{"id":120220,"date":"2017-04-20T19:24:19","date_gmt":"2017-04-20T21:24:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120220"},"modified":"2017-04-20T19:24:19","modified_gmt":"2017-04-20T21:24:19","slug":"correspondencia-de-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/correspondencia-de-machado-de-assis","title":{"rendered":"Correspond\u00eancia de Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>[1] A QUINTINO BOCAI\u00daVA<\/p>\n<p>[RJ 1862,163.] Meu amigo. \/ Vou publicar as minhas duas com\u00e9dias de estr\u00e9ia e n\u00e3o quero faz\u00ea-lo sem o conselho de tua compet\u00eancia. \/ J\u00e1 uma cr\u00edtica ben\u00e9vola e carinhosa, em que tomaste parte. Consagrou a estas duas composi\u00e7\u00f5es palavras de louvor e anima\u00e7\u00e3o. \/ Sou imensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. \/ Mas o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferen\u00e7a entre os dous meios de publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o modifica o ju\u00edzo, n\u00e3o altera o valor da obra? \/ \u00c9 para a solu\u00e7\u00e3o destas d\u00favidas que recorro \u00e0 tua autoridade liter\u00e1ria. \/ O ju\u00edzo da imprensa via nestas duas com\u00e9dias &#8212; simples tentativas de autor t\u00edmido e receoso. Se a minha afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o envolve suspeitas de vaidade disfar\u00e7ada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambi\u00e7\u00e3o levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa mais s\u00e9ria e as minhas for\u00e7as por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necess\u00e1rias ao autor dram\u00e1tico desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho: cuido que \u00e9 melhor tatear para achar; \u00e9 o que procurei e procuro fazer. \/ Caminhar destes simples grupos de cenas \u00e0 com\u00e9dia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observa\u00e7\u00e3o da sociedade se case ao conhecimento pr\u00e1tico das condi\u00e7\u00f5es do g\u00eanero &#8212; eis uma ambi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de \u00e2nimo juvenil e que eu tenho a imod\u00e9stia de confessar. E t\u00e3o certo estou da magnitude da conquista que me n\u00e3o dissimulo o longo est\u00e1dio que h\u00e1 percorrer para alcan\u00e7\u00e1-la. E mais. T\u00e3o dif\u00edcil me parece este g\u00eanero liter\u00e1rio que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haver\u00e1, menos super\u00e1veis e t\u00e3o sutis, que ainda as n\u00e3o posso Ver. \/ At\u00e9 onde vai a ilus\u00e3o dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseveran\u00e7a? E Eis o que quero saber de ti. \/ E dirijo-me a ti, entre outras raz\u00f5es, por mais duas, que me parecem excelentes: raz\u00f5es de estima liter\u00e1ria e raz\u00e3o de estima pessoal. Em respeito \u00e0 tua mod\u00e9stia, calo o que te devo de admira\u00e7\u00e3o e reconhecimento. \/ O que nos honra, a mim e a ti, \u00e9 o que a tua imparcialidade suspeita. Ser\u00e1s justo d\u00f3cil; ter\u00e1s ainda Dor isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terr\u00edvel senten\u00e7a de um escritor: Les amiti\u00e9s, qui ne r\u00e9sistent pas \u00e0 la franchise, valent-elles un regret? \/ Teu amigo e colega \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[2] A DOMINGOS JACI MONTEIRO<\/p>\n<p>[RJ, 18 mar. 1864] Ilmo Sr. Dr. Domingos Jaci Mont.ro \/ Dig.o Secret.o Conservaat.\u00ba dram\u00e1tico Brasileiro. \/ Tenho a honra de remeter a V. S.a a minha com\u00e9dia em 3 atos intitulada: O Pomo da Disc\u00f3rdia para ser sujeita ao parecer Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico Brasileiro. \/ Deus g. e a V.<\/p>\n<p>S.a \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[3] A CAROLINA<\/p>\n<p>[RJ, 2 mar. 1868\/9] Minha querida C. \/ Recebi ontem duas cartas tuas, depois de dous dias de espera.<\/p>\n<p>Calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A m.\u00aa tristeza em converteu se em s\u00fabita alegria. Eu estava t\u00e3o aflito por ter not\u00edcias tuas que sa\u00ed do Di\u00e1rio a 1 hora para ir \u00e0 casa e com efeito encontrei as duas cartas, uma da quais devera ter vindo antes, mas que, sem d\u00favida, por causa do correio, foi demorada. Tamb\u00e9m ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no s\u00e1bado, levei-a no domingo \u00e0s 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai \u00e0s 6 horas da manh\u00e3. \u00c0s quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, n\u00e3o fui eu s\u00f3 quem sofreu com demora de cartas.<\/p>\n<p>Calculo a tua afli\u00e7\u00e3o pela minha, e estou que ser\u00e1 a \u00faltima. \/ Eu j\u00e1 tinha ouvido c\u00e1 que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que n\u00e3o sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares n\u00e3o fazem nada ao F.; mas compreendo tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dar simplesmente essa raz\u00e3o. No entanto, lembras perfeitamente que a mudan\u00e7a para outra casa c\u00e1 no Rio seria excelente para todos n\u00f3s. O F. falou-me nisso uma vez e \u00e9 quanto basta para que se trate disto. A casa h\u00e1 de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu cora\u00e7\u00e3o. Creio, por\u00e9m, que \u00e9 melhor conversar outra vez com o F. no s\u00e1bado e ser autorizado positivamente por ele. Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias; \u00e9 quanto basta para que o amor fa\u00e7a um milagre, quanto mais isto que n\u00e3o \u00e9 milagre nenhum. \/ Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que n\u00e3o? Sofreste tanto que at\u00e9 perdeste a consci\u00eancia do teu imp\u00e9rio; est\u00e1s pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. N\u00e3o te admires, \u00e9 cousa muito natural; \u00e9s t\u00e3o d\u00f3cil como eu; a raz\u00e3o fala em n\u00f3s ambos.<\/p>\n<p>Pedes-me cousas t\u00e3o justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusarte alguma cousa, e n\u00e3o quero. \/ A mudan\u00e7a de Petr\u00f3polis para c\u00e1 \u00e9 uma necessidade; os ares n\u00e3o fazem bem ao F., e a casa a\u00ed \u00e9 um verdadeiro perigo para quem l\u00e1 mora. Se estivesses c\u00e1 n\u00e3o terias tanto medo dos trov\u00f5es, tu que ainda n\u00e3o est\u00e1s bem brasileira, mas que o h\u00e1s de ser espero em Deus. \/ Acusas-me de Pouco, confiante em ti? Tens e n\u00e3o tens raz\u00e3o; confiante sou; mas, se te n\u00e3o contei nada \u00e9 porque n\u00e3o valia a pena contar. A minha hist\u00f3ria passada do cora\u00e7\u00e3o, resumem-se em dous cap\u00edtulos: um amor, n\u00e3o correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro n\u00e3o me queixo; fui eu o primeiro a romp\u00ea-lo. N\u00e3o me acuses por isso; h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que se n\u00e3o Prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me, com Os seus conselhos, a rasgar a p\u00e1gina desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso.<\/p>\n<p>Eis tudo. \/ A tua pergunta natural \u00e9 esta: Qual destes dous Cap\u00edtulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo \u00e9 que dos dois o mais amado foi o segundo. \/ Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada corri o terceiro e \u00faltimo cap\u00edtulo do meu cora\u00e7\u00e3o. Diz a St\u00e3el que os primeiros amores n\u00e3o s\u00e3o os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim \u00e9 comigo; mas, al\u00e9m dessas, h\u00e1 uma raz\u00e3o capital, e \u00e9 que tu n\u00e3o te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Esp\u00edrito e cora\u00e7\u00e3o como os teus s\u00e3o prendas raras; alma t\u00e3o boa e t\u00e3o elevada, sensibilidade t\u00e3o melindrosa raz\u00e3o t\u00e3o reta n\u00e3o s\u00e3o bens que a natureza espalhasse \u00e0s m\u00e3os cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno n\u00famero de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te n\u00e3o amaria eu ? Al\u00e9m disso tens para mim um dote que real\u00e7a os mais: sofreste. \u00c9 a ambi\u00e7\u00e3o dizer \u00e0 tua grande alma desanimada: &#8220;levanta-te, cr\u00ea e ama; aqui est\u00e1 uma alma que te compreende e te ama tamb\u00e9m&#8221;. \/ A responsabilidade de fazer-te feliz \u00e9 decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agrad\u00e1vel encargo. \/ Olha, querida; tamb\u00e9m eu tenho pressentimento acerca da M.a felicidade; mas que \u00e9 isto sen\u00e3o o justo receio de quem n\u00e3o foi ainda completamente feliz? \/ Obrigado pela que me mandaste; dei-lhe dous beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. \/ S\u00e1bado \u00e9 o dia de minha ida; faltam poucos dias e est\u00e1 t\u00e3o longe! Mas que fazer? A resigna\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para quem est\u00e1 \u00e0 porta do para\u00edso; n\u00e3o afrontemos o destino que \u00e9 t\u00e3o bom conosco. \/ Volto \u00e0 quest\u00e3o da casa; manda-me dizer se aprovas o que te disse acima, isto \u00e9, se achas melhor conversar outra vez com o F. e ficar autorizado por ele, a fim de n\u00e3o parece ao M. que eu tomo uma interven\u00e7\u00e3o incompetente nos neg\u00f3cios de sua fam\u00edlia. Por ora, precisamos de todas estas precau\u00e7\u00f5es. Depois&#8230; depois, querida, queimaremos o mundo, por que s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente senhor do mundo quem est\u00e1 acima das suas gl\u00f3rias fofas e das suas ambic\u00f5es est\u00e9reis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti.<\/p>\n<p>Escreve-me e cr\u00ea no cora\u00e7\u00e3o do teu \/ MACHADINHO.<\/p>\n<p>[4] A CAROLINA<\/p>\n<p>[RJ, 2 mar. 1868\/9?] Minha Carola. \/ J\u00e1 a esta hora deves ter em m\u00e3o a carta que te mande hoje mesmo, em resposta \u00e0s duas que ontem recebi. Nela foi explicada a raz\u00e3o de n\u00e3o teres carta no domingo; deves ter recebido duas na segunda feira. \/ Queres saber o que fiz no domingo? Trabalhei e estive em casa. Saudades de minha C., tive-as como podes imaginar, e mais ainda, estive aflito, como te contei, por n\u00e3o ter tido cartas tuas durante dous dias. Afirmote que foi um dos mais tristes que tenho passado. \/ Para imaginares a minha afli\u00e7\u00e3o, basta ver que cheguei a suspeitar oposi\u00e7\u00e3o do F. como te referi numa das minhas \u00faltimas cartas. Era mais do que uma injusti\u00e7a, era uma tolice. V\u00ea l\u00e1: justamente quando eu estava a criar estes castelos no ar, o bom F. conversava a meu respeito com a A. e parecia aprovar as minhas inten\u00e7\u00f5es (perd\u00e3o, as nossas inten\u00e7\u00f5es.) N\u00e3o era de esperar outra cousa do F.; foi sempre amigo meu, amigo verdadeiro, dos poucos que, no meu cora\u00e7\u00e3o tem sobrevivido \u00e0s circunst\u00e2ncias e ao tempo. Deus lhe conserve os dias e lhes restitua a sa\u00fade para assistir \u00e0 minha e \u00e0 tua felicidade. \/ Contou-me hoje o Ara\u00fajo que, encontrando-se num dos carros que fazem viagem para Botafogo e Laranjeiras, com o Miguel, este lhe dissera que andava procurando casa por ter alugado a outra. N\u00e3o sei se essa casa que ele procura \u00e9 s\u00f3 para ele se para toda a fam\u00edlia. Achei conveniente comunicar-te isto; n\u00e3o sei se J\u00e1 sabes alguma cousa a este respeito. No entanto, espero tamb\u00e9m a tua resposta ao que te mandei dizer na carta de ontem, relativamente \u00e0 mudan\u00e7a. \/ Dizes que, quando l\u00eas algum livro, ouves unicamente as minhas palavras, e que eu te apare\u00e7o em tudo e em toda a parte? \u00c9 ent\u00e3o certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua vida? J\u00e1 mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a mesma cousa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu queria que lesses um livro que eu acabei de ler h\u00e1 dias; intitula-se: A Fam\u00edlia. Hei de comprar um exemplar para lermos em nossa casa como uma esp\u00e9cie B\u00edblia Sagrada. \u00c9 um livro s\u00e9rio, elevado e profundo; a simples leitura d\u00e1 vontade de casar. \/ Faltam quatro dias; daqui a quatro dias ter\u00e1s l\u00e1 a melhor carta que eu te poderei mandar, que \u00e9 a minha pr\u00f3pria pessoa, e ao mesmo tempo lerei o melhor.[&#8230;..].<\/p>\n<p>[5] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ, 19 nov. 1869] Meu caro Paz. \/ Estimo muito e muito as tuas melhoras, e sinto deveras n\u00e3o ter podido ir ver-te antes da tua partida para a Tijuca. Agrade\u00e7o-te as felicita\u00e7\u00f5es pelo meu casamento.<\/p>\n<p>Aqui estamos na Rua dos Andradas, onde ser\u00e1s recebido como um amigo verdadeiro e desejado. \/ Infelizmente ainda n\u00e3o te posso mandar nada da continua\u00e7\u00e3o do drama. na tua carta de 8 deste-me parte da tua mol\u00e9stia e pediste-me que preparasse a cousa para a segunda-feira pr\u00f3xima. N\u00e3o reparaste certamente na impossibilidade disto. Eu contava com aquele adiantamento e a tua carta anulou todas as minhas esperan\u00e7as. N\u00e3o imaginas o que me foi preciso fazer desde segunda-feira \u00e0 noite at\u00e9 sexta-feira de manh\u00e3. De ordin\u00e1rio \u00e9 sempre de rosas o per\u00edodo que antecede o noivado; para mim foi de espinhos. felizmente o meu esfor\u00e7o esteve na altura de minha responsabilidade e eu pude obter por outros meios os recursos necess\u00e1rios na ocasi\u00e3o. Ainda assim n\u00e3o pude ir al\u00e9m disso; de maneira que, agora mesmo, estou trabalhando para as necessidades do dia visto que s\u00f3 do come\u00e7o do m\u00eas em diante poderei regularizar a minha vida. \/ Tais s\u00e3o as cousas pelas quais n\u00e3o pude continuar o nosso trabalho; continu\u00e1-lo-ei desde que tiver folga para isso. Ele me ser\u00e1 necess\u00e1rio, e tu sabes que eu n\u00e3o poupo esfor\u00e7os. Espero por\u00e9m que me desculpes se neste momento estou curando da solu\u00e7\u00e3o de dificuldades que eu n\u00e3o previa nem esperava. \/ Se a Tijuca n\u00e3o fosse t\u00e3o longe iria ver-te. Apenas vieres para casa, avisa-me a fim de te fazer a competente visita e conversarmos acerca da conclus\u00e3o da obra. \/ Teu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[6] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ,1869.] Paz: \/ No domingo bati e rebati \u00e0 tua porta. Nem viva alma. Queria dizer-te o que houve a respeito de bilhetes, e ao mesmo tempo falar-te de uma id\u00e9ia soberba!!! Manda dizer onde me podes falar; caso recebas esta carta depois de vir o portador dela, escreve, para M.\u00aa casa (Andradas 119) e marcando hora e lugar hoje. \/ A cousa urge. \/ Teu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[7] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ, 1 mai. 1870?] Paz. \/ Procurei-te ontem e anteontem em casa, e n\u00e3o te achei. Hoje, se te n\u00e3o encontrar, deixarei esta carta, pedindo-te que me esperes amanh\u00e3 de manh\u00e3 para conversarmos sobre aquilo. Sei que tens andado ocupado, e temo importunar-te com estes pedidos; mas, como te disse, n\u00e3o tenho outro recurso, e desejava concluir o neg\u00f3cio o mas cedo que fosse poss\u00edvel. N\u00e3o insisto. N\u00e3o insisto sobre a import\u00e2ncia capital do servi\u00e7o que me est\u00e1s prestando; tu bem o compreendes, e sabes al\u00e9m disso qual \u00e9 a minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude arranjar a cousa s\u00f3 por mim, v\u00ea se consegues isso, e repara que os dias v\u00e3o correndo. Ajuda-me, Paz; eu n\u00e3o tenho ningu\u00e9m que o fa\u00e7a. Conselhos, sim; servi\u00e7os, nada.\/ Espera-me amanh\u00e3, domingo; irei \u00e0s dez horas e meia para dar-te tempo de concluir o sono que por ser domingo, creio que ir\u00e1 at\u00e9 mais tarde.\/Teu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[8] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ, s\/d.] Paz ami.\u00ba. \/Ainda preciso daquilo de que te falei. V\u00ea se me arranjas, e deixo ao teu parecer as condi\u00e7\u00f5es, que conto ser\u00e3o razo\u00e1veis, favor\u00e1veis para mim \/ Todo teu \/ M.<\/p>\n<p>d&#8217;ASSIS.<\/p>\n<p>[9] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ, s\/d.] Meu caro Paz. \/ A pressa com que se precisa dos versos, a aglomera\u00e7\u00e3o de trabalho que sobrevivo agora, e as circunst\u00e2ncias referidas na nossa conversa anteontem me impedem de servir-te como estava decidido. N\u00e3o te acanhes, se levar nisso gr.\u00ba interesse de afei\u00e7\u00e3o; farei ent\u00e3o o trabalho a todo o custo; mas, se o caso \u00e9 como; me disseste, v\u00ea se me h\u00e1s por dispensado, e cr\u00ea-me teu \/ am.\u00ba do C. \/ MACHADO DF ASSIS.<\/p>\n<p>[10] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ. s\/d.] Meu Paz. \/ O homem que se encarregou da tal folha de Lisboa quer saber dos passos que se devem dar, direitos que se pagam e cousas an\u00e1logas para tirar os jornais do vapor, apenas ele chegar. Pe\u00e7o-te encarecidamente que vejas isto hoje, porque amanh\u00e3 chega o paquete. Tenho certa responsabilidade nisto. \/Teu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[11] A DESTINAT\u00c1RIO IGNORADO<\/p>\n<p>[RJ, 14 jun. 1870.] Exmo. Sr. \/ Era resolu\u00e7\u00e3o minha, de acordo com o recado que de V. Ex.\u00aa recebi, por interm\u00e9dio de nosso comum amigo o Dr. Fran\u00e7a, esperar a chegada do Sr. Oliveira para nos entendermos todos tr\u00eas a respeito do trabalho que fa\u00e7o para o Jornal da Tarde como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu \u00e0 considera\u00e7\u00e3o devida para com os dignos propriet\u00e1rios do Jornal da Tarde. \/ Sobreveio por\u00e9m um, a circunst\u00e2ncia que me obriga a modificar aquela resolu\u00e7\u00e3o, e a dizer a V. Ex.\u00aa que n\u00e3o posso continuar a traduzir o folhetim como at\u00e9 agora fazia. N\u00e3o querendo p\u00f4r embara\u00e7os ao Jornal da tarde, continuarei a tradu\u00e7\u00e3o at\u00e9 s\u00e1bado 18. N\u00e3o me demorarei em dizer a V. Ex.\u00aa, com que pesar sou obrigado o interromper este trabalho que eu fazia com maior vontade que aptid\u00e3o; temo que se possa confundir um sentimento verdadeiro com uma f\u00f3rmula de ocasi\u00e3o. \/ Qualquer que seja por\u00e9m este meu pesar, n\u00e3o pode influir nas circunst\u00e2ncias que me determinam. Considere-me V. Ex.\u00aa, como sempre. \/ Af.\u00ba am.\u00ba e obr.\u00ba cr.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[12] A. J. C. RODRIGUES<\/p>\n<p>[RJ, 25 jan. 1873] Il.mo. am.\u00ba Sr. Dr. J. C. Rodrigues. \/ Aperto-lhe mui agradecidamente m\u00e3os pelo seu artigo do Novo Mundo a respeito do meu romance. E n\u00e3o s\u00f3 agrade\u00e7o as express\u00f5es am\u00e1veis com que me tratou, mas tamb\u00e9m os reparo que me fez. Vejo que leu o meu livro com olhos de cr\u00edtico, e n\u00e3o hesitou em dizer o que pensa de alguns pontos, o que \u00e9 para mim mais lisonjeiro que tudo. Escrevera-lhe eu mais longamente desta vez, se n\u00e3o fora tanta cousa que me absorveu hoje o tempo e o esp\u00edrito. Entretanto, n\u00e3o deixarei de lhe dizer desde j\u00e1 que as censuras relativas a algumas passagens menos recatadas s\u00e3o para mim sobremodo salutares. Aborre\u00e7o a literatura de esc\u00e2ndalo, e busquei evitar esse escolho no meu livro. Se alguma cousa me escapou, espero emendar-me na pr\u00f3xima composi\u00e7\u00e3o. \/ O nosso artigo est\u00e1 pronto h\u00e1 um m\u00eas. Guardei-me para dar-lhe hoje uma \u00faltima dem\u00e3o; mas t\u00e3o complicado e cheio foi o dia para mim, que prefiro demor\u00e1-lo para o seguinte vapor. N\u00e3o o faria se se tratasse de uma correspond\u00eancia regular como costumo fazer para a Europa; trata-se por\u00e9m de um trabalho que, ainda retardado um n\u00e3o perde a oportunidade. \/ O nosso Jo\u00e3o de Almeida tinha-me pedido em seu nome um retrato, que lhe entrego hoje e l\u00e1 ir\u00e1 ter \u00e0s suas m\u00e3os. N\u00e3o me ser\u00e1 dado obter igualmente um retrato seu para o meu \u00e0lbum dos amigos? Creia-me, como sempre \/ Seu am.\u00ba patr\u00edcio ad.or \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[13] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 16 abr.1873] Meu caro L\u00facio de Mendon\u00e7a. \/ Antes de mais nada deixe-me agradecer-lhe a confian\u00e7a que depositou em mim. Qualquer que fosse o objeto, devia agradecer-lhe; tratando-se por\u00e9m de seu futuro, como me disse, lisonjeou-me muito mais a escolha que fez de mim. \/ Conversei com o Garnier e miudamente lhe expus a sua proposta com as vantajosas condi\u00e7\u00f5es que me indicou; sua resposta foi que neste momento acha-se ele com cinco tradutores, que trabalham assiduamente e s\u00e3o mais que suficientes para fornecer o mercado do Rio de Janeiro. Mostrou sentir n\u00e3o poder aceitar a sua proposta, alegando que n\u00e3o podia despedir nenhum dos outros, um dos quais parece que \u00e9 o Salvador, se me n\u00e3o engana a mem\u00f3ria. Diante desta proposta, compreende que eu nada podia fazer, salvo alegar a alta import\u00e2ncia a que tinha para o amigo neste neg\u00f3cio, o que fiz logo do princ\u00edpio. \/ Tal \u00e9 meu caro L\u00facio a resposta que sou obrigado a enviar-lhe. Se alguma coisa aparecer por aqui no mesmo sentido, apressar-me-ei a comunicar-lhe. Por outro lado se de l\u00e1 se lembrar de algum neg\u00f3cio em que eu possa ser medianeiro, pode contar que o farei com a melhor vontade do cora\u00e7\u00e3o. Creia-me seu amigo e admi-rador. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[14] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 1875.] Meu caro Salvador. \/ Procurei-te ontem sem ter a fortuna de encontrar-te; mas vai aqui no papel o que eu te queria dizer, e \u00e9 que, se. depois de publicado o discurso do Dumas, n\u00e3o fizeres empenho em conservar o original, o mandes a este \/ Teu do C. \/ M. A.<\/p>\n<p>[15] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 24 dez. 1875.] Meu caro Salvador. \/ Recebi a tua carta e o teu retrato, o que quer dizer que te recebi todo em corpo e alma. A alma n\u00e3o mudou; \u00e9 a mesma que daqui se foi. Mas o corpo! Est\u00e1s outro, meu Salvador: renasceu-te a vida com a mudan\u00e7a, se \u00e9 que n\u00e3o contribu\u00edram principalmente para isso os tais l\u00e1bios, &#8220;cujo ingl\u00eas parece italiano&#8221;. Dou-te os parab\u00e9ns pela sa\u00fade, pelos l\u00e1bios e pelo exerc\u00edcio do consulado. Aqui cr\u00eaem todos que ter\u00e1s a nomea\u00e7\u00e3o definitiva. O Otaviano, se bem me lembra, falou-me tamb\u00e9m nesse sentido. O que \u00e9 preciso \u00e9 que os amigos que podem influir n\u00e3o se deixem ficar parados. \/ Muito me contas desse pa\u00eds. Li-te com \u00e1gua na boca. Pudesse eu ir ver tudo isso! Infelizmente a vontade \u00e9 maior do que as esperan\u00e7as, infinitamente maiores do que a possibilidade. N\u00e3o espero nem tento nomea\u00e7\u00e3o do governo, porque naturalmente os nomes est\u00e3o escolhidos. Mais tarde, \u00e9 poss\u00edvel talvez. \/ Remeto-te um exemplar das minhas Americanas. Publiquei-as h\u00e1 poucos dias, e creio que agradaram algum tanto. V\u00ea l\u00e1 o que isso vale; se tiveres tempo, escreve-me as tuas impress\u00f5es. N\u00e3o remeto exemplar ao nosso Rodrigues, porque o Garnier costuma faz\u00ea-lo diretamente, segundo me consta. \/ Por aqui n\u00e3o h\u00e1 novidade importante. Calor e pasmaceira, duas coisas que talvez n\u00e3o tenhas por l\u00e1 em tamanha dose. A\u00ed, ao menos, anda-se depressa conforme me dizes na tua carta, e na correspond\u00eancia que li no Globo. N\u00e3o podes negar, porque o estilo \u00e9 teu.<\/p>\n<p>Vejo que mal chegaste a\u00ed, logo aprendeste o uso da terra, de andar e trabalhar muito.<\/p>\n<p>Uma correspond\u00eancia e infinitas cartas particulares! J\u00e1 eras trabalhador antes de l\u00e1 ir.<\/p>\n<p>Imagino o que ficar\u00e1s sendo. Olha o Rodrigues \u00e9 bom mestre, e o Novo mundo um grande exemplo. \/ Adeus, meu Salvador; muito beijos em teus pequenos, futuros yankees, e um abra\u00e7o apertado do \/ Teu MACH.ADO DE ASSIS, \/que te pede novas letras e te envia muitas saudades. \/ Adeus.<\/p>\n<p>[16] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 15 abr. 1876] N\u00e3o, meu que rido Salvador, ainda que eu te mandasse agora uma carta de trinta ou quarenta folhas, n\u00e3o te daria id\u00e9ia da surpresa que me causou a tua carta de 7 do m\u00eas passado: a maior e a mais agrad\u00e1vel das surpresas. Quando a abri, e contei as doze laudas da tua letra, cerrada e mi\u00fada, fiquei extremamente lisonjeado, e creio que causei afetuosa inveja a aos que estavam ao p\u00e9 de mim, o Quintino Bocai\u00fava e o Jo\u00e3o de Almeida. Mas logo que comecei a l\u00ea-la, senti uma doce desilus\u00e3o: s\u00f3 o amor \u00e9 t\u00e3o eloq\u00fcente, s\u00f3 ele podia inspirar tanta coisa ao mais s\u00e9rio dos rapazes e ao mais jovial dos c\u00f4nsules. \/ Reli a carta, n\u00e3o s\u00f3 porque eram letras tuas, mas tamb\u00e9m porque dificilmente podia ver melhor retrato de uma jovem americana. Tudo ali \u00e9 caracter\u00edstico e original. N\u00f3s amamos e casamos aqui no Brasil, como se ama e se casa na Europa; nesse pa\u00eds parece que estas cousas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de compromisso entre o romanesco e o patriarcal.<\/p>\n<p>Acrescem os dotes intelectuais de Miss Mary Redeman, \/ talvez a esta hora Mrs.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a. Casar assim, e com tal noiva, \u00e9 simplesmente viver, na mais ampla acep\u00e7\u00e3o da palavra. \/ Sabes se sou teu amigo; receber\u00e1s daqui de longe o mais apertado abra\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00ea feliz, meu Salvador, porque o mereces pelo cora\u00e7\u00e3o, pelo talento e pelo car\u00e1ter. Tua esposa j\u00e1 adivinhou teus dotes; h\u00e1 de apreci\u00e1-los, e reconhecer que, se te d\u00e1 a felicidade, receb\u00ea-la-\u00e1 do mesmo modo e em igual por\u00e7\u00e3o. \/ Nada disse a ningu\u00e9m do que me revelas em tua carta. O Blest Gana, segundo me disseram no Hotel dos Estrangeiros, est\u00e1 fora, na ro\u00e7a. Agrade\u00e7o-te a confian\u00e7a; mas devo dizer que ia caindo em rasgar o capote. Foi o caso; estava no Globo, lendo o que me dizias acerca de &#8220;um livro sobre coolies e um romance&#8221; , repeti estas palavras ao Quintino, Jo\u00e3o Almeida e Taunay.<\/p>\n<p>Admiramo-nos todos do teu g\u00eanio laborioso, e eu continuei a ler a carta para mim.<\/p>\n<p>Quando vi de que romance me falavas, limitei-me a dizer que efetivamente escrevias um romance, mas que n\u00e3o convinha anunci\u00e1-lo por ora. Meu receio era que o Quintino noticiasse gravemente no dia seguinte que as letras p\u00e1trias iam receber um novo mimo, etc. Imagina o efeito que te produziria semelhante not\u00edcia no Globo. De maneira que, por ora, s\u00f3 eu sei do caso, e n\u00e3o o revelarei antes de revelado por cartas ou jornais. \/ Miss Mary namorou-se de teus olhos de cor\u00e7a. Quando li isto, reconheci que nunca me enganara respeito dos tais olhos; tu mesmo n\u00e3o sabes talvez o que eles valem. Agora que \u00e9 preciso \u00e9 que ela n\u00e3o fique todo o tempo embebida neles, e pois que a natureza lhe concedeu talento, deve-nos os frutos dele, que ser\u00e3o ainda mais belos, com a influ\u00eancia do colaborador que a fortuna lhe deparou. Dize-lhe isto, acrescentando que o escreve o mais \u00ednfimo dos poetas e o mais entusiasta da gl\u00f3ria liter\u00e1ria. \/ N\u00e3o vi o Novo Mundo do m\u00eas de mar\u00e7o; mas afian\u00e7am-me nada vem l\u00e1 a respeito das Americanas. Vir\u00e1 no de abril provavelmente; desde j\u00e1 te agrade\u00e7o a aten\u00e7\u00e3o. \/ Mais um abra\u00e7o, Salvador e meus parab\u00e9ns; abra\u00e7a o M\u00e1rio tamb\u00e9m. O c\u00e9u te d\u00ea todas as venturas, que as mereces.<\/p>\n<p>Quando eu me lembro que, enquanto cogitava nos &#8220;l\u00e1bios em que o ingl\u00eas parece italiano&#8221;, tu delineavas simplesmente um plano de casamento, n\u00e3o caio em mim! E agora respondo a um trecho de tua carta. N\u00e3o h\u00e1 que justificar a pressa. Os melhores amores nascem de um minuto. Deveres, seguiste a boa regra: foste yankee entre yankees. \/ Adeus, meu Salvador. Meus respeitos \u00e0 Sra. consulesa e mais um abra\u00e7o para ti. \/ Teu do Cora\u00e7\u00e3o MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[17] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 13 nov. 1876] Meu caro Salvador. \/ Mal tenho tempo para agradecer-te muito do cora\u00e7\u00e3o o belo artigo que escrevestes novo mundo, a prop\u00f3sito das Americanas. Est\u00e1 como tudo o que \u00e9 teu: muita reflex\u00e3o e forma espl\u00eandida. C\u00e1 ficar\u00e1 entre minhas j\u00f3ias liter\u00e1rias. \/ vai por este vapor um exemplar da Helena, romance que publiquei no Globo. Dizem aqui que dos meus livros \u00e9 o menos mau; n\u00e3o sei, l\u00e1 ver\u00e1s.\/ Fa\u00e7o o que posso e quando posso.\/ E tu? Eu dir-te-ia muita coisa mais, a n\u00e3o ser urg\u00eancia. Escrevo esta carta, \u00e0 hora de sair da secretaria, para ir lev\u00e1-la ao Jo\u00e3o de Almeida. prometo desde j\u00e1 ser muito extenso no primeiro vapor. Entretanto, agrade\u00e7o-te as fotografias que da\u00ed me remetestes; s\u00e3o de excelente efeito.\/ Meus respeitos \u00e0 tua senhora, lembran\u00e7as a teus filhos, e para ti o cora\u00e7\u00e3o do \/ Teu MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[18] A FRANCISCO RAMOS PAZ [RJ, 14 dez. 1876.] Meu caro Paz. \/ Faltei com a resposta no dia marcado. Um inc\u00f4modo, que me durou quatro dias, e de que ainda tenho restos, sucessos diferentes e acr\u00e9scimo de trabalho com que eu n\u00e3o contava, e que ainda hoje me prendem o dia inteiro em casa, tais foram os motivos do meu sil\u00eancio. \/ A resposta \u00e9 a que eu j\u00e1 receava dever dar-te. S\u00e3o tantos e tais os trabalhos que pesam sobre mim, que n\u00e3o me atrevo a tomar o folhetim da Gazeta.<\/p>\n<p>\/ Dize de minha parte ao Eliseu que me penaliza muito a resposta; tu e ele s\u00e3o dous amigos velhos, que sempre achei os mesmos e de quem s\u00f3 tenho agrad\u00e1veis lembran\u00e7as. \/Cr\u00ea no \/ Teu do C. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[19] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 8 out. 1877.] Meu caro Salvador. \/ Escrevo-te \u00e0 pressa, \u00e0 \u00faltima hora, e por isso me dispensar\u00e1s se te n\u00e3o digo uma s\u00e9rie de cousas que h\u00e1 sempre que dizer entre bons amigos que se n\u00e3o falam h\u00e1 muito. \/ Antes de tudo, estimo a tua sa\u00fade e a de tua senhora e filhos. \/ Vai aparecer no 1.\u00ba do ano de 78 um novo jornal, O Cruzeiro, fundado com capitais de alguns comerciante, uns brasileiros e outros portugueses. O diretor ser\u00e1 o Dr. Henrique Correia Moreira, teu colega, que deves conhecer. \/ Incumbiu-me este de te propor o seguinte: \/ 1.\u00ba Escreveres duas correspond\u00eancias mensais. \/ 2.\u00ba Remeteres cota\u00e7\u00f5es dos g\u00eaneros que interessem ao Brasil, principalmente banha, farinha de trigo, querosene e caf\u00e9, e mais, not\u00edcias do c\u00e2mbio sobre Londres, Paris etc., e \u00e1gio do ouro. \/ 3.\u00ba Obteres an\u00fancios de casas industriais e outras. \/ Como remunera\u00e7\u00e3o: \/ Pelas correspond\u00eancias, 50 d\u00f3lares mensais. \/ Pelos an\u00fancios, uma porcentagem de 20%. \/ Podes aceitar isso? No caso afirmativo, conv\u00e9m remeter a primeira carta de maneira que possa ser publicada em janeiro. Caso n\u00e3o te convenha, o Dr. Moreira pede que vejas se nosso amigo. Rodrigues, do Novo Mundo, pode aceitar o encargo, e em falta deste algum outro brasileiro id\u00f4neo. \/ Os industriais que quiserem mandar os an\u00fancios poder\u00e3o tamb\u00e9m remeter se lhes convier, os clich\u00e9s e gravuras. Quanto ao pre\u00e7o dos an\u00fancios, n\u00e3o est\u00e1 ainda marcado, mas regular\u00e1 o do Jornal do Com\u00e9rcio, ou ainda alguma coisa menos. \/ Esta carta vai por via de Europa. No primeiro paquete escreverei outra, para remediar o extravio desta, se houver. \/ Desculpa-me a pressa, e escreve ao \/ Teu do Cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[20] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 2 mar. 1878.] Meu caro Salvador. \/ Minha primeira carta depois de tua partida, \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 de ser-te entregue pelo Sr. Jo\u00e3o Artur Pereira de Andrade, que, por motivo de sa\u00fade, vai a esses Estados passar algum tempo. \/ A ningu\u00e9m melhor do que a ti, poderia apresentar este nosso destino e inteligente patr\u00edcio Ele te apreciar\u00e1, como eu e todos os que t\u00eam a fortuna de serem teu amigos. \/ Meus, respeitos \u00e0 tua digna esposa e saudades a teus queridos filhos. Escreve-me e continua a crer no \/ Am. \u00ba do Cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS [21] A CAPISTRANO DE ABREU [RJ, 22 jul. 1880.] Meu caro am.\u00ba e colega Sr. Capitar\u00e3o de Abreu. \/ Fiquei incomodado quando, anteontem soube que se retirara, depois de longa espera. Esperei que ontem me mandasse dizer alguma cousa, se se tratasse de neg\u00f3cio urgente. N\u00e3o o tendo feito apresso-me a escrever-lhe para que me diga que motivo o trouxe c\u00e1, em t\u00e3o m\u00e1 hora, que nos n\u00e3o pudemos ver. Creia sempre na simpatia, afei\u00e7\u00e3o e apre\u00e7o que lhe tem &#8211; o am.\u00ba e colega \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[22] A UM COLEGA JOVEM<\/p>\n<p>[RJ, 6.\u00aa feira, 30 jul. 1880.] Meu jovem colega. \/ Esta carta devia ter-lhe sido escrita e enviada h\u00e1 cinco ou seis dias.<\/p>\n<p>S\u00e3o tais por\u00e9m os meus trabalhos e apoquenta\u00e7\u00f5es, que espero me desculpe a demora.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o retardei a resposta a ponto de me n\u00e3o poder aproveitar dela no domingo pr\u00f3ximo. Ou no pr\u00f3ximo, ou em outro qualq.r achar-me-\u00e1 em casa, porque eu raramente saio nesses dias, exceto de noite, em que vou sempre a alguma visita. N\u00e3o digo se terei prazer em receb\u00ea-lo; sabe muito bem que sim; e, se duvida, ponha-me \u00e0 prova. \/ Je vous serre la main, \/ MACHADO DE ASSIS. \/ P.S. \u00c0 visita falaremos dos sin\u00f4nimos do seu colega Cabral. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[23] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A [RJ, 25 jul. 1881.] Meu caro Salvador. \/ Para o fim de se poder despachar a caixa, conv\u00e9m que mandes a esta Secretaria uma procura\u00e7\u00e3o, visto que a caixa veio com o teu nome. O despachante da Secretaria \u00e9 o Capit\u00e3o Henrique Jermack Possolo; esse pode ser o procurador. \/ Ontem, ao voltarmos para casa, soubemos da visita que nos fizeste com tua estim\u00e1vel senhora, a quem pe\u00e7o apresentar os meus respeitos. Senti deveras n\u00e3o estar em casa.<\/p>\n<p>Minha mulher recomenda-se muito a Mrs. Salv. de Mendon\u00e7a. \/ Cr\u00ea-me sempre \/ am.\u00ba V.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[24] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 14 jan. 1882.] Meu caro Nabuco. \/ Escrevo esta carta prestes a sair da Corte por uns dois meses, a fim de restaurar as for\u00e7as perdidas no trabalho extraordin\u00e1rio que tive em 1880 e 1881. \/ A carta \u00e9 pequena e tem um objeto especial. Talvez V. j\u00e1 saiba que morreu a senhora do Ars\u00eanio. O que n\u00e3o sabe, mas pode imaginar, \u00e9 o estado a que ficou reduzida aquela mo\u00e7a t\u00e3o bonita. Nunca supus que a veria morrer. \/ Vamos agora ao objeto especial da carta. O Ars\u00eanio, com quem estive anteontem, levou-me a ver a pedra do t\u00famulo que ele manda levantar, e \u00e9 isto o que lhe diz respeito a v. Comovido e agradecido pelas belos palavras que V. escreveu, em um dos folhetins do Jornal Com\u00e9rcio, a respeito de D.<\/p>\n<p>Marianinha, mandou gravar algumas delas na pedra da sepultura, e esse \u00e9 o \u00fanico epit\u00e1fio, Ele mesmo pediu-me que lhe dissesse isso, acrescentando que n\u00e3o agradeceu logo a refer\u00eancia do folhetim, por n\u00e3o saber quem era o autor. Disse-me tamb\u00e9m que me daria para V., um retrato fotografado da senhora. \/ Vou para fora, corno disse, mas V.<\/p>\n<p>pode mandar as suas cartas com endere\u00e7o \u00e0 Secretaria da agricultura. \/ Adeus, meu caro Nabuco. Estou certo de que V. ler\u00e1 o recado do Ars\u00eanio com a mesma emo\u00e7\u00e3o com que o ouvi. Pobre Marianinha! Adeus, e escreva ao \/ am.\u00ba do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[25] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 29 mai. 1882.] Meu caro Nabuco. \/ H\u00e1 cerca de um m\u00eas que esta carta devera ter seguido mas o prop\u00f3sito em que estava de escrever urna longa carta foi retardando a resposta \u00e0 sua, e da\u00ed a demora. &#8221; Valha a desculpa, se n\u00e3o vale o canto.&#8221; E o canto aqui n\u00e3o vale muito, porque afinal vai uma carta m\u00ednima, como v\u00ea, n\u00e3o querendo prolongar estes adiamentos.\/ Transmiti ao Ars\u00eanio suas palavras, e a autoriza\u00e7\u00e3o que lhe deu para o epit\u00e1fio, Ele ficou muito agradecido. N\u00e3o vi ainda o epit\u00e1fio na pr\u00f3pria pedra. Ningu\u00e9m que o veja deixar\u00e1 de reconhecer que era a mais bela homenagem \u00e0 finada, e o melhor agradecimento ao autor.<\/p>\n<p>\/ Compreendo a sua nostalgia, e n\u00e3o menos compreendo a consolac\u00e3o que traz a aus\u00eancia. Para n\u00f3s, seus amigos, se alguma consola\u00e7\u00e3o h\u00e1, \u00e9 a t\u00eampera que este ex\u00edlio lhe h\u00e1 de dar, e a vantagem de n\u00e3o ser obrigado a uma luta v\u00e3 ou uma tr\u00e9gua volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p>A sua hora h\u00e1 de vir. \/ Tenho lido e aplaudido as suas correspond\u00eancias. Ainda hoje vem uma, e vou l\u00ea-la depois que acabar esta carta, porque s\u00e3o nove horas da manh\u00e3, e a mala fecha-se \u00e0s dez. E a minha opini\u00e3o creio que \u00e9 a de todos. \/ Agrade\u00e7o muito os oferecimentos que me faz, e anoto-os para ocasi\u00e3o oportuna, se a houver. Quanto aos retalhos de jornais, quando os achar merecedores da transmiss\u00e3o, aceite-os com muito prazer. \/ Minha mulher agradece as suas recomenda\u00e7\u00f5es e pede-me que lhas retribua.<\/p>\n<p>Pela minha parte, creio escusado dizer a afei\u00e7\u00e3o que lhe tenho, e a admira\u00e7\u00e3o que me inspira. A impress\u00e3o que V. me faz \u00e9 a que faria (suponhamos) um grego dos bons tempos da H\u00e9lade no esp\u00edrito desencantado de um budista. Com esta indica\u00e7\u00e3o, V. me compreender\u00e1. \/ Adeus, meu caro Nabuco. Voc\u00ea tem a mocidade a f\u00e9 e o futuro; a sua estrela h\u00e1 de luzir, para alegria dos seus amigos, e confus\u00e3o dos seus invejosos. Um abra\u00e7o do \/ am.\u00ba do cora\u00e7\u00e3o \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[26] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 14 abr. 1883.] Meu caro Nabuco. \/ Esta carta devia ser escrita h\u00e1 cerca de um m\u00eas. Como, Por\u00e9m um folha desta Corte anunciasse que V. em maio viria ao Rio de Janeiro, entendi esper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Falei depois ao Hil\u00e1rio [de Gouveia], que me disse n\u00e3o ter nenhuma carta sua nesse sentido: conclu\u00ed que a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era exata, e resolvi mandar-lhe estas duas linhas, acompanhadas de um livro meu. \/ Antes de falar de, livro, agrade\u00e7o muito as suas lembran\u00e7as de amizade, que de quando em quando recebo. A \u00faltima, um retalho de jornal, acerca da partida de xadrez, foi-me mandada \u00e0 casa Pelo Hil\u00e1rio; pouco antes tinha recebido pelo correio alguns jornais franceses. relativos \u00e0 morte e de enterro de Gambetta; e ainda h\u00e1 Poucos dias tive em m\u00e3o urna remessa mais antiga, um cart\u00e3o do &#8220;Falstaff Club&#8221;, noite de 21 e junho de 1882. \/ V\u00ea V. que, se lembra dos amigos, o correio n\u00e3o o deixa mal, e \u00e9 transmissor das suas mem\u00f3rias. Oxal\u00e1 fa\u00e7a o mesmo com o livro que ora lhe envio, Pap\u00e9is Avulsos, em que h\u00e1, nas notas, alguma coisa concernente a um epis\u00f3dio do nosso passado: a \u00c9poca. \/ N\u00e3o \u00e9 propriamente uma reuni\u00e3o de escritos, esparsos, porque tudo o que ali est\u00e1 (exceto justamente a &#8220;Chinela Turca) foi escrito com o fim especial de fazer parte de um livro. Voc\u00ea me dir\u00e1 o que ele vale,&#8211; E agora, passando a coisa de maior tomo, deixe-me dizer-lhe, n\u00e3o s\u00f3 que aprecio e grandemente as suas cartas de Londres para o Jornal do Com\u00e9rcio, como que os meus amigos e pessoas com que converso, a tal respeito, t\u00eam a mesma impress\u00e3o. E olhe que a dificuldade, de, como V. sabe \u00e9 grande porque no geral as quest\u00f5es inglesas (n\u00e3o s\u00f3 as que V. indicou em uma das cartas, e se prendem aos costumes e interesses locais, mas at\u00e9 as grandes) s\u00e3o pouco familiares neste pa\u00eds: e fazer com que todos as acompanhem com interesse, n\u00e3o era f\u00e1cil, e foi o que V. alcan\u00e7ou. Sua reflex\u00e3o Pol\u00edtica, seu esp\u00edrito adiantado e moderado, al\u00e9m do estilo e do conhecimento das coisas. d\u00e3o muito peso a esses escritos. H\u00e1 um trecho deles, que n\u00e3o sei se chegou a incrustar-se no esp\u00edrito dos nossos homens p\u00fablicos, mas considero-o como um aviso , que n\u00e3o devia sair da cabeceira deles: \u00e9 o que se refere a nossa d\u00edvida. Palavras de ouro, que oxal\u00e1 n\u00e3o sejam palavras ao vento. A insinua\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 perda de alguma parte da regi\u00e3o brasileira abre uma porta para o futuro.\/ Adeus meu Nabuco, continue a lembrar- se de mim, assim como eu continuo a lembra-me de V., e deixe-me apreciar o seu talento, se n\u00e3o posso tamb\u00e9m gozar do seu trato pessoal.\/ Um abra\u00e7o do Am.\u00ba e ador.\u00ba afetm.\u00ba \/ M.<\/p>\n<p>DE ASSIS.<\/p>\n<p>[27] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ,19 abr. 1883.] Il.mo Ex.mo Sr. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. \/ Recebi \/ a carta ele V. Ex. \u00aa e o 1.\u00ba n\u00famero da Revista Amaz\u00f4nica. Na carta manifesta o receio de que a tentativa n\u00e3o corresponda \u00e0 inten\u00e7\u00e3o, e que a Revista n\u00e3o se possa fundar. N\u00e3o importa; a simples tentativa \u00e9 j\u00e1 uma honra para V. Ex.\u00ba, para os seus colaboradores e para a Prov\u00edncia do Par\u00e1, que assim nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o \u00e0 Corte. \/ H\u00e1 alguns dias, escrevendo de um livro, e referindo-me \u00e0 Revista Brasileira, t\u00e3o malograda disse esta verdade de La Palisse: \/ &#8220;que n\u00e3o h\u00e1 revistas, sem um p\u00fablico de revistas&#8221;. Tal \u00e9 o caso do Brasil. N\u00e3o temos ainda a massa de leitores necess\u00e1ria para essa esp\u00e9cie de publica\u00e7\u00f5es. A Revista Trimestral do Instituto Hist\u00f3rico vive por circunst\u00e2ncias especiais, ainda assim irregularmente, e ignorada do grande p\u00fablico. \/ Esta linguagem n\u00e3o \u00e9 a mais pr\u00f3pria para saudar o aparecimento de uma nova tentativa; mas sei que falo a um esp\u00edrito pr\u00e1tico, sabedor das dificuldades, e resoluto a venc\u00ea-las ou diminu\u00ed-las, ao menos. E realmente a Revista Amaz\u00f4nica pode fazer muito: acho-a bem feita e s\u00e9ria. Pela minha parte, desde que possa enviar-lhe alguma coisa, f\u00e1lo- ei, agradecendo assim a fineza que me fez convidando-me para seu colaborador. \/ Sou com estima e considera\u00e7\u00e3o, \/ Admirador e obr.\u00ba confrade \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[28] A FRANCISCO RAMOS PAZ [RJ, 16 out. 1883.] Meu caro Paz, \/Se queres ouvir m\u00fasica aceita este bilhete que te manda o velho am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS. \/ N. B. &#8211; \u00c9 no Cassino Fluminense, no dia 4.<\/p>\n<p>[29] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[Corte, 4 mar. 1886.] Meu caro L\u00facio. \/ N\u00e3o lhe respondi logo nos primeiros dias, porque era preciso tratar de um ponto de sua carta, e mais tarde, quando j\u00e1 estava tratado o ponto, meteram-se adiantamentos. Pe\u00e7o-lhe que me desculpe. O ponto \u00e9 o da Safo. Falei ao [Ferreira de] Ara\u00fajo, que me disse n\u00e3o convir o romance para a Gazeta de Not\u00edcias, por ter o Daudet carregado a m\u00e3o em alguns lugares. O Faro e o Garnier n\u00e3o podem tomar a edi\u00e7\u00e3o; disse-me este \u00faltimo que cessara inteiramente com as edi\u00e7\u00f5es que dava de obras traduzidas, por ter visto que n\u00e3o eram esgotadas, ou por concorr\u00eancia das de Lisboa, ou porque, em geral, o p\u00fablico preferia ler as obras em franc\u00eas. \/ N\u00e3o falei a mais ningu\u00e9m, porque estes s\u00e3o os editores habituais. Os outros ter\u00e3o as mesmas e mais raz\u00f5es. \/ Quanto ao retrato, a\u00ed lhe mando um; guarde-o como lembran\u00e7a de amigo velho. \/ Agora reparo que, no fim da sua, me pedia que fosse breve, e eu deixei passar tantos dias. De novo lhe pe\u00e7o que me desculpe, tanto a demora, como a letra em que isto vai. Creia-me sempre \/ am.\u00ba e admor . efetuos\u00edssimo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[30] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[corte, 7 out. 1886.] Meu caro L\u00facio de Mendon\u00e7a, poeta e amigo. \/ Muito obrigado, pela felicita\u00e7\u00e3o. Chegoume \u00e0 hora pr\u00f3pria, e foi lida entre aplausos, que aceitei como sinal da aprova\u00e7\u00e3o da nossa amizade, j\u00e1 de alguns anos, e sempre a mesma. Adeus, abrace de longe, o \/ Velho am.\u00ba e confrade \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[31] AO VISCONDE DE TAUNAY [RJ.<\/p>\n<p>7 out.1886] Meu caro S\u00edlvio Dinart. \/ Agrade\u00e7o-lhe de cora\u00e7\u00e3o as suas palavras, ao mesmo tempo que me desvane\u00e7o de as ler t\u00e3o c\u00e1lidas e espont\u00e2neas. Servem-me ainda, de anima\u00e7\u00e3o.\/ Creia que se n\u00e3o foi avisado, l\u00e1 esteve, todavia no pensamento, e l\u00e1 estaria sempre, qualquer que fosse a dist\u00e2ncia, n\u00e3o sendo poss\u00edvel tratar de letras brasileiras sem acudir \u00e0 mem\u00f3ria de todos o autor daquela j\u00f3ia liter\u00e1ria que se chama Inoc\u00eancia e de tantos outros livros de valor. \/ Aperta-lhe igualmente a m\u00e3o o amigo e colega \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[32] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 29 mar. 1887.] Meu caro e distinto colega Dr. Rodrigo Ot\u00e1vio. \/ A Assembl\u00e9ia geral dos s\u00f3cios do Club Beethoven reelegeu-me para o cargo que tinha na Diretoria; e Pelos estatutos n\u00e3o posso exercer cargo de diretor em outra associa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga. \/ Obrigado assim a demitir-me da presid\u00eancia do Gr\u00eamio de Letras e Artes e do lugar que a bondade dos meus antigos e colegas me deu no Conselho diretor, pe\u00e7o-lhe que apresente esta carta aos seus dignos companheiros, acrescentando que conservo o lugar de s\u00f3cio e desejo ao Gr\u00eamio o maior desenvolvimento e brilhante futuro. \/ Creia-me sempre, ad.or am.\u00ba e obr.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[32.a] AO BAR\u00c3O DO RIO BRANCO<\/p>\n<p>[RJ, 17 out. 1890.] Meu ilustre am.\u00ba \/ Queira receber os meus p\u00easames pela morte de sua querida m\u00e3e. A austera companheira do nosso grande homem, seu digno pai, teve a consola\u00e7\u00e3o de ver o nome que trazia posto honradamente no filho amigo e piedoso. Esse golpe que o feriu deve ter alcan\u00e7ado a todos os que sabem apreciar as suas qualidades de homem e de brasileiro. Deixe-me falar assim, sem respeito a sua mod\u00e9stia, aproveitando o momento de t\u00e3o grande desgosto para dizer o que todos pensamos a seu respeito. \/ Cuidei, pela not\u00edcia que li em folhas daqui, que viesse ao Rio de Janeiro imediatamente; pelo que li depois, concluo que n\u00e3o vir\u00e1. Da\u00ed a demora desta carta. \/ Creia-me sempre \/ V.\u00ba am.\u00ba e ad.or \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[33] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>Meu caro M\u00e1rio de Alencar \/ Agrade\u00e7o mui cordialmente comunica\u00e7\u00e3o que me fez de estar noivo de sua gentil prima D. Helena de Afonseca, e pe\u00e7o-lhe receba os votos que fa\u00e7o pela felicidade que ambos merecem. Seu pai achou no casamento mais uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para as letras brasileiras; siga esse exemplo, que \u00e9 dos melhores. Vale esta um apertado abra\u00e7o do\/ velho am.\u00ba e confrade \/ MACHADO DE ASSIS<\/p>\n<p>[34] A ERNESTO CIBR\u00c3O<\/p>\n<p>[RJ, 29 abr. 1895.] Meu caro Ernesto Cibr\u00e3o . \/ Possu\u00eda dois manuscritos da minha pe\u00e7a dram\u00e1tica, T\u00fa, s\u00f3 tu, Puro Amor &#8230; Um, como sabe, foi para a Biblioteca Nacional, onde se fez a exposi\u00e7\u00e3o camoniana; o outro ficou comigo e foi bastante V. sab\u00ea-lo para desej\u00e1-lo, e desej\u00e1-lo para obt\u00ea-lo, pois \u00e9 dif\u00edcil negar-lhe nada do que intente possuir para aumentar a cole\u00e7\u00e3o do Gabinete Portugu\u00eas de leitura, em boa hora confiado aos seus esclarecidos esfor\u00e7os. N\u00e3o me atreveria a oferecer-lho, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me atreveria a negar-lho. A\u00ed vai ele para o reposit\u00f3rio rio dos documentos que o Gabinete guarda, por menos que possa lembrar o esplendor das festas que aqui se celebram em honra do grande \u00e9pico. Adeus, creia sempre no velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[35] BELMIRO BRAGA<\/p>\n<p>[RJ, 24 jun. 1.895.] Meu caro poeta. \/ Recebi e agrade\u00e7o-vos muito de cora\u00e7\u00e3o a carta com que me felicitais pelo meu anivers\u00e1rio natal\u00edcio. N\u00e3o tendo o gosto de conhecer-vos, mais tocante me foi a vossa lembran\u00e7a. Pelo que me dizeis em vossa bela e efetuosa carta. foram os meus escritos que vos deram a simpatia que manifestais a meu respeito. H\u00e1 desses amigos, que um escritor tem a fortuna de ganhar sem conhecer, e s\u00e3o dos melhores. \u00c9 doce ao esp\u00edrito saber que um eco responde ao que ele pensou, e mais ainda se o pensamento, transladado ao papel, \u00e9 guardado entre as coisas mais queridas de algu\u00e9m. Agrade\u00e7o-vos tamb\u00e9m os gentis versos que me dedicais e trazem a data de 21 de junho, para melhor fixar o vosso obs\u00e9quio e inten\u00e7\u00e3o. \/ Disponde de mim, e crede-me \/ amigo muito agradecido. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[36] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 22 set. 1895.] Meu caro Salvador de Mendon\u00e7a. \/ Com grande prazer recebi o teu retrato e a carta que o acompanhou, cheia de tantas saudades e recorda\u00e7\u00f5es. Tens raz\u00e3o; compreendo que, ao ver tanta gente nova, em 1891, toda ela te parecesse intrusa por nada saber dos nossos bons tempos nem dos homens e coisas que l\u00e1 v\u00e3o. Alguns intrusos vingam-se em rir do que passou, datando o mundo em si, e crendo que o Rio de Janeiro come\u00e7ou depois da guerra a do Paraguai. Os que n\u00e3o riem e respeitam a cidade que n\u00e3o conheceram, n\u00e3o t\u00eam a sensa\u00e7\u00e3o direta e viva; \u00e9 o mesmo que se lessem um quadro antigo que s\u00f3 intelectualmente nos transporta ao lugar e \u00e0 cidade. Este Rio de Janeiro de hoje \u00e9 t\u00e3o outro do que era, que parece antes, salvo o n\u00famero de pessoas, uma cidade de exposi\u00e7\u00e3o universal. Cada dia espero que os advent\u00edcios saiam; ma, eles aumentam, como se quisessem p\u00f4r fora os verdadeiros e antigos habitantes. \/ J\u00e1 que me falaste na Semana, dir-te-ei que ainda ontem tive de fazer refer\u00eancia a una dessas pessoas do nosso tempo, a Eponina, vi\u00fava de Otaviano. Morreu quarta feira, e uma s\u00f3 folha, creio, deu not\u00edcia da morte, sem uma s\u00f3 palavra, a n\u00e3o ser o nome do marido. Assim se v\u00e3o as figuras de outrora! \/ Venhamos ao teu retrato. Acho-o excelente; n\u00e3o te importes com os 54 anos; eu c\u00e1 vou com os meus 56 e n\u00e3o digo nada. Vivam os quinquagen\u00e1rios! Entreguei ao Paz e ao Pacheco os exemplares que lhes mandaste. \/ Felicito-te pelo casamento do M\u00e1rio, que conheci t\u00e3o menino. A ele e a sua jovem esposa dar\u00e1s da parte de minha senhora e da minha iguais felicita\u00e7\u00f5es. Agradecemos as lembran\u00e7as de tua senhora e de teus filhos e pe\u00e7o-te que as retribuas da nossa parte. \/ Adeus, meu querido Salvador. Recebe um apertado abra\u00e7o do \/ Teu velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[37] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 2 dez. 1895.] Ilmo. am.\u00ba e colega. \/. Creio que houve um pequeno equ\u00edvoco entre n\u00f3s. Quando me falou pela primeira vez no artigo para a Revista Brasileira, deu o prazo at\u00e9 5 do corrente.<\/p>\n<p>Assim, quando anteontem lhe disse que o dia de ontem era dedicado ao artigo, n\u00e3o cuidei que o prazo ficava encurtado. Da\u00ed esta conseq\u00fc\u00eancia: fiz o borr\u00e3o apenas, resta-me copi\u00e1-lo e rev\u00ea-lo. \u00c9 o que vou fazer e se o equ\u00edvoco foi meu, releve-mo. Creia no \/ Velho am.\u00ba e admor.\/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[38] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 24 mar.1896] Meu caro Nabuco. \/ Nenhum de n\u00f3s esqueceu ainda, nem esquecer\u00e1 aquela senhora gentil\u00edssima, D. Marianinha Teixeira Leite Cintra da Silva, esposa do meu amigo Joaquim Ars\u00eanio Cintra da Silva, morta no esplendor da mocidade, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o muitos anos. Voc\u00ea escreveu sobre ela, ent\u00e3o enferma, algumas palavras de como\u00e7\u00e3o de verdade e de poesia, na cr\u00f4nica do J. do Com\u00e9rcio, de 21de agosto de 1881. Joaquim Ars\u00eanio, querendo que no t\u00famulo da esposa se gravasse condigno epit\u00e1fio, colheu algumas das suas palavras e f\u00ea-las inscrever nesta disposi\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00c0 esposa extremosa, arrebatada na plenitude da vida, como os anjos da b\u00edblia, nas vestes, deslumbrantes que mal tocavam a terra&#8230; saudades eterna!&#8221; \/ Deu-me uma fotografia do monumento e pediu-me que lhe comunicasse esta not\u00edcia a Voc\u00ea; mas n\u00e3o nos tendo encontrado h\u00e1 muitos dias, dou-lho aqui por carta, e nesta mesma data o anuncio a Joaquim Ars\u00eanio, segundo hav\u00edamos combinado. Adeus, meu caro Nabuco. \/ Saudades do Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[39] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 10 ago. 1896.] Meu caro Dr. Rodrigo Ot\u00e1vio. \/ Acabo de saber que V. foi nomeado para substituir o Dr.<\/p>\n<p>Amaro Cavalcanti na mesa examinadora de candidatos ao lugar de c\u00f4nsul e de chanceler, amanh\u00e3. Um desses candidatos \u00e9 o meu am.\u00ba Sr. Rodrigo Pereira Fel\u00edcio para o qual pe\u00e7o a sua indulg\u00eancia em tudo o que n\u00e3o for contr\u00e1rio \u00e0 justi\u00e7a, &#8211; o que ali\u00e1s \u00e9 in\u00fatil, sabendo que o seu esp\u00edrito \u00e9 reto e moderado. O Sr. Rodrigo Fel\u00edcio, conquanto j\u00e1 exercesse o lugar de chanceler, \u00e9 a primeira vez creio eu, que se apresenta em concurso, e a timidez pode prejudicar a habilidade. \/ Creia-me sempre \/ Velho am.\u00ba e ad.or\/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[40] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 9 fev. 1897.] Meu caro Salvador. \/ Aqui est\u00e1 uma carta que vai duas vezes retardada; mas como acerta de levar uma not\u00edcia agrad\u00e1vel aos teus antigos, como que me desculpar\u00e1s a demora das suas outras partes. A not\u00edcia \u00e9 que foste, como de justi\u00e7a, eleito pela Academia Brasileira de Letras, que aqui fundou o nosso L\u00facio. Poucos creram a princ\u00edpio que a obra fosse a cabo; mas sabes como o L\u00facio \u00e9 tenaz, e a coisa fez-se. A sua amizade cabalou em favor da minha presid\u00eancia. Resta agora que n\u00e3o esmore\u00e7amos, e que o Congresso fa\u00e7a alguma [coisa] pela institui\u00e7\u00e3o. C\u00e1 est\u00e1s entre n\u00f3s. O L\u00facio te dir\u00e1 (al\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o oficial que tens de receber) que cada cadeira, por proposta de Nabuco, tem um patrono, um dos grandes mortos da literatura nacional. \/ Era pelas festas do Ano-Bom que eu queria escrever-te, desejando-te a ti e aos teus um ano de dias felizes. Espero que sim, e tamb\u00e9m que a nossa amizade (a nossa velha amizade) fique no que \u00e9 e foi, apesar da dist\u00e2ncia que nos separa h\u00e1 muito. Os anos, meu caro Salvador, v\u00e3o caindo sobre mim, que lhes resisto ainda um pouco, mas o meu organismo ter\u00e1 de vergar totalmente; e as letras, tamb\u00e9m elas me cansar\u00e3o um dia, ou se cansar\u00e3o de mim, e ficarei \u00e0 margem. \/ Deixa-me agradecer-te cordialmente o mimo que me fizeste com o livro A House Boat on lhe Styx, obra realmente humor\u00edstica e bem composta. Na dedicat\u00f3ria do exemplar lembras-te dos Deuses de Casaca. Les Dieux s&#8217;en vont, meu querido. Os tais acabaram trocando a casaca pelo sud\u00e1rio e foram-se com os tempos. Bons tempos que eram! Todos rapazes, todos divinos, mofando da gentelha humana; ai tempos! \/ Adeus, meu Salvador. Quando puderes, escreve-me. J\u00e1 te agradeci o \u00faltimo retrato, que c\u00e1 est\u00e1 na minha sala, com a cabe\u00e7a encostada na m\u00e3o; eu quisera mandar-te o meu \u00faltimo, mas n\u00e3o sei onde me puseram os exemplares dele. Se os achar a tempo, meterei um aqui; se n\u00e3o, ir\u00e1 depois. Meus respeitos a Mrs. Mendon\u00e7a, a quem minha mulher tamb\u00e9m se recomenda, e lembran\u00e7as a todos os teus. Adeus, e n\u00e3o te esque\u00e7as do \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[41] AO DR. A. COELHO RODRIGUES<\/p>\n<p>[RJ, 7 mar. 1897.] Exmo. Sr. Dr. A. Coelho Rodrigues. \/ Tenho a honra de comunicar a E. Ex.\u00aa que a quantia de 100$000, a mim entregue por V. Ex.\u00aa para as despesas da Academia Brasileira de Letras, foi por mim transmitida ao Sr. Ingl\u00eas de Sousa, tesoureiro da Academia, em sess\u00e3o da Diretoria desta. A Diretoria incumbiu-me de agradecer a valiosa oferta. Tendolhe lido a carta de 17 de janeiro, nada lhe disse do meu pr\u00f3prio sentimento acerca do autor verdadeiro da doa\u00e7\u00e3o, que V. Ex.\u00aa declara ser pessoa que quer ficar oculta, mas \u00e9 mui prov\u00e1vel que todos participem da minha suspeita de que a pessoa \u00e9 V. Ex.\u00aa cujo ato generoso fica assim real\u00e7ado pela mod\u00e9stia. Para si ou para outrem receba V. Ex.\u00aa os agradecimentos da Academia, com os protestos de respeito e estima com que sou \/ De V.<\/p>\n<p>Ex.\u00aa Am.\u00ba at.\u00ba e adm.or \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[42] A BELMIRO BRAGA<\/p>\n<p>[RJ, 22 jun. 1897.] Prezado senhor e amigo. \/ Muito me comoveu a carta que me enviou, datada de ontem , cumprimentando-me pelo meu anivers\u00e1rio natal\u00edcio, e assim tamb\u00e9m a prova de afei\u00e7\u00e3o que me deu enviando-me o seu retrato. Este fica entre os dos amigos que a vida nos depara, e aquela entre os manuscritos dignos de recorda\u00e7\u00e3o. Agrade\u00e7o-lhe os votos que faz pela minha vida e felicidade, e subscrevo-me com estima e considera\u00e7\u00e3o \/ atento e obrg.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[43] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 1 dez, 1897.] Meu caro Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. \/Recebi anteontem, 29, a sua carta de 27, e s\u00f3 hoje lhe respondo, porque o dia de ontem foi para mim de complica\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00f5es. Estimei ler o que me diz dos bons efeitos de Nova Friburgo. A mim este lugar para onde fui cadav\u00e9rico h\u00e1 uns dezessete anos, e donde sa\u00ed gordo, ce qu&#8217;on appelle gordo, hei de sempre lembrar com saudades. Estou certo que lucrar\u00e1 muito, e todos os seus tamb\u00e9m, e invejolhes a temperatura. Aqui reina o calor; apesar do temporal de ontem, escrevo-lhe calor, \u00e0s sete horas da manh\u00e3. N\u00e3o pense que n\u00e3o compreendo o que me diz do car\u00e1ter da vida da\u00ed. Eu sou um peco fruto da capital, onde nasci, vivo e creio que hei de morrer, n\u00e3o indo ao interior sen\u00e3o por acaso e de rel\u00e2mpago mas, compreendo perfeitamente que prefira um campo a esse misto de ro\u00e7a e de cidade. \/ Tenho ido sempre \u00e0 Revista, onde o nosso Paulo [Tavares] continua a receber com aquela equanimidade e bom humor que fazem dele um excelente companheiro. Somos todos firmes. Do Gra\u00e7a [Aranha] n\u00e3o o h\u00e1 ainda cartas, mas sei pelo sogro que chegou bem. Estive na Revista com o Artur Alvim, que veio da Europa, h\u00e1 dias, e aqui lhe trouxe os agradecimentos da viscondessa de Cavalcante pela sua not\u00edcia; pediu-me que lhos transmitisse e aqui o fa\u00e7o. Parece que a not\u00edcia fez at\u00e9 com que ela recebesse mais prontamente algumas informa\u00e7\u00f5es para o livro. \/ Ontem reunimo-nos onze acad\u00eamicos para a elei\u00e7\u00e3o da diretoria e das comiss\u00f5es; sendo precisos quatorze nessa primeira reuni\u00e3o, nada se fez; convocou-se outra para ter\u00e7a-feira pr\u00f3xima. \/ O Paulo j\u00e1 lhe escreveu que as duas linhas que antecedem os versos do Magalh\u00e3es de Azevedo tragam a minha assinatura. Este escreveu-me anunciando um ensaio a meu respeito no \u00faltimo n\u00famero da Revista Moderna. Sobre a mesma mat\u00e9ria publicou anteontem um livro de S\u00edlvio Romero; vou l\u00ea-lo . Vou ler tamb\u00e9m o n\u00famero de ontem da Revista Brasileira; \u00e9 a mais pontual que temos tido. Adeus meu caro Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, meus respeitos \u00e0 sua Exma Senhora e saudades do velho \/ M. DE ASSIS. 3 de dezembro. N\u00e3o mandei esta carta no dia em que escrevi, por saber do Paulo que viria, hoje; agora sei que s\u00f3 depois de 6, e vou p\u00f4-la no correio. At\u00e9 C\u00e1. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[44] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 1 jan. 1898] Meu querido M\u00e1rio. \/ Obrigado pela sua carta amiga e boa. J\u00e1 h\u00e1 dias tinha not\u00edcia do que ora me sucede; a \u00faltima vez que nos vimos, de passagem, j\u00e1 eu sabia que ia ser adido. Assim, vinha-me acostumando \u00e0 id\u00e9ia e ao fato, e agora que este foi consumado n\u00e3o me resta mais que conformar-me com a fortuna e encarar os acontecimentos com o preciso rosto. A sua carta \u00e9 ainda urna voz de seu pai e foi bom citar-me o exemplo dele; \u00e9 modelo que serve e fortifica. \/ Obrigado pelo seu abra\u00e7o, meu querido M\u00e1rio. \u00c9 a primeira carta que dato deste ano; folgo que lhe seja escrita, e em troca de express\u00f5es t\u00e3o amigas. \/ Creia-me velho Am.\u00ba e obrg.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[45] A LAFAIETE RODRIGUES PEREIRA<\/p>\n<p>[RJ, 19 fev. 1898.] Exmo. Sr. Cans.\u00ba Lafaiete Rodrigdes Pereira. \/ Soube ontem (n\u00e3o direi por quem) que era V. Ex.\u00aa o autor dos artigos assinados Labieno e publicados no Jornal do Com\u00e9rcio de 25 e 30 de janeiro e 7 e 11 do corrente, em refuta\u00e7\u00e3o ao livro a que o Sr. Dr. S\u00edlvio Romero p\u00f4s por t\u00edtulo o meu nome. \/ A espontaneidade da defesa, o calor e a simpatia d\u00e3o maior realce \u00e0 benevol\u00eancia do ju\u00edzo que V. Ex.\u00aa a\u00ed faz a meu respeito. Quanto \u00e0 honra deste, \u00e9 muito, no fim da vida achar em t\u00e3o elevada palavra como a de V. Ex.\u00aa um amparo valioso e s\u00f3lido pela cultura liter\u00e1ria e pela autoridade intelectual e pessoal. Quando comecei a vida, V. Ex.\u00aa vinha da carreira acad\u00eamica; os meus olhos afei\u00e7oaram-se a acompanh\u00e1-lo nesse outro caminho, onde, nem o direito, nem a pol\u00edtica, nem a administra\u00e7\u00e3o, por mais alto que o tenham subido, puderam arranc\u00e1-lo ao labor particular das letras em que ainda agora prima pelo conhecimento exato e profundo. A pessoa que me desvendou o nome de V. Ex.\u00aa pediu-me reserva sobre ele, e assim cumprirei. Sou obrigado, portanto, a calar um segredo que eu quisera p\u00fablico para meu desvanecimento. Queira V. Ex.\u00aa aceitar os meus mais cordiais agradecimentos, e dispor de quem \u00e9 \/ De V. Ex.\u00aa \/ Muito adm.or e obr.o patr\u00edcio \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[46] A RUI BARBOSA<\/p>\n<p>[RJ, 3 out. 1898.] Exmo. Sr. Dr. Rui Barbosa. \/ Tendo recebido a carta de V. Ex.\u00aa de 1 do corrente, relativa ao seu n\u00e3o comparecimento \u00e0 sess\u00e3o da Academia Brasileira de Letras, para a elei\u00e7\u00e3o de um membro que preencha a vaga deixada pelo Conselheiro Pereira da Silva, dei conhecimento dela aos acad\u00eamicos reunidos. \/ Segundo V. Ex.\u00aa previa, o voto por carta n\u00e3o podia ser admitido, mas as palavras que V. Ex.\u00ba nessa hip\u00f3tese escreveu, afirmando a sua homenagem ao merecimento do Bar\u00e3o do Rio Branco , foram devidamente apreciadas pela assembl\u00e9ia e v\u00e3o ser comunicadas \u00e0quele eminente brasileiro, que se desvanecer\u00e1 de as ter merecido de t\u00e3o alto esp\u00edrito. Como V. Ex.\u00aa saber\u00e1 a esta hora, o Bar\u00e3o do Rio Branco foi eleito por unanimidade. Sou, com a maior considera\u00e7\u00e3o e apre\u00e7o.<\/p>\n<p>\/ De V. Ex.\u00aa \/ ad.or col.\u00aa e obr.\u00ba MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[47] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 18 nov. 1898.] Meu caro Jos\u00e9 VER\u00cdSSIMO \/ Esta carta, al\u00e9m do que lhe \u00e9 pessoal, vale por urna circular aos amigos da Revista, a quem n\u00e3o vejo h\u00e1 mais de dois anos ou quarenta e oito horas.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel que me suceda hoje a mesma coisa, pe\u00e7o-lhe a fineza de dividir com eles as saudades que v\u00e3o inclusas, mas o papel n\u00e3o d\u00e1 para todas. \/ Pe\u00e7o-lhe mais que me diga: \/ 1.\u00ba, Se o nosso Gra\u00e7a Aranha j\u00e1 falou ao Ministro do Interior, e se podemos contar com o sal\u00e3o no dia 30; \/ 2.\u00ba, Se j\u00e1 est\u00e1 completa a lista come\u00e7ada por ele para a distribui\u00e7\u00e3o dos convites; \/ 3.\u00ba, Se o Ingl\u00eas de Sousa a\u00ed esteve para tratar dos cart\u00f5es, segundo hav\u00edamos combinado; \/ 4.\u00ba, Se o Jo\u00e3o Ribeiro est\u00e1 disposto a ser apresentado ao Presidente da Rep\u00fablica em qualquer dia que, para isso, nos seja fixado; \/ 5.\u00ba, Se tenho provas da not\u00edcia bibliogr\u00e1fica sobre as Procel\u00e1rias; \/ 6.\u00ba, Corno v\u00e3o o ch\u00e1 e o Paulo. Quisera ir pessoalmente, mas \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o possa. O tempo voa e o dia 30 est\u00e1 a pingar. Receba um abra\u00e7o do \/ Velho admor. e am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[48] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 28 nov. 1898.] Meu caro Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. \/ Escrevi s\u00e1bado ao nosso Paulo dizendo que l\u00e1 iria , se pudesse , mas sa\u00ed depois das 6 horas da tarde. N\u00e3o sei se poderei ir hoje; creio que n\u00e3o, mas caso saia a tempo, correrei \u00e0 Revista. Entretanto, direi desde j\u00e1 que na data em que nos achamos \u00e9 imposs\u00edvel fazer a recep\u00e7\u00e3o na Academia a 30. Vou adi\u00e1-la, mas quisera que me dissesse, visto que tem de recebe, o Jo\u00e3o [Ribeiro], que data lhe \u00e9 mais c\u00f4moda, dando margem \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do novo eleito ao, Presidente impress\u00e3o de cart\u00f5es, distribui\u00e7\u00e3o etc.: 15 de dezembro? Vinte? V\u00e1 desculpando a letra e a ma\u00e7ada, respondame, abrace-me de longe, por si e pelos amigos e creia no \/ Velho e saudoso am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.\/ P. S. \u2014 O portador espera.<\/p>\n<p>[49] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 3 dez. 1898.] Vig\u00e9sima quinta aos Cor\u00edntios. \/ A minha id\u00e9ia era l\u00e1 dar um pulo agora, mas n\u00e3o posso, e provavelmente n\u00e3o poderei faz\u00ea-lo hoje. \/ O objeto da ida e da carta \u00e9 dizer ao nosso Jo\u00e3o Ribeiro que, segundo me comunicou ontem o Dr. Cockrane, o Presidente da Rep\u00fablica receber-nos-\u00e1 no dia 6, ao meio- dia. \/ Pe\u00e7o o favor de ser isto comunicado ao dito Jo\u00e3o Ribeiro, se ai estiver, dia 6 e o favor ainda maior de informar-me aonde poderei escrever-lhe. O dia 6 \u00e9 ter\u00e7a-feira; cumpre-nos estar a postos. Como sabem, j\u00e1 estive com o Epit\u00e1cio, por apresenta\u00e7\u00e3o do Rodrigo Ot\u00e1vio. Adeus e at\u00e9 breve. \/ Velho am.\u00ba\/ M.<\/p>\n<p>DE ASSIS.<\/p>\n<p>[50] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 15 dez. 1898.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Escrevo-lhe a tempo de suprir a visita pessoal, caso n\u00e3o possa ir agradecer-lhe as suas boas palavras de amigo no \u00faltimo n\u00famero da Revista. N\u00e3o quero encontr\u00e1-lo s\u00e1bado, \u00e0 noite, sem lhe ter dado ao menos um abra\u00e7o de longe. Aqui vai ele, pela cr\u00edtica do meu velho livro e pelo mais que disse do velho autor dele. O que Voc\u00ea chama a minha segunda maneira naturalmente me \u00e9 mais aceita e cabal que a anterior, mas e doce achar quem se lembre desta, quem a penetre e desculpe, e at\u00e9 chegue a catar nela algumas ra\u00edzes dos meus arbustos de hoje, Adeus meu caro Ver\u00edssimo. \u00c0 vista o resto, e creia-me sempre o velho am. \u00ba e admor.\/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[51] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 31 dez. 1898.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Aceito muito agradecido os abra\u00e7os de fim de ano, aqui os devolvo com igual cordialidade, pedindo-lhe tamb\u00e9m que apresente \u00e0 sua senhora as minhas respeitosas felicita\u00e7\u00f5es. Quanto \u00e0 Revista, era ontem dia marcado e hoje tamb\u00e9m, mas ontem os destinos o n\u00e3o quiseram, estive doente e recolhi-me logo. Hoje estou aqui preso pelo trabalho. Mas, assim como os pilhei de assalto um dia, assim os pilharei outro. \/ Sobre a \u00e1gua falei anteontem ao Floresta de Miranda, que tomou nota de tudo e ficou de providenciar logo. Vejo que n\u00e3o fez nada. Vou escrever-lhe agora, n\u00e3o sei se com melhor fortuna, mas com igual obstina\u00e7\u00e3o. \/ Como vai o Paulo? E o Gra\u00e7a? e os outros? Como vai o ruisseau de Ia rue du Bac, como diria Madame St\u00e3el At\u00e9 breve. Amanh\u00e3 come\u00e7o a l\u00ea-lo na Gazeta; vamos ter uma longa e bela p\u00e1gina. Devia riscar a pen\u00faltima palavra, mas o expediente est\u00e1 chegando. At\u00e9 breve, e adeus. \/ Meu velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[52] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 16 JAN. 1899.] Meu caro Ver\u00edssimo.\/ Antes de tudo, \u00e1gua. Deus lhe d\u00ea \u00e1gua, e a floresta, seu profeta tamb\u00e9m. Novamente escrevi e falei a este. O mais que alcancei \u00e9 que as obras necess\u00e1rias dar\u00e3o o mesmo mal a outros, e assim o rem\u00e9dio alcancei eu profeta, tamb\u00e9m. Novamente escrevi e falei a este. o mais que alcancei \u00e9 que as obras necess\u00e1rias dar\u00e3o o mesmo mal a outros, e assim o rem\u00e9dio ser\u00e1 que Voc\u00ea tenha coisa maior para dep\u00f3sito. N\u00e3o sei se ser\u00e1 realmente assim. Voc\u00ea diga-me o que pode ser. \/ Sobre a nomea\u00e7\u00e3o recaiu em outro que n\u00e3o o seu candidato. O nomeado tem perto de 40 anos de servi\u00e7o e come\u00e7ou em carteiro, e com tais qualidades que levaram o Vit\u00f3rio a prop\u00f4-lo e o ministro a adot\u00e1-lo. \/ Escrevo ao Paulo sobre a aposenta\u00e7\u00e3o do pai. Pe\u00e7o a Voc\u00ea que inste com ele para fazer uma reuni\u00e3o pr\u00f3xima da Academia. Quero ver se escrevo tamb\u00e9m ao Rodrigo Ot\u00e1vio, e h\u00e1 dias falei ao Nabuco. \/ N\u00e3o sei se ainda vivo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vive e bem. N\u00e3o posso voltar-me para nenhum lado que o n\u00e3o veja impresso. Onde \u00e9 que Voc\u00ea acha tanta for\u00e7a para acudir a tanta coisa? Saudades ao Gra\u00e7a e a todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o v\u00e1 a aus\u00eancia fazer esquecer o \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[53] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 6 fev. 1899.] Caro Ver\u00edssimo. \/ C\u00e1 vi hoje a men\u00e7\u00e3o honrosa que me fez, e mando-lhe o troco do meu cordial aplauso ao artigo. Eu no fava que o Jornal do Com\u00e9rcio nada dissesse, estando Voc\u00ea l\u00e1, mas tanto melhor se guardou para dizer melhor que todos. O nosso Gra\u00e7a j\u00e1 me havia descoberto s\u00e1bado, e assim o disse com aquela expans\u00e3o amorosa que lhe conhecemos [&#8230;..].<\/p>\n<p>[54] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 13 fev. 1899.] Caro Nabuco. \/ Respondo \u00e0 sua carta. Pensei na sucess\u00e3o do Taunay logo depois que o tempo afrouxou a m\u00e1goa da perda do nosso querido amigo. A vida que levo, entregue pela maior parte \u00e0 administra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me permitiu conversar com os amigos da Revista mais que duas vezes, mas logo achei a candidatura prov\u00e1vel do Arinos, e dei-lhe o meu voto; o Gra\u00e7a Aranha e o Ver\u00edssimo a promovem , e j\u00e1 h\u00e1 por ela alguns votos certos, ao que me disseram. Assim fiquei aliado, antes que V. me lembrasse o nome do Const\u00e2ncio Alves. Tamb\u00e9m ouvi falar do Assis Brasil, mas sem a mesma insist\u00eancia. \/ Adeus, caro Nabuco, at\u00e9 \u00e0 primeira, que n\u00e3o sei quando ser\u00e1, mas n\u00e3o deve ser muito tarde. Em todo caso n\u00e3o esque\u00e7a o velho am.\u00ba e admor. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[55] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 25 fev. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ E \u00e1gua? Como vamos de \u00e1gua? Depois da nossa \u00faltima conversa, esteve comigo o Floresta que, em resposta \u00e0 minha carta, trouxe uma nota, que aqui lhe mando inclusa. Disse-lhe que isto sab\u00edamos n\u00f3s, mais ou menos, e novamente lhe recomendei que abrisse as cataratas do c\u00e9u; n\u00e3o sei se o fez, n\u00e3o tenho carta de um lado nem de outro. \/ Diga-me agora o que h\u00e1 mais sobre as candidaturas da Academia? Teve resposta de S. Paulo? O Nabuco falou-me, por carta , na candidatura do Const\u00e2ncio Alves. Respondi-lhe com o que j\u00e1 hav\u00edamos conversado na Revista, e o acordo em que est\u00e1vamos alguns acerca do Arinos. Ouvi que tamb\u00e9m o Francisco de Castro pensa na vaga. Todas estas perguntas s\u00e3o de pessoa que n\u00e3o pode aparecer e vive aqui entre of\u00edcios e requerimentos. Como v\u00e3o os amigos? Diga ao Paulo que estou \u00e0 espera do que ele ficou de me dizer relativamente ao Pai. Logo que Possa, apare\u00e7o. At\u00e9 breve. Se desse c\u00e1 um pulo? Em troca, tome l\u00e1 um abra\u00e7o e adeus. \/ Velho am.\u00ba M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[56] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 10 mar. 1899.] Caro Nabuco. \/ Vai em carta o que n\u00e3o lhe posso dizer j\u00e1 de viva voz mas eu tenho pressa em comunicar-lhe, ainda que brevemente, o prazer que me deu a not\u00edcia de ontem no J. do Com\u00e9rcio. \/ N\u00e3o podia ser melhor. Vi que o governo, sem curar de incompatibilidades pol\u00edticas, pediu a V. o seu talento, n\u00e3o a sua opini\u00e3o, com o fim de aplicar em benef\u00edcio do Brasil a capacidade de um homem que os acontecimentos de h\u00e1 dez anos levaram a servir a p\u00e1tria no sil\u00eancio do gabinete. Tanto melhor para um e para outro. \/ Agora, um pouco da nossa casa. A Academia n\u00e3o perde o seu orador, cujo lugar fica naturalmente esperando por ele; algu\u00e9m dir\u00e1, sempre que for indispens\u00e1vel. o que caberia a V. dizer, mas a cadeira \u00e9 naturalmente sua. E por maior que seja a sua falta, e mais vivas as saudades da Academia, folgaremos em ver que o defensor de nossos direitos ante a Inglaterra \u00e9 o conservador da nossa eloq\u00fc\u00eancia ante seus pares. A minha id\u00e9ia secreta era que quando o Rio Branco viesse ao Brasil, fosse recebido por V. na Academia. Fa\u00e7am os dois por virem juntos, e a id\u00e9ia ser\u00e1 cumprida, se eu ainda for presidente. N\u00e3o quero dizer se ainda viver, posto que na minha idade e com o organismo, cada ano vale por tr\u00eas. \/ Adeus, meu caro Nabuco, at\u00e9 \u00e0 vista, e, desde j\u00e1, um abra\u00e7o cordial. \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[57] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 10 abr. 1899.] Caro amigo J. Ver\u00edssimo. \/ Uma antedata salva tudo, mas nem a consci\u00eancia nem o Gra\u00e7a Aranha deixariam mentir, e eu prefiro confessar a minha triste mem\u00f3ria de velho.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o \u00e9 que deixei passar o dia 8 de abril, sem l\u00e1 mandar duas linhas de sauda\u00e7\u00e3o, ou dar um pulo \u00e0 Revista? Foi o Gra\u00e7a que me lembrou hoje aquele dia, e aqui lhe mando as sauda\u00e7\u00f5es da amizade. Que os repita muitos e fortes, \u00e9 o que desejam todos os seus amigos e admiradores. \/ Voc\u00ea \u00e9 que, apesar de tudo, lembrou-se de mim, com aquela boa vontade que sempre lhe achei. C\u00e1 li a refer\u00eancia no Jornal de hoje, e daqui lhe mando um aperto de m\u00e3o, com as velhas saudades do \/ Am.\u00ba velho \/ M. DE ASSIS. P. S. &#8212; Lembran\u00e7as a todos.<\/p>\n<p>[58] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 25 abr. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ \u00c0s pressas. Ent\u00e3o janta-se na Revista e eu n\u00e3o sei de nada, a n\u00e3o ser que o meu dedo mindinho, e talvez tamb\u00e9m o Rodrigo Ot\u00e1vio, me hajam feito suspeitar alguma coisa? Saiba, meu caro amigo, que para despedir-me de peda\u00e7os t\u00e3o caros estou sempre livre, \u00e9 s\u00f3 mandar-me dizer o dia, hora, lugar e o resto. Creio que n\u00e3o \u00e9 preciso por mais na carta, a n\u00e3o ser um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[59] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 10 jun. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ N\u00e3o h\u00e1 defeito que n\u00e3o ache explica\u00e7\u00e3o ou desculpa na boa amizade. Tal sucede aos meus velhos Contos Fluminenses, cuja not\u00edcia liter\u00e1ria li hoje no Jornal do Com\u00e9rcio. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer com que prazer a li, nem com que cordialidade a agrade\u00e7o, e se devo crer que nem tudo \u00e9 boa vontade, tanto melhor para o autor, que tem duas vezes a idade do livro; digo duas para n\u00e3o confessar tudo. J\u00e1 tr\u00eas pessoas me falaram do seu artigo; falaremos sobre isto. Agora, adeus; at\u00e9 amanh\u00e3, se houver sess\u00e3o ou sem sess\u00e3o, se puder soltar-me. Lembran\u00e7as aos amigos, e um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[60] AO DR. ALFREDO ELLIS<\/p>\n<p>[RJ, 10 jun. 1899.] Exmo. Sr. Dr. Alfredo Ellis. \/ Acabo de escrever para Paris ao Sr. H. Garnier, pedindo-lhe que diretamente d\u00ea autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 senhora, de quem V. Ex.\u00aa me fala no seu bilhete, para a tradu\u00e7\u00e3o dos meus livros em alem\u00e3o. A raz\u00e3o disto \u00e9, conforme j\u00e1 disse a V. Ex.\u00aa haver eu transferido \u00e0quele editor a propriedade de todos eles, at\u00e9 agora publicados. \/ Logo que receba a resposta (se ele n\u00e3o puser obje\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o espero) farei entrega dela a V.<\/p>\n<p>Ex.\u00aa para que se sirva dar-lhe o conveniente destino. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[61] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 14 jun. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ A sua carta de anteontem chegou-me tarde. Contava responder ontem, mas soube a tempo que poderia sair cedo, e logo que sa\u00ed fui \u00e0 Revista. J\u00e1 o n\u00e3o achei. Aqui vai pois a resposta, que n\u00e3o \u00e9 mais que a confirma\u00e7\u00e3o do publicado na Gazeta. Voc\u00ea fez bem em lembrar-me o que eu lhe dissera h\u00e1 anos, a respeito das Cenas da Vida Amaz\u00f4nica. Com tal intervalo, a mesma impress\u00e3o deixada mostra que o livro tinha j\u00e1 o que lhe achei outrora. Os que vencem tais provas n\u00e3o s\u00e3o comuns. E outra prova. Trouxe de l\u00e1 a Revista, e li o artigo do Jo\u00e3o Ribeiro. Sem que houv\u00e9ssemos falado, escrevendo ao mesmo tempo, veja V. que \u00eale e eu nos encontramos nos pontos principais; donde se v\u00ea que as belezas que achamos no livro existem de si mesmas, e d\u00e3o igual impress\u00e3o ao mo\u00e7o e ao velho. Tanto Melhor para o velho. \/ H\u00e1 de ter visto que o meu artigo trouxe erros tipogr\u00e1ficos. Par\u00e1 em vez de Per\u00fa, por exemplo. H\u00e1 mais dois ou tr\u00eas; e h\u00e1 tamb\u00e9m um par\u00e1grafo desarticulado, que \u00e9 das coisas que mais me afligem na impress\u00e3o, n\u00e3o pelo aspecto, mas porque me quebra as pernas ao pensamento. O Gustavo da casa Laemmert disse-me que queria transcrever o artigo no Boletim Bibliogr\u00e1fico; disse-lhe que sim, notando-lhe aqueles defeitos, ficou de me dar provas.<\/p>\n<p>Vou emendar um exemplar da Gazeta e mandar-lho. \/ At\u00e9 \u00e0 primeira. Abra\u00e7os aos amigos. Logo que possa, dou l\u00e1 um pulo. E a Academia? Se n\u00e3o a fizermos falar, quem falar\u00e1 dela? H\u00e1 poucos dias, conversei ainda uma vez com o Rodrigo Ot\u00e1vio. Vou dar um impulso novo escrevendo aos colegas que a\u00ed n\u00e3o v\u00e3o habitualmente. Adeus. \/ O Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[62] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 16 jun. 1899.] Am.\u00ba e Colega Rodrigo Ot\u00e1vio, \/ Resolvi fazermos uma sess\u00e3o na Revista, ter\u00e7a-feira, 21, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde, e pe\u00e7o-lhe que nesse sentido mande uma noticiazinha para os jornais. A Academia n\u00e3o pode continuar a esperar casa, j\u00e1 nos reunimos mais de uma vez na Revista; f\u00e1-lo-emos ainda, at\u00e9 que nos d\u00eaem algum abrigo definitivo. Recomendo-lhe muito que n\u00e3o esque\u00e7a, e dispunha do seu \/ Colega e am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[63] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 16 jun. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Agora falo s\u00f3 da Academia. Resolvi convocar uma sess\u00e3o para ter\u00e7a-feira pr\u00f3xima, 21, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde, na sala da Revista. Voc\u00ea concordou em continuar a alojar a Academia, e n\u00e3o vejo outro recurso depois do que me disse o Rodrigo Ot\u00e1vio. Vou escrever a este para mandar a not\u00edcia, e entender-me-ei com o Ministro para que me dispense o tempo necess\u00e1rio. Se n\u00e3o houver inconveniente, o seu sil\u00eancio servir\u00e1 de resposta. Abra\u00e7os a todos, e para si tamb\u00e9m do \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS. P. S. &#8212; E o nosso pobre Gra\u00e7a? [64] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A [RJ. 16 Jun. 1899.] Caro L\u00facio. \/ Depois de algumas dilig\u00eancias que recomendei ao Rodrigo Ot\u00e1vio relativamente \u00e0 sala da Biblioteca Fluminense, para celebrarmos a pr\u00f3xima sess\u00e3o da nossa Academia, resolvi que nos reun\u00edssemos na Revista Brasileira. Falei ao Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, e s\u00f3 me falia marcar o dia. Parece-me que pode ser ter\u00e7a-feira, 21, \u00e0s 3 horas da tarde. \/ Trata-se de abrir prazo para preenchimento da vaga do Taunay. Al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o, h\u00e1 conveni\u00eancia de completar-nos, porque ficamos muito desfalcados com a partida do Gra\u00e7a e do Nabuco, e a mudan\u00e7a do Silva Ramos para Petr\u00f3polis. Conto com V., que \u00e9 o pai da Academia, e espero que n\u00e3o falte. Adeus, meu caro L\u00facio, receba mais um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00ba , M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[65] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 20 jun. 1899.] Meu caro J. VER\u00cdSSIMO \/ Quase certo ou certo de n\u00e3o poder ir pessoalmente l\u00e1, vou por este bilhete que n\u00e3o exige resposta. Visitei domingo o Francisco de Castro, a quem falei na candidatura, acabando por obter que se apresentar\u00e1 oficialmente, logo que o avise.<\/p>\n<p>Hoje estive com o Rodrigo Ot\u00e1vio, a quem disse que aceitava a id\u00e9ia de fazer na mesma sess\u00e3o a elei\u00e7\u00e3o da mesa e a do novo acad\u00eamico. Disse-me que tem os cart\u00f5es-postais prontos, e combinamos que dez dias antes de 10 de agosto fosse a sess\u00e3o anunciada.<\/p>\n<p>Resta a casa ou antes a sala para este fim imediato; ele quer ver ainda se obt\u00e9m a Biblioteca Fluminense, e vai ter com o Jos\u00e9 Carlos [Rodrigues]. Tamb\u00e9m falamos sobre o lugar de Secret\u00e1rio Geral. \/ Quero ver se dou com o Rui na elei\u00e7\u00e3o do acad\u00eamico. \/ Disselhe acima que a carta n\u00e3o tem resposta, mas \u00e9 s\u00f3 para lhe poupar fadigas. D\u00ea-me os seus conselhos, ou, pelo menos, as suas not\u00edcias e lembran\u00e7as. Adeus; recomende-me aos companheiros, e distribua as saudades que aqui lhe manda \/ o velho am.\u00ba M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[66] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 6 jul. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo.\/ Muito obrigado pela lembran\u00e7a;: \u00e9 Wallon justamente. Hoje, se puder, darei ainda um pulo \u00e0 Revista. At\u00e9 logo ou at\u00e9 um dia. \/ Seu velho \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[67] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 31 jul. 1899.] N\u00e3o \u00e9 preciso lembrar-lhe o aviso para a sess\u00e3o de 10 de agosto, mas desculpe-me se estou ansioso por saber da casa. J\u00e1 alcan\u00e7ou ou alguma cousa do Jos\u00e9 Carlos acerca da Biblioteca Fluminense? J\u00e1 temos a apresenta\u00e7\u00e3o do Francisco de Castro. Avise-me do que h\u00e1 ou diga-me a hora em que posso procur\u00e1-lo. \/ At\u00e9 breve \/ Sempre ad.or e velho am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[68] A VALENTIM MAGALH\u00c3ES<\/p>\n<p>[RJ, 4 ago. 1899.] Meu caro Valentim Magalh\u00f5es. \/ A melhor resposta \u00e0 sua carta de ontem est\u00e1 nela mesma. A Academia Brasileira de Letras n\u00e3o tem ainda casa pr\u00f3pria, vive de empr\u00e9stimo. onde quer que algu\u00e9m, por amor ou favor, consente abrig\u00e1-la durante algumas horas. Que, apesar disso, a Academia teime viver \u00e9 sinal de que traz alguma coisa em si, mas n\u00e3o basta para dar aos nossos h\u00f3spedes argentinos uma festa t\u00e3o completa corno eles merecem. Tal \u00e9 o meu parecer; e n\u00e3o ponho aqui a escassez do tempo necess\u00e1rio \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do programa e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o dele na rela\u00e7\u00e3o das outras festas p\u00fablicas, sen\u00e3o para mostrar que a sua bela e justa id\u00e9ia precisaria mais que estes poucos dias \u00faltimos. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[69] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 7 ago. 1899.] Meu caro Rodrigo Ot\u00e1vio. \/ Vou lembrar-lhe a expedi\u00e7\u00e3o dos avisos e a not\u00edcia sobre a sess\u00e3o da Academia. O Jos\u00e9 Avelino esteve aqui, anteontem, e, perguntando-me em conversa se o Francisco de Castro apresentara-se candidato, disse-lhe que sim; ao que retorquiu que n\u00e3o se apresentaria, fazendo boas refer\u00eancias ao outro. \/ Estive hoje com o Ces\u00e1rio Alvim, na Prefeitura, aonde fui falar do Pedagogium. Depois lhe direi o resto. O tempo urge. \/ Seu am.\u00ba e colega. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[70] A JOS\u00c9 VERISSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 18 set.1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Deixe-me ainda uma vez apertar-lhe gostosamente a m\u00e3o pela sua boa vontade e simpatia. C\u00e1 o Li e reli hoje e guardo com as anima\u00e7\u00f5es do amigo as indica\u00e7\u00f5es do juiz competente. Sobre estas j\u00e1 conversamos. Quanto ao livro de teatro, basta s\u00f3 lazer e oportunidade, al\u00e9m da aquiesc\u00eancia do editor. Para o cr\u00edtico n\u00e3o sei se h\u00e1 mat\u00e9ria suficiente nos trabalhos de alguns anos; se juntasse os de muitos anos atr\u00e1s, creio que daria um volume, mas compensariam esses a busca? A pr\u00f3pria busca, n\u00e3o sendo imposs\u00edvel, n\u00e3o seria f\u00e1cil. Enfim, veremos. Mais f\u00e1cil que isso seriam talvez as mem\u00f3rias. Concordo com o reparo acerca da frase do Tu s\u00f3 tu, puro amor&#8230;, tanto mais que, ao escreve-la, senti alguma estranheza, a n\u00e3o ser que a sua cr\u00edtica t\u00e3o sugestiva mo fa\u00e7a cr\u00ea-lo agora , Adeus, at\u00e9 breve: se puder ser, hoje mesmo. Escrevo entre duas pastas, e v\u00e1rios pretendentes que desejam saber dos seus neg\u00f3cios. Desculpe a letra e o desalinho. Provavelmente teremos esta semana algumas ocasi\u00f5es de estar juntos. At\u00e9 logo ou at\u00e9 breve. Sempre o mesmo \/ Velho am. \u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[71] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 20 out. 1899.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Pode V. dar uma chegadinha aqui, hoje, ao Gabinete? S\u00f3 lhe pe\u00e7o cinco minutos, se me der dez ou vinte, \u00e9 porque sabe o que eles valem. \/ At\u00e9 logo. \/ Todo seu \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[72] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 31 out. 1899.] Meu caro Nabuco. \/ Sei que V. tem passado bem n\u00e3o menos que o nosso Gra\u00e7a Aranha, e a ambos envio, de c\u00e1, abra\u00e7os e saudades. Ainda n\u00e3o estive com o Caldas Viana, mas sei por pessoas que lhe falaram que ele veio de l\u00e1 com grande pena; tamb\u00e9m eu sentiria a mesma coisa, se houvesse de tornar antes do fim. \/ A vaga deixada por ele ter\u00e1 de ser preenchida naturalmente de acordo com V. ou por proposta sua. Sobre isto tenho indica\u00e7\u00e3o de um mo\u00e7o que desejaria ir e \u00e9 bastante inteligente para corresponder ao que V. lhe confiar: \u00c9 o Lu\u00eds Guimar\u00e3es, filho do Lu\u00eds Guimar\u00e3es J\u00fanior. Est\u00e1 na Gazeta de Not\u00edcias. Veja V. o que pode fazer por ele, e n\u00e3o esque\u00e7a-o \/ Velho am.\u00ba \/ M. ASSIS.<\/p>\n<p>[73] A BELMIRO BRAGA<\/p>\n<p>[RJ, 5 nov. 1899.] Meu caro Sr. Belmiro Braga. \/ Folguei muito com a sua carta, e cordialmente agrade\u00e7o as palavras que me dirige a prop\u00f3sito do livro Vindiciae do Conselheiro Lafaiete. Creio que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 quem ignore a autoria deste, embora ele a n\u00e3o confesse. Eu \u00e9 que confessarei sempre a impress\u00e3o que ele me fez, por dizer o que diz e vir de quem vem. Pelo que me escreve, h\u00e1 a\u00ed tamb\u00e9m quem pense e trabalhe em defender-me. Pe\u00e7o-lhe que, de antem\u00e3o, lhe agrade\u00e7a esta fineza de amigo, caso possa confessar ao Dr. Ant\u00f4nio Fernandes Figueira que me fez t\u00e3o agrad\u00e1vel e preciosa den\u00fancia. Ainda bem que me n\u00e3o faltam amigos distantes, que sintam comigo o bem e o mal. \/ N\u00e3o se esque\u00e7a de mim, e creia-me sempre \/ atento am.\u00ba muito obrig.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[74] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 22 nov. 1899.] Caro am.\u00ba 1.\u00ba Secret\u00e1rio.\/ Temos enfim uma sala no Pedagogium. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nossa; \u00e9 a em que trabalha a Academia de Medicina. O Ces\u00e1rio falou ao presidente desta, que consentiu em receber-nos, e eu fui depois entender-me com ele, e tudo se ajustou. Fui ver a sala, \u00e9 vasta, tem mob\u00edlia e serve bem ao trabalhos. aturalmente, os retratos e bustos que l\u00e1 est\u00e3o s\u00e3o de ossos m\u00e9dicos mas n\u00f3s ainda os n\u00e3o temos de nossa gente, e aqueles, at\u00e9 porque s\u00e3o defuntos, n\u00e3o nos por\u00e3o fora. Entendi-me tamb\u00e9m para obtermos um lugar em que possamos ter mesa e arm\u00e1rio para guarda dos nossos pap\u00e9is e livros. Resta s\u00f3 agora uma ordem escrita do Diretor da Instru\u00e7\u00e3o, Valadares, para que sejamos admitidos ali. Irei busc\u00e1-la, mas desejava primeiro que fosse comigo ver a sala, ou se lhe parecer ir s\u00f3 (por desencontro de horas), fica-lhe livre esse alvitre. S\u00f3 lhe pe\u00e7o que me escreva logo, para n\u00e3o demorar a regulariza\u00e7\u00e3o da posse. Acrescento que a recep\u00e7\u00e3o do Francisco de Castro pode ser feita ali, \u00e0 noite, e para isso h\u00e1 l\u00e1 seis lustres de g\u00e1s incandescente, que far\u00e3o boa figura, sem custar muito. Pe\u00e7o-lhe que refira tudo isto ao nosso Ingl\u00eas de Sousa, se o encontrar antes de mim, e, se ele for ver tamb\u00e9m a sala, tanto melhor. Note que h\u00e1 l\u00e1 outra sala, em que mais tarde poderemos trabalhar como \u00fanicos senhores. No caso de ir ver a sala, observo-lhe que a poria grande est\u00e1 fechada; entra-se por outra cont\u00edgua. \/ Escrevi hoje ao Francisco de Castro, que ficou de responder depois. Domingo estive com ele, e conto l\u00e1 ir no domingo pr\u00f3ximo. Adeus; at\u00e9 breve. \/ Velho am.\u00ba e admirador \/ M. DE ASSIS. P. S. &#8212; J\u00e1 tenho a carta de autoriza\u00e7\u00e3o de posse para o Zararvella, que ficou de vir hoje busc\u00e1-la. \/ 22-11-99. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[75] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 5 jan. 1900.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Recebi a sua carta anteontem \u00e0 noite. Era minha inten\u00e7\u00e3o ir l\u00e1 ontem, mas n\u00e3o pude, e n\u00e3o sei se poderei faz\u00ea-lo hoje; provavelmente n\u00e3o. Dado que sim, a visita aparecer\u00e1 atr\u00e1s da carta, mas para o caso de falhar a primeira, aqui vai a segunda. \u00c9 curta, porque o gabinete est\u00e1 cheio de gente e a mesa de papel. Agrade\u00e7olhe as suas boas palavras amigas. Quanto ao s\u00e9culo, os m\u00e9dicos que est\u00e3o presentes ao parto reconhecem que este \u00e9 dif\u00edcil, crendo uns que o que aparece \u00e9 a cabe\u00e7a do XX, e outros que s\u00e3o os p\u00e9s do XIX. Eu sou pela cabe\u00e7a, como sabe. \/ Sobre a minha verte vieillesse, n\u00e3o sei se ainda \u00e9 verde, mas velhice \u00e9, a dos anos e a do, enfado, cansa\u00e7o ou o que quer que seja que n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 mocidade primeira nem segunda. Vamos indo. Adeus, meu caro amigo; um ano mais n\u00e3o \u00e9 p\u00e9tala de rosa dos a pedidos dos jornais; para n\u00f3s \u00e9 uma pedra nova ao edif\u00edcio da amizade e da estima. N\u00e3o digo isto alto para n\u00e3o vermos as p\u00e9talas dos jornais substitu\u00eddas por pedras. At\u00e9 logo, ou at\u00e9 breve. Minha mulher agradece-lhe os seus cumprimentos, e eu pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos \u00e0 sua Senhora. Receba um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00ba e admor. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[76] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 8 jan.900.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Sainte-Beuve qui pleure un autre Sainte-Beuve. (Ars\u00e8ne Houssaye). \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[77] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 1 fev. 1900.] Meu caro Ver\u00edssimo.\/ Anteontem sa\u00ed daqui doente, antes da hora, e ontem n\u00e3o me foi poss\u00edvel falar ao Severino Vieiral]. Disseram-me que ele vinha hoje, mas at\u00e9 agora n\u00e3o apareceu. Se n\u00e3o vier, irei eu \u00e0 casa dele Releve-me a demora e creia no \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS [78] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO [RJ, 1 fev. 1900.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Obrigado pelo seu cuidado, mas como \u00e9 que soube que estive doente? As m\u00e1s not\u00edcias voam. Venhamos ao mais interessante. Aqui esteve e est\u00e1 o Dr.<\/p>\n<p>Severino. Disse-me que (em resumo) falara ao Epit\u00e1cio ontem. Soube dele que n\u00e3o tinha candidato seu, e que o Presidente, a primeira vez que falaram disso, n\u00e3o tinha nenhum e aceitava o que o Ministro lhe apresentasse. Posteriormente, estando juntos, disse-lhe o Presidente que tinha um candidato, sem lhe dizer quem era, e o Epit\u00e1cio est\u00e1 esperando a indica\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 Voc\u00ea? \u00c9 a pergunta que me fez o Severino e a que eu lhe fa\u00e7o, sem nada podermos decidir. Em todo caso, tal \u00e9 o estado do neg\u00f3cio; resta ir pela via conhecida. Desculpe-me n\u00e3o ser mais extenso. At\u00e9 a primeira; lembran\u00e7as ao Paulo. \/ O velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[79] A BELMIRO BRAGA<\/p>\n<p>[RJ, 26 fev. 1900.] Prezado senhor e amigo. \/ Chamo-lhe amigo, e pe\u00e7o para conservar este nome a pessoa que mostra querer-me tanto. O Ant\u00f4nio Sales, a quem escrevo, ter-lhe-\u00e1 anunciado esta carta, se receber a sua antes, mas eu espero que o correio me fa\u00e7a a fineza de as entregar ambas a um tempo. N\u00e3o houve esquecimento na resposta que ora lhe dou; o adiamento \u00e9 que me fez mal. J\u00e1 n\u00e3o deixo a pena sem agradecer-lhe a fineza de suas palavras. Nem s\u00f3 fineza, mas a cordialidade tamb\u00e9m, e o espont\u00e2neo que as torna ainda mais prezadas. Tamb\u00e9m eu me honrei quando soube que Labieno era o nosso ilustre Lafaiete, esse mineiro que honra a terra de tantos brasileiros eminentes, e \u00e9 venerado entre todos, como merece, por seus talentos naturais e rara Cultura nas letras e na ci\u00eancia. Disse-me na sua carta que o Dr. Ant\u00f4nio Fernandes Figueira tenciona responder ao Sr. S\u00edlvio Romero. Aguardarei mais essa prova de simpatia, e de antem\u00e3o agrade\u00e7o a defesa, igualmente espont\u00e2nea e honrosa, tanto mais que s\u00f3 agora sei que o Sr. Figueira \u00e9 o mesmo Alcides Fl\u00e1vio, da Semana onde colaborei tamb\u00e9m h\u00e1 anos. Queira-me como antes e receba as congratula\u00e7\u00f5es de um trabalhador velho e amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[80] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 19 mar. 1900.] Caro am.\u00ba J. Ver\u00edssimo. \/ Esta carta leva-lhe um grande abra\u00e7o pelo seu artigo de hoje.<\/p>\n<p>Dom Casmurro agradece-lhe comigo a bondade da cr\u00edtica a simp\u00e1tica e o exame comparativo. Voc\u00ea acostumou-nos \u00e0s suas qualidades finas e superiores, mas quando a gente \u00e9 objeto delas melhor as sente e cordialmente agradece. Ao mesmo tempo sentese obrigada a fazer alguma , se os anos e os trabalhos n\u00e3o se opuserem \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caso fosse poss\u00edvel, n\u00e3o seria dos menores efeitos da sua cr\u00edtica de mestre. Adeus, meu caro amigo, obrigado pela Capitu, Bento e o resto. At\u00e9 logo se puder sair a tempo; se n\u00e3o, at\u00e9 amanh\u00e3, que \u00e9 ter\u00e7a-feira, dia de despacho. \/ velho am.\u00ba e admirador M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[81] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 21 mar. 1900.] Meu caro Ver\u00edssimo.\/ Penso que ontem, ao sairmos da\u00ed, esqueceu-me, em cima da mesa do ch\u00e1 o primeiro tomo da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Tolstoi que o Tasso Fragoso me emprestou.<\/p>\n<p>Caso assim seja, pe\u00e7o-lhe o favor de mandar-mo pelo portador. \/ Vai junto um folheto do Tasso que ontem deixei de levar-lhe; pe\u00e7o-lhe tamb\u00e9m que lho d\u00ea, quando a\u00ed for. Eu n\u00e3o sei quando irei. \u00c9 claro que logo que possa, e oxal\u00e1 seja hoje. At\u00e9 sempre. \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS. Em tempo, V\u00e3o juntos o n.\u00ba do Figaro (delicioso Anatole!) e outro do Matin, que estava comigo h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>[82] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 2 jun. 1900.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ N\u00e3o me tem sido poss\u00edvel aparecer, nem sei se hoje sairei a tempo de dar l\u00e1 um pulo. Por isso escrevo, n\u00e3o s\u00f3 para lhe pedir not\u00edcias, como para saber o que [h\u00e1] a respeito do nosso Dom\u00edcio. Pe\u00e7o que lhe pergunte se j\u00e1 posso convidar o L\u00facio. Tamb\u00e9m desejava lembrar a Voc\u00ea o \u00e1lbum da Viscondessa. Quisera ainda falar de multas e muitas cousas, entre outras, a Biblioteca Nacional. Que h\u00e1 da Diretoria? Mandeme uma palavrinha para que eu saiba se n\u00e3o morri. Adeus, at\u00e9 \u00e0 primeira. \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[83] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 4 jun. 1900.] Meu caro Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. \/ Pode ser que eu saia hoje \u00e0s 4 e meia em ponto. Neste caso, e dado que apenas gaste 10 minutos daqui \u00e0 Revista; ach\u00e1-lo-ei? N\u00e3o se constranja na resposta, at\u00e9 porque aquela hora pode falhar; fa\u00e7o-lhe a pergunta, n\u00e3o para que me espere, mas para saber se conta ir mais tarde. At\u00e9 ent\u00e3o ou depois. \/ Velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[84] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 26 jun. 1900.] Meu caro Rodrigo Ot\u00e1vio. \/ Segundo ficou combinado, estive domingo com o [Ernesto] Cibr\u00e3o que ficou de falar ao Visconde de Avelar, presidente do Gabinete Portugu\u00eas de Leitura. Falou e ontem oficiou-me dando conta do resultado. A Diretoria oferece de boa vontade o sal\u00e3o da biblioteca, s\u00f3 espera que lhe comuniquemos o dia. Respondi hoje mesmo ao Cibr\u00e3o agradecendo em nome da Academia. Pela nota que ele me deu em parti (e vai inclusa), o 1.\u00ba Secret\u00e1rio do Gabinete \u00e9 o Sr. Raul F. P. de Carvalho, Rua 1.\u00ba de Mar\u00e7o n.\u00ba 30. Os dois secret\u00e1rios poder\u00e3o entender-se sobre o que convier. O resto da Diretoria consta do Almanaque de 1900, Ps. 819, para os convites, e, quanto ao Conselho Deliberativo, o Cibr\u00e3o ficou de remeter hoje a lista. Conv\u00e9m convid\u00e1-los, tanto mais que o Cibr\u00e3o d\u00f3 n\u00famero. \/ Remeto-lhe para os fins convenientes o of\u00edcio do Cibr\u00e3o e da minha resposta. \/ Creio que a nossa sess\u00e3o de expediente ficou para 5. \u00aa feira; n\u00e3o se esque\u00e7a de anunci\u00e1-la. Precisamos de falar antes disso ou no pr\u00f3prio dia: at\u00e9 l\u00e1. Mandeme as suas ordens, Sinto n\u00e3o poder dispor de todas as minhas horas. Fui ontem \u00e0 Revista por alguns minutos.\/ Adeus, disponha do \/ Velho am.\u00ba e colega \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[85] A RODRIGO OT\u00c1VIO [RJ, 2 jul.1900] Meu caro Rodrigo Ot\u00e1vio Remeto-lhe um of\u00edcio da Academia de convidando a Academia Brasileira a assistir \u00e0 sess\u00e3o de hoje, em ao Dr. Silva Ara\u00fajo. Eu, desde muitos dias, estou encarregado pelo meu Ministro de o representar na sess\u00e3o. Veja se por si ou por outro pode fazer com que a nossa Academia responda ao convite, indo assistir tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Desculpe a letra; \u00e0 pressa a faz pior do que \u00e9. \/ At\u00e9 logo. \/ Velho am.\u00ba e confrade \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[86] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 11 jul. 1900.] Meu querido L\u00facio de Mendon\u00e7a, \/ N\u00e3o lhe escrevi domingo n\u00e3o s\u00f3 por falta de portador, como por haver dito, s\u00e1bado, ao Medeiros: que era quase certo n\u00e3o ir ao almo\u00e7o inaugural , A raz\u00e3o era estar com afias, que me mortificavam e impediam quase de comer. Mas , para o caso de esquecimento do Medeiros, mando-lhe estas duas linhas.<\/p>\n<p>Posso acrescentar que, apesar de tudo, tentei ir, ainda que tarde, mas n\u00e3o pude. \/ Todos os outros almo\u00e7os da &#8220;Panelinha&#8221; h\u00e3o de ser bons, mas eu n\u00e3o quisera faltar ao primeiro.<\/p>\n<p>Demais, podia ser que escasseassem os convivas e era mau intr\u00f3ito; felizmente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeus, meu caro L\u00facio, at\u00e9 \u00e0 primeira. Esquecia-me dizer que tive uma longa conversa\u00e7\u00e3o com o Eduardo Ramos, perd\u00e3o, com o Francisco de Castro, e obtive dele promessa de que por todo este m\u00eas dar\u00e1 o discurso. Ao [Eduardo] Ramos falei sobre o projeto da C\u00e2mara, Tamb\u00e9m pedi ao Francisco de S\u00e1. deputado pelo Cear\u00e1 e da comiss\u00e3o de Or\u00e7amento, que fosse benigno com a Academia, e expondo-lhe o projeto, achou perfeitamente aceit\u00e1vel. Conto falar um dia destes ao S\u00e1tiro Dias, a alguns de S.<\/p>\n<p>Paulo e Minas, ao Serzedelo Correia, etc. Vamos ver se desta vez vai a caixa ao por\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeus, novamente, e at\u00e9 breve. \/ O velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[87] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A0<\/p>\n<p>[RJ, 18 jul. 1900.] Meu caro L\u00facio. \/ Esteve agora comigo o Eduardo Ramos, que me trouxe uma lista da comiss\u00e3o do Or\u00e7amento da C\u00e2mara. Disse-me que o parecer est\u00e1 pronto e termina com um projeto da Comiss\u00e3o, que, em subst\u00e2ncia, \u00e9 mesmo. J\u00e1 falei ao S\u00e1, como lhe disse h\u00e1 dias; vou amanh\u00e3 falar ao Cassiano do Nascimento e ao Serzedelo . Poderia V.<\/p>\n<p>conversar com o Barbosa Lima e os rapazes do Rio Grande, al\u00e9m de outros que lhe parecessem? Procurarei tamb\u00e9m o S\u00e1tiro [Dias] e o Seabra. Vamos l\u00e1, mais um empurr\u00e3o, e at\u00e9 breve. N\u00e3o sei se V. tem ido \u00e0 Revista. Eu tenho sa\u00eddo agora muito tarde, de maneira que acho a porta fechada. Em todo caso, at\u00e9 o primeiro domingo de agosto; creio que o lugar e a hora s\u00e3o os mesmos. Um abra\u00e7o do \/ Velho amigo e companheiro \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[88] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 11 ago. 1900.] Meu querido Salvador. \/ Vai s\u00f3 uma palavra, por falta de tempo e necessidade de n\u00e3o adiar para amanh\u00e3. O Vilhena esteve comigo e disse-me que o neg\u00f3cio da transfer\u00eancia de teu sobrinho est\u00e1 conclu\u00eddo; creio que \u00e9 s\u00f3 esperar alguns dias. Estimo que v\u00e1s passando bem; eu n\u00e3o vou mal, e enquanto puder dar conta do trabalho, tudo ir\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Domingo almocei com o L\u00facio e outros amigos; foi uma festa alegre. At\u00e9 \u00e0 primeira, e n\u00e3o e esque\u00e7as de mim para o que for do teu servi\u00e7o e amizade. Lembran\u00e7as aos teus e um abra\u00e7o do Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[89] A RODRIGO OT\u00c1VIO<\/p>\n<p>[RJ, 25 ago. 1900.] Meu caro Rodrigo Ot\u00e1vio. \/ Ontem procurou-me uma comiss\u00e3o de estudantes da Faculdade Livre de Direito para entregar-me a inclusa carta de convite. Trata-se da sess\u00e3o em honra de E\u00e7a de Queir\u00f3s. Desejam que a Academia compare\u00e7a, e que designe algu\u00e9m que fale em nome dela. A minha resposta foi que iria ver o que poder\u00edamos fazer, sem advertir muito que j\u00e1 ontem era sexta-feira e a cerim\u00f4nia \u00e9 segunda pr\u00f3xima. Se quer incumbir-se de dizer algumas palavras, pe\u00e7o-lhe o favor de avisar-me, porque eles desejam saber de antem\u00e3o o nome do orador. N\u00e3o convoco reuni\u00e3o, por absoluta falta de tempo, mas veja se acha meio de convidar alguns que compare\u00e7am, e diga-me se pode l\u00e1 ir tamb\u00e9m. Aguardo a sua resposta. \/ O velho am.\u00ba e confrade \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[90] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 25 ago. 1900.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ A Academia foi convidada pelos Estudantes da Faculdade Livre de Direito para a sess\u00e3o de segunda-feira, em honra ao E\u00e7a de Queir\u00f3s. Mandei a carta ao Rodrigo Ot\u00e1vio. Escrevo-lhe este para avis\u00e1-lo em tempo, a fim de comparecer se puder, como eu e outros colegas. O portador desta carta \u00e9 o Sr. Dr. Acr\u00edsio da Gama, presidente da Comiss\u00e3o, que me pediu para entregar-lha em m\u00e3o. Disponha do \/ velho am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[91] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A [RJ, 28 nov. 1900.] Meu caro L\u00facio de Mendon\u00e7a. \/ Agrade\u00e7o a carta que Voc\u00ea me mandou ontem, \u00e0 noite, com a do Azeredo. O Azeredo, como eu disse a seu filho, j\u00e1 me havia comunicado a mesma coisa, pelo telefone, \u00e0s duas horas da tarde, e eu dei-lhe pela mesma via os nossos agradecimentos. Tinha-lhe escrito na v\u00e9spera, como ao Lauro M\u00fcller e ao Benedito Leite. Creio que o projeto ter\u00e1 passado hoje, mas ainda n\u00e3o recebi comunica\u00e7\u00e3o. \/ Agora resta a san\u00e7\u00e3o; e sobre isto Voc\u00ea se entender\u00e1, melhor que ningu\u00e9m, com o Campos Sales. H\u00e1 dias encontrando-me com o Epit\u00e1cio, falei-lhe de passagem sobre o projeto, mas n\u00e3o h\u00e1 intimidade entre n\u00f3s, e est\u00e1vamos com outras pessoas. At\u00e9 aqui fiz o que pude, e achei boa vontade em ambas as c\u00e2maras. \/ Quanto ao almo\u00e7o, n\u00e3o sei; o almirante est\u00e1 agora na Escola. Esperemos aviso, que ainda pode ser recebido nesta semana, ou na que vem. Em todo caso, a panelinha se concertar\u00e1. At\u00e9 breve. \/ Todo seu \/ M. DE ASSIS. P.S.&#8211; Desculpe os borr\u00f5es da carta; escrevo no meio de atropelo e papelada grande. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[92] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 7 dez. 1900.] Meu caro Nabuco. \/ Deixe-me agradecer o exemplar de Minha Forma\u00e7\u00e3o, que me destinou, e chegou a salvamento. Pouco antes acabava eu de reler e apreciar o valor deste seu livro, que \u00e9 melhor que mem\u00f3rias, posto que delas tenha parte. Nem ele podia ser escrito sem recorda\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria vida e da vida p\u00fablica. Assim que, contou V. a hist\u00f3ria do seu esp\u00edrito, metendo na narra\u00e7\u00e3o o interesse do leitor. \/ Na carta ao Gra\u00e7a Aranha digo alguma coisa a tal respeito. Parte dela \u00e9 para ambos, e para o Oliveira Lima, nosso confrade da Academia, e diria que tamb\u00e9m para o Eduardo Prado, se n\u00e3o houvesse lido algures que ele embarcou para c\u00e1, &#8212; ou foi o Arinos que mo disse. O Oliveira Lima escreveu-me que Voc\u00eas t\u00eam a\u00ed um ch\u00e1 das cinco horas, em que recordam os nossos. Aqui \u00e9 que acabou toda a reuni\u00e3o; raro nos vemos. \/ A morte do nosso Gusm\u00e3o Lobo causou grande consterna\u00e7\u00e3o. Valha ao menos que se lembraram dele! Vivi anos com esse talento privilegiado, forrado de um bom cora\u00e7\u00e3o, capaz de aturar trabalhos longos. Serviu a homens e ao seu partido, como poucos, e figura entre os principais leaders da aboli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pude ir ao enterro, mas vou \u00e0 missa, daqui a dias, e l\u00e1 verei os restantes her\u00f3is, n\u00e3o todos, porque a vida levou alguns para a Europa, e a morte a outros para a sepultura. \/ Adeus, at\u00e9 breve. N\u00e3o esque\u00e7a o seu admirador e \/ Velho amigo \/ M.<\/p>\n<p>DE ASSIS.<\/p>\n<p>[93] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 27 jan. 1901.] Meu querido Salvador \/ A tua carta, em que t\u00e3o cordialmente me mandas os bons desejos de sa\u00fade e felicidade, trouxe-me outra grande alegria, \u2014 a not\u00edcia da tua ama Maria, que vive tr\u00eas s\u00e9culos. A raz\u00e3o \u00e9 que, ao p\u00e9 de tal criatura, considero-me rapaz, e n\u00e3o \u00e9 pouca fortuna para quem, considerando-se sozinho, acha-se outra cousa que n\u00e3o digo por ser feia. \/ Boa not\u00edcia tamb\u00e9m \u00e9 a dos teus bisav\u00f3s, com 96 e 113 anos, excelente exemplo para o neto, que n\u00e3o deixar\u00e1 de continuar a carreira; e o M\u00e1rio que aprenda com o pai a passar a perna ao s\u00e9culo. A verdade \u00e9 que n\u00e3o se chega l\u00e1 sem muita sa\u00fade e robustez, e n\u00e3o admira que a tua velha ama coma e durma bem, tenha ju\u00edzo direito e mem\u00f3ria viva.<\/p>\n<p>O Visconde de Barbacena, que tem os seus 99, n\u00e3o s\u00f3 fala de cousas antigas, mas ainda projeta faz\u00ea-las novas. H\u00e1 dias, conversando sobre explora\u00e7\u00f5es no Amazonas e no Par\u00e1, disse-me que, em abril ou maio, ir\u00e1 a Londres esquentar aquela gente para mandar l\u00e1 uma comiss\u00e3o. A simples id\u00e9ia de fazer isto mostra que este homem conta ir ao enterro da boa Maria de Itabora\u00ed. \/ N\u00e3o tenho estado com o L\u00facio, mas agora que sei que o par de bustos \u00e9 teu, vejo que devia adivinh\u00e1-lo no epigrama fino. H\u00e1 desses tais bustos que merecem galeria. \/ Adeus, meu querido. Minha mulher e eu recomendamo-nos \u00e0 tua Ex.ma Senhora e fam\u00edlia. Eu abra\u00e7o-te, como dantes, no s\u00e9culo passado. \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[94] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 1 fev. 1901.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Creio que se lembra de mim l\u00e1 em cima; tamb\u00e9m eu me lembro de Voc\u00ea c\u00e1 embaixo, com a diferen\u00e7a que Voc\u00ea tem as alamedas do belo parque para recordar os amigos, e eu tenho as ruas desta cidade. Li com inveja as not\u00edcias que me d\u00e1 da\u00ed e dos seus &#8220;dias gloriosos&#8221;. Aqui a temperatura tem estado boa e excelente. Tem havido calor, mas \u00e9 fruta do tempo. Chegou a haver frio, depois daquele famoso temporal, o maior que tenho visto, porque o de 1864 durou menos e n\u00e3o trouxe o tuf\u00e3o medonho, que me deitou abaixo as duas grandes palmeiras do jardim, arrancou grades, retorceu outras, e n\u00e3o me levou a mim, porque eu j\u00e1 estava em casa, mas levou as telhas e deixou cair a chuva em toda a parte. Come\u00e7o a crer que vamos ter as tardes antigas de trovoadas; tanto melhor, se vierem temperar o calor. \/ Pelo que Voc\u00ea me diz na carta, vai passando bem. Nova Friburgo \u00e9 terra aben\u00e7oada. Foi a\u00ed que, depois de longa mol\u00e9stia me refiz das carnes perdidas e do \u00e2nimo abatido. E note que n\u00e3o tinha casa, nem parque, nem biblioteca de amigo, como Voc\u00ea; mas a terra \u00e9 t\u00e3o boa que ainda sem eles, consegui engordar como nunca, antes nem depois. \/ Conquanto seja grande prazer l\u00ea-lo, n\u00e3o se meta a trabalhar. A falta da sua cr\u00f4nica, \u2014 revista, quero dizer \u2014 esta \u00faltima segundafeira, fez com que alguns dos seus fregueses liter\u00e1rios me perguntassem se estava doente. Expliquei-lhes que n\u00e3o, que estava repousando. Apesar de tudo, \u00e9 poss\u00edvel que, segunda-feira pr\u00f3xima, a revista apare\u00e7a, e a conseq\u00fc\u00eancia natural \u00e9 o conselheiro estimar que o conselho n\u00e3o pegasse. \/ Recebi e estou lendo o Herod; agrade\u00e7o-lhe n\u00e3o haver esquecido. Vou escrever ao Gra\u00e7a um dia destes. \u00c9 verdade que me disse que o Oliveira Lima n\u00e3o vem c\u00e1 ao Rio, e portanto n\u00e3o podemos ter a nossa grande sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou a ver se faremos uma sess\u00e3o ordin\u00e1ria, para cuidar de dar execu\u00e7\u00e3o a uma parte da Lei e cuidar de outro expediente. Quanto \u00e0 casa, parece que est\u00e1 em d\u00favida a Escola de Belas-Artes, na Gl\u00f3ria, e portanto, la coupole. Alguns dizem, por\u00e9m, que o Bernardelli n\u00e3o perdeu as esperan\u00e7as. Quero ver se lhe falo e ou\u00e7o os fundamentos destas. Ainda ontem, conversando com o Rodrigo Ot\u00e1vio, reconhec\u00edamos que a casa era dif\u00edcil, mas acrescentei que n\u00e3o seria imposs\u00edvel, e em todo caso dev\u00edamos ter a persuas\u00e3o de estar fazendo obra que dure, e esperar algum tempo. \/ N\u00e3o li o livro do F&#8230; O Dr. Her\u00e1clito [Gra\u00e7a], com quem estive ontem, \u00e9 da sua mesma opini\u00e3o, e exp\u00f4-la com igual vigor.<\/p>\n<p>Disse-me ele que o Gra\u00e7a voltar\u00e1 da Inglaterra at\u00e9 o fim do ano; sabe alguma coisa? \/ Falei da sess\u00e3o ordin\u00e1ria que devemos fazer na Academia. Conv\u00e9m que se sigam outras.<\/p>\n<p>O Nabuco, escrevendo-me h\u00e1 tempos, observou que elas dar\u00e3o sinal da nossa vida, e \u00e9 verdade. Para elas temos a sala da Biblioteca Fluminense, ponto central que n\u00e3o obrigar\u00e1 a andar nada; basta ir para casa, parar \u00e0 porta da Biblioteca, subir, deliberar sair e tomar o bonde. As dist\u00e2ncias matam-nos. Lembre-se do que lhe contei um dia e se n\u00e3o se lembra, aqui vai. Foi no tempo da Constituinte, que se reunia no pal\u00e1cio de S. Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma vez, indo eu para l\u00e1, encontrei no bonde um membro daquela assembl\u00e9ia, que me falou queixoso, aborrecido, zangado com a estafa e morto por que acabasse a Constitui\u00e7\u00e3o e voltassem as c\u00e2maras para baixo. Eu refleti comigo que, se para fundar um reg\u00edmen, n\u00e3o havia da parte de alguns paci\u00eancia bastante, pouca haver\u00e1 para outras obras menos relevantes. Certo \u00e9 que a Academia \u00e9 mais que muitas. Basta advertir que a francesa (notre soeur ain\u00e9e) viu j\u00e1 monarquias de v\u00e1ria casta, leg\u00edtimas e liberais, e rep\u00fablicas, e consulados e imp\u00e9rios, e vai sobrevivendo a todas as institui\u00e7\u00f5es. \/ Eis-me aqui a pregar a um convertido; mas releve-me a candura de falar assim a Voc\u00ea, que repousa sub tegmine fagi, lembrando-se de que tamb\u00e9m isto \u00e9 acad\u00eamico. \/ Adeus, meu caro amigo; continue a lembrar-se de mim, que eu fa\u00e7o o mesmo. Minha mulher agradece as suas lembran\u00e7as, e eu assino-me como sempre \/ O velho am.\u00b0 admirador \/ M. DE ASSIS. Um abra\u00e7o ao am.\u00b0 Rodolfo.<\/p>\n<p>[95] [RJ, 16 fev. 1901.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Esta carta \u00e9 apertada para caber, n\u00e3o no papel, mas no tempo de que posso dispor. E desde j\u00e1 lhe digo que cumpri as suas ordens, mandando a carta ao Diretor dos Correios. Este respondeu-me logo, e infelizmente n\u00e3o tenho aqui a carta para lhe remeter com esta; mas como ele me disse que lhe escreveu diretamente, \u00e9 natural que saiba j\u00e1 das explica\u00e7\u00f5es e das provid\u00eancias. \/ Pela outra sua v\u00ed que est\u00e1 passando bem, t\u00e3o bem que at\u00e9 me quisera l\u00e1. Eu n\u00e3o menos quisera subir, apesar de carioca enrag\u00e9; ao Sancho Pimentel, que h\u00e1 dias me convidava a acompanh\u00e1-lo, respondi com a verdade, isto \u00e9, que n\u00e3o posso deixar o meu posto. O c\u00e9u, reconhecendo esta situa\u00e7\u00e3o, mandou-me um ver\u00e3o, e particularmente um fevereiro, que nunca jamais aqui houve. J\u00e1 tivemos frio! Verdade \u00e9 que ter frio n\u00e3o \u00e9 ter Nova Friburgo. A prova do benef\u00edcio que lhe faz esse clima delicioso, com a vida que lhe corresponde, c\u00e1 temos tido nas suas Revistas Liter\u00e1rias, que s\u00e3o para gulosos. Vejo que n\u00e3o aceitou o meu conselho e, como eu ganhei com isso, fez muito bem, e melhor far\u00e1 continuando. Li o que me diz do Oliveira Lima, e tanto melhor se vamos ter a nossa sess\u00e3o solene. H\u00e1 cerca de duas semanas recebi carta dele pedindo autoriza\u00e7\u00e3o da Academia para p\u00f4r em um livro a designa\u00e7\u00e3o de membro dela. J\u00e1 l\u00e1 foi. Antes da grande sess\u00e3o precisamos de uma, pelo menos, para assentar sobre v\u00e1rios pontos. Vou cuidar da comunica\u00e7\u00e3o ao John Fiske.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m acudir a quem nos quer bem. \/ Aguardo as coisas que lhe escreveu o Aranha. Eu devo a este amigo uma carta, que j\u00e1 devia estar a caminho. O Magalh\u00e3es de Azeredo, que me n\u00e3o escreve h\u00e1 tempo, queixou-se de mim na \u00faltima carta. Eu quisera poder escrever todas a todos, n\u00e3o para ouvir de Voc\u00ea ep\u00edtetos que n\u00e3o mere\u00e7o, como esse de M\u00e9rim\u00e9e, mas para, ao menos, agradecer \u00e0s leituras dos meus livros, como a das Hist\u00f3rias Sem Data. Adeus. Um grande abra\u00e7o que responda \u00e0 dist\u00e2ncia e alcance o Rodolfo. Adeus. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[96] A SALVADOR MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 14 mar. 1901.] Meu querido Salvador de Mendon\u00e7a. \/ Esta carta j\u00e1 devia ter subido a Petr\u00f3polis; ainda assim n\u00e3o vai tarde demais. Trata-se de pouco, e, ao que me parece, neg\u00f3cio sabido. O nosso colega da Academia Oliveira Lima, antes de ir para o Jap\u00e3o tomar conta do lugar, tenciona vir aqui tomar conta da cadeira, cujo patrono \u00e9 o Varnhagen. Segundo me escreveu de Londres, ele quisera que Voc\u00ea lhe respondesse, e para n\u00f3s todos a festa seria maior. Podemos ficar certos disto? A designa\u00e7\u00e3o oficial pode ser feita e publicada oportunamente? Eis a resposta que Voc\u00ea me mandar\u00e1, logo que entenda, a fim de que tudo se prepare para a recep\u00e7\u00e3o. \/ A sa\u00fade como vai? Eu, na semana passada, tive dois dias de molho, mas aqui me acho outra vez no gabinete. N\u00e3o vejo h\u00e1 muito o L\u00facio; mandei-lhe ontem um cart\u00e3o de cumprimento ao Procurador Geral da Rep\u00fablica, com dire\u00e7\u00e3o a Teres\u00f3polis, onde penso que continua. Minha mulher e eu recomendamo-nos \u00e0 tua Ex.ma Consorte, e eu mando aqui dentro um abra\u00e7o particular do \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[97] A FIGUEIREDO PIMENTEL<\/p>\n<p>[RJ, 31 mar. 1901.] Ex.mo Sr. Figueiredo Pimentel. \/ Respondo \u00e0 sua carta, agradecendo as not\u00edcias que me d\u00e1 relativamente a Phileas Lebesgue, e \u00e0 solicitude de V. Ex.a em fazer com que este traduza os meus livros. Entretanto, n\u00e3o posso ordenar que o editor lhos envie, como V.<\/p>\n<p>Ex.a me pede, nem sequer autorizar a tradu\u00e7\u00e3o, porquanto a propriedade das minhas obras est\u00e1 transferida ao Sr. Garnier, de Paris, com todos os respectivos direitos. S\u00f3 ele poder\u00e1 resolver sob esse ponto. \/ Sou, com apre\u00e7o e considera\u00e7\u00e3o, de V. Ex., at.\u00ba venerador e obrg.\u00b0 \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[98] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 2 abr. 1901.] Meu querido L\u00facio. \/ Logo que recebi a sua carta, fui-me ao Laemmert, onde achei \u00e0 minha espera o exemplar das Horas do Bom Tempo. J\u00e1 o t\u00edtulo trazia a frescura necess\u00e1ria aos meus invernos. Devem ter sido bem bons tempos esses, que V. recordou em p\u00e1ginas l\u00e9pidas, com vida e vontade. \u00c9 doce achar na conta da vida passada algumas horas tais que n\u00e3o esquecem, que revivem e fazem reviver os outros. N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o um rel\u00f3gio para elas, mas \u00e9 preciso ser bom relojoeiro para saber dar corda e faz\u00ea-las bater de novo como voc\u00ea fez. Ao p\u00e9 delas, vi os contos, reli muitos, e agrade\u00e7o as sensa\u00e7\u00f5es de v\u00e1ria esp\u00e9cie que me deixaram, ou alegres ou melanc\u00f3licas, ou dram\u00e1ticas. Uma destas, a do &#8220;H\u00f3spede&#8221;, \u00e9 das mais vivas. E das melanc\u00f3licas n\u00e3o sei se alguma valer\u00e1 mais que aquela &#8220;\u00c0 Sombra do Rochedo&#8221;, que \u00e9 um livro em cinco p\u00e1ginas; a compara\u00e7\u00e3o da manh\u00e3 e da tarde \u00e9 deliciosa, e a que forma e d\u00e1 o t\u00edtulo \u00e9 das mais verdadeiras. E as &#8220;M\u00e3os&#8221;? e a &#8220;L\u00e1grima Perdida&#8221;? e o resto? Eis a\u00ed boa prosa com emo\u00e7\u00e3o e sinceridade. \/ A Academia agradece o novo livro ao seu fundador e c\u00e1 o espera para fazermos algumas sess\u00f5es necess\u00e1rias. At\u00e9 breve, at\u00e9 o primeiro almo\u00e7o da &#8220;Panelinha&#8221;. \/ Releve esta letra; nunca foi bonita: a idade a est\u00e1 fazendo execr\u00e1vel. S\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o se conserva \/ Amigo velho e admirador \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[99] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 10 abr. 1901.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Ontem, quando o Ministro saiu, corri ao Garnier, mas era tarde; faltavam dez minutos para as cinco. Hoje n\u00e3o sei ainda se poderei ir a tempo; mas farei tudo para l\u00e1 estar \u00e0s quatro e meia. Como pode suceder que n\u00e3o saia mais cedo que ontem, quero desde j\u00e1 apertar-lhe a m\u00e3o pelo estudo sobre a Prosopop\u00e9ia, cuja segunda parte li h\u00e1 pouco. \u00c9 dos melhores que tem dado a sua Revista Liter\u00e1ria, e tem j\u00e1 um dos primeiros lugares no pr\u00f3ximo livro. Homem e obra est\u00e3o completos; vou reler ambas as partes. At\u00e9 logo, e (para tudo prevenir) se n\u00e3o puder ser logo, at\u00e9 amanh\u00e3. Em conversa, o resto. E por fim um abra\u00e7o de amizade e admira\u00e7\u00e3o do \/ Velho \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[100] [RJ, 21 mai. 1901.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ N\u00e3o sabendo se sairei cedo, quero que esta carta v\u00e1 desde j\u00e1 agradecer-lhe a longa e afetuosa cr\u00edtica que fez hoje do meu livro de versos, e naturalmente do autor. J\u00e1 estou acostumado aos seus dizeres de amigo, que anima o velho escritor; mas n\u00e3o h\u00e1 costume que tire \u00e0s belas palavras a novidade que elas trazem sempre do cora\u00e7\u00e3o e do c\u00e9rebro de um cr\u00edtico eminente. At\u00e9 logo ou at\u00e9 amanh\u00e3, se eu sair tarde: mas oxal\u00e1 seja logo. \/ Velho am.\u00b0 e confrade \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[101] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 22 out. 1901.] Meu caro L\u00facio. \/ Quinta-feira teremos sess\u00e3o da Academia, no escrit\u00f3rio do Rodrigo Ot\u00e1vio. H\u00e1 de ser anunciada nas folhas da tarde de amanh\u00e3 e nas da manh\u00e3 do dia.<\/p>\n<p>Trata-se das vagas e da elei\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do prazo em que esta se far\u00e1. Precisamos comparecer. At\u00e9 l\u00e1, e saudades \/ Do velho am.\u00b0 M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[102] [RJ, 2 jan. 1902.] Meu caro L\u00facio. \/ De acordo com o que V. me mandou lembrar, vamos recome\u00e7ar o almo\u00e7o da &#8220;Panelinha&#8221;, domingo, 5, no Globo. J\u00e1 falei a alguns amigos. O Valentim estava ontem incomodado, n\u00e3o sei se ir\u00e1; e o Filinto de Almeida disse-me que tem o dia destinado a outra coisa. \u00c9 bom lembrar aos amigos que encontrar. \/ At\u00e9 l\u00e1. \/ Todo seu \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[103] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ. 5 jan. 1902.] Meu querido Nabuco. \/ Vai esta, antes que V. deixe Londres, e primeiro que tudo deixeme felicit\u00e1-lo por mais esta prova de confian\u00e7a que recebe, assim do governo como do Brasil. A confian\u00e7a explica-se pela necessidade vencer; a espada devia ir a quem j\u00e1 mostrou saber brandi-la, e ainda uma vez o nome brasileiro repercutir\u00e1 no exterior com honra. \/ Agora a felicita\u00e7\u00e3o para o ano de 1902, que oxal\u00e1 lhe seja feliz e pr\u00f3spero, como a todos os seus. \/ E por \u00faltimo felicita\u00e7\u00f5es pela vit\u00f3ria do Arinos. Recebi o seu voto na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o, como o do Gra\u00e7a, e ambos figuram na maioria dos 21 com que o candidato venceu. O Assis Brasil tamb\u00e9m era candidato, mas na hora da elei\u00e7\u00e3o o L\u00facio de Mendon\u00e7a retirou a candidatura, em nome dele, e da\u00ed algum debate de que resultou ficar assentado por lei regimental que as candidaturas s\u00f3 possam ser retiradas por cartas do autor at\u00e9 certo prazo antes da elei\u00e7\u00e3o. Note que todos ficamos com pesar da retirada.<\/p>\n<p>Como V. lembra era melhor que as duas elei\u00e7\u00f5es se fizessem no mesmo dia. Creio que assim a elei\u00e7\u00e3o de Assis Brasil seria certa. O Martins J\u00fanior teve 2 votos, e parece que se apresenta outra vez. Tamb\u00e9m ouvi anteontem ao Valentim Magalh\u00e3es que o Assis Brasil pode ser que se apresente de novo. \/ Agora mesmo estive relendo o seu discurso de entrada no Instituto, como tenho relido o mais do volume dos Escritos e Discursos Liter\u00e1rios que V. me enviou, e naturalmente saboreando as suas belas p\u00e1ginas, id\u00e9ias e estilo, e recordando os assuntos que passaram pela nossa vida ou pelo nosso tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vi que V. bem poderia responder ao Arinos, que entrou para a Academia como homem de letras; ambos diriam do Eduardo Prado o que ele foi, com a eleva\u00e7\u00e3o precisa e o conhecimento exato da pessoa. \/ Adeus, meu caro Nabuco. A miss\u00e3o nova a que V. vai n\u00e3o lhe dar\u00e1 mais tempo do que ora tem para escrever aos amigos, mas V. sabe que um bilhete, duas linhas bastam para lembrar que tal cora\u00e7\u00e3o guarda a mem\u00f3ria de quem ficou longe, e fez bater ao compasso da afei\u00e7\u00e3o antiga e dos dias passados. O passado (se o n\u00e3o li algures, fa\u00e7a de conta que a minha experi\u00eancia o diz agora), o passado \u00e9 ainda a melhor parte do presente, \u2014 na minha idade, entenda-se. Eu ainda guardo da sua primeira viagem a Roma algumas rel\u00edquias que V. me deu aqui: \u2014 um peda\u00e7o dos muros primitivos da cidade, outro dos Rostros, outro das Termas de Caracala. Agora basta que eu ou\u00e7a c\u00e1 de longe o eco das suas vit\u00f3rias diplom\u00e1ticas, e V. o dos nossos aplausos e sauda\u00e7\u00f5es. Adeus, meu caro Nabuco. Apesar da diferen\u00e7a da idade, n\u00f3s somos de um tempo em que troc\u00e1vamos as nossas impress\u00f5es liter\u00e1rias e pol\u00edticas, admirei seu pai, e fui \u00edntimo do nosso Sisenando, a quem V. acaba de oferecer t\u00e3o piedosamente o seu livro. \/ Abrace de longe o \/ Admor. e amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[104] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 18 fev. 1902.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ N\u00e3o sabendo se o encontrarei no Garnier, apesar de pretender e poder sair mais cedo daqui, escrevo o que lhe diria de viva voz, a respeito do seu artigo de hoje. Toda aquela quest\u00e3o da literatura do Norte est\u00e1 tratada com m\u00e3o de mestre.<\/p>\n<p>Tocou-me o assunto ainda mais, porque eu, que tamb\u00e9m admirava os dotes do nosso Franklin T\u00e1vora, tive com ele discuss\u00f5es a tal respeito, freq\u00fcentes e calorosas, sem chegarmos jamais a um acordo. A raz\u00e3o que me levava n\u00e3o era somente a convic\u00e7\u00e3o de ser errado o conceito do nosso finado amigo, mas tamb\u00e9m o amor de uma p\u00e1tria intelectual una, que me parecia diminuir com as literaturas regionais. Voc\u00ea sabe se eu temo ou n\u00e3o a desarticula\u00e7\u00e3o deste organismo; sabe tamb\u00e9m que, em meu conceito, o nosso mal vem do tamanho, justamente o contr\u00e1rio do que parece a tantos outros esp\u00edritos. Mas, em suma, fiquemos na literatura do Norte, e no seu artigo. Consinta-me chamar-lhe suculento, l\u00f3gico, verdadeiro, claramente exposto e conclu\u00eddo; deixe-me finalmente compartir um pouco das saudades de brasileiro e rom\u00e2ntico, comme une vieille canache, diria o nosso Flaubert. At\u00e9 logo ou depois. \/ Velho am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[105] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 24 mar. 1902.] Meu caro Nabuco. \/ A sua carta de 26 de janeiro, aqui chegada h\u00e1 poucos dias, \u00e9 a que se podia esperar de t\u00e3o fino esp\u00edrito. Entretanto, parece que o plano n\u00e3o ser\u00e1 adotado.<\/p>\n<p>Achei amigo que, al\u00e9m de n\u00e3o adotar, penso que encontrarei obje\u00e7\u00e3o da parte dos outros, por sair das praxes acad\u00eamicas. Em tal caso, meu caro Nabuco, resolvi n\u00e3o dar andamento \u00e0 id\u00e9ia, e dispor-me a ir a Atenas, sem ouvir Plat\u00e3o. Mas irei sequer a Atenas? A elei\u00e7\u00e3o do Arinos, que a desejava e pediu, foi brilhante, embora o Assis Brasil tivesse o apoio do L\u00facio de Mendon\u00e7a. Logo que a elei\u00e7\u00e3o se fez escrevi um bilhete particular de felicita\u00e7\u00e3o ao Arinos e o Rodrigo Ot\u00e1vio fez a comunica\u00e7\u00e3o oficial. N\u00e3o recebi resposta nem o Rodrigo, e como o Arinos tinha ido \u00e0s \u00e1guas, podia ser desencontro. Disse ao Rodrigo que mandasse segunda via do of\u00edcio, agora que ele estava de volta a S. Paulo, mas ainda n\u00e3o veio resposta, e j\u00e1 h\u00e1 tempo de sobra. N\u00e3o compreendo. Vou ver se o Garcia Redondo, que \u00e9 da Academia, ou algu\u00e9m que l\u00e1 esteja pr\u00f3ximo, me descobre a raz\u00e3o deste sil\u00eancio. \/ O Assis Brasil esteve aqui de passagem, por dois ou tr\u00eas dias, mas n\u00e3o lhe pude falar. Hei de procurar o L\u00facio e o Valentim, para saber se ele quer ser candidato. C\u00e1 fica o seu voto. \/ Adeus, meu caro Nabuco. V\u00e1 desculpando esta letra de velho, n\u00e3o t\u00e3o velho que n\u00e3o possa ainda aplaudir os seus bons e grandes servi\u00e7os \u00e0 Arte e ao Pa\u00eds. Muitas lembran\u00e7as ao Gra\u00e7a Aranha. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[106] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 21 abr. 1902.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Recebi s\u00e1bado o seu recado, e respondo que sim, que estou zangado com Voc\u00ea, como Voc\u00ea, esteve comigo. A sua zanga veio de o n\u00e3o haver felicitado pelos 45 anos, a minha vem de os ter feito sem me propor antes uma troca. Eu a aceitaria de muito boa vontade. \/ J\u00e1 recebi e j\u00e1 li Cana\u00e3; \u00e9 realmente um livro soberbo e uma estr\u00e9ia de mestre. Tem id\u00e9ias, verdade e poesia; paira alto. Os caracteres s\u00e3o originais e firmes, as descri\u00e7\u00f5es admir\u00e1veis. Em particular, \u2014 de viva voz, quero dizer, \u2014 falaremos longamente. Vou escrever ao nosso querido Aranha. Na carta em que ele me anunciou o livro, lembra-me aquela &#8220;nossa trindade indissol\u00favel&#8230;&#8221; O vento dispersou-nos.<\/p>\n<p>\/ Esta semana, no primeiro dia de despacho, sairei mais cedo e irei busc\u00e1-lo ao Garnier.<\/p>\n<p>Espero ler a sua an\u00e1lise de Cana\u00e3. A prop\u00f3sito, quem ser\u00e1 o autor do artigo que saiu hoje no Jornal do Com\u00e9rcio? \/ Adeus, at\u00e9 amanh\u00e3 ou depois. J\u00e1 nos vemos poucas vezes.<\/p>\n<p>Adeus daquele que j\u00e1 fez 45 anos (bela idade!) \/ M. DE ASSIS. \/ P. S. \u2014 Abro a carta, hoje 22, para lhe apertar a m\u00e3o pelo artigo \u2014 apoteose de Vitor Hugo. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[107] A LU\u00cdS GUIMAR\u00c3ES FILHO<\/p>\n<p>[RJ, 10 jul. 1902.] Meu querido Lu\u00eds Guimar\u00e3es. \/ Recebi a sua cartinha com as not\u00edcias que me d\u00e1, e o exemplar da tradu\u00e7\u00e3o das Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas. Agrade\u00e7o-lhe muito e muito a dilig\u00eancia, e a lembran\u00e7a em que me teve ainda de longe. Quando aqui falamos da publica\u00e7\u00e3o de Montevid\u00e9u, j\u00e1 aqui tinha o n\u00famero de 2 de janeiro (ambas as edi\u00e7\u00f5es), trazendo a da manh\u00e3, al\u00e9m do meu retrato, um artigo do Artur Barreiros, encabe\u00e7ado por algumas palavras honrosas da reda\u00e7\u00e3o, e seguido de notas biogr\u00e1ficas. A tradu\u00e7\u00e3o s\u00f3 agora a pude ler completamente, e digo-lhe que a achei t\u00e3o fiel como elegante, merecendo J\u00falio Piquet ainda mais por isso os meus agradecimentos. \/ A voc\u00ea renovo os meus, e pe\u00e7o que disponha tamb\u00e9m do velho amigo e admirador do filho, como do pai. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[108] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 17 jul. 1902.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ A\u00ed vai cumprida a sua ordem, expressa na carta de \/ ontem. A carta veio em boa hora, por me dar certeza de que ainda vive o caro Ver\u00edssimo, apesar de o ler nos Prosadores desta semana e nos artigos de outras. O destino nos separa por algum tempo, at\u00e9 que o fa\u00e7a de todo, se \u00e9 certa a id\u00e9ia em que ando de que outra Manaus, mais remota que a nossa, me espera em breve. \/ Que o mesmo destino nos fa\u00e7a encontradi\u00e7os algumas vezes para trocarmos id\u00e9ias, \u00e9 o que desejo. \/ Adeus, releve a escassez do bilhete, e lembre-se sempre do \/ Velho am.\u00b0 e adm.or \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[109] A L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 8 ago. 1902.] Meu caro L\u00facio. \/ A lembran\u00e7a do meu nome, honros\u00edssima em si, veio de encontro a um grande obst\u00e1culo. N\u00e3o quero referir-me \u00e0 representa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, que a bondade dos amigos me d\u00e1, como um pr\u00eamio de assiduidade e tenacidade no trabalho. Refiro-me \u00e0 significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quando eu (vou) galgando os sessenta anos, para n\u00e3o dizer a verdade inteira. Meu querido, n\u00e3o \u00e9 idade em que comece um papel destes quem n\u00e3o exerceu nenhum an\u00e1logo na mocidade \/ Voc\u00ea, que abriu os olhos em plena luta, me compreender\u00e1 bem, e transmitir\u00e1 aos demais companheiros a minha escusa com os meus agradecimentos. Outrossim, me desculpar\u00e1 tamb\u00e9m se a lembran\u00e7a, como a outra, foi tamb\u00e9m sua. \/ O velho am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[110] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 5 out. 1902.] Meu caro Nabuco. \/ Receba os meus p\u00easames pela perda de sua querida e veneranda m\u00e3e. A filosofia acha raz\u00f5es de conformidade para estes lances da vida, mas a natureza h\u00e1 de sempre protestar contra a dura necessidade de perder t\u00e3o caros entes. Felizmente, a digna finada viveu o tempo preciso para ver a gl\u00f3ria do filho, depois da gl\u00f3ria do esposo.<\/p>\n<p>Retirou-se deste mundo farta de dias e de consola\u00e7\u00f5es. \/ Minha mulher re\u00fane os seus aos meus p\u00easames. \/ O velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[111] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 20 nov. 1902.] Meu caro M\u00e1rio. \/ Muito obrigado pelas suas felicita\u00e7\u00f5es \u00e0 Secretaria; \u00e9 um modo delicado de achar em mim qualidades que, a existirem, a idade as ter\u00e1 levado ou diminu\u00eddo. Quanto ao abra\u00e7o, c\u00e1 fica como prova de amizade. Tamb\u00e9m fica o livro de versos, presente e lembran\u00e7a, cuja primeira p\u00e1gina acabo de ler e \u00e9 a melhor porta que podia dar ao edif\u00edcio; adivinhei a pessoa que a inspirou, e saboreei o sentimento que exprime. Tamb\u00e9m adivinho que o livro corresponder\u00e1 \u00e0 carta em que a valia do dizer se forra de t\u00e3o doce mod\u00e9stia. Vou l\u00ea-lo como merece o seu talento. Ainda uma vez obrigado. \/ Aceite um abra\u00e7o do velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[112] [RJ, 11 dez. 1902.] Meu querido M\u00e1rio. \/ C\u00e1 recebi a sua carta, e vejo que adivinhou a autoria da not\u00edcia da Gazeta. Sim, \u00e9 minha; disse em poucas palavras o que sinto dos Versos e do autor.<\/p>\n<p>Juntando o seu nome ao de Magalh\u00e3es de Azeredo, compreendo bem que seria agrad\u00e1vel a ambos. \/ Estimo que as anima\u00e7\u00f5es que ali pus achem no seu esp\u00edrito culto e fino o necess\u00e1rio efeito, e folgo de haver acertado. Tem a idade, tem os est\u00edmulos, e destes, al\u00e9m dos que lhe podem dar os vivos, contar\u00e1 sempre o do nosso grande morto.<\/p>\n<p>Tem j\u00e1 o respeito da arte, que \u00e9 muito. \/ Adeus, at\u00e9 \u00e0 primeira. \/ Amigo velho, \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[113] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 17 mar. 1903.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Afinal \u00e9 preciso lan\u00e7ar m\u00e3o da pena para lhe dizer e ouvir, se \u00e9 poss\u00edvel, algumas palavras. Sei que esteve nos Mendes, onde viu convalescer um filho e donde uma filha voltou doente. Sei tamb\u00e9m que a doente sarou. Tanto melhor para eles e os pais, a quem deram mais essa prova de amor filial. Tudo sei, meu caro; s\u00f3 ignoro o motivo da c\u00f3lera do destino que nos faz desencontrados. Voc\u00ea, quando chego ao Garnier, j\u00e1 saiu, e agora cedo. Eu, \u00e9 certo que chego tarde, mas sabe o que \u00e9, faz acaso m\u00ednima id\u00e9ia do que, em linguagem administrativa, se chama a \u00faltima quinzena do trimestre adicional? Repita comigo: \u00faltima quinzena do trimestre adicional. Outra vez, devagar, e mande-me de l\u00e1 um suspiro. Eis uma das raz\u00f5es de sair agora mais tarde. Hoje, por\u00e9m, espero sair mais cedo, e se o n\u00e3o encontrar no Garnier \u00e9 porque o Destino continua a querer a nossa eterna separa\u00e7\u00e3o. As tardes, quando o bonde me leva para casa, ainda tenho ocasi\u00e3o de ler o V. e os coment\u00e1rios dos telegramas, mas \u00e9 pouco e r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me perguntou, h\u00e1 dias, se Voc\u00ea deixara o Correio da Manh\u00e3. Respondi que n\u00e3o, e dei algumas das raz\u00f5es \u00faltimas, acima citadas. \/ Adeus, meu caro J. Ver\u00edssimo, vou preparar a pasta do dia. O papel n\u00e3o d\u00e1 para letras, nem o tempo, nem o lugar; isto n\u00e3o quer dizer que a resposta, se vier, n\u00e3o traga algumas. V\u00e1 desculpando estas palavras emendadas; \u00e9 obra da pressa e da velhice. N\u00e3o falo em doen\u00e7a para o n\u00e3o enfadar ainda uma vez com esta desculpa, mas a velhice fica. Quando n\u00e3o fosse obra da natureza, era do calend\u00e1rio. \/ Adeus, meu bom amigo, n\u00e3o esque\u00e7a o \/ Velho am.\u00b0 e adm.or \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[113.a] AO BAR\u00c3O DO RIO BRANCO [RJ, l7 mar. 1903.] Meu eminente e querido am.\u00ba \/ Deixe que, em meio de seus graves trabalhos, v\u00e1 ocup\u00e1-lo com a minha pessoa. O que me d\u00e1 confian\u00e7a, al\u00e9m da sua bondade, \u00e9 tratar tamb\u00e9m de pessoa amiga nossa. Nabuco escreveu-me de Pau, dando-me not\u00edcia, entre outras, cousas da Primeira Mem\u00f3ria que vai mandar para o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores.<\/p>\n<p>Disse ele que lhes pedisse a inscri\u00e7\u00e3o do meu nome na lista dos que tenham de receber a Mem\u00f3ria em portugu\u00eas, a qual vir\u00e1 depois da Mem\u00f3ria em franc\u00eas, e s\u00f3 duzentos exemplares. \u00c9 o que fa\u00e7o desde j\u00e1, confiado em que n\u00e3o serei esquecido. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer mais nada, sen\u00e3o que o acompanho, como todos os brasileiros, na grande campanha do Acre. E mais (isto agora em segredo diplom\u00e1tico, porque \u00e9 uma frase confidencial do Nabuco): &#8220;Vejo que o nosso homem, al\u00e9m de chanceler, se fez comandante em chefe&#8221;. \/ Queira-me sempre bem, como eu lhe quero, al\u00e9m da grande admira\u00e7\u00e3o que lhe tenho, e releve a interrup\u00e7\u00e3o do \/ Velho am.\u00b0 e adm.or \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[113.b] [RJ, 31 mar. 1903.] Meu eminente e querido amigo, \/ Esta carta completa a outra que lhe entreguei acerca da inclus\u00e3o do meu nome entre os favorecidos com um exemplar da Primeira Mem\u00f3ria, em portugu\u00eas, do nosso Nabuco. Ao mesmo tempo obedece \u00e0 indica\u00e7\u00e3o que me deu outro dia na Secretaria do Exterior. A lista dos contemplados \u00e9 a seguinte: S\u00edlvio Romero, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Capistrano de Abreu, Jo\u00e3o Ribeiro, Rodrigo Ot\u00e1vio, Ramiz Galv\u00e3o e eu. \/ Devo lembrar que o Nabuco, al\u00e9m das indica\u00e7\u00f5es feitas para a Mem\u00f3ria, em portugu\u00eas, referese \u00e0 mesma em franc\u00eas, que vem acompanhada de documentos e de um Atlas, citando a respeito desta &#8220;os colecionadores como o Ver\u00edssimo e o Capistrano.&#8221; Cumpro naturalmente os desejos do autor, fazendo aqui tal men\u00e7\u00e3o. \/ Pe\u00e7o-lhe que para a edi\u00e7\u00e3o francesa seja contemplada a nossa Academia. \/ Tamb\u00e9m lhe pe\u00e7o, meu bom amigo, que se n\u00e3o esque\u00e7a do que me prometeu acerca dos seus trabalhos. \/ Quanto ao mais receba ainda um abra\u00e7o e m.tas felicita\u00e7\u00f5es deste \/ Am.\u00ba velho e cordial adm.or \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[114] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 20 abr. 1903.] Meu caro Nabuco. \/ N\u00e3o vai cedo a resposta \u00e0 sua carta, por uma raz\u00e3o: \u00e9 que queria falar primeiro ao Rio Branco, acerca da inscri\u00e7\u00e3o de alguns nomes (entre eles o meu, a quem V. confiou a comiss\u00e3o), para a distribui\u00e7\u00e3o de exemplares da Primeira Mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Falei-lhe; ele pr\u00f3prio me indicou tamb\u00e9m o de S\u00edlvio Romero, dizendo-me que lhe remetesse para Petr\u00f3polis a lista dos beneficiados. Assim fiz, e por esse lado estamos prontos. N\u00e3o esqueci a Academia, e se algu\u00e9m aparecer mais que deva receber um exemplar, escreverei ao nosso Chanceler. \/ Est\u00e1 V. em Roma, donde recebi o cart\u00e3opostal com a galante lembran\u00e7a dos &#8220;meus tr\u00eas cardeais&#8221;. Tr\u00eas s\u00e3o, para receberem a minha b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 de velho cura de aldeia, e sinto n\u00e3o estar l\u00e1 tamb\u00e9m, pisando a terra amassada de tantos s\u00e9culos de hist\u00f3ria do mundo. Eu, meu caro Nabuco, tenho ainda aquele gesto da mocidade, \u00e0 qual os poetas rom\u00e2nticos ensinaram a amar a It\u00e1lia; amor plat\u00f4nico e remoto, j\u00e1 agora lembran\u00e7a apenas. \/ L\u00e1 est\u00e1 V. para ganhar a vit\u00f3ria que todos esperamos, e ser\u00e1 um louro para a m\u00e1scula cabe\u00e7a daquele que eu vi adolescente, esperan\u00e7as do venerando pai. \/ Voltando \u00e0 Primeira Mem\u00f3ria, agrade\u00e7o-lhe o exemplar que a\u00ed vir\u00e1 brevemente. Os nossos amigos, a quem noticiei a boa nova, ficaram igualmente agradecidos. Pe\u00e7o-lhe que reparta as saudades que lhe mando com os nossos amigos Gra\u00e7a Aranha e Magalh\u00e3es de Azevedo; com este passei aqui muitas horas longas. O Gra\u00e7a vive debaixo dos nossos olhos, com a edi\u00e7\u00e3o nova da Cana\u00e3, em casa do Garnier. Apresente os meus respeitos \u00e0 sua Ex.ma Senhora, e receba um abra\u00e7o do \/ Velho amigo e admor. MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[115] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 29 ago. 1903.] Meu querido Salvador, \/ Vai aqui um abra\u00e7o pelo teu restabelecimento, agora completo.<\/p>\n<p>Quando o L\u00facio me falou da tua doen\u00e7a, ela chegara ao estado agudo, mas ontem as not\u00edcias eram boas, e ele pr\u00f3prio, que conta subir a Petr\u00f3polis hoje, leva-te um abra\u00e7o pessoal. \/ Viva a velha guarda, meu amigo. Eu, apesar do pessimismo que me atribuem, e talvez seja verdadeiro, fa\u00e7o \u00e0s vezes mais justi\u00e7a \u00e0 Natureza do que ela a n\u00f3s. N\u00e3o posso negar que ela respeita alguns dos melhores, e estou que os fere por descuido, mas logo se emenda e p\u00f5e o b\u00e1lsamo na ferida. Adeus, meu querido amigo, apresenta \u00e0 tua Ex.ma Senhora as minhas congratula\u00e7\u00f5es e as de m.a mulher, que tamb\u00e9m as envia para ti; e continua a lembrar-te do teu \/ Velho Amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[116] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 7 out. 1903.] Meu caro Nabuco. \/ Demorei uns dias esta resposta, para que fosse completa, isto \u00e9, contendo alguma coisa acerca da sua Mem\u00f3ria. H\u00e1 tempo falei ao Rio Branco, e n\u00e3o h\u00e1 muitos dias ao Dom\u00edcio; ultimamente fui \u00e0 Secretaria do Exterior onde soube pelo Pessegueiro [do Amaral] que se estava completando um trabalho depois do qual se fariam as remessas ou entregas. O meu nome est\u00e1 na lista dos contemplados. N\u00e3o sendo j\u00e1 esta semana, prefiro escrever-lhe uma carta de agradecimento a esperar. \/ Tamb\u00e9m agrade\u00e7o o \u00faltimo retrato de Le\u00e3o XIII, com a cura da idade e os versos latinos.<\/p>\n<p>Outrossim, o cart\u00e3opostal com o selo da sede vacante. N\u00e3o tenho cole\u00e7\u00e3o de selos, mas este vale por uma e c\u00e1 fica. Mandar lembran\u00e7as a um velho \u00e9 consol\u00e1-lo dos tempos que n\u00e3o querem ficar tamb\u00e9m. \/ Do que V. me diz naquele, j\u00e1 h\u00e1 de saber que nada se fez. O prazo findara. J\u00e1 deve saber que o Euclides da Cunha foi escolhido, tendo o seu voto, que comuniquei \u00e0 Assembl\u00e9ia. N\u00e3o se tendo apresentado o Jaceguai nem o Quintino, o seu voto recaiu, como me disse, no Euclides. Mandei a este a carta que V. lhe escreveu. A elei\u00e7\u00e3o foi objeto de grande curiosidade, n\u00e3o s\u00f3 dos acad\u00eamicos, mas de escritores e ainda do p\u00fablico, a julgar pelas conversa\u00e7\u00f5es que tive com algumas pessoas. Mostrei ao Jaceguai a parte que lhe concernia na sua carta. Espero que ele se apresente em outra vaga, n\u00e3o que mo disses, mas pela simpatia que sabe inspirar a n\u00f3s todos, e ter\u00e1 aumentado com a interven\u00e7\u00e3o que V. francamente tomou. \/ A recep\u00e7\u00e3o do Euclides n\u00e3o se far\u00e1 ainda este ano. J\u00e1 h\u00e1 dois eleitos, que est\u00e3o por tomar posse, o Augusto de Lima, de Minas Gerais, e o Martins J\u00fanior, de Pernambuco. N\u00e3o \u00e9 esta a raz\u00e3o; as entradas se far\u00e3o \u00e0 medida que estiverem prontos os discursos, e \u00e9 poss\u00edvel que o Euclides se prepare desde j\u00e1. Responder-lhe-\u00e1 o Afonso Arinos. A recep\u00e7\u00e3o deste foi muito brilhante; respondeu-lhe o Olavo Bilac. \/ A Academia parece que enfim vai ter casa. N\u00e3o sei se V.<\/p>\n<p>se lembra do edif\u00edcio come\u00e7ado a construir no Largo da Lapa, ao p\u00e9 do mar e do Passeio.<\/p>\n<p>Era para a Maternidade. Como, por\u00e9m, fosse resolvido adquirir outro, nas Laranjeiras, onde h\u00e1 pouco aquele instituto foi inaugurado, a primeira obra ficou parada e sem destino.<\/p>\n<p>O Governo resolveu conclu\u00ed-lo e meter nele algumas institui\u00e7\u00f5es. Falei sobre isso, h\u00e1 tempos, com o Ministro do Interior, que me n\u00e3o respondeu definitivamente acerca da Academia; mas h\u00e1 duas semanas soube que a nossa Academia tamb\u00e9m seria alojada, e ontem fui procurado pelo engenheiro daquele Minist\u00e9rio. Soube por este que a nossa, a Academia de Medicina, o Instituto Hist\u00f3rico e o dos Advogados ficar\u00e3o ali. Fui com ele ver o edif\u00edcio e a ala que se nos destina, e onde h\u00e1 lugar para as sess\u00f5es ordin\u00e1rias e biblioteca. Haver\u00e1 um sal\u00e3o para as sess\u00f5es de recep\u00e7\u00e3o e comum \u00e0s outras associa\u00e7\u00f5es para as suas sess\u00f5es solenes. \/ Seguramente era melhor dispor a Academia Brasileira de um s\u00f3 pr\u00e9dio, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel agora, e mais vale aceitar com prazer o que se nos oferece e parece bom. Outra gera\u00e7\u00e3o far\u00e1 melhor. \/ Interrompo-me aqui para n\u00e3o demorar mais a resposta, ainda que v\u00e1 completa do que h\u00e1, mas a mat\u00e9ria com V. \u00e9 sempre renascente. Demais, o prazer que traz a certeza de que me l\u00ea um amigo, d\u00e1 vontade de continuar. V\u00e1 desde j\u00e1 o abra\u00e7o do costume, enquanto o permitem estes velhos ossos do \/ Velho am.\u00b0 e grande admirador \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[117] A RUI BARBOSA<\/p>\n<p>[RJ, 9 nov. 1903.] Ex.mo Sr. Senador Rui Barbosa, \/ Li, com a pausa necess\u00e1ria a t\u00e3o largo, numeroso e profundo trabalho, a R\u00e9plica de V. Ex.\u00aa \u00e0s defesas de rela\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Civil, da qual agrade\u00e7o o exemplar que me mandou. Que, mais de uma vez, fique o meu nome entre os que V. Ex.\u00aa escolheu como dignos de cita\u00e7\u00e3o, \u00e9 j\u00e1 de si grande honra, mas V. Ex.\u00aa a fez ainda maior com as palavras generosas que lhe acrescentou a meu respeito. Assim que, ambas as raz\u00f5es, a de admira\u00e7\u00e3o e a de gratid\u00e3o, me levam a guardar este livro entre os que mais prezo, para estudo da nossa l\u00edngua e anima\u00e7\u00e3o a mim pr\u00f3prio. Queira V. Ex.\u00aa receber a sincera express\u00e3o de minhas homenagens, como de quem \u00e9 de V. Ex.a Velho adm.\u00b0 am.\u00b0 e obr.\u00b0 \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[118] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[Nova Friburgo, 14 jan. 1904.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Vai ficar espantado. A sua carta chegou aqui comigo, e mal entrei no Hotel Engert, onde estou, era-me ela entregue. N\u00e3o quero dizer que viesse antes de escrita, mas que eu n\u00e3o vim s\u00e1bado, como supunha, e s\u00f3 ontem, quarta-feira, pude fazer viagem, tudo por causa da parede dos carroceiros e cocheiros. N\u00e3o entro em pormenores que j\u00e1 enfadam. \/ Agrade\u00e7o muito as palavras amigas que me escreveu, e as desculpas que n\u00e3o eram necess\u00e1rias mas provam sempre o seu afeto. Minha mulher agradece-lhe igualmente os seus bons desejos, e espera, como eu, ganhar aqui o que se perdeu com a doen\u00e7a, se n\u00e3o \u00e9 esta (anemia) que persiste ainda; o clima \u00e9 bom e dizem que famoso para esta sorte de males. Enfim, agrade\u00e7o-lhe os n\u00fameros do Temps e a carta que estava no Garnier. Vim achar aqui alguma diferen\u00e7a do que era h\u00e1 vinte anos, n\u00e3o tal, por\u00e9m, que pare\u00e7a outra coisa. H\u00e1 um jardim bem cuidado, e algo mais. O resto conserva-se.<\/p>\n<p>Posso consolar-me com o que correspondente de Viena diz no Temps que Voc\u00ea me mandou, a prop\u00f3sito da demoli\u00e7\u00e3o da casa em que morreu Beethoven: &#8220;Si la maison de Beethoven avai \u00e9t\u00e9 situ\u00e9e dans la partie vieille de Vienne, l\u00e1 o\u00f9 les ruelles tortueuses et b\u00e2tisses pitoresques subsisteront encore des si\u00e8cles; peut-\u00eatre eut-on pu la conserver.&#8221; \/ Suponhamos Viena, menos os s\u00e9culos que ter\u00e3o de viver as casas velhas. Quanto ao algo novo, al\u00e9m do jardim p\u00fablico e \u00e1rvores rec\u00e9m-plantadas, s\u00e3o uma d\u00fazia de casas de resid\u00eancia e ruas come\u00e7adas. \/ Adeus, meu caro Ver\u00edssimo. Recomenda\u00e7\u00f5es nossas \u00e0 sua Exma. Fam\u00edlia, e para Voc\u00ea um estreito abra\u00e7o do \/ Velho amigo e admirador \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[119] [Nova Friburgo, 17 jan 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Acabo de receber a segunda remessa do Temps e um cart\u00e3opostal datado de ontem perguntando-me se recebi a primeira. N\u00e3o s\u00f3 recebi a primeira, mas j\u00e1 lhe respondi agradecendo-lha, bem como os seus bons desejos a nosso respeito.<\/p>\n<p>Provavelmente a carta ter\u00e1 sido entregue depois da partida do cart\u00e3o; se n\u00e3o a recebeu, pe\u00e7o-lhe que mo diga para indagar o que houve, porquanto n\u00e3o fui eu que levei a carta, mas uma pessoa que sa\u00eda para o correio. \/ Agrade\u00e7o-lhe esta segunda remessa do Temps. O Cosmos chegou-me ontem, e j\u00e1 li a sua cr\u00f4nica do ano liter\u00e1rio, franca e justa, como sempre. Vou ler o resto da publica\u00e7\u00e3o, que me parece excelente, assim dure o que merece. N\u00e3o sei se esta carta ir\u00e1 a tempo (s\u00e3o duas horas da tarde de domingo) de descer na mala da manh\u00e3. Ouvi tais explica\u00e7\u00f5es a este respeito que n\u00e3o posso acabar de entender se h\u00e1 mala de manh\u00e3 ou s\u00f3 de tarde. No segundo caso, a carta s\u00f3 lhe chegar\u00e1 ter\u00e7a-feira. Vou pessoalmente \u00e0 Ag\u00eancia do Correio saber o que h\u00e1. \/ Minha mulher vai passando melhor, conquanto algumas pessoas amigas nos arrastassem a visitas e excurs\u00f5es e dessem conosco no Teatro, anteontem. O ar \u00e9 bom, o calor n\u00e3o \u00e9 mau, sem ser da mesma intensidade que o de l\u00e1, segundo contam e leio. Eu vou andando; n\u00e3o tenho a palestra do Garnier, e particularmente a nossa, mas Voc\u00ea tem a arte de a fazer lembrar. \/ Li ontem no Jornal do Com\u00e9rcio a reincid\u00eancia do Eun\u00e1pio Deir\u00f3, e concordo com o que Voc\u00ea me disse na primeira carta. Concordar e tremer \u00e9 tudo um, por causa dos dois volumes anunciados. \/ Adeus meu caro Ver\u00edssimo, mande-me um bilhetinho dizendome se recebeu esta e outra carta, e receba um abra\u00e7o do \/ Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[120] [Nova Friburgo, 21 jan. 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Creio que V. ter\u00e1 j\u00e1 duas cartas minhas. Aqui vai terceira para acompanhar as duas remessas do Temps, que foram lidas com o prazer do costume; leva os meus agradecimentos de amigo e devoto leitor da folha. \/ Vamos passando. Tem havido chuvas e calores, estes comparativamente menores que l\u00e1 embaixo. Voc\u00ea e os seus como t\u00eam passado? Que h\u00e1 de novo entre os amigos da Academia e os habituados do Garnier? Daqui ou\u00e7o as vozes secretas da C\u00e2mara, e agora ou\u00e7o as primeiras da trovoada do dia c\u00e1 de cima. Esta impede muita vez os passeios ou interrompe-os. \/ Ontem excepcionalmente, n\u00e3o choveu. Ouvi missa cantada, ou meia cantada, na matriz, com acr\u00e9scimo de um serm\u00e3o, apologia de S. Sebasti\u00e3o, m\u00e1rtir. Nos domingos h\u00e1 tamb\u00e9m pr\u00e9dica no meio da missa. A igreja, que \u00e9 alegre, estava cheia. De tarde, prociss\u00e3o. Nesse cap\u00edtulo vim achar muito trabalho cat\u00f3lico. H\u00e1 um col\u00e9gio jesu\u00edta, do qual s\u00f3 est\u00e1 constru\u00eddo um ter\u00e7o, e ser\u00e1 dos maiores ou o maior edif\u00edcio. \/ Vou fechar a carta para ver se chega a tempo da mala. Escreva-me um bilhetinho em resposta, e quando souber alguma coisa que valha a pena dizer, \u00e9 diz\u00ea-lo ao velho amigo e admirador \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[121] [Nova Friburgo, 31 jan. 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro Ver\u00edssimo. \/ A letra vai ainda um pouco tr\u00eamula, mas os bei\u00e7os ficam menos arrebentados. Veladamente quero dizer que acabo de sair de uma febre que me trouxe de cama alguns dias. A inflama\u00e7\u00e3o de garganta que a acompanhou \u00e9 que me n\u00e3o deixou de todo, e ainda agora uso de um gargarejo, ao qual n\u00e3o sei que nome d\u00ea, mas que produz efeito. Veja o que s\u00e3o as coisas deste mundo. Entrei com sa\u00fade em cidade, onde outros v\u00eam convalescer de mol\u00e9stia, e apanhei uma mol\u00e9stia. Imagine-me um pouco mais magro, e cheio de saudades. \/ Receba j\u00e1 a parte destas que lhe pertence, e com ela receba a explica\u00e7\u00e3o do meu sil\u00eancio. Releve-me se n\u00e3o vou mais longe. Agrade\u00e7o-lhe a nova cole\u00e7\u00e3o do Temps que me chegou agora, Concordo com as impress\u00f5es que me confessa acerca da localidade, e se falar do meu carolismo n\u00e3o me desconceitue; diga que foi defluxo apanhado pouco depois de chegar. V\u00e1 desculpando estes rabiscos. N\u00e3o ponho mais na carta para que ela chegue \u00e0 mala que vai partir. Faz-me aqui a elei\u00e7\u00e3o em boa paz. Adeus. Reli a carta, \u00e9 tudo um embrulho, mas prefiro mand\u00e1-la assim mesmo a n\u00e3o lhe dizer uma linha. \/ Um abra\u00e7o mais do \/ Velho am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[122] [Nova Friburgo, 4 fev. 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Como vai Voc\u00ea? E os amigos do Garnier e da Academia? Digalhes que me lembro deles e que em breve, este mesmo m\u00eas, irei v\u00ea-los a todos. \/ Tem chovido e feito sol, menos sol que chuva; tal \u00e9 o achaque da terra. L\u00e1 parece que o calor faz das suas, conquanto alguns me digam que a temperatura tem feito concess\u00f5es. \/ Que me lembre do meu Rio de Janeiro, apesar dos excessos de calor que possa haver, \u00e9 coisa que facilmente se percebe. Contar-lhe-ei uma daqui. Em um dos quartos de banho aqui do Hotel achei escrito a l\u00e1pis as seguintes palavras: &#8220;Saudades de Nova Friburgo&#8221;.<\/p>\n<p>Suponho que as escreveu algu\u00e9m na v\u00e9spera de descer. Mas logo abaixo dei com estas outras, provavelmente de algu\u00e9m que ainda c\u00e1 ficava: &#8220;Saudades do Rio&#8221;. Era um protesto, tamb\u00e9m a l\u00e1pis, e a id\u00e9ia n\u00e3o parece mal cabida nem mal expressa. \/ Estive aqui com o Dr. Artur Porto, advogado no Par\u00e1, que desceu h\u00e1 dias, dizendo-me que antes de seguir para Pernambuco iria procur\u00e1-lo; deixei-lhe o n\u00famero de sua casa no Engenho Novo, e indiquei-lhe o Garnier; parece que ir\u00e1 \u00e0 livraria. Quando aqui cheguei, ele acabava de perder um filho e tinha outro doente. Este escapou, e l\u00e1 vai com ele o terceiro.<\/p>\n<p>Dissemos bastante mal a seu respeito. \/ Remeto-lhe com agradecimentos os n\u00fameros do Temps que me mandou. E aqui fico at\u00e9 breve. Minha mulher fortifica-se. Um abra\u00e7o para os amigos, e receba o seu do costume, com as saudades do \/ Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[123] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[Nova Friburgo, 10 fev. 1904.] Meu caro M\u00e1rio. \u2014 Dato esta carta de Nova Friburgo, donde pretendo descer no dia 25 ou 26 deste m\u00eas. Escrevo-lhe especialmente para que me diga, se \u00e9 poss\u00edvel, o que h\u00e1 relativamente \u00e0 casa da Academia Brasileira. O Jornal do Com\u00e9rcio, referindo-se anteontem, creio eu, ao complemento do edif\u00edcio da Lapa, diz que se n\u00e3o sabe ainda o destino que ele ter\u00e1. Penso que sobre isto h\u00e1 j\u00e1 decis\u00e3o do Sr. Ministro do Interior. Houve acaso altera\u00e7\u00e3o, excluindo a Academia? Confie-me o que h\u00e1, se n\u00e3o ao Presidente da institui\u00e7\u00e3o, ao seu amigo particular e grato. Ponha-lhe a nota de reserva, se for precisa. \/ Escrevi h\u00e1 dias ao Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, pedindo-lhe que d\u00ea lembran\u00e7as a todos os companheiros da Garnier. Que h\u00e1 de versos? Que h\u00e1 de prosa? \/ Os nossos respeitos \u00e0 sua fam\u00edlia e um abra\u00e7o apertado do velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[124] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[Nova Friburgo, 11 fev. 1904.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Recebi ontem a sua carta de 9, sem tempo de lhe escrever. Aqui vai esta para lhe agradecer as suas boas palavras e os seus conselhos, ao mesmo tempo que leva os meus desejos de o achar totalmente restabelecido. Como n\u00e3o \u00e9 coisa de cuidado a que o atacou, acredito que est\u00e1 como o deixei quando de l\u00e1 vim. \/ Quanto a voltar ao Rio, n\u00e3o o poderei fazer depois da data que lhe disse, creio eu 25 ou 26 do corrente, por motivo de servi\u00e7o p\u00fablico. At\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o terei mais nada, e minha mulher estar\u00e1 convalescida. \/ Nos \u00faltimos dias temos tido mais chuva que sol. Agora mesmo, ap\u00f3s o dia e a noite de ontem, estamos com a manh\u00e3 sem saber o que haver\u00e1 no resto do dia. Creio que chuva. \/ Recebi o livro que me mandou. J\u00e1 li o cap\u00edtulo relativo a Fran\u00e7ois Copp\u00e9e, que \u00e9 de chegar. Veja o que \u00e9 conservar uma impress\u00e3o antiga. Esta exclama\u00e7\u00e3o: G\u00e9n\u00e9reux et cher vieillard! causou-me espanto, por ter ainda na cabe\u00e7a o rapaz de outro tempo e o retrato que ent\u00e3o acompanhava as suas edi\u00e7\u00f5es. Corri a um espelho e reconheci que o tempo tamb\u00e9m correu para mim. \/ Concordo que os jornais bastem a dar not\u00edcia dos poucos sucessos do dia; poucos e na mor parte cedi\u00e7os. Daqui tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 muito que dizer, a n\u00e3o ser que muita gente se prepara para o Carnaval. \/ H\u00e1 tr\u00eas dias leio no Correio da Manh\u00e3 que h\u00e1 ali uma carta para Voc\u00ea, ainda da Inglaterra. Dou-lhe este aviso daqui. Assim soubesse eu de uns jornais de Estocolmo que me mandaram dali, acompanhados de carta escrita em portugu\u00eas por um professor sueco. \u00c9 coisa que interessa \u00e0 nossa Academia. Adeus; meus respeitos \u00e0 sua Exma. Senhora, com os agradecimentos de minha mulher a ambos, e mais um abra\u00e7o para Voc\u00ea. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[125] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[Nova Friburgo, 15 fev. 1904.] Querido e distinto am.\u00ba M\u00e1rio de Alencar, \/ Muito lhe agrade\u00e7o a sua resposta a minha carta relativa ao destino do edif\u00edcio da Praia da Lapa. As palavras do Dr. Seabra confirmam o que antes sabia por ele mesmo, e que o Jornal parecia fazer crer alterado.<\/p>\n<p>Agora sei, e em termos sempre positivos, que a Academia pode contar com a parte que lhe toca naquele excelente lugar. Ainda uma vez, obrigado. \/ Sobre a minha descida daqui, os seus conselhos s\u00e3o de bom amigo, como as demais palavras de carta, mas n\u00e3o posso deixar de a efetuar. Tudo assim o pede, e tudo est\u00e1 determinado. Sem d\u00favida, n\u00e3o \u00e9 pouca a necessidade que tenho de descansar, fora dessa minha cidade natal, onde o calor \u00e9 agora imenso, como me diz e todos os que me escrevem. Aqui n\u00e3o tenho calor, se n\u00e3o ando ao sol e o sol \u00e9 pouco. Quando eu a\u00ed chegar hei de estranhar a temperatura; mas enfim n\u00e3o pode ser de outra maneira. \/ Acabo aqui a carta para chegar ao tempo da mala, que \u00e9 fechada \u00e0s duas horas, e a Ag\u00eancia do Correio n\u00e3o \u00e9 perto. Ainda uma vez, agrade\u00e7o a boa vontade com que me leu e me tranq\u00fcilizou. Adeus, meu querido amigo, receba os nossos cumprimentos para sua Ex.ma Senhora e para si, e particularmente um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00b0 \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[126] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 6 mar. 1904.] Meu querido Salvador. \/ Estive ontem com o [C\u00e9sar] Campos. Ouvi-lhe que n\u00e3o podia responder logo, mas que em dois dias me mandaria recado \u00e0 Secretaria. N\u00e3o havendo obje\u00e7\u00e3o far\u00e1 a transfer\u00eancia do Paulo. At\u00e9 depois de amanh\u00e3. Nossos respeitos e muitas lembran\u00e7as do \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[127] [RJ, 9 mar. 1904.] Meu querido Salvador de Mendon\u00e7a. \/ Estive com o [C\u00e9sar] de Campos, que me mostrou a nota recolhida acerca das duas ag\u00eancias. Disse-me que j\u00e1 houvera pedido de transfer\u00eancia, e alegou que o serventu\u00e1rio do Rio Bonito j\u00e1 ali est\u00e1 h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p>Prop\u00f4s-me vir o Paulo para a Esta\u00e7\u00e3o Central; disse-me que esperava a resposta. N\u00e3o adiantei nada acerca da aposenta\u00e7\u00e3o do outro, nem respondi afirmativamente acerca da vinda para c\u00e1. Fiquei de lhe dar resposta. \/ A meu ver, \u00e9 melhor que Voc\u00ea escreva ao L\u00facio, como me disse. Ir\u00e1 assim mais direta e prontamente. Mande-me o que lhe parecer.<\/p>\n<p>\/ Adeus; desculpe a pressa com que esta carta \u00e9 escrita, para subir hoje, s\u00e1bado. Meus respeitos \u00e0 Ex.ma Senhora, e mais um abra\u00e7o do velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[128] [RJ, 30 mar. 1904.] Meu querido Salvador de Mendon\u00e7a. \/ Aqui recebi, logo que voltei de Nova Friburgo, um exemplar do seu Ajuste de Contas, lembran\u00e7a de 46 anos de boa e constante amizade. \/ Quis rel\u00ea-lo, naturalmente, e ainda uma vez achar o efeito que este trabalho produziu em mim, desde o primeiro dia. N\u00e3o era precisa a amizade que nos liga; bastava o sentimento de justi\u00e7a que sempre mostrou em V. o que este livro t\u00e3o brilhantemente exp\u00f5e. Mandolhe aqui um abra\u00e7o apertado; outro, ainda uma vez, pelo discurso a Mac-Kinley pela resposta deste, e pela unanimidade da imprensa americana. \/ Minha mulher recomendase- lhe. Ela e eu pedimos que apresente a sua Ex.ma Senhora e a toda a fam\u00edlia os nossos sentimentos de respeito e amizade. \/ Lembran\u00e7as do \/ Velho am.\u00b0 MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[129] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 28 jun. 1904.] Meu caro Nabuco. \/ J\u00e1, com amigos comuns, lhe mandei os meus cumprimentos; o mesmo com a nossa Academia. Agora, pessoalmente, v\u00e3o estas poucas linhas levar-lhe o cordial abra\u00e7o do amigo, do patr\u00edcio e do admirador. \/ Aqui esper\u00e1vamos, desde muito, a solu\u00e7\u00e3o do \u00e1rbitro. Conhec\u00edamos a capacidade e a for\u00e7a do nosso advogado, a sua tenacidade e grande cultura, o amor certo e provado a este pa\u00eds. Tudo isso foi agora empregado, e o trabalho que vale por si, como a gl\u00f3ria de o haver feito e perfeito, n\u00e3o perdeu nem perde uma linha do que lhe custou e nos enobrecer\u00e1 a todos. Esta foi a manifesta\u00e7\u00e3o da imprensa e dos homens, pol\u00edticos e outros. \/ Quisera dizer-lhe de viva voz estas palavras, mas creio que n\u00e3o voltar\u00e1 c\u00e1 por ora, seguindo da\u00ed para Londres, e pela minha parte n\u00e3o irei l\u00e1. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo para os meus anos compridos, natural fadiga, al\u00e9m de outras raz\u00f5es que impedem este passo, que considero de gigante. Mas, ainda que de longe, terei o gosto de v\u00ea-lo continuar a honrar esse nome, duas vezes seu, pelo pai que tanto fulgiu outrora, e por si. Voc\u00ea escreveu a vida de um, algu\u00e9m escrever\u00e1 um dia a do outro e nela entrar\u00e1 o nobre cap\u00edtulo que acaba de fechar. \/ Agrade\u00e7o-lhe as lembran\u00e7as \u00faltimas que tem tido de mim especialmente a derradeira mandada das ru\u00ednas do teatro grego e de uma de suas vistas. Assim me deu com lembran\u00e7a de amigo o aspecto de coisas que levantam o esp\u00edrito c\u00e1 de longe e fazem gemer duas vezes pela dist\u00e2ncia no tempo e no espa\u00e7o. \/ A nossa Academia Brasileira tem j\u00e1 o seu aposento como deve saber. N\u00e3o \u00e9 separado como quis\u00e9ramos; faz parte de um grande edif\u00edcio dado a diversos institutos. Um destes a Academia de Medicina, j\u00e1 tomou posse da parte que lhe cabe, e fez sua inaugura\u00e7\u00e3o em sala que deve ser comum \u00e0s sess\u00f5es solenes.<\/p>\n<p>N\u00e3o recebi ainda oficialmente a nossa parte, espero-a por dias. \/ Adeus, meu caro Nabuco. Aceite ainda uma vez a afirma\u00e7\u00e3o do particular afeto do \/ Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[130] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 21 jul. 1904.] Meu querido Salvador. \u2014 N\u00e3o quero que passe o dia de hoje sem cumprimentar-te, ainda que por letra, n\u00e3o podendo faz\u00ea-lo em pessoa. Tenho h\u00e1 muito minha mulher doente. N\u00e3o quero, por\u00e9m, que este dia de teus anos acabe sem mandar aqui um abra\u00e7o de felicita\u00e7\u00f5es e saudade. \/ Outra felicita\u00e7\u00e3o e outra saudade v\u00e3o aqui pelo teu discurso sobre Jo\u00e3o Caetano. C\u00e1 o li e reli e guardei; fizeste-me reviver dias passados, compuseste a figura do nosso grande tr\u00e1gico, ele o tempo, e que tempo! A gente nova viu a vida, a pessoa, o quadro, os sucessos, adivinhou a arte e o g\u00eanio que de hoje achou fino gosto naquilo que pessoalmente lhe n\u00e3o recordou nada; viu a vida, a pessoa, o quadro, os sucessos, adivinham a arte e o g\u00eanio que possu\u00edmos. Quando falaste do Paran\u00e1 e da amizade que o aliava a Jo\u00e3o Caetano, fizeste-me lembrar que o estadista morreu nos bra\u00e7os do ator, e que um poeta da Bahia, ora esquecido (Manuel Pessoa da Silva), em poema que escreveu sobre o marqu\u00eas, terminou a composi\u00e7\u00e3o com estes dois versos: E o g\u00eanio da pol\u00edtica fenece Nos bra\u00e7os do imortal g\u00eanio da cena Vi tamb\u00e9m atrav\u00e9s do discurso o perfil do nosso querido [Henrique C\u00e9sar] Muzzio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me lembras-te ao narrar a noite do ensaio da Joana de Flandres, a festa da primeira representa\u00e7\u00e3o desta \u00f3pera, quando tu, eu e tantos outros, cercando o Carlos Gomes, descemos em aclama\u00e7\u00f5es ali pela Rua dos Ciganos abaixo. Restamos alguns, e as lembran\u00e7as que n\u00e3o acabam; dado que esmore\u00e7am, a\u00ed est\u00e1 uma voz para as avivar com a velha alma sempre nova. \/ Adeus, meu querido Salvador, recomenda-me aos teus, e n\u00e3o esque\u00e7as o \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[131] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 3 out. 1904.] Meu querido M\u00e1rio. \/ Ontem li e reli o seu artigo acerca de Esa\u00fa e Jac\u00f3. Pela nossa conversa\u00e7\u00e3o particular e pela sua cartinha de 26 sabia j\u00e1 a impress\u00e3o que lhe deu o meu \u00faltimo livro; o artigo publicado no Jornal do Com\u00e9rcio veio mostrar que a sua boa amizade n\u00e3o me havia dito tudo. Creio na sinceridade da impress\u00e3o, por mais que ela esteja contada em termos altos e superiores ao meu esfor\u00e7o. Vi que penetrou o sentido daquelas p\u00e1ginas, que as leu com amor e simpatia, e desta \u00faltima parte nasceu dizer tanta coisa bela, mais ainda para quem j\u00e1 vai em pleno inverno. Ainda bem que lhe n\u00e3o desmereci do que sentia antes. \/ Se houvesse de compor um livro novo, n\u00e3o me esqueceria esta fortuna de amigo, que ali\u00e1s c\u00e1 fica no cora\u00e7\u00e3o. \/ Adeus, um abra\u00e7o e at\u00e9 breve \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[132] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 4 out. 1904.] Meu caro J. Ver\u00edssimo. \/ Recebi ontem de manh\u00e3 a carta que me enviou em data de 30, dando-me not\u00edcias suas, pessoais e de fam\u00edlia. As minhas s\u00e3o as de costume. Minha mulher manda agradecer-lhe os seus desejos de boa sa\u00fade. Ontem mesmo encontrei o Euclides da Cunha, que est\u00e1 prestes a embarcar para o Norte; pretendia ir o dia 8, mas ir\u00e1 mais tarde. Pode escrever-lhe para a Rua das Laranjeiras n.\u00b0 76, onde se acha.<\/p>\n<p>Chegou a querer escrever o discurso de recep\u00e7\u00e3o na Academia; n\u00e3o podendo faz\u00ea-lo, por ser urgente a partida; disse-me que apenas far\u00e1 a comunica\u00e7\u00e3o por of\u00edcio, segundo lhe permitem os Estatutos. Estimo que o meu Esa\u00fa e Jac\u00f3 lhe tenha produzido o efeito que me diz na carta. Se lhe pareceu que l\u00e1 me teve a seu lado, em longa e interessante palestra, \u00e9 porque estava tamb\u00e9m comigo, bastou a suprir a presen\u00e7a do amigo velho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu c\u00e1 o tive com o seu \u00faltimo volume dos Estudos de Literatura (4\u00aa s\u00e9rie), publicados na mesma ocasi\u00e3o. J\u00e1 lhe conhecia as v\u00e1rias partes, entre elas a que me diz respeito, e que ainda uma vez lhe agrade\u00e7o cordialmente. J\u00e1 de h\u00e1 muito estou acostumado \u00e0 sua cr\u00edtica ben\u00e9vola, e mais que ben\u00e9vola. Esta nova s\u00e9rie de estudos, vindo juntar-se \u00e0s outras, dar\u00e1 caminho a um estudo geral das nossas letras, que servir\u00e1 de guia a cr\u00edticos futuros. \/ Parece-me que a nossa Academia Brasileira de Letras vai ser completada no que concerne ao pr\u00e9dio e \u00e0 mob\u00edlia. Esta, que ainda falta, ser\u00e1 dada por meio da emenda que os deputados Eduardo Ramos e Medeiros e Albuquerque acabam de propor or\u00e7amento do Minist\u00e9rio do Interior. Resta o estudo da comiss\u00e3o, que n\u00e3o parece lhe seja contr\u00e1rio, por se tratar de fazer cumprir o art. 1\u00ba da Lei de 8 de dezembro de 1900. \/ Quanto \u00e0 vaga de Martins J\u00fanior s\u00f3 temos at\u00e9 agora um candidato apresentado, o Os\u00f3rio Duque Estrada; os outros (e naturalmente h\u00e1 outros) ainda n\u00e3o apresentaram as respectivas declara\u00e7\u00f5es, Esperamo-las. \/ Apesar de estar no fim do mundo, como me disse na carta, l\u00e1 chegar\u00e1 o abra\u00e7o que lhe mando daqui, e at\u00e9 breve.<\/p>\n<p>\/Apresente os meus respeitos \u00e0 sua fam\u00edlia, e n\u00e3o esque\u00e7a o \/ Velho am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[133] A ALCIDES MAIA<\/p>\n<p>[RJ, 10 out. 1904.] Meu jovem colega. \/ Deixe-me agradecer-lhe cordialmente as boas e finas palavras que fez publicar no Pa\u00eds acerca do meu livro Esa\u00fa e Jac\u00f3. Quando se conclui algum trabalho d\u00e1 sempre grande prazer achar que o entenda e explique com sincera benevol\u00eancia e aguda penetra\u00e7\u00e3o. Valham-me as suas agora, expostas com t\u00e3o graciosa maneira, e aceite este aperto de m\u00e3o do \/ Velho colega \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[134] A DOM\u00cdCIO DA GAMA<\/p>\n<p>[RJ, 26 out. 1904.] Meu caro am.\u00b0 \/ H\u00e1 sempre algum amparo na condol\u00eancia dos amigos, em um transe destes. A raz\u00e3o \u00e9 deveras a que me d\u00e1, dizendo haver nela um pouco da do\u00e7ura, que \u00e9 a simpatia humana. Aprendo esta verdade, e a minha completa fortuna seria ir lev\u00e1-la cedo \u00e0 companheira de toda a minha vida. Aceite os agradecimentos do \/ Velho am.\u00ba e colega \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[135] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 28 out. 1904.] Meu querido Salvador de Mendon\u00e7a \/ J\u00e1 ontem recebi na igreja os teus p\u00easames e por teu interm\u00e9dio os da tua boa e distinta esposa. Agrade\u00e7o-os a ambos. O pouco trato que entre elas houve foi bastante para avaliarem o cora\u00e7\u00e3o uma da outra. Eu, meu querido amigo, estou ainda atordoado, pela imensidade do golpe, como pela injusti\u00e7a que a feriu.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s trinta e cinco anos de casados \u00e9 um preparo para a morte. \/ Teu velho am.\u00ba do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[135.a] AO BAR \u00c3O DO RIO BRANCO [RJ, 28 out. 1904.] Meu ilustre amigo, \/ Agrade\u00e7o cordialmente os p\u00easames que me mandou nesta grande desgra\u00e7a da minha vida. J\u00e1 os havia pressentido pelo costume em que me p\u00f4s de ser sempre bom comigo. Adeus, meu amigo, creia \/ no Velho e sincero ad.or MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[136] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 20 nov. 1904.] Meu caro Nabuco. \/ T\u00e3o longe, em outro meio, chegou-lhe a not\u00edcia da minha grande desgra\u00e7a e V. expressou logo a sua simpatia por um telegrama. A \u00fanica palavra com que lhe agradeci \u00e9 a mesma que ora lhe mando, n\u00e3o sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha. Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou s\u00f3 no mundo. Note que a solid\u00e3o n\u00e3o me \u00e9 enfadonha, antes me \u00e9 grata, porque \u00e9 um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas n\u00e3o h\u00e1 imagina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o acorde, e a vig\u00edlia aumenta a falta da pessoa amada. \u00c9ramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque n\u00e3o acharia ningu\u00e9m que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu n\u00e3o tenho nenhum. Os meus s\u00e3o os amigos, e verdadeiramente s\u00e3o os melhores; mas a vida os dispersa, no espa\u00e7o, nas preocupa\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito e na pr\u00f3pria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou \u00e0 beira do eterno aposento, n\u00e3o gastarei muito tempo em record\u00e1-la. Irei v\u00ea-la, ela me esperar\u00e1. \/ N\u00e3o posso, meu caro amigo, responder agora \u00e0 sua carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do falecimento de minha mulher, e Voc\u00ea compreende que apenas posso falar deste fundo golpe. \/ At\u00e9 outra e breve: ent\u00e3o lhe direi o que conv\u00e9m ao assunto daquela carta, que, pelo afeto e sinceridade, chegou \u00e0 hora dos melhores rem\u00e9dios. Aceite este abra\u00e7o do triste amigo velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[137] [RJ, 6 dez. 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ Quando ia responder \u00e0 sua carta de 8 de outubro, aqui chegada depois da morte da minha querida Carolina, trouxe-me o correio outra de 17 de novembro, a respeito desta cat\u00e1strofe. A nova carta veio com palavras de anima\u00e7\u00e3o, quais poderiam ser ditas por V. t\u00e3o altas, cabais e verdadeiras. H\u00e1 s\u00f3 um ponto, meu querido amigo; \u00e9 que as l\u00ea e rel\u00ea um velho homem sem for\u00e7as, radicalmente enfermo. Farei o que puder, para obedecer ao preceito da amizade e da bondade. Ainda uma vez, obrigado! \/ Indo \u00e0 carta anterior, dir-lhe-ei que a inscri\u00e7\u00e3o para a Academia terminou a 30 de novembro, e os candidatos s\u00e3o o Os\u00f3rio Duque Estrada, o Vicente de Carvalho e o Sousa Bandeira. A candidatura do Jaceguai n\u00e3o apareceu; tive mesmo ocasi\u00e3o de ouvir a este que n\u00e3o se apresentaria. Quando ao Quintino, n\u00e3o falou a ningu\u00e9m. A sua teoria das superioridades \u00e9 boa; os nomes citados s\u00e3o dignos, eles \u00e9 que parecem recuar. Estou de acordo com o que V. me escreve acerca do Assis Brasil, mas tamb\u00e9m este n\u00e3o se apresentou. A elei\u00e7\u00e3o, entre os inscritos, tem de ser feita na primeira quinzena de fevereiro. Estou pronto a servir a V., como guarda da sua consci\u00eancia liter\u00e1ria, por mais bisonho que possa ser.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempo para receber as suas ordens e a sua c\u00e9dula. \/ Adeus, meu caro amigo. Tenho estado com o nosso Gra\u00e7a Aranha, que trata de estabelecer casa em Petr\u00f3polis, onde vai trabalhar oficial e literariamente; ouvi falar de outro livro, que para ser belo, n\u00e3o precisa mais que a filia\u00e7\u00e3o de Cana\u00e3. O Ver\u00edssimo est\u00e1 de h\u00e1 muito restaurado. Eu, se reviver do grande golpe, n\u00e3o o deverei menos, a V. e \u00e0s suas belas palavras, para o \u00fanico fim de resistir; n\u00e3o \u00e9 que a vida em si me valha muito. Releve-me a insist\u00eancia, e receba um abra\u00e7o amant\u00edssimo do \/am.\u00ba velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[138] [RJ, 13 dez. 1904.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ N\u00e3o se admire se esta carta repetir alguma resposta j\u00e1 dada, tal \u00e9 a confus\u00e3o do meu esp\u00edrito depois da desgra\u00e7a que me abateu. Fiquei de lhe responder especialmente sobre a elei\u00e7\u00e3o da Academia; \u00e9 o que vou fazer. Se j\u00e1 o fiz, n\u00e3o se perde nada. \/ Os candidatos s\u00e3o apenas tr\u00eas, Os\u00f3rio Duque Estrada, Vicente de Carvalho e Jo\u00e3o Bandeira. N\u00e3o se apresentou o Jaceguai; perguntei-lhe dentro do prazo o que cuidava fazer, disse-me que n\u00e3o se apresentaria. Os outros nomes citados por V.<\/p>\n<p>merecem as reflex\u00f5es que os acompanham, e tenho que o seu plano no modo de ir recompondo o pessoal acad\u00eamico \u00e9 acertado. Mas \u00e9 preciso que as candidaturas venham de si mesmas, em vez de se deixarem quietas, como est\u00e3o. Desta vez, com a casa nova e a quantia votada no or\u00e7amento para a mob\u00edlia (pende ainda do Senado o or\u00e7amento), sempre cuidei que os candidatos seriam mais numerosos. Parece-me que alguns n\u00e3o suportam a id\u00e9ia da elei\u00e7\u00e3o, como se fosse um desaire. V. sabe que n\u00e3o h\u00e1 desaire; a escolha de um nome pode ser explicada por circunst\u00e2ncias, al\u00e9m do valor pessoal do candidato. O preterido n\u00e3o perde nada; ao contr\u00e1rio, fica uma esp\u00e9cie de d\u00favida por parte da Academia, que n\u00e3o far\u00e1 parar \u00e0 porta esquecido quem j\u00e1 tiver direito de ocupar c\u00e1 dentro uma cadeira. \/ H\u00e1 tempo para vir o seu voto, e estou a receb\u00ea-lo; se quiser que eu escreva a c\u00e9dula, posso ser seu secret\u00e1rio. Basta indicar o nome. J\u00e1 lhe citei os tr\u00eas, Bandeira, Os\u00f3rio e Vicente de Carvalho. Pelo que me disse na carta de 8 de outubro, o Bandeira escreveu-lhe, e terei prazer em adot\u00e1-lo, se n\u00e3o fossem as raz\u00f5es, que ali\u00e1s desapareceram. Aqui estou para tudo o que V. mandar; aproveite enquanto h\u00e1 algumas for\u00e7as restantes; n\u00e3o tardar\u00e1 muito que elas se v\u00e3o e fique s\u00f3 um triste esqueleto de vontade. \/ Ontem \u00e0 noite estiveram aqui em casa o Gra\u00e7a e sua Senhora, falamos de V., de literatura e de viagem. Sobem daqui a dois dias para Petr\u00f3polis, onde o Gra\u00e7a vai funcionar na comiss\u00e3o do Acre. O Ver\u00edssimo est\u00e1 restabelecido. \/ Quero pedir-lhe uma coisa, se \u00e9 poss\u00edvel, \/ mandar-me alguma das suas fotografias \u00faltimas. \/ N\u00e3o vi ainda o Conde Prozor, ministro da R\u00fassia, de que falamos ontem com refer\u00eancia \u00e0 carta de 8 de outubro. Se tiv\u00e9ssemos agora a recep\u00e7\u00e3o na Academia, eu quisera obter do conde a fineza de vir a ela com a condessa, mas o Euclides da Cunha, que devia tomar posse, f\u00ealo por carta ao secret\u00e1rio, e embarca amanh\u00e3 para o alto Purus, onde vai ocupar um lugar de chefe de comiss\u00e3o. \/ Adeus, meu caro Nabuco, continue a n\u00e3o esquecer e dispor do \/ Velho am.\u00ba afetuos\u00edssimo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[139] A FRANCISCO RAMOS PAZ<\/p>\n<p>[RJ, 15 dez. 1904.] Meu caro Paz, \/ Obrigado pelas tuas palavras e pelo teu abra\u00e7o. Ainda que de longe, senti-lhes o afeto antigo, t\u00e3o necess\u00e1rio nesta m.\u00aa desgra\u00e7a. N\u00e3o sei se resistirei muito.<\/p>\n<p>Fomos casados durante 35 anos, uma exist\u00eancia inteira; por isso, se a solid\u00e3o me abate, n\u00e3o \u00e9 a solid\u00e3o em si mesmo, \u00e9 a falta da minha velha e querida mulher. Obrigado. At\u00e9 breve, segundo me anuncias, e oxal\u00e1 concluas a viagem sem as contrariedades a que aludes. Abra\u00e7a-te \/ O velho am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[140] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 11 Jan. 1905.] Meu caro Embaixador. \/ Deixe-me dar-lhe o t\u00edtulo que j\u00e1 corre impresso. O Jornal do Com\u00e9rcio foi o primeiro que publicou a not\u00edcia com a discri\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a do costume.<\/p>\n<p>Hoje leio que o ministro americano Thompson j\u00e1 est\u00e1 nomeado desde ontem. \/ N\u00e3o \u00e9 preciso dizer-lhe o efeito que a not\u00edcia produziu aqui. Todos a aplaudiram, e os seus amigos juntamos ao aplauso geral aquele sentimento particular que V. ganhou e possui em nossos cora\u00e7\u00f5es. Come\u00e7a V. a hist\u00f3ria desta nova fase da nossa vida diplom\u00e1tica. \/ Releve-me, meu caro Nabuco, estas poucas linhas em momento que pedia muitas.<\/p>\n<p>Acordei um pouco enfermo, e, se n\u00e3o fraquear no prop\u00f3sito de calar, s\u00f3 confiarei a not\u00edcia V., porque, apesar do mal-estar, vou para o meu of\u00edcio. Receba um forte abra\u00e7o, t\u00e3o longo como a dist\u00e2ncia que nos separa. Voc\u00ea sabe que \u00e9 sincero este meu gosto de o ver levantado pelo Brasil at\u00e9 onde merece a sua capacidade. Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus cumprimentos \u00e0 ditosa e digna Embaixatriz, e continue a amizade de que h\u00e1 dado tantas e tocantes provas ao \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[141] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 4 fev. 1905.] Meu caro Jos\u00e9 Ver\u00edssimo. \/ Ontem, depois que nos separamos, recebi o livro e a carta que V. me deixou no Garnier. Quando abri o pacote, vi o livro e li a carta, recebi naturalmente a impress\u00e3o que me d\u00e3o letras suas, \u2014 maior desta vez pelo assunto.<\/p>\n<p>Obrigado, meu amigo, pelas palavras de carinho e conforto que me mandou e pelo sentimento de piedade que o levou \u00e0 devolu\u00e7\u00e3o do livro. Foi certamente o \u00faltimo volume que a minha companheira folheou e leu trechos, esperando faz\u00ea-lo mais tarde, como aos outros que ela me viu escrever. C\u00e1 vai o volume para o pequeno m\u00f3vel onde guardo uma parte das lembran\u00e7as dela. Esta outra lembran\u00e7a traz a nota particular do amigo. \/ Apesar da exorta\u00e7\u00e3o que me faz e da f\u00e9 que ainda p\u00f5e na possibilidade de algum trabalho, n\u00e3o sei se este seu triste amigo poder\u00e1 meter ombros a um livro, que seria efetivamente o \u00faltimo. Pelo que \u00e9 viver comigo, ela vivi e viver\u00e1, mas a for\u00e7a que me d\u00e1 isto \u00e9 empregada na resist\u00eancia \u00e0 dor que ela me deixou. Enfim, pode ser que a necessidade do trabalho me traga esses efeitos que V. t\u00e3o carinhosamente afian\u00e7a. Eu quisera que assim fosse. \/ Quanto \u00e0 minha vis\u00e3o das coisas, meu amigo, estou ainda muito perto de uma grande injusti\u00e7a para descrer do mal. Nabuco, animando-me como V., escreveu-me que a mim coube a melhor parte \u2014 &#8220;o sofrimento&#8221;. A vis\u00e3o dele \u00e9 outra, mas em verdade o sofrimento \u00e9 ainda a melhor parte da vida. \/ Adeus, obrigado, n\u00e3o esque\u00e7a este seu velho \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[142] L\u00daCIO DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 3 mar. 1905.] Meu querido am.\u00ba e confrade \/ Compreendo o t\u00e9dio que lhe deu o desvio ou perda da carta de 12 ou 13 do m\u00eas passado. Ontem de manh\u00e3 fui ter com o Diretor dos Correios para lhe contar o caso e pedir provid\u00eancias. Respondeu-me que ia telegrafar imediatamente ao agente de Teres\u00f3polis, e ao mesmo tempo ordenar aos empregados da Reparti\u00e7\u00e3o que receberam as malas examinassem esta falta. Ouviria tamb\u00e9m o carteiro incumbido da correspond\u00eancia oficial visto que a sua carta trazia o endere\u00e7o para a Secretaria. Na mesma ocasi\u00e3o exp\u00f4s longamente a facilidade que h\u00e1 em desvios de cartas apesar do cuidado. \/ Viu que a vota\u00e7\u00e3o da Academia n\u00e3o meu maioria a nenhum dos candidatos, havendo entre ambos apenas um voto de diferen\u00e7a. Vamos a novo escrut\u00ednio em maio. J\u00e1 ent\u00e3o o teremos aqui. \/ Sobre o que me diz acerca da falta de declara\u00e7\u00e3o de membro da Academia Brasileira no livro A Caminho, pode ser que tenha raz\u00e3o. O meu editor, por\u00e9m, j\u00e1 a imprimiu na nova edi\u00e7\u00e3o da Helena. Venha o seu livro, que me lembrar\u00e1s dias idos. Vamos recolhendo o que houver ficado pela estrada. \/ Adeus, meu querido L\u00facio, receba um abra\u00e7o do \/ Velho e triste amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[143] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 24 jun. 1905.] Meu querido Nabuco. \/ Deixe-me agradecer-lhe a fotografia e a lembran\u00e7a. Aquela \u00e9 soberba, e esta \u00e9 doce ao meu cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 agora despojado da vida. Consolam-me ainda mem\u00f3rias de amigo, meu querido Nabuco. Esta aqui fica na minha sala, com as de outros \u00edntimos. \/ J\u00e1 aqui lemos a not\u00edcia de recep\u00e7\u00e3o da embaixada e o discurso do embaixador.<\/p>\n<p>Foi o que se devia esperar, na altura do cargo, dos dois pa\u00edses e do orador amado e admirado de n\u00f3s todos. Cabe-lhe um leg\u00edtimo papel na hist\u00f3ria das nossas rela\u00e7\u00f5es internacionais, e agora especialmente americanas. \u00c9 um desses casos em que o governo acerta nomeando o nomeado da opini\u00e3o, sem perder por isso a gl\u00f3ria do ato. \/ N\u00f3s c\u00e1 vamos andando. A Academia elegeu o seu escolhido, o Sousa Bandeira, que talvez seja recebido em julho ou agosto, respondendo-lhe o Gra\u00e7a Aranha. A cerim\u00f4nia ser\u00e1 na casa nova e pr\u00f3pria, entre os m\u00f3veis que o Ministro do Interior, o Seabra, mandou dar-nos.<\/p>\n<p>Vamos ter elei\u00e7\u00e3o nova para a vaga do Patroc\u00ednio. At\u00e9 agora s\u00f3 h\u00e1 dois candidatos, o Padre Severiano de Resende e Domingos Ol\u00edmpio. \/ Adeus, meu querido Nabuco.<\/p>\n<p>Disponha sempre deste velho e triste amigo, que o conheceu adolescente e teve a boa fortuna de lhe ouvir as primeiras palavras, que fizeram adivinhar o homem brilhante e grave que viria a ser um dia. Adeus, saudades do \/ Am.\u00b0 de sempre \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[144] [RJ, 11 ago. 1905.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ Escrevo algumas horas depois do seu ato de grande amigo. Em qualquer quadra da minha vida ele me comoveria profundamente; nesta em que vou a como\u00e7\u00e3o foi muito maior. Voc\u00ea deu bem a entender, com a arte fina e substanciosa, a palmeira solit\u00e1ria a que vinha o galho do poeta. \/ O que a Academia, a seu conselho, me fez ontem, basta de sobra a compensar os esfor\u00e7os da minha vida inteira; eu lhe agrade\u00e7o haver se lembrado de mim t\u00e3o longe e t\u00e3o generosamente. \/ O Gra\u00e7a desempenhou a incumb\u00eancia com as boas palavras que V. receber\u00e1. Antes dele o Rodrigo Ot\u00e1vio leu a sua carta diante da sala cheia e curiosa. Ao Gra\u00e7a seguiram conversas de amigo o Alberto de Oliveira e o Salvador de Mendon\u00e7a. \/ A recep\u00e7\u00e3o do Bandeira esteve brilhante. L\u00e1 ver\u00e1 o excelente discurso do novo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Respondendo-lhe, o Gra\u00e7a mostrou-se pensador, farto de id\u00e9ias, expressas em forma animada e rica. A Academia est\u00e1, enfim, aposentada e alfaiada; resta-lhe viver. \/ Adeus, meu querido amigo, ainda uma vez obrigado. Aceite um apertado abra\u00e7o do \/ Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[145] [RJ, 29 ago. 1905.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ Recebi a sua carta escrita das Montanhas Brancas. H\u00e1 dias escrevilhe uma agradecendo a generosa e afetuosa lembran\u00e7a do carvalho de Tasso. A Renascen\u00e7a reproduziu a sua carta e a do s\u00edndico de Roma, e deu as palavras do Gra\u00e7a e os versos do Salvador de Mendon\u00e7a e do Alberto de Oliveira. L\u00e1 ver\u00e1 como o nosso Gra\u00e7a correspondeu \u00e0 indica\u00e7\u00e3o que lhe fez, dizendo-me coisas vindas do cora\u00e7\u00e3o de ambos. \/ Os nossos amigos da Academia, ao par daquela fineza, quiseram fazer-me outra, p\u00f4r o meu retrato na sala das sess\u00f5es, e confiaram obra ao pincel de Henrique Bernardelli; est\u00e1 pronto, e vai primeiro \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o da Escola Nacional de Belas-Artes. O artista reproduziu o galho sobre uns livros que meteu na tela. Todos me t\u00eam acostumado \u00e0 benevol\u00eancia. Valha esta consola\u00e7\u00e3o \u00e0 amargura da minha velhice. \/ Sobre o voto da Academia recebi as suas indica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podendo cumpri-las por n\u00e3o ser candidato o Jaceguai nem o Artur Orlando. J\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 de saber que os candidatos s\u00e3o o Padre Resende, o Domingos Ol\u00edmpio e o M\u00e1rio de Alencar. Na Academia n\u00e3o h\u00e1 nem deve haver grupos fechados. \/ Venha o livro que medita; \u00e9 preciso que o embaixador n\u00e3o fa\u00e7a descansar o escritor; ambos s\u00e3o necess\u00e1rios \u00e0 nossa afirma\u00e7\u00e3o nacional. Dei aos amigos as lembran\u00e7as que lhes mandou, e eles lhas retribuem. As minhas saudades s\u00e3o as que V. sabe, nascem da dist\u00e2ncia e do tempo. Ainda agora achei um bilhete seu convidandome \u00e0 reuni\u00e3o da Rua da Princesa para fundar a Sociedade Abolicionista; \u00e9 de 6 setembro de 1880. Quanta coisa passada! Quanta gente morta! Sobrevivem cora\u00e7\u00f5es que, como o seu, sabem amar e merecem o amor. Adeus, meu caro Nabuco, n\u00e3o esque\u00e7a \/ O velho am.\u00ba admor. e companheiro \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[146] [RJ, 30 set. 1905.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ Aqui tenho a sua carta datada das Montanhas Brancas, onde foi descansar a algum tempo fazendo outra coisa. Diz-me que o lugar \u00e9 delicioso e fala-me da rapidez dos dias. Tudo merece, meu caro Nabuco, e n\u00f3s n\u00e3o merecemos menos o livro que promete nesta frase: &#8220;Quero ver se dou um livro.&#8221; Venha ele; \u00e9 preciso que descanse em um livro, seja qual for o objeto; trar\u00e1 a mesma roupagem nossa conhecida e amada. \/ A carta d\u00e1-me a indica\u00e7\u00e3o do seu voto no Jaceguai para a vaga do Patroc\u00ednio. O Jaceguai merece bem a escolha da Academia, mas ele n\u00e3o se apresentou e, segundo lhe ouvi, n\u00e3o quer apresentar-se. Creio at\u00e9 que lhe escreveu nesse sentido. Ignoro a raz\u00e3o, e ali\u00e1s concordo em que ele deve fazer parte do nosso gr\u00eamio. O Artur Orlando tamb\u00e9m n\u00e3o se apresentou. Os candidatos s\u00e3o os que j\u00e1 sabe, o Padre Severiano de Rezende, o Domingos Ol\u00edmpio e o M\u00e1rio de Alencar; provavelmente os tr\u00eas lhe haver\u00e3o escrito j\u00e1. A elei\u00e7\u00e3o \u00e9 na segunda quinzena de outubro, creio que no \u00faltimo dia. \/ J\u00e1 h\u00e1 de saber do meu retrato que amigos da Academia mandaram pintar pelo Henrique Bernardelli e est\u00e1 agora na exposi\u00e7\u00e3o anual da Escola de Belas Artes. O artista, para perpetuar a sua generosa lembran\u00e7a, copiou na tela, sobre uns livros, o galho do carvalho de Tasso. O pr\u00f3prio galho, com a sua carta ao Gra\u00e7a, j\u00e1 os tenho na minha sala, em caixa, abaixo do retrato que V. me mandou de Londres o ano passado. N\u00e3o falta nada, a n\u00e3o serem os olhos da minha velha e boa esposa que, tanto como eu, seria agradecida a esta dupla lembran\u00e7a do amigo. \/ A Academia vai continuar os seus trabalhos, agora mais ass\u00eddua, desde que tem casa e m\u00f3veis. Quando c\u00e1 vier tomar um banho da p\u00e1tria, ser\u00e1 recebido nela como merece de todos n\u00f3s que lhe queremos. Adeus, meu caro Nabuco, continue a lembrar-se de mim, onde quer que o nosso lustre nacional pe\u00e7a a sua presen\u00e7a. Eu n\u00e3o esque\u00e7o o amigo que vi adolescente, e de quem ainda agora achei uma carta que me avisava do dia em que devia fundar a Sociedade Abolicionista, na Rua da Princesa. L\u00e1 se v\u00e3o vinte e tantos anos! Era o princ\u00edpio da campanha vencida pouco depois com tanta gl\u00f3ria e t\u00e3o pacificamente. \/ Receba um apertado abra\u00e7o do \/ Velho admor. e am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[147] [RJ, 15 out. 1905.]<\/p>\n<p>Meu caro Nabuco. \/ Obrigado pelo exemplar da Washington Life em que vem o seu telegrama ao Roosevelt. J\u00e1 o havia lido, mas agora tenho aqui o pr\u00f3prio texto original, com as belas palavras e conceitos que V. lhe soube p\u00f4r, como ali\u00e1s p\u00f4s a tudo. Do ju\u00edzo da folha participamos todos os que temos a V. por embaixador do nosso esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m recebi as outras folhas que tratam da conclus\u00e3o da paz. Com raz\u00e3o celebram todas elas a grande obra do Presidente, e d\u00e3o nisto vivo exemplo de patriotismo. Certo \u00e9 tamb\u00e9m que a na\u00e7\u00e3o toda falou pela boca de Roosevelt, e ambos entraram nesta p\u00e1gina gloriosa do s\u00e9culo. O seu telegrama \u00e9 a voz da outra Am\u00e9rica falando ao vencedor da paz. A elei\u00e7\u00e3o da Academia deve ser feita em fins deste m\u00eas. Em carta que lhe escrevi, h\u00e1 dias, disse o que penso da elei\u00e7\u00e3o do Jaceguai, figura certamente representativa para a nossa casa, mas, como V. sabe, ele n\u00e3o se apresentou; nem ele nem o Artur Orlando. \/ Viu transcrito no Jornal do Com\u00e9rcio, entre os &#8220;a pedidos&#8221;, um trecho do seu belo artigo sobre a Sara Bernhardt? H\u00e1 de ter sido lembran\u00e7a do Rio Branco, que me pediu informa\u00e7\u00f5es sobre ele, no dia seguinte \u00e0 primeira representa\u00e7\u00e3o agora. Receava-se uma pateada, fizeram-lhe ova\u00e7\u00e3o, e ele quis provavelmente que a bandeira da sua autoridade envolvesse a grande artista. Voc\u00ea chamou-lhe ent\u00e3o (h\u00e1 vinte e tantos anos!) embaixatriz da Fran\u00e7a. N\u00e3o a vi agora, mas dizem que trouxe as mesmas credenciais. \/ Adeus, meu caro Nabuco, receba ainda um abra\u00e7o do admor. e velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[148] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 22 fev. 1906.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ A sua carta de 19 chegou aqui anteontem, mas suponho ter-lhe ouvido que desceria ontem pelas ex\u00e9quias, receei que a resposta se desencontrasse do destinat\u00e1rio, e n\u00e3o lhe escrevi no mesmo dia. Escrevo-lhe hoje para lhe agradecer as boas e amigas palavras que me mandou a respeito das Rel\u00edquias. J\u00e1 estou acostumado a elas. A sua afei\u00e7\u00e3o conhece a arte de acentuar a opini\u00e3o j\u00e1 de si ben\u00e9vola. Ainda bem que lhe agradaram essas p\u00e1ginas que o teimoso de mim foi pesquisar, ligar e imprimir como para enganar a velhice. N\u00e3o sei se ser\u00e3o derradeiras, creio que sim. Em todo caso estimo que n\u00e3o tenham parecido importunas ou enfadonhas, e o seu ju\u00edzo \u00e9 de autoridade. \/ Adeus, meu caro Ver\u00edssimo. N\u00e3o lhe digo at\u00e9 breve, porque, n\u00e3o podendo l\u00e1 ir, come\u00e7o a desconfiar que n\u00e3o vir\u00e1 mais c\u00e1; Petr\u00f3polis n\u00e3o perdeu, com as revolu\u00e7\u00f5es, o dom de enfeiti\u00e7ar e prender. Ao contr\u00e1rio, parece que o tem agora maior. Eu aqui indo, como posso, emendando o nosso Cam\u00f5es, naquela estrofe: H\u00e1 pouco que passar at\u00e9 outono&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e3o os anos descendo, e j\u00e1 de estio.<\/p>\n<p>Ponho outono onde \u00e9 estio, e inverno onde \u00e9 outono, e isto mesmo \u00e9 vaidade, porque o inverno j\u00e1 c\u00e1 est\u00e1 de todo. \/ Adeus, meu caro Ver\u00edssimo, lembran\u00e7as aos seus e aos amigos, com quem dividir\u00e1 as saudades do \/ Velho amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[149] A BELMIRO BRAGA<\/p>\n<p>[RJ, 23 jun. 1906.] Caro e distinto amigo. \/ Recebi a sua carta 21, com as boas palavras que me manda pelo meu anivers\u00e1rio. Gostei de as ler, com a natural restri\u00e7\u00e3o que lhes p\u00f5e de que tal data n\u00e3o \u00e9 de alegrias para mim, depois que perdi a minha boa companheira de trinta e cinco anos. Assim \u00e9: muito obrigado. Estou aqui um triste velho desamparado, contando alguns poucos amigos, entre os quais figura o seu nome de mo\u00e7o de talento. Creia-me sempre \/ velho am.\u00ba e confrade \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[150] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 26 dez. 1906.] Meu querido amigo. \/ Recebi ontem a sua carta de 24, e escrevo-lhe hoje sem saber se ter\u00e1 partido sempre para a fazenda. Creio que esta carta j\u00e1 l\u00e1 o encontre. O que lhe sucedeu na viagem era natural; eu chegaria do mesmo modo. Agora \u00e9 seguir e descansar, vendo as coisas novas e interessantes, com que areje a alma e fortale\u00e7a o corpo. Vejo que a esposa, a mam\u00e3e e os filhos chegaram sem novidade. As duas levaram o melhor vi\u00e1tico, o desejo de o ver bom e a confian\u00e7a na a\u00e7\u00e3o da ro\u00e7a. Todos n\u00f3s aqui partilhamos a mesma esperan\u00e7a e contamos v\u00ea-lo tornar restaurado para a fam\u00edlia, para os amigos e para as letras. \/ Eu tenho passado sem novidade. Agora estou bastante cansado, particularmente do pesco\u00e7o, que me d\u00f3i, visto que ontem gastei todo o dia curvado a trabalhar em casa. Para quem j\u00e1 havia trabalhado todo o domingo (nos outros dias tenho a interrup\u00e7\u00e3o das tardes), foi realmente demasiado. Mas eu n\u00e3o me corrijo. \/ Aqui nenhuma novidade. O Artur Orlando mandou-me carta apresentando-se candidato \u00e0 Academia na vaga do Loreto; j\u00e1 a levei ao Rodrigo Ot\u00e1vio para que publique a not\u00edcia e guarde a carta. Ainda n\u00e3o recebi a do Assis Brasil. N\u00e3o sei se teremos outros candidatos, mas \u00e9 poss\u00edvel. \/ A Academia pegou, como dizem alguns, e parece que sim. \/ Adeus, meu querido M\u00e1rio, at\u00e9 a pr\u00f3xima. Apresente os meus respeitos \u00e0s suas queridas companheiras, lembran\u00e7as aos pequenos, e um grande abra\u00e7o para si do velho e grato amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[151] A DOM\u00cdCIO DA GAMA<\/p>\n<p>[RJ, 29 dez. 1906.] Meu caro Dom\u00edcio. \/ Vim procur\u00e1-lo e soube que est\u00e1 em Petr\u00f3polis e n\u00e3o descer\u00e1 hoje.<\/p>\n<p>Disse-me o senhor Vasco Smith de Vasconcelos que o Dr. Dutra, adido \u00e0 Secretaria, vai pedir demiss\u00e3o 2.\u00aa-feira, depois de amanh\u00e3. Ele deseja o lugar para si, e j\u00e1 uma vez lhe falei disto, pedido dele; \u00e9 estudante do 1.\u00ba ano de direito. Pode voc\u00ea interceder por ele? N\u00e3o desejo incomodar indiretamente o nosso Rio Branco a este respeito, nem sei se lhe poderia falar hoje. Escrevo tamb\u00e9m ao Gra\u00e7a Aranha. \/ Receba as saudades de um velho amigo e mande-me as suas, se lhe mere\u00e7o algumas. Adeus, meu caro Dom\u00edcio, n\u00e3o esque\u00e7a o \/ am.\u00ba velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[152] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 5 jan. 1907.] Meu querido amigo. \/ Recebi a sua carta de 2 e devia responder-lhe a 5 mas tive o dia tomado, e ontem n\u00e3o pude faz\u00ea-lo nem teria meio de mandar a carta ao Correio. Hoje aproveito esta nesga de tempo, devendo ali\u00e1s dar-lhe a melhor parte, mas se lhe disser que, depois de algum tempo largo de melhoras sens\u00edveis, tive esta noite uma pequena crise, compreender\u00e1 a obriga\u00e7\u00e3o em que me vejo de lhe dizer pouco e \u00e0s pressas. N\u00e3o sei se recebeu a carta com que respondi ao seu cart\u00e3o-postal; foi para a fazenda. O telegrama de abra\u00e7os recebi e ontem tive o cart\u00e3o de agradecimento de D. Georgina. \/ A carta de 2 me fez mal. Essa melancolia que o aflige \u00e9 preciso que n\u00e3o seja irredut\u00edvel nem irremedi\u00e1vel. Sei o que me pode responder; \u00e9 o que j\u00e1 me tem dito como a outros, mas n\u00e3o h\u00e1 como refut\u00e1-lo sen\u00e3o tornando aos mesmos termos. \/ Que o mal n\u00e3o irredut\u00edvel, basta lembrar o caso do Magalh\u00e3es de Azeredo, que o Sousa Bandeira deixou robusto e l\u00e9pido. J\u00e1 lhe contei o que a m\u00e3e me disse relativamente ao estado em que ele esteve em Roma. Uma senhora (velha amiga da minha Carolina), em carta que me escreveu h\u00e1 pouco referiu-me o caso de um genro que chegou a um estado agudo e est\u00e1 bom. \/ Tenha pois confian\u00e7a, meu querido amigo; l\u00e1 tem os seus melhores m\u00e9dicos, a companhia da sua Mam\u00e3e e da sua Baby, e o riso de seus filhos. A vista nova das cousas acabar\u00e1 por penetrar-lhe o esp\u00edrito. \/ Obrigado pelos conselhos que me d\u00e1 acerca da minha sa\u00fade. Fa\u00e7o o que posso, mas para mim o trabalho \u00e9 distra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. \/ Sousa Bandeira e eu dissemos o que nos cabia a seu respeito, na 6.\u00aa feira, 4, no Garnier; recordamos a sua recep\u00e7\u00e3o na Academia, e concordamos que a sua mod\u00e9stia \u00e9 um mal.<\/p>\n<p>A Academia est\u00e1 de vaga aberta, e o prazo para a apresenta\u00e7\u00e3o de candidaturas termina a 28 de fevereiro. Por ora s\u00f3 se apresentou o Orlando. Ainda se n\u00e3o apresentou o Assis Brasil, por quem trabalha o Euclides. \/ Conto ir visitar um dia destes o Leo. \/ O que lhe digo acima sobre o dia 5 tomado foi um almo\u00e7o que o Calmon ofereceu ao J. Marcelino.<\/p>\n<p>N\u00e3o voltei a tempo de escrever. \/ Escreva-me logo que receba esta, vencendo o torpor, e veja se a saudade de um am.\u00ba lhe d\u00e1 \u00e2nimo. Adeus, pe\u00e7o-lhe que d\u00ea recomenda\u00e7\u00f5es minhas a sua boa M\u00e3e e boa consorte, e receba o meu abra\u00e7o de velho, de amigo e de solit\u00e1rio. Adeus, meu querido. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[153] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 7 fev. 1907.] Meu querido Nabuco. \/ Esta carta \u00e9 breve, o bastante para lhe dizer que todos n\u00f3s lembramos de V., not\u00edcia ociosa. O Ver\u00edssimo escreveu, a prop\u00f3sito do seu livro das Pens\u00e9es D\u00e9tach\u00e9es, os dois excelentes artigos que V. ter\u00e1 visto no Jornal do Com\u00e9rcio, para onde voltou brilhantemente com a Revista liter\u00e1ria. Fez-lhe a devida justi\u00e7a que n\u00f3s todos assinamos de cora\u00e7\u00e3o. A minha carta, aquela que tive a fortuna de escrever antes de ningu\u00e9m, era melhor que l\u00e1 tivesse tamb\u00e9m sa\u00eddo. \/ Aqui vou andando, meu querido amigo, com estas afei\u00e7\u00f5es da velhice, que ajudam a carreg\u00e1-la. N\u00e3o sei se terei tempo de dar forma e termo ao livro que medito e esbo\u00e7o; se puder, ser\u00e1 certamente o \u00faltimo. As for\u00e7as compreender\u00e3o o conselho e acabar\u00e3o de morrer caladas. \/ Estou certo que V.<\/p>\n<p>achou todos os seus em boa sa\u00fade, e ansiosos de ver o seu amado chefe. Pe\u00e7o-lhe que lhes apresente os meus respeitos, e tamb\u00e9m que me recomende ao amigo Chermont.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe pe\u00e7o que se lembre de mim, porque sei, com ufania e gosto, que nunca me esqueceu e sempre quis ao seu \/ Velho admor. e grato amigo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[154] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 7 mar. 1907.] Meu querido amigo, \/ pela sua carta vejo que est\u00e1 passando bem, melhor que na cidade.<\/p>\n<p>Viva a paisagem e as suas vozes e vistas que tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00e9dicos e rem\u00e9dios certos e capazes. A sua descri\u00e7\u00e3o fez-me lembrar a que da\u00ed fez seu glorioso pai. V\u00e1, meu amigo, entregue-se aos passeios e ao trabalho manual que projeta at\u00e9 que torne e continue os outros. Conto que os seus nervos se aquietem e passem a obedecer como j\u00e1 fazem. \/ Esta resposta vai demorada, porque a sua carta veio achar-me com um princ\u00edpio de grippe que continua; trouxe-me o corpo amolentado, al\u00e9m de outros fen\u00f4menos caracter\u00edsticos, como a falta de apetite, amargor de boca e recrudescimento da coriza.<\/p>\n<p>Um hospital, meu querido! H\u00e1 tr\u00eas noites n\u00e3o saio de casa. Em plena grippe tinha passado duas delas em pleno jardim vizinho, sentado, apanhando sereno. Enfim, pareceme que melhorarei, n\u00e3o sei; enquanto n\u00e3o me deixarem sair de noite, n\u00e3o posso ir como quisera \u00e0 Rua de Olinda. V\u00e1 pondo \u00e0 conta do meu mal esta letra irregular e velha, que est\u00e1 cada vez pior. \/ Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos \u00e0s duas boas companheiras da\u00ed, e receba um abra\u00e7o gr.e de amigo, que d\u00e1 para dividir com os filhos e ainda lhe sobrar\u00e1 m.to. Adeus, meu querido. Quisera falar-lhe bastante, mas \u00e9 melhor c\u00e1.<\/p>\n<p>Creia no amigo velho do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[155] [RJ, 13 mar. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo, \/ J\u00e1 lhe escrevi uma carta que lhe ter\u00e1 chegado \u00e0s m\u00e3os pouco antes da que me enviou datada do m\u00eas passado, 28; e a essa j\u00e1 lhe respondi tamb\u00e9m, salvo se estou confundindo datas. Ao cart\u00e3o-postal que me enviou creio haver respondido tamb\u00e9m. Seja como for, vou sentindo demora nas suas letras, mas a not\u00edcia que tenho de que despende grande parte do tempo com trabalhos f\u00edsicos em proveito do mal compensa este sil\u00eancio. Li o que me disse dos seus passeios e dos livros que ter\u00e1 come\u00e7ado ou vai come\u00e7ar a ler; tudo \u00e9 bom. O Leo deu-me not\u00edcias suas h\u00e1 dias e ontem, e boa. Pretendo ir v\u00ea-lo s\u00e1bado, dia certo de estar em casa. N\u00e3o fui ainda antes por ter sido atacado da grippe durante alguns dias; agora vou melhorando. \/ Manda-me algumas linhas dizendo como v\u00e3o os seus nervos. Eu espero que bem. Estes amigos s\u00e3o teimosos, mas n\u00e3o inteiramente, e creio que come\u00e7ando a ir desaparecem. Assim aconteceu a uma das filhas do Parreiras Horta, que ele levou ano passado para a Europa, com o mesmo mal e a tuberculose em 2.\u00ba grau; voltou a tr\u00eas dias inteiramente curada e gorda. \/ Receba os meus desejos de o ver assim de volta, e antes do abra\u00e7o com que o espero, receba este para si e para seus filhos. \u00c0s excelentes Esposa e Mam\u00e3e pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitosos cumprimentos. Adeus, e at\u00e9 breve. \/ O velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[156] [RJ, 18 mar. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ respondo \u00e0 sua carta de 14, que me trouxe excelente impress\u00e3o, confirmando a que o Leo me tem dado. Faz bem em alternar os livros com os quadros naturais. Ao cabo, tudo concorre para a completa cura. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer o gosto que me deu afirmando que entre as leituras figuram alguns versos meus. &#8220;Musa Consolatrix&#8221;.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 n\u00e3o me sinto com o vigor que possa transmitir a algu\u00e9m, a n\u00e3o ser que a pessoa beneficiada n\u00e3o tenha em si a disposi\u00e7\u00e3o de me aceitar velhas lembran\u00e7as; em tal caso, a maior e melhor parte do rem\u00e9dio est\u00e1 no pr\u00f3prio enfermo. \/ \u00c9 o nosso caso. \/ Estou curado da grippe. O coriza vai a bom caminho, e posso crer que s\u00f3 me resta a parte que arrasto comigo a anos. Estes meus \u00faltimos dias t\u00eam sido de enfado e naturalmente n\u00e3o \u00e9 assunto que procure o papel. Falaremos quando voltar. Contente-se, por hora, de ir lendo o que lhe mandar este pobre amigo. \/ N\u00e3o sei se algu\u00e9m lhe disse j\u00e1 que o Magalh\u00e3es de Azeredo e a senhora embarcaram ou v\u00e3o embarcar com destino ao Rio de Janeiro. Veio ontem no Jornal do Com\u00e9rcio. Justamente agora que eu respondera \u00e0 carta que ele me mandou a dias. N\u00e3o me falou nela da viagem; dizem-me que o motivo pode prender com a morte do sogro. V\u00e1 relevando esta letra execr\u00e1vel, cada vez pior que a do costume. \/ Por que n\u00e3o me escreve alguma coisa? Id\u00e9ias fugitivas, quadros passageiros, emo\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie, tudo s\u00e3o coisas que o papel aceita e a que mais tarde se d\u00e1 m\u00e9todo, se lhes n\u00e3o convier o pr\u00f3prio desalinho. Eu confesso-lhe que estou agora inteiramente parado no que quisera fazer andar. \/ Meu respeitos \u00e0s doces companheiras da sua vida, abra\u00e7os para as crian\u00e7as, e um para si do amigo velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[157] [RJ, 25 mar. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo, \/ Imagino que esta carta se vai fazer encontradi\u00e7a com alguma sua, a \u00faltima, a que eu espero em resposta \u00e0 que lhe mandei na semana passada. Not\u00edcias suas tenho as tido pelo Leo e s\u00e3o boas. Conto que as que me mande agora confirmem as dele.<\/p>\n<p>V\u00e1 desculpando a letra e o mal alinhado. Este seu velho amigo \u00e9 um pobre-diabo cansado, que mal d\u00e1 de si alguma pouca coisa, desalinhada e torta. \/ S\u00e1bado passado era meu plano ir \u00e0 Rua de Olinda fazer a visita que prometi; mas o Leo me disse que ia nessa noite ao concerto de Laura Coutinho; adiei a visita para o outro s\u00e1bado. \/ C\u00e1 embaixo n\u00e3o h\u00e1 nada que j\u00e1 n\u00e3o saiba l\u00e1 no Alto, e ali\u00e1s o papel apenas bastar\u00e1 para dizer de n\u00f3s mesmos. Sei que todos v\u00e3o bem, e imagino que o resto de seu mal desaparecer\u00e1 depressa. A sess\u00e3o da C\u00e2mara em maio nos aproximar\u00e1, como de outras vezes; o pior \u00e9 se o seu interlocutor j\u00e1 estar\u00e1 mais enfadonho que d\u2019antes; o que \u00e9 poss\u00edvel, e, se me consultar bem, \u00e9 certo. \/ Soube pelo Leo que um dia destes dar\u00e1 c\u00e1 um pulo, a fugir, e tornar\u00e1 logo para a Tijuca. Se neste meio tempo vier um minuto para mim, eu o receberei como empr\u00e9stimo de ouro. Ontem, estando com o Capistrano, perguntoume ele se ir\u00edamos a\u00ed \u00e0 Tijuca visit\u00e1-lo. S\u00f3 o poder\u00edamos fazer em domingo e eu pensei comigo no de P\u00e1scoa; mas depois adverti na visita que tenho de fazer \u00e0 sobrinha de minha mulher, Laura Costa. Demais, \u00e9 fim do trimestre adicional, em que a Contabilidade de todos os Minist\u00e9rios trabalha muito. Tudo estar\u00e1 feito domingo; eu \u00e9 j\u00e1 n\u00e3o darei para tanto. \/ Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos \u00e0s suas queridas M\u00e3e e Esposa, e d\u00ea um abra\u00e7o nas crian\u00e7as, com um para si e saudades. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[158] [RJ, 28 mar. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Anteontem mandei-lhe uma carta, e ontem \u00e0 tarde recebi outra sua; cruzaram-se. A sua foi-me entregue no Garnier, aonde foi levada em m\u00e3o, por um mo\u00e7o que o empregado n\u00e3o conhece. \/ Li-a logo e entristeceu-me naturalmente. As not\u00edcias que eu tinha eram boas, estavam longe do des\u00e2nimo que me manifestava agora. Tudo o que eu lhe possa dizer contra esse des\u00e2nimo sei que \u00e9 in\u00fatil, mas o pr\u00f3prio texto me faz esperar que o rem\u00e9dio vir\u00e1 por si. Quando me diz que, j\u00e1 aborrecido da vers\u00e3o de \u00c9squilo, sente contudo desejo de recome\u00e7\u00e1-la, revela nisso um estado de esp\u00edrito vacilante , mas n\u00e3o prostrado de todo; e para o mal do esp\u00edrito basta que ele vislumbre alguma coisa. A paisagem n\u00e3o dar\u00e1 tudo, o ar tamb\u00e9m n\u00e3o, e as musas (digo assim, pois que trato das antigas) fazem pagar caro os seus favores. N\u00e3o importa; l\u00e1 tem os filhos que lhe querem e merecem, a Esposa que n\u00e3o menos merece e quer, e a M\u00e3e, que vale por todos e sente por todos. \/ Amanh\u00e3, \u2014 n\u00e3o, \u2014depois de amanh\u00e3, s\u00e1bado, hei de estar com o Miguel Couto e oportunamente lhe direi o que houvermos conversado. \/ O meu trabalho teve uma interrup\u00e7\u00e3o de dias; n\u00e3o sei se lhe disse isto. Eu come\u00e7o a desconfiar que alguma das minhas cartas n\u00e3o lhe ter\u00e1 chegado. Agora quero ver se acabo a leitura e fa\u00e7o o remate. \/ Li o que soube do Gra\u00e7a; \u00e9 o que tamb\u00e9m ouvi ao Tasso Fragoso, mas \u00e9 coisa diversa de seu caso. A Academia vai cuidar de recome\u00e7ar as suas sess\u00f5es. A elei\u00e7\u00e3o \u00e9 em abril. Ficaremos sem o Rodrigo Ot\u00e1vio, que embarca para a Europa domingo, e s\u00f3 voltar\u00e1 em julho. Adeus, meu querido amigo, recomenda\u00e7\u00f5es aos seus doces anjos da guarda e abra\u00e7os para as crian\u00e7as e para si. \/ Velho amigo agradecido. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[159] [RJ, 1 abr. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo, \/ S\u00f3 \u00e0 noite de s\u00e1bado recebi a sua carta de 27, e ainda assim foi preciso mandar ver se a havia na caixa; provavelmente foi posta depois que eu sa\u00ed. Vinha de esperar o Magalh\u00e3es Azeredo at\u00e9 7\u00bc horas no Pharoux, onde ele desembarcou \u00e0s 10 e meia. Ontem \u00e9 que nos falamos, de manh\u00e3, no Largo do Machado, e de tarde em casa do tio Coelho, Rua Marqu\u00eas de Abrantes n.\u00b0 97. L\u00e1 lhe dei o seu recado, e ele ficou sentido do desencontro. Hoje deve subir para Petr\u00f3polis com a fam\u00edlia. \/ A minha id\u00e9ia era ir s\u00e1bado visitar o Leo, mas a chegada e a espera do nosso amigo, fez-me ir jantar \u00e0s oito horas, e s\u00f3 \u00e0s nove poderia sair do Cosme Velho. Adiei a visita. \/ Li e reli as palavras que me diz, e ainda bem que a minha carta lhe produziu esse efeito, o mesmo que parece haver sentido com a nossa conversa\u00e7\u00e3o. Tanto melhor, meu amigo. J\u00e1 sabe que a sua mol\u00e9stia \u00e9 uma impress\u00e3o, e basta algu\u00e9m de boa vontade, o que lhe n\u00e3o falta, ao contr\u00e1rio. N\u00e3o falei ao Azeredo na mesma que ele teve em Roma, e de que se curou totalmente; est\u00e1 o mesmo rapaz antigo. Conversamos do que pudemos, e prometi, se for poss\u00edvel, dar um pulo a Petr\u00f3polis, mas n\u00e3o sei. J\u00e1 tenho dito a mesma cousa a amigos que l\u00e1 tenho, e a quem desejo muito, mas ainda n\u00e3o cumpri nada. \/ Novamente agrade\u00e7o a D. Helena os cambuc\u00e1s que me mandou; estavam saborosos, conforme lhe disse.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m lhe disse que os dividi com uma vizinha. N\u00e3o fale na mocidade do meu esp\u00edrito, que est\u00e1 velho ou pior. Adeus, meu amigo; at\u00e9 \u00e0 primeira ou at\u00e9 o fim do m\u00eas. O Azeredo, pelo que me disse, quer cuidar do discurso de entrada na Academia: teremos festa. A nova elei\u00e7\u00e3o \u00e9 l\u00e1 para o fim do M\u00eas. Pe\u00e7o que apresente os seus respeitos a Mam\u00e3e e \u00e0 Esposa, lembre-me \u00e0s crian\u00e7as e receba um abra\u00e7o do velho am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[160] [RJ, 11 abr. 1907.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Recebi a sua carta de 8 ontem \u00e0 tarde, de maneira que s\u00f3 agora posso responde-la. Li o que me diz acerca do seu mal-estar e outros fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>Qualquer que tenha sido a causa dessa agrava\u00e7\u00e3o, vejo que est\u00e1 melhor, e ainda bem.<\/p>\n<p>Eu, que tenho mais direito a enfermidades, n\u00e3o lhe digo sen\u00e3o que as vou expiando com olhos cansados. O muito trabalhar destes \u00faltimos dias t\u00eam-me trazido alguns fen\u00f4menos nervosos; nem por isso deixo de lhe mandar c\u00e1 de baixo as anima\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, por mais enfadonhas que lhe pare\u00e7am. \/ O Magalh\u00e3es de Azeredo s\u00f3 uma vez desceu de Petr\u00f3polis e eu apenas o vi de passagem; ficou de tornar um dia destes. J\u00e1 lhe contei o nosso encontro do dia seguinte ao da chegada da Europa. N\u00e3o ter\u00e1 havido extravio das duas cartas que lhe escreveu agora? N\u00e3o sei se leu ontem que hoje h\u00e1 sess\u00e3o na Academia para cuidar da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o e de outros assuntos. Acabo de ler que ontem faleceu o Teixeira de Melo. Desaparecera, h\u00e1 muito, presa de uma mal cruel; \u00e9 mais uma vaga na Academia. \/ Li o que me diz do Registro que o Bilac escreveu acerca da Academia. Em Fran\u00e7a h\u00e1 muito quem ataque ou diga mal da Academia, mas s\u00e3o os que est\u00e3o fora dela; os que a comp\u00f5em sabem am\u00e1-la e prez\u00e1-la. Aqui a pr\u00f3pria Academia acha em si mesma a oposi\u00e7\u00e3o. \/ Adeus, meu amigo: acabo, j\u00e1, por faltar tempo. Estive s\u00e1bado passado na Rua de Olinda, com os seus am\u00e1veis sogro e cunhados, e passei uma boa hora de conversa\u00e7\u00e3o. L\u00e1 falamos, \u00e9 claro, a seu respeito, e a impress\u00e3o que me deram \u00e9 boa. Adeus; recomenda\u00e7\u00f5es \u00e0 sua Mam\u00e3e e \u00e0 sua Baby, e os abra\u00e7os do costume para as crian\u00e7as e para si. \/ Amigo velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[161] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 14 mai. 1907.] Meu caro Nabuco. \/ Dei conta aos colegas da Academia de seu voto na vaga do Loreto em favor do Artur Orlando. Para tudo dizer, dei not\u00edcia tamb\u00e9m do voto que daria ao Assis Brasil ou ao Jaceguai. A este contei tamb\u00e9m o texto da sua carta, e instei com ele para que se apresente candidato \u00e0 vaga do Teixeira de Melo (a outra est\u00e1 encerrada e esta foi aberta), mas insistiu em recusar. A raz\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ser homem de letras. Citei-lhe, ainda uma vez, o meu modo de ver que outrora me foi dito, j\u00e1 verbalmente, j\u00e1 por carta; apesar de tudo declarou que n\u00e3o. Quanto ao Assis Brasil, foi instado pelo Euclides da Cunha e recusou tamb\u00e9m. A carta dele, que Euclides me leu, parece-me mostrar que o Assis Brasil estimaria ser Acad\u00eamico; n\u00e3o obstante, recusa sempre; creio que por causa da noa r\u00e9ussite. Sinto isto muito, meu querido Nabuco. \/ Para a vaga do Teixeira de Melo apresentaram-se j\u00e1 dois candidatos, o Virg\u00edlio V\u00e1rzea e o Paulo Barreto, que assina Jo\u00e3o do Rio. O Secret\u00e1rio Medeiros j\u00e1 lhe h\u00e1 de ter escrito sobre isto. Sabe que o Rodrigo Ot\u00e1vio est\u00e1 agora na Europa. \/ Estas s\u00e3o as not\u00edcias eleitorais. Dos trabalhos acad\u00eamicos j\u00e1 h\u00e1 de ter not\u00edcia que, por proposta do Medeiros estamos discutindo se conv\u00e9m proceder \u00e0 reforma da ortografia. Ao projeto deste (tendente ao fonetismo) op\u00f4s-se logo o Salvador de Mendon\u00e7a, que apresentou um contraprojeto assinado por ele e pelo Rui Barbosa. M\u00e1rio de Alencar, S\u00edlvio Romero, Enclides da Cunha, L\u00facio de Mendon\u00e7a. Este prop\u00f5e que a Acacemia cuide de organizar um dicion\u00e1rio etimol\u00f3gico, fazendo algumas emendas segundo regras que indica. O Jo\u00e3o Ribeiro op\u00f5e-se contraprojeto, e as nossas tr\u00eas sess\u00f5es t\u00eam sido interessantes e s\u00e3o acompanhadas na imprensa e no p\u00fablico. \/ Adeus, meu caro Nabuco, desculpe esta letra que nunca foi boa e a idade est\u00e1 fazendo pior, e n\u00e3o esque\u00e7a o velho amigo que n\u00e3o o esquece e \u00e9 dos mais antigos e agora o mais triste. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[162] A CAMILO CRESTA<\/p>\n<p>[RJ, 18 mai. 1907.] Exmo. Sr. C. Cresta. \/ Aproveitando a sua viagem \u00e0 It\u00e1lia, pe\u00e7o-lhe o obs\u00e9quio de levar a carta junta e entreg\u00e1-la ao Sr. Guglielmo Ferrero. Pelo que ela diz ver\u00e1 que a Academia Brasileira de que \u00e9 membro correspondente aquele escritor, sabe que ele vem brevemente a Buenos Aires; nela lhe pede que se demore alguns dias no Rio de Janeiro, onde nos poder\u00e1 fazer duas ou tr\u00eas confer\u00eancias. Naturalmente esta interrup\u00e7\u00e3o da viagem lhe trar\u00e1 algum transtorno, e para compens\u00e1-lo e acudir \u00e0s despesas de estadia pode oferecer-lhe a soma de dez mil liras, que lhe ser\u00e3o entregues pelo modo que parecer melhor. \/ Agradecendo-lhe desde j\u00e1 este obs\u00e9quio, pe\u00e7o-lhe tamb\u00e9m q disponha de mim para o que for do seu servi\u00e7o, como \/ Adm.\u00ba, am.\u00ba e obr.\u00b0 \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[163] A GUILHERME FERRERO<\/p>\n<p>[RJ, 18 mai. 1907.] Monsieur. \/ Cette lettre, que j\u2019ai l\u2019honneur de vous \u00e9crire au non de l\u2019Acad\u00e9mie Br\u00e9silienne, vous sera remise par M. Camillo Cresta, notre ami. L\u2019Acad\u00e9mie, dont vous venez d\u2019\u00eatre \u00e9lu membre correspondant, conna\u00eet votre prochain voyage \u00e0 Buenos Aires.<\/p>\n<p>Elle recevrait un grand honneur et un bien vif plaisir, si vous vouliez passer quelques jours \u00e0 Rio de Janeiro. Ici, Monsieur, o\u00f9 vous avez des admirateurs fervents et nombreux, vous pourriez nous donner deux ou trois conf\u00e9rences publiques. Le sujet en serait \u00e0 votre choix; naturellement il sera italien, comme vous-m\u00eame, et moderne, comme votre esprit; personne ne sait dire comme vous de ce qui est mati\u00e8re artistique et sociale. \/ Nous serons bien heureux si vous acceptez cette invitation. Monsieur Cresta nous dira par lettre ou par telegramme votre r\u00e9ponse, et j\u2019en donnerai la nouvelle \u00e0 mes amis et nos confr\u00e8res. \/ Agr\u00e9ez, Monsieur Ferrero, mes respectuex hommages et l\u2019assurance de notre grande admiration. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[164] AO BAR\u00c3O DO RIO BRANCO<\/p>\n<p>[RJ, 3.\u00aa-feira, 1907.] Meu eminente am.\u00ba Sr. Bar\u00e3o do Rio Branco. \/ Creio responder ao sentimento da Academia Brasileira agradecendo a V. Ex.\u00aa os obs\u00e9quios com que distinguiu anteontem o ilustre G. Ferrero, nosso s\u00f3cio correspondente. A Academia convidara o historiador italiano a vir trazer aqui algumas das li\u00e7\u00e3os que h\u00e1 pouco ditou em Paris e agora vai levar a Buenos Aires, e ele aceitou da melhor vontade faz\u00ea-lo em seu regresso para a Europa.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de V. Ex.\u00aa deu assim relevo grande ao nome do Brasil, recebendo a Ferrero e a sua esposa pelo modo que o seu bom gosto e a dignidade do governo lhe sugeriram, em nome deste, e por honra da nossa associa\u00e7\u00e3o, em que V. Ex.\u00aa t\u00e3o digna parte ocupa. \/ Queira aceitar os meus protestos de sincera amizade e elevada considera\u00e7\u00e3o. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[165] A GUILHERME FERRERO<\/p>\n<p>[RJ, 1907.] Cher Monsieur et \u00e9minent confr\u00e8re, \/ Avant tout, acceptez mes salutations pour vos grands succ\u00e8s \u00e0 Buenos Aires; c\u2019est justement ce que nous attendions tous de la capitale argentine. \/ Mes amis et nous avons lu votre lettre du 14, et votre plan nous parait infiniment agr\u00e9able. Peut-\u00eatre il nous conviendrait mieux si vous pouviez arriver \u00e0 Rio l\u00ea 11 septembre: vous trouveriez ici votre ami Monsieur Paul Doumer, qui est pr\u00e8s d\u2019arriver. \/ Les conf\u00e9rences sont huit, comme vous dites, \u00e0 deux par semaine avec l\u00eas honoraires de 5.000 francs par conf\u00e9rence. Au cas o\u00f9 il vous conviendrait d\u2019en diminuer l\u00ea nombre pour \u00e9largir les excursions qui rentrent dans votre plan, afin de mieux connaitre notre pays, il vous sera enti\u00e8rement libre de le faire, sans y perdre rien dans la totalit\u00e9 des honoraires ajust\u00e9s. Croyez bien que toutes les dispositions seront prises por que ces excursions \u00e0 l\u2019interieur soient realis\u00e9es dans les meilleurs conditions, non seulement du cot\u00e9 des d\u00e9penses, dont vous n\u2019aurez aucun souci, mais aussi des attentions dues \u00e0 votre \u00e9minente personnalit\u00e9. \/ Nous serons tr\u00e8s heureux de lire ce que vous direz en Europe de notre pays, apr\u00e8s ce voyage d\u2019un mois et demi, ou deux mois. On nous fera bonne justice, d\u2019autant plus facilement que la voix qu\u2019on entendra sera plus autoris\u00e9e. \/ Pour ce qui est de logement \u00e0 Rio un de nos amis a re\u00e7u vos ordres et fera comme vous dites, de fa\u00e7on que vous n\u2019aurez rien \u00e0 chercher ou attendre, aussit\u00f4t arriv\u00e9. \/ Je vous prie, Monsieur, de pr\u00e9senter \u00e0 Madame Ferrero m\u00eas plus respectueuses salutations et de recevoir l\u00eas miennes. \/ Tout \u00e0 vous. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[166] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 7 jul. 1907.] Meu caro Nabuco. \/ Conforme a sua recomenda\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o dei o seu voto ao Artur Orlando. Ao Jaceguai comuniquei as suas prefer\u00eancias, mas ainda assim recusou apresentar-se dessa vez. A sua carta de maio, por\u00e9m, trazendo-me a not\u00edcia do voto ao Sr. Paulo Barreto na vaga de Teixeira de Melo, falou ainda desenvolvidamente sobre o Jaceguai para preferi-lo no caso em que ele e o Assis Brasil pleiteassem a cadeira.<\/p>\n<p>Encontrando o Jaceguai, dei-lhe a not\u00edcia desta resolu\u00e7\u00e3o, e ele, terminando no dia seguinte o prazo das inscri\u00e7\u00f5es, mandou-me de manh\u00e3 a carta de candidatura, que comuniquei \u00e0 Academia. Cumprirei a indica\u00e7\u00e3o do voto, e, pelo que ou\u00e7o, creio que ser\u00e1 eleito o nosso almirante. \/ Quanto ao Assis Brasil, apesar do que lhe escreveu o Euclides da Cunha, n\u00e3o quis apresentar-se na primeira vaga. Em carta que posteriormente escreveu ao L\u00facio de Mendon\u00e7a, vi que teria prazer em ser eleito, mas entendia n\u00e3o poder ser candidato. \/ H\u00e1 de ter lido nos jornais que a Academia anda em trabalhos de l\u00edngua, a prop\u00f3sito de um projeto do Medeiros e Albuquerque, ao qual se op\u00f4s com outro o Salvador de Mendon\u00e7a. \u00c9 neg\u00f3cio que tem interessado o p\u00fablico e alguns estudiosos; deve ser votado esta semana. \/ N\u00e3o lhe falo das festas do Guilherme Ferrero, porque os jornais lhas ter\u00e3o contado. Foram s\u00f3 horas, mas vivas. Quatro da Academia fomos receb\u00ea-lo a bordo e mostrar-lhe e \u00e0 senhora uma parte da cidade, e o Rio Branco ofereceu-lhes um jantar em Itamarati. Quando Ferrero tornar de Buenos Aires, l\u00e1 para setembro, ficar\u00e1 aqui um m\u00eas, e as festas ser\u00e3o provavelmente maiores. Li as not\u00edcias que me d\u00e1 do acolhimento que encontra em Fran\u00e7a o seu livro das Pens\u00e9es, e n\u00e3o \u00e9 preciso dizer o gosto que me trouxeram. N\u00e3o creia que a cr\u00edtica o matasse aqui; ele \u00e9 dos que sobrenadam. O tempo ajudar\u00e1 o tempo, e o que h\u00e1 nele profundo, fino e bem dito conservar\u00e1 o seu grande valor. Sabe como eu sempre apreciei essa esp\u00e9cie de escritos, e o que pensei deste livro antes dele sair do prelo. O pr\u00eamio da Academia Francesa vir\u00e1 dar-lhe nova consagra\u00e7\u00e3o. \/ Adeus, meu caro Nabuco; a minha sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 pior do que era h\u00e1 um ano; a velhice \u00e9 que n\u00e3o menor, naturalmente, e a fadiga que se aproxima com os seus bra\u00e7os frouxos, e daqui a pouco exaustos. \/ N\u00e3o sei ainda a dire\u00e7\u00e3o que d\u00ea a esta carta, se para a embaixada, se para Paris. Qualquer dos dois caminhos leva a Roma e l\u00e1 achar\u00e1 o meu cora\u00e7\u00e3o, como o seu est\u00e1 comigo. \/ Velho admor. e am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[167] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 23 jul. 1907.] Meu querido Salvador. \/ A data vai errada, mas tu desculpar\u00e1s a falta de ontem; ainda \u00e9 tempo de mandar um abra\u00e7o pelo teu anivers\u00e1rio. Somos dois velhos companheiros. A quem o tempo poder\u00e1 ter levado muita coisa, mas deixou sempre a afei\u00e7\u00e3o mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Cumprimenta por mim a tua Ex.ma Senhora e aos teus filhos, e continua a crer no \/ Teu do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[168] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 19 ago. 1907.] Meu querido Nabuco. \/ H\u00e1 um ano tive o prazer de jantar com V. neste dia e brindar com amigos seus pela sua sa\u00fade e prosperidade. N\u00e3o quero calar a data e daqui lhe mando lembran\u00e7as minhas, lembran\u00e7as de amigo velho e sincero. Talvez seja a \u00faltima sauda\u00e7\u00e3o; sinto que n\u00e3o vou longe, por mais que amigos me achem bom aspecto; esse mesmo achado me parece simples consola\u00e7\u00e3o. \/ Tenho recebido cart\u00f5es-postais seus, e cada um me recorda o amigo que eu abril de 1905 me enviou o galho de carvalho de Tasso com aquela boa carta ao Aranha, e na carta aquela doce e triste palavra que me lembrava a solid\u00e3o da minha velhice. \/ H\u00e1 tr\u00eas ou quatro semanas escrevi-lhe uma carta, que remeti para a Lega\u00e7\u00e3o de Londres, como me aconselharam, para dali lhe dessem o destino certo. Esta vai pelo mesmo caminho e espero que a receba tamb\u00e9m. \/ Adeus, meu querido amigo; releve o que a\u00ed vai mal arranjado; estou em hora de tristeza e grande fadiga. Apresente os meus cumprimentos a toda a fam\u00edlia. E n\u00e3o esque\u00e7a o \/ Velho admor. e amigo certo \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[169] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 22 dez. 1907.] Meu querido amigo. \/ Confiando-lhe a leitura do meu pr\u00f3ximo livro, antes de ningu\u00e9m, correspondi ao sentimento de simpatia que sempre me manifestou, e em mim sempre existiu, sem quebra nem interrup\u00e7\u00e3o de um dia; n\u00e3o h\u00e1 que agradecer este ato. Queria a impress\u00e3o direta e primeira do seu esp\u00edrito, culto, embora certo de que aquele mesmo sentimento o predispunha \u00e0 boa vontade. \/ Assim foi; a carta que me mandou respira toda um entusiasmo que estou longe de merecer, mas \u00e9 sincera e mostra que me leu com alma. Foi tamb\u00e9m por isso que achou o modelo \u00edntimo de uma das pessoas do livro, que eu busquei fazer completa sem designa\u00e7\u00e3o particular, nem outra evid\u00eancia que a da verdade humana. \/ Repito o que lhe disse verbalmente, meu querido M\u00e1rio, creio que esse ser\u00e1 o meu \u00faltimo livro; faltam-me for\u00e7as e olhos outros; al\u00e9m disso o tempo \u00e9 escasso e o trabalho \u00e9 lento. Vou devolver as provas ao editor e aguardar a publica\u00e7\u00e3o do meu Memorial de Aires. \/ Adeus, meu querido M\u00e1rio, ainda uma vez agrade\u00e7o a sua boa amizade ao pobre e velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[170] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 14 jan. 1908.] Meu querido Nabuco. \/ Esta carta j\u00e1 o encontra desde muito na embaixada. Tenho tido not\u00edcias suas, e ultimamente por um trecho de jornal que V. me mandou, lembrando aquela noite dos Deuses de Casaca. V\u00e3o longe essa e outras noites; restam as afei\u00e7\u00f5es seguras, fortes e boas como a sua. \/ Aqui estamos em plenas festas americanas, que me fazem lembrar as do Congresso. As da esquadra s\u00e3o mais ruidosas e extensas, mas o esplendor das outras \u00e9 inesquec\u00edvel. H\u00e1 verdadeiro carinho e gentileza de ambas as partes, e V. que colaborou com o Rio Branco na obra de aproxima\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses, receber\u00e1 a sua parte de satisfa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 de ter tido not\u00edcia das duas recep\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, a do Orlando e a do Augusto de Lima. A do Orlando foi pouco depois da elei\u00e7\u00e3o. Apesar do calor intenso e da chuva que caiu \u00e0 tarde, a concorr\u00eancia foi grande, e l\u00e1 estavam muitas senhoras. O Presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o p\u00f4de ir por inc\u00f4modo, mas fez-se representar. O discurso de recep\u00e7\u00e3o foi feito pelo Oliveira Lima; falou-se muito do seu Pernambuco e de filosofia, al\u00e9m de poesia. Antes disso houve a recep\u00e7\u00e3o de Augusto de Lima, eleito h\u00e1 anos, que s\u00f3 agora p\u00f4de vir tomar posse da cadeira; falou em nome da Academia o Medeiros e Albuquerque. Enfim, a Academia vai sendo aceita, estimada e amada. Quando V. tornar de vez \u00e0 nossa terra, c\u00e1 ter\u00e1 o lugar que com tanto brilho ocupou e \u00e9 seu naquela casa. O que n\u00e3o sei \u00e9 se ainda me achar\u00e1 neste mundo; releveme esta linha de rabugice, \u00e9 natural aos 69 anos (quase). \/ Aqui lemos o que se disse em Fran\u00e7a do seu livro das Pens\u00e9es, e tamb\u00e9m na It\u00e1lia. O artigo de Vicenzo Morello ainda me pareceu mais fino que o de Faguet. Eu, por mim, j\u00e1 havia escrito aquela carta de 19 de agosto de 1906, h\u00e1 pouco mais de um ano, em que me sugeriram tais e t\u00e3o profundas p\u00e1ginas. \/ Alguns dos nossos amigos andam dispersos. O L\u00facio de Mendon\u00e7a, que organizou a Academia, foi h\u00e1 tempos acometido de uma doen\u00e7a dos olhos, e resolveu ir \u00e0 Alemanha para ser examinado e tratado. Foi, j\u00e1 com a vista muito baixa, e segundo not\u00edcias que chegaram h\u00e1 dias teve l\u00e1 uma congest\u00e3o cerebral que o deixou paral\u00edtico de um lado, e volta. Tamb\u00e9m ouvi que n\u00e3o ter\u00e1 sido congest\u00e3o, mas paralisia somente, conseq\u00fcente da origem do mal que \u00e9 na espinha. Ele foi daqui abatido, deve regressar pior, porque a doen\u00e7a de que se trata, segundo ele mesmo me disse, \u00e9 a que teve uma irm\u00e3. \/ Adeus, meu querido Nabuco. Escreva-me logo que possa; meia d\u00fazia de linhas amigas, que me recordam tantas coisas, valem por uma ressurrei\u00e7\u00e3o. Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos a Mme. Nabuco, e me recomende a seus bons filhos. E receba para si um apertado abra\u00e7o do \/ Velho admor. e am.\u00b0 \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[171] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 21 jan. 1908.] Meu querido amigo. \/ A sua carta de 17 chegou-me ontem, 20, e s\u00f3 agora de manh\u00e3 lhe respondo. \/ N\u00e3o cuidei que a causa da aus\u00eancia destes dias fossem nervos; agora o sei e creio. J\u00e1 nos habituou a esses sujeitos, maus inquilinos, que quando se metem a propriet\u00e1rios efetivos abusam desapiedadamente da casa. Felizmente parece que estes v\u00e3o cedendo; apesar disso, a sua resolu\u00e7\u00e3o de obter descanso ou licen\u00e7a para se tratar de vez e seguidamente, \u00e9 boa. Por mais que me custe a aus\u00eancia, estimo saber que caminha para o total restabelecimento. L\u00e1 tem consigo, na fam\u00edlia, o melhor vi\u00e1tico do cora\u00e7\u00e3o. \/ Tem ainda o do esp\u00edrito, esse Prometeu que o atrai e para qual toma notas e colige id\u00e9ias. Sobre o verso solto, em que pretende faz\u00ea-lo, n\u00e3o pode ter sen\u00e3o os meus aplausos. Sabe como aprecio este verso nosso, que o gosto da rima tornou desusado; \u00e9 o verso de Garrett e de Gon\u00e7alves Dias, e ambos, ali\u00e1s, sabiam rimar t\u00e3o bem. \/ Agora, ao levantar-me, apesar do cansa\u00e7o de ontem, meti-me a reler algumas p\u00e1ginas do Prometeu de \u00c9squilo, atrav\u00e9s de Leconte de Lisle; ontem entretive-me com o Phedon de Plat\u00e3o, tamb\u00e9m de manh\u00e3; veja como ando grego, meu amigo. Oxal\u00e1 possa chegar a ver, parte que seja do seu trabalho. E folgo muito que ponha nele a paci\u00eancia das obras perfeitas. \/ Escrevi h\u00e1 dias ao Magalh\u00e3es de Azeredo, que se queixava de nosso sil\u00eancio; disse o que cumpria em resposta a t\u00e3o bom amigo. H\u00e1 dias escrevi tamb\u00e9m ao Nabuco, mas a carta s\u00f3 partiu ontem. \/ H\u00e1 algumas outras not\u00edcias que interessariam contadas, mas n\u00e3o d\u00e3o para escritas. De mim, vou bem, apenas com os achaques da velhice, mas suportando sem novidade o pecado original, deixe-me chamar-lhe assim. Creio que o Miguel Couto me trouxe a gra\u00e7a. \/ Um dia destes o Leo esteve comigo no Garnier, e, falando-me a seu respeito, disse-me que se o visse lhe dissesse ter aqui nas m\u00e3os do Jacinto [Silva] umas cartas; provavelmente j\u00e1 l\u00e1 foram. \/ Adeus, meu querido amigo, recomende-me a D. Helena, a Mam\u00e3e e a todos os seus meninos. Creia-me sempre \/ Seu do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[172] [RJ, 8 fev. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ O tom da sua carta de anteontem revela bastante melhora. E talvez esta venha tamb\u00e9m das tristes not\u00edcias que l\u00e1 chegaram, donde ver\u00e1 que, ruins ou excelentes, as not\u00edcias distraem e ajudam a combater o mal. O mal n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande como parece; \u00e9 agudo, porque os nervos s\u00e3o doentes delicados, e ao menor toque retraem-se e gemem. Eu sou desses enfermos, como sabe, e, como sabe tamb\u00e9m, doente sem m\u00e9dico. \/ Gostei de ler tudo o que me diz a prop\u00f3sito do Heitor; mostrei as suas palavras \u00e0 baronesa e ao bar\u00e3o. N\u00e3o tenho visto a vi\u00fava, que n\u00e3o foi \u00e0 missa p\u00fablica, mas \u00e0 outra particular e sua na Gl\u00f3ria, mas sei que est\u00e1 muito abatida. Tamb\u00e9m gostei de ver o que pensa no caso de D. Carlos I; \u00e9 o que naturalmente devem pensar todos. De acordo com o seu ju\u00edzo sobre palavr\u00f5es e ambi\u00e7\u00f5es pessoais. \/ A minha sa\u00fade n\u00e3o vai mal, exceto o que lhe direi adiante, e n\u00e3o \u00e9 a &#8220;aus\u00eancia&#8221; que senti ontem, esta foi r\u00e1pida, mas t\u00e3o completa que n\u00e3o me entendi ao tornar dela. Da\u00ed a pouco entendi tudo, e deixei-me estar. A exce\u00e7\u00e3o prende com o seu conselho de n\u00e3o sair por baixo de \u00e1gua. C\u00e1 tenho o reumatismo de que me fala, \u00e9 no p\u00e9 esquerdo, desde bastantes dias. N\u00e3o sei que lhe fa\u00e7a, nem sei se h\u00e1 que fazer. Vou andando, mal ou bem, a princ\u00edpio mal, mas depois domino-me um pouco. \/ Ainda bem que trabalha e pensa no Prometeu. Firme-se a\u00ed; o caso \u00e9 digno do pensamento, e n\u00e3o impede os Cantos Brasileiros. Fico \u00e0 espera dos versos que me anuncia haver escrito a pedido de sua irm\u00e3. \/ Sobre o meu livro, nada; talvez, na semana pr\u00f3xima venha resposta, e diz o Lansac que provavelmente o livro chegar\u00e1 no meado de mar\u00e7o; espero. Aproveito a ocasi\u00e3o para lhe recomendar muito que, a respeito do modelo de Carmo, nada confie a ningu\u00e9m; fica entre n\u00f3s dois. Aqui h\u00e1 dias uma senhora e um rapaz disseram-me ter ouvido que eu estava publicando um livro; ele emendou para escrevendo; eu neguei uma e outra coisa. Pouco antes, em um grupo no Garnier, perguntando-me algu\u00e9m se tinha alguma coisa no prelo, outro algu\u00e9m respondeu: &#8220;Tem, tem&#8230;&#8221; Podia ser conjetura, mas podia tamb\u00e9m ser not\u00edcia. Talvez n\u00e3o valha a pena tanto sil\u00eancio da parte do autor. Ontem estive com o Leo e D. Chiquinha na Candel\u00e1ria, \u00e0 missa do Heitor; pedi not\u00edcias suas, mas n\u00e3o sabiam nada. Agora d\u00ea not\u00edcias minhas aos seus, cumprimentos ao Gil pelos anos, e lembran\u00e7as aos meninos.<\/p>\n<p>Registro a promessa da descida em breve. Com o [Sousa] Bandeira e o [Primitivo] Moacir tenho falado a seu respeito. At\u00e9 breve. \/ O velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[173] [RJ, 23 fev. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Hoje de manh\u00e3, chegando \u00e0 casa, pensei em escrever-lhe um bilhete de simples lembran\u00e7a, e achei a sua carta de 20. L\u00e1 se foi a id\u00e9ia do bilhete, e aqui vai a resposta \u00e0 carta. \/ Esta \u00e9 quase toda de explica\u00e7\u00f5es e mostra a impress\u00e3o que lhe deu a minha acerca do Memorial de Aires. Agrade\u00e7o-lhas, mas n\u00e3o valia a pena, j\u00e1 porque a divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o viria de sua parte, j\u00e1 porque, dado viesse, seria ainda um sinal da afei\u00e7\u00e3o que me tem. N\u00e3o, meu querido M\u00e1rio, o que lhe contei na \u00faltima carta, fi-lo por lhe confiar estes incidentes, e foi bom que o fizesse, visto o que me recordou agora desde a minha resposta ao Pinheiro Machado at\u00e9 \u00e0s confid\u00eancias ao Gra\u00e7a e ao J. Ver\u00edssimo.<\/p>\n<p>Quer saber? Na mesma data da sua carta (20) comuniquei ao J. Ver\u00edssimo a not\u00edcia do livro, como se fosse inteiramente nova; \u00e9 certo que ele n\u00e3o se deu por achado.<\/p>\n<p>Acrescentei-lhe a primeira id\u00e9ia de confiar aos quatro (o Magalh\u00e3es de Azeredo n\u00e3o podia entrar por estar em Roma) a publica\u00e7\u00e3o do manuscrito, caro eu viesse a falecer. Repita tudo isso consigo, e diga-me se h\u00e1 nada mais indiscreto que um autor, ainda quase septuagen\u00e1rio, como eu. Dita-me tamb\u00e9m, pois que leu as provas, se o livro vale tantas cautelas e resguardos. \/ A segunda e menor parte da sua carta \u00e9 a seu respeito, inc\u00f4modos e o resto; nada de escritos ou s\u00f3 negativamente. O mal-estar de esp\u00edrito a que se refere n\u00e3o se corrige por vontade, nem h\u00e1 conselho que o remova, creio; mas, se um enfermo pode mostrar a outro o espelho do seu pr\u00f3prio mal conseguir\u00e1 alguma coisa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu tenho desses estados de alma e c\u00e1 os ven\u00e7o como posso, sem anima\u00e7\u00f5es de esposa nem risos de filhos. Veja se exclui todo o presente, passado e futuro, e fixe um s\u00f3 tempo que compreenda os tr\u00eas: Prometeu. A arte \u00e9 o rem\u00e9dio e o melhor deles. \/ Compreendo que o mal de seu sogro o impressione. Estive anteontem com ele na Avenida; ele ia para casa e demoramo-nos pouco, porque a tarde vinha caindo e ele tinha de se recolher cedo por causa da bronquite. Ainda assim falamos uns cinco minutos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eu o achei abatido, mas admirei a for\u00e7a de resist\u00eancia ouvindo-lhe contar serenamente as noites que tivera. Sorria como de costume. H\u00e1 uma nota elegante que ele nunca perde. N\u00e3o o achei desfigurado. \/ Eu vou emagrecendo e o trabalho neste trimestre adicional cresce e cansa. Estive com o Miguel Couto naquele dia, ouviu-me e receitou-me um rem\u00e9dio novo, que n\u00e3o existe aqui, nem no Werneck, nem no Silva Ara\u00fajo, nem no Rangel. Ficou de entender-se com o Werneck, para mandar busc\u00e1-lo; depois disse-me que era melhor ver se o preparavam aqui mesmo, e eu continuo a tomar os que me dera antes. \/ O mais \u00e0 vista. Papel n\u00e3o comporta t\u00e9dios. Lembran\u00e7as a todos os seus, e para si receba um abra\u00e7o do velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[174] [RJ, 20 abr. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ N\u00e3o h\u00e1 que desculpar o papel em que me escreve; a carta era j\u00e1 demais. Agrade\u00e7o-lhe os seus cuidados e explica\u00e7\u00f5es, e guardo-os entre as outras lembran\u00e7as suas. \/ Hoje fui ao Garnier (eram 11 e meia) e n\u00e3o o encontrei; escrevo-lhe esta aqui na Secretaria e irei lev\u00e1-la ao Correio quando sair, contando que chegue \u00e0 Tijuca amanh\u00e3 cedo. Recebi a sua no Cosme Velho, ontem, domingo. \/ \u00c9 preciso sacudir esses nervos desp\u00f3ticos, que fazem da gente o que querem. Bem sei que somente conselhos n\u00e3o valem para tais casos, mormente no que lhe sucedeu quarta-feira pelo acr\u00e9scimo da trag\u00e9dia da Avenida; mas a prova de que o seu estado \u00e9 j\u00e1 para melhor est\u00e1 na impress\u00e3o que me d\u00e1 e tem dado a outros amigos (Capistrano, por exemplo); achamo-lo mais senhor de si. Com esfor\u00e7o e tempo ficar\u00e1 totalmente restabelecido.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m saber que o desastre da Avenida abalou a toda gente. Relendo as linhas anteriores, devo explicar que o seu melhor estado e a impress\u00e3o que d\u00e1 aos amigos referem-se aos \u00faltimos tempos. \u2014 Eu c\u00e1 vou andando com os meus t\u00e9dios. Agora sintome um pouco melhor, a despeito de algo que me aconteceu hoje mesmo. O que fa\u00e7o \u00e9 n\u00e3o me mostrar a todos tal qual ando: muitos me achar\u00e3o alegre e ainda bem. Agora, com as suas palavras de amizade e simpatia verdadeira, recebo outra consola\u00e7\u00e3o e anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta frase da sua carta: &#8220;sinto a sua tristeza como minha, e talvez por isso \u00e9 que n\u00e3o sei aliviar&#8221;, \u00e9 s\u00f3 exata na primeira parte; na segunda, n\u00e3o. \/ Adeus, meu querido amigo. Vou ler e informar pap\u00e9is de Secretaria. \/ C\u00e1 o espero quarta-feira. \/ Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos \u00e0 sua Esposa e \u00e0 sua M\u00e3e, e vivos carinhos aos filhos. \/ Recomendeme tamb\u00e9m ao velho Prometeu, a quem dir\u00e1 que o espero inteiro e humano, ainda que em outra l\u00edngua; todas s\u00e3o cabais para o supl\u00edcio. Em duas palavras, busque o rem\u00e9dio na Arte. Retribuo-lhe o abra\u00e7o e assino-me \/ Velho amigo do peito \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[175] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 21 abr. 1908.] Meu caro J. Ver\u00edssimo, \/ N\u00e3o me parece que de tantas cartas que escrevi a amigos e a estranhos se possa apurar nada interessante, salvo as recorda\u00e7\u00f5es pessoais que conservarem para alguns. Uma vez, por\u00e9m, que \u00e9 satisfazer o seu desejo, estou pronto a cumpri-lo, deixando-lhe a autoriza\u00e7\u00e3o de recolher e a liberdade de reduzir as letras que lhe pare\u00e7am merecer divulga\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma. \/ Nesse trabalho desconfie da sua piedade de amigo de tantos anos, que pode ser guiado, \u2014 e mal guiado, \u2014 daquela afei\u00e7\u00e3o que nos uniu sem arrependimento nem arrefecimento. O tempo decorrido e a leitura que fizer da correspond\u00eancia lhe mostrar\u00e1 que \u00e9 melhor deix\u00e1-la esquecida e calada. E para mim bastar\u00e1 a simpatia que o seu desejo exprime. \/ Receba ainda agora um abra\u00e7o apertado do velho admirador e amigo. \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[176] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 25 abr. 1908.] Meu querido M\u00e1rio. \/ Uma das melhores rel\u00edquias da minha vida liter\u00e1ria \u00e9 aquele galho de carvalho de Tarso que J. Nabuco me mandou h\u00e1 tr\u00eas anos, por interm\u00e9dio do Gra\u00e7a Aranha e este me entregou em sess\u00e3o da nossa Academia Brasileira. O galho, a carta ao Gra\u00e7a e o documento que os acompanhou conservo-os na mesma caixa, em minha sala. \/ Perguntei-lhe h\u00e1 tempos se queria dar destino a essa rel\u00edquia, quando eu falecesse; agora renovo a pergunta. Talvez a Academia consinta em recolher o galho como lembran\u00e7a de tr\u00eas de seus membros e da sua pr\u00f3pria bondade em se reunir para completar o obs\u00e9quio de Nabuco e de Gra\u00e7a Aranha. Pe\u00e7o-lhe tamb\u00e9m que se incumba de o saber oportunamente. Caso n\u00e3o deva ali ser guardado, estou que haver\u00e1 em sua casa algum recanto correspondente ao que sei possuir em seu cora\u00e7\u00e3o, e onde ele possa recordar-lhe a saudade de um velho amigo desaparecido. Receba deste um apertado abra\u00e7o, e at\u00e9 breve \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[177] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 8 mai. 1908.] Meu querido Nabuco. \/ Ainda estou comovido do abra\u00e7o que em sua carta me mandou, e saudoso das mesmas saudades, mas n\u00e3o sei se animado das mesmas anima\u00e7\u00f5es; esta parte \u00e9 naturalmente incompleta, gra\u00e7as \u00e0 idade, \u00e0 solid\u00e3o. Em todo caso, as suas palavras fizeram-me bem. \/ Escrevo ao M\u00e1rio de Alencar pedindo-lhe que venha \u00e0 minha casa, quando eu morrer, e leve aquele galho de carvalho de Tasso que V. me mandou e o Gra\u00e7a me entregou em sess\u00e3o da Academia. A caixa em que est\u00e1 com o documento que o autentica e a sua carta ao Gra\u00e7a pe\u00e7o ao M\u00e1rio que os transmita \u00e0 Academia, a fim de que esta os conserve, como lembran\u00e7a de n\u00f3s tr\u00eas: Voc\u00ea, o Gra\u00e7a e eu. \/ A Academia conclui as f\u00e9rias e vai recome\u00e7ar a publica\u00e7\u00e3o da Revista. Nesta daremos os escritos originais que pudermos, alguns in\u00e9ditos e o Boletim. \/ O Jornal do Com\u00e9rcio publicou telegrama de Paris, em que d\u00e1 not\u00edcia de um artigo que o Ferrero escreveu no Figaro, falando da nossa Academia em termos grandemente simp\u00e1ticos e ben\u00e9volos.<\/p>\n<p>Naturalmente V. j\u00e1 l\u00e1 o ter\u00e1 a essa hora; aqui o esperamos com ansiedade natural. \/ Aqui fico esperando o seu drama sobre a conquista da Als\u00e1cia-Lorena, com a emenda que lhe fez; venha ainda que sem o seu nome. N\u00e3o faltar\u00e1 modo de o conhecer, nem ocasi\u00e3o de o publicar um dia, em outra edi\u00e7\u00e3o. Se V. est\u00e1 satisfeito com o novo desfecho \u00e9 que ele cabe realmente melhor; em V. o cr\u00edtico completa o artista. A Academia por\u00e1 a obra na biblioteca, cujo in\u00edcio e conserva\u00e7\u00e3o confiou ao M\u00e1rio [de Alencar]. Voc\u00ea h\u00e1 de lembrar-se que \u00e9 id\u00e9ia antiga do Salvador de Mendon\u00e7a deix\u00e1-la por herdeira da sua biblioteca particular, bastante rica, ao que parece. \/ Eu, meu querido, vou andando como posso, j\u00e1 um pouco fraco, e com temor de perder os olhos se me der a longos trabalhos. J\u00e1 n\u00e3o trabalho de noite. Ainda assim posso fazer-lhe uma confid\u00eancia: escrevi-o ano passado um livro que deve estar impresso agora em Fran\u00e7a. Duas ou tr\u00eas pessoas sabem disso aqui, e, por uma delas, o Magalh\u00e3es de Azeredo (Em Roma). Diz-me o editor (Garnier) que vir\u00e1 este m\u00eas, mas j\u00e1 em mar\u00e7o me anunciava a mesma coisa e falhou. Creio que ser\u00e1 o meu \u00faltimo livro; descansarei depois. \/ O Gra\u00e7a est\u00e1 em Petr\u00f3polis; continua a trabalhar no Tribunal. Parece-me que vir\u00e1 passar algumas semanas, ou dois meses, no Rio, naturalmente pela Exposi\u00e7\u00e3o. A Exposi\u00e7\u00e3o caminha; ainda n\u00e3o fui \u00e0s obras, ou\u00e7o que ficar\u00e3o magn\u00edficas. \/ Perdeu-se D. Carlos, que vinha dar um realce grande \u00e0s festas.<\/p>\n<p>Quem quer que venha agora n\u00e3o ser\u00e1 a mesma coisa. \/ Todos os nossos amigos v\u00e3o bem. De mim j\u00e1 sabe e adivinha. Se V. c\u00e1 vier ainda nos abra\u00e7aremos uma vez, como tantas outras, h\u00e1 tantos anos. V\u00e1 agora mais esta. \/ Am.\u00b0 do cora\u00e7\u00e3o. \/ M. DE ASSIS. P.<\/p>\n<p>S. \u2014 Muito obrigado pelo trecho de Mrs. Wright a meu respeito; h\u00e1 nela profunda simpatia. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[178] [RJ, 28 jun. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido Nabuco. \/ Deixe-me cumpriment\u00e1-lo pelas suas confer\u00eancias que a\u00ed fez e pelo discurso proferido na cerim\u00f4nia da Uni\u00e3o das Am\u00e9ricas; sa\u00edram todos no Jornal do Com\u00e9rcio. Voc\u00ea n\u00e3o deixa esquecer este pa\u00eds onde quer que esteja, como n\u00e3o esquece os amigos velhos, e agrade\u00e7o por mim que recebi o exemplar do Washington Post com o discurso. A confer\u00eancia acerca do papel de Cam\u00f5es na literatura veio mostrar ainda uma vez o estudo que tem feito desde a primeira mocidade relativamente ao poeta e ao poema. Traz com aprecia\u00e7\u00f5es novas e finas, o mesmo largo alcance de cr\u00edtica e o claro e eloq\u00fcente estilo do costume. O mesmo digo da confer\u00eancia sobre a nacionalidade do Brasil. Realmente os homens que V. aponta da Am\u00e9rica Latina t\u00eam jus \u00e0 comunh\u00e3o do esp\u00edrito da grande na\u00e7\u00e3o em que o nosso governo t\u00e3o acertadamente o colocou para representar a nossa. Enfim, dou-lhe os meus parab\u00e9ns pelo seu doutoramento na Universidade de Yale. \/ A Academia Brasileira vai caminhando; fazemos sess\u00f5es aos s\u00e1bados, e agora tratamos de organizar uma publica\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica em que resuma e guarde os nossos trabalhos. \/ Daqui a pouco a casa Garnier publicar\u00e1 um livro meu, e \u00e9 o \u00faltimo. A idade n\u00e3o me d\u00e1 tempo nem for\u00e7a de come\u00e7ar outro; l\u00e1 lhe mandarei um exemplar. Completei no dia 21 sessenta e nove anos; entro na ordem dos septuagen\u00e1rios. Admira-me como pude viver at\u00e9 hoje, mormente depois do grande golpe que recebi e no meio da solid\u00e3o em que fiquei, por mais que amigos busquem temper\u00e1-la de carinhos. \/ H\u00e1 dias o V\u00edtor [Nabuco] falou-me de um retrato seu, recente. Eu c\u00e1 tenho o que V. me mandou de Londres, h\u00e1 tr\u00eas anos, que \u00e9 soberbo; pende da parede por cima da caixa que encerra o ramo de carvalho de Tasso. J\u00e1 dispus as coisas em maneira que a caixa e o ramo, com as duas cartas que os acompanham, passem a ser depositados na Academia, quando eu morrer; confiei isto ao M\u00e1rio de Alencar. \/ Adeus, meu querido Nabuco, receba as minhas admira\u00e7\u00f5es e apresente os meus respeitos a toda a sua fam\u00edlia. N\u00e3o esque\u00e7a este \/ Velho admor. e am.\u00ba \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[179] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 12 jul. 1908.] Meu querido amigo, \/ Hoje acordei um pouco melhor e vou ag\u00fcentando o dia. O m\u00e9dico estando aqui agora reduziu isto a termos t\u00e9cnicos. Oxal\u00e1 venha assim a noite e amanh\u00e3 n\u00e3o desminta o dia de hoje. Muito obrigado pelos seus cuidados e comunica\u00e7\u00f5es. \u00c0 boa consorte e a todos os seus agrade\u00e7o tamb\u00e9m as afetuosas visitas que me mandam. \/ Ainda n\u00e3o vieram os bons amigos Aranha Bandeira e Ver\u00edssimo mas ainda pode ser; obrigado. \/ Adeus, meu querido M\u00e1rio; N\u00e3o digo mais por n\u00e3o poder cansar a cabe\u00e7a e a vista. At\u00e9 breve. \/ Todo seu. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[180] [RJ, 16 jul. 1908.] Meu querido amigo. \/ Antes da chuva j\u00e1 eu tinha resolvido n\u00e3o sair. Obrigado pelas not\u00edcias. A demora da Alf\u00e2ndega \u00e9 a mesma causa que o Lansac me d\u00e1 h\u00e1 muitos dias; melhor \u00e9 n\u00e3o insistir no caso. Aqui estou em sil\u00eancio, e a sua carta valeu por gente; desculpe o apressado da resposta. \/ Amanh\u00e3 penso que n\u00e3o sairei ainda que haja bom tempo. Muito obrigado a todos os seus, a quem pe\u00e7o que apresente os meus respeitosos cumprimentos. E para si um abra\u00e7o do \/ Velho am.\u00b0 \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[181] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, domingo, 19 jul. 1908.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Acabo de receber a sua carta com o seu abra\u00e7o pelo livro, e venho agradecer-lha cordialmente. Sabendo que foi sempre sincero comigo, senti-me pago do esfor\u00e7o empregado; muito obrigado, meu amigo. O livro \u00e9 derradeiro; j\u00e1 n\u00e3o estou em idade de folias liter\u00e1rias nem outras. O meu receio \u00e9 que fizesse a algu\u00e9m perguntar por que n\u00e3o parara no anterior, mas se tal n\u00e3o \u00e9 a impress\u00e3o que ele deixa, melhor. Creio que o compreendi bem, segundo o que me diz em um ponto da carta. \/ Eu vou melhorando, ainda que muito fraco. Sa\u00ed hoje de manh\u00e3, e sairei outra vez se n\u00e3o chover.<\/p>\n<p>O M\u00e1rio [de Alencar], tinha-me falado da sua vinda, mas efetivamente era arriscado com tal tempo. Amanh\u00e3 conto ir \u00e0 cidade, se o tempo consentir. Adeus, meu bom amigo, recomende-me a todos os seus, e receba em troca um abra\u00e7o apertado do velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[182] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 20 jul. 1908.] Meu querido am.\u00b0, \/ Agrade\u00e7o tudo, as visitas de ontem e de hoje. Depois lhe direi por que n\u00e3o fui hoje \u00e0 cidade; conto ir amanh\u00e3, e irei v\u00ea-lo. Realmente, passei bem os dous dias. \/ Muito obrigado tamb\u00e9m pelo que me diz do livro. Aguardo o seu artigo amanh\u00e3; n\u00e3o escrevo mais por causa dos olhos, mas sempre h\u00e1 vista para acrescentar que os seus carinhos me v\u00e3o animando neste final de vida. Adeus, at\u00e9 amanh\u00e3. Lembran\u00e7as e agradecimentos a todos. \/ Todo seu. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[183] AO GERENTE DO LONDON BANK<\/p>\n<p>[RJ, 21 jul. 1908.] Ilmo Gerente do London and Brazilian Bank, Limited: \/ Remeto a V. S.\u00aa o meu incluso testamento aprovado e encerrado nesta cidade do Rio de Janeiro, em 31 de maio de 1906, pelo tabeli\u00e3o Evaristo Vale de Barros, a fim de ser depositado nesse Banco e ficar a\u00ed \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o ou do Major Bonif\u00e1cio Gomes da Costa, do 2.\u00ba Batalh\u00e3o de artilharia, atualmente na cidade de Corumb\u00e1, Mato Grosso. Sou, com elevada estima e considera\u00e7\u00e3o \/ de V. S.\u00aa am.\u00b0 Venor. e obrg.\u00b0 \/ JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[184] A AFR\u00c2NIO PEIXOTO<\/p>\n<p>[RJ, 24 jul. 1908.] Meu caro e generoso Sr. Dr. Afr\u00e2nio Peixoto. \/ A generosidade de M\u00e1rio de Alencar veio agora aumentada pela sua, uma vez que as palavras dele lhe foram bem aceitas, como declara na carta que acabo de receber. Eu \u00e9 que n\u00e3o tenho aumento de for\u00e7a para poder agradecer a tudo o que as almas simp\u00e1ticas sentem de mim. Deixe-me dizer-lhe: ao fim de uma vida de trabalho e certo amor da arte que sempre me animou, vale muito sentir que encontro eco em esp\u00edritos ponderados e cultos. Vale por paga do esfor\u00e7o, e paga rara. Receba com estas linhas o meu agradecimento de \/ adm.or e respeitador \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[185] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 4.\u00aa feira, 30 jul. 1908.] Meu querido Amigo. \/ O inc\u00f4modo que me afligia continua a afligir-me. Tomei a Nux- Vomica ontem e hoje \u00e0 tarde; amanh\u00e3 lhe direi o resto. Estou tranq\u00fcilo, mas este estado \u00e9 que n\u00e3o pode continuar. Amanh\u00e3 conto sair e irei v\u00ea-lo. \/ Muito obrigado pelas not\u00edcias que me deu, e n\u00e3o digo mais para n\u00e3o cansar os olhos. Amanh\u00e3. Agrade\u00e7a por mim a D.<\/p>\n<p>Helena. Hoje durante o dia reli a M\u00e3o e a Luva. Adeus, meu am.\u00b0, obrigado, recomendeme a todos. \/ Seu do C. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[186] A BATISTA CEPELLOS<\/p>\n<p>[RJ, 30 jul. 1908.] Meu distinto Sr. Cepellos, \/ A pessoa que me trouxe o seu livro das Vaidades lhe ter\u00e1 dito que o meu estado de sa\u00fade n\u00e3o permite fazer dele a leitura precisa a um cabal ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Para um mo\u00e7o que come\u00e7a assim em t\u00e3o verdes anos uma leitura r\u00e1pida n\u00e3o basta; fi-la, entretanto, o bastante para ver que h\u00e1 notas de vigor e rasgos de colorido, surtos altos ao par de descuidos a que o autor de si mesmo acabar\u00e1 fugindo. Este ju\u00edzo \u00e9 sem autoridade e expresso com a timidez dos velhos. \/ Creia-me, com elevada \/ considera\u00e7\u00e3o, \/ admor. e obr. \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[187] A OLIVEIRA LIMA<\/p>\n<p>[RJ, 1 ago. 1908.] Meu eminente amigo. \/ Esta tem por fim dizer-lhe que ainda n\u00e3o morri, \/ tanto que lhe remeto um livro novo. Chamei-lhe Memorial de Aires. Mas este livro novo \u00e9 deveras o \u00faltimo. Agora j\u00e1 n\u00e3o tenho for\u00e7as nem disposi\u00e7\u00e3o para me sentar e come\u00e7ar outro; estou velho e acabado. \/ Mande-me not\u00edcias suas, meu amigo, e apresente os meus respeitosos cumprimentos a D. Flora, de quem minha mulher guardava t\u00e3o boas recorda\u00e7\u00f5es. Eu continuo a ser o mesmo seu admirador e amigo velho \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[188] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, ago. 1908.] Meu querido amigo, \/ Muito obrigado pelas boas novas. Vou ler o artigo do Alcindo e escrevo esta para n\u00e3o demorar a resposta. Folgo de saber o que o F\u00e9lix e o Jo\u00e3o Luso lhe disseram, e ainda bem que o livro agrada. Como \u00e9 definitivamente o meu \u00faltimo, n\u00e3o quisera o decl\u00ednio. O seu cuidado, por\u00e9m, mandando uma boa palavra a esta solid\u00e3o \u00e9 um realce mais e fala ao cora\u00e7\u00e3o. \/ A garganta est\u00e1 no mesmo ou um pouco mais dolorida. Vou aplicar o bochecho que me diz. N\u00e3o escrevo mais por causa dos olhos. At\u00e9 segunda-feira. Recomende-me a todos e creia-me \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[189] A JOAQUIM NABUCO<\/p>\n<p>[RJ, 1 ago. 1908.] Meu querido Nabuco. \/ L\u00e1 vai o meu Memorial de Aires. Voc\u00ea me dir\u00e1 o que lhe parece.<\/p>\n<p>Insisto em dizer que \u00e9 o meu \u00faltimo livro; al\u00e9m de fraco e enfermo, vou adiantado em anos, entrei na casa dos setenta, meu querido amigo. H\u00e1 dois meses estou repousando dos trabalhos da Secretaria, com licen\u00e7a do Ministro, e n\u00e3o sei quando voltarei a eles.<\/p>\n<p>Junte a isto a solid\u00e3o em que vivo. Depois que minha mulher faleceu soube por algumas amigas dela de uma confid\u00eancia que ela lhes fazia; dizia-lhes que preferia ver-me morrer primeiro por saber a falta que me faria. A realidade foi talvez maior que ela cuidava; a falta \u00e9 enorme. Tudo isso me abafa e entristece. Acabei. Uma vez que o livro n\u00e3o desagradou, basta como ponto final. \/ Recebi os seus discursos e felicito-os por todos. O Jornal do Com\u00e9rcio publicou os tr\u00eas. Dei os da Academia \u00e0 Academia. J\u00e1 l\u00e1 temos um princ\u00edpio de biblioteca, a cargo especial do M\u00e1rio de Alencar, e eles ficam bem nela arquivados.<\/p>\n<p>Obrigado por todos e particularmente pelo que trata do lugar de Cam\u00f5es na literatura. \u00c9 bom, \u00e9 indispens\u00e1vel reclamar para a nossa l\u00edngua o lugar que lhe cabe, e para isso os servi\u00e7os pol\u00edticos internacionais que se prestarem n\u00e3o ser\u00e3o menos importantes que os puramente liter\u00e1rios. Realmente \u00e9 triste, ver-nos considerados, como V. nota, em posi\u00e7\u00e3o subalterna \u00e0 l\u00edngua espanhola; Voc\u00ea ser\u00e1 assim mais uma vez o embaixador do nosso esp\u00edrito. Um abra\u00e7o pelas distin\u00e7\u00f5es que a\u00ed tem recebido e que s\u00e3o para o nosso Brasil inteiro. \/ N\u00e3o \u00e9 verdade que a nossa gente esquecer\u00e1 Voc\u00ea; falamos muita vez a seu respeito e recordamos dias passados. Se n\u00e3o lhe escrevem \u00e9 porque a vida agora \u00e9 absorvente, com as mudan\u00e7as da cidade e aflu\u00eancia de estranhos. Tudo se prepara para a Exposi\u00e7\u00e3o, que abre a 11. \/ A Academia vai andando; fazemos sess\u00e3o aos s\u00e1bados, nem sempre e com poucos. A sua id\u00e9ia relativamente ao Jos\u00e9 Carlos Rodrigues \u00e9 boa.<\/p>\n<p>Falei dela ao Gra\u00e7a e ao Ver\u00edssimo, que concordam; mas o Gra\u00e7a pensa que \u00e9 melhor consultar primeiro o Jos\u00e9 Carlos; parece-lhe que ele pode n\u00e3o querer; se quiser, parece f\u00e1cil. N\u00e3o h\u00e1 vaga, mas quem sabe se n\u00e3o a darei eu? \/ Releve-me estas id\u00e9ias f\u00fanebres; s\u00e3o pr\u00f3prias do estado e da idade. Pe\u00e7o-lhe que apresente os meus respeitos a Mme.<\/p>\n<p>Nabuco e a todos, e receba para si as saudades do velho amigo de sempre \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[190] A M\u00c1RIO DE ALENCAR<\/p>\n<p>[RJ, 6 ago. 1908.] Meu querido amigo. \/ Agrade\u00e7o-lhe a visita e restituo-lhe o abra\u00e7o que me mandou.<\/p>\n<p>Passei pouco melhor, mas enfim melhor. Antes da carta tinha j\u00e1 resolvido aqui em casa, ontem, n\u00e3o tomar o tribrometo. Sinto que tamb\u00e9m n\u00e3o esteja bom, e tenha um dos seus filhos doente; \u00e9 o que sucede a quem os possui, para compensar a felicidade de os ter.<\/p>\n<p>Desculpe o desalinho da carta. Estou passando a noite a jogar paci\u00eancias; o dia, passei-o a reler a Ora\u00e7\u00e3o Sobre a Acr\u00f3pole, e um livro de Schopenhauer. Muito obrigado. N\u00e3o sei se amanh\u00e3 irei \u00e0 cidade; se for, at\u00e9 amanh\u00e3, Adeus. \/ Do seu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[191] [RJ, 9 ago. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Agrade\u00e7o-lhe muito a sua visita. Esta mol\u00e9stia \u00e9 lenta e custa a sair das costas; passei a noite mal e o dia pouco melhor; vou ver a noite que passo. Tomei os seus rem\u00e9dios (a calcarea \u2014 principalmente) e outros, al\u00e9m dos bochechos. Desde ontem \u00e0 tarde a minha alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 puro leite. N\u00e3o sei se amanh\u00e3 posso ir \u00e0 cidade; espero ir depois. N\u00e3o posso escrever muito mais. Sinto o inc\u00f4modo de seu filho; n\u00e3o pense em pulm\u00f5es; a idade \u00e9 pr\u00f3pria de crises. \/ Pe\u00e7o-lhe que apresente as minhas recomenda\u00e7\u00f5es a todos os seus, e receba para si as minhas saudades. \/ Do Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS. P. S. \u2014 O Egoist conto acab\u00e1-lo amanh\u00e3. \/ M. DE A.<\/p>\n<p>[192] [RJ, 22 ago. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido am.\u00ba \/ Muito obrigado pelos seus cuidados. Passei o dia fraco, por ter voltado o inc\u00f4modo intestinal; recomecei agora a medica\u00e7\u00e3o contra este. Sobre a Academia falaremos depois detidamente. Obrigado ao Afr\u00e2nio. Muitos cumprimentos a todos os seus, e muitas saudades do \/ Velho am.\u00ba \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[193] [RJ, 24 ago. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Obrigado pela sua carta. N\u00e3o tenho passado bem hoje e limito a minha resposta a estas duas linhas. \/ Agrade\u00e7o a carta do Carlos Peixoto e todo o zelo que me tem mostrado. \/ At\u00e9 amanh\u00e3, se eu for \u00e0 cidade. \/ Todo seu \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[194] [RJ, 26 ago. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido am.\u00ba \/ Escrevi hoje \u00e0 Sara dizendo-lhe o que havia, e eu recebo a sua carta que me d\u00e1 not\u00edcia completa quando eu menos a esperava. Realmente foi mais r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ainda uma vez a sua boa amizade se mostrou comigo, e daqui lhe agrade\u00e7o. Vou telegrafar amanh\u00e3 ao Major. Eu n\u00e3o fui hoje \u00e0 cidade por ter passado mal o dia de ontem e recear que o dia de hoje fosse a continua\u00e7\u00e3o do de ontem; felizmente atenuou-se o mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se poderei ir amanh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 C\u00e2mara. At\u00e9 l\u00e1, amanh\u00e3 ou depois. \/ Seu do cora\u00e7\u00e3o \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[195] [RJ, 29 ago. 1908.]<\/p>\n<p>Meu querido amigo. \/ Cheguei ontem bem e hoje n\u00e3o sa\u00ed por causa da umidade, como bem viu. Ao receber a sua carta, por\u00e9m, estou afrontado do est\u00f4mago; \u00e9 do jantar; cuidando de me alimentar, parece que excedi um pouco a medida. \/ Muito obrigado pelo que me conta da conversa que teve com o Ver\u00edssimo e pelas boas palavras que acrescenta acerca da vinda daquela gente que est\u00e1 t\u00e3o longe, e dos cuidados que me dar\u00e1. Vir\u00e3o eles? Minha sobrinha Sara tem aqui um irm\u00e3o, a quem vou mandar chamar amanh\u00e3 para lhe falar da autoriza\u00e7\u00e3o do Ministro e da restri\u00e7\u00e3o posta. \/ Meu querido amigo, hoje a tarde, reli uma p\u00e1gina da biografia do Flaubert; achei a mesma solid\u00e3o e tristeza e at\u00e9 o mesmo mal, como sabe, o outro&#8230; \/ Adeus, recomende-me a todos os seus, e com um abra\u00e7o do \/ Velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p>[196] A JOS\u00c9 VER\u00cdSSIMO<\/p>\n<p>[RJ, 1 set. 1908.] Meu caro Ver\u00edssimo. \/ Ontem, ao jantar, recebi a sua carta de anteontem, feita das boas palavras a que Voc\u00ea tanto me acostumou. Ontem passei o dia relativamente melhor, apesar de muito enfraquecido e muito desanimado; o M\u00e1rio lhe dir\u00e1 sobre isto alguma coisa. Agora (oito da manh\u00e3) ainda n\u00e3o estou pior. Vamos ver se este intestino, que \u00e9 apenas um mal acess\u00f3rio mas aflitivo, se disp\u00f5e a me deixar tranq\u00fcilo por uma vez. \/ Agrade\u00e7o os votos que fez pelo meu restabelecimento. O que me vale no meio destes achaques e abatimentos \u00e9 a simpatia que encontro em alguns que me d\u00e3o provas certas, e aqui tenho mais esta sua. \/ N\u00e3o sei que efeito ter\u00e1 produzido N\u00e3o Consultes M\u00e9dico.<\/p>\n<p>Aquilo foi uma com\u00e9dia de sala, feita a pedido, para satisfazer particulares amadores e destinada a uma s\u00f3 representa\u00e7\u00e3o que teve. O Artur Azevedo, tendo a id\u00e9ia de fazer reviver agora algumas pe\u00e7as de h\u00e1 trinta e mais anos, inclui aquela entre as outras; obra de simpatia. Eu, se pudesse, teria ido ver ontem As Asas de um Anjo, que me daria uma renova\u00e7\u00e3o de mocidade; tinha eu dezenove anos! \/ Adeus, meu caro Ver\u00edssimo; venha quando quiser, \u2014 ou escreva, porque me faz bem conhecer pela sobrecarta a sua letra rasgada e firme. A minha s\u00e3o estes rabiscos de velho. Abra\u00e7a-o de cora\u00e7\u00e3o o seu \/ Velho adm.or \/ M. DE ASSIS.<\/p>\n<p>[197] A SALVADOR DE MENDON\u00c7A<\/p>\n<p>[RJ, 7 set. 1908.] Meu querido Salvador de Mendon\u00e7a. \/ A tua boa carta trouxe ao meu esp\u00edrito afrouxado n\u00e3o menos pela enfermidade que pelos anos, aquele cordial de juventude que nada supre neste mundo. \u00c9 o meu Salvador de outrora e de sempre, \u00e9 aquele generoso esp\u00edrito a quem nunca faltou simpatia para todo esfor\u00e7o sincero. Tal te vejo a meio s\u00e9culo, meu amigo, tal te vi nos dias da nossa primeira mocidade. \u00cdamos entrando nos vinte anos, verdes, quentes e ambiciosos. J\u00e1 ent\u00e3o nos ligava a ambos a afei\u00e7\u00e3o que nunca mais perdemos. \/ Aqui est\u00e1s o mesmo de ent\u00e3o e de sempre. A tua grande simpatia achou a velha da tradi\u00e7\u00e3o itaboraiense para dizer mais vivamente o que sentiste do meu \u00faltimo livro. Fizeste-o pela maneira magn\u00edfica a que nos acostumaste em tantos anos de trabalhos e de artista. Agrade\u00e7o-te, meu querido. A morte levou-nos muitos daqueles que eram conosco outrora; possivelmente a vida nos ter\u00e1 levado tamb\u00e9m alguns outros, \u00e9 seu costume dela, mas chegado ao fim da carreira \u00e9 doce que a voz que me alente seja a mesma voz antiga que nem a morte nem a vida fizeram calar. \/ Abra\u00e7a-te cordialmente \/ O teu velho amigo \/ MACHADO DE ASSIS.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis [1] A QUINTINO BOCAI\u00daVA [RJ 1862,163.] Meu amigo. \/ Vou publicar as minhas duas com\u00e9dias de estr\u00e9ia e n\u00e3o quero faz\u00ea-lo sem o conselho de tua compet\u00eancia. \/ J\u00e1 uma cr\u00edtica ben\u00e9vola e carinhosa, em que tomaste parte. 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