{"id":120212,"date":"2017-04-20T18:48:09","date_gmt":"2017-04-20T20:48:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120212"},"modified":"2017-04-20T18:48:09","modified_gmt":"2017-04-20T20:48:09","slug":"a-mao-e-a-luva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mao-e-a-luva","title":{"rendered":"A M\u00e3o e a Luva"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Machado de Assis<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p>O fim da carta<\/p>\n<p>&#8211; Mas que pretendes fazer agora?<\/p>\n<p>&#8211; Morrer.<\/p>\n<p>&#8211; Morrer? Que id\u00e9ia! Deixa-te disso, Est\u00eav\u00e3o. N\u00e3o se morre por t\u00e3o pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morre-se. Quem n\u00e3o padece estas dores n\u00e3o as pode avaliar. O golpe foi profundo, e o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 pusil\u00e2nime; por mais aborrec\u00edvel que pare\u00e7a a id\u00e9ia da morte, pior, muito pior do que ela, \u00e9 a de viver. Ah! tu n\u00e3o sabes o que isto \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Sei: um namoro gorado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Lu\u00eds!<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha j\u00e1 diminu\u00eddo muito o g\u00eanero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o meteu a m\u00e3o nos cabelos com um gesto de ang\u00fastia; Lu\u00eds Alves sacudiu a cabe\u00e7a e sorriu. Achavam-se os dois no corredor da casa de Lu\u00eds Alves, \u00e0 rua da Constitui\u00e7\u00e3o, &#8211; que ent\u00e3o se chamava dos Ciganos; &#8211; ent\u00e3o, isto \u00e9, em 1853, uma bagatela de vinte anos que l\u00e1 v\u00e3o, levando talvez consigo as ilus\u00f5es do leitor, e deixando-lhe em troca (usur\u00e1rios!) uma triste, crua e desconsolada experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Eram nove horas da noite; Lu\u00eds Alves recolhia-se para casa, justamente na ocasi\u00e3o em que Est\u00eav\u00e3o o ia procurar; encontraram-se \u00e0 porta. Ali mesmo lhe confiou Est\u00eav\u00e3o tudo o que havia, e que o leitor saber\u00e1 daqui a pouco, caso n\u00e3o aborre\u00e7a estas hist\u00f3rias de amor, velhas como Ad\u00e3o, e eternas como o c\u00e9u. Os dois amigos demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria ir morrer, t\u00e3o tenazes ambos, que n\u00e3o haveria meio de os vencer, se a Lu\u00eds n\u00e3o ocorresse uma transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, disse ele, convenho em que deves morrer, mas h\u00e1 de ser amanh\u00e3. Cede da tua parte, e vem passar a noite comigo. Nestas \u00faltimas horas que tens de viver na Terra dar-me-\u00e1s uma li\u00e7\u00e3o de amor, que eu te pagarei com outra de filosofia.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Lu\u00eds Alves travou do bra\u00e7o de Est\u00eav\u00e3o, que n\u00e3o resistiu dessa vez, ou porque a id\u00e9ia da morte n\u00e3o se lhe houvesse entranhado deveras no c\u00e9rebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que \u00e9 mais prov\u00e1vel, por esses dois motivos juntos. Vamos n\u00f3s com eles, escada acima, at\u00e9 a sala de visitas, onde Lu\u00eds foi beijar a m\u00e3o de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e, disse ele, h\u00e1 de fazer-me o favor de mandar o ch\u00e1 ao meu quarto; o Est\u00eav\u00e3o passa a noite comigo.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que eram f\u00fanebres como um cipreste. Lu\u00eds viu-lhe ent\u00e3o, \u00e0 luz das estearinas, alguma vermelhid\u00e3o nos olhos, e adivinhou, &#8211; n\u00e3o era dif\u00edcil, &#8211; que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou ele mentalmente. Dali foram os dois para o quarto, que era uma vasta sala, com tr\u00eas camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e uma secret\u00e1ria, &#8211; vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinete de estudo.<\/p>\n<p>O ch\u00e1 subiu da\u00ed a pouco. Est\u00eav\u00e3o, a muito rogo do h\u00f3spede, bebeu dois goles; acendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, enquanto Lu\u00eds Alves, preferindo um charuto e um sof\u00e1, acendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as m\u00e3os sobre o ventre e contemplando o bico das chinelas, com aquela placidez de um homem a quem se n\u00e3o gorou nenhum namoro. O sil\u00eancio n\u00e3o era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fora; no aposento, por\u00e9m, o \u00fanico rumor era dos botins de Est\u00eav\u00e3o na palhinha do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Cursavam estes dois mo\u00e7os a academia de S. Paulo, estando Lu\u00eds Alves no quarto ano e Est\u00eav\u00e3o no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos \u00edntimos, tanto quanto podiam s\u00ea-lo dois esp\u00edritos diferentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Est\u00eav\u00e3o, dotado de extrema sensibilidade, e n\u00e3o menor fraqueza de \u00e2nimo, afetuoso e bom, n\u00e3o daquela bondade varonil, que \u00e9 apan\u00e1gio de uma alma forte, mas dessa outra bondade mole e de cera, que vai \u00e0 merc\u00ea de todas as circunst\u00e2ncias, tinha, al\u00e9m de tudo isso, o infort\u00fanio de trazer ainda sobre o nariz os \u00f3culos cor-de-rosa de suas virginais ilus\u00f5es. Lu\u00eds Alves via bem com os olhos da cara. N\u00e3o era mau rapaz, mas tinha o seu gr\u00e3o de ego\u00edsmo, e se n\u00e3o era incapaz de afei\u00e7\u00f5es, sabia reg\u00ea-las, moder\u00e1-las, e sobretudo gui\u00e1-las ao seu pr\u00f3prio interesse. Entre estes dois homens travara-se amizade \u00edntima, nascida para um na simpatia, para outro no costume. Eram eles os naturais confidentes um do outro, com a diferen\u00e7a que Lu\u00eds Alves dava menos do que recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o referira ao amigo, desde tempos, toda a hist\u00f3ria do amor, agora malogrado, suas esperan\u00e7as, desalentos e gl\u00f3rias, e, enfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o cap\u00edtulo mais delicioso do romance &#8211; no sentir dele &#8211; caiu de toda a altura das ilus\u00f5es na mais dura, prosaica e miser\u00e1vel realidade.<\/p>\n<p>A namorada de Est\u00eav\u00e3o, &#8211; \u00e9 tempo de dizer alguma coisa dela, &#8211; era uma mo\u00e7a de 17 anos, e, por ora, simples aluna-professora no col\u00e9gio de uma tia do nosso estudante, \u00e0 rua dos Inv\u00e1lidos. Est\u00eav\u00e3o tinha-a visto, pela primeira vez, seis meses antes, e desde logo sentiu-se preso por ela, &#8220;at\u00e9 \u00e0 morte&#8221;, disse ele ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de t\u00e3o estirado prazo. Qualquer que ele fosse, por\u00e9m, o prazo fatal daquele cativeiro, a verdade \u00e9 que Est\u00eav\u00e3o no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida &#8211; amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ela? Est\u00eav\u00e3o dizia que sim, e devia cr\u00ea-lo; alguns olhares ternos, meia d\u00fazia de apertos de m\u00e3o significativos, embora a largos intervalos, davam a entender que o cora\u00e7\u00e3o de Guiomar &#8211; chamava-se Guiomar &#8211; n\u00e3o era surdo \u00e0 paix\u00e3o do acad\u00eamico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.<\/p>\n<p>O pouco mais foi uma flor, n\u00e3o colhida do p\u00e9 em toda a original frescura, mas j\u00e1 murcha e sem cheiro, e n\u00e3o dada, sen\u00e3o pedida.<\/p>\n<p>&#8211; Faz-me um favor? disse um dia Est\u00eav\u00e3o apontando para a flor que ela trazia nos cabelos; esta flor est\u00e1 murcha, e, naturalmente, vai deit\u00e1-la fora ao despentear-se; eu desejava que ma desse.<\/p>\n<p>Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabelo, e deu-lha; Est\u00eav\u00e3o recebeu-a com igual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinh\u00e3o do c\u00e9u. Al\u00e9m da flor, e para suprir as cartas, que n\u00e3o havia, nada mais obtivera Est\u00eav\u00e3o durante aqueles seis compridos meses, a n\u00e3o serem os tais olhares, que afinal s\u00e3o olhares, e v\u00e3o-se com os olhos donde vieram. Era aquilo amor, capricho, passatempo ou que outra coisa era?<\/p>\n<p>Naquela tarde, a tarde fatal, estando ambos a s\u00f3s, o que era raro e dif\u00edcil, disse-lhe ele que em breve ia voltar para S. Paulo, levando consigo a imagem dela, e pedindo-lhe em c\u00e2mbio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nele o seu magn\u00edfico par de olhos castanhos, com tanta irrita\u00e7\u00e3o e dignidade, que o pobre rapaz ficou at\u00f4nito e perplexo. Imagina-se a ang\u00fastia dele diante do sil\u00eancio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se n\u00e3o imagina \u00e9 a dor que o prostrou, &#8211; a dor e o espanto, &#8211; quando ela, erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:<\/p>\n<p>&#8211; Esque\u00e7a-se disso.<\/p>\n<p>&#8211; Pois quanto a mim, &#8211; disse Lu\u00eds Alves ouvindo pela terceira vez a esquecia-me disso e ia curar-me em cima dos comp\u00eandios; Direito Romano e Filosofia, n\u00e3o conhe\u00e7o rem\u00e9dio melhor para tais achaques.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o ouvia as palavras do amigo; estava ent\u00e3o assentado na cama, com os cotovelos fincados nas pernas, e a cabe\u00e7a metida nas m\u00e3os, parecendo que chorava. A princ\u00edpio chorou em sil\u00eancio; mas n\u00e3o tardou que Lu\u00eds Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, a solu\u00e7ar, a abafar quanto podia os gritos que lhe sa\u00edam do peito, a puxar os cabelos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, t\u00e3o d&#8217;alma tudo aquilo, t\u00e3o lastimosamente natural, que enfim o comoveu, e n\u00e3o houve rem\u00e9dio sen\u00e3o dizer-lhe algumas palavras de conforto. A consola\u00e7\u00e3o veio a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, declinou pouco apouco, e as l\u00e1grimas estancaram, ao menos por algum tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que tudo isto h\u00e1 de parecer-te rid\u00edculo, disse Est\u00eav\u00e3o sentando-se na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuas\u00e3o de que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo n\u00e3o entendo o que se passou hoje. Ou o que eu supunha ser amor, n\u00e3o passava talvez de passatempo ou zombaria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, talvez, interrompeu Lu\u00eds Alves, compreendendo que o melhor meio de o curar do amor era meter-lhe em brios o amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o ficou alguns instantes pensativo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, contestou ele. Tu n\u00e3o a conheces. \u00c9 uma grave e nobre criatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.<\/p>\n<p>&#8211; As mulheres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pensei se aquilo de hoje n\u00e3o seria uma maneira de experimentar-me, de ver at\u00e9 que ponto eu lhe queria&#8230; Escusas de rir-te, Lu\u00eds; eu nada afirmo; digo que pode ser. N\u00e3o admira que ela fizesse esse c\u00e1lculo, &#8211; um bom c\u00e1lculo, nesse caso, todo filho do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o de Est\u00eav\u00e3o desceu por este decl\u00edvio de floridas conjecturas, e Lu\u00eds Alves entendeu que era de bom aviso n\u00e3o espantar-lhe os cavalos. Ela foi, foi, foi por ali abaixo, r\u00e9dea frouxa e riso nos l\u00e1bios. Boa viagem! exclamou mentalmente o colega voltando a estirar-se no sof\u00e1. A viagem n\u00e3o foi longa, mas produziu efeito salutar no \u00e2nimo do namorado, ado\u00e7ando-lhe as penas, circunst\u00e2ncia que Lu\u00eds Alves aproveitou para lhe falar de cem coisas alheias ao cora\u00e7\u00e3o e diverti-lo do pensamento que o absorvia. Conseguiu o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, porque fez com que o colega risse, a princ\u00edpio de um riso amargo e d\u00fabio, depois de um riso jovial e franco, incompat\u00edvel com intuitos tr\u00e1gicos. Mas, ai triste! a dor dele era uma esp\u00e9cie de tosse moral, que aplacava e reaparecia, intensa \u00e0s vezes, \u00e0s vezes mais fraca, mas sempre infal\u00edvel. O rapaz acertara de abrir uma p\u00e1gina de Werther; leu meia d\u00fazia de linhas, e o acesso voltou mais forte que nunca.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consola\u00e7\u00e3o; o acesso passou; nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando as horas da noite, que o rel\u00f3gio da sala de jantar batia seca e regularmente, como a lembrar aos dois amigos que as nossas paix\u00f5es n\u00e3o aceleram nem moderam o passo do tempo.<\/p>\n<p>A aurora para os dois acad\u00eamicos coincidiu com as badaladas do meio-dia, o que n\u00e3o admira, pois s\u00f3 adormeceram quando ela come\u00e7ava a apagar as estrelas. Est\u00eav\u00e3o passou a noite, &#8211; a manh\u00e3, quero dizer, &#8211; muito sossegada e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos estranhou o aposento e os objetos que o rodeavam. Logo que os reconheceu, despertou-se-lhe, com a mem\u00f3ria, o cora\u00e7\u00e3o, onde j\u00e1 n\u00e3o havia aquela dor aguda da v\u00e9spera. Os sucessos, embora recentes, come\u00e7avam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.<\/p>\n<p>A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive n\u00e3o s\u00f3 do que ama, mas tamb\u00e9m (for\u00e7a \u00e9 diz\u00ea-lo) do que come. Sirva isto de escusa ao nosso estudante, que almo\u00e7ou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o n\u00e3o fez com l\u00e1grimas, tamb\u00e9m o n\u00e3o fez alegre. Mas o certo \u00e9 que a tempestade serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Lu\u00eds Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Est\u00eav\u00e3o foi o primeiro a recordar-se dela.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1 tempo ao tempo, respondeu Lu\u00eds Alves, e ainda te h\u00e1s de rir dos teus planos de ontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado t\u00e3o depressa. E queres um conselho?<\/p>\n<p>&#8211; Dize.<\/p>\n<p>&#8211; O amor \u00e9 uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parab\u00e9ns quando se l\u00ea, carta de p\u00easames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, p\u00f5e a ep\u00edstola no fundo da gaveta, e n\u00e3o te lembres de ir ver se ela tem um &#8220;post-scriptum&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o aplaudiu a met\u00e1fora com um sorriso de bom agouro.<\/p>\n<p>Duas vezes viu ele a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. Da primeira sentiu-se ainda abalado, porque a ferida n\u00e3o cicatrizara de todo; da segunda, p\u00f4de encar\u00e1-la sem perturba\u00e7\u00e3o. Era melhor, &#8211; mais rom\u00e2ntico pelo menos, que eu o pusesse a caminho da academia, com o desespero no cora\u00e7\u00e3o, lavado em l\u00e1grimas, ou a beb\u00ea-las em sil\u00eancio, como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Ele foi daqui com os olhos enxutos, distraindo-se dos t\u00e9dios da viagem com alguma pilh\u00e9ria de rapaz, &#8211; rapaz outra vez, como dantes.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Um roup\u00e3o<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois de chegar Est\u00eav\u00e3o a S. Paulo, achava-se a sua paix\u00e3o definitivamente morta e enterrada, cantando ele mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou tr\u00eas mo\u00e7as da capital, &#8211; todas elas, por passatempo. Claro \u00e9 que dois anos depois, quando tomou o grau de bacharel, nenhuma id\u00e9ia lhe restava do namoro da rua dos Inv\u00e1lidos. Demais, a bela Guiomar desde muito tempo deixara o col\u00e9gio e fora morar com a madrinha. J\u00e1 ele a n\u00e3o vira da primeira vez que veio \u00e0 Corte. Agora voltava graduado em ci\u00eancias jur\u00eddicas e sociais, como fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.<\/p>\n<p>A Corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuseram a linha dos cinq\u00fcenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o \u00e0 vida toda a flor dos seus primeiros anos. Para os var\u00f5es maduros, nunca a mocidade folga como no tempo deles, o que \u00e9 natural dizer, porque cada homem v\u00ea as coisas com os olhos da sua idade. Os recreios da juventude n\u00e3o s\u00e3o decerto igualmente nobres, nem igualmente fr\u00edvolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento n\u00e3o \u00e9 dela, &#8211; a pobre juventude, &#8211; \u00e9 sim do tempo que lhe cai em sorte.<\/p>\n<p>A Corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do c\u00f3lera -; bailava-se, cantava-se, ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus sal\u00f5es, como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos tr\u00eas fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos hom\u00e9ricos do teatro l\u00edrico, a quadra memor\u00e1vel daquelas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu, &#8211; Deus lhe perdoe, &#8211; a coisas de menor tomo. Quem se n\u00e3o lembra, &#8211; ou quem n\u00e3o ouviu falar das batalhas feridas naquela cl\u00e1ssica plat\u00e9ia do Campo da Aclama\u00e7\u00e3o, entre a legi\u00e3o casal\u00f4nica e a falange chart\u00f4nica, mas sobretudo entre esta e o regimento lagru\u00edsta? Eram batalhas campais, com tropas frescas, &#8211; e maduras tamb\u00e9m, &#8211; apercebidas de flores, de versos, de coroas, e at\u00e9 de estalinhos. Uma noite a a\u00e7\u00e3o travou-se entre o campo lagru\u00edsta e o campo chartonista, com tal viol\u00eancia, que parecia uma p\u00e1gina da Il\u00edada. Desta vez, a V\u00eanus da situa\u00e7\u00e3o saiu ferida do combate; um estalo rebentara no rosto da Charton. O furor, o del\u00edrio, a confus\u00e3o foram indescrit\u00edveis; o aplauso e a pateada deram-se as m\u00e3os, &#8211; e os p\u00e9s. A peleja passou aos jornais. &#8220;Vergonha terna (dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!&#8221; &#8211; &#8220;Se for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarcos que no sagu\u00e3o do teatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.&#8221; &#8211; &#8220;Patul\u00e9ia desenfreada!&#8221; &#8211; &#8220;Fidalguice balofa!<\/p>\n<p>Os que escaparam daquelas guerras de alecrim e manjerona h\u00e3o de sentir hoje, ap\u00f3s dezoito anos, que despenderam excessivo entusiasmo em coisas que pediam repouso de esp\u00edrito e li\u00e7\u00e3o de gosto.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o \u00e9 uma das rel\u00edquias daquela Tr\u00f3ia, e foi um dos mais fervorosos lagru\u00edstas, antes e depois do grau. A causa principal das suas prefer\u00eancias, era decerto o talento da cantora; mas a que ele costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro do dia, tirantes as do sono, essa causa que mais que tudo o ligava aos &#8220;arraiais do bom gosto&#8221; dizia ele era, &#8211; imaginem l\u00e1 &#8211; era o bu\u00e7o de Mlle. Lagrua. Talvez n\u00e3o fosse ele o \u00fanico amador do bu\u00e7o; mas outro mais f\u00e9rvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista maquiav\u00e9lico, ali\u00e1s escritor elegante, elevava o tal bu\u00e7o \u00e0 categoria de bigode, compreendendo sagazmente que, se o bu\u00e7o era gra\u00e7a, o bigode era excresc\u00eancia; e ele nem ao l\u00e1bio da Lagrua queria perdoar.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! aquele bu\u00e7o! exclamava Est\u00eav\u00e3o nos intervalos de uma \u00f3pera, aquele delicioso bu\u00e7o h\u00e1 de ser a perdi\u00e7\u00e3o da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por ali acima, at\u00e9 ficar mais pr\u00f3ximo do c\u00e9u, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ela, que me n\u00e3o descobre na turba inumer\u00e1vel dos seus adoradores! Querem saber uma coisa? Ali \u00e9 que ela h\u00e1 de ter a alma, e eu quisera entreter-me com a alma dela, e dizer-lhe muita coisinha que tenho c\u00e1 dentro \u00e0 espera de um bu\u00e7o que as queira ouvir.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o era mais ou menos o mesmo homem de dois anos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade de transi\u00e7\u00e3o, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas quimeras tinha, e a mesma simpleza de cora\u00e7\u00e3o; s\u00f3 n\u00e3o as mostrara nos versos que imprimiu em jornais acad\u00eamicos, os quais eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. Neles confessava o rapaz \u00e0 cidade e ao mundo a profunda incredulidade do seu esp\u00edrito, e o seu fastio puramente liter\u00e1rio. A cola\u00e7\u00e3o de grau interrompeu, ou talvez acabou, aquela voca\u00e7\u00e3o po\u00e9tica; o \u00faltimo suspiro desse g\u00eanero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas \u00e0 sua juventude perdida. Felizmente, que s\u00f3 a perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.<\/p>\n<p>Posto fizesse boa figura na Academia, mais prezava do que amava a ci\u00eancia do Direito. Suas prefer\u00eancias intelectuais dividiam-se, ou antes abrangiam a Pol\u00edtica e a Literatura, e ainda assim, a Pol\u00edtica s\u00f3 lhe acenava com o que podia haver liter\u00e1rio nela. Tinha leitura de uma e outra coisa, mas leitura veloz e \u00e0 flor das p\u00e1ginas. Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o compreenderia nunca este axioma de lorde Macaulay &#8211; que mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. N\u00e3o digeria nada; e da\u00ed vinha o seu nenhum apego \u00e0s ci\u00eancias que estudara. Venceu a repugn\u00e2ncia por amor-pr\u00f3prio; mas, uma vez dobrado o Cabo das Tormentas disciplinares, deixou a outros o cuidado de aproar \u00e0 \u00cdndia.<\/p>\n<p>Suas aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas deviam naturalmente morrer em g\u00e9rmen, n\u00e3o s\u00f3 porque lhe minguava o apoio necess\u00e1rio para as arvorecer e frutificar, mas ainda porque ele n\u00e3o tinha em si a for\u00e7a indispens\u00e1vel a todo o homem que p\u00f5e a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspira\u00e7\u00f5es vagas, intermitentes, vaporosas, umas vis\u00f5es legislativas e ministeriais, que t\u00e3o depressa lhe namoravam a imagina\u00e7\u00e3o, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, amava-os ele deveras. Opini\u00f5es n\u00e3o as tinha; alguns escritos que publicara durante a quadra acad\u00eamica eram um complexo de doutrinas de toda casta, que lhe flutuavam no esp\u00edrito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, al\u00e7ando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a atual disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Por agora militava nas fileiras do lagru\u00edsmo, com ardor, dedica\u00e7\u00e3o e fidelidade de bom ap\u00f3stolo. N\u00e3o era abastado para pagar o luxo de uma opini\u00e3o l\u00edrica; nascera pobre e n\u00e3o tinha parente em boa posi\u00e7\u00e3o. Alguns poucos recursos possu\u00eda, provenientes do seu of\u00edcio de advogado, que exercia com o amigo Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>Uma noite assistira \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de 0telo, palmeando at\u00e9 romper as luvas, aclamando at\u00e9 cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o espet\u00e1culo, foi ele, segundo costumava, assistir \u00e0 sa\u00edda das senhoras, uma prociss\u00e3o de rendas, e sedas, e leques, e v\u00e9us, e diamantes, e olhos de todas as cores e linguagens. Est\u00eav\u00e3o era pontual nessas ocasi\u00f5es de espera, e raro deixava de ser o \u00faltimo que sa\u00eda. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos, n\u00e3o pardos como os dele, mas azuis, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos casados, quando sentiu algu\u00e9m bater-lhe no ombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Larga o pinto, que \u00e9 das almas.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o voltou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9s tu! disse ele vendo Lu\u00eds Alves. Quando chegaste?<\/p>\n<p>&#8211; Hoje mesmo, respondeu o colega; venho sequioso de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Vassouras n\u00e3o tem Lagrua nem Otelo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Est\u00eav\u00e3o que, ainda falando em prosa, cultivava as suas met\u00e1foras po\u00e9ticas. Fizeste bem; n\u00e3o te perdoaria se preferisses a outra, a lambisg\u00f3ia, que aqui nos querem impingir por grande coisa, e que n\u00e3o chega aos calcanhares do bu\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Interrompeu-se. Lu\u00eds Alves acabava de cumprimentar cerimoniosamente algu\u00e9m que passava; Est\u00eav\u00e3o volveu a cabe\u00e7a para ver quem era. Era uma mo\u00e7a, que ele n\u00e3o chegou a ver, porque j\u00e1 descia as escadas; mas t\u00e3o elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Algum namoro? perguntou ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; uma vizinha.<\/p>\n<p>A desfilada acabou; sa\u00edram os dois e foram dali cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde morava Lu\u00eds Alves, desde que perdera a m\u00e3e, alguns meses antes.<\/p>\n<p>A casa de Lu\u00eds Alves ficava quase no fim da Praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de apar\u00eancia rica. A noite estava bela, como as mais belas noites daquele arrabalde. Havia luar, c\u00e9u l\u00edmpido, infinidade de estrelas e a vaga a bater molemente na praia, todo o material, em suma, de uma boa composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, em vinte estrofes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns esdr\u00faxulos rebuscados nos dicion\u00e1rios. Est\u00eav\u00e3o poetou, mas poetou em prosa, com um entusiasmo leg\u00edtimo e sincero. Lu\u00eds Alves, menos propenso \u00e0s coisas belas, preferia a mais \u00fatil de todas naquela ocasi\u00e3o, que era ir dormir. N\u00e3o o conseguiu sem ouvir ao h\u00f3spede tudo quanto ele pensava acerca daquele &#8220;pinto, que era das almas&#8221;, aqueles olhos azuis, &#8220;profundos como o c\u00e9u&#8221;, exclamava Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque estranhasse a cama, ou porque o destino assim o resolvera, a verdade \u00e9 que Est\u00eav\u00e3o dormiu pouco, e, coisa rara, acordou logo depois de aparecer a arraiada.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 estava fresca e serena; era tudo sil\u00eancio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas ch\u00e1caras da vizinhan\u00e7a. Est\u00eav\u00e3o, amuado por n\u00e3o poder conciliar o sono, resolvera-se a ir ver a manh\u00e3, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem caf\u00e9 ao jardim, para onde foi sobra\u00e7ando um livro que acaso topou ao p\u00e9 da cama.<\/p>\n<p>O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da ch\u00e1cara vizinha por uma cerca. Relanceando os olhos pela ch\u00e1cara, viu Est\u00eav\u00e3o que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas retas. Uma destas come\u00e7ava das escadas de pedra da casa e ia at\u00e9 o fim da ch\u00e1cara; a outra ia da cerca de Lu\u00eds Alves at\u00e9 \u00e0 extremidade oposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Est\u00eav\u00e3o s\u00f3 a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.<\/p>\n<p>Sentou-se o bacharel em um banco que ali achou, recebeu a x\u00edcara de caf\u00e9, que o escravo lhe trouxe da\u00ed a pouco, acendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Pr\u00e1tica Forense. Demos-lhe raz\u00e3o ao despeito como que o fechou e atirou ao ch\u00e3o, contentando-se com o canto dos p\u00e1ssaros e o cheiro das flores, e a sua imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, que valia as flores e os p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Deus sabe at\u00e9 onde iria ela, com as asas f\u00e1ceis que tinha, se um incidente lhas n\u00e3o colhera e fizera descer \u00e0 terra. Da casa vizinha sa\u00edra um roup\u00e3o, &#8211; ele n\u00e3o viu mais que um roup\u00e3o, &#8211; e seguira pela rua que enfrentava com a casa, a passo lento e meditativo. Est\u00eav\u00e3o, que adorava todos os roup\u00f5es, fossem ou n\u00e3o meditativos, deu as gra\u00e7as \u00e0 Provid\u00eancia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquela graciosa madrugadora. Graciosa, ainda ele n\u00e3o sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse.<\/p>\n<p>A deliciosa paisagem ia ter enfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a natureza.<\/p>\n<p>Ergueu-se Est\u00eav\u00e3o, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor, &#8211; e ser visto, digamos a verdade toda, &#8211; aquela desconhecida vizinha, que devia ser por for\u00e7a a que Lu\u00eds Alves cumprimentara no teatro. Acteon crist\u00e3o e modesto, n\u00e3o surpreendia Diana no banho, mas ao sair dele; todavia, n\u00e3o palpitava menos de como\u00e7\u00e3o e curiosidade.<\/p>\n<p>O roup\u00e3o ia andando.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Ao p\u00e9 da cerca<\/p>\n<p>A primeira coisa que Est\u00eav\u00e3o p\u00f4de descobrir \u00e9 que a vizinha era mo\u00e7a. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as \u00e1rvores, um perfil correto e puro, como de escultura antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, n\u00e3o penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabe\u00e7a, com aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres belas. O roup\u00e3o, &#8211; de musselina branca, &#8211; finamente bordado, n\u00e3o deixava ver toda a gra\u00e7a do talhe, que devia ser e era elegante, dessa eleg\u00e2ncia que nasce com a criatura ou se apura com a educa\u00e7\u00e3o, sem nada pedir, ou pedindo pouco \u00e0 tesoura da costureira. Todo o colo ia coberto at\u00e9 o pesco\u00e7o, onde o roup\u00e3o era preso por um pequeno broche de safira. Um bot\u00e3o, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, da dist\u00e2ncia e na posi\u00e7\u00e3o em que se achava, n\u00e3o podia ver todas estas min\u00facias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de hist\u00f3rias. O que ele viu, al\u00e9m do perfil, dos cabelos, e da tez branca, foi a estatura da mo\u00e7a, que era alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido ro\u00e7agante que levava. P\u00f4de ver-lhe tamb\u00e9m um livrinho, aberto nas m\u00e3os, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espa\u00e7o a espa\u00e7o, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.<\/p>\n<p>Ia assim andando, sem cuidar que a visse algu\u00e9m, t\u00e3o serena e grave, como se atravessara um sal\u00e3o. Est\u00eav\u00e3o, que n\u00e3o tirava os olhos dela, mentalmente pedia ao c\u00e9u a fortuna de a ter mais pr\u00f3xima, e ansiava por v\u00ea-la chegar \u00e0 rua que lhe ficava diante. Contudo, era dif\u00edcil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as \u00e1rvores. O jovem bacharel, por n\u00e3o perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminisc\u00eancias liter\u00e1rias; a desconhecida foi sucessivamente comparada a um serafim de Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na mem\u00f3ria dele havia mais a\u00e9reo, transparente, ideal.<\/p>\n<p>Enquanto ele trabalhava o esp\u00edrito nestas compara\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, n\u00e3o descabidas, se quiserem, em tal lugar, e ao p\u00e9 de t\u00e3o graciosa criatura, ela seguia lentamente e chegara \u00e0 encruzilhada das duas grandes ruas da ch\u00e1cara. Est\u00eav\u00e3o esperava que voltasse \u00e0 direita, isto \u00e9, que viesse para o lado dele, mas sobretudo receava que seguisse pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da ch\u00e1cara. A mo\u00e7a escolheu um meio-termo, voltou \u00e0 esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.<\/p>\n<p>A ch\u00e1cara n\u00e3o era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, n\u00e3o gastaria ela imenso tempo em percorrer at\u00e9 o fim aquela por\u00e7\u00e3o da rua em que entrara. Mas ali, ao p\u00e9 daquele cora\u00e7\u00e3o juvenil e impaciente, cada minuto parecia, n\u00e3o direi um s\u00e9culo, &#8211; seria abusar dos direitos do estilo, &#8211; mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a m\u00e3o nas costas de um banco r\u00fastico que ali havia e enfrentava com outro, colocado na extremidade oposta. A outra m\u00e3o desca\u00edra-lhe, e os olhos tamb\u00e9m, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades de algu\u00e9m? Est\u00eav\u00e3o sentiu uma coisa, a que chamarei ci\u00fame antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja \u00e9 um sentimento mau; mas nele, que nascera para amar, e que, al\u00e9m disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instinto, um ber\u00e7o obscuro e umas aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 vida elegante, &#8211; nele a inveja era quase um sentimento desculp\u00e1vel.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a voltou e veio pela rua adiante. Enfim, disse consigo Est\u00eav\u00e3o, vou contempl\u00e1-la de mais perto. Ao mesmo tempo, receoso de que, descobrindo ali um estranho, guiasse os passos para casa, Est\u00eav\u00e3o afastou-se do lugar em que ficara, resoluto a aparecer, quando ela estivesse pr\u00f3xima \u00e0 cerca do jardim. A mo\u00e7a vinha andando com o livro fechado, e os olhos ora no ch\u00e3o, ora nas andorinhas e camaxilras que esvoa\u00e7avam na ch\u00e1cara. Se trazia saudades, n\u00e3o se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o do lugar onde estava podia examinar-lhe as fei\u00e7\u00f5es, sem ser visto por ela; mas foi justamente do que n\u00e3o cuidou, desde que lhas p\u00f4de distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aqueles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, n\u00e3o maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o rosto e a toda afigura um ar de majestade tranq\u00fcila e senhora de si. N\u00e3o era ela uma dessas belezas que, ao mesmo tempo que subjugam o cora\u00e7\u00e3o, acendem os sentidos; falava \u00e0 intelig\u00eancia primeiro do que ao cora\u00e7\u00e3o, tanto a arte parecia haver colaborado com a natureza naquela criatura, meia est\u00e1tua e meia mulher.<\/p>\n<p>Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que a nenhuma destas coisas atendeu. Desde que distinguira as fei\u00e7\u00f5es da mo\u00e7a, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a chegara \u00e0 cerca; esteve de p\u00e9 algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que ali havia, dando as costas para o jardim de Lu\u00eds Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara t\u00e3o s\u00f3 consigo, t\u00e3o embebida no livro que tinha diante, que n\u00e3o a despertou o rumor, ali\u00e1s sumido, dos passos de Est\u00eav\u00e3o nas folhas secas do ch\u00e3o. Teria percorrido meia p\u00e1gina, quando Est\u00eav\u00e3o, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que s\u00f3 chegasse aos ouvidos dela, proferiu este simples nome:<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a soltou um grito de surpresa e de susto, e voltou-se sobressaltada para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantara-se. A impress\u00e3o que lhe produzira, e n\u00e3o sei se tamb\u00e9m algum ar de c\u00f3lera que lhe notasse no rosto; e al\u00e9m de tudo, o remorso de n\u00e3o haver sufocado aquele grito de seu cora\u00e7\u00e3o, fez com que Est\u00eav\u00e3o, quase no mesmo instante, murmurasse em tom de s\u00faplica:<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe-me; foi uma centelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.<\/p>\n<p>Guiomar, &#8211; sabemos agora que era este o seu nome, &#8211; olhou s\u00e9ria e quieta para o seu mal-aventurado interruptor, dois longos e mortais minutos. Est\u00eav\u00e3o, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o cora\u00e7\u00e3o palpitava-lhe com for\u00e7a, como a despedir-se da vida. A situa\u00e7\u00e3o era em demasia aflitiva e embara\u00e7osa para que se pudesse prolongar mais. Est\u00eav\u00e3o ia cortej\u00e1-la e despedir-se; mas a mo\u00e7a, com um sorriso de mais piedade que afeto, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 perdoado.<\/p>\n<p>Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a m\u00e3o, que ele apertou, &#8211; apertou n\u00e3o \u00e9 bem dito, &#8211; em que ele tocou apenas, o mais cerimoniosamente que podia e devia naquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair dali, a verem ambos o espectro do passado, aquele t\u00e3o amargo passado para um deles. Guiomar foi a primeira que rompeu o sil\u00eancio, fazendo a Est\u00eav\u00e3o uma pergunta natural, como n\u00e3o podia deixar de ser naquelas circunst\u00e2ncias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a mais acerba que ele podia ouvir:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois anos que n\u00e3o nos vemos, creio eu?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois anos, murmurou Est\u00eav\u00e3o abafando um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 est\u00e1 formado, n\u00e3o? Lembra-me ter lido o seu nome&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o a vejo h\u00e1 muito tempo, interrompeu Guiomar; eu sa\u00ed do col\u00e9gio, logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Sa\u00ed a convite da baronesa, minha madrinha, que l\u00e1 foi buscar-me um dia, alegando que eu j\u00e1 n\u00e3o tinha que aprender, e que me n\u00e3o convinha ensinar.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto, assentiu Est\u00eav\u00e3o. &#8211; Minha tia \u00e9 que n\u00e3o deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no of\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; Acabou?<\/p>\n<p>&#8211; Morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Morreu h\u00e1 cerca de um ano.<\/p>\n<p>&#8211; Era uma boa criatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes de sil\u00eancio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi&#8230; Est\u00e1 admirando esta flor?<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, apanhado em flagrante delito de admira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o da flor mas da m\u00e3o que a sustinha, &#8211; uma deliciosa m\u00e3o, que devia ser por for\u00e7a a que se perdeu da V\u00eanus de Milo, Est\u00eav\u00e3o balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito, \u00e9 linda!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muita flor bonita aqui na ch\u00e1cara. A baronesa tem imenso gosto a estas coisas, e o nosso jardineiro \u00e9 homem que sabe do seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Aquele natural acanhamento da primeira ocasi\u00e3o foi desaparecendo aos poucos, e a conversa veio a ser, n\u00e3o t\u00e3o familiar, como outrora, mas em todo o caso menos fria do que a princ\u00edpio estivera. Havia, contudo, uma diferen\u00e7a entre os dois: ele, sem embargo do desembara\u00e7o, sentia-se abalado e comovido; ela, por\u00e9m, vencido o sobressalto do princ\u00edpio, mostrava-se tranq\u00fcila e fria, sempre polida e grave, risonha \u00e0s vezes, mas de um risonho \u00e0 flor do rosto, que n\u00e3o lhe alterava a serenidade e compostura.<\/p>\n<p>O s\u00edtio e a hora eram mais pr\u00f3prios de um id\u00edlio, que de uma fria e descolorida pr\u00e1tica. Um c\u00e9u claro e l\u00edmpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e t\u00e9pida, a vegeta\u00e7\u00e3o em derredor, todo aquele reviver das coisas parecia estar pedindo uma igual aurora nas almas. Estas \u00e9 que deviam falar ali a sua l\u00edngua delas, amorosa e c\u00e2ndida, em vez da outra, cort\u00eas, elegante e r\u00edgida, que a nenhum deles desprazia, decerto, mas que era muito menos volunt\u00e1ria nos l\u00e1bios de Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar falava com certa gra\u00e7a, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, que a maior parte do tempo ficara a ouvi-la, observava entre si que as maneiras da mo\u00e7a n\u00e3o lhe eram desnaturais, ainda que podiam ser calculadas naquela situa\u00e7\u00e3o. A Guiomar que ele conhecera e amara era o embri\u00e3o da Guiomar de hoje, o esbo\u00e7o do painel agora perfeito; faltava-lhe outrora o colorido, mas j\u00e1 se lhe viam as linhas do desenho.<\/p>\n<p>A conversa durou cerca de tr\u00eas quartos de hora, uma migalha de tempo para ele, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ela foi a primeira a dizer-lho.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor fez-me perder muito tempo. H\u00e1 talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que n\u00e3o era natural, continuou ela mudando de tom, era atrever-me a falar com um estranho neste d\u00e9shabill\u00e9 t\u00e3o pouco elegante&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Elegant\u00edssimo, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tem sempre um cumprimento de reserva: vejo que n\u00e3o perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. S\u00e3o horas da baronesa dar o seu passeio pela ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 aquela senhora que ali est\u00e1 no alto da escada? perguntou Est\u00eav\u00e3o &#8211; \u00c9 ela mesma, respondeu Guiomar. Est\u00e1 \u00e0 espera que lhe v\u00e1 dar o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a m\u00e3o a Est\u00eav\u00e3o, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Passe bem, senhor doutor, estimei v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o tocou-lhe levemente a m\u00e3o, fina e macia, e inclinou-se respeitoso.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a caminhou para casa. Ele acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ela, desta vez a passo acelerado, resvalava por entre as \u00e1rvores at\u00e9 subir as escadas da casa. Viu-a dar o bra\u00e7o \u00e0 madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o ainda ficou algum tempo encostado \u00e0 cerca, na esperan\u00e7a de que ela olhasse ou dirigisse os passos para aquele lado; ela por\u00e9m, passou indiferente, como se nem da exist\u00eancia dele soubera. Est\u00eav\u00e3o retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contr\u00e1rios sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interroga\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Entro num drama ou saio de uma com\u00e9dia?<\/p>\n<h3>IV<\/h3>\n<p>Latet anguis<\/p>\n<p>O passeio da baronesa durou pouco mais de meia hora. O sol come\u00e7ava a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a ch\u00e1cara, o calor aconselhava \u00e0 boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o bra\u00e7o, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.<\/p>\n<p>&#8211; Parece muito tarde, Guiomar, disse a baronesa ao cabo de alguns segundos.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro que tive aqui na ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>&#8211; Um encontro?<\/p>\n<p>&#8211; Um homem.<\/p>\n<p>&#8211; Algum ladr\u00e3o? perguntou a madrinha parando.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, n\u00e3o era ladr\u00e3o. A minha mestra de col\u00e9gio&#8230; sabe que morreu?<\/p>\n<p>&#8211; Quem disse isso?<\/p>\n<p>&#8211; O sobrinho, o tal sujeito que encontrei aqui hoje.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 zombando comigo! Um homem na ch\u00e1cara?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o era bem na ch\u00e1cara, mas no jardim do Dr. Lu\u00eds Alves. Estava encostado \u00e0 cerca; trocamos algumas palavras.<\/p>\n<p>A baronesa olhou para ela alguns segundos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, menina, isso n\u00e3o \u00e9 bonito. Que diriam se os vissem?&#8230; Eu n\u00e3o diria nada, porque conhe\u00e7o o que voc\u00ea vale, e sei a discri\u00e7\u00e3o que Deus lhe deu. &#8211; Mas as apar\u00eancias&#8230; Que qualidade de homem \u00e9 esse sobrinho?<\/p>\n<p>Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco anos, alta e magra, cabelo entre louro e branco, olhos azuis, asseadamente vestida, a Sra. Oswald, &#8211; ou mais britanicamente, Mrs. Oswald, &#8211; dama de companhia da baronesa, desde alguns anos. Mrs. Oswald conhecera a baronesa em 1846; vi\u00fava e sem fam\u00edlia, aceitou as propostas que esta lhe fez. Era mulher inteligente e sagaz, dotada de boa \u00edndole e servi\u00e7al. Antes da ida de Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presen\u00e7a de Guiomar, que a baronesa amava extremosamente, alterou um pouco a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o nove horas! disse de longe a inglesa; pensei que hoje n\u00e3o queriam voltar para casa. O calor est\u00e1 forte; e a senhora baronesa sabe que n\u00e3o \u00e9 conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de epidemias.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me, que o passeio come\u00e7ou tarde.<\/p>\n<p>&#8211; Por que me n\u00e3o mandou chamar?<\/p>\n<p>&#8211; Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Milton, emendou gravemente a inglesa; esta manh\u00e3 foi dedicada a Milton. Que imenso poeta, D. Guiomar!<\/p>\n<p>&#8211; Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e l\u00e1 dentro a ouviremos com melhor disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram as tr\u00eas andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, com seis janelas para a ch\u00e1cara. Dali seguiram para uma saleta, onde a baronesa sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora do almo\u00e7o. Guiomar saiu para ir cuidar da toilette; e a baronesa que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente para Mrs.Oswald, sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Era ela uma senhora de cinq\u00fcenta anos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da velhice, que \u00e9 um resto da eleg\u00e2ncia da mocidade. Os cabelos, cor de prata fosca, emolduravam-lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, n\u00e3o por desgostos, que os n\u00e3o tivera, mas pelos anos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.<\/p>\n<p>Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser igualmente feliz desde o dia do noivado at\u00e9 o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas j\u00e1 l\u00e1 iam alguns anos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a consola\u00e7\u00e3o da saudade.<\/p>\n<p>&#8211; Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a s\u00f3s, disse ela \u00e0 inglesa, que se achava a alguns passos de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald foi at\u00e9 a porta espreitar se viria algu\u00e9m e voltou a sentar-se ao p\u00e9 da baronesa. A baronesa estava outra vez pensativa, com as m\u00e3os cruzadas no rega\u00e7o e os olhos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Estiveram as duas, ali silenciosas alguns dois ou tr\u00eas minutos. A baronesa despertou enfim das reflex\u00f5es, e voltou-se para a inglesa:<\/p>\n<p>&#8211; Mrs. Oswald, disse ela, parece estar escrito que n\u00e3o serei completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, por\u00e9m, n\u00e3o passar\u00e1 de sonho, e era o mais belo de minha velhice.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que desespera? disse a inglesa. Tenha \u00e2nimo, e tudo se h\u00e1 de arranjar. Pela minha parte, oxal\u00e1 pudesse contribuir para a completa felicidade desta fam\u00edlia, a quem devo tantos e tamanhos benef\u00edcios.<\/p>\n<p>&#8211; Benef\u00edcios!<\/p>\n<p>&#8211; E que outra coisa s\u00e3o os seus carinhos, a prote\u00e7\u00e3o que me tem dado, a confian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, interrompeu afetuosamente a baronesa; falemos de outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Dela, n\u00e3o \u00e9? Diz-me o cora\u00e7\u00e3o que com alguma paci\u00eancia tudo se alcan\u00e7ar\u00e1. Todos os meios se h\u00e3o de tentar; e todos eles s\u00e3o bons se se trata de fazer a felicidade sua e dela. Bem est\u00e1 o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de ju\u00edzo. Por enquanto s\u00f3 vejo um obst\u00e1culo: a pouca disposi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 esse?<\/p>\n<p>&#8211; Que outro mais?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez outro, disse a baronesa abaixando a voz; pode ser que n\u00e3o, mas t\u00e3o infeliz sou neste meu desejo, que h\u00e1 de vir a ser obst\u00e1culo, talvez.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Um homem, um mo\u00e7o, n\u00e3o sei quem, sobrinho da mestra que foi de Guiomar&#8230; Ela mesma contou-me tudo h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se tudo; mas enfim disse-me que, estando a passear na ch\u00e1cara, vira o tal sobrinho da mestra, junto \u00e0 cerca do Dr. Lu\u00eds Alves, e ficara a conversar com ele. Que ser\u00e1 isto, Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recome\u00e7a agora, &#8211; agora, que ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o da baronesa ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe afetuosamente das m\u00e3os e procurou confort\u00e1-la com outras palavras de esperan\u00e7a e confian\u00e7a. Disse-lhe, al\u00e9m disso, que o simples conversar com esse homem, que ali\u00e1s nenhuma delas conhecia, n\u00e3o era raz\u00e3o para supor uma paix\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, concluiu a inglesa, custa-me crer que ela ame a algu\u00e9m neste mundo. Por enquanto estou que n\u00e3o gosta de ningu\u00e9m, e a nossa vantagem n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa facilmente do entusiasmo \u00e0 frieza, e da confian\u00e7a ao retraimento. H\u00e1 de vir a amar, mas n\u00e3o creio que tenha grandes paix\u00f5es, ao menos duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe atualmente pelo seu cora\u00e7\u00e3o, como se tivesse a chave na minha algibeira.<\/p>\n<p>A baronesa abanou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem \u00e9 ele, e que rela\u00e7\u00f5es de afeto houve no passado.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-lhe poss\u00edvel?<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente!<\/p>\n<p>A inglesa proferiu esta \u00fanica palavra com a seguran\u00e7a necess\u00e1ria para serenar o \u00e2nimo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada para ela, como quem refletia.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 ocasi\u00f5es, disse enfim a baronesa ao cabo de alguns segundos de sil\u00eancio, h\u00e1 ocasi\u00f5es em que eu quase chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ela veio preencher na minha vida o v\u00e1cuo deixado por aquela pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte levou consigo, para mal de sua m\u00e3e. Se havia de ser infeliz, melhor \u00e9 que a chore morta, com a esperan\u00e7a de a ir encontrar no c\u00e9u. Mas n\u00e3o lhe quis mais, nem talvez tanto, como a esta crian\u00e7a, que levei \u00e0 pia, e de quem Deus me fez m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>A baronesa calou-se; ouvira passos no corredor.<\/p>\n<p>Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com t\u00e3o singelos meios o fizera, que n\u00e3o desdizia daquele matinal desalinho em que o leitor a viu no cap\u00edtulo anterior. O penteado era um capricho seu, expressamente inventado para real\u00e7ar a um tempo a abund\u00e2ncia dos cabelos e a senhoril beleza da testa. As pontas bordadas de um colarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azulado do vestido de glac\u00ea, talhado e ornado com uma simplicidade art\u00edstica. Isto, e pouco mais, era toda a moldura do painel, &#8211; um dos mais belos pain\u00e9is que havia por aqueles tempos em toda a Praia de Botafogo.<\/p>\n<p>&#8211; Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar \u00e0 porta da saleta.<\/p>\n<p>E Guiomar sorriu com tanta satisfa\u00e7\u00e3o e gozo ao ouvir-lhe esta sauda\u00e7\u00e3o familiar, que um observador atento hesitaria em dizer se era aquilo simples vaidade de mo\u00e7a, ou se alguma coisa mais.<\/p>\n<p>A baronesa p\u00f4s os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a mo\u00e7a reparou, e que a tornaram s\u00e9ria durante alguns r\u00e1pidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das m\u00e3os da madrinha deu-lhe dois beijos no rosto, com tanta ternura e t\u00e3o sincera, que a boa senhora sorriu de contentamento.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o precisa falar, disse Guiomar, j\u00e1 sei que me acha bonita. \u00c9 o que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo vaidosa, adeus, minhas encomendas, ningu\u00e9m mais poder\u00e1 comigo.<\/p>\n<p>Guiomar disse isto com tanta gra\u00e7a e singeleza, que a madrinha n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almo\u00e7o chamou-as a outros cuidados, e a n\u00f3s tamb\u00e9m, amigo leitor. Enquanto as tr\u00eas almo\u00e7am, relancemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta Guiomar, t\u00e3o gentil, t\u00e3o buscada e t\u00e3o singular, como dizia Mrs. Oswald.<\/p>\n<h3>V<\/h3>\n<p>Meninice<\/p>\n<p>Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno n\u00e3o sei de que reparti\u00e7\u00e3o do Estado, homem probo, que morreu quando ela contava apenas sete anos, legando \u00e0 vi\u00fava o cuidado de a educar e manter. A vi\u00fava era mulher en\u00e9rgica e resoluta, enxugou as l\u00e1grimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situa\u00e7\u00e3o e determinou-se \u00e0 luta e \u00e0 vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>A madrinha de Guiomar n\u00e3o lhe faltou naquele duro transe, e olhou por elas, como entendia que era seu dever. A solicitude, por\u00e9m, n\u00e3o foi t\u00e3o constante a princ\u00edpio como veio a ser depois; outros cuidados de fam\u00edlia lhe chamavam a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar anunciava desde pequena as gra\u00e7as que o tempo lhe desabrochou e perfez. Era uma criaturinha galante e delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa, decerto, mas muito menos do que \u00e9 usual na inf\u00e2ncia. Sua m\u00e3e, depois que lhe morrera o marido, n\u00e3o tinha outro cuidado na terra, nem outra ambi\u00e7\u00e3o mais, que a de v\u00ea-la prendada e feliz. Ela mesma lhe ensinou a ler mal, como ela sabia, &#8211; e a coser e bordar, e o pouco mais que possu\u00eda de seu of\u00edcio de mulher. Guiomar n\u00e3o tinha dificuldade nenhuma em reter o que a m\u00e3e lhe ensinava, e com tal afinco lidava por aprender, que a vi\u00fava, &#8211; ao menos nessa parte, &#8211; sentia-se venturosa. H\u00e1s de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples express\u00e3o de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A casa em que moravam era naturalmente modesta. Ali correu a inf\u00e2ncia, &#8211; mas solit\u00e1ria, o que \u00e9 um pouco mais grave. A m\u00e3e, quando a via embebida nos jogos pr\u00f3prios da idade, infantilmente alegre, &#8211; mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de m\u00e3e, t\u00e3o fundo lhe do\u00eda aquele viver,- a m\u00e3e sentia \u00e0s vezes pularem-lhe as l\u00e1grimas dos olhos fora. A filha n\u00e3o as via, porque ela sabia escond\u00ea-las; mas adivinhava-as atrav\u00e9s da tristeza que lhe ficava no rosto. S\u00f3 n\u00e3o adivinhava o motivo, mas bastava que fossem m\u00e1goas de sua m\u00e3e, para lhe descair tamb\u00e9m a alegria.<\/p>\n<p>Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre vi\u00fava, ainda mais dolorosa que a primeira. Na idade apenas de dez anos, tinha Guiomar uns desmaios de esp\u00edrito, uns dias de concentra\u00e7\u00e3o e mudez, uma seriedade, a princ\u00edpio intermitente e rara, depois freq\u00fcente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer \u00e0 m\u00e3e que eram pren\u00fancios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que n\u00e3o eram. Seria acaso efeito daquela vida solit\u00e1ria e austera, que j\u00e1 lhe ia afei\u00e7oando a alma e como que apurando as for\u00e7as para as pugnas da vida?<\/p>\n<p>A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente foi uma tarde, em que ela estivera a brincar no quintal da casa. O muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da ch\u00e1cara pertencente a uma casa da vizinhan\u00e7a. A fenda era recente; e Guiomar acostumara-se a ir espairecer ali os olhos, j\u00e1 s\u00e9rios e pensativos. Naquela tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobi\u00e7ar talvez as doces frutas amarelas que lhe pendiam dos ramos, viu repentinamente aparecer-lhe diante, a cinco ou seis passos do lugar em que estava, um rancho de mo\u00e7as, todas bonitas, que arrastavam por entre as \u00e1rvores os seus vestidos, e faziam luzir aos \u00faltimos raios do sol poente as j\u00f3ias que as enfeitavam. Elas passaram alegres, descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum afago; mas foram-se, e com elas os olhos da interessante pequena, que ali ficou largo tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na mem\u00f3ria o quadro que passara.<\/p>\n<p>A noite veio, a menina recolheu-se pensativa e melanc\u00f3lica, sem nada explicar \u00e0 sol\u00edcita curiosidade da m\u00e3e. Que explicaria ela, se mal podia compreender a impress\u00e3o que as coisas lhe deixavam? Mas, como a m\u00e3e entristecesse com aquilo, Guiomar domou o pr\u00f3prio esp\u00edrito e fez-se t\u00e3o jovial como nos melhores dias.<\/p>\n<p>Esta era ainda outra fei\u00e7\u00e3o da menina; tinha uma for\u00e7a de vontade superior aos seus anos. Com ela, e a viveza intelectual que Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a m\u00e3e lhe ensinara, e melhor ainda do que ela o sabia, desde que o tempo lhe permitiu desenvolver os primeiros elementos.<\/p>\n<p>Aos treze anos ficou \u00f3rf\u00e3; este fundo golpe em seu cora\u00e7\u00e3o, foi o primeiro que ela verdadeiramente p\u00f4de sentir, e o maior que a fortuna lhe desfechou. J\u00e1 ent\u00e3o a madrinha a fizera entrar para um col\u00e9gio, onde aperfei\u00e7oava o que sabia e onde lhe ensinavam muita coisa mais.<\/p>\n<p>Vivia ainda ent\u00e3o a filha da baronesa, uma interessante crian\u00e7a de treze anos, que era toda a alma e encanto de sua m\u00e3e. Guiomar visitava a casa da madrinha; a idade quase igual das duas meninas, a afei\u00e7\u00e3o que as ligava, a beleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os la\u00e7os puramente espirituais que as uniam antes. Guiomar correspondia aos sentimentos daquela segunda m\u00e3e; havia talvez em seu afeto, ali\u00e1s sincero, um tal encarecimento que podia parecer simula\u00e7\u00e3o. O afeto era espont\u00e2neo; o encarecimento \u00e9 que seria volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tinha a mo\u00e7a dezesseis anos quando passou para o col\u00e9gio da tia de Est\u00eav\u00e3o, onde pareceu \u00e0 baronesa se lhe poderia dar mais apurada educa\u00e7\u00e3o. Guiomar manifestara ent\u00e3o o desejo de ser professora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 outro recurso, disse ela \u00e0 baronesa quando lhe confiou esta aspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? perguntou a madrinha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1, repetiu Guiomar. N\u00e3o duvido, nem posso negar o amor que a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obriga\u00e7\u00e3o, que se deve cumprir. A minha \u00e9&#8230; \u00e9 ganhar o p\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras passaram-lhe pelos l\u00e1bios como que \u00e0 for\u00e7a. O rubor subiu-lhe \u00e0s faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar! exclamou a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o-lhe uma coisa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.<\/p>\n<p>A madrinha sorriu e aprovou-a com um beijo, &#8211; assentimento de boca, a que j\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondia, e que o destino devia mudar.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois padeceu a baronesa o golpe quase mortal a que aludiu no cap\u00edtulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quase levou a m\u00e3e \u00e0 sepultura.<\/p>\n<p>A afei\u00e7\u00e3o de Guiomar n\u00e3o se desmentiu nessa dolorosa situa\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m mostrou sentir mais do que ela a morte de Henriqueta, ningu\u00e9m consolou t\u00e3o dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus anos; todavia revelou ela a posse de uma alma igualmente terna e en\u00e9rgica, afetuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira dona da casa; a cat\u00e1strofe abatera a pr\u00f3pria Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da pobre m\u00e3e ficara t\u00e3o vazio, e a vida lhe pareceu t\u00e3o agra e deserta sem a filha, que ela morreria talvez de saudade, se n\u00e3o fora a presen\u00e7a de Guiomar. Nenhuma outra criatura poderia preencher, como esta, o lugar de Henriqueta. Guiomar era j\u00e1 meia filha da baronesa; as circunst\u00e2ncias, n\u00e3o menos que o cora\u00e7\u00e3o, tinham-nas destinado uma para a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe disse que a iria em breve buscar para sua casa.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea ser\u00e1 a filha que eu perdi; ela n\u00e3o me amou mais, nem eu j\u00e1 agora<\/p>\n<p>teria outra consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>A baronesa estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos p\u00e9s e p\u00f4s-lhe a<\/p>\n<p>cabe\u00e7a no rega\u00e7o. A boa m\u00e3e curvou-se e beijou-lha ternamente, com os olhos naquela filha que os sucessos lhe haviam dado, e o pensamento no c\u00e9u, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou para si.<\/p>\n<p>Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da<\/p>\n<p>madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, gra\u00e7as \u00e0 nova moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado, durante algum tempo, e n\u00e3o breve, o modo de viver entre a madrinha e Henriqueta, Guiomar p\u00f4s todo o seu esfor\u00e7o em reproduzir pelo mesmo teor os h\u00e1bitos de outro tempo, de maneira que a baronesa mal pudesse sentir a aus\u00eancia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, e se em algum ponto os alterou foi para aumentar-lhe novos. Esta inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o escapou ao esp\u00edrito da baronesa, e \u00e9 sup\u00e9rfluo dizer que deste modo os v\u00ednculos do afeto mais se apertaram entre ambas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu cora\u00e7\u00e3o, revelava a mo\u00e7a, n\u00e3o menos, a plena harmonia de seus instintos com a sociedade em que entrara. A educa\u00e7\u00e3o, que nos \u00faltimos tempos recebera, fez muito, mas n\u00e3o fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,- melhor diremos, come\u00e7\u00e1-la. Ningu\u00e9m adivinharia nas maneiras finamente elegantes daquela mo\u00e7a, a origem mediana que ela tivera; a borboleta fazia esquecer a cris\u00e1lida.<\/p>\n<h3>VI<\/h3>\n<p>O post-scriptum<\/p>\n<p>Aquele conselho de Lu\u00eds Alves, na fatal noite de dois anos antes, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que era judicioso e devera ter ficado no esp\u00edrito de Est\u00eav\u00e3o. N\u00e3o convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um post-scriptum. Est\u00eav\u00e3o era curioso de ep\u00edstolas; n\u00e3o p\u00f4de ter-se que n\u00e3o abrisse aquela. O post-scriptum la estava no fim.<\/p>\n<p>Vindo \u00e0 linguagem natural, Est\u00eav\u00e3o saiu do jardim de Lu\u00eds Alves com o cora\u00e7\u00e3o meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluir\u00e1 algu\u00e9m que ele verdadeiramente n\u00e3o deixara de a amar. Pode ser; havia talvez debaixo da cinza uma fa\u00edsca, uma s\u00f3, e essa bastava a repetir o inc\u00eandio. Mas fosse de um ou de outro modo, o certo \u00e9 que Est\u00eav\u00e3o saiu dali com o princ\u00edpio do amor no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo aquele dia foi de alvoro\u00e7o e agita\u00e7\u00e3o para ele, que n\u00e3o se resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paix\u00e3o nova. A tentativa era sincera; as for\u00e7as \u00e9 que eram escassas. Ele desviava de si a imagem da mo\u00e7a; ela, por\u00e9m, perseguia-o, tenaz, como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o nada disse a Lu\u00eds Alves do encontro e da conversa que tivera com a mo\u00e7a no jardim; e n\u00e3o lho escondeu por desconfian\u00e7a, mas por vergonha. Que lhe diria por\u00e9m ele que o n\u00e3o tivesse visto e percebido Lu\u00eds Alves? Da janela de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando os olhos pela fresta das cortinas p\u00f4de observ\u00e1-los durante aqueles tr\u00eas quartos de hora de inocente palestra. O espet\u00e1culo n\u00e3o o divertiu muito; Lu\u00eds Alves achou um pouco atrevida a escolha do lugar.<\/p>\n<p>A circunst\u00e2ncia de os ver juntos chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o para a coincid\u00eancia do nome da vizinha com o da antiga namorada do colega; era naturalmente a mesma pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; Vai contar-me tudo, pensou Lu\u00eds Alves quando viu o colega afastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrara na v\u00e9spera, a ler-se-lhe no rosto alguma coisa mais s\u00e9ria do que ele pr\u00f3prio costumava ser.<\/p>\n<p>Tinha Est\u00eav\u00e3o contra si o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; ele sentia que alguma coisa o distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces recorda\u00e7\u00f5es &#8211; as menos amargas &#8211; e a mem\u00f3ria quase n\u00e3o sabe de outras quando relembra o que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperan\u00e7as todas, e basta dizer que eram infinitas. Al\u00e9m disso, a Guiomar que ele via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosfera &#8211; a mesma que o seu esp\u00edrito almejava respirar; e aparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto o obst\u00e1culo, aquela porta fechada, que bem podia ser a da citt\u00e0 dolente, mas que em todo o caso ele quisera ver franqueada \u00e0s suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os dias correram alternados de confian\u00e7a e des\u00e2nimo, tecidos de ouro e fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O cora\u00e7\u00e3o levou Est\u00eav\u00e3o atr\u00e1s de si.<\/p>\n<p>Nenhum meio, dos que tinha \u00e0 m\u00e3o, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janelas da casa estavam quase sempre desertas. Duas ou tr\u00eas vezes aconteceu v\u00ea-la de longe; ao aproximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do sal\u00e3o. N\u00e3o perdia teatro; mas s\u00f3 duas vezes teve o gosto de a ver: uma no L\u00edrico, onde se cantava Son\u00e2mbula, outra no Gin\u00e1sio, onde se representavam os Parisienses, sem que ele ouvisse uma nota da \u00f3pera, nem uma palavra da com\u00e9dia. Todo ele, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No L\u00edrico foi baldada essa contempla\u00e7\u00e3o; a mo\u00e7a n\u00e3o deu por ele. No Gin\u00e1sio, sim; o teatro era pequeno; contudo, antes n\u00e3o fora visto, t\u00e3o tenazmente desviou ela os olhos do lugar em que ele ficara.<\/p>\n<p>Nem por isso deixou Est\u00eav\u00e3o de ir esper\u00e1-la \u00e0 sa\u00edda, colocar-se francamente no seu caminho, solicitar-lhe audazmente os olhos e aten\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia desceu da segunda ordem pela escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do lugar era excelente. Dava o bra\u00e7o \u00e0 baronesa um mo\u00e7o de vinte e cinco anos, figura elegante, ainda que um tanto afetada. Desceram todos tr\u00eas e ficaram \u00e0 espera do carro alguns minutos. Na meia sombra que ali havia destacava-se o rosto marm\u00f3reo de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multid\u00e3o, mas n\u00e3o fitavam ningu\u00e9m. Ela possu\u00eda, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Irritado com a indiferen\u00e7a da mo\u00e7a, vagou Est\u00eav\u00e3o toda aquela noite, a s\u00f3s com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros. A ta\u00e7a enchera de todo; era mister entorn\u00e1-la no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas m\u00e3os o \u00fanico rem\u00e9dio que ele nessa ocasi\u00e3o pedia; &#8211; a chave daquela porta.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves era esse homem.<\/p>\n<p>&#8211; Outra vez ca\u00eddo! exclamou ele rindo quando Est\u00eav\u00e3o lhe contou tudo. Eu j\u00e1 o havia percebido. Isto de mulheres&#8230; Queres ent\u00e3o que te leve l\u00e1 ?<\/p>\n<p>&#8211; Quero.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves refletiu alguns instantes.<\/p>\n<p>&#8211; E uma viagem, n\u00e3o te seria bom fazer uma viagem? J\u00e1 sei o que me vais dizer; mas tamb\u00e9m n\u00e3o te proponho uma viagem de recreio, \u00e0 Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um lugar de juiz municipal&#8230;<\/p>\n<p>A proposta era sincera; Est\u00eav\u00e3o cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os ombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na vida pol\u00edtica, que esperava da\u00ed a algumas semanas o resultado de uma elei\u00e7\u00e3o, com a certeza, ou quase, de haver triunfado. Era influ\u00eancia que nascia, e de for\u00e7a viria a crescer. Mas para Est\u00eav\u00e3o, naquela ocasi\u00e3o, toda a carreira p\u00fablica, influ\u00eancia, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Eu amo-a, disse ele enfim, isto para mim \u00e9 tudo. Pode bem ser que tenhas raz\u00e3o; talvez me espere algum grande desgosto; mas s\u00e3o reflex\u00f5es, e eu n\u00e3o reflito agora, eu sinto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso, acudiu Lu\u00eds Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que voc\u00eas n\u00e3o nasceram um para outro; que, se ela te n\u00e3o amou naquele tempo, muito menos te amar\u00e1 hoje, e que enfim&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves estacou.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim? perguntou Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim pedes-me um sacrif\u00edcio, concluiu rindo o advogado, porque tamb\u00e9m eu j\u00e1 a namorisquei&#8230; N\u00e3o \u00e9 preciso carregares o sobrolho; foi namoro de vizinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ela n\u00e3o me prestou uma migalha de aten\u00e7\u00e3o sequer, e eu voltei aos meus autos.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o&#8230; gostas dela? perguntou Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Acho-a bonita e nada mais. Aquilo foi um lan\u00e7ar barro \u00e0 parede; se aceitasse, casava-me; n\u00e3o aceitou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 v\u00eas que somos diferentes.<\/p>\n<p>&#8211; Queres, ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um servi\u00e7o de amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse por fim Lu\u00eds Alves, fa\u00e7a-se a tua vontade. A baronesa vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entrar\u00e1s ali, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, que s\u00f3 pedia um pretexto, aceitou a oferta com ambas as m\u00e3os, e agradeceu-lha com t\u00e3o expansiva ternura, que fez sorrir o outro.<\/p>\n<p>A promessa cumpriu-se pontualmente. Lu\u00eds Alves apresentou Est\u00eav\u00e3o \u00e0 baronesa, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da ilustre cliente. A recep\u00e7\u00e3o foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquela casa. Quando Est\u00eav\u00e3o a saudou, como quem a conhecia de longo tempo, ela mal p\u00f4de retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite n\u00e3o lhe deu palavra. Daquela parte o acolhimento n\u00e3o podia ser pior; mas Est\u00eav\u00e3o sentia-se feliz, desde que ia v\u00ea-la, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto \u00e0 fortuna.<\/p>\n<p>De todas as pessoas da casa da baronesa, a primeira que reparou na indiferen\u00e7a com que Guiomar tratava Est\u00eav\u00e3o, foi Mrs. Oswald. A sagaz inglesa afivelou a m\u00e1scara mais impass\u00edvel que trouxera das ilhas brit\u00e2nicas e n\u00e3o os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos dele, que solicitavam os dela, e os dela que pareciam surdos. Havia decerto uma paix\u00e3o, solit\u00e1ria e desatendida.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ela alguns dias depois a Guiomar.<\/p>\n<p>Guiomar fez um gesto de estranheza.<\/p>\n<p>&#8211; Entendamo-nos, observou a inglesa; n\u00e3o digo que a senhora o namore tamb\u00e9m; digo que \u00e9 ele quem anda apaixonado. N\u00e3o adivinha?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez.<\/p>\n<p>&#8211; O Dr. Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar fez um gesto de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; tamb\u00e9m n\u00e3o era dif\u00edcil. Quem tem alguma pr\u00e1tica destas coisas fareja uma paix\u00e3o a cem l\u00e9guas de dist\u00e2ncia, por mais que ela busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente sup\u00f5em que ningu\u00e9m os v\u00ea; \u00e9 uma l\u00e1stima. Olhe, da senhora posso eu jurar que n\u00e3o est\u00e1 namorada de pessoa nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda-vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ela sabia que a mo\u00e7a tinha orgulho de suas gra\u00e7as; era bom caminho afagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita coisa bonita, que n\u00e3o vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as m\u00e3os nos ombros, encarando-a fito a fito, e enfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora \u00e9 a flor desta sua terra. Quem a colher\u00e1? Algu\u00e9m sei eu que a merece&#8230;<\/p>\n<p>Guiomar ficou s\u00e9ria, e desviou brandamente as m\u00e3os da inglesa, murmurando:<\/p>\n<p>&#8211; Mrs. Oswald, falemos de outra coisa.<\/p>\n<h3>VII<\/h3>\n<p>Um rival<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que Mrs. Oswald aludia a alguma coisa que desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequid\u00e3o que o leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa inglesa ficou s\u00e9ria e calada alguns dois ou tr\u00eas minutos, a olhar para Guiomar, aparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade sem saber como sair da situa\u00e7\u00e3o. A mo\u00e7a rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, disse ela sorrindo, n\u00e3o vejo raz\u00e3o para que se zangue comigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou zangada, acudiu prontamente Mrs. Oswald. Zangada por qu\u00ea? Pesa-me, decerto, que a natureza me n\u00e3o d\u00ea raz\u00e3o, e que uma alian\u00e7a t\u00e3o conveniente, para ambos, seja repelida pela senhora; mas se isto \u00e9 motivo de desgosto, n\u00e3o pode s\u00ea-lo de zanga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Desgosto?<\/p>\n<p>&#8211; Para mim&#8230; e naturalmente para ele.<\/p>\n<p>Guiomar respondeu com um simples sacudir de ombros, seco e r\u00e1pido, como quem se lhe n\u00e3o dava do mal ou n\u00e3o acreditava nele. Mrs. Oswald n\u00e3o atinou qual destas impress\u00f5es seria, e concluiu que fossem ambas. A mo\u00e7a, entretanto, pareceu arrepender-se daquele movimento; travou das m\u00e3os da inglesa, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume, lhe disse:<\/p>\n<p>&#8211; Veja o que \u00e9 ser crian\u00e7a! N\u00e3o parece que ainda em cima me zango com a senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Parece.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 exato. Isto s\u00e3o caprichos de menina mal-educada. Dei para n\u00e3o gostar que me adorem&#8230; Minto; disso gosto eu; mas quisera que me adorassem somente, n\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de crian\u00e7a travessa, que destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, gosta de uma adora\u00e7\u00e3o como a do Dr. Est\u00eav\u00e3o, silenciosa e resignada, uma adora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escritura na ponta dos dedos, continuou por este modo, acentuando as palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Uma adora\u00e7\u00e3o como a que devia inspirar Jos\u00e9, filho de Jac\u00f3, que era belo como a senhora: &#8220;por ele as mo\u00e7as andavam por cima da cerca&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se s\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Do muro, diz a Escritura, mas eu digo da cerca porque&#8230; nem eu sei por qu\u00ea. N\u00e3o core! Olhe que se denuncia.<\/p>\n<p>Guiomar corara deveras; mas era a altivez e o pundonor ofendido que lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a inglesa, com um desses olhares, que s\u00e3o, por assim dizer, um gesto da alma indignada. O que a irritava n\u00e3o era a alus\u00e3o, que n\u00e3o valia muito, era a pessoa que a fazia, &#8211; inferior e mercen\u00e1ria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta do l\u00e1bio, mas transigiu com a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! disse ela. Parece que se zangou por uma brincadeira \u00e0-toa. Bem sabe que eu n\u00e3o podia querer agrav\u00e1-la; sup\u00f4-lo \u00e9 ofender-me a mim, &#8211; a mim, que tamb\u00e9m lhe tenho afeto de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>A \u00faltima palavra aquietou o \u00e2nimo de Guiomar; ela tinha cedido ao impulso do seu car\u00e1ter altivo, mas a raz\u00e3o veio depois, e o cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, que n\u00e3o era mau. A inglesa, que possu\u00eda longa pr\u00e1tica da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto \u00e0 palavra e chamou-a com os bra\u00e7os para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de m\u00e1 vontade, e a conversa teria acabado ali, se Mrs. Oswald n\u00e3o lhe dissesse com a mais doce voz que daquela garganta podia sair:<\/p>\n<p>&#8211; Conven\u00e7a-se de que eu sou importuna e indiscreta por afei\u00e7\u00e3o, e que a felicidade desta fam\u00edlia \u00e9 toda a ambi\u00e7\u00e3o da minha alma. N\u00e3o pode haver inten\u00e7\u00e3o melhor do que esta. Um conselho \u00faltimo, &#8211; \u00faltimo se me n\u00e3o consentir mais falar-lhe nisto; &#8211; eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhar\u00e1 uns amores de romance, quase imposs\u00edveis? Digo-lhe que faz mal, que \u00e9 melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela n\u00e3o \u00e9 brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.<\/p>\n<p>Guiomar cravara desta vez os olhos no ch\u00e3o, com a express\u00e3o vaga e morta de quem os apagou para as coisas externas. As palavras de Mrs.Oswald responder-lhe-iam acaso a alguma voz \u00edntima? A inglesa prosseguiu na mesma ordem de id\u00e9ias, sem que ela a interrompesse ou desse sinal de si. Quando ela acabou, Guiomar estremeceu, como se acordasse; levantou a cabe\u00e7a, e lenta, e comovida, proferiu esta \u00fanica resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez tenha raz\u00e3o, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos s\u00e3o t\u00e3o bons!<\/p>\n<p>Mrs. Oswald abanou a cabe\u00e7a e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar t\u00e3o baixo que mal a ouvia o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sonhos, n\u00e3o, realidade pura.<\/p>\n<p>Suponho que o leitor estar\u00e1 curioso de saber quem era o feliz ou infeliz mortal, de quem as duas trataram no di\u00e1logo que precede, se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da baronesa, &#8211; aquele mo\u00e7o que apenas de passagem lhe apontei nas escadas do Gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis anos. Jorge chamava-se ele; n\u00e3o era feio mas a arte estragava um pouco a obra da natureza. O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta m\u00e1xima n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aplic\u00e1vel \u00e0 poesia, mas tamb\u00e9m ao homem. Jorge tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e vivos, seriam mais belos, se ele n\u00e3o os movesse com afeta\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam f\u00e1ceis e naturais, se os n\u00e3o tornasse t\u00e3o alinhados e medidos. As palavras sa\u00edam-lhe lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munific\u00eancia do autor. N\u00e3o as proferia como as demais pessoas; cada s\u00edlaba era por assim dizer espremida, sendo f\u00e1cil ver ao cabo de alguns minutos, que ele fazia consistir toda a beleza de elocu\u00e7\u00e3o nesse alongar do voc\u00e1bulo. As id\u00e9ias or\u00e7avam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, mas traziam uma c\u00f4dea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir espairecer o ouvido em coisas leves e folgaz\u00e3s.<\/p>\n<p>Tais eram os defeitos aparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior era um pecado mortal, o s\u00e9timo. O nome que lhe deixara o pai, e a influ\u00eancia da tia podiam servir-lhe nas m\u00e3os para fazer carreira em alguma coisa p\u00fablica; ele, por\u00e9m, preferia vegetar \u00e0 toa, vivendo do pec\u00falio que dos pais herdara e das esperan\u00e7as que tinha na afei\u00e7\u00e3o da baronesa. N\u00e3o se lhe conhecia outra ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante os defeitos apontados, havia nele qualidades boas; sabia dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor \u00e0 velha parenta. A baronesa, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e ele eram as suas duas afei\u00e7\u00f5es principais, quase exclusivas.<\/p>\n<p>Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baronesa, e n\u00e3o menos de si pr\u00f3pria. A baronesa tamb\u00e9m tinha os seus sonhos, como ela mesma disse, e esses eram deixar felizes aquelas duas crian\u00e7as. Jorge pela sua parte estava disposto a estender o colo ao sacrif\u00edcio; e, bem examinadas as coisas, talvez amasse sinceramente a mo\u00e7a. A diferen\u00e7a entre ele e Est\u00eav\u00e3o \u00e9 que o seu amor era t\u00e3o medido como os seus gestos, e t\u00e3o superficial como as suas outras impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Do que a\u00ed fica dito, facilmente compreender\u00e1 o leitor que, dos dois namorados, s\u00f3 um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Est\u00eav\u00e3o andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que ele n\u00e3o podia ver nada mais al\u00e9m de Guiomar.<\/p>\n<p>Ao cabo de duas semanas, a situa\u00e7\u00e3o de Est\u00eav\u00e3o podia dizer-se menos m\u00e1; na opini\u00e3o dele era excelente. A baronesa soube quem ele era; Guiomar contara-lhe tudo; mas a inglesa, n\u00e3o menos que a observa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e exclu\u00eddo o perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu em gra\u00e7a. Mrs. Oswald navegou nas mesmas \u00e1guas mansas. O pr\u00f3prio Jorge, naturalmente porque confiava em si, n\u00e3o temeu do rival, e pouco tardou que lhe abrisse os cancelos da sua gravidade. Que admira, pois, que a mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?<\/p>\n<p>Aquele bom rapaz tinha a salutar crendice da esperan\u00e7a, em que muita vez se resumem todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os da vida. Pedia muito, como alma sequiosa que era, mas bem pouco bastava a content\u00e1-lo. A imagina\u00e7\u00e3o multiplicava os zeros; com um gr\u00e3o de areia construiria um mundo. A afabilidade de uns e a cortesia de outros, tanto bastou para que ele se julgasse quase no termo de suas aspira\u00e7\u00f5es; e posto n\u00e3o lhe desse Guiomar uma s\u00f3 das anima\u00e7\u00f5es de outro tempo &#8211; que ali\u00e1s t\u00e3o fr\u00e1geis eram, ainda assim acreditou ele piamente que o amor nascia, ou renascia, naquele rebelde cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar, no meio das afei\u00e7\u00f5es que a cercavam, sabia manter-se superior \u00e0s esperan\u00e7as de uns e \u00e0s suspeitas de outros. Igualmente cort\u00eas, mas igualmente impass\u00edvel para todos, movia os olhos com a serenidade da isen\u00e7\u00e3o, n\u00e3o namorados, nem sequer namoradores. Ela teria, se quisesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os cora\u00e7\u00f5es, conforme eles fossem impacientes ou t\u00edbios; faltava-lhe por\u00e9m o gosto &#8211; ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ela achava que era a sua dignidade pessoal.<\/p>\n<h3>VIII<\/h3>\n<p>Golpe<\/p>\n<p>Um dia de manh\u00e3 acordou Est\u00eav\u00e3o com a resolu\u00e7\u00e3o feita de dar o golpe decisivo. Os cora\u00e7\u00f5es frouxos t\u00eam destas energias s\u00fabitas, e \u00e9 pr\u00f3prio da pusilanimidade iludir-se a si mesma. Ele confessava que nada havia feito, e que a situa\u00e7\u00e3o exigia alguma coisa mais.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Nunca as circunst\u00e2ncias foram mais prop\u00edcias do que hoje&#8221;, pensava o rapaz; Guiomar trata-me com afabilidade de bom agouro. Demais, h\u00e1 nela esp\u00edrito elevado; h\u00e1 de reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de sala.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o estava assentada; restava o meio de a tornar efetiva. Est\u00eav\u00e3o hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou transmiti-lo por via do papel. Qualquer dos modos tinha para ele mais perigos que vantagens. Ele receava ser frio na declara\u00e7\u00e3o escrita ou incompleto na confus\u00e3o oral. Irresoluto e vacilante, ambos os meios adotou e repeliu, a curtos intervalos; enfim, diferiu a escolha para outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>O acaso supriu a resolu\u00e7\u00e3o, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.<\/p>\n<p>Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baronesa, foram passear \u00e0 ch\u00e1cara. Est\u00eav\u00e3o que, como Lu\u00eds Alves, era dos convivas, afastou-se gradualmente dos outros grupos, e aproximou-se daquela cerca hist\u00f3rica onde, ap\u00f3s dois anos de aus\u00eancia e esquecimento, vira, j\u00e1 transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que ele punha os olhos nesse s\u00edtio, depois da conversa, que a\u00ed tivera com ela. A como\u00e7\u00e3o que sentiu foi naturalmente grande; ressurgia-lhe o quadro ante os olhos, a hora, o c\u00e9u brilhante, o doce alento da manh\u00e3, e por fim a figura da mo\u00e7a, que ali apareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe recorda\u00e7\u00f5es, que ele julgava mortas, esperan\u00e7as que supunha imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o curvou a cabe\u00e7a ao doce peso daquelas mem\u00f3rias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imagina\u00e7\u00e3o lhe criava e talvez a noite o tomasse na mesma atitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe n\u00e3o dissesse a poucos passos de dist\u00e2ncia:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor doutor, perdeu alguma coisa?<\/p>\n<p>O rapaz volveu rapidamente a cabe\u00e7a, e viu a mo\u00e7a, que atravessava uma das calhes pr\u00f3ximas, a olhar e a sorrir para ele. Est\u00eav\u00e3o sorriu tamb\u00e9m, e com uma presen\u00e7a de esp\u00edrito assaz rara em namorados, sobretudo em namorados como ele era, prontamente respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o perdi nada, mas achei uma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos o que foi.<\/p>\n<p>E Guiomar aproximou-se, a passo firme e seguro, e Est\u00eav\u00e3o, sem muito vacilar, ali mesmo forjou uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica a respeito de um inseto que casualmente passava por cima de uma folha seca. A reflex\u00e3o n\u00e3o valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco for\u00e7ada e de acarreto; a mo\u00e7a sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, quando ele, colhendo as for\u00e7as todas, a fez deter com estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; E se eu tivesse achado outra coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mais! exclamou ela voltando-se risonha.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o deu dois passos para Guiomar, desta vez comovido e resoluto. A mo\u00e7a fez-se s\u00e9ria e disp\u00f4s-se a ouvi-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu tivesse achado neste lugar, continuou ele, longos dias de esperan\u00e7a e de saudade, um passado que eu julgara n\u00e3o reviver mais, uma dor oculta e medrosa, vivida na solid\u00e3o, nutrida e consolada de minhas pr\u00f3prias l\u00e1grimas? Se eu tivesse achado aqui a p\u00e1gina rota de uma hist\u00f3ria come\u00e7ada e interrompida, n\u00e3o por culpa de ningu\u00e9m na Terra, mas da estrela sinistra da minha vida, que um anjo mau acendeu no c\u00e9u, e que, talvez, talvez ningu\u00e9m nunca apagar\u00e1?<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.<\/p>\n<p>Aquela declara\u00e7\u00e3o repentina e rosto a rosto estava t\u00e3o longe do temperamento do rapaz, que ela gastou alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Ele pr\u00f3prio admirava-se do atrevimento que tivera; e enquanto pendia dos l\u00e1bios da mo\u00e7a, repassava na mem\u00f3ria, ali\u00e1s confusamente, o que t\u00e3o a frouxo lhe sa\u00edra do peito naquela hora de aben\u00e7oada temeridade.<\/p>\n<p>&#8211; Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, \u00e9 natural que preferisse achar outra coisa menos melanc\u00f3lica. Entretanto, parece que nada mais achou do que esta ocasi\u00e3o de falar, com a viva imagina\u00e7\u00e3o que Deus lhe deu; num ou noutro caso, por\u00e9m, posso decerto lastim\u00e1-lo ou admir\u00e1-lo, mas n\u00e3o me \u00e9 dado ouvi-lo.<\/p>\n<p>E Guiomar ia de novo afastar-se, quando Est\u00eav\u00e3o, receando perder a ocasi\u00e3o que a fortuna lhe oferecia, disse de longe com voz triste e s\u00faplice:<\/p>\n<p>&#8211; Atenda-me um s\u00f3 minuto!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o um, mas dez &#8211; respondeu a mo\u00e7a estacando o passo e voltando o rosto para ele &#8211; e ser\u00e3o provavelmente os \u00faltimos em que falaremos a s\u00f3s. Cedo \u00e0 comisera\u00e7\u00e3o que me inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo sil\u00eancio em que se tem conservado at\u00e9 hoje, concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma s\u00f3 palavra.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a falara num tom seco e imperioso, em que mais dominava a impaci\u00eancia do que a comisera\u00e7\u00e3o a que vinha de aludir. O cora\u00e7\u00e3o de Est\u00eav\u00e3o batia-lhe como nunca, &#8211; como o cora\u00e7\u00e3o costuma bater nas crises de uma ang\u00fastia suprema. Todo aquele castelo de vento, laboriosamente constru\u00eddo nos seus dias de ilus\u00e3o, todo ele se esboroava e desfazia, como vento que era. Est\u00eav\u00e3o arrependera-se do impulso que o levara a violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos \u00edntimos, a abrir m\u00e3o de tantas esperan\u00e7as, alimentadas com o melhor do seu sangue juvenil.<\/p>\n<p>Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam medir-se, ela serena e quieta, ele tr\u00eamulo e gelado.<\/p>\n<p>&#8211; Uma s\u00f3 palavra, repetiu Est\u00eav\u00e3o, e essa adivinho que ser\u00e1 de desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma coisa, for\u00e7a \u00e9 que lhe diga tudo &#8211; feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a que j\u00e1 agora posso aspirar &#8211; o seu remorso.<\/p>\n<p>Guiomar ouvira-o tranq\u00fcilamente; a \u00faltima palavra f\u00ea-la estremecer. Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco volunt\u00e1rio e esperou.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o foi longa, tanto quanto o permitiam a ocasi\u00e3o, o lugar e a pessoa; durou apenas dez minutos. Est\u00eav\u00e3o nada lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera outrora, nem o que agora lhe renascia, mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperan\u00e7as que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto empreendera para ter a ventura de a contemplar de perto, de gozar naquele escasso ponto da Terra a maior de todas as bem-aventuran\u00e7as.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o, n\u00e3o literal, mas fiel, do que disse Est\u00eav\u00e3o durante esses<\/p>\n<p>dez minutos. As palavras ca\u00edam-lhe tr\u00eamulas e a voz sa\u00eda-lhe sumida, em parte porque ele forcejava em a abafar, a fim de que o n\u00e3o ouvissem, em parte porque a como\u00e7\u00e3o lhe comprimia a garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloq\u00fc\u00eancia vinha do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar n\u00e3o ouvira tudo com a mesma express\u00e3o; a princ\u00edpio um meio riso parecia desabrochar-lhe os l\u00e1bios, mas n\u00e3o tardou que pelo rosto abaixo lhe ca\u00edsse um v\u00e9u mais compassivo e humano. Havia nela impaci\u00eancia e ansiedade de acabar, de sair dali; era, sem d\u00favida, o receio de que a aus\u00eancia se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia tamb\u00e9m comisera\u00e7\u00e3o e piedade.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Est\u00eav\u00e3o concluindo; sobretudo agora, s\u00f3 eu, s\u00f3 a minha cabe\u00e7a \u00e9 a causa \u00fanica de tudo. Parecia-me ver o contr\u00e1rio do que existia; cheguei a supor que havia em seu cora\u00e7\u00e3o alguma coisa que n\u00e3o era a total indiferen\u00e7a; vejo que foi tudo ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>O tom em que ele falara era o mesmo das palavras que a\u00ed ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma submiss\u00e3o assim devia por for\u00e7a comover a uma mulher amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:<\/p>\n<p>&#8211; Era ilus\u00e3o, disse ela. O sentimento que me acaba de revelar inteiro, ningu\u00e9m o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Nem o senhor tamb\u00e9m, e espero que esta m\u00fatua justi\u00e7a avigore o sentimento de estima que devemos ter um para com o outro. Mas estima apenas, n\u00e3o pode haver outra coisa &#8211; da minha parte ao menos. \u00c9 pouco, decerto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 pouco, \u00e9 coisa diferente, interrompeu Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o abriu a boca para falar, mas n\u00e3o achou palavra que lhe dissesse o<\/p>\n<p>que sentia; levou a m\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o, que batia fortemente, e ficou a olhar para ela com os olhos secos e parados, a voz extinta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquele desengano, que lhe cumpria n\u00e3o voltar ali mais, pelo menos com a assiduidade da esperan\u00e7a; e assim era que a \u00fanica e amarga satisfa\u00e7\u00e3o de a ver, nem essa j\u00e1 agora se lhe consentia.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, ven\u00e7a-se a si pr\u00f3prio; seu grande defeito \u00e9 ter ficado com a alma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, respondeu o mo\u00e7o suspirando.<\/p>\n<p>&#8211; E adeus. Falamos a s\u00f3s, mais do que convinha; n\u00e3o sei se outra consentiria nisto. Mas eu n\u00e3o s\u00f3 reconhe\u00e7o os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham termo a aspira\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>Guiomar estendeu-lhe a m\u00e3o, em que ele tocou levemente.<\/p>\n<p>A baronesa apareceu, entretanto, a algumas bra\u00e7as de dist\u00e2ncia; vinha encostada ao bra\u00e7o do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ela j\u00e1 n\u00e3o ouvia. Tinha os olhos cravados nos dois interlocutores de h\u00e1 pouco. A mo\u00e7a, apenas vira de longe a madrinha, deu afoitamente o bra\u00e7o a Est\u00eav\u00e3o, e seguiram ambos a encontrar-se com ela; o rosto de Guiomar n\u00e3o revelava nada; o de Est\u00eav\u00e3o vinha perturbado e abatido. A baronesa franziu a testa:<\/p>\n<p>&#8211; Jorge, disse ela em voz baixa, precisamos conversar.<\/p>\n<h3>IX<\/h3>\n<p>Conspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A baronesa, quando se lhe aproximaram os dois interlocutores da cerca, mais receosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e at\u00e9 gracejadora; mas o abatimento de Est\u00eav\u00e3o era t\u00e3o mal disfar\u00e7ado, que de duas uma &#8211; ou ela acabava de lhe dar o \u00faltimo desengano &#8211; ou aquilo era apenas um arrufo s\u00e9rio, que o mo\u00e7o n\u00e3o podia ou n\u00e3o queria esconder de olhos estranhos. Isto \u00e9 o que a baronesa pensou. O que ela concluiu foi que, em todo caso, urgia tentar alguma coisa em favor do maior &#8211; do \u00fanico sonho da sua velhice.<\/p>\n<p>Jorge n\u00e3o percebeu a verdadeira raz\u00e3o por que a tia lhe dissera ser necess\u00e1rio conversar com ela; imaginou que se trataria de Guiomar e Estev\u00e3o, &#8211; mas estava longe de supor todo o alcance da entrevista.<\/p>\n<p>A entrevista n\u00e3o p\u00f4de ser logo nesse dia; as visitas ficaram ali at\u00e9 tarde, e a noite foi a mais agrad\u00e1vel e distra\u00edda de todas as noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante. A serenidade parecia morar-lhe na alma e refletir-se-lhe no rosto &#8211; tantas vezes pensativo, mas agora t\u00e3o frio e t\u00e3o nu.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade&#8230; Oh! sobretudo de boa vontade, porque \u00e9 mister hav\u00ea-la, e muita, para vir at\u00e9 aqui, e seguir at\u00e9 o fim, uma hist\u00f3ria, como esta, em que o autor mais se ocupa de desenhar um ou dois caracteres, e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer coisa, porque outra coisa n\u00e3o se animaria a fazer; &#8211; n\u00e3o ser\u00e1 preciso declarar ao leitor, dizia eu, que toda aquela jovialidade de Guiomar eram punhais que se lhe cravavam no peito ao nosso Est\u00eav\u00e3o. Ele n\u00e3o podia sup\u00f4-la abatida; mas penalizada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia nele, isto, sim, imaginava que seria. Mas nada disso foi, e o pobre rapaz saiu dali mais cedo do que pensara e quisera sair.<\/p>\n<p>Na alcova, se ele pudesse v\u00ea-la mais tarde na alcova, solit\u00e1ria e toda consigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os cabelos desfeitos, os pezinhos metidos nas chinelas de cetim preto, as m\u00e3os no rega\u00e7o e os olhos vagando de objeto em objeto, como se reproduzissem fora as atitudes interiores do pensamento, ali n\u00e3o s\u00f3 ele a adoraria de joelhos, mas at\u00e9 poderia supor que alguma preocupa\u00e7\u00e3o lhe tirava o sono e que essa era nem mais nem menos ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Talvez fosse; em parte ao menos seria ele. Guiomar n\u00e3o tinha um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o mau, que lhe n\u00e3o doessem as m\u00e1goas de um homem que acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as causas daquela preocupa\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 que ela durou muito tempo. Guiomar passou da poltrona \u00e0 janela, que abriu toda, para contemplar a noite &#8211; o luar que batia nas \u00e1guas, o c\u00e9u sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que \u00e9 a mais desconsoladora li\u00e7\u00e3o que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agita\u00e7\u00f5es, lutas, \u00e2nsias, paix\u00f5es insaci\u00e1veis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul eternidade, impass\u00edvel e muda como a morte.<\/p>\n<p>Pensaria nisto Guiomar? N\u00e3o, n\u00e3o pensou nisto um minuto sequer; ela era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o cora\u00e7\u00e3o, vivia em plena aurora. Que lhe importava &#8211; ou quem lhe chegara a fazer compreender esta filosofia seca e \u00e1rida? Ela vivia do presente e do futuro e &#8211; tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambi\u00e7\u00f5es que lho enchiam &#8211; tamanho, que bastava a ocupar-lhe o pensamento, ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; provavelmente havia-o esquecido.<\/p>\n<p>A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram acord\u00e1-la, na forma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. Guiomar sacrificava tudo \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o filial de que j\u00e1 dera tantas provas. A baronesa, entretanto, estava preocupada; o passeio foi diferente do dos outros dias.<\/p>\n<p>Ao meio-dia meteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sa\u00edram a uma visita. A baronesa ficou s\u00f3; Jorge n\u00e3o a deixou ficar s\u00f3 por muito tempo, porque chegou da\u00ed a pouco.<\/p>\n<p>A baronesa n\u00e3o perdeu tempo em circunl\u00f3quios. Apenas viu o sobrinho interpelou-o diretamente.<\/p>\n<p>&#8211; Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse, que tu gostas de Guiomar.<\/p>\n<p>Jorge n\u00e3o contava muito com semelhante interroga\u00e7\u00e3o; todavia, n\u00e3o era t\u00e3o ing\u00eanuo que corasse, nem t\u00e3o apaixonado que lhe tremesse a voz. Puxou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu singularmente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me atrevia a falar-lhe destas coisas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? &#8211; interrompeu a baronesa; s\u00e3o assuntos que se podem tratar entre mim e ti, sem desar para nenhum de n\u00f3s. \u00c9 ent\u00e3o verdade o que me disse Mrs. Oswald?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; Amas deveras, ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deveras. Recuaria, se visse que uma alian\u00e7a entre n\u00f3s ficava mal ao lustre de nossa fam\u00edlia; mas, posto que ela seja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar \u00e9 minha filha, apressou-se a dizer a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente; n\u00e3o pode haver melhor t\u00edtulo.<\/p>\n<p>&#8211; Tem ainda outro, continuou a baronesa; \u00e9 uma alma ang\u00e9lica e pura. Henriqueta n\u00e3o teve melhor cora\u00e7\u00e3o nem mais amor aos seus. Al\u00e9m disso, a natureza deu-lhe um esp\u00edrito superior, de maneira que a fortuna n\u00e3o fez mais do que emendar o equ\u00edvoco do nascimento. Finalmente \u00e9 de uma beleza pouco comum&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Rara, titia, pode dizer que \u00e9 de uma beleza rara, acudiu Jorge, e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma coisa, que n\u00e3o era a gravidade de costume.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 v\u00eas, prosseguiu a baronesa, que ela possui todos os direitos ao amor e \u00e0 m\u00e3o de um homem como tu.<\/p>\n<p>A baronesa tinha um cora\u00e7\u00e3o ing\u00eanuo e liso, sem desvios nem ast\u00facias; contudo, h\u00e1 ocasi\u00f5es em que o mais reto esp\u00edrito emprega, como por instinto, finuras diplom\u00e1ticas. A boa senhora tinha tanto a peito aquela uni\u00e3o do sobrinho com a afilhada, que n\u00e3o confiava s\u00f3 do amor; procurava interessar-lhe tamb\u00e9m o amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Jorge curvou-se com afetada mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem, como eu &#8211; disse ele &#8211; vale pouco por si mesmo; o valor que tenho, e esse \u00e9 muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das santas qualidades que a adornam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 uma, Jorge, s\u00f3 uma qualidade sant\u00edssima: \u00e9 a de am\u00e1-los, a ti e a ela. Por isso foi imenso o gosto que senti quando Mrs. Oswald me disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de ver a voc\u00eas unidos e felizes, morreria contente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso! disse Jorge com ar de d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; Julgas imposs\u00edvel o casamento?<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel, n\u00e3o; imposs\u00edvel, nada h\u00e1. Mas&#8230; n\u00e3o suponho que a vontade dela \u00e9 indispens\u00e1vel, t\u00e3o indispens\u00e1vel como duvidosa.<\/p>\n<p>&#8211; Duvidosa! Est\u00e1s certo disso?<\/p>\n<p>Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, n\u00e3o agitado de todo, mas um pouco fora da impassibilidade usual. A id\u00e9ia do casamento aparecia-lhe agora um pouco mais poss\u00edvel e exeq\u00fc\u00edvel, desde que a tia francamente lhe propusesse alian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s certo disso? repetiu a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Certo n\u00e3o; mas h\u00e1 toda a raz\u00e3o para a d\u00favida. Guiomar sabe que eu gosto dela; e contudo n\u00e3o me d\u00e1 o menor sinal de corresponder aos meus sentimentos.<\/p>\n<p>Jorge exp\u00f4s longamente todas as raz\u00f5es que tinha para crer que a vontade de Guiomar n\u00e3o correspondia \u00e0 dele; referiu-lhe, com a maior exa\u00e7\u00e3o e fidelidade, uns tr\u00eas ou quatro epis\u00f3dios que lhe pareciam boa prova daquilo que dizia. A baronesa n\u00e3o ouvia tudo com igual aten\u00e7\u00e3o. Quando ele acabou:<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar ser\u00e1 muito vexada &#8211; disse ela &#8211; e \u00e0s vezes, e por isso mesmo, tem essas apar\u00eancias frias. Nada impede, por\u00e9m, a que venha a amar-te, se \u00e9 que j\u00e1 te n\u00e3o ama. H\u00e1 nela certa altivez natural, que pode explicar tamb\u00e9m essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o amor de algu\u00e9m que julgasse levant\u00e1-la at\u00e9 si.<\/p>\n<p>&#8211; Isso, talvez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas esse sentimento, que pode ser e \u00e9 honroso, n\u00e3o \u00e9 de certo invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Todas estas palavras da baronesa lisonjeavam o sobrinho, em cujos l\u00e1bios pairava agora um sorriso de \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o. De quando em quando n\u00e3o ouvia ele nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos voltavam-se para dentro; ele escutava-se a si pr\u00f3prio. O amor de Guiomar come\u00e7ava a parecer-lhe poss\u00edvel; tudo quanto a baronesa lhe dizia era razo\u00e1vel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras da situa\u00e7\u00e3o. Demais, at\u00e9 que ponto a baronesa conjecturava ou revelava ? Bem podia ser que ela tivesse lido mais fundo no cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Estas reflex\u00f5es f\u00ea-las Jorge, enquanto a baronesa continuava a falar e a desenvolver a id\u00e9ia que ultimamente indicara. At\u00e9 aquele dia havia ele limitado toda a sua a\u00e7\u00e3o a alguns olhares, e raras palavras de cumprimento; a entrevista com a tia dera-lhe anima\u00e7\u00e3o; pareceu-lhe chegado o ensejo de sair daquela paz armada.<\/p>\n<p>Guiomar chegou da\u00ed a pouco e achou-os na &#8220;saleta de trabalho&#8221;, eufemismo elegante, que queria dizer literalmente &#8211; saleta de conversa\u00e7\u00e3o entremeada de crochet. Mrs. Oswald vinha com ela; ambas riam alegremente de n\u00e3o sei que epis\u00f3dio visto no caminho. Jorge erguera-se, pausado mas risonho, apertou a m\u00e3o de Guiomar &#8211; apertou-a deveras, mais do que era usual e cort\u00eas. Guiomar n\u00e3o pareceu afligir-se; perguntou-lhe pela sa\u00fade, transmitiu \u00e0 madrinha as lembran\u00e7as que lhe mandavam e disp\u00f4s-se a sair.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, Jorge olhava para ela, enlevado deveras na contempla\u00e7\u00e3o de toda aquela nobre figura, agora mais bela que dantes, desde que se lhe tornara poss\u00edvel a alian\u00e7a h\u00e1 muito sonhada. Havia nos olhos de Jorge uns tais ou quais vest\u00edgios l\u00fabricos, donde se podia colher que, se ele fosse poeta, e poeta arc\u00e1dico, editaria pela milion\u00e9sima vez a compara\u00e7\u00e3o da V\u00eanus e dos seus infal\u00edveis amorinhos; compara\u00e7\u00e3o detest\u00e1vel, sobretudo, porque a casta beleza de mo\u00e7a, se alguma coisa pag\u00e3 lhe podia ser chamada, seria antes Diana convertida ao Evangelho.<\/p>\n<p>Jorge saiu dali singularmente agitado; a conversa da baronesa dera-lhe nervo e resolu\u00e7\u00e3o, e o quadro do casamento come\u00e7ou a desenhar-se-lhe no esp\u00edrito, como o rel\u00f3gio que o menino tem de usar pela primeira vez. At\u00e9 ali deixara-se ele ir \u00e0 fei\u00e7\u00e3o das \u00e1guas; agora via a necessidade e a possibilidade de abicar \u00e0 riba feliz do matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>As d\u00favidas de Jorge n\u00e3o lhe saltearam o esp\u00edrito; apenas chegou a casa, travou da pena, e lan\u00e7ou na folha branca e lustrosa de seu papel, uma confiss\u00e3o elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tr\u00eas vezes, primeiro que a desse por pronta. Acabada a reda\u00e7\u00e3o final, transcreveu aquela prosa do cora\u00e7\u00e3o na mais n\u00edtida folha que havia em casa &#8211; dobrou e meteu-a na algibeira.<\/p>\n<p>De noite foi \u00e0 casa da tia. Achou as senhoras \u00e0 volta de uma mesa; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance franc\u00eas, recentemente publicado em Paris e trazido pelo \u00faltimo paquete. Mrs. Oswald lia tamb\u00e9m, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edi\u00e7\u00e3o Constable, de Edimburgo.<\/p>\n<p>Jorge veio interromp\u00ea-las um pouco, mas s\u00f3 interromper, porque a leitura continuou logo depois, ajudando ele pr\u00f3prio a Guiomar naquela filial tarefa. Veio o ch\u00e1, veio depois a hora de recolher, e a baronesa deu por findo o ser\u00e3o, ainda que o livro estava quase findo.<\/p>\n<p>&#8211; Um cap\u00edtulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>A baronesa sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lan\u00e7ou aquela dedica\u00e7\u00e3o do sobrinho; recusou contudo, por estar a cair de sono.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que n\u00e3o me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o livro comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse Jorge com um gesto de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E enquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha at\u00e9 \u00e0 porta do quarto, e Mrs. Oswald marcava a p\u00e1gina e fechava o seu livro, Jorge igualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito que entender \u00e0 inglesa. Se ela chegou a entender, v\u00ea-lo-emos depois; o certo \u00e9 que o livro foi enfim entregue a Guiomar, tendo a p\u00e1gina marcada, n\u00e3o com a fita que l\u00e1 estava pendente, mas com um pedacinho de papel.<\/p>\n<p>O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos cent\u00edmetros de altura; mas por mais ex\u00edguas que tivesse as dimens\u00f5es, bem podia ser que levasse ali dentro nada menos que uma tempestade pr\u00f3xima.<\/p>\n<h3>X<\/h3>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar a cartinha de Jorge. N\u00e3o tinha sobrecarta; era um simples papelinho dobrado, recendendo a amores. O esp\u00edrito de Guiomar estava t\u00e3o longe daquilo que n\u00e3o suspeitou nada e distraidamente o abriu. A primeira palavra escrita era o seu nome; a \u00faltima era o de Jorge.<\/p>\n<p>O primeiro gesto de Guiomar foi de c\u00f3lera. Se ele pudesse espreit\u00e1-la pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a express\u00e3o do rosto, e mui prov\u00e1vel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que at\u00e9 agora nutria. Mas ele n\u00e3o estava ali, a mo\u00e7a podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Mais um&#8221;, pensou ela; &#8220;este por\u00e9m&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>E desta vez o gesto n\u00e3o foi de c\u00f3lera, foi de alguma coisa mais, metade fastio, metade l\u00e1stima, mescla dif\u00edcil e rara.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer ler, como a hesitar entre queim\u00e1-lo ou restitu\u00ed-lo intacto a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas linhas:<\/p>\n<p>&#8220;GUIOMAR! Perdoe-me se lhe chamo assim; as conven\u00e7\u00f5es sociais condenam-me decerto, mas o cora\u00e7\u00e3o aprova, que digo? ele mesmo escreve estas letras. N\u00e3o \u00e9 a minha pena, n\u00e3o s\u00e3o os meus l\u00e1bios que lhe falam deste modo, s\u00e3o todas as for\u00e7as vivas da minha exist\u00eancia, que em alta voz proclamam o imenso e profundo amor que lhe tenho.<\/p>\n<p>Antes de o ler neste papel, j\u00e1 a senhora o h\u00e1 de ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a presen\u00e7a dos seus. Persuado-me de que todo o meu esfor\u00e7o em recalcar este afeto \u00e9 v\u00e3o; por mais que eu sinceramente deseje esquec\u00ea-la, n\u00e3o o alcan\u00e7arei nunca; n\u00e3o alcan\u00e7arei mais que uma afli\u00e7\u00e3o nova. O remorso de o tentar vir\u00e1 coroar os demais infort\u00fanios.<\/p>\n<p>&#8220;Por que raz\u00e3o rompo hoje o sil\u00eancio em que me tenho conservado, medroso e respeitoso sil\u00eancio que, se me n\u00e3o abre o caminho da gl\u00f3ria, ao menos conserva-me a palma da esperan\u00e7a ? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma for\u00e7a interior me manda falar, como transborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se al\u00e9m do perd\u00e3o que lhe pe\u00e7o, me n\u00e3o der uma esperan\u00e7a mais segura do que esta que me faz viver e consumir.<\/p>\n<p>JORGE.&#8221;<\/p>\n<p>Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de an\u00e1lise e reflex\u00e3o, e ao cabo da segunda achava-se t\u00e3o fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o homem que o havia escrito; enfim, p\u00f4s a carta de lado, abriu o livro e continuou o romance.<\/p>\n<p>Mas o esp\u00edrito, que n\u00e3o ficara t\u00e3o indiferente como o cora\u00e7\u00e3o, entrou a fugir-lhe do romance para a vida, com tal tenacidade que n\u00e3o houve rem\u00e9dio sen\u00e3o irem os olhos atr\u00e1s dele, e a mo\u00e7a de novo mergulhou nas reflex\u00f5es que lhe sugeria o caso da paix\u00e3o de Jorge.<\/p>\n<p>Paix\u00e3o n\u00e3o era &#8211; n\u00e3o o seria ao menos no sentido inteiro do voc\u00e1bulo; mas alguma coisa menos, ou parecida com ela, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. At\u00e9 que ponto chegaria, entretanto, o seu adorador, se ela o desatendesse logo; e, dado o amor que a baronesa tinha ao sobrinho, at\u00e9 que ponto a recusa iria mago\u00e1-la? Guiomar varreu do esp\u00edrito os receios que lhe nasciam de tais interroga\u00e7\u00f5es; mas sentiu-os primeiro, pesou-os antes de os arredar de si, o que revelar\u00e1 ao leitor em que propor\u00e7\u00e3o estavam nela combinados o sentimento e a raz\u00e3o, as tend\u00eancias da alma e os c\u00e1lculos da vida.<\/p>\n<p>Exclu\u00eddo o receio, voltou-lhe o riso, aquele riso interior, que \u00e9 o mais involunt\u00e1rio e cruel, e tamb\u00e9m o menos arriscado que a gente pode dar \u00e0s fatuidades humanas. N\u00e3o podia ser t\u00e3o desprez\u00edvel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que enfim era tamb\u00e9m distinto, ainda que a sua distin\u00e7\u00e3o primasse antes por um estilo rendilhado e complicado, que n\u00e3o \u00e9 o melhor. Guiomar via tudo isso, e por outro lado, n\u00e3o podia obstar que ele a amasse; nem por isso achava menos temer\u00e1ria aquela confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a refletia tamb\u00e9m na posi\u00e7\u00e3o especial que tinha naquela casa o sobrinho da baronesa; via-se obrigada \u00e0 presen\u00e7a dele, e talvez \u00e0 luta, porque o pretendente n\u00e3o recuaria do primeiro golpe. N\u00e3o havia tais receios da parte de Est\u00eav\u00e3o; ela reconhecia que a paix\u00e3o deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as \u00edndoles dos dois homens, e se ambos lhe pareciam de fraca complei\u00e7\u00e3o moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presun\u00e7\u00e3o que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.<\/p>\n<p>Quando ela fez esta compara\u00e7\u00e3o entre os dois homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais moles e quebrados, obra de tr\u00eas minutos apenas, mas tr\u00eas minutos que, se Est\u00eav\u00e3o soubera deles, trocaria por eles o resto de toda a vida. E contudo, n\u00e3o era amor nem saudade; alguma simpatia, sim, ainda que leve e sem conseq\u00fc\u00eancia; mas, sobretudo, era pena de o n\u00e3o poder amar &#8211; ou ainda melhor &#8211; era l\u00e1stima de que tal cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o fora casado a outro esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Guiomar refletiu ainda muito e muito, e n\u00e3o refletiu s\u00f3, devaneou tamb\u00e9m, soltando o pano todo a essa veleira escuna da imagina\u00e7\u00e3o, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cansa a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imagina\u00e7\u00e3o dela por\u00e9m n\u00e3o era doentia, nem rom\u00e2ntica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regi\u00f5es selv\u00e1ticas ou adormecer \u00e0 beira de lagos azuis. Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma as lembran\u00e7as da terra.<\/p>\n<p>Volveu enfim e os olhos ca\u00edram-lhe na carta. A realidade presente n\u00e3o se lhe podia mostrar de pior modo. Guiomar ergueu-se irritada, lan\u00e7ou m\u00e3o do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasg\u00e1-lo, quando ouviu bater de manso \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a foi abrir a porta; a inglesa entrou, trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9? aconteceu alguma coisa a minha madrinha?<\/p>\n<p>&#8211; Longe v\u00e1 o agouro! exclamou a inglesa. N\u00e3o lhe aconteceu nada; a senhora baronesa dorme naturalmente a sono solto. Venho porque do meu quarto pareceu-me ouvir rumores de passos aqui, e depois vi luz. Pensei que tivesse algum inc\u00f4modo. Mas, pelo que vejo, continuou a inglesa deitando os olhos para a mesinha em que pousava o livro aberto &#8211; pelo que vejo ainda n\u00e3o acabou de ler o seu romance&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar cravando os olhos no rosto da inglesa, como tomada de um pensamento s\u00fabito.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras!<\/p>\n<p>&#8211; Li outra coisa, continuou a mo\u00e7a; li este papel.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald inclinou-se para ler tamb\u00e9m o papel, que ali\u00e1s adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o precisa, disse ela; \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p>&#8211; De quem? perguntou a inglesa abrindo uns olhos espantados e obedientes.<\/p>\n<p>&#8211; Leia o nome.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald leu a assinatura da carta, que a mo\u00e7a de novo lhe apresentava.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente, continuou Guiomar, h\u00e1 nisto obra sua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que costumava falar.<\/p>\n<p>Guiomar tinha ido sentar-se; o pezinho impaciente batia no tapete, com um movimento r\u00e1pido e regular; cruzara os bra\u00e7os sobre o peito, fitando a inglesa com uns olhos em que se podia ler a viva exacerba\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Seguiu-se curto sil\u00eancio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e sentou-se perto da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Por que h\u00e1 de ser injusta comigo? disse ela dando \u00e0 voz um tom mel\u00edfluo e suplicante; por que n\u00e3o h\u00e1 de ver as coisas, como elas naturalmente s\u00e3o? O que h\u00e1 nisto \u00e9 uma coincid\u00eancia curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante coisa algumas vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; \u00e9 coisa que todos v\u00eaem. Imaginei que o casamento, neste caso, seria agrad\u00e1vel \u00e0 senhora baronesa a quem sou grata. Posso ter feito mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito mal, interrompeu Guiomar; s\u00e3o coisas de fam\u00edlia em que a senhora nada tem que ver.<\/p>\n<p>Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns passos, e voltou a sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabelos e ca\u00edram-lhe sobre os ombros. Mrs. Oswald aproximou-se dela para os colher, e atar, mas a mo\u00e7a secamente a repeliu:<\/p>\n<p>&#8211; Deixe, deixe&#8230;<\/p>\n<p>E ela mesma os recomp\u00f4s com as suas m\u00e3ozinhas finas, e ficou depois a olhar para o ch\u00e3o, a morder o l\u00e1bio, a respirar fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e col\u00e9rica. Mrs. Oswald n\u00e3o disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o per\u00edodo agudo da irrita\u00e7\u00e3o. Quando lhe pareceu que ela afrouxava, rompeu enfim o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Fiz mal, fiz n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser melhor. Talvez n\u00e3o me creia; paci\u00eancia! O que lhe pe\u00e7o, &#8211; nem lhe pe\u00e7o, &#8211; o que eu acredito piamente \u00e9 que n\u00e3o me h\u00e1 de atribuir algum interesse de ordem&#8230;<\/p>\n<p>Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas Guiomar n\u00e3o protestou, quero dizer n\u00e3o protestou de viva voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres da inglesa. A mo\u00e7a foi sincera; n\u00e3o atribu\u00eda realmente a nenhum interesse vil &#8211; pecuni\u00e1rio &#8211; a a\u00e7\u00e3o de Mrs. Oswald. Nem por isso a absolvia &#8211; n\u00e3o s\u00f3 porque ela viria concorrer talvez para uma crise penosa, mas tamb\u00e9m &#8211; bom \u00e9 not\u00e1-lo outra vez &#8211; porque a condi\u00e7\u00e3o da inglesa naquela casa era relativamente inferior.<\/p>\n<p>A inglesa continuou a falar em defesa pr\u00f3pria, a justificar miudamente os bons sentimentos do cora\u00e7\u00e3o, e a prometer que deixava por m\u00e3o todo aquele neg\u00f3cio, a seu ju\u00edzo, o melhor que a mo\u00e7a podia fazer.<\/p>\n<p>&#8211; A experi\u00eancia da vida, concluiu ela, devia ter-me convencido de que o melhor de todos os sentimentos \u00e9 um ego\u00edsmo quieto e calado.<\/p>\n<p>Enquanto ela falava assim, Guiomar parecia volver \u00e0 tranq\u00fcilidade habitual. A mudan\u00e7a foi &#8211; n\u00e3o s\u00fabita &#8211; mas um pouco mais r\u00e1pida do que devera ser, tratando-se de um esp\u00edrito, como o dela, em que as impress\u00f5es n\u00e3o eram superficiais nem moment\u00e2neas.<\/p>\n<p>Havia at\u00e9 uns toques de afabilidade no rosto e na voz, quando ela come\u00e7ou a falar, o que revelaria talvez ser aquela mudan\u00e7a muito volunt\u00e1ria e meditada.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as coisas chegassem a este ponto, e que ele se lembrasse de escrever semelhante carta, confessando uma paix\u00e3o que acredito sincera, mas a que o meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode corresponder. Amores n\u00e3o se encomendam como vestidos; sobretudo n\u00e3o se fingem, ou n\u00e3o se devem fingir nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! decerto!<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto dele, como parente que \u00e9 de minha madrinha, e tamb\u00e9m porque ela lhe tem afei\u00e7\u00e3o de m\u00e3e, como a mim; somos uma esp\u00e9cie de irm\u00e3os, nada mais.<\/p>\n<p>&#8211; Tem muita raz\u00e3o, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um doutor. Que se lhe h\u00e1 de fazer? Quem n\u00e3o ama n\u00e3o ama. Dele \u00e9 que eu tenho pena!<\/p>\n<p>&#8211; Gosta muito de mim, n\u00e3o? perguntou Guiomar fitando os olhos na inglesa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! parece que sim! A senhora deve sab\u00ea-lo tanto como eu; eu sei o que<\/p>\n<p>tenho visto, e creio que \u00e9 muito.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca vi nada, respondeu secamente Guiomar.<\/p>\n<p>A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra n\u00e3o viu ou n\u00e3o quis ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes termos:<\/p>\n<p>&#8211; Mas seja como for, a minha resposta \u00e9 negativa. Estou que ele n\u00e3o me far\u00e1 a inj\u00faria de querer casar comigo, sem que eu o ame&#8230;<\/p>\n<p>Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma coisa. Desta vez coube a Mrs. Oswald n\u00e3o responder nada, nem com a voz nem com o gesto. A mo\u00e7a inclinou o corpo, p\u00f4s os bra\u00e7os sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso am\u00e1vel e um olhar afetuoso, continuou:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora podia, se acaso ele alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe, podia dissuadi-lo de tais id\u00e9ias, dizendo-lhe simplesmente a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora h\u00e1 de saber dar, e que ele aceitar\u00e1 decerto, porque \u00e9 um bom cora\u00e7\u00e3o, um car\u00e1ter estim\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! excelente! um mo\u00e7o excelente!<\/p>\n<p>E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um sorriso, que era uma contra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria dos m\u00fasculos, e a inglesa a fazer um rosto de piedade, e adora\u00e7\u00e3o, e pena, e muita coisa junta, que a mo\u00e7a s\u00f3 come\u00e7ou a compreender, quando ela rompeu o sil\u00eancio deste modo:<\/p>\n<p>&#8211; Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.<\/p>\n<p>&#8211; O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que h\u00e1 mais?<\/p>\n<p>A inglesa aproximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou ansiosa a revela\u00e7\u00e3o &#8211; se revela\u00e7\u00e3o era &#8211; que lhe ia fazer Mrs. Oswald. Esta n\u00e3o falou logo; era razo\u00e1vel hesitar um pouco, lutar consigo mesma, antes de dizer alguma coisa. Enfim, com um movimento de quem ajunta as for\u00e7as todas e as emprega em coisa superior \u00e0 coragem usual:<\/p>\n<p>&#8211; D. Guiomar, disse ela, pegando-lhe nas m\u00e3os, ningu\u00e9m pode exigir que se case sem amar o noivo; seria na verdade uma afronta. Mas o que lhe digo \u00e9 que o amor que n\u00e3o existe por ora, pode vir mais tarde, e se vier, e se viesse, seria uma grande fortuna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas acabe, acabe, interrompeu a mo\u00e7a com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Seria uma grande fortuna para a senhora, para ele, ouso dizer que para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a senhora baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? disse Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! para ela seria a maior fortuna da vida, porque \u00e9 hoje o seu mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 certa disso?<\/p>\n<p>&#8211; Cert\u00edssima.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creio, n\u00e3o vejo nada que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Creia, deve crer. Se me promete nada dizer desta nossa conversa, nem fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fale.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, &#8211; continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se algu\u00e9m pudesse ouvi-la na solid\u00e3o daquela alcova, e no sil\u00eancio profundo daquela casa, que toda dormia &#8211; pois bem, eu lhe direi que por ela mesma tive not\u00edcia deste seu desejo. Quando eu percebi a paix\u00e3o do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ela me permite, e a senhora baronesa em vez de sorrir, como eu esperava que fizesse, ficou algum tempo pensativa e s\u00e9ria, at\u00e9 que rompeu nestas palavras: &#8220;Oh! se Guiomar gostasse dele e viessem a casar-se, eu seria completamente feliz. N\u00e3o tenho hoje outra ambi\u00e7\u00e3o na Terra. H\u00e1 de ser a minha campanha.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento n\u00e3o era imposs\u00edvel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas a princ\u00edpio indiferentes. O amor nasce muita vez do costume.<\/p>\n<p>Guiomar j\u00e1 mal ouvia o que lhe estava dizendo a inglesa; se ainda olhava para ela, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vai toda absorvida em pensamentos \u00edntimos.<\/p>\n<p>&#8211; Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu coveniente falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o cora\u00e7\u00e3o, ver se ele favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa&#8230; Fiz mal, convenho; mas a inten\u00e7\u00e3o era a mais respeit\u00e1vel e santa deste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto, murmurou Guiomar.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald pegou-lhe numa das m\u00e3os e beijou-a afetuosamente. Guiomar n\u00e3o a repeliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da inglesa. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.<\/p>\n<p>Guiomar n\u00e3o tinha a experi\u00eancia nem a idade da inglesa, que podia ser sua m\u00e3e; mas a experi\u00eancia e a idade eram substitu\u00eddas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturais. H\u00e1 criaturas que chegam aos cinq\u00fcenta anos sem nunca passar dos quinze, t\u00e3o s\u00edmplices, t\u00e3o cegas, t\u00e3o verdes as comp\u00f5e a natureza; para essas o crep\u00fasculo \u00e9 o prolongamento da aurora. Outras n\u00e3o; amadurecem na saz\u00e3o das flores; v\u00eam ao mundo com a ruga da reflex\u00e3o no esp\u00edrito, &#8211; embora, sem preju\u00edzo do sentimento, que nelas vive e influi, mas n\u00e3o domina. Nestas o cora\u00e7\u00e3o nasce enfreado; trota largo, vai a passo ou galopa, como cora\u00e7\u00e3o que \u00e9, mas n\u00e3o dispara nunca, n\u00e3o se perde nem perde o cavaleiro.<\/p>\n<p>O que a afilhada da baronesa buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se efetivamente a madrinha nutria aquele desejo, ou se tal revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas admitir\u00e1, sem d\u00favida, que a mo\u00e7a s\u00f3 depois de muito interrogar e examinar lhe desse f\u00e9. Creu enfim; creu, porque era veross\u00edmil, creu porque a inglesa n\u00e3o se arriscaria a qualquer indiscri\u00e7\u00e3o da parte dela, que de todo a desmascararia.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me, disse Mrs. Oswald, que n\u00e3o fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos n\u00e3o lhe dou nenhuns; o melhor deles n\u00e3o vale a voz do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. O seu \u00e9 puro e reto; consulte-o de boa vontade, e ver\u00e1 se h\u00e1 nele indiferen\u00e7a, ou se alguma fa\u00edsca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei! interrompeu Guiomar. N\u00e3o me lembrou consult\u00e1-lo nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Faz mal, ele \u00e9 o rel\u00f3gio da vida. Quem o n\u00e3o consulta, anda naturalmente fora do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquele outro rel\u00f3gio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a senhora baronesa se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe d\u00ea um sono sossegado, e sobretudo a fa\u00e7a feliz, como merece. N\u00e3o lhe recomendo ju\u00edzo, porque o tem de sobra. Adeus, at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E Mrs. Oswald saiu p\u00e9 ante p\u00e9 em dire\u00e7\u00e3o ao seu quarto.<\/p>\n<p>Guiomar ficou s\u00f3, ali sentada ao p\u00e9 da cama, a ouvir o passo surdo, e cauteloso da inglesa. Quando o som morreu de todo, e o sil\u00eancio da noite volveu ao que era, profundo e sepulcral, a mo\u00e7a deixou cair os bra\u00e7os na cama, e a cabe\u00e7a nas m\u00e3os, e um suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado &#8211; o primeiro que o leitor lhe ouve desde que a conhece &#8211; e enfim estas palavras arrancadas da alma, t\u00e3o doloridas &#8211; ia dizer t\u00e3o lacrimosas &#8211; vinham elas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh meus sonhos! meus sonhos!<\/p>\n<p>N\u00e3o chorou; a alma dela era das que n\u00e3o t\u00eam l\u00e1grimas, enquanto lhe restam for\u00e7as. Os olhos estavam secos e firmes quando ela os ergueu das m\u00e3os; o rosto tinha vest\u00edgios do abalo, mas n\u00e3o havia nele des\u00e2nimo, menos ainda desespero.<\/p>\n<h3>XI<\/h3>\n<p>Lu\u00eds Alves<\/p>\n<p>Durante uma inteira e comprida semana, deixou Est\u00eav\u00e3o de aparecer no escrit\u00f3rio onde trabalhava com Lu\u00eds Alves; n\u00e3o apareceu tamb\u00e9m em Botafogo. Ningu\u00e9m o viu em todo esse tempo nos lugares onde ele era mais ou menos ass\u00edduo. Foram seis dias, n\u00e3o digo de reclus\u00e3o absoluta, mas de completa solid\u00e3o, porque ainda nas poucas vezes que saiu, f\u00ea-lo sempre a horas ou em dire\u00e7\u00f5es que a ningu\u00e9m via, e de ningu\u00e9m era visto.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fora essa crua e malfadada crise, e \u00e9 quase certo que ele meteria uma lan\u00e7a na \u00c1frica daqueles dias, que era um ponto muito s\u00e9rio e grave, a quest\u00e3o magna da Rua do Ouvidor e da casa do Jos\u00e9 Tom\u00e1s, a ponderosa, crespa e complicada quest\u00e3o de saber se a Stephanoni estrearia no Ernani. Esta quest\u00e3o, de que o leitor se ri hoje, como se h\u00e3o de rir os seus sobrinhos de outras an\u00e1logas puerilidades, esta pretens\u00e3o a que se opunha a Lagrua, alegando que o Ernani era seu, pretens\u00e3o que fazia gemer as almas e os prelos daquele tempo, era coisa muito pr\u00f3pria a espertar os brios do nosso Est\u00eav\u00e3o, t\u00e3o marechal nas coisas m\u00ednimas, como recruta nas coisas m\u00e1ximas.<\/p>\n<p>Infelizmente ele n\u00e3o aparecia, n\u00e3o sabia sequer do conflito e do debate, ocupado como estava em travar o \u00e1spero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consola\u00e7\u00e3o dos outros homens. Todo ele era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o \u00faltimo pensamento de cada dia. A sombra da mo\u00e7a vivia ao p\u00e9 dele e dentro dele, no livro em que lia, na rua solit\u00e1ria onde acaso transitava, nos sonhos da noite, nas estrelas do c\u00e9u, nas poucas flores de seu inculto jardim.<\/p>\n<p>Um leitor perspicaz, como eu suponho que h\u00e1 de ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que ele teceu, diversos e contradit\u00f3rios, como \u00e9 de raz\u00e3o em an\u00e1logas situa\u00e7\u00f5es. Apenas direi por alto que ele pensou tr\u00eas vezes em morrer, duas em fugir \u00e0 cidade, quatro em ir afogar a sua dor mortal naquele ainda mais mortal p\u00e2ntano de corrup\u00e7\u00e3o em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu esp\u00edrito apenas um joguete de sensa\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas e variadas. A for\u00e7a, a perman\u00eancia do afeto n\u00e3o lhe bastava a dar seguimento e realidade \u00e0s concep\u00e7\u00f5es vagas de seu c\u00e9rebro &#8211; enfermo, ainda quando estava de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia do suic\u00eddio fincou-se-lhe mais adentro no esp\u00edrito, certa tarde em que ele saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Caju. O pr\u00e9stito era triste &#8211; ainda mais triste pela indiferen\u00e7a que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Est\u00eav\u00e3o descobriu-se e sinceramente desejou ir ali dentro, metido naquelas estreitas t\u00e1buas de pinho, com todas as suas dores, paix\u00f5es e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;N\u00e3o tenho outro recurso&#8221;, pensou ele; \u00e9 necess\u00e1rio que morra. \u00c9 uma dor s\u00f3, e \u00e9 a liberdade.<\/p>\n<p>Ao voltar para casa, uma crian\u00e7a que brincava na rua, sem camisa, com os p\u00e9s na \u00e1gua barrenta da sarjeta, f\u00ea-lo parar alguns instantes, invejoso daquela boa fortuna da inf\u00e2ncia, que ri com os p\u00e9s no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da inoc\u00eancia foram ainda substitu\u00eddas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janelas abertas de uma casa vizinha, e a sala iluminada, e uma noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ela, ambos com o sorriso indefin\u00edvel e \u00fanico da ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de l\u00e1grimas, de reflex\u00f5es amargas, de suspiros in\u00fateis, at\u00e9 que raiou a aurora do sexto dia, e com ela &#8211; ou pouco depois dela, uma carta de Botafogo. Est\u00eav\u00e3o quando viu o criado da baronesa, \u00e0 porta da sala, com uma carta na m\u00e3o, sentiu tamanho alvoro\u00e7o, que n\u00e3o ouviu nada do que ele lhe disse. Suporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a ilus\u00e3o durou os poucos instantes que ele gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.<\/p>\n<p>A carta era da baronesa.<\/p>\n<p>A baronesa perguntava-lhe graciosamente se ele havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe acerca da demanda que ela trazia. Est\u00eav\u00e3o chegara j\u00e1 ao estado de s\u00f3 esperar um pretexto para transigir consigo mesmo; n\u00e3o podia hav\u00ea-lo melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, e \u00e0 uma hora da tarde apeava-se de um t\u00edlburi \u00e0 porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as piores horas da vida.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe por que raz\u00e3o lhe dei este inc\u00f4modo, al\u00e9m do prazer que tinha em v\u00ea-lo? perguntou a baronesa logo depois dos primeiros cumprimentos.<\/p>\n<p>&#8211; Disse-me que era por causa da demanda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, precisamos assentar algumas coisas, antes da nossa partida.<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa. sai da Corte?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos para a ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o empalideceu. Na situa\u00e7\u00e3o dele, aquela viagem era a melhor coisa que lhe podia acontecer; contudo, fez-lhe mal a not\u00edcia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o assunto forense, e durou uma longa hora, sem que aparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se Est\u00eav\u00e3o a perguntar por ela.<\/p>\n<p>&#8211; Anda passeando, respondeu a baronesa.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o despediu-se da constituinte, que o acompanhou at\u00e9 \u00e0 portada sala, repetindo-lhe algumas recomenda\u00e7\u00f5es, que o advogado mal p\u00f4de ouvir e absolutamente lhe n\u00e3o ficaram de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a de ver a mo\u00e7a levara-o, mais que tudo, \u00e0quela casa; sa\u00eda sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, amea\u00e7ado de a n\u00e3o ver t\u00e3o cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia ele a refletir nisto e a aproximar-se da porta, onde parava ao mesmo tempo um carro. Est\u00eav\u00e3o estremeceu naturalmente, antes de ver quem ia apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um lacaio abria apressadamente.<\/p>\n<p>A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o fez, sem dar tempo a que Est\u00eav\u00e3o lhe oferecesse a m\u00e3o. O bacharel, desde que a vira, aproximara-se rapidamente da portinhola.<\/p>\n<p>Guiomar desceu logo depois. A m\u00e3o apertada na luva cor de p\u00e9rola pousou levemente na m\u00e3o de Est\u00eav\u00e3o que estremeceu todo. A mo\u00e7a fez-lhe um cumprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a inglesa. Era pouco; mas esse pouco alvoro\u00e7ou o bacharel, que enfiou dali para a cidade, em dire\u00e7\u00e3o ao escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves admirou-se de o ver; n\u00e3o foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupa\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Alves por aqueles dias era a candidatura eleitoral; a boa-nova devia chegar-lhe na primeira mala do Norte. Ora, em boa raz\u00e3o, um homem que est\u00e1 prestes a ser inscrito nas t\u00e1buas do parlamento, n\u00e3o pode cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o perdeu tempo em circunl\u00f3quios; foi entrando e entornando a alma toda, aflita e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da confiss\u00e3o plena que ele ali lhe fez, respondia um comento, ora s\u00e9rio, ora gracioso de Lu\u00eds Alves. Quando Est\u00eav\u00e3o por\u00e9m lhe deu not\u00edcia de que a fam\u00edlia da baronesa ia para a ro\u00e7a, Lu\u00eds Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos l\u00e1bios desde come\u00e7o, e com a mais s\u00fabita e sincera admira\u00e7\u00e3o, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Para a ro\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Disse-o agora mesmo a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves n\u00e3o acabou; olhou ainda meio duvidoso para Est\u00eav\u00e3o, e ficou algum tempo calado, a co\u00e7ar o queixo com a faca de marfim e a olhar para uma gravura que pendia na parede fronteira.<\/p>\n<p>&#8211; Na situa\u00e7\u00e3o em que estou, continuou Est\u00eav\u00e3o, h\u00e1s de dizer que a viagem \u00e9 uma felicidade para mim. Pois n\u00e3o \u00e9; n\u00e3o admito a viagem. Se ela sair da Corte, eu saio tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Tu est\u00e1s doido!<\/p>\n<p>&#8211; Talvez.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves saiu daquela natural indiferen\u00e7a com que o ouvia, e lhe falava<\/p>\n<p>sempre em tal assunto. Falou-lhe carinhoso &#8211; talvez pela primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas uma edi\u00e7\u00e3o aumentada do que lhe havia dito em anteriores ocasi\u00f5es &#8211; agora com maior fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, n\u00e3o havia outro recurso mais que ir esquec\u00ea-la de todo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! isso nunca! interrompeu Est\u00eav\u00e3o. Demais, n\u00e3o sei, n\u00e3o estou certo se ela falava de cora\u00e7\u00e3o naquela tarde&#8230;<\/p>\n<p>A candidez com que Est\u00eav\u00e3o disse isto era a fiel tradu\u00e7\u00e3o de seu esp\u00edrito, e a raz\u00e3o de tais palavras, n\u00e3o a procure o leitor em outra parte mais que n\u00e3o seja aquele sorriso de h\u00e1 pouco, ao p\u00e9 do carro, sorriso que lhe bailava no c\u00e9rebro, como raio de sol coado por entre nuvens negras de tempestade.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves sacudiu a cabe\u00e7a e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. S\u00fabito, bateu uma pancadinha, com a m\u00e3o espalmada sobre os pap\u00e9is, e levantou a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 um meio talvez de saber tudo, disse ele, de saber se ela verdadeiramente te ama, ou&#8230; Posso tent\u00e1-lo, com uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; A condi\u00e7\u00e3o de eliminares as tuas pretens\u00f5es. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paix\u00e3o sem efic\u00e1cia nem rem\u00e9dio?<\/p>\n<p>Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um cora\u00e7\u00e3o, em que as gera\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7as se sucediam quase sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade; f\u00ea-la, todavia, Est\u00eav\u00e3o, talvez com a secreta resolu\u00e7\u00e3o de a trair.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves ficou s\u00f3, da\u00ed a alguns minutos. As \u00faltimas palavras que disse ao colega foram duas ou tr\u00eas pilh\u00e9rias de rapaz; mas apenas ficou s\u00f3 tornou-se s\u00e9rio, e inclinando o corpo para a frente, com os bra\u00e7os na secret\u00e1ria, e a raspar as unhas com um canivete, ali esteve largo tempo, como a refletir, longe de Est\u00eav\u00e3o, que ali\u00e1s j\u00e1 n\u00e3o ia perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava ele, se n\u00e3o era em Est\u00eav\u00e3o, nem nos autos, nem tamb\u00e9m, por agora, nas suas esperan\u00e7as eleitorais? Paci\u00eancia, leitor; sab\u00ea-lo-\u00e1s daqui a nada. Contenta-te com a not\u00edcia de que, ao cabo de vinte minutos daquela abstra\u00e7\u00e3o, Lu\u00eds Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; \u00e9 uma ambiciosa.<\/p>\n<p>E descativado daquela preocupa\u00e7\u00e3o, enterrou-se de todo na leitura dos autos.<\/p>\n<h3>XII<\/h3>\n<p>A viagem<\/p>\n<p>Mal recome\u00e7ara Lu\u00eds Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o criado apresentando-lhe um bilhete de visita.<\/p>\n<p>&#8211; Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baronesa.<\/p>\n<p>E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que da\u00ed a nada assomava \u00e0 porta do gabinete, fazendo uma cortesia, sisuda, mas graciosa.<\/p>\n<p>&#8211; Venho incomod\u00e1-lo, doutor? perguntou Jorge.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo busc\u00e1-lo \u00e0 porta. N\u00e3o me incomodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a leitura de uns pap\u00e9is me fatigou sobremaneira, a maior fortuna que eu poderia desejar \u00e9 a presen\u00e7a de um homem de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Jorge agradeceu este cumprimento um pouco enf\u00e1tico, e retribuiu-o com outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que ele vinha pedir alguma coisa. Efetivamente, passados os minutos de intr\u00f3ito e desfiadas as generalidades, Jorge empertigou-se mais do que at\u00e9 ali estivera e desfechou esta pergunta abrupta:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que venho pedir-lhe uma coisa grave?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves inclinou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baronesa; mas antes disso precisava saber se \u00e9 t\u00e3o amigo da nossa fam\u00edlia, como ela o \u00e9 do senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! decerto!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 o menos ass\u00edduo, talvez, das pessoas que l\u00e1 v\u00e3o, apesar de vizinho; s\u00f3 agora o vejo ali mais a mi\u00fado; entretanto \u00e9 como flor que se trai pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opini\u00e3o do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tamb\u00e9m a sinto, e nem compreendo que um homem possa ser outra coisa. Os tais esp\u00edritos f\u00fateis&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o insuport\u00e1veis, concluiu Lu\u00eds Alves ansioso por chegar ao objeto da visita.<\/p>\n<p>O objeto era a viagem da baronesa. Um comendador, amigo do finado bar\u00e3o, e fazendeiro em Cantagalo, tinha promessa da vi\u00fava, havia dois anos, de ir l\u00e1 passar algum tempo. A baronesa esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora por\u00e9m, tal fora a insist\u00eancia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era &#8211; express\u00f5es dele &#8211; uma conjura\u00e7\u00e3o de amigos para dissuadir a tia daquele projeto. Afian\u00e7ava ao advogado que, ainda descoberta a conjura\u00e7\u00e3o, teria ele a vida s\u00e3 e salva.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves sup\u00f4s a princ\u00edpio que aquilo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bela Guiomar n\u00e3o era indiferente ao rapaz, compreendeu que este tinha na conjura\u00e7\u00e3o proposta, um interesse inteiramente pessoal. Enfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da Corte, ele n\u00e3o tinha rem\u00e9dio sen\u00e3o acompanh\u00e1-la.<\/p>\n<p>O acordo n\u00e3o foi dif\u00edcil; ficou assentado que fariam todos os esfor\u00e7os para dissuadir a baronesa. Jorge quis sair logo; reteve-o Lu\u00eds Alves algum tempo mais, com express\u00f5es de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversa\u00e7\u00e3o; e tamb\u00e9m deixando-se ir \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito dele, aceitando-lhe as id\u00e9ias e os preconceitos, e aplaudindo-os discretamente &#8211; s\u00e9rio, quando eles o eram ou pareciam ser &#8211; chocarreiro quando vinham com ar de gra\u00e7a &#8211; respondendo enfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por of\u00edcio e obriga\u00e7\u00e3o: &#8211; toda a arte em suma de tratar os homens, de os atrair e de os namorar, que ele aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>De noite foi Lu\u00eds Alves \u00e0 casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao p\u00e9 de si uma senhora da mesma idade que ela, igualmente vi\u00fava, e defronte as su\u00ed\u00e7as brancas e aposentadas de um ex-funcion\u00e1rio p\u00fablico. Num sof\u00e1, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dois mo\u00e7os contavam a duas senhoras o enredo da \u00faltima pe\u00e7a do Gin\u00e1sio. Mais longe, uma mo\u00e7a da vizinhan\u00e7a gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia me\u00e7as, dizia ela, ao pincel do cen\u00f3grafo, seu marido. Enfim, junto a uma das janelas via-se uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se \u00e0s vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se tamb\u00e9m de quando em quando, do mesmo modo que o assunto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que n\u00e3o resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves agregara-se ao grupo da baronesa, ao qual n\u00e3o tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discri\u00e7\u00e3o de esperar que o assunto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe parecesse de fei\u00e7\u00e3o. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o assunto ao debate. Lu\u00eds Alves mostrou-se fiel \u00e0 palavra dada; declarou amavelmente que se opunha \u00e0 viagem, como vizinho e amigo, que reclamaria em \u00faltimo caso o aux\u00edlio de for\u00e7a p\u00fablica; que era um erro e um crime deixar aquela casa vi\u00fava da benevol\u00eancia e da gra\u00e7a e do gosto e de todas as mais qualidades excelentes que ali iam achar os felizes que a freq\u00fcentavam; que, enfim, o mal era tamanho, que n\u00e3o deixaria de ser pecado, posto n\u00e3o viesse apontado nos catecismos, e como pecado, seria de for\u00e7a punido, com amargas penas, no outro s\u00e9culo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decis\u00e3o que a baronesa devia ficar.<\/p>\n<p>Todas estas raz\u00f5es foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgaz\u00e3o, a que a baronesa respondia igualmente, e que n\u00e3o daria nada mais de si, se Lu\u00eds Alves, mudando de estilo, n\u00e3o fosse p\u00f4r o assunto em diferente terreno.<\/p>\n<p>&#8211; Digamos a verdade, senhora baronesa, a viagem h\u00e1 de ser-lhe imensamente inc\u00f4moda, se for s\u00f3 isso; suas for\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o decerto iguais \u00e0s de seus primeiros anos; sua sa\u00fade \u00e9 melindrosa e n\u00e3o poder\u00e1 sofrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de vizinho; mas a principal raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 essa. Se houvesse um motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita h\u00e1 tanto tempo, seria crueldade da minha parte n\u00e3o insistir que ficasse.<\/p>\n<p>A baronesa defendia-se, e Lu\u00eds Alves n\u00e3o tardou em reconhecer de si para si que ela n\u00e3o se defendia com o vigor de uma resolu\u00e7\u00e3o original e pr\u00f3pria. A conversa, entretanto, tornara-se mais geral; de todos os lados partiam votos de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar havia j\u00e1 alguns minutos que n\u00e3o atendia \u00e0 interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ningu\u00e9m a observava; mas \u00e9 privil\u00e9gio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras n\u00e3o v\u00eaem ou n\u00e3o podem ver. No rosto de Guiomar podemos n\u00f3s ler, n\u00e3o s\u00f3 o t\u00e9dio que lhe causava aquela opini\u00e3o un\u00e2nime contra o projeto da baronesa, mas ainda a express\u00e3o de um g\u00eanio imperioso e volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos de acordo, creio eu? perguntou Lu\u00eds Alves olhando alternadamente para a baronesa e as outras pessoas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, doutor, respondia a boa senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, interveio Guiomar do lugar onde estava. A viagem n\u00e3o oferece risco, nem minha madrinha est\u00e1 inv\u00e1lida. Demais, \u00e9 uma promessa feita; n\u00e3o se pode deixar de cumprir.<\/p>\n<p>Esta opini\u00e3o, dita em tom seco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural aveludado, equivaleu a um pouco de \u00e1gua fria lan\u00e7ada na fervura triunfante dos \u00e2nimos.<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar tem raz\u00e3o, disse a baronesa; j\u00e1 agora \u00e9 preciso ir; s\u00e3o apenas tr\u00eas ou quatro meses.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas as anteced\u00eancias da resolu\u00e7\u00e3o da baronesa. A oposi\u00e7\u00e3o afrouxara; Jorge chamou em v\u00e3o o advogado em seu auxilio. A resolu\u00e7\u00e3o da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.<\/p>\n<p>Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma express\u00e3o de vaidade e cobi\u00e7a. Lu\u00eds Alves, que se achava de p\u00e9, recuou um pouco para deix\u00e1-la passar. Os olhos com que a contemplou n\u00e3o eram de cobi\u00e7a nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrar\u00e1 da confiss\u00e3o por ele mesmo feita a Est\u00eav\u00e3o, supor\u00e1 talvez que eram de amor. Talvez &#8211; quem sabe? &#8211; amor um pouco sossegado, n\u00e3o louco e cego como o de Est\u00eav\u00e3o, n\u00e3o pueril e lascivo, como o de Jorge, um meio-termo entre um e outro &#8211; como podia hav\u00ea-lo no cora\u00e7\u00e3o de um ambicioso.<\/p>\n<p>&#8211; O Dr. Lu\u00eds Alves defende causas m\u00e1s, disse Guiomar sorrindo para ele; n\u00e3o se trata de uma coisa imposs\u00edvel. Quanto a mim, Cantagalo s\u00f3 tem um inconveniente; ser\u00e1 menos divertido que a Corte; mas o tempo passa depressa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, disse Jorge suspirando, eu tamb\u00e9m dispenso teatros e bailes; sacrifico-me \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Queres ir conosco? perguntou a baronesa alegremente.<\/p>\n<p>&#8211; Que d\u00favida!<\/p>\n<p>Guiomar mordeu o l\u00e1bio inferior, com uma express\u00e3o de despeito, que p\u00f4de conter e abafar, sem que ningu\u00e9m a percebesse, ningu\u00e9m, exceto Lu\u00eds Alves. Um sorriso tranq\u00fcilo e perspicaz ro\u00e7ou os l\u00e1bios do advogado, enquanto a mo\u00e7a, para esconder a impress\u00e3o que lhe ficara, de novo se dirigiu \u00e0 janela, onde esteve alguns momentos sozinha, meia voltada para fora e meia guardada pela sombra que ali fazia a cortina. Um rumor de passos f\u00ea-la voltar-se para dentro. Era Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse ela fingindo-se tranq\u00fcila; agrade\u00e7o-lhe n\u00e3o haver insistido mais nos seus conselhos.<\/p>\n<p>&#8211; A inten\u00e7\u00e3o era boa, respondeu Lu\u00eds Alves em voz baixa; mas ser\u00e1 agora excelente; nem tudo est\u00e1 perdido: eu me incumbo de salvar o resto.<\/p>\n<p>Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal espanto que parecia hav\u00ea-la feito esquecer outro sentimento, igualmente natural:- o do despeito que lhe ausaria aquela singular familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que ele lera nela a raz\u00e3o da insist\u00eancia e o desgosto do resultado.<\/p>\n<p>A ruga desfez-se a pouco e pouco, mas a mo\u00e7a n\u00e3o retirou logo os olhos. Havia neles uma interroga\u00e7\u00e3o imperiosa, que a alma n\u00e3o se atrevia a transmitir aos l\u00e1bios. Se h\u00e1 nos do leitor alguma interroga\u00e7\u00e3o, esperemos o cap\u00edtulo seguinte.<\/p>\n<h3>XIII<\/h3>\n<p>Explica\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves compreendera toda a express\u00e3o dos olhos de Guiomar; era, por\u00e9m, homem frio, resoluto. Inclinou o busto com toda a gra\u00e7a correta e de bom-tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permitia o seu \u00f3rg\u00e3o forte e severo:<\/p>\n<p>&#8211; Parece-lhe que fui um pouco audaz, n\u00e3o \u00e9? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condene, estou certo de que h\u00e1 em seu cora\u00e7\u00e3o miseric\u00f3rdia de sobra&#8230;<\/p>\n<p>Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 enganado, disse ela, n\u00e3o o condeno, pela simples raz\u00e3o de que o n\u00e3o entendi.<\/p>\n<p>&#8211; Tanto melhor, redarg\u00fciu Lu\u00eds Alves sem pestanejar; o meu delito nesse caso n\u00e3o passou da esfera da inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; referia-se \u00e0 viagem?<\/p>\n<p>&#8211; Referia-me; perguntava quando iam.<\/p>\n<p>Esta presen\u00e7a de esp\u00edrito de Lu\u00eds Alves ia muito com o g\u00eanio de Guiomar; era um la\u00e7o de simpatia. A mo\u00e7a respondeu que o comendador viria busc\u00e1-las da\u00ed a quinze ou vinte dias.<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas meses apenas? perguntou o advogado.<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas ou quatro.,<\/p>\n<p>&#8211; Quatro meses n\u00e3o \u00e9 a eternidade, mas Cantagalo, para uma carioca da gema, h\u00e1 de ser um degredo, ou quase&#8230; Oxal\u00e1 &#8211; continuou Lu\u00eds Alves, concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se aproximava da janela &#8211; oxal\u00e1 n\u00e3o lhe fa\u00e7a esse ex\u00edlio esquecer o que solenemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!<\/p>\n<p>Jorge chegara; a conversa tinha de acabar ou tomar diferente rumo.<\/p>\n<p>As \u00faltimas palavras de Lu\u00eds Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na mem\u00f3ria da mo\u00e7a. N\u00e3o era uma declara\u00e7\u00e3o de amor, nem uma cortesania de sala, coisas todas que ela ouvira muita vez, que podiam lisonje\u00e1-la, e decerto a lisonjeavam; era mais que um cumprimento e n\u00e3o chegava a Ser uma declara\u00e7\u00e3o. Como\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convic\u00e7\u00e3o profunda. Guiomar olhou para ele quase sem dar pela presen\u00e7a de Jorge; mas Lu\u00eds Alves voltara-se para o rec\u00e9m-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem diferente daquele que empregara pouco antes.<\/p>\n<p>Se esse contraste era premeditado &#8211; n\u00e3o sei se o era &#8211; n\u00e3o podia vir mais de fei\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito de Guiomar. De quantos homens a mo\u00e7a tratara at\u00e9 ali, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tamb\u00e9m, naquela ocasi\u00e3o, a primeira pessoa que se compadecia dela. Veja o leitor: &#8211; curiosidade e gratid\u00e3o; &#8211; veja se h\u00e1 duas asas mais pr\u00f3prias para arrojar uma alma no seio de outra alma &#8211; ou de um abismo, que \u00e9 \u00e0s vezes a mesma coisa.<\/p>\n<p>Eu disse &#8211; compadecia &#8211; e esta s\u00f3 palavra, desacompanhada de outra coisa, pode fazer crer ao leitor que, durante aqueles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma criatura desditosa. Nada disso; a situa\u00e7\u00e3o era a mesma, n\u00e3o a mesma anteriormente \u00e0 carta de Jorge, mas a mesma da noite em que ela a recebeu, situa\u00e7\u00e3o, decerto, assaz sombria e carregada para um cora\u00e7\u00e3o que receia ser constrangido, mas n\u00e3o desesperada nem angustiosa.<\/p>\n<p>A baronesa, se soubera dos fatos, ou se pudera ler na alma da mo\u00e7a, seria a primeira a dar-lhe todas as consola\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o sabia. Seu desejo- ou antes o sonho da velhice, como ela dizia num dos anteriores cap\u00edtulos &#8211; era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era cas\u00e1-los um com o outro. A not\u00edcia que tinha do cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, a este respeito, era incompleta ou inexata; pintavam-lhe como frieza o que era repugn\u00e2ncia. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperan\u00e7as de \u00eaxito feliz e pr\u00f3ximo, as c\u00f3leras da mo\u00e7a n\u00e3o lhas contava nunca. Da carta de Jorge n\u00e3o soube, nem da cena havida na alcova. O casamento continuava a aparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperan\u00e7a realiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dir\u00e1 a leitora que o sobrinho n\u00e3o merecia tanto zelo nem t\u00e3o pertinaz esperan\u00e7a, e ter\u00e1 raz\u00e3o; mas os olhos da baronesa n\u00e3o s\u00e3o os da leitora; ela s\u00f3 lhe via o lado bom, &#8211; que era realmente bom &#8211; ainda que de uma bondade relativa; mas n\u00e3o via o lado mau, n\u00e3o via riem podia ver-lhe a frivolidade grave do esp\u00edrito, nem o g\u00eanero de afeto que se lhe gerava no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jorge era o seu \u00fanico parente de sangue, &#8211; filho de uma irm\u00e3 que vivera infeliz e mais infelizmente morrera, n\u00e3o repudiada, mas aborrecida do marido, circunst\u00e2ncia que lhe tornava caro aquele mo\u00e7o. Mais do que a afilhada, n\u00e3o; nem tanto, decerto; o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegaria para dividir-se igualmente em t\u00e3o grandes por\u00e7\u00f5es; queria-lhe, por\u00e9m, muito, quanto bastava para desej\u00e1-lo feliz, e trabalhar por faz\u00ea-lo. Acrescentemos que o destino da irm\u00e3 sempre lhe estava presente ao esp\u00edrito, e que ela receava igual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes necess\u00e1rios para torn\u00e1-la venturosa.<\/p>\n<p>Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daqueles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada ocasi\u00e3o esta para patentear toda a gratid\u00e3o de que estava possu\u00edda e a profunda amizade que a ligava \u00e0 fam\u00edlia da baronesa. Interpor-se para servir aos outros, e mais ainda a si pr\u00f3pria. Viu a dificuldade, mas n\u00e3o desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baronesa. Por isso n\u00e3o hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto, porque nunca a baronesa dissera que &#8220;tal casamento era a sua campanha&#8221;, e Mrs. Oswald atribuiu-lhe esta frase mortal para todas as esperan\u00e7as e sonhos da mo\u00e7a. Mas, se falava demasiado ao p\u00e9 de uma, era muito mais s\u00f3bria de palavras com a outra, e da exagera\u00e7\u00e3o ou da atenua\u00e7\u00e3o da verdade resultara aquele perene estado de luta abafada, de receios, de indecis\u00e3o e de amarguras secretas. Conv\u00e9m dizer, para dar o \u00faltimo tra\u00e7o ao perfil, que esta Mrs. Oswald n\u00e3o seguia s\u00f3 a voz do seu interesse pessoal, mas tamb\u00e9m o impulso do pr\u00f3prio g\u00eanio, amigo de p\u00f4r \u00e0 prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas opera\u00e7\u00f5es delicadas e dif\u00edceis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia dom\u00e9stica &#8211; ou se se criassem cargos para ela, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.<\/p>\n<p>Vindo agora \u00e0 narra\u00e7\u00e3o dos sucessos da hist\u00f3ria, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge n\u00e3o teve resposta escrita nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi ele jantar a Botafogo; mas Guiomar n\u00e3o sa\u00edra do quarto, a pretexto de uma dor de cabe\u00e7a; a baronesa passou o dia com ela; Jorge apenas conseguiu saber, quando de l\u00e1 saiu, que a mo\u00e7a ia melhor. Nos subseq\u00fcentes dias nenhuma resposta foi \u00e0s m\u00e3os do pretendente, nem ele conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solit\u00e1ria com a mo\u00e7a; Guiomar esquivava-se sempre, com aquela arte suma da mulher que aborrece, e que \u00e9 nem mais nem menos igual \u00e0 da mulher que ama.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, n\u00e3o houve meio de fugir; e Jorge, que n\u00e3o tinha nenhuma como\u00e7\u00e3o na voz, porque n\u00e3o tinha muita no cora\u00e7\u00e3o, olhou para ela com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperan\u00e7a ou de desengano. A mo\u00e7a hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugn\u00e2ncia dizendo-lhe com um frio sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Nem uma nem outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Nem desengano? perguntou Jorge alvoro\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m pode dar nem uma coisa nem outra, disse ela; costumamos aceit\u00e1-las do nosso destino.<\/p>\n<p>N\u00e3o era responder, como v\u00ea o leitor; Jorge ia pedir uma decis\u00e3o mais transparente, mas a mo\u00e7a aproveitara-se da primeira impress\u00e3o e esquivara-se. Quando ele recobrou a voz n\u00e3o viu mais que a f\u00edmbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.<\/p>\n<p>Guiomar encurtou as r\u00e9deas \u00e0 familiaridade que existia entre ela e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, n\u00e3o o fazia com sequid\u00e3o nem frieza, nem deixava de ser polida e af\u00e1vel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, al\u00e9m disso, como de uma torre de marfim, onde ela se acastelava e mantinha em respeito o pretendente.<\/p>\n<p>Dos dois homens que lhe queriam, nenhum lhe falava \u00e0 alma; ela sentia que Est\u00eav\u00e3o pertencia \u00e0 falange dos t\u00edbios, Jorge \u00e0 tribo dos incapazes, duas classes de homens que n\u00e3o tinham com ela nenhuma afinidade eletiva. N\u00e3o igualava, decerto, os dois pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum deles capaz de criar por si s\u00f3 o seu destino. Se os n\u00e3o igualava, tamb\u00e9m os n\u00e3o via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe t\u00e9dio, era um Di\u00f3genes de esp\u00e9cie nova; atrav\u00e9s da capa rota da sua import\u00e2ncia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Est\u00eav\u00e3o inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, n\u00e3o para vencer, uma esp\u00e9cie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem asas para voar at\u00e9 l\u00e1. O sentimento de Guiomar em rela\u00e7\u00e3o a Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Com outra \u00edndole, aspira\u00e7\u00f5es diferentes e vivida em diversa esfera, am\u00e1-lo-ia com certeza, do mesmo modo que ele a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as m\u00e3os para a desviar dos gozos puramente \u00edntimos. Pedia amor, mas n\u00e3o o quisera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da Terra seria para ela o m\u00e1ximo dos infort\u00fanios, se lha pusessem num ermo. Crian\u00e7a, iam-lhe os olhos com as sedas e as j\u00f3ias das mulheres que via na ch\u00e1cara cont\u00edgua ao pobre quintal de sua m\u00e3e; mo\u00e7a, iam-lhe do mesmo modo com o espet\u00e1culo brilhante das grandezas sociais. Ela queria um homem que, ao p\u00e9 de um cora\u00e7\u00e3o juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a for\u00e7a bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, s\u00f3 uma vez aceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se prop\u00f4s a seguir o of\u00edcio de ensinar; mas \u00e9 preciso dizer que ela contava com a ternura da baronesa.<\/p>\n<h3>XIV<\/h3>\n<p>Ex-abrupto<\/p>\n<p>J\u00e1 o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagalo era obra quase exclusiva de Guiomar. A baronesa relutara a princ\u00edpio, como das outras vezes fizera, e o comendador pouca esperan\u00e7a tinha j\u00e1 de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ela fortaleceu, com as suas, as raz\u00f5es do comendador, alegando n\u00e3o s\u00f3 a obriga\u00e7\u00e3o em que a madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem que lhe podiam trazer aqueles tr\u00eas meses de vida roceira, longe das agita\u00e7\u00f5es da Corte; enfim, invocou o seu pr\u00f3prio desejo de ver uma fazenda e conhecer os h\u00e1bitos do interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia tal desejo, nem coisa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na balan\u00e7a das resolu\u00e7\u00f5es da madrinha era de grande peso a satisfa\u00e7\u00e3o de um gosto seu. O sacrif\u00edcio duraria tr\u00eas ou quatro meses; ela afrontaria, por\u00e9m, dez ou doze se tantos fossem necess\u00e1rios, para fugir algum tempo \u00e0s pretens\u00f5es de Jorge, sem embargo de lhe repugnar todo o viver que n\u00e3o fosse a vida fastosa e agitada da Corte. Eu, que sou o Plutarco desta dama ilustre, n\u00e3o deixarei de notar que, neste lance, havia nela um pouco de Alcib\u00edades &#8211; aquele gamenho e delicioso homem de Estado, a quem o despeito tamb\u00e9m deu for\u00e7as um dia para suportar a frugalidade espartana.<\/p>\n<p>Infelizmente, Jorge reduziu todos esses c\u00e1lculos a nada. Ela contava com o seu demasiado apego aos regalos da Corte, n\u00e3o contava com as sugest\u00f5es de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira resolu\u00e7\u00e3o de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrif\u00edcio da parte dele era compensado pela probabilidade da vit\u00f3ria, a qual n\u00e3o consistia s\u00f3 em haver por esposa uma mo\u00e7a bela e querida, mas ainda em tornar muito mais sum\u00e1rias as partilhas do que a baronesa deixaria por sua morte a ambos. Esta considera\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o era a principal, tinha ainda assim seu peso no esp\u00edrito de Jorge, e, sejamos justos, devia t\u00ea-lo: possuir era o seu \u00fanico of\u00edcio. Assim era que n\u00e3o s\u00f3 a mo\u00e7a deixava de obter um bem, mas ca\u00eda de um mal em outro maior; t\u00ea-lo ao p\u00e9 de si, onde as distra\u00e7\u00f5es seriam menos prontas e variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o esp\u00edrito depois da declara\u00e7\u00e3o de Jorge. N\u00e3o havia meio de fugir ao pretendente, era preciso trag\u00e1-lo. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o \u00e2nimo. Uma confidente, em tais situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 um presente do c\u00e9u; mas Guiomar n\u00e3o a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confian\u00e7a, \u00e9 certo ou quase certo que lhe n\u00e3o diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu cora\u00e7\u00e3o tinham pudor. Esp\u00edritos desta casta ignoram a consola\u00e7\u00e3o que h\u00e1, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas feliz ignor\u00e2ncia que lhes poupa muita vez o contato de uma consci\u00eancia aleivosa e ruim.<\/p>\n<p>No meio do longo refletir, soaram-lhe na mem\u00f3ria as palavras de Lu\u00eds Alves; ela ouviu-as de novo, tais quais ele as proferira, desde a frase descort\u00eas at\u00e9 \u00e0 express\u00e3o respeitosa. Uma era o coment\u00e1rio da outra, e ambas podiam explicar-lhe o car\u00e1ter de Lu\u00eds Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhec\u00ea-lo; em todo o caso, era a ponta do v\u00e9u levantada. Embora se lhe n\u00e3o pudesse ler no fundo do esp\u00edrito, via-se desde j\u00e1 qual era o seu m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qualquer outro homem, depois do efeito produzido pela primeira declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se atreveria ou n\u00e3o lhe importaria tentar mais nada para desfazer o projeto da viagem. Mas o esp\u00edrito de Lu\u00eds Alves tinha a obstina\u00e7\u00e3o do dogue. Era-lhe necess\u00e1rio que a fam\u00edlia da baronesa n\u00e3o sa\u00edsse da Corte; este objeto havia de alcan\u00e7\u00e1-lo a todo o transe. Ele espreitava as ocasi\u00f5es, aproveitava as circunst\u00e2ncias, tinha a habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversa\u00e7\u00e3o, onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge aplaudia-o com as for\u00e7as todas de que podia dispor o seu interesse. A baronesa opunha \u00e0s sugest\u00f5es do advogado a resist\u00eancia mole e atada de quem deseja aquilo mesmo que recusa.<\/p>\n<p>&#8211; O doutor \u00e9 terr\u00edvel, dizia ela. Em se lhe metendo uma coisa na cabe\u00e7a, ningu\u00e9m mais o tira da\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Justamente, \u00e9 uma id\u00e9ia fixa. Sem id\u00e9ia fixa n\u00e3o se faz nada bom neste mundo.<\/p>\n<p>Guiomar sustentava a resolu\u00e7\u00e3o da madrinha, posto n\u00e3o o fizesse ami\u00fado, nem no mesmo tom seco e imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coerente; ao mesmo tempo n\u00e3o queria parecer aos olhos de Lu\u00eds Alves que lhe aceitava o concurso para obter o que ali\u00e1s desejava de todo o cora\u00e7\u00e3o; seria lav\u00e1-lo da primeira culpa.<\/p>\n<p>O argumento que mais influ\u00eda no \u00e2nimo de todos, o que devera ter afastado a id\u00e9ia de semelhante viagem, era o perigo de afrontar o c\u00f3lera-morbus que por aquele tempo percorria alguns pontos do interior. Um dia de manh\u00e3 soube-se que em Cantagalo havia aparecido o terr\u00edvel inimigo. Desta vez Lu\u00eds Alves triunfou sem dizer palavra; a baronesa recuou diante daquele fato brutal.<\/p>\n<p>A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que receava muito da mocidade casadeira da corte, e dos belos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum teatro ou baile, ou quando menos na Rua do Ouvidor, e n\u00e3o via que o inimigo novo podia ser que estivesse literalmente ao p\u00e9 da porta. A sagacidade da inglesa desta vez foi um tanto m\u00edope. A raz\u00e3o \u00e9 que Lu\u00eds Alves, em todos aqueles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a mo\u00e7a, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00f5es que at\u00e9 ali mantinha. Guiomar, entretanto, n\u00e3o podia deixar de comparar aquela esp\u00e9cie de atenciosa indiferen\u00e7a que havia dele para ela, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e o resultado da compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe parecia muito claro.<\/p>\n<p>Na noite do mesmo dia em que ficou assentado diferir a viagem para melhores tempos, achavam-se em casa da baronesa algumas pessoas de fora; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de \u00f3pera da moda.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada, disse ela a Lu\u00eds Alves que se aproximara para dirigir-lhe um cumprimento. Est\u00e1 alegre! Parece que \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o de me haver malogrado o maior desejo que eu tinha nesta ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fui eu, disse ele, foi a epidemia.<\/p>\n<p>&#8211; Sua aliada, parece.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo \u00e9 aliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta frase um tanto enf\u00e1tica o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Guiomar curvou a cabe\u00e7a e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas, enquanto Lu\u00eds Alves, tirando de cima do piano outra m\u00fasica, dizia-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Podia dar-nos este peda\u00e7o de Bellini, se quisesse.<\/p>\n<p>Guiomar pegou maquinalmente na m\u00fasica e abriu-a na estante.<\/p>\n<p>&#8211; Era ent\u00e3o vontade sua? perguntou ela continuando o assunto interrompido do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>&#8211; Vontade certamente, porque era necessidade.<\/p>\n<p>&#8211; Necessidade &#8211; tornou ela come\u00e7ando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade por qu\u00ea?<\/p>\n<p>-Por uma raz\u00e3o muito simples, porque a amo.<\/p>\n<p>A m\u00fasica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da mo\u00e7a, nem a surpresa das outras pessoas perturbou o advogado; Lu\u00eds Alves inclinou-se para o mocho, como a consert\u00e1-lo, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Pode sentar-se agora; est\u00e1 seguro.<\/p>\n<p>Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o cora\u00e7\u00e3o como nunca lhe batera em nenhuma outra ocasi\u00e3o da vida, nem de susto, nem de c\u00f3lera, nem&#8230; de amor, ia eu a dizer, sem que ela o houvesse sentido jamais. N\u00e3o se demorou muito tempo ali; com a m\u00e3o tr\u00eamula folheou a m\u00fasica que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.<\/p>\n<p>Nestes derradeiros movimentos ningu\u00e9m reparou; e se algu\u00e9m pudesse reparar em alguma coisa, a mo\u00e7a tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impress\u00e3o fora profunda, mas Guiomar tinha for\u00e7a bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, p\u00f4de entregar-se a si mesma, isso ningu\u00e9m soube, a n\u00e3o serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janelas, como a espreitar aquela alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe refletiu o rosto desfeito e os olhos quebrados. Se foi a medita\u00e7\u00e3o noturna que os amoleceu e apagou, n\u00e3o o perguntou ele, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu consigo que se eram assim mais belos, pediam outro rosto em que ca\u00edssem melhor. O de Guiomar queria-os como eles eram, severos, firmes e brilhantes.<\/p>\n<p>A baronesa tamb\u00e9m n\u00e3o deixou de ver que a afilhada n\u00e3o acordara com o mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distra\u00edda.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 engano de meus olhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 outra coisa; estou como sempre, como ontem, como amanh\u00e3. Passei a noite um pouco mal, \u00e9 verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova&#8230;<\/p>\n<p>Guiomar parou neste ponto, chegou-se \u00e0 madrinha e deu-lhe um beijo.<\/p>\n<p>&#8211; A prova, continuou ela, \u00e9 que ainda hoje me acha bonita, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Crian\u00e7a! respondeu a baronesa, dando-lhe uma pancadinha na face.<\/p>\n<p>A tranq\u00fcilidade da mo\u00e7a era simulada; apenas a madrinha voltou as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo v\u00e9u. Ela aprendera desde crian\u00e7a a disfar\u00e7ar as suas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto a Lu\u00eds Alves, posto houvesse contado com o seu m\u00e9todo cru e abrupto, saiu dali sem plena certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que ele supunha; e foi, sem d\u00favida, a primeira ocasi\u00e3o em que sentiu que a amava deveras, ainda que o seu amor fosse como ele mesmo: pl\u00e1cido e senhor de si. No dia seguinte, Est\u00eav\u00e3o interrogou-o a respeito de Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Creio, disse ele depois de refletir alguns instantes &#8211; creio que por ora n\u00e3o deves perder as esperan\u00e7as todas.<\/p>\n<h3>XV<\/h3>\n<p>Embargos de terceiro<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dias deixou Lu\u00eds Alves de ir \u00e0 casa da baronesa, estando ali\u00e1s a morrer por isso. Entrava por\u00e9m no plano esta aus\u00eancia; era das instru\u00e7\u00f5es que ele mesmo dera ao seu cora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o observ\u00e1-las.<\/p>\n<p>No quarto dia recebeu um bilhete da baronesa que o cumprimentava pela elei\u00e7\u00e3o. A mala do Norte chegara, e com ela a not\u00edcia da vit\u00f3ria eleitoral. Estava Lu\u00eds Alves deputado; ia enfim dar a sua dem\u00e3o no fabrico das leis. Est\u00eav\u00e3o foi o primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros devia aplaudir aquela boa fortuna. N\u00e3o lhe escondeu, entretanto, a inveja que ela lhe metia:<\/p>\n<p>&#8211; Deputado! suspirou ele. Oh! eu tamb\u00e9m podia ser deputado.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o dizia isto, como a crian\u00e7a deseja o dixe que v\u00ea no colo de outra crian\u00e7a &#8211; nada mais. Eram os seus sonhos de outrora, que renasciam tais quais eram, inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves apressou-se a ir agradecer \u00e0 baronesa a felicita\u00e7\u00e3o. Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranq\u00fcila e risonha, quase indiferente. O advogado era h\u00e1bil; n\u00e3o a perseguiu com os olhos; sobre acordar a aten\u00e7\u00e3o das demais pessoas, era seguir o m\u00e9todo comum. Ele n\u00e3o queria parecer-se com os outros.<\/p>\n<p>Guiomar, entretanto, observava-o a espa\u00e7os, de rev\u00e9s, como a querer surpreend\u00ea-lo; a pouco e pouco, por\u00e9m, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Lu\u00eds Alves era natural e igual como antes era, como era ainda agora com todos.<\/p>\n<p>Ao sair, junto \u00e0 porta de uma sala, onde acaso a topou, Lu\u00eds Alves teve ocasi\u00e3o de lhe dizer esta simples palavra:<\/p>\n<p>&#8211; Perdoou-me?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a retirou a m\u00e3o, que ele tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe ca\u00edam as p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoou-me? repetiu ele.<\/p>\n<p>Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Lu\u00eds Alves esperou que ela desaparecesse e saiu. A mo\u00e7a, entretanto, ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquilo.<\/p>\n<p>Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava o c\u00e9u, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-ia enfim pela encosta abaixo, at\u00e9 aparecer o sol &#8211; o sol contempor\u00e2neo de Ad\u00e3o, e do \u00faltimo homem que h\u00e1 de vir.<\/p>\n<p>Dali a dias, entrando Lu\u00eds Alves em casa da baronesa, teve a boa fortuna de encontrar a mo\u00e7a sozinha, na sala do trabalho, donde a baronesa se ausentara cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fora. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da noite.<\/p>\n<p>Guiomar, molemente sentada numa cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os joelhos e os olhos no ar. Lu\u00eds Alves surpreendeu-a nessa atitude meditativa, mais bela do que nunca, porque assim, e \u00e0quela hora, e com o vestido meio escuro que lhe real\u00e7ava a cor de leite da face, tinha um qu\u00ea de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia buscado de prop\u00f3sito para receb\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Minha madrinha j\u00e1 vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a m\u00e3o, que ele apertou e sentiu um pouco tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez daqui a cinco minutos, disse ele; \u00e9 bastante para decidir o meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe pe\u00e7o que me responda; custa pouco uma \u00fanica palavra; custa menos ainda, um \u00fanico gesto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manh\u00e3, por\u00e9m, era j\u00e1 alta no cora\u00e7\u00e3o de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, porque ela n\u00e3o olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exig\u00edvel naquela ocasi\u00e3o. Dois minutos depois fez o gesto, um gesto s\u00f3, mas ainda mais eloq\u00fcente do que se ela falasse &#8211; estendeu-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves apertou-lha entre as suas.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o era natural em ambos; ali estiveram alguns instantes calados, ele com os olhos fitos nela, ela com os seus no ch\u00e3o. As m\u00e3os tocavam-se e os cora\u00e7\u00f5es palpitavam un\u00edssonos. Decorreram assim cinco breves minutos. Ela foi a primeira que rompeu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Um gesto, um s\u00f3 gesto, e \u00e9 o meu destino que lhe entrego com ele, disse Guiomar olhando em cheio para o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor, pelo menos, ter\u00e1 a virtude de a tornar feliz. Mas nada est\u00e1 feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confiss\u00e3o, n\u00e3o o desejo ser na consagra\u00e7\u00e3o que lhe pe\u00e7o.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves calara-se; a mo\u00e7a olhava para ele como buscando entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, continuou ele; melhor \u00e9 que n\u00e3o ceda a um instante de entusiasmo. Minha vida \u00e9 sua; todo o meu destino est\u00e1 nas suas m\u00e3os&#8230; Contudo, n\u00e3o quero surpreender-lhe o cora\u00e7\u00e3o neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-ei e segui-la-ei.<\/p>\n<p>A resposta da mo\u00e7a foi apertar-lhe as m\u00e3os, sorrir, e embeber os seus olhos nos dele. O passo da baronesa interrompeu esta contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar amava deveras. Mas at\u00e9 que ponto era involunt\u00e1rio aquele sentimento? Era-o at\u00e9 o ponto de lhe n\u00e3o desbotar \u00e0 nossa hero\u00edna a castidade do cora\u00e7\u00e3o, de lhe n\u00e3o diminuirmos a for\u00e7a de suas faculdades afetivas. At\u00e9 a\u00ed s\u00f3; da\u00ed por diante entrava a fria elei\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Eu n\u00e3o a quero dar como uma alma que a paix\u00e3o desatina e cega, nem faz\u00ea-la morrer de um amor silencioso e t\u00edmido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o havia esperar que as fosse colher em s\u00edtios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janela r\u00fastica. Ela queria-as belas e vi\u00e7osas, mas em vaso de S\u00e8vres, posto sobre m\u00f3vel raro, entre duas janelas urbanas, flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de caxemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Podia dar-lhe Lu\u00eds Alves este g\u00eanero de amor? Podia; ela sentiu que podia. As duas ambi\u00e7\u00f5es tinham-se adivinhado, desde que a intimidade as reuniu.<\/p>\n<p>O proceder de Lu\u00eds Alves, s\u00f3brio, direto, resoluto, sem desfalecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber \u00e0 mo\u00e7a que ele nascera para vencer, e que a sua ambi\u00e7\u00e3o tinha verdadeiramente asas, ao mesmo tempo que as tinha ou parecia t\u00ea-las o cora\u00e7\u00e3o. Demais, o primeiro passo do homem p\u00fablico estava dado; ele ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes \u00e0 gl\u00f3ria. Em torno dele ia fazer-se aquela luz, que era a ambi\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, a atmosfera que ela almejava respirar. Est\u00eav\u00e3o dera-lhe a vida sentimental, &#8211; Jorge a vida vegetativa; em Lu\u00eds Alves via ela combinadas as afei\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas com o ru\u00eddo exterior.<\/p>\n<p>Uma vez entendidos, \u00e9 dif\u00edcil que dois cora\u00e7\u00f5es se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. A inglesa percebeu dentro de pouco tempo que entre eles havia alguma coisa. Interrogar a mo\u00e7a era in\u00fatil, sobre perigoso; seria ir, de cora\u00e7\u00e3o leve, em busca de \u00f3dio, talvez. Todavia se ainda fosse poss\u00edvel salvar tudo? Guiomar resistiria dificilmente a um desejo da madrinha; era poss\u00edvel venc\u00ea-la por esse lado.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald concebeu ent\u00e3o um projeto insensato, que lhe pareceu ali\u00e1s excelente e de bom aviso. O desejo de servir a baronesa e levar uma id\u00e9ia ao fim tapou-lhe os olhos da raz\u00e3o. Ela foi diretamente a Jorge.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe o que me est\u00e1 parecendo? disse ela. Parece-me que h\u00e1 mouro na costa.<\/p>\n<p>&#8211; Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal express\u00e3o de desgosto, que era f\u00e1cil compreender o fundo de suspeita j\u00e1 existente em seu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&#8211; Nada menos, disse a inglesa; mas um mouro que se pode capturar.<\/p>\n<p>E a inglesa exp\u00f4s um plano completo que o sobrinho da baronesa ouviu um<\/p>\n<p>tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a mo\u00e7a \u00e0 baronesa, em presen\u00e7a dela pr\u00f3pria. A baronesa, que nutria o desejo de os ver casados, n\u00e3o deixaria de fazer pesar o seu voto na balan\u00e7a, e era muito dif\u00edcil que a gratid\u00e3o de Guiomar n\u00e3o decidisse em favor de Jorge.<\/p>\n<p>&#8211; A gratid\u00e3o&#8230; e o interesse, continuou ela. Devemos contar tamb\u00e9m com o interesse, que \u00e9 um grande conselheiro \u00edntimo. Ela n\u00e3o h\u00e1 de querer sacrificar a afei\u00e7\u00e3o da madrinha, que para ela vale&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! que triste lembran\u00e7a! interrompeu Jorge, recuando diante da id\u00e9ia de Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>A inglesa sorriu &#8211; e deixou por m\u00e3o aquele argumento; firmou-se por\u00e9m no da afei\u00e7\u00e3o. Guiomar n\u00e3o se oporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge n\u00e3o se atrevia a surpreender por esse meio a aquiesc\u00eancia da mo\u00e7a; mas acreditava na efic\u00e1cia dele, e sobretudo receava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do tempo e do seu amor.<\/p>\n<p>O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presen\u00e7a da baronesa \u00e0 hora da despedida &#8211; porque ele hesitara a maior parte do tempo &#8211; praticou Jorge aquele ato insensato de declarar \u00e0 mo\u00e7a que a amava e de lhe pedir a m\u00e3o. A tia sorriu de contentamento, mas teve a prud\u00eancia de n\u00e3o proferir nada enquanto Guiomar, empalidecendo, nada dizia, porque nada achava que dizer.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio durou cerca de tr\u00eas ou quatro minutos, um sil\u00eancio acanhado e vexado, em que nenhum deles se atrevia a reatar a conversa\u00e7\u00e3o. A baronesa, pela sua parte, imaginava que os dois estavam enfim entendidos, e que a declara\u00e7\u00e3o era autorizada pela mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O enleio de Guiomar n\u00e3o era dos que pudessem dar cabimento a esta suposi\u00e7\u00e3o; mas a boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.<\/p>\n<p>&#8211; Pela minha parte, declarou enfim a baronesa, n\u00e3o me oponho; estimaria muito que acabassem por a\u00ed. Mas \u00e9 neg\u00f3cio do cora\u00e7\u00e3o; devo esperar a resposta de Guiomar.<\/p>\n<p>E voltando-se para a afilhada:<\/p>\n<p>&#8211; Pensa e resolve, minha filha, disse ela; e se fores feliz, s\u00ea-lo-ei ainda mais do que tu.<\/p>\n<p>Duas vezes pairou a negativa nos l\u00e1bios da mo\u00e7a; mas a l\u00edngua n\u00e3o se atrevia a repetir a palavra do cora\u00e7\u00e3o. No fim de alguns instantes:<\/p>\n<p>&#8211; Refletirei, respondeu ela beijando a m\u00e3o \u00e0 madrinha; e continuou voltando-se para Jorge: &#8211; Boa noite! At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<h3>XVI<\/h3>\n<p>A confiss\u00e3o<\/p>\n<p>Na mesma noite em que Jorge, cedendo \u00e0s sugest\u00f5es de Mrs. Oswald, tentava o \u00faltimo recurso que no entender da inglesa havia, achava-se Lu\u00eds Alves em casa, comodamente sentado numa poltrona de couro, defronte da janela com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas candidaturas vencidas. Meia-noite estava a pingar; uma pessoa descia de um t\u00edlburi e batia-lhe \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Era Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves naturalmente admirou-se de o ver ali \u00e0quela hora; mas Est\u00eav\u00e3o explicou-lhe tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Venho passar meia hora contigo, ou a noite toda se quiseres. Estava em casa aborrecido, a pensar&#8230; bem sabes em qu\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nela? interrompeu Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>&#8211; Agora e sempre.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves torceu o bigode e olhou tr\u00eas ou quatro vezes para o colega, enquanto este tirava o chap\u00e9u e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao p\u00e9 do outro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00eav\u00e3o, disse Lu\u00eds Alves depois de alguns instantes de reflex\u00e3o, e voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolver\u00e1s depois se ficas a noite ou se te vais embora imediatamente. Talvez escolhas este \u00faltimo alvitre.<\/p>\n<p>&#8211; Vais falar-me de Guiomar?<\/p>\n<p>&#8211; Justamente.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o sentou-se defronte de Lu\u00eds Alves. Seu cora\u00e7\u00e3o batia apressado; dissera-se que toda a sua vida pendia dos l\u00e1bios do amigo. Houve um instante de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma&#8230; nenhuma esperan\u00e7a ent\u00e3o? murmurou Est\u00eav\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Disseste a fatal palavra! exclamou Lu\u00eds Alves. Sim, n\u00e3o tens nenhuma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; como sabes?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me interrogues; eu n\u00e3o poderia dizer-te tudo o que h\u00e1. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d&#8217;\u00e1gua. Quis falar, mas as palavras iam-lhe saindo envoltas em solu\u00e7os.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves fumava tranq\u00fcilamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este sil\u00eancio durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um c\u00e3o ao longe eram os \u00fanicos sons que vinham quebrar a mudez daquela hora solene para um desses dois homens que ia perder at\u00e9 o repouso da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o foi o primeiro que falou:<\/p>\n<p>&#8211; Ama a outro, n\u00e3o \u00e9? perguntou ele com a voz tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; Ama, respondeu surdamente Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta do bigode, parando \u00e0s vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no cora\u00e7\u00e3o. A dor devia ser grande, mas a manifesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era a mesma que o leitor lhe viu, dois anos antes, quando ele foi confiar ao amigo o primeiro desengano de Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse ele, enfim, parando em frente de Lu\u00eds Alves. Este desejo que me acometeu de vir aqui, a esta hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um benef\u00edcio do meu destino. Devia esper\u00e1-lo. Que vida tem sido a minha, Lu\u00eds! Agarrei-me, nem sei por qu\u00ea, \u00e0 esperan\u00e7a de ser amado por ela, de a vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse &#8211; o motivo importava pouco&#8230; O essencial \u00e9 que ela me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as l\u00e1grimas todas que tenho devorado em sil\u00eancio&#8230; E era s\u00f3 essa esperan\u00e7a que ainda me dava for\u00e7as&#8230; que me fazia crer feliz, como pode s\u00ea-lo um desgra\u00e7ado, como podia s\u00ea-lo eu, que nasci debaixo de ruim estrela&#8230; Oh! se tu souberas&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o sabes, nem ela tamb\u00e9m, ningu\u00e9m sabe nem saber\u00e1 nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto&#8230;<\/p>\n<p>Interrompeu-se. Duas l\u00e1grimas, espremidas do fundo do cora\u00e7\u00e3o, saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe r\u00e1pidas a perder-se entre os cabelos raros e finos da barba. Ele sentiu que outras podiam vir, e foi sentar-se num sof\u00e1, meio voltado de costas para Lu\u00eds Alves. As outras vieram, porque o cora\u00e7\u00e3o ainda as tinha para as dores supremas; mas correram-lhe silenciosas, sem um solu\u00e7o, sem uma queixa \u00fanica.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves levantara-se e chegara \u00e0 janela. Seu esp\u00edrito, apesar de frio e quieto, parecia agora um pouco alvoro\u00e7ado. N\u00e3o era dor; e n\u00e3o sei se lhe podia chamar remorso. Mal-estar apenas, e comisera\u00e7\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o era capaz de afei\u00e7\u00f5es; mas, como ficou dito no primeiro cap\u00edtulo, ele sabia reg\u00ea-las, moder\u00e1-las e gui\u00e1-las ao seu pr\u00f3prio interesse. N\u00e3o era corrupto nem perverso; tamb\u00e9m n\u00e3o se pode dizer que fosse dedicado nem cavalheiresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o levantara-se outra vez e pegara no chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Vem c\u00e1, disse Lu\u00eds Alves entrando e indo ter com ele; vejo que est\u00e1s mais homem do que antes. Resta que o sejas completamente; varre da mem\u00f3ria e do cora\u00e7\u00e3o tudo o que possa referir-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que rem\u00e9dio! interrompeu Est\u00eav\u00e3o sorrindo amargamente; que rem\u00e9dio tenho eu sen\u00e3o esquec\u00ea-la! Mas quando?<\/p>\n<p>&#8211; Mais breve talvez do que sup\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves n\u00e3o acabou; Est\u00eav\u00e3o olhara para ele com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.<\/p>\n<p>&#8211; Mais breve do que suponho! exclamou ele. Tu n\u00e3o tens cora\u00e7\u00e3o: n\u00e3o tens sequer observa\u00e7\u00e3o nem mem\u00f3ria. N\u00e3o v\u00eas, n\u00e3o sentes que esta paix\u00e3o \u00e9 o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquec\u00ea-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha m\u00e1 sina at\u00e9 essa esperan\u00e7a me arranca, porque este padecer \u00edntimo, constante, h\u00e1 de ir comigo at\u00e9 \u00e0 morte&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez era Lu\u00eds Alves que passeava de um lado para outro. Em seu esp\u00edrito despontava uma id\u00e9ia, que ele examinava, a ver se a poria ali mesmo em execu\u00e7\u00e3o. Era dizer-lhe tudo. Est\u00eav\u00e3o viria a sab\u00ea-lo mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por ele. Ao mesmo tempo refletia na exalta\u00e7\u00e3o dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe agravaria, em sabendo que era ele o preferido de Guiomar. O cora\u00e7\u00e3o, que perdoaria a um estranho, condenaria ao amigo.<\/p>\n<p>Est\u00eav\u00e3o, assentado, com os olhos no teto, parecia entregue \u00e0s suas reflex\u00f5es, mas s\u00f3 parecia, porque ele n\u00e3o pensava, evocava antigas mem\u00f3rias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o imp\u00e9rio dos belos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra doce e aveludada entornar-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o, N\u00e3o evocava s\u00f3, criava tamb\u00e9m, pintava coma imagina\u00e7\u00e3o a felicidade que lhe poderia dar a mo\u00e7a, se entre todos os homens o escolhera, se eles dois vinculassem os seus destinos. Ele via-a ao p\u00e9 de si, cingia-lhe o bra\u00e7o em volta da cintura, enchia-lhe de beijos os cabelos, tudo isto em meio de uma paisagem \u00fanica na terra, porque a abund\u00e2ncia da natureza cresceria ao contato daquele sentimento puro, casto e eterno. N\u00e3o falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imagina\u00e7\u00f5es do namorado; fixo nesta folha de papel os v\u00f4os que ele abria por esse espa\u00e7o fora, \u00fanica ventura que lhe era permitida.<\/p>\n<p>No meio dessas vis\u00f5es foi acord\u00e1-lo Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o de sentir, disse este; mas n\u00e3o gastes o cora\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 maiores surpresas na vida&#8230; Em todo caso, deixa-me dizer-te que nenhuma raz\u00e3o tens de censura&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Censuro eu algu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 no amor um g\u00e9rmen de \u00f3dio que pode vir a desenvolver-se depois. Talvez chegues a acus\u00e1-la de te n\u00e3o querer; nesse dia reflete que os movimentos do cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o nas m\u00e3os da vontade. Ela n\u00e3o tem culpa se outro lhe despertou o amor.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Incumbiu-te da defesa!<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves sorriu; ele contava com a recrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o me incumbiu da defesa, disse ele; sou eu que a tomo por minhas m\u00e3os. Que defendo eu aqui sen\u00e3o a natureza, a raz\u00e3o, a l\u00f3gica dos sentimentos, dura e inflex\u00edvel como toda a outra l\u00f3gica? H\u00e1 no fundo das tuas palavras um sentimento de ego\u00edsmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O amor n\u00e3o \u00e9 outra coisa, respondeu Est\u00eav\u00e3o sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe agrade\u00e7a este desespero? Queres que v\u00e1 apertar a m\u00e3o ao homem que a soube vencer?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves mordeu a ponta do l\u00e1bio e acercou-se da janela. Quando ia a voltar para dentro ouviu um rumor na janela ao p\u00e9, a primeira da casa da baronesa. Lu\u00eds Alves deu um passo mais. N\u00e3o viu ningu\u00e9m; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objeto que lhe ca\u00eda aos p\u00e9s. Inclinou-se a apanh\u00e1-lo. Era uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quatro. Lu\u00eds Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que ali vinha escrito. Leu, meteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfar\u00e7adamente para a janela. Ningu\u00e9m; a casa da baronesa dormia.<\/p>\n<p>Quando voltou para dentro, Est\u00eav\u00e3o tinha-se levantado. Ele vira cair o papel, apanh\u00e1-lo e l\u00ea-lo Lu\u00eds Alves. N\u00e3o entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves foi direito ao fim.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00eav\u00e3o, disse ele, vais saber a verdade toda; n\u00e3o poderia ocultar-te o que se h\u00e1 passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno dela, e ela digna de ti; mas a natureza n\u00e3o os fez um para o outro. S\u00e3o duas almas excelentes que seriam infelizes unidas. Quem h\u00e1 aqui que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento dela, igualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperan\u00e7as de teu cora\u00e7\u00e3o; era conhecer toda a minha amizade e a profunda estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu cont\u00e1vamos comigo; porque tamb\u00e9m eu tenho cora\u00e7\u00e3o, e os prest\u00edgios da beleza tamb\u00e9m falam \u00e0 minha alma. N\u00e3o a pude ver a frio. A paix\u00e3o obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma coisa infeliz, porque h\u00e1 l\u00e1grimas tuas, h\u00e1 o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A confiss\u00e3o \u00e9 franca; n\u00e3o te falo em arrependimento, porque s\u00e3o atos do cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o da consci\u00eancia, que essa \u00e9 pura e honrada. E depois desta exposi\u00e7\u00e3o fiel, cuido que lastimar\u00e1s comigo o encontro em que o acaso ou a m\u00e1 sorte nos reuniu a todos tr\u00eas; mas n\u00e3o me acusar\u00e1s nem me recusar\u00e1s a tua velha estima. Falo s\u00f3 da estima; a amizade, creio que n\u00e3o poder\u00e1 ser a mesma. Mas prezar\u00e1s o meu car\u00e1ter. Pela minha parte, nem uma nem outra coisa perece; sei o que vales. N\u00e3o sei aonde nos lan\u00e7ar\u00e1 a onda do destino amanh\u00e3. Pela \u00faltima vez, por\u00e9m, espero que apertar\u00e1s a m\u00e3o do teu amigo.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves conclu\u00edra estendendo-lhe a m\u00e3o. Est\u00eav\u00e3o olhou para ele, mas n\u00e3o disse uma s\u00f3 palavra, n\u00e3o fez um gesto \u00fanico: caminhou para aporta e saiu.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00eav\u00e3o! gritou Lu\u00eds Alves.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 lhe respondeu o rumor dos p\u00e9s que desciam, e pouco depois o do t\u00edlburi que rolava surdamente na terra \u00famida da praia.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves levantou secamente os ombros; chegou-se \u00e0 luz e releu o escrito.<\/p>\n<h3>XVII<\/h3>\n<p>A carta<\/p>\n<p>N\u00e3o era preciso reler o papel para entend\u00ea-lo; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra \u00fanica:- Pe\u00e7a-me &#8211; escrita no centro da folha, com uma letra fina, elegante, feminina. Lu\u00eds Alves olhou algum tempo para o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A letra n\u00e3o era tr\u00eamula, mas parecia ter sido lan\u00e7ada ao papel em hora de como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta observa\u00e7\u00e3o passou Lu\u00eds Alves a uma reflex\u00e3o muito natural. Aquele bilhete, pouco conveniente em quaisquer outras circunst\u00e2ncias, estava justificado pela declara\u00e7\u00e3o que ele pr\u00f3prio fizera \u00e0 mo\u00e7a alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, ele a ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em rela\u00e7\u00e3o ao bilhete, n\u00e3o o era em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hora. Que motivo obrigaria a mo\u00e7a a deitar-lhe da janela, \u00e0 meia-noite, aquele papel decisivo, eloq\u00fcente na mesma sobriedade com que o escrevera?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves concluiu que havia alguma raz\u00e3o urgente, e portanto, que era preciso acudir \u00e0 situa\u00e7\u00e3o com os meios da situa\u00e7\u00e3o. Quanto \u00e0 raz\u00e3o em si, n\u00e3o a p\u00f4de descobrir. Ocorreu-lhe o fato, ali\u00e1s patente, da corte que o sobrinho da baronesa fazia a Guiomar, mas ignorava as circunst\u00e2ncias que lhe eram relativas, e n\u00e3o p\u00f4de passar al\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o direi que Lu\u00eds Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das conjecturas vagas. N\u00e3o era homem que perdesse tempo em coisas in\u00fateis; e nada mais in\u00fatil naquela ocasi\u00e3o do que tentar explicar o que nenhuma explica\u00e7\u00e3o podia ter para ele. O que resolveu foi obedecer ao recado da mo\u00e7a; pedi-la sem hesita\u00e7\u00e3o nem pre\u00e2mbulo. Mas se o caso lhe n\u00e3o produziu ins\u00f4nia, n\u00e3o deixou de lhe estender a vig\u00edlia, al\u00e9m da hora usual, como era de jeito naquela ocasi\u00e3o solene, sobretudo, tratando-se de criatura que por aqueles tempos era a inveja e a cobi\u00e7a de muitos olhos. Lu\u00eds Alves n\u00e3o era como Est\u00eav\u00e3o, um ador\u00e1vel cismador, n\u00e3o se nutria de imagina\u00e7\u00f5es e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas cismou algum tempo, embebeu-se uma hora na contempla\u00e7\u00e3o ideal da mulher que ele soubera escolher. O sono chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.<\/p>\n<p>Guiomar dormiria t\u00e3o repousadamente como ele? Dormia; a noite, por\u00e9m, fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da declara\u00e7\u00e3o de Jorge e das insinua\u00e7\u00f5es da madrinha.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a recolhera-se ao quarto, logo depois da declara\u00e7\u00e3o. As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a palidez repentina e o rubor que se lhe seguiu; mas, logo que ela se achou s\u00f3, deu toda a expans\u00e3o aos sentimentos que at\u00e9 ali pudera conter.<\/p>\n<p>O primeiro deles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquela declara\u00e7\u00e3o, assim feita, de emboscada e sobressalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o cora\u00e7\u00e3o e a \u00edndole repeliam. Nenhuma consulta, nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via; parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem elei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta suposi\u00e7\u00e3o; mas, a not\u00edcia que ela tinha da resolu\u00e7\u00e3o da baronesa, neste neg\u00f3cio, diminu\u00eda muito o valor de tais palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrang\u00ea-la com apar\u00eancias de modera\u00e7\u00e3o, e o tempo que lhe deixavam para refletir era-o realmente para considerar, sozinha consigo, na necessidade de pagar os benef\u00edcios que recebera.<\/p>\n<p>N\u00e3o a acusem de ter feito estas reflex\u00f5es, logo que entrou no quarto, com os olhos cintilantes e os l\u00e1bios frios de c\u00f3lera. Eram naturais; primeiramente porque supunha que o seu casamento com Jorge estava deliberado e se realizaria, quaisquer que fossem as circunst\u00e2ncias; depois, porque a alma dela era melindrosa; n\u00e3o esquecia os benef\u00edcios recebidos, mas quisera que lhos n\u00e3o lembrassem por meio de uma viol\u00eancia: faz\u00ea-lo, era o mesmo que lan\u00e7ar-lhos em rosto<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;N\u00e3o!&#8221; murmurara enfim a mo\u00e7a, for\u00e7ar-me, reduzir-me \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simples serva, nunca.<\/p>\n<p>Mas esta c\u00f3lera apaziguou-se, e o cora\u00e7\u00e3o venceu o cora\u00e7\u00e3o. Guiomar recordou a constante ternura da baronesa para com ela, a solicitude com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram ali ordens, e n\u00e3o combinava tamanho amor com a suposta viol\u00eancia que lhe queria fazer. N\u00e3o tardou em arrepender-se das palavras incoerentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus que atribu\u00edra ao cora\u00e7\u00e3o da baronesa. Cruzou as m\u00e3os no peito e ergueu o pensamento ao c\u00e9u, corno a pedir-lhe perd\u00e3o. Guiomar, em meio das sedu\u00e7\u00f5es da vida, que tantas eram para ela e de todo lhe levavam os olhos, n\u00e3o perdera o sentimento religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a f\u00e9 ing\u00eanua e pura de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>A c\u00f3lera acabara, mas veio depois a luta entre a gratid\u00e3o e o amor- entre o noivo que lhe propunha a afei\u00e7\u00e3o da madrinha e o que o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o escolhera. Ela nem ousava tirar as esperan\u00e7as \u00e0 baronesa, nem imolar as suas pr\u00f3prias &#8211; e uma de duas coisas era preciso que fizesse naquela solene ocasi\u00e3o. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se tal duelo podia travar-se-lhe na alma, n\u00e3o era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e a ambi\u00e7\u00e3o, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas h\u00e3o de sempre vencer, porque elas s\u00e3o as armas do forte, e a vit\u00f3ria \u00e9 dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dois homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta, por\u00e9m, n\u00e3o podia a mo\u00e7a demor\u00e1-la nem esquiv\u00e1-la, n\u00e3o convinha, talvez, prolongar a luta e a d\u00favida. Quando isto pensou, veio-lhe ao esp\u00edrito uma id\u00e9ia decisiva, a de confessar tudo \u00e0 madrinha. Hesitou, por\u00e9m, entre faz\u00ea-lo ela pr\u00f3pria ou por boca de Lu\u00eds Alves, cujas palavras, apontadas acima, trazia escritas na mem\u00f3ria. Preferia este meio; mas n\u00e3o lhe bastava preferi-lo, era mister realiz\u00e1-lo, e para isso s\u00f3 dois modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia n\u00e3o ser t\u00e3o pronto, e talvez falhasse ocasi\u00e3o apropriada; adotou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um f\u00e2mulo, mas o esp\u00edrito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repeliu semelhante interven\u00e7\u00e3o. A janela estava aberta; dali viu luz na sala de Lu\u00eds Alves e a sombra do mo\u00e7o, que passeava de um lado para outro. Ocorreu-lhe ent\u00e3o a id\u00e9ia que p\u00f4s por obra, conforme ficou dito no cap\u00edtulo anterior.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a hist\u00f3ria daquela palavra escrita rapidamente numa folha de papel. Apesar da declara\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Alves e das circunst\u00e2ncias em que a mo\u00e7a se achou, o leitor facilmente compreender\u00e1 que ela n\u00e3o a escreveu sem pelejar consigo mesma, sem vacilar muito entre a repugn\u00e2ncia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escr\u00fapulos, que \u00e9 tanta vez o seu destino deles, e for\u00e7a \u00e9 dizer que n\u00e3o os vencem nunca de gra\u00e7a, porque eles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas \u00e9 vulgar passarem-lhes por cima. A mo\u00e7a, entretanto, apenas lan\u00e7ara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consci\u00eancia quase a acusava de uma a\u00e7\u00e3o vil. Era tarde, a carta chegara a seu destino.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, a baronesa acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma coisa que s\u00f3 lhe pareceu enleio natural da situa\u00e7\u00e3o. Guiomar erguera-se tarde; a manh\u00e3 estava chuvosa e a madrinha n\u00e3o deu o seu passeio. A mo\u00e7a foi beijar-lhe a m\u00e3o e a face, como costumava, e receber dela o \u00f3sculo materno. O rosto parecia cansado mas um v\u00e9u de afetada alegria disfar\u00e7ava-lhe a express\u00e3o natural, \u00e0 semelhan\u00e7a das posturas de toucador, de maneira que a baronesa, pouco ledora de fisionomias, n\u00e3o discerniu naquela a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que \u00e9 honesta e reta, porque a inten\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a n\u00e3o era mais do que n\u00e3o amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer afli\u00e7\u00e3o antecipada.<\/p>\n<p>&#8211; Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as m\u00e3os nos ombros.<\/p>\n<p>&#8211; A sua rainha de Inglaterra n\u00e3o tem coroa, respondeu Guiomar com um sorriso contrafeito.<\/p>\n<p>Pela volta do meio-dia, recebeu a baronesa uma carta de Lu\u00eds Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a m\u00e3o de Guiomar. Poucas linhas, corteses, s\u00edmplices, naturais, feitas por quem parecia senhor da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mrs. Oswald, disse a baronesa \u00e0 sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.<\/p>\n<p>A inglesa obedeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Isto n\u00e3o quer dizer nada, observou ela depois de alguns instantes. \u00c9 um pretendente mais; devemos crer, por\u00e9m, que s\u00e3o muitos, e que se os outros n\u00e3o lhe escrevem cartas destas, \u00e9 porque s\u00e3o menos afoitos. A senhora baronesa pensa que os olhos de sua afilhada s\u00e3o inocentes? continuou a inglesa sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de crimes, e que h\u00e1 mortos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o v\u00ea, Mrs. Oswald, interrompeu a baronesa, que esse homem parece estar autorizado?<\/p>\n<p>Mrs. Oswald calou-se como quem refletia. Logo depois exp\u00f4s uma s\u00e9rie de argumentos e considera\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o graves em subst\u00e2ncia, pelo menos nas roupas com que ela os vestia, umas roupas seriamente brit\u00e2nicas, como as n\u00e3o talharia melhor a melhor tesoura da C\u00e2mara dos Comuns, Toda ela dava ares de um argumento vivo e sem r\u00e9plica. Havia em seus cabelos, entre louro e branco, toda a rigidez de um silogismo; cada narina parecia uma ponta de um dilema. A conclus\u00e3o de tudo \u00e9 que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era coisa n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, mas at\u00e9 prov\u00e1vel, uma vez que a baronesa mostrasse &#8211; era o essencial &#8211; certa resolu\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo muito \u00fatil e at\u00e9 indispens\u00e1vel naquela ocasi\u00e3o. Mrs. Oswald oferecia-se parair chamar a mo\u00e7a imediatamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois v\u00e1, v\u00e1, disse a baronesa.<\/p>\n<p>A inglesa saiu dali e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe comp\u00f4s um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.<\/p>\n<p>&#8211; Venho busc\u00e1-la, disse Mrs. Oswald, para uma coisa que a senhora est\u00e1 longe de imaginar.<\/p>\n<p>Guiomar interrogou-a com os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Para casar!<\/p>\n<p>&#8211; Casar! exclamou Guiomar sem compreender a inten\u00e7\u00e3o da mensageira.<\/p>\n<p>&#8211; Nada menos, respondeu esta. Admira-se, n\u00e3o? Tamb\u00e9m eu; e sua madrinha igualmente. Mas h\u00e1 quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus belos olhos, e a afronta de a vir pedir, como se se pedissem as estrelas do c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Guiomar compreendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a inglesa, e disse em tom seco e breve:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, conclua, Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora baronesa manda cham\u00e1-la.<\/p>\n<p>Guiomar disp\u00f4s-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald f\u00ea-la parar um instante, e com a mais mel\u00edflua voz que possu\u00eda na escala da garganta, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Toda a felicidade desta casa est\u00e1 em suas m\u00e3os.<\/p>\n<h3>XVIII<\/h3>\n<p>A escola<\/p>\n<p>Mrs. Oswald tinha falado demais. A baronesa n\u00e3o a incumbira de dizer \u00e0 afilhada a raz\u00e3o por que a mandava chamar. Aconteceu, por\u00e9m, que aquela indiscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi a \u00fanica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baronesa fosse tratado o assunto que as ia reunir, cedeu \u00e0 curiosidade, e acompanhou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>A baronesa estava sentada, entre duas janelas, com a carta aberta nas m\u00e3os, t\u00e3o atenta em rel\u00ea-la, que n\u00e3o ouviu o rumor dos p\u00e9s de Guiomar e de Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>&#8211; Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente dela.<\/p>\n<p>A baronesa ergueu a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9 verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.<\/p>\n<p>Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais pr\u00f3xima e sentou-se ao p\u00e9 da baronesa. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no ch\u00e3o, como a procurar por onde come\u00e7aria. Quando os levantou deu com a inglesa. Ia j\u00e1 a falar, mas estacou. A afei\u00e7\u00e3o que lhe tinha n\u00e3o impediu que achasse demasiada familiaridade a presen\u00e7a de Mrs. Oswald em semelhante ocasi\u00e3o. Esperou alguns instantes; mas como a inglesa parecesse inteiramente distra\u00edda:<\/p>\n<p>&#8211; Mrs. Oswald, disse a baronesa, v\u00e1 ver se j\u00e1 deram de comer aos passarinhos.<\/p>\n<p>A inglesa percebeu que estes passarinhos, naquele caso, eram uma pura met\u00e1fora, e que a baronesa nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fosse embora. Todavia, n\u00e3o se deu por achada.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que n\u00e3o, disse ela; vou j\u00e1 saber disso.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, disse a baronesa quando ela j\u00e1 ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e d\u00ea ordem para que ningu\u00e9m nos interrompa.<\/p>\n<p>A inglesa obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ningu\u00e9m lha p\u00f4de ver, e n\u00e3o se perdeu nada.<\/p>\n<p>As duas ficaram s\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Senta-te aqui, Guiomar, disse a baronesa indicando um banquinho que lhe ficava aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os bra\u00e7os nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabe\u00e7a com as m\u00e3os, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloq\u00fcente naquela mudez, em que a palavra pertencia ao cora\u00e7\u00e3o. Ambas estavam comovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este \u00fanico e doce nome:<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e!<\/p>\n<p>Era a primeira vez que ela lhe dava este nome, e t\u00e3o fundo lhe calou na alma \u00e0 baronesa que a resposta foi cobri-la de beijos.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, tua m\u00e3e, disse a madrinha; a que te deu o ser n\u00e3o te amaria mais do<\/p>\n<p>que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o c\u00e9u me levou, e se todas as m\u00e3es que perdem filhos pudessem substitu\u00ed-los do mesmo modo, desaparecia do mundo a maior e mais cruel dor que h\u00e1 nele&#8230;<\/p>\n<p>A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as m\u00e3os e beijar-lhas. Seguiu-se uma pausa, em que a como\u00e7\u00e3o a pouco e pouco desapareceu, e a baronesa olhou para a carta de Lu\u00eds Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.<\/p>\n<p>&#8211; Guiomar, disse ela enfim, j\u00e1 refletiste no pedido de ontem \u00e0 noite?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Lu\u00eds Alves; a pergunta da baronesa desnorteou-a um pouco. Sua intelig\u00eancia, por\u00e9m, era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Uma noite ser\u00e1 bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ela sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que \u00e9 um excelente car\u00e1ter?<\/p>\n<p>&#8211; Excelente, respondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Uma boa alma, continuou a baronesa, e um mo\u00e7o distinto. Parece gostar muito de ti, segundo disse ontem, n\u00e3o? \u00c9 natural; s\u00f3 me admira que n\u00e3o te amem muitos mais.<\/p>\n<p>A baronesa parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Deves saber, continuou a baronesa, &#8211; que eu estimaria ver que este casamento se efetuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a ele tamb\u00e9m, pelo menos tanto quanto \u00e9 poss\u00edvel julgar das coisas presentes&#8230; Que diz o teu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E como Guiomar n\u00e3o respondesse logo:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! esquecia-me do que me disseste h\u00e1 pouco. Uma noite n\u00e3o \u00e9 bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-\u00e1s mais duas coisas. A primeira \u00e9 que&#8230; L\u00ea tu mesma esta carta.<\/p>\n<p>A baronesa deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Lu\u00eds Alves fazia de sua m\u00e3o. Enquanto ela percorria com os olhos as poucas linhas escritas, a madrinha parecia observ\u00e1-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impress\u00e3o que o pedido lhe fazia, se espanto, se satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve espanto nem satisfa\u00e7\u00e3o aparente; Guiomar leu a carta e entregou-a \u00e0 madrinha.<\/p>\n<p>&#8211; Leste? \u00c9 a primeira coisa que eu queria dizer-te. O Dr. Lu\u00eds Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre ele e Jorge. A segunda coisa \u00e9 que dos dois pretendentes Jorge \u00e9 o que meu cora\u00e7\u00e3o prefere; mas n\u00e3o sou eu que me caso, \u00e9s tu; escolhe com plena liberdade aquele que te falar ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com tais sinais de espanto no rosto, que esta n\u00e3o p\u00f4de deixar de lhe perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Que tens?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a n\u00e3o respondeu; quero dizer n\u00e3o lhe respondeu com os l\u00e1bios; travou-lhe da m\u00e3o e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ela como a refletir. A express\u00e3o de seu rosto passara do espanto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o e desta a uma coisa que parecia a um tempo indigna\u00e7\u00e3o e asco.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! madrinha! exclamou Guiomar, por que se n\u00e3o entenderam logo os nossos cora\u00e7\u00f5es? N\u00e3o havia mister p\u00f4r de permeio um esp\u00edrito importuno e desconsolador. Se eu adivinhara essas palavras que acabou de dizer, n\u00e3o teria padecido metade do que me fazem padecer h\u00e1 longos dias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Padecer?<\/p>\n<p>&#8211; Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu cora\u00e7\u00e3o que falou e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a afligir.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisava dizer mais nada; a escolha que ela ia fazer estava j\u00e1 indicada pelo menos. Entendeu-o a baronesa, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza s\u00fabita; arrependeu-se de ter ido t\u00e3o longe.<\/p>\n<p>&#8211; Percebo, respondeu a baronesa, queres dizer que dos dois pretendentes escolhes o Dr. Lu\u00eds Alves?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a conservou-se calada; a madrinha olhava para ela com uma express\u00e3o de ansiedade que a afligiu.<\/p>\n<p>&#8211; Fala, repetiu a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; Escolho&#8230; o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.<\/p>\n<p>A baronesa estremeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Falas s\u00e9rio? N\u00e3o creio; n\u00e3o e esse o sentimento do teu cora\u00e7\u00e3o. V\u00ea-se que n\u00e3o \u00e9. Queres iludir-me e a ti tamb\u00e9m. Percebo que o n\u00e3o amas; n\u00e3o o amaste nunca. Mas amas ao outro, n\u00e3o \u00e9? Que tem isso? N\u00e3o me d\u00e1 o prazer que eu teria se&#8230; Que importa, se fores feliz? A tua felicidade est\u00e1 acima das minhas prefer\u00eancias. Era um sonho meu; desejava-o com todas as for\u00e7as; faria o que pudesse para alcan\u00e7\u00e1-lo; mas n\u00e3o se violenta o cora\u00e7\u00e3o &#8211; um cora\u00e7\u00e3o, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois casar\u00e1s com ele.<\/p>\n<p>V\u00ea o leitor que a palavra esperada, a palavra que a mo\u00e7a sentia vir-lhe do cora\u00e7\u00e3o aos l\u00e1bios e querer romp\u00ea-los, n\u00e3o foi ela quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu atento o que precede ver\u00e1 que era isso mesmo o que ela desejava. Mas por que o nome de Jorge lhe ro\u00e7ou os l\u00e1bios? A mo\u00e7a n\u00e3o queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu cora\u00e7\u00e3o, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradu\u00e7\u00e3o com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de t\u00e1tica, de afeta\u00e7\u00e3o, estou quase a dizer de hipocrisia, se n\u00e3o tomassem \u00e0 m\u00e1 parte o voc\u00e1bulo. Havia, mas isto mesmo lhes dir\u00e1 que esta Guiomar, sem perder as excel\u00eancias de seu cora\u00e7\u00e3o, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dir\u00e1 tamb\u00e9m que, apesar de seus verdes anos, ela compreendia j\u00e1 que as apar\u00eancias de um sacrif\u00edcio valem mais, muita vez, do que o pr\u00f3prio sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>A baronesa acabara de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira impress\u00e3o, e se a escolha era contr\u00e1ria ao que ela desejava, a satisfa\u00e7\u00e3o da afilhada pagou-lhe tudo quanto ela ia perder. Era assim aquela alma de m\u00e3e; boa, dedicada e generosa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! madrinha! obrigada! exclamou a mo\u00e7a. N\u00e3o me fica odiando?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamou a baronesa com um tom de repreens\u00e3o.<\/p>\n<p>E puxou-a para si, e abra\u00e7ou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as duas confundiram as suas alegrias \u00edntimas e afei\u00e7\u00f5es sinceras.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald viu-as da\u00ed a pouco, risonhas e entendidas. Era f\u00e1cil concluir qual dos dois pretendentes vencera; Guiomar n\u00e3o receberia de t\u00e3o boa cara o sobrinho da baronesa. Tudo estava acabado; e talvez que a sua pr\u00f3pria pessoa padecera naquele lance \u00faltimo. A baronesa pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos aludira, mas a mo\u00e7a preferiu n\u00e3o dizer nada, n\u00e3o s\u00f3 por n\u00e3o afligir a madrinha, como por n\u00e3o dar um aspecto de rivalidade \u00e0 situa\u00e7\u00e3o entre ela e Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>A escolha estava feita, o consentimento dado. A baronesa respondeu nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Est\u00eav\u00e3o teria manifestado ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causara; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquela imensa fortuna. Lu\u00eds Alves encerrou o prazer, ali\u00e1s grande, dentro de si; pensou na mo\u00e7a e no futuro alguns instantes, mas n\u00e3o falou deles a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A baronesa escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, comunicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores n\u00e3o ter\u00e3o dificuldade de admitir que o cora\u00e7\u00e3o de Jorge n\u00e3o sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma coisa. N\u00e3o foi nessa noite \u00e0 casa da tia; n\u00e3o foi tamb\u00e9m na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo est\u00e1 acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.<\/p>\n<p>&#8211; Acabado! suspirou Jorge.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, \u00e9 preciso \u00e2nimo; espero que ser\u00e1s homem.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.<\/p>\n<p>E dois suspiros, arrancados do peito de um homem t\u00e3o grave, deviam ser por for\u00e7a dois suspiros grav\u00edssimos, como facilmente acredita o leitor.<\/p>\n<p>Efetivamente a fisionomia do mo\u00e7o n\u00e3o tinha abatimento nem afli\u00e7\u00e3o; n\u00e3o a amarrotava o menor vest\u00edgio de noite maldormida, menos ainda de l\u00e1grimas enxutas. Alegre n\u00e3o era, mas grave e austera, como ele a trazia sempre, a contrastar com o retesado do bigode.<\/p>\n<p>A baronesa imaginou contudo que a dor do sobrinho devia t\u00ea-lo mortificado muito; apertou-lhe as m\u00e3os com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A mo\u00e7a estava serena, talvez risonha e at\u00e9 compassiva. Se tivesse de casar com ele odiara-o decerto; agora j\u00e1 lhe perdoava o amor. Jorge pela sua parte n\u00e3o deixou de ficar um tanto abalado, em parte como\u00e7\u00e3o, em parte constrangimento, sendo por\u00e9m o constrangimento maior do que a como\u00e7\u00e3o. Nos l\u00e1bios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do povo ou a sua imagina\u00e7\u00e3o pinturesca descobriu a cor amarela. Se outro fosse o aspecto, \u00e9 prov\u00e1vel que ela lhe conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquele sorriso perdeu-o de todo no \u00e2nimo de Guiomar.<\/p>\n<p>Na primeira ocasi\u00e3o que se lhe ofereceu, expandiu-se Jorge com Mrs.Oswald.<\/p>\n<p>&#8211; Perdeu-se tudo&#8230; murmurou ele.<\/p>\n<p>A inglesa n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Jorge continuou ainda a falar, e a inglesa a ouvir, mas a ouvir s\u00f3, e a querer diverti-lo daquele assunto.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo se perdeu, disse enfim o sobrinho da baronesa, talvez por culpa sua.<\/p>\n<p>&#8211; Minha? perguntou Mrs. Oswald.<\/p>\n<p>&#8211; Sua.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>Jorge hesitou um instante.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mostrou calor suficiente, disse ele enfim.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer? disse Mrs. Oswald. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode dominar, nem h\u00e1 meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar \u00e9 uma santa criatura, ama deveras ao seu rival; h\u00e1 nada mais justo do que cas\u00e1-los?<\/p>\n<p>&#8211; De maneira que.<\/p>\n<p>&#8211; De maneira que tudo era l\u00edcito fazer na suposi\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o amava a outro, mas uma vez que ama&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi \u00e0 casa da baronesa, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem ressentimentos, como anunciara Mrs. Oswald. Todo o castelo de cartas ca\u00edra por terra, desde que a sinceridade da baronesa interveio.<\/p>\n<h3>XIX<\/h3>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Marcado o casamento para dois meses depois, todo o tempo de intervalo foi despendido pelos noivos naquele deleitoso viver, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o col\u00f3quio furtivo do simples namoro, nem \u00e9 ainda a intimidade conjugal, mas um estado interm\u00e9dio e consentido, em que os cora\u00e7\u00f5es podem entornar-se livremente um no outro. Aqueles n\u00e3o tinham nada do amor ext\u00e1tico e romanesco de Est\u00eav\u00e3o, mas amavam sinceramente, ela ainda mais do que ele, e t\u00e3o feliz um como outro.<\/p>\n<p>A gente que os conhecia comentou de todos os modos e feitios aquele caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o c\u00e9u tratara a Lu\u00eds Alves. A gentileza e a eleg\u00e2ncia da mo\u00e7a n\u00e3o encontravam obje\u00e7\u00e3o no esp\u00edrito de ningu\u00e9m; todos as confessavam e aplaudiam, porque at\u00e9 o sil\u00eancio mortificado de algumas belezas rivais, se porventura as havia- era tamb\u00e9m aplauso e do melhor. Quanto ao car\u00e1ter de Guiomar, divergiam muito as aprecia\u00e7\u00f5es; e um dia, em que Lu\u00eds Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de que era objeto a noiva, ela pareceu refletir longo tempo, e enfim respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o admira que haja tanta opini\u00e3o diferente; \u00e9 natural, porque nunca vulgarizei o meu esp\u00edrito. Entretanto, a opini\u00e3o dos outros importa-me pouco; eu quisera saber a sua.<\/p>\n<p>&#8211; A minha \u00e9 que \u00e9 um anjo.<\/p>\n<p>Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem n\u00e3o esperava aquele cumprimento velho e comum, ali\u00e1s eternamente novo &#8211; porque n\u00e3o h\u00e1 outro mais pronto e mais belo nas nossas l\u00ednguas crist\u00e3s. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma coisa &#8211; aquilo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu num dos cap\u00edtulos anteriores.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o sabe o que sou, &#8211; continuou Guiomar, &#8211; eu mesma o direi, para que se n\u00e3o case comigo assim de emboscada, e n\u00e3o lhe aconte\u00e7a unir-se a um dem\u00f4nio, supondo que \u00e9 um anjo.<\/p>\n<p>&#8211; Um dem\u00f4nio! exclamou Lu\u00eds Alves rindo.<\/p>\n<p>&#8211; Nem mais nem menos, retrucou ela rindo tamb\u00e9m. Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obede\u00e7am; sou tamb\u00e9m um pouco altiva, \u00e0s vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um cora\u00e7\u00e3o exigente. Veja se \u00e9 poss\u00edvel encontrar tanto defeito junto.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Alves respondeu que eram tudo qualidades excelentes, e esteve quase a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu aludir a ela depois do casamento.<\/p>\n<p>O casamento efetuou-se, no dia marcado, com as solenidades do estilo. A manh\u00e3 daquele dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe p\u00f4s aos ombros, como para resguard\u00e1-la do rigor benigno da temperatura, manto que ela sacudiu dali a nada, a fim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manh\u00e3 fluminense. N\u00e3o tardou que o sol batesse de chapa nas \u00e1guas tranq\u00fcilas e azuis, e nessas colinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habita\u00e7\u00f5es humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o \u00faltimo respirar da noite j\u00e1 remota, e que s\u00f3 a trechos agitava as folhas do arvoredo.<\/p>\n<p>A ch\u00e1cara naquele dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expans\u00e3o divina que animava as coisas em redor dela. Toda alma feliz \u00e9 pante\u00edsta; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da \u00e1gua que serpeia murmurando, e at\u00e9 de envolta com o cip\u00f3 humilde e r\u00fastico, ou no seixo bronco e desprezado do ch\u00e3o. Era assim a alma de Guiomar naquela manh\u00e3. Nunca as \u00e1rvores, as flores, a grama rasteira lhe pareceram mais vicejantes; o sentimento interno hauria aquela vida exterior, do mesmo modo que o pulm\u00e3o bebia o puro ar matinal.<\/p>\n<p>De envolta com essas sensa\u00e7\u00f5es comuns a toda a alma, havia ainda as que eram dela &#8211; dela, que via ali o seu \u00faltimo sol de mo\u00e7a solteira e contemplava por antecipa\u00e7\u00e3o a aurora nova, o dia longo e feliz de suas f\u00e9rvidas ambi\u00e7\u00f5es. Neste ponto despia a sua fantasia as asas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquela vegeta\u00e7\u00e3o, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que s\u00edtios de grandeza humana.<\/p>\n<p>O acaso quis que naquela manh\u00e3 vestisse o mesmo roup\u00e3o com que Est\u00eav\u00e3o a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no colo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos bot\u00f5es de safira. N\u00e3o tinha o livro; mas, em falta desta circunst\u00e2ncia, havia outra, que era a mesma daquela c\u00e9lebre manh\u00e3, havia uns olhos que do outro lado da cerca a espreitavam namorados. N\u00e3o eram, por\u00e9m, os mesmos; eram os do noivo, com quem ela foi encontrar os seus; &#8211; e o mais doloroso de tudo \u00e9 que nem a cerca, nem os demais acess\u00f3rios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ela. A felicidade \u00e9 isto mesmo; raro lhe sobra mem\u00f3ria para as dores alheias.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos alegre do que ela parecia a baronesa naquele dia. De longe em longe surgia-lhe na mem\u00f3ria a id\u00e9ia do sobrinho, mas j\u00e1 n\u00e3o havia tristeza de n\u00e3o ter efetuado o casamento, como desejara; t\u00e3o leve foi o golpe em Jorge e t\u00e3o indiferente andava ele, que a boa senhora compreendeu que o amor, se existira, n\u00e3o era grande, e sobretudo n\u00e3o perdurou; a id\u00e9ia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, f\u00ea-la dar gra\u00e7as a Deus do nenhum \u00eaxito de seus planos.<\/p>\n<p>Mrs. Oswald igualmente se mostrava feliz &#8211; talvez ainda mais, porque era-o aparatosamente, como se quisesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a inten\u00e7\u00e3o latente das manifesta\u00e7\u00f5es ruidosas com que ela andava a felicit\u00e1-la; mas o dia n\u00e3o era de rancores nem de ressentimentos, e ela recebia sorrindo as cortesanices da inglesa.<\/p>\n<p>O casamento fez-se, enfim. As l\u00e1grimas que a baronesa derramou, quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais belas j\u00f3ias que lhe podia dar. Nenhuma m\u00e3e as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, atra\u00eddos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma l\u00e1jea que acaso topara ali. Quem est\u00e1 afeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o come\u00e7o, sup\u00f5e logo que esse homem podia ser Est\u00eav\u00e3o. Era ele. Talvez o leitor, em lance id\u00eantico, fosse refugiar-se em s\u00edtio t\u00e3o remoto, que mal pudesse acompanh\u00e1-lo a lembran\u00e7a do passado. A alma de Est\u00eav\u00e3o sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma coisa a que chamaremos &#8211; voluptuosidade da dor, em falta de melhor denomina\u00e7\u00e3o. E foi para ali, contemplar com os indiferentes e ociosos aquela casa onde reinava o gozo e a vida, e naquela hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. N\u00e3o o retinha a const\u00e2ncia do est\u00f3ico; pela face emagrecida e p\u00e1lida lhe corriam as l\u00e1grimas derradeiras, e o cora\u00e7\u00e3o, colhendo as for\u00e7as que lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.<\/p>\n<p>Defronte dele refulgia de todas as suas luzes a mans\u00e3o afortunada; detr\u00e1s batia a onda lenta e melanc\u00f3lica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposi\u00e7\u00e3o do lugar servia ao plano que ele concebera, e era nada menos do que matar-se ali mesmo, quando j\u00e1 n\u00e3o pudesse sofrer a dor, esp\u00e9cie de vingan\u00e7a \u00faltima que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.<\/p>\n<p>Mas este plano n\u00e3o podia realizar-se, pela raz\u00e3o de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxid\u00e3o do \u00e2nimo negou-lhe essa \u00faltima ambi\u00e7\u00e3o. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ela. Esteve ali, pois, at\u00e9 o fim; e em vez de mergulhar na \u00e1gua e no nada, como delineara, regressou tristemente para casa, tr\u00f4pego como um \u00e9brio, deixando ali a sua mocidade toda, porque a que levava era uma coisa descolorida e seca, est\u00e9ril e morta. Os anos passaram depois, e \u00e0 medida que vinham, ia-se Est\u00eav\u00e3o afundando no mar vasto e escuro da multid\u00e3o an\u00f4nima. O nome, que n\u00e3o passara da lembran\u00e7a dos amigos, a\u00ed mesmo morreu, quando a fortuna o distanciou deles. Se ele ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma vila do interior, ignora-se.<\/p>\n<p>O destino n\u00e3o devia mentir nem mentiu \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Alves. Guiomar acertara; era aquele o homem forte. Um m\u00eas depois de casados, como eles estivessem a conversar do que conversam os rec\u00e9m-casados, que \u00e9 de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasi\u00e3o lhe conhecera todo o poder da sua vontade.<\/p>\n<p>&#8211; Vi que voc\u00ea era homem resoluto, disse a mo\u00e7a a Lu\u00eds Alves, que, assentado, a escutava.<\/p>\n<p>&#8211; Resoluto e ambicioso, ampliou Lu\u00eds Alves sorrindo; voc\u00ea deve ter percebido que<\/p>\n<p>sou uma e outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; A ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 defeito.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contrario, \u00e9 virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faz\u00ea-la vingar. N\u00e3o<\/p>\n<p>me fio s\u00f3 na mocidade e na for\u00e7a moral; fio-me tamb\u00e9m em voc\u00ea, que h\u00e1 de ser para mim uma for\u00e7a nova.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! sim! exclamou Guiomar.<\/p>\n<p>E com um modo gracioso continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que me d\u00e1 voc\u00ea em paga? um lugar na c\u00e2mara? uma pasta de ministro?<\/p>\n<p>&#8211; O lustre do meu nome, respondeu ele.<\/p>\n<p>Guiomar, que estava de p\u00e9 defronte dele, com as m\u00e3os presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambi\u00e7\u00f5es trocaram o \u00f3sculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela m\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"busca-rodape\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis I O fim da carta &#8211; Mas que pretendes fazer agora? &#8211; Morrer. &#8211; Morrer? Que id\u00e9ia! Deixa-te disso, Est\u00eav\u00e3o. N\u00e3o se morre por t\u00e3o pouco&#8230; &#8211; Morre-se. 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