{"id":120209,"date":"2017-04-20T12:21:09","date_gmt":"2017-04-20T14:21:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=120209"},"modified":"2017-04-20T12:21:09","modified_gmt":"2017-04-20T14:21:09","slug":"sonho-de-uma-noite-de-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sonho-de-uma-noite-de-verao","title":{"rendered":"Sonho de uma noite de ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>William Shakespeare<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p class=\"esquerda\" align=\"justify\"><b>TESEU<\/b>, Duque de Atenas.<br \/>\n<b>EGEU<\/b>, pai de H\u00e9rmia.<br \/>\n<b>LISANDRO<\/b>, a\u00adpai\u00adxo\u00adna\u00addo de H\u00e9r\u00admia.<br \/>\n<b>DEM\u00c9TRIO<\/b>, apaixonado de H\u00e9rmia.<br \/>\n<b>FIL\u00d3STRATO<\/b>, diretor de festas na corte de Teseu.<br \/>\n<b>QUINCE<\/b>, carpinteiro.<br \/>\n<b>SNUG<\/b>, marceneiro.<br \/>\n<b>BOTTOM<\/b>, tecel\u00e3o.<br \/>\n<b>FLAUTA<\/b>, remenda-foles.<br \/>\n<b>SNOUT<\/b>, caldeireiro.<br \/>\n<b>STARVELING<\/b>, alfaiate.<br \/>\n<b>HIP\u00d3LITA<\/b>, rainha das amazonas, noi\u00adva de Teseu.<br \/>\n<b>H\u00c9RMIA<\/b>, filha de Egeu, apaixonada de Lisandro.<br \/>\n<b>HELENA<\/b>, apaixonada de Dem\u00e9trio.<br \/>\n<b>OBERON<\/b>, rei dos elfos.<br \/>\n<b>TIT\u00c2NIA<\/b>, rainha dos elfos.<br \/>\n<b>PUCK<\/b>, ou o Bom Robim.<br \/>\n<b>FLOR-DE-ERVILHA<\/b>, elfo.<br \/>\n<b>TEIA-DE-ARANHA<\/b>, elfo.<br \/>\n<b>TRA\u00c7A<\/b>, elfo.<br \/>\n<b>SEMENTE-DE-MOSTARDA<\/b>, elfo.<br \/>\nOutros elfos do s\u00e9q\u00fcito de Oberon e Tit\u00e2nia.<br \/>\nS\u00e9q\u00fcito de Teseu e Hip\u00f3lita.<\/p>\n<p><a name=\"snh21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO I<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Atenas. O pa\u00adl\u00e1\u00adcio de Teseu. Entram Teseu, Hip\u00f3lita, Fil\u00f3strato e pessoas do s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Depressa, bela Hip\u00f3lita, aproxima-se a hora de nossas n\u00fapcias. Quatro dias felizes nos trar\u00e3o uma outra lua. Mas, para mim, como esta lua velha se extingue len\u00adta\u00admen\u00adte! Ela retarda meus anelos, tal como o faz madrasta ou vi\u00fava que ret\u00e9m os bens do herdeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Mergulhar\u00e3o depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, far\u00e3o escoar o tempo como em sonhos. E ent\u00e3o a lua que, como arco arg\u00eanteo. no c\u00e9u ora se encurva, ver\u00e1 a noite solene do espos\u00f3rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Vai, Fil\u00f3strato, concita os atenienses para a festa, desperta o alegre e buli\u00e7oso esp\u00edrito da alegria, despacha para os ritos f\u00fanebres a tristeza, que essa p\u00e1lida h\u00f3spede n\u00e3o vai bem em nossas pompas. (<i>Sai Fil\u00f3strato.<\/i>) De espada em m\u00e3o te fiz a corte, Hip\u00f3lita; o cora\u00e7\u00e3o te conquistei \u00e0 custa de viol\u00eancia; mas quero desposar-te com m\u00fasica de tom mais auspicioso, com pompas, com triunfos, com festejos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Egeu, H\u00e9rmia, Lisandro e Dem\u00e9trio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Salve, Teseu, nosso famoso duque!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Bom Egeu, obrigado. Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Cheio de dor, venho fazer-te queixa de minha pr\u00f3pria filha, H\u00e9rmia querida. Vem para c\u00e1, Dem\u00e9trio. Nobre lorde, tem este homem o meu con\u00adsen\u00adti\u00admen\u00adto para casar com ela. Agora avan\u00e7a. Lisandro. E este, meu pr\u00edncipe gracioso, o peito de H\u00e9rmia traz enfeiti\u00e7ado. Sim, Lisandro, tu mesmo, com tuas rimas! Prendas de amor com ela tu trocaste; sob a sua janela, \u00e0 luz da lua, cantaste-lhe can\u00e7\u00f5es com voz fingida, versos de amor fingido, e cativaste as impress\u00f5es de sua fantasia com cachos de cabelo, an\u00e9is, brinquedos, ramalhetes, docinhos, ni\u00adnha\u00adrias, men\u00adsa\u00adgei\u00adros de e\u00adfei\u00adto de\u00adci\u00adsi\u00advo nas jovens ainda brandas. Com ast\u00facia, \u00e0 minha filha o cora\u00e7\u00e3o furtaste, mudaste-lhe a filial obedi\u00eancia em dura teimosia. Por tudo isso, meu mui gra\u00adcio\u00adso du\u00adque, se ela, agora. diante de Vossa Gra\u00e7a, com Dem\u00e9trio n\u00e3o quiser se casar, eu me reporto \u00e0 antiga lei de Atenas que confere aos pais direito de dispor dos filhos. \u00c9 minha filha, posso dispor dela. Ou a entregarei para este cavalheiro, ou para a morte, o que, sem mais delongas, segundo nossa lei, deve ser feito.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 H\u00e9rmia, que respondeis? Sede prudente, bela menina. Como a um deus dev\u00edeis ver sempre vosso pai, um deus que vossa formosura plasmou, pois sois apenas a cera a que ele conferiu a forma, res\u00adtan\u00addo-lhe o poder de con\u00adser\u00adv\u00e1-la, ou de esfazer a imagem. \u00c9 Dem\u00e9trio cavalheiro mui digno.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 E assim Lisandro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Sim, em si mesmo; mas uma vez que ele com vosso pai n\u00e3o conta, dever\u00edeis o outro considerar como o mais digno.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Ah, se meu pai o visse com meus olhos!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Com o ju\u00edzo dele \u00e9 que razo\u00e1vel fora que vossos olhos vissem.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Vossa Gra\u00e7a me perdoe, mas n\u00e3o sei que for\u00e7a oculta me d\u00e1 tanta ousadia, nem compreendo como a minha mod\u00e9stia me consente defender minha causa em tal presen\u00e7a. Suplico a Vossa Gra\u00e7a declarar-me o que de pior me tocar\u00e1 por sorte, se eu me negar a desposar Dem\u00e9trio.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Ou morrer morte crua, ou, para sempre, sair da sociedade. Por tudo isso, formosa H\u00e9rmia, falai com vossas pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es, pensai na mocidade, examinai a fundo vosso sangue e vede se \u00e9 poss\u00edvel suportardes um h\u00e1bito de freira, para o caso de recusardes a paterna escolha, ficar encarcerada para sempre num convento sombrio, como est\u00e9ril irm\u00e3 passar a vida, hinos dolentes cantar \u00e0 lua infrutuosa e fria. Aben\u00ad\u00e7oa\u00addos tr\u00eas vezes os que podem, dessa maneira, dominar o sangue e a peregrina\u00e7\u00e3o fazer virg\u00ednea. Mas muito mais feliz na terra \u00e9 a rosa que destilar se deixa do que quantas no espinho virgem crescem, vivem, morrem em sua solit\u00e1ria beatitude.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Assim crescer prefiro, meu bom lorde. viver e perecer, a ver os sacros privil\u00e9gios de minha mocidade em poder de um senhor, cujo aborrido jugo minha alma do \u00edntimo repele.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Refleti mais um pouco. Na outra lua quando tiver de ser selado o liame sempiterno entre mim e a minha amada \u2014 nesse dia tereis de decidir-vos ou a morrer por desacato franco \u00e0 vontade paterna, ou a ser esposa de Dem\u00e9trio, ou a fazer no altar de Diana ju\u00adra\u00admen\u00adto de eterna austeridade num viver virginal e solit\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 H\u00e9rmia, concorda; e tu, Lisandro, deixa da pretens\u00e3o de opor teus fracos t\u00edtulos ao meu direito certo e indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Do pai de H\u00e9rmia, Dem\u00e9trio, o afeto tendes; casai com ele, ent\u00e3o; seja ela minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Lisandro zombador, \u00e9 bem verdade que o meu amor \u00e9 dele, e pois vai dar-lhe tudo quanto possuo: H\u00e9rmia pertence-me; todo o direito que sobre ela tenho a Dem\u00e9trio o transfiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Eu sou, milorde. de fam\u00edlia t\u00e3o nobre quanto a dele; de patrim\u00f4nio igual somos herdeiros; maior \u00e9 o meu amor. Quanto aos favores da fortuna, mimoso sou como ele, se n\u00e3o mais. Fi\u00adnal\u00admen\u00adte, o que suplanta todas essas vangl\u00f3rias: sou amado da irresist\u00edvel H\u00e9rmia. Por que causa n\u00e3o me bater em prol do meu direito? Dem\u00e9trio \u2014 ao rosto lan\u00e7o-lhe isto \u2014 a filha de Nedar namorou e a alma ganhou-lhe, e ela, coitada, pia\u00admen\u00adte o adora, adora at\u00e9 quase \u00e0 loucura a este homem vol\u00favel e culpado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Sim, j\u00e1 ouvira falar por alto nisso e pretendia conversar com Dem\u00e9trio a esse respeito; mas por excesso de neg\u00f3cios pr\u00f3prios n\u00e3o me lembrou faz\u00ea-lo. Mas, Dem\u00e9trio, vinde comigo; e v\u00f3s, tamb\u00e9m, Egeu. Tenho de vos dizer duas palavras muito em particular. No que respeita vossa pessoa, irresist\u00edvel H\u00e9rmia, fazei esfor\u00e7o para que os caprichos deixeis de acordo com o querer paterno; se n\u00e3o, ser\u00e1 for\u00e7oso vos dobrardes \u00e0s leis de Atenas que, de nenhum modo, podemos atenuar: ou morte crua, ou o ju\u00adra\u00admen\u00adto de viver solteira. Minha Hi\u00adp\u00f3\u00adli\u00adta, vamos. Que se passa contigo. meu amor? Vinde conosco, Dem\u00e9trio e Egeu; necessidade tenho de ambos v\u00f3s, n\u00e3o so\u00admen\u00adte para a festa, como tamb\u00e9m para tratar convosco de algo que aos dois de perto diz respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Alegres e obedientes vos seguimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Teseu, Hip\u00f3lita, Egeu, Dem\u00e9trio e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Ent\u00e3o, minha que\u00adri\u00adda, por que as faces t\u00e3o p\u00e1\u00adli\u00addas assim? Qual o mo\u00adti\u00advo de mur\u00adcha\u00adrem t\u00e3o r\u00e1pido essas rosas?<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Talvez por falta da \u00e1gua que lhes viesse da tempestade dos meus pr\u00f3\u00adpri\u00ados olhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e his\u00adt\u00f3\u00adri\u00adas es\u00adcu\u00adta\u00addo, em tempo algum teve um tranq\u00fcilo curso o verdadeiro amor. Ou era grande do sangue a diferen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Oh sofrimento! Nascer no alto e aceitar o ca\u00adti\u00advei\u00adro!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 &#8230; ou mui disparatadas as idades&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Oh dor! Unir-se a mocidade s c\u00e3s!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 &#8230; ou tudo os pais, sozinhos, decidiam&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 N\u00e3o h\u00e1 maior inferno: estranhos olhos para escolher o amor!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 &#8230; ou, quando havia simpatia na escolha, a guerra, as doen\u00e7as, e a morte, conjuradas, o assaltavam, qual simples som dei\u00adxan\u00addo-o, transit\u00f3rio, t\u00e3o curto corno um sonho, movedi\u00e7o como uma sombra inst\u00e1vel, t\u00e3o ligeiro como raio de noite tempestuosa que, de s\u00fabito, rasga o c\u00e9u e a terra, mas que antes de podermos dizer \u201cVede!\u201d pelas fauces das trevas \u00e9 tragado. Tudo o que brilha, assim, em ru\u00edna acaba.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Se sempre contrariados foram todos os amantes sinceros, \u00e9 que o pr\u00f3prio destino o determina desse modo. Que nos ensine, pois, a ser pacientes a nossa prova\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 desdita fatal dos namorados, como os sonhos, pen\u00adsa\u00admen\u00adtos, suspiros, dores, l\u00e1grimas, do pobre amor s\u00e3o companheiros certos.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Isso consola. Por\u00e9m, H\u00e9rmia, escuta-me: a sete l\u00e9guas, s\u00f3, de Atenas mora minha tia, uma vi\u00fava muito rica que, por filhos n\u00e3o ter, me considera seu herdeiro exclusivo. Em casa dela, minha H\u00e9rmia encantadora, poderemos casar-nos, por ficarmos, ent\u00e3o, fora das rigorosas leis dos atenienses. Se me amas, foge da mans\u00e3o paterna na noite de amanh\u00e3. No bosquezinho a uma l\u00e9gua distante da cidade dever\u00e1s encontrar-me, jus\u00adta\u00admen\u00adte onde uma vez te vi em companhia de Helena a realizar os sacros ritos de uma manh\u00e3 de maio.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Meu bondoso Lisandro, eu juro pelo mais potente arco do deus Cupido, por sua seta melhor de penas de ouro, pelas meigas pombas de V\u00eanus, pelo que une as almas e confere ao amor virentes palmas, pelas chamas em que se abrasou Dido ap\u00f3s a\u00adban\u00addo\u00adn\u00e1-la o Teucro infido, pelas juras que a todos os instantes violado t\u00eam os homens inconstantes, mais do que numerosas, infinitas, do que as que foram por mulheres ditas: amanh\u00e3, sem faltar, no grato abrigo de que fa\u00adla\u00admos, estarei contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 N\u00e3o faltes \u00e0 palavra. Ai vem Helena.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Formosa Helena, por que tanta pressa?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Eu, formosa? Des\u00admen\u00adte-te depressa. Ama Dem\u00e9trio a tua formosura; nesses olhos encontra a luz mais pura; acha ele em tua voz mais melodia do que o pastor na doce cotovia, quando o trigo nos campos en\u00adver\u00adde\u00adce e o pil\u00adri\u00adtei\u00adro de bot\u00f5es se tece. Se, como as doen\u00e7as, fosse contagiosa tamb\u00e9m a formosura, eu, jubilosa, me fizera infectar, \u00f3 H\u00e9rmia bela! de teus encantos, sem maior cautela; com tua voz ficara nos ouvidos; teu olhar, nestes olhos combalidos; tua fala de m\u00fasica esquisita consolidar viria a minha dita. Se o mundo fosse meu, ficando fora Dem\u00e9trio, de todo ele, sem demora, me desfizera, caso conseguisse tua beleza obter, tua meiguice, porque sendo, como \u00e9s, o meu contraste, seu cora\u00e7\u00e3o bon\u00addo\u00adso con\u00adquis\u00adtas\u00adte.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Fa\u00e7o-lhe cara feia, ele me adora.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Tivesse eu risos feios desde agora!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Digo-lhe doestos, e ele amor me vota.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Quem me dera na voz t\u00e3o doce nota!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Vai de par seu ardor com o meu desd\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Com o seu desprezo o meu amor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 De tal loucura a culpa n\u00e3o \u00e9 minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00c9 de tua beleza. Fosse a minha!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Coragem! Por mais tempo ele n\u00e3o h\u00e1 de fazer juras com tal tenacidade, que eu e Lisandro, h\u00e1 um momento, apenas, re\u00adsol\u00adve\u00admos fugir, sem mais, de Atenas. Para mim era Atenas o para\u00edso, quando n\u00e3o me encantara o seu sorriso. Como \u00e9 terr\u00edvel este fogo interno para, assim, transformar o c\u00e9u no inferno!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 N\u00e3o que\u00adre\u00admos, Helena, ocultar nada: amanh\u00e3, quando Febe a luz prateada nas \u00e1guas refletir, cobrindo a relva de p\u00e9rolas e encanto dando \u00e0 selva, hora mais que prop\u00edcia para a fuga de quem, como n\u00f3s dois, o amor conjuga, eu e H\u00e9rmia combinamos da cidade deixar as portas, rumo \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Naquele bos\u00adque em que, sobre can\u00adtei\u00adros de pri\u00adma\u00adve\u00adra, ins\u00adtan\u00adtes t\u00e3o fa\u00adguei\u00adros passamos tantas vezes, a\u00adte\u00adnu\u00adan\u00addo com nossas confiss\u00f5es este ardor bran\u00addo, eu e Lisandro, que minha alma adora, nos reuniremos ao raiar da aurora. Se em Atenas n\u00e3o temos pouso amigo, alhures acharemos grato abrigo. Reza por n\u00f3s, minha querida Helena, e com Dem\u00e9trio encontres vida amena. Cumpre, Lisandro, agora o prometido por mais que te angustie o dolorido cora\u00e7\u00e3o: do a\u00adli\u00admen\u00adto dos amantes privaremos a vista alguns instantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 O voto hei de cumprir, minha H\u00e9rmia bela. (<i>Sai H\u00e9rmia.<\/i>) Formosa Helena, adeus. Como eu a ela, possa Dem\u00e9trio ser-te dedicado, trans\u00adfor\u00adman\u00addo em ventura o teu cuidado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Como \u00e9 poss\u00edvel que a felicidade possa reinar em tal de\u00adsi\u00adgual\u00adda\u00adde! Em toda Atenas sou considerada t\u00e3o formosa quanto H\u00e9rmia; mas a nada quer Dem\u00e9trio atender. Ele, so\u00admen\u00adte, ver n\u00e3o pode o que enxerga toda a gente. Erra ele ao se deixar pender do lindo semblante de H\u00e9rmia, tal como eu, caindo em igual erro, prendo o cora\u00e7\u00e3o na sua compostura sem sen\u00e3o. As coisas baixas, sem valia alguma, de crassas deixa o Amor leves qual pluma. O Amor n\u00e3o v\u00ea com os olhos, mas com a mente; por isso \u00e9 alado, e cego, e t\u00e3o potente. Nunca deu provas de apurado gosto; cego e de asas: emblema de desgosto. Eterna crian\u00e7a: eis como \u00e9 apelidado, por ser sempre na escolha malogrado. Como os meninos quebram ju\u00adra\u00admen\u00adtos, perjura o Amor a todos os mo\u00admen\u00adtos. Assim De\u00adm\u00e9\u00adtrio, quando H\u00e9rmia n\u00e3o via, me granizava juras noite e dia; mas ao calor do seu formoso riso dissolveu-se de s\u00fabito o granizo. Da formosa H\u00e9rmia vou contar-lhe a fuga. \u00c9 certeza: no bos\u00adque ele madruga, para segui-la. A mim essa not\u00edcia vai ensejar de v\u00ea-lo a hora prop\u00edcia. Se o vir na ida e na volta, de corrida, feliz me considero e enriquecida. (<i>Sai.<\/i>)<a name=\"snh22\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>O mesmo. Um quarto em casa de Quince. Entram Quince, Snug, Bottom, Flauta, Snout e Starveling.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Est\u00e1 aqui toda a nossa companhia?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Ser\u00e1 melhor chamardes um por um, de acordo com a lista.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Aqui est\u00e1 o papel com a indica\u00e7\u00e3o do nome de todos os que em Atenas foram considerados capazes de representar o nosso interl\u00fadio, diante do du\u00adque e da du\u00adque\u00adsa, na tarde do dia do seu ca\u00adsa\u00admen\u00adto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Primeiro, Peter Quince, conta-nos o enredo da pe\u00e7a; depois, l\u00ea o nome dos atores, para entrarmos logo no assunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Ora bem, a nossa pe\u00e7a se intitula: A mais lament\u00e1vel com\u00e9dia, a mais cruel morte de P\u00edramo e Tisbe.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Uma bela pe\u00e7a, \u00e9 o que vos digo, e divertida. E agora, meu bom Peter Quince, fazei a chamada dos atores, pela lista. Mestres, espalhai-vos!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Respondei \u00e0 medida que eu for cha\u00adman\u00addo. Nick Bottom, tecel\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Presente. Dizei qual seja a minha parte e prossegui.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 V\u00f3s, Nick Bottom, estais inscrito para o papel de P\u00edramo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Quem \u00e9 P\u00edramo? Amante ou tirano?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Amante, que se mata ga\u00adlan\u00adte\u00admen\u00adte por quest\u00f5es de amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Para sua execu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 for\u00e7oso derramar algumas l\u00e1grimas. Se me toca esse papel, a assist\u00eancia que tome conta dos olhos; provocarei tempestades, saberei de algum modo lamentar-me. Vamos aos outros. Contudo, ficaria melhor no papel de tirano; daria um H\u00e9rcules de m\u00e3o cheia, um rompe-e-rasga de partir um gato em dois. O pico furioso no mar estrondoso j\u00e1 vem tor\u00admen\u00adtoso romper a pris\u00e3o. O carro nitente de Fibo esplendente vencer n\u00e3o consente o fado buf\u00e3o. Gran\u00addio\u00adso! No\u00admeai agora os outros comediantes. Essa \u00e9 a ver\u00adda\u00addei\u00adra dis\u00adpo\u00adsi\u00ad\u00e7\u00e3o de Ercles, a disposi\u00e7\u00e3o de um tirano. Um apaixonado \u00e9 mais sen\u00adti\u00admen\u00adtal.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Francisco Flauta, re\u00admen\u00adda-fo\u00adles.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Presente, Peter Quince.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Tereis de ficar com Tis\u00adbe.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Quem \u00e9 Tisbe? Ca\u00adva\u00adlei\u00adro andante?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 \u00c9 a mulher que P\u00edramo deve amar.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Ora, por minha f\u00e9, n\u00e3o me deis papel de mulheres; a barba j\u00e1 me est\u00e1 a apontar.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Pouco im\u00adpor\u00adta; re\u00adpre\u00adsen\u00adta\u00adreis de m\u00e1s\u00adca\u00adra, fi\u00adcan\u00addo ao vosso arb\u00edtrio falar com voz t\u00e3o fina quanto quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Se eu puder ocultar o rosto, dai-me tamb\u00e9m o papel de Tisbe; falarei com uma vozinha monstruosa: Tisne! Tisne! Ah, P\u00edramo, meu grande amor! A tua querida Tisbe, a tua esposa idolatrada!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o! Re\u00adpre\u00adsen\u00adta\u00adreis P\u00edramo, e v\u00f3s, Flauta, Tis\u00adbe.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Est\u00e1 bem; prossegui.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Robim Starveling, al\u00adfai\u00ada\u00adte.<\/p>\n<p align=\"justify\">STARVELING \u2014 Presente, Peter Quin\u00adce.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Robim Starveling, tereis de fazer o papel da m\u00e3e de Tisbe. Tom Snout, caldeireiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNOUT \u2014 Presente, Peter Quince.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 V\u00f3s, o pai de P\u00edramo; eu, o pai de Tisbe; a Snug, marceneiro, tocar\u00e1 o papel do le\u00e3o. Penso que desse modo fica bem arranjada a com\u00e9dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNUG \u2014 J\u00e1 est\u00e1 escrita a parte do le\u00e3o? Se a tiverdes a\u00ed, dai-ma logo, por obs\u00e9quio, que eu sou um tanto lerdo para aprender as coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Tereis de represent\u00e1-la <i>ex tempore,<\/i> por consistir tudo apenas em rugir.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Dai-me, tamb\u00e9m, o papel de le\u00e3o. Hei de rugir de maneira que ficar\u00e3o comovidos os cora\u00e7\u00f5es; hei de rugir de modo tal, que o duque exclamar\u00e1: Que ruja outra vez! Que ruja outra vez!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Se o fizerdes por ma\u00adnei\u00adra muito terr\u00edvel, incutireis pavor na duquesa e nas demais senhoras, a ponto de soltarem gritos, o que seria mais que suficiente para nos enforcarem a todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS \u2014 Para nos enforcarem. As nossas m\u00e3es perderiam os filhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Concordo, amigos, que, se de susto fizerdes as senhoras perder o ju\u00edzo, s\u00f3 lhes restar\u00e1 a discri\u00e7\u00e3o de nos enforcar. Mas no meu caso agravarei de tal modo a voz, at\u00e9 rugir t\u00e3o do\u00adce\u00admen\u00adte como uma pombinha mamante; rugirei como um rouxinol.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Para v\u00f3s s\u00f3 ficar\u00e1 bem o papel de P\u00edramo, por ser P\u00edramo in\u00addi\u00adv\u00ed\u00adduo de fisionomia agrad\u00e1vel, um tipo bem apessoado, pr\u00f3prio para ser visto em dias de ver\u00e3o, um ca\u00adva\u00adlhei\u00adro en\u00adcan\u00adta\u00addor, em suma. Por isso, tereis de representar P\u00edramo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Est\u00e1 bem; representarei P\u00edramo. Que barba ficar\u00e1 melhor nesse papel?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Ora, a que quiserdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Hei de desincumbir-me dele ou seja com a barba cor de palha, ou com a cor de laranja bronzeada, ou com a de p\u00farpura leg\u00edtima, ou com a da cor da coroa da Fran\u00e7a, vosso amarelo perfeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Algumas das vossas coroas francesas s\u00e3o desprovidas de pelos, motivo por que tereis de representar sem barba. Mas, senhores, aqui tendes os pap\u00e9is. Suplico-vos, pe\u00e7o-vos e concito-vos a aprend\u00ea-los para amanh\u00e3 \u00e0 noite. Pro\u00adcu\u00adrai-me no bos\u00adque do pal\u00e1cio, a uma milha da cidade, logo que a lua sair. A\u00ed en\u00adsai\u00ada\u00adre\u00admos; porque se nos reunirmos na cidade n\u00e3o faltaria quem nos fa\u00adre\u00adjas\u00adse, fi\u00adcan\u00addo conhecido todo o nosso plano. Nesse meio tempo farei uma rela\u00e7\u00e3o dos artigos necess\u00e1rios para a nossa re\u00adpre\u00adsen\u00adta\u00ad\u00e7\u00e3o. Pe\u00e7o-vos que n\u00e3o falteis.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 L\u00e1 estaremos para ensaiarmos a pe\u00e7a por maneira obscena e corajosa. Esfor\u00e7ai-vos; sede perfeitos. Adeus.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 O encontro \u00e9 junto do carvalho do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 \u00c9 quanto basta. Ou vai ou racha!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<a name=\"snh21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO II<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um bosque perto de Atenas. Uma fada e Puck entram por lados diferentes.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ol\u00e1, esp\u00edrito! Para onde vais?<\/p>\n<p align=\"justify\">FADA \u2014 Nos densos cerrados, no bos\u00adque fa\u00adguei\u00adro, nos belos gramados por tudo me esgueiro mais apressada que a lua quan\u00addo na mata flutua. Contente, sirvo \u00e0 rainha das fadas, senhora minha e sobre o relvado fa\u00e7o de seus c\u00edrculos o tra\u00e7o. As al\u00adti\u00advas pri\u00adma\u00adve\u00adras ela as adora deveras; em seu doirado vestido de tra\u00e7ado mui garrido, h\u00e1 rubis, muito perfume, de que as fadas t\u00eam ci\u00fame. Ora sacudo as p\u00e9talas das rosas \u00e0 procura das p\u00e9rolas donosas porque \u00e0s orelhas ponha re\u00addo\u00adlen\u00adtes das pri\u00adma\u00adve\u00adras l\u00facidos pin\u00adgen\u00adtes. Adeus, esp\u00edrito travesso; \u00e9 hora; j\u00e1 vem a fada e os elfos; vou-me embora.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Para este ponto o rei j\u00e1 se encaminha. Cuidado! N\u00e3o se encontre com a rainha, pois Oberon se mostra estomagado deveras por lhe haver ela roubado o gracioso menino da \u00cdndia oriundo. Na opini\u00e3o dela \u00e9 o pajem sem segundo. O ciumento Oberon de\u00adse\u00adja\u00adria em seu s\u00e9q\u00fcito v\u00ea-lo noite e dia, para, juntos, passearem na floresta. Ela, por\u00e9m, de nada se molesta; ret\u00e9m o lindo pajem, venturosa, e grinaldas lhe tece cor-de-rosa. Nos olhos dele encontra a luz mais pura. Assim, quan\u00addo nas fontes, porventura, os dois se v\u00eaem, num vergel umbroso, \u00e0 luz do luar, num bosque nemoroso, a tal ponto discutem, que, de medo, nas bolotas os elfos ficam quedos.<\/p>\n<p align=\"justify\">FADA \u2014 Se esquecida de todo n\u00e3o pare\u00e7o, tu \u00e9s aquele esp\u00edrito travesso de nome Bom Robim. \u00c9s tu que enleias de noite as raparigas das aldeias, tiras do leite a nata e, de mansinho, desajustas as pe\u00e7as do moinho; fazes que a batedora de manteiga se esbofe sem proveito e que a taleiga de cerveja, por vezes, n\u00e3o fer\u00admen\u00adte; que ris \u00e0s gargalhadas, de in\u00adcle\u00admen\u00adte, do viajante noturno exausto e lasso, p\u00f3s o teres transviado um bom peda\u00e7o. Mas quem de meigo Puck e de trasguinho te chama, a esse auxilias com carinho, fazes que reflores\u00e7a quanto \u00e9 dele, lhe d\u00e1s suma ventura. Dize: \u00e9s ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Fada, acertaste. Eu sou, re\u00adal\u00admen\u00adte, o ledo va\u00adga\u00adbun\u00addo noturno que brinquedo fa\u00e7o de tudo, porque a todo instante alegre de Oberon deixe o semblante. Como ele ri gostoso, ao ver o efeito, sobre um cavalo gordo, do meu jeito de relinchar qual \u00e9gua calorosa. \u00c0s vezes ponho tudo em pol\u00advo\u00adro\u00adsa, quan\u00addo me escondo, qual ma\u00e7\u00e3 cozida, no jarro de uma velha delambida: trope\u00e7o-lhe nos bei\u00e7os, sem que o veja, e no rega\u00e7o entorno-lhe a cerveja. A s\u00e1bia tia, s vezes, numa hist\u00f3ria de enredo triste e perenal mem\u00f3ria, pensa me ter, qual um ban\u00adqui\u00adnho, \u00e0 m\u00e3o; ent\u00e3o me afasto e, bum! vai ela ao ch\u00e3o, e en\u00adxer\u00adtan\u00addo na hist\u00f3ria um disparate reclama em altas vozes o alfaiate, sem parar de tossir. Em gargalhadas as comadres rebentam, de malvadas, saltam de gozo e juram, da janela, n\u00e3o terem visto uma hora como aquela. Retira-te; Oberon vem com o seu bando.<\/p>\n<p align=\"justify\">FADA \u2014 E a senhora tamb\u00e9m. Fosse ele andando!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra, por um lado, Oberon com o seu s\u00e9q\u00fcito: por outro, Tit\u00e2nia com o dela.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Orgulhosa Tit\u00e2nia, \u00e9 mau ind\u00edcio assim nos encontrarmos ao luar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 O ciumento Oberon! Fadas, partamos; abjurei do seu leito e companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Det\u00e9m-te, presun\u00e7osa; acata as ordens de teu senhor.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Ent\u00e3o, senhora eu sou. No entanto eu sei que do pa\u00eds das fadas vieste fur\u00adti\u00adva\u00admen\u00adte, ap\u00f3s a forma tomares de Corino, e o dia inteiro na avena rude versos amorosos a F\u00edlida cantavas. Por que causa vieste aqui ter, dei\u00adxan\u00addo a \u00cdndia long\u00ednqua? Cer\u00adta\u00admen\u00adte t\u00e3o-s\u00f3 pela imperiosa Amazonas de botas elegantes, vossa guerreira amada, que est\u00e1 a ponto de casar com Teseu.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 N\u00e3o te envergonhas, Tit\u00e2nia, de atirar-me esses remoques pelo interesse que eu dedico a Hip\u00f3lita, se eu n\u00e3o ignoro que amas a Teseu? Com tua ajuda, numa noite fosca, n\u00e3o pode ele fugir de Perig\u00f4nia, que ele pr\u00f3prio raptara? Quem n\u00e3o sabe que o fizeste violar os ju\u00adra\u00admen\u00adtos feitos a Egle formosa, a Ariadne, a Ant\u00edopa?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Tudo isso \u00e9 o ci\u00fame que a inventar vos leva. Desde aquele ver\u00e3o, nunca podemos nos reunir na floresta, pelos prados, nas colinas, nos bosques, junto \u00e0s fontes em que os juncos vicejam, pelas praias sonorosas do mar, para dan\u00e7armos em coro ao som dos ventos sibilantes, sem que em nossa alegria n\u00e3o nos v\u00edssemos perturbadas por tuas invectivas. Por isso os ventos, como em repres\u00e1lia de em v\u00e3o nos assobiarem, do mar vasto aspiraram vapores con\u00adta\u00adgi\u00adan\u00adtes, e estes, pelo pa\u00eds se der\u00adra\u00adman\u00addo, tanto deixaram t\u00famidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos. Em v\u00e3o os bois no jugo se cansaram; perdeu o suor o lavrador; o verde trigo podre ficou antes de a barba juvenil lhe nascer; os currais se acham vazios nas campinas alagadas; cevam-se os corvos no pestoso gado: as quadras de pelota est\u00e3o desertas e cobertas de lama; quase esfeitos na verde relva os belos labirintos, porque ora j\u00e1 ningu\u00e9m neles transita. Falta aos homens mortais o frio inverno; com hinos e can\u00e7\u00f5es, as noites claras j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o aben\u00ad\u00e7oa\u00addas como outrora. E assim, a lua, que o mar vasto impera, p\u00e1lida de rancor, todo o ar deixa \u00famido, a\u00adbun\u00addan\u00addo os catarros. Em tamanha desordem vemos as saz\u00f5es trocadas: do seio bra\u00adndo da virente rosa sacode a geada a c\u00e2ndida cabe\u00e7a, enquanto sobre o queixo e nos cabelos brancos do velho inverno, por esc\u00e1rnio, brotam grinaldas de bot\u00f5es odoros do a\u00adgra\u00add\u00e1\u00advel estio. A pri\u00adma\u00adve\u00adra, o estio, o outono procriador, o inverno furioso as vestes habituais trocaram, de forma tal que o mundo, de assombrado, para identific\u00e1-los n\u00e3o tem meios. Pois bem; toda essa prole de infort\u00fanios de nossas dissen\u00e7\u00f5es, t\u00e3o-s\u00f3, prov\u00eam; geradores e pais somos de todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Dai o rem\u00e9dio, ent\u00e3o; tendes os meios. Por que h\u00e1 de contrariar, sempre, Tit\u00e2nia seu Oberon? N\u00e3o pe\u00e7o muito, apenas uma crian\u00e7a perdida, para dela fazer meu pajenzinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Tal cuidado tirai do cora\u00e7\u00e3o. Nem todo o reino das fadas me comprara este menino. Ao meu culto sua m\u00e3e era votada, Muitas e muitas vezes, na atmosfera perfumada das \u00cdndias, me aprazia ouvi-la discretear, t\u00ea-la ao meu lado nas amarelas praias de Netuno a admirar os cargueiros balou\u00e7antes sobre as ondas inquietas. Como r\u00edamos, ao ver as velas enfunar-se, gr\u00e1vidas ao parecer, sob os lascivos beijos dos ventos bu\u00adli\u00ad\u00e7o\u00adsos! I\u00admi\u00adtan\u00addo-as, a andar com irresist\u00edvel gaiatice \u2014 gr\u00e1vida, ent\u00e3o, do meu donoso pajem \u2014 por terra a velejar se punha, em busca de ninharias mil para ofertar-me, vol\u00adtan\u00addo ap\u00f3s, como de viagem longa, de sua gentil carga mui vaidosa. Mas, porque era mortal, morreu no parto deste menino que, por amor dela, recolhi para criar. Por isso, agora, pela mesma raz\u00e3o dele n\u00e3o largo.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Neste bosque morar \u00e9 vosso intento?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 At\u00e9 o dia, talvez, do ca\u00adsa\u00admen\u00adto de Hip\u00f3lita e Teseu. Se com tra\u00adt\u00e1\u00advel disposi\u00e7\u00e3o quiserdes tomar parte de nossa alegre ronda e ver os ludos \u00e0 clara luz da lua, sois bem-vindo. Se n\u00e3o poupai-me, que eu terei cuidado de evitar vossos s\u00edtios preferidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 D\u00e1-me o menino e eu seguirei contigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Nem por todo o teu reino. Vamos, duendes! A ser da paz amigo nunca aprendes.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Tit\u00e2nia com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Bem; segue o teu ca\u00admi\u00adnho; deste bosque n\u00e3o sair\u00e1s sem que por esta inj\u00faria te venha a atormentar. Vem para perto, meu gentil Puck. Certo ainda te lembras de quando eu me sentei num promont\u00f3rio, a ouvir uma sereia que se achava no dorso de um golfinho e que t\u00e3o doces melodias cantava, que o mar bravo deixava a\u00adpa\u00adzi\u00adgua\u00addo com seu canto, tendo v\u00e1rias es\u00adtre\u00adlas lou\u00adca\u00admen\u00adte suas rbitas deixado s\u00f3 com o fito de escutar a can\u00e7\u00e3o. Ainda te lembras?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Per\u00adfei\u00adta\u00admen\u00adte.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Nesse mesmo instante pude ver, o que a ti fora imposs\u00edvel, como Cupido, in\u00adtei\u00adra\u00admen\u00adte armado, se atirava entre a terra e a lua fria. A mira havia posto numa bela vestal que o trono tinha no ocidente; com energia e decis\u00e3o dispara do arco a flecha amorosa, parecendo que cem mil cora\u00e7\u00f5es ferir quisesse. No entanto eu pude ver a ardente flecha do menino esfriar-se sob a influ\u00eancia da aquosa lua e de seus castos raios, con\u00adti\u00adnu\u00adan\u00addo a imperial sacerdotisa seu virginal passeio, in\u00adtei\u00adra\u00admen\u00adte livre de pen\u00adsa\u00admen\u00adtos amorosos. Vi bem o ponto em que caiu a flecha do travesso Cupido: uma florzinha do ocidente, antes branca como leite, agora purpurina, da ferida que do amor lhe proveio. \u201cAmor ardente\u201d \u00e9 o nome que lhe d\u00e3o as raparigas. Vai bus\u00adcar-me essa flor; j\u00e1 de uma feita te mostrei essa planta. Se deitarmos um pouco de seu suco sobre as p\u00e1lpebras de homem ou de mulher entregue ao sono, ficar\u00e1 lou\u00adca\u00admen\u00adte apaixonado por quem primeiro vir, quando desperto. Vai buscar-me essa planta; mas retorna antes de duas l\u00e9guas no mar vasto nadar o leviat\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Porei um cinto na terra em quatro vezes dez minutos. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 De posse desse suco, hei de achar meio de surpreender Tit\u00e2nia adormecida, para nos olhos lhe deitar o liquido Ao despertar, o que enxergar primeiro, seja le\u00e3o, urso, lobo, touro, mono buli\u00e7oso ou irrequieto orangotango, perseguir\u00e1 com alma enamorada. E antes de eu lhe tirar da vista o encanto, o que farei com o suco de uma outra erva, obrig\u00e1-la-ei a me entregar o pajem. Mas quem vem vindo a\u00ed? Sendo invis\u00edvel, poderei escutar-lhes a conversa.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Dem\u00e9trio, seguido de Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o te dedico amor; n\u00e3o me persigas, Onde Lisandro se acha e H\u00e9rmia formosa? Quero mat\u00e1-lo e ser por ela morto. Disseste que ambos nesta selva estavam; como selvagem, no entretanto, eu corro desesperado seus recantos todos sem poder encontrar H\u00e9rmia adorada. Vai-te! Fora daqui! N\u00e3o me persigas!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 im\u00e3 de cora\u00e7\u00e3o endurecido, sou por v\u00f3s atra\u00edda, mas de ferro n\u00e3o tenho o cora\u00e7\u00e3o; como o a\u00e7o \u00e9 puro. Cessai de me aliciar e, incontinenti, deixarei de seguir-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Alicio-vos? Acaso j\u00e1 vos disse galanteios? Ou com franqueza n\u00e3o vos falo sempre que n\u00e3o vos amo nem vos posso amar?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Por isso mesmo \u00e9 que vos amo tanto. Vosso c\u00e3ozinho sou. Dem\u00e9trio altivo, quanto mais me baterdes, mais af\u00e1vel hei de me revelar. Como c\u00e3ozinho me tratai; repeli-me, dai-me golpes, n\u00e3o vos lembreis de mim, deixai-me \u00e0 toa; mas por mais que de tudo eu seja indigna, permiti que vos siga. Mais modesto lugar em vosso amor n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel. Mas para mim ser\u00e1 t\u00edtulo honroso como vosso c\u00e3ozinho ser tratada.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o me forceis a repugn\u00e2ncia da alma; sinto-me mal s\u00f3 de vos ver o rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E eu doente fico, quando n\u00e3o vos vejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Comprometeis de\u00admais vos\u00adso re\u00adca\u00adto saindo da cidade, des\u00adsa forma, para vos en\u00adtre\u00adgar\u00addes indefesa a um homem que faz timbre em des\u00adpre\u00adzar-vos, e assim con\u00adfi\u00adan\u00addo s tenta\u00e7\u00f5es da noite e aos maus conselhos de um lugar deserto o tesouro de vossa virgindade.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Vossa virtude \u00e9 a minha seguran\u00e7a. Quando o rosto vos vejo, deixa a noite de ser noite; por isso, n\u00e3o presumo que seja noite agora. Nem me faltam mundos de companhia nestes bosques, por serdes para mim o mundo todo. Como, pois, se dir\u00e1 que eu estou sozinha, se o mundo todo agora me contempla?<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Vou deixar-te, es\u00adcon\u00adder-me pelas brenhas e \u00e0s feras impiedosas entregar-te.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Qualquer fera selvagem tem mais brando cora\u00e7\u00e3o do que v\u00f3s. Fugi, embora, que a hist\u00f3ria mudareis: Apoio corre e Dafne lhe d\u00e1 ca\u00e7a; a meiga pomba persegue o abutre; a t\u00edmida gazela corre apressada emp\u00f3s do imano tigre, esfor\u00e7o in\u00fatil, quando o valor foge e no seu rasto segue a covardia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o quero discutir contigo; deixa-me. Mas se me acompanhares, fica certa de que no bosque te farei viol\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Ofendes-me no templo, na cidade, no campo, em toda parte. Ora, Dem\u00e9trio! Tua atitude o sexo nos humilha. Lutas de amor n\u00e3o s\u00e3o para mulheres; no entanto a corte me fazer n\u00e3o queres. (<i>Sai Dem\u00e9trio.<\/i>) Vou te seguir e um c\u00e9u fazer do inferno; morta por ti, ganho terei eterno. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Adeus, ninfa! Este bosque ele n\u00e3o deixa sem que de lhe fugires tenha queixa. (<i>Puck torna a entrar.<\/i>) Trouxeste a flor? S\u00ea, pois, bem-vindo, esp\u00edrito vagueante.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ei-la aqui.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Agradecido. Sei o lugar onde h\u00e1 belo canteiro que o ar embalsama de agrad\u00e1vel cheiro do tomilho selvagem, da sincera violeta e da graciosa pri\u00adma\u00adve\u00adra, onde h\u00e1 latada de fragrantes rosas e madressilvas n\u00edmio dul\u00e7orosas. Tit\u00e2nia ai parte da noite dorme sob gracioso dossel petaliforme, por dan\u00e7as e can\u00e7\u00f5es acalentada. A serpe ai deixa a pele va\u00adrie\u00adga\u00adda, grande bastante para de vestido a uma fada servir, fino e comprido. P\u00f4r-lhe-ei nos olhos este suco brando, de odiosas fan\u00adta\u00adsias lhe dei\u00adxan\u00addo cheia a imagina\u00e7\u00e3o. Toma uma parte dele tamb\u00e9m, e do poder comparte que com ele te confio. Na floresta te cumpre achar uma ateniense mesta que, desprezada, de paix\u00e3o se fina por altivo rapaz de alma ferina. Quando a dormir o achares, de mansinho nas p\u00e1lpebras lhe deita um bocadinho do suco. Mas cuidado! \u00c9 indispens\u00e1vel que, ao despertar, tenha ele \u00e0 vista a am\u00e1vel dama que ora despreza. Muito f\u00e1cil te ser\u00e1 conhec\u00ea-lo, que ele o gr\u00e1cil traje dos atenienses apresenta. Sendo tu cuidadoso, ele violenta paix\u00e3o h\u00e1 de sentir, mais acendrada do que revela a jovem namorada. Volta antes que primeiro cante o galo.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ficai tranq\u00fcilo; saberei ach\u00e1-lo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do bosque. Entra Tit\u00e2nia, com seu s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Vamos \u00e0 ronda! Urna can\u00e7\u00e3o de fadas! E, ap\u00f3s um ter\u00e7o de minuto, fora! Umas, para matar nos bot\u00f5es r\u00f3seos as lagartas nocivas; outras, para fazer guerra aos morcegos e tirar-lhes as asas, porque couro n\u00e3o nos falte para os casacos dos pequenos elfos; espantareis v\u00f3s outras as corujas que piam toda a noite e o nosso bando ca\u00adpri\u00adcho\u00adso contemplam es\u00adpan\u00adta\u00addas. Cantai at\u00e9 que eu durma e retirai-vos a trabalhar, dei\u00adxan\u00addo-me em repouso.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>As fadas cantam.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>I<\/b><\/p>\n<p align=\"justify\">Serpes manchadas, feios ouri\u00e7os sapos nojentos, fugi asinha; que nossas vozes vos d\u00eaem sumi\u00e7o enquanto dorme nossa rainha. Canta conosco, em porfia, rouxinol, a melodia: lula-lula-lulabia, lula-lula-lulabia. Que nossa orquestra de nossa mestra afaste qualquer magia. Boa noite com lulabia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>II<\/b><\/p>\n<p align=\"justify\">Aranhas feias n\u00e3o fiqueis perto, correi com vossas patas peludas; fugi, besouros, para o deserto, deixai-nos quietas nas matas mudas. Canta conosco, em porfia, rouxinol, a melodia: lula.lula-lulabia, lula-iula-lulabia. Que nossa orquestra de nossa mestra afaste qualquer magia. Boa noite com lulabia.<\/p>\n<p align=\"justify\">FADAS \u2014 Saiamos com bem cautela; fique uma de sentinela.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem as fadas; Tit\u00e2nia dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Oberon e espreme a planta nas p\u00e1lpebras de Tit\u00e2nia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 O primeiro que en\u00adxer\u00adga\u00adres quando daqui despertares, de gesto e formas alvares, amar\u00e1s de cora\u00e7\u00e3o, seja urso, gato ou le\u00e3o. Far\u00e1s dele o teu querido; ter\u00e1s o peito rendido como \u00e0s setas de Cupido. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Lisandro e H\u00e9rmia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 De tanto andar, que\u00adri\u00adda, est\u00e1s cansada. Para ser franco, erramos o caminho. H\u00e9rmia, repousar\u00e1s, se isso te agrada; o escuro poder\u00e1 te ser daninho.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Um leito, ent\u00e3o, ajeita em qualquer ponto, que neste banco o meu j\u00e1 se acha pronto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 De um punhado de relva, travesseiro poderemos fazer. O verdadeiro amor nunca divide: uma lealdade, dois cora\u00e7\u00f5es num leito, sem maldade.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 N\u00e3o, Lisandro; nem mesmo num deserto convir\u00e1 que de mim tu durmas perto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 O querida, ofender-te n\u00e3o queria com o que propus. \u00c9 fruto da alegria quanto avancei. S\u00f3 disse que no peito me bate um cora\u00e7\u00e3o, a ti sujeito; e que eles, juntos, formam neste instante um cora\u00e7\u00e3o apenas, muito amante. Se nossas almas o amor forte as liga, a vivermos unidos nos obriga. Em teu leito, portanto, me consente, porque contigo sempre estou presente.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Lisandro se mostrou muito eloq\u00fcente. Padecer\u00e1 demais minha altivez, se eu disser que ele fala com dobrez. No entanto, amigo, prova o teu carinho. N\u00e3o falo em tom zangado ou de escarninho. Por cortesia e amor de mim te afasta. Fala eloq\u00fcente, apenas, n\u00e3o nos basta; mas neste instante, de o dizer n\u00e3o coro, exige o imperativo do decoro que entre um rapaz virtuoso e sua amada barreira se interponha adiamantada. Por isso, adeus; que dure quanto a vida a lealdade de tua alma estremecida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Am\u00e9m; eis como encerro essa ora\u00e7\u00e3o. Sem teu amor, me pare o cora\u00e7\u00e3o. (<i>Afasta-se.<\/i>) Eis meu leito; que o sono te acalente.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 E te conceda um sonho sorridente.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Dormem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Puck.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Todo o bosque hei percorrido, sem que ateniense garrido pudesse achar, porque o amor trans\u00admu\u00addas\u00adse com esta flor. Noite e sil\u00eancio. Que vejo? Traje ateniense a varejo? Eis o homem de que meu mestre falou, de peito silvestre, que de todo n\u00e3o se agrada da ateniense apaixonada. Coitadinha! Est\u00e1 t\u00e3o longe deste bruto e frio monge! (<i>Espreme a flor nas p\u00e1lpebras de Lisandro.<\/i>) Ora nos olhos, maluco, desta flor te deito o suco porque, com sua magia, n\u00e3o te consinta, de dia nem de noite, o meigo sono desses olhos ficar dono. Acorda logo; j\u00e1 vou, porque Oberon me chamou. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Dem\u00e9trio e Helena, a correr.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 para! Ainda mesmo que me d\u00eas a morte.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Fora! N\u00e3o me per\u00adsi\u00adgas desta sorte.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Deixas-me neste escuro e vais sozinho?<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Para tr\u00e1s! N\u00e3o me cortes o caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Dem\u00e9trio<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Esta ca\u00e7a amorosa me fez lassa; au\u00admen\u00adto com os pedidos a desgra\u00e7a. H\u00e9rmia \u00e9 feliz, esteja onde estiver; olhos assim n\u00e3o os possui mulher. Como pode ter olhos t\u00e3o brilhantes? N\u00e3o de chorar; que a todos os instantes, cho\u00adran\u00addo como choro, eu deveria ter nos olhos mais luz que o claro dia. Sim, \u00e9 certo: sou feia como um urso. Para fei\u00fara tal n\u00e3o h\u00e1 recurso. As pr\u00f3prias feras que me v\u00eaem, de medo afundam mais e mais pelo arvoredo. Que muito, pois, que, em frente de tal monstro, fuja De\u00adm\u00e9\u00adtrio, quando amor demonstro? Qual infernal e enganador espelho me disse que ao de H\u00e9rmia era semelho meu deformado rosto? Mas, que vejo? Lisandro aqui? N\u00e3o pode ser gracejo. Est\u00e1 dormindo ou morto? Nem ferida percebo, nem qualquer arma homicida. Lisandro, despertai! Estais doente?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO (<i>despertando<\/i>) \u2014 \u00d3 trans\u00adpa\u00adren\u00adte Helena! Incontinenti me atirarei por ti no pr\u00f3prio fogo. A natureza mostra, neste af\u00f4go, sua arte sublimada, permitindo que atrav\u00e9s desse peito casto e lindo teu cora\u00e7\u00e3o eu veja. Dize-me: onde Dem\u00e9trio, aquele vil, ora se esconde? Oh, que nome vil\u00edssimo! De nada vale, sen\u00e3o para cort\u00e1-lo a espada.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 N\u00e3o, bom Lisandro; n\u00e3o digais tal coisa. So\u00admen\u00adte porque a H\u00e9rmia amar ele ousa? Ela vos tem amor; ficai contente.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Com o amor de H\u00e9rmia? N\u00e3o, n\u00e3o sou de\u00admen\u00adte. Como lastimo as horas que ao seu lado passei, cheias de t\u00e9dio, a meu mau grado! Amo a Helena; a tal H\u00e9rmia me era estorvo. Quem n\u00e3o troca uma rola por um corvo? O homem pela raz\u00e3o \u00e9 conduzido; e esta me deixa ao teu valor rendido. Amadurece tudo em tempo certo. Eu era muito mo\u00e7o; ora liberto me acho da inexperi\u00eancia e da ilus\u00e3o. Homem feito, dirige-me a raz\u00e3o, que em teus olhos um livro me oferece onde leio do amor a ardente prece.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Por que nasci para tamanha afronta? Que vos fiz? Essa fala me amedronta. N\u00e3o basta, jovem, nunca eu ter podido prender Dem\u00e9trio ao meu cora\u00e7\u00e3o fido, para que com t\u00e3o grande inconveni\u00eancia venhais zombar de minha insufici\u00eancia? Dep\u00f5e contra vossa honra, sobremodo, a corte me fazerdes desse modo. Passai bem, confessar ser-me-\u00e1 for\u00e7oso que nunca vos julguei t\u00e3o desgracioso. Porque um mo\u00e7o despreza uma donzela, n\u00e3o se conclui que um outro abuse dela. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 A H\u00e9rmia n\u00e3o per\u00adce\u00adbeu. Dorme at\u00e9 o dia, que em mim n\u00e3o tem poder tua magia. Pois, como a mais violenta indigest\u00e3o nos vem dos doces que mais gratos s\u00e3o, e as heresias com maior fereza odeia quem j\u00e1 delas se viu presa: tu, minha indigest\u00e3o, minha heresia, ser\u00e1s por mim odiada noite e dia. No amor vou revelar-me verdadeiro, sendo de Helena bela o cavaleiro (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA (<i>despertando<\/i>) \u2014 Lisandro, acode! Tira-me a serpente que no seio me causa dor pungente. S\u00f3 em ti, meu Lisandro, acho guarida; v\u00ea como o medo me deixou transida. Quis parecer-me que uma serpe o peito me devorava, e tu t\u00e3o satisfeito! Lisandro! Fala! J\u00e1 te foste embora? N\u00e3o me respondes? Fala sem demora. Tremo de susto. Onde te ocultas? Onde? Por todos os amores me responde. Sinto que n\u00e3o te encontras ao meu lado; pois vou te achar e dar remate ao fado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p><a id=\"snh31\" name=\"snh31\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO III<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Um bosque. Tit\u00e2nia est\u00e1 deitada, a dormir. Entram Quince, Snug, Bottom, Flauta, Snout e Starveling.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Estamos todos reu\u00adni\u00addos?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Sem faltar um. Aqui temos um lugar ma\u00adra\u00advi\u00adlho\u00adsa\u00admen\u00adte con\u00adve\u00adni\u00aden\u00adte para ensaiarmos. Este peda\u00e7o de ch\u00e3o verde servir\u00e1 de palco; esta sebe de madressilvas, de camarim. Vamos representar como se estiv\u00e9ssemos diante do duque.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Peter Quince&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Que est\u00e1s a dizer, valente Bottom?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Nesta com\u00e9dia de P\u00edramo e T\u00edsbe h\u00e1 coisas que jamais poder\u00e3o agradar. Primeiro: P\u00edramo ter\u00e1 de sacar da espada para se matar, espet\u00e1culo insuport\u00e1vel para as senhoras. Que respondeis a isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">SNOUT \u2014 Por Nossa Senhora! \u00c9 perigoso!<\/p>\n<p align=\"justify\">STARVELING \u2014 A meu ver, ser\u00e1 conveniente suprimirmos a mortandade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 De forma alguma. Te\u00adnho uma id\u00e9ia que repor\u00e1 as coisas em seus eixos. Escreve-me um pr\u00f3logo, de forma que o pr\u00f3logo pare\u00e7a dizer que n\u00e3o ocasionamos nenhum mal com as espadas e que P\u00edramo n\u00e3o morre re\u00adal\u00admen\u00adte. E para maior tranq\u00fcilidade, dizei-lhes que eu, P\u00edramo, n\u00e3o sou P\u00edramo, mas Bottom, o tecel\u00e3o. Isso os deixar\u00e1 sem medo de todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Muito bem; havemos de ter esse pr\u00f3logo, que dever\u00e1 ser escrito em versos de seis s\u00edlabas e de oito.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 N\u00e3o! Acrescenta mais duas s\u00edlabas e escreve-o em versos de oito e oito.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNOUT \u2014 O le\u00e3o n\u00e3o causar\u00e1 medo \u00e0s senhoras?<\/p>\n<p align=\"justify\">STARVELING \u2014 Eu tamb\u00e9m j\u00e1 pen\u00adsei nisso.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Mestres, ser\u00e1 con\u00adve\u00adni\u00aden\u00adte refletir sobre o caso. Trazer um le\u00e3o \u2014 Deus nos acuda! \u2014 para o meio de senhoras, \u00e9 uma coisa pavorosa, pois n\u00e3o h\u00e1 fera vol\u00e1til mais terr\u00edvel do que um le\u00e3o com vida. \u00c9 isso que precisamos considerar.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNOUT \u2014 Nesse caso ser\u00e1 con\u00adve\u00adni\u00aden\u00adte que outro pr\u00f3logo declare ao p\u00fablico que n\u00e3o se trata de um le\u00e3o de verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Nada disso; bastar\u00e1 dizerdes o nome de quem o representar e arranjar modo para que se lhe veja o rosto atrav\u00e9s do pesco\u00e7o do le\u00e3o, por onde ele pr\u00f3prio falar\u00e1, mais ou menos com este defeito: \u201cSenhoras\u201d, ou \u201clindas senhoras\u201d, \u201cdesejara\u201d, ou \u201csuplicara\u201d ou \u201cvos concito a n\u00e3o terdes medo e a n\u00e3o tremer. Minha vida pela vossa. Se pensais que eu venho aqui como um le\u00e3o, n\u00e3o daria nada pela minha vida. N\u00e3o, longe de mim tal coisa; sou um homem como os demais\u201d. Nessa altura ele declinar\u00e1 seu verdadeiro nome, dizendo fran\u00adca\u00admen\u00adte que \u00e9 Snug, o marceneiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Muito bem; faremos desse modo. Mas ainda temos duas outras coisas dif\u00edceis, a saber: trazer o luar para dentro do quarto, porque, como o sabeis, P\u00edramo e Tisbe se encontram \u00e0 luz da lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNUG \u2014 Haver\u00e1 lua na noite de nossa representa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Um calend\u00e1rio! Um calend\u00e1rio! Vede no almanaque! Procurai o luar! Procurai o luar!<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 H\u00e1 lua, re\u00adal\u00admen\u00adte, nessa noite.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Nesse caso, bastar\u00e1 dei\u00adxar\u00addes aberto um dos lados do janel\u00e3o do quarto em que representarmos, para que o luar penetre por ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Assim ficar\u00e1 bem; mas ser\u00e1 melhor se algu\u00e9m entrar em cena com uma lanterna e um feixe de espinhos, de\u00adcla\u00adran\u00addo que vem para desfigurar ou para representar a pessoa do luar. Mas h\u00e1 outro ponto: precisamos de um muro no sal\u00e3o, porque a hist\u00f3ria diz que P\u00edramo e Tisbe conversavam atrav\u00e9s de uma frincha do muro.<\/p>\n<p align=\"justify\">SNUG \u2014 N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel trazer um muro. Que dizeis, Bottom?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Algu\u00e9m ter\u00e1 de fazer o papel de muro, com um pouco de greda, gesso ou argamassa na roupa, a fim de significar o muro, devendo colocar os dedos deste modo, para que P\u00edramo e Tisbe falem atrav\u00e9s da fresta.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Desse jeito ficar\u00e1 bem. Agora, quem tiver m\u00e3e que se sente para ensaiar o seu papel. P\u00edramo, dai in\u00edcio; depois de recitardes a vossa parte, acolhei-vos \u00e0 sebe; o mesmo far\u00e3o os outros, de acordo com as respectivas deixas.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Puck, no fundo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Quem s\u00e3o os cascas-grossas que assim gritam t\u00e3o perto do lugar em que repousa nossa rainha excelsa? Oh, novidade! Um ensaio teatral! timo. Ouvinte vou ser da pe\u00e7a, e ator, conforme o caso.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Fala, P\u00edramo! Tisbe, vem para a frente!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 \u201cTisbe, tal como as flores horrorosas&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Odorosas! Odorosas!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 \u201c&#8230; as flores odorosas, tens o h\u00e1lito, querida, perfumado. Mas ou\u00e7o vozes; um mo\u00admen\u00adto espera-me: depressa voltarei para o teu lado.\u201d (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Nunca se viu um P\u00edramo como este. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Sou eu que falo agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Certo! Certo! Porque precisais compreender que ele saiu so\u00admen\u00adte para verificar que barulho era aquele; mas, n\u00e3o demora, tornar\u00e1 a entrar.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 \u201c\u00d3 P\u00edramo radiante, ao branco l\u00edrio igual, t\u00e3o rubro quanto a rosa em c\u00e2ndida roseira, esperto juvenil, judeu sacerdotal, fiel qual potro altivo em r\u00e1pida car\u00adrei\u00adra. No t\u00famulo de Nico eu devo te encontrar.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 \u201cT\u00famulo de Nino\u201d, ho\u00admem! Mas ainda n\u00e3o \u00e9 hora de dizerdes isso. S\u00f3 quando ti\u00adver\u00addes de responder a P\u00edramo. Dizeis de uma s\u00f3 vez todo o vosso papel, com deixa e tudo. P\u00edramo, entrai. Vossa deixa j\u00e1 passou; \u00e9 \u201cem r\u00e1pida carreira\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Oh! \u201cFiel qual potro altivo em r\u00e1pida carreira.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Torna a entrar Puck, seguido de Bottom, com cabe\u00e7a de burro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 \u201cTudo isso, \u00f3 bela Tisbe, em teu rega\u00e7o eu ponho&#8230;\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Oh! Terr\u00edvel! Mons\u00adtru\u00ado\u00adso! Estamos enfeiti\u00e7ados! Fugi, mestres! Socorro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem os comediantes.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Vou perseguir-vos sem vos dar sossego, por vales, montes, pela mata espessa; ora como corcel, ora morcego, ou sapo, ou chama, ou urso sem cabe\u00e7a; como cavalo, ou le\u00e3o, macaco, ou burro, relincho forte e rujo, guincho e zurro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Por que ter\u00e3o corrido? Decerto imaginaram alguma maroteira para me meter medo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Snout.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SNOUT \u2014 O Bottom, est\u00e1s mudado! Que vejo em tua cabe\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Que vedes? Vedes uma cabe\u00e7a de burro, a vossa; n\u00e3o ser\u00e1 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Snout.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Quince.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Deus te aben\u00ad\u00e7oe, Bottom! Deus te aben\u00ad\u00e7oe. Est\u00e1s transformado. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Compreendo a brincadeira. Querem fazer-me de asno, para eu me amedrontar, como se fosse poss\u00edvel semelhante coisa. Mas fa\u00e7am o que fizerem, n\u00e3o arredarei o p\u00e9 daqui. Passearei de um lado para o outro, e p\u00f4r-me-ei a cantar, para que eles percebam que n\u00e3o estou com medo. O melro negro e catita de biquinho alaranjado, o tordo de voz bonita, o carricinho espantado&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA (<i>acordando<\/i>) \u2014 Que anjo me desperta do meu leito de flores?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 O pardal, a cotovia, a rolinha, o tentilh\u00e3o, o cuco a cantar de dia sem que os homens digam \u201cN\u00e3o\u201d, porque, em verdade, quem se poria a raciocinar com um p\u00e1ssaro t\u00e3o est\u00fapido? Quem diria a um p\u00e1ssaro que ele men\u00adte, por mais que repita: \u201cCuco\u201d?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Canta outra vez, gentil mortal, te pe\u00e7o. Tua voz os ouvidos me enamora, como o teu corpo os olhos me arrebata. E de tal modo a tua formosura me enleva e me comove, que eu proclamo, sem mais desculpas procurar, que te amo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Quer parecer-me, se\u00adnho\u00adra, que para tanto vos assiste raz\u00e3o muito minguada. No entanto, para dizer a verdade, hoje em dia a raz\u00e3o e o amor quase n\u00e3o andam juntos. \u00c9 pena que alguns vizinhos honestos n\u00e3o se esforcem para deix\u00e1-los amigos. Como vedes, eu tamb\u00e9m posso ser espirituoso, em se oferecendo ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 \u00c9s t\u00e3o s\u00e1bio quanto belo.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Nem tanto assim; se eu tivesse esp\u00edrito suficiente para sair deste bosque, teria tudo o de que necessito.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 N\u00e3o ponhas noutra parte o cora\u00e7\u00e3o; no bosque ficar\u00e1s, queiras ou n\u00e3o. Um esp\u00edrito eu sou, de voz sincera; ver\u00e3o perene em meu pa\u00eds impera, e amor te voto. Por tudo isso, vem; silfos belos vais ter, como eu, tamb\u00e9m, que j\u00f3ias te trar\u00e3o do mar profundo, e te far\u00e3o dormir sempre jucundo. Da mortal grosseria vou livrar-te e em esp\u00edrito a\u00e9reo transformar-te. Tra\u00e7a! Mostarda! Flor-de-Ervilha! Teia!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram quatro silfos.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TRA\u00c7A \u2014 Pronto!<\/p>\n<p align=\"justify\">SEMENTE-DE-MOSTARDA \u2014 Eu tamb\u00e9m!<\/p>\n<p align=\"justify\">FLOR-DE-ERVILHA \u2014 Aqui!<\/p>\n<p align=\"justify\">TODOS QUATRO \u2014 Para onde iremos?<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Sede corteses com este gentil-homem; bailai em torno dele, dando saltos graciosos, porque a vista se lhe agrade. Dai-lhe damascos doces sem demora, uvas rosadas, figo verde e amora. Aliviai as abelhas em pletora. De suas pernas aprestai candeeiro, que acendereis depressa no luzeiro dos vaga-lumes, e amarrai, ligeiro, asas de mariposa transparente, porque os raios da lua impertinente n\u00e3o lhe causem aos olhos dor pungente. Elfos, cum\u00adpri\u00admen\u00adtai-o a\u00adle\u00adgre\u00admen\u00adte.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLOR-DE-ERVILHA \u2014 Salve, mor\u00adtal!<\/p>\n<p align=\"justify\">TEIA-DE-ARANHA \u2014 Salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">TRA\u00c7A \u2014 Salve!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 De todo o cora\u00e7\u00e3o pe\u00e7o perd\u00e3o a Vossas Senhorias. Como \u00e9 que Vossa Senhoria se chama?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEIA-DE-ARANHA \u2014 Teia-de-Aranha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Desejo ficar vos co\u00adnhe\u00adcen\u00addo mais de perto, meu bom mestre Teia-de-Aranha. Quando eu me cortar o dedo, terei a ousadia de vos utilizar. Vosso nome, honesto cavalheiro?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLOR-DE-ERVILHA \u2014 Flor-de-Ervilha.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Pe\u00e7o-vos que me recomendeis \u00e0 senhora Vagem, vossa m\u00e3e, e ao mestre Gr\u00e3o-de-Bico, vosso pai. Caro mestre Flor-de-Ervilha, espero que em futuro pr\u00f3ximo estreitemos as rela\u00e7\u00f5es. Vosso nome, senhor, por ob\u00ads\u00e9\u00adquio?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEMENTE-DE-MOSTARDA \u2014 Se\u00admen\u00adte-de-Mos\u00adtar\u00adda.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Caro mestre Se\u00admen\u00adte-de-Mos\u00adtar\u00adda, conhe\u00e7o per\u00adfei\u00adta\u00admen\u00adte vossa paci\u00eancia. O covarde e agigantado Rosbife j\u00e1 devorou muitos cavaleiros de vossa casa. Podeis ficar certo de que os vossos parentes j\u00e1 me deixaram muitas vezes com os olhos cheios de l\u00e1grimas. Desejo travar co\u00adnhe\u00adci\u00admen\u00adto mais \u00edntimo convosco, caro mestre Se\u00admen\u00adte-de-Mos\u00adtar\u00adda.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Levai-o para o quarto de boninas. \u00damida, a lua espalha a claridade. Quando ela chora, as flores pequeninas a perda choram de uma virgindade. A l\u00edngua lhe amarrai, mas com bondade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<a id=\"snh32\" name=\"snh32\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Outra parte do bosque. Entra Oberon.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Saber eu desejara se Tit\u00e2nia j\u00e1 despertou, e mais: o que primeiro lhe caiu sob os olhos, de que esteja perdida de paix\u00e3o. Mas eis que chega meu mensageiro. (<i>Entra Puck.<\/i>) Ent\u00e3o, travesso esp\u00edrito, qual foi a brincadeira mais estranha que aparelhaste neste bosque m\u00e1gico?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 A rainha se encontra lou\u00adca\u00admen\u00adte de um mons\u00adtro apaixonada. Quase em frente do sagrado lugar em que ela a sono mui tranq\u00fcilo se achava em a\u00adban\u00addo\u00adno, unia tropa de art\u00edfices de Atenas, capazes de trabalho rude, apenas, para ganhar o p\u00e3o com o suor do rosto, ensaiava uma pe\u00e7a de mau gosto, para o dia solene do himeneu da Amazona garbosa e o gr\u00e3o Teseu. O casca-grossa de mais rude engenho de todos eles, que, com muito empenho, de P\u00edramo fazia, a cena deixa por um mo\u00admen\u00adto, espera de sua deixa. Eu, ent\u00e3o, da ocasi\u00e3o me a\u00adpro\u00advei\u00adtan\u00addo para em um monstro o transformar, in\u00adfan\u00addo, sobre os ombros lhe pus, sem mais demora, de burro uma cabe\u00e7a. Eis chegada a hora da resposta de Tisbe, o instante azado para na pe\u00e7a eu por o meu bocado. Ao v\u00ea-lo, os outros, tal como bulhento bando de patos bravos, no mo\u00admen\u00adto em que percebem ca\u00e7ador matreiro que para eles se arrasta sor\u00adra\u00adtei\u00adro, ou como gralhas de p\u00e9s rubros, quando a um tiro s\u00fabito, a gritar, voando, se espalham pelo c\u00e9u \u2014 cheios de medo tamb\u00e9m se afundam logo no arvoredo. Para mais assust\u00e1-los, sapateio sem parar, deles todos pelo meio: uns sobre os outros caem, por socorro gri\u00adtan\u00addo, em desespero: Atenas! Morro! Min\u00adguan\u00addo-lhes o senso na medida que aumenta o medo, quanto n\u00e3o tem vida lhes causa dano, que, pelos caminhos v\u00e3o dei\u00adxan\u00addo nas pontas dos espinhos aqueles membros do teatro imbele parte das roupas, dos chap\u00e9us, da pele. Dominados, assim, todos do medo, deixei-os ir. S\u00f3 fica no brinquedo nosso P\u00edramo, em burro transformado. Nesse instante, por\u00e9m, tendo acordado. Tit\u00e2nia, apaixonou-se lou\u00adca\u00admen\u00adte do belo monstro que lhe estava em frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Eu pr\u00f3prio melhor plano n\u00e3o teria podido excogitar. Mas a magia da planta no ateniense j\u00e1 puseste, conforme te falei, de peito agreste?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 A dormir o encontrei, J\u00e1 liquidado ficou tamb\u00e9m esse neg\u00f3cio. Ao lado dele estava a ateniense desprezada que por ele vai ser al\u00adcan\u00addo\u00adra\u00adda.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Dem\u00e9trio e H\u00e9rmia<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 P\u00f5e-te de lado; eis o ateniense duro.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ela \u00e9 a mesma; mas que este \u00e9 outro eu juro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Por que tais ex\u00adpres\u00ads\u00f5es gastais comigo? Deixai rigores para o vosso inimigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Com censuras agora me contento, mas sobejas raz\u00f5es teu ar\u00addi\u00admen\u00adto num crescendo me d\u00e1 de amaldi\u00e7oar-te. Se de Lisandro a vida, em qualquer parte, no sono tu tiraste, e j\u00e1 manchado de sangue tens o p\u00e9, nenhum cuidado te cause prosseguir na furibunda devasta\u00e7\u00e3o: a perna inteira afunda,.. Oh! mata-me, tamb\u00e9m! O sol n\u00e3o era t\u00e3o fiel ao dia, como ele a mim. Poss\u00edvel lhe seria fugir de mim, para fazer-me guerra? Mais f\u00e1cil fora acreditar que a terra se deixasse furar por uma pua e que emitisse atrav\u00e9s dela a lua sua luz clara para, do outro lado, deixar o irm\u00e3o ao meio-dia enfiado. D\u00favida j\u00e1 n\u00e3o tenho: \u00e9s assassino; esse rosto o proclama, o olhar ferino.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 O aspecto devo ter de assassinado, n\u00e3o de assassino, porque transpassado me deixou tua ins\u00f3lita crueldade. Mas brilhas com t\u00e3o grande claridade, apesar da fei\u00e7\u00e3o dura e severa, como a luzente V\u00eanus na alta esfera.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 A que vem isso com Lisandro, agora? Ah, bom Dem\u00e9trio, d\u00e1-mo sem demora.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Antes eu dera aos c\u00e3es sua carca\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Sai, monstro! C\u00e3o! Desfa\u00e7atez t\u00e3o crassa minha paci\u00eancia virginal esgota. J\u00e1 n\u00e3o tenho esperan\u00e7a nem remota. Sei que o mataste; mas, como um bargante, dos homens fugir deves de ora em diante. Oh! Por amor de mim, conta-me tudo, que em minha grande dor encontro escudo. De frente a olh\u00e1-lo sempre te abstiveste, e, no sono, o mataste? Oh peito agreste! Poderia algum verme, alguma cobra, t\u00e3o depressa causar t\u00e3o hedionda obra? V\u00edbora, disse, que ela mais pungente picada do que tu n\u00e3o d\u00e1, serpente!<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Funda-se nalgum erro o teu cuidado. Se Lisandro est\u00e1 mal, n\u00e3o sou culpado, nem sei que morto esteja ele, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Dize, ent\u00e3o, por favor, que ele est\u00e1 bem.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Se o disser, que van\u00adta\u00adgem me vem disso?<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 A de jamais me ver; maior servi\u00e7o poss\u00edvel n\u00e3o ser\u00e1, como ora o fa\u00e7o, sejas ou n\u00e3o culpado em seu trespasso. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Nessa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 segui-la. Vou esperar que fique mais tranq\u00fcila e procurar dormir. Quando em fa\u00adl\u00ean\u00adcia se acha o sono, menor \u00e9 a resist\u00eancia ao peso da tristeza. Desta sorte talvez melhor esse \u00f4nus eu suporte. (<i>Deita-se e dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Que fizeste? Houve engano manifesto; foi posto o suco em um amante honesto; deixaste falso um fido namorado, sem que o remisso fosse castigado.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 O fado o quis; para um sincero amante, mil falsos h\u00e1 de haver a cada instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Percorre a mata, mais veloz que o vento, e acha Helena de Atenas num mo\u00admen\u00adto. De aqui traz\u00ea-la ficas incumbido, enquanto o peito eu mudo ao mo\u00e7o infido.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 J\u00e1 vou! J\u00e1 vou! V\u00ea como eu vou ligeiro, tal qual seta de T\u00e1rtaro guerreiro. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Bot\u00e3o de rosa ferido pela flecha de Cupido, (<i>Espreme a flor nos olhos de Dem\u00e9trio.<\/i>) no esp\u00edrito entra vencido deste mo\u00e7o adormecido. Ao despertar, ao ru\u00eddo que ela fizer, que rendido se lhe torne o peito fido.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Puck.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Capit\u00e3o do nosso bando de duendes, j\u00e1 vem an\u00addan\u00addo para c\u00e1 Helena bela e o jovem da tal querela por mim causada, tamb\u00e9m. Ora dizei se conv\u00e9m prosseguir na brincadeira, porque a tenhamos inteira. Oh mestre! Como s\u00e3o loucos os mortais! De senso h\u00e1 poucos.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Retira-te; ao vir o par vai Dem\u00e9trio despertar.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Dois namorados para uma s\u00f3 mulher! N\u00e3o h\u00e1 nenhuma brincadeira que me agrade, como ci\u00fame de verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Helena e Lisandro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Por que dizes que tudo \u00e9 s\u00f3 ironia? Se assim fosse, t\u00e3o fundo eu n\u00e3o chorara. No meu pranto comprova-se a magia que exerce em mim tua figura rara. Como haveria em meu amor suspeita, se minha f\u00e9 se encontra a ti sujeita?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Vossa ousadia aumenta; \u00e9 uma querela santa e infernal matar o amor com juras. Vossa f\u00e9 \u00e9 s\u00f3 de H\u00e9rmia; abris m\u00e3o dela? Vossas juras s\u00e3o falsas e inseguras. Como conto falaz \u00e9 o ju\u00adra\u00admen\u00adto que a ela e a mim fazeis num s\u00f3 mo\u00admen\u00adto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Ao lhe jurar amor, n\u00e3o tinha eu senso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 E ao deixarde-la, menos; \u00e9 o que eu penso.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Dem\u00e9trio a H\u00e9rmia idolatra e vos detesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO (<i>des\u00adper\u00adtan\u00addo<\/i>) \u2014 \u00d3 He\u00adle\u00adna, deu\u00adsa, ninfa sublimada, que h\u00e1 de mais fascinante que a alvorada desses olhos t\u00e3o lindos? Tosco e ba\u00e7o \u00e9 o cristal junto deles; um peda\u00e7o de cereja esses l\u00e1bios tentadores que a toda hora me falam s\u00f3 de amores. A neve virginal do Tauro altivo, sempre apagada pelo vento estivo, em corvo se trans\u00adfor\u00adma, hor\u00adren\u00adte e feio, quando agitas a m\u00e3o, num galanteio. Oh! Vou beijar a sede da ventura, essa princesa feita de luz pura!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Oh dor! Vejo que estais de acordo, acinte, para de mim zombar com tal requinte. Se em v\u00f3s houvesse sombra de respeito, jamais me ofender\u00edeis desse jeito. Odiar-me n\u00e3o vos basta; a zombaria nesta farsa a vosso \u00f3dio se associa. Se f\u00f4sseis homens, como a forma o mostra, n\u00e3o dar\u00edeis de v\u00f3s t\u00e3o triste mostra, zom\u00adban\u00addo assim de mim, com tantas juras, porque me causem t\u00e3o-so\u00admen\u00adte agruras. Sois rivais, porque tendes amor a H\u00e9rmia, e ainda rivais para zombar de Helena. Oh feito altivo! Oh sublimada empresa! Fazer chorar quem se acha ora indefesa. Cavalheiro nenhum ofenderia uma virgem qualquer, nem tiraria a paci\u00eancia dela, por folia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Dem\u00e9trio, sois cruel; tenho certeza de que a H\u00e9rmia amais. Usemos de franqueza: de todo o cora\u00e7\u00e3o te cedo a parte que eu ter pudesse em seu amor; desta arte me cedereis tamb\u00e9m vosso quinh\u00e3o do amor de Helena, a quem estendo a m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Jamais se ouviu t\u00e3o v\u00e3 declara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Lisandro, n\u00e3o me cau\u00adsas alegria; de H\u00e9rmia saber n\u00e3o quero. Se algum dia lhe tive amor, est\u00e1 tudo acabado. Tal amor foi um simples con\u00advi\u00adda\u00addo que em seu peito morou, mas que, ao presente, para Helena retorna a\u00adle\u00adgre\u00admen\u00adte.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 N\u00e3o creias nisso, He\u00adle\u00adna.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o permito que me\u00adnos\u00adca\u00adbes o meu peito aflito. Se in\u00adsis\u00adtes, pro\u00adva\u00adr\u00e1s a minha espada. Mas eis que vem che\u00adgan\u00addo a tua amada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra H\u00e9rmia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 A noite que da vista tira tudo deixa o ouvido dez vezes mais agudo. Quanto parece a vista ter perdido, em agudeza ganha o outro sentido. Bom Lisandro, n\u00e3o foste ora encontrado com o aux\u00edlio da vista. Se ao teu lado me vejo, \u00e9 que tua voz estremecida de guia me serviu nesta corrida. Por que me a\u00adban\u00addo\u00adnas\u00adte t\u00e3o sozinha?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Para ir ver meu amor, minha rainha.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Que rainha ou amor de mim te aliena?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 A amada de Li\u00adsan\u00addro, a bela Helena, que ao teu lado ficar n\u00e3o me deixava e que brilha, com sua coma flava, por tudo i\u00adlu\u00admi\u00adnan\u00addo a noite escura mais do que esses luzeiros de luz pura. Por que me buscas? Pois n\u00e3o viste ainda que por ti sinto antipatia infinda?<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 N\u00e3o dizes o que pensas; \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 H\u00e9rmia est\u00e1 ao lado deles; ser\u00e1 cr\u00edvel? Vejo que os tr\u00eas est\u00e3o, de igual maneira, mancomunados nesta brincadeira, para rirem de mim. \u00d3 ingrata H\u00e9rmia, jovem maldosa, de comum acordo vos pusestes com estes dois mancebos. para tamanho esc\u00e1rnio me atirardes? As confid\u00eancias que fazer so\u00edamos, nossos votos de irm\u00e3, tantos mo\u00admen\u00adtos de conversa amig\u00e1vel, quando o tempo de passadas velozes n\u00f3s culp\u00e1vamos por nos vir separar: tudo esquecestes? A amizade dos bancos escolares? A inoc\u00eancia da inf\u00e2ncia? H\u00e9rmia, n\u00f3s duas como deusas prendadas, muitas vezes a mesma flor tecemos com agulhas, de um modelo valendo-nos, sentadas numa almofada s\u00f3, can\u00adta\u00adro\u00adlan\u00addo sempre no mesmo tom iguais cantigas, como se corpos, m\u00e3os, almas e vozes em comum n\u00f3s tiv\u00e9ssemos. Desta arte cres\u00adce\u00admos juntas, a\u00adpa\u00adren\u00adte\u00admen\u00adte se\u00adpa\u00adra\u00addas, mas, ainda assim, unidas; dois frutos amorosos num s\u00f3 talo, um cora\u00e7\u00e3o apenas em dois corpos ao parecer, tal como dois escudos encimados por uma crista apenas. Quereis romper uma amizade dessas, para ao lado vos pordes desses mo\u00e7os que escarnecem de vossa pobre amiga? N\u00e3o \u00e9 pro\u00adce\u00addi\u00admen\u00adto de amizade, nem \u00e9 conduta feminil, tampouco. Por mim, todo o meu sexo te condena, muito embora eu, so\u00admen\u00adte, a inj\u00faria sinta.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 De espanto me enche esse discurso ins\u00f3lito. De v\u00f3s n\u00e3o zombo; o que suponho certo, \u00e9 que alvo sou de vossa zombaria.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Instigado por v\u00f3s n\u00e3o foi Lisandro a me seguir e me fazer enc\u00f4mios por pura zom\u00adba\u00adria, e\u00adnal\u00adte\u00adcen\u00addo-me os olhos e a figura? N\u00e3o fizestes que este outro vosso admirador, Dem\u00e9trio que, at\u00e9 h\u00e1 pouco, com o p\u00e9 me repelia \u2014 me chamasse de ninfa, deusa, rara, preciosa, celestial, irresist\u00edvel? Por que fala desta arte a quem detesta? Por que raz\u00e3o Lisandro ora se mostra perjuro ao vosso amor que a alma lhe adorna, e afei\u00e7\u00e3o me protesta for\u00admal\u00admen\u00adte, se instigado por v\u00f3s n\u00e3o se encontrasse? Por ser destitu\u00edda dos encantos que vos s\u00e3o pr\u00f3prios e n\u00e3o ter nenhuma sorte no amor, amando como o fa\u00e7o, sem ser cor\u00adres\u00adpon\u00addi\u00adda? Isso piedade despertar de\u00adve\u00adria, n\u00e3o desprezo.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 De vossa fala o nexo n\u00e3o percebo.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Continuai a fingir olhares tristes e, quando eu me virar, fazei caretas; um para o outro piscai; levai avante vossa pilh\u00e9ria fina; a brincadeira bem planejada vai passar \u00e0 hist\u00f3ria. Se de moral, piedade, ou sen\u00adti\u00admen\u00adto fosseis dotados, n\u00e3o me escolher\u00edeis para objeto de vosso passatempo. Mas passai bem; em parte \u00e9 minha a culpa; a aus\u00eancia ou a morte ensejar\u00e1 o rem\u00e9dio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 N\u00e3o v\u00e1s, gen\u00adtil He\u00adle\u00adna; ouve-me os votos, amor, vida, minha alma, Helena linda!<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Admir\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Meu bem, n\u00e3o troces dela.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Se com seus rogos H\u00e9rmia o n\u00e3o convence a for\u00ad\u00e7a em\u00adpre\u00adga\u00adrei.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Tuas amea\u00e7as me obrigam tanto quanto o seu pedido. Amo-te, Helena. Sim, por minha vida, por esta vida que por ti arrisco, juro provar que falsidade afirma quem se atreva a dizer que eu n\u00e3o te adoro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Maior que o dele \u00e9 o meu amor. afirmo-o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Ent\u00e3o vinde comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Neste instante.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 A que tende, Lisandro, a brincadeira?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Para tr\u00e1s, negra et\u00edope!<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Ele finge que est\u00e1 fu\u00adri\u00ado\u00adso mas, re\u00adal\u00admen\u00adte, abst\u00e9m-se de me seguir. Homem pacato, vamos!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO (<i>a H\u00e9rmia<\/i>) \u2014 Gata, vai te enforcar! Bardana! Monstro! Se n\u00e3o, ser\u00e1s tratada como v\u00edbora.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Por que t\u00e3o rude assim ficais de s\u00fabito? Qual a causa, meu bem, dessa mudan\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Teu bem, T\u00e1rtara es\u00adcu\u00adra? Para tr\u00e1s, vo\u00admi\u00adt\u00f3\u00adrio! Ve\u00adne\u00adno o\u00addi\u00ado\u00adso, fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Estais brin\u00adcan\u00addo?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Sim, e v\u00f3s com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Dem\u00e9trio, manterei minha palavra.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Quisera ter a o\u00adbri\u00adga\u00ad\u00e7\u00e3o es\u00adcri\u00adta por vossa pr\u00f3pria m\u00e3o, pois estou vendo que obriga\u00e7\u00e3o mui fraca ora vos prende. Vossa palavra para mim n\u00e3o vale.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Como! Devo bater-lhe? Assassin\u00e1-la? Embora a odeie, mal n\u00e3o lhe desejo.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Como! \u00c9 poss\u00edvel maior mal do que isso de me odiardes assim? \u00d3dio votardes-me? Por qu\u00ea? Por qu\u00ea? Oh Deus! Amor, que houve? H\u00e9rmia n\u00e3o sou e v\u00f3s n\u00e3o sois Lisandro? Sou t\u00e3o formosa agora quanto era antes. Am\u00e1veis-me esta noite, e nesta mesma noite me rejeitais. Serei for\u00e7ada, pois, a pensar oh! Deus tal n\u00e3o permita! \u2014 que de caso pensado me deixastes. Dizei: \u00e9 isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Sim, por minha vida, e n\u00e3o te quero ver nunca jamais. Perde, pois, a esperan\u00e7a; n\u00e3o te iludas, n\u00e3o me fa\u00e7as perguntas sem sentido. N\u00e3o \u00e9 pilh\u00e9ria, podes estar certa; nada h\u00e1 mais verdadeiro; tenho-te dio e a\u00adpai\u00adxo\u00adna\u00adda\u00admen\u00adte a Helena adoro.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Ai de mim! Feiticeira! Vil gusano, ladra de amor! Durante a noite viestes para roubar o cora\u00e7\u00e3o do peito do meu amado?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014Fina, re\u00adal\u00admen\u00adte! Pudor n\u00e3o tendes virginal, mod\u00e9stia, resqu\u00edcio de vergonha? Ser\u00e1 cr\u00edvel? Quereis for\u00e7ar-me a gentil boca a dar-vos respostas impacientes? Oh! Que opr\u00f3brio! Fora, boneca falsa!<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 \u00c9 assim: boneca! Es\u00adcla\u00adre\u00adce-se agora a brin\u00adca\u00addei\u00adra. Come\u00e7o a perceber que ela o confronto fez de nossas alturas, insistindo no seu porte mais alto, na apar\u00eancia mais elevada, em sua alta compostura, e desse modo pode seduzi-lo. Subistes tanto em sua estima, apenas por eu ser an\u00e3zinha e diminuta? Qual \u00e9 minha estatura? Vamos, fala, varapau rebocado. Sou pequena, n\u00e3o \u00e9 verdade? Mas n\u00e3o tanto, ainda, que com as unhas os olhos n\u00e3o te alcance.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Senhores, muito embora estejais todos de mim fazendo tro\u00e7a, por obs\u00e9quio n\u00e3o consintais que mal ela me cause. Nunca fui m\u00e1, nem queda jamais tive para essas discuss\u00f5es; mulher me sinto at\u00e9 mesmo na minha covardia. N\u00e3o deixeis que me bata, pois decerto n\u00e3o pensais que por ela ser mais baixa do que eu, serei capaz de domin\u00e1-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Baixa, baixa outra vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 H\u00e9rmia bondosa, n\u00e3o vos mostreis zangada assim comigo. Sem\u00adpre vos tive amor; ofensa alguma jamais vos fiz e sempre fui discreta com rela\u00e7\u00e3o a vossas confid\u00eancias. Sim, por amor, apenas, de Dem\u00e9trio, lhe revelei que hav\u00edeis combinado fugir para este bosque; ele seguiu-vos; eu o segui, tamb\u00e9m, por amor dele, mas fui por ele repelida, sobre me ver amea\u00e7ada de pancada e at\u00e9 mesmo de morte. Mas agora, se deixardes que em paz eu me retire, n\u00e3o mais vos seguirei; torno com a minha loucura para Atenas. Sim, deixai-me; bem vedes como eu sou simples e d\u00f3cil.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Voltai logo; quem \u00e9 que vos ret\u00e9m?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 O louco cora\u00e7\u00e3o que atr\u00e1s eu deixo.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Com Lisandro, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 N\u00e3o, com Dem\u00e9trio.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 N\u00e3o tenhas medo, Helena; nenhum dano ela te causar\u00e1.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 De nenhum modo, senhor, ainda mesmo que do lado dela vos coloqueis.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Quando zan\u00adga\u00adda, sar\u00adc\u00e1s\u00adti\u00adca ela fica e arrebatada. Verdadeira raposa era na escola; apesar de pequena, \u00e9 perigosa.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 \u201cPequena\u201d, sempre; \u00e9 s\u00f3 \u201cpequena\u201d e \u201cbaixa\u201d. Permitis que me insulte desse modo? Deixai-me segur\u00e1-la um s\u00f3 mo\u00admen\u00adto.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Para tr\u00e1s, an\u00e3zinha! Dedo m\u00ednimo, ser composto de grama re\u00adtar\u00addan\u00adte, se\u00admen\u00adte, conta de ros\u00e1rio, fora!<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Insistis por demais junto a uma dama que n\u00e3o desce a aceitar-vos os servi\u00e7os. Deixai-a s\u00f3; n\u00e3o mais faleis de Helena, nem tomeis seu partido, pois se a m\u00ednima demonstra\u00e7\u00e3o de amor lhe revelardes, pagareis caro.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Ela j\u00e1 n\u00e3o me pren\u00adde. Se tens co\u00adra\u00adgem, segue-me; ve\u00adja\u00admos qual de n\u00f3s dois a Helena tem direito.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Seguir-te? N\u00e3o! Irei junto contigo, rosto com rosto.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Lisandro e Dem\u00e9trio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 V\u00f3s, senhora, a causa sois dessa briga; n\u00e3o conv\u00e9m sairdes.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 Em v\u00f3s eu n\u00e3o confio; n\u00e3o me agrada ficar em companhia amaldi\u00e7oada. Se dessas m\u00e3os me podem vir feridas, para correr tenho eu pernas compridas. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 N\u00e3o sei o que pensar dessas mexidas. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Tudo prov\u00e9m de tua neglig\u00eancia. Sempre te enganas, caso n\u00e3o se trate de alguma brincadeira volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 \u00d3 rei das sombras, podeis crer-me: houve erro. N\u00e3o disseste que f\u00e1cil me seria reconhecer o mo\u00e7o, pelas vestes de modelo ateniense? N\u00e3o mere\u00e7o censura desta vez, pois encantado deixei de Atenas jovem namorado. Mas alegra-me ver tudo assim torto, que para mim n\u00e3o h\u00e1 melhor desporto.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Viste que os dois rivais foram em busca de uma clareira para duelo. Embrusca depressa a noite, bom Robim; defronte deles espalha as trevas do Aqueronte; aparta um do outro os mo\u00e7os namorados e os faze andar por diferentes lados. Imita de Lisandro a voz aguda, porque mais a Dem\u00e9trio o \u00f3dio sacuda; ou de Dem\u00e9trio finge a voz, de modo que n\u00e3o se encontrem nunca e, sobremodo cansados, possa o sono, irm\u00e3o da morte, surpreend\u00ea-los com seu pesado porte, infundindo-lhes pl\u00e1cido sossego com suas tenras asas de morcego. Depois, nos olhos de Lisandro espreme desta outra plantazinha o suco estreme, que apresenta a virtuosa propriedade de lhes restituir a claridade, da ilus\u00e3o lhes dei\u00adxan\u00addo in\u00adtei\u00adra\u00admen\u00adte liberta a vista, o cora\u00e7\u00e3o e a mente. Despertos, pensar\u00e3o que esta balb\u00fardia tivesse sido, t\u00e3o-so\u00admen\u00adte, est\u00fardia vis\u00e3o, talvez um simples sonho, apenas. Voltar\u00e3o, desse modo, para Atenas os dois casais de fidos namorados, em la\u00e7os sempiternos amarrados. Enquanto isso fizeres com carinho, pedirei a Tit\u00e2nia o pajenzinho, da vista logo lhe ti\u00adran\u00addo o encanto que a faz de um monstro apaixonar-se tanto.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Meu rei dos duendes, isso vai ser, feito com toda a pressa, como o pede o pleito, que os velozes drag\u00f5es da noite escura n\u00e3o cessam de apartar com a viatura aquelas nuvens negras. N\u00e3o demora, vai nos surgir o anunciar da aurora, ante o qual os esp\u00edritos ne\u00adfan\u00addos procuram logo o cemit\u00e9rio, aos bandos; os espectros de quantos pelas ondas, ou nas encruzilhadas, as hediondas sepulturas tiveram, para os leitos de vermes j\u00e1 se foram, com trejeitos; de medo de mostrar suas vergonhas, escondem da luz clara as ca\u00adran\u00adto\u00adnhas, o\u00adcul\u00adtan\u00addo de grado o aspecto impuro na negra noite de sobrolho escuro.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Nossa ess\u00eancia, por\u00e9m, \u00e9 diferente. Com o amante da Aurora, no nascente rubicundo costumo divertir-me; \u00e0s vezes, como ca\u00e7ador, a firme terra me apraz cortar, at\u00e9 que a rubra porta ecoa a Netuno nos descubra, com amarelo de ouro colorindo a verde superf\u00edcie do mar lindo. Mas apressa-te; a m\u00e1gica abrevia; urge fazer tudo isso antes do dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Oberon.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Com toda a velocidade vou traz\u00ea-los. Nenhum h\u00e1 de me escapar. Minha vontade nas choupanas, na cidade, por tudo tem validade. Traz\u00ea-los vou, sem maldade, com toda a velocidade. L\u00e1 vem um.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Lisandro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Tua f\u00faria, Dem\u00e9trio, deu em nada?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Aqui, vil\u00e3o! Arranca logo a espada!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 J\u00e1 vou! J\u00e1 vou!<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ent\u00e3o, para a clareira me acompanha.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Lisandro, na dire\u00e7\u00e3o da voz.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Dem\u00e9trio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Lisandro, essa car\u00adrei\u00adra de veloz gamo impede que eu conhe\u00e7a em que buraco escondes a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Covarde, com as estrelas \u00e9 tua briga? Ou com as \u00e1rvores? Mandas que te siga, e te escondes de mim? Bonito duelo! Vem, menino; uma vara de marmelo tenho aqui, pois vergonha fora, imensa, com ferro te punir por esta ofensa.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 J\u00e1 vais ver. Onde est\u00e1s?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 \u00c9 muito f\u00e1cil seguir-me a voz tua figura gr\u00e1cil.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Lisandro.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Sempre me vai \u00e0 frente em meu caminho; mas, ao querer peg\u00e1-lo, estou sozinho. Corro a valer, mas ele \u00e9 mais veloz; s\u00f3 tem for\u00e7as nas pernas e na voz. Exausto estou de tanta correria. Vou descansar. (<i>Deita-se.<\/i>) Vem, a\u00adben\u00ad\u00e7o\u00ada\u00addo dia! Se eu vir de novo a tua luz risonha, me pagar\u00e1 Dem\u00e9trio esta vergonha. (<i>Dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam Puck e Dem\u00e9trio.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ol\u00e1, covarde! Em que lugar te escondes?<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 para, se tens coragem. N\u00e3o respondes? Por tudo corres, a mudar de posto, sem que jamais eu possa ver-te o rosto. Onde est\u00e1s?<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Aqui mesmo; n\u00e3o me fujas.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Vamos brigar no claro; s\u00f3 corujas podem ver em tamanha escurid\u00e3o. Se eu te pegar de dia&#8230; A lassid\u00e3o me constrange a medir a compostura em qualquer parte&#8230;nesta pedra dura. (<i>Deita-se e dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Helena.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00d3 noite tediosa e can\u00adsa\u00adti\u00adva, passa depressa! Vem, radiante aurora! porque a Atenas eu possa chegar viva, livre de quem minha alma em v\u00e3o implora. Sono, que esquecer fazes a agonia, liberta-me da minha companhia. (<i>Deita-se e dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Somente tr\u00eas? Falta gente porque o outro par descontente fique completo. Coitada! Como vem triste e cansada, por Cupido transtornada!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta H\u00e9rmia.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Jamais tal dor senti, tan\u00adto can\u00adsa\u00ad\u00e7o; toda mo\u00adlha\u00adda estou, di\u00adla\u00adce\u00adra\u00adda; n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel dar mais um s\u00f3 passo; os p\u00e9s n\u00e3o me obedecem quase nada. Aqui esperarei o dia belo;Deus proteja a Lisandro nesse duelo. (<i>Deita-se e dorme.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 No solo duro dorme; conjuro de grande efeito transforme o peito tamb\u00e9m deste namorado. (<i>Deita o suco da planta nos olhos de Lisandro.<\/i>) Quando acordares com novos ares, fiques rendido do peito fido de que j\u00e1 foste afei\u00e7oado. Cada mulher com um var\u00e3o, proclama velho rif\u00e3o com muita boa inten\u00e7\u00e3o. Com prosa lhana Jo\u00e3o pega Joana. Quem boa potranca tem, acha que tudo est\u00e1 bem. (<i>Sai.<\/i>)<a id=\"snh21\" name=\"snh21\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO IV<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Bosque. Lisandro, Dem\u00e9trio, Helena e H\u00e9rmia dormem. Entram Tit\u00e2nia e Bottom, com o s\u00e9q\u00fcito de silfos. Oberon, atr\u00e1s, invis\u00edvel.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Vem sentar-te entre as flores odorosas, porque o rosto eu te alise como dantes, a cabe\u00e7a te cubra s\u00f3 de rosas e te beije as orelhas elegantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Onde est\u00e1 Flor-de-Ervilha?<\/p>\n<p align=\"justify\">FLOR-DE-ERVILHA \u2014 Presente!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Flor-de-Ervilha, co\u00e7a-me a cabe\u00e7a. Onde est\u00e1 monsieur Teia-de-Aranha?<\/p>\n<p align=\"justify\">TEIA-DE-ARANHA \u2014 Presente!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Monsieur Teia-de-Aranha, meu caro monsieur, tomai de vossas armas, matai-me a abelha de ancas vermelhas que se acha naquele cardo e trazei-me, caro monsieur, seu saco de mel. N\u00e3o vos afobeis de\u00adma\u00adsia\u00adda\u00admen\u00adte nessa opera\u00e7\u00e3o, monsieur, e tende cuidado, meu bom monsieur, para que o saco de mel n\u00e3o venha a se romper. Pesar-me-ia, signior, ver-vos inundado de mel. Onde est\u00e1 monsieur Se\u00admen\u00adte-de-Mos\u00adtar\u00adda?<\/p>\n<p align=\"justify\">SEMENTE-DE-MOSTARDA \u2014 Presente!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Dai-me o punho, monsieur Se\u00admen\u00adte-de-Mos\u00adtar\u00adda. Por obs\u00e9quio, deixai esses cum\u00adpri\u00admen\u00adtos, meu caro monsieur.<\/p>\n<p align=\"justify\">SEMENTE-DE-MOSTARDA \u2014 Que or\u00adde\u00adnais?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Nada, meu ca\u00adro mon\u00adsieur a n\u00e3o ser que quei\u00adrais a\u00adju\u00addar o Ca\u00adva\u00adlei\u00adro Teia-de-Aranha a me co\u00e7ar. Estou pre\u00adci\u00adsan\u00addo ir ao bar\u00adbei\u00adro, monsieur, pois quer parecer-me que estou com o rosto ma\u00adra\u00advi\u00adlho\u00adsa\u00admen\u00adte peludo. Sou um asno t\u00e3o delicado, que se um pelo, que seja, me faz c\u00f3cegas, sou obrigado a me arranhar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Amor, desejas ouvir boa m\u00fasica?<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Sou dotado de ouvido ra\u00adzo\u00ada\u00advel\u00admen\u00adte musical. Que venha, pois, o bombo e os martelos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Ou dize, amor, o que comer preferes.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Magn\u00edfico! Uma quarta de forragem. Mastigaria, tamb\u00e9m, com muito gosto aveia seca. Parece-me que aceitaria de bom grado um bom feixe de feno. N\u00e3o h\u00e1 o que se compare ao feno perfumado!<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Disponho de um tra\u00adves\u00adso e es\u00adper\u00adto silfo, capaz de, num mo\u00admen\u00adto, trazer nozes do celeiro do esquilo irrequieto.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Preferira um ou dois punhados de ervilhas secas. Mas, por obs\u00e9quio, n\u00e3o permitais que vossa gente me perturbe. Sinto-me tomado por uma grande exposi\u00e7\u00e3o de dormir.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Dorme, enquanto estes bra\u00e7os te acalentam. Elfos, parti depressa; dispersai-vos! (<i>Saem os elfos.<\/i>) Assim se enla\u00e7am, gen\u00adtil\u00admen\u00adte, a rude madressilva e a dos bosques, perfumada; a hera, desta arte, com meiguice, os dedos nodosos do olmo do\u00adce\u00admen\u00adte afaga. Quanto te quero! Quanto te idolatro!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Adormecem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Puck.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Bem-vindo, bom Robim. V\u00ea que beleza! Sua loucura, agora, me d\u00e1 pena. Quando a encontrei, h\u00e1 pouco, atr\u00e1s do bosque, pro\u00adcu\u00adran\u00addo para este odioso lorpa presentes e regalos, repreendi-a, che\u00adgan\u00addo a me zangar, por lhe haver ela as fontes circundado cabeludas com grinalda de flores odorosas. As pr\u00f3prias gotas do mimoso orvalho, que nos r\u00f3seos bot\u00f5es, por vezes, ficam como redondas p\u00e9rolas do Oriente, ent\u00e3o nos lindos c\u00e1lices estavam como doridas l\u00e1grimas, que a pr\u00f3pria desgra\u00e7a las\u00adti\u00admas\u00adsem. P\u00f3s hav\u00ea-la censurado e haver-me ela em brandos termos impetrado paci\u00eancia, o pajenzinho lhe requeri, o que ela de boa\u00admen\u00adte me concedeu, man\u00addan\u00addo que seus elfos para os meus aposentos o levassem, no dom\u00ednio das fadas. Ent\u00e3o vendo-me de posse do menino, vou tirar-lhe dos olhos a cegueira intoler\u00e1vel. Gentil Puck, retira o inadequado capacete da fronte do ateniense, para que, ao despertar, junto com os outros voltem para a cidade, convencidos de que os v\u00e1rios sucessos desta noite n\u00e3o passaram de simples pe\u00adsa\u00adde\u00adlos num sono atormentado. Mas primeiro desencantar me apraz nossa rainha. (<i>To\u00adcan\u00addo os olhos de Tit\u00e2nia com uma erva.<\/i>) Como eras antes, ser\u00e1s; como antes vias, ver\u00e1s; pois o bot\u00e3o de Diana de Cupido esfaz a liana. Tit\u00e2nia, minha flor, desperta logo!<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Meu Oberon, que pe\u00adsa\u00adde\u00adlo hor\u00adr\u00ed\u00advel! Quis pa\u00adre\u00adcer-me que eu a\u00adpai\u00adxo\u00adna\u00adda era de um asno.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Ali, vede, se encontra vosso amor.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Como foi poss\u00edvel isso? Como a vista me ofende essa figura!<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Sil\u00eancio alguns ins\u00adtan\u00adtes. Sem demora transforma-o, bom Robim. Tit\u00e2nia, agora manda vir m\u00fasica e em profundo sono os sentidos mergulha deles todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 M\u00fasica, ol\u00e1! para en\u00adcan\u00adtar o sono!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>M\u00fasica.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 De um bobo, ao despertares, ser\u00e1s dono.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 M\u00fasicos, pros\u00adse\u00adgui! Va\u00admos, querida, as m\u00e3os nos demos. Ora esfor\u00e7o envida para que todos quantos na comprida noite sonharam tenham feliz vida. J\u00e1 que nossa disc\u00f3rdia mal sofrida em harmonia se mudou garrida, iremos amanh\u00e3, so\u00adle\u00adne\u00admen\u00adte, dan\u00e7ar, meia-noite, bem em frente do quarto de Teseu, porque ridente lhe seja a grande prole e, a\u00adle\u00adgre\u00admen\u00adte, compare\u00e7a ante o altar toda esta gente para cultuar Amor, o deus potente.<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Rei dos duendes, j\u00e1 anuncia a manh\u00e3 a cotovia.<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Ent\u00e3o, querida, a ventura sigamos da noite escura; podemos dar volta ao mundo em pouco mais de um segundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Vamos, amor; em ca\u00admi\u00adnho me re\u00adla\u00adta com carinho de que modo me encontraste a dormir neste contraste.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Ouve-se toque de trompa. Entram Teseu, Hip\u00f3lita, Egeu e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Um de v\u00f3s v\u00e1 chamar o guarda-ca\u00e7a. J\u00e1 com\u00adple\u00adta\u00admos o ri\u00adtual sa\u00adgra\u00addo; e uma vez que a manh\u00e3 vamos ter livre, vai minha amada apreciar a orquestra de meus fortes lebr\u00e9is. De\u00adsa\u00adtre\u00adlai-os no vale do oeste; corram li\u00advre\u00admen\u00adte. Depressa! Ide chamar o guarda-ca\u00e7a. Minha rainha, daquele alto monte ouviremos melhor a conjun\u00e7\u00e3o dos ecos, a ladrar em confus\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Presente eu fui com H\u00e9rcules e Cadmo, quando, com c\u00e3es de Esparta, o urso ca\u00e7avam na floresta de Creta. T\u00e3o galante barulheira jamais havia ouvido; o bosque, o c\u00e9u, as fontes, tudo, tudo, era em torno uma crebra gritaria. Em parte alguma nunca ouvira m\u00fasica t\u00e3o discorde, trov\u00e3o t\u00e3o agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Estes meus c\u00e3es tamb\u00e9m prov\u00eam de Esparta; pelo manchado todos t\u00eam, queixada muito larga, as o\u00adre\u00adlhas der\u00adru\u00adba\u00addas, sempre a varrer o orvalho matutino; de pernas tortas e papada, todos, fazem lembrar os touros da Tess\u00e1lia. Um tanto lerdos s\u00e3o no encal\u00e7o \u00e0s feras, \u00e9 verdade; mas, quando todos ladram, lembram toque de sinos; gritaria mais harmoniosa nunca foi sentida nem provocada pelo som dos cornos ouvidos na Tess\u00e1lia, em Creta e Esparta. Ides julgar v\u00f3s mesma, ap\u00f3s ouvi-los. Mas, devagar! Que ninfas ser\u00e3o estas?<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Esta, milorde, \u00e9 minha fi\u00adlha; dorme pro\u00adfun\u00adda\u00admen\u00adte; aquele, ali, \u00e9 Lisandro; aquele outro, Dem\u00e9trio; Helena, aquela, Helena, filha de Nedar, o velho. Espanta-me encontr\u00e1-los aqui juntos.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Decerto madrugaram, para os ritos observarem de maio e, tendo ouvido falar de nossas inten\u00e7\u00f5es, vieram, para dar maior gra\u00e7a a estes festejos. Mas Egeu, uma coisa eu desejara que me dissesses: hoje n\u00e3o \u00e9 o dia em que prometeu H\u00e9rmia decidir-se sobre a escolha do noivo?<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Sim, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Mandai que os ca\u00e7adores os despertem com seus toques de trompa. (<i>No interior, toque de trompa e alaridos. Lisandro, Dem\u00e9trio, H\u00e9rmia e Helena despertam e se levantam.<\/i>) Ent\u00e3o, amigos? Bom dia! J\u00e1 passou S\u00e3o Valentim; s\u00f3 agora \u00e9 que estes p\u00e1ssaros se casam?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Perd\u00e3o, milorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Lisandro e os demais se ajoelham.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Levantai-vos, pe\u00e7o. Sei que rivais sois ambos e inimigos. Onde se viu no mundo tal conc\u00f3rdia, che\u00adgan\u00addo o \u00f3dio a ficar t\u00e3o sem ci\u00fame, que cal\u00adma\u00admen\u00adte durma ao lado do \u00f3dio?<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Confuso, meu bom lorde, \u00e9 que vos falo, meio a dormir, ainda, e mal desperto. N\u00e3o saberei dizer com seguran\u00e7a como vim ter aqui. Mas se n\u00e3o erro \u2014 que \u00e9 meu desejo ser veraz em tudo&#8230; Sim, \u00e9 isso mesmo; agora me recordo \u2014 fugi com H\u00e9rmia, sendo inten\u00e7\u00e3o nossa ir para algum lugar longe de Atenas, por fugirmos \u00e0s leis dos atenienses.<\/p>\n<p align=\"justify\">EGEU \u2014 Basta, basta, milorde! \u00c9 o suficiente. Exijo que sobre ele a lei recaia. Iam fugir. Dem\u00e9trio, tencionavam a mim e a ti burlar; a ti, pri\u00advan\u00addo-te da esposa; a mim, dei\u00adxan\u00addo-me em estado de n\u00e3o poder cumprir o prometido.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Milorde, revelou-me a linda Helena que eles iam fugir e tencionavam neste bosque ocultar-se. Transtornado como me achava, vim no encal\u00e7o deles, por amor me seguindo a linda Helena. Mas milorde, n\u00e3o sei por que pot\u00eancia \u2014 mas que foi algo superior, \u00e9 certo \u2014 toda a paix\u00e3o que a H\u00e9rmia eu dedicava se derreteu qual neve, s\u00f3 res\u00adtan\u00addo dela a mem\u00f3ria como de um brinquedo que na inf\u00e2ncia me houvesse deleitado. A alegria exclusiva dos meus olhos, a inabal\u00e1vel f\u00e9, minha virtude \u00e9 Helena, sim\u00adples\u00admen\u00adte. N\u00f3s, milorde, j\u00e1 \u00e9ramos noivos antes de eu ver H\u00e9rmia; mas, tal como a um doente, repugnava-me esse a\u00adli\u00admen\u00adto. Agora, tendo o gosto natural recobrado com a sa\u00fade, desejo-a, adoro-a, s\u00f3 por ela anseio, e ser prometo e\u00adter\u00adna\u00admen\u00adte fido.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Belos amantes, como vos achastes no mo\u00admen\u00adto preciso! Com mais calma me contareis o resto dessa hist\u00f3ria. Egeu, vou contrariar tua vontade: no templo, agora mesmo, estes dois pares v\u00e3o se unir para sempre. E, pois a meio j\u00e1 se encontra a manh\u00e3, ser\u00e1 for\u00e7oso adiarmos nosso plano de ca\u00e7ada. Voltemos para Atenas; tr\u00eas a tr\u00eas, bela festa far\u00e3o de uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Teseu, Hip\u00f3lita, Egeu e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Tudo quanto passou se me afigura pequenino e in\u00addis\u00adtin\u00adto, co\u00admo ao lon\u00adge mon\u00adta\u00adnhas que com as nuvens se confundem.<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Pare\u00e7o ter a vis\u00adta per\u00adtur\u00adba\u00adda, todas as coisas en\u00adxer\u00adgan\u00addo em dobro.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00c9 o que eu digo, tamb\u00e9m. Achei Dem\u00e9trio como j\u00f3ia que, embora pertencendo-me, parece n\u00e3o ser minha.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Tens certeza de que estamos despertos? S\u00f3 parece que ainda dormimos, que tudo isto \u00e9 sonho. O duque n\u00e3o esteve aqui? N\u00e3o disse que f\u00f4ssemos com ele?<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00c9RMIA \u2014 Esteve, e junto meu pai tamb\u00e9m se achava.<\/p>\n<p align=\"justify\">HELENA \u2014 \u00c9 assim Hip\u00f3lita.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Mandou que ao templo todos o se\u00adgu\u00eds\u00adse\u00admos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Ent\u00e3o tudo \u00e9 verdade; n\u00e3o es\u00adta\u00admos dor\u00admin\u00addo. A\u00adcom\u00adpa\u00adnhe\u00admos logo o duque e em caminho contemos nossos sonhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM (<i>despertando<\/i>) \u2014 Quando chegar a minha vez, chamem-me, que eu responderei. Minha pr\u00f3xima fala \u00e9: \u201cFormos\u00edssimo P\u00edramo!\u201d Ol\u00e1, Peter Quince! Flauta, remenda foles! Snout, caldeireiro! Starveling! Deus do c\u00e9u! Foram-se todos, e me deixaram a dormir. Tive uma vis\u00e3o ex\u00adtra\u00ador\u00addi\u00adn\u00e1\u00adria. Tive um sonho, que n\u00e3o h\u00e1 en\u00adten\u00addi\u00admen\u00adto humano capaz de dizer que sonho foi. N\u00e3o passar\u00e1 de um grande asno quem quiser explicar esse sonho. Parece-me que eu era&#8230; N\u00e3o h\u00e1 quem seja capaz de dizer o que eu era. Parece-me que eu era&#8230; e parece-me que eu tinha&#8230; S\u00f3 um buf\u00e3o maltrapilho seria capaz de tentar explicar o que me pareceu que eu era. N\u00e3o h\u00e1 olho de homem que tenha visto, nem orelha de homem que tenha ouvido, nem m\u00e3os de homem que tenham gostado, nem l\u00edngua que haja concebido, nem cora\u00e7\u00e3o que haja relatado o que foi o meu sonho. Vou pedir a Peter Quince que escreva uma balada a respeito desse sonho, que receber\u00e1 o t\u00edtulo de \u201cO sonho de Bottom\u201d, por ser um sonho embotado, e a cantarei no fim da pe\u00e7a, diante do duque. \u00c9 poss\u00edvel, at\u00e9, que, para deix\u00e1-la mais graciosa, eu a cante depois da morte de Tisbe. (<i>Sai.<\/i>)<a id=\"snh22\" name=\"snh22\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Atenas, um quarto em casa de Quince. Entram Quince, Flauta, Snout e Starveling.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Mandastes algu\u00e9m \u00e0 casa de Bottom? Ele j\u00e1 voltou para casa?<\/p>\n<p align=\"justify\">STARVELING \u2014 N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias dele; decerto foi levado para alguma parte.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Se ele n\u00e3o voltar, ficar\u00e1 estragada a com\u00e9dia; n\u00e3o poder\u00e1 ser representada, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 De jeito nenhum; em toda Atenas n\u00e3o tendes ningu\u00e9m como ele para fazer o papel de P\u00edramo.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 \u00c9 a pura verdade; ele \u00e9 sim\u00adples\u00admen\u00adte o maior engenho dos artes\u00e3os de Atenas.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 E a melhor pessoa, tamb\u00e9m; quanto \u00e0 do\u00e7ura da voz, \u00e9 um verdadeiro fen\u00edcio.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 \u201cF\u00eanix\u201d, homem \u00e9 o que quereis dizer! Fen\u00edcio \u2014 Deus nos acuda! \u2014 n\u00e3o \u00e9 coisa nenhuma.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Snug.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">SNUG \u2014 Mestres, o duque vem vindo do templo, onde casaram, jun\u00adta\u00admen\u00adte com ele, mais tr\u00eas senhores e tr\u00eas senhoras. Se nossa pe\u00e7a n\u00e3o houvesse ficado apenas em ensaio, ser\u00edamos hoje gente grande.<\/p>\n<p align=\"justify\">FLAUTA \u2014 Oh, o nosso valente Bottom! Desse modo ele perde uma renda vital\u00edcia de seis pences por dia. Sim, n\u00e3o poderia deixar de ganhar seis pences por dia. Quero que me enforquem, se o duque n\u00e3o lhe desse seis pences di\u00e1rios pela representa\u00e7\u00e3o de P\u00edramo. \u00c9 o que ele merecia para representar P\u00edramo: ou seis pences por dia, ou nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Bottom.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Onde est\u00e3o os rapazes? Onde est\u00e3o esses cora\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Bottom! Oh dia co\u00adra\u00adjo\u00adso! Que hora fe\u00adli\u00adc\u00eds\u00adsi\u00adma!<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 Mestres, tenho coisas maravilhosas para vos contar, mas n\u00e3o me pergunteis nada, porque se eu vo-las referisse, n\u00e3o seria um ateniense da gema. Hei de vos contar tudo, tintim por tintim, e\u00adxa\u00adta\u00admen\u00adte como se passou.<\/p>\n<p align=\"justify\">QUINCE \u2014 Conta-nos o que houve, am\u00e1vel Bottom.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 N\u00e3o direi uma s\u00f3 pa\u00adla\u00advra. Tudo o que vos posso dizer \u00e9 que o duque j\u00e1 jantou. Ide buscar as roupas, ponde bons atacadores nas barbas e fitas novas nos escarpins. Reunamo-nos no pal\u00e1cio; que todos repassem os seus pap\u00e9is, porque, para dizer tudo em poucas palavras, a nossa pe\u00e7a foi a preferida. Em todo o caso, que Tisbe se apresente de roupa limpa, o que tiver de fazer o papel de le\u00e3o n\u00e3o deve cortar as unhas, a fim de parecerem garras. Fi\u00adnal\u00admen\u00adte, meus caros atores, ser\u00e1 conveniente n\u00e3o comerdes alho nem cebola, pois ser\u00e1 preciso que exalemos um doce alento, n\u00e3o tendo eu d\u00favida de que todos v\u00e3o achar a nossa com\u00e9dia muito doce. E agora nem mais uma palavra. Adiante! Marchai! Adiante!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<a id=\"snh51\" name=\"snh51\"><\/a><\/p>\n<h2>ATO V<br \/>\nCena I<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Atenas. Uma sala no pal\u00e1cio de Teseu. Entram Teseu, Hip\u00f3lita, Fil\u00f3strato, fidalgos e s\u00e9q\u00fcito.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Estranha hist\u00f3ria, meu Teseu, nos contam todos esses amantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Mais es\u00adtra\u00adnha do que ve\u00adraz, de\u00adcer\u00adto. \u00c9-me im\u00adpos\u00ads\u00edvel acreditar em f\u00e1bulas antigas e em hist\u00f3rias de fadas. Os amantes e os loucos s\u00e3o de c\u00e9rebro t\u00e3o quente, neles a fantasia \u00e9 t\u00e3o criadora, que enxergam o que o frio en\u00adten\u00addi\u00admen\u00adto jamais pode entender. O namorado, o lun\u00e1tico e o poeta s\u00e3o compostos s\u00f3 de imagina\u00e7\u00e3o. Um v\u00ea dem\u00f4nios em muito maior n\u00famero de quantos comportar pode a vastid\u00e3o do inferno: tal \u00e9 o caso do louco, O namorado, n\u00e3o me\u00adnos trans\u00adtor\u00adna\u00addo do que aquele, enxerga a linda Helena em rosto eg\u00edpcio. O olho do poeta, num del\u00edrio excelso, passa da terra ao c\u00e9u, do c\u00e9u \u00e0 terra, e como a fantasia d\u00e1 relevo a coisas at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas, a pena do poeta lhes d\u00e1 forma, e a essa coisa nenhuma a\u00e9rea e v\u00e1cua empresta nome e fixa lugar certo. \u00c9 a imagina\u00e7\u00e3o t\u00e3o caprichosa, que para qualquer mostra de alegria logo uma causa inventa de alegria; e se medo lhe vem da noite em curso, transforma um galho -toa em feroz urso.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Con\u00adtu\u00addo, as o\u00adcor\u00adr\u00ean\u00adcias desta noite, tal como eles as contam, e as mudan\u00e7as por que todos passaram, tes\u00adti\u00adfi\u00adcam algo mais do que sim\u00adples fantasia, que certa consist\u00eancia acaba tendo, conquanto seja tudo estranho e raro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Alegres e felizes, os amantes v\u00eam vindo para c\u00e1. (<i>Entram Lisandro, Dem\u00e9trio, H\u00e9rmia e Helena.<\/i>) Muita alegria, gentis amigos; alegria e belos dias de amor vos sejam companheiros dos ternos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Maior ven\u00adtu\u00adra pos\u00adsais achar em vossos reais passeios, no leito nupcial e nos banquetes.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Ora bem; que folias ou bailados teremos para encher estas tr\u00eas horas t\u00e3o longas que medeiam entre a ceia e a hora de ir repousar? Onde se encontra nosso chefe habitual de distra\u00e7\u00f5es? Que passatempos h\u00e1? N\u00e3o h\u00e1 nenhuma pe\u00e7a teatral para aliviar a ang\u00fastia desta hora infinda? Ide chamar Fil\u00f3strato.<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 Presente, gr\u00e3o Teseu.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Com o que contamos para nos divertirmos esta noite? Que m\u00fasica? Que pe\u00e7a? De que modo mataremos o tempo pregui\u00e7oso, se n\u00e3o tivermos divers\u00e3o alguma?<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 Neste papel vereis em breves linhas o que foi ensaiado. Vossa Alteza dir\u00e1 o que deseja ver primeiro. (<i>D\u00e1-lhe um papel.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 \u201cA luta dos Centauros, ao som de harpa cantada por eunuco ateniense.\u201d Nada disso; n\u00e3o serve, que essa hist\u00f3ria j\u00e1 foi por mim contada a minha noiva para glorificar meu parente H\u00e9rcules. \u201cA orgia das Ba\u00adcan\u00adtes em\u00adbri\u00ada\u00adga\u00addas; como o vate de Tr\u00e1cia estra\u00e7alharam.\u201d \u00c9 pe\u00e7a antiga; foi re\u00adpre\u00adsen\u00adta\u00adda, quando voltei de Tebas, vitorioso. As nove Musas las\u00adti\u00adman\u00addo a morte da Ci\u00eancia, falecida na mis\u00e9ria.\u201d Decerto \u00e9 alguma s\u00e1tira mordente, que n\u00e3o ficar\u00e1 bem em nossas n\u00fapcias \u201cCena curta e tediosa do mancebo P\u00edramo e sua amada, a bela Tisbe; trag\u00e9dia divertida.\u201d Ora! Trag\u00e9dia divertida! Tediosa, a um tempo, e curta! \u00c9 o mesmo que dizer fogo gelado, neve cor de azeviche. Como acordo poremos em t\u00e3o grande discord\u00e2ncia?<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 \u00c9 uma pe\u00e7a, se\u00adnhor, de dez pa\u00adla\u00advras. Jamais vi coisa que t\u00e3o curta fosse. Mas, milorde, ainda assim, com dez palavras, tem palavras demais, por ser tediosa, pois n\u00e3o cont\u00e9m palavra alguma certa, nem ator que v\u00e1 bem. \u00c9 muito tr\u00e1gica, sem d\u00favida, milorde, porque P\u00edramo acaba por matar-se. Ao ver o ensaio, me vieram l\u00e1grimas aos olhos, for\u00e7a me ser\u00e1 confessar; mas nunca soube que jamais a risada barulhenta tivesse provocado tantas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Quais s\u00e3o os comediantes?<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 Gente ru\u00adde, se\u00adnhor, de m\u00e3os ca\u00adlo\u00adsas, que em Atenas e\u00adxer\u00adcem seus of\u00edcios e que nunca haviam trabalhado com o esp\u00edrito. Pela primeira vez, com esta pe\u00e7a a mem\u00f3ria assaz d\u00e9bil martirizam, para brilho de vosso ca\u00adsa\u00admen\u00adto.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Ent\u00e3o vamos ouvi-la.<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 N\u00e3o, milorde; n\u00e3o \u00e9 digna de v\u00f3s; j\u00e1 vi o ensaio; n\u00e3o vale nada, nada em todo o mundo, a menos que possais encontrar causa de distra\u00e7\u00e3o no zelo doloroso com que se martirizam, t\u00e3o-so\u00admen\u00adte para vos distrair.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Desejo ouvi-los, pois nunca poder\u00e1 ser ofensivo quanto a simplicidade e o zelo ditam. Fazei-os vir. Senhoras, assentai-vos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai Fil\u00f3strato.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Tais si\u00adtua\u00ad\u00e7\u00f5es me cau\u00adsam sempre pena, quando a in\u00adca\u00adpa\u00adci\u00adda\u00adde se maltrata e o zelo a morrer vem nos seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Ora, querida, n\u00e3o vereis tal coisa.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Mas se os coitados nada entendem da arte!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Tanto mais ge\u00adne\u00adro\u00adsos ha\u00adve\u00adre\u00admos de ser, quando por nada os aplaudirmos. Prazer nos causar\u00e3o seus pr\u00f3prios erros. Quando o pobre dever nada consegue, busca o nobre respeito u\u00adni\u00adca\u00admen\u00adte a inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o m\u00e9rito. A minha vinda, s\u00e1bios eminentes determinaram me saudar com longos discursos estudados. Tive o ensejo de os ver tartamudear e ficar p\u00e1lidos, interromper uma senten\u00e7a em meio, o nervoso afogar-lhes a palavra j\u00e1 t\u00e3o exercitada, at\u00e9 que mudos se tornaram, sem dar-me as boas-vindas. Podeis crer-me, querida: do sil\u00eancio tirei a sauda\u00e7\u00e3o, e li na pr\u00f3pria mo\u00add\u00e9s\u00adtia da le\u00adal\u00adda\u00adde te\u00adme\u00adro\u00adsa mais do que falar pode a l\u00edngua f\u00e1cil e a eloq\u00fc\u00eancia audaciosa e petulante. Fala mais o dever, com l\u00edngua atada, muito mais, quando \u00e9 mudo e n\u00e3o diz nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Fil\u00f3strato.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">FIL\u00d3STRATO \u2014 Vossa Gra\u00e7a o permite? A\u00ed vem o Pr\u00f3logo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Deixai-o vir.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Toque de trombetas.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entra Quince, no papel de Pr\u00f3logo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3LOGO \u2014 Se ofendemos, n\u00e3o \u00e9 porque o queiramos. Deveis pensar que se vos ofendemos \u00e9 com boa vontade. Ora aqui estamos s\u00f3 com o fim de mostrar o que que\u00adre\u00admos. O que nos traz \u00e9 o vosso desagrado; toda nossa inten\u00e7\u00e3o ser\u00e1 so\u00admen\u00adte dar-vos mais alegria e mais enfado. Dei\u00adxan\u00addo ar\u00adre\u00adpen\u00addi\u00adda tanta gente, nosso grupo aqui chega; s\u00f3 em v\u00ea-lo, podereis conhecer nosso desvelo.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Este camarada n\u00e3o faz muito caso da pontua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Montou no pr\u00f3logo como num potro xucro, que n\u00e3o para de correr. A moral \u00e9 boa, milorde: n\u00e3o basta falar, mas saber falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Re\u00adal\u00admen\u00adte, tocou no pr\u00f3logo como o fazem as crian\u00e7as com o flajol\u00e9, produzindo apenas sons, que n\u00e3o chegam a fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 O discurso dele parece uma cadeia enleada: os elos est\u00e3o inteiros, mas numa grande desordem. De quem \u00e9 a vez, agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram P\u00edramo e Tisbe, o Muro, o Luar e o Lego, como em uma pantom\u00edma.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PR\u00d3LOGO \u2014 Senhores e senhoras, porventura vos causa espanto a vista desta gente; Vedes aqui de P\u00edramo a figura e da formosa Tisbe; \u00e9 bem patente. Este homem com cali\u00e7a, representa o muro que separa os namorados, por cuja fresta sempre pachorrenta eles desabafam seus cuidados. Este outro de lanterna, c\u00e3o e espinhos, representa o luar, pois \u00e9 sabido que os amantes trocavam seus carinhos no sepulcro de Nino falecido. Este \u00e9 o le\u00e3o de juba atrapalhada, que fez Tisbe fugir apavorada por ter vindo \u00e0 entrevista antecipada. Mas, ao fugir, deixou cair o manto, que o le\u00e3o, logo, sujou todo de sangue; P\u00edramo, ao vir, sem ter corrido tanto, vendo ferido o manto, fica exangue. A espada, ent\u00e3o, sangrenta, enfia inteira no peito em que fervia o sangue ardente; Tisbe, que estava sob uma amoreira, saca o punhal e morre, O subseq\u00fcente vos ser\u00e1 relatado pelo Luar, o Muro e o Le\u00e3o, que ides ouvir falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem o Pr\u00f3logo, P\u00edramo, Tisbe, o Le\u00e3o e o Luar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Admiro-me de ouvir falar um le\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 de que se admirar, milorde; se tantos asnos falam, por que um le\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 de poder fazer a mesma coisa?<\/p>\n<p align=\"justify\">MURO \u2014 V\u00ea-se neste entremez de enredo obscuro que eu, de nome Snout, represento um muro, um muro, podeis crer \u2014 coisa estupenda! \u2014 que apresenta um buraco, frincha ou fenda, por onde Tisbe e P\u00edramo a amargura reclamavam da vida, a sorte dura. Estas pedras e esta \u00e1spera argamassa dizem que muro eu sou, muro de ra\u00e7a, e este \u00e9 o buraco, de um e de outro lado, por onde fala o par enamorado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Pode-se exigir melhor discurso de cal e cabelos?<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 O ta\u00adbi\u00adque mais es\u00adpi\u00adri\u00adtu\u00ado\u00adso, milorde, de que j\u00e1 ouvi falar.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 P\u00edramo se aproxima do muro. Sil\u00eancio!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta P\u00edramo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 O noite de olhar negro, \u00f3 noite escura, que sempre est\u00e1s onde n\u00e3o se acha o dia! \u00d3 noite negra! O minha desventura! Tisbe n\u00e3o chega! A pobre desvaria. E tu, muro querido, \u00f3 doce muro, que entre o terreno meu e o do pai dela te levantas cruel, n\u00e3o sejas duro, uma fresta me mostra ou uma janela. (<i>O Muro afasta os dedos.<\/i>) Gra\u00e7as, bom muro; Jove h\u00e1 de amparar-te. Mas, que vejo? Em v\u00e3o Tisbe ora procuro. Possas, muro, rachar-te em toda parte, por me dei\u00adxa\u00adres es\u00adpiar no es\u00adcu\u00adro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 A meu ver, o muro deveria tamb\u00e9m amaldi\u00e7oar, por ser dotado de sensibilidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 N\u00e3o, senhor; isso ele n\u00e3o faz, posso asseverar-vos. Espiar no escuro\u201d \u00e9 a deixa de Tisbe. Est\u00e1 na hora de ela entrar, e eu devo espi\u00e1-la atrav\u00e9s do muro. A\u00ed vem ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Tisbe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 O muro, que meu pranto tens ouvido, por de P\u00edramo doce me afastares, quantas vezes beijei, muro querido, tuas faces de cal, irregulares.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 Ou\u00e7o voz; vou correndo para a fresta, porque de Tisbe a bela face eu veja. Tisbe!<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 Amor! Que alegr\u00e3o tua voz me apresta.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 Alegre ou n\u00e3o, que ama\u00addo sem\u00adpre eu seja e, qual Lisandro, eterno namorado.<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 E eu, outra Helena, at\u00e9 que o queira o fado.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 Como S\u00e1falo e Procro sou constante.<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 Como S\u00e1falo e Procro eu, fiel amante.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 D\u00e1-me um beijo atrav\u00e9s deste vil muro.<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 N\u00e3o te beijei; beijei o barro duro.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 Ao sepulcro de Nino vais agora?<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 Ou viva ou morta, estarei l\u00e1 numa hora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem P\u00edramo e Tisbe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">MURO \u2014 Desta arte eu, muro, minha parte fiz; ora o muro retira-se feliz. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 J\u00e1 foi derrubado o muro que separava os dois vizinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o h\u00e1 re\u00adm\u00e9\u00addio, mi\u00adlor\u00adde, uma vez que as paredes se obstinam em ouvir sem aviso pr\u00e9vio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 \u00c9 a pe\u00e7a mais tola que eu j\u00e1 vi.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 As melhores produ\u00e7\u00f5es desta classe n\u00e3o passam de simples sombra, e as piores deixar\u00e3o de o ser, se a imagina\u00e7\u00e3o vier em seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Mas nesse caso \u00e9 a vossa imagina\u00e7\u00e3o que trabalha, n\u00e3o a deles.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Se n\u00e3o pensarmos deles mais mal do que eles pr\u00f3prios pensam, poder\u00e3o passar por excelentes pessoas. Eis que nos chegam dois nobres animais, um homem e um le\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Voltam o Le\u00e3o e o Luar.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">LE\u00c3O \u2014 Se\u00adnho\u00adras mi\u00adnhas que tre\u00admeis de me\u00addo, quan\u00addo um ra\u00adti\u00adnho vedes, monstruoso; que far\u00edeis, se ouv\u00edsseis no arvoredo rugir, de longe embora, o le\u00e3o raivoso? Sabei, pois, que sou Snug, o marceneiro; nem le\u00e3o, nem leoa, homem verdadeiro. Se agora eu fosse fera que intimida, nada daria pela minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Eis um animal ver\u00adda\u00addei\u00adra\u00admen\u00adte cort\u00eas e de boa consci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 \u00c9 o melhor animal, milorde, que eu j\u00e1 vi em toda a minha vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Este le\u00e3o, quanto ao valor, \u00e9 raposa leg\u00edtima.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 E quanto \u00e0 discri\u00e7\u00e3o, um verdadeiro ganso.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o \u00e9 assim, milorde, porque o seu valor n\u00e3o pode carregar a discri\u00e7\u00e3o, como o faz a raposa com o ganso.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 O de que tenho certeza \u00e9 que sua discri\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode carregar o seu valor, porque o ganso n\u00e3o carrega a raposa. Muito bem; entreguemo-lo sua discri\u00e7\u00e3o e ou\u00e7amos a lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUA \u2014 Eis na lanterna a lua com seus chifres&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 O ator devia trazer os chifres na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Mas \u00e9 lua cheia; os cornos est\u00e3o invis\u00edveis na circunfer\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\">LUA \u2014 Eis na lanterna a lua com seus chifres, tal como eu, que pare\u00e7o o homem da lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 De todos os erros este \u00e9 o mais aberrante; o homem deveria p\u00f4r-se dentro da lanterna; se n\u00e3o, como poder\u00e1 passar pelo homem da lua?<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o tem coragem de entrar na lanterna, s\u00f3 de medo da vela; bem vedes que j\u00e1 est\u00e1 inflamado.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 J\u00e1 estou en\u00adfa\u00adra\u00adda des\u00adsa lua; quem dera que ela se alterasse!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Pela pouca luz de sua discri\u00e7\u00e3o, podemos concluir que est\u00e1 na fase minguante. Apesar disso, por delicadeza e todas as esp\u00e9cies de raz\u00e3o, teremos de ag\u00fcent\u00e1-la o tempo todo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Adiante, lua!<\/p>\n<p align=\"justify\">LUA \u2014 Tudo o que tenho a vos dizer \u00e9 comunicar que esta lanterna \u00e9 a lua; eu, o homem da lua; este feixe de espinhos, meu feixe de espinhos, e este cachorro, meu cachorro.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Nesse caso, tudo isso deveria estar dentro da lanterna, por se encontrarem na lua. Mas, sil\u00eancio! Tisbe vem che\u00adgan\u00addo.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Tisbe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 Eis a tumba de Nino; onde est\u00e1 P\u00edramo?<\/p>\n<p align=\"justify\">LE\u00c3O (<i>rugindo<\/i>) \u2014 R-r-r-\u00f3-\u00f3-\u00f3!!!<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Tisbe foge.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Bem rugido, le\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Bem corrido, Tisbe!<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Bem iluminado, lua! Re\u00adal\u00admen\u00adte, a lua brilha com bastante gra\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>O Le\u00e3o estra\u00e7alha o manto de Tisbe e sai.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Bem rasgado, le\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Agora entra P\u00edramo.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 E assim desaparece o le\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta P\u00edramo.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 \u00d3 lua, brilhas com clar\u00e3o solar! Eu te agrade\u00e7o, lua, a luz fulgente, porque pretendo Tisbe ora avistar \u00e0 clara luz de tua \u00e1urea corrente. Mas, para! oh dor! Donzel do amor! Oh, vis\u00e3o cruel e horrorosa! Estou desperto? Pode ser certo? Oh, minha franga formosa! Teu rubro manto me aumenta o pranto. Aproximai-vos, F\u00farias! Tudo acabou! Fado, aqui estou! Vem por fim a estas lam\u00farias!<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Essa lamenta\u00e7\u00e3o, motivada pela morte de um ente querido, quase daria para entristecer a gente.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Por minha alma, faz-me pena o pobre homem.<\/p>\n<p align=\"justify\">P\u00cdRAMO \u2014 Por que fizestes le\u00f5es, \u00f3 Natureza? Um le\u00e3o me estra\u00e7alhou a namorada, a mais lin\u00adda mu\u00adlher da re\u00addon\u00adde\u00adza, que vives isto \u00e9, viveu sempre adorada. Nada conforta-me. L\u00e2mina; corta-me o cora\u00e7\u00e3o. Sim, deste lado vai ser varadopor esta m\u00e3o. (<i>Apunhala-se.<\/i>) J\u00e1 tenho calma; ao c\u00e9u minha alma foi-se a correr. Some-te, l\u00edngua! Lua, essa m\u00edngua me faz morrer, morrer, morrer&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Sai a Lua.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 N\u00e3o teve sorte; tirou um \u00e1s, por ter ficado s\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Menos do que um \u00e1s, homem; que ele est\u00e1 morto; agora \u00e9 nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 Com a a\u00adju\u00adda de um ci\u00adrur\u00adgi\u00e3o, po\u00adde\u00adria tornar \u00e0 vida e provar que \u00e9 um asno.<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Por que motivo o Luar foi embora antes de Tisbe voltar e encontrar o amante?<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 H\u00e1 de ach\u00e1-lo \u00e0 luz das estrelas. AI vem ela; suas lamenta\u00e7\u00f5es p\u00f5em fim \u00e0 pe\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Volta Tisbe.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">HIP\u00d3LITA \u2014 Segundo o meu gosto, ela n\u00e3o deveria lastimar a perda de um P\u00edramo como este. Espero que seja breve.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Se pe\u00ads\u00e1s\u00adse\u00admos P\u00ed\u00adra\u00admo e Tis\u00adbe, uma palhinha faria pender a balan\u00e7a. Ele, como homem, Deus nos acuda! Ela, como mulher, Deus nos proteja!<\/p>\n<p align=\"justify\">LISANDRO \u2014 Seus belos olhos j\u00e1 des\u00adco\u00adbri\u00adram P\u00ed\u00adra\u00admo.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Vai come\u00e7ar a se lamentar, <i>videlicet:<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">TISBE \u2014 Dormes, querido? Como! Fe\u00adri\u00addo? P\u00edramo, acorda! Fala, est\u00e1s mudo? Acabou tudo; da voz rompeu-se-me a corda. Sinto-me louca. A essa tua boca, essa boca a\u00e7ucarada, levou a Morte de negro porte, dei\u00adxan\u00addo-me a\u00adban\u00addo\u00adna\u00adda. Chorei bastante. Parca gigante, de apar\u00eancia falsa e treda, j\u00e1 lhe cortaste do belo engaste o fio vital de seda. L\u00edngua, calada! Vem, bela espada, coloca-me aos p\u00e9s de Deus. A que foi linda, Tisbe, aqui finda, a todos dizendo adeus, adeus, adeus&#8230; (<i>Morre.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 O Luar e o Le\u00e3o ficaram para enterrar os mortos.<\/p>\n<p align=\"justify\">DEM\u00c9TRIO \u2014 Sim, e o Muro, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\">BOTTOM \u2014 N\u00e3o, posso asseverar-vos; j\u00e1 foi derrubado o muro que separava os pais deles. Desejais agora ver o ep\u00edlogo, ou preferis uma dan\u00e7a bergamasca, executada por dois homens de nossa companhia?<\/p>\n<p align=\"justify\">TESEU \u2014 N\u00e3o, por obs\u00e9quio; nada de ep\u00edlogo. Vossa pe\u00e7a n\u00e3o necessita de escusas, porque quando morrem todos os atores, nenhum merece censuras. Por minha f\u00e9, se o autor da pe\u00e7a houvesse representado o papel de P\u00edramo e se tivesse enforcado com uma liga de Tisbe, teria feito uma linda trag\u00e9dia, como de fato o fez, e muito bem representada. Que venha, ent\u00e3o, a dan\u00e7a ber\u00adga\u00admas\u00adca, fi\u00adcan\u00addo de lado vosso ep\u00edlogo. (<i>Dan\u00e7a.<\/i>) Com a l\u00edngua de ferro a meia-noite j\u00e1 deu doze batidas. Para a cama, namorados! \u00c9 quase hora das fadas. Receio muito que a manh\u00e3 passemos dormindo a sono solto, como, espertos, uma parte da noite desfrutamos. Serviu bastante esta grosseira pe\u00e7a para entreter a noite pregui\u00e7osa. Caros amigos, todos para o leito. Vamos ter de festejos quinze dias, com representa\u00e7\u00f5es e outras folias.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem.<\/i>)<a id=\"snh52\" name=\"snh52\"><\/a><\/p>\n<h2>Cena II<\/h2>\n<p class=\"centro\" align=\"justify\"><i>Entra Puck.<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Ruge o le\u00e3o a cada passo, uiva o lobo para a lua, ressona o camp\u00f4nio lasso, des\u00adlem\u00adbra\u00addo da char\u00adrua. Con\u00adso\u00admem-se na la\u00adrei\u00adra as \u00fal\u00adti\u00admas a\u00adcen\u00adda\u00adlhas; o pio da ave agoureira fala ao doente em mortalhas. Nesta hora da noite escura as pobres almas andejas se esgueiram da se\u00adpul\u00adtu\u00adra ru\u00adman\u00addo para as igrejas. N\u00f3s, os elfos, que a parelha de H\u00e9cate sempre seguimos, e da luz do sol, vermelha, como num sonho, fugimos, de guarda estamos agora. Nenhum rato, em qualquer hora, a paz deixe per\u00adtur\u00adba\u00adda desta casa aben\u00ad\u00e7oa\u00adda. Com vassoura eu vim na frente para limpar o batente e jogar nesta hora morta todo o p\u00f3 atr\u00e1s da porta.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Entram Oberon, Tit\u00e2nia e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Por tudo a luz espalhai do quase extinto carv\u00e3o. Elfos e fadas, dan\u00e7ai, a\u00adpro\u00advei\u00adtan\u00addo o clar\u00e3o, e, seguindo o meu caminho, cantai comigo baixinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">TIT\u00c2NIA \u2014 Aprendei, primeiro, a toada com letra bem cadenciada; depois, com gra\u00e7a, dan\u00adce\u00admos e esta casa aben\u00ad\u00e7oe\u00admos.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Cantam e dan\u00e7am.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">OBERON \u2014 Enquanto a aurora se atrasa, rondai todos esta casa, que ao t\u00e1\u00adla\u00admo prin\u00adci\u00adpal vou lan\u00e7ar a b\u00ean\u00e7\u00e3o real. Sua prole numerosa ser\u00e1 sempre venturosa. Os tr\u00eas casais que aqui est\u00e3o em conc\u00f3rdia viver\u00e3o; seus filhos n\u00e3o ser\u00e3o presa das manchas da Natureza. Bei\u00e7o de lebre, sinais e outros defeitos que tais, que deixam triste o aleij\u00e3o, seus filhos nunca ter\u00e3o. Com orvalho consagrado cada elfo cumpra o recado, este pal\u00e1cio a\u00adben\u00ad\u00e7o\u00adan\u00addo e paz por tudo es\u00adpa\u00adlhan\u00addo. Jamais caia em a\u00adban\u00addo\u00adno, feliz seja sempre o dono. M\u00e3os \u00e0 obra, agora, sem mais demora! Ide ver-me antes da aurora.<\/p>\n<p align=\"justify\">(<i>Saem Oberon, Tit\u00e2nia e s\u00e9q\u00fcito.<\/i>)<\/p>\n<p align=\"justify\">PUCK \u2014 Se vos causamos enfado por sermos sombras, azado plano sugiro: \u00e9 pensar que es\u00adti\u00adves\u00adtes a sonhar; foi tudo mera vis\u00e3o no correr desta sess\u00e3o. Senhoras e cavalheiros, n\u00e3o vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa hei de vos dar. Puck eu sou, honesto e bravo; se eu puder fugir do agravo da l\u00edngua m\u00e1 da serpente, vereis que Puck n\u00e3o mente. Liberto, assim, dos apodos, eu digo boa-noite a todos. Se a m\u00e3o me derdes, agora, vai Robim, alegre, embora. (<i>Sai.<\/i>)<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Shakespeare PERSONAGENS TESEU, Duque de Atenas. EGEU, pai de H\u00e9rmia. LISANDRO, a\u00adpai\u00adxo\u00adna\u00addo de H\u00e9r\u00admia. DEM\u00c9TRIO, apaixonado de H\u00e9rmia. FIL\u00d3STRATO, diretor de festas na corte de Teseu. QUINCE, carpinteiro. SNUG, marceneiro. BOTTOM, tecel\u00e3o. FLAUTA, remenda-foles. SNOUT, caldeireiro. STARVELING, alfaiate. HIP\u00d3LITA, rainha das amazonas, noi\u00adva de Teseu. H\u00c9RMIA, filha de Egeu, apaixonada de Lisandro. 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