{"id":120224,"date":"2017-04-24T09:41:52","date_gmt":"2017-04-24T11:41:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120224"},"modified":"2017-04-24T09:41:52","modified_gmt":"2017-04-24T11:41:52","slug":"o-mercador-de-veneza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-mercador-de-veneza","title":{"rendered":"O Mercador de Veneza"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>O DOGE DE VENEZA.<\/b><br \/>\n<b>O PR\u00cdNCIPE DE MARROCOS<\/b>, pretendente de P\u00f3rcia.<br \/>\n<b>O PR\u00cdNCIPE DE ARAG\u00c2O<\/b>, pretendente de P\u00f3rcia.<br \/>\n<b>ANT\u00d4NIO<\/b>, um mercador de Veneza.<br \/>\n<b>BASS\u00c2NIO<\/b>, seu amigo.<br \/>\n<b>GRACIANO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio.<br \/>\n<b>SAL\u00c2NIO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio.<br \/>\n<b>SALARINO<\/b>, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio.<br \/>\n<b>LOUREN\u00c7O<\/b>, apaixonado de Jessica.<br \/>\n<b>SHYLOCK<\/b>, um judeu rico.<br \/>\n<b>TUBAL<\/b>, um judeu, seu amigo.<br \/>\n<b>LANCELOTO GOBBO<\/b>, criado de Shylock.<br \/>\n<b>O VELHO GOBBO<\/b>, pai de Lanceloto.<br \/>\n<b>LEONARDO<\/b>, criado de Bass\u00e2nio.<br \/>\n<b>BALTASAR<\/b>, criado de P\u00f3rcia.<br \/>\n<b>EST\u00c9FANO<\/b>, criado de P\u00f3rcia.<br \/>\n<b>P\u00d3RCIA<\/b>, rica herdeira.<br \/>\n<b>NERISSA<\/b>, sua dama de companhia.<br \/>\n<b>JESSICA<\/b>, filha de Shylock.<br \/>\nSenadores de Veneza, oficiais da Corte de Justi\u00e7a, um carcereiro, criados de P\u00f3rcia e outros servidores.<\/p>\n<p><a name=\"mv11\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entram Ant\u00f4nio. Salarino e Sal\u00e2nio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o sei, realmente, porque estou t\u00e3o triste. Isso me enfara; e a v\u00f3s tamb\u00e9m, dissestes. Mas como come\u00e7ou essa tristeza, de que modo a adquiri, como me veio, onde nasceu, de que mat\u00e9ria \u00e9 feita, ainda estou por saber. E de tal modo obtuso ela me deixa, que mui dificilmente me conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Vosso esp\u00edrito voga em pleno oceano, onde vossos gale\u00f5es de altivas velas \u2014 como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar \u2014 olham por cima da multid\u00e3o de humildes traficantes que os sa\u00fadam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afei\u00e7\u00f5es navegaria com minhas esperan\u00e7as. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debru\u00e7ado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Meu h\u00e1lito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. N\u00e3o poderia ver correr a ampulheta, sem que id\u00e9ia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico \u201cAndr\u00e9\u201d numa coroa, mais fundo o topo do que os pr\u00f3prios flancos, para beijar a tumba; n\u00e3o iria \u00e0 igreja sem que a vista do edif\u00edcio majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de agu\u00e7adas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: at\u00e9 h\u00e1 pouco t\u00e3o valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e h\u00e1 de faltar-me pensamento no que respeita \u00e0 id\u00e9ia de que tal coisa me faria triste? Mas n\u00e3o precisareis dizer-me nada: sei que Ant\u00f4nio est\u00e1 triste s\u00f3 de tanto pensar em suas cargas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Podeis crer-me, n\u00e3o \u00e9 assim. Sou grato \u00e0 minha sorte; mas n\u00e3o confio nunca os meus haveres a um s\u00f3 lugar e a um barco, simplesmente nem depende o que tenho dos azares do corrente ano, apenas. N\u00e3o me deixam triste, por conseguinte, as minhas cargas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Ent\u00e3o estais amando.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ora! Que id\u00e9ia!<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 N\u00e3o \u00e9 paix\u00e3o, tamb\u00e9m? Ent\u00e3o digamos que triste estais por n\u00e3o estardes ledo, e que saltar e rir vos fora f\u00e1cil e acrescentar, depois, que estais alegre porque triste n\u00e3o estais. Pelo deus Jano de dupla face, a natureza, agora, confecciona uns sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilh\u00e9ria \u00e9 boa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Bass\u00e2nio, Louren\u00e7o e Graciano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Eis que vem vindo a\u00ed Bass\u00e2nio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Louren\u00e7o e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Ficaria convosco at\u00e9 deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos n\u00e3o me solicitassem neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sei apreciar em tudo vossos m\u00e9ritos. Os neg\u00f3cios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Bom dia, caros lordes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para n\u00f3s. \u00c9 conceb\u00edvel semelhante atitude?<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Nossas folgas ir\u00e3o ficar s\u00f3 ao dispor das vossas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Salarino e Sal\u00e2nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Caro senhor Bass\u00e2nio, j\u00e1 que achastes Ant\u00f4nio, vos deixamos. Mas mui gratos vos ficaremos, se hoje noite, \u00e0 ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Combinado.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Signior Ant\u00f4nio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto \u00e9 tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me cr\u00e9dito: mudastes por maneira extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 O mundo, para mim, \u00e9 o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos n\u00f3s, um papel, sendo o meu triste.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 O de bobo farei. Que entre folguedos e risadas as velhas rugas cheguem. Prefiro o f\u00edgado aquecer com vinho, a esfriar o peito com gemidos l\u00fagubres. Se o sangue temos quente, por que causa deveremos ficar im\u00f3veis como nossos antepassados de alabastro? dormir de p\u00e9, ficar com icter\u00edcia s\u00f3 de n\u00e3o fazer nada? Escuta, Ant\u00f4nio \u2014 dedico-te afei\u00e7\u00e3o; ela \u00e9 que fala \u2014 pessoas h\u00e1, cuja fisionomia se enruga e enturva como uma lagoa parada, e que a toda hora se retraem num sil\u00eancio obstinado, s\u00f3 com o fito de apar\u00eancia envergarem de profunda sabedoria, gravidade e senso, como quem diz: \u201cEu sou o senhor Or\u00e1culo; quando eu falar, nenhum cachorro ladre!\u201d Conhe\u00e7o, caro Ant\u00f4nio, muita gente que \u00e9 tida como s\u00e1bia, t\u00e3o-somente por n\u00e3o dizerem nada, quando \u00e9 certo que, se a falar chegassem, os ouvintes condenariam, por lev\u00e1-los, logo, a dar o nome, ao pr\u00f3ximo, de tolos. De outra vez falaremos mais sobre isso. Mas com isca assim triste n\u00e3o me pesques semelhante opini\u00e3o, pois como engodo, s\u00f3 serve para os tolos. Vem, bondoso Louren\u00e7o. Por enquanto, passai bem. Depois da ceia acabarei a pr\u00e9dica.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Muito bem; at\u00e9 \u00e0 ceia vos deixamos, Vou fazer o papel de s\u00e1bio mudo, porque falar Graciano n\u00e3o me deixa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Para ao meu lado apenas mais dois anos, que a pr\u00f3pria voz h\u00e1 de ficar-te estranha.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Adeus; para alcan\u00e7ar esse objetivo vou ficar falador.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Sim; que o sil\u00eancio s\u00f3 \u00e9 virtude em l\u00edngua defumada ou em virgem que n\u00e3o quer ser conquistada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Graciano e Louren\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Que sentido h\u00e1 em tudo isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Graciano fala sempre uma infinidade de nadas, como ningu\u00e9m em Veneza. Suas id\u00e9ias razo\u00e1veis s\u00e3o como dois gr\u00e3os de trigo perdidos em dois alqueires de palha: gastais um dia inteiro para encontr\u00e1-los; mas, uma vez achados, n\u00e3o compensam o trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Dizei-me agora o nome da donzela a que jurastes ir secretamente em peregrina\u00e7\u00e3o, de que dev\u00edeis falar-me hoje, segundo o prometestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o ignoras, Ant\u00f4nio, at\u00e9 que ponto dissipei meus haveres, pretendendo sustentar um estilo mais custoso de vida do que minhas fracas rendas podiam comportar. Presentemente n\u00e3o me pesa abrir m\u00e3o desse alto estilo. Consiste todo o meu cuidado apenas em liquidar airosamente as d\u00edvidas em que me enleou a vida um tanto pr\u00f3diga. Convosco, Ant\u00f4nio, tenho o maior d\u00e9bito, de amizade e dinheiro, assegurando-me vossa amizade o mais prop\u00edcio meio de aliviar-me dos planos e projetos de como ficar livre dessas d\u00edvidas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Confiai-me, bom Bass\u00e2nio, esses projetos, que, se estiverdes ainda, como sempre, sob a mirada da honra, ficai certo de que minha pessoa, a bolsa, todos os meus recursos ficar\u00e3o patentes vossa precis\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Quando menino de escola, se eu perdia alguma flecha, costumava lan\u00e7ar outra em seguida, para achar a primeira. Assim, as duas arriscando, acabava, muitas vezes, por ambas encontrar. Se men\u00e7\u00e3o fa\u00e7o desse jogo infantil, \u00e9 porque tudo quanto se segue \u00e9 de inoc\u00eancia pura. J\u00e1 me emprestastes muito, e, como jovem est\u00fardio, perdi tudo o que vos devo. Mas se quis\u00e9sseis mandar outra flecha na dire\u00e7\u00e3o daquela, n\u00e3o duvido que, atento \u00e0 meta, encontrarei as duas, ou, quando menos, a \u00faltima devolvo, ficando a vos dever apenas uma.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Conheceis-me mui bem; por isso mesmo perdeis tempo apelando desse modo para a minha afei\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de tudo, pondo em d\u00favida o meu devotamento, muito mais me ofendeis do que se houv\u00e9sseis malbaratado tudo o que possuo. Basta dizerdes-me o que \u00e9 necess\u00e1rio que eu fa\u00e7a, o que julgardes que s\u00f3 pode ser por mim realizado, e eis-me disposto para tudo fazer. Falai, portanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Em Belmonte h\u00e1 uma jovem que de pouco recebeu grande heran\u00e7a. \u00c9 muito linda e, mais do que esse termo, de virtudes admir\u00e1veis. Outrora eu recebi de seus olhos mensagens inef\u00e1veis. Chama-se P\u00f3rcia, inferior em nada \u00e0 filha de Cat\u00e3o, P\u00f3rcia de Bruto. N\u00e3o lhe ignora o valor o vasto mundo. pois pelos quatro ventos lhe t\u00eam vindo de toda parte muitos pretendentes de fama sublimada. Como velo de ouro o solar cabelo lhe orna a fronte, o que transforma a sede de Belmonte em uma nova C\u00f3lquida, empenhando-se muitos Jas\u00f5es no af\u00e3 de conquist\u00e1-la. \u00d3 meu Ant\u00f4nio! Se eu possu\u00edsse meios para poder apresentar-me como pretendente tamb\u00e9m, n\u00e3o me restara, diz-me o pressentimento, a menor d\u00favida de que eu viria a ser o felizardo.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sabes que est\u00e1 no mar quanto possuo. Dinheiro ora n\u00e3o tenho, nem disponho, nesta ocasi\u00e3o, de nada com que possa levantar qualquer soma. Sai a campo; p\u00f5e \u00e0 prova meu cr\u00e9dito em Veneza. Hei de espich\u00e1-lo ao \u00faltimo, contanto que te prepares para que em Belmonte vejas a bela P\u00f3rcia. Vai; informa-te por teu lado, como eu, onde h\u00e1 dinheiro para emprestar. Seria fato in\u00e9dito nada obtermos agora com meu cr\u00e9dito.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"mv12\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Entram P\u00f3rcia e Nerissa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Por minha f\u00e9, Nerissa, este mundo grande cansa-me o pequeno corpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Isso se daria, estimada senhora, se vossos inc\u00f4modos fossem t\u00e3o numerosos quanto vossas venturas. Ali\u00e1s, por tudo quanto vejo, tanto se adoece por comer em excesso como por definhar \u00e0 m\u00edngua. N\u00e3o \u00e9, por conseguinte, ventura despicienda encontrarmo-nos em uma situa\u00e7\u00e3o mediana. A superfluidade chega mais cedo aos cabelos brancos, mas a modicidade vive mais tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Belas senten\u00e7as e \u00f3tima dic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Melhores ainda seriam as senten\u00e7as, se fossem postas em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Se fazer fosse t\u00e3o f\u00e1cil como saber o que se deve fazer bem, as capelas teriam sido igrejas e as choupanas dos pobres, pal\u00e1cios principescos. Bom predicador \u00e9 o que segue suas pr\u00f3prias instru\u00e7\u00f5es. \u00c9-me mais f\u00e1cil ensinar a vinte pessoas como devem comportar-se, do que ser uma das vinte, para seguir a minha pr\u00f3pria doutrina. O c\u00e9rebro pode inventar leis para o sangue, mas os temperamentos ardentes saltam por cima de um decreto frio. A senhorita loucura \u00e9 uma lebre que pula por sobre a rede do bom conselho, o coxo. Mas esse racioc\u00ednio \u00e9 inadequado para ajudar-me na escolha de um marido. Mas, ai de mim! \u201cEscolha\u201d \u00e9 modo de dizer. N\u00e3o est\u00e1 em mim nem escolher quem eu desejara, nem recusar quem me desagradar. Desse modo, dobra-se a vontade de uma filha viva ante a de um pai morto. N\u00e3o \u00e9 duro, Nerissa, n\u00e3o podermos escolher nem recusar ningu\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Vosso pai foi sempre virtuoso, e as pessoas assim pias ao morrerem t\u00eam inspira\u00e7\u00f5es felizes. Por isso, a loteria concebida por ele, dos tr\u00eas cofres, de ouro, prata e chumbo, com a afirmativa de que quem escolhesse segundo o seu modo de pensar vos escolheria tamb\u00e9m, sem d\u00favida alguma s\u00f3 poder\u00e1 ser ganha por quem vos ame verdadeiramente. Mas a que ponto vos sentis inclinada para qualquer dos pretendentes principescos que j\u00e1 se fizeram anunciar?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Enumera-mos, por obs\u00e9quio, que os descreverei, \u00e0 medida que os nomeares. Da descri\u00e7\u00e3o que eu fizer, deduzir\u00e1s o grau de minha inclina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Primeiro, temos o pr\u00edncipe napolitano.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Oh! N\u00e3o passa de um potro xucro, porque toda sua conversa s\u00f3 gira em torno de cavalos, considerando ele especial atributo de suas boas qualidades saber ele mesmo ferr\u00e1-los. Receio muito que a senhora m\u00e3e dele haja prevaricado com algum ferreiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Depois, temos o conde palatino.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Esse anda sempre de sobrecenho fechado, como se estivesse a dizer: \u201cSe n\u00e3o me quiserdes escolher, decidi logo\u201d. Ouve hist\u00f3rias alegres sem sorrir; receio que, ao envelhecer, se torne fil\u00f3sofo chor\u00e3o, j\u00e1 que na mocidade revela t\u00e3o selvagem sisudez. Prefiro desposar uma caveira com um osso na boca a escolher um qualquer desses pretendentes. Deus me defenda de ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 E que dizeis do senhor franc\u00eas, Monsieur Le Bon?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Foi Deus que o fez; por isso, que passe por criatura humana. Em verdade, sei perfeitamente que \u00e9 pecado zombar. Mas esse! Possui um cavalo melhor do que o do napolitano, sendo o seu mau h\u00e1bito de franzir o sobrolho mais suport\u00e1vel do que o do conde palatino. \u00c9 todo o mundo e ningu\u00e9m. Se um tordo canta, p\u00f5e-se a fazer cabriolas; se casar com ele, casarei com vinte maridos. Se ele me desprezar, perdoar-lhe-ei, porque ainda que me amasse at\u00e9 \u00e0 loucura, jamais poderia retribuir-lhe o amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Que dizeis, ent\u00e3o, de Falconbridge, o jovem bar\u00e3o da Inglaterra?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Bem sabeis que dele nada posso dizer, porque nem ele me compreende, nem eu a ele. N\u00e3o fala nem latim, nem franc\u00eas, nem italiano, assim como podeis prestar juramento no Tribunal de Justi\u00e7a em como n\u00e3o possuo um s\u00f3 real da l\u00edngua inglesa. \u00c9 um belo retrato de homem; mas quem poder\u00e1 conversar com uma figura de pantomima? E que maneira extravagante de vestir-se! Suspeito que comprou o gib\u00e3o na It\u00e1lia, os cal\u00e7\u00f5es largos na Fran\u00e7a, o gorro na Alemanha e suas maneiras em toda parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Que pensais do senhor escoc\u00eas, seu vizinho?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que revela qualidade vizinhesca, pois recebeu emprestada do ingl\u00eas uma bofetada, tendo jurado que a pagar\u00e1 quando puder. Creio que o franc\u00eas foi o seu fiador, que subscreveu mais uma bofetada.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Como vos parece o jovem alem\u00e3o, sobrinho do Duque de Sax\u00f4nia?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Repelente pela manh\u00e3, quando ainda n\u00e3o est\u00e1 b\u00eabedo, e repelent\u00edssimo \u00e0 tarde, depois do pif\u00e3o quotidiano. No seu melhor estado \u00e9 pouco pior do que homem; no pior, pouco melhor do que animal. Por pior que me possa acontecer, ainda espero poder livrar-me dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Se ele se decidir a escolher e escolher o cofre bom, desobedecereis \u00e0 vontade de vosso pai, no caso de vos recusardes a aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Por isso, de medo do pior, pe\u00e7o-te que coloques sobre um dos cofres em branco um copo bem cheio de vinho do Reno. Porque ainda que o diabo estivesse dentro desse cofre, estando fora a tenta\u00e7\u00e3o, ele escolher\u00e1 esse mesmo. Tudo, Nerissa, menos casar-me com uma esponja.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 N\u00e3o precisais ter medo, senhorita, de que possais vir a casar com qualquer desses pretendentes, pois todos eles me comunicaram a determina\u00e7\u00e3o de voltar para casa, cessando de vos importunar com vos fazerem a corte, a menos que pud\u00e9sseis ser conquistada por outro meio que n\u00e3o o da imposi\u00e7\u00e3o de vosso pai, com rela\u00e7\u00e3o aos cofres.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Ainda que eu chegue a ficar t\u00e3o velha quanto Sibila, morrerei t\u00e3o casta como Diana, no caso de n\u00e3o ser conquistada segundo as condi\u00e7\u00f5es estipuladas por meu pai. Alegra-me saber que esses pretendentes se mostram t\u00e3o razo\u00e1veis, pois n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 entre eles cuja aus\u00eancia eu n\u00e3o deseje com todas as veras da alma, pedindo a Deus que lhes conceda uma boa viagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 N\u00e3o vos recordais, senhora, no tempo em que vosso pai ainda vivia, de um veneziano, soldado e estudante, que aqui veio em companhia do Marqu\u00eas de Montferrat?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Sim, sim; se n\u00e3o me engano, chamava-se Bass\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Isso mesmo, senhora; esse, de todos os homens que estes olhos t\u00eam contemplado, \u00e9 o mais digno de uma bela esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Lembro-me perfeitamente dele, assim como me lembro de que \u00e9 merecedor desse elogio. (<i>Entra um criado.<\/i>) Ent\u00e3o, que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Senhora, os quatro estrangeiros vos procuram, para apresentarem suas despedidas, tendo chegado, tamb\u00e9m, o mensageiro de um quinto, Pr\u00edncipe de Marrocos, que trouxe a noticia de que o pr\u00edncipe, seu amo, chegar\u00e1 aqui esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Se eu pudesse apresentar as boas-vindas ao quinto com a mesma disposi\u00e7\u00e3o com que me despe\u00e7o dos outros quatro, sua chegada me deixaria alegre. Se ele tiver a compostura de um santo e a cor do diabo, melhor fora que, em vez de desposar-me, me confessasse. Vamos, Nerissa. Segue na frente, maroto. Enquanto fecham o port\u00e3o a um pretendente, bate outro \u00e0 porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"mv13\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma pra\u00e7a p\u00fablica. Entram Bass\u00e2nio e Shylock.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Tr\u00eas mil ducados. Bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Sim, senhor; por tr\u00eas meses.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Por tr\u00eas meses. Bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Dos quais, como vos disse, servir\u00e1 Ant\u00f4nio de fiador.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ant\u00f4nio servir\u00e1 de fiador. Bem?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Podeis servir-me? Quereis fazer-me esse obs\u00e9quio? Posso saber vossa resposta?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Tr\u00eas mil ducados, por tr\u00eas meses e Ant\u00f4nio como fiador.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Que respondeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ant\u00f4nio \u00e9 um bom homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 J\u00e1 ouviste qualquer imputa\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Oh, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! Quando digo que ele \u00e9 um bom homem, quero fazer-vos compreender que como fiador \u00e9 suficiente. Mas seus recursos s\u00e3o hipot\u00e9ticos. Ele tem um gale\u00e3o no caminho de Tr\u00edpoli; outro, no das \u00cdndias. Ouvi falar, tamb\u00e9m, no Rialto, que tem um terceiro de rota para o M\u00e9xico, um quarto, para a Inglaterra, bem como outras pacotilhas espalhadas por esse mundo. Mas navios n\u00e3o passam de t\u00e1buas, e marinheiros, de homens. H\u00e1 ratos de terra e ratos de \u00e1gua, ladr\u00f5es de terra e ladr\u00f5es de \u00e1gua \u2014 quero dizer: piratas \u2014 como h\u00e1 os perigos dos ventos, das ondas e das rochas. O homem, n\u00e3o obstante, \u00e9 suficiente. Tr\u00eas mil ducados; creio que posso aceitar a fian\u00e7a dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Ficai seguro de que o podeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ficarei seguro de que o posso e hei de considerar que posso ficar seguro. Posso conversar com Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Se vos agradar cear conosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Sim, para sentir o cheiro de porco, para comer da casa de onde vosso profeta, o Nazareno, conjurou o dem\u00f4nio. Poderei comprar e vender convosco, conversar convosco, passear convosco, e assim por diante; mas n\u00e3o comerei convosco, nem beberei convosco, nem rezarei convosco. Que novidades h\u00e1 no Rialto? Quem \u00e9 que vem chegando aqui?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 \u00c9 o signior Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Como parece o falso publicano! Por ele ser crist\u00e3o \u00e9 que o odeio, mas, acima de tudo, porque em sua simplicidade vil, dinheiro empresta gratuitamente e faz baixar a taxa de juros entre n\u00f3s aqui em Veneza. Se em falta alguma vez puder peg\u00e1-lo, saciado deixarei meu antigo \u00f3dio. Nossa na\u00e7\u00e3o sagrada ele detesta, e, at\u00e9 mesmo no ponto em que costumam reunir-se os mercadores, ele insulta-me, meus neg\u00f3cios condena e o honesto lucro que de interesse chama. Amaldi\u00e7oada minha tribo se torne, se o perdoar.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Shylock, estais ouvindo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Considero minhas mercadorias em dep\u00f3sito; mas pelas contas feitas de cabe\u00e7a, n\u00e3o me ser\u00e1 poss\u00edvel mui depressa levantar uma soma t\u00e3o vultosa: tr\u00eas mil ducados! Mas a que vem isso? Tubal, um rico hebreu de minha tribo, h\u00e1 de me socorrer. Mas, de mansinho! O empr\u00e9stimo ser\u00e1 por quantos meses? (<i>A Ant\u00f4nio.<\/i>) Meu bom senhor, desejo-vos sa\u00fade. Fal\u00e1vamos de Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Shylock, muito embora eu nunca empreste nem emprestado pe\u00e7a, sem que aceite nem pague juro algum, neste momento, para atender \u00e0 precis\u00e3o urgente deste amigo, romper resolvo os h\u00e1bitos. (<i>A Bass\u00e2nio.<\/i>) Ele j\u00e1 sabe a quanto monta tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Sei, sei! Tr\u00eas mil ducados.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por tr\u00eas meses.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Esquecera-o. Tr\u00eas meses. J\u00e1 me t\u00ednheis dito isso mesmo. Muito bem. Com vossa fian\u00e7a&#8230; Vamos ver&#8230; Mas, escutai-me: se n\u00e3o me engano, h\u00e1 pouco declarastes que jamais emprestais nem pedis nada visando lucros.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Nunca fiz tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Quando Jac\u00f3 cuidava das ovelhas de seu tio Lab\u00e3o&#8230; Esse Jac\u00f3 era, depois do nosso santo Abra\u00e3o \u2014 por haver trabalhado sabiamente em seu proveito a m\u00e3e, sim, sabiamente \u2014 o terceiro patriarca. Sim, terceiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E a que vem isso? Ele cobrava juros?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o cobrava, o que chamais de juros, diretamente. Agora tomai nota de como fez Jac\u00f3. Quando ele e o tio assentaram que todos os cordeiros malhados e de rajas ficariam para Jac\u00f3, \u00e0 guisa de sal\u00e1rio, as ovelhas em cio foram postas, no fim do outono, junto dos carneiros. E quando entre esses animais velozes o ato da gera\u00e7\u00e3o se processava, pelou-me algumas varas o astucioso pastor e, ao trabalhar a natureza, frente as p\u00f4s das ovelhas voluptuosas que, concebendo ent\u00e3o, no tempo pr\u00f3prio s\u00f3 pariram cordeiros variegados, que com Jac\u00f3 ficaram. Eis um meio de ganhar, e Jac\u00f3 foi aben\u00e7oado. N\u00e3o sendo roubo, todo lucro \u00e9 b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ora, senhor, tudo isso \u00e9 mero acaso, que redundou em lucro de Jac\u00f3. N\u00e3o dependia dele o resultado. \u00c9 a m\u00e3o do c\u00e9u que tudo faz e guia. Mas justifica a hist\u00f3ria o cobrar juros? Vossa prata e vosso ouro s\u00e3o, acaso, ovelhas e carneiros?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o vos posso dizer ao certo; mas os multiplico com a mesma rapidez. Por\u00e9m ouvi-me, signior.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Bass\u00e2nio, observa como o diabo sabe tirar partido da Escritura. Uma alma vil, que cita as coisas santas, \u00e9 como o biltre de sorriso ameno, ou uma bela ma\u00e7\u00e3 podre por dentro. Como \u00e9 belo o exterior da falsidade!<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Tr\u00eas mil ducados&#8230; Soma bem redonda. Por tr\u00eas meses em doze. Ora vejamos quanto isso vai render.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ent\u00e3o, Shylock, assumimos convosco esse contrato?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Signior Ant\u00f4nio, quantas, quantas vezes l\u00e1 no Rialto fizestes pouco caso do meu dinheiro e de eu viver de juros! Suportei tudo sempre com um paciente encolher de ombros, pois o sofrimento \u00e9 apan\u00e1gio de toda a nossa tribo. De tudo me cham\u00e1veis: c\u00e3o, incr\u00e9dulo. degolador, al\u00e9m de me escarrardes neste gab\u00e3o judeu, e tudo apenas por eu usar o que me pertencia. Ora bem; mas agora est\u00e1 patente que precisais de mim. \u00d3timo! Avante! Vindes buscar-me e me dizeis: \u201cShylock\u201d, dizeis-me \u201cprecisamos de dinheiro\u201d. V\u00f3s, que esvaziado hav\u00edeis toda a vossa saliva em minha barba e me expuls\u00e1veis a ponta-p\u00e9s, tal qual como far\u00edeis a um c\u00e3o postado em frente a vossa porta, solicitais dinheiro. Que vos devo responder neste instante? Deveria perguntar-vos: \u201cCachorro tem dinheiro? Ser\u00e1 poss\u00edvel que um cachorro empreste a algu\u00e9m tr\u00eas mil ducados?\u201d Inclinar-me devo at\u00e9 ao ch\u00e3o e, em tom de voz de escravo. humilde a murmurar, quase sem f\u00f4lego, dizer assim: \u201cNa \u00faltima quarta-feira, caro amigo, cuspistes-me no rosto; noutro dia, chamastes-me de c\u00e3o; e em troco dessas cortesias, preciso ora emprestar-vos tanto dinheiro assim?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ainda agora pudera novamente dar-te o nome de c\u00e3o, de minha porta tocar-te a ponta-p\u00e9s, cuspir-te o rosto. Se queres emprestar-nos teu dinheiro, n\u00e3o o fa\u00e7as como a amigos \u2014 em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo? \u2014 antes o empresta como a teu inimigo, pois no caso de vir ele a faltar com o pagamento, com mais alegre rosto h\u00e1s de extorquir-lhe tudo o que te dever.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ora essa! Vede como vos exaltais! \u00c9 meu desejo prestar-vos um obs\u00e9quio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das inj\u00farias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, n\u00e3o me quereis ouvir. E amiga a oferta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Realmente, muito amiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao not\u00e1rio e assinai-me o documento da d\u00edvida, no qual, por brincadeira, declarado ser\u00e1 que se no dia tal ou tal, em lugar tamb\u00e9m sabido. a quantia ou quantias n\u00e3o pagardes, concordais em ceder, por eq\u00fcidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos h\u00e1 de ser cortada onde bem me aprouver.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Palavra, aceito! Assinarei a d\u00edvida e declaro que um judeu pode ser at\u00e9 bondoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Jamais assinareis, por minha causa, um documento desses; antes quero continuar a passar necessidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Nada temas, amigo, que eu n\u00e3o perco. Daqui a dois meses, isto \u00e9, um m\u00eas antes de se vencer a letra, espero certo receber nove tantos do que vale.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Como s\u00e3o os crist\u00e3os, pai Abra\u00e3o! A dureza mui pr\u00f3pria os leva sempre a suspeitar do pensamento alheio. Uma coisa dizei-me, por obs\u00e9quio: se ele n\u00e3o me pagar no dia certo, que lucrarei cobrando-lhe essa pena? Uma libra de carne humana, quando retirada de algu\u00e9m, n\u00e3o vale tanto nem \u00e9 t\u00e3o apreciada quanto carne de vitela, de cabra ou de carneiro. S\u00f3 para ser-lhe am\u00e1vel \u00e9 que fa\u00e7o semelhante proposta. Caso a aceite, serei contente. Do contr\u00e1rio, adeus. E, pelo meu amor, n\u00e3o me ultrajeis.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Pois n\u00e3o, Shylock; assinarei a letra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ent\u00e3o dentro de pouco ide encontrar-me em casa do not\u00e1rio. Dai-lhe os dados para aprontar essa jocosa letra, que os ducados vou p\u00f4r dentro da bolsa e ver o que h\u00e1 em casa, cuja guarda confiei a um velhaco perdul\u00e1rio. Dentro de pouco l\u00e1 estarei convosco.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Valoroso judeu, p\u00f5e pressa nisso. (<i>Sai Shylock.<\/i>) Esse hebreu ainda acaba convertendo-se. J\u00e1 se mostra bondoso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o confio em frases doces ditas por um biltre.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 N\u00e3o seja o prazo causa de afli\u00e7\u00e3o. Um m\u00eas antes meus barcos voltar\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a name=\"mv21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Toque de cornetas. Entram o Pr\u00edncipe de Marrocos, com s\u00e9q\u00fcito, P\u00f3rcia, Nerissa e outras pessoas.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 N\u00e3o vos desagradeis de mim por causa de minha complei\u00e7\u00e3o, libr\u00e9 sombria do sol ardente, do qual sou vizinho e que me fez crescer. Apresentai-me a mais bela criatura das que vieram \u00e0 luz no norte, onde o calor de Febo mal o gelo desmancha, porque logo incis\u00f5es em n\u00f3s mesmos pratiquemos por vosso amor, a fim de que se veja qual sangue \u00e9 mais vermelho: o meu ou o dele. Afirmo-vos, senhora, este conspecto j\u00e1 infundiu medo em bravos, e vos juro por meu amor, que as virgens mais famosas de nosso clima amor lhe consagraram. De cor n\u00e3o trocarei, gentil rainha, sen\u00e3o somente para conquistar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 As exig\u00eancias de um olhar de jovem em nada influem nesta minha escolha. Demais, a loteria do destino que me tocou me priva do direito da livre escolha. Mas, se n\u00e3o me houvesse meu pai me restringido e limitado por seu pr\u00f3prio alvedrio, postulando que esposa eu fosse de quem me ganhasse pela maneira dita, ficar\u00edeis frente \u00e0 minha afei\u00e7\u00e3o, famoso pr\u00edncipe, t\u00e3o favoravelmente colocado como todos os outros pretendentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 Por isso s\u00f3, vos fico agradecido. Mas, por obs\u00e9quio, aos cofres conduzi-me, para que eu experimente a minha dita. Por esta cimitarra \u2014 que da vida privou a Sofri e a um pr\u00edncipe da P\u00e9rsia, que em batalha vencera por tr\u00eas vezes ao Sult\u00e3o Solim\u00e3o \u2014 fixar quisera o olhar mais fero que na terra exista, vencer o cora\u00e7\u00e3o mais arrojado, tirar dos peitos da ursa o pr\u00f3prio filho, mais: rir do le\u00e3o, quando de fome ruge, para ganhar-te, \u00f3 bela! Mas, oh l\u00e1stima! Quando H\u00e9rcules e Licas jogam dados para saber qual deles \u00e9 o mais forte, pode se dar que o melhor lan\u00e7o caia do lado do mais fraco. Desse modo Alcides \u00e9 vencido pelo pajem. Assim, tamb\u00e9m, se pode dar comigo, se o cego acaso me servir de guia, sendo poss\u00edvel que a perder eu venha e que alcance pessoa menos digna, e eu de tristeza morra.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 indispens\u00e1vel tentar a sorte: ou n\u00e3o fazer a escolha, ou jurar, antes disso, que no caso de n\u00e3o serdes feliz, jamais haveis de falar em casamento a outra pessoa. Portanto, refleti.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso; levai-me logo para essa aventura.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Antes vamos ao templo; ap\u00f3s a ceia, a sorte tentareis.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 Dentro de pouco, ou os homens bendir\u00e3o meu rico fado, ou serei tido coma amaldi\u00e7oado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entra Lanceloto Gobbo.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Certamente a minha consci\u00eancia me permitir\u00e1 fugir do judeu, meu amo. O esp\u00edrito maligno me puxa pelo cotovelo e me tenta, dizendo-me: \u201cGobbo, Lanceloto Gobbo, bom Lanceloto\u201d, ou \u201cbom Gobbo\u201d, ou \u201cbom Lanceloto Gobbo, fazei uso das pernas, dai o primeiro passo e fugi\u201d. A consci\u00eancia diz: \u201cN\u00e3o! Toma cuidado, honesto Lanceloto; toma cuidado, honesto Gobbo!\u201d ou, como j\u00e1 disse: \u201chonesto Lanceloto Gobbo, n\u00e3o fujas; despreza semelhante id\u00e9ia\u201d. Bem; mas o muito corajoso esp\u00edrito maligno me manda arrumar a trouxa. \u201cVia!\u201d diz o capeta; \u201cadiante!\u201d diz o capeta; \u201cem nome do c\u00e9u, cria coragem\u201d, diz o capeta, \u201ce foge\u201d. Bem; mas a consci\u00eancia, apegando-se-me ao pesco\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o, diz-me com muita sabedoria: \u201cHonesto amigo Lanceloto, como filho de um homem honesto \u2014 ou melhor: filho de uma mulher honesta \u2014 porque, para dizer a verdade, meu pai tinha um certo cheiro de&#8230; uma tend\u00eancia para&#8230; uma esp\u00e9cie de gosto&#8230; Muito bem; e a consci\u00eancia me diz: \u201cLanceloto, n\u00e3o te mexas\u201d. \u201cMexe-te!\u201d diz o capeta. N\u00e3o te mexas!\u201c diz a consci\u00eancia. \u201cConsci\u00eancia\u201d, digo eu, \u201caconselhas-me bem\u201d; \u201cesp\u00edrito maligno\u201d, digo eu, aconselhas-me bem. Se me deixasse guiar pela consci\u00eancia, eu ficaria com o judeu, meu amo, que \u2014 Deus que me perdoe! \u2014 \u00e9 uma esp\u00e9cie de dem\u00f4nio; mas se deixasse o judeu, seria guiado pelo esp\u00edrito maligno, que, com licen\u00e7a de Vossa Rever\u00eancia, \u00e9 o pr\u00f3prio diabo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, o judeu \u00e9 a pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o do diabo, e, em consci\u00eancia, minha consci\u00eancia n\u00e3o passa de uma consci\u00eancia dura, para aconselhar-me a deixar o judeu. \u00c9 muito mais camarada o conselho do capeta: Vou fugir, capeta; minhas pernas est\u00e3o \u00e0s tuas ordens. Sim, vou fugir.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra o velho Gobbo, com um cesto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 V\u00f3s a\u00ed, mestre mo\u00e7o, por obs\u00e9quio: qual \u00e9 o caminho para a casa do mestre judeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Oh c\u00e9us! \u00c9 o meu pai carnal de verdade, que sendo mais do que m\u00edope, quase cego de gravela, n\u00e3o me reconheceu. Vou fazer uma brincadeira com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Mestre jovem gentil-homem, por obs\u00e9quio: qual \u00e9 o caminho para a casa do mestre judeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Na primeira esquina dobrai \u00e0 direita, mas na esquina pr\u00f3xima de todas, \u00e0 esquerda, isto \u00e9: na mais pr\u00f3xima n\u00e3o precisareis dobrar nem para a direita nem para a esquerda, mas dobrar diretamente para baixo at\u00e9 a casa do judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Santo Deus! Que caminho dif\u00edcil de se achar! Podeis dizer-me se um Lanceloto que mora com ele, mora com ele ou n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Falais do jovem mestre Lanceloto? (<i>\u00c0 parte<\/i>) \u2014 Prestai agora aten\u00e7\u00e3o, que eu vou fazer subir as \u00e1guas. Falais do jovem mestre Lanceloto?<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 N\u00e3o \u00e9 mestre, senhor; mas o filho de um pobre homem. Seu pai, muito embora eu o diga, \u00e9 um pobre homem excessivamente honesto e, gra\u00e7as a Deus, em estado de viver.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 O pai dele pode ser o que quiser; estamos falando do jovem mestre Lanceloto.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Amigo de Vossa Senhoria \u00e9 Lanceloto, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Mas, por obs\u00e9quio, velho, ergo; dizei-me por obs\u00e9quio, ergo, estais vos referindo ao jovem mestre Lanceloto?<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Sim, a Lanceloto, se for do agrado de Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Ergo, mestre Lanceloto. N\u00e3o faleis de mestre. Lanceloto, pai, porque o jovem gentil-homem \u2014 em obedi\u00eancia aos Fados e Destinos e outras express\u00f5es bizarras, \u00e0s tr\u00eas Irm\u00e3s e outros ramos da erudi\u00e7\u00e3o \u2014 encontra-se, realmente, morto; ou, como dir\u00edeis em termos simples, j\u00e1 partiu para o c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Oh! N\u00e3o o permita Deus! O rapaz era o verdadeiro bast\u00e3o de minha velhice, meu leg\u00edtimo sustent\u00e1culo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Estarei com a apar\u00eancia de alguma estaca, ou de mouro, de algum bast\u00e3o ou de escora? N\u00e3o me conheceis, pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Ai de mim! N\u00e3o vos conhe\u00e7o, jovem gentil-homem. Mas, por obs\u00e9quio, dizei-me: meu filho \u2014 Deus lhe conserve a alma \u2014 est\u00e1 vivo ou morto?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 N\u00e3o me conheceis, pai?<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Ai, senhor; sou muito m\u00edope; n\u00e3o vos conhe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Realmente, ainda que tiv\u00e9sseis vista, n\u00e3o poder\u00edeis conhecer-me. S\u00e1bio \u00e9 o pai que conhece seu pr\u00f3prio filho. Pois meu velho, vou dar-vos not\u00edcias de vosso filho. Dai-me vossa b\u00ean\u00e7\u00e3o; \u00e9 preciso que a verdade apare\u00e7a; um crime n\u00e3o pode ficar por muito tempo encoberto; o filho de um homem o pode; mas, no fim, a verdade ter\u00e1 de aparecer.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Por obs\u00e9quio, senhor, ficai de p\u00e9. Tenho certeza de que n\u00e3o sois meu filho Lanceloto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Por obs\u00e9quio, acabemos de vez com essas tolices, e dai-me vossa b\u00ean\u00e7\u00e3o. Sou Lanceloto, que foi vosso pequeno e vosso filho e que ser\u00e1 vosso descendente.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 N\u00e3o posso crer que sejais meu filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 N\u00e3o sei o que deva pensar do caso; mas, em verdade, eu sou Lanceloto, criado do judeu, e tenho certeza de que vossa mulher Margarida foi minha m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Realmente, ela se chamava Margarida. Assim, posso jurar que, se fores Lanceloto, \u00e9s de minha pr\u00f3pria carne e de meu sangue. Deus seja louvado! Tens mais p\u00ealos no queixo do que na cauda tem o Dobbin, meu cavalo de carro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 O que vem provar que a cauda de Dobbin cresce para tr\u00e1s. Tenho certeza de que, na \u00faltima vez que o vi, ele tinha mais p\u00ealo na cauda do que eu no queixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Senhor! Como ficaste diferente! Como te est\u00e1s dando com teu amo? Trouxe-lhe um presente. Como vos dais presentemente?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Bem, bem; mas, por minha parte, como decidi ir embora, n\u00e3o hei de parar enquanto n\u00e3o houver corrido um bom peda\u00e7o. Meu amo \u00e9 judeu leg\u00edtimo. Dar-lhe um presente? Dai-lhe uma corda. Morro de fome em seu servi\u00e7o. Com as minhas costelas podeis contar os dedos que tenho. Pai, alegro-me com vossa vinda. Dai-me vosso presente para um senhor Bass\u00e2nio, que fornece, de fato, libr\u00e9s novas e raras. Se eu n\u00e3o conseguir entrar para o seu servi\u00e7o, hei de correr at\u00e9 onde o permitir o ch\u00e3o de Deus. \u00d3 rara Fortuna! Eis o nosso homem que vem chegando! A ele, pai! Quero ser judeu. se servir o judeu por mais algum tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bass\u00e2nio, com Leonardo e outros criados.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Podeis fazer assim mesmo, mas com a rapidez suficiente para que o jantar esteja pronto no m\u00e1ximo \u00e0s cinco horas. Mandai entregar estas cartas; encomendai as libr\u00e9s e pedi a Graciano que venha logo a meus aposentos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 A ele, pai!<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Deus aben\u00e7oe Vossa Senhoria.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Gramercy. Quereis de mim alguma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Este menino aqui, senhor, \u00e9 meu filho; um pobre menino&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 N\u00e3o pobre menino, mas o criado do judeu rico, que deseja, senhor, conforme meu pai vos ir\u00e1 explicar&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Ele tem, como se diz, uma grande declina\u00e7\u00e3o para servir&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Com efeito, o comprido e o curto da quest\u00e3o \u00e9 que eu sirvo o judeu, e desejo, conforme meu pai vos ir\u00e1 explicar&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Seu amo e ele \u2014 salvo o respeito que devo a Vossa Senhoria \u2014 vivem como gato e cachorro&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Numa palavra, a pura verdade \u00e9 que em virtude de maus tratos, o judeu me obrigou, conforme meu pai, que \u00e9 \u2014 louvado seja Deus \u2014 um homem velho, vos justificar\u00e1&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Aqui trago uma torta de pombas, que eu desejaria oferecer a Vossa Senhoria, e o meu pedido \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Para dizer tudo, o pedido \u00e9 impertinente a mim mesmo, como Vossa Senhoria vai ficar sabendo por este velho honesto, o qual, embora seja eu que o diga, apesar de velho, contudo \u00e9 um pobre homem e meu pai.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Fale um apenas, em nome dos dois. Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Servir-vos, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">GOBBO \u2014 Justamente, senhor; \u00e9 esse o defeito da quest\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Conhe\u00e7o-te; obtiveste o que desejavas, pois hoje mesmo falei com Shylock a respeito de tua promo\u00e7\u00e3o, se assim poderemos chamar ao fato de deixares o servi\u00e7o de um judeu rico para te tornares criado de um gentil-homem modesto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 O velho prov\u00e9rbio est\u00e1 muito bem dividido entre meu amo Shylock e v\u00f3s, senhor: v\u00f3s tendes a gra\u00e7a de Deus, e ele tem de sobra.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Muito bem dito. Pai, vai com teu filho. Despede-te primeiro de teu amo, e pergunta onde eu moro (<i>Aos criados.<\/i>) Mandai dar-lhe a libr\u00e9 mais luzida; cuidai disso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Vamos, pai. Eu nunca poderei obter servi\u00e7o&#8230; N\u00e3o&#8230; Nunca tive l\u00edngua na boca&#8230; Bem. (<i>Contemplando a palma da m\u00e3o.<\/i>) Se h\u00e1 homem na It\u00e1lia com uma palma mais bonita para fazer um juramento sobre um livro \u2014 hei de ter uma boa sorte. Est\u00e1 bem claro: aqui est\u00e1 uma boa linha da vida, e aqui uma outra pequenina de mulheres. Ah! Quinze mulheres n\u00e3o s\u00e3o nada. Onze vi\u00favas e nove donzelas constituem uma despesa de nada para um homem. Depois, escapar tr\u00eas vezes de perecer afogado e correr o perigo de morrer na quina de um leito de penas&#8230; Isto \u00e9 que se chama escapar com sorte! Bem; se a Fortuna \u00e9 mulher, \u00e9 uma boa rapariga com tantas inten\u00e7\u00f5es. Vamos, pai; vou despedir-me do judeu num abrir e fechar de olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lanceloto e o velho Gobbo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Bom Leonardo, faze isso, por obs\u00e9quio. Tudo, uma vez comprado e posto em ordem, volta depressa, pois a ceia de hoje \u00e9 para os meus amigos mais chegados. N\u00e3o te atrases.<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONARDO \u2014 Confiai nos meus bons pr\u00e9stimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Graciano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Que \u00e9 de vosso amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">LEONARDO \u2014 Ali, senhor; passeia. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Signior Bass\u00e2nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Graciano!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Tenho uma gra\u00e7a a pedir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 J\u00e1 est\u00e1 obtida.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 N\u00e3o podeis recusar-ma: preciso ir convosco a Belmonte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Pois n\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 preciso. Mas atende-me, Graciano. \u00c9s por demais selvagem, rude, de voz imperativa, qualidades que muito bem te assentam, sem ferir-nos os olhos da amizade. Mas a quantos n\u00e3o te conhecem, a impress\u00e3o d\u00e3o sempre de certa grosseria. Por obs\u00e9quio, acalma com algumas gotas frias de mod\u00e9stia esse esp\u00edrito irrequieto, porque eu n\u00e3o seja mal interpretado l\u00e1, em virtude de teu selvagismo, e a perder venha, assim, as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Senhor Bass\u00e2nio, ouvi-me. Se conspecto sereno eu n\u00e3o mostrar, fala sisuda; se n\u00e3o jurar s\u00f3 muito raramente; se n\u00e3o trouxer no bolso, a todo o instante, um livro de ora\u00e7\u00f5es, e com mod\u00e9stia n\u00e3o mover a cabe\u00e7a&#8230; Mais: se na hora da b\u00ean\u00e7\u00e3o n\u00e3o tapar assim os olhos com o chap\u00e9u, a soltar fundos suspiros e a murmurar \u201cAm\u00e9m\u201d&#8230; se as regras todas a ponto eu n\u00e3o cumprir da cortesia, como algu\u00e9m que estudasse o modo austero para da av\u00f3 tornar-se o preferido: jamais confieis em mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Bem; esperemos, para ver confirmada essa promessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Sim; mas fa\u00e7o exce\u00e7\u00e3o para esta noite. N\u00e3o heis de me julgar por quanto eu possa praticar esta noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o; seria de lastimar. Pelo contr\u00e1rio, pe\u00e7o-vos aparecer com as cores preferidas da alegria, pois vamos ter amigos que se prop\u00f5em divertir \u00e0 farta. Mas, at\u00e9 l\u00e1, adeus; tenho neg\u00f3cios.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 E eu vou encontrar-me com Louren\u00e7o e os outros; mas contai com n\u00f3s todos para a ceia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv23\" name=\"mv23\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto em casa de Shylock. Entram Jessica e Lanceloto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Entristece-me muito ver que deixas meu pai dessa maneira. Nossa casa \u00e9 um inferno, e tu, nela, um diabo alegre, a privavas de parte de seu t\u00e9dio. Mas passa bem; recebe este ducado. E Lanceloto, h\u00e1s de ver hoje \u00e0 ceia um convidado de teu novo amo: Louren\u00e7o. Entrega-lhe esta carta, pondo toda cautela nisso. Passa bem. N\u00e3o desejara que meu pai me visse a conversar contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Adeus; as l\u00e1grimas me substituem a l\u00edngua. A mais bela das pag\u00e3s, a mais ador\u00e1vel judia! Se algum crist\u00e3o n\u00e3o fizer alguma tratantagem para te pegar, estou redondamente enganado. Adeus; estas gotas idiotas me amolecem de alguma forma o esp\u00edrito varonil. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Adeus, bom Lanceloto. (<i>Sai Lanceloto.<\/i>) Oh, que odioso pecado \u00e9 envergonhar-me de ter o pai que tenho! Mas embora do sangue dele eu venha, n\u00e3o sou filha daquele cora\u00e7\u00e3o. \u00d3 meu Louren\u00e7o Se a promessa cumprires, hei de em breve livrar-me desta situa\u00e7\u00e3o enleada; crist\u00e3 me torno e tua esposa amada. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv24\" name=\"mv24\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Uma rua.. Entram Graciano, Louren\u00e7o, Salarino e Sal\u00e2nio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Assim. Durante a ceia escaparemos, pomos em casa algum disfarce, e dentro de uma hora estaremos l\u00e1 de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 N\u00e3o fizemos nenhum preparativo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Nem assentamos nada sobre os homens que h\u00e3o de levar as tochas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Fica muito sem gra\u00e7a a brincadeira, quando feita sem um preparo pr\u00e9vio. \u00c9 prefer\u00edvel, segundo penso, abandonar a id\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 S\u00e3o s\u00f3 quatro horas; para prepararmo-nos ainda temos duas horas. (<i>Entra Lanceloto, com uma carta.<\/i>) Caro amigo Lanceloto, que novas nos trouxeste?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Se for do vosso agrado abrir isto, ficareis sabendo o que h\u00e1 de novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Conhe\u00e7o a letra, sim; \u00e9 bem bonita! Por\u00e9m mais alva ainda do que a folha de papel em que a carta foi escrita \u00e9 a bela m\u00e3o que a fez.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Posso jur\u00e1-lo \u00e9 mensagem de amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Com vossa permiss\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Para onde vais?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Ora, senhor, convidar o meu antigo amo, judeu, para cear esta noite com meu novo amo, crist\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Toma, isto \u00e9 teu. Dize \u00e0 gentil Jessica que n\u00e3o hei de faltar; fala-lhe \u00e0 parte. (<i>Sai Lanceloto.<\/i>) Cavalheiros, n\u00e3o ides aprontar-vos para a nossa mascarada da noite? J\u00e1 encontrei meu portador de tocha.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Oh! Certamente! Irei neste momento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 O mesmo eu digo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Encontrar-me-eis e a Graciano em casa de Graciano numa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Bem pensado; fa\u00e7amos assim mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Salarino e Sal\u00e2nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Da formosa Jessica n\u00e3o seria aquela carta?<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Preciso revelar-te o que se passa. Ela me indica o modo de tir\u00e1-la da casa do judeu, e que tem pronta para a sa\u00edda uma libr\u00e9 de pajem. Se o pai dela, o judeu, em qualquer tempo chegar a ir para o c\u00e9u, ser\u00e1 por causa dessa ador\u00e1vel filha, cuja vida n\u00e3o poder\u00e1 ser perturbada nunca por nenhuma desgra\u00e7a, salvo, apenas, sob a desculpa de ser ela filha de um judeu infiel. Enquanto andamos, vai lendo isto. Ser\u00e1 meu porta-tocha a formosa Jessica em nossa festa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv25\" name=\"mv25\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Diante da casa de Shylock. Entram Shylock e Lanceloto.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Bem; o melhor juiz v\u00e3o ser teus olhos, que h\u00e3o de mostrar-te qual a diferen\u00e7a entre o velho Shylock e esse Bass\u00e2nio. L\u00e1 tu n\u00e3o poder\u00e1s empanturrar-te, como fazes aqui, \u2014 Ol\u00e1, Jessica! \u2014 nem dormir e roncar, \u2014 Ol\u00e1, Jessica! \u2014 nem rasgar tanta roupa. \u2014 Ol\u00e1, Jessica!<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Jessica, ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Quem te mandou cham\u00e1-la? N\u00e3o disse que o fizesses.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Vossa Senhoria me observou muitas vezes que nada eu deveria fazer sem ordem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Jessica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Chamastes-me? Que desejais?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Jessica, hoje tive um convite para ceia. Toma conta das chaves. Nem sei mesmo porque deva aceit\u00e1-lo. Esse convite n\u00e3o \u00e9 sincero, \u00e9 adula\u00e7\u00e3o, apenas. Jessica, minha filha, fecha a casa. Saio pouco tranq\u00fcilo; qualquer coisa ruim fermenta contra o meu sossego, pois sonhei toda a noite com dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Suplico-vos que vades, senhor; meu jovem amo espera vossa partida.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Como eu a dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Al\u00e9m disso, eles fizeram uma conspira\u00e7\u00e3o&#8230; Mas se tal acontecer, n\u00e3o foi \u00e0 toa que o nariz me come\u00e7ou a sangrar na \u00faltima segunda-feira de P\u00e1scoa \u00e0s seis horas da manh\u00e3, no dia em que quatro anos antes caiu numa tarde de quarta-feira de cinzas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Como! Vai haver m\u00e1scaras? Ouviste, Jessica? Fecha as portas. Quando ouvires barulho de tambor e os irritantes guinchos das flautas de pesco\u00e7o torto, n\u00e3o te ponhas a olhar pela janela, nem para a rua p\u00fablica te inclines, para ver os crist\u00e3os sarapintados, mas os ouvidos tapa bem da casa, digo, as janelas, para que o barulho dessas futilidades n\u00e3o penetre em minha casa honrada. Juro pelo cajado de Jac\u00f3 que n\u00e3o me sinto disposto hoje a cear fora de casa. Mas, assim mesmo, irei. Maroto, corre; dize-lhes que j\u00e1 chego.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 J\u00e1 vou, senhor. Senhorita, apesar das recomenda\u00e7\u00f5es, olhai pela janela, porque vai um crist\u00e3o passar de dia, digno do olhar de uma judia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Lanceloto.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Hem? Que foi que falou esse estouvado da gera\u00e7\u00e3o de Agar?<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Disse somente: \u201cPassai bem, senhorita\u201d, nada mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Esse palha\u00e7o n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 pessoa, mas come por demais; \u00e9 caramujo para lucros e dorme o dia todo, como um gato selvagem. N\u00e3o, comigo n\u00e3o prosperam zang\u00f5es. Por isso deixo que se v\u00e1, e que v\u00e1 para o servi\u00e7o de um amo a quem desejo que ele possa vir a ajudar a esvaziar a bolsa de dinheiro emprestado. Bem, Jessica, vai logo para dentro. \u00c9 bem poss\u00edvel que eu volte cedo. Faze o que te disse: fecha a porta ao passares. \u201cBem trancada, bem guardada\u201d, \u00e9 senten\u00e7a por quem sabe ganhar sempre acatada. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Se tudo me correr \u00e0 maravilha, pai j\u00e1 n\u00e3o tenho e tu tiveste filha. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv26\" name=\"mv26\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VI<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Entram Graciano e Salarino, de m\u00e1scaras.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Esta \u00e9 a sacada sob a qual Louren\u00e7o disse que nos post\u00e1ssemos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 J\u00e1 \u00e9 tarde.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Seria de admirar qualquer atraso por parte dele, pois os namorados chegam sempre antes da hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Oh! porque os la\u00e7os de um novo amor mais apertados deixem. Voam as pombas de V\u00eanus vinte vezes mais depressa do que eles sempre o fazem para guardar intacto o juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Em tudo \u00e9 o mesmo. Quem sai de um banquete com o apetite que, ao sentar-se, tinha? Qual \u00e9 o cavalo que a tediosa pista de volta mede com o ardor t\u00e3o vivo que ao partir revelava? Sempre pomos mais entusiasmo no alcan\u00e7ar as coisas, do que mesmo em goz\u00e1-las. Tal qual jovem est\u00fardio e perdul\u00e1rio se assemelha o barco embandeirado, quando zarpa de seu porto natal, acariciado pela brisa impudente. E como volta tal qual o perdul\u00e1rio, as velas rotas, gastos os flancos pelas intemp\u00e9ries, falto de tudo, exausto, arruinado pela brisa impudente!<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 A\u00ed vem Louren\u00e7o; reataremos depois nossa conversa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Louren\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Caros amigos, desculpai o atraso; mas n\u00e3o fui eu a causa de esperardes-me, sen\u00e3o t\u00e3o s\u00f3 neg\u00f3cios. Quando ao rapto de mulheres tamb\u00e9m vos decidirdes, esperarei por v\u00f3s do mesmo modo. Aproximai-vos mais; aqui demora meu pai judeu. Ol\u00e1! H\u00e1 gente dentro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Jessica aparece na janela, vestida de pajem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Quem sois? Falai-me, para meu governo, embora eu jure que conhe\u00e7o a voz.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Louren\u00e7o \u00e9 teu amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Louren\u00e7o, certo; \u00e9 meu amor, de fato. Pois, a quem amo tanto? E quem certeza, sen\u00e3o v\u00f3s, pode ter de que sou vossa?<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Teu cora\u00e7\u00e3o e o c\u00e9u isso confirmam.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Tomai esta caixinha; vale a pena. Por sorte a noite \u00e9 escura e n\u00e3o me vedes, pois tenho acanhamento de meus trajos. Contudo, o amor \u00e9 cego, e os namorados nunca v\u00eaem as tolices impag\u00e1veis que eles pr\u00f3prios praticam, que, se o vissem, at\u00e9 mesmo Amor ficara enrubescido, por me ver transformado agora em pajem.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Descei, porque ides ser meu porta-tochas.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Como! \u00c9 preciso, ent\u00e3o, que eu ilumine minha pr\u00f3pria vergonha? Ela j\u00e1 se acha por demais devassada. Isso, querido, \u00e9 trabalhar \u00e0s claras, e eu preciso resguardar-me na sombra.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 J\u00e1 te encontras na sombra, meu amor, com essa bela fantasia de pajem. Mas, vem logo;n\u00e3o demores; a noite escura j\u00e1 se esgueira prestes, e em casa de Bass\u00e2nio nos aguardam.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Vou fechar bem as portas e dourar-me com mais alguns ducados. Des\u00e7o logo. (<i>Retira-se da janela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Mas, pelos c\u00e9us! N\u00e3o \u00e9 judia; \u00e9 deusa.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Podeis amaldi\u00e7oar-me, mas dedico-lhe, realmente, grande amor. Pelo que posso ajuizar, vejo que ela \u00e9 muito s\u00e1bia. Formosa ela \u00e9, se olhos fi\u00e9is possuo; fiel ela \u00e9, como o confirma agora. Sendo assim, pois, fiel, s\u00e1bia e formosa, na alma constante hei de traz\u00ea-la sempre. (<i>Entra Jessica.<\/i>) J\u00e1 chegaste? Senhores, para a frente, que j\u00e1 est\u00e1 \u00e0 nossa espera muita gente. (<i>Sai com Jessica e Salarino.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Ant\u00f4nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Signior Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Ora, Graciano! Os outros onde est\u00e3o? J\u00e1 s\u00e3o nove horas; todos os amigos est\u00e3o \u00e0 vossa espera. N\u00e3o teremos mascarada esta noite. O vento sopra; Bass\u00e2nio foi, \u00e0 pressa, para bordo. Mandei vinte pessoas procurar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Nada me causar\u00e1 mais alegria do que viajar antes que seja dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv27\" name=\"mv27\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Toque de cornetas. Entra P\u00f3rcia com o Pr\u00edncipe de Marrocos e seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Descerrai as cortinas, para que este pr\u00edncipe nobre possa ver os cofres. Fazei agora a escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 De ouro, o primeiro, esta inscri\u00e7\u00e3o nos mostra: \u201cQuem me escolher, ganha o que muitos querem.\u201d O outro, de prata, esta promessa mostra: \u201cQuem me escolher, ganha o que bem merece.\u201d O \u00faltimo, pesad\u00e3o, de chumbo, adverte: \u201cQuem me escolher, arrisca e d\u00e1 o que tem.\u201d De que modo saber que escolhi certo?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Num deles se acha o meu retrato, pr\u00edncipe. Se esse escolherdes, logo serei vossa.<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 Guie-me um deus na escolha! Examinemos de novo as inscri\u00e7\u00f5es, tomando da \u00faltima. Que diz o pl\u00fambeo cofre? \u201cQuem me escolher, arrisca e d\u00e1 o que tem.\u201d Dar o que tem por chumbo? Arriscar tudo por chumbo? amea\u00e7adora esta senten\u00e7a. Quem tudo arrisca, espera grandes lucros. Um esp\u00edrito de ouro n\u00e3o se importa com rebotalhos vis. N\u00e3o darei nada, nem nada arriscarei por este chumbo. E a prata virginal, que nos declara? \u201cQuem me escolher, ganha o que bem merece.\u201d O que merece&#8230; P\u00e1ra a\u00ed, Marrocos, e com m\u00e3o firme o teu valor sopesa. Se fores avaliado desse modo, por ti pr\u00f3prio, mereces muito, muito. Mas esses muitos, ainda assim, n\u00e3o chegam porventura, a alcan\u00e7ar esta senhora. Mas se puser em d\u00favida o meu m\u00e9rito, mau conceito revelo de mim pr\u00f3prio. Tudo quanto mere\u00e7o? Ora, esta dama. Mere\u00e7o-a pelo ber\u00e7o, pela sorte, por minha educa\u00e7\u00e3o e qualidades; mas pelo amor mere\u00e7o-a mais ainda. E se eu me detivesse neste ponto, e escolhesse este cofre? Mas vejamos o que diz a inscri\u00e7\u00e3o gravada no ouro. \u201cQuem me escolher, ganha o que muitos querem.\u201d \u00c9 a donzela, pois n\u00e3o? Muitos a querem. Dos quatro cantos chegam peregrinos, para depor um beijo nesta imagem, nesta santa mortal que aqui respira. As vastas solid\u00f5es da grande Ar\u00e1bia e os desertos da Hirc\u00e2nia transformaram-se em estradas, agora, para pr\u00edncipes que acorrem para ver a bela P\u00f3rcia. O dom\u00ednio das \u00e1guas, que a cabe\u00e7a vaidosa eleva, para que na face do c\u00e9u possa cuspir, n\u00e3o \u00e9 barreira que deter possa tanta gente estranha, sen\u00e3o simples regato, para todos que acorrem para ver a bela P\u00f3rcia. Seu celeste retrato est\u00e1 num destes. O chumbo o encerrar\u00e1? T\u00e3o baixa id\u00e9ia fora profana\u00e7\u00e3o; inj\u00faria fora comprimir numa escura sepultura sua fr\u00e1gil mortalha. Ou pensar devo que emparedada ela se encontra em prata, que vale vinte vezes menos que o ouro? Pecaminosa id\u00e9ia! Uma tal j\u00f3ia, no m\u00ednimo, seria feita em ouro. Na Inglaterra h\u00e1 uma moeda em que insculpido em ouro se v\u00ea um anjo. Mas a ef\u00edgie fica por fora, ao passo que aqui dentro em leito de ouro est\u00e1 deitado um anjo. Depressa, a chave! O \u00edm\u00e3 este \u00e9 mais forte. Seja-me favor\u00e1vel nisto a sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Ei-la, pr\u00edncipe. Caso meu retrato se encontre a\u00ed dentro, serei vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O Pr\u00edncipe abre o cofre de ouro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MARROCOS \u2014 Oh inferno! Que est\u00e1 aqui? Uma caveira que na \u00f3rbita vazia um papel mostra com qualquer coisa escrito. Vamos l\u00ea-lo. Nem tudo o que luz \u00e9 ouro, proclamam s\u00e1bios em coro. Muita gente acaba em choro, por s\u00f3 procurar tesouro. Mausol\u00e9us s\u00e3o comedouro de vermes em fervedouro. Se houvesse sabedoria nessa vossa cortesia, a consulta n\u00e3o faria turvar-vos a fantasia. Passai bem; vossa ousadia foi castigada; est\u00e1 fria. \u00c9 certo; agora n\u00e3o rio; adeus, calor; venha o frio. Adeus, P\u00f3rcia; a derrota me degrada. Assim parte quem perde: n\u00e3o diz nada. (<i>Sai com seu s\u00e9q\u00fcito. Toque de cornetas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Livrei-me de um. Correi logo a cortina. Aos dessa cor desejo igual mofina.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv28\" name=\"mv28\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena VIII<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entram Salarino e Sal\u00e2nio.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Ora, amigo! Bass\u00e2nio fez-se \u00e0 vela; Graciano foi com ele, e estou bem certo de que Louren\u00e7o estava no navio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 O biltre do judeu gritava tanto que despertou o duque, indo eles ambos \u00e0 procura do barco de Bass\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Chegou tarde; o navio j\u00e1 partira. Mas teve o duque informa\u00e7\u00e3o segura de que Louren\u00e7o e sua bem-amada, a formosa Jessica, tinham sido vistos em uma g\u00f4ndola. Al\u00e9m disso, Ant\u00f4nio asseverou ao duque que ambos n\u00e3o estavam no barco com Bass\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Jamais ouvi falar de t\u00e3o confusa paix\u00e3o, t\u00e3o singular, selvagem, v\u00e1ria, como a que revelava pelas ruas aquele c\u00e3o judeu. \u201cOh, minha filha! Meus ducados! Fugir com um crist\u00e3o! Meus ducados crist\u00e3os! Lei e justi\u00e7a! Minha filha! Meu saco de ducados! N\u00e3o, dois sacos selados de ducados! Ducados duplos, que roubados foram por minha filha&#8230; E j\u00f3ias! Duas pedras ricas, preciosas, que roubadas foram por minha pr\u00f3pria filha. Lei e Justi\u00e7a! Ide atr\u00e1s dela! Tem consigo as pedras, meus ducados e as pedras!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Isso mesmo; atr\u00e1s dele corria a garotada de Veneza, a gritar por suas pedras, os ducados e a filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Cuide Ant\u00f4nio de n\u00e3o perder o prazo; do contr\u00e1rio, vir\u00e1 a pagar por isto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Bem lembrado. Ontem mesmo dizia-me um franc\u00eas com quem eu conversava, que no estreito situado entre a Inglaterra e a Fran\u00e7a havia naufragado um navio destas bandas, com carga muito rica. Ao ouvir isso, pensei logo em Ant\u00f4nio, e a s\u00f3s comigo fiz votos para que n\u00e3o fosse dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Far\u00edeis bem em avisar Ant\u00f4nio; mas dai-lhe devagar essa not\u00edcia, de medo de abal\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Em toda a terra n\u00e3o se acha cavalheiro mais bondoso. Presente eu me encontrava ao despedirem-se ele e Bass\u00e2nio. Havendo este lhe dito que apressaria a volta, respondeu-lhe: \u201cN\u00e3o, Bass\u00e2nio; assim n\u00e3o. Por minha causa n\u00e3o deveis estragar vossos neg\u00f3cios. Deixai que em tempo certo amadure\u00e7am. Que a letra do judeu, por mim firmada, n\u00e3o vos perturbe o esp\u00edrito amoroso. Ficai despreocupado, e o pensamento todo aplicai em cortejar e nessas demonstra\u00e7\u00f5es de amor t\u00e3o inef\u00e1veis, porque possais sair galhardo disso.\u201d Nesse instante, nadando-lhe de l\u00e1grimas os olhos, apertou do amigo o rosto, e a m\u00e3o levando \u00e0s costas, comovido de n\u00e3o poder falar, a de Bass\u00e2nio de fugida apertou. Foi desse modo que eles se despediram.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 S\u00f3 por causa de Bass\u00e2nio, ele tem amor ao mundo. Mas vamos procur\u00e1-lo, por obs\u00e9quio, porque lhe dissipemos a tristeza com qualquer brincadeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Assim fa\u00e7amos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv29\" name=\"mv29\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IX<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Entra Nerissa, com um criado.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Corre a cortina logo; bem depressa. J\u00e1 prestou o juramento o nobre Pr\u00edncipe de Arag\u00e3o, que a\u00ed vem fazer a escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de cornetas. Entram o Pr\u00edncipe de Arag\u00e3o. P\u00f3rcia e os respectivos s\u00e9q\u00fcitos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Nobre pr\u00edncipe, os cofres aqui se acham. Se o que me contiver for o escolhido, no mesmo instante nosso casamento ser\u00e1 solenizado. Mas se acaso vierdes a errar, senhor, \u00e9 necess\u00e1rio partirdes logo, sem dizer palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAG\u00c3O \u2014 A observar me obriguei, por juramento, tais condi\u00e7\u00f5es. Primeira: em nenhum tempo revelar a ningu\u00e9m qual foi o cofre por que me decidi. Depois, no caso de errar na escolha, nunca, em toda a vida, pedir em casamento dama alguma. Por \u00faltimo: se favor\u00e1vel n\u00e3o me for a sorte, deixar-vos logo e me afastar depressa.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 As condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas, para quantos queiram ganhar minha pessoa indigna.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAG\u00c3O \u2014 Assim me preparei para o certame. Possa a Fortuna coroar-me o anelo. Ouro, prata e o vil chumbo. Que diz este? \u201cQuem me escolher, arrisca e d\u00e1 o que tem.\u201d Sem que mais belo fiques, nada arrisco nem dou por tua causa. E o cofre de ouro? \u201cQuem me escolher, ganha o que muitos querem.\u201d Hum! O que muitos querem&#8230; Esse \u201cmuitos\u201d pode significar a turba ignara que escolhe apenas pelas apar\u00eancias e s\u00f3 conhece o que o olho estulto ensina, que ao \u00e2mago n\u00e3o desce, mas tal como a andorinha constr\u00f3i o ninho ao tempo, sobre o muro de fora, justamente no meio do perigo e ao seu alcance. O que muitos desejam n\u00e3o me agrada, pois n\u00e3o quero igualar-me a todo o mundo, nem confundido ser com o povo b\u00e1rbaro. Agora \u00e9 a tua vez, cava argentina, de me dizeres o que dentro encerras. \u201cQuem me escolher, ganha o que bem merece.\u201d Muito bem dito. Quem se aventurara em busca de fortuna e de honrarias, se n\u00e3o fosse marcado pelo m\u00e9rito? Ningu\u00e9m tenha a ousadia de arrogar-se honras imerecidas. Se os estados, of\u00edcios, posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem dados por maneira corrupta, e as honrarias s\u00f3 fossem conquistadas pelo m\u00e9rito, quantas pessoas que andam descobertas, a cabe\u00e7a cobriram! Quanta gente que hoje \u00e9 mandada, assumiria o mando! Quantos camp\u00f4nios baixos brilhariam na sementeira da honra, e quantas honras das palhas arrancadas se veriam e da ru\u00edna do tempo, para brilho de novo receber? \u00c9 a minha escolha? \u201cQuem me escolher, ganha o que bem merece.\u201d Vou ganhar o que \u00e9 meu. Trazei-me a chave, que minha sorte descerrar desejo. (<i>Abre o cofre de prata.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 A demora foi longa para o achado.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAG\u00c3O \u2014 Mas, que vejo? A figura de um idiota que me pisca e um papel quer entregar-me. Vou ver o que cont\u00e9m. A que dist\u00e2ncia tu te encontras de P\u00f3rcia! A que dist\u00e2ncia de meu m\u00e9rito e minhas esperan\u00e7as! \u201cQuem me escolher, ganha o que bem merece.\u201d S\u00f3 mere\u00e7o a cabe\u00e7a de um idiota? Esse \u00e9 todo o meu pr\u00eamio? N\u00e3o alcan\u00e7a mais longe, ent\u00e3o, o meu merecimento?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Errar e dar senten\u00e7a s\u00e3o of\u00edcios bem distintos, de opostas naturezas.<\/p>\n<p align=\"justify\">ARAG\u00c3O \u2014 Que cont\u00e9m isto? Fui sete vezes fundido. Sete vezes aferido deve ser quem o apelido n\u00e3o quiser de intrometido. Quem beija sombra de dia, ter\u00e1 sombra de alegria. Bobos h\u00e1, cuja alarvia com a prata se concilia. A noiva t\u00e3o procurada s\u00f3 por mim vos ser\u00e1 dada. Sa\u00ed, senhor de fachada, que aqui n\u00e3o vos ret\u00e9m nada. Devo tratar de ir embora, que mais bobo, de hora em hora, vou ficando desde agora. De bobo tinha a cabe\u00e7a; com duas, n\u00e3o aconte\u00e7a que a tolice ainda mais cres\u00e7a. Adeus, querida; hei de a jura confirmar na desventura. (<i>Sai Arag\u00e3o com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Queimou a vela a borboleta obscura. Felizmente estes bobos t\u00eam a dita de s\u00f3 escolher a sorte j\u00e1 prescrita.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 O velho dito aqui tem cabimento: \u201cDo c\u00e9u vem a mortalha e o casamento.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Vamos, Nerissa; corre essa cortina.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 A senhora, onde est\u00e1?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Aqui, senhor; que deseja meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Um veneziano mo\u00e7o acaba de apear \u00e0 vossa porta, para anunciar a vinda de seu amo, de quem traz sauda\u00e7\u00f5es muito expressivas, isto \u00e9, al\u00e9m de frases mui corteses e recomenda\u00e7\u00f5es, ricos presentes. Mensageiro do amor, assim gracioso, nunca at\u00e9 agora eu vira. Nenhum dia de abril nos vem dizer t\u00e3o docemente que o admir\u00e1vel ver\u00e3o j\u00e1 se aproxima, como este anunciador faz para o amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Basta, por obs\u00e9quio. Tenho medo de que me digas que ele \u00e9 teu parente, tal a por\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito festivo que em seu louvor esbanjas. Vem, Nerissa; j\u00e1 me tarda ver esse mensageiro de Cupido, que vem t\u00e3o prazenteiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Fosse Bass\u00e2nio, Amor, o teu archeiro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entram Sal\u00e2nio e Salarino.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Ent\u00e3o, que novidades h\u00e1 no Rialto?<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Ora, corre por l\u00e1, sem contesta\u00e7\u00e3o, que Ant\u00f4nio perdeu nos estreitos um navio com carregamento precioso. Parece que isso se deu no lugar denominado Goodwins, baixio perigoso e fatal, onde est\u00e1 sepultada a carca\u00e7a de muitos navios de calado. \u00c9 o que se comenta, pelo menos, se a comadre Fama for, de fato, mulher de palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Desejara que a respeito dessa not\u00edcia ela fosse comadre t\u00e3o mentirosa como as que mastigam gengibre e as que pretendem fazer acreditar aos vizinhos que lastimam a morte do terceiro marido. Mas o certo \u00e9 que \u2014 para cortar a prolixidade e n\u00e3o atravessar a estrada plana da conversa\u00e7\u00e3o \u2014 o certo \u00e9 que o bom Ant\u00f4nio, o honesto Ant\u00f4nio \u2014 Oh! se me ocorresse um qualificativo suficientemente bom para p\u00f4r ao lado de seu nome!&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Cheguemos logo ao fim.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Hem? Que foi o que disseste? Ora, o fim \u00e9 que ele perdeu um navio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Desejara que isso constitu\u00edsse o fim das suas perdas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Vou dizer logo \u201cAm\u00e9m\u201d, de medo que o diabo me corte a reza, pois a\u00ed vem ele sob a figura de um judeu. (<i>Entra Shylock.<\/i>) Ent\u00e3o, Shylock, que h\u00e1 de novo entre os mercadores?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ningu\u00e9m melhor do que v\u00f3s, melhor do que v\u00f3s, sabe da fuga de minha filha.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Com efeito. Por minha parte, conhe\u00e7o o alfaiate que aprontou as asas com que ela fugiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 E, por sua parte, Shylock sabia que o p\u00e1ssaro estava emplumado, sendo da natureza deles abandonar o ninho.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Isso que ela me fez a condena \u00e0s penas eternas.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 \u00c9 certo, se a senten\u00e7a for dada pelo diabo.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Minha carne, meu pr\u00f3prio sangue rebelar-se desse modo!<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Deixa disso, velho esqueleto! Rebelar-se em tua idade?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Disse que minha filha \u00e9 sangue de meu sangue e carne de minha carne.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 H\u00e1 maior diferen\u00e7a entre tua carne e a dela do que entre \u00e9bano e marfim; maior entre o teu sangue e o dela do que entre vinho tinto e do Reno. Mas dize-nos uma coisa: ouviste falar que Ant\u00f4nio sofreu alguma perda no mar?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Eis a\u00ed mais um mau companheiro de neg\u00f3cios, um sujeito p\u00e1lido, esbanjador, que mal ousa mostrar a cabe\u00e7a no Rialto; um mendigo que diariamente vinha todo casquilho para o mercado. Ele que tome cuidado com aquela letra! Tinha o costume de chamar-me de usur\u00e1rio. Ele que tome cuidado com aquela letra! Sempre emprestou dinheiro por cortesia crist\u00e3&#8230; Ele que tome cuidado com aquela letra!<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Ora, tenho certeza de que se ele n\u00e3o a resgatar no prazo certo, n\u00e3o haver\u00e1s de tirar-lhe a carne, pois n\u00e3o? Para que te serviria ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Para isca de peixe. Se n\u00e3o servir para alimentar coisa alguma, servir\u00e1 para alimentar minha vingan\u00e7a. Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milh\u00e3o, riu de meus preju\u00edzos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha na\u00e7\u00e3o, atravessou-se-me nos neg\u00f3cios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por qu\u00ea? Por eu ser judeu. Os judeus n\u00e3o t\u00eam olhos? Os judeus n\u00e3o t\u00eam m\u00e3os, \u00f3rg\u00e3os, dimens\u00f5es, sentidos, inclina\u00e7\u00f5es, paix\u00f5es? N\u00e3o ingerem os mesmos alimentos, n\u00e3o se ferem com as armas, n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0s mesmas doen\u00e7as, n\u00e3o se curam com os mesmos rem\u00e9dios, n\u00e3o se aquecem e refrescam com o mesmo ver\u00e3o e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os crist\u00e3os? Se nos espetardes, n\u00e3o sangramos? Se nos fizerdes c\u00f3cegas, n\u00e3o rimos? Se nos derdes veneno, n\u00e3o morremos? E se nos ofenderdes, n\u00e3o devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a v\u00f3s, teremos de ser iguais tamb\u00e9m a esse respeito. Se um judeu ofende a um crist\u00e3o, qual \u00e9 a humildade deste? Vingan\u00e7a. Se um crist\u00e3o ofender a um judeu, qual deve ser a paci\u00eancia deste, de acordo com o exemplo do crist\u00e3o? Ora, vingan\u00e7a. Hei de por em pr\u00e1tica a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu n\u00e3o fizer melhor do que a encomenda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra um criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">CRIADO \u2014 Cavalheiros, meu amo Ant\u00f4nio est\u00e1 em casa e deseja falar com v\u00f3s ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Est\u00e1vamos \u00e0 procura dele por toda parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Tubal.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 A\u00ed vem vindo outro da mesma tribo; n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel aparecer mais um para completar o terno, a menos que o pr\u00f3prio diabo se fizesse judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Sal\u00e2nio, Salarino e o criado.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ent\u00e3o, Tubal? H\u00e1 not\u00edcias de G\u00eanova? Encontraste minha filha?<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Estive em muitos lugares em que ouvi falar dela, mas nunca lhe pus a vista em cima.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 \u00c9 assim mesmo, \u00e9 assim mesmo. Foi-se um diamante que me custou duzentos ducados em Francforte. At\u00e9 agora a maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia ca\u00eddo sobre a nossa na\u00e7\u00e3o; nunca a senti, sen\u00e3o agora. Dois mil ducados s\u00f3 nessa j\u00f3ia, al\u00e9m de outras muito mais preciosas, muito mais. Quisera ver minha filha morta diante de mim, com os ducados nas orelhas. Quisera v\u00ea-la num caix\u00e3o f\u00fanebre diante de mim, com os ducados no caix\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia deles? Ora, sendo&#8230; S\u00f3 eu sei o que me t\u00eam custado essas investiga\u00e7\u00f5es. Ora, tu&#8230; Preju\u00edzo em cima de preju\u00edzo. Foge o ladr\u00e3o com tanto, e mais tanto para pegarmos o ladr\u00e3o. E nada de satisfa\u00e7\u00e3o, nada de vingan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 infelicidade al\u00e9m da que me pesa sobre os ombros; n\u00e3o h\u00e1 suspiros, al\u00e9m dos que me saem do peito, nem l\u00e1grimas, afora as que eu mesmo derramo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 N\u00e3o; h\u00e1 outras pessoas, tamb\u00e9m, que sofrem seus reveses. Ant\u00f4nio, segundo me disseram em G\u00eanova&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Que houve? Que houve? Que houve? Alguma desgra\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 &#8230; perdeu um gale\u00e3o que vinha de Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Gra\u00e7as a Deus! Gra\u00e7as a Deus! \u00c9 ent\u00e3o verdade? \u00c9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Conversei com alguns dos marinheiros que escaparam do naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Muito obrigado, bom Tubal. Boas not\u00edcias, boas noticias. Ah! Ah! Onde? Em G\u00eanova?<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Vossa filha, segundo ouvi falar, gastou numa noite em G\u00eanova oitenta ducados.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 D\u00e1s-me uma punhalada. Nunca mais voltarei a ver o meu dinheiro. Oitenta ducados de uma s\u00f3 vez! Oitenta ducados!<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Vieram comigo para Veneza v\u00e1rios credores de Ant\u00f4nio que juram que ele n\u00e3o poder\u00e1 escapar da fal\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Isso me alegra sobremodo. Vou atorment\u00e1-lo, tortur\u00e1-lo&#8230; Isso me alegra sobremodo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Um deles me mostrou um anel que vossa filha lhe dera em troca de um macaco.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 A peste que a carregue! Torturas-me, Tubal. Era a minha turquesa; presente de Lia, quando eu ainda era solteiro. N\u00e3o a trocaria por uma floresta de macacos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TUBAL \u2014 Mas \u00e9 certeza estar Ant\u00f4nio arruinado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Sim, \u00e9 certo; \u00e9 muito certo. Tubal, vai procurar-me logo um beleguim; apraza-o com duas semanas de anteced\u00eancia. Ficarei com o cora\u00e7\u00e3o dele, no caso de n\u00e3o pagar, porque, uma vez afastado de Veneza, poderei fazer o neg\u00f3cio que bem entender. Vai, Tubal, e procura-me em nossa sinagoga. Vai, bom Tubal; em nossa sinagoga, Tubal.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv32\" name=\"mv32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Entram Bass\u00e2nio, P\u00f3rcia, Graciano, Nerissa e criados.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pe\u00e7o-vos esperar um ou dois dias, antes de arriscar tudo, pois se errardes na escolha, perderei vosso conv\u00edvio. Esperai, pois, um pouco. Alguma coisa me diz \u2014 n\u00e3o \u00e9 amor, tenho certeza \u2014 que n\u00e3o devo perder-vos. Nesses casos, bem o sabeis, n\u00e3o aconselha o \u00f3dio. Receando ser por v\u00f3s mal compreendida \u2014 muito embora s\u00f3 fale uma donzela com o pr\u00f3prio pensamento \u2014 desejara que um m\u00eas ou dois ficar aqui pud\u00e9sseis, antes de arriscar tudo por meu nome. Poderia ensinar-vos o segredo; mas ficara perjura, o que n\u00e3o quero. Podereis, pois, perder-me; nesse caso, lastimar me fareis n\u00e3o ter pecado. Esses olhos malditos me dominam e em duas ametades me partiram: uma j\u00e1 vos pertence; a outra, que \u00e9 vossa&#8230; minha, quero dizer. Mas, sendo minha, vossa \u00e9 tamb\u00e9m, ficando eu toda vossa. Este tempo maldoso p\u00f5e barreiras entre os donos e seus direitos pr\u00f3prios. Assim, embora vossa, n\u00e3o sou vossa. Se assim for, para o inferno v\u00e1 a Fortuna, n\u00e3o eu. Falo demais; mas \u00e9 com o fito de alongar mais o tempo, de espich\u00e1-lo, de protelar a escolha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Permiti-me fazer logo essa prova, que esta espera me coloca num banco de tormento.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Num banco de tormento! Ent\u00e3o, Bass\u00e2nio, confessai a trai\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de mistura com vosso amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Nenhuma, se tirarmos a medonha trai\u00e7\u00e3o da desconfian\u00e7a, que me faz duvidar de minha dita. T\u00e3o bem a neve e o fogo poderiam revelar amizade e viver juntos, como a trai\u00e7\u00e3o a meu amor unir-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Mas temo que estejais falando agora no banco de tortura, onde as pessoas confessam tudo o que se exige delas.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Dai-me de pr\u00eamio a vida, e vos prometo confessar a verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pois que seja: confessai e vivei.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o; \u201cConfessai e amai\u201d, resumiria melhor a confiss\u00e3o. Feliz tortura, pois o atormentador me ensina os meios de vir a libertar-me. Mas deixai-me tentar logo a fortuna junto aos cofres.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pois que seja! Num deles eu me encontro. Se me amais, ser\u00e1 f\u00e1cil acertardes. Nerissa, e v\u00f3s ai, ficai de parte. Haja m\u00fasica, enquanto dura a escolha; se ele perder, ter\u00e1 morte de cisne, que em m\u00fasica se fina. E porque possa ser a compara\u00e7\u00e3o mais certa, ainda, ser\u00e3o meus olhos a corrente que ele ter\u00e1 para morrer, o \u00famido leito. Talvez venha a ganhar. Para que m\u00fasica, nesse caso? Ser\u00e1 como fanfarra, quando os s\u00faditos fi\u00e9is se curvam diante do novo soberano, alguma coisa que faz lembrar aqueles sons maviosos ao despontar do dia, e que se esgueiram pelos ouvidos do enlevado noivo e \u00e0s n\u00fapcias o convidam. Neste instante ele se adianta, n\u00e3o menos donoso, mas com amor muit\u00edssimo mais vivo do que o mancebo Alcides, no momento de resgatar o virginal tributo que Tr\u00f3\u00eda gemedora ao monstro imano do mar pagar so\u00eda. Pronta me acho na ara do sacrif\u00edcio. Aqueles vultos ao longe, s\u00e3o mulheres de Dard\u00e2nia, de fei\u00e7\u00f5es conturbadas, que sa\u00edram para ver da entrepresa o resultado. Avante, Alcides! Se viveres, vivo. Com mais ang\u00fastia o peito se me aperta do que a ti pr\u00f3prio na contenda incerta. (<i>Can\u00e7\u00e3o, enquanto Bass\u00e2nio medita sobre o cofre a escolher.<\/i>) Dizer poder\u00e1 algu\u00e9m se o amor da cabe\u00e7a vem? se no peito se entret\u00e9m? Respondei logo, respondei logo. Nos olhos nasce e se cria; cresce e morre a fantasia no leito em que viu o dia. Fechemos nossa can\u00e7\u00e3o com d\u00edm dom d\u00e3o, dim dom d\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Dim dom d\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Bastantes vezes a apar\u00eancia externa carece de valor. Sempre enganado tem sido o mundo pelos ornamentos. Em direito, que causa t\u00e3o corrupta e estragada, n\u00e3o fica apresent\u00e1vel por uma voz graciosa, que a apar\u00eancia mal\u00e9vola disfar\u00e7a? Que heresia poder\u00e1 haver em religi\u00e3o, se alguma fronte austera a defende, e justifica com a cita\u00e7\u00e3o de um texto, mascarando com bonito fraseado a enormidade? N\u00e3o h\u00e1 vicio, por crasso, que n\u00e3o possa revelar apar\u00eancia de virtude. Quantos poltr\u00f5es n\u00e3o vemos, cujo peito resiste tanto como areia ao vento, que no queixo nos mostram barba de H\u00e9rcules ou do sombrio Marte, e que por dentro f\u00edgados como leite s\u00f3 possuem? Os bigodes s\u00f3 usam da coragem, para que possam parecer tem\u00edveis. Mas se a beleza olh\u00e1sseis, achar\u00edeis que \u00e9 s\u00f3 comprada a peso, e que milagre realiza da natura, ocasionando mais leveza onde mais presente esteja. isso se d\u00e1 com esses cabelos louros de cachos enrolados como serpes, que saltitam ao vento, libertinos. cobrindo uma beleza s\u00f3 de empr\u00e9stimo; conhecidos s\u00e3o todos como d\u00e1diva de uma cabe\u00e7a estranha: j\u00e1 no t\u00famulo se encontra o cr\u00e2nio sobre que nasceram. Praia trai\u00e7oeira \u00e9 o ornato, por tudo isso, de um mar mui perigoso, linda charpa que esconde o rosto de uma bela indiana; em resumo: apar\u00eancia da verdade, de que se vale o tempo experto, para colher at\u00e9 os mais s\u00e1bios. Assim sendo, brilhante ouro, de Midas duro cibo, nada quero de ti, como n\u00e3o quero tamb\u00e9m de ti, intermedi\u00e1rio p\u00e1lido e vulgar entre os homens. Minha escolha recai em ti, em ti, modesto chumbo, que mais amea\u00e7as do que pr\u00eamio inculcas. Tua lhaneza \u00e9 a m\u00e1xima eloq\u00fc\u00eancia. Seja pois alegria a conseq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Como as demais paix\u00f5es dissipa o vento: o desespero, o d\u00fabio pensamento, o p\u00e1lido cuidado, o medo incerto! Modera, amor, esse \u00eaxtase! Liberto te mostres de exagero. Que a alegria n\u00e3o chova sobre mim em demasia. Tuas b\u00ean\u00e7\u00e3os me deixam atordoada; tem m\u00e3o nelas. Receio inanimada vir a ficar, de excesso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Que acho aqui? O retrato de P\u00f3rcia. a inigual\u00e1vel? Que semideus j\u00e1 se encontrou t\u00e3o perto da cria\u00e7\u00e3o? Esses olhos se deslocam? Ou parece que o fazem, t\u00e3o-somente porque na \u00f3rbita os meus tamb\u00e9m se movem? Doce h\u00e1lito perpassa entre estes l\u00e1bios. Jamais barreira t\u00e3o suave amigos t\u00e3o gratos separou. Nestes cabelos fez-se aranha o pintor e uma \u00e1urea teia preparou, para nela se enredarem os cora\u00e7\u00f5es dos homens mais depressa do que nas verdadeiras os mosquitos. E os olhos? Como poderia v\u00ea-los e pint\u00e1-los depois? Um, completado, parece-me, dos seus o privaria, ficando a obra incompleta. Por\u00e9m vede: quanto a subst\u00e2ncia destes meus enc\u00f4mios, por sua insufici\u00eancia, prejudicam t\u00e3o bela sombra, tanto a bela sombra segue, a mancar, atr\u00e1s da pr\u00f3pria ess\u00eancia. Eis o papel onde gravada se acha a s\u00famula de toda a minha dita. J\u00e1 que n\u00e3o foi pela vista que escolheste, eis a conquista. Vossa ventura \u00e9 bem-vista; em tudo ela vos assista. Se vos alegra o festejo, aproveitai logo o ensejo para pedir, em gracejo, que a noiva vos d\u00ea um beijo. Gentil escrito. E agora, bela dama, com vossa permiss\u00e3o. (<i>Beija-a.<\/i>) Seguindo a Fama, vim dar e receber. Tal como forte pugilista, a quem foi risonha a sorte, e que os aplausos ouve e a gritaria do p\u00fablico, pensando, na alegria de vencedor, que mereceu tudo isso; mas que, logo depois, de olhar morti\u00e7o tudo a girar, a mente um tanto enleada, n\u00e3o sabe se s\u00e3o vivas ou pateada: assim, tr\u00eas vezes bela senhorita, me vejo, a duvidar de minha dita, at\u00e9 que a possa ver, em tanta altura, confirmada com vossa assinatura.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Senhor Bass\u00e2nio, assim como me vedes neste momento, eu sou. Para mim pr\u00f3pria n\u00e3o seria ambiciosa em meus desejos de querer ser muito melhor em tudo. Mas triplicar quisera vinte vezes, para v\u00f3s, o que sou, ser mais formosa mil vezes, dez mil vezes mais senhora de um rico patrim\u00f4nio. Para em vosso conceito ser mais alta, desejara ter conta incalcul\u00e1vel de virtudes, belezas, bens e amigos; suas a soma total de quanto valho \u00e9 soma negativa, que define, grosso modo, uma jovem sem preparo, talentos e experi\u00eancia, que se julga feliz apenas por n\u00e3o ser t\u00e3o velha que n\u00e3o possa aprender, e venturosa por n\u00e3o ser t\u00e3o obtusa de nascen\u00e7a que aprender n\u00e3o consiga coisa alguma. Mas a suma ventura nisto tudo consiste em poder ela inteiramente vos confiar o esp\u00edrito male\u00e1vel, para que a dirijais, na qualidade de marido, senhor e soberano. Eu, com tudo o que tenho, desde agora passo a ser toda vossa. At\u00e9 h\u00e1 momentos, era eu senhora desta bela casa, dona dos meus criados, soberana de mim pr\u00f3pria; mas desde este momento a casa, a famulagem, minha pr\u00f3pria pessoa, meu senhor, a v\u00f3s pertence. Tudo vos dou com este anel. Se acaso vos separardes dele, ou se o perderdes, ou se presente a algu\u00e9m dele fizerdes, ind\u00edcio certo isso ser\u00e1 da morte de nosso amor e causa de queixar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Senhorita, deixastes-me privado do uso da fala; o sangue, t\u00e3o-somente, de minhas veias \u00e9 que vos responde. Em minhas faculdades h\u00e1 t\u00e3o grande perplexidade como a que se nota na multid\u00e3o feliz e balbuciante, depois da fala de um querido pr\u00edncipe, quando a fus\u00e3o de tudo o que \u00e9 distinto se transforma num caos de coisa alguma, salvo a alegria, expressa, a um tempo, e muda. Se o anel um dia me sair do dedo \u00e9 que a vida tamb\u00e9m ter\u00e1 sa\u00eddo, podendo v\u00f3s dizer: morreu Bass\u00e2nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Meu novo amo, senhora, eis o momento para n\u00f3s todos, os espectadores de vossa dita, de gritar em j\u00fabilo: Felicidades para os nossos amos!<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 A v\u00f3s, senhor Bass\u00e2nio, e \u00e0 minha muito gentil senhora, todas as venturas que podeis desejar, pois estou certo de que n\u00e3o heis de cobi\u00e7ar as minhas. E quando Vossas Honras resolverem permutar vosso amor, pe\u00e7o licen\u00e7a para tamb\u00e9m casar no mesmo dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 De todo cora\u00e7\u00e3o, caso consigas encontrar uma esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Agradecido vos sou, senhor, porque me destes uma. Estes olhos, senhor, v\u00eaem t\u00e3o depressa quanto os vossos. V\u00f3s vistes a senhora; eu contemplei a serva. V\u00f3s amastes do mesmo modo que eu; amastes logo, tal como eu, que as delongas s\u00e3o t\u00e3o pouco do meu agrado como o s\u00e3o do vosso. Vosso destino estava nesses cofres, tal como o meu, e os fatos o provaram, pois fiz a corte aqui de suar frio, secando-se-me a boca s\u00f3 de tantos juramentos de amor, que, alfim, se as juras podem ter fim, valeram-me a promessa de conseguir o amor desta beldade, se vi\u00e9sseis a alcan\u00e7ar o da senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 verdade, Nerissa?<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Sim, senhora, no caso de vos ser tamb\u00e9m do agrado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 E v\u00f3s, Graciano, sois sincero em tudo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Sincero, sim senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Nossos festejos com vossas n\u00fapcias ficar\u00e3o honrados.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Convosco apostaremos mil ducados sobre o primeiro filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Como! Jogo franco na mesa?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 N\u00e3o, que em tal desporto nunca se ganha nada sobre a mesa. Mas quem vem vindo a\u00ed? Louren\u00e7o e a sua linda infiel? E o meu vetusto amigo Sal\u00e2nio, de Veneza?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Louren\u00e7o, Jessica e Sal\u00e2nio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Sois bem-vindos, Louren\u00e7o, e v\u00f3s, Sal\u00e2nio, caso possa saudar-vos desse modo a mocidade de minha situa\u00e7\u00e3o. Querida P\u00f3rcia, com vossa permiss\u00e3o \u00e9 que eu dirijo sauda\u00e7\u00f5es a estes dois meus conterr\u00e2neos e amigos mui prezados.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Sim, podeis faz\u00ea-lo, meu senhor; bem-vindos sejam.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Agrade\u00e7o a Vossa Honra. No que toca, senhor, a meus projetos, n\u00e3o pensava ver-vos neste momento. Mas havendo me avistado em caminho com Sal\u00e2nio, instou comigo para vir com ele, sem que eu pudesse dizer n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 De fato, foi o que fiz, mas, para tanto, tinha raz\u00e3o plaus\u00edvel. O signior Ant\u00f4nio se recomenda a v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entrega a Bass\u00e2nio uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Antes de eu ler a carta, contai logo como esse meu amigo vai passando.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Doente, n\u00e3o; s\u00f3 se o estiver do esp\u00edrito: nem muito bem, se o esp\u00edrito excetuarmos. A carta vos dir\u00e1 como se encontra.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Nerissa, d\u00e1 as boas-vindas \u00e0 estrangeira. A m\u00e3o, Sal\u00e2nio. Que h\u00e1 de novidades em Veneza? Dizei como vai indo nosso real mercador, o bom Ant\u00f4nio. Sei que nossa vit\u00f3ria o deixa alegre. Somos Jas\u00e3o que o velo conquistamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Desejara que houv\u00e9sseis ganho o velo que ele perdeu h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Algo mui grave cont\u00e9m aquela carta, pois as cores a Bass\u00e2nio roubou; decerto, a nova da morte de um amigo, que mais nada no mundo poderia alterar tanto a presen\u00e7a de um homem de const\u00e2ncia. Que aconteceu? De mal para pior? Com permiss\u00e3o, Bass\u00e2nio. Eu sou metade de v\u00f3s pr\u00f3prio; \u00e9 preciso, pois, que eu tenha parte em metade do que diz a carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 \u00d3 doce P\u00f3rcia! As mais desagrad\u00e1veis palavras estas s\u00e3o que em qualquer tempo j\u00e1 mancharam papel. Gentil senhora, ao vos falar pela primeira vez do amor que vos dicava, com franqueza vos contei que nas veias me corria toda a minha fortuna: sou fidalgo. Disse-vos a verdade. Mas havendo, prezada dama, computado em nada quanto eu valia ent\u00e3o, vereis agora como fui jactancioso. Ao declarar-vos que meus bens eram nada, deveria ter dito que eram menos do que nada. Porque, de fato, para obter recursos, penhorei-me a um amigo mui querido e o penhorei ao seu pior inimigo. Senhora, eis uma carta desse amigo. Cada palavra dela \u00e9 uma ferida de onde sai sangue vivo. ent\u00e3o verdade, Sal\u00e2nio? Perdeu todos os haveres? Falharam-lhe as empresas? Como! Da \u00cdndia, de Inglaterra, do M\u00e9xico, de Tr\u00edpoli, Lisboa e Berberia, nenhum barco fugiu do choque horr\u00edvel dos penedos, inimigos figadais dos mercadores?<\/p>\n<p align=\"justify\">SAL\u00c2NIO \u2014 Nenhum, senhor. Al\u00e9m do mais, parece que se Ant\u00f4nio tivesse o necess\u00e1rio para o judeu pagar, n\u00e3o consentira este em receber nada. N\u00e3o vi nunca uma criatura sob a forma de homem que revelasse t\u00e3o feroz empenho em desgra\u00e7ar um homem. Noite e dia reclama junto ao doge, protestando contra essa viola\u00e7\u00e3o da liberdade, se lhe negarem o que a lei concede. O pr\u00f3prio doge, vinte mercadores, os senadores de maior prest\u00edgio tentaram persuadi-lo, sem que nada conseguisse do pleito demov\u00ea-lo t\u00e3o odioso, baseado na justi\u00e7a, numa letra vencida e numa multa.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Quando eu estava em casa ouvi quando ele jurou diante de Chus e de Tubal, seus compatriotas, que n\u00e3o abriria m\u00e3o da carne de Ant\u00f4nio nem que fosse por vinte vezes o valor da d\u00edvida. E eu sei, senhor, que se as autoridades, a lei e a for\u00e7a n\u00e3o se interpuserem, muito mal vai ficar o pobre Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 o vosso caro amigo que se encontra num apuro t\u00e3o grande?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 O mais querido dos meus amigos, o homem mais bondoso, o cora\u00e7\u00e3o mais belo e sempre pronto para prestar servi\u00e7os, a pessoa em que a honra dos romanos se revela mais pura do que em todos os que vivem nestes dias na It\u00e1lia.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que quantia deve ele a esse judeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Por minha causa, tr\u00eas mil ducados.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Como! Apenas isso? Pagai seis mil e retirai a letra; duplicai os seis mil e o resultado quadruplicai, contanto que um amigo de t\u00e3o grande valor n\u00e3o perca um fio de cabelo por causa de Bass\u00e2nio. Primeiro vinde \u00e0 igreja e o nome dai-me de vossa esposa; ap\u00f3s, para Veneza partireis, para vosso caro amigo, pois nunca podereis deitar-vos junto de P\u00f3rcia com o esp\u00edrito inquieto. Hei de vos dar dinheiro suficiente para pagar vinte pequenas d\u00edvidas como essa. Uma vez saldada a conta, trazei-me o amigo leal. Nesse entrementes, eu e Nerissa viveremos vida de vi\u00fava e virgem. Vamos para a igreja; que ap\u00f3s as n\u00fapcias vossa viagem seja. Porque ele viva n\u00e3o sejais avaro; sois para mim o que custastes: caro. Mas a carta me lede desse amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 \u201cQuerido Bass\u00e2nio, todos os meus navios naufragaram, meus credores tornaram-se cru\u00e9is, minha situa\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 desesperada, a letra que eu tenho com o judeu j\u00e1 est\u00e1 vencida, e uma vez que, pagando-a, n\u00e3o me ser\u00e1 poss\u00edvel viver, ficam liquidadas todas as d\u00edvidas existentes entre mim e v\u00f3s. Se ao menos eu vos visse antes de morrer! Contudo, nada de constrangimento; se o vosso amor n\u00e3o vos persuadir nesse sentido, minha carta n\u00e3o vos obrigar\u00e1 a vir.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pretere tudo o mais, amor, e parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 J\u00e1 que mo permitis, irei agora. Mas at\u00e9 \u00e0 volta leito algum vistoso escusa me ser\u00e1 para demora, nem entre n\u00f3s se insinuar\u00e1 repouso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv33\" name=\"mv33\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena III<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma rua. Entram Shylock, Salarino, Ant\u00f4nio e o carcereiro.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Toma-me conta dele, carcereiro. N\u00e3o me fales de gra\u00e7a, que este \u00e9 o bobo que emprestava sem juros. Carcereiro, toma-me conta dele.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Uma palavra, meu bondoso Shylock.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 O pagamento de minha letra! Nada ouvir desejo contra essa letra. Fiz um juramento de como havia de exigir a d\u00edvida. Chamaste-me de c\u00e3o sem teres causa. Se eu sou c\u00e3o, tem cuidado com estes dentes. O doge me far\u00e1 justi\u00e7a. Admira-me, carcereiro relapso, que te mostres condescendente a ponto de sa\u00edres com ele \u00e0 rua.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por obs\u00e9quio, ouvi-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 S\u00f3 quero o pagamento. N\u00e3o desejo que me fales. S\u00f3 quero o pagamento. Sendo assim, ser\u00e1 in\u00fatil me falares. De mim n\u00e3o se far\u00e1 um desses bobos moleir\u00f5es, de olhar triste, que a cabe\u00e7a sacodem, e se mostram condo\u00eddos, suspiram, consentindo em fazer quanto lhes pedem os crist\u00e3os intermedi\u00e1rios. N\u00e3o me acompanhes, pois n\u00e3o quero ouvir-te; s\u00f3 quero o pagamento. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 \u00c9 o c\u00e3o de fila mais insens\u00edvel que entre os homens anda.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Deixai-o ir; n\u00e3o hei de importun\u00e1-lo daqui por diante com in\u00fateis preces. Quer ver-me morto, e eu sei a raz\u00e3o disso. J\u00e1 livrei muita gente de ser v\u00edtima de suas extors\u00f5es. Por isso odeia-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Tenho quase a certeza de que o doge n\u00e3o deixar\u00e1 vingar esse contrato.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Poder n\u00e3o tem o doge para o curso da lei deter. Se fossem denegados aos estrangeiros todos os direitos que em Veneza desfrutam, abalada ficaria a justi\u00e7a da rep\u00fablica, pois o lucro e o com\u00e9rcio da cidade se baseiam s\u00f3 neles. Pois que seja! As perdas e os desgostos de tal modo me abateram, que mui dificilmente ficarei amanh\u00e3 com uma libra de carne, para resgatar a conta de meu feroz credor. Sigamos, guarda! Se Deus fizesse que Bass\u00e2nio viesse ver-me no instante de pagar-lhe a d\u00edvida, tudo o mais me seria indiferente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv34\" name=\"mv34\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena IV<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Um quarto em casa de P\u00f3rcia. Entram P\u00f3rcia, Nerissa, Louren\u00e7o, Jessica e Baltasar.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Senhora, permiti que em vossa pr\u00f3pria presen\u00e7a vo-lo diga: tendes uma concep\u00e7\u00e3o muito nobre e verdadeira da divina amizade, para a aus\u00eancia suportardes assim de vosso esposo. Mas se soub\u00e9sseis a quem tantas honras, desse modo, prestais; que gentil-homens t\u00e3o digno socorreis; qu\u00e3o devotado foi sempre a meu senhor e vosso esposo: mais orgulhosa, sei-o bem, fic\u00e1reis de tudo o que fazeis, do que a bondade natural poderia a isso levar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Nunca me arrependi de uma a\u00e7\u00e3o boa, nem o farei agora. Entre pessoas que o tempo passam em conversa, juntos, e cujos cora\u00e7\u00f5es o mesmo jugo da amizade suportam, haver deve conformidade e propor\u00e7\u00e3o nos tra\u00e7os, no g\u00eanio e nos costumes. Isso leva-me a acreditar que Ant\u00f4nio, como amigo de meu senhor, ter\u00e1 de ser como ele. Ora, assim sendo, que quantia m\u00ednima dispensei, porque a imagem de minha alma livrar pudesse de uma situa\u00e7\u00e3o de crueldade infernal! Essas palavras, por\u00e9m, parecem elogio pr\u00f3prio. Fiquemos por aqui. E ora tratemos de outros assuntos. Ponho-vos, Louren\u00e7o, nas m\u00e3os a dire\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia desta casa, at\u00e9 \u00e0 volta de Bass\u00e2nio. Eu, de mim, formulei ao c\u00e9u um voto secreto de, em contempla\u00e7\u00e3o e preces, viver por algum tempo, acompanhada somente por Nerissa, at\u00e9 que possam retornar meu senhor e o esposo dela. Daqui distante duas milhas acha-se um mosteiro aonde vamos acolher-nos. Desejo que n\u00e3o vos furteis ao peso da obriga\u00e7\u00e3o imposta pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias e meu pr\u00f3prio afeto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o, minha senhora; s\u00e3o ordens para mim vossos desejos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Meus criados sabem tudo o que vos disse. Todos h\u00e3o de acatar-vos e a Jessica, como a mim pr\u00f3pria e a meu senhor Bass\u00e2nio. E agora passai bem e at\u00e9 \u00e0 vista.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Formosos pensamentos e felizes horas vos acompanhem.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Alegrias do cora\u00e7\u00e3o desejo a Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Os votos agrade\u00e7o, desejando que a v\u00f3s retornem. Passai bem, Jessica. (<i>Saem Jessica e Louren\u00e7o.<\/i>) E agora, Baltasar, tal como sempre te encontrei, honesto e verdadeiro, quero ainda achar-te. Toma esta carta e apressa-te, empregando todo o esfor\u00e7o de um homem, porque logo possas chegar a P\u00e1dua. Em m\u00e3os a entrega de meu primo, o Doutor Bel\u00e1rio, e toma muito cuidado com os pap\u00e9is e a roupa que ele te der, e os traze, por obs\u00e9quio, empregando na volta a maior pressa imagin\u00e1vel, at\u00e9 o barco p\u00fablico que vai para Veneza. Com palavras n\u00e3o percas tempo; parte logo, que hei de chegar primeiro l\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">BALTASAR \u2014 Hei de, senhora, empregar nisso toda a dilig\u00eancia. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Vamos, Nerissa; tenho em m\u00e3os uma obra que ainda n\u00e3o conhe\u00e7o. Mas teremos de ver nossos maridos bem mais cedo do que eles pr\u00f3prios pensam.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 E seremos tamb\u00e9m vistas por eles?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Sim, Nerissa; mas vestidas de tal maneira, que eles h\u00e3o de nos atribuir o que nos falta. Aposto o que quiseres que, ao ficarmos parecendo dois mo\u00e7os, de n\u00f3s duas serei o mais galhardo e a minha espada carregarei com mais desenvoltura. Vou falar nesse tom meio aflautado como o fazem na idade transit\u00f3ria de menino para homem; meus passinhos se mudar\u00e3o em passos masculinos. Falarei s\u00f3 de duelos, como jovem de bom aprumo e um tanto bazofeiro; contarei mil mentiras sobre as damas de posi\u00e7\u00e3o que o amor me disputaram e que, desiludidas, adoeceram, vindo a morrer depois. Mas imposs\u00edvel me era a todas possuir. Logo em seguida me mostrarei de todo arrependido, desejando que mortas n\u00e3o houvessem sido por minha causa. Em suma: tantas p\u00eatas hei de contar desse quilate, que h\u00e3o de jurar os homens que eu apenas h\u00e1 doze meses conclu\u00ed a escola. Tenho em mente um milh\u00e3o dessas patranhas dos nossos fanfarr\u00f5es incorrig\u00edveis, que hei de por logo em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Estou vendo que vamos virar homens?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que pergunta! Se algu\u00e9m isso tomasse em mau sentido! Mas vamos; vou contar-te todo o plano, quando estiver no carro que na porta nos espera do parque. Mui casquilhas hoje faremos ainda vinte milhas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv35\" name=\"mv35\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena V<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um jardim. Entram Lanceloto e Jessica.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Sim, realmente; porque, vede bem: os pecados dos pais pesam sobre os filhos. Assim, podeis crer-me que estou preocupado convosco. Sempre fui franco convosco; por isso, confesso agora a minha intranq\u00fcilidade a esse respeito. Criai coragem, portanto, porque em verdade tenho certeza de que estais condenada \u00e0s penas eternas. S\u00f3 h\u00e1 uma esperan\u00e7a de que venha a melhorar a vossa situa\u00e7\u00e3o, e assim mesmo, uma esperan\u00e7a bastarda.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 E que esperan\u00e7a \u00e9 essa, por obs\u00e9quio?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Ora, \u00e9 que, se remanescesse uma ponta de esperan\u00e7a de que n\u00e3o houv\u00e9sseis sido gerada por vosso pai, n\u00e3o ser\u00edeis filha do judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 \u00c9 esperan\u00e7a bastarda, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Desse modo, os pecados de minha m\u00e3e pesariam sobre mim.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Realmente, motivo por que receio que estejais condenada tanto por causa do pai como por causa da m\u00e3e. Desse modo, se me livro de Gila, vosso pai, vou cair em Caribdes, vossa m\u00e3e. Estais perdida pelos dois lados.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Serei salva pelo meu marido; de mim fez ele uma crist\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Tanto mais pass\u00edvel ele de censura se tornou. J\u00e1 t\u00ednhamos crist\u00e3os em n\u00famero suficiente; o necess\u00e1rio para poderem viver bem uns com os outros. Essa fabrica\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os far\u00e1 aumentar o pre\u00e7o do porco. Se todos n\u00f3s passarmos a ser comedores de carne de porco, dentro de pouco tempo por dinheiro nenhum poderemos ter uma tira de toicinho sobre a brasa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Louren\u00e7o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Dentro de pouco tempo, Lanceloto, terei de revelar ci\u00fames, se continuardes a puxar para os cantos minha mulher.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Nada receies de n\u00f3s, Louren\u00e7o, que eu e Lanceloto nos damos muito mal. Ele me diz sem circunl\u00f3quios que n\u00e3o encontrarei miseric\u00f3rdia no c\u00e9u por ser filha de judeu, como disse, tamb\u00e9m, que n\u00e3o sois um bom membro da comunidade, porque, convertendo judeus ao cristianismo, elevais o pre\u00e7o da carne de porco.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Com muito mais facilidade poderei justificar-me disso diante das autoridades do que tu por causa da rotundidade do ventre daquela negra. A moura, Lanceloto, est\u00e1 gr\u00e1vida de ti.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Para mim, tanto faz que a moura morra; mas se ela for menos do que uma mulher honesta, j\u00e1 \u00e9 mais do que o que eu julgava que fosse.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Como at\u00e9 os bobos sabem fazer trocadilhos! Sou de opini\u00e3o que dentro de pouco tempo o esp\u00edrito passar\u00e1 a provar a sua superioridade tornando-se mudo e que a eloq\u00fc\u00eancia s\u00f3 ser\u00e1 recomendada para os papagaios. Vai logo para dentro, maroto, e dize que se preparem para o jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Isso j\u00e1 est\u00e1 providenciado, senhor, porque todos t\u00eam est\u00f4mago.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Santo Deus, como apanhais as coisas! Dize lhes que preparem o jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Isso tamb\u00e9m j\u00e1 esta providenciado senhor s\u00f3 falta a cobertura.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Nesse caso, pretendeis cobrir-vos?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Eu, cobrir-me, senhor? Conhe\u00e7o o meu dever.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Mais um trocadilho! N\u00e3o querer\u00e1s mostrar-nos de uma s\u00f3 vez toda a riqueza de teu esp\u00edrito? Por obs\u00e9quio, interpreta um homem simples de acordo com a sua maneira simples de expressar-se. Vai procurar os teus camaradas e dize-lhes que ponham a mesa e preparem os pratos, que n\u00f3s j\u00e1 chegamos para jantar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Quanto \u00e0 mesa, senhor, ser\u00e1 preparada; quanto aos pratos, ser\u00e3o postos; quanto \u00e0 vossa ida para jantar, que seja segundo vossos caprichos e opini\u00f5es. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Que intelig\u00eancia rara! Como as suas palavras se combinam! Na mem\u00f3ria tem o bobo um ex\u00e9rcito de termos da melhor proced\u00eancia. Muitos bobos conhe\u00e7o em posi\u00e7\u00e3o de alto relevo, como este, ornado de palavras raras, e que no instante de mostrar esp\u00edrito falham completamente. E tu, Jessica, feliz te julgas? Dize-me, querida: que achas da esposa do senhor Bass\u00e2nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Mais do que dizer posso; \u00e9 necess\u00e1rio que ele vida exemplar em tudo leve, pois tendo a b\u00ean\u00e7\u00e3o de uma tal esposa, na terra encontrar\u00e1 dita celeste. E se ele vier a desprezar na terra semelhante ventura, por direito jamais h\u00e1 de ir ao c\u00e9u. Caso dois deuses determinassem, em celeste aposta, vir \u00e0 terra buscar duas mulheres, sendo P\u00f3rcia uma delas, necess\u00e1rio fora ajuntar muit\u00edssimo \u00e0 segunda, pois este nosso mundo rude e pobre n\u00e3o tem quem se lhe iguale.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Tal qual ela como esposa, sou eu como marido.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Ah, \u00e9 assim? N\u00e3o quer\u00edeis perguntar-me o que eu penso sobre isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Sim, mais tarde; vamos jantar primeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 N\u00e3o; deixai-me fazer-vos o elogio antes de farta.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 N\u00e3o; deixemos o assunto para a mesa. Digas o que disseres, digerido ser\u00e1 tamb\u00e9m de envolta com o restante.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Pois que seja; farei vosso elogio.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Veneza. Uma corte de justi\u00e7a. Entram o doge, os senadores de Veneza, Ant\u00f4nio, Bass\u00e2nio, Graciano, Salarino, Sal\u00e2nio e outros.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Est\u00e1 presente Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 \u00c0s ordens de Vossa Gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Causa-me pena a tua situa\u00e7\u00e3o. Vieste a esta barra para defrontar-te com um inimigo de pedra, um celerado desumano, incapaz de comover-se, vazio e carecente de uma dracma de comisera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Soube que Vossa Gra\u00e7a tem-se esfor\u00e7ado muito e muito para atenuar seu rigoroso curso. Mas j\u00e1 que endurecido ele se mostra e que meio legal nenhum me livra do alcance de seu \u00f3dio, oponho minha paci\u00eancia ao seu furor e me declaro armado para suportar com grande tranq\u00fcilidade de alma a tirania e a c\u00f3lera da sua.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Algu\u00e9m da\u00ed introduza o judeu logo na sala.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 \u00c0 porta j\u00e1 se encontra. A\u00ed vem, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Shylock<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Afastai-vos, porque ele ficar possa diante de n\u00f3s. Shylock, o mundo pensa, e eu tamb\u00e9m como todos, que tencionas persistir nessas provas de crueldade somente at\u00e9 \u00e0 \u00faltima hora do processo, depois do que, se diz, ir\u00e1s mostrar-nos do\u00e7ura e considera\u00e7\u00e3o mais raras do que esse gesto de crueldade inculca. Em vez de, agora, a multa reclamares \u2014 uma libra de carne deste pobre mercador \u2014 n\u00e3o somente vais dizer-nos que o castigo dispensas, como, ainda, levado pelo amor e o sentimento de humanidade, perdoar\u00e1s metade da d\u00edvida, atendendo \u00e0s grandes perdas que pesaram sobre ele ultimamente, perdas capazes de deitar por terra um mercador real, e compassivos de sua desventura deixar peitos de bronze e duros cora\u00e7\u00f5es de pedra de turcos inflex\u00edveis e de t\u00e1rtaros \u00e0s pr\u00e1ticas estranhos do servi\u00e7o da meiga cortesia. Ora aguardamos resposta branda; todos n\u00f3s, judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 J\u00e1 expus a Vossa Gra\u00e7a o que pretendo, como jurei por nosso santo S\u00e1bado cobrar o estipulado pela multa. Se mo negares, que com o risco seja das leis e liberdades de Veneza. Decerto haveis de perguntar-me a causa de eu preferir um peso de carni\u00e7a a ter de volta os ricos tr\u00eas mil durados. E ent\u00e3o? Se um rato a casa me estragasse, e para envenen\u00e1-lo eu resolvesse gastar dez mil ducados? N\u00e3o vos basta semelhante resposta? H\u00e1 muita gente que n\u00e3o suporta ouvir grunhir um porco; outros, ao ver um gato, ficam loucos; e outros, ainda, que ao fanhoso canto da cornamusa a urina n\u00e3o ret\u00eam. \u00c9 que a impress\u00e3o, senhora dos instintos, vos faz odiar ou amar, como apetece. Para voltarmos ao que perguntastes, vos direi que assim como n\u00e3o podemos apresentar raz\u00e3o satisfat\u00f3ria da antipatia de um pelo grunhido do porco, da daquela pela vista de um gato necess\u00e1rio e inofensivo, da do outro pela inflada cornamusa, sendo for\u00e7a cedermos ao opr\u00f3brio inevit\u00e1vel de ofendermos, quando nos virmos ofendidos: de igual modo, n\u00e3o sei de outra raz\u00e3o, nem saber quero, se n\u00e3o for o \u00f3dio inato e a repugn\u00e2ncia que Ant\u00f4nio me desperta e que me leva a persistir assim numa demanda t\u00e3o onerosa. Dei-vos a resposta?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 resposta, homem de pedra, que justifique a tua crueldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de ser am\u00e1vel no que te responder.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Acaso a morte d\u00e3o os homens a tudo o que n\u00e3o amam?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 E quem n\u00e3o mataria quanto odeia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Nem toda ofensa, de princ\u00edpio, \u00e9 \u00f3dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Como! Consentirias que uma serpe te picasse duas vezes?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Por obs\u00e9quio, refleti que tratais com um judeu. De tanto vos servira ir para a praia e \u00e0s ondas ordenar que se abaixassem; de tanto vos servira ao fero lobo perguntar sobre a causa de ter feito balar o cordeirinho atr\u00e1s da ovelha; de tanto vos servira aos altos pinhos da montanha proibir que o topo agitem e que fa\u00e7am rumor, quando a tormenta do c\u00e9u os deixa inquietos&#8230; Sim, primeiro conseguir\u00edeis realizar as coisas mais duras, do que fora s\u00f3 quererdes abrandar \u2014 e que pode ser mais duro? \u2014 seu cora\u00e7\u00e3o judeu. Por isso eu pe\u00e7o nada mais lhe oferecerdes, nem tentardes qualquer outro recurso, mas depressa me julgardes segundo as leis da terra, deixando que o judeu realize o intento.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Em vez dos teus tr\u00eas mil ducados dou-te seis mil agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Se essas moedas todas desses seis mil ducados, divididas em seis partes ficassem, e cada uma fosse um ducado, nelas n\u00e3o tocara. Persisto em exigir a minha letra.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Se piedade n\u00e3o mostras, como podes esperar encontr\u00e1-la?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Que castigo tenho a temer, se mal algum eu fa\u00e7o? Possu\u00eds muitos escravos, que como asnos, c\u00e3es e mulos tratais, e que em servi\u00e7os empregais vis e abjetos, sob a escusa de os haverdes comprado. J\u00e1 vos disse que os pus\u00e9sseis, acaso, em liberdade? que com vossas herdeiras os cas\u00e1sseis? por que suam sob fardos? que lhes d\u00e9sseis leitos iguais aos vossos? e iguarias que como ao vosso paladar soubessem? Em resposta, decerto, me dir\u00edeis: \u201cOs escravos s\u00e3o nossos\u201d. De igual modo vos direi, em resposta, que essa libra de carne, que ora exijo, foi comprada muito caro; pertence-me; hei de t\u00ea-la. Se esse direito me negardes fora com vossas leis! S\u00e3o fracos os decretos de Veneza. E ora aguardo o julgamento. Respondei-me: dar-me-eis o meu direito?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Tenho o poder de dissolver a corte, se Bel\u00e1rio, um jurista muito douto que mandei vir para estudar o caso, n\u00e3o puder chegar hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">SALARINO \u2014 Acha-se a\u00ed fora, senhor, um mensageiro que vos trouxe cartas desse doutor; veio de P\u00e1dua.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Traze-me as cartas; chama o mensageiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Que \u00e9 isso, Ant\u00f4nio? Alegra-te! Coragem! H\u00e1 de o judeu tirar-me o sangue, a carne, os ossos, antes de por mim perderes uma gota sequer do rubro sangue.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Eu sou a ovelha doente do rebanho, marcada para a morte. O mais mirrado fruto cai da \u00e1rvore primeiro; o mesmo se passa ora comigo. Melhor coisa, Bass\u00e2nio, n\u00e3o far\u00e1s do que viveres para o meu epit\u00e1fio redigires.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Nerisssa, em trajes de escriv\u00e3o.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Vistes de P\u00e1dua? Do Doutor Bel\u00e1rio?<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 De ambas as partes, meu senhor; Bel\u00e1rio sa\u00fada Vossa Gra\u00e7a. (<i>Entrega-lhe uma carta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Por que amolas essa faca com tanta persist\u00eancia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Para cortar a multa do falido.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 N\u00e3o \u00e9 na sola do sapato, \u00e9 na alma, judeu perverso, que amol\u00e1-la deves. Mas n\u00e3o se acha metal algum, nem mesmo cutelo de carrasco, que a metade tenha do corte de tua dura inveja. As ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem comover-te?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o; nenhuma de quantas teu esp\u00edrito pudesse conceber.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Oh! S\u00ea maldito, inexor\u00e1vel c\u00e3o, e que a justi\u00e7a seja acusada, s\u00f3 por teres vida. Quase me fazes abalada a cren\u00e7a, para aceitar a id\u00e9ia de Pit\u00e1goras, de que as almas dos brutos passar podem para o corpo dos homens. Teu esp\u00edrito de c\u00e3o \u00e9 governado por um lobo enforcado por crime de homic\u00eddio. A alma nefanda, ao se escapar da forca, entrou em ti, quando no ventre estavas de tua m\u00e3e maldita. Eis o motivo de s\u00f3 teres instintos sanguin\u00e1rios, ferinos, esfomeados e vorazes.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Se n\u00e3o consegues desfazer o selo de minha letra, por gritares tanto s\u00f3 cansas os pulm\u00f5es. Cura esse esp\u00edrito, mocinho, se n\u00e3o queres que apodre\u00e7a. S\u00f3 vim aqui para impetrar justi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 A carta de Bel\u00e1rio recomenda-nos um jurista erudito e muito mo\u00e7o. Onde est\u00e1 ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 A\u00ed fora, \u00e0 espera, apenas, de que o mandeis entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Com todo o gosto. Tr\u00eas ou quatro pessoas o introduzam na sala com a devida cortesia. Tome conhecimento, entanto, a Corte, com o que Bel\u00e1rio diz em sua carta.<\/p>\n<p align=\"justify\">ESCRIV\u00c3O \u2014 \u201cSaber\u00e1 Vossa Gra\u00e7a que ao receber vossa carta eu me encontrava gravemente doente. Mas justamente \u00e0 chegada de vosso emiss\u00e1rio eu recebia a agrad\u00e1vel visita de um jovem doutor de Roma, de nome Baltasar. Expus-lhe o motivo da controv\u00e9rsia entre o judeu e o mercador Ant\u00f4nio; juntos, compulsamos muitos livros; ele esposa minha opini\u00e3o, que, secundada por seu pr\u00f3prio saber \u2014 cuja profundidade eu n\u00e3o poderia elogiar suficientemente \u2014 ante a minha insist\u00eancia, ele vos leva, para atender, em meu lugar, ao chamado de Vossa Gra\u00e7a. Insisto junto de Vossa Gra\u00e7a no sentido de que os seus poucos anos n\u00e3o sirvam de obst\u00e1culo para que lhe venha a faltar o devido apre\u00e7o, pois nunca tive conhecimento de um corpo t\u00e3o mo\u00e7o com uma cabe\u00e7a t\u00e3o velha. Entrego-o ao vosso gracioso acolhimento, na certeza de que essa prova ser\u00e1 a sua melhor recomenda\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Ouvistes as palavras do erudito Bel\u00e1rio. E eis que nos chega o seu colega, se n\u00e3o me engano. (<i>Entra P\u00f3rcia, em trajes de doutor em direito.<\/i>) Dai-me a m\u00e3o. Do velho Bel\u00e1rio foi que viestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Sois bem-vindo. Assentai-vos. \u00c9 do vosso conhecimento a dissid\u00eancia que hoje se discute perante nossa corte?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Conhe\u00e7o os pormenores da pend\u00eancia. Onde est\u00e1 o mercador? Qual \u00e9 o judeu?<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Ambos aqui presentes. Este \u00e9 Ant\u00f4nio; este, o velho Shylock.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 vosso nome Shylock?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Assim me chamo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Assaz estranha \u00e9 a natureza dessa vossa causa. Mas as leis de Veneza n\u00e3o vos podem desatender, se persistis no intento. (<i>A Ant\u00f4nio.<\/i>) Estais inteiramente ao dispor dele, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Assim ele o proclama.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Reconheceis a letra?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Reconhe\u00e7o-a.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9, pois, preciso que o judeu se mostre clemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Constrangido por que meios, n\u00e3o podereis dizer-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 A natureza da gra\u00e7a n\u00e3o comporta compuls\u00e3o. Gota a gota ela cai, tal como a chuva ben\u00e9fica do c\u00e9u. \u00c9 duas vezes aben\u00e7oada, por isso que enaltece quem d\u00e1 e quem recebe. \u00c9 mais possante junto dos poderosos, e ao monarca no trono adorna mais do que a coroa. O poder temporal o cetro mostra, atributo do medo e majestade, do respeito e temor que os reis inspiram: mas a gra\u00e7a muito alto sempre paira das injun\u00e7\u00f5es do cetro, pois seu trono no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos reis se firma; atributo \u00e9 de Deus; quase divino fica o poder terreno nos instantes em que a justi\u00e7a se associa \u00e0 gra\u00e7a. Por tudo isso, judeu, conquanto estejas baseado no direito, considera que s\u00f3 pelos ditames da justi\u00e7a nenhum de n\u00f3s a salva\u00e7\u00e3o consegue. Para obter gra\u00e7a todos n\u00f3s rezamos; e \u00e9 essa mesma ora\u00e7\u00e3o que nos ensina a usar tamb\u00e9m da gra\u00e7a. Quanto disse, foi para mitigar o teu direito; mas, se nele insistires, o severo tribunal de Veneza h\u00e1 de senten\u00e7a dar contra o mercador.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Que os meus atos me caiam na cabe\u00e7a. S\u00f3 reclamo a aplica\u00e7\u00e3o da lei, a pena justa cominada na letra j\u00e1 vencida.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o pode o mercador pagar a d\u00edvida?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Pode, sim; deposito ante esta corte, ele, essa import\u00e2ncia&#8230; n\u00e3o, o dobro. Caso isso ainda n\u00e3o baste, comprometo-me a dez vezes pagar a mesma d\u00edvida, no que empenho a cabe\u00e7a, as m\u00e3os, o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Caso, ainda, isso n\u00e3o chegue, fica patente que a mal\u00edcia vence, neste pleito, \u00e0 lisura. Assim, suplico-vos torcer a lei uma s\u00f3 vez, ao menos; tendes for\u00e7a para isso. Uma injusti\u00e7a pequena cometei, para fazerdes uma grande justi\u00e7a, assim frustrando no seu intento a este cruel dem\u00f4nio.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel; for\u00e7a alguma pode em Veneza mudar as leis vigentes. Muitos abusos, ante um tal exemplo, viriam a insinuar-se na rep\u00fablica. N\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Daniel veio julgar-nos! Sim, um novo Daniel! O s\u00e1bio e jovem juiz, como eu te acato!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Por obs\u00e9quio, mostrai-me a letra; quero examin\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Aqui est\u00e1 ela, muito reverendo doutor; aqui est\u00e1 ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Tr\u00eas importes da d\u00edvida, Shylock, te oferecem.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Um juramento! Um juramento! Tenho no c\u00e9u um juramento. Poderia na alma lan\u00e7ar o fardo de um perj\u00fario? Nem por toda Veneza.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 O documento j\u00e1 est\u00e1 vencido. Legalmente pode reclamar o judeu, por estes termos, uma libra de carne, que ele corte de junto ao cora\u00e7\u00e3o do mercador. S\u00ea compassivo; aceita triplicada a import\u00e2ncia da d\u00edvida e permite-me rasgar o documento.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Ap\u00f3s o vermos liquidado de acordo com seus termos. Mostrastes ser juiz de grande m\u00e9rito; conheceis bem as leis; foi muito clara a exposi\u00e7\u00e3o de h\u00e1 pouco. Assim, intimo-vos, pela lei de que sois um dos pilares mais dignos, a emitir o julgamento. Juro pela minha alma que nenhuma l\u00edngua humana \u00e9 capaz de demover-me de minha decis\u00e3o. S\u00f3 quero a letra.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o suplico \u00e0 corte pronunciar a senten\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pois que seja. Consiste a decis\u00e3o em preparardes o peito para a faca do credor.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Oh nobre juiz! Oh extraordin\u00e1rio jovem!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pois a inten\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito da lei est\u00e3o de acordo com a penalidade cominada na letra.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 \u00c9 muito certo. Oh juiz \u00edntegro e s\u00e1bio! Quanto, quanto mais velho n\u00e3o ser\u00e1s do que aparentas!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Descobri, pois, o peito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Sim, \u201co peito\u201d, tal como est\u00e1 na letra; n\u00e3o \u00e9 isso, nobre juiz? \u201cBem junto ao cora\u00e7\u00e3o\u201d, s\u00e3o seus termos expl\u00edcitos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 certo. J\u00e1 deixastes a jeito uma balan\u00e7a para pesar a carne?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 \u00c0 m\u00e3o tenho uma.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 E um cirurgi\u00e3o, Shylock, contratastes, para evitar que Ant\u00f4nio a morrer venha, por grave hemorragia?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Estipulado se encontra isso na letra?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Expressamente, n\u00e3o; mas que importa? Fora conveniente que assim fiz\u00e9sseis, s\u00f3 por caridade.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o posso ach\u00e1-lo; isso n\u00e3o h\u00e1 na letra.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Mercador, tendes algo a declarar?<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Muito pouco; estou pronto e preparado. Bass\u00e2nio, a m\u00e3o. Adeus. N\u00e3o seja causa de vos amofinardes a desgra\u00e7a que padeci por v\u00f3s, porque a Fortuna, no meu caso, se mostra mais benigna do que de h\u00e1bito. Sempre ela permite que sobreviva o m\u00edsero \u00e0 opul\u00eancia, porque ver possa com vincada fronte e olhos cavados a velhice pobre. Ela me poupa o sofrimento longo de semelhante dor. Recomendai-me a vossa nobre esposa e relatai-lhe como Ant\u00f4nio morreu; dizei-lhe quanto amor vos dedicava e enaltecei-me depois de morto. E ap\u00f3s terdes contado tudo o que se passou, ela que julgue se Bass\u00e2nio n\u00e3o foi, realmente, amado. N\u00e3o lastimeis a perda de um amigo, que ele n\u00e3o se lastima por ter pago a d\u00edvida por v\u00f3s. Se fundamente me cortar o judeu, no mesmo instante de cora\u00e7\u00e3o liquidarei meu d\u00e9bito.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Ant\u00f4nio, desposei uma pessoa que me \u00e9 t\u00e3o cara quanto a pr\u00f3pria vida. Mas essa vida, a esposa, o mundo inteiro s\u00e3o por mim avaliados ainda em menos do que tua exist\u00eancia. Conformara-me em perder todos, em sacrific\u00e1-los a este dem\u00f4nio, s\u00f3 para salvar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o vos ficara muito agradecida vossa esposa, se acaso aqui estivesse, para ouvir essa oferta.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Amo deveras minha mulher; mas desejara que ela no c\u00e9u se achasse, para que pudesse impetrar junto a algum poder celeste que demovesse este judeu canino.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Foi bom dizerdes isso em sua aus\u00eancia, pois, de outro modo, o lar ficara inquieto.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Os maridos crist\u00e3os s\u00e3o desse jeito. Tenho uma filha; mas preferiria que ela casasse com um dos descendentes de Barrab\u00e1s, a v\u00ea-la desposada com um desses crist\u00e3os. O tempo corre! Dai andamento, por favor, ao pleito.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Pertence-te uma libra aqui da carne do mercador; a corte o reconhece, porque a lei o permite.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Oh juiz \u00edntegro!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 E deveis retir\u00e1-la justamente do peito dele; a corte o reconhece, porque a lei o permite.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Oh juiz s\u00e1bio! Isso, sim, que \u00e9 senten\u00e7a! Vamos logo; preparai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Um momentinho, apenas. H\u00e1 mais alguma coisa. Pela letra, a sangue jus n\u00e3o tens; nem uma gota. S\u00e3o palavras expressas: \u201cUma libra de carne\u201d. Tira, pois, o combinado:tua libra de carne. Mas se acaso derramares, no instante de a cortares, uma gota que seja, s\u00f3, de sangue crist\u00e3o, teus bens e tuas terras todas, pelas leis de Veneza, para o Estado passar\u00e3o por direito.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Oh juiz honesto! Toma nota, judeu: quanto ele \u00e9 s\u00e1bio!<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 A lei diz isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Podes ver o texto. Reclamaste justi\u00e7a; fica certo de que ter\u00e1s justi\u00e7a, talvez mesmo mais do que desejaras.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Oh juiz s\u00e1bio! Toma nota, judeu: quanto ele \u00e9 s\u00e1bio!<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Nesse caso, concordo com a proposta: que me paguem tr\u00eas vezes a import\u00e2ncia da d\u00edvida, ficando o crist\u00e3o livre.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Eis o dinheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Devagar! Justi\u00e7a total para o judeu. Nada de pressa. S\u00f3 tem direito \u00e0 multa estipulada.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 O judeu! Que juiz id\u00f4neo e s\u00e1bio!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Disp\u00f5e-te, assim, para cortar a carne. Mas n\u00e3o derrames sangue, nem amputes sen\u00e3o o peso justo de uma libra, nem mais nem menos; pois se retirares mais ou menos do que isso, o suficiente para deix\u00e1-la mais pesada ou leve na propor\u00e7\u00e3o, embora, da vig\u00e9sima parte de um pobre escr\u00f3pulo; ou, ainda, se a balan\u00e7a pender um fio, apenas, de cabelo, por isso a vida perdes, ficando os teus bens todos confiscados.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Um segundo Daniel, judeu, um novo Daniel! Agora, c\u00e3o, peguei-te firme.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Por que o judeu parou? Cobra tua d\u00edvida.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Dai-me o meu capital e deixai-me ir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 J\u00e1 o trouxe aqui, para isso; toma-o logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Recusou-o ante a corte, abertamente. Vai receber justi\u00e7a e a letra, apenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Um segundo Daniel! Outro Daniel! Judeu, muito obrigado por me haveres ensinado esse nome.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o recebo nem mesmo o meu dinheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 S\u00f3 recebes a pena cominada, que com risco pr\u00f3prio deves cobrar, judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Que o diabo, nesse caso, o proteja! N\u00e3o me agrada continuar a perder aqui meu tempo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Espera a\u00ed, judeu! A lei ainda tem outras pretens\u00f5es a teu respeito. Diz a lei de Veneza, expressamente, que se a provar se vier que um estrangeiro, por processos diretos ou indiretos, atentar contra a vida de um dos membros desta comunidade, h\u00e1 de a pessoa por ele assim visada, assenhorear-se da metade dos bens desse estrangeiro, indo a outra parte para os cofres p\u00fablicos. A vida do ofensor \u00e0 merc\u00ea fica do doge, apenas, contra os votos todos. Digo, pois, que te encontras nesse caso, pois que se torna manifesto e claro que, usando de processos indiretos, e diretos tamb\u00e9m, contra a exist\u00eancia do acusado intentaste \u2014 Assim, incorres na pena cominada. Agora, ajoelha-te e ao doge implora que te d\u00ea o perd\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Implora-lhe o consentimento para poderes te enforcar. Ali\u00e1s, se todos os teus bens j\u00e1 passaram para o Estado, n\u00e3o disp\u00f5es nem do pre\u00e7o de uma corda. Assim, o Estado \u00e9 que ter\u00e1 esse \u00f4nus.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Para que vejas como nosso esp\u00edrito \u00e9 diferente, a vida te concedo antes de ma pedires. A metade de quanto tens pertence agora a Ant\u00f4nio. A outra parte, a do Estado, reduzida pela humildade pode ser a multa.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o para Ant\u00f4nio; multa para o Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 N\u00e3o, a vida tamb\u00e9m; n\u00e3o perdoeis nada. Tirais-me a casa, se a privais do esteio no qual ela se firma; da exist\u00eancia j\u00e1 me privastes, quando me deixastes sem os recursos com que me sustento.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Ant\u00f4nio, que podeis fazer por ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Dar-lhe uma corda gr\u00e1tis, t\u00e3o-somente.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Se meu senhor, o doge, e toda a corte quiser perdoar a multa da metade de seus bens, satisfeito me declaro se a outra metade ele deixar comigo, que ap\u00f3s a sua morte, ao cavalheiro restituirei que lhe raptou a filha. Mais duas condi\u00e7\u00f5es imponho, ainda: que, por esse favor, agora mesmo crist\u00e3o ele se torne, e que em presen\u00e7a desta corte ele firme um documento em que declare que, por morte, deixa todos os seus haveres para a filha e seu filho Louren\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 H\u00e1 de faz\u00ea-lo; se n\u00e3o, retiro-lhe o perd\u00e3o de h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Judeu, est\u00e1s contente? Que respondes?<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Estou contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Ent\u00e3o redigi logo a ata, escriv\u00e3o, de doa\u00e7\u00e3o dos bens.<\/p>\n<p align=\"justify\">SHYLOCK \u2014 Pe\u00e7o-vos permiss\u00e3o de retirar-me; n\u00e3o me sinto disposto. A casa enviai-me a ata, para assin\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Bem; retira-te; n\u00e3o deixes de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Ao batizado, dois padrinhos vais ter. Se o juiz eu fosse, mais dez terias tido, para enviar-te, n\u00e3o para a fonte, mas para o pat\u00edbulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Shylock.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Convido-vos, senhor, instantemente, para cear comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Mil desculpas pe\u00e7o a Vossa Grandeza; mas preciso partir ainda esta noite para P\u00e1dua, raz\u00e3o por que preciso sair logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DOGE \u2014 Lastimo n\u00e3o dispordes de mais tempo. Ant\u00f4nio, recompensa o gentil-homem como puderes; pois, segundo penso, deves estar-lhe muito agradecido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o doge, os senadores e o s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Mui digno cavalheiro, eu e este amigo, gra\u00e7as ao vosso alto saber, ficamos hoje aliviados de uma pena grave. Como honor\u00e1rios, os tr\u00eas mil ducados que ao judeu n\u00f3s dev\u00edamos, vos damos para recompensar vosso trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 E vos ficamos devedores sempre de amizade e servi\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Mui bem pago j\u00e1 est\u00e1 quem satisfeito se declara. Por vos ter libertado, considero-me satisfeito e, com isso, fartamente pago de tudo. Esp\u00edrito n\u00e3o tenho mercen\u00e1rio. Suplico-vos, apenas reconhecer-me, quando nos revirmos. Passai bem; e, com isso, me despe\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Caro senhor, for\u00e7oso. \u00e9 que eu insista. Aceitai de n\u00f3s dois uma lembran\u00e7a, como tributo, n\u00e3o como sal\u00e1rio. Duas coisas fazei-me, por obs\u00e9quio: concordar com o que pe\u00e7o e desculpar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Insistis muito para que eu recuse. (<i>A Ant\u00f4nio.<\/i>) Aceito vossas luvas; hei de us\u00e1-las como recorda\u00e7\u00e3o. (<i>A Bass\u00e2nio.<\/i>) Aceitaria de bom grado esse anel, por amor vosso. N\u00e3o retireis a m\u00e3o. Lembran\u00e7a alguma me servir\u00e1, sen\u00e3o apenas essa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Este anel, bom senhor? N\u00e3o vale nada. Vergonha fora vir a oferecer-vo-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Outra coisa n\u00e3o quero a n\u00e3o ser isso. E agora Sinto que cobi\u00e7o o anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Estimo-o acima do valor intr\u00ednseco. Dou-vos o anel mais caro que em Veneza, por preg\u00e3o, encontrar me for poss\u00edvel. Este, somente, n\u00e3o darei: perdoai-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Em promessas, senhor, sois generoso, vejo-o bem. De come\u00e7o, me ensinastes a pedir; mas agora s\u00f3 parece que me ensinais de que maneira eu devo responder aos que pedem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Mui bondoso cavalheiro, este anel \u00e9 uma lembran\u00e7a de minha pr\u00f3pria esposa. que, no instante de mo entregar, me fez prestar a jura de que nunca o daria, nem vendera, nem nunca o perderia.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Essa desculpa j\u00e1 tem servido para se eximirem muitos homens de dar um bom presente. Se n\u00e3o for uma tola vossa esposa, quando vier a saber at\u00e9 que ponto fiz jus a essa lembran\u00e7a, certamente n\u00e3o h\u00e1 de vos dicar \u00f3dio implac\u00e1vel, s\u00f3 por mo terdes dado. Passai bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem P\u00f3rcia e Nerissa.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Senhor Bass\u00e2nio, dai-lhe o anel, vos pe\u00e7o. Que o meu afeto e seu merecimento ven\u00e7am nisto a opini\u00e3o de vossa esposa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Corre, Graciano; v\u00ea se ainda o alcan\u00e7as. D\u00e1-lhe o anel, e se for poss\u00edvel, leva-o para a casa de Ant\u00f4nio. Vai depressa! (<i>Sai Graciano.<\/i>) V\u00f3s e eu, agora, para l\u00e1 iremos. Ambos voaremos amanh\u00e3 bem cedo para Belmonte. Vamos logo, Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv42\" name=\"mv42\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Uma rua. Entram P\u00f3rcia e Nerissa.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 V\u00ea onde o judeu mora e entrega-lhe a ata, para tomar a assinatura dele. Partiremos \u00e0 noite; desse modo poderemos chegar a casa um dia antes dos dois maridos. Muito alegre Louren\u00e7o vai ficar \u00e0 vista da ata.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Graciano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Caro senhor, bom foi que vos achasse. Senhor Bass\u00e2nio, ap\u00f3s melhor exame, vos envia este anel e vos convida para jantar com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel; mas pelo anel lhe fico agradecido; dizei-lhe isso, vos pe\u00e7o. E agora, o obs\u00e9quio me fazei de indicar a este mancebo a casa de Shylock.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 De bom grado.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Uma palavra, meu senhor, convosco. (<i>\u00c0 parte, a P\u00f3rcia.<\/i>) Quero ver se tamb\u00e9m obter consigo do meu marido o anel que ele jurara trazer sempre no dedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Isso \u00e9 certeza. Vamos ouvir as juras costumeiras, de que a homens os cederam. Mas n\u00f3s duas os contraditaremos, anulando seus protestos solenes. Vamos logo! J\u00e1 sabes onde deves encontrar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Caro senhor, quereis mostrar-me a casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"mv51\" name=\"mv51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Belmonte. Uma avenida que vai dar \u00e0 casa de P\u00f3rcia. Entram Louren\u00e7o e Jessica.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 A lua brilha. Numa noite assim, quando a brisa beijava de mansinho as \u00e1rvores, sem que estas sussurrassem; numa noite como esta, s\u00f3 parece, Tr\u00f3ilo as muralhas escalou de Tr\u00f3ia e mandou a alma para as tendas gregas, onde Cressida estava.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Numa noite como esta Tisbe ansiosa mui de leve pelo orvalho passava, tendo a sombra visto do le\u00e3o antes de ver a fera, e assustada fugiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Foi numa noite tal como esta que Dido, com um ramo de salgueiro na m\u00e3o, na praia infensa se postou, acenando para o amante que voltasse a Cartago.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Numa noite tal como esta, Med\u00e9ia as ervas m\u00e1gicas apanhou, porque o velho Tes\u00e3o fizesse voltar \u00e0 mocidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Numa noite tal como esta, Jessica deixa a casa do opulento judeu, em companhia do namorado pr\u00f3digo, correndo de Veneza a Belmonte.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Numa noite tal como esta, Louren\u00e7o lhe jurou que a amava loucamente, a alma roubando-lhe com juramentos mil, sendo certeza que todos eram falsos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Numa noite tal como esta, a gentil e ralhadora Jessica caluniou seu namorado, que lhe perdoou de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Desejara reter-vos toda a noite, se fic\u00e1ssemos aqui sozinhos; por\u00e9m ou\u00e7o passos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Est\u00e9fano.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Quem nos chega na noite silenciosa?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Um amigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Um amigo? Que amigo? Vosso nome, meu amigo, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Meu nome \u00e9 Est\u00e9fano. Tenho a dizer-vos que minha senhora em Belmonte estar\u00e1 antes do dia. Ela anda a percorrer as cruzes santas, nas quais se ajoelha e reza, porque possa ter horas de casada em tudo boas.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Quem vem com ela?<\/p>\n<p align=\"justify\">EST\u00c9FANO \u2014 Um eremita santo, t\u00e3o-somente, e a empregada dela. E agora me dizei, por obs\u00e9quio: j\u00e1 se encontra de tornada meu amo?<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 N\u00e3o, nem temos not\u00edcia alguma dele. Mas, Jessica, entremos logo e vamos preparar-nos para dar a nossa ama as boas-vindas com toda a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Lanceloto<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Ol\u00e1, ol\u00e1! Quem vive? Ol\u00e1, ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Quem \u00e9 que est\u00e1 chamando?<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Ol\u00e1! N\u00e3o vistes mestre Louren\u00e7o? Ol\u00e1, mestre Louren\u00e7o!<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Basta de gritos, homem. Aqui estou.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Onde? Onde? Ol\u00e1!<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">LANCELOTO \u2014 Dizei-lhe que chegou da parte de meu amo um postilh\u00e3o com o corno cheio de boas not\u00edcias. Meu amo estar\u00e1 aqui antes do nascer do dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Meu cora\u00e7\u00e3o, entremos, para a vinda dos patr\u00f5es esperar. Mas, para qu\u00ea? Amigo Est\u00e9fano, anunciai a\u00ed dentro, por favor, que vossa ama vai chegar, e trazei para c\u00e1 todos os m\u00fasicos. (<i>Sai Est\u00e9fano.<\/i>) Como dorme tranq\u00fcilo o luar no banco! Sentemo-nos aqui e consintamos que nos ouvidos nos penetre a m\u00fasica. O tranq\u00fcilo sil\u00eancio e a noite servem para real\u00e7ar uma harmonia amena. Senta-te aqui, Jessica, e observa como se acha o soalho do c\u00e9u todo incrustado de pedacinhos de ouro cintilante. N\u00e3o h\u00e1 estrela, por menor que seja, de quantas a\u00ed contemplas, que em seu curso n\u00e3o cante como um anjo, em conson\u00e2ncia com os querubins dotados de olhos mo\u00e7os. Na alma imortal essa harmonia existe. Mas enquanto estas vestes transit\u00f3rias de argila a envolvem muito intimamente, n\u00e3o podemos ouvi-la. (<i>Entram m\u00fasicos.<\/i>) Vinde, ol\u00e1! e com um hino despertai Diana. Com tons suaves abalai o ouvido de vossa ama e fazei que a casa volte ao som de vossa m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">JESSICA \u2014 Nunca me deixa alegre a suave m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 \u00c9 que tendes esp\u00edritos atentos. Vede como procede uma manada selvagem e impetuosa, ou alegre bando de potros n\u00e3o domados: loucos saltos d\u00e3o sem parar, mugindo e relinchando como os leva a fazer o quente sangue. Mas se o som de um clarim, acaso, escutam, ou se lhes fere as ou\u00e7as qualquer m\u00fasica, notareis como estacam de repente, express\u00e3o de do\u00e7ura a refletir-se-lhes no olhar selvagem, pela doce for\u00e7a, t\u00e3o-somente, da m\u00fasica. Por isso disse o poeta que Orfeu tinha o poder de atrair com seu canto as pr\u00f3prias pedras, as \u00e1rvores e as ondas, visto como n\u00e3o h\u00e1 nada insens\u00edvel, cruel e duro a que n\u00e3o possa a m\u00fasica, com o tempo, mudar a natureza. O homem que m\u00fasica em si mesmo n\u00e3o traz, nem se comove ante a harmonia de agrad\u00e1vel toada, \u00e9 inclinado a trai\u00e7\u00f5es, t\u00e3o-s\u00f3, e a roubos, e a todo estratagema, de sentidos obtusos como a noite e sentimentos t\u00e3o escuros quanto o \u00c9rebo. De um homem assim desconfiai sempre. Ouvi a m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram P\u00f3rcia e Nerissa e se conservam a dist\u00e2ncia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 \u00c9 em casa aquela luz. Como a pequena candeia chega longe com seus raios! Desse modo, no mundo corrompido brilha uma boa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Se a lua brilha, n\u00e3o vemos a candeia.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 A maior gl\u00f3ria obscurece a menor; um substituto brilha tal como o rei, enquanto perto n\u00e3o vem o rei ficar: ent\u00e3o se escoa todo o seu brilho como o regatinho na imensidade da \u00e1gua. Escuta! M\u00fasica!<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Senhora, \u00e9 vossa a m\u00fasica, da casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 A bondade das coisas, vejo-o agora, depende do momento. Estes acordes soam melhor de noite que de dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 O sil\u00eancio, senhora, lhes empresta semelhante virtude.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Os corvos cantam como a cotovia, quando ningu\u00e9m os ouve, estando eu certa de que se ao rouxinol fosse poss\u00edvel cantar de dia, quando os gansos grasnam, n\u00e3o passaria por mais h\u00e1bil m\u00fasico do que a pr\u00f3pria carri\u00e7a. Quantas coisas o tempo faz chegar \u00e0 esta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria; \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o e ao merecido enc\u00f4mio! Sil\u00eancio! A lua est\u00e1 dormindo ao lado de Endimi\u00e3o; n\u00e3o devemos despert\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Cessa a m\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Se n\u00e3o me engano muito, \u00e9 a voz de P\u00f3rcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Conhece-me tal como o cego ao cuco, somente pela voz.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Sois mui bem-vinda, cara senhora.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 O tempo n\u00f3s gastamos com rezas, para que nossos maridos pudessem ser felizes, esperando que lhes houvessem sido proveitosas as nossas ora\u00e7\u00f5es. J\u00e1 regressaram?<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 N\u00e3o, ainda; por\u00e9m um mensageiro acabou de trazer-nos a not\u00edcia de que eles v\u00eam chegando.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Entra, Nerissa; avisa os criados que n\u00e3o d\u00eaem nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o de que estivemos fora; nem v\u00f3s, Louren\u00e7o: e v\u00f3s tamb\u00e9m, Jessica.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sons de trombeta.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Vosso esposo chegou; ou\u00e7o trombetas. Nada temais, senhora, que n\u00e3o somos contadores de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Afigura-se-me a noite como um dia um tanto enfermo; s\u00f3 um pouco mais p\u00e1lido. \u00c9 um dia tal como o dia, quando o sol se esconde.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Bass\u00e2nio, Ant\u00f4nio, Graciano e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Teremos dia junto com os ant\u00edpodas, se na aus\u00eancia do sol aparecerdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Luz quero ser leviana, mas esposa leviana n\u00e3o serei, que uma consorte leve deixa o marido mui pesado, o que, por mim, nunca ser\u00e1 Bass\u00e2nio. Mas, meu senhor, sois mui bem-vindo a casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Obrigada, senhora. Ao meu amigo dai acolhida af\u00e1vel. \u00c9 este o homem, \u00e9 Ant\u00f4nio, a quem me sinto muito preso por favores in\u00fameros.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Realmente, deveis estar preso a ele muito e muito, pois, segundo me consta, ele j\u00e1 esteve muito preso por v\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Mas n\u00e3o de jeito que imposs\u00edvel me fosse libertar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Senhor, sois mui bem-vindo \u00e0 nossa casa. E como isso vos h\u00e1 de ser provado n\u00e3o por palavras simplesmente, corto desde j\u00e1 meu discurso laudat\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO (<i>a Nerissa<\/i>) \u2014 Juro-vos pela lua que ali vemos, sois injusta comigo. \u00c9 certo: dei-o ao escriv\u00e3o do juiz. Mas desejara que castrado ele fosse sem demora, j\u00e1 que comigo vos zangais agora.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Est\u00e3o brigando? J\u00e1! Qual \u00e9 o motivo?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Uma orla de ouro, anel muito modesto, que ela me havia dado, e de poesia para o mundo tal como essas senten\u00e7as de cuteleiro, escritas numa faca: \u201cAma-me e n\u00e3o me deixes.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Por que causa de poesia falar ou de seu pre\u00e7o? Mas jura me fizestes, no momento em que vo-lo entreguei, de que o haver\u00edeis de usar enquanto vida vos restasse, e que convosco ao t\u00famulo ele iria. N\u00e3o por mim, mas por vossos juramentos dever\u00edeis guard\u00e1-lo com respeito. Ora, d\u00e1-lo ao escriv\u00e3o! Deus \u00e9 quem sabe que esse escriv\u00e3o jamais h\u00e1 de ter barba.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Sim, caso viva e chegue a ficar homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Se uma, mulher chegar a ficar homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Juro por esta m\u00e3o, dei-o a um mancebo, um meninote, um tipo enfezadinho, de tua altura, quase, que servia de escriv\u00e3o para o juiz. Era falante, pediu-me o anel \u00e0 guisa de sal\u00e1rio, sem que eu pudesse recusar-me a dar-lho.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o procedestes bem \u2014 devo ser franca \u2014 assim vos separando do primeiro mimo de vossa esposa, de uma j\u00f3ia que no dedo vos fora colocada com jura fervorosa e, pois, tornada carne de vossa carne, como emblema de const\u00e2ncia e lealdade. Igual lembran\u00e7a dei eu a meu amor \u2014 aqui presente \u2014 e o fiz jurar que nunca o deixaria. Atrevo-me a jurar no lugar dele que jamais deixaria que do dedo lho tirassem, por todo o ouro do mundo. Sim, Graciano, com isso a vossa esposa tamanha causa de tristeza destes que, em seu lugar, eu ficaria louca.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO (<i>\u00e0 parte<\/i>) \u2014 Fora melhor cortar a m\u00e3o esquerda e jurar que perdi o anel na luta.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Pois o Senhor Bass\u00e2nio fez presente do seu anel ao juiz, que lho pedira e, certo, o merecera. Foi nessa hora que o ajudante do juiz, o tal menino que tanto se esfor\u00e7ara na escritura, quis que eu lhe desse o meu, n\u00e3o aceitando nem o amo nem o mo\u00e7o outra lembran\u00e7a, sen\u00e3o os dois an\u00e9is.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que anel lhe destes, meu senhor? N\u00e3o o mesmo, certamente, que de mim recebestes?<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Se eu pudesse acrescentar \u00e0 falta uma mentira, vo-lo negara agora. Mas bem vedes: n\u00e3o tenho o anel no dedo; j\u00e1 se foi.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Vazio, assim, de f\u00e9 \u00e9 o vosso falso cora\u00e7\u00e3o. Pois eu juro que n\u00e3o hei de subir ao vosso leito sem que veja de novo o meu anel.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Nem eu ao vosso, enquanto o meu n\u00e3o vir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Querida P\u00f3rcia, se soub\u00e9sseis a quem eu dei o anel, se soub\u00e9sseis por quem eu dei o anel, e o motivo por que eu dei o anel, e como a contragosto eu dei o anel, quando nada servia, afora o anel como lembran\u00e7a nossa, abater\u00edeis o vosso dissabor, tenho certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Se a virtude soub\u00e9sseis desse anel, ou prez\u00e1sseis a dona desse anel, ou a v\u00f3s pr\u00f3prio, qual dono desse anel, presente n\u00e3o far\u00edeis desse anel. Que homem teria havido, de tal modo falho de senso, que, se um pouco, ao menos, de ardor mostr\u00e1sseis na defesa dele, persistisse, impudente, na cobi\u00e7a de algo estimado como uma rel\u00edquia? Nerissa \u00e9 que est\u00e1 certa: aposto a vida em como o anel foi dado a alguma dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Por minha honra, senhora, por minha alma, n\u00e3o a mulher, mas a um doutor jurista que de mim recusou tr\u00eas mil ducados e me pediu o anel, que eu, sem reservas, lhe deneguei, deixando que partisse desgostoso por isso, ele que a vida naquela hora a este amigo restitu\u00edra. Que vos direi, querida? Foi for\u00e7ado que emp\u00f3s dele mandei um mensageiro, para entregar-lhe o anel; confuso estava de gentileza e pejo, n\u00e3o querendo que a ingratid\u00e3o pudesse a honra manchar-me. Perd\u00e3o, querida, pois por estes lumes aben\u00e7oados da noite, se tiv\u00e9sseis estado l\u00e1, certeza tenho plena de que o anel me ter\u00edeis reclamado, para ao digno doutor dar de presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Que esse doutor jamais em casa me entre, pois sendo o possuidor da j\u00f3ia rara que eu apreciava tanto e que me hav\u00edeis jurado conservar, dar-se-ia o caso de eu me mostrar em rela\u00e7\u00e3o a ele liberal como v\u00f3s, sem que pudesse negar-lhe quanto \u00e9 meu: o pr\u00f3prio corpo, meu leito de casada. Ainda hei de ach\u00e1-lo, tenho certeza. N\u00e3o durmais, portanto, uma noite, sequer, fora de casa; vigiai-me qual outro Argo, pois no caso de o n\u00e3o fazerdes, se eu me vir sozinha, por minha honra, que ainda me pertence, hei de fazer desse doutor t\u00e3o digno companheiro de leito.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 E eu do escriv\u00e3o. Tende cuidado, pois, de n\u00e3o deixar-me sob meu pr\u00f3prio amparo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 A vosso gosto. Mas o escriv\u00e3o precisa usar maromba; se n\u00e3o lhe deixarei a pena romba.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Sou a causa infeliz dessas querelas.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o vos aborre\u00e7ais, senhor, com isso, pois sois bem-vindo de qualquer maneira.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 P\u00f3rcia, perdoa a involunt\u00e1ria ofensa; ante os ouvidos destes meus amigos juro-te pelos teus t\u00e3o lindos olhos, nos quais eu me revejo&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Tomai nota! Nos meus olhos dobrado ele se enxerga: uma vez em cada olho. O juramento merece muito cr\u00e9dito, firmado, como est\u00e1, no seu duplo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 N\u00e3o; escuta-me: desta vez me perdoa e, por minha alma, juro jamais quebrar um juramento.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 j\u00e1 empenhei uma vez o pr\u00f3prio corpo pela fortuna dele; e a n\u00e3o ter sido essa pessoa que ficou de posse do anel de vosso esposo, neste instante perdido ele estaria. Ora a pr\u00f3pria alma me decido a empenhar, pela certeza de que, conscientemente, vosso esposo n\u00e3o quebrar\u00e1 jamais qualquer promessa.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Sereis, pois, seu fiador. Entregai-lhe isto, e pedi-lhe que seja mais zeloso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Senhor Bass\u00e2nio, agora ireis jurar-me que este outro anel ser\u00e1 mais bem guardado.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Pelo c\u00e9u! \u00c9 o que eu dei ao tal doutor!<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Dele o ganhei. Perdoa-me, Bass\u00e2nio; mas, para isso, o doutor deitou comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Perdoa-me, tamb\u00e9m, gentil Graciano; mas o escriv\u00e3o do juiz, o enfezadinho, por igual pre\u00e7o, na passada noite, deitou tamb\u00e9m comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Que acontece? Isso eq\u00fcivale a consertar estradas em pleno estio, quando transit\u00e1veis todas elas est\u00e3o. Como! Tornamo-nos desonrados, sem isso merecermos?<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 N\u00e3o sejais t\u00e3o grosseiro. Estais perplexos. Vede esta carta e lede-a mais de espa\u00e7o; veio de P\u00e1dua, escrita por Bel\u00e1rio. Vereis por ela que o doutor jurista foi P\u00f3rcia, e o escriv\u00e3o dele, nada menos do que Nerissa. Poder\u00e1 Louren\u00e7o certificar-vos de que nos partimos logo depois de v\u00f3s e que acabamos de chegar. N\u00e3o entrei ainda em casa. Ant\u00f4nio, sois bem-vindo. Tenho algumas not\u00edcias para dar-vos, que ultrapassam qualquer expectativa. Abri esta carta; nela vereis que tr\u00eas gale\u00f5es dos vossos subitamente vieram ter ao porto, com carga mui valiosa. N\u00e3o vos digo de que modo esta carta \u00e0s m\u00e3os me veio.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Estou sem fala.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 O doutor \u00e9reis v\u00f3s, e eu n\u00e3o vos conheci?<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Como! \u00c9reis v\u00f3s o escriv\u00e3o que queria desonrar-me?<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Mas o escriv\u00e3o que nunca far\u00e1 isso, salvo se ele chegar a ficar homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">BASS\u00c2NIO \u2014 Belo doutor, dividireis comigo meu leito de casado; estando eu longe, com minha esposa podereis deitar-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">ANT\u00d4NIO \u2014 Destes-me vida, cara dama, e os meios com que viver, pois leio nesta carta a nova certa de que meus navios a bom porto chegaram.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 Ent\u00e3o, Louren\u00e7o? Meu escriv\u00e3o vos trouxe boas novas.<\/p>\n<p align=\"justify\">NERISSA \u2014 Que ele h\u00e1 de ouvir sem que me pague esp\u00f3rtula Para v\u00f3s e Jessica \u00e9 esta escritura de doa\u00e7\u00e3o do judeu opulentissimo, que vos lega, por morte, seus haveres.<\/p>\n<p align=\"justify\">LOUREN\u00c7O \u2014 Cara dama, fazeis chover man\u00e1 nos passos dos famintos.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00d3RCIA \u2014 J\u00e1 vem pr\u00f3xima a manh\u00e3, mas certeza tenho plena de que n\u00e3o vos achais inteiramente satisfeitos com quanto h\u00e1 sucedido. Por isso entremos, para que perguntas nos dirijais sem pausa e n\u00f3s possamos responder-vos a tudo com verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">GRACIANO \u2014 Fa\u00e7amos isso; e seja esta a primeira pergunta que h\u00e1 de responder a minha Nerissa, ap\u00f3s prestar o compromisso: Se ficamos despertos desse jeito mais um dia, ou se vamos para o leito, a fim de aproveitarmos este prazo da noite que j\u00e1 se acha em tanto atraso. Por mim, se fosse dia, eu desejara que nos chegasse logo a noite avara, porque dormir pudesse um bocadinho com o escriv\u00e3o do doutor, o enfezadinho. Nada hei de, ora, guardar com mais cuidado do que o anel de Nerissa t\u00e3o prezado.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare Personagens O DOGE DE VENEZA. O PR\u00cdNCIPE DE MARROCOS, pretendente de P\u00f3rcia. O PR\u00cdNCIPE DE ARAG\u00c2O, pretendente de P\u00f3rcia. ANT\u00d4NIO, um mercador de Veneza. BASS\u00c2NIO, seu amigo. GRACIANO, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio. SAL\u00c2NIO, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio. SALARINO, amigo de Ant\u00f4nio e de Bass\u00e2nio. LOUREN\u00c7O, apaixonado de Jessica. 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