{"id":120214,"date":"2017-04-20T18:50:51","date_gmt":"2017-04-20T20:50:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120214"},"modified":"2017-04-20T18:50:51","modified_gmt":"2017-04-20T20:50:51","slug":"a-semana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-semana","title":{"rendered":"A Semana"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<p>1892<\/p>\n<p>[98]<\/p>\n<p>[24 abril]<\/p>\n<p>NA SEGUNDA-FEIRA da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada, mas o nome de problema d\u00e1 dignidade, e excita para logo a aten\u00e7\u00e3o dos leitores austeros. Sou como as atrizes, que j\u00e1 n\u00e3o fazem benef\u00edcio, mas festa art\u00edstica. A cousa \u00e9 a mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em n\u00famero, seja em pre\u00e7o; o resto, com\u00e9dia, drama, opereta, uma polca entre dous atos, uma poesia, v\u00e1rias ramalhetes, lampi\u00f5es fora, e os colegas em grande gala, oferecendo em cena o retrato \u00e0 beneficiada.<\/p>\n<p>Tudo pede certa eleva\u00e7\u00e3o. Conheci dous velhos estim\u00e1veis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa art\u00edstica. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por servi\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons servi\u00e7os. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: &#8220;Caro major!&#8221; -&#8220;Pronto, comendador!&#8221; \u2014 Variavam \u00e0s vezes: \u2014 &#8220;Caro comendador!&#8221; -&#8220;A\u00ed vou, Major&#8221; . Tudo pede certa eleva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ir mais longe. Tiradentes. Aqui est\u00e1 um exemplo. Tive-mos esta semana o centen\u00e1rio do grande m\u00e1rtir. A pris\u00e3o do her\u00f3ico alferes \u00e9 das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste pa\u00eds, se h\u00e1 nele patriotismo, ou se esse patriotismo \u00e9 outra cousa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos Estados est\u00e3o vindo boas not\u00edcias. O instinto popular, de acordo com o exame da raz\u00e3o, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ra\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria. Merecem, decerto, a nossa estima\u00e7\u00e3o aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que s\u00f3 ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado. o decapitado, esse tem de receber o pr\u00eamio na propor\u00e7\u00e3o do mart\u00edrio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.<\/p>\n<p>Um dos oradores do dia 21 observou que se a Inconfid\u00eancia tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, n\u00e3o para o alferes. Pois n\u00e3o \u00e9 muito que, n\u00e3o tendo vencido, a hist\u00f3ria lhe d\u00ea a prin-cipa1 cadeira. A distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 justa. Os outros t\u00eam ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Oce\u00e2nides diante de Prometeu encadeado. Relede \u00c9squilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terr\u00edveis, quando o grande tit\u00e3o \u00e9 envolvido na conflagra\u00e7\u00e3o geral das cousas.<\/p>\n<p>Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu narrando os seus crimes \u00e0s ninfas amadas: &#8220;Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinar\u00e1 todas as artes&#8221;. Foi o que nos fez Tiradentes.<\/p>\n<p>Entretanto, o alferes Joaquim Jos\u00e9 tem ainda contra si uma cousa a alcunha. H\u00e1 pessoas que o amam, que o admiram, patri\u00f3ticas e humanas, mas que n\u00e3o podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trar\u00e1 a familiaridade do nome e a harmonia das s\u00edlabas; imaginemos, por\u00e9m, que o alferes tem podido galgar pela imagina\u00e7\u00e3o um s\u00e9culo e despachar-se cirurgi\u00e3o \u2014 dentista. Era o mesmo her\u00f3i, e o of\u00edcio era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser at\u00e9 que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgi\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, um rapaz\u2014por sinal que bonito\u2014estava para casar com uma linda mo\u00e7a\u2014a aprazimento de todos, pais e m\u00e3es, irm\u00e3os, tios e primos. Mas o noivo demorava o cons\u00f3rcio; adiava de um s\u00e1bado para outro, depois quinta-feira, logo ter\u00e7a, mais tarde s\u00e1bado;\u2014dou meses de espera. Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou \u00e0 mulher os seus receios. Talvez o rapaz n\u00e3o quisesse casar. A sogra, que antes de o ser j\u00e1 era, pegou o pau moral, e foi ter com o esquisito genro. Que hist\u00f3rias eram aquelas de adiamento?<\/p>\n<p>\u2014Perd\u00e3o, minha senhora, \u00e9 uma nobre e alta raz\u00e3o; espero apenas . . .<\/p>\n<p>\u2014Apenas&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014Apenas o meu t\u00edtulo de agrimensor.<\/p>\n<p>\u2014De agrimensor? Mas quem lhe diz que minha filha precisa do seu of\u00edcio para comer? Case, que n\u00e3o morrer\u00e1 de fome; o t\u00edtulo vir\u00e1 depois.<\/p>\n<p>\u2014Perd\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 pelo t\u00edtulo de agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. L\u00e1 na ro\u00e7a d\u00e1-se ao agrimensor, por cortesia, o t\u00edtulo de doutor, e eu quisera casar j\u00e1 doutor . . .<\/p>\n<p>Sogra, sogro, noiva, parentes, todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moco. Em boa hora o fizeram. Dali a tr\u00eas meses recebia o noivo os t\u00edtulos de agrimensor, de doutor e de marido.<\/p>\n<p>Daqui ao caso eleitoral \u00e9 menos que um passo; mas, n\u00e3o entendendo eu de pol\u00edtica, ignoro se a aus\u00eancia de t\u00e3o grande parte do eleitorado na elei\u00e7\u00e3o do dia 20 quer dizer descren\u00e7a, como afirmam uns, ou absten\u00e7\u00e3o como outros juram. A descren\u00e7a \u00e9 fen\u00f4meno alheio \u00e0 vontade do eleitor: a absten\u00e7\u00e3o \u00e9 prop\u00f3sito. H\u00e1 quem n\u00e3o veja em tudo isto mais de ignor\u00e2ncia do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patr\u00edcios. O que sei, \u00e9 que fui \u00e0 minha se\u00e7\u00e3o para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e of\u00edcios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os mes\u00e1rios n\u00e3o tinham sido avisados e os eleitores eram cinco. Discutimos a quest\u00e3o de saber o que \u00e9 que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinha\u00e7\u00e3o de segunda-feira. Dividiram-se as opini\u00f5es; uns foram pelo ovo outros pela galinha; o pr\u00f3prio galo teve um voto. Os candidatos \u00e9 que n\u00e3o tiveram nem um, porque os mes\u00e1rios n\u00e3o vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:<\/p>\n<p>Sara, belle d&#8217;indolence,<br \/>\nSe balance<br \/>\nDans un hamac&#8230;<\/p>\n<p>[99]<\/p>\n<p>[19 junho]<\/p>\n<p>O BANCO INICIADOR de Melhoramentos acaba de iniciar um melhoramento, que vem mudar essencialmente a composi\u00e7\u00e3o das atas das assembl\u00e9ias gerais de acionistas.<\/p>\n<p>Estes documentos (toda a gente o sabe) s\u00e3o o resumo das delibera\u00e7\u00f5es dos acionistas, quer dizer uma narra\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, em estilo indireto e seco, do que se passou entre eles, relativamente ao objeto que os congregou. N\u00e3o d\u00e3o a menor sensa\u00e7\u00e3o dos movimentos e da vida dos debates. As narra\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, quando se regem por esse processo, podem vencer o t\u00e9dio, \u00e0 for\u00e7a de talento, mas \u00e9 evidentemente melhor que as cousas e pessoas se exponham por si mesmas, dando-se a palavra a todos, e a cada um a sua natural linguagem.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o melhoramento a que aludo. A ata que aquela associa\u00e7\u00e3o publicou esta semana, \u00e9 um modelo novo, de extraordin\u00e1rio efeito. Nada falta do que se disse, e pela boca de quem disse, \u00e0 maneira dos debates congressionais.\u2014&#8221;Pe\u00e7o a palavra pela ordem&#8221;\u2014&#8221;Est\u00e1 encerrada a discuss\u00e3o e vai-se proceder \u00e0 vota\u00e7\u00e3o. Os senhores que aprovam queiram ficar sentados.&#8221; Tudo assim, qual se passou, se ouviu, se replicou e se acabou.<\/p>\n<p>E basta um exemplo para mostrar a vantagem da reforma. Tratando-se de resolver sobre o balan\u00e7o, consultou o presidente \u00e0 assembl\u00e9ia se a vota\u00e7\u00e3o seria por a\u00e7\u00f5es, ou n\u00e3o. Um s\u00f3 acionista adotou a afirmativa; e tanto bastava para que os votos se contassem por a\u00e7\u00f5es, como declarou o presidente, mas outro acionista pediu a palavra pela ordem. &#8220;Tem a palavra pela ordem.&#8221; E o acionista: &#8220;Pe\u00e7o a V. Ex.a Sr. Presidente, que consulte ao Sr. acionista que se levantou, se ele desiste, visto que a vota\u00e7\u00e3o por a\u00e7\u00f5es, exigindo a chamada, tomar\u00e1 muito tempo&#8221;. Consultado o divergente, este desistiu, e a vota\u00e7\u00e3o se fez per capita. Assim ficamos sabendo que o tempo \u00e9 a causa da supress\u00e3o de certas formalidades exteriores; e assim tamb\u00e9m vemos que cada um, desde que a mat\u00e9ria n\u00e3o seja essencial, sacrifica facilmente o seu parecer em benef\u00edcio comum.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 se corromperem este uso, e se come\u00e7arem a fazer das sociedades pequenos parlamentos. Ser\u00e1 um desastre. N\u00f3s pecamos pelo ruim gosto de esgotar todas as novidades. Uma frase, uma f\u00f3rmula, qualquer cousa, n\u00e3o a deixamos antes de posta em molambo. Casos h\u00e1 em que a pr\u00f3pria refer\u00eancia cr\u00edtica ao abuso perde a gra\u00e7a que tinha, \u00e0 for\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o; e quando um homem quer passar por ins\u00edpido (o interesse toma todas as formas), alude a uma dessas chatezas p\u00fablicas. Assim morrem afinal os usos, os costumes, as institui\u00e7\u00f5es, as sociedades, o bom e o mau. Assim morrer\u00e1 o universo, se se n\u00e3o renovar freq\u00fcentemente.<\/p>\n<p>Quando, por\u00e9m, acabar\u00e1 o nome que encima estas linhas? N\u00e3o sei quem foi o primeiro que comp\u00f4s esta frase, depois de escrever no alto do artigo o nome de um cidad\u00e3o. Quem inventou a p\u00f3lvora? Quem inventou a imprensa, descontando Gutenberg, porque os chins a conheciam? Quem inventou o bocejo, excluindo naturalmente o Criador, que, em verdade, n\u00e3o h\u00e1 de ter visto sem algum t\u00e9dio as impaci\u00eancias de Eva? Sim, pode ser que na alta mente divina estivesse j\u00e1 o primeiro cons\u00f3rcio e a conseq\u00fcente humanidade. Nada afirmo, porque me falta a devida autoridade teol\u00f3gica; uso da forma dubitativa. Entretanto, nada mais poss\u00edvel que a Cria\u00e7\u00e3o trouxesse j\u00e1 em g\u00e9rmen uma longa esp\u00e9cie superior, destinada a viver num eterno para\u00edso.<\/p>\n<p>Eva \u00e9 que atrapalhou tudo. E da\u00ed, razoavelmente, o primeiro bocejo.<\/p>\n<p>\u2014Como esta esp\u00e9cie corresponde j\u00e1 \u00e0 sua \u00edndole! diria Deus consigo. H\u00e1 de ser assim sempre, impaciente, incapaz de esperar a hora pr\u00f3pria. Nunca os rel\u00f3gios, que h\u00e1 de inventar, andar\u00e3o todos certos. Por um exato, contar-se-\u00e3o milh\u00f5es divergentes, e a casa em que dous marearem o mesmo minuto. n\u00e3o apresentar\u00e1 igual fen\u00f4meno vinte e quatro horas depois. Esp\u00e9cie inquieta, que formar\u00e1 reinos para devor\u00e1-los, rep\u00fablicas para dissolv\u00ea-las, democracias, aristocracias, oligarquias, plutocracias, autocracias, para acabar com elas, \u00e0 procura do \u00f3timo, que n\u00e3o achar\u00e1 nunca.<\/p>\n<p>E, bocejando outra vez, ter\u00e1 Deus acrescentado:<\/p>\n<p>\u2014 O bocejo, que em mim \u00e9 o sinal do fastio que me d\u00e1 este espet\u00e1culo futuro, tamb\u00e9m a esp\u00e9cie humana o ter\u00e1, mas por impaci\u00eancia. O tempo lhe parecer\u00e1 a eternidade. Tudo que lhe durar mais de algumas horas, dias, semanas, meses ou anos (porque ela dividir\u00e1 o tempo e inventar\u00e1 almanaques, h\u00e1 de torn\u00e1-la impaciente de ver outra cousa e desfazer o que acabou de fazer, \u00e0s vezes antes de o ter acabado.<\/p>\n<p>Compreender\u00e1 as vacas gordas, porque a gordura d\u00e1 que comer, mas n\u00e3o entender\u00e1 as vacas magras; e n\u00e3o saber\u00e1 (exceto no Egito, onde porei um mancebo chamado Jos\u00e9) encher os celeiros dos anos gra\u00fados, para acudir \u00e0 pen\u00faria dos anos mi\u00fados. Falar\u00e1 muitas l\u00ednguas, beresith, anank\u00e9, habeas corpus, sem se fixar de vez em uma s\u00f3, e quando chegar a entender que uma l\u00edngua \u00fanica \u00e9 precisa, e inventar o volapuk, sucessor do parlamentarismo, ter\u00e1 come\u00e7ado a decad\u00eancia e a transforma\u00e7\u00e3o. Pode ser ent\u00e3o que eu povoe o mundo de can\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas se assim explicarmos o primeiro bocejo divino, como acharmos o primeiro bocejo humano? Trevas tudo. O mesmo se d\u00e1 com o nome que encima estas linhas. Nem me lembra em que ano apareceu a f\u00f3rmula. Bonita era, e o verbo encimar n\u00e3o era feio. Entrou a reproduzir-se de um modo infinito. Toda a gente tinha um nome que encimar algumas linhas. N\u00e3o havia anivers\u00e1rio, nomea\u00e7\u00e3o, embarque, desembarque, esmola, inaugura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia nada que n\u00e3o inspirasse algumas linhas a algu\u00e9m, \u2014 \u00e0s vezes com o maior fim de encim\u00e1-las por um nome. Como era natural, a f\u00f3rmula foi-se gastando\u2014mas gastando pelo mesmo modo por que se gastam os sapatos econ\u00f4micos, que envelhecem tarde. E todos os nomes do calend\u00e1rio foram encimando todas as linhas; depois, repetiram-se:<\/p>\n<p>Si cette histoire vous emb\u00eate<br \/>\nNous allons la recommencer.<\/p>\n<p>[100]<\/p>\n<p>[26 junho]<\/p>\n<p>&#8221;O MINIST\u00c9RIO grego pediu demiss\u00e3o. O Sr. Tricoupis foi encarregado de organizar novo minist\u00e9rio, que ficou assim composto: Tricoupis, presidente do conselho e Ministro da Fazenda&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Basta! N\u00e3o, n\u00e3o reproduzo este telegrama, que teve mais poder em mim que toda a mole de acontecimentos da semana. O minist\u00e9rio grego pediu demiss\u00e3o! Certo, os minist\u00e9rios s\u00e3o organizados para se demitirem e os minist\u00e9rios gregos n\u00e3o podem ser, neste ponto, menos minist\u00e9rios que todos os outros minist\u00e9rios. Mas, por V\u00eanus! foi para isso que arrancaram a velha terra \u00e0s m\u00e3os turcas? Foi para isso que os poetas a cantaram, em plena manh\u00e3 do s\u00e9culo, Byron, Hugo, o nosso Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, autor da bela &#8220;Ode aos Gregos&#8221;? &#8220;Sois helenos! sois homens!&#8221; conclui uma de suas estrofes. Homens creio, porque \u00e9 pr\u00f3prio de homens formar minist\u00e9rios; mas helenos<\/p>\n<p>Sombra de Arist\u00f3teles, espectro de Licurgo, de Draco, de S\u00f3lon, e tu, justo Aristides, apesar do ostracismo, e todos v\u00f3s, legisladores, chefes de governo ou de ex\u00e9rcito, fil\u00f3sofos, pol\u00edticos, acaso sonhastes jamais com esta imensa banalidade de um gabinete que pede demiss\u00e3o? Onde est\u00e3o os homens de Plutarco? Onde v\u00e3o os deuses de Homero? Que \u00e9 dos tempos em que Asp\u00e1sia ensinava ret\u00f3rica aos oradores?\u2014 Tudo, tudo passou. Agora h\u00e1 um parlamento, um rei, um gabinete e um presidente de conselho, o Sr. Tricoupis, que ficou com a pasta da Fazenda. Ouves bem, sombra de P\u00e9ricles? Pasta da Fazenda. E notai mais que todos esses movimentos pol\u00edticos se fazem, metidos os homens em casacas pretas, com sapatos de verniz ou cordov\u00e3o, ao cabo de mo\u00e7\u00f5es de desconfian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Oh! mil vezes a domina\u00e7\u00e3o turca! Horr\u00edvel, decerto, mas pitoresca. Aqueles pax\u00e1s, perseguidores do giaour, eram deliciosos de poesia e terror. Vede se a Turquia atual j\u00e1 aceitou minist\u00e9rios. Um gr\u00e3o-vizir, nomeado pelo padix\u00e1, e alguns ajudantes, tudo sem c\u00e2mara, nem votos. A R\u00fassia tamb\u00e9m est\u00e1 livre da lepra ocidental. Tem o niilismo, \u00e9 verdade; mas n\u00e3o tem o bimetalismo, que passou da Am\u00e9rica \u00e0 Europa, onde come\u00e7a a grassar com intensidade. O niilismo possui a vantagem de matar logo. E depois \u00e9 misterioso, dram\u00e1tico, \u00e9pico, l\u00edrico, todas as formas da poesia. Um homem esta jantando tranq\u00fcilo, entre uma senhora e uma pilh\u00e9ria, deita a pilh\u00e9ria \u00e0 senhora, e, quando vai a erguer um brinde&#8230; estala uma bomba de dinamite. Adeus, homem tranq\u00fcilo: adeus, pilh\u00e9ria; adeus, senhora. n violento; mas o bimetalismo \u00e9 pior.<\/p>\n<p>Do bimetalismo ao nosso velho amigo pluripapelismo n\u00e3o \u00e9 curta a distancia, mas daqui ao cambio \u00e9 um passo; pode parecer at\u00e9 que n\u00e3o falei do primeiro sen\u00e3o para dar a volta ao mundo. Engano manifesto. Hoje s\u00f3 trato de telegramas, que a\u00ed est\u00e3o de sobra, norte e sul. Aqui v\u00eam alguns de Pernambuco, dizendo que as intend\u00eancias municipais tamb\u00e9m est\u00e3o votando mo\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a e desconfian\u00e7a pol\u00edtica. Haver\u00e1 quem as censure; eu compreendo-as at\u00e9 certo ponto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, ou desconfian\u00e7a no passado reg\u00edmen, era uma ambrosia dos deuses centrais. Era aqui na C\u00e2mara dos Deputados, que um honrado membro, quando desconfiava do governo pedia a palavra ao presidente, e, obtida a palavra, erguia-se. Curto ou extenso, mas geralmente t\u00e9trico, proferia um discurso em que resumia todos os erros e crimes do minist\u00e9rio, e acabava sacando um papel do bolso. Esse papel era a mo\u00e7\u00e3o. De confid\u00eancias que recebi, sei que h\u00e1 poucas sensa\u00e7\u00f5es na vida iguais \u00e0 que tinha o orador, quando sacava o papel do bolso. A alguns tremiam os dedos. Os olhos percorriam a sala, depois baixavam ao papel e liam o conte\u00fado. Em seguida a mo\u00e7\u00e3o era enviada ao presidente, e o orador descia da tribuna, isto \u00e9, das pernas que s\u00e3o a \u00fanica tribuna que h\u00e1 no nosso parlamento, n\u00e3o contando uns dous p\u00falpitos que l\u00e1 puseram uma vez, e n\u00e3o serviram para nada.<\/p>\n<p>A\u00ed t\u00eam o que era a mo\u00e7\u00e3o. Nunca as assembl\u00e9ias provinciais tiveram esse regalo; menos ainda as tristes c\u00e2maras municipais. Mudado o reg\u00edmen, acabou a mo\u00e7\u00e3o; mas, n\u00e3o se morre por decreto. A mo\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 vive ainda, mas passou dos deuses centrais aos semideuses locais, e viver\u00e1 algum tempo, at\u00e9 que acabe de todo, se acabar algum dia. O caso grego \u00e9 sintom\u00e1tico; o caso japon\u00eas n\u00e3o menos. H\u00e1 mo\u00e7\u00f5es japonesas. Quando as houver chinesas, chegou o fim do mundo; n\u00e3o haver\u00e1 mais que fechar as malas e ir para o diabo.<\/p>\n<p>Outro telegrama conta-nos que alguns clavinoteiros de Canavieiras (Bahia) foram a uma vila pr\u00f3xima e arrebataram duas mo\u00e7as. A gente da vila ia armar-se e assaltar Canavieiras. Parece nada, e \u00e9 Homero; \u00e9 ainda mais que Homero, que s\u00f3 contou o rapto de uma Helena: aqui s\u00e3o duas. Essa luta obscura, escondida no interior da Bahia, foi singular contraste com a outra que se trava no Rio Grande do Sul, onde a causa n\u00e3o \u00e9 uma, nem duas Helenas, mas um s\u00f3 governo pol\u00edtico. Apuradas as contas, vem a dar nesta velha verdade que o amor e o poder s\u00e3o as duas for\u00e7as principais da terra. Duas vilas disputam a posse de duas mo\u00e7as; Bag\u00e9 luta com Porto Alegre pelo direito do mando. \u00c9 a mesma Il\u00edada.<\/p>\n<p>Dizem telegramas de S. Paulo que foi ali achado, em certa casa que se demolia, um esqueleto algemado. N\u00e3o tenho amor a esqueletos; mas este esqueleto algemado diz-me alguma cousa, e \u00e9 dif\u00edcil que eu o mandasse embora, sem tr\u00eas ou quatro perguntas. Talvez ele me contasse uma hist\u00f3ria grave, longa e naturalmente triste, por-que as algemas n\u00e3o s\u00e3o alegres. Alegres eram umas m\u00e1scaras de lata que vi em pequeno na cara de escravos dados \u00e0 cacha\u00e7a; alegres ou grotescas, n\u00e3o sei bem, porque l\u00e1 v\u00e3o muitos anos, e eu era t\u00e3o crian\u00e7a, que n\u00e3o distinguia bem. A verdade \u00e9 que as m\u00e1scaras faziam rir, mais que as do recente carnaval. O ferro das algemas, sendo mais duro que a lata, a hist\u00f3ria devia ser mais sombria.<\/p>\n<p>H\u00e1 um telegrama&#8230; Diabo! acabou-se o espa\u00e7o, e ainda aqui tenho uma d\u00fazia. Cesta com eles! V\u00e3o para onde foi a quest\u00e3o do benzimento da bandeira, os guarda-livros que fogem levando a caixa (outro telegrama), e o resto dos restos, que n\u00e3o dura mais de uma semana, nem tanto. V\u00e3o para onde j\u00e1 foi esta cr\u00f4nica. Fale o leitor a sua verdade. e diga-me se lhe ficou alguma cousa do que acabou de ler. Talvez uma s\u00f3, a palavra clavinoteiros, que parece exprimir um costume ou um of\u00edcio. C\u00e1 vai para o vocabul\u00e1rio.<\/p>\n<p>[101]<\/p>\n<p>[3 julho]<\/p>\n<p>NA V\u00c9SPERA de S. Pedro, ouvi tocar os sinos. Poucos minutos depois, passei pela igreja do Carmo, catedral provis\u00f3ria, ouvi o cantoch\u00e3o e orquestra; entrei. Quase ningu\u00e9m. Ao fundo, os ilustr\u00edssimos prebendados, em suas cadeiras e bancos, vestidos daquele roxo dos c\u00f4negos e monsenhores, t\u00e3o meu conhecido . Cantavam louvores a S. Pedro. Deixei-me estar ali alguns minutos escutando e dando gra\u00e7as ao pr\u00edncipe dos ap\u00f3stolos por n\u00e3o haver na igreja do Carmo um carrilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Explico-me. Eu fui criado com sinos, com estes pobres sinos das nossas igrejas. Quando um dia li o cap\u00edtulo dos sinos em Chateaubriand, tocaram-me tanto as palavras daquele grande esp\u00edrito. que me senti (desculpem a express\u00e3o) um Chateaubriand desencarnado e reencarnado. Assim se diz na igreja esp\u00edrita. Ter desencarnado quer dizer tirado (o esp\u00edrito) da carne, e reencarnado quer dizer metido outra vez na carne. A lei \u00e9 esta: nascer, morrer, tornar a nascer e renascer ainda, progredir scmprc.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m notar que a desencarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o se opera como nas outras religi\u00f5es, em que a alma sai toda de uma vez. No espiritismo, h\u00e1 ainda um esfor\u00e7o humano, uma cerim\u00f4nia, para ajudar a sair o resto. N\u00e3o se morre ali com esta facilidade ordin\u00e1ria, que nem merece o nome de morte. Ningu\u00e9m ignora que h\u00e1 caso de inuma\u00e7\u00f5es de pessoas meio vivas. A regra esp\u00edrita, por\u00e9m, de auxiliar por palavras, gestos e pensamentos a desencarna\u00e7\u00e3o impede que um supro de alma fique metido no inv\u00f3lucro mortal.<\/p>\n<p>Posso afirmar o que a\u00ed fica, porque sei. S\u00f3 o que eu n\u00e3o sei, \u00e9 se os sacerdotes esp\u00edritas s\u00e3o como os br\u00e2manes, seus av\u00f3s. Os br\u00e2manes&#8230; N\u00e3o, o melhor \u00e9 dizer isto por linguagem cl\u00e1ssica. Aqui est\u00e1 como se exprime um velho autor: &#8220;Tanto que um dos pensamentos por que os br\u00e2manes t\u00eam tamanho respeito \u00e0s vacas, \u00e9 por haverem que no corpo desta alim\u00e1ria fica uma alma melhor agasalhada que em nenhum outro, depois que sai do humano; e assim p\u00f5em sua maior bem-aventuran\u00e7a em os tomar a morte com as m\u00e3os nas ancas de uma vaca, esperando se recolha logo a alma nela.&#8221;<\/p>\n<p>Ah! se eu ainda vejo um amigo meu, sacerdote esp\u00edrita, metido dentro de uma vaca, e um homem, n\u00e3o desencarnado, a vender-lhe o leite pelas ruas, seguidos de um bezerro magro&#8230; N\u00e3o; lembra-me agora que n\u00e3o pode ser, porque o princ\u00edpio esp\u00edrita n\u00e3o \u00e9 o mesmo da transmigra\u00e7\u00e3o, em que as almas dos valentes v\u00e3o para os corpos dos le\u00f5es, a dos fracos para os das galinhas, a dos astutos para os das raposas, e assim por diante. O princ\u00edpio esp\u00edrita \u00e9 fundado no progresso. Renascer, progredir sempre; tal \u00e9 a lei. O renascimento \u00e9 para melhor. Cada esp\u00edrita, em se desencarnando, vai para os mundos superiores.<\/p>\n<p>Entretanto, pergunto eu: n\u00e3o se dar\u00e1 o progresso, algumas vezes. na pr\u00f3pria terra? Citarei um fato. Conheci h\u00e1 anos um velho, bastante alquebrado e assaz culto, que me afirmava estar na segunda encarna\u00e7\u00e3o. Antes disso, tinha existido no corpo de um soldado romano, e, como tal, havia assistido \u00e0 morte de Cristo. Referia-me tudo, e at\u00e9 circunst\u00e2ncias que n\u00e3o constam das escrituras. Esse bom velho n\u00e3o falava da terceira e pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o sem grande alegria, pela certeza que tinha de que lhe caberia um grande cargo. Pensava na coroa da Alemanha&#8230; E quem nos pode afirmar que o Guilherme II. que a\u00ed est\u00e1, n\u00e3o seja ele? H\u00e1, repetimos, cousas na vida que \u00e9 mais acertado crer que desmentir; e quem n\u00e3o puder \u2014 crer, que se cale.<\/p>\n<p>Voltemos ao carrilh\u00e3o. J\u00e1 referi que entrara na igreja, n\u00e3o contei; mas entende-se, que na igreja n\u00e3o entram revolu\u00e7\u00f5es, por isso n\u00e3o falo da do Rio Grande do Sul. Pode entrar a anarquia, \u00e9 verdade, como a daquele singular p\u00e1roco da Bahia, que, mandado calar e declarado suspenso de ordens, segundo dizem telegramas, n\u00e3o obedece, n\u00e3o se cala, e continua a paroquiar. Os clavinoteiros tamb\u00e9m n\u00e3o entram; por isso amea\u00e7am Porto Seguro, conforme outros telegramas. N\u00e3o entram discursos parlamentares, nem lutas \u00edtalo \u2014 santistas, nem aux\u00edlios \u00e0s ind\u00fastrias, nem nada. H\u00e1 ali um ref\u00fagio contra os tumultos exteriores e contra os boatos, que recome\u00e7am. Voltemos ao carrilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Criado, como ia dizendo, com os pobres sinos das nossas igrejas, n\u00e3o provei at\u00e9 certa idade as aventuras de um carrilh\u00e3o. Ouvia falar de carrilh\u00e3o, como das ilhas Filipinas, uma cousa que eu nunca havia de ver nem ouvir.<\/p>\n<p>Um dia, anuncia-se a chegada de um carrilh\u00e3o. T\u00ednhamos carrilh\u00e3o na terra. Outro dia, indo a passar por uma rua, ou\u00e7o uns sons alegres e animados. Conhecia a toada, mas n\u00e3o lembrava a letra.<\/p>\n<p>Perguntei a um menino, que me indicou a igreja pr\u00f3xima e disse&#8211;me que era o carrilh\u00e3o. E, n\u00e3o contente com a resposta, p\u00f4s a letra na m\u00fasica: era o Amor Tem Fogo. Geralmente, n\u00e3o dou f\u00e9 a crian\u00e7as. Fui a um homem que estava \u00e0 porta de uma loja e o homem confirmou o caso, e cantou do mesmo modo; depois calou-se e disse convencidamente: parece incr\u00edvel como se possa, sem o prest\u00edgio do teatro, as saias das mulheres, os requebrados, etc., dar uma impress\u00e3o t\u00e3o exata da opereta. Feche os olhos, ou\u00e7a-me a mim e ao carrilh\u00e3o, e diga-me se n\u00e3o ouve a opereta em carne e osso:<\/p>\n<p>Amor tem fogo,<br \/>\nTem fogo amor.<\/p>\n<p>\u2014 Carne sem osso, meu rico senhor, carne sem osso.<\/p>\n<p>[102]<\/p>\n<p>[10 julho]<\/p>\n<p>S. PEDRO, ap\u00f3stolo da circuncis\u00e3o, e S. Paulo, ap\u00f3stolo de outra cousa, que a Igreja Cat\u00f3lica traduziu por gentes, e que n\u00e3o \u00e9 preciso dizer pelo seu nome, dominaram tudo esta semana. Eu, quando vejo um ou dous assuntos puxarem para si todo o cobertor da aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica, deixando os outros ao relento, d\u00e1-me vontade de os meter nos bastidores, trazendo \u00e0 cena t\u00e3o-somente a arraia-mi\u00fada, as pobres ocorr\u00eancias de nada, a velha anedota, o sopapo casual, o furto, a facada an\u00f4nima, a estat\u00edstica mortu\u00e1ria, as tentativas de suic\u00eddio. O cocheiro que foge, o notici\u00e1rio, em suma.<\/p>\n<p>\u00c9 que eu sou justo, e n\u00e3o posso ver o fraco esmagado pelo forte. Al\u00e9m disso, nasci com certo orgulho, que j\u00e1 agora h\u00e1 de morrer comigo. N\u00e3o gosto que os fatos nem os homens se me imponham por si mesmos. Tenho horror a toda superioridade. Eu \u00e9 que os hei de enfeitar com dous ou tr\u00eas adjetivos, uma reminisc\u00eancia cl\u00e1ssica, e os mais gal\u00f5es de estilo. Os fatos, eu \u00e9 que os hei de declarar transcendentes; os homens, eu \u00e9 que os hei de aclamar extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Da\u00ed o meu amor \u00e0s chamadas chapas. Orador que me quiser ver aplaudi-lo, h\u00e1 de empregar dessas belas frases feitas, que, j\u00e1 estando em mim, ecoam de tal maneira, que me parece que eu \u00e9 que sou o orador. Ent\u00e3o, sim, senhor, todo eu sou m\u00e3os, todo eu sou boca, para bradar e palmear. Bem sei que n\u00e3o \u00e9 chapisca quem quer. A educa\u00e7\u00e3o faz bons chapiscas, mas n\u00e3o os faz sublimes. Aprendem-se as chapas, \u00e9 verdade, como Rafael aprendeu as tintas e os pinc\u00e9is; mas s\u00f3 a voca\u00e7\u00e3o faz a Madona e um grande discurso. Todos podem dizer que &#8220;a liberdade \u00e9 como a f\u00eanix, que renasce das pr\u00f3prias cinzas&#8221;; mas s\u00f3 o chapisca sabe acomodar esta frase em fina moldura. Que dificuldade h\u00e1 em repetir que &#8220;a imprensa, como a lan\u00e7a de T\u00e9lefo, cura as feridas que faz&#8221;? Nenhum; mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de ter facilidade, \u00e9 de ter gra\u00e7a. E depois, se h\u00e1 chapas anteriores, frases servidas, id\u00e9ias enxovalhadas, h\u00e1 tamb\u00e9m (e nisto se conhece o g\u00eanio) muitas frases que nunca ningu\u00e9m proferiu, e nascem j\u00e1 com cabelos brancos. Esta inven\u00e7\u00e3o de chapas originais distingue mais positivamente o chapisca nato do chapisca por educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltemos aos ap\u00f3stolos. Que direito tinha S. Pedro de dominar os acontecimentos da semana? Estava escrito que ele negaria tr\u00eas vezes o divino Mestre, antes de cantar o galo. Cantou o galo, quando acabava de o negar pela terceira vez, e reconheceu a verdade da profecia. Quanto a S. Paulo, tendo ensinado a palavra divina \u00e0s igrejas de Sic\u00edlia, de G\u00eanova e de N\u00e1poles, viu que alguns a sublevaram para torn\u00e1-las ao pecado (ou para outra cousa), e lan\u00e7ou uma daquelas suas ep\u00edstolas exortativas; concluindo tudo por ser levado o conflito a Roma e a Jerusal\u00e9m, onde os magistrados e doutores da lei estudavam a verdade das cousas.<\/p>\n<p>S\u00e3o neg\u00f3cios graves, convenho; mas h\u00e1 outros que, por serem leves, n\u00e3o merecem menos. Na C\u00e2mara dos Deputados, por exemplo, deu-se uma pequena diverg\u00eancia. de que apenas tive vaga not\u00edcia, por n\u00e3o poder ler, como n\u00e3o posso escrever; o que os senhores est\u00e3o lendo, vai saindo a olhos fechados. Ah! meus caros amigos! Ando com uma vista (isto \u00e9 grego; em portugu\u00eas diz-se um olho) muito inflamada, a ponto de n\u00e3o poder ler nem escrever. Ouvi que na C\u00e2mara surdiu diverg\u00eancia entre a maioria e a minoria, por causa da anistia. A quest\u00e3o rimava nas palavras, mas n\u00e3o rimava nos esp\u00edritos. Da\u00ed confus\u00e3o, difus\u00e3o, absten\u00e7\u00e3o. Dizem que um jornal chamou ao caso um beco sem sa\u00edda; mas um amigo meu (pessoa dada a aventuras amorosas) diz-me que todo beco tem sa\u00edda; em caso de fuga, salta-se por cima do muro, trepa-se ao morro pr\u00f3ximo, ou cai-se do outro lado. Coragem e pernas. N\u00e3o entendi nada.<\/p>\n<p>A falta de olhos \u00e9 tudo. Quando a gente l\u00ea por olhos estranhos entende mal as cousas. Assim \u00e9 que, por telegrama, sabe-se aqui haver o governador de um Estado presidido \u00e0 extra\u00e7\u00e3o da loteria; depois, supus que o ato fora praticado para o fim de inspirar confian\u00e7a aos compradores de bilhetes.<\/p>\n<p>\u2014 A segunda hip\u00f3tese \u00e9 a verdadeira, acudiu o amigo que me lia os jornais. N\u00e3o v\u00ea como as ag\u00eancias s\u00e9rias s\u00e3o obrigadas a mandar anunciar que, se as loterias n\u00e3o correrem no dia marcado, pagar\u00e3o os bilhetes pelo dobro?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, tenho visto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 isto. Ningu\u00e9m confia em ningu\u00e9m, e \u00e9 o nosso mal. Se h\u00e1 quem desconfie de mim!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me diga isso<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe digo outra cousa. Desconfiam que n\u00e3o ponho o seio integral aos meus pap\u00e9is: \u00e9 verdade ( e n\u00e3o sou \u00fanico ); mas, al\u00e9m de que revalido sempre o selo quando \u00e9 necess\u00e1rio levar os pap\u00e9is a ju\u00edzo, a quem prejudico eu, tirando ao Estado? A mim mesmo, porque o tesouro, nos governos modernos, \u00e9 de todos n\u00f3s. Verdadeiramente, tiro de um bolso para meter no outro. Lu\u00eds XIV dizia: &#8220;O Estado sou eu! &#8220;Cada um de n\u00f3s \u00e9 um tronco mi\u00fado de Lu\u00eds XIV, com a diferen\u00e7a de que n\u00f3s pagamos os impostos, e Lu\u00eds XIV recebia-os&#8230; Pois desconfiam de mim! S\u00e3o capazes de desconfiar do diabo. Creio que come\u00e7o a escrever no ar e &#8230;<\/p>\n<p>[103]<\/p>\n<p>[31 de julho]<\/p>\n<p>Esta semana furtaram a um senhor que ia pela rua mil deb\u00eantures; ele providenciou de modo que p\u00f4de salv\u00e1-los. Confesso que n\u00e3o acreditei na not\u00edcia, a princ\u00edpio; mas o respeito em que fui educado para com a letra redonda fez-me acabar de crer que se n\u00e3o fosse verdade n\u00e3o seria impresso. N\u00e3o creio em verdades manuscritas. Os pr\u00f3prios versos, que s\u00f3 se fazem por medida, parecem errados, quando escritos \u00e0 m\u00e3o. A raz\u00e3o por que muitos mo\u00e7os enganam as mo\u00e7as e vice-versa \u00e9 escreverem as suas cartas, e entreg\u00e1-las de m\u00e3o a m\u00e3o, ou pela criada, ou pela prima ou por qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda in\u00e9dito. Quem n\u00e3o engana \u00e9 o namorado da folha p\u00fablica; &#8220;Querida X, n\u00e3o foste hoje ao lugar do costume; esperei at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas horas. Responde ao teu Z.&#8221; E a namorada &#8220;Querido Z. N\u00e3o fui ontem por motivos que te direi \u00e0 vista. S\u00e1bado, com certeza, \u00e0 hora costumada; n\u00e3o faltes. Tua X&#8221;. Isto \u00e9 s\u00e9rio, claro, exato, cordial.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o que me fez duvidar a princ\u00edpio foi a no\u00e7\u00e3o que me ficou dos neg\u00f3cios de deb\u00eantures. Quando este nome come\u00e7ou a andar de boca em boca, at\u00e9 fazer-se um coro universal, veio ter comigo um chaparreiro aqui da vizinhan\u00e7a e confessou que, n\u00e3o sabendo ler, queria que lhe dissesse se aqueles pap\u00e9is valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro eco da opini\u00e3o nacional, respondi que n\u00e3o havia nada melhor, ele pegou nas economias e comprou uma centena de delas. Cresceu ainda o pre\u00e7o e ele quis vend\u00ea-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o qu\u00ea? Deixasse estar os pap\u00e9is que o pre\u00e7o ia subir por a\u00ed al\u00e9m. O homem confiou e esperou. Da\u00ed a tempo ouvi um rumor; eram as deb\u00eantures que ca\u00edam, ca\u00edam, ca\u00edam&#8230; Ele veio procurar-me, debulhado em l\u00e1grimas; ainda o fortaleci com uma ou duas par\u00e1bolas, at\u00e9 que os dias correram, e o desgra\u00e7ado ficou com os pap\u00e9is na m\u00e3o. Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha outra atitude.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois (vejam o que \u00e9 o amor a estas cousas!) veio ter comigo e proferiu estas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 agora perdi quase tudo o que tinha com as tais deb\u00eantures, mas ficou-me sempre um cobrinho no fundo do ba\u00fa, e como agora ou\u00e7o falar muito em habeas corpus, vinha, sim, vinha perguntar-lhe se esses t\u00edtulos s\u00e3o bons, e se est\u00e3o caros ou baratos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o s\u00e3o t\u00edtulos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o nome tamb\u00e9m \u00e9 estrangeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas nem por ser estrangeiro, \u00e9 t\u00edtulo; aquele doutor que ali mora defronte \u00e9 estrangeiro e n\u00e3o \u00e9 t\u00edtulo.<\/p>\n<p>\u2014Isso \u00e9 verdade. Ent\u00e3o parece-lhe que os habeas corpus n\u00e3o s\u00e3o pap\u00e9is?<\/p>\n<p>\u2014 Pap\u00e9is s\u00e3o; mas s\u00e3o outros pap\u00e9is.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de deb\u00eanture ficou sendo para mim a mesma cousa que nada, de modo que n\u00e3o compreendia que um senhor andasse com mil deb\u00eantures na algibeira, que outro as furtasse, e que ele corresse em busca do ladr\u00e3o. Acreditei por estar impresso. Depois mostraram&#8211;me a lista das cota\u00e7\u00f5es. Vi que n\u00e3o se vendem tantas como outrora, nem pelo pre\u00e7o antigo, mas h\u00e1 algum negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que elas ser\u00e3o ainda algum dia? Tudo tem altos e baixos.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que mudei de opini\u00e3o. No dia seguinte, depois do almo\u00e7o, tirei da gaveta algumas centenas de mil-r\u00e9is, e caminhei para a Bolsa, encomendando-me (\u00e9 in\u00fatil diz\u00ea-lo ) ao Deus Abra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3.Comprei um lote, a pre\u00e7o baixo, e particularmente prometi uma deb\u00eanture de cera a S. Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei que \u00e9 imitar aquele homem que, h\u00e1 dias, deu uma chave de cera a S. Pedro, por lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra raz\u00e3o. Na semana passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos Militares, aos p\u00e9s de S. Jo\u00e3o e S. Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando voltava da Bolsa, desferiu o v\u00f4o, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio agastada com a publica\u00e7\u00e3o, mas acabou dizendo que naquela rua, t\u00e3o perto dos bancos e da pra\u00e7a, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais. Quaisquer que sejam os neg\u00f3cios, \u2014 arrulhou-me ao ouvido, \u2014 o c\u00e2mbio para n\u00f3s est\u00e1 sempre a 27.<\/p>\n<p>N\u00e3o pe\u00e7o outra cousa ao ap\u00f3stolo; c\u00e2mbio a 27 para mim como para elas, e ter\u00e1 a deb\u00eanture de cera, com inscri\u00e7\u00f5es e alegorias. Veja que nem lhe pe\u00e7o a cura da tosse e do coriza que me afligem, desde algum tempo. O meu talentoso amigo Dr. Pedro Am\u00e9rico disse outro dia na C\u00e2mara dos Deputados, propondo a cria\u00e7\u00e3o de um teatro normal, que, por um milagre de higiene, todas as mol\u00e9stias desaparecessem, &#8220;n\u00e3o haveria faculdade, nem artif\u00edcios de ret\u00f3rica capazes de convencer a ningu\u00e9m das belezas da patologia nem da utilidade da terap\u00eautica&#8221;. Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as belezas da patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na utilidade da terap\u00eautica; mas que deliciosa cousa \u00e9 n\u00e3o saber que ela existe, duvidar dela e at\u00e9 neg\u00e1-la! Felizes os que podem respirar! bem-aventurados os que n\u00e3o tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossi; e, continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da patologia&#8230; Francamente eu prefiro as belezas da Batalha de Ava\u00ed.<\/p>\n<p>A rigor, devia acabar aqui; mas a not\u00edcia que acaba de chegar do Amazonas obriga-me a algumas linhas, tr\u00eas ou quatro. Promulgou-se a Constitui\u00e7\u00e3o, e, por ela, o governador passa-se a chamar presidente do Estado. Com exce\u00e7\u00e3o do Par\u00e1 e Rio Grande do Sul, creio que n\u00e3o falta nenhum. Sono tutti fatti marchesi. Eu, se fosse presidente da Rep\u00fablica, promovia a reforma da Constitui\u00e7\u00e3o, para o \u00fanico fim de chamar-me governador. Ficava assim um governador cercado de presidentes, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, e fazendo lembrar o imperador Napole\u00e3o, vestido com a modesta farda lend\u00e1ria, no meio dos seus marechais em grande uniforme.<\/p>\n<p>Outra not\u00edcia que me obriga a n\u00e3o acabar aqui, \u00e9 a de estarem os rapazes do com\u00e9rcio de S. Paulo fazendo reuni\u00f5es para se alistarem na guarda nacional, em desacordo com os daqui, que acabam de pedir dispensa de tal servi\u00e7o. Quest\u00e3o de meio; o meio \u00e9 tudo. N\u00e3o h\u00e1 exalta\u00e7\u00e3o para uns nem depress\u00e3o para outros. Duas cousas contr\u00e1rias podem ser verdadeiras e at\u00e9 leg\u00edtimas conforme a zona. Eu, por exemplo, execro o mate chimarr\u00e3o, os nossos irm\u00e3os do Rio Grande do Sul acham que n\u00e3o h\u00e1 bebida mais saborosa neste mundo. Segue-se que o mate deve ser sempre uma ou outra cousa? N\u00e3o; segue-se o meio; o meio \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>[104]<\/p>\n<p>[14 agosto]<\/p>\n<p>SEMANA e finan\u00e7as s\u00e3o hoje a mesma cousa. E t\u00e3o graves s\u00e3o os neg\u00f3cios financeiros, que escrever isto s\u00f3, pingar-lhe um ponto e mandar o papel para a imprensa, seria o melhor modo de cumprir o meu dever. Mas o leitor quer os seus poetas menores. Que os poetas magnos tratem os sucessos magnos; ele n\u00e3o dispensa aqui os assuntos m\u00ednimos, se os houve, e, se os n\u00e3o houve, a reflex\u00f5es leves e curtas. For\u00e7a \u00e9 reproduzir o famoso Marche! Marche! de Bossuet&#8230; Perd\u00e3o, leitor! Bossuet! eis-me aqui mais grave que nunca.<\/p>\n<p>E por que n\u00e3o sei eu finan\u00e7as? Por que, ao lado dos dotes nativos com que aprouve ao c\u00e9u distinguir-me entre os homens, n\u00e3o possuo a ci\u00eancia financeira? Por que ignoro eu a teoria do imposto, a lei do c\u00e2mbio, e mal distingo dez mil-r\u00e9is de dez tost\u00f5es? Nos bonds \u00e9 que me sinto vexado. H\u00e1 sempre tr\u00eas e quatro pessoas (principalmente agora) que tratam das cousas financeiras e econ\u00f4micas, e das causas das cousas, com tal ardor e autoridade, que me oprimem. \u00c9 ent\u00e3o que eu leio algum jornal, se o levo, ou r\u00f4o as unhas, \u2014 v\u00edcio dispens\u00e1vel; mas antes vicioso que ignorante.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o tenho jornal, nem unhas, atiro-me \u00e0s tabuletas. Miro ostensivamente as tabuletas, como quem estuda o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria, a pintura e a ortografia. E n\u00e3o \u00e9 novo este meu costume, em casos de aperto. Foi assim que um dia, h\u00e1 anos, n\u00e3o me lembra em que loja, nem em que rua, achei uma tabuleta que dizia: Ao Planeta do Destino. Intencionalmente obscuro, este t\u00edtulo era uma nova edi\u00e7\u00e3o da esfinge.<\/p>\n<p>Pensei nele, estudei-o, e n\u00e3o podia dar com o sentido, at\u00e9 que me lembrou vir\u00e1-lo do avesso: Ao Destino do Planeta. Vi logo que, assim virado, tinha mais senso; porque, em suma, pode admitir-se um destino ao planeta em que pisamos&#8230; Talvez a ci\u00eancia econ\u00f4mica e financeira seja isto mesmo, o avesso do que dizem os discutidores de bonds. Quantas verdades escondidas em frases trocadas! Quanto fiz esta reflex\u00e3o, exultei. Grande consola\u00e7\u00e3o \u00e9 persuadir-se um homem de que os outros s\u00e3o asnos.<\/p>\n<p>E a\u00ed est\u00e3o quatro tiras escritas, e aqui vai mais uma, cujo assunto n\u00e3o sei bem qual seja, tantos s\u00e3o eles e t\u00e3o opostos. Vamos ao Senado. O Senado discutiu o chim, o arroz, e o ch\u00e1, e naturalmente tratou da quest\u00e3o da ra\u00e7a chinesa, que uns defendem e outros atacam. Eu n\u00e3o tenho opini\u00e3o; mas nunca ouso falar de ra\u00e7as, que me n\u00e3o lembre do Hon\u00f3rio Bicalho. Estava ele no Rio Grande do Sul, perto de uma cidade alem\u00e3. Iam com ele mo\u00e7as e homens a cavalo\u2014 viram uma flor muito bonita no alto de uma \u00e1rvore, Bicalho ou outro quis colh\u00ea-la, apoiando os p\u00e9s no dorso do cavalo, mas n\u00e3o alcan\u00e7ava a flor. Por fortuna, vinha da povoa\u00e7\u00e3o um moleque, e o Bicalho foi ter com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1, trepa \u00e0quela \u00e1rvore, e tira a flor que est\u00e1 em cima. . .<\/p>\n<p>Estacou assombrado. O moleque respondeu-lhe em alem\u00e3o, que n\u00e3o entendia portugu\u00eas. Quando Bicalho entrou na cidade, e n\u00e3o ouviu nem leu outra l\u00edngua sen\u00e3o a alem\u00e3, a rica e forte l\u00edngua de Goethe e de Heine, teve uma impress\u00e3o que ele resumia assim: &#8220;Achei-me estrangeiro no meu pr\u00f3prio pa\u00eds!&#8221; Lembram-se dele? Grande talento, todo ele vida e esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o tem nada com os chins, nem os judeus, nem particularmente com aquela mo\u00e7a que acaba de impedir a canoniza\u00e7\u00e3o de Colombo. H\u00e3o de ter lido o telegrama que d\u00e1 not\u00edcia de haver sido posta de lado a id\u00e9ia de canoniza\u00e7\u00e3o do grande homem, por motivo de uns amores que ele trouxera com uma judia. Todos os escr\u00fapulos s\u00e3o respeit\u00e1veis, e seria impertin\u00eancia querer dar li\u00e7\u00f5es ao Santo Padre em mat\u00e9ria de economia cat\u00f3lica. Colombo perdeu a canoniza\u00e7\u00e3o sem perder a gl\u00f3ria, e a pr\u00f3pria Igreja o sublima por ela. Mas&#8230;<\/p>\n<p>Mas, por mais que a gente fuja com o pensamento ao caso, o pensamento escapa-se, rompe os s\u00e9culos e vai farejar essa judia que tamanha influ\u00eancia devia ter na posteridade. E comp\u00f5e a figura pelas que conhece. H\u00e1-as de olhos negros e de olhos gar\u00e7os, umas que deslizam sem pisar no ch\u00e3o, outras que atam os bra\u00e7os ao descuidado com a simples corda das pestanas infinitas. Nem faltam as que embebedam e as que matam. O pensamento evoca a sombra da filha de Mois\u00e9s, e pergunta como \u00e9 que aquele grande e pio genov\u00eas, que abriu \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 um novo mundo, e n\u00e3o se abalan\u00e7ou ao descobrimento sem encomendar-se a Deus, podia ter consigo esse pecado mofento, esse fedor judaico, \u2014 deleitoso, se querem, mas de entontecer a perder uma alma por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Eu ainda quero crer que ambos, sabendo que eram incompat\u00edveis, fizeram um acordo para dissimular e pecar. Combinaram em ler o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos; mas Colombo daria ao texto b\u00edblico o sentido espiritual e teol\u00f3gico, e ela o sentido natural e molemente hebraico.<\/p>\n<p>\u2014 O meu amado \u00e9 para mim como um cacho de Chipre, que se acha nas vinhas de Engadi.<\/p>\n<p>\u2014 Os teus olhos s\u00e3o como os das pombas, sem falar no que est\u00e1 escondido dentro. Os teus dous peitos s\u00e3o como dous filhinhos g\u00eameos da cabra montesa, que se apascentam entre as a\u00e7ucenas.<\/p>\n<p>\u2014 Eu me levantei para abrir ao meu amado; as minhas m\u00e3os destilavam mirra.<\/p>\n<p>\u2014 Os teus l\u00e1bios s\u00e3o como uma fita escarlate, e o teu falar \u00e9 doce.<\/p>\n<p>\u2014 O cheiro dos teus vestidos \u00e9 como o cheiro do incenso.<\/p>\n<p>Quantas uni\u00f5es danadas n\u00e3o se mant\u00eam por acordos semelhantes, em consci\u00eancia, \u00e0s vezes! H\u00e1 uma grande palavra que diz que todas as cousas s\u00e3o puras para quem \u00e9 puro.<\/p>\n<p>Tornemos \u00e0 gente crist\u00e3, \u00e0s elei\u00e7\u00f5es municipais, \u00e0 senatorial, aos italianos de S. Paulo que deixam a terra, a D. Carlos de Bourbon que aderiu \u00e0 Rep\u00fablica Francesa, em obedi\u00eancia ao Papa, aos bonds el\u00e9tricos, \u00e0 subida ao poder do old great man, a mil outras cousas que apenas indico, t\u00e3o aborrecido estou. Pena da minha alma, vai afrouxando os bicos; diminui esse ardor, n\u00e3o busques adjetivos, nem imagens, n\u00e3o busques nada, a n\u00e3o ser o repouso, o descanso f\u00edsico e mental, o esquecimento, a contempla\u00e7\u00e3o que prende com o cochilo que expira no sono&#8230;<\/p>\n<p>[105]<\/p>\n<p>[2 outubro]<\/p>\n<p>TANNH\u00c4USER e bonds el\u00e9tricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empres\u00e1rio do Teatro L\u00edrico fez-nos o favor de dar a famosa \u00f3pera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cair\u00e3o de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>J\u00e1 a esta hora algumas das pessoas que me l\u00eaem, sabem o que \u00e9 a grande \u00f3pera. Nem todas; h\u00e1 sempre um grande n\u00famero de ouvintes que far\u00e3o ao grande maestro a honra de n\u00e3o perceber tudo desde logo, e entend\u00ea-lo melhor \u00e0 segunda, e de vez \u00e0 terceira ou quarta execu\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o faltam ouvidos acostumados ao seu oficio, que distinguir\u00e3o na mesma noite o belo do sublime, e o sublime do fraco.<\/p>\n<p>Eu, se l\u00e1 fosse, n\u00e3o ia em jejum. Pegava de algumas opini\u00f5es s\u00f3lidas e francesas e metia-as na cabe\u00e7a com facilidade; s\u00f3 n\u00e3o me valeria das muletas do bom Larousse, se ele n\u00e3o as tivesse em casa; mas havia de t\u00ea-las. Cai aqui, cai acol\u00e1, faria uma opini\u00e3o pr\u00e9via, e \u00e0 noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:<\/p>\n<p>\u2014 Afinal temos o Tannh\u00e4user; eu conhe\u00e7o um trecho, que ouvi h\u00e1 tempos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o conhe\u00e7o nada, e quer que lhe diga? \u00c9 melhor assim. Fa\u00e7o de conta que assisto \u00e0 primeira representa\u00e7\u00e3o que se deu no mundo. Tudo novo.<\/p>\n<p>\u2014 O que eu ouvi, \u00e9 soberbo.<\/p>\n<p>\u2014 Creio; mas n\u00e3o me diga nada, deixe-me virgem de opini\u00f5es, Quero julgar por mim, mal ou bem&#8230;<\/p>\n<p>E iria sentar-me e esperar, um tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o bin\u00f3culo para a revista dos camarotes. Talvez nem levasse bin\u00f3culo; diria que as grandes solenidades art\u00edsticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupa\u00e7\u00f5es humanas. A arte \u00e9 uma religi\u00e3o. O g\u00eanio \u00e9 o sumo sacerdote. Em v\u00e3o, Am\u00e1lia, posta no camarote, em frente \u00e0 m\u00e3e, lan\u00e7aria os olhos para mim, assustada com a minha indiferen\u00e7a e perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do templo se abram, que as harmonias do c\u00e9u me chamem aos p\u00e9s do divino mestre; n\u00e3o sei de Am\u00e1lia n\u00e3o quero saber dos seus olhos de turquesa.<\/p>\n<p>Era assim que eu ouviria o Tannh\u00e4user. Nos intervalos, visita aos camarotes e cr\u00edtica. Aquela entrada dos fagotes, lembra-se? Admir\u00e1vel! Os coros, o duo, os violinos, oh! o trabalho dos violinos que cousa ador\u00e1vel, com aquele motivo obrigado: l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1 tra, l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, tra, l\u00e1, l\u00e1. . . H\u00e1 neste ato inspira\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, com certeza, as maiores do s\u00e9culo. De resto, os pr\u00f3prios franceses emendaram a m\u00e3o dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial&#8230;<\/p>\n<p>As senhoras ouvem-me encantadas; a linda Am\u00e1lia sente-se honrada com a indiferen\u00e7a de h\u00e1 pouco, vendo que ela e a arte s\u00e3o o meu culto \u00fanico.<\/p>\n<p>Ao fundo, o pai e um homem de su\u00ed\u00e7as falam da fus\u00e3o do Banco do Brasil com o da Rep\u00fablica. O irm\u00e3o, encostado \u00e0 divis\u00e3o do camarote, conversa com uma dama vizinha, casada de fresco, ombros magn\u00edficos. Que tenho eu com ombros, nem com bancos? L\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, tra, l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, tra, l\u00e1, l\u00e1 . . .<\/p>\n<p>Feitas as despedidas, passaria a outro camarote, para continuar a minha cr\u00edtica. Dous homens, sempre ao fundo, conversam baixo, um recitando os versos de Garrett sobre a Guerra das Duas Rosas, o outro esperando a aplica\u00e7\u00e3o. A aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 a C\u00e2mara Municipal de S. Paulo, que acaba de tomar posse solene, com assist\u00eancia do presidente e dos secret\u00e1rios do Estado&#8230; Interrup\u00e7\u00e3o do segundo: &#8220;Pode comparar-se o caso dos dous secret\u00e1rios \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o que o poeta fez das duas rosas?&#8221; Explica\u00e7\u00e3o do primeiro: &#8220;N\u00e3o; refiro-me \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o que a C\u00e2mara fez dos retratos de Deodoro e Benjamim Constante. Uniu os dous rivais p\u00f3stumos em uma s\u00f3 comemora\u00e7\u00e3o, e a hist\u00f3ria ou a lenda que fa\u00e7a o resto&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o espero pelo resto; falo \u00e0s senhoras no duo e na entrada dos fagotes. Bela entrada de fagotes. Os coros admir\u00e1veis, e o trabalho dos violinos simplesmente espl\u00eandido. H\u00e3o de ter notado que a m\u00fasica reproduz perfeitamente a lenda, como o espelho a figura; prendem-se ambas em uma s\u00f3 inspira\u00e7\u00e3o genial. Aquele motivo obrigado dos violinos \u00e9 a mais bela inspira\u00e7\u00e3o que tenho ouvido: l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, tra, l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, tra&#8230;<\/p>\n<p>Terceiro camarote, violinos, fagotes, coros e o duo. Pormenores t\u00e9cnicos. Ao fundo, dous homens, que falam de um congresso psicol\u00f3gico em Chicago, dizem que os nossos esp\u00edritas v\u00e3o ter ocasi\u00e3o de aparecer, porque o convite estende-se a eles. Tratar-se-\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 dos fen\u00f4menos psicof\u00edsicos, como sejam as pancadas, as oscila\u00e7\u00f5es em mesas, a escrita, e outras manifesta\u00e7\u00f5es esp\u00edritas, como ainda da quest\u00e3o da vida futura. Um dos interlocutores declara que os \u00fanicos esp\u00edritas que conhece, s\u00e3o dous, moram ao p\u00e9 dele e j\u00e1 n\u00e3o pertencem a este mundo; est\u00e3o nos interm\u00fandios de Epicuro. Andam c\u00e1 os corpos, por efeito do movimento que traziam quando habitados pelos esp\u00edritos, como aqueles astros cuja luz ainda vemos hoje, estando apagados h\u00e1 muitos s\u00e9culos&#8230;<\/p>\n<p>A orquestra chama a postos, sobe o pano, assisto ao ato, e fa\u00e7o a mesma peregrina\u00e7\u00e3o no intervalo; mudo s\u00f3 as cita\u00e7\u00f5es, mas a cr\u00edtica \u00e9 sempre verdadeira. Ou\u00e7o os mesmos homens, ao fundo, conversando sobre cousas alheias ao Wagner. Eu, entregue \u00e0 cr\u00edtica musical, n\u00e3o dou pelas rusgas da intend\u00eancia, n\u00e3o atendo \u00e0s candidaturas municipais agarradas aos eleitores, n\u00e3o dou por nada que n\u00e3o seja a grande \u00f3pera. E sento-me, recordo prontamente o que li sobre o ato, oh! um ato espl\u00eandido!<\/p>\n<p>Fim do espet\u00e1culo. Corro a encontrar-me com a fam\u00edlia de Am\u00e1lia, para acompanh\u00e1-la \u00e0 carruagem. Dou o bra\u00e7o \u00e0 m\u00e3e e cr\u00edtico o \u00faltimo ato, depois resumo a cr\u00edtica dos outros atos. Elas e o pai entram na carruagem; despedidas \u00e0 portinhola; aperto a bela m\u00e3o da minha querida Am\u00e1lia&#8230; Pormenores t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>[106]<\/p>\n<p>[9 outubro]<\/p>\n<p>Eis a\u00ed uma semana cheia. Projetos e projetos banc\u00e1rios, debates e debates financeiros, pris\u00e3o de diretores de companhias, den\u00fancia de outros, dous mil comerciantes marchando para o pal\u00e1cio Itamarati, a p\u00e9, debaixo d&#8217;\u00e1gua, processo Maria Ant\u00f4nia, fus\u00e3o de bancos, al\u00e7a r\u00e1pida de c\u00e2mbio, tudo isso grave, soturno, tr\u00e1gico ou simplesmente enfadonho. Uma s\u00f3 nota id\u00edlica entre tanta cousa grave, soturna, tr\u00e1gica ou simplesmente enfadonha; foi a morte de Renan. A de Tennyson, que tamb\u00e9m foi esta semana, n\u00e3o trouxe igual car\u00e1ter, apesar do poeta que era, da idade que tinha. Uma gravura inglesa recente d\u00e1, em dous grupos, os anos de 1842 e 1892, meio s\u00e9culo de separa\u00e7\u00e3o. No primeiro era Southey que fazia o papel de Tennyson, e o poeta laureado de 1842, como o de 1892. acompanhava os demais personagens oficiais do ano respectivo, o chefe dos tories, o chefe dos whigs, o arcebispo de Cantu\u00e1ria. A rainha \u00e9 que \u00e9 a mesma. Tudo institui\u00e7\u00f5es. Tennyson era uma institui\u00e7\u00e3o, e h\u00e1 belas institui\u00e7\u00f5es, Os seus oitenta e tr\u00eas anos n\u00e3o lhe tinham arrancado as plumas das asas de poeta; ainda agora anunciava-me um novo escrito seu. Mas era uma gl\u00f3ria brit\u00e2nica; n\u00e3o teve a influ\u00eancia nem a universalidade do grande franc\u00eas.<\/p>\n<p>Renan, como Tennyson, despegou-se da vida no espa\u00e7o de dous telegramas, algumas horas apenas. N\u00e3o penso em agonias de Renan. Afigura-se-me que ele voltou o corpo de um lado para outro e fechou os olhos. Mas agonia que fosse, e por mais longa que haja sido, ter-lhe-\u00e1 custado pouco ou nada o \u00faltimo adeus daquele grande pensador, t\u00e3o pl\u00e1cido para com as fatalidades, t\u00e3o prestes a absolver as cousas irremiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Comparando este glorioso desfecho com aquele dia em que Renan subiu \u00e0 cadeira de professor e soltou as famosas palavras: &#8220;Alors, un homme a paru&#8230; &#8220;, podemos crer que os homens, como os livros, t\u00eam os seus destinos. Recordo-me do efeito, que foi universal; a aud\u00e1cia produziu esc\u00e2ndalo, e a puni\u00e7\u00e3o foi pronta. O professor desceu da cadeira para o gabinete. Passaram-se muitos anos, as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tombaram, outras vieram, e o professor morre professor, ap\u00f3s uma obra vasta e luminosa, universalmente aclamado como s\u00e1bio e como artista. Os seus pr\u00f3prios advers\u00e1rios n\u00e3o lhe negam admira\u00e7\u00e3o, e porventura lhe far\u00e3o justi\u00e7a. J&#8217;ai tout critiqu\u00e9 (diz ele em um dos seus pref\u00e1cios) et quoi qu&#8217;on en dise, y j&#8217;ai tout maintenu. O s\u00e9culo que est\u00e1 a chegar, criticar\u00e1 ainda uma vez a cr\u00edtica, e dir\u00e1 que o ilustre exegeta definiu bem a sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A morte n\u00e3o pode ter aparecido a esse magn\u00edfico esp\u00edrito com aqueles dentes sem boca e aqueles furos sem olhos, com que os demais pecadores a v\u00eaem, mas com as fei\u00e7\u00f5es da vida, coroada de flores simples e graves. Para Renan a vida nem tinha o defeito da morte. Sabe-se que era desejo seu, se houvesse de tornar \u00e0 terra, ter a mesma exist\u00eancia anterior, sem altera\u00e7\u00e3o de tr\u00e2mites nem de dias. N\u00e3o se pode confessar mais vivamente a bem-aventuran\u00e7a terrestre. Um poeta daquele pa\u00eds, o velho Ronsard, para igual hip\u00f3tese, preferia vir tornado em p\u00e1ssaro, a ser duas vezes homem. Eu (fale-mos um pouco de mim), se n\u00e3o fossem as armadilhas pr\u00f3prias do homem e o uso de matar o tempo matando p\u00e1ssaros, tamb\u00e9m quisera regressar p\u00e1ssaro.<\/p>\n<p>N\u00e3o voltou o p\u00e1ssaro Ronsard, como n\u00e3o voltar\u00e1 o homem Renan. Este ir\u00e1 para onde est\u00e3o os grandes do s\u00e9culo, que come\u00e7ou em Fran\u00e7a como o autor de Ren\u00e9, e acaba com o da Vida de Jesus, p\u00e1ginas t\u00e3o caracter\u00edsticas de suas respectivas datas.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o aqui an\u00e1lises que me n\u00e3o competem, nem cito obras, nem componho biografia. O jornalismo desta capital mostrou j\u00e1 o que valia o autor de tantos e t\u00e3o ador\u00e1veis livros, falou daquele estilo incompar\u00e1vel, puro e s\u00f3lido, feito de cristal e melodia. Nada disso me cabe. A rigor, nem me cabe cuidar da morte. Cuidei desta por ser a \u00fanica nota id\u00edlica, entre tanta cousa grave, soturna, tr\u00e1gica ou simplesmente enfadonha.<\/p>\n<p>Em verdade, que posso eu dizer das cousas pesadas e duras de uma semana, remendada de c\u00f3digos e praxistas, a ponto de algarismo e cita\u00e7\u00e3o? Pris\u00f5es, que tenho eu com elas? Processos, que tenho eu com eles? N\u00e3o dirijo companhia alguma, nem an\u00f4nima, nem pseud\u00f4nima; n\u00e3o fundei bancos, nem me disponho a fund\u00e1-los, e, de todas as cousas deste mundo e do outro, a que menos entendo, \u00e9 o c\u00e2mbio. N\u00e3o \u00e9 que lhe negue o direito de subir; mas tantas l\u00e1stimas ouvi pela queda, quantas ou\u00e7o agora pela ascens\u00e3o, \u2014 n\u00e3o sei se \u00e0s mesmas pessoas, mas com estes mesmos ouvidos.<\/p>\n<p>Finan\u00e7as das finan\u00e7as, s\u00e3o tudo finan\u00e7as. Para onde quer que me volte, dou com a incandescente quest\u00e3o do dia. Conhe\u00e7o j\u00e1 o vocabul\u00e1rio, mas n\u00e3o sei ainda todas as id\u00e9ias a que as palavras correspondem, e, quanto aos fen\u00f4menos, basta dizer que cada um deles tem tr\u00eas explica\u00e7\u00f5es verdadeiras e uma falsa. Melhor \u00e9 crer tudo. A d\u00favida n\u00e3o \u00e9 aqui sabedoria, porque traz debate r\u00edspido, debate traz balan\u00e7a de com\u00e9rcio, por um lado, e excesso de emiss\u00f5es por outro, e, afinal, um fastio que nunca mais acaba.<\/p>\n<p>[107]<\/p>\n<p>[16 outubro]<\/p>\n<p>N\u00c3O TENDO assistido a inaugura\u00e7\u00e3o dos bonds el\u00e9tricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impress\u00f5es da nova tra\u00e7\u00e3o e cont\u00e1-las. Da\u00ed o meu sil\u00eancio da outra semana. Anteontem, por\u00e9m, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos el\u00e9tricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o mentir, direi o que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de superioridade. Posto n\u00e3o fosse feio, n\u00e3o eram as prendas f\u00edsicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convic\u00e7\u00e3o de que inventara, n\u00e3o s\u00f3 o bond el\u00e9trico, mas a pr\u00f3pria eletricidade. N\u00e3o \u00e9 meu of\u00edcio censurar essas meias gl\u00f3rias, ou gl\u00f3rias de empr\u00e9stimo, como lhe queiram chamar esp\u00edritos vadios. As gl\u00f3rias de empr\u00e9stimo, se n\u00e3o valem tanto como as de plena propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia. Para que arrancar um homem a essa agrad\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o? Que tenho para lhe dar em troca?<\/p>\n<p>Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invis\u00edvel e amiga. Mas, como \u00edamos em sentido contr\u00e1rio, n\u00e3o tardou que nos perd\u00eassemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de mem\u00f3ria. A gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond el\u00e9trico. Assim fomos seguindo; at\u00e9 que, perto do fim da linha e j\u00e1 noite, \u00e9ramos s\u00f3 tr\u00eas pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. Os dous cochilavam, eu pensava.<\/p>\n<p>De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conhe\u00e7o um pouco a l\u00edngua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, n\u00e3o me foi dif\u00edcil apanhar o di\u00e1logo. Bem sei que cavalo n\u00e3o \u00e9 burro; mas reconheci que a l\u00edngua era a mesma. O burro fala menos, decerto; \u00e9 talvez o transita daquela grande divis\u00e3o animal, mas fala. Fiquei inclinado e escutei:<\/p>\n<p>\u2014 Tens e n\u00e3o tens raz\u00e3o, respondia o da direita ao da esquerda.<\/p>\n<p>O da esquerda:<\/p>\n<p>\u2014 Desde que a tra\u00e7\u00e3o el\u00e9trica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.<\/p>\n<p>\u2014 Claro parece; mas entre parecer e ser, a diferen\u00e7a \u00e9 grande. Tu n\u00e3o conheces a hist\u00f3ria da nossa esp\u00e9cie, colega; ignoras a vida dos burros desde o come\u00e7o do mundo. Tu nem refletes que, tendo o salvador dos homens nascido entre n\u00f3s, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria crist\u00e3. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso com a liberdade?<\/p>\n<p>\u2014 Vejo, redarg\u00fciu melancolicamente o burro da direita, vejo que h\u00e1 muito de homem nessa cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? bradou o burro da esquerda estacando o passo.<\/p>\n<p>O cocheiro, entre dous cochilas, juntou as r\u00e9deas e golpeou a parelha.<\/p>\n<p>\u2014 Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que, quando os bonds entraram nesta cidade, vieram com a regra de se n\u00e3o empregar chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde \u00e9 que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse tempo entoaram c\u00e2nticos de alegria e aben\u00e7oaram a id\u00e9ia os trilhos, sobre os quais os carros deslizariam naturalmente. N\u00e3o conheciam o homem.<\/p>\n<p>\u2014Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das r\u00e9deas. Sei tamb\u00e9m que, em certos casos, usa um galho de \u00e1rvore ou uma vara de marmeleiro.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente. Aqui acho raz\u00e3o ao homem. Burro magro n\u00e3o tem for\u00e7a; mas, levando pancada, puxa. Sabes o que a diretoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: &#8220;Engorde os burros d\u00ea-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que eles se afei\u00e7oem ao servi\u00e7o; oportunamente mudaremos de pol\u00edtica, all right!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Disso n\u00e3o me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond el\u00e9trico?<\/p>\n<p>\u2014 O bond el\u00e9trico apenas nos far\u00e1 mudar de senhor.<\/p>\n<p>\u2014 De que modo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, n\u00e3o somos j\u00e1 precisos, vendem-nos.<br \/>\nPassamos naturalmente \u00e0s carro\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Pela burra de Bala\u00e3o! exclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? nenhum pr\u00eamio? nenhum sinal de gratifica\u00e7\u00e3o? Oh! mas onde est\u00e1 a justi\u00e7a deste mundo?<\/p>\n<p>\u2014 Passaremos \u00e0s carro\u00e7as \u2014 continuou o outro pacificamente \u2014onde a nossa vida ser\u00e1 um pouco melhor; n\u00e3o que nos falte pancada, mas o dono de um s\u00f3 burro sabe mais o que ele lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz restituir-nos-\u00e1 a liberdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Enfim!<\/p>\n<p>\u2014 Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma erva que a\u00ed deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre \u00e9 vi\u00e7osa? Enfraqueceremos; a idade ou a lazeira ir-nos-\u00e1 matando, at\u00e9 que, para usar esta met\u00e1fora humana, \u2014 esticaremos a canela. Ent\u00e3o teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de tr\u00eas, a vizinhan\u00e7a come\u00e7a a notar que o burro cheira mal; conversa\u00e7\u00e3o e queixumes. No quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede uma reclama\u00e7\u00e3o. No quinto dia sai a reclama\u00e7\u00e3o impressa. No sexto dia, aparece um agente, verifica a exatid\u00e3o da not\u00edcia; no s\u00e9timo, chega uma carro\u00e7a, puxada por outro burro, e leva o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s l\u00fagubre, disse o burro da esquerda. N\u00e3o conheces a l\u00edngua da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, meu colega; mas a esperan\u00e7a \u00e9 pr\u00f3pria das esp\u00e9cies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa ra\u00e7a \u00e9 essencialmente filos\u00f3fica. Ao homem que anda sobre dous p\u00e9s, e provavelmente \u00e0 \u00e1guia, que voa alto, cabe a ci\u00eancia da astronomia. N\u00f3s nunca seremos astr\u00f4nomos. Mas a filosofia \u00e9 nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito s\u00e3o perfeitas quimeras. Cada s\u00e9culo&#8230;<\/p>\n<p>O freio cortou a frase ao burro, porque o cocheiro encurtou as r\u00e9deas, e travou o carro. T\u00ednhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dous interlocutores. N\u00e3o podia crer que fossem eles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o condutor cuidaram de desatrelar a parelha para lev\u00e1-la ao outro lado do carro; aproveitei a ocasi\u00e3o e murmurei baixinho, entre os dous burros:<\/p>\n<p>\u2014 Houyhnhnnms!<\/p>\n<p>Foi um choque el\u00e9trico. Ambos deram um estreme\u00e7\u00e3o, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de entusiasmo:<\/p>\n<p>\u2014 Que homem \u00e9s tu, que sabes a nossa l\u00edngua?<\/p>\n<p>Mas o cocheiro, dando-lhes de rijo na lambada, bradou para mim, que lhe n\u00e3o espantasse os animais. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animais; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora: \u2014 Onde est\u00e1 a justi\u00e7a deste mundo?<\/p>\n<p>[108]<\/p>\n<p>[23 outubro]<\/p>\n<p>TODAS AS COUSAS t\u00eam a sua filosofia. Se os dous anci\u00e3os que o bond el\u00e9trico atirou para a eternidade esta semana, houvessem j\u00e1 feito por si mesmos o que lhes fez o bond, n\u00e3o teriam entestado com o progresso que os eliminou. \u00c9 duro dizer; duro e ing\u00eanuo, um pouco \u00e0 La Palisse; mas \u00e9 verdade. Quando um grande poeta deste s\u00e9culo perdeu a filha, confessou, em versos doloridos, que a cria\u00e7\u00e3o era uma roda que n\u00e3o podia andar sem esmagar algu\u00e9m. Por que negaremos a mesma fatalidade aos nossos pobres ve\u00edculos?<\/p>\n<p>H\u00e1 terras, onde as companhias indenizam as v\u00edtimas dos desastres (ferimentos ou mortes) com avultadas quantias, tudo ordenado por lei. \u00c9 justo; mas essas terras n\u00e3o t\u00eam, e deviam ter, outra lei que obrigasse os feridos e as fam\u00edlias dos mortos a indenizarem as companhias pela perturba\u00e7\u00e3o que os desastres trazem ao hor\u00e1rio do servi\u00e7o. Seria um equil\u00edbrio de direitos e de responsabilidades. Felizmente, como n\u00e3o temos a primeira lei, n\u00e3o precisamos da segunda, e vamos morrendo com a \u00fanica despesa do enterro e o \u00fanico lucro das ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Falo sem interesse. Dado que venhamos a ter as duas leis, jamais a minha vi\u00fava indenizar\u00e1 ou ser\u00e1 indenizada por nenhuma companhia. Um precioso amigo meu, hoje morto, costumava dizer que n\u00e3o passava pela frente de um bond, sem calcular a hip\u00f3tese de cair entre os trilhos e o tempo de levantar-se e chegar ao outro lado. Era um bom conselho, como o Doutor Sovina era uma boa farsa, antes das farsas do Pena. Eu, o Pena dos cautelosos, levo o c\u00e1lculo adiante: calculo ainda o tempo de escovar-me no alfaiate pr\u00f3ximo. Pr\u00f3ximo pode ser longe, mas muito mais longe \u00e9 a eternidade.<\/p>\n<p>Em todo caso, n\u00e3o vamos concluir contra a eletricidade. Logicamente, ter\u00edamos de condenar todas as m\u00e1quinas, e, visto que h\u00e1 naufr\u00e1gios, queimar todos os navios. N\u00e3o, senhor. A necrologia dos bonds tirados a burros \u00e9 assaz comprida e l\u00fagubre para mostrar que o governo de tra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada com os desastres. Os jornais de quinta-feira disseram que o carro ia apressado, e um deles explicou a pressa, dizendo que tinha de chegar ao ponto \u00e0 hora certa, com prazo curto. Bem; poder-se-iam combinar as cousas, espa\u00e7ando os prazos e aparelhando carros novos, el\u00e9tricos ou muares, para acudir \u00e0 necessidade p\u00fablica. Digamos mais cem, mais duzentos carros. Nem s\u00f3 de p\u00e3o vive o acionista, mas tamb\u00e9m da alegria e da integridade dos seus semelhantes.<\/p>\n<p>Convenho que, durante uns quatro meses, os bonds el\u00e9tricos andem muito mais aceleradamente que os outros, para fugir ao riso dos vadios e \u00e0 toleima dos ignaros. Uns e outros imaginam que a eletricidade \u00e9 uma vers\u00e3o do processo culin\u00e1rio \u00e0 la minute, e podem vir a enlamear o ve\u00edculo com alcunhas feias. Lembra-me (era bem crian\u00e7a) que, nos primeiros tempos do g\u00e1s no Rio de Janeiro, houve uns dias de luz frouxa, de onde os moleques sacaram este dito: o g\u00e1s virou lamparina. E o dito ficou e imp\u00f4s-se, e eu ainda o ouvi aplicar aos amores expirantes, \u00e0s belezas murchas, a todas as cousas deca\u00eddas.<\/p>\n<p>Ah! se eu for a contar mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia, deixo a semana no meio, remonto os tempos e fa\u00e7o um volume. Paro na primeira esta\u00e7\u00e3o, 1864, famoso ano da suspens\u00e3o de pagamentos (minist\u00e9rio Furtado); respiro, subo e paro em 1867, quando a febre das a\u00e7\u00f5es atacou a esta pobre cidade, que s\u00f3 arribou \u00e0 for\u00e7a do quinino do desengano. Remonto ainda e vou a&#8230;<\/p>\n<p>Aonde? Posso ir at\u00e9 antes do meu nascimento, at\u00e9 Law. Grande Law! Tamb\u00e9m tu tiveste um dia de celebridade, depois, viraste embromador e ca\u00edste na casinha da hist\u00f3ria, o lugar dos lava-pratos. E assim irei de s\u00e9culo a s\u00e9culo, at\u00e9 o para\u00edso terrestre, forma rudiment\u00e1ria do encilhamento, onde se vendeu a primeira a\u00e7\u00e3o do mundo. Eva comprou-a \u00e0 serpente, com \u00e1gio, e vendeu-a a Ad\u00e3o, tamb\u00e9m com \u00e1gio, at\u00e9 que ambos faliram. E irei ainda mais alto, antes do para\u00edso terrestre, ao Fiat lux, que, bem, estudado ao g\u00e1s do entendimento humano, foi o princ\u00edpio da fal\u00eancia universal.<\/p>\n<p>N\u00e3o; cuidemos s\u00f3 da semana. A simples amea\u00e7a de contar as minhas mem\u00f3rias diminuiu-me o papel em tal maneira, que \u00e9 preciso agora apertar as letras e as linhas.<\/p>\n<p>Semana quer dizer finan\u00e7as. Finan\u00e7as implicam financeiros. Financeiros n\u00e3o v\u00e3o sem projetos, e eu n\u00e3o sei formular projetos. Tenho id\u00e9ias boas, e at\u00e9 bonitas, algumas grandiosas, outras complicadas, muito 2%, muito lastro, muito resgate, toda a t\u00e9cnica da ci\u00eancia; mas falta-me o talento de compor, de dividir as id\u00e9ias por artigos, de subdividir os artigos em par\u00e1grafos, e estes em letras a b c; sai-me tudo confuso e atrapalhado. Mas por que n\u00e3o farei um projeto financeiro ou banc\u00e1rio, lan\u00e7ando-lhe no fim as palavras da velha praxe: salva a reda\u00e7\u00e3o? Poderia baralhar tudo, \u00e9 certo, mas n\u00e3o se joga sem baralhar as cartas; de outro modo \u00e9 embara\u00e7ar os parceiros.<\/p>\n<p>Adeus. O melhor \u00e9 ficar calado. Sei que a semana n\u00e3o foi s\u00f3 de finan\u00e7as, mas tamb\u00e9m de outras cousas, como a crise de transportes, a carne, discursos extraordin\u00e1rios ou explicativos, um projeto de estrada de ferro que nos p\u00f5e \u00e0s portas de Lisboa, e a mulher de C\u00e9sar, que reapareceu no seio do parlamento. Vi entrar esta c\u00e9lebre senhora por aquela casa, e, depois de alguns minutos, via-se sair. Corri \u00e0 porta e detive-a: \u2014 &#8220;Ilustre Pomp\u00e9ia, que vieste fazer a esta casa? &#8220;-&#8220;Obedecer ainda uma vez \u00e0 cita\u00e7\u00e3o da minha pessoa. Que queres tu? meu marido lembrou-se de fazer uma bonita frase, e entregou-me por todos os s\u00e9culos a amigos, conhecidos e desconhecidos.&#8221;<\/p>\n<p>[109]<\/p>\n<p>[30 outubro]<\/p>\n<p>TEMPOS DO PAPA! tempos dos cardeais! N\u00e3o falo do papa cat\u00f3lico, nem dos cardeais da santa Igreja Romana, mas do nosso papa e dos nossos cardeais. F. Otaviano, ent\u00e3o jornalista, foi quem achou aquelas designa\u00e7\u00f5es para o Senador Eus\u00e9bio e o estado-maior do Partido Conservador. Era eu pouco mais que menino&#8230;<\/p>\n<p>Fica entendido que, quando eu falar de fatos ou pessoas antigas, estava sempre na inf\u00e2ncia, se \u00e9 que seria nascido. N\u00e3o me fa\u00e7am mais idoso do que sou. E depois, o que \u00e9 idade? H\u00e1 dias, um distinto nonagen\u00e1rio apertava-me a m\u00e3o com for\u00e7a e contava-me as vivas impress\u00f5es que lhe deixara a obra de Bryce acerca dos Estados Unidos; acabava de l\u00ea-la, \u2014 dous grossos volumes, como sabem. E despediu-se de mim, e l\u00e1 se foi a andar seguro e l\u00e9pido. Realmente, os anos nada valem por si mesmos. A quest\u00e3o \u00e9 saber ag\u00fcent\u00e1-los, escov\u00e1-los bem, todos os dias, para tirar a poeira da estrada, traz\u00ea-los lavados com \u00e1gua de higiene e sab\u00e3o de filosofia.<\/p>\n<p>Repito, era pouco mais que um menino, mas j\u00e1 admirava aquele escritor fino e s\u00f3brio, destro no seu of\u00edcio. A atual mocidade n\u00e3o conheceu Otaviano; viu apenas um homem avelhantado e enfraquecido pela doen\u00e7a, com um resto p\u00e1lido daquele riso que Voltaire lhe mandou do outro mundo. Nem resto, uma sombra de resto, talvez uma simples reminisc\u00eancia deixada no c\u00e9rebro das pessoas que o conheceram entre trinta e quarenta anos.<\/p>\n<p>Um dia, um domingo, havia elei\u00e7\u00f5es, como hoje. Papa e cardeais tinham o poder nas m\u00e3os, e, sendo o reg\u00edmen de dous graus, entraram eles pr\u00f3prios nas chapas de eleitores, que eram escolhidos pelos votantes. Os liberais resolveram lutar com os conservadores, apresentaram chapas suas e os desbarataram. O pont\u00edfice, com todos os membros do consist\u00f3rio, mal puderam sair suplentes. E Otaviano, f\u00e9rtil em met\u00e1foras, chamou-lhes esquifes. Mais um esquife, dizia ele no Correio Mercantil, durante a apura\u00e7\u00e3o dos votos. Luta de energias, luta de motejos. Rocha, jornalista conservador, ria causticamente do lencinho branco de Te\u00f3filo Ot\u00f4ni, o c\u00e9lebre len\u00e7o com que este conduzia a multid\u00e3o, de par\u00f3quia em par\u00f3quia, aclamando e aclamado. A multid\u00e3o seguia, alegre, tumultuosa, levada por sedu\u00e7\u00e3o, por um instinto vago, por efeito da palavra, \u2014 um pouquinho por of\u00edcio. N\u00e3o me lembra bem se houve alguma urna quebrada; \u00e9 poss\u00edvel que sim. Hoje mesmo as urnas n\u00e3o s\u00e3o de bronze. N\u00e3o vou ao ponto de afirmar que n\u00e3o as houve pejadas. Que \u00e9 a pol\u00edtica sen\u00e3o obra de homens? Crescei e multiplicai-vos.<\/p>\n<p>Hoje, domingo n\u00e3o h\u00e1 a mesma multid\u00e3o, o eleitorado \u00e9 restrito; mas podia e devia haver mais calor. Trata-se n\u00e3o menos de que eleger o primeiro conselho municipal do Distrito Federal, que \u00e9 ainda e ser\u00e1 a capital verdadeira e hist\u00f3rica do Brasil. N\u00e3o \u00e9 elei\u00e7\u00e3o que apaixone, concordo; n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es puramente pol\u00edticas. Nem paix\u00f5es s\u00e3o cousas que se encomendem, como partidos n\u00e3o s\u00e3o cousas que se evoquem. Mas (permitam-me esta velha banalidade) h\u00e1 sempre a paix\u00e3o do bem e do interesse p\u00fablico. Eia, animai-vos um pouco, se n\u00e3o \u00e9 tarde; mas, se \u00e9 tarde, guardai-vos para a primeira elei\u00e7\u00e3o que vier. Contanto que n\u00e3o quebreis urnas, nem as fecundeis \u2014 a conselho meu, \u2014 agitai-vos, meus caros eleitores, agitai-vos um tanto mais.<\/p>\n<p>Por hoje, leitor amigo, vai tranq\u00fcilamente dar o teu voto. Vai anda, vai escolher os intendentes que devem representar-nos e defender os interesses comuns da nossa cidade. Eu, se n\u00e3o estiver meio adoentado, como estou, n\u00e3o deixarei de levar a minha c\u00e9dula. N\u00e3o leias mais ainda, porque \u00e9 bem poss\u00edvel que eu nada mais escreva, ou pouco. Vai votar; o teu futuro est\u00e1 nos joelhos dos deuses, e assim tamb\u00e9m o da tua cidade; mas por que n\u00e3o os ajudar\u00e1s com as m\u00e3os?<\/p>\n<p>Outra cousa que est\u00e1 nos joelhos dos deuses \u00e9 saber se a terceira prorroga\u00e7\u00e3o que o Congresso Nacional resolveu decretar, \u00e9 a \u00faltima e definitiva. Pode haver quarta e quinta. Daqui a censurar o Congresso \u00e9 um passo, e passo curto; mas eu prefiro ir \u00e0 Constituinte, que \u00e9 o mesmo Congresso avant la lettre. Por que diabo fixou a Constituinte em quatro meses a sess\u00e3o anual legislativa, isto \u00e9, o mesmo prazo da Constitui\u00e7\u00e3o de 1824? Devia atender que outro \u00e9 o tempo e outro o reg\u00edmen.<\/p>\n<p>Felizmente, li esta semana que vai haver uma revis\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o no ano pr\u00f3ximo. Boa ocasi\u00e3o para emendar esse ponto, e ainda outros, se os h\u00e1, e creio que h\u00e1. Nem faltar\u00e1 quem proponha o governo parlamentar. Dado que esta \u00faltima id\u00e9ia passe, \u00e9 preciso ter j\u00e1 de encomenda uma casaca, um par de colarinhos, uma gravata branca, uma pequena mala com alocu\u00e7\u00f5es brilhantes e an\u00f3dinas, para as grandes festas oficiais, \u2014 e um Carnot, mas um Carnot aut\u00eantico, que vista e profira todas aquelas cousas sem significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Salvo se arranjarmos um meio de combinar os presidentes e os ministros respons\u00e1veis, um Congresso que mande um minist\u00e9rio seu ao presidente, para cumprir e n\u00e3o cumprir as ordens opostas de ambos. Enfim, esperemos. O futuro est\u00e1 nos joelhos dos deuses.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me fa\u00e7as ir adiante, leitor amado. Adeus vai votar. Escolhe a tua intend\u00eancia e ficar\u00e1s com o direito de gritar contra ela. Adeus.<\/p>\n<p>[110]<\/p>\n<p>[6 novembro]<\/p>\n<p>VOU CONTAR \u00e0s pressas o que me acaba de acontecer.<\/p>\n<p>Domingo passado, enquanto esperava a chamada dos eleitores, sa\u00ed \u00e0 Pra\u00e7a do Duque de Caxias (vulgarmente Largo do Machado) e comecei a passear defronte da igreja matriz da Gl\u00f3ria. Quem n\u00e3o conhece esse templo grego, imitado da Madalena, com uma torre no meio, imitada de cousa nenhuma? A impress\u00e3o que se tem diante daquele singular con\u00fabio, n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3 nem pag\u00e3; faz lembrar, como na com\u00e9dia, &#8220;o casamento do Gr\u00e3o \u2014 Turco com a rep\u00fablica [de] Veneza&#8221;. Quando ali passo, desvio sempre os olhos e o pensamento. Tenho medo de pecar duas vezes, contra a torre e contra o templo, mandando-os ambos ao diabo, com esc\u00e2ndalo da minha consci\u00eancia e dos ouvidos das outras pessoas.<\/p>\n<p>Daquela vez, por\u00e9m, n\u00e3o foi assim. Olhei, parei e fiquei a olhar. Entrei a cogitar se aqu\u00eale ajuntamento h\u00edbrido n\u00e3o ser\u00e1 antes um s\u00edmbolo. A irmandade que mandou fazer a torre, pode ter escrito, sem o saber, um coment\u00e1rio. Sup\u00f4s batizar uma sinagoga (devia crer que era uma sinagoga), e fez mais, comp\u00f4s uma obra representativa do meio e do s\u00e9culo. N\u00e3o h\u00e1 ali s\u00f3 um sino para repicar aos domingos e dias santos, com afronta dos pag\u00e3os de Atenas e dos crist\u00e3os de Paris, \u2014 h\u00e1 talvez uma p\u00e1gina de piscologia social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sempre que entrevejo uma id\u00e9ia, uma significa\u00e7\u00e3o oculta em qualquer objeto, fico a tal ponto absorto, que sou capaz de passar uma semana sem comer. Aqui, h\u00e1 anos, estando sentado \u00e0 porta de casa, a meditar no c\u00e9lebre axioma do Dr. Pangloss \u2014 que os narizes fizeram \u2014 se para os \u00f3culos, e que \u00e9 por isso que usamos \u00f3culos, sucedeu cair \u2014 me a vista no ch\u00e3o, exatamente no lugar em que estava uma ferradura velha. Que haveria naquele sapato de cavalo, t\u00e3o comido de dias e de ferrugem?<\/p>\n<p>Pensei muito, \u2014 n\u00e3o posso dizer se uma ou duas horas, \u2014 at\u00e9 que um clar\u00e3o s\u00fabito espancou as trevas do meu esp\u00edrito. A figura \u00e9 velha, mas n\u00e3o tenho tempo de procurar outra. Cresci diante de Pangloss. O grande fil\u00f3sofo, achando a raz\u00e3o dos narizes, n\u00e3o advertiu que, ainda sem eles, pod\u00edamos trazer \u00f3culos. Bastava um pequeno aparelho de barbantes, que f\u00f4sse por cima das orelhas at\u00e9 \u00e0 nuca. Outro era o caso da ferradura. S\u00f3 o duro casco do animal podia destinar-se \u00e0 ferradura, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 meio de faz\u00ea-la aderir sem pregos. Aqui a finalidade era evidente. De conclus\u00e3o em conclus\u00e3o, cheguei \u00e0s ave-marias, tinham-me j\u00e1 chamado para jantar tr\u00eas v\u00eazes; comi mal, digeri mal, e acordei doente. Mas tinha descoberto alguma cousa.<\/p>\n<p>Fica assim explicada a minha longa medita\u00e7\u00e3o diante da torre e do templo, e o mais que me aconteceu. Cruzei os bra\u00e7os nas costas, com a bengala entre as m\u00e3os, apoiando-me nela. Algumas pessoas que iam passando, ao darem comigo, paravam tamb\u00e9m e buscavam descobrir por si o que \u00e9 que chamava assim a aten\u00e7\u00e3o de um homem t\u00e3o grave. Foram-se deixando estar; outras vieram tamb\u00e9m e foram ficando, at\u00e9 formarem um grupo numeroso, que observava tenazmente alguma cousa dign\u00edssima da aten\u00e7\u00e3o dos homens. \u00c9 assim que eu admiro muita m\u00fasica; basta ver o Artur Napole\u00e3o parado.<\/p>\n<p>Nem por isso interrompi as reflex\u00f5es que ia fazendo. Sim, aquela jun\u00e7\u00e3o da torre e do templo n\u00e3o era s\u00f2mente uma opini\u00e3o da irmandade.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho aqui papel para notar todos os fen\u00f4menos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e sociais que me pareceram explicar o edif\u00edcio do Largo do Machado; mas, ainda que o tivesse de sobra, calar-me-ia pela incerteza em que ainda estou ac\u00earca das minhas conclus\u00f5es. Dous exemplos estremes bastam para justifica\u00e7\u00e3o da d\u00favida. A nossa independ\u00eancia pol\u00edtica, que os poetas e oradores, at\u00e9 1864, chamavam grito de Ipiranga, n\u00e3o se pode negar que era um belo templo grego. O tratado que veio depois, com algumas de suas cl\u00e1usulas, e o seu imperador honor\u00e1rio, al\u00e9m do efetivo, poder\u00e1 ser comparado \u00e0 torre da matriz da Gl\u00f3ria? N\u00e3o ouso afirm\u00e1-lo. O mesmo digo do quiosque. O quiosque, apesar da origem chinesa, pode ser comparado a um; templo grego, copiado de Paris; mas o charuto, o bom caf\u00e9 barato e o bilhete de loteria que ali se vendem, ser\u00e3o acaso equivalentes daquela torre? N\u00e3o sei; nem tamb\u00e9m sei se os foguetes que ali estou-ram, quando anda a roda e eles tiram pr\u00eamios, representam os repi-ques de sinos em dias de festa. H\u00e1 hesita\u00e7\u00f5es grandes e nobres, mi-nha pobre alma as conhece.<\/p>\n<p>Pelo que respeita especialmente ao caso da matriz da Gl\u00f3ria, con-cordo que ele exprima a rea\u00e7\u00e3o do sentimento local contra uma inova\u00e7\u00e3o apenas elegante. N\u00f3s mamamos ao som dos sinos e somos desmamados com eles; uma igreja sem sino \u00e9, por assim dizer, uma b\u00f4ca sem fala. Da\u00ed nasceu a torre da Gl\u00f3ria. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 achar esta explica\u00e7\u00e3o, \u00e9 complet\u00e1-la.<\/p>\n<p>N\u00e3o me tragam aqui o mestre Spencer com os seus aforismos so-ciol\u00f3gicos. Quando ele diz que &#8220;o estado social \u00e9 o resultado de t\u00f4das as ambi\u00e7\u00f5es, de todos os interesses pessoais, de todos os m\u00eados, vene-ra\u00e7\u00f5es, indigna\u00e7\u00f5es, simpatias, etc. tanto dos antepassados, como dos cidad\u00e3os existentes&#8221; \u2014 n\u00e3o serei eu que o conteste. O mesmo farei se ele me disser, a prop\u00f3sito do templo grego:<\/p>\n<p>Posto que as id\u00e9ias adiantadas, uma vez estabelecidas, atuem s\u00f4bre a socie-dade e ajudem o seu progresso ulterior, ainda assim o estabelecimento de tais id\u00e9ias depende da aptid\u00e3o da sociedade para receb\u00ea-las. Na pr\u00e1tica, \u00e9 o car\u00e1ter popular e o estado social que determinam as id\u00e9ias que h\u00e3o de ter curso- n\u00e3o s\u00e3o as Id\u00e9ias correntes que determinam o estado social e o car\u00e1ter&#8230;<\/p>\n<p>Sim, concordo que o templo grego sejam as id\u00e9ias novas, e o car\u00e1-ter e o estado social a torre, que h\u00e1 de sobrepor-se por muito tempo as belas colunas antigas, ainda que a gente se oponha com t\u00f4da a f\u00f4r\u00e7a ao voto das irmandades<\/p>\n<p>Neste ponto das minhas reflex\u00f5es, o sino da torre bateu uma pan-cada, logo depois outra. . . Estreme\u00e7o, acordo, eram ave-marias. Sem saber o que fazia. corro \u00e0 igreja para votar<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? diz-me o sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Para votar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas elei\u00e7\u00e3o foi domingo passado<\/p>\n<p>\u2014 Que dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>\u2014 Hoje \u00e9 s\u00e1bado.<\/p>\n<p>\u2014 Deus de miseric\u00f3rdia<\/p>\n<p>Senti-me fraco, fui comer alguma cousa. Sete dias para achar a explica\u00e7\u00e3o da torre da Gl\u00f3ria, uma semana perdida. Escrevo este artigo a trouxe-mouxe, em cima dos joelhos, servindo-me de mesa um exemplar da B\u00edblia, outro de Cam\u00f5es, outro de Gon\u00e7alves Dias, outro da Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 e outro da Constitui\u00e7\u00e3o de 1889, \u2014 dous templos gregos, com a torre do meu nariz em cima.<\/p>\n<p>[111]<\/p>\n<p>[27 novembro]<\/p>\n<p>UM DOS MEUS velhos h\u00e1bitos \u00e9 ir, no tempo das c\u00e2maras, passar as horas nas galerias. Quando n\u00e3o h\u00e1 c\u00e2maras, vou \u00e0 municipal ou intend\u00eancia-, ao j\u00fari, onde quer que possa fartar o meu amor dos neg\u00f3cios p\u00fablicos, e mais particularmente da eloq\u00fc\u00eancia humana. Nos inter-valos, fa\u00e7o algumas cobran\u00e7as,\u2014ou qualquer servi\u00e7o leve que possa ser interrompido sem dano, ou continuado por outro. J\u00e1 se me t\u00eam oferecido boas empregos, largamente retribu\u00eddos, com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o freq\u00fcentar a5 galerias das c\u00e2maras. Tenho-os recusado todos; nem por isso ando mais magro.<\/p>\n<p>Nas galerias das c\u00e2maras ocupo sempre um lugar na primeira fila dos bancos, leva-se mais tempo a sair, mas como eu s\u00f3 saio no fim, e \u00e0s v\u00eazes depois do fim, importa-me pouco essa dificuldade. A van-tagem \u00e9 enorme, tem-se um parapeito de pau, onde um homem pode encostar os bra\u00e7os e ficar a gosto. O chap\u00e9u atrapalhou-me muito no primeiro ano ( 1857), mas desde que me furtaram um, meio novo, resolvi a quest\u00e3o definitivamente. Entro ponho o chap\u00e9u no banco e sento-me em cima. Venham c\u00e1 busc\u00e1-lo!<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntes a que vem esta p\u00e1gina dos meus h\u00e1bitos. \u00c9 ler, se queres. Talvez haja uma conclus\u00e3o. Tudo tem conclus\u00e3o neste mundo. Eu vi concluir discursos, que ainda agora suponho estar ouvindo.<\/p>\n<p>Cada cousa tem uma hora pr\u00f3pria, leitor feito \u00e0s pressas. Na gale-ria, \u00e9 meu costume dividir o tempo entre ouvir e dormir. At\u00e9 certo ponto, velo sempre. Da\u00ed em diante, salvo rumor grande, apartes, tumulto, cerro os olhos e passo pelo sono. H\u00e1 dias em que o guarda vem bater-me no ombro.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Saia da\u00ed, j\u00e1 acabou.<\/p>\n<p>Olho, n\u00e3o vejo ningu\u00e9m, recompondo o chap\u00e9u e saio. Mas estes casos n\u00e3o s\u00e3o comuns.<\/p>\n<p>No Senado, nunca pude fazer a divis\u00e3o exata, n\u00e3o porque l\u00e1 falas-sem mal, ao contr\u00e1rio, falavam geralmente melhor que na outra C\u00e2mara. Mas n\u00e3o havia barulho. Tudo macio. O estilo era t\u00e3o apurado, que ainda me lembro certo incidente que ali se deu, orando o finado Ferraz, um que fez a lei banc\u00e1ria a de 1860. Creio que era ent\u00e3o Ministro da Guerra, e dizia, referindo-se a um senador: &#8220;Eu entendo, Sr. presidente, que o nobre senador n\u00e3o entendeu o que disse o nobre Ministro da Marinha, ou fingiu que n\u00e3o entendeu. O Visconde de Abaet\u00e9, que era o presidente, acudiu logo: &#8220;A palavra fingiu acho que n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria.&#8221; E o Ferraz replicou: &#8220;Pe\u00e7o perd\u00e3o a V. Ex.\u00aa, retiro a palavra.&#8221;<\/p>\n<p>Ora, d\u00eaem l\u00e1 interesse \u00e0s discuss\u00f5es com estes passos de minuete! Eu, mal chegava ao Senado, estava com os anjos. Tumulto, saraivada grossa, caluniador para c\u00e1, caluniador para l\u00e1, eis o que pode manter o interesse de um debate. E que \u00e9 a vida sen\u00e3o uma troca de ca-cha\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica trouxe-me quatro desgostos extraordin\u00e1rios; um foi logo remediado; os outros tr\u00eas n\u00e3o. O que ela mesma remediou, foi a desastrada id\u00e9ia de meter as c\u00e2maras no pal\u00e1cio da Boa Vista. Muito pol\u00edtico e muito bonito para quem anda com dinheiro no bolso; mas obrigar-me a pagar dous n\u00edqueis de passagem por dia, ou a ir a p\u00e9, era um desprop\u00f3sito. Felizmente, vingou a id\u00e9ia de tornar a p\u00f4r as c\u00e2maras em contacto com o povo, e descemos da Boa Vista.<\/p>\n<p>N\u00e3o me falem nos outros tr\u00eas desgostos. Suprimir as interpela\u00e7\u00f5es aos ministros, com dia fixado e anunciado; acabar com a discuss\u00e3o da resposta \u00e0 fala do trono; eliminar as apresenta\u00e7\u00f5es de minist\u00e9rios novos . . .<\/p>\n<p>Oh! as minhas belas apresenta\u00e7\u00f5es de minist\u00e9rios! Era um regalo ver a C\u00e2mara cheia, agitada, febril, esperando o novo gabinete. Mo\u00e7as nas tribunas, algum diplomata, meia d\u00fazia de senadores. De repente, levantava-se um sussurro, todos os olhos voltavam-se para a porta central, aparecia o minist\u00e9rio com o chefe \u00e0 frente, cumpri-mentos \u00e0 direita e \u00e0 esquerda. Sentados todos, erguia-se um dos mem-bros do gabinete anterior e expunha as raz\u00f5es da retirada; o presidente do conselho erguia-se depois, narrava a hist\u00f3ria da subida, e definia o programa. Um deputado da oposi\u00e7\u00e3o pedia a palavra, dizia mal dos dous minist\u00e9rios, achava contradi\u00e7\u00f5es e obscuridades nas explica\u00e7\u00f5es, e julgava o programa insuficiente. R\u00e9plica, tr\u00e9plica, agita\u00e7\u00e3o, um dia cheio.<\/p>\n<p>Justi\u00e7a, justi\u00e7a. H\u00e1 usos daquele tempo que ficaram. \u00c0s vezes, quando os debates eram calorosos,\u2014e principalmente nas interpela\u00e7\u00f5es, \u2014eu da galeria entrava na dan\u00e7a, dava palmas. N\u00e3o sei quando come\u00e7ou este uso de dar palmas nas galerias. Deve vir de muitos anos. O presidente da C\u00e2mara bradava sempre: &#8220;As galerias n\u00e3o podem fazer manifesta\u00e7\u00f5es!&#8221; Mas era como se n\u00e3o dissesse nada. Na primeira ocasi\u00e3o, tornava a palmear com a mesma for\u00e7a. Vieram vindo depois os bravos, os apoiados, os n\u00e3o-apoiados, uma bonita agita\u00e7\u00e3o. Confesso que eu nem sempre sabia das raz\u00f5es do clamor, e n\u00e3o raro me aconteceu apoiar dous contr\u00e1rios. N\u00e3o importa, liberdade, antes confusa, que nenhuma.<\/p>\n<p>Esse costume prevaleceu, n\u00e3o acompanhou os que perdi, felizmente. Em verdade, seria l\u00fagubre, se, al\u00e9m de me tirarem as interpela\u00e7\u00f5es e o resto, acabassem metendo-me uma rolha na boca. Era melhor assassinar-me logo, de uma vez. A liberdade n\u00e3o \u00e9 surda-muda, nem paral\u00edtica. Ela vive, ela fala, ela bate as m\u00e3os, ela ri, ela assobia, ela clama, ela vive da vida. Se eu na galeria n\u00e3o posso dar um berro, onde \u00e9 que o hei de dar? Na rua, feito maluco?<\/p>\n<p>Assim continuei a intervir nos debates, e a fazer crescer o meu direito pol\u00edtico; mas estava longe de esperar o reconhecimento imediato, pleno e absoluto que me deu a intend\u00eancia nova. Tinha ganho muito na outra galeria; enriqueci na da intend\u00eancia, onde o meu direito de gritar, apupar e aplaudir foi bravamente consagrado. N\u00e3o pe\u00e7o que se ponha isto por lei, porque ent\u00e3o, gritando, apupando ou aplaudindo, estarei cumprindo um preceito legal, que \u00e9 justamente o que eu n\u00e3o quero. N\u00e3o que eu tenha \u00f3dio \u00e0 lei; mas n\u00e3o tolero opress\u00f5es de esp\u00e9cie alguma, ainda em meu benef\u00edcio.<\/p>\n<p>O melhor que h\u00e1 no caso da intend\u00eancia nova, \u00e9 que ela mesma deu o exemplo, excitando-se de tal maneira, que fez esquecer os mais belos dias da C\u00e2mara. Em minha vida de galeria, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 curta, tenho assistido a grandes dist\u00farbios parlamentares; raro se ter\u00e1 aproximado das estr\u00e9ias da nova representa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio. N\u00e3o desmaie a nobre corpora\u00e7\u00e3o. Berre, ainda que seja preciso trabalhar.<\/p>\n<p>Pela minha parte, fiz o que pude, e estou pronto a fazer o que puder e o que n\u00e3o puder. Embora n\u00e3o tenha a supersti\u00e7\u00e3o do respeito, quero que me respeitem no exerc\u00edcio de um jus adquirido pela von-tade e confirmado pelo tempo. J&#8217;y suis, j&#8217;y reste, como tenho ouvido dizer nas c\u00e2maras. Creio que \u00e9 latim ou franc\u00eas. Digo, por linguagem, que ainda posso ir adiante; e finalmente que, se h\u00e1 por a\u00ed alguma frase menos incorreta, \u00e9 reminisc\u00eancia da tribuna parlamentar ou judici\u00e1ria. N\u00e3o se arrasta uma vida inteira de galeria em galeria sem trazer algumas amostras de sintaxe.<\/p>\n<p>[112]<\/p>\n<p>[18 dezembro}<\/p>\n<p>ONTEM, querendo ir pela Rua da Candel\u00e1ria, entre as da Alf\u00e2ndega e Sab\u00e3o (velho estilo), n\u00e3o me foi poss\u00edvel passar, tal era a multid\u00e3o de gente. Cuidei que havia briga, e eu gosto de ver brigas; mas n\u00e3o era. A massa de gente tomava a rua, de uma banda a outra, mas n\u00e3o se mexia; n\u00e3o tinha a ondula\u00e7\u00e3o natural dos cacha\u00e7\u00f5es. Prociss\u00e3o n\u00e3o era; n\u00e3o havia tochas acessas nem sobrepelizes. Sujeito que mostrasse artes de macaco ou vendesse drogas, ao ar livre, com discursos, tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava neste ponto, quando vi subir a Rua da Alf\u00e2ndega um digno anci\u00e3o, a quem expus as minhas d\u00favidas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada disso, respondeu-me cortesmente. N\u00e3o h\u00e1 aqui prociss\u00e3o nem macaco. Briga, no sentido de murros trocados, tam-b\u00e9m n\u00e3o h\u00e1,\u2014pelo menos, que me conste. Quanto \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de estar a\u00ed alguma pessoa apregoando medalhinhas e vidrinhos, como os bufarinheiros da Rua do Ouvidor, esquina da do Carmo ou da Primeiro de Mar\u00e7o, menos ainda.<\/p>\n<p>\u2014J\u00e1 sei, \u00e9 uma seita religiosa que se re\u00fane aqui para meditar sobre as vaidades do mundo,\u2014um tro\u00e7o de budistas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Advinhei: \u00e9 um meeting.<\/p>\n<p>\u2014Onde est\u00e1 o orador?<\/p>\n<p>\u2014Esperam o orador.<\/p>\n<p>\u2014Que orador? que meeting? Ou\u00e7a calado. O senhor parece ter o mau costume de vir apanhar as palavras dentro da boca dos outros. Sossegue e escute.<\/p>\n<p>\u2014Sou todo ouvidos.<\/p>\n<p>\u2014Este \u00e9 o c\u00e9lebre encilhamento.<\/p>\n<p>\u2014Ah!<\/p>\n<p>\u2014V\u00ea? H\u00e1 mais tempo teria tido o gosto dessa admira\u00e7\u00e3o, se me ouvisse calado. Este \u00e9 o encilhamento.<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o sabia que era assim.<\/p>\n<p>\u2014 Assim como?<\/p>\n<p>\u2014Na rua. Cuidei que era uma vasta sala ou um terreno fechado, particular ou p\u00fablico, n\u00e3o este peda\u00e7o de rua estreita e aborrecida. E olhe que nem h\u00e1 meio de passar; eu quis romper, pedi licen\u00e7a. . . Entretanto, creio que temos a liberdade de circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Leia a Constitui\u00e7\u00e3o, meu senhor, leia a Constitui\u00e7\u00e3o. O art. 70 \u00e9 o que compendia os direitos dos nacionais e estrangeiros; s\u00e3o trinta e um par\u00e1grafos: nenhum deles assegura o direito de circula\u00e7\u00e3o&#8230; O direito de reuni\u00e3o, porcm7 \u00e9 positivo. Est\u00e1 no \u00a7 8.\u00b0: &#8220;A todos \u00e9 l\u00edcito reunirem-se livremente e sem armas, n\u00e3o podendo intervir a pol\u00edcia, sen\u00e3o para manter a ordem p\u00fablica&#8221;. Estes homens que aqui est\u00e3o trazem armas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o as vejo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e3o desarmados. n\u00e3o perturbam a ordem p\u00fablica, exercem um direito, e, enquanto n\u00e3o infringirem as duas cl\u00e1usulas constitucionais s\u00f3 a viol\u00eancia os poder\u00e1 tirar daqui. Houve j\u00e1 uma tentativa disso. Eu, se fosse comigo, recorria aos tribunais, onde h\u00e1 justi\u00e7a. Se eles ma negassem, pedia o j\u00fari, onde ela \u00e9 indefect\u00edvel, como na velha Inglaterra. Note que a viol\u00eancia da pol\u00edcia j\u00e1 deu algum lucro. Como as mol\u00e9culas do encilhamento, por uma lei natural, tendiam a unir-se logo depois de dispersados, a pol\u00edcia, para impedir a recomposi\u00e7\u00e3o fazia disparar de quando em quando duas pra\u00e7as de cavalaria. Mal sabiam elas que eram simples animais de corrida. As pessoas que as viam correr, apostavam sobre qual chegaria primeiro a certo ponto. \u2014 \u00c9 da esquerda. \u2014 \u00c9 a da direita. \u2014 Quinhentos mil-r\u00e9is. \u2014 Aceito. \u2014 Pronto.<br \/>\n\u2014 Chegou a da esquerda: d\u00ea c\u00e1 o dinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 De maneira que a pr\u00f3pria autoridade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Exatamente. Ah! meu meu caro, dinheiro \u00e9 mais forte que amor. Veja o neg\u00f3cio do chocolate. Chocolate parece que n\u00e3o convida a falsifica\u00e7\u00e3o: tem menos uso que o caf\u00e9. Pois o chocolate \u00e9 hoje t\u00e3o duvidoso como O caf\u00e9. Entretanto, ningu\u00e9m dir\u00e1 que os falsificadores sejam homens desonestos nem inimigos p\u00fablicos. O que os leva a Falsificar a bebida n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio ao homem. Como odiar o homem, se no homem est\u00e1 o fregu\u00eas? \u00c9 o amor da pec\u00fania.<\/p>\n<p>\u2014 Pec\u00fania? chocolate?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor. um neg\u00f3cio que se descobriu h\u00e1 dias. O senhor, ao que parece, n\u00e3o sabe o que se passa em torno de n\u00f3s. Aposto que n\u00e3o teve not\u00edcia da revolu\u00e7\u00e3o de Niter\u00f3i?<\/p>\n<p>\u2014 Tive.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tive mais que not\u00edcia, tive saudades. Quando me falaram em revolu\u00e7\u00e3o de Niter\u00f3i, lembrei-me dos tempos da minha mocidade, quando Niter\u00f3i era Praia Grande. N\u00e3o se faziam ali revolu\u00e7\u00f5es, faziam-se patuscadas. Ia-se de falua, antes e ainda depois das primeiras barcas. Quem ligou nunca Niter\u00f3i e S. Domingos a outra id\u00e9ia que n\u00e3o fosse noite de luar, descantes, mo\u00e7as vestidas de branco, versos, uma ou outra charada? Havia presidente, como h\u00e1 hoje; mas morava do lado de c\u00e1. Ia ali \u00e0s onze horas, almo\u00e7ado, assinava o expediente, ouvia uma d\u00fazia de sujeitos cujos neg\u00f3cios eram todos a salva\u00e7\u00e3o p\u00fablica, metia-se na barca, e vinha ao Teatro L\u00edrico ouvir a Zecchinni. Havia tamb\u00e9m uma assembl\u00e9ia legislativa; era uma esp\u00e9cie do antigo Col\u00e9gio de Pedro II, onde os mocos tiravam carta de bacharel pol\u00edtico, e marchavam para S. Paulo, que era a assembl\u00e9ia geral. Tempos! tempos!<\/p>\n<p>\u2014 Tudo muda, meu caro senhor. Niter\u00f3i n\u00e3o podia ficar eternamente Praia Grande.<\/p>\n<p>\u2014 De acordo; mas a l\u00e1grima \u00e9 livre.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 talvez a cousa mais livre deste mundo sen\u00e3o a \u00fanica. Que \u00e9 \u00e1 liberdade pessoal? O senhor vinha andando, rua acima. encontra-me, fa\u00e7o-lhe uma pergunta, e aqui est\u00e1 preso h\u00e1 vinte minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus! Tomara eu destes grilh\u00f5es! S\u00e3o grilh\u00f5es de ouro.<\/p>\n<p>\u2014 Agrade\u00e7o-lhe o favor. Nunca o favor \u00e9 t\u00e3o honroso e grande como quando sai da boca ungida pelo saber e pela experi\u00eancia; por-que a bondade e pr\u00f3pria dos altos esp\u00edritos.<\/p>\n<p>\u2014 Julga-me por si; \u00e9 o modo certo de engrandecer os pequenos.<\/p>\n<p>\u2014 O que engrandece os pequenos \u00e9 o sentimento da mod\u00e9stia, virtude extraordin\u00e1ria; o senhor a possui.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca me esquecerei deste feliz encontro.<\/p>\n<p>\u2014 Na verdade, \u00e9 bom que haja encilhamento; se o n\u00e3o houvesse, a rua era livre, como a l\u00e1grima, eu teria ido o meu caminho, e n\u00e3o receberia este favor do c\u00e9u. de encontrar uma intelig\u00eancia t\u00e3o culta. Aqui est\u00e1 o meu cart\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 o meu. Sempre \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>\u2014 Igualmente.<\/p>\n<p>\u2014 (\u00c0 parte ) Que homem distinto!<\/p>\n<p>\u2014 (\u00c0 parte ) Que estim\u00e1vel anci\u00e3o!<\/p>\n<p>[113]<\/p>\n<p>[25 dezembro]<\/p>\n<p>\u00c9 DESENGANAR. Gente que mamou leite rom\u00e2ntico, pode meter o dente no rosbife naturalista; mas em lhe cheirando a teta g\u00f3tica e oriental, deixa o melhor peda\u00e7o de carne para correr \u00e0 bebida da inf\u00e2ncia. Oh! Meu doce de leite rom\u00e2ntico! Meu licor de Granada! Como ao velho Goethe, aparecem novamente as figuras a\u00e9reas que outrora vi ante os meus olhos turvos.<\/p>\n<p>Com efeito enquanto v\u00f3s outros cuid\u00e1veis da reforma financeira e tantos fatos da semana, enquanto percorr\u00edeis as salas da nossa bela exposi\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria da de Chicago, eu punha os olhos em um telegrama de Constantinopla; publicado por uma das nossas folhas. M\u00e3o s\u00e3o raros os telegramas de Constantinopla; temos sabido por eles como vai a quest\u00e3o dos Dardanelos; mas desta vez alguma cousa me dizia que n\u00e3o se tratava de pol\u00edtica. Tirei os \u00f3culos, limpei \u2014 os, fitei o telegrama. Que dizia o telegrama?<\/p>\n<p>&#8220;Cinco odaliscas. . .&#8221; Parei; lidas essas primeiras palavras, senti-me necessitado de tomar f\u00f4lego. Cinco odaliscas! Murmura esse nome, leitor faze escorrer da boca essas quatro s\u00edlabas de mel, e lambe depois os bei\u00e7os, ladr\u00e3o. Pela minha parte, achei-me, em esp\u00edrito. diante de cinco lindas mulheres, como o v\u00e9u transparente no rosto. as cal\u00e7as largas e os p\u00e9s metidos nas chinelas de marroquim amarelo, \u2014 babuchas, que \u00e9 o pr\u00f3prio nome. Todas as orientais de Hugo vieram chover sobre mim as suas rimas de ouro e s\u00e2ndalo. Cinco odaliscas, Mas que fizeram essas cinco odaliscas? N\u00e3o fizeram nada. Tinham sido mandadas de presente ao sult\u00e3o. Pobres mo\u00e7as! Entraram no har\u00e9m, l\u00e1 estiveram n\u00e3o sei quanto tempo, at\u00e9 que foram agora assassinadas&#8230; Sim, leitor compassivo, assassinadas por mandado das outras mulheres que j\u00e1 l\u00e1 estavam, e por ci\u00fames&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, aqui \u00e9 for\u00e7a interromper o cap\u00edtulo, por um instante. N\u00e3o continuo sem advertir que o ano \u00e9 bissexto, ano de espantos. M\u00edseras odaliscas! Assassinadas por ci\u00fames, \u2014 n\u00e3o do sult\u00e3o, que tem mais que fazer com o grande urso eslavo: \u2014 por ci\u00fames dos eunucos. Singulares eunucos! eunucos de ano bissexto! Todo o har\u00e9m posto em \u00f3dio, em tumulto, em sangue, por causa de meia d\u00fazia de guardas que o sult\u00e3o tinha o direito de supor fi\u00e9is ao trono e \u00e0 cirurgia.<\/p>\n<p>O mundo caduca \u2014 reflexionou tristemente um dia n\u00e3o sei que cardeal da Santa Igreja Romana; e fez bem em morrer pouco depois, para n\u00e3o ouvir da parte do oriente este desmentido de incr\u00e9us: \u2014 O mundo reconstitui-se. O sult\u00e3o tem ainda um recurso, dissolver n corpo dos seus guardas, como fizemos aqui com o corpo de pol\u00edcia de Niter\u00f3i, e recomp\u00f4-lo com os companheiros de Maom\u00e9 II. Eis acudir\u00e3o \u00e0 chamada do imperador; os velhos ossos cumprir\u00e3o o seu dever, atarraxando-se uns nos outros, e, com as \u00f3rbitas vazias, com o alfanje pendente dos dedos sem carne. correr\u00e3o a vigiar e defender as odaliscas antigas e recentes.<\/p>\n<p>Ossos embora, h\u00e3o de ouvir as vozes femininas, e, pois que tiveram outra fun\u00e7\u00e3o social, estremecer\u00e3o ao eco dos s\u00e9culos extintos. A frase vai-me saindo com tal ou qual ritmo que parece verso. Talvez por causa do assunto. Falemos de um triste leit\u00e3o, que ouvi grunhir agora mesmo no Largo da Carioca. Ia atado pelos p\u00e9s, dorso para baixo. seguro pela m\u00e3o de um criado. que o levava de presente a algu\u00e9m: \u00e9 v\u00e9spera de Natal. Presente crist\u00e3o. costume cat\u00f3lico. parece que adotado para fazer figa ao juda\u00edsmo. Ser\u00e1 comido amanh\u00e3, domingo: ira para a mesa com a antiga rodela de lim\u00e3o, \u00e0 maneira velha. Pobre leit\u00e3o! Berrava como se j\u00e1 o estivessem assando. Talvez o desgra\u00e7ado houvesse not\u00edcia do seu destino, por algumas rela\u00e7\u00f5es verbais que passem entre eles de pais a filhos. Pode ser que eles ainda aguardem uma desforra. Tudo se deve esperar na terra. Tout arrive, como dizem os franceses.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dizer dos franceses o que me est\u00e1 caindo da pena. Melhor \u00e9 cal\u00e1-lo. Como se n\u00e3o bastassem a essa briosa na\u00e7\u00e3o os delitos de Panam\u00e1, est\u00e1 a desmoralizar-se com o esc\u00e2ndalo de tantos processos. Corrup\u00e7\u00e3o escondida vale tanto como p\u00fablica; a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o fede. Que \u00e9 que se ganha em processar? Fulano corrompeu Sicrano. Pedro e Paulo uniram-se para emba\u00e7ar uma rua inteira, fizeram vinte discursos, trinta an\u00fancios, e deixaram os ouvintes sem passo que o sil\u00eancio, al\u00e9m de ser outro, conforme o ad\u00e1gio \u00e1rabe, tem a vantagem de fazer esquecer mais depressa. Toda a quest\u00e3o \u00e9 que os empulhados n\u00e3o se deixem embair outra vez pelos empulhadores.<\/p>\n<p>1893<\/p>\n<p>[114]<\/p>\n<p>[22 janeiro]<\/p>\n<p>A QUEST\u00c3O Capital est\u00e1 na ordem do dia. Tempo houve em que na Rep\u00fablica Argentina n\u00e3o se falou de outra cousa. L\u00e1, por\u00e9m, n\u00e3o se tratava de trocar a capital da prov\u00edncia de Buenos Aires por outra, mas de tirar \u00e0 cidade deste nome o duplo car\u00e1ter de capital da prov\u00edncia e da Rep\u00fablica. Um dia resolveram fazer uma cidade nova La Plata, que dizem ser magn\u00edfica, mas que custou naturalmente empr\u00e9stimos grossos.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, a quest\u00e3o \u00e9 mais simples. Trata-se de mudar a capital do Rio de Janeiro para outra cidade que n\u00e3o fique sendo um prolongamento da Rua do Ouvidor. Conv\u00e9m que o Estado n\u00e3o viva sujeito ao bot\u00e3o de Diderot, que matava um homem na China. A quest\u00e3o \u00e9 escolher entre tantas cidades. A id\u00e9ia legislativa at\u00e9 agora \u00e9 Teres\u00f3polis; assim se votou ontem na assembl\u00e9ia . Era a do finado capitalista Rodrigues, que escreveu artigos sobre isso. Grande viveur, o Rodrigues! Em verdade, Teres\u00f3polis est\u00e1 mais livre de um assalto. \u00e9 fresca, tem terras de sobra, onde se edifique para oficiar, para legislar e para dormir.<\/p>\n<p>Campos quer tamb\u00e9m a capitaliza\u00e7\u00e3o Re\u00fane-se, discute, pede, insta. Vassouras n\u00e3o quer ficar atr\u00e1s. Velha cidade de um munic\u00edpio de caf\u00e9. julga-se com direito a herdar de Niter\u00f3i, e oferecer dinheiros para auxiliar a administra\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis tamb\u00e9m quer ser capital, e parece invocar algumas raz\u00f5es de eleg\u00e2ncia e de beleza; mas tem contra si n\u00e3o estar muito mais longe da Rua do Ouvidor. e at\u00e9 mais perto, por dous caminhos. Tamb\u00e9m h\u00e1 quem indique Nova Friburgo: e, se eu me deixasse levar pelas boas recorda\u00e7\u00f5es dos hot\u00e9is Leuenroth e Salusse, n\u00e3o aconselharia outra cidade. Mas, al\u00e9m de n\u00e3o pertencer ao Estado (sou puro carioca), jamais iria contra a opini\u00e3o dos meus concidad\u00e3os unicamente para satisfazer reminisc\u00eancias culin\u00e1rias Nem s\u00f3 culin\u00e1rias: tamb\u00e9m as tenho coreogr\u00e1ficas&#8230; Oh! bons e saudosos bailes do sal\u00e3o Salusse! Convivas desse tempo, onde ides v\u00f3s? Uns morreram, outros casaram, outros envelheceram; e, no meio de tanta fuga, \u00e9 prov\u00e1vel que alguns fugissem. Falo de quatorze anos atr\u00e1s. Resta ao menos este miser\u00e1vel escriba. que, em vez de l\u00e1 estar outra vez, no alto da serra, aqui fica a comer-lhes o tempo.<\/p>\n<p>Niter\u00f3i n\u00e3o pede nada, olha, escuta, aguarda. Vai para a barca, se tem c\u00e1 o emprego; se o tem l\u00e1 mesmo, vai ver chegar ou sair a barca. V\u00ea sempre alguma cousa, \u2014 Outrora as lanchas, \u2014 depois as barcas. Pobre sub\u00farbio da velha Corte, n\u00e3o tens for\u00e7as para reagir contra a descapitaliza\u00e7\u00e3o; n\u00e3o representas, n\u00e3o requeres. Vais para a galeria da assembl\u00e9ia ouvir as raz\u00f5es com que te tiram o chap\u00e9u da cabe\u00e7a; n\u00e3o indagues se s\u00e3o boas ou m\u00e1s. S\u00e3o raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Vale-lhe uma cousa n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. O Estado de Minas Gerais, que desde o tempo do imp\u00e9rio j\u00e1 sonhava com outra capital, p\u00f5e m\u00e3os \u00e0 obra deveras&#8217; mandando fazer uma capital nova. J\u00e1 a\u00ed saiu uma comiss\u00e3o em busca de territ\u00f3rio e clima adequados. Ouro Preto tem de ceder. Dizem que lhe custa; mas o que \u00e9 que n\u00e3o custa? Quanto \u00e0 capital da rep\u00fablica, \u00e9 mat\u00e9ria constitucional, e a comiss\u00e3o encarregada de escolher e delimitar a \u00e1rea j\u00e1 concluiu os seus trabalhos, ou est\u00e1 prestes a faz\u00ea-lo, segundo li esta mesma semana. Telegrama de Uberaba diz que ali chegou o chefe, Lu\u00eds Cruls.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que uma capital \u00e9 obra dos tempos, filha da hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria e os tempos se encarregar\u00e3o de consagrar as novas. A cidade que j\u00e1 estiver feita, como no Estado do Rio, \u00e9 de esperar que se desenvolva com a capitaliza\u00e7\u00e3o. As novas devemos esperar que ser\u00e3o habitadas logo que sejam habit\u00e1veis. O resto vir\u00e1 com os anos.<\/p>\n<p>Entretanto, os donativos e ofertas por parte de algumas cidades fluminenses mostram bem, que nem as cidades querem andar na turbamulta, por mais que a produ\u00e7\u00e3o e a riqueza as distingam. Tudo vale muito, mas n\u00e3o vale tudo, antes da coroa administrativa. Datar as leis de Campos \u00e9 dar o comando a Campos; dat\u00e1-las de Vassouras e d\u00e1-lo a Vassouras; e nada vale o comando, nem a pr\u00f3pria santidade.<\/p>\n<p>A capital da Rep\u00fablica, uma vez estabelecida, receber\u00e1 um nome deveras, em vez deste que ora temos, mero qualificativo. N\u00e3o sei se viverei at\u00e9 \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o. A vida \u00e9 t\u00e3o curta. a morte t\u00e3o incerta que a inaugura\u00e7\u00e3o pode fazer-se sem mim, e t\u00e3o certo \u00e9 o esquecimento, que nem dar\u00e3o pela minha falta. Mas, se viver, l\u00e1 irei passar algumas f\u00e9rias, como os de l\u00e1 vir\u00e3o aqui passar outras. Os cariocas ficar\u00e3o sempre com a ba\u00eda, a esquadra, os arsenais, os teatros, os bailes, a Rua do Ouvidor, os jornais, os bancos, a pra\u00e7a do com\u00e9rcio, as corridas de cavalos. tanto nos circos, como nos balc\u00f5es de algumas casas c\u00e1 embaixo, os monumentos, a companhia l\u00edrica, os velhos templos, os rebequistas, os pianistas&#8230;<\/p>\n<p>Ponhamos tamb\u00e9m os melhoramentos projetados na cidade. S\u00e3o muitos, e creio haver boa resolu\u00e7\u00e3o de levar a obra ao cabo. Oxal\u00e1 n\u00e3o desanimem os poderes do munic\u00edpio. Tamb\u00e9m ficaremos com os processos de toda a sorte, as sociedades sem cabe\u00e7a e as sociedades de duas cabe\u00e7as. como a Coloniza\u00e7\u00e3o. imita\u00e7\u00e3o da \u00e1gua austr\u00edaca. Aqui ficar\u00e1 o grande banco. A mesma ponte truncada da baia. que o mar come\u00e7ou a comer, e as montanhas \u2014 russas inacabadas da Gl\u00f3ria tamb\u00e9m ficar\u00e3o aqui, t\u00e3o inacabadas e t\u00e3o truncadas como podemos pedi-los aos deuses.<\/p>\n<p>Perderemos, \u00e9 certo, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a; mas, tendo a C\u00e2mara Municipal do Tubar\u00e3o, em um assomo de c\u00f3lera, qualificado um ato daquela institui\u00e7\u00e3o como ignobilmente anormal, e n\u00e3o nos convindo, nem cortar as rela\u00e7\u00f5es com o Tubar\u00e3o. nem sair da escola do respeito, melhor \u00e9 que o tribunal se mude e nos deixe. Grande Tubar\u00e3o! Tudo por causa de um homem. O que n\u00e3o dir\u00e1 ele por um princ\u00edpio?<\/p>\n<p>[115]<\/p>\n<p>[29 janeiro]<\/p>\n<p>GOSTO deste homem pequeno e magro chamado Barata Ribeiro, prefeito municipal, todo vontade, todo a\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o perde o tempo a ver correr as \u00e1guas do Eufrates. Como Josu\u00e9, acaba de p\u00f4r abaixo as muralhas de Jerico, vulgo Cabe\u00e7a de Porco. Chamou as tropas segundo as ordens de Jav\u00e9 durante os seis dias da escritura, deu volta \u00e0 cidade e depois mandou tocar as trombetas. Tudo ruiu, e, para mais justeza b\u00edblica, at\u00e9 carneiros sa\u00edram de dentro da Cabe\u00e7a de Porco tal qual da outra Jeric\u00f3 sa\u00edram bois e jumentos. A diferen\u00e7a \u00e9 que estes foram passados a fio de espada. Os carneiros, n\u00e3o s\u00f3 conservaram a vida mas receberam ontem algumas a\u00e7\u00f5es de sociedades an\u00f4nimas.<\/p>\n<p>Outra diferen\u00e7a. Na velha Jeric\u00f3 houve, ao menos, uma casa de mulher que salvar, porque a dona tinha acolhido os mensageiros de Josu\u00e9. Aqui nenhuma recebeu ningu\u00e9m. Tudo pereceu portanto, e foi bom que perecesse. L\u00e1 estavam para fazer cumprir a lei a autoridade policial, a autoridade sanit\u00e1ria, a for\u00e7a p\u00fablica, cidad\u00e3os de boa vontade, e c\u00e1 fora \u00e9 preciso que esteja aquele apoio moral, que d\u00e1 a opini\u00e3o p\u00fablica aos var\u00f5es provadamente fortes.<\/p>\n<p>N\u00e3o me condenem os reminisc\u00eancias de Jeric\u00f3. Foram os lindos olhos de uma judia que me meteram na cabe\u00e7a os passos da Escritura. Eles \u00e9 que me fizeram ler no livro do \u00caxodo a condena\u00e7\u00e3o das imagens, lei que eles entendem mal, por serem judeus, mas que os olhos crist\u00e3os entendem pelo \u00fanico sentido verdadeiro. Tal foi a causa de n\u00e3o ir, desde anos, \u00e0 prociss\u00e3o de S. Sebasti\u00e3o, em que a imagem do nosso padroeiro \u00e9 transportada da catedral ao Castelo. Sexta-feira fui v\u00ea-la sair. \u00c9ramos dous, um amigo e eu; logo depois \u00e9ramos quatro, n\u00f3s e as nossas melancolias. Deus de bondade! Que diferen\u00e7a entre a prociss\u00e3o de sexta-feira e as de outrora. Ordem, n\u00famero, pompa, tudo o que havia quando eu era menino, tudo desapareceu. Valha a piedade, posto n\u00e3o faltaram olhos crist\u00e3os, e femininos, \u2014 um par deles \u2014 para acompanhar com riso amigo e particular uma velha opa encarnada e inquieta. Foi o meu amigo que notou essa passagem do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Todo eu era pouco para evocar a minha meninice. ..<\/p>\n<p>E, tu, Bel\u00e9m Efrata&#8230; Vede ainda uma reminisc\u00eancia b\u00edblica; \u00e9 do profeta Miqu\u00e9ias.. . N\u00e3o tenho outra para significar a vit\u00f3ria de Teres\u00f3polis De Bel\u00e9m tinha de vir o salvador do mundo, como de Teres\u00f3polis h\u00e1 de vir a salva\u00e7\u00e3o do Estado fluminense. Est\u00e1 feito capital o lindo e fresco deserto das montanhas. Peso de Campos (agora \u00e9 imitar o profeta Isa\u00edas), peso de Vassouras, peso de Niter\u00f3i. N\u00e3o valeram riquezas, nem s\u00faplicas. A ti, pobre e antiga Niter\u00f3i n\u00e3o te valeu a eloq\u00fc\u00eancia do teu Belis\u00e1rio Augusto, nem sequer a rivalidade das outras cidades pretendentes. Tinha de ser Teres\u00f3polis. &#8220;F tu, Bel\u00e9m Efrata, tu \u00e9s pequenina entre as milhares de Jud\u00e1.. .&#8221; Pequenina tamb\u00e9m \u00e9 Teres\u00f3polis, mas pequenina em casas, terras h\u00e1 muitas, pedras n\u00e3o faltam, nem cal, nem trolhas, nem tempo. Falta o meu velho amigo Rodrigues \u2014 ora morto e enterrado, \u2014 que possu\u00eda uma boa parte daquelas terras desertas. Ai, Justiniano! Os teus dias passaram como as \u00e1guas que n\u00e3o voltam mais. \u00c9 ainda uma palavra da Escritura.<\/p>\n<p>Fora com estes sapatos de Israel. Calcemo-nos \u00e0 maneira da Rua do Ouvidor, que pisamos, onde a vida passa em burburinho de todos os dias e de cada hora. Chovem assuntos modernos. O banco, por exemplo, o novo banco, filho de dous pais, como aquela crian\u00e7a divina que era, dizia Cam\u00f5es, nascida de duas m\u00e3es. As duas m\u00e3es, como sabeis, eram a madre de sua madre, e a coxa de seu padre, porque no tempo em que J\u00fapiter engendrou esse pequerrucho, ainda n\u00e3o estava descoberto o rem\u00e9dio que previne a concep\u00e7\u00e3o para sempre, e de que ou\u00e7o falar na Rua do Ouvidor. Dizem at\u00e9 que se anuncia, mas eu n\u00e3o leio an\u00fancios.<\/p>\n<p>No tempo em que os lia, at\u00e9 os ia catar nos jornais estrangeiros. Um destes, creio que americano, trazia um de excelente rem\u00e9dio para n\u00e3o sei que perturba\u00e7\u00f5es g\u00e1stricas; recomendava por\u00e9m, \u00e0s senhoras que o n\u00e3o tomassem, em estado de gravidez, poio risco que corriam de abortar&#8230; O rem\u00e9dio n\u00e3o tinha outro fin1 sen\u00e3o justamente este mas a policia ficava sem haver por onde pegar do invento e do inventor. Era assim, por meios astutos e grande dissimula\u00e7\u00e3o, que o rem\u00e9dio se oferecia \u00e0s senhoras cansadas de aturar crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A moeda falsa, que previne a mis\u00e9ria, n\u00e3o a previne para sempre visto que a pol\u00edcia tem o poder in\u00edquo de interromper os estudos de gravura e meter toda uma academia na Deten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 li que se trata de demolir caracteres, e tamb\u00e9m que a autoridade est\u00e1 atacando o capital. Eu, em se me falando esta linguagem, fico do lado do capital e dos caracteres. Que pode, sem eles, uma sociedade?<\/p>\n<p>Um criado meu, que perdeu tudo o que possu\u00eda na compra de desventuras&#8230; perdoem-lhe; \u00e9 um pobre homem que fala mal. Ensinei-lhe a correta pron\u00fancia de deb\u00eantures, mas ele disse-me que desventuras \u00e9 o que elas eram, desventuras e patifarias. Pois esse criado tamb\u00e9m defende o capital; a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o se acusa a si de atacar o dos outros. e sim aos outros de lhe terem levado o seu. Quanto aos caracteres, entendo que, se alguma cousa quer demolir n\u00e3o s\u00e3o os caracteres, mas as pr\u00f3prias caras, que s\u00e3o os caracteres externos, e n\u00e3o o faz por medo da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>L\u00ea tudo o que os jornais publicam, este homem. Foi ele que me deu not\u00edcia da nova den\u00fancia contra a Geral; ele chama-lhe nova. n\u00e3o sei se houve outra. Contou-me tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de discursos, paraninfos e retratos, e mais um contrabando de objetos de prata dentro de um canap\u00e9 velho.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ganho dinheiro com isto, conclui ele, mas consolo-me das minhas desventuras.<\/p>\n<p>\u2014 Deb\u00eantures, Jos\u00e9 Rodrigues.<\/p>\n<p>[116]<\/p>\n<p>[5 fevereiro]<\/p>\n<p>CONTARAM algumas folhas esta semana, que um homem, n\u00e3o querendo pagar por um quilo de carne pre\u00e7o superior ao taxado pela prefeitura, ouvira do a\u00e7ougueiro que poderia pagar o dito pre\u00e7o, mas que o quilo seria mal pesado.<\/p>\n<p>P\u00e1ra, amigo leitor; n\u00e3o te importes com o resto das cousas, nem dos homens. Com um osso, queria o outro reconstruir um animal; com aquela s\u00f3 palavra, podemos recompor um animal, uma fam\u00edlia, uma tribo, uma na\u00e7\u00e3o, um continente de animais. N\u00e3o \u00e9 que a palavra seja nova. E menos velha que o diabo, mas \u00e9 velha. Creio que no tempo das libras, j\u00e1 havia libras mal pesadas, e at\u00e9 arrobas. O nosso erro \u00e9 crer que inventamos, quando continuamos, ou simplesmente copiamos. Tanta gente pasma ou vocifera diante de pecados, sem querer ver que outros iguais pecados se pecaram, e ainda outros se est\u00e3o pecando, por v\u00e1rias outras terras pecadoras.<\/p>\n<p>Andamos em boa companhia. N\u00e3o nos h\u00e3o de lapidar por atos que s\u00e3o antes efeito de uma epidemia do tempo. Ou lapidem-nos, mas no sentido em que se lapida um diamante, para se lhe deixar o puro brilho da esp\u00e9cie. Neste ponto, for\u00e7a \u00e9 confessar que ainda h\u00e1 por aqui impurezas e defeitos graves; mas o belo diamante Estrela do Sul, que hoje pertence a n\u00e3o sei que coroa europ\u00e9ia, n\u00e3o foi achado na Bagagem prestes a ser engastado, mas naturalmente bruto. H\u00e1 impurezas. H\u00e1 in\u00e9pcia, por exemplo, muita in\u00e9pcia. Quando n\u00e3o \u00e9 in\u00e9pcia, s\u00e3o inadvert\u00eancias. Apontam-se diamantes que tanto t\u00eam de finos como de pataus, e s\u00f3 o longo estudo da mineralogia poder\u00e1 :lar a chave da contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, sursum corda, como se diz na missa. Subamos ao alto valor espiritual da resposta do a\u00e7ougueiro. Um quilo mal pesado. Pela lei, um aquilo mal pesado n\u00e3o \u00e9 tudo, s\u00e3o novecentas e tantas gramas, ou s\u00f3 novecentas. Mas a persist\u00eancia do nome \u00e9 que d\u00e1 a grande significa\u00e7\u00e3o da palavra e a conseq\u00fcente teoria. Trata-se de uma id\u00e9ia que o vendedor e o comprador entendem, posto que legalmente n\u00e3o exista. Eles cr\u00eaem e juram que h\u00e1 duas esp\u00e9cies de quilo, \u2014 o de peso justo e o mal pesado. Perder\u00e3o a carne ou o pre\u00e7o, primeiro que a convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora bem, n\u00e3o ser\u00e1 assim com o resto? Que s\u00e3o notas falsas, se acaso est\u00e3o de acordo com as verdadeiras, e apenas se distinguem delas por uma tinta menos viva, ou por alguns pontos mais ou menos incorretos? Falsas seriam, se se parecessem tanto com as outras, como um r\u00f3tulo de farm\u00e1cia com um bilhete do Banco Emissor de Pernambuco, para n\u00e3o ir mais longe; mas se entre as notas do mesmo banco houver apenas diferen\u00e7as mi\u00fadas de cor ou de desenho, as chamadas falsas est\u00e3o para as verdadeiras, como o quilo mal pesado para o quilo de peso justo. Excluo naturalmente o caso de emiss\u00f5es clandestinas, porque as notas de tais emiss\u00f5es nunca se poder\u00e3o dizer mal pesadas. O peso \u00e9 o mesmo. A altera\u00e7\u00e3o \u00fanica est\u00e1 no acr\u00e9scimo do mantimento, determinado pelo acr\u00e9scimo dos quilos. Quanto ao mais, falsas ou verdadeiras, valha-nos aquela benta francesia que diz que tout finit par des chansons.<\/p>\n<p>Pa\u00f1uelo a la cintura,<br \/>\nPa\u00f1uelo al cuello,<br \/>\nTantos pa\u00f1uelos!<\/p>\n<p>Saiam donde for, basta que enfeitem a mo\u00e7a andaluza. N\u00e3o lhe faltar\u00e3o guitarras nem guitarreiros, que levantem at\u00e9 a lua os seus m\u00e9ritos, ainda que eles sejam mal pesados. Que valem cinq\u00fcenta ou cem gramas de menos a um merecimento, se lhe n\u00e3o tiram este nome? Tudo est\u00e1 no nome. Vi estadistas que tinham de ci\u00eancia pol\u00edtica um quilo muito mal pesado, e nunca os vi gritar contra o a\u00e7ougueiro; alguns acabaram crendo que o peso era justo, outros que at\u00e9 traziam um peda\u00e7o de quebra&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isto prova, interrompe-me aqui o a\u00e7ougueiro, que o senhor entende pouco do que escreve. Se realmente tivesse id\u00e9ias claras saberia que n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 quilos mal pesados; tamb\u00e9m os h\u00e1 bem pesados. Mas quem os recebe da segunda classe, n\u00e3o corre \u00e0s folhas p\u00fablicas. Creia-me, isto de filosofia n\u00e3o se faz s\u00f3 com a pena no papel mas tamb\u00e9m com o fac\u00e3o na alcatra. Saiba que o mundo \u00e9 uma balan\u00e7a, em que se pesam alternadamente aqueles dous quilos, entre brados de alegria e de indigna\u00e7\u00e3o. Para mim, tenho que o quilo mal pesado foi inventado por Deus, e o bem pesado pelo Diabo, mas os meus fregueses pensam o contr\u00e1rio, e da\u00ed um povo de cism\u00e1ticos. uma ra\u00e7a perversa e corrupta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem; fa\u00e7a o resto da cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>[117]<\/p>\n<p>[12 fevereiro]<\/p>\n<p>FALECI ONTEM, pelas sete horas da manh\u00e3. J\u00e1 se entende que foi sonho; mas t\u00e3o perfeita a sensa\u00e7\u00e3o da morte, a despegar-me da vida t\u00e3o ao vivo o caminho do c\u00e9u, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventuran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ia subindo, ouvia j\u00e1 os coros de anjos, quando a pr\u00f3pria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma \u00e2nfora nas m\u00e3os, onde espremera algumas d\u00fazias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar prociss\u00f5es que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela dizia enquanto ia entornando a \u00e2nfora:<\/p>\n<p>\u2014 Esta gente vai sair tr\u00eas dias \u00e0 rua com o furor que traz toda a restaura\u00e7\u00e3o. Convidada a divertir-se no inverno, preferiu o ver\u00e3o n\u00e3o por ser melhor, mas por ser a pr\u00f3pria quadra antiga, a do costume. a do calend\u00e1rio, a da tradi\u00e7\u00e3o, a de Roma, a de Veneza. a de Paris. Com temperatura alta, podem vir transtornos de sa\u00fade, \u2014 algum aparecimento de febre, que os seus vizinhos chamem logo amarela, n\u00e3o lhe podendo chamar pior&#8230; Sim, chovamos sobre o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Alegrei-me com isto, posto j\u00e1 n\u00e3o pertencesse \u00e0 terra. Os meus patr\u00edcios iam ter um bom carnaval, \u2014 velha festa, que est\u00e1 a fazer quarenta anos. se j\u00e1 os n\u00e3o fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da col\u00f4nia e vindo da metr\u00f3pole. N\u00e3o pensem os rapazes de vinte e dous anos que o entrudo era alguma cousa semelhante \u00e0s tentativas de ressurrei\u00e7\u00e3o, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d&#8217;\u00e1gua, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam \u00e0 for\u00e7a um cidad\u00e3o todo, \u2014 chap\u00e9u, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram lim\u00f5es de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, n\u00e3o contando as bacias d&#8217;\u00e1gua despejadas a trai\u00e7\u00e3o. Mais de uma tuberculose caminhou em tr\u00eas dias o espa\u00e7o de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Quando menos, nasciam as constipa\u00e7\u00f5es e bronquites, ronquid\u00f5es e tosses. e era a vez dos botic\u00e1rios, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmac\u00eauticos ainda eram botic\u00e1rios.<\/p>\n<p>Cheguei a lembrar-me, apesar de ir caminho do c\u00e9u, dos epis\u00f3dios de amor que vinham com o entrudo. O lim\u00e3o de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um of\u00edcio mais pr\u00f3ximo e inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das mo\u00e7as; era esmigalhado nele pela m\u00e3o do pr\u00f3prio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente . . .<\/p>\n<p>Um dia veio, n\u00e3o Malesherbes, mas o carnaval, e deu \u00e0 arte da loucura uma nova fei\u00e7\u00e3o. A alta roda acudiu de pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital entrou na dan\u00e7a. Os personagens hist\u00f3ricos e os vestu\u00e1rios pitorescos, um doge, um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia \u00e0s m\u00e3os dos alfaiates, diante de figurinos, \u00e0 for\u00e7a de dinheiro. Pegou o custo das sociedades, as que morriam eram substitu\u00eddas, com v\u00e1ria sorte, mas igual anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naturalmente, o sufr\u00e1gio universal, que penetra em todas as institui\u00e7\u00f5es deste s\u00e9culo, alargou as propor\u00e7\u00f5es do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto carnavalesco invadiu todos os esp\u00edritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evoh\u00e9! Bacchus est roi! dizia um coro de n\u00e3o sei que pe\u00e7a do Alcazar L\u00edrico, -\u2014 outra institui\u00e7\u00e3o velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta simples emenda: Evoh\u00e9! Momus est roi!<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante as festas da terra, ia eu subindo. subindo, at\u00e9 que cheguei \u00e0 porta do c\u00e9u, onde S. Pedro parecia, aguardar-me, cheio de riso.<\/p>\n<p>\u2014 Guardaste para ti tesouros no c\u00e9u ou na terra? perguntou-me.<\/p>\n<p>Se crer em tesouros escondidos na terra \u00e9 o mesmo que escond\u00ea-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que est\u00e3o no morro do Castelo, como nos cento e cinq\u00fcenta contos fortes do homem que est\u00e1 preso em Valhadolide. S\u00e3o fortes; segundo o meu criado Jos\u00e9 Rodrigues. quer dizer que s\u00e3o trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mist\u00e9rio. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesu\u00edtas foram uma das minhas cren\u00e7as da meninice e da mocidade; morri com ela, e agora mesmo ainda a tenho. Perdi sa\u00fade, ilus\u00f5es. amigos e at\u00e9 dinheiro, mas a cren\u00e7a nos tesouros do Castelo n\u00e3o a perdi. Imaginei a chegada da ordem que expulsava os jesu\u00edtas. Os padres do col\u00e9gio n\u00e3o tinham tempo nem me os de levar as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterr\u00e2neo. venham os ricos c\u00e1lices de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobr\u00f5es, os vastos sacos cheios de moeda, cem, duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este Santo In\u00e1cio de ouro maci\u00e7o, com olhos de brilhantes, dentes de p\u00e9rolas, toca a esconder, a guardar, a fechar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 P\u00e1ra, interrompeu-me S. Paulo; falas como se estivesses a representar alguma cousa. A imagina\u00e7\u00e3o dos homens \u00e9 perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem s\u00e3o os que se guardam no c\u00e9u. onde a ferrugem os n\u00e3o come.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era o dinheiro que me fascinava em vida, era o mist\u00e9rio. Eram os trinta ou quarenta milh\u00f5es de cruzados escondidos, h\u00e1 mais de s\u00e9culo, no Castelo; s\u00e3o os trezentos contos do preso de Valhadolide. O mist\u00e9rio, sempre o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, vejo que amas o mist\u00e9rio. Explicar-me-\u00e1s este de um grande n\u00famero de almas que foram daqui para o Brasil e tornaram sem se poderem incorporar?<\/p>\n<p>\u2014 Quando, divino ap\u00f3stolo?<\/p>\n<p>\u2014 Ainda agora.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser obra de um m\u00e9dico italiano, um doutor &#8230; esperai&#8230; creio que Abel, um doutor Abel, sim Abel&#8230; \u00c9 um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres. Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode j\u00e1 conceber; est\u00e3o prontas.<\/p>\n<p>\u2014 As pobres almas voltavam tristes e desconsoladas; n\u00e3o sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual \u00e9 o fim do processo esterilizador? \u2014 Pol\u00edtico. Diminuir a popula\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a italiana vai entrando; id\u00e9ia de Crispi, aceita por Giolitti, confiada a Abel &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Crispi foi sempre tenebroso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o; mas, em suma, h\u00e1 um fim pol\u00edtico, e os fins pol\u00edticos s\u00e3o sempre elevados &#8230; Panam\u00e1, que n\u00e3o tinha fim pol\u00edtico &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, tu \u00e9s muito falador. O c\u00e9u \u00e9 dos grandes sil\u00eancios contemplativos.<\/p>\n<p>[118]<\/p>\n<p>[19 fevereiro]<\/p>\n<p>\u00c9 MEU VELHO costume levantar-me cedo e ir ver as belas rosas, frescas murtas, e as borboletas que de todas as partes correm a amar no meu jardim. Tenho particular amor \u00e0s borboletas. Acho nelas algo das minhas id\u00e9ias, que v\u00e3o com igual presteza, sen\u00e3o com a mesma gra\u00e7a. Mas deixemo-nos de elogios pr\u00f3prios; vamos ao que me aconteceu ontem de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Quando eu mais perdido estava a mirar uma borboleta e uma id\u00e9ia, parado no jardim da frente, ouvi uma voz na rua, ao p\u00e9 da grade:\u2014 Faz favor?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso mais para fazer fugir uma id\u00e9ia. A minha escapouse-me, e tive pena. Vestia umas asas de azul-claro, com pintinhas amarelas, cor de ouro. Cor de ouro embora, n\u00e3o era a mesma (nem para l\u00e1 caminhava) do banqueiro Oberndcerffer, que dep\u00f4s agora no processo Panam\u00e1. Esse cavalheiro foi quem deu \u00e0 companhia a id\u00e9ia de emiss\u00e3o de bilhetes de loteria e o respectivo plano, para falar como no Beco das Cancelas. Pagaram-lhe s\u00f3 por esta id\u00e9ia dous milh\u00f5es de francos. O presidente do tribunal ficou assombrado. Mas um dos diretores, r\u00e9u no processo, explicou o caso dizendo que o banqueiro tinha grande influ\u00eancia na pra\u00e7a, e que assim trabalharia a favor da companhia, em vez de trabalhar contra. Teve uma feliz id\u00e9ia, disse o juiz ao depoente; mas, para os acionistas, era melhor que n\u00e3o a tivesse tido. O depoente provou o contr\u00e1rio e retirou-se.<\/p>\n<p>Tivesse eu a mesma id\u00e9ia, e n\u00e3o a venderia por menos. Olhem, n\u00e3o fui eu que ideei esta outra loteria, mais modesta, do Jardim Zool\u00f3gico; mas, se o houvesse feito, n\u00e3o daria a minha id\u00e9ia por menos de cem contos de r\u00e9is; podia fazer algum abate, cinco porcento, digamos dez. Relativamente n\u00e3o se pode dizer que fosse caro. H\u00e1 inven\u00e7\u00f5es mais caras.<\/p>\n<p>Mas, vamos ao caso de ontem de manh\u00e3. Olhei para a porta do jardim, dei com um homem magro, desconhecido, que me repetiu cochilando:<\/p>\n<p>\u2014 Faz favor?<\/p>\n<p>Cheguei a supor que era uma rel\u00edquia do carnaval; erro crasso, porque as rel\u00edquias do carnaval v\u00e3o para onde v\u00e3o as luas velhas. As luas velhas, desde o princ\u00edpio do mundo, recolhem-se a uma regi\u00e3o que fica \u00e0 esquerda do infinito, levando apenas algumas lembran\u00e7as vagas deste mundo. O mundo \u00e9 que n\u00e3o guarda nenhuma lembran\u00e7a delas. Nem os namorados t\u00eam saudades das boas amigas, que, quando eram mo\u00e7as e cheias, tanta vez os cobriram com o seu longo manto transparente. E suspiravam por elas; cantavam \u00e0 viola mil cantigas saudosas, dengosas ou simplesmente tristes; faziam-lhes versos, se eram poetas:<\/p>\n<p>Era no outono, quando a imagem tua,<br \/>\n\u00c0 luz da lua&#8230;<br \/>\nC&#8217;etait dans la nuit brume,<br \/>\nSur le clocher jauni,<br \/>\nLa lune&#8230;<\/p>\n<p>Todos os metros, todas as l\u00ednguas, enquanto elas eram mo\u00e7as; uma vez encanecidas, adeus. E l\u00e1 v\u00e3o elas para onde v\u00e3o as rel\u00edquias do carnaval \u2014 n\u00e3o sei se mais esfarrapados, nem mais tristes; mas v\u00e3o, todas de mistura, tr\u00f4pegas, deixando pelo caminho as met\u00e1foras e os descanses de poetas e namorados.<\/p>\n<p>Reparando bem, vi que o homem n\u00e3o era precisamente um trapo carnavalesco. Trazia na m\u00e3o um papel, que me mostrava de longe, \u2014 a princ\u00edpio, calado, \u2014 depois dizendo que era para mim. Que seria? Alguma carta, \u2014 talvez&#8221; um telegrama&#8217; Que me dir\u00e1 esse telegrama? Agora mesmo, houve em Blumenau a pris\u00e3o do Sr. Lousada. Telegrafaram a 16 esta not\u00edcia, acrescentando que &#8220;o povo d\u00e1 demonstra\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de indigna\u00e7\u00e3o&#8221;. Para quem conhece o t\u00e9cnica dos telegramas, o povo estava jogando o bilhar. Tanto \u00e9 assim que o pr\u00f3prio telegrama, para suprir a dubiedade e o vago daquelas palavras, concluiu com estas: &#8220;esperam-se acontecimentos grav\u00edssimos&#8221;. Sabe-se que o supelativo paga o mesmo que o positivo; naturalmente o telegrama n\u00e3o custou mais caro.<\/p>\n<p>Vejam, entretanto, como me enganei. Realmente, houve acontecimentos grav\u00edssimos; a 17 telegrafaram que vinte homens armados feriram gravemente o comiss\u00e1rio da pol\u00edcia: esperavam-se outras cenas de sangue. Vinte homens n\u00e3o s\u00e3o o algarismo ordin\u00e1rio de um povo; mas eram graves os sucessos. Outro telegrama, por\u00e9m, n\u00e3o fala de tal ataque; diz apenas que uma comiss\u00e3o do povo foi exigir provid\u00eancias do juiz de direito, que este pedia a coadjuva\u00e7\u00e3o do povo para manter a ordem, e ficou solto Lousada. Tudo isto, se n\u00e3o \u00e9 claro, traz-me recorda\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia, quando eu ia ao teatro ver uma velha com\u00e9dia de Scribe, o Chap\u00e9u de Palha da It\u00e1lia. Havia nela um personagem que atravessa os cinco atos, exclamando alternadamente, conforme os lances da situa\u00e7\u00e3o: \u2014 &#8220;Meu genro, tudo est\u00e1 desfeito!&#8221; \u2014 &#8220;Meu genro, tudo est\u00e1 reconciliado!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Telegrama? perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, disse o homem.<\/p>\n<p>\u2014 Carta?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o. Um papel.<\/p>\n<p>Caminhei at\u00e9 a porta. O desconhecido, cheio de afabilidade que lhe agrade\u00e7o nestas linhas, entregou-me um pedacinho de papel impresso, com alguns dizeres manuscritos. Pedi-lhe que esperasse; respondeu-me que n\u00e3o havia resposta, tirou o chap\u00e9u, e foi andando. Lancei os olhos ao papel, e vi logo que n\u00e3o era para mim, mas para o meu vizinho. N\u00e3o importa; estava aberto e pude l\u00ea-lo. Era uma intima\u00e7\u00e3o da intend\u00eancia municipal.<\/p>\n<p>Esta intima\u00e7\u00e3o come\u00e7ava dizendo que ele tinha de ir pagar a certa casa, na Rua Nova do Ouvidor, a quantia de mil e quinhentos r\u00e9is, pre\u00e7o da placa do n\u00famero da casa em que mora. Conclu\u00ed que tamb\u00e9m eu teria de pagar mil e quinhentos quando recebesse igual papel, porque a minha casa tamb\u00e9m recebera placa nova. O papel era assinado pelo fiscal. Achei tudo correto, salvo o ponto de ir pagar a um particular, e n\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria intend\u00eancia; mas a explica\u00e7\u00e3o estava no fim.<\/p>\n<p>Se a pessoa intimada n\u00e3o pagasse no prazo de tr\u00eas dias, incorreria na multa de trinta mil-r\u00e9is. Estaquei por um instante; tr\u00eas dias, trinta mil-r\u00e9is, por uma placa, era um pouco mais do que pedia o servi\u00e7o, \u2014 um servi\u00e7o que, a rigor, a intend\u00eancia \u00e9 qu\u00ea devia pagar. Mas estava longe dos meus espantos. Continuei a leitura, e vi que, no caso de reincid\u00eancia, pagaria o dobro (sessenta mil-r\u00e9is) e teria oito dias de cadeia. Tudo isto em virtude de um contrato.<\/p>\n<p>O papel e a alma ca\u00edram-me aos p\u00e9s. Oito dias de cadeia e sessenta mil-r\u00e9is se n\u00e3o pagar uma placa de mil e quinhentos! Tudo por contrato. Afinal apanhei o papel, e ainda uma vez o li; meditei e vi que o contrato podia ser pior, \u2014 podia estatuir a perda do nariz, em vez da simples pris\u00e3o. A liberdade volta; nariz cortado n\u00e3o volta. Al\u00e9m disso, se Xavier de Maistre, em quarenta e dous dias de pris\u00e3o, escreveu uma obra-prima, por que raz\u00e3o, se eu for encarcerado por causa de placa, n\u00e3o escreverei outra? Quem sabe se a falta da cadeia n\u00e3o \u00e9 que me impede esta consola\u00e7\u00e3o intelectual? N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 pena; esta cl\u00e1usula do contrato \u00e9 antes um benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que um legista, amigo meu, afirma que n\u00e3o h\u00e1 carcereiro que receba um devedor remisso de placas. Outro, que n\u00e3o \u00e9 legista, mas \u00e9 devedor, h\u00e1 tr\u00eas meses, assevera que ainda ningu\u00e9m o convidou a ir para a Deten\u00e7\u00e3o. A pena \u00e9 um espantalho. Que desastre! Justamente quando eu come\u00e7ava a ach\u00e1-la \u00fatil. Pois se n\u00e3o h\u00e1 cadeia de verdade, \u00e9 caso de vistoria e demoli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[119]<\/p>\n<p>[26 fevereiro]<\/p>\n<p>O QUE MAIS Me encanta na humanidade, \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um imenso conflito de lealdades debaixo do sol. O concerto de louvores entre os homens pode dizer-se que \u00e9 j\u00e1 m\u00fasica cl\u00e1ssica. A maledic\u00eancia, que foi antigamente uma das pestes da terra, serve hoje de assunto a com\u00e9dias f\u00f3sseis, a romances arcaicos. A dedica\u00e7\u00e3o, a generosidade, a justi\u00e7a, a fidelidade, a bondade, andam a rodo, como aquelas moedas de ouro com que o her\u00f3i de Voltaire viu os meninos brincarem nas ruas de El-Dorado.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o social podia ser dispensada. Entretanto, \u00e9 prudente conserv\u00e1-la por algum tempo, como um recreio \u00fatil. A inven\u00e7\u00e3o de crimes, para serem publicados \u00e0 maneira de romances, vale bem o dinheiro que se gasta com a seguran\u00e7a e a justi\u00e7a p\u00fablicas. Algumas dessas narrativas s\u00e3o demasiado longas e enfadonhas, como a Maria de Macedo, cujo s\u00e9timo volume vai adiantado; mas isso mesmo \u00e9 um benef\u00edcio. Mostrando aos homens os efeitos de um grande enfado, prova-se-lhes que o tipo de ma\u00e7ante, \u2014 ou cacete, como se dizia outrora \u2014 \u00e9 dos piores deste mundo, e impede-se a volta de semelhante flagelo. Uma das boas institui\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo \u00e9 a falange das cousas perdidas, composta dos antigos gatunos e incumbida de apanhar os rel\u00f3gios e carteiras que os descuidados deixam cair, e restitu\u00ed-los a seus donos. Tudo efeito de discursos morais.<\/p>\n<p>Posto que in\u00fatil, pela aus\u00eancia de crimes, o j\u00fari \u00e9 ainda uma excelente institui\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, o sacrif\u00edcio que fazem todos os meses alguns cidad\u00e3os em deixarem os seus of\u00edcios e neg\u00f3cios para fingirem de r\u00e9us, \u00e9 j\u00e1 um grande exemplo de civismo. O mesmo direi dos jurados. Em segundo lugar, o torneio de palavras a que d\u00e1 lugar entre advogados, constitui uma boa escola de eloq\u00fc\u00eancia. Os jurados aprendem a responder aos quesitos, para o caso de aparecer algum crime. \u00c0s vezes, como sucedeu h\u00e1 dias, enganam-se nas respostas, e mandam um r\u00e9u para as gal\u00e9s, em vez de o devolverem \u00e0 fam\u00edlia; mas, como s\u00e3o simples ensaios, esse mesmo erro \u00e9 benef\u00edcio, para tirar aos homens alguma pontinha de orgulho de sapi\u00eancia que porventura lhes haja ficado.<\/p>\n<p>Mas a perfei\u00e7\u00e3o maior, a perfei\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, \u00e9 a de que nos deu not\u00edcia esta semana o cabo submarino. O gr\u00e3o-turco, por ocasi\u00e3o do jubileu do papa, escreveu-lhe uma carta autografada de felicita\u00e7\u00f5es acompanhada de presentes de alta valia. N\u00e3o se pode dizer que sejam cortesias temporais. O papa j\u00e1 n\u00e3o governa, como o sult\u00e3o da Turquia. A fineza \u00e9 o chefe espiritual, t\u00e3o espiritual como o jubileu. J\u00e1 cism\u00e1ticos e her\u00e9ticos tinham feito a mesma cousa; faltava o gr\u00e3o turco, e j\u00e1 n\u00e3o falta. Al\u00e1 cumprimentou o Senhor, M2om\u00e9 a Cristo. Tudo o que era contraste, fez-se harmonia, o oposto ajustou-se a oposto. Ondas e ondas de sangue custou o conflito de dous livros A cruz e o crescente levaram atr\u00e1s de si milhares e milhares de homens. Houve c\u00f3leras grandes. Houve tamb\u00e9m grandes e pequeno poetas que cantaram os feitos e os sentimentos evang\u00e9licos, ora pela nota marcial, ora pela nota desdenhosa. Um deles dedilhou no ala\u00fade rom\u00e2ntico a hist\u00f3ria daquele sult\u00e3o que requestava uma cantarina de Granada, e lhe prometia tudo:<\/p>\n<p>Je donneirais sans retour<br \/>\nMon royaume pour Al\u00e9dine,<br \/>\nM\u00e9dine pour ton amour.<\/p>\n<p>\u2014 Rei sublime, faze-te primeiramente crist\u00e3o, respondeu a bela Juana; danado \u00e9 o prazer que uma mulher pode achar nos bra\u00e7os de um incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p>Tempos de Granada! j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 preciso que os sult\u00f5es se cristianizem. Agora \u00e9 a Sublime Porta, com a sua chancelaria, as suas circulares diplom\u00e1ticas, os seus gestos ocidentais, que desaprendeu o cr\u00ea ou morre para celebrar a festa de um grande incr\u00e9dulo do Cor\u00e3o. Onde v\u00e3o as guerras de outrora? Onde param os alfanjes tintos de sangue crist\u00e3o? Naturalmente est\u00e3o com as espadas tintas de sangue mu\u00e7ulmano. Vivam os vivos!<\/p>\n<p>Eu, se pudesse dar um conselho em tais casos, propunha a emenda do brevi\u00e1rio. Gl\u00f3ria a Deus nas alturas, deve ficar; mas para que acrescentar: e na terra paz aos homens? A paz a\u00ed est\u00e1, completa, universal, perene. Vede Ub\u00e1. Vede que magn\u00edfico espet\u00e1culo deu ela a todos os munic\u00edpios do Estado mineiro, fazendo uma elei\u00e7\u00e3o tranq\u00fcila, sem as ruins paix\u00f5es que corrompem os melhores sentimentos deste mundo. O governador de S. Paulo achou-se em casa com cerca de oitenta bombons de dinamite, -excelente produto da ind\u00fastria local, que conseguiu reduzir um explosivo t\u00e3o violento a simples doce de confeitaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo de Pernambuco, nem do Rio Grande do Sul, nem das amazonas de Daom\u00e9, nem das dan\u00e7as de Madri, a que chamaram tumultos, por ignor\u00e2ncia do espanhol, nem da Guaratiba, nem de tantas outras partes e artes, que s\u00e3o consola\u00e7\u00f5es da nossa humanidade triunfante.<\/p>\n<p>Mas a paz n\u00e3o basta. Falta dizer da alegria. Oh! doce alegria dos cora\u00e7\u00f5es! Um s\u00f3 exemplo, e dou fim a isto. Aqui est\u00e1 o parecer dos s\u00edndicos da Geral, publicado sexta-feira. Diz que entre os nomes da proposta da concordata h\u00e1 alguns jocosos e outros obscenos. O parecer censura esse g\u00eanero de literatura concordat\u00e1ria. Escrito com a melancolia que a natureza, para real\u00e7ar a alegria do s\u00e9culo, p\u00f4s na alma de todos os s\u00edndicos, o parecer n\u00e3o compreende a vida e as suas belas flores. Isto quanto aos nomes jocosos. Pelo que toca aos obscenos, \u00e9 preciso admitir que, assim como h\u00e1 bocas recatadas, tamb\u00e9m as h\u00e1 l\u00fabricas. A alegria tem todas as formas, n\u00e3o se h\u00e1 de excluir uma, por n\u00e3o ser igual \u00e0s outras. A monotonia \u00e9 a morte. A vida est\u00e1 na variedade.<\/p>\n<p>Demais, que se h\u00e1 de fazer com acionistas que ainda devem de entradas oitenta e cinco mil oitocentos e quarenta e seis contos, cento e sessenta mil e duzentos r\u00e9is (85.846:160 200)? Rir um pouco, e bater-lhes na barriga. Ora, cada um ri com a boca que tem. Mas a prova de que a obscenidade, como a jocosidade, formas de alegria, s\u00e3o de origem leg\u00edtima e aut\u00eantica, \u00e9 que todas as firmas foram legalmente reconhecidas. Quando a alegria entra nos cart\u00f3rios, \u00e9 que a tristeza fugiu inteiramente deste mundo.<\/p>\n<p>[120]<\/p>\n<p>[5 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>QUANDO OS JORNAIS anunciaram para o dia 1.0 deste m\u00eas uma parede de, a\u00e7ougueiros, a sensa\u00e7\u00e3o que tive foi mui diversa da de todos os meus concidad\u00e3os. V\u00f3s ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao c\u00e9u. Boa ocasi\u00e3o para converter esta cidade ao vegetarismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se sabem que eu era carn\u00edvoro por educa\u00e7\u00e3o e vegetariano por princ\u00edpio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da raz\u00e3o e organizei o meu c\u00f3digo de princ\u00edpios, inclu\u00ed nele o vegetarismo; mas era tarde para a execu\u00e7\u00e3o. Fiquei carn\u00edvoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte disfar\u00e7a a hediondez da mat\u00e9ria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita ao boi, a aus\u00eancia do vulto inteiro faz esquecer que a gente come um peda\u00e7o de animal. N\u00e3o importa, o homem \u00e9 carn\u00edvoro.<\/p>\n<p>Deus, ao contr\u00e1rio, \u00e9 vegetariano. Para mim, a quest\u00e3o do para\u00edso terrestre explica-se clara e singelamente pelo vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem; fez o para\u00edso cheio de amores e frutos, e p\u00f4s o homem nele. Comei de tudo, disse-lhe, menos do fruto desta \u00e1rvore. Ora, essa chamada \u00e1rvore era simplesmente carne, um peda\u00e7o de boi, talvez um boi inteiro. Se eu soubesse hebraico, explicaria isto muito melhor.<\/p>\n<p>Vede o nobre cavalo! o paciente burro! o incompar\u00e1vel jumento! Vede o pr\u00f3prio boi! Contentam-se todos com a erva e o milho. A carne, t\u00e3o saborosa \u00e0 on\u00e7a, \u2014 e ao gato, seu parente, pobre, \u2014 n\u00e3o diz cousa nenhuma aos animais amigos do homem, salvo o c\u00e3o, exce\u00e7\u00e3o misteriosa, que n\u00e3o chego a entender. Talvez, por mais amigo que todos, comesse o resto do primeiro almo\u00e7o de Ad\u00e3o, de onde lhe veio igual castigo.<\/p>\n<p>Enfim, chegou o dia 10 de mar\u00e7o; quase todos os a\u00e7ougues amanheceram sem carne. Chamei a fam\u00edlia; com um discurso mostrei-lhe que a superioridade do vegetal sobre o animal era t\u00e3o grande, que dev\u00edamos aproveitar a ocasi\u00e3o e adotar o s\u00e3o e fecundo principio vegetariano. Nada de ovos, nem leite, que fediam a carne. Ervas, ervas santas, puras, em que n\u00e3o h\u00e1 sangue&#8221; todas as variedades das plantas, que n\u00e3o berram nem esperneiam, quando lhes tiram a vida. Convenci a todos; n\u00e3o tivemos almo\u00e7o nem jantar, mas dous banquetes. Nos outros dias a mesma cousa.<\/p>\n<p>N\u00e3o desmaies, retalhistas, nesta forte empresa. Dizia um grande fil\u00f3sofo que era preciso recome\u00e7ar o entendimento humano. Eu creio que o est\u00f4mago tamb\u00e9m, porque n\u00e3o h\u00e1 bom racioc\u00ednio sem boa digest\u00e3o, e n\u00e3o h\u00e1 boa digest\u00e3o com a maldi\u00e7\u00e3o da carne. Morre-se de porco. Quem j\u00e1 morreu de alface? Retalhistas, meus amigos, por amor daquele fil\u00f3sofo, por amor de mim, continuei a resist\u00eancia. Os vegetarianos vos ser\u00e3o gratos. Tereis morte gloriosa e sepultura honrada, com ervas e arbustos. N\u00e3o \u00e9 preciso pedir, como o poeta, que vos plantem um salgueiro no cemit\u00e9rio; plantar \u00e9 conosco; n\u00f3s cercaremos as vossas campas de salgueiros tristes e saudosos. Que \u00e9 nossa vida? Nada. A vossa morte, por\u00e9m, ser\u00e1 a grande reconstitui\u00e7\u00e3o da humanidade. Que o Senhor vo-la d\u00ea suave e pronta.<\/p>\n<p>Compreende-se que, ocupado com esta passagem de doutrina \u00e0 pr\u00e1tica, pouco haja atendido aos sucessos de outra esp\u00e9cie, que, ali\u00e1s, s\u00e3o filhos da carne. Sim, o vegetarismo \u00e9 pai dos simples. Os vegetarianos n\u00e3o se batem; t\u00eam horror ao sangue. Gostei, por exemplo, de saber que a multid\u00e3o, na noite do desastre do Liceu de Artes e Of\u00edcios, atirou-se ao interior do edif\u00edcio para salvar o que pudesse; \u00e9 a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da carne, que avigora o \u00e2nimo e a cega diante dos grandes perigos. Mas, quando li que, de envolta com ela, entraram alguns homens, n\u00e3o para despejar a casa, mas para despejar as algibeiras dos que despejavam a casa, reconheci tamb\u00e9m a\u00ed o sinal do carn\u00edvoro. Porque o vegetariano n\u00e3o cobi\u00e7a as causas alheias; mal chega a amar as pr\u00f3prias. Reconstituindo segundo o plano divino, anterior \u00e0 desobedi\u00eancia, ele torna \u00e0s id\u00e9ias simples e desambiciosas que o Criador incutiu no primeiro homem.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o pratica o furto, \u00e9 claro que o vegetariano detesta a fraude e n\u00e3o conhece a vaidade. Da\u00ed um elogio a mim mesmo. Eu n\u00e3o me dou por ap\u00f3stolo \u00fanico desta grande doutrina. Creio at\u00e9 que os temos aqui, anteriores a mim, e, \u2014 singular aproxima\u00e7\u00e3o! \u2014 no pr\u00f3prio conselho municipal. S\u00f3 assim explico a nota jovial que entra em alguns debates sobre assuntos graves e grav\u00edssimos.<\/p>\n<p>Suponhamos a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Aqui est\u00e1 um discurso, sa\u00eddo esta semana, mas proferido muito antes do dia 1.1) de mar\u00e7o; discurso meditado, estudado, cheio de circunspe\u00e7\u00e3o (que o vegetariano n\u00e3o repele, ao contr\u00e1rio) e de muitas pontua\u00e7\u00f5es alegres, que s\u00e3o da ess\u00eancia da nossa doutrina. Tratava-se dos jardins da inf\u00e2ncia. O Sr. Capelli notava que tais e tantos s\u00e3o os dotes exigidos nas jardineiras, beleza, carinho, idade inferior a trinta anos, boa voz, canto, que dificilmente se poder\u00e3o achar neste pa\u00eds mo\u00e7as em quantidade precisa<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o o Sr. Maia Lacerda, mas conhe\u00e7o o mundo e os seus sentimentos de justi\u00e7a, para me n\u00e3o admirar do cordial n\u00e3o apoiado com que ele repeliu a assevera\u00e7\u00e3o do Sr. Capeli. N\u00e3o contava com o orador, (que aparou o golpe galhardamente: &#8220;Vou responder ao se n\u00e3o apoiado, disse ele. As que encontramos, remetendo-as para l\u00e1, receio, que, bonitas como soem ser as brasileiras, corram o risco de n\u00e3o voltar mais, e sejam apreendidas como belos esp\u00e9cimens do tipo americano.&#8221;<\/p>\n<p>Outro ponto alegre do discurso \u00e9 o que trata da necessidade de ensinar a l\u00edngua italiana, fundando-se em que a col\u00f4nia italiana aqui \u00e9 numerosa e crescente, e espalha-se por todo o interior. Parece que a conclus\u00e3o devia ser o contr\u00e1rio; n\u00e3o ensinar italiano ao povo, ante ensinar a nossa l\u00edngua aos italianos. Mas, posto que isto n\u00e3o tenha nada com o vegetarismo, desde que faz com que o povo possa ouvi as \u00f3peras sem libreto na m\u00e3o, \u00e9 um progresso.<\/p>\n<p>[121]<\/p>\n<p>[12 de mar\u00e7o]<\/p>\n<p>QUE CUIDAM que me ficou dos \u00faltimos acontecimentos Amazonas? Um verbo: desaclamar-se. Est\u00e1 em um dos telegrama do Par\u00e1 e refere-se ao cidad\u00e3o que, por algumas horas, estivera com o poder nas m\u00e3os. &#8220;Tendo em of\u00edcio participado a sua aclama\u00e7\u00e3o marcado o prazo de 12 horas para a retirada do governador, de clamou-se em seguida por outro of\u00edcio. . .&#8221;<\/p>\n<p>Pode ser (tudo \u00e9 poss\u00edvel) que o intuito da palavra fosse ante gracejar com a a\u00e7\u00e3o; mas as palavras, com os livros, t\u00eam os seus fados, e os desta ser\u00e3o pr\u00f3speros. \u00c9 uma porta aberta para as restitui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Resignar, como abdicar, exprime a entrega de um poder leg\u00edtimo, que o uso tornou pesado, ou os acontecimentos fizeram caduco. Mas, como se h\u00e1 de exprimir a restitui\u00e7\u00e3o do poder que a aclama\u00e7\u00e3o de alguns entregou por horas a algu\u00e9m? Desaclamar-se. N\u00e3o vejo outro modo.<\/p>\n<p>M\u00e9rim\u00e9e confessou um dia que da hist\u00f3ria s\u00f3 dava apre\u00e7o \u00e0s anedotas. Eu nem \u00e0s anedotas. Contento-me com palavras. Palavra brotada no calor do debate, ou composta por estudo, filha da necessidade, oriunda do amor ao requinte, obra do acaso, qualquer que seja a sua certid\u00e3o de bastimo, eis o que me interessa na hist\u00f3ria dos homens. Desta maneira fico abaixo do outro, que s\u00f3 curava de anedotas. Sim, meus amigos, nunca me vereis vencido por ningu\u00e9m. Alta ou baixa que seja uma id\u00e9ia, acreditei que tenho outra mais alta ou mais baixa. Assim o autor da Cr\u00f4nica de Carlos IX dava Tuc\u00eddides por umas mem\u00f3rias aut\u00eanticas de Asp\u00e1sia ou de um escravo de P\u00e9ricles. Eu dou as mem\u00f3rias deste escravo pela not\u00edcia da palavra que P\u00e9ricles aplicava, em particular, aos cacetes e amoladores de seu tempo.<\/p>\n<p>Que valem, por exemplo, todas as lutas do nosso velho parlamentarismo, em compara\u00e7\u00e3o com esta palavra: inverdade? Inverdade \u00e9 o mesmo que mentira, mas mentira de luva de pelica. Vede bem a diferen\u00e7a. Mentira s\u00f3, nua e crua, dada na bochecha, d\u00f3i. Inverdade, embora dita com energia, n\u00e3o obriga a ir aos queixos da pessoa que a profere. \u2014 &#8220;Perdoe-me V. Ex.a, mas o que acaba de dizer \u00e9 uma inverdade; nunca o presidente da Para\u00edba afirmou tal cousa.&#8221; \u2014 &#8220;Inverdade \u00e9 a sua; desculpe-me que lhe diga em boa amizade; V. Ex.a neste neg\u00f3cio tem espalhado as maiores inverdades poss\u00edveis! para n\u00e3o ir mais longe, o crime atribu\u00eddo ao redator do Imparcial. . . &#8221; \u2014 &#8220;S\u00e3o pontos de vista; pe\u00e7o a palavra.&#8221;<\/p>\n<p>Parece que inexatid\u00e3o bastava ao caso; mas \u00e9 preciso atender ao uso das palavras. N\u00e3o cansam s\u00f3 as l\u00ednguas que as dizem; elas pr\u00f3prias gastam-se. Quando menos, adoecem. A anemia \u00e9 um dos seus males freq\u00fcentes; o esfalfamento \u00e9 outro. S\u00f3 um longo repouso as pode restituir ao que eram, e torn\u00e1-las prest\u00e1veis.<\/p>\n<p>N\u00e3o achei a certid\u00e3o de bastimo da inverdade; pode ser at\u00e9 que nem se batizasse. N\u00e3o nasceu do povo, isso creio. Entretanto, esta mo\u00e7a, pode ainda casar, conceber e aumentar a fam\u00edlia do l\u00e9xicon. Ouso at\u00e9 afirmar que h\u00e1 nela alguns sinais de pessoa que est\u00e1 de esperan\u00e7as. E o filho \u00e9 macho; e h\u00e1 de chamar-se inverdadeiro. N\u00e3o se achar\u00e1 melhor eufemismo de mentiroso; \u00e9 ainda mais doce que sua m\u00e3e, posto que seja feio de cara; mas quem v\u00ea cara, n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vi muitos outros viventes de igual condi\u00e7\u00e3o, que mereceriam algumas linhas; mas o tempo urge, e fica para outra vez. Nem h\u00e1 s\u00f3 viventes separados; tenho visto irm\u00e3os, fileira de irm\u00e3os, sa\u00eddos da mesma coxa ou do mesmo \u00fatero, com o nome de uma s\u00f3 fam\u00edlia apenas diferen\u00e7ado pelo Sufixo, cuja significa\u00e7\u00e3o n\u00e3o alcan\u00e7o. Um exemplo, e despe\u00e7o-me.<\/p>\n<p>A chefia, e particularmente a chefia de pol\u00edcia, \u00e9 uma dona robusta, de grandes predicados e alto poder. Supus por muitos anos que era filha \u00fanica do velho chefe; mas os tempos me foram mostrando que n\u00e3o. Tem irm\u00e3s, tem irm\u00e3os, tem chefa\u00e7\u00e3o, pessoa de igual ou maior for\u00e7a, porque a desin\u00eancia \u00e9 mais en\u00e9rgica. Tem chefan\u00e7a. Vi muitas vezes esta outra senhora, \u00e0 frente da pol\u00edcia ou de um partido, disputar \u00e0s irm\u00e3s o dom\u00ednio exclusivo, sem alcan\u00e7ar mais que comparti-lo com elas. Vi ainda a nobre chefatitra, t\u00e3o v\u00e1lida e t\u00e3o ambiciosa como as outras. Dos irm\u00e3os s\u00f3 conhe\u00e7o o esbelto chefiado, que, alegando o sexo, pretendeu sempre a chefan\u00e7a, a chefatura, a chefa\u00e7\u00e3o ou a chefia da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Parece que, \u00e0 semelhan\u00e7a dos filhos de Jac\u00f3, invejosos de Jos\u00e9, que era particularmente amado do pai, os filhos e filhas do velho chefe, verido a predile\u00e7\u00e3o deste pela linda chefia, cuidaram de a matar. Estavam prestes a faz\u00ea-lo, quando surgiu a id\u00e9ia de a meter na cisterna, e diz\u00ea-la morta por uma fera, como na Escritura; mas a vinda dos mesmos israelitas, com os seus camelos, carregados de mirra e aromas &#8230;<\/p>\n<p>Velha imagina\u00e7\u00e3o, onde vais tu, pelos caminhos do sonho? Deixa os camelos e a sua carga, deixa o Egito, fecha as asas, abre os olhos, desce; esta \u00e9 a Rua do Ouvidor, onde n\u00e3o se mata Jos\u00e9 nem chefia; mas unicamente o tempo, esse bom e mau amigo, que n\u00e3o tem pai, nem m\u00e3e, nem irm\u00e3os, e domina todo este mundo, desde antes de Jac\u00f3 at\u00e9 Deus sabe quando.<\/p>\n<p>Para cr\u00f4nica, \u00e9 pouco; mas para matar o tempo, sobra.<\/p>\n<p>[122]<\/p>\n<p>[26 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>ENTROU o outono. Despontam as esperan\u00e7as de ouvir Sarah Bemhardt e Falstaff. A arte vir\u00e1 assim, com as suas notas de ouro, cantada e faladas, trazer \u00e0 nossa alma aquela paz que alguns homens de boa vontade tentaram restituir \u00e0 alma Tio-grandense, reunindo-se quinta feira na Rua da Quitanda.<\/p>\n<p>Creio que a arte h\u00e1 de ser mais feliz que os homens. Da reuni\u00e3o destes resultou saber-se que n\u00e3o havia solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de acordo com os seus intuitos. Talvez os convidados que l\u00e1 n\u00e3o foram e mandara os seus votos em favor do que passasse, j\u00e1 adivinhassem isso mesmo Viram de longe o texto da mo\u00e7\u00e3o final, e a assinaram de v\u00e9spera H\u00e1 desses esp\u00edritos que, ou por sagacidade pronta, ou por esfor\u00e7o grande, l\u00eaem antes da meia-noite as palavras que a aurora tem d trazer escritas na capa vermelha e branca, sa\u00fadam as estrelas, fecha as janelas e v\u00e3o dormir descansados. Alguns sonham, e creio que sonhos generosos; mas a imagina\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudam a cor rente das cousas, e os homens acordam frescos e leves, sem haver debatido nem incandescido nada.<\/p>\n<p>Comecemos por pacificar-nos. Paz na terra aos homens de boa vontade \u2014 \u00e9 a prece crist\u00e3; mas nem sempre o c\u00e9u a escuta, e, apesar da boa vontade, a paz n\u00e3o alcan\u00e7a os homens e as paix\u00f5es os dilaceram. Para este efeito, a arte vale mais que o c\u00e9u. A pr\u00f3pria guerra, cantada por ela, d\u00e1-nos a serenidade que n\u00e3o achamos na vida. Venha a arte, a grande arte, entre o fim do outono e o princ\u00edpio do inverno.<\/p>\n<p>Confiemos em Sarah Bernhardt com todos os seus ossos e caprichos, mas com o seu g\u00eanio tamb\u00e9m. Vamos ouvir-lhe a prosa e o verso, a paix\u00e3o moderna ou antiga. Confiemos no grande Falstafl. N\u00e3o \u00e9 po\u00e9tico, decerto, aquele gordo Sir John; afoga-se em amores l\u00fabricos e vinho das Can\u00e1rias. Mas tanto se tem dito dele, depois que o Verdi o p\u00f4s em m\u00fasica, que mui naturalmente \u00e9 obra-prima.<\/p>\n<p>O pior ser\u00e1 o libreto, que, por via de regra, n\u00e3o h\u00e1 de prestar; mas leve o diabo libretos. Antes do dil\u00favio, \u2014 ou mais especificadamente, pelo tempo do Trovador, dizia-se que o autor do texto dessa \u00f3pera era o \u00fanico libretista capaz. N\u00e3o sei; nunca o li. O que me ficou \u00e9 pouco para provar alguma cousa. Quando a cigana cantava: Ai nostri monti ritorneremo, a gente s\u00f3 ouvia o vozeir\u00e3o da Casaloni, uma mulher que valia, corpo e alma, por uma companhia inteira. Quando Manrico rompia o famoso: Di quella pira 1&#8217;orrendo fuoco, rasgaram-se as luvas com palmas ao Tamberlick ou ao Mirate. Ningu\u00e9m queria saber do Camarano, que era o autor dos versos.<\/p>\n<p>Resignemos ao que algum mau alfaiate houver cortado na capa magn\u00edfica de Shakespeare. T\u00eam-se aqui publicado not\u00edcias da obra nova, e creio haver lido que um trecho vai ser cantado em concerto; mas eu prefiro esperar. Demais, pouco \u00e9 o tempo para ir seguindo esta outra guerra civil, a prop\u00f3sito do facultativo italiano, que mostra ser patr\u00edcio de Machiavelli. Fez o seu an\u00fancio, e entregou a causa aos advers\u00e1rios. Estes fazem, sem querer, o neg\u00f3cio dele: e se algum vai ficando conhecido, a culpa \u00e9 das cousas, n\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se pode falar sem palavras, e as palavras fizeram-se para ser ouvidas. N\u00e3o digo entendidas, posto que as haja de fina casta, tais como a isquioebetomia, a isquiopubiotomia, a sinfisiotomia, a cofarectomia, a histerectomin, a histerosalpingectomia, e outras que andam pelos jornais, todas de ra\u00e7a grega e talvez do pr\u00f3prio sangue dos Atridas.<\/p>\n<p>Tudo isto a prop\u00f3sito de um processo ignoto e c\u00e9lebre. Descobriu-se agora (segundo li) que uma senhora j\u00e1 o conhece e emprega. Seja o que for, \u00e9 uma quest\u00e3o reduzida aos m\u00e9dicos; n\u00e3o passar\u00e1 aos magistrados. Vamos esquecendo; \u00e9 o nosso of\u00edcio.<\/p>\n<p>Bem faz o Dr. Castro Lopes, que trabalha no sil\u00eancio, e de quando em quando aparece com uma descoberta, seja por livro, ou por artigo. Anuncia-se agora um volume de quest\u00f5es econ\u00f4micas, em que ele trata, al\u00e9m de outras cousas, de uma moeda universal. Um s\u00f3 rebanho e um s\u00f3 pastor, \u00e9 o ideal da Igreja Cat\u00f3lica. Uma s\u00f3 moeda deve ser o ideal da igreja do diabo, porque h\u00e1 uma igreja do diabo, no sentir de um grande padre. Venha, venha depressa esse volapuque das riquezas. N\u00e3o lhe conhe\u00e7o o tamanho; pode ser do tamanho universal o mesmo que aconteceu com o volapuque. Acabo de ler que um dos mais influentes propugnadores daquela l\u00edngua reconhece a inutilidade do esfor\u00e7o. O com\u00e9rcio do mundo inteiro n\u00e3o pega, e prefere os seus dizeres antigos \u00e0s combina\u00e7\u00f5es dos que gramaticaram aquele invento curioso. \u00c9 que o artificial morre sempre, mais cedo ou mais tarde.<\/p>\n<p>[123]<\/p>\n<p>[23 abril]<\/p>\n<p>Eu, SE TIVESSE de dar Hamlet em l\u00edngua puramente carioca, traduziria a c\u00e9lebre resposta do pr\u00edncipe da Dinamarca: Words, words, words, por esta: Boatos, boatos, boatos. Com efeito, n\u00e3o h\u00e1 outra que melhor diga o sentido do grande melanc\u00f3lico. Palavras, boatos, poeira, nada, cousa nenhuma.<\/p>\n<p>Toda a semana finda viveu disso, salvo a parte que n\u00e3o veio por&#8217; boatos, mas por fatos, como o caso do coreto da Pra\u00e7a Tirandentes. Ningu\u00e9m boquejou nada sobre aquela constru\u00e7\u00e3o; por isso mesmo deu de si uma por\u00e7\u00e3o de conseq\u00fc\u00eancias graves. Os boatos, por\u00e9m, andavam a rodo, os rumores iam de ouvido em ouvido, nas lojas, corredores, em casa, entre a pera e o queijo, entre o basto e a espadilha. Conspira\u00e7\u00f5es, dissens\u00f5es, explos\u00f5es. Uns davam \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o dos boatos a forma interrogativa, que \u00e9 ainda a melhor de todas. Homem, ser\u00e1 certo que X furtou um len\u00e7o? O ouvinte, que nada sabe, nada afirma; mas aqui est\u00e1 como ele transmite a not\u00edcia: \u2014 Parece que X furtou um len\u00e7o. Um len\u00e7o de seda? Provavelmente; n\u00e3o valeria a pena furtar um len\u00e7o de algod\u00e3o. A not\u00edcia chega \u00e0 Tijuca com esta forma definitiva: X furtou dous len\u00e7os, um de seda, e, o que \u00e9 mais nojento, outro de algod\u00e3o, na Rua dos Ourives.<\/p>\n<p>N\u00e3o me digam que imito assim a f\u00e1bula do marido e do ovo. Na f\u00e1bula, quando o marido chega a ter posto uma d\u00fazia de ovos, h\u00e1 ao menos o \u00fanico ovo de galinha com que ele experimentou de manh\u00e3 a discri\u00e7\u00e3o da esposa&#8217; Aqui n\u00e3o h\u00e1 sequer as casacas. E, se n\u00e3o, vejam o que me aconteceu quarta-feira.<\/p>\n<p>Estava \u00e0 porta de uma farm\u00e1cia, conversando com dous amigos sobre os efeitos prodigiosos do quinino, quando apareceu outro velho amigo nosso, o qual nos revelou muito \u00e0 puridade que na quinta-feira ter\u00edamos graves acontecimentos, e que nos acautel\u00e1ssemos. Quisemos saber o que era, instamos, rogamos, n\u00e3o alcan\u00e7amos nada. Graves acontecimentos. Ele falava de boa f\u00e9. Tinha a express\u00e3o ing\u00eanua da pessoa que cr\u00ea, e a express\u00e3o piedosa da pessoa que avisa. Retirou-se; ficamos a conjeturar e chegamos a esta conclus\u00e3o, que os sucessos anunciados eram o desenlance fatal dos boatos que andavam na rua. Todas essas cegonhas bateriam as asas \u00e0 mesma hora, convertidas em abutres, que nos comeriam em poucos instantes.<\/p>\n<p>Para mist\u00e9rio, mist\u00e9rio e meio. Sa\u00ed dali, corri \u00e0 casa de um armeiro, onde comprei algumas espingardas e bastante cartuchame. Al\u00e9m disso, com o pretexto de saudar o dia 21 de abril, alcancei por empr\u00e9stimo duas pe\u00e7as de artilharia. Assim armado, recolhi-me a casa, jantei, digeri, e meti-me na cama. Naturalmente n\u00e3o dormi; mas tamb\u00e9m n\u00e3o vi a aurora. nem o sol de quinta-feira. Portas e janelas fechadas. Nenhum rumor em casa, comidas frias para n\u00e3o fazer fogo, que denunciasse pelo fumo a presen\u00e7a de refugiados. Ensinei \u00e0 fam\u00edlia a senha mon\u00e1stica; and\u00e1vamos calados, interrompendo a sil\u00eancio de quando em quando para dizermos uns aos outros que era preciso morrer. Assim se passou a quinta-feira.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, pelas seis horas da manh\u00e3, ouvi tiros de artilharia. Ou \u00e9 a salva de Tiradentes, disse \u00e0 fam\u00edlia, ou \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o espanhola, inteiramente. A constitui\u00e7\u00e3o foi dada na mesma noite, contra a vontade de algumas pessoas, e retirada no dia seguinte, depois de alguns lances pr\u00f3prios de tais crises, n\u00e3o por ser constitui\u00e7\u00e3o, visto que, dous anos depois, t\u00ednhamos outra, \u2014 mas naturalmente por ser espanhola. De Espanha s\u00f3 mulheres, guitarras e pintores.<\/p>\n<p>Tudo s\u00e3o anivers\u00e1rios. Que \u00e9 hoje sen\u00e3o o dia anivers\u00e1rio natal\u00edcio de Shakespeare? Respiremos, amigos; a poesia \u00e9 um ar eternamente respir\u00e1vel. Miremos este grande homem; miremos as suas belas figuras, terr\u00edveis, her\u00f3icas, ternas, c\u00f4micas, melanc\u00f3licas, apaixonadas, var\u00f5es e matronas, donz\u00e9is e donzelas, robustos, fr\u00e1geis, p\u00e1lidos, e a multid\u00e3o, a eterna multid\u00e3o forte e movedi\u00e7a, que execra e brada contra C\u00e9sar, ouvindo a Bruto, e chora e aclama C\u00e9sar, ouvindo a Ant\u00f4nio, toda essa humanidade real e verdadeira. E acabemos aqui; acabemos com ele mesmo, que acabaremos bem. Allis well that ends well.<\/p>\n<p>[124]<\/p>\n<p>[14 maio]<\/p>\n<p>ONTEM DE MANH\u00c3, descendo ao jardim, achei a grama, as flores e as folhagens transidas de frio e pingando. Chovera a noute inteira; o ch\u00e3o estava molhado, o c\u00e9u feio e triste, e o Corcovado de carapu\u00e7a. Eram seis horas; as fortalezas e os navios come\u00e7aram a salvar pelo quinto anivers\u00e1rio do Treze de Maio. N\u00e3o havia esperan\u00e7as de sol; e eu perguntei a mim mesmo se o n\u00e3o ter\u00edamos nesse grande anivers\u00e1rio. \u00c9 t\u00e3o bom poder exclamar: &#8220;Soldados, \u00e9 o sol de Austerlitz!&#8221; O sol \u00e9, na verdade, o s\u00f3cio natural das alegrias p\u00fablicas; e ainda as dom\u00e9sticas, sem ele, parecem minguadas.<\/p>\n<p>Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos sa\u00edmos \u00e0 rua. Sim, tamb\u00e9m eu sa\u00ed \u00e0 rua, eu o mais encolhido dos caramujos, tamb\u00e9m eu entrei no pr\u00e9stito, em carruagem aberta, se me fazem favor, h\u00f3spede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era del\u00edrio. Verdadeiramente, foi o \u00fanico dia de del\u00edrio p\u00fablico que me lembra ter visto. Essas mem\u00f3rias atravessaram-me o esp\u00edrito, enquanto os p\u00e1ssaros treinavam os nomes dos grandes batalhadores e vencedores, que receberam ontem nesta mesma coluna da Gazeta a merecida glorifica\u00e7\u00e3o. No meio de tudo, por\u00e9m, uma tristeza indefin\u00edvel. A aus\u00eancia do sol coincidia com a do povo? O esp\u00edrito p\u00fablico tornaria \u00e0 sanidade habitual?<\/p>\n<p>Chegaram-me os jornais. Deles vi que uma comiss\u00e3o da sociedade que tem o nome de Rio Branco, iria levar \u00e0 sepultura deste homem de Estado uma coroa de louros e amores-perfeitos. Compreendi a filosofia do ato; era relembrar o primeiro tiro vibrado na escravid\u00e3o. N\u00e3o me dissipou a melancolia. Imaginei ver a comiss\u00e3o entrar modestamente pelo cemit\u00e9rio, desviar-se de um enterro obscuro, quase an\u00f4nimo, e ir depor piedosamente a coroa na sepultura do vencedor de 1871. Uma comiss\u00e3o, uma grinalda. Ent\u00e3o lembraram-me outras flores. Quando o Senado acabou de votar a lei de 28 de setembro, ca\u00edram punhados de flores das galerias e das tribunas sobre a cabe\u00e7a do vencedor e dos seus pares. E ainda me lembraram outras flores&#8230;<\/p>\n<p>Estas eram de climas alheias. Primrose day!<\/p>\n<p>Oh! se pud\u00e9ssemos tem um primrose day! Esse dia de primavera \u00e9 consagrado \u00e0 mem\u00f3ria de Disracli pela idealista e po\u00e9tica Inglaterra. \u00c9 o da sua morte, h\u00e1 treze anos. Nesse dia, o pedestal da est\u00e1tua do homem de Estado e romancista \u00e9 forrado de seda e coberto de infinitas grinaldas e ramalhetes. Dizem que a primavera era a flor da sua predile\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o nome do dia. Aqui est\u00e3o jornais que contam a festa de 19 do m\u00eas passado. Primrose day! Oh! quem nos dera um primrose day! Come\u00e7ar\u00edamos, \u00e9 certo, por ter os pedestais.<\/p>\n<p>Um velho autor da nossa l\u00edngua, \u2014 creio que Jo\u00e3o de Barros; n\u00e3o posso ir verific\u00e1-lo agora; ponhamos Jo\u00e3o de Barros. Este velho autor fala de um prov\u00e9rbio que dizia: &#8220;os italianos governam-se pelo passado, os espanh\u00f3is pelo presente e os franceses pelo que h\u00e1 de vir.&#8221; E em seguida dava &#8220;uma repreens\u00e3o de pena \u00e0 nossa Espanha&#8221;, considerando que Espanha \u00e9 toda a pen\u00ednsula, e s\u00f3 Castela \u00e9 Castela. A nossa gente, que dali veio, tem de receber a mesma repreens\u00e3o de pena; governa-se pelo presente, tem o porvir em pouco, o passado em nada ou quase nada. Eu creio que os ingleses resumem as outras tr\u00eas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Temo que o nosso regozijo v\u00e1 morrendo, e a lembran\u00e7a do passado com ele, e tudo se acabe naquela frase estereotipada da imprensa nos dias da minha primeira juventude. Que eram afinal as festas da independ\u00eancia? Uma parada, um cortejo, um espet\u00e1culo de gala. Tudo isso ocupava duas linhas, e mais estas duas: as fortalezas e os navios de guerra nacionais e estrangeiros surtos no porto deram as salvas de estilo. Com este pouco, e certo, estava comemorado o grande ato da nossa separa\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Em menino, conheci de vista o Major Valadares; morava na Rua Sete de Setembro, que ainda n\u00e3o tinha este t\u00edtulo, mas o vulgar nome de Rua do Cano. Todos os anos, no dia 7 de setembro, armava a porta da rua com cetim verde e amarelo, espalhava na calcada e no corredor da casa folhas da Independ\u00eancia, reunia amigos, n\u00e3o sei se tamb\u00e9m m\u00fasica. e comemorava assim o dia nacional. Foi o \u00faltimo abencerragem. Depois ficaram as salvas do estilo.<\/p>\n<p>Todas essas minhas id\u00e9ias melanc\u00f3licas bateram as asas \u00e0 entrada do sol, que afinal rompeu as nuvens, e \u00e0s tr\u00eas horas governava o c\u00e9u, salvo alguns trechos onde as nuvens teimavam em ficar. O Corcovado desbarretou-se, mas com tal fastio, que se via bem ser obriga\u00e7\u00e3o de vassalo, n\u00e3o amor da cortesia, menos ainda amizade pessoal ou admira\u00e7\u00e3o. Quando tornei ao jardim, achei as flores enxutas e l\u00e9pidas. Vivam as flores! Gladstone n\u00e3o fala na C\u00e2mara dos Comuns sem levar alguma na sobrecasaca; o seu grande rival morto tinha o mesmo v\u00edcio. Imaginai o efeito que nos faria Rio Branco ou Itabora\u00ed com uma rosa ao peito, discutindo o or\u00e7amento, e dizei-me se n\u00e3o somos um povo triste.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. O triste sou eu. Provavelmente m\u00e1 digest\u00e3o. Comi favas, e as favas n\u00e3o se d\u00e3o comigo. Comerei rosas ou primaveras, e pedirvos-ei uma est\u00e1tua e uma festa que dure, pelo menos, deus anivers\u00e1rios. J\u00e1 \u00e9 demais para um homem modesto.<\/p>\n<p>[125]<\/p>\n<p>[29 outubro]<\/p>\n<p>\u2014. . . MAS POR QUE \u00e9 que n\u00e3o adoece outra vez? No domingo passado, esteve aqui um senhor alto, cheio, bem-nascido, que me deu no cias suas, disse-me que havia adoecido, \u2014 adoecido ou nadado?\u2014 Adoecido; mas doen\u00e7as, minha senhora, n\u00e3o se compram na botica, posto se agravem nela, alguma vez. A minha achou felizmente um botic\u00e1rio consciencioso, que, depois de me haver dado um vidro de rem\u00e9dio e o troco do dinheiro, disse-me com um gesto mais doutoral que farmac\u00eautico: &#8220;N\u00e3o desanime; a sua mol\u00e9stia tem um prazo certo; s\u00e3o tr\u00eas per\u00edodos.&#8221; Quis pedir o dinheiro, restituir o vidro e esperar o fim do prazo certo, mas o homem j\u00e1 ouvia outro fregu\u00eas, igualmente enfermo dos olhos, e naturalmente ia preparar-lhe o mesmo rem\u00e9dio, pelo mesmo pre\u00e7o, com o mesmo prazo e igual anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o foi nadando que &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, bela criatura, eu n\u00e3o sei nadar. Outrora, quando tomava banhos de mar&#8230; Sim, houve tempo em que penetrei no seio de Anfitrite, com estes p\u00e9s que a senhora est\u00e1 vendo, e com estes bra\u00e7os; fic\u00e1vamos peito a peito; eu chegava a meter a cabe\u00e7a na bela cama verde da deusa, mas n\u00e3o sa\u00eda da beira da praia. Se o seio lhe intumescia um pouco mais, por efeito de algum suspiro, eu, cheio de respeito, desandava. Quando V\u00eanus a flagelava muito, eu n\u00e3o penetrava; deixava-me ficar do lado de fora, olhando com vontade e com pena.<\/p>\n<p>\u2014 (\u00c0 parte) Singular banhista!<\/p>\n<p>\u2014 A senhora diz?<\/p>\n<p>\u2014 Que tinha bem vontade de ver outra vez o senhor que aqui esteve, domingo passado. Ele que faz?<\/p>\n<p>\u2014 Minha senhora, ele presentemente cessa de engordar. Anda l\u00e9pido, come bem, dorme bem, escreve bem, nada bem. Quer-me at\u00e9 parecer que o nadador de que lhe falou, \u00e9 ele mesmo; disse aquilo para desviar as aten\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! tamb\u00e9m penetra no seio de Anfitrite?<\/p>\n<p>\u2014 Penetra, e sempre com estes dous versos de Cam\u00f5es, na boca:<\/p>\n<p>Todas as deusas desprezei do c\u00e9u,<br \/>\nS\u00f3 por amar das \u00e1guas a princesa.<\/p>\n<p>\u2014 Gracioso!<\/p>\n<p>\u2014 Gracioso, mas falso; \u00e9 um modo de cativar a deusa. A senhora sabe que n\u00e3o h\u00e1 cousa que mais enterne\u00e7a uma deusa, que falar de sentimentos exclusivos. \u00cale \u00e9 fino; n\u00e3o h\u00e1 de ir dizer a Anfitrite que a todas as deusas prefere a majestosa Juno ou a guerreira Palas; mas creia que \u00e9 tamb\u00e9m guerreiro e majestoso. Naquele dia, enquanto bracejava atrav\u00e9s da onda marinha, fazia de Merc\u00fario, com a diferen\u00e7a que levava os recados na barriga.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, deveras, foi ele?<\/p>\n<p>\u2014 Positivamente, n\u00e3o sei: mas vou dizendo que foi, j\u00e1 por vingan\u00e7a, j\u00e1 porque n\u00e3o conhe\u00e7o nada mais recreativo que espalhar um boato. O v\u00edcio \u00e9 muita vez um boato falso, e h\u00e1 virtudes que nunca foram outra cousa. Digo-lhe mais: este mundo em que a senhora sup\u00f5e viver, n\u00e3o passa talvez de um simples boato. Os anjos, para matar o imortal tempo, fizeram correr pelo infinito o boato da cria\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s, que imaginamos existir, n\u00e3o passamos das pr\u00f3prias palavras do boato, que rolam por todos os s\u00e9culos dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>\u2014 Palavras apenas?<\/p>\n<p>\u2014 Palavras, frases. A senhora \u00e9 uma linda frase de artista. Tem nas formas um magn\u00edfico substantivo: os adjetivos s\u00e3o da casa de Madame Guimar\u00e3es. A boca \u00e9 um verbo. Et verbum caro factuin est.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed vem o senhor com as suas gra\u00e7as sem gra\u00e7a. N\u00e3o me h\u00e1 de fazer crer que a explos\u00e3o da ilha Mocangu\u00ea foi uma v\u00edrgula &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi outra cousa. O bombardeio \u00e9 uma retic\u00eancia, a mol\u00e9stia um solecismo, a morte um hiato, o casamento um ditongo, as lutas parlamentares, eleitorais e outras uma cacofonia.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda uma vez, por que n\u00e3o adoeceu esta semana? Est\u00e1 sopor\u00edfero. Quisera saber de uma por\u00e7\u00e3o de cousas, mas n\u00e3o lhe pergunto nada. Adeus.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o me mande embora, deixe-me ficar ainda um instante. \u00c9 t\u00e3o bom v\u00ea-la, mir\u00e1-la &#8230; E depois, advirto que estou apenas na tira oitava, e tenho de dar, termo m\u00e9dio, doze.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos; fale por tiras.<\/p>\n<p>\u2014 Tomara poder falar-lhe por volumes, por bibliotecas. N\u00e3o esgotaria o assunto; tudo seria pouco para dizer os seus feiti\u00e7os e o gosto que sinto em estar a seu lado. Compreendo Tartufo ao O de Elmira: Je t\u00e2te votre habit; 1&#8217;\u00e9tofle en est moellei\u00edse &#8230; V\u00e1; responda que a senhora \u00e9 fort chatouilleuse, para conservar a rima do texto, mas emendemos Moli\u00e8re. Eu, para mim, tenho que Tartufo \u00e9 um caluniado. A verdade \u00e9 que, sem acomoda\u00e7\u00f5es com o c\u00e9u, este mundo seria insuport\u00e1vel. E o c\u00e9u \u00e9 o mais acomodat\u00edcio dos credores. Judas ainda pode ser perdoado. Pilatos tamb\u00e9m; lembre-se que ele come\u00e7ou por lavar as m\u00e3os; lave a alma, e est\u00e1 a caminho. Sendo assim, que mal h\u00e1 na bonomia que Tartufo atribui ao c\u00e9u? &#8220;Oh! fazenda macia que \u00e9 a deste seu vestido!&#8221; Que estreme\u00e7\u00f5es s\u00e3o esses, meu Deus?<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7o o bombardeio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 bombardeio. \u00c9 o meu cora\u00e7\u00e3o que bate. A artilharia do meu amor \u00e9 extraordin\u00e1ria; n\u00e3o digo \u00fanica, porque h\u00e1 a de Otelo. Pouco abaixo de Otelo, estamos Fedra e eu. J\u00e1 notou que n\u00e3o me comparo nunca a gente mi\u00fada?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1; assim como tenho notado que o senhor \u00e9 muito derretido. \u2014 Querida amiga, isso n\u00e3o depende da cera, mas do fogo. Que h\u00e1 de fazer uma vela acesa, sen\u00e3o derreter-se? \u00c9 a \u00fanica raz\u00e3o de haver f\u00e1brica de velas; se elas durassem sempre, acabavam as f\u00e1bricas, os fabricantes, e conseq\u00fcentemente as pr\u00f3prias velas. Creio que h\u00e1 aqui alguma contradi\u00e7\u00e3o; mas a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 deste mundo. Para longe os racioc\u00ednios perfeitos e os homens imut\u00e1veis! Cada erro de l\u00f3gica pode ser um tento que a imagina\u00e7\u00e3o ganhe, e a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 o sal da vida. Quanto aos homens imut\u00e1veis, s\u00e3o de duas ordens, os que se limitam a s\u00ea-lo sem confess\u00e1-lo, \u2014 e os que o s\u00e3o, e o proclamam a todos os ventos. A perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 diz\u00ea-lo sem o ser. Um homem que passe por v\u00e1rias opini\u00f5es, e demonstre que s\u00f3 teve uma opini\u00e3o na vida, esse \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o buscada. e alcan\u00e7ada. A modo que a senhora est\u00e1 bocejando? A culpa \u00e9 sua, se me meto em assuntos \u00e1ridos; pod\u00edamos ter continuado Tartufo.<\/p>\n<p>\u2014 Quantas tiras?<\/p>\n<p>\u2014 Come\u00e7o a d\u00e9cima segunda. A senhora faz-me lembrar uma borboleta que encontrei ontem na Rua da Assembl\u00e9ia. A Rua da Assembl\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 passeio ordin\u00e1rio de borboletas; n\u00e3o h\u00e1 ali flores nem \u00e1rvores. Esta de que lhe falo, agitava as asas de um lado para outro, abaixo e acima, de porta em porta. Suspendendo as minhas reflex\u00f5es aborrecidas, parei alguns instantes para observar. Evidentemente, estava perdida; descera de algum morro ou fugira de algum jardim, se os h\u00e1 por ali perto. De repente, sumiu-se; eu meti a cabe\u00e7a no ch\u00e3o e segui com as minhas cogita\u00e7\u00f5es t\u00e9tricas. Mas a borboleta apareceu de novo, para tomar a sumir-se e reaparecer, segundo eu estacava o passo ou ia andando. Finalmente, encontrei um amigo que me convidou a tornar uma x\u00edcara de caf\u00e9 e quatro boatos. A borboleta sumiu-se de todo. Conclua.<\/p>\n<p>\u2014 As asas eram azuis?<\/p>\n<p>\u2014 Azuis.<\/p>\n<p>\u2014 Rajadas de ouro?<\/p>\n<p>\u2014 De ouro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era eu; era um fiozinho de poeira, que forcejava por arranc\u00e1-lo aos pensamentos l\u00fagubres. H\u00e1 desses fen\u00f4menos. Agora mesmo, parece-me ver, ao longe, um pontozinho luminoso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhora; est\u00e1 perto, e \u00e9 escuro; \u00e9 o ponto final.<\/p>\n<p>\u2014 Que n\u00e3o seja boato, como tantos!<\/p>\n<p>[126]<\/p>\n<p>[5 novembro]<\/p>\n<p>H\u00c1 NA COM\u00c9DIA Verso e Reverso, de Jos\u00e9 de Alencar, um personagem que n\u00e3o v\u00ea ningu\u00e9m entrar em cena, que n\u00e3o lhe pergunte: Que h\u00e1 de novo. Esse personagem cresceu com os trinta e tantos anos que l\u00e1 v\u00e3o, engrossou,, bracejou por todos os cantos da cidade, onde ora ressoa a cada instante: \u2014 Que h\u00e1 de novo? Ningu\u00e9m sai de casa que n\u00e3o ou\u00e7a a infal\u00edvel pergunta, primeiro ao vizinho, depois aos companheiros de bond. Se ainda n\u00e3o a ouvimos ao pr\u00f3prio condutor do bond, n\u00e3o \u00e9 por falta de familiaridade, mas porque os cuidados pol\u00edticos ainda o n\u00e3o distra\u00edram da cobran\u00e7a da passagens e da troca de id\u00e9ias com o cocheiro, por\u00e9m, chega a seu tempo e compensa o perdido.<\/p>\n<p>Confesso que esta semana entrei a aborrecer semelhante interroga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o digo o n\u00famero de vezes que a ouvi, na segunda-feira, para n\u00e3o parecer inveross\u00edmil. Na ter\u00e7a-feira, cuidei l\u00ea-Ia impressa nas paredes, nas caras, no ch\u00e3o, no c\u00e9u e no mar. Todos a repetiam em torno de mim. Em casa, \u00e0 tarde, foi a primeira cousa que me perguntaram. Jantei mal; tive um pesadelo; trezentas mil vozes bradaram do seio do infinito: \u2014 Que h\u00e1 de novo? Os ventos, as mar\u00e9s, a burra de Bala\u00e3o, as locomotivas, as bocas de fogo, os profetas, todas as vozes celestes e terrestres formavam este grito un\u00edssono: Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>Quis vingar-me; mas onde h\u00e1 tal a\u00e7\u00e3o que nos vingue de uma cidade inteira? N\u00e3o podendo queim\u00e1-la, adotei um processo delicado e amigo. Na quarta-feira, mal sa\u00ed \u00e0 rua, dei com um conhecido que me disse, depois dos bons dias costumados:<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>\u2014 O terremoto.<\/p>\n<p>\u2014 Que terremoto? Verdade \u00e9 que esta noite ouvi grandes estrondos, tanto que supus serem as fortalezas todas juntas. Mas h\u00e1 de ser isso, um terremoto; as paredes da minha casa estremeceram; eu saltei da cama; estou ainda surdo &#8230; Houve algum desastre?<\/p>\n<p>\u2014 Ru\u00ednas, senhor, e grandes ru\u00ednas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me diga isso! A Rua do Ouvidor, ao menos &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A Rua do Ouvidor est\u00e1 intacta, e corri ela a Gazeta de Not\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2014 Mas onde foi?<\/p>\n<p>\u2014 Foi em Lisboa.<\/p>\n<p>\u2014 Em Lisboa?<\/p>\n<p>\u2014 No dia de hoje, 1 de novembro, h\u00e1 s\u00e9culo e meio. Uma calamidade, senhor! A cidade inteira em ru\u00ednas. Imagine por um instante, que n\u00e3o havia o Marqu\u00eas de Pombal, \u2014 ainda o n\u00e3o era, Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho, um grande homem, que p\u00f4s ordem a tudo, enterrando os mortos, salvando os vivos, enforcando os ladr\u00f5es, e restaurando a cidade. Fala-se da reconstru\u00e7\u00e3o de Chicago; eu creio que n\u00e3o lhe fica abaixo o caso de Lisboa, visto a diferen\u00e7a dos tempos, e a dist\u00e2ncia que vai de um povo a um homem. Grande homem, senhor! Uma calamidade! uma terr\u00edvel calamidade!<\/p>\n<p>Meio emba\u00e7ado, o meu interlocutor seguiu caminho, a buscar not\u00edcias mais frescas. Peguei em mim e fui por a\u00ed fora distribuindo o terremoto a todas as curiosidades insaci\u00e1veis. Tornei satisfeito a casa; tinha o dia ganho.<\/p>\n<p>Na quinta-feira, dous de novembro, era minha inten\u00e7\u00e3o ir t\u00e3o somente ao cemit\u00e9rio; mas n\u00e3o h\u00e1 cemit\u00e9rio que valha contra o personagem do Verso e Reverso. Pouco depois de transpor o port\u00e3o da l\u00fagubre morada, veio a mim um amigo vestido de preto, que me apertou a m\u00e3o. Tinha ido visitar os restos da esposa (uma santa!), suspirou e concluiu:<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>\u2014 Foram executados.<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 A coragem, por\u00e9m, com que morreram, compensou os desvarios da a\u00e7\u00e3o, se ela os teve; mas eu creio que n\u00e3o. Realmente, era um esc\u00e2ndalo. Depois, a trai\u00e7\u00e3o do pupilo e afilhado foi indigna; pagou-se-lhe o pr\u00eamio, mas a indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica vingou a morte do tra\u00eddo.<\/p>\n<p>\u2014 De acordo: um pupilo &#8230; Mas quem \u00e9 o pupilo?<\/p>\n<p>\u2014 Um miser\u00e1vel. L\u00e1zaro de Melo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o. Ent\u00e3o, foram executados todos?<\/p>\n<p>\u2014 Todos; isto \u00e9, dous. Um dos cabe\u00e7as foi degredado por dez anos.<\/p>\n<p>\u2014 Quais foram os executados?<\/p>\n<p>\u2014 Sampaio. .<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu; mas tanto ele, como o Manuel Beckman, executados neste triste dia de mortos &#8230; L\u00e1 v\u00e3o dous s\u00e9culos! Em ver e, passaram mais de duzentos anos, e a mem\u00f3ria deles ainda vive. Nobre Maranh\u00e3o!<\/p>\n<p>O vi\u00favo mordeu os bei\u00e7os; depois, com um toque de ironia triste, murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Quando lhe perguntei o que havia de novo, esperava alguma cousa mais recente.<\/p>\n<p>\u2014 Mais recente s\u00f3 a morte de Rocha Pita, neste mesmo dia, em 1738. Note como a hist\u00f3ria se entrela\u00e7a com os historiadores; morreram no i-nesmo dia, talvez \u00e0 mesma hora, os que a fazem e os que a escrevem.<\/p>\n<p>O vi\u00favo sumiu-se; eu deixei-me ir costeando aquelas casas derradeiras, cujos moradores n\u00e3o perguntaram nada, naturalmente porque j\u00e1 tiveram resposta a tudo. Necr\u00f3pole da minha alma, a\u00ed \u00e9 que eu quisera residir e n\u00e3o nesta cidade inquieta e curiosa, que n\u00e3o se farta de perscrutar, nem de saber. Se a\u00ed estivesse de uma vez, n\u00e3o ouviria como no dia seguinte, sexta-feira, a mesma eterna pergunta. Era j\u00e1 cerca de 11 horas quando sa\u00ed de casa, armado de um naufr\u00e1gio, um terr\u00edvel naufr\u00e1gio, meu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Onde? Que naufr\u00e1gio?<\/p>\n<p>\u2014 O cad\u00e1ver da principal v\u00edtima n\u00e3o se achou; o mar serviu-lhe de sepultura. Natural sepultura; ele cantou o mar, o mar pagou-lhe o canto arrebatando-o \u00e0 terra e guardando-o para si. Mas v\u00e1 que se perdesse o homem; o poema, por\u00e9m, esse poema, cujos quatro primeiros cantos a\u00ed ficaram para mostrar o que valiam os outros &#8230; Pobre Brasil! pobre Gon\u00e7alves Dias! Tr\u00eas de novembro, dia terr\u00edvel; 1864, ano detest\u00e1vel! Lembro-me como se fosse hoje. A not\u00edcia chegou muitos dias depois do desastre. O poeta voltava ao Maranh\u00e3o &#8230;<\/p>\n<p>Raros ouviam o resto. Os que ouviam, mandavam-me interiormente a todos os diabos. Eu, sereno, ia contando, contando, e recitava versos, e dizia a impress\u00e3o que tive a primeira vez que vi o poeta. Estava na sala de reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio do Rio, quando ali entrou um homem pequenino, magro, ligeiro. N\u00e3o foi preciso que me dissessem o nome; adivinhei quem era. Gon\u00e7alves Dias! Fiquei a olhar, pasmado, com todas as minhas sensa\u00e7\u00f5es e entusiasmos da adolesc\u00eancia. Ouvia cantar em mim a famosa &#8220;Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio&#8221;. E toca a repetir a can\u00e7\u00e3o, e a recitar versos sobre versos. Os intr\u00e9pidos, se me ag\u00fcentavam at\u00e9 o fim, marcavam-me; eu s\u00f3 os deixava moribundos.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, notei que os perguntadores fugiam de mim, com receio, talvez, de ouvir a queda do imp\u00e9rio romano ou a conquista do Peru. Eu, por n\u00e3o fiar dos tempos, sa\u00ed com a morte de Torres Homem no bolso; era recent\u00edssima, podia enganar o est\u00f4mago. Creio, por\u00e9m, que a explos\u00e3o da v\u00e9spera bastou \u00e0s curiosidades vadias. N\u00e3o me arg\u00faam de impiedade. Se \u00e9 certo, como j\u00e1 se disse, que os mortos governam os vivos, n\u00e3o \u00e9 muito que os vivos se defendam com os mortos. D\u00e1-se assim uma confedera\u00e7\u00e3o t\u00e1cita para a boa marcha das cousas humanas.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o saio de casa; ningu\u00e9m me perguntar\u00e1 nada. N\u00e3o me perguntes tu tamb\u00e9m, leitor indiscreto, para que eu te n\u00e3o responda como na com\u00e9dia, ap\u00f3s o desenlace: \u2014 Que h\u00e1 de novo? inquire o curioso, entrando. E um dos rapazes: \u2014 Que vamos almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>[127]<\/p>\n<p>[12 novembro]<\/p>\n<p>DURANTE a semana houve algumas pausas, mais ou menos raras, mais ou menos prolongadas; mas os tiros comeram a maior parte do tempo. Basta dizer que foram mais numerosos que os boatos. Aquela quadra pr\u00e9-hist\u00f3rica, em que um tiro de pe\u00e7a, ouvido \u00e0 noite, era o sinal para consultar e acertar os rel\u00f3gios, n\u00e3o se pode j\u00e1 comparar a estes dias terr\u00edveis, em que os tiros parecem pancadas de um rel\u00f3gio enorme, de um rel\u00f3gio que p\u00e1ra \u00e0s vezes, mas a que se d\u00e1 corda com pouco:<\/p>\n<p>Never forever,<br \/>\nForever never,<\/p>\n<p>tal qual na balada de Longfellow. A poesia, meus amigos, est\u00e1 e tudo, na guerra como no amor.<\/p>\n<p>Relevem-me aqui uma ilustre banalidade. Que \u00e9 o amor mais que uma guerra, em que se vai por escaramu\u00e7as e batalhas, em que h\u00e1 mortos e feridos, her\u00f3is e multid\u00f5es ignoradas? Como os outros bombardeios, o amor atrai curiosos. A vida, neste particular, \u00e9 uma intermin\u00e1vel Praia da Gl\u00f3ria ou do Flamengo. Quando D\u00e1fnis e Cloe travam as suas lutas, s\u00e3o poucos os \u00f3culos e bin\u00f3culos da gente vadia para contar as balas, ou que se perdem, ou que se aproveitam, n\u00e3o falando dos naturais holofotes que todos trazemos na cara.<\/p>\n<p>De mim digo, por\u00e9m, que aborre\u00e7o a galeria. Uma vez desci do bond, na Praia da Gl\u00f3ria, para ceder ao convite de um amigo que queria ver o bombardeio. Desci ainda outra vez para escapar a um sujeito que me contava a guerra da Crim\u00e9ia, onde n\u00e3o esteve, n\u00e3o havendo nunca sa\u00eddo daqui, mas que se ligava \u00e0 sua adolesc\u00eancia, por serem contempor\u00e2neos. Ningu\u00e9m ignora que os sucessos deste mundo, dom\u00e9sticos ou estranhos, uma vez que se liguem de algum modo aos nossos primeiros anos, ficam-nos perpetuados na mem\u00f3ria. Por que \u00e9 que, entre tantas cousas infantis e locais, nunca me esqueceu a not\u00edcia do golpe de Estado de Lu\u00eds Napole\u00e3o? Pelo espanto com que a ouvi ler. As famosas palavras: Sa\u00ed da legalidade para entrar no direito ficaram-me na lembran\u00e7a, posto n\u00e3o soubesse o que era direito nem legalidade. Mais tarde, tendo reconhecido que este mundo era uma inf\u00e2ncia perp\u00e9tua, conclu\u00ed que a proclama\u00e7\u00e3o de Napole\u00e3o III acabava como as hist\u00f3rias de minha meninice: &#8220;Entrou por uma porta, saiu por outra, manda el-rei nosso senhor que nos conte outra&#8221;. Por exemplo, o dia de hoje, 12 de novembro, \u00e9 o anivers\u00e1rio do golpe de Estado de Pedro I, que tamb\u00e9m saiu da legalidade para entrar no direito.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero ir adiante sem lhes dizer o que me sucedeu, quando pela segunda vez desci na Praia da Gl\u00f3ria, a pretexto de ver o bombardeio. Estive ali uns dez minutos, os precisos para ouvir a um homem, e depois a outro homem, cousas que achei dignas do prelo. O primeiro defendia a tese de que os tiros eram necess\u00e1rios, mormente os de canh\u00e3o-rev\u00f3lver, e tamb\u00e9m as explos\u00f5es de pai\u00f3is de p\u00f3lvora. Dizia isto com tal placidez, que cuidei ouvir um simples amador; mas o segundo homem retificou esta minha impress\u00e3o, dizendo-me, logo que o outro se retirou: \u2014 &#8220;\u00c9 um vidraceiro; n\u00e3o quer a morte de ningu\u00e9m, quer os vidros quebrados.&#8221; E o segundo homem, ar grave, declarou que abominava as lutas civis, concluindo que ningu\u00e9m tinha a vida segura nesta troca de bombardas; ele, pela sua parte, j\u00e1 fizera testamento, n\u00e3o sabendo se voltaria para casa, visto que a exist\u00eancia dependia agora de uma bala fortuita. Gostei de ouvi-lo. Era o contraste judicioso e melanc\u00f3lico do primeiro. Quando ele se despediu, perguntei a um terceiro: &#8220;Quem \u00e9 este senhor?&#8221; \u2014 &#8220;\u00c9 um tabeli\u00e3o&#8221;, respondeu-me.<\/p>\n<p>Assim vai o mundo. Nem sempre o cidad\u00e3o mata o homem. E Bruto, o cidad\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 homem, diz um verso de Garret. Deixem-me acrescentar, em prosa, que o homem \u00e9 muitas vezes mulher, por esse v\u00edcio de curiosidade que herdou da nossa m\u00e3e Eva, \u2014 outra ilustre banalidade. \u00c9 a segunda que digo hoje. Rigorosamente, devia parar aqui; mas ent\u00e3o n\u00e3o falaria das emiss\u00f5es particulares que est\u00e3o aparecendo em Joinville, Catuguases e Campos. A Gazeta anteontem, transcreveu tr\u00eas notas campistas, e indignou-se. Prova que \u00e9 mais mo\u00e7a que eu. H\u00e1 muitos anos, 1868 ou 1869, lembro-me bem ter visto em Petr\u00f3polis bilhetes de emiss\u00f5es particulares, n\u00e3o impressos, mas ingenuamente manuscritos. N\u00e3o traziam filetes nem emblemas; n\u00e3o se davam ao escr\u00fapulo dos n\u00fameros de s\u00e9rie. Vale tanto, ou vale isto, mais nada. N\u00e3o posso afirmar com seguran\u00e7a se ainda se conhecia a origem de alguns; mas creio que sim.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o prende com uma teoria, que reputo verdadeira, a saber, que o direito de emitir \u00e9 individual. Cada homem pode p\u00f4r em circula\u00e7\u00e3o o n\u00famero de bilhetes que lhe parecer. Ser\u00e3o aceitos at\u00e9 onde for a confian\u00e7a. O cr\u00e9dito responder\u00e1 pelo valor. Nesta hip\u00f3tese, melhor \u00e9 o manuscrito que o impresso; porque o impresso \u00e9 de todos, e o manuscrito \u00e9 meu. Entendam-me bem. N\u00e3o admiro a cl\u00e1usula for\u00e7ada da troca do bilhete por outro, prata ou papel do Estado; seria rebaixar a uma permuta de cousas tang\u00edveis uma opera\u00e7\u00e3o que deve repousar pura e simplesmente no cr\u00e9dito, &#8220;essa alavanca do progresso e da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, para falar como o meu criado. Isto posto, a sociedade ter\u00e1 achado o eixo que perdeu desde a morte do feudalismo. A fome morrer\u00e1 de fome. Ningu\u00e9m pedir\u00e1, todos dar\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me acordeis, se \u00e9 sonho. Mas n\u00e3o \u00e9 sonho. Vejo mais que todos v\u00f3s que vos supondes acordados. Se descreis disto, chegareis a descrer do espiritismo, perdereis a pr\u00f3pria raz\u00e3o. Que radioso para\u00edso! Nesse dia, o tempo ser\u00e1 aquele mesmo rel\u00f3gio que o poeta americano p\u00f4s na escada dos seus versos; mas a p\u00eandula n\u00e3o bater\u00e1 mais que amor, paz e abund\u00e2ncia, com esta pequena altera\u00e7\u00e3o do estribilho:<\/p>\n<p>Ever \u2014 forever!<br \/>\nForever \u2014 ever!<\/p>\n<p>[128]<\/p>\n<p>[119 novembro]<\/p>\n<p>UM DIA DESTES, lendo nos di\u00e1rios alguns atestados sobre as excel\u00eancia s do xarope Cambar\u00e1, fiz lima observa\u00e7\u00e3o t\u00e3o justa que n\u00e3o quero furt\u00e1-la aos contempor\u00e2neos, e porventura aos p\u00f3steros. Verdadeiramente, a minha observa\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema, e, como o de Hamlet, trata da vida e da morte. Quando a gente n\u00e3o pode imitar os grandes homens, imite no menos as grandes fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E por que n\u00e3o hei de eu imitar os grandes homens? Conta-se que Xerxes, contemplando um dia o seu imenso ex\u00e9rcito, chorou com a id\u00e9ia de que, ao cabo de um s\u00e9culo, toda aquela gente estaria morta. Tamb\u00e9m eu contemplo, e choro, por efeito de igual id\u00e9ia; o ex\u00e9rcito \u00e9 que \u00e9 outro. N\u00e3o s\u00e3o os homens que me levam \u00e0 melancolia persa, mas os rem\u00e9dios que os curam. Mirando os rem\u00e9dios vivos e eficazes, fa\u00e7o esta pergunta a mim mesmo: Por que \u00e9 que os rem\u00e9dios morrem?<\/p>\n<p>Com efeito, eu assisti ao nascimento do xarope &#8230; Perd\u00e3o; vamos atr\u00e1s. Eu ainda mamava, quando apareceu um m\u00e9dico que &#8220;restitu\u00eda a vista a quem a houvesse perdido&#8221;. Chamava-se o autor Ant\u00f4nio Gomes, que o vendia em sua pr\u00f3pria casa, Rua dos Barbonos n.\u00ba 26. A Rua dos Barbonos era a que hoje se chama do Evaristo da Veiga. Muitas pessoas colheram o benef\u00edcio inestim\u00e1vel que o rem\u00e9dio prometia. Sa\u00edram da noite para a luz, para os espet\u00e1culos da natureza, dispensaram a muleta de terceiro, puderam ler, escrever, contar. Um dia, Ant\u00f4nio Gomes morreu. Era natural; morreu como os soldados de Xerxes. O inventor da p\u00f3lvora, quem quer que ele fosse, tamb\u00e9m morreu. Mas por que n\u00e3o sobreviveu o col\u00edrio de Ant\u00f4nio Gomes, como a p\u00f3lvora? Que raz\u00e3o houve para acabar com o autor uma inven\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u00fatil \u00e0 humanidade?<\/p>\n<p>N\u00e3o se diga que o col\u00edrio foi vencido pelo rap\u00e9 Grimstone, &#8220;vulgarmente denominado de alfazema&#8221;, seu contempor\u00e2neo. Esse, conquanto fosse um bom espec\u00edfico para mol\u00e9stias de olhos, n\u00e3o restitu\u00eda a vista a quem a houvesse perdido; ao menos, n\u00e3o o fazia contar. Quando, por\u00e9m, tivesse esse mesmo efeito, tamb\u00e9m ele morreu, e morreu duas vezes, como rem\u00e9dio e como rap\u00e9.<\/p>\n<p>As inflama\u00e7\u00f5es de olhos tinham, ali\u00e1s, outro inimigo terr\u00edvel nas &#8220;p\u00edlulas universais americanas&#8221;; mas, como estas eram universais, n\u00e3o se limitavam aos olhos, curavam tamb\u00e9m sarnas, \u00falceras antigas erup\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas, erisipela e a pr\u00f3pria hidropisia. Vendiam-se ri farm\u00e1cia de Louren\u00e7o Pinto Moreira; mas o \u00fanico dep\u00f3sito era ri Rua do Hosp\u00edcio n.????? 40. Eram p\u00edlulas provadas; n\u00e3o curavam todos, visto que h\u00e1 diferen\u00e7a nos humores e outras partes; mas curavam muita vez e aliviavam, sempre. Onde est\u00e3o elas? Sabemos n\u00famero da casa em que moravam; n\u00e3o conhecemos o da cova e que repousam. N\u00e3o se sabe sequer de que morreram; talvez u duelo com as &#8220;p\u00edlulas cat\u00e1rticas do farmac\u00eautico Carvalho J\u00fanior&#8221; que tamb\u00e9m curavam as inflama\u00e7\u00f5es de olhos e mol\u00e9stias da pele com esta particularidade que dissipavam a melancolia. Eram \u00fateis no reumatismo, eficazes nos males de est\u00f4mago, e faziam vigorar cor do rosto. Mas tamb\u00e9m estas descansam no Senhor, como o velhos hebreus.<\/p>\n<p>Para que falar do &#8220;elixir antiflegm\u00e1tico&#8221;, do &#8220;b\u00e1lsamo homog\u00eaneo e tantos outros preparados contempor\u00e2neos da Maioridade? O xarope a cujo nascimento assisti, foi o &#8220;Xarope do Bosque&#8221;, um rem\u00e9dio composto de vegetais, como se v\u00ea do nome, e deveras miraculos Era bem pequeno, quando este preparado entrou no mercado; chego \u00e0 maturidade, j\u00e1 n\u00e3o o vejo entre os vivos. \u00c9 certo que a vida n\u00e3o \u00e9 a mesma em todos; uns a tiveram mais longa, outros mais breve. H\u00e1 casos particulares, como o das sanguessugas; essas acabaram por causa do gasto infinito. Imagine-se que h\u00e1 meio s\u00e9culovendiam-se &#8220;aos milheiros&#8221; na Rua da Alf\u00e2ndega n.????? 15. N\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o que resista a tamanha procura. Depois, o barbeiro sangrador \u00e9 of\u00edcio extinto.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que morreram tantos rem\u00e9dios? Por que \u00e9 que os rem\u00e9dios morrem? Tal \u00e9 o problema. N\u00e3o basta exp\u00f4-lo; for\u00e7a \u00e9 achar-lhe solu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 de haver uma raz\u00e3o que explique tamanha ru\u00edna. N\u00e3o se pode compreender que drogas eficazes no princ\u00edpio de um s\u00e9culo, sejam in\u00fateis ou insuficientes no fim dele. Tendo meditado sobre este ponto algumas horas longas, creio haver achado a solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 de ordem metaf\u00edsica. A natureza, interessada na conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana, inspira a composi\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios, conforme a gradua\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica dos tempos. J\u00e1 algu\u00e9m disse, com grande sagacidade, que n\u00e3o h\u00e1 doen\u00e7as, mas doentes. Isto que se diz dos indiv\u00edduos, cabe igualmente aos tempos, e a mol\u00e9stia de um vi n\u00e3o \u00e9 exatamente a de outro. H\u00e1 modifica\u00e7\u00f5es lentas, sucessivas, por modo que, ao cabo de um s\u00e9culo, j\u00e1 a droga que a curou n\u00e3o cura; \u00e9 preciso outra. N\u00e3o me digam que, se isto \u00e9 assim, a observa\u00e7\u00e3o basta para dar a sucess\u00e3o dos rem\u00e9dios. Em primeiro lugar, n\u00e3o \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o que produz todas as modifica\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas; muitas destas s\u00e3o de pura sugest\u00e3o. Em segundo lugar, a observa\u00e7\u00e3o, em subst\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 mais que uma sugest\u00e3o refletida da natureza.<\/p>\n<p>Prova desta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato curios\u00edssimo de que grande parte dos rem\u00e9dios citados e n\u00e3o citados, existentes h\u00e1 quarenta e cinq\u00fcenta anos, curavam particularmente a crisipela. Variavam as outras mol\u00e9stias, mas a crisipela estava inclusa na lista de cada um deles. Naturalmente, era mol\u00e9stia vulgar; da\u00ed a floresc\u00eancia dos medicamentos apropriados \u00e0 cura. O povo, gra\u00e7as \u00e0 ilus\u00e3o da Provid\u00eancia, costuma dizer que Deus d\u00e1 o frio conforme a roupa; o caso da crisipela mostra que a roupa vem conforme o frio.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa que daqui a algumas dezenas de anos, um s\u00e9culo ou ainda mais, certos medicamentos de hoje estejam mortos. Verificar-se-\u00e1 que a modifica\u00e7\u00e3o do mal trouxe a modifica\u00e7\u00e3o da cura. Tanto melhor para os homens. O mal ir\u00e1 recuando. Essa marcha gradativa ter\u00e1 um termo, remot\u00edssimo, \u00e9 verdade, mas certo. Assim, chegar\u00e1 o dia em que, por falta de doen\u00e7as, acabar\u00e3o os rem\u00e9dios, e o homem, com a sa\u00fade moral, ter\u00e1 alcan\u00e7ado a sa\u00fade f\u00edsica, perene e indestrut\u00edvel, como aquela.<\/p>\n<p>Indestrut\u00edvel? Tudo se pode esperar da ind\u00fastria humana, a bra\u00e7os com o eterno aborrecimento. A monotonia da sa\u00fade pode inspirar a busca de uma ou outra macacoa leve. O homem receitar\u00e1 tonturas ao homem. Haver\u00e1 f\u00e1brica de resfriados. Vender-se-\u00e3o calos artificiais, quase t\u00e3o dolorosos como os verdadeiros. Alguns dir\u00e3o que mais.<\/p>\n<p>1894<\/p>\n<p>[129]<\/p>\n<p>[1 fevereiro]<\/p>\n<p>SOMBRE QUATRE-VINGT-TREIZE! \u00c9 o caso de dizer, com o poeta, agora que ele se despede de n\u00f3s, este ano em que perfaz um s\u00e9culo o a terr\u00edvel da Revolu\u00e7\u00e3o. Mas a cr\u00f4nica n\u00e3o gosta de lembran\u00e7as tristes por mais her\u00f3icas que tamb\u00e9m sejam; n\u00e3o vai para epop\u00e9ias, nem trag\u00e9dias. Cousas doces, leves, sem sangue nem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>No banquete da vida, para falar como outro poeta &#8230; J\u00e1 agora falo por poetas; est\u00e1 provado que, apesar de fant\u00e1sticos e sonhador s\u00e3o ainda os mais h\u00e1beis contadores de hist\u00f3ria e inventores de imagens. A vida, por exemplo, comparada a um banquete \u00e9 id\u00e9ia felic\u00edssima. Cada um de n\u00f3s tem ali o seu lugar; uns retiram-se logo depois da sopa, outros do coup du milieu, n\u00e3o raros v\u00e3o at\u00e9 \u00e0 sobremesa. Tem havido casos em que o conviva se deixa estar comi bebido, e sentado. \u00c9 o que os notici\u00e1rios chamam macr\u00f3bio, quando a pessoa \u00e9 mulher, por uma dessas liberdades que toda gente usa com a l\u00edngua, macr\u00f3bia.<\/p>\n<p>Felizes esses! N\u00e3o que o banquete seja sempre uma del\u00edcia. sopas execr\u00e1veis, peixes podres e n\u00e3o poucas vezes esturro. Mas, u vez que a gente se deixou vir para a mesa, melhor \u00e9 ir farto dela para n\u00e3o levar saudades. N\u00e3o se sente a marcha; vai-se pelos p\u00e9s dos outros. Houve desses retardat\u00e1rios, Moltke esteve prestes a s\u00ea-lo, Gladstone creio que acaba por a\u00ed, como os nossos Saldanha Ma nho e Tamandar\u00e9. Deus os fade a todos!<\/p>\n<p>Imaginemos um homem que haja nascido com o s\u00e9culo e mor com ele. V\u00edtor Hugo j\u00e1 o achou com dous anos (ce si\u00e8cle avait de ans) e pode ser que contasse viver at\u00e9 o fim; n\u00e3o passou da casa d oitenta. Mas Heine, que veio ao mundo no pr\u00f3prio dia 1 de janeiro de 1800, bem podia ter vivido at\u00e9 1899, e contar tudo o que passou no s\u00e9culo, com a sua pena mestra de humour&#8230; Oh! p\u00e1gina imortaI! Assistir \u00e0 Santa Alian\u00e7a e \u00e0 dinamite! Vir do legitimismo ao anarquismo, parando aqui e ali na liberdade, eis a\u00ed uma viagem interessante de dizer e de ouvir. Revolu\u00e7\u00f5es, guerras, conquistas, uma infinidade de constitui\u00e7\u00f5es, grande variedade de cal\u00e7as, casacas chap\u00e9us, escolas novas, novas descobertas, id\u00e9ias, palavras, dan\u00e7a livros, armas, carruagens, e at\u00e9 l\u00ednguas&#8230; Viver tudo isso, e referi-lo s\u00e9culo XX, grande obra, em verdade.Deus ou a paralisia n\u00e3o o quis. Heine notaria, melhor que ningu\u00e9m o advento do anarquismo, se \u00e9 certo que este governo in\u00e9dito te de sair \u00e0 luz com o fim do s\u00e9culo. Ningu\u00e9m melhor que ele faria o paralelo do legitimismo do princ\u00edpio com o anarquismo do fim, Carlos X e Nada. Que excelentes conclus\u00f5es! Nem todas seria cabais, mas seriam todas belas. Aos homens da ci\u00eancia ficam raz\u00f5es s\u00f3lidas com que afirmam a marcha ascendente para a perfei\u00e7\u00e3o. Os poetas variam; ora cr\u00eaem no para\u00edso, ora no inferno, com ,esta particularidade que adotam o pior para exp\u00f4-lo em versos bonitos. Heine tinha a vantagem de o saber expor em bonita prosa.<\/p>\n<p>Mas, como ia dizendo, no banquete da vida&#8230; Leve-me o diabo se sei a que \u00e9 que vinha este banquete. Talvez para notar que a distribui\u00e7\u00e3o dos lugares p\u00f5e a gente, \u00e0s vezes, ao p\u00e9 de maus vizinhos, em cujo caso n\u00e3o h\u00e1 mais poderoso rem\u00e9dio que descansar do paradoxo da esquerda na banalidade da direita, e vice-versa. Se a id\u00e9ia n\u00e3o foi essa, ent\u00e3o foi dizer que a cr\u00f4nica \u00e9 prato de pouca ou nenhuma resist\u00eancia, simples molho branco. Id\u00e9ia velha, mas antes velha que nada. Uns fazem a hist\u00f3ria pela a\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva, outros a contam ou cantam pela tuba canora e belicosa&#8230; Tuba canora e belicosa \u00e9 express\u00e3o de poeta \u2014 de Cam\u00f5es, creio. A cr\u00f4nica \u00e9 frauta rude ou agreste avena do mesmo poeta. Vivam os poetas! N\u00e3o me acode outra gente para coroar este ano que nasce.<\/p>\n<p>Quanto ao que morre, 1893, n\u00e3o vai sem pragas nem saudades, como os demais anos seus irm\u00e3os, desde que h\u00e1 astronomia e almanaques. Tal \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o dos tempos, que s\u00e3o todos duros e amenos, segundo a condi\u00e7\u00e3o e o lugar. Se esta banalidade da direita lhe parece cansativa, volte-se o leitor para a esquerda, e ouvir\u00e1 algum paradoxo que o descanse dela \u2014 este, por exemplo, que o melhor dos anos \u00e9 o pior de todos. Toda a quest\u00e3o (lhe dir\u00e1 a esquerda) est\u00e1 em definir o que seja bom ou mau.<\/p>\n<p>Por exemplo, a guerra \u00e9 m\u00e1, em si mesma; mas a guerra pode ser boa, comparada com o anarquismo. Se este vier, 1893, tu haver\u00e1s sido uma das suas datas hist\u00f3ricas, pelos golpes que deste, pelo princ\u00edpio de sistematiza\u00e7\u00e3o do mal. Que ser\u00e1 o mundo contigo? N\u00e3o consultemos Xenofonte, que, ao ver as trocas de governo nas rep\u00fablicas, monarquias e oligarquias, conclu\u00eda que o homem era o animal mais dif\u00edcil de reger, mas, ao mesmo tempo, mirando o seu her\u00f3i e a numerosa gente que lhe obedecia, conclu\u00eda que o animal de mais f\u00e1cil governo era o homem. Se j\u00e1 por essa noite dos tempos fosse conhecido o anarquismo, \u00e9 prov\u00e1vel que a opini\u00e3o do historiador fosse esta: que, embora p\u00e9ssimo, era um governo \u00f3timo. A variedade dos pareceres, a sua pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o, tem a vantagem de chamar leitores, visto que a maior parte deles s\u00f3 l\u00ea os livros da sua opini\u00e3o. \u00c9 assim que eu explico a universalidade de Xenofonte.<\/p>\n<p>N\u00e3o me atribuam desrespeito ao escritor; isto \u00e9 rir, para n\u00e3o fazer outra cousa que deixe de aliviar o ba\u00e7o. Em todo caso, antes gracejar de um homem finado h\u00e1 tantos s\u00e9culos, que estrear j\u00e1 o carnaval com este imenso calor, como fez ontem lima associa\u00e7\u00e3o. Agora tu, Terps\u00edcore, me ensina &#8230;<\/p>\n<p>[130]<\/p>\n<p>[7 janeiro]<\/p>\n<p>QUEM SER\u00c1 esta cigarra que me acorda todos os dias neste ver\u00e3o do diabo \u2014 quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi outro que me matasse tanto? Um amigo meu conta-me cousas terr\u00edveis do ver\u00e3o de Cuiab\u00e1, onde, a certa hora do dia, chega a parar a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Tudo vai para as redes. Aqui n\u00e3o h\u00e1 rede, n\u00e3o h\u00e1 descanso, n\u00e3o h\u00e1 nada. Este tempo serve, quando muito, para reanimar conversa\u00e7\u00f5es moribundas, ou para dar que dizer a pessoas que conhecem pouco e s\u00e3o obrigadas a vinte ou trinta minutos de bond Come\u00e7a-se por uma exclama\u00e7\u00e3o e um gesto, depois uma ou duas anedotas, quatro reminisc\u00eancias, e a declara\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel de que pessoa passa bem de sa\u00fade, a despeito da temperatura.<\/p>\n<p>Custa-me a suportar o calor, mas de sa\u00fade passo maravilhes mente bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 isso que me diz todas as manh\u00e3s a tal cigarra. Seja que for, \u00e9 sempre a mesma cousa, e \u00e9 not\u00edcia d&#8217;alma, porque \u00e9 dita com um grau de sonoridade e tenacidade que excede os maior exemplos de gargantas musicais, servi\u00e7ais e rijas. A minha mem\u00f3ria que nunca perde essas ocasi\u00f5es, recita logo a f\u00e1bula de L\u00e3 Fontai e reproduz a famosa gravura de Gustavo Dor\u00e9, a bela mo\u00e7a da r\u00e3 ca, que o inverno veio achar com a rabeca na m\u00e3o, repelida p uma mulher trabalhadeira, como faz a formiga \u00e0 outra. E o quadro e os versos misturam-se, prendem-se de tal maneira, que acabo recitando as figuras e contemplando os versos.<\/p>\n<p>Nisto entra um galo. O galo \u00e9 um maometano vadio, rel\u00f3gio certo cantor med\u00edocre, ruim vianda. Entra o galo e faz com a cigarra u concerto de vozes, que me acorda inteiramente. Sacudo a pregui\u00e7a colijo os trechos de sonho que me ficaram, se algum tive, e fito dossel da cama ou as t\u00e1buas do teto. \u00c0s vezes fito um quintal Roma, de onde algum velho galo acorda o ilustre Virg\u00edlio, e pergunto se n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo galo que me acorda, e se eu n\u00e3o serei o me m\u00edssimo Virg\u00edlio. \u00c9 o per\u00edodo de loucura mansa, que em mim sucede ao sono. Subo ent\u00e3o pela Via Appia, dobro a Rua do Ouvidor, e barro com Mecenas, que me convida a cear com Augusto e um manescente da Companhia Geral. Segue-se a vez de um passarinho que me canta no jardim, depois outro, mais outro. P\u00e1ssaros, galo, cigarra, entoam a sinfonia matutina, at\u00e9 que salto da cama e abro a janela<\/p>\n<p>Bom dia, belo sol! J\u00e1 vejo as guias torcidas dos teus magn\u00edficos bigodes de ouro. Morro verde e crestado, palmeiras que reco tais o c\u00e9u azul, e tu, locomotiva do Corcovado, que trazes o sibilo da ind\u00fastria humana ao concerto da natureza, bom dia! Preg\u00e3o d ind\u00fastria, tu, &#8220;duzentos contos, Paran\u00e1, \u00faltimo de resto!&#8221;, recebo tamb\u00e9m a minha sauda\u00e7\u00e3o. Que \u00e9s tu, sen\u00e3o a locomotiva da Fortuna? Tempo houve em que a gente ia dos arrabaldes \u00e0 casa do Jo\u00e3o Pedro da Veiga, Rua da Quitanda, comprar o n\u00famero da esperan\u00e7a Agora \u00e9s tu mesmo, n\u00famero sol\u00edcito, que vens c\u00e1 ter aos arrabalde como os simples mascates de fazendas e os compradores de garrafa vazias. Progresso quer dizer concorr\u00eancia e comodidade. Melhor que eu compre a riqueza a duas pessoas, \u00e0 porta de minha casa, d que v\u00e1 comprar \u00e0 casa de uma s\u00f3, a dous tost\u00f5es de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed come\u00e7am a deitar fumo as chamin\u00e9s vizinhas; tratam do caf\u00e9 ou do almo\u00e7o. Na rua passa assobiando um moleque, que fa lembrar aquele chefe do minist\u00e9rio austr\u00edaco, a que se referiu quinta feira, na Gazeta de Not\u00edcias, Max Nordau. Ou\u00e7o tamb\u00e9m uma cantiga, um choro de crian\u00e7a, um bond, os prel\u00fadios de alguma cousa ao piano, e outra vez e sempre a cigarra cantando todos os seus erres sem effes, enquanto o sol espalha as barbas louras pelo ar transparente.<\/p>\n<p>Ir-me-\u00e1 cantar, todo o ver\u00e3o, esta cigarra estr\u00eddula? Canta, e que eu te ou\u00e7a, amiga minha; \u00e9 sinal de que n\u00e3o haverei entrado no obitu\u00e1rio do mesmo ver\u00e3o, que j\u00e1 sobe a cinq\u00fcenta pessoas di\u00e1rias. Disseram-mo, eu n\u00e3o me dou ao trabalho de contar os mortos. Percebo que morre mais gente, pela freq\u00fc\u00eancia dos carros de defuntos que encontro, quando volto para casa e eles voltam do cemit\u00e9rio, com o seu aspecto f\u00fanebre e os seus cocheiros menos f\u00fanebres. N\u00e3o digo que os cocheiros voltem alegres; posso at\u00e9 admitir. para facilidade da discuss\u00e3o, que tornem tristes; mas h\u00e1 grande diferen\u00e7a entre a tristeza do ve\u00edculo e a do automedonte. Este traz no rosto uma express\u00e3o de dever cumprido e consci\u00eancia repousada, que inteiramente escapa \u00e0s frias t\u00e1buas de um carro.<\/p>\n<p>De mim pe\u00e7o ao cocheiro que me levar, que j\u00e1 na ida para o cemit\u00e9rio v\u00e1 francamente satisfeito, com uma pontinha de riso e outra de cigarro ao canto da boca. Pisque o olho \u00e0s amas-secas e frescas, e criaturas an\u00e1logas que for encontrando na rua; creia que os meus manes n\u00e3o sofrer\u00e3o no outro mundo; ao contr\u00e1rio, alegrarse-\u00e3o de saber a cara ajustada ao cora\u00e7\u00e3o, e a indiferen\u00e7a interior n\u00e3o desmentida pelo gesto. Imite as suas mulas, que levam com igual passo C\u00e9sar e Jo\u00e3o Fernandes.<\/p>\n<p>Ah! enquanto eu ia escrevendo essas melancolias aborrecidas, o sol foi enchendo tudo; entra-me pela janela, j\u00e1 tudo \u00e9 mar; ao mar j\u00e1 faltam praias, dizia Ov\u00eddio por boca de Bocage. Aqui o dil\u00favio \u00e9 de claridade; mas uma claridade cantante, porque a cigarra n\u00e3o cessa, continua a cigarrear no arvoredo, fundindo o som no espet\u00e1culo. Como h\u00e1 pouco, na cama, miro a cantiga e ou\u00e7o o clar\u00e3o. Se todos estes dias n\u00e3o fossem isto mesmo, eu diria que era a comemora\u00e7\u00e3o da chegada dos tr\u00eas Reis.<\/p>\n<p>Essa festa popular, n\u00e3o sei se perdurar\u00e1 no interior; aqui morreu h\u00e1 muitos anos. Cantar os Reis era uma dessas usan\u00e7as locais, como o presepe, que o tempo demoliu e em cuias ru\u00ednas brotou a \u00e1rvore do Natal, produ\u00e7\u00e3o do norte da Europa, que parece pedir os gelos do inverno. O nosso presepe era mais devoto, mas menos alegre. Durava, em alguns lugares, at\u00e9 o dia de Reis. A cantiga da festa de ontem era a mesma em toda a parte.<\/p>\n<p>\u00d3 de casa, nobre gente,<br \/>\nAcordai, e ouvireis,<\/p>\n<p>E o resto, que pode parecer simpl\u00f3rio e velho, mas o velho foi mo\u00e7o e o simpl\u00f3rio tamb\u00e9m \u00e9 sinal de ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>[131]<\/p>\n<p>[4 fevereiro]<\/p>\n<p>QUANDO EU Li que este ano n\u00e3o pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. \u00c9 cren\u00e7a minha, que no dia em que deus Morno for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 le propre de 1&#8217;homme, \u00e9 ainda uma necessidade dele. E s\u00f3 h\u00e1 riso, e grande riso, quando \u00e9 p\u00fablico, universal, inextingu\u00edvel, \u00e0 maneira deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.<\/p>\n<p>N\u00e3o veremos Vulcano estes dias, cambaio ou n\u00e3o, n\u00e3o ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. N\u00e3o sair\u00e3o as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as ri roupas de veludo e cetim. A \u00fanica veste que poder\u00e1 aparecer, \u00e9 cinta espanhola, ou n\u00e3o sei de que ra\u00e7a, que dispensa agora os cole e d\u00e1 mais gra\u00e7a ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; p ora, n\u00e3o h\u00e1 muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religi\u00e3o come\u00e7a por um pequeno n\u00famero de fi\u00e9is. O primeiro homem que vestiu um simples colar de mi\u00e7angas, n\u00e3o viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda pegando, at\u00e9 que vieram atr\u00e1s das mi\u00e7angas, conchas, pedras ver e outras. Da\u00ed at\u00e9 o capote, e as atuais mangas de presunto, em q as senhoras metem os bra\u00e7os, que caminho! O chap\u00e9u baixo, feltro ou palha, era h\u00e1 25 anos uma minoria \u00ednfima. H\u00e1 uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chap\u00e9us altos em toda a par nas portas, vidra\u00e7as, balc\u00f5es, cabides, dentro das caixas, tudo chap\u00e9us altos. Anos depois, passando por ela, n\u00e3o vi mais um s\u00f3 daquela esp\u00e9cie; eram muitos e baixos, de v\u00e1ria mat\u00e9ria e formas variad\u00edssimas.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe n\u00e3o \u00e9 uma reminisc\u00eancia da tanga do homem primitivo? Quem sabe se n\u00e3o vamos remontar os tempos at\u00e9 ao colar de mi\u00e7angas? Talvez a perfei\u00e7\u00e3o esteja a\u00ed. Montaigne \u00e9 de parecer que n\u00e3o fazemos m que repisar as mesmas cousas e andar no mesmo c\u00edrculo; e o Eci siastes diz claramente que o que \u00e9, foi, e o que foi, \u00e9 o que h\u00e1 vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabar\u00e3o algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, mat\u00e9ria simples, na mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para ped com gra\u00e7a uma quadrilha ou uma p\u00f3lca. Oh! a polca das mi\u00e7anga. H\u00e1 de haver uma com esse t\u00edtulo, porque a polca \u00e9 eterna, e quando n\u00e3o houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar \u00e0s trevas, \u00faltimos deus ecos da cat\u00e1strofe derradeira usar\u00e3o ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu De derruba!<\/p>\n<p>Como se disfar\u00e7ar\u00e3o os homens pelo carnaval quando voltar idade da mi\u00e7anga? Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Not\u00edcias escrever\u00e1 por esse tempo um artigo, em que dir\u00e1:<\/p>\n<p>Pelas figuras que t\u00eam aparecido nas ruas, ter\u00e3o visto os nossos leitores a Onde foi, s\u00e9culos atr\u00e1s, j\u00e1 n\u00e3o diremos o mau gosto, que \u00e9 evidente, mas viola\u00e7\u00e3o da natureza, no modo de vestir dos homens. Quando possu\u00edam as melhores casacas e cal\u00e7as, que s\u00e3o a pr\u00f3pria epiderme, t\u00e3o justa ao corpo, t\u00e3o sincera, inventaram umas vestiduras perversas falsas. Tudo \u00e9 obra do orgulho humano, que pensa aperfei\u00e7oar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o len\u00e7o; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem m\u00fasculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprest\u00e1vel, desde que n\u00e3o esteja a da pessoa. H\u00e1 no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, vara dar uma id\u00e9ia viva da diferen\u00e7a das duas civiliza\u00e7\u00f5es, publicam um desenho comparativo, dous homens, um moderno, outro dos fins do s\u00e9culo XIX; \u00e9 obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o nosso excelente companheiro Jo\u00e3o, amigo de todos os tempos.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compar\u00e1-las, e repetir os ditos do Eciesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civiliza\u00e7\u00e3o mudar\u00e1 outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petr\u00f3polis, capital da vida eterna. L\u00e1 ao menos h\u00e1 fresco, n\u00e3o se morre de insola\u00e7\u00e3o, nome que j\u00e1 entrou no nosso obitu\u00e1rio, segundo me disseram esta semana. N\u00e3o se pode imaginar a minha desilus\u00e3o. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, n\u00e3o morrer\u00edamos nunca de semelhante cousa. H\u00e1 anos deram-se aqui alguns casos de n\u00e3o sei que mol\u00e9stia fulminante, que disseram ser isso; mas v\u00e3o l\u00e1 provar que sim ou que n\u00e3o. Para se n\u00e3o provai nada, \u00e9 que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; tamb\u00e9m se morre de insola\u00e7\u00e3o. Morreu um, morrer\u00e3o ainda outros. A chuva destes dias n\u00e3o fez mais que a\u00e7ular a can\u00edcula.<\/p>\n<p>De resto, a morte escreveu esta semana em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas, um Jos\u00e9 Silva, um Coelho Bastos. N\u00e3o se conclui que ela tem mais amor aos que sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia n\u00e3o distingue. Mas h\u00e1 certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas \u00e1guas tudo se funde e confunde, e que n\u00e3o h\u00e1 servi\u00e7os \u00e0 p\u00e1tria ou \u00e0 humanidade, que impe\u00e7am de ir para onde v\u00e3o os in\u00fateis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a mem\u00f3ria dos que o merecem, e na propor\u00e7\u00e3o de cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.<\/p>\n<p>Essa h\u00e1 de ser a moda que n\u00e3o acaba. Ou caminhemos para a perfei\u00e7\u00e3o deliciosa e terna, ou n\u00e3o fa\u00e7amos mais que ruminar, perp\u00e9tuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer \u00e9 a mesma &#8230; Mas isto \u00e9 l\u00fagubre, e a primeira das condi\u00e7\u00f5es do meu of\u00edcio \u00e9 deitar fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princ\u00edpio e o fim da cr\u00f4nica. A raz\u00e3o de o n\u00e3o termos este ano, \u00e9 justa; seria at\u00e9 melhor que a proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse precisa, e viesse do pr\u00f3prio \u00e2nimo dos foli\u00f5es. Mas n\u00e3o se pode pensar em tudo.<\/p>\n<p>[132]<\/p>\n<p>[11 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>ESCREVO com o p\u00e9 no estribo. \u00c9 um modo de dizer que talvez esteja prestes a mudar de clima. Para onde, n\u00e3o sei. Se consultasse o meu desejo, iria para a ilha da Trindade. Pelo que leio, foi um cidad\u00e3o norte-americano, casado com uma linda mo\u00e7a de New York, que entrou pela ilha dentro, n\u00e3o achou viva alma, tomou conta do territ\u00f3rio e trata de coloniz\u00e1-lo. Dizem as not\u00edcias que a ilha ser\u00e1 um principado, e j\u00e1 tem o seu bras\u00e3o; um tri\u00e2ngulo de ouro com uma coroa ducal. Dizem mais que o posseiro j\u00e1 embarcou para a Europa, a fim de ser reconhecido pelas pot\u00eancia. Justamente o contr\u00e1rio do que eu faria; mas se os gostos fossem iguais, j\u00e1 n\u00e3o haveria mundo neste mundo.<\/p>\n<p>Eu, entrando que fosse na ilha, come\u00e7ava por n\u00e3o sair mais dela; far-me-ia rei sem s\u00fabditos. Ficar\u00edamos tr\u00eas pessoas, eu, a rainha um cozinheiro. Mais tarde, poetas e historiadores concordariam e dizer que as tr\u00eas pessoas da ilha \u00e9 que deram ocasi\u00e3o ao t\u00edtulo desta diferen\u00e7a \u00e9 que os poetas diriam a cousa em verso, sem documentos, e os historiadores di-la-iam em prosa com documentos. Entre tanto, n\u00e3o s\u00f3 o t\u00edtulo \u00e9 anterior, como n\u00e3o haveria em mim a menor inten\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Rei sem s\u00fabditos! Oh! sonho sublime! imagina\u00e7\u00e3o \u00fanica! Rei se ter a quem governar, nem a quem ouvir, nem peti\u00e7\u00f5es, nem aborrecimentos. N\u00e3o haveria partido que me atacasse, que me espiasse, que me caluniasse, nem partido que me bajulasse, que me beijasse os p\u00e9 que me chamasse sol radiante, le\u00e3o ind\u00f3mito, cofre de virtudes, o a e a vida do universo. Quando me nascesse uma espinha na cara, n\u00e3 haveria uma corte inteira para me dizer que era uma flor, uma a\u00e7 cena, que todas as pessoas bem constitu\u00eddas usavam por enfeite; nenhum, mais engenhoso que os outros, acrescentaria: &#8220;Senhor, natureza tamb\u00e9m tem as suas modas&#8221;. Se eu perdesse um p\u00e9, na teria o desprazer de ver coxear os meus vassalos.<\/p>\n<p>Entretanto, para que a mentira n\u00e3o se pudesse supor exilada do meu reino, eu ensinaria \u00e0 rainha e ao cozinheiro uma geografia nova; dir-lhes-ia que a terra era um p\u00e3o de a\u00e7\u00facar, ou uma pir\u00e2mide, par ser mais eg\u00edpcio, e que a minha ilha era o cume da pir\u00e2mide. Tudo mais estava abaixo. O sol n\u00e3o era propriamente um sol, mas um mensageiro que me traria todos os dias as sauda\u00e7\u00f5es da parte inferi da terra. As estrelas, suas filhas, incumbidas de velar-me \u00e0 noite eram as aias destinadas unicamente ao rei da Trindade.<\/p>\n<p>\u2014 Mas tamb\u00e9m em New York h\u00e1 estrelas e na Virg\u00ednia, e n Calif\u00f3rnia, diria a rainha da Trindade durante as primeiras li\u00e7\u00f5es.\u2014 Jasmim-do-cabo (este \u00e9 o nome que eu lhe daria), jasmim-do-cabo e do meu cora\u00e7\u00e3o, as estrelas de New York, da Calif\u00f3rnia e Virg\u00ednia n\u00e3o s\u00e3o filhas do sol, mas enteadas. H\u00e1s de saber que o s \u00e9 casado em segundas n\u00fapcias com a lua, que lhe trouxe todas e filhas que operam l\u00e1 embaixo. As daqui s\u00e3o filhas dele mesmo; s\u00e3o as de ra\u00e7a pura e divina.<\/p>\n<p>E eu acabaria crendo nos meus pr\u00f3prios sonhos, que \u00e9 a vantagem deles, e a mais positiva do mundo. Prova disso \u00e9 a not\u00edcia da morat\u00f3ria dada esta semana a um comerciante, por credores de cerca sete mil contos. Foi tal o efeito que isto produziu em mim, que entrei a supor-me devedor de sete, de dez, de vinte mil contos. Comecei por uma pontinha de inveja; n\u00e3o pela morat\u00f3ria, que para mim seria indiferente; com ela ou sem ela, o principal \u00e9 dever tantos mil contos de r\u00e9is. As pequenas d\u00edvidas s\u00e3o aborrecidas como moscas. As grandes, logicamente. deviam ser terr\u00edveis como le\u00f5es, e s\u00e3o mans\u00edssima.<\/p>\n<p>Cri-me devedor dos sete mil contos, tanto mais feliz quanto q n\u00e3o lidara com dinheiros t\u00e3o altos. Este sonho, que afligiria a esp\u00edritos menos sublimes, para mim foi tal que se converteu em realidade e n\u00e3o pude acabar de crer que n\u00e3o devia nada, quando o meu cria me quis provar hoje de manh\u00e3 que todas as minhas pequenas contas estavam pagas. As pequenas, creio; mas as grandes? Sim, eu de ainda, pelo menos uns cinco mil contos. Que n\u00e3o possa dever vinte mil! Quem n\u00e3o prefere ser devedor de vinte mil contos, a ser credor de quatro patacas?<\/p>\n<p>Demais, tenho venera\u00e7\u00e3o aos grandes n\u00fameros. Acho que a marcha da civiliza\u00e7\u00e3o explica-se pelo crescimento numeroso dos s\u00e9culos. Que podia ser o s\u00e9culo IV em compara\u00e7\u00e3o com o s\u00e9culo XIX? Que poder\u00e1 ser o s\u00e9culo XIX, em compara\u00e7\u00e3o com o s\u00e9culo MDCCCXXXVIII? O maior n\u00famero implica maior perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vede o obitu\u00e1rio. \u00c0 medida que vai crescendo, deixa de ser a lista vulgar dos outros dias: imp\u00f5e, aterra. J\u00e1 \u00e9 alguma cousa morrerem ara mais de cento e setenta pessoas. Podemos chegar a duzentas e a trezentas. Certamente n\u00e3o \u00e9 alegre; h\u00e1 espet\u00e1culos mais joviais, leituras mais leves; mas o interesse n\u00e3o est\u00e1 na leveza nem na alegria. A trag\u00e9dia \u00e9 terr\u00edvel, \u00e9 pavorosa, mas \u00e9 interessante. Depois, se \u00e9 verdade que os mortos governam os vivos, tamb\u00e9m o \u00e9 que os vivos vem dos mortos. Esta outra id\u00e9ia \u00e9 banal, mas n\u00e3o podemos deixar reconhecer que os alugadores de carros, os cocheiros, os farmac\u00eauticos, os f\u00edsicos (para falar \u00e0 antiga), os marmoristas, os escriv\u00e3es, os ju\u00edzes, alfaiates, sem contar a Empresa Funer\u00e1ria, ganham com o que os outros perdem. Ex fumo dare lucem.<\/p>\n<p>Mas deixemos n\u00fameros tristes, e venhamos aos alegres. O dos concorrentes liter\u00e1rios da Gazeta \u00e9 respeit\u00e1vel. Por maior que seja a lista os escritos fracos, certo \u00e9 que ainda ficou boa soma de outros, e dos vencidos ainda os haver\u00e1 que pugnem mais tarde e ven\u00e7am. Bom \u00e9 e, no meio das preocupa\u00e7\u00f5es de outra ordem, as musas n\u00e3o tenham perdido os seus devotos e ganhem novos. Magalh\u00e3es de \u00c1zeredo, que ficou \u00e0 frente de todos, pode servir de exemplo aos que, tendo talento ele, quiserem perseverar do mesmo modo. Vivam as musas! belas mo\u00e7as antigas n\u00e3o envelhecem nem desfeiam. Afinal \u00e9 o \u00e0 mais firme debaixo do sol.<\/p>\n<p>[133]<\/p>\n<p>[18 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>QUE se anunciou a batalha do dia 13, recolhi-me \u00e0 casa, disposto a n\u00e3o aparecer antes de tudo acabado. Convidaram-me a subir a os morros, onde o perigo era muito menor que o sol; mas o sol grande. Nem a vista dos homens que passavam, desde manh\u00e3, com \u00f3culos e Bin\u00f3culos, me animou a ir tamb\u00e9m ver a batalha. A pregui\u00e7a ajudou o temor, e ambos me ataram as pernas.<\/p>\n<p>Em casa, ocorreu-me que podia ter a vis\u00e3o da batalha, sem sol nem diga. Era bastante que me ajudasse o g\u00eanio humano com o seu poder divino. A hist\u00f3ria, por mais animada que fosse, n\u00e3o sei se me daria a pr\u00f3pria sensa\u00e7\u00e3o da cousa. A poesia era melhor; Homero, por exemplo, com a Il\u00edada. Nada mais apropriado que este poema. Troia, um campo entre a cidade e os navios, e no campo e nos avios as tropas gregas. Aqui as fortalezas e as balas formariam o campo.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o uma obje\u00e7\u00e3o. A p\u00f3lvora n\u00e3o estava inventada no tempo de mero. \u00c9 certo; mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que outras cousas havia no tempo de Homero, que totalmente se perderam. Nem eu pedia mais que a vista da realidade por sugest\u00e3o da poesia.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, troando os primeiros tiros, abri o poeta. Pouco a pouco fui mergulhando na a\u00e7\u00e3o cantada. As pancadas que os cocheiros de bonds davam com os p\u00e9s, para instigar as multas, cansadas de puxar tanta gente, )a me pareciam o tumulto dos carros dos guerreiros. Percebi o efeito da leitura. Quando o meu criado me levou ao gabinete uma cajuada, cuidei que era a deusa Hebe que me servia uma ta\u00e7a de n\u00e9ctar, e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Hebe divina, gra\u00e7as \u00e0 tua excelsa bondade, vou apreciar esta del\u00edcia, desconhecida aos homens.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Rodrigues, com espanto de si mesmo, retorquia-me:<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s j\u00e1 um deus, tu est\u00e1s no pr\u00f3prio Olimpo, ao lado de J\u00fapiter.<\/p>\n<p>Vi que era assim mesmo. Mas, em vez de entrar na luta dos homens,\u2014 como os outros deuses, meus colegas, deixei-me estar mirando o furor dos combates, o retinir das lan\u00e7as nos broqu\u00e9is, o estrondo das armaduras quebradas, o sangue que corria dos peitos, das pernas e dos ombros, os homens que morriam e as vozes grandes de todos. Era belo ver os deuses intervindo na pugna, disfar\u00e7ados em pessoas da terra, desviando os golpes de uns, guiando a m\u00e3o de outros, cobrindo a estes com uma nuvem opaca, faz\u00ea-los sair do campo, falando, animando, descompondo, se era preciso. Os seus pr\u00f3prios ardis eram admir\u00e1veis.<\/p>\n<p>De quando em quando, a mem\u00f3ria e o ouvido juntavam-se \u00e0 leitura, e a realidade ia de par com a fic\u00e7\u00e3o. Assim no momento em que Marte, lanceado por Diomedes, volta ao c\u00e9u, onde Paeon lhe deita um b\u00e1lsamo suav\u00edssimo, na ferida, que o faz sarar logo, veio-me \u00e0 lembran\u00e7a a not\u00edcia lida naquela manh\u00e3 de estarem fechadas todas as farm\u00e1cias da cidade, menos a do Sr. Hon\u00f3rio Prado. Depois, quando o capacete de Agamenon recolhe os sinais dos guerreiros, o arauto os agita, e, tira-se \u00e0 sorte qual ser\u00e1 o valente que ter\u00e1 de lutar com Heitor, ouvi, lembro-me bem que ouvi uma voz conhecida na rua: &#8220;Um resto! vinte contos!&#8221; Tudo, por\u00e9m, se confundia na minha imagina\u00e7\u00e3o; e a realidade presente ou passada era prontamente desfeita na contempla\u00e7\u00e3o da poesia.<\/p>\n<p>Todos os guerreiros me apareciam, com as armas hom\u00e9ricas, rutilantes e fortes, com os seus escudos de sete e oito couros de boi, cobertos de bronze, os arcos e setas, as lan\u00e7as e capacetes. Agamenon, rei dos reis, o divino Aquiles, Diomedes, os dous \u00c1jax, e tu, artificioso Ulisses, enfrentando com Heitor, com En\u00e9ias, com P\u00e1ris, com todos os bravos defensores da santa \u00cdlion. Via o campo coalhado de mortos, de armas, de carros. As cerim\u00f4nias do culto, as liba\u00e7\u00f5es e os sacrif\u00edcios vinham temperar o espet\u00e1culo da c\u00f3lera humana; e, posto que a cozinha de Homero seja mais substancial que delicada, gostava de ver matar um boi, pass\u00e1-lo pelo fogo e com\u00ea-lo com essa mistura de mel, cebola, vinho e farinha, que devia ser muito grata ao paladar antigo.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o ia seguindo, com a alternativa pr\u00f3pria das batalhas. Ora perdia um, ora outro. Este avan\u00e7ava at\u00e9 \u00e0 praia, depois recuava, terra dentro. O clamor era enorme, as mortes infinitas. Her\u00f3is de ambos os lados ca\u00edam, ensopados em sangue. O terror desfazia as linhas, a coragem as recompunha, e os combates sucediam aos combates. Eu, do Olimpo, mirava tudo, tudo tranq\u00fcilo como agora que escrevo isto. Minto; n\u00e3o podia esquivar-me \u00e0 como\u00e7\u00e3o dos outros deuses. Assim, quando P\u00e1troclo, vendo os seus quase perdidos, saiu a combater co-rn as armas de Aquiles, senti a grandeza do espet\u00e1culo; mas nem esse nem outro gosto algum pode ser comparado ao que me deu o pr\u00f3prio Aquiles, quando soube que o amigo morrera \u00e0s m\u00e3os de Heitor.<\/p>\n<p>Vi, ningu\u00e9m me contou, vi as l\u00e1grimas e a f\u00faria do her\u00f3i. Vi-o sair com as novas armas que o pr\u00f3prio Vulcano fabricou para ele; vi, depois, ainda novos e terr\u00edveis combates. No mais renhido deles, desceram todos os deuses e dividiram-se entre os ex\u00e9rcitos, conforme as suas simpatias. S\u00f3 ficamos J\u00fapiter e eu. E disse-me o rei dos deuses:<\/p>\n<p>\u2014 An\u00f4nimo (chamo-te assim, porque ainda n\u00e3o tens nome no c\u00e9u), contempla comigo este quadro n\u00e3o menos deleitoso que acerbo. At\u00e9 os rios buscaram combater Aquiles; mas o filho de Peleu vencer\u00e1 a todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi o que vi, nem o que ouvi; teria de repetir aqui uma intermin\u00e1vel hist\u00f3ria. Foi medonho e belo. Os deuses, mais que nunca, ajudavam os homens. Momento houve em que eles pr\u00f3prios combateram uns com outros, entre grandes palavradas, c\u00e3o, cadela, e muito murro, muita pedrada, uma luta de raivas e despeitos. Enfim, Aquiles matou Heitor. Jamais esquecerei as lamenta\u00e7\u00f5es das mulheres troianas. Assisti depois \u00e0s festas da vit\u00f3ria, corridas a cavalo e a p\u00e9, o disco e o pugilato.<\/p>\n<p>Eram seis horas da tarde, quando me chamaram para jantar. Pessoas vindas dos morros pr\u00f3ximos contaram que n\u00e3o houvera batalha nenhuma; desmenti esse princ\u00edpio de balela, referindo tudo o que vira, que foi muito, longo e \u00e1spero. N\u00e3o me deram cr\u00e9dito. Um insinuou que eu tinha o ju\u00edzo virado. Outro quis fazer-me crer que a fogueira em que ardiam os restos de Heitor, era um simples inc\u00eandio na ilha das Cobras. Os jornais est\u00e3o de acordo com os meus contraditores; mas eu prefiro crer em Homero, que \u00e9 mais velho.<\/p>\n<p>[134]<\/p>\n<p>[25 mar\u00e7o]<\/p>\n<p>A SEMANA foi santa \u2014 mas n\u00e3o foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! H\u00e1 pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! H\u00e1 rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que t\u00eam filhos, e, n\u00e3o obstante, nasceram depois da batalha de Aquidab\u00e3! Mas ent\u00e3o que \u00e9 o tempo? \u00c9 a brisa fresca e pregui\u00e7osa de outros anos, ou este tuf\u00e3o impetuoso que parece apostar com a eletricidade? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que os rel\u00f3gios, depois da morte de L\u00f3pez, andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar pr\u00f3prio de uma quadra em que as not\u00edcias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro. Ia-se a S\u00e3o Paulo por Santos. Ainda assim, na semana, os estudantes de Direito desciam a serra de Cubat\u00e3o e vinham tomar o vapor de Santos para o Rio. Que digo? Ca houve em que vieram unicamente assistir \u00e0 primeira representa\u00e7\u00e3o um ape\u00e7a de teatro. Lembras-te, Ferreira de Meneses? Lembras-te Sisenando Nabuco? N\u00e3o respondem; creio que est\u00e3o mortos.<\/p>\n<p>A\u00ed vou escorrendo para o passado, cousa que n\u00e3o interessa no presente. O passado que o jovem leitor h\u00e1 de saborear \u00e9 o presente l\u00e1 para 1920, quando os rel\u00f3gios e os almanaques criarem asas. Ei t\u00e3o, se ele escrever nesta coluna, aos domingos, ser\u00e1 igualmente ins\u00edpido com as suas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tempo houve (dir\u00e1 ele) em que o primeiro Front\u00e3o da Rua do Ouvidor descendo, \u00e0 esquerda, perto da Rua de Gon\u00e7alves Dias, era uma confeitaria, Confeitaria Pascoal. Este nome, que nenhuma como\u00e7\u00e3o produz na alma do rapaz nascido com o s\u00e9culo, acorda em mim saudades viv\u00edssimas. A casa mesma rua, esquina da dos Ourives, onde ainda ontem (perdoem ao guloso) comprei um excelente paio, era uma casa de j\u00f3ia, pertencente a um italiano, um Far\u00e0ni, Cesar Far\u00e2ni, creio, na qual passei horas excelentes. Fora, for mem\u00f3rias importunas!<\/p>\n<p>Assim poder\u00e1 escrever o leitor, em 1920, nesta ou noutra coluna para os jovens desse ano n\u00e3o ser\u00e1 menos aborrecido.<\/p>\n<p>Mas, por isso mesmo que os h\u00e1 de enfadar, deixe-me enfad\u00e1-lo um pouco, repetindo que a semana santa que acabou ontem ou acaba hoje n\u00e3o \u00e9 a semana santa anterior \u00e0 passagem do Passo da P\u00e1tria ou ao \u00faltimo minist\u00e9rio Olinda.<\/p>\n<p>As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por tr\u00eas. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais melhor. Verdadeiramente j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 verde. O verde de hoje \u00e9 um amarelo escuro. A segunda-feira e a ter\u00e7a-feira eram lentas, n\u00e3o longas; n\u00e3o sei se percebem a diferen\u00e7a. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, por\u00e9m, a quarta-feira de trevas; era princ\u00edpio de uma s\u00e9rie de cerim\u00f4nias, e de of\u00edcios, de prociss\u00f5es, serm\u00f5es de l\u00e1grimas, at\u00e9 o s\u00e1bado de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de P\u00e1scoa que era a chave de ouro.<\/p>\n<p>Tenho mais crit\u00e9rio que meu sucessor de 1920; n\u00e3o quero mat\u00e1-lo com algumas not\u00edcias que ele n\u00e3o h\u00e1 de entender. Como entender, depois da passagem de Humait\u00e1, que as prociss\u00f5es do enterro, uma de S\u00e3o Francisco de Paula, outra do Carmo, eram t\u00e3o compridas que n\u00e3o acabavam mais? Como pintar-lhe os andores, as filas tochas inumer\u00e1veis, as Marias Beh\u00fas, segundo a forma popular, centuri\u00e3o, e tantas outras partes da cerim\u00f4nia, n\u00e3o contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas de mo\u00e7as bonitas \u2014 mo\u00e7as e velhas \u2014 porque j\u00e1 naquele tempo havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas verde. A velhice \u00e9 uma id\u00e9ia recente. Data do ber\u00e7o de um menino que vi nascer com o minist\u00e9rio Sinimbu. Antes deste \u2014 ou mais exatamente, antes do minist\u00e9rio Rio Branco \u2014 tudo era juvenil no mundo, n\u00e3o juvenil de passagem, mas perpetuamente juvenil. As exce\u00e7\u00f5es que eram raras, vinham confirmar a regra.<\/p>\n<p>N\u00e3o entender\u00edeis nada. Nem sei se chegareis a entender o que sucedeu agora, indo ver o of\u00edcio da Paix\u00e3o em uma igreja. Outrora, quando de todo o serm\u00e3o da montanha eu s\u00f3 conhecia o padre-nosso, a impress\u00e3o que recebia era mui particular, uma mistura de f\u00e9 e de curiosidade, um gosto de ver as luzes, de ouvir os cantos, de mirar as alvas e as casulas, o hissope e o tur\u00edbulo. Entrei na igreja. A gente n\u00e3o era muita; sabe-se que parte da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 fora daqui. Metade dos fi\u00e9is ali presentes eram senhoras, e senhoras de chap\u00e9u. Nunca. me esqueceu o esc\u00e2ndalo produzido pelos primeiros chap\u00e9us que ousaram entrar na igreja em tais dias; esc\u00e2ndalo sem tumulto, nada mais que murmura\u00e7\u00e3o. Mas o costume venceu a repugn\u00e2ncia e os chap\u00e9us v\u00e3o \u00e0 missa e ao serm\u00e3o. Algumas senhoras rezavam por livros, outras desfiavam ros\u00e1rios, as restantes olhavam s\u00f3 ou rezariam mentalmente. N\u00e3o quero esquecer um velho cantor de igreja, que ali achei, e que, em crian\u00e7a, ouvira cantar nas festas religiosas; creio que nunca fez outra cousa, salvo o curto per\u00edodo em que o vi no coro da defunta \u00f3pera Nacional. Que idade teria? Sessenta, setenta, oitenta&#8230;<\/p>\n<p>Soou o cantoch\u00e3o. Chegou-me o incenso. A imagina\u00e7\u00e3o deixou-se-me embalar pela m\u00fasica e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atr\u00e1s dela foi o cora\u00e7\u00e3o, tornado \u00e0 simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galil\u00e9ia, e, abrindo os l\u00e1bios, disse-me que a sua palavra d\u00e1 solu\u00e7\u00e3o a tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, disse eu ent\u00e3o, a vida \u00e9 aflitiva, e a\u00ed est\u00e1 o Eclesiastes que diz ter visto as l\u00e1grimas dos inocentes, e que ningu\u00e9m os consolava.<\/p>\n<p>\u2014 Bem-aventurados os que choram, porque eles ser\u00e3o consolados. \u2014 Vede a injusti\u00e7a do mundo. &#8220;Nem sempre o pr\u00eamio \u00e9 dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Bem-aventurados os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque eles ser\u00e3o fartos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 ainda o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais prov\u00eam males&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem-aventurados os que s\u00e3o perseguidos por amor da justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o reino do c\u00e9u.<\/p>\n<p>E assim por diante. A cada palavra de l\u00e1stima respondia Jesus com uma palavra de esperan\u00e7a. Mas j\u00e1 ent\u00e3o n\u00e3o era ele que me aparecia, era eu que estava na pr\u00f3pria Galil\u00e9ia, diante da montanha, ouvindo com o povo. E o serm\u00e3o continuava. Bem aventurados os pac\u00edficos. Bem-aventurados os mansos&#8230;<\/p>\n<p>[135]<\/p>\n<p>[1 abril]<\/p>\n<p>ENFIM! Vai entrar em discuss\u00e3o no Conselho Municipal o projeto que ali apresentou o Sr. Dr. Capelli, sobre higiene. Ainda assim, foi preciso que o autor o pedisse, anteontem. J\u00e1 tenho lido que o Conselho trabalha pouco, mas n\u00e3o aceito em absoluto esta afirma\u00e7\u00e3o. Conselho Municipal ou C\u00e2mara Municipal, a institui\u00e7\u00e3o que dirige os servi\u00e7os da nossa velha e boa cidade, foi sempre objeto de censuras, \u00e0s vezes com raz\u00e3o, outras sem ela, como ali\u00e1s acontece todas as institui\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Trabalhe pouco ou muito, \u00e9 de estimar que traga para a discuss\u00e3o o projeto do Sr. Dr. Capelli. Se ele n\u00e3o resolve totalmente a quest\u00e3o higi\u00eanica, nem a isso se prop\u00f5e, pode muito bem resolv\u00ea-la em parte. N\u00e3o entro no exame dos seus diversos artigos; basta-me o primeiro. 0 primeiro artigo estabelece concurso para a nomea\u00e7\u00e3o dos comiss\u00e1rios de higiene, que se chamar\u00e3o de ora avante inspetores sanit\u00e1rios. \u00c9 discut\u00edvel a id\u00e9ia do concurso. N\u00e3o me parece claro que melhore o servi\u00e7o, e pode n\u00e3o passar de simples ilus\u00e3o. O artigo, por\u00e9m, disp\u00f5e, como ficou dito, que os comiss\u00e1rios de higiene se chamem de ora avante inspetores sanit\u00e1rios, e essa troca de um nome para outro \u00e9 meio caminho andado para a solu\u00e7\u00e3o. Os nomes velhos ou gastos tornam caducas as institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se melhora verdadeiramente um servi\u00e7o deixando o mesmo nome aos seus oficiais. \u00c9 do Evangelho, que n\u00e3o se p\u00f5e remendo novo em pano velho. O pano aqui \u00e9 a denomina\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Conselho Municipal tem em si um exemplo do que levo dito. C\u00e2mara Municipal n\u00e3o era mau nome, tinha at\u00e9 um ar democr\u00e1tico; mas estava pu\u00eddo. O nome criou a personagem da cousa, e a m\u00e1 fama levou consigo a obra e o t\u00edtulo. Conselho Municipal, sendo nome diverso, exprime a mesma id\u00e9ia democr\u00e1tica, \u00e9 bom e \u00e9 novo.<\/p>\n<p>Outro exemplo, e de fora. Sabe-se que a C\u00e2mara dos Lords est\u00e1 arriscada a descambar no ocaso, ou a ver-se muito diminu\u00edda. N\u00e3o duvido que os seus \u00faltimos atos tenham dado lugar \u00e0 guerra que lhe movem, com o pr\u00f3prio chefe do governo \u00e0 frente, se \u00e9 certo o que nos disse h\u00e1 pouco um telegrama. Mas quem sabe se, trocando oportunamente o t\u00edtulo, n\u00e3o teria ela desviado o golpe iminente, embora ficasse a mesma cousa, ou quase?<\/p>\n<p>Conta-se de um homem (creio que j\u00e1 referi esta anedota) que n\u00e3o podia achar bons copeiros. De dous em dous meses, mandava embora o que tinha, e contratava outro. Ao cabo de alguns anos chegou ao desespero; descobriu, por\u00e9m, um meio com que resolveu a dificuldade. O copeiro que o servia ent\u00e3o, chamava-se Jos\u00e9. Chegado o momento de substitu\u00ed-lo, pagou-lhe o aluguel e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Jos\u00e9, tu agora chamas-te Joaquim. Vai p\u00f4r o almo\u00e7o, que s\u00e3o horas.<\/p>\n<p>Dous meses depois, reconheceu que o copeiro voltava a ser insuport\u00e1vel. Fez-lhe as contas, e concluiu:<\/p>\n<p>\u2014 Joaquim, tu passas agora a chamar-te Andr\u00e9. Vai l\u00e1 para dentro.<\/p>\n<p>F\u00ea-lo Jo\u00e3o, Manuel, f\u00ea-lo Marcos, f\u00ea-lo Rodrigo, percorreu toda a onom\u00e1stica latina, grega, judaica, anglo-sax\u00f4nia, conseguindo ter sempre o mesmo ruim criado, sem andar a busc\u00e1-lo por essas ruas. Entendamo-nos; eu creio que a ruindade desaparecia com a investidura do nome, e voltava quando este principiava a envelhecer. Pode ser tamb\u00e9m que n\u00e3o fosse assim, e que a simples novidade do nome trouxe ao amo a ilus\u00e3o da melhoria. De um ou de outro modo, a influ\u00eancia dos nomes \u00e9 certa.<\/p>\n<p>Por exemplo, quem ignora a vida nova que trouxe ao ensino da inf\u00e2ncia a troca daquela velha tabuleta &#8220;Col\u00e9gio de Meninos&#8221; por esta outra &#8220;Externato de Instru\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria&#8221;? Concordo que o aspecto cient\u00edfico da segunda forma tenha parte no resultado; antes dele, por\u00e9m, h\u00e1 o efeito misterioso da simples mudan\u00e7a. Mas eu vou mais longe.<\/p>\n<p>Vou t\u00e3o longe, que ouso crer nas reabilita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, unicamente ou quase unicamente pelo altera\u00e7\u00e3o do nome das pessoas. O atual processo para esses trabalhos \u00e9 rever os documentos, avaliar as opini\u00f5es, e contar os fatos, comparar, retificar, excluir, incluir, concluir. Todo esse trabalho \u00e9 in\u00fatil, se n\u00e3o trocar o nome por outro. Messalina, por exemplo. Esta imperatriz chegou \u00e0 celebridade do substantivo, que \u00e9 a maior a que pode aspirar uma criatura real ou fingida: uma messalina, um tartufo. Se quiserdes tir\u00e1-la da lama hist\u00f3rica, em que ela caiu, n\u00e3o vos bastar\u00e1 esgravatar o que disseram dela os autores; arranca-lhe violentamente o nome. Chama-lhe Anast\u00e1cia. Quereis fazer uma experi\u00eancia? Pegai em Suet\u00f4nio e lede com o nome de Anast\u00e1cia tudo o que ele se refere de Messalina; \u00e9 outra cousa. O asco diminui, o horror afrouxa, o esc\u00e2ndalo desaparece; e a figura emerge, n\u00e3o digo para o c\u00e9u, mas para uma colina. Em hist\u00f3ria, o ocupar uma colina \u00e9 alguma cousa. Gregorovius, como outros autores deste s\u00e9culo, quis reabilitar Lucr\u00e9cia B\u00f3rgia; acho que o fez, mas esqueceu-se de lhe mudar o nome, e toda gente continua a descomp\u00f4-lo em prosa com V\u00edtor Hugo, ou em verso e por m\u00fasica com Donizetti.<\/p>\n<p>Voltando aos comiss\u00e1rios de higiene, futuros inspetores sanit\u00e1rios, repito que o servi\u00e7o melhorar\u00e1 muito com essa altera\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo, e n\u00e3o \u00e9 pouco. Mas \u00e9 preciso que, sem diz\u00ea-lo na lei, nem no parecer, nem nos debates, fiquem todos combinados em alterar periodicamente o t\u00edtulo, desde que o servi\u00e7o precise reforma. N\u00e3o me compete lembrar outros, nem me ocorre nenhum. Digo s\u00f3 que, passados mais quatro ou cinco t\u00edtulos, n\u00e3o ser\u00e1 m\u00e1 pol\u00edtica voltar ao primeiro. Os nomes t\u00eam, \u00e0s vezes, a propriedade de criar pele nova, s\u00f3 com o desuso ou descanso. Comiss\u00e1rio de higiene, que vai ser descal\u00e7ado agora, desde que repouse alguns anos, ficar\u00e1 com sola nova e tac\u00e3o direito. Assim acontecesse aos meus sapatos!<\/p>\n<p>[136]<\/p>\n<p>[8 abril]<\/p>\n<p>QUINTA-FEIRA \u00e0 tarde, pouco mais de tr\u00eas horas, vi uma cousa t\u00e3o interessante, que determinei logo de come\u00e7ar por ela esta cr\u00f4nica. Agora, por\u00e9m, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espet\u00e1culo, que lhe parecer\u00e1 vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertin\u00eancia; os gostos n\u00e3o s\u00e3o iguais.<\/p>\n<p>Entre a grade do jardim da Pra\u00e7a Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadi\u00e7o, ao p\u00e9 dos trilhos de bonds, estava uni burro deitado. O lugar n\u00e3o era pr\u00f3prio para remanso de burros, donde conclu\u00ed que n\u00e3o estaria deitado, mas ca\u00eddo. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabe\u00e7a e meio corpo. Os nossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mas t\u00e3o frouxamente, que parecia estar pr\u00f3ximo do fim.<\/p>\n<p>Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com \u00e1gua. Logo, n\u00e3o foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que \u00e9 que o deixou na pra\u00e7a, com essa \u00faltima refei\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. N\u00e3o foi pequena a\u00e7\u00e3o. Se o autor dela \u00e9 homem que leia cr\u00f4nicas, e acaso ler esta. receba daqui um aperto de m\u00e3o. O burro n\u00e3o comeu do capim, nem bebeu da \u00e1gua; estava para outros capins e outras \u00e1guas, em campos mais largos e eternos.<\/p>\n<p>Meia d\u00fazia de curiosos tinham parado ao p\u00e9 do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se n\u00e3o sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espert\u00e1-lo, ent\u00e3o eu n\u00e3o sei conhecer meninos, porque ele n\u00e3o estava do lado do pesco\u00e7o, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; n\u00e3o o fez \u2014 ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, por\u00e9m, valeram por uma hora ou duas. Se h\u00e1 justi\u00e7a na terra, valer\u00e3o por um s\u00e9culo, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.<\/p>\n<p>O que me pareceu, \u00e9 que o burro fazia exame de consci\u00eancia. Indiferente aos curiosos, como ao capim e \u00e0 \u00e1gua, tinha no olhar a express\u00e3o dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fen\u00f4meno foi mal entendido dos que a princ\u00edpio o viram; o pensamento n\u00e3o \u00e9 a causa da morte, a morte \u00e9 que o torna necess\u00e1rio. Quanto \u00e0 mat\u00e9ria do pensamento, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que \u00e9 o exame da consci\u00eancia. Agora, qual foi o exame da consci\u00eancia daquele burro, \u00e9 o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; n\u00e3o decifrei palavras escritas, m\u00e1s id\u00e9ias \u00edntimas de criatura que n\u00e3o podia exprimi-las verbalmente.<\/p>\n<p>E diria o burro consigo:<\/p>\n<p>&#8220;Por mais que vasculhe a consci\u00eancia, n\u00e3o acho pecado que mere\u00e7a remorso. N\u00e3o furtei, n\u00e3o menti, n\u00e3o matei, n\u00e3o caluniei, n\u00e3o ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei tr\u00eas couces, foi o mais, isso mesmo antes de haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que \u00e9 apanhar e calar. Quanto ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente \u00e9 que percebi que me n\u00e3o entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, n\u00e3o com id\u00e9ia de agravar ningu\u00e9m. Nunca dei com homem no ch\u00e3o. Quando passei do t\u00edlburi ao bond, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa n\u00e3o era minha, \u00e9 que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando a autoridade.<\/p>\n<p>&#8220;Passando \u00e0 ordem mais elevada de a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o acho em mim a menor lembran\u00e7a de haver pensado sequer na perturba\u00e7\u00e3o da paz p\u00fablica. Al\u00e9m de ser a minha \u00edndole contr\u00e1ria a arrua\u00e7as, a pr\u00f3pria reflex\u00e3o me diz que, n\u00e3o havendo nenhuma revolu\u00e7\u00e3o declarado os direitos do burro, tais direitos n\u00e3o existem. Nenhum golpe de Estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os abrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses d\u00e1 minha esp\u00e9cie. Qualquer que seja o reg\u00edmen, ronca o pau. O pau \u00e9 a minha institui\u00e7\u00e3o um pouco temperada pela teima, que \u00e9, em resumo, o meu \u00fanico defeito. Quando n\u00e3o teimava, mordia freio, dando assim um bonito exemplo de submiss\u00e3o e conformidade. Nunca perguntei por s\u00f3is nem chuvas; bastava sentir o fregu\u00eas o t\u00edlburi ou o apito do bond, para sair logo. At\u00e9 aqui os males que n\u00e3o fiz; vejamos os bens que pratiquei.<\/p>\n<p>&#8220;A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa t\u00edlburi e o namorado \u00e0 casa da namorada \u2014 ou simplesmente empacando em lugar onde o mo\u00e7o que ia no bond podia mirar a mo\u00e7a que estava na janela. N\u00e3o poucos devedores terei conduzido para longede um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quieta\u00e7\u00e3o dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em aux\u00edlio dele, deixando que me desse tapas e punhadas na cara. Enfim. . . &#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o percebi o resto, e fui andando, n\u00e3o menos alvoro\u00e7ado que pesaroso. Contente da descoberta, n\u00e3o podia furtar-me \u00e0 tristeza de que um burro t\u00e3o bom pensador ia morrer. A considera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam, n\u00e3o seriam menos exemplares que esse. Por que se n\u00e3o investigar\u00e1 mais profundamente o moral do burro? Da abelha j\u00e1 se escreveu que \u00e9 superior ao homem, e da formiga tamb\u00e9m, coletivamente falando, isto \u00e9, que as suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o superiores \u00e0s nossas, mais racionais. Por que n\u00e3o suceder\u00e1 o mesmo ao burro, que \u00e9 maior?<\/p>\n<p>Sexta-feira, passando pela Pra\u00e7a Quinze de Novembro, achei o animal j\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Dous meninos, parados, contemplavam o cad\u00e1ver, espet\u00e1culo repugnante; mas a inf\u00e2ncia, como a ci\u00eancia, \u00e9 curiosa sem asco. De tarde j\u00e1 n\u00e3o havia cad\u00e1ver nem nada. Assim passam os trabalhos desse mundo. Sem exagerar o m\u00e9rito do finado, for\u00e7a \u00e9 dizer que, se ele n\u00e3o inventou a p\u00f3lvora, tamb\u00e9m n\u00e3o inventou a dinamite. J\u00e1 \u00e9 alguma cousa neste final de s\u00e9culo. Requiescat in pace.<\/p>\n<p>[137]<\/p>\n<p>[10 junho]<\/p>\n<p>ONTEM DE MANH\u00c3, indo ao jardim, como de costume, achei l\u00e1 um burro. N\u00e3o leram mal, n\u00e3o, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me sa\u00fadam todas as manh\u00e3s com os seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as del\u00edcias da vida, porque eu n\u00e3o consinto que as cortem do p\u00e9. H\u00e3o de morrer onde nasceram.<\/p>\n<p>Vendo o burro naquele lugar, lembrei-me de Lucius, ou Lucius da Tess\u00e1lia, que, s\u00f3 com mastigar algumas rosas, passou outra vez de burro a gente. Estremeci, e confesso a minha ingratid\u00e3o \u2014 foi menos pela perda das rosas, que pelo terror do prod\u00edgio. Hip\u00f3crita, como me cumpria ser, saudei o burro com grandes rever\u00eancias, e chamei-lhe Lucius. Ele abanou as orelhas, e retorquiu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me chamo Lucius.<\/p>\n<p>Fiquei sem pinga de sangue; mas para n\u00e3o agrav\u00e1-lo com demonstra\u00e7\u00f5es de espanto, que lhe seriam<br \/>\nduras, disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o? Ent\u00e3o o nome de Vossa Senhoria.. .?\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho senhoria. Nomes s\u00f3 se d\u00e3o a cavalos, e quase exclusivamente a cavalos de corrida. N\u00e3o leu hoje telegramas de Londres, noticiando que nas corridas de Oaks venceram os cavalos Fulano e Sicrano? N\u00e3o leu a mesma cousa quinta-feira, a respeito das corridas de Epsom? Burro de cidade, burro que puxa bond ou carro\u00e7a n\u00e3o tem nome; na ro\u00e7a pode ser. Cavalo \u00e9 t\u00e3o adulado que, vencendo uma corrida na Inglaterra, manda-se-lhe o nome a todos os cantos da terra. N\u00e3o pense que fiz verso: \u00e0s vezes saem-me rimas da boca, e podia achar editor para cias, se quisesse; irias n\u00e3o tendo ambi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Falo rimado, porque e falo poucas vezes, e atrapalho-me. Pois, sim senhor. E sabe de quem \u00e9 o primeiro dos cavalos vencedores de Epsom, o que se chama Ladas? \u00c9 do pr\u00f3prio chefe do governo, lord Roseberry, que ainda n\u00e3o h\u00e1 muito ganhou com ele deus mil guin\u00e9us.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 que lhe conta todas essas cousas inglesas?\u2014 Quem? Ali! meu amigo, \u00e9 justamente o que me traz a seus p\u00f3s, disse o burro ajoelhando-se, mas levantando-se, a meu pedido. E continuou: Sei que o senhor se d\u00e1 com gente de imprensa, e vim aqui para lhe pedir que interceda por mim e por uma classe inteira, que devia merecer alguma compaix\u00e3o &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Justi\u00e7a, justi\u00e7a, emendei eu com hipocrisia e servilismo.<\/p>\n<p>\u2014Vejo que me compreende. Ou\u00e7a-me; serei breve. Em regra, s\u00f3 se devia ensinar aos burros a l\u00edngua do pa\u00eds; mas o finado Greenough o primeiro gerente que teve a companhia do Jardim Bot\u00e2nico, achou que devia mandar ensinar ingl\u00eas aos burros dos bonds. Compreende-se o motivo do ato. Rec\u00e9m-chegado ao Rio de Janeiro, trazia mais vivo que nunca o amor da l\u00edngua natal. Era natural crer que nenhuma outra cabia a todas as criaturas da terra. Eu aprendi com facilidade&#8230;\u2014 Como? Pois o senhor \u00e9 contempor\u00e2neo da primeira ger\u00eancia?\u2014 Sim, senhor; eu e alguns mais. Somos j\u00e1 poucos, mas vamos trabalhando. Admira-me que se admire. Devia conhecer os animais de 1869 pela valente decrepitude com que, embora deitando a alma pela boca, puxamos os carros e os ossos. H\u00e1 nisto um resto da disciplina, que nos deu a primeira educa\u00e7\u00e3o. Apanhamos, \u00e9 verdade, apanhamos de chicote, de ponta de p\u00e9, de ponta de r\u00e9dea, de ponta de ferro, mas \u00e9 s\u00f3 quando as poucas for\u00e7as n\u00e3o acodem ao desejo; os burros modernos, esses s\u00e3o teimosos, resistem mais \u00e0 pancadaria. Afinal, s\u00e3o mo\u00e7os.<\/p>\n<p>Suspirou e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 No meio da tanta afli\u00e7\u00e3o, vale-nos a leitura, principalmente de folhas inglesas e americanas, quando algum passageiro as esquece no bond. Um deles esqueceu anteontem um n\u00famero do Pruth. Conhece o Pruth?<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um peri\u00f3dico radical de Londres, continuou o burro, dando \u00e0 for\u00e7a, a not\u00edcia, como um simples homem. Radical e semanal. \u00c9 escrito por um cidad\u00e3o, que dizem ser deputado. O n\u00famero era o \u00faltimo, chegadinho de fresco. Mal me levaram \u00e0 manjedoura, ou cousa que o valha, folheei o peri\u00f3dico de Labouch\u00e8re&#8230; Chamava-se Labouch\u00e8re o redator. O peri\u00f3dico publica sempre em duas colunas not\u00edcia comparativa das senten\u00e7as dadas pelos tribunais londrinos, com o fim de mostrar que os pobres e desamparados t\u00eam mais duras penas que os que o n\u00e3o s\u00e3o, e por atos de menor monta. Ora, que hei de ler no n\u00famero chegado? Cousas destas. Um tal John Fearon Bell, convencido de maltratar quatro potros, n\u00e3o lhes dando suficiente comida e bebida, do que resultou morrer um e ficarem tr\u00eas em m\u00edsero estado, foi condenado a cinco libras de multa; ao lado desse vinha o caso de Fu\u00e3o Thompson, que foi encontrado a dormir em um celeiro e condenado a um m\u00eas de cadeia. Outra compara\u00e7\u00e3o. Eliott, acusado de maltratar dezesseis bezerros, cinco libras de multa e custas. Mary Ellen Connor, acusada de vagabundagem, um m\u00eas de pris\u00e3o. William Poppe, por n\u00e3o dar comida bastante a oito cavalos, cinco libras e custas. William Dudd, aprendiz de pescador, r\u00e9u de desobedi\u00eancia, vinte e dous dias de pris\u00e3o. Tudo mais assim. Um rapaz tirou um ovo de fais\u00e3o de um ninho: quatorze dias de cadeia. Um senhor maltratou quatro vacas: cinco libras e custas.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, disse eu sem grande convic\u00e7\u00e3o, a diferen\u00e7a \u00e9 enorme&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! meu nobre amigo! Eu e os meus pedimos essa diferen\u00e7a, por maior que seja. Condenem a um m\u00eas ou a um ano os que tirarem ovos ou dormirem na rua; mas condenem a cinq\u00fcenta ou cem mil r\u00e9is aqueles que nos maltratam por qualquer modo, ou n\u00e3o nos dando comida suficiente, ou, ao contr\u00e1rio, dando-nos excessiva pancada. Estamos prontos a apanhar, \u00e9 o nosso destino, e eu j\u00e1 estou velho para aprender outro costume; mas seja com modera\u00e7\u00e3o, sem esse furor de cocheiros e carroceiros. O que o tal ingl\u00eas acha pouco para punir os que s\u00e3o cru\u00e9is conosco, eu acho que \u00e9 bastante. Quem \u00e9 pobre n\u00e3o tem v\u00edcios. N\u00e3o exijo cadeia para-os nossos opressores, mas uma pequena multa e custas, creio que ser\u00e3o eficazes. O burro ama s\u00f3 a pele; o homem ama a pele e a bolsa. D\u00ea-se-lhe na bolsa; talvez a nossa pele pade\u00e7a menos.<\/p>\n<p>\u2014 Farei o que puder; mas &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas qu\u00ea? O senhor afinal \u00e9 da esp\u00e9cie humana, h\u00e1 de defender os seus. Ela, fale aos amigos da imprensa; ponha-se \u00e0 frente de um grande movimento popular. O conselho municipal vai levantar um empr\u00e9stimo, n\u00e3o? Diga-lhe que, se lan\u00e7ar uma pena pecuni\u00e1ria sobre os sue maltratam burros, cobrir\u00e1 cinco ou seis vezes o empr\u00e9stimo, sem pagar juros, e ainda lhe, sobrar\u00e1 dinheiro para o Teatro Municipal, e para teatros paroquiais, se quiser. Ainda uma vez, respeit\u00e1vel senhor, cuide um pouco de n\u00f3s. Forarm os homens que descobriram que n\u00f3s \u00e9ramos seus tios, sen\u00e3o diretos, por afinidade. Pois, meu caro sobrinho, \u00e9 tempo de reconstituir a fam\u00edlia. N\u00e3o nos abandone, como no tempo em que os burros eram parceiros dos escravos. Fa\u00e7a o nosso treze de Maio. Lincoln dos teus maiores, segundo o evangelho de Darwin, expede a proclama\u00e7\u00e3o da nossa liberdade!<\/p>\n<p>N\u00e3o se imagina a eloq\u00fc\u00eancia destas \u00faltimas palavras. Cheio de entusiasmo, prometi, pelo c\u00e9u e pela terra, que faria tudo. Perguntei-lhe se lia o portugu\u00eas com facilidade; e, respondendo-me que sim, disse-lhe que procurasse a Gazeta de hoje. Agradeceu-me com voz lacrimosa, fez um gesto de orelhas, e saiu do jardim vagarosamente, cai aqui, cai acol\u00e1.<\/p>\n<p>[138]<\/p>\n<p>[1 julho]<\/p>\n<p>QUINTA-FEIRA de manh\u00e3 fiz como No\u00e9, abri a janela da arca e soltei um corvo. Mas o corvo n\u00e3o tornou, de onde inferi que as cataratas do c\u00e9u e as fontes do abismo continuavam escancaradas. Ent\u00e3o disse comigo: As \u00e1guas h\u00e3o de acabar algum dia. Tempo vir\u00e1 em que este dil\u00favio termine de uma vez para sempre, e a gente possa descer e palmear a Rua do Ouvidor e outros becos. Sim, nem sempre h\u00e1 de chover. Veremos ainda o c\u00e9u azul como a alma da gente nova. O sol, deitando fora a carapu\u00e7a, espalhar\u00e1 outra vez os grandes cabelos louros. Brotar\u00e3o as ervas. As flores deitar\u00e3o aromas capitosos.<\/p>\n<p>Enquanto pensava, ia fechando a janela da arca e tornei depois aos animais que trouxera comigo, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o de No\u00e9. Todos eles aguardavam not\u00edcias do fim. Quando souberam que n\u00e3o havia not\u00edcia nem fim, ficaram desconsolados.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que diabo vos importa um dia mais ou menos de chuva? perguntei-lhes, Voc\u00eas aqui est\u00e3o comigo, dou-lhes tudo; al\u00e9m da minha conversa\u00e7\u00e3o, viveis em paz, ainda os que sois inimigos, lobos e cordeiros, gatos e ratos. Que vos importa que chova ou n\u00e3o chova?\u2014 Senhor meu, disse-me um espadarte, eu sou grato, e todos os nossos o s\u00e3o, ao cuidado que tivestes em trazer para aqui uma piscina, onde podemos nadar e viver \u2014 mas piscina n\u00e3o vale o mar; falta-nos a onda grossa e as corridas de peixes grandes e pequenos, em que nos comemos uns aos outros, com grande alma. Isto que nos destes, prova que tendes bom cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00f3s n\u00e3o vivemos do bom cora\u00e7\u00e3o dos homens. Vamos comendo, \u00e9 verdade, mas comendo sem apetite, porque o melhor apetite &#8230;<\/p>\n<p>Foi interrompido pelo galo, que bateu as asas, e, depois de cantar tr\u00eas vezes, como nos dias de Pedro, proferiu esta alocu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Pela minha parte, n\u00e3o \u00e9 a chuva que me aborrece. O que me aborreceu desde o princ\u00edpio do dil\u00favio, foi a vossa id\u00e9ia de trazer sete casais de cada vivente, de modo que somos aqui sete galos e sete galinhas, propor\u00e7\u00e3o absolutamente contr\u00e1ria \u00e0s mais simples regras da aritm\u00e9tica, ao menos as que eu conhe\u00e7o. N\u00e3o brigo com os outros galos, nem eles comigo, porque estamos em tr\u00e9guas, n\u00e3o por falta de casus belli. H\u00e1 aqui seis galos de mais. Se os mad\u00e1ssemos procurar o corvo?<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe dei ouvidos. Fui dali ver o elefante enroscando a tromba no surucucu, e o surucucu enroscando-se na tromba do elefante. O camelo esticava o pesco\u00e7o, procurando algumas l\u00e9guas de deserto, ou quando menos, uma rua do Cairo. Perto dele, o gato e o rato ensinavam hist\u00f3rias um ao outro. O gato dizia que a hist\u00f3ria do rato era apenas uma longa s\u00e9rie de viol\u00eancias contra o gato, e o rato explicava que, se perseguia o gato, \u00e9 porque o queijo o perseguia a ele. Talvez nenhum deles estivesse convencido. O sabi\u00e1 suspirava. A um canto, a lagartixa, o lagarto e o crocodilo palestravam em fam\u00edlia. Cousa digna da aten\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo \u00e9 quea lagartixa via no crocodilo uma formid\u00e1vel lagartixa, e o crocodilo achava a lagartixa um crocodilo mimoso; ambos estavam de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem g\u00eanio (vers\u00e3o lagartixa) e um presumido do sem gra\u00e7a (vers\u00e3o crocodilo).<\/p>\n<p>\u2014 Quando lhe perguntaram pelos av\u00f3s, observou o crocodilo, costuma responder que eles foram os mais belos crocodilos do mundo, o que pode provar com papiros antiqu\u00edssimos e aut\u00eanticos &#8230;<\/p>\n<p>Tendo nascido, concluiu a lagartixa, tendo nascido na mais humilde fenda de parede, como eu&#8230; Crocodilo de bobagem!<\/p>\n<p>\u2014 Notai que ele fala muito do loto e do nen\u00fafar, refere casos do hipop\u00f3tamo, para enganar os outros, confunde Cle\u00f3patra com o Khediva, e as antigas dinastias com o governo ingl\u00eas &#8230;<\/p>\n<p>Tudo isso era dito sem que o lagarto fizesse caso. Ao contr\u00e1rio, parecia rir, e costeava a parede da arca, a ver se achava algum calor de sol. Era ent\u00e3o sexta-feira, \u00e0 tardinha. Pareceu-me verpor uma fresta uma linha azul. Chamei uma pomba e soltei-a pela janela da arca. Nisto chegou o burro, com uma \u00e1guia pousada na cabe\u00e7a, ente as orelhas. Vinha pedir-me, em nome das outras alimarias, que as soltasse. Falou-me teso e quieto, n\u00e3o tanto pela circunspe\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, como pelo medo, que me confessou, de ver fugir-lhe a\u00e1guia, se mexesse muito a cabe\u00e7a. E dizendo-lhe euque acabava de soltar a pomba, agradeceu-me e foi andando. Pelas dez horas da noite, voltou a pomba com lima flor no bico. Era o primeiro sinal de que as \u00e1guas iam descendo.<\/p>\n<p>As \u00e1guas s\u00e3o ainda grandes, disse-me a pomba, mas parece que foram maiores. Esta flor n\u00e3o foi colhida de erva, mas atirada pela janela fora de tinia arca, cheia de homens, porque h\u00e1 muitas arcas boiando. Esta de que falo, deitou fora uma por\u00e7\u00e3o de flores, colhi esta que n\u00e3o \u00e9 das menos lindas.<\/p>\n<p>Examinei a flor; era de ret\u00f3rica. Nenhum dos animais conhecia til planta. Expliquei-lhes que era uma flor de estufa, produto da arte humana, que ficava entre a flor de pano e a da campina. H\u00e1 de haver alguma academia a\u00ed perto, conclu\u00ed, academia ou parlamento.<\/p>\n<p>Ontem, sobre a madrugada, tornei a abrir a janela e soltei outra vez a pomba, dizendo aos outros que, se ela n\u00e3o tornasse, era sinal de que as \u00e1guas estavam inteiramente acabadas. N\u00e3o voltando at\u00e9 o meio-dia, abri tudo, portas e janelas, e despejei toda aquela cria\u00e7\u00e3o neste mundo. Desisto de descrever a alegria geral. As borboletas e as aranhas iam dan\u00e7ando a tarantela, a v\u00edbora adornava o pesco\u00e7o do c\u00e3o, a gazela e o urubu, de asa e bra\u00e7o dados, voavam e saltavam ao mesmo tempo &#8230; Viva o dil\u00favio! e viva o sol!<\/p>\n<p>[139]<\/p>\n<p>[5 agosto]<\/p>\n<p>O PUNHAL DE MARTINHA<\/p>\n<p>QUEREIS VER o que s\u00e3o destinos? Escutai. Ultrajada por Sexto Tarq\u00fc\u00ednio, uma noite, Lucr\u00e9cia resolve n\u00e3o sobreviver a desonra, mas primeiro denuncia ao marido e ao pai a aleivosia daquele h\u00f3spede, e pede-lhes que a vinguem. Eles juram ving\u00e1-la, e procuram tir\u00e1-la da afli\u00e7\u00e3o dizendo-lhe que s\u00f3 a alma \u00e9 culpada, n\u00e3o o corpo, e que n\u00e3o h\u00e1 crime onde n\u00e3o houve aquiesc\u00eancia. A honesta mo\u00e7a fecha os ouvidos \u00e0 consola\u00e7\u00e3o e ao racioc\u00ednio, e, sacando o punhal que trazia escondido, embebe-o no peito e morre. Esse punhal podia ter ficado no peito da heroina, sem que ningu\u00e9m mais soubesse dele; mas, arrancado por Bruto, serviu de l\u00e1baro \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que fez baquear a realeza e passou o governo \u00e0 aristocracia romana. Tanto bastou para que Tito L\u00edvio lhe desse um lugar de honra na hist\u00f3ria, entre en\u00e9rgicos discursos de vingan\u00e7a. O punhal ficou sendo cl\u00e1ssico. Pelo duplo car\u00e1ter de arma dom\u00e9stica e p\u00fablica, serve tanto a exaltar a virtude conjugal, como a dar for\u00e7a e luz \u00e0 eloq\u00fc\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Bem sei que Roma n\u00e3o \u00e9 a Cachoeira, nem as gazetas dessa cidade balaria podem competir com historiadores de g\u00eanio. Mas \u00e9 isso mesmo que deploro. Essa parcialidade dos tempos, que s\u00f3 recolhem, conservam e transmitem as &#8216;a\u00e7\u00f5es encomendadas nos bons livros, \u00e9 que me entristece, para n\u00e3o dizer que me indigna. Cachoeira n\u00e3o \u00e9 Roma, mas o punhal de Lucr\u00e9cia, por mais digno que seja dos enc\u00f4mios do mundo, n\u00e3o ocupa tanto lugar na hist\u00f3ria, que n\u00e3o fique um canto para o punhal de Martinha. Entretanto, vereis que esta pobre arma vai ser consumida pela ferrugem da obscuridade.<\/p>\n<p>Martinha n\u00e3o \u00e9 certamente Lucr\u00e9cia. Parece-me at\u00e9, se bem entendo uma express\u00e3o do jornal A Ordem, que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. &#8220;Martinha (diz ele) \u00e9 uma rapariga franzina, moderna ainda, e muito conhecida nesta cidade, de onde \u00e9 natural&#8221;. Se \u00e9 mo\u00e7a, se \u00e9 natural da Cachoeira, onde \u00e9 muito conhecida, que quer dizer moderna? Naturalmente quer dizer que faz parte da \u00faltima leva de Citera. Esta condi\u00e7\u00e3o, em vez de prejudicar o paralelo dos punhais, d\u00e1-lhe maior realce, como ides ver. Por outro, lado, conv\u00e9m notar que, se h\u00e1 contrastes das pessoas, h\u00e1 uma coincid\u00eancia de lugar: Martinh\u00e1 mora na Rua do Pag\u00e3o, nome que faz lembrar a religi\u00e3o da esposa de Colatino. As circunst\u00e2ncias dos dous atos s\u00e3o diversas. Martinha n\u00e3o deu hospedagem a nenhum mo\u00e7o de sangue r\u00e9gio ou de outra qualidade. Andava a passeio, \u00e0 noite, um domingo do m\u00eas passado. O Sexto Tarq\u00fc\u00ednio da localidade, crist\u00e3mente chamado Jo\u00e3o, corri o sobrenome de Limeira, agrediu e insultou a mo\u00e7a, irritado naturalmente com os seus desd\u00e9ns. Martinha recolheu-se a casa. Nova agress\u00e3o, \u00e0 porta. Martinha, indignada, mas ainda prudente, disse ao importuno: &#8220;N\u00e3o se aproxime, que eu lhe furo&#8221;. Jo\u00e3o Limeira aproximou-se, ela deu-lhe uma punhalada, que o matou instantaneamente.<\/p>\n<p>Talvez esper\u00e1sseis que ela se matasse a si pr\u00f3pria. Esperar\u00edeis o imposs\u00edvel, e mostrar\u00edeis que me n\u00e3o entendesses. A diferen\u00e7a das duas a\u00e7\u00f5es \u00e9 justamente a que vai do suic\u00eddio ao homic\u00eddio. A romana confia a vingan\u00e7a ao marido e ao pai. A cachoeirense vinga-se por si pr\u00f3pria, e, notai bem, vinga-se de uma simples inten\u00e7\u00e3o. As pessoas s\u00e3o desiguais, mas for\u00e7a \u00e9 dizer que a a\u00e7\u00e3o da primeira n\u00e3o \u00e9 mais corajosa que a da segunda, sendo que esta cede a tal ou qual subtileza de motivos, natural deste s\u00e9culo complicado.<\/p>\n<p>Isto posto, em que \u00e9 que o punhal de Martinha \u00e9 inferior ao de Lucr\u00e9cia? Nem \u00e9 inferior, mas at\u00e9 certo ponto \u00e9 superior. Martinha n\u00e3o profere uma frase de Tito L\u00edv\u00edo, n\u00e3o vai a Jo\u00e3o de Barros, alcunhado o Tito L\u00edvio portugu\u00eas, nem ao nosso Jo\u00e3o Francisco Lisboa, grande escritor de igual valia. N\u00e3o quer sanefas liter\u00e1rias, n\u00e3o ensaia atitudes de trag\u00e9dia, n\u00e3o faz daqueles gestos orat\u00f3rias que a hist\u00f3ria antiga p\u00f5e nos seus personagens. N\u00e3o; ela diz simplesmente e incorretamente: &#8220;N\u00e3o se aproxime que eu lhe firo&#8221;. A palmat\u00f3ria dos gram\u00e1ticas pode punir essa express\u00e3o; n\u00e3o importa, o eu lhe furo traz um valor natal e popular, que vale por todas as belas frases de Lucr\u00e9cia. E depois, que tocante eufemismo! Furar por matar; n\u00e3o sei se Martinha inventou esta aplica\u00e7\u00e3o; mas, fosse ela ou outra a autora, \u00e9 um achado do povo, que n\u00e3o manuseia tratados de ret\u00f3rica, e sabe \u00e0s vezes mais que os ret\u00f3ricas de of\u00edcio.<\/p>\n<p>Com tudo isso, arrojo de a\u00e7\u00e3o, defesa pr\u00f3pria, simplicidade de palavra, Martinha n\u00e3o ver\u00e1 o seu punhal no mesmo feixe de armas que os tempos resguardam da ferrugem. O punhal de Carlota Corday, o de Ravaillac, o de Booth, todos esses e ainda outros far\u00e3o cortejo ao punhal de Lucr\u00e9cia, luzidos e prontos para a tribuna, para a disserta\u00e7\u00e3o, para a palestra. O de Martinha ir\u00e1 rio abaixo do esquecimento, Tais s\u00e3o as cousas deste mundo! Tal \u00e9 a desigualdade dos destinos!<\/p>\n<p>Se, ao menos, o punhal de Lucr\u00e9cia tivesse existido, v\u00e1; mas tal alma, nem tal a\u00e7\u00e3o, nem tal inj\u00faria, existiram jamais, \u00e9 tudo uma pura lenda, que a hist\u00f3ria meteu nos seus livros. A mentira usurpa assim a coroa da verdade, e o punhal de Martinha, que existiu e existe, n\u00e3o lograr\u00e1 ocupar um lugarzinho ao p\u00e9 do de Lucr\u00e9cia, pura fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quero mal \u00e0s fic\u00e7\u00f5es, amo-as, acredito nelas, acho-as prefer\u00edveis \u00e0s realidades; nem por isso deixo de filosofar sobre o destino das cousas tang\u00edveis em compara\u00e7\u00e3o com as imagin\u00e1rias. Grande sabedoria \u00e9 inventar um p\u00e1ssaro sem asas, descrev\u00ea-lo, faz\u00ea-lo ver a todos, e acabar acreditando que n\u00e3o h\u00e1 p\u00e1ssaros com asas &#8230; Mas n\u00e3o falemos mais em Martinha.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis 1892 [98] [24 abril] NA SEGUNDA-FEIRA da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada, mas o nome de problema d\u00e1 dignidade, e excita para logo a aten\u00e7\u00e3o dos leitores austeros. 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