{"id":120218,"date":"2017-04-20T19:21:17","date_gmt":"2017-04-20T21:21:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120218"},"modified":"2017-04-20T19:21:17","modified_gmt":"2017-04-20T21:21:17","slug":"casa-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha","title":{"rendered":"Casa Velha"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>CAP\u00cdTULO I<\/h2>\n<h2>ANTES E DEPOIS DA MISSA<\/h2>\n<p>Aqui est\u00e1 o que contava, h\u00e1 muitos anos, um velho c\u00f4nego da Capela Imperial:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no m\u00eas de abril de 1839. Tinha-me dado na cabe\u00e7a escrever uma obra pol\u00edtica, a hist\u00f3ria do reinado de D. Pedro I. At\u00e9 ent\u00e3o esperdi\u00e7ara algum talento em d\u00e9cimas e sonetos, muitos artigos de peri\u00f3dicos, e alguns serm\u00f5es, que cedia a outros, depois que reconheci que n\u00e3o tinha os dons indispens\u00e1veis ao p\u00falpito. No m\u00eas de agosto de 1838 li as Mem\u00f3rias que outro padre, Lu\u00eds Gon\u00e7alves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei-o seguramente med\u00edocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer coisa melhor.<\/p>\n<p>Comecei logo a recolher os materiais necess\u00e1rios, jornais, debates, documentos p\u00fablicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, al\u00e9m de livros que poderia consultar, muitos pap\u00e9is manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta not\u00edcia me agu\u00e7asse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da fam\u00edlia e dos moradores pr\u00f3ximos, tinha tamb\u00e9m um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcan\u00e7asse da vi\u00fava a permiss\u00e3o de ver os pap\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se lhe consentir\u00e1 isso, disse-me ele; mas vou ver.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o h\u00e1 de consentir? \u00c9 claro que n\u00e3o me utilizarei sen\u00e3o do que for poss\u00edvel, e com autoriza\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas \u00e9 que livros e pap\u00e9is est\u00e3o l\u00e1 em grande respeito. N\u00e3o se mexe em nada que foi do marido, por uma esp\u00e9cie de venera\u00e7\u00e3o, que a boa senhora conserva sempre e conservar\u00e1. Mas enfim vou ver, e far-se-\u00e1 o que for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A vi\u00fava come\u00e7ou recusando; mas o padre instou, exp\u00f4s o que era, disse-lhe que nada perdia do devido respeito \u00e0 mem\u00f3ria do marido consentindo que algu\u00e9m folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resist\u00eancia, que me apresentasse l\u00e1. N\u00e3o me demorei muito em usar do favor; e no domingo pr\u00f3ximo acompanhei o Padre Mascarenhas.<\/p>\n<p>A casa, cujo lugar e dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro s\u00e9culo. Era uma edifica\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde crian\u00e7a, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dois port\u00f5es enormes, um especial \u00e0s pessoas da fam\u00edlia e \u00e0s visitas e outro destinado ao servi\u00e7o, \u00e0s cargas que iam e vinham, \u00e0s seges, ao gado que sa\u00eda a pastar. Al\u00e9m dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso \u00e0s pessoas da vizinhan\u00e7a, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos s\u00e1bados.<\/p>\n<p>Foi por esse caminho que chegamos a casa, \u00e0s sete horas e poucos minutos. Entramos na capela ap\u00f3s um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados v\u00e1rios passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o, \u00e0 esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente \u00e0 dona da casa, e \u00e0s senhoras da fam\u00edlia ou h\u00f3spedas, que entravam pelo interior; os homens, os f\u00e2mulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o para os casti\u00e7ais de prata, para as toalhas finas e alv\u00edssimas, para o ch\u00e3o em que n\u00e3o havia uma palha.<\/p>\n<p>&#8211; Todos os paramentos s\u00e3o assim, concluiu ele. E este confession\u00e1rio? Pequeno, mas um primor.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia coro nem \u00f3rg\u00e3o. J\u00e1 disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorr\u00eancia \u00e0 missa era tal que at\u00e9 na soleira da porta vinham ajoelhar-se fi\u00e9is. Mascarenhas fez-me notar \u00e0 esquerda da capela o lugar em que estava sepultado o ex-ministro. Tinha-o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me tamb\u00e9m da piedade e saudade da vi\u00fava, da venera\u00e7\u00e3o em que tinha a mem\u00f3ria dele, das rel\u00edquias que guardava, das alus\u00f5es freq\u00fcentes na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 ver\u00e1 na biblioteca o retrato dele &#8211; disse-me.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhan\u00e7a, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens, alguns, depois de persignados e rezados, sa\u00edam outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham tamb\u00e9m escravos da casa. Um destes era o pr\u00f3prio sacrist\u00e3o; tinha a seu cargo, n\u00e3o s\u00f3 a guarda e asseio da capela, mas tamb\u00e9m ajudava a missa, e, salvo a pros\u00f3dia latina, com muita perfei\u00e7\u00e3o. Fomos ach\u00e1&#8211;lo diante de uma grande c\u00f4moda de jacarand\u00e1 antigo, com argolas de prata nos gavet\u00f5es, concluindo os arranjos preparat\u00f3rios. Na sacristia, entrou logo depois um mo\u00e7o de vinte anos mais ou menos, simp\u00e1tico, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, F\u00e9lix.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei &#8211; disse ele sorrindo &#8211; mam\u00e3e me falou de V. Rev.ma Vem ver o arquivo de papai?<\/p>\n<p>Confiei-lhe rapidamente a minha id\u00e9ia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto fal\u00e1vamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho da dona da casa, Eduardo, tamb\u00e9m de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dois ou tr\u00eas h\u00f3spedes. F\u00e9lix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de p\u00e9, com o cotovelo na borda da c\u00f4moda, ia dizendo alguma coisa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos l\u00e1bios, voltando a cabe\u00e7a a mi\u00fado para um ou outro. F\u00e9lix tratava-o com benevol\u00eancia e at\u00e9 defer\u00eancia; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel n\u00e3o fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e n\u00e3o tomara caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que s\u00e3o horas, disse F\u00e9lix; e depois de ir \u00e0 porta da capela: &#8211; Mam\u00e3e j\u00e1 est\u00e1 na tribuna. Vamos?<\/p>\n<p>Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas mo\u00e7as. Cumprimentei-as de longe, e, sem mais encar\u00e1-las, percebi que tratavam de mim, falando umas \u00e0s outras. Felizmente o padre entrou da\u00ed a tr\u00eas minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa, que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, F\u00e9lix foi beijar a m\u00e3o \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 outra senhora idosa, tia dele; levou-me a apresentar-me ali mesmo a ambas. N\u00e3o falamos do meu projeto; t\u00e3o-somente a dona da casa disse-me delicadamente:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 entendido que V. Rev.ma faz-nos a honra de almo\u00e7ar conosco?<\/p>\n<p>Inclinei-me afirmativamente. N\u00e3o me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que me sentia tolhido. Casa, h\u00e1bitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida cl\u00e1ssica. N\u00e3o era raro o uso da capela particular; o que me pareceu \u00fanico foi a disposi\u00e7\u00e3o daquela, a tribuna de fam\u00edlia, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao p\u00e9 dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religi\u00e3o dom\u00e9stica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras sa\u00edram da tribuna, por uma porta interior, voltamos \u00e0 sacristia, onde o padre Mascarenhas esperava com o coronel e outros. Da porta da sacristia, passando por um sagu\u00e3o, descemos dois degraus para um p\u00e1tio, vasto, cal\u00e7ado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando \u00e0 esquerda alguns quartos, e \u00e0 direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupa\u00e7\u00e3o de todos. Com efeito, a casa era uma esp\u00e9cie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contr\u00e1rio de um rif\u00e3o peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das coisas, tudo quieto e patriarcal.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia governava esse pequeno mundo com muita discri\u00e7\u00e3o, brandura e justi\u00e7a. Nascera dona de casa; no pr\u00f3prio tempo em que a vida pol\u00edtica do marido e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tir\u00e1-la do recesso e da obscuridade, s\u00f3 a custo e raramente os deixou. Assim \u00e9 que, em todo o minist\u00e9rio do marido, apenas duas vezes foi ao pa\u00e7o. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos, &#8211; F\u00e9lix, e uma menina que morreu com tr\u00eas anos. A casa fora constru\u00edda pelo av\u00f4, em 1780, voltando da Europa, donde trouxe id\u00e9ias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que tamb\u00e9m a filha, m\u00e3e de D. Ant\u00f4nia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da \u00edndole desta senhora, essencialmente ch\u00e3. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Ant\u00f4nia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.<\/p>\n<p>Poucos minutos depois est\u00e1vamos almo\u00e7ando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no est\u00f4mago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, n\u00e3o disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma coisa, era baixinho, \u00e0s duas mo\u00e7as, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e n\u00e3o conversava mal. F\u00e9lix, eu e o padre Mascarenhas fal\u00e1vamos de pol\u00edtica, do minist\u00e9rio e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, \u00e0s vezes, a gente recebia a opini\u00e3o desenvolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi que a m\u00e3e, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ele herdara as naturais esperan\u00e7as do pai, e redobrei de aten\u00e7\u00e3o com o filho. Fi-lo sem esfor\u00e7o; mas pode ser tamb\u00e9m que entrasse por alguma coisa, naquilo, a necessidade de captar toda a afei\u00e7\u00e3o da casa, por motivo do meu projeto.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 depois do almo\u00e7o que falamos do projeto. Passamos \u00e0 varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o teto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Ant\u00f4nia chamou-me, sentei-me ao p\u00e9 dela, com o Padre Mascarenhas.<\/p>\n<p>&#8211; Reverend\u00edssimo, a casa est\u00e1 \u00e0s suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, n\u00e3o porque o n\u00e3o julgue pessoa capaz, mas porque os livros e pap\u00e9is de meu marido ningu\u00e9m mexe neles.<\/p>\n<p>&#8211; Creia que agrade\u00e7o muito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; n\u00e3o faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso dizer se tudo; depois de um r\u00e1pido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.\u00aa tamb\u00e9m h\u00e1 de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais \u00edntimo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como ?<\/p>\n<p>&#8211; Espero que me conte algumas coisas, que h\u00e3o de ter ficado escondidas. As hist\u00f3rias fazem-se em parte com as not\u00edcias pessoais. V. Ex.\u00aa, esposa de ministro&#8230;<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia deu de ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eu nunca entendi de pol\u00edtica, nunca me meti nessas coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo pode ser pol\u00edtica, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer coisa de nada, pode valer muito.<\/p>\n<p>Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco sa\u00eda, e s\u00f3 foi ao pa\u00e7o duas vezes. Confessou at\u00e9 que da primeira vez teve muito medo, e s\u00f3 o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do av\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; Sa\u00ed de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada \u00e0 corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando, parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o cora\u00e7\u00e3o me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, ainda mais quando subi as escadas do pa\u00e7o. De repente, lembrou-me um dito de meu av\u00f4. Meu av\u00f4, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito s\u00e9rio que ele tinha \u00e0s vezes: &#8220;Menina, uma Quintanilha n\u00e3o treme nunca!&#8221; Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha n\u00e3o tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.<\/p>\n<p>Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o lhe pediria nada; e depois falei de outras coisas. Parece que estava de veia, se n\u00e3o \u00e9 que a conversa\u00e7\u00e3o da vi\u00fava me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as mo\u00e7as, e posso afirmar que deixei a melhor impress\u00e3o em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.<\/p>\n<p>Antes de me despedir deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a ch\u00e1cara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um s\u00f3 lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos in-f\u00f3lio; livros de hist\u00f3ria, de pol\u00edtica, de teologia, alguns de letras e filosofia, n\u00e3o raros em latim e italiano. Eu via-os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o F\u00e9lix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflex\u00f5es redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior id\u00e9ia. Esta id\u00e9ia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina, de Varchi, edi\u00e7\u00e3o de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hosp\u00edcio de Jerusal\u00e9m, na antiga Rua dos Barbonos, possu\u00eda a obra e falara-me da \u00faltima p\u00e1gina, que, em alguns exemplares, faltava, e tratava do modo descomunalmente sacr\u00edlego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 o exemplar truncado? disse eu.<\/p>\n<p>&#8211; Truncado? repetiu F\u00e9lix.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. N\u00e3o, c\u00e1 est\u00e1; \u00e9 o cap. 16 do liv. XVI. Uma coisa indigna! &#8220;In questanno modesimo nacque un caso&#8230;&#8221; N\u00e3o vale a pena ler; \u00e9 imundo.<\/p>\n<p>Pus o livro no lugar. Sem olhar para o F\u00e9lix, senti-o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, sen\u00e3o porque, al\u00e9m da resolu\u00e7\u00e3o de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no esp\u00edrito do mo\u00e7o. Creram-me naturalmente um s\u00e1bio, tanto mais digno de admira\u00e7\u00e3o, quanto que contava apenas trinta e dois anos. A verdade \u00e9 que era t\u00e3o-somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era tamb\u00e9m discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca da promiscuidade de coisas religiosas e incr\u00e9dulas, alguns padres da Igreja n\u00e3o longe de Voltaire e Rousseau, e aqui n\u00e3o havia afetar nada, porque os conhecia, n\u00e3o integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto \u00e0 parte que imediatamente me interessava, achei muitas coisas, op\u00fasculos, jornais, livros, relat\u00f3rios, ma\u00e7os de pap\u00e9is rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o F\u00e9lix me disse estarem cheias de manuscritos.<\/p>\n<p>Havia ali dois retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz n\u00e3o fosse boa, achei que o F\u00e9lix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex-ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabe\u00e7a era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impress\u00e3o que me deixou o retrato. F\u00e9lix n\u00e3o tinha, por\u00e9m, a primeira nem a \u00faltima express\u00e3o; a semelhan\u00e7a restringia-se \u00e0 configura\u00e7\u00e3o do rosto, ao corte e viveza dos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1 tudo, disse-me F\u00e9lix; aquela porta d\u00e1 para uma saleta, onde poder\u00e1 trabalhar, quando quiser, se n\u00e3o preferir aqui mesmo.<\/p>\n<p>J\u00e1 disse que sa\u00ed de l\u00e1 encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o tr\u00eas dias depois. S\u00f3 ent\u00e3o revelei a Monsenhor Queir\u00f3s, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma hist\u00f3ria do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o \u00fanico fim de lhe contar as impress\u00f5es que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperan\u00e7as de algum achado de valor pol\u00edtico. Monsenhor Queir\u00f3s abanou a cabe\u00e7a, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me fez o que sou, menos a tend\u00eancia pol\u00edtica, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja tamb\u00e9m o eram do Estado. N\u00e3o aprovou a id\u00e9ia; mas n\u00e3o gastou tempo em tentar dissuadir-me. &#8220;Contanto, disse-me ele, que voc\u00ea n\u00e3o prejudique sua m\u00e3e, que \u00e9 a Igreja. O Estado \u00e9 um padrasto.&#8221;<\/p>\n<p>A meu cunhado e minha irm\u00e3, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irm\u00e3 pediu-me que a levasse l\u00e1, alguma vez, para conhecer a casa e a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Na quarta-feira comecei a pesquisa. Vi ent\u00e3o que era mais f\u00e1cil projet\u00e1-la, pedi-la e obt\u00ea-la, que realmente execut\u00e1-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete cont\u00edguo, com os livros e pap\u00e9is \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o, senti-me constrangido, sem saber por onde come\u00e7asse. N\u00e3o era uma casa p\u00fablica, arquivo ou biblioteca, era uma casa onde, no que tocava a pap\u00e9is e manuscritos, podia dar com alguma coisa privada e dom\u00e9stica. Para melhor haver-me, pedi ao F\u00e9lix que me auxiliasse, disse-lhe at\u00e9, com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu, polidamente, que tudo estava em boas m\u00e3os. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacrist\u00e3o; pedia, por\u00e9m, licen\u00e7a naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde ter\u00e7a-feira at\u00e9 s\u00e1bado, estaria na ro\u00e7a. Voltaria s\u00e1bado \u00e0 noite, e da\u00ed at\u00e9 o fim, estava \u00e0s minhas ordens. Aceitei este conv\u00eanio.<\/p>\n<p>Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e op\u00fasculos. Conhecia alguns deles, outros n\u00e3o, e n\u00e3o eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, F\u00e9lix acompanhou-me nesse trabalho, e da\u00ed em diante at\u00e9 seguir para a ro\u00e7a. Eu, em geral, chegava \u00e0s dez horas, conversava um pouco com a dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S\u00e3o Paulo. Fal\u00e1vamos das coisas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me \u00e0 biblioteca com o filho do ex-ministro. \u00c0s duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condi\u00e7\u00e3o do obs\u00e9quio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licen\u00e7a. Tudo isso com t\u00e3o boa cara que era imposs\u00edvel teimar na recusa. Jantava. Entre tr\u00eas e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho at\u00e9 anoitecer.<\/p>\n<p>Um dia, quando ainda o F\u00e9lix estava na ro\u00e7a, D. Ant\u00f4nia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe n\u00e3o interessava nada. Na v\u00e9spera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente Fran\u00e7a e It\u00e1lia, e talvez ali fosse da\u00ed a meses. D. Ant\u00f4nia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, minha senhora?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se admire do pedido; eu j\u00e1 reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverend\u00edssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade, ele cede.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creio que tenha mais for\u00e7a que sua m\u00e3e. J\u00e1 lhe tem lembrado isso?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, respondeu D. Ant\u00f4nia com uma entona\u00e7\u00e3o demorada que exprimia longas inst\u00e2ncias sem efeito.<\/p>\n<p>E logo depois com um modo alegre:<\/p>\n<p>&#8211; As m\u00e3es como eu n\u00e3o podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que n\u00e3o quer separar-se de mim. Mentira! A verdade \u00e9 que ele n\u00e3o quer sair daqui. N\u00e3o tem ambi\u00e7\u00f5es, faz estudos incompletos, n\u00e3o lhe importa nada. H\u00e1 uns parentes nossos em Portugal. J\u00e1 lhe disse que fosse visit\u00e1-los, que eles desejavam v\u00ea-lo, e que fosse depois \u00e0 Espanha e Fran\u00e7a e outros lugares. Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio l\u00e1 esteve e contava coisas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou ent\u00e3o repete que n\u00e3o quer separar-se de mim.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o acha que esta segunda raz\u00e3o \u00e9 a verdadeira?<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia olhou para o ch\u00e3o, e disse com voz sumida:<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; Se \u00e9 a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo: era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverend\u00edssima est\u00e1 ca\u00e7oando. Daqui para a cova. N\u00e3o fui quando era mo\u00e7a, e agora que estou velha \u00e9 que hei de meter-me em folias&#8230; Ele sim, que \u00e9 rapaz, &#8211; e precisa. Tive uma suspeita s\u00fabita:<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, dar-se-\u00e1 que ele pade\u00e7a de alguma mol\u00e9stia que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, gra\u00e7as a Deus! Digo que precisa, porque \u00e9 rapaz, e meu av\u00f4 dizia que, para ser homem completo, \u00e9 preciso ver aquelas coisas por l\u00e1. \u00c9 s\u00f3 por isso. N\u00e3o, n\u00e3o tem mol\u00e9stia nenhuma; \u00e9 um rapaz forte.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a raz\u00e3o secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o dizendo que ia convidar o rapaz. D. Ant\u00f4nia agradeceu-me, declarou que n\u00e3o me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras coisas; ela, por\u00e9m, teimava no assunto da viagem, para familiarizar-nos com a id\u00e9ia, e moralmente constranger-me a realiz\u00e1-la. No dia seguinte voltou \u00e0 biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rap\u00e9, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tive d\u00favida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembran\u00e7a do finado. Aceitei-a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei s\u00f3.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execu\u00e7\u00e3o parecia complicar-se de circunst\u00e2ncias estranhas e obscuras, provavelmente s\u00e9rias. As inst\u00e2ncias de D. Ant\u00f4nia, as raz\u00f5es dadas, as retic\u00eancias, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui \u00e0 casa do Padre Mascarenhas para sond\u00e1-lo; perguntei-lhe se sabia alguma coisa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas n\u00e3o sabia nada.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 aqui suponho que \u00e9 um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que s\u00f3 vou l\u00e1 aos domingos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix voltou da ro\u00e7a dois dias depois, num s\u00e1bado. No domingo n\u00e3o fui l\u00e1. Na segunda-feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo: respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas n\u00e3o podia. Teimei, pedi-lhe raz\u00f5es, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Foi mam\u00e3e que lhe pediu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo que n\u00e3o; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir \u00e0 Europa, daqui a alguns meses, e ela ent\u00e3o falou-me do senhor e das vezes que j\u00e1 lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?<\/p>\n<p>F\u00e9lix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consci\u00eancia. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:<\/p>\n<p>&#8211; Nada: n\u00e3o posso ir.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Aqui teve ele um gesto quase impercept\u00edvel de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da \u00edndole dele, ou do meu car\u00e1ter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; F\u00e9lix sorriu e confessou que n\u00e3o podia separar-se da m\u00e3e. Eu, a rigor, n\u00e3o devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos pap\u00e9is; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma coisa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia come\u00e7ar por ver os homens, e n\u00e3o restringir-se \u00e0 vida simples e emparedada da fam\u00edlia. Demais o contato de outras civiliza\u00e7\u00f5es necessariamente nos daria t\u00eampera ao esp\u00edrito. Escutou calado, mas sem aten\u00e7\u00e3o fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, pode ser que me resolva; veremos. N\u00e3o vai j\u00e1? Ent\u00e3o depois falaremos disto; pode ser&#8230; E o seu trabalho, est\u00e1 adiantado?<\/p>\n<p>N\u00e3o insisti, nem voltei ao assunto, apesar da m\u00e3e, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclus\u00e3o do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complica\u00e7\u00f5es ou desgostos. As horas que ent\u00e3o passei foram das melhores, regulares e tranq\u00fcilas, ajustadas \u00e0 minha \u00edndole quieta e eclesi\u00e1stica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me \u00e0 biblioteca at\u00e9 a hora do jantar, que n\u00e3o passava das duas. O caf\u00e9 ia \u00e0 grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado por ter um lindo renque dessas \u00e1rvores, e eu retirava-me antes do p\u00f4r-do-sol. F\u00e9lix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando n\u00e3o me ajudava \u00e9 porque sa\u00edra a ca\u00e7ar, ou estava lendo, ou teria ido \u00e0 cidade a passeio ou a neg\u00f3cio de casa.<\/p>\n<p>Vai sen\u00e3o quando, um dia, estando s\u00f3 na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era a princ\u00edpio um chiar de carro de bois, de que n\u00e3o fiz caso, por j\u00e1 o ter ouvido de outras vezes: devia ser um dos dois carros que traziam da ro\u00e7a para a Casa Velha, uma ou duas vezes por m\u00eas, frutas e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontr\u00e3o dos dois ve\u00edculos. Fui \u00e0 janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro n\u00e3o p\u00f4de conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas n\u00e3o houve outra conseq\u00fc\u00eancia al\u00e9m da vozeria. Quando eu cheguei \u00e0 janela j\u00e1 o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto, n\u00e3o foi t\u00e3o pouco o tempo que eu n\u00e3o viesse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma mo\u00e7a que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. N\u00e3o lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pesco\u00e7o; mas da\u00ed a nada, parando a sege \u00e0 porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. &#8220;H\u00e3o de ser visitas&#8221;, pensei comigo.<\/p>\n<p>Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Ant\u00f4nia; vinha da pra\u00e7a, aonde fora cedo, para tratar de um neg\u00f3cio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e n\u00e3o atendendo, ou atendendo mal \u00e0s respostas. N\u00e3o me lembraria disto agora, nem nunca mais, se n\u00e3o se tivesse ligado aos acontecimentos pr\u00f3ximos, como veremos. A prova de que n\u00e3o dei ent\u00e3o grande import\u00e2ncia ao estado de esp\u00edrito dele, \u00e9 que da\u00ed a pouco quase que n\u00e3o lhe respondia nada, e continuava a ver os pap\u00e9is. Folheava justamente um ma\u00e7o de c\u00f3pias relativas \u00e0 Cisplatina, e preferia o sil\u00eancio a qualquer assunto de conversa. F\u00e9lix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Da\u00ed a pouco est\u00e1vamos \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Era costume de D. Ant\u00f4nia vir para a mesa acompanhando a irm\u00e3 (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali fui), e assim o fez agora, com a diferen\u00e7a que outra senhora a acompanhava tamb\u00e9m. Disseram-me que era amiga da fam\u00edlia, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Ant\u00f4nia perguntou \u00e0 h\u00f3speda:<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 Lalau?<\/p>\n<p>&#8211; Onde h\u00e1 de estar! talvez brincando com o pav\u00e3o. Mas, n\u00e3o faz mal, sinh\u00e1 D. Ant\u00f4nia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer; antes de vir comeu um pires de melado com farinha.<\/p>\n<p>&#8211; A sege chegou muito tarde? perguntou F\u00e9lix \u00e0 h\u00f3speda.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor; ainda esperou por n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Seu irm\u00e3o est\u00e1 bom?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1; minha cunhada \u00e9 que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo Natal, nunca ficou boa de todo.<\/p>\n<p>Creio que disseram ainda outras coisas; mas n\u00e3o me interessando nada, nem a conversa\u00e7\u00e3o, nem a h\u00f3speda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. J\u00e1 tinha compreendido que a h\u00f3speda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atr\u00e1s do pav\u00e3o, em vez de estar \u00e0 mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabe\u00e7a a hist\u00f3ria de um imperador.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO II<\/h3>\n<p>Lalau n\u00e3o se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Ant\u00f4nia lhe perguntou se n\u00e3o estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma coisa, mas deu comigo, e ficou calada. D. Ant\u00f4nia, que reparou nisso, voltou-se para mim.<\/p>\n<p>&#8211; Reverend\u00edssimo, \u00e9 preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penit\u00eancia para ver se toma ju\u00edzo. Olhe que voltou h\u00e1 pouco e j\u00e1 anda naquele estado. Vem c\u00e1, Lalau.<\/p>\n<p>Lalau aproximou-se de D. Ant\u00f4nia, que lhe comp\u00f4s o cabe\u00e7\u00e3o do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao p\u00e9 da outra h\u00f3speda. Realmente, era uma criatura ador\u00e1vel, espigadinha, n\u00e3o mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando n\u00e3o ria com a boca; mas, se o riso vinha juntamente de ambas as partes, ent\u00e3o \u00e9 certo que a fisionomia humana confinava com a ang\u00e9lica, e toda a inoc\u00eancia e toda a alegria que h\u00e1 no c\u00e9u pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pare\u00e7a exagerado a uns e vago a outros, mas n\u00e3o acho no momento um modo melhor de traduzir a sensa\u00e7\u00e3o que essa menina produziu em mim. Contemplei-a alguns instantes com infinito prazer. Fiei-me do car\u00e1ter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com gra\u00e7a, como o resto da pessoa. N\u00e3o digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.<\/p>\n<p>Chamava-se Cl\u00e1udia; Lalau era o nome dom\u00e9stico. N\u00e3o tendo pai nem m\u00e3e, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Rom\u00e3o Soares, exercia um oficio mec\u00e2nico, e antes pertencera \u00e0 guarda da cavalaria de pol\u00edcia; a m\u00e3e, Benedita Soares, era filha de um escriv\u00e3o da ro\u00e7a, e, segundo me disse a pr\u00f3pria D. Ant\u00f4nia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.<\/p>\n<p>Lalau, se n\u00e3o nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a m\u00e3e, no mesmo p\u00e9 de outras rela\u00e7\u00f5es; eram menos agregadas que h\u00f3spedas. Da\u00ed a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, n\u00e3o indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na pr\u00f3pria sege de D. Ant\u00f4nia, vivia do que esta lhe dava, e n\u00e3o lhe dava pouco; em compensa\u00e7\u00e3o, amava sinceramente a casa e a fam\u00edlia. Tendo ficado \u00f3rf\u00e3 desde 1831, D. Ant\u00f4nia cuidou de lhe completar a educa\u00e7\u00e3o; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.<\/p>\n<p>Foi D. Ant\u00f4nia quem me deu essas not\u00edcias, naquela mesma tarde, ao caf\u00e9, acrescentando que achava bom cas\u00e1-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.<\/p>\n<p>Nisto a menina veio a n\u00f3s, olhando muito para mim. Est\u00e1vamos na varanda.<\/p>\n<p>&#8211; Vou confess\u00e1-la, disse-lhe eu; mas olhe l\u00e1 se me nega algum pecado.<\/p>\n<p>&#8211; Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu n\u00e3o tenho pecado. Nh\u00e3t\u00f4nia \u00e9 que anda inventando essas coisas. Eu, pecado?<\/p>\n<p>&#8211; E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar s\u00e9ria e pensar em Deus, enfiou a cabe\u00e7a por entre as cortinas para fora, rindo como uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 ela sen\u00e3o crian\u00e7a? ponderou D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>Lalau olhou espantada.<\/p>\n<p>&#8211; Onde estava o senhor padre?<\/p>\n<p>&#8211; Estava no c\u00e9u, espiando.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! diga onde estava.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse; estava no c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus! diga onde estava!<\/p>\n<p>&#8211; Lalau! que modos s\u00e3o esses? repreendeu D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a calou-se aborrecida; eu \u00e9 que fui em aux\u00edlio dela, e contei-lhe que estava \u00e0 janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Ant\u00f4nia j\u00e1 sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era mat\u00e9ria de longas conversa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o obstante, a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensa\u00e7\u00f5es alegres. Confessou que n\u00e3o tinha medo de nada, e at\u00e9 que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversa\u00e7\u00e3o dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa l\u00e1 em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que n\u00e3o, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos esp\u00edritos algum ponto de contato.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns pap\u00e9is, ouviu-me atenta, pegou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me v\u00e1rias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, pe\u00e7a que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu-os logo; ainda assim parecia tomar gosto em v\u00ea-los, principalmente o do ex-ministro; quis saber se ela o conhecera; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado ent\u00e3o parecia um rei. Seguiu-se um grande sil\u00eancio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela mo\u00e7a, entre si e Deus:<\/p>\n<p>&#8211; Muito parecido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parecido com quem? perguntei.<\/p>\n<p>Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. N\u00e3o era preciso mais: adivinhei tudo. Infelizmente tudo n\u00e3o era ainda tudo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO III<\/h3>\n<p>Amor non improbatur, escreveu o meu grande Santo Agostinho. A quest\u00e3o para ele, como para mim, \u00e9 que as criaturas sejam amadas e amem em Deus. Assim, quando desconfiei, por aquele gesto, que esta mo\u00e7a e F\u00e9lix eram namorados, n\u00e3o os condenei por isso, e para dizer tudo, confesso que tive um grande contentamento. N\u00e3o sei bem explic\u00e1-lo; mas \u00e9 certo que, sendo ali estranho, e vendo esta mo\u00e7a pela primeira vez, a impress\u00e3o que recebi foi como se se tratasse de amigos velhos. Pode ser que a simpatia da minha natureza explique tudo; pode ser tamb\u00e9m que esta mo\u00e7a, assim como fascinara o F\u00e9lix para o amor, acabasse de fascinar-me para a amizade. Uma ou outra coisa, \u00e0 escolha, a verdade \u00e9 que fiquei satisfeito e os aprovei comigo.<\/p>\n<p>Entretanto, adverti que da parte dele n\u00e3o vira nada, nem \u00e0 mesa, nem na varanda, nada que mostrasse igual afei\u00e7\u00e3o. Dar-se-ia que s\u00f3 ela o amasse, n\u00e3o ele a ela? A hip\u00f3tese afligiu-me. Achava-os t\u00e3o ajustados um ao outro, que n\u00e3o acabarem ligados parecia-me uma viola\u00e7\u00e3o da lei divina. Tais eram as reflex\u00f5es que vim fazendo, quando dali voltei nesse dia, e para quem andava \u00e0 cata de documentos pol\u00edticos, n\u00e3o \u00e9 de crer que semelhante preocupa\u00e7\u00e3o fosse de grande peso; mas nem a alma de um homem \u00e9 t\u00e3o estreita que n\u00e3o caibam nela coisas contr\u00e1rias, nem eu era t\u00e3o historiador como presumira. N\u00e3o escrevi a hist\u00f3ria que esperava; a que de l\u00e1 trouxe \u00e9 esta.<\/p>\n<p>N\u00e3o me foi dif\u00edcil averiguar que o F\u00e9lix amava a pequena. Logo nos primeiros dias pareceu-me outro, mais prazenteiro, e, \u00e0 mesa ou fora dela, pude apanhar alguns olhares, que diziam muito. Observei tamb\u00e9m que essa mo\u00e7a, t\u00e3o crian\u00e7a, era inteiramente mulher quando os olhos dela encontravam os dele, como se o amor fosse a puberdade do esp\u00edrito, e mais notei que, se toda a gente a tratava de um modo afetuoso, mas superior, ele tinha para com ela aten\u00e7\u00f5es e respeito.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o ia eu ali todos os dias, mas tr\u00eas ou quatro vezes por semana. A dona da casa, posto que sempre af\u00e1vel, recebia a impress\u00e3o natural da assiduidade, que vulgariza tudo. Os dois, n\u00e3o; o F\u00e9lix vinha muitas vezes esperar-me a dist\u00e2ncia da casa, e na casa, ao port\u00e3o ou na varanda, achava sempre a mocinha, rindo pela boca e pelos olhos. \u00c9 bem poss\u00edvel que eu fosse para eles como o tra\u00e7o de pena que liga duas palavras; \u00e9 certo, por\u00e9m, que gostavam de mim. Eu, entre ambos, com a minha batina (deixem-me confessar esta vaidade) tinha uns ares do bispo Cirilo entre Eudoro e Cim\u00f3doce.<\/p>\n<p>H\u00e1 de parecer singular que n\u00e3o me lembrasse logo do pedido de D. Ant\u00f4nia para que o filho me acompanhasse \u00e0 Europa, e o n\u00e3o ligasse a este amor nascente: lembrei-me depois. A princ\u00edpio, vendo a afei\u00e7\u00e3o com que ela tratava a mocinha, cuidei que os aprovava. Mais tarde, quando me recordei do pedido, acreditei que esse amor era para ela o rem\u00e9dio ao mal secreto do filho, se algum havia, que me n\u00e3o quisera revelar.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias, depois da chegada de Lalau, nada aconteceu que mere\u00e7a a pena contar aqui. F\u00e9lix acompanhava-me no trabalho, mas interrompidamente, e \u00e0s vezes, se sa\u00eda a algum neg\u00f3cio da casa, s\u00f3 nos v\u00edamos \u00e0 mesa do jantar. Lalau n\u00e3o ia \u00e0 biblioteca; um dia, por\u00e9m, atreveu-se a entrar \u00e0s escondidas, e foi ter comigo. Suspendi o trabalho, e conversamos perto de meia hora, sobre uma infinidade de coisas, presentes e passadas. Eram mais de onze horas; o dia estava quente, o ar parado, a casa silenciosa, salvo um ou outro mugido, ao longe, ou algum canto de passarinho. Eu, com os estudos cl\u00e1ssicos que tivera, e a grande tend\u00eancia idealista, dava a tudo a cor das minhas reminisc\u00eancias e da minha \u00edndole, acrescendo que a pr\u00f3pria realidade externa, &#8211; antiquada e solene nos m\u00f3veis e nos livros, recente e graciosa em Lalau, &#8211; era prop\u00edcia \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixei-me ir ao sabor do momento. Notem bem que ela, \u00e0s vezes, ouvia mal, ou n\u00e3o sabia ouvir absolutamente, com os olhos vagos, pensando em outra coisa. Outras vezes interrompia-me para fazer um reparo in\u00fatil. J\u00e1 disse tamb\u00e9m que tinha a conversa\u00e7\u00e3o trancada e salteada. Com tudo isso, era interessante falar-lhe, e principalmente ouvi-la. Sabia, no meio das puerilidades freq\u00fcentes da palavra, n\u00e3o destoar nunca da considera\u00e7\u00e3o que me devia; e tanto era curiosa como franca.<\/p>\n<p>&#8211; Teve medo? disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que a senhora entrou?<\/p>\n<p>&#8211; Entrando; vi o senhor aqui, e vim muito devagar, pensando que n\u00e3o chegasse ao fim da sala, sem que o senhor me ouvisse, mas n\u00e3o ouviu nada, todo embebido no que est\u00e1 escrevendo. O que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Coisas s\u00e9rias.<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00e3t\u00f4nia disse que o senhor est\u00e1 aqui fazendo umas notas pol\u00edticas para p\u00f4r num livro.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o se sabia como \u00e9 que me perguntou?<\/p>\n<p>Lalau encolheu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Fez mal, disse eu. Olhe que eu sou padre, posso pregar-lhe um serm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor prega serm\u00f5es? por que n\u00e3o vem pregar aqui, na quaresma? Eu gosto muito de serm\u00f5es. No ano passado, ouvi dois, na igreja da Lapa, muito bonitos. N\u00e3o me lembra o nome do padre. Eu, se fosse padre, havia de pregar tamb\u00e9m. S\u00f3 n\u00e3o gosto dos latin\u00f3rios; n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>Falou assim, a troncos, uns bons cinco minutos; eu deixei-a ir, olhando s\u00f3, vivendo daquela vida que jorrava dela, cristalina e fresca. No fim, Lalau sentou-se, mas n\u00e3o se conservou sentada mais de dois minutos, levantou-se outra vez para ir \u00e0 janela, e tornou dentro para mirar os livros. Achou-os grandes demais; admirava como havia quem tivesse a paci\u00eancia de os ler. E depois alguns eram t\u00e3o velhos!<\/p>\n<p>&#8211; Que tem que sejam velhos? retorqui. Deus \u00e9 velho, e \u00e9 a melhor leitura que h\u00e1.<\/p>\n<p>Lalau olhou espantada para mim. Provavelmente era a primeira vez que ouvia uma figura daquelas, fez-lhe impress\u00e3o. Teimou depois que os livros velhos pareciam-se com o antigo capel\u00e3o da casa, o antecessor do Padre Mascarenhas, que andava com a batina empoeirada, e tinha a cara feita de rugas. Conseguintemente vieram hist\u00f3rias do capel\u00e3o. Em nenhuma delas, nem de outras entrava o F\u00e9lix; exclus\u00e3o que podia ser natural, mas que me n\u00e3o pareceu casual. Como eu lhe dissesse que n\u00e3o se deve mofar dos padres, ela ficou muito s\u00e9ria e atenta; depois rompeu, rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 do senhor.<\/p>\n<p>&#8211; De mim ou de outro, \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, mas o outro era t\u00e3o feio, t\u00e3o lambuz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Disse-lhe, com as palavras que podia, que o padre \u00e9 padre, qualquer que seja a apar\u00eancia. Enquanto lhe falava, ela dava alguns passos de um lado para outro, cuido que para sentir o tapete debaixo dos p\u00e9s; n\u00e3o o havia sen\u00e3o ali e na sala de visitas, fechada sempre. De quando em quando parava e olhava de cima as figuras desbotadas do ch\u00e3o; outras vezes deixava escorregar o p\u00e9, de prop\u00f3sito. Tinha o rasgo pueril de achar prazer em qualquer coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, disse-me ela finalmente, n\u00e3o precisa brigar comigo; n\u00e3o falo mais do capel\u00e3o. Pode continuar o seu trabalho, vou-me embora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso ir embora.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada! Quer que fique olhando para as paredes, enquanto o senhor trabalha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas se eu n\u00e3o estou trabalhando! Olhe, se quer que eu n\u00e3o fa\u00e7a nada, sente-se um pouco, mas sente-se de uma vez.<\/p>\n<p>Lalau sentou-se. A cadeira em que se sentou era uma velha cadeira de espaldar de couro lavrado, e p\u00e9s em arco. Dali, olhava para fora, e o sol, entrando pela janela, vinha morrer-lhe aos p\u00e9s. Para n\u00e3o estar em completo sossego, come\u00e7ou a brincar com os dedos; mas cessou logo, quando lhe perguntei, \u00e0 queima-roupa, se se lembrava da m\u00e3e. As fei\u00e7\u00f5es da mo\u00e7a perderam instantaneamente o ar alegre e descuidado: tudo o que havia nelas de fr\u00edvolo converteu-se em gravidade e compostura, e a crian\u00e7a desapareceu, para s\u00f3 deixar a mulher com a sua saudade filial.<\/p>\n<p>Respondeu-me com uma pergunta. Como podia esquec\u00ea-la? Sim, senhor, lembrava-se dela, e muito, e rezava por ela todas as noites para que Deus lhe desse o c\u00e9u. E com certeza estava no c\u00e9u. Era boa como eu n\u00e3o podia imaginar, e ningu\u00e9m foi nunca t\u00e3o amiga dela, como a defunta. N\u00e3o negava que Nh\u00e3t\u00f4nia lhe queria muito, e tinha provas disso, e assim tamb\u00e9m as mais pessoas da casa; mas a m\u00e3e era outra coisa. A m\u00e3e morria por ela, e quase se pode dizer que foi assim mesmo, porque apanhou uma constipa\u00e7\u00e3o, estando a trat\u00e1-la de uma febre, e ficou com uma tosse que nunca mais a deixou. O doutor negou, disse que a morte foi de outra coisa; ela, por\u00e9m, desconfiou sempre que a doen\u00e7a da m\u00e3e come\u00e7ou dali. T\u00e3o boa que nem quis que ela a visse morrer, para n\u00e3o padecer mais do que padecia. N\u00e3o p\u00f4de v\u00ea-la morrer, viu-a depois de morta, t\u00e3o bonita! t\u00e3o serena! parecia viva!<\/p>\n<p>Aqui levou os dedos aos olhos; eu levantei-me e disse-lhe que mud\u00e1ssemos de conversa, que a m\u00e3e estava no c\u00e9u, e que a vontade de Deus era mais que tudo. Lalau escutou-me com os olhos parados,- ela que os trazia como um casal de borboletas,- e depois de alguns instantes de sil\u00eancio, continuou a falar da m\u00e3e, mas j\u00e1 n\u00e3o da morte, sen\u00e3o da vida, e particularmente da beleza. N\u00e3o, eu n\u00e3o podia imaginar como a m\u00e3e era bonita; at\u00e9 parava gente na rua para v\u00ea-la. E descreveu-a toda, como podia, mostrando bem que as gra\u00e7as f\u00edsicas da m\u00e3e, aos olhos dela, eram ainda uma qualidade moral, uma fei\u00e7\u00e3o, alguma coisa especial e genu\u00edna que n\u00e3o possu\u00edram nunca as outras m\u00e3es.<\/p>\n<p>&#8211; Deus que a chamou para si, disse-lhe eu, l\u00e1 sabe por que \u00e9 que o fez. Agora tratemos dos vivos. Ela est\u00e1 no c\u00e9u, a senhora est\u00e1 aqui, ao p\u00e9 de pessoas que a estimam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! eu dava tudo para t\u00ea-la ao p\u00e9 de mim, na nossa casinha da Cidade Nova! A casa era isto, &#8211; continuou ela levantando as m\u00e3os abertas, diante do rosto, e marcando assim o tamanho de um palmo, &#8211; ainda me lembro bem, era nada, quase nada, &#8211; n\u00e3o tinha l\u00e1 tapetes nem dourados, mas mam\u00e3e era t\u00e3o boa! t\u00e3o boa! Coitada de mam\u00e3e!<\/p>\n<p>&#8211; Olhe o sol! disse eu procurando desviar-lhe a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com efeito, o sol, que ia subindo, come\u00e7ava a lamber-lhe a barra do vestido. Lalau olhou para o ch\u00e3o, quis recuar a cadeira, mas, sentindo-a pesada, levantou-se e veio ter comigo; pedindo-me desculpa de tanta coisa que dissera, e n\u00e3o interessava a ningu\u00e9m; e n\u00e3o me deu tempo de replicar, porque acrescentou logo outro pedido: &#8211; que n\u00e3o contasse nada a Nh\u00e3t\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ela pode acreditar que eu disse isto por n\u00e3o estar bem aqui, e eu estou muito bem aqui, muito bem.<\/p>\n<p>Quis ret\u00ea-la, mas a palavra n\u00e3o alcan\u00e7ou nada, e eu n\u00e3o podia pegar-lhe nas m\u00e3os. Deixei-a ir, e voltei \u00e0s minhas notas. Elas \u00e9 que n\u00e3o voltaram a mim, por mais que tentasse busc\u00e1-las e transcrev\u00ea-las.<\/p>\n<p>Lalau ainda tornou \u00e0 sala, da\u00ed a tr\u00eas ou quatro minutos, para reiterar o \u00faltimo pedido; prometi-lhe tudo o que quis. Depois, fitando-me bem, acrescentou que eu era padre, e n\u00e3o podia rir dela nem faltar \u00e0 minha palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Rir? disse eu em tom de censura.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se zangue comigo, acudiu sorrindo; digo isto porque sou muito medrosa e desconfiada.<\/p>\n<p>E, r\u00e1pida, como passarinho, deixou-me outra vez s\u00f3. Desta vez n\u00e3o tornei \u00e0s notas; fiquei passeando na longa sala, costeando as estantes, detendo-me para mirar os livros, mas realmente pensando em Lalau. A simpatia que me arrastava para ela complicava-se agora de venera\u00e7\u00e3o, diante daquela explos\u00e3o de sensibilidade que estava longe de esperar da parte de uma criatura t\u00e3o travessa e pueril. Achei nessa saudade da m\u00e3e, t\u00e3o viva ap\u00f3s longos anos, um documento de grande valor moral, pois a afei\u00e7\u00e3o que ali lhe mostravam, e o pr\u00f3prio contato da opul\u00eancia podiam naturalmente t\u00ea-la amortecido ou substitu\u00eddo. Nada disso; Lalau daria tudo para viver ao p\u00e9 da m\u00e3e. Tudo? Pensei tamb\u00e9m no sil\u00eancio que me recomendou, medrosa de que a achassem ingrata, e este rasgo n\u00e3o me pareceu menos valioso que o outro: era claro que ela compreendia as indu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de uma dor que persiste a despeito dos carinhos com que cuidavam t\u00ea-la eliminado, e queria poupar aos seus benfeitores o amargor de crer que empregavam mal o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Pouco depois chegou o F\u00e9lix. Veio falar-me; disse-me que tinha uma boa not\u00edcia, que ia mudar de roupa e voltava. Vinte minutos depois estava outra vez comigo, e confiava-me o plano de fazer-se eleger deputado.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 agora n\u00e3o tinha resolvido nada, mas acho que devo faz\u00ea-lo. Sigo a carreira de papai. Que lhe parece, Reverend\u00edssimo?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me bem. Todas as carreiras s\u00e3o boas, exceto a do pecado. Tamb\u00e9m eu algum tempo andei com fuma\u00e7as de entrar na C\u00e2mara; mas n\u00e3o tinha recursos nem alian\u00e7as pol\u00edticas; desisti do emprego. E assim foi bom. Sou antes especulativo que ativo; gosto de escrever pol\u00edtica, n\u00e3o de fazer pol\u00edtica. Cada qual como Deus o fez. O senhor, se sair a seu pai, \u00e9 que h\u00e1 de ser ativo, e bem ativo. A coisa \u00e9 para breve?<\/p>\n<p>N\u00e3o me respondeu nada; tinha os olhos fora dali. Mas logo depois, advertido pelo sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Ah! n\u00e3o \u00e9 para j\u00e1; estou arranjando as coisas. Estive com alguns amigos de papai, e parece que h\u00e1 furo. Como sabe h\u00e1 muitos desgostos contra o Regente&#8230; Se o imperador j\u00e1 tivesse a idade da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 que era bom; ia-se embora o Regente e o resto&#8230; Pois \u00e9 verdade, creio que sim&#8230; Entretanto, nunca tinha pensado nisto seriamente; mas as coisas s\u00e3o assim mesmo&#8230; Que acha?<\/p>\n<p>&#8211; Acho que faz bem.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso, pe\u00e7o-lhe segredo; n\u00e3o diga nada a mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Cr\u00ea que ela se oponha?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; mas&#8230; pode ser que n\u00e3o se alcance nada, e para lhe n\u00e3o dar uma esperan\u00e7a que pode falhar&#8230; \u00c9 s\u00f3 isto.<\/p>\n<p>Era plaus\u00edvel a explica\u00e7\u00e3o; prometi-lhe n\u00e3o dizer nada. Creio que falamos ainda de pol\u00edtica, e da pol\u00edtica daqueles \u00faltimos dez anos, que n\u00e3o era pouca nem pl\u00e1cida. F\u00e9lix n\u00e3o tinha certamente um plano de id\u00e9ias, e aprecia\u00e7\u00f5es originais; atrav\u00e9s das palavras dele, apalpava eu as f\u00f3rmulas e os ju\u00edzos do c\u00edrculo ou das pessoas com quem ele lidava para o fim de encetar a carreira. Agora, a particularidade dele era ter a clareza e retid\u00e3o de esp\u00edrito precisas para s\u00f3 recolher do que ouvia a parte s\u00e3 e justa, ou, pelo menos, a por\u00e7\u00e3o moderada. Nunca andaria nos extremos, qualquer que fosse o seu partido.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhou muito hoje? perguntou-me ele quando nos prepar\u00e1vamos para jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Pouco; tive uma visita.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; outra pessoa, Lalau, n\u00e3o \u00e9 assim que lhe chamam? Esteve aqui uma meia hora. Podia estar tr\u00eas ou quatro horas que eu n\u00e3o me dava por isso. Muito engra\u00e7ada!<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e gosta muito dela, disse ele.<\/p>\n<p>&#8211; Todos devem gostar dela; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 engra\u00e7ada, \u00e9 boa, tem muito bom cora\u00e7\u00e3o. Digo-lhe que pus de lado o imperador, os Andradas, o Sete de Abril, pus tudo de lado s\u00f3 para ouvi-la falar. Tem coisas de crian\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Muito inteligente, n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>&#8211; Muito.<\/p>\n<p>&#8211; De que falaram?<\/p>\n<p>&#8211; De mil coisas, talvez duas mil; com ela \u00e9 dif\u00edcil contar os assuntos; vai de um para outro com tal rapidez, que, se a gente n\u00e3o toma cuidado, cai no caminho. Sabe que id\u00e9ia tive aqui, olhando para ela?<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?<\/p>\n<p>&#8211; Cas\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Cas\u00e1-la? perguntou ele vivamente.<\/p>\n<p>&#8211; Cas\u00e1-la eu mesmo; ser eu o padre que a unisse ao escolhido do seu cora\u00e7\u00e3o, quando ela o tivesse&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix n\u00e3o disse nada, sorriu acanhadamente, e, pela primeira vez, suspeitei que as inten\u00e7\u00f5es do rapaz podiam ser mui outras das que lhe supunha at\u00e9 ent\u00e3o, que haveria nele, porventura, em vez de um marido, um sedutor. N\u00e3o alcan\u00e7o exprimir como me doeu esta suposi\u00e7\u00e3o. Ia tanto para a mo\u00e7a, que era j\u00e1 como se fosse minha irm\u00e3, o meu pr\u00f3prio sangue, que um estranho ia corromper e prostituir. Quis continuar a falar, para escrutar-lhe bem a alma; n\u00e3o pude, ele esquivou-se, e fiquei outra vez s\u00f3. Nesse dia, retirei-me um pouco mais cedo. D. Ant\u00f4nia achou-me preocupado, eu disse-lhe que tinha dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>As pessoas de meu temperamento entender-me-\u00e3o. Bastou que uma id\u00e9ia se me afigurasse poss\u00edvel para que eu a acreditasse certa. Vi a menina perdida. N\u00e3o houvera ali uma agregada, seduzida em 1835 por um saltimbanco, como me dissera D. Ant\u00f4nia? Agora n\u00e3o seria um saltimbanco, mas o pr\u00f3prio filho da dona da casa. E assim explicou-se-me a teima de D. Ant\u00f4nia em arredar o filho do Rio de Janeiro, comparada com a afei\u00e7\u00e3o que tinha \u00e0 menina. Refleti na dist\u00e2ncia social que os separava: Lalau era admitida na intimidade da fam\u00edlia, mas o rapaz, filho de ministro e aspirante a ministro, e mais que tudo filho de casa-grande, tendo herdado o sangue do bisav\u00f4, t\u00e3o orgulhoso nas veias da m\u00e3e, reservar-se-ia para algum casamento de outra laia. Como, por\u00e9m, ela era bonita, e a natureza tem leis diferentes da sociedade, e n\u00e3o menos imperiosas, F\u00e9lix achara um modo de conciliar umas e outras, amando sem casar.<\/p>\n<p>Tudo isso, que fica a\u00ed em resumo, foram as minhas reflex\u00f5es do resto do dia, e de uma parte da noite. Estava irritado contra o rapaz, temia por ela, e n\u00e3o atinava com o que cumpria fazer. Pareceu-me at\u00e9 que n\u00e3o devia fazer nada, ningu\u00e9m me dava direito de presumir inten\u00e7\u00f5es e intervir nos neg\u00f3cios particulares de uma fam\u00edlia, que, de mais a mais, enchia-me de obs\u00e9quios. Isto era verdade; mas, como eu quero dizer tudo, direi um segredo de consci\u00eancia. Entre a verdade daquele conceito e o impulso de meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, introduzi um princ\u00edpio religioso, e disse a mim mesmo que era a caridade que me obrigava, que no Evangelho acharia um motivo anterior e superior a todas as conven\u00e7\u00f5es humanas. Esta dissimula\u00e7\u00e3o de mim para mim podia cal\u00e1-la agora, que os acontecimentos l\u00e1 v\u00e3o, mas n\u00e3o daria uma parte da hist\u00f3ria que estou narrando, nem a explicaria bem.<\/p>\n<p>Lalau n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a; as palavras dela, suas maneiras, ingenuidade e l\u00e1grimas acudiram-me em tropel \u00e0 mem\u00f3ria, e davam-me for\u00e7a para tentar dominar a situa\u00e7\u00e3o e desviar o curso dos acontecimentos. No dia seguinte de manh\u00e3 quis rir de mim mesmo e dos meus planos de D. Quixote, rem\u00e9dio her\u00f3ico, porque \u00e9 tal a risada do apupo que ningu\u00e9m a tolera ainda em si mesmo; mas n\u00e3o consegui nada. A consci\u00eancia ficou s\u00e9ria, e a contra\u00e7\u00e3o do riso desmanchou-se diante da sua impassibilidade. Compus cinco ou seis planos diferentes, alguns absurdos. O melhor deles era avisar a tia da menina; mas rejeitei-o logo por ach\u00e1-lo odioso. Em verdade, ia dissolver la\u00e7os \u00edntimos, a t\u00edtulo de uma suspeita, que apenas podia explicar a mim mesmo. E, se era odioso, n\u00e3o era menos imprudente; podia supor-se que eu cedia a um sentimento pessoal e reprovado. Rejeitei da vista esta segunda raz\u00e3o, mas atirei-me \u00e0 primeira, e dei de m\u00e3o ao plano.<\/p>\n<p>O melhor de tudo, refleti finalmente, \u00e9 observar e fazer o que puder, segundo as circunst\u00e2ncias, mas de modo que evite estralada.<\/p>\n<p>Tinha de ir almo\u00e7ar com um padre italiano, no Hosp\u00edcio de Jerusal\u00e9m, o mesmo que me falara da obra florentina, e me dera ocasi\u00e3o de brilhar na Casa Velha. Fui almo\u00e7ar; no fim do almo\u00e7o, apareceu l\u00e1 um rec\u00e9m-chegado, um mission\u00e1rio que vinha das partes da China e do Jap\u00e3o, e trazia muitas rel\u00edquias preciosas. Convidaram-me a v\u00ea-las. O mission\u00e1rio era lento na a\u00e7\u00e3o e derramado nas palavras, de modo que despendemos naquilo um tempo infinito, e sa\u00ed de l\u00e1 t\u00e3o tarde que n\u00e3o pude ir nesse dia \u00e0 Casa Velha. De noite, constipei-me, apanhei uma febre, e fiquei cinco dias de cama.<\/p>\n<p>Estava prestes a deixar a cama, quando o F\u00e9lix me apareceu em casa, pedindo desculpa de n\u00e3o ter vindo mais cedo, porque s\u00f3 na v\u00e9spera soubera da minha doen\u00e7a. Trouxe-me visitas da m\u00e3e e de Lalau.<\/p>\n<p>&#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 nada, disse-lhe eu; e se quer que lhe confesse, at\u00e9 foi bom adoecer para descansar um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Virgem Maria! N\u00e3o diga isso.<\/p>\n<p>&#8211; Digo, digo. E n\u00e3o s\u00f3 para descansar, mas at\u00e9 para refletir. Doente, que n\u00e3o l\u00ea nem conversa, nem faz nada, pensa. Eu vivo s\u00f3, com o preto que o senhor viu. Vem aqui um ou outro amigo, raro; passo as horas solit\u00e1rias, olhando para as paredes, e a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A culpa \u00e9 sua, interrompeu-me ele; podia ter ido para a nossa casa, logo que se sentiu incomodado. \u00c9 o que devia ter feito. N\u00e3o imagina mam\u00e3e como ficou cuidadosa, quando soube que o senhor estava de cama. Queria que eu viesse ontem mesmo, de noite, visit\u00e1-lo; eu \u00e9 que disse que podia estar acomodado, e a visita seria antes uma importuna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E a sua amiguinha?<\/p>\n<p>&#8211; Lalau?<\/p>\n<p>&#8211; Ficou branca como uma cera, quando ouviu a not\u00edcia; e pediu-me muito que lhe trouxesse lembran\u00e7as dela, que lhe desse conselho de n\u00e3o fazer imprud\u00eancias, de n\u00e3o apanhar chuva, nem ar, nem nada, para n\u00e3o recair, que as reca\u00eddas s\u00e3o piores&#8230; Veja l\u00e1, se, em vez de se meter na cama, aqui em casa, tivesse ido para a nossa Casa Velha, l\u00e1 teria duas enfermeiras de truz, e um leitor, como eu, para lhe ler tudo o que quisesse.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, obrigado; agrade\u00e7o a todos, tanto a elas como ao senhor. Ficar\u00e1 para a outra mol\u00e9stia. E, na verdade, \u00e9 poss\u00edvel que ent\u00e3o n\u00e3o pensasse em nada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Justo.<\/p>\n<p>&#8211; . . . Nem em ningu\u00e9m. Ah! ent\u00e3o Lalau disse isso? Foi exatamente nela que estive pensando.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>Ouvi passos e vozes na sala; era o meu preto que trazia um padre a visitar-me. Noutra ocasi\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que o F\u00e9lix se despedisse e cedesse o lugar ao padre; mas a curiosidade valeu aqui ainda mais do que a afei\u00e7\u00e3o, e ele ficou. O padre esteve poucos minutos, dez ou vinte, n\u00e3o me lembra, dando-me algumas not\u00edcias eclesi\u00e1sticas, contando anedotas de sacristia, que o F\u00e9lix escutou com grande interesse, talvez aparente, para justificar a demora. Afinal, saiu, e ficamos outra vez s\u00f3s. N\u00e3o lhe falei logo de Lalau; foi ele mesmo que, depois de alguns farrapos de conversa\u00e7\u00e3o, ditos soltos, reparos sem valor, me perguntou o que \u00e9 que pensara dela. Eu, que os espreitava de longe, acudi \u00e0 pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Estive pensando que essa mo\u00e7a \u00e9 superior \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o, disse eu. A Senhora D. Ant\u00f4nia falou-me de outra agregada, que, h\u00e1 quatro anos, foi ali seduzida por um saltimbanco. N\u00e3o creio que esta fa\u00e7a a mesma coisa, porque, apesar da idade e do ar pueril, acho-lhe muito ju\u00edzo; creio antes que escolher\u00e1 marido, e viver\u00e1 honestamente. Mas \u00e9 aqui o ponto. O marido que ela escolher pode bem ser da mesma condi\u00e7\u00e3o que ela, mas muito inferior moralmente, e ser\u00e1 um mau casamento.<\/p>\n<p>F\u00e9lix dividia os olhos entre mim e a ponta do sapato. Quando acabei, achou-me raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe parece? perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei que \u00e9 esquisito meter-me assim em coisas alheias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nada \u00e9 alheio para um bom padre como o senhor, disse ele com gravidade.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. Confesso-lhe, por\u00e9m, que essa mo\u00e7a excitou a minha piedade. J\u00e1 lhe disse: tem coisas de crian\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a. Entreg\u00e1-la a um homem vulgar, que n\u00e3o a entenda, \u00e9 faz\u00ea-la padecer. N\u00e3o sei se a Senhora D. Ant\u00f4nia fez bem em apurar tanto a educa\u00e7\u00e3o que lhe deu, e os h\u00e1bitos em que a fez educar; n\u00e3o porque ela n\u00e3o se acomode a tudo, como um bom cora\u00e7\u00e3o que \u00e9, mas porque, apesar disso, h\u00e1 de custar-lhe muito baixar a outra vida. Olhe que n\u00e3o \u00e9 censurar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus! sei o que \u00e9. Pensa que eu n\u00e3o estou com a sua opini\u00e3o? Estou e muito. Mam\u00e3e \u00e9 que pode ser que n\u00e3o esteja conosco. J\u00e1 tem pensado em v\u00e1rias pessoas, segundo me consta, e de uma delas chegou a falar-me; era o Vitorino, filho do segeiro que nos conserta as carruagens. Ora veja!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o o Vitorino.<\/p>\n<p>&#8211; Mas pode imagin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Olhei para ele um instante. Pareceu-me que estava de boa-f\u00e9; mas era poss\u00edvel que n\u00e3o, e cumpria arrancar-lhe a verdade. Inclinei-me, e disse que j\u00e1 tinha um noivo em vista, muito superior ao Vitorino.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? perguntou ele inquieto.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor.<\/p>\n<p>F\u00e9lix teve um sobressalto, e ficou muito vermelho.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe-me se lhe digo isto, mas \u00e9 a minha opini\u00e3o e n\u00e3o vale mais que opini\u00e3o. H\u00e1 grande diferen\u00e7a social entre um e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a corrige, tamb\u00e9m \u00e0s vezes corrige a sociedade. Compensa\u00e7\u00f5es que Deus d\u00e1. Acho-os dignos um do outro; os sentimentos dela e os seus s\u00e3o da mesma esp\u00e9cie. Ela \u00e9 inteligente, e o que lhe poderia faltar em educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 sua m\u00e3e lho deu. Teria alguma d\u00favida em casar com ela?<\/p>\n<p>F\u00e9lix estendeu-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe nego nada, o senhor j\u00e1 adivinhou tudo, disse ele. E continuou, depois de haver-me apertado a m\u00e3o. Que d\u00favida poderia ter? Ela merece um bom marido, e eu acho que n\u00e3o seria de todo mau. Resta ainda um ponto.<\/p>\n<p>&#8211; Que ponto?<\/p>\n<p>Hesitou um instante, bateu com a m\u00e3o nos joelhos duas ou tr\u00eas vezes, olhando para mim, como querendo adivinhar as minhas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Resta mam\u00e3e, disse finalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Op\u00f5e-se?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 certo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser certo. Digo-lhe tudo, como se falasse a um amigo velho de nossa casa. Mam\u00e3e percebeu, como o senhor, que n\u00f3s gostamos um do outro, e op\u00f5e-se. N\u00e3o o disse ainda francamente, mas sinto que, em caso nenhum, consentir\u00e1 no nosso casamento. Esse Vitorino \u00e9 um candidato inventado para separ\u00e1-la de mim; e assim outros em que sei que j\u00e1 pensou. Estou que Lalau resistir\u00e1, mas temo que n\u00e3o seja por muito tempo&#8230; N\u00e3o se lembra que mam\u00e3e j\u00e1 lhe pediu uma vez para levar-me \u00e0 Europa? Era com o mesmo fim de afastar-me, distrair-me, e cas\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Acha isso?<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza.<\/p>\n<p>&#8211; Como explica ent\u00e3o que ela continue a ter tanto amor \u00e0 pequena?<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o conhece mam\u00e3e. \u00c9 um cora\u00e7\u00e3o de pomba, e gosta dela como se fosse sua filha. Mas cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa, e cabe\u00e7a \u00e9 outra. Mam\u00e3e \u00e9 muito orgulhosa em coisas de fam\u00edlia. Seria capaz de velar uma semana ou duas, \u00e0 cabeceira de Lalau, se a visse doente; mas n\u00e3o consentiria em cas\u00e1-la comigo. S\u00e3o coisas diferentes.<\/p>\n<p>&#8211; Devia ser isso mesmo, repliquei alguns instantes depois. E murmurei baixinho as palavras que ela ouvira ao av\u00f4, no tempo do rei e repetira mais tarde no pa\u00e7o: &#8220;Uma Quintanilha n\u00e3o treme nunca!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Nem treme, nem desce, concluiu o rapaz sorrindo. \u00c9 o sentimento de mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Seja como for, nada est\u00e1 perdido; cuido que arranjaremos tudo. Deixe o neg\u00f3cio por minha conta.<\/p>\n<p>Tinha o plano feito. Se houvesse reconhecido que as inten\u00e7\u00f5es dele eram impuras, ajudaria a m\u00e3e e trataria de casar a menina com outro. Sabendo que n\u00e3o, ia ter com a m\u00e3e para arrancar-lhe o consentimento em favor do filho. Tr\u00eas dias depois, voltando \u00e0 Casa Velha, achei nos olhos de Lalau alguma coisa mais particular que a alegria da amiga, achei a como\u00e7\u00e3o da namorada. Era natural que ele lhe tivesse contado a minha promessa. N\u00e3o lho perguntei; mas disse-lhe rindo que parecia ter visto passarinho verde. Toda a alma subiu-lhe ao rosto, e a mo\u00e7a respondeu com ingenuidade, apertando-me a m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Vi.<\/p>\n<p>N\u00e3o explico a sensa\u00e7\u00e3o que tive; lembra-me que foi de inc\u00f4modo. Essa palavra s\u00fabita, cordial e franca, encerrando todas as energias do amor, lacerou-me as orelhas como uma s\u00edlaba aguda que era. Que outra esperava, e que outra queria, sen\u00e3o essa? N\u00e3o a pedira, n\u00e3o vinha interceder por um e por outro? Criatura espiritual e neutra, cabia-me t\u00e3o-somente alegrar-me com a declara\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, aprov\u00e1-la, e santific\u00e1-la ante Deus e os homens. Que inc\u00f4modo era ent\u00e3o esse? que sentimento esp\u00fario vinha mesclar-se \u00e0 minha caridade? Que contradi\u00e7\u00e3o? que mist\u00e9rio? Todas essas interroga\u00e7\u00f5es surgiram do fundo de minha consci\u00eancia, n\u00e3o assim formuladas, com a sintaxe da reflex\u00e3o remota e fria, mas sem liame algum, vagas, tortas e obscuras.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO IV<\/h3>\n<p>J\u00e1 se ter\u00e1 entendido a realidade. Tamb\u00e9m eu amava a menina. Como era padre, e nada me fazia pensar em semelhante coisa, o amor insinuou-se-me no cora\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira das cobras, e s\u00f3 lhe senti a presen\u00e7a pela dentada do ci\u00fame. A confiss\u00e3o dele n\u00e3o me fez mal; a dela \u00e9 que me doeu e me descobriu a mim mesmo. Deste modo, a causa \u00edntima da prote\u00e7\u00e3o que eu dava \u00e0 pobre mo\u00e7a era, sem o saber, um sentimento especial. Onde eles viam um simples protetor gratuito existia um homem, que, impedido de a amar na terra, procurava ao menos faz\u00ea-la feliz com outro. A consci\u00eancia vaga de um tal estado deu-me ainda mais for\u00e7a para tentar tudo.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO V<\/h3>\n<p>Falei a D. Ant\u00f4nia no dia seguinte. Estava disposto a pedir-lhe uma conversa\u00e7\u00e3o particular, mas foi ela mesma que veio ter comigo, dizendo que durante a minha mol\u00e9stia tinha acabado umas alfaias, e queria ouvir a minha opini\u00e3o; estavam na sacristia. Enquanto atravess\u00e1vamos a sala e um dos corredores que ficavam ao lado do p\u00e1tio central, ia-lhe eu falando, sem que ela me prestasse grande aten\u00e7\u00e3o. Subimos os tr\u00eas degraus que davam para uma vasta sala cal\u00e7ada de pedra, e abobadada. Ao fundo havia uma grande porta, que levava ao terreiro e \u00e0 ch\u00e1cara; \u00e0 direita ficava a da sacristia, \u00e0 esquerda outra, destinada a um ou mais aposentos, n\u00e3o sei bem.<\/p>\n<p>Naquela sala achamos Lalau e o sineiro, este sentado, ela de p\u00e9.<\/p>\n<p>O sineiro era um preto velho e doido. N\u00e3o fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ningu\u00e9m lhe falava, embora fosse manso. Lalau era a \u00fanica, entre todos, parentes, agregados ou f\u00e2mulos, que ia conversar com ele, interrog\u00e1-lo, escut\u00e1-lo, pedir-lhe hist\u00f3rias. E ele contava-lhe hist\u00f3rias -muito compridas, sem sentido algumas, outras quase sem nexo, reminisc\u00eancias vagas e embrulhadas, ou sugest\u00f5es do del\u00edrio.<\/p>\n<p>Era curioso v\u00ea-los. Lalau perdia a inquieta\u00e7\u00e3o; ficava s\u00e9ria e tranq\u00fcila, durante dez, quinze, vinte minutos, a escut\u00e1-lo. O Gira (nunca lhe conheci outro nome) alegrava-se ao v\u00ea-la. Com a raz\u00e3o, perdera a conviv\u00eancia dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solit\u00e1rios, mergulhado na inconsci\u00eancia e na solid\u00e3o. A mo\u00e7a representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consci\u00eancia antiga. Ela, que o sentia, dava-lhe essa curta emers\u00e3o do abismo, e uma ou duas vezes por semana ia conversar com ele.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia parou. N\u00e3o contava com a mo\u00e7a ali, ao p\u00e9 da porta da sacristia, e queria falar-me em particular, como se vai ver. Compreendi-o logo pelo desagrado do gesto, como j\u00e1 suspeitara alguma coisa ao v\u00ea-la preocupada. No momento em que cheg\u00e1vamos, Lalau perguntou ao Gira:<\/p>\n<p>&#8211; E depois, e depois?<\/p>\n<p>&#8211; Depois, o rei pegou gavi\u00e3o, e gavi\u00e3o cantou.<\/p>\n<p>&#8211; Gavi\u00e3o canta?<\/p>\n<p>&#8211; Gavi\u00e3o? U\u00ea, gente! Gavi\u00e3o cantou: Calunga, mussanga, monandengu\u00ea&#8230; Calunga, mussanga, monandengu\u00ea&#8230; Calunga&#8230;<\/p>\n<p>E o preto dava ao corpo umas sacudidelas para acompanhar a toada africana. Olhei para Lalau. Ela, que ria de tudo, n\u00e3o se ria daquilo, parecia ter no rosto uma express\u00e3o de grande piedade. Voltei-me para D. Ant\u00f4nia; esta, depois de hesitar um pouco, deliberou entrar na sacristia, cuja porta estava aberta. Lalau tinha-nos visto, sorriu para n\u00f3s e continuou a falar com o Gira. D. Ant\u00f4nia e eu entramos.<\/p>\n<p>Sobre a c\u00f4moda da sacristia estavam as tais alfaias. D. Ant\u00f4nia disse ao preto sacrist\u00e3o, que fosse ajudar a descarregar o carro que chegara da ro\u00e7a, e l\u00e1 a esperasse. Ficamos s\u00f3s; mostrou-me duas alvas e duas sobrepelizes; depois, sem transi\u00e7\u00e3o, disse-me que precisava de mim para um grande obs\u00e9quio. Soube na v\u00e9spera que o filho andava com id\u00e9ias de ser deputado; pedia-me duas coisas, a primeira \u00e9 que o dissuadisse.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por qu\u00ea? disse-lhe eu. A pol\u00edtica foi a carreira do pai, \u00e9 a carreira principal no Brasil&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 que seja; mas, Reverend\u00edssimo, ele n\u00e3o tem jeito para pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8211; Quem lhe disse que n\u00e3o? Pode ser que tenha. No trabalho \u00e9 que se conhece o trabalhador; em todo caso &#8211; deixe-me falar com franqueza &#8211; acho bom da sua parte que procure empregar a atividade em alguma coisa exterior.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia sentou-se, e apontou-me para outra cadeira. Ficamos ambos ao p\u00e9 de uma larga janela, que dava para o terreiro. Sentada, declarou que concordava comigo na necessidade que apontara, mas ia ent\u00e3o ao segundo obs\u00e9quio, que n\u00e3o era novo; \u00e9 que o levasse para a Europa. Depois da Europa, com mais alguns anos e experi\u00eancia das coisas, pode ser que viesse a ser \u00fatil ao seu pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<p>Interrompi-a nesse ponto. Ela esperou; eu, depois de fit\u00e1-la por alguns instantes, disse-lhe que a viagem, com efeito, podia ser \u00fatil, mas que os costumes do mo\u00e7o eram t\u00e3o caseiros que dificilmente se ajustariam \u00e0s peregrina\u00e7\u00f5es; salvo se adot\u00e1ssemos um meio-termo: envi\u00e1-lo casado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se arranja uma noiva como um simples ba\u00fa de viagem, disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 arranjada.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia estremeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 aqui perto; \u00e9 a sua boa amiga e pupila.<br \/>\n&#8211; Quem? Lalau? Est\u00e1 ca\u00e7oando. Lalau e meu filho? Vossa Reverend\u00edssima est\u00e1 brincando comigo. N\u00e3o v\u00ea que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel? Cas\u00e1-los assim como um rem\u00e9dio? Falemos de outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, minha senhora, falemos disso mesmo.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia, que dirigira os olhos para outro lado, quando proferiu as \u00faltimas palavras, levantou a cabe\u00e7a de s\u00fabito, ao ouvir o que lhe disse. Creio que, depois da morte do marido, era a primeira pessoa que lhe fazia frente. Olhou-me espantada. Estava t\u00e3o acostumada a governar ali, naquele mundo insulado, sem contraste nem advert\u00eancia, que n\u00e3o podia crer em seus ouvidos. O Padre Mascarenhas dissera-lhe uma vez, ao almo\u00e7o, que ela era a imperatriz da Casa Velha, e D. Ant\u00f4nia sorriu lisonjeada, com a id\u00e9ia de ser imperatriz em algum ponto da terra. N\u00e3o batia com o cetro em ningu\u00e9m, mas estimava saber que lho reconheciam.<\/p>\n<p>Pela minha parte, curvei-me respeitoso, mas insisti que fal\u00e1ssemos daquele mesmo assunto, para resolv\u00ea-lo de uma vez.<\/p>\n<p>&#8211; Resolver o qu\u00ea? perguntou ela al\u00e7ando desdenhosamente o l\u00e1bio superior.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o percamos tempo em dizer coisas sabidas de n\u00f3s ambos, continuei. Eles gostam um do outro. Esta \u00e9 a verdade pura. Resta saber se poder\u00e3o casar, e \u00e9 aqui que n\u00e3o acho nem presumo nenhuma raz\u00e3o que se oponha. N\u00e3o falo de seu filho, que \u00e9 um mo\u00e7o digno a todos os respeitos. Falemos dela. Diga-me o que \u00e9 que lhe acha?<\/p>\n<p>N\u00e3o quis responder; eu continuei o que dizia, lembrei a educa\u00e7\u00e3o que ela lhe dera, o amor que lhe tinha, e principalmente falei das virtudes da mo\u00e7a, da delicadeza dos seus sentimentos, e da distin\u00e7\u00e3o natural, que supria o nascimento. Perguntei-lhe se, em verdade, acreditava que o Vitorino, filho do segeiro&#8230; D. Ant\u00f4nia estremeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que est\u00e1 informado de tudo, disse ela depois de um breve instante de sil\u00eancio. Conspiram contra mim. Bem; que quer de mim Vossa Reverend\u00edssima? Que meu filho case com Lalau? N\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o pode ser?<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, n\u00e3o sei que id\u00e9ias entraram por aqui depois de 31. S\u00e3o ainda lembran\u00e7as do Padre Feij\u00f3. Parece mesmo achaque de padres. Quer ouvir por que raz\u00e3o n\u00e3o podem casar? porque n\u00e3o podem. N\u00e3o lhe nego nada a respeito dela; \u00e9 muito boa menina, dei-lhe a educa\u00e7\u00e3o que pude, n\u00e3o sei se mais do que convinha, mas, enfim, est\u00e1 criada e pronta para fazer a felicidade de algum homem. Que mais h\u00e1 de ser? N\u00f3s n\u00e3o vivemos no mundo da lua, Reverend\u00edssimo. Meu filho \u00e9 meu filho, e, al\u00e9m desta raz\u00e3o, que \u00e9 forte, precisa de alguma alian\u00e7a de fam\u00edlia. Isto n\u00e3o \u00e9 novela de pr\u00edncipes que acabam casando com roceiras, ou de princesas encantadas. Fa\u00e7a-me o favor de dizer com que cara daria eu semelhante not\u00edcia aos nossos parentes de Minas e de S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser que a senhora tenha raz\u00e3o; \u00e9 achaque de padre, \u00e9 achaque at\u00e9 de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nasceu nas palhas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor; mas nesse caso que mal h\u00e1 em casar com o Vitorino? Filho de segeiro n\u00e3o \u00e9 gente? Diga-me! Para que ela case com meu filho, Nosso Senhor nasceu nas palhas; mas para que case com o Vitorino, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa&#8230; Diga-me!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Senhora D. Ant\u00f4nia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! disse ela levantando-se, e indo at\u00e9 \u00e0 porta que dava para a capela, e depois \u00e0 outra de entrada da sacristia; espiou se nos ouviam, e voltou.<br \/>\nVoltando, deu alguns passos sem dizer nada, indo e vindo, desde a porta at\u00e9 \u00e0 parede do fundo, onde pendia uma imagem de Nossa Senhora, com uma coroa de ouro na cabe\u00e7a, e estrela de ouro no manto. D. Ant\u00f4nia fitou durante alguns momentos a imagem como para defender-se a si mesma. A Virgem coroada, rainha e triunfante, era para ela a leg\u00edtima deidade cat\u00f3lica, n\u00e3o a Virgem foragida e ca\u00edda nas palhas de um est\u00e1bulo. Estava como at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o a tinha visto. Geralmente, era pl\u00e1cida e alguma vez impass\u00edvel; agora, por\u00e9m, mostrava-se r\u00edspida e inquieta, como se a natureza rompesse as malhas do costume. A pupila abrasava-se de uma flama nova; os movimentos eram s\u00fabitos e n\u00e3o sei se desconcertados entre si. Eu, da minha cadeira, ia-a acompanhando com os olhos, a princ\u00edpio arrependido de ter falado, mas vencendo logo depois esse sentimento de des\u00e2nimo, e disposto a ir ao fim. Ao cabo de poucos minutos, D. Ant\u00f4nia parou diante de mim. Quis levantar-me; ela p\u00f4s-me a m\u00e3o no ombro, para que ficasse, e abanou a cabe\u00e7a com um ar de censura amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Para que me falou nisso? perguntou logo depois com do\u00e7ura. Conhe\u00e7o que fala por ser amigo de um e de outro, e da nossa casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode crer, pode crer.<\/p>\n<p>&#8211; Creio, sim. Ent\u00e3o eu n\u00e3o vejo as coisas? Tenho notado que \u00e9 amigo nosso. Ela principalmente, parece t\u00ea-lo enfeiti\u00e7ado&#8230; N\u00e3o precisa ficar vermelho; as mo\u00e7as tamb\u00e9m enfeiti\u00e7am os padres, quando querem que eles as casem com os escolhidos do cora\u00e7\u00e3o delas. Que ela merece, \u00e9 verdade; mas da\u00ed a casar \u00e9 muito. Venha c\u00e1, prosseguiu ela sentando-se, vamos fazer um acordo. Eu cedo alguma coisa, o senhor cede tamb\u00e9m, e acharemos um modo de combinar tudo. Confesso-lhe um pecado. A escolha do Vitorino era filha de um mau sentimento; era um modo, n\u00e3o s\u00f3 de os separar, mas at\u00e9 de a castigar um pouco. Perdoe-me, Reverend\u00edssimo; cedi ao meu orgulho ofendido. Mas deixemos o Vitorino; convenho que n\u00e3o \u00e9 digno dela. \u00c9 bom rapaz, mas n\u00e3o est\u00e1 no mesmo grau de educa\u00e7\u00e3o que dei a Lalau. Vamos a outro; podemos arranjar-lhe empregado do foro, ou mesmo pessoa de neg\u00f3cio&#8230; Em todo caso, n\u00e3o seja contra mim; ajude-me antes a arranjar esta dificuldade que surgiu aqui em casa &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Desde quando?<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1! desde meses. Desconfiei que se namoravam, e tenho feito o que posso, mas vejo que n\u00e3o posso muito.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, continua a receb\u00ea-la?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, para vigi\u00e1-la. Antes a quero aqui que fora daqui.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o por que a estima?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 tamb\u00e9m porque a estimo. Infelizmente, porque a estimo. Quem lhe disse que n\u00e3o gosto dela, e muito? Mas meu filho \u00e9 outra coisa, entrar na fam\u00edlia \u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia tirou o len\u00e7o do bolso, para esfregar as m\u00e3os, tornou a guard\u00e1-lo, e reclinou-se na cadeira, enquanto eu lhe fui respondendo. Conquanto fosse muito mais baixa que eu, dera um jeito t\u00e3o superior na cabe\u00e7a que parecia olhar de cima.<\/p>\n<p>Fui respondendo o que podia e cabia, com boas palavras, mostrando em primeiro lugar a inconveni\u00eancia de os deixar namorados e separados: era faz\u00ea-los pecar ou padecer. Disse-lhe que o filho era tenaz, que a mo\u00e7a provavelmente n\u00e3o teimaria em despos\u00e1-lo, sabendo que era desagrad\u00e1vel \u00e0 sua benfeitora, mas tamb\u00e9m podia dar-se que o desd\u00e9m a irritasse, e que a certeza de dominar o cora\u00e7\u00e3o de F\u00e9lix lhe sugerisse a id\u00e9ia de o roubar \u00e0 m\u00e3e. Acrescia a educa\u00e7\u00e3o, ponto em que insisti, a educa\u00e7\u00e3o e a vida que levava, e que lhe tornariam doloroso passar \u00e0s m\u00e3os de criatura inferior. Finalmente, &#8211; e aqui sorri para lhe pedir perd\u00e3o &#8211; finalmente, era mulher, e a vaidade, insuport\u00e1vel nos homens, era na mulher um pecado tanto pior quanto lhe ficava bem; Lalau n\u00e3o seria uma exce\u00e7\u00e3o do sexo. Herdar com o marido o prest\u00edgio de que gozava a Casa Velha acabaria por lhe dar for\u00e7a e faz\u00ea-la lutar. Aqui parei; D. Ant\u00f4nia n\u00e3o me respondeu nada, olhava para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Como est\u00e1vamos de costas para a janela, e fic\u00e1ssemos calados algum tempo, fomos acordados do sil\u00eancio pela voz de Lalau, que vinha do lado do terreiro. Voltamos a cabe\u00e7a; vimos a mo\u00e7a repreendendo a dois moleques, crias da casa, que puxavam pela casaca ao sineiro, uma velha casaca que o F\u00e9lix lhe dera alguns dias antes. O sineiro, resmungando sempre, atravessou o terreiro, tomou \u00e0 direita para o lado da frente da capela, e desapareceu; Lalau pegou na gola da camisa de uma das crias e na orelha da outra, e impediu que elas fossem atr\u00e1s do pobre-diabo.<\/p>\n<p>Olhei para D. Ant\u00f4nia, a fim de ver que impress\u00e3o lhe dera o ato da mo\u00e7a. Mal come\u00e7ava a fit\u00e1-la, reparei que franzia a testa, n\u00e3o sei at\u00e9 se empalidecia; tornando a olhar para fora, tive explica\u00e7\u00e3o do abalo. Vi o filho de D. Ant\u00f4nia ao p\u00e9 da mo\u00e7a: acabava de chegar ao grupo. Lalau explicava-lhe naturalmente a ocorr\u00eancia; F\u00e9lix escutava calado, sorrindo, gostando de v\u00ea-la assim compassiva, e afinal, quando ela acabou, inclinou-se para dizer alguma coisa aos moleques. Vimo-lo depois pegar em um destes, e aproxim\u00e1-lo de si, enquanto a mo\u00e7a ficou com o segundo; e, posto esse pretexto entre eles, come\u00e7aram a falar baixinho.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia recuou depressa, para que n\u00e3o a vissem. Creio que era a primeira vez que eles lhe apresentavam semelhante quadro. Recuou levantando-se, e foi para o lado da c\u00f4moda; eu continuei a observ\u00e1-los. N\u00e3o se podia ouvir-lhes nada, mas era claro que falavam de si mesmos. \u00c0s vezes a boca interrompia os salmos, que ia dizendo, para deixar a ant\u00edfona aos olhos; logo depois recitava o c\u00e2ntico. Era a eterna aleluia dos namorados.<\/p>\n<p>Violentei-me, n\u00e3o tirei a vista do grupo; precisava matar em mim mesmo, pela contempla\u00e7\u00e3o objetiva da desesperan\u00e7a, qualquer m\u00e1 sugest\u00e3o da carne. Olhei para os dois, adivinhei o que estariam dizendo, e, pior ainda, o que estariam calando, e que se lhes podia ler no rosto e nas maneiras. Lalau era agora mulher apenas, sem nenhuma das coisas de crian\u00e7a que a caracterizavam na vida de todas as horas. Com as m\u00e3os no ombro do moleque, ora fitava os olhos na carapinha deste, ouvindo somente as palavras de F\u00e9lix; ora erguia-os para o mo\u00e7o, a fim de o mirar, calada ou falando. Ele \u00e9 que olhava sempre para ela, atento e fixo.<\/p>\n<p>Entretanto, D. Ant\u00f4nia aproximara-se outra vez da janela, por tr\u00e1s de mim, e de mais longe, confiada na obscuridade da sacristia. Voltei-me e disse-lhe que a nossa espionagem era de direito divino, que o pr\u00f3prio c\u00e9u nos aparelhara aquela indiscri\u00e7\u00e3o. D. Ant\u00f4nia, em geral avessa \u00e0s sutilezas do pensamento, menos que nunca podia agora penetr\u00e1-las; pode ser at\u00e9 que nem me ouvisse. Continuou a olhar para os dois, ansiosa de os perceber, aterrada de os adivinhar.<\/p>\n<p>&#8211; Uma coisa h\u00e1 de conceder, disse-lhe eu, h\u00e1 de conceder que eles parecem ter nascido um para o outro. Olhe como se falam. Veja os modos dela, a dignidade, e ao mesmo tempo a do\u00e7ura; ele parece at\u00e9 que quer fazer esquecer que \u00e9 o herdeiro da casa. N\u00e3o sei at\u00e9 se lhe diga uma coisa; digo se me consentir&#8230;<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia voltou os olhos a mim com um ar interrogativo e complacente.<\/p>\n<p>&#8211; Digo-lhe que, se algu\u00e9m trocasse os pap\u00e9is, e a desse como sua filha, e a ele como o advogado da casa, ningu\u00e9m poria nenhuma obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia afastou-se da janela, sem dizer nada; depois tornou a ela, curiosa, interrogando a fisionomia dos dois. No fim de alguns minutos, n\u00e3o tendo esquecido as minhas \u00faltimas palavras, redarg\u00fciu com ironia e tristeza:<\/p>\n<p>&#8211; Advogado? Creio que \u00e9 muito; diga logo cocheiro.<\/p>\n<p>Fiz um gesto de pesar. E pedi-lhe que me desculpasse o estilo pitoresco da conversa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o queria dizer sen\u00e3o que a dignidade da mo\u00e7a f\u00e1-la-ia supor dona da casa, ao passo que as maneiras respeitosas dele, que t\u00e3o bem lhe iam, poderiam faz\u00ea-lo crer outra coisa; mas outra coisa, educada, notasse bem. D. Ant\u00f4nia ouviu-me distra\u00edda e inquieta, olhando para fora e para dentro; e quando afinal os dois separaram-se, indo ele para o lado da frente da capela, que comunicava com o caminho p\u00fablico, e ela para a parte oposta, a fim de entrar em casa, D. Ant\u00f4nia sentou-se na cadeira em que estivera antes, e respirou \u00e0 larga. Abanou a cabe\u00e7a duas ou tr\u00eas vezes, e disse-me sem olhar para mim:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho do que me queixar; a culpa \u00e9 toda minha.<\/p>\n<p>De repente, voltou a cabe\u00e7a para o meu lado e fitou-me. Tinha as fei\u00e7\u00f5es um tanto alteradas, como que iluminadas, e esperei que me dissesse alguma coisa, mas n\u00e3o disse. Olhou, olhou, recomp\u00f4s a fisionomia e levantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obedeci logo; imaginei que ela acabava de achar algum estratagema para cumprir a sua vontade, e confessei-lho sem rebu\u00e7o, porque a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o comportava j\u00e1 dissimular. D. Ant\u00f4nia respondeu que n\u00e3o, n\u00e3o achara nem buscara nada, e convidou-me a sair. Insisti no receio, acrescentando que, se cogitava dar um golpe, melhor seria avisar-me, para que os dissuadisse, e n\u00e3o fossem eles apanhados de supet\u00e3o. D. Ant\u00f4nia ouviu sem interromper, e n\u00e3o replicou logo, mas da\u00ed a alguns segundos, com palavras n\u00e3o claras e seguidas, sen\u00e3o \u00ednvias e d\u00fabias. Contava comigo ao lado dela, desde que soubesse a verdade&#8230; mas que a apoiasse j\u00e1&#8230; depois&#8230; ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A verdade? repeti eu. Que verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos embora.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me tudo, a ocasi\u00e3o \u00e9 a \u00fanica, estamos perto de Deus&#8230;<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia estremeceu ouvindo esta palavra, e deu-se pressa em sair da sacristia; levantei-me e sa\u00ed tamb\u00e9m. Achei-a a dois passos da porta, disse-me que ia ver os aposentos fronteiros, porque contava com h\u00f3spedes da ro\u00e7a, e foi andando; eu desci os degraus de pedra, atravessei o p\u00e1tio da cisterna, e recolhi-me \u00e0 biblioteca. Recolhi-me alvoro\u00e7ado. Que verdade seria aquela, anunciada a fugir, tal verdade que faria trocar de papel, desde que eu a conhecesse? Cumpria arrancar-lha, e a melhor ocasi\u00e3o ia perdida.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VI<\/h3>\n<p>No dia seguinte fui mais cedo para a Casa Velha, a fim de chegar antes dos h\u00f3spedes que D. Ant\u00f4nia esperava da ro\u00e7a, mas j\u00e1 os achei l\u00e1; tinham chegado na v\u00e9spera, \u00e0s ave-marias. Um deles, o coronel Raimundo, estava na varanda da frente, conheceu-me logo, e veio a mim para saber como ia a hist\u00f3ria de Pedro I. Sem esperar pela resposta, disse que podia dar-me boas informa\u00e7\u00f5es&#8230; Conhecera muito o imperador. Assistira \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Constituinte, por sinal que estava nas galerias, durante a sess\u00e3o permanente, e ouvira os discursos do Montezuma e dos outros, comendo p\u00e3o e queijo, \u00e0 noite, comprados na Rua da Cadeia; uma noite dos diabos.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Reverend\u00edssima vai escrever tudo?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o que souber.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu lhe direi alguma coisa.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a passear ao longo da varanda grande. Ego\u00edsmo de letrado! A esperan\u00e7a de alguns documentos e anedotas para o meu livro p\u00f4s de lado a principal quest\u00e3o daqueles dias; entreguei-me \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o do coronel. J\u00e1 sabemos que era parente da casa; era irm\u00e3o de um cunhado do marido de D. Ant\u00f4nia, e fora muito amigo e familiar deles. Falamos cerca de meia hora; contou-me muita coisa do tempo, algumas delas arrancadas por mim, porque ele nem sempre via a utilidade de um epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso n\u00e3o tem interesse!<\/p>\n<p>&#8211; Mas diga, diga, pode ser, insistia eu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele contava o que era, uma visita, uma conversa, um dito, que eu recolhia de cabe\u00e7a, para transp\u00f4-lo ao papel, como fiz algumas horas depois. Raimundo foi-se sentindo lisonjeado com a id\u00e9ia de que eu ia imprimir o que me estava contando, e desceu a min\u00facias insignificantes, casos velhos, e finalmente \u00e0s anedotas dele mesmo, e \u00e0s partes da sua vida militar.<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00e3t\u00f4nia, disse ele vendo entrar a parenta na varanda, este seu padre sabe onde tem a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia fez um gesto afirmativo e seco, mas logo depois, para me n\u00e3o molestar, redarg\u00fciu sorrindo que sim, que tanto sabia onde tinha a cabe\u00e7a como o cora\u00e7\u00e3o. Lalau e as duas filhas do coronel vieram de fora, veio de dentro uma senhora idosa, arrastando um pouco os p\u00e9s, e dando o bra\u00e7o a uma mo\u00e7a alta e fina.<\/p>\n<p>&#8211; Ande para aqui, baronesa, disse-lhe D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>Apresentaram-me \u00e0s duas damas. Soube que a baronesa era av\u00f3 da mo\u00e7a que a acompanhava. Eram esperadas do Pati do Alferes dez ou doze dias depois; mas vieram antes para assistir \u00e0 festa da Gl\u00f3ria. Foi o que me constou ali mesmo pela conversa\u00e7\u00e3o dos primeiros minutos. A baronesa sentara-se de costas para uma das colunas, na cadeira rasa que lhe deram, ajudada pela neta, que a acomodou minuciosamente. Observei-a por alguns instantes. Os dois cachos brancos e grossos, pelas faces abaixo, eram da mesma cor da touca de cambraia e rendas; os olhos eram castanhos e n\u00e3o inteiramente apagados; l\u00e1 tinham seus momentos de fulgor, principalmente se ela falava em pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha, o livro? perguntou ela \u00e0 neta.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 aqui, vov\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o mesmo da outra vez, Nh\u00e3t\u00f4nia?<\/p>\n<p>Era a mesma novela que lera quando ali esteve um ano antes, e queria reler agora: era o Saint Clair das lhas ou os Desterrados na Ilha da Barra. Meteu a m\u00e3o no bolso e tirou os \u00f3culos, depois a caixa de rap\u00e9, e p\u00f4s tudo no rega\u00e7o. Raimundo, passeando a m\u00e3o pela barba, disse rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, as senhoras v\u00e3o conversar e n\u00f3s vamos a um solo. Valeu, Reverend\u00edssimo?<\/p>\n<p>Fiz um gesto de complac\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; F\u00e9lix \u00e9 um parceir\u00e3o, e Nh\u00e3t\u00f4nia tamb\u00e9m; mas vamos s\u00f3 os tr\u00eas. Nunca jogou com o F\u00e9lix? Vai ver o que ele \u00e9, fino como trinta diabos; l\u00e1 na ro\u00e7a d\u00e1 pancada em todo mundo. Aquilo saiu ao pai. Se algum dia entrar na C\u00e2mara, creia que h\u00e1 de fazer um figur\u00e3o, como o pai, e talvez mais. E olhe que acho tudo pouco para dar em terra com a tal Reg\u00eancia do Sr. Pedro de Ara\u00fajo Lima&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vem o coronel com as suas id\u00e9ias extravagantes, acudiu a velha baronesa abrindo a caixa de rap\u00e9, e oferecendo-me uma pitada, que recusei. Acha que o Ara\u00fajo Lima vai mal? Preferia o seu amigo Feij\u00f3?<\/p>\n<p>Raimundo replicou, ela treplicou, enquanto eu voltava a aten\u00e7\u00e3o para Sinhazinha, que, depois de ter acomodado a av\u00f3, fora sentar-se com as outras mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Sinhazinha era o oposto de Lalau. Maneiras pausadas, atitudes longamente quietas; n\u00e3o tinha nos olhos a mesma vida derramada que abrangia todas as coisas e recantos, como os olhos da outra. Bonita era, e a eleva\u00e7\u00e3o do talhe delgado dava-lhe um ar superior a todas as demais senhoras ali presentes, que eram medianas ou baixinhas, com exce\u00e7\u00e3o de Lalau, que ainda assim era menos alta que ela. Mas essa mesma superioridade era diminu\u00edda pela mod\u00e9stia da pessoa, cujo acanhamento, se era natural, aperfei\u00e7oara-se na ro\u00e7a. N\u00e3o olhou para mim quando chegou, nem ainda depois de sentar-se. Usava as p\u00e1lpebras ca\u00eddas, ou, quando muito, levantava-as para fitar s\u00f3 a pessoa com quem ia falando. Como o pesco\u00e7o era um tantinho alto demais, e a cabe\u00e7a vivia ereta, aquele gesto podia parecer afeta\u00e7\u00e3o&#8230; Os cabelos eram o encanto da av\u00f3, que dizia que a neta era a sua alem\u00e3, porque eles tendiam a ruivo; mas, al\u00e9m de ruivos, eram crespos, e, penteados e atados ao desd\u00e9m, davam-lhe muita gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Gastei nesse exame n\u00e3o mais de dois ou tr\u00eas minutos. Depois, indo a compar\u00e1-la melhor com Lalau, vi que esta fazia igual exame sorrateiramente. N\u00e3o era a primeira vez que a via, era a segunda ou terceira, desde que Sinhazinha perdera o pai e a m\u00e3e e viera do Rio Grande do Sul para a fazenda da av\u00f3; n\u00e3o a viu no ano anterior, quando ela ali esteve. e cuido que lhe achava alguma diferen\u00e7a para melhor.<\/p>\n<p>&#8211; Reverend\u00edssimo, vamos? disse-me o coronel, acabando de replicar \u00e0 baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, j\u00e1. Onde est\u00e1 o parceiro?<\/p>\n<p>&#8211; Havemos de ach\u00e1-lo. Nh\u00e3t\u00f4nia, ele ter\u00e1 sa\u00eddo?<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia respondeu negativamente. Estaria vendo as bestas, que vieram da ro\u00e7a, ou o cavalo que comprara na v\u00e9spera. E descreveu o cavalo, a pedido do coronel, chegando-se ao mesmo tempo para o lado da Sinhazinha. Chegando a esta parou, p\u00f4s-lhe uma das m\u00e3os na cabe\u00e7a, e com a outra levantou-lhe o queixo, para mir\u00e1-la de cima.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, Nh\u00e3t\u00f4nia! disse a mo\u00e7a. Est\u00e1 me afogando.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia fez-lhe uma careta de esc\u00e1rnio, inclinou-se e beijou-lhe a testa com tanta ternura, que me deu ci\u00fames pela outra. E sentou-se entre elas todas, e todas lhe fizeram grande festa. Raimundo calara-se para mirar a cena, porque ele queria muito \u00e0s filhas, e gostava de v\u00ea-las acariciadas tamb\u00e9m. Nisto ouvimos passos na sala cont\u00edgua, e da\u00ed a nada entrava na varanda o filho de D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, viva! bradou o coronel. Est\u00e1vamos \u00e0 espera de voc\u00ea para um solo.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, v\u00e1, acudiu a baronesa, levantando os olhos do livro. O coronel est\u00e1 ansioso por jogar, e \u00e9 uma fortuna, porque veio da ro\u00e7a insuport\u00e1vel, e n\u00e3o me deixa ler&#8230; Ent\u00e3o voc\u00ea comprou um cavalo?<\/p>\n<p>Curtos eventos, palavras sem interesse, ou apenas curiosas, que me n\u00e3o consolavam da interrup\u00e7\u00e3o a que era obrigado no cometimento volunt\u00e1rio que empreendera; mas naquele dia n\u00e3o foi essa a minha pior impress\u00e3o. Fomos dali para a mesa do jogo, em uma sala que ficava do outro lado, ao p\u00e9 da alcova do F\u00e9lix. O coronel, contando os tentos, disse-nos que a baronesa estava com id\u00e9ias de casar a neta, conquanto ainda n\u00e3o tivesse noivo; era uma id\u00e9ia. Parece que sentia-se fraca, receava morrer sem v\u00ea-la casada; foi o que ele ouviu dizer aos Ros\u00e1rios de Igua\u00e7u, que eram muito da intimidade dela, e at\u00e9 parentes.<\/p>\n<p>&#8211; Depois, rindo para o F\u00e9lix:<\/p>\n<p>&#8211; Ali est\u00e1 um bom arranjo para voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! rosnou o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Ora qu\u00ea? retorquiu o coronel encarando-o, enquanto baralhava e dava as cartas. Repito que era um bom arranjo; eu acho-a bem bonita, acho-a mesmo (tape os ouvidos, Reverend\u00edssimo!), acho-a um peix\u00e3o. O pai educou-a muito bem; e depois duas fazendas, pode-se at\u00e9 dizer tr\u00eas, mas uma delas tem andado para tr\u00e1s. Duas grandes fazendas, com setecentas cabe\u00e7as, ou mais; terra de primeira qualidade; muita prata&#8230; N\u00e3o h\u00e1 outro herdeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Solo! interrompeu o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ambos passamos; ele jogou e perdeu. N\u00e3o tinha jogo, foi um modo de interromper o discurso do parente. Mas o coronel era daqueles que n\u00e3o esquecem nada, e da\u00ed a pouco tornou ao assunto, para dizer que ele, apesar de achacado, se a mo\u00e7a quisesse, tom\u00e1-la-ia por esposa; e logo rejeitou a id\u00e9ia. N\u00e3o, n\u00e3o podia ser, estava um cangalho velho, n\u00e3o era mais quem dantes fora, no tempo do rei, e ainda depois. E vinha j\u00e1 uma aventura de 1815, quando o parente, em respeito a mim, disse-lhe que jogasse ou \u00edamos embora.. .<\/p>\n<p>Pela minha parte, estava aborrecido. A opini\u00e3o do coronel, relativamente \u00e0 conveni\u00eancia de casar o parente com Sinhazinha, e as mostras de ternura de D. Ant\u00f4nia para com esta, fizeram-me crer que podia haver alguma coisa em esbo\u00e7o; mas, ainda que nada houvesse, Raimundo, expansivo como era, chegaria a insinu\u00e1-lo \u00e0 parenta. Era uma solu\u00e7\u00e3o. Ignoro se F\u00e9lix tamb\u00e9m desconfiava a mesma coisa; \u00e9, todavia, certo que jogou distra\u00eddo e calado, &#8211; durante alguns minutos &#8211; o que fez com que o coronel nos dissesse de repente que est\u00e1vamos no mundo da lua, que n\u00e3o viera da ro\u00e7a para ficar casmurro, e que, ou jog\u00e1ssemos ou ele ia \u00e0s francesas da Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Ainda uma vez, F\u00e9lix atalhou a imagina\u00e7\u00e3o libertina do tio. Para desvi\u00e1-lo dali, falou de outros atrativos, de um prestidigitador c\u00e9lebre cujo nome enchia, ent\u00e3o, a cidade, e que inteiramente me esqueceu, de bailes de m\u00e1scaras e teatros. Contou-lhe o enredo dos dramas que andavam ent\u00e3o em cena, e aludiu a certa farsa, que divertira muito o coronel, na \u00faltima vez que viera da ro\u00e7a. Raimundo tinha a alma ingenuamente cr\u00e9dula para as fic\u00e7\u00f5es da poesia; ouvia-as como quem ouve a not\u00edcia de uma facada. N\u00e3o era mau homem, e era excelente pai; disse logo que n\u00e3o perderia nada, e levaria ao teatro as suas candongas. Assim chamava \u00e0s filhas.<\/p>\n<p>Jogamos at\u00e9 perto da hora de jantar. Enquanto eles iam \u00e0 cavalari\u00e7a ver os animais chegados, dirigi-me para a sala principal, onde achei D. Mafalda, a tia da Lalau, que vinha busc\u00e1-la para ir com ela \u00e0s novenas da Gl\u00f3ria; a mo\u00e7a voltaria depois da festa. Pareceu-me que Lalau ia obedecer constrangida; e, por outro lado, n\u00e3o ouvi nenhuma obje\u00e7\u00e3o da parte de D. Ant\u00f4nia. S\u00f3 estavam as tr\u00eas; as h\u00f3spedas da ro\u00e7a tinham-se recolhido por alguns instantes. Raimundo e F\u00e9lix entraram pouco depois, o primeiro convidando-me a ir passear com ele e o sobrinho, a cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se eu n\u00e3o sei montar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga isso! Ent\u00e3o vamos n\u00f3s dois, continuou voltando-se para o sobrinho. Vai Nh\u00e3t\u00f4nia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; . . . Vai Sinhazinha. Sinhazinha \u00e9 cavaleira de truz.<\/p>\n<p>&#8211; Outra vez este nome! A gente como eu, quando receia alguma coisa, faz derivar ou afluir para ela os mais alheios incidentes e as mais casuais circunst\u00e2ncias. Fui acreditando que o coronel era efetivamente um desbravador, e a temer que o F\u00e9lix n\u00e3o resistisse por muito tempo \u00e0 oferta de uma noiva distinta e graciosa, e da riqueza que viria com ela. Olhei para ele; vi-o falando com a tia de Lalau.<\/p>\n<p>&#8211; Valeu? perguntou-lhe o coronel de longe.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, n\u00e3o. Bem, amanh\u00e3, depois do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n\u00e3o perde as novenas da Gl\u00f3ria, disse F\u00e9lix a Mafalda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 minha devo\u00e7\u00e3o antiga; e gosto de ir com Lalau, por causa da m\u00e3e, que tamb\u00e9m era muito devota de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria. Lembra-se, Nh\u00e3t\u00f4nia? Mas deixe estar, no dia 16 estamos c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, interrompeu F\u00e9lix, venham jantar no dia da Gl\u00f3ria; venham de manh\u00e3. Temos missa na capela, e que diferen\u00e7a h\u00e1 entre a missa cantada e a rezada? N\u00e3o \u00e9, Reverend\u00edssimo?<\/p>\n<p>Fiz um gesto de assentimento. D. Ant\u00f4nia, por\u00e9m, mordeu o l\u00e1bio inferior, e n\u00e3o teve tempo de intervir, porque a tia da mo\u00e7a concordou logo em traz\u00ea-la no dia 15 de manh\u00e3. Lalau agradeceu-lhe com os olhos. N\u00e3o obstante a disposi\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o, fiquei receoso. Ao jantar, acharam-me preocupado; respondi somente que eram remorsos de ter gasto o melhor do dia ao jogo, em vez de ficar ao trabalho, e anunciei a D. Ant\u00f4nia que, em breve tempo, teria conclu\u00eddo as pesquisas. Caindo a tarde, Lalau e a tia despediram-se, e eu ofereci-me para acompanh\u00e1-las. N\u00e3o era preciso; D. Ant\u00f4nia mandara aprontar a sege.<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00e3t\u00f4nia quer dar-se sempre a esses inc\u00f4modos, disse agradecendo Mafalda.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o, redarg\u00fciu D. Ant\u00f4nia rindo, as incomodadas s\u00e3o as bestas.<\/p>\n<p>A sege, em vez de as tomar ao p\u00e9 da porta que ficava por baixo da sala dos livros, veio receb\u00ea-las diante da varanda, onde nos ach\u00e1vamos todos. O constrangimento de Lalau era j\u00e1 manifesto. Se preferia a m\u00e3e a tudo, como me dissera uma vez, cuido que preferia D. Ant\u00f4nia e a Casa Velha \u00e0 companhia da tia; acrescia agora a presen\u00e7a de h\u00f3spedes, a variedade de vida que eles traziam \u00e0 Casa Velha; finalmente, pode ser tamb\u00e9m, sem afirm\u00e1-lo, que tivesse receios id\u00eanticos aos meus. Despediu-se penosamente. D. Ant\u00f4nia, embora lhe fosse adversa, \u00e9 certo que ainda a amava, deu-lhe a m\u00e3o a beijar, e, vendo-a ir, puxou-a para si, e beijou-a na cara uma e muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado, nada de travessuras! disse-lhe.<\/p>\n<p>Tia e sobrinha desceram os degraus da varanda, e, quando eu ia ajud\u00e1-las a entrar na sege, atravessou-se-me o filho da dona da casa, que deu a m\u00e3o a uma e outra, cheio de respeito e gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Nh\u00e3t\u00f4nia! disse a mo\u00e7a metendo a cabe\u00e7a entre as cortinas de couro da sege, e fechando-as, depois de dizer-me adeus com os olhos.<\/p>\n<p>Eu, que estava no topo da escada, correspondi-lhe igualmente com os olhos, e voltei para as outras pessoas, enquanto a sege ia andando, e o mo\u00e7o subia os degraus.<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00e3t\u00f4nia, disse o coronel rindo, este seu filho dava para camarista do pa\u00e7o.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia, escandalizada, tinha entre as sobrancelhas uma ruga, e olhou sombria para o filho. Quero crer que esse incidente foi a gota que fez entornar do esp\u00edrito de D. Ant\u00f4nia a singular determina\u00e7\u00e3o que vou dizer.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VII<\/h3>\n<p>Era na varanda, na manh\u00e3 seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Ant\u00f4nia s\u00f3, passeando de um para outro lado; a baronesa recolhera-se, e os outros tinham sa\u00eddo a cavalo, depois de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que \u00e9 que n\u00e3o fui mais cedo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pude; estive sabendo as m\u00e1s not\u00edcias que vieram do Sul.<\/p>\n<p>&#8211; Sim? perguntou ela.<\/p>\n<p>Contei-lhe o que havia, acerca da rebeli\u00e3o; mas os olhos dela, despidos de curiosidade, vagavam sem ver, e, logo que o percebi, parei subitamente. Ela, depois de alguma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ent\u00e3o os rebeldes&#8230;<\/p>\n<p>Repetiu a palavra, murmurou outras, mas sem poder vincul\u00e1-las entre si, nem dar-lhes o calor que s\u00f3 o real interesse possui. Tinha outra rebeli\u00e3o em casa, e, para ela, a crise dom\u00e9stica valia mais que a p\u00fablica. \u00c9 natural, pensei comigo; e tratei de ir aos meus pap\u00e9is. Ao pedir-lhe licen\u00e7a, vi-a olhar para mim, calada, e reter-me pelo pulso.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1? disse finalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Vou ao trabalho.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia hesitou um pouco; depois, resoluta:<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a-me!<\/p>\n<p>Respondi que estava \u00e0s suas ordens, e esperei.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia passou a m\u00e3o pelos olhos, sacudiu a cabe\u00e7a, e perguntou-me se n\u00e3o suspeitava alguma causa absoluta de impedimento entre o filho e Lalau.<\/p>\n<p>&#8211; Causa absoluta?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, murmurou ela, a medo, baixando e erguendo os c\u00edlios, como envergonhada.<\/p>\n<p>Confesso que a suspeita de que Lalau era filha dela acudiu-me ao esp\u00edrito, mas varri-a logo por absurda; adverti que ela o diria antes \u00e0 pr\u00f3pria mo\u00e7a do que a nenhum homem, ainda que padre. N\u00e3o, n\u00e3o era isso. Mas ent\u00e3o o que era? Tive outra suspeita, e pedi-lhe que me dissesse, que me explicasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 explicado.<\/p>\n<p>&#8211; Seu marido&#8230; ?<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia fez um gesto afirmativo, e desviou os olhos. Tinha a cara que era um lacre. Quis ir para dentro, mas recuou, deu alguns passos at\u00e9 o fim da varanda, voltou, e foi sentar-se na cadeira que ficava mais perto, entre duas portas; apoiou os bra\u00e7os nos joelhos, a cabe\u00e7a nas m\u00e3os, e deixou-se estar. Eu, espantado, n\u00e3o achava nada que dissesse, nada, coisa nenhuma; olhava para o ladrilho, \u00e0 toa; e assim ficamos por um longo trato de tempo. Acordou-nos um moleque, vindo pedir uma chave \u00e0 senhora, que lhe deu o molho delas, e ficou ainda sentada, mas sem pousar a cabe\u00e7a nas m\u00e3os. A express\u00e3o do rosto n\u00e3o era propriamente de tristeza ou de resigna\u00e7\u00e3o, mas de constrangimento, e pode ser tamb\u00e9m que de ansiedade; e n\u00e3o fiz logo esse reparo, mas depois, recapitulando as palavras e os gestos. Fosse como fosse, n\u00e3o me passou pela id\u00e9ia que aquele impedimento moral e can\u00f4nico podia ser um simples recurso de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Caminhei para ela, estendi-lhe as m\u00e3os, ela deu-me as suas, e apertando-lhas, disse-lhe que n\u00e3o devia ter ajuntado \u00e0 fatalidade do nascimento o favor das circunst\u00e2ncias; n\u00e3o devia t\u00ea-los levado, pelo descuido, ao ponto em que estavam, para agora separ\u00e1-los irremediavelmente. D. Ant\u00f4nia murmurou algumas palavras de explica\u00e7\u00e3o: &#8211; acanhamento, confian\u00e7a, esperan\u00e7a, a id\u00e9ia de cas\u00e1-la com outro, a de mandar o filho \u00e0 Europa&#8230; As m\u00e3os tremiam-lhe um pouco; e, talvez por t\u00ea-lo sentido, puxou-as e cruzou os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse-lhe eu, agora \u00e9 separ\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211; Custa-me muito, porque eu gosto dela. Eduquei-a como filha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 urgente separ\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui \u00e9 que Vossa Reverend\u00edssima podia prestar-me um grande obs\u00e9quio. N\u00e3o me atrevo a fazer nada; n\u00e3o sei mesmo o que poderia fazer. Vossa Reverend\u00edssima, que os estima, e creio que me estima tamb\u00e9m, \u00e9 que acharia algum arranjo. Meu filho est\u00e1 resolvido a ir por diante; mas a sua interven\u00e7\u00e3o&#8230; Posso contar com ela?<\/p>\n<p>&#8211; Tem sido excessiva a minha interven\u00e7\u00e3o. Vim receber um obs\u00e9quio, e acho-me no meio de um drama. Era melhor que me tivesse limitado a recolher pap\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga mais nada; acabou-se. Demais, um padre n\u00e3o se pode arrepender do beneficio que tentou fazer. A inten\u00e7\u00e3o era generosa; mas o que l\u00e1 vai, l\u00e1 vai. Agora \u00e9 dar-nos rem\u00e9dio. Ser\u00e1 t\u00e3o ego\u00edsta que me n\u00e3o ajude? N\u00e3o tenho outra pessoa; o coronel \u00e9 um estonteado&#8230; E depois, por mim, s\u00f3, n\u00e3o fa\u00e7o nada&#8230; Ajude-me.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia falava baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantar-se e ir espiar a uma das portas, que davam para a sala. N\u00e3o julguei mal da precau\u00e7\u00e3o, que era natural; e, quando ela, voltando a mim, parou e interrogou-me de novo, respondi-lhe que procurava equilibrar-me primeiro; a revela\u00e7\u00e3o atordoara-me. Aqui desviou os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 sangria desatada, acrescentei. Lalau est\u00e1 fora por alguns dias; pensarei lentamente. Que a ajude? Hei de ser obrigado a isso, agora que a situa\u00e7\u00e3o mudou. Se n\u00e3o dei causa ao sentimento que os liga, \u00e9 certo que o aprovei, e estava pronto a santific\u00e1-lo. A senhora foi muito imprudente.<\/p>\n<p>&#8211; Confesso que fui.<\/p>\n<p>&#8211; Vai agora desgra\u00e7\u00e1-los.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia fez com a boca um gesto, que podia parecer meio sorriso, e era t\u00e3o-somente express\u00e3o de incredulidade. Traduzido em palavras, quer dizer que n\u00e3o admitia que a separa\u00e7\u00e3o dos dois pudesse trazer-lhes nenhum perp\u00e9tuo infort\u00fanio. Tendo casado por elei\u00e7\u00e3o e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e parentes, D. Ant\u00f4nia mal concebia que houvesse, ao p\u00e9 deste costume, algum outro natural e anterior. Cuidava a princ\u00edpio que a sua vontade bastava a compor as coisas; depois, n\u00e3o logrando mais que baralh\u00e1-las, cresceu-lhe naturalmente a irrita\u00e7\u00e3o, e afinal criou medo; mas sup\u00f4s sempre que o efeito da separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o passaria de algumas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 ou depois falaremos, disse-lhe.<\/p>\n<p>Fui dali aos livros. Ao entrar na sala deles, parei diante do retrato do ex-ministro, e mirei por alguns instantes aquela boca, que me parecera lasciva, desde que a vi pela primeira vez. E disse comigo, olhando para ele:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s morto. Gozaste e descansas; mas eis aqui os frutos podres da incontin\u00eancia; e s\u00e3o teus pr\u00f3prios filhos que v\u00e3o trag\u00e1-los.<\/p>\n<p>Estava irritado, dava-me \u00edmpeto de quebrar alguma coisa. Sentei-me, levantei-me, fui \u00e0 janela e acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos e confusos. Os livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez comentavam a minha agita\u00e7\u00e3o com palavras de remoque, dizendo uns aos outros que eles eram a paz e a vida, e que eu padecia agora as conseq\u00fc\u00eancias de os haver deixado, para entrar no conflito das coisas. Nem por sombras me acudiu que a revela\u00e7\u00e3o de D. Ant\u00f4nia podia n\u00e3o ser verdadeira, t\u00e3o grave era a coisa e t\u00e3o austera a pessoa. N\u00e3o adverti sequer na minha cumplicidade. Em verdade, eu \u00e9 que proferi as palavras que ela trazia na mente; se me tenho calado, chegaria ela a diz\u00ea-las? Pode ser que n\u00e3o; pode ser que lhe faltasse \u00e2nimo para mentir. Tocado de mal\u00edcia, o cora\u00e7\u00e3o dela achou na minha condescend\u00eancia um apoio, e falou pelo sil\u00eancio. Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo.<\/p>\n<p>Meia hora depois, ou mais, ouvi rumor do lado de fora, cavalos que chegavam lentamente: eram os passeadores. Fui \u00e0 janela. Uma das filhas do coronel vinha na frente com o pai; a outra e Sinhazinha seguiam logo, com o rapaz entre elas. F\u00e9lix falava a Sinhazinha, e esta ouvia-o olhando para ele, direitamente, sem biocos, como na varanda; era talvez o cavalo que restitu\u00eda \u00e0 rio-grandense a posse de si mesma e a franqueza das atitudes. Todo entregue a um acontecimento, subordinei a ele os outros, e conclu\u00ed da familiaridade dos dois que bem podiam vir a amar-se. Sinhazinha escutava com aten\u00e7\u00e3o, cheia de riso, pesco\u00e7o teso, segurando as r\u00e9deas na m\u00e3o esquerda, e dando com a ponta do chicotinho, ao de leve, na cabe\u00e7a do cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Reverend\u00edssimo, bradou parando embaixo da janela, o coronel, os &#8220;farrapos&#8221; invadiram Santa Catarina, entraram na Laguna, e os legais fugiram. Eu, se fosse o governo, mandava fuzilar a todos estes para escarmento&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 os pajens estavam ali, \u00e0 porta, com bancos para as mo\u00e7as; apearam-se todos e subiram. Da\u00ed a alguns minutos Raimundo e F\u00e9lix entravam-me pela sala, arrastando as esporas. Raimundo creio que ainda trazia o chicote; n\u00e3o me lembra. Lembra-me que disse ali mesmo, agarrando-me nos ombros, uma multid\u00e3o de coisas duras contra Bento Gon\u00e7alves, e principalmente contra os ministros, que n\u00e3o prestavam para nada, e deviam sair. O melhor de tudo era logo aclamar o imperador. Dessem-lhe cinq\u00fcenta homens &#8211; vinte e cinco que fossem, &#8211; se ele em duas horas n\u00e3o pusesse o imperador no trono, e os ministros na rua, estava pronto a perder a vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo sublevado, ao Norte e ao Sul&#8230; Agora parece que iam mandar tropas, e falava-se no general Andr\u00e9a para comand\u00e1-las. Tudo remendos. Sangue novo \u00e9 o que se precisava&#8230; Parola, muita parola.<\/p>\n<p>Bufava o coronel; o sobrinho, para aquiet\u00e1-lo, metia alguma palavra, de quando em quando, mas era o mesmo que nada, se n\u00e3o foi pior. Irritado com as interrup\u00e7\u00f5es, bradou-lhe que, se o pai fosse vivo, as coisas andariam de outro modo.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele n\u00e3o era paz d&#8217;alma, disse o coronel apontando para o retrato. Fosse ele vivo! N\u00e3o era militar, como sabe, &#8211; continuou olhando para mim, &#8211; mas era homem \u00e0s direitas. Veja-me bem aqueles olhos, e diga-me se ali n\u00e3o h\u00e1 vida e for\u00e7a de vontade&#8230; Um pouco velhacos, \u00e9 certo, acrescentou galhofeiramente.<\/p>\n<p>&#8211; Tio Raimundo! suplicou F\u00e9lix.<\/p>\n<p>&#8211; Velhacos, repito, n\u00e3o digo velhacos para tratantadas, mas para amores; era maroto com as mulheres, &#8211; prosseguiu rindo e esquecendo inteiramente a rebeli\u00e3o. Eu, quando Vossa Reverend\u00edssima mudar de cara, e trouxer outra mais alegre, hei de contar-lhe algumas aventuras dele&#8230; Veja aqueles olhos! E n\u00e3o imagina como era gamenho, requebrado&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix saiu neste ponto; eu fui sentar-me \u00e0 escrivaninha; o coronel continuou o assunto, e foi despir-se. N\u00e3o me procurou mais at\u00e9 a hora do jantar; naturalmente porque o sobrinho o impediu de vir perturbar-me na pesquisa dos pap\u00e9is, como se eu tivesse pap\u00e9is na cabe\u00e7a. Maroto com as mulheres! Esta palavra retiniu ali por muito tempo. Maroto com as mulheres! Tudo se me afigurava claro e evidente.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia hesitar muito. Deixei de ir tr\u00eas dias \u00e0 Casa Velha; fui depois, e convidei o F\u00e9lix a vir jantar comigo no dia seguinte. Jantamos cedo, e fomos dali ao Passeio P\u00fablico, que ficava perto de minha casa. No Passeio, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que sou seu amigo?<\/p>\n<p>&#8211; Sei, respondeu ele franzindo a testa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se aflija; o que lhe vou dizer \u00e9 antes bem que mal. Sei que estima sua m\u00e3e; ela o merece, n\u00e3o s\u00f3 por ser m\u00e3e, como porque, se alguma coisa faz que parece contrari\u00e1-lo, n\u00e3o o faz sen\u00e3o em benef\u00edcio seu e da verdade.<\/p>\n<p>F\u00e9lix tornou a franzir a testa.<\/p>\n<p>&#8211; Adivinho que h\u00e1 alguma coisa dif\u00edcil de dizer que me h\u00e1 de mortificar. Vamos, diga depressa.<\/p>\n<p>&#8211; Digo j\u00e1, ainda que me custe. E creia que me custa, mas \u00e9 preciso: esque\u00e7a aquela mo\u00e7a. N\u00e3o me olhe assim; imagina talvez que estou finalmente nas m\u00e3os de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Imagino.<\/p>\n<p>&#8211; Antes fosse isso, porque ent\u00e3o o senhor n\u00e3o atenderia a um nem a outro, e casaria, se lhe conviesse.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o farei isso mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode ser; n\u00e3o pode casar, esque\u00e7a-a, esque\u00e7a-a de uma vez para sempre. Deus \u00e9 que o n\u00e3o quer, Deus ou o diabo, porque a primeira a\u00e7\u00e3o \u00e9 do diabo; mas esque\u00e7a-a inteiramente. Seu pai foi um grande culpado&#8230;<\/p>\n<p>Aqui ele pediu-me, aflito, que lhe contasse tudo. Custou-me, mas revelei-lhe a confid\u00eancia da m\u00e3e. A impress\u00e3o foi profunda e dolorosa, mas o sentimento do pudor e da religi\u00e3o p\u00f4de seren\u00e1-la depressa. Quis prolongar a conversa\u00e7\u00e3o; ele n\u00e3o o quis, n\u00e3o podia, e achei natural que n\u00e3o pudesse; pouco falou, distra\u00eddo ou absorto, e despediu-se dali a alguns minutos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi para casa, como soube depois; foi andar, andar muito, revolvendo na mem\u00f3ria as duras palavras que lhe disse. S\u00f3 entrou em casa depois de oito horas da noite, e recolheu-se ao quarto. A m\u00e3e estava aflita; pressentira a minha revela\u00e7\u00e3o, e receou alguma imprud\u00eancia; provavelmente arrependeu-se de tudo. Certo \u00e9 que, logo que soube da chegada do filho, foi ter com ele. F\u00e9lix n\u00e3o lhe disse nada, mas a express\u00e3o do rosto mostrou a D. Ant\u00f4nia o estado da alma. F\u00e9lix queixou-se de dor de cabe\u00e7a, e ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>Foi ele mesmo que me contou tudo isso, no dia seguinte, indo a minha casa. Agradeceu-me ainda uma vez, mas queixou-se do singular sil\u00eancio da m\u00e3e. Expliquei-lho, a meu modo; era natural que lhe custasse a revela\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a fizesse antes de tentar qualquer outro meio.<\/p>\n<p>&#8211; Seja como for, estou curado, disse ele. A noite fez-me bem. O sentimento que essa menina me inspirou converteu-se agora em outro, e creia que pela imagina\u00e7\u00e3o j\u00e1 me acostumei a cham\u00e1-la irm\u00e3; creia mais que acho nisto um sabor particular, talvez por ser filho \u00fanico.<\/p>\n<p>Apertei-lhe a m\u00e3o, aprovando. Confesso que esperava menos pronta conformidade. Cuidei que tivesse de assistir a muito desespero, e at\u00e9 l\u00e1grimas. Tanto melhor. Ele, depois de alguns instantes, consultou-me se acharia prudente revelar tudo \u00e0 mo\u00e7a; tamb\u00e9m eu j\u00e1 tinha pensado nisso, e n\u00e3o resolvera nada. Era dif\u00edcil; mas n\u00e3o achava modo de n\u00e3o ser assim mesmo. Depois de algum exame, assentamos de n\u00e3o dizer nada, salvo em \u00faltimo caso.<\/p>\n<p>Os dias que se seguiram foram naturalmente de constrangimento. Os h\u00f3spedes de D. Ant\u00f4nia notaram alguma coisa na fam\u00edlia, que n\u00e3o era habitual; e a baronesa resolveu voltar para a fazenda, logo depois da festa da Gl\u00f3ria. Sinhazinha \u00e9 que n\u00e3o sei se reparou em alguma coisa; continuava a ter os mesmos modos do primeiro dia. A id\u00e9ia de cas\u00e1-la com o filho de D. Ant\u00f4nia entrou a parecer-me natural, e at\u00e9 indispens\u00e1vel. Conversei com ela; vi que era inteligente, d\u00f3cil e meiga, ainda que fria: assim parecia, ao menos. Casaria com ele, ou com outro, \u00e0 vontade da av\u00f3. No dia 15, devia ir Lalau para a casa, e eu, que o sabia, l\u00e1 n\u00e3o fui, apesar do convite especial que tivera para jantar. N\u00e3o fui, n\u00e3o tive \u00e2nimo de ver o primeiro encontro da alegria expansiva e ruidosa da mo\u00e7a com a frieza e o afastamento do rapaz. Deixei de l\u00e1 ir cinco dias; apareci a 20 de agosto.<\/p>\n<h3>CAP\u00cdTULO VIII<\/h3>\n<p>No dia 20 achei, com efeito, tudo mudado, Lalau suspeitosa e triste, F\u00e9lix retra\u00eddo e seco. Este veio contar-me o que se passara, e acabou dizendo que o estado moral da menina pedia a minha interven\u00e7\u00e3o. Pela sua parte n\u00e3o queria mudar de maneiras com ela, para n\u00e3o entreter um sentimento condenado; n\u00e3o ousava tamb\u00e9m dar-lhe not\u00edcia da situa\u00e7\u00e3o nova. Mas eu podia faz\u00ea-lo, sem constrangimento, e com vantagem para todos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, disse eu depois de alguns instantes de reflex\u00e3o; n\u00e3o sei&#8230; Sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e est\u00e1 perfeitamente bem com ela; parece at\u00e9 que a trata com muito mais ternura. N\u00e3o lhe dizia eu? Mam\u00e3e \u00e9 muito amiga dela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe ter\u00e1 dito nada?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p>E depois de algum sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; Nem lho diria ela mesma. H\u00e1 confiss\u00f5es dif\u00edceis de fazer a outros, e imposs\u00edveis a ela; digo faz\u00ea-las diretamente \u00e0 pessoa interessada. Vamos l\u00e1; tire-nos desta situa\u00e7\u00e3o duvidosa.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; verei. N\u00e3o afirmo nada; verei.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1vamos na sala dos livros; Lalau apareceu \u00e0 porta. Parou alguns instantes, depois veio afoitamente a mim, expansiva e ruidosa, mas de prop\u00f3sito, por pirra\u00e7a, tanto que n\u00e3o me falava com a aten\u00e7\u00e3o em mim, mas dispersa, e olhando de modo que pudesse apanhar os gestos do rapaz. Este n\u00e3o dizia nada, olhava para os livros. Lalau perguntou-me o que era feito de mim, por onde tinha andado, se era ingrato para ela, se a esquecia; afirmando que tamb\u00e9m estava disposta a esquecer-me, e j\u00e1 tinha um padre em vista, um c\u00f4nego, tabaquento, muito feio, cabe\u00e7a grande. Tudo isso era dito por modo que me do\u00eda, e devia doer a ele tamb\u00e9m; certo \u00e9 que ele n\u00e3o se demorou muito na sala; foi at\u00e9 a janela, por alguns instantes; depois disse-me que ia ver os cavalos e saiu.<\/p>\n<p>Lalau n\u00e3o p\u00f4de mais conter-se; logo que ele saiu, deixou-se cair numa cadeira, ao canto da sala, e rompeu em l\u00e1grimas. A explos\u00e3o atordoou-me, corri para ela, peguei-lhe nas m\u00e3os, ela pegou nas minhas, disse que era desgra\u00e7ada, que ningu\u00e9m mais lhe queria, que tinha padecido muito naquele dia, muito muito&#8230; Nunca falamos do sentimento que a acabrunhava agora; mas n\u00e3o foi preciso come\u00e7ar por nenhuma confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendo nada, dizia ela; sei s\u00f3 que sofro, que choro, e que me vou embora. Por qu\u00ea? Sabe que h\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe dei resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m sabe nada, naturalmente, continuou ela. Quem sabe tudo j\u00e1 l\u00e1 vai caminhando para a ro\u00e7a. Devia ser assim mesmo; eu n\u00e3o valho nada, n\u00e3o sou nada, n\u00e3o tenho av\u00f3 baronesa, sou uma agregadazinha&#8230; Mas ent\u00e3o por que enganar-me tanto tempo? Para ca\u00e7oar comigo?<\/p>\n<p>E chorava outra vez, por mais que eu, defronte dela, em p\u00e9, lhe dissesse que n\u00e3o fizesse barulho, que podiam ouvir; ela, por\u00e9m, durante alguns minutos n\u00e3o atendia a nada. Quando cansou de chorar, e enxugou os olhos, estava realmente digna de l\u00e1stima. A express\u00e3o agora era s\u00f3 de dor e de abatimento; desaparecera a indigna\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a obscura que se v\u00ea preterida por outra de melhor posi\u00e7\u00e3o. Sentei-me ao lado dela, disse-lhe que era preciso ter paci\u00eancia, que os desgostos eram a parte principal da vida; os prazeres eram a exce\u00e7\u00e3o; disse-lhe tudo o que a religi\u00e3o lhe poderia lembrar para obter que se resignasse. Lalau ouvia com os olhos parados, ou olhando vagamente; \u00e0s vezes interrompia com um sorriso. Urgia contar-lhe tudo; mas aqui confesso que n\u00e3o achava palavras. Era grave a not\u00edcia; o efeito devia ser violento, porque, conquanto ela cuidasse estar abandonada por outra, a esperan\u00e7a l\u00e1 se aninharia nalgum recanto do cora\u00e7\u00e3o, e nada est\u00e1 perdido enquanto o cora\u00e7\u00e3o espera alguma coisa. Mas a not\u00edcia da filia\u00e7\u00e3o era decisiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabendo como diz\u00ea-lo, prossegui na minha exorta\u00e7\u00e3o vaga. Ela, que a princ\u00edpio ouvia sem interesse, olhou de repente para mim, e perguntou-me se realmente estava tudo perdido. Vendo que lhe n\u00e3o dizia nada:<\/p>\n<p>&#8211; Diga, por esmola, diga tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1, sossegue&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sossego, diga.<\/p>\n<p>&#8211; Enquanto n\u00e3o sossegar n\u00e3o digo nada. Escute, Deus escreve direito por linhas tortas. Quem sabe o que estaria no futuro?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o entendo; diga.<\/p>\n<p>Em verdade, n\u00e3o se podia ser menos h\u00e1bil, ou mais atado que eu. N\u00e3o ousava dizer a coisa, e n\u00e3o fazia mais que agu\u00e7ar o desejo de a ouvir. Lalau instou ainda comigo, pegou-me nas m\u00e3os, beijou-mas, e esse gesto fez-me mal, muito mal. Ergui-me, dei dois passos, e voltei dizendo que, n\u00e3o agora, por estar t\u00e3o fora de si, mas depois lhe contaria tudo, tudo, que era uma coisa grave&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Grave? Diga-me j\u00e1, j\u00e1.<\/p>\n<p>E pegou-se a mim, que lhe dissesse tudo, jurava n\u00e3o contar nada a ningu\u00e9m, se era preciso guardar segredo; mas n\u00e3o queria ignorar o que era. N\u00e3o me dava tempo; se eu abria a boca para adiar, interrompia-me que n\u00e3o, que havia de ser logo, logo; e falava-me em nome de Deus, de Nossa Senhora, e perguntava-me se era assim que dizia ser padre.<\/p>\n<p>&#8211; Promete ouvir-me quieta?<\/p>\n<p>&#8211; Prometo, disse ela depressa, ansiosa, pendendo-me dos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem grave o que lhe vou dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Mas diga.<\/p>\n<p>Peguei-lhe na m\u00e3o, e levei-a para defronte do retrato do finado conselheiro. Era teatral o gesto, mas tinha a vantagem de me poupar palavras; disse-lhe simplesmente que ali estava algu\u00e9m que n\u00e3o queria: o pai de ambos. Lalau empalideceu, fechou os olhos e ia cair; pude sust\u00ea-la a tempo.<\/p>\n<p>Lalau tinha o sentimento das situa\u00e7\u00f5es graves. Aquela era excepcional. N\u00e3o me disse nada, depois da minha revela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me fez pergunta nenhuma: apertou-me a m\u00e3o e saiu.<\/p>\n<p>Dois dias depois foi para casa da tia, a pretexto de n\u00e3o sei que neg\u00f3cio de fam\u00edlia, mas realmente era uma separa\u00e7\u00e3o. Fui ali v\u00ea-la; achei-a abatida. A tia falou-me em particular; perguntou-me se houvera alguma coisa em casa de D. Ant\u00f4nia; a sobrinha, interrogada por ela, respondera que n\u00e3o; quis ir \u00e0 Casa Velha, mas foi a pr\u00f3pria sobrinha que a dissuadiu, ou antes que lhe imp\u00f4s que n\u00e3o fosse.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o houve nada, foi a sua \u00faltima palavra. O que h\u00e1 \u00e9 que \u00e9 tempo de viver em nossa casa, e n\u00e3o na casa dos outros. Estou mo\u00e7a, preciso de cuidar da minha vida.<\/p>\n<p>D. Mafalda n\u00e3o achava pr\u00f3pria esta raz\u00e3o. A sobrinha era t\u00e3o amiga da Casa Velha, e a fam\u00edlia de D. Ant\u00f4nia queria-lhe tanto, que n\u00e3o se podia explicar daquele modo uma retirada t\u00e3o repentina. Nunca lhe ouvira o menor projeto a tal respeito. Acresce que, desde que viera, andava triste, muito triste&#8230;<\/p>\n<p>Todas essas reflex\u00f5es eram justas; entretanto, para que ela n\u00e3o chegasse a ir \u00e0 Casa Velha, disse-lhe que a raz\u00e3o dada por Lalau, se n\u00e3o era sincera, era em todo caso boa. Pensava muito bem querendo vir para casa; eram pobres; ela devia acostumar-se \u00e0 vida pobre, e n\u00e3o \u00e0 outra, que era abundante e larga, e podia criar-lhe h\u00e1bitos perigosos.<\/p>\n<p>Nada lhe disse a ela mesma, nem era poss\u00edvel; falamos juntos os tr\u00eas na sala de visitas, que era tamb\u00e9m a de trabalho. Lalau procurou disfar\u00e7ar a tristeza, mas a indiferen\u00e7a aparente n\u00e3o chegou a persuadir-me; conclu\u00edque o amor lhe ficara no cora\u00e7\u00e3o, a despeito do v\u00ednculo de sangue, e tive horror \u00e0 natureza. N\u00e3o foi s\u00f3 \u00e0 natureza. Continuei a aborrecer a mem\u00f3ria do homem, causa de tal situa\u00e7\u00e3o, de tais dores.<\/p>\n<p>Na Casa Velha fui igualmente discreto. D. Ant\u00f4nia n\u00e3o me perguntou o que se passara com elas, nem com o filho, e pela minha parte n\u00e3o lhe disse nada. O que ela me confiou, dias depois, \u00e9 que a viagem de F\u00e9lix \u00e0 Europa era j\u00e1 desnecess\u00e1ria; cuidava agora de cas\u00e1-lo; falou-me claramente nos seus projetos relativos a Sinhazinha. Parecera-lhe a escolha excelente; eu inclinei-me, aprovando.<\/p>\n<p>Passaram-se muitos dias. O meu trabalho estava no fim. Tinha visto e revisto muitos pap\u00e9is, e tomara muitas notas. O coronel voltou \u00e0 Corte no meado de setembro; vinha tratar de umas escrituras. Notou a diferen\u00e7a da casa, onde faltava a alegria da mo\u00e7a, e sobrava a tristeza ou alguma coisa an\u00e1loga do sobrinho. N\u00e3o lhe disse nada; parece que D. Ant\u00f4nia tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix passava uma parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falava-me de alguns planos relativamente \u00e0 ind\u00fastria, ou mesmo \u00e0 lavoura, n\u00e3o me lembra bem; provavelmente, era tudo misturado, nada havia nele ainda definido; lembramo-nos que j\u00e1 andara com id\u00e9ias de ser deputado. O que ele queria agora era fazer alguma coisa que o aturdisse, que lhe tirasse a dor do recente desastre. Neste sentido, aprovava-lhe tudo.<\/p>\n<p>Pareceu-me que o tempo ia fazendo algum efeito em ambos. Lalau n\u00e3o ria ainda, nem tinha a mesma conversa\u00e7\u00e3o de outrora; come\u00e7ava a apaziguar-se. Ia ali muita vez, \u00e0s tardes; ela agradecia-me evidentemente a fineza. N\u00e3o s\u00f3 tinha afei\u00e7\u00e3o, como achava na minha pessoa um peda\u00e7o das outras fei\u00e7\u00f5es, da outra casa e do outro tempo. Demais, era-me grata, posto que o destino me tivesse feito portador de m\u00e1s novas, e destruidor de suas mais \u00edntimas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de cas\u00e1-la entrou desde logo no meu esp\u00edrito; e nesse sentido falei \u00e0 tia, que aprovou tudo, sem adiantar mais nada. N\u00e3o conhecia o Vitorino, filho do segeiro, e perguntei-lhe que tal seria para marido.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bom, disse-me ela. Rapaz s\u00e9rio, e tem alguma coisa por morte do pai.<\/p>\n<p>&#8211; Tem alguma educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Tem. O pai at\u00e9 queria faz\u00ea-lo doutor, mas o rapaz \u00e9 que n\u00e3o quis; disse que se contentava com outra coisa; parece que est\u00e1 escrevente de cart\u00f3rio&#8230; escrevente n\u00e3o sei como se diz&#8230; mentado&#8230; paramentado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Juramentado<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, se puder falar com ela&#8230; sem dizer tudo&#8230; assim a modo de indaga\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Verei; deixe estar&#8230;<\/p>\n<p>Dias depois, D. Mafalda deu-me conta da incumb\u00eancia: a sobrinha nem queria ouvir falar em casar. Achava o Vitorino muito bom noivo, mas o seu desejo era ficar solteira, trabalhar em costura, para ajudar a tia e n\u00e3o depender de ningu\u00e9m; mas casar nunca.<\/p>\n<p>Esta conversa trouxe-me a id\u00e9ia de ponderar a D. Ant\u00f4nia que, uma vez que Lalau era filha de seu marido, ficava-lhe bem fazer uma pequena doa\u00e7\u00e3o que a resguardaria da mis\u00e9ria. D. Ant\u00f4nia aceitou a lembran\u00e7a sem hesitar. Estava t\u00e3o contente com o resultado obtido, que podia faz\u00ea-lo. Confessou-me, por\u00e9m, que o melhor de tudo seria, feita a doa\u00e7\u00e3o, passados os tempos, e casado o filho, voltar a menina para a Casa Velha. Tinha grandes saudades dela; n\u00e3o podia viver muito tempo sem a sua companhia. Repeti a \u00faltima parte a Lalau que a escutou comovida. Creio at\u00e9 que ia a brotar-lhe uma l\u00e1grima; mas reprimiu-a depressa, e falou de outra coisa.<\/p>\n<p>Era uma ter\u00e7a-feira. Na quarta, devia eu ultimar os meus trabalhos na Casa Velha, e restituir os pap\u00e9is, quando fiz um achado que transtornou tudo.<\/p>\n<p>Estava recolhendo tudo, quando dei por falta de uma nota tomada naquele dia; n\u00e3o era f\u00e1cil reproduzir a nota, pois n\u00e3o a havia tirado de uma s\u00f3 p\u00e1gina nem de um s\u00f3 livro, mas de muitos livros diferentes. O caso aborreceu-me; procurei o papel atabalhoadamente; depois recomecei com cuidado. Abria os livros com que trabalhara nesse dia, um por um, mas n\u00e3o achava nada. Vim achar a nota, depois, ao p\u00e9 da grade da janela, prestes a cair.<\/p>\n<p>Entre os livros que folheei, procurando, achava-se um relat\u00f3rio manuscrito, que eu lera apenas em parte, n\u00e3o o tendo feito na que continha t\u00e3o-somente a transcri\u00e7\u00e3o de documentos p\u00fablicos. Pegando no livro pela lombada, e agitando-o para fazer cair a nota, se ali estivesse, vi que efetivamente ca\u00eda um papelinho.<\/p>\n<p>Vinha dobrado, e vi logo que era por letra do ex-ministro. Podia ser alguma coisa interessante, para os meus fins. Era um trecho de bilhete a alguma mulher, cujo nome n\u00e3o estava ali, e referia-se a uma crian\u00e7a, com palavras de tristeza. Podiam ser outros amores; podiam ser os pr\u00f3prios amores da m\u00e3e de Lalau. Hesitei em guardar o papel; cheguei a p\u00f4-lo dentro das folhas do relat\u00f3rio; mas tornei a tir\u00e1-lo, e guardei-o comigo.<\/p>\n<p>Reli-o em casa; dizia este trecho do bilhete, que provavelmente nunca foi acabado nem remetido: &#8220;Tenha confian\u00e7a em mim, e ou\u00e7a o que lhe digo. N\u00e3o fa\u00e7a barulho, sossegue e n\u00e3o fale no meu nome. Venha c\u00e1 o menos que puder; e n\u00e3o pense mais no anjinho. Deus \u00e9 bom.&#8221; N\u00e3o achava nada que me explicasse coisa nenhuma; mas insisti em guard\u00e1-lo. De noite pensei que o bilhete podia relacionar-se com a fam\u00edlia de Lalau; e, como nunca tivesse dito \u00e0 tia desta o motivo que a separara da Casa Velha, resolvi pedir-lhe uma confer\u00eancia, e cont\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Pedi-lhe a confer\u00eancia no dia seguinte, e obtive-a no outro, muito cedo, enquanto Lalau dormia. N\u00e3o hesitei em ir logo ao fim. Contei-lhe tudo, menos o amor da sobrinha e do filho de D. Ant\u00f4nia, que ela, antes, fingia ignorar. D. Mafalda ouviu-me pasmada, curiosa, querendo por fim que lhe dissesse se D. Ant\u00f4nia ficara irritada com a descoberta.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, perdoou tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o por que houve logo esta separa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Hesitei na resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Entendo, disse ela, entendo.<\/p>\n<p>Vi que sabia tudo; mas n\u00e3o se consternou por isso. Ao contr\u00e1rio, disse-me alegremente que, se n\u00e3o era mais que essa a causa da separa\u00e7\u00e3o, tudo estava remediado.<\/p>\n<p>&#8211; Conto-lhe tudo, disse-me ela no fim de alguns instantes. N\u00e3o diria nada em outras circunst\u00e2ncias, nem sei mesmo se diria alguma coisa a outra pessoa.<\/p>\n<p>D. Mafalda confirmou os amores da cunhada; mas o ex-ministro viu-a pela primeira vez, quando eles vieram da ro\u00e7a, tinha Lalau tr\u00eas meses. N\u00e3o era absolutamente o pai da menina. Compreende-se o meu alvoro\u00e7o; pedi-lhe todas as circunst\u00e2ncias de que se lembrasse, e ela referiu-as todas. e todas, eram a confirma\u00e7\u00e3o da not\u00edcia que acabava de dar; datas, pessoas, acidentes, nada discordava da mesma vers\u00e3o. Ela pr\u00f3pria apelou para os apontamentos da freguesia onde nascera a menina, e para as pessoas do lugar; que me diriam isto mesmo. Pela minha parte, n\u00e3o queria outra coisa, sen\u00e3o o desaparecimento do obst\u00e1culo e a felicidade das duas criaturas. De repente, lembrou-me do trecho do bilhete que tinha comigo, e disse-lhe que, em todo caso, mal se podia explicar a cren\u00e7a em que estava D. Ant\u00f4nia; havia por for\u00e7a uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Houve uma crian\u00e7a, interrompeu-me D. Mafalda; mas essa morreu com poucos meses.<\/p>\n<p>Tinha o bilhete na algibeira, tirei-o e reli-o; estas palavras confirmavam a vers\u00e3o da morte: &#8220;n\u00e3o pense mais no anjinho&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>D. Mafalda contou-me ent\u00e3o a circunst\u00e2ncia do nascimento da crian\u00e7a, que viveu apenas quatro meses; depois, referiu-me a longa hist\u00f3ria da paix\u00e3o da cunhada, que ela descobriu um dia, e que a pr\u00f3pria cunhada lhe confiou mais tarde, em ocasi\u00e3o de desespero.<\/p>\n<p>Tudo parecia-lhe claro e definitivo; restava agora repor as coisas no estado anterior. Mas, ao pensar nisso, adverti que, transmitida esta vers\u00e3o a D. Ant\u00f4nia, ouviria as raz\u00f5es que ela teria para a sua, e combin\u00e1-las-ia todas. Fui \u00e0 Casa Velha, e pedi a D. Ant\u00f4nia que me desse tamb\u00e9m uma confer\u00eancia particular. Desconfiada, respondeu que sim, e foi na sala dos livros, enquanto F\u00e9lix estava fora, que lhe contei o que acabava de saber.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia escutou-me a princ\u00edpio curiosa, depois ansiosa, e afinal atordoada e prostrada. N\u00e3o compreendi esse efeito; acabei, disse-lhe que a Provid\u00eancia se encarregara de levar o fruto do pecado, e nada impedia que o casamento do filho com a mo\u00e7a o fizesse esquecer a todos. Mas D. Ant\u00f4nia, agitada, n\u00e3o podia responder seguidamente. N\u00e3o entendendo esse estado, pedi que mo explicasse.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia negou-me tudo a princ\u00edpio, mas acabou confessando o que ningu\u00e9m poderia ent\u00e3o supor. Ela ignorava os amores do marido; inventara a filia\u00e7\u00e3o de Lalau com o \u00fanico fim de obstar ao casamento. Confessou tudo, francamente, alvoro\u00e7ada, sem saber de si. Creio que, se repousasse por algumas horas, n\u00e3o me diria nada; mas apanhada de supet\u00e3o, n\u00e3o duvidou expor os seus atos e motivos. A raz\u00e3o \u00e9 que o golpe recebido fora profundo. Vivera na f\u00e9 do amor conjugal; adorava a mem\u00f3ria do marido, como se pode fazer a uma santa de devo\u00e7\u00e3o \u00edntima. Tinha dele as maiores provas de constante fidelidade. Vi\u00fava, m\u00e3e de um homem, vivia da felicidade extinta e sobrevivente, respeitando morto o mesmo homem que amara vivo. E vai agora uma circunst\u00e2ncia fortuita mostrar-lhe que, inventando, acertara por outro modo, e que o que ela considerava puro na terra trouxera em si uma impureza.<\/p>\n<p>Logo que a primeira como\u00e7\u00e3o passou, D. Ant\u00f4nia disse-me com muita dignidade que o passado estava passado, que se arrependia da inven\u00e7\u00e3o, mas enfim estava meia punida. Era preciso que o castigo fosse inteiro; e a outra parte dele n\u00e3o era mais que unir os dois em casamento. Op\u00f4s-se por soberba; agora, por humildade, consentia em tudo.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f4nia, dizendo isto, forcejava por n\u00e3o chorar, mas a voz tr\u00eamula indicava que as l\u00e1grimas n\u00e3o tardavam a vir; l\u00e1grimas de vencida, duas vezes vencida, &#8211; no orgulho e no amor. Consolei-a, e pedi-lhe perd\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; De qu\u00ea? perguntou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Do que fiz. Creia que sinto o papel desastrado que o destino me confiou em tudo isto. Agora, mesmo, quando vinha alegre, supondo consertar todas as coisas, conserto-as com l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 l\u00e1grimas, disse D. Ant\u00f4nia esfregando os olhos.<\/p>\n<p>Da\u00ed a nada estava tranq\u00fcila, e pedia-me que acabasse tudo. N\u00e3o podia mais tolerar a situa\u00e7\u00e3o que ela mesma criara; tinha pressa de afogar na afei\u00e7\u00e3o sobrevivente algumas tristezas novas. Instou comigo para que fosse ter com a mo\u00e7a naquele mesmo dia, ou no outro, e que a trouxesse para a Casa Velha, mas depois de saber tudo; pedia tamb\u00e9m que me incumbisse de retificar a revela\u00e7\u00e3o feita ao filho. Ela, pela sua parte, n\u00e3o podia entrar em tais min\u00facias; eram-lhe penosas e indecentes. Esta palavra fez-me, creio eu, empalidecer; ela apressou-se em explic\u00e1-la; n\u00e3o me encarregava de coisa indigna, mas pouco ajustada entre um filho e sua m\u00e3e. Era s\u00f3 por isso.<\/p>\n<p>Aceitei a explica\u00e7\u00e3o e a incumb\u00eancia. N\u00e3o me demorei muito em p\u00f4r o filho na confid\u00eancia da verdade, contando-lhe os \u00faltimos incidentes, e a face nova da situa\u00e7\u00e3o. F\u00e9lix ouviu-me alvoro\u00e7ado; n\u00e3o queria crer, inquiria uma e muitas vezes se a verdade era realmente esta ou outra, se a tia da mo\u00e7a n\u00e3o se enganara, se a nota achada&#8230; Mas eu interrompi-o confirmando tudo.<\/p>\n<p>&#8211; E mam\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; Sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente, j\u00e1 sabe&#8230;<\/p>\n<p>Hesitei em dizer-lhe tudo o que se passara entre mim e ela; era revelar-me a inven\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, sem necessidade. Respondi-lhe que sabia tudo, porque mo dissera, que estava enganada, e estimara o desengano.<\/p>\n<p>Tudo parecia caminhar para a luz, para o esquecimento, e para o amor. Ap\u00f3s tantos desastres que este neg\u00f3cio me trouxera, ia enfim compor a situa\u00e7\u00e3o, e tinha pressa de o fazer e de os deixar felizes. Restava Lalau; fui l\u00e1 ter no dia seguinte.<\/p>\n<p>Lalau notou a minha alegria; eu, sem saber por onde come\u00e7asse, disse-lhe que efetivamente tinha uma boa not\u00edcia. Que not\u00edcia? Contei-lha com as palavras id\u00f4neas e castas que a situa\u00e7\u00e3o exigia. Acabei, referi o que se passara com D. Ant\u00f4nia, o pedido desta, a esperan\u00e7a de todos. Ela ouviu ansiosa, &#8211; a princ\u00edpio, aflita, &#8211; e no fim, quando soube a verdade retificada, deixou cair os olhos e n\u00e3o me respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, senhora, disse-lhe: o passado est\u00e1 passado.<\/p>\n<p>Lalau n\u00e3o se moveu. Como eu instasse, abanou a cabe\u00e7a; instando mais, respondeu que n\u00e3o, que nada estava alterado, a situa\u00e7\u00e3o era a mesma. Espantado da resposta, pedi-lhe que ma explicasse; ela pegou na minha m\u00e3o, e disse-me que n\u00e3o a obrigasse a falar de coisas que lhe do\u00edam.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe doem?<\/p>\n<p>&#8211; Falemos de outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Confesso que fiquei exasperado; levantei-me aborrecido e ofendido. Ela veio a mim, vivamente, pediu-me desculpa de tudo. N\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de ofensa, n\u00e3o podia t\u00ea-la; s\u00f3 podia agradecer tudo o que fizera por ela. Sabia que a estimava muito.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o compreendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Compreende, se quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Venha explicar-se com a sua velha amiga; ela lhe dir\u00e1 que estimou muito n\u00e3o ser verdadeira a sua primeira suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Para ela, creio.<\/p>\n<p>&#8211; E para todos.<\/p>\n<p>&#8211; Para mim, n\u00e3o. Seja como for, n\u00e3o poderia casar-me com o filho do mesmo homem que envergonhou minha fam\u00edlia&#8230; Perd\u00e3o; n\u00e3o falemos nisto.<\/p>\n<p>Olhei assombrado para ela.<\/p>\n<p>&#8211; Essa palavra \u00e9 de orgulho, disse-lhe no fim de alguns instantes.<\/p>\n<p>&#8211; Orgulho, n\u00e3o; eu n\u00e3o sei que coisa \u00e9 orgulho. Sei que nunca estimei tanto a ningu\u00e9m como a minha m\u00e3e. N\u00e3o lhe disse isso mesmo uma vez? Gostava muito de mam\u00e3e; era para mim na terra como Nossa Senhora no c\u00e9u. E esta santa t\u00e3o boa como a outra, esta santa \u00e9 que&#8230; N\u00e3o; perdoe-me. Orgulho? N\u00e3o \u00e9 orgulho; \u00e9 vergonha; creia que estou muito envergonhada. Sei que era estimada na Casa Velha; e seria ali feliz, se pudesse s\u00ea-lo; mas n\u00e3o posso, n\u00e3o posso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Reflita um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 refletido.<\/p>\n<p>&#8211; Reflita ainda uma noite ou duas; virei amanh\u00e3 ou depois. Repare que a sua obstina\u00e7\u00e3o pode exprimir, relativamente \u00e0 mem\u00f3ria de sua m\u00e3e, uma censura ou uma afronta&#8230;<\/p>\n<p>Lalau interrompeu-me; n\u00e3o censurava a m\u00e3e; amava-a tanto ou mais que dantes. E concluiu dizendo que, por favor, n\u00e3o fal\u00e1ssemos mais de tal assunto. Respondi-lhe que ainda lhe falaria uma vez \u00fanica; pedi-lhe que refletisse. Contei a D. Mafalda, e disse-lhe que, na minha aus\u00eancia, trabalhasse no mesmo sentido que eu.<\/p>\n<p>-Tudo deve voltar ao que era; eles gostam muito um do outro; D. Ant\u00f4nia estima-a como filha; o passado \u00e9 passado. Cuidemos agora do presente e do futuro.<\/p>\n<p>Lalau n\u00e3o cedeu nada \u00e0 tia, nem a mim. N\u00e3o cedeu nada ao filho de D. Ant\u00f4nia, que a foi visitar, e a quem n\u00e3o p\u00f4de ver sem como\u00e7\u00e3o, e grande; mas resistiu. Afinal, oito dias depois, D. Ant\u00f4nia mandou aprontar a sege, e foi busc\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Uma vez aqui, ver\u00e1 que arranjamos tudo, disse-lhe ela.<\/p>\n<p>Entrava j\u00e1 no esp\u00edrito de D. Ant\u00f4nia um pouco de amor-pr\u00f3prio ofendido com a recusa. Lalau parece que a princ\u00edpio n\u00e3o a quis acompanhar; nunca soube bem deste ponto, mas \u00e9 natural que fosse assim. Consentiu, finalmente, e foi por um s\u00f3 dia; jantou l\u00e1 e voltou \u00e0s ave-marias.<\/p>\n<p>Voltei \u00e0 casa delas, e instei novamente, ou s\u00f3 com ela, ou com a tia; ela mantinha-se no mesmo p\u00e9, e, para o fim, com alguma impaci\u00eancia. Um dia recebi recado de D. Mafalda; corri a ver o que era, disse-me que o filho do segeiro, Vitorino, fora pedi-la em casamento, e que a mo\u00e7a, consultada, respondeu que sim. Soube depois que ela mesma o incitara a faz\u00ea-lo. Compreendi que tudo estava acabado. F\u00e9lix padeceu muito com esta not\u00edcia; mas nada h\u00e1 eterno neste mundo, e ele pr\u00f3prio acabou casando com Sinhazinha. Se ele e Lalau foram felizes, n\u00e3o sei; mas foram honestos, e basta.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.biblio.com.br<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis CAP\u00cdTULO I ANTES E DEPOIS DA MISSA Aqui est\u00e1 o que contava, h\u00e1 muitos anos, um velho c\u00f4nego da Capela Imperial: &#8211; N\u00e3o desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no m\u00eas de abril de 1839. Tinha-me dado na cabe\u00e7a escrever uma obra pol\u00edtica, a hist\u00f3ria do reinado de D. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-120218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-04-20T21:21:17+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"121 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Casa Velha\",\"datePublished\":\"2017-04-20T21:21:17+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha\"},\"wordCount\":24283,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha\",\"name\":\"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-04-20T21:21:17+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/casa-velha#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Casa Velha\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha","description":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha","og_description":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-04-20T21:21:17+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"121 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Casa Velha","datePublished":"2017-04-20T21:21:17+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha"},"wordCount":24283,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha","name":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa Casa Velha","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-04-20T21:21:17+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Casa Velha, Machado de Assis, Obra Completa, Poesia, Poema, Casa Velha","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-velha#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Casa Velha"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120218"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120218\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}