{"id":120235,"date":"2017-04-24T09:43:36","date_gmt":"2017-04-24T11:43:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120235"},"modified":"2017-04-24T09:43:36","modified_gmt":"2017-04-24T11:43:36","slug":"conto-de-inverno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/conto-de-inverno","title":{"rendered":"Conto de Inverno"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>LEONTES<\/b>, Rei da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>MAM\u00cdLIO<\/b>, jovem Pr\u00edncipe da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>CAMILO<\/b>, nobre da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>ANTIGONO<\/b>, nobre da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>CLE\u00d3MENES<\/b>, nobre da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>DION<\/b>, nobre da Sic\u00edlia.<br \/>\n<b>POL\u00cdXENES<\/b>, Rei da Bo\u00eamia.<br \/>\n<b>FLORIZEL<\/b>, seu filho.<br \/>\n<b>ARQU\u00cdDAMO<\/b>, um nobre da Bo\u00eamia.<br \/>\n<b>UM MARINHEIRO<\/b>.<br \/>\n<b>UM CARCEREIRO<\/b>.<br \/>\n<b>UM VELHO PASTOR<\/b>, pai putativo de Perdita.<br \/>\n<b>O BOBO<\/b>, seu filho.<br \/>\nUm criado do velho pastor.<br \/>\n<b>AUT\u00d3LICO<\/b>, um mariola.<br \/>\n<b>HERM\u00cdONE<\/b>, esposa de Leontes.<br \/>\n<b>PERDITA<\/b>, filha de Leontes e de Herm\u00edone.<br \/>\n<b>PAULINA<\/b>, esposa de Ant\u00edgono.<br \/>\n<b>EM\u00cdLIA<\/b>, uma dama, do servi\u00e7o da rainha.<br \/>\nOutras damas, do servi\u00e7o da rainha.<br \/>\n<b>MOPSA<\/b>, Pastora.<br \/>\n<b>DORCAS<\/b>, Pastora.<br \/>\nNobres e damas da Sic\u00edlia, criados, guardas, s\u00e1tiros, pastores, pastoras, etc.<br \/>\nO Tempo, como coro.<\/p>\n<p><a name=\"inv11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Antec\u00e2mara do pal\u00e1cio de Leontes. Entram Camilo e Arqu\u00eddamo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 Se alguma vez, Camilo, tiverdes oportunidade de visitar a Bo\u00eamia, em miss\u00e3o id\u00eantica \u00e0 que me trouxe aqui, vereis, como disse, a grande diferen\u00e7a que existe entre nossa Bo\u00eamia e vossa Sic\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Creio que no pr\u00f3ximo ver\u00e3o o Rei da Sic\u00edlia pretende pagar ao Rei da Bo\u00eamia a visita que lhe deve.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 Ent\u00e3o, a nossa hospitalidade nos vai deixar envergonha dos, mas o nosso amor nos justificar\u00e1, porque&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Suplico-vos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 \u00c9 verdade; falo com conhecimento de causa. N\u00e3o nos ser\u00e1 poss\u00edvel, com tanta magnific\u00eancia&#8230; uma t\u00e3o rara&#8230; N\u00e3o sei como expressar-me. Teremos de dar-vos alguma bebida sopor\u00edfica, para que vossos sentidos, n\u00e3o percebendo nossa insufici\u00eancia, ainda que n\u00e3o nos possam elogiar, pelo menos n\u00e3o nos censurem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Avaliais muito alto o que vos dado de boa vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 Podeis crer que falo de acordo com meu entendimento e como imp\u00f5e a honestidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Bo\u00eamia, Sic\u00edlia nunca poder\u00e1 mostrar excesso de amabilidade. O Rei da Sic\u00edlia e o da Bo\u00eamia passaram juntos a mocidade, tendo entre eles a amizade criado t\u00e3o profundas ra\u00edzes, que n\u00e3o poder\u00e1 deixar de produzir galhos. Desde que a compostura da idade viril e as obriga\u00e7\u00f5es reais os separaram, suas rela\u00e7\u00f5es, ainda que n\u00e3o diretas, t\u00eam sido mantidas regiamente por meio de mimos, cartas e em baixadas amistosas, de forma que pareciam continuar juntos, embora es tivessem separados e que se apertavam as m\u00e3os por sobre um grande abismo e se abra\u00e7avam dos confins dos ventos contr\u00e1rios. Que o c\u00e9u conserve essa amizade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 Penso que n\u00e3o h\u00e1 no mundo mal\u00edcia nem pretexto que possam modific\u00e1-la. Vosso jovem Pr\u00edncipe Mam\u00edlio vos proporciona me f\u00e1vel satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhe\u00e7o gentil-homem de maiores esperan\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Nesse ponto, concordo convosco; \u00e9 uma crian\u00e7a admir\u00e1vel, que cura, realmente, seus sdditos e deixa vigorosos os cora\u00e7\u00f5es envelhecidos. As pessoas que j\u00e1 usavam muletas antes do seu nascimento, ainda querem viver para v\u00ea-lo homem feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 E a n\u00e3o ser por esta raz\u00e3o, morreriam de grado?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Sim, no caso de n\u00e3o terem outra desculpa para quererem viver mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARQU\u00cdDAMO \u2014 Se o rei n\u00e3o tivesse filho eles desejariam continuar vivendo at\u00e9 que lhe nascesse um.<\/p>\n<p><a name=\"inv12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto de Estado no pal\u00e1cio.Entram Leontes, Pol\u00edxenes, Herm\u00edone, Mam\u00edlio, Camilo e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 J\u00e1 serviu de sinal por nove vezes o \u00famido astro ao pastor, d\u00eas que deixamos sem fardo nosso trono. Igual espa\u00e7o de tempo, caro mano, dever\u00edamos encher com nossos agradecimentos, mas como vosso devedor perp\u00e9tuo, ainda assim, nos part\u00edramos. Por isso, tal como um zero em ponto vantajoso, multiplico por um \u201cmuito obrigado\u201d todos os que antes dele se encontrarem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Deixai de lado os agradecimentos por algum tempo, para no-los dardes no instante da partida.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Amanh\u00e3 mesmo, senhor, h\u00e1 de ser isso. Inquieto deixam-me os meus receios sobre o que \u00e9 poss\u00edvel germinar ou nascer em nossa aus\u00eancia. N\u00e3o sopre em casa vento algum maligno, que me fa\u00e7a dizer: \u201cOs meus temores eram justificados\u201d Al\u00e9m disso, j\u00e1 cansei por demais Vossa Realeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Nosso vigor, querido mano, pode opor-se a mais do que isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 \u00c9-me imposs\u00edvel ficar mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Uma semana, ao menos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 N\u00e3o; imposs\u00edvel; amanh\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 O tempo dividamos, ent\u00e3o, sem que eu aceite, desta vez, obje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 N\u00e3o insistais, por favor, assim tanto. Voz nenhuma, no mundo inteiro, sim, me poderia convencer como a vossa, o que sem d\u00favida agora se daria, caso houvesse qualquer motivo urgente em vossos rogos e em mim fortes raz\u00f5es para esquivar-me. Meus neg\u00f3cios me atraem para casa; se insistirdes comigo, me castiga vossa amizade. Minha perman\u00eancia vos \u00e9 pesado fardo, a um tempo, e inc\u00f4modo. Para obviar a ambos, mano, despe\u00e7amo-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Emudeceu minha rainha, acaso? Dizei alguma coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Tencionava, senhor, ficar calada at\u00e9 que houv\u00e9sseis dele arrancado o juramento expl\u00edcito de que n\u00e3o ficar\u00e1. Tentais venc\u00ea-lo com frieza excessiva. Declarai-lhe que tendes a certeza de que tudo na Bo\u00eamia est\u00e1 bem, como o proclamam as novas recebidas ontem mesmo. Falai-lhe assim, porque dessa maneira o batereis, no seu melhor reduto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Muito bem dito, Herm\u00edone.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Se acaso tivesse dito que quer ver o filho, fora raz\u00e3o de peso. Ele que o jure; depois deixa-o partir. Ele que o jure, que aqui n\u00e3o ficar\u00e1, pois haveremos de toc\u00e1-lo com nossas pr\u00f3prias rocas. (<i>A Pol\u00edxenes.<\/i>) Ora a pedir me atrevo uma semana de vossa real presen\u00e7a. Ao visitar-vos na Bo\u00eamia meu senhor, dar-lhe-ei licen\u00e7a para ficar um m\u00eas al\u00e9m do prazo marcado para a volta, embora, Leontes, n\u00e3o te ame menos uma pancadinha de rel\u00f3gio do que qualquer esposa que acate seu marido. Resolvestes ficar?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Senhora, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Sim, ficareis.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Em verdade, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Em verdade? Escusais-vos com juras muito fracas. Mas embora com vossos juramentos das esferas os astros arranc\u00e1sseis, eu vos diria: \u201dN\u00e3o, senhor, \u00e9 in\u00fatil falardes em partir.\u201d De forma alguma. Esse \u201cde forma alguma\u201d pronunciado por uma dama \u00e9 t\u00e3o potente como se dito por um rei. N\u00e3o resolvestes ainda? Ent\u00e3o, for\u00e7ada sou a deter-vos como meu prisioneiro, n\u00e3o como h\u00f3spede. Pagareis, desse modo, ao vos partirdes, vossa estada entre n\u00f3s sem esbanjardes os agradecimentos. Que dizeis? H\u00f3spede ou prisioneiro? Pelo vosso terr\u00edvel \u201cem verdade\u201d \u00e9 inevit\u00e1vel: tereis de ser um ou outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Ent\u00e3o, vosso h\u00f3spede, senhora, pois ser vosso prisioneiro, para mim fora ofensa mais dif\u00edcil de cometer, que para v\u00f3s puni-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o serei carcereira, ent\u00e3o, mas vossa hospedeira bondosa. Vamos; quero dirigir-vos perguntas sobre todas as peraltices que com meu marido fizestes quando crian\u00e7as. Ambos \u00e9reis, de certo, nobrezinhos mui galantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Pois n\u00e3o, formosa soberana, mo\u00e7os que criam sempre ter diante de si dias em tudo iguais e que haveriam de ser sempre rapazes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Meu mando, decerto, era, dos dois, o mais terr\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 \u00c9ramos como dois cordeiros g\u00eameos que um para o outro balavam, saltitantes ao sol, de t\u00e3o contentes. Permut\u00e1vamos nossa inoc\u00eancia apenas, inoc\u00eancia. A doutrina do mal desconhecendo, nem sequer conceber ent\u00e3o pod\u00edamos que algu\u00e9m a conhecesse. Se tiv\u00e9ssemos continuado a viver dessa maneira, sem que nossos esp\u00edritos ing\u00eanuos, pelo sangue levados, se exaltassem, com ousadia ao c\u00e9u nos fora l\u00edcito responder: N\u00e3o culpados\u201d, excetuando-se nossa heran\u00e7a mortal.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 De onde conclu\u00edmos que trope\u00e7astes, desde ent\u00e3o, por vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 \u00d3 mui prezada dama! Desde essa \u00e9poca temos sido tentados, pois naqueles dias implumes, minha atual esposa ainda era bem menina, e n\u00e3o havia tamb\u00e9m vossa preciosa formosura ca\u00eddo sob as vistas do meu jovem camarada de jogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Deus nos guarde! N\u00e3o tireis conclus\u00f5es, que poder\u00edeis chamar-me e a vossa esposa de dem\u00f4nios. Mas prossegui sem medo; respondemos pelos pecados que por nossa causa cometestes ent\u00e3o, caso conosco, s\u00f3, tiv\u00e9sseis pecado e s\u00f3 conosco persist\u00edsseis nesse erro, sem que houv\u00e9sseis tido amores com outra at\u00e9 ao presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Convenceste-o?<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o partir\u00e1, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Recusou-se a ficar a meu pedido. Herm\u00edone querida, nunca a ponto falaste como agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Nunca?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Nunca, tirante uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 \u00c9, ent\u00e3o, verdade? Falei bem duas vezes? E a primeira, quando foi? Por obs\u00e9quio, dize logo. Enche-me de elogios e me deixa t\u00e3o gorda como as aves bem tratadas. A boa a\u00e7\u00e3o que morre sem enc\u00f4mios, mata milhares que esperavam isso. Nossa paga \u00e9 o elogio. Por mil milhas com um beijo terno podereis levar-nos, sem que nos fa\u00e7a um passo andar a espora. Mas voltemos ao ponto de partida. Minha \u00faltima a\u00e7\u00e3o boa foi pedir-lhe que ficasse. E a primeira? Se interpreto corretamente o que dizeis, aquela teve uma irm\u00e3 mais velha. Oh! se seu nome fosse Gra\u00e7a! \u00c9, ent\u00e3o, certo? Uma vez, antes, eu falei com prop\u00f3sito. Mas, quando? Oh! Permiti que o saiba! Estou ansiosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Ora, foi quando tr\u00eas azedas luas mui demoradamente se finaram, antes de eu conseguir que essa m\u00e3o branca se abrisse e confirmasse o teu afeto, depois do que, em resposta, me disseste: \u201cSou vossa para sempre\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Sim, foi gra\u00e7a. Falei bem duas vezes, n\u00e3o \u00e9 certo? Uma, para alcan\u00e7ar o real esposo; outra, a fim de reter um pouco o amigo. (<i>Estende a m\u00e3o a Pol\u00edxenes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Muito quente! Muito quente! Unir as afei\u00e7\u00f5es de tal maneira, \u00e9 unir, tamb\u00e9m, o sangue. Estou sentindo \u201ctremor cordis\u201d; o cora\u00e7\u00e3o me dan\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 de alegria. O acolhimento pode ficar de rosto descoberto, condescender, at\u00e9, em liberdade, por generosidade e exuber\u00e2ncia, mesmo, do cora\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a\u00ed, concedo. Mas baterem palminhas, beliscarem-se os dedos, como o fazem neste instante, permutarem sorrisos estudados, como em frente do espelho e, ap\u00f3s, suspiros soltarem, como toque de buzina que a morte propalasse do veadinho&#8230; Oh! Tal acolhimento \u00e9-me contr\u00e1rio, visceralmente, ao peito e ao sobrecenho. Vem Mam\u00edlio; \u00e9s meu filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Sim, bondoso senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Verdade? Ent\u00e3o \u00e9s meu fedelho. Qu\u00ea? Sujaste o nariz? Todos afirmam que \u00e9 igualzinho ao meu. Vem, capit\u00e3o; precisamos ser limpos, capit\u00e3o; nada devemos carregar na testa, conquanto a vaca, o boi e o bezerrinho passem por muito limpos. \u2014 Como! Ainda tocando virginal sobre as m\u00e3os dela? \u2014 Ent\u00e3o, bezerro libertino? \u00c9s mesmo meu bezerrinho, n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Se vos agrada tal coisa, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Para isso falta-te cabe\u00e7a dura e as minhas excresc\u00eancias. Ficarias como eu. Como dois ovos, dizem todos, n\u00f3s somos. As mulheres \u00e9 que o dizem&#8230; Precisam dizer algo. Mas embora t\u00e3o falsas elas fossem como a cor preta de tintura nova, ou como o vento e as \u00e1guas, e at\u00e9 os dados que o jogador cobi\u00e7a, quando linha divis\u00f3ria entre o teu e o meu n\u00e3o tra\u00e7a: verdadeiro seria asseverarem que o menino comigo se parece. Senhor pajem, olhai-me com esses olhos da cor do c\u00e9u. Meu vil\u00e3ozinho, caro, car\u00edssimo peda\u00e7o de mim mesmo! Tua m\u00e3e poderia&#8230; \u00c9, ent\u00e3o, poss\u00edvel? Instinto, teus impulsos no alvo acertam; poss\u00edvel deixas o que nunca fora sequer imaginado; ajuda encontras at\u00e9 nos sonhos; vais achar aliado no pr\u00f3prio irreal e ao nada te associas. Depois te tornas cr\u00edvel, pois te juntas a alguma coisa. Agora fazes isso sem justifica\u00e7\u00f5es, e o sinto fundo, pois o c\u00e9rebro tenho envenenado e a fronte endurecida.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Que se passa com Sua Majestade da Sic\u00edlia?<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Parece preocupado.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Ent\u00e3o, senhor? Como passais? Que tem o caro mano?<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Dais a impress\u00e3o de que na fronte tendes grande preocupa\u00e7\u00e3o. Estais zangado?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Falando s\u00e9rio, n\u00e3o. Como \u00e9 freq\u00fcente trair a natureza a sua pr\u00f3pria loucura, seu desvelo, transformando-se em objeto de esc\u00e1rnio para os peitos endurecidos! Contemplando os tra\u00e7os do rosto de meu filho, pareceu-me recuar vinte e tr\u00eas anos no passado, vendo-me quando cal\u00e7a eu n\u00e3o usava, com meu casaco de veludo verde, a espada amorda\u00e7ada, porque o dono n\u00e3o chegasse a morder, assim tornando-se \u2014 como com os ornamentos acontece \u2014 perigosa demais. Qu\u00e3o parecido, pensava ent\u00e3o, eu era a este gr\u00e3ozinho, a este pirralho, a este cavalheiro! Honesto amigo, aceitar\u00edeis ovos em lugar de dinheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 N\u00e3o, milorde; primeiro, brigaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Assim, valente? Desse modo, ir\u00e1s longe. Caro mano, sois t\u00e3o ligado ao vosso jovem pr\u00edncipe como n\u00f3s parecemos ser ao nosso?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Senhor, em casa ele \u00e9 meu passatempo, minha alegria, objeto de cuidados; ora amigo jurado, ora inimigo, parasita da corte, meu soldado, ministro, tudo, em suma. Deixa os dias de julho curtos como os de dezembro com seu g\u00eanio infantil sempre vari\u00e1vel, curando-me de certos pensamentos que, de outro modo, o sangue me engrossaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 No que me diz respeito, a mesma coisa se d\u00e1 com este escudeiro. Agora vamos passear, senhor, e vos deixar com vossos pensamentos mais graves. Cara Herm\u00edone, revela na acolhida a nosso mano todo o amor que nos votas. Que para ele fique barato quanto n\u00f3s tivermos de caro aqui. Depois de ti e deste pequeno vagabundo, \u00e9 ele, sem d\u00favida, quem mais de perto o cora\u00e7\u00e3o me toca.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Se quiserdes achar-nos, estaremos \u00e0s ordens no jardim. Vireis depressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Fazei como quiserdes; hei de achar-vos onde quer que estejais ao descampado. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Agora estou pescando, muito embora eles n\u00e3o vejam como eu solto a linha. Muito bem! Muito bem! Como a boquinha ela para ele estende, ou melhor, o biquinho! E como ao bra\u00e7o dele se ap\u00f3ia com a desenvoltura das mulheres que t\u00eam marido d\u00f3cil! (<i>Saem Pol\u00edxenes, Herm\u00edone e o s\u00e9quito.<\/i>) Bem, j\u00e1 se foram. Lama at\u00e9 aos joelhos; excresc\u00eancias acima das orelhas&#8230; Brinca, menino, brinca; tua m\u00e3e tamb\u00e9m est\u00e1 brincando. Eu tamb\u00e9m brinco, mas meu papel \u00e9 t\u00e3o ignominioso, que acabar\u00e1 com vaia no meu t\u00famulo. Como dobre vou ter pateada e esc\u00e1rnio. Vai brincar, rapazinho; vai. J\u00e1 houve antes de mim maridos enganados, se nisso n\u00e3o me iludo, como muitos deve haver, no momento em que isto falo, que a esposa ao bra\u00e7o levam, sem que a m\u00ednima suspeita de que houvesse ela as comportas aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso. Serve, at\u00e9, de consolo, imaginarmos que outros homens tamb\u00e9m possuem portas que se abrem como as minhas, sem que os donos tenham vontade disso. Se os maridos de esposas infi\u00e9is desesperassem, enforcar-se-ia, certamente, a d\u00e9cima parte da humanidade. N\u00e3o h\u00e1 cura para esse mal. Influ\u00eancia \u00e9 de um planeta lascivo, que revela seus efeitos onde \u00e9 predominante, parecendo-me que a leste, a oeste, ao norte e ao sul tem for\u00e7a. Em conclus\u00e3o: n\u00e3o pode haver barreiras que a entrada a um ventre impe\u00e7am. Ficai certos do seguinte: o inimigo elas permitem sair e entrar com armas e bagagens. Milhares dentre n\u00f3s sofrem da doen\u00e7a, sem que suspeitem disso. Ent\u00e3o, menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Pare\u00e7o-me convosco, dizem todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Isso consola. Qu\u00ea! Camilo aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Sim, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Mam\u00edlio, vai brincar; \u00e9s honesto. (<i>Sai Mam\u00edlio.<\/i>) Camilo, este importante senhor vai demorar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Muito trabalho tivestes para que a \u00e2ncora pegasse; escapulia sempre que a jog\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Observaste isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 \u00c0s vossas insist\u00eancias n\u00e3o queria ceder, sempre alegando neg\u00f3cios de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Percebeste-o? (<i>\u00c0 parte.<\/i>) J\u00e1 se fala baixinho a meu respeito: \u201cO soberano da Sic\u00edlia \u00e9 um&#8230;\u201d Custou-me perceb\u00ea-lo. \u2014 Por que causa, ele ficou, Camilo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ante as inst\u00e2ncias da bondosa rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Da rainha, poder\u00e1 ser; bondosa\u201d, fora certo; mas, sendo o que \u00e9, n\u00e3o \u00e9. Compreendeu isso outra cabe\u00e7a astuta al\u00e9m da tua? Pois teu entendimento chupa, absorve mais que os blocos comuns. Ter\u00e1 sido isso notado s\u00f3 por naturezas raras, por alguns indiv\u00edduos de cabe\u00e7a mais do que extraordin\u00e1ria, sendo o vulgo cego, talvez, para essas coisas? Dize.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Que coisas, meu senhor? Penso que todos s\u00e3o de pensar que o Rei da Bo\u00eamia espicha demais sua visita.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Espicha demais sua visita.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Bem; e a causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Para satisfazer Vossa Grandeza e aos pedidos de nossa mui graciosa soberana.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Satisfazer! \u00c9 boa. De vossa soberana? \u00c9 quanto basta. At\u00e9 agora, Camilo, te confiava n\u00e3o somente segredos que me tocam de perto o cora\u00e7\u00e3o, como os de Estado, e, como sacerdote, me aliviavas o peito. Como penitente absolto de ti sempre part\u00edamos. Mas fomos iludidos com tua integridade, ou com a que como tal consider\u00e1vamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Deus n\u00e3o o queira, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Para de novo dizer-te o meu pensar: n\u00e3o \u00e9s honesto, ou, se para isso fores inclinado, \u00e9s um covarde que o jarrete cortas, por tr\u00e1s, \u00e0 honestidade, de seu curso natural impedindo-a. Ou te devo considerar um servo que na minha confian\u00e7a calou mui profundamente e, por isso, relapso, ou como um tolo que observa o jogo que se faz em casa, nota o ganho excessivo e toma tudo como simples pilh\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Meu gracioso senhor, eu posso ser relapso, tolo, medroso, se o quiserdes, falhas essas de que ningu\u00e9m pode julgar-se isento, para afirmar que nunca, em meio aos fatos infinitos do mundo, houvesse sido medroso, tolo ou mesmo negligente. Se alguma vez, senhor, cons\u00adcien\u00adte\u00admen\u00adte negligenciei no que se relaciona aos vossos interesses, foi tolice de minha parte; se papel de tolo consciente fiz, foi minha neglig\u00eancia que teve a culpa, por haver deixado de pensar at\u00e9 ao fim nas conseq\u00fc\u00eancias; e se medroso me mostrei, por vezes, de fazer algo cujo resultado me parecia incerto, revelando-se o plano n\u00e3o isento de perigo, era isso um medo de que os mais sisudos nem sempre se livraram. Essas falhas, senhor, s\u00e3o permitidas, sendo certo que a pr\u00f3pria honestidade delas sofre. Mas seja Vossa Gra\u00e7a mais expl\u00edcito, mostrando-me de frente minhas falhas; se eu as negar, \u00e9 que n\u00e3o me pertencem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Nunca viste, Camilo \u2014 mas n\u00e3o pode haver sobre isso d\u00favida; seria preciso que tivesses as janelas dos olhos mais compactas do que os cornos de marido enganado \u2014 ou nunca ouviste pois ante um fato desses, t\u00e3o vis\u00edvel, n\u00e3o fica mudo o boato \u2014 ou n\u00e3o pensaste pois quem n\u00e3o pensa nisso \u00e9 destitu\u00eddo de reflex\u00e3o \u2014 que minha esposa \u00e9 infiel? Confessa-o logo \u2014 a menos que te insurjas com impud\u00eancia contra os pr\u00f3prios olhos, os ouvidos e o ju\u00edzo \u2014 e me declara que minha esposa \u00e9 uma prostituta e que merece o nome vergonhoso que \u00e0s fiandeiras de linho sempre damos, por se entregarem antes do cons\u00f3rcio. Vamos, confirma tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 N\u00e3o; jamais diante de mim ningu\u00e9m insultaria minha nobre senhora desse modo, sem que vingan\u00e7a, logo, eu n\u00e3o tomasse. Maldito eu tenha o cora\u00e7\u00e3o, mas nunca dissestes nada mais de v\u00f3s indigno do que neste momento. Insistir nisso, fora pecado mais hediondo ainda do que aquele, se fosse verdadeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? os narizes? beijarem-se nos l\u00e1bios? com um suspiro interromper o curso de um sorriso \u2014 prova infal\u00edvel de infidelidade encontrarem-se os p\u00e9s, andarem sempre pelos cantos, quererem que os rel\u00f3gios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, noite escura? E todo o mundo \u2014 menos eles, claro; excetuando-se os dois \u2014 com catarata nos olhos, para que pecar pudessem sem ningu\u00e9m o notar&#8230; Tudo isso \u00e9 nada? Ent\u00e3o \u00e9 nada o mundo todo e tudo que nele se cont\u00e9m; o c\u00e9u \u00e9 nada, Bo\u00eamia \u00e9 nada, minha esposa \u00e9 nada, s\u00e3o nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Meu bondoso senhor, curai-vos sem demora dessas fantasias doentias; quase sempre s\u00e3o muito perigosas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Dize: \u00e9 certo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, senhor!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 \u00c9 certo; est\u00e1s mentindo. Torno a dizer, Camilo: est\u00e1s mentindo. Odeio-te! Confessa que n\u00e3o passas de um r\u00fastico grosseiro, de um escravo negligente, e at\u00e9 mesmo de um tranq\u00fcilo contemporizador que a vista lan\u00e7as indiferente para o bem e o mal, propenso a aceitar ambos. Se tivesse minha mulher o f\u00edgado infectado como sua pr\u00f3pria vida, nem uma hora viveria ela agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Quem lhe causa semelhante infec\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quem? Justamente quem a usa tal qual uma medalha pendente do pesco\u00e7o: o Rei da Bo\u00eamia. Se eu tivesse comigo servidores de confian\u00e7a, com olhos, a um s\u00f3 tempo, para ver minha honra e seu proveito, para vantagem pr\u00f3pria, ora fariam algo que desfaria muita coisa. Sim, tu, seu escan\u00e7\u00e3o \u2014 que de uma humilde condi\u00e7\u00e3o eu tirei, grande fazendo-te, e podes ver, mais claramente, ainda, do que o c\u00e9u v\u00ea a terra e a terra o c\u00e9u, como sou ultrajado \u2014 poderias temperar a bebida numa copa que para o meu amigo resultasse um sono duradouro. Tal mistura me fora um cordial.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Senhor, meu pr\u00edncipe, \u00e9 certo: eu poderia fazer isso, sem recorrer, at\u00e9, a essas bebidas de a\u00e7\u00e3o muito violenta, mas valendo-me de um licor vagaroso, que n\u00e3o age com a vis\u00edvel mal\u00edcia dos venenos. Mas crer n\u00e3o posso que haja semelhante m\u00e1cula em minha augusta e alta senhora, t\u00e3o soberanamente honrada e digna. Sempre te amei&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Se acaso ainda o duvidas, que a peste te carregue. Ent\u00e3o me julgas t\u00e3o mal equilibrado, a tal extremo perturbado que, sem necessidade, me forje esses tormentos? Sujar queira a pureza, a brancura de meu leito que, sem isso, repouso me aprestara, mas, manchado, \u00e9 aguilh\u00e3o, espinho, urtiga, ferr\u00e3o de abelhas? Infamar quisesse o sangue deste pr\u00edncipe, meu filho, que eu amo como meu e que presumo seja realmente meu? Ser\u00e1 poss\u00edvel que eu fizesse tudo isso? H\u00e1 algu\u00e9m t\u00e3o louco?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Sou for\u00e7ado, senhor, a dar-vos cr\u00e9dito. Creio no que dizeis. O Rei da Bo\u00eamia vai desaparecer, ficando assente, no entanto, que, uma vez ele afastado, receber\u00e1 de novo Vossa Alteza, como antes, a rainha, se n\u00e3o fosse por outra causa, por amor ao pr\u00edncipe, mas tamb\u00e9m para p\u00f4r cobro na l\u00edngua dos maldizentes das vizinhas cortes onde tendes amigos ou aliados.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Teu conselho coincide justamente com o que eu comigo mesmo decidira. Disso sua honra n\u00e3o sair\u00e1 manchada.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Meu soberano, sa\u00ed, portanto, e com fisionomia t\u00e3o prazenteira como s\u00f3 a amizade mostra em dia festivo, tratai sempre o Rei da Bo\u00eamia e vossa alta senhora. Eu sou o escan\u00e7\u00e3o dele; se bebida salutar eu lhe der, exclu\u00ed-me logo do n\u00famero de vossos servidores.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 \u00c9 tudo; se o fizeres, a metade ter\u00e1s do cora\u00e7\u00e3o que aqui me bate; caso contr\u00e1rio, o teu ter\u00e1s partido.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 F\u00e1-lo-ei, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Hei de mostrar-me af\u00e1vel, como me aconselhaste. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Oh mulher infeliz! Mas qual \u00e9 a minha situa\u00e7\u00e3o? \u00c9 preciso que eu propine veneno ao bom Pol\u00edxenes, n\u00e3o tendo raz\u00e3o para isso, afora a obedi\u00eancia que devo ao meu senhor, o qual, achando-se em rebeli\u00e3o consigo mesmo, exige de seus homens id\u00eantica atitude. Promovido serei se fizer isso. Mas ainda que eu achasse mil exemplos de pessoas que, tendo da exist\u00eancia privado o ungido do Senhor, levassem depois vida feliz, n\u00e3o no faria. Mas j\u00e1 que a pedra, o pergaminho e o bronze um s\u00f3 exemplo disso n\u00e3o nos contam, que a pr\u00f3pria vilania o repudie. Preciso, pois, abandonar a corte. Fa\u00e7o-o&#8230; N\u00e3o o fa\u00e7o&#8230; De qualquer maneira quebrarei o pesco\u00e7o. Os passos guia-me, feliz estrela! O Rei da Bo\u00eamia chega.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Pol\u00edxenes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 \u00c9 estranho! \u00c9 muito estranho! S\u00f3 parece que meu favor aqui est\u00e1 em decl\u00ednio. N\u00e3o me falar! Ora essa! Boa-tarde, Camilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Salve, muito real senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Que novidades h\u00e1 na corte?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Nada particular, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Pelo semblante do rei dir-se-ia que ele uma prov\u00edncia perdeu ou alguma terra que estimasse tanto como a si mesmo. Neste instante o encontrei, e o saudei como de h\u00e1bito. Mas ele a vista desviando e os l\u00e1bios contraindo num gesto de desprezo, afastou-se depressa, a s\u00f3s deixando-me a pensar no que pode estar em curso para causar altera\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 N\u00e3o me atrevo a sab\u00ea-lo, meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Qu\u00ea! N\u00e3o vos atreveis? Sabeis de tudo, e n\u00e3o vos atreveis a revelar-mo? O caso \u00e9 assim, porque para v\u00f3s mesmo o que sabeis contais, sem responderdes que n\u00e3o vos atreveis. Meu bom Camilo, vosso rosto alterado ora me serve de espelho em que tamb\u00e9m mudados vejo meus tra\u00e7os fision\u00f4micos. For\u00e7oso, pois, \u00e9 que eu tenha alguma parte nisso, para me ver assim t\u00e3o transtornado.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Uma doen\u00e7a atacou algu\u00e9m na corte, mas n\u00e3o posso nome\u00e1-la; foi pegada de v\u00f3s, que, no entretanto, estais sadio.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Como! Pegou de mim? Mas certamente n\u00e3o me fareis possuidor da vista do basilisco. Olhei para milhares de pessoas, que muito prosperaram por esse fato, sem causar a morte de ningu\u00e9m s\u00f3 por isso. Bom Camilo, sois, sem d\u00favida alguma, um gentil-homem e, al\u00e9m do mais, instru\u00eddo \u2014 o que \u00e0 nobreza serve de adorno n\u00e3o menor que o nome de nossos genitores, cujo brilho nos serve de elevar \u2014 instantemente vos suplico se acaso sabeis algo de que eu precise ter conhecimento, n\u00e3o o deixeis permanecer oculto nas pris\u00f5es da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Responder-vos n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Transmiti doen\u00e7a e me acho t\u00e3o sadio? N\u00e3o; preciso obter uma resposta. Est\u00e1s me ouvindo, Camilo? Ora conjuro-te, por tudo quanto a honra pode permitir a um homem \u2014 n\u00e3o sendo a menor parte este pedido \u2014 que me esclare\u00e7as tuas conjeturas acerca da desgra\u00e7a n\u00e3o vis\u00edvel que para mim se esgueira. Ainda est\u00e1 longe? J\u00e1 vem pr\u00f3xima? Como preveni-la? Ou ent\u00e3o, de que maneira suport\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Vou contar-vos, senhor, o que se passa, pois intimado fui em nome da honra por quem honrado eu julgo. Ouvi, portanto, meu conselho, que deve ser seguido no mesmo instante em que o tiver exposto; se n\u00e3o, s\u00f3 restar\u00e1 para n\u00f3s ambos gritar \u201cPerdidos\u201d e nos dar boa-noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Fala, ent\u00e3o, bom Camilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Estou incumbido por ele de matar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Ele quem, Camilo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 O rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 E a causa?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ele presume, n\u00e3o, jura com inteira seguran\u00e7a, como se o houvesse visto ou sido o ferro que vos tivesse atarraxado nisso, que tocastes por modo criminoso na rainha sua esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Que em gel\u00e9ia p\u00fatrida se me altere o melhor sangue e que meu nome sob o jugo fique lado a lado do que traiu o Alt\u00edssimo, que meu nome ilibado, de tal modo podre se torne que, onde quer que eu chegue, cause nojo aos narizes mais obtusos; que de minha presen\u00e7a todos fujam, n\u00e3o, que todos a temam mais ainda do que a peste mais grave de que se haja falado ou dado a conhecer por livros.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 No que respeita ao pensamento dele, poder\u00edeis jurar pelas estrelas do c\u00e9u, uma por uma, e seus influxos, mas o mesmo seria pretenderdes proibir que o mar \u00e0 lua n\u00e3o seguisse, como o edif\u00edcio sacudir de sua loucura, de alicerces assentados na cren\u00e7a inabal\u00e1vel e que vida ter\u00e1 tanto quanto ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 De que modo nasceu tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ignoro-o. Mas certeza tenho completa de que \u00e9 prefer\u00edvel fugir das conseq\u00fc\u00eancias dessa id\u00e9ia, a procurar saber como nasceu. Assim, no caso de confian\u00e7a terdes em minha honestidade que heis de logo levar como penhor \u2014 fugi esta noite. Secretamente contarei aos vossos seguidores o que h\u00e1, providenciando para que saiam da cidade em grupos de dois ou tr\u00eas, apenas, por poternas de meu conhecimento. Enquanto a mim, junto de v\u00f3s irei tentar a sorte, por esta confiss\u00e3o, aqui perdida. N\u00e3o vacileis; pela honra dos meus entes mais queridos, contei-vos a verdade. N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel esperar, no caso de quererdes mais provas, pois o risco correis de quem se achasse condenado pelo pr\u00f3prio monarca e cuja morte jurada j\u00e1 estivesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Creio em tudo; o cora\u00e7\u00e3o no rosto ele mostrava. D\u00e1-me a m\u00e3o; de piloto ora me serve, que vizinho do meu ser\u00e1 teu posto. Meus navios j\u00e1 se acham preparados e h\u00e1 dois dias meus homens s\u00f3 me esperam para partirmos. Este ci\u00fame atinge pessoa mui preciosa. Ser\u00e1 forte qu\u00e3o valiosa ela for, e t\u00e3o violento quanto o marido for mais poderoso. Pensando que se encontra desonrado por quem lhe dedicara sempre afeto, com mais furor h\u00e1 de querer vingar-se. O medo me conturba. Feliz viagem, s\u00ea minha amiga e de consolo serve \u00e0 graciosa rainha, alvo de suas suspeitas infundadas, mas sem parte nenhuma ter em nada. Vamos logo, Camilo. Como pai hei de acatar-te, se a vida me salvares. Estou pronto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Minhas atribui\u00e7\u00f5es me facilitam as chaves das poternas. Saiba Vossa Grandeza aproveitar-se da hora urgente. Vamos, senhor! Depressa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sic\u00edlia. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Herm\u00edone, Mam\u00edlio e damas da corte.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Levai daqui o menino. \u00c9 insuport\u00e1vel; cansa-me por demais.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRA DAMA \u2014 Vinde comigo, meu gracioso senhor; brinquemos juntos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o quero; de v\u00f3s n\u00e3o quero nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRA DAMA \u2014 Por qu\u00ea, caro senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Beijais-me muito duramente e falais comigo como se eu ainda fosse crian\u00e7a. Antes aquela.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDA DAMA \u2014 E o motivo, senhor, me quererdes?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 de ser por terdes sobrancelhas escuras, muito embora todos digam que as sobrancelhas dessa cor assentam muito bem nas mulheres, se n\u00e3o forem muito espessas, somente um semic\u00edrculo ou meia-lua, como feita \u00e0 pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDA DAMA \u2014 Quem vos ensinou isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Ora, aprendi-o no rosto das mulheres. Por obs\u00e9quio: de que cor s\u00e3o as vossas sobrancelhas?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRA DAMA \u2014 Azul, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Ora, isso \u00e9 brincadeira. Nariz azul j\u00e1 vi numa senhora; mas sobrancelhas, nunca.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDA DAMA \u2014 Ora escutai-nos. Vossa m\u00e3e, a rainha, est\u00e1 engordando. Dentro de poucos dias passaremos a servir outro belo e jovem pr\u00edncipe. Ent\u00e3o, s\u00f3 podereis brincar conosco, se tiverdes vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRA DAMA \u2014 Ultimamente, de fato, est\u00e1 ficando muito gorda. Que tenha um bom trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 De que assunto vos ocupais com tanta seriedade? Vinde, senhor; sou novamente vossa. Contai-nos uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Alegre ou triste?<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 A mais alegre que vos for poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Vai melhor com o inverno hist\u00f3ria triste. Conhe\u00e7o uma de esp\u00edritos e duendes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Vamos ouvi-la, bom senhor; sentai-vos aqui junto de mim, e que me causem medo vossos esp\u00edritos. Sois forte para contar hist\u00f3rias. Come\u00e7ai.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 Era uma vez um homem&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o, sentai-vos, para depois falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">MAM\u00cdLIO \u2014 &#8230;que residia perto do cemit\u00e9rio. \u2014 Aqueles grilos poder-me-iam ouvir; vou falar baixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Ent\u00e3o vinde falar-me aqui no ouvido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Leontes, Ant\u00edgono, nobres e outras pessoas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Encontraste-lo ali? Com todo o s\u00e9quito? Camilo estava junto?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Atr\u00e1s do bosque de pinheiros. Jamais tamanha pressa vira em ningu\u00e9m, assim. Acompanhei-os com a vista at\u00e9 aos navios.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Qu\u00e3o ditoso me julgo por sentir-me verdadeiro! Como as minhas suspeitas se confirmam! Antes soubesse menos! Qu\u00e3o maldito nessa felicidade \u00c9 conceb\u00edvel que uma aranha se esgueire para o copo de que venha a servir-se uma pessoa que, ap\u00f3s, o larga, sem que do veneno sinta qualquer efeito: \u00e9 que infectada n\u00e3o lhe estava a consci\u00eancia. Mas se aos olhos o nojoso ingrediente lhe apresentam, e ver lhe fazem como usara o copo, logo a garganta e os flancos se lhe estalam sob esfor\u00e7os violentos. No meu caso, bebi a aranha e a vi. De alcoviteiro Camilo lhe serviu, serviu de c\u00famplice contra a coroa. Ficam confirmadas, assim, minhas suspeitas. Esse falso vil\u00e3o que eu empregava, j\u00e1 se achava contratado por ele; descobriu-lhe meus planos, entregando-me ao rid\u00edculo, mais do que isso: em peteca transformando-me que, \u00e0 vontade, eles todos sopapeassem. Como foram franqueadas as poternas sem maior embara\u00e7o?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 T\u00e3o-somente em virtude da grande autoridade de que ele desfrutava e que, por vezes, mais do que isso alcan\u00e7ou sob vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Sei isso muito bem. \u2014 Dai-me o menino! Foi ventura n\u00e3o o teres criado ao peito. Muito embora nos tra\u00e7os se pare\u00e7a muito comigo, sobra nele o sangue que s\u00f3 de v\u00f3s prov\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Que \u00e9 isso? Gra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Levai daqui o menino; junto dela n\u00e3o conv\u00e9m que ele fique. Logo! Logo! (<i>Sai Mam\u00edlio, acompanhado.<\/i>) Ela que brinque com o de que est\u00e1 gr\u00e1vida. Quem te deixou t\u00e3o gorda foi Pol\u00edxenes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Digo que n\u00e3o foi ele, e o juro, certa de que me dareis cr\u00e9dito, conquanto propenso vos acheis para neg\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Senhores, contemplai esta mulher. Examinai-a bem. Certo dir\u00edeis: \u201cMuito bela pessoa!\u201d Mas, de pronto, vos f\u00f3r\u00e7ara a dizer a honestidade do cora\u00e7\u00e3o: \u201cQue pena n\u00e3o ser pura, mas desonesta!\u201d Elogiai-lhe apenas a apar\u00eancia exterior \u2014 que, sem ressalvas, merece alto discurso \u2014 que, de pronto vereis os \u201cAhs!\u201d e os \u201cHuns!\u201d e o encolher de ombros e todas essas pequeninas armas com que a cal\u00fania atua&#8230; Oh! enganei-me! com que a piedade atua, que a cal\u00fania mina a pr\u00f3pria virtude \u2014 o encolher de ombros, e os \u201cAhs!\u201d e os \u201cHuns!\u201d, no instante em que diss\u00e9sseis \u201cComo \u00e9 formosa!\u201d vos impediriam de acrescentar: \u201c\u00c9 honesta\u201d. Assim, que fique conhecido por quem mais sofre ante essa revela\u00e7\u00e3o: \u00e9 ad\u00faltera.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Se acaso fosse isso dito por um celerado, o mais completo que no mundo houvesse, mais celerado ainda se tornara. Mas v\u00f3s, senhor, vos enganais apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Minha senhora, houve um pequeno engano, t\u00e3o-s\u00f3, de vossa parte: em vez de Leontes, Pol\u00edxenes. \u00d3 coisa \u00e0-toa. Deixo de chamar-te criatura de teu posto, para que o barbarismo, aproveitando-se desse meu precedente, n\u00e3o aplique o mesmo nome a todas as pessoas, as posi\u00e7\u00f5es deixando confundidas de nobres e mendigos. Disse: \u00e9 ad\u00faltera, e o nome declarei de seu comparsa. Digo mais: \u00e9 traidora, e tem por c\u00famplice Camilo, que se encontra a par de quanto comunicar para ela fora opr\u00f3brio, tirante o seu parceiro: \u00e9 prostituta t\u00e3o baixa como aquelas a que o vulgo d\u00e1 nomes pouco limpos. Mais: \u00e9 c\u00famplice na fusa deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o, por minha vida; n\u00e3o sou c\u00famplice em nada. Que remorsos n\u00e3o sentireis, quando tiverdes plena certeza da injusti\u00e7a que, de p\u00fablico, me fazeis neste instante! Meu prezado senhor ser\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o pequena dizerdes-me que est\u00e1veis enganado.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o; se eu me engano quanto \u00e0 seguran\u00e7a dos alicerces sobre que edifico, n\u00e3o \u00e9 forte bastante o pr\u00f3prio centro da terra para sustentar o peso de uma simples pitorra de estudante. Para a pris\u00e3o com ela! Quem por ela quiser interceder, \u00e9 criminoso s\u00f3 por haver falado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Algum planeta nocivo est\u00e1 imperando; \u00e9 necess\u00e1rio mostrar paci\u00eancia, at\u00e9 que o c\u00e9u assuma fei\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel. Meus bondosos senhores, nunca fui propensa ao choro, como em geral se d\u00e1 com o nosso sexo. Possivelmente a falta desse in\u00fatil orvalho secar\u00e1 vossa piedade. Mas aqui sinto aquela dor honrosa que abrasa em demasia, porque possa ser apagada por algumas l\u00e1grimas. A todos v\u00f3s, senhores, pe\u00e7o, instante, que me julgueis com \u00e2nimo t\u00e3o brando quando ditar vos possa a caridade. Seja feita a vontade do monarca.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES (<i>aos guardas<\/i>) \u2014 Serei obedecido?<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Quem vem comigo? Pe\u00e7o a Vossa Alteza deixar que minhas damas me acompanhem, pois bem o vedes, meu estado o exige. Bobinhas, n\u00e3o choreis; n\u00e3o h\u00e1 motivo. Se porventura ouvirdes que vossa ama mereceu ficar presa, a flux chorai quando me libertarem. A presente acusa\u00e7\u00e3o vai ser-me proveitosa. Adeus senhor; jamais quis ver-vos triste, mas triste heis de ficar, tenho certeza. Vinde senhoras; tendes permiss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Fazei o que eu mandei. Levai-a logo! (<i>Sai a minha, escoltada, e as damas de companhia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Suplico a Vossa Alteza que de novo mande vir a rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Agi com muita cautela, meu senhor, porque a justi\u00e7a n\u00e3o se mude em viol\u00eancia, o que seria causa de sofrimento triplicado: para v\u00f3s, vossa esposa e vosso filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Por ela, meu senhor, empenho a vida \u2014 como o fa\u00e7o; aceitai-a \u2014 em como \u00e9 pura ante os olhos do c\u00e9u e vossa vista, no que respeita \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Se se provar que ela n\u00e3o \u00e9 honesta, farei uma cocheira do meu quarto de casado e andarei emparelhado sempre com minha esposa, sem que venha dela a me fiar da\u00ed por diante, a menos que a veja ou toque nela. Se a rainha n\u00e3o for s\u00e9ria, n\u00e3o h\u00e1 no mundo todo uma s\u00f3 polegada de mulher, uma dracma de carne delas todas, que falsa n\u00e3o se mostre.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Ficai quietos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Meu bom senhor&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Por v\u00f3s \u00e9 que falamos, n\u00e3o por n\u00f3s mesmos. Fostes iludido por algum intrigante que, por isso, h\u00e1 de ser condenado eternamente. Se eu soubesse quem \u00e9 este canalha, f\u00e1-lo-ia achar na terra o pr\u00f3prio inferno. Ela prevaricar!&#8230; Tenho tr\u00eas filhas: a mais velha de onze anos; as menores, de sete, uma, e a outra cinco, mais ou menos. Se for verdade, h\u00e3o de pagar-me todas. Hei de esteriliz\u00e1-las&#8230; Por minha honra. N\u00e3o chegar\u00e3o a completar quatorze, porque a gerar n\u00e3o venham filhos falsos. S\u00e3o co-herdeiras; mas prefiro ver-me mutilado, a que tenham s\u00f3 bastardos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Basta! Parai com isso! Nisso tudo tomais da coisa o cheiro com sentido frio como o nariz de um pr\u00f3prio morto. Mas eu a vejo e sinto, como agora sentis o que vos fa\u00e7o, e mais: percebo, o \u00f3rg\u00e3o com que sinto isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Sendo certo, cavar n\u00e3o precisamos sepultura, para nela enterrar a honestidade. N\u00e3o remanesce dela parte m\u00ednima, para purificar esta esterqueira que abrange toda a terra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como! Vejo que n\u00e3o acreditais no que vos digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Sobre esse assunto, meu senhor, prefiro que sejais v\u00f3s, n\u00e3o eu, o mentiroso. Mais me alegra saber que ela est\u00e1 pura do que ver confirmada esta suspeita, por mais que nisto o mundo vos censure.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Por que vos dar explica\u00e7\u00e3o do caso? Antes obedecer ao pr\u00f3prio impulso. Dispensar podem nossos privil\u00e9gios vosso conselho em tudo, sendo apenas nossa bondade inata que vos chama para dar opini\u00e3o. Assim, se agora \u2014 por estardes perplexos ou fingirdes grande estupefa\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o conseguirdes, ou n\u00e3o quiserdes, como n\u00f3s, dobrar-vos \u00e0 verdade dos fatos, ficai certos de que vos dispensamos o conselho; o fato, a perda, o lucro, todo o curso, s\u00f3 a n\u00f3s dir\u00e1 respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 E eu desejara, meu soberano, que em sil\u00eancio houv\u00e9sseis considerado o assunto, sem lhe terdes dado publicidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como fora poss\u00edvel fazer isso? Ou vos tomastes, com os anos, ignorante, ou j\u00e1 nascestes rematado pateta. Bastariam a fuga de Camilo e a mui not\u00f3ria familiaridade entre eles \u2014 t\u00e3o patente como jamais suspeita alguma vira, e que faltava apenas ser notada, para ser confirmada integralmente, provando o fato as outras circunst\u00e2ncias \u2014 para levar-me a agir dessa maneira. Contudo, para ver minha conduta mais refor\u00e7ada ainda \u2014 que em assunto de tanta relev\u00e2ncia, condenada fora qualquer viol\u00eancia \u2014 mensageiros despachei ao sagrado Delfo, ao templo de Apolo: Dion e Cle\u00f3menes, bastante conhecidos de v\u00f3s, como homens \u00edntegros. Dessa resposta tudo ora depende.,O divino conselho ir\u00e1 acalmar-me ou esporear-me ainda mais. N\u00e3o estou certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Cert\u00edssimo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Embora convencido eu j\u00e1 me encontre, sem precisar de saber mais, o or\u00e1culo vir\u00e1 servir para acalmar o esp\u00edrito dos que, como este, por credulidade da ignor\u00e2ncia, n\u00e3o podem convencer-se da verdade dos fatos. Desse modo, de bom aviso pareceu-nos p\u00f4-la sob chaves, para que ela n\u00e3o consiga levar a cabo a trama forjicada pelos dois que fugiram. Vinde logo; p\u00fablico vou tornar o que ora passa. Este neg\u00f3cio vai movimentar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Para boas risadas, \u00e9 o que eu penso, se a verdade chegar a ser sabida.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv22\" name=\"inv22\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo, O interior de uma pris\u00e3o. Entram Paulina e alguns criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 O carcereiro da pris\u00e3o! Chamai-o.,Dizei-lhe quem eu sou. (<i>Sai um dos criados.<\/i>) Nobre senhora! N\u00e3o h\u00e1 corte na Europa suficiente para tua pessoa. E agora presa! (<i>Volta o criado com o carcereiro.<\/i>) Bom senhor, conheceis-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 Se conhe\u00e7o? Sim, como uma senhora muito digna, a quem muito venero.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Nesse caso, por obs\u00e9quio, levai-me at\u00e9 \u00e0 rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 \u00c9 imposs\u00edvel, senhora, pois tenho ordens expressas em contr\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Quanta formalidade, para o acesso impedir de visitas amistosas \u00e0 honestidade e \u00e0 honra! \u00c9 permitido, dizei-me, ver uma de suas damas? Em\u00edlia, por exemplo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 Se quiserdes, minha senhora, retirar os criados, mandarei vir Em\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Ent\u00e3o chamai-a. Retirai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio que eu assista \u00e0 conversa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Pois que seja. (<i>Sai o carcereiro.<\/i>) Ultrapassa os preceitos da pr\u00f3pria arte todo esse esfor\u00e7o para deixar preto o que \u00e9, em si mesmo, branco. (<i>Volta o carcereiro, com Em\u00edlia.<\/i>) Gentil dama, a graciosa rainha como passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 T\u00e3o bem quanto, reunidos, o permitem t\u00e3o alto posto e tanta desventura. Os sustos e as tristezas \u2014 jamais dama t\u00e3o delicada suportou tamanhas \u2014 provocaram-lhe o parto antes do tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 N\u00e3o, menina; bela crian\u00e7a, forte e cheia de vida. Sua vista consola a rainha, que lhe fala: \u201cMinha pequena prisioneira, somos ambas inocentes\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Atrevo-me a jur\u00e1-lo: malditos sejam esses perigosos acessos do monarca. E necess\u00e1rio contar-lhe o que houve; tem de saber tudo. Isso compete a uma mulher; incumbo-me de lhe dar a not\u00edcia. Se disser-lhe palavras doces, quero que na l\u00edngua me rebentem feridas, cessando ela de servir de trombeta para a minha c\u00f3lera de fei\u00e7\u00f5es congestionadas. Emilia, por obs\u00e9quio, recomenda \u00e0 rainha meus pr\u00e9stimos. No caso de ela querer confiar-me a pequerrucha, mostr\u00e1-la-ei ao monarca, prometendo servir-lhe de advogado diligente. Quem sabe se ele ficar\u00e1 mais brando \u00e0 vista da menina? Muitas vezes o sil\u00eancio da c\u00e2ndida inoc\u00eancia persuade onde os discursos fracassaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Muito digna senhora, t\u00e3o patente \u00e9 vossa honra e a bondade muito pr\u00f3pria, que n\u00e3o pode deixar de ter bom \u00eaxito vossa nobre entrepresa. N\u00e3o conhe\u00e7o senhora alguma mais talhada para t\u00e3o grande iniciativa. Queira Vossa Senhoria esperar no quarto anexo, que logo eu vou participar rainha vossa nobre proposta. Hoje mesmo ela pensara nisso; mas n\u00e3o se atrevera a dar essa incumb\u00eancia a qualquer nobre, com medo de um fracasso.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Emilia dize-lhe que eu saberei uso fazer da l\u00edngua. Se fluir dela eloq\u00fc\u00eancia como aud\u00e1cia no peito ora me estua, \u00e9 quase certo ser eu bem sucedida.<\/p>\n<p align=\"justify\">EM\u00cdLIA \u2014 Deus vos guie. Vou ver logo a rainha. Por obs\u00e9quio, vinde para mais perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CARCEREIRO \u2014 Se a rainha se decidir a vos confiar a crian\u00e7a, n\u00e3o sei ao que me exponho, pois care\u00e7o de ordens nesse sentido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Ora, senhor, n\u00e3o precisais ter medo; prisioneira do ventre era essa crian\u00e7a; mas por normas e processos da grande natureza conseguiu resgatar-se e ficar livre. Participar n\u00e3o pode, assim, da c\u00f3lera do soberano, nem tem culpa alguma da falta da rainha se houve falta.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Podeis ficar tranq\u00fcilo.Por minha honra, hei de p\u00f4r-me de permeio entre v\u00f3s e o perigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv23\" name=\"inv23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto no pal\u00e1cio. Entram Leontes, Ant\u00edgono, nobres e pessoas do s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Repouso algum de dia nem de noite. \u00c9 sinal de fraqueza suportarmos o mal dessa maneira; s\u00f3 fraqueza. Se ao menos estivesse a causa extinta&#8230; parte da causa: a ad\u00faltera; que o biltre do rei se encontra longe do meu bra\u00e7o, fora do alvo e mirada de meus planos, completamente impune. Mas n\u00e3o posso passar o gancho nela. Se deixasse de existir, consumida pelas chamas, metade do repouso, certamente, de novo alcan\u00e7aria. Quem vem l\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Meu soberano&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como est\u00e1 o menino?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO CRIADO \u2014 Dormiu a noite toda. \u00c9 de esperar-se que se restalebe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Para a sua nobreza contemplar! Tendo a desonra compreendido da m\u00e3e, come\u00e7ou logo a estiolar-se, murchou, sentindo muito profundamente tudo o que passara. Aceitou a vergonha como pr\u00f3pria; perdeu toda a alegria, a fome, o sono, e entrou de definhar. Deixai-me s\u00f3. Ide ver como passa neste instante. (<i>Sai o Criado.<\/i>) Oh vergonha! tiremo-lo da id\u00e9ia. O pensamento de querer vingar-me se vira contra mim. \u00c9 poderoso por demais, em si mesmo, al\u00e9m da ajuda dos parentes e aliados. Pois deixemo-lo, at\u00e9 que o tempo nisso me auxilie. Por enquanto, a vingan\u00e7a a atinge, apenas. Zombam de mim Camilo e o Rei da Bo\u00eamia; brincam com minha dor. Mas muito tempo n\u00e3o h\u00e3o de rir, que hei de alcan\u00e7\u00e1-los breve. Tampouco rir\u00e1 ela, porque a tenho bem presa agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Paulina, com uma crian\u00e7a nos bra\u00e7os.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 N\u00e3o podeis entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Ora, meus bons senhores, ajudai-me, que o podeis. Mais valor dais \u00e0 tir\u00e2nica c\u00f3lera dele do que \u00e0 pr\u00f3pria vida da rainha? Ela, uma alma t\u00e3o graciosa, que mais pureza tem do que ele ci\u00fame?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 \u00c9 quanto basta.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO CRIADO \u2014 Toda a noite insone, senhora, ele passou, tendo dado ordem para que ningu\u00e9m viesse perturb\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Menos calor, meu bom senhor. Eu venho trazer-lhe sono, apenas. As pessoas como v\u00f3s, que se esgueiram perto dele como se fossem sombras, e suspiram quantas vezes sem causa ele se agita, \u00e9 que alimentam toda a sua ins\u00f3nia. Eu, palavras lhe trago, assim verazes como medicinais, ten\u00e7\u00f5es honestas para purg\u00e1-lo desse humor nocivo, que o impede de dormir.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quem faz barulho?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 N\u00e3o \u00e9 barulho, meu senhor; apenas uma conversa necess\u00e1ria, acerca de alguns compadres para Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como! Levai daqui essa audaciosa! Ant\u00edgono, eu te havia prevenido de que n\u00e3o deveria essa mulher chegar perto de mim. Sabia que ela tentaria isso mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Disse-lhe isso, meu senhor, e observei que ela incorria no desagrado vosso e meu, se acaso tentasse visitar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como! Falta-te energia? N\u00e3o mandas ent\u00e3o nela?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Para impedir de fazer mal, decerto. Mas nisto, a menos que vos siga o exemplo, prendendo-me por presa da honra achar-me, ficai certo de que ele em mim n\u00e3o manda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 V\u00f3s a ouvistes? Quando ela toma as r\u00e9deas nos dentes, disparar a deixo sempre. Nunca trope\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Venho, meu bondoso soberano, pedir que me escuteis. Vossa leal serva eu sou, sou vossa m\u00e9dica, conselheira obediente e dedicada. Mas para vossa cura n\u00e3o me atrevo a me insinuar, tal como o fazem muitos daqui mesmo. Da parte venho, disse, de vossa boa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Boa esposa!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Boa esposa, milorde; boa esposa. Repito: boa esposa; e pelas armas isso mesmo provara, se homem fosse, o pior dentre os presentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Expulsai-a daqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Quem n\u00e3o prezar os pr\u00f3prios olhos, de leve ora me toque. Por vontade sairei. Antes, por\u00e9m, darei remate \u00e0 miss\u00e3o a que vim. A boa rainha \u2014 pois boa ela \u00e9 \u2014 teve uma filha vossa. Ei-la! Para ela pede a vossa b\u00ean\u00e7\u00e3o. (<i>Dep\u00f5e a crian\u00e7a no ber\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Fora daqui, virago feiticeira! Alcoviteira infame!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 N\u00e3o sou isso. T\u00e3o ignorante sou de tal of\u00edcio, quanto v\u00f3s em me dardes esse t\u00edtulo, e t\u00e3o honesta sou quanto v\u00f3s, louco, o que, no estado em que se encontra o mundo, posso afian\u00e7ar-vos, chega at\u00e9 de sobra para a gente ser tida como honesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Traidores! N\u00e3o a jogareis l\u00e1 fora? Entregai-lhe a bastarda! (<i>A Ant\u00edgono.<\/i>) Velho tonto, t\u00edtere das mulheres, que abandonas o poleiro por causa destes gritos! Levai daqui a bastarda e a entregai logo a essa velha sem dentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Desonradas as m\u00e3os te fiquem sempre, se tocares na princesa, depois do termo baixo que ele falou.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Tem medo da mulher!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Quisera que da vossa vos temesseis, pois desse modo, com maior certeza, de vossos chamar\u00edeis vossos filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Ninhada de traidores!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 N\u00e3o sou traidor; por esta luz divina.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Nem eu, tampouco; nem ningu\u00e9m, exceto, dos presentes, um s\u00f3, que \u00e9 ele mesmo, pois sua honra sagrada, a da rainha, do filho esperan\u00e7oso, desta crian\u00e7a, \u00e0 cal\u00fania entregou, cujos ac\u00faleos ferem mais do que a espada. Ele recusa-se \u2014 e no caso presente \u00e9 verdadeira maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o podermos constrang\u00ea-lo a extirpar uma id\u00e9ia que \u00e9 t\u00e3o podre quanto o carvalho e a pedra s\u00e3o sadios.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Uma ralheta de infind\u00e1vel l\u00edngua, que bateu no marido e ora me ati\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 minha essa crian\u00e7a; \u00e9 de Pol\u00edxenes; retirai-a daqui e, juntamente com a m\u00e3e, lan\u00e7ai-a ao fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 \u00c9 vossa filha, sim. O antigo prov\u00e9rbio poderia ter hoje aplica\u00e7\u00e3o: \u201cT\u00e3o parecida convosco, que d\u00e1 pena\u201d. Contemplai-a, senhores: muito embora seja a c\u00f3pia por demais reduzida, o texto inteiro reproduz o do pai. A boca, os olhos, o todo carrancudo, a testa, o riso, as covinhas das faces e do queixo, o feitio exat\u00edssimo dos dedos, das unhas, da m\u00e3o toda&#8230; Natureza, deusa bondosa, que fizeste, para tanto ela ao genitor ser parecida? Se a alma tamb\u00e9m plasmares, o amarelo de entre as cores exclui, para que um dia, como ele, a suspeitar ela n\u00e3o venha que n\u00e3o s\u00e3o do marido os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Bruxa grosseira! E tu, sujeito \u00e0-toa! Merecias a forca por n\u00e3o teres poder para faz\u00ea-la ficar quieta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Enforcai os maridos que n\u00e3o podem realizar essa proeza, e escassamente vos sobrar\u00e1 um s\u00fadito.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 De novo vos ordeno: tirai-a daqui logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 O mais desnaturado e indigno esposo n\u00e3o faria pior.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quisera-ver-te numa fogueira.<\/p>\n<p align=\"justify\">PALINA \u2014 Pouco me incomodo. Her\u00e9tico \u00e9 quem lan\u00e7a fogo \u00e0 pira, n\u00e3o quem nela se extingue. N\u00e3o vos chamo de tirano; por\u00e9m o modo indigno por que tratais a esposa \u2014 sem poderdes acus\u00e1-la de nada, afora a vossa pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o t\u00e3o mal parada \u2014 mostra certo sabor de tirania, deixando-vos ign\u00f3bil, mais do que isso: vergonha para o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Pelo vosso penhor de vassalagem, retirai-a daqui, sem mais tardan\u00e7a. Se eu, de fato, fosse tirano, ela estaria viva? Se tivesse certeza de que eu o era, n\u00e3o me viria agora dizer isso. Levai-a daqui logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Por obs\u00e9quio, n\u00e3o precisais puxar-me; irei sozinha. Tomai conta, senhor, de vossa filha; \u00e9 vossa. Possa Jove conceder-lhe melhor anjo da guarda. Para que essas m\u00e3os sobre mim? Mostrando-vos zelosos a esse ponto com todas as loucuras que ele fizer, s\u00f3 lhe sereis nocivos. Deixai! Deixai! Meus. J\u00e1 nos partimos. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Traidor, isso \u00e9 obra tua. Espica\u00e7aste contra mim tua esposa. Minha a filha! Levai-a daqui logo! E se te mostras t\u00e3o compassivo assim, carrega-a. Vamos! E que depressa as chamas a consumam. Tu, justamente! Tu! Carrega-a logo! Antes de uma hora volta com a not\u00edcia de que foram cumpridas minhas ordens. Mas bem testemunhado! Do contr\u00e1rio, hei de tirar-te a vida e o que mais tenhas. Se te recusas, pretendendo contra minha c\u00f3lera opor-te, dize logo, que com estas m\u00e3os farei saltar o c\u00e9rebro desta bastarda. Leva-a para o fogo, j\u00e1 que ati\u00e7aste contra mim tua esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 N\u00e3o fiz tal, meu senhor. Estes fidalgos, meus nobres companheiros, se o quiserem, podem justificar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Sim, podemos, meu soberano; n\u00e3o tem culpa alguma da vinda da mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Sois mentirosos, sem exce\u00e7\u00e3o de um s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Vossa Grandeza poderia ter-nos em melhor conta. Sempre vos servimos fielmente; fora justo que nesta hora reconhec\u00easseis isso. Suplicamo-vos de joelhos, como pr\u00eamio dos servi\u00e7os \u2014 passados e futuros que esse intento vos apraza mudar. \u00c9 horr\u00edvel, t\u00e3o sanguin\u00e1rio, para que n\u00e3o tenha conseq\u00fc\u00eancias nefastas. Ajoelhamo-nos todos a um tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Sou pluma que se agita a qualquer vento? Terei de ver um dia essa bastarda vir ajoelhar-se em minha frente, para dar-me o nome de pai? \u00c9 prefer\u00edvel queim\u00e1-la agora, a ter de amaldi\u00e7o\u00e1-la. Pois veja. Fique viva. Ser\u00e1 o mesmo: n\u00e3o viver\u00e1. (<i>A Ant\u00edgono<\/i>) Senhor, aproximai-vos. J\u00e1 que mostrais t\u00e3o grande empenho, ao lado dessa parteira, dona Margarida, para salvar a vida da bastarda \u2014 pois \u00e9 o que ela \u00e9; t\u00e3o certo como achar-se grisalha minha barba \u2014 que far\u00edeis para salvar a vida desta coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Tudo o de que eu fosse capaz, milorde, e que a honra n\u00e3o condene. Ao menos isto: empenharei o sangue que me resta, para a vida salvar desta inocente. Tudo o que for poss\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Vou mandar-te fazer algo poss\u00edvel. Jura agora por esta espada que h\u00e1s de obedecer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Obede\u00e7o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Toma bem nota, e cumpre o que eu mandar \u2014 est\u00e1s ouvindo? \u2014 pois o n\u00e3o cumprimento de uma parte qualquer das instru\u00e7\u00f5es, implica morte n\u00e3o para ti, apenas, para a tua mulher de l\u00edngua solta, a que perdoamos por esta vez. Ordeno-te, portanto, j\u00e1 que \u00e9s nosso vassalo, de pegares esta bastarda e a transportares para qualquer lugar deserto e bem distante, fora de nossas terras, a\u00ed deixando-a sem mais piedade, entregue \u00e0 sua pr\u00f3pria prote\u00e7\u00e3o e \u00e0 merc\u00ea do \u00e1spero clima. Acaso estranho a nossas m\u00e3os a trouxe. Com justi\u00e7a, pois, ora te encarrego \u2014 sob amea\u00e7a de morte e de torturas \u2014 de estranhamente nalgum ponto a pores, onde o acaso a alimente ou a estru\u00ed-la venha. Vamos: leva-a daqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Juro faz\u00ea-lo, embora a morte r\u00e1pida lhe fosse caridade maior. Que algum esp\u00edrito potente ensine aos corvos e aos milhanos a te servirem de ama. Os pr\u00f3prios ursos e os lobos, dizem, da ferocidade natural se despindo, j\u00e1 mostraram tais provas de piedade. Feliz sede, senhor, mais do que o pede esta fa\u00e7anha. E que a b\u00ean\u00e7\u00e3o celeste te proteja, pobre coisinha condenada \u00e0 morte. (<i>Sai, levando a crian\u00e7a.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o hei de criar filhos dos outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Se Vossa Alteza o permitir, h\u00e1 uma hora chegou o correio, novas nos trazendo da embaixada que enviastes ao or\u00e1culo. J\u00e1 voltaram de Delfo Dion e Cle\u00f4menes; pisaram terra e marcham para a corte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Com permiss\u00e3o, senhor, mas essa pressa ultrapassa qualquer expectativa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Vinte e tr\u00eas dias lhes durou a viagem. Tal rapidez \u00e9 ind\u00edcio de que Apolo deseja que a verdade logo surja. Convocai logo uma sess\u00e3o, senhores, ante a qual possa aparecer a nossa muito desleal esposa. Tendo sido de p\u00fablico acusada, \u00e9 necess\u00e1rio que a senten\u00e7a tamb\u00e9m seja solene. Ser-me-\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o peso angustioso enquanto ela viver. Deixai-me agora e refleti em tudo o que vos disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sic\u00edlia \u2014 Rua numa cidade. Entram Cle\u00f4menes e Dion.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 O clima \u00e9 delicado, o ar muito ameno, por demais f\u00e9rtil a ilha, ultrapassando de muito o templo os usuais enc\u00f4mios.<\/p>\n<p align=\"justify\">DION \u2014 Elogiar-me apraz o que mais fundo me impressionou: as vestes celestiais \u2014 esse \u00e9 o termo apropriado, me parece \u2014 e a dignidade de seus graves donos. E o sacrif\u00edcio? Qu\u00e3o cerimonioso, solene e extraterreno foi o of\u00edcio!<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 A voz atroadora, sobretudo, do or\u00e1culo, que lembra o pr\u00f3prio estrondo dos trov\u00f5es do alto Jove, surpreendidos os sentidos deixou-me, aniquilando-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">DION \u2014 Se o resultado dessa nossa viagem for t\u00e3o feliz para a rainha \u2014 Oh! seja dessa maneira, sim! \u2014 como agrad\u00e1vel nos foi, r\u00e1pida e rara, n\u00e3o teremos perdido nosso tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 Grande Apolo, d\u00e1 bom \u00eaxito a tudo! N\u00e3o me agradam essas proclama\u00e7\u00f5es que insistem tanto sobre faltas de Herm\u00edone.<\/p>\n<p align=\"justify\">DION \u2014 A viol\u00eancia com que \u00e9 levado avante esse processo, vai p\u00f4r fim ao assunto ou esclarec\u00ea-lo. Quando for lido o or\u00e1culo, selado pelo antiste de Apolo, algo mui raro ficar\u00e1 conhecido. Vamos logo. Cavalos frescos, e que venturoso seja o fim de tudo isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv32\" name=\"inv32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sic\u00edlia. Uma corte de justi\u00e7a. Leontes, nobres e oficiais.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Esta sess\u00e3o \u2014 com grande pesadume \u00e9 que o dizemos nos abala o peito. A r\u00e9 \u00e9 filha de um monarca e nossa muito prezada esposa. A pecha tira-nos de tirania o fato de ser p\u00fablico todo o processo, que h\u00e1 de seguir nisso seu curso natural, at\u00e9 \u00e0 senten\u00e7a condenat\u00f3ria ou \u00e0 plena absolvi\u00e7\u00e3o. Trazei a prisioneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Apraz a Sua Alteza que a rainha apare\u00e7a em pessoa ante esta corte. Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Herm\u00edone, com guardas, Paulina e damas de companhia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Lede a acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 \u201cHerm\u00edone, esposa do digno Leontes, Rei da Sic\u00edlia, \u00e9s acusada e aqui citada por crime de alta trai\u00e7\u00e3o, por teres cometido adult\u00e9rio com Pol\u00edxenes, Rei da Bo\u00eamia, e conspirado com Camilo para tirar a vida do rei, nosso soberano senhor, teu real esposo. Tendo sido esse prop\u00f3sito descoberto em parte pelas circunst\u00e2ncias, tu, Herm\u00edone, contrariamente \u00e0 fidelidade e obedi\u00eancia pr\u00f3prias de um leal s\u00fadito, entraste em conchavo com eles e os ajudaste, para sua maior seguran\u00e7a, a fugir durante a noite?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 J\u00e1 que quanto eu pudesse ora dizer-vos consistiria apenas no protesto contra essa acusa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me amparando E nenhuma testemunha, afora eu pr\u00f3pria, quase n\u00e3o me aproveita declarar-me \u201cN\u00e3o culpada\u201d. Uma vez que est\u00e1 estimada minha virtude como hipocrisia, quanto eu viesse a dizer, do mesmo modo ser\u00e1 interpretado. Apenas isto: se os poderes divinos se interessam pelos atos humanos, como o fazem, n\u00e3o duvido de que minha inoc\u00eancia far\u00e1 corar a acusa\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita e tremer, ante a calma, a tirania. V\u00f3s, meu senhor, sabeis perfeitamente \u2014 conquanto simuleis ora o contr\u00e1rio \u2014 que toda minha vida foi t\u00e3o pura, t\u00e3o leal e casta, quanto desgra\u00e7ada presentemente sou, mais do que todos os exemplos da hist\u00f3ria, sem excluirmos os casos de inven\u00e7\u00e3o postos em cena, para abalar o p\u00fablico. Ora vede-me: companheira de leito de um monarca, tendo direito a parte igual no trono, filha de um grande rei e m\u00e3e de um pr\u00edncipe esperan\u00e7oso, compare\u00e7o \u00e0 barra de um tribunal, para falar acerca da honra e da vida, ante qualquer pessoa que me deseje ouvir. A vida, estimo-a como dor, que de grado evitaria; quanto \u00e0 honra, \u00e9 heran\u00e7a que transmito aos meus. Por isso, defend\u00ea-la me proponho. Senhor, apelo para vossa pr\u00f3pria consci\u00eancia. Antes de haver a vossa corte Pol\u00edxenes chegado, n\u00e3o me achava na vossa gra\u00e7a, e digna n\u00e3o me tinha dela sempre mostrado? E, ap\u00f3s sua vinda, por que conduta extraordin\u00e1ria, acaso, me mostrei censur\u00e1vel, para, agora, ser citada a esta c\u00f4rte? Se os limites da honra ultrapassei de um fio, apenas; se por a\u00e7\u00f5es ou pensamentos a isso me sentisse inclinada, endurecido torne-se o cora\u00e7\u00e3o dos que me escutam, e que as pessoas que me s\u00e3o mais pr\u00f3ximas a pelo sangue me insultem sobre o t\u00famulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Jamais ouvi dizer que esses ousados v\u00edcios fossem dotados de impud\u00eancia menor para negar seus pr\u00f3prios atos, que para os praticar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 \u00c9 muito certo; conquanto isso, senhor, n\u00e3o se me aplique.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o quereis confessar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel reconhecer sen\u00e3o os meus defeitos inevit\u00e1veis. Quanto ao Rei Pol\u00edxenes, de quem me fazeis c\u00famplice, confesso que amor lhe dedicava tal como ele de mim, sem quebra de honra, esperaria, uma esp\u00e9cie de amor que condissesse com minha posi\u00e7\u00e3o, amor em nada diferente do que v\u00f3s pr\u00f3prio hav\u00edeis recomendado que lhe revelasse. Se ent\u00e3o eu me tivesse conduzido por outro modo, certo eu me mostrara desobediente em rela\u00e7\u00e3o a v\u00f3s e ingrata para o amigo, cujo afeto, desde que falar p\u00f4de, desde a inf\u00e2ncia, se declarou por vosso, livremente. Quanto \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o, o gosto ignoro-lhe, muito embora me fosse ela servida, porque dela provasse. S\u00f3 o que posso dizer \u00e9 que Camilo \u00e9 homem probo. Mas a raz\u00e3o de haver ele deixado vossa corte, se os deuses, sobre o assunto, souberem o que eu sei, s\u00e3o ignorantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Sab\u00edeis, sim, da parte dele, como tamb\u00e9m sab\u00edeis quanto era preciso fazer em sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 N\u00e3o compreendo, senhor, vossa linguagem. Minha vida se acha a tiro, t\u00e3o-s\u00f3, de vossos sonhos; aqui vo-la deponho.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Vossos atos s\u00e3o meus sonhos; sonhei que de Pol\u00edxenes tivestes um bastardo. Distanciada vos achais da vergonha \u2014 que as mulheres dessa laia o est\u00e3o sempre \u2014 como longe da verdade dos fatos. Contest\u00e1-los vos compete, sem que isso, agora, possa vos ser de algum proveito, pois tal como jogado fora foi o teu produto \u2014 destino justo \u2014 por ser carecente de um pai que o reclamasse \u2014 maior culpa te cabe neste ponto do que a ele \u2014 agora vais sentir nossa justi\u00e7a, que em seu curso mais brando, nada menos do que pena de morte te comia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Poupai vossas amea\u00e7as; o espantalho com que me amedrontais, eu o procuro. J\u00e1 n\u00e3o posso ter gosto nesta vida; sua coroa e m\u00e1xima ventura \u2014 vossa confian\u00e7a \u2014 dou como perdida, pois sinto que se foi, embora ignore como isso aconteceu. Minha segunda alegria, prim\u00edcias deste corpo, me foi tirada, como se terr\u00edvel infec\u00e7\u00e3o eu tivesse. Meu terceiro consolo, malfadada pelos astros, dos seios me arrancaram \u2014 leite puro na boquinha t\u00e3o pura! \u2014 para \u00e0 morte ser arrastada. Eu pr\u00f3pria, proclamada pelos postes como uma prostituta; um \u00f3dio cego me negou o direito de parto, concedido \u00e0s m\u00e3es de todas as posi\u00e7\u00f5es. Por fim, fui arrastada para aqui, em pleno ar, antes de as for\u00e7as haver recuperado. Ora dizei-me, meu soberano, que felicidades esperar posso, ainda, desta vida, para temer a morte? Por tudo isso, prossegui; mas ouvi-me estas palavras; minha vida, avalio-a como palha. Quanto \u00e0 minha honra, desejara v\u00ea-la sem mancha alguma. Sendo eu condenada por suspeitas, apenas, dormitando todas as provas favor\u00e1veis, menos as que vosso ci\u00fame ora desperta, digo que isso \u00e9 crueldade, n\u00e3o justi\u00e7a. A v\u00f3s nobres, declaro que confio plenamente no or\u00e1culo. H\u00e1 de Apolo ser meu juiz.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 \u00c9 justo esse desejo. Em nome, pois, de Apolo, que se tornem conhecidas de vez suas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem alguns oficiais.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 O Imperador da R\u00fassia foi meu pai. Oh! Se vivo estivesse e, agora, visse sua filha ante os ju\u00edzes! Contemplara minha total mis\u00e9ria; mas com olhos brandos de compaix\u00e3o, n\u00e3o de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam os oficiais, com Cle\u00f4menes e Dion.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Agora ides jurar sobre esta espada da justi\u00e7a, Cle\u00f4menes e Dion, que estivestes em Delfo e que trouxestes de l\u00e1, realmente, este selado or\u00e1culo, recebido das m\u00e3os do sacerdote do grande Apolo, e que de ent\u00e3o at\u00e9 hoje n\u00e3o tivestes o ousio de viol\u00e1-lo, quebrando o sacro selo, para o texto secreto conhecerdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES e DION \u2014 Sim, juramos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 \u201cHerm\u00edfone \u00e9 casta; Pol\u00edxenes, sem mancha; Camilo, um s\u00fadito leal; Leontes, um tirano ciumento; seu inocente filho, legitimamente concebido; e o rei viver\u00e1 sem herdeiro, se n\u00e3o for achado o que foi perdido.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRES \u2014 Bendito seja o grande Apolo!<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 Seja louvado eternamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Leste certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">OFICIAL \u2014 Sim, milorde; tal como se acha escrito.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o h\u00e1 verdade alguma nesse or\u00e1culo. Continue a sess\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 mentira.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhor! O rei! O rei!<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Que acontece?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 \u00d3 senhor, vou tornar-me odiado, apenas por vos dar a not\u00edcia; mas o pr\u00edncipe, vosso filho, de medo e de tristeza pela sorte da rainha, acabou indo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Acabou indo, como?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Sim, morreu.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Apolo est\u00e1 zangado; o pr\u00f3prio c\u00e9u me castiga a injusti\u00e7a. (<i>Herm\u00edone desmaia.<\/i>) Ent\u00e3o? Levai-a!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 A nova foi fatal para a rainha. Vede o que a morte est\u00e1 fazendo nela.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Retirai-a daqui. Muito oprimido tem ela o cora\u00e7\u00e3o. Vai refazer-se. Dei cr\u00e9dito excessivo \u00e0s minhas pr\u00f3prias suspeitas. Por obs\u00e9quio, ministrai-lhe drogas que a fa\u00e7am retornar \u00e0 vida. (<i>Saem Paulina e as damas, sustentando Herm\u00edone.<\/i>) Perdoa, Apolo, a minha irrever\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao teu sagrado or\u00e1culo. Hei de reconciliar-me com Pol\u00edxenes, reconquistar a esposa, o bom Camilo chamar de novo, proclamando-o s\u00fadito verdadeiro e bondoso, pois, levado por pensamento sanguin\u00e1rio \u00e0 id\u00e9ia de vingan\u00e7a escolhi Camilo para dar veneno ao meu quase irm\u00e3o Pol\u00edxenes, o que teria sido executado, se Camilo, de esp\u00edrito bondoso, n\u00e3o houvesse atrasado minhas ordens precipitadas, ainda que com pr\u00eamios e amea\u00e7as rigorosas eu tivesse querido intimid\u00e1-lo e encoraj\u00e1-lo Nada fazendo, tudo fez; Camilo, com muita humanidade e a honra escutando, contou todo o meu plano ao meu real h\u00f3spede, abandonou seus bens, que eram vultosos, como o sabeis, e se confiou de todo ao jogo certo da fortuna inst\u00e1vel, sem mais riqueza que a honra. Como a minha ferrugem lhe ressalta o brilho pr\u00f3prio! Como a sua piedade torna as minhas a\u00e7\u00f5es mais pretas ainda!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Paulina.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Que desgra\u00e7a! Vinde desapertar-me o la\u00e7o, para que, fazendo-o romper, n\u00e3o se me estale de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Que houve, senhora?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Tirano, que tormentos inventaste para minha tortura? Que fogueiras, rodas, tratos, flagelos, que fervuras, em \u00f3leo ou chumbo, para mim se aprestam? Que mart\u00edrios, antigos ou recentes, me esperam, se cada uma das palavras que eu disser, em resposta, s\u00f3 merece quanto de pior tiveres inventado? A tua tirania, trabalhando com teu ci\u00fame de comum acordo \u2014 fantasias mui fracas para crian\u00e7as, tolas e ociosas para raparigas de nove anos \u2014 Oh! v\u00ea o que fizeram e, depois, enlouquece inteiramente! \u2014 pois as tuas tolices anteriores condimento, t\u00e3o-s\u00f3, foram desta \u00faltima. O teres sido falso para o amigo \u2014 Pol\u00edxenes \u2014 foi nada; pois, com isso, te revelaste, apenas, inconstante, infernalmente ingrato e mentecapto. Outrossim, n\u00e3o foi muito desejares envenenar a honra de Camilo, querendo que ele a um rei a morte desse \u2014 pecado \u00e0-toa, logo ultrapassado por outros mais monstruosos, como teres jogado aos corvos tua pr\u00f3pria filha \u2014 pouco ou nada, realmente, embora um diabo primeiro ao fogo arrancaria l\u00e1grimas, antes de fazer isso. N\u00e3o te culpo, tamb\u00e9m, diretamente, pela morte do pr\u00edncipe gentil, cuja no\u00e7\u00e3o de honra \u2014 no\u00e7\u00e3o muito alta para a idade \u2014 partiu-lhe o cora\u00e7\u00e3o, ao pensamento de que um pai t\u00e3o grosseiro quanto louco sua m\u00e3e graciosa houvesse difamado. N\u00e3o, tamb\u00e9m disso n\u00e3o te fa\u00e7o carga. Mas o \u00faltimo \u2014 \u00d3 senhores! deveis todos gritar \u201cDesgra\u00e7a!\u201d ao dizer eu qual seja \u2014 a rainha, a rainha, a mais querida e inef\u00e1vel criatura, j\u00e1 n\u00e3o vive&#8230; E a vingan\u00e7a ainda n\u00e3o caiu sobre ele!<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Que os poderes de cima o n\u00e3o consintam!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 J\u00e1 disse que morreu, e agora o juro. Mas se nem juras, nem palavras, podem convencer-vos, v\u00f3s mesmos ides v\u00ea-la. Se conseguirdes dar-lhe cor aos l\u00e1bios, ou brilho aos olhos, o calor externo, por dentro o h\u00e1lito vivo, hei de servir-vos como o faria a deuses. Mas n\u00e3o tenhas remorsos, tirano, por tudo isso! S\u00e3o fatos por demais pesados, para que com tua dor consigas abal\u00e1-los. Entrega-te somente ao desespero. Mil joelhos, dez mii anos sem parada, inteiramente nu, jejuns terr\u00edveis numa montanha desolada, inverno perp\u00e9tuo, tempestade irreprim\u00edvel, n\u00e3o poderiam demover os deuses a olhar para o lugar em que estiveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Vai-te, vai-te; jamais dir\u00e1s bastante. Mere\u00e7o quanto de pior disserem todas, todas as l\u00ednguas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO NOBRE \u2014 Ficai quieta! Por mais que tenha acontecido, falta mui grave cometeste, com tamanho despejo de linguagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 D\u00e1-me pena; quando cometo alguma falta, logo que venho a conhec\u00ea-la, me arrependo. Que desgra\u00e7a! Mostrei como as mulheres s\u00e3o, no comum, demais precipitadas O nobre cora\u00e7\u00e3o mostra abalado. O que passou e j\u00e1 n\u00e3o tem rem\u00e9dio, lastimar n\u00e3o devemos. Dor alguma deveis mostrar, senhor, ante o que eu disse. Pelo contr\u00e1rio, pe\u00e7o-vos punir-me por vos haver lembrado o que dev\u00edeis deixar no esquecimento. Meu bondoso soberano, senhor, meu real senhor, perdoai a uma estouvada; mas o afeto que a vossa esposa&#8230; Oh! novamente louca! Maior estouvamento! N\u00e3o desejo falar dela outra vez, nem dos meninos, vossos filhos; n\u00e3o hei de recordar-vos, tamb\u00e9m, de meu senhor, que est\u00e1 perdido, do mesmo modo. Sede, pois, paciente, que n\u00e3o direi mais nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o, falaste somente o que se deu. Prefiro todas essas verdades a que me lastimes. Por obs\u00e9quio, levai-me para a sala onde est\u00e1 o corpo dela e o do menino. Ter\u00e3o um s\u00f3 sepulcro; sobre a l\u00e1pide gravada vai ficar a verdadeira causa da morte de ambos, para nossa vergonha sempiterna. Diariamente, hei de a capela visitar em que eles se acharem repousando. Meu consolo vai consistir nas l\u00e1grimas vertidas sobre essa laje. E enquanto a natureza me permitir fazer esse exerc\u00edcio, prometo repeti-lo diariamente. Conduzi-me a essas dores.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv33\" name=\"inv33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Bo\u00eamia. Lugar deserto, perto do mar. Entram Ant\u00edgono, com a crian\u00e7a, e um marinheiro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Est\u00e1s bem certo de que o nosso barco veio ter aos desertos da Bo\u00eamia?<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 Sim, senhor; e receio que tenhamos descido em ruim hora. Enfarruscado vejo o c\u00e9u, e a amea\u00e7ar-nos iminente tempestade. Sinceramente o digo: ele reprova o nosso empreendimento; por isso est\u00e1 sombrio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Seja feita sua vontade. Volta para bordo; vai vigiar teu barco; n\u00e3o demora, e estarei de retorno.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 Ponde pressa no que fizerdes, sem vos arriscardes demais pelo interior, pois \u00e9 certeza vir por a\u00ed borrasca. Al\u00e9m de tudo, \u00e9 conhecida esta regi\u00e3o, por causa dos animais de preia que aqui vivem.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Volta, que j\u00e1 te sigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARINHEIRO \u2014 Estou contente, de cora\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o ter parte nisso. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00cdGONO \u2014 Vem, coitadinha! Embora eu nunca tenha dado cr\u00e9dito, ouvi dizer que o esp\u00edrito dos mortos aqui voltam. Se for certo, tua m\u00e3e me apareceu na \u00faltima noite, pois nunca tive um sonho assim t\u00e3o pr\u00f3ximo do estado de vig\u00edlia. Aproximou-se-me um vulto que a cabe\u00e7a balou\u00e7ava para um lado e para outro. Nunca vira um vaso de tristeza assim t\u00e3o cheio e de aspecto de tanta dignidade. Com vestes de cor branca, cintilante como a pr\u00f3pria pureza, aproximou-se do camarote em que eu dormindo estava. Diante de mim tr\u00eas vezes inclinando-se e tentando falar, se lhe tornaram duas fontes os olhos. Mas contendo-se, o sil\u00eancio rompeu desta maneira: \u201cJ\u00e1 que o destino, meu bondoso Ant\u00edgono, te escolheu, contra o teu melhor intuito, para jogares fora minha filha \u2014 ao que, por juramento, estavas preso \u2014 lugares afastados h\u00e1 bastantes na Bo\u00eamia. Num deles, entre l\u00e1grimas, deixa-a, a chorar. E como para todos ela perdida est\u00e1, o nome d\u00e1-lhe de Perdita, te pe\u00e7o. Mas por este servi\u00e7o ingrato, que por meu marido te foi imposto, nunca mais tua esposa Paulina h\u00e1s de rever\u201d E assim, com guinchos, desapareceu no ar. Aterrorado, logo me recompus, tendo conclu\u00eddo que sonhado n\u00e3o fora tudo aquilo, sen\u00e3o pura verdade. Brincadeiras s\u00e3o sempre os sonhos, mas com este, apenas, supersticiosamente embora, quero com acerto orientar-me. Estou convicto de que Herm\u00edfone \u00e9 morta e que \u00e9 vontade de Apolo, j\u00e1 que \u00e9 filha de Pol\u00edxenes esta crian\u00e7a, que seja aqui deixada \u2014 para viver ou para ser destru\u00edda \u2014 em terra do verdadeiro pai. Bot\u00e3o, floresce! (<i>Deposita a crian\u00e7a no ch\u00e3o.<\/i>) Fica a\u00ed. Eis teu nome. Toma isto, tamb\u00e9m. (<i>Dep\u00f5e um embrulho junto da crian\u00e7a.<\/i>) Se for do gosto da fortuna, dar\u00e1 para te criar, ainda sobrando-te alguma coisa. A\u00ed vem a tempestade. Coitadinha! Por causa dos pecados de tua m\u00e3e, exposta \u00e0 morte e ao resto. Chorar n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel, por\u00e9m sangra-me o cora\u00e7\u00e3o. Maldito eu sou por ver-me for\u00e7ado a fazer isto. Adeus. O dia se embrusca mais e mais. Vais ser amada com uma can\u00e7\u00e3o muito \u00e1spera. T\u00e3o negro, durante o dia, nunca o c\u00e9u esteve. Que selvagem clamor! O mais prudente ser\u00e1 ir para bordo. \u00c9 uma ca\u00e7ada. Estou perdido! (<i>Sai, perseguido por um urso.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um pastor.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Desejara que n\u00e3o houvesse idade entre dezesseis e vinte e tr\u00eas anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo, que s\u00f3 \u00e9 ocupado em deixar com filhos as raparigas, aborrecer os velhos, roubar e provocar brigas. Escutai! A quem ocorreria ca\u00e7ar com semelhante tempo, se n\u00e3o a esses c\u00e9rebros ferventes, de dezenove a vinte e dois anos? Fizeram tresmalhar-se dois dos meus melhores carneiros, e eu receio que o lobo os encontre primeiro que seu dono. Se eu tiver de encontr\u00e1-los, h\u00e1 de ser para o lado da praia, onde v\u00e3o pastar a erva. Boa sorte, se assim o quiseres. Mas, que temos aqui? (<i>Levantando a crian\u00e7a.<\/i>) Miseric\u00f3rdia! Uma crian\u00e7a! Uma linda crian\u00e7a! Ser\u00e1 menino ou menina? Uma menina linda, muito bonita, mesmo. Decerto, algum passo em falso. E embora eu n\u00e3o seja letrado, posso ler que se trata de passo em falso de alguma dama de posi\u00e7\u00e3o. Houve algum trabalho de escada, ou de ba\u00fa, no \u00e2ngulo de qualquer porta. Mais calor tinham os que geraram isto do que esta pobre coisinha. S\u00f3 por piedade vou ficar com ela, mas vou esperar at\u00e9 que meu filho chegue. Neste momento ele gritou. Ol\u00e1! Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ol\u00e1! Oh!<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Como! Estavas t\u00e3o perto? Se quiseres ver uma coisa de que falar\u00e1s at\u00e9 depois de morto e podre, vem aqui. Por que est\u00e1s a chorar, homem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Eu vi duas dessas vis\u00f5es, no mar e em terra; mas n\u00e3o posso dizer se foi no mar, porque agora tudo \u00e9 c\u00e9u, entre a terra e o firmamento n\u00e3o se pode enfiar a ponta de um alfinete.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Que queres dizer com isso, rapaz?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Desejara que v\u00edsseis como ela ronca, como se enfurece, como bate na praia. Mas isso n\u00e3o importa. Oh! os gritos lastim\u00e1veis das pobres almas! \u00c0s vezes, percebendo-os; outras vezes, sem distinguir ningu\u00e9m; agora, o navio a tocar a lua com o mastro principal, para, logo, ser sorvido pela escuma e pela geada, como quando a gente atira uma rolha dentro de um barril. E agora, o que se passou em terra: assistir como o urso lhe lacerava as esp\u00e1duas; como ele me gritava por socorro, e dizia que era nobre e se chamava Ant\u00edgono. Mas, para acabar com o navio: ver como o mar o absorvia, por\u00e9m, antes, como as pobres al mas rugiam e o mar zombava deles; e como o cavalheiro rugia, e o urso zombava dele, rugindo ambos mais alto do que o mar e a tempestade.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Em nome da Miseric\u00f3rdia! Quando se passou isso, rapaz?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Agora mesmo; ainda n\u00e3o tive tempo de piscar uma vez, desde que vi essas coisas. Os homens ainda n\u00e3o tiveram tempo de esfriar de baixo da \u00e1gua, nem o urso de jantar a metade do gentil-homem. Foi neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Quisera ter estado presente, para ajudar o velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Quisera que tiv\u00e9sseis estado ao lado do navio, para ajud\u00e1-lo, tamb\u00e9m; porque ent\u00e3o a vossa caridade n\u00e3o tomaria p\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Hist\u00f3rias tristes! Hist\u00f3rias tristes! Mas olha para aqui, rapaz, e aben\u00e7oa a tua felicidade. Encontraste em teu caminho s\u00f3 coisas que se extinguem; eu, algo que come\u00e7a a viver. Eis um espet\u00e1culo para ti; contempla isto, uma capa de batismo pr\u00f3prio para a filha de um fidalgo. Olha! Toma, rapaz! Toma! Abre isso. Vamos ver. J\u00e1 me profetizaram que as fadas me deixariam rico. Deve ser alguma crian\u00e7a enjeitada. Abre logo. Que \u00e9 que h\u00e1 dentro, rapaz?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sois um velho rico. Se os pecados da mocidade vos forem perdoados, ireis viver muito bem. Ouro! Tudo ouro!<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 \u00c9 ouro de fadas, rapaz, como o tempo o provar\u00e1. Vamos, carrega firme! Para casa, logo, pelo caminho mais curto. Tivemos sorte, rapaz; e para continuarmos sempre assim, bastar\u00e1 sermos discretos. Deixa os carneiros correrem. Vamos, meu bom menino; vamos logo para ca sa, pelo caminho mais curto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Segui direto com o vosso achado, que eu vou ver se o urso j\u00e1 deixou o gentil-homem, e quanto comeu dele. S\u00f3 s\u00e3o tem\u00edveis, quando est\u00e3o com fome. Se sobrou alguma coisa do homem, dar-lhe-ei sepultura.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 \u00c9 uma boa a\u00e7\u00e3o. Se puderes identific\u00e1-lo pelo que houver sobrado dele, vai buscar-me, para que eu tamb\u00e9m o veja.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Muito bem; farei isso mesmo, e v\u00f3s me ajudareis a sepult\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Hoje \u00e9 um dia feliz, rapaz, em que nos cumpre praticar boas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv41a\" name=\"inv41a\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Entra o Tempo, como coro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">TEMPO \u2014 Eu, que a todos castigo, alegro e espanto bons e maus, erro muito e, no entretanto, descubro os erros, ora determino usar as asas com bastante tino, sob a forma do Tempo. Por tudo isso, \u00e0 conta n\u00e3o leveis de mau servi\u00e7o dezesseis anos haver eu pulado, sem ao menos deixar assinalado quanto passou durante esse intervalo, que em meu poder est\u00e1, sem grande abalo, dobrar a lei, numa hora muito minha, e h\u00e1bitos velhos alterar asinha. Aceitai-me qual sou, qual tenho sido antes de o uso vetusto haver nascido e o que ora ainda impera. Estive junto da hora que os viu nascer e do conjunto, tamb\u00e9m, do que h\u00e1 de vir, pois tudo passa, sendo certeza que eu deixarei ba\u00e7a toda esta luz, tal como na mem\u00f3ria dos presentes se encontra a antiga hist\u00f3ria. Assim, se o permitir vossa paci\u00eancia, virarei a ampulheta, porque urg\u00eancia ponha no conto, como se dormindo passado houv\u00e9sseis esse tempo infindo. Deixando Leontes \u2014 que de tal maneira se mostra arrependido da cegueira de seu grande ci\u00fame, que fechado se mant\u00e9m todo o tempo \u2014 transportado, gentis espectadores, para a linda Bo\u00eamia imaginai-me, e mais, ainda: deveis estar lembrados que de um filho do rei j\u00e1 vos falara. Assim, com brilho vos direi o seu nome: Florizel. Mas deixando de lado esse donzel, falemos de Perdita que, entretanto, adquiriu tanta gra\u00e7a, que de espanto enche quantos a v\u00eaem. N\u00e3o direi nada do que se vai passar, que \u00e0 hora azada tudo a saber vireis. Ora o argumento do Tempo \u00e9 a filha de um pastor e um cento de coisas correlatas. Concedei-me toda vossa paci\u00eancia. E, ent\u00e3o, dizei-me se algum dia j\u00e1 vistes passatempo t\u00e3o mesquinho. Se n\u00e3o, o pr\u00f3prio Tempo vos diz que almeja, mui sinceramente, que outro n\u00e3o possais ver como o presente. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena I<\/h2>\n<p><a id=\"inv41\" name=\"inv41\"><\/a><\/p>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Bo\u00eamia. Um quarto no pal\u00e1cio de Pol\u00edxenes. Entram Pol\u00edxenes e Camilo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Por favor, meu bom Camilo, n\u00e3o insistas. Recusar-te alguma coisa, deixa-me doente; e morto, conceder o que me pedes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 H\u00e1 quinze anos n\u00e3o vejo a minha p\u00e1tria; embora eu tenha passado no estrangeiro a maior parte da vida, desejaria deixar l\u00e1 os ossos. Al\u00e9m do mais, o rei penitente, meu senhor, mandou chamar-me. Poderei levar algum al\u00edvio para a sua tristeza; pelo menos tenho essa presun\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m me anima a partir.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Se me amas, Camilo, n\u00e3o anules todos os servi\u00e7os que me prestaste, deixando-me neste momento. Tua pr\u00f3pria bondade \u00e9 a causa de eu n\u00e3o poder dispensar-te. Melhor teria sido nunca te haver conhecido, do que vir a perder-te. Havendo tu dado in\u00edcio a v\u00e1rios assuntos que ningu\u00e9m mais poder\u00e1 levar a cabo, ser\u00e1 for\u00e7oso ou ficares, para que tu mesmo os arremates, ou levares contigo os pr\u00f3prios servi\u00e7os que me prestaste. Se eu n\u00e3o te recompensei como o mereces \u2014 imposs\u00edvel me fora fazer mais \u2014 procurarei esfor\u00e7ar-me para mostrar-me mais reconhecido, lucrando com isso apertar ainda mais os la\u00e7os da amizade que nos liga. Pe\u00e7o-te, portanto, que n\u00e3o me tornes a falar dessa terra fatal, a Sic\u00edlia, cujo nome, s\u00f3 por si, me martiriza, por me fazer lembrado do rei penitente, como lhe chamaste, o meu reconciliado irm\u00e3o. A perda de sua esposa insubstitu\u00edvel, e de seus filhos, agora e sempre \u00e9 de lamentar-se. Dize-me, quando viste meu filho, o Pr\u00edncipe Florizel? Os reis s\u00e3o t\u00e3o infelizes quando verificam tend\u00eancias menos graciosas em seus filhos, como quando perdem os que eram adornados s\u00f3 de virtudes.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Senhor, h\u00e1 tr\u00eas dias que n\u00e3o vejo o pr\u00edncipe. Quais possam ser suas felizes ocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sei diz\u00ea-lo. Mas com pesar observei que ultimamente ele anda muito arredio da corte e que \u00e9 menos ass\u00edduo do que antes aos seus exerc\u00edcios principescos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Observei isso tamb\u00e9m, Camilo, o que me deixou assaz preocupado, indo a ponto de vigiar o retraimento com os olhos dos meus auxiliares. Por estes soube que ele freq\u00fcenta a casa de um humilde pastor, um homem que, segundo se propala, do nada, com grande estupefa\u00e7\u00e3o dos vizinhos, chegou a uma situa\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 J\u00e1 ouvi falar, senhor, desse homem, que tem uma filha da mais rara beleza. A fama de tal beleza se espalhou muito mais do que fora de esperar da que se originasse de uma choupana humilde.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Foi isso tamb\u00e9m o que me disseram. Receio que seja esse o engodo que atrai meu filho. Vais acompanhar-me at\u00e9 essa choupana, para, sem nos darmos a conhecer, conversarmos com o pastor. Penso que nos ser\u00e1 f\u00e1cil obter de sua simplicidade que nos revele o verdadeiro motivo das visitas de meu filho. Pe\u00e7o-te, pois, que me ajudes neste passo pondo de lado a id\u00e9ia de voltares para a Sic\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 De muito bom grado obedecerei a vossas ordens.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Meu bravo Camilo! Teremos de nos disfar\u00e7ar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv42\" name=\"inv42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma estrada perto da cabana do pastor. Entra Aut\u00f3lico, cantando.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Quando os narcisos nascem no vale \u2014 Viva! \u2014 e a zagala corta a campina, Que belo tempo! \u2014 Ningu\u00e9m me fale \u2014 \u00c0 neve p\u00e1lida o sangue anima. O linho branco da sebe pende \u2014 Viva! \u2014 Que canto, o dos passarinhos! Se os apanhasse! Quem n\u00e3o me entende? Cerveja l\u00edmpida aos canequinhos&#8230; Canta a calhandra. Que melodias! \u2014 Viva! \u2014 Respondem-lhe o galo e o tordo. Para mim cantam e minhas tias&#8230; E n\u00f3s no feno&#8230; Que dia gordo! J\u00e1 servi o Pr\u00edncipe Florizel, e no meu tempo s\u00f3 vestia veludo de tr\u00eas pelos&#8230; Mas agora estou aposentado. Mas vou chorar s\u00f3 por isso? A lua brilha, querida. Quanto menos o servi\u00e7o, mais alegre ser\u00e1 a vida. Se licen\u00e7a o caldeireiro tem de andar de alforje \u00e0s costas, confesso tudo, ligeiro, sem que me fa\u00e7am em postas. Negocio com camisas; quando o milhano faz o ninho, cuidado com as pe\u00e7as menores. Meu pai me p\u00f4s o nome de Aut\u00f3lico&#8230; Tendo nascido ele, como eu, sob a influ\u00eancia de Merc\u00fario, foi tamb\u00e9m batedor de coisinhas sem valor. Os dados e as mulheres me deixaram deste modo, provindo toda a minha renda de roubos insignificantes. A forca e as varas s\u00e3o por demais poderosas na estrada larga do roubo. A id\u00e9ia de ser malhado ou enforcado, constitui para mim verdadeiro pesadelo. Na outra vida n\u00e3o quero pensar nisso. Uma presa! Uma presa!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vejamos: cada onze carneiros d\u00e3o vinte e oito libras de l\u00e3; cada vinte e oito libras de l\u00e3 rendem uma libra e um xelim&#8230; Quinhentos carneiros tosquiados, quanta l\u00e3 dar\u00e3o ao todo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se o la\u00e7o n\u00e3o escapar, o galo \u00e9 meu.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o poderei fazer a conta sem o aux\u00edlio de um calculador. Vejamos: que precisarei comprar para a festa da tosquia de nossos carneiros? Tr\u00eas libras de a\u00e7\u00facar, cinco de passas de Corinto, arroz&#8230;\u201d \u2014 Que pretender\u00e1 esta minha irm\u00e3 fazer com arroz? Mas meu pai a p\u00f4s como rainha da festa, e ela sabe o que faz. Ela me confeccionou vinte e quatro ramalhetes para os tosadores, que s\u00e3o cantores a tr\u00eas vozes, e dos melhores. A maior parte s\u00e3o tenores e baixos, s\u00f3 havendo entre eles um puritano que canta salmos na cornamusa. Preciso de a\u00e7afr\u00e3o para dar cor \u00e0 torta de peras; de arilo e t\u00e2mara, nada, que isso n\u00e3o est\u00e1 na nota; noz-moscada, sete; uma ou duas ra\u00edzes de gengibre isso eu poderei pedir em qualquer parte \u2014 quatro libras de ameixas e outras tantas de passas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Oh! Se eu nunca tivesse nascido! (<i>Atira-se ao ch\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Em meu nome!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Socorro! Socorro! arrancai-me estes trapos, e depois, a morte!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ah, pobre alma! Precisas, mas \u00e9 que te ponham mais trapos em cima do corpo n\u00e3o que te despojem dos que tens.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 O senhor! mais me faz sofrer a repugn\u00e2ncia que por eles sinto do que os golpes que recebi, que, no entanto, foram bem violentos e se contaram por milh\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ah, pobre homem! Um milh\u00e3o de pauladas \u00e9 coisa s\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Fui roubado, senhor, e espancado. Arrancaram-me o dinheiro e as vestes, e me puseram sobre o corpo estes farrapos detest\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Foi algum pedestre que te fez isso ou algum homem de cavalo?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Foi um pedestre, meu caro senhor; pedestre.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Realmente, pela roupa que ele deixou contigo, deve ser mesmo pedestre. Se isso \u00e9 cota de cavaleiro, j\u00e1 viu trabalho muito crespo. D\u00e1 me a m\u00e3o; vou ajudar-te. Vamos; d\u00e1-me a m\u00e3o. (<i>Ajuda-o a levantar-se.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 \u00d3 meu bom senhor! Devagar!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ah, pobre alma!<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 \u00d3 meu bom senhor! Devagar, meu bom senhor; receio estar com a omoplata fora do lugar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 E agora? Podes ficar de p\u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Docemente, meu senhor. (<i>Rouba a bolsa de dentro do bolso do bobo.<\/i>) Docemente! Acabastes de me prestar um servi\u00e7o caritativo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Est\u00e1s sem dinheiro? Posso dar-te algum.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor. N\u00e3o. Por obs\u00e9quio, senhor. Tenho um parente que mora a uns tr\u00eas quartos de milha daqui, para onde justamente vou indo. L\u00e1, encontrarei dinheiro e tudo o mais de que precisar. N\u00e3o me ofere\u00e7ais dinheiro, por obs\u00e9quio; isso me parte o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Que esp\u00e9cie de sujeito era o que vos roubou?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Um tipo, senhor, que eu vi correndo a redondeza com o jogo de \u201cTrou Madame\u201d. Sei que antes disso ele esteve a servi\u00e7o do pr\u00edncipe. N\u00e3o poderei dizer-vos, meu caro senhor, por qual teria sido de suas virtudes; mas o certo \u00e9 que ele foi expulso da corte a chibatadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 V\u00edcios, quereis dizer, sem d\u00favida; a virtude nunca \u00e9 expulsa da corte a chibatadas. Por l\u00e1 tratam-na muito bem, com o fito de ret\u00ea-la quanto poss\u00edvel; no entanto, est\u00e1 sempre de passagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Era v\u00edcio mesmo que eu queria dizer, meu senhor. Conhe\u00e7o muito bem esse tipo. Depois disso ele j\u00e1 andou por a\u00ed tudo, carregando um macaco; depois, foi servente de processo, beleguim; depois, adquiriu um conjunto de t\u00edteres que representavam \u201cO Filho Pr\u00f3digo\u201d, e se casou com a mulher de um caldeireiro, a uma milha do lugar em que tenho minhas terras e meus bens, e depois de exercer todas as profiss\u00f5es velhacas, acabou tornando-se um maroto de marca maior. Algumas pessoas lhe d\u00e3o o nome de Aut\u00f3lico.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 A forca para ele! Um ladr\u00e3o, por minha vida! Um ladr\u00e3o! Ele gosta de freq\u00fcentar as festas noturnas, as feiras e os combates de urso.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Perfeitamente, senhor; \u00e9 esse mesmo; foi esse o maroto que me deixou nestes trajes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Em toda a Bo\u00eamia n\u00e3o h\u00e1 maroto mais covarde; se o tiv\u00e9sseis encarado com firmeza e cuspido no rosto dele, \u00e9 certeza que se poria a correr.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Devo confessar-vos, senhor, que n\u00e3o sou lutador. Para tanto, falta-me coragem, o que decerto ele bem sabia, podeis crer-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Como vos sentis agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Bem melhor do que antes, meu doce senhor; j\u00e1 posso ficar de p\u00e9 e andar um pouco. Poderei, at\u00e9, despedir-me de v\u00f3s, para dirigir-me devagarinho at\u00e9 \u00e0 casa de meu parente.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Queres que te acompanhe at\u00e9 \u00e0 estrada?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 N\u00e3o, meu belo senhor; n\u00e3o, meu doce senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Ent\u00e3o, adeus; preciso ir comprar temperos para a festa da tosquia dos nossos carneiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Muitas felicidades, meu doce senhor. (<i>Sai o bobo.<\/i>) Vossa bolsa n\u00e3o tem calor suficiente para comprar esses temperos. Hei de fazer-vos companhia em vossa festa. Se eu n\u00e3o conseguir desdobrar este roubo e n\u00e3o transformar os tosadores em carneiros, quero deixar de fazer parte da lista dos profissionais, para ter o nome inscrito no livro da virtude. Sigamos por este atalho, alegre o dia inteirinho, oh! Quem vive preso ao trabalho, alvo \u00e9 sempre de escarninho, oh!<\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Clareira diante da cabana do pastor. Entram Florizel e Perdita.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Essas vestes estranhas vos emprestam maior relevo s gra\u00e7as. N\u00e3o pastora, sois Flora emp\u00f3s de abril. Essa tosquia t\u00e3o \u00e1lacre \u00e9 reuni\u00e3o de belos deuses, dos quais sois a rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Meu gracioso senhor, bem n\u00e3o me fica censurar-vos pelo vosso exagero. Sim, perdoai-me por falar desse modo. Mas vossa alta pessoa, adorno m\u00e1ximo do reino, abatestes com essas vestes r\u00fasticas, enquanto a mim, humilde rapariga, me enfeitastes qual deusa. Se esta festa n\u00e3o fosse constitu\u00edda por loucuras, sempre, de toda sorte, que os convivas, por h\u00e1bito, digerem, eu corara por vos ver desse jeito, desmaiando, quero crer, se ao espelho me enxergasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Bendigo o instante em que o meu bom falc\u00e3o o v\u00f4o dirigiu por sobre as terras de vosso pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Que Jove vos confirme. No que me diz respeito, a diferen\u00e7a de nossas posi\u00e7\u00f5es me deixa p\u00e1vida. Vossa Grandeza n\u00e3o conhece o medo; mas tremo \u00e0 id\u00e9ia de que poderia vosso pai, por capricho do momento, vir tamb\u00e9m por aqui. Oh Fados! Como n\u00e3o ficaria \u00e0 vista de sua obra, com trajes t\u00e3o grosseiros? Que diria? E como eu conseguira, sob o peso deste luxo de empr\u00e9stimo, encarar-lhe toda a severidade?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 S\u00f3 com coisas alegres devereis ora ocupar-vos. Os pr\u00f3prios deuses, humilhando a sua divindade ante o amor, variadas formas de animais assumiram. Jove em touro se mudou e mugiu; Netuno, o verde, baliu como carneiro; e o deus de vestes de chamas, o \u00e1ureo Apolo, como humilde pastor se viu, tal como o fa\u00e7o agora. Nenhum deles jamais mudou de forma por beleza mais rara, nem por m\u00f3veis t\u00e3o puros como os meus, pois meus desejos n\u00e3o marcham diante da honra, nem mais quente do que a f\u00e9 a paix\u00e3o se me revela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Mas meu senhor, jamais vosso prop\u00f3sito firme assim ficar\u00e1, se for chocar-se \u2014 o que ser\u00e1 fatal \u2014 de encontro ao grande poderio do rei. Uma de duas coisas for\u00e7osamente h\u00e1 de passar-se: renunciareis de todo ao vosso intento, ou eu \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Minha cara Perdita, n\u00e3o enubles, por obs\u00e9quio, a alegria da festa com t\u00e3o loucas suposi\u00e7\u00f5es. Minha lindeza, caso eu n\u00e3o possa ser teu, do mesmo modo n\u00e3o serei de meu pai, pois imposs\u00edvel me ser\u00e1 pertencer-me, ou ser de algu\u00e9m, se a ti n\u00e3o pertencer. Persisto nisso, muito embora o Destino diga \u201cN\u00e3o\u201d. Fica alegre, querida, e cuida agora de dissipar os pensamentos tristes com o aux\u00edlio do que vires. Nossos h\u00f3spedes est\u00e3o chegando. Faze alegre o rosto, como se j\u00e1 estiv\u00e9ssemos no instante de celebrar as n\u00fapcias que juramos para um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 \u00d3 Fortuna, sede-nos auspiciosa!<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Vede! Vossos h\u00f3spedes se aproximam. Recebei-os com afabilidade e que o semblante irradie alegria.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Pol\u00edrenes e Camilo, disfar\u00e7ados, o pastor, o bobo, Mopsa, Dorcas e outros.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Ora, filha! Nas festas deste dia, quando ainda viva estava minha velha, ela era ao mesmo tempo despenseira, padeira, cozinheira, ama e criada; cumprimentava a todos e os servia, cantava suas coisas e dan\u00e7ava suas voltas, tamb\u00e9m; ora se achava nesta ponta da mesa, ora no meio, ora apoiava-se ao ombro dos convivas, de toda gente. O rosto era s\u00f3 fogo, pela labuta e pelo que bebia para aplacar as chamas, n\u00e3o deixando ningu\u00e9m de acompanh\u00e1-la nesses brindes. V\u00f3s ficais isolada, parecendo mais um dos convidados, do que mesmo a dona dos festejos. Por obs\u00e9quio, d\u00e1 as boas-vindas a estes dois amigos desconhecidos, que esse \u00e9 o melhor meio de nos tornarmos conhecidos deles e, assim, amigos certos. Vamos logo, apagai o rubor e revelai-vos o que sois: a rainha desta festa. Acolhei-nos alegre, por estarmos presentes aos festejos da tosquia. Assim, prosperar\u00e1 vosso rebanho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA (a Pol\u00edxenes) \u2014 Sois bem-vindo, senhor. Meu pai quer que hoje fique eu sendo a rainha desta festa. (A Camilo.) Sois bem-vindo. D\u00e1-me essas flores, Dorcas. Reverendos senhores, ofere\u00e7o-vos arruda e rosmaninho; a cor e o cheiro essas flores conservam todo o inverno. Como lembran\u00e7a e gra\u00e7a conservai-as de nossa parte. Sede, pois, bem-vindos.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Pastora \u2014 sois uma pastora linda \u2014 muito de acordo com a nossa idade, flores do inverno nos oferecestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Senhor, quando o ano vai ficando velho, sem ser a morte do ver\u00e3o ainda, nem do tr\u00eamulo inverno o nascimento, as flores mais gentis s\u00e3o, t\u00e3o-somente, cravo vermelho e goivo variegado, a que muitos d\u00e3o o nome de bastardo da natureza. Dessa esp\u00e9cie, o nosso jardim silvestre nada ora apresenta. Nunca procuro obter muda nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Por que, gentil menina, as desprezais?<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Por ter sabido que nas suas cores, ao lado da criadora natureza a arte tamb\u00e9m influi.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Que seja assim; mas em nada melhora a natureza, sen\u00e3o por meios que ela mesma cria. Assim, essa arte a que vos referistes, que ajuda a natureza, uma arte feita por ela pr\u00f3pria. Assim, gentil menina, enxertamos num galho em tudo r\u00fastico alguma planta rara, vindo a casca de baixa esp\u00e9cie alimentar o broto de uma ra\u00e7a mais nobre. Essa arte, certo, corrige a natureza&#8230; n\u00e3o, transforma-a; mas \u00e9 uma arte que \u00e9 a pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Tendes raz\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Enriquecei, portanto, vosso jardim com goivos, sem lhes dardes o nome de bastardos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Jamais hei de pegar do sacho para plantar uma muda sequer, tal como n\u00e3o quisera \u2014 se pintada estivesse \u2014 que este jovem me elogiasse por isso, declarando que a mim, por noiva, apenas, desejara. Aceitai estas flores: alfazema, hortel\u00e3, segurelha, manjerona, e esta aqui, malmequer, que se recolhe com o sol, para com ele levantar-se tamb\u00e9m, cedo, a chorar. Flores s\u00e3o todas do meio do ver\u00e3o, pr\u00f3prias para homens de meia idade, creio. Sois bem-vindo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Esquecer-me-ia de pastar se fosse um dos vossos carneiros, e vivera s\u00f3 de vos contemplar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Oh, coitadinho! T\u00e3o magro ficar\u00edeis, que as rajadas de janeiro, sem custo, vos passaram de lado a lado. Agora, belo amigo, para v\u00f3s desejara ter algumas flores primaveris, que condissessem com vossa mocidade. E para v\u00f3s, tamb\u00e9m, e para v\u00f3s, que nesses c\u00e2ndidos ramos trazeis de vossa virgindade ainda os bot\u00f5ezinhos. \u00d3 Pros\u00e9rpina! N\u00e3o dispor eu das flores que do carro de Dis, s\u00f3 de pavor, cair deixaste! Os narcisos que a aparecer se atrevem antes das andorinhas, e que os ventos de mar\u00e7o enleiam no seu grande encanto; as violetas escuras, mas mais doces do que de Juno as p\u00e1lpebras ou o h\u00e1lito de Citer\u00e9ia; as descoradas pr\u00edmulas, que fenecem solteiras, sem que tenham visto o brilhante Febo em sua for\u00e7a \u2014 doen\u00e7a muito freq\u00fcente entre as donzelas \u2014 verbasco altivo, imperial coroa, l\u00edrios de toda esp\u00e9cie, inclu\u00edda entre eles a flor-de-lis. Oh! faltam-me essas flores para tecer grinaldas, caro amigo, e com elas cobrir-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Como a um corpo sem vida?<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 N\u00e3o; n\u00e3o como a um corpo morto; como num leito onde brincasse amor. Ou ent\u00e3o&#8230; N\u00e3o para dar-lhe sepultura, mas para receb\u00ea-lo nestes bra\u00e7os. Aceitai vossas flores, S\u00f3 parece que eu represento como vi nas festas da pastoral da P\u00e1scoa. Este vestido, certamente, me fez mudar de g\u00eanio.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Sempre ultrapassa o que fazeis a tudo quanto est\u00e1 feito. Se falais, querida, desejaria que fal\u00e1sseis sempre; quando cantais, quisera que, cantando, vend\u00easseis e compr\u00e1sseis e, cantando, distribu\u00edsseis esmolas, murmur\u00e1sseis vossas preces, bem como dirig\u00edsseis vossos neg\u00f3cios. Se dan\u00e7ais, acaso, desejara que fosseis uma vaga, para que n\u00e3o fiz\u00e9sseis sen\u00e3o isso, em movimento sempre, sempre a mesma, sem mais fun\u00e7\u00e3o alguma. Vosso modo de proceder, t\u00e3o singular em cada caso \u00e0 parte, tal como o mais recente, coroa vossos feitos. Desse modo, vossas a\u00e7\u00f5es em tudo s\u00e3o rainhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 \u00d3 D\u00f3ricles, vossos enc\u00f4mios pecam pelo exagero! Se n\u00e3o f\u00f4sseis jovem e n\u00e3o deix\u00e1sseis vislumbrar um sangue t\u00e3o verdadeiro e leal, que vos revela qual pastor sem defeito, eu poderia mui sabiamente, meu querido D\u00f3ricles, considerar que me fazeis a corte por um caminho errado.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 T\u00e3o sem jeito, quero crer, vos mostrais de ter receio, como eu de provoc\u00e1-lo. Mas agora vamos dan\u00e7ar; a m\u00e3o, minha Perdita, por obs\u00e9quio. Assim ficam duas pombas que n\u00e3o tencionam separar-se nunca.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Por isso eu juro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Entre as camp\u00f4nias r\u00fasticas nunca donzela mais encantadora deslizou no relvado. Tudo quanto diga ou fa\u00e7a, revela uma criatura maior do que ela pr\u00f3pria. \u00c9 muito nobre para o meio em que est\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Algo ele diz-lhe que a faz ficar corada. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: \u00e9 a rainha do leite e da coalhada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 M\u00fasica, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Se dan\u00e7ais com Mopsa, os beijos dela temperai com alho.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Ora, que coisa!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Basta de palavras. Temos os nossos h\u00e1bitos. Comecem! M\u00fasica, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica. Dan\u00e7am pastores e pastoras.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Bom pastor, por obs\u00e9quio, quem \u00e9 aquele rapaz bem apessoado que ora dan\u00e7a com vossa filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 D\u00f3ricles lhe chamam; ele se orgulha de possuir pastagens de subido valor. Sei isso, apenas pelo que ele contou, mas acredito, pois parece sincero. Tamb\u00e9m o creio, pois nunca a lua se mirou no lago, como ele se det\u00e9m a ler nos olhos de minha filha. Para dizer tudo: penso que meio beijo n\u00e3o decide qual dos dois mais amor dedica ao outro.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Ela dan\u00e7a com muita gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 \u00c9 certo; e assim faz tudo, embora n\u00e3o me fique bem falar desse modo. Se o mancebo D\u00f3ricles vier a conquist\u00e1-la, a noiva lhe levar\u00e1 de dote alguma coisa com que ele nem sonhou.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 \u00d3 senhor! Se pud\u00e9sseis ouvir o bufarinheiro que est\u00e1 a\u00ed fora, nunca mais dan\u00e7ar\u00edeis ao som do tamboril e da gaita. Sim, nem mesmo uma cornamusa vos poderia abalar. Canta melodias mais depressa do que v\u00f3s contais dinheiro e as pronuncia como se houvesse engolido baladas, estando todos os ouvidos pendentes de suas modula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o poderia ter chegado em melhor ocasi\u00e3o. \u00c9 preciso faz\u00ea-lo entrar. Aprecio enormemente as baladas, quando tratam de assunto triste, posto em m\u00fasica alegre, ou de qualquer coisa agrad\u00e1vel cantada num tom melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Sabe cantigas para homens e mulheres de todas as idades Nenhum comerciante de luvas serviria melhor os seus fregueses. Sa as mais lindas can\u00e7\u00f5es de amor para raparigas, e isso sem nenhuma cabrosidade, o que \u00e9 raro, com um mundo de refr\u00e3es delicados, de dild\u00e3os e tralal\u00e1s. \u201cBate nela! D\u00e1 socos nela!\u201d e quando algum maroto de boca larga pretende, por assim dizer, tomar a coisa ao p\u00e9 da letras e p\u00f4r em pr\u00e1tica o conselho, ele faz a rapariga responder. \u201cOl\u00e1! N\u00e3o me fa\u00e7ais mal, bom homem!\u201d dar-lhe um empurr\u00e3o e escapar com um \u201cOl\u00e1! N\u00e3o me fa\u00e7ais mal, bom homem!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Um companheiro e tanto!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Podeis estai certo de que vos referistes a um tipo admir\u00e1vel. Por acaso, n\u00e3o ter\u00e1 ele bordados para vender?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Tem fitas de todas as cores do arco-\u00edris; mais agulhetas que poderiam com erudi\u00e7\u00e3o desembara\u00e7ar todos os advogados da Bo\u00eamia, ainda que lhes viessem \u00e0s grosas; l\u00e3s, algod\u00e3o, cambraia. Ele canta como se fossem deuses e deusas. Imaginar\u00edeis que uma cana \u00e9 um anjo, de tal modo ele vos fala de suas mangas e dos bordados.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por obs\u00e9quio, traze-o logo, fazendo que ele entre a cantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Conv\u00e9m adverti-lo de que n\u00e3o deve usai palavras inconvenientes em suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Esses bufarinheiros, irm\u00e3, trazem mercadorias que nem podeis imaginar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Sim, bondoso mano, ou que nem me darei ao trabalho imaginar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Aut\u00f3lico, cantando.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 O linho \u00e9 branco de neve, ao corvo o crepe n\u00e3o deve; luvas de v\u00e1rios matizes, m\u00e1scaras para narizes, delicadas como rosas, para cutes melindrosas; braceletes e colares e perfumes para os lares, coifas douradas, corpinhos \u2014 rapazes, que presentinhos! \u2014 alfinetes, boa tala para os vestidos de gala&#8230; Comprai-me logo, rapazes, quanto ora fordes capazes, sem deixar que vossas belas fiquem tristes e amarelas. Comprai! Comprai!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Se eu n\u00e3o estivesse apaixonado por Mopsa, tu n\u00e3o me arrancarias um tost\u00e3o; mas estando preso a ela, como me encontro, n\u00e3o poderei escapar da peia de algumas luvas e fitas.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Que me foram prometidas antes da festa, mas que, ainda assim, n\u00e3o chegam com muito atraso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Ele te prometeu muito mais do que isso, se entre n\u00f3s n\u00e3o houver mentirosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 E para v\u00f3s ele deu tudo o que prometera, se \u00e9 que n\u00e3o deu tamb\u00e9m alguma coisa, cuja restitui\u00e7\u00e3o, agora, vos deixaria envergonhada.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 As mo\u00e7as de hoje j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e3o bons modos? Usar\u00e3o elas as saias onde deveriam ter o rosto? N\u00e3o vos sobra tempo, por ocasi\u00e3o da ordenha, ou quando vos recolheis, ou quando limpais o forno, para falar baixinho sobre essas intimidades? Ser\u00e1 preciso tagarelar desse modo diante de todos os convidados? Por sorte, eles conversam baixo. Abafai as l\u00ednguas, e nem mais uma palavra!<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 J\u00e1 terminei. Vamos; t\u00ednheis-me prometido um len\u00e7o de seda para o pesco\u00e7o e um par de luvas perfumadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o te contei como fui roubado no caminho, tendo ficado sem nenhum dinheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 \u00c9 fato, senhor; h\u00e1 muitos malandros por a\u00ed afora; por isso, \u00e9 preciso estar sempre com os olhos abertos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o tenhas medo, homem, que aqui n\u00e3o perdereis nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Assim o espero, senhor; porque trago comigo muita coisa de valor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Que tens ai? Algumas baladas?<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Por favor, compra-me algumas; gosto muito de baladas impressas porque assim temos a certeza de que s\u00e3o ver\u00eddicas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Aqui est\u00e1 uma de toada muito triste: Como a mulher de um usur\u00e1rio deu \u00e0 luz vinte sacos de moedas de ouro de uma s\u00f3 vez e como ela desejava comer assados de cabe\u00e7as de v\u00edboras e de sapos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 E acreditais que isso seja verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Pura verdade; aconteceu h\u00e1 um m\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Deus me livre de casar com um usur\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Vem citado aqui o nome da parteira, uma tal Mistress Taleporter, e de cinco ou seis mulheres que estiveram presentes ao parto. Por que haveria eu de espalhar mentiras?<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Por favor, compra essa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Que seja, ent\u00e3o; deixa essa de lado; mas primeiro mostra-nos outras baladas. Depois compraremos alguma coisa mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Aqui est\u00e1 outra, de um peixe que apareceu na costa, na quarta-feira de oitenta de abril, a quarenta mil bra\u00e7as acima da \u00e1gua, e cantou esta balada contra o duro cora\u00e7\u00e3o das raparigas. H\u00e1 quem diga que ele tinha sido mulher, que fora transformada em um peixe frio por ter querido trocar carne com quem lhe dedicava amor. Essa balada \u00e9 muito triste e igualmente ver\u00eddica.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 E pensais que essa tamb\u00e9m seja verdadeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Cinco ju\u00edzes a subscrevem, havendo mais testemunhas para o caso do que eu poderia carregar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Deixa essa tamb\u00e9m de lado. Mostra-nos outra.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Esta aqui \u00e9 uma balada alegre, mas muito interessante.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Precisamos tamb\u00e9m de algumas alegres.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Esta \u00e9 bastante alegre, sendo cantada com a m\u00fasica de \u201cDuas raparigas que faziam a corte ao mesmo homem\u201d. Em todo o Oeste n\u00e3o h\u00e1 quase rapariga que n\u00e3o a saiba de cor. \u00c9 muito procurada, posso assegurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 N\u00f3s duas poderemos cant\u00e1-la; se quiseres fazer uma das vozes, poder\u00e1s ouvi-la. \u00c9 a tr\u00eas vozes.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Aprendemos essa m\u00fasica h\u00e1 um m\u00eas.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Posso cantar a minha voz; deveis saber que \u00e9 esse o meu of\u00edcio. Estou pronto.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 J\u00e1 vou; n\u00e3o ireis comigo; para onde vou, n\u00e3o vos digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Para onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Oh! aonde?<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Para onde?<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 N\u00e3o deverias ter medo de revelar-me um segredo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Nem a mim&#8230; Nin\u00adgu\u00e9m res\u00adpon\u00adde?<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 Se vais \u00e0 granja ou ao moinho,<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 desviado est\u00e1s do caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Eu, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 \u00c0 granja?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 L\u00e1, n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DORCAS \u2014 Juraste-me amor eterno.<\/p>\n<p align=\"justify\">MOPSA \u2014 E que me serias terno. Para onde iremos, ent\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Em pouco tempo n\u00f3s mesmos a cantaremos. Meu pai e o gentil-homem est\u00e3o conversando assunto s\u00e9rio; n\u00e3o os perturbemos. Vem comigo e traze os teus embrulhos. Raparigas, vou comprar muita coisa para v\u00f3s duas. Bufarinheiro, d\u00e1-nos a primazia na escolha. Meninas, acompanhai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai o Bobo, com Dorcas e Mopsa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 E haveis de pagar bem caro. N\u00e3o quereis comprar-me fita para a capinha bonita, minha pombinha, tr\u00e1-la? Seda fina, l\u00e3 espessa, enfeites para a cabe\u00e7a da \u00faltima moda, tr\u00e1-la. Todos ao bufarinheiro! Quem tiver muito dinheiro comprar\u00e1 tudo, tr\u00e1-la!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Mestre, chegaram agora tr\u00eas carreteiros, tr\u00eas ovelheiros, tr\u00eas boiadeiros e tr\u00eas guardadores de porcos, que se disfar\u00e7aram em homens de cabelo. Eles mesmo se denominam S\u00e1tiros e sabem uma dan\u00e7a que as raparigas, por n\u00e3o tomarem parte nela, dizem que n\u00e3o passa de uma misturada de pulos, conquanto elas pr\u00f3prias concedam que h\u00e1 de agradar muito, no caso de n\u00e3o ser a dan\u00e7a muito forte para quem est\u00e1 habituado a dan\u00e7as delicadas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Que se retirem! N\u00e3o queremos saber disso agora; j\u00e1 temos loucuras em excesso. Percebo que vos fatigamos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 N\u00e3o fatigais sen\u00e3o os que vos distraem. Por obs\u00e9quio, deixai-nos ver esses quatro ternos de pastores.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Tr\u00eas dentre eles, segundo eles pr\u00f3prios o disseram, j\u00e1 dan\u00e7aram na presen\u00e7a do rei, saltando o pior dos tr\u00eas doze p\u00e9s e meio de comprido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Parai com essa tagarelice. J\u00e1 que estes bons senhores se comprazem em v\u00ea-los, fazei-os entrar, mas que seja logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Como n\u00e3o! Eles j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 porta, senhor. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta o criado com doze camp\u00f4nios disfar\u00e7ados de s\u00e1tiros. Estes dan\u00e7am e se retiram.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES (<i>ao pastor<\/i>) \u2014 Sim, pai; depois vos falarei sobre isso. (<i>A Camilo.<\/i>) J\u00e1 foram longe por demais. \u00c9 tempo de separ\u00e1-los. O pastor \u00e9 simples e diz o que n\u00e3o deve. (<i>A Florizel.<\/i>) Ent\u00e3o, galante pastor? O cora\u00e7\u00e3o tendes tomado por algo que da festa vos afasta. Pois em verdade, quando eu era mo\u00e7o e, como v\u00f3s, ficava apaixonado, enchia minha bela de presentes. J\u00e1 teria saqueado as sedas todas daquele vendedor, sendo for\u00e7oso que ela viesse a aceit\u00e1-las. Mas deixastes que ele partisse sem comprar-lhe nada. Se vossa apaixonada interpretasse mal toda essa reserva, e a definisse como falta de amor, quando n\u00e3o fosse de generosidade, ficar\u00edeis atrapalhado para responder-lhe, mormente se fizerdes grande empenho de vir a conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Venerando senhor, eu sei que ela d\u00e1 pouco apre\u00e7o a essas quinquilharias. Os presentes que ela de mim almeja, bem guardados tenho-os no cora\u00e7\u00e3o. Todos s\u00e3o dela, muito embora n\u00e3o os tenha ainda entregue. (<i>A Perdita.<\/i>) Permite que o imo peito eu patenteie diante deste senhor, que, tudo o indica, o amor j\u00e1 conheceu. A m\u00e3o te pego, esta m\u00e3o t\u00e3o macia quanto o peito das c\u00e2ndidas pombinhas, e t\u00e3o brancas como dentes de et\u00edope, ou qual neve que o vento norte joeira duas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Que vir\u00e1 depois disso?, Com que delicadeza o pastorzinho lavar parece a m\u00e3o, de si t\u00e3o branca? Mas vejo que vos distra\u00ed. Ou\u00e7amos o juramento, pois saber desejo como empenhais a f\u00e9.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Vou j\u00e1 faz\u00ea-lo; nisso, me servireis de testemunha.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Servir pode tamb\u00e9m o meu vizinho?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o ele s\u00f3, os homens, toda a terra, o firmamento, tudo: que se eu fosse coroado rei do mais possante imp\u00e9rio, e digno desse posto me mostrasse; se o mancebo mais lindo eu fosse, acaso, que olhar j\u00e1 enfeiti\u00e7ou, e dispusesse de saber e de for\u00e7a mais que humanos, tudo eu desprezaria, se privado de seu amor me visse. A seu servi\u00e7o poria essas vantagens; dedicara tudo \u00e0 sua pessoa, ou, decidido, sacrificara tudo, se a perdesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Solene juramento!<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Que revela mui sincera afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 E tu lhe dizes o mesmo, minha filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 \u00c9-me imposs\u00edvel falar t\u00e3o bem, nada fazer t\u00e3o bem, nem traduzir melhor os sentimentos; contudo, sei medi-los na pureza dos sentimentos dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Aqui, as m\u00e3os. Neg\u00f3cio feito. Ireis ser testemunhas, caros desconhecidos, do contrato. Minha filha lhe entrego, e o dote dela ao dele igualarei.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Sim, poder\u00edeis faz\u00ea-lo apenas com a virtude dela. Quando algu\u00e9m falecer, hei de herdar tanto como nem mesmo em sonho poder\u00edeis imaginar sequer; o suficiente para vos assombrar. Por\u00e9m uni-nos diante destes senhores.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Dai-me a m\u00e3o. Filha, a vossa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Um momentinho, mancebo, por obs\u00e9quio. Tendes pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Tenho, sim; mas, que importa?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 E ele se encontra ciente do que se passa?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o, nem nunca vir\u00e1 a saber de nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Parece-me que um pai, nas n\u00fapcias de seu filho \u00e9 o convidado que mais condiz \u00e0 mesa. Respondei-me de novo, por obs\u00e9quio: j\u00e1 se encontra vosso pai, porventura, inteiramente incapaz de tratar de assunto s\u00e9rio? A idade e o reumatismo deprimente deixaram-no abobado? Pode, acaso, falar? Entende o que se diz? Distingue bem as pessoas? Gere os seus neg\u00f3cios? Preso ao leito se encontra, e em quanto fa\u00e7a parece crian\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o, meu bom senhor; tem bastante sa\u00fade e ainda revela vigor acima dos da sua idade.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Se for assim, por esta barba branca, n\u00e3o procedeis, em rela\u00e7\u00e3o a ele, como a um filho compete. A raz\u00e3o manda que meu filho por si escolha esposa; mas a mesma raz\u00e3o fala bem alto que o pai \u2014 cuja maior felicidade consiste em ter uma bonita prole \u2014 tamb\u00e9m opine em semelhante caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Concedo tudo; mas por outras causas; reverendo senhor, que n\u00e3o vos posso revelar, a meu pai n\u00e3o direi nada com respeito a este assunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 N\u00e3o; contai-Ihe.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Falai-lhe, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o poder\u00e1 saber o que se passa.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Meu filho, usa com ele de franqueza; n\u00e3o ficar\u00e1 zangado ao ter ci\u00eancia da escolha que fizeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Vamos! Vamos! \u00c9 imposs\u00edvel. Firmemos nossa uni\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES (<i>descobrindo-se<\/i>) \u2014 Vosso div\u00f3rcio, mo\u00e7o, a quem n\u00e3o devo dar o nome de filho, pois te mostras vil demais para que eu te reconhe\u00e7a. Um herdeiro do cetro, que prefere cajado de pastor!&#8230; S\u00f3 o que me pesa, velho traidor, \u00e9 reduzir-te a vida de uma semana apenas, como mandar-te pendurar numa forca. E tu, bonito tipo de feiticeira, que sabias muito bem que real tolo tinhas preso&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Que dor no cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 H\u00e3o de os espinhos arranhar-te a beleza, at\u00e9 a igualarem \u00e0 tua condi\u00e7\u00e3o. \u2014 E tu, pateta, se eu souber que suspiras de saudades desta coisa nenhuma \u2014 que \u00e9 certeza nunca mais a reveres \u2014 destituo-te da sucess\u00e3o do trono, declarando-te estranho a nosso sangue e a nossa casa, e t\u00e3o distante dela como o pr\u00f3prio Deucali\u00e3o. Toma nota do que eu digo: retoma para a corte. E tu, saloio, por esta vez, embora incorrido hajas em nosso desprazer, de ti desviamos a puni\u00e7\u00e3o fatal. E v\u00f3s, feiti\u00e7o \u2014 digna bastante para um pegureiro&#8230; Sim, para este tamb\u00e9m, que se revela \u2014 n\u00e3o se opusesse a tanto o nosso nome \u2014 pouco digno de ti \u2014 se em algum tempo descerrares os r\u00fasticos ferrolhos, para deix\u00e1-lo entrar, ou se nos bra\u00e7os o prenderes de novo, hei de uma morte t\u00e3o cruel te reservar quanto franzina fores para enfrent\u00e1-la. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Aniquilada completamente, embora n\u00e3o ficasse muito atemorizada, pois estive uma ou duas vezes para lhe ser franca, dizendo-lhe que o mesmo sol que brilha sobre sua corte n\u00e3o esconde o rosto de nossa pobre cho\u00e7a e ambas contempla. N\u00e3o vos dignais, senhor, de partir logo? J\u00e1 vos havia dito como tudo viria a terminar. Cuidai, vos pe\u00e7o, de vossa posi\u00e7\u00e3o, que este meu sonho&#8230; Uma vez despertada, n\u00e3o prossigo no papel de rainha um s\u00f3 momento; voltarei a ordenhar minhas ovelhas e a chorar.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Pai, que \u00e9 isso? Dize algo, antes de vir a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 \u00c9-me imposs\u00edvel pensar ou dizer nada, sem que possa atrever-me a saber o que sabia&#8230; \u00d3 pr\u00edncipe! Matastes quem chegara aos oitenta e tr\u00eas anos calculando baixar tranq\u00fcilamente \u00e0 sepultura, morrer no leito em que meu pai morrera, e ao lado de seus ossos venerandos encontrar o repouso. Mas agora, algum carrasco o corpo h\u00e1 de envolver-me num len\u00e7ol e dep\u00f4-lo onde n\u00e3o haja sacerdote que poeira jogue nele. \u00d3 coisa desprez\u00edvel! Tu sabias que era o pr\u00edncipe! Como te atreveste a fazer essa alian\u00e7a? Estou perdido completamente! Se a morrer eu viesse neste instante, teria arrematado minha exist\u00eancia como o desejara. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Por que me olhais assim? Estou somente penalizado, mas n\u00e3o sinto medo. Houve atraso, mas n\u00e3o se alterou nada. O que eu era, ainda sou; tanto mais for\u00e7a fa\u00e7o para avan\u00e7ar, quanto mais sinto que me puxem por tr\u00e1s. \u00c9 com protestos que me sinto no ajoujo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Meu gracioso senhor, n\u00e3o ignorais como \u00e9 o car\u00e1ter de vosso pai. Nestas primeiras horas n\u00e3o admite conversa, estando eu certo de que n\u00e3o pretendeis insistir nisso. Dificilmente, temo, h\u00e1 de ele vossa presen\u00e7a suportar. Ser\u00e1 prudente, pois, evit\u00e1-lo at\u00e9 que fique calmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o tenho essa inten\u00e7\u00e3o. Mas, sois Camilo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ele mesmo, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Oh! Quantas vezes vos disse que tudo isso se daria? Quantas vos repeti que s\u00f3 durara minha grandeza, at\u00e9 que se tornasse conhecida a verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Isso s\u00f3 for a poss\u00edvel se perjuro eu me tornasse. Ent\u00e3o, que a natureza aperte os flancos da terra e moa todas as sementes que ela no bojo tem. Eleva o olhar. Agora, pai, deserda-me, se o queres, que herdeiro passo a ser de meu afeto.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Atendei a conselhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Sim, do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Se a raz\u00e3o a obedecer-lhe se resolver, razo\u00e1vel vou mostrar-me. Do contr\u00e1rio, os sentidos \u00e0 loucura se inclinar\u00e3o, dando-lhe as boas-vindas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Isso revela desespero, pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Podeis chamar-lhe assim; mas se \u00e9 verdade que me refor\u00e7am juras, dou-lhe o nome de honestidade. Nem por toda a Bo\u00eamia, Camilo, nem as honras que eu pudesse receber, nem por tudo que o sol veja, ou que a terra contenha; nem por quanto possa o mar esconder nas profundezas de bra\u00e7as insond\u00e1veis, hei de as juras quebrar que fiz \u00e0 minha linda amada. Por tudo isso vos pe\u00e7o, j\u00e1 que sempre fostes amigo certo de meu pai, quando ele vier a dar por minha falta \u2014 pois n\u00e3o pretendo nunca mais rev\u00ea-lo \u2014 a c\u00f3lera acalmai-lhe com conselhos adequados, pois doravante vamos lutar: eu e a fortuna. Assim vos digo, e podereis contar-lhe, que me empego com quem n\u00e3o posso proteger na praia. E, por felicidade, de um navio disponho aqui, bem perto, que eu n\u00e3o tinha para isso aparelhado. O itiner\u00e1rio n\u00e3o precisais saber; n\u00e3o me compete, portanto, revel\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 \u00d3 caro pr\u00edncipe! Desejara que o esp\u00edrito tiv\u00e9sseis mais acess\u00edvel a um conselho honesto ou mais forte na pr\u00f3pria adversidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Ouve, Perdita. (<i>A Camilo.<\/i>) Logo vos atendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Mostra-se inabal\u00e1vel; \u00e9 certeza partir. Feliz eu fora se pudesse utilizar sua sa\u00edda, para servir aos meus intentos, preserv\u00e1-lo dos perigos da aus\u00eancia, demonstrar-lhe todo o respeito e amor, sendo esse o pre\u00e7o de voltar a rever minha Sic\u00edlia, bem como aquele infeliz rei, meu amo, como tanto desejo!<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Bom Camilo, tanto agora me apremam coisas graves, que vou deixar de lado a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Quero supor, senhor, que j\u00e1 tivestes conhecimento de como eu dedico todo o meu pobre pr\u00e9stimo ao servi\u00e7o, t\u00e3o-s\u00f3, de vosso pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Sim, com nobreza sempre o servistes. A meu pai \u00e9 m\u00fasica elogiar vossos feitos, n\u00e3o lhe dando pouca preocupa\u00e7\u00e3o o pensamento de premi\u00e1-los \u00e0 altura.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Bem, meu pr\u00edncipe; se estais certo do amor que ao rei eu voto, e, por seu interm\u00e9dio, a quem mais perto dele se encontra \u2014 vossa pr\u00f3pria Alteza graciosa \u2014 consenti que eu vos dirija, caso vosso projeto bem pensado possa ser alterado. Por minha honra, um lugar vos indico em que acolhida Vossa Alteza achar\u00e1 em tudo digna, onde vos lograreis de vossa amada, de quem, agora o vejo, nada pode vos separar, sen\u00e3o t\u00e3o-s\u00f3 \u2014 que os fados n\u00e3o o permitam! vossa pr\u00f3pria ru\u00edna, e onde a desposareis. Em vossa aus\u00eancia tudo farei para acalmar a c\u00f3lera do descontente pai e por deix\u00e1-lo disposto como dantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 De que modo, Camilo, poder\u00e1 ser isso feito \u2014 quase um milagre! \u2014 para que eu te chame mais do que humano e em tudo em ti confie?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 J\u00e1 decidistes o lugar em que heis de procurar acolhida?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o, ainda; mas como foram fatos positivos a causa de partirmos t\u00e3o de s\u00fabito, escravos confessamo-nos do acaso, que os ventos tocam para qualquer parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ent\u00e3o ouvi-me e nisto obedecei-me. Se persistis no intento e quereis mesmo levar a termo a fuga, dirigi-vos para a Sic\u00edlia, e l\u00e1 apresentai-vos com vossa esposa \u2014 pois princesa, vejo-o bem, ser\u00e1 logo ao Rei Leontes. Recebida ser\u00e1 conforme o t\u00edtulo de vossa pr\u00f3pria esposa. S\u00f3 parece que estou vendo: Leontes abre os bra\u00e7os a chorar e vos d\u00e1 as boas-vindas, pedindo-vos perd\u00e3o, como se fosseis vosso pai em pessoa, as m\u00e3os oscula da nova princesinha e uma e mais vezes volta a tratar dos sentimentos pr\u00f3prios a ingratid\u00e3o e o amor \u2014 enviando aquela para o inferno e almejando que este cres\u00e7a mais depressa que o tempo ou o pensamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Mas meu digno Camilo, que pretexto darei para a visita?<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Sois enviado, direis, de vosso pai, para saud\u00e1-lo e levar-lhe conforto. Toda vossa conduta, as coisas que deveis dizer-lhe como se vosso pai por v\u00f3s falasse \u2014 e que s\u00f3 n\u00f3s sabemos \u2014 por escrito, pr\u00edncipe vos direi, com minuciosas indica\u00e7\u00f5es do que ser\u00e1 preciso dizer em cada audi\u00eancia. Desse modo, n\u00e3o poder\u00e1 deixar de ficar crente de que representais o pensamento de vosso pai e que falais por ele de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 A v\u00f3s me entrego; o plano \u00e9 promissor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Muito mais vi\u00e1vel de que vos atirardes sem destino a \u00e1guas nunca sulcadas ou a paragens com que nunca sonhastes, na certeza de mis\u00e9rias sem n\u00famero, s\u00f3 tendo para cairdes noutra. N\u00e3o padece d\u00favida que o melhor que vossas \u00e2ncoras vos fariam, seria fundear sempre onde ficar n\u00e3o vos agrade nunca. Ademais, \u00e9 a ventura, sabeis disso, o la\u00e7o mais potente para o amor, cuja estrutura gr\u00e1cil e, por ela, tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o, com a adversidade por demais se ressente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Uma de vossas proposi\u00e7\u00f5es \u00e9 certa: a adversidade pode influir nas fei\u00e7\u00f5es, mas nunca pode vencer o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 \u00c9 desse modo que pensais? Outra filha assim, na casa de vosso pai n\u00e3o h\u00e1 de vir ao mundo nestes sete anos. Meu bondoso amigo, t\u00e3o \u00e0 frente ela vai da instru\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, quanto a retarda o ber\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Quem dissesse que lhe falta instru\u00e7\u00e3o, cometeria erro palmar, pois mestra ela parece de muitos professores.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Oh! Perdoai-me, senhor, mas coro s\u00f3 de agradecer-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Minha linda Perdita! Mas estamos pisando sobre espinhos. Bom Camilo, salvador de meu pai e agora nosso, m\u00e9dico de n\u00f3s todos: que faremos? N\u00e3o estamos vestidos como filhos do Rei da Bo\u00eamia, para aparecermos na corte da Sic\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 N\u00e3o seja isso, senhor, raz\u00e3o de vos deixar inquieto. Como o sabeis, \u00e9 l\u00e1 que tenho toda minha fortuna. Todo meu cuidado consistir\u00e1, portanto, em aprestar-vos com pompa real, tal como se realmente represent\u00e1sseis uma cena minha. Por exemplo, senhor. Ouvi-me, para vos convencerdes de que tendes tudo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Conversam \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Aut\u00f3lico.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Ah! Ah! Que louca \u00e9 a Honestidade! E como \u00e9 simpl\u00f3ria a Confian\u00e7a, sua irm\u00e3 de juramento! Vendi todas as minhas bugigangas: pedras falsas, fitas, espelhos, vidrinhos de perfume, broches, caderninhos de notas, baladas, facas, luvas, cord\u00e3o de sapatos, braceletes, brincos, nada me ficou! Era mais quem empurrava os outros, querendo todos ser os primeiros a comprar, como se as minhas frioleiras fossem santificadas e valessem como b\u00ean\u00e7\u00e3os para os compradores. Desse modo, pude ver quais eram as bolsas de melhor apar\u00eancia, o de que n\u00e3o me esquecerei na ocasi\u00e3o oportuna. Meu Bobo \u2014 muito pouca coisa lhe falta para que ele seja um homem sensato \u2014 de tal modo ficou tomado de paix\u00e3o pelas baladas das raparigas, que n\u00e3o arredou p\u00e9 enquanto n\u00e3o aprendeu a toada e as letras, o que atraiu para o meu lado o resto do rebanho, cujos sentidos se concentraram nos ouvidos. Poder\u00edeis desapertar as vestes de qualquer pessoa e retirar-lhe dos bolsos uma moeda, que ningu\u00e9m sentia nada. Poderia ter roubado chaves pendentes de correntes; ningu\u00e9m percebia coisa alguma, n\u00e3o ouvia outra coisa a n\u00e3o ser a can\u00e7\u00e3o de meu homem, boquiabertos diante de sua absoluta desvalia. Desse modo, aproveitando-me do letargo universal, cortei o cord\u00e3o da maior parte das bolsas festivas e apropriei-me delas. E se n\u00e3o fosse ter aparecido o velho, a fazer um barulh\u00e3o por causa de sua filha e do filho do rei, espantando-me do restolho os corvos, n\u00e3o teria deixado com vida uma s\u00f3 bolsa em todo o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Camilo, Florizel e Perdita v\u00eam para a frente.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Chegando minhas cartas, pelos meios de que j\u00e1 vos falei, ao mesmo tempo que v\u00f3s, desmanchar\u00e3o qualquer suspeita.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 E as cartas que obtiverdes do Rei Leontes&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Deixar\u00e3o satisfeito vosso pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Sede feliz; quanto dizeis inculca boa apar\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO (<i>percebendo Aut\u00f3lico<\/i>) \u2014 Quem \u00e9 esse tipo? Como instrumento, poder\u00e1 servir-nos. N\u00e3o conv\u00e9m omitir coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Se eles ouviram o que eu disse, o fim \u00e9 a forca.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Ent\u00e3o, amigo? Por que tremes desse jeito? N\u00e3o tenhas medo, homem; ningu\u00e9m pensa em te fazer mal.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Eu sou um pobre camarada, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Pois ent\u00e3o, continua a s\u00ea-lo, que nenhum de n\u00f3s tenciona privar-te dessa vantagem. Contudo, podemos fazer uma barganha com a apar\u00eancia de tua pobreza. Por isso, despe-te imediatamente \u2014 basta saberes que h\u00e1 grande urg\u00eancia \u2014 e troca de roupa com este gentil-homem. Embora s\u00f3 ele tenha a perder com a troca, fica com mais isto, de crescen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Sou um pobre camarada, senhor. (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Conhe\u00e7o-vos perfeitamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Vamos! Por obs\u00e9quio, despacha-te! O cavalheiro j\u00e1 est\u00e1 meio despido.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Estais falando s\u00e9rio, senhor? (<i>\u00c0 parte.<\/i>) Estou farejando uma cilada em tudo isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Vamos logo, por obs\u00e9quio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 \u00c9 certo que j\u00e1 recebi o penhor; mas, em consci\u00eancia, n\u00e3o posso aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Desabotoa! Desabotoa logo! (<i>Florizel e Aut\u00f3lico trocam as vestes respectivas.<\/i>) Feliz senhora \u2014 que se concretize quanto ora profetizo! \u2014 retirai-vos para um lugar discreto; na cabe\u00e7a ponde o chap\u00e9u de vosso apaixonado, puxando-o para os olhos; cobri o rosto, trocai de roupa, transformai-vos quanto vos for poss\u00edvel, alterando vossa apar\u00eancia verdadeira, para que possais \u2014 pois receio que vos vejam \u2014 chegar a bordo sem que vos conhe\u00e7am.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Vejo que tenho o meu papel na pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. Pronto?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Poderia conversar com meu pai, sem que ele o nome de filho seu me desse.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio ficardes sem chap\u00e9u. Vinde, senhora. Adeus, adeus, amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Meus, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 \u00d3 Perdita! Esquecemos uma coisa! Vem! Uma palavrinha!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Falam \u00e0 parte.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Consiste agora todo o meu cuidado em revelar ao rei a fuga deles e o lugar do ref\u00fagio, tendo quase certeza de chegar a convenc\u00ea-lo de seguir-lhes no encal\u00e7o. Assim, eu junto, vejo outra vez Sic\u00edlia, o que desejo fazer com impaci\u00eancia feminina.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Que a sorte nos ajude. E assim, Camilo, vamos ganhar a praia.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Toda a pressa nunca ser\u00e1 demais.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Florizel, Perdita e Camilo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Entendo do neg\u00f3cio; farejo-o de longe. Ouvido aberto, mirada r\u00e1pida e m\u00e3os leves s\u00e3o indispens\u00e1veis a todo batedor de carteira. Um bom nariz tamb\u00e9m faz parte dos requisitos, para farejar trabalho para os demais sentidos. Percebo que estamos em uma \u00e9poca em que os desonestos prosperam. Que barganha magn\u00edfica j\u00e1 n\u00e3o seria a que eu fiz, ainda que n\u00e3o me tocasse nenhum lucro de crescen\u00e7a! E que lucro enorme com a troca! N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: este ano os deuses est\u00e3o coniventes conosco, sendo-nos permitido tudo fazer ex tempore. O pr\u00f3prio pr\u00edncipe est\u00e1 no ponto de realizar alguma patifaria, fugindo do domic\u00edlio paterno com as peias nos p\u00e9s. Se eu estivesse certo de que era ato de honestidade comunicar ao rei o que se passa, n\u00e3o lhe diria nada. Considero maior velhacaria guardar sigilo sobre o caso, com o que me mantenho coerente com a minha profiss\u00e3o. Afastemo-nos! Eis que v\u00eam chegando mais ocupa\u00e7\u00f5es para um c\u00e9rebro quente. Todo beco, toda loja, igreja, sess\u00e3o, todo enforcamento d\u00e1 trabalho a quem quer que cuide de seus interesses.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam o bobo e o pastor.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vede que homem sois agora. N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda, sen\u00e3o revelardes ao rei que ela \u00e9 uma crian\u00e7a encontrada, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com vossa carne e com vosso sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 N\u00e3o; escuta-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o; escutai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Ent\u00e3o, prossegue.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Uma vez que ela n\u00e3o \u00e9 nem vossa carne nem vosso sangue, vossa carne e vosso sangue n\u00e3o ofenderam o rei; assim sendo, nem vossa carne nem vosso sangue se tornaram pass\u00edveis de puni\u00e7\u00e3o. Mostrai-lhe os objetos que encontrastes juntamente com ela, todos eles misteriosos, com exce\u00e7\u00e3o dos que ela traz consigo. Uma vez feito isso, deixai que a lei assobie, \u00e9 o que vos digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Contarei tudo ao rei, palavra por palavra, sim, sem omitir a partida que lhe pregou o pr\u00f3prio filho, que n\u00e3o procede como homem de bem, posso afirm\u00e1-lo, nem com rela\u00e7\u00e3o ao pai, nem com rela\u00e7\u00e3o a mim, ao querer fazer-me cunhado do rei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 De fato, cunhado era o menos que poder\u00edeis ser dele, depois do que ficar\u00edeis com o sangue mais caro n\u00e3o sei quanto a on\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Muito bem pensado, meus basbaques.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Vamos ent\u00e3o procurar o rei. Levamos-lhe neste embrulho alguma coisa que o far\u00e1 co\u00e7ar a barba.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 N\u00e3o compreendo em que essa revela\u00e7\u00e3o poder\u00e1 prejudicar a fuga do meu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Tomara que ele esteja em pal\u00e1cio.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Embora eu n\u00e3o seja naturalmente honesto, \u00e0s vezes o sou por acaso. Ponhamos no bolso esta excresc\u00eancia de mascate. (<i>Arranca a barba posti\u00e7a.<\/i>) Ent\u00e3o, r\u00fasticos, para onde vos atirais?<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Vamos a pal\u00e1cio, com permiss\u00e3o de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Que neg\u00f3cio tendes l\u00e1? Quais? Com quem? Que cont\u00e9m esse embrulho? Onde morais? Como vos chamais? Quantos anos tendes? Vossos recursos? Fam\u00edlia? Em suma: revelai-me tudo que for conveniente saber.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Somos gente simples, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Mentira! Sois \u00e1speros e peludos; n\u00e3o me venhais com mentiras. Mentir s\u00f3 \u00e9 pr\u00f3prio de comerciantes, que por vezes nos impingem petas, a n\u00f3s outros, soldados. Mas n\u00f3s lhes pagamos com moeda batida, n\u00e3o com ferro que bate; por isso eles n\u00e3o nos mentem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Vossa Senhoria esteve no ponto de nos apanhar numa mentira, se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos sido surpreendidos na hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Sois da corte, senhor, se n\u00e3o vos desagrada?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Agrade-me ou n\u00e3o me agrade, sou cortes\u00e3o. N\u00e3o percebes o ar da corte nesta indument\u00e1ria? N\u00e3o ando no compasso da corte? Teu nariz n\u00e3o percebe em minha pessoa o odor da corte? N\u00e3o fa\u00e7o reflexos em tua baixeza com o meu desprezo de cortes\u00e3o? Sou cortes\u00e3o da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, algu\u00e9m que poder\u00e1 fazer avan\u00e7ar ou retardar teus interesses na corte. Por isso, ordeno-te que me reveles o que te leva l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Certo neg\u00f3cio, senhor, com o rei<\/p>\n<div align=\"justify\">.<\/div>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 E com que advogado contas para isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 N\u00e3o sei, senhor, com permiss\u00e3o de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Advogado, na linguagem da corte, quer dizer fais\u00e3o. Dizei-lhe que n\u00e3o tendes nenhum.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Realmente, senhor; n\u00e3o tenho nenhum fais\u00e3o; nem macho nem f\u00eamea<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Como somos felizes por n\u00e3o sermos gente desse quilate! A natureza, contudo, poderia ter-me feito como eles s\u00e3o. N\u00e3o devo desprez\u00e1-los.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Deve ser um grande cortes\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 As vestes s\u00e3o ricas, mas ele n\u00e3o as usa com eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Quanto mais original, mais nobre parece. Um grande homem, posso afian\u00e7ar-vos; conhe\u00e7o pela maneira de palitar os dentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 E aquele embrulho? Que cont\u00e9m? Para que \u00e9 essa caixa?<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Neste embrulho, senhor, e nesta caixa h\u00e1 segredos que s\u00f3 podem ser revelados ao rei, o que se dar\u00e1 dentro de uma hora, se eu conseguir falar-lhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Pois perdeste o trabalho, meu velho.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Por qu\u00ea, senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 O rei n\u00e3o se acha no pal\u00e1cio; foi para bordo de um novo navio, a fim de purgar sua melancolia e tomar ar. Se fores capaz de compreender assuntos s\u00e9rios, deves saber que o rei est\u00e1 cheio de preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 \u00c9 o que dizem, senhor, por causa de seu filho, que queria casar com a filha de um pastor.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Se esse pastor ainda n\u00e3o est\u00e1 na grade, que trate de fugir. As maldi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o cair em cima dele, as torturas que ter\u00e1 de suportar, quebrariam o dorso a qualquer homem e o cora\u00e7\u00e3o de um monstro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Pensais assim, meu senhor?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 N\u00e3o \u00e9 ele somente que h\u00e1 de sofrer o que a maldade possa inventar de pesado e a vingan\u00e7a de amargoso; todos os seus parentes, at\u00e9 o q\u00fcinquag\u00e9simo grau, ser\u00e3o tamb\u00e9m entregues ao carrasco. \u00c9 pena, mas \u00e9 inevit\u00e1vel. Um velho assobiador de ovelhas, um guardador de carneiros, que queria que sua filha se tornasse fidalga! H\u00e1 quem diga que vai ser apedrejado; mas eu penso que essa morte, para ele, seria pouco branda. Puxar nosso trono para uma cabana de pastor! Todas as mortes s\u00e3o poucas, e a mais cruel ainda ser\u00e1 muito branda.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 J\u00e1 ouvistes dizer, senhor, se n\u00e3o vos desagrada, que esse velho tenha algum filho?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Tem um filho, que vai ser esfolado vivo, depois besuntado de mel e posto ao lado de um vespeiro, onde o deixar\u00e3o at\u00e9 ficar morto tr\u00eas quartas e uma dracma. A seguir, f\u00e1-lo-\u00e3o reanimar com aquavitae ou qualquer outra infus\u00e3o quente. Depois, escalavrado como estiver, no dia mais quente previsto pelo almanaque, ser\u00e1 colocado contra um muro de tijolos, onde o sol olhar\u00e1 para ele com o seu olho sul e o ficar\u00e1 contemplando at\u00e9 que as moscas o liquidem. Mas, por que falarmos desses velhacos e traidores, cujas mis\u00e9rias s\u00f3 nos provocam riso, t\u00e3o graves foram seus crimes? Dizei-me pois pareceis gente honesta e simples \u2014 que \u00e9 que levais para o rei. Gozando de certa considera\u00e7\u00e3o, poderei guiar-vos at\u00e9 a bordo do navio em que ele se acha, levar-vos \u00e0 sua presen\u00e7a e segredar-lhe algumas palavrinhas a vosso favor. Se h\u00e1 algu\u00e9m \u2014 tirante o rei \u2014 que poder\u00e1 dar boa conclus\u00e3o a vossas pretens\u00f5es, aqui est\u00e1 essa pessoa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Parece gozar de grande autoridade. Instai com ele; dai-lhe ouro; porque embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes, vista de ouro, deixa-se conduzir pelo nariz. Mostrai o interior de vossa bolsa ao exterior da m\u00e3o dele, e nem mais uma palavra. N\u00e3o vos esque\u00e7ais: Apedrejado\u201d e \u201cesfolado vivo!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Se quereis ter a bondade, senhor, de patrocinar nosso neg\u00f3cio, aqui tendes o ouro de que disponho. Poderei arranjar outro tanto, deixando este jovem como penhor, at\u00e9 que vos traga a outra por\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Depois de eu ter feito o que prometi?<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Perfeitamente, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Muito bem. Ent\u00e3o, entrega-me essa metade. E tu, tamb\u00e9m est\u00e1s interessado nesse neg\u00f3cio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 De certo modo, senhor; mas embora minha pele n\u00e3o seja l\u00e1 das melhores, espero que n\u00e3o me fa\u00e7am sair dela contra minha vontade.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Oh! Isso s\u00f3 acontecer\u00e1 com o filho do pastor. \u00c0 forca com ele, para que sirva de exemplo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Coragem! Coragem! Teremos de procurar o rei e mostrar-lhe esses objetos estranhos. \u00c9 preciso que ele fique sabendo que ela n\u00e3o \u00e9 vossa filha nem minha irm\u00e3. Do contr\u00e1rio, estaremos perdidos. Senhor, uma vez conclu\u00eddo o neg\u00f3cio, dar-vos-ei tanto quanto vos deu este velho, ficando, como ele disse, na qualidade de penhor, at\u00e9 que ele traga o resto da import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Tenho confian\u00e7a em v\u00f3s. Ide na frente, em dire\u00e7\u00e3o do mar. Vou s\u00f3 ver o que se passa do outro lado da sebe, e j\u00e1 vos alcan\u00e7arei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Para n\u00f3s este homem foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, pode-se dizer; verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Vamos na frente, conforme ele ordenou que o fiz\u00e9ssemos. Foi a Provid\u00eancia que no-lo enviou.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o pastor e o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Estou vendo que se eu quisesse ser honesto, a Fortuna n\u00e3o o consentiria; ela pr\u00f3pria faz que as presas me venham cair na boca. Sou cortejado agora por uma dupla vantagem: obter ouro e prestar um bom servi\u00e7o ao pr\u00edncipe meu senhor. Quem sabe at\u00e9 que ponto isso poder\u00e1 redundar em seu proveito? Vou levar-lhe a bordo essas duas toupeiras, esses dois cegos. Se ele achar proveito em recambi\u00e1-los para terra, por julgar que n\u00e3o lhe diz respeito a peti\u00e7\u00e3o que eles tencionam apresentar ao rei, que me d\u00ea o nome de maroto, por me ter mostrado t\u00e3o servi\u00e7al; j\u00e1 estou \u00e0 prova de fogo com tudo o que diz respeito a semelhante t\u00edtulo e ao opr\u00f3brio inerente a ele. Vou apresent\u00e1-los ao pr\u00edncipe; pode ser que isso me renda alguma coisa. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv51\" name=\"inv51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Sic\u00edlia. Um quarto no pal\u00e1cio de Leontes. Entram Leontes, Cle\u00f4menes, Dion, Paulina e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 Senhor, fizestes muito; o sofrimento que revelais \u00e9 pr\u00f3prio s\u00f3 de m\u00e1rtires. Quantos erros houv\u00e9sseis praticado, j\u00e1 se acham redimidos, que ultrapassa de muito a penit\u00eancia vossas altas. Como remate, o c\u00e9u imitai nisso, esquecendo vosso erro, e, tal como ele, a v\u00f3s mesmo perdoando.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Em todo o tempo que dela eu me lembrar e de seus dotes, imposs\u00edvel ser-me-\u00e1 lan\u00e7ar no olvido quanto fui mau em rela\u00e7\u00e3o a ela, quanto comigo injusto, indo at\u00e9 ao ponto de deixar sem herdeiro o pr\u00f3prio trono e de matar a mais distinta esposa com que sonhar pudesse qualquer homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 \u00c9 certo, meu senhor; \u00e9 muito certo. Se despos\u00e1sseis todas as mulheres do mundo, uma por uma, ou se de quantas agora existem retir\u00e1sseis tudo que de mais alto as orna, para a esposa perfeita conseguirdes, imposs\u00edvel vos fora, ainda, p\u00f4-la em paralelo com aquela que matastes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 \u00c9 o que eu penso, tamb\u00e9m. A que eu matei&#8230; Sim, dei-lhe a morte; foi o que fiz. Por\u00e9m me feres fundo, falando desse modo. T\u00e3o amarga te sabe \u00e0 l\u00edngua essa lembran\u00e7a, como \u00e0 minha retentiva. Assim me fala, boa amiga, mas muito mais de espa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 N\u00e3o, jamais, boa dama. Poder\u00edeis ter falado mii coisas que mais \u00fateis fossem neste momento e mais de acordo com a bondade que tanto ws distingue.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Sois um daqueles que desejam v\u00ea-lo novamente casado.<\/p>\n<p align=\"justify\">DION \u2014 Se n\u00e3o fordes desses tamb\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o tendes pena das condi\u00e7\u00f5es do Estado, nem das gl\u00f3rias vos importais de seu ilustre nome, n\u00e3o vos incomodando os grandes riscos que o reino amea\u00e7ar podem, se Sua Gra\u00e7a continuar desse modo sem herdeiros, a morrer vindo os que se mostrem d\u00fabios. Que fora mais piedoso do que j\u00fabilo revelar pela bem-aventuran\u00e7a de que se goza a falecida rainha? Que mais piedoso, ainda, porque o trono mais firme se tornasse, para nosso consolo e bem das gera\u00e7\u00f5es futuras, do que de novo aben\u00e7oar o leito de Sua Alteza com uma grata esposa?<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Nenhuma \u00e9 digna disso, se pensarmos naquela que morreu. Demais, os deuses h\u00e3o de querer que em tudo se confirmem seus des\u00edgnios ocultos. N\u00e3o \u00e9 certo ter-se manifestado o divo Apolo, e dito expressamente o seu or\u00e1culo que sem herdeiro ficaria Leontes, enquanto n\u00e3o aparecesse a filha que ora perdida est\u00e1? Mas t\u00e3o obstrusa para nossa raz\u00e3o ser\u00e1 tal coisa, como quebrar a tumba o meu Ant\u00edgono e voltar para mim, pois que \u00e9 certeza por minha vida o juro \u2014 ter morrido juntamente com ela. Ora, assim sendo, desejais que meu amo ao c\u00e9u se oponha, que despreze seus planos? (<i>A Leontes.<\/i>) N\u00e3o vos seja motivo de cuidado a descend\u00eancia. A coroa h\u00e1 de achar seu pr\u00f3prio herdeiro. O famoso Alexandre deixou a sua para o mais digno, tendo, assim, o trono passado para um sucessor condigno.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Boa Paulina, sei que ainda cultuas a mem\u00f3ria de Herm\u00edone. Oh! tivesse seguido teus conselhos! Ainda hoje contemplaria minha cara esposa e um tesouro colhera de seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Deixando-os mais valiosos depois disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 S\u00f3 falas a verdade. Igual esposa j\u00e1 n\u00e3o se encontra. Logo, n\u00e3o me falem mais em casar. Uma pior consorte, que de mim recebesse mais afagos, obrigaria seu sagrado esp\u00edrito a voltar para o corpo e vir ao. palco em que eu \u2014 seu assassino \u2014 ainda me encontro, para, com desespero, perguntar-me: \u201cPor que me fazeis isso?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Se tivesse poder para isso, causa lhe sobrara.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o lhe faltara, certo; e me induzira a matar a mulher que eu desposasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Se espectro errante eu fosse, \u00e9 o que faria. Mandar-vos-ia contemplar-lhe os olhos, e depois perguntara: \u201cEsse olhar morto foi que vos atraiu?\u201d Depois, soltara t\u00e3o forte guincho, que vos deixaria de ou\u00e7as arrebentadas, despedindo-se com vos dizer: \u201cRecorda-te de mim!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Estrelas cintilantes, verdadeiras estrelas, n\u00e3o passando os outros olhos de carv\u00f5es apagados. N\u00e3o receies outra mulher, Paulina; jamais hei de casar de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 N\u00e3o quereis jurar-me que n\u00e3o vos casareis, sem que para isso vos d\u00ea consentimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quero, boa Paulina; juro-o pela vida eterna.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Tomai nota, senhores, desta jura.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 A excessivo tormento o submeteis.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 A menos que lhe surja aos olhos outra que se pare\u00e7a tanto com Herm\u00edone como sua pr\u00f3pria imagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">CLE\u00d4MENES \u2014 Boa dama&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Cheguei ao fim. Se o meu senhor, de fato, quer casar outra vez \u2014 se decidistes, senhor, sobre esse ponto \u2014 reservai-me a incumb\u00eancia de esposa procurar-vos. N\u00e3o h\u00e1 de ser t\u00e3o jovem quanto Herm\u00edone, mas de tal apar\u00eancia, que se o esp\u00edrito da morta retornasse, se alegrara de v\u00ea-la em vossos bra\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Minha boa Paulina, n\u00e3o nos casaremos antes de nos dares licen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Ser\u00e1 isso quando voltar \u00e0 vida vossa esposa. Antes, jamais.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um gentil-homem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Algu\u00e9m que se apresenta como o Pr\u00edncipe Florizel, descendente de Pol\u00edxenes, com sua esposa \u2014 a mais formosa jovem que eu jamais vi \u2014 deseja ser trazido diante de Vossa Alteza.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Que acontece?. N\u00e3o chega como fora de esperar-se da grandeza do pai. Essa visita t\u00e3o despida de toda cerim\u00f4nia, t\u00e3o s\u00fabita, nos diz que n\u00e3o se trata de uma visita regular, mas de algo for\u00e7ado ou acidental. Qual \u00e9 o seu s\u00e9quito?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Poucas pessoas; todas, gente simples.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Vem com ele, dissestes, a princesa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 A mais linda por\u00e7\u00e3o de argila, creio, que o sol em qualquer tempo haja alumiado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 \u00d3 Herm\u00edone! Como em todos os tempos o presente se vangloria \u00e0 custa do passado, teus encantos agora o lugar cedem diante dos mais recentes. Cavalheiro, v\u00f3s mesmo j\u00e1 dissestes e escrevestes \u2014 mas vosso escrito, agora, est\u00e1 mais frio do que seu pr\u00f3prio tema \u2014 que ela nunca fora igualada e n\u00e3o o seria nunca. Desse modo, com sua formosura, deflu\u00eda vosso verso; mas vazante muito grande se deu, para dizerdes que algu\u00e9m vistes mais bela do que Herm\u00edone.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Perd\u00e3o, senhora; uma, por\u00e9m, eu tinha \u2014 com vossa permiss\u00e3o \u2014 quase esquecido. Mas esta agora, quando for notada por vossos olhos, obter\u00e1, sem d\u00favida, irrestritos enc\u00f4mios. \u00c9 criatura que se fundar quisesse alguma seita, faria arrefecer aos pr\u00f3prios chefes das outras o entusiasmo, convertendo para a sua a quem quer que ela acenasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Inclusive mulheres?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 As mulheres h\u00e3o de dedicar-lhe amor, por estar ela muito acima dos homens, e estes todos, por ser ela a mais rara das mulheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Ide, Cle\u00f4menes. E v\u00f3s, com vossos mais distintos amigos, conduzi-os para que os abracemos. (<i>Saem Cle\u00f4menes, nobres e o gentil-homem.<\/i>) Mas \u00e9 estranho que venha por maneira t\u00e3o furtiva!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Se estivesse com vida o nosso pr\u00edncipe \u2014 a p\u00e9rola das crian\u00e7as \u2014 formaria com este nobre um par digno de ver-se, pois entre a idade de ambos n\u00e3o havia um m\u00eas de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Por obs\u00e9quio,n\u00e3o prossigas. Bem sabes que ele morre para mim novamente, quando nele qualquer pessoa fala. No momento em que eu vir esse<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 estou bem certo \u2014 tuas palavras h\u00e3o de sugerir-me pensamentos que louco v\u00e3o deixar-me. Mas eis os visitantes. (<i>Volta Cle\u00f4menes com Florizel, Perdita e outros.<\/i>) Caro Pr\u00edncipe, vossa m\u00e3e foi fiel ao matrim\u00f4nio, porque reproduziu, ao conceber-vos, a imagem fiel de vosso nobre pai. Se vinte e um anos eu tivesse agora \u2014 de tal maneira os tra\u00e7os fision\u00f4micos de vosso pai em v\u00f3s se reproduzem, toda sua postura \u2014 vos daria o t\u00edtulo de irm\u00e3o, como com ele costumava fazer naquele tempo, e de alguma loucura vos falara que praticado houv\u00e9ssemos pouco antes. De cora\u00e7\u00e3o vos dou as boas-vindas e a vossa bela esposa \u2014 vera deusa! \u2014 Oh c\u00e9us! Perdi dois filhos, um casal, que se entre o c\u00e9u e a terra ainda estivessem, espanto despertaram como agora, par gracioso, o fazeis. Por culpa pr\u00f3pria, perdi a companhia e o grande afeto de vosso nobre pai. Pelo infort\u00fanio dobrado como estou, desejaria viver ainda s\u00f3 para rev\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Por ordem dele vim at\u00e9 \u00e0 Sic\u00edlia e de sua parte trago-vos saudares como um amigo e rei a um mano envia. E se a fraqueza pr\u00f3pria da velhice do consueto vigor n\u00e3o o tivesse, de algum modo, privado, ele, em pessoa, medido ent\u00e3o teria a terra e os mares que entre o seu trono e o vosso se interp\u00f5em, com o fito de vos ver, a v\u00f3s, a que ele \u2014 mandou que vos dissesse amor dedica maior que aos tronos todos e aos monarcas que, vivos, nele se acham.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Que bondoso gentil-homem! Que irm\u00e3o! Todos os males que te causei, de novo me compungem e essa tua mensagem t\u00e3o tocante me exprobra a neglig\u00eancia. Sois bem-vindo como o \u00e9 a primavera sobre a terra. Como! Exp\u00f4s ele esta criatura linda ao jogo perigoso, ou, quando nada, pouco agrad\u00e1vel do feroz Netuno, s\u00f3 para vir saudar quem n\u00e3o \u00e9 digno dessas canseiras nem de que se arrisque t\u00e3o preciosa pessoa?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Meu bondoso soberano, da L\u00edbia ela procede.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Onde o valente Esmalo, esse guerreiro nobre e honrado, \u00e9 temido e venerado?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 De l\u00e1, real senhor, da parte dele, cujas l\u00e1grimas, quando nos partimos, a proclamavam filha muito amada. De l\u00e1, precisamente, um vento pr\u00f3spero do sul nos trouxe, para cumprimento darmos \u00e0s ordens de meu pai, de a Vossa Grandeza visitarmos. Quase todo meu s\u00e9quito, ao tocarmos na Sic\u00edlia, foi por mim dispensado, n\u00e3o somente porque levada \u00e0 Bo\u00eamia fosse a nova do meu bom \u00eaxito na L\u00edbia, como por dar not\u00edcias que eu com minha esposa chegamos bem onde ora nos achamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Que os deuses caridosos purifiquem de qualquer infec\u00e7\u00e3o nossa atmosfera todo o tempo que aqui permanecerdes. Tendes um pai piedoso, um gentil-homem de nobreza sem ja\u00e7a, contra cuja santa pessoa eu cometi pecado. Como castigo disso, o c\u00e9u col\u00e9rico me deixou sem herdeiro, enquanto vosso bendito pai \u2014 merecedor de tudo com que o c\u00e9u o aben\u00e7oe \u2014 feliz se encontra convosco, digno dele. Oh! A que altura n\u00e3o teria eu chegado, se pudesse ver uma filha e um filho t\u00e3o perfeitos com o par que ora vejo!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um nobre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Muito nobre senhor, n\u00e3o merecera nenhum cr\u00e9dito quanto vos vou dizer, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos as provas aqui perto. Grande pr\u00edncipe, Bo\u00eamia pessoalmente vos sa\u00fada, valendo-se do meu modesto pr\u00e9stimo. A deter vos concita o filho dele que, esquecido do cargo e dos deveres, fugiu do pai, das pr\u00f3prias esperan\u00e7as, com a filha de um pastor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Onde est\u00e1 Bo\u00eamia?<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Nesta cidade; acabo de falar-lhe. Sei que falo sem nexo, mas de acordo com meu espanto e esta mensagem rara. Ao vir depressa para vossa corte, seguindo o rasto, pelo que suponho, deste belo casal, deu em caminho com o pai desta princesa improvisada e o irm\u00e3o dela, que a p\u00e1tria abandonaram em companhia deste jovem pr\u00edncipe.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Camilo me traiu, ele que \u00e0 prova do tempo a honestidade e a honra pusera.<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Podeis fazer-lhe carg\u00e0 disso mesmo, pois com o rei vosso pai ele se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quem! Camilo?<\/p>\n<p align=\"justify\">NOBRE \u2014 Camilo, sim, milorde: falei-lhe agora mesmo. Interrogados por ele os dois coitados est\u00e3o sendo. Nunca vi infelizes tremer tanto; ajoelham-se a toda hora, a terra beijam, outra coisa n\u00e3o dizem sen\u00e3o juras. O Rei da Bo\u00eamia as m\u00e3os leva aos ouvidos e os amea\u00e7a de morte com supl\u00edcios.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Meu pobre pai! O c\u00e9u mandou espias sobre n\u00f3s; n\u00e3o consente que levemos ao fim nosso espos\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Sois casados?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 N\u00e3o, senhor; nem jamais nos casaremos. Ser\u00e1 mais f\u00e1cil, pelo que parece, virem beijar os vales as estrelas. Quem poder\u00e1 ganhar com dados falsos?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 E ela, senhor, \u00e9 filha de um monarca?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Ser\u00e1, quando tornar-se minha esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quero crer que esse \u201cquando\u201d, com a chegada de vosso pai, vem muito lentamente. Causa-me pena, muita pena mesmo, ver que os la\u00e7os rompestes da amizade a que o dever vos conservava preso, como verificar que vossa escolha n\u00e3o seja, em posi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o opulenta como o \u00e9 em formosura, porque fosse natural que a possu\u00edsseis.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLORIZEL \u2014 Al\u00e7a a vista, minha querida. Ainda que a Fortuna, nossa inimiga declarada, ao lado de meu pai nos d\u00ea ca\u00e7a, for\u00e7a alguma tem de modificar, de um fio apenas, nosso sincero amor. Senhor, suplico-vos lembrardes-vos do tempo em que dev\u00edeis tanto \u00e0 idade quanto eu. Com os sentimentos de ent\u00e3o sede advogado em minha causa. Meu pai, se lhe falardes, n\u00e3o vos h\u00e1 de negar nenhum pedido, dando como ninharias as coisas mais valiosas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Se isso fosse verdade, eu lhe pedira vossa amada preciosa, que ele julga n\u00e3o valer coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Meu senhor, nos olhos tendes muita mocidade; um m\u00eas antes da morte da rainha, muito mais digna desse olhar era ela do que a pessoa que ora estais olhando.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Olhando esta, era nela que eu pensava. (<i>A Florizel.<\/i>) N\u00e3o respondi a vossa peti\u00e7\u00e3o. Vou ao encontro, j\u00e1, de vosso pai. Desde que n\u00e3o tisnou mancha nenhuma dos desejos vossa honra, considero-me amigo vosso e deles. Vamos juntos e vede o que eu fizer. Vinde, meu caro.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv52\" name=\"inv52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Diante do pal\u00e1cio. Entram Aut\u00f3lico e um gentil-homem.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, estivestes presente a essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Estive presente, quando abriram o embrulho e ouvi como o velho pastor contou como o havia encontrado, ao que se seguiu uma fase r\u00e1pida de espanto, tendo-nos sido dada ordem para que sa\u00edssemos da sala. Parece que ouvi ainda o pastor dizer que havia achado a crian\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Desejaria muito saber o desenlace disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Fiz uma exposi\u00e7\u00e3o muito incompleta do que houve; mas as altera\u00e7\u00f5es que eu percebi no rei e em Camilo eram indicadoras de extrema perplexidade. Pela maneira que se olhavam, dir-se-ia que os olhos iam saltar-lhes das \u00f3rbitas; havia eloq\u00fc\u00eancia no mutismo deles e linguagem em seus pr\u00f3prios gestos. Davam a impress\u00e3o de estarem ouvindo falar de mundos resgatados ou destru\u00eddos. Revelavam sinais de grande estupefa\u00e7\u00e3o; mas qualquer testemunha sagaz, que s\u00f3 formasse opini\u00e3o pelo que visse, n\u00e3o saberia dizer se toda aquela emo\u00e7\u00e3o era fruto de alegria ou de tristeza, sendo certeza que s\u00f3 poderia tratar-se de um desses dois sentimentos, elevado ao m\u00e1ximo. (<i>Entra outro gentil-homem.<\/i>) A\u00ed vem um gentil-homem que talvez nos possa informar de mais alguma coisa. Quais s\u00e3o as novidades, Rogero?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Nenhuma, sen\u00e3o fogos de alegria. Cumpriu-se o or\u00e1culo: a filha do rei foi encontrada. Tantas coisas espantosas se tornaram conhecidas nesta hora, que os fazedores de baladas n\u00e3o ser\u00e3o capazes de dar-lhes express\u00e3o adequada. (<i>Entra um terceiro gentil-homem.<\/i>) A\u00ed vem o intendente da senhora Paulina. Ele vos contar\u00e1 mais algumas particularidades. Ent\u00e3o, senhor, em que ponto est\u00e3o as coisas? As novidades que nos s\u00e3o dadas como puras verdades, parecem-se tanto com um velho conto, que a veracidade do fato se nos afigura muito suspeita. \u00c9 certo que o rei encontrou a herdeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Cert\u00edssimo, se em qualquer tempo a verdade j\u00e1 foi demonstrada pelas circunst\u00e2ncias. Poder\u00edeis jurar que vistes que tudo o que vos contam, tal \u00e9 a coer\u00eancia das provas. O manto da Rainha Herm\u00edone, a j\u00f3ia que a crian\u00e7a trazia ao pesco\u00e7o, as cartas de Ant\u00edgono, cuja letra foi reconhecida, a majestade da senhorita, a semelhan\u00e7a com a m\u00e3e, a express\u00e3o de nobreza, muito acima de sua educa\u00e7\u00e3o, e denotadora de origem mais elevada, e muitas outras evid\u00eancias proclamam, sem sombra de d\u00favida, que ela \u00e9 mesmo a filha do rei. Vistes o encontro dos dois monarcas?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Ent\u00e3o perdestes um espet\u00e1culo que n\u00e3o pode ser contado; precisava ter sido visto. Ter\u00edeis visto como as alegrias se coroavam sucessivamente, e de forma tal que s\u00f3 parecia que a tristeza chorava por despedir-se deles, de tal modo a alegria patinhava em l\u00e1grimas. Ambos n\u00e3o faziam sen\u00e3o olhar para o c\u00e9u e levantar as m\u00e3os, com t\u00e3o perturbados modos, que s\u00f3 eram reconhec\u00edveis pelas vestes, n\u00e3o pela fisionomia. Nosso rei, como se quisesse sair de si mesmo, de alegria por haver encontrado a filha, como se de s\u00fabito essa alegria se houvesse transformado em dor, gritava: Oh, tua m\u00e3e! Tua m\u00e3e!\u201d Depois, pedia perd\u00e3o ao Rei da Bo\u00eamia; depois abra\u00e7ava o genro; depois, corria a abra\u00e7ar a\u00e7odadamente a filha. Agradece ao velho pastor, que se mantinha como uma figura de chafariz estragada pelo tempo durante muitas gera\u00e7\u00f5es de reis. Nunca ouvi falar de um encontro como esse; deixa manca qualquer rela\u00e7\u00e3o que dela se queira fazer e desafia qualquer descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEGUNDO GENTIL-HOMEM \u2014 Dizei-me, ainda, por obs\u00e9quio, que aconteceu com Ant\u00edgono, que fora incumbido de expor a crian\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Ainda no jeito dos velhos contos, em que h\u00e1 muito que dizer, muito embora cochile a credulidade e nenhum ouvido fique atento: foi estra\u00e7alhado por um urso, conforme o afirma o filho do pastor, cuja palavra \u00e9 refor\u00e7ada n\u00e3o somente por sua pr\u00f3pria ingenuidade \u2014 que parece grande, realmente \u2014 como tamb\u00e9m por um len\u00e7o e os an\u00e9is que Paulina reconheceu como tendo pertencido ao marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 E que foi feito do navio dele e de seus tripulantes?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Foi a pique no momento preciso em que morria o dono, e \u00e0 vista do pastor, de forma que todos os instrumentos que haviam tomado parte no ato de ser exposta a crian\u00e7a se perderam no momento em que ela foi encontrada. Mas, oh! que nobre combate se travava em Paulina, entre a alegria e a tristeza! Um dos olhos se abaixava pela perda do marido, enquanto o outro se elevava por ter sido cumprido o or\u00e1culo; levantava do solo a princesa e a abra\u00e7ava com tamanho ardor, como se a quisesse cravar no cora\u00e7\u00e3o, para que n\u00e3o viesse a correr o risco de vir novamente a perder-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 \u2014 A grandeza dessa cena merecia um audit\u00f3rio de reis e de pr\u00edncipes, por serem tais os seus atores.<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Um dos acidentes mais comovedores, que chegou a pescar nos meus olhos \u2014 s\u00f3 tendo apanhado \u00e1gua, sem pegar peixe algum \u2014 \u00e0 rela\u00e7\u00e3o da morte da rainha e da causa que a provocou \u2014 admiravelmente confessada e lastimada pelo rei \u2014 foi a tens\u00e3o dolorosa da filha, que, num crescendo de manifesta\u00e7\u00e3o de sofrimento, por \u00faltimo, com uma exclama\u00e7\u00e3o, poderia dizer, sangrou em l\u00e1grimas, pois estou certo de que o meu cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m chorava sangue. Dos assistentes, os mais de pedra mudaram de cor; alguns desmaiaram; todos se mostravam profundamente comovidos, e se o mundo inteiro houvesse presenciado a cena, a tristeza teria sido universal.<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 J\u00e1 voltaram para a corte?<\/p>\n<p align=\"justify\">TERCEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 N\u00e3o; que a princesa ouviu falar da est\u00e1tua de sua m\u00e3e, que se acha sob a guarda de Paulina \u2014 trabalho que requereu anos e que foi recentemente conclu\u00eddo por J\u00falio Romano, o grande mestre italiano, que, se fosse imortal, insuflaria alento em sua cria\u00e7\u00e3o e usurparia a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o da natureza, tal \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o com que a imita. Fez uma Herm\u00edone t\u00e3o semelhante a Herm\u00edone, que, segundo dizem, a gente fala com ela e fica \u00e0 espera de resposta. Para l\u00e1 se dirigiram todos com a sofreguid\u00e3o da afei\u00e7\u00e3o, pretendendo cear l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GENTIL-HOMEM \u2014 Herm\u00edone, duas ou tr\u00eas vezes por dia ela se dirigia sozinha para essa casa apartada. N\u00e3o quereis ir tamb\u00e9m l\u00e1, para nos associarmos \u00e0 alegria geral?<\/p>\n<p align=\"justify\">PRIMEIRO GENTIL-HOMEM \u2014 Haver\u00e1 quem n\u00e3o queira ir, gozando do benef\u00edcio do acesso? A cada piscar de olhos pode nascer um novo motivo de alegria. Nossa aus\u00eancia nos deixaria privados de informa\u00e7\u00f5es. Sigamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os gentis-homens.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Agora, se n\u00e3o fosse a m\u00e1cula de minha vida anterior, choveriam sobre mim as promo\u00e7\u00f5es. Fui eu que levei o velho e seu filho para bordo do navio do pr\u00edncipe e lhe disse que os surpreendera a falar de certo embrulho e de n\u00e3o sei que mais. Mas nessa ocasi\u00e3o o pr\u00edncipe se encontrava obcecado pela filha do Pastor \u2014 ainda a tinha nessa conta \u2014 que come\u00e7ava a sofrer de enj\u00f4o, n\u00e3o estando ele tampouco muito mais firme, porque a tempestade n\u00e3o parara. Da\u00ed n\u00e3o ter sido descoberto nessa ocasi\u00e3o o segredo. Mas para mim, tanto faz. Se tivesse sido eu o descobridor do segredo, isso n\u00e3o anularia minhas velhacarias anteriores. A\u00ed v\u00eam os dois, aos quais eu fiz bem sem o querer; encontram-se em pleno desabrochar da fortuna.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram o pastor e o bobo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Vamos, menino; outros filhos n\u00e3o posso ter; mas teus filhos e tuas filhas h\u00e3o de nascer fidalgos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Belo encontro, senhor. H\u00e1 dias n\u00e3o vos quisestes bater comigo, por eu n\u00e3o ser gentil-homem de nascimento. Vedes esta roupa? Dizei que n\u00e3o a estais vendo e continuai a pensar que eu n\u00e3o sou gentil-homem de nascimento. Far\u00edeis melhor se diss\u00e9sseis que esta roupa n\u00e3o \u00e9 de gentil-homem de nascimento. Experimentai desmentir-me, para verdes se eu sou ou n\u00e3o um gentil-homem de nascimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Agora sei, senhor, que sois, realmente, um gentil-homem de nascimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sim, e sempre o fui, desde as \u00faltimas quatro horas.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Eu tamb\u00e9m, rapaz.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sim, v\u00f3s tamb\u00e9m; mas eu me tornei gentil-homem de nascimento antes de meu pai, porque o filho do rei me tomou pela m\u00e3o e me chamou de irm\u00e3o. Foi s\u00f3 depois que os dois reis deram o nome de irm\u00e3o a meu pai e que o pr\u00edncipe meu irm\u00e3o e a princesa minha irm\u00e3 chamaram de pai a meu pai, tendo n\u00f3s, ent\u00e3o, chorado as primeiras l\u00e1grimas de gentil-homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Ainda poderemos viver, filho, para chorar muitas mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 \u00c9 certo; do contr\u00e1rio, seria verdadeira infelicidade, dada a nossa posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o despropositada.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Humildemente vos suplico, senhor, que me perdoeis todas as faltas cometidas em rela\u00e7\u00e3o a Vossa Senhoria, e que vos digneis dizer a meu favor uma palavrinha ao pr\u00edncipe, meu amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Pe\u00e7o-te, meu filho, que fa\u00e7as isso; precisamos mostrar-nos generosos, agora que somos gentis-homens.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Prometes que te corrigireis?<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Sim, com a permiss\u00e3o de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 D\u00e1-me a m\u00e3o; vou jurar ao pr\u00edncipe que tu \u00e9s um sujeito t\u00e3o honesto como quem quer que o seja na Bo\u00eamia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 Poder\u00e1s dizer isso, por\u00e9m sem jurar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 N\u00e3o jurar, agora que sou gentil-homem? Camponeses e burgueses que se contentem em falar; eu, hei de jurar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PASTOR \u2014 E se for falso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Por mais falso que seja, um gentil-homem poder\u00e1 afirmar em juramento, quando se trata de favorecer a um amigo. Vou jurar ao pr\u00edncipe que tu \u00e9s bom de m\u00e3os e que n\u00e3o te embriagas, ainda que eu saiba que n\u00e3o \u00e9s de m\u00e3o muito boa e que te embriagas. Mas hei de jur\u00e1-lo, desejando que sejas muito bom de m\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">AUT\u00d3LICO \u2014 Hei de esfor\u00e7ar-me para s\u00ea-lo, senhor, quanto em mim estiver.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOBO \u2014 Sim, prova-me isso por todas as maneiras. Se eu n\u00e3o me admirar de tu ousares embriagar-te sem seres bom de m\u00e3os, nunca mais acredites em mim. Escutai! Os reis e os pr\u00edncipes, nossos parentes, v\u00e3o indo ver a est\u00e1tua da rainha. Vamos; acompanha-nos; seremos bons para ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"inv53\" name=\"inv53\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma capela em casa de Paulina. Entram Leontes, Pol\u00edxenes, Florizel, Perdita, Camilo, Paulina, nobres e s\u00e9quito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Quanto consolo, minha boa e digna Paulina, estou a dever-te!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Se por vezes, meu soberano, errei, n\u00e3o foi por gosto. Todos os meus servi\u00e7os sempre foram compensados de sobra. Mas o fato, senhor, de n\u00e3o vos terdes dedignado, com vosso irm\u00e3o coroado e os dois herdeiros, de visitar a minha pobre casa, \u00e9 excesso de bondade que imposs\u00edvel em toda a vida me ser\u00e1 pagar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Oh Paulina! S\u00f3 inc\u00f4modo vos damos com a honra que dizeis. Mas aqui viemos, para a est\u00e1tua admirar de nossa esposa. Atravessamos vossas galerias n\u00e3o sem grande prazer, proporcionado pela vista de tantas raridades que nela se cont\u00eam; mas ainda falta ver o que minha filha tanto almeja: a est\u00e1tua da m\u00e3e dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Assim como ela n\u00e3o teve em vida quem se lhe igualasse, do mesmo modo, creio, sua imagem inanimada excede tudo quanto pela m\u00e3o do homem foi jamais criado. Eis a raz\u00e3o de a conservar \u00e0 parte. Aqui est\u00e1 ela. Agora preparai-vos para ver como a vida simulada zomba da pr\u00f3pria vida, como nunca da morte o sono o fez. Ei-la! Mirai-a e dizei que \u00e9 perfeita! (<i>Paulina afasta uma cortina, deixando ver Herm\u00edone, em posi\u00e7\u00e3o de est\u00e1tua.<\/i>) Esse sil\u00eancio diz bem de vosso espanto; isso me agrada. Mas dizei qualquer coisa. V\u00f3s, primeiro, meu soberano; n\u00e3o \u00e9 mais ou menos parecida?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Tal qual como era em vida. N\u00e3o me censures, pedra idolatrada, se eu disser que \u00e9s realmente a minha Herm\u00edone. N\u00e3o, sem me censurares \u00e9 que \u00e9s ela, que sempre foi t\u00e3o branda como a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, como a gra\u00e7a. Mas, Paulina, Herm\u00edone n\u00e3o tinha tantas rugas; n\u00e3o tinha a idade que aparenta agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Oh! muito menos!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Tanto mais nos for\u00e7am \u00e0 admira\u00e7\u00e3o os m\u00e9ritos do artista, que a fez envelhecer dezesseis anos, plasmando-a como se hoje ela vivesse.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Como podia estar ainda, tanto para minha alegria, quanto agora me punge o cora\u00e7\u00e3o. Oh! Desse mesmo modo ela estava, com igual aprumo de nobre majestade \u2014 vida quente, que ora o calor perdeu \u2014 quando a primeira declara\u00e7\u00e3o lhe fiz. Oh! envergonho-me! A pedra n\u00e3o ir\u00e1 lan\u00e7ar-me em rosto que mais pedra do que ela ora eu pare\u00e7o? O real obra-prima! H\u00e1 for\u00e7a m\u00e1gica em tua majestade, que me evoca neste momento todos os meus crimes e priva minha filha estarrecida da vida dos sentidos, transformando-a em pedra, como tu.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Oh! Permiti-me, sem me tachardes de supersticiosa, que eu me ponha de joelho e b\u00ean\u00e7\u00e3o pe\u00e7a. Senhora, soberana mui querida, que vos finastes quando eu vim ao mundo, dai-me a m\u00e3o, porque a beije!<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Oh! mais paci\u00eancia! A est\u00e1tua foi conclu\u00edda h\u00e1 pouco tempo; as cores ainda n\u00e3o est\u00e3o bem secas.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Meu senhor, vossa dor tem sido grande todo esse tempo. Dezesseis invernos n\u00e3o a apagaram; dezesseis estios n\u00e3o puderam sec\u00e1-la. Nunca vive tanto a alegria; em muito menos tempo qualquer outra tristeza se matara.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Permiti, caro irm\u00e3o, que quem foi causa de tudo isto, de seu poder se valha para de v\u00f3s tirar parte da pena que a ele pr\u00f3prio acabrunha.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Com franqueza, meu senhor, se eu tivesse imaginado que vos abalar\u00edeis tanto \u00e0 vista de minha pobre est\u00e1tua \u2014 pois a pedra me pertencia \u2014 n\u00e3o vo-la mostrara.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o corras a cortina.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 \u00c9 conveniente n\u00e3o a verdes mais tempo; em vosso enlevo poder\u00edeis pensar que ela se move.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Deixa! Deixa! Quisera estar sem vida, se morto eu j\u00e1 n\u00e3o parecesse h\u00e1 muito. Quem foi o autor da est\u00e1tua? Vede, pr\u00edncipe, n\u00e3o tendes a impress\u00e3o de que respira? de que estas veias cont\u00eam mesmo sangue?<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 \u00c9 uma obra-prima; nesses l\u00e1bios pulsa mais quente a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 A fixidez do olhar tem movimento. S\u00f3 parece que a arte zomba de n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 N\u00e3o; vou tap\u00e1-la. T\u00e3o abalado meu senhor se encontra que h\u00e1 de acabar pensando que ela vive.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Cara Paulina, deixa-me durante vinte anos na ilus\u00e3o de que \u00e9 assim mesmo. Toda a raz\u00e3o do mundo vale menos do que a ventura de uma tal ins\u00e2nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Causa-me pena, meu senhor, o ter-vos abalado a esse ponto. Poderia vos causar afli\u00e7\u00e3o mais acendrada.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Faze-o, Paulina. Essa afli\u00e7\u00e3o me sabe mais docemente que qualquer cordial. Mas sempre quer-me parecer que dela vero alento se evola. Mas quando houve quem na pedra gravasse o pr\u00f3prio an\u00e9lito? Podem zombar de mim, mas vou beij\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Perd\u00e3o, meu soberano, mas a tinta dos l\u00e1bios ainda n\u00e3o secou de todo; com vosso beijo ir\u00edeis retir\u00e1-la, sobre sujar-vos de \u00f3leo da pintura. Puxo a cortina?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 N\u00e3o, nestes vinte anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">PERDITA \u2014 Tanto tempo eu tamb\u00e9m ficara olhando-a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Agora decidi-vos; ou da sala vos retirai j\u00e1 j\u00e1, ou preparai-vos para maior assombro. Se puderdes olhar a est\u00e1tua ainda, farei que ela se mova, des\u00e7a e pela m\u00e3o vos tome. Mas ent\u00e3o heis de crer \u2014 o que protesto \u2014 que algum poder perverso me auxilia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Verei contente tudo o que mandares que ela fa\u00e7a, e ouvirei tamb\u00e9m de grado quanto ela me disser, pois \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil fazer que fale, como que se mexa.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 \u00c9 preciso ter f\u00e9. Sil\u00eancio agora! Ningu\u00e9m se mexa, salvo se h\u00e1 quem pense que o que eu vou praticar \u00e9 conden\u00e1vel. Esse que se retire.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Continua;ningu\u00e9m sair\u00e1 daqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Desperta-a, m\u00fasica! (<i>M\u00fasica.<\/i>) Cessai de ser de pedra! \u00c9 tempo. Vinde! Tocai em todos que vos olham, cheios de admira\u00e7\u00e3o. Descei; deixarei cheio vosso sepulcro. Sim, aproximai-vos! Legai \u00e0 morte esse torpor, que a vida j\u00e1 vos libertou dela. Vede-a; move-se. (<i>Herm\u00edone desce do pedestal.<\/i>) N\u00e3o vos mostreis estupefactos; todos seus atos s\u00e3o sagrados, como foram l\u00edcitos meus conjuros. Recebei-a; do contr\u00e1rio, far\u00edeis que morresse, o que fora mat\u00e1-la duas vezes. A m\u00e3o lhe dai; j\u00e1 a corte lhe fizestes, quando \u00e9reis mo\u00e7o. Mas agora, idoso, ela \u00e9 que vos corteja.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES (<i>abra\u00e7ando Herm\u00edone<\/i>) \u2014 Oh! Est\u00e1 quente! Se magia for tudo, seja uma arte t\u00e3o l\u00edcita como o ato de comer.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 Ela o beijou.<\/p>\n<p align=\"justify\">CAMILO \u2014 Prendeu-se-lhe ao pesco\u00e7o. Se est\u00e1 viva, que fale.<\/p>\n<p align=\"justify\">POL\u00cdXENES \u2014 E nos declare onde viveu at\u00e9 hoje e como \u00e0 morte conseguiu escapar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente rir\u00edeis como de uma hist\u00f3ria antiga; mas que vive \u00e9 evidente, embora ainda n\u00e3o nos tenha falado. Um momentinho, por obs\u00e9quio. Formosa senhorita, \u00e9 tempo de intervirdes. Ajoelhai-vos. Boa senhora, ouvi: nossa Perdita foi encontrada. (<i>Paulina apresenta Perdita, que se ajoelha diante de Herm\u00edone.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HERM\u00cdONE \u2014 \u00d3 deuses, contemplai-nos, e de vossas crateras consagradas derramai gra\u00e7as sobre minha filha! Dize-me, cara, como te salvaste? Onde viveste at\u00e9 hoje? De que modo pudeste achar a casa de teu pai? Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o or\u00e1culo nos dera esperan\u00e7a de seres encontrada, deixei-me ficar viva, porque visse como isso acabaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PAULINA \u2014 Para tanto, tempo haver\u00e1 de sobra. Do contr\u00e1rio, perturbareis com vossa narrativa a grande dita de hoje. Ora reuni-vos, v\u00f3s todos que lucrastes neste dia, e aos demais transmiti vossa ventura, enquanto eu, pobre rola envelhecida, subirei para algum mirrado galho, para chorar o esposo que nunca h\u00e1 de retornar para mim, a\u00ed deixando-me ficar at\u00e9 morrer.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONTES \u2014 Oh! n\u00e3o, Paulina! De minha m\u00e3o receber\u00e1s marido, como eu de ti a esposa. Isso \u00e9 um contrato que entre juras firmamos. Devolveste-me a minha. Como a achaste&#8230; eis o problema; pois eu a vi, ao parecer, defunta, e em v\u00e3o rezei em sua sepultura. N\u00e3o terei precis\u00e3o de ir muito longe \u2014 pois em parte conhe\u00e7o os sentimentos dessa pessoa \u2014 para achar um digno marido para ti. Camilo, adianta-te, e pela m\u00e3o a toma, pois seu m\u00e9rito e sua honestidade s\u00e3o not\u00f3rios e por dois reis agora confirmados. Saiamos da capela. Como! Os olhos dirige ao meu irm\u00e3o. Perd\u00e3o vos pe\u00e7o, por haver posto meu molesto ci\u00fame entre vossos olhares inocentes. Eis vosso genro, filho de um monarca, que por disposi\u00e7\u00e3o do c\u00e9u se torna de vossa filha noivo. Generosa Paulina, leva-nos daqui, para onde possamos com vagar interrogar-nos e responder sobre o papel que todos representam no intervalo grande que se escoou desde a \u00e9poca remota em que nos separamos. Vai na frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens LEONTES, Rei da Sic\u00edlia. MAM\u00cdLIO, jovem Pr\u00edncipe da Sic\u00edlia. CAMILO, nobre da Sic\u00edlia. ANTIGONO, nobre da Sic\u00edlia. CLE\u00d3MENES, nobre da Sic\u00edlia. DION, nobre da Sic\u00edlia. POL\u00cdXENES, Rei da Bo\u00eamia. FLORIZEL, seu filho. ARQU\u00cdDAMO, um nobre da Bo\u00eamia. UM MARINHEIRO. UM CARCEREIRO. UM VELHO PASTOR, pai putativo de Perdita. O BOBO, seu filho. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120235","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Conto De Inverno, William Shakespeare Conto De Inverno William<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Conto De Inverno, William Shakespeare, Obra Completa, Poesia, Poema, Conto De Inverno\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Conto De Inverno, William 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