como importa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c3\" name=\"at4c3\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Um quarto em casa de Petrucchio. Entram Catarina e Gr\u00famio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o me atrevo. N\u00e3o; por minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Quanto mais me maltrata, mais me humilha. Como! Casou comigo, para \u00e0 fome fazer-me perecer? Os mendicantes que \u00e0 casa chegam de meu pai recebem a esmola desejada; e se negada lhes for, mui facilmente noutras portas encontrar\u00e3o piedade. Eu, no entretanto, que nunca soube o que pedir se chama, nem a pedir me vi for\u00e7ada nunca, de fome estou morrendo, desfale\u00e7o de t\u00e3o v\u00edgil estar. Fico acordada com pragas; alimento-me de gritos. E o que mais me magoa nisso tudo \u00e9 fazer ele tudo sob a capa do amor mais atencioso, parecendo que, se eu viesse a dormir ou a alimentar-me cairia logo doente, ou perecera sem maiores delongas. Por obs\u00e9quio, vai buscar-me alimento; a qualidade n\u00e3o importa; \u00e9 bastante ser saud\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Que dizeis de uma perna de vitela?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 \u00d3timo! N\u00e3o demores; vai busc\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Pode ser irritante. E que dir\u00edeis de tripas gordas muito bem assadas?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Oh! Gosto muito. Meu bondoso Gr\u00famio, Arranja-me isso logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Estou indeciso; temo que seja por demais col\u00e9rico. Que dir\u00edeis de bife com mostarda?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Meu prato predileto.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Hum! Mas mostarda \u00e9 um poucochinho quente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Ent\u00e3o, o bife; p\u00f5e de lado a mostarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Isso eu n\u00e3o fa\u00e7o; de Gr\u00famio n\u00e3o tereis mais que mostarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Os dois, ent\u00e3o; ou um; como quiseres.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Nesse caso, a mostarda, sem o bife.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Retira-te daqui, maldoso escravo! (<i>Bate-lhe.<\/i>) S\u00f3 com o nome dos pratos me alimentas? Sejas maldito, e assim toda essa s\u00facia que com meu sofrimento se empavona. Sai! Sai logo, j\u00e1 disse. (<i>Entram Petrucchio, com um prato de comida, e Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Como passa minha Quetinha? Como! T\u00e3o tristonha, meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Como passais, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Fria a mais n\u00e3o poder.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Eleva o esp\u00edrito; olha-me alegremente, queridinha. Bem v\u00eas qu\u00e3o cuidadoso eu sou contigo; eu mesmo preparei tua comida, n\u00e3o permitindo que outrem a trouxesse. (<i>Coloca o prato sobre a mesa.<\/i>) Acho, doce Quetinha, que esta minha delicadeza \u00e9 digna de elogios. Que \u00e9 isso! Assim calada? \u00c9 que decerto n\u00e3o gostas do que eu trouxe, tendo sido em pura perda todo o meu trabalho. \u2014 Retirai esse prato!<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 N\u00e3o; deixai-o a\u00ed mesmo, por favor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Todo servi\u00e7o deve ser sempre recebido, sempre, com agradecimentos. Neste caso tereis de agradecer-me, antes de haverdes tocado na comida.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Obrigada, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Signior Petrucchio, ora! ora! Sois pass\u00edvel de censura. Minha senhora Catarina, quero fazer-vos companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Caso me ames, Hort\u00eansio, come tudo. (<i>Alto.<\/i>) Que esse prato te fa\u00e7a bem ao cora\u00e7\u00e3o bondoso. Quetinha, come devagar. E agora, meu doce amor, preciso \u00e9 que voltemos \u00e0 casa de teu pai, para fazermos um barulh\u00e3o com todas estas sedas, canh\u00f5es, golilhas, an\u00e9is de ouro, capas, casaquinhos e mantas muito guapas, ventarolas e fitas mui vistosas, pulseiras de \u00e2mbar p\u00e9rolas e rosas. Oh! j\u00e1 acabaste? Espera-te o alfaiate, que vai vestir-te com capricho e arte. (<i>Entra o alfaiate.<\/i>) Entra, alfaiate; mostra-me o que trazes. P\u00f5e aqui o vestido. (<i>Entra o modista.<\/i>) Novidades, senhor? Que nos trouxestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">MODISTA \u2014 Esta touca por Vossa Senhoria encomendada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Como! O molde para isso foi alguma sopeira? Ora, ora! Um prato de veludo! Banal e sujo. \u00c9 mais um caramujo, uma casca de noz, um brinquedinho, gorrozinho de crian\u00e7a, bugiaria&#8230; Quero um maior, j\u00e1 disse! Levai esse.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o quero maior; est\u00e1 na moda; \u00e9 assim que as damas elegantes usam.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Quando fores gentil, ter\u00e1s um desses; antes, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Nesse caso, ainda demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Penso, senhor, que devo ter licen\u00e7a para falar, conforme vou faz\u00ea-lo. N\u00e3o sou nenhuma crian\u00e7a; muita gente melhor que v\u00f3s j\u00e1 ouviu o que eu dizia. Se n\u00e3o vos agradar, tapai o ouvido. Mas express\u00e3o terei de dar com a l\u00edngua a quanto o cora\u00e7\u00e3o me traz opresso, para que ao cabo ele a estourar n\u00e3o venha. Antes que isso aconte\u00e7a, liberdade completa quero ter para expandir-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Tens raz\u00e3o; \u00e9 uma touca abomin\u00e1vel; parece mais casc\u00e3o de torta, ou antes, pastel de seda. Tenho-te amizade muito maior por n\u00e3o gostardes dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Tenhais ou n\u00e3o, mais \u00e9 bonita a touca; s\u00f3 ficarei com essa; mais nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o modista.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Referes-te ao vestido? Vamos, vamos, alfaiate: vejamo-lo. Que coisa, santo Deus! Isto \u00e9 pura palha\u00e7ada Que ser\u00e1 isto? Manga? At\u00e9 parece pe\u00e7a de artilharia. De alto a baixo cortado como torta de ma\u00e7\u00e3, todo cheio de furos, coitadinho tal como aquecedor de barbearia. Arre! Em nome do diabo, como chamas a isto, alfaiate?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Pelo que estou vendo, n\u00e3o pegar\u00e1 nem touca nem vestido.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 Recomendaste-me o mais novo corte, mandando que eu seguisse em tudo a moda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 \u00c9 certo, \u00e9 certo; mas se estais lembrado, n\u00e3o vos mandei p\u00f4r a perder o pano, seguindo em tudo a moda. Tratai logo de voltar para casa, a toda pressa, saltando pelos regos do caminho, porque fregu\u00eas, senhor, j\u00e1 n\u00e3o sou vosso. N\u00e3o ficarei com ele; fazei disto o uso que bem quiserdes. Fora! fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Nunca tive um vestido t\u00e3o bem feito, t\u00e3o na moda, elegante e bem talhado. Quereis fazer de mim uma boneca?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Uma boneca, justamente; \u00e9 isso que ele pretende.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 Vossa Senhoria \u2014 foi o que ela afirmou \u2014 \u00e9 que pretende transform\u00e1-la em boneca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Que arrog\u00e2ncia monstruosa! Est\u00e1s mentindo, dedal! Mentes, cordel, jarda, tr\u00eas quartos, um quarto, meia jarda, unha, mosquito, l\u00eandea, grilo do inverno! Desafiar-me em minha pr\u00f3pria casa, com uma meada de linha! Fora, trapo! Fora, resto! Fora, aviamentos! Do contr\u00e1rio, me\u00e7o-te com tua pr\u00f3pria jarda, por que tenhas uma lembran\u00e7a para toda a vida, por seres linguarudo. Pois afirmo-te que puseste a perder a roupa dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 N\u00e3o; Vossa Senhoria est\u00e1 enganado; o vestido foi feito sob as vistas do mestre da oficina; ordens deu Gr\u00famio sobre a maneira como dever\u00edamos confeccion\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 N\u00e3o lhe dei essa ordem; dei-lhe apenas o pano.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 Mas acaso n\u00e3o lhe dissestes nada sobre o modo como quer\u00edeis que ele fosse feito?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Sim, com agulha e linha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 Porventura cortar n\u00e3o poder\u00edamos o pano?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 J\u00e1 encrespaste muita gente?<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 J\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o te encrespes para o meu lado. J\u00e1 enfeitaste muita gente; ent\u00e3o n\u00e3o me venhas enfeitar, que eu n\u00e3o gosto de encrespados nem de enfeites. Repito que disse ao teu oficial que cortasse o vestido, mas n\u00e3o lhe disse que o cortasse em pedacinhos: ergo, est\u00e1s mentindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 Para confirmar o que eu disse, aqui est\u00e1 a nota da encomenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 L\u00ea-a.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Enfiarei essa nota pela garganta dele, se ele continuar a afirmar que eu disse semelhante coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 \u201cImprimis, um vestido bem folgado.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Mestre, se algum dia eu falei em vestido folgado, podeis costurar-me na aba dele e matar-me de pancada com um novelo de fio escuro. O que eu disse foi: um vestido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Prossegui.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 \u201cCom uma gola pequena e arredondada.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 A gola eu confesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 \u201cDe mangas largas&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Confesso duas mangas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 \u201c&#8230; cortadas com bastante engenho.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Nisso \u00e9 que est\u00e1 a velhacaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 A nota \u00e9 mentirosa, senhor; a nota \u00e9 mentirosa. O que eu recomendei foi que as mangas fossem cortadas e depois recosturadas, o que poderei provar-te, ainda que me venhas de dedal no dedo minguinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ALFAIATE \u2014 O que eu disse \u00e9 a verdade; e isso mesmo te provaria, se te apanhasse num local de jeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Pois desde este momento ponho-me \u00e0 tua disposi\u00e7\u00e3o. Fica com tua nota, entrega-me essa jarda e n\u00e3o me poupes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Ora, Gr\u00eamio! Assim, ele ficaria com desvantagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Em resumo, senhor: esse vestido n\u00e3o \u00e9 para mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Falastes bem, senhor: \u00e9 para a patroa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vamos, leva-o logo daqui, para teu mestre us\u00e1-lo como bem entender.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Toma cuidado, maroto, se tens amor \u00e0 vida! Levar o vestido de minha ama, para teu mestre us\u00e1-lo como bem entender!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Qual \u00e9 o sentido de vossas palavras, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00daMIO \u2014 Ora, senhor! O sentido \u00e9 mais profundo do que poder\u00edeis imaginar. Levar o vestido de minha ama, para o patr\u00e3o dele usar! Ora! Ora!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Hort\u00eansio, cuida de pagar a nota. (<i>Ao alfaiate.<\/i>) Retira-te; j\u00e1 basta de conversa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO (<i>\u00e0 parte, ao alfaiate<\/i>) \u2014 Amanh\u00e3 pagarei, amigo, a conta. N\u00e3o te molestas com seu modo brusco. Podes ir; recomenda-me ao teu amo. (<i>Sai o alfaiate.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vem, querida Quetinha; assim faremos uma visita a vosso pai com estas vestes pobres e honestas. Nossas bolsas ser\u00e3o vaidosas; nossa roupa, pobre. \u00c9 o esp\u00edrito que deixa o corpo rico. E assim como atrav\u00e9s das mais espessas nuvens o sol penetra, de igual modo nas vestes mais humildes a honra brilha. Mais nobre \u00e9 o gaio do que a cotovia, por ter plumagem muito mais bonita? Ou mais do que a enguia vale a serpe, porque os olhos sua pele nos alegra? N\u00e3o, querida Quetinha; nada perdes com essa roupa humilde e desornada. Se a teus olhos \u00e9 opr\u00f3brio, toda a culpa p\u00f5e sobre mim. Por isso, fica alegre, pois partiremos j\u00e1, para festarmos em casa de teu pai, despreocupados. (<i>A Gr\u00famio.<\/i>) Chama meus homens; montaremos logo; p\u00f5e os cavalos na alameda grande. A p\u00e9 iremos at\u00e9 l\u00e1. Vejamos: s\u00e3o sete horas, quero crer, agora; chegaremos com tempo de jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Senhor, posso afian\u00e7ar-vos: s\u00e3o duas horas; nem a ceia, \u00e9 certeza, alcan\u00e7aremos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ser\u00e3o sete horas antes de montarmos. Vede bem: quanto eu diga, ou fa\u00e7a, ou tenha id\u00e9ia de fazer, contrariais sempre. Deixai, amigos; hoje j\u00e1 n\u00e3o saio. Quando vier a sair, dagora em diante, a hora que eu disser \u00e9 que est\u00e1 certa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 At\u00e9 no sol este galante manda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c4\" name=\"at4c4\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>P\u00e1dua. Diante da casa de Batista. Entram Tr\u00e2nio e o professor, vestido como Vic\u00eancio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Esta \u00e9 a casa, senhor. Posso bater?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 E por que n\u00e3o? Se n\u00e3o me trai o engenho, de mim ainda deve estar lembrado meu amigo Batista. Foi em G\u00eanova, h\u00e1 vinte anos; n\u00f3s dois nos hospedamos na estalagem do P\u00e9gaso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Isso mesmo. Em qualquer circunst\u00e2ncia, agora cumpre-vos austeridade revelar paterna.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Tranq\u00fcilizai-vos. Mas a\u00ed vem o pajem. Bom seria instru\u00ed-lo nesse ponto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Podeis ficai tranq\u00fcilo. Ol\u00e1, Biondello! vede l\u00e1 como andais daqui por diante, \u00e9 o que vos digo. E tende bem presente que este amigo \u00e9 o leg\u00edtimo Vic\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ora! n\u00e3o tenhais medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Mas j\u00e1 deste meu recado a Batista?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Sim; contei-lhe que vosso pai se achava ora em Veneza e que com ele em P\u00e1dua hoje cont\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 \u00c9s um rapaz esperto; recebe isto para a bebida. Mas a\u00ed vem Batista. Assumi, meu senhor, vossa apar\u00eancia. (<i>Entram Batista e Luc\u00eancio.<\/i>) Signior Batista, mui feliz encontro. (<i>Ao professor.<\/i>) Este \u00e9 o senhor sobre que j\u00e1 falamos. Revelai-vos agora um pai bondoso, dando-me Bianca para minha heran\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Mais devagar, meu filho. Com vossa permiss\u00e3o, senhor; mas tendo vindo at\u00e9 P\u00e1dua por algumas d\u00edvidas, fui informado por Luc\u00eancio duma causa de amor de grande relev\u00e2ncia entre ele e vossa filha. Assim, em parte pelas informa\u00e7\u00f5es que de v\u00f3s tenho, em parte pelo amor que ele lhe vota, por ela retribu\u00eddo, para que ele n\u00e3o espere demais concordo, em minha solicitude paternal, em que esse casamento se fa\u00e7a. E se pensardes do mesmo modo que eu, haveis de achar-me disposto \u2014 ap\u00f3s sobre isso conversarmos \u2014 para firmar as cl\u00e1usulas de nosso contrato para o dote. Pois convosco n\u00e3o posso revelar-me desconfiado, signior Batista, tendo em vista as boas refer\u00eancias que sobre v\u00f3s obtive.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Desculpai-me, senhor, no que vos digo; muito me impressionou vossa franqueza e vossa concis\u00e3o. \u00c9 bem verdade: vosso filho Luc\u00eancio, aqui presente, gosta de minha filha, e Bianca, dele, se ambos n\u00e3o forem por demais fingidos. Por isso, caso n\u00e3o tiv\u00e9sseis nada mais a dizer sen\u00e3o que como filho vai ser ele tratado e que adequado dote dareis a Bianca, o casamento j\u00e1 est\u00e1 conclu\u00eddo e arrematado tudo: com meu consentimento vosso filho desposa minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Agradecido, senhor, vos fico. Em que lugar, agora, assentaremos o noivado e o pacto rec\u00edproco assinamos?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 N\u00e3o em minha casa, signior Luc\u00eancio, que as paredes ouvem, como o sabeis, e eu tenho um grande n\u00famero de criados, sem contarmos que o velho Gr\u00eamio ainda est\u00e1 de espreita, podendo vir, assim, a interromper-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Em meus alojamentos, nesse caso. Meu pai vai ficar l\u00e1; e ainda esta noite poderemos concluir nosso neg\u00f3cio com bastante sigilo e seguran\u00e7a. Mandareis vosso criado chamar Bianca, enquanto este meu pajem vai correndo buscar-nos o escriv\u00e3o. O pior que pode dar-se por fim \u00e9 que com tanta pressa venhais a ter pitan\u00e7a mui delgada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Estou de acordo. C\u00e2mbio, ide at\u00e9 casa dizer a Bianca que se tenha prestes. Sim, podereis contar-lhe o que se passa: como o pai de Luc\u00eancio se acha em P\u00e1dua e que ela vai casar-se com Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Que isso aconte\u00e7a \u00e9 o que eu suplico aos deuses, de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o percas tempo com os deuses; corre logo e n\u00e3o demores. Poderei indicar-vos o caminho, Signior Batista? Sois bem-vindo. Todo vosso jantar consistir\u00e1 num prato. Entrai, senhor; em Pisa arranjaremos melhor as coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ide; j\u00e1 vos sigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Tr\u00e2nio, o professor e Batista.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 C\u00e2mbio!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Que disseste, Biondello?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o vistes quando o meu amo piscou para o vosso lado e sorriu?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E que significar\u00e1 isso, Biondello?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Nada, por minha f\u00e9; mas ele me deixou atr\u00e1s, para que explique o sentido ou a moral de seus gestos e sinais.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUCENCIO \u2014 Ent\u00e3o explica-me a moral do caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Ei-la: Batista est\u00e1 em lugar seguro, conversando com o falso pai de um filho embusteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E dai?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Tereis de levar a filha dele para a ceia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E depois?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 O velho padre da igreja de S\u00e3o Lucas ficar\u00e1 todo esse tempo \u00e0 vossa disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 E no fim de tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o saberei diz\u00ea-lo, a n\u00e3o ser que eles se encontram atarefados com um falso contrato. Assegurai-vos, portanto, dela, cum privilegio ad imprimendum solum. \u00c0 igreja! Levai o padre, o sacrist\u00e3o e algumas testemunhas suficientemente honestas. Se esta n\u00e3o for a ocasi\u00e3o que esper\u00e1veis com tanta alegria, dizei adeus \u00e0 formosa Bianca, sem perda de um dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Escuta, Biondello.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o posso ficar mais tempo. Conhe\u00e7o uma rapariga que se casou numa tarde, ao ir \u00e0 horta apanhar salsa para encher um coelho. O mesmo podereis fazer, meu senhor. E com isto, adeus. Meu amo mandou que eu fosse \u00e0 igreja de S\u00e3o Lucas, a fim de dizer ao padre que se aprontasse para quando cheg\u00e1sseis com vosso ap\u00eandice. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Posso-o, e f\u00e1-lo-ei, se ela ficar alegre. H\u00e1 de ficar; por que duvidar tanto? Eis o momento de me declarar; mal ficarei, se C\u00e2mbio a n\u00e3o pegar. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at4c5\" name=\"at4c5\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Uma estrada p\u00fablica. Entram Petrucchio, Catarina, Hort\u00eansio e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Depressa, pelo c\u00e9u! Vamos \u00e0 casa de vosso pai, de novo. Oh Deus bondoso! como brilha no c\u00e9u a lua amiga!<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Lua? Isto \u00e9 sol; n\u00e3o h\u00e1 luar ainda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Digo que \u00e9 a lua que t\u00e3o claro brilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 \u00c9 o sol, bem vejo, que t\u00e3o claro brilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Pois pelo filho de meu pai, eu mesmo, tem de ser lua ou estrela, ou o que eu quiser, antes de \u00e0 casa de teu pai n\u00f3s irmos. Recolhei os cavalos! Contrariado de novo! Contrariado sempre e sempre!<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Oh! concordai com ele; do contr\u00e1rio, n\u00e3o partiremos nunca.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Por obs\u00e9quio, j\u00e1 que chegamos at\u00e9 aqui, sigamos at\u00e9 o fim, seja lua, ou sol, ou quanto bem entenderdes. Caso resolvais dar-lhe o nome de vela, doravante para mim ser\u00e1 isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 \u00c9 lua, disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Vejo que \u00e9 lua, mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Est\u00e1s mentindo pois \u00e9 o sol aben\u00e7oado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Deus bendito! pois \u00e9 o sol aben\u00e7oado! Mas j\u00e1 deixa de ser o sol, quando negardes isso. Muda-se a lua como vosso esp\u00edrito; ser\u00e1 o que quiserdes, e isso mesmo ficar\u00e1 sendo para Catarina.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Petrucchio, segue o teu caminho; ganha foi a batalha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Bem; avante! avante! Assim a bola correr\u00e1 depressa, sem desviar-se da meta. Mas cautela! Quem \u00e9 que vem chegando? (<i>Entra Vic\u00eancio, em trajes de viagem.<\/i>) (<i>A Vic\u00eancio,<\/i>) Gentil dama bom dia. Qual \u00e9 o vosso itiner\u00e1rio? Doce Quetinha, com franqueza fala-me: j\u00e1 viste uma senhora assim t\u00e3o fresca? Como em suas faces o vermelho e o branco dura guerra mant\u00eam! Jamais os astros o c\u00e9u t\u00e3o belamente tachonaram como estes olhos o seu rosto ang\u00e9lico. Ador\u00e1vel menina, novamente muito bom dia para ti. Abra\u00e7a-o, doce Quetinha, por ser t\u00e3o formosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Vai deixar o homem louco, pretendendo transform\u00e1-lo em mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Bot\u00e3o formoso, fragrante e virginal, para que ponto te diriges agora? Onde resides? Felizes pais de t\u00e3o galante filha! Mas mais feliz o mo\u00e7o a quem os astros prop\u00edcios te destinam para sua companheira t\u00e3o meiga!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ora, Quetinha! N\u00e3o est\u00e1s louca, penso. \u00c9 um homem velho, cheio de rugas, murcho, enfraquecido, como est\u00e1s vendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Velho pai, perdoa o engano de meus olhos. Ofuscados tanto o sol os deixou, que quanto eu veja s\u00f3 verde me parece. Agora noto que \u00e9s um pai venerando. Novamente pe\u00e7o que me perdoes esse engano.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Perdoa-lhe, bom velho; e, ao mesmo tempo, conta-nos teu caminho. Sendo o mesmo que o nosso, muito alegres ficaremos com tua companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Belo mo\u00e7o, e v\u00f3s, alegre dama, que bastante me espantastes com vosso cumprimento t\u00e3o esquisito: chamo-me Vic\u00eancio; moro em Pisa, e em caminho estou de P\u00e1dua, fazer visita a um filho que h\u00e1 muito n\u00e3o revejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCIO \u2014 O nome dele?<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Luc\u00eancio, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCIO \u2014 Feliz encontro para n\u00f3s e teu filho. E agora posso dizer que assim por lei como por tua veneranda apar\u00eancia, autorizado me acho para chamar-te pai querido. A irm\u00e3 de minha esposa, esta senhora, j\u00e1 desposou teu filho. N\u00e3o te espantes nem te aborre\u00e7as, que \u00e9 de bom conceito, de rico dote e de fam\u00edlia digna. Al\u00e9m do mais, tem tantas qualidades, que digna a deixam de tornar-se esposa do mais nobre mancebo. Assim, permite que no velho Vic\u00eancio eu d\u00ea um abra\u00e7o, e vamos juntos ver teu belo filho que tua vinda vai deixar alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Mas tudo isso \u00e9 verdade, ou simplesmente vos divertis, por terdes g\u00eanio alegre, com as pessoas que encontrais na estrada?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 N\u00e3o, pai; \u00e9 certo; posso assegurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vem, vem conosco, para convencer-te da verdade de tudo o que dissemos. Deixou-te desconfiado a brincadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem todos, com exce\u00e7\u00e3o de Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Petrucchio, muito bem; coragem deste-me. Procuremos a vi\u00fava; por mais que ela se mostre rezingueira, quanto baste para dom\u00e1-la a Hort\u00eansio j\u00e1 ensinaste. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c1\" name=\"at5c1\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>P\u00e1dua. Diante da casa de Luc\u00eancio. Por um lado entram Biondello, Luc\u00eancio e Bianca; Gr\u00eamio passeia no outro lado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Com jeito e bem depressa, senhor, porque o padre j\u00e1 est\u00e1 \u00e0 espera.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Eu v\u00f4o, Biondello; mas pode acontecer que eles precisem de ti em casa. Por isso, deixa-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 N\u00e3o, por minha f\u00e9; primeiro terei de ver a igreja por cima de vosso ombro; depois voltarei para junto de meu amo, o mais depressa que puder.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Luc\u00eancio, Bianca e Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Admiro-me de C\u00e2mbio n\u00e3o ter ainda chegado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Petrucchio, Catarina, Vic\u00eancio e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Esta \u00e9 a porta; esta \u00e9 a casa de Luc\u00eancio. A de meu pai \u00e9 perto do mercado. Tenho de ir at\u00e9 l\u00e1; por isso, deixo-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Tereis primeiro de beber comigo; penso que nesta casa posso dar-vos bom agasalho; e, pelo que parece, h\u00e1 festa aqui. (<i>Bate.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Est\u00e3o muito ocupados; ser\u00e1 melhor baterdes com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Aparece na janela o professor.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Quem \u00e9 que bate como se quisesse derrubar a porta?<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 O signior Luc\u00eancio est\u00e1, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Est\u00e1, sim senhor; mas n\u00e3o pode atender a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Como! E se algu\u00e9m lhe trouxesse cem ou duzentas libras, para maior anima\u00e7\u00e3o de seus divertimentos?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Guardai para v\u00f3s mesmos vossas duzentas libras; enquanto eu tiver vida ele n\u00e3o precisar\u00e1 disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 N\u00e3o vos disse eu que vosso filho era muito estimado em P\u00e1dua? Senhor, estais ouvindo? Deixando de lado fr\u00edvolos circunl\u00f3quios, pe\u00e7o-vos avisar ao signior Luc\u00eancio que o pai dele chegou de Pisa e que o espera aqui na porta para falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Est\u00e1s mentindo; o pai dele j\u00e1 chegou de Pisa e vos contempla agora desta janela.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Ent\u00e3o o pai dele \u00e9s tu?<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Perfeitamente; pelo menos \u00e9 o que assegura a m\u00e3e dele, se \u00e9 que posso dar cr\u00e9dito ao que ela diz.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO (<i>a Vic\u00eancio<\/i>) \u2014 Que quer dizer isso, cavalheiro? \u00c9 velhacaria muito grande usurpar o nome de outra pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Segurai bem esse biltre; estou certo de que ele pretende enganar algu\u00e9m na cidade, sob a capa de meu nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Deixei-os juntos na igreja; o c\u00e9u lhes d\u00ea bons ventos. Mas que vejo? Meu velho amo Vic\u00eancio! Estamos perdidos e reduzidos a zero.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO (<i>percebendo Biondello<\/i>) \u2014 Vem aqui, corda de forca!<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Penso que tenho liberdade de movimentos, meu caro senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Vinde c\u00e1, meu velhaco. Ent\u00e3o, j\u00e1 vos esquecestes de quem eu sou?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Se j\u00e1 me esqueci de v\u00f3s? N\u00e3o, senhor; n\u00e3o poderia ter-me esquecido de v\u00f3s, porque nunca vos vi em toda a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Como, not\u00f3rio biltre! Nunca viste o pai de teu amo, nunca viste Vic\u00eancio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Quem? meu velho e venerando amo? Claro que j\u00e1 o vi; ali est\u00e1 ele, a contemplar-nos daquela janela.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Ah! \u00e9 assim? (<i>Bate em Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Socorro! Socorro! Aqui est\u00e1 um louco que quer matar-me. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Socorro, filho! Socorro, signior Batista! (<i>Retira-se da janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Quetinha, vamos ficar de lado, para vermos o fim desta controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o professor, Batista, Tr\u00e2nio e criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Senhor, quem sois para bater em meu criado?<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Quem sou eu, senhor? N\u00e3o; eu \u00e9 quem pergunto: quem sois v\u00f3s, senhor? Oh deuses imortais! Oh velhaco aparamentado! De casaco de seda, cal\u00e7a de veludo, capa escarlate e chap\u00e9u de ponta! Estou arruinado! Estou arruinado! Enquanto em casa eu fa\u00e7o o papel de marido econ\u00f4mico, meu filho e meu criado esbanjam tudo na universidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 E essa! Que foi que houve?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ser\u00e1 que \u00e9 louco?<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Senhor, pelos trajes dais-me a impress\u00e3o de um cavalheiro idoso e de respeito; mas vossa linguagem \u00e9 de louco. Ora, senhor, em que vos importa a v\u00f3s se eu uso ou deixo de usar p\u00e9rolas e ouro? Agrade\u00e7o isso ao meu bom pai, que me faculta os meios para sustentar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Teu pai? Oh celerado! ele n\u00e3o passava de um fabricante de velas de navio, de B\u00e9rgamo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Estais enganado, senhor; estais enganado, senhor. Por obs\u00e9quio, como julgais que ele se chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Como se chama? Como se eu n\u00e3o soubesse o nome dele! Criei-o desde a idade de tr\u00eas anos. Chama-se Tr\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Fora! fora, asno furioso! O nome dele \u00e9 Luc\u00eancio; \u00e9 o meu \u00fanico filho e herdeiro de tudo o que possuo, eu signior Vic\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Luc\u00eancio! Oh! ele assassinou o amo! Prendei-o! Em nome do doge, intimo-vos a prend\u00ea-lo! Oh meu filho, meu filho! Celerado, revela-me onde est\u00e1 meu filho Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Chamai um oficial de justi\u00e7a. (<i>Sai um dos criados e volta com um oficial de justi\u00e7a.<\/i>) Levai este louco para a pris\u00e3o. Pai Batista, ficais incumbido de apresent\u00e1-lo \u00e0s autoridades.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 V\u00e3o levar-me para a pris\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Esperai um pouco, oficial; ele n\u00e3o ir\u00e1 preso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Nada de conversas, Signior Gr\u00eamio; digo-vos que ir\u00e1 para a pris\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Acautelai-vos, Signior Batista, para n\u00e3o serdes ludibriado neste neg\u00f3cio. Atrevo-me a jurar que este \u00e9 o verdadeiro Vic\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PROFESSOR \u2014 Jura-o, se fores capaz.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o me atrevo a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Farias melhor dizendo que eu n\u00e3o sou Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Sim, conhe\u00e7o-te como signior Luc\u00eancio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Levai esse velho tonto! \u00c0 pris\u00e3o com ele!<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 \u00c9 assim que se maltrata um estrangeiro. Oh fac\u00ednora monstruoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Biondello com Luc\u00eancio e Bianca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Estamos desgra\u00e7ados. Ali est\u00e1 ele, renegai-o; jurai que n\u00e3o o conheceis, se n\u00e3o estaremos perdidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Pai, perdoa-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Vives, caro filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Biondello, Tr\u00e2nio e o professor saem correndo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA (<i>ajoelhando-se<\/i>) \u2014 Perdoai-me, pai querido.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Que fizeste? Onde ficou Luc\u00eancio?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Aqui est\u00e1 ele, o verdadeiro filho do Vic\u00eancio verdadeiro, que pelo casamento fez dele a tua filha, enquanto os olhos uns mistificadores te enganavam.<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Houve mal\u00edcia refinada para nos enganar a todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 E onde se acha esse patife, Tr\u00e2nio, que a ousadia teve de resistir-me e de insultar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Dizei-me agora: este n\u00e3o \u00e9 meu C\u00e2mbio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 C\u00e2mbio, mas em Luc\u00eancio transformado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 \u00c9 milagre do amor. O amor de Bianca me fez tomar a posi\u00e7\u00e3o de Tr\u00e2nio enquanto meu papel ele assumia no meio de v\u00f3s outros. Finalmente consegui alcan\u00e7ar com alegria o porto ambicionado da ventura. Tudo o que Tr\u00e2nio fez foi por minha ordem. Perdoai-lhe, caro pai, a meu pedido.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Hei de cortar o nariz daquele velhaco, que quis mandar-me para a pris\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA (<i>a Luc\u00eancio<\/i>) \u2014 Mas dizei-me uma coisa, senhor: desposastes minha filha sem pedir o meu consentimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Tranq\u00fcilizai-vos, Batista, que n\u00f3s vos deixaremos satisfeito; mas vou j\u00e1 para dentro, tomar vingan\u00e7a desta picardia. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Eu tamb\u00e9m, para sondar esta velhacaria. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 N\u00e3o te amofines, Bianca; ele concorda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Luc\u00eancio e Bianca.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 Malogrou-se meu plano; s\u00f3 me resta pegar o bocado nesta festa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Petrucchio e Catarina v\u00eam para a frente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Marido, vamos ver como tudo isto vai acabar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vamos, Quetinha; mas primeiro d\u00e1-me um beijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Como! No meio da rua?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Como! Est\u00e1s com vergonha de mim?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 De ti por Deus que n\u00e3o, mas de beijar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ent\u00e3o voltamos j\u00e1. Rapaz, vira o cavalo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 N\u00e3o; dou-te um beijo; dou. Fiquemos; J\u00e1 n\u00e3o falo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 N\u00e3o est\u00e1 bem assim? Para se entrar na linha nunca \u00e9 tarde demais, ensina-me Quetinha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"at5c2\" name=\"at5c2\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\">(<i>Um quarto em casa de Lac\u00eancio. Est\u00e1 preparado um banquete. Entram Batista, Vic\u00eancio, Gr\u00eamio, o professor, Luc\u00eancio, Bianca, Petrucchio, Catarina, Hort\u00eansio e a vi\u00fava. Tr\u00e2nio, Biondello, Gr\u00famio e outros criados servem<\/i>).<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 At\u00e9 que enfim as notas dissonantes acordes se tornaram. Foi-se a guerra selvagem, foi-se enfim; chegou a hora de rir do grande medo, dos perigos por que todos passamos. Minha bela Bianca, meu pai sa\u00fada gentilmente que com o teu vou fazer a mesma coisa. Irm\u00e3o Petrucchio, mana Catarina, e tu, Hort\u00eansio, com tua am\u00e1vel vi\u00fava, dai lugar \u00e0 alegria; sois bem-vindos a minha casa. Serve este banquete para remate do festim de h\u00e1 pouco. Sentai-vos, por obs\u00e9quio, para \u00e0 larga falarmos e comermos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Sempre a mesma coisa: sentai-vos e comei! Sentai-vos e comei!<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 S\u00e3o do\u00e7uras c\u00e1 de P\u00e1dua, filho Petrucchio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Em P\u00e1dua tudo \u00e9 doce.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Acho agrad\u00e1vel o que \u00e9 doce em P\u00e1dua.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Desejo, para nosso bem, que seja verdade o que dizeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Por minha vida, Hort\u00eansio est\u00e1 com medo da vi\u00fava.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 N\u00e3o tenho medo de ningu\u00e9m, afirmo-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Sois muito espirituosa; no entretanto n\u00e3o apanhastes o sentido. Disse, t\u00e3o-somente, que Hort\u00eansio vos temia.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Quem tem vertigens diz que o mundo roda.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Resposta bem redonda.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Que sentido, senhora, emprestais a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Que eu concebo gra\u00e7as a ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Como assim! Concebe gra\u00e7as a mim? Que diz Hort\u00eansio disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Minha vi\u00fava disse apenas que ela concebe a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Bem consertado. Bondosa vi\u00fava, ele merece um beijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 \u201cQuem tem vertigens diz que o mundo roda.\u201d Explicai-me, vos pe\u00e7o, essa senten\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Que tendo vosso esposo uma megera, julga a mulher do pr\u00f3ximo uma fera. Agora conheceis o meu sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Sentido baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Para v\u00f3s foi feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Sim, para vos ouvir tornei-me baixa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Pega, Quetinha!<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Pega, vi\u00fava!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Quetinha vai ficar por cima; jogo cem marcos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 N\u00e3o; essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Falou o funcion\u00e1rio. Aqui! Sa\u00fade! (<i>Bebe \u00e0 sa\u00fade de Hort\u00eansio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Que pensa Gr\u00eamio desta gente alegre?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 D\u00e3o marradas valentes, podeis crer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Cabe\u00e7as e marradas! Poderia replicar-vos algu\u00e9m de fino esp\u00edrito que essa vossa cabe\u00e7a precisara, para tanto, de chifres.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Despertou-vos, senhora noiva, a frase?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Sim, sem medo, por\u00e9m, causar-me. Vou dormir de novo<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel; tendo come\u00e7ado, tereis de suportar algumas farpas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Serei p\u00e1ssaro, ent\u00e3o? Vou para o bosque; armai vosso arco para perseguir-me. Sois todos mui bem-vindos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Bianca, Catarina e a vi\u00fava.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Antecipou-me; signior Tr\u00e2nio, o p\u00e1ssaro que quisestes pegar saiu voando. Bebo \u00e0 sa\u00fade dos que erram o alvo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 \u00d3 meu Senhor! Luc\u00eancio fez comigo como o galgo que corre atr\u00e1s da ca\u00e7a, mas s\u00f3 a apanha para o dono dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Boa imagem, por\u00e9m canina em parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">TR\u00c2NIO \u2014 Foi bom, senhor, terdes sa\u00eddo \u00e0 ca\u00e7a sem companheiro; por\u00e9m dizem todos que em grande aperto a cor\u00e7a vos traz sempre.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Oh, oh, Petrucchio! Tr\u00e2nio tem m\u00e3o certa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Agrade\u00e7o a paulada, meu bom Tr\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Confessai! confessai! Fostes tocado?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Sim, confesso arranhou-me. Mas havendo passado de rasp\u00e3o por mim o dardo, aposto dez contra um em como fostes atingido de cheio.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Mas falando, filho Petrucchio, seriamente: penso que te coube a megera mais rilhenta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Bem; n\u00e3o direi que n\u00e3o. Mas como prova cada um de n\u00f3s mande chamar a esposa. A que se revelar mais obediente, sol\u00edcita acorrendo ao seu chamado, o pr\u00eamio ganhar\u00e1 que instituirmos.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Muito bem. E o valor?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Vinte coroas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vinte coroas? Isso arriscaria no meu falc\u00e3o ou no meu c\u00e3o de ca\u00e7a. Mas vinte vezes mais, em minha esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Ent\u00e3o, cem.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Muito bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Est\u00e1 fechado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Quem come\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Eu, decerto. Vai, Biondello; dize a tua ama que eu a estou chamando.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Perfeitamente. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Filho, fico sendo teu parceiro na aposta, meio a meio, em como Bianca vem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 N\u00e3o quero s\u00f3cio; quero ganhar tudo o que \u00e9 meu, sozinho. (<i>Volta Biondello.<\/i>) Ent\u00e3o, que novidades?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 A patroa, senhor, mandou dizer que est\u00e1 ocupada e que n\u00e3o pode vir.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Como! Ocupada? N\u00e3o pode vir? Ent\u00e3o isso \u00e9 resposta?<\/p>\n<p align=\"justify\">GR\u00caMIO \u2014 E bem gentil. Pedi a Deus, senhor, que muito pior a vossa n\u00e3o vos mande.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHI0 \u2014 Espero uma melhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Corre, maroto, e \u00e0 minha esposa roga que me venha ver neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Biondello.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Oh, oh! rogar \u00e0 esposa! Assim \u00e9 que ela n\u00e3o vem mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Temo, caro senhor, que a vossa n\u00e3o se deixe dobrar a vossos rogos. (<i>Volta Biondello.<\/i>) Que disse ela, Biondello? Minha esposa, onde se encontra?<\/p>\n<p align=\"justify\">BIONDELLO \u2014 Disse que certamente estais brincando. N\u00e3o quer vir; se quiserdes, ide v\u00ea-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 De mal para pior. Oh! n\u00e3o quer vir! Oh! que vergonha! Absurdo! intoler\u00e1vel! Gr\u00famio, ide procurar vossa patroa e ordenai-lhe que venha aqui falar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Gr\u00famio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 J\u00e1 sei sua resposta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Qual?<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 N\u00e3o vem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Tanto pior a minha sorte; e basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Catarina.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Ah! por Nossa Senhora! Eis Catarina.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Senhor, qual \u00e9 vossa vontade, para mandardes me chamar?<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Onde se encontram vossa irm\u00e3 e a senhora aqui de Hort\u00eansio?<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Est\u00e3o tagarelando ao p\u00e9 do fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vai busc\u00e1-las; no caso de renu\u00edrem, \u00e0 for\u00e7a as traze para seus maridos. Vai logo, digo, e traze-as sem demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Catarina.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Se falais em milagres, eis um deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 \u00c9 certo; s\u00f3 n\u00e3o sei o que anuncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Ora essa! Paz, amor, vida tranq\u00fcila, m\u00e1xima respeitada e uma leg\u00edtima supremacia. Em suma: tudo quanto torna doce e feliz nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BATISTA \u2014 Sejas muito feliz, caro Petrucchio. Ganhaste a aposta; acrescentar resolvo sobre teu lucro vinte mil coroas, um novo dote de uma nova filha. T\u00e3o mudada ela est\u00e1, que parece outra.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Quero ganhar ainda melhor a aposta: ela ir\u00e1 dar mais provas de obedi\u00eancia, da recente virtude e defer\u00eancia. Ela a\u00ed vem vindo e traz vossas esposas renitentes, vencidas pela sua persuas\u00e3o feminina. (<i>Entra Catarina com Bianca e a vi\u00fava<\/i>) Catarina n\u00e3o te assenta essa touca; joga-a fora; calca aos p\u00e9s semelhante bugiaria! (<i>Catarina arranca a touca e joga-a longe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Oh Deus! n\u00e3o quero ter motivo, nunca, de lamentar-me, enquanto rebaixada n\u00e3o me vir a t\u00e3o n\u00e9scia depend\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Fora! fora! Que est\u00fapida obedi\u00eancia!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Antes fosse tamb\u00e9m assim est\u00fapida vossa obedi\u00eancia, que a sabedoria da vossa, bela Bianca, desde a ceia me custou t\u00e3o-somente cem coroas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BIANCA \u2014 Supinamente tolo vos mostrastes, apostando sobre ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Catarina, dou-te a incumb\u00eancia de mostrar a essas esposas cabe\u00e7udas que deveres as prende aos seus senhores e maridos.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 Ora! Ora! \u00e9 brincadeira; n\u00e3o queremos ouvir serm\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Estou mandando; vamos! Principia por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">VI\u00daVA \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o quero; n\u00e3o far\u00e1 tal.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Far\u00e1, que estou mandando, e a come\u00e7ar por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">CATARINA \u2014 Ora, que absurdo! Desenruga essa fronte carrancuda e deixa de lan\u00e7ar esses olhares desdenhosos que v\u00e3o bater em cheio em teu senhor, teu rei, teu soberano. Isso te mancha a formosura como no prado faz a geada, teu bom nome deixa abatido como a tempestade sacode os mais mimosos bot\u00f5ezinhos, sem nunca ser gracioso ou conveniente. A mulher irritada \u00e9 como fonte remexida: limbosa, repulsiva, privada da beleza; e assim mantendo-se, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, por mais que tenha sede, que se atreva a encostar os l\u00e1bios nela, a sorver uma gota. Teu marido \u00e9 teu senhor, teu guardi\u00e3o, tua vida, teu chefe e soberano. \u00c9 ele que cuida de ti; para manter-te, arrisca a vida, com trabalho penoso em mar e em terra; nas noites borrascosas, acordado; de dia, suportando o frio, enquanto dormes em casa no teu leito quente, tranq\u00fcila e bem segura. N\u00e3o te pede outro tributo al\u00e9m de teu afeto, mui sincera obedi\u00eancia e rosto alegre, paga mesquinha de t\u00e3o grande d\u00edvida. A submiss\u00e3o que o servo deve ao pr\u00edncipe \u00e9 a que a mulher ao seu marido deve. E se ela se mostrar teimosa, ind\u00f3cil, intrat\u00e1vel, azeda, rebelada contra as suas razo\u00e1veis exig\u00eancias, que mais ser\u00e1 sen\u00e3o por isso abjeta traidora, sim, traidora do seu pr\u00f3prio devotado senhor? Tenho vergonha de ver que s\u00e3o t\u00e3o simples as mulheres, para fazerem guerra onde deveram de joelhos pedir paz ou pretenderem dominar, dirigir, mandar em tudo quando servir lhes cumpre t\u00e3o-somente, obedecer e amar? Por que motivo temos o corpo delicado e fraco, pouco afeito aos trabalhos e experi\u00eancias do mundo, se n\u00e3o for apenas para que nossas qualidades delicadas e nossos cora\u00e7\u00f5es de acordo fiquem como nosso h\u00e1bito externo? Deixai disso, vermezinhos teimosos e impotentes! O car\u00e1ter j\u00e1 tive assim t\u00e3o duro, o cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande quanto o vosso, e mais raz\u00f5es, talvez, para palavra revidar com palavra, picardia com picardia. Mas agora vejo que nossas lan\u00e7as s\u00e3o de palha, apenas. Nossa for\u00e7a \u00e9 fraqueza; somos crian\u00e7a que muito ambicionando logo cansa. Abatendo o furor nos exaltamos. Ponde a m\u00e3o sob os p\u00e9s de vossos amos. Caso o meu queira, a minha j\u00e1 est\u00e1 pronta; para mim n\u00e3o consiste nisso afronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 \u00d3 Quetinha gentil! vem dar-me um beijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Vai saindo, taful! Ganhaste o queijo.<\/p>\n<p align=\"justify\">VIC\u00caNCIO \u2014 Como \u00e9 agrad\u00e1vel uma crian\u00e7a d\u00f3cil!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 Como \u00e9 terr\u00edvel a mulher ind\u00f3cil!<\/p>\n<p align=\"justify\">PETRUCCHIO \u2014 Vamos dormir, Quetinha; tr\u00eas casados vejo aqui, por\u00e9m dois bem amarrados. A v\u00f3s, boa noite; o vencedor fui eu, (<i>a Luc\u00eancio.<\/i>) Muito embora ganh\u00e1sseis o himeneu.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Petrucchio e Catarina.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HORT\u00caNSIO \u2014 Vai saindo; domaste uma megera.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUC\u00caNCIO \u2014 \u00c9 de admirar, pois furiosa ela era. (<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens UM NOBRE, CRIST\u00d3V\u00c3O SLY, caldeireiro, Hoteleira, pajem, atores, ca\u00e7adores e criados, BATISTA, rico gentil-homem de P\u00e1dua. VIC\u00caNCIO, velho gentil-homem de Pisa. LUC\u00caNCIO, filho de Vic\u00eancio, apaixonado de Bianca. PETRUCCHIO, gentil-homem de Verona, pretendente de Catarina. GR\u00caMIO, HORT\u00caNSIO, TR\u00c2NIO, BIONDELLO, GR\u00daMIO, CURTIS, Um professor, preparado para fazer o papel de Vic\u00eancio. 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